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Curso de Graduação a Distância

Humanidades I
(2 créditos – 40 horas)

Autores:
Brasdorico Merqueades dos Santos
Gillianno José Mazzetto de Castro

Universidade Católica Dom Bosco Virtual


www.virtual.ucdb.br | 0800 647 3335
Missão Salesiana de Mato Grosso
Universidade Católica Dom Bosco
Instituição Salesiana de Educação Superior

Chanceler: Pe. Gildásio Mendes dos Santos


Reitor: Pe. Ricardo Carlos
Pró-Reitora de Graduação e Extensão: Profª. Rúbia Renata Marques
Diretor da UCDB Virtual: Prof. Jeferson Pistori
Coordenadora Pedagógica: Profª. Blanca Martín Salvago

Direitos desta edição reservados à Editora UCDB


Diretoria de Educação a Distância: (67) 3312-3335
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UCDB -Universidade Católica Dom Bosco
Av. Tamandaré, 6000 Jardim Seminário
Fone: (67) 3312-3800 Fax: (67) 3312-3302
CEP 79117-900 Campo Grande – MS

SANTOS, Brasdorico Merqueades dos; CASTRO, Gillianno


José Mazzetto de.

Humanidades I / Brasdorico Merqueades dos Santos;


Gillianno José Mazzetto de Castro. Campo Grande: UCDB,
2017. 62 p.

Palavras-chave: 1. Antropologia 2. Dimensões Humanas 3.


Sentido da Vida

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APRESENTAÇÃO DO MATERIAL DIDÁTICO

Este material foi elaborado pelo professor conteudista sob a orientação da equipe
multidisciplinar da UCDB Virtual, com o objetivo de lhe fornecer um subsídio didático que
norteie os conteúdos trabalhados nesta disciplina e que compõe o Projeto Pedagógico do
seu curso.
Elementos que integram o material
Critérios de avaliação: são as informações referentes aos critérios adotados para
a avaliação (formativa e somativa) e composição da média da disciplina.
Quadro de Controle de Atividades: trata-se de um quadro para você organizar a
realização e envio das atividades virtuais. Você pode fazer seu ritmo de estudo, sem ul-
trapassar o prazo máximo indicado pelo professor.
Conteúdo Desenvolvido: é o conteúdo da disciplina, com a explanação do pro-
fessor sobre os diferentes temas objeto de estudo.
Indicações de Leituras de Aprofundamento: são sugestões para que você
possa aprofundar no conteúdo. A maioria das leituras sugeridas são links da Internet para
facilitar seu acesso aos materiais.
Atividades Virtuais: atividades propostas que marcarão um ritmo no seu estudo.
As datas de envio encontram-se no calendário do Ambiente Virtual de Aprendizagem.

Como tirar o máximo de proveito


Este material didático é mais um subsídio para seus estudos. Consulte outros
conteúdos e interaja com os outros participantes. Portanto, não se esqueça de:
· Interagir com frequência com os colegas e com o professor, usando as ferramentas
de comunicação e informação do Ambiente Virtual de Aprendizagem – AVA;
· Usar, além do material em mãos, os outros recursos disponíveis no AVA: aulas
audiovisuais, vídeo-aulas, fórum de discussão, fórum permanente de cada unidade, etc.;
· Recorrer à equipe de tutoria sempre que precisar orientação sobre dúvidas quanto
a calendário, atividades, ferramentas do AVA, e outros;
· Ter uma rotina que lhe permita estabelecer o ritmo de estudo adequado a suas
necessidades como estudante, organize o seu tempo;
· Ter consciência de que você deve ser sujeito ativo no processo de sua aprendiza-
gem, contando com a ajuda e colaboração de todos.

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Objetivo Geral
Favorecer ao aluno a compreensão das dimensões humanas, como forma de auxiliar
a formação e consolidação de valores essenciais à sua atuação cidadã e comunitária.

SUMÁRIO

UNIDADE 1 – A VIDA HUMANA ........................................................................... 09


1.1 Teorias da origem da vida...................................................................................... 09
1.2 O sentido da vida humana ..................................................................................... 12
1.3 Algumas respostas ................................................................................................ 15

UNIDADE 2 – O HOMEM: UM SER DE CUIDADO .................................................. 18


2.1 Homem - ser de cuidado........................................................................................ 18
2.2 Conceito de pessoa ............................................................................................... 20
2.3 Dignidade humana ................................................................................................ 24

UNIDADE 3 – O SER HUMANO É UM SER DE RELAÇÕES .................................... 29


3.1 O ser humano é um ser corpóreo ........................................................................... 29
3.2 Sobre sexualidade humana .................................................................................... 32
3.3 Um ser político-social ............................................................................................ 33
3.4 Um ser religioso .................................................................................................... 35

UNIDADE 4 – O SER HUMANO: SER CAPAZ DE CONHECIMENTO E CULTURA ..... 38


4.1 O que é conhecimento........................................................................................... 38
4.2 Um ser capaz de produzir cultura ........................................................................... 39
4.3 Entrelaçamentos ................................................................................................... 41

UNIDADE 5 – O SER HUMANO É UM SER DE VONTADE (HOMO VOLENS) ........... 44


5.1 Conotações da liberdade ........................................................................................ 44
5.2 Um ser de comunicação ......................................................................................... 45
5.3 Vontade criativa: o trabalho ................................................................................... 48
5.4 Vontade lúdica: o jogo, a brincadeira ...................................................................... 52

REFERÊNCIAS ..................................................................................................... 55
EXERCÍCIOS E ATIVIDADES ............................................................................... 66

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Avaliação
A UCDB Virtual acredita que avaliar é sinônimo de melhorar, isto é, a finalidade da
avaliação é propiciar oportunidades de ação-reflexão que façam com que você possa
aprofundar, refletir criticamente, relacionar ideias, etc.
A UCDB Virtual adota um sistema de avaliação continuada: além das provas no final de
cada módulo (avaliação somativa), será considerado também o desempenho do aluno ao longo
de cada disciplina (avaliação formativa), mediante a realização das atividades. Todo o processo
será avaliado, pois a aprendizagem é processual.
Para que se possa atingir o objetivo da avaliação formativa, é necessário que as
atividades sejam realizadas criteriosamente, atendendo ao que se pede e tentando sempre
exemplificar e argumentar, procurando relacionar a teoria estudada com a prática.
As atividades devem ser enviadas dentro do prazo estabelecido no calendário de
cada disciplina.

Critérios para composição da Média Semestral:

Para compor a Média Semestral da disciplina, leva-se em conta o desempenho


atingido na avaliação formativa e na avaliação somativa, isto é, as notas alcançadas nas
diferentes atividades virtuais e na(s) prova(s), da seguinte forma: Somatória das notas
recebidas nas atividades virtuais, somada à nota da prova, dividido por 2. Caso a disciplina
possua mais de uma prova, será considerada a média entre as provas.
Média Semestral: Somatória (Atividades Virtuais) + Média (Provas) / 2
Assim, se um aluno tirar 7 nas atividades e 5 na prova: MS = 7 + 5 / 2 = 6
Antes do lançamento desta nota final, será divulgada a média de cada aluno, dando
a oportunidade de que os alunos que não tenham atingido média igual ou superior a 7,0
possam fazer a Recuperação das Atividades Virtuais.
Se a Média Semestral for igual ou superior a 4,0 e inferior a 7,0, o aluno ainda
poderá fazer o Exame Final. A média entre a nota do Exame Final e a Média Semestral
deverá ser igual ou superior a 5,0 para considerar o aluno aprovado na disciplina.
Assim, se um aluno tirar 6 na Média Semestral e tiver 5 no Exame Final: MF = 6 + 5
/ 2 = 5,5 (Aprovado).

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FAÇA O ACOMPANHAMENTO DE SUAS ATIVIDADES

O quadro abaixo visa ajudá-lo a se organizar na realização das atividades. Faça seu
cronograma e tenha um controle de suas atividades:

AVALIAÇÃO PRAZO * DATA DE ENVIO **

Atividade 1.1
Ferramenta: Tarefa

Atividade 4.1
Ferramenta: Tarefa

Atividade 5.1
Ferramenta: Tarefa

* Coloque na segunda coluna o prazo em que deve ser enviada a atividade (consulte o
calendário disponível no ambiente virtual de aprendizagem).
** Coloque na terceira coluna o dia em que você enviou a atividade.

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BOAS VINDAS

Caro(a) Aluno(a), SEJA BEM-VINDO(A)!

Parabéns pela opção de realizar este curso pela Universidade Católica Dom
Bosco, maior e melhor universidade do centro-oeste brasileiro. Procuramos formar pessoas,
comprometidas com vida, com o ser humano e com os valores imprescindíveis ao convívio
social. Por isso, oferecemos Humanidades I.
Sabemos o quanto é importante o profissional ético e humano, capaz de superar os
apelos puramente mercadológicos, capaz de estabelecer convivência saudável e enxergar o
ser humano como ele realmente precisa ser visto: como ser humano. São pessoas assim
que fazem toda a diferença.
Humanidades I se serve da Filosofia, da antropologia e também da Religião. Estas
ciências se complementam para o entendimento que devemos ter DO HOMEM. Indicam,
pela profundidade de seus conceitos que este estudo exige pensar, refletir, analisar e
questionar.
Estamos juntos. Por isso não tenha medo, nem fique inseguro. A própria dinâmica
do curso pela EAD vai nos permitir bastante interação todos os dias, a cada unidade, em
cada tema. Vamos, seguramente, ser bons companheiros de caminhada. De nossa parte,
muitas vezes vamos ficar aqui, botando lenha! Sobretudo fazendo o papel de animadores e
provocadores. Queremos que você goste muito desta temática e, sobretudo, consiga
estabelecer vínculo entre ela (Humanidades) e a realidade do seu dia a dia.
A Universidade Católica Dom Bosco é uma instituição salesiana de educação
superior. Inspirados no ardor apostólico de São João Bosco pela defesa da vida é que
estamos propondo esta disciplina. Se estivesse pessoalmente em nosso meio, com suas
preocupações de evangelizador, Dom Bosco se serviria, certamente, de tão rica reflexão,
esta de humanidades, para despertar as pessoas para o valor e a beleza do ser humano.
Então, aperte os cintos e ... boa viagem. Leia tudo, procure entender o melhor
possível! Voe alto. Boa sorte e conte com a gente.

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Pré-teste

A finalidade deste pré-teste é fazer um diagnóstico quanto aos conhecimentos


prévios que você já tem sobre os assuntos que serão desenvolvidos nesta
disciplina. Não fique preocupado com a nota, pois não será pontuado.

1. A reflexão acerca de “humanidades” nos coloca, inevitavelmente diante da


vida humana e suas muitas dimensões. Percebemos a riqueza e a complexidade
de cada ser e o mistério de cada existência. O mais correto de se afirmar, diante
inclusive da diversidade de opiniões a respeito de vida humana, é que:
a) Ela não tem sentido algum.
b) Ela só adquire sentido quando, politicamente, o indivíduo é reconhecido como cidadão.
c) O verdadeiro sentido só é encontrado na prática religiosa.
d) O sentido está nas razões que cada um encontra para sua própria existência.

2. Nosso texto irá apresentar mais de 10 dimensões do ser humano. A respeito


destas dimensões podemos, antecipadamente, afirmar que:
a) A dimensão da corporeidade (referente ao corpo) é a mais importante.
b) A dimensão intelectiva é, sem sombra de dúvida, a mais importante.
c) Embora todas sejam necessárias, a dimensão fundamental é a religiosa.
d) Todas as dimensões são igualmente importantes.

3. Uma das afirmações mais fortes de nosso texto diz respeito à dignidade do ser
humano. Percebemos aí um fato que permite ao ser humano realizar-se, ser
importante no conjunto social e desenvolver suas potencialidades. A respeito da
dignidade humana, se pode dizer que:
a) É algo que se adquire com o passar do tempo, principalmente mediante o estudo e o
trabalho.
b) Ser descendente de uma família tradicional (com nome e status social) já permite, a
qualquer membro desta família um nível maior de dignidade.
c) Dignidade não se compra, não se vende, nem se adquire: basta ser um ser humano para
se ter dignidade humana.
d) A posição da Igreja é que existe dignidade humana, sim, mas somente após o
nascimento.

Submeta o Pré-teste por meio da ferramenta Questionário.

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INTRODUÇÃO

Este material foi elaborado pelos professores Brasdorico Merqueades dos Santos e
Gillianno José Mazzetto de Castro, Pró-Reitor de Pastoral da Universidade, sob o
acompanhamento da equipe pedagógica da UCDB Virtual, com o objetivo de fornecer
subsídio didático que norteie os conteúdos trabalhados nesta disciplina.
A centralidade de todo o texto está na pessoa humana. Inicialmente abordamos o
sentido da vida humana, o homem como ser de cuidado e a dignidade humana. São temas
introdutórios, fundamentais para o que vem a seguir: o estudo das dimensões do homem
(Este estudo se baseia em Batista Mondin e Geraldo Grendene).
É importante que você conheça os objetivos que devem ser atingidos, a bibliografia
proposta, os critérios de avaliação, assim como o conteúdo que será desenvolvido ao longo
dos estudos. Acompanhe!
Consideremos que O SER HUMANO É A BASE DE TUDO. Se nos tornamos
profissionais sabendo conjugar os verbos relativos à realidade humana (não apenas falando
a linguagem do mercado), poderemos contribuir, decisivamente, para uma sociedade muito
melhor. Portanto, compreender o ser humano, faz – como já dissemos- toda a diferença
para a vida em sociedade. Permite, ao profissional de mercado, por exemplo, saber
direcionar seus objetivos de modo a responder a esta ou aquela dimensão da pessoa, em
conformidade com sua realidade vivencial. Quanto mais conseguirmos atingir o homem na
sua totalidade, melhor estaremos respondendo às suas necessidades biológicas, sociais e
culturais; com mais eficiência estaremos interagindo com ele a partir de sua origem, seus
agrupamentos e relações sociais, comportamento, desenvolvimento social, cultural e físico.

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UNIDADE 1

A VIDA HUMANA

OBJETIVO DA UNIDADE: Possibilitar a reflexão acerca das características da vida


humana. Procurar compreender o seu sentido e os cuidados que devemos ter para com
ela. Incentivar a defesa da vida e o resgate da dignidade da pessoa humana.

Dentre as grandes perguntas que sempre incomodaram a humanidade, a pergunta


pela origem da vida, sem dúvida, está entre elas. Existe um particular interesse sobre o
estudo da vida por tratar-se de um fenômeno muito rico e complexo.
Do ponto de vista científico, a vida é uma extraordinária organização da matéria. A
biologia molecular demonstrou que o ser considerado “vivo” se distingue da não vivo graças
a um modo diferente e muito complexo de estruturação: moléculas extremamente
complexas, pertencentes a quatro elementos: carbono, hidrogênio, oxigênio e nitrogênio.
Esta, por sua vez, abrange vastíssimas formas de seres desde o homem até os
microscópicos vírus.
Tanto do ponto de vista religioso quanto do filosófico, as respostas se multiplicam.
De modo geral, ambas podem ser agrupadas em dois núcleos: aquelas que defendem que a
vida é uma forma específica de matéria eterna (ou seja, que sempre existiu); e aquelas que
apontam para um início não material (um ser divino) que tudo criou ou dele tudo emanou.

1.1 Teorias da origem da vida


O modo como a vida surgiu na Terra1 é uma incógnita que perturba os seres
humanos desde a Antiguidade. Do ponto de vista das ciências naturais, antigas doutrinas
ensinavam que os seres vivos eram gerados a partir da matéria bruta, dando início a uma
teoria chamada de Teoria da Abiogênese, também conhecida como Teoria da geração
espontânea. Até o século XIX, as pessoas acreditavam que isso realmente fosse possível, e
até “receitas” para se produzir seres vivos foram dadas por alguns cientistas. A teoria da
abiogênese foi contestada por muitos cientistas que, a partir de diversos experimentos,
provaram que um ser vivo só se origina a partir de outro ser vivo preexistente, surgindo
então a Teoria da Biogênese.

