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Sumário

Prelúdio

Parte Um

Capítulo 1

Capítulo 2

Capítulo 3

Capítulo 4

Capítulo 5

Capítulo 6

Capítulo 7

Capítulo 8

Capítulo 9

Capítulo 10

Capítulo 11

Parte Dois

Capítulo 12

Capítulo 13
Capítulo 14

Capítulo 15

Capítulo 16

Capítulo 17

Parte Três

Capítulo 18

Capítulo 19

Capítulo 20

Capítulo 21

Capítulo 22

Capítulo 23

Capítulo 24

Parte Quatro

Capítulo 25

Capítulo 26

Capítulo 27

Capítulo 28

Capítulo 29

Capítulo 30

Capítulo 31

Parte Cinco
Capítulo 32

Capítulo 33

Capítulo 34

Capítulo 35

Capítulo 36

Capítulo 37

Capítulo 38

Epílogo

Agradecimentos

Créditos
Para Luke S., onde
quer que esteja.
Pela primeira vez em uma geração, a democracia foi restaurada na galáxia.
Mesmo debilitada após um ataque imperial, a Nova República conseguiu forçar
os remanescentes do Império a se esconder. Ainda assim, a ameaça de violência
sempre permanecerá enquanto a guerra persistir. No planeta remoto de Jakku,
longe dos olhos da República, o sigiloso Gallius Rax ambiciona reconstruir o
Império desmoronado à sua própria imagem. Mas seus planos podem logo ser
desafiados pela grã-almirante Rae Sloane, que busca destruir Rax e livrar o
Império de suas maquinações sombrias.
Sem saber da trama de Rax, Norra Wexley e seu time continuam perseguindo
qualquer informação que os possa levar à fugitiva Sloane. Convencida de que
Sloane tem a chave para a derrota do Império, a missão de Norra a leva cada vez
mais perto do exército secreto de Rax – pois, em Jakku, o Império se prepara
para a última batalha, na qual o futuro da galáxia será decidido.
PRELÚDIO
A segunda Estrela da Morte sobre Endor

A arquitetura da Estrela da Morte, mesmo em sua reconstrução inacabada,


deixa o almirante Gallius Rax maravilhado. É um mundo à parte. Enquanto
percorre o corredor rumo ao turboelevador, guiado por dois guardas de capacete
vermelho, ele nota que a estação de batalha zumbe e vibra ao seu redor – uma
vibração sutil na qual Rax escuta uma música desvairada. É uma música de
poder, de potência, de destruição. Uma ópera imperial em timbre e temor. Ele
nunca havia pisado na primeira encarnação da Estrela da Morte. Não tinha
permissão. Seu papel era ser mantido às margens, esperando por um destino que,
com certeza, jamais chegaria. No entanto, aqui está ele, convidado a bordo para
vê-la – o que lhe sugere que ele está próximo de cumprir esse destino ou ainda
mais próximo de morrer enquanto seu destino murcha sem desabrochar.
Os guardas dão um passo à frente, chamando um elevador iluminado em
vermelho e branco, com um piso preto tão liso e escuro que parece um espelho
feito de obsidiana e manchado com declínio moral. Eles empurram Rax para
dentro, mas não o seguem.
Ele sobe sozinho.
O turboelevador se abre.
Lá está o imperador, esperando no lado oposto da sala do trono. O velho em
sua capa preta está sentado, observando a curva suave e brilhante da lua de
Endor além da vigia radial. Devagar, a cadeira gira.
Somente metade do rosto do homem pode ser vista. As linhas da face se
aprofundaram consideravelmente. A carne pende da mandíbula e da papada, e a
boca está retorcida em uma careta feral que é também, de alguma forma, um
sorriso perturbador. Aquele rosto com aquela boca é uma sacola podre com um
rasgo de faca no tecido. O resto do rosto está escondido na sombra do capuz
preto.
Faz muitos anos desde que Rax viu Palpatine de perto. O horror que ele já vira
sobre o rosto do homem agora estava entalhado em sua pele e encarnado.
A visão do imperador tira seu fôlego, rouba-lhe parte das forças, e seus
joelhos quase cedem. Palpatine tem a presença de uma estrela em colapso e o
vazio destruidor que resulta dela. Ele atrai a pessoa. Tira algo dela. É uma força
flageladora e terrível.
Mas Rax continua em pé, como fizera uma vez em Jakku.
– Venha – Palpatine diz, convocando-o com uma garra em rigor mortis.
Rax obedece como ordenado.
– Meu imperador. – Ele inclina a cabeça.
– Uma nave auxiliar aterrissou na Lua Santuário – o velho diz. Rax não sabe
como responder; as palavras soam quase como uma acusação, embora não
necessariamente direcionada a ele. – O destino acompanha aquela nave. Há
alguém a bordo que desafia o rumo do destino, conforme eu o vi.
– Eu farei com que a nave seja destruída.
– Não, meu garoto. Eu tenho planos maiores para aquele na nave auxiliar. Se
ele será uma demonstração do meu poder ou um escravo para substituir aquele
que falhou, não posso dizer. Isso permanece indefinido. Mas somos levados a
um momento no tempo, um momento de grave incerteza. Todas as coisas fluem
rumo a esse momento. – A voz dele se torna suave e sua cabeça se afunda no
capuz. – Eu sinto... caos. Fraqueza. Um ponto de ruptura.
Rax empina o queixo e expande o peito.
– Só me diga do que precisa, lorde.
– Preciso que você esteja pronto.
– Estou sempre pronto.
– Logo pode chegar a hora da Contingência.
Com isso, a garganta de Rax se fecha. Meu destino...
Palpatine continua:
– Vá para longe daqui. Pegue a Dilacerador e se esconda na nébula de
Vulpinus até que os eventos desse ponto de ruptura sejam resolvidos.
– Como vou saber?
– Saberá. Eu enviarei um sentinela.
Rax assente.
– Sim, lorde.
Palpatine o examina. Rax não consegue ver os olhos do imperador, mas
certamente os sente. Perfurando-o como alfinetes. Dissecando-o para ver do que
ele é feito.
– Meu garoto. Meu garoto precioso. Você está pronto para ser o Pária? Está
preparado para se tornar a Contingência, se chegar a esse ponto? Haverá outros
que deverá chamar para o seu lado.
– Eu sei. E estou pronto. – Estou pronto para ir para casa. Porque é isso que
significa, não é? Significa um dia, em breve, retornar às areias de Jakku. Ao
Observatório. A tudo que ele odeia e que, no entanto, é o lugar que abriga seu
destino e o destino da galáxia como um todo.
– Então vá. O tempo é precioso. Uma batalha logo desabará sobre nós.
– O senhor a vencerá, com toda a certeza.
Outro sorriso perverso.
– Sim. De um jeito ou de outro.
Capítulo
1

Esta parte de Taris é um terreno baldio, e Mercurial Swift se move por ela
como um rato escapulindo pelo buraco de um esconderijo. O caçador de
recompensas escala os destroços de um velho prédio de habitação, com
apartamentos destruídos há muito tempo, as paredes desmoronadas expondo a
bagunça do crescimento urbano em ruínas. Através do mundo quebrado, a vida
tenta crescer: trepadeiras de três dedos e fungos cobertos de limo em espirais
torcidas. E, embora a destruição esconda isso, pessoas vivem aqui: moram
aglomeradas em contêineres de carga e em corredores esmigalhados, escondidas
sob as ruas fraturadas e no topo de prédios tão enfraquecidos que balançam
como bêbados sonolentos ao vento mais suave.
A presa dele está aqui. Em algum lugar.
Ela é Vazeen Mordraw, a garota selvagem que roubara uma caixa com cédulas
de identidade dos membros da Gangue Gindar. Essas identidades, por sua vez,
haviam sido roubadas de dignitários da Nova República. Portando uma delas,
qualquer pessoa poderia ter fácil acesso aos planetas conhecidos sem ser
submetida a muita vigilância. Os Gindars querem as identidades de volta – e,
como um bônus especial, querem a garota também.
Preferencialmente viva. Se necessário, morta.
Mercurial pretende que este seja o primeiro caso, porque é bem mais fácil
deslocar alguém que pode andar com os próprios pés – carregar um cadáver
sobre os destroços de Taris parece um jeito excelente de torcer um tornozelo.
Isso deixaria o trabalho dele desnecessariamente complicado.
Ali, logo em frente. O filho de algum fazendeiro de merda está na sombra de
uma parede desmoronada, raspando musgo esponjoso da pedra, talvez para
alimentar a família, talvez para vender. O garoto – de cabeça raspada, rosto sujo
e lábio inferior rachado, com uma tatuagem indicando que é propriedade de
alguém – toma um susto e começa a correr. Mas Swift o chama.
– Ei! Espere, garoto. – Ele balança uma bolsinha para o menino. Créditos
tilintam quando batem uns nos outros. – Estou procurando uma pessoa.
O garoto não fala nada, mas para de correr, pelo menos. Desconfiado, arqueia
uma sobrancelha, o que Mercurial encara como um sinal de interesse. O caçador
de recompensas bate na manopla em seu pulso, e um holograma surge de repente
no ar acima de seu braço. É uma imagem da garota, Vazeen.
– Viu ela?
– Talvez.
– Não enrola. – Ele sacode a bolsinha de créditos outra vez. – Sim ou não?
O garoto hesita.
– Sim.
– Onde?
– Perto.
Sim. Mercurial sabe que ela tem que estar ali. O velho Ithoriano no
espaçoporto rastejou da sua névoa empapada de especiaria o suficiente para
confirmar que conhece a garota e que ela se escondeu perto da família. Contou
que o tio dela mora ali, nos restos do antigo distrito Talinn. (Swift fica
subitamente feliz por ela não ter família do lado oposto do planeta – lá os ricos
moram em torres enormes, hiperseguras, vigiadas por exércitos de seguranças
privados.)
– Quão perto?
Os olhos do garoto vão para a esquerda e a direita, como se ele não tivesse
certeza de como responder. Isso leva Mercurial a suspeitar que o garoto na
verdade a conhece.
– Eu...
– Garoto. Ou eu vou te dar esses créditos ou vou te jogar por aquele buraco
naquela parede ali. Você pode sair daqui com uma graninha extra no bolso ou
duas pernas quebradas. Talvez até dois braços quebrados. – Mercurial expõe os
dentes num sorriso afiado. – É uma queda e tanto.
Ainda assim o garoto hesita. Ele está considerando suas opções. Um vento
intoxicante, com o fedor de um pântano, açoita e assobia pelo corredor
desmoronado.
– Eu não vou feri-la – Mercurial lhe garante. Em grande parte, isso é verdade.
Na experiência dele, as pessoas querem ser egoístas, mas precisam sentir que
estão sendo altruístas enquanto o fazem. Elas querem uma desculpa. Ele está
feliz em ajudar o garoto a se sentir bem fazendo algo ruim se isso é necessário. –
Melhor que eu a encontre do que outra pessoa, acredite em mim.
Aí está. O momento de aquiescência. O garoto fecha os olhos suavemente,
uma decisão tomada. Finalmente, ele diz:
– Ela está no prédio do lado. A antiga fundição Palmyra. Vazeen tem um...
quartinho lá em cima. Um esconderijo.
– Parabéns – Mercurial diz, jogando a bolsinha na palma aberta do menino.
Ele olha para ela, ganancioso e ávido. Pena que não percebe que os créditos mal
valem o metal em que foram forjados. A moeda imperial cai vertiginosamente,
desabando com impacto meteórico. Todo mundo sabe que logo o Império vai
virar poeira – e o que vai acontecer depois?
Isso é uma preocupação para outra hora.
O garoto sai correndo.
Mercurial vai à caça.

Horas depois, o caçador de recompensas está deitado de barriga para baixo,


erguendo seus quadnóculos e olhando através deles, aumentando o zoom clique
a clique até que sua visão esteja próxima o suficiente para divisar detalhes. O
telhado da fundição é plano e, como tudo aqui, quebrado. Uma chaminé da
fábrica ao lado caiu sobre a fundição, conectando os dois prédios arruinados, e
Mercurial decide que ele vai servir como seu ponto de extração se alguma coisa
der errado – embora tenha dificuldade em imaginar como coletar essa simples
recompensa possa dar errado.
Ele vislumbra um movimento súbito no telhado. Swift foca nele e vê uma
pequena folha de metal ser afastada para o lado – e um tufo de cabelo rosa
refletir a luz evanescente do dia.
Alvo alcançado.
Uma pequena parte dele está empolgada por encontrá-la, mas, ao mesmo
tempo, seu coração afunda. O futuro passa em sua mente em um clarão, e no fim
de tudo espera um pagamento sem valor. Ele vai pegar a garota e levá-la aos
arrogantes Gindar, que vão dar a ele uma pilha baixa de chits – não créditos
imperiais, não mais, mas chits que ele pode levar a certos mercadores em certos
planetas e trocar por equipamento, munição ou uma refeição; mas é claro que
eles não funcionam em todo lugar, e o que uma nota vale agora vai flutuar
loucamente dependendo de quem seja o dono da moeda. Nesse caso, os Gindars
são propriedade da Confederação Frillian, e os Frillians são do Sol Negro. E
ninguém é dono do Sol Negro. Ainda não. Mas esse dia pode estar chegando –
com o Império em decadência e a Nova República em ascensão, os sindicatos
sabem que oportunidades aguardam aqueles que estão dispostos a controlar a
galáxia nesta época de caos. Mas quem? Quem vai explorar essa oportunidade
primeiro? Já ocorrem lutas internas. Os sindicatos pretendem superar uns aos
outros, tentando estabelecer supremacia. Uma guerra de sombras está apenas
começando. Eles querem ser donos da moeda e determinar o destino criminoso
da galáxia inteira. Sol Negro. Sindicato das Sombras. Os Hutts. A Chave
Vermelha. O Crymorah. As Latitudes Soberanas de Maracavanya. Que zona dos
infernos.
Por fim, Mercurial sabe que alguém vai tentar ser dono dele também. Mas ele
não tem nenhuma intenção de se tornar um lacaio.
O caçador de recompensas se ergue e emerge do casco dobrado e amassado de
um antigo cargueiro, que deve ter aterrissado no teto do prédio eras atrás e agora
é só uma escultura de vigas enferrujadas. Swift puxa os bastões e se move
depressa; corre e salta da beirada do prédio, dando dois pulsos rápidos no
jetpack. Estalos de energia enchem o ar atrás dele, propelindo-o para a frente
enquanto o telhado da fundição se aproxima depressa. Swift agacha e rola, e,
quando se põe de pé outra vez, gira os bastões e corre direto para o barraco
improvisado onde Vazeen tem se escondido.
Ela sai. Ela o vê. Ele vê que ela o vê, e mesmo assim seu alvo fica parado lá,
imóvel. A princípio, Swift pensa: A garota sabe que o jogo acabou, mas isso não
faz sentido. A garota é uma fugitiva. Este é o planeta dela. Ela devia se assustar.
Ela devia correr. Todo mundo corre.
Entretanto ela permanece parada, olhando diretamente para ele.
A compreensão perfura Mercurial como uma faca:
Ela não está correndo porque é a isca.
Diabos!
Ele se abaixa e rola de novo enquanto um disparo de atordoamento de uma
arma de raios atinge o ar acima de sua cabeça com um trinado alto. Swift se
ergue num pulo e espera ver alguém que conhece vindo atrás dele: um antigo
inimigo, um amigo traído, uma ex-namorada com o coração partido e um fuzil
de raios. Em vez disso, ele vê uma outra mulher vindo atrás dele. Mais velha.
Cabelo prateado bagunçado pelo vento. Quem quer que seja, parece familiar,
mas ele não tem tempo de relembrar todos os rostos que já conheceu porque ela
tem uma pistola apontada diretamente para ele e outro disparo de atordoamento
vem...
Mas ele é rápido: uma mola comprimida subitamente solta. Com habilidade,
gira no calcanhar direito, e enquanto isso ergue um dos bastões e o lança – a
arma deixa seus dedos e sai assobiando pelo ar.
Clack! O bastão acerta a frente da arma de raios. A mulher grita quando a
arma sai voando e cai com um tinido no telhado. Ela sacode a mão – a vibração
com certeza queimou sua luva, e agora ela está tentando suavizar a dor –, mas
continua vindo até ele, com um sorriso sombrio de determinação no rosto.
Bom pra ela. Mas ainda assim não vai pegá-lo.
Ele flexiona a mão, os dedos apertando o botão no centro da palma. Os
extensores na ponta dos dedos zumbem de repente, e o bastão que ele tinha
lançado pula do chão...
E surfa as correntes de ar de volta para a mão dele.
A mulher mais velha derrapa até parar, lançando um soco – é um bom soco,
certeiro, mas o caçador de recompensas sabe que ele está chegando, porque a
linguagem corporal dela telegrafa o ataque. Mercurial desvia, e o punho da
mulher atinge só ar, o que lhe dá uma oportunidade de espetar o bastão sob o
braço dela. Eletricidade percorre o corpo da mulher. Os dentes dela se cerram e
os olhos se arregalam enquanto cada centímetro do seu corpo é paralisado.
Quando ela cai, ele ouve o raspar de uma bota atrás de si e pensa: Estou
distraído demais. Aquele trabalho o tinha deixado confortável demais,
complacente demais, e agora alguém está enfiando um punho nos rins dele,
fazendo-o cair de joelhos.
Ele grita e ataca baixo na vez seguinte – seu bastão forma um arco e acerta o
segundo atacante atrás do joelho. O inimigo, um homem alto com nariz de
gavião e olhos escuros, xinga e cai com força sobre o cóccix. Ele reconhece este
aqui, não é? Imperial. Não. Ex-imperial. Trabalhando para a Nova República
agora. Ele se pergunta: Isso é por causa do trabalho de Perwin Gedde? Ele está
se lembrando agora. Roubou o alvo deles debaixo do seu nariz. O que eles
querem? Créditos? Vingança? Mercurial está na lista deles?
Não importa. Não tenho tempo para o que quer que seja isso. A garota não
vale a pena. O pagamento é uma mixaria. É hora de ir. A chaminé caída é sua
rota de fuga. Então ele se ergue com um pulo e dispara pelo telhado. Outro tiro
distorce o ar ao seu redor (a mulher mais velha recuperou a arma), mas ele pula e
desliza sobre a chaminé desmoronada que agora faz as vezes de ponte. Ele se
endireita e corre, os pés batendo no metal. O hiperaço com saídas de ar fornece
uma textura que o ajuda a manter o equilíbrio, e ele dispara pela ponte em
direção a uma abertura na parede da fábrica ao lado. Ninguém o segue. Seus
atacantes são lentos, lentos demais. Porque, ele se lembra, ninguém é tão rápido
quanto eu. Mercurial Swift, triunfante outra vez.
Ele salta através da fenda...
E um braço se estende no espaço aberto e bate com força em sua traqueia. Os
calcanhares deslizam, e Mercurial cai de costas, o ar expelido do peito conforme
os pulmões atingem o chão como uma batida de palmas.
– Oi – diz uma voz. Outra mulher. Esta voz ele reconhece.
Uma caçadora de recompensas e de fugitivos como ele: a Zabrak, Jas Emari.
Ela vai até ele, e, enquanto seus olhos se ajustam, Mercurial a vê brincando com
um palito na língua e entre os dentes. Ela inclina a cabeça, com uma mecha de
cabelo caindo de um lado de seu crânio coberto de espinhos para o outro.
– Emari – ele arfa, o ar finalmente retornando aos pulmões, que novamente se
inflam.
Ele não perde tempo. Ergue um dos bastões rápido e...
Mas ela é mais rápida. Uma pequena arma de raios na mão dela dispara.
E tudo fica escuro.

Eles levaram meses para capturar Swift.


