Você está na página 1de 408

CÓDIGO CIVIL PORTUGUÊS

(Actualizado até à Lei 59/99, de 30/06)

-1-
mesmo diploma, com as modificações e
DECRETO-LEI Nº 47 344, os esclarecimentos constantes dos
de 25 de Novembro de 1966 artigos seguintes.

Usando da faculdade conferida pela 1ª Artigo 6º (Pessoas colectivas)


parte do nº 2º do artigo 109º da As disposições dos artigos 157º a 194º
Constituição, o Governo decreta e eu do novo Código Civil não prejudicam as
promulgo, para valer como lei, o normas de direito público contidas em
seguinte: leis administrativas.

Artigo 1º (Aprovação do Código Artigo 7º (Interdições)


Civil) Os dementes, surdos-mudos ou pródigos
É aprovado o Código Civil que faz parte que tenham sido total ou parcialmente
do presente decreto-lei. interditos do exercício de direitos, ou
venham a sê-lo em acções pendentes,
Artigo 2º (Começo de vigência) mantêm o grau de incapacidade que
1. O Código Civil entra em vigor no lhes tiver sido ou vier a ser fixado na
continente e ilhas adjacentes no dia 1 de sentença ou que resultar da lei anterior.
Junho de 1967, à excepção do disposto
nos artigos 1841º a 1850º, que Artigo 8º (Privilégios creditórios e
começará a vigorar somente em 1 de hipotecas legais)
Janeiro de 1968. 1. Não são reconhecidos para o futuro,
2. O código não é, porém, aplicável às salvo em acções pendentes, os
acções que estejam pendentes nos privilégios e hipotecas legais que não
tribunais no dia da sua entrada em sejam concedidos no novo Código Civil,
vigor, salvo o disposto nos artigos 17º e mesmo quando conferidos em legislação
21º do presente decreto-lei. especial.
2. Exceptuam-se os privilégios e
Artigo 3º (Revogação do direito hipotecas legais concedidos ao Estado
anterior) ou a outras pessoas colectivas públicas,
Desde que principie a vigorar o novo quando se não destinem à garantia de
Código Civil, fica revogada toda a débitos fiscais.
legislação civil relativa às matérias que
esse diploma abrange, com ressalva da Artigo 9º (Sociedades universais e
legislação especial a que se faça familiares)
expressa referência. Às sociedades universais e familiares
constituídas até 31 de Maio de 1967
Artigo 4º (Remissões para o Código serão aplicáveis, até à sua extinção,
de 1867) respectivamente, as disposições dos
Todas as remissões feitas em diplomas artigos 1243º a 1248º e 1281º a 1297º
legislativos para o Código Civil de 1867 do Código Civil de 1867.
consideram-se feitas para as disposições
correspondentes do novo código. Artigo 10º (Arrendamentos em
Lisboa e Porto)
Artigo 5º (Aplicação no tempo) Enquanto não for revista a situação
A aplicação das disposições do novo criada em Lisboa e Porto pela suspensão
código a factos passados fica das avaliações fiscais para o efeito da
subordinada às regras do artigo 12º do actualização de rendas dos prédios

-2-
destinados a habitação, mantém-se o pelo que respeita ao nº 2 do artigo
regime excepcional da Lei nº 2030, de 1739º.
22 de Junho de 1948, quanto a esses
arrendamentos. Artigo 16º (Doações para casamento
e entre casados. Separação e
Artigo 11º (Parceria agrícola) divórcio)
Ao contrato de parceria agrícola são 1. Sem prejuízo da regra estabelecida
aplicáveis, para o futuro, as disposições no nº 2 do artigo 2º deste decreto-lei,
que regulam o arrendamento rural. são aplicáveis aos casamentos
celebrados até 31 de Maio de 1967 as
Artigo 12º (Foros do Estado) disposições do novo Código Civil
Na determinação do quantitativo do relativas à caducidade das doações para
laudémio nos foros do Estado, para casamento, às doações entre casados, à
efeitos do disposto no artigo 1517º do separação dos cônjuges ou dos seus
novo Código Civil, atender-se-á ao valor bens e ao divórcio.
dos respectivos prédios que resulte da 2. Não pode, no entanto, ser decretada
matriz. a separação judicial de pessoas e bens
ou o divórcio de cônjuges casados até
Artigo 13º (Anulação do casamento) 31 de Maio de 1967 com fundamento
1. Os casamentos civis celebrados até em facto que não seja relevante
31 de Maio de 1967 não podem ser segundo a lei vigente à data da sua
declarados nulos ou anulados, se para verificação.
tal não houver fundamento reconhecido
tanto pela lei antiga como pela nova lei Artigo 17º (Conversão da separação
civil, a não ser que já esteja pendente, em divórcio)
naquela data, a respectiva acção. O disposto no artigo 1793º é aplicável
2. O disposto nos artigos 1639º a 1646º nas acções pendentes e nos processos
do novo código é aplicável às acções que findos à data da entrada em vigor do
forem intentadas depois de 31 de Maio novo Código Civil.
de 1967, sem prejuízo do que,
relativamente aos prazos, prescreve o Artigo 18º (Impugnação da
artigo 297º do mesmo diploma. legitimidade)
1. Até 31 de Outubro de 1967 pode o
Artigo 14º (Efeitos do casamento ) marido da mãe intentar acção de
O disposto nos artigos 1671º a 1697º do impugnação da paternidade, com
novo código é aplicável aos casamentos fundamento em qualquer dos factos
celebrados até 31 de Maio de 1967, mas referidos nas alíneas c) e d) do artigo
em caso algum serão anulados os actos 1817º do novo Código Civil,
praticados pelos cônjuges na vigência da relativamente ao filho nascido antes da
lei antiga, se em face desta não entrada em vigor deste diploma, com
estiverem viciados. prejuízo do disposto no artigo 1818º.
2. Dentro do mesmo prazo serão
Artigo 15º (Regime de bens) recebidos nos tribunais de menores os
O preceituado nos artigos 1717º a requerimentos a que se refere o artigo
1752º só é aplicável aos casamentos 1820º, seguindo-se os demais termos
celebrados até 31 de Maio de 1967 na da impugnação oficiosa, desde que o
medida em que for considerado como filho tenha menos de catorze anos de
interpretativo do direito vigente, salvo idade à data da apresentação do
requerimento.

-3-
Artigo 19º (Acções de investigação
de maternidade ou paternidade
ilegítima) Publique-se e cumpra-se como nele se
O facto de se ter esgotado o período a contém.
que se refere o nº 1 do artigo 1854º não Paços do Governo da República, 25 de
impede que as acções de investigação Novembro de 1966. - AMÉRICO DEUS
de maternidade ou paternidade ilegítima RODRIGUES TOMAZ - António de
sejam propostas até 31 de Maio de Oliveira Salazar - António Jorge Martins
1968, desde que não tenha caducado da Mota Veiga - Manuel Gomes de
antes, em face da legislação anterior, o Araújo - Alfredo Rodrigues dos Santos
direito de as propor. Júnior - João de Matos Antunes Varela -
Ulisses Cruz de Aguiar Cortês - Joaquim
Artigo 20º (Filhos adulterinos) da Luz Cunha - Fernando Quintanilha
Os assentos secretos de perfilhação de Mendonça Dias - Alberto Marciano
filhos adulterinos, validamente lavrados Gorjão Franco Nogueira - Eduardo de
ao abrigo da legislação vigente, tornar- Arantes e Oliveira - Joaquim Moreira da
se-ão públicos mediante averbamento Silva Cunha - Inocêncio Galvão Teles -
oficioso, sempre que sejam passadas José Gonçalo da Cunha Sottomayor
certidões do respectivo registo de Correia de Oliveira - Carlos Gomes da
nascimento. Silva Ribeiro - José João Gonçalves de
Proença - Francisco Pereira Neto de
Artigo 21º (Tutela e curatela) Carvalho.
As disposições do novo Código Civil Para ser presente à Assembleia
relativas à tutela e à curatela são Nacional.
aplicáveis às tutelas e curatelas
instauradas até 31 de Maio de 1967;
porém, os tutores e os curadores já
nomeados manter-se-ão nos seus
cargos enquanto deles não se escusarem
ou enquanto não forem removidos ou
exonerados.

Artigo 22º (Declaração de nulidade


ou anulação de testamento ou de
disposições testamentárias)
Os testamentos anteriores a 31 de Maio
de 1967 e as disposições testamentárias
neles contidas só podem ser declarados
nulos ou anulados, por vício substancial
ou de forma, se o respectivo
fundamento for também reconhecido
pelo novo Código Civil, salvo se a acção
já estiver pendente naquela data.

Artigo 23º (Testamentaria)


As atribuições do testamenteiro são as
que lhe forem fixadas pela lei vigente à
data da feitura do testamento.

-4-
CÓDIGO CIVIL

LIVRO I - PARTE GERAL SECÇÃO II - Direitos de


TÍTULO I - DAS LEIS, SUA personalidade
INTERPRETAÇÃO E APLICAÇÃO Artigos 70º a 81º
CAPÍTULO I - Fontes do Direito
Artigos 1º a 4º SECÇÃO III - Domicílio
Artigos 82º a 88º
CAPÍTULO II - Vigência,
interpretação e aplicação das leis SECÇÃO IV - Ausência
Artigos 5º a 13º SUBSECÇÃO I - Curadoria provisória
Artigos 89º a 98º
CAPÍTULO III - Direitos dos
estrangeiros e conflitos de leis SUBSECÇÃO II - Curadoria
SECÇÃO I - Disposições gerais definitiva
Artigos 14º a 24º Artigos 99º a 113º

SECÇÃO II - Normas de conflitos SUBSECÇÃO III - Morte presumida


SUBSECÇÃO I - Âmbito e Artigos 114º a 119º
determinação da lei pessoal
Artigos 25º a 34º SUBSECÇÃO IV - Direitos eventuais
do ausente
SUBSECÇÃO II - Lei reguladora dos Artigos 120º a 121º
negócios jurídicos
Artigos 35º a 40º SECÇÃO V - Incapacidades
SUBSECÇÃO I - Condição jurídica
SUBSECÇÃO III - Lei reguladora das dos menores
obrigações Artigos 122º a 129º
Artigos 41º a 45º
SUBSECÇÃO II - Maioridade e
SUBSECÇÃO IV - Lei reguladora das emancipação
coisas Artigos 130º a 137º
Artigos 46º a 48º
SUBSECÇÃO III - Interdições
SUBSECÇÃO V - Lei reguladora das Artigos 138º a 151º
relações de família
Artigos 49º a 61º SUBSECÇÃO IV - Inabilitações
Artigos 152º a 156º
SUBSECÇÃO VI - Lei reguladora das
sucessões CAPÍTULO II - Pessoas colectivas
Artigos 62º a 65º SECÇÃO I - Disposições gerais
Artigos 157º a 166º
TÍTULO II - DAS RELAÇÕES
JURÍDICAS SECÇÃO II - Associações
SUBTÍTULO I - Das Pessoas Artigos 167º a 184º
CAPÍTULO I - Pessoas singulares
SECÇÃO I - Personalidade e SECÇÃO III - Fundações
capacidade jurídica Artigos 185º a 194º
Artigos 66º a 69º

-5-
CAPÍTULO III - Associações sem
personalidade jurídica e comissões CAPÍTULO III - O tempo e a sua
especiais repercussão nas relações jurídicas
Artigos 195º a 201º SECÇÃO I - Disposições gerais
Artigos 296º a 299º
SUBTÍTULO II - Das coisas
Artigos 202º a 216º SECÇÃO II - Prescrição
SUBSECÇÃO I - Disposições gerais
SUBTÍTULO III - Dos factos Artigos 300º a 308º
jurídicos
CAPÍTULO I - Negócio jurídico SUBSECÇÃO II - Prazos da
SECÇÃO I - Declaração negocial prescrição
SUBSECÇÃO I - Modalidades da Artigos 309º a 311º
declaração
Artigos 217º a 218º SUBSECÇÃO III - Prescrições
presuntivas
SUBSECÇÃO II - Forma Artigos 312º a 317º
Artigos 219º a 223º
SUBSECÇÃO IV - Suspensão da
SUBSECÇÃO III - Perfeição da prescrição
declaração negocial Artigos 318º a 322º
Artigos 224º a 235º
SUBSECÇÃO V - Interrupção da
SUBSECÇÃO IV - Interpretação e prescrição
integração Artigos 323º a 327º
Artigos 236º a 239º
SECÇÃO III - Caducidade
SUBSECÇÃO V - Falta e vícios da Artigos 328º a 333º
vontade
Artigos 240º a 257º SUBTÍTULO IV - Do exercício e
tutela dos direitos
SUBSECÇÃO VI - Representação CAPÍTULO I - Disposições gerais
Divisão I - Princípios gerais Artigos 334º a 340º
Artigos 258º a 261º
CAPÍTULO II - Provas
Divisão II - Representação SECÇÃO I - Disposições gerais
voluntária Artigos 341º a 348º
Artigos 262º a 269º
SECÇÃO II - Presunções
SUBSECÇÃO VII - Condição e termo Artigos 349º a 351º
Artigos 270º a 279º
SECÇÃO III - Confissão
SECÇÃO II - Objecto negocial. Artigos 352º a 361º
Negócios usurários
Artigos 280º a 284º SECÇÃO IV - Prova documental
SUBSECÇÃO I - Disposições gerais
SECÇÃO III - Nulidade e Artigos 362º a 368º
anulabilidade do negócio jurídico
Artigos 285º a 294º SUBSECÇÃO II - Documentos
autênticos
CAPÍTULO II - Actos jurídicos Artigos 369º a 372º
Artigo 295º - Disposições reguladoras

-6-
SUBSECÇÃO III - Documentos SUBSECÇÃO VII - Resolução ou
particulares modificação do contrato por
Artigos 373º a 379º alteração das circunstâncias
Artigos 437º a 439º
SUBSECÇÃO IV - Disposições
especiais SUBSECÇÃO VIII - Antecipação do
Artigos 380º a 387º cumprimento. Sinal
Artigos 440º a 442º
SECÇÃO V - Prova pericial
Artigos 388º a 389º SUBSECÇÃO IX - Contrato a favor
de terceiro
SECÇÃO VI - Prova por inspecção Artigos 443º a 451º
Artigos 390º a 391º
SUBSECÇÃO X - Contrato para
SECÇÃO VII - Prova testemunhal pessoa a nomear
Artigos 392º a 396º Artigos 452º a 456º

LIVRO II - DIREITO DAS SECÇÃO II - Negócios unilaterais


OBRIGAÇÕES Artigos 457º a 463º
TÍTULO I - DAS OBRIGAÇÕES EM
GERAL SECÇÃO III - Gestão de negócios
CAPÍTULO I - Disposições gerais Artigos 464º a 472º
SECÇÃO I - Conteúdo da obrigação
Artigos 397º a 401º SECÇÃO IV - Enriquecimento sem
causa
SECÇÃO II - Obrigações naturais Artigos 473º a 482º
Artigos 402º a 404º
SECÇÃO V - Responsabilidade civil
CAPÍTULO II - Fontes das
SUBSECÇÃO I - Responsabilidade
obrigações
por factos ilícitos
SECÇÃO I - Contratos
Artigos 483º a 498º
SUBSECÇÃO I - Disposições gerais
Artigos 405º a 409º
SUBSECÇÃO II - Responsabilidade
pelo risco
SUBSECÇÃO II - Contrato-promessa
Artigos 499º a 510º
Artigos 410º a 413º
CAPÍTULO III - Modalidades das
SUBSECÇÃO III - Pactos de
obrigações
preferência
SECÇÃO I - Obrigações de sujeito
Artigos 414º a 423º
activo indeterminado
SUBSECÇÃO IV - Cessão da posição Artigo 511º - Determinação da pessoa
contratual do credor
Artigos 424º a 427º SECÇÃO II - Obrigações solidárias
SUBSECÇÃO I - Disposições gerais
SUBSECÇÃO V - Excepção de não Artigos 512º a 517º
cumprimento do contrato
Artigos 428º a 431º SUBSECÇÃO II - Solidariedade entre
devedores
SUBSECÇÃO VI - Resolução do Artigos 518º a 527º
contrato
Artigos 432º a 436º

-7-
SUBSECÇÃO III - Solidariedade CAPÍTULO V - Garantia geral das
entre credores obrigações
Artigos 528º a 533º SECÇÃO I - Disposições gerais
Artigos 601º a 604º
SECÇÃO III - Obrigações divisíveis
e indivisíveis SECÇÃO II - Conservação da
Artigos 534º a 538º garantia patrimonial
SUBSECÇÃO I - Declaração de
SECÇÃO IV - Obrigações genéricas nulidade
Artigos 539º a 542º Artigo 605º - Legitimidade dos credores

SECÇÃO V - Obrigações alternativas SUBSECÇÃO II - Sub-rogação do


Artigos 543º a 549º credor ao devedor
Artigos 606º a 609º
SECÇÃO VI - Obrigações
pecuniárias SUBSECÇÃO III - Impugnação
SUBSECÇÃO I - Obrigações de pauliana
quantidade Artigos 610º a 618º
Artigos 550º a 551º
SUBSECÇÃO IV - Arresto
SUBSECÇÃO II - Obrigações de Artigos 619º a 622º
moeda específica
Artigos 552º a 557º CAPÍTULO VI - Garantias especiais
das obrigações
SUBSECÇÃO III - Obrigações em SECÇÃO I - Prestação de caução
moeda estrangeira Artigos 623º a 626º
Artigo 558º - Termos do cumprimento
SECÇÃO VII - Obrigações de juros SECÇÃO II - Fiança
Artigos 559º a 561º SUBSECÇÃO I - Disposições gerais
Artigos 627º a 633º
SECÇÃO VIII - Obrigação de
indemnização SUBSECÇÃO II - Relações entre o
Artigos 562º a 572º credor e o fiador
Artigos 634º a 643º
SECÇÃO IX - Obrigação de
informação e de apresentação de SUBSECÇÃO III - Relações entre o
coisas ou documentos devedor e o fiador
Artigos 573º a 576º Artigos 644º a 648º

CAPÍTULO IV - Transmissão de SUBSECÇÃO IV - Pluralidade de


créditos e de dívidas fiadores
SECÇÃO I - Cessão de créditos Artigos 649º a 650º
Artigos 577º a 588º
SUBSECÇÃO V - Extinção da fiança
SECÇÃO II - Sub-rogação Artigos 651º a 655º
Artigos 589º a 594º
SECÇÃO III - Consignação de
SECÇÃO III - Transmissão singular rendimentos
de dívidas Artigos 656º a 665º
Artigos 595º a 600º

-8-
SECÇÃO IV - Penhor SUBSECÇÃO III - Privilégios
SUBSECÇÃO I - Disposições gerais mobiliários especiais
Artigos 666º a 668º Artigos 738º a 742º

SUBSECÇÃO II - Penhor de coisas SUBSECÇÃO IV - Privilégios


Artigos 669º a 678º imobiliários
Artigos 743º a 744º
SUBSECÇÃO III - Penhor de direitos
Artigos 679º a 685º SUBSECÇÃO V - Efeitos e extinção
dos privilégios
SECÇÃO V - Hipoteca Artigos 745º a 753º
SUBSECÇÃO I - Disposições gerais
Artigos 686º a 703º SECÇÃO VII - Direito de retenção
Artigos 754º a 761º
SUBSECÇÃO II - Hipotecas legais
Artigos 704º a 709º CAPÍTULO VII - Cumprimento e não
cumprimento das obrigações
SUBSECÇÃO III - Hipotecas SECÇÃO I - Cumprimento
judiciais SUBSECÇÃO I - Disposições gerais
Artigos 710º a 711º Artigos 762º a 766º

SUBSECÇÃO IV - Hipotecas SUBSECÇÃO II - Quem pode fazer e


voluntárias a quem pode ser feita a prestação
Artigos 712º a 717º Artigos 767º a 771º

SUBSECÇÃO V - Redução da SUBSECÇÃO III - Lugar da


hipoteca prestação
Artigos 718º a 720º Artigos 772º a 776º

SUBSECÇÃO VI - Transmissão dos SUBSECÇÃO IV - Prazo da prestação


bens hipotecados Artigos 777º a 782º
Artigos 721º a 726º
SUBSECÇÃO V - Imputação do
SUBSECÇÃO VII - Transmissão da cumprimento
hipoteca Artigos 783º a 785º
Artigos 727º a 729º
SUBSECÇÃO VI - Prova do
SUBSECÇÃO VIII - Extinção da cumprimento
hipoteca Artigos 786º a 787º
Artigos 730º a 732º
SUBSECÇÃO VII - Direito à
SECÇÃO VI - Privilégios creditórios restituição do título ou à menção do
SUBSECÇÃO I - Disposições gerais cumprimento
Artigos 733º a 735º Artigos 788º a 789º

SUBSECÇÃO II - Privilégios SECÇÃO II - Não cumprimento


mobiliários gerais SUBSECÇÃO I - Impossibilidade do
Artigos 736º a 737º cumprimento e mora não
imputáveis ao devedor
Artigos 790º a 797º

-9-
SUBSECÇÃO II - Falta de SECÇÃO V - Remissão
cumprimento e mora imputáveis ao Artigos 863º a 867º
devedor
Divisão I - Princípios gerais SECÇÃO VI - Confusão
Artigos 798º a 800º Artigos 868º a 873º

Divisão II - Impossibilidade do TÍTULO II - DOS CONTRATOS EM


cumprimento ESPECIAL
Artigos 801º a 803º CAPÍTULO I - Compra e venda
SECÇÃO I - Disposições gerais
Divisão III - Mora do devedor Artigos 874º a 878º
Artigos 804º a 808º
SECÇÃO II - Efeitos da compra e
Divisão IV - Fixação contratual dos venda
direitos do credor Artigos 879º a 886º
Artigos 809º a 812º
SECÇÃO III - Venda de coisas
SUBSECÇÃO III - Mora do credor sujeitas a contagem, pesagem ou
Artigos 813º a 816º medição
Artigos 887º a 891º
SECÇÃO III - Realização coactiva da
prestação SECÇÃO IV - Venda de bens alheios
SUBSECÇÃO I - Acção de Artigos 892º a 904º
cumprimento e execução
Artigos 817º a 826º SECÇÃO V - Venda de bens
onerados
SUBSECÇÃO II - Execução Artigos 905º a 912º
específica
Artigos 827º a 830º SECÇÃO VI - Venda de coisas
defeituosas
SECÇÃO IV - Cessão de bens aos Artigos 913º a 922º
credores
Artigos 831º a 836º SECÇÃO VII - Venda a contento e
venda sujeita a prova
CAPÍTULO VIII - Causas de Artigos 923º a 926º
extinção das obrigações além do
cumprimento SECÇÃO VIII - Venda a retro
SECÇÃO I - Dação em cumprimento Artigos 927º a 933º
Artigos 837º a 840º
SECÇÃO IX - Venda a prestações
SECÇÃO II - Consignação em Artigos 934º a 936º
depósito
Artigos 841º a 846º SECÇÃO X - Venda sobre
documentos
SECÇÃO III - Compensação Artigos 937º a 938º
Artigos 847º a 856º
SECÇÃO XI - Outros contratos
SECÇÃO IV - Novação onerosos
Artigos 857º a 862º Artigo 939º - Aplicabilidade das normas
relativas à compra e venda

- 10 -
CAPÍTULO II - Doação SUBSECÇÃO II - Pagamento da
SECÇÃO I - Disposições gerais renda ou aluguer
Artigos 940º a 947º Artigos 1039º a 1042º

SECÇÃO II - Capacidade para fazer SUBSECÇÃO III - Restituição da


ou receber doações coisa locada
Artigos 948º a 953º Artigos 1043º a 1046º

SECÇÃO III - Efeitos das doações SECÇÃO IV - Resolução e


Artigos 954º a 968º caducidade do contrato
SUBSECÇÃO I - Resolução
SECÇÃO IV - Revogação das Artigos 1047º a 1050º
doações
Artigos 969º a 979º SUBSECÇÃO II - Caducidade
Artigos 1051º a 1056º
CAPÍTULO III - Sociedade
SECÇÃO I - Disposições gerais SECÇÃO V - Transmissão da posição
Artigos 980º a 982º contratual
Artigos 1057º a 1059º
SECÇÃO II - Relações entre os
sócios SECÇÃO VI - Sublocação
Artigos 983º a 995º Artigos 1060º a 1063º

SECÇÃO III - Relações com SECÇÃO VII - Arrendamento rural


terceiros Artigos 1064º a 1082º
Artigos 996º a 1000º
SECÇÃO VIII - Arrendamento de
SECÇÃO IV - Morte, exoneração ou prédios urbanos e arrendamento de
exclusão de sócios prédios rústicos não abrangidos na
Artigos 1001º a 1006º secção precedente
Artigos 1083º a 1120º
SECÇÃO V - Dissolução da
sociedade CAPÍTULO V - Parceria pecuária
Artigos 1007º a 1009º Artigos 1121º a 1128º

SECÇÃO VI - Liquidação da CAPÍTULO VI - Comodato


sociedade e de quotas Artigos 1129º a 1141º
Artigos 1010º a 1021º
CAPÍTULO VII - Mútuo
CAPÍTULO IV - Locação Artigos 1142º a 1151º
SECÇÃO I - Disposições gerais
Artigos 1022º a 1030º CAPÍTULO VIII - Contrato de
trabalho
SECÇÃO II - Obrigações do locador Artigos 1152º a 1153º
Artigos 1031º a 1037º
CAPÍTULO IX - Prestação de serviço
SECÇÃO III - Obrigações do Artigos 1154º a 1156º
locatário
SUBSECÇÃO I - Disposição geral CAPÍTULO X - Mandato
Artigo 1038º - Enumeração SECÇÃO I - Disposições gerais
Artigos 1157º a 1160º

- 11 -
SECÇÃO II - Direitos e obrigações SECÇÃO III - Defeitos da obra
do mandatário Artigos 1218º a 1226º
Artigos 1161º a 1166º
SECÇÃO IV - Impossibilidade de
SECÇÃO III - Obrigações do cumprimento e risco pela perda ou
mandante deterioração da obra
Artigos 1167º a 1169º Artigos 1227º a 1228º

SECÇÃO IV - Revogação e SECÇÃO V - Extinção do contrato


caducidade do mandato Artigos 1229º a 1230º
SUBSECÇÃO I - Revogação
Artigos 1170º a 1173º CAPÍTULO XIII - Renda perpétua
Artigos 1231º a 1237º
SUBSECÇÃO II - Caducidade
Artigos 1174º a 1177º CAPÍTULO XIV - Renda vitalícia
Artigos 1238º a 1244º
SECÇÃO V - Mandato com
representação CAPÍTULO XV - Jogo e aposta
Artigos 1178º a 1179º Artigos 1245º a 1247º

SECÇÃO VI - Mandato sem CAPÍTULO XVI - Transacção


representação Artigos 1248º a 1250º
Artigos 1180º a 1184º
LIVRO III - DIREITO DAS COISAS
CAPÍTULO XI - Depósito TÍTULO I - DA POSSE
SECÇÃO I - Disposições gerais CAPÍTULO I - Disposições gerais
Artigos 1185º a 1186º Artigos 1251º a 1257º

SECÇÃO II - Direitos e obrigações CAPÍTULO II - Caracteres da posse


do depositário Artigos 1258º a 1262º
Artigos 1187º a 1198º
CAPÍTULO III - Aquisição e perda
SECÇÃO III - Obrigações do da posse
depositante Artigos 1263º a 1267º
Artigos 1199º a 1201º
CAPÍTULO IV - Efeitos da posse
SECÇÃO IV - Depósito de coisa Artigos 1268º a 1275º
controvertida
Artigos 1202º a 1204º CAPÍTULO V - Defesa da posse
Artigos 1276º a 1286º
SECÇÃO V - Depósito irregular
Artigos 1205º a 1206º CAPÍTULO VI - Usucapião
SECÇÃO I - Disposições gerais
CAPÍTULO XII - Empreitada Artigos 1287º a 1292º
SECÇÃO I - Disposições gerais
Artigos 1207º a 1213º SECÇÃO II - Usucapião de imóveis
Artigos 1293º a 1297º
SECÇÃO II - Alterações e obras
novas SECÇÃO III - Usucapião de móveis
Artigos 1214º a 1217º Artigos 1298º a 1301º

- 12 -
TÍTULO II - DO DIREITO DE SECÇÃO VI - Paredes e muros de
PROPRIEDADE meação
CAPÍTULO I - Propriedade em geral Artigos 1370º a 1375º
SECÇÃO I - Disposições gerais
Artigos 1302º a 1310º SECÇÃO VII - Fraccionamento e
emparcelamento de prédios
SECÇÃO II - Defesa da propriedade rústicos
Artigos 1311º a 1315º Artigos 1376º a 1382º

CAPÍTULO II - Aquisição da SECÇÃO VIII - Atravessadouros


propriedade Artigos 1383º a 1384º
SECÇÃO I - Disposições gerais
Artigos 1316º a 1317º CAPÍTULO IV - Propriedade das
águas
SECÇÃO II - Ocupação SECÇÃO I - Disposições gerais
Artigos 1318º a 1324º Artigos 1385º a 1388º

SECÇÃO III - Acessão SECÇÃO II - Aproveitamento das


SUBSECÇÃO I - Disposições gerais águas
Artigos 1325º a 1326º Artigos 1389º a 1397º

SECÇÃO III - Condomínio das águas


SUBSECÇÃO II - Acessão natural
Artigos 1398º a 1402º
Artigos 1327º a 1332º
CAPÍTULO V - Compropriedade
SUBSECÇÃO III - Acessão industrial SECÇÃO I - Disposições gerais
mobiliária Artigos 1403º a 1405º
Artigos 1333º a 1338º
SECÇÃO II - Direitos e encargos do
SUBSECÇÃO IV - Acessão industrial comproprietário
imobiliária Artigos 1406º a 1413º
Artigos 1339º a 1343º
CAPÍTULO VI - Propriedade
CAPÍTULO III - Propriedade de horizontal
imóveis SECÇÃO I - Disposições gerais
SECÇÃO I - Disposições gerais Artigos 1414º a 1416º
Artigos 1344º a 1352º
SECÇÃO II - Constituição
SECÇÃO II - Direito de demarcação Artigos 1417º a 1419º
Artigos 1353º a 1355º
SECÇÃO III - Direitos e encargos
SECÇÃO III - Direito de tapagem dos condóminos
Artigos 1356º a 1359º Artigos 1420º a 1429º-A

SECÇÃO IV - Construções e SECÇÃO IV - Administração das


edificações partes comuns do edifício
Artigos 1360º a 1365º Artigos 1430º a 1438º-A

SECÇÃO V - Plantação de árvores e TÍTULO III - DO USUFRUTO, USO E


arbustos HABITAÇÃO
Artigos 1366º a 1369º CAPÍTULO I - Disposições gerais
Artigos 1439º a 1445º

- 13 -
CAPÍTULO II - Direitos do CAPÍTULO IV - Exercício das
usufrutuário servidões
Artigos 1446º a 1467º Artigos 1564º a 1568º

CAPÍTULO III - Obrigações do CAPÍTULO V - Extinção das


usufrutuário servidões
Artigos 1468º a 1475º Artigos 1569º a 1575º

CAPÍTULO IV - Extinção do usufruto LIVRO IV - DIREITO DA FAMÍLIA


Artigos 1476º a 1483º TÍTULO I - DISPOSIÇÕES GERAIS
Artigos 1576º a 1586º
CAPÍTULO V - Uso e habitação
Artigos 1484º a 1490º TÍTULO II - DO CASAMENTO
CAPÍTULO I - Modalidades do
TÍTULO IV - DA ENFITEUSE casamento
Artigos 1491º a 1523º Artigos 1587º a 1590º

TÍTULO V - DO DIREITO DE CAPÍTULO II - Promessa de


SUPERFÍCIE casamento
CAPÍTULO I - Disposições gerais Artigos 1591º a 1595º
Artigos 1524º a 1527º
CAPÍTULO III - Pressupostos da
CAPÍTULO II - Constituição do celebração do casamento
direito de superfície SECÇÃO I - Casamento católico
Artigos 1528º a 1529º Artigos 1596º a 1599º

CAPÍTULO III - Direitos e encargos SECÇÃO II - Casamento Civil


do superficiário e do proprietário SUBSECÇÃO I - Impedimentos
Artigos 1530º a 1535º matrimoniais
Artigos 1600º a 1609º
CAPÍTULO IV - Extinção do direito
de superfície SUBSECÇÃO II - Processo
Artigos 1536º a 1542º preliminar de publicações
Artigos 1610º a 1614º
TÍTULO VI - DAS SERVIDÕES
PREDIAIS CAPÍTULO IV - Celebração do
CAPÍTULO I - Disposições gerais casamento civil
Artigos 1543º a 1546º SECÇÃO I - Disposições gerais
Artigos 1615º a 1621º
CAPÍTULO II - Constituição das
servidões SECÇÃO II - Casamentos urgentes
Artigos 1547º a 1549º Artigos 1622º a 1624º

CAPÍTULO III - Servidões legais CAPÍTULO V - Invalidade do


SECÇÃO I - Servidões legais de casamento
passagem SECÇÃO I - Casamento católico
Artigos 1550º a 1556º Artigos 1625º a 1626º

SECÇÃO II - Servidões legais de SECÇÃO II - Casamento Civil


águas SUBSECÇÃO I - Disposição geral
Artigos 1557º a 1563º Artigo 1627º - Regra de validade

- 14 -
SUBSECÇÃO II - Inexistência do SECÇÃO III - Efeitos do registo
casamento Artigos 1669º a 1670º
Artigos 1628º a 1630º
CAPÍTULO IX - Efeitos do
SUBSECÇÃO III - Anulabilidade do casamento quanto às pessoas e aos
casamento bens dos cônjuges
Divisão I - Disposições gerais SECÇÃO I - Disposições gerais
Artigos 1631º a 1633º Artigos 1671º a 1689º

Divisão II - Falta ou vícios da SECÇÃO II - Dívidas dos cônjuges


vontade Artigos 1690º a 1697º
Artigos 1634º a 1638º
SECÇÃO III - Convenções
Divisão III - Legitimidade antenupciais
Artigos 1639º a 1642º Artigos 1698º a 1716º

Divisão IV - Prazos SECÇÃO IV - Regimes de bens


Artigos 1643º a 1646º SUBSECÇÃO I - Disposições gerais
Artigos 1717º a 1720º
CAPÍTULO VI - Casamento putativo
Artigos 1647º a 1648º SUBSECÇÃO II - Regime da
comunhão de adquiridos
CAPÍTULO VII - Sanções especiais Artigos 1721º a 1731º
Artigos 1649º a 1650º
SUBSECÇÃO III - Regime da
CAPÍTULO VIII - Registo do comunhão geral
casamento Artigos 1732º a 1734º
SECÇÃO I - Disposições gerais
Artigos 1651º a 1653º SUBSECÇÃO IV - Regime da
separação
SECÇÃO II - Registo por transcrição Artigos 1735º a 1737º
SUBSECÇÃO I - Disposição geral
Artigo 1654º - Casos de transcrição SUBSECÇÃO V - Regime dotal
Artigos 1738º a 1752º
SUBSECÇÃO II - Transcrição dos
casamentos católicos celebrados CAPÍTULO X - Doações para
em Portugal casamento e entre casados
Artigos 1655º a 1661º SECÇÃO I - Doações para
casamento
SUBSECÇÃO III - Transcrição dos Artigos 1753º a 1760º
casamentos civis urgentes
Artigos 1662º a 1663º SECÇÃO II - Doações entre casados
Artigos 1761º a 1766º
SUBSECÇÃO IV - Transcrição dos
casamentos de portugueses no CAPÍTULO XI - Simples separação
estrangeiro judicial de bens
Artigos 1664º a 1667º Artigos 1767º a 1772º

SUBSECÇÃO V - Transcrição dos CAPÍTULO XII - Divórcio e


casamentos admitidos a registo separação judicial de pessoas e
Artigo 1668º - Processo de transcrição bens
SECÇÃO I - Divórcio

- 15 -
SUBSECÇÃO I - Disposições gerais Divisão III - Averiguação oficiosa
Artigos 1773º a 1774º da paternidade
Artigos 1864º a 1868º
SUBSECÇÃO II - Divórcio por mútuo
consentimento Divisão IV - Reconhecimento
Artigos 1775º a 1778º-A judicial
Artigos 1869º a 1873º
SUBSECÇÃO III - Divórcio litigioso
Artigos 1779º a 1787º CAPÍTULO II - Efeitos da filiação
SECÇÃO I - Disposições gerais
SUBSECÇÃO IV - Efeitos do divórcio Artigos 1874º a 1876º
Artigos 1788º a 1793º
SECÇÃO II - Poder paternal
SECÇÃO II - Separação judicial de SUBSECÇÃO I - Princípios gerais
pessoas e bens Artigos 1877º a 1884º
Artigos 1794º a 1795º-D
SUBSECÇÃO II - Poder paternal
TÍTULO III - DA FILIAÇÃO relativamente à pessoa dos filhos
CAPÍTULO I - Estabelecimento da Artigos 1885º a 1887º-A
filiação
SECÇÃO I - Disposições gerais SUBSECÇÃO III - Poder paternal
Artigos 1796º a 1802º relativamente aos bens dos filhos
Artigos 1888º a 1900º
SECÇÃO II - Estabelecimento da
maternidade SUBSECÇÃO IV - Exercício do poder
SUBSECÇÃO I - Declaração de paternal
maternidade Artigos 1901º a 1912º
Artigos 1803º a 1807º
SUBSECÇÃO V - Inibição e
SUBSECÇÃO II - Averiguação limitações ao exercício do poder
oficiosa paternal
Artigos 1808º a 1813º Artigos 1913º a 1920º-A

SUBSECÇÃO III - Reconhecimento SUBSECÇÃO VI - Registo das


judicial decisões relativas ao poder
Artigos 1814º a 1825º paternal
Artigos 1920º-B a 1920º-C
SECÇÃO III - Estabelecimento da
paternidade SECÇÃO III - Meios de suprir o
SUBSECÇÃO I - Presunção de poder paternal
paternidade SUBSECÇÃO I - Disposições gerais
Artigos 1826º a 1846º Artigos 1921º a 1926º

SUBSECÇÃO II - Reconhecimento de SUBSECÇÃO II - Tutela


paternidade Divisão I - Designação do tutor
Divisão I - Disposições gerais Artigos 1927º a 1934º
Artigos 1847º a 1848º
Divisão II - Direitos e obrigações do
Divisão II - Perfilhação tutor
Artigos 1849º a 1863º Artigos 1935º a 1947º

- 16 -
Divisão III - Remoção e exoneração SECÇÃO III - Direito de
do tutor representação
Artigos 1948º a 1950º Artigos 2039º a 2045º

Divisão IV - Conselho de família CAPÍTULO III - Herança jacente


Artigos 1951º a 1960º Artigos 2046º a 2049º

Divisão V - Termo da tutela CAPÍTULO IV - Aceitação da


Artigo 1961º - Quando termina herança
Divisão VI - Tutela de menores Artigos 2050º a 2061º
confiados a estabelecimento de
educação ou assistência CAPÍTULO V - Repúdio da herança
Artigos 1962º a 1966º Artigos 2062º a 2067º

SUBSECÇÃO III - Administração de CAPÍTULO VI - Encargos da herança


bens Artigos 2068º a 2074º
Artigos 1967º a 1972º
CAPÍTULO VII - Petição da herança
TÍTULO IV - DA ADOPÇÃO Artigos 2075º a 2078º
CAPÍTULO I - Disposições gerais
Artigos 1973º a 1978º CAPÍTULO VIII - Administração da
herança
CAPÍTULO II - Adopção plena Artigos 2079º a 2096º
Artigos 1979º a 1991º
CAPÍTULO IX - Liquidação da
CAPÍTULO III - Adopção restrita herança
Artigos 1992º a 2002º-D Artigos 2097º a 2100º

CAPÍTULO X - Partilha da herança


TÍTULO V - DOS ALIMENTOS
SECÇÃO I - Disposições gerais
CAPÍTULO I - Disposições gerais
Artigos 2101º a 2103º
Artigos 2003º a 2014º
SECÇÃO II - Atribuições
CAPÍTULO II - Disposições
preferenciais
especiais
Artigos 2103º-A a 2103º-C
Artigos 2015º a 2023º
SECÇÃO III - Colação
Artigos 2104º a 2118º
LIVRO V - DIREITO DAS SUCESSÕES
TÍTULO I - DAS SUCESSÕES EM
SECÇÃO IV - Efeitos da partilha
GERAL
Artigos 2119º a 2120º
CAPÍTULO I - Disposições gerais
Artigos 2024º a 2030º
SECÇÃO V - Impugnação da partilha
Artigos 2121º a 2123º
CAPÍTULO II - Abertura da
sucessão e chamamento dos CAPÍTULO XI - Alienação de
herdeiros e legatários herança
SECÇÃO I - Abertura da sucessão Artigos 2124º a 2130º
Artigos 2031º a 2032º
TÍTULO II - DA SUCESSÃO
SECÇÃO II - Capacidade sucessória LEGÍTIMA
Artigos 2033º a 2038º CAPÍTULO I - Disposições gerais
Artigos 2131º a 2138º

- 17 -
CAPÍTULO II - Sucessão do cônjuge CAPÍTULO V - Forma do testamento
e dos descendentes SECÇÃO I - Formas comuns
Artigos 2139º a 2141º Artigos 2204º a 2209º

CAPÍTULO III - Sucessão do SECÇÃO II - Formas especiais


cônjuge e dos ascendentes Artigos 2210º a 2223º
Artigos 2142º a 2144º
CAPÍTULO VI - Conteúdo do
CAPÍTULO IV - Sucessão dos irmãos testamento
e seus descendentes SECÇÃO I - Disposições gerais
Artigos 2145º a 2146º Artigos 2224º a 2228º

CAPÍTULO V - Sucessão dos outros SECÇÃO II - Disposições


colaterais condicionais, a termo e modais
Artigos 2147º a 2151º Artigos 2229º a 2248º

CAPÍTULO VI - Sucessão do Estado SECÇÃO III - Legados


Artigos 2152º a 2155º Artigos 2249º a 2280º

TÍTULO III - DA SUCESSÃO SECÇÃO IV - Substituições


LEGITIMÁRIA SUBSECÇÃO I - Substituição directa
CAPÍTULO I - Disposições gerais Artigos 2281º a 2285º
Artigos 2156º a 2167º
SUBSECÇÃO II - Substituição
CAPÍTULO II - Redução de fideicomissária
liberalidades Artigos 2286º a 2296º
Artigos 2168º a 2178º
SUBSECÇÃO III - Substituições
TÍTULO IV - DA SUCESSÃO pupilar e quase-pupilar
TESTAMENTÁRIA Artigos 2297º a 2300º
CAPÍTULO I - Disposições gerais
Artigos 2179º a 2187º SECÇÃO V - Direito de acrescer
Artigos 2301º a 2307º
CAPÍTULO II - Capacidade
testamentária CAPÍTULO VII - Nulidade,
Artigos 2188º a 2191º anulabilidade, revogação e
caducidade dos testamentos e
CAPÍTULO III - Casos de disposições testamentárias
indisponibilidade relativa SECÇÃO I - Nulidade e
Artigos 2192º a 2198º anulabilidade
Artigos 2308º a 2310º
CAPÍTULO IV - Falta e vícios da
vontade SECÇÃO II - Revogação e
Artigos 2199º a 2203º caducidade
Artigos 2311º a 2319º

CAPÍTULO VIII - Testamentaria


Artigos 2320º a 2334º

- 18 -
CÓDIGO CIVIL

LIVRO I
PARTE GERAL
1. Os usos que não forem contrários
TÍTULO I aos princípios da boa fé são
DAS LEIS, SUA INTERPRETAÇÃO juridicamente atendíveis quando a
E APLICAÇÃO lei o determine.

CAPÍTULO I 2. As normas corporativas


Fontes do direito prevalecem sobre os usos.

ARTIGO 1º ARTIGO 4º
(Fontes imediatas) (Valor da equidade)

1. São fontes imediatas do direito as Os tribunais só podem resolver


leis e as normas corporativas. segundo a equidade:

2. Consideram-se leis todas as a) Quando haja disposição legal que


disposições genéricas provindas dos o permita;
órgãos estaduais competentes; são
normas corporativas as regras b) Quando haja acordo das partes e
ditadas pelos organismos a relação jurídica não seja
representativos das diferentes indisponível;
categorias morais, culturais,
económicas ou profissionais, no c) Quando as partes tenham
domínio das suas atribuições, bem previamente convencionado o
como os respectivos estatutos e recurso à equidade, nos termos
regulamentos internos. aplicáveis à cláusula
compromissória.
3. As normas corporativas não
podem contrariar as disposições CAPÍTULO II
legais de carácter imperativo. Vigência, interpretação e
aplicação das leis
ARTIGO 2º *
(Assentos) ARTIGO 5º
(Começo da vigência da lei)
Nos casos declarados na lei, podem
os tribunais fixar, por meio de 1. A lei só se torna obrigatória
assentos, doutrina com força depois de publicada no jornal oficial.
obrigatória geral.
2. Entre a publicação e a vigência da
* (Revogado pelo Dec.-Lei 329- lei decorrerá o tempo que a própria
A/95, de 12-12) lei fixar ou, na falta de fixação, o
que for determinado em legislação
ARTIGO 3º especial.
(Valor jurídico dos usos)
ARTIGO 6º

- 19 -
(Ignorância ou má interpretação os casos que mereçam tratamento
da lei) análogo, a fim de obter uma
interpretação e aplicação uniformes
A ignorância ou má interpretação da do direito.
lei não justifica a falta do seu
cumprimento nem isenta as pessoas ARTIGO 9º
das sanções nela estabelecidas. (Interpretação da lei)

ARTIGO 7º 1. A interpretação não deve cingir-


(Cessação da vigência da lei) se à letra da lei, mas reconstituir a
partir dos textos o pensamento
1. Quando se não destine a ter legislativo, tendo sobretudo em
vigência temporária, a lei só deixa conta a unidade do sistema jurídico,
de vigorar se for revogada por outra as circunstâncias em que a lei foi
lei. elaborada e as condições específicas
do tempo em que é aplicada.
2. A revogação pode resultar de
declaração expressa, da 2. Não pode, porém, ser considerado
incompatibilidade entre as novas pelo intérprete o pensamento
disposições e as regras precedentes legislativo que não tenha na letra da
ou da circunstância de a nova lei lei um mínimo de correspondência
regular toda a matéria da lei verbal, ainda que imperfeitamente
anterior. expresso.

3. A lei geral não revoga a lei 3. Na fixação do sentido e alcance


especial, excepto se outra for a da lei, o intérprete presumirá que o
intenção inequívoca do legislador. legislador consagrou as soluções
mais acertadas e soube exprimir o
4. A revogação da lei revogatória seu pensamento em termos
não importa o renascimento da lei adequados.
que esta revogara.
ARTIGO 10º
ARTIGO 8º (Integração das lacunas da lei)
(Obrigação de julgar e dever de
obediência à lei) 1. Os casos que a lei não preveja
são regulados segundo a norma
1. O tribunal não pode abster-se de aplicável aos casos análogos.
julgar, invocando a falta ou
obscuridade da lei ou alegando 2. Há analogia sempre que no caso
dúvida insanável acerca dos factos omisso procedam as razões
em litígio. justificativas da regulamentação do
caso previsto na lei.
2. O dever de obediência à lei não
pode ser afastado sob pretexto de 3. Na falta de caso análogo, a
ser injusto ou imoral o conteúdo do situação é resolvida segundo a
preceito legislativo. norma que o próprio intérprete
criaria, se houvesse de legislar
3. Nas decisões que proferir, o dentro do espírito do sistema.
julgador terá em consideração todos

- 20 -
ARTIGO 11º confitente a quem a lei
(Normas excepcionais) interpretativa for favorável.

As normas excepcionais não CAPÍTULO III


comportam aplicação analógica, mas Direitos dos estrangeiros e
admitem interpretação extensiva. conflitos de leis

ARTIGO 12º SECÇÃO I


(Aplicação das leis no tempo. Disposições gerais
Princípio geral)
ARTIGO 14º
1. A lei só dispõe para o futuro; (Condição jurídica dos
ainda que lhe seja atribuída eficácia estrangeiros)
retroactiva, presume-se que ficam
ressalvados os efeitos já produzidos 1. Os estrangeiros são equiparados
pelos factos que a lei se destina a aos nacionais quanto ao gozo de
regular. direitos civis, salvo disposição legal
em contrário.
2. Quando a lei dispõe sobre as
condições de validade substancial ou 2. Não são, porém, reconhecidos aos
formal de quaisquer factos ou sobre estrangeiros os direitos que, sendo
os seus efeitos, entende-se, em caso atribuídos pelo respectivo Estado
de dúvida, que só visa os factos aos seus nacionais, o não sejam aos
novos; mas, quando dispuser portugueses em igualdade de
directamente sobre o conteúdo de circunstâncias.
certas relações jurídicas, abstraindo
dos factos que lhes deram origem, ARTIGO 15º
entender-se-á que a lei abrange as (Qualificações)
próprias relações já constituídas,
que subsistam à data da sua entrada A competência atribuída a uma lei
em vigor. abrange somente as normas que,
pelo seu conteúdo e pela função que
ARTIGO 13º têm nessa lei, integram o regime do
(Aplicação das leis no instituto visado na regra de
tempo.Leis interpretativas) conflitos.

1. A lei interpretativa integra-se na ARTIGO 16º


lei interpretada, ficando salvos, (Referência à lei estrangeira.
porém, os efeitos já produzidos pelo Princípio geral)
cumprimento da obrigação, por
sentença passada em julgado, por A referência das normas de conflitos
transacção, ainda que não a qualquer lei estrangeira determina
homologada, ou por actos de apenas, na falta de preceito em
análoga natureza. contrário, a aplicação do direito
interno dessa lei.
2. A desistência e a confissão não
homologadas pelo tribunal podem ARTIGO 17º
ser revogadas pelo desistente ou (Reenvio para a lei de um
terceiro Estado)

- 21 -
1. Se, porém, o direito internacional ARTIGO 19º
privado da lei referida pela norma de (Casos em que não é admitido o
conflitos portuguesa remeter para reenvio)
outra legislação e esta se considerar
competente para regular o caso, é o 1. Cessa o disposto nos dois artigos
direito interno desta legislação que anteriores, quando da aplicação
deve ser aplicado. deles resulte a invalidade ou
ineficácia de um negócio jurídico que
2. Cessa o disposto no número seria válido ou eficaz segundo a
anterior, se a lei referida pela norma regra fixada no artigo 16º, ou a
de conflitos portuguesa for a lei ilegitimidade de um estado que de
pessoal e o interessado residir outro modo seria legítimo.
habitualmente em território
português ou em país cujas normas 2. Cessa igualmente o disposto nos
de conflitos considerem competente mesmos artigos, se a lei estrangeira
o direito interno do Estado da sua tiver sido designada pelos
nacionalidade. interessados, nos casos em que a
designação é permitida.
3. Ficam, todavia, unicamente
sujeitos à regra do nº 1 os casos da ARTIGO 20º
tutela e curatela, relações (Ordenamentos jurídicos
patrimoniais entre os cônjuges, plurilegislativos)
poder paternal, relações entre
adoptante e adoptado e sucessão 1. Quando, em razão da
por morte, se a lei nacional indicada nacionalidade de certa pessoa, for
pela norma de conflitos devolver competente a lei de um Estado em
para a lei da situação dos bens que coexistam diferentes sistemas
imóveis e esta se considerar legislativos locais, é o direito interno
competente. desse Estado que fixa em cada caso
o sistema aplicável.
ARTIGO 18º
(Reenvio para a lei portuguesa) 2. Na falta de normas de direito
interlocal, recorre-se ao direito
1. Se o direito internacional privado internacional privado do mesmo
da lei designada pela norma de Estado; e, se este não bastar,
conflitos devolver para o direito considera-se como lei pessoal do
interno português, é este o direito interessado a lei da sua residência
aplicável. habitual.

2. Quando, porém, se trate de 3. Se a legislação competente


matéria compreendida no estatuto constituir uma ordem jurídica
pessoal, a lei portuguesa só é territorialmente unitária, mas nela
aplicável se o interessado tiver em vigorarem diversos sistemas de
território português a sua residência normas para diferentes categorias
habitual ou se a lei do país desta de pessoas, observar-se-á sempre o
residência considerar igualmente estabelecido nessa legislação quanto
competente o direito interno ao conflito de sistemas.
português.

- 22 -
ARTIGO 21º 1. Aos actos realizados a bordo de
(Fraude à lei) navios ou aeronaves, fora dos portos
ou aeródromos, é aplicável a lei do
Na aplicação das normas de conflitos lugar da respectiva matrícula,
são irrelevantes as situações de sempre que for competente a lei
facto ou de direito criadas com o territorial.
intuito fraudulento de evitar a
aplicabilidade da lei que, noutras 2. Os navios e aeronaves militares
circunstâncias, seria competente. consideram-se como parte do
território do Estado a que
ARTIGO 22º pertencem.
(Ordem pública)
SECÇÃO II
1. Não são aplicáveis os preceitos da Normas de conflitos
lei estrangeira indicados pela norma
de conflitos, quando essa aplicação SUBSECÇÃO I
envolva ofensa dos princípios Âmbito e determinação da lei
fundamentais da ordem pública pessoal
internacional do Estado português.
ARTIGO 25º
2. São aplicáveis, neste caso, as (Âmbito da lei pessoal)
normas mais apropriadas da
legislação estrangeira competente O estado dos indivíduos, a
ou, subsidiariamente, as regras do capacidade das pessoas, as relações
direito interno português. de família e as sucessões por morte
são regulados pela lei pessoal dos
ARTIGO 23º respectivos sujeitos, salvas as
(Interpretação e averiguação do restrições estabelecidas na presente
direito estrangeiro) secção.

1. A lei estrangeira é interpretada ARTIGO 26º


dentro do sistema a que pertence e (Início e termo da personalidade
de acordo com as regras jurídica)
interpretativas nele fixadas.
1. O início e termo da personalidade
2. Na impossibilidade de averiguar o jurídica são fixados igualmente pela
conteúdo da lei estrangeira lei pessoal de cada indivíduo.
aplicável, recorrer-se-á à lei que for
subsidiariamente competente, 2. Quando certo efeito jurídico
devendo adoptar-se igual depender da sobrevivência de uma a
procedimento sempre que não for outra pessoa e estas tiverem leis
possível determinar os elementos de pessoais diferentes, se as
facto ou de direito de que dependa a presunções de sobrevivência dessas
designação da lei aplicável. leis forem inconciliáveis, é aplicável
o disposto no nº 2 do artigo 68º.
ARTIGO 24º
(Actos realizados a bordo) ARTIGO 27º
(Direitos de personalidade)

- 23 -
1. Aos direitos de personalidade, no À tutela e institutos análogos de
que respeita à sua existência e protecção aos incapazes é aplicável
tutela e às restrições impostas ao a lei pessoal do incapaz.
seu exercício, é também aplicável a
lei pessoal. ARTIGO 31º
(Determinação da lei pessoal)
2. O estrangeiro ou apátrida não
goza, porém, de qualquer forma de 1. A lei pessoal é a da nacionalidade
tutela jurídica que não seja do indivíduo.
reconhecida na lei portuguesa.
2. São, porém, reconhecidos em
ARTIGO 28º Portugal os negócios jurídicos
(Desvios quanto às celebrados no país da residência
consequências da incapacidade) habitual do declarante, em
conformidade com a lei desse país,
1. O negócio jurídico celebrado em desde que esta se considere
Portugal por pessoa que seja competente.
incapaz segundo a lei pessoal
competente não pode ser anulado ARTIGO 32º
com fundamento na incapacidade no (Apátridas)
caso de a lei interna portuguesa, se
fosse aplicável, considerar essa 1. A lei pessoal do apátrida é a do
pessoa como capaz. lugar onde ele tiver a sua residência
habitual ou, sendo menor ou
2. Esta excepção cessa, quando a interdito, o seu domicílio legal.
outra parte tinha conhecimento da
incapacidade, ou quando o negócio 2. Na falta de residência habitual, é
jurídico for unilateral, pertencer ao aplicável o disposto no nº 2 do
domínio do direito da família ou das artigo 82º.
sucessões ou respeitar à disposição
de imóveis situados no estrangeiro. ARTIGO 33º
(Pessoas colectivas)
3. Se o negócio jurídico for
celebrado pelo incapaz em país 1. A pessoa colectiva tem como lei
estrangeiro, será observada a lei pessoal a lei do Estado onde se
desse país, que consagrar regras encontra situada a sede principal e
idênticas às fixadas nos números efectiva da sua administração.
anteriores.
2. À lei pessoal compete
ARTIGO 29º especialmente regular: a capacidade
(Maioridade) da pessoa colectiva; a constitutição,
funcionamento e competência dos
A mudança da lei pessoal não seus órgãos; os modos de aquisição
prejudica a maioridade adquirida e perda da qualidade de associado e
segundo a lei pessoal anterior. os correspondentes direitos e
deveres; a responsabilidade da
ARTIGO 30º pessoa colectiva, bem como a dos
(Tutela e institutos análogos) respectivos órgãos e membros,
perante terceiros; a transformação,

- 24 -
dissolução e extinção da pessoa determinado pela lei da residência
colectiva. habitual comum e, na falta desta,
pela lei do lugar onde a proposta foi
3. A transferência, de um Estado recebida.
para outro, da sede da pessoa
colectiva não extingue a ARTIGO 36º
personalidade jurídica desta, se (Forma da declaração)
nisso convierem as leis de uma e
outra sede. 1. A forma da declaração negocial é
regulada pela lei aplicável à
4. A fusão de entidades com lei substância do negócio; é, porém,
pessoal diferente é apreciada em suficiente a observância da lei em
face de ambas as leis pessoais. vigor no lugar em que é feita a
declaração, salvo se a lei reguladora
ARTIGO 34º da substância do negócio exigir, sob
(Pessoas colectivas pena de nulidade ou ineficácia, a
internacionais) observância de determinada forma,
ainda que o negócio seja celebrado
A lei pessoal das pessoas colectivas no estrangeiro.
internacionais é a designada na
convenção que as criou ou nos 2. A declaração negocial é ainda
respectivos estatutos e, na falta de formalmente válida se, em vez da
designação, a do país onde estiver a forma prescrita na lei local, tiver
sede principal. sido observada a forma prescrita
pelo Estado para que remete a
SUBSECÇÃO II norma de conflitos daquela lei, sem
Lei reguladora dos negócios prejuízo do disposto na última parte
jurídicos do número anterior.

ARTIGO 35º ARTIGO 37º


(Declaração negocial) (Representação legal)

1. A perfeição, interpretação e A representação legal está sujeita à


integração da declaração negocial lei reguladora da relação jurídica de
são reguladas pela lei aplicável à que nasce o poder representativo.
substância do negócio, a qual é
igualmente aplicável à falta e vícios ARTIGO 38º
da vontade. (Representação orgânica)

2. O valor de um comportamento A representação da pessoa colectiva


como declaração negocial é por intermédio dos seus órgãos é
determinado pela lei da residência regulada pela respectiva lei pessoal.
habitual comum do declarante e do
destinatário e, na falta desta, pela ARTIGO 39º
lei do lugar onde o comportamento (Representação voluntária)
de verificou.
1. A representação voluntária é
3. O valor do silêncio como meio regulada, quanto à existência,
declaratório é igualmente extensão, modificação, efeitos e

- 25 -
extinção dos poderes dos elementos do negócio jurídico
representativos, pela lei do Estado atendíveis no domínio do direito
em que os poderes são exercidos. internacional privado.

2. Porém, se o representante ARTIGO 42º


exercer os poderes representativos (Critério supletivo)
em país diferente daquele que o
representado indicou e o facto for 1. Na falta de determinação da lei
conhecido do terceiro com quem competente, atende-se, nos
contrate, é aplicável a lei do país da negócios jurídicos unilaterais, à lei
residência habitual do representado. da residência habitual do declarante
e, nos contratos, à lei da residência
3. Se o representante exercer habitual comum das partes.
profissionalmente a representação e
o facto for conhecido do terceiro 2. Na falta de residência comum, é
contratante, é aplicável a lei do aplicável, nos contratos gratuitos, a
domicílio profissional. lei da residência habitual daquele
que atribui o benefício e, nos
4. Quando a representação se refira restantes contratos, a lei do lugar da
à disposição ou administração de celebração.
bens imóveis, é aplicável a lei do
país da situação desses bens. ARTIGO 43º
(Gestão de negócios)
ARTIGO 40º
(Prescrição e caducidade) À gestão de negócios é aplicável a
lei do lugar em que decorre a
A prescrição e a caducidade são principal actividade do gestor.
reguladas pela lei aplicável ao direito
a que uma ou outra se refere. ARTIGO 44º
(Enriquecimento sem causa)
SUBSECÇÃO III
Lei reguladora das obrigações O enriquecimento sem causa é
regulado pela lei com base na qual
ARTIGO 41º se verificou a transferência do valor
(Obrigações provenientes de patrimonial a favor do enriquecido.
negócios jurídicos)
ARTIGO 45º
1. As obrigações provenientes de (Responsabilidade
negócio jurídico, assim como a extracontratual)
própria substância dele, são
reguladas pela lei que os respectivos 1. A responsabilidade
sujeitos tiverem designado ou extracontratual fundada, quer em
houverem tido em vista. acto ilícito, quer no risco ou em
qualquer conduta lícita, é regulada
2. A designação ou referência das pela lei do Estado onde decorreu a
partes só pode, todavia, recair sobre principal actividade causadora do
lei cuja aplicabilidade corresponda a prejuízo; em caso de
um interesse sério dos declarantes responsabilidade por omissão, é
ou esteja em conexão com algum

- 26 -
aplicável a lei do lugar onde o
responsável deveria ter agido. ARTIGO 47º
(Capacidade para constituir
2. Se a lei do Estado onde se direitos reais
produziu o efeito lesivo considerar sobre coisas imóveis ou dispor
responsável o agente, mas não o deles)
considerar como tal a lei do país
onde decorreu a sua actividade, é É igualmente definida pela lei da
aplicável a primeira lei, desde que o situação da coisa a capacidade para
agente devesse prever a produção constituir direitos reais sobre coisas
de um dano, naquele país, como imóveis ou para dispor deles, desde
consequência do seu acto ou que essa lei assim o determine; de
omissão. contrário, é aplicável a lei pessoal.

3. Se, porém, o agente e o lesado ARTIGO 48º


tiverem a mesma nacionalidade ou, (Propriedade intelectual)
na falta dela, a mesma residência
habitual, e se encontrarem 1. Os direitos de autor são regulados
ocasionalmente em país estrangeiro, pela lei do lugar da primeira
a lei aplicável será a da publicação da obra e, não estando
nacionalidade ou a da residência esta publicada, pela lei pessoal do
comum, sem prejuízo das autor, sem prejuízo do disposto em
disposições do Estado local que legislação especial.
devam ser aplicadas indistintamente
a todas as pessoas. 2. A propriedade industrial é
regulada pela lei do país da sua
SUBSECÇÃO IV criação.
Lei reguladora das coisas
SUBSECÇÃO V
ARTIGO 46º Lei reguladora das relações de
(Direitos reais) família

1. O regime da posse, propriedade e ARTIGO 49º


demais direitos reais, é definido pela (Capacidade para contrair
lei do Estado em cujo território as casamento
coisas se encontrem situadas. ou celebrar convenções
antenupciais)
2. Em tudo quanto respeita à
constituição ou transferência de A capacidade para contrair
direitos reais sobre coisas em casamento ou celebrar a convenção
trânsito, são estas havidas como antenupcial é regulada, em relação a
situadas no país do destino. cada nubente, pela respectiva lei
pessoal, à qual compete ainda
3. A constituição e transferência de definir o regime da falta e dos vícios
direitos sobre os meios de da vontade dos contraentes.
transportes submetidos a um regime
de matrícula são reguladas pela lei ARTIGO 50º
do país onde a matrícula tiver sido (Forma do casamento)
efectuada.

- 27 -
A forma do casamento é regulada
pela lei do Estado em que o acto é 2. Não tendo os cônjuges a mesma
celebrado, salvo o disposto no artigo nacionalidade, é aplicável a lei da
seguinte. sua residência habitual comum e, na
falta desta, a lei do país com o qual
ARTIGO 51º a vida familiar se ache mais
(Desvios) estreitamente conexa.

1. O casamento de dois estrangeiros (Redacção do Dec.-Lei 497/77, de


em Portugal pode ser celebrado 25-11)
segundo a forma prescrita na lei
nacional de qualquer dos ARTIGO 53º
contraentes, perante os respectivos (Convenções antenupciais e
agentes diplomáticos ou consulares, regime de bens)
desde que igual competência seja
reconhecida por essa lei aos agentes 1. A substância e efeitos das
diplomáticos e consulares convenções antenupciais e do
portugueses. regime de bens, legal ou
convencional, são definidos pela lei
2. O casamento no estrangeiro de nacional dos nubentes ao tempo da
dois portugueses ou de português e celebração do casamento.
estrangeiro pode ser celebrado
perante o agente diplomático ou 2. Não tendo os nubentes a mesma
consular do Estado português ou nacionalidade é aplicável a lei da sua
perante os ministros do culto residência habitual comum à data do
católico; em qualquer caso, o casamento e, se esta faltar também,
casamento deve ser precedido do a lei da primeira residência conjugal.
processo de publicações, organizado
pela entidade competente, a menos 3. Se for estrangeira a lei aplicável e
que ele seja dispensado nos termos um dos nubentes tiver a sua
do artigo 1599º. residência habitual em território
português, pode ser convencionado
3. O casamento no estrangeiro de um dos regimes admitidos neste
dois portugueses ou de português e código.
estrangeiro, em harmonia com as
leis canónicas, é havido como (Redacção do Dec.-Lei 496/77, de
casamento católico, seja qual for a 25-11)
forma legal da celebração do acto
segundo a lei local, e à sua ARTIGO 54º
transcrição servirá de base o (Modificações do regime de
assento do registo paroquial. bens)

ARTIGO 52º 1. Aos cônjuges é permitido


(Relações entre os cônjuges) modificar o regime de bens, legal ou
convencional, se a tal forem
1. Salvo o disposto no artigo autorizados pela lei competente nos
seguinte, as relações entre os termos do artigo 52º.
cônjuges são reguladas pela lei
nacional comum.

- 28 -
2. A nova convenção em caso 1. As relações entre pais e filhos são
nenhum terá efeito retroactivo em reguladas pela lei nacional comum
prejuízo de terceiro. dos pais e, na falta desta, pela lei da
sua residência habitual comum; se
ARTIGO 55º os pais residirem habitualmente em
(Separação judicial de pessoas e Estados diferentes, é aplicável a lei
bens e divórcio) pessoal do filho.

1. À separação judicial de pessoas e 2. Se a filiação apenas se achar


bens e ao divórcio é aplicável o estabelecida relativamente a um dos
disposto no artigo 52º. progenitores, aplica-se a lei pessoal
deste; se um dos progenitores tiver
2. Se, porém, na constância do falecido, é competente a lei pessoal
matrimónio houver mudança da lei do sobrevivo.
competente, só pode fundamentar a (Redacção do Dec.-Lei 496/77, de
separação ou o divórcio algum facto 25-11)
relevante ao tempo da sua
verificação. ARTIGO 58º
(Revogado pelo Dec.-Lei 496/77, de
ARTIGO 56º 25-11)
(Constituição da filiação)
ARTIGO 59º
1. À constituição da filiação é (Revogado pelo Dec.-Lei 496/77, de
aplicável a lei pessoal do progenitor 25-11)
à data do estabelecimento da
relação. ARTIGO 60º
(Filiação adoptiva)
2. Tratando-se de filho de mulher
casada, a constituição da filiação 1. À constituição da filiação adoptiva
relativamente ao pai é regulada pela é aplicável a lei pessoal do
lei nacional comum da mãe e do adoptante, sem prejuízo do disposto
marido; na falta desta, é aplicável a no número seguinte.
lei da residência habitual comum dos
cônjuges e, se esta também faltar, a 2. Se a adopção for realizada por
lei pessoal do filho. marido e mulher ou o adoptando for
filho do cônjuge do adoptante, é
3. Para os efeitos do número competente a lei nacional comum
anterior, atender-se-á ao momento dos cônjuges e, na falta desta, a lei
do nascimento do filho ou ao da sua residência habitual comum;
momento da dissolução do se também esta faltar, será aplicável
casamento, se for anterior ao a lei do país com o qual a vida
nascimento. familiar dos adoptantes se ache
mais estreitamente conexa.
(Redacção do Dec.-Lei 496/77, de
25-11) 3. As relações entre adoptante e
adoptado, e entre este e a família de
ARTIGO 57º origem, estão sujeitas à lei pessoal
(Relações entre pais e filhos) do adoptante; no caso previsto no

- 29 -
número anterior é aplicável o
disposto no artigo 57º. ARTIGO 63º
(Capacidade de disposição)
4. Se a lei competente para regular
as relações entre o adoptando e os 1. A capacidade para fazer,
seus progenitores não conhecer o modificar ou revogar uma disposição
instituto da adopção, ou não o por morte, bem como as exigências
admitir em relação a quem se da forma especial das disposições
encontre na situação familiar do por virtude da idade do disponente,
adoptando, a adopção não é são reguladas pela lei pessoal do
permitida. autor ao tempo da declaração.