1
http://www.alunosonline.com.br/biologia/teorias-atuais-sobre-origem-vida.html - uma versão
oferecida por Paulo Louredo Moraes.
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Dica de aprofundamento

Antes de ler o texto explicativo, que segue, assista ao vídeo indicado


abaixo. Vai ajudar a entender as teorias da abiogênese, da biogênese, dos
vitalismos, etc. Disponível em: <http://www.youtube.com/watch?v=uUa1mCm-
Hxw>. Acesso em: 25/09/2019. Assista também a outros vídeos relacionados, vale
a pena!

Com a aceitação da Teoria da Biogênese e a queda definitiva da Teoria da


Abiogênese, os cientistas tinham outra pergunta: Se os seres
vivos se originam de outro ser vivo preexistente, então como
surgiu o primeiro ser vivo? Atualmente, a ciência admite duas
hipóteses para explicar a origem da vida em nosso planeta, a
Origem extraterrestre e a Origem por evolução química.
Fonte: http://migre.me/hHlum
A hipótese da origem fora da terra, também chamada de panspermia, defende que
os seres vivos não surgiram na Terra, mas em outros planetas. Eles foram trazidos para a
superfície terrestre através de esporos ou outras formas resistentes. Essa teoria foi
reforçada depois que foram descobertos, nos meteoritos que caem atualmente na superfície
terrestre, moléculas orgânicas, indicando que a formação dessas moléculas no Universo é
comum, dando indícios de que realmente há vida fora da Terra.
A hipótese da origem por evolução química, também conhecida como teoria da
evolução molecular, ganhou força na década de 1920. Os defensores dessa teoria acreditam
que a vida na superfície terrestre tenha ocorrido a partir de uma evolução química:
compostos inorgânicos como carbono, hidrogênio, oxigênio, nitrogênio, fósforo, entre tantos
outros, foram se combinando, originando moléculas orgânicas como aminoácidos, açúcares,
etc. À medida que o tempo passou, essas moléculas orgânicas formadas também foram se
combinando, originando moléculas mais complexas, como proteínas, carboidratos, entre
outros. Essas moléculas adquiriram tamanha complexidade que conseguiram se duplicar
originando outras moléculas.

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Além da resposta dada pelas ciências naturais, há também a posição filosófica, e aí,
de modo geral, temos duas correntes que no palco da existência se rivalizam desde a
Antiguidade e Idade Média:
a) Os vitalistas: consideram que a vida é um fenômeno originário, irredutível à
matéria. A vida só pode ser explicada por leis intrínsecas aos organismos vivos. Esta posição
filosófica caracteriza-se por postular a existência de uma força ou impulso vital sem a qual a
vida não poderia ser explicada. Tratar-se-ia de uma força específica, distinta da energia,
estudada pela Física e outras ciências naturais, que atuando sobre a matéria organizada
daria como resultado a vida. Esta força é identificada frequentemente com a alma, o Uno, o
Nous, o Logos (Deus). Por isso esta corrente foi amplamente utilizada pelos sistemas
religiosos.
b) Os mecanicistas: O mecanicismo é uma teoria filosófica determinista, segundo a
qual todos os fenômenos se explicam pela causalidade mecânica. É uma posição deísta e,
como tal, sustenta que assim como um relógio supõe a existência de alguém que o
construiu, também o universo é um mecanismo que pressupõe a existência um ser
superior não mecânico (Deus). Deus existe e criou o universo físico, mas não interfere com
ele, não interfere na vida dos seres humanos nem nas leis do universo.
Também não podemos esquecer que há a resposta religiosa. Esta se baseia na teoria
criacionista que defende a ideia de que tudo (incluindo, além da vida, todo o universo) é
obra da criação de um ser não material, infinito, onipotente que denominamos Deus.
Hoje temos uma resposta híbrida muito polêmica chamada “teoria do designer
inteligente”. É uma teoria que não é nem totalmente científica, nem totalmente filosófica,
nem totalmente religiosa, pois ela crê que a vida é fruto tanto de uma evolução química (tal
como pensa as ciências naturais) quanto de uma inteligência superior que ordenou tal
evolução a partir de uma finalidade pré-determinada (que não seria Deus). Porém há muitas
divergências quanto esta teoria não sendo aceita nem pelas ciências naturais, nem pela
filosofia, nem pelas religiões.
A vida do homem se distingue da vida dos animais e dos outros seres viventes
pelos níveis espirituais que atinge e pelas dimensões sociais que alcança. Por isso se pode
falar em vida mística, vida espiritual, vida intelectual. Vida que se distingue pela atitude
nova que o homem possui nos confrontos da vida: o homem coloca-se o problema da vida,
aprecia a beleza da vida, tende a transcender os limites do espaço e do tempo em que a
vida está confinada. Ele pode elaborar, devido inclusive ao ideal religioso, o seu próprio
conceito de vida perfeita e é por essa vida que ele sente um fascínio ardente. No

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cristianismo o homem não é o “dono“2 da própria vida, pode porém controlá-la, dirigi-la,
aperfeiçoá-la, segundo o seu próprio livre-arbítrio.

1.2 O sentido da vida humana

A vida é de fato fascinante, mas é também intrigante. Se nos perguntamos, num


primeiro momento, qual a sua origem, nos percebemos ainda com outra questão não
menos séria: qual o seu sentido? Cada um dos habitantes do planeta, cedo ou tarde, busca
uma resposta para esta realidade existencial. A necessidade humana de dar sentido à
experiência vivida é tão premente quanto suas necessidades biológicas. Sendo assim, ele é
incapaz de viver em um mundo que não faça sentido. Quando não encontra sentido, surge
a frustração, o vazio. É neste contexto que se manifesta a depressão, o suicídio, a
agressividade, o homicídio, as drogas e tantos outros atalhos artificiais que buscam superar
o vazio. É impossível viver por viver, estar por estar, fazer por fazer. Há alguma coisa por
detrás desta cortina, é preciso abri-la.
Corção (1945), escritor e pensador brasileiro, faz um de seus personagens falar
assim:
[...] ora, diga-me, por favor, o que estamos nós aqui fazendo neste chão?
Neste mundo? Neste circo? Chamaram-me: aqui estou. Aqui estamos,
fomos empurrados, atirados sem ensaio e sem deixa neste picadeiro. O fato
é que estou aqui, de pé, com as mãos abanando, sem saber o que diga e o
que faça. Não sei qual é o meu papel.

Segundo pesquisa realizada nos Estados Unidos no final do sec. XX, 46% das
pessoas entrevistadas teriam revelado que não sabem por que vivem, ou qual a finalidade
da vida. O que é o bom disso? ... que parece mesmo ser normal não encontrar facilmente
uma resposta, e que não devo estranhar se ainda não completei minha resposta. O ruim
disso? ... que ninguém vai descobrir isso por mim. Esta é uma tarefa de cada um. Ainda que
digam por aí qual é o sentido da vida, isso não me desobriga a encontrar o sentido da
MINHA vida.
A revista britânica Journal of Humanistic Psychology3 publicou um relatório de um
grupo de psicólogos4, dirigidos por Richard Kinnier, da Universidade do Arizona (EUA), que

2
Este termo “dono da vida” é colocado aqui como força de expressão para dar maior ênfase ao livre-
arbítrio, porém, sob a ótica da fé cristã, o dono absoluto da vida, é Deus.
3
As informações da referida revista Journal of Humanistic Psychology se encontram em
<http://www.folhadaregiao.com.br/Materia.php?id=82659>Acesso em: 05/06/2019.
4
A referente pesquisa pode ser encontrada em:
<http://noticias.terra.com.br/popular/interna/0,6675,OI124544-EI1141,00.html> Acesso em:
12/12/2019.
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se dedicou a analisar as palavras de 200 pensadores, desde o escritor Oscar Wilde ao
imperador Napoleão.
A conclusão do estudo: "é preciso desfrutar a vida enquanto for possível". Entre eles,
personalidades tão díspares como o ex-presidente norte-americano Thomas Jefferson e a
cantora Janis Joplin, que morreu aos 27 anos de overdose, mas não sem antes cantar
"aproveite enquanto puder". Tem ainda Sigmund Freud, criador da psicanálise, e os
escritores Frank Kafka, Jean-Paul Sartre e Joseph Conrad, parte de um grupo que
representa 11% dos estudados. Para eles, a vida simplesmente não tem sentido.
Por sua vez, outros pensadores, como Jean-
Jacques Rousseau e o físico Albert Einstein, Jean-Jacques Rousseau (1712 -
1778): importante filósofo, teórico
achavam que o sentido da vida é "amar, ajudar e político, escritor e compositor
autodidata suíço, considerado um dos
prestar serviços aos demais". Esta foi a segunda principais filósofos do iluminismo e um
precursor do romantismo.
opção de resposta que mais apareceu nas análises
feitas e é também a escolhida pelo líder pacifista indiano Mahatma Gandhi, que afirmava:
"Encontro meu consolo e minha felicidade me colocando a serviço de todas as vidas".
Pessoas vão atrás de um monte de coisas: sucesso nos negócios, prosperidade, bons
relacionamentos, sexo, entretenimento, fazer bem aos outros, etc. Mesmo quando chegam
ao topo de tudo isto, percebem que ainda falta alguma coisa, nem tudo está completo. Esta
sensação caracteriza o ser humano como um ser inquieto, que sempre quer algo mais,
nunca coloca um ponto final, em vida, à realização plena. Já diz Raulito: “Eu que me sento
no trono de um apartamento, com a boca cheia de dentes esperando a morte chegar” (Raul
Seixas).
Isto nos remete a Victor Frankl, que afirma: “o homem de hoje não está frustrado
pela inferioridade (Adler) ou pela frustração sexual (Freud), mas existencialmente; é pelo
sentido de futilidade, de falta de significação, pelo vazio existencial”.
Victor Frankl, acima citado,
desenvolveu um sistema de ajuda
às pessoas, na linha da
psicoterapia, chamada logoterapia5,
seu objetivo era justamente ajudar
nesta questão do sentido da vida. Justo ele que, em setembro de 1942, foi deportado, com

5
A Logoterapia é um sistema teórico – prático de psicologia, criado pelo psiquiatra vienense Viktor
Frankl, que se tornou mundialmente conhecido a partir de seu livro "Em Busca de Sentido" (Um
Psicólogo no Campo de Concentração) no qual expõe suas experiências nas prisões nazistas e lança
as bases de sua teoria. De acordo com Allport, "trata–se do movimento psicológico mais importante
de nossos dias". A Logoterapia é conhecida como a Terceira Escola Vienense de Psicoterapia, sendo a
Psicanálise Freudiana a Primeira e a Psicologia Individual de Adler a Segunda.
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sua mulher e família, para campos de concentração nazistas. Libertado somente ao fim da
guerra, a violência nazista matou sua mulher, seus pais e irmão. Essa experiência de dor o
fez pensar profundamente no sentido da existência humana, e descobriu aí que é
justamente a busca do sentido da vida a principal força motivadora do ser humano.
Fonte: http://migre.me/rCyld
A sabedoria bíblica apresenta a inquietude humana, suas buscas incansáveis bem
como sua eterna incompletude. Na verdade, por tratar-se de uma reflexão religiosa, ela
aponta para uma realidade transcendente, única, dentro de um horizonte de fé, capaz de
conferir sentido à vida. Veja:

Eu disse a mim mesmo: Venha. Experimente a alegria. Descubra as coisas


boas da vida! Decidi entregar-me ao vinho e à extravagância. Eu queria
saber o que vale a pena, debaixo do céu, nos poucos dias da vida humana.
Lancei-me a grandes projetos: construí casas e plantei vinhas. Fiz jardins e
pomares e neles plantei todo tipo de árvore frutífera. Comprei escravos e
escravas. Além disso, tive também mais bois e ovelhas do que todos os que
viveram antes de mim. Ajuntei para mim
prata e ouro, tesouros de reis e de
províncias. Servi-me de cantores e
cantoras, e também de um harém, as
delícias dos homens. Tornei-me famoso
e poderoso. Não me neguei nada que os
meus olhos desejaram; não me recusei
a dar prazer algum ao meu coração.
Contudo, quando avaliei tudo o que as
minhas mãos haviam feito e o trabalho
que eu tanto me esforçara para realizar,
percebi que tudo foi inútil, foi correr
atrás do vento. (Eclesiastes 2,2-24).
Fonte: http://migre.me/h9Crv
Quer seja no horizonte da fé, da ciência ou da filosofia, uma coisa é
imprescindível: a necessidade de se ter consciência do próprio valor. Isto é uma
necessidade na natureza humana. Atribuir um valor à própria vida é necessário para amar-
se, conservar-se, defender-se, reproduzir-se.
Algo sem valor nenhum não pode também ser carregado de sentido. Portanto, o
restabelecimento da estima de si mesmo se faz acompanhar do restabelecimento de uma
escala de valores. São estes valores (ou a ausência deles) que possibilitam à pessoa uma
visão positiva ou negativa, com um fim ou com uma ordem, em que desempenha uma
função.
Existem dois significados básicos para o termo sentido. O primeiro é “razão de ser”,
ou seja, uma justificativa lógico-racional que torna possível à mente compreender a sua
função no mundo ou na relação com o seu fim (atenção, este fim é finalidade). Este
significado é também chamado de gnosiológico (Gnose = conhecimento). Veja alguns
exemplos: o sentido da linguagem é a comunicação; o sentido do abraço é a amizade; o
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sentido do perdão é a reconciliação. Logo, tudo tem uma razão de ser, todo ser tem em si
ou em outro a sua razão de ser. Cada ser é capaz de dar razão de ser à mente. Já que este
“sentido” está ligado à gnose, podemos chamá-lo de significado gnosiológico.
Outro significado para o termo sentido é “função”, ou seja, aqui o termo sentido
pode ser substituído pela pergunta: qual a função? Trata-se de descobrir qual é o papel que
um ser desempenha entre os outros seres (ou que uma pessoa desempenha no mundo).
Todo mosquito, toda formiga, tem uma função dentro do ecossistema. Isto explica o sentido
de sua existência. Quando o ser humano se pergunta sobre sua função no mundo, ou a
função que desempenha na totalidade dos seres existentes, ele está dando à palavra
sentido um significado funcional.
Logo, um exercício lógico e eficiente que pode ser feito por qualquer pessoa é
responder para si mesmo sobre as razões da sua existência: o que justifica e torna a sua
existência necessária (para si ou para os outros)? Isto implica buscar concomitantemente
um conhecimento de si próprio. Responder quem sou eu facilita encontrar as razões pelas
quais existo. Na mesma lógica devo buscar
responder sobre minha função na comunidade
humana ou no conjunto de seres existentes. Neste
conjunto cada ser participa de um “sistema”. Neste
sistema posso até ser uma formiguinha, mas
qualquer formiga tem uma função. Qual é a
minha? Só não vale a conclusão absurda: existo
por existir, não estou relacionado a nada.
Fonte: http://migre.me/h9Dxb

1.3 Algumas respostas


De modo geral, para fins didáticos, podemos dividir estas respostas em três grandes
grupos: teísmo, ateísmo e relativismo. Para as correntes teístas, o sentido da vida deve ser
concebido como extrínseco à própria vida. Em outras palavras, o sentido é transcendente à
vida, sendo superior a esta e, geralmente, constitui a sua causa. Entres as correntes teístas
podemos destacar: as grandes religiões do mundo (judaísmo, cristianismo e islamismo) que
acreditam que o sentido da vida é Deus.
O Teísmo afirma que Deus é o criador de tudo. Criou todo o universo para os seres
humanos. Isto, por si só, não garante sentido à nossa vida, dá-nos apenas um lugar de
destaque, que talvez seja emocionalmente reconfortante para algumas pessoas. O que dá
sentido à nossa vida, do ponto de vista teísta, é o fato de Deus ter um plano para nós: uma