Meses para armar um esquema falso – meses para roubar as identidades da
Gangue Gindar, para culpar uma jovem (que, para sorte deles, ficou contente em
fazer sua parte para dar uma surra no Império), para falsificar uma recompensa
em nome dos Gindars (sobre a qual eles não tiveram escolha, a não ser fingir que
a haviam lançado quando caçadores bateram à porta para aceitar o trabalho).
Tiveram que fazer parecer uma boa ideia, tentadora para um caçador de
recompensas como Swift – mas não tentadora demais, porque Jas garantiu que,
quando um trabalho parecia bom demais, fácil demais, deixava a pessoa
desconfiada. Ninguém queria assustá-lo, então tiveram que fazer tudo
suavemente, lentamente, com muito cuidado e atenção. O tempo todo, as
entranhas de Norra se contorciam na barriga como um nó de víboras akivanas,
um pensamento desagradável assombrando sua cabeça sem parar: Enquanto
perdemos tempo, Rae Sloane se afasta cada vez mais. Assim como a chance
deles de conseguir justiça.
A sensação de pegar Mercurial Swift em sua pequena armadilha era ótima –
ele é o único caçador de recompensas que se comunica exclusivamente com
Sloane. Mas é também uma vitória amarga, porque eles têm uma presa maior
para capturar. Ele é só um degrau na escada.
Por favor, pensa Norra. Que seja o degrau final.
Ela está cansada e sendo impelida pela raiva. Isso a queima por dentro,
deixando-a nua, como se seu coração estivesse esfolado.
Mas pelo menos eles o pegaram.
Mercurial Swift está pendurado em um cano torto na fábrica de munição
antiga, os braços estendidos acima do corpo, os pulsos algemados. A noite caiu
em Taris. Lá fora, raios de vapor colorem as nuvens escuras de ocre, enquanto lá
embaixo scutjumpers clicam e correm entre os destroços do planeta, caçando
insetos para comer.
– Eu odeio ele – Sinjir Rath Velus diz, inclinando-se para a frente e encarando
a presa deles. Ele torce o nariz como se estivesse cheirando algo podre. – Até
inconsciente o homem parece tão arrogante. E acredite: eu conheço arrogância
muito bem.
Jas gira um dos bastões de Swift e dá um golpe no ar.
– Ele é arrogante, mas engenhoso. Estes bastões são praticamente uma obra de
arte. Uma ponta é concussiva, a outra, elétrica. Matar ou atordoar. E o segundo
bastão pode ser modificado com um hipoinjetor para veneno.
– Vamos acordá-lo – Norra diz, impaciente. – Quero respostas e estou cansada
de esperar.
– Esperamos até agora – Jas diz. – Podemos esperar um pouco mais.
– Eu quero Sloane. Quero justiça.
– Você quer vingança – Jas afirma. É uma conversa que elas já tiveram antes.
Muitas vezes, por sinal. Sempre a mesma história.
Sinjir só suspira e balança a cabeça enquanto Norra retruca:
– Vingança e justiça são dois lados da mesma moeda.
– Não sei se você teria dito isso antes de Chandrila.
– É um pouco irritante que você esteja me julgando – Norra dispara.
Jas ergue as mãos, rendendo-se.
– Não estou julgando. Prefiro muito a vingança como motivo. A justiça é um
alvo que fica mudando de lugar. A vingança fica aqui. – Ela bate um dedo no
centro do peito. – Eu admiro a vingança. Ela é pura. Por acaso, também é o que
me paga a maior parte do tempo. Eu só acho valioso saber qual é qual e por que
estamos fazendo o que estamos fazendo.
Ela está errada, Norra pensa. Aquele dia em Chandrila foi um pesadelo: seu
próprio marido juntando-se ao resto dos prisioneiros de Kashyyyk com a mente
controlada para atacar o palco e a praça em uma onda de assassinatos. Os
funerais duraram dias. O luto ainda continua, meses depois. Essa é uma daquelas
vezes em que a necessidade de justiça e o desejo de vingança se alinham
perfeitamente, como as miras de metal na ponta de uma arma de dispersão. E a
justiça, no fim das contas, não é só um nome para vingança institucional?
Cometa um crime, pague pelo crime. O castigo sempre chega, seja pelas mãos de
um órgão governamental ou de um soldado solitário.
Pelo menos é o que Norra diz a si mesma. E ela está prestes a dizer o mesmo a
todos eles quando Sinjir resmunga e intervém:
– Vocês duas, parem com isso. Está me dando uma dor no cérebro. Vamos
acordar nosso novo amigo, mesmo que seja só para eu poder parar de ouvir
vocês e começar a ouvir a ele.
Com isso, Sinjir enfia dois dedos nas narinas do caçador de recompensas
inconsciente. Ele dá um puxão para cima, com força. Os olhos de Mercurial se
abrem de repente e ele inspira bruscamente.
– Bom dia – Sinjir diz, supercontente. – Hora de se mexer e hora de se
sacudir. – Como um adendo, ele acrescenta: – Minha mãe costumava dizer isso.
Uma mulher doce. Se eu não saísse da cama rápido o bastante, porém, sua
doçura azedava um pouquinho, e ela me batia com uma vassoura. – De volta a
Mercurial, ele continua: – Eu não preciso bater em você com uma vassoura,
preciso? Está acordado?
– Estou acordado, estou acordado – diz o caçador de recompensas, arrancando
a cabeça dos dedos cutucadores de nariz de Sinjir. Os olhos dele focam em Jas. –
Você.
– Olá, Mercurial.
Ele ri, emitindo um som breve e triste.
– O que é tão engraçado? – Jas pergunta.
– Uma coisa que alguém me disse. Dengar, na verdade. – Ele abre um sorriso.
– Ele disse que o dia chegaria. “Recompensas por caçadores de recompensas.”
Parece que o dia é hoje, hein?
– Dengar – ela diz. A palavra soa a Norra como se fosse dita ao redor de algo
estragado, fétido. – Odeio admitir, mas aquele caroço desleixado de suor
congelado pode ter razão: eu tenho uma recompensa pela minha cabeça, afinal.
– É verdade. Lembro de Rynscar dizendo que o chefão Gyuti ofereceu um
valor pela sua cabeça. Dobrou recentemente, não é?
– Triplicou – Jas diz, como se estivesse orgulhosa. Talvez esteja. – É uma
grande recompensa. Você, no entanto, surpreendentemente não tem uma.
Ele arqueia uma sobrancelha afiada.
– Então por que estou aqui?
– Porque temos perguntas – Norra responde.
– Isso tem a ver com aquela bagunça em Vorlag? Pensei ter reconhecido você
no telhado da fundição. Gedde foi fácil demais, sabe.
– Eu sabia que tinha sua mão nisso – Jas diz. – A micotoxina te entregou.
– Eu não estava tentando esconder.
– Vorlag não nos interessa – Norra intervém. A captura de Gedde, só para vê-
lo morrer aos cuidados deles, graças a um veneno de ação lenta escondido em
sua especiaria, parece ter sido uma vida atrás. Tanta coisa mudou desde então. –
Estamos interessados em Sloane. Grã-almirante do Império Galáctico e agora em
algum lugar por aí. No vento. Nas estrelas.
– Não conheço nenhuma “Sloane” – ele diz, mas o modo como o canto da
boca se curva para cima, como se estivesse no gancho de um pescador, é
revelador. – Sinto muito.
Sinjir lança um olhar para Norra.
Norra dá um aceno a Sinjir.
Com isso, Jas se afasta e Sinjir formalmente assume a posição dela diante de
Mercurial Swift pendurado. O ex-imperial estala a língua enquanto começa a
trabalhar em Swift.
– Se eu perguntasse qual é a parte mais importante do seu corpo, você diria,
como o narcisista alimentado pelo ego que é...
– Minha mente – Swift responde.
– Sua mente – Sinjir diz, ao mesmo tempo que Swift. – Sim. Então eu
reviraria os olhos, como estou fazendo agora. Veja só, estou revirando os olhos.
– De fato ele os revira. – Eu diria não, não, tolinho, preciso da sua mente
aguçada, perfeitamente consciente do que está prestes a ser feito e do que está
acontecendo enquanto acontece. Eu observaria que o que é precioso para você
são suas mãos. Suas mãos rápidas, girando aqueles bastões engenhosos como um
homem do circo de Nal Hutta, e eu observaria que a mão tem muitos ossinhos,
nenhum tão forte quanto seus bastões, e que seria terrivelmente fácil quebrar
cada um deles, um depois do outro, como se eu estivesse tocando os acordes de
um melodium. E você faria uma bravata...
– Quebre minhas mãos – Swift rosna. – Vá em frente. Pode cortá-las, não me
importo. Eu posso comprar substitutas. Mãos de metal iriam...
– Ajudar no seu trabalho, sim. Eu sei. E quão certo você está! Quebrar os
ossos da sua mão é pensar pequeno. Quebrar todo o seu corpo é! É interrogação
de amador, na verdade. Ah. Então é hora de ir mais fundo. Ser mais ambicioso.
Esquecer a carne e os ossos e o sangue. Bem. Espere um momento. Sangue. Isso
é interessante. – Ele se inclina, praticamente nariz a nariz com o caçador de
recompensas. Swift se debate. Norra quer alertar Sinjir para tomar cuidado, mas
ele é como uma serpente hipnotizadora. Mercurial não vai fazer nada. Não por
enquanto. Não agora. Ele está absorto. O mistério da ameaça a ser revelada foi
colocado ao redor do pescoço dele como uma coleira, puxando-o para a frente. –
Seu nome, seu verdadeiro nome, não é Mercurial Swift. Não é, Geb? Geb Teldar.
Certo?
Há um estremecimento enquanto Mercurial recua do nome como uma mosca.
– Não conheço esse nome – diz. Mas ele o conhece. Até Norra pode ver isso.
– Não é tão estiloso quanto “Mercurial Swift” – Sinjir diz, fazendo um
biquinho. – Quer dizer, Geb Teldar. – Para dizer as palavras seguintes, deixa a
voz mais profunda, achata os lábios e faz seu sotaque parecer comum e
simplório. – Oi, meu nome é Geb Teldar. Sou um instalador de canos de Avast.
Sou Geb Teldar, limpador de estábulos de fathiers. Sou Geb Teldar, esfregador
de droides extraordinário. É bem... blé, não é?
– Vá pro inferno.
– O negócio é o seguinte, Geb. Uma vez que a gente descobriu seu nome
verdadeiro, foi fácil descobrir outras coisas também. Você é de Corellia, não é?
Swift – ou melhor, Teldar – não diz nada. Seus olhos brilham com o que Norra
acredita que pode muito bem ser medo.
Na palma de Sinjir, há um disco plano – um holoprojetor. Ele bate no lado e
uma única imagem aparece acima dele: uma casa confortável no estilo vreniano,
quadrada e fechada, mas com flores trepadeiras nos cantos e uma cerca de
traquito forjado ao redor. A porta é alta e estreita, e ao lado dela há um droide
familiar para a maioria dos presentes.
A bochecha de Mercurial tem um espasmo.
– Isso é...
– Um droide de combate tipo B1 – Sinjir completa –, sim, exatamente. Tenho
certeza de que ele teve uma designação adequada em algum momento, mas nós o
chamamos de Senhor Ossudo, em parte porque ele é muito bom em puxar os
ossos pra fora do corpo das pessoas. Ah. Talvez você estivesse fazendo uma
outra pergunta, e a resposta para ela é: sim, Geb Teldar, esta é a casa de Tabba
Teldar, e se eu li as informações corretamente, ela é... sua mãe?
O rosto do caçador de recompensas capturado se retorce como uma fruta
espremida. Ele expõe os dentes em uma careta feral e sibila:
– Como a encontrou?
– Foi difícil – Norra intervém. – Mas menos do que você imagina. Você é
arrogante, e as pessoas não gostam de você. Só foi preciso um segurança em um
clube imundo dizer que ouviu que você às vezes manda uma infusão de créditos
para alguém que mora na Cidade de Coronet. Cruzamos com a base de dados
crescente da Nova República, que agora está conectada aos registros das forças
de segurança da cidade. E assim Tabba Teldar foi revelada para nós. O que foi o
suficiente.
– Vocês são da Nova República – Swift diz, presunçoso de repente. Ele se
encolhe quando os braços pesam acima da cabeça. – Não fariam nada com ela.
Vocês têm um código. Têm que seguir a lei.
Sinjir olha para Jas, e os dois irrompem em gargalhadas. Norra não ri, porque
não está no clima, nem mesmo para esse humor fingido. Mas eles vendem a
farsa, e Sinjir – que parou de rir e está enxugando lágrimas de hilaridade dos
olhos – diz, com uma seriedade súbita e urgente:
– Tudo isto está debaixo dos panos, meu amigo Gebbo. A NR nem sabe que
estamos aqui. Somos como um torpedo de prótons sem direção, só disparando
através do espaço, totalmente rebeldes. Jas, como você sabe, é uma caçadora de
recompensas. Quanto a mim... ah, meu nome é Sinjir, aliás, Sinjir Rath Velus. Eu
já fui um agente de lealdade imperial, o que quer dizer que assegurava e testava
a lealdade dos meus colegas de camisa cinza de qualquer forma que fosse
motivadora para eles e para mim.
– Não seguimos nenhuma lei exceto a nossa – Jas diz.
Mercurial engole em seco.
– Não a machuquem.
– Não vamos – Norra interrompe –, contanto que você nos dê o que queremos.
A barragem da determinação dele racha, estremece, então se rompe, e as
palavras saem numa torrente, rápidas e desesperadas – sem a aparência de ego e
arrogância, sem a autoconfiança exagerada.
– Eu não falo com Sloane há meses. A última vez foi só uma transmissão. Ela
estava procurando uma nave em Quantxi. A Imperialis. As coordenadas naquela
nave estavam ligadas a um, hã, um oficial do Império, um almirante do alto
escalão chamado Rax. Gallius Rax. Ela queria saber as coordenadas, de onde ele
era, de qual sistema, qual planeta.
Sinjir agarra e aperta a mandíbula do homem.
– Então nos diga, qual planeta?
– Jakku.
Os três se entreolham. Na expressão deles: confusão. Norra nunca ouviu falar
do lugar. Não que ela seja uma cartógrafa galáctica – lá na escuridão há milhares
de sistemas e milhares de planetas. Swift fornece mais informações:
– Fica nas Extensões Ocidentais. Não sei mais que isso porque nunca tive
motivo pra me importar.
– Ela foi pra lá? – Norra pergunta.
– Eu... acho que sim. Não sei.
– Tem mais – Sinjir rosna. – Posso ver na sua cara. Tem algo que você não
está contando, Gebbizinho. Não me faça chamar nosso droide.
– Sloane não estava sozinha – Swift diz.
– Conte mais.
– Ela estava... ferida, e numa nave, acho que algum tipo de cruzador
chandrilano roubado. Havia um homem com ela. Não peguei o nome dele. Mal
consegui vê-lo.
– Imperial? – Sinjir pergunta.
– Juro que não sei.
Norra para Sinjir:
– Acredita nele?
– Sim.
– Então acabamos aqui. Vou chamar Temmin. – O Wexley mais jovem, o filho
dela, está orbitando Taris, pilotando a Mariposa com seu guarda-costas, o droide
de combate B1 Senhor Ossudo.
– Podemos levar Swift de volta a Chandrila – Jas oferece. – Ele já trabalhou
pro Império. Talvez saiba mais do que nós sabemos perguntar.
– Não, não temos tempo pra isso – Norra diz.
– Não temos tempo? Vamos naquela direção de qualquer jeit...
– Não. Nós vamos para Jakku imediatamente.
Jas faz uma careta.
– Não estamos preparados para o que quer que exista lá. Nem sabemos onde
lá fica. Norra, precisamos de tempo para planejar isso...
– Não! – ela rosna. – Chega de planejamento. Não temos tempo. Já
desperdiçamos demais nesse aqui. – Ela enfia um dedo no esterno de Swift para
dar ênfase. – E não vou desperdiçar mais. Nem sabemos se Sloane ainda está em
Jakku, então precisamos seguir qualquer rastro que exista antes que fique frio e
não consigamos mais encontrar.
– Está bem – Jas diz, a voz tensa. A voz na mente de Norra apresenta um
aviso: Vá com calma, Norra. Jas pode ter razão e, mesmo que não tenha, você
não precisa rosnar ordens pra ela. Você não é assim. Mas o corpo inteiro dela
parece um fio elétrico, como se ela não pudesse controlá-lo ou contê-lo. Jas
pergunta: – O que fazemos com Swift, então? Eu posso... despachá-lo.
– Emari – Swift implora –, não há recompensa, não há vantagem em me
matar, simplesmente não vale a pena...
Norra vê sua oportunidade. Ela puxa um dos bastões de Swift da mão de Jas e
o gira. Deslizando o dedão rapidamente, ela liga a ponta elétrica de
atordoamento: o bastão estala com estática e uma faísca elementar azul dança
entre duas pontas.
Ela o espeta em uma das laterais do corpo de Swift.
Ele emite um som engasgado enquanto a eletricidade o assola. Então sua
cabeça cai, o queixo pendendo para o peito. Um gemido longo e sonolento
emerge do fundo da sua garganta.
– Pronto – Norra diz. – Vamos.

A manhã chega em Taris, e, com ela, Mercurial retorna à vida ao mesmo


tempo que a maior parte do planeta – seus catadores e pulacaudas e suas nuvens
de moscas-de-água – volta a se esconder da luz ofuscante do dia.
O caçador de recompensas espera um pouco e por fim dobra o corpo para
cima para que as pernas envolvam o cano casado às mãos algemadas. Ele fica
pendurado lá, então sacode o corpo, batendo-o para baixo sem parar até que o
plastocreto no outro extremo racha e se solta, fazendo o cano cair – e ele cair
junto.
Com os músculos doloridos, Mercurial se liberta do cano. Ele convoca a
memória de seu corpo em uma vida diferente, como um jovem dançarino em
uma trupe corelliana, e salta de costas acima do círculo dos pulsos algemados.
Ele tenta encontrar seus bastões – uma das pontas concussivas vai romper
rapidinho aquelas algemas magnéticas –, mas Emari deve tê-los levado.
Que seja. Ele vai voltar para a nave e usar os cortadores lá. Mas, antes que
isso aconteça, ele estende o dedão, abrindo um canal de comunicação para fazer
uma ligação para a subchefe Rynscar do Sol Negro. O rosto que aparece é o
rosto real da mulher, aquele que Rynscar esconde por trás daquela máscara de
demônio enferrujada. Seu rosto real é pálido, com olhos escuros. Os lábios estão
pintados na cor de esmeraldas sujas.
Ela faz uma careta.
– Que foi, Swift?
– Jas Emari.
– Você diz o nome como se fosse uma chave destrancando uma porta. Que
tem ela?
– É verdade que há uma recompensa por ela?
Rynscar ergue uma sobrancelha.
– É verdade.
– O que ela fez?
– Ela não fez nada, o que é o maior problema. Ela tem dívidas. Mais agora do
que quando começou, considerando Nar Shaddaa.
– Gyuti quer a cabeça dela? – Mercurial pergunta.
– Sim.
– E vai pagar bem por ela?
– Vai. Cinquenta mil créditos.
– Eu não quero créditos.
Ela hesita.
– Você está dizendo que tem Emari?
Ainda não.
– Vou ter.
– Digamos que consiga. O que quer em troca?
Ele sorriu. É um sorrisinho convencido e torto.
– Uma caixa de cristais nova.
– Uma dúzia – ela rebate.
– Duas vezes isso. – Quando ela não responde, ele diz: – Conheço Gyuti e sei
que pra ele isso é pessoal. Queima saber que ela continua escapando da coleira.
Pega mal na frente dos Hutts e de todo mundo. Sei pra onde ela vai, então vou
pegá-la, mas preciso de dinheiro de verdade.
– Por que tanto?
As palavras de Dengar ecoam de novo: Temos que nos unir. Formar um
sindicato propriamente dito.
– Preciso de um time pra fazer isso.
Finalmente, ela diz:
– Então pegue Emari.
– Vou ganhar meus cristais?
– Vai ganhar seus cristais.
Mercurial termina a ligação e gargalha. Hora de receber, porque ele sabe para
onde Jas Emari está indo.
As terras mortas, longínquas e varridas de areia de Jakku.
Capítulo
2

Leia se assusta com as batidas furiosas na porta, batendo o joelho na mesa


sobre a qual um mapa estelar cintilante está projetado. O mapa oscila, e quando a
voz atravessa a porta – “Leia! Leia!” – ela se ergue com dificuldade, quase
esquecendo o tremendo peso vivo envolvendo seu torso. A criança dentro dela
chuta e rola enquanto ela tenta se erguer. Calma, meu anjo. Você vai estar livre
em breve.
– Madame – diz o droide protocolar dela, T-2LC. – Parece que há alguém à
porta.
– Sim, estou ouvindo, Elsie. – Ela estremece ao se levantar do sofá. Aquele
sofá deveria ser confortável, mas só o que faz é devorá-la como um sarlacc. – É
só Han.
– Ele está em perigo, madame? Parece que está em perigo. Devo abrir a porta?
Não quero deixar o perigo entrar, mas...
– Leia, diabos, a porta – Han diz do outro lado. A voz dele é seguida
rapidamente por mais baques e batidas. Ele está chutando a porta, ela percebe.
– Estou chegando! – ela grita. Ao droide, ela diz: – Eu abro.
– Mas sua condição, madame...
– Não estou morrendo, estou grávida – ela retruca, então abre a porta. Han não
perde tempo e praticamente cai pela abertura, o braço envolvendo uma bolsa
encaroçada e disforme de alguma coisa.
– Já não era sem tempo – ele diz com um sorrisinho enquanto recupera o
equilíbrio e passa por ela, dando um beijo rápido na bochecha de Leia no
caminho.
– Você não ouviu – ela diz, lançando um olhar seco para T-2LC – que eu
tenho uma condição?
– Elsie, eu já te disse, Leia não tem nenhuma droga de condição. – Então,
mais sério e num tom mais baixo, ele diz a ela: – Mas você tem que reduzir o
ritmo um pouquinho. – Ele aponta para o mapa estelar. – Por exemplo.
– Estou em comando do meu próprio corpo, muito obrigada.
– Diga isso ao bandidinho – ele diz, soltando o saco de alguma coisa no
balcão na cozinha. O bandidinho é como ele vem chamando a criança que
atualmente se debate dentro da barriga dela.
– Você quer dizer o anjinho. – Ela o segue até a cozinha, e os ganidos dos
servomotores de T-2LC atrás dela indicam que ele a está seguindo de perto,
porque alguém (Han) disse ao androide para ficar próximo caso ela caia. Não
importa o fato de que o droide fica tão perto dela que Leia quase tropeçou nos
pés de metal dele meia dúzia de vezes. – O que você trouxe?
Han pisca e enfia a mão na sacola, puxando-a de volta ao redor de uma fruta
jogan.
– Olhe. – Ele aperta a fruta de um jeito lascivo.
Ela suspira, desanimada.
– Isso é... uma sacola inteira de fruta jogan?
– É. Por quê?
– Eu nunca vou conseguir comer toda essa fruta jogan.
– Claro que vai.
– Deixe-me reformular: eu não quero comer toda essa fruta jogan.
– É bom pra você.
– Não tão bom.
– Os médicos...
– O dr. Kalonia disse para incorporar fruta jogan na minha dieta, não substituir
tudo por fruta jogan.
Ele vai até ela e segura seu rosto com as mãos calosas. Acaricia a bochecha
dela gentilmente.
– Tudo bem, tudo bem. Só estou tentando fazer o melhor para vocês dois.
– Eu sei, Han.
– Se eu achar que posso ajudar, vou sempre ajudar. Com o que quer que você
ou nosso filho precise. Sabe disso, não sabe?
Ela ri.
– Eu sei.
Tem sido duro para Han. Ele não vai admitir, mas ela vê a verdade em seu
rosto. O marido precisa de algo para fazer. Ele está entediado. Chewbacca voltou
para casa, procurando a família. Luke está esquadrinhando a galáxia em busca de
antigos ensinamentos Jedi. Han Solo não tem nada para contrabandear, nenhum
lugar onde fazer apostas, nenhuma Rebelião tola pela qual lutar.
Ele é como a Falcon: aposentada num hangar em algum canto, esperando que
alguma coisa, qualquer coisa, aconteça.
Então ele compra fruta.
Muita e muita fruta.
E, claro, se preocupa com Leia. Ele a vira em direção à mesa e ao mapa
estelar.
– Você não está pensando nisso ainda, está?
– Quê?
– Leia, Kashyyyk foi um golpe de sorte.
– Sempre tenho sorte com você ao meu lado, canalha.
Ele balança a cabeça.
– Você está brincando, mas isso é loucura.
– Não é loucura – ela diz, irritada de repente. – O que fizemos em Kashyyyk
foi a coisa certa, e você sabe. Se pudéssemos formalizar esse processo, almejar
outros planetas que o Senado é covarde demais para libertar, então talvez
possamos, com a sanção não oficial da nossa chanceler amigável, encontrar um
jeito de fazer a coisa certa por esses planetas. O que significa não só salvar
sistemas inteiros, mas que esses sistemas podem vir para o nosso lado e se unir
às vozes aqui na Nova República.
Ele suspira.
– Não sei. Não tem outra pessoa que possa lidar com isso? Só por enquanto...
– Olhe – ela diz, indo até o mapa estelar. – Tatooine. Kerev Doi. Demesel.
Horuz. Todos planetas ainda escravizados por algum resquício do Império ou
sindicatos ou gangues criminosas. Rebeliões funcionam, nós já vimos isso. Já
ajudamos a fazer acontecer.
– Você sabe que Mon não vai concordar com isso.
– Ela já concordou. De certa forma.
Depois do ataque em Chandrila, a Nova República ficou aturdida. Os
sussurros já se erguiam: A Nova República não consegue nem se proteger, como
vai proteger a nós? As acusações já estavam apontadas contra a cabeça de Mon
Mothma como fuzis: Ela é fraca em presença militar e agora está ferida, pode
mesmo nos liderar? Leia e Han voltaram trazendo uma vitória muito necessária
– embora ilegal e inesperada – para a Nova República em um momento em que
eles precisavam muito disso. Sim, Chandrila foi atacado. Mas eles salvaram
Kashyyyk. Afugentaram o Império e libertaram os Wookiees. Era uma vitória. E
impedia o Senado de sangrar senadores leais.
Ela começa a dizer:
– Se pudéssemos ajudar os rebeldes em cada um desses planet...
– Madame – T-2LC interrompe, literalmente enfiando a cabeça de droide
protocolar cobre brilhante na frente dela. – Uma ligação para você.
– Vou atender aqui. – Ela se acomoda de volta no sofá, então tira o mapa
estelar do projetor com um gesto. Uma nova imagem o substitui: o rosto de
Norra Wexley. Ex-piloto da Rebelião e recentemente a líder de um time de
“caçadores imperiais” que vão atrás dos muitos criminosos de guerra do Império
que se esconderam em cantos diversos da galáxia. Ela havia ajudado Leia em
uma função diferente, encontrando seu marido perdido e ajudando Han a libertar
Chewbacca e seu planeta do Império. Mas agora? Norra está lá fora procurando
pela presa mais elusiva: a grã-almirante Rae Sloane.
Sloane é um mistério – como uma semente que Leia não consegue tirar do
meio dos dentes. Primeiro, a autoproclamada grã-almirante admitiu que era de
fato “o Operador”, um informante confidencial de alto nível que tinha ajudado a
Nova República a vencer batalhas vitais contra o Império em ruínas. Então
Sloane se ofereceu para negociar a paz, pedindo para ir a Chandrila com esse
propósito. Enquanto estava presente, aqueles prisioneiros libertados da nave
prisional que tinha mantido Chewbacca se voltaram contra a Nova República,
assassinando várias figuras de alto escalão e ferindo muitas outras. A lista de
mortos é longa demais. Senadores, diplomatas, conselheiros, generais,
almirantes.
Será que eu estava na lista de alvos?, Leia ainda se pergunta. Se uma
reviravolta do destino – Han correndo para salvar um planeta inteiro
completamente sozinho – não a tivesse colocado no caminho que tomou, ela
teria estado naquele palco no Dia da Libertação?
Não havia como saber. A lista de alvos permanecia embutida em chips de
controle minúsculos plantados no tronco encefálico de cada prisioneiro
retornado. Era fácil demais perdê-la num escaneamento geral, e a hipótese era
muito sinistra para sequer considerá-la até que fosse tarde demais. Quando eles
descobriram os chips – semanas depois do Dia da Libertação, quando o sangue
já tinha sido tirado das pedras da praça –, já tinham se quebrado, parado de
funcionar em algum tipo de degradação planejada. O próprio slicer a serviço de
Leia, Conder Kyl, não conseguira encontrar nada. E, se Conder não consegue
encontrar, então não há nada para encontrar.
A questão é: Sloane escapou de Chandrila. Um ato que coincidiu com a queda
do Império. Exceto por alguns remanescentes, o inimigo ficou em silêncio.
Isso perturba Leia consideravelmente.
– Norra – Leia diz. Ela tem uma dívida com a mulher. O próprio marido de
Norra foi um dos assassinos, e Leia tenta imaginar o que isso deve fazer ao
coração e à mente de uma pessoa. Mais ainda, o que deve fazer ao coração e à
mente de uma esposa e mãe. (Leia tem pensado muito na maternidade nos
últimos tempos, o que não surpreende. Tudo que Norra suportou pela Rebelião e
pela família é tão admirável quanto penoso. Leia poderia fazer o mesmo?
Poderia andar naquela linha? Então surge uma questão perturbadora, a que ela
quase teme responder: onde está sua verdadeira lealdade? Ela tem uma família
para criar, mas uma galáxia para ajudar a liderar...) – Me dê boas notícias, por
favor.
– Encontramos Swift.
– O caçador de recompensas. Ele disse algo?
– Sim. Disse que Sloane foi para um planeta nas Extensões Ocidentais
chamado Jakku. Sabe alguma coisa sobre ele?
Leia não sabe. Ela olha para Han, que pigarreia e acena para o holograma.
– Ei, Norra. Jakku, hein? Conheço. Estive lá uns anos atrás. Sabe, o de
sempre: levando coisas ruins para pessoas ruins. Não existe nada lá.
Mineradores, catadores, mercadores de poeira. Eles têm uma religião meio
dramática lá no sul, e as Corridas de Roda no norte. Fora isso... sério, é um
terreno baldio. Faz Tatooine parecer um lugar animado.
– Por que Sloane iria pra lá? – Leia pergunta.
– Não faço ideia – Han diz. – Talvez esteja tentando fugir, se esconder.
Ninguém a procuraria em Jakku.
Norra diz:
– Swift pensou que tivesse algo a ver com outro imperial. Um tal de Gallius
Rax.
O nome não é familiar a Leia, e ela diz isso. Alguma coisa sobre essa história
parece errada. Uma sensação ansiosa penetra profundamente na pele dela.
– Norra, volte pra casa. Talvez seja hora de apresentarmos isso à chanceler...
– Com todo o respeito – Norra diz –, eu gostaria de vasculhar o planeta
primeiro. O tempo está escorrendo pelas nossas mãos, e eu preferiria não o
perder mais. Depois do que aconteceu em Chandrila, precisamos relatar à
chanceler mais do que só a palavra de um caçador de recompensas. Pelo menos
deixe que a gente dê uma olhada, pra ver se conseguimos descobrir... alguma
coisa.
Leia olha para Han. Ele contorce a boca num sorriso torto.
– Ei, não olhe pra mim. Você sabe o que eu faria.
– Sim, correria como um louco diretamente para o perigo.
Ele dá de ombros.
– Uma aposta segura.
Mais um motivo para afastar Norra desse rumo. Qualquer plano cujo melhor
aval é a aprovação de Han Solo é problema. Mesmo assim, Norra não é Han. Ela
é mais esperta. Não é?
– Vá – ela diz, por fim. – Veja o que consegue encontrar e teremos algo para
apresentar a Mon.
– Como está a chanceler? E seus ferimentos?
– Sararam, aparentemente. – Embora ferimentos muito mais profundos
permanecessem: ferimentos no espírito e na carreira da mulher. – Ela está bem,
vou contar que você perguntou. E, uma hora, poderemos contar a ela o que
estamos fazendo.
– Obrigada, Leia. Agradeço sua ajuda nisso tudo.
– É você que está me ajudando, Norra. Ajudando a mim e a toda a galáxia se
conseguir farejar o rastro de Sloane. Só tome cuidado. Se vir o Império, não o
confronte. Entendido?
– Perfeitamente – Norra diz. – Vejo você em breve.
Então ela some.
Capítulo
3

