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A INFORMÁTICA NO PROCESSO

DE ALFABETIZAÇÃO ESCOLAR:
um estudo de caso
Sérgio Antonio da Silva Leite
Cynthia Bauab Fabricio D’Estefano*

Resumo
O presente trabalho relata uma pesquisa que teve como objetivo analisar como os recursos da
informática vêm sendo utilizados no processo de Alfabetização Escolar. Através de um estudo de
caso, coletaram-se dados através de sessões de observação de atividades pedagógicas desenvol-
vidas por uma classe de alunos de 1a. série, na sala de informática da escola e na sala de aula. Em
seguida, os dados foram analisados, sendo gerados nove Núcleos Temáticos. Essa análise sugere
que as atividades dos softwares analisados baseiam-se em uma concepção tradicional de escrita,
sendo que a maioria das atividades desenvolvidas na sala de informática não é organizada coeren-
temente com as práticas desenvolvidas na sala de aula. Discutem-se as implicações dessas rela-
ções.
Palavras-chave: Informática; Alfabetização; Tecnologia Educacional

Abstract - Computers in the school literacy process: a case study


This paper presents a research whose objectives were to describe and to analyse the applications
of information technology resources – literacy softwares – in a school literacy process. Through a
case study, data were collected during pedagogical work sessions, both in the computer room and
in the classroom, with a first grade literacy class. The data analysis produced nine Thematical Nu-
cleus, suggesting that the activities of the softwares analysed are founded in a literacy traditional
concept, inconsistent with the classroom pedagogical work. Such implications are discussed.
Key words: Literacy; Computer; Educational Softwares

*
Faculdade de Educação da Unicamp. E-mail: sasleite@uol.com.br.

Práxis Educativa. Ponta Grossa, PR. v. 1, n. 2, p. 17 – 30, jul.-dez. 2006


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O presente texto relata uma pesquisa que sinava-se o aluno a escrever (registrar sua fala
teve como objetivos descrever e analisar como com códigos) e a ler (decodificar o escrito).
os recursos da informática estão sendo utiliza- “Assume-se que é relativamente fácil entender
dos no processo de Alfabetização Escolar. Sabe- segmentos da língua, sílabas, palavras e sen-
se que muitas escolas vêm utilizando diversos tenças descontextualizadas, e que a forma pre-
softwares educativos como materiais de apoio cede a função quando se aprende a ler e escre-
ao trabalho pedagógico de Alfabetização em ver” (Braggio, 1992: p.11)
classes das primeiras séries ou mesmo da pré- Algumas atividades caracterizavam essa
escola. Desconhecem-se, no entanto, pesquisas concepção mecânica da Alfabetização, como a
específicas sobre a questão, embora vários au- utilização de cópias, ditados e jogos com famí-
tores tenham analisado as possibilidades da lias silábicas, constantemente presentes nas
informática na área educacional. cartilhas: “A cartilha limita-se ao ensino de uma
Para a presente pesquisa, optou-se por uma técnica de leitura, entendendo-se essa técnica
escola típica de classe média, que, como a como a decifração de um elemento gráfico em
maioria delas, já havia implantado um laborató- um elemento sonoro.” (Barbosa, 1992: p.54)1
rio de informática, onde, pelo menos semanal- Além disso, observava-se uma preocupação
mente, as crianças das primeiras séries traba- excessiva com os erros ortográficos, além da
lham. Buscou-se, basicamente, relacionar o presença de textos descontextualizados e des-
trabalho desenvolvido na sala de informática providos de significados, que limitavam a visão
com o trabalho de Alfabetização desenvolvido de mundo das crianças. Desconsideravam-se
na sala de aula. Além disso, procurou-se carac- também “as experiências anteriores das crian-
terizar pedagogicamente os softwares utiliza- ças” (Tassoni, 2000: p.23), ou seja, o que elas
dos. já tinham aprendido antes de ingressar na es-
Na seqüência, apresentam-se os principais cola era desconsiderado. Quanto à questão dos
aspectos das bases teóricas relacionados com o erros, estes eram sempre corrigidos severa-
processo de Alfabetização e com a relação In- mente, na crença de que era dessa maneira
formática – Educação. que se progrediria no processo de alfabetização
(Braggio, 1992).
1. Algumas questões sobre a Alfabetiza- Esse modelo tradicional passou a ser ques-
ção escolar tionado a partir dos anos 70, quando trabalhos
publicados anunciaram que os alunos, ao sair
Durante muito tempo, a escrita foi conside- da escola, não se utilizavam “da leitura e da
rada como um código de representação da fala, escrita como instrumentos de inserção social e
um simples espelho da linguagem oral. Desse desenvolvimento da cidadania” (Leite, 2001:
modo, alfabetizar consistia em ensinar o aluno p.24).
a codificar e decodificar e escrita, constituindo- As mudanças que ocorreram em relação ao
se um processo meramente mecânico. Ainda modelo tradicional foram frutos de uma série
na década de 60, atividades conhecidas como de novas exigências postas pela sociedade e
Prontidão para Alfabetização eram realizadas no não por influência de alguma teoria isolada, ou
primeiro bimestre da primeira série e visavam de uma única área de conhecimento, como
ao treino de habilidades sensoriais, em especial crêem alguns educadores. Não se trata aqui de
as psicomotoras. Acreditava-se que, assim, os negar a importância das contribuições teóricas
alunos desenvolveriam as condições necessá- tanto da Psicologia quanto da Lingüística ao
rias (os pré-requisitos) para aprender a ler e a processo de Alfabetização, mas reconhece-se
escrever. Segundo Poppovic e Moraes (1966), que as mudanças ocorreram por motivos muito
“prontidão para alfabetização significa ter um mais abrangentes.
nível suficiente, sob determinados aspectos, Nos anos 60 e 70, alguns países industriali-
para iniciar o processo da função simbólica que zados passaram a questionar o modelo de Alfa-
é a leitura e sua transposição gráfica, que é a betização então vigente. Mudanças de ordem
escrita” ( p.5) econômica (hegemonia do capitalismo), política
As práticas pedagógicas de Alfabetização, e social levaram esses países a uma revisão do
apoiadas nessa concepção tradicional, consisti- ensino e, conseqüentemente, novas propostas
am em atividades onde era privilegiado o domí-
nio mnemônico do código escrito, ou seja, en- 1
Sobre este assunto ver ainda Massini-Cagliari & Cagliari,
1999: p.217-219.