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finalidade. Todo o universo, com os seus bilhões de bilhões de estrelas (só na nossa galáxia
o número de estrelas é igual ao número de segundos que há em 2 mil anos — e há milhões
de galáxias), foi criado para nós e com uma finalidade em vista.
Neste horizonte, cabe situar a A fé cristã que é melhor ilustrada quando confrontada
com o contexto no qual se desenvolveu, o mundo grego. Ali, a vida humana não tinha
nenhum sentido. Isto foi muito bem representado pelo mito de Sísifo, castigado pelo deus
Hermes ao duro castigo de sempre empurrar uma pedra até o cimo de um monte. Quando
chegava ao topo, a pedra lhe escapava das mãos e tudo recomeçava. Este processo seria
sempre repetido até a eternidade.
Pois bem, com Jesus Cristo este ciclo trágico foi quebrado, a história ganhou uma
continuidade e a vida ganhou um sentido: Ele, com a sua ressurreição, venceu o que de
mais trágico há para a vida humana, que é a morte; assim, rolou a pedra para o outro lado
e deu ao gênero humano a total possibilidade de plenitude.
O cristianismo afirma que a vida é um dom de Deus, foi criada por Ele e para Ele se
destina. Fora da fé cristã a vida é um absurdo: nascer, crescer, morrer, para quê? O próprio
Deus assumiu todas as características da vida humana: gestação, crescimento, alegrias,
dores, dúvidas, angústias e morte. Mas, na sua condição divina, deu um passo além da
morte: ressurreição. E a vida continua. Mas desta vez sem limitações, sem angústias ou
medos. Ela continua como plenitude e felicidade eterna, em comum-união com Deus. A fé
cristã indica dois momentos importantes que conferem sentido à existência:
1º- viver para servir. “Quem não vive para servir, não serve para viver”. Daí a
vivência do princípio do amor ao próximo.
2º- buscar constantemente a perfeição, em todas as suas dimensões. Buscar a
imitação perfeita de Jesus Cristo, que o leva a conhecer e amar a Deus. Este processo
assegura ao cristão a paz e a alegria interior.
Dentro do teísmo, há uma subdivisão denominada de deísmo. Deísmo é uma
variante do teísmo, teorizada no século XVII, e se diferencia deste pelo fato de que o ser
superior que confere sentido a vida não é Deus, mas uma força cósmica, um arquiteto
universal (artífice) ou uma energia que rege o universo.
O segundo grupo é dos ateístas. O ateísmo concebe que o sentido da vida é
imanente a ela, ou seja, deve ser material. Nega qualquer possibilidade de um sentido que
transcenda a vida ou que seja superior a ela. Se a vida tem um sentido, este deve ser
material. Por esta razão, Deus não pode existir, pois feriria esta ideia de sentido imanente.
O Ateísmo, por sua vez, diz que o núcleo e valor último da vida só podem residir
em estados que existem em função de si próprios e que contêm em si próprios a satisfação
que proporciona. Ora, a vida significa movimento e ação, e se desejamos descobrir um
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sentido nela, devemos procurar atividades que contêm o seu valor e propósito em si
próprias, independentemente de quaisquer objetivos exteriores. Em outras palavras: não há
transcendência ou a procura de um sentido além do dado concreto, da ação concreta, do
sentimento presente.
Juntamente com o ateísmo, temos o materialismo (tudo deve ser material); o
secularismo (todas as coisas devem ser compreendidas “no século”, ou seja, na vida
presente e atual e não em seres espirituais); e o hedonismo que crê que o sentido deve
estar relacionado a algum tipo prazer material (sexo, drogas, alimento, etc.).
Por fim, temos os relativistas que acreditam que o sentido não é nem imanente nem
transcendente, mas subjetivo. Em outras palavras, cada um escolhe ou elege o sentido que
deseja a partir de sua experiência pessoal. Neste caso, podem existir tantos sentidos
quantos cada um pode eleger, e eles podem ser alterados e modificados dependendo da
modificação da experiência que se é feita.
Mas o “nó” da doutrina teísta é justamente o princípio de que é impossível saber
quais são os desígnios divinos; podemos ter algumas ideias aproximadas, mas os desígnios
divinos ultrapassam necessariamente a razão humana. Assim, em última análise, não
podemos compreender qual é o sentido da nossa vida. Em resumo, a resposta teísta é esta:
a nossa vida tem sentido, mas não sabemos nem podemos saber qual é.

Antes de continuar seu estudo, realize a Atividade 1.1.

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UNIDADE 2

O HOMEM: UM SER DE CUIDADO


Cuidado

OBJETIVO DA UNIDADE: Possibilitar a conceituação de pessoa e de identidade como


ponto de partida para a fundamentação do ser de cuidado, que valoriza a pessoa e o
mundo em que vive.

Qual é o sentido da história? Qual é o sentido da existência? E do caminhar do


homem pelo mundo? Por que as pessoas saem de suas casas
num ritmo frenético com um único objetivo: construir-se como
pessoa? Essas são perguntas que, a princípio podem parecer
muito abstratas e filosóficas, contudo, se as observarmos bem,
perceberemos que são questões que tangem profundamente a
estrutura e as realidades mais cotidianas e comuns da nossa
existência. Fonte: http://migre.me/h9EZ2

2.1 Homem – ser de cuidado


Todo homem e mulher que sai de casa para trabalhar ou estudar, e volta todos os
dias ao seu lar para assim encontrar o repouso necessário, não está fazendo nada mais do
que construir-se por meio de um processo de dar cuidado e deixar-se cuidar. Neste aspecto
do cuidado, constatamos na pessoa humana três dimensões: a primeira versa sobre o
cuidado de si, a segunda sobre o cuidado dos outros e a terceira sobre o cuidado do
ambiente, isto é, o cuidado do mundo.
O cuidado para consigo mesmo: O primeiro aspecto da vida humana como
realidade dada na existência a partir do cuidar e ser cuidado é o processo de constituição da
identidade, processo que demanda toda a vida humana e que tem por objetivo fazer com
que a pessoa se realize.
De acordo com Hall (2006), é possível pensar três concepções de identidade:
a) Uma a partir do indivíduo centrado e voltado para si mesmo, cujo centro de unidade
era uma espécie de “núcleo interior” idêntico a ele mesmo e que ao passar o tempo
ele resistia e se conservava. Nesta concepção a identidade é inata e se identifica
com a essência da pessoa.

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b) Uma outra a partir das relações que este indivíduo travava no mundo, é uma espécie
de “entre” o mundo interior e o exterior Nesta concepção a identidade é construída
socialmente.
c) A terceira diz que não existe propriamente uma identidade fixa, mas apenas várias
possibilidades de leituras de si mesmo que se manifestam na história. Nesta
concepção não existe uma “identidade”, mas “identidades”.

O cuidado para com os outros: Toda subjetividade é constituída por meio da


relação com outro, pois cada indivíduo possui uma procedência, isto é, vem de um outro
que lhe deu a vida e consequentemente um legado. O outro é alguém presente no
horizonte existencial de modo absolutamente necessário. Sem o outro, não somos, não
existimos e a vida não tem sentido algum.
O filósofo Emmanuel Lévinas6, estudando a subjetividade humana, conclui que o que
nos torna humanos é nossa fundamental relação com o outro. Somos descendentes de
alguém, ninguém tem em si a sua própria origem, seja ela próxima (nossos pais) ou
distante (um possível criador). Somos sempre “devedores”. É da consciência desta relação
que nasce uma postura ética fundada na responsabilidade.
O cuidado para com o mundo: A terra é a nossa casa. É preciso cuidar para que,
além de termos onde morar, possamos continuar vivendo. O ser humano é a própria Terra
enquanto sente, pensa, ama, trabalha. Fato é que os atuais padrões de produção e consumo
estão causando devastação ambiental, redução dos recursos e uma massiva extinção de
espécies. Comunidades estão sendo arruinadas. Os benefícios do desenvolvimento não
estão sendo divididos equitativamente e o fosso entre ricos e pobres está aumentando. A
injustiça, a pobreza, a ignorância e os conflitos violentos têm aumentado e são causa de
grande sofrimento. O crescimento sem precedentes da população humana tem
sobrecarregado os sistemas ecológico e social.
A escolha é nossa: formar uma aliança global para cuidar da Terra e uns dos outros,
ou arriscar a nossa destruição e a da diversidade da vida. São necessárias mudanças
fundamentais dos nossos valores, instituições e modos de vida. Devemos entender que,
quando as necessidades básicas forem atingidas, o desenvolvimento humano será
primariamente voltado a ser mais, não a ter mais. Temos o conhecimento e a tecnologia
necessários para abastecer a todos e reduzir nossos impactos ao meio ambiente. Este

6Emmanuel Lévinas (1906 - 1995): filósofo segundo o qual, a Ética, e não a Ontologia, é a Filosofia primeira.
É no face a face humano que se irrompe todo sentido. Diante do rosto do Outro, o sujeito se descobre
responsável e lhe vem à ideia o Infinito.
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pequeno extrato da “carta da terra” evidencia o quanto é necessário, hoje, o cuidado com
o planeta.

2.2 Conceito de pessoa


Entretanto, qual é o primeiro lugar onde nós podemos observar esta busca pelo
cuidado? ... exatamente na busca do ser pessoa. O sentido
originário da palavra pessoa já nos revela muita coisa desse
importante conceito e movimento do homem na história,
pois em latim persona, que deriva de per-sonare, (ressoar
através de) significava a máscara do teatro que os atores
gregos colocavam para indicar o papel que
representavam e que futuramente passaria a indicar algo
interior que se manifesta numa estrutura exterior. Portanto,
a pessoa constitui a identidade profunda do ser humano no
mundo.
Fonte: http://migre.me/rR970

Dimensões que constituem a persona- O ser humano, em sua estrutura mais


profunda, está organizado a partir de dimensões, a saber: dimensão corpórea,
dimensão psíquica e dimensão espiritual.
 Dimensão corpórea: maneira pela qual o homem está dado na existência
(o corpo). Constitui o substrato fisiológico necessário para a atuação dos outros
aspectos: psíquico e espiritual que dele precisam para funcionar, manifestar-se e
interagir com o mundo externo. Sob este aspecto o ser humano se apresenta
como uma organização vital de bilhões de células, reunidas em tecidos, órgãos,
sistemas, com funções específicas perfeitamente harmonizadas. Por isso é
chamado de organismo.
 Dimensão psíquica: é a esfera das sensações,
dos estados de ânimo, dos sentimentos, dos instintos,
desejos, afetos. A estes se acrescentam os dotes
intelectuais do homem, os padrões de comportamento
adquiridos, as marcas provenientes da sociedade. Em
suma, as cognições e emoções.
Fonte: http://migre.me/hDAEw
 Dimensão espiritual: É o aspecto central, mais profundo, unificador do
composto humano; é o centro da pessoa. Dizendo de outra maneira, é o espírito
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que faz com que o ser humano se diferencie dos outros seres vivos. É a
consciência, o fato de saber que nós somos, o fato de possuir uma estrutura de
inteligência capaz de reorganizar o mundo de maneira substancial, que nos
permite construir estruturas abstratas tais como: a cultura, a linguagem, a
sociedade, os mitos, a religião. Aqui é preciso fazer a observação de que a
dimensão espiritual não está necessariamente ligada à dimensão religiosa,
considerando que por espírito entendemos tudo aquilo que é tipicamente
humano quando comparado aos demais seres vivos. O ser humano não possui
apenas exterioridade que é sua expressão corporal. Nem só interioridade que é
seu universo psíquico interior. Ele vem dotado também de profundidade que é
sua dimensão espiritual.
O espírito não é uma parte do ser humano ao lado de outras. É o ser humano inteiro
que por sua consciência se percebe pertencendo ao Todo e como porção integrante dele.
Pelo espírito temos a capacidade de ir além das meras aparências, do que vemos,
escutamos, pensamos e amamos. Podemos apreender o outro lado das coisas, o seu
profundo. Pelo espírito as coisas não são apenas ‘coisas’. O espírito capta nelas símbolos e
metáforas de uma outra realidade, presente nelas mas que não está circunscrita a elas, pois
as desborda por todos os lados. Elas recordam, apontam e remetem à outra dimensão que
como dissemos, é a profundidade.
Cada uma destas dimensões é profundamente dependente das outras, não obstante,
possuírem uma autonomia e um espaço de ação todo particular, por exemplo: O aspecto
biológico obedece a leis físico-químico-biológicas que devem ser respeitadas para que o
conjunto funcione; se colocar a mão no fogo ela irá inevitavelmente queimar, impedindo
sua utilização em favor do composto todo. O aspecto psíquico também tem exigências
próprias que não podem ser eliminadas: diante de uma grave ameaça, não há como não
sentir medo ou raiva; diante de um elogio, é normal sentir agrado. Também o aspecto
espiritual tem exigências e tendências próprias inelimináveis, por exemplo: procurar a
liberdade, o amor, o significado de vida.
Se bem observarmos veremos que em nossa sociedade existe uma grande ênfase
sobre a dimensão estético-corporal: O cuidado com o corpo, o uso de medicinas que têm
por objetivo prolongar a vida, o fato das pessoas não quererem envelhecer. Tudo isso, que
em si não são coisas nem boas nem ruins, demonstra que existe em nossos dias uma
grande demanda por respostas de cuidado em todas as dimensões.
Por exemplo, na dimensão psíquica: a necessidade de viver grandes emoções, a
necessidade de ser acolhido e de se relacionar, que podem muitas vezes produzir certos
tipos de deformações possessivas e de totalitarismos, a necessidade de receber e dar afeto.
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Inclusive na própria dimensão espiritual porque, se esta não for bem cuidada e
desenvolvida, pode produzir como efeito a falta de sentido e significado para a vida, ao que
também damos o nome de vazio existencial, os casos de esquizofrenia sociais que
produzem uma sociedade baseada no medo e na punição que se refletem na altura dos
nossos muros e na qualidade das nossas relações, questões como o narcisismo, o
hedonismo. Tudo isso são os efeitos colaterais que podem surgir se a identidade profunda
do ser humano não for integrada a partir dos valores.
Todas estas dimensões, para que sejam bem integradas e para que possam cumprir
a sua missão de produzir uma estrutura que leve o homem ao cuidado da sua identidade
profunda e por consequência, conseguir ajudar os demais a cuidar das identidades deles,
devem estar harmonizadas. O que dá harmonia às três dimensões que observamos é a
centralidade da dimensão espiritual, pois somente quando direcionamos a nossa vida para
aquilo que é especificamente humano (os valores, a pergunta pelo sentido, a pergunta pelo
bem e pela realização) é que conseguiremos desenvolver as outras dimensões.
Feitas essas distinções, podemos nos perguntar: existe um valor da pessoa
humana? Para respondermos a esta pergunta faz-se necessário olhar um pouco a história
e observar:
 Que no mundo grego e romano, do qual somos descendentes, só eram
consideradas pessoas os indivíduos que dispunham de certo poder ou tinham
um papel oficialmente reconhecido na sociedade. Para o valor de uma pessoa
era determinante algo de exterior que o indivíduo tinha que possuir para poder
ser considerado alguém. Isto ainda está presente, mesmo que de maneira
mascarada em nossa sociedade, basta ver as situações nas quais as pessoas
que têm poder ou status recebem determinados privilégios e regalias que os
demais jamais poderão alcançar. Isto também pode ser notado quando, por
exemplo, julgamos as pessoas melhores ou piores a partir da sua cor de pele,
da sua família, daquilo que ela ostenta, etc.
 Com a chegada do cristianismo no ocidente, algumas ideias começaram a se
transformar, pois o pensamento cristão trazia uma novidade com relação à visão
de homem, que não estava mais ancorada no poder ou na classe como para os
gregos e romanos, ou ainda na descendência como para os judeus, mas sim no
conceito de filho de Deus. Este fato não produziu só uma mudança em âmbito
religioso, mas sim uma mudança de mentalidade porque desde então, no
ocidente, o homem passou a possuir uma dignidade profunda e inalienável pelo
simples fato de ser homem.