A Mariposa paira sobre Taris.


Sinjir Rath Velus e suas longas pernas sentam-se na cama mais baixa do
beliche dos fundos, virando o cabo de uma vibrofaca entre os dedos, acima dos
nós, de uma mão para a outra. Para a frente e para trás, a lâmina dança. Ao redor
dele, a nave está viva, com muita atividade: Norra está falando com Leia,
atualizando-a sobre o progresso deles (“Encontramos Swift”); Jas vai de um
cômodo a outro, procurando seu cinto de munição (“Juro que, se esse droide o
perdeu, vou transformar ele em munição”); Temmin está assombrando os
corredores, reclamando de novo que a mãe o mantém na nave e longe do perigo
(“Sou praticamente um adulto agora, sabe, e sei cuidar de mim mesmo”); Senhor
Ossudo está batendo as mãos e rodopiando pela nave, cantarolando uma canção
em huttês:

LA YAMA BEESTOO, LA YAMA BEESTOO


CHEESKAR GOO, CHEESKAR GOO
WOMPITY DU WERMO, WOMPITY DU WERMO
MI KELLIE, MI KILLIE...

Sinjir permanece sentado e em silêncio. O cabo da faca rola e vira. Às vezes


ele olha para baixo e vê sangue nas mãos. Sangue de verdade, fresco: a ponta
dos dedos está úmida e pegajosa. Ele pensa: Eu me cortei. A lâmina saiu e estou
ferido. Então o sangue some de novo. Uma ilusão. Um sonho. Real, até que não
seja mais.
Por fim, Jas passa pelo quartinho com o cinto de munição jogado sobre o
ombro. Em seguida dá meia-volta, marcha até Sinjir e diz:
– Estava na cozinha. Por que estava na cozinha?
Ele não tem resposta, então dá de ombros, a lâmina ainda dançando.
Ela estreita os olhos.
– Qual é o seu problema?
– Não tenho problemas. Sou um homem imperturbado por conflitos.
– Claro, e eu sou uma lesma Hutt.
– Você é nojenta, mas não tão nojenta.
Ela o chuta no joelho. De leve.
– Ai.
– Não, sério, por que você está com defeito?
– Em primeiro lugar, não tenho nada para beber.
Ela senta ao lado dele.
– Achei que você tinha parado de beber.
– Dificilmente. Eu parei de beber rum kowakiano, porque, mesmo que tenha o
gosto do brilho doce e meloso de pura poeira estelar líquida, ele causa o tipo de
ressaca que faz você se sentir seduzido por um rancor irascível. É o tipo de
ressaca que te faz implorar pela morte enquanto se esconde na escuridão
embaixo das cobertas ou até embaixo da própria cama. Nada de rum kowakiano
pra mim. – Ele funga. – Todo o resto está valendo.
– Você está fazendo aquela coisa de novo.
– Que coisa?
– Aquela coisa de usar zombaria, sarcasmo e escárnio para defletir uma
pergunta sincera.
– Ah, aquela coisa. É uma coisa muito boa.
– Eu não vou te forçar. Se não quer me contar o que está acontecendo com
você, não vou me introme...
– Takask wallask ti dan – ele diz. – Você se lembra de me falar essa frase em
Kashyyyk, depois que terminarmos o serviço?
– Eu não falei simplesmente. Eu te chamei disso. Um homem sem uma estrela.
Ele finalmente para de rolar a lâmina nas mãos e se inclina para a frente,
esfregando os olhos.
– Sinto que você estava errada.
– Não estou errada com frequência, então explique pra mim.
Ele se vira para ela.
– Esta é a minha estrela. Não esta nave, mas esta vida. Uma vida em que eu
ameaço pessoas e as obrigo a fazer coisas. Eu digo a elas que vou quebrar suas
mãos, matar sua mãe, destruir tudo o que elas amam. Eu sei como encontrar
fraquezas. Sei como explorá-las. E... – A voz dele vai morrendo, e ele quase não
consegue pronunciar a parte seguinte. – E acho que eu gosto disso.
– Se gostasse, não estaria me dizendo isso.
– Talvez.
– Além disso, você poderia ter escolhido de fato machucar Swift. Eu não teria
te impedido. Mas você não fez isso. Conseguiu o que queria com palavras, não
violência.
– Palavras podem ser violência.
Jas dá de ombros.
– Sinjir, você precisa pensar menos. Esse seu cérebro é só problemas.
– Agora você sabe por que eu bebo.
– Você está pronto para o que há em Jakku? – ela pergunta, mudando de
assunto. Ele sabe que aquele tópico a incomoda. Jas não gosta de autorreflexão
em si mesma ou nos outros. Ela não é só uma mulher com uma estrela: ele
suspeita que ela seja a própria estrela. Implacável, servindo a si mesma, sem
qualquer interesse em debater certo ou errado. Ela não orbita ninguém; os outros
orbitam ela.
Ele vai na dela, deixando a corrente do rio conversacional levá-lo aonde ela
quer ir.
– Se eu ouvi a conversa direito, parece que não há muita coisa em Jakku.
– Não é Jakku. Estou preocupada com Norra.
– Norra vai ficar bem.
– Ela está no limite.
– Quem não está?
Jas insiste:
– Ela está se tornando como eu.
– Ninguém poderia se tornar como você, coração. Além disso, notei que era
você aconselhando cautela lá embaixo.
– Alguém tem que ser uma voz de sanidade, e eu me escolhi. Norra está se
forçando demais. Não física, mas emocionalmente. O marido dela está perdido
outra vez, nosso alvo é uma grã-almirante que ela não conseguiu despachar
acima de Akiva, o filho dela está aqui e teoricamente em perigo... Ela está sendo
impelida por culpa e raiva. Acha que tudo isso é culpa dela. – Jas mordisca o
lábio inferior com tanta força que Sinjir se surpreende que não tire sangue. – Eu
só me preocupo.
Ele dá de ombros e suspira.
– Veja, você é uma boa pessoa porque se preocupa com os outros. E eu sou
uma boa pessoa porque não machuquei Geb Teldar. E Norra é uma boa mãe e
Temmin é um bom filho e Senhor Ossudo é um bom droide assassino; somos
todos boas pessoas fazendo uma coisa boa e vamos só calar a boca e fazê-lo, que
tal?
– Você está sendo sarcástico, mas isso é bem sensato. – Ela dá um tapinha no
joelho dele. – É capaz que você tenha razão sobre tudo isso.
– Como você, eu raramente estou errado, Jas Emari.
– Vamos torcer para que Jakku não tenha surpresas para nós – ela diz,
erguendo-se.
– Ah, eu não contaria com isso. A galáxia parece gostar muito de nos
surpreender.

– Eu sei me cuidar – Temmin diz à mãe. Ele espera que ela termine de falar
com Leia, pelo menos, antes de apresentar sua objeção. Mas, no instante em que
desliga a ligação, ele pula sobre ela como uma armadilha. – Você sabe que eu
sei!
Norra, aparentemente assustada pela presença dele, olha para trás.
– O quê?
– Você sabe o quê. – Temmin se joga no assento do copiloto e se amarra. – E
mesmo assim você desceu no planeta sem mim. E mesmo assim de novo você
me deixou com Ossudo na nave. Começou em Kashyyyk e só piorou: Ord
Mantell, Corellia, Estação Jindau...
– Filho, não temos tempo para isso. – Os dedos de Norra se movem sobre os
controles enquanto ela digita as coordenadas para aquele planeta nas Extensões
Ocidentais: Jakku – onde quer que isso fique. Algum planeta empoeirado que ele
não vai ver porque de novo ela vai obrigá-lo a ficar na Mariposa. Ugh. – Alguém
precisa ficar na nave e garantir que esteja pronta para partir.
– Ossudo pode fazer isso. Deixa eu descer com vocês em Jakku.
– Não.
– Mãe...
– Eu disse não. – Ela olha duramente para ele. – Verificação de hiperespaço?
Ele revira os olhos e confere os dados.
– Tudo parece bom. – Ele admite para si mesmo que é uma olhada bem
rápida: navegação é muito chato. Pilotar que é divertido. O cargueiro MK-4 é
mais esguio que a maioria e tem uma tonelada de incrementos do mercado de
reposição que o mantém ágil – mas ainda não é nada comparado com a nave de
combate de Jas, a Halo. Ou melhor ainda: um X-wing. Ele sonha em pilotar um
desses.
Norra ativa o hiperdrive. As estrelas se alongam e o estômago dele se aperta
quando a nave dá um salto para a velocidade da luz. Eles ficam sentados por um
tempo, observando as linhas de estrelas passando. Por fim, Temmin olha para a
mãe, carrancudo.
– É isso que você sempre faz, não é? Isso é tão você.
– Ir para o hiperespaço? Do que você está falando?
– Você acha que tem que fazer tudo sozinha. É como quando se juntou à
Rebelião. Você me deixou pra sair numa cruzada para encontrar o papai.
– Não estamos procurando seu pai. – Ela fala as palavras baixo, tão baixo que
ele quase não ouve acima da vibração da nave. – Estamos fazendo outra coisa,
Tem.
– Eu sei, eu sei. Estamos procurando Sloane. Mas é por causa do papai, não é?
O que ele fez. O que ela fez. E você acha que ela vai te ajudar a encontrá-lo. O
que é ótimo! É esperto. Mas não me exclua. Eu quero estar envolvido. Quero
trabalhar com você nisso. Eu quero ajudar.
– EU AJUDO MUITO – Ossudo acrescenta atrás deles, passando com os pés
barulhentos e dançantes.
– Viu? A gente pode ajudar.
Ele sabe que isso é difícil para ela. Sabe que ela acorda de noite gritando o
nome dele ou do pai – pesadelos, ele imagina, embora ela não conte. Por causa
disso, às vezes ela prefere não dormir. É como se estivesse de vigília sobre o
painel de controle, como se em algum momento Brentin Wexley fosse
simplesmente aparecer nos comunicadores e dizer a eles que sente muito e que
tudo vai ficar bem. Nem foi culpa do pai. Disseram que ele tinha algo na cabeça
– um biochip de controle como aqueles nos Wookiees em Kashyyyk, mas mais
avançado. Esses chips não só preveniam comportamentos: eles os programavam.
Transformavam prisioneiros em assassinos. Pessoas boas em ruins.
– Eu estava lá também – ele diz baixinho. – Eu vi o que o papai fez. – Ele
pensa, mas não diz: Ele tentou se matar. Só depois de tentar matar Temmin. Na
verdade, se Temmin não tivesse intervindo, o pai teria dado cabo de si ali
mesmo. Isso era parte da programação? Ou era o pai resistindo a ela?
– Eu não posso te perder também – Norra diz.
– Você não vai me perder, tá bom? Me deixe ser parte disso.
– Eu... – ela começa a dizer, mas as palavras morrem em seus lábios. Em vez
disso, ela se endireita no assento e balança a cabeça um pouquinho. – É aqui.
Jakku. Surgindo do hiperespaço. Tudo pronto?
– Mãe...
– Agora não, Tem. Mais tarde. Está tudo certo?
– Tá bom. Sim. Tanto faz. Saindo do hiperespaço no marco três.
– Dois – ela diz.
– Um.
Eles saem do hiperespaço.
E é aí que tudo dá errado.
Capítulo
4

Assim que a Mariposa sai do hiperespaço, alarmes do sistema começam a


soar – a cabine se enche de uma luz vermelha pulsante e, enquanto as buzinas
bradam, as telas começam a ligar. Mas Norra não precisa das telas para ver o que
há lá fora. Não tem como não ver no que eles caíram.
Depois de Chandrila, o Império sumiu do mapa. Era como se um dia ele
existisse, e no próximo tivesse sumido.
Mas o Império não sumiu.
O Império veio para cá.
Não. O que é isso? Não pode ser...
O olhar dela se estende sobre o espaço acima do planeta desolado de Jakku.
Pairando lá estão uma dúzia de destróieres, talvez mais. Mais além, também está
a imensa ponta de um couraçado classe executor. Novos alarmes avisam que os
sistemas de armas imperiais estão girando para cima e mirando neles. Pior:
novas naves aparecem nos sensores da Mariposa.
Caças TIE. Um enxame deles, aproximando-se depressa.
Temmin está gritando com ela, Sinjir chama de dentro da nave para saber o
que está acontecendo, mas Norra não hesita. Ela está dançando num detonador e
nenhuma parte dela pode engatilhar a armadilha da indecisão.
Não há tempo para perguntas. Não há tempo para incerteza.
Instantaneamente, ela foca no painel da cabine, inserindo as coordenadas que
levarão a Mariposa e sua tripulação para Chandrila. Enquanto seus dedos
trabalham o mais rápido possível, ela rosna uma ordem para o filho:
– Mantenha-nos no ar, aponte a nave para longe. Hiperespaço em dois
minutos.
Então ela solta o cinto e sai da cadeira.
Ele grita atrás dela:
– Aonde você vai?
Mas ela não tem tempo para explicar.
E, de qualquer maneira, ele não gostaria da resposta.

Os TIE são rápidos. Eles disparam para a frente em formação de ninho, então
se separam ao redor da Mariposa – o cargueiro balança quando tiros de laser
pontilham os escudos frontais, e Temmin grita e empurra o manche o máximo
que consegue. A nave mergulha em direção ao planeta enquanto uma palavra
gira na cabeça dele sem parar: evadir, evadir, evadir.
Lampejos de laser pontuam a escuridão ao redor da MK-4; a espaçonave
treme como uma lata chutada enquanto Temmin dá um giro de parafuso, saindo
do mergulho e apontando tanto para longe do planeta como para longe da frota.
A Frota Imperial está aqui.
A. Droga. Da. Frota. Inteira.
Ele não está pronto para isso. De repente, seu desejo de estar no meio da ação
parece o pedido de uma criança – implorando para fazer parte da aventura,
depois descobrindo que ela é bem mais assustadora do que imaginava. Temmin
não quer ser um adulto, não quer crescer e com certeza não quer estar em uma
única nave pega no meio de todos os remanescentes do Império.
Alguém bate de encontro com as costas da cadeira. O grito alarmado de Sinjir
chega aos ouvidos dele:
– Que inferno está acontecendo? Onde estamos? Cadê a Norra?
– Eu não sei! – Temmin morde o interior da bochecha enquanto
desesperadamente tenta virar a nave para o espaço aberto, mas as naves
imperiais estão em todo canto. Tantas naves. Os caças TIE preenchem o vazio do
espaço. Destróieres estelares estão enfileirados como as presas afiadas da
mandíbula de um monstro se fechando. Os sensores começam a piscar mais
rápido, e na tela ele vê notícias piores: o superdestróier lá fora acabou de lançar
um trio de torpedos. Eu não consigo voar mais rápido que torpedos. Não sou tão
bom. Não estou pronto. Ele berra para Sinjir:
– Preciso de um artilheiro! Sente-se e comece a atirar!
Sinjir cai no assento do piloto como uma pilha desastrada de gravetos
quebrados. Ele encara os controles como se estivesse olhando um manual de
instruções escrito com marcas de garras de Wookiees.
– Eu não sei fazer isso!
– Junte-se ao clube! – Temmin grita pela mãe: – Mãe? Mãe! – Aonde ela foi?
O que está acontecendo?
Sobre a cabeça dele, uma luz se acende. Amarela, depois verde.
É um sinal.
Uma das cápsulas de fuga acabou de ser ativada.
Ah, não.
Ela está fazendo de novo.

Ali. O estalido e o retinir de alguém agarrando uma arma de uma das estantes
no corredor atingem os ouvidos de Jas. Ela se vira em direção ao som e vê Norra
passando. O fuzil de raios em mãos. A bolsa de couro sobre o ombro.
– O que está acontecendo? – Jas pergunta, no exato instante em que a nave é
atingida. Ela cambaleia até bater com força na parede. A dor explode em seu
ombro, mas ela ignora e corre atrás de Norra.
– O Império. Eles estão aqui.
– Quem? Sloane?
– Todos eles.
Norra bate a palma da mão em um botão de metal – então uma porta desliza e
abre com uma cortina de vapor. É uma das cápsulas de fuga.
– O que você está fazendo? Não vamos abandonar a nave. Vamos abandonar a
nave? Norra, esper...
Norra começa a se amarrar na cápsula.
– Mantenha-os a salvo. Especialmente Temmin. Estou deixando você
responsável por isso.
Norra está indo embora. Não é preciso ser um cientista para entender essa. O
fardo de tudo aquilo a pressionou tanto que a mulher quebrou. Agora ela quer
fazer isso inteiramente sozinha: um elemento rebelde. Como você, Jas.
Jas é capaz de lidar com essa vida. Mas a mesma vida vai matar Norra.
Assim que a porta da cápsula começa a fechar, Jas esmurra o botão e ela
reabre. A nave leva outro tiro forte de laser, fazendo Jas cambalear para dentro
da cápsula e cair sobre Norra. Um entrelaçamento de membros. Atrapalhando-
se, debatendo-se. Norra acotovela o torso dela.
– Saia daqui! – ela sibila no ouvido de Jas. – Volte para a nave! Isso é uma
ordem.
– Você não é minha mãe.
– Eu sou sua comandante! Ou algo assim!
Os dedos de Jas buscam os cintos de Norra, e ela furiosamente começa a abri-
los. O plano é arrastar Norra por qualquer parte do corpo que a caçadora de
recompensas consiga agarrar: pescoço, ouvidos, tornozelos, não importa.
O problema é que Norra é bem mais forte do que Jas imaginava. Ela é esguia
e durona; não é só uma piloto rechonchuda contente em ficar amarrada em um
assento de voo. Norra é dura como uma pedra e se enraíza na cápsula, dando
uma joelhada na barriga da outra mulher.
Norra cerra os dentes e Jas vê uma determinação sombria dominar os olhos da
mulher.
– Eu vou descer lá. Vou atrás de Sloane. Você pode sair dessa cápsula ou pode
ficar e ir comigo.
Para Jas, a escolha não é uma escolha. Nenhuma hesitação marca o momento.
Ela ergue a mão e aperta o botão vermelho à direita da porta.
– Estou com você, Norra.
As luzes diminuem. A porta começa a se fechar. A cápsula se liberta da
Mariposa e é arremessada no espaço, carregando as duas através do caos em
direção à superfície do planeta.