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educacionais. Entre elas, uma escolarização aluno ao universo dos textos que circulam soci-
mais eficiente dos trabalhadores: não bastava almente, ensinar a produzi-los e interpretá-los”
que soubessem ler e escrever mecanicamente; (id., p.30).
tornou-se cada vez mais necessário que fizes- Essas novas concepções implicam em novas
sem uso social dessas habilidades, visando a práticas de Alfabetização. Não mais se conside-
uma maior competência no desempenho de sua ra o aluno como ser passivo diante do conhe-
função no mundo do trabalho. cimento; é necessário possibilitar que ele se
Simultaneamente, o acesso das camadas aproprie dos mecanismos de leitura e escrita,
populares à escrita, numa busca de melhores simultaneamente ao envolvimento com as prá-
condições para o exercício da cidadania numa ticas sociais do meio no qual está inserido. Co-
sociedade crescentemente grafocêntrica, fez mo conseqüência, surge, nos anos 80, um con-
emergir diversas pesquisas sobre o processo de ceito mais abrangente que o de Alfabetização
alfabetização (Soares,1985 e 1998; Ferreiro e – o “Letramento” (Kleiman, 1995; Soares,
Teberosky, 1986; Kramer, 1986; Smolka,1988; 1998)- para atender à demanda atual, no que
Braggio,1992 e Leite,1988 e 1992). Esses tra- se refere ao ensino escolar: tornar o indivíduo
balhos reconheciam que a maioria dos indiví- hábil nas práticas de leitura e escrita, capaz de
duos que tinham contato com a escrita durante utilizar-se delas de diversos modos em seu
os anos escolares, dominando o código, não meio social .
faziam uso dessas habilidades em seu cotidiano Kleiman define letramento como o “conjun-
– é o que se designou como Analfabetismo to de práticas sociais que usam a escrita, en-
Funcional. quanto sistema simbólico e enquanto tecnologi-
Na atual proposta de Alfabetização, toman- a, em contextos específicos, para objetivos es-
do-se como referência os PCN´s, a concepção pecíficos” (1995: p.19). Mais recentemente,
de escrita é profundamente alterada: a escrita Soares o define como “estado ou condição que
é caracterizada pelo seu caráter simbólico, com adquire um grupo social ou um indivíduo, como
ênfase nos seus usos sociais (como os indiví- conseqüência de ter-se apropriado da escrita e
duos se utilizam efetivamente da escrita). Se- de suas práticas sociais” (1998: p.39). Leite
gundo Leite (2001), entende-se por caráter (2001) indica que, para Soares (1998), níveis
simbólico da escrita “um sistema de signos cuja adequados de Letramento podem possibilitar ao
essência reside no significado subjacente a ela indivíduo formas de inserção, na medida em
(a escrita), o qual é determinado histórica e que este passa a usufruir uma outra condição
culturalmente; assim, uma palavra escrita é social e cultural. No entanto, ambas autoras
relevante pelo seu significado compartilhado reconhecem que Letramento refere-se a práti-
pelos membros da comunidade.” ( p.24) cas sociais de leitura e escrita e que o domínio
Essa diferença de concepções resulta em do código não garante tais usos.
profundas mudanças nas práticas de ensino. Vários autores sugerem, nesta perspectiva,
Pedagogicamente, a leitura e a escrita passam a proposta de alfabetizar letrando ( Soares,
a ser entendidas como complementares – “a 1998; Di Nucci, 2001; Leite, 2001), que consis-
escrita transforma a fala e a fala influencia a te em “desenvolver o processo de alfabetização
escrita” (MEC, 1997: p.52) – ou seja, devem escolar simultaneamente ao envolvimento dos
caminhar juntas no processo de alfabetização. alunos com as práticas sociais da escrita” (Lei-
Isso implica na utilização do texto como ponto te, 2001; p.23).
de partida e de chegada do processo: “não se Neste sentido, algumas sugestões podem
formam bons leitores oferecendo materiais de ser apresentadas como características do pro-
leitura empobrecidos, justamente no momento cesso de Alfabetização escolar desenvolvido na
em que as crianças são iniciadas no mundo da perspectiva do Letramento:
escrita” (idem, p.36). a) o processo de Alfabetização deve ter o texto
Obviamente, não se trata de textos despro- como instrumento pedagógico central, envol-
vidos de sentido, como nas cartilhas, e sim de vendo textos reais, coerentes e ricos em ele-
textos considerados reais, presentes no ambi- mentos coesivos, com conteúdos adequados à
ente social, tais como jornais e revistas, entre população atendida;
outros; significa a utilização da escrita verdadei- b) o processo de Alfabetização deve centrar-se
ra em sala de aula, tal como é utilizada fora na relação dialógica entre o aluno, o professor
dela, pois “cabe à escola viabilizar o acesso do e os demais colegas, dado que a construção do
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conhecimento é sempre mediada por agentes passadas: “o mundo moderno exigirá cada vez
culturais, como o professor e os demais colegas mais que as pessoas saibam lidar com compu-
da sala de aula; tadores se quiserem estar integradas com o
c) o processo de Alfabetização deve prever, mundo em que vivem” (Moreira, 1997: p.11).
continuamente, o exercício da atividade epilin- No Brasil, conforme Silva (1997), os compu-
güística, onde o aluno é estimulado a desenvol- tadores eram exclusividade de órgãos gover-
ver continuamente a reflexão sobre as práticas namentais, instituições de pesquisa e empresas
que realiza em sala de aula, principalmente privadas de grande porte, até alguns anos a-
aquelas envolvendo leitura e produção de tex- trás2. Porém, com o desenvolvimento da tecno-
to; logia e, principalmente, dos computadores pes-
d) as atividades de Alfabetização devem se de- soais, a informática se fez cada vez mais pre-
senvolver num ambiente afetivamente favorá- sente na sociedade, no cotidiano das pessoas.