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 Dois grandes documentos passaram a constituir chave de leitura da realidade
humana para esses valores, no ocidente, muitos séculos depois: o primeiro data
de 1789, quando, na França revolucionária foi aprovada a declaração dos
direitos do homem e do cidadão, que em seu primeiro artigo dizia: “Os homens
nascem e são livres e iguais em direitos. E o segundo, a Declaração universal
dos Direitos Humanos datado de 10 de dezembro de 1948, e que diz de maneira
semelhante no primeiro artigo: “Todas as pessoas nascem livres e iguais em
dignidade e direitos. São dotadas de razão e consciência e devem agir em
relação umas às outras com espírito de fraternidade.”7

Antes de continuar sua leitura, veja, só para descontrair, este vídeo que
mostra o quanto a vida está sendo banalizada:
<http://www.youtube.com/watch?v=7r_3EFUgKD0>. Acesso em: 25/09/2019.

Frente a isso, políticas de destruição da vida humana, como o aborto, a eutanásia, a


corrupção, a desigualdade social, o fanatismo, sem uma reflexão mais profunda, soam
como absurdos em si, elas aparecem como desvios e aberrações que atentam
profundamente contra o movimento do homem de se construir no mundo como cuidado e
como aquilo que a pessoa, no seu movimento na história mais almeja defender, isto é, a
vida.
Anular a vida de outro significa colocar em jogo a minha própria vida, haja vista, que
o princípio de manutenção da vida, que é fundamentalmente um princípio de cuidado, foi
anulado.
Portanto, a identidade apresenta-se no cenário da nossa reflexão e no movimento
existencial do homem no mundo como o primeiro caminho para se pensar a condição
fundamental do homem, que, como estamos vendo, é ser um ser de cuidado.
Contudo, nós não somos senhores da nossa origem, a devemos a outros e por isso é
necessário inquirir quais são as estruturas intersubjetivas de cuidado que ajudam a construir
a subjetividade deste ser que se pergunta pelo sentido da sua própria existência.

7 http://unicrio.org.br/img/DeclU_D_HumanosVersoInternet.pdf
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2.3 Dignidade humana

A humanidade passou por momentos difíceis e dolorosos que a fizeram pensar e


repensar muitas coisas. Talvez a mais cruel destas realidades tenha sido a II grande Guerra
Mundial. Desde então cresceu fortemente a questão dos direitos humanos e ganhou força a
reflexão sobre a dignidade da pessoa humana. Tal postura recolocou o ser humano no
centro da realidade. Pessoa não é coisa, não é sombra, não é aparência; pessoas são
realidades concretas, vivas. Pessoas estão acima das leis emanadas por um poder qualquer.
Antes, há uma lei maior, de natureza ética e de validade universal. E mais: o fundamento
dessa lei é o respeito à dignidade da pessoa humana, que, em essência, constituiu o valor
fundamental e a fonte de todas as fontes.
Dignidade humana é um valor intangível, máximo, supremo. É importante dizer
esta sequência de termos para realçar a ideia que possamos fazer. Nesta acepção, é o
fundamento de toda lei, é razão de ser do Estado e do próprio Direito. A dignidade da
pessoa humana é mola de propulsão da intangibilidade da vida do homem, derivando daí o
respeito à integridade física e psíquica das pessoas, a admissão da existência de
pressupostos materiais (patrimoniais, inclusive) mínimos para que se possa viver e o
respeito pelas condições fundamentais de liberdade e igualdade.
O conceito de dignidade humana pode ter várias vertentes: filosófica, biológica,
psicológica e ética. Não se contradizem como entendimento, em nenhuma das situações.
Aliás, se complementam e tentam responder o que é vida, o que é ser humano. Um ponto
de partida importante para as muitas e recentes considerações sobre dignidade humana
provém da declaração universal dos direitos do homem. Isso significa que dignidade
humana é algo recente.

a) Na Filosofia
Entende-se que a pessoa humana é dotada de um valor intrínseco. Ela difere, como
sujeito, não coisa, capaz de determinar a realidade, sendo superior a ela. Na antiguidade,
Protágoras defendeu, por exemplo, que o homem era a medida de todas as coisas ("homo
mensura") e defendeu a igualdade dos indivíduos, independentemente de sua origem.
Cícero, historiador da antiguidade, mostra que nas clássicas tragédias gregas, já
estava patente que o ser humano possuía uma qualidade que o distinguia das demais
criaturas e que, além disso, esse atributo distintivo era uma característica de todos os seres
humanos mesmo diante de eventuais diferenças sociais, culturais ou individuais.
A História nos apresenta, nos tempos modernos, Descartes, Locke, Voltaire,
Rosseau, e outros pensadores, que no seu modo de pensar conferiram centralidade à

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pessoa humana, e uma sociedade não poderia ser de fato realizada e feliz se não se
organizasse a partir do valor do ser humano.
Immanuel Kant concebia o homem como ser racional, ou seja, que existia como
um fim e não como um meio, diferentemente dos outros seres desprovidos de razão. Por
isso, poderia ser chamado de pessoa (vez que o ser racional era próprio somente do ser
humano). Essa pessoa humana seria dotada de um valor intrínseco, um valor próprio da sua
essência. Esse valor intrínseco seria superior a qualquer preço e, por isso, não poderia ser
apreçado ou substituído por coisa equivalente, já que o ser humano seria um fim e não um
meio passível de utilização e manipulação. Do que decorre que esse valor intrínseco seria
um valor absoluto, uma qualidade absoluta, ou – finalmente – uma dignidade absoluta.
Diz Kant:
No reino dos fins, tudo tem um preço ou uma dignidade. Quando uma coisa
tem um preço, pode pôr-se, em vez dela, qualquer outra coisa como
equivalente; mas quando uma coisa está acima de todo o preço, e,
portanto, não permite equivalente, então ela tem dignidade. (KANT, 1991,
p. 77).

b) Na perspectiva biológica
A dignidade humana só é uma característica de cada ser humano na medida em
que passa a ser considerada como característica fundamental de toda a humanidade. Em
outras palavras, cada ser emerge com a sua própria dignidade dessa totalidade tendo
consciência de sua humanidade. Daí a importância fundamental do processo de
individualização do ser como capacidade de exprimir uma representação simbólica de tudo o
que vê, conhece ou faz, que se foi estruturando ao longo das várias etapas e que trouxeram
a humanidade até a etapa biogenética atual.

c) Na perspectiva psicológica
Sabemos que a psicologia tem por objetivo o estudo da atividade psíquica do ser
humano. E esta poderá contribuir com suas reflexões para nos aproximarmos de uma
melhor compreensão da dignidade humana de acordo com a visão própria que o ser
humano tem de si como pessoa e em relação aos outros, sendo esta a base do
estabelecimento relacional que se justifica na própria ética da dignidade humana.
Ora, se a dignidade é uma qualificação
Dignidade vem do latim dignitate e
comum a todos os seres humanos, a sua realização pode ser definida como honradez,
honra, nobreza, decência, respeito a
normativa terá sempre a igualdade como um si próprio.
pressuposto. Todas as pessoas seriam igualmente
dignas.

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Tal ideia nos faz crer que respeitar ou reconhecer a dignidade humana significa a
diminuição da miséria, da fome, da violência. Significa reconhecimento dos direitos e
igualdade de oportunidades. Significa a mais ampla e plena liberdade e apoio à realização
pessoal. Isto, num âmbito de análise social, significa uma sociedade com alto grau de
civilidade.

d) Na perspectiva jurídica
Na Carta Magna, a dignidade da pessoa humana chega ao ápice dentro do
ordenamento jurídico, é a base de todos os direitos constitucionais, e ainda, orientador
estatal. Isso, como dissemos antes, para acabar com os excessos que ocorreram com o
nazismo e outros totalitarismos, com o medo e a insegurança que haviam sido espalhados
por todo o mundo, através de vários atos que atentaram contra a humanidade, baseados na
ideia de um único ser. Quem não se lembra do holocausto, que atemorizou toda a
humanidade!?
Os desastres humanos das guerras, especialmente aquilo que assistiu o
mundo no período da Segunda Guerra Mundial, trouxe, primeiro, a
dignidade da pessoa humana para o mundo do direito como contingência
que marcava a essência do próprio sociopolítico a ser traduzido no sistema
jurídico (ROCHA, 2004. p. 22/34).

Art. 6º. A lei é a expressão da vontade geral. Todos os cidadãos têm o direito de
concorrer, proteger, seja para punir. Todos os cidadãos são iguais a seus olhos e
igualmente admissíveis a todas as dignidades, lugares e empregos públicos, segundo a sua
capacidade e sem outra distinção que não seja a das suas virtudes e dos seus talentos
(Direitos universais do homem e do cidadão)

e) No pensamento da Igreja
Importa lembrar aqui o critério fundamental expresso na Donum Vitae8 que
evidencia, conforme o pensamento da Igreja, a grandeza humana:

O fruto da geração humana, desde o primeiro momento da sua existência,


isto é, a partir da constituição do zigoto, existe o respeito incondicional que
é moralmente devido ao ser humano na sua totalidade corporal e espiritual.
O ser humano deve ser respeitado e tratado como pessoa desde a sua
concepção e, por isso, desde esse mesmo momento devem ser-lhe
reconhecidos os direitos da pessoa, entre os quais e antes de tudo, o
direito inviolável de cada ser humano à vida. (DONUM VITAE, I).

8Donum Vitae é uma Instrução sobre o respeito à vida humana nascente e à dignidade da procriação.
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Assim, defende plenamente que a todo o ser humano, desde a concepção até a
morte natural, deve-se reconhecer a dignidade de pessoa. Este princípio fundamental, que
exprime um grande “sim” à vida humana, deve ser colocado no centro da reflexão ética
sobre a investigação biomédica, que tem uma importância cada vez maior no mundo de
hoje. O respeito de tal dignidade é devido a cada ser humano, porque traz impressos em si,
de maneira indelével, a própria dignidade e o próprio valor.
Deus, depois de ter criado o homem à sua imagem e semelhança (cf. Gn 1,26),
qualificou a sua criatura como “muito boa” (Gn 1,31) para depois assumi-la no Filho (cf. Jo
1,14). O Filho de Deus, no mistério da Encarnação, confirmou a dignidade do corpo e da
alma, constitutivos do ser humano. Cristo não desdenhou a corporeidade humana, mas
revelou plenamente o seu significado e valor, tornando-se um de nós.
Para o cristão isto significa que todos, indistintamente, têm valor. Por isso, deve ser
respeitado pelo simples fato de existir. Deve ser banida toda discriminação com base no
desenvolvimento biológico, psíquico, cultural ou no estado de saúde. A pessoa humana é
sempre digna independentemente de inteligência, beleza, juventude, cor, propriedades,
títulos, etc.
A patrística de Santo Agostinho9 também buscou distinguir os seres humanos das
coisas e dos animais. Já antes dele, Platão10 e Aristóteles11 elevaram o ser humano a um
nível de superioridade jamais alcançado por qualquer outra criatura. Santo Tomás de
Aquino (1973), na Idade Média, sustentou a divindade da chamada "dignitas humana".
Assim, o Cristianismo afirma que não há nada superior ao homem. Tudo na
sociedade, nas instituições sociais há de ser subordinado ao bem da pessoa humana. Ela é
princípio, sujeito e fim de todas as instituições. A perspectiva cristã vai um pouco além: a
dignidade do homem se funda na encarnação do próprio Deus, em Jesus Cristo, ou seja,
Deus se fez homem. Não bastasse, esse mesmo Deus ofereceu sua vida pelo ser humano.
Portanto, é um ser de suma dignidade para merecer tamanha atenção de um Deus.

9
Aurélio Agostinho – Filósofo cristão. Entre suas principais obras estão "Confissões", e "Cidade de
Deus".
10
Platão foi um filósofo e matemático do período clássico da Grécia Antiga, autor de diversos
diálogos filosóficos e fundador da Academia em Atenas, a primeira instituição de educação superior
do mundo ocidental.
11
Aristóteles foi um filósofo grego, aluno de Platão. Seus escritos abrangem diversos assuntos,
como a física, a metafísica, as leis da poesia e do drama, a música, educação e a política.
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Antes de continuar seu estudo, realize o Exercício 1.

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UNIDADE 3

O SER HUMANO É UM SER DE RELAÇÕES


OBJETIVO DA UNIDADE: Compreender a importância das funções da somaticidade
(dimensão corpórea) na existência, sua dimensão política-social e religiosa.

A primeira coisa que podemos afirmar é que a


Corporeidade: maneira pela qual o
corporeidade é componente fundamental do existir, cérebro reconhece e utiliza o corpo
como instrumento relacional com o
do viver, do conhecer, do desejar, do fazer, do ter,
mundo.
etc. É através dela e de sua consciência que
‘realizamos’ o mundo tal qual é. De modo simples: sem corpo, não existimos, não somos,
não há comunicação, nem reprodução, nem alimentação, nem aprendizado.

3.1 O ser humano é um ser corpóreo

O corpo humano é surpreendente. Impressiona pela perfeição de


seus mecanismos, formado por órgãos importantes que unidos formam
uma máquina inigualável, com inteligência, capacidade locomotora, força-
trabalho, sentidos apurados. O corpo humano é uma obra perfeita de
engenharia, de química, de bioquímica, de físico-química, de biologia, de
medicina, onde, portanto, todos os ramos da ciência estão envolvidos.
Fonte: http://migre.me/hai1A
A pessoa humana é capaz de manejar seu corpo, adestrá-lo e torná-lo apto a realizar
movimentos de uma perfeição admirável. Trilhões de células que constituem o nosso corpo,
apresentam individualmente vida própria. Sabem sempre o que fazer e como fazer, para
manterem-se e manter todo o corpo. A nutrição destas células é realizada de maneira
perfeita e harmoniosa. Sabem o que absorver e o que deve ser eliminado. O homem não só
é senhor do seu corpo, como também, graças a ele, torna-se senhor do mundo. Por isso,
surgem constatações muito interessantes:
 O homem não é um ser especializado (por exemplo, na visão, audição). O seu
olhar, comparado com o de uma águia, não é nada. Sua força, comparada com a
de um urso, não é nada. Porém, por especializar-se, supera todos os outros
animais. Os animais já trazem ao nascer os aprendizados necessários para toda a
vida, o homem precisa aprender todos os comportamentos e habilidades de que vai
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precisar; a especialização dos animais (o olfato dos cães, por exemplo) à primeira
vista parece uma vantagem sobre o homem, contudo o homem pode desenvolver
uma maior quantidade de habilidades e, com sua inteligência, pode criar
instrumentos que superam as virtudes naturais dos animais.
 O que lhe permite fazer isto é o cérebro: centro de regulação e controle das
atividades corporais: sede da consciência, do pensamento, da memória e da
emoção. É ele, portanto, que permite ao homem identificar, perceber e interpretar
o mundo que o rodeia. Já que não tem a destreza dos animais, o homem
compensa tudo com esta incrível “máquina”.
 Outro aspecto que caracteriza o corpo humano e o distingue nitidamente de todos
os corpos dos animais é a sua posição vertical. O homem tem uma posição
vertical, sendo esta postura (segundo a ciência) a grande responsável pelo
desenvolvimento que conseguiu de seus membros superiores e, principalmente, de
suas funções mentais, porque isso lhe deu uma nova maneira de se relacionar com
o mundo da natureza, através do trabalho. E surge uma simbologia: todos se
prostram diante de uma autoridade, que permanece de pé.
Para entendermos a importância da corporeidade, importa verificarmos as suas
diferentes funções.
Podemos entender melhor esta dimensão
Corporeidade tem a função de
somática, quando conseguimos distinguir quais são
inserção da pessoa no mundo
as suas funções. Vejamos estas funções: ligando-a com o Passado (Herança
psicofísica, racial, familiar...); Presente
 Mudanizante: é por obra do corpo que (inserção na história, numa pátria,
o homem faz parte do mundo. Por ele, o família...); Futuro (transmissão das
próprias bagagens genéticas aos filhos).
universo reside em seu ser. Se reconhece A corporeidade é o melhor mediador da
presença interpessoal.
constituído dos mesmos elementos do
mundo, sujeito às mesmas sortes e às mesmas leis por causa do seu corpo. Isto
tem suas consequências: já que existe, não existe só. Sua posição no espaço o leva
a relações com outros seres ônticos, que Ôntico: Referente ou inerente ao ser,
necessariamente passam a fazer parte da ao ente, e às suas características.

sua existência, da sua vida. Abandonar a função mundanizante equivale a deixar


de existir, morrer.
 Epistemológica: Mediante o corpo Epistemologia ou teoria do
conhecemos e sentimos a realidade que nos conhecimento (do grego "episteme" -
ciência, conhecimento), é um ramo da
cerca.O corpo é canal do conhecimento e filosofia que trata dos problemas
filosóficos relacionados à crença e ao
instrumento necessário para uma
conhecimento.