(Redacção do Dec.-Lei 496/77, de 2. Aquele que, depois de ter feito a


25-11) disposição, adquirir nova lei pessoal
conserva a capacidade necessária
ARTIGO 61º para revogar a disposição nos
(Requisitos especiais da termos da lei anterior.
perfilhação ou adopção)
ARTIGO 64º
1. Se, como requisito da perfilhação (Interpretação das disposições;
ou adopção, a lei pessoal do falta e vícios da vontade)
perfilhando ou adoptando exigir o
consentimento deste, será a É a lei pessoal do autor da herança
exigência respeitada. ao tempo da declaração que regula:

2. Será igualmente respeitada a a) A interpretação das respectivas


exigência do consentimento de cláusulas e disposições, salvo se
terceiro a quem o interessado esteja houver referência expressa ou
ligado por qualquer relação jurídica implícita a outra lei;
de natureza familiar ou tutelar, se
porvier da lei reguladora desta b) A falta e vícios da vontade;
relação.
c) A admissibilidade de testamentos
(Redacção do Dec.-Lei 496/77, de de mão comum ou de pactos
25-11) sucessórios, sem prejuízo, quanto a
estes, do disposto no artigo 53º.
SUBSECÇÃO VI
Lei reguladora das sucessões ARTIGO 65º
(Forma)
ARTIGO 62º
(Lei competente) 1. As disposições por morte, bem
como a sua revogação ou
A sucessão por morte é regulada modificação, serão válidas, quanto à
pela lei pessoal do autor da forma, se corresponderem às
sucessão ao tempo do falecimento prescrições da lei do lugar onde o
deste, competindo-lhe também acto for celebrado, ou às da lei
definir os poderes do administrador pessoal do autor da herança, quer
da herança e do executor no momento da declaração, quer no
testamentário. momento da morte, ou ainda às

- 30 -
prescrições da lei para que remeta a 2. Quando certo efeito jurídico
norma de conflitos da lei local. depender da sobrevivência de uma a
outra pessoa, presume-se, em caso
2. Se, porém, a lei pessoal do autor de dúvida, que uma e outra
da herança no momento da faleceram ao mesmo tempo.
declaração exigir, sob pena de
nulidade ou ineficácia, a observância 3. Tem-se por falecida a pessoa cujo
de determinada forma, ainda que o cadáver não foi encontrado ou
acto seja praticado no estrangeiro, reconhecido, quando o
será a exigência respeitada. desaparecimento se tiver dado em
circunstâncias que não permitam
TÍTULO II duvidar da morte dela.
DAS RELAÇÕES JURÍDICAS
ARTIGO 69º
SUBTÍTULO I (Renúncia à capacidade jurídica)
DAS PESSOAS
Ninguém pode renunciar, no todo ou
CAPÍTULO I em parte, à sua capacidade jurídica.
Pessoas singulares
SECÇÃO II
SECÇÃO I Direitos de personalidade
Personalidade e capacidade
jurídica ARTIGO 70º
(Tutela geral da personalidade)
ARTIGO 66º
(Começo da personalidade) 1. A lei protege os indíviduos contra
qualquer ofensa ilícita ou ameaça de
1. A personalidade adquire-se no ofensa à sua personalidade física ou
momento do nascimento completo e moral.
com vida.
2. Independentemente da
2. Os direitos que a lei reconhece responsabilidade civil a que haja
aos nascituros dependem do seu lugar, a pessoa ameaçada ou
nascimento. ofendida pode requerer as
providências adequadas às
ARTIGO 67º circunstâncias do caso, com o fim de
(Capacidade jurídica) evitar a consumação da ameaça ou
atenuar os efeitos da ofensa já
As pessoas podem ser sujeitos de cometida.
quaisquer relações jurídicas, salvo
disposição legal em contrário; nisto ARTIGO 71º
consiste a sua capacidade jurídica. (Ofensa a pessoas já falecidas)

ARTIGO 68º 1. Os direitos de personalidade


(Termo da personalidade) gozam igualmente de protecção
depois da morte do respectivo
1. A personalidade cessa com a titular.
morte.

- 31 -
2. Tem legitimidade, neste caso, O pseudónimo, quando tenha
para requerer as providências notoriedade, goza da protecção
previstas no nº 2 do artigo anterior conferida ao próprio nome.
o cônjuge sobrevivo ou qualquer
descendente, ascendente, irmão,
sobrinho ou herdeiro do falecido. ARTIGO 75º
(Cartas-missivas confidenciais)
3. Se a ilicitude da ofensa resultar
da falta de consentimento, só as 1. O destinatário de carta-missiva de
pessoas que o deveriam prestar têm natureza confidencial deve guardar
legitimidade, conjunta ou reserva sobre o seu conteúdo, não
separadamente, para requerer as lhe sendo lícito aproveitar os
providências a que o número elementos de informação que ela
anterior se refere. tenha levado ao seu conhecimento.

ARTIGO 72º 2. Morto o destinatário, pode a


(Direito ao nome) restituição da carta confidencial ser
ordenada pelo tribunal, a
1. Toda a pessoa tem direito a usar requerimento do autor dela ou, se
o seu nome, completo ou abreviado, este já tiver falecido, das pessoas
e a opor-se a que outrem o use indicadas no nº 2 do artigo 71º;
ilicitamente para sua identificação pode também ser ordenada a
ou outros fins. destruição da carta, o seu depósito
em mão de pessoa idónea ou
2. O titular do nome não pode, qualquer outra medida apropriada.
todavia, especialmente no exercício
de uma actividade profissional, usá- ARTIGO 76º
lo de modo a prejudicar os (Publicação de cartas
interesses de quem tiver nome total confidenciais)
ou parcialmente idêntico; nestes
casos, o tribunal decretará as 1. As cartas-missivas confidenciais
providências que, segundo juízos de só podem ser publicadas com o
equidade, melhor conciliem os consentimento do seu autor ou com
interesse em conflito. o suprimento judicial desse
consentimento; mas não há lugar ao
ARTIGO 73º suprimento quando se trate de
(Legitimidade) utilizar as cartas como documento
literário, histórico ou biográfico.
As acções relativas à defesa do
nome podem ser exercidas não só 2. Depois da morte do autor, a
pelo respectivo titular, como, depois autorização compete às pessoas
da morte dele pelas pessoas designadas no nº 2 do artigo 71º,
referidas no número 2 do artigo 71º segundo a ordem nele indicada.

ARTIGO 74º ARTIGO 77º


(Pseudónimo) (Memórias familiares e outros
escritos confidenciais)

- 32 -
O disposto no artigo anterior é
aplicável, com as necessárias 1. Todos devem guardar reserva
adaptações, às memórias familiares quanto à intimidade da vida privada
e pessoais e a outros escritos que de outrem.
tenham carácter confidencial ou se
refiram à intimidade da vida privada. 2. A extensão da reserva é definida
conforme a natureza do caso e a
ARTIGO 78º condição das pessoas.
(Cartas-missivas não
confidenciais) ARTIGO 81º
(Limitação voluntária dos
O destinatário de carta não direitos de personalidade)
confidencial só pode usar dela em
termos que não contrariem a 1. Toda a limitação voluntária ao
expectativa do autor. exercício dos direitos de
personalidade é nula, se for
ARTIGO 79º contrária aos princípios da ordem
(Direito à imagem) pública.

1. O retrato de uma pessoa não 2. A limitação voluntária, quando


pode ser exposto, reproduzido ou legal, é sempre revogável, ainda que
lançado no comércio sem o com obrigação de indemnizar os
consentimento dela; depois da prejuízos causados às legítimas
morte da pessoa retratada, a expectativas da outra parte.
autorização compete às pessoas
designadas no nº 2 do artigo 71º, SECÇÃO III
segundo a ordem nele indicada. Domicílio

2. Não é necessário o consentimento ARTIGO 82º


da pessoa retratada quando assim o (Domicílio voluntário geral)
justifiquem a sua notoriedade, o
cargo que desempenhe, exigências 1. A pessoa tem domicílio no lugar
de polícia ou de justiça, finalidades da sua residência habitual; se residir
científicas, didácticas ou culturais, alternadamente em diversos
ou quando a reprodução da imagem lugares, tem-se por domiciliada em
vier enquadrada na de lugares qualquer deles.
públicos, ou na de factos de
interesse público ou que hajam 2. Na falta de residência habitual,
decorrido publicamente. considera-se domiciliada no lugar da
sua residência ocasional ou, se esta
3. O retrato não pode, porém, ser não puder ser determinada, no lugar
reproduzido, exposto ou lançado no onde se encontrar.
comércio, se do facto resultar
prejuízo para a honra, reputação ou ARTIGO 83º
simples decoro da pessoa retratada. (Domicílio profissional)

ARTIGO 80º 1. A pessoa que exerce uma


(Direito à reserva sobre a profissão tem, quanto às relações a
intimidade da vida privada) que esta se refere, domicílio

- 33 -
profissional no lugar onde a
profissão é exercida. ARTIGO 86º
(Revogado pelo Dec.-Lei 496/77, de
2. Se exercer a profissão em lugares 25-11)
diversos, cada um deles constitui
domicílio para as relações que lhe ARTIGO 87º
correspondem. (Domicílio legal dos empregados
públicos)
ARTIGO 84º
(Domicílio electivo) 1. Os empregados públicos, civis ou
militares, quando haja lugar certo
É permitido estipular domicílio para o exercício dos seus empregos,
particular para determinados têm nele domicílio necessário, sem
negócios, contanto que a estipulação prejuízo do seu domicílio voluntário
seja reduzida a escrito. no lugar da residência habitual.

ARTIGO 85º 2. O domicílio necessário é


(Domicílio legal dos menores e determinado pela posse do cargo ou
interditos) pelo exercício das respectivas
funções.
1. O menor tem domicílio no lugar
da residência da família; se ela não ARTIGO 88º
existir, tem por domicílio o do (Domicílio legal dos agentes
progenitor a cuja guarda estiver. diplomáticos portugueses)

2. O domicílio do menor que em Os agentes diplomáticos


virtude de decisão judicial foi portugueses, quando invoquem
confiado a terceira pessoa ou a extraterritorialidade, consideram-se
estabelecimento de educação ou domiciliados em Lisboa.
assistência é o do progenitor que
exerce o poder paternal. SECÇÃO IV
Ausência
3. O domicílio do menor sujeito a
tutela e do interdito é o do SUBSECÇÃO I
respectivo tutor. Curadoria provisória

4. Quando tenha sido instituído o ARTIGO 89º


regime de administração de bens, o (Nomeação de curador
domicílio do menor ou do interdito é provisório)
o do administrador, nas relações a
que essa administração se refere. 1. Quando haja necessidade de
prover acerca da administração dos
5. Não são aplicáveis as regras dos bens de quem desapareceu sem que
números anteriores se delas resultar dele se saiba parte e sem ter
que o menor ou interdito não tem deixado representante legal ou
domicílio em território nacional. procurador, deve o tribunal nomear-
lhe curador provisório.
(Redacção do Dec.-Lei 496/77, de
25-11)

- 34 -
2. Deve igualmente ser nomeado (Relação dos bens e caução)
curador ao ausente, se o procurador
não quiser ou não puder exercer as 1. Os bens do ausente serão
suas funções. relacionados e só depois entregues
ao curador provisório, ao qual será
3. Pode ser designado para certos fixada caução pelo tribunal.
negócios, sempre que as
circunstâncias o exijam, um curador 2. Em caso de urgência, pode ser
especial. autorizada a entrega dos bens antes
de estes serem relacionados ou de o
ARTIGO 90º curador prestar a caução exigida.
(Providências cautelares)
3. Se o curador não prestar a
A possibilidade de nomeação do caução, será nomeado outro em
curador provisório não obsta às lugar dele.
providências cautelares que se
mostrem indispensáveis em relação ARTIGO 94º
a quaisquer bens do ausente. (Direitos e obrigações do
curador provisório)
ARTIGO 91º
(Legitimidade) 1. O curador fica sujeito ao regime
do mandato geral em tudo o que
A curadoria provisória e as não contrariar as disposições desta
providências cautelares a que se subsecção.
refere o artigo anterior podem ser
requeridas pelo Ministério Público ou 2. Compete ao curador provisório
por qualquer interessado. requerer os procedimentos
cautelares necessários e intentar as
ARTIGO 92º acções que não possam ser
(A quem deve ser deferida a retardadas sem prejuízo dos
curadoria provisória) interesses do ausente; cabe-lhe
ainda representar o ausente em
1. O curador provisório será todas as acções contra este
escolhido de entre as pessoas propostas.
seguintes: o cônjuge do ausente,
algum ou alguns dos herdeiros 3. Só com autorização judicial pode
presumidos, ou algum ou alguns dos o curador alienar ou onerar bens
interessados na conservação dos imóveis, objectos preciosos, títulos
bens. de crédito, estabelecimentos
comerciais e quaisquer outros bens
2. Havendo conflito de interesses cuja alienação ou oneração não
entre o ausente e o curador ou entre constitua acto de administração.
o ausente e o cônjuge, ascendentes
ou descendentes do curador, deve 4. A autorização judicial só será
ser designado um curador especial, concedida quando o acto se
nos termos do número 3 do artigo justifique para evitar a deterioração
89º. ou ruína dos bens, solver dívidas do
ausente, custear benfeitorias
ARTIGO 93º

- 35 -
necessárias ou úteis ou ocorrer a
outra necessidade urgente. e) Pela certeza da morte do ausente.

ARTIGO 95º SUBSECÇÃO I


(Prestação de contas) Curadoria definitiva

1. O curador provisório deve prestar ARTIGO 99º


contas do seu mandato perante o (Justificação da ausência)
tribunal, anualmente ou quando este
o exigir. Decorridos dois anos sem se saber
do ausente, se este não tiver
2. Deferida a curadoria definitiva nos deixado representante legal nem
termos da subsecção seguinte, as procurador bastante, ou cinco anos,
contas do curador provisório são no caso contrário, pode o Ministério
prestadas aos curadores definitivos. Público ou algum dos interessados
requerer a justificação da ausência.
ARTIGO 96º
(Remuneração do curador) ARTIGO 100º
(Legitimidade)
O curador haverá dez por cento da
receita líquida que realizar. São interessados na justificação da
ausência o cônjuge não separado
ARTIGO 97º judicialmente de pessoas e bens, os
(Substituição do curador herdeiros do ausente e todos os que
provisório) tiverem sobre os bens do ausente
direito dependente da condição da
O curador pode ser substituído, a sua morte.
requerimento do Ministério Público
ou de qualquer interessado, logo ARTIGO 101º
que se mostre inconveniente a sua (Abertura de testamentos)
permanência no cargo.
Justificada a ausência, o tribunal
ARTIGO 98º requisitará certidões dos
(Termo da curadoria) testamentos públicos e mandará
proceder à abertura dos
A curadoria provisória termina: testamentos cerrados que existirem,
a fim de serem tomados em conta
a) Pelo regresso do ausente; na partilha e no deferimento da
curadoria definitiva.
b) Se o ausente providenciar acerca
da administração dos bens; ARTIGO 102º
(Entrega de bens aos legatários
c) Pela comparência de pessoa que e outros interessados)
legalmente represente o ausente ou
de procurador bastante; Os legatários, como todos aqueles
que por morte do ausente teriam
d) Pela entrega dos bens aos direito a bens determinados, podem
curadores definitivos ou ao cabeça- requerer, logo que a ausência esteja
de-casal, nos termos do artigo 103º; justificada, independentemente da

- 36 -
partilha, que esses bens lhes sejam (Caução)
entregues.
1. O tribunal pode exigir caução aos
ARTIGO 103º curadores definitivos ou a algum ou
(Entrega dos bens aos alguns deles, tendo em conta a
herdeiros) espécie e valor dos bens e
rendimentos que eventualmente
1. A entrega dos bens aos herdeiros hajam de restituir.
do ausente à data das últimas
notícias, ou aos herdeiros dos que 2. Enquanto não prestar a caução
depois tiverem falecido, só tem fixada, o curador está impedido de
lugar depois da partilha. receber os bens; estes são
entregues, até ao termo da
2. Enquanto não forem entregues os curadoria ou até à prestação da
bens, a administração deles caução, a outro herdeiro ou
pertence ao cabeça-de-casal, interessado, que ocupará, em
designado nos termos dos artigos relação a eles, a posição de curador
2080º e seguintes. definitivo.

ARTIGO 104º ARTIGO 108º


(Curadores definitivos) (Ausente casado)

Os herdeiros e demais interessados Se o ausente for casado, pode o


a quem tenham sido entregues os cônjuge não separado judicialmente
bens do ausente são havidos como de pessoas e bens requerer
curadores definitivos. inventário e partilha, no seguimento
do processo de justificação da
ARTIGO 105º ausência, e exigir os alimentos a que
(Aparecimento de novos tiver direito.
interessados)
ARTIGO 109º
Se, depois de nomeados os (Aceitação e repúdio da
curadores definitivos, aparecer sucessão;
herdeiro ou interessado que, em disposição dos direitos
relação à data das últimas notícias sucessórios)
do ausente, deva excluir algum
deles ou haja de concorrer à 1. Justificada a ausência, é admitido
sucessão, ser-lhe-ão entregues os o repúdio da sucessão do ausente ou
bens nos termos dos artigos a disposição dos respectivos direitos
anteriores. sucessórios.

ARTIGO 106º 2. A eficácia do repúdio ou da


(Exigibilidade de obrigações) disposição, assim como a aceitação
da herança ou de legados, ficam,
A exigibilidade das obrigações que todavia, sujeitas à condição
se extinguiriam pela morte do resolutiva da sobrevivência do
ausente fica suspensa. ausente.

ARTIGO 107º

- 37 -
1. Nos casos previstos nas alíneas a)
ARTIGO 110º e b) do artigo anterior, os bens do
(Direitos e obrigações dos ausente ser-lhe-ão entregues logo
curadores definitivos que ele o requeira.
e demais interessados)
2. Enquanto não for requerida a
Aos curadores definitivos a quem os entrega, mantém-se o regime da
bens hajam sido entregues é curadoria nos termos desta
aplicável o disposto no artigo 94º, subsecção.
ficando extintos os poderes que
anteriormente hajam sido conferidos SUBSECÇÃO III
pelo ausente em relação aos Morte presumida
mesmos bens.
ARTIGO 114º
ARTIGO 111º (Requisitos)
(Fruição dos bens)
1. Decorridos dez anos sobre a data
1. Os ascendentes, os descendentes das últimas notícias, ou passados
e o cônjuge que sejam nomeados cinco anos, se entretanto o ausente
curadores definitivos têm direito, a houver completado oitenta anos de
contar da entrega dos bens, à idade, podem os interessados a que
totalidade dos frutos percebidos. se refere o artigo 100º requerer a
declaração de morte presumida.
2. Os curadores definitivos não
abrangidos pelo número anterior 2. A declaração de morte presumida
devem reservar para o ausente um não será proferida antes de haverem
terço dos rendimentos líquidos dos decorrido cinco anos sobre a data
bens que administrem. em que o ausente, se fosse vivo,
atingiria a maioridade.
ARTIGO 112º
(Termo da curadoria definitiva) 3. A declaração de morte presumida
do ausente não depende de prévia
A curadoria definitiva termina: instalação da curadoria provisória ou
definitiva e referir-se-á ao fim do dia
a) Pelo regresso do ausente; das últimas notícias que dele houve.

b) Pela notícia da sua existência e ARTIGO 115º


do lugar onde reside; (Efeitos)

c) Pela certeza da sua morte; A declaração de morte presumida


produz os mesmos efeitos que a
d) Pela declaração de morte morte, mas não dissolve o
presumida. casamento, sem prejuízo do
disposto no artigo seguinte.
ARTIGO 113º
(Restituição dos bens ao (Redacção do Dec.-Lei 496/77, de
ausente) 25-11)

ARTIGO 116º

- 38 -
(Novo casamento do cônjuge do encontrar, com o preço dos bens
ausente) alienados ou com os bens
directamente sub-rogados, e bem
O cônjuge do ausente casado assim com os bens adquiridos
civilmente pode contrair novo mediante o preço dos alienados,
casamento; neste caso, se o quando no título de aquisição se
ausente regressar, ou houver notícia declare expressamente a
de que era vivo quando foram proveniência do dinheiro.
celebradas as novas núpcias,
considera-se o primeiro matrimónio 2. Havendo má-fé dos sucessores, o
dissolvido por divórcio à data da ausente tem direito a ser
declaração de morte presumida. indemnizado do prejuízo sofrido.

(Redacção do Dec.-Lei 496/77, de 3. A má-fé, neste caso, consiste no


25-11) conhecimento de que o ausente
sobreviveu à data da morte
ARTIGO 117º presumida.
(Entrega dos bens)
SUBSECÇÃO IV
A entrega dos bens aos sucessores Direitos eventuais do ausente
do ausente é feita nos termos dos
artigos 101º e seguintes, com as ARTIGO 120º
necessárias adaptações, mas não há (Direitos que sobrevierem ao
lugar a caução; se esta tiver sido ausente)
prestada, pode ser levantada.
Os direitos que eventualmente
ARTIGO 118º sobrevierem ao ausente desde que
(Óbito em data diversa) desapareceu sem dele haver notícias
e que sejam dependentes da
1. Quando se prove que o ausente condição da sua existência passam
morreu em data diversa da fixada na às pessoas que seriam chamadas à
sentença de declaração de morte titularidade deles se o ausente fosse
presumida, o direito à herança falecido.
compete aos que naquela data lhe
deveriam suceder, sem prejuízo das ARTIGO 121º
regras da usucapião. (Curadoria provisória e
definitiva)
2. Os sucessores de novo
designados gozam apenas, em 1. O disposto no artigo anterior não
relação aos antigos, dos direitos que altera o regime da curadoria
no artigo seguinte são atribuídos ao provisória, à qual ficam sujeitos os
ausente. direitos nele referidos.

ARTIGO 119º 2. Instaurada a curadoria definitiva,


(Regresso do ausente) são havidos como curadores
definitivos, para todos os efeitos
1. Se o ausente regressar ou dele legais, aqueles que seriam
houver notícias, ser-lhe-á devolvido chamados à titularidade dos direitos
o património no estado em que se nos termos do mesmo artigo.

- 39 -
impugnado, mas nunca depois de o
SECÇÃO V menor atingir a maioridade ou ser
Incapacidades emancipado, salvo o disposto no
artigo 131º;
SUBSECÇÃO I
Condição jurídica dos menores b) A requerimento do próprio
menor, no prazo de um ano a contar
ARTIGO 122º da sua maioridade ou emancipação;
(Menores)
c) A requerimento de qualquer
É menor quem não tiver ainda herdeiro do menor, no prazo de um
completado dezoito anos de idade. ano a contar da morte deste,
ocorrida antes de expirar o prazo
(Redacção do Dec.-Lei 496/77, de referido na alínea anterior.
25-11)
2. A anulabilidade é sanável
ARTIGO 123º mediante confirmação do menor
(Incapacidade dos menores) depois de atingir a maioridade ou
ser emancipado, ou por confirmação
Salvo disposição em contrário, os do progenitor que exerça o poder
menores carecem de capacidade paternal, tutor ou administrador de
para o exercício de direitos. bens, tratando-se de acto que algum
deles pudesse celebrar como
ARTIGO 124º representante do menor.
(Suprimento da incapacidade
dos menores) (Redacção do Dec.-Lei 496/77, de
25-11)
A incapacidade dos menores é
suprida pelo poder paternal e, ARTIGO 126º
subsidiariamente, pela tutela, (Dolo do menor)
conforme se dispõe nos lugares
respectivos. Não tem o direito de invocar a
anulabilidade o menor que para
ARTIGO 125º praticar o acto tenha usado de dolo
(Anulabilidade dos actos dos com o fim de se fazer passar por
menores) maior ou emancipado.

1. Sem prejuízo do disposto no nº 2 ARTIGO 127º


do artigo 287º, os negócios jurídicos (Excepções à incapacidade dos
celebrados pelo menor podem ser menores)
anulados:
1. São excepcionalmente válidos,
a) A requerimento, conforme os além de outros previstos na lei:
casos, do progenitor que exerça o
poder paternal, do tutor ou do a) Os actos de administração ou
administrador de bens, desde que a disposição de bens que o maior de
acção seja proposta no prazo de um dezasseis anos haja adquirido por
ano a contar do conhecimento que o seu trabalho;
requerente haja tido do negócio

- 40 -
b) Os negócios jurídicos próprios da habilitado a reger a sua pessoa e a
vida corrente do menor que, dispor dos seus bens.
estando ao alcance da sua
capacidade natural, só impliquem (Redacção do Dec.-Lei 496/77, de
despesas, ou disposições de bens, 25-11)
de pequena importância;
ARTIGO 131º
c) Os negócios jurídicos relativos à (Pendência da acção de
profissão, arte ou ofício que o menor interdição ou inabilitação)
tenha sido autorizado a exercer, ou
os praticados no exercício dessa Estando, porém, pendente contra o
profissão, arte ou ofício. menor, ao atingir a maioridade,
acção de interdição ou inabilitação,
2. Pelos actos relativos à profissão, manter-se-á o poder paternal ou a
arte ou ofício do menor e pelos actos tutela até ao trânsito em julgado da
praticados no exercício dessa respectiva sentença.
profissão, arte ou ofício só
respondem os bens de que o menor ARTIGO 132º
tiver a livre disposição. (Emancipação)

(Redacção do Dec.-Lei 496/77, de O menor é, de pleno direito,


25-11) emancipado pelo casamento.

ARTIGO 128º (Redacção do Dec.-Lei 496/77, de


(Dever de obediência) 25-11)

Em tudo o quanto não seja ilícito ou ARTIGO 133º


imoral, devem os menores não (Efeitos da emancipação)
emancipados obedecer a seus pais
ou tutor e cumprir os seus preceitos. A emancipação atribui ao menor
plena capacidade de exercício de
ARTIGO 129º direitos, habilitando-o a reger a sua
(Termo da incapacidade dos pessoa e a dispor livremente dos
menores) seus bens como se fosse maior,
salvo o disposto no artigo 1649º.
A incapacidade dos menores termina
quando eles atingem a maioridade (Redacção do Dec.-Lei 496/77, de
ou são emancipados, salvas as 25-11)
restrições da lei.
ARTIGOS 134º A 137º
SUBSECÇÃO II (Revogados pelo Dec.-Lei 496/77,
Maioridade e emancipação de 25-11)

ARTIGO 130º SUBSECÇÃO III


(Efeitos da maioridade) Interdições

Aquele que perfizer dezoito anos de ARTIGO 138º


idade adquire plena capacidade de (Pessoas sujeitas a interdição)
exercício de direitos, ficando

- 41 -
1. Podem ser interditos do exercício
dos seus direitos todos aqueles que 2. Se o interditando estiver sob o
por anomalia psíquica, surdez- poder paternal, só têm legitimidade
mudez ou cegueira se mostrem para requerer a interdição os
incapazes de governar suas pessoas progenitores que exercerem aquele
e bens. poder e o Ministério Público.

2. As interdições são aplicáveis a (Redacção do Dec.-Lei 496/77, de


maiores; mas podem ser requeridas 25-11)
e decretadas dentro do ano anterior
à maioridade, para produzirem os ARTIGO 142º
seus efeitos a partir do dia em que o (Providências provisórias)
menor se torne maior.
1. Em qualquer altura do processo
(Redacção do Dec.-Lei 496/77, de pode ser nomeado um tutor
25-11) provisório que celebre em nome do
interditando, com autorização do
ARTIGO 139º tribunal, os actos cujo adiamento
(Capacidade do interdito e possa causar-lhe prejuízo.
regime da interdição)
2. Pode também ser decretada a
Sem prejuízo do disposto nos artigos interdição provisória, se houver
seguintes, o interdito é equiparado necessidade urgente de providenciar
ao menor, sendo-lhe aplicáveis, com quanto à pessoa e bens do
as necessárias adaptações, as interditando.
disposições que regulam a
incapacidade por menoridade e ARTIGO 143º
fixam os meios de suprir o poder (A quem incumbe a tutela)
paternal.
1. A tutela é deferida pela ordem
ARTIGO 140º seguinte:
(Competência dos tribunais
comuns) a) Ao cônjuge do interdito, salvo se
estiver separado judicialmente de
Pertence ao tribunal por onde corre pessoas e bens ou separado de facto
o processo de interdição a por culpa sua, ou se for por outra
competência atribuída ao tribunal de causa legalmente incapaz;
menores nas disposições que
regulam o suprimento do poder b) À pessoa designada pelos pais ou
paternal. pelo progenitor que exercer o poder
paternal, em testamento ou
ARTIGO 141º documento autêntico ou
(Legitimidade) autenticado;

1. A interdição pode ser requerida c) A qualquer dos progenitores do


pelo cônjuge do interditando, pelo interdito que, de acordo com o
tutor ou curador deste, por qualquer interesse deste, o tribunal designar;
parente sucessível ou pelo Ministério
Público.

- 42 -
d) Aos filhos maiores, preferindo o 2. Os descendentes do interdito
mais velho, salvo se o tribunal, podem, contudo, ser exonerados a
ouvido o conselho de família, seu pedido ao fim de cinco anos, se
entender que algum dos outros dá existirem outros dependentes
maiores garantias de bom igualmente idóneos para o exercício
desempenho do cargo. do cargo.

2. Quando não seja possível ou ARTIGO 147º


razões ponderosas desaconselham o (Publicidade da interdição)
deferimento da tutela nos termos do
número anterior, cabe ao tribunal À sentença de interdição definitiva é
designar tutor, ouvido o conselho de aplicável, com as necessárias
família. adaptações, o disposto nos artigos
1920º-B e 1920º-C.
(Redacção do Dec.-Lei 496/77, de
25-11) (Redacção do Dec.-Lei 496/77, de
25-11)
ARTIGO 144º
(Exercício do poder paternal) ARTIGO 148º
(Actos do interdito posteriores
Recaindo a tutela no pai ou na mãe, ao registo da sentença)
exercem estes o poder paternal
como se dispõe nos artigos 1878º e São anuláveis os negócios jurídicos
seguintes. celebrados pelo interdito depois do
registo da sentença de interdição
(Redacção do Dec.-Lei 496/77, de definitiva.
25-11)
ARTIGO 149º
ARTIGO 145º (Actos praticados no decurso da
(Dever especial de tutor) acção)

O tutor deve cuidar especialmente 1. São igualmente anuláveis os


da saúde do interdito, podendo para negócios jurídicos celebrados pelo
esse efeito alienar os bens deste, incapaz depois de anunciada a
obtida a necessária autorização proposição da acção nos termos da
judicial. lei de processo, contanto qua a
interdição venha a ser
ARTIGO 146º definitivamente decretada e se
(Escusa da tutela e exoneração mostre que o negócio causou
do tutor) prejuízo ao interdito.

1. O cônjuge do interdito, bem como 2. O prazo dentro do qual a acção de


os descendentes ou ascendentes anulação deve ser proposta só
deste, não podem escusar-se da começa a contar-se a partir do
tutela, nem ser dela exonerados, registo da sentença.
salvo se tiver havido violação do
disposto no artigo 143º. ARTIGO 150º
(Actos anteriores à publicidade
da acção)

- 43 -
(Administração dos bens do
Aos negócios celebrados pelo inabilitado)
incapaz antes de anunciada a
proposição da acção é aplicável o 1. A administração do património do
disposto acerca da incapacidade inabilitado pode ser entregue pelo
acidental. tribunal, no todo ou em parte, ao
curador.
ARTIGO 151º
(Levantamento da interdição) 2. Neste caso, haverá lugar à
constituição do conselho de família e
Cessando a causa que determinou a designação do vogal que, como
interdição, pode esta ser levantada a subcurador exerça as funções que
requerimento do próprio interdito ou na tutela cabem ao protutor.
das pessoas mencionadas no nº 1
do artigo 141º. 3. O curador deve prestar contas da
sua administração.
SUBSECÇÃO IV
Inabilitações ARTIGO 155º
(Levantamento da inabilitação)
Artigo 152º
(Pessoas sujeitas a inabilitação) Quando a inabilitação tiver por
causa a prodigalidade ou o abuso de
Podem ser inabilitados os indivíduos bebidas alcoólicas ou de
cuja anomalia psíquica, surdez- estupefacientes, o seu levantamento
mudez ou cegueira, embora de não será deferido antes que
carácter permanente, não seja de tal decorram cinco anos sobre o trânsito
modo grave que justifique a sua em julgado da sentença que a
interdição, assim como aqueles que, decretou ou da decisão que haja
pela sua habitual prodigalidade ou desatendido um pedido anterior.
pelo uso de bebidas alcoólicas ou de
estupefacientes, se mostrem ARTIGO 156º
incapazes de reger (Regime supletivo)
convenientemente o seu património.
Em tudo quanto se não ache
Artigo 153º especialmente regulado nesta
(Suprimento da inabilidade) subsecção é aplicável à inabilitação,
com as necessárias adaptações, o
1. Os inabilitados são assistidos por regime das interdições.
um curador, a cuja autorização
estão sujeitos os actos de disposição CAPÍTULO II
de bens entre vivos e todos os que, Pessoas colectivas
em atenção às circunstâncias de
cada caso, forem especificados na SECÇÃO I
sentença. Disposições gerais

2. A autorização do curador pode ser ARTIGO 157º


judicialmente suprida. (Campo de aplicação)

ARTIGO 154º

- 44 -
As disposições do presente capítulo (Capacidade)
são aplicáveis às associações que
não tenham por fim o lucro 1. A capacidade das pessoas
económico dos associados, às colectivas abrange todos os direitos
fundações de interesse social, e e obrigações necessários ou
ainda às sociedades, quando a convenientes à prossecução dos
analogia das situações o justifique. seus fins.

ARTIGO 158º 2. Exceptuam-se os direitos e


(Aquisição da personalidade) obrigações vedados por lei ou que
sejam inseparáveis da personalidade
1. As associações constituídas por singular.
escritura pública, com as
especificações referidas no nº 1 do ARTIGO 161º
artigo 167º, gozam de (Revogado pelo Dec.-Lei 496/77, de
personalidade jurídica. 25-11)

2. As fundações adquirem ARTIGO 162º


personalidade jurídica pelo (Órgãos)
reconhecimento, o qual é individual
e da competência da autoridade Os estatutos da pessoa colectiva
administrativa. designarão os respectivos órgãos,
entre os quais haverá um órgão
(Redacção do Dec.-Lei 496/77, de colegial de administração e um
25-11) conselho fiscal, ambos eles
constituídos por um número ímpar
ARTIGO 158º-A de titulares, dos quais um será o
(Nulidade do acto de presidente.
constituição ou instituição)
ARTIGO 163º
É aplicável à constituição de pessoas (Representação)
colectivas o disposto no artigo 280º,
devendo o Ministério Público 1. A representação da pessoa
promover a declaração judicial da colectiva, em juízo e fora dele, cabe
nulidade. a quem os estatutos determinarem
ou, na falta de disposição
(Aditado pelo Dec.-Lei 496/77, de estatutária, à administração ou a
25-11) quem por ela for designado.

ARTIGO 159º 2. A designação de representantes


(Sede) por parte da administração só é
oponível a terceiros quando se prove
A sede da pessoa colectiva é a que que estes a conheciam.
os respectivos estatutos fixarem ou,
na falta de designação estatutária, o ARTIGO 164º
lugar em que funciona normalmente (Obrigações e responsabilidade
a administração principal. dos titulares
dos órgãos da pessoa colectiva)
ARTIGO 160º

- 45 -
1. As obrigações e a por deliberação dos associados, sem
responsabilidade dos titulares dos prejuízo do disposto em leis
órgãos das pessoas colectivas para especiais; na falta de fixação ou de
com estas são definidas nos lei especial, o tribunal, a
respectivos estatutos, aplicando-se, requerimento do Ministério Público,
na falta de disposições estatutárias, dos liquidatários, ou de qualquer
as regras do mandato com as associado ou interessado,
necessárias adaptações. determinará que sejam atribuídos a
outra pessoa colectiva ou ao Estado,
2. Os membros dos corpos gerentes assegurando, tanto quanto possível,
não podem abster-se de votar nas a realização dos fins da pessoa
deliberações tomadas em reuniões a extinta.
que estejam presentes, e são
responsáveis pelos prejuízos delas (Redacção do Dec.-Lei 496/77, de
decorrentes, salvo se houverem 25-11)
manifestado a sua discordância.
SECÇÃO II
ARTIGO 165º Associações
(Responsabilidade civil das
pessoas colectivas) ARTIGO 167º
(Acto de constituição e
As pessoas colectivas respondem estatutos)
civilmente pelos actos ou omissões
dos seus representantes, agentes ou 1. O acto de constituição da
mandatários nos mesmos termos associação especificará os bens ou
em que os comitentes respondem serviços com que os associados
pelos actos ou omissões dos seus concorrem para o património social,
comissários. a denominação, fim e sede da
pessoa colectiva, a forma do seu
ARTIGO 166º funcionamento, assim como a sua
(Destino dos bens no caso de duração, quando a associação se
extinção) não constitua por tempo
indeterminado.
1. Extinta a pessoa colectiva, se
existirem bens que lhe tenham sido 2. Os estatutos podem especificar
doados ou deixados com qualquer ainda os direitos e obrigações dos
encargo ou que estejam afectados a associados, as condições da sua
um certo fim, o tribunal, a admissão, saída e exclusão, bem
requerimento do Ministério Público, como os termos da extinção da
dos liquidatários, de qualquer pessoa colectiva e consequente
associado ou interessado, ou ainda devolução do seu património.
de herdeiros do doador ou do autor
da deixa testamentária, atribuí-los- ARTIGO 168º
á, com o mesmo encargo ou (Forma e publicidade)
afectação, a outra pessoa colectiva.
1. O acto de constituição da
2. Os bens não abrangidos pelo associação, os estatutos e as suas
número anterior têm o destino que alterações devem constar de
lhes for fixado pelos estatutos ou escritura pública.

- 46 -
2. O notário deve, oficiosamente, a 1. O órgão da administração e o
expensas da associação, comunicar conselho fiscal são convocados pelos
a constituição e estatutos, bem respectivos presidentes e só podem
como as alterações destes, à deliberar com a presença da maioria
autoridade administrativa e ao dos seus titulares.
Ministério Público e remeter ao
jornal oficial um extracto para 2. Salvo disposição legal ou
publicação. estatutária em contrário, as
deliberações são tomadas por
3. O acto de constituição, os maioria de votos dos titulares
estatutos e as suas alterações não presentes, tendo o presidente, além
produzem efeitos em relação a do seu voto, direito a voto de
terceiros, enquanto não forem desempate.
publicados nos termos do número
anterior. ARTIGO 172º
(Competência da assembleia
(Redacção do Dec.-Lei 496/77, de geral)
25-11)
1. Competem à assembleia geral
ARTIGO 169º todas as deliberações não
(Revogado pelo Dec.-Lei 496/77, de compreendidas nas atribuições
25-11) legais ou estatutárias de outros
órgãos da pessoa colectiva.
ARTIGO 170º
(Titulares dos órgãos da 2. São, necessariamente, da
associação competência da assembleia geral a
e revogação dos seus poderes) destituição dos titulares dos órgãos
da associação, a aprovação do
1. É a assembleia geral que elege os balanço, a alteração dos estatutos, a
titulares dos órgãos da associação, extinção da associação e a
sempre que os estatutos não autorização para esta demandar os
estabeleçam outro processo de administradores por factos
escolha. praticados no exercício do cargo.

2. As funções dos titulares eleitos ou ARTIGO 173º


designados são revogáveis, mas a (Convocação da assembleia)
revogação não prejudica os direitos
fundados no acto de constituição. 1. A assembleia geral deve ser
convocada pela administração nas
3. O direito de revogação pode ser circunstâncias fixadas pelos
condicionado pelos estatutos à estatutos e, em qualquer caso, uma
existência de justa causa. vez em cada ano para aprovação do
balanço.
ARTIGO 171º
(Convocação e funcionamento 2. A assembleia será ainda
do órgão convocada sempre que a
da administração e do conselho convocação seja requerida, com um
fiscal) fim legítimo, por um conjunto de

- 47 -
associados não inferior à quinta favorável de três quartos do número
parte da sua totalidade, se outro dos associados presentes.
número não for estabelecido nos
estatutos. 4. As deliberações sobre a
dissolução ou prorrogação da pessoa
3. Se a administração não convocar colectiva requerem o voto favorável
a assembleia nos casos em que deve de três quartos do número de todos
fazê-lo, a qualquer associado é lícito os associados.
efectuar a convocação.
5. Os estatutos podem exigir um
ARTIGO 174º número de votos superior ao fixado
(Forma de convocação) nas regras anteriores.

1. A assembleia geral é convocada ARTIGO 176º


por meio de aviso postal, expedido (Privação do direito de voto)
para cada um dos associados com a
antecedência mínima de oito dias; 1. O associado não pode votar, por
no aviso indicar-se-á o dia, hora e si ou como representante de
local da reunião e a respectiva outrem, nas matérias em que haja
ordem do dia. conflito de interesses entre a
associação e ele, seu cônjuge,
2. São anuláveis as deliberações ascendentes ou descendentes.
tomadas sobre matéria estranha à
ordem do dia, salvo se todos os 2. As deliberações tomadas com
associados comparecerem à reunião infracção do disposto no número
e todos concordarem com o anterior são anuláveis se o voto do
aditamento. associado impedido for essencial à
existência da maioria necessária.
3. A comparência de todos os
associados sanciona quaisquer ARTIGO 177º
irregularidades da convocação, (Deliberações contrárias à lei ou
desde que nenhum deles se oponha aos estatutos)
à realização da assembleia.
As deliberações da assembleia geral
ARTIGO 175º contrárias à lei ou aos estatutos,
(Funcionamento) seja pelo seu objecto, seja por
virtude de irregularidades havidas
1. A assembleia não pode deliberar, na convocação dos associados ou no
em primeira convocação, sem a funcionamento da assembleia, são
presença de metade, pelo menos, anuláveis.
dos seus associados.
ARTIGO 178º
2. Salvo o disposto nos números (Regime da anulabilidade)
seguintes, as deliberações são
tomadas por maioria absoluta dos 1. A anulabilidade prevista nos
associados presentes. artigos anteriores pode ser arguida,
dentro do prazo de seis meses, pelo
3. As deliberações sobre alterações órgão da administração ou por
dos estatutos exigem o voto

- 48 -
qualquer associado que não tenha a) Por deliberação da assembleia
votado a deliberação. geral;

2. Tratando-se de associado que não b) Pelo decurso do prazo, se tiverem


foi convocado regularmente para a sido constituídas temporariamente;
reunião da assembleia, o prazo só
começa a correr a partir da data em c) Pela verificação de qualquer outra
que ele teve conhecimento da causa extintiva prevista no acto de
deliberação. constituição ou nos estatutos;

ARTIGO 179º d) Pelo falecimento ou


(Protecção dos direitos de desaparecimento de todos os
terceiro) associados;

A anulação das deliberações da e) Por decisão judicial que declare a


assembleia não prejudica os direitos sua insolvência.
que terceiro de boa fé haja adquirido
em execução das deliberações 2. As associações extinguem-se
anuladas. ainda por decisão judicial:

ARTIGO 180º a) Quando o seu fim se tenha


(Natureza pessoal da qualidade esgotado ou se haja tornado
de associado) impossível;

Salvo disposição estatutária em b) Quando o seu fim real não


contrário, a qualidade de associado coincida com o fim expresso no acto
não é transmissível, quer por acto de constituição ou nos estatutos;
entre vivos, quer por sucessão; o
associado não pode incumbir outrem c) Quando o seu fim seja
de exercer os seus direitos pessoais. sistematicamente prosseguido por
meios ilícitos ou imorais;
ARTIGO 181º
(Efeitos da saída ou exclusão) d) Quando a sua existência se torne
contrária à ordem pública.
O associado que por qualquer forma
deixar de pertencer à associação (Redacção do Dec.-Lei 496/77, de
não tem o direito de repetir as 25-11)
quotizações que haja pago e perde o
direito ao património social, sem ARTIGO 183º
prejuízo da sua responsabilidade por (Declaração da extinção)
todas as prestações relativas ao
tempo em que foi membro da 1. Nos casos previstos nas alíneas b)
associação. e c) do nº 1 do artigo anterior, a
extinção só se produzirá se, nos
ARTIGO 182º trinta dias subsequentes à data em
(Causas de extinção) que devia operar-se, a assembleia
geral não decidir a prorrogação da
1. As associações extinguem-se: associação ou a modificação dos
estatutos.

- 49 -
2. O reconhecimento pode ser
2. Nos casos previstos no nº 2 do requerido pelo instituidor, seus
artigo precedente, a declaração da herdeiros ou executores
extinção pode ser pedida em juízo testamentários, ou ser oficiosamente
pelo Ministério Público ou por promovido pela autoridade
qualquer interessado. competente.

3. A extinção por virtude da 3. A instituição por actos entre vivos


declaração de insolvência dá-se em deve constar de escritura pública e
consequência da própria declaração. torna-se irrevogável logo que seja
requerido o reconhecimento ou
(Redacção do Dec.-Lei 496/77, de principie o respectivo processo
25-11) oficioso.

ARTIGO 184º 4. Aos herdeiros do instituidor não é


(Efeitos da extinção) permitido revogar a instituição, sem
prejuízo do disposto acerca da
1. Extinta a associação, os poderes sucessão legitimária.
dos seus órgãos ficam limitados à
prática dos actos meramente 5. Ao acto de instituição da
conservatórios e dos necessários, fundação, quando conste de
quer à liquidação do património escritura pública, bem como, em
social, quer à ultimação dos qualquer caso, aos estatutos e suas
negócios pendentes; pelos actos alterações, é aplicável o disposto na
restantes e pelos danos que deles parte final do artigo 168º.
advenham à associação respondem
solidariamente os administradores ARTIGO 186º
que os praticarem. (Acto de instituição e estatutos)

2. Pelas obrigações que os 1. No acto de instituição deve o


administradores contraírem, a instituidor indicar o fim da fundação
associação só responde perante e especificar os bens que lhe são
terceiros se estes estavam de boa fé destinados.
e à extinção não tiver sido dada a
devida publicidade. 2. No acto de instituição ou nos
estatutos pode o instituidor
SECÇÃO III providenciar ainda sobre a sede,
Fundações organização e funcionamento da
fundação, regular os termos da sua
ARTIGO 185º transformação ou extinção e fixar o
(Instituição e sua revogação) destino dos respectivos bens.

1. As fundações podem ser ARTIGO 187º


instituídas por acto entre vivos ou (Estatutos lavrados por pessoa
por testamento, valendo como diversa do instituidor)
aceitação dos bens a elas
destinados, num caso ou noutro, o 1. Na falta de estatutos lavrados
reconhecimento respectivo. pelo instituidor ou na insuficiência
deles, constando a instituição de

- 50 -
testamento, é aos executadores
deste que compete elaborá-los ou Os estatutos da fundação podem a
completá-los. todo o tempo ser modificados pela
autoridade competente para o
2. A elaboração total ou parcial dos reconhecimento, sob proposta da
estatutos incumbe à própria respectiva administração, contanto
autoridade competente para o que não haja alteração essencial do
reconhecimento da fundação, fim da instituição e se não contrarie
quando o instituidor os não tenha a vontade do fundador.
feito e a instituição não conste de
testamento, ou quando os ARTIGO 190º
executores testamentários os não (Transformação)
lavrem dentro do ano posterior à
abertura da sucessão. 1. Ouvida a administração, e
também o fundador, se for vivo, a
3. Na elaboração dos estatutos ter- entidade competente para o
se-á em conta, na medida do reconhecimento pode atribuir à
possível, a vontade real ou fundação um fim diferente:
presumível do fundador.
a) Quando tiver sido inteiramente
ARTIGO 188º preenchido o fim para que foi
(Reconhecimento) instituída ou este se tiver tornado
impossível;
1. Não será reconhecida a fundação
cujo fim não for considerado de b) Quando o fim da instituição
interesse social pela entidade deixar de revestir interesse social;
competente.
c) Quando o património se tornar
2. Será igualmente negado o insuficiente para a realização do fim
reconhecimento, quando os bens previsto.
afectados à fundação se mostrem
insuficientes para a prossecução do 2. O novo fim deve aproximar-se, no
fim visado e não haja fundadas que for possível, do fim fixado pelo
expectativas de suprimento da fundador.
insuficiência.
3. Não há lugar à mudança de fim,
3. Negado o reconhecimento por se o acto de instituição prescrever a
insuficiência do património, fica a extinção da fundação.
instituição sem efeito, se o
institutidor for vivo; mas, se já ARTIGO 191º
houver falecido, serão os bens (Encargo prejudicial aos fins da
entregues a uma associação ou fundação)
fundação de fins análogos, que a
entidade competente designar, salvo 1. Estando o património da fundação
disposição do instituidor em onerado com encargos cujo
contrário. cumprimento impossibilite ou
dificulte gravemente o
ARTIGO 189º preenchimento do fim institucional,
(Modificação dos estatutos) pode a entidade competente para o

- 51 -
reconhecimento sob proposta da ARTIGO 193º
administração, suprimir, reduzir ou (Declaração da extinção)
comutar esses encargos, ouvido o
fundador, se for vivo. Quando ocorra alguma das causas
extintivas previstas no nº 1 do
2. Se, porém, o encargo tiver sido artigo anterior, a administração da
motivo essencial da instituição, pode fundação comunicará o facto à
a mesma entidade considerar o seu autoridade competente para o
cumprimento como fim da fundação, reconhecimento, a fim de esta
ou incorporar a fundação noutra declarar a extinção e tomar as
pessoa colectiva capaz de satisfazer providências que julgue
o encargo à custa do património convenientes para a liquidação do
incorporado, sem prejuízo dos seus património.
próprios fins.
ARTIGO 194º
ARTIGO 192º (Efeitos da extinção)
(Causas de extinção)
Extinta a fundação, na falta de
1. As fundações extinguem-se: providências especiais em contrário
tomadas pela autoridade
a) Pelo decurso do prazo, se tiverem competente, é aplicável o disposto
sido constituídas temporariamente; no artigo 184º.

b) Pela verificação de qualquer outra CAPÍTULO III


causa extintiva prevista no acto de Associações sem personalidade
instituição; jurídica
e comissões especiais
c) Por decisão judicial que declare a
sua insolvência. ARTIGO 195º
(Organização e administração)
2. As fundações podem ainda ser
extintas pela entidade competente 1. À organização interna e
para o reconhecimento: administração das associações sem
personalidade jurídica são aplicáveis
a) Quando o seu fim se tenha as regras estabelecidas pelos
esgotado ou se haja tornado associados e, na sua falta, as
impossível; disposições legais relativas às
associações, exceptuadas as que
b) Quando o seu fim real não pressupõem a personalidade destas.
coincida com o fim expresso no acto
de instituição; 2. As limitações impostas aos
poderes normais dos
c) Quando o seu fim seja administradores só são oponíveis a
sistematicamente prosseguido por terceiro quando este as conhecia ou
meios ilícitos ou imorais; devia conhecer.

d) Quando a sua existência se torne 3. À saída dos associados é aplicável


contrária à ordem pública. o disposto no artigo 181º.

- 52 -
(Redacção do Dec.-Lei 496/77, de uma pessoa, respondem todas
25-11) solidariamente.

ARTIGO 196º 2. Na falta ou insuficiência do fundo


(Fundo comum das associações) comum e do património dos
associados directamente
1. As contribuições dos associados e responsáveis, têm os credores acção
os bens com elas adquiridos contra os restantes associados, que
constituem o fundo comum da respondem proporcionalmente à sua
associação. entrada para o fundo comum.

2. Enquanto a associação subsistir, 3. A representação em juízo do


nenhum associado pode exigir a fundo comum cabe àqueles que
divisão do fundo comum e nenhum tiverem assumido a obrigação.
credor dos associados tem o direito
de o fazer excutir. ARTIGO 199º
(Comissões especiais)
ARTIGO 197º
(Liberalidades) As comissões constituídas para
realizar qualquer plano de socorro
1. As liberalidades em favor de ou beneficiência, ou promover a
associações sem personalidade execução de obras públicas,
jurídica consideram-se feitas aos monumentos, festivais, exposições,
respectivos associados, nessa festejos e actos semelhantes, se não
qualidade, salvo se o autor tiver pedirem o reconhecimento da
condicionado a deixa ou doação à personalidade da associação ou não
aquisição da personalidade jurídica; a obtiverem, ficam sujeitas, na falta
neste caso, se tal aquisição se não de lei em contário, às disposições
verificar dentro do prazo de um ano, subsequentes.
fica a disposição sem efeito.
ARTIGO 200º
2. Os bens deixados ou doados à (Responsabilidade dos
associação sem personalidade organizadores e
jurídica acrescem ao fundo comum, administradores)
independentemente de outro acto de
transmissão. 1. Os membros da comissão e os
encarregados de administrar os seus
(Redacção do Dec.-Lei 496/77, de fundos são pessoal e solidariamente
25-11) responsáveis pela conservação dos
fundos recolhidos e pela sua
ARTIGO 198º afectação ao fim anunciado.
(Responsabilidade por dívidas)
2. Os membros da comissão
1. Pelas obrigações validamente respondem ainda, pessoal e
assumidas em nome da associação solidariamente, pelas obrigações
responde o fundo comum e, na falta contraídas em nome dela.
ou insuficiência deste, o património
daquele que as tiver contraído; 3. Os subscritores só podem exigir o
sendo o acto praticado por mais de valor que tiverem subscrito quando

- 53 -
se não cumpra, por qualquer indivisíveis, principais ou acessórias,
motivo, o fim para que a comissão presentes ou futuras.
foi constituída.
ARTIGO 204º
ARTIGO 201º (Coisas imóveis)
(Aplicação dos bens a outro fim)
1. São coisas imóveis:
1. Se os fundos angariados forem
insuficientes para o fim anunciado, a) Os prédios rústicos e urbanos;
ou este se mostrar impossível, ou
restar algum saldo depois de b) As águas;
satisfeito o fim da comissão, os bens
terão a aplicação prevista no acto c) As árvores, os arbustos e os
constitutivo da comissão ou no frutos naturais, enquanto estiverem
programa anunciado. ligados ao solo;

2. Se nenhuma aplicação tiver sido d) Os direitos inerentes aos imóveis


prevista e a comissão não quiser mencionados nas alíneas anteriores;
aplicar os bens a um fim análogo,
cabe à autoridade administrativa e) As partes integrantes dos prédios
prover sobre o seu destino, rústicos e urbanos.
respeitando na medida do possível a
intenção dos subscritores. 2. Entende-se por prédio rústico
uma parte delimitada do solo e as
SUBTÍTULO II construções nele existentes que não
Das coisas tenham autonomia económica, e por
prédio urbano qualquer edifício
ARTIGO 202º incorporado no solo, com os
(Noção) terrenos que lhe sirvam de
logradouro.
1. Diz-se coisa tudo aquilo que pode
ser objecto de relações jurídicas. 3. É parte integrante toda a coisa
móvel ligada materialmente ao
2. Consideram-se, porém, fora do prédio com carácter de
comércio todas as coisas que não permanência.
podem ser objecto de direitos
privados, tais como as que se ARTIGO 205º
encontram no domínio público e as (Coisas móveis)
que são, por sua natureza,
insusceptíveis de apropriação 1. São móveis todas as coisas não
individual. compreendidas no artigo anterior.

ARTIGO 203º 2. Às coisas móveis sujeitas a


(Classificação das coisas) registo público é aplicável o regime
das coisas móveis em tudo o que
As coisas são imóveis ou móveis, não seja especialmente regulado.
simples ou compostas, fungíveis ou
não fungíveis, consumíveis ou não ARTIGO 206º
consumíveis, divisíveis ou (Coisas compostas)

- 54 -
abrangem, salvo declaração em
1. É havida como coisa composta, contrário, as coisas acessórias.
ou universalidade de facto, a
pluralidade de coisas móveis que, ARTIGO 211º
pertencendo à mesma pessoa, têm (Coisas futuras)
um destino unitário.
São coisas futuras as que não estão
2. As coisas singulares que em poder do disponente, ou a que
constituem a universalidade podem este não tem direito, ao tempo da
ser objecto de relações jurídicas declaração negocial.
próprias.
ARTIGO 212º
ARTIGO 207º (Frutos)
(Coisas fungíveis)
1. Diz-se fruto de uma coisa tudo o
São fungíveis as coisas que se que ela produz periodicamente, sem
determinam pelo seu género, prejuízo da sua substância.
qualidade e quantidade, quando
constituam objecto de relações 2. Os frutos são naturais ou civis;
jurídicas. dizem-se naturais os que provêm
directamente da coisa, e civis as
ARTIGO 208º rendas ou interesses que a coisa
(Coisas consumíveis) produz em consequência de uma
relação jurídica.
São consumíveis as coisas cujo uso
regular importa a sua destruição ou 3. Consideram-se frutos das
a sua alienação. universalidades de animais as crias
não destinadas à substituição das
ARTIGO 209º cabeças que por qualquer causa
(Coisas divisíveis) vierem a faltar, os despojos, e todos
os proventos auferidos, ainda que a
São divisíveis as coisas que podem título eventual.
ser fraccionadas sem alteração da
sua substância, diminuição de valor ARTIGO 213º
ou prejuízo para o uso a que se (Partilha dos frutos)
destinam.
1. Os que têm direito aos frutos
ARTIGO 210º naturais até um momento
(Coisas acessórias) determinado, ou a partir de certo
momento, fazem seus todos os
1. São coisas acessórias, ou frutos percebidos durante a vigência
pertenças, as coisas móveis que, do seu direito.
não constituindo partes integrantes,
estão afectadas por forma 2. Quanto a frutos civis, a partilha
duradoura ao serviço ou faz-se proporcionalmente à duração
ornamentação de uma outra. do direito.

2. Os negócios jurídicos que têm por ARTIGO 214º


objecto a coisa principal não

- 55 -
(Frutos colhidos SUBTÍTULO III
prematuramente) DOS FACTOS JURÍDICOS

Quem colher prematuramente frutos CAPÍTULO I


naturais é obrigado a restituí-los, se Negócio jurídico
vier a extinguir-se o seu direito
antes da época normal das SECÇÃO I
colheitas. Declaração negocial

ARTIGO 215º SUBSECÇÃO I


(Restituição de frutos) Modalidades da declaração

1. Quem for obrigado por lei à ARTIGO 217º


restituição de frutos percebidos tem (Declaração expressa e
direito a ser indemnizado das declaração tácita)
despesas de cultura, sementes e
matérias-primas e dos restantes 1. A declaração negocial pode ser
encargos de produção e colheita, expressa ou tácita: é expressa,
desde que não sejam superiores ao quando feita por palavras, escrito ou
valor desses frutos. qualquer outro meio directo de
manifestação da vontade, e tácita,
2. Quando se trate de frutos quando se deduz de factos que, com
pendentes, o que é obrigado à toda a probabilidade, a revelam.
entrega da coisa não tem direito a
qualquer indemnização, salvo nos 2. O carácter formal da declaração
casos especialmente previstos na lei. não impede que ela seja emitida
tacitamente, desde que a forma
ARTIGO 216º tenha sido observada quanto aos
(Benfeitorias) factos de que a declaração se deduz.

1. Consideram-se benfeitorias todas ARTIGO 218º


as despesas feitas para conservar ou (O silêncio como meio
melhorar a coisa. declarativo)

2. As benfeitorias são necessárias, O silêncio vale como declaração


úteis ou voluptuárias. negocial, quando esse valor lhe seja
atribuído por lei, uso ou convenção.
3. São benfeitorias necessárias as
que têm por fim evitar a perda, SUBSECÇÃO II
destruição ou deterioração da coisa; Forma
úteis as que, não sendo
indispensáveis para a sua ARTIGO 219º
conservação, lhe aumentam, (Liberdade de forma)
todavia, o valor; voluptuárias as
que, não sendo indispensáveis para A validade da declaração negocial
a sua conservação nem lhe não depende da observância de
aumentando o valor, servem apenas forma especial, salvo quando a lei a
para recreio do benfeitorizante. exigir.

- 56 -
ARTIGO 220º presume-se, neste caso, que as
(Inobservância da forma legal) partes se não querem vincular senão
pela forma convencionada.
A declaração negocial que careça da
forma legalmente prescrita é nula, 2. Se, porém, a forma só for
quando outra não seja a sanção convencionada depois de o negócio
especialmente prevista na lei. estar concluído ou no momento da
sua conclusão, e houver fundamento
ARTIGO 221º para admitir que as partes se
(Âmbito da forma legal) quiseram vincular desde logo,
presume-se que a convenção teve
1. As estipulações verbais acessórias em vista a consolidação do negócio,
anteriores ao documento legalmente ou qualquer outro efeito, mas não a
exigido para a declaração negocial, sua substituição.
ou contemporâneas dele, são nulas,
salvo quando a razão determinante SUBSECÇÃO III
da forma lhes não seja aplicável e se Perfeição da declaração negocial
prove que correspondem à vontade
do autor da declaração. ARTIGO 224º
(Eficácia da declaração negocial)
2. As estipulações posteriores ao
documento só estão sujeitas à forma 1. A declaração negocial que tem
legal prescrita para a declaração se um destinatário torna-se eficaz logo
as razões da exigência especial da que chega ao seu poder ou é dele
lei lhe forem aplicáveis. conhecida; as outras, logo que a
vontade do declarante se manifesta
ARTIGO 222º na forma adequada.
(Âmbito da forma voluntária)
2. É também considerada eficaz a
1. Se a forma escrita não for exigida declaração que só por culpa do
por lei, mas tiver sido adoptada pelo destinatário não foi por ele
autor da declaração, as estipulações oportunamente recebida.
verbais acessórias anteriores ao
escrito, ou contemporâneas dele, 3. A declaração recebida pelo
são válidas, quando se mostre que destinatário em condições de, sem
correspondem à vontade do culpa sua, não poder ser conhecida
declarante e a lei as não sujeite à é ineficaz.
forma escrita.
ARTIGO 225º
2. As estipulações verbais (Anúncio público da declaração)
posteriores ao documento são
válidas, excepto se, para o efeito, a A declaração pode ser feita
lei exigir a forma escrita. mediante anúncio publicado num
dos jornais da residência do
ARTIGO 223º declarante, quando se dirija a
(Forma convencional) pessoa desconhecida ou cujo
paradeiro seja por aquele ignorado.
1. Podem as partes estipular uma
forma especial para a declaração; ARTIGO 226º

- 57 -
(Morte, incapacidade ou c) Se não for fixado prazo e a
indisponibilidade superveniente) proposta for feita a pessoa ausente
ou, por escrito, a pessoa presente,
1. A morte ou incapacidade do manter-se-á até cinco dias depois do
declarante, posterior à emissão da prazo que resulta do preceituado na
declaração, não prejudica a eficácia alínea precedente.
desta, salvo se o contrário resultar
da própria declaração. 2. O disposto no número anterior
não prejudica o direito de revogação
2. A declaração é ineficaz, se o da proposta nos termos em que a
declarante, enquanto o destinatário revogação é admitida no artigo
não a receber ou dela não tiver 230º.
conhecimento, perder o poder de
disposição do direito a que ela se ARTIGO 229º
refere. (Recepção tardia)

ARTIGO 227º 1. Se o proponente receber a


(Culpa na formação dos aceitação tardiamente, mas não
contratos) tiver razões para admitir que ela foi
expedida fora do tempo, deve avisar
1. Quem negoceia com outrem para imediatamente o aceitante de que o
conclusão de um contrato deve, contrato se não concluiu, sob pena
tanto nos preliminares como na de responder pelo prejuízo havido.
formação dele, proceder segundo as
regras da boa fé, sob pena de 2. O proponente pode, todavia,
responder pelos danos que considerar eficaz a resposta tardia,
culposamente causar à outra parte. desde que ela tenha sido expedida
em tempo oportuno; em qualquer
2. A responsabilidade prescreve nos outro caso, a formação do contrato
termos do artigo 498º. depende de nova proposta e nova
aceitação.
ARTIGO 228º
(Duração da proposta ARTIGO 230º
contratual) (Irrevogabilidade da proposta)

1. A proposta do contrato obriga o 1. Salvo declaração em contrário, a


proponente nos termos seguintes: proposta de contrato é irrevogável
depois de ser recebida pelo
a) Se for fixado pelo proponente ou destinatário ou de ser dele
convencionado pelas partes um conhecida.
prazo para a aceitação, a proposta
mantém-se até o prazo findar; 2. Se, porém, ao mesmo tempo que
a proposta, ou antes dela, o
b) Se não for fixado prazo, mas o destinatário receber a retractação do
proponente pedir resposta imediata, proponente ou tiver por outro meio
a proposta mantém-se até que, em conhecimento dela, fica a proposta
condições normais, esta e a sem efeito.
aceitação cheguem ao seu destino;

- 58 -
3. A revogação da proposta, quando concluído logo que a conduta da
dirigida ao público, é eficaz, desde outra parte mostre a intenção de
que seja feita na forma da oferta ou aceitar a proposta.
em forma equivalente.
Artigo 235º
ARTIGO 231º (Revogação da aceitação ou da
(Morte ou incapacidade do rejeição)
proponente
ou do destinatário) 1. Se o destinatário rejeitar a
proposta, mas depois a aceitar,
1. Não obsta à conclusão do prevalece a aceitação, desde que
contrato a morte ou incapacidade do esta chegue ao poder do
proponente, excepto se houver proponente, ou seja dele conhecida,
fundamento para presumir que outra ao mesmo tempo que a rejeição, ou
teria sido a sua vontade. antes dela.

2. A morte ou incapacidade do 2. A aceitação pode ser revogada


destinatário determina a ineficácia mediante declaração que ao mesmo
da proposta. tempo, ou antes dela, chegue ao
poder do proponente ou seja dele
ARTIGO 232º conhecida.
(Âmbito do acordo de vontades)
SUBSECÇÃO IV
O contrato não fica concluído Interpretação e integração
enquanto as partes não houverem
acordado em todas as cláusulas ARTIGO 236º
sobre as quais qualquer delas tenha (Sentido normal da declaração)
julgado necessário o acordo.
1. A declaração negocial vale com o
ARTIGO 233º sentido que um declaratário normal,
(Aceitação com modificações) colocado na posição do real
declaratário, possa deduzir do
A aceitação com aditamentos, comportamento do declarante, salvo
limitações ou outras modificações se este não puder razoavelmente
importa a rejeição da proposta; contar com ele.
mas, se a modificação for
suficientemente precisa, equivale a 2. Sempre que o declaratário
nova proposta, contanto que outro conheça a vontade real do
sentido não resulte da declaração. declarante, é de acordo com ela que
vale a declaração emitida.
Artigo 234º
(Dispensa da declaração de ARTIGO 237º
aceitação) (Casos duvidosos)

Quando a proposta, a própria Em caso de dúvida sobre o sentido


natureza ou circunstâncias do da declaração, prevalece, nos
negócio, ou os usos tornem negócios gratuitos, o menos gravoso
dispensável a declaração de para o disponente e, nos onerosos, o
aceitação, tem-se o contrato por

- 59 -
que conduzir ao maior equilíbrio das 1. Quando sob o negócio simulado
prestações. exista um outro que as partes
quiseram realizar, é aplicável a este
ARTIGO 238º o regime que lhe corresponderia se
(Negócios formais) fosse concluído sem dissimulação,
não sendo a sua validade
1. Nos negócios formais não pode a prejudicada pela nulidade do
declaração valer com um sentido negócio simulado.
que não tenha um mínimo de
correspondência no texto do 2. Se, porém, o negócio dissimulado
respectivo documento, ainda que for de natureza formal, só é válido
imperfeitamente expresso. se tiver sido observada a forma
exigida por lei.
2. Esse sentido pode, todavia, valer,
se corresponder à vontade real das ARTIGO 242º
partes e as razões determinantes da (Legitimidade para arguir a
forma do negócio se não opuserem a simulação)
essa validade.
1. Sem prejuízo do disposto no
ARTIGO 239º artigo 286º, a nulidade do negócio
(Integração) simulado pode ser arguida pelos
próprios simuladores entre si, ainda
Na falta de disposição especial, a que a simulação seja fraudulenta.
declaração negocial deve ser
integrada de harmonia com a 2. A nulidade pode também ser
vontade que as partes teriam tido se invocada pelos herdeiros legitimários
houvessem previsto o ponto omisso, que pretendam agir em vida do
ou de acordo com os ditames da boa autor da sucessão contra os
fé, quando outra seja a solução por negócios por ele simuladamente
eles imposta. feitos com o intuito de os prejudicar.

SUBSECÇÃO V ARTIGO 243º


Falta e vícios da vontade (Inoponibilidade da simulação a
terceiros de boa fé)
ARTIGO 240º
(Simulação) 1. A nulidade proveniente da
simulação não pode ser arguida pelo
1. Se, por acordo entre declarante e simulador contra terceiro de boa fé.
declaratário, e no intuito de enganar
terceiros, houver divergência entre a 2. A boa fé consiste na ignorância da
declaração negocial e a vontade real simulação ao tempo em que foram
do declarante, o negócio diz-se constituídos os respectivos direitos.
simulado.
3. Considera-se sempre de má fé o
2. O negócio simulado é nulo. terceiro que adquiriu o direito
posteriormente ao registo da acção
ARTIGO 241º de simulação, quando a este haja
(Simulação relativa) lugar.

- 60 -
ARTIGO 244º desde que o declaratário conhecesse
(Reserva mental) ou não devesse ignorar a
essencialidade, para o declarante,
1. Há reserva mental, sempre que é do elemento sobre que incidiu o
emitida uma declaração contrária à erro.
vontade real com o intuito de
enganar o declaratário. ARTIGO 248º
(Validação do negócio)
2. A reserva não prejudica a
validade da declaração, excepto se A anulabilidade fundada em erro na
for conhecida do declaratário; neste declaração não procede, se o
caso, a reserva tem os efeitos da declaratário aceitar o negócio como
simulação. o declarante o queria.

ARTIGO 245º ARTIGO 249º


(Declarações não sérias) (Erro de cálculo ou de escrita)

1. A declaração não séria, feita na O simples erro de cálculo ou de


expectativa de que a falta de escrita, revelado no próprio contexto
seriedade não seja desconhecida, da declaração ou através das
carece de qualquer efeito. circunstâncias em que a declaração
é feita, apenas dá o direito à
2. Se, porém, a declaração for feita rectificação desta.
em circunstâncias que induzam o
declaratário a aceitar ARTIGO 250º
justificadamente a sua seriedade, (Erro na transmissão da
tem ele o direito de ser indemnizado declaração)
pelo prejuízo que sofrer.
1. A declaração negocial
ARTIGO 246º inexactamente transmitida por quem
(Falta de consciência da seja incumbido da transmissão pode
declaração e coacção física) ser anulada nos termos do artigo
247º.
A declaração não produz qualquer
efeito, se o declarante não tiver a 2. Quando, porém, a inexactidão for
consciência de fazer uma declaração devida a dolo do intermediário, a
negocial ou for coagido pela força declaração é sempre anulável.
física a emiti-la; mas, se a falta de
consciência da declaração foi devida ARTIGO 251º
a culpa, fica o declarante obrigado a (Erro sobre a pessoa ou sobre o
indemnizar o declaratário. objecto do negócio)

ARTIGO 247º O erro que atinja os motivos


(Erro na declaração) determinantes da vontade, quando
se refira à pessoa do declaratário ou
Quando, em virtude de erro, a ao objecto do negócio, torna este
vontade declarada não corresponda anulável nos termos do artigo 247º.
à vontade real do autor, a
declaração negocial é anulável, ARTIGO 252º

- 61 -
(Erro sobre os motivos)
2. Quando o dolo provier de terceiro,
1. O erro que recaia nos motivos a declaração só é anulável se o
determinantes da vontade, mas se destinatário tinha ou devia ter
não refira à pessoa do declaratário conhecimento dele; mas, se alguém
nem ao objecto do negócio, só é tiver adquirido directamente algum
causa de anulação se as partes direito por virtude da declaração,
houverem reconhecido, por acordo, esta é anulável em relação ao
a essencialidade do motivo. beneficiário, se tiver sido ele o autor
do dolo ou se o conhecia ou devia
2. Se, porém, recair sobre as ter conhecido.
circunstâncias que constituem a
base do negócio, é aplicável ao erro ARTIGO 255º
do declarante o disposto sobre a (Coacção moral)
resolução ou modificação do
contrato por alteração das 1. Diz-se feita sob coacção moral a
circunstâncias vigentes no momento declaração negocial determinada
em que o negócio foi concluído. pelo receio de um mal de que o
declarante foi ilicitamente ameaçado
ARTIGO 253º com o fim de obter dele a
(Dolo) declaração.