vel, através de relações emocionais positivas, E a escola, “como centro de cultura e reflexo da
com ausência de situações aversivas ou amea- sociedade” (Bonamigo, 1998), tem sido igual-
çadoras. mente influenciada por essa tecnologia, pois “o
Diante do exposto, é possível identificar processo de informatização da sociedade brasi-
profundas mudanças ocorridas no processo de leira caminha com rapidez e parece irreversível”
Alfabetização escolar, tanto teórica quanto pe- (Moraes, 2002: p.64)
dagogicamente, nas últimas três décadas. As- A literatura disponível indica que, desde o
sume-se, no entanto, que o principal fator rela- final da década de 80, discute-se em torno do
ciona-se à mudança na concepção de escrita: uso do computador como ferramenta educacio-
de mero instrumento de representação da lin- nal ( Educ. Revista, 19873), pois este, segundo
guagem oral, para um sistema simbólico de Torres (2000), é uma ferramenta especial, “u-
usos sociais. Além disso, deve-se ressaltar as ma vez que, diferentemente da televisão, do
implicações institucionais dessas novas propos- quadro-verde, do livro-texto, trata-se de um
tas: formar leitores e produtores de textos objeto de cultura cuja função não se acha pré-
competentes passa a ser o objetivo do processo estabelecida e limitada, devendo ser visto como
educacional, o qual, pela sua natureza, não um aliado que (...) propicia um ambiente onde
mais se restringe apenas ao trabalho pedagógi- o aprender torna-se algo divertido, e progressi-
co desenvolvido nas séries iniciais. Neste senti- vo” (Torres, 2000: p.39)
do, as novas propostas apresentam um grande Inserido em sala de aula, o computador
desafio: o trabalho coletivo dos educadores na deve servir como uma ferramenta inovadora,
escola, a partir de diretrizes pedagógicas co- através de seu uso pedagógico (Santos e Souza
muns, como condição para a constituição do 2001: p.193), apontado como um fator que
aluno como sujeito ativo, usuário competente pode efetivamente contribuir para um avanço
da escrita nas diversas situações sociais em que qualitativo no processo ensino-aprendizagem. O
se envolve. uso pedagógico do computador pelo professor
pode ocorrer sob duas formas. A primeira ca-
2. Informática e Educação racteriza-se pela utilização de softwares, pes-
Atualmente não se pode mais pensar numa quisas e chats via Internet e também o EAD
sociedade onde recursos de informática não (Ensino à Distância). A segunda forma consiste
estejam presentes (Moreira, 1997). Tijiboy na formação técnica, onde se aprendem aspec-
(2001) e diversos outros autores (Catapan, tos operacionais e de programação do compu-
2002; Educ. Rev., 2002, Lucena, 2002, Santos tador – é o ensino de informática (Stemmer,
& Souza, 2002; Tenani, 2002; Silva Filho, 2000; 1998).
Torres, 2000; Larsen, 1999; Stemmer, 1998; O computador pode constituir-se como um
Moreira, 1997; Silva, 1997) são unânimes ao recurso que vai além da lousa e dos livros didá-
reconhecerem a influência de tecnologias avan-
çadas no desenvolvimento da sociedade. Fa- 2
Sobre o processo de implementação da informática no
lam, também, sobre a inserção da informática Brasil ver Moraes, 2002.
no cotidiano das pessoas, de sua influência
3
Texto disponível na Internet em
sobre as mesmas e da necessidade aí surgida http://www.uel.br/seed/nte/analisedesoftwares.html (10 de
setembro de 2002), porém sem referências quanto a sua
de dominar essas tecnologias, principalmente autoria, constado apenas os seguintes dados: EDUC.
os computadores, para não se tornarem ultra- REVISTA Análise de Softwares Educacionais. Belo Hori-
zonte(6):41-44, dez.1987.
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ticos, dada sua grande disponibilidade atual. deve ser preparado para os usos sociais da
Atualmente, observa-se nas escolas uma ampla leitura e da escrita. Pressupõe-se, então, que
exploração da Internet (World Wide Web), de os recursos tecnológicos utilizados no processo
programas específicos de edição de textos e de Alfabetização escolar devam capacitar o alu-
imagens e de softwares educativos. no para a reflexão sobre o uso do código escri-
É importante ressaltar que muitas escolas to, não reproduzindo, portanto, as práticas tra-
particulares têm utilizado modernos recursos dicionais de ensino.
tecnológicos como forma de atrair novos alunos Tinha-se como expectativa que, amparadas
(e manter os antigos), sem a devida clareza por altas tecnologias, as propostas pedagógicas
quanto às possibilidades dessa tecnologia. Sa- presentes nos softwares educativos e sites da
be-se que algumas dessas escolas tentam ca- internet destinados às crianças em idade de
pacitar o aluno no uso do computador, ou seja, Alfabetização também apresentassem propos-
ensiná-lo a utilizar essa ferramenta. Assim, “fica tas inovadoras, influenciadas pelas contribui-
claro que o que está em jogo não é a preocu- ções das recentes pesquisas da Psicologia e da
pação com o processo de ensino aprendizagem, Lingüística.
mas sim uma ‘fobia’ em estar ‘dentro’, estar Esta pesquisa buscou, através da análise de
‘modernizado’ e aplicar de qualquer forma esta programas educativos, verificar se tal relação é
modernidade, sem uma reflexão crítica de apli- observada e quais as concepções de escritas
cação sobre o qual o objetivo que se pretende subjacentes a eles.
atingir com estas chamadas modernidades”
(Tenani, 2002: p. 13) 3. Método
Entretanto, existem escolas que têm se pre- Um estudo de caso deve, segundo Lüdke e
ocupado com as formas adequadas de utiliza- André (1986), buscar retratar a realidade de
ção do computador como recurso didático, ou forma completa e profunda, relevando a multi-
seja, como instrumento auxiliar no processo de plicidade de dimensões presentes num só pro-
ensino-aprendizagem. Para tanto, têm investido blema, visando sempre à descoberta, visto que
na capacitação do professor frente a essas tec- o conhecimento não é algo acabado; utiliza,
nologias, para que ele possa incorporá-las na para isso, uma variedade de fontes de informa-
sua prática profissional. ção. Esse tipo de pesquisa exige, ainda, que o
Cabe ao educador analisar criteriosamente caso seja sempre bem delimitado, possibili-
os recursos da informática que pretende utilizar tando maior compreensão da situação estu-
em suas aulas, verificando seus aspectos técni- dada.
cos e sua pertinência pedagógica, ou seja, sua Cabe ressaltar que um estudo de caso é um
funcionalidade dentro dos conteúdos inicial- estudo único, específico e singular de determi-
mente previstos. Para Lucena (2002), “O nada situação, representando uma unidade
uso do computador na escola só faz sentido na dentro de um sistema mais amplo no qual o
medida em que o professor o considerar como caso está inserido (Lüdke e André,1986). O
uma ferramenta de auxílio e motivadora à sua interesse desta pesquisa, portanto, através do
prática pedagógica, um instrumento renovador estudo de caso, foi analisar como um determi-
do processo ensino-aprendizagem que lhe for- nado professor alfabetizador utiliza os recursos
neça meios para o planejamento de situações e da informática em sua prática profissional, em
atividades simples e criativas e que, conseqüen- uma classe de primeira série do Ensino Funda-
temente, lhe proporcione resultados positivos mental.
na avaliação de seus alunos e de seu trabalho”
( p.2). 4. Sujeitos
Neste sentido, a presente pesquisa se colo- A escolha dos sujeitos desta pesquisa foi
ca: pretende-se descrever e analisar, a partir de feita através de consultas a coordenadores de
um estudo de caso, como os recursos da infor- algumas escolas particulares da cidade de
mática são utilizados no processo da Alfabetiza- Campinas, conhecidas pela utilização da infor-
ção escolar. mática no processo de ensino-aprendizagem
Como já explicitado anteriormente, enten- dos alunos. A escola, na qual os dados foram
de-se a Alfabetização numa perspectiva do Le- coletados, situa-se na região norte da cidade, é
tramento, onde o aluno não somente deve ser religiosa, atendendo a um público de classe
habilitado a decodificar o código escrito, mas média e média-alta.