Ela está me deixando pra trás de novo, ela irá até lá sozinha e dessa vez vai
morrer. Temmin tenta se erguer do assento com urgência – ao mesmo tempo que
vê o computador hiperespacial furiosamente conjurando uma rota navegacional
um dígito de cada vez, e ao mesmo tempo que um trio de torpedos mira na
posição deles.
A luz sobre a cabeça dele fica vermelha.
A cápsula se foi.
Ela aparece nas miras – uma linha difusa e borrada. Só um ponto em uma tela
cheia de vermelho. Ele dá um grito sem palavras.
Sinjir rosna para ele:
– Senta! Estamos prestes a pular.
Desesperado, Temmin mexe no sistema de navegação hiperespacial e tenta
desligá-lo – mas está travado. Diabos, mãe. Ela fez isso de propósito, e ele não
sabe a senha para parar a cápsula. Espere. Ele tem uma nova ideia. Há uma
segunda cápsula. Se puder chegar lá rápido o bastante, se puder atravessar a
nave e lançar a...
Mas Sinjir não sabe pilotar essa nave. Ossudo também não.
Todas as células do corpo dele querem abandonar a nave e ir atrás da mãe.
Mas sua mente está clara e ele sabe como isso funciona: alguém tem que voltar
para Chandrila. Alguém tem que informar Leia de que o Império está aqui.
Temmin dá um soco no assento do piloto e cai de novo nele. Agarra o manche
com uma mão e traz a outra para a boca, gritando no comlink:
– Ossudo! Consegue chegar à segunda cápsula?
A voz distorcida do droide estala na transmissão.
– SIM, MESTRE TEMMIN.
– Vá. Agora. Vou nos dar um minuto – Temmin diz. Sinjir lança um olhar para
ele, mas Temmin continua falando com o droide pelo comunicador de pulso: –
Lance a cápsula e vá para Jakku. Encontre a mamãe! Proteja a mamãe. A
qualquer custo!
– ENTENDIDO. NINGUÉM VAI FERI-LA OU SERÁ CONVERTIDO EM
UMA BELA NÉVOA SANGRENTA.
– Vá!
Temmin cerra os dentes com tanta força que tem quase certeza de que eles
começaram a rachar. Ele traz o cargueiro para a frente e para trás enquanto seu
artilheiro ex-imperial perplexo atira em vão nos TIE que os perseguem. Novos
alarmes começam a soar, os sons vindo cada vez mais rápido, indicando que os
torpedos estão se aproximando – setas azuis crepitantes de energia maligna que
pretendem partir a Mariposa no meio. E talvez consigam, se eu não fizer umas
manobras elaboradas.
Ele olha para a luz acima da cabeça.
Ainda apagada. Ainda apagada...
Um dos torpedos os atinge, rugindo por trás. Temmin grita:
– Segure!
E dá um giro invertido brusco, erguendo a nave de volta em um loop de
revirar as entranhas. O torpedo passa por eles e varreduras mostram o projétil e
um dos TIE se apagando. Um torpedo se foi, mas outros dois estão chegando
depressa, e ele os vê espiralando através do espaço em direção à Mariposa.
Luzes azuis brilhantes perfuram a escuridão como os olhos de uma coisa
terrível e vingativa, faminta por morte.
Acima da cabeça dele, a luz fica amarela.
Então verde. Vamos, Ossudo, vamos...
Sinjir atira os canhões da Mariposa nos torpedos – errando todos os disparos.
O ex-imperial se encolhe e grita com uma frustração de estourar os tímpanos.
A luz fica vermelha.
Cápsula livre.
Temmin parte para o hiperespaço no instante em que os torpedos atingem o
ponto onde a Mariposa estava meio segundo atrás.
Capítulo
5

Um zumbido no fundo do crânio. Um leve bipe bipe bipe. Lampejos em um


fundo preto, lembranças como luz pulsante em uma sala escura: uma palma
pressionando um botão; um chacoalhar e uma pancada conforme a cápsula
desatraca do lado do cargueiro; uma sensação de falta de peso enquanto a coisa
fica à deriva...
Então, luz. Atmosfera. Calor. A cápsula balança como um brinquedo na mão
de uma criança irritada. Parece que tudo está se desmanchando. A escuridão fica
azul. A noite se torna dia. A falta de peso desaparece, roubada pela sensação de
cair – de despencar cada vez mais para baixo, baixo, baixo. Alguém grita. Um
cotovelo na garganta. Um joelho em uma axila.
Um soerguimento súbito dos jet repulsores – um movimento duro e um tranco.
O vump de um par de paraquedas.
Tarde demais. Rápido demais.
Bam.
Escuridão. Silêncio. As lembranças ameaçam esmagá-la.
Norra toma um fôlego brusco e tenta encontrar a tranca da porta – ela puxa a
alavanca para baixo, um mecanismo duro. A porta se solta e aterrissa na areia:
tum.
A luz refletida na superfície de Jakku é cegante. Tudo é queimado em uma
onda ardente de luz. A mão dela encontra rocha dura e areia escorregadia. Suas
entranhas estão subitamente sem amarras, e, um segundo depois, ela está
vomitando o pouco que comeu hoje.
Atrás dos olhos fechados, novas lembranças passam diante dela: os canos
emaranhados dentro da Estrela da Morte ressuscitada, a batalha acima de Akiva
enquanto persegue Sloane em um caça TIE roubado, o choque quando o marido
dela ergue uma arma de raios e mira na chanceler Mon Mothma...
Os olhos dela se abrem de novo. Encarando seu próprio vômito.
O mundo diante dela é o oposto de Akiva: morto e seco em vez de úmido e
pululando com vida. O único ponto em comum é o calor, mas aqui o calor é o
interior de um forno de barro. Está secando-a. Cozinhando-a numa bolha
crocante. Ela tosse. Ela grita. Ela pensa: Estou sozinha.
Espere. Não.
Sozinha não.
Jas!
Ela rola para se sentar e vê a cápsula pendendo torta em um monte de areia. A
porta está aberta e pende das dobradiças. Em pé ali, apoiada na entrada com
braços e pernas abertos, está Jas Emari. Um rastro de sangue escorre entre os
espinhos de cabeça dela, seu lábio está partido, e sua boca aberta mostra dentes
úmidos com manchas de sangue.
Norra começa a dizer alguma coisa – um cumprimento balbuciado, algum
comentário ofegante sobre como ela está feliz por Jas estar bem – mas a
caçadora de recompensas só tem uma resposta, que é erguer Norra da areia e
jogá-la contra a cápsula. Tão forte que Norra vê estrelas. Tão forte que a cápsula
balança no eixo, borrifando uma nuvem de poeira e seixos.
– Por quê? – Jas pergunta. Sua voz está rouca e arranhada como se tivesse
sido atropelada por uma rocha áspera.
– Estávamos sob ataque... o Império... não havia tempo.
– Não havia tempo – Jas repete as palavras. Ela as diz de novo e de novo, e a
cada vez a frase se dissolve mais numa gargalhada desvairada. – Não havia
tempo. Não havia tempo! Você fica repetindo essas palavras, Norra Wexley.
Como um pássaro-mímico, não havia tempo, não havia tempo, raaaaawk, não
havia tempo. Eu também não tive tempo. Não tive tempo de pegar minhas armas
de fogo. Ou meus quadnóculos. Ou uma droga de barra de procarb! Só tive
tempo de cair numa cápsula de fuga com você e mergulhar neste planeta. Neste
planeta! Um lugar morto sobre o qual não sabemos absolutamente nada. – O
punho dela recua e Jas soca a lateral da cápsula; o metal retine como um sino.
Então ela cai para a frente, a cabeça pressionada contra a cápsula e o queixo no
ombro de Norra.
A luta a abandonou. Norra a afasta.
– Eu não me arrependo – Norra diz.
– É claro que não.
– Mas sinto muito por você ter sido arrastada junto.
Jas suspira.
– Guarde suas desculpas meia-boca para quando eu estiver morta na areia
quente.
A voz de Norra vacila enquanto ela diz:
– O Dia da Libertação. Meu marido. Eu lutei com Sloane e... preciso fazer
isso.
– Tudo bem – Jas diz. – Então vamos fazer isso. Por onde começamos?
– Você está ferida. – Ela estende a mão até a amiga; depois de um toque
suave, os dedos saem cobertos de sangue. – A queda...
– Estou bem.
– A cápsula tem um kit de primeiros socorros. Eu posso...
Jas se afasta. Em sua voz há a censura de um filho para uma mãe, como
Temmin diria, quando ela afirma, severa:
– Eu estou bem.
A mente de Norra vai até Temmin. Espero que ele tenha escapado com
segurança... Esse pensamento é seguido por outro: Eu o abandonei de novo, não
abandonei?
Norra ergue a cabeça. Lá em cima, no amplo azul, ela vê as formas vagas dos
destróieres estelares pairando em órbita. Diáfanos, quase como se não
estivessem realmente lá. Alucinações. Ou uma frota fantasma vingativa, a
caminho de infligir sua vingança.
– Parece que encontramos o Império – Jas diz, lambendo sangue do lábio e
estremecendo com o gosto.
– Mas por quê? Por que aqui?
– Isso eu não sei. Escondendo-se, talvez. Estamos bem longe de qualquer
coisa que alguém consideraria civilização. Longe de quaisquer rotas de
comércio. Longe dos mundos conhecidos. Perto da beirada das Regiões
Desconhecidas. Talvez eles estejam aqui lambendo as feridas e torcendo para
que a Nova República não perceba.
– Eles vão perceber agora. – Se Temmin escapou, isto é...
– Qual é o plano, comandante? – Jas joga as mãos no alto. – Pergunto outra
vez: por onde começamos?
– Quê?
– Você veio pra cá pretendendo ficar sozinha, mas agora estou aqui também.
Você está no comando desta expediçãozinha. Tem um plano?
Norra suspira. Toda a raiva que sentiu, todo o pânico – o barulho diminuiu e
agora é um sussurro, e mais que tudo ela quer rastejar de volta para dentro da
cápsula e dormir. Por dias. Por semanas. Por todo o sempre.
– Eu não tenho um plano – ela confessa.
– Deixe-me adivinhar: não houve tempo de criar um?
Norra dá uma gargalhada sombria.
– É. Bem. Imagino que o Império vá começar a procurar por nós em breve.
Patrulhas TIE, provavelmente. – Norra esfrega os olhos com a base das mãos. –
Vamos coletar nosso equipamento. Então andar.
– Em alguma direção em particular?
– Só gire, aponte o dedo e nós seguimos por aí.
– Você que manda, chefe.
INTERLÚDIO
Kashyyyk

Aqui nas encostas do Monte Arayakyak, a Garra Cultivadora, as selvas já


serviram como um pomar da floresta, fornecendo aos Wookiees uma série de
frutas, das quais a shi-shok é a mais prezada por suas várias utilidades – a fruta
polposa é deliciosa e vital, com uma casca dura o suficiente para suportar
praticamente qualquer impacto; as videiras da árvore criam as amarras e cordas
de escalada mais fortes que existem.
Mas a criança que dispara através da selva agora não sabe essas coisas. Ele
não conhece a história do planeta, porque mal conhece a própria história. Ele não
sabe que essa floresta já foi exuberante e deu vida a seu povo. Tudo que sabe é
que agora é um lugar de cicatrizes e entalhes. Muitas árvores estão quebradas e
caídas umas contra as outras como lenha de acampamento. Outras estão
adoecidas das raízes para cima – um mofo negro venenoso as dominou,
apodrecendo-as e transformando suas frutas em vagens duras e murchas.
Lumpawaroo sabe pouquíssimas coisas. Ele sabe seu nome. Ele sabe que sua
mãe foi tirada dele. Ele sabe que seu pai foi embora há muito tempo. Ele sabe
que tem sido um escravo para os rrraugrah – os invasores imperiais sem pelo –
pela maior parte da vida. Mas ele sabe que, recentemente, alguma coisa mudou.
A canção ruim acabou. Todos os Wookiees tinham uma canção na cabeça,
uma canção de fogo e terror, uma canção como o som das asas vibrantes de um
enxame de moscas-de-sangue-drriw-tcha. A canção os obrigava a fazer coisas. A
canção gritava mais alto sempre que eles desafiavam os peles-de-leite. Quando
estava no ápice, a canção podia matá-los – Waroo se lembra de quando uma das
colegas escravas tentou escalar os muros do bunker de daubcreto, e a canção na
cabeça dela lhe causou tanta tristeza que seu pescoço se inclinou para trás até
quebrar.
Mas agora a canção acabou.
Os rrraugrah os prenderam. Eles trouxeram as antigas correntes e coleiras.
Agora eles forçam os Wookiees a trabalhar de novo com lanças de choque e
armas de raios, com gritos de raiva e ameaças sinistras. As coisas pioraram
desde que a canção morreu. Mas, ao mesmo tempo, também melhoraram.
Muitos dos invasores nesse assentamento fugiram. Outros redobraram os
esforços, ficaram loucos e se prenderam. Às vezes os peles-de-leite ficam atrás
das portas, gritando, quebrando coisas, chorando. Eles pararam de se limpar.
Eles se escondem. Até atacam uns aos outros, às vezes. E o tempo todo dizem
que estão esperando alguma coisa, alguém, qualquer um chegar. Eles pensam
que serão salvos. Que alguém vai aumentar suas forças, trazer mais comida,
ajudar a devolver a canção à cabeça dos Wookiees para controlá-los de novo.
Waroo temia que isso pudesse ser verdade, que alguém viesse, que a canção
fosse novamente cantada. Então observava. E esperava.
E logo a oportunidade se apresentou.
Um dos rrraugrah, vestindo um uniforme de oficial cinza imundo, começou a
fechar o portão-pylon. Era o comandante Dessard, um homenzinho ruim com um
tufo ensebado de cabelo negro. Waroo esperou até que Dessard tivesse quase
fechado o portão...
Então pulou até a abertura. Embora Waroo estivesse fraco e faminto, reuniu
todas as suas forças para conseguir passar pelo espaço.
E conseguiu. Depois de sair, deu um chute para trás com as duas pernas,
derrubando Dessard através da abertura. Waroo fechou o portão com o ombro,
então uivou para os outros jovens escravos – pois esse é um campo de crianças,
onde os Wookiees são prezados pelas mãos pequenas e pela habilidade de subir
muito, muito alto – que voltaria para libertar todos eles.
Em seguida, Waroo fugiu para a selva, desceu as encostas do Arayakyak, a
Garra Cultivadora, através das árvores partidas, por cima de ramos doentes,
sobre antigas pontes apodrecidas e passando por casas destruídas pendendo de
cascas cheias de crateras. Por um tempo, ele ficou sozinho. Mas, agora, isso
mudou.
Waroo está sendo caçado.
O fedor de Dessard é carregado no vento: suor e excremento e seu próprio
ódio. Waroo sabe agora por que o homem vem atrás dele: a perda de um
Wookiee não importa, exceto para o ego do homem. Ele está furioso por ter
perdido um prisioneiro, por ter sido enganado e ferido. Aquela fúria tem o
próprio odor fétido, e Waroo consegue senti-la. Pior: Dessard não está sozinho.
Mas Waroo é um Wookiee. Ele é esperto, mesmo que esteja fraco. Sabendo
que não podem alcançá-lo no alto, encontra uma das árvores shi-shok doentes e
sobe nela. De galho em galho, escala uma videira enegrecida que se torce em
torno de si mesma, através do emaranhado doente. Mas sua mão pousa em
alguma coisa – um saco fúngico inchado, uma das vagens-de-esporos que
ajudaram a adoecer esta floresta. Ela explode. De dentro dela, sai uma nuvem de
esporos pretos, e Waroo acidentalmente dá uma fungada profunda...
Tudo fica branco. Ele tosse, choramingando e balindo. É dominado pela
tontura. É como se estivesse girando e girando; as mãos ficam frouxas e o
mundo passa correndo por ele...
Waroo cai. Ele bate em galhos. Folhas curvadas de podridão passam por ele
depressa. Ele quica de um galho, e um instante depois...
Bam. O ar escapa do seu peito em uma rajada de canhão. Ele se encolhe e
tenta tossir mais, mas não consegue puxar o fôlego. Ele arfa e geme. O ar retorna
para ele, e seu olfato também.
O fedor de Dessard o cobre como uma onda de lama.
Dessard está lá, em pé, olhando-o maliciosamente. Sua boca está torcida em
uma carranca maligna. Ele tem uma arma de raios nas mãos – uma pistola suja,
coberta de ferrugem.
– Você – ele silva. – Você pensou que poderia escapar. Ninguém consegue
escapar. Ninguém foge. Nem você, nem minhas próprias tropas. Qualquer um
que fugir morre. E eles morrem muito mal.
Outros imperiais se aproximam, formando um meio-círculo atrás do
comandante. Waroo tenta se erguer, mas sua energia se esgotou. Os esporos, a
queda, o fato de estar faminto e fraco...
No entanto, uma coisa que permanece forte são seus sentidos.
Waroo consegue sentir o cheiro de Dessard. Ele sente o cheiro do suor do
homem. Ele sente o cheiro da disposição – não, da avidez – do imperial para
matar.
Então outro cheiro.
Um cheiro Wookiee.
Um cheiro estranhamente familiar, que agita dentro de Waroo um ânimo
súbito de seu sangue e seu humor...
Dessard faz um som – grrk! – e é puxado para trás através dos arbustos.
Galhos estalam enquanto ele é levado para longe. Então o ar se ilumina com
tiros de armas de raios. Os outros peles-de-leite são lentos demais. Eles são
separados. Um é jogado pelo ar com tanta força que os pés voam sobre a cabeça
antes de ele bater no tronco de uma shi-shok. Dessard volta, rastejando nas mãos
e nos joelhos na direção de Waroo, carregando um sorriso afetado no rosto.
Uma sombra se projeta sobre ele.
E, com ela, um cheiro que diz: pai.
Um Wookiee alto e felpudo com um cinto de utilidades vai até o comandante
e bate uma perna, como um tronco de árvore, nas costas de Dessard, lançando-o
contra o chão e na lama. Outros emergem da vegetação: um Wookiee cinza com
um braço só, outro com um visor acima do olho e vários peles-de-leite usando
uma camuflagem esfarrapada da cor da floresta, com o símbolo do pássaro de
fogo nos braços. Esses outros forçam os braços de Dessard até suas costas e o
prendem num par de algemas.
O Wookiee do cinto vê Waroo e inclina a cabeça. Ele emite um ronronado
suave, então a força parece se esvair das pernas. Waroo o conhece. Esse é o pai
dele. Esse é Chewbacca. Eles se encontram, os braços ao redor um do outro, a
cabeça do filho enterrada no peito do pai.
Chewbacca ergue a cabeça ao céu e ulula uma boa canção, uma canção
verdadeira, uma canção de família, de amor perdido e reencontrado.
Capítulo
6