1. Entende-se por dolo qualquer 2. A ameaça tanto pode respeitar à


sugestão ou artifício que alguém pessoa como à honra ou fazenda do
empregue com a intenção ou declarante ou de terceiro.
consciência de induzir ou manter em
erro o autor da declaração, bem 3. Não constitui coacção a ameaça
como a dissimulação, pelo do exercício normal de um direito
declaratário ou terceiro, do erro do nem o simples temor reverencial.
declarante.
ARTIGO 256º
2. Não constituem dolo ilícito as (Efeitos da coacção)
sugestões ou artifícios usuais,
considerados legítimos segundo as A declaração negocial extorquida por
concepções dominantes no comércio coacção é anulável, ainda que esta
jurídico, nem a dissimulação do provenha de terceiro; neste caso,
erro, quando nenhum dever de porém, é necessário que seja grave
elucidar o declarante resulte da lei, o mal e justificado o receio da sua
de estipulação negocial ou daquelas consumação.
concepções.
ARTIGO 257º
ARTIGO 254º (Incapacidade acidental)
(Efeitos do dolo)
1. A declaração negocial feita por
1. O declarante cuja vontade tenha quem, devido a qualquer causa, se
sido determinada por dolo pode encontrava acidentalmente
anular a declaração; a anulabilidade incapacitado de entender o sentido
não é excluída pelo facto de o dolo dela ou não tinha o livre exercício da
ser bilateral. sua vontade é anulável, desde que o

- 62 -
facto seja notório ou conhecido do razoável, faça prova dos seus
declaratário. poderes, sob pena de a declaração
não produzir efeitos.
2. O facto é notório, quando uma
pessoa de normal diligência o teria 2. Se os poderes de representação
podido notar. constarem de documento, pode o
terceiro exigir uma cópia dele
SUBSECÇÃO VI assinada pelo representante.
Representação
ARTIGO 261º
DIVISÃO I (Negócio consigo mesmo)
Princípios gerais
1. É anulável o negócio celebrado
ARTIGO 258º pelo representante consigo mesmo,
(Efeitos da representação) seja em nome próprio, seja em
representação de terceiro, a não ser
O negócio jurídico realizado pelo que o representado tenha
representante em nome do especificadamente consentido na
representado, nos limites dos celebração, ou que o negócio excluía
poderes que lhe competem, produz por sua natureza a possibilidade de
os seus efeitos na esfera jurídica um conflito de interesses.
deste último.
2. Considera-se celebrado pelo
ARTIGO 259º representante, para o efeito do
(Falta ou vícios da vontade e número precedente, o negócio
estados subjectivos relevantes) realizado por aquele em quem
tiverem sido substabelecidos os
1. À excepção dos elementos em poderes de representação.
que tenha sido decisiva a vontade
do representado, é na pessoa do DIVISÃO II
representante que deve verificar-se, Representação voluntária
para efeitos de nulidade ou
anulabilidade da declaração, a falta ARTIGO 262º
ou vício da vontade, bem como o (Procuração)
conhecimento ou ignorância dos
factos que podem influir nos efeitos 1. Diz-se procuração o acto pelo
do negócio. qual alguém atribui a outrem,
voluntariamente, poderes
2. Ao representado de má fé não representativos.
aproveita a boa fé do representante.
2. Salvo disposição legal em
ARTIGO 260º contrário, a procuração revestirá a
(Justificação dos poderes do forma exigida para o negócio que o
representante) procurador deva realizar.

1. Se uma pessoa dirigir em nome ARTIGO 263º


de outrem uma declaração a (Capacidade do procurador)
terceiro, pode este exigir que o
representante, dentro de prazo

- 63 -
O procurador não necessita de ter procurador ou de terceiro, não pode
mais do que a capacidade de ser revogada sem acordo do
entender e querer exigida pela interessado, salvo ocorrendo justa
natureza do negócio que haja de causa.
efectuar.
ARTIGO 266º
ARTIGO 264º (Protecção de terceiros)
(Substituição do procurador)
1. As modificações e a revogação da
1. O procurador só pode fazer-se procuração devem ser levadas ao
substituir por outrem se o conhecimento de terceiros por meios
representado o permitir ou se a idóneos, sob pena de lhes não
faculdade de substituição resultar do serem oponíveis senão quando se
conteúdo da procuração ou da mostre que delas tinham
relação jurídica que a determina. conhecimento no momento da
conclusão do negócio.
2. A substituição não envolve
exclusão do procurador primitivo, 2. As restantes causas extintivas da
salvo declaração em contrário. procuração não podem ser opostas a
terceiro que sem culpa, as tenha
3. Sendo autorizada a substituição, ignorado.
o procurador só é responsável para
com o representado se tiver agido ARTIGO 267º
com culpa na escolha do substituto (Restituição do documento da
ou nas instruções que lhe deu. representação)

4. O procurador pode servir-se de 1. O representante deve restituir o


auxiliares na execução da documento de onde constem os seus
procuração, se outra coisa não poderes, logo que a procuração tiver
resultar do negócio ou da natureza caducado.
do acto que haja de praticar.
2. O representante não goza do
ARTIGO 265º direito de retenção do documento.
(Extinção da procuração)
ARTIGO 268º
1. A procuração extingue-se quando (Representação sem poderes)
o procurador a ela renuncia, ou
quando cessa a relação jurídica que 1. O negócio que uma pessoa, sem
lhe serve de base, excepto se outra poderes de representação, celebre
for, neste caso, a vontade do em nome de outrem é ineficaz em
representado. relação a este, se não for por ele
ratificado.
2. A procuração é livremente
revogável pelo representado, não 2. A ratificação está sujeita à forma
obstante convenção em contrário ou exigida para a procuração e tem
renúncia ao direito de revogação. eficácia retroactiva, sem prejuízo
dos direitos de terceiro.
3. Mas, se a procuração tiver sido
conferida também no interesse do

- 64 -
3. Considera-se negada a (Pendência da condição)
ratificação, se não for feita dentro
do prazo que a outra parte fixar Aquele que contrair uma obrigação
para o efeito. ou alienar um direito sob condição
suspensiva, ou adquirir um direito
4. Enquanto o negócio não for sob condição resolutiva, deve agir,
ratificado, tem a outra parte a na pendência da condição, segundo
faculdade de o revogar ou rejeitar, os ditames da boa fé, por forma que
salvo se, no momento da conclusão, não comprometa a integridade do
conhecia a falta de poderes do direito da outra parte.
representante.
ARTIGO 273º
ARTIGO 269º (Pendência da condição: actos
(Abuso da representação) conservatórios)

O disposto no artigo anterior é Na pendência da condição


aplicável ao caso de o representante suspensiva, o adquirente do direito
ter abusado dos seus poderes, se a pode praticar actos conservatórios, e
outra parte conhecia ou devia igualmente os pode realizar, na
conhecer o abuso. pendência da condição resolutiva, o
devedor ou o alienante condicional.
SUBSECÇÃO VII
Condição e termo ARTIGO 274º
ARTIGO 270º (Pendência da condição: actos
(Noção de condição) dispositivos)

As partes podem subordinar a um 1. Os actos de disposição dos bens


acontecimento futuro e incerto a ou direitos que constituem objecto
produção dos efeitos do negócio do negócio condicional, realizados
jurídico ou a sua resolução: no na pendência da condição, ficam
primeiro caso, diz-se suspensiva a sujeitos à eficácia ou ineficácia do
condição; no segundo, resolutiva. próprio negócio, salvo estipulação
em contrário.
ARTIGO 271º
(Condições ilícitas ou 2. Se houver lugar à restituição do
impossíveis) que tiver sido alienado, é aplicável,
directamente ou por analogia, o
1. É nulo o negócio jurídico disposto nos artigos 1269º e
subordinado a uma condição seguintes em relação ao possuidor
contrária à lei ou à ordem pública, de boa fé.
ou ofensiva dos bons costumes.
ARTIGO 275º
2. É igualmente nulo o negócio (Verificação e não verificação da
sujeito a uma condição suspensiva condição)
que seja física ou legalmente
impossível; se for resolutiva, tem-se 1. A certeza de que a condição se
a condição por não escrita. não pode verificar equivale à sua
não verificação.
ARTIGO 272º

- 65 -
2. Se a verificação da condição for ARTIGO 279º
impedida, contra as regras da boa (Cômputo do termo)
fé, por aquele a quem prejudica,
tem-se por verificada; se for À fixação do termo são aplicáveis,
provocada, nos mesmos termos, por em caso de dúvida, as seguintes
aquele a quem aproveita, considera- regras:
se como não verificada.
a) Se o termo se referir ao princípio,
ARTIGO 276º meio ou fim do mês, entende-se
(Retroactividade da condição) como tal, respectivamente, o
primeiro dia, o dia 15 e o último dia
Os efeitos do preenchimento da do mês; se for fixado no princípio,
condição retrotraem-se à data da meio ou fim do ano, entende-se,
conclusão do negócio, a não ser que, respectivamente, o primeiro dia do
pela vontade das partes ou pela ano, o dia 30 de Junho e o dia 31 de
natureza do acto, hajam de ser Dezembro;
reportados a outro momento.
b) Na contagem de qualquer prazo
ARTIGO 277º não se inclui o dia, nem a hora, se o
(Não retroactividade) prazo for de horas, em que ocorrer o
evento a partir do qual o prazo
1. Sendo a condição resolutiva começa a correr;
aposta a um contrato de execução
continuada ou periódica, é aplicável c) O prazo fixado em semanas,
o disposto no nº 2 do art. 434º. meses ou anos, a contar de certa
data, termina às 24 horas do dia
2. O preenchimento da condição não que corresponda, dentro da última
prejudica a validade dos actos de semana, mês ou ano, a essa data;
administração ordinária realizados, mas, se no último mês não existir
enquanto a condição estiver dia correspondente, o prazo finda no
pendente, pela parte a quem último dia desse mês;
incumbir o exercício do direito.
d) É havido, respectivamente, como
3. À aquisição de frutos pela parte a prazo de uma ou duas semanas o
que se refere o número anterior são designado por oito ou quinze dias,
aplicáveis as disposições relativas à sendo havido como prazo de um ou
aquisição de frutos pelo possuidor dois dias o designado por 24 ou 48
de boa fé. horas;

ARTIGO 278º e) O prazo que termine em domingo


(Termo) ou dia feriado transfere-se para o
primeiro dia útil; aos domingos e
Se for estipulado que os efeitos do dias feriados são equiparadas as
negócio jurídico comecem ou férias judiciais, se o acto sujeito a
cessem a partir de certo momento, é prazo tiver de ser praticado em
aplicável à estipulação, com as juízo.
necessárias adaptações, o disposto
nos artigos 272º e 273º. SECÇÃO II

- 66 -
Objecto negocial. Negócios (Modificação dos negócios
usurários usurários)

ARTIGO 280º 1. Em lugar da anulação, o lesado


(Requisitos do objecto negocial) pode requerer a modificação do
negócio segundos juízos de
1. É nulo o negócio jurídico cujo equidade.
objecto seja física ou legamente
impossível, contrário à lei ou 2. Requerida a anulação, a parte
indeterminável. contrária tem a faculdade de opor-se
ao pedido, declarando aceitar a
2. É nulo o negócio contrário à modificação do negócio nos termos
ordem pública, ou ofensivo dos bons do número anterior.
costumes.
ARTIGO 284º
ARTIGO 281º (Usura criminosa)
(Fim contrário à lei ou à ordem
pública Quando o negócio usurário constituir
ou ofensivo dos bons costumes) crime, o prazo para o exercício do
direito de anulação ou modificação
Se apenas o fim do negócio jurídico não termina enquanto o crime não
for contrário à lei ou à ordem prescrever; e, se a responsabilidade
pública, ou ofensivo dos bons criminal se extinguir por causa
costumes, o negócio só é nulo diferente da prescrição ou no juízo
quando o fim for comum a ambas as penal for proferida sentença que
partes. transite em julgado, aquele prazo
conta-se da data da extinção da
ARTIGO 282º responsabilidade criminal ou daquela
(Negócios usurários) em que a sentença transitar em
julgado, salvo se houver de contar-
1. É anulável, por usura, o negócio se a partir de momento posterior,
jurídico, quando alguém, explorando por força do disposto no nº 1 do
a situação de necessidade, artigo 287º.
inexperiência, ligeireza,
dependência, estado mental ou SECÇÃO III
fraqueza de carácter de outrem, Nulidade e anulabilidade do
obtiver deste, para si ou para negócio jurídico
terceiro, a promessa ou a concessão
de benefícios excessivos ou ARTIGO 285º
injustificados. (Disposição geral)

2. Fica ressalvado o regime especial Na falta de regime especial, são


estabelecido nos artigos 559º-A e aplicáveis à nulidade e à
1146º. anulabilidade do negócio jurídico as
disposições dos artigos
(Redacção do Dec.-Lei 262/83, de subsequentes.
16-6)
ARTIGO 286º
ARTIGO 283º (Nulidade)

- 67 -
1. Tanto a declaração de nulidade
A nulidade é invocável a todo o como a anulação do negócio têm
tempo por qualquer interessado e efeito retroactivo, devendo ser
pode ser declarada oficiosamente restituído tudo o que tiver sido
pelo tribunal. prestado ou, se a restituição em
espécie não for possível, o valor
ARTIGO 287º correspondente.
(Anulabilidade)
2. Tendo alguma das partes alienado
1. Só têm legitimidade para arguir a gratuitamente coisa que devesse
anulabilidade as pessoas em cujo restituir, e não podendo tornar-se
interesse a lei a estabelece, e só efectiva contra o alienante a
dentro do ano subsequente à restituição do valor dela, fica o
cessação do vício que lhe serve de adquirente obrigado em lugar
fundamento. daquele, mas só na medida do seu
enriquecimento.
2. Enquanto, porém, o negócio não
estiver cumprido, pode a 3. É aplicável em qualquer dos casos
anulabilidade ser arguida, sem previstos nos números anteriores,
dependência de prazo, tanto por via directamente ou por analogia, o
de acção como por via de excepção. disposto nos artigos 1269º e
seguintes.
ARTIGO 288º
(Confirmação) ARTIGO 290º
(Momento da restituição)
1. A anulabilidade é sanável
mediante confirmação. As obrigações recíprocas de
restituição que incumbem às partes
2. A confirmação compete à pessoa por força da nulidade ou anulação do
a quem pertencer o direito de negócio devem ser cumpridas
anulação, e só é eficaz quando for simultaneamente, sendo extensivas
posterior à cessação do vício que ao caso, na parte aplicável, as
serve de fundamento à anulabilidade normas relativas à excepção de não
e o seu autor tiver conhecimento do cumprimento do contrato.
vício e do direito à anulação.
ARTIGO 291º
3. A confirmação pode ser expressa (Inoponibilidade da nulidade e
ou tácita e não depende de forma da anulação)
especial.
1. A declaração de nulidade ou a
4. A confirmação tem eficácia anulação do negócio jurídico que
retroactiva, mesmo em relação a respeite a bens imóveis, ou a bens
terceiro. móveis sujeitos a registo, não
prejudica os direitos adquiridos
ARTIGO 289º sobre os mesmos bens, a título
(Efeitos da declaração de oneroso, por terceiro de boa fé, se o
nulidade e da anulação) registo da aquisição for anterior ao
registo da acção de nulidade ou
anulação ou ao registo do acordo

- 68 -
entre as partes acerca da invalidade (Disposições reguladoras)
do negócio.
Aos actos jurídicos que não sejam
2. Os direitos de terceiro não são, negócios jurídicos são aplicáveis, na
todavia, reconhecidos, se a acção for medida em que a analogia das
proposta e registada dentro dos três situações o justifique, as disposições
anos posteriores à conclusão do do capítulo precedente.
negócio.
CAPÍTULO III
3. É considerado de boa fé o terceiro O tempo e a sua repercussão nas
adquirente que no momento da relações jurídicas
aquisição desconhecia, sem culpa, o
vício do negócio nulo ou anulável. SECÇÃO I
Disposições gerais
ARTIGO 292º
(Redução) ARTIGO 296º
(Contagem dos prazos)
A nulidade ou anulação parcial não
determina a invalidade de todo o As regras constantes do artigo 279º
negócio, salvo quando se mostre são aplicáveis, na falta de disposição
que este não teria sido concluído especial em contrário, aos prazos e
sem a parte viciada. termos fixados por lei, pelos
tribunais ou por qualquer outra
ARTIGO 293º autoridade.
(Conversão)
ARTIGO 297º
O negócio nulo ou anulado pode (Alteração de prazos)
converter-se num negócio de tipo ou
conteúdo diferente, do qual 1. A lei que estabelecer, para
contenha os requisitos essenciais de qualquer efeito, um prazo mais curto
substância e de forma, quando o fim do que o fixado na lei anterior é
prosseguido pelas partes permita também aplicável aos prazos que já
supor que elas o teriam querido, se estiverem em curso, mas o prazo só
tivessem previsto a invalidade. se conta a partir da entrada em
vigor da nova lei, a não ser que,
ARTIGO 294º segundo a lei antiga, falte menos
(Negócios celebrados contra a tempo para o prazo se completar.
lei)
2. A lei que fixar um prazo mais
Os negócios celebrados contra longo é igualmente aplicável aos
disposição legal de carácter prazos que já estejam em curso,
imperativo são nulos, salvo nos mas computar-se-á neles todo o
casos em que outra solução resulte tempo decorrido desde o seu
da lei. momento inicial.

CAPÍTULO II 3. A doutrina dos números


Actos jurídicos anteriores é extensiva, na parte
aplicável, aos prazos fixados pelos
ARTIGO 295º

- 69 -
tribunais ou por qualquer prazo passa a ser susceptível de
autoridade. suspensão e interrupção nos termos
gerais da prescrição.
ARTIGO 298º
(Prescrição, caducidade e não SECÇÃO II
uso do direito) Prescrição

1. Estão sujeitos a prescrição, pelo SUBSECÇÃO I


seu não exercício durante o lapso de Disposições gerais
tempo estabelecido na lei, os
direitos que não sejam indisponíveis ARTIGO 300º
ou que a lei não declare isentos de (Inderrogabilidade do regime da
prescrição. prescrição)

2. Quando, por força da lei ou por São nulos os negócios jurídicos


vontade das partes, um direito deva destinados a modificar os prazos
ser exercido dentro de certo prazo, legais da prescrição ou a facilitar ou
são aplicáveis as regras da dificultar por outro modo as
caducidade, a menos que a lei se condições em que a prescrição opera
refira expressamente à prescrição. os seus efeitos.

3. Os direitos de propriedade, ARTIGO 301º


usufruto, uso e habitação, enfiteuse, (A quem aproveita a prescrição)
superfície e servidão não
prescrevem, mas podem extinguir- A prescrição aproveita a todos os
se pelo não uso nos casos que dela possam tirar benefício, sem
especialmente previstos na lei, excepção dos incapazes.
sendo aplicáveis nesses casos, na
falta de disposição em contrário, as ARTIGO 302º
regras da caducidade. (Renúncia da prescrição)

ARTIGO 299º 1. A renúncia da prescrição só é


(Alteração da qualificação) admitida depois de haver decorrido
o prazo prescricional.
1. Se a lei considerar de caducidade
um prazo que a lei anterior tratava 2. A renúncia pode ser tácita e não
como prescricional, ou se, ao necessita de ser aceita pelo
contrário, considerar como prazo de beneficiário.
prescrição o que a lei antiga tratava
como caso de caducidade, a nova 3. Só tem legitimidade para
qualificação é também aplicável aos renunciar à prescrição quem puder
prazos em curso. dispor do benefício que a prescrição
tenha criado.
2. No primeiro caso, porém, se a
prescrição estiver suspensa ou tiver ARTIGO 303º
sido interrompida no domínio da lei (Invocação da prescrição)
antiga, nem a suspensão nem a
interrupção serão atingidas pela O tribunal não pode suprir, de ofício,
aplicação da nova lei; no segundo, o a prescrição; esta necessita, para

- 70 -
ser eficaz, de ser invocada, judicial
ou extrajudicialmente, por aquele a 3. Se, demandado o devedor, este
quem aproveita, pelo seu não alegar a prescrição e for
representante ou, tratando-se de condenado, o caso julgado não
incapaz, pelo Ministério Público. afecta o direito reconhecido aos seus
credores.
ARTIGO 304º
(Efeitos da prescrição) ARTIGO 306º
(Início do curso da prescrição)
1. Completada a prescrição, tem o
beneficiário a faculdade de recusar o 1. O prazo da prescrição começa a
cumprimento da prestação ou de se correr quando o direito puder ser
opor, por qualquer modo, ao exercido; se, porém, o beneficiário
exercício do direito prescrito. da prescrição só estiver obrigado a
cumprir decorrido certo tempo sobre
2. Não pode, contudo, ser repetida a a interpelação, só findo esse tempo
prestação realizada se inicia o prazo da prescrição.
espontaneamente em cumprimento
de uma obrigação prescrita, ainda 2. A prescrição de direitos sujeitos a
quando feita com ignorância da condição suspensiva ou termo inicial
prescrição; este regime é aplicável a só começa depois de a condição se
quaisquer formas de satisfação do verificar ou o termo se vencer.
direito prescrito, bem como ao seu
reconhecimento ou à prestação de 3. Se for estipulado que o devedor
garantias. cumprirá quando puder, ou o prazo
for deixado ao arbítrio do devedor, a
3. No caso de venda com reserva de prescrição só começa a correr depois
propriedade até ao pagamento do da morte dele.
preço, se prescrever o crédito do
preço, pode o vendedor, não 4. Se a dívida for ilíquida, a
obstante a prescrição, exigir a prescrição começa a correr desde
restituição da coisa quando o preço que ao credor seja lícito promover a
não seja pago. liquidação; promovida a liquidação,
a prescrição do resultado líquido
ARTIGO 305º começa a correr desde que seja feito
(Oponibilidade da prescrição por o seu apuramento por acordo ou
terceiros) sentença passada em julgado.

1. A prescrição é invocável pelos ARTIGO 307º


credores e por terceiros com (Prestações periódicas)
legítimo interesse na sua
declaração, ainda que o devedor a Tratando-se de renda perpétua ou
ela tenha renunciado. vitalícia ou de outras prestações
periódicas análogas, a prescrição do
2. Se, porém, o devedor tiver direito unitário do credor corre
renunciado, a prescrição só pode ser desde a exigibilidade da primeira
invocada pelos credores desde que prestação que não for paga.
se verifiquem os requisitos exigidos
para a impugnação pauliana. ARTIGO 308º

- 71 -
(Transmissão) (Direitos reconhecidos em
sentença ou título executivo)
1. Depois de iniciada, a prescrição
continua a correr, ainda que o 1. O direito para cuja prescrição,
direito passe para novo titular. bem que só presuntiva, a lei
estabelecer um prazo mais curto do
2. Se a dívida for assumida por que o prazo ordinário fica sujeito a
terceiro, a prescrição continua a este último, se sobrevier sentença
correr em benefício dele, a não ser passada em julgado que o
que a assunção importe reconheça, ou outro título executivo.
reconhecimento interruptivo da
prescrição. 2. Quando, porém, a sentença ou
outro título se referir a prestações
SUBSECÇÃO II ainda não devidas, a prescrição
Prazos da prescrição continua a ser, em relação a elas, a
de curto prazo.
ARTIGO 309º
(Prazo ordinário) SUBSECÇÃO III
Prescrições presuntivas
O prazo ordinário da prescrição é de
vinte anos. ARTIGO 312º
(Fundamento das prescrições
ARTIGO 310º presuntivas)
(Prescrição de cinco anos)
As prescrições de que trata a
Prescrevem no prazo de cinco anos: presente subsecção fundam-se na
presunção de cumprimento.
a) As anuidades de rendas
perpétuas ou vitalícias; ARTIGO 313º
(Confissão do devedor)
b) As rendas e alugueres devidos
pelo locatário, ainda que pagos por 1. A presunção de cumprimento pelo
uma só vez; decurso do prazo só pode ser ilidida
por confissão do devedor originário
c) Os foros; ou daquele a quem a dívida tiver
sido transmitida por sucessão.
d) Os juros convencionais ou legais,
ainda que ilíquidos, e os dividendos 2. A confissão extrajudicial só releva
das sociedades; quando for realizada por escrito.

e) As quotas de amortização do ARTIGO 314º


capital pagáveis com os juros; (Confissão tácita)

f) As pensões alimentícias vencidas; Considera-se confessada a dívida se


o devedor se recusar a depor ou a
g) Quaisquer outras prestações prestar juramento no tribunal, ou
periodicamente renováveis. praticar em juízo actos
incompatíveis com a presunção de
ARTIGO 311º cumprimento.

- 72 -
c) Os créditos pelos serviços
ARTIGO 315º prestados no exercício de profissões
(Aplicação das regras gerais) liberais e pelo reembolso das
despesas correspondentes.
As obrigações sujeitas a prescrição
presuntiva estão subordinadas, nos SUBSECÇÃO IV
termos gerais, às regras da Suspensão da prescrição
prescrição ordinária.
ARTIGO 318º
ARTIGO 316º (Causas bilaterais da suspensão)
(Prescrição de seis meses)
A prescrição não começa nem corre:
Prescrevem no prazo de seis meses
os créditos de estabelecimentos de a) Entre os cônjuges, ainda que
alojamento, comidas ou bebidas, separados judicialmente de pessoas
pelo alojamento, comidas ou e bens;
bebidas que forneçam, sem prejuízo
do disposto na alínea a) do artigo b) Entre quem exerça o poder
seguinte. paternal e as pessoas a ele sujeitas,
entre o tutor e o tutelado ou entre o
ARTIGO 317º curador e o curatelado;
(Prescrição de dois anos)
c) Entre as pessoas cujos bens
Prescrevem no prazo de dois anos: estejam sujeitos, por lei ou por
determinação judicial ou de terceiro,
a) Os créditos dos estabelecimentos à administração de outrem e
que forneçam alojamento, ou aquelas que exercem a
alojamento e alimentação, a administração, até serem aprovadas
estudantes, bem como os créditos as contas finais;
dos estabelecimentos de ensino,
educação, assistência ou d) Entre as pessoas colectivas e os
tratamento, relativamente aos respectivos administradores,
serviços prestados; relativamente à responsabilidade
destes pelo exercício dos seus
b) Os créditos dos comerciantes cargos, enquanto neles se
pelos objectos vendidos a quem não mantiverem;
seja comerciante ou os não destine
ao seu comércio, e bem assim os e) Entre quem presta o trabalho
créditos daqueles que exerçam doméstico e o respectivo patrão,
profissionalmente uma indústria, enquanto o contrato durar;
pelo fornecimento de mercadorias
ou produtos, execução de trabalhos f) Enquanto o devedor for
ou gestão de negócios alheios, usufrutuário do crédito ou tiver
incluindo as despesas que hajam direito de penhor sobre ele.
efectuado, a menos que a prestação
se destine ao exercício industrial do ARTIGO 319º
devedor; (Suspensão a favor de militares
e

- 73 -
pessoas adstritas às forças (Suspensão por motivo de força
militares) maior ou dolo do obrigado)

A prescrição não começa nem corre 1. A prescrição suspende-se durante


contra militares em serviço, durante o tempo em que o titular estiver
o tempo de guerra ou mobilização, impedido de fazer valer o seu
dentro ou fora do País, ou contra as direito, por motivo de força maior,
pessoas que estejam, por motivo de no decurso dos últimos três meses
serviço, adstritas às forças militares. do prazo.

ARTIGO 320º 2. Se o titular não tiver exercido o


(Suspensão a favor de menores, seu direito em consequência de dolo
interditos ou inabilitados) do obrigado, é aplicável o disposto
no número anterior.
1. A prescrição não começa nem
corre contra menores enquanto não ARTIGO 322º
tiverem quem os represente ou (Prescrição dos direitos da
administre seus bens, salvo se herança ou contra ela)
respeitar a actos para os quais o
menor tenha capacidade; e, ainda A prescrição de direitos da herança
que o menor tenha representante ou contra ela não se completa antes
legal ou quem administre os seus de decorridos seis meses depois de
bens, a prescrição contra ele não se haver pessoa por quem ou contra
completa sem ter decorrido um ano quem os direitos possam ser
a partir do termo da incapacidade. invocados.

2. Tratando-se de prescrições SUBSECÇÃO V


presuntivas, a prescrição não se Interrupção da prescrição
suspende, mas não se completa sem
ter decorrido um ano sobre a data ARTIGO 323º
em que o menor passou a ter (Interrupção promovida pelo
representante legal ou administrador titular)
dos seus bens ou adquiriu plena
capacidade. 1. A prescrição interrompe-se pela
citação ou notificação judicial de
3. O disposto nos números qualquer acto que exprima, directa
anteriores é aplicável aos interditos ou indirectamente, a intenção de
e inabilitados que não tenham exercer o direito, seja qual for o
capacidade para exercer o seu processo a que o acto pertence e
direito, com a diferença de que a ainda que o tribunal seja
incapacidade se considera finda, incompetente.
caso não tenha cessado antes,
passados três anos sobre o termo do 2. Se a citação ou notificação se não
prazo que seria aplicável se a fizer dentro de cinco dias depois de
suspensão se não houvesse ter sido requerida, por causa não
verificado. imputável ao requerente, tem-se a
prescrição por interrompida logo que
ARTIGO 321º decorram os cinco dias.

- 74 -
3. A anulação da citação ou disposto nos nºs 1 e 3 do artigo
notificação não impede o efeito seguinte.
interruptivo previsto nos números
anteriores. 2. A nova prescrição está sujeita ao
prazo da prescrição primitiva, salvo
4. É equiparado à citação ou o disposto no artigo 311º.
notificação, para efeitos deste
artigo, qualquer outro meio judicial ARTIGO 327º
pelo qual se dê conhecimento do (Duração da interrupção)
acto àquele contra quem o direito
pode ser exercido. 1. Se a interrupção resultar de
citação, notificação ou acto
ARTIGO 324º equiparado, ou de compromisso
(Compromisso arbitral) arbitral, o novo prazo de prescrição
não começa a correr enquanto não
1. O compromisso arbitral passar em julgado a decisão que
interrompe a prescrição puser termo ao processo.
relativamente ao direito que se
pretende tornar efectivo. 2. Quando, porém, se verifique a
desistência ou a absolvição da
2. Havendo cláusula compromissória instância, ou esta seja considerada
ou sendo o julgamento arbitral deserta, ou fique sem efeito o
determinado por lei, a prescrição compromisso arbitral, o novo prazo
considera-se interrompida quando prescricional começa a correr logo
se verifique algum dos casos após o acto interruptivo.
previstos no artigo anterior.
3. Se, por motivo processual não
ARTIGO 325º imputável ao titular do direito, o réu
(Reconhecimento) for absolvido da instância ou ficar
sem efeito o compromisso arbitral, e
1. A prescrição é ainda interrompida o prazo da prescrição tiver
pelo reconhecimento do direito, entretanto terminado ou terminar
efectuado perante o respectivo nos dois meses imediatos ao trânsito
titular por aquele contra quem o em julgado da decisão ou da
direito pode ser exercido. verificação do facto que torna
ineficaz o compromisso, não se
2. O reconhecimento tácito só é considera completada a prescrição
relevante quando resulte de factos antes de findarem estes dois meses.
que inequivocamente o exprimam.
SECÇÃO III
ARTIGO 326º Caducidade
(Efeitos da interrupção)
ARTIGO 328º
1. A interrupção inutiliza para a (Suspensão e interrupção)
prescrição todo o tempo decorrido
anteriormente, começando a correr O prazo de caducidade não se
novo prazo a partir do acto suspende nem se interrompe senão
interruptivo, sem prejuízo do nos casos em que a lei o determine.

- 75 -
e ineficácia do compromisso
arbitral)
ARTIGO 329º
(Começo do prazo) 1. Quando a caducidade se referir ao
direito de propor certa acção em
O prazo de caducidade, se a lei não juízo e esta tiver sido
fixar outra data, começa a correr no tempestivamente proposta, é
momento em que o direito puder aplicável o disposto no nº 3 do
legalmente ser exercido. artigo 327º; mas, se o prazo fixado
para a caducidade for inferior a dois
ARTIGO 330º meses, é substituido por ele o
(Estipulações válidas sobre a designado nesse preceito.
caducidade)
2. Nos casos previstos na primeira
1. São válidos os negócios pelos parte do artigo anterior, se a
quais se criem casos especiais de instância se tiver interrompido, não
caducidade, se modifique o regime se conta para efeitos de caducidade
legal desta ou se renuncie a ela, o prazo decorrido entre a proposição
contanto que não se trate de da acção e a interrupção da
matéria subtraída à disponibilidade instância.
das partes ou de fraude às regras
legais da prescrição. ARTIGO 333º
(Apreciação oficiosa da
2. São aplicáveis aos casos caducidade)
convencionais de caducidade, na
dúvida acerca da vontade dos 1. A caducidade é apreciada
contraentes, as disposições relativas oficiosamente pelo tribunal e pode
à suspensão da prescrição. ser alegada em qualquer fase do
processo, se for estabelecida em
ARTIGO 331º matéria excluída da disponibilidade
(Causas impeditivas da das partes.
caducidade)
2. Se for estabelecida em matéria
1. Só impede a caducidade a não excluída da disponibilidade das
prática, dentro do prazo legal ou partes, é aplicável à caducidade o
convencional, do acto a que a lei ou disposto no artigo 303º.
convenção atribua efeito impeditivo.
SUBTÍTULO IV
2. Quando, porém, se trate de prazo DO EXERCÍCIO E TUTELA DOS
fixado por contrato ou disposição DIREITOS
legal relativa a direito disponível,
impede também a caducidade o CAPÍTULO I
reconhecimento do direito por parte Disposições gerais
daquele contra quem deva ser
exercido. ARTIGO 334º
(Abuso do direito)
ARTIGO 332º
(Absolvição e interrupção da É ilegítimo o exercício de um direito,
instância quando o titular exceda

- 76 -
manifestamente os limites impostos 1. Considera-se justificado o acto
pela boa fé, pelos bons costumes ou destinado a afastar qualquer
pelo fim social ou económico desse agressão actual e contrária à lei
direito. contra a pessoa ou património do
agente ou de terceiro, desde que
ARTIGO 335º não seja possível fazê-lo pelos meios
(Colisão de direitos) normais e o prejuízo causado pelo
acto não seja manifestamente
1. Havendo colisão de direitos iguais superior ao que pode resultar da
ou da mesma espécie, devem os agressão.
titulares ceder na medida do
necessário para que todos produzam 2. O acto considera-se igualmente
igualmente o seu efeito, sem maior justificado, ainda que haja excesso
detrimento para qualquer das de legítima defesa, se o excesso for
partes. devido a perturbação ou medo não
culposo do agente.
2. Se os direitos forem desiguais ou
de espécie diferente, prevalece o ARTIGO 338º
que deva considerar-se superior. (Erro acerca dos pressupostos
da acção directa
ARTIGO 336º ou da legítima defesa)
(Acção directa)
Se o titular do direito agir na
1. É lícito o recurso à força com o suposição errónea de se verificarem
fim de realizar ou assegurar o os pressupostos que justificam a
próprio direito, quando a acção acção directa ou a legítima defesa, é
directa for indispensável, pela obrigado a indemnizar o prejuízo
impossibilidade de recorrer em causado, salvo se o erro for
tempo útil aos meios coercivos desculpável.
normais, para evitar a inutilização
prática desse direito, contanto que o ARTIGO 339º
agente não exceda o que for (Estado de necessidade)
necessário para evitar o prejuízo.
1. É lícita a acção daquele que
2. A acção directa pode consistir na destruir ou danificar coisa alheia
apropriação, destruição ou com o fim de remover o perigo
deterioração de uma coisa,na actual de um dano manifestamente
eliminação da resistência superior, quer do agente, quer de
irregularmente oposta ao exercício terceiro.
do direito, ou noutro acto análogo.
2. O autor da destruição ou do dano
3. A acção directa não é lícita, é, todavia, obrigado a indemnizar o
quando sacrifique interesses lesado pelo prejuízo sofrido, se o
superiores aos que o agente visa perigo for provocado por sua culpa
realizar ou assegurar. exclusiva; em qualquer outro caso, o
tribunal pode fixar uma
ARTIGO 337º indemnização equitativa e condenar
(Legítima defesa) nela não só o agente, como aqueles
que tiraram proveito do acto ou

- 77 -
contribuíram para o estado de
necessidade. ARTIGO 343º
(Ónus da prova em casos
ARTIGO 340º especiais)
(Consentimento do lesado)
1. Nas acções de simples apreciação
1. O acto lesivo dos direitos de ou declaração negativa, compete ao
outrem é lícito, desde que este réu a prova dos factos constitutivos
tenha consentido na lesão. do direito que se arroga.

2. O consentimento do lesado não 2. Nas acções que devam ser


exclui, porém, a ilicitude do acto, propostas dentro de certo prazo a
quando este for contrário a uma contar da data em que o autor teve
proibição legal ou aos bons conhecimento de determinado facto,
costumes. cabe ao réu a prova de o prazo ter
já decorrido, salvo se outra for a
3. Tem-se por consentida a lesão, solução especialmente consignada
quando esta se deu no interesse do na lei.
lesado e de acordo com a sua
vontade presumível. 3. Se o direito invocado pelo autor
estiver sujeito a condição suspensiva
CAPÍTULO II ou a termo inicial, cabe-lhe a prova
Provas de que a condição se verificou ou o
termo se venceu; se o direito estiver
SECÇÃO I sujeito a condição resolutiva ou a
Disposições gerais termo final, cabe ao réu provar a
verificação da condição ou o
ARTIGO 341º vencimento do prazo.
(Função das provas)
ARTIGO 344º
As provas têm por função a (Inversão do ónus da prova)
demonstração da realidade dos
factos. 1. As regras dos artigos anteriores
invertem-se, quando haja presunção
ARTIGO 342º legal, dispensa ou liberação do ónus
(Ónus da prova) da prova, ou convenção válida nesse
sentido, e, de um modo geral,
1. Àquele que invocar um direito sempre que a lei o determine.
cabe fazer a prova dos factos
constitutivos do direito alegado. 2. Há também inversão do ónus da
prova, quando a parte contrária
2. A prova dos factos impeditivos, tiver culposamente tornado
modificativos ou extintivos do direito impossível a prova ao onerado, sem
invocado compete àquele contra prejuízo das sanções que a lei de
quem a invocação é feita. processo mande especialmente
aplicar à desobediência ou às falsas
3. Em caso de dúvida, os factos declarações.
devem ser considerados como
constitutivos do direito. ARTIGO 345º

- 78 -
(Convenções sobre as provas) da sua existência e conteúdo; mas o
tribunal deve procurar,
1. É nula a convenção que inverta o oficiosamente, obter o respectivo
ónus da prova, quando se trate de conhecimento.
direito indisponível ou a inversão
torne excessivamente difícil a uma 2. O conhecimento oficioso incumbe
das partes o exercício do direito. também ao tribunal, sempre que
este tenha de decidir com base no
2. É nula, nas mesmas condições, a direito consuetudinário, local ou
convenção que excluir algum meio estrangeiro, e nenhuma das partes o
legal de prova ou admitir um meio tenha invocado, ou a parte contrária
de prova diverso dos legais; mas, se tenha reconhecido a sua existência e
as determinações legais quanto à conteúdo ou não haja deduzido
prova tiverem por fundamento oposição.
razões de ordem pública, a
convenção é nula em quaisquer 3. Na impossibilidade de determinar
circunstâncias. o conteúdo do direito aplicável, o
tribunal recorrerá às regras do
ARTIGO 346º direito comum português.
(Contraprova)
SECÇÃO II
Salvo o disposto no artigo seguinte, Presunções
à prova que for produzida pela parte
sobre quem recai o ónus probatório ARTIGO 349º
pode a parte contrária opor (Noção)
contraprova a respeito dos mesmos
factos, destinada a torná-los Presunções são as ilações que a lei
duvidosos; se o conseguir, é a ou o julgador tira de um facto
questão decidida contra a parte conhecido para firmar um facto
onerada com a prova. desconhecido.

ARTIGO 347º ARTIGO 350º


(Modo de contrariar a prova (Presunções legais)
legal plena)
1. Quem tem a seu favor a
A prova legal plena só pode ser presunção legal escusa de provar o
contrariada por meio de prova que facto a que ela conduz.
mostre não ser verdadeiro o facto
que dela for objecto, sem prejuízo 2. As presunções legais podem,
de outras restrições especialmente todavia, ser ilididas mediante prova
determinadas na lei. em contrário, excepto nos casos em
que a lei o proibir.
ARTIGO 348º
(Direito consuetudinário, local, ARTIGO 351º
ou estrangeiro) (Presunções judiciais)

1. Àquele que invocar direito As presunções judiciais só são


consuetudinário, local ou admitidas nos casos e termos em
estrangeiro, compete fazer a prova que é admitida a prova testemunhal.

- 79 -
ARTIGO 355º
SECÇÃO III (Modalidades)
Confissão
1. A confissão pode ser judicial ou
ARTIGO 352º extrajudicial.
(Noção)
2. Confissão judicial é a feita em
Confissão é o reconhecimento que a juízo, competente ou não, mesmo
parte faz da realidade de um facto quando arbitral, e ainda que o
que lhe é desfavorável e favorece a processo seja de jurisdição
parte contrária. voluntária.

ARTIGO 353º 3. A confissão feita num processo só


(Capacidade e legitimação) vale como judicial nesse processo; a
realizada em qualquer procedimento
1. A confissão só é eficaz quando preliminar ou incidental só vale
feita por pessoa com capacidade e como confissão judicial na acção
poder para dispor do direito a que o correspondente.
facto confessado se refira.
4. Confissão extrajudicial é a feita
2. A confissão feita pelo litisconsorte por algum modo diferente da
é eficaz, se o litisconsócio for confissão judicial.
voluntário, embora o seu efeito se
restrinja ao interesse do confitente; ARTIGO 356º
mas não o é, se o litisconsórcio for (Formas da confissão judicial)
necessário.
1. A confissão judicial espontânea
3. A confissão feita por um pode ser feita nos articulados,
substituto processual não é eficaz segundo as prescrições da lei
contra o substituído. processual, ou em qualquer outro
acto do processo, firmado pela parte
ARTIGO 354º pessoalmente ou por procurador
(Inadmissibilidade da confissão) especialmente autorizado.

A confissão não faz prova contra o 2. A confissão judicial provocada


confitente: pode ser feita em depoimento de
parte ou em prestação de
a) Se for declarada insuficiente por informações ou esclarecimentos ao
lei ou recair sobre facto cujo tribunal.
reconhecimento ou investigação a lei
proíba; ARTIGO 357º
(Declaração confessória)
b) Se recair sobre factos relativos a
direitos indisponíveis; 1. A declaração confessória deve ser
inequívoca, salvo se a lei o
c) Se o facto confessado for dispensar.
impossível ou notoriamente
inexistente. 2. Se for ordenado o depoimento de
parte ou o comparecimento desta

- 80 -
para prestação de informações ou mesmo depois do trânsito em
esclarecimento, mas ela não julgado da decisão, se ainda não
comparecer ou se recusar a depor tiver caducado o direito de pedir a
ou a prestar as informações ou sua anulação.
esclarecimentos, sem provar justo
impedimento, ou responder que não 2. O erro, desde que seja essencial,
se recorda ou nada sabe, o tribunal não tem de satisfazer aos requisitos
apreciará livremente o valor da exigidos para a anulação dos
conduta da parte para efeitos negócios jurídicos.
probatórios.
ARTIGO 360º
ARTIGO 358º (Indivisibilidade da confissão)
(Força probatória da confissão)
Se a declaração confessória, judicial
1. A confissão judicial escrita tem ou extrajudicial, for acompanhada
força probatória plena contra o da narração de outros factos ou
confitente. circunstâncias tendentes a infirmar a
eficácia do facto confessado ou a
2. A confissão extrajudicial, em modificar ou extinguir os seus
documento autêntico ou particular, efeitos, a parte que dela quiser
considera-se provada nos termos aproveitar-se como prova plena tem
aplicáveis a estes documentos e, se de aceitar também como
for feita à parte contrária ou a quem verdadeiros os outros factos ou
a represente, tem força probatória circunstâncias, salvo se provar a sua
plena. inexactidão.

3. A confissão extrajudicial não ARTIGO 361º


constante de documento não pode (Valor do reconhecimento não
ser provada por testemunhas nos confessório)
casos em que não é admitida a
prova testemunhal; quando esta O reconhecimento de factos
seja admitida, a força probatória da desfavoráveis, que não possa valer
confissão é livremente apreciada como confissão, vale como elemento
pelo tribunal. probatório que o tribunal apreciará
livremente.
4. A confissão judicial que não seja
escrita e a confissão extrajudicial SECÇÃO IV
feita a terceiro ou contida em Prova documental
testamento são apreciadas
livremente pelo tribunal. SUBSECÇÃO I
Disposições gerais
ARTIGO 359º
(Nulidade e anulabilidade da ARTIGO 362º
confissão) (Noção)

1. A confissão, judicial ou Prova documental é a que resulta de


extrajudicial, pode ser declarada documento; diz-se documento
nula ou anulada, nos termos gerais, qualquer objecto elaborado pelo
por falta ou vícios da vontade, homem com o fim de reproduzir ou

- 81 -
representar uma pessoa, coisa ou (Documentos passados em país
facto. estrangeiro)

ARTIGO 363º 1. Os documentos autênticos ou


(Modalidades dos documentos particulares passados em país
escritos) estrangeiro, na conformidade da
respectiva lei, fazem prova como o
1. Os documentos escritos podem fariam os documentos da mesma
ser autênticos ou particulares. natureza exarados em Portugal.

2. Autênticos são os documentos 2. Se o documento não estiver


exarados, com as formalidades legalizado, nos termos da lei
legais, pelas autoridades públicas processual, e houver fundadas
nos limites da sua competência ou, dúvidas acerca da sua autenticidade
dentro do círculo de actividades que ou da autenticidade do
lhe é atribuído, pelo notário ou outro reconhecimento, pode ser exigida a
oficial público provido de fé pública; sua legalização.
todos os outros documentos são
particulares. ARTIGO 366º
(Falta de requisitos legais)
3. Os documentos particulares são
havidos por autenticados, quando A força probatória do documento
confirmados pelas partes, perante escrito a que falte algum dos
notário, nos termos prescritos nas requisitos exigidos na lei é apreciada
leis notariais. livremente pelo tribunal.

ARTIGO 364º ARTIGO 367º


(Exigência legal de documento (Reforma de documentos
escrito) escritos)

1. Quando a lei exigir, como forma Podem ser reformados judicialmente


da declaração negocial, documento os documentos escritos que por
autêntico, autenticado ou particular, qualquer modo tiverem
não pode este ser subtituído por desaparecido.
outro meio de prova ou por outro
documento que não seja de força ARTIGO 368º
probatória superior. (Reproduções mecânicas)

2. Se, porém, resultar claramente As reproduções fotográficas ou


da lei que o documento é exigido cinematográficas, os registos
apenas para prova da declaração, fonográficos e, de um modo geral,
pode ser substituído por confissão quaisquer outras reproduções
expressa, judicial ou extrajudicial, mêcanicas de factos ou de coisas
contanto que, neste último caso, a fazem prova plena dos factos e das
confissão conste de documento de coisas que representam, se a parte
igual ou superior valor probatório. contra quem os documentos são
apresentados não impugnar a sua
ARTIGO 365º exactidão.

- 82 -
SUBSECÇÃO II será estabelecida por meio de
Documentos autênticos exame feito na Torre do Tombo,
desde que seja contestada ou posta
ARTIGO 369º em dúvida por alguma das partes ou
(Competência da autoridade ou pela entidade a quem o documento
oficial público) for apresentado.

1. O documento só é autêntico ARTIGO 371º


quando a autoridade ou oficial (Força probatória)
público que o exara for competente,
em razão da matéria e do lugar, e 1. Os documentos autênticos fazem
não estiver legalmente impedido de prova plena dos factos que referem
o lavrar. como praticados pelo autoridade ou
oficial público respectivo, assim
2. Considera-se, porém, exarado por como dos factos que neles são
autoridade ou oficial público atestados com base nas percepções
competente o documento lavrado da entidade documentadora; os
por quem exerça publicamente as meros juízos pessoais do
respectivas funções, a não ser que documentador só valem como
os intervenientes ou beneficiários elementos sujeitos à livre apreciação
conhecessem, no momento da sua do julgador.
feitura, a falsa qualidade da
autoridade ou oficial público, a sua 2. Se o documento contiver palavras
incompetência ou a irregularidade emendadas, truncadas ou escritas
da sua investidura. sobre rasuras ou entrelinhas, sem a
devida ressalva, determinará o
ARTIGO 370º julgador livremente a medida em
(Autenticidade) que os vícios externos do
documentos excluem ou reduzem a
1. Presume-se que o documento sua força probatória.
provém da autoridade ou oficial
público a quem é atribuído, quando ARTIGO 372º
estiver subscrito pelo autor com (Falsidade)
assinatura reconhecida por notário
ou com o selo do respectivo serviço. 1. A força probatória dos
documentos autênticos só pode ser
2. A presunção de autenticidade ilidida com base na sua falsidade.
pode ser ilidida mediante prova em
contrário, e pode ser excluída 2. O documento é falso, quando nele
oficiosamente pelo tribunal quando se atesta como tendo sido objecto
seja manifesta pelos sinais da percepção da autoridade ou
exteriores do documento a sua falta oficial público qualquer facto que na
de autenticidade; em caso de realidade se não verificou, ou como
dúvida, pode ser ouvida a tendo sido praticado pela entidade
autoridade ou oficial público a quem responsável qualquer acto que na
o documento é atribuído. realidade o não foi.

3. Quando o documento for anterior 3. Se a falsidade for evidente em


ao século XVIII, a sua autenticidade face dos sinais exteriores do

- 83 -
documento, pode o tribunal, 2. Se a parte contra quem o
oficiosamente, declará-lo falso. documento é apresentado impugnar
a veracidade da letra ou da
SUBSECÇÃO III assinatura, ou declarar que não sabe
Documentos particulares se são verdadeiras, não lhe sendo
elas imputadas, incumbe à parte
ARTIGO 373º que apresentar o documento a prova
(Assinatura) da sua veracidade.

1. Os documentos particulares ARTIGO 375º


devem ser assinados pelo seu autor, (Reconhecimento notarial)
ou por outrem a seu rogo, se o
rogante não souber ou não puder 1. Se estiverem reconhecidas
assinar. presencialmente, nos termos das
leis notariais, a letra e a assinatura
2. Nos títulos emitidos em grande do documento, ou só a assinatura,
número ou nos demais casos em têm-se por verdadeiras.
que o uso o admita, pode a
assinatura ser substituída por 2. Se a parte contra quem o
simples reprodução mecânica. documento é apresentado arguir a
falsidade do reconhecimento
3. Se o documento for subscrito por presencial da letra e da assinatura,
pessoa que não saiba ou não possa ou só da assinatura, a ela incumbe a
ler, a subscrição só obriga quando prova dessa falsidade.
feita ou confirmada perante notário,
depois de lido o documento ao 3. Salvo disposição legal em
subscritor. contrário, o reconhecimento por
semelhança vale como mero juízo
4. O rogo deve igualmente ser dado pericial.
ou confirmado perante notário,
depois de lido o documento ao ARTIGO 376º
rogante. (Força probatória)

ARTIGO 374º 1. O documento particular cuja


(Autoria da letra e da autoria seja reconhecida nos termos
assinatura) dos artigos antecedentes faz prova
plena quanto às declarações
1. A letra e a assinatura, ou só a atribuídas ao seu autor, sem
assinatura, de um documento prejuízo da arguição e prova da
particular consideram-se falsidade do documento.
verdadeiras, quando reconhecidas
ou não impugnadas, pela parte 2. Os factos compreendidos na
contra quem o documento é declaração consideram-se provados
apresentado, ou quando esta na medida em que forem contrários
declare não saber se lhe pertencem, aos interesses do declarante; mas a
apesar de lhe serem atribuídas, ou declaração é indivisível, nos termos
quando sejam havidas legal ou prescritos para a prova por
judicialmente como verdadeiras. confissão.

- 84 -
3. Se o documento contiver notas (Registos e outros escritos)
marginais, palavras entrelinhadas,
rasuras, emendas ou outros vícios 1. Os registos e outros escritos onde
externos, sem a devida ressalva, habitualmente alguém tome nota
cabe ao julgador fixar livremente a dos pagamentos que lhe são
medida em que esses vícios excluem efectuados fazem prova contra o seu
ou reduzem a força probatória do autor, se indicarem
documento. inequivocamente, posto que
mediante um simples sinal, a
ARTIGO 377º recepção de algum pagamento; mas
(Documentos autenticados) o autor do escrito pode provar, por
qualquer meio, que a nota não
Os documentos particulares corresponde à realidade.
autenticados nos termos da lei
notarial têm a força probatória dos 2. Têm igual força probatória os
documentos autênticos, mas não os mesmos escritos, quando feitos e
substituem quando a lei exija assinados por outrem, segundo
documento desta natureza para a instruções do credor.
validade do acto.
3. É aplicável nestes casos a regra
ARTIGO 378º da indivisibilidade, nos termos
(Assinatura em branco) prescritos para a prova por
confissão.
Se o documento tiver sido assinado
em branco, total ou parcialmente, o ARTIGO 381º
seu valor probatório pode ser ilidido, (Notas em seguimento, à
mostrando-se que nele se inseriram margem
declarações divergentes do ajustado ou no verso do documento)
com o signatário ou que o
documento lhe foi subtraído. 1. A nota escrita pelo credor, ou por
outrem segundo instruções dele, em
ARTIGO 379º seguimento, à margem ou no verso
(Valor dos telegramas) do documento que ficou em poder
do credor, ainda que não esteja
Os telegramas cujos originais datada nem firmada, faz prova do
tenham sido escritos e assinados ou facto anotado, se favorecer a
somente assinados, pela pessoa em exoneração do devedor.
nome de quem são expedidos, ou
por outrem a seu rogo, nos termos 2. Idêntico valor é atribuído à nota
do nº 4 do artigo 373º, são escrita pelo credor, ou segundo
considerados para todos os efeitos instruções dele, em seguimento, à
como documentos particulares e margem ou no verso de documento
estão sujeitos, como tais, ao de quitação ou de título de dívida
disposto nos artigos anteriores. em poder do devedor.

SUBSECÇÃO IV 3. A força probatória das notas pode


Disposições especiais ser contrariada por qualquer meio
de prova; mas, quando se trate de
ARTIGO 380º quitação no documento ou título em

- 85 -
poder do devedor, se a nota estiver probatória das certidões de que
assinada pelo credor, são aplicáveis forem extraídas.
as regras legais acerca dos
documentos particulares assinados ARTIGO 385º
pelo seu autor. (Invalidação da força probatória
das certidões)
ARTIGO 382º
(Cancelamento dos escritos ou 1. A força probatória das certidões
notas) pode ser invalidada ou modificada
por confronto com o original ou com
Se forem cancelados pelo credor, os a certidão de que foram extraídas.
escritos a que se referem os dois
artigos anteriores perdem a força 2. A pessoa contra quem for
probatória que neles lhes é apresentada a certidão pode exigir
atribuída, ainda que o cancelamento que o confronto seja feito na sua
não prejudique a sua leitura, salvo presença.
quando forem feitos por exigência
do devedor ou de terceiro, nos ARTIGO 386º
termos do artigo 788º. (Públicas-formas)

ARTIGO 383º 1. As cópias de teor, total ou parcial,


(Certidões) expedidas por oficial público
autorizado e extraídas de
1. As certidões de teor extraídas de documentos avulsos que lhe sejam
documentos arquivados nas apresentados para esse efeito têm a
repartições notariais ou noutras força probatória do respectivo
repartições públicas, quando original, se a parte contra a qual
expedidas pelo notário ou por outro forem apresentadas não requerer a
depositário público autorizado, têm exibição desse original.
a força probatória dos originais.
2. Requerida a exibição, a pública-
2. A prova resultante da certidão de forma não tem a força probatória do
teor parcial pode ser invalidada ou original, se este não for apresentado
modificada por meio da certidão de ou, sendo-o, se não mostrar
teor integral. conforme com ela.

3. Qualquer interessado, e bem ARTIGO 387º


assim a autoridade pública a quem (Fotocópias de documentos)
for exibida, para efeito de prova,
uma certidão parcial, podem exigir 1. As cópias fotográficas de
do apresentante a exibição da documentos arquivados nas
certidão integral correspondente. repartições notariais ou noutras
repartições públicas têm a força
ARTIGO 384º probatória das certidões de teor, se
(Certidões de certidões) a conformidade delas com o original
for atestada pela entidade
As certidões de certidões, expedidas competente para expedir estas
na conformidade da lei, têm a força últimas; é aplicável, neste caso, o
disposto no artigo 385º.

- 86 -
Prova testemunhal
2. As cópias fotográficas de
documentos estranhos aos arquivos ARTIGO 392º
mencionados no número anterior (Admissibilidade)
têm o valor da pública-forma, se a
sua conformidade com o original for A prova por testemunhas é admitida
atestada por notário; é aplicável, em todos os casos em que não seja
neste caso, o disposto no artigo directa ou indirectamente afastada.
386º.
ARTIGO 393º
SECÇÃO V (Inadmissibilidade da prova
Prova pericial testemunhal)

ARTIGO 388º 1. Se a declaração negocial, por


(Objecto) disposição da lei ou estipulação das
partes, houver de ser reduzida a
A prova pericial tem por fim a escrito ou necessitar de ser provada
percepção ou apreciação de factos por escrito, não é admitida prova
por meio de peritos, quando sejam testemunhal.
necessários conhecimentos especiais
que os julgadores não possuem, ou 2. Também não é admitida prova
quando os factos, relativos a por testemunhas, quando o facto
pessoas, não devam ser objecto de estiver plenamente provado por
inspecção judicial. documento ou por outro meio com
força probatória plena.
ARTIGO 389º
(Força probatória) 3. As regras dos números anteriores
não são aplicáveis à simples
A força probatória das respostas dos interpretação do contexto do
peritos é fixada livremente pelo documento.
tribunal.
ARTIGO 394º
SECÇÃO VI (Convenções contra o conteúdo
Prova por inspecção de documentos ou além dele)

ARTIGO 390º 1. É inadmissível a prova por


(Objecto) testemunhas, se tiver por objecto
quaisquer convenções contrárias ou
A prova por inspecção tem por fim a adicionais ao conteúdo de
percepção directa de factos pelo documento autêntico ou dos
tribunal. documentos particulares
mencionados nos artigos 373º a
ARTIGO 391º 379º, quer as convenções sejam
(Força probatória) anteriores à formação do documento
ou contemporâneas dele, quer
O resultado da inspecção é sejam posteriores.
livremente apreciado pelo tribunal.
2. A proibição do número anterior
SECÇÃO VII aplica-se ao acordo simulatório e ao

- 87 -
negócio dissimulado, quando compensação e, de um modo geral,
invocados pelos simuladores. aos contratos extintivos da relação
obrigacional, mas não aos factos
3. O disposto nos números extintivos da obrigação, quando
anteriores não é aplicável a invocados por terceiro.
terceiros.
ARTIGO 396º
ARTIGO 395º (Força probatória)
(Factos extintivos da obrigação)
A força probatória dos depoimentos
As disposições dos artigos das testemunhas é apreciada
precedentes são aplicáveis ao livremente pelo tribunal.
cumprimento, remissão, novação,

LIVRO II
DIREITO DAS OBRIGAÇÕES

TÍTULO I (Prestação de coisa futura)


DAS OBRIGAÇÕES EM GERAL
É admitida a prestação de coisa futura
CAPÍTULO I sempre que a lei não a proíba.
Disposições gerais
ARTIGO 400º
SECÇÃO I (Determinação da prestação)
Conteúdo da obrigação
1. A determinação da prestação pode
ARTIGO 397º ser confiada a uma ou outra das partes
(Noção) ou a terceiro; em qualquer dos casos
deve ser feita segundo juízos de
Obrigação é o vínculo jurídico por equidade, se outros critérios não
virtude do qual uma pessoa fica tiverem sido estipulados.
adstrita para com outra à realização de
uma prestação. 2. Se a determinação não puder ser
feita ou não tiver sido feita no tempo
ARTIGO 398º devido, sê-lo-á pelo tribunal, sem
(Conteúdo da prestação) prejuízo do disposto acerca das
obrigações genéricas e alternativas.
1. As partes podem fixar livremente,
dentro dos limites da lei, o conteúdo ARTIGO 401º
positivo ou negativo da prestação. (Impossibilidade originária da
prestação)
2. A prestação não necessita de ter
valor pecuniário; mas deve 1. A impossibilidade originária da
corresponder a um interesse do prestação produz a nulidade do
credor, digno de protecção legal. negócio jurídico.

ARTIGO 399º

- 88 -
2. O negócio é, porém, válido, se a Fontes das obrigações
obrigação for assumida para o caso de
a prestação se tornar possível, ou se, SECÇÃO I
estando o negócio dependente de Contratos
condição suspensiva ou de termo
inicial, a prestação se tornar possível SUBSECÇÃO I
até à verificação da condição ou até ao Dispsosições gerais
vencimento do termo.
ARTIGO 405º
3. Só se considera impossível a (Liberdade contratual)
prestação que o seja relativamente ao
objecto, e não apenas em relação à 1. Dentro dos limites da lei, as partes
pessoa do devedor. têm a faculdade de fixar livremente o
conteúdo dos contratos, celebrar
SECÇÃO II contratos diferentes dos previstos
Obrigações naturais neste código ou incluir nestes as
claúsulas que lhes aprouver.
ARTIGO 402º
(Noção) 2. As partes podem ainda reunir no
mesmo contrato regras de dois ou
A obrigação diz-se natural, quando se mais negócios, total ou parcialmente
funda num mero dever de ordem regulados na lei.
moral ou social, cujo cumprimento não
é judicialmente exigível, mas ARTIGO 406º
corresponde a um dever de justiça. (Eficácia dos contratos)

ARTIGO 403º 1. O contrato deve ser pontualmente


(Não repetição do indevido) cumprido, e só pode modificar-se ou
extinguir-se por mútuo consentimento
1. Não pode ser repetido o que for dos contraentes ou nos casos
prestado espontaneamente em admitidos na lei.
cumprimento de obrigação natural,
excepto se o devedor não tiver 2. Em relação a terceiros, o contrato
capacidade para efectuar a prestação. só produz efeitos nos casos e termos
especialmente previstos na lei.
2. A prestação considera-se
espontânea, quando é livre de toda a ARTIGO 407º
coacção. (Incompatibilidade entre direitos
pessoais de gozo)
ARTIGO 404º
(Regime) Quando, por contratos sucessivos, se
constituírem, a favor de pessoas
As obrigações naturais estão sujeitas diferentes, mas sobre a mesma coisa,
ao regime das obrigações civis em direitos pessoais de gozo incompatíveis
tudo o que não se relacione com a entre si, prevalece o direito mais
realização coactiva da prestação, antigo em data, sem prejuízo das
salvas as disposições especiais da lei. regras próprias do registo.

CAPÍTULO II ARTIGO 408º

- 89 -
(Contratos com eficácia real)
2. Porém, a promessa respeitante à
1. A constituição ou transferência de celebração de contrato para o qual a
direitos reais sobre coisa determinada lei exija documento, quer autêntico,
dá-se por mero efeito do contrato, quer particular, só vale se constar de
salvas as excepções previstas na lei. documento assinado pela parte que se
vincula ou por ambas, consoante o
2. Se a transferência respeitar a coisa contrato-promessa seja unilateral ou
futura ou indeterminada, o direito bilateral.
transfere-se quando a coisa for
adquirida pelo alienante ou 3. No caso de promessa relativa à
determinada com conhecimento de celebração de contrato oneroso de
ambas as partes, sem prejuízo do transmissão ou constituição de direito
disposto em matéria de obrigações real sobre edifício, ou fracção
genéricas e do contrato de autónoma dele, já construído, em
empreitada; se, porém, respeitar a construção ou a construir, o
frutos naturais ou a partes documento referido no número
componentes ou integrantes, a anterior deve conter o reconhecimento
transferência só se verifica no presencial da assinatura do promitente
momento da colheita ou separação. ou promitentes e a certificação, pelo
notário, da existência da licença
ARTIGO 409º respectiva de utilização ou de
(Reserva da propriedade) construção; contudo, o contraente que
promete transmitir ou constituir o
1. Nos contratos de alienação é lícito direito só pode invocar a omissão
ao alienante reservar para si a destes requisitos quando a mesma
propriedade da coisa até ao tenha sido culposamente causada pela
cumprimento total ou parcial das outra parte.
obrigações da outra parte ou até à
verificação de qualquer outro evento. (Redacção do Dec.-Lei 379/86, de 11-
2. Tratando-se de coisa imóvel, ou de 11)
coisa móvel sujeita a registo, só a
cláusula constante do registo é ARTIGO 411º
oponível a terceiros. (Promessa unilateral)

SUBSECÇÃO II Se o contrato-promessa vincular


Contrato-promessa apenas uma das partes e não se fixar
o prazo dentro do qual o vínculo é
ARTIGO 410º eficaz, pode o tribunal, a requerimento
(Regime aplicável) do promitente, fixar à outra parte um
prazo para o exercício do direito, findo
1. À convenção pela qual alguém se o qual este caducará.
obriga a celebrar certo contrato são
aplicáveis as disposições legais ARTIGO 412º
relativas ao contrato prometido, (Transmissão dos direitos e
exceptuadas as relativas à forma e as obrigações das partes)
que, por sua razão de ser, não se
devam considerar extensivas ao 1. Os direitos e obrigações resultantes
contrato-promessa. do contrato-promessa que não sejam

- 90 -
exclusivamente pessoais transmitem-
se aos sucessores das partes. ARTIGO 416º
(Conhecimento do preferente)
2. A transmissão por acto entre vivos
está sujeita às regras gerais. 1. Querendo vender a coisa que é
objecto do pacto, o obrigado deve
(Redacção do Dec.-Lei 379/86, de 11- comunicar ao titular do direito o
11) projecto de venda e as cláusulas do
respectivo contrato.
ARTIGO 413º
(Eficácia real da promessa) 2. Recebida a comunicação, deve o
titular exercer o seu direito dentro do
1. À promessa de transmissão ou prazo de oito dias, sob pena de
constituição de direitos reais sobre caducidade, salvo se estiver vinculado
bens imóveis, ou móveis sujeitos a a prazo mais curto ou o obrigado lhe
registo, podem as partes atribuir assinar prazo mais longo.
eficácia real, mediante declaração
expressa e inscrição no registo. ARTIGO 417º
(Venda da coisa juntamente com
2. Deve constar de escritura pública a outras)
promessa a que as partes atribuam
eficácia real; porém, quando a lei não 1. Se o obrigado quiser vender a coisa
exija essa forma para o contrato juntamente com outra ou outras, por
prometido, é bastante documento um preço global, pode o direito ser
particular com reconhecimento da exercido em relação àquela pelo preço
assinatura da parte que se vincula ou que proporcionalmente lhe for
de ambas, consoante se trate de atribuído, sendo lícito, porém, ao
contrato-promessa unilateral ou obrigado exigir que a preferência
bilateral. abranja todas as restantes, se estas
não forem separáveis sem prejuízo
(Redacção do Dec.-Lei 379/86, de 11- apreciável.
11)
2. O disposto no número anterior é
SUBSECÇÃO III aplicável ao caso de o direito de
Pactos de preferência preferência ter eficácia real e a coisa
ter sido vendida a terceiro juntamente
ARTIGO 414º com outra ou outras.
(Noção)
ARTIGO 418º
O pacto de preferência consiste na (Prestação acessória)
convenção pela qual alguém assume a
obrigação de dar preferência a outrem 1. Se o obrigado receber de terceiro a
na venda de determinada coisa. promessa de uma prestação acessória
que o titular do direito de preferência
ARTIGO 415º não possa satisfazer, será essa
(Forma) prestação compensada em dinheiro;
não sendo avaliável em dinheiro, é
É aplicável ao pacto de preferência o excluída a preferência, salvo se for
disposto no nº 2 do artigo 410º. lícito presumir que, mesmo sem a

- 91 -
prestação estipulada, a venda não
deixaria de ser efectuada, ou que a 2. É aplicável neste caso, com as
prestação foi convencionada para necessárias adaptações, o disposto no
afastar a preferência. artigo 1410º.

2. Se a prestação acessória tiver sido (Redacção do Dec.-Lei 379/86, de 11-


convencionada para afastar a 11)
preferência, o preferente não é
obrigado a satisfazê-la, mesmo que ela ARTIGO 422º
seja avaliável em dinheiro. (Valor relativo do direito de
preferência)
ARTIGO 419º
(Pluralidade de titulares) O direito convencional de preferência
não prevalece contra os direitos legais
1. Pertencendo simultaneamente a de preferência; e, se não gozar de
vários titulares, o direito de eficácia real, também não procede
preferência só pode ser exercido por relativamente à alienação efectuada
todos em conjunto; mas, se o direito em execução, falência, insolvência ou
se extinguir em relação a algum deles, casos análogos.
ou algum declarar que não o quer
exercer, acresce o seu direito aos ARTIGO 423º
restantes. (Extensão das disposições
anteriores a outros contratos)
2. Se o direito pertencer a mais de um
titular, mas houver de ser exercido As disposições dos artigos anteriores
apenas por um deles, na falta de relativas à compra e venda são
designação abrir-se-á licitação entre extensivas, na parte aplicável, à
todos, revertendo o excesso para o obrigação de preferência que tiver por
alienante. objecto outros contratos com ela
compatíveis.
ARTIGO 420º
(Transmissão do direito e da SUBSECÇÃO IV
obrigação de preferência) Cessão da posição contratual

O direito e a obrigação de preferência


não são transmissíveis em vida nem ARTIGO 424º
por morte, salvo estipulação em (Noção. Requisitos)
contrário.
1. No contrato com prestações
ARTIGO 421º recíprocas, qualquer das partes tem a
(Eficácia real) faculdade de transmitir a terceiro a sua
posição contratual, desde que o outro
1. O direito de preferência pode, por contraente, antes ou depois da
convenção das partes, gozar de celebração do contrato, consinta na
eficácia real se, respeitando a bens transmissão.
imóveis, ou a móveis sujeitos a
registo, forem observados os requisitos 2. Se o consentimento do outro
de forma e de publicidade exigidos no contraente for anterior à cessão, esta
artigo 413º.

- 92 -
só produz efeitos a partir da sua cumprimento das prestações, cada um
notificação ou reconhecimento. dos contraentes tem a faculdade de
recusar a sua prestação enquanto o
ARTIGO 425º outro não efectuar a que lhe cabe ou
(Regime) não oferecer o seu cumprimento
simultâneo.
A forma da transmissão, a capacidade
de dispor e de receber, a falta e vícios 2. A excepção não pode ser afastada
da vontade e as relações entre as mediante a prestação de garantias.
partes definem-se em função do tipo
de negócio que serve de base à ARTIGO 429º
cessão. (Insolvência ou diminuição de
garantias)
ARTIGO 426º
(Garantia da existência da posição Ainda que esteja obrigado a cumprir
contratual) em primeiro lugar, tem o contraente a
faculdade de recusar a respectiva
1. O cedente garante ao cessionário, prestação enquanto o outro não
no momento da cessão, a existência cumprir ou não der garantias de
da posição contratual transmitida, nos cumprimento, se, posteriormente ao
termos aplicáveis ao negócio, gratuito contrato, se verificar alguma das
ou oneroso, em que a cessão se circunstâncias que importam a perda
integra. do benefício do prazo.