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A professora escolhida, aqui chamada de c) “Kid Pix” (Desenvolvido por Broder Bund
Ana4, cursou o Magistério de 2o. grau e o curso Software, Inc). É indicado para alunos de 5 a
Superior em Pedagogia, tendo iniciado sua car- 12 anos, disponibilizando recursos de edição de
reira numa escola de Educação Infantil, com imagens, textos e sons. São seis atividades nas
uma turma de Pré-escola. Ana lecionava na 1ª quais o aluno pode criar e editar imagens e
série do Ensino Fundamental há treze anos, textos, com ou sem animação eletrônica;
desde que foi contratada pela escola. A classe d) “As Reinações de Narizinho” (Produzido pelo
onde os dados foram coletados funcionava no Canal 8 Multimidia). Conta a história de um
período matutino. passeio de Narizinho e seus amigos ao fundo
do mar e do casamento que quase acontece
5. Coleta de dados - sessões de observação com o Príncipe Escamoso. No decorrer da histó-
Os dados desta pesquisa foram coleta- ria, que é narrada, o programa exibe o texto na
dos no decorrer dos 2º e 3º bimestres letivos tela para o aluno acompanhar, surgindo 10
de 2003. Foram realizadas 10 sessões de ob- atividades. Porém, estas não são obrigatórias e
servação das atividades dos alunos na sala de podem ser puladas. Todas as instruções são
informática, que ocorriam uma vez por semana. sonoras;
Os registros eram feitos por escrito, manual- e) “Site da Turma do Sítio do Pica-Pau Amare-
mente, em caderno especialmente preparado. lo” (Mantido pela Globo no endereço
O objetivo principal dessas sessões foi veri- http://sitio.globo.com) O site possui diversas
ficar como a informática é utilizada pela pro- áreas com histórias dos personagens. Foram
fessora da primeira série, ou seja, observar as analisadas 14 atividades, presentes na seção,
atividades realizadas pelos alunos, principal- com acesso via email pelo visitante, chamada
mente, as atividades de Alfabetização na sala “Mural dos Amiguinhos”.
de informática. Analisaram-se os seguintes No total, foram analisadas 73 atividades
softwares e sites da internet utilizados durante desses cinco programas acima resumidamente
essas aulas: apresentados.
a) “Conhecendo as Letrinhas com o Menino As aulas, na sala de informática, eram pre-
Curioso” (Produzido por Trace Disk Informática paradas por uma monitora, aqui chamada de
Ltda., sob licença de Book Case Multimídia Edu- Carla, responsável pelo atendimento às classes
cational, 1995). Este soft possui onze atividades da Educação Infantil e da primeira etapa do
e é destinado a crianças em fase de Alfabetiza- Ensino Fundamental (1ª à 4ª série). Carla par-
ção, apresentando letras e algarismos através ticipava do planejamento da escola e, tendo em
de jogos didáticos, para a formação de palavras mãos os conteúdos previstos para cada série,
e a exploração de conceitos matemáticos, se- elaborava as atividades na sala de informática.
gundo as especificações do produto; Após a preparação, ela entrava em contato com
b) “Coelho Sabido – Jardim” (Produzido por The as professoras para aprovação e/ou possíveis
Learning Company, Versão 2.0, 1998). O pro- alterações. Mas, conforme Ana afirmou em en-
grama é destinado a crianças do Jardim / Pré- trevista, as professoras costumam sugerir ma-
Escola, contendo 10 atividades. As cinco primei- teriais e conteúdos específicos para o trabalho
ras possuem quatro níveis e em cada nível, oito com os alunos.
rodadas. As cinco últimas atividades são pura-
mente lúdicas. Na apresentação do programa, 6. Sessões de observação na sala de in-
há um relato sonoro de uma história sobre o formática
personagem principal. Na seqüência, é exibido Na 1ª sessão na sala de informática, foram
um painel para a criança escrever o seu nome, observadas atividades com os softwares KID
clicando letra por letra no teclado. Em seguida, PIX e Conhecendo as Letrinhas com o Menino
é exibido um menu e a apresentação de um Curioso. Quatro alunos fizeram uma atividade
diálogo entre o Coelho Sabido e a ratinha Rita. no KID PIX na qual tinham que carimbar figuras
O aluno pode optar por cinco caminhos diferen- iniciadas pelas letras B e C. Os demais alunos,
tes, que correspondem às cinco atividades prin- que já a tinham realizado na semana anterior,
cipais do programa, envolvendo números, letras utilizaram livremente as 11 atividades do pro-
e palavras; grama o Menino Curioso.
Durante as 2ª e 3ª sessões, as crianças
4
Os nomes da professora e da monitora foram trocados preencheram manualmente fichas sobre alguns
para preservar as identidades das mesmas.
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animais (cada ficha representava uma classe) site exibe uma sessão com 14 atividades, que
com informações coletadas na internet, nos puderam ser realizadas livremente pelas crian-
sites www.canalkids.com.br/meioambiente e ças.
www.animaiscuriosidades.hpg.ig.com.br. A Na 10ª e última sessão de observação na
pesquisa foi previamente organizada pela moni- sala de informática, foram realizadas as mes-
tora e exibida simultaneamente nas telas de mas atividades do site da Turma do Sítio do
todos os computadores através do Lan School, Picapau Amarelo, acrescentando a utilização do
um programa de gerenciamento de redes para “Mural dos Amiguinhos”, uma página onde as
escolas. As informações eram lidas pela Carla, crianças deixaram mensagens via e-mail.
transformadas em dados na tabela na lousa e
depois as crianças preenchiam suas fichas com 7. Sessões de observação na sala de aula
essas informações (Animal – Como vive – País Foram realizadas sete sessões de observa-
de origem – Alimentação – Como nascem – ção na sala de aula, durante as manhãs de sex-
Tempo de gestação – Espécie em extinção). ta-feira. Essas sessões compreenderam a ob-
Completada a ficha de Ciências, as crianças servação das atividades desenvolvidas pela
pintavam os países de origem desses animais professora, não somente de Português, mas
no mapa que tinham em mãos (Geografia), que também de outras disciplinas. Desse modo,
também fazia parte desse projeto interdiscipli- tornou-se possível verificar se as atividades
nar. realizadas na informática apresentavam relação
Na 4ª sessão de observação, os alunos utili- com o conteúdo de sala de aula. Os dados e-
zaram livremente o software Coelho Sabido ram registrados por escrito, manualmente, em
Jardim, que dispõe de 10 atividades que envol- folha especialmente preparada.