Enquanto senadores discutem em seu escritório, a chanceler Mon Mothma se


esforça ao máximo para cerrar a mão esquerda num punho. A mão está apoiada
no joelho dela sob a mesa, e ela se concentra no ato de trazer os dedos para o
centro da palma. Não consegue fazer isso, ainda não, não completamente. O
punho que forma é menos um punho e mais uma garra suave. Simplesmente
fechar essa mão é como tentar mover montanhas, exigindo um esforço épico que
ela espera fervorosamente que não esteja nítido no rosto.
– Está ouvindo?
Ela nem sabe quem fez a pergunta. Ops, pensa.
Erguendo os olhos, ela vê que é o senador Ashmin Ek, de Anthan Spire. Os
lábios dele estão torcidos num nó azedo. Seu cabelo prateado forma um pico
afiado e ostentoso acima da cabeça. Ek não gosta de ser ignorado, e deixa isso
claro:
– Chanceler, tenho a impressão de que você não está inteiramente conosco
aqui hoje. Você pode se considerar especial, mas eu reservei um tempo precioso
da minha agenda e adiei muitas reuniões para este comitê...
Alguns dos outros senadores balançam a cabeça junto com ele: Bushar, Lorrin
e Rethalow. Ao lado deles está Jebel de Uyter – ministro das Finanças da Nova
República. Ele não assente, mas cofia a barba e solta hmms e ahhs, continuando
a servir como o ápice da neutralidade ineficaz. (Nower Jebel está sempre mais
confortável quando está firmemente no centro – nunca se estendendo, nem
mesmo por um dedo do pé ou da mão, para um ou outro lado.) Outros parecem
constrangidos pela explosão de Ek: a senadora Oko-Po e o conselheiro Sondiv
Sella, em particular, o olham incrédulos.
– Peço desculpas – Mon diz humildemente. – Estou um pouco distraída hoje.
– E por que será?, ela se pergunta. Poderia ser porque esta é a última semana
em que o Senado vai se encontrar em Chandrila? Talvez por causa da ascensão
da Nova União Separatista da Confederação dos Sistemas Corporativos ou dos
piratas e as suas Latitudes Soberanas? Talvez aquele horrível senador Wartol
tenha realmente me irritado. Ou talvez, só talvez, seja porque meu braço
esquerdo e a mão no fim dele mal operem como deveriam, graças ao ataque do
Império no Dia da Libertação. – Temo que seja melhor encerrar esta reunião
mais cedo e adiá-la para o mês que vem, depois que o Senado e meu escritório
tiverem sido transferidos para Nakadia. Isso seria aceitável?
– Não seria – Ek responde, furioso. – O Comitê para a Realocação Imperial é
vital para distribuir os recursos do Império caído...
– Ele não caiu ainda – contesta Sondiv Sella, uma figura de ombros amplos.
Ele expande o peito enquanto fala, indicando que está nutrindo um pouco de
raiva. – Temos que tomar cuidado para não pensar que vimos o fim do Império
Galáctico. Ele tem uma sombra longa e profunda.
– Eles foram derrotados – Ek bufa com arrogância.
– Coruscant ainda está ocupado.
– Coruscant é irrelevante! O Império lá é uma sombra. Eles não têm uma
frota. Não têm fabricantes de armas nem construtores de naves. O banco deles
foi pilhado, e aqueles créditos são créditos da Nova República agora, o que
significa que são nossos para alocar. O Senado me elegeu chefe deste comitê,
então é a nossa hora de fazer o nosso trabalho e não ser mantidos a distância por
uma chanceler distraída. Meu lar, Spire, tem necessidade urgente de fundos...
É a vez da senadora Ithoriana bufar. Oko-Po volta os olhos grandes e claros
para Ek e balança a cabeça envergada. Pelo dispositivo de tradução ao redor do
pescoço, ela diz:
– Spire é uma fábrica de riqueza. Você está rolando em créditos, Ek.
– A ilusão de riqueza! – irrompe Ek. – Estamos tentando demonstrar e
projetar força financeira, mas eu garanto a você que fomos enfraquecidos pela
perturbação que essa guerra infligiu na galáxia. E eu gostaria de lembrá-la de
que, assim como você é a senadora Oko-Po, eu sou o senador Ek.
Nower Jebel ergue as duas mãos num gesto pacificador.
– Por favor, por favor, devemos todos nos esforçar para manter a polidez...
– Parem.
A palavra sai da boca da conselheira Togruta da chanceler, Auxi Kray Korbin.
Todos fazem o que ela ordena. Auxi se ergue e expande o peito, o queixo
empinado para que possa – mesmo com sua altura diminuta – olhá-los de cima.
A conselheira diz:
– A chanceler deixou sua vontade clara. Esta reunião acabou. Veremos todos
vocês em Nakadia.
Ela dá um aceno para dispensá-los – o gesto que se faz para espanar a poeira
de uma estante esquecida.
Enquanto vai embora, Ek faz um comentário em voz alta com o Abednedo, o
senador Bushar. Ele pretende que as palavras sejam ouvidas, e até olha por cima
do ombro enquanto as diz:
– Eu me pergunto se Tolwar Wartol seria tão rude...
As palavras pairam como um cheiro ruim enquanto todos eles saem pela
porta.
Todos exceto um.
Sondiv Sella.
O conselheiro representa Hosnian Prime. Eles têm um senador, Yuprin Arlo,
mas Sella ajuda a administrar os diferentes comitês e subcomitês. Ele é novo,
mas sua ajuda foi profunda. Agora, continua aqui, com um sorrisinho estranho
no rosto.
Auxi morde o ar quando fala:
– Eu disse que a reunião acabou.
Ele oferece uma risada modesta.
– Ah, eu... eu só queria perguntar à chanceler como ela está. Sei que ficou no
centro médico por um período longo de cuidado intensivo e pensei...
– Estou bem – Mon diz, conseguindo esboçar um sorriso. – Meu braço ainda
não está 100%, mas, com os exercícios da terapia, melhora a cada dia. Eles me
ofereceram um membro mecânico, mas eu disse que queria tentar manter o meu
por mais um tempo. – Ela pensa, mas não diz, que teme o que significa ter uma
prótese. Mon sabe que esta é uma avaliação injusta, mas ter um braço de metal a
faria se sentir menos do que é agora. Desumana. Não viva. Sua mente conjura a
máscara implacável do fiscal mais cruel do Império, Darth Vader, e ela
estremece. – Mas estou bem. Aprecio a pergunta. Você foi o único a perguntar.
– Sei que as coisas estão difíceis agora – Sella diz, um pouco hesitante, como
se não tivesse certeza de que está a um passo de ultrapassar os limites. Ele
continua: – Eu fui um piloto de carga, sabe? Para a Rebelião. Eu a admirava
como líder na época, e não a culpo pelo Dia da Libertação hoje.
– Gostaria que outros compartilhassem esse sentimento.
– Compartilham. Vão compartilhar. – Ele dá um aceno duro. – Eu não tenho
um voto para lhe dar, mas Arlo tem, e eu concordo com ele. Gostaria de oferecer
minha ajuda da forma que for possível. Tentarei conduzir os comitês para fruição
e dizer algumas coisas boas sobre você. Para a eleição.
– Ah – ela comenta, sarcástica. – Há uma eleição chegando?
Ele ri, mas meio nervoso, como se não tivesse certeza de que é uma piada.
Como se talvez o ataque meses atrás não tivesse machucado apenas o braço e o
ombro dela, mas também embaralhado seu pobre cérebro.
– Eu...
– Eu estava fazendo uma piada. Algo em que não sou muito boa.
– É claro. – Ele dá um sorriso forçado.
– Obrigada, conselheiro.
– Eu que agradeço, chanceler.
Com isso, ele se vai.
Auxi solta um suspiro frustrado e verte duas xícaras de chá deychin. Um
vapor floral se ergue. Mon deixa que ele envolva o queixo e as bochechas e
fecha os olhos por um instante, aproveitando a paz momentânea.
– Eu posso pôr um pouco de brandy – Auxi diz.
– Tentador. Muito tentador. Mas não – Mon responde, com um suspiro. – A
última coisa que eu preciso é que Ek marche de volta pra cá e cheire isso no meu
hálito.
– Ele é um arrogante pomposo. A história o tornará marginal.
Mon dá um gole no chá.
– Ele é um apoiador ferrenho do senador Wartol.
– Não se preocupe com Wartol. Em alguns meses, ele também será marginal.
– Ah, eu duvido muito. Como estão os números dele?
Auxi dá um olhar para ela. Não, não um olhar, mas o olhar: aquele olhar
pingando com tanta incredulidade que poderia encher uma xícara até
transbordar.
– Você não quer jogar este jogo agora, quer?
– Quero.
– Como sua conselheira, eu a aconselho fortemente a sentar e beber seu chá.
Também a aconselho a encontrar um segundo conselheiro. Hostis... – As
palavras vão morrendo, quebradas pelo luto. A chanceler sabe que seus dois
conselheiros não se davam muito bem profissionalmente, muitas vezes brigando
de modo feroz a partir de pontos de vista diametralmente opostos. Mas, no fim
do dia, eram amigos. Bebiam juntos. Comiam juntos. Suas famílias faziam o
mesmo. Então a vida dele foi tirada pela arma de raios de um assassino naquele
dia sombrio. – Hostis se foi, e precisamos de alguém como ele. Precisamos da
sua voz.
– Sim. – Uma pausa. – E teremos. Mas por enquanto: números.
– Os números são 61 e 39.
– Presumo que eu seja o número mais baixo. A não ser que alguma grande
inversão tenha acontecido e ninguém me contou.
– Correto. Você tem 39% da aprovação do Senado nas pesquisas atuais. Mas
as pesquisas são notoriamente suspeitas...
– Senadores são notoriamente suspeitos também, no entanto formam a base do
nosso sistema democrático. Eu vou melhorar.
Mas como ela vai fazer isso? Ela está perdendo. Dia a dia, seus números
diminuem, talvez compreensivelmente. Com o Dia da Libertação, veio o ataque
em Chandrila. Quando a poeira baixou e os cadáveres foram contados, ela saiu
da cirurgia e descobriu que muitos amigos e colegas estavam mortos. Logo
depois, começaram as acusações: ela era fraca demais, militarmente falando, e
não conseguiu proteger Chandrila quando o planeta precisava ser defendido.
(Não importava que o tipo de ataque orquestrado contra eles fosse tão além da
compreensão e tão subversivo que dez armadas não o teriam impedido.) E tudo
ficou pior pelo fato de ela ter convidado a grã-almirante Sloane para o planeta
para os eventos daquele dia – o que, para muitos, significava que ela era culpada
pelo que aconteceu.
Mesmo agora, a verdadeira forma da trama contra eles é difícil de ver por
inteiro. Sloane era parte dela ou só um peão? Sloane era realmente o Operador?
Ela os traiu ou foi traída? Para onde foi Tashu? Para onde foi Sloane? Perguntas
infinitas. Poucas respostas.
Não importa muito agora.
O Império fugiu para um canto da galáxia, e mesmo com todos os seus
recursos Mon não conseguiu descobrir para onde. Isso a faz parecer fraca. Seus
fracassos são uma refeição que engorda um falcão como o oponente dela na
próxima eleição.
Tolwar Wartol: seu oponente e um Orishen. Uma espécie durona e estranha, os
Orishens. Dois pais dão origem a dois filhos – um cada – e, ao dar à luz, esses
pais morrem para dar vida às crias, garantindo que o número de Orishen
existente seja um número que não cresça. (Como eles chegaram a qualquer
número permanece um mistério que nenhum dos Orishens parece pronto ou
capaz de responder.) Eles foram uma espécie pacifista no passado. Agrícola, na
maior parte. Seu planeta, Orish, era verdejante; embora Mon nunca tenha estado
lá, caminhou através de holopaisagens virtuais servindo como uma memória
arquivística do planeta e achou o lugar um paraíso pastoral. Pelo menos até o
Império chegar. O Império escravizou os Orishens. Colocou os habitantes para
trabalhar por comida. Abriu minas a céu aberto. Drenou o solo de nutrientes.
Então, um dia, os Orishens resistiram. Ao longo dos anos, eles tinham
reservado pesticidas e fertilizantes.
Eles fizeram uma bomba. E a usaram.
A bomba destruiu os imperiais em Orish. Também envenenou o planeta: o
chão, a terra, até a atmosfera.
Agora há poucos Orishens restantes. Alguns milhares, no máximo, que não
moram mais no planeta, mas acima dele, em uma estrutura esquelética de tubos e
estações.
Tolwar Wartol é um desses sobreviventes. Ela leu a autobiografia dele. Ele foi
um químico e ajudou a fazer a arma que destruiria o planeta. No livro ele conta
histórias da beleza arruinada do seu mundo. Como os corpos entupiam os
riachos. Como eles tiveram de construir tumbas enormes para aqueles que
perderam. E também conta a história sobre o dia em que o Império fugiu – eles
abandonaram Orish e seu povo, porque o que tinha sido de valor para eles fora
arruinado. Wartol descreveu aquele dia como um “triunfo”. E a prova do que
teria de ser feito para combater o Império.
Wartol traz um espírito de sobrevivência à sua política: oferece à galáxia uma
garantia merecida de que ele, mais do que todos, sabe o que é sacrifício e o que
deve ser feito para preservar a vida e a liberdade.
Ele é carismático. Ele é cheio de raiva. E sua raiva é justa...
Mas é correta?
De toda forma, ele comanda todo ciclo de notícias da HoloNet, atacando Mon
sempre que possível. Como deveria, ela supõe, se realmente quer vencer.
Mas ela quer vencer também.
– Eu pretendo continuar sendo chanceler – Mon diz. – Mas não tenho certeza
ainda de como venceremos. Então, conselheira, me aconselhe. Quero ouvir.
Como venceremos a eleição? Como eu convenço o Senado a votar em mim e
não nele?
Auxi senta do outro lado da mesa. Ela aperta os lábios, fazendo um hmm
enquanto pensa em voz alta.
– Ao que tudo indica, você já está fazendo as coisas certas. Está alocando
recursos e infraestrutura para planetas afligidos pelo Império e afligidos pelo
vácuo de liderança agora que o Império foi rechaçado. Você manteve o exército
forte apesar do fim da ameaça imperial, mas também garantiu que as forças
militares da Nova República não sejam muito fortes, para não parecer que está
tentando impor sua vontade em uma galáxia enfraquecida. Kashyyyk...
– Kashyyyk – Mon diz a palavra com o peso de uma pedra jogada em águas
límpidas e paradas. – Kashyyyk é... complicado. O Senado resistiu em nos
envolver lá, daí Leia se envolveu de qualquer jeito. Dada nossa amizade...
– Parece que você aprovou a ação clandestina.
– E como os esforços de Leia foram um sucesso, eu não posso repudiá-los.
Auxi ergue um dedo como se estivesse testando a direção do vento.
– Não seja tão rápida em repudiá-los. Sim, alguns dentro do Senado não têm
nada bom a dizer sobre isso, mas sua taxa de aprovação subiu. O que não é
pouca coisa depois do Dia da Libertação. Kashyyyk foi uma vitória para nós.
– Uma vitória ganha desafiando a vontade do Senado.
– Liderança pode significar desafio.
– Palpatine era desafiador.
– Leia também. E você não é Palpatine.
Leia. Outra complicação. É uma questão política, sim – a amiga se pôs contra
ela explicitamente, mas isso é uma lâmina de dois gumes, não é? Mon a desafiou
também. Ela não conseguiu a aprovação para Kashyyyk. Não conseguiu
convencer o Senado. Mas de novo: ela tinha tentado de verdade? Esperava lidar
com o Senado recém-reformado gentilmente, com cuidado, para não parecer que
os estava empurrando ou forçando. No entanto, talvez a liderança exija um
pouco mais do tipo de rebeldia de Leia.
Leia. Uma complicação política, mas também emocional. Elas se traíram, pelo
menos um pouco. Isso fere o coração de Mon.
Auxi diz:
– Precisamos encontrar um ângulo para você. O crime é um ângulo. O
Império some e o crime se ergue em seu lugar. Os sindicatos estão lutando por
dominância. Podemos pegar pesado no crime. Nos tornar a candidata da “lei e
ordem” sem pender para a autocracia. Ou se enfatizarmos o ângulo de Kashyyyk
com Leia ao seu lado de novo...
Então, como se fosse um sinal, um dos droides protocolares da chanceler enfia
a cabeça na porta. O rosto de metal coberto por esmalte branco. O droide R-K77
diz, num sotaque chandrilano claro:
– Chanceler, a senhora tem um pedido de reunião urgente.
É claro. Os desejos de todos são sempre urgentes, não são?
– De quem?
– Da princesa Leia, do setor alderaaniano.
As orelhas dela devem estar queimando.
Mon pergunta:
– Ela disse qual era o assunto?
– Não, chanceler – o droide responde. – Só que é da maior importância. Ela
disse para informá-la de que se trata de um Código K-Um-Zero.
Era um código da Aliança Rebelde: desativar e reagrupar. A última vez que
haviam usado esse código foi o sinal que veio de Hoth quando o Império atacou
a base deles.
– Envie uma resposta. Diga que estou a caminho.
Capítulo
7

Temmin senta num banco acolchoado. Sinjir anda de um lado para outro à
frente dele.
– Ela vai ficar bem – Sinjir está dizendo a Temmin. – Sua mãe está com Jas.
As duas são duronas. Mais duronas que você e eu juntos, garoto. Não precisa se
preocupar com ela. Vai estar melhor que bem. Espere e veja, as duas vão
derrubar o Império do céu com as próprias mãos. Eu não estou preocupado, e
você não devia se preocupar também.
Sinjir está mentindo. O garoto consegue ver isso, pelo menos. Geralmente, o
ex-imperial mantém todas as suas emoções firmemente seladas a vácuo por trás
de uma máscara indiferente e desdenhosa. Mas essa máscara está rachada. A
preocupação vaza dele. Um tremor de medo vibra em cada palavra – cada sílaba
é como um nervo recentemente puxado.
Os dois estão sentados em um quarto. Só agora Temmin percebe o que esse
quarto é: um berçário. Ou o início de um. Ele esteve encarando um orbe branco
de formato oval na parede oposta pelos últimos dez minutos sem nem o ver.
Estava mais olhando através dele. Então percebe que está olhando para um
berço. Esse berço vai servir como uma bolha de segurança para a criança que
virá. Acima dele há um holoporto, pronto para projetar – bem, ele imagina um
móbile ou outras imagens e sons tranquilizadores. Um oceano banhando a praia
ou a chuva sobre a copa de uma floresta.
O bebê da princesa Leia, ele sabe, terá uma boa vida. A melhor vida. Uma
família unida, um pai e uma mãe que o amam...
Temmin não se lembra de ser um bebê, mas se lembra de ver seu antigo berço
em um depósito depois que o pai foi capturado e a mãe partiu com a Rebelião. O
berço era feito no antigo estilo akivano tosco: lados com treliça, madeira escura,
ripas curvas na parte de baixo para poder balançar para a frente e para trás. Uma
rede em cima, também, para manter afastados os enxames de moscas ya-ya que
surgiam depois de cada tempestade.
Não há moscas ya-ya aqui. Nenhum berço velho e rangente.
E nenhuma mãe, também. Nada de Norra.
– Temos que voltar pra buscá-la – ele diz, entre os dentes cerrados. Já se
passaram oito horas. Oito horas desde que mamãe, Jas e Ossudo se
arremessaram na direção de Jakku. Oito horas desde que a Mariposa pulou para
o hiperespaço, por muito pouco evitando a morte por torpedo. Qualquer coisa
pode acontecer em oito horas. O Império pode ter derrubado a cápsula. Ou
encontrado e capturado as duas. Ou talvez elas tenham morrido no impacto.
Temmin morde o lábio e sente o gosto de sangue.
– Nós vamos – Sinjir diz. – Vamos encontrar um jeito.
Mas, assim como ouve a preocupação na voz do amigo, ele também ouve a
dúvida. Está prestes a apontar isso quando a porta se abre. Um rosto familiar
aparece: Han Solo. O marido de Leia. Capitão da infame Millenium Falcon. Não
muito tempo atrás, Leia contratou o time para encontrar Solo. Eles o
encontraram, sim, e terminaram ajudando-o a resgatar seu copiloto, Chewbacca,
em Kashyyyk.
Solo está segurando duas frutas, uma em cada mão. Ele oferece uma para
Sinjir, então joga a outra para Temmin. O garoto quase não a pega.
– Fruta jogan – Han diz, parecendo desconfortável. – Eu, hãã, comprei um
monte, então não tem problema. Comam. Acho que Leia não as quer. –
Momentos como este, momentos de emoção real, parecem perturbar o
contrabandista. Ele é como Sinjir nesse sentido. A maior parte dele parece estar
escondida atrás de um muro de ego exagerado e orgulho convencido. – Vocês
dois não parecem muito bem. Se precisarem de alguma coisa, posso pedir ao
droide que...
– O que eu preciso é da minha mãe – Temmin diz, erguendo-se num pulo. Ele
se põe diante de Solo. – Preciso que você nos leve de volta a Jakku. Vamos!
Pegamos a Falcon e chegamos com os canhões atirando...
– Ei, garoto, ei. Vamos esfriar um pouco. Eu sou sortudo, mas não tão sortudo.
Se chegarmos lá atirando, estaremos mortos, todos nós. Não vai ajudar sua mãe
se a Falcon for nosso caixão.
– E como vai ajudá-la se o planeta se tornar o seu túmulo?
A boca de Han abre e fecha como se ele estivesse tentando falar algo, mas seu
cérebro não conseguisse decidir o quê.
– Eu tenho uma família chegando. E há regras a ser seguidas...
– Regras? – Temmin ri, mas não é um som alegre. – Onde estava seu amor
pelas regras quando você saiu correndo pra salvar Kashyyyk? Quando
Chewbacca foi capturado? E, até onde me lembro, minha mãe e o resto do meu
time estavam mais que felizes em cuspir no olho da Nova República quando a
questão era fazer o que você queria.
Solo torce o rosto, como se estivesse prestes a ficar bravo.
Então ele diz, de repente:
– Se quer fazer isso, tudo bem. Han Solo paga suas dívidas.
– Ajudar você nos custou muito e acho que você não apreci... espere, hã, quê?
– Temmin pisca. – O que você disse?
Abaixando a voz, Han responde:
– Eu disse que você não está errado. Eu te devo uma. E... Leia vai me matar,
mas a Falcon é a nave mais veloz que conheço e talvez, talvez, se atingirmos
aquele bloqueio do planeta com força, eles nem nos vejam chegando. Eu posso
nos levar pra Jakku. Vamos perder umas penas do rabo no caminho, mas nada
que um monte de fita adesiva não conserte. A Falcon já viu coisa pior. Se eu
conseguisse Chewie...
– Você está falando sério.
– Garoto, eu não brinco sobre esse tipo de coisa.
O coração de Temmin alça voo – então afunda com a mesma velocidade.
– Você não pode fazer isso.
– Ninguém diz a Han Solo o que ele não pode fazer.
– Você vai ser pai. Quer dizer... você não pode. – Crianças precisam dos pais,
não precisam?
Uma batalha se desdobra no rosto de Solo. Uma guerra inteira. Como se ele
soubesse que o que Temmin está dizendo é verdade, mas também soubesse quem
é e o que faz e, para o bem ou para o mal, isso é o que quer fazer.
– Leia vai entender, ela é como eu, ela faz o que...
Mas, qualquer que seja a promessa ou o plano que Solo está prestes a fazer,
ele perde a chance de dizê-lo quando a porta abre e a princesa Leia entra na sala,
acompanhada pela chanceler. Elas entram de uma maneira que preenche o
espaço com presença e rouba o oxigênio, na mesma medida. Até um
contrabandista arrogante como Solo parece menor e humilde na sombra das
duas.
Guardas do Senado ameaçam entrar também, mas a chanceler os impede com
um aceno firme da cabeça.
– Não. Falaremos a sós.
Han toma a iniciativa e sai da sala, empurrando os guardas para trás. A mão
dele toca a de Leia enquanto sai – um aperto doce e demorado. Temmin lembra
quando os pais eram desse jeito. Muito tempo atrás.
Mon Mothma fecha a porta enquanto Han e os guardas saem.
O rosto da chanceler é uma coisa estranha. Temmin não consegue decifrar o
que está acontecendo nele. Isso nos olhos dela seria medo ou o esboço de um
sorriso?
– Olá, Temmin Wexley – ela diz. – Perdoe-me por ir direto ao assunto, mas o
tempo é precioso. Preciso saber o que você viu acima de Jakku. Conte-me o que
contou a Leia. – Ao saírem da Mariposa, após aterrissar em Chandrila, Leia foi a
primeira pessoa que viram. A única, aliás: eles foram direto atrás dela, porque a
quem mais contariam? A princesa os tinha apoiado durante tudo aquilo: a caçada
a Sloane estava sendo feita debaixo dos panos, assim como a caçada a Solo,
assim como a libertação de Kashyyyk. Ele não tem certeza se devia estar falando
com a chanceler sobre essas coisas.
Mon Mothma é importante. O fato de estar aqui o faz se sentir muito pequeno.
Temmin olha em pânico para Sinjir, depois para Leia. O ex-imperial dá de
ombros, e a princesa faz um aceno sutil indicando sua aprovação tácita.
– O Império está em Jakku – ele diz, tão simples quanto consegue explicar.
– O que isso significa?
– Quer dizer... Tem um monte de naves na órbita do planeta.
– Quantas e de que tipo?
– Pelo menos um superdestróier estelar. Umas duas dúzias de destróieres
estelares também, e isso foi só o que a gente conseguiu ver. O outro lado do
planeta pode ter muitos mais. Caças TIE estavam por todo lado e... – Um nó se
forma na garganta dele, e Temmin engole. – Nós escapamos, mas minha mãe
ainda está lá. E meu droide!
– Além de outro membro do nosso time – Sinjir acrescenta. – Jas Emari. Uma
caçadora de recompensas. Eu gosto de pouquíssimas pessoas, mas gosto bastante
dela e de Norra, então queremos ir resgatá-las, fazendo o favor. – Baixinho, ele
diz: – Embora não tenhamos necessariamente que trazer o droide de volta.
Cala a boca, Sinjir.
– A situação é... complexa – Mon Mothma diz.
Sinjir bufa.
– Complexa? Sim, imagino que seja uma droga de situação complexa. Você
esteve procurando pelo Império, não esteve? Bem! Tá-dá, a gente achou. E,
como recompensa, gostaria que você enviasse todas as suas navezinhas e todas
as suas tropas preciosas para explodi-los até virar cinza e poeira enquanto o
garoto e eu resgatamos nosso time. Correção: nossa família.
– Sua presença ali, sua missão, não era autorizada.
Leia dá um passo à frente, o queixo empinado, os olhos faiscando.
– Eu já disse que eles estavam lá sob a minha autoridade.
– Sua autoridade não é a autoridade do Senado – a chanceler retruca.
– Fique feliz que não seja, porque no momento o Senado é tímido demais para
autorizar um lenço para um nariz escorrendo. Kashyyyk, devo lembrá-la, foi um
sucesso, que realizamos sem a sua ajuda.
– Caçar a grã-almirante Sloane é tarefa da Nova República, não de uma
princesa alderaaniana e seus amigos. – A tensão entre as duas é como um cabo
sendo estendido. Mas de repente a chanceler o relaxa um pouco. Ela solta um
respiro fundo e diz: – Leia. Sinto muito. Você tinha razão e ainda tem razão.
Libertar os Wookiees era a coisa certa a fazer. E se o Império realmente está lá
naquele planeta...
– É isso que estávamos esperando – Leia afirma. O tom dela também se torna
mais conciliador, como se estivesse implorando com a chanceler. – Pode ser isso.
O fim da guerra. Sei que você não aprova ação militar gratuita, mas foi uma ação
militar que destruiu duas estações de batalha deles. Foi nosso exército que
libertou Akiva e tomou o controle de Kuat. Temos que levar isso a sério. Se isso
for verdade, temos que atacar.
– Espere – Temmin diz. – Atacar? – Seu corpo inteiro fica tenso. Imagens do
espaço acima de Jakku relampejam na cabeça outra vez: os caças TIE
enxameando por todo canto, suas entranhas esfriando, o sangue esquentando, a
mãe girando para longe em uma cápsula de fuga. Se a guerra chegar a Jakku, ela
vai ficar ainda mais vulnerável, ainda mais em perigo. Guerra: é isso que Sinjir
quer dizer. Envie todas as suas navezinhas e todas as suas tropas preciosas. Ah,
não.
Mas ninguém responde à pergunta dele. Seu temor não é aplacado.
A chanceler acena para Leia.
– Sim, mas temos que fazer isso direito. Nem sabemos o que é isso ainda. Por
que esse planeta? Quanta resistência devemos esperar? Queremos que essa seja a
última resistência do Império, não a nossa.
– O que quer que precisemos fazer, nos avise – Leia diz.
– Sim – acrescenta Sinjir. – Estamos prontos.
A chanceler se enrijece. Acabou o relaxamento no cabo. Mais uma vez a
máscara fria e intrépida assenta sobre seu rosto.
– Bom. Fiquem prontos. Isso vai precisar ser aprovado pelo Senado; eu não
posso autorizar uma ação tão importante sem a aprovação deles, mas depois do
Dia da Libertação suspeito que eles estejam ávidos por um último gostinho de
sangue imperial. Ainda assim... eu preciso de informações. Não posso levar
meras suspeitas para eles ou vão me enterrar. Esta é a missão primária: conseguir
fatos. No meio-tempo, não contem a ninguém. O que discutimos aqui não sai
desta sala. Entendido?
Todos assentem, exceto Temmin.
Ele fica em pé ali, tremendo. Os olhos úmidos. Quer gritar e chorar e
espernear. Quer dizer a ela: Minha mãe está lá e você não precisa de mais fatos
que isso. Quer ameaçá-la com: Se você não for salvar minha mãe agora mesmo,
eu vou sair daqui e contar pra todo mundo. Vou gritar tão alto que vão me ouvir
na Orla Exterior. Mas, quando a chanceler direciona o olhar para ele, é como
ficar sob a mira de uma arma.
Relutante, ele assente.
Antes de sair, Mon Mothma se vira, calcanhar depois o dedo, com a precisão
de um droide de combate (exceto se fosse Ossudo, que provavelmente faria um
plié e abriria a porta com um chute). Leia diz:
– Vamos resgatar Norra, Temmin. Eu prometo.
Então ela também vai embora.
Outra vez, restam apenas Sinjir e Temmin.
– Essa é uma promessa que ela não pode fazer – Temmin diz em voz baixa.
– Verdade. Mas suspeito que ela esteja sendo sincera mesmo assim.
– Não podemos confiar nela para isso.
– Nunca confie numa máquina política para operar de modo eficiente.
– Então vamos sozinhos?
Sinjir bate uma mão no ombro do rapaz.
– Vamos sozinhos. E cobramos o favor com Solo também.
– Obrigado, Sinjir.
– Não me agradeça. Eu as quero de volta tanto quanto você. Agora só temos
que encontrar um jeito de fazer isso sem, bem, morrer no processo.
Capítulo
8