2. A garantia do cumprimento das ARTIGO 430º


obrigações só existe se for (Prescrição)
convencionada nos termos gerais.
Prescrito um dos direitos, o respectivo
ARTIGO 427º titular continua a gozar da excepção de
(Relações entre o outro contraente não cumprimento, excepto quando se
e o cessionário) trate de prescrição presuntiva.

A outra parte no contrato tem o direito ARTIGO 431º


de opor ao cessionário os meios de (Eficácia em relação a terceiros)
defesa provenientes desse contrato,
mas não os que provenham de outras A excepção de não cumprimento é
relações com o cedente, a não ser que oponível aos que no contrato vierem a
os tenha reservado ao consentir na substituir qualquer dos contraentes
cessão. nos seus direitos e obrigações.

SUBSECÇÃO V SUBSECÇÃO VI
Excepção de não cumprimento do Resolução do contrato
contrato
ARTIGO 432º
ARTIGO 428º (Casos em que é admitida)
(Noção)
1. É admitida a resolução do contrato
1. Se nos contratos bilaterais não fundada na lei ou em convenção.
houver prazos diferentes para o

- 93 -
2. A parte, porém, que, por
circunstâncias não imputáveis ao outro 1. A resolução do contrato pode fazer-
contraente, não estiver em condições se mediante declaração à outra parte.
de restituir o que houver recebido não
tem o direito de resolver o contrato. 2. Não havendo prazo convencionado
para a resolução do contrato, pode a
ARTIGO 433º outra parte fixar ao titular do direito de
(Efeitos entre as partes) resolução um prazo razoável para que
o exerça, sob pena de caducidade.
Na falta de disposição especial, a
resolução é equiparada, quanto aos SUBSECÇÃO VII
seus efeitos, à nulidade ou Resolução ou modificação do
anulabilidade do negócio jurídico, com contrato
ressalva do disposto nos artigos por alteração das circunstâncias
seguintes.
ARTIGO 437º
ARTIGO 434º (Condições de admissibilidade)
(Retroactividade) 1. Se as circunstâncias em que as
partes fundaram a decisão de
1. A resolução tem efeito retroactivo, contratar tiverem sofrido uma
salvo se a retroactividade contrariar a alteração anormal, tem a parte lesada
vontade das partes ou a finalidade da direito à resolução do contrato, ou à
resolução. modificação dele segundo juízos de
equidade, desde que a exigência das
2. Nos contratos de execução obrigações por ela assumidas afecte
continuada ou periódica, a resolução gravemente os princípios da boa fé e
não abrange as prestações já não esteja coberta pelos riscos
efectuadas, excepto se entre estas e a próprios do contrato.
causa de resolução existir um vínculo
que legitime a resolução de todas elas. 2. Requerida a resolução, a parte
contrária pode opor-se ao pedido,
ARTIGO 435º declarando aceitar a modificação do
(Efeitos em relação a terceiros) contrato nos termos do número
anterior.
1. A resolução, ainda que
expressamente convencionada, não ARTIGO 438º
prejudica os direitos adquiridos por (Mora da parte lesada)
terceiro.
A parte lesada não goza do direito de
2. Porém, o registo da acção de resolução ou modificação do contrato,
resolução que respeite a bens imóveis, se estava em mora no momento em
ou a móveis sujeitos a registo, torna o que a alteração das circunstâncias se
direito de resolução oponível a terceiro verificou.
que não tenha registado o seu direito
antes do registo da acção. ARTIGO 439º
(Regime)
ARTIGO 436º
(Como e quando se efectiva a
resolução)

- 94 -
Resolvido o contrato, são aplicáveis à prometido, o seu valor, ou o do direito
resolução as disposições da subsecção a transmitir ou a constituir sobre ela,
anterior. determinado objectivamente, à data
do não cumprimento da promessa,
SUBSECÇÃO VIII com dedução do preço convencionado,
Antecipação do cumprimento. Sinal devendo ainda ser-lhe restituído o
sinal e a parte do preço que tenha
ARTIGO 440º pago.
(Antecipação do cumprimento)
3. Em qualquer dos casos previstos no
Se, ao celebrar-se o contrato ou em número anterior, o contraente não
momento posterior, um dos faltoso pode, em alternativa, requerer
contraentes entregar ao outro coisa a execução específica do contrato, nos
que coincida, no todo ou em parte, termos do artigo 830º; se o contraente
com a prestação a que fica adstrito, é não faltoso optar pelo aumento do
a entrega havida como antecipação valor da coisa ou do direito, como se
total ou parcial do cumprimento, salvo estabelece no número anterior, pode a
se as partes quiserem atribuir à coisa outra parte opor-se ao exercício dessa
entregue o carácter de sinal. faculdade, oferecendo-se para cumprir
a promessa, salvo o disposto no artigo
ARTIGO 441º 808º.
(Contrato-promessa de compra e
venda) 4. Na ausência de estipulação em
contrário, não há lugar, pelo não
No contrato-promessa de compra e cumprimento do contrato, a qualquer
venda presume-se que tem carácter de outra indemnização, nos casos de
sinal toda a quantia entregue pelo perda do sinal ou de pagamento do
promitente-comprador ao promitente- dobro deste, ou do aumento do valor
vendedor, ainda que a título de da coisa ou do direito à data do não
antecipação ou princípio de pagamento cumprimento.
do preço.
(Redacção do Dec.-Lei nº 379/86, de
ARTIGO 442º 11-11)
(Sinal)
SUBSECÇÃO IX
1. Quando haja sinal, a coisa entregue Contrato a favor de terceiro
deve ser imputada na prestação
devida, ou restituída quando a ARTIGO 443º
imputação não for possível. (Noção)

2. Se quem constitui o sinal deixar de 1. Por meio de contrato, pode uma das
cumprir a obrigação por causa que lhe partes assumir perante outra, que
seja imputável, tem o outro contraente tenha na promessa um interesse digno
a faculdade de fazer sua a coisa de protecção legal, a obrigação de
entregue; se o não cumprimento do efectuar uma prestação a favor de
contrato for devido a este último, tem terceiro, estranho ao negócio; diz-se
aquele a faculdade de exigir o dobro promitente a parte que assume a
do que prestou, ou, se houve tradição obrigação e promissário o contraente a
da coisa a que se refere o contrato quem a promessa é feita.

- 95 -
2. Por contrato a favor de terceiro, têm 2. Quando a prestação se torne
as partes ainda a possibilidade de impossível por causa imputável ao
remitir dívidas ou ceder créditos, e promitente, têm os herdeiros do
bem assim de constituir, modificar, promissário, bem como as entidades
transmitir ou extinguir direitos reais. competentes para reclamar o
cumprimento da prestação, o direito
ARTIGO 444º de exigir a correspondente
(Direitos do terceiro e do indemnização, para os fins
promissário) convencionados.

1. O terceiro a favor de quem for ARTIGO 447º


convencionada a promessa adquire (Rejeição ou adesão do terceiro
direito à prestação, beneficiário)
independentemente de aceitação.
1. O terceiro pode rejeitar a promessa
2. O promissário tem igualmente o ou aderir a ela.
direito de exigir do promitente o
cumprimento da promessa, a não ser 2. A rejeição faz-se mediante
que outra tenha sido a vontade dos declaração ao promitente, o qual deve
contraentes. comunicá-la ao promissário; se
culposamente deixar de o fazer, é
3. Quando se trate da promessa de responsável em face deste.
exonerar o promissário de uma dívida
para com terceiro, só àquele é lícito 3. A adesão faz-se mediante
exigir o cumprimento da promessa. declaração, tanto ao promitente como
ao promissário.
ARTIGO 445º
(Prestações em benefício de ARTIGO 448º
pessoa indeterminada) (Revogação pelos contraentes)

Se a prestação for estipulada em 1. Salvo estipulação em contrário, a


benefício de um conjunto promessa é revogável enquanto o
indeterminado de pessoas ou no terceiro não manifestar a sua adesão,
interesse público, o direito de a ou enquanto o promissário for vivo,
reclamar pertence não só ao quando se trate de promessa que haja
promissário ou seus herdeiros, como de ser cumprida depois da morte
às entidades competentes para deste.
defender os interesses em causa.
2. O direito de revogação pertence ao
ARTIGO 446º promissário; se, porém, a promessa foi
(Direitos dos herdeiros do feita no interesse de ambos os
promissário) outorgantes, a revogação depende do
consentimento do promitente.
1. Nem os herdeiros do promissário,
nem as entidades a que o artigo ARTIGO 449º
anterior se refere, podem dispor do (Meios de defesa oponíveis pelo
direito à prestação ou autorizar promitente)
qualquer modificação do seu objecto.

- 96 -
São oponíveis ao terceiro, por parte do direitos e assuma as obrigações
promitente, todos os meios de defesa provenientes desse contrato.
derivados do contrato, mas não
aqueles que advenham de outra 2. A reserva de nomeação não é
relação entre promitente e possível nos casos em que não é
promissário. admitida a representação ou é
indispensável a determinação dos
ARTIGO 450º contraentes.
(Relações entre o promissário e
pessoas estranhas ao benefício) ARTIGO 453º
(Nomeação)
1. Só no que respeita à contribuição do
promissário para a prestação a terceiro 1. A nomeação deve ser feita mediante
são aplicáveis as disposições relativas declaração por escrito ao outro
à colação, imputação e redução das contraente, dentro do prazo
doações e à impugnação pauliana. convencionado ou, na falta de
convenção, dentro dos cinco dias
2. Se a designação de terceiro for feita posteriores à celebração do contrato.
a título de liberalidade, são aplicáveis,
com as necessárias adaptações, as 2. A declaração de nomeação deve ser
normas relativas à revogação das acompanhada, sob pena de ineficácia,
doações por ingratidão do donatário. do instrumento de ratificação do
contrato ou de procuração anterior à
(Redacção do Dec.-Lei 496/77, de 25- celebração deste.
11)
ARTIGO 454º
ARTIGO 451º (Forma da ratificação)
(Promessa a cumprir depois da
morte do promissário) 1. A ratificação deve constar de
documento escrito.
1. Se a prestação a terceiro houver de
ser efectuada após a morte do 2. Se, porém, o contrato tiver sido
promissário, presume-se que só depois celebrado por meio de documento de
do falecimento deste o terceiro adquire maior força probatória, necessita a
direito a ela. ratificação de revestir igual forma.

2. Se, porém, o terceiro morrer antes ARTIGO 455º


do promissário, os seus herdeiros são (Efeitos)
chamados em lugar dele à titularidade
da promessa. 1. Sendo a declaração de nomeação
feita nos termos do art. 453º, a pessoa
SUBSECÇÃO X nomeada adquire os direitos e assume
Contrato para pessoa a nomear as obrigações provenientes do contrato
ARTIGO 452º a partir da celebração dele.
(Noção)
2. Não sendo feita a declaração de
1. Ao celebrar o contrato, pode uma nomeação nos termos legais, o
das partes reservar o direito de contrato produz os seus efeitos
nomear um terceiro que adquira os relativamente ao contraente originário,

- 97 -
desde que não haja estipulação em (Promessa pública)
contrário.
1. Aquele que, mediante anúncio
público, prometer uma prestação a
quem se encontre em determinada
ARTIGO 456º situação ou pratique certo facto,
(Publicidade) positivo ou negativo, fica vinculado
desde logo à promessa.
1. Se o contrato estiver sujeito a
registo, pode este ser feito em nome 2. Na falta de declaração em contrário,
do contraente originário, com o promitente fica obrigado mesmo em
indicação da cláusula para pessoa a relação àqueles que se encontrem na
nomear, fazendo-se posteriormente os situação prevista ou tenham praticado
necessários averbamentos. o facto sem atender à promessa ou na
ignorância dela.
2. O disposto no número anterior é
extensivo a qualquer outra forma de ARTIGO 460º
publicidade a que o contrato esteja (Prazo de validade)
sujeito.
A promessa pública sem prazo de
SECÇÃO II validade fixado pelo promitente ou
Negócios unilaterais imposto pela natureza ou fim da
promessa mantém-se enquanto não
ARTIGO 457º for revogada.
(Princípio geral)
ARTIGO 461º
A promessa unilateral de uma (Revogação)
prestação só obriga nos casos
previstos na lei. 1. Não tendo prazo de validade, a
promessa pública é revogável a todo o
ARTIGO 458º tempo pelo promitente; se houver
(Promessa de cumprimento e prazo, só é revogável ocorrendo justa
reconhecimento de dívida) causa.

1. Se alguém, por simples declaração 2. Em qualquer dos casos, a revogação


unilateral, prometer uma prestação ou não é eficaz, se não for feita na forma
reconhecer uma dívida, sem indicação da promessa ou em forma equivalente,
da respectiva causa, fica o credor ou se a situação prevista já se tiver
dispensado de provar a relação verificado ou o facto já tiver sido
fundamental, cuja existência se praticado.
presume até prova em contrário.
ARTIGO 462º
2. A promessa ou reconhecimento (Cooperação de várias pessoas)
deve, porém, constar de documento
escrito, se outras formalidades não Se na produção do resultado previsto
forem exigidas para a prova da relação tiverem cooperado várias pessoas,
fundamental. conjunta ou separadamente, e todas
tiverem direito à prestação, esta será
ARTIGO 459º dividida equitativamente, atendendo-

- 98 -
se à parte que cada uma delas teve d) Prestar a este todas as informações
nesse resultado. relativas à gestão;

ARTIGO 463º e) Entregar-lhe tudo o que tenha


(Concursos públicos) recebido de terceiros no exercício da
gestão ou o saldo das respectivas
1. A oferta da prestação como prémio contas, com os juros legais,
de um concurso só é válida quando se relativamente às quantias em dinheiro,
fixar no anúncio público o prazo para a a partir do momento em que a entrega
apresentação dos concorrentes. haja de ser efectuada.

2. A decisão sobre a admissão dos ARTIGO 466º


concorrentes ou a concessão do (Responsabilidade do gestor)
prémio a qualquer deles pertence
exclusivamente às pessoas designadas 1. O gestor responde perante o dono
no anúncio ou, se não houver do negócio, tanto pelos danos a que
designação, ao promitente. der causa, por culpa sua, no exercício
da gestão, como por aqueles que
SECÇÃO III causar com a injustificada interrupção
Gestão de negócios dela.

ARTIGO 464º 2. Considera-se culposa a actuação do


(Noção) gestor, quando ele agir em
desconformidade com o interesse ou a
Dá-se a gestão de negócios, quando vontade, real ou presumível, do dono
uma pessoa assume a direcção de do negócio.
negócio alheio no interesse e por conta
do respectivo dono, sem para tal estar ARTIGO 467º
autorizada. (Solidariedade dos gestores)

ARTIGO 465º Havendo dois ou mais gestores que


(Deveres do gestor) tenham agido conjuntamente, são
solidárias as obrigações deles para
O gestor deve: com o dono do negócio.

a) Conformar-se com o interesse e a ARTIGO 468º


vontade, real ou presumível, do dono (Obrigações do dono do negócio)
do negócio, sempre que esta não seja
contrária à lei ou à ordem pública, ou 1. Se a gestão tiver sido exercida em
ofensiva dos bons costumes; conformidade com o interesse e a
vontade, real ou presumível, do dono
b) Avisar o dono do negócio, logo que do negócio, é este obrigado a
seja possível, de que assumiu a reembolsar o gestor das despesas que
gestão; ele fundadamente tenha considerado
indispensáveis, com juros legais a
c) Prestar contas, findo o negócio ou contar do momento em que foram
interrompida a gestão, ou quando o feitas, e a indemnizá-lo do prejuízo
dono as exigir; que haja sofrido.

- 99 -
2. Se a gestão não foi exercida nos 1. Se alguém gerir negócio alheio,
termos do número anterior, o dono do convencido de que ele lhe pertence, só
negócio responde apenas segundo as é aplicável o disposto nesta secção se
regras do enriquecimento sem causa, houver aprovação da gestão; em
com ressalva do disposto no artigo quaisquer outras circunstâncias, são
seguinte. aplicáveis à gestão as regras do
enriquecimento sem causa, sem
ARTIGO 469º prejuízo de outras que ao caso
(Aprovação da gestão) couberem.

A aprovação da gestão implica a 2. Se houver culpa do gestor na


renúncia ao direito de indemnização violação do direito alheio, são
pelos danos devidos a culpa do gestor aplicáveis ao caso as regras da
e vale como reconhecimento dos responsabilidade civil.
direitos que a este são conferidos no
nº 1 do artigo anterior. SECÇÃO IV
Enriquecimento sem causa
ARTIGO 470º
(Remuneração do gestor) ARTIGO 473º
(Princípio geral)
1. A gestão não dá direito a qualquer
remuneração, salvo se corresponder 1. Aquele que, sem causa justificativa,
ao exercício da actividade profissional enriquecer à custa de outrem é
do gestor. obrigado a restiuir aquilo com que
injustamente se locupletou.
2. À fixação da remuneração é
aplicável, neste caso, o disposto no nº 2. A obrigação de restituir, por
2 do artigo 1158º. enriquecimento sem causa, tem de
modo especial por objecto o que for
ARTIGO 471º indevidamente recebido, ou o que for
(Representação sem poderes e recebido por virtude de uma causa que
mandato sem representação) deixou de existir ou em vista de um
efeito que não se verificou.
Sem prejuízo do que preceituam os
artigos anteriores quando às relações ARTIGO 474º
entre o gestor e o dono do negócio, é (Natureza subsidiária da
aplicável aos negócios jurídicos obrigação)
celebrados por aquele em nome deste
o disposto no artigo 268º; se o gestor Não há lugar à restituição por
os realizar em seu próprio nome, são enriquecimento, quando a lei facultar
extensivas a esses negócios, na parte ao empobrecido outro meio de ser
aplicável, as disposições relativas ao indemnizado ou restituído, negar o
mandato sem representação. direito à restituição ou atribuir outros
efeitos ao enriquecimento.
ARTIGO 472º
(Gestão de negócio alheio julgado ARTIGO 475º
próprio) (Falta do resultado previsto)

- 100 -
Também não há lugar à restituição se, convicção de estar obrigado a
ao efectuar a prestação, o autor sabia cumpri-la)
que o efeito com ela previsto era
impossível, ou se, agindo contra a boa Aquele que cumprir obrigação alheia,
fé, impediu a sua verificação. na convicção errónea de estar obrigado
para com o devedor a cumpri-la, não
ARTIGO 476º tem o direito de repetição contra o
(Repetição do indevido) credor, mas apenas o direito de exigir
do devedor exonerado aquilo com que
1. Sem prejuízo do disposto acerca das este injustamento se locupletou,
obrigações naturais, o que for prestado excepto se o credor conhecia o erro ao
com intenção de cumprir uma receber a prestação.
obrigação pode ser repetido, se esta
não existia no momento da prestação. ARTIGO 479º
(Objecto da obrigação de restituir)
2. A prestação feita a terceiro pode ser
repetida pelo devedor enquanto não se 1. A obrigação de restituir fundada no
tornar liberatória nos termos do artigo enriquecimento sem causa
770º. compreende tudo quando se tenha
obtido à custa do empobrecido ou, se a
3. A prestação feita por erro restituição em espécie não for possível,
desculpável antes do vencimento da o valor correspondente.
obrigação só dá lugar à repetição
daquilo com que o credor se 2. A obrigação de restituir não pode
enriqueceu por efeito do cumprimento exceder a medida do locupletamento à
antecipado. data da verificação de algum dos
factos referidos nas duas alíneas do
ARTIGO 477º artigo seguinte.
(Cumprimento de obrigação alheia
na convicção de que é própria) ARTIGO 480º
(Agravamento da obrigação)
1. Aquele que, por erro desculpável,
cumprir uma obrigação alheia, O enriquecido passa a responder
julgando-a própria, goza de direito de também pelo perecimento ou
repetição, excepto se o credor, deterioração culposa da coisa, pelos
desconhecendo o erro do autor da frutos que por sua culpa deixem de ser
prestação, se tiver privado do título ou percebidos e pelos juros legais das
das garantias do crédito, tiver deixado quantias a que o empobrecido tiver
prescrever ou caducar o seu direito, ou direito, depois de se verificar algumas
não o tiver exercido contra o devedor das seguintes circunstâncias:
ou contra o fiador enquanto solventes.
a) Ter sido o enriquecido citado
2. Quando não existe o direito de judicialmente para a restituição;
repetição, fica o autor da prestação
sub-rogado nos direitos do credor. b) Ter ele conhecimento da falta de
causa do seu enriquecimento ou da
ARTIGO 478º falta do efeito que se pretendia obter
(Cumprimento de obrigação alheia com a prestação.
na

- 101 -
ARTIGO 481º 2. Só existe obrigação de indemnizar
(Obrigação de restituir no caso de independentemente de culpa nos casos
alienação gratuita) especificados na lei.

1. Tendo o enriquecido alienado ARTIGO 484º


gratuitamente coisa que devesse (Ofensa do crédito ou do bom
restituir, fica o adquirente obrigado em nome)
lugar dele, mas só na medida do seu
próprio enriquecimento. Quem afirmar ou difundir um facto
capaz de prejudicar o crédito ou o bom
2. Se, porém, a transmissão teve lugar nome de qualquer pessoa, singular ou
depois da verificação de algum dos colectiva, responde pelos danos
factos referidos no artigo anterior, o causados.
alienante è responsável nos termos
desse artigo, e o adquirente, se estiver ARTIGO 485º
de má fé, é responsável nos mesmos (Conselhos, recomendações ou
termos. informações)

ARTIGO 482º 1. Os simples conselhos,


(Prescrição) recomendações ou informações não
responsabilizam quem os dá, ainda
O direito à restituição por que haja negligência da sua parte.
enriquecimento prescreve no prazo de
três anos, a contar da data em que o 2. A obrigação de indemnizar existe,
credor teve conhecimento do direito porém, quando se tenha assumido a
que lhe compete e da pessoa do responsabilidade pelos danos, quando
responsável, sem prejuízo da havia o dever jurídico de dar conselho,
prescrição ordinária se tiver decorrido recomendação ou informação e se
o respectivo prazo a contar do tenha procedido com negligência ou
enriquecimento. intenção de prejudicar, ou quando o
procedimento do agente constitua
SECÇÃO V facto punível.
Responsabilidade civil
ARTIGO 486º
SUBSECÇÃO I (Omissões)
Responsabilidade por factos ilícitos
As simples omissões dão lugar à
ARTIGO 483º obrigação de reparar os danos,
(Princípio geral) quando, independentemente dos
outros requisitos legais, havia, por
1. Aquele que, com dolo ou mera força da lei ou do negócio jurídico, o
culpa, violar ilicitamente o direito de dever de praticar o acto omitido.
outrem ou qualquer disposição legal
destinada a proteger interesses alheios ARTIGO 487º
fica obrigado a indemnizar o lesado (Culpa)
pelos danos resultantes da violação.
1. É ao lesado que incumbe provar a
culpa do autor da lesão, salvo havendo
presunção legal de culpa.

- 102 -
ilícito, todos eles respondem pelos
2. A culpa é apreciada, na falta de danos que hajam causado.
outro critério legal, pela diligência de
um bom pai de família, em face das ARTIGO 491º
circunstâncias de cada caso. (Responsabilidade das pessoas
obrigadas à vigilância de outrem)
ARTIGO 488º
(Imputabilidade) As pessoas que, por lei ou negócio
jurídico, forem obrigadas a vigiar
1. Não responde pelas consequências outras, por virtude da incapacidade
do facto danoso quem, no momento natural destas, são responsáveis pelos
em que o facto ocorreu, estava, por danos que elas causem a terceiro,
qualquer causa, incapacitado de salvo se mostrarem que cumpriram o
entender ou querer, salvo se o agente seu dever de vigilância ou que os
se colocou culposamente nesse estado, danos se teriam produzido ainda que o
sendo este transitório. tivessem cumprido.

2. Presume-se falta de imputabilidade ARTIGO 492º


nos menores de sete anos e nos (Danos causados por edifícios ou
interditos por anomalia psíquica. outras obras)

ARTIGO 489º 1. O proprietário ou possuidor de


(Indemnização por pessoa não edifício ou de outra obra que ruir, no
impútavel) todo ou em parte, por vício de
construção ou defeito de conservação,
1. Se o acto causador dos danos tiver responde pelos danos causados, salvo
sido praticado por pessoa não se provar que não houve culpa da sua
imputável, pode esta, por motivo de parte ou que, mesmo com a diligência
equidade, ser condenada a repará-los, devida, se não teriam evitado os
total ou parcialmente, desde que não danos.
seja possível obter a devida reparação
das pessoas a quem incumbe a sua 2. A pessoa obrigada, por lei ou
vigilância. negócio jurídico, a conservar o edifício
ou obra responde, em lugar do
2. A indemnização será, todavia, proprietário ou possuidor, quando os
calculada por forma a não privar a danos forem devidos exclusivamente a
pessoa não imputável dos alimentos defeito de conservação.
necessários, conforme o seu estado e
condição, nem dos meios ARTIGO 493º
indispensáveis para cumprir os seus (Danos causados por coisas,
deveres legais de alimentos. animais ou actividades)

ARTIGO 490º 1. Quem tiver em seu poder coisa


(Responsabilidade dos autores, móvel ou imóvel, com o dever de a
instigadores e auxiliares) vigiar, e bem assim quem tiver
assumido o encargo da vigilância de
Se forem vários os autores, quaisquer animais, responde pelos
instigadores ou auxiliares do acto danos que a coisa ou os animais
causarem, salvo se provar que

- 103 -
nenhuma culpa houve da sua parte ou 3. Têm igualmente direito a
que os danos se teriam igualmente indemnização os que podiam exigir
produzido ainda que não houvesse alimentos ao lesado ou aqueles a
culpa sua. quem o lesado os prestava no
cumprimento de uma obrigação
2. Quem causar danos a outrem no natural.
exercício de uma actividade, perigosa
por sua própria natureza ou pela ARTIGO 496º
natureza dos meios utilizados, é (Danos não patrimoniais)
obrigado a repará-los, excepto se
mostrar que empregou todas as 1. Na fixação da indemnização deve
providências exigidas pelas atender-se aos danos não patrimoniais
circunstâncias com o fim de os que, pela sua gravidade, mereçam a
prevenir. tutela do direito.

ARTIGO 494º 2. Por morte da vítima, o direito à


(Limitação da indemnização no indemnização por danos não
caso de mera culpa) patrimoniais cabe, em conjunto, ao
cônjuge não separado judicialmente de
Quando a responsabilidade se fundar pessoas e bens e aos filhos ou outros
na mera culpa, poderá a indemnização descendentes; na falta destes, aos pais
ser fixada, equitativamente, em ou outros ascendentes; e, por último
montante inferior ao que aos irmãos ou sobrinhos que os
corresponderia aos danos causados, representem.
desde que o grau de culpabilidade do
agente, a situação económica deste e 3. O montante da indemnização será
do lesado e as demais circunstâncias fixado equitativamente pelo tribunal,
do caso o justifiquem. tendo em atenção, em qualquer caso,
as circunstâncias referidas no artigo
ARTIGO 495º 494º; no caso de morte, podem ser
(Indemnização a terceiros em caso atendidos não só os danos não
de morte ou lesão corporal) patrimoniais sofridos pela vítima, como
os sofridos pelas pessoas com direito a
1. No caso de lesão de que proveio a indemnização nos termos número
morte, é o responsável obrigado a anterior.
indemnizar as despesas feitas para
salvar o lesado e todas as demais, sem ARTIGO 497º
exceptuar as do funeral. (Responsabilidade solidária)

2. Neste caso, como em todos os 1. Se forem várias as pessoas


outros de lesão corporal, têm direito a responsáveis pelos danos, é solidária a
indemnização aqueles que socorreram sua responsabilidade.
o lesado, bem como os
estabelecimentos hospitalares, 2. O direito de regresso entre os
médicos ou outras pessoas ou responsáveis existe na medida das
entidades que tenham contribuído para respectivas culpas e das consequências
o tratamento ou assistência da vítima. que delas advieram, presumindo-se
iguais as culpas das pessoas
responsáveis.

- 104 -
1. Aquele que encarrega outrem de
ARTIGO 498º qualquer comissão responde,
(Prescrição) independentemente de culpa, pelos
danos que o comissário causar, desde
1. O direito de indemnização prescreve que sobre este recaia também a
no prazo de três anos, a contar da obrigação de indemnizar.
data em que o lesado teve
conhecimento do direito que lhe 2. A responsabilidade do comitente só
compete, embora com existe se o facto danoso for praticado
desconhecimento da pessoa do pelo comissário, ainda que
responsável e da extensão integral dos intencionalmente ou contra as
danos, sem prejuízo da prescrição instruções daquele, no exercício da
ordinária se tiver decorrido o função que lhe foi confiada.
respectivo prazo a contar do facto
danoso. 3. O comitente que satisfizer a
indemnização tem o direito de exigir
2. Prescreve igualmente no prazo de do comissário o reembolso de tudo
três anos, a contar do cumprimento, o quanto haja pago, excepto se houver
direito de regresso entre os também culpa da sua parte; neste
responsáveis. caso será aplicável o disposto no nº 2
do artigo 497º.
3. Se o facto ilícito constituir crime
para o qual a lei estabeleça prescrição ARTIGO 501º
sujeita a prazo mais longo, é este o (Responsabilidade do Estado e de
prazo aplicável. outras
pessoas colectivas públicas)
4. A prescrição do direito de O Estado e demais pessoas colectivas
indemnização não importa prescrição públicas, quando haja danos causados
da acção de reivindicação nem da a terceiro pelos seus órgãos, agentes
acção de restituição por ou representantes no exercício de
enriquecimento sem causa, se houver actividades de gestão privada,
lugar a uma ou a outra. respondem civilmente por esses danos
nos termos em que os comitentes
SUBSECÇÃO II respondem pelos danos causados pelos
Responsabilidade pelo risco seus comissários.

ARTIGO 499º ARTIGO 502º


(Disposições aplicáveis) (Danos causados por animais)

São extensivas aos casos de Quem no seu próprio interesse utilizar


responsabilidade pelo risco, na parte quaisquer animais responde pelos
aplicável e na falta de preceitos legais danos que eles causarem, desde que
em contrário, as disposições que os danos resultem do perigo especial
regulam a responsabilidade por factos que envolve a sua utilização.
ilícitos.
ARTIGO 503º
ARTIGO 500º (Acidentes causados por veículos)
(Responsabilidade do comitente)

- 105 -
1. Aquele que tiver a direcção efectiva Sem prejuízo do disposto no artigo
de qualquer veículo de circulação 570º, a responsabilidade fixada pelo
terrestre e o utilizar no seu próprio nº 1 do artigo 503º só é excluída
interesse, ainda que por intermédio de quando o acidente for imputável ao
comissário, responde pelos danos próprio lesado ou a terceiro, ou
provenientes dos riscos próprios do quando resulte de causa de força
veículo, mesmo que este não se maior estranha ao funcionamento do
encontre em circulação. veículo.

2. As pessoas não imputáveis ARTIGO 506º


respondem nos termos do art. 489º. (Colisão de veículos)

3. Aquele que conduzir o veículo por 1. Se da colisão entre dois veículos


conta de outrem responde pelos danos resultarem danos em relação aos dois
que causar, salvo se provar que não ou em relação a um deles, e nenhum
houve culpa da sua parte; se, porém, dos condutores tiver culpa no acidente,
o conduzir fora do exercício das suas a responsabilidade é repartida na
funções de comissário, responde nos proporção em que o risco de cada um
termos do nº 1. dos veículos houver contribuído para
os danos; se os danos forem causados
ARTIGO 504º somente por um dos veículos, sem
(Beneficiários da culpa de nenhum dos condutores, só a
responsabilidade) pessoa por eles responsável é obrigada
a indemnizar.
1. A responsabilidade pelos danos
causados por veículos aproveita a 2. Em caso de dúvida, considera-se
terceiros, bem como às pessoas igual a medida da contribuição de cada
transportadas. um dos veículos para os danos, bem
como a contribuição da culpa de cada
2. No caso de transporte por virtude um dos condutores.
de contrato, a responsabilidade
abrange só os danos que atinjam a ARTIGO 507º
própria pessoa e as coisas por ela (Responsabilidade solidária)
transportadas.
1. Se a responsabilidade pelo risco
3. No caso de transporte gratuito, a recair sobre várias pessoas, todas
responsabilidade abrange apenas os respondem solidariamente pelos
danos pessoais da pessoa danos, mesmo que haja culpa de
transportada. alguma ou algumas.

4. São nulas as cláusulas que excluam 2. Nas relações entre os diferentes


ou limitem a responsabilidade do responsáveis, a obrigação de
transportador pelos acidentes que indemnizar reparte-se de harmonia
atinjam a pessoa transportada. com o interesse de cada um na
(Redacção do Dec.-Lei 14/96, de 6-3) utilização do veículo; mas, se houver
culpa de algum ou de alguns, apenas
ARTIGO 505º os culpados respondem, sendo
(Exclusão da responsabilidade) aplicável quanto ao direito de
regresso, entre eles, ou em relação a

- 106 -
eles, o disposto no nº 2 do artigo entrega da energia eléctrica ou do gás,
497º. e utilizar essa instalação no seu
interesse, responde tanto pelo prejuízo
ARTIGO 508º que derive da condução ou entrega da
(Limites máximos) electricidade ou do gás, como pelos
danos resultantes da própria
1. A indemnização fundada em instalação, excepto se ao tempo do
acidente de viação, quando não haja acidente esta estiver de acordo com as
culpa do responsável, tem como regras técnicas em vigor e em perfeito
limites máximos: no caso de morte ou estado de conservação.
lesão de uma pessoa, o montante
correspondente ao dobro da alçada da 2. Não obrigam a reparação os danos
relação; no caso de morte ou lesão de devidos a causa de força maior;
várias pessoas em consequência do considera-se de força maior toda a
mesmo acidente, o montante causa exterior independente do
correspondente ao dobro da alçada da funcionamento e utilização da coisa.
relação para cada uma delas, com o
máximo total do sextuplo da alçada da 3. Os danos causados por utensílios de
relação; no caso de danos causados uso de energia não são reparáveis nos
em coisas, ainda que pertencentes a termos desta disposição.
diferentes proprietários, o montante
correspondente à alçada da relação. ARTIGO 510º
(Limites da responsabilidade)
2. Se a indemnização for fixada sob a
forma de renda anual e não houver 1. A responsabilidade a que se refere o
culpa do responsável, o limite máximo artigo precedente, quando não haja
é de um quarto da alçada da relação culpa do responsável, tem para cada
para cada lesado, não podendo acidente, como limite máximo, no caso
ultrapassar três quartos da alçada da de morte ou lesão corpórea, um capital
relação quando sejam vários os ou uma renda anual iguais aos
lesados em virtude do mesmo estabelecidos, para a morte ou lesão
acidente. de uma pessoa, no nº 1 do artigo
508º.
3. Se o acidente for causado por
veículo utilizado em transporte 2. Quando se trate de danos em
colectivo, são elevados ao triplo os coisas, ainda que sejam várias e
máximos totais fixados nos números pertencentes a diversos proprietários,
anteriores; se for causado por caminho o limite máximo é um capital igual ao
de ferro, ao décuplo. da indemnização por morte ou lesão
de uma pessoa, nos termos no nº 1 do
(Redacção do Dec.-Lei 423/91, de 30- artigo 508º.
10)
3. Quando se trate de danos em
ARTIGO 509º prédios, o limite máximo da
(Danos causados por instalações responsabilidade pelo risco é elevado
de energia eléctrica ou gás) ao décuplo do previsto nos números
anteriores, para cada prédio.
1. Aquele que tiver a direcção efectiva
de instalação destinada à condução ou

- 107 -
(Redacção do Dec.-Lei 190/85, de 24- (Fontes da solidariedade)
06)
A solidariedade de devedores ou
CAPÍTULO III credores só existe quando resulte da
Modalidades das obrigações lei ou da vontade das partes.

SECÇÃO I ARTIGO 514º


Obrigações de sujeito activo (Meios de defesa)
indeterminado
1. O devedor solidário demandado
ARTIGO 511º pode defender-se por todos os meios
(Determinação da pessoa do que pessoalmente lhe competem ou
credor) que são comuns a todos os
condevedores.
A pessoa do credor pode não ficar
determinada no momento em que a 2. Ao credor solidário são oponíveis
obrigação é constituída; mas deve ser igualmente não só os meios de defesa
determinável, sob pena de ser nulo o comum, como os que pessoalmente
negócio jurídico do qual a obrigação lhe respeitem.
resultaria.
ARTIGO 515º
SECÇÃO II (Herdeiros dos devedores ou
Obrigações solidárias credores solidários)

SUBSECÇÃO I 1. Os herdeiros do devedor solidário


Disposições gerais respondem colectivamente pela
totalidade da dívida; efectuada a
ARTIGO 512º partilha, cada co-herdeiro responde
(Noção) nos termos do artigo 2098º.

1. A obrigação é solidária, quando 2. Os herdeiros do credor solidário só


cada um dos devedores responde pela conjuntamente podem exonerar o
prestação integral e esta a todos devedor; efectuada a partilha, se o
libera, ou quando cada um dos crédito tiver sido adjudicado a dois ou
credores tem a faculdade de exigir, por mais herdeiros, também só em
si só, a prestação integral e esta libera conjunto estes podem exonerar o
o devedor para com todos eles. devedor.

2. A obrigação não deixa de ser ARTIGO 516º


solidária pelo facto de os devedores (Participação nas dívidas e nos
estarem obrigados em termos diversos créditos)
ou com diversas garantias, ou de ser
diferente o conteúdo das prestações de Nas relações entre si, presume-se que
cada um deles; igual diversidade se os devedores ou credores solidários
pode verificar quanto à obrigação do comparticipam em partes iguais na
devedor relativamente a cada um dos dívida ou no crédito, sempre que da
credores solidários. relação jurídica entre eles existente
não resulte que são diferentes as suas
ARTIGO 513º partes, ou que um só deles deve

- 108 -
suportar o encargo da dívida ou obter integral, ainda que esse meio já lhe
o benefício do crédito. tenha sido oposto.

ARTIGO 517º ARTIGO 520º


(Litisconsórcio) (Impossibilidade da prestação)

1. A solidariedade não impede que os Se a prestação se tornar impossível


devedores solidários demandem por facto imputável a um dos
conjuntamente o credor ou sejam por devedores, todos eles são
ele conjuntamente demandados. solidariamente responsáveis pelo seu
valor; mas só o devedor a quem o
2. De igual direito gozam os credores facto é imputável responde pela
solidários relativamente ao devedor e reparação dos danos que excedam
este em relação àqueles. esse valor, e, sendo vários, é solidária
a sua responsabilidade.
SUBSECÇÃO II
Solidariedade entre devedores ARTIGO 521º
(Prescrição)
ARTIGO 518º
(Exclusão do benefício da divisão) 1. Se, por efeito da suspensão ou
interrupção da prescrição, ou de outra
Ao devedor solidário demandado não é causa, a obrigação de um dos
lícito opor o benefício da divisão; e, devedores se mantiver, apesar de
ainda que chame os outros devedores prescritas as obrigações dos outros, e
à demanda, nem por isso se libera da aquele for obrigado a cumprir, cabe-
obrigação de efectuar a prestação por lhe o direito de regresso contra os seus
inteiro. condevedores.

ARTIGO 519º 2. O devedor que não haja invocado a


(Direitos do credor) prescrição não goza do direito de
regresso contra os condevedores cujas
1. O credor tem o direito de exigir de obrigações tenham prescrito, desde
qualquer dos devedores toda a que estes aleguem a prescrição.
prestação, ou parte dela, proporcional
ou não à quota do interpelado; mas, ARTIGO 522º
se exigir judicialmente a um deles a (Caso julgado)
totalidade ou parte da prestação, fica
inibido de proceder judicialmente O caso julgado entre o credor e um
contra os outros pelo que ao primeiro dos devedores não é oponível aos
tenha exigido, salvo se houver razão restantes devedores, mas pode ser
atendível, como a insolvência ou risco oposto por estes, desde que não se
de insolvência do demandado, ou baseie em fundamento que respeite
dificuldade, por outra causa, em obter pessoalmente àquele devedor.
dele a prestação.
ARTIGO 523º
2. Se um dos devedores tiver qualquer (Satisfação do direito do credor)
meio de defesa pessoal contra o
credor, não fica este inibido de A satisfação do direito do credor, por
reclamar dos outros a prestação cumprimento, dação em cumprimento,

- 109 -
novação, consignação em depósito ou 2. Ao credor de regresso não aproveita
compensação, produz a extinção, o benefício da repartição na medida
relativamente a ele, das obrigações de em que só por negligência sua lhe não
todos os devedores. tenha sido possível cobrar a parte do
seu condevedor na obrigação solidária.
ARTIGO 524º
(Direito de regresso) ARTIGO 527º
(Renúncia à solidariedade)
O devedor que satisfizer o direito do
credor além da parte que lhe competir A renúncia à solidariedade a favor de
tem direito de regresso contra cada um ou alguns dos devedores não
um dos condevedores, na parte que a prejudica o direito do credor
estes compete. relativamente aos restantes, contra os
quais conserva o direito à prestação
Artigo 525º por inteiro.
(Meios de defesa oponíveis pelos
condevedores) SUBSECÇÃO III
Solidariedade entre credores
1. Os condevedores podem opor ao
que satisfaz o direito do credor a falta ARTIGO 528º
de decurso do prazo que lhes tenha (Escolha do credor)
sido concedido para o cumprimento da
obrigação, bem como qualquer outro 1. É permitido ao devedor escolher o
meio de defesa, quer este seja credor solidário a quem satisfaça a
comum, quer respeite pessoalmente prestação, enquanto não tiver sido
ao demandado. judicialmente citado para a respectiva
acção por outro credor cujo crédito se
2. A faculdade concedida no número ache vencido.
anterior tem lugar, ainda que o
condevedor tenha deixado, sem culpa 2. Se o devedor cumprir perante
sua, de opor ao credor o meio comum credor diferente daquele que
de defesa, salvo se a falta de oposição judicialmente exigiu a prestação, não
for imputável ao devedor que pretende fica dispensado de realizar a favor
valer-se do mesmo meio. deste a prestação integral; mas,
quando a solidariedade entre os
ARTIGO 526º credores tiver sido estabelecida em
(Insolvência dos devedores ou favor do devedor, este pode,
impossibilidade de cumprimento) renunciando total ou parcialmente ao
benefício, prestar a cada um dos
1. Se um dos devedores estiver credores a parte que lhe cabe no
insolvente ou não puder por outro crédito comum ou satisfazer a algum
motivo cumprir a prestação a que está dos outros a prestação com dedução
adstrito, é a sua quota-parte repartida da parte do demandante.
proporcionalmente entre todos os
demais, incluíndo o credor de regresso ARTIGO 529º
e os devedores que pelo credor hajam (Impossibilidade da prestação)
sido exonerados da obrigação ou
apenas do vínculo da solidariedade. 1. Se a prestação se tornar impossível
por facto imputável ao devedor,

- 110 -
subsiste a solidariedade relativamente O credor cujo direito foi satisfeito além
ao crédito da indemnização. da parte que lhe competia na relação
interna entre os credores tem de
2. Se a prestação se tornar impossível satisfazer aos outros a parte que lhes
por facto imputável a um dos credores, cabe no crédito comum.
fica este obrigado a indemnizar os
outros. SECÇÃO III
Obrigações divisíveis e indivisíveis
ARTIGO 530º
(Prescrição) ARTIGO 534º
(Obrigações divisíveis)
1. Se o direito de um dos credores se
mantiver devido a suspensão ou São iguais as partes que têm na
interrupção da prescrição ou a outra obrigação divisível os vários credores
causa, apesar de haverem prescrito os ou devedores, se outra proporção não
direitos dos restantes credores, pode o resultar da lei ou do negócio jurídico;
devedor opor àquele credor a mas entre os herdeiros do devedor,
prescrição do crédito na parte relativa depois da partilha, serão essas partes
a estes últimos.2. A renúncia à fixadas proporcionalmente às suas
prescrição, feita pelo devedor em quotas hereditárias, sem prejuízo do
benefício de um dos credores, não disposto nos nºs 2 e 3 do artigo
produz efeito relativamente aos 2098º.
restantes.
ARTIGO 535º
ARTIGO 531º (Obrigações indivisíveis com
(Caso julgado) pluralidade de devedores)

O caso julgado entre um dos credores 1. Se a prestação for indivisível e


e o devedor não é oponível aos outros vários os devedores, só de todos os
credores; mas pode ser oposto por obrigados pode o credor exigir o
estes ao devedor, sem prejuízo das cumprimento da prestação, salvo se
excepções pessoais que o devedor tiver sido estipulada a solidariedade ou
tenha o direito de invocar em relação a esta resultar da lei.
cada um deles.
2. Quando ao primitivo devedor da
ARTIGO 532º prestação indivisível sucedam vários
(Satisfação do direito de um dos herdeiros, também só de todos eles
credores) tem o credor a possibilidade de exigir o
cumprimento da prestação.
A satisfação do direito de um dos
credores, por cumprimento, dação em ARTIGO 536º
cumprimento, novação, consignação (Extinção relativamente a um dos
em depósito ou compensação, produz devedores)
a extinção, relativamente a todos os
credores, da obrigação do devedor. Se a obrigação indivisível se extinguir
apenas em relação a algum ou alguns
ARTIGO 533º dos devedores, não fica o credor
(Obrigação do credor que foi pago) inibido de exigir a prestação dos
restantes obrigados, contanto que lhes

- 111 -
entregue o valor da parte que cabia ao
devedor ou devedores exonerados. A obrigação concentra-se, antes do
cumprimento, quando isso resultar de
ARTIGO 537º acordo das partes, quando o género se
(Impossibilidade da prestação) extinguir a ponto de restar apenas
uma das coisas nele compreendidas,
Se a prestação indivisível se tornar quando o credor incorrer em mora, ou
impossível por facto imputável a algum ainda nos termos do artigo 797º.
ou alguns dos devedores, ficam os
outros exonerados. ARTIGO 542º
(Concentração por facto do credor
ARTIGO 538º ou de terceiro)
(Pluralidade de credores)
1. Se couber ao credor ou a terceiro, a
1. Sendo vários os credores da escolha só é eficaz se for declarada,
prestação indivisível, qualquer deles respectivamente, ao devedor ou a
tem o direito de exigi-la por inteiro; ambas as partes, e é irrevogável.
mas o devedor, enquanto não for
judicialmente citado, só relativamente 2. Se couber a escolha ao credor e
a todos, em conjunto, se pode este a não fizer dentro do prazo
exonerar. estabelecido ou daquele que para o
efeito lhe for fixado pelo devedor, é a
2. O caso julgado favorável a um dos este que a escolha passa a competir.
credores aproveita aos outros, se o
devedor não tiver, contra estes, meios SECÇÃO V
especiais de defesa Obrigações alternativas

SECÇÃO IV ARTIGO 543º


Obrigações genéricas (Noção)

ARTIGO 539º 1. É alternativa a obrigação que


(Determinação do objecto) compreende duas ou mais prestações,
mas em que o devedor se exonera
Se o objecto da prestação for efectuando aquela que, por escolha,
determinado apenas quanto ao género, vier a ser designada.
compete a sua escolha ao devedor, na
falta de estipulação em contrário. 2. Na falta de determinação em
contrário, a escolha pertence ao
ARTIGO 540º devedor.
(Não perecimento do género)
ARTIGO 544º
Enquanto a prestação for possível com (Indivisibilidade das prestações)
coisas do género estipulado, não fica o
devedor exonerado pelo facto de O devedor não pode escolher parte de
perecerem aquelas com que se uma prestação e parte de outra ou
dispunha a cumprir. outras, nem ao credor ou a terceiro é
lícito fazê-lo quando a escolha lhes
ARTIGO 541º pertencer.
(Concentração da obrigação)

- 112 -
ARTIGO 545º
(Impossibilidade não imputável às ARTIGO 549º
partes) (Escolha pelo credor ou por
terceiro)
Se uma ou algumas das prestações se
tornarem impossíveis por causa não À escolha que o credor ou terceiro
imputável às partes, a obrigação deva efectuar é aplicável o disposto no
considera-se limitada às prestações artigo 542º.
que forem possíveis.
SECÇÃO VI
ARTIGO 546º Obrigações pecuniárias
(Impossibilidade imputável ao
devedor) SUBSECÇÃO I
Obrigações de quantidade
Se a impossibilidade de alguma das
prestações for imputável ao devedor e ARTIGO 550º
a escolha lhe pertencer, deve efectuar (Princípio nominalista)
uma das prestações possíveis; se a
escolha pertencer ao credor, este O cumprimento das obrigações
poderá exigir uma das prestações pecuniárias faz-se em moeda que
possíveis, ou pedir a indemnização tenha curso legal no País à data em
pelos danos provenientes de não ter que for efectuado e pelo valor nominal
sido efectuada a prestação que se que a moeda nesse momento tiver,
tornou impossível, ou resolver o salvo estipulação em contrário.
contrato nos termos gerais.
ARTIGO 551º
ARTIGO 547º (Actualização das obrigações
(Impossibilidade imputável ao pecuniárias)
credor)
Quando a lei permitir a actualização
Se a impossibilidade de alguma das das prestações pecuniárias, por virtude
prestações for imputável ao credor e a das flutuações do valor da moeda,
escolha lhe pertencer, considera-se atender-se-á, na falta de outro critério
cumprida a obrigação; se a escolha legal, aos índices dos preços, de modo
pertencer ao devedor, também a a restabelecer, entre a prestação e a
obrigação se tem por cumprida, a quantidade de mercadorias a que ela
menos que este prefira efectuar outra equivale, a relação existente na data
prestação e ser indemnizado dos danos em que a obrigação se constituiu.
que houver sofrido.
SUBSECÇÃO II
ARTIGO 548º Obrigações de moeda específica
(Falta de escolha pelo devedor)
ARTIGO 552º
O credor, na execução, pode exigir que (Validade das obrigações de
o devedor, dentro do prazo que lhe for moeda específica)
fixado pelo tribunal, declare por qual
das prestações quer optar, sob pena O curso legal ou forçado da nota de
de se devolver ao credor o direito de banco não prejudica a validade do acto
escolha. pelo qual alguém se comprometa a

- 113 -
pagar em moeda metálica ou em valor indicado tiverem na bolsa no dia do
dessa moeda. cumprimento.

ARTIGO 553º 2. Se as moedas estipuladas ou as


(Obrigações de moeda específica moedas do metal indicado não tiverem
sem cotação na bolsa, atender-se-á ao
quantitativo expresso em moeda valor corrente, ou, na falta deste, ao
corrente) valor corrente do metal; a esse mesmo
valor se atenderá, quando a moeda,
Quando for estipulado o pagamento devido à sua raridade, tenha atingido
em certa espécie monetária, o uma cotação ou preço corrente
pagamento deve ser feito na espécie anormal, com que as partes não hajam
estipulada, existindo ela legalmente, contado no momento em que a
embora tenha variado de valor após a obrigação se constituiu.
data em que a obrigação foi
constituída. ARTIGO 556º
(Moeda específica sem curso legal)
ARTIGO 554º
(Obrigações de moeda específica 1. Sempre que a espécie monetária
ou de certo metal estipulada ou as moedas do metal
com quantitativo expresso em estipulado não tenham já curso legal
moeda corrente) na data do cumprimento, deve a
prestação ser feita em moeda que
Quando o quantitativo da obrigação é tenha curso legal nessa data, de
expresso em dinheiro corrente, mas se harmonia com a norma de redução que
estipula que o cumprimento será a lei tiver estabelecido ou, na falta de
efectuado em certa espécie monetária determinação legal, segundo a relação
ou em moedas de certo metal, de valores correntes na data em que a
presume-se que as partes querem nova moeda for introduzida.
vincular-se ao valor corrente que a
moeda ou as moedas do metal 2. Quando o quantitativo da obrigação
escolhido tinham à data da tiver sido expresso em moeda
estipulação. corrente, estipulando-se o pagamento
em espécies monetárias, em certo
ARTIGO 555º metal ou em moedas de certo metal, e
(Falta da moeda estipulada) essas moedas carecerem de curso
legal na data do cumprimento,
1. Quando se tiver estipulado o observar-se-á a doutrina do número
cumprimento em determinada espécie anterior, uma vez determinada a
monetária, em certo metal ou em quantidade dessas moedas que
moedas de certo metal, e se não constituía o montante da prestação em
encontrem as espécies ou as moedas dívida.
estipuladas em quantidade bastante,
pode o pagamento ser feito, quanto à ARTIGO 557º
parte da dívida que não for possível (Cumprimento em moedas de dois
cumprir nos termos acordados, em ou mais
moeda corrente que perfaça o valor metais ou de um entre vários
dela, segundo a cotação que a moeda metais)
escolhida ou as moedas do metal

- 114 -
1. No caso de se ter convencionado o
cumprimento em moedas de um entre 2. A estipulação de juros a taxa
dois ou mais metais, a determinação superior à fixada nos termos do
da pessoa a quem a escolha pertence número anterior deve ser feita por
é feita de acordo com as regras das escrito, sob pena de serem apenas
obrigações alternativas. devidos na medida dos juros legais.

2. Quando se estipular o cumprimento (Redacção do Dec.-Lei 200-C/80, de


da obrigação em moedas de dois ou 24-6)
mais metais, sem se fixar a proporção Taxa anual de Juros Legais – Port.
de umas e outras, cumprirá o devedor 263/99, de 12-04 – 7%
entregando em partes iguais moedas
dos metais especificados. ARTIGO 559º-A
(Juros usurários)
SUBSECÇÃO III
Obrigações em moeda estrangeira É aplicável o disposto no artigo 1146º
a toda a estipulação de juros ou
ARTIGO 558º quaisquer outras vantagens em
(Termos do cumprimento) negócios ou actos de concessão,
outorga, renovação, desconto ou
1 - A estipulação do cumprimento em prorrogação do prazo de pagamento
moeda com curso legal apenas no de um crédito e em outros análogos.
estrangeiro não impede o devedor de
pagar em moeda com curso legal no (Aditado pelo Dec.-Lei 262/83, de 16-
País, segundo o câmbio do dia do 6)
cumprimento e do lugar para este
estabelecido, salvo se essa faculdade ARTIGO 560º
houver sido afastada pelos (Anatocismo)
interessados. *
1. Para que os juros vencidos
2. Se, porém, o credor estiver em produzam juros é necessária
mora, pode o devedor cumprir de convenção posterior ao vencimento;
acordo com o câmbio da data em que pode haver também juros de juros, a
a mora se deu. partir da notificação judicial feita ao
devedor para capitalizar os juros
* (Decreto-Lei n.º 343/98, de 6 de vencidos ou proceder ao seu
Novembro) pagamento sob pena de capitalização.

SECÇÃO VII 2. Só podem ser capitalizados os juros


Obrigações de juros correspondentes ao período mínimo de
um ano.
ARTIGO 559º
(Taxa de juro) 3. Não são aplicáveis as restrições dos
números anteriores, se forem
1. Os juros legais e os estipulados sem contrárias a regras ou usos
determinação de taxa ou quantitativo particulares do comércio.
são os fixados em portaria conjunta
dos Ministros da Justiça e das Finanças ARTIGO 561º
e do Plano. (Autonomia do crédito de juros)

- 115 -
dentro do quantitativo que considere já
Desde que se constitui, o crédito de provado.
juros não fica necessariamente
dependente do crédito principal, ARTIGO 566º
podendo qualquer deles ser cedido ou (Indemnização em dinheiro)
extinguir-se sem o outro.
1. A indemnização é fixada em
SECÇÃO VIII dinheiro, sempre que a reconstituição
Obrigação de indemnização natural não seja possível, não repare
integralmente os danos ou seja
ARTIGO 562º excessivamente onerosa para o
(Princípio geral) devedor.

Quem estiver obrigado a reparar um 2. Sem prejuízo do preceituado


dano deve reconstituir a situação que noutras disposições, a indemnização
existiria, se não se tivesse verificado o em dinheiro tem como medida a
evento que obriga à reparação. diferença entre a situação patrimonial
do lesado, na data mais recente que
ARTIGO 563º puder ser atendida pelo tribunal, e a
(Nexo de causalidade) que teria nessa data se não existissem
danos.
A obrigação de indemnização só existe
em relação aos danos que o lesado 3. Se não puder ser averiguado o valor
provavelmente não teria sofrido se não exacto dos danos, o tribunal julgará
fosse a lesão. equitativamente dentro dos limites que
tiver por provados.
ARTIGO 564º
(Cálculo da indemnização) ARTIGO 567º
(Indemnização em renda)
1. O dever de indemnizar compreende
não só o prejuízo causado, como os 1. Atendendo à natureza continuada
benefícios que o lesado deixou de dos danos, pode o tribunal, a
obter em consequência da lesão. requerimento do lesado, dar à
indemnização, no todo ou em parte, a
2. Na fixação da indemnização pode o forma de renda vitalícia ou temporária,
tribunal atender aos danos futuros, determinando as providências
desde que sejam previsíveis; se não necessárias para garantir o seu
forem determináveis, a fixação da pagamento.
indemnização correspondente será
remetida para decisão ulterior. 2. Quando sofram alteração sensível as
circunstâncias em que assentou, quer
ARTIGO 565º o estabelecimento da renda, quer o
(Indemnização provisória) seu montante ou duração, quer a
dispensa ou imposição de garantias, a
Devendo a indemnização ser fixada em qualquer das partes é permitido exigir
execução de sentença, pode o tribunal a correspondente modificação da
condenar desde logo o devedor no sentença ou acordo.
pagamento de uma indemnização,
ARTIGO 568º

- 116 -
(Cessão dos direitos do lesado) representantes legais e das pessoas de
quem ele se tenha utilizado.
Quando a indemnização resulte da
perda de qualquer coisa ou direito, o ARTIGO 572º
responsável pode exigir, no acto do (Prova da culpa do lesado)
pagamento ou em momento posterior,
que o lesado lhe ceda os seus direitos Àquele que alega a culpa do lesado
contra terceiros. incumbe a prova da sua verificação;
mas o tribunal conhecerá dela, ainda
ARTIGO 569º que não seja alegada.
(Indicação do montante dos
danos) SECÇÃO IX
Obrigação de informação e de
Quem exigir a indemnização não apresentação
necessita de indicar a importância de coisas ou documentos
exacta em que avalia os danos, nem o
facto de ter pedido determinado
quantitativo o impede, no decurso da ARTIGO 573º
acção, de reclamar quantia mais (Obrigação de informação)
elevada, se o processo vier a revelar
danos superiores aos que foram A obrigação de informação existe,
inicialmente previstos. sempre que o titular de um direito
tenha dúvida fundada acerca da sua
ARTIGO 570º existência ou do seu conteúdo e
(Culpa do lesado) outrem esteja em condições de prestar
as informações necessárias.
1. Quando um facto culposo do lesado
tiver concorrido para a produção ou ARTIGO 574º
agravamento dos danos, cabe ao (Apresentação de coisas)
tribunal determinar, com base na
gravidade das culpas de ambas as 1. Ao que invoca um direito, pessoal
partes e nas consequências que delas ou real, ainda que condicional ou a
resultaram, se a indemnização deve prazo, relativo a certa coisa, móvel ou
ser totalmente concedida, reduzida ou imóvel, é lícito exigir do possuidor ou
mesmo excluída. detentor a apresentação da coisa,
desde que o exame seja necessário
2. Se a responsabilidade se basear para apurar a existência ou o conteúdo
numa simples presunção de culpa, a do direito e o demandado não tenha
culpa do lesado, na falta de disposição motivos para fundadamente se opor à
em contrário, exclui o dever de diligência.
indemnizar.
2. Quando aquele de quem se exige a
ARTIGO 571º apresentação da coisa a detiver em
(Culpa dos representantes legais e nome de outrem, deve avisar a pessoa
auxiliares) em cujo nome a detém, logo que seja
exigida a apresentação, a fim de ela,
Ao facto culposo do lesado é se quiser, usar os meios de defesa que
equiparado o facto culposo dos seus no caso couberem.

- 117 -
(Regime aplicável)

ARTIGO 575º 1. Os requisitos e efeitos da cessão


(Apresentação de documentos) entre as partes definem-se em função
do tipo de negócio que lhe serve de
As disposições do artigo anterior são, base.
com as necessárias adaptações,
extensivas aos documentos, desde que 2. A cessão de créditos hipotecários,
o requerente tenha um interesse quando não seja feita em testamento e
jurídico atendível no exame deles. a hipoteca recaia sobre bens imóveis,
deve necessariamente constar de
ARTIGO 576º escritura pública.
(Reprodução das coisas e dos
documentos) ARTIGO 579º
(Proibição da cessão de direitos
Feita a apresentação, o requerente litigiosos)
tem a faculdade de tirar cópias ou
fotografias, ou usar de outros meios 1. A cessão de créditos ou outros
destinados a obter a reprodução da direitos litigiosos feita, directamente
coisa ou documento, desde que a ou por interposta pessoa, a juízes ou
reprodução se mostre necessária e se magistrados do Ministério Público,
lhe não oponha motivo grave alegado funcionários de justiça ou mandatários
pelo requerido. judiciais é nula, se o processo decorrer
na área em que exercem
CAPÍTULO IV habitualmente a sua actividade ou
Transmissão de créditos e de profissão; é igualmente nula a cessão
dívidas desses créditos ou direitos feita a
peritos ou outros auxiliares da justiça
SECÇÃO I que tenham intervenção no respectivo
Cessão de créditos processo.

ARTIGO 577º 2. Entende-se que a cessão é


(Admissibilidade da cessão) efectuada por interposta pessoa,
quando é feita ao cônjuge do inibido
1. O credor pode ceder a terceiro uma ou a pessoa de quem este seja
parte ou a totalidade do crédito, herdeiro presumido, ou quando é feita
independentemente do consentimento a terceiro, de acordo com o inibido,
do devedor, contanto que a cessão não para o cessionário transmitir a este a
seja interdita por determinação da lei coisa ou direito cedido.
ou convenção das partes e o crédito
não esteja, pela própria natureza da 3. Diz-se litigioso o direito que tiver
prestação, ligado à pessoa do credor. sido contestado em juízo contencioso,
ainda que arbitral, por qualquer
2. A convenção pela qual se proíba ou interessado.
restrinja a possibilidade da cessão não
é oponível ao cessionário, salvo se este ARTIGO 580º
a conhecia no momento da cessão. (Sanções)

ARTIGO 578º

- 118 -
1. A cessão feita com quebra do extrajudicialmente, ou desde que ele a
disposto no artigo anterior, além de aceite.
nula, sujeita o cessionário à obrigação
de reparar os danos causados, nos 2. Se, porém, antes da notificação ou
termos gerais. aceitação, o devedor pagar ao cedente
ou celebrar com ele algum negócio
2. A nulidade da cessão não pode ser jurídico relativo ao crédito, nem o
invocada pelo cessionário. pagamento nem o negócio é oponível
ao cessionário, se este provar que o
ARTIGO 581º devedor tinha conhecimento da
(Excepções) cessão.

A proibição da cessão dos créditos ou ARTIGO 584º


direitos litigiosos não tem lugar nos (Cessão a várias pessoas)
casos seguintes:
Se o mesmo crédito for cedido a várias
a) Quando a cessão for feita ao titular pessoas, prevalece a cessão que
de um direito de preferência ou de primeiro for notificada ao devedor ou
remição relativo ao direito cedido; que por este tiver sido aceita.

b) Quando a cessão se realizar para ARTIGO 585º


defesa de bens possuídos pelo (Meios de defesa oponíveis pelo
cessionário; devedor)

c) Quando a cessão se fizer ao credor O devedor pode opor ao cessionário,


em cumprimento do que lhe é devido. ainda que este os ignorasse, todos os
meios de defesa que lhe seria lícito
ARTIGO 582º invocar contra o cedente, com ressalva
(Transmissão de garantias e dos que provenham de facto posterior
outros acessórios) ao conhecimento da cessão.

1. Na falta de convenção em contrário, ARTIGO 586º


a cessão do crédito importa a (Documentos e outros meios
transmissão, para o cessionário, das probatórios)
garantias e outros acessórios do direito
transmitido, que não sejam O cedente é obrigado a entregar ao
inseparáveis da pessoa do cedente. cessionário os documentos e outros
meios probatórios do crédito, que
2. A coisa empenhada que estiver na estejam na sua posse e em cuja
posse do cedente será entregue ao conservação não tenha interesse
cessionário, mas não a que estiver na legítimo.
posse de terceiro.
ARTIGO 587º
ARTIGO 583º (Garantia da existência do crédito
(Efeitos em relação ao devedor) e
da solvência do devedor)
1. A cessão produz efeitos em relação
ao devedor desde que lhe seja 1. O cedente garante ao cessionário a
notificada, ainda que existência e a exigibilidade do crédito

- 119 -
ao tempo da cessão, nos termos emprestada por terceiro pode sub-
aplicáveis ao negócio, gratuito ou rogar este nos direitos do credor.
oneroso, em que a cessão se integra.
2. A sub-rogação não necessita do
2. O cedente só garante a solvência do consentimento do credor, mas só se
devedor se a tanto expressamente se verifica quando haja declaração
tiver obrigado. expressa, no documento do
empréstimo, de que a coisa se destina
ARTIGO 588º ao cumprimento da obrigação e de que
(Aplicação das regras da cessão a o mutuante fica sub-rogado nos
outra figuras) direitos do credor.

As regras da cessão de créditos são ARTIGO 592º


extensivas, na parte aplicável, à (Sub-rogação legal)
cessão de quaisquer outros direitos
não exceptuados por lei, bem como à 1. Fora dos casos previstos nos artigos
transferência legal ou judicial de anteriores ou noutras disposições da
créditos. lei, o terceiro que cumpre a obrigação
só fica sub-rogado nos direitos do
SECÇÃO II credor quando tiver garantido o
Sub-rogação cumprimento, ou quando, por outra
causa, estiver directamente
ARTIGO 589º interessado na satisfação do crédito.
(Sub-rogação pelo credor)
2. Ao cumprimento é equiparada a
O credor que recebe a prestação de dação em cumprimento, a consignação
terceiro pode sub-rogá-lo nos seus em depósito, a compensação ou outra
direitos, desde que o faça causa de satisfação do crédito
expressamente até ao momento do compatível com a sub-rogação.
cumprimento da obrigação.
ARTIGO 593º
ARTIGO 590º (Efeitos da sub-rogação)
(Sub-rogação pelo devedor)
1. O sub-rogado adquire, na medida
1. O terceiro que cumpre a obrigação da satisfação dada ao direito do
pode ser igualmente sub-rogado pelo credor, os poderes que a este
devedor até ao momento do competiam.
cumprimento, sem necessidade do
consentimento do credor. 2. No caso de satisfação parcial, a sub-
rogação não prejudica os direitos do
2. A vontade de sub-rogar deve ser credor ou do seu cessionário, quando
expressamente manifestada. outra coisa não for estipulada.

ARTIGO 591º 3. Havendo vários sub-rogados, ainda


(Sub-rogação em consequência de que em momentos sucessivos, por
empréstimo feito ao devedor) satisfações parciais do crédito, nenhum
deles tem preferência sobre os demais.
1. O devedor que cumpre a obrigação
com dinheiro ou outra coisa fungível ARTIGO 594º

- 120 -
(Disposições aplicáveis) mas consideram-se extintas as
garantias prestadas por terceiro,
É aplicável à sub-rogação, com as excepto se este conhecia o vício na
necessárias adaptações, o disposto nos altura em que teve notícia da
artigos 582º a 584º. transmissão.

SECÇÃO III ARTIGO 598º


Transmissão singular de dívidas (Meios de defesa)

ARTIGO 595º Na falta de convenção em contrário, o


(Assunção de dívida) novo devedor não tem o direito de
opor ao credor os meios de defesa
1. A transmissão a título singular de baseados nas relações entre ele e o
uma dívida pode verificar-se: antigo devedor, mas pode opor-lhe os
meios de defesa derivados das
a) Por contrato entre o antigo e o novo relações entre o antigo devedor e o
devedor, ratificado pelo credor; credor, desde que o seu fundamento
seja anterior à assunção da dívida e se
b) Por contrato entre o novo devedor e não trate de meios de defesa pessoais
o credor, com ou sem consentimento do antigo devedor.
do antigo devedor.
ARTIGO 599º
2. Em qualquer dos casos a (Transmissão de garantias e
transmissão só exonera o antigo acessórios)
devedor havendo declaração expressa
do credor; de contrário, o antigo 1. Com a dívida transmitem-se para o
devedor responde solidariamente com novo devedor, salvo convenção em
o novo obrigado. contrário, as obrigações acessórias do
antigo devedor que não sejam
ARTIGO 596º inseparáveis da pessoa deste.
(Ratificação do credor)
2. Mantêm-se nos mesmos termos as
1. Enquanto não for ratificado pelo garantias do crédito, com excepção
credor, podem as partes distratar o das que tiverem sido constituídas por
contrato a que se refere a alínea a) do terceiro ou pelo antigo devedor, que
nº 1 do artigo anterior. não haja consentido na transmissão da
dívida.
2. Qualquer das partes tem o direito
de fixar ao credor um prazo para a ARTIGO 600º
ratificação, findo o qual esta se (Insolvência do novo devedor)
considera recusada.
O credor que tiver exonerado o antigo
ARTIGO 597º devedor fica impedido de exercer
(Invalidade da transmissão) contra ele o seu direito de crédito ou
qualquer direito de garantia, se o novo
Se o contrato de transmissão da dívida devedor se mostrar insolvente, a não
for declarado nulo ou anulado e o ser que expressamente haja
credor tiver exonerado o anterior ressalvado a responsabilidade do
obrigado, renasce a obrigação deste, primitivo obrigado.