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autoconsciência. Exprimimos o mundo não só mediante as categorias da razão,
mas também mediante o nosso corpo vivido, tomado como princípio e forma de
organização concreta.
 De posse: Significa estar ali presente, “marcando território”. Há uma
representatividade e significatividade entre as coisas, objetos e lugares e a uma
particular existência física. Um jogo combinado entre o ser, o seu ambiente e os
objetos circundantes.
 Pedagógica: É a corporeidade, com seus ciclos ou fases evolutivas, marcando
o ritmo do nosso crescimento experiencial. Cada idade está particularmente
habilitada a desenvolver, pela mesma evolução psicofísica, algumas características
importantes para compor o quadro das qualidades necessárias para a formação
completa do ser humano.

O corpo é fonte e condição de conhecimentos

 Função de conhecimento de si (autoimagem).


 Funções de conhecimento do mundo: tudo passa pelos sentidos.
 Função de identificação do significado de propriedades psíquicas
pelas analogias físicas.
 Função de conhecimento do outro através dos sinais corpóreos.

 Função ascética: Trata de evidenciar que muitas virtudes são condicionadas


ao exercício do corpo: paciência, tolerância, humildade...! O domínio do corpo
(seus impulsos e apelos) brota de uma clara consciência de que é necessário um
exercício de vontade. Este querer é uma determinação que se consegue muitas
vezes por hábito. Quando isto acontece o corpo é então importante instância para
a ascese. E para muitas religiões isto representa o esforço que se faz para dominar
os sentidos, corrigir as nossas más tendências e viver um processo de libertação
interior.

Importa, para finalizar, citar Descartes que distingue o SER do próprio CORPO:
Mesmo perdendo uma parte de meu corpo, a pessoa humana ainda é substancialmente a
mesma; O corpo sem vida, ainda que permanecendo por algum tempo substancialmente o
de antes, não é mais o homem.
Cabe então uma última reflexão: com a morte, tem-se o fim do corpo e também o
fim do homem? Para a teologia cristã, não. Teilhard de Chardin, um dos grandes pensadores
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e cientistas do século XX, diz: “O homem não teria nenhuma razão para progredir a
humanidade através da unificação de si mesma se todo este esforço servisse apenas para
se chocar, um dia, contra um muro intransponível...” Desta forma, o homem não é apenas
matéria, mas também espírito e a morte não é o fim. Se nesta vida temos um corpo
espiritualizado, que se deteriora, na outra vida temos um espírito corporificado que dura
para sempre. (Bem, esta é uma crença cristã, não é dado científico).

3.2 Sobre sexualidade humana

Embora reservemos aqui alguns breves parágrafos à sexualidade humana, no


conjunto das reflexões destinadas à dimensão somática, sabemos na verdade que ela não
se restringe, de forma alguma a esta ou àquela dimensão. Isto porque engloba o ser
humano como um todo, no seu aspecto biológico, psicológico, social e cultural.
Se considerada do ponto de vista apenas biológico, para a reprodução, pode-se
considerar que a sua principal finalidade passa por garantir a continuidade da espécie. No
entanto, este objetivo, válido para a generalidade dos animais, não define totalmente a
função da sexualidade no ser humano. A espécie humana vai além de tudo isto. Tem a
capacidade, por exemplo, de praticar o sexo por prazer, estando ou não no período fértil,
em período de gestação, após o período funcional reprodutivo (menopausa). Lembrando
que o animal o faz tendo em vista a reprodução e em períodos fecundos.
A sexualidade manifesta-se em todas as fases da vida e permeia todas as
manifestações humanas, do nascimento até a morte. Acompanhou o desenvolvimento das
culturas. Devido à dimensão do prazer, ganhou uma série de regulamentações que
objetivam o respeito e a organização. O casamento, quando analisado do ponto de vista
social, é fruto desta regulamentação.
É, portanto, uma necessidade básica e, enfatizamos, não pode ser separada de
outros aspectos da vida. Faz parte da personalidade de cada um. Está muito longe de ser
sinônimo de relação sexual, não se restringe às genitálias e tampouco se limita à ocorrência
ou não de orgasmo. É a energia que motiva a encontrar o amor, é contato e intimidade. Se
expressa no sentir, no falar, no olhar, nos gestos e movimentos das pessoas, em como
estas tocam e são tocadas, como dialogam e interagem.

3.3 Um ser político-social

O ser humano gosta de estar entre as pessoas. Gente procura gente. Há dois modos
de compreender este peculiar gosto pelas pessoas. Em primeiro lugar podemos dizer que o
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homem já nasce social, ou seja, na sua essência de homem ele já possui a característica de
viver em grupo. A humanidade é anterior à própria socialização. Só somos sociais porque
somos humanos. Esta é uma das posturas mais antigas que temos a respeito da
socialização humana, desde os gregos antigos (Platão e Aristóteles) já se defendia esta
tese. Diz Aristóteles: “O homem é por natureza um ser social. Qualquer um que não
consegue viver com outros ou é tão autossuficiente para prescindir disso, e portanto, não
participa da sociedade; ou é uma besta, ou um deus.
Outra forma de compreender a socialização é o contrário da postura anterior: não
nascemos sociais nos tornamos sociais e, consequentemente, humanos. A vida só se
humaniza se vivida em sociedade. Ou seja, o social é anterior à humanização, pois por meio
do social nos tornamos humanos. Para ilustrar esta tese, vamos lembrar de Amala e
Kamala. Um fato que parece mais lenda que verdade, mas enfim, trata-se de duas crianças
selvagens, conhecidas como as meninas-lobo, que foram encontradas na Índia em 1920.
Desenvolveram comportamento semelhante ao dos lobos. Caminhavam de quatro,
apoiando-se sobre os cotovelos e joelhos. Quando queriam andar mais rápido, se apoiavam
nas mãos e nos pés. Eram incapazes de permanecer de pé. Só se alimentavam de carne
crua ou podre. Comiam usando apenas a boca para pegar os alimentos. Bebiam lambendo
os líquidos. Durante o dia ficavam escondidas e quietas. À noite se tornavam ativas e
barulhentas. Uivavam como lobos. Elas nunca choravam ou riam.
Em termos biológicos, essas meninas podem ser consideradas humanas. Contudo, o
comportamento delas as coloca mais próximas de outra espécie animal: a dos lobos. Lenda
ou não, o fato nos leva a considerar esta realidade: o homem só se humaniza vivendo na
sociedade humana.
Na verdade, o ser humano é um ser frágil, precisa interagir com os outros para
buscar seu próprio conhecimento, captar conhecimento do mundo que o cerca e guardá-los
para a sua própria qualidade de vida. Tudo está associado, também com a própria
sobrevivência da espécie. Os outros influenciam grandemente e decididamente naquilo que
somos e pensamos. Assim, a sociabilidade é a qualidade natural ou construída do homem
para viver junto com os outros e comunicar-se com eles, torná-los participantes das
próprias experiências e dos próprios desejos, conviver com eles as mesmas emoções e os
mesmos bens. É no meio social, e em conformidade com a sociedade à qual pertence que
adquire conhecimentos, habilidades, cultura, crenças, princípios morais e critérios estéticos.
Na medida em que o homem vive em sociedade tem as seguintes caracterizações:
- Pertencimento: que oportuniza o contato e o relacionamento com outros
indivíduos, interação social entre as pessoas;

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- Intimidade: que proporciona a oportunidade para o calor humano, sentimentos de
amizade e solidariedade.
- Produtividade: que oferece oportunidade para a produção, aquisição, sucesso,
controle de recursos e execução de tarefas orientadas;
- Estabilidade: que fornece aos indivíduos sentido de aumento de estabilidade ou
decréscimo de ansiedade, diminuindo dúvidas pessoais, tensão, vulnerabilidade,
insegurança e autopiedade; enquanto aumenta a autoestima, relaxamento quanto à
dureza da vida, satisfação pessoal e identidade (suporte social);
- Adaptabilidade: que oferece oportunidade para criatividade, refinamento de ideias,
melhoria pessoal, aumento da capacidade de entender a si mesmo e aos outros,
melhoria das relações interpessoais.

O ser político em Aristóteles- O sentido do termo política vem do grego


“politiká”, uma derivação de “pólis”, que designa aquilo que diz respeito ao espaço público.
Em essência, política significa, desde então, a ciência da governação de um Estado ou
nação por meio da permanente negociação, com o objetivo de compatibilizar interesses.
Aristóteles observou que o homem é um ser carente, necessita das coisas e das
pessoas para alcançar sua plenitude. E a partir disso, ele deduz
que o homem é naturalmente político. Entende-se desta forma
que quem vive fora da comunidade organizada (cidade ou Pólis)
ou é um ser degradado ou um ser sobre-humano (divino). É um
animal político na medida em que se realiza plenamente no
âmbito da pólis. Segundo Aristóteles, a “cidade ou a sociedade
política” é o “bem mais elevado” e por isso os homens se
associam em células, da família ao pequeno burgo, e a reunião
desses agrupamentos resulta na cidade e no Estado.
Fonte: http://migre.me/hDCnv
Na realidade tudo é política. Evidentemente não estamos nos referindo à política
partidária, mas sim ao conjunto de atitudes humanas que envolve o dia a dia de toda
pessoa. O próprio nascer já é um ato político. Este ser saído do ventre de uma mulher
começa a humanizar-se, a socializar-se, a criar vínculos que constituem seus desejos, suas
práticas, suas ideias e crenças, seus projetos individuais e coletivos. Assume-se como ser
humano quando se reconhece na comunidade, e nela cria identidade, linguagem, usos e
costumes (cultura). A política, pois, envolve o ser humano desde o nascer, está presente na
iniciativa privada, no sindicato, na Igreja, no Exército, na Justiça, nas relações pessoais.
Está presente em tudo. Muita gente faz política sem saber.

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A política é a propensão natural do homem para viver junto com os outros e se
comunicar com eles, torná-los participantes das próprias experiências. É o conjunto de
relações que, o indivíduo mantém com os outros, enquanto faz parte de um grupo social,
objetivando o bem para si e para todos. Cabe, porém, observar que nem por isso o
indivíduo não é menor que a sociedade. Esta é uma posição defendida pelo existencialismo,
que defende a primazia absoluta do indivíduo sobre a sociedade. Para poder dar-se, ele
precisa primeiramente existir.

3.4 Um ser religioso

A religião é uma manifestação propriamente humana. Com “propriamente”


queremos exprimir exclusividade: nenhum outro ser pode fazer isto. Não se iluda com o
ritual fúnebre dos elefantes, nem com trechos bíblicos onde diz “que as aves cantam
louvores ao criador”. Nenhum animal faz isto porque
não há intencionalidade, não há transcendência. Tudo
o que faz é algo típico da sua espécie, ou seja, age
por instinto. Já o homem, desde tempos primitivos
ritualizava o momento fúnebre, racionalizava uma
ação, abstraía, conceituava, estabelecia culto e
transcendência.
Fonte: http://migre.me/rCBoy
A antropologia nos informa que o homem desenvolveu atividade religiosa desde a
sua primeira aparição na cena da história e que todas as tribos e todas as populações de
qualquer nível cultural, cultivaram alguma forma de religião.
É, portanto, razoável afirmar que o homem é um ser religioso. Trata-se de uma
necessidade natural de unir o espírito humano ao transcendente. Busca a religião porque
esta empresta um sentido para as coisas e constitui para seus fiéis uma fonte real de
informações. Funciona como um modelo para o mundo. Para seus crentes é um modelo de
ações e de explicações, fornecendo resposta a três ameaças terríveis: o sofrimento, a
ignorância e a morte.
Isto nos faz crer e afirmar que o homem é um ser religioso. Carl Gustav (1875-
1961), renomado psiquiatra e psicólogo suíço reafirma esta realidade quando diz: “Todo
homem é um ser religioso que tem dentro de si uma força que o impele para Deus”
O Fenômeno Religioso - Elemento essencialmente importante para a
compreensão do homem como ser religioso é o fenômeno religioso. Ele nos leva a entender
que o que torna a religião algo enigmático é o fato de que, apesar não se entender bem as

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suas origens, ou mesmo ter uma compreensão precisa sobre ela, o homem não consegue
se desvencilhar do seu fascínio. Não se tem notícia de cultura alguma que não a tenha
produzido, de uma forma ou de outra. É nisto que consiste o fenômeno religioso: uma
busca natural por Deus ou pelo transcendente. Ilustrando este fato, temos Rubem Aves que
diz: “a humanidade, em todas as latitudes de sua difusão pela terra, crê em algo irredutível
ao profano. É difícil exprimir em que consiste este algo, mas pode-se chamar, de modo
geral, de divindade”.
Outros autores também se pronunciaram acerca do fenômeno religioso. Vamos ver,
por exemplo, o testemunho de Cícero (sec. I a. C). “... não há povo tão primitivo, tão
bárbaro, que não admita a existência de deuses, ainda que se engane sobre a sua
natureza”.
Plutarco, filósofo também da antiguidade inculca ainda mais incisivamente a crença
em algo transcendente, como universal entre os homens: “Podereis encontrar uma cidade
sem muralhas, sem edifícios, sem ginásios, sem leis, sem uso de moedas, como dinheiro,
sem cultura das letras. Mas um povo sem Deus, sem oração, sem juramentos, sem ritos
religiosos, sem sacrifícios, tal nunca se viu.”
Não são apenas os antigos que evidenciam este fenômeno, também nos nossos dias
o fato é abundantemente registrado. Temos a opinião de alguns especialistas. Vejamos, por
exemplo, Marx Scheler: “há uma essencial: todo espírito finito crê ou em Deus ou em um
ídolo”. Para confirmar esta ideia, citemos ainda um comentário de Dostoiewski: “O homem
se inclina sempre, se não ante Deus, ante um dos ídolos: ante a força, ante o estado, ante
a raça, ante o capital”.
É igualmente interessante citar aqui o que diz Jung (1875-1961), com sua longa
experiência de psicólogo: ‘entre todos os meus pacientes de mais de trinta e cinco anos,
não há nenhum cujo problema definitivo não fosse o da religação religiosa. A raiz da
enfermidade de todos está em terem perdido o que a religião deu a seus crentes, em todos
os tempos; e ninguém está realmente curado enquanto não tiver atingido, de novo, seu
enfoque religioso’” (JUNG, 1940, p. 9).
O Sagrado- Se refere a uma qualidade especial que os homens identificam ou
colocam nas coisas por descobrir nelas o poder do transcendente (uma manifestação divina:
epifania). Por isso o sagrado é sempre algo separado. Totalmente outro. Decorre daí
atitudes também diferentes diante desta realidade: respeito, admiração, fascínio, medo,
submissão, etc. E a resposta que o homem dá à percepção do sagrado é uma só: a religião.
Enquanto à qualidade do verdadeiro se responde com a ciência e com a filosofia, à
qualidade do belo com a arte e com a estética, à qualidade do bem com moral, à qualidade

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do sagrado se responde apropriadamente com a religião, que é, por definição, aquela
religatio (religação) que une o homem ao sagrado, mediante a prática de ritos, mitos e leis.
Há duas formas de entender a religião:
a) religião subjetivamente considerada: o que é a religião para mim. Seria a
atitude de abandono, de entrega e de compromisso da pessoa, orientando-se para a
divindade. É a atitude de fé, confiança e fidelidade.
b) religião objetivamente considerada: O que é a religião em si. Indica a
instituição que propõe uma crença formulada (doutrina, dogma), uma regulamentação de
práticas (liturgia, ritos), uma ética comum (moral).
A partir destas realidades comuns podemos também dizer que religião é o conjunto
de normas (mandamentos, preceitos, regras), ritos (preces, ações, sacrifícios), mitos
(relatos, textos sagrados, símbolos) com o qual o homem exprime e realiza seus contatos
com Deus. Estes elementos são vividos por uma comunidade como resposta ao apelo
interior, à necessidade espiritual. A comunidade, neste caso, é o aspecto social da religião,
pois toda prática religiosa implica a dimensão do “outro”, desenvolvendo com relação a ele,
compromissos e atitudes morais ou éticas.