vem letras, números e aspectos lúdicos. Esse Na 1ª sessão, foram realizadas atividades
mesmo software também foi utilizado pelas de Português sobre a letra G, a partir da música
crianças na sessão seguinte, as quais puderam “O Pingüim”; discussão do vocabulário com as
realizar qualquer uma das 10 atividades dispo- palavras e expressões desconhecidas na mes-
níveis. ma música; sobre o uso do ponto de interroga-
Na 6ª sessão de observação, os alunos ela- ção, incluindo a entonação da voz; pesquisa em
boraram as capas para o projeto interdisciplinar revista de cinco palavras iniciadas com a letra G
sobre animais, no software KID PIX: carimba- e posterior formação de frases interrogativas
ram as letras de seus nomes e figuras de ani- com as mesmas; leitura de poemas pelos alu-
mais diversos, preenchendo o plano de fundo nos. Foi realizada também uma atividade de
com qualquer cor diferente do branco. motricidade, na qual os alunos tinham que pin-
Durante a 7ª sessão, os alunos tiveram o tar o desenho de um guarda-chuva nos senti-
primeiro contato com o software As Reinações dos indicados pelas setas, recortá-lo e colá-lo
de Narizinho. A principal atividade é a contação no local indicado na folha.
da história, que aparece na tela em forma de Durante a 2ª sessão, foram observadas
texto enquanto é narrada por uma persona- atividades de Matemática do livro didático, so-
gem. Neste dia, Carla utilizou o Lan School para bre adição e subtração, e atividades de Portu-
as crianças acompanharem a história; porém, guês: elaboração do texto interno do cartão do
motivos técnicos atrapalharam o momento: o Dia dos Pais; produção de um livro através da
som da narração saía apenas na caixa de som reconstrução da história “Macaquinho”, na qual
do computador principal e chegava muito baixo as crianças elaboravam as frases (a professora
no fundo da sala, sendo que as mudanças das escrevia na lousa e as crianças copiavam na
telas, ou seja, dos parágrafos, atrasavam nos folha).
computadores das crianças. Na 3ª sessão, foram observadas atividades
Na sessão seguinte, os alunos puderam de Ensino Religioso e de Português. Em Ensino
utilizar livremente o software da aula anterior, Religioso, os alunos fizeram um livro contando
passando pelo enredo e por outras 9 atividades e ilustrando a história do santo padroeiro da
envolvendo os personagens da história. escola. Em Português, foram realizadas ativida-
Na 9ª sessão, foram observadas a realiza- des no livro didático, sobre folclore – leitura de
ção das atividades do site da Turma do Sítio do versos, adivinhas e cantigas.
Picapau Amarelo (http://sitio.globo.com). Cli- Na sessão seguinte, os alunos fizeram ativi-
cando no link “Jogos”, na página principal, o dades de Matemática, sobre combinação aditi-
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va, e de Português, sobre adivinhas, ditados e deradas relevantes serão utilizadas em momen-
brincadeiras populares. tos oportunos.
Na 5ª sessão, foram observadas atividades 11.Análise de dados e resultados
de três matérias: Matemática, sobre combina- Os dados analisados nesta pesquisa foram:
ção aditiva com a utilização de material doura- a) as descrições das atividades realizadas pelos
do; Português, “Conto outra vez: A cigarra e a alunos na sala de informática da escola, coleta-
formiga”, atividade na qual as crianças reconta- dos através de observação, conforme já descri-
ram a fábula lida pela professora durante a to; b) a análise dos programas utilizados; c) as
semana, ilustrando o final do texto; Ciências- descrições das atividades desenvolvidas em
as crianças foram até uma outra sala observar sala de aula; d) as entrevistas com a professora
as sementes que haviam plantado duas sema- e a monitora da sala de informática.
nas antes e preencher uma ficha sobre o de-
senvolvimento das suas plantas. Logo que re- 12. Núcleos Temáticos
tornaram à sala, fizeram, em grupo, pesquisa Após a transcrição dos dados acima, inclu-
em revistas sobre plantas, dividindo-as em dois indo a descrição das 73 atividades, referentes
grupos para colar no cartaz: as que dão frutos aos cinco programas analisados, foram criados
e as que não dão frutos. nove Núcleos Temáticos (NT). Os núcleos te-
Durante a 6ª sessão, foram observadas máticos são conjuntos de recortes de trechos
atividades de Matemática do livro didático, no- de relatos de sujeitos, observações e demais
vamente sobre combinação aditiva. Em Portu- fontes de dados que têm em comum um mes-
guês, os alunos recontaram a fábula “A onça mo tema, recebendo um título específico.
doente” após terem conversado bastante sobre O trabalho com Núcleos Temáticos pode ser
ela em sala (“Conto outra vez: A onça doente”). verificado em Zanelli (1992). Em sua tese de
Na 7ª e última sessão de observação Doutorado, ele identificou, nos trechos de
em sala de aula, os alunos fizeram atividades transcrições de entrevistas, palavras que repre-
de Português: leitura de uma história com ênfa- sentassem todo o conteúdo analisado e reagru-
se nas palavras diminutivas e, no final da aula, pou-as de acordo com a similaridade. Em se-
terminaram a produção de um texto iniciada na guida, Zanelli selecionou, entre essas palavras,
aula anterior. as que compusessem um núcleo em comum,
chamando-as de palavras-chave. Com o levan-
8. Visitas à escola tamento dessas palavras-chave, “começaram a
Além das dez sessões de observação das surgir conjuntos claramente estabelecidos pela
atividades na sala de informática e das sete reunião dessas palavras-chave em torno de
sessões de observação em sala de aula da pri- alguns temas”, estabelecendo, assim, Núcleos
meira série em questão, descritas acima, foram Temáticos, “com a delimitação de temas que
feitas outras visitas à escola. Nessa etapa da pudessem tentativamente responder ao questi-
coleta de dados, o contato com Carla foi fun- onamento central da pesquisa” (Zanelli, 1992:
damental, pois foi ela quem possibilitou conhe- p.78).