- 121 -
CAPÍTULO V 1. Não existindo causas legítimas de
Garantia geral das obrigações preferência, os credores têm o direito
de ser pagos proporcionalmente pelo
SECÇÃO I preço dos bens do devedor, quando ele
Disposições gerais não chegue para integral satisfação
dos débitos.
ARTIGO 601º
(Princípio geral) 2. São causas legítimas de preferência,
além de outras admitidas na lei, a
Pelo cumprimento da obrigação consignação de rendimentos, o penhor,
respondem todos os bens do devedor a hipoteca, o privilégio e o direito de
susceptíveis de penhora, sem prejuízo retenção.
dos regimes especialmente
estabelecidos em consequência da SECÇÃO II
separação de patrimónios. Conservação da garantia
patrimonial
ARTIGO 602º
(Limitação da responsabilidade por SUBSECÇÃO I
convenção das partes) Declaração de nulidade

Salvo quando se trate de matéria ARTIGO 605º


subtraída à disponibilidade das partes, (Legitimidade dos credores)
é possível, por convenção entre elas,
limitar a responsabilidade do devedor a 1. Os credores têm legitimidade para
alguns dos seus bens, no caso de a invocar a nulidade dos actos praticados
obrigação não ser voluntariamente pelo devedor, quer estes sejam
cumprida. anteriores, quer posteriores à
constituição do crédito, desde que
ARTIGO 603º tenham interesse na declaração da
(Limitação por determinação de nulidade, não sendo necessário que o
terceiro) acto produza ou agrave a insolvência
do devedor.
1. Os bens deixados ou doados com a
cláusula de exclusão da 2. A nulidade aproveita não só ao
responsabilidade por dívidas do credor que a tenha invocado, como a
beneficiário respondem pelas todos os demais.
obrigações posteriores à liberalidade, e
também pelas anteriores se for SUBSECÇÃO II
registada a penhora antes do registo Sub-rogação do credor ao devedor
daquela cláusula.
ARTIGO 606º
2. Se a liberalidade tiver por objecto (Direitos sujeitos à sub-rogação)
bens não sujeitos a registo, a cláusula
só é oponível aos credores cujo direito 1. Sempre que o devedor o não faça,
seja anterior à liberalidade. tem o credor a faculdade de exercer,
contra terceiro, os direitos de conteúdo
ARTIGO 604º patrimonial que competem àquele,
(Concurso de credores) excepto se, por sua própria natureza

- 122 -
ou disposição da lei, só puderem ser impedir a satisfação do direito do
exercidos pelo respectivo titular. futuro credor;

2. A sub-rogação, porém, só é b) Resultar do acto a imposibilidade,


permitida quando seja essencial à para o credor, de obter a satisfação
satisfação ou garantia do direito do integral do seu crédito, ou
credor. agravamento dessa impossibilidade.

ARTIGO 607º ARTIGO 611º


(Credores sob condição suspensiva (Prova)
ou a prazo)
Incumbe ao credor a prova do
O credor sob condição suspensiva e o montante das dívidas, e ao devedor ou
credor a prazo apenas são admitidos a a terceiro interessado na manutenção
exercer a sub-rogação quando do acto a prova de que o obrigado
mostrem ter interesse em não possui bens penhoráveis de igual ou
aguardar a verificação da condição ou maior valor.
o vencimento do crédito.
ARTIGO 612º
ARTIGO 608º (Requisito da má fé)
(Citação do devedor)
1. O acto oneroso só está sujeito à
Sendo exercida judicialmente a sub- impugnação pauliana se o devedor e o
rogação, é necessária a citação do terceiro tiverem agido de má fé; se o
devedor. acto for gratuito, a impugnação
procede, ainda que um e outro
ARTIGO 609º agissem de boa fé.
(Efeitos da sub-rogação)
2. Entende-se por má fé a consciência
A sub-rogação exercida por um dos do prejuízo que o acto causa ao
credores aproveita a todos os demais. credor.

SUBSECÇÃO III ARTIGO 613º


Impugnação pauliana (Transmissões posteriores ou
constituição
ARTIGO 610º posterior de direitos)
(Requisitos gerais)
1. Para que a impugnação proceda
Os actos que envolvam diminuição da contra as transmissões posteriores é
garantia patrimonial do crédito e não necessário:
sejam de natureza pessoal podem ser
impugnados pelo credor, se a) Que, relativamente à primeira
concorrerem as circunstâncias transmissão, se verifiquem os
seguintes: requisitos da impugnabilidade referidos
nos artigos anteriores;
a) Ser o crédito anterior ao acto ou,
sendo posterior, ter sido o acto b) Que haja má fé tanto do alienante
realizado dolosamente com o fim de como do posterior adquirente, no caso

- 123 -
de a nova transmissão ser a título tenha alienado, bem como dos que
oneroso. tenham perecido ou se hajam
deteriorado por caso fortuito, salvo se
2. O disposto no número anterior é provar que a perda ou deterioração se
aplicável, com as necessárias teriam igualmente verificado no caso
adaptações, à constituição de direitos de os bens se encontrarem no poder
sobre os bens transmitidos em do devedor.
benefício de terceiro.
3. O adquirente de boa fé responde só
ARTIGO 614º na medida do seu enriquecimento.
(Créditos não vencidos ou sob
condição suspensiva) 4. Os efeitos da impugnação
aproveitam apenas ao credor que a
1. Não obsta ao exercício da tenha requerido.
impugnação o facto de o direito do
credor não ser ainda exigível. ARTIGO 617º
(Relações entre devedor e
2. O credor sob condição suspensiva terceiro)
pode, durante a pendência da
condição, verificados os requisitos da 1. Julgada procedente a impugnação,
impugnabilidade, exigir a prestação de se o acto impugnado for de natureza
caução. gratuita, o devedor só é responsável
perante o adquirente nos termos do
ARTIGO 615º disposto em matéria de doações;
(Actos impugnáveis) sendo o acto oneroso, o adquirente
tem somente o direito de exigir do
1. Não obsta à impugnação a nulidade devedor aquilo com que este se
do acto realizado pelo devedor. enriqueceu.

2. O cumprimento de obrigação 2. Os direitos que terceiro adquira


vencida não está sujeito a contra o devedor não prejudicam a
impugnação; mas é impugnável o satisfação dos direitos do credor sobre
cumprimento tanto da obrigação ainda os bens que são objecto da restituição.
não exigível como da obrigação
natural. ARTIGO 618º
(Caducidade)
ARTIGO 616º
(Efeitos em relação ao credor) O direito de impugnação caduca ao fim
de cinco anos, contados da data do
1. Julgada procedente a impugnação, o acto impugnável.
credor tem direito à restituição dos
bens na medida do seu interesse, SUBSECÇÃO IV
podendo executá-los no património do Arresto
obrigado à restituição e praticar os
actos de conservação da garantia ARTIGO 619º
patrimonial autorizados por lei. (Requisitos)

2. O adquirente de má fé é 1. O credor que tenha justo receio de


responsável pelo valor dos bens que perder a garantia patrimonial do seu

- 124 -
crédito pode requerer o arresto de sem se designar a espécie que ela
bens do devedor, nos termos da lei de deve revestir, pode a garantia ser
processo. prestada por meio de depósito de
dinheiro, títulos de crédito, pedras ou
2. O credor tem o direito de requerer o metais preciosos, ou por penhor,
arresto contra o adquirente dos bens hipoteca ou fiança bancária.
do devedor, se tiver sido judicialmente
impugnada a transmissão. 2. Se a caução não puder ser prestada
por nenhum dos meios referidos, é
ARTIGO 620º lícita a prestação de outra espécie de
(Caução) fiança, desde que o fiador renuncie ao
benefício da excussão.
O requerente do arresto é obrigado a
prestar caução, se esta lhe for exigida 3. Cabe ao tribunal apreciar a
pelo tribunal. idoneidade da caução, sempre que não
haja acordo dos interessados.
ARTIGO 621º
(Responsabilidade do credor) ARTIGO 624º
(Caução resultante de negócio
Se o arresto for julgado injustificado jurídico ou
ou caducar, o requerente é determinação do tribunal)
responsável pelos danos causados ao
arrestado, quando não tenha agido 1. Se alguém for obrigado ou
com a prudência normal. autorizado por negócio jurídico a
prestar caução, ou esta for imposta
ARTIGO 622º pelo tribunal, é permitido prestá-la por
(Efeitos) meio de qualquer garantia, real ou
pessoal.
1. Os actos de disposição dos bens
arrestados são ineficazes em relação 2. É aplicável, nestes casos, o disposto
ao requerente do arresto, de acordo no nº 3 do artigo anterior.
com as regras próprias da penhora.
ARTIGO 625º
2. Ao arresto são extensivos, na parte (Falta de prestação de caução)
aplicável, os demais efeitos da
penhora. 1. Se a pessoa obrigada à caução a
não prestar, o credor tem o direito de
CAPÍTULO VI requerer o registo de hipoteca sobre os
Garantias especiais das obrigações bens do devedor, ou outra cautela
idónea, salvo se for diferente a solução
SECÇÃO I especialmente fixada na lei.
Prestação de caução
2. A garantia limita-se aos bens
ARTIGO 623º suficientes para assegurar o direito do
(Caução imposta ou autorizada por credor.
lei)
ARTIGO 626º
1. Se alguém for obrigado ou (Insuficiência ou impropriedade da
autorizado por lei a prestar caução, caução)

- 125 -
crédito não for concedido, assim como
Quando a caução prestada se torne a todo o momento o pode denunciar,
insuficiente ou imprópria, por causa sem prejuízo da responsabilidade pelos
não imputável ao credor, tem este o danos que haja causado.
direito de exigir que ela seja reforçada
ou que seja prestada outra forma de 3. É lícito ao encarregado recusar o
caução. cumprimento do encargo, sempre que
a situação patrimonial dos outros
SECÇÃO II contraentes ponha em risco o seu
Fiança futuro direito.

SUBSECÇÃO I Artigo 630º


Disposições gerais (Subfiança)

ARTIGO 627º Subfiador é aquele que afiança o fiador


(Noção. Acessoriedade) perante o credor.

1. O fiador garante a satisfação do ARTIGO 631º


direito de crédito, ficando (Âmbito da fiança)
pessoalmente obrigado perante o
credor. 1. A fiança não pode exceder a dívida
principal nem ser contraída em
2. A obrigação do fiador é acessória da condições mais onerosas, mas pode
que recai sobre o principal devedor. ser contraída por quantidade menor ou
em menos onerosas condições.
ARTIGO 628º
(Requisitos) 2. Se exceder a dívida principal ou for
contraída em condições mais onerosas,
1. A vontade de prestar fiança deve a fiança não é nula, mas apenas
ser expressamente declarada pela redutível aos precisos termos da dívida
forma exigida para a obrigação afiançada.
principal.
ARTIGO 632º
2. A fiança pode ser prestada sem (Invalidade da obrigação principal)
conhecimento do devedor ou contra a
vontade dele, e à sua prestação não 1. A fiança não é válida se o não for a
obsta o facto de a obrigação ser futura obrigação principal.
ou condicional.
2. Sendo, porém, anulada a obrigação
ARTIGO 629º principal, por incapacidade ou por falta
(Mandato de crédito) ou vício da vontade do devedor, nem
por isso a fiança deixa de ser válida, se
1. Aquele que encarrega outrem de dar o fiador conhecia a causa da
crédito a terceiro, em nome e por anulabilidade ao tempo em que a
conta do encarregado, responde como fiança foi prestada.
fiador, se o encargo for aceito.
ARTIGO 633º
2. O autor do encargo tem a faculdade (Idoneidade do fiador. Reforço da
de revogar o mandato enquanto o fiança)

- 126 -
(Prescrição: interrupção,
1. Se algum devedor estiver obrigado suspensão e renúncia)
a dar fiador, não é o credor forçado a
aceitar quem não tiver capacidade 1. A interrupção da prescrição
para se obrigar ou não tiver bens relativamente ao devedor não produz
suficientes para garantir a obrigação. efeito contra o fiador, nem a
interrupção relativa a este tem eficácia
2. Se o fiador nomeado mudar de contra aquele; mas, se o credor
fortuna, de modo que haja risco de interromper a prescrição contra o
insolvência, tem o credor a faculdade devedor e der conhecimento do facto
de exigir o reforço da fiança. ao fiador, considera-se a prescrição
interrompida contra este na data da
3. Se o devedor não reforçar a fiança comunicação.
ou não oferecer outra garantia idónea
dentro do prazo que lhe for fixado pelo 2. A suspensão da prescrição
tribunal, tem o credor o direito de relativamente ao devedor não produz
exigir o imediato cumprimento da efeito em relação ao fiador, nem a
obrigação. suspensão relativa a este se repercute
naquele.
SUBSECÇÃO II
Relações entre o credor e o fiador 3. A renúncia à prescrição por parte de
um dos obrigados também não produz
ARTIGO 634º efeito relativamente ao outro.
(Obrigação do fiador)
ARTIGO 637º
A fiança tem o conteúdo da obrigação (Meios de defesa do fiador)
principal e cobre as consequências
legais e contratuais da mora ou culpa 1. Além dos meios de defesa que lhe
do devedor. são próprios, o fiador tem o direito de
opor ao credor aqueles que competem
ARTIGO 635º ao devedor, salvo se forem
(Caso julgado) incompatíveis com a obrigação do
fiador.
1. O caso julgado entre credor e
devedor não é oponível ao fiador, mas 2. A renúncia do devedor a qualquer
a este é lícito invocá-lo em seu meio de defesa não produz efeito em
benefício, salvo se respeitar a relação ao fiador.
circunstâncias pessoais do devedor que
não excluam a responsabilidade do ARTIGO 638º
fiador. (Benefício da excussão)

2. O caso julgado entre credor e fiador 1. Ao fiador é lícito recusar o


aproveita ao devedor, desde que cumprimento enquanto o credor não
respeite à obrigação principal, mas não tiver excutido todos os bens do
o prejudica o caso julgado devedor sem obter a satisfação do seu
desfavorável. crédito.

ARTIGO 636º 2. É lícita ainda a recusa, não obstante


a excussão de todos os bens do

- 127 -
devedor, se o fiador provar que o 1. O credor, ainda que o fiador goze do
crédito não foi satisfeito por culpa do benefício da excussão, pode demandá-
credor. lo só ou juntamente com o devedor; se
for demandado só, ainda que não goze
ARTIGO 639º do benefício da excussão, o fiador tem
(Benefício da excussão, havendo a faculdade de chamar o devedor à
garantias reais) demanda, para com ele se defender ou
ser conjuntamente condenado.
1. Se, para segurança da mesma
dívida, houver garantia real constituída 2. Salvo declaração expressa em
por terceiro, contemporânea da fiança contrário no processo, a falta de
ou anterior a ela, tem o fiador o direito chamamento do devedor à demanda
de exigir a execução prévia das coisas importa renúncia ao benefício da
sobre que recai a garantia real. excussão.

2. Quando as coisas oneradas ARTIGO 642º


garantam outros créditos do mesmo (Outros meios de defesa do fiador)
credor, o disposto no número anterior 1. Ao fiador é lícito recusar o
só é aplicável se o valor delas for cumprimento enquanto o direito do
suficiente para satisfazer a todos. credor puder ser satisfeito por
compensação com um crédito do
3. O autor da garantia real, depois de devedor ou este tiver a possibilidade
executado, não fica sub-rogado nos de se valer da compensação com uma
direitos do credor contra o fiador. dívida do credor.

ARTIGO 640º 2. Enquanto o devedor tiver o direito


(Exclusão dos benefícios de impugnar o negócio donde provém
anteriores) a sua obrigação, pode igualmente o
fiador recusar o cumprimento.
O fiador não pode invocar os benefícios
constantes dos artigos anteriores: ARTIGO 643º
(Subfiador)
a) Se houver renunciado ao benefício
da excussão e, em especial, se tiver O subfiador goza do benefício da
assumido a obrigação de principal excussão, tanto em relação ao fiador
pagador; como em relação ao devedor.

b) Se o devedor ou o dono dos bens SUBSECÇÃO III


onerados com a garantia não puder, Relações entre o devedor e o
em virtude de facto posterior à fiador
constituição da fiança, ser demandado
ou executado no território continental ARTIGO 644º
ou das ilhas adjacentes. (Sub-rogação)

ARTIGO 641º O fiador que cumprir a obrigação fica


(Chamamento do devedor à sub-rogado nos direitos do credor, na
demanda) medida em que estes foram por ele
satisfeitos.

- 128 -
ARTIGO 645º b) Se os riscos da fiança se agravarem
(Aviso do cumprimento ao sensivelmente;
devedor)
c) Se, após a assunção da fiança, o
1. O fiador que cumprir a obrigação devedor se houver colocado na
deve avisar do cumprimento o situação prevista na alínea b) do artigo
devedor, sob pena de perder o seu 640º;
direito contra este no caso de o
devedor, por erro, efectuar de novo a d) Se o devedor se houver
prestação. comprometido a desonerar o fiador
dentro de certo prazo ou verificado
2. O fiador que, nos termos do número certo evento e já tiver decorrido o
anterior, perder o seu direito contra o prazo ou se tiver verificado o evento
devedor pode repetir do credor a previsto;
prestação feita, como se fosse
indevida. e) Se houverem decorrido cinco anos,
não tendo a obrigação principal um
ARTIGO 646º termo, ou se, tendo-o, houver
(Aviso do cumprimento ao fiador) prorrogação legal imposta a qualquer
das partes.
O devedor que cumprir a obrigação
deve avisar o fiador, sob pena de SUBSECÇÃO IV
responder pelo prejuízo que causar se Pluralidade de fiadores
culposamente o não fizer.
ARTIGO 649º
ARTIGO 647º (Responsabilidade para com o
(Meios de defesa) credor)

O devedor que consentir no 1. Se várias pessoas tiverem,


cumprimento pelo fiador ou que, isoladamente, afiançado o devedor
avisado por este, lhe não der pela mesma dívida, responde cada
conhecimento, injustificadamente, dos uma delas pela satisfação integral do
meios de defesa que poderia opor ao crédito, excepto se foi convencionado o
credor fica impedido de opor esses benefício da divisão; são aplicáveis,
meios contra o fiador. naquele caso, com as ressalvas
necessárias, as regras das obrigações
ARTIGO 648º solidárias.
(Direito à liberação ou à prestação
de caução) 2. Se os fiadores se houverem
obrigado conjuntamente, ainda que em
É permitido ao fiador exigir a sua momentos diferentes, é lícito a
liberação, ou a prestação de caução qualquer deles invocar o benefício da
para garantia do seu direito eventual divisão, respondendo, porém, cada um
contra o devedor, nos casos seguintes: deles, proporcionalmente, pela quota
do confiador que se encontre
a) Se o credor obtiver contra o fiador insolvente.
sentença exequível;
3. É equiparado ao fiador insolvente
aquele que não puder ser demandado,

- 129 -
nos termos da alínea b) do artigo ARTIGO 652º
640º. (Vencimento da obrigação
principal)
ARTIGO 650º
(Relações entre fiadores e 1. Se a obrigação principal for a prazo,
subfiadores) o fiador que gozar do benefício da
excussão pode exigir, vencida a
1. Havendo vários fiadores, e obrigação, que o credor proceda contra
respondendo cada um deles pela o devedor dentro de dois meses, a
totalidade da prestação, o que tiver contar do vencimento, sob pena de a
cumprido fica sub-rogado nos direitos fiança caducar; este prazo não termina
do credor contra o devedor e, de sem decorrer um mês sobre a
harmonia com as regras das notificação feita ao credor.
obrigações solidárias, contra os outros
fiadores. 2. Sob igual cominação pode o fiador
que goze do benefício da excussão
2. Se o fiador, judicialmente exigir a interpelação do devedor,
demandado, cumprir integralmente a quando dela depender o vencimento
obrigação ou uma parte superior à sua da obrigação e houver decorrido mais
quota, apesar de lhe ser lícito invocar de um ano sobre a assunção da fiança.
o benefício da divisão, tem o direito de
reclamar dos outros as quotas deles, ARTIGO 653º
no que haja pago a mais, ainda que o (Liberação por impossibilidade de
devedor não esteja insolvente. sub-rogação)

3. Se o fiador, podendo embora Os fiadores, ainda que solidários, ficam


invocar o benefício da divisão, cumprir desonerados da obrigação que
voluntariamente a obrigação nas contraíram, na medida em que, por
condições previstas no número facto positivo ou negativo do credor,
anterior, o seu regresso contra os não puderem ficar sub-rogados nos
outros fiadores só é admitido depois de direitos que a este competem.
excutidos todos os bens do devedor.
ARTIGO 654º
4. Se algum dos fiadores tiver um (Obrigação futura)
subfiador, este não responde, perante
os outros fiadores, pela quota do seu Sendo a fiança prestada para garantia
afiançado que se mostre insolvente, de obrigação futura, tem o fiador,
salvo se o contrário resultar do acto da enquanto a obrigação se não
subfiança. constituir, a possibilidade de liberar-se
da garantia, se a situação patrimonial
SUBSECÇÃO V do devedor se agravar em termos de
Extinção da fiança pôr em risco os seus direitos eventuais
contra este, ou se tiverem decorrido
ARTIGO 651º cinco anos sobre a prestação da fiança,
(Extinção da obrigação principal) quando outro prazo não resulte da
convenção.
A extinção da obrigação principal
determina a extinção da fiança. ARTIGO 655º
(Fiança do locatário)

- 130 -
1. A consignação é voluntária ou
1. A fiança pelas obrigações do judicial.
locatário abrange apenas, salvo
estipulação em contrário, o período 2. É voluntária a consignação
inicial de duração do contrato. constituída pelo devedor ou por
terceiro, quer mediante negócio entre
2. Obrigando-se o fiador relativamente vivos, quer por meio de testamento, e
aos períodos de renovação, sem se judicial a que resulta de decisão do
limitar o número destes, a fiança tribunal.
extingue-se, na falta de nova
convenção, logo que haja alteração da ARTIGO 659º
renda ou decorra o prazo de cinco (Prazo)
anos sobre o início da primeira
prorrogação. 1. A consignação de rendimentos pode
fazer-se por determinado número de
SECÇÃO III anos ou até ao pagamento da dívida
Consignação de rendimentos garantida.

ARTIGO 656º 2. Quando incida sobre os rendimentos


(Noção) de bens imóveis, a consignação nunca
excederá o prazo de quinze anos.
1. O cumprimento da obrigação, ainda
que condicional ou futura, pode ser ARTIGO 660º
garantido mediante a consignação dos (Forma. Registo)
rendimentos de certos bens imóveis,
ou de certos bens móveis sujeitos a 1. O acto constitutivo da consignação
registo. voluntária deve constar de escritura
pública ou testamento, se respeitar a
2. A consignação de rendimentos pode coisas imóveis, e de escrito particular,
garantir o cumprimento da obrigação e quando recaia sobre móveis.
o pagamento dos juros, ou apenas o
cumprimento da obrigação ou só o 2. A consignação está sujeita a registo,
pagamento dos juros. salvo se tiver por objecto os
rendimentos de títulos de crédito
ARTIGO 657º nominativos, devendo neste caso ser
(Legitimidade.Consignação mencionada nos títulos e averbada,
constituída por terceiro) nos termos da respectiva legislação.

1. Só tem legitimidade para constituir ARTIGO 661º


a consignação quem puder dispor dos (Modalidades)
rendimentos consignados.
1. Na consignação é possível estipular:
2. É aplicável à consignação
constituída por terceiro o disposto no a) Que continuem em poder do
artigo 717º. concedente os bens cujos rendimentos
são consignados;
ARTIGO 658º
(Espécies) b) Que os bens passem para o poder
do credor, o qual fica, na parte

- 131 -
aplicável, equiparado ao locatário, sem
prejuízo da faculdade de por seu turno A consignação extingue-se pelo
os locar; decurso do prazo estipulado, e ainda
pelas mesmas causas por que cessa o
c) Que os bens passem para o poder direito de hipoteca, com excepção da
de terceiro, por título de locação ou indicada na alínea b) do artigo 730º.
por outro, ficando o credor com o
direito de receber os respectivos ARTIGO 665º
frutos. (Remissão)

2. Os frutos da coisa são imputados São aplicáveis à consignação, com as


primeiro nos juros, e só depois no necessárias adaptações, os artigos
capital, se a consignação garantir tanto 692º, 694º a 696º, 701º e 702º.
o capital como os juros.
SECÇÃO IV
ARTIGO 662º Penhor
(Prestação de contas)
SUBSECÇÃO I
1. Continuando os bens no poder do Disposições gerais
concedente, tem o credor o direito de
exigir dele a prestação anual de ARTIGO 666º
contas, se não houver de receber em (Noção)
cada período uma importância fixa.
1. O penhor confere ao credor o direito
2. De igual direito goza o concedente, à satisfação do seu crédito, bem como
em relação ao credor, nos demais dos juros, se os houver, com
casos previstos no nº 1 do artigo preferência sobre os demais credores,
anterior. pelo valor de certa coisa móvel, ou
pelo valor de créditos ou outros
ARTIGO 663º direitos não susceptíveis de hipoteca,
(Obrigações do credor. Renúncia à pertencentes ao devedor ou a terceiro.
garantia)
2. É havido como penhor o depósito a
1. Se os bens cujos rendimentos são que se refere o nº 1 do artigo 623º.
consignados passarem para o poder do
credor, deve este administrá-los como 3. A obrigação garantida pelo penhor
um proprietário diligente e pagar as pode ser futura ou condicional.
contribuições e demais encargos das
coisas. ARTIGO 667º
(Legitimidade para empenhar.
2. O credor só pode liberar-se das Penhor constituído por terceiro)
obrigações referidas no número
anterior renunciando à garantia. 1. Só tem legitimidade para dar bens
em penhor quem os puder alienar.
3. À renúncia é aplicável o disposto no
artigo 731º. 2. É aplicável ao penhor constituído
por terceiro o disposto no artigo 717º.
ARTIGO 664º
(Extinção) ARTIGO 668º

- 132 -
(Regimes especiais)
O credor pignoratício é obrigado:
As disposições desta secção não
prejudicam os regimes especiais a) A guardar e administrar como um
estabelecidos por lei para certas proprietário diligente a coisa
modalidades de penhor. empenhada, respondendo pela sua
existência e conservação;
SUBSECÇÃO II
Penhor de coisas b) A não usar dela sem consentimento
do autor do penhor, excepto se o uso
ARTIGO 669º for indispensável à conservação da
(Constituição do penhor) coisa;

1. O penhor só produz os seus efeitos c) A restituir a coisa, extinta a


pela entrega da coisa empenhada, ou obrigação a que serve de garantia.
de documento que confira a exclusiva
disponibilidade dela, ao credor ou a ARTIGO 672º
terceiro. (Frutos da coisa empenhada)

2. A entrega pode consistir na simples 1. Os frutos da coisa empenhada serão


atribuição da composse ao credor, se encontrados nas despesas feitas com
essa atribuição privar o autor do ela e nos juros vencidos, devendo o
penhor da possibilidade de dispor excesso, na falta de convenção em
materialmente da coisa. contrário, ser abatido no capital que
for devido.
ARTIGO 670º
(Direitos do credor pignoratício) 2. Havendo lugar à restituição de
frutos, não se consideram estes, salvo
Mediante o penhor, o credor convenção em contrário, abrangidos
pignoratício adquire o direito: pelo penhor.

a) De usar, em relação à coisa ARTIGO 673º


empenhada, das acções destinadas à (Uso da coisa empenhada)
defesa da posse, ainda que seja contra
o próprio dono; Se o credor usar da coisa empenhada
contra o disposto na alínea b) do artigo
b) De ser indemnizado das benfeitorias 671º, ou proceder de forma a que a
necessárias e úteis e de levantar estas coisa corra o risco de perder-se ou
últimas, nos termos do artigo 1273º; deteriorar-se, tem o autor do penhor o
direito de exigir que ele preste caução
c) De exigir a substituição ou o reforço idónea ou que a coisa seja depositada
do penhor ou o cumprimento imediato em poder de terceiro.
da obrigação, se a coisa empenhada
perecer ou se tornar insuficiente para ARTIGO 674º
segurança da dívida, nos termos (Venda antecipada)
fixados para a garantia hipotecária.
1. Sempre que haja receio fundado de
ARTIGO 671º que a coisa empenhada se perca ou
(Deveres do credor pignoratício) deteriore, tem o credor, bem como o

- 133 -
autor do penhor, a faculdade de a que se refere o nº 1 do artigo 669º,
proceder à venda antecipada da coisa, e ainda pelas mesmas causas por que
mediante prévia autorização judicial. cessa o direito da hipoteca, com
excepção da indicada na alínea b) do
2. Sobre o produto da venda fica o artigo 730º.
credor com os direitos que lhe cabiam
em relação à coisa vendida, podendo o ARTIGO 678º
tribunal, no entanto, ordenar que o (Remissão)
preço seja depositado.
São aplicáveis ao penhor, com as
3. O autor do penhor tem a faculdade necessárias adaptações, os artigos
de impedir a venda antecipada da 692º, 694º a 699º, 701º e 702º.
coisa, oferecendo outra garantia real
idónea. SUBSECÇÃO III
Penhor de direitos
ARTIGO 675º
(Execução do penhor) ARTIGO 679º
(Disposições aplicáveis)
1. Vencida a obrigação, adquire o
credor o direito de se pagar pelo São extensivas ao penhor de direitos,
produto da venda judicial da coisa com as necessárias adaptações, as
empenhada, podendo a venda ser feita disposições da subsecção anterior, em
extrajudicialmente, se as partes tudo o que não seja contrariado pela
asssim o tiverem convencionado. natureza especial desse penhor ou pelo
preceituado nos artigos subsequentes.
2. É lícito aos interessados
convencionar que a coisa empenhada ARTIGO 680º
seja adjudicada ao credor pelo valor (Objecto)
que o tribunal fixar.
Só é admitido o penhor de direitos
ARTIGO 676º quando estes tenham por objecto
(Cessão da garantia) coisas móveis e sejam susceptíveis de
transmissão.
1. O direito de penhor pode ser
transmitido independentemente da ARTIGO 681º
cessão do crédito, sendo aplicável (Forma e publicidade)
neste caso, com as necessárias
adaptações, o disposto sobre a 1. A constituição do penhor de direitos
transmissão da hipoteca. está sujeita à forma e publicidade
exigidas para a transmissão dos
2. À entrega da coisa empenhada ao direitos empenhados.
cessionário é aplicável o disposto no nº
2 do artigo 582º. 2. Se, porém, tiver por objecto um
crédito, o penhor só produz os seus
ARTIGO 677º efeitos desde que seja notificado ao
(Extinção do penhor) respectivo devedor, ou desde que este
o aceite, salvo tratando-se de penhor
O penhor extingue-se pela restituição sujeito a registo, pois neste caso
da coisa empenhada, ou do documento

- 134 -
produz os seus efeitos a partir do incidir sobre a coisa prestada em
registo. satisfação desse crédito.

3. A ineficácia do penhor por falta de 2. Se, porém, o crédito tiver por


notificação ou registo não impede a objecto a prestação de dinheiro ou de
aplicação, com as necessárias outra coisa fungível, o devedor não
correcções, do disposto no nº 2 do pode fazê-la senão aos dois credores
artigo 583º. conjuntamente; na falta de acordo
entre os interessados, tem o obrigado
ARTIGO 682º a faculdade de usar da consignação em
(Entrega de documentos) depósito.

O titular do direito empenhado deve 3. Se o mesmo crédito for objecto de


entregar ao credor pignoratício os vários penhores, só o credor cujo
documentos comprovativos desse direito prefira aos demais tem
direito que estiverem na sua posse e legitimidade para cobrar o crédito
em cuja conservação não tenha empenhado; mas os outros têm a
interesse legítimo. faculdade de compelir o devedor a
satisfazer a prestação ao credor
ARTIGO 683º preferente.
(Conservação do direito
empenhado) 4. O titular do crédito empenhado só
pode receber a respectiva prestação
O credor pignoratício é obrigado a com o consentimento do credor
praticar os actos indispensáveis à pignoratício, extinguindo-se neste caso
conservação do direito empenhado e a o penhor.
cobrar os juros e mais prestações
acessórias compreendidas na garantia. SECÇÃO V
Hipoteca
ARTIGO 684º
(Relações entre o obrigado e o SUBSECÇÃO I
credor pignoratício) Disposições gerais

Dando em penhor um direito por ARTIGO 686º


virtude do qual se possa exigir uma (Noção)
prestação, as relações entre o
obrigado e o credor pignoratício estão 1. A hipoteca confere ao credor o
sujeitas às disposições aplicáveis, na direito de ser pago pelo valor de certas
cessão de créditos, às relações entre o coisas imóveis, ou equiparadas,
devedor e o cessionário. pertencentes ao devedor ou a terceiro
com preferência sobre os demais
ARTIGO 685º credores que não gozem de privilégio
(Cobrança de créditos especial ou de prioridade de registo.
empenhados)
2. A obrigação garantida pela hipoteca
1. O credor pignoratício deve cobrar o pode ser futura ou condicional.
crédito empenhado logo que este se
torne exigível, passando o penhor a ARTIGO 687º
(Registo)

- 135 -
Não pode ser hipotecada a meação dos
A hipoteca deve ser registada, sob bens comuns do casal, nem tão-pouco
pena de não produzir efeitos, mesmo a quota de herança indivisa.
em relação às partes.
ARTIGO 691º
ARTIGO 688º (Extensão)
(Objecto)
1. A hipoteca abrange:
1. Só podem ser hipotecados:
a) As coisas imóveis referidas nas
a) Os prédios rústicos e urbanos; alíneas c) a e) do nº 1 do artigo 204º;

b) O domínio directo e o domínio útil b) As acessões naturais;


dos bens enfitêuticos;
c) As benfeitorias, salvo o direito de
c) O direito de superfície; terceiros.

d) O direito resultante de concessões 2. Na hipoteca de fábricas,


em bens do domínio público, consideram-se abrangidos pela
observadas as disposições legais garantia os maquinismos e demais
relativas à transmissão dos direitos móveis inventariados no título
concedidos; constitutivo, mesmo que não sejam
parte integrante dos respectivos
e) O usufruto das coisas e direitos imóveis.
constantes das alíneas anteriores;
3. Os donos e possuidores de
f) As coisas móveis que, para este maquinismos, móveis e utensílios
efeito, sejam por lei equiparadas às destinados à exploração de fábricas,
imóveis. abrangidos no registo de hipoteca dos
respectivos imóveis, não os podem
2. As partes de um prédio susceptíveis alienar ou retirar sem consentimento
de propriedade autónoma sem perda escrito do credor e incorrem na
da sua natureza imobiliária podem ser responsabilidade própria dos fiéis
hipotecadas separadamente. depositários.

ARTIGO 689º (Redacção do Dec.-Lei 225/84, de 6-7)


(Bens comuns)
ARTIGO 692º
1. É também susceptível de hipoteca a (Indemnizações devidas)
quota de coisa ou direito comum.
1. Se a coisa ou direito hipotecado se
2. A divisão da coisa ou direito comum, perder, deteriorar ou diminuir de valor,
feita com o consentimento do credor, e o dono tiver direito a ser
limita a hipoteca à parte que for indemnizado, os titulares da garantia
atribuída ao devedor. conservam, sobre o crédito respectivo
ou as quantias pagas a título de
ARTIGO 690º indemnização, as preferências que lhes
(Bens excluídos) competiam em relação à coisa
onerada.

- 136 -
hipotecário se vencerá logo que esses
2. Depois de notificado da existência bens sejam alienados ou onerados.
da hipoteca, o devedor da
indemnização não se libera pelo ARTIGO 696º
cumprimento da sua obrigação com (Indivisibilidade)
prejuízo dos direitos conferidos no
número anterior. Salvo convenção em contrário, a
hipoteca é indivisível, subsistindo por
3. O disposto nos números inteiro sobre cada uma das coisas
precedentes é aplicável às oneradas e sobre cada uma das partes
indemnizações devidas por que as constituam, ainda que a coisa
expropriação ou requisição, bem como ou o crédito seja dividido ou este se
por extinção do direito de superfície, encontre parcialmente satisfeito.
ao preço da remição do foro e aos
casos análogos. ARTIGO 697º
(Penhora dos bens)
ARTIGO 693º
(Acessórios do crédito) O devedor que for dono da coisa
hipotecada tem o direito de se opor
1. A hipoteca assegura os acessórios não só a que outros bens sejam
do crédito que constem do registo. penhorados na execução enquanto se
não reconhecer a insuficiência da
2. Tratando-se de juros, a hipoteca garantia, mas ainda a que,
nunca abrange, não obstante relativamente aos bens onerados, a
convenção em contrário, mais do que execução se estenda além do
os relativos a três anos. necessário à satisfação do direito do
credor.
3. O disposto no número anterior não
impede o registo de nova hipoteca em ARTIGO 698º
relação a juros em dívida. (Defesa do dono da coisa ou do
titular do direito)
ARTIGO 694º
(Pacto comissório) 1. Sempre que o dono da coisa ou o
titular do direito hipotecado seja
É nula, mesmo que seja anterior ou pessoa diferente do devedor, é-lhe
posterior à constituição da hipoteca, a lícito opor ao credor, ainda que o
convenção pela qual o credor fará sua devedor a eles tenha renunciado, os
a coisa onerada no caso de o devedor meios de defesa que o devedor tiver
não cumprir. contra o crédito, com exclusão das
excepções que são recusadas ao
ARTIGO 695º fiador.
(Cláusula de inalienabilidade dos
bens hipotecados) 2. O dono ou o titular a que o número
anterior se refere tem a faculdade de
É igualmente nula a convenção que se opor à execução enquanto o
proíba o respectivo dono de alienar ou devedor puder impugnar o negócio
onerar os bens hipotecados, embora donde provém a sua obrigação, ou o
seja lícito convencionar que o crédito credor puder ser satisfeito por
compensação com um crédito do

- 137 -
devedor, ou este tiver a possibilidade substitua ou reforce; e, não o fazendo
de se valer da compensação com uma este nos termos declarados na lei de
dívida do credor. processo, pode aquele exigir o
imediato cumprimento da obrigação
ARTIGO 699º ou, tratando-se de obrigação futura,
(Hipoteca e usufruto) registar hipoteca sobre outros bens do
devedor.
1. Extinguindo-se o usufruto
constituído sobre a coisa hipotecada, o 2. Não obsta ao direito do credor o
direito do credor hipotecário passa a facto de a hipoteca ter sido constituída
exercer-se sobre a coisa, como se o por terceiro, salvo se o devedor for
usufruto nunca tivesse sido estranho à sua constituição; porém,
constituído. mesmo neste caso, se a diminuição da
garantia for devida a culpa do terceiro,
2. Se a hipoteca tiver por objecto o o credor tem o direito de exigir deste a
direito de usufruto, considera-se substituição ou o reforço, ficando o
extinta com a extinção deste direito. mesmo sujeito à cominação do número
anterior em lugar do devedor.
3. Porém, se a extinção do usufruto
resultar de renúncia, ou da ARTIGO 702º
transferência dos direitos do (Seguro)
usufrutuário para o proprietário, ou da
aquisição da propriedade por parte 1. Quando o devedor se comprometa a
daquele, a hipoteca subsiste, como se segurar a coisa hipotecada e não a
a extinção do direito se não tivesse segure no prazo devido ou deixe
verificado. rescindir o contrato por falta de
pagamento dos respectivos prémios,
ARTIGO 700º tem o credor a faculdade de segurá-la
(Administração da coisa à custa do devedor; mas, se o fizer por
hipotecada) um valor excessivo, pode o devedor
exigir a redução do contrato aos
O corte de árvores ou arbustos, a limites convenientes.
colheita de frutos naturais e a
alienação de partes integrantes ou 2. Nos casos previstos no número
coisas acessórias abrangidas pela anterior, pode o credor reclamar, em
hipoteca só são eficazes em relação ao lugar do seguro, o imediato
credor hipotecário se forem anteriores cumprimento da obrigação.
ao registo da penhora e couberem nos
poderes de administração ordinária. ARTIGO 703º
(Espécies de hipoteca)
ARTIGO 701º
(Substituição ou reforço da As hipotecas são legais, judiciais ou
hipoteca) voluntárias.

1. Quando, por causa não imputável ao SUBSECÇÃO II


credor, a coisa hipotecada perecer ou a Hipotecas legais
hipoteca se tornar insuficiente para
segurança da obrigação, tem o credor ARTIGO 704º
o direito de exigir que o devedor a (Noção)

- 138 -
1. A determinação do valor da hipoteca
As hipotecas legais resultam estabelecida a favor do menor,
imediatamente da lei, sem interdito ou inabilitado, para efeito do
dependência da vontade das partes, e registo, e a designação dos bens sobre
podem constituir-se desde que exista a que há-de ser registada cabem ao
obrigação a que servem de segurança. conselho de família.

ARTIGO 705º 2. Têm legitimidade para requerer o


(Credores com hipoteca legal) registo o tutor, curador ou
administrador legal, os vogais do
Os credores que têm hipoteca legal conselho de família e qualquer dos
são: parentes do incapaz.

a) O Estado e as autarquias locais, ARTIGO 707º


sobre os bens cujos rendimentos estão (Substituição por outra caução)
sujeitos à constituição predial, para
garantia do pagamento desta 1. O tribunal pode autorizar, a
contribuição; requerimento do devedor, a
substituição da hipoteca legal por
b) O Estado e as demais pessoas outra caução.
colectivas públicas, sobre os bens dos
encarregados da gestão de fundos 2. Não tendo o devedor bens
públicos, para garantia do susceptíveis de hipoteca, suficientes
cumprimento das obrigações por que para garantir o crédito, pode o credor
se tornem responsáveis; exigir outra caução, nos termos do
artigo 625º, salvo nos casos das
c) O menor, o interdito e o inabilitado, hipotecas destinadas a garantir o
sobre os bens do tutor, curador e pagamento das tornas ou do legado de
administrador legal, para assegurar a dinheiro ou outra coisa fungível.
responsabilidade que nestas
qualidades vierem a assumir; ARTIGO 708º
(Bens sujeitos à hipoteca legal)
d) O credor por alimentos;
Sem prejuízo do direito de redução, as
e) O co-herdeiro, sobre os bens hipotecas legais podem ser registadas
adjudicados ao devedor de tornas, em relação a quaisquer bens do
para garantir o pagamento destas; devedor, quando não forem
especificados por lei ou no título
f) O legatário de dinheiro ou outra respectivo os bens sujeitos à garantia.
coisa fungível, sobre os bens sujeitos
ao encargo do legado ou, na sua falta, ARTIGO 709º
sobre os bens que os herdeiros (Reforço)
responsáveis houverem do testador.
O credor só goza do direito de reforçar
ARTIGO 706º as hipotecas previstas nas alíneas e) e
(Registo da hipoteca a favor de f) do artigo 705º se a garantia puder
incapazes) continuar a incidir sobre os bens aí
especificados.

- 139 -
A hipoteca não impede o dono dos
bens de os hipotecar de novo; neste
SUBSECÇÃO III caso, extinta uma das hipotecas, ficam
Hipotecas judiciais os bens a garantir, na sua totalidade,
as restantes dívidas hipotecárias.
ARTIGO 710º
(Constituição) ARTIGO 714º
(Forma)
1. A sentença que condenar o devedor
à realização de uma prestação em O acto de constituição ou modificação
dinheiro ou outra coisa fungível é título da hipoteca voluntária, quando recaia
bastante para o registo de hipoteca sobre bens imóveis, deve constar de
sobre quaisquer bens do obrigado, escritura pública ou de testamento.
mesmo que não haja transitado em
julgado. ARTIGO 715º
(Legitimidade para hipotecar)
2. Se a prestação for ilíquida, pode a
hipoteca ser registada pelo Só tem legitimidade para hipotecar
quantitativo provável do crédito. quem puder alienar os respectivos
bens.
3. Se o devedor for condenado a
entregar uma coisa ou a prestar um ARTIGO 716º
facto, só pode ser registada a hipoteca (Hipotecas gerais)
havendo conversão da prestação numa
indemnização pecuniária. 1. São nulas as hipotecas voluntárias
que incidam sobre todos os bens do
ARTIGO 711º devedor ou de terceiro sem os
(Sentenças estrangeiras) especificar.

As sentenças dos tribunais 2. A especificação deve constar do


estrangeiros, revistas e confirmadas título constitutivo da hipoteca.
em Portugal, podem titular o registo da
hipoteca judicial, na medida em que a ARTIGO 717º
lei do país onde foram proferidas lhes (Hipoteca constituída por terceiro)
reconheça igual valor.
1. A hipoteca constituída por terceiro
SUBSECÇÃO IV extingue-se na medida em que, por
Hipotecas voluntárias facto positivo ou negativo do credor,
não possa dar-se a sub-rogação
ARTIGO 712º daquele nos direitos deste.
(Noção)
2. O caso julgado proferido em relação
Hipoteca voluntária é a que nasce de ao devedor produz efeitos
contrato ou declaração unilateral. relativamente a terceiro que haja
constituído a hipoteca, nos termos em
ARTIGO 713º que os produz em relação ao fiador.
(Segunda hipoteca)
SUBSECÇÃO V
Redução da hipoteca

- 140 -
objecto uma só coisa ou direito, desde
que a coisa ou direito seja susceptível
ARTIGO 718º de cómoda divisão.
(Modalidades)
SUBSECÇÃO VI
A hipoteca pode ser reduzida Transmissão dos bens hipotecados
voluntária ou judicialmente.
ARTIGO 721º
ARTIGO 719º (Expurgação da hipoteca)
(Redução voluntária)
Aquele que adquiriu bens hipotecados,
A redução voluntária só pode ser registou o título de aquisição e não é
consentida por quem puder dispor da pessoalmente responsável pelo
hipoteca, sendo aplicável à redução o cumprimento das obrigações
regime estabelecido para a renúncia à garantidas tem o direito de expurgar a
garantia. hipoteca por qualquer dos modos
seguintes:
ARTIGO 720º
(Redução judicial) a) Pagando integralmente aos credores
hipotecários as dívidas a que os bens
1. A redução judicial tem lugar, nas estão hipotecados;
hipotecas legais e judiciais, a
requerimento de qualquer interessado, b) Declarando que está pronto a
quer no que concerne aos bens, quer entregar aos credores, para
no que respeita à quantia designada pagamento dos seus créditos, até à
como montante do crédito, excepto se, quantia pela qual obteve os bens, ou
por convenção ou sentença, a coisa aquela em que os estima, quando a
onerada ou a quantia assegurada tiver aquisição tenha sido feita por título
sido especialmente indicada. gratuito ou não tenha havido fixação
de preço.
2. No caso previsto na parte final do
número anterior, ou no de hipoteca ARTIGO 722º
voluntária, a redução judicial só é (Expurgação no caso de revogação
admitida: de doação)

a) Se, em consequência do O direito de expurgação é extensivo ao


cumprimento parcial ou outra causa de doador ou aos seus herdeiros,
extinção, a dívida se encontrar relativamente aos bens hipotecados
reduzida a menos de dois terços do pelo donatário que venham ao poder
seu montante inicial; daqueles em consequência da
revogação da liberalidade por
b) Se, por virtude de acessões naturais ingratidão do donatário, ou da sua
ou benfeitorias, a coisa ou o direito redução por inoficiosidade.
hipotecado se tiver valorizado em mais
de um terço do seu valor à data da (Redacção do Dec.-Lei 497/77, de 25-
constituição da hipoteca. 11)

3. A redução é realizável, quanto aos ARTIGO 723º


bens, ainda que a hipoteca tenha por

- 141 -
(Direitos dos credores quanto à O credor hipotecário pode, antes do
expurgação) vencimento do prazo, exercer o seu
direito contra o adquirente da coisa ou
1. A sentença que declarar os bens direito hipotecado se, por culpa deste,
livres de hipotecas em consequência diminuir a segurança do crédito.
de expurgação não será proferida sem
se mostrar que foram citados todos os ARTIGO 726º
credores hipotecários. (Benfeitorias e frutos)

2. O credor que, tendo a hipoteca Para os efeitos dos artigos 1269º,


registada, não for citado nem 1270º e 1275º, o terceiro adquirente é
comparecer espontaneamente em juízo havido como possuidor de boa fé, na
não perde os seus direitos de credor execução, até ao registo da penhora,
hipotecário, seja qual for a sentença e, na expurgação da hipoteca, até à
proferida em relação aos outros venda judicial da coisa ou direito.
credores.
SUBSECÇÃO VII
3. Se o requerente da expurgação não Transmissão da hipoteca
depositar a importância devida, nos
termos da lei de processo, fica o
requerimento sem efeito e não pode ARTIGO 727º
ser renovado, sem prejuízo da (Cessão da hipoteca)
responsabilidade do requerente pelos
danos causados aos credores. 1. A hipoteca que não for inseparável
da pessoa do devedor pode ser cedida
ARTIGO 724º sem o crédito assegurado, para
(Direitos reais que renascem pela garantia de crédito pertencente a outro
venda judicial) credor do mesmo devedor, com
observância das regras próprias da
1. Se o adquirente da coisa hipotecada cessão de créditos; se, porém, a coisa
tinha, anteriormente à aquisição, ou direito hipotecado pertencer a
algum direito real sobre ela, esse terceiro, é necessário o consentimento
direito renasce no caso de venda em deste.
processo de execução ou de
expurgação da hipoteca e é atendido 2. O credor com hipoteca sobre mais
em harmonia com as regras legais de uma coisa ou direito só pode cedê-
relativas a essa venda. la à mesma pessoa e na sua
totalidade.
2. Renascem do mesmo modo e são
incluídas na venda as servidões que, à ARTIGO 728º
data do registo da hipoteca, oneravam (Valor da hipoteca cedida)
algum prédio do terceiro adquirente
em benefício do prédio hipotecado. 1. A hipoteca cedida garante o novo
crédito nos limites do crédito
ARTIGO 725º originariamente garantido.
(Exercício antecipado do direito
hipotecário contra o adquirente) 2. Registada a cessão, a extinção do
crédito originário não afecta a
subsistência da hipoteca.

- 142 -
ARTIGO 729º (Redacção do Dec.-Lei 163/95, de 13-
(Cessão do grau hipotecário) 7)

É também permitida a cessão do grau ARTIGO 732º


hipotecário a favor de qualquer outro (Renascimento da hipoteca)
credor hipotecário posteriormente
inscrito sobre os mesmos bens, Se a causa extintiva da obrigação ou a
observadas igualmente as regras renúncia do credor à garantia for
respeitantes à cessão do respectivo declarada nula ou anulada, ou ficar por
crédito. outro motivo sem efeito, a hipoteca, se
a inscrição tiver sido cancelada,
SUBSECÇÃO VIII renasce apenas desde a data da nova
Extinção da hipoteca inscrição.

ARTIGO 730º SECÇÃO VI


(Causas de extinção) Privilégios creditórios

A hipoteca extingue-se: SUBSECÇÃO I


Disposições gerais
a) Pela extinção da obrigação a que
serve de garantia; ARTIGO 733º
(Noção)
b) Por prescrição, a favor de terceiro
adquirente do prédio hipotecado, Privilégio creditório é a faculdade que a
decorridos vinte anos sobre o registo lei, em atenção à causa do crédito,
da aquisição e cinco sobre o concede a certos credores,
vencimento da obrigação; independentemente do registo, de
serem pagos com preferência a outros.
c) Pelo perecimento da coisa
hipotecada, sem prejuízo do disposto ARTIGO 734º
nos artigos 692º e 701º; (Acessórios do crédito)

d) Pela renúncia do credor. O privilégio creditório abrange os juros


relativos aos últimos dois anos, se
ARTIGO 731º forem devidos.
(Renúncia à hipoteca)
ARTIGO 735º
1. A renúncia à hipoteca deve ser (Espécies)
expressa e exarada em documento
autenticado, não carecendo de 1. São de duas espécies os privilégios
aceitação do devedor ou do autor da creditórios: mobiliários e imobiliários.
hipoteca para produzir os seus efeitos.
2. Os privilégios mobiliários são gerais,
2. Os administradores de patrimónios se abrangem o valor de todos os bens
alheios não podem renunciar às móveis existentes no património do
hipotecas constituídas em benefício devedor à data da penhora ou de acto
das pessoas cujos patrimónios equivalente; são especiais, quando
administram.

- 143 -
compreendem só o valor de alimentos, relativo aos últimos seis
determinados bens móveis. meses;

3. Os privilégios imobiliários são d) Os créditos emergentes do contrato


sempre especiais. de trabalho, ou da violação ou
cessação deste contrato, pertencentes
SUBSECÇÃO II ao trabalhador e relativos aos últimos
Privilégios mobiliários gerais seis meses.

ARTIGO 736º 2. O prazo de seis meses referido nas


(Créditos do Estado e das alíneas b), c) e d) do número anterior
autarquias locais) conta-se a partir da morte do devedor
ou do pedido de pagamento.
1. O Estado e as autarquias locais têm
privilégio mobiliário geral para garantia SUBSECÇÃO III
dos créditos por impostos indirectos, e Privilégios mobiliários especiais
também pelos impostos directos
inscritos para cobrança no ano ARTIGO 738º
corrente na data da penhora, ou acto (Despesas de justiça e imposto
equivalente, e nos dois anos sobre sucessões e doações)
anteriores.
1. Os créditos por despesas de justiça
2. Este privilégio não compreende a feitas directamente no interesse
sisa ou o imposto sobre as sucessões e comum dos credores, para a
doações, nem quaisquer outros conservação, execução ou liquidação
impostos que gozem de privilégio de bens móveis, têm privilégio sobre
especial. estes bens.

ARTIGO 737º 2. Têm igualmente privilégio sobre os


(Outros créditos que gozam de bens móveis transmitidos os créditos
privilégio mobiliário geral) do Estado resultantes do imposto
sobre as sucessões e doações.
1. Gozam de privilégio geral sobre os
móveis: ARTIGO 739º
(Privilégio sobre os frutos de
a) O crédito por despesas do funeral prédios rústicos)
do devedor, conforme a sua condição e
costume da terra; Gozam de privilégio sobre os frutos
dos prédios rústicos respectivos:
b) O crédito por despesas com doenças
do devedor ou de pessoas a quem este a) Os créditos pelos fornecimentos de
deva prestar alimentos, relativo aos sementes, plantas e adubos, e de água
últimos seis meses; ou energia para irrigação ou outros
fins agrícolas;
c) O crédito por despesas
indispensáveis para o sustento do b) Os créditos por dívidas de foros
devedor e das pessoas a quem este relativos ao ano corrente na data da
tenha a obrigação de prestar penhora, ou acto equivalente, e ao ano
anterior.

- 144 -
locais, inscritos para cobrança no ano
ARTIGO 740º corrente na data da penhora, ou acto
(Privilégio sobre as rendas dos equivalente, e nos dois anos
prédios urbanos) anteriores, têm privilégio sobre os
bens cujos rendimentos estão sujeitos
Os créditos por dívidas de foros àquela contribuição.
relativos ao ano corrente na data da
penhora, ou acto equivalente, e ao ano 2. Os créditos do Estado pela sisa e
anterior, gozam de privilégio sobre as pelo imposto sobre as sucessões e
rendas dos prédios urbanos doações têm privilégio sobre os bens
respectivos. transmitidos.

ARTIGO 741º SUBSECÇÃO V


(Crédito de indemnização) Efeitos e extinção dos privilégios

O crédito da vítima de um facto que ARTIGO 745º


implique responsabilidade civil tem (Concurso de créditos
privilégio sobre a indemnização devida privilegiados)
pelo segurador da responsabilidade em
que o lesante haja incorrido. 1. Os créditos privilegiados são pagos
pela ordem segundo a qual vão
ARTIGO 742º indicados nas disposições seguintes.
(Crédito do autor de obra
intelectual) 2. Havendo créditos igualmente
privilegiados, dar-se-á rateio entre
O crédito do autor de obra intelectual, eles, na proporção dos respectivos
fundado em contrato de edição, tem montantes.
privilégio sobre os exemplares da obra
existentes em poder do editor. ARTIGO 746º
(Privilégios por despesas de
SUBSECÇÃO IV justiça)
Privilégios imobiliários
Os privilégios por despesas de justiça,
ARTIGO 743º quer sejam mobiliários, quer
(Despesas de justiça) imobiliários, têm preferência não só
sobre os demais privilégios,como sobre
Os créditos por despesas de justiça as outras garantias, mesmo anteriores,
feitas directamente no interesse que onerem os mesmos bens, e valem
comum dos credores, para a contra os terceiros adquirentes.
conservação, execução ou liquidação
dos bens imóveis, têm privilégio sobre ARTIGO 747º
estes bens. (Ordem dos outros privilégios
mobiliários)
ARTIGO 744º
(Contribuição predial e impostos 1. Os créditos com privilégio mobiliário
de transmissão) graduam-se pela ordem seguinte:

1. Os créditos por contribuição predial


devida ao Estado ou às autarquias

- 145 -
a) Os créditos por impostos, pagando- ARTIGO 750º
se em primeiro lugar o Estado e só (Privilégio mobiliário especial e
depois as autarquias locais; direitos de terceiro)

b) Os créditos por fornecimentos Salvo disposição em contrário, no caso


destinados à produção agrícola; de conflito entre o privilégio mobiliário
especial e um direito de terceiro,
c) Os créditos por dívidas de foros; prevalece o que mais cedo se houver
adquirido.
d) Os créditos da vítima de um facto
que dê lugar a responsabilidade civil; ARTIGO 751º
(Privilégio imobiliário e direitos de
e) Os créditos do autor de obra terceiro)
intelectual;
Os privilégios imobiliários são
f) Os créditos com privilégio mobiliário oponíveis a terceiros que adquiram o
geral, pela ordem segundo a qual são prédio ou um direito real sobre ele, e
enumerados no artigo 737º. preferem à consignação de
rendimentos, à hipoteca ou ao direito
2. O disposto no presente artigo é de retenção, ainda que estas garantias
aplicável, ainda que os privilégios sejam anteriores.
existam contra proprietários sucessivos
da coisa. ARTIGO 752º
(Extinção)
ARTIGO 748º
(Ordem dos outros privilégios Os privilégios extinguem-se pelas
imobiliários) mesmas causas por que se extingue o
direito de hipoteca.
1. Os créditos com privilégio
imobiliário graduam-se pela ordem ARTIGO 753º
seguinte: (Remissão)

a) Os créditos do Estado, pela São aplicáveis aos privilégios, com as


contribuição predial, pela sisa e pelo necessárias adaptações, os artigos
imposto sobre as sucessões e doações; 692º e 694º a 699º.

b) Os créditos das autarquias locais, SECÇÃO VII


pela contribuição predial. Direito de retenção

ARTIGO 749º ARTIGO 754º


(Privilégio geral e direitos de (Quando existe)
terceiro)
O devedor que disponha de um crédito
O privilégio geral não vale contra contra o seu credor goza do direito de
terceiros, titulares de direitos que, retenção se, estando obrigado a
recaindo sobre as coisas abrangidas entregar certa coisa, o seu crédito
pelo privilégio, sejam oponíveis ao resultar de despesas feitas por causa
exequente. dela ou de danos por ela causados.

- 146 -
ARTIGO 755º
(Casos especiais) ARTIGO 756º
(Exclusão do direito de retenção)
1. Gozam ainda do direito de retenção:
Não há direito de retenção:
a) O transportador, sobre as coisas
transportadas, pelo crédito resultante a) A favor dos que tenham obtido por
do transporte; meios ilícitos a coisa que devem
entregar, desde que, no momento da
b) O albergueiro, sobre as coisas que aquisição, conhecessem a ilicitude
as pessoas albergadas hajam trazido desta;
para a pousada ou acessórios dela,
pelo crédito da hospedagem; b) A favor dos que tenham realizado
de má fé as despesas de que proveio o
c) O mandatário, sobre as coisas que seu crédito;
lhe tiveram sido entregues para
execução do mandato, pelo crédito c) Relativamente a coisas
resultante da sua actividade; impenhoráveis;

d) O gestor de negócios, sobre as d) Quando a outra parte preste caução


coisas que tenha em seu poder para suficiente.
execução da gestão, pelo crédito
proveniente desta; ARTIGO 757º
(Inexigibilidade e iliquidez do
e) O depositário e o comodatário, crédito)
sobre as coisas que lhe tiverem sido
entregues em consequência dos 1. O devedor goza do direito de
respectivos contratos, pelos créditos retenção, mesmo antes do vencimento
deles resultantes; do seu crédito, desde que entretanto
se verifique alguma das circunstâncias
f) O beneficiário da promessa de que importam a perda do benefício do
transmissão ou constituição de direito prazo.
real que obteve a tradição da coisa a
que se refere o contrato prometido, 2. O direito de retenção não depende
sobre essa coisa, pelo crédito da liquidez do crédito do respectivo
resultante do não cumprimento titular.
imputável à outra parte, nos termos do
artigo 442º. ARTIGO 758º
(Retenção de coisas móveis)
2. Quando haja transportes sucessivos,
mas todos os transportadores se Recaindo o direito de retenção sobre
tenham obrigado em comum, entende- coisa móvel, o respectivo titular goza
se que o último detém as coisas em dos direitos e está sujeito às
nome próprio e em nome dos outros. obrigações do credor pignoratício,
salvo pelo que respeita à substituição
(Redacção do Dec-Lei 379/86, de 11- ou reforço da garantia.
11)
ARTIGO 759º
(Retenção de coisas imóveis)

- 147 -
1. O devedor cumpre a obrigação
1. Recaindo o direito de retenção sobre quando realiza a prestação a que está
coisa imóvel, o respectivo titular, vinculado.
enquanto não entregar a coisa retida,
tem a faculdade de a executar, nos 2. No cumprimento da obrigação,
mesmos termos em que o pode fazer o assim como no exercício do direito
credor hipotecário, e de ser pago com correspondente, devem as partes
preferência aos demais credores do proceder de boa fé.
devedor.
ARTIGO 763º
2. O direito de retenção prevelece (Realização integral da prestação)
neste caso sobre a hipoteca, ainda que
esta tenha sido registada 1. A prestação deve ser realizada
anteriormente. integralmente e não por partes,
excepto se outro for o regime
3. Até à entrega da coisa são convencionado ou imposto por lei ou
aplicáveis, quanto aos direitos e pelos usos.
obrigações do titular da retenção, as
regras do penhor, com as necessárias 2. O credor tem, porém, a faculdade
adaptações. de exigir uma parte da prestação; a
exigência dessa parte não priva o
ARTIGO 760º devedor da possibilidade de oferecer a
(Transmissão) prestação por inteiro.

O direito de retenção não é ARTIGO 764º


transmissível sem que seja transmitido (Capacidade do devedor e do
o crédito que ele garante. credor)

ARTIGO 761º 1. O devedor tem de ser capaz, se a


(Extinção) prestação constituir um acto de
disposição; mas o credor que haja
O direito de retenção extingue-se pelas recebido do devedor incapaz pode
mesmas causas por que cessa o direito opor-se ao pedido de anulação se o
de hipoteca, e ainda pela entrega da devedor não tiver tido prejuízo com o
coisa. cumprimento.

CAPÍTULO VII 2. O credor deve, pelo seu lado, ter


Cumprimento e não cumprimento capacidade para receber a prestação;
das obrigações mas, se esta chegar ao poder do
representante legal do incapaz ou o
SECÇÃO I património deste tiver enriquecido,
Cumprimento pode o devedor opor-se ao pedido de
SUBSECÇÃO I anulação da prestação realizada e de
Disposições gerais novo
cumprimento da obrigação, na medida
ARTIGO 762º do que tiver sido recebido pelo
(Princípio geral) representante ou do enriquecimento
do incapaz.

- 148 -
ARTIGO 765º ARTIGO 768º
(Entrega da coisa de que o (Recusa da prestação pelo credor)
devedor não pode dispor)
1. Quando a prestação puder ser
1. O credor que de boa fé receber a efectuada por terceiro, o credor que a
prestação de coisa que o devedor não recuse incorre em mora perante o
pode alhear tem o direito de impugnar devedor.
o cumprimento, sem prejuízo da
faculdade de se ressarcir dos danos 2. É, porém, lícito ao credor recusá-la,
que haja sofrido. desde que o devedor se oponha ao
cumprimento e o terceiro não possa
2. O devedor que, de boa ou má fé, ficar sub-rogado nos termos do artigo
prestar coisa de que lhe não é lícito 592º; a oposição do devedor não obsta
dispor não pode impugnar o a que o credor aceite validamente a
cumprimento, a não ser que ofereça prestação.
uma nova prestação.
ARTIGO 769º
ARTIGO 766º (A quem deve ser feita a
(Declaração de nulidade ou prestação)
anulação do
cumprimento e garantias A prestação deve ser feita ao credor ou
prestadas por terceiro) ao seu representante.

Se o cumprimento for declarado nulo ARTIGO 770º


ou anulado por causa imputável ao (Prestação feita a terceiro)
credor, não renascem as garantias
prestadas por terceiro, salvo se este A prestação feita a terceiro não
conhecia o vício na data em que teve extingue a obrigação, excepto:
notícia do cumprimento da obrigação.
a) Se assim foi estipulado ou
SUBSECÇÃO II consentido pelo credor;
Quem pode fazer e a quem pode
ser feita a prestação b) Se o credor a ratificar;

ARTIGO 767º c) Se quem a recebeu houver


(Quem pode fazer a prestação) adquirido posteriormente o crédito;

1. A prestação pode ser feita tanto d) Se o credor vier a aproveitar-se do


pelo devedor como por terceiro, cumprimento e não tiver interesse
interessado ou não no cumprimento da fundado em não a considerar como
obrigação. feita a si próprio;

2. O credor não pode, todavia, ser e) Se o credor for herdeiro de quem a


constrangido a receber de terceiro a recebeu e responder pelas obrigações
prestação, quando se tenha acordado do autor da sucessão;
expressamente em que esta deve ser
feita pelo devedor, ou quando a f) Nos demais casos em que a lei o
substituição o prejudique. determinar.

- 149 -
ARTIGO 771º Se a obrigação tiver por objecto certa
(Oposição à indicação feita pelo quantia em dinheiro, deve a prestação
credor) ser efectuada no lugar do domicílio que
o credor tiver ao tempo do
O devedor não é obrigado a satisfazer cumprimento.
a prestação ao representante
voluntário do credor nem à pessoa por ARTIGO 775º
este autorizada a recebê-la, se não (Mudança do domicílio do credor)
houver convenção nesse sentido.
Se tiver sido estipulado, ou resultar da
SUBSECÇÃO III lei, que o cumprimento deve efectuar-
Lugar da prestação se no domicílio do credor, e este
mudar de domicílio após a constituição
ARTIGO 772º da obrigação, pode a prestação ser
(Princípio geral) efectuada no domicílio do devedor,
salvo se aquele se comprometer a
1. Na falta de estipulação ou indemnizar este do prejuízo que sofrer
disposição especial da lei, a prestação com a mudança.
deve ser efectuada no lugar do
domicílio do devedor. ARTIGO 776º
(Impossibilidade da prestação no
2. Se o devedor mudar de domicílio lugar fixado)
depois de constituída a obrigação, a
prestação será efectuada no novo Quando a prestação for ou se tornar
domicílio, excepto se a mudança impossível no lugar fixado para o
acarretar prejuízo para o credor, pois, cumprimento e não houver
nesse caso, deve ser efectuada no fundamento para considerar a
lugar do domicílio primitivo. obrigação nula ou extinta, são
aplicáveis as regras supletivas dos
ARTIGO 773º artigos 772º a 774º.
(Entrega de coisa móvel)
SUBSECÇÃO IV
1. Se a prestação tiver por objecto Prazo da prestação
coisa móvel determinada, a obrigação
deve ser cumprida no lugar onde a ARTIGO 777º
coisa se encontrava ao tempo da (Determinação do prazo)
conclusão do negócio.
1. Na falta de estipulação ou
2. A disposição do número anterior é disposição especial da lei, o credor tem
ainda aplicável, quando se trate de o direito de exigir a todo o tempo o
coisa genérica que deve ser escolhida cumprimento da obrigação, assim
de um conjunto determinado ou de como o devedor pode a todo o tempo
coisa que deva ser produzida em certo exonerar-se dela.
lugar.
2. Se, porém, se tornar necessário o
ARTIGO 774º estabelecimento de um prazo, quer
(Obrigações pecuniárias) pela própria natureza da prestação,
quer por virtude das circunstâncias
que a determinaram, quer por força

- 150 -
dos usos, e as partes não acordarem diminuírem as garantias do crédito ou
na sua determinação, a fixação dele é não forem prestadas as garantias
deferida prometidas.
ao tribunal.
2. O credor tem o direito de exigir do
3. Se a determinação do prazo for devedor, em lugar do cumprimento
deixada ao credor e este não usar da imediato da obrigação, a substituição
faculdade que lhe foi concedida, ou reforço das garantias, se estas
compete ao tribunal fixar o prazo, a sofreram diminuição.
requerimento do devedor.
ARTIGO 781º
ARTIGO 778º (Dívida liquidável em prestações)
(Prazo dependente da
possibilidade ou do arbítrio do Se a obrigação puder ser liquidada em
devedor) duas ou mais prestações, a falta de
realização de uma delas importa o
1. Se tiver sido estipulado que o vencimento de todas.
devedor cumprirá quando puder, a
prestação só é exigível tendo este a ARTIGO 782º
possibilidade de cumprir; falecendo o (Perda do benefício do prazo em
devedor, é a prestação exigível dos relação aos co-obrigados e
seus herdeiros, independentemente da terceiros)
prova dessa possibilidade, mas sem
prejuízo do disposto no artigo 2071º. A perda do benefício do prazo não se
estende aos co-obrigados do devedor,
2. Quando o prazo for deixado ao nem a terceiro que a favor do crédito
arbítrio do devedor, só dos seus tenha constituído qualquer garantia.
herdeiros tem o credor o direito de
exigir que satisfaçam a prestação. SUBSECÇÃO V
Imputação do cumprimento
ARTIGO 779º
(Beneficiário do prazo) ARTIGO 783º
(Designação pelo devedor)
O prazo tem-se por estabelecido a
favor do devedor, quando se não 1. Se o devedor, por diversas dívidas
mostre que o foi a favor do credor, ou da mesma espécie ao mesmo credor,
do devedor e do credor efectuar uma prestação que não
conjuntamente. chegue para as extinguir a todas, fica
à sua escolha designar as dívidas a
ARTIGO 780º que o cumprimento se refere.
(Perda do benefício do prazo)
2. O devedor, porém, não pode
1. Estabelecido o prazo a favor do designar contra a vontade do credor
devedor, pode o credor, não obstante, uma dívida que ainda não esteja
exigir o cumprimento imediato da vencida, se o prazo tiver sido
obrigação, se o devedor se tornar estabelecido em benefício do credor; e
insolvente, ainda que a insolvência não também não lhe é lícito designar
tenha sido judicialmente declarada, ou contra a vontade do credor uma dívida
se, por causa imputável ao devedor, de montante superior ao da prestação

- 151 -
efectuada, desde que o credor tenha o
direito de recusar a prestação parcial. 1. Se o credor der quitação do capital
sem reserva dos juros ou de outras
ARTIGO 784º prestações acessórias, presume-se que
(Regras supletivas) estão pagos os juros ou prestações.