Antes de continuar seu estudo, realize o Exercício 2.

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UNIDADE 4

O SER HUMANO: SER CAPAZ DE


CONHECIMENTO E CULTURA
OBJETIVO DA UNIDADE: Refletir a pessoa humana a partir da sua capacidade
intelectiva e cultural para melhor compreender sua própria natureza.

A posse e o uso da razão caracterizam o homem,


distinguindo-o dos outros animais. Ele é capaz de refletir, emitir
juízos, dominar e modificar a natureza através de suas conquistas
técnico-científicas bem como elaborar conceitos e ideias. É dotado
de um poder de conhecimento ilimitado: compreende a si mesmo
e às coisas que o cercam, o que lhe permite alterar consciente e
intencionalmente as circunstâncias em que vive.
Fonte: http://migre.me/hDDmZ
Isto equivale a dizer que o homem, como ser pensante, transcende os limites
impostos pelo seu corpo e cria novas realidades. Também é capaz de se
recriar,modificando-se e aperfeiçoando-se. Por meio do pensamento, o homem se projeta
no futuro em busca do infinito. O pensamento impulsiona-o à ação e ele age melhor porque
é guiado pela razão. Esta performance jamais pode ser atribuída a qualquer outra espécie
animal que, guiado pelo instinto, é por dentro o que é por fora, ou seja, não pensa e nem
transforma a realidade própria e a seu redor, propositadamente.

4.1 O que é conhecimento


Todo conhecimento é uma tomada de consciência (dar-se conta) do ser do objeto
por parte do sujeito. Este dar-se conta, do ser do objeto conhecido, é uma experiência
pessoal. Conhecimento requer: ter conhecimento do próprio conhecimento, ter consciência
de ter consciência do próprio conhecimento (o homem sabe que sabe).
Tipos de conhecimento: É possível estabelecer tantos tipos de conhecimento
quanto critérios escolhidos. Se o critério for a idade do sujeito que conhece, podemos
distinguir o conhecimento em infantil, juvenil, do adulto e senil. Se o critério for o rigor
metodológico, o conhecimento pode ser vulgar ou científico. Apresentemos apenas
alguns:

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 Conhecimento vulgar: O conhecimento que corresponde ao senso comum
e abrange aquelas coisas que quase toda pessoa sabe.As crenças e opiniões que
partilhamos, as tradições e jogos, as celebrações e ofícios. É adquirido através
da repetição de experiências (neste sentido ele é sinônimo de conhecimento
empírico), do testemunho e do exemplo dos outros (família, amigos, vizinhos,
etc.), com a prática e também com os erros. Por isso é um conhecimento
superficial e mais direcionado para um domínio prático, porque não procura as
causas e os porquês dos fenômenos e porque tem em vista o funcionamento
das coisas e a realização de tarefas. É um conhecimento acrítico e passivo e
com linguagem simples do cotidiano.
 Conhecimento científico: é o conhecimento racional, sistemático, exato e
verificável da realidade. Sua origem está nos procedimentos de verificação
baseados na metodologia científica. Atém-se aos fatos; é analítico; requer
exatidão e clareza; é verificável; depende de investigação metódica; busca e
aplica leis.
Se o critério for, ao mesmo tempo, a natureza do objeto, o método e o fim, o
conhecimento pode ser também filosófico ou teológico. O conhecimento filosófico, está
ligado à construção de ideias e conceitos. Tem por origem a capacidade de reflexão do
homem e por instrumento exclusivo, o raciocínio. Ultrapassando os limites da ciência (que
supõe sempre comprovação) busca explicar o sentido geral do universo, do próprio homem,
da vida. O Conhecimento Teológico é um conjunto de
verdades a que os homens chegaram não por mérito da
inteligência, mas mediante a aceitação de uma revelação
divina; Adquirido a partir da fé e se refere, portanto ao
conhecimento de Deus. Nele o critério para a verdade não
é a comprovação científica, mas a própria fé. Também
chamado de conhecimento religioso.
Fonte: http://migre.me/hDDO9

4.2 Um ser capaz de produzir cultura


O título acima nos remete a uma verdade essencial: somente o homem tem a
capacidade de desenvolver cultura, distinguindo-se de outros seres como os vegetais e
animais. E outra verdade: todos os povos e sociedades, por mais tradicional e arcaica que
sejam, possuem cultura, pois todos possuem conhecimentos adquiridos e que são
repassados de geração em geração.

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Dizer que o homem produz cultura significa dizer que vai além do instinto natural. Se
está com fome busca o alimento. Se for preciso, planta as sementes ou cria os animais que
se transformam em alimento. Vai além do simples ser gregário, desenvolvendo sentimentos
em relação às pessoas com as quais convive. Tudo isso representa aspectos aprendidos,
portanto são manifestações culturais.
O que é cultura – alguns autores nos ajudam nesta definição:
Dawson: a cultura é a forma da sociedade. Uma sociedade sem cultura é uma
sociedade sem forma. Assim, a cultura é a essência de uma sociedade, já que ela
representa tudo aquilo que o homem adquire ou mesmo produz, com o uso de suas
faculdades.
Nierbuhr: cultura é o ambiente artificial, secundário que o homem sobrepõe ao
natural. Ele compreende a linguagem, os hábitos, as ideias, as crenças, os costumes, a
organização social, os produtos hereditários, os procedimentos técnicos, os valores.
Bernard Lonergan: considera a cultura como “um conjunto de significados e
valores que dão forma a um modo comum de vida”.
Edward B. Tylor: cultura é “aquele todo complexo que inclui o conhecimento, as
crenças, a arte, a moral, a lei, os costumes e todos os outros hábitos e aptidões adquiridos
pelo homem como membro da sociedade”.
Por estas definições, constando sua abrangência, podemos dizer que a cultura
manifesta o homem em todas as dimensões, porque ora concentra-se em sua religiosidade,
ora concentra-se em seus aspectos sócio-humanísticos e ora concentra-se em busca da
dominação da natureza. É o sopro de vida que torna o humano capaz de ser o homo
culturalis. Procurando entender melhor:
- do ponto de vista da ORIGEM, a cultura é um produto da ação humana (em
função de sua liberdade e inteligência), socializado e transmissível. O produto da
ação individual, isolada, sem possibilidade de influência na construção social e de
transmissão, não constitui um produto cultural. Ex. Um náufrago que come
gafanhotos para sobreviver numa ilha deserta, não está produzindo cultura. Um
produto da ação particular é socializado quando é assumido pela sociedade como
um dado próprio, é integrado no modo de viver social e é transmissível pela mesma
sociedade. Ex: um povo que, vivendo no deserto, desenvolve hábitos transmissíveis
de caçar, preparar e consumir gafanhotos, está produzindo cultura.
- do ponto de vista da FUNÇÃO, a cultura tem uma função prática, de adaptação,
transmissão e desenvolvimento do ser humano. Para satisfazer as necessidades
humanas, a natureza dota o homem de instrumentos básicos primordiais, limitados:
oferece as mãos para trabalhar; os dentes, os punhos, as unhas... para se defender;
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a língua e a voz para falar, o pulo e a corrida para se deslocar rapidamente... A
cultura amplia o trabalho manual construindo máquinas; potencia a defesa, com
armas, bombas, tanques; dota a comunicação verbal de microfones, alto-falantes,
telefones, sistemas de comunicação com satélites; acelera o deslocamento com
aviões e foguetes, etc.
Entende-se, portanto, que toda ação humana é voltada para a realização do homem.
Assim, a cultura é autorrealização. O desenvolvimento do ser humano é
autodesenvolvimento, embora o “auto” ou seja, a “autonomia” seja parcial. Outro
significado metafísico da cultura é mostrar que o ser humano é essencialmente social, pois
só se plenifica vivendo em sociedade, contribuindo e usufruindo de quanto é produzido
pelos outros.

4.3 Entrelaçamentos
a) Cultura e natureza: Não se contrapõem, mas se implicam mutuamente, são
como as duas faces de uma mesma moeda. Não pode haver desenvolvimento da natureza
sem a formação da cultura, nem a formação da cultura, sem ter por base a natureza.
Natureza é tudo o que existe antes que o homem faça alguma coisa: as estrelas, a terra, as
plantas, os animais e também o homem enquanto realidade orgânica e espiritual. Constitui
a base humana necessária para se produzir cultura. A cultura é a modalidade humana
necessária de desenvolver a natureza.
A construção da realidade sociocultural é uma exclusividade humana. Se estende e
se transforma por sucessivas gerações. Exclusividade porque diferentemente de todos os
demais seres vivos, que têm suas vidas ditadas pelos limites naturais, os homens se
apropriam conscientemente do mundo (e claro, da natureza) na criação da cultura. Isto se
distingue, evidentemente do conceito de cultura acima expresso, acentuando, sobretudo
que a cultura é tudo aquilo que o homem extrai destes dados originais.
b) Cultura e indivíduo - Existe profunda interdependência entre cultura e pessoa:
A pessoa, com a sua originalidade, cria a cultura e a cultura enriquece a pessoa com tudo o
que a sociedade humana já elaborou ao longo da história (conhecimentos, língua, artes,
técnicas...), promove e condiciona a pessoa. A este respeito foram elaboradas teorias
filosóficas diferentes: o Existencialismo acentua o primado do indivíduo sobre a cultura e o
Estruturalismo, o primado da cultura sobre a ação do indivíduo.
c) Cultura e ética - Por ser o valor ético determinado pela relação de adequação
ou não adequação do comportamento humano (livre) com o seu fim último, e por ser a

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cultura o fruto da livre ação humana, a cultura tem necessariamente uma dimensão ética
(serve ou não serve para atingir o fim último do homem).
Comportamentos culturais contrários a valores humanos essenciais serão
universalmente antiéticos. Escravizar pessoas, condenar o inocente. Para outros
comportamentos, que não são por si incompatíveis com o fim último do homem, o valor
ético poderá ser determinado pela cultura. Ex: Determinar a porcentagem de lucro a ser
pago ao governo, o quanto um profissional deve ganhar pelo serviço prestado... depende
muito da cultura.
d) Entre culturas, existem relações de:
 Diferenciação: Todas as sociedades, por mais simples que seja sua
organização, possuem uma cultura. Cada sociedade se diferencia por ter uma
identidade cultural. Esta identidade cultural pode ser definida como o conjunto
unitário de crenças, valores e modos de agir e pensar de uma sociedade.
 Comparação: Embora não seja fácil confrontar as culturas, é possível escolher
parâmetros segundo os quais algumas se revelam mais bem-sucedidas, eficientes
e, portanto, parcialmente ou globalmente superiores a outras. Exemplo: Dois
grupos de beduínos, vivendo no mesmo deserto, podem desenvolver culturas
diferentes que permitem a um sobreviver melhor do que o outro. A superioridade
das culturas não comporta, porém, a superioridade das pessoas, que permanecem
iguais em dignidade.
 Influências: As culturas não são sistemas fixos ou estanques, mas dinâmicos,
abertos, comunicantes, dialogáveis, com base nas exigências comuns da natureza
humana. Entrando em contato, sofrem as mais variadas formas de influência
mútua: adaptações, oposições, fusões, assimilações, englobamentos,
enriquecimentos, dominação, diminuição, desaparecimento.
 Aculturação: Fala-se em aculturação quando duas culturas distintas ou
parecidas se integram formando uma nova cultura. Um exemplo típico desse
fenômeno se deu com as culturas grega e romana que deram origem à cultura
greco-romana. Denomina-se “aculturação” também o processo de aquisição de
elementos de uma outra cultura por membros de uma cultura diferente. Exemplo:
a cultura brasileira que adquiriu traços da cultura de Portugal, da África, da cultura
indígena.
 Enculturação: processo através do qual uma pessoa aprende as exigências da
cultura na qual está inserida, adquirindo os valores e comportamentos necessários.
 Inculturação: aplica-se, de modo mais específico, à linguagem cristã para
expressar a encarnação da vida e da mensagem cristã em uma cultura,
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transformando esta mensagem em princípio de inspiração que transforma e recria
esta cultura.

Antes de continuar seu estudo, realize o Exercício 3 e a


Atividade 4.1.

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UNIDADE 5

O SER HUMANO É UM SER DE VONTADE (HOMO


VOLENS)
OBJETIVO DA UNIDADE: Proporcionar a reflexão acerca da vontade e da liberdade
humana e suas implicações na vida social.

As ações do homem nascem de suas decisões. Ele estuda porque quer estudar, ama
porque quer amar, e assim por diante. Esse querer, essa capacidade de autodeterminação,
caracteriza o homem tão profunda e especificamente quanto o conhecer, o falar, o
trabalhar. Tudo isto supõe, de modo fundamental a liberdade. Por isso, falar da vontade
humana é falar também e principalmente, da liberdade humana. Em nossa reflexão sobre a
vontade vamos inicialmente falar da liberdade, depois dos instintos, e depois do destino.
Estas são algumas das implicações da vontade e, pode-se dizer que é pré-requisito
fundamental para o exercício da vontade. Segundo o Dicionário de Filosofia, em sentido
geral, o termo liberdade é a condição daquele que é livre; capacidade de agir por si próprio;
autodeterminação; independência; autonomia.
O homem é decididamente um homem de vontade. Nisso se distingue dos outros
seres. Vontade esta que sempre surpreende pela sua insaciabilidade. Não está nunca
contente com o que realizou ou adquiriu. Há nela um impulso para autotranscender-se que
não se aplaca nunca. Continua a escolher e a descartar, a fazer e a abandonar. Falar do
homo volens é falar também de liberdade. Vejamos um pouco esta interação.

5.1 Conotações da liberdade


“O homem livre é senhor da sua vontade e escravo
somente da sua consciência”(Aristóteles).