cer os softwares instalados nos computadores Na presente pesquisa, os Núcleos Temáticos
da sala de informática. correspondem aos aspectos identificados como
Nessas visitas, os softwares utilizados nas importantes, para direcionar e organizar a aná-
sessões de observação foram inúmeras vezes lise das atividades descritas. Com isso, buscou-
rodados para que suas atividades pudessem ser se identificar, a partir do referencial teórico
descritas de modo preciso. adotado, aspectos relevantes à utilização da
informática no processo de Alfabetização esco-
9.Entrevista lar da situação enfocada. No total, foram identi-
Ao término das sessões de observação, foi ficados nove Núcleos Temáticos. As 73 ativida-
realizada uma entrevista com a professora, des foram reanalisadas de acordo com o conte-
para caracterizar sua trajetória como profissio- údo de cada núcleo. Segue-se a síntese do pro-
nal da educação (sua constituição como profes- duto das análises realizadas.
sora), suas concepções sobre Alfabetização e NT 1. Concepção de Escrita
a utilização da informática em suas aulas . Essa No NT 1, buscou-se agrupar as atividades
entrevista foi transcrita e as informações consi- segundo a concepção de escrita subjacente a
cada uma delas, ou seja, se as mesmas apre-
25

sentam a escrita como um processo mecânico ra, representando, respectivamente, 16 e 13


de reprodução da fala, o que representa uma atividades.
concepção tradicional da mesma, ou se as ati- NT 5. Clareza das Instruções
vidades enfatizam sua função simbólica e seu Neste NT 5, o objetivo foi organizar as
uso social, representando as concepções atuais atividades de acordo com a clareza das instru-
de Alfabetização, descritas por vários autores e ções, verificando se as mesmas são dadas de
nos próprios PCN´s. forma clara, com conceitos conhecidos pelas
Dentre as 73 atividades, 20 delas apre- crianças, ou se os programas apresentam ins-
sentam uma concepção tradicional da escrita truções de difícil compreensão, com termos
(aproximadamente 27,4% do total), 08 apre- técnicos que não sejam de conhecimento das
sentam uma concepção atual da mesma (apro- crianças. Para tal avaliação, observou-se o de-
ximadamente 10,9%) e o restante, 45 ativida- sempenho das crianças após as instruções.
des (61,6%), não apresentam situações de Levando em conta que todas as 73 ati-
escrita. vidades apresentam alguma forma de instru-
NT 2. Resposta do Aluno ção, apenas três delas apresentam instruções
No NT 2, foi considerada a natureza da imprecisas, sendo que a maioria, aproximada-
resposta do aluno em relação ao que é exigido mente 95,9%, fornece instruções claras, de
pela atividade, ou seja, se a resposta é pura- fácil compreensão para o aluno.
mente mecânica através de cliques do mouse NT 6. Formas de Instruções das ativida-
para apenas movimentar personagens e obje- des
tos, ou se o aluno pode expressar-se livremente No NT 6, o objetivo foi agrupar as ativi-
por imagens e/ou escrita. dades pela sua forma de instrução, ou seja, se
Em 78,1% do total de atividades, a res- as instruções para a realização das atividades
posta exigida do aluno foi puramente mecânica, eram dadas de forma visual, através de textos,
ou seja, o aluno não se expressa com o uso da ou de forma sonora.
escrita ou de imagens, o que aconteceu apenas A grande maioria das atividades, 78,1%,
em 16 atividades (21,9%). apresenta as instruções de forma sonora. Nas
NT 3. Relação atividades na sala de in- atividades do site do Sítio do Picapau Amarelo,
formática - conteúdos da sala de aula as instruções são apenas visuais, através de
Neste NT 3, buscou-se agrupar os soft- pequenos textos. E apenas uma atividade apre-
wares e sites utilizados na sala de informática senta-se de forma sonora e visual.
por suas relações com o conteúdo trabalhado NT 7. Relação conteúdo das atividades –
em sala de aula pela professora, no decorrer cotidiano do aluno
das semanas. No NT 7, procurou-se organizar as ativi-
Do total, 2 programas foram utilizados dades por sua relação com o cotidiano do alu-
acompanhando o conteúdo de sala de aula, o no, ou seja, se as atividades abordam temas
que representa 31,5% das atividades. Os ou- presentes no dia-a-dia das crianças (nos pro-
tros três programas utilizados não apresenta- gramas de TV, na escola, do dia-a-dia com ou-
ram relação com o conteúdo trabalhado em tras crianças, jogos de microcomputador), ou
sala de aula, representando 68,5% do total das se apresentam conteúdos julgados não interes-
atividades desenvolvidas. santes para a faixa etária da primeira série (6-7
NT 4. Natureza do Conteúdo anos). Para tal avaliação, observou-se o com-
No NT 4, foram reunidas as atividades portamento dos alunos na situação, com ênfase
que privilegiam a leitura e/ou a escrita, ou seja, nos comentários verbais.
que apresentam textos para a leitura ou espa- Do total das atividades, 42,5% apresen-
ços nos quais os alunos possam expressar-se tam relação do conteúdo com o cotidiano da
pela escrita; e atividades apenas lúdicas, que criança e 57,5% não apresentam tal relação
envolvem outros aspectos como cor, forma, (42 atividades, incluindo todas as 25 atividades
número, etc. do software Coelho Sabido Jardim, destinado a
Do total de atividades, 60,3% são es- crianças de 4-5 anos).
sencialmente lúdicas (44 atividades). Da por- NT 8. Possibilidade de impressão das ati-
centagem restante, 21,9% correspondem às vidades
atividades que privilegiam a leitura e a escrita e Neste NT (8), buscou-se verificar a pos-
17,8% àquelas que enfatizam somente a leitu- sibilidade de impressão das atividades, ou seja,
26

se os softwares e sites permitem a impressão no processo de Alfabetização escolar. O horário


das mesmas. Depois de constatada essa possi- semanal destinado à sala de informática nem
bilidade, as atividades que podem ser impres- sempre é utilizado como complementação ao
sas foram divididas em dois grupos: as que trabalho desenvolvido na sala de aula: das dez
permitem situações de leitura e/ou escrita após sessões de observação na sala de informática,
impressão e as que não permitem essas situa- apenas em quatro as atividades apresentaram
ções. essa relação.