1. Se o devedor não fizer a 2. Sendo devidos juros ou outras


designação, deve o cumprimento prestações periódicas e dando o credor
imputar-se na dívida vencida; entre quitação, sem reserva, de uma dessas
várias dívidas vencidas, na que oferece prestações, presumem-se realizadas as
menor garantia para o credor; entre prestações anteriores.
várias dívidas igualmente garantidas,
na mais onerosa para o devedor; entre 3. A entrega voluntária, feita pelo
várias dívidas igualmente onerosas, na credor ao devedor, do título original do
que primeiro se tenha vencido; se crédito faz presumir a liberação do
várias se tiverem vencido devedor e dos seus condevedores,
simultaneamente, na mais antiga em solidários ou conjuntos, bem como do
data. fiador e do devedor principal, se o
título é entregue a algum destes.
2. Não sendo possível aplicar as regras
fixadas no número precedente, a ARTIGO 787º
prestação presumir-se-á feita por (Direito à quitação)
conta de todas as dívidas,
rateadamente, mesmo com prejuízo, 1. Quem cumpre a obrigação tem o
neste caso, do disposto no artigo 763º. direito de exigir quitação daquele a
quem a prestação é feita, devendo a
ARTIGO 785º quitação constar de documento
(Dívidas de juros, despesas e autêntico ou autenticado ou ser
indemnização) provida de reconhecimento notarial, se
aquele que cumpriu tiver nisso
1. Quando, além do capital, o devedor interesse legítimo.
estiver obrigado a pagar despesas ou
juros, ou a indemnizar o credor em 2. O autor do cumprimento pode
consequência da mora, a prestação recusar a prestação enquanto a
que não chegue para cobrir tudo o que quitação não for dada, assim como
é devido presume-se feita por conta, pode exigir a quitação depois do
sucessivamente, das despesas, da cumprimento.
indemnização, dos juros e do capital.
SUBSECÇÃO VII
2. A imputação no capital só pode Direito à restituição do título
fazer-se em último lugar, salvo se o ou à menção do cumprimento
credor concordar em que se faça
antes. ARTIGO 788º
(Restituição do título. Menção do
SUBSECÇÃO VI cumprimento)
Prova do cumprimento
1. Extinta a dívida, tem o devedor o
ARTIGO 786º direito de exigir a restituição do título
(Presunções de cumprimento) da obrigação; se o cumprimento for

- 152 -
parcial, ou o título conferir outros vencimento do termo, é a
direitos ao credor, ou este tiver, por imposibilidade considerada
outro motivo, interesse legítimo na superveniente e não afecta a validade
conservação dele, pode o devedor do negócio.
exigir que o credor mencione no título
o cumprimento efectuado. ARTIGO 791º
(Impossibilidade subjectiva)
2. Goza dos mesmos direitos o terceiro
que cumprir a obrigação, se ficar sub- A impossibilidade relativa à pessoa do
rogado nos direitos do credor. devedor importa igualmente a extinção
da obrigação, se o devedor, no
3. É aplicável à restituição do título e à cumprimento desta, não puder fazer-
menção do cumprimento o disposto no se substituir por terceiro.
nº 2 do artigo anterior.
ARTIGO 792º
ARTIGO 789º (Impossibilidade temporária)
(Impossibilidade de restituição ou
de menção) 1. Se a impossibilidade for temporária,
o devedor não responde pela mora no
Se o credor invocar a impossibilidade, cumprimento.
por qualquer causa, de restituir o título
ou de nele mencionar o cumprimento, 2. A impossibilidade só se considera
pode o devedor exigir quitação temporária enquanto, atenta a
passada em documento autêntico ou finalidade da obrigação, se mantiver o
autenticado ou com reconhecimento interesse do credor.
notarial, correndo o encargo por conta
do credor. ARTIGO 793º
(Impossibilidade parcial)
SECÇÃO II
Não cumprimento 1. Se a prestação se tornar
parcialmente impossível, o devedor
SUBSECÇÃO I exonera-se mediante a prestação do
Impossibilidade do cumprimento e que for possível, devendo, neste caso,
mora ser proporcionalmente reduzida a
não imputáveis ao devedor contraprestação a que a outra parte
estiver vinculada.
ARTIGO 790º
(Impossibilidade objectiva) 2. Porém, o credor que não tiver,
justificadamente, interesse no
1. A obrigação extingue-se quando a cumprimento parcial da obrigação
prestação se torna impossível por pode resolver o negócio.
causa não imputável ao devedor.
ARTIGO 794º
2. Quando o negócio do qual a («Commodum» de representação)
obrigação procede houver sido feito
sob condição ou a termo, e a prestação Se, por virtude do facto que tornou
for possível na data da conclusão do impossível a prestação, o devedor
negócio, mas se tornar impossível adquirir algum direito sobre certa
antes da verificação da condição ou do coisa, ou contra terceiro, em

- 153 -
substituição do objecto da prestação, entregue; quando for suspensiva a
pode o credor exigir a prestação dessa condição, o risco corre por conta do
coisa, ou substituir-se ao devedor na alienante durante a pendência da
titularidade do direito que este tiver condição.
adquirido contra terceiro.
ARTIGO 797º
ARTIGO 795º (Promessa de envio)
(Contratos bilaterais)
Quando se trate de coisa que, por
1. Quando no contrato bilateral uma força da convenção, o alienante deva
das prestações se torne impossível, enviar para local diferente do lugar do
fica o credor desobrigado da cumprimento, a transferência do risco
contraprestação e tem o direito, se já opera-se com a entrega ao
a tiver realizado, de exigir a sua transportador ou expedidor da coisa ou
restituição nos termos prescritos para à pessoa indicada para a execução do
o enriquecimento sem causa. envio.

2. Se a prestação se tornar impossível SUBSECÇÃO II


por causa imputável ao credor, não Falta de cumprimento e mora
fica este desobrigado da imputáveis ao devedor
contraprestação; mas, se o devedor
tiver algum benefício com a Divisão I
exoneração, será o valor do benefício Princípios gerais
descontado na contraprestação.
ARTIGO 798º
ARTIGO 796º (Responsabilidade do devedor)
(Risco)
O devedor que falta culposamente ao
1. Nos contratos que importem a cumprimento da obrigação torna-se
transferência do domínio sobre certa responsável pelo prejuízo que causa ao
coisa ou que constituam ou transfiram credor.
um direito real sobre ela, o
perecimento ou deterioração da coisa ARTIGO 799º
por causa não imputável ao alienante (Presunção de culpa e apreciação
corre por conta do adquirente. desta)

2. Se, porém, a coisa tiver continuado 1. Incumbe ao devedor provar que a


em poder do alienante em falta de cumprimento ou o
consequência de termo constituído a cumprimento defeituoso da obrigação
seu favor, o risco só se transfere com não procede de culpa sua.
o vencimento do termo ou a entrega
da coisa, sem prejuízo do disposto no 2. A culpa é apreciada nos termos
artigo 807º. aplicáveis à responsabilidade civil.

3. Quando o contrato estiver ARTIGO 800º


dependente de condição resolutiva, o (Actos dos representantes legais
risco do perecimento durante a ou auxiliares)
pendência da condição corre por conta
do adquirente, se a coisa lhe tiver sido

- 154 -
1. O devedor é responsável perante o 2. O credor não pode, todavia, resolver
credor pelos actos dos seus o negócio, se o não cumprimento
representantes legais ou das pessoas parcial, atendendo ao seu interesse,
que utilize para o cumprimento da tiver escassa importância.
obrigação, como se tais actos fossem
praticados pelo próprio devedor. ARTIGO 803º
(«Commodum» de representação)
2. A responsabilidade pode ser
convencionalmente excluída ou 1. É extensivo ao caso de
limitada, mediante acordo prévio dos impossibilidade imputável ao devedor
interessados, desde que a exclusão ou o que dispõe o artigo 794º.
limitação não compreenda actos que
representem a violação de deveres 2. Se o credor fizer valer o direito
impostos por normas de ordem conferido no número antecedente, o
pública. montante da indemnização a que
tenha direito será reduzido na medida
DIVISÃO II correspondente.
Impossibilidade do cumprimento
DIVISÃO III
ARTIGO 801º Mora do devedor
(Impossibilidade culposa)
ARTIGO 804º
1. Tornando-se impossível a prestação (Princípios gerais)
por causa imputável ao devedor, é
este responsável como se faltasse 1. A simples mora constitui o devedor
culposamente ao cumprimento da na obrigação de reparar os danos
obrigação. causados ao credor.

2. Tendo a obrigação por fonte um 2. O devedor considera-se constituído


contrato bilateral, o credor, em mora quando, por causa que lhe
independentemente do direito à seja imputável, a prestação, ainda
indemnização, pode resolver o possível, não foi efectuada no tempo
contrato e, se já tiver realizado a sua devido.
prestação, exigir a restituição dela por
inteiro. ARTIGO 805º
(Momento da constituição em
ARTIGO 802º mora)
(Impossibilidade parcial)
1. O devedor só fica constituído em
1. Se a prestação se tornar mora depois de ter sido judicial ou
parcialmente impossível, o credor tem extrajudicialmente interpelado para
a faculdade de resolver o negócio ou cumprir.
de exigir o cumprimento do que for
possível, reduzindo neste caso a sua 2. Há, porém, mora do devedor,
contraprestação, se for devida; em independentemente de interpelação:
qualquer dos casos o credor mantém o
direito à indemnização. a) Se a obrigação tiver prazo certo;

- 155 -
b) Se a obrigação provier de facto 1. Pelo facto de estar em mora, o
ilícito; devedor torna-se responsável pelo
prejuízo que o credor tiver em
c) Se o próprio devedor impedir a consequência da perda ou deterioração
interpelação, considerando-se daquilo que deveria entregar, mesmo
interpelado, neste caso, na data em que estes factos lhe não sejam
que normalmente o teria sido. imputáveis.

3. Se o crédito for ilíquido, não há 2. Fica, porém, salva ao devedor a


mora enquanto se não tornar líquido, possibilidade de provar que o credor
salvo se a falta de liquidez for teria sofrido igualmente os danos se a
imputável ao devedor; tratando-se, obrigação tivesse sido cumprida em
porém, de responsabilidade por facto tempo.
ilícito ou pelo risco, o devedor
constitui-se em mora desde a citação, ARTIGO 808º
a menos que já haja então mora, nos (Perda do interesse do credor ou
termos da primeira parte deste recusa do cumprimento)
número.
1. Se o credor, em consequência da
(Redacção do Dec.-Lei 262/83, de 16- mora, perder o interesse que tinha na
06) prestação, ou esta não for realizada
dentro do prazo que razoavelmente for
ARTIGO 806º fixado pelo credor, considera-se para
(Obrigações pecuniárias) todos os efeitos não cumprida a
obrigação.
1. Na obrigação pecuniária a
indemnização corresponde aos juros a 2. A perda do interesse na prestação é
contar do dia da constituição em mora. apreciada objectivamente.

2. Os juros devidos são os juros legais, DIVISÃO IV


salvo se antes da mora for devido um Fixação contratual dos direitos do
juro mais elevado ou as partes credor
houverem estipulado um juro
moratório diferente do legal. ARTIGO 809º
(Renúncia do credor aos seus
3. Pode, no entanto, o credor provar direitos)
que a mora lhe causou dano superior
aos juros referidos no número anterior É nula a cláusula pela qual o credor
e exigir a indemnização suplementar renuncia antecipadamente a qualquer
correspondente, quando se trate de dos direitos que lhe são facultados nas
responsabilidade por facto ilícito ou divisões anteriores nos casos de não
pelo risco. cumprimento ou mora do devedor,
salvo o disposto no nº 2 do artigo
(Redacção do Dec.-Lei 262/83, de 16- 800º.
06)
ARTIGO 810º
ARTIGO 807º (Cláusula penal)
(Risco)

- 156 -
1. As partes podem, porém, fixar por 2. É admitida a redução nas mesmas
acordo o montante da indemnização circunstâncias, se a obrigação tiver
exigível: é o que se chama cláusula sido parcialmente cumprida.
penal.
(Redacção do Dec.-Lei 262/83, de 16-
2. A cláusula penal está sujeita às 6)
formalidades exigidas para a obrigação
principal, e é nula se for nula esta SUBSECÇÃO III
obrigação. Mora do credor

ARTIGO 811º ARTIGO 813º


(Funcionamento da cláusula penal) (Requisitos)

1. O credor não pode exigir O credor incorre em mora quando,


cumulativamente, com base no sem motivo justificado, não aceita a
contrato, o cumprimento coercivo da prestação que lhe é oferecida nos
obrigação principal e o pagamento da termos legais ou não pratica os actos
cláusula penal, salvo se esta tiver sido necessários ao cumprimento da
estabelecida para o atraso da obrigação.
prestação; é nula qualquer estipulação
em contrário. ARTIGO 814º
(Responsabilidade do devedor)
2. O estabelecimento da cláusula penal
obsta a que o credor exija 1. A partir da mora, o devedor apenas
indemnização pelo dano excedente, responde, quanto ao objecto da
salvo se outra for a convenção das prestação, pelo seu dolo;
partes. relativamente aos proventos da coisa,
só responde pelos que hajam sido
3. O credor não pode em caso algum percebidos.
exigir uma indemnização que exceda o
valor do prejuízo resultante do 2. Durante a mora, a dívida deixa de
incumprimento da obrigação principal. vencer juros, quer legais, quer
convencionados.
(Redacção do Dec.-Lei 262/83, de 16-
6) ARTIGO 815º
(Risco)
ARTIGO 812º
(Redução equitativa da cláusula 1. A mora faz recair sobre o credor o
penal) risco da impossibilidade superveniente
da prestação, que resulte de facto não
1. A cláusula penal pode ser reduzida imputável a dolo do devedor.
pelo tribunal, de acordo com a
equidade, quando for manifestamente 2. Sendo o contrato bilateral, o credor
excessiva, ainda que por causa que, estando em mora, perca total ou
superveniente; é nula qualquer parcialmente o seu crédito por
estipulação em contrário. impossibilidade superveniente da
prestação não fica exonerado da
contraprestação; mas, se o devedor
tiver algum benefício com a extinção

- 157 -
da sua obrigação, deve o valor do exequente os actos de disposição ou
benefício ser descontado na oneração dos bens penhorados.
contraprestação.
ARTIGO 820º
ARTIGO 816º (Penhora de créditos)
(Indemnização)
Sendo penhorado algum crédito do
O credor em mora indemnizará o devedor, a extinção dele por causa
devedor das maiores despesas que dependente da vontade do executado
este seja obrigado a fazer com o ou do seu devedor, verificada depois
oferecimento infrutífero da prestação e da penhora, é igualmente ineficaz em
a guarda e conservação do respectivo relação ao exequente.
objecto.
ARTIGO 821º
SECÇÃO III (Liberação ou cessão de rendas ou
Realização coactiva da prestação alugueres não vencidos)

SUBSECÇÃO I A liberação ou cessão, antes da


Acção de cumprimento e execução penhora, de rendas e alugueres não
vencidos é inoponível ao exequente, na
ARTIGO 817º medida em que tais rendas ou
(Princípio geral) alugueres respeitem a períodos de
tempo não decorridos à data da
Não sendo a obrigação penhora.
voluntariamente cumprida, tem o
credor o direito de exigir judicialmente ARTIGO 822º
o seu cumprimento e de executar o (Preferência resultante da
património do devedor, nos termos penhora)
declarados neste código e nas leis de
processo. 1. Salvo nos casos especialmente
previstos na lei, o exequente adquire
ARTIGO 818º pela penhora o direito de ser pago com
(Execução de bens de terceiro) preferência a qualquer outro credor
que não tenha garantia real anterior.
O direito de execução pode incidir
sobre bens de terceiro, quando 2. Tendo os bens do executado sido
estejam vinculados à garantia do previamente arrestados, a
crédito, ou quando sejam objecto de anterioridade da penhora reporta-se à
acto praticado em prejuízo do credor, data do arresto.
que este haja procedentemente
impugnado. ARTIGO 823º
(Perda, expropriação ou
ARTIGO 819º deterioração da coisa penhorada)
(Disposição ou oneração dos bens
penhorados) Se a coisa penhorada se perder, for
expropriada ou sofrer diminuição de
Sem prejuízo das regras do registo, valor, e, em qualquer dos casos,
são ineficazes em relação ao houver lugar a indemnização de
terceiro, o exequente conserva sobre

- 158 -
os créditos respectivos, ou sobre as 3. Em lugar de exigir dos credores a
quantias pagas a título de restituição do preço, o adquirente pode
indemnização, o direito que tinha exercer contra o devedor, por sub-
sobre a coisa. rogação, os direitos desses credores.

ARTIGO 824º ARTIGO 826º


(Venda em execução) (Adjudicação e remição)

1. A venda em execução transfere para As disposições dos artigos


o adquirente os direitos do executado antecedentes relativos à venda são
sobre a coisa vendida. aplicáveis, com as necessárias
adaptações, à adjudicação e à
2. Os bens são transmitidos livres dos remição.
direitos de garantia que os onerarem,
bem como dos demais direitos reais SUBSECÇÃO II
que não tenham registo anterior ao de Execução específica
qualquer arresto, penhora ou garantia,
com excepção dos que, constituídos ARTIGO 827º
em data anterior, produzam efeitos em (Entrega de coisa determinada)
relação a terceiros independentemente
de registo. Se a prestação consistir na entrega de
coisa determinada, o credor tem a
3. Os direitos de terceiro que faculdade de requerer, em execução,
caducarem nos termos do número que a entrega lhe seja feita
anterior transferem-se para o produto judicialmente.
da venda dos respectivos bens.
ARTIGO 828º
ARTIGO 825º (Prestação de facto fungível)
(Garantia no caso de execução de
coisa alheia) O credor de prestação de facto fungível
tem a faculdade de requerer, em
1. O adquirente, no caso de execução execução, que o facto seja prestado
de coisa alheia, pode exigir que o por outrem à custa do devedor.
preço lhe seja restituído por aqueles a
quem foi atribuído e que os danos ARTIGO 829º
sejam reparados pelos credores e pelo (Prestação de facto negativo)
executado que hajam procedido com
culpa; é aplicável à restituição do 1. Se o devedor estiver obrigado a não
preço o disposto no artigo 894º. praticar algum acto e vier a praticá-lo,
tem o credor o direito de exigir que a
2. Se o terceiro tiver protestado pelo obra, se obra feita houver, seja
seu direito no acto da venda, ou demolida à custa do que se obrigou a
anteriormente a ela, e o adquirente não a fazer.
conhecer o protesto, não lhe é lícito
pedir a reparação dos danos, salvo se 2. Cessa o direito conferido no número
os credores ou o devedor se tiverem anterior, havendo apenas lugar à
responsabilizado pela indemnização. indemnização, nos termos gerais, se o
prejuízo da demolição para o devedor

- 159 -
for consideravelmente superior ao sentença que produza os efeitos da
prejuízo sofrido pelo credor. declaração negocial do faltoso, sempre
que a isso não se oponha a natureza
ARTIGO 829º-A da obrigação assumida.
(Sanção pecuniária compulsória)
2. Entende-se haver convenção em
1. Nas obrigações de prestação de contrário, se existir sinal ou tiver sido
facto infungível, positivo ou negativo, fixada uma pena para o caso de não
salvo nas que exigem especiais cumprimento da promessa.
qualidades científicas ou artísticas do
obrigado, o tribunal deve, a 3. O direito à execução específica não
requerimento do credor, condenar o pode ser afastado pelas partes nas
devedor ao pagamento de uma quantia promessas a que se refere o nº 3 do
pecuniária por cada dia de atraso no artigo 410º; a requerimento do
cumprimento ou por cada infracção, faltoso, porém, a sentença que
conforme for mais conveniente às produza os efeitos da sua declaração
circunstâncias do caso. negocial pode ordenar a modificação
do contrato nos termos do artigo 437º,
2. A sanção pecuniária compulsória ainda que a alteração das
prevista no número anterior será circunstâncias seja posterior à mora.
fixada segundo critérios de
razoabilidade, sem prejuízo da 4. Tratando-se de promessa relativa à
indemnização a que houver lugar. celebração de contrato oneroso de
transmissão ou constituição de direito
3. O montante da sanção pecuniária real sobre edifício, ou fracção
compulsória destina-se, em parte autónoma dele, em que caiba ao
iguais, ao credor e ao Estado. adquirente, nos termos do artigo 721º,
a faculdade de expurgar hipoteca a
4. Quando for estipulado ou que o mesmo se encontre sujeito,
judicialmente determinado qualquer pode aquele, caso a extinção de tal
pagamento em dinheiro corrente, são garantia não preceda a mencionada
automaticamente devidos juros à taxa transmissão ou constituição, ou não
de 5% ao ano, desde a data em que a coincida com esta, requerer, para
sentença de condenação transitar em efeito da expurgação, que a sentença
julgado, os quais acrescerão aos juros referida no nº 1 condene também o
de mora, se estes forem também promitente faltoso a entregar-lhe o
devidos, ou à indemnização a que montante do débito garantido, ou o
houver lugar. valor nele correspondente à fracção do
edifício ou do direito objecto do
(Aditado pelo Dec.-Lei 262/83, de 16- contrato e dos juros respectivos,
6) vencidos e vincendos, até pagamento
integral.
ARTIGO 830º
(Contrato-promessa) 5. No caso de contrato em que ao
obrigado seja lícito invocar a excepção
1. Se alguém se tiver obrigado a de não cumprimento, a acção
celebrar certo contrato e não cumprir a improcede, se o requerente não
promessa, pode a outra parte, na falta consignar em depósito a sua prestação
de convenção em contrário, obter

- 160 -
no prazo que lhe for fixado pelo
tribunal. 2. O devedor conserva, porém, o
direito de fiscalizar a gestão dos
(Redacção do Dec.-Lei 379/86, de 11- credores, e tem o direito à prestação
11) de contas no fim da liquidação ou, se a
cessão se prolongar por mais de um
SECÇÃO IV ano, no termo de cada ano.
Cessão de bens aos credores
ARTIGO 835º
ARTIGO 831º (Exoneração do devedor)
(Noção)
O devedor só fica liberado em face dos
Dá-se a cessão de bens aos credores credores a partir do recebimento da
quando estes, ou alguns deles, são parte que a estes compete no produto
encarregados pelo devedor de liquidar da liquidação, e na medida do que
o património deste, ou parte dele, e receberam.
repartir entre si o respectivo produto,
para satisfação dos seus créditos. ARTIGO 836º
(Desistência da cessão)
ARTIGO 832º
(Forma) 1. É permitido ao devedor desistir a
todo o tempo da cessão, cumprindo as
1. A cessão deve ser feita por escrito e obrigações a que está adstrito para
está, além disso, sujeita à forma com os cessionários.
exigida para a validade da transmissão
dos bens nela compreendidos. 2. A desistência não tem efeito
retroactivo.
2. A cessão deve ser registada sempre
que abranja bens sujeitos a registo. CAPÍTULO VIII
Causas de extinção das obrigações
ARTIGO 833º além do cumprimento
(Execução dos bens cedidos)
SECÇÃO I
A cessão não impede que os bens Dação em cumprimento
cedidos sejam executados pelos
credores que dela não participam, ARTIGO 837º
enquanto não tiverem sido alienados; (Quando é admitida)
não gozam de igual direito os
cessionários nem os credores A prestação de coisa diversa da que for
posteriores à cessão. devida, embora de valor superior, só
exonera o devedor se o credor der o
ARTIGO 834º seu assentimento.
(Poderes dos cessionários e do
devedor) ARTIGO 838º
(Vícios da coisa ou do direito)
1. Enquanto a cessão se mantiver, os
poderes de administração e disposição O credor a quem for feita a dação em
dos respectivos bens pertencem cumprimento goza de garantia pelos
exclusivamente aos cessionários. vícios da coisa ou do direito

- 161 -
transmitido, nos termos prescritos 2. A consignação em depósito é
para a compra e venda; mas pode facultativa.
optar pela prestação primitiva e
reparação dos danos sofridos. ARTIGO 842º
(Consignação por terceiro)
ARTIGO 839º
(Nulidade ou anulabilidade da A consignação em depósito pode ser
dação) efectuada a requerimento de terceiro a
quem seja lícito efectuar a prestação.
Sendo a dação declarada nula ou
anulada por causa imputável ao ARTIGO 843º
credor, não renascem as garantias (Dependência de outra prestação)
prestadas por terceiro, excepto se este
conhecia o vício na data em que teve Se o devedor tiver a faculdade de não
notícia da dação. cumprir senão contra uma prestação
do credor, é-lhe lícito exigir que a
ARTIGO 840º coisa consignada não seja entregue ao
(Dação «pro solvendo») credor enquanto este não efectuar
aquela prestação.
1. Se o devedor efectuar uma
prestação diferente da devida, para ARTIGO 844º
que o credor obtenha mais facilmente, (Entrega da coisa consignada)
pela realização do valor dela, a
satisfação do seu crédito, este só se Feita a consignação, fica o
extingue quando for satisfeito, e na consignatário obrigado a entregar ao
medida respectiva. credor a coisa consignada, e o credor
com o direito de exigir a sua entrega.
2. Se a dação tiver por objecto a
cessão de um crédito ou a assunção de ARTIGO 845º
uma dívida, presume-se feita nos (Revogação da consignação)
termos do número anterior.
1. O devedor pode revogar a
SECÇÃO II consignação, mediante declaração feita
Consignação em depósito no processo, e pedir a restituição da
coisa consignada.
ARTIGO 841º
(Quando tem lugar) 2. Extingue-se o direito de revogação,
se o credor, por declaração feita no
1. O devedor pode livrar-se da processo, aceitar a consignação, ou se
obrigação mediante o depósito da esta for considerada válida por
coisa devida, nos casos seguintes: sentença passada em julgado.

a) Quando, sem culpa sua, não puder ARTIGO 846º


efectuar a prestação ou não puder (Extinção da obrigação)
fazê-lo com segurança, por qualquer
motivo relativo à pessoa do credor; A consignação aceita pelo credor ou
declarada válida por decisão judicial
b) Quando o credor estiver em mora. libera o devedor, como se ele tivesse

- 162 -
feito a prestação ao credor na data do
depósito. ARTIGO 850º
(Créditos prescritos)
SECÇÃO III
Compensação O crédito prescrito não impede a
compensação, se a prescrição não
ARTIGO 847º podia ser invocada na data em que os
(Requisitos) dois créditos se tornaram
compensáveis.
1. Quando duas pessoas sejam
reciprocamente credor e devedor, ARTIGO 851º
qualquer delas pode livrar-se da sua (Reciprocidade dos créditos)
obrigação por meio de compensação
com a obrigação do seu credor, 1. A compensação apenas pode
verificados os seguintes requisitos: abranger a dívida do declarante, e não
a de terceiro, ainda que aquele possa
a) Ser o seu crédito exigível efectuar a prestação deste, salvo se o
judicialmente e não proceder contra declarante estiver em risco de perder o
ele excepção, peremptória ou dilatória, que é seu em consequência de
de direito material; execução por dívida de terceiro.

b) Terem as duas obrigações por 2. O declarante só pode utilizar para a


objecto coisas fungíveis da mesma compensação créditos que sejam seus,
espécie e qualidade. e não créditos alheios, ainda que o
titular respectivo dê o seu
2. Se as duas dívidas não forem de consentimento; e só procedem para o
igual montante, pode dar-se a efeito créditos seus contra o seu
compensação na parte correspondente. credor.

3. A iliquidez da dívida não impede a ARTIGO 852º


compensação. (Diversidade de lugares do
cumprimento)
ARTIGO 848º
(Como se torna efectiva) 1. Pelo simples facto de deverem ser
cumpridas em lugares diferentes, as
1. A compensação torna-se efectiva duas obrigações não deixam de ser
mediante declaração de uma das compensáveis, salvo estipulação em
partes à outra. contrário.

2. A declaração é ineficaz, se for feita 2. O declarante é, todavia, obrigado a


sob condição ou a termo. reparar os danos sofridos pela outra
parte, em consequência de esta não
ARTIGO 849º receber o seu crédito ou não cumprir a
(Prazo gratuito) sua obrigação no lugar determinado.

O credor que concedeu gratuitamente ARTIGO 853º


um prazo ao devedor está impedido de (Exclusão da compensação)
compensar a sua dívida antes do
vencimento do prazo.

- 163 -
1. Não podem extinguir-se por terceiro, salvo se este conhecia o vício
compensação: quando foi feita a declaração de
compensação.
a) Os créditos provenientes de factos
ilícitos dolosos; SECÇÃO IV
Novação
b) Os créditos impenhoráveis, excepto
se ambos forem da mesma natureza; ARTIGO 857º
(Novação objectiva)
c) Os créditos do Estado ou de outras
pessoas colectivas públicas, excepto Dá-se a novação objectiva quando o
quando a lei o autorize. devedor contrai perante o credor uma
nova obrigação em substituição da
2. Também não é admitida a antiga.
compensação, se houver prejuízo de
direitos de terceiro, constituídos antes ARTIGO 858º
de os créditos se tornarem (Novação subjectiva)
compensáveis, ou se o devedor a ela
tiver renunciado. A novação por substituição do credor
dá-se quando um novo credor é
ARTIGO 854º substituído ao antigo, vinculando-se o
(Retroactividade) devedor para com ele por uma nova
obrigação; e a novação por
Feita a declaração de compensação, os substituição do devedor, quando um
créditos consideram-se extintos desde novo devedor, contraindo nova
o momento em que se tornaram obrigação, é substituído ao antigo, que
compensáveis. é exonerado pelo credor.

ARTIGO 855º ARTIGO 859º


(Pluralidade de créditos) (Declaração negocial)

1. Se existirem, de uma ou outra A vontade de contrair a nova obrigação


parte, vários créditos compensáveis, a em substituição da antiga deve ser
escolha dos que ficam extintos expressamente manifestada.
pertence ao declarante.
ARTIGO 860º
2. Na falta de escolha, é aplicável o (Ineficácia da novação)
disposto nos artigos 784º e 785º.
1. Se a primeira obrigação estava
ARTIGO 856º extinta ao tempo em que a segunda foi
(Nulidade ou anulabilidade da contraída, ou vier a ser declarada nula
compensação) ou anulada, fica a novação sem efeito.

Declarada nula ou anulada a 2. Se for declarada nula ou anulada a


compensação, subsistem as obrigações nova obrigação, subsiste a obrigação
respectivas; mas, sendo a nulidade ou primitiva; mas, sendo a nulidade ou
anulação imputável a alguma das anulação imputável ao credor, não
partes, não renascem as garantias que renascem as garantias prestadas por
em seu benefício foram prestadas por terceiro, salvo se este, na data em que

- 164 -
teve notícia da novação, conhecia o 3. A remissão concedida por um dos
vício da nova obrigação. credores solidários exonera o devedor
para com os restantes credores, mas
ARTIGO 861º somente na parte que respeita ao
(Garantias) credor remitente.
1. Extinta a obrigação antiga pela
novação, ficam igualmente extintas, na ARTIGO 865º
falta de reserva expressa, as garantias (Obrigações indivisíveis)
que asseguravam o seu cumprimento,
mesmo quando resultantes da lei. 1. À remissão concedida pelo credor de
2. Dizendo a garantia respeito a obrigação indivisível a um dos
terceiro, é necessária também a devedores é aplicável o disposto no
reserva expressa deste. artigo 536º.

ARTIGO 862º 2. Sendo a remissão concedida por um


(Meios de defesa) dos credores ao devedor, este não fica
exonerado para com os outros
O novo crédito não está sujeito aos credores; mas estes não podem exigir
meios de defesa oponíveis à obrigação do devedor a prestação senão
antiga, salvo estipulação em contrário. entregando-lhe o valor da parte
daquele concredor.
SECÇÃO V
Remissão ARTIGO 866º
(Eficácia em relação a terceiros)
ARTIGO 863º
(Natureza contratual da remissão) 1. A remissão concedida ao devedor
aproveita a terceiros.
1. O credor pode remitir a dívida por
contrato com o devedor. 2. A remissão concedida a um dos
fiadores aproveita aos outros na parte
2. Quando tiver o carácter de do fiador exonerado; mas, se os outros
liberalidade, a remissão por negócio consentirem na remissão, respondem
entre vivos é havida como doação, na pela totalidade da dívida, salvo
conformidade dos artigos 940º e declaração em contrário.
seguintes.
3. Se for declarada nula ou anulada a
ARTIGO 864º remissão por facto imputável ao
(Obrigações solidárias) credor, não renascem as garantias
prestadas por terceiro, excepto se este
1. A remissão concedida a um devedor conhecia o vício na data em que teve
solidário libera os outros somente na notícia da remissão.
parte do devedor exonerado.
ARTIGO 867º
2. Se o credor, neste caso, reservar o (Renúncia às garantias)
seu direito, por inteiro, contra os
outros devedores, conservam estes, A renúncia às garantias da obrigação
por inteiro também, o direito de não faz presumir a remissão da dívida.
regresso contra o devedor exonerado.
SECÇÃO VI

- 165 -
Confusão
3. Se na mesma pessoa se reunirem as
ARTIGO 868º qualidades de devedor e fiador, fica
(Noção) extinta a fiança, excepto se o credor
tiver legítimo interesse na subsistência
Quando na mesma pessoa se reúnam da garantia.
as qualidades de credor e devedor da
mesma obrigação, extinguem-se o 4. A reunião na mesma pessoa das
crédito e a dívida. qualidades de credor e de proprietário
da coisa hipotecada ou empenhada
ARTIGO 869º não impede que a hipoteca ou o
(Obrigações solidárias) penhor se mantenha, se o credor nisso
tiver interesse e na medida em que
1. A reunião na mesma pessoa das esse interesse se justifique.
qualidades de devedor solidário e
credor exonera os demais obrigados, ARTIGO 872º
mas só na parte da dívida relativa a (Patrimónios separados)
esse devedor.
Não há confusão, se o crédito e a
2. A reunião na mesma pessoa das dívida pertencem a patrimónios
qualidades de credor solidário e separados.
devedor exonera este na parte
daquele. ARTIGO 873º
(Cessação da confusão)
ARTIGO 870º
(Obrigações indivisíveis) 1. Se a confusão se desfizer, renasce a
obrigação com os seus acessórios,
1. Se na obrigação indivisível em que mesmo em relação a terceiro, quando
há vários devedores se reunirem as o facto que a destrói seja anterior à
qualidades de credor e devedor, é própria confusão.
aplicável o disposto no artigo 536º.
2. Quando a cessação da confusão for
2. Sendo vários os credores e imputável ao credor, não renascem as
verificando-se a confusão entre um garantias prestadas por terceiro, salvo
deles e o devedor, é aplicável o se este conhecia o vício na data em
disposto no nº 2 do artigo 865º. que teve notícia da confusão.

ARTIGO 871º TÍTULO II


(Eficácia em relação a terceiros) DOS CONTRATOS EM ESPECIAL

1. A confusão não prejudica os direitos CAPÍTULO I


de terceiro. Compra e venda

2. Se houver, a favor de terceiro, SECÇÃO I


direitos de usufruto ou de penhor Disposições gerais
sobre o crédito, este subsiste, não
obstante a confusão, na medida em ARTIGO 874º
que o exija o interesse do usufrutuário (Noção)
ou do credor pignoratício.

- 166 -
Compra e venda é o contrato pelo qual um ano a contar do conhecimento da
se transmite a propriedade de uma celebração do contrato, ou do termo
coisa, ou outro direito, mediante um da incapacidade, se forem incapazes.
preço.
3. A proibição não abrange a dação em
ARTIGO 875º cumprimento feita pelo ascendente.
(Forma)
ARTIGO 878º
O contrato de compra e venda de bens (Despesas do contrato)
imóveis só é válido se for celebrado
por escritura pública. Na falta de convenção em contrário, as
despesas do contrato e outras
ARTIGO 876º acessórias ficam a cargo do
(Venda de coisa ou direito comprador.
litigioso)
SECÇÃO II
1. Não podem ser compradores de Efeitos da compra e venda
coisa ou direito litigioso, quer
directamente, quer por interposta ARTIGO 879º
pessoa, aqueles a quem a lei não (Efeitos essenciais)
permite que seja feita a cessão de
créditos ou direitos litigiosos, conforme A compra e venda tem como efeitos
se dispõe no capítulo respectivo. essenciais:

2. A venda feita com quebra do a) A transmissão da propriedade da


disposto no número anterior, além de coisa ou da titularidade do direito;
nula, sujeita o comprador, nos termos
gerais, à obrigação de reparar os b) A obrigação de entregar a coisa;
danos causados.
c) A obrigação de pagar o preço.
3. A nulidade não pode ser invocada
pelo comprador. ARTIGO 880º
(Bens futuros, frutos pendentes e
ARTIGO 877º partes componentes ou
(Venda a filhos ou netos) integrantes)

1. Os pais e avós não podem vender a 1. Na venda de bens futuros, de frutos


filhos ou netos, se os outros filhos ou pendentes ou de partes componentes
netos não consentirem na venda; o ou integrantes de uma coisa, o
consentimento dos descendentes, vendedor fica obrigado a exercer as
quando não possa ser prestado ou seja diligências necessárias para que o
recusado, é susceptível de suprimento comprador adquira os bens vendidos,
judicial. segundo o que for estipulado ou
resultar das circunstâncias do contrato.
2. A venda feita com quebra do que
preceitua o número anterior é 2. Se as partes atribuírem ao contrato
anulável; a anulação pode ser pedida carácter aleatório, é devido o preço,
pelos filhos ou netos que não deram o ainda que a transmissão dos bens não
seu consentimento, dentro do prazo de chegue a verificar-se.

- 167 -
determinado pelo tribunal, segundo
ARTIGO 881º juízos de equidade.
(Bens de existência ou titularidade
incerta) 2. Quando as partes se tenham
reportado ao justo preço, é aplicável o
Quando se vendam bens de existência disposto no número anterior.
ou titularidade incerta e no contrato se
faça menção dessa incerteza, é devido ARTIGO 884º
o preço, ainda que os bens não (Redução do preço)
existam ou não pertençam ao
vendedor, excepto se as partes 1. Se a venda ficar limitada a parte do
recusarem ao contrato natureza seu objecto, nos termos do artigo 292º
aleatória. ou por força de outros preceitos legais,
o preço respeitante à parte válida do
ARTIGO 882º contrato é o que neste figurar, se
(Entrega da coisa) houver sido discriminado como parcela
do preço global.
1. A coisa deve ser entregue no estado
em que se encontrava ao tempo da 2. Na falta de discriminação, a redução
venda. é feita por meio de avaliação.

2. A obrigação de entrega abrange, ARTIGO 885º


salvo estipulação em contrário, as (Tempo e lugar do pagamento do
partes integrantes, os frutos pendentes preço)
e os documentos relativos à coisa ou
direito. 1. O preço deve ser pago no momento
e no lugar da entrega da coisa
3. Se os documentos contiverem vendida.
outras matérias de interesse do
vendedor, é este obrigado a entregar 2. Mas, se por estipulação das partes
pública-forma da parte respeitante à ou por força dos usos o preço não tiver
coisa ou direito que foi objecto da de ser pago no momento da entrega, o
venda, ou fotocópia de igual valor. pagamento será efectuado no lugar do
domicílio que o credor tiver ao tempo
ARTIGO 883º do cumprimento.
(Determinação do preço)
ARTIGO 886º
1. Se o preço não estiver fixado por (Falta de pagamento do preço)
entidade pública, e as partes o não
determinarem nem convencionarem o Transmitida a propriedade da coisa, ou
modo de ele ser determinado, vale o direito sobre ela, e feita a sua
como preço contratual o que o entrega, o vendedor não pode, salvo
vendedor normalmente praticar à data convenção em contrário, resolver o
da conclusão do contrato ou, na falta contrato por falta de pagamento do
dele, o do mercado ou bolsa no preço.
momento do contrato e no lugar em
que o comprador deva cumprir; na SECÇÃO III
insuficiência destas regras, o preço é Venda de coisas sujeitas a
contagem, pesagem ou medição

- 168 -
1. O direito ao recebimento da
ARTIGO 887º diferença de preço caduca dentro de
(Coisas determinadas. Preço seis meses ou um ano após a entrega
fixado por unidade) da coisa, consoante esta for móvel ou
imóvel; mas, se a diferença só se
Na venda de coisas determinadas, com tornar exigível em momento posterior
preço fixado à razão de tanto por à entrega, o prazo contar-se-á a partir
unidade, é devido o preço proporcional desse momento.
ao número, peso ou medida real das
coisas vendidas, sem embargo de no 2. Na venda de coisas que hajam de
contrato se declarar quantidade ser transportadas de um lugar para
diferente. outro, o prazo reportado à data da
entrega só começa a correr no dia em
ARTIGO 888º que o comprador as receber.
(Coisas determinadas. Preço não
fixado por unidade) ARTIGO 891º
(Resolução do contrato)
1. Se na venda de coisas determinadas
o preço não for estabelecido à razão de 1. Se o preço devido por aplicação do
tanto por unidade, o comprador deve o artigo 887º ou do nº 2 do artigo 888º
preço declarado, mesmo que no exceder o proporcional à quantidade
contrato se indique o número, peso ou declarada em mais de um vigésimo
medida das coisas vendidas e a deste, e o vendedor exigir esse
indicação não corresponda à realidade. excesso, o comprador tem o direito de
resolver o contrato, salvo se houver
2. Se, porém, a quantidade efectiva procedido com dolo.
diferir da declarada em mais de um
vigésimo desta, o preço sofrerá 2. O direito à resolução caduca no
redução ou aumento proporcional. prazo de três meses, a contar da data
em que o vendedor fizer por escrito a
ARTIGO 889º exigência do excesso.
(Compensação entre faltas e
excessos) SECÇÃO IV
Venda de bens alheios
Quando se venda por um só preço uma
pluralidade de coisas determinadas e ARTIGO 892º
homogéneas, com indicação do peso (Nulidade da venda)
ou medida de cada uma delas, e se
declare quantidade inferior à real É nula a venda de bens alheios sempre
quanto a alguma ou algumas e que o vendedor careça de legitimidade
superior quanto a outra ou outras, far- para a realizar; mas o vendedor não
se-á compensação entre as faltas e os pode opor a nulidade ao comprador de
excessos até ao limite da sua boa fé, como não pode opô-la ao
concorrência. vendedor de boa fé o comprador
doloso.
ARTIGO 890º
(Caducidade do direito à diferença
de preço)

- 169 -
ARTIGO 893º b) Restituição do preço ou pagamento
(Bens alheios como bens futuros) da indemnização, no todo ou em parte,
com aceitação do credor;
A venda de bens alheios fica, porém,
sujeita ao regime da venda de bens c) Transacção entre os contraentes, na
futuros, se as partes os considerarem qual se reconheça a nulidade do
nesta qualidade. contrato;

ARTIGO 894º d) Declaração escrita, feita por um dos


(Restituição do preço) estipulantes ao outro, de que não quer
que o contrato deixe de ser declarado
1. Sendo nula a venda de bens alheios, nulo.
o comprador que tiver procedido de
boa fé tem o direito de exigir a 2. As disposições das alíneas a) e d)
restituição integral do preço, ainda que do número precedente não prejudicam
os bens se hajam perdido, estejam o disposto na segunda parte do artigo
deteriorados ou tenham diminuído de 892º.
valor por qualquer outra causa.
ARTIGO 897º
2. Mas, se o comprador houver tirado (Obrigação de convalidação)
proveito da perda ou diminuição de
valor dos bens, será o proveito abatido 1. Em caso de boa fé do comprador, o
no montante do preço e da vendedor é obrigado a sanar a
indemnização que o vendedor tenha de nulidade da venda, adquirindo a
pagar-lhe. propriedade da coisa ou o direito
vendido.
ARTIGO 895º
(Convalidação do contrato) 2. Quando exista uma tal obrigação, o
comprador pode subordinar ao não
Logo que o vendedor adquira por cumprimento dela, dentro do prazo
algum modo a propriedade da coisa ou que o tribunal fixar, o efeito previsto
o direito vendido, o contrato torna-se na alínea a) do nº 1 do artigo anterior.
válido e a dita propriedade ou direito
transfere-se para o comprador. ARTIGO 898º
(Indemnização em caso de dolo)
ARTIGO 896º
(Casos em que o contrato se não Se um dos contraentes houver
convalida) procedido de boa fé e o outro
dolosamente, o primeiro tem direito a
1. O contrato não adquire, porém, ser indemnizado, nos termos gerais,
validade, se entretanto ocorrer algum de todos os prejuízos que não teria
dos seguintes factos: sofrido se o contrato fosse válido
desde o começo, ou não houvesse sido
a) Pedido judicial de declaração de celebrado, conforme venha ou não a
nulidade do contrato, formulado por ser sanada a nulidade.
um dos contraentes contra o outro;
ARTIGO 899º
(Indemnização, não havendo dolo
nem culpa)

- 170 -
(Disposições supletivas)
O vendedor é obrigado a indemnizar o
comprador de boa fé, ainda que tenha 1. O disposto no artigo 894º, no nº 1
agido sem dolo nem culpa; mas, neste do artigo 897º, no artigo 899º, no nº 1
caso, a indemnização compreende do artigo 900º e no artigo 901º cede
apenas os danos emergentes que não perante convenção em contrário,
resultem de despesas voluptuárias. excepto se o contraente a quem a
convenção aproveitaria houver agido
ARTIGO 900º com dolo, e de boa fé o outro
(Indemnização pela não estipulante.
convalidação da venda)
2. A declaração contratual de que o
1. Se o vendedor for responsável pelo vendedor não garante a sua
não cumprimento da obrigação de legitimidade ou não responde pela
sanar a nulidade da venda ou pela evicção envolve derrogação de todas
mora no seu cumprimento, a as disposições legais a que o número
respectiva indemnização acresce à anterior se refere, com excepção do
regulada nos artigos anteriores, preceituado no artigo 894º.
excepto na parte em que o prejuízo
seja comum. 3. As cláusulas derrogadoras das
disposições supletivas a que se refere
2. Mas, no caso previsto no artigo o nº 1 são válidas, sem embargo da
898º, o comprador escolherá entre a nulidade do contrato de compra e
indemnização dos lucros cessantes venda onde se encontram insertas,
pela celebração do contrato nulo e a desde que a nulidade proceda da
dos lucros cessantes pela falta ou ilegitimidade do vendedor, nos termos
retardamento da convalidação. desta secção.

ARTIGO 901º ARTIGO 904º


(Garantia do pagamento de (Âmbito desta secção)
benfeitorias)
As normas da presente secção apenas
O vendedor é garante solidário do se aplicam à venda de coisa alheia
pagamento das benfeitorias que como própria.
devam ser reembolsadas pelo dono da
coisa ao comprador de boa fé. SECÇÃO V
Venda de bens onerados
ARTIGO 902º
(Nulidade parcial do contrato) ARTIGO 905º
(Anulabilidade por erro ou dolo)
Se os bens só parcialmente forem
alheios e o contrato valer na parte Se o direito transmitido estiver sujeito
restante por aplicação do artigo 292º, a alguns ónus ou limitações que
observar-se-ão as disposições excedam os limites normais inerentes
antecedentes quanto à parte nula e aos direitos da mesma categoria, o
reduzir-se-á proporcionalmente o contrato é anulável por erro ou dolo,
preço estipulado. desde que no caso se verifiquem os
requisitos legais da anulabilidade.
ARTIGO 903º

- 171 -
ARTIGO 906º obrigado a indemnizar o comprador,
(Convalescença do contrato) ainda que não tenha havido culpa da
sua parte, mas a indemnização
1. Desaparecidos por qualquer modo abrange apenas os danos emergentes
os ónus ou limitações a que o direito do contrato.
estava sujeito, fica sanada a
anulabilidade do contrato. ARTIGO 910º
(Não cumprimento da obrigação de
2. A anulabilidade persiste, porém, se fazer convalescer o contrato)
a existência dos ónus ou limitações já
houver causado prejuízo ao 1. Se o vendedor se constituir em
comprador, ou se este já tiver pedido responsabilidade por não sanar a
em juízo a anulação da compra e anulabilidade do contrato, a
venda. correspondente indemnização acresce
à que o comprador tenha direito a
ARTIGO 907º receber na conformidade dos artigos
(Obrigação de fazer convalescer o precedentes, salvo na parte em que o
contrato. prejuízo foi comum.
Cancelamento dos registos)
2. Mas, no caso previsto no artigo
1. O vendedor é obrigado a sanar a 908º, o comprador escolherá entre a
anulabilidade do contrato, mediante a indemnização dos lucros cessantes
expurgação dos ónus ou limitações pela celebração do contrato que veio a
existentes. ser anulado e a dos lucros cessantes
pelo facto de não ser sanada a
2. O prazo para a expurgação será anulabilidade.
fixado pelo tribunal, a requerimento do
comprador. ARTIGO 911º
(Redução do preço)
3. O vendedor deve ainda promover, à
sua custa, o cancelamento de qualquer 1. Se as circunstâncias mostrarem
ónus ou limitação que conste do que, sem erro ou dolo, o comprador
registo, mas na realidade não exista. teria igualmente adquirido os bens,
mas por preço inferior, apenas lhe
ARTIGO 908º caberá o direito à redução do preço,
(Indemnização em caso de dolo) em harmonia com a desvalorização
resultante dos ónus ou limitações,
Em caso de dolo, o vendedor, anulado além da indemnização que no caso
o contrato, deve indemnizar o competir.
comprador do prejuízo que este não
sofreria se a compra e venda não 2. São aplicáveis à redução do preço
tivesse sido celebrada. os preceitos anteriores, com as
necessárias adaptações.
ARTIGO 909º
(Indemnização em caso de simples ARTIGO 912º
erro) (Disposições supletivas)

Nos casos de anulação fundada em 1. O disposto nos nºs 1 e 3 do artigo


simples erro, o vendedor também é 907º, no artigo 909º e no nº 1 do

- 172 -
artigo 910º cede perante estipulação (Indemnização em caso de simples
das partes em contrário, a não ser que erro)
o vendedor tenha procedido com dolo
e as cláusulas contrárias àquelas A indemnização prevista no artigo
normas visem a beneficiá-lo. 909º também não é devida, se o
vendedor se encontrava nas condições
2. Não obsta à validade das cláusulas a que se refere a parte final do artigo
derrogadoras destas disposições anterior.
supletivas a anulação do contrato de
compra e venda por erro ou dolo, ARTIGO 916º
segundo as prescrições desta secção. (Denúncia do defeito)

SECÇÃO VI 1. O comprador deve denunciar ao


Venda de coisas defeituosas vendedor o vício ou a falta de
qualidade da coisa, excepto se este
ARTIGO 913º houver usado de dolo.
(Remissão)
2. A denúncia será feita até trinta dias
1. Se a coisa vendida sofrer de vício depois de conhecido o defeito e dentro
que a desvalorize ou impeça a de seis meses após a entrega da coisa.
realização do fim a que é destinada, ou
não tiver as qualidades asseguradas 3. Os prazos referidos no número
pelo vendedor ou necessárias para a anterior são, respectivamente, de um
realização daquele fim, observar-se-á, e de cinco anos, caso a coisa vendida
com as devidas adaptações, o prescrito seja um imóvel.
na secção precendente, em tudo
quanto não seja modificado pelas (Redacção do Dec.-Lei 267/94, de 25-
disposições dos artigos seguintes. 10)

2. Quando do contrato não resulte o ARTIGO 917º


fim a que a coisa vendida se destina, (Caducidade da acção)
atender-se-á à função normal das
coisas da mesma categoria. A acção de anulação por simples erro
caduca, findo qualquer dos prazos
ARTIGO 914º fixados no artigo anterior sem o
(Reparação ou substituição da comprador ter feito a denúncia, ou
coisa) decorridos sobre esta seis meses, sem
prejuízo, neste último caso, do
O comprador tem o direito de exigir do disposto no nº 2 do artigo 287º.
vendedor a reparação da coisa ou, se
for necessário e esta tiver natureza ARTIGO 918º
fungível, a substituição dela; mas esta (Defeito superveniente)
obrigação não existe, se o vendedor
desconhecia sem culpa o vício ou a Se a coisa, depois de vendida e antes
falta de qualidade de que a coisa de entregue, se deteriorar, adquirindo
padece. vícios ou perdendo qualidades, ou a
venda respeitar a coisa futura ou a
ARTIGO 915º coisa indeterminada de certo género,

- 173 -
são aplicáveis as regras relativas ao meses sobre a data em que a denúncia
não cumprimento das obrigações. foi efectuada.

ARTIGO 919º ARTIGO 922º


(Venda sobre amostra) (Coisas que devem ser
transportadas)
Sendo a venda feita sobre amostra,
entende-se que o vendedor assegura a Na venda de coisas que devam ser
existência, na coisa vendida, de transportadas de um lugar para outro,
qualidades iguais às da amostra, salvo os prazos que os artigos 916º e 921º
se da convenção ou dos usos resultar mandam contar a partir da entrega só
que esta serve somente para indicar começam a correr no dia em que o
de modo aproximado as qualidades do credor as receber.
objecto.
SECÇÃO VII
ARTIGO 920º Venda a contento e venda sujeita a
(Venda de animais defeituosos) prova

Ficam ressalvadas as leis especiais ou, ARTIGO 923º


na falta destas, os usos sobre a venda (Primeira modalidade de venda a
de animais defeituosos contento)

ARTIGO 921º 1. A compra e venda feita sob reserva


(Garantia de bom funcionamento) de a coisa agradar ao comprador vale
como proposta de venda.
1. Se o vendedor estiver obrigado, por
convenção das partes ou por força dos 2. A proposta considera-se aceita se,
usos, a garantir o bom funcionamento entregue a coisa ao comprador, este
da coisa vendida, cabe-lhe repará-la, não se pronunciar dentro do prazo da
ou substituí-la quando a substituição aceitação, nos termos do nº 1 do
for necessária e a coisa tiver natureza artigo 228º.
fungível, independentemente de culpa
sua ou de erro do comprador. 3. A coisa deve ser facultada ao
comprador para exame.
2. No silêncio do contrato, o prazo da
garantia expira seis meses após a ARTIGO 924º
entrega da coisa, se os usos não (Segunda modalidade de venda a
estabelecerem prazo maior. contento)

3. O defeito de funcionamento deve 1. Se as partes estiverem de acordo


ser denunciado ao vendedor dentro do sobre a resolução da compra e venda
prazo da garantia e, salvo estipulação no caso de a coisa não agradar ao
em contrário, até trinta dias depois de comprador, é aplicável ao contrato o
conhecido. disposto nos artigos 432º e seguintes.

4. A acção caduca logo que finde o 2. A entrega da coisa não impede a


tempo para a denúncia sem o resolução do contrato.
comprador a ter feito, ou passados seis

- 174 -
3. O vendedor pode fixar um prazo (Noção)
razoável para a resolução, se nenhum
for estabelecido pelo contrato ou, no Diz-se a retro a venda em que se
silêncio deste, pelos usos. reconhece ao vendedor a faculdade de
resolver o contrato.
ARTIGO 925º
(Venda sujeita a prova) ARTIGO 928º
(Cláusulas nulas)
1. A venda sujeita a prova considera-
se feita sob a condição suspensiva de a 1. É nula, sem prejuízo da validade das
coisa ser idónea para o fim a que é outras cláusulas, a estipulação de
destinada e ter as qualidades pagamento de dinheiro ao comprador
asseguradas pelo vendedor, excepto se ou de qualquer outra vantagem para
as partes a subordinarem a condição este, como contrapartida da resolução.
resolutiva.
2. É igualmente nula, quanto ao
2. A prova deve ser feita dentro do excesso, a cláusula que declare o
prazo e segundo a modalidade vendedor obrigado a restituir, em caso
estabelecida pelo contrato ou pelos de resolução, preço superior ao fixado
usos; se tanto o contrato como os usos para a venda.
forem omissos, observar-se-ão o prazo
fixado pelo vendedor e a modalidade ARTIGO 929º
escolhida pelo comprador, desde que (Prazo para a resolução)
sejam razoáveis.
1. A resolução pode ser exercida
3. Não sendo o resultado da prova dentro de dois ou cinco anos a contar
comunicado ao vendedor antes de da venda, conforme esta for de bens
expirar o prazo a que se refere o móveis ou imóveis, salvo estipulação
número antecedente, a condição tem- de prazo mais curto.
se por verificada quando suspensiva, e
por não verificada quando resolutiva. 2. Se as partes convencionarem prazo
ou prorrogação de prazo que exceda o
4. A coisa deve ser facultada ao limite de dois ou cinco anos a partir da
comprador para prova. venda, a convenção considera-se
reduzida a esse preciso limite.
ARTIGO 926º
(Dúvidas sobre a modalidade da ARTIGO 930º
venda) (Forma da resolução)

Em caso de dúvida sobre a modalidade A resolução é feita por meio de


de venda que as partes escolheram, de notificação judicial ao comprador
entre as previstas nesta secção, dentro dos prazos fixados no artigo
presume-se terem adoptado a antecedente; se respeitar a coisas
primeira. imóveis, a resolução será reduzida a
escritura pública nos quinze dias
SECÇÃO VIII imediatos, com ou sem a intervenção
Venda a retro do comprador, sob pena de caducidade
do direito.
ARTIGO 927º

- 175 -
ARTIGO 931º ARTIGO 935º
(Reembolso do preço e de (Cláusula penal no caso de o
despesas) comprador não cumprir)

No silêncio do contrato, a resolução 1. A indemnização estabelecida em


fica igualmente sem efeito se, dentro cláusula penal, por o comprador não
do mesmo prazo de quinze dias, o cumprir, não pode ultrapassar metade
vendedor não fizer ao comprador do preço, salva a faculdade de as
oferta real das importâncias líquidas partes estipularem, nos termos gerais,
que haja de pagar-lhe a título de a ressarcibilidade de todo o prejuízo
reembolso do preço e das despesas sofrido.
com o contrato e outras acessórias.
2. A indemnização fixada pelas partes
ARTIGO 932º será reduzida a metade do preço,
(Efeitos em relação a terceiros) quando tenha sido estipulada em
montante superior, ou quando as
A cláusula a retro é oponível a prestações pagas superem este valor e
terceiros, desde que a venda tenha por se tenha convencionado a não
objecto coisas imóveis, ou coisas restituição delas; havendo, porém,
móveis sujeitas a registo, e tenha sido prejuízo excedente e não se tendo
registada. estipulado a sua ressarcibilidade, será
ressarcido até ao limite da
ARTIGO 933º indemnização convencionada pelas
(Venda de coisa ou direito comum) partes .

Se for vendida coisa ou direito comum ARTIGO 936º


com a cláusula a retro, só em conjunto (Outros contratos com finalidade
os vendedores podem exercer o direito equivalente)
de resolução.
1. O disposto nos dois artigos
SECÇÃO IX anteriores é extensivo a todos os
Venda a prestações contratos pelos quais se pretenda
obter resultado equivalente ao da
ARTIGO 934º venda a prestações.
(Falta de pagamento de uma
prestação) 2. Quando se locar uma coisa, com a
cláusula de que se tornará propriedade
Vendida a coisa a prestações, com do locatário depois de satisfeitas todas
reserva de propriedade, e feita a sua as rendas ou alugueres pactuados, a
entrega ao comprador, a falta de resolução do contrato por o locatário o
pagamento de uma só prestação que não cumprir tem efeito retroactivo,
não exceda a oitava parte do preço devendo o locador restituir as
não dá lugar à resolução do contrato, importâncias recebidas, sem
nem sequer, haja ou não reserva de possibilidade de convenção em
propriedade, importa a perda do contrário, mas também sem prejuízo
benefício do prazo relativamente às do seu direito a indemnização nos
prestações seguintes, sem embargo de termos gerais e nos do artigo anterior.
convenção em contrário.

- 176 -
SECÇÃO X SECÇÃO XI
Venda sobre documentos Outros contratos onerosos

ARTIGO 937º ARTIGO 939º


(Entrega dos documentos) (Aplicabilidade das normas
relativas à compra e venda)
Na venda sobre documentos, a entrega
da coisa é substituída pela entrega do As normas da compra e venda são
seu título representativo e dos outros aplicáveis aos outros contratos
documentos exigidos pelo contrato ou, onerosos pelos quais se alienam bens
no silêncio deste, pelos usos. ou se estabeleçam encargos sobre
eles, na medida em que sejam
ARTIGO 938º conformes com a sua natureza e não
(Venda de coisa em viagem) estejam em contradição com as
disposições legais respectivas.
1. Se o contrato tiver por objecto coisa
em viagem e, mencionada esta CAPÍTULO II
circunstância, figurar entre os Doação
documentos entregues a apólice de
seguro contra os riscos do transporte, SECÇÃO I
observar-se-ão as regras seguintes, na Disposições gerais
falta de estipulação em contrário:
ARTIGO 940º
a) O preço deve ser pago, ainda que a (Noção)
coisa já não existisse quando o
contrato foi celebrado, por se haver 1. Doação é o contrato pelo qual uma
perdido casualmente depois de ter sido pessoa, por espírito de liberalidade e à
entregue ao transportador; custa do seu património, dispõe
gratuitamente de uma coisa ou de um
b) O contrato não é anulável com direito, ou assume uma obrigação, em
fundamento em defeitos da coisa, benefício do outro contraente.
produzidos casualmente após o
momento da entrega; 2. Não há doação na renúncia a
direitos e no repúdio de herança ou
c) O risco fica a cargo do comprador legado, nem tão-pouco nos donativos
desde a data da compra. conformes aos usos sociais.

2. As duas primeiras regras do número ARTIGO 941º


anterior não têm aplicação se, ao (Doação remuneratória)
tempo do contrato, o vendedor já
sabia que a coisa estava perdida ou É considerada doação a liberalidade
deteriorada e dolosamente o não remuneratória de serviços recebidos
revelou ao comprador de boa fé. pelo doador, que não tenham a
natureza de dívida exigível.
3. Quando o seguro apenas cobrir
parte dos riscos, o disposto neste ARTIGO 942º
artigo vale exclusivamente em relação (Objecto da doação)
à parte segurada.

- 177 -
1. A doação não pode abranger bens declarada ao doador, sob pena de não
futuros. produzir os seus efeitos.

2. Incidindo, porém, a doação sobre ARTIGO 946º


uma universalidade de facto que (Doação por morte)
continue no uso e fruição do doador,
consideram-se doadas, salvo 1. É proibida a doação por morte,
declaração em contrário, as coisas salvo nos casos especialmente
singulares que venham de futuro a previstos na lei.
integrar a universalidade.
2. Será, porém, havida como
ARTIGO 943º disposição testamentária a doação que
(Prestações periódicas) houver de produzir os seus efeitos por
morte do doador, se tiverem sido
A doação que tiver por objecto observadas as formalidades dos
prestações periódicas extingue-se por testamentos.
morte do doador.
ARTIGO 947º
ARTIGO 944º (Forma da doação)
(Doação conjunta)
1. A doação de coisas imóveis só é
1. A doação feita a várias pessoas válida se for celebrada por escritura
conjuntamente considera-se feita por pública.
partes iguais, sem que haja direito de
acrescer entre os donatários, salvo se 2. A doação de coisas móveis não
o doador houver declarado o contrário. depende de formalidade alguma
externa, quando acompanhada de
2. O disposto no número anterior não tradição da coisa doada; não sendo
prejudica o direito de acrescer entre acompanhada de tradição da coisa, só
usufrutuários, quando o usufruto tenha pode ser feita por escrito.
sido constituído por doação.
SECÇÃO II
ARTIGO 945º Capacidade para fazer ou receber
(Aceitação da doação) doações

1. A proposta de doação caduca, se ARTIGO 948º


não for aceita em vida do doador. (Capacidade activa)

2. A tradição para o donatário, em 1. Têm capacidade para fazer doações


qualquer momento, da coisa móvel todos os que podem contratar e dispor
doada, ou do seu título representativo, dos seus bens.
é havida como aceitação.
2. A capacidade é regulada pelo estado
3. Se a proposta não for aceita no em que o doador se encontrar ao
próprio acto ou não se verificar a tempo da declaração negocial.
tradição nos termos do número
anterior, a aceitação deve obedecer à ARTIGO 949º
forma prescrita no artigo 947º e ser (Carácter pessoal da doação)

- 178 -
1. Não é permitido atribuir a outrem, (Casos de indisponibilidade
por mandato, a faculdade de designar relativa)
a pessoa do donatário ou determinar o
objecto da doação, salvo nos casos É aplicável às doações, devidamente
previstos no nº 2 do artigo 2182º. adaptado, o disposto nos artigos 2192º
a 2198º.
2. Os representantes legais dos
incapazes não podem fazer doações SECÇÃO III
em nome destes. Efeitos das doações

ARTIGO 950º
(Capacidade passiva) ARTIGO 954º
(Efeitos essenciais)
1. Podem receber doações todos os
que não estão especialmente inibidos A doação tem como efeitos essenciais:
de as aceitar por disposição da lei.
a) A transmissão da propriedade da
2. A capacidade do donatário é fixada coisa ou da titularidade do direito;
no momento da aceitação.
b) A obrigação de entregar a coisa;
ARTIGO 951º
(Aceitação por parte de incapazes) c) A assunção da obrigação, quando
for esse o objecto do contrato.
1. As pessoas que não têm capacidade
para contratar não podem aceitar ARTIGO 955º
doações com encargos senão por (Entrega da coisa)
intermédio dos seus representantes
legais. 1. A coisa deve ser entregue no estado
em que se encontrava ao tempo da
2. Porém, as doações puras feitas a aceitação.
tais pessoas produzem efeitos
independentemente de aceitação em 2. A obrigação de entrega abrange, na
tudo o que aproveite aos donatários. falta de estipulação em contrário, as
partes integrantes, os frutos pendentes
ARTIGO 952º e os documentos relativos à coisa ou
(Doações a nascituros) direito.

1. Os nascituros concebidos ou não ARTIGO 956º


concebidos podem adquirir por doação, (Doação de bens alheios)
sendo filhos de pessoa determinada,
viva ao tempo da declaração de 1. É nula a doação de bens alheios;
vontade do doador. mas o doador não pode opor a
nulidade ao donatário de boa fé.
2. Na doação feita a nascituro
presume-se que o doador reserva para 2. O doador só responde pelo prejuízo
si o usufruto dos bens doados até ao causado ao donatário quando este
nascimento do donatário. esteja de boa fé e se verifique algum
dos seguintes factos:
ARTIGO 953º

- 179 -
a) Ter o doador assumido 2. Havendo reserva de usufruto em
expressamente a obrigação de favor de várias pessoas, simultânea ou
indemnizar o prejuízo; sucessivamente, são aplicáveis as
disposições dos artigos 1441º e 1442º.
b) Ter o doador agido com dolo;
ARTIGO 959º
c) Ter a doação carácter (Reserva do direito de dispor de
remuneratório; coisa determinada)

d) Ser a doação onerosa ou modal, 1. O doador pode reservar para si o


ficando a responsabilidade do doador direito de dispor, por morte ou por
limitada, neste caso, ao valor dos acto entre vivos, de alguma ou
encargos. algumas das coisas compreendidas na
doação, ou o direito a certa quantia
3. É imputável no prejuízo do sobre os bens doados.
donatário o valor da coisa ou do direito
doado, mas não os benefícios que ele 2. O direito reservado não se transmite
deixou de obter em consequência da aos herdeiros do doador, e, quando
nulidade. respeite a imóveis, ou móveis sujeitos
a registo, carece de ser registado.
4. Não havendo lugar a indemnização,
o donatário fica sub-rogado nos ARTIGO 960º
direitos que possam competir ao (Cláusula de reversão)
doador relativamente à coisa ou direito
doado. 1. O doador pode estipular a reversão
da coisa doada.
ARTIGO 957º
(Ónus ou vícios do direito ou da 2. A reversão dá-se no caso de o
coisa doada) doador sobreviver ao donatário, ou a
este e a todos os seus descendentes;
1. O doador não responde pelos ónus não havendo estipulação em contrário,
ou limitações do direito transmitido, entende-se que a reversão só se
nem pelos vícios da coisa, excepto verifica neste último caso.
quando se tiver expressamente
responsabilizado ou tiver procedido 3. A cláusula de reversão que respeite
com dolo. a coisas imóveis, ou a coisas móveis
sujeitas a registo, carece de ser
2. A doação é, porém, anulável em registada.
qualquer caso, a requerimento do
donatário de boa fé. ARTIGO 961º
(Efeitos da reversão)
ARTIGO 958º
(Reserva de usufruto) Os bens doados que pela cláusula de
reversão regressem ao património do
1. O doador tem a faculdade de doador passam livres dos encargos que
reservar para si, ou para terceiro, o lhes tenham sido impostos enquanto
usufruto dos bens doados. estiverem em poder do donatário ou
de terceiros a quem tenham sido
transmitidos.

- 180 -
ARTIGO 962º O doador, ou os seus herdeiros,
(Substituições fideicomissárias) também podem pedir a resolução da
doação, fundada no não cumprimento
1. São admitidas substituições dos encargos, quando esse direito lhes
fideicomissárias nas doações. seja conferido pelo contrato.

2. A estas substituições são aplicáveis, ARTIGO 967º


com as necessárias correcções, os (Condições ou encargos
artigos 2286º e seguintes. impossíveis ou ilícitos)

ARTIGO 963º As condições ou encargos física ou


(Cláusulas modais) legalmente impossíveis, contrários à lei
ou à ordem pública, ou ofensivos dos
1. As doações podem ser oneradas bons costumes ficam sujeitos às regras
com encargos. estabelecidas em matéria
testamentária.
2. O donatário não é obrigado a
cumprir os encargos senão dentro dos ARTIGO 968º
limites do valor da coisa ou do direito (Confirmação das doações nulas)
doado.
Não pode prevalecer-se da nulidade da
ARTIGO 964º doação o herdeiro do doador que a
(Pagamento de dívidas) confirme depois da morte deste ou lhe
dê voluntária execução, conhecendo o
1. Se a doação for feita com o encargo vício e o direito à declaração de
de pagamento das dívidas do doador, nulidade.
entender-se-á a cláusula, na falta de
outra declaração, como obrigando ao SECÇÃO IV
pagamento das que existirem ao Revogação das doações
tempo da doação.
ARTIGO 969º
2. Só é legal o encargo do pagamento (Revogação da proposta de
de dívidas futuras do doador desde doação)
que se determine o seu montante no
acto da doação. 1. Enquanto não for aceita a doação, o
doador pode livremente revogar a sua
ARTIGO 965º declaração negocial, desde que
(Cumprimento dos encargos) observe as formalidades desta.

Na doação modal, tanto o doador, ou 2. A proposta de doação não caduca


os seus herdeiros, como quaisquer pelo decurso dos prazos fixados no nº
interessados têm legitimidade para 1 do artigo 228º.
exigir do donatário, ou dos seus
herdeiros, o cumprimento dos ARTIGO 970º
encargos. (Revogação da doação)

ARTIGO 966º As doações são revogáveis por


(Resolução da doação) ingratidão do donatário.

- 181 -
3. Se o donatário tiver cometido contra
(Redacção do Dec.-Lei 496/77, de 25- o doador o crime de homicídio, ou por
11) qualquer causa o tiver impedido de
revogar a doação, a acção pode ser
ARTIGOS 971º A 973º proposta pelos herdeiros do doador
(Revogados pelo Dec.-Lei 496/77, de dentro de um ano a contar da morte
25-11) deste.

ARTIGO 974º ARTIGO 977º


(Casos de ingratidão) (Inadmissibilidade de renúncia
antecipada)
A doação pode ser revogada por
ingratidão, quando o donatário se O doador não pode antecipadamente
torne incapaz, por indignidade, de renunciar ao direito de revogar a
suceder ao doador, ou quando se doação por ingratidão do donatário.
verifique alguma das ocorrências que
justificam a deserdação. (Redacção do Dec.-Lei 496/77, de 25-
11)
ARTIGO 975º
(Exclusão da revogação) ARTIGO 978º
(Efeitos da revogação)
A doação não é revogável por
ingratidão do donatário: 1. Os efeitos da revogação da doação
retrotraem-se à data da proposição da
a) Sendo feita para casamento; acção.

b) Sendo remuneratória; 2. Revogada a liberalidade, são os


bens doados restituídos ao doador, ou
c) Se o doador houver perdoado ao aos seus herdeiros, no estado em que
donatário. se encontrarem.