Cai a noite em Jakku. Com a escuridão, vem o frio. Ele suga o calor do ar, da
areia, da pedra.
A distância, formas negras se erguem – sombras mais profundas que o escuro
do céu. Planaltos e colinas como bigornas de carbono. Foi ideia de Jas ir naquela
direção. Não só porque isso as afastaria do calor infernal do dia, mas também
porque ela tinha visto uma revoada de pássaros com bicos de machado voando
naquele sentido.
– Eles estão voando para alguma coisa – Jas disse. – Não sei o quê. Comida,
com sorte. Um assentamento, talvez. Qualquer lugar é melhor do que lugar
nenhum.
Assim, depois de surrupiar da cápsula todos os seus suprimentos limitados –
kit médico, arma de raios, um punhado de rações –, elas começaram a andar.
E andar. E andar mais um pouco. A areia é escorregadia sob os pés. É difícil
caminhar com firmeza, o que exercita grupos musculares novos – toda vez que a
areia oscila ou que ela pisa numa pedra escorregadia com cascalho, os músculos
de Norra se enrijecem mais, e a essa altura as pernas parecem tão distendidas
quanto o cinto de controle num speeder velho.
Pior: Norra está nauseada. O sol sugou tudo dela, extraindo sua força vital
gota a gota. Agora, com a noite, o frio entrou sob a sua pele e se acomodou
naqueles espaços vazios como uma infecção.
Mesmo assim, elas continuam.
Para onde, ela não sabe.
Para que fim, ela não pode dizer.
Isso foi um erro.
Sloane está aqui. Ela sabe disso. Pode sentir – não como se tivesse a Força,
mas é algo no ar, na poeira. Talvez ela só esteja tentando se convencer de que
esse é o fim, de que é aqui onde tudo termina. Mas mesmo que Sloane esteja
aqui, e daí? Norra está num planeta empoeirado e sem saída. A antiga grã-
almirante pode estar em qualquer lugar, em qualquer direção, e Norra é capaz
de passar o resto dos seus dias vagando pelas dunas escaldantes sem conseguir
encontrar nada nem ninguém, exceto o seu próprio fim imprudente.
Talvez a única vantagem é que esse lugar é morto. Alguém como Sloane iria
se destacar. Agora, se elas pudessem apenas encontrar alguém para quem isso
importa – alguém com olhos que teriam visto Sloane...
Ela está prestes a dizer algo a Jas...
Mas a caçadora de recompensas a encara agora com olhos arregalados. Um
dedo duro aperta os lábios de Norra. A Zabrak avisa:
– Shh.
Norra observa conforme a forma de Jas – sua sombra, sua silhueta – gesticula
para o ouvido. Um sinal para escutar, então Norra escuta.
Os poucos sons do planeta rastejam para dentro do ouvido dela: o sussurro do
vento sobre as dunas, o ulular distante de algum animal, sua própria pulsação,
como um tambor, por trás de tudo. Então os ouvidos delas captam outra coisa –
um estremecimento e um silvo leves. Como areia se movendo. Vem da direita de
Norra. Depois, de novo, da esquerda. Os sons chegam simultaneamente.
E estão se aproximando.
Os sons se interrompem tão rápido quanto começaram. Outra vez, Norra e Jas
ouvem apenas o vento, as feras afastadas, a batida do sangue nos próprios
ouvidos.
Norra pensa e está prestes a dizer: Precisamos nos mexer.
Mas não tem a chance.
Acontece depressa – a areia irrompe dos dois lados. Um borrifo arde na
bochecha de Norra, e ela cambaleia para trás, com os olhos queimando. Esfrega
o rosto e pisca para conter as lágrimas, e algo bate nela, rugindo. Seus ombros
atingem o chão meio segundo antes do seu cóccix. O atacante está em cima dela,
e enquanto sua visão clareia ela lamenta que isso esteja acontecendo: o rosto que
a olha de cima está longe de ser humano. Grandes olhos pretos, uma boca
mandibular insectal, pele couraçada...
Não. Não é um rosto. Um capacete. Uma máscara.
– Sah-shee tah! – o inimigo rosna para ela, gorgolejando as palavras ao redor
de um ventilador sibilante. Um soco atinge Norra bem no meio do corpo. E isso
desperta sua raiva.
O adversário tem as pernas ao redor dos quadris de Norra – mas a areia sob
ela oscila facilmente, e não é preciso muito esforço para se soltar. Ela chuta com
força, girando a parte inferior do corpo, o que lhe dá a abertura de que precisa,
recuando para o lado enquanto seu inimigo procura algo na areia. Uma arma.
Uma lâmina.
Quadrada no topo, curva no meio. Como um machete. O metal é escuro,
talvez enferrujado, mas é difícil dizer. Ele ruge de novo e traz a lâmina para
baixo em direção às pernas dela – mas ela abre as pernas e a lâmina se enterra na
areia com uma batida surda.
Norra estende o pé.
O calcanhar acerta o ventilador dele, e a coisa começa a guinchar. Plumas de
vapor, brancas como um fantasma, vazam da máscara, enquanto ele arranha o
rosto.
Agora, enquanto ele dança para trás, Norra pode ver Jas.
Jas está lidando com seu próprio inimigo. A caçadora de recompensas ainda
está de pé – e atacando com um chute alto. Seu inimigo é maior, mais pesado,
com o torso como um punhado de sacos de grãos unidos com uma corrente de
elos grossos. Ela acerta o chute, mas isso não parece perturbá-lo. O monstro
solta um berro incompreensível, então pega Jas com um golpe duro do seu
punho sólido. A caçadora de recompensas tomba, flácida e sem vida.
Não. Norra consegue se reerguer e ataca. Ela acerta o centro do corpo dele,
usando o próprio corpo, esperando que seu peso e ímpeto o desequilibrem. Mas
o brutamontes não está indo a lugar nenhum – ele é como uma torre enfiada
profundamente no manto da terra. Nem se mexe.
Pior, ele ri.
Uma gargalhada nojenta e mecanizada irrompe do seu ventilador, e as duas
mãos se unem num megapunho dos infernos. Ele as desce com toda a força para
o centro das costas de Norra. Ela atinge o chão de novo. Sem ar. A dor irradia. O
sangue brota em sua boca enquanto a mandíbula se fecha, os dentes ao redor da
ponta da língua. No escuro atrás dos olhos, ela vê faixas brancas.
Alguém agarra seu tornozelo e a vira.
O atacante dela está de volta. Ele ajeita alguma coisa do lado da cabeça, e os
jatos de vapor param de repente.
O monstro com o peito como sacos se junta ao primeiro. Os dois assomam
sobre ela, falando, apontando.
– Va-wei ko-yah – diz o menor.
– Yash – responde o monstro com o peito de sacos, concordando e rindo.
Então o pequeno se agita e estremece. Seu queixo se ergue e sua cabeça faz
um... balanço no pescoço. O rosto de Norra está subitamente úmido, como se
coberto de vapor.
Ele cai no chão como uma árvore cortada.
Peito-de-sacos grunhe em confusão. Então sua cabeça vira bruscamente sobre
os ombros – desta vez, Norra vê um leve clarão vermelho com o movimento – e
a coisa monstruosa dá meia-volta e aterrissa duro em cima do outro.
Estamos a salvo, Norra pensa. Ou, melhor dizendo, Norra espera.
Ela fica imóvel, de toda forma, só para garantir.
– Jas – ela chama num sussurro alto. Ali perto, Jas dá um gemido.
A luz preenche o ar. Forte e audaciosa. Não de uma só direção, mas de três –
todas ao mesmo tempo, e Norra tem que cobrir os olhos para não ser cegada.
Sombras emergem, e a iluminação emoldura armaduras escuras.
Ouve-se um estalar de estática conforme uma voz transmite:
– Não se mexam. – Enquanto as sombras se aproximam, Norra ouve os
barulhos baixos de armadura com articulações e fuzis de raios em mãos
enluvadas. É um som familiar que só pode significar uma coisa: stormtroopers.
A voz diz, mais baixo: – Encontramos. Encontramos as rebeldes.
Ali perto, Jas solta um xingamento baixo.
Norra, no entanto, sorri ao redor da boca ensanguentada. Porque
stormtroopers significam o Império, e o Império significa Sloane.
Capítulo
9

Sloane está ajoelhada, amarrada e cega.


A fita esfarrapada sobre seus olhos está suja e áspera; parece arranhar o rosto
dela. Mas este planeta inteiro é assim: tudo é uma lixa grossa que a esfola,
primeiro até os músculos, então o osso, depois a medula por baixo, e logo
qualquer coisa que se passe por uma alma ou espírito. Um fantasma deixado para
vagar nessas terras mortas e sufocadas de areia.
Os pulsos dela também estão arranhados: a corda que os prende é crua e
fibrosa.
Pelo menos eles não cobriram a boca nem os ouvidos dela.
O que ela escuta: o toc-toc-toc de pés sobre pedra. Não dela, mas daqueles que
puxam o carrinho no qual ela espera, levando-o cada vez mais fundo na caverna
vermelha e sinuosa. O carrinho em si é velho – tábuas de pedra-fibra trançadas
com tendões e não flutuando sobre hoverplanks ou grav-placas, mas, em vez
disso, sendo roladas sobre um par de rodas. Rodas que tilintam e chacoalham
conforme o carrinho é puxado sobre a pedra enferrujada e dura.
O que ela diz:
– Estamos quase lá. O ar é mais frio aqui embaixo.
O que ele diz:
– Espero que sim. Meu corpo inteiro está com... cãibras.
Essas são as palavras do companheiro de viagem dela – um homem chamado
Brentin Wexley. Ela o encontrou escondido na sua nave quando mal conseguiu
escapar de Chandrila. Sloane estava ferida e a um passo da morte, mas ele salvou
a vida dela. Às vezes ela se surpreende que o homem ainda esteja com ela. Mas
o propósito de ambos é o mesmo: encontrar Gallius Rax e dar fim nele.
Rax, que roubou o Império dela. Rax, que enfiou um chip na cabeça desse
homem e o transformou num assassino. A vingança impele os dois. Ela os casa
também, de certa forma. O casal mais estranho de todos, não é? Ela, que já foi
grã-almirante do Império (um título que imagina não importar mais agora); ele,
ex-espião rebelde transformado em assassino imperial programado. Nenhum dos
dois quer estar aqui. Mas é onde estão.
E estão aqui há meses. Jakku é uma terra devastada e decrépita, descolorida
até a morte por um sol inclemente. E agora, misteriosamente, abriga o maior
remanescente do Império – o remanescente dela, por sinal, uma facção militar
que ela pensava controlar. Mas seu controle era uma ilusão. Ela era só mais uma
marionete dançando nas cordinhas de Gallius Rax, suposto herói de guerra que
veio servir ao Império a pedido de Palpatine em pessoa.
Nada disso faz sentido. Perguntas em cima de perguntas, e nenhuma resposta
à vista. Por que aqui? Por que este lugar? Parece que o próprio Rax vem deste
planeta, mas por que retornar? Jakku não é nenhum prêmio. Tem poucas
exportações de destaque; kesium e bezorita têm algum valor para o Império, mas
não muito. Existem recursos melhores e em planetas muito melhores que este.
Por que planejar um ataque em Chandrila só para abandonar a galáxia e vir para
cá? Por que deixar Sloane balançando no gancho? Por que fazer tudo isso?
Qual é a meta de Rax? Ele tem uma meta – isso, pelo menos, é evidente.
Ele vai contar a ela. Um dia, em breve, ela vai fazê-lo contar a ela. Na ponta
de uma arma de raios, de uma lâmina ou sob as próprias mãos estranguladoras
dela.
Mas primeiro eles devem encontrá-lo.
Esse é o motivo de estarem aqui, neste momento, neste carrinho sendo
puxado. Um carrinho puxado por homens nus, exceto pelas saias de couro
trançado pendendo da cintura – os peitos, costas, braços e crânios raspados estão
nus, pintados com faixas de poeira vermelha ensebada. As bocas estão fechadas
com ganchos de metal – um gancho no lábio superior, um gancho no inferior, os
dois unidos com um nó. Eles só conseguem murmurar e resmungar. São criados
e escravos – operadores ardentes e lunáticos fiéis dando a vida para sua senhora
do deserto desvairada.
Ao lado de Sloane, Brentin grunhe e rosna enquanto é sacolejado.
– Já te falei – ela diz a ele. – Treine sua respiração. Relaxe os membros,
inspire fundo, exale devagar. Oxigene seu sangue. – Desde que saiu de Ganthel,
Sloane viveu em naves estelares. No começo, ela pilotava patrulhas nos caças
TIE e nas naves auxiliares, e seu primeiro emprego foi como sinalizadora em
uma estação de monitoramento de asteroides no setor Anoat. Esses papéis não
lhe permitiam o luxo de se levantar e se movimentar com facilidade, então ela
aprendeu a ficar confortável até contorcida.
– Isso só ajuda até certo ponto – ele dispara, e ela detecta uma pontada de
raiva. Sloane acredita que ele a odeie, embora não diga isso. Faz sentido: sua
própria esposa, uma piloto rebelde, foi quem deu a ela o ferimento sério que ele
ajudou a curar, para começo de conversa. Ela representa algo que o homem
despreza: o controle autocrático de uma galáxia enlouquecida. Ele prefere aquela
outra loucura – a loucura da rebelião. Que seja. Esta aliança é construída sobre
raiva e ódio, e esse ódio é a cola que prende Brentin a Sloane.
O carrinho para com tudo. Com tanta força que ela quase perde o equilíbrio, o
que significaria tombar para a frente e bater o rosto nas tábuas de pedra-fibra. Ao
lado dela, ouve Brentin fazer exatamente isso: ele solta um uff quando a cabeça é
esmurrada contra o chão do carrinho.
Há passos ao redor deles. Mãos agarram o rosto dela e tiram-lhe a venda – a
de Sloane é teimosa e não sai fácil, e ela sente o metal frio de uma lâmina curva
contra a têmpora. Felizmente, a lâmina está virada para o outro lado, e com um
puxão rápido o tecido é cortado e cai.
Ela precisa de um momento para ajustar a visão.
Um impasse enorme a aguarda: a caverna termina em uma câmara gigantesca
no formato de um bulbo, as paredes pontilhadas com outros túneis de paredes
lisas – túneis que estão alto demais para aquele carrinho.
Ao seu lado, ela espia Brentin – o rosto e o pescoço barbados, a testa
manchada de sujeira. Ele inspira com força quando os escravos o levantam,
fazendo-o balançar sobre os joelhos. Cortam a venda dele também.
Rostos cobertos de poeira com listras vermelhas os examinam com olhos
arregalados. Bocas atadas por ganchos murmuram e zumbem. Os criados
realizam mais uma ação – cortar as cordas que prendem os pulsos deles –, antes
de sair correndo como animais. Eles escalam as rochas, enfiando as unhas longas
nas rachaduras, então se puxam para os túneis e desaparecem.
Sloane e Brentin estão sozinhos.
Ele olha confuso para ela.
– E agora?
Essas duas palavras ecoam, ecoam e ecoam na caverna em formato de sino.
– Suponho que devamos aguardar – ela diz.
– Eles não esperam que a gente os siga, esperam?
– Eu sou forte, mas não o suficiente para subir nesses túneis. – Ainda assim,
talvez seja o que esses anormais esperam. Eles mal parecem humanos. A
sanidade não brilha em seus olhos: não, o que espreita em seu olhar é uma
loucura de um tipo especial. O zelo do serviço, de ter dado seu corpo e sua
mente para outra pessoa.
Sloane não acrescenta que subir naqueles túneis seria difícil. A lateral de seu
corpo sente, hoje, uma dor profunda causada pelo ferimento que nunca sarou
direito. Às vezes ela ergue a camisa só para olhá-lo: a pele lá está franzida como
os lábios fechados e secos de um morto. Se ela ainda estivesse na civilização,
teria se curado bem fazendo tratamentos com bacta e corrigel. Mas Jakku não é a
civilização, então o ferimento não sarou completamente. Todo dia ele dói – uma
dor que espreita muito abaixo da pele.
Brentin se ergue e se alonga. Cuidadosamente sai do carrinho, quase
tropeçando. Às vezes Sloane olha para ele e vê quanto se desgastou. De novo, o
planeta é um abrasivo: de um galho desengonçado e desgovernado, tornou-se
algo mais esguio. Uma lança. Uma farpa.
Embora não veja um espelho há meses, Sloane presume que o mesmo tenha
acontecido com ela. Em momentos como este, ela percebe que nada será igual.
Ela nunca vai recuperar seu Império. Nunca terá a própria nave. Eu vou morrer
neste planeta. Essa verdade se acomodou em suas entranhas. Essa verdade é
parte dela agora.
– Eu não acho que... – Brentin começa.
Mas o som de algo vindo por aqueles túneis o corta. É um som raspado. Algo
deslizando sobre pedra varrida pela areia.
É ela. A senhora deles.
O rosto da Hutt aparece na câmara mais alta. Escuro como um hematoma,
com estrias vermelhas, o rosto da lesma não é gordo e espesso como o de muitos
Hutts, mas mais estreito, como uma ponta de flecha gosmenta. A boca é ampla,
praticamente dividindo a cabeça inteira – a bocarra se abre e uma língua longa
como um chicote lambe o ar, testando-o. A Hutt silva. Ela pisca seu único olho –
o outro é reumático, a pele ao redor esburacada e incrustada com pedaços de
metal, como uma lua com destroços brilhantes presos na órbita.
A lesma começa a deslizar. Ela sai da câmara, os braços longos puxando-a de
um túnel para outro. Sloane já conheceu outros Hutts: Jabba, por exemplo, era
um toco gordo e gorduroso cujo rabo curto era a parte mais destra da figura
corpulenta. Um verme, uma lesma, uma bola. Essa Hutt é mais longa, mais
esguia; não se parece nem um pouco com uma lesma, mas sim com uma
serpente.
A Hutt desliza e se contorce até o chão. Sloane vê que atrás da cabeça da coisa
há uma série de nódulos bulbosos e protuberâncias semelhantes a tumores. Elas
estão unidas com laços vermelhos imundos – um acessório estranho que serve
como emblema da vaidade curiosa da criatura.
Enquanto a Hutt se aproxima do fundo da cavidade oca, seus criados
novamente emergem dos vários túneis e câmaras – eles encontram a fera no
fundo, erguendo as palmas das mãos, e a pegam quando ela desliza para a frente.
Suas mãos formam o palco dela. Seus pés são o seu veículo.
Dezenas de escravos agora formam um palco ambulante.
Eles zumbem e cantarolam baboseiras sem sentido enquanto a levam para a
frente.
Suas baboseiras se dissolvem em uma única palavra:
– Niima. Niiiiiimaaaaaa.
Eles a puxam para a frente, esse verme de rabo longo. É Niima quem vai
ajudá-los. É Niima quem vai abrir o caminho para encontrar Rax.

Neste mundo, Rax é um fantasma.