A liberdade, assim como outros temas tratados, é um dos grandes entraves


humanos, pois não é algo tão fácil de ser afirmado nem mesmo de ser negado. De modo
geral, diante da pergunta se somos livres ou não, a resposta deve sempre pressupor que
não existe uma liberdade absoluta nem uma total ausência de liberdade. Portanto, em
algum nível, somos livres. Ademais, assim dizer não é suficiente, é necessário entender o
que é a liberdade.
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Não existe, na história do pensamento, um conceito único de liberdade. Porém,
existem algumas instâncias que podemos elencar que contribuem para esta definição. Neste
sentido, entender o que é a liberdade é, também, entender em que sentido podemos usá-
la. Existem vários sentidos em que a liberdade pode ser pensada. O primeiro deles é o
ético-político, em que liberdade é você não obstruir a ação de ninguém, nem ter sua ação
obstruída por outrem. Isto significa que ser livre é “poder agir”.
Em um segundo sentido, podemos pensar a liberdade em sentido existencial, ou
seja, a liberdade não mais está ligada às condições do agir humano, mas à própria essência
humana. Não possuímos liberdade, somos livres, qual seja, minha existência é determinada
pela liberdade.
Um terceiro sentido é o racional: a liberdade é autodeterminar-se pela razão. Em
outras palavras, a liberdade está no fato de que a razão apresenta princípios que, você
seguindo, se torna livre, não sendo, portanto, escravo da vontade. Por outro lado, há
aqueles que fazem o contrário, que afirmam que liberdade é escolher, ou seja, é fazer
aquilo que a vontade determina.
Por fim, há o sentido religioso da liberdade que afirma que a única liberdade humana
possível está em Deus. O grande mestre da patrística Santo Agostinho já ensinava esta
tese, neste sentido, ser livre é se inclinar para a vontade divina, que sabe o que é melhor
para cada um de nós.
Mas e os instintos? Pode o homem permanecer senhor da sua liberdade e de suas
vontades diante dos instintos? Se entende instintos como tendência ou pulsão inata a agir
de forma relativamente pré-definida, para realizar funções básicas da vida. Ex. o instinto de
comer, de beber, de sucção, de relacionar-se com o ambiente de vida, de dormir, de
defesa, de comunicar.
Algumas características dos instintos humanos:
 básicos, pois exprimem as necessidades essenciais da vida;
 inatos: formados antes do nascimento;
 pré-intencionais: não envolvem a consciência explícita;
 involuntários: não envolvem a vontade intencional.
Assim, percebemos a função dos instintos que é de impulsionar o organismo para
satisfazer as necessidades básicas, primárias da vida, de forma pré-intencional, dispensando
o envolvimento da vontade e da consciência explícita.

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5.2 Um ser de comunicação

A vontade humana tem na comunicação a sua maior expressão. Há sempre a


vontade de comunicar-se. Quando falamos da corporeidade do homem, fizemos importantes
referências à linguagem como fator exclusivo e característico da espécie humana.
Retornamos a esta qualidade humana por ser, de fato, fundamental para a compreensão da
realidade autêntica e profunda do próprio homem.
É importante que se perceba a diferença entre língua e linguagem. A
linguagem é a capacidade natural que o ser humano tem de se comunicar, seja por meio de
palavras, gestos, imagens, sons, cores, expressões, etc. Pode ser classificada em verbal e
não verbal. Verbal, quando usa palavras (escrita ou falada). Não verbal quando utiliza
gestos, sons, cores, imagens, etc. A língua é o conjunto de sinais que uma comunidade usa
para se comunicar. É a regra gramatical. Por exemplo, o idioma alemão é compreendido e
tem um conjunto de significados para quem domina a gramática alemã.
A língua é um sistema de signos artificiais e convencionais destinados à
comunicação e que torna possível a comunicação entre os homens. Ela comporta uma
estrutura essencialmente intencional, ou seja, quer significar intenções, ideias, sentimentos,
coisas, etc. Pode-se mesmo dizer com justa razão que a linguagem é o instrumento ideal da
intencionalidade do homem. Lembrando que ele, homem, é fundamentalmente um ser
aberto e em contínuo movimento, orientado para toda a realidade que o circunda e supera.
Justamente esta abertura o dispõe à comunicação, e a comunicação efetua-se
principalmente mediante a linguagem.
A língua é uma invenção do homem e não um dom da natureza ou de um ser
superior. Vem da imitação dos sons emitidos pelos animais e pelas coisas. Essa origem é
confirmada pela grande quantidade de sons onomatopaicos presentes em todas as línguas.
E é também confirmada pelo modo com que a criança aprende a falar, imitando os sons que
ouve da mãe. Mas sobre essa base onomatopaica, o homem manobrou com liberdade e
genialidade, investigando sons novos ou então combinando de maneira diferente sons
velhos. Dá-se, assim, que grande parte da linguagem, atualmente em uso, tenha origem
convencional.
Daí a enorme Importância da língua para a comunidade humana. Vejamos:
- Pela língua se distingue o homem, de modo nítido, dos animais, colocando em
evidência a sua superioridade intelectual;
- A língua revela a natureza completa do ser do homem, realiza a sua epifania. Pela
linguagem o homem pode manifestar-se, mostrar-se;
- Permite ao homem registrar suas experiências para posteriores gerações;

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- Possibilita passar do mundo da sensação para o mundo da representação e da
formação dos conceitos.
Evidentemente a mais importante função da linguagem é justamente a comunicação.

Fonte: http://migre.me/hmEn4

O diálogo é uma importante forma de comunicação interpessoal em que, de


posições diferentes, procura-se chegar a uma posição
comum, concordada e mutuamente satisfatória. Neste
sentido o diálogo tende a unir as pessoas. Então, não
é uma disputa para impor o próprio ponto de vista,
para mostrar ao outro que está errado, onde um sai
vencedor e o outro sai humilhado; não é um monólogo
a dois em que cada um fala sem escutar o outro.
Fonte: http://migre.me/harzB

O diálogo bem conduzido é ao mesmo tempo necessário e vantajoso. É necessário


por causa da:
 natureza da verdade: para conhecer a verdade, sobretudo certas verdades que
dependem do ponto de vista do outro ou que são muito complexas e difíceis, é
necessário confrontar o ponto de vista de mais pessoas. Ex.: a verdade sobre
Deus, o sentido da vida, o que é o homem...
 natureza livre do ser humano: por ela muitos comportamentos não podem ser
impostos, decididos pelos outros mas assumidos a partir da convicção pessoal.
Ex.: acreditar, confiar, amar, perdoar, concordar... são atos que não podem ser
impostos mas propostos e conseguidos pela persuasão, ou seja, pela força das
razões apresentadas. Conseguir convencer alguém pela força da persuasão exige,
muito respeito, paciência e diálogo.
Assim, a linguagem constitui fator de socialização pois o mundo humano e das
relações humanas é também um mundo de símbolos. A relação entre os homens é mediada
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por um importante símbolo: a linguagem. Toda sociabilidade está ligada diretamente à
linguagem, que, por sua vez é responsável por estimular os processos mentais abstratos
que geram o conhecimento. Ela cria e recria a experiência, porque permite que haja um
consenso entre os que a usam, desta maneira a consciência se desenvolve à medida que dá
sentido a tudo o que faz parte da experiência.
A linguagem cria a realidade individual, pois a forma como vemos as coisas, o
mundo externo, são os valores que damos ao que está ao nosso redor. Tudo sempre estará
relacionado aos fatos à nossa volta. Os valores mais completos e compreensíveis por nós
mesmos são os que estão intimamente voltados para a nossa vida.
Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos. (...)
Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra
E te pergunta, sem interesse pela resposta,
Pobre ou terrível, que lhe deres:
“Trouxeste a chave?”
Carlos Drummond de Andrade

5.3 Vontade criativa: o trabalho

Historicamente a descoberta do fogo é colocada como a descoberta principal que


mais contribuiu para elevar o homem ao estágio de produtor. Nenhuma outra espécie fez a
menor tentativa de utilizar o fogo. Já entre os humanos, não se tem notícia de nenhuma
tribo, por mais primitiva, que não o tenha utilizado. Com a
descoberta do fogo, o homem passou do trabalho manual
para o artesanal. Não mais se contentou em colher aquilo
que a natureza lhe colocava à disposição, mas começou a
produzir coisas por conta própria, principalmente as que
realmente precisava para sobreviver e para seu conforto. O
homem começou a trabalhar.
Fonte: http://migre.me/hmENc

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5.3.1 Concepções de trabalho

Embora tão importante para a organização social, o conceito de trabalho nasceu


com uma conotação negativa. Importa lembrar aqui o Mito de Sísifo, onde Zeus ordenou
que Hermes aplicasse a Sísifo um castigo exemplar: deveria rolar
uma enorme pedra morro acima, até o topo. Porém, chegando lá,
o esforço despendido o deixaria tão cansado que a pedra
escaparia de suas mãos e rolaria morro abaixo. No dia seguinte, o
processo se daria novamente, e assim pela eternidade, como
forma de envergonhá-lo pela sua esperteza em querer enganar
os deuses e a morte.
Fonte: http://migre.me/hmF0m
O mito acena para uma origem “condenada” do trabalho, esse ato pelo qual o
homem “domina” as coisas, sai de sua dependência e ignorância, e se assume. Talvez por
isso, durante tanto tempo o trabalho não estava associado à dignidade humana, mas à ideia
degradante e vil, própria de escravos e servos, ou dos economicamente desfavorecidos.
Trabalhar, na antiguidade grega, era atividade manual considerada indigna do homem
livre. O homem livre se destinava à meditação e à fruição dos prazeres da vida. Na idade
média o trabalho tem uma estreita vinculação com a religiosidade, é procurado como
penitência para os pecados da carne. Deveria proporcionar cansaço para o corpo e distração
para o espírito, afastando-o de tentações. A Igreja orientava para o sacrifício que enobrece
o espírito.
Foi somente a partir da Reforma Protestante (século XVI) que o trabalho passou a
ser considerado algo importante para o homem. Porém, ninguém melhor que o pensador e
sociólogo K. Marx, no século XIX (e toda a tradição marxista) e a filósofa Hanna Arendt, no
século XX, trabalharam a dimensão humana do trabalho.
De acordo com a definição do Dicionário do Pensamento Social do Século XX,
trabalho é o esforço humano dotado de um propósito e envolve a transformação da
natureza através do dispêndio de capacidades físicas e mentais. Para Marx é o processo de
transformação da natureza. E ao transformar a natureza o homem também transforma a si
mesmo. Segundo a enciclopédia filosófica o trabalho é toda atividade material e espiritual
que procura um resultado útil.
O trabalho humano tem as seguintes características:
 É consciente e livre: para que seja realizador do próprio homem o trabalho é
desempenhado mediante adesão livre e criativa.

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 É obrigatório: A obrigatoriedade é a característica específica do trabalho, que
o distingue da atividade lúdica finalizada ao prazer e que justifica o
enfrentamento de situações penosas como o cansaço, a rotina, o sofrimento. A
obrigatoriedade é decorrente de algum tipo de necessidade que, se não for
satisfeita, comporta alguma penalidade. A penalidade pode ser consequência
direta da não realização do mesmo trabalho (ex. se não planta, não colhe) o
que caracteriza o trabalho independente, ou de uma sanção social (ex. não
pagamento do salário) o que caracteriza o trabalho dependente. Lembrando
ainda que é justamente a obrigatoriedade do trabalho que fundamenta o
direito à remuneração em força da justiça comutativa.
 É realizado com os outros e para os outros: No nosso tempo, torna-se
cada vez mais relevante o papel do trabalho humano, como fator produtivo das
riquezas espirituais e materiais; aparece, além disso, evidente como o trabalho
de um homem se cruza naturalmente com o de outros homens. Hoje mais do
que nunca, trabalhar é um trabalhar com os outros e um trabalhar para os
outros: torna-se cada vez mais um fazer qualquer coisa para alguém. O
trabalho é tanto mais fecundo e produtivo, quanto mais o homem é capaz de
conhecer as potencialidades criativas da terra e de ler profundamente as
necessidades do outro homem, para o qual é feito o trabalho. (Centesimus
Annus, n. 31).

5.3.2 Aspectos bíblicos do trabalho humano12


O Antigo Testamento apresenta Deus como criador onipotente, que plasma o
homem à Sua imagem e o convida a cultivar a terra e a guardar o jardim do Éden em que o
pôs. Ao primeiro casal humano Deus confia a tarefa de submeter a terra e de dominar sobre
todo ser vivente. O domínio do homem sobre os demais seres viventes não deve todavia ser
despótico e destituído de bom senso; pelo contrário ele deve «cultivar e guardar» os bens
criados por Deus: bens que o homem não criou, mas os recebeu como um dom precioso
posto pelo Criador sob a sua responsabilidade. Cultivar a terra significa não abandoná-la a si
mesma; exercer domínio sobre ela e guardá-la, assim como um rei sábio cuida do seu povo
e um pastor, da sua grei.
No desígnio do Criador, as realidades criadas, boas em si mesmas, existem em
função do homem. O deslumbramento ante o mistério da grandeza do homem faz exclamar
ao salmista: «que é o homem para te lembrares dele, o filho do homem para com ele te

12O texto que segue é uma síntese do compêndio da Doutrina social da Igreja sobre o trabalho humano, no seu
capítulo VI – de João Paulo II.
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preocupares? Quase fizeste dele um ser divino, de glória e honra o coroaste. Deste-lhe o
domínio sobre as obras de tuas mãos, tudo submeteste a teus pés».
O trabalho pertence à condição originária do homem e precede a sua queda; não é,
portanto, nem punição nem maldição. Este se torna fadiga e pena por causa do pecado de
Adão e Eva, que quebrantam o seu relacionamento confiante e harmonioso com Deus. A
proibição de comer «da árvore do conhecimento do bem e do mal» lembra ao homem que
ele recebeu tudo como dom e que continua a ser uma criatura e não o Criador. O pecado de
Adão e Eva foi provocado precisamente por esta tentação: «sereis como Deus». Eles
quiseram ter o domínio absoluto sobre todas as coisas, sem se submeterem à vontade do
Criador. Desde então o solo se torna avaro, ingrato, surdamente hostil; somente com o suor
da fronte será possível extrair dele alimento. Não obstante o pecado dos progenitores,
permanecem inalterados, todavia, o desígnio do Criador, o sentido das Suas criaturas e,
dentre elas, do homem, chamado a ser cultivador e guardião da criação.
O princípio fundamental da Sabedoria, com efeito, é o temor do Senhor; a exigência
da justiça, que daí deriva, precede a do lucro: «Vale mais o pouco com o temor do Senhor /
que um grande tesouro com a inquietação. Mais vale o pouco com justiça / do que grandes
lucros com iniquidade» (Pr 16, 8).
Jesus é um homem de trabalho. Na Sua pregação Ele ensina a apreciar o
trabalho. Ele mesmo, «se tornou semelhante a nós em tudo, passando a maior parte dos
anos da vida sobre a terra junto de um banco de carpinteiro, dedicando-se ao trabalho
manual», na oficina de José (cf. Mt 13, 55; Mc 6, 3), a quem estava submisso Ele descreve
a Sua própria missão como um trabalhar: «Meu Pai continua agindo até agora, e eu
ajo também» (Jo 5, 17).
Na Sua pregação, Jesus ensina aos homens a não se deixarem escravizar pelo
trabalho. Eles devem preocupar-se, antes de tudo, com a sua alma; ganhar o mundo inteiro
não é o objetivo de sua vida (cf. Mc 8, 36). Os tesouros da terra, com efeito, se consomem,
ao passo que os tesouros do céu permanecem para sempre. Durante o Seu ministério
terreno, Jesus trabalha incansavelmente, realizando obras potentes para libertar o homem
da doença, do sofrimento e da morte. A partir de Jesus Cristo o trabalho é visto como
participação do homem na obra da criação e também um meio de santificação para o
próprio homem.