Do total de atividades, 15,1% não podem Em relação à concepção de escrita subja-
ser impressas (11 atividades). Das que podem cente às atividades dos softwares e sites anali-
ser impressas (84,9% do total), 29 possibilitam sados, observou-se, a partir dos dados apre-
situações de leitura e/ou escrita e 33 não pos- sentados no NT 1, que 27,4% das atividades
sibilitam tais situações. apresentam uma concepção tradicional da es-
NT 9. Autonomia de uso crita, onde esta é entendida como um código
Neste último NT, procurou-se agrupar as de representação da fala; são atividades nas
atividades por sua autonomia de uso, ou seja, quais os alunos devem relacionar estímulos
foi verificado se os alunos podem realizá-las auditivos e visuais, através da memorização de
apenas com as instruções fornecidas pelos pró- códigos e sons. Apenas 10,9% das atividades
prios programas ou sites ou se os alunos de- apresentam uma concepção atual da escrita,
pendem de instruções de professor para a rea- que se diferencia da anterior no que se refere
lização das atividades propostas. Para tal deci- ao caráter simbólico da mesma e à ênfase dada
são, observou-se o desempenho dos alunos na aos seus usos sociais.
situação. Entretanto, a maior parte das atividades
A totalidade das atividades analisadas (73 analisadas não apresenta situações de escrita,
atividades) apresenta autonomia de uso, ou estando limitadas a situações de repetição pu-
seja, permitem aos alunos realizá-las indepen- ramente mecânicas, nas quais os alunos asso-
dente de instruções verbais de professores. ciam cores, formas, tamanhos e quantidades,
localizam e movem objetos e personagens pela
13. Discussão dos resultados e considera- tela do computador, ligam pontos e cobrem
ções finais pontilhados. Essas atividades estão ligadas a
A partir da apresentação do conjunto dos uma concepção tradicional de ensino e aprendi-
dados coletados, observa-se que grande parte zagem, onde o aluno apenas executa o que foi
das atividades está caracterizada, implícita ou solicitado, num processo aparentemente mecâ-
explicitamente, por uma concepção tradicional nico.
da escrita. Esta influência pode ser verificada, A partir da análise do NT 1, é possível con-
principalmente, na desvinculação das atividades cluir que as atividades realizadas na sala de
realizadas na sala de informática com o conte- informática não condizem com a proposta de
údo trabalhado em sala de aula e na concepção alfabetização apresentada pela professora e
de escrita subjacente a essas atividades. que foi observada em sala de aula: “(...) O pro-
No que se refere à relação entre as ativida- cesso que é feito aqui, a lingüística, o estudo
des na sala de informática e na sala de aula, os da fala, da leitura e da escrita (...).Se a criança
dados apresentados no NT 3 mostram que fala bem ela vai escrever bem (...)” (Prof. Ana)
68,5% dessas atividades não apresentaram Foram observadas, em sala de aula, ativida-
relação alguma entre o conteúdo desenvolvido des de Língua Portuguesa que partiam de tex-
na sala de aula, embora tenha sido afirmado tos reais, de músicas populares conhecidas, de
pela professora, na entrevista, que a informáti- contos e fábulas populares, enfim, conteúdos
ca só é utilizada quando existe um conteúdo a presentes no cotidiano do aluno. Em diversos
ser trabalhado: “Não é para ir na informática só momentos, os alunos expressavam-se oralmen-
por ir, nem para a criança aprender a usa o te, emitiam opiniões, interpretavam e reconta-
computador lá. (...) Tem que fazer parte do vam histórias e produziam vários tipos de tex-
que está sendo trabalhado em classe” (Profª. tos. Essa proposta de trabalho é compatível
Ana) com as diretrizes sugeridas nos PCN´s de Lín-
A partir disso, pode-se concluir que, na situ- gua Portuguesa: “Se o objetivo é que o aluno
ação estudada, a informática nem sempre é aprenda a produzir e a interpretar textos, não é
utilizada como um recurso pedagógico efetivo possível tomar como unidade básica de ensino
27

nem a letra, nem a sílaba, nem a palavra, nem A concepção de ensino subjacente a este
a frase que, descontextualizadas, pouco têm a software remete à questão das atividades de
ver com a competência discursiva, que é a Prontidão, tão presentes no modelo tradicional
questão central (...). A unidade básica de ensi- de ensino, que tinham como objetivo preparar
no só pode ser o texto.” (MEC, 1997: 35-36) a criança para a Alfabetização: “O preparo de
Em contrapartida, na sala de informática uma criança para o início da alfabetização e o
foram realizadas atividades que não refletem processo de aprendizagem pedagógica em ge-
essa proposta, tratando a escrita como uma ral, dependem de uma complexa integração dos
representação mecânica da fala: apresentação processos neurológicos e da harmoniosa evolu-
das letras do alfabeto e palavras iniciadas com ção das funções específicas. Seus aspectos
essas letras, formação de palavras através de mais importantes são a linguagem, a percep-
sílabas preestabelecidas, entre outros. Ou seja, ção, o esquema corporal, a orientação espacial
atividades permeadas por uma concepção tra- e temporal e a lateralidade” (Poppovic, 1966:
dicional da escrita. p.5). Deve-se destacar que as concepções de
O conjunto de dados apresentados nos NT 2 Prontidão para a Alfabetização estabeleceram,
e NT 4 também enfatiza a concepção tradicio- tradicionalmente, uma rígida divisão entre o
nal de ensino que permeia os softwares e sites trabalho pedagógico da Pré-Escola e o das pri-
em questão : a maioria das atividades (78,1%) meiras séries: a Pré-Escola deveria preparar
não possibilita ao aluno expressar-se livremente (desenvolver as habilidades conceituais e sen-
através da escrita ou de imagens, exigindo do soriais) a criança para o processo de Alfabetiza-
mesmo respostas mecânicas de acordo com a ção, a ser sistematizado a partir da primeira
instrução fornecida. Lembrando, também, que série. Aliás, ainda é comum encontrarem-se
60,3% das atividades são apenas lúdicas, não posições semelhantes, como se a relação da
envolvendo situações de leitura nem de escrita. criança com a escrita, em nossa sociedade,
n Outro ponto que deve ser destacado, a ocorresse somente a partir dos sete anos de
partir da descrição das atividades, é a questão idade. Entretanto, em um ambiente acentua-
dos recursos tecnológicos do programas. Todos damente grafocêntrico, como o nosso, a rela-
são visualmente atrativos, como acredita-se ção da criança com a escrita inicia-se muito
que o seja a quase totalidade dos softwares e antes da primeira série, sendo sua qualidade
sites infantis, apresentando modernos recursos determinada pela natureza das mediações cri-
visuais e sonoros, com instruções claras que ança-escrita, proporcionadas pelo seu meio
permitem a autonomia de uso, conforme pode ambiente.