Ninguém o conhece. Ninguém ouviu falar dele. Sloane e Brentin foram a
todas as favelas dilapidadas que puderam encontrar, de Cratertown e Blowback a
cabanas no deserto. Eles visitaram Teedos, escondendo-se em seus sistemas de
túneis subterrâneos. Fizeram perguntas a comerciantes de Blarina, mineradores
de gás kesium, comerciantes do mercado negro. Rax não existia.
Então alguém disse algo – um barman em Cratertown, uma das primeiras
pessoas que encontraram nesse planeta. Ele lhes disse para tomar cuidado porque
alguém estava roubando crianças.
O Império precisa de crianças. Não era isso que Rax tinha dito a ela?
Ela perguntou ao barman:
– Onde? Por quê?
Ele disse que não sabia, mas que as crianças tinham sido levadas, por
bandidos de Niima, a Hutt. A maioria tirada de pequenos vilarejos e de orfanatos
improvisados administrados pelos anacoretas.
– É lá que a maioria das crianças fica. Ninguém quer crianças correndo sob os
pés quando você tem uma perfuratriz pesada explodindo pedaços do cânion.
Então elas são jogadas lá, com os anacoretas e seus enfermeiros. – O barman
acrescentou: – Eu nunca deixaria meus filhos irem para lá.
Ela teve uma ideia: se Rax foi criado neste planeta, e se tivesse sido mandado
para lá? Um órfão deixado para os anacoretas?
Foi aí que ela encontrou o rastro dele. E começou com um homem chamado
anacoreta Kolob. Ele era um monge miserável, entalhado pelo vento e pela areia
e, mais do que tudo, pelo tempo. Ela o encontrou ajoelhado em uma cabana de
barro com um telhado de metal torto. Ele estava rezando. Quando ela exigiu que
ele os ajudasse, ele fez isso de bom grado. Mas também disse que o homem que
ela procura não é um homem chamado Gallius Rax. Rax é uma mentira, uma
identidade falsa, ele explicou.
– Galli era o rapaz – Kolob disse, com a voz trêmula.
Ele contou que Galli sempre fora rebelde, sempre correndo por aí,
perseguindo histórias. Então, um dia, algo realmente mudou nele. Ele se tornou
desafiador. Ele tirava as crianças do bom caminho. Elas começaram a
desaparecer. De repente, Galli desapareceu também.
– Agora a criança retornou, e não é mais uma criança. – O anacoreta tentou
passar um sermão para eles, alguma parábola sem sentido sobre sementes
crescendo em terra infértil, mas ela o interrompeu e perguntou:
– Para onde ele ia quando costumava desaparecer?
– Ao Vale do Eremita. Perto de uma formação rochosa chamada a Mão
Lamentosa. Era onde ele podia ser encontrado, dizem as histórias. Ele não
deixava ninguém se aproximar. Ele tinha... armadilhas. Tinha crianças que
protegiam o lugar e feras treinadas para guardá-lo. Não era longe do orfanato...
– Não é longe daqui? – Brentin perguntou.
– É bem longe daqui. O orfanato não é aquele. – O olhar do velho se tornou
morto e distante. – Aquele foi queimado.
Brentin disse:
– Deixe-me adivinhar: foi a última vez que você viu Galli.
– Foi, sim; foi, sim.
– Você sabe o que há no lugar agora? – Sloane perguntou.
– Nada, até onde sei. Só o vale, a Mão e a desolação que este planeta conhece
tão bem. Mas eu sei disto: agora que Galli está de volta, ele retornou à Mão
Lamentosa. Vimos naves, e nenhuma pode ir naquela direção. Aquele caminho é
protegido.
– Protegido por quem? – ela perguntou.
– Por Niima, a Hutt.

Eles precisavam de mais informações. Primeiro ela tinha pensado: não há


ninguém melhor a quem perguntar que os troopers e oficiais que agora
ocupavam este planeta. Juntos, ela e Brentin os observaram e esperaram – mas
logo se tornou aparente que esse não era o Império que ela conhecia e amava.
Aqueles homens e mulheres eram indisciplinados. Suas armaduras estavam
imundas e sem reparos. Suas armas estavam cobertas com a sujeira do planeta.
Muitos troopers não usavam capacete. Os oficiais pareciam maltrapilhos e
exaustos. No entanto, eram paranoicos. E brutais – abusavam dos aldeões,
roubavam comida e água, mandavam nas cidadezinhas como valentões
descarados. Pior e mais importante: eles acreditavam no que Rax tinha feito ali.
Eles carregavam os estandartes dele. Eles se agrupavam e contavam histórias
sobre o homem.
– Eles têm que acreditar em tudo – Brentin disse. – Isso não é mais um
exército, é uma milícia. Aposto que qualquer sinal de dúvida será eliminado
deles. E uma bravata tão ousada é o único jeito de justificar seguir o Império
para esse lugar.
– Eles acham mais fácil mentir para si mesmos que esse é o melhor jeito do
que admitir que se tornaram parte de algo terrível? – ela perguntou.
– Talvez.
– Então precisamos de um descrente. – Ela descreveu o descrente com
simplicidade: alguém que não queria estar em Jakku. Alguém que tinha sido
arrastado para lá e agora estava preso na máquina, incapaz de sair dela. Alguém
que era um soldado leal, mas não um lambe-botas.
Brentin, com todas as suas habilidades técnicas, ajudou Sloane a improvisar
um dispositivo de escuta grosseiro. Com ele, conseguiram captar trechos de
transmissões de rádio e conversas entre imperiais.
Então, um dia, eles ouviram um trooper (ID RK-242) dizendo a seu oficial
superior – um sargento chamado Rylon – que não tinha certeza do que eles
estavam fazendo ali e perguntando se havia qualquer outro trabalho em
qualquer lugar da galáxia que pudesse fazer.
– Eu só não quero mais ficar aqui – disse RK-242 a Rylon.
Por essa transgressão, seus colegas troopers – liderados por Rylon – o
arrastaram para o deserto, removeram sua armadura e o espancaram. Pedaços da
armadura do homem jaziam no chão ao seu redor como os fragmentos de uma
casca quebrada, e RK-242 se encolheu em meio a eles em posição fetal.
Isso não é justiça imperial, ela pensou. Não havia honra naquilo. Só força
bruta. Quão rápido a ordem começa a se desintegrar!
Eles não mataram RK-242. Ele permaneceu vivo, embora alquebrado.
Dias depois, estava de volta ao trabalho. Mancando. Sua armadura clicava e
chacoalhava enquanto ele tremia dentro dela.
Sloane foi até ele. Os dois tiveram uma conversa na ponta de uma arma de
raios. RK-242 ficou agradecido ao vê-la – no momento em que ela se
apresentou, ele começou a chorar de gratidão, com o nariz borbulhando de ranho
e a saliva unindo os lábios ressecados e rachados. Sloane explicou a ele que tudo
aquilo era uma trama contra ela – se isso era verdade ou não, não importava. Ela
disse que Rax tinha dado um golpe e roubado o Império do controle dela.
– Ele vai destruir todos nós – ela disse.
RK-242, entre goles e soluços, concordou.
Então ela o bombeou por informações. Tudo que podia. O que há no vale? O
que há na Mão Lamentosa? O que Rax está fazendo?
O trooper lhe contou tudo que sabia: Rax chamava aquele planeta de “um
lugar de purificação”. O planeta inclemente de Jakku iria testá-los, treiná-los e
endurecê-los até virarem pedra. O único jeito de derrotar a Nova República, Rax
tinha dito, era se transformar em uma força maior, num exército cruel, num
Império que podia sobreviver ao insobrevivível.
(RK-242 referia-se ao homem agora como “conselheiro Rax”. Parecia que o
alvo dela tinha se dado um novo título. Que modesto.)
Ela explicou a RK-242 que o único jeito de resolver a situação seria remover
Rax do poder. Com violência, se necessário. O trooper assentiu, ávido. Sloane
disse que precisava saber tudo sobre Rax, os hábitos dele, seu papel ali, qualquer
coisa. Mas RK-242 não conseguiu contar muito: ele disse que o Império tinha
estabelecido uma base além do Goazon, além dos Campos de Areia Movediça, e
era lá que Rax estava consolidando seu poder. Todo dia, os droides construtores
aumentavam a fortaleza, ele disse. E, diariamente, também chegavam entregas
de caças TIE, AT-ATs, AT-STs, transportadores de tropas, novos troopers. Novas
naves cruzavam o céu. O Império reunia seus bens, seus recursos e seu pessoal.
Todos ali. No planeta ou logo acima dele.
Mas isso ainda não era nada que ela não soubesse.
Ela perguntou de novo sobre a Mão Lamentosa.
RK-242 disse que o que ele ouviu era que uma antiga instalação de armas
ficava escondida na areia, algo construído por Palpatine – ou colocado lá até
antes por, bem, quem sabia? Ele ouviu que Rax ia para lá. Sozinho. E isso era
tudo que RK-242 sabia. Ele jurou. Nem sabia se era verdade, mas tinha ouvido,
então ela poderia ajudá-lo? Poderia resgatá-lo daquele purgatório?
Ela o ignorou e perguntou a Brentin:
– Uma instalação de armas? Pode ser por isso que eles estão aqui em Jakku?
Mesmo assim, não fazia sentido. O Império não precisava de armas novas. Ele
construíra a maior arma na história da galáxia. Duas vezes. Não precisava de
novas estações de combate. Precisava era de nova liderança.
Mas era verdade que o Império amava sua máquina de guerra. E talvez o que
havia lá fora fosse algo mais grandioso do que a Estrela da Morte. Um desejo de
encontrar o que fosse – e de matar Rax – ergueu-se nela como magma quente
agitando-se pelo canal vulcânico de seu coração.
Sloane agradeceu ao trooper. Ela lhe disse que teria um papel importante para
ele e, quando a hora chegasse, o chamaria.
– Ponha a armadura de volta – ela ordenou. – Não fale nada sobre este
encontro a ninguém.
Quando ele se virou para apanhar o capacete, ela atirou na nuca do trooper
antes que pudesse colocá-lo. Brentin gritou.
Ele disse:
– Nós podíamos ter ajudado.
Ela respondeu:
– Não havia como ajudá-lo.
Então ela disse que eles tinham que ir para lá – para qualquer que fosse essa
instalação no fim do Vale do Eremita.
Só havia um problema: eles não podiam levar uma nave, porque seriam
derrubados. Além disso, ir por terra significava atravessar os Cânions Yiulong –
e, além deles, as cavernas labirínticas de Bagirlak Garu. Isso significava uma
coisa:
Lidar com Niima, a Hutt.

Niima, a Hutt é dona desta parte de Jakku, e seu rastro lodoso se estende para
muito além deste território. Como Jabba em Tatooine ou Durga em Ulmatra, sua
influência (e corrupção) tem um longo alcance. Ela comanda o mercado negro:
escravos, catadores, kesium, bezorita.
Mas ela não é só uma lesma gorda governante. Ela não é Jabba com o seu
palácio nem Durga com o seu iate. E isso não são só negócios de gângster, como
de costume. A maioria dos Hutts adora suas festas e cerimônias. Certificam-se de
que todo mundo ceda uma porção dos próprios créditos ao chefão que comanda
a região – como dinheiro de proteção ou dízimo. Não, Niima exige algo maior.
Niima exige serviço eterno. Não basta meramente trabalhar para ela, ah, não.
Quando se entra para o estábulo de criados dela, nunca mais se sai.
Embora ela própria se considere um verme divino nascido de areia e pedra,
aqueles que a servem fazem isso porque ela se estabeleceu no meio de tudo –
uma aranha gorda no centro de uma teia, um tumor puxando um fluxo de sangue.
Ela tem os recursos. Ela tem o acesso. Ela controla quem pode passar pelos
cânions estreitos e cavernas profundas. O poder de Niima vem do que ela
controla – ela controla recursos, e, portanto, controla pessoas. Mesmo assim,
Sloane se pergunta se, ao longo do tempo, aqueles que a seguem têm feito isso
inspirados por algum tipo de adoração equivocada, porque as recompensas que
Jakku oferece são poucas e parcas, então ou você acredita em algo maior ou
morre sem esperanças na poeira. Aqueles que dão a vida a ela não veem mais
nada para si mesmos. Servir Niima é literalmente a melhor opção que existe em
um mundo de lixo e ruínas.
Enquanto o longo corpo de verme de Niima se retorce sobre as mãos de seus
criados, ela dá um comando:
– Kuba, kayaba dee anko!
A voz dela é difícil de se ouvir: é como se alguém tivesse engolido vidro
quebrado e tentasse guinchar enquanto toma um gole de sangue causado pelo
vidro. O modo como seu grito gargarejado ecoa nessa câmara repete-se nos
ouvidos de Sloane sem parar. A força daquele som faz uma onda de náusea
percorrê-la.
Sloane sabe um pouco de huttês, mas essa frase está num dialeto mais antigo.
É mais tosca, mais primitiva.
A afirmação significa... o quê? “Venha até mim”?
Deve ser, porque, de baixo, um dos seus apoiadores mais fiéis emerge – e ele é
diferente dos outros. É um homem, também sem camisa e pintado com listras
vermelhas de poeira de rocha. Seus lábios são a única parte do corpo que não
estão espetados com ganchos. Todo o resto – os punhos, as palmas, a carne dos
braços e das pernas – está perfurado por metal.
Ele carrega algo sobre o ombro. De uma faixa de couro, pende uma caixa
preta e um alto-falante amassado e enferrujado. Um dispositivo de tradução.
Esse criado sobe nela e pendura o tradutor acima do caroço de carne que faz as
vezes de ombro da Hutt. Quando colocada, a caixa pende da boca de Niima.
Então o escravo aguarda, agachado sobre o topo da cabeça dela, como um
bichinho esperando a próxima ordem.
Ele parece um chapéu, Sloane pensa, absurdamente.
Niima fala de novo:
– Man-tah.
O alto-falante estala com estática, então uma palavra é emitida dele em língua
básica, mecânica e monótona:
– FALEM.
Sloane pigarreia e se lembra: seja reverencial. Hutts preferem ser tratados
como se não fossem meramente criaturas sencientes e inteligentes. Eles gostam
de ser servidos. Eles querem adoração. Esta, ainda mais do que os outros, pelo
visto.
O único problema é que Sloane não é muito boa nessa história de reverência.
Ainda assim, ela limpa a garganta e tenta:
– Gloriosa serpente, senhora de areia e pedra, Niima, a Hutt, eu sou a grã-
almirante Rae Sloane do Império. Venho hoje suplicar por sua ajuda. Eu e meu
companheiro de viagem gostaríamos de atravessar seu território caverno até o
planalto chamado de Mão Lamentosa...
A Hutt a interrompe com um riso e palavras incompreensíveis.
– Sty-uka! Kuba nobata Granya Ad-mee-rall. – A caixa traduz: – OLHE
PARA VOCÊ. VOCÊ NÃO É NENHUMA GRÃ-ALMIRANTE.
– Eu lhe garanto que sou e que vou recuperar meu Império. Se a senhora me
der passagem, terei muito a oferecer, uma vez que recuperar o controle...
Mas ela já ouve na própria voz: está barganhando de uma posição de fraqueza.
Niima quer ser servida, sim, e quer ser a Rainha Verme, mas, por outro lado, se
Sloane tem que se curvar e se humilhar e agir como uma mosca debatendo-se na
língua da fera gorda, então ela parece fraca, fraca demais para ser levada a sério.
Ela tem que ser humilde e ainda aparentar ser poderosa. Isso não é algo que ela
saiba fazer: desempenhar uma contradição. Como poderia funcionar?
Resposta: não funciona. De novo a Hutt dá uma gargalhada estrondosa. Ela
ruge em sua língua de gargarejos e guinchos, e o alto-falante devolve uma
tradução:
– VOCÊ NÃO VAI RECUPERAR NADA. VOCÊ NÃO TEM NADA PARA
ME OFERECER. – Aos criados, a Hutt grita: – LEVEM-NOS. DISPAM-NOS.
RASPEM-NOS. DESTRUAM SUAS MENTES.
Não, não, não. Não era para ser desse jeito. Os escravos sob Niima
gentilmente colocam a Hutt sobre a pedra e, um por um, vêm em direção a
Sloane e Brentin. Ele lança um olhar assustado para ela, as mãos se cerrando em
punhos.
No entanto, Sloane balança a cabeça e forma quatro palavras com a boca: Eu
posso consertar isso.
– Espere – ela diz, erguendo as duas mãos. Os escravos Hutts não param de
vir, mas estão reduzindo o passo, se esgueirando até ela nas plantas dos pés. Os
dentes à mostra, o ar silvando entre eles. – Gallius Rax não tem direito ao trono e
é fraco. Eu serei a imperatriz.
Niima guincha, e a caixa de tradução late:
– ESPEREM.
Os escravos param. Eles congelam no lugar, como se fossem autômatos. Eles
nem piscam. A voz de Niima abaixa, como se ela estivesse contando um segredo
a Sloane, embora a caixa de tradução não imite o tom; quando decodifica a
resposta em língua básica, faz isso na mesma voz mecanizada e monótona:
– EU JÁ TENHO UM ACORDO COM O CONSELHEIRO RAX. VOCÊ
CHEGOU TARDE DEMAIS, GRÃ-ALMIRANTE.
Um acordo com Rax.
É claro que ela tem um acordo.
Ele tem que atravessar o território de Niima de alguma forma. Ele deu algo a
ela. Ou ofereceu algo.
Sloane só precisa descobrir o quê.
Outra vez os escravos se movem até ela, tentando agarrar seus pulsos, sua
mandíbula, sua garganta. Há o lampejo de uma lâmina e ela pensa: Não resista,
espere, continue falando, continue cavando.
Então algo revira dentro de Sloane. Ela está neste planeta desgraçado há
meses. Está cansada, emaciada e dolorida. Ela é uma almirante da Marinha
Imperial e é a única merecedora de governar o Império.
Eu não serei mais abusada. Nada mais de barganhar com fraqueza.
É hora de tentar o outro jeito. É hora de se lembrar da força de uma grã-
almirante.
Sloane ruge e dá um soco. Os nós dos dedos acertam a traqueia de um dos
escravos de Niima, e ele recua cambaleando, apertando a garganta e soltando um
gemido agudo. Ela retoma todo o seu treinamento pugilista da Companhia Naval
de Boxe e adota uma posição de luta forte, com um pé atrás do corpo; então
começa a brandir os punhos como se cada soco tivesse que salvar sua vida – e
ela teme que cada soco tenha que fazer exatamente isso. Seus punhos atingem os
alvos. Uma mandíbula se quebra. Um dente se solta. Um escravo agarra um
punhado do cabelo dela, e Sloane prende o braço dele, girando-o com tanta força
que sente o osso se partir – a aberração grita e cai, contorcendo-se como uma
aranha em chamas.
Eles continuam vindo. Ela continua se abaixando, se movendo, socando.
Mas está ficando fatigada. A dor lateja no centro de seu corpo e irradia, como
se fossem ondas que surgem depois que uma pedra pesada é jogada em águas
calmas.
A Hutt grita, e a caixa traduz:
– PAREM.
Sloane vê Brentin – ele está no chão, os braços torcidos dolorosamente atrás
das costas. Poças de sangue se formam sob o nariz quebrado. Sloane pensa:
Esqueça-o. Deixe-o para trás. Ele serviu ao seu propósito. Mas uma parte dela
não quer fazer isso. Lealdade tem que contar para algo. E Sloane não quer ficar
sozinha. Ainda não. Não aqui.
Então ela espera e ergue as mãos.
E é bom que faça isso.
Porque mais criados da Hutt estão rastejando para fora dos túneis. Dezenas,
agora. Alguns com armas de raios, muitos com facas e porretes, todas as armas
amarradas com tendão e osso.
Eu não posso lutar com todos, simplesmente não posso.
– O que Rax ofereceu a você? – ela pergunta à Hutt.
A Hutt gargareja uma resposta. A caixa traduz:
– NÓS FAZEMOS... TRABALHOS PARA ELE. ELE NOS FORNECE
ARMAS, EQUIPAMENTO, RECURSOS. O QUE QUER QUE EU PEÇA.
Trabalhos? Que trabalhos a Hutt estaria fazendo para Rax? Isso significa que o
papel dela vai além de meramente permitir passagem a ele. De repente ela
entende: o que o anacoreta Kolob tinha dito sobre crianças roubadas? E se fosse
o pessoal da Hutt que estivesse cometendo os raptos? O Império precisa de
crianças...
Os garotos-escravos avançam na direção dela. Devagar. Passo a passo. Suas
lâminas cortam o ar. As armas de raios se levantam e apontam.
– Crianças – ela diz. – Você leva crianças para ele.
A Hutt não diz nada, mas seu silêncio é revelador.
– Rax disse para onde está indo? – Sloane pergunta. – Disse o que ele está
fazendo atrás dos seus cânions?
Uma resposta de uma palavra:
– NÃO.
O rosto da Hutt trai a monotonia da caixa tradutória – o olho da lesma, aquele
rodeado por metal reluzente incrustado na carne, abre-se mais.
Um sinal de curiosidade, Sloane pensa. Bom. Ela aproveita a vantagem:
– Você não quer saber?
– CONTE-ME.
Se ela entregar isso, estará dando mais que informação. O que aguarda lá na
areia talvez seja útil não só para ela, mas para todo o Império. O trooper disse
que era uma instalação de armas. Sloane rejeitou a ideia a princípio, mas talvez
haja algo lá. Rax não é tolo. Se ele quer aquilo, ela também quer.
Os escravos continuam caminhando em direção a ela.
Eles vão me matar. Ou me transformar em um deles. Ela vislumbra a cena: ela
e Brentin, branqueados e pintados com poeira vermelho-sangue, beijando a carne
podre daquela cobra-de-limo deplorável. Sua “senhora”.
Ela tenta imaginar o Império que um dia vai governar: e a imagem dele, que já
foi forte em sua mente, agora está desbotada, como uma pintura sob a água, suas
cores escorrendo e descoloridas a ponto de desaparecer.
Está arruinado. Está acabado. Não há mais Império.
Eu nunca serei imperatriz de nada.
A Hutt tem razão. Eu não sou uma grã-almirante.
Eu tenho minha vingança – e só.
Isso decide a questão. Ela conta depressa à Hutt:
– O que ele tem lá é uma arma. Deixe-me ir, deixe-me pegar Rax, e você pode
tê-la. – A Hutt despreza a oferta com um aceno dos dedos longos, e os escravos
avançam. Brentin grita quando eles batem seu rosto na pedra com mais força.
Sloane sente o sangue pulsando na garganta como um pássaro preso em um
aperto cada vez mais estreito. Ela continua: – A arma que há lá é maior que
qualquer Estrela da Morte que já construímos. Imagine. Imagine-a não nas
nossas mãos, não nas mãos da Nova República, mas nas mãos dos Hutts. Nas
suas mãos. É uma arma construída para um deus. Ou... uma deusa.
É uma mentira. Ela não faz ideia do que seja a arma nem se é uma arma. Mas
se a mentira lhe abrir passagem, permitir que sobreviva...
A mão de Niima se ergue, os dedos pegajosos abertos.
Os escravos interrompem o avanço.
– Mendee-ya jah-jee bargon. Achuta kuna payuska Granee Ad-mee-rall.
As palavras ecoam alto quando a caixa as traduz:
– TEMOS UM ACORDO, GRÃ-ALMIRANTE. VOCÊ PODE PASSAR.
VOCÊ VAI ME LEVAR À INSTALAÇÃO DE ARMAS.
– Levar você? Não, eu devo ir...
Sozinha.
Mas a Hutt já está se virando, deslizando de volta aos túneis. Seus escravos já
estão de novo se enfiando embaixo dela e erguendo-a à câmara mais próxima.
Enquanto ela desliza para a frente, a Hutt diz, traduzida pela caixa:
– VENHA, GRÃ-ALMIRANTE. MEU TEMPLO AGUARDA. PRIMEIRO
NOS BANQUETEAMOS. DEPOIS PARTIMOS.
INTERLÚDIO
Theed, Naboo