5.3.3 A Dignidade do trabalho


O trabalho não é simples mercadoria ou algo impessoal na organização produtiva. O
trabalho, independentemente do seu menor ou maior valor objetivo, mas sim, é expressão
essencial da pessoa. Qualquer forma de materialismo e de economicismo que tente reduzir
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o trabalhador a mero instrumento de produção, a simples força de trabalho, a valor
exclusivamente material, acaba por desnaturar irremediavelmente a essência do trabalho,
privando-o da sua finalidade mais nobre e profundamente humana: a realização humana. A
pessoa é o parâmetro da dignidade do trabalho.
O trabalho procede e é ordenado à pessoa. Independentemente do seu
conteúdo objetivo, o trabalho deve ser orientado para o sujeito que o realiza, pois a
finalidade do trabalho, de qualquer trabalho, permanece sempre o homem. Ainda que não
possa ser ignorada a importância da componente objetiva do trabalho sob o aspecto da sua
qualidade, tal componente, todavia, deve ser subordinada à realização do homem, e,
portanto à dimensão subjetiva, graças à qual é possível afirmar que o trabalho é para o
homem e não o homem para o trabalho e que «a finalidade do trabalho, de todo e qualquer
trabalho realizado pelo homem — ainda que seja o trabalho mais humilde de um “serviço” e
o mais monótono na escala do modo comum de apreciação e até o mais marginalizador —
permanece sempre o mesmo homem».
Observe, porém, que, sempre, o trabalho de um homem se entrelaça naturalmente
com o de outros homens: «Hoje mais do que nunca, trabalhar é um trabalhar com os
outros e um trabalhar para os outros: torna-se cada vez mais um fazer qualquer coisa para
alguém». Também os frutos do trabalho oferecem ocasião de intercâmbios, de relações e
de encontro. O trabalho, portanto, não pode ser avaliado equitativamente se não se leva em
conta a sua natureza social. Ainda neste sentido social, percebemos que O trabalho
constitui o principal instrumento de inserção da pessoa na sociedade. Quando a pessoa
humana, principalmente no mundo tecnicista e capitalista não tem nenhuma forma de
ocupação, se sente desprestigiada, excluída, sem função e sem valor. Portanto, ele é
essencial para o funcionamento das sociedades, no seu equilíbrio bem como na autoestima
da pessoa.

5.4 Vontade lúdica: o jogo, a brincadeira

O brincar é exclusivo do ser humano? A análise de espécies animais indicam que


não. Basta observar os cachorrinhos nas suas alegres evoluções, características evidentes
de uma brincadeira. Em tudo experimentam prazer e divertimento. Alguns defendem que o
jogo, neste nível é um ensaio para tarefas mais difíceis que precisará, mais tarde realizar na
vida. Outros dizem ser um impulso inato para se determinar lideranças, exercer domínio.
Outros afirmam ainda que se trata de uma válvula de escape para determinados impulsos.
O que importa é constatar que o jogo não está restrito a algo racional.

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O ser humano, por excelência, é um ser lúdico. Por quê? Porque ele inventa jogos e
diverte-se como nenhum outro animal. Observe que a definição abaixo, dada por Huizinga,
apresenta alguns termos próprios da atividade humana, como “liberdade-consciência”: É
uma atividade ou ocupação voluntária, exercida num certo nível de tempo e espaço,
segundo regras livremente consentidas e
absolutamente obrigatórias, dotada de um fim em
si mesmo, atividade acompanhada de um
sentimento de tensão e alegria, e de uma
consciência de ser que é diferente daquela da vida
cotidiana13.
Fonte: http://migre.me/hHmg6

5.4.1 O jogo
O entendimento do jogo passa pelo entendimento de um jogo de palavras, que
seguem certas regras. Dar ordens, descrever um objeto, ou acontecimento, formular uma
hipótese, cantar, recitar... tudo faz parte de um jogo. Mas como entender o jogo e esta
dimensão lúdica?
Batista Mondin diz ser difícil dar uma definição cabal de jogo sem confundi-lo com
outras atividades humanas. Conhecemos muito bem, por exemplo, um jogo de baralho, o
bingo, os dados. Nesta mesma categoria entra o tocar piano, o fazer cambalhota, o pintar,
o ir ao cinema, contar piada, namorar. Poderíamos continuar a lista. Muitas destas
atividades, de primeira mão, não parecem jogos e sim, manifestações artísticas, literárias.
Mas dado que as propriedades específicas do jogo são a distração e o divertimento, pode-se
considerá-las como tal. Toda ação que busca estes objetivos é categorizada como jogo
(ludens). Então assim definimos jogo: desenvolvimento de atividades com vistas à
distração, ao divertimento, à satisfação e realização de si mesmo (dar o melhor de si
mesmo, pois o jogo é um desafio aos outros, mas também é sempre um desafio a si
mesmo). É natural que tal concepção evoque a ideia risco ou habilidade, aproximando-se de
características físicas, aventureiras e intelectuais.
Entre as características que avalizam os princípios do jogo, está o seu caráter de
oposição ao trabalho e à seriedade. A seriedade contida nos jogos refere-se a profissionais
que ganham a vida no ringue, na pista, no hipódromo ou nos palcos e se preocupam com o
salário, as percentagens ou o bônus. Nesse aspecto, são encaradas não como jogadores,
mas como trabalhadores.

13Johan Huizinga: professor e historiador neerlandês, conhecido por seus trabalhos sobre a Baixa Idade Média,
a Reforma e o Renascimento. sua principal contribuição: o Homo Ludens, escrito por ele no ano de 1938.
54
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É importante observar as características do jogo14. Ele tem um fim em si
mesmo, ou seja, não se joga para ganhar dinheiro, encargos, honras. O fim do jogo é o
homem. Neste sentido, o jogo de futebol para o jogador profissional não é mais um jogo,
mas um trabalho que é feito em vista do lucro. Com isto acentua-se mais uma vez: a
dimensão lúdica é a dimensão da alegria, do divertimento, da serenidade. Estas
características, na medida em que libertam o homem dos pesados vínculos sociais e fadigas,
permitem a ele a autotranscendência: a busca da superação das imposições da vida
cotidiana e a conquista da liberdade. Algumas outras características são as seguintes: é
uma atividade voluntária (nunca algo imposto); está relacionado ao prazer (do latim
“luderes”, esse aspecto lúdico se dá na ligação com o prazer); requer regras e obediência
às mesmas; é tenso: requer atenção e dedicação, foco e está relacionado à cultura, por
tratar-se de uma atividade originária, profundamente enraizada em todas as atividades
humanas; requer liberdade, pois não está no curso da evolução natural. Você não joga
porque a vida te impôs essa provação. Você joga porque há algo naquele jogo que o atrai.
Supõe a imaginação. Pode sempre ser repetido, na medida em que seja algo
agradável, podendo ser transmitido. Ele cria ordem e é ordem, pois exige uma ordem
que, se desobedecida, “estraga o jogo” e o priva de valor. E, por fim, facilita o sentimento
de “fraternidade” entre os jogadores e a formação de grupos sociais que buscam cada vez
mais uma exclusividade.
Por fim é bom que se explicite também na teologia. Para tanto sirvamo-nos de
Tomás de Aquino15. Para ele o lúdico de que Tomás trata é, sobretudo o brincar do adulto
(embora se aplique também ao brincar das crianças). É uma virtude moral que leva a ter
graça, bom humor, jovialidade e leveza no falar e no agir, para tornar o convívio humano
descontraído, acolhedor, divertido e agradável. Tomás afirma que assim como o homem
precisa de repouso corporal para restabelecer-se, pois, sendo suas forças físicas limitadas,
não pode trabalhar continuamente; assim também precisa de repouso para a alma, o que é
proporcionado pela brincadeira.
Este brincar, que pode parecer surpreendente à primeira vista, é na verdade
necessário para todos: para o intelectual, para o contemplativo, para o trabalhador braçal,
para o adulto, para a criança, etc. Vale lembrar que num passado não muito distante,
procurava-se uma separação muito clara entre o lazer e o trabalho, entre o estudo e o
divertimento. Hoje, muitas empresas procuram trazer a dimensão do ludens para o mundo
profissional e, no mundo da educação, há o apelo cada vez mais forte de fazer do ensino

14
Huizinga apresenta estas características, encontradas em:
http://rpgista.com.br/2011/06/10/porquejogamos1/.
15 Texto completo pode ser encontrado em http://www.hottopos.com/notand7/jeanludus.htm
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algo prazeroso, evitando ser um ato aborrecido e enfadonho. Tomás ainda lembra que Deus
brinca, Deus cria, brincando. E o homem deve brincar para levar uma vida humana.

Antes de continuar seu estudo, realize os Exercícios 4 e 5


e a Atividade 5.1.

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REFERÊNCIAS

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Janeiro: Vozes, 2004.

BOGEN, Hans Joachim; MONTEIRO, Maria José Pereira (Trad.). O ser humano e a
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<http://jus2.uol.com.br/doutrina/texto.asp?id=4171>. Acesso em 18/08/2019.

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EXERCÍCIOS E ATIVIDADES

ATIVIDADE 1.1

Leia a Unidade 1 toda pelo menos duas vezes. Feito isto, escolha uma música que mostra
bem o sentido da vida para você. Escreva esta música em um documento Word. Depois
copie o trecho da apostila que a música que você escolheu tem a ver.

Não esqueça: ao copiar o trecho da apostila, coloque este trecho entre aspas e no final a
página da qual você o tirou.

Por último explique o que é o sentido da vida para você. Terminado, salve o documento do
Word com seu RA e envie no local indicado.

Submeta sua atividade pela ferramenta Tarefa.

EXERCÍCIO 1

1. Leia atentamente os enunciados abaixo na perspectiva conceitual:


I. A origem da palavra pessoa vem de Per-sonare (ressoar através de), que significava a
máscara do teatro que os atores gregos colocavam para indicar o papel que representavam.
Futuramente passaria a indicar algo interior que se manifesta numa estrutura exterior.
II. Por identidade entendemos a propriedade do ser de se identificar consigo mesmo e com
os outros apesar das mudanças e das diferenças.
III. O conceito de sujeito, sub-iectum em latim, significa aquilo que está por baixo, aquilo
que é a estrutura mais elementar e basilar de toda a personalidade.
a) Apenas o enunciado III está correto.
b) Apenas os enunciados II e III estão corretos.
c) Apenas o enunciado II está correto.
d) Apenas os enunciados I e III estão corretos.

2. Marque a alternativa correta:


a) Dignidade está relacionada, sempre, ao nome ou status. Prova disto são as famílias
tradicionais, de sobrenome relacionado ao poder, ao dinheiro e à história propriamente dita.
b) Dignidade é algo que se adquire, pois, a pessoa muitas vezes não é nada na vida, porém,
mediante o estudo, a capacitação, pode vir a ser alguém de muita dignidade.
c) Muitas vezes uma pessoa famosa, rica e que detém o poder pode dar dignidade a uma
outra pessoa, basta ela querer.
d) Dignidade não se compra, não se vende, não se adquire. Basta ser “ser humano” para

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que se tenha dignidade humana.

Verifique seu aprendizado realizando o Exercício no Ambiente Virtual de


Aprendizagem.

EXERCÍCIO 2

1. A respeito da função ascética (dimensão do homo somaticus), é correto


afirmar que nela:
I. As virtudes são relacionadas ao Espírito e não ao corpo, pois o corpo, como dizia Platão, é
cheio de fraquezas e misérias.
II. O exercício da vontade é condição fundamental para o domínio do corpo e consequente
prática das virtudes.
a) Os dois enunciados estão corretos.
b) Apenas o enunciado I está correto.
c) Apenas o enunciado II está correto.
d) Nenhum enunciado está correto.

2. Podemos definir corporeidade como sendo:


I. O resultado final da mensuração que leva em consideração a altura, a largura e o peso
de uma pessoa.
II. A relação espaço físico e massa corpórea de uma pessoa.
III. A maneira pela qual o cérebro reconhece e utiliza o corpo como instrumento relacional
com o mundo.
a) Apenas o enunciado I está correto.
b) Apenas o enunciado II está correto.
c) Apenas o enunciado III está correto.
d) Apenas os enunciados I e III estão corretos.

Verifique seu aprendizado realizando o Exercício no Ambiente Virtual de


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EXERCÍCIO 3

É comum no universo religioso o termo “transcendência”. No contexto de


argumentação da disciplina Humanidades I, o termo quer designar:
I. As projeções e fugas do inconsciente humano para uma realidade metafísica, longe dos
problemas do dia a dia.
II. Capacidade, típica do ser humano, de sair para fora de si, do seu corpo, de sua situação
humana, através da reflexão, do pensamento, do sonho, da imaginação, ligando-se a um ser
superior.
a) Somente o enunciado I está correto.
b) Somente o enunciado II está correto.
c) Os dois enunciados estão corretos.
d) Nenhum enunciado está correto.

Verifique seu aprendizado realizando o Exercício no Ambiente Virtual de


Aprendizagem.

ATIVIDADE 4.1

Bata uma foto do seu celular para alguma cena, alguma coisa, algum fato de seu cotidiano,
que você considera ser algo que respeita a dignidade humana. Encaminhe esta foto para o
local indicado.

Submeta sua atividade pela ferramenta Tarefa.

EXERCÍCIO 4

1. No que diz respeito à relação cultura e indivíduo, existem duas teorias


filosóficas: o existencialismo e o estruturalismo. Quanto a estas correntes, é
correto afirmar que:
a) As duas são iguais, pois defendem a mesma posição que é o primado da cultura sobre o
indivíduo.
b) São diferentes, pois o Existencialismo acentua o primado do indivíduo sobre a cultura e
o Estruturalismo, o primado da cultura sobre a ação do indivíduo.
c) São diferentes, o estruturalismo acentua o primado do indivíduo sobre a cultura e o
Existencialismo, o primado da cultura sobre a ação do indivíduo.
d) As duas são de fato iguais no seu sentido, pois defendem a ideia de que existe um
primado do indivíduo sobre a cultura.

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2. Quanto à Cultura, é possível afirmar que:
I. Alguns povos são tão primitivos que não é possível lhes atribuir nenhuma cultura.
II. Vegetais e animais, nos limites do que é próprio à sua espécie, também produzem
cultura.
III. Somente o ser humano é capaz de produzir cultura porque produz e repassa
conhecimentos.
a) Somente o enunciado I está correto.
b) Todos os enunciados estão corretos.
c) Somente os enunciados I e III estão corretos.
d) Somente o enunciado III está correto.

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Aprendizagem.

ATIVIDADE 5.1

Grave um áudio de no máximo 3 minutos dando a sua opinião sobre essa frase: por que
ser livre não é fazer o que quer?

Submeta a atividade por meio da ferramenta Tarefa.

EXERCÍCIO 5

Analise os enunciados abaixo acerca do trabalho humano:


I. O trabalho, conforme o dicionário do pensamento social do século XX, é todo esforço
humano dotado de um propósito e que envolve a transformação da natureza através do
dispêndio de capacidades físicas e mentais.
II. O trabalho manual, na antiguidade grega, era considerado uma atividade digna e que
proporcionava ao homem o respeito social.
III. Conforme a visão cristã, o trabalho é visto como participação do homem na obra da
criação e também meio de santificação do próprio homem.
a) Apenas o enunciado I está correto.
b) Apenas os enunciados II e III estão corretos.
c) Apenas os enunciados I e III estão corretos.
d) Todos os enunciados estão corretos.

Verifique seu aprendizado realizando o Exercício no Ambiente Virtual de


Aprendizagem.

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