ser verificado nos dados dos NT5, NT 6 e NT 9. Uma última observação a ser feita refere-se
Entretanto, pode-se perceber, nos dados desta à utilização dos programas nas aulas na infor-
pesquisa, que essa tecnologia é utilizada para mática: em três deles os alunos podiam realizar
disfarçar práticas pedagógicas baseadas em quaisquer atividades, escolhendo livremente as
concepções tradicionais. Ou seja, os programas que mais lhe agradassem. Ou seja, notou-se
apresentam, segundo Stemmer (1998: p.102), que, uma vez escolhido o software ou site pela
“atividades tradicionais com suporte tecnológi- monitora ou professora, não havia uma direção
co”. São atividades que seguem um discurso de de atividades específicas: numa mesma aula,
modernização mas que, na realidade, reprodu- alguns alunos realizavam atividades de Língua
zem os moldes de ensino considerados tradi- Portuguesa, outros de Matemática e outros
cionais. jogos apenas lúdicos. Não havia um objetivo
Cabe uma observação quanto à utilização específico, exceto na utilização do programa
do software Coelho Sabido – Jardim. Este pro- KID PIX e da internet no projeto sobre animais.
grama, originalmente destinado a crianças da Diante do exposto, o seguinte questiona-
faixa etária dos 05 anos, foi utilizado na 1ª sé- mento se coloca: como a informática pode con-
rie observada. É um produto desenvolvido pela tribuir para formar leitores críticos e bons escri-
empresa The Learning Company (EUA), tradu- tores, num processo de alfabetização que utiliza
zido e adaptado para o português em 1998. recursos tecnológicos como o computador, se
Contudo, segundo especificações do próprio esses recursos apresentam uma concepção
programa, as atividades visam à preparação da tradicional de ensino?
criança à alfabetização. A informática está, cada vez mais, inserida
no cotidiano das pessoas, das instituições e das
28

relações sociais. Como conseqüência, a educa- plano ou projeto pedagógico, definido e imple-
ção também é influenciada pelo avanço dos mentado pelo coletivo dos professores da esco-
recursos tecnológicos, principalmente, com a la.
inserção do computador em sala de aula. Pre-
sente em grande parte das escolas particulares, Referências Bibliográficas
o computador pode estar servindo como um
recurso mercadológico, o que indica que a es- 1. BARBOSA, J. J. Alfabetização e Leitura. 2ª
cola está, pelo menos, acompanhando as ten- ed. rev. São Paulo: Cortez, 1992.
dências tecnológicas da sociedade. 2. BONAMIGO, C.C. As representações presen-
Entretanto, deve-se atentar para uso peda- tes na escola sobre informática e uma pos-
gógico que é feito desses recursos. “A atração sível mudança de paradigmas. Campinas,
exercida pela tecnologia do computador tem SP: [s.d.], 1998 (Trabalho de Conclusão de
algo de mágico” (Pepi & Schurman, 1996 apud Curso - Unicamp)
Sandholtz et al, 1997) e, muitas vezes, o pro- 3. BRAGGIO, S.L.B. Leitura e Alfabetização –
fessor, atraído por essa tecnologia, aplica-a da concepção mecanicista à sociopsico-
sem refletir sobre o real sentido da informática lingüística. Porto Alegre: Artes médicas,
na sala de aula. Citando Stemmer (1998), “Por- 1992.
tanto, ao se escolher um software (...) não se 4. CATAPAN, A H. O ciberespaço e o novo sa-
pode simplesmente ficar extasiado diante do ber: o retorno a si mesmo como inteiramen-
computador, pois o fato de integrar imagens, te novo. Disponível na Internet em
textos, sons, animação, de fazer a interligação http://www.anped.org.br/24/T16206074538
de informação em seqüências não lineares, 90.doc – 10 de Setembro de 2002.
como as utilizadas na multimídia e hipermídia, 5. DI NUCCI, E.P. “Alfabetizar letrando...Um
não garante uma abordagem educacional nova desafio para o professor!”, in: LEITE, S.A.S.
e muito menos a qualidade pedagógica” ( p.66) Alfabetização e Letramento: Contribuições
A informática, a cada dia, apresentará no- para as Práticas Pedagógicas. Campinas,
vos e poderosos recursos, programas cada vez SP: Komedi: Arte Escrita, 2001.
mais atraentes visualmente e os colocará à dis- 6. EDUC. REVISTA Análise de Softwares Edu-
posição da educação.Assim, são necessárias, ao cacionais. Belo Horizonte(6):41-44,
professor, formação específica e consciência dez.1987. Disponível na Internet em
crítica para o uso dessa tecnologia com seus http://www.uel.br/seed/nte/analisedesoftwa
alunos. res.html – 10 de setembro de 2002.
É necessário, também, clareza com relação 7. FERREIRO, E. e TEBEROSKY, A. Psicogêne-
aos objetivos em função dos quais a informáti- se da língua escrita. Porto Alegre: Artes
ca será utilizada na sala de aula, para que o Médicas, 1986.
computador, na escola, não seja apenas sinô- 8. KLEIMAN, A. B. Os significados do Letra-
nimo de “joguinhos” e de passatempo. É neces- mento: uma nova perspectiva sobre a práti-
sário que o computador constitua-se numa im- ca social da escrita. Campinas, SP: Mercado
portante ferramenta de ensino, já que “os pro- das Letras, 1995.
gramas computacionais poderão ser um ins- 9. KRAMER, S. (org.) Alfabetização – Dilemas
trumento valioso para auxiliar a criança no seu da prática. Rio de Janeiro: Dois Pontos Edi-
processo de compreensão da linguagem escrita tora, 1986.
numa perspectiva diferente daquele comumen- 10. LARSEN, S. “O Computador é um instru-
te realizada pelo ensino tradicional” (Stemmer, mento de laboratório”. In: Revista Acesso,
1998: p.101) ano 9, n.º 13. Abril 1999. Disponível em:
A questão da informática aplicada à educa- http://www.fde.sp.gov.br/acervo/acesso/ac
ção é um tema longe de ser esgotado. Contu- esso13/acesso_p5.htm – 20 de novembro
do, espera-se que novos estudos e pesquisas de 2002.
sejam realizados e contribuam para uma utiliza- 11. LEITE, S.A.S. Alfabetização e fracasso esco-
ção mais adequada e coerente desses recursos lar. São Paulo: Edicon, 1988.
em sala de aula. É importante ressalvar que o 12. ___________ “Alfabetização – repensando
computador pode ser um excelente instrumento uma prática”, in: Leitura: Teoria & Prática,
auxiliar para o trabalho pedagógico, mas para nº19, 1992, p.21-27.
isso, deve ser utilizado coerentemente com um
29

13. ___________“Notas sobre o processo de 25. SILVA FILHO, J.J. Computadores: Super-
alfabetização escolar”, in: LEITE, S.A.S. Al- heróis ou Vilões? Florianópolis: UFSC, Cen-
fabetização e Letramento: Contribuições pa- tro de Ciências da Educação, Núcleo de Pu-
ra as Práticas Pedagógicas. Campinas, SP: blicações, 2000.
Komedi: Arte Escrita, 2001. 26. SMOLKA, A.L.B. A Criança na fase inicial da
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