ARTIGO 976º 3. Se os bens tiverem sido alienados


(Prazo e legitimidade para a ou não puderem ser restituídos em
acção) espécie por outra causa imputável ao
donatário, entregará este, ou
1. A acção de revogação por ingratidão entregarão os seus herdeiros, o valor
não pode ser proposta, nem depois da que eles tinham ao tempo em que
morte do donatário, nem pelos foram alienados ou se verificou a
herdeiros do doador, salvo o caso impossibilidade de restituição,
previsto no nº 3 e caduca ao cabo de acrescido dos juros legais a contar da
um ano, contado desde o facto que lhe proposição da acção.
deu causa ou desde que o doador teve
conhecimento desse facto. ARTIGO 979º
(Efeitos em relação a terceiros)
2. Falecido o doador ou o donatário, a
acção, quando pendente, é A revogação da doação não afecta
transmissível aos herdeiros de um ou terceiros que hajam adquirido,
de outro. anteriormente à demanda, direitos
reais sobre os bens doados, sem

- 182 -
prejuízo das regras relativas ao 2. Se o contrato conceder direitos
registo; neste caso, porém, o especiais a algum dos sócios, não
donatário indemnizará o doador. podem os direitos concedidos ser
suprimidos ou coarctados sem o
CAPÍTULO III assentimento do respectivo titular,
Sociedade salvo estipulação expressa em
contrário.
SECÇÃO I
Disposições gerais SECÇÃO II
Relações entre os sócios
ARTIGO 980º
(Noção)
ARTIGO 983º
Contrato de sociedade é aquele em (Entradas)
que duas ou mais pessoas se obrigam
a contribuir com bens ou serviços para 1. Os sócios estão somente obrigados
o exercício em comum de certa às entradas estabelecidas no contrato.
actividade económica, que não seja de
mera fruição, a fim de repartirem os 2. As entradas dos sócios presumem-
lucros resultantes dessa actividade. se iguais em valor, se este não for
determinado no contrato.
ARTIGO 981º
(Forma) ARTIGO 984º
(Execução da prestação, garantia e
1. O contrato de sociedade não está risco da coisa)
sujeito a forma especial, à excepção da
que for exigida pela natureza dos bens A execução da prestação, a garantia e
com que os sócios entram para a o risco da coisa são regulados nos
sociedade. termos seguintes:

2. A inobservância da forma, quando a) Se a entrada consistir na


esta for exigida, só anula todo o transferência ou constituição de um
negócio se este não puder converter- direito real, pelas normas do contrato
se segundo o disposto no artigo 293º, de compra e venda;
de modo que à sociedade fique o
simples uso e fruição dos bens cuja b) Se o sócio apenas se obrigar a
transferência determina a forma facultar à sociedade o uso e fruição de
especial, ou se o negócio não puder uma coisa, pelas normas do contrato
reduzir-se, nos termos do artigo 292º, de locação;
às demais participações.
c) Se a entrada consistir na
ARTIGO 982º transferência de um crédito ou de uma
(Alterações do contrato) posição contratual, pelas normas,
respectivamente, da cessão de créditos
1. As alterações do contrato requerem ou da cessão da posição contratual,
o acordo de todos os sócios, excepto presumindo-se, todavia, que o sócio
se o próprio contrato o dispensar. garante a solvência do devedor.

ARTIGO 985º

- 183 -
(Administração) 3. A designação de administradores
feita em acto posterior pode ser
1. Na falta de convenção em contrário, revogada por deliberação da maioria
todos os sócios têm igual poder para dos sócios, sendo em tudo o mais
administrar. aplicáveis à revogação as regras do
mandato.
2. Pertencendo a administração a
todos os sócios ou apenas a alguns ARTIGO 987º
deles, qualquer dos administradores (Direitos e obrigações dos
tem o direito de se opor ao acto que administradores)
outro pretenda realizar, cabendo à
maioria decidir sobre o mérito da 1. Aos direitos e obrigações dos
oposição. administradores são aplicáveis as
normas do mandato.
3. Se o contrato confiar a
administração a todos ou a vários 2. Qualquer sócio pode tornar efectiva
sócios em conjunto, entende-se, em a responsabilidade a que está sujeito o
caso de dúvida, que as deliberações administrador.
podem ser tomadas por maioria.
ARTIGO 988º
4. Salvo estipulação noutro sentido, (Fiscalização dos sócios)
considera-se tomada por maioria a
deliberação que reúna os sufrágios de 1. Nenhum sócio pode ser privado,
mais de metade dos administradores. nem sequer por cláusula do contrato,
do direito de obter dos administradores
5. Ainda que para a administração em as informações de que necessite sobre
geral, ou para determinada categoria os negócios da sociedade, de consultar
de actos, seja exigido o assentimento os documentos a eles pertinentes e de
de todos os administradores, ou da exigir a prestação de contas.
maioria deles, a qualquer dos
administradores é lícito praticar os 2. As contas são prestadas no fim de
actos urgentes da administração cada ano civil, salvo se outra coisa for
destinados a evitar à sociedade um estipulada no contrato, ou se for
dano iminente. inferior a um ano a duração prevista
para a sociedade.
ARTIGO 986º
(Alteração da administração) ARTIGO 989º
(Uso das coisas sociais)
1. A cláusula do contrato que atribuir a
administração ao sócio pode ser O sócio não pode, sem consentimento
judicialmente revogada, a unânime dos consócios, servir-se das
requerimento de qualquer outro, coisas sociais para fins estranhos à
ocorrendo justa causa. sociedade.

2. É permitido incluir no contrato casos ARTIGO 990º


especiais de revogação, mas não é (Proibição de concorrência)
lícito aos interessados afastar a regra
do número anterior. O sócio que, sem expressa autorização
de todos os outros, exercer, por conta

- 184 -
própria ou alheia, actividade igual à da 1. Convencionando-se que a divisão
sociedade fica responsável pelos danos dos ganhos e perdas seja feita por
que lhe causar, podendo ainda ser terceiro, deve este fazê-la segundo
excluído, nos termos da alínea a) do juízos de equidade, sempre que não
artigo 1003º. haja estipulação em contrário; se a
divisão não puder ser feita ou não tiver
ARTIGO 991º sido feita no tempo devido, sê-lo-á
(Distribuição periódica dos lucros) pelo tribunal, segundo os mesmos
juízos.
Se os contraentes nada tiverem
declarado sobre o destino dos lucros 2. Qualquer sócio tem o direito de
de cada exercício, os sócios têm direito impugnar a divisão feita por terceiro,
a que estes lhes sejam atribuídos nos no prazo de seis meses a contar do dia
termos fixados no artigo imediato, em que ela chegou ao seu
depois de deduzidas as quantias conhecimento.
afectadas, por deliberação da maioria,
à prossecução dos fins sociais. 3. Porém, a recepção dos respectivos
lucros extingue o direito à
ARTIGO 992º impugnação, salvo se anteriormente se
(Distribuição dos lucros e das protestou contra a divisão, ou se, ao
perdas) tempo do recebimento, eram
desconhecidas as causas da
1. Na falta de convenção em contrário, impugnabilidade.
os sócios participam nos lucros e
perdas da sociedade segundo a ARTIGO 994º
proporção das respectivas entradas. (Pacto leonino)

2. No silêncio do contrato, os sócios de É nula a cláusula que exclui um sócio


indústria não respondem, nas relações da comunhão nos lucros ou que o
internas, pelas perdas sociais. isenta de participar nas perdas da
sociedade, salvo o disposto no nº 2 do
3. Se o contrato não fixar o quinhão do artigo 992º.
sócio de indústria nos lucros nem o
valor da sua contribuição, será o ARTIGO 995º
quinhão deste estimado pelo tribunal (Cessão de quotas)
segundo juízos de equidade; do
mesmo modo se avaliará a parte nos 1. Nenhum sócio pode ceder a terceiro
lucros e perdas do sócio que apenas se a sua quota sem consentimento de
obrigou a facultar à sociedade o uso e todos os outros.
fruição de uma coisa.
2. A cessão de quotas está sujeita à
4. Se o contrato determinar somente a forma exigida para a transmissão dos
parte de cada sócio nos lucros, bens da sociedade.
presumir-se-á ser a mesma a sua
parte nas perdas. SECÇÃO III
Relações com terceiros
ARTIGO 993º
(Divisão deferida a terceiro) ARTIGO 996º
(Representação da sociedade)

- 185 -
(Resposabilidade por factos
1. A sociedade é representada em ilícitos)
juízo e fora dele pelos seus
administradores, nos termos do 1. A sociedade responde civilmente
contrato ou de harmonia com as pelos actos ou omissões dos seus
regras fixadas no artigo 985º. representantes, agentes ou
mandatários, nos mesmos termos em
2. Quando não estiverem sujeitas a que os comitentes respondem pelos
registo, as deliberações sobre a actos ou omissões dos seus
extinção ou modificação dos poderes comissários.
dos administradores não são oponíveis
a terceiros que, sem culpa, as 2. Não podendo o lesado ressarcir-se
ignoravam ao tempo em que completamente, nem pelos bens da
contrataram com a sociedade; sociedade, nem pelo património do
considera-se sempre culposa a representante, agente ou mandatário,
ignorância, se à deliberação foi dada a ser-lhe-á lícito exigir dos sócios o que
publicidade conveniente. faltar, nos mesmos termos em que o
poderia fazer qualquer credor social.
ARTIGO 997º
(Responsabilidade pelas ARTIGO 999º
obrigações sociais) (Credor particular do sócio)

1. Pelas dívidas sociais respondem a 1. Enquanto se não dissolver a


sociedade e, pessoal e solidariamente, sociedade, e sendo suficientes outros
os sócios. bens do devedor, o credor particular
do sócio apenas pode executar o
2. Porém, o sócio demandado para direito deste aos lucros e à quota de
pagamento dos débitos da sociedade liquidação.
pode exigir a prévia excussão do
património social. 2. Se os outros bens do devedor forem
insuficientes, o credor pode exigir a
3. A responsabilidade dos sócios que liquidação da quota do devedor nos
não sejam administradores pode ser termos do artigo 1021º.
modificada, limitada ou excluída por
cláusula expressa do contrato, excepto ARTIGO 1000º
no caso de a administração competir (Compensação)
unicamente a terceiras pessoas; se a
cláusula não estiver sujeita a registo, é Não é admitida compensação entre
aplicável, quanto à sua oponibilidade a aquilo que um terceiro deve à
terceiros, o disposto no nº 2 do artigo sociedade e o crédito dele sobre algum
anterior. dos sócios, nem entre o que a
sociedade deve a terceiro e o crédito
4. O sócio não pode eximir-se à que sobre este tenha algum dos
responsabilidade por determinada sócios.
dívida a pretexto de esta ser anterior à
sua entrada para a sociedade. SECÇÃO IV
Morte, exoneração ou exclusão de
ARTIGO 998º sócios

- 186 -
3. A exoneração só se torna efectiva
ARTIGO 1001º no fim do ano social em que é feita a
(Morte de um sócio) comunicação respectiva, mas nunca
antes de decorridos três meses sobre
1. Falecendo um sócio, se o contrato esta comunicação.
nada estipular em contrário, deve a
sociedade liquidar a sua quota em 4. As causas legais de exoneração não
benefício dos herdeiros; mas os sócios podem ser suprimidas ou modificadas;
supérstites têm a faculdade de optar a supressão ou modificação das causas
pela dissolução da sociedade, ou pela contratuais depende do acordo de
sua continuação com os herdeiros se todos os sócios.
vierem a acordo com eles.
ARTIGO 1003º
2. A opção pela dissolução da (Exclusão)
sociedade só é oponível aos herdeiros
do sócio falecido se lhes for A exclusão de um sócio pode dar-se
comunicada dentro de sessenta dias, a nos casos previstos no contrato, e
contar do conhecimento da morte ainda nos seguintes:
pelos sócios supérstites.
a) Quando lhe seja imputável violação
3. Sendo dissolvida a sociedade, os grave das obrigações para com a
herdeiros assumem todos os direitos sociedade;
inerentes, na sociedade em liquidação,
à quota do sócio falecido. b) Em caso de interdição ou
inabilitação;
4. Sendo os herdeiros chamados à
sociedade, podem livremente dividir c) Quando, sendo sócio de indústria,
entre si o quinhão do seu antecessor se impossibilite de prestar à sociedade
ou encabeçá-lo em algum ou alguns os serviços a que ficou obrigado;
deles.
d) Quando, por causa não imputável
ARTIGO 1002º aos administradores, se verifique o
(Exoneração) perecimento da coisa ou direito que
constituía a entrada do sócio, nos
1. Todo o sócio tem o direito de se termos do artigo seguinte.
exonerar da sociedade, se a duração
desta não tiver sido fixada no ARTIGO 1004º
contrato; não se considera, para este (Perecimento superveniente da
efeito, fixada no contrato a duração da coisa)
sociedade, se esta tiver sido
constituída por toda a vida de um sócio O perecimento superveniente da coisa
ou por período superior a trinta anos. é fundamento de exclusão do sócio:

2. Havendo fixação de prazo, o direito a) Se a entrada consistir na


de exoneração só pode ser exercido transferência ou constituição de um
nas condições previstas no contrato ou direito real sobre a coisa e esta
quando ocorra justa causa. perecer antes da entrega;

- 187 -
b) Se o sócio entrou para a sociedade
apenas com o uso e fruição da coisa a) Por acordo dos sócios;
perdida.
b) Pelo decurso do prazo fixado no
ARTIGO 1005º contrato, não havendo porrogação;
(Deliberação sobre a exclusão)
c) Pela realização do objecto social, ou
1. A exclusão depende do voto da por este se tornar impossível;
maioria dos sócios, não incluindo no
número destes o sócio em causa, e d) Por se extinguir a pluralidade dos
produz efeitos decorridos trinta dias sócios, se no prazo de seis meses não
sobre a data da respectiva for reconstituída;
comunicação ao excluído.
e) Por decisão judicial que declare a
2. O direito de oposição do sócio sua insolvência;
excluído caduca decorrido o prazo
referido no número anterior. f) Por qualquer outra causa prevista no
contrato.
3. Se a sociedade tiver apenas dois
sócios, a exclusão de qualquer deles só ARTIGO 1008º
pode ser pronunciada pelo tribunal. (Dissolução por acordo.
Prorrogação do prazo)
ARTIGO 1006º
(Eficácia da exoneração ou 1. A dissolução por acordo depende do
exclusão) voto unânime dos sócios, a não ser
que o contrato permita a modificação
1. A exoneração ou exclusão não das suas cláusulas ou a dissolução da
isenta o sócio da responsabilidade em sociedade por simples voto maioritário.
face de terceiros pelas obrigações
sociais contraídas até ao momento em 2. A prorrogação do prazo fixado no
que a exoneração ou exclusão produzir contrato pode ser validamente
os seus efeitos. convencionada até à partilha;
considera-se tacitamente prorrogada a
2. A exoneração e a exclusão que não sociedade, por tempo indeterminado,
estejam sujeitas a registo não são se os sócios continuaram a exercer a
oponíveis a terceiros que, sem culpa, actividade social, salvo se das
as ignoravam ao tempo em que circunstâncias resultar que não houve
contrataram com a sociedade; essa intenção.
considera-se sempre culposa a
ignorância, se ao acto foi dada a ARTIGO 1009º
publicidade conveniente. (Poderes dos administradores
depois da dissolução)
SECÇÃO V
Dissolução da sociedade 1. Dissolvida a sociedade, os poderes
dos administradores ficam limitados à
ARTIGO 1007º prática dos actos meramente
(Causas de dissolução) conservatórios e, no caso de não
terem sido nomeados liquidatários, dos
A sociedade dissolve-se:

- 188 -
actos necessários à liquidação do deste suprida pelo tribunal, por
património social. iniciativa de qualquer sócio ou credor.

2. Pelas obrigações que os ARTIGO 1013º


administradores assumam contra o (Posição dos liquidatários)
disposto no número anterior, a
sociedade e os outros sócios só 1. A posição dos liquidatários é
respondem perante terceiros se estes idêntica à dos administradores, com as
estavam de boa fé ou, no caso de ser modificações constantes dos artigos
obrigatório o registo da dissolução, se seguintes.
este não tiver sido efectuado; nos
restantes casos, respondem 2. Salvo acordo dos sócios em
solidariamente os administradores que contrário, as decisões dos liquidatários
tenham assumido aquelas obrigações. são tomadas por maioria.

SECÇÃO VI ARTIGO 1014º


Liquidação da sociedade e de (Termos iniciais da liquidação)
quotas
1. Se os liquidatários não forem os
ARTIGO 1010º administradores, devem exigir destes a
(Liquidação da sociedade) entrega dos bens e dos livros e
documentos da sociedade, bem como
Dissolvida a sociedade, procede-se à as contas relativas ao último período
liquidação do seu património. de gestão; na falta de entrega, esta
deve ser requerida ao tribunal.
ARTIGO 1011º
(Forma da liquidação) 2. É obrigatória a organização de um
inventário que dê a conhecer a
1. Se não estiver fixada no contrato, a situação do património social; o
forma da liquidação é regulada pelos inventário é elaborado conjuntamente
sócios; na falta de acordo de todos, por administradores e liquidatários.
observar-se-ão as disposições dos
artigos subsequentes e as das leis de ARTIGO 1015º
processo. (Poderes dos liquidatários)

2. Se o prazo para a liquidação não Cabe aos liquidatários praticar todos os


estiver determinado, qualquer sócio ou actos necessários à liquidação do
credor pode requerer a sua património social, ultimando os
determinação pelo tribunal. negócios pendentes, cobrando os
créditos, alienando os bens e pagando
ARTIGO 1012º aos credores.
(Liquidatários)
ARTIGO 1016º
1. A liquidação compete aos (Pagamento do passivo)
administradores.
1. É defeso aos liquidatários proceder
2. Se o contrato confiar aos sócios a à partilha dos bens sociais enquanto
nomeação dos liquidatários e o acordo não tiverem sido pagos os credores da
se revelar impossível, será a falta

- 189 -
sociedade ou consignadas as quantias proporção da parte que lhes caiba nos
necessárias. lucros.

2. Quando os bens da sociedade não 3. As entradas que não sejam de


forem suficientes para liquidação do dinheiro são estimadas no valor que
passivo, os liquidatários podem exigir tinham à data da constituição da
dos sócios, além das entradas em sociedade, se não lhes tiver sido
dívida, as quantias necessárias, em atribuído outro no contrato.
proporção da parte de cada um nas
perdas e dentro dos limites da 4. Ainda que o contrato o não preveja,
respectiva responsabilidade; se, podem os sócios acordar em que a
porém, algum sócio se encontrar partilha dos bens se faça em espécie.
insolvente, será a sua parte dividida
pelos demais, nos termos referidos. ARTIGO 1019º
(Regresso à actividade social)
ARTIGO 1017º
(Restituição dos bens atribuídos 1. Enquanto não se ultimarem as
em uso e fruição) partilhas, podem os sócios retomar o
exercício da actividade social, desde
1. O sócio que tiver entrado para a que o resolvam por unanimidade.
sociedade com o uso e fruição de
certos bens tem o direito de os 2. Se, porém, a dissolução tiver
levantar no estado em que se resultado de causa imperativa, é
encontrarem. necessário que tenham cessado as
circunstâncias que a determinaram.
2. Se os bens se houverem perdido ou
deteriorado por causa imputável aos ARTIGO 1020º
administradores, são estes e a (Responsabilidade dos sócios após
sociedade solidariamente responsáveis a liquidação)
pelos danos.
Encerrada a liquidação e extinta a
ARTIGO 1018º sociedade, os antigos sócios continuam
(Partilha) responsáveis perante terceiros pelo
pagamento dos débitos que não
1. Extintas as dívidas sociais, o activo tenham sido saldados, como se não
restante é destinado em primeiro lugar tivesse havido liquidação.
ao reembolso das entradas
efectivamente realizadas, exceptuadas ARTIGO 1021º
as contribuições de serviços e as de (Liquidação de quotas)
uso e fruição de certos bens.
1. Nos casos de morte, exoneração ou
2. Se não puder ser feito o reembolso exclusão de um sócio, o valor da sua
integral, o activo existente é quota é fixado com base no estado da
distribuído pelos sócios, por forma que sociedade à data em que ocorreu ou
a diferença para menos recaia em cada produziu efeitos o facto determinante
um deles na proporção da parte que da liquidação; se houver negócios em
lhe competir nas perdas da sociedade; curso, o sócio ou os herdeiros
se houver saldo depois de feito o participarão nos lucros e perdas deles
reembolso, será repartido por eles na resultantes.

- 190 -
assentimento; se a lei exigir escritura
2. Na avaliação da quota observar-se- pública para a celebração do
ão, com as adaptações necessárias, as arrendamento, deve o assentimento
regras dos nºs 1 a 3 do artigo 1018º, ser prestado por igual forma.
na parte em que forem aplicáveis.
ARTIGO 1025º
3. O pagamento do valor da liquidação (Duração máxima)
deve ser feito, salvo acordo em
contrário, dentro do prazo de seis A locação não pode celebrar-se por
meses, a contar do dia em que tiver mais de trinta anos; quando estipulada
ocorrido ou produzido efeitos o facto por tempo superior, ou como contrato
determinante da liquidação. perpétuo, considera-se reduzida
àquele limite.
CAPÍTULO IV
Locação ARTIGO 1026º
(Prazo supletivo)
SECÇÃO I
Disposições gerais Na falta de estipulação, entende-se
que o prazo de duração do contrato é
ARTIGO 1022º igual à unidade de tempo a que
(Noção) corresponde a retribuição fixada,
salvas as disposições especiais deste
Locação é o contrato pelo qual uma código.
das partes se obriga a proporcionar à
outra o gozo temporário de uma coisa, ARTIGO 1027º
mediante retribuição. (Fim do contrato)

ARTIGO 1023º Se do contrato e respectivas


(Arrendamento e aluguer) circunstâncias não resultar o fim a que
a coisa locada se destina, é permitido
A locação diz-se arrendamento quando ao locatário aplicá-la a quaisquer fins
versa sobre coisa imóvel, aluguer lícitos, dentro da função normal das
quando incide sobre coisa móvel. coisas de igual natureza.

ARTIGO 1024º ARTIGO 1028º


(A locação como acto de (Pluralidade de fins)
administração)
1. Se uma ou mais coisas forem
1. A locação constitui, para o locador, locadas para fins diferentes, sem
um acto de administração ordinária, subordinação de uns a outros,
excepto quando for celebrada por observar-se-á, relativamente a cada
prazo superior a seis anos. um deles, o regime respectivo.

2. Porém, o arrendamento de prédio 2. As causas de nulidade, anulabilidade


indiviso feito pelo consorte ou ou resolução que respeitem a um dos
consortes administradores só se fins não afectam a parte restante da
considera válido quando os restantes locação, excepto se do contrato ou das
comproprietários manifestem, antes ou circunstâncias que o acompanham não
depois do contrato, o seu resultar a discriminação das coisas ou

- 191 -
partes da coisa correspondentes às (Enumeração)
várias finalidades, ou estas forem
solidárias entre si. São obrigações do locador:

3. Se, porém, um dos fins for principal a) Entregar ao locatário a coisa locada;
e os outros subordinados, prevalecerá
o regime correspondente ao fim b) Assegurar-lhe o gozo desta para os
principal; os outros regimes só são fins a que a coisa se destina.
aplicáveis na medida em que não
contrariem o primeiro e a aplicação ARTIGO 1032º
deles se não mostre incompatível com (Vício da coisa locada)
o fim principal.
Quando a coisa locada apresentar vício
ARTIGO 1029º que lhe não permita realizar
(Exigência de escritura pública) cabalmente o fim a que é destinada,
ou carecer de qualidades necessárias a
1. Devem ser reduzidos a escritura esse fim ou asseguradas pelo locador,
pública: considera-se o contrato não cumprido:

a) Os arrendamentos sujeitos a a) Se o defeito datar, pelo menos, do


registo; momento da entrega e o locador não
provar que o desconhecia sem culpa;
b) Os arrendamentos para o comércio,
indústria ou exercício de profissão b) Se o defeito surgir posteriormente à
liberal. entrega, por culpa do locador.

2. No caso da alínea a) do número ARTIGO 1033º


anterior, a falta de escritura pública ou (Casos de irresponsabilidade do
do registo não impede que o contrato locador)
se considere validamente celebrado e
plenamente eficaz pelo prazo máximo O disposto no artigo anterior não é
por que o poderia ser sem a exigência aplicável:
de escritura e de registo.
a) Se o locatário conhecia o defeito
(Redacção do Dec.-Lei 321-B/90, de quando celebrou o contrato ou recebeu
15-10) a coisa;

ARTIGO 1030º b) Se o defeito já existia ao tempo da


(Encargos da coisa locada) celebração do contrato e era
facilmente reconhecível, a não ser que
Os encargos da coisa locada, sem o locador tenha assegurado a sua
embargo de estipulação em contrário, inexistência ou usado de dolo para o
recaem sobre o locador, a não ser que ocultar;
a lei os imponha ao locatário.
c) Se o defeito for da responsabilidade
SECÇÃO II do locatário;
Obrigações do locador
d) Se este não avisou do defeito o
ARTIGO 1031º locador, como lhe cumpria.

- 192 -
extrajudicialmente, com direito ao seu
ARTIGO 1034º reembolso.
(Ilegitimidade do locador ou
deficiência do seu direito) 2. Quando a urgência não consinta
qualquer dilação, o locatário pode fazer
1. São aplicáveis as disposições dos as reparações ou despesas, também
dois artigos anteriores: com direito a reembolso,
independentemente de mora do
a) Se o locador não tiver a faculdade locador, contanto que o avise ao
de proporcionar a outrem o gozo da mesmo tempo.
coisa locada;
ARTIGO 1037º
b) Se o seu direito não for de (Actos que impedem ou diminuem
propriedade ou estiver sujeito a algum o gozo da coisa)
ónus ou limitação que exceda os
limites normais inerentes a este 1. Não obstante convenção em
direito; contrário, o locador não pode praticar
actos que impeçam ou diminuam o
c) Se o direito do locador não possuir gozo da coisa pelo locatário, com
os atributos que ele assegurou ou excepção dos que a lei ou os usos
estes atributos cessarem facultem ou o próprio locatário
posteriormente por culpa dele. consinta em cada caso, mas não tem
obrigação de assegurar esse gozo
2. As circunstâncias descritas no contra actos de terceiro.
número antecedente só importam a
falta de cumprimento do contrato 2. O locatário que for privado da coisa
quando determinarem a privação, ou perturbado no exercício dos seus
definitiva ou temporária, do gozo da direitos pode usar, mesmo contra o
coisa ou a diminuição dele por parte do locador, dos meios facultados ao
locatário. possuidor nos artigos 1276º e
seguintes.
ARTIGO 1035º
(Anulabilidade por erro ou dolo) SECÇÃO III
Obrigações do locatário
O disposto nos artigos 1032º e 1034º
não obsta à anulação do contrato por SUBSECÇÃO I
erro ou por dolo, nos termos gerais. Disposição geral

ARTIGO 1036º ARTIGO 1038º


(Reparações ou outras despesas (Enumeração)
urgentes)
São obrigações do locatário:
1. Se o locador estiver em mora
quanto à obrigação de fazer a) Pagar a renda ou aluguer;
reparações ou outras despesas, e
umas ou outras, pela sua urgência, se b) Facultar ao locador o exame da
não compadecerem com as delongas coisa locada;
do procedimento judicial, tem o
locatário a possibilidade de fazê-las

- 193 -
c) Não aplicar a coisa a fim diverso do locatário ou de procurador seu, e o
daqueles a que ela se destina; pagamento não tiver sido efectuado,
presume-se que o locador não veio
d) Não fazer dela uma utilização nem mandou receber a prestação no
imprudente; dia do vencimento.

e) Tolerar as reparações urgentes, ARTIGO 1040º


bem como quaisquer obras ordenadas (Redução da renda ou aluguer)
pela autoridade pública;
1. Se, por motivo não atinente à sua
f) Não proporcionar a outrem o gozo pessoa ou à dos seus familiares, o
total ou parcial da coisa por meio de locatário sofrer privação ou diminuição
cessão onerosa ou gratuita da sua do gozo da coisa locada, haverá lugar
posição jurídica, sublocação ou a uma redução da renda ou aluguer
comodato, excepto se a lei o permitir proporcional ao tempo da privação ou
ou o locador o autorizar; diminuição e à extensão desta, sem
prejuízo do disposto na secção
g) Comunicar ao locador, dentro de anterior.
quinze dias, a cedência do gozo da
coisa por algum dos referidos títulos, 2. Mas, se a privação ou diminuição
quando permitida ou autorizada; não for imputável ao locador nem aos
seus familiares, a redução só terá
h) Avisar imediatamente o locador, lugar no caso de uma ou outra exceder
sempre que tenha conhecimento de um sexto da duração do contrato.
vícios na coisa, ou saiba que a ameaça
algum perigo ou que terceiros se 3. Consideram-se familiares os
arrogam direitos em relação a ela, parentes, afins ou serviçais que vivam
desde que o facto seja ignorado pelo habitualmente em comunhão de mesa
locador; e habitação com o locatário ou o
locador.
i) Restituir a coisa locada findo o
contrato. ARTIGO 1041º
(Mora do locatário)
SUBSECÇÃO II
Pagamento da renda ou aluguer 1. Constituindo-se o locatário em
mora, o locador tem o direito de exigir,
ARTIGO 1039º além das rendas ou alugueres em
(Tempo e lugar do pagamento) atraso, uma indemnização igual a 50%
do que for devido, salvo se o contrato
1. O pagamento da renda ou aluguer for resolvido com base na falta de
deve ser efectuado no último dia de pagamento.
vigência do contrato ou do período a
que respeita, e no domicílio do 2. Cessa o direito à indemnização ou à
locatário à data do vencimento, se as resolução do contrato, se o locatário
partes ou os usos não fixarem outro fizer cessar a mora no prazo de oito
regime. dias a contar do seu começo.

2. Se a renda ou aluguer houver de ser 3. Enquanto não forem cumpridas as


pago no domicílio, geral ou particular, obrigações a que o nº 1 se refere, o

- 194 -
locador tem o direito de recusar o 2. Presume-se que a coisa foi entregue
recebimento das rendas ou alugueres ao locatário em bom estado de
seguintes, os quais são considerados manutenção, quando não exista
em dívida para todos os efeitos. documento onde as partes tenham
descrito o estado dela ao tempo da
4. A recepção de novas rendas ou entrega.
alugueres não priva o locador do
direito à resolução do contrato ou à ARTIGO 1044º
indemnização referida, com base nas (Perda ou deterioração da coisa)
prestações em mora.
O locatário responde pela perda ou
(Redacção do Dec.-Lei 293/77, de 20- deteriorações da coisa, não
7) exceptuadas no artigo anterior, salvo
se resultarem de causa que lhe não
ARTIGO 1042º seja imputável nem a terceiro a quem
(Depósito das rendas ou alugueres tenha permitido a utilização dela.
em atraso)
ARTIGO 1045º
1. Se o locatário depositar as rendas (Indemnização pelo atraso na
ou alugueres em atraso, bem como a restituição da coisa)
indemnização fixada no nº 1 do artigo
anterior, quando devida, e requerer 1. Se a coisa locada não for restituída,
dentro de cinco dias a notificação por qualquer causa, logo que finde o
judicial do depósito ao locador, contrato, o locatário é obrigado, a
presume-se que lhe ofereceu o título de indemnização, a pagar até ao
pagamento respectivo, pondo fim à momento da restituição a renda ou
mora, e que este o recusou. aluguer que as partes tenham
estipulado, excepto se houver
2. O depósito, quando abranja a fundamento para consignar em
indemnização, envolve da parte do depósito a coisa devida.
locatário o reconhecimento de que
caíra em mora, salvo se for feito 2. Logo, porém, que o locatário se
condicionalmente; mas este preceito constitua em mora, a indemnização é
não se aplica à oferta do pagamento. elevada ao dobro.

SUBSECÇÃO III ARTIGO 1046º


Restituição da coisa locada (Indemnização de despesas e
levantamento de benfeitorias)
ARTIGO 1043º
(Dever de manutenção e 1. Fora dos casos previstos no artigo
restituição da coisa) 1036º, e salvo estipulação em
contrário, o locatário é equiparado ao
1. Na falta de convenção, o locatário é possuidor de má fé quanto a
obrigado a manter e restituir a coisa benfeitorias que haja feito na coisa
no estado em que a recebeu, locada.
ressalvadas as deteriorações inerentes
a uma prudente utilização, em 2. Tratando-se de aluguer de animais,
conformidade com os fins do contrato. as despesas de alimentação destes

- 195 -
correm sempre, na falta de estipulação O locatário pode resolver o contrato,
em contrário, por conta do locatário. independentemente de
responsabilidade do locador:
SECÇÃO IV
Resolução e caducidade do a) Se, por motivo estranho à sua
contrato própria pessoa ou à dos seus
familiares, for privado do gozo da
SUBSECÇÃO I coisa, ainda que só temporariamente;
Resolução
b) Se na coisa locada existir ou
ARTIGO 1047º sobrevier defeito que ponha em perigo
(Falta de cumprimento por parte a vida ou a saúde do locatário ou dos
do locatário) seus familiares.

A resolução do contrato fundada na SUBSECÇÃO II


falta de cumprimento por parte do Caducidade
locatário tem de ser decretada pelo
tribunal. ARTIGO 1051º
(Casos de caducidade)
ARTIGO 1048º 1. O contrato de locação caduca:
(Falta de pagamento da renda ou
aluguer) a) Findo o prazo estipulado ou
estabelecido por lei;
O direito à resolução do contrato por
falta de pagamento da renda ou b) Verificando-se a condição a que as
aluguer caduca logo que o locatário, partes o subordinaram, ou tornando-se
até à contestação da acção destinada a certo que não pode verificar-se,
fazer valer esse direito, pague ou conforme a condição seja resolutiva ou
deposite as somas devidas e a suspensiva;
indemnização referida no nº 1 do
artigo 1041º. c) Quando cesse o direito ou findem os
poderes legais de administração com
ARTIGO 1049º base nos quais o contrato foi
(Cedência do gozo da coisa) celebrado;

O locador não tem direito à resolução d) Por morte do locatário ou, tratando-
do contrato com fundamento na se de pessoa colectiva, pela extinção
violação do disposto nas alíneas f) e g) desta, salvo convenção escrita em
do artigo 1038º, se tiver reconhecido o contrário;
beneficiário da cedência como tal, ou
ainda, no caso da alínea g), se a e) Pela perda da coisa locada;
comunicação lhe tiver sido feita por
este. f) No caso de expropriação por
utilidade pública, a não ser que a
ARTIGO 1050º expropriação se compadeça com a
(Resolução do contrato pelo subsistência do contrato.
locatário)
(Redacção do Dec.-Lei 321-B/90, de
15-10)

- 196 -
(Denúncia)
ARTIGO 1052º
(Excepções) 1. A denúncia tem de ser comunicada
ao outro contraente com a
O contrato de locação não caduca: antecedência mínima seguinte:

a) Se for celebrado pelo usufrutuário e a) Seis meses, se o prazo for igual ou


a propriedade se consolidar na sua superior a seis anos;
mão;
b) Sessenta dias, se o prazo for de um
b) Se o usufrutuário alienar o seu a seis anos;
direito ou renunciar a ele, pois nestes
casos o contrato só caduca pelo termo c) Trinta dias, quando o prazo for de
normal do usfruto; três meses a um ano;

c) Se for celebrado pelo cônjuge d) Um terço do prazo, quando este for


administrador. inferior a três meses.

(Redacção do Dec.-Lei 496/77, de 25- 2. A antecedência a que se refere o


11) número anterior reporta-se ao fim do
prazo do contrato ou da renovação.
ARTIGO 1053º
(Despejo do prédio) ARTIGO 1056º
(Outra causa de renovação)
Em qualquer dos casos de caducidade
previstos nas alíneas b) e seguintes do Se, não obstante a caducidade do
artigo 1051º, a restituição do prédio, arrendamento, o locatário se mantiver
tratando-se de arrendamento, só pode no gozo da coisa pelo lapso de um
ser exigida passados três meses sobre ano, sem oposição do locador, o
a verificação do facto que determina a contrato considera-se igualmente
caducidade ou, sendo o arrendamento renovado nas condições do artigo
rural, no fim do ano agrícola em curso 1054º.
no termo do referido prazo.
SECÇÃO V
ARTIGO 1054º Transmissão da posição contratual
(Renovação do contrato)
ARTIGO 1057º
1. Findo o prazo do arrendamento, o (Transmissão da posição do
contrato renova-se por períodos locador)
sucessivos, se nenhuma das partes o
tiver denunciado no tempo e pela O adquirente do direito com base no
forma convencionados ou designados qual foi celebrado o contrato sucede
na lei. nos direitos e obrigações do locador,
sem prejuízo das regras do registo.
2. O prazo da renovação é igual ao do
contrato; mas é apenas de um ano, se ARTIGO 1058º
o prazo do contrato for mais longo. (Liberação ou cessão de rendas ou
alugueres)
ARTIGO 1055º

- 197 -
A liberação ou cessão de rendas ou O locatário não pode cobrar do
alugueres não vencidos é inoponível ao sublocatário renda ou aluguer superior
sucessor entre vivos do locador, na ou proporcionalmente superior ao que
medida em que tais rendas ou é devido pelo contrato de locação,
alugueres respeitem a períodos de aumentado de vinte por cento, salvo
tempo não decorridos à data da se outra coisa tiver sido convencionada
sucessão. com o locador.

ARTIGO 1059º ARTIGO 1063º


(Transmissão da posição do (Direitos do locador em relação ao
locatário) sublocatário)

1. A posição contratual do locatário é Se tanto o locatário como o


transmissível por morte dele ou, sublocatário estiverem em mora
tratando-se de pessoa colectiva, pela quanto às respectivas dívidas de renda
extinção desta, se assim tiver sido ou aluguer, é lícito ao locador exigir do
convencionado por escrito. sublocatário o que este dever, até ao
montante do seu próprio crédito.
2. A cessão da posição do locatário
está sujeita ao regime geral dos SECÇÃO VII
artigos 424º e seguintes, sem prejuízo Arrendamento rural
das disposições especiais deste
capítulo. ARTIGOS 1064º A 1082º
(Revogados pelo Dec.-Lei 201/75, de
SECÇÃO VI 15-4)
Sublocação
SECÇÃO VIII
Arrendamento de prédios urbanos
ARTIGO 1060º e arrendamento de prédios
(Noção) rústicos não abrangidos na secção
precedente
A locação diz-se sublocação, quando o
locador a celebra com base no direito ARTIGOS 1083º A 1120º
de locatário que lhe advém de um (Revogados pelo Dec.-Lei 321-B/90,
precedente contrato locativo. de 15-10)

ARTIGO 1061º CAPÍTULO V


(Efeitos) Parceria pecuária

A sublocação só produz efeitos em ARTIGO 1121º


relação ao locador ou a terceiros a (Noção)
partir do seu reconhecimento pelo
locador ou da comunicação a que se Parceria pecuária é o contrato pelo
refere a alínea g) do artigo 1038º. qual uma ou mais pessoas entregam a
outra ou outras um animal ou certo
ARTIGO 1062º número deles, para estas os criarem,
(Limite da renda ou aluguer) pensarem e vigiarem, com o ajuste de
repartirem entre si os lucros futuros
em certa proporção.

- 198 -
ARTIGO 1126º
ARTIGO 1122º (Risco)
(Prazo)
1. Se os animais perecerem, se
1. Na falta de convenção quanto a inutilizarem ou diminuírem de valor,
prazo, atender-se-á aos usos da terra; por facto não imputável ao parceiro
na falta de usos, qualquer dos pensador, o risco corre por conta do
contraentes pode, a todo o tempo, proprietário.
fazer caducar a parceria.
2. Se, porém, algum proveito se puder
2. A existência de prazo não impede tirar dos animais que pereceram ou se
que o contraente resolva o contrato, se inutilizaram, pertence o benefício ao
a outra parte não cumprir as suas proprietário até ao valor deles no
obrigações. momento da entrega.

ARTIGO 1123º 3. As regras dos números anteriores


(Caducidade) são imperativas.

A parceria caduca pela morte do ARTIGO 1127º


parceiro pensador ou pela perda dos (Tosquia de gado lanígero)
animais, e também quando cesse o
direito ou findem os poderes legais de O parceiro pensador de gado lanígero
administração com base nos quais o não pode fazer a tosquia sem que
contrato foi celebrado, ou quando se previna o parceiro proprietário; se o
verifique a condição resolutiva a que não prevenir, pagará em dobro o valor
as partes o subordinaram. da parte que deveria pertencer ao
proprietário.
ARTIGO 1124º
(Obrigações do parceiro pensador) ARTIGO 1128º
(Regime subsidiário)
O parceiro pensador é obrigado a
empregar na guarda e tratamento dos Em tudo o que não estiver estabelecido
animais o cuidado de um pensador nos artigos precedentes devem ser
diligente. observados, na falta de convenção, os
usos da terra.
ARTIGO 1125º
(Utilização dos animais) CAPÍTULO VI
Comodato
1. O parceiro proprietário é obrigado a
assegurar a utilização dos animais ao ARTIGO 1129º
parceiro pensador. (Noção)

2. O parceiro pensador que for privado Comodato é o contrato gratuito pelo


dos seus direitos ou perturbado no qual uma das partes entrega à outra
exercício deles pode usar, mesmo certa coisa, móvel ou imóvel, para que
contra o parceiro proprietário, dos se sirva dela, com a obrigação de a
meios facultados ao possuidor nos restituir.
artigos 1276º e seguintes.
ARTIGO 1130º

- 199 -
(Comodato fundado num direito
temporário) O comodante não responde pelos
vícios ou limitações do direito nem
1. Se o comodante emprestar a coisa pelos vícios da coisa, excepto quando
com base num direito de duração se tiver expressamente
limitada, não pode o contrato ser responsabilizado ou tiver procedido
celebrado por tempo superior; e, com dolo.
quando o seja, reduzir-se-á ao limite
de duração desse direito. ARTIGO 1135º
(Obrigações do comodatário)
2. É aplicável ao comodato constituído
pelo usufrutuário o disposto nas São obrigações do comodatário:
alíneas a) e b) do artigo 1052º.
a) Guardar e conservar a coisa
ARTIGO 1131º emprestada;
(Fim do contrato)
b) Facultar ao comodante o exame
Se do contrato e respectivas dela;
circunstâncias não resultar o fim a que
a coisa emprestada se destina, é c) Não a aplicar a fim diverso daquele
permitido ao comodatário aplicá-la a a que a coisa se destina;
quaisquer fins lícitos, dentro da função
normal das coisas de igual natureza. d) Não fazer dela uma utilização
imprudente;
ARTIGO 1132º
(Frutos da coisa) e) Tolerar quaisquer benfeitorias que o
comodante queira realizar na coisa;
Só por força de convenção expressa o
comodatário pode fazer seus os frutos f) Não proporcionar a terceiro o uso da
colhidos. coisa, excepto se o comodante o
autorizar;
ARTIGO 1133º
(Actos que impedem ou diminuem g) Avisar imediantamente o
o uso da coisa) comodante, sempre que tenha
conhecimento de vícios na coisa ou
1. O comodante deve abster-se de saiba que a ameaça algum perigo ou
actos que impeçam ou restrinjam o que terceiro se arroga direitos em
uso da coisa pelo comodatário, mas relação a ela, desde que o facto seja
não é obrigado a assegurar-lhe esse ignorado do comodante;
uso.
h) Restituir a coisa findo o contrato.
2. Se este for privado dos seus direitos
ou perturbado no exercício deles, pode ARTIGO 1136º
usar, mesmo contra o comodante, dos (Perda ou deterioração da coisa)
meios facultados ao possuidor nos
artigos 1276º e seguintes. 1. Quando a coisa emprestada perecer
ou se deteriorar casualmente, o
ARTIGO 1134º comodatário é responsável, se estava
(Responsabilidade do comodante) no seu poder tê-lo evitado, ainda que

- 200 -
mediante o sacrifício de coisa própria destes correm, salvo estipulação em
de valor não superior. contrário, por conta do comodatário.

2. Quando, porém, o comodatário a ARTIGO 1139º


tiver aplicado a fim diverso daquele a (Solidariedade dos comodatários)
que a coisa se destina, ou tiver
consentido que terceiro a use sem Sendo dois ou mais os comodatários,
para isso estar autorizado, será são solidárias as suas obrigações.
responsável pela perda ou
deterioração, salvo provando que ela ARTIGO 1140º
teria igualmente ocorrido sem a sua (Resolução)
conduta ilegal.
Não obstante a existência de prazo, o
3. Sendo avaliada a coisa ao tempo do comodante pode resolver o contrato,
contrato, presume-se que a se para isso tiver justa causa.
responsabilidade ficou a cargo do
comodatário, embora este não pudesse ARTIGO 1141º
evitar o prejuízo pelo sacrifício de coisa (Caducidade)
própria.
O contrato caduca pela morte do
ARTIGO 1137º comodatário.
(Restituição)
CAPÍTULO VII
1. Se os contraentes não Mútuo
convencionaram prazo certo para a
restituição da coisa, mas esta foi ARTIGO 1142º
emprestada para uso determinado, o (Noção)
comodatário deve restituí-la ao
comodante logo que o uso finde, Mútuo é o contrato pelo qual uma das
independentemente de interpelação. partes empresta à outra dinheiro ou
outra coisa fungível, ficando a segunda
2. Se não foi convencionado prazo obrigada a restituir outro tanto do
para a restituição nem determinado o mesmo género e qualidade.
uso da coisa, o comodatário é obrigado
a restituí-la logo que lhe seja exigida. ARTIGO 1143º
(Forma)
3. É aplicável à manutenção e
restituição da coisa emprestada o O contrato de mútuo de valor superior
disposto no artigo 1043º. a 20 000 euros só é válido se for
celebrado por escritura pública e o de
ARTIGO 1138º valor superior a 2000 euros se o for
(Benfeitorias) por documento assinado pelo
mutuário.
1. O comodatário é equiparado, quanto
a benfeitorias, ao possuidor de má fé. (Decreto-Lei n.º 343/98, de 6 de
Novembro)
2. Tratando-se de empréstimo de
animais, as despesas de alimentação ARTIGO 1144º

- 201 -
(Propriedade das coisas 4. O respeito dos limites máximos
mutuadas) referidos neste artigo não obsta à
aplicabilidade dos artigos 282º a 284º.
As coisas mutuadas tornam-se
propriedade do mutuário pelo facto da (Redacção do Dec.-Lei 262/83, de 16-
entrega. 6)

ARTIGO 1145º ARTIGO 1147º


(Gratuidade ou onerosidade do (Prazo no mútuo oneroso)
mútuo)
No mútuo oneroso o prazo presume-se
1. As partes podem convencionar o estipulado a favor de ambas as partes,
pagamento de juros como retribuição mas o mutuário pode antecipar o
do mútuo; este presume-se oneroso pagamento, desde que satisfaça os
em caso de dúvida. juros por inteiro.

2. Ainda que o mútuo não verse sobre ARTIGO 1148º


dinheiro, observar-se-á, relativamente (Falta de fixação de prazo)
a juros, o disposto no artigo 559º e,
havendo mora do mutuário, o disposto 1. Na falta de estipulação de prazo, a
no artigo 806º. obrigação do mutuário, tratando-se de
mútuo gratuito, só se vence trinta dias
ARTIGO 1146º após a exigência do seu cumprimento.
(Usura)
2. Se o mútuo for oneroso e não se
1. É havido como usurário o contrato tiver fixado prazo, qualquer das partes
de mútuo em que sejam estipulados pode pôr termo ao contrato, desde que
juros anuais que excedam os juros o denuncie com uma antecipação
legais, acrescidos de 3% ou 5%, mínima de trinta dias.
conforme exista ou não garantia real.
3. Tratando-se, porém, de
2. É havida também como usurária a empréstimo, gratuito ou oneroso, de
cláusula penal que fixar como cereais ou outros produtos rurais a
indemnização devida pela falta de favor de lavrador, presume-se feito até
restituição de empréstimo, à colheita seguinte dos produtos
relativamente ao tempo de mora, mais semelhantes.
do que o correspondente a 7% ou a
9% acima dos juros legais, conforme 4. A doutrina do número anterior é
exista ou não garantia real. aplicável aos mutuários que, não
sendo lavradores, recolhem pelo
3. Se a taxa de juros estipulada ou o arrendamento de terras próprias frutos
montante da indemnização exceder o semelhantes aos que receberam de
máximo fixado nos números empréstimo.
precedentes, considera-se reduzido a
esses máximos, ainda que seja outra a ARTIGO 1149º
vontade dos contraentes. (Impossibilidade de restituição)

Se o mútuo recair em coisa que não


seja dinheiro e a restituição se tornar

- 202 -
impossível ou extremamente difícil por resultado do seu trabalho intelectual
causa não imputável ao mutuário, ou manual, com ou sem retribuição.
pagará este o valor que a coisa tiver
no momento e lugar do vencimento da ARTIGO 1155º
obrigação. (Modalidades do contrato)

ARTIGO 1150º O mandato, o depósito e a empreitada,


(Resolução do contrato) regulados nos capítulos subsequentes,
são modalidades do contrato de
O mutuante pode resolver o contrato, prestação de serviço.
se o mutuário não pagar os juros no
seu vencimento. ARTIGO 1156º
(Regime)
ARTIGO 1151º
(Responsabilidade do mutuante) As disposições sobre o mandato são
extensivas, com as necessárias
É aplicável à responsabilidade do adaptações, às modalidades do
mutuante, no mútuo gratuito, o contrato de prestação de serviço que a
disposto no artigo 1134º. lei não regule especialmente.

CAPÍTULO VIII CAPÍTULO X


Contrato de trabalho Mandato

ARTIGO 1152º SECÇÃO I


(Noção) Disposições gerais

Contrato de trabalho é aquele pelo ARTIGO 1157º


qual uma pessoa se obriga, mediante (Noção)
retribuição, a prestar a sua actividade
intelectual ou manual a outra pessoa, Mandato é o contrato pelo qual uma
sob a autoridade e direcção desta. das partes se obriga a praticar um ou
mais actos jurídicos por conta da
ARTIGO 1153º outra.
(Regime)
ARTIGO 1158º
O contrato de trabalho está sujeito a (Gratuidade ou onerosidade do
legislação especial. mandato)

CAPÍTULO IX 1. O mandato presume-se gratuito,


Prestação de serviço excepto se tiver por objecto actos que
o mandatário pratique por profissão;
neste caso, presume-se oneroso.
ARTIGO 1154º
(Noção) 2. Se o mandato for oneroso, a medida
da retribuição, não havendo ajuste
Contrato de prestação de serviço é entre as partes, é determinada pelas
aquele em que uma das partes se tarifas profissionais; na falta destas,
obriga a proporcionar à outra certo pelos usos; e, na falta de umas e
outros, por juízos de equidade.

- 203 -
normalmente no cumprimento do
ARTIGO 1159º contrato.
(Extensão do mandato)
ARTIGO 1162º
1. O mandato geral só compreende os (Inexecução do mandato ou a
actos de administração ordinária. inobservância das instruções)

2. O mandato especial abrange, além O mandatário pode deixar de executar


dos actos nele referidos, todos os o mandato ou afastar-se das
demais necessários à sua execução. instruções recebidas, quando seja
razoável supor que o mandante
ARTIGO 1160º aprovaria a sua conduta, se
(Pluralidade de mandatos) conhecesse certas circunstâncias que
não foi possível comunicar-lhe em
Se alguém incumbir duas ou mais tempo útil.
pessoas da prática dos mesmos actos
jurídicos, haverá tantos mandatos
quantas as pessoas designadas, salvo
se o mandante declarar que devem ARTIGO 1163º
agir conjuntamente. (Aprovação tácita da execução ou
inexecução do mandato)
SECÇÃO II
Direitos e obrigações do Comunicada a execução ou inexecução
mandatário do mandato, o silêncio do mandante
por tempo superior àquele em que
ARTIGO 1161º teria de pronunciar-se, segundo os
(Obrigações do mandatário) usos ou, na falta destes, de acordo
com a natureza do assunto, vale como
O mandatário é obrigado: aprovação da conduta do mandatário,
ainda que este haja excedido os limites
a) A praticar os actos compreendidos do mandato ou desrespeitado as
no mandato, segundo as instruções do instruções do mandante, salvo acordo
mandante; em contrário.

b) A prestar as informações que este ARTIGO 1164º


lhe peça, relativas ao estado da (Juros devidos pelo mandatário)
gestão;
O mandatário deve pagar ao mandante
c) A comunicar ao mandante, com os juros legais correspondentes às
prontidão, a execução do mandato ou, quantias que recebeu dele ou por
se o não tiver executado, a razão por conta dele, a partir do momento em
que assim procedeu; que devia entregar-lhas, ou remeter-
lhas, ou aplicá-las segundo as suas
d) A prestar contas, findo o mandato instruções.
ou quando o mandante as exigir;
ARTIGO 1165º
e) A entregar ao mandante o que (Substituto e auxiliares do
recebeu em execução do mandato ou mandatário)
no exercício deste, se o não despendeu

- 204 -
O mandatário pode, na execução do obrigação expressa na alínea a) do
mandato, fazer-se substituir por artigo anterior.
outrem ou servir-se de auxiliares, nos
mesmos termos em que o procurador ARTIGO 1169º
o pode fazer. (Pluralidade de mandantes)

ARTIGO 1166º Sendo dois ou mais os mandantes, as


(Pluralidade de mandatários) suas obrigações para com o madatário
são solidárias, se o mandato tiver sido
Havendo dois ou mais mandatários conferido para assunto de interesse
com o dever de agirem comum.
conjuntamente, responderá cada um
deles pelos seus actos, se outro regime SECÇÃO IV
não tiver sido convencionado. Revogação e caducidade do
mandato
SECÇÃO III
Obrigações do mandante SUBSECÇÃO I
Revogação
ARTIGO 1167º
(Enumeração) ARTIGO 1170º
(Revogabilidade do mandato)
O mandante é obrigado:
1. O mandato é livremente revogável
a) A fornecer ao mandatário os meios por qualquer das partes, não obstante
necessários à execução do mandato, convenção em contrário ou renúncia ao
se outra coisa não foi convencionada; direito de revogação.

b) A pagar-lhe a retribuição que ao 2. Se, porém, o mandato tiver sido


caso competir, e fazer-lhe provisão por conferido também no interesse do
conta dela segundo os usos; mandatário ou de terceiro, não pode
ser revogado pelo mandante sem
c) A reembolsar o mandatário das acordo do interessado, salvo ocorrendo
despesas feitas que este justa causa.
fundadamente tenha considerado
indispensáveis, com juros legais desde ARTIGO 1171º
que foram efectuadas; (Revogação tácita)

d) A indemnizá-lo do prejuízo sofrido A designação de outra pessoa, por


em consequência do mandato, ainda parte do mandante, para a prática dos
que o mandante tenha procedido sem mesmos actos implica revogação do
culpa. mandato, mas só produz este efeito
depois de ser conhecida pelo
ARTIGO 1168º mandatário.
(Suspensão da execução do
mandato) ARTIGO 1172º
(Obrigação de indemnização)
O mandatário pode abster-se da
execução do mandato enquanto o
mandante estiver em mora quanto à

- 205 -
A parte que revogar o contrato deve (Morte, interdição ou inabilitação
indemnizar a outra do prejuízo que do mandante)
esta sofrer:
A morte, interdição ou inabilitação do
a) Se assim tiver sido convencionado; mandante não faz caducar o mandato,
quando este tenha sido conferido
b) Se tiver sido estipulada a também no interesse do mandatário
irrevogabilidade ou tiver havido ou de terceiro; nos outros casos, só o
renúncia ao direito de revogação; faz caducar a partir do momento em
que seja conhecida do mandatário, ou
c) Se a revogação proceder do quando da caducidade não possam
mandante e versar sobre mandato resultar prejuízos para o mandante ou
oneroso, sempre que o mandato tenha seus herdeiros.
sido conferido por certo tempo ou para
determinado assunto, ou que o ARTIGO 1176º
mandante o revogue sem a (Morte, interdição ou incapacidade
antecedência conveniente; natural do mandatário)

d) Se a revogação proceder do 1. Caducando o mandato por morte ou


mandatário e não tiver sido realizada interdição do mandatário, os seus
com a antecedência conveniente. herdeiros devem prevenir o mandante
e tomar as providências adequadas,
ARTIGO 1173º até que ele próprio esteja em
(Mandato colectivo) condições de providenciar.

Sendo o mandato conferido por várias 2. Idêntica obrigação recai sobre as


pessoas e para assunto de interesse pessoas que convivam com o
comum, a revogação só produz efeito mandatário, no caso de incapacidade
se for realizada por todos os natural deste.
mandantes.
ARTIGO 1177º
SUBSECÇÃO II (Pluralidade de mandatários)
Caducidade
Se houver vários mandatários com
ARTIGO 1174º obrigação de agir conjuntamente, o
(Casos de caducidade) mandato caduca em relação a todos,
embora a causa de caducidade
O mandato caduca: respeite apenas a um deles, salvo
convenção em contrário.
a) Por morte ou interdição do
mandante ou do mandatário; SECÇÃO V
Mandato com representação
b) Por inabilitação do mandante, se o
mandato tiver por objecto actos que ARTIGO 1178º
não possam ser praticados sem (Mandatário com poderes de
intervenção do curador. representação)

ARTIGO 1175º 1. Se o mandatário for representante,


por ter recebido poderes para agir em

- 206 -
nome do mandante, é também (Obrigações contraídas em
aplicável ao mandato o disposto nos execução do mandato)
artigos 258º e seguintes.
O mandante deve assumir, por
2. O mandatário a quem hajam sido qualquer das formas indicadas no nº 1
conferidos poderes de representação do artigo 595º, as obrigações
tem o dever de agir não só por conta, contraídas pelo mandatário em
mas em nome do mandante, a não ser execução do mandato; se não puder
que outra coisa tenha sido estipulada. fazê-lo, deve entregar ao mandatário
os meios necessários para as cumprir
ARTIGO 1179º ou reembolsá-lo do que este houver
(Revogação ou renúncia da despendido nesse cumprimento.
procuração)
ARTIGO 1183º
A revogação e a renúncia da (Responsabilidade do mandatário)
procuração implicam revogação do
mandato. Salvo estipulação em contrário, o
mandatário não é responsável pela
SECÇÃO VI falta de cumprimento das obrigações
Mandato sem representação assumidas pelas pessoas com quem
haja contratado, a não ser que no
momento da celebração do contrato
ARTIGO 1180º conhecesse ou devesse conhecer a
(Mandatário que age em nome insolvência delas.
próprio)
ARTIGO 1184º
O mandatário, se agir em nome (Responsabilidade dos bens
próprio, adquire os direitos e assume adquiridos pelo mandatário)
as obrigações decorrentes dos actos
que celebra, embora o mandato seja Os bens que o mandatário haja
conhecido dos terceiros que participem adquirido em execução do mandato e
nos actos ou sejam destinatários devam ser transferidos para o
destes. mandante nos termos do nº 1 do
artigo 1181º não respondem pelas
ARTIGO 1181º obrigações daquele, desde que o
(Direitos adquiridos em execução mandato conste de documento anterior
do mandato) à data da penhora desses bens e não
tenha sido feito o registo da aquisição,
1. O mandatário é obrigado a transferir quando esta esteja sujeita a registo.
para o mandante os direitos adquiridos
em execução do mandato. CAPÍTULO XI
Depósito
2. Relativamente aos créditos, o
mandante pode substituir-se ao SECÇÃO I
mandatário no exercício dos Disposições gerais
respectivos direitos.
ARTIGO 1185º
ARTIGO 1182º (Noção)

- 207 -
Depósito é o contrato pelo qual uma mesmo contra o depositante, dos
das partes entrega à outra uma coisa, meios facultados ao possuidor nos
móvel ou imóvel, para que a guarde, e artigos 1276º e seguintes.
a restitua quando for exigida.
ARTIGO 1189º
ARTIGO 1186º (Uso da coisa e subdepósito)
(Gratuidade ou onerosidade do
depósito) O depositário não tem o direito de usar
a coisa depositada nem de a dar em
É aplicável ao depósito o disposto no depósito a outrem, se o depositante o
artigo 1158º. não tiver autorizado.

SECÇÃO II ARTIGO 1190º


Direitos e obrigações do (Guarda da coisa)
depositário
O depositário pode guardar a coisa de
ARTIGO 1187º modo diverso do convencionado,
(Obrigações de depositário) quando haja razões para supor que o
depositante aprovaria a alteração, se
O depositário é obrigado: conhecesse as circunstâncias que a
fundamentam; mas deve participar-lhe
a) A guardar a coisa depositada; a mudança logo que a comunicação
seja possível.
b) A avisar imediatamente o
depositante, quando saiba que algum ARTIGO 1191º
perigo ameaça a coisa ou que terceiro (Depósito cerrado)
se arroga direitos em relação a ela,
desde que o facto seja desconhecido 1. Se o depósito recair sobre coisa
do depositante; encerrada nalgum invólucro ou
recipiente, deve o depositário guardá-
c) A restituir a coisa com os seus la e restituí-la no mesmo estado, sem
frutos. a devassar.

ARTIGO 1188º 2. No caso de o invólucro ou recipiente


(Turbação de detenção ou esbulho ser violado, presume-se que na
da coisa) violação houve culpa do depositário; e,
se este não ilidir a presunção,
1. Se o depositário for privado da presumir-se-á verdadeira a descrição
detenção da coisa por causa que lhe feita pelo depositante.
não seja imputável, fica exonerado das
obrigações de guarda e restituição, ARTIGO 1192º
mas deve dar conhecimento imediato (Restituição da coisa)
da privação ao depositante.
1. O depositário não pode recusar a
2. Independentemente da obrigação restituição ao depositante com o
imposta no número anterior, o fundamento de que este não é
depositário que for privado da proprietário da coisa nem tem sobre
detenção da coisa ou perturbado no ela outro direito.
exercício dos seus direitos pode usar,

- 208 -
2. Se, porém, for proposta por terceiro ARTIGO 1196º
acção de reivindicação contra o (Despesas da restituição)
depositário, este, enquanto não for
julgada definitivamente a acção, só As despesas da restituição ficam a
pode liberar-se da obrigação de cargo do depositante.
restituir consignando em depósito a
coisa. ARTIGO 1197º
(Responsabilidade no caso de
3. Se chegar ao conhecimento do subdepósito)
depositário que a coisa provém de
crime, deve participar imediatamente o Se o depositário, devidamente
depósito à pessoa a quem foi subtraída autorizado, confiar por sua vez a coisa
ou, não sabendo quem é, ao Ministério em depósito a terceiro, é responsável
Público; e só poderá restituir a coisa por culpa sua na escolha dessa pessoa.
ao depositante se dentro de quinze
dias, contados da participação, ela não ARTIGO 1198º
lhe for reclamada por quem de direito. (Auxiliares)

ARTIGO 1193º O depositário pode socorrer-se de


(Terceiro interessado no depósito) auxiliares no cumprimento das suas
obrigações, sempre que o contrário
Se a coisa foi depositada também no não resulte do conteúdo ou finalidade
interesse de terceiro e este comunicou do depósito.
ao depositário a sua adesão, o
depositário não pode exonerar-se SECÇÃO III
restituindo a coisa ao depositante sem Obrigações do depositante
consentimento do terceiro.
ARTIGO 1199º
ARTIGO 1194º (Enumeração)
(Prazo de restituição)
O depositante é obrigado:
O prazo de restituição da coisa tem-se
por estabelecido a favor do a) A pagar ao depositário a retribuição
depositante; mas, sendo o depósito devida;
oneroso, o depositante satisfará por
inteiro a retribuição do depositário, b) A reembolsá-lo das despesas que
mesmo quando exija a restituição da ele fundadamente tenha considerado
coisa antes de findar o prazo indispensáveis para a conservação da
estipulado, salvo se para isso tiver coisa, com juros legais desde que
justa causa. foram efectuadas;

ARTIGO 1195º c) A indemnizá-lo do prejuízo sofrido


(Lugar de restituição) em consequência do depósito, salvo se
o depositante houver procedido sem
No silêncio das partes, o depositário culpa.
deve restituir a coisa móvel no lugar
onde, segundo o contrato, tiver de a ARTIGO 1200º
guardar. (Remuneração do depositário)

- 209 -
1. A remuneração do depositário, Salvo convenção em contrário, cabe ao
quando outra coisa se não tenha depositário a obrigação de administrar
convencionado, deve ser paga no a coisa.
termo do depósito; mas, se for fixada
por períodos de tempo, pagar-se-á no SECÇÃO V
fim de cada um deles. Depósito irregular

2. Findado o depósito antes do prazo ARTIGO 1205º


convencionado, pode o depositário (Noção)
exigir uma parte proporcional ao
tempo decorrido, sem prejuízo do Diz-se irregular o depósito que tem por
preceituado no artigo 1194º. objecto coisas fungíveis.

ARTIGO 1201º ARTIGO 1206º


(Restituição da coisa) (Regime)

Não tendo sido convencionado prazo Consideram-se aplicáveis ao depósito


para a restituição da coisa, o irregular, na medida do possível, as
depositário tem o direito de a restituir normas relativas ao contrato de
a todo o tempo; se, porém, tiver sido mútuo.
convencionado prazo, só havendo
justa causa o pode fazer antes de o CAPÍTULO XII
prazo findar. Empreitada

SECÇÃO IV SECÇÃO I
Depósito de coisa controvertida Disposições gerais

ARTIGO 1202º ARTIGO 1207º


(Noção) (Noção)

Se duas ou mais pessoas disputam a Empreitada é o contrato pelo qual uma


propriedade de uma coisa ou outro das partes se obriga em relação à
direito sobre ela, podem por meio de outra a realizar certa obra, mediante
depósito entregá-la a terceiro, para um preço.
que este a guarde e, resolvida a
controvérsia, a restitua à pessoa a ARTIGO 1208º
quem se apurar que pertence. (Execução da obra)

ARTIGO 1203º O empreiteiro deve executar a obra em


(Onerosidade do depósito) conformidade com o que foi
convencionado, e sem vícios que
O depósito de coisa controvertida excluam ou reduzam o valor dela, ou a
presume-se oneroso. sua aptidão para o uso ordinário ou
previsto no contrato.
ARTIGO 1204º
(Administração da coisa) ARTIGO 1209º
(Fiscalização)

- 210 -
1. O dono da obra pode fiscalizar, à transferência da propriedade para o
sua custa, a execução dela, desde que dono da obra; se os materiais foram
não perturbe o andamento ordinário da fornecidos por este, continuam a ser
empreitada. propriedade dele, assim como é
propriedade sua a coisa logo que seja
2. A fiscalização feita pelo dono da concluída.
obra, ou por comissário, não impede
aquele, findo o contrato, de fazer valer 2. No caso de empreitada de
os seus direitos contra o empreiteiro, construção de imóveis, sendo o solo ou
embora sejam aparentes os vícios da a superfície pertença do dono da obra,
coisa ou notória a má execução do a coisa é propriedade deste, ainda que
contrato, excepto se tiver havido da seja o empreiteiro quem fornece os
sua parte concordância expressa com a materiais; estes consideram-se
obra executada. adquiridos pelo dono da obra à medida
que vão sendo incorporados no solo.
ARTIGO 1210º
(Fornecimento dos materiais e ARTIGO 1213º
utensílios) (Subempreitada)

1. Os materiais e utensílios necessários 1. Subempreitada é o contrato pelo


à execução da obra devem ser qual um terceiro se obriga para com o
fornecidos pelo empreiteiro, salvo empreiteiro a realizar a obra a que
convenção ou uso em contrário. este se encontra vinculado, ou uma
parte dela.
2. No silêncio do contrato, os materiais
devem corresponder às características 2. É aplicável à subempreitada, assim
da obra e não podem ser de qualidade como ao concurso de auxiliares na
inferior à média. execução da empreitada, o disposto no
artigo 264º, com as necessárias
ARTIGO 1211º adaptações.
(Determinação e pagamento do
preço) SECÇÃO II
Alterações e obras novas
1. É aplicável à determinação do
preço, com as necessárias adaptações, ARTIGO 1214º
o disposto no artigo 883º. (Alterações da iniciativa do
empreiteiro)
2. O preço deve ser pago, não
havendo cláusula ou uso em contrário, 1. O empreiteiro não pode, sem
no acto de aceitação da obra. autorização do dono da obra, fazer
alterações ao plano convencionado.
ARTIGO 1212º
(Propriedade da obra) 2. A obra alterada sem autorização é
havida como defeituosa; mas, se o
1. No caso de empreitada de dono quiser aceitá-la tal como foi
construção de coisa móvel com executada, não fica obrigado a
materiais fornecidos, no todo ou na qualquer suplemento de preço nem a
sua maior parte, pelo empreiteiro, a indemnização por enriquecimento sem
aceitação da coisa importa a causa.

- 211 -
ao preço estipulado, com dedução do
3. Se tiver sido fixado para a obra um que, em consequência das alterações,
preço global e a autorização não tiver poupar em despesas ou adquirir por
sido dada por escrito com fixação do outras aplicações da sua actividade.
aumento de preço, o empreiteiro só
pode exigir do dono da obra uma ARTIGO 1217º
indemnização correspondente ao (Alterações posteriores à entrega
enriquecimento deste. e obras novas)

ARTIGO 1215º 1. Não é aplicável o disposto nos


(Alterações necessárias) artigos precedentes às alterações
feitas depois da entrega da obra, nem
1. Se, para execução da obra, for às obras que tenham autonomia em
necessário, em consequência de relação às previstas no contrato.
direitos de terceiro ou de regras
técnicas, introduzir alterações ao plano 2. O dono da obra tem o direito de
convencionado, e as partes não vierem recusar as alterações e as obras
a acordo, compete ao tribunal referidas no número anterior, se as
determinar essas alterações e fixar as não tiver autorizado; pode, além disso,
correspondentes modificações quanto exigir a sua eliminação, se esta for
ao preço e prazo de execução. possível, e, em qualquer caso, uma
indemnização pelo prejuízo, nos
2. Se, em consequência das termos gerais.
alterações, o preço for elevado em
mais de vinte por cento, o empreiteiro SECÇÃO III
pode denunciar o contrato e exigir uma Defeitos da obra
indemnização equitativa.
ARTIGO 1218º
ARTIGO 1216º (Verificação da obra)
(Alterações exigidas pelo dono da
obra) 1. O dono da obra deve verificar, antes
de a aceitar, se ela se encontra nas
1. O dono da obra pode exigir que condições convencionadas e sem
sejam feitas alterações ao plano vícios.
convencionado, desde que o seu valor
não exceda a quinta parte do preço 2. A verificação deve ser feita dentro
estipulado e não haja modificação da do prazo usual ou , na falta de uso,
natureza da obra. dentro do período que se julgue
razoável depois de o empreiteiro
2. O empreiteiro tem direito a um colocar o dono da obra em condições
aumento do preço estipulado, de a poder fazer.
correspondente ao acréscimo de
despesa e trabalho, e a um 3. Qualquer das partes tem o direito
prolongamento do prazo para a de exigir que a verificação seja feita, à
execução da obra. sua custa, por peritos.

3. Se das alterações introduzidas 4. Os resultados da verificação devem


resultar uma diminuição de custo ou ser comunicados ao empreiteiro.
de trabalho, o empreiteiro tem direito

- 212 -
5. A falta da verificação ou da 1. Não sendo eliminados os defeitos ou
comunicação importa aceitação da construída de novo a obra, o dono
obra. pode exigir a redução do preço ou a
resolução do contrato, se os defeitos
ARTIGO 1219º tornarem a obra inadequada ao fim a
(Casos de irresponsabilidade do que se destina.
empreiteiro)
2. A redução do preço é feita nos
1. O empreiteiro não responde pelos termos do artigo 884º.
defeitos da obra, se o dono a aceitou
sem reserva, com conhecimento deles. ARTIGO 1223º
(Indemnização)
2. Presumem-se conhecidos os
defeitos aparentes, tenha ou não O exercício dos direitos conferidos nos
havido verificação da obra. artigos antecedentes não exclui o
direito a ser indemnizado nos termos
ARTIGO 1220º gerais.
(Denúncia dos defeitos)
ARTIGO 1224º
1. O dono da obra deve, sob pena de (Caducidade)
caducidade dos direitos conferidos nos
artigos seguintes, denunciar ao 1. Os direitos de eliminação dos
empreiteiro os defeitos da obra dentro defeitos, redução do preço, resolução
dos trinta dias seguintes ao seu do contrato e indemnização caducam,
descobrimento. se não forem exercidos dentro de um
ano a contar da recusa da aceitação da
2. Equivale à denúncia o obra ou da aceitação com reserva, sem
reconhecimento, por parte do prejuízo da caducidade prevista no
empreiteiro, da existência do defeito. artigo 1220º.

ARTIGO 1221º 2. Se os defeitos eram desconhecidos


(Eliminação dos defeitos) do dono da obra e este a aceitou, o
prazo de caducidade conta-se a partir
1. Se os defeitos puderem ser da denúncia; em nenhum caso, porém,
suprimidos, o dono da obra tem o aqueles direitos podem ser exercidos
direito de exigir do empreiteiro a sua depois de decorrerem dois anos sobre
eliminação; se não puderem ser a entrega da obra.
eliminados, o dono pode exigir nova
construção. ARTIGO 1225º
(Imóveis destinados a longa
2. Cessam os direitos conferidos no duração)
número anterior, se as despesas forem
desproporcionadas em relação ao 1. Sem prejuízo do disposto nos
proveito. artigos 1219º e seguintes, se a
empreitada tiver por objecto a
ARTIGO 1222º construção, modificação ou reparação
(Redução do preço e resolução do de edifícios ou outros imóveis
contrato) destinados por sua natureza a longa
duração e, no decurso de cinco anos a

- 213 -
contar da entrega, ou no decurso do Se a execução da obra se tornar
prazo de garantia convencionado, a impossível por causa não imputável a
obra, por vício do solo ou da qualquer das partes, é aplicável o
construção, modificação ou reparação, disposto no artigo 790º; tendo, porém,
ou por erros na execução dos havido começo de execução, o dono da
trabalhos, ruir total ou parcialmente, obra é obrigado a indemnizar o
ou apresentar defeitos, o empreiteiro é empreiteiro do trabalho executado e
responsável pelo prejuízo causado ao das despesas realizadas.
dono da obra ou a terceiro adquirente.
ARTIGO 1228º
2. A denúncia, em qualquer dos casos, (Risco)
deve ser feita dentro do prazo de um
ano e a indemnização deve ser pedida 1. Se, por causa não imputável a
no ano seguinte à denúncia. qualquer das partes, a coisa perecer
ou se deteriorar, o risco corre por
3. Os prazos previstos no número conta do proprietário.
anterior são igualmente aplicáveis ao
direito à eliminação dos defeitos, 2. Se, porém, o dono da obra estiver
previstos no artigo 1221º. em mora quanto à verificação ou
aceitação da coisa, o risco corre por
4. O disposto nos números anteriores é conta dele.
aplicável ao vendedor de imóvel que o
tenha construído, modificado ou SECÇÃO V
reparado. Extinção do contrato

(Redacção do Dec.-Lei 267/94, de 25- ARTIGO 1229º


10) (Desistência do dono da obra)

ARTIGO 1226º O dono da obra pode desistir da


(Responsabilidade dos empreitada a todo o tempo, ainda que
subempreiteiros) tenha sido iniciada a sua execução
contanto que indemnize o empreiteiro
O direito de regresso do empreiteiro dos seus gastos e trabalho e do
contra os subempreiteiros quanto aos proveito que poderia tirar da obra.
direitos conferidos nos artigos
anteriores caduca, se não lhes for ARTIGO 1230º
comunicada a denúncia dentro dos (Morte ou incapacidade das
trinta dias seguintes à sua recepção. partes)

SECÇÃO IV 1. O contrato de empreitada não se


Impossibilidade de cumprimento e extingue por morte do dono da obra,
risco nem por morte ou incapacidade do
pela perda ou deterioração da obra empreiteiro, a não ser que, neste
último caso, tenham sido tomadas em
ARTIGO 1227º conta, no acto da celebração, as
(Impossibilidade de execução da qualidades pessoais deste.
obra)
2. Extinto o contrato por morte ou
incapacidade do empreiteiro,

- 214 -
considera-se a execução da obra como (Remição)
impossível por causa não imputável a
qualquer das partes. 1. O devedor pode a todo o tempo
remir a renda, mediante o pagamento
CAPÍTULO XIII da importância em dinheiro que
Renda perpétua represente a capitalização da mesma,
à taxa legal de juros.
ARTIGO 1231º
(Noção) 2. O direito de remição é irrenunciável,
mas é lícito estipular-se que não possa
Contrato de renda perpétua é aquele ser exercido em vida do primeiro
em que uma pessoa aliena em favor de beneficiário ou dentro de certo prazo
outra certa soma de dinheiro, ou não superior a vinte anos.
qualquer outra coisa móvel ou imóvel,
ou um direito, e a segunda se obriga, ARTIGO 1237º
sem limite de tempo, a pagar, como (Juros)
renda, determinada quantia em
dinheiro ou outra coisa fungível. A renda perpétua fica sujeita às
disposições legais sobre juros, no que
ARTIGO 1232º for compatível com a sua natureza e
(Forma) com o preceituado nos artigos
antecedentes.
A renda perpétua só é válida se for
constituída por escritura pública. CAPÍTULO XIV
Renda vitalícia
ARTIGO 1233º
(Caução) ARTIGO 1238º
(Noção)
O devedor da renda é obrigado a
caucionar o cumprimento da Contrato de renda vitalícia é aquele em
obrigação. que uma pessoa aliena em favor de
outra certa soma de dinheiro, ou
ARTIGO 1234º qualquer outra coisa móvel ou imóvel,
(Exclusão do direito de acrescer) ou um direito, e a segunda se obriga a
pagar certa quantia em dinheiro ou
Não há na renda perpétua direito de outra coisa fungível durante a vida do
acrescer entre os beneficiários. alienante ou de terceiro.

ARTIGO 1235º ARTIGO 1239º


(Resolução do contrato) (Forma)

Ao beneficiário da renda é permitido Sem prejuízo da aplicação das regras


resolver o contrato, quando o devedor especiais de forma quanto à alienação
se constitua em mora quanto às da coisa ou do direito, a renda vitalícia
prestações correspondentes a dois deve ser constituída por documento
anos, ou se verifique algum dos casos escrito, sendo necessária escritura
previstos no artigo 780º. pública se a coisa ou o direito alienado
for de valor igual ou superior a 20 000
ARTIGO 1236º euros.

- 215 -
(Decreto-Lei n.º 343/98, de 6 de O jogo e a aposta não são contratos
Novembro) válidos nem constiuem fonte de
obrigações civis; porém, quando
ARTIGO 1240º lícitos, são fonte de obrigações
(Duração da renda) naturais, excepto se neles concorrer
qualquer outro motivo de nulidade ou
A renda pode ser convencionada por anulabilidade, nos termos gerais de
uma ou duas vidas. direito, ou se houver fraude do credor
na sua execução.
ARTIGO 1241º
(Direito de acrescer) ARTIGO 1246º
(Competições desportivas)
No silêncio do contrato, sendo dois ou
mais os beneficiários da renda, e Exceptuam-se do disposto no artigo
falecendo algum deles, a sua parte anterior as competições desportivas,
acresce à dos outros. com relação às pessoas que nelas
tomarem parte.
ARTIGO 1242º
(Resolução do contrato) ARTIGO 1247º
(Legislação especial)
Ao beneficiário da renda vitalícia é
lícito resolver o contrato nos mesmos Fica ressalvada a legislação especial
termos em que é permitida a resolução sobre a matéria de que trata este
da renda perpétua ao respectivo capítulo.
beneficiário.
CAPÍTULO XVI
ARTIGO 1243º Transacção
(Remição)
ARTIGO 1248º
O devedor só pode remir a renda, com (Noção)
reembolso do que tiver recebido e
perda das prestações já efectuadas, se 1. Transacção é o contrato pelo qual as
assim se tiver convencionado. partes previnem ou terminam um
litígio mediante recíprocas concessões.
ARTIGO 1244º
(Prestações antecipadas) 2. As concessões podem envolver a
constituição, modificação ou extinção
Se as prestações se vencem de direitos diversos do direito
antecipadamente, a última é devida controvertido.
por inteiro, ainda que o beneficiário
faleça antes de completado o período ARTIGO 1249º
respectivo. (Matérias insusceptíveis de
transacção)
CAPÍTULO XV
Jogo e aposta As partes não podem transigir sobre
direitos de que lhes não é permitido
ARTIGO 1245º dispor, nem sobre questões
(Nulidade do contrato)

- 216 -
respeitantes a negócios jurídicos A transacção preventiva ou
ilícitos. extrajudicial constará de escritura
pública quando dela possa derivar
ARTIGO 1250º algum efeito para o qual a escritura
(Forma) seja exigida, e constará de documento
escrito nos casos restantes.

LIVRO III
DIREITO DAS COISAS

TÍTULO I b) Os que simplesmente se aproveitam


DA POSSE da tolerância do titular do direito;

CAPÍTULO I c) Os representantes ou mandatários


Disposições gerais do possuidor e, de um modo geral,
todos os que possuem em nome de
ARTIGO 1251º outrem.
(Noção)
ARTIGO 1254º
Posse é o poder que se manifesta (Presunções de posse)
quando alguém actua por forma
correspondente ao exercício do direito 1. Se o possuidor actual possuiu em
de propriedade ou de outro direito tempo mais remoto, presume-se que
real. possuiu igualmente no tempo
intermédio.
ARTIGO 1252º
(Exercício da posse por 2. A posse actual não faz presumir a
intermediário) posse anterior, salvo quando seja
titulada; neste caso, presume-se que
1. A posse tanto pode ser exercida há posse desde a data do título.
pessoalmente como por intermédio de
outrem. ARTIGO 1255º
(Sucessão na posse)
2. Em caso de dúvida, presume-se a
posse naquele que exerce o poder de Por morte do possuidor, a posse
facto, sem prejuízo do disposto no nº 2 continua nos seus sucessores desde o
do artigo 1257º. momento da morte,
independentemente da apreensão
ARTIGO 1253º material da coisa.
(Simples detenção)
ARTIGO 1256º
São havidos como detentores ou (Acessão da posse)
possuidores precários:
1. Aquele que houver sucedido na
a) Os que exercem o poder de facto posse de outrem por título diverso da
sem intenção de agir como sucessão por morte pode juntar à sua
beneficiários do direito; a posse do antecessor.

- 217 -
2. A posse titulada presume-se de boa
2. Se, porém, a posse do antecessor fé, e a não titulada, de má fé.
for de natureza diferente da posse do
sucessor, a acessão só se dará dentro 3. A posse adquirida por violência é
dos limites daquela que tem menor sempre considerada de má fé, mesmo
âmbito. quando seja titulada.

ARTIGO 1257º ARTIGO 1261º


(Conservação da posse) (Posse pacífica)

1. A posse mantém-se enquanto durar 1. Posse pacífica é a que foi adquirida


a actuação correspondente ao sem violência.
exercício do direito ou a possibilidade
de a continuar. 2. Considera-se violenta a posse
quando, para obtê-la, o possuidor usou
2. Presume-se que a posse continua de coacção física, ou de coacção moral
em nome de quem a começou. nos termos do artigo 255º.

CAPÍTULO II ARTIGO 1262º


Caracteres da posse (Posse pública)

Posse pública é a que se exerce de


ARTIGO 1258º modo a poder ser conhecida pelos
(Espécies de posse) interessados.

A posse pode ser titulada ou não CAPÍTULO III


titulada, de boa ou de má fé, pacífica Aquisição e perda da posse
ou violenta, pública ou oculta.
ARTIGO 1263º
ARTIGO 1259º (Aquisição da posse)
(Posse titulada)
A posse adquire-se:
1. Diz-se titulada a posse fundada em
qualquer modo legítimo de adquirir, a) Pela prática reiterada, com
independentemente, quer do direito do publicidade, dos actos materiais
transmitente, quer da validade correspondentes ao exercício do
substancial do negócio jurídico. direito;

2. O título não se presume, devendo a b) Pela tradição material ou simbólica


sua existência ser provada por aquele da coisa, efectuada pelo anterior
que o invoca. possuidor;

ARTIGO 1260º c) Por constituto possessório;


(Posse de boa fé)
d) Por inversão do título da posse.
1. A posse diz-se de boa fé, quando o
possuidor ignorava, ao adquiri-la, que ARTIGO 1264º
lesava o direito de outrem. (Constituto possessório)

- 218 -
1. Se o titular do direito real, que está 2. A nova posse de outrem conta-se
na posse da coisa, transmitir esse desde o seu início, se foi tomada
direito a outrem, não deixa de publicamente, ou desde que é
considerar-se transferida a posse para conhecida do esbulhado, se foi tomada
o adquirente, ainda que, por qualquer ocultamente; sendo adquirida por
causa, aquele continue a deter a coisa. violência, só se conta a partir da
cessação desta.
2. Se o detentor da coisa, à data do
negócio translativo do direito, for um CAPÍTULO IV
terceiro, não deixa de considerar-se Efeitos da posse
igualmente transferida a posse, ainda
que essa detenção haja de continuar. ARTIGO 1268º
(Presunção da titularidade do
ARTIGO 1265º direito)
(Inversão do título da posse)
1. O possuidor goza da presunção da
A inversão do título da posse pode dar- titularidade do direito excepto se
se por oposição do detentor do direito existir, a favor de outrem, presunção
contra aquele em cujo nome possuía fundada em registo anterior ao início
ou por acto de terceiro capaz de da posse.
transferir a posse.
2. Havendo concorrência de
ARTIGO 1266º presunções legais fundadas em
(Capacidade para adquirir a posse) registo, será a prioridade entre elas
fixada na legislação respectiva.
Podem adquirir posse todos os que
têm uso da razão, e ainda os que o ARTIGO 1269º
não têm, relativamente às coisas (Perda ou deterioração da coisa)
susceptíveis de ocupação.
O possuidor de boa fé só responde
ARTIGO 1267º pela perda ou deterioração da coisa se
(Perda da posse) tiver procedido com culpa.

1. O possuidor perde a posse: ARTIGO 1270º


(Frutos na posse de boa fé)
a) Pelo abandono;
1. O possuidor de boa fé faz seus os
b) Pela perda ou destruição material frutos naturais percebidos até ao dia
da coisa ou por esta ser posta fora do em que souber que está a lesar com a
comércio; sua posse o direito de outrem, e os
frutos civis correspondentes ao mesmo
c) Pela cedência; período.

d) Pela posse de outrem, mesmo 2. Se ao tempo em que cessa a boa fé


contra a vontade do antigo possuidor, estiverem pendentes frutos naturais, é
se a nova posse houver durado por o titular obrigado a indemnizar o
mais de um ano. possuidor das despesas de cultura,
sementes ou matérias-primas e, em
geral, de todas as despesas de

- 219 -
produção, desde que não sejam (Compensação de benfeitorias com
superiores ao valor dos frutos que deteriorações)
vierem a ser colhidos.
A obrigação de indemnização por
3. Se o possuidor tiver alienado frutos benfeitorias é susceptível de
antes da colheita e antes de cessar a compensação com a responsabilidade
boa fé, a alienação subsiste mas o do possuidor por deteriorações.
produto da colheita pertence ao titular
do direito, deduzida a indemnização a ARTIGO 1275º
que o número anterior se refere. (Benfeitorias voluptuárias)

ARTIGO 1271º 1. O possuidor de boa fé tem direito a


(Frutos na posse de má fé) levantar as benfeitorias voluptuárias,
não se dando detrimento da coisa; no
O possuidor de má fé deve restituir os caso contrário, não pode levantá-las
frutos que a coisa produziu até ao nem haver o valor delas.
termo da posse e responde, além
disso, pelo valor daqueles que um 2. O possuidor de má fé perde, em
proprietário diligente poderia ter qualquer caso, as benfeitorias
obtido. voluptuárias que haja feito.

ARTIGO 1272º CAPÍTULO V


(Encargos) Defesa da posse

Os encargos com a coisa são pagos ARTIGO 1276º


pelo titular do direito e pelo possuidor, (Acção de prevenção)
na medida dos direitos de cada um
deles sobre os frutos no período a que Se o possuidor tiver justo receio de ser
respeitam os encargos. perturbado ou esbulhado por outrem,
será o autor da ameaça, a
ARTIGO 1273º requerimento do ameaçado, intimado
(Benfeitorias necessárias e úteis) para se abster de lhe fazer agravo, sob
pena de multa e responsabilidade pelo
1. Tanto o possuidor de boa fé como o prejuízo que causar.
de má fé têm direito a ser
indemnizados das benfeitorias ARTIGO 1277º
necessárias que hajam feito, e bem (Acção directa e defesa judicial)
assim a levantar as benfeitorias úteis
realizadas na coisa, desde que o O possuidor que for perturbado ou
possam fazer sem detrimento dela. esbulhado pode manter-se ou restituir-
se por sua própria força e autoridade,
2. Quando, para evitar o detrimento da nos termos do artigo 336º, ou recorrer
coisa, não haja lugar ao levantamento ao tribunal para que este lhe
das benfeitorias, satisfará o titular do mantenha ou restitua a posse.
direito ao possuidor o valor delas,
calculado segundo as regras do ARTIGO 1278º
enriquecimento sem causa. (Manutenção e restituição da
posse)
ARTIGO 1274º

- 220 -
1. No caso de recorrer ao tribunal, o esbulhador ou seus herdeiros, mas
possuidor perturbado ou esbulhado ainda contra quem esteja na posse da
será mantido ou restituído enquanto coisa e tenha conhecimento do
não for convencido na questão da esbulho.
titularidade do direito.
ARTIGO 1282º
2. Se a posse não tiver mais de um (Caducidade)
ano, o possuidor só pode ser mantido
ou restituído contra quem não tiver A acção de manutenção, bem como as
melhor posse. de restituição da posse, caducam, se
não forem intentadas dentro do ano
3. É melhor posse a que for titulada; subsequente ao facto da turbação ou
na falta de título, a mais antiga; e, se do esbulho, ou ao conhecimento dele
tiverem igual antiguidade, a posse quando tenha sido praticado a ocultas.
actual.
ARTIGO 1283º
ARTIGO 1279º (Efeito da manutenção ou
(Esbulho violento) restituição)

Sem prejuízo do disposto nos artigos É havido como nunca perturbado ou


anteriores, o possuidor que for esbulhado o que foi mantido na sua
esbulhado com violência tem o direito posse ou a ela foi restituído
de ser restituído provisoriamente à sua judicialmente.
posse, sem audiência do esbulhador.
ARTIGO 1284º
ARTIGO 1280º (Indemnização de prejuízos e
(Exclusão das servidões não encargos com a restituição)
aparentes)
1. O possuidor mantido ou restituído
As acções mencionadas nos artigos tem direito a ser indemnizado do
anteriores não são aplicáveis à defesa prejuízo que haja sofrido em
das servidões não aparentes, salvo consequência da turbação ou do
quando a posse se funde em título esbulho.
provindo do proprietário do prédio
serviente ou de quem lho transmitiu. 2. A restituição da posse é feita à
custa do esbulhador e no lugar do
ARTIGO 1281º esbulho.
(Legitimidade)
ARTIGO 1285º
1. A acção de manutenção da posse (Embargos de terceiro)
pode ser intentada pelo perturbado ou
pelos seus herdeiros, mas apenas O possuidor cuja posse for ofendida
contra o perturbador, salva a acção de por diligência ordenada judicialmente
indemnização contra os herdeiros pode defender a sua posse mediante
deste. embargos de terceiro, nos termos
definidos na lei de processo.
2. A acção de restituição de posse
pode ser intentada pelo esbulhado ou ARTIGO 1286º
pelos seus herdeiros, não só contra o (Defesa da composse)

- 221 -
2. Os incapazes podem adquirir por
1. Cada um dos compossuidores, seja usucapião, tanto por si como por
qual for a parte que lhe cabe, pode intermédio das pessoas que
usar contra terceiro dos meios legalmente os representam.
facultados nos artigos precedentes,
quer para defesa da própria posse, ARTIGO 1290º
quer para defesa da posse comum, (Usucapião em caso de detenção)
sem que ao terceiro seja lícito opor-lhe
que ela não lhe pertence por inteiro. Os detentores ou possuidores precários
não podem adquirir para si, por
2. Nas relações entre compossuidores usucapião, o direito possuído, excepto
não é permitido o exercício da acção achando-se invertido o título da posse;
de manutenção. mas, neste caso, o tempo necessário
para a usucapião só começa a correr
3. Em tudo o mais são aplicáveis à desde a inversão do título.
composse as disposições do presente
capítulo. ARTIGO 1291º
(Usucapião por compossuidor)
CAPÍTULO VI
Usucapião A usucapião por um compossuidor
relativamente ao objecto da posse
SECÇÃO I comum aproveita igualmente aos
Disposições gerais demais compossuidores.

ARTIGO 1287º ARTIGO 1292º


(Noção) (Aplicação das regras da
prescrição)
A posse do direito de propriedade ou
de outros direitos reais de gozo, São aplicáveis à usucapião, com as
mantida por certo lapso de tempo, necessárias adaptações, as disposições
faculta ao possuidor, salvo disposição relativas à suspensão e interrupção da
em contrário, a aquisição do direito a prescrição, bem como o preceituado
cujo exercício corresponde a sua nos artigos 300º, 302º, 303º e 305º.
actuação: é o que se chama
usucapião. SECÇÃO II
Usucapião de imóveis
ARTIGO 1288º
(Retroactividade da usucapião) ARTIGO 1293º
(Direitos excluídos)
Invocada a usucapião, os seus efeitos
retrotraem-se à data do início da Não podem adquirir-se por usucapião:
posse.
a) As servidões prediais não
ARTIGO 1289º aparentes;
(Capacidade para adquirir)
b) Os direitos de uso e de habitação.
1. A usucapião aproveita a todos os
que podem adquirir. ARTIGO 1294º
(Justo título e registo)

- 222 -
contar-se desde que cesse a violência
Havendo título de aquisição e registo ou a posse se torne pública.
deste, a usucapião tem lugar:
SECÇÃO III
a) Quando a posse, sendo de boa fé, Usucapião de móveis
tiver durado por dez anos, contados
desde a data do registo; ARTIGO 1298º
(Coisas sujeitas a registo)
b) Quando a posse, ainda que de má
fé, houver durado quinze anos, Os direitos reais sobre coisas móveis
contados da mesma data. sujeitas a registo adquirem-se por
usucapião, nos termos seguintes:
ARTIGO 1295º
(Registo da mera posse) a) Havendo título de aquisição e
registo deste, quando a posse tiver
1. Não havendo registo do título de durado dois anos, estando o possuidor
aquisição, mas registo da mera posse, de boa fé, ou quatro anos, se estiver
a usucapião tem lugar: de má fé;

a) Se a posse tiver continuado por b) Não havendo registo, quando a


cinco anos, contados desde a data do posse tiver durado dez anos,
registo, e for de boa fé; independentemente da boa fé do
possuidor e da existência de título.
b) Se a posse tiver continuado por dez
anos, a contar da mesma data, ainda ARTIGO 1299º
que não seja de boa fé. (Coisas não sujeitas a registo)

2. A mera posse só será registada em A usucapião de coisas não sujeitas a


vista de sentença passada em julgado, registo dá-se quando a posse, de boa
na qual se reconheça que o possuidor fé e fundada em justo título, tiver
tem possuído pacífica e publicamente durado três anos, ou quando,
por tempo não inferior a cinco anos. independentemente da boa fé e de
título, tiver durado seis anos.
ARTIGO 1296º
(Falta de registo) ARTIGO 1300º
(Posse violenta ou oculta)
Não havendo registo do título nem da
mera posse, a usucapião só pode dar- 1. É aplicável à usucapião de móveis o
se no termo de quinze anos, se a disposto no artigo 1297º.
posse for de boa fé, e de vinte anos,
se for de má fé. 2. Se, porém, a coisa possuída passar
a terceiro de boa fé antes da cessação
ARTIGO 1297º da violência ou da publicidade da
(Posse violenta ou oculta) posse, pode o interessado adquirir
direitos sobre ela passados quatros
Se a posse tiver sido constituída com anos desde a constituição da sua
violência ou tomada ocultamente, os posse, se esta for titulada, ou sete, na
prazos da usucapião só começam a falta de título.

- 223 -
ARTIGO 1301º O domínio das coisas pertencentes ao
(Coisa comprada a comerciante) Estado ou a quaisquer outras pessoas
colectivas públicas está igualmente
O que exigir de terceiro coisa por este sujeito às disposições deste código em
comprada, de boa fé, a comerciante tudo o que não for especialmente
que negoceie em coisa do mesmo ou regulado e não contrarie a natureza
semelhante género é obrigado a própria daquele domínio.
restituir o preço que o adquirente tiver
dado por ela, mas goza do direito de ARTIGO 1305º
regresso contra aquele que (Conteúdo do direito de
culposamente deu causa ao prejuízo. propriedade)

TÍTULO II O proprietário goza de modo pleno e


DO DIREITO DE PROPRIEDADE exclusivo dos direitos de uso, fruição e
disposição das coisas que lhe
CAPÍTULO I pertencem, dentro dos limites da lei e
Propriedade em geral com observância das restrições por ela
impostas.
SECÇÃO I
Disposições gerais ARTIGO 1306º
(«Numerus clausus»)
ARTIGO 1302º
(Objecto do direito de 1. Não é permitida a constituição, com
propriedade) carácter real, de restrições ao direito
de propriedade ou de figuras
Só as coisas corpóreas, móveis ou parcelares deste direito senão nos
imóveis, podem ser objecto do direito casos previstos na lei; toda a restrição
de propriedade regulado neste código. resultante de negócio jurídico, que não
esteja nestas condições, tem natureza
ARTIGO 1303º obrigacional.
(Propriedade intelectual)
2. O quinhão e o compáscuo
1. Os direitos de autor e a propriedade constituídos até à entrada em vigor
industrial estão sujeitos a legislação deste código ficam sujeitos à legislação
especial. anterior.

2. São, todavia, subsidiariamente ARTIGO 1307º


aplicáveis aos direitos de autor e à (Propriedade resolúvel e
propriedade industrial as disposições temporária)
deste código, quando se harmonizem
com a natureza daqueles direitos e não 1. O direito de propriedade pode
contrariem o regime para eles constituir-se sob condição.
especialmente estabelecido.
2. A propriedade temporária só é
ARTIGO 1304º admitida nos casos especialmente
(Domínio do Estado e de outras previstos na lei.
pessoas colectivas públicas)

- 224 -
3. À propriedade sob condição é
aplicável o disposto nos artigos 272º a A restituição da coisa é feita à custa do
277º. esbulhador, se o houver, e no lugar do
esbulho.
ARTIGO 1308º
(Expropriações) ARTIGO 1313º
(Imprescritibilidade da acção de
Ninguém pode ser privado, no todo ou reivindicação)
em parte, do seu direito de
propriedade senão nos casos fixados Sem prejuízo dos direitos adquiridos
na lei. por usucapião, a acção de
reivindicação não prescreve pelo
ARTIGO 1309º decurso do tempo.
(Requisições)
ARTIGO 1314º
Só nos casos previstos na lei pode ter (Acção directa)
lugar a requisição temporária de coisas
do domínio privado. É admitida a defesa da propriedade por
meio de acção directa, nos termos do
ARTIGO 1310º artigo 336º.
(Indemnizações)
ARTIGO 1315º
Havendo expropriação por utilidade (Defesa de outros direitos reais)
pública ou particular ou requisição de
bens, é sempre devida a indemnização As disposições precedentes são
adequada ao proprietário e aos aplicáveis, com as necessárias
titulares dos outros direitos reais correcções, à defesa de todo o direito
afectados. real.

SECÇÃO II CAPÍTULO II
Defesa da propriedade Aquisição da propriedade

ARTIGO 1311º SECÇÃO I


(Acção de reivindicação) Disposições gerais

1. O proprietário pode exigir


judicialmente de qualquer possuidor ou ARTIGO 1316º
detentor da coisa o reconhecimento do (Modos de aquisição)
seu direito de propriedade e a
consequente restituição do que lhe O direito de propriedade adquire-se
pertence. por contrato, sucessão por morte,
usucapião, ocupação, acessão e
2. Havendo reconhecimento do direito demais modos previstos na lei.
de propriedade, a restituição só pode
ser recusada nos casos previstos na ARTIGO 1317º
lei. (Momento da aquisição)

ARTIGO 1312º O momento da aquisição do direito de


(Encargos com a restituição) propriedade é:

- 225 -
2. Provando-se, porém, que os animais
a) No caso de contrato, o designado foram atraídos por fraude ou artifício
nos artigos 408º e 409º; do dono da guarida onde se hajam
acolhido, é este obrigado a entregá-los
b) No caso de sucessão por morte, o ao antigo dono, ou a pagar-lhe em
da abertura da sucessão; triplo o valor deles, se lhe não for
possível restituí-los.
c) No caso de usucapião, o do início da
posse; ARTIGO 1321º
(Animais ferozes fugidos)
d) Nos casos de ocupação e acessão, o
da verificação dos factos respectivos. Os animais ferozes e maléficos que se
evadirem da clausura em que o seu
SECÇÃO II dono os tiver podem ser destruídos ou
Ocupação ocupados livremente por qualquer
pessoa que os encontre.
ARTIGO 1318º
(Coisas susceptíveis de ocupação) ARTIGO 1322º
(Enxames de abelhas)
Podem ser adquiridos por ocupação os
animais e outras coisas móveis que 1. O proprietário de enxame de
nunca tiveram dono, ou foram abelhas tem o direito de o perseguir e
abandonados, perdidos ou escondidos capturar em prédio alheio, mas é
pelos seus proprietários, salvas as responsável pelos danos que causar.
restrições dos artigos seguintes.
2. Se o dono da colmeia não perseguir
ARTIGO 1319º o enxame logo que saiba terem as
(Caça e pesca) abelhas enxameado, ou se decorrerem
dois dias sem que o enxame tenha
A ocupação dos animais bravios que se sido capturado, pode ocupá-lo o
encontram no seu estado de liberdade proprietário do prédio onde ele se
natural é regulada por legislação encontre, ou consentir que outrem o
especial. ocupe.

ARTIGO 1320º ARTIGO 1323º


(Animais selvagens com guarida (Animais e coisas móveis
própria) perdidas)

1. Os animais bravios habituados a 1. Aquele que encontrar animal ou


certa guarida, ordenada por indústria outra coisa móvel perdida e souber a
do homem, que mudem para outra quem pertence deve restituir o animal
guarida de diverso dono ficam ou a coisa a seu dono, ou avisar este
pertencendo a este, se não puderem do achado; se não souber a quem
ser individualmente reconhecidos; no pertence, deve anunciar o achado pelo
caso contrário, pode o antigo dono modo mais conveniente, atendendo ao
recuperá-los, contanto que o faça sem valor da coisa e às possibilidades
prejuízo do outro. locais, ou avisar as autoridades,
observando os usos da terra, sempre
que os haja.

- 226 -
em benefício do Estado os direitos
2. Anunciado o achado, o achador faz conferidos no nº 1 deste artigo, sem
sua a coisa perdida, se não for exclusão dos que lhe possam caber
reclamada pelo dono dentro do prazo como proprietário.
de um ano, a contar do anúncio ou
aviso. SECÇÃO III
Acessão
3. Restituída a coisa, o achador tem
direito à indemnização do prejuízo SUBSECÇÃO I
havido e das despesas realizadas, bem Disposições gerais
como a um prémio dependente do
valor do achado no momento da ARTIGO 1325º
entrega, calculado pela forma (Noção)
seguinte: até ao valor de mil escudos,
dez por cento; sobre o excedente Dá-se a acessão, quando com a coisa
desse valor até cinco mil escudos, que é propriedade de alguém se une e
cinco por cento; sobre o restante, dois incorpora outra coisa que lhe não
e meio por cento. pertencia.

4. O achador goza do direito de ARTIGO 1326º


retenção e não responde, no caso de (Espécies)
perda ou deterioração da coisa, senão
havendo da sua parte dolo ou culpa 1. A acessão diz-se natural, quando
grave. resulta exclusivamente das forças da
natureza; dá-se a acessão industrial,
ARTIGO 1324º quando, por facto do homem, se
(Tesouros) confundem objectos pertencentes a
diversos donos, ou quando alguém
1. Se aquele que descobrir coisa móvel aplica o trabalho próprio a matéria
de algum valor, escondida ou pertencente a outrem, confundindo o
enterrada, não puder determinar quem resultado desse trabalho com
é o dono dela, torna-se proprietário de propriedade alheia.
metade do achado; a outra metade
pertence ao proprietário da coisa 2. A acessão industrial é mobiliária ou
móvel ou imóvel onde o tesouro estava imobiliária, conforme a natureza das
escondido ou enterrado. coisas.

2. O achador deve anunciar o achado SUBSECÇÃO II


nos termos do nº 1 do artigo anterior, Acessão natural
ou avisar as autoridades, excepto
quando seja evidente que o tesouro foi ARTIGO 1327º
escondido ou enterrado há mais de (Princípio geral)
vinte anos.
Pertence ao dono da coisa tudo o que
3. Se o achador não cumprir o disposto a esta acrescer por efeito da natureza.
no número anterior, ou fizer seu o
achado ou parte dele sabendo quem é ARTIGO 1328º
o dono, ou ocultar do proprietário da (Aluvião)
coisa onde ele se encontrava, perde

- 227 -
1. Pertence aos donos dos prédios antigo seja abandonado, é ainda
confinantes com quaisquer correntes aplicável o disposto no número
de água tudo o que, por acção das anterior.
águas, se lhes unir ou neles for
depositado, sucessiva e ARTIGO 1331º
imperceptivelmente. (Formação de ilhas e mouchões)

2. É aplicável o disposto no número 1. As ilhas ou mouchões que se


anterior ao terreno que formem nas correntes de água
insensivelmente se for deslocando, por pertencem ao dono da parte do leito
acção das águas, de uma das margens ocupado.
para outra, ou de um prédio superior
para outro inferior, sem que o 2. Se, porém, as ilhas ou mouchões se
proprietário do terreno perdido possa formarem por avulsão, o proprietário
invocar direitos sobre ele. do terreno onde a diminuição haja
ocorrido goza do direito de remoção
nas condições prescritas pelo artigo
1329º.
ARTIGO 1329º
(Avulsão) ARTIGO 1332º
(Lagos e lagoas)
1. Se, por acção natural e violenta, a
corrente arrancar quaisquer plantas ou As disposições dos artigos
levar qualquer objecto ou porção antecedentes são aplicáveis aos lagos
conhecida de terreno, e arrojar essas e lagoas, quando aí ocorrerem factos
coisas sobre prédio alheio, o dono análogos.
delas tem o direito de exigir que lhe
sejam entregues, contanto que o faça SUBSECÇÃO III
dentro de seis meses, se antes não foi Acessão industrial mobiliária
notificado para fazer a remoção no
prazo judicialmente assinado. ARTIGO 1333º
(União ou confusão de boa fé)
2. Não se fazendo a remoção nos
prazos designados, é aplicável o 1. Se alguém, de boa fé, unir ou
disposto no artigo anterior. confundir objecto seu com objecto
alheio, de modo que a separação deles
ARTIGO 1330º não seja possível ou, sendo-o, dela
(Mudança de leito) resulte prejuízo para alguma das
partes, faz seu o objecto adjunto o
1. Se a corrente mudar de direcção, dono daquele que for de maior valor,
abandonando o leito antigo, os contanto que indemnize o dono do
proprietários deste conservam o direito outro ou lhe entregue coisa
que tinham sobre ele, e o dono do equivalente.
prédio invadido conserva igualmente a
propriedade do terreno ocupado de 2. Se ambas as coisas forem de igual
novo pela corrente. valor e os donos não acordarem sobre
qual haja de ficar com ela, abrir-se-á
2. Se a corrente se dividir em dois entre eles licitação, adjudicando-se o
ramos ou braços, sem que o leito objecto licitado àquele que maior valor

- 228 -
oferecer por ele; verificada a soma que
no valor oferecido deve pertencer ao 2. Se nenhum deles quiser ficar com a
outro, é o adjudicatário obrigado a coisa, será esta vendida, e cada um
pagar-lha. deles haverá a parte do preço que lhe
pertencer.
3. Se os interessados não quiserem
licitar, será vendida a coisa e cada um 3. Se ambas as coisas forem de igual
deles haverá no produto da venda a valor, observar-se-á o disposto nos
parte que deva tocar-lhe. números 2 e 3 do artigo 1333º.

4. Em qualquer dos casos previstos ARTIGO 1336º


nos números anteriores, o autor da (Especificação de boa fé)
confusão é obrigado a ficar com a
coisa adjunta, ainda que seja de maior 1. Quem de boa fé der nova forma, por
valor, se o dono dela preferir a seu trabalho, a coisa móvel
respectiva indemnização. pertencente a outrem faz sua a coisa
transformada, se ela não puder ser
ARTIGO 1334º restituída à primitiva forma ou não
(União ou confusão de má fé) puder sê-lo sem perda do valor criado
pela especificação; neste último caso,
1. Se a união ou confusão tiver sido porém, tem o dono da matéria o
feita de má fé e a coisa alheia puder direito de ficar com a coisa, se o valor
ser separada sem padecer detrimento, da especificação não exceder o da
será esta restituída a seu dono, sem matéria.
prejuízo do direito que este tem de ser
indemnizado do dano sofrido. 2. Em ambos os casos previstos no
número anterior, o que ficar com a
2. Se, porém, a coisa não puder ser coisa é obrigado a indemnizar o outro
separada sem padecer detrimento, do valor que lhe pertencer.
deve o autor da união ou confusão
restituir o valor da coisa e indemnizar ARTIGO 1337º
o seu dono, quando este não prefira (Especificação de má fé)
ficar com ambas as coisas adjuntas e
pagar ao autor da união ou confusão o Se a especificação tiver sido feita de
valor que for calculado segundo as má fé, será a coisa especificada
regras do enriquecimento sem causa. restituída a seu dono no estado em
que se encontrar, com indemnização
ARTIGO 1335º dos danos, sem que o dono seja
(Confusão casual) obrigado a indemnizar o especificador,
se o valor da especificação não tiver
1. Se a adjunção ou confusão se aumentado em mais de um terço o
operar casualmente e as coisas valor da coisa especificada; se o
adjuntas ou confundidas não puderem aumento for superior, deve o dono da
separar-se sem detrimento de alguma coisa repor o que exceder o dito terço.
delas, ficam pertencendo ao dono da
mais valiosa, que pagará o justo valor ARTIGO 1338º
da outra; se, porém, este não quiser (Casos de especificação)
fazê-lo, assiste idêntico direito ao dono
da menos valiosa.

- 229 -
Constituem casos de especificação a 4. Entende-se que houve boa fé, se o
escrita, a pintura, o desenho, a autor da obra, sementeira ou
fotografia, a impressão, a gravura e plantação desconhecia que o terreno
outros actos semelhantes, feitos com era alheio, ou se foi autorizada a
utilização de materiais alheios. incorporação pelo dono do terreno.

SUBSECÇÃO IV ARTIGO 1341º


Acessão industrial imobiliária (Obras, sementeiras ou plantações
feitas de má fé em terreno alheio)
ARTIGO 1339º
(Obras, sementeiras ou plantações Se a obra, sementeira ou plantação for
com materiais alheios) feita de má fé, tem o dono do terreno
o direito de exigir que seja desfeita e
Aquele que em terreno seu construir que o terreno seja restituído ao seu
obra ou fizer sementeira ou plantação primitivo estado à custa do autor dela,
com materiais, sementes ou plantas ou, se o preferir, o direito de ficar com
alheias adquire os materiais, sementes a obra, sementeira ou plantação pelo
ou plantas que utilizou, pagando o valor que for fixado segundo as regras
respectivo valor, além da do enriquecimento sem causa.
indemnização a que haja lugar.
ARTIGO 1342º
ARTIGO 1340º (Obras, sementeiras ou plantações
(Obras, sementeiras ou plantações feitas com materiais alheios em
feitas de boa fé em terreno alheio) terreno alheio)

1. Se alguém, de boa fé, construir obra 1. Quando as obras, sementeiras ou


em terreno alheio, ou nele fizer plantações sejam feitas em terreno
sementeira ou plantação, e o valor que alheio com materiais, sementes ou
as obras, sementeiras ou plantações plantas alheias, ao dono dos materiais,
tiverem trazido à totalidade do prédio sementes ou plantas cabem os direitos
for maior do que o valor que este tinha conferidos no artigo 1340º ao autor da
antes, o autor da incorporação adquire incorporação, quer este esteja de boa,
a propriedade dele, pagando o valor quer de má fé.
que o prédio tinha antes das obras,
sementeiras ou plantações. 2. Se, porém, o dono dos materiais,
sementes ou plantas tiver culpa, é-lhe
2. Se o valor acrescentado for igual, aplicável o disposto no artigo
haverá licitação entre o antigo dono e antecedente em relação ao autor da
o autor da incorporação, pela forma incorporação; neste caso, se o autor
estabelecida no nº 2 do artigo 1333º. da incorporação estiver de má fé, é
solidária a responsabilidade de ambos,
3. Se o valor acrescentado for menor, e a divisão do enriquecimento é feita
as obras, sementeiras ou plantações em proporção do valor dos materiais,
pertencem ao dono do terreno, com sementes ou plantas e da mão-de-
obrigação de indemnizar o autor delas obra.
do valor que tinham ao tempo da
incorporação. ARTIGO 1343º
(Prolongamento de edifício por
terreno alheio)

- 230 -
(Emissão de fumo, produção de
1. Quando na construção de um ruídos e factos semelhantes)
edifício em terreno próprio se ocupe,
de boa fé, uma parcela de terreno O proprietário de um imóvel pode
alheio, o construtor pode adquirir a opor-se à emissão de fumo, fuligem,
propriedade do terreno ocupado, se vapores, cheiros, calor ou ruídos, bem
tiverem decorrido três meses a contar como à produção de trepidações e a
do início da ocupação, sem oposição outros quaisquer factos semelhantes,
do proprietário, pagando o valor do provenientes de prédio vizinho,
terreno e reparando o prejuízo sempre que tais factos importem um
causado, designadamente o resultante prejuízo substancial para o uso do
da depreciação eventual do terreno imóvel ou não resultem da utilização
restante. normal do prédio de que emanam.

2. É aplicável o disposto no número ARTIGO 1347º


anterior relativamente a qualquer (Instalações prejudiciais)
direito real de terceiro sobre o terreno
ocupado. 1. O proprietário não pode construir
nem manter no seu prédio quaisquer
CAPÍTULO III obras, instalações ou depósitos de
Propriedade de imóveis substâncias corrosivas ou perigosas, se
for de recear que possam ter sobre o
SECÇÃO I prédio vizinho efeitos nocivos não
Disposições gerais permitidos por lei.

ARTIGO 1344º 2. Se as obras, instalações ou


(Limites materiais) depósitos tiverem sido autorizados por
entidade pública competente, ou
1. A propriedade dos imóveis abrange tiverem sido observadas as condições
o espaço aéreo correspondente à especiais prescritas na lei para a
superfície, bem como o subsolo, com construção ou manutenção deles, a
tudo o que neles se contém e não sua inutilização só é admitida a partir
esteja desintegrado do domínio por lei do momemto em que o prejuízo se
ou negócio jurídico. torne efectivo.

2. O proprietário não pode, todavia, 3. É devida, em qualquer dos casos,


proibir os actos de terceiro que, pela indemnização pelo prejuízo sofrido.
altura ou profundidade a que têm
lugar, não haja interesse em impedir. ARTIGO 1348º
(Escavações)
ARTIGO 1345º
(Coisas imóveis sem dono 1. O proprietário tem a faculdade de
conhecido) abrir no seu prédio minas ou poços e
fazer escavações, desde que não prive
As coisas imóveis sem dono conhecido os prédios vizinhos do apoio necssário
consideram-se do património do para evitar desmoronamentos ou
Estado. deslocações de terra.

ARTIGO 1346º

- 231 -
2. Logo que venham a padecer danos e entulhos que elas arrastam na sua
com as obras feitas, os proprietários corrente.
vizinhos serão indemnizados pelo autor
delas, mesmo que tenham sido 2. Nem o dono do prédio inferior pode
tomadas as precauções julgadas fazer obras que estorvem o
necessárias. escoamento, nem o dono do prédio
superior obras capazes de o agravar,
ARTIGO 1349º sem prejuízo da possibilidade de
(Passagem forçada momentânea) constituição da servidão legal de
escoamento, nos casos em que é
1. Se, para reparar algum edifício ou admitida.
construção, for indispensável levantar
andaime, colocar objectos sobre prédio ARTIGO 1352º
alheio, fazer passar por ele os (Obras defensivas das águas)
materiais para a obra ou praticar
outros actos análogos, é o dono do 1. O dono do prédio onde existam
prédio obrigado a consentir nesses obras defensivas para conter as águas,
actos. ou onde, pela variação do curso das
águas, seja necessário construir novas
2. É igualmente permitido o acesso a obras, é obrigado a fazer reparos
prédio alheio a quem pretenda precisos, ou a tolerar que os façam,
apoderar-se de coisas suas que sem prejuízo dele, os donos dos
acidentalmente nele se encontrem; o prédios que padeçam danos ou
proprietário pode impedir o acesso, estejam exposto a danos iminentes.
entregando a coisa ao seu dono.
2. O disposto no número anterior é
3. Em qualquer dos casos previstos aplicável, sempre que seja necessário
neste artigo, o proprietário tem direito despojar algum prédio de materiais
a ser indemnizado do prejuízo sofrido. cuja acumulação ou queda estorve o
curso das águas com prejuízo ou risco
ARTIGO 1350º de terceiro.
(Ruína de construção)
3. Todos os proprietários que
Se qualquer edifício ou outra obra participam do benefício das obras são
oferecer perigo de ruir, no todo ou em obrigados a contribuir para as
parte, e do desmoronamento puderem despesas delas, em proporção do seu
resultar danos para o prédio vizinho, é interesse, sem prejuízo da
lícito ao dono deste exigir da pessoa responsabilidade que recaia sobre o
responsável pelos danos, nos termos autor dos danos.
do artigo 492º, as providências
necessárias para eliminar o perigo. SECÇÃO II
Direito de demarcação
ARTIGO 1351º
(Escoamento natural das águas) ARTIGO 1353º
(Conteúdo)
1. Os prédios inferiores estão sujeitos
a receber as águas que, naturalmente O proprietário pode obrigar os donos
e sem obra do homem, decorrem dos dos prédios confinantes a concorrerem
prédios superiores, assim como a terra

- 232 -
para a demarcação das estremas entre O proprietário que pretenda abrir vala
o seu prédio e os deles. ou regueira ao redor do prédio é
obrigado a deixar mota externa de
ARTIGO 1354º largura igual à profundidade da vala e
(Modo de proceder à demarcação) a conformar-se com o disposto no
artigo 1348º; se fizer valado, deve
1. A demarcação é feita de deixar externamente regueira ou
conformidade com os títulos de cada alcorca, salvo havendo, em qualquer
um e, na falta de títulos suficientes, de dos casos, uso da terra em contrário.
harmonia com a posse em que estejam
os confinantes ou segundo o que ARTIGO 1358º
resultar de outros meios de prova. (Presunção de comunhão)

2. Se os títulos não determinarem os 1. As valas, regueiras e valados, entre


limites dos prédios ou a área prédios de diversos donos, a que
pertencente a cada proprietário, e a faltem as condições impostas no artigo
questão não puder ser resolvida pela antecedente, presumem-se comuns,
posse ou por outro meio de prova, a não havendo sinal em contrário.
demarcação faz-se distribuindo o
terreno em litígio por partes iguais. 2. É sinal de que a vala ou regueira
sem mota externa não é comum o
3. Se os títulos indicarem um espaço achar-se a terra da escavação ou
maior ou menor do que o abrangido limpeza lançada só de um lado durante
pela totalidade do terreno, atribuir-se- mais de um ano; neste caso, presume-
á a falta ou o acréscimo se que a vala é do proprietário de cujo
proporcionalmente à parte de cada lado a terra estiver.
um.
ARTIGO 1359º
ARTIGO 1355º (Sebes vivas)
(Imprescritibilidade)
1. Não podem ser plantadas sebes
O direito de demarcação é vivas nas estremas dos prédios sem
imprescritível, sem prejuízo dos previamente se colocarem marcos
direitos adquiridos por usucapião. divisórios.

SECÇÃO III 2. As sebes vivas consideram-se, em


Direito da tapagem caso de dúvida, pertencentes ao
proprietário que mais precisa delas; se
ARTIGO 1356º ambos estiverem no mesmo caso,
(Conteúdo) presumem-se comuns, salvo se existir
uso da terra pelo qual se determine de
A todo o tempo o proprietário pode outro modo a sua propriedade.
murar, valar, rodear de sebes o seu
prédio, ou tapá-lo de qualquer modo. SECÇÃO IV
Construções e edificações
ARTIGO 1357º
(Valas, regueiras e valados) ARTIGO 1360º
(Abertura de janelas, portas,
varandas e obras semelhantes)

- 233 -
no seu prédio desde que deixe entre o
1. O proprietário que no seu prédio novo edifício ou construção e as obras
levantar edifício ou outra construção mencionadas no nº 1 o espaço mínimo
não pode abrir nela janelas ou portas de metro e meio, correspondente à
que deitem directamente sobre o extensão destas obras.
prédio vizinho sem deixar entre este e
cada uma das obras o intervalo de ARTIGO 1363º
metro e meio. (Frestas, seteiras ou óculos para
luz e ar)
2. Igual restrição é aplicável às
varandas, terraços, eirados ou obras 1. Não se consideram abrangidos pelas
semelhantes, quando sejam servidos restrições da lei as frestas, seteiras ou
de parapeitos de altura inferior a óculos para luz e ar, podendo o vizinho
metro e meio em toda a sua extensão levantar a todo o tempo a sua casa ou
ou parte dela. contramuro, ainda que vede tais
aberturas.
3. Se os dois prédios forem oblíquos
entre si, a distância de metro e meio 2. As frestas, seteiras ou óculos para
conta-se perpendicularmente do prédio luz e ar devem, todavia, situar-se pelo
para onde deitam as vistas até à menos a um metro e oitenta
construção ou edifício novamente centímetros de altura, a contar do solo
levantado; mas, se a obliquidade for ou do sobrado, e não devem ter, numa
além de quarenta e cinco graus, não das suas dimensões, mais de quinze
tem aplicação a restrição imposta ao centímetros; a altura de um metro e
proprietário. oitenta centímetros respeita a ambos
os lados da parede ou muro onde
ARTIGO 1361º essas aberturas se encontram.
(Prédios isentos da restrição)
ARTIGO 1364º
As restrições do artigo precedente não (Janelas gradadas)
são aplicáveis a prédios separados
entre si por estrada, caminho, rua, É aplicável o disposto no nº 1 do artigo
travessa ou outra passagem por antecedente às aberturas, quaisquer
terreno do domínio público. que sejam as suas dimensões,
igualmente situadas a mais de um
ARTIGO 1362º metro e oitenta centímetros do solo ou
(Servidão de vistas) do sobrado, com grades fixas de ferro
ou outro metal, de secção não inferior
1. A existência de janelas, portas, a um centímetro quadrado e cuja
varandas, terraços, eirados ou obras malha não seja superior a cinco
semelhantes, em contravenção do centímetros.
disposto na lei, pode importar, nos
termos gerais, a constituição da ARTIGO 1365º
servidão de vistas por usucapião. (Estilicídio)

2. Constituída a servidão de vistas, por 1. O proprietário deve edificar de modo


usucapião ou outro título, ao que a beira do telhado ou outra
proprietário vizinho só é permitido cobertura não goteje sobre o prédio
levantar edifício ou outra construção vizinho, deixando um intervalo mínimo

- 234 -
de cinco decímetros entre o prédio e a do prédio lhe permita fazer a apanha
beira, se de outro modo não puder dos frutos, que não seja possível fazer
evitá-lo. do seu lado; mas é responsável pelo
prejuízo que com a apanha vier a
2. Constituída por qualquer título a causar.
servidão de estilicídio, o proprietário
do prédio serviente não pode levantar ARTIGO 1368º
edifício ou construção que impeça o (Árvores ou arbustos situados na
escoamento das águas, devendo linha divisória)
realizar as obras necessárias para que
o escoamento se faça sobre o seu As árvores ou arbustos nascidos na
prédio, sem prejuízo para o prédio linha divisória de prédios pertencentes
dominante. a donos diferentes presumem-se
comuns; qualquer dos consortes tem a
SECÇÃO V faculdade de os arrancar, mas o outro
Plantação de árvores e arbustos tem direito a haver metade do valor
das árvores ou arbustos, ou metade da
ARTIGO 1366º lenha ou madeira que produzirem,
(Termos em que pode ser feita) como mais lhe convier.

1. É lícita a plantação de árvores e ARTIGO 1369º


arbustos até à linha divisória dos (Árvores ou arbustos que sirvam
prédios; mas ao dono do prédio de marco divisório)
vizinho é permitido arrancar e cortar
as raízes que se introduzirem no seu Servindo a árvore ou o arbusto de
terreno e o tronco ou ramos que sobre marco divisório, não pode ser cortado
ele propenderem, se o dono da árvore, ou arrancado senão de comum acordo.
sendo rogado judicialmente ou
extrajudicialmente, o não fizer dentro SECÇÃO VI
de três dias. Paredes e muros de meação

2. O disposto no número antecedente ARTIGO 1370º


não prejudica as restrições constantes (Comunhão forçada)
de leis especiais relativas à plantação
ou sementeira de eucaliptos, acácias 1. O proprietário de prédio confinante
ou outras árvores igualmente nocivas com parede ou muro alheio pode
nas proximidades de terrenos adquirir nele comunhão, no todo ou
cultivados, terras de regadio, em parte, quer quanto à sua extensão,
nascentes de água ou prédios urbanos, quer quanto à sua altura, pagando
nem quaisquer outras restrições metade do seu valor e metade do valor
impostas por motivos de interesse do solo sobre que estiver construído.
público.
2. De igual faculdade gozam o
ARTIGO 1367º superficiário e o enfiteuta.
(Apanha de frutos)
ARTIGO 1371º
O proprietário de árvore ou arbusto (Presunção de compropriedade)
contíguo a prédio de outrem ou com
ele confinante pode exigir que o dono

- 235 -
1. A parede ou muro divisório entre (Construção sobre o muro comum)
dois edifícios presume-se comum em
toda a sua altura, sendo os edifícios 1. Qualquer dos consortes tem, no
iguais, e até à altura do inferior, se o entanto, a faculdade de edificar sobre
não forem. a parede ou muro comum e de
introduzir nele traves ou barrotes,
2. Os muros entre prédios rústicos, ou contanto que não ultrapasse o meio da
entre pátios e quintais de prédios parede ou do muro.
urbanos, presumem-se igualmente
comuns, não havendo sinal em 2. Tendo a parede ou muro espessura
contrário. inferior a cinco decímetros, não tem
lugar a restrição do número anterior.
3. São sinais que excluem a presunção
de comunhão: ARTIGO 1374º
(Alçamento do muro comum)
a) A existência de espigão em ladeira
só para um lado; 1. A qualquer dos consortes é
permitido alterar a parede ou muro
b) Haver no muro, só de um lado, comum, contanto que o faça à sua
cachorros de pedra salientes custa, ficando a seu cargo todas as
encravados em toda a largura dele; despesas de conservação da parte
alterada.
c) Não estar o prédio contíguo
igualmente murado pelos outros lados. 2. Se a parede ou muro não estiver em
estado de aguentar o alçamento, o
4. No caso da alínea a) do número consorte que pretender levantá-lo tem
anterior, presume-se que o muro de reconstruí-lo por inteiro à sua custa
pertence ao prédio para cujo lado se e, se quiser aumentar-lhe a espessura,
inclina a ladeira; nos outros casos, é o espaço para isso necessário
àquele de cujo lado se encontrem as tomado do seu lado.
construções ou sinais mencionados.
3. O consorte que não tiver contribuído
5. Se o muro sustentar em toda a sua para o alçamento pode adquirir
largura qualquer construção que esteja comunhão na parte aumentada,
só de um dos lados, presume-se do pagando metade do valor dessa parte
mesmo modo que ele pertence e, no caso de aumento de espessura,
exclusivamente ao dono da também metade do valor do solo
construção. correspondente a esse aumento.

ARTIGO 1372º ARTIGO 1375º


(Abertura de janelas ou frestas) (Reparação e reconstrução do
muro)
O proprietário a quem pertença em
comum alguma parede ou muro não 1. A reparação ou reconstrução da
pode abrir nele janelas ou frestas, nem parede ou muro comum é feita por
fazer outra alteração, sem conta dos consortes, em proporção das
consentimento do seu consorte. suas partes.

ARTIGO 1373º

- 236 -
2. Se o muro for simplesmente de (Possibilidade do fraccionamento)
vedação, a despesa é dividida pelos
consortes em partes iguais. A proibição do fraccionamento não é
aplicável:
3. Se, além da vedação, um dos
consortes tirar do muro proveito que a) A terrenos que constituam partes
não seja comum ao outro, a despesa é componentes de prédios urbanos ou se
rateada entre eles em proporção do destinem a algum fim que não seja a
proveito que cada um tirar. cultura;

4. Se a ruína do muro provier de facto b) Se o adquirente da parcela


do qual só um dos consortes tire resultante do fraccionamento for
proveito, só o beneficiário é obrigado a proprietário de terreno contíguo ao
reconstruí-lo ou repará-lo. adquirido, desde que a área da parte
restante do terreno fraccionado
5. É sempre facultado ao consorte corresponda, pelo menos, a uma
eximir-se dos encargos de reparação unidade de cultura;
ou reconstrução da parede ou muro,
renunciando ao seu direito nos termos c) Se o fraccionamento tiver por fim a
dos nºs 1 e 2 do artigo 1411º. desintegração de terrenos para
construção ou rectificação de
SECÇÃO VII estremas.
Fraccionamento e emparcelamento
de prédios rústicos ARTIGO 1378º
(Troca de terrenos)
ARTIGO 1376º
(Fraccionamento) A troca de terrenos aptos para cultura
só é admissível:
1. Os terrenos aptos para cultura não
podem fraccionar-se em parcelas de a) Quando ambos os terrenos tenham
área inferior a determinada superfície área igual ou superior à unidade de
mínima, correspondente à unidade de cultura fixada para a respectiva zona;
cultura fixada para cada zona do País;
importa fraccionamento, para este b) Quando, tendo qualquer dos
efeito, a constituição de usufruto sobre terrenos àrea inferior à unidade de
uma parcela do terreno. cultura, da permuta resulte adquirir
um dos proprietários terreno contíguo
2. Também não é admitido o a outro que lhe pertença, em termos
fraccionamento, quando dele possa que lhe permitam constituir um novo
resultar o encrave de qualquer das prédio com área igual ou superior
parcelas, ainda que seja respeitada a àquela unidade;
área fixada para a unidade de cultura.
c) Quando, independentemente da
3. O preceituado neste artigo abrange área dos terrenos, ambos os
todo o terreno contíguo pertencente ao permutantes adquiram terreno
mesmo proprietário, embora seja confinante com prédio seu.
composto por prédios distintos.
ARTIGO 1379º
ARTIGO 1377º (Sanções)

- 237 -
4. É aplicável ao direito de preferência
1. São anuláveis os actos de conferido neste artigo o disposto nos
fraccionamento ou troca contrários ao artigos 416º a 418º e 1410º, com as
disposto nos artigos 1376º e 1378º, necessárias adaptações.
bem como o fraccionamento efectuado
ao abrigo da alínea c) do artigo 1377º, ARTIGO 1381º
se a construção não for iniciada dentro (Casos em que não existe o direito
do prazo de três anos. de preferência)

2. Têm legitimidade para a acção de Não gozam do direito de preferência os


anulação o Ministério Público ou proprietários de terrenos confinantes:
qualquer proprietário que goze do
direito de preferência nos termos do a) Quando algum dos terrenos
artigo seguinte. constitua parte componente de um
prédio urbano ou se destine a algum
3. A acção de anulação caduca no fim fim que não seja a cultura;
de três anos, a contar da celebração
do acto ou do termo do prazo referido b) Quando a alienação abranja um
no nº 1. conjunto de prédios que, embora
dispersos, formem uma exploração
ARTIGO 1380º agrícola de tipo familiar.
(Direito de preferência)
ARTIGO 1382º
1. Os proprietários de terrenos (Emparcelamento)
confinantes, de área inferior à unidade
de cultura, gozam reciprocamente do 1. Chama-se emparcelamento o
direito de preferência nos casos de conjunto de operações de remodelação
venda, dação em cumprimento ou predial destinadas a pôr termo à
aforamento de qualquer dos prédios a fragmentação e dispersão dos prédios
quem não seja proprietário confinante. rústicos pertencentes ao mesmo
titular, com o fim de melhorar as
2. Sendo vários os proprietários com condições técnicas e económicas da
direito de preferência, cabe este exploração agrícola.
direito:
2. Os termos em que devem ser
a) No caso de alienação de prédio realizadas as operações de
encravado, ao proprietário que estiver emparcelamento são fixados em
onerado com a servidão de passagem; legislação especial.

b) Nos outros casos, ao proprietário SECÇÃO VIII


que, pela preferência, obtenha a área Atravessadouros
que mais se aproxime da unidade de
cultura fixada para a respectiva zona. ARTIGO 1383º
(Abolição dos atravessadouros)
3. Estando os preferentes em
igualdade de circunstâncias, abrir-se-á Consideram-se abolidos os
licitação entre eles, revertendo o atravessadouros, por mais antigos que
excesso para o alienante. sejam, desde que não se mostrem

- 238 -
estabelecidos em proveito de prédios b) As águas subterrâneas existentes
determinados, constituindo servidões. em prédios particulares;

c) Os lagos e lagoas existentes dentro


de um prédio particular, quando não
ARTIGO 1384º sejam alimentados por corrente
(Atravessadouros reconhecidos) pública;

São, porém, reconhecidos os d) As águas originariamente públicas


atravessadouros com posse imemorial, que tenham entrado no domínio
que se dirijam a ponte ou fonte de privado até 21 de Março de 1868, por
manifesta utilidade, enquanto não preocupação, doação régia ou
existirem vias públicas destinadas à concessão;
utilização ou aproveitamento de uma
ou outra, bem como os admitidos em e) As águas públicas concedidas
legislação especial. perpetuamente para regas ou
melhoramentos agrícolas;
CAPÍTULO IV
Propriedade das águas f) As águas subterrâneas existentes
em terrenos públicos, municipais ou de
SECÇÃO I freguesia, exploradas mediante licença
Disposições gerais e destinadas a regas ou
melhoramentos agrícolas.
ARTIGO 1385º
(Classificação das águas) 2. Não estando fixado o volume das
águas referidas nas alíneas d), e) e f),
As águas são públicas ou particulares; do número anterior, entender-se-á que
as primeiras estão sujeitas ao regime há direito apenas ao caudal necessário
estabelecido em leis especiais e as para o fim a que as mesmas se
segundas às disposições dos artigos destinam.
seguintes.
ARTIGO 1387º
ARTIGO 1386º (Obras para armanezamento ou
(Águas particulares) derivação de águas;
leito das correntes não navegáveis
1. São particulares: nem flutuáveis)

a) As águas que nascerem em prédio 1. São ainda particulares:


particular e as pluviais que nele
caírem, enquanto não transpuserem, a) Os poços, galerias, canais, levadas,
abandonadas, os limites do mesmo aquedutos, reservatórios, albufeiras e
prédio ou daquele para onde o dono demais obras destinadas à captação,
dele as tiver conduzido, e ainda as derivação ou armazenamento de águas
que, ultrapassando esses limites e públicas ou particulares;
correndo por prédios particulares,
forem consumidas antes de se b) O leito ou álveo das correntes não
lançarem no mar ou em outra água navegáveis nem flutuáveis que
pública; atravessam terrenos particulares.

- 239 -
2. Entende-se por leito ou álveo a os direitos que terceiro haja adquirido
porção do terreno que a água cobre ao uso da água por título justo.
sem transbordar para o solo natural,
habitualmente enxuto. ARTIGO 1390º
(Títulos de aquisição)
3. Quando a corrente passa entre dois
prédios, pertence a cada proprietário o 1. Considera-se título justo de
tracto compreendido entre a linha aquisição da água das fontes e
marginal e a linha média do leito ou nascentes, conforme os casos,
álveo, sem prejuízo do disposto nos qualquer meio legítimo de adquirir a
artigos 1328º e seguintes. propriedade de coisas imóveis ou de
constituir servidões.
4. As faces ou rampas e os capelos dos
cômoros, valados, tapadas, muros de 2. A usucapião, porém, só é atendida
terra, alvenaria ou enrocamentos quando for acompanhada da
erguidos sobre a superfície natural do construção de obras, visíveis e
solo marginal não pertencem ao leito permanentes, no prédio onde exista a
ou álveo da corrente, mas fazem parte fonte ou nascente, que revelem a
da margem. captação e a posse da água nesse
prédio; sobre o significado das obras é
ARTIGO 1388º admitida qualquer espécie de prova.
(Requisição de águas)
3. Em caso de divisão ou partilha de
1. Em casos urgentes de incêndio ou prédios sem intervenção de terceiro, a
calamidade pública, as autoridades aquisição do direito de servidão nos
administrativas podem, sem forma de termos do artigo 1549º não depende
processo nem indemnização prévia, da existência de sinais reveladores da
ordenar a utilização imediata de destinação do antigo proprietário.
quaisquer águas particulares
necessárias para conter ou evitar os ARTIGO 1391º
danos. (Direitos dos prédios inferiores)

2. Se da utilização da água resultarem Os donos dos prédios para onde se


danos apreciáveis, têm os lesados derivam as águas vertentes de
direito a indemnização, paga por qualquer fonte ou nascente podem
aqueles em benefício de quem a água eventualmente aproveitá-las nesses
foi utilizada. prédios; mas a privação desse uso por
efeito de novo aproveitamento que
SECÇÃO II faça o proprietário da fonte ou
Aproveitamento das águas nascente não constitui violação de
direito.
ARTIGO 1389º
(Fontes e nascentes) ARTIGO 1392º
(Restrições ao uso das águas)
O dono do prédio onde haja alguma
fonte ou nascente de água pode servir- 1. Ao proprietário da fonte ou nascente
se dela e dispor do seu uso livremente, não é lícito mudar o seu curso
salvas as restrições previstas na lei e costumado, se os habitantes de uma
povoação ou casal há mais de cinco

- 240 -
anos se abastecerem dela ou das suas 1. Consideram-se títulos justos de
águas vertentes para gastos aquisição das águas subterrâneas os
domésticos. referidos nos nº 1 e 2 do artigo 1390º.

2. Se os habitantes da povoação ou 2. A simples atribuição a terceiro do


casal não houverem adquirido por direito de explorar águas subterrâneas
título justo o uso das águas, o não importa, para o proprietário,
proprietário tem direito a privação do mesmo direito, se tal
indemnização, que será paga, abdicação não resultar claramente do
conforme os casos, pela respectiva título.
junta de freguesia ou pelo dono do
casal. ARTIGO 1396º
(Restrições ao aproveitamento das
ARTIGO 1393º águas)
(Águas pluviais e de lagos e
lagoas) O proprietário que, ao explorar águas
subterrâneas, altere ou faça diminuir
O disposto nos artigos antecedentes é as águas de fonte ou reservatório
aplicável, com as necessárias destinado a uso público é obrigado a
adaptações, às águas pluviais referidas repor as coisas no estado anterior; não
na alínea a) do nº 1 do artigo 1386º e sendo isso possível, deve fornecer,
às águas dos lagos e lagoas para o mesmo uso, em local
compreendidas na alínea c) do mesmo apropriado, água equivalente àquela
número. de que o público ficou privado.

ARTIGO 1394º ARTIGO 1397º


(Águas subterrâneas) (Águas originariamente públicas)

1. É lícito ao proprietário procurar As águas referidas nas alíneas d), e) e


águas subterrâneas no seu prédio, por f) do nº 1 do artigo 1386º são
meio de poços ordinários ou inseparáveis dos prédios a que se
artesianos, minas ou quaisquer destinam, e o direito sobre elas
escavações, contanto que não caduca, revertendo as águas ao
prejudique direitos que terceiro haja domínio público, se forem
adquirido por título justo. abandonadas, ou não se fizer delas um
uso proveitoso correpondente ao fim a
2. Sem prejuízo do disposto no artigo que eram destinadas ou para que
1396º, a diminuição do caudal de foram concedidas.
qualquer água pública ou particular,
em consequência da exploração de SECÇÃO III
água subterrânea, não constitui Condomínio das águas
violação de direitos de terceiro,
excepto se a captação se fizer por ARTIGO 1398º
meio de infiltrações provocadas e não (Despesas de conservação)
naturais.
1. Pertencendo a água a dois ou mais
ARTIGO 1395º co-utentes, todos devem contribuir
(Títulos de aquisição) para as despesas necessárias ao
conveniente aproveitamento dela, na

- 241 -
proporção do seu uso, podendo para de as utilizar pelo sistema de torna-
esse fim executar-se as obras torna ou outros semelhantes, mediante
necessárias e fazer-se os trabalhos de os quais a água pertença ao primeiro
pesquisa indispensáveis, quando se ocupante, sem outra norma de
reconheça haver perda ou diminuição distribuição que não seja o arbítrio; as
de volume ou caudal. águas que