Eles o chamam de velho veterano, o que é engraçado porque ele só tem 10


anos. Mas está aqui há mais tempo que todas as outras crianças. Refugiados vêm
e vão, todos de planetas avariados na guerra ou de onde o Império foi rechaçado,
deixando apenas o caos em sua ausência. Algumas das crianças ficam por uma
onda, duas, até três – mas eventualmente alguém vem, alguém rico, e as adota.
Mas não Mapo.
Mapo só tem uma orelha, e metade de seu rosto parece a ponta de um cinzel
de entalhar madeira. O tecido cicatrizado, como terra ruim, sobe da mandíbula,
sobre o buraco que costumava ser seu ouvido, e vai até o crânio. O cabelo não
cresce lá. Por um tempo ele tentou deixar o resto do cabelo crescer e cair desse
lado como um rio descendo uma cascata, mas a especialista disse que só o fazia
parecer até menos abordável.
(Como se isso fosse possível.)
O seu braço daquele lado também não é mais muito bom. É torto e metade
pende inútil, como o braço de um blurrg desastrado. Funciona, mas não bem.
Agora ele está na Plaza do Catalan, no lado oposto da Fonte Prateada. Theed é
uma cidade de praças e fontes, mas Mapo gosta dessa mais que das outras. As
crianças a chamam de fonte da montanha, pelo modo como os jatos se arqueiam
sobre a água e formam um pico montanhoso, que se ergue facilmente acima dos
sujeitos reunidos na praça para observar os pássaros tik-tak ou pintar as
Montanhas Gallo, muito além dos limites da capital.
Pelo borrifo da água, ele vê uma forma sentada do lado oposto. Somente uma
silhueta embaçada pela água que cai.
– Você pode ir falar com ele – Kayana diz. A jovem é uma dos Naboos aqui.
Ela é uma cuidadora, uma das que observam as crianças.
– Não, não precisa – Mapo diz. – Ele está ocupado.
– Tenho certeza de que gostaria de conhecer você.
Ela o empurra de leve. Ele grunhe e pensa: Ninguém quer me conhecer.
Talvez seja por isso que Kayana o esteja empurrando, porque quer passá-lo para
outra pessoa. Ele ouviu os cuidadores conversando algumas semanas atrás, e eles
disseram que Mapo era deprimente.
Mesmo assim, talvez ela tenha razão. E não é como se ele tivesse mais alguma
coisa para fazer. Mapo não será adotado hoje. Nem amanhã. Nem nunca.
Mapo contorna a circunferência da fonte. O vento carrega os borrifos até ele e
o esfria. Ele passa um dedo ao longo da borda de pedra da fonte, desenhando
linhas na água que desaparecem depressa.
E então lá está ele.
O Gungan se inclina, sugando um peixinho vermelho na boca com um som
alto. Uma língua serpenteia para fora e lambe a boca longa e bicuda, e a figura
engraçada cantarola um pouco e suga os dedos.
Mapo limpa a garganta para anunciar sua presença.
O Gungan se surpreende.
– Ah! Oi-olá.
– Oi – Mapo diz.
Os dois se encaram em silêncio. O silêncio se estende.
O Gungan está aqui há tanto tempo quanto Mapo. Mais tempo,
provavelmente. Desde que começaram a chegar naves de crianças refugiadas, o
Gungan cuida delas, apresentando-se para as crianças uma ou duas vezes por dia.
Ele faz truques. Faz malabarismo. Cai e sacode a cabeça enquanto seus olhos se
reviram dentro de suas hastes carnudas. Faz sons engraçados e dancinhas
estranhas. Às vezes é a mesma apresentação, repetida. Às vezes o Gungan faz
coisas diferentes, coisas que uma pessoa nunca viu, coisas que nunca vai ver de
novo. Alguns dias atrás, ele pulou no centro da fonte e fingiu que os jatos o
estavam atirando no ar. Pulou para cima, depois para baixo, caindo e espalhando
água. Pulou de um ponto cardeal para outro, para a frente e para trás, antes de
bater a cabeça na borda e afundar o traseiro na água. Balançando a cabeça.
Agitando a língua. Todas as crianças riram. Então o Gungan riu também.
O palhaço, eles o chamam. Traga o palhaço. Queremos ver o palhaço.
Gostamos como ele faz malabarismo com conchas de glombo ou cospe peixes no
ar e os pega ou como dança e cai em cima do traseiro.
Isso é o que as crianças dizem.
Mas os adultos... eles não dizem muito sobre ele. Ou para ele. E nenhum
outro Gungan vem visitá-lo também. Ninguém nem diz o seu nome.
– Meu nome é Mapo – o menino diz.
– Eu ser Jar Jar.
– Oi, Jar Jar.
– Você quer uma mordida? – O Gungan ergue um peixinho vermelho e o agita
no ar. – Essa pik-pok peixe muito bom.
– Não.
– Ah. Okee-day.
E de novo, o silêncio se alonga como um abismo crescente.
O menino pode ver que o Gungan é mais velho que alguns dos outros que viu
aqui em Theed. Jar Jar já tem suíças penduradas no queixo – não cabelo, mas
protuberâncias pequenas com pele de peixe. Elas dançam quando ele se move,
como quando ele gentilmente leva um peixe aos lábios, o movimento lento e
hesitante como se não tivesse certeza de que deve fazer isso. O Gungan está
observando Mapo mais do que o seu peixe, porém – e, de repente, o peixe escapa
da sua mão. Ele tenta pegá-lo com a outra mão, e o peixe escapa de novo. Ele dá
um guincho alarmado, e de repente a língua dispara dos lábios franzidos, captura
o peixe em pleno ar e o lança na boca. Jar Jar estremece quando um som baixo
(grrrk) vem dele.
Mapo ri.
Jar Jar oferece um sorriso largo. Como se nem estivesse com vergonha.
Isso só faz Mapo rir mais. Jar Jar parece contente pelo som. Como se fosse
música para ele.
– De onde você está vindo?
– Estação Golus. – O olhar neutro nos olhos do Gungan diz a Mapo que ele
não sabe onde isso fica. Então Mapo conta para ele: – Fica acima de Golus.
Planeta gasoso na Orla Média. O Império estava lá. Eles nos usaram como uma
estação de reabastecimento. Mas, quando foram embora, decidiram... explodir os
tanques de combustível. Acho que pra ninguém mais poder ter. Como pegar os
brinquedos e ir pra casa, esse tipo de coisa. Minha mãe e meu pai... – Mapo fica
bravo consigo mesmo por não conseguir dizer as palavras, mesmo depois de
todo esse tempo. Elas ficam entaladas no peito, e ele só olha para longe.
– Ei, oi. – Jar Jar balança a cabeça, olhando para o colo. – Isso muito fazer-
triste. – Então as hastes oculares sobem. – Você querer ver um truque?
Mapo arqueia a sobrancelha restante.
– Tá, pode ser.
O Gungan gargalha e mergulha a cabeça na fonte, enchendo o rosto de água.
Seu bico e bochechas inflam. Mapo espera que ele cuspa a água, mas ele não
cospe. Em vez disso, parece enrijecer o corpo, o pescoço engrossando de tensão
e os olhos se arregalando.
Então a água explode das orelhas flácidas do Gungan. Fsssht! Enquanto as
bochechas encolhem, a água sai em jatos, um de cada lado da cabeça de Jar Jar.
Mapo não consegue evitar: ele ri tão forte que as costelas doem. Jar Jar não ri,
mas se senta de novo, parecendo extremamente satisfeito.
Quando o menino termina, enxuga as lágrimas dos olhos.
Mapo ri.
– Isso foi nojento.
Jar Jar ergue um dedão.
– Ninguém fala comigo – o menino confessa.
– Eu falar com você!
– É, eu sei. Por enquanto. E mais ninguém fala. Ninguém nem quer olhar pra
mim. – Mapo nem se sente real, às vezes. Como se talvez fosse só um fantasma.
Nem eu quero olhar pra mim.
Jar Jar dá de ombros.
– Todos e ninguém falar com eu também.
– Eu notei. Por que eles não falam com você?
– Eu não ter tanta certeza. – O Gungan faz um hmm. – Eu pensar que é porque
Jar Jar fazer uns, hã-hã, erros. Grande erros. Os chefes Gungan me baniram
muito tempo atrás. Eu não ir pra casa em muito tempo. E esses Naboos pensam
que eu ajudar o, hã-hã, Império. – Por um momento, o Gungan parece triste.
Encara um ponto distante e dá de ombros. – Eu não saber. – Mas Mapo se
pergunta se ele sabe mais do que está dizendo.
– Eu não acho que você ajudou o Império – Mapo diz sem ter certeza de nada,
mas ele não sente que esse sujeito estranho teria feito algo do tipo. Não de
propósito. Ele é só um palhaço gentil. – Talvez você só não pertença a lugar
nenhum, que nem eu.
– Talvez isso ser, hãã, okee-day.
– Talvez seja, hãã, okee-day. – Mapo suspira. – Eu não acho que vou pra lugar
nenhum, Jar Jar.
– Eu não ir para algum lugar também.
– Talvez a gente possa ir pra nenhum lugar juntos...
– Essa ideia bombad!
– Ah. – Mapo abaixa o queixo. – Desculpa.
Mas Jar Jar ri.
– Não. Bombad. Eu sorrir! Nós ser parceiros, parceiro. – O Gungan dá
tapinhas na cabeça do menino.
Mapo não sabe o que está acontecendo, mas bombad deve significar “bom”,
de alguma forma, então ele aceita.
– Você pode me ensinar a ser um palhaço também?
– Ser palhaço é bombad também. Eu ensinar, parceiro. Nós fazer a galáxia
inteira sorrir, hein?
– Parece bom pra mim, Jar Jar. E obrigado.
Jar Jar ergue um dedão e abre um sorriso largo. Parceiros, de fato.
Capítulo
10

Noite em Chandrila. O vento sopra pelas janelas, as cortinas esvoaçam, a brisa


traz o cheiro de salmoura e da garoa de fim do verão.
– É o seguinte – Solo diz. O mapa estelar holográfico flutua no espaço entre
ele, Temmin e Sinjir. – Jakku é um planeta de areia, e isso é bom. Vocês não vão
precisar encontrar um espaçoporto. O truque é passar pelo bloqueio e aterrissar
em algum lugar onde não possam ver vocês. – Ele faz um gesto, e o holograma
some. – Eu não tenho bons mapas de Jakku, mas posso dizer que a maior parte
daquele lugar só tem dunas e pedras. Mas as colinas e os planaltos levam a
cânions, e cânions são um bom lugar para despistar o Império. – Ele dá um
risinho. – Acreditem em mim, eu sei. Qualquer buraco que conseguirem
encontrar: entrem nele.
Sinjir observa o contrabandista. Um contrabandista ou herói da Rebelião?
Importa a essa altura? Ele está prestes a se tornar um pai. Esse é o seu papel
agora.
E isso está enlouquecendo o homem, pelo visto. Sinjir já viu algo parecido: no
Império, havia oficiais postados em lugares distantes, localidades remotas, bases
longínquas. Alguns tinham um brilho nos olhos, o olhar selvagem de um gato-
tooka que alguém tentou domesticar – é a centelha da insatisfação com a própria
prisão. Como se você estivesse encurralado. Sempre imaginando uma vida
diferente.
É importante ver essa fagulha e saber que ela pode se transformar num fogo
de derreter aço se você não tomar cuidado. Sinjir sempre ficava atento a quem
possuía aquela centelha no olhar. Eram sempre essas pessoas que trairiam o
Império. A selvageria os tornava perigosos.
Solo é assim. Essa selvageria – uma combinação de imprudência e anarquia
alegre – se esconde por trás desse olhar. Ele anseia por aventura. Ele a deseja
como algumas pobres almas desejam uma pitada de especiaria na língua. (Ou
uma bebida nos lábios, ele pensa.)
Assim, de repente faz sentido Solo ter se encaixado tão bem na Rebelião. A
Aliança Rebelde era só uma coalização formalizada de criminosos buscando
minar o seu governo, rebeldes furiosos com sua prisão – enjaulados por uma
falta de escolhas. (Embora talvez isso seja o lado imperial remanescente de
Sinjir falando.)
Tudo isso é motivo para que Sinjir jamais possa ser pai. Uma hora Solo vai se
reconfortar com sua prisão, mas Sinjir nunca poderia encontrar uma paz dessas.
Acomodar-se não é uma de suas habilidades. É por isso que ele teve que se livrar
de Conder.
(Conder...)
A mente dele divaga, de repente; seu coração estremece, e ele se xinga por
dentro.
Solo confirma o que Sinjir já suspeita. O pirata diz:
– Agora, eu disse pra vocês que podem levar a Falcon... mas vocês estariam
bem melhor se me deixassem pilotar. Não a conhecem como eu conheço. Ela é...
exigente.
– Eu pilotei o troço de volta de Kashyyyk, sabe? – Temmin diz.
– Não “o troço”. Ela. Respeite a Falcon, garoto.
– Tá, tudo bem, okay. Só quis dizer que eu sei pilotar o... ela.
Nesse momento, os três estão sozinhos no apartamento de Leia com vista para
o litoral. Dez passos para a direita e eles sairiam na varanda, olhando para o Mar
de Prata, as estrelas pontilhando o céu noturno como 1 milhão de olhos
encarando-os de volta. Eu mataria para estar lá agora com uma dose de skee na
mão, um pouco de gelo no copo, e ninguém pra me incomodar.
(Conder...)
Cérebro horrível e traidor! Pare de divagar.
Ele tem que se concentrar na tarefa atual. Jakku. Norra. Jas. E sim, tudo bem,
o droide também. E Solo os está ajudando.
E está ajudando sem o conhecimento de Leia.
Ela se retirou. Provavelmente até amanhã. A princesa está com a chanceler e
alguns outros, tentando determinar o melhor rumo a seguir no caso do Império e
de Jakku. Esse rumo, porém, é político. Temmin e Sinjir não têm tempo para
política. Quando a máquina política finalmente acordar com um rosnado e cuspir
a solução do problema, Norra e Jas estarão mortas. Sinjir e Temmin também.
Toda a vida na galáxia estará morta, porque a política é mais lenta que um AT-
AT encalhado na lama.
O plano é simples: voar com a Falcon, velozes e furiosos.
O plano também é muito idiota.
Sinjir diz:
– Posso oferecer uma sugestão contrária? E se a gente não pilotasse
imediatamente uma nave rebelde reconhecível direto para um campo estelar
cheio de naves de uma frota inimiga? Em vez disso, deixem-me sugerir um doce,
doce subterfúgio. Aquelas naves estão sendo reabastecidas de alguma forma. A
gente pode descobrir qual é a linha de suprimentos, nos infiltrar numa nave ou
nave auxiliar, fantasiados com a aparência de carga, e deixar que ela nos
entregue à superfície como um presente para um rei.
– Você quer que a gente se esconda numa caixa? – diz Temmin, com uma
careta.
– Bem, quando você coloca assim, parece péssimo. Mas, sim, podemos nos
esconder numa caixa. – Ele está prestes a perguntar para Solo de novo se talvez,
só talvez, o contrabandista não tem uma garrafa de rum corelliano escondida em
algum lugar neste domicíli...
A porta da frente abre. O droide T-2LC entra como um servo-ganido. Atrás
dele vem a princesa Leia.
Ela estaca quando os vê. Então suspira.
– Eu devia saber que uma conspiração ia florescer na minha ausência.
– Ei – Han diz, rindo –, não me culpe.
– Eu sempre culpo você.
Ele diz para Sinjir e Temmin, num sussurro exagerado:
– Ela culpa mesmo.
A princesa entra e senta ao lado do marido. É fascinante de ver, porque
geralmente Leia é toda formal: lidar com ela às vezes é gelado e mecânico, como
se você estivesse conhecendo um droide assassino que, para ser sincero, tinha
exatamente zero paciência para suas tolices humanas. Agora, porém, eles a veem
no meio de sua humanidade – em casa, cansada e grávida, os ares de realeza
descartados por um tempo. Ou isso ou eles estão mesmo se tornando amigos.
Leia senta e envolve a barriga com as mãos, acomodando-as embaixo da
saliência. Deve ser um peso e tanto. Ela está ficando... cheia, Sinjir pensa. Ele
decide que deve ser terrível carregar uma criança. É um parasita, basicamente. É
impressionante que os humanos estejam dispostos a procriar quando isso é o
fardo que resulta.
Ele fica feliz por não ter que se preocupar com nada disso.
– Você voltou cedo – Han diz a ela.
– Eu estou com o tipo de azia que derrubaria um tauntaun mais rápido que um
inverno de Hoth – ela explica. – Mon está com Auxi agora. E Ackbar também.
Eles vão ficar bem.
– Aqui – diz Solo, erguendo-se depressa. – Vou pegar um copo de pó ioxina,
vai te ajudar.
– Não – ela retruca, recusando com um gesto. – Vou só sentar. Além disso,
engolir esse negócio é como sugar um crédito imperial. – O olhar desconfiado e
afiado como um laser se vira subitamente para Temmin e Sinjir. Eles se
entreolham, como vermes paralisados pelo olhar de uma ave de rapina. –
Imagino que vocês estejam preparando um plano para ir a Jakku e resgatar
Norra.
– Hãã – diz Temmin, obviamente sem saber como responder.
Sinjir dá de ombros.
– Bem, não estamos formando um coral de rapazes.
– Você não está pensando em ir junto – Leia se dirige a Solo com um dedo
apontado e acusador. Não é uma pergunta, é uma ordem.
– Eu? – Solo pergunta, abrindo um sorriso nervoso e erguendo as palmas num
tipo de rendição, como se dissesse rá-rá. – Jamais! Você não consegue se livrar
de mim tão fácil. Estou aqui com você e o bandidinho.
Para Sinjir e Temmin, Leia diz:
– Vocês podem esperar, sabe? Na verdade, estou aconselhando que esperem.
Suspeito que a chanceler vá tentar agilizar as coisas neste caso. Esperem o
desenrolar dos eventos.
– Não – responde Temmin. A palavra é cortante e abrupta. A ideia o aborrece,
isso é nítido. – Essa batalha pode durar pra sempre. Vai ser como um cerco! E se
a Nova República não ganhar?
– Obrigada pela confiança – Leia diz, erguendo as sobrancelhas.
Solo se senta de novo.
– O garoto tem razão.
– Da mesma forma, voar através de um bloqueio vai ser bem mais fácil
quando vocês não forem a única nave tentando fazer isso.
– Ela também tem razão – Solo diz.
O rosto do garoto endurece numa máscara teimosa. Ele quer fazer isso e quer
fazer agora. Sinjir não o culpa. O garoto – um jovem, a essa altura – passou por
um trauma considerável. Os eventos em Akiva, em Kashyyyk e aqui em
Chandrila com o próprio pai? Sinjir se considera um baluarte de falta de
sentimentalismo (Conder...), mas até ele ficou perturbado com tudo isso.
Temmin quer isso. Temmin precisa disso.
E Sinjir precisa disso também.
Ele tem saudades de Jas.
Sinjir se encaixa com ela. Como uma pintura rasgada no meio e colada de
novo. Quando a viu pela primeira vez na lua de Endor, ela prestes a recuar, ele
coberto de sujeira de Endor e o sangue de colegas imperiais, Sinjir notou alguma
coisa nos olhos dela que fazia sentido. Um sentido absurdo e lindo. Não era nada
romântico, é claro. É algo muito mais profundo. Algo nos ossos deles. E não é
como se eles fossem tão parecidos também. Talvez seja melhor justamente
porque eles não são tão parecidos.
Ele faria qualquer coisa por ela.
Incluindo correr diretamente para um bloqueio imperial em um cargueiro
instável, caindo aos pedaços.
Sinjir se volta para eles e diz:
– Temo que você não vá nos dissuadir, princesa. Nosso destino é um ponto
fixo. Nós vamos para Jakku. Você vai nos impedir?
Leia suspira.
– Oficialmente, eu tenho que tentar.
Maldição.
– Mas – ela acrescenta –, caso não tenham notado, eu estou muito, muito
grávida. Acho que eu não sabia que uma pessoa podia ficar tão grávida. Dessa
forma, eu considero inteiramente possível, provável até, que amanhã de manhã
eu não acorde cedo porque hoje à noite estarei tipicamente insone. O que
significa que, se vocês tentarem escapar na Falcon antes da aurora, eu posso
perder minha chance de ficar no seu caminho. O que seria uma pena. Então
vocês podem fazer o favor de partir mais tarde?
Sinjir sorri para ela. Mensagem recebida, Sua Alteza.
Mas o sorriso maior vem de Solo. O rosto dele está praticamente dividido no
meio com o sorriso que se abre nele. É como se ele estivesse orgulhoso dela.
Ele se inclina e beija a bochecha de Leia.
É isso, Sinjir decide, é isso. Amanhã de manhã: Jakku chama.

Temmin empurra dois caixotes em cima de uma grav-plataforma. Na


plataforma de pouso, ele avista a borda do mar e a linha de laser ardente da luz
da manhã queimando ao longo dela. Do outro lado da plataforma, surge um rosto
familiar: Sinjir. O ex-imperial atravessa a plataforma, andando com passos
longos e sonolentos e bocejando.
Eles se encontram e andam lado a lado em direção ao hangar 34.
Sinjir boceja de novo.
– Está ridiculamente cedo.
– Você dormiu?
– É claro.
– Sério?
– Se com dormir você quer dizer ficar sentado na cama, ler um livro e beber
chá, então, sim, eu dormi.
Temmin lhe dá um olhar de esguelha.
– E com chá você quer dizer rum.
– Pssh. Não, acabou meu rum. Eu tomei o verdadeiro raava chandrilano.
– Você sempre acha algo novo pra beber, né?
– Variedade é um componente essencial para uma vida feliz.
– Você está bêbado?
– Eu sou profissional. Eu não fico “bêbado”. Eu fico “chumbado”.
Temmin lhe dá outro olhar – esse tão intenso que ele gosta de imaginar rajadas
de raios saindo de seus olhos e destruindo aquela expressão convencida de Sinjir.
O antigo agente de lealdade revira os olhos.
– Relaxe, eu parei de sorver lá pra meia-noite. Então reuni suprimentos e... –
As palavras morrem.
– E o quê?
– E temos companhia.
Adiante, a doca do hangar espera. Nela, uma nave se esconde sob uma lona
azul enorme, uma nave em uma forma consideravelmente parecida com a
Millenium Falcon. Passando em frente daquela nave estão dois guardas do
Senado. Capacetes vermelhos. Plumagem branca.
Bastões do lado, as mãos esperando – como se prontas para sacá-los.
Mais passos chegam aos ouvidos de Temmin. Ele olha para a esquerda e a
direita.
Mais guardas. Dois vindo de cada lado.
– O que está acontecendo? – Temmin pergunta em voz baixa.
– Só continue andando – Sinjir diz.
– Leia mandou esses caras?
– Espero que não. Senão, erramos em confiar nela. Mão no quadril.
Ele quer dizer: mão na arma de raios. Temmin tem uma pequena pistola
pendurada ali sob a bainha da camisa. Seus dedos tocam o coldre e deslizam até
o cabo. Esses são guardas do Senado, e ele espera que tudo isso seja legalizado,
mas tudo parecia OK no Dia da Libertação, até que não estava mais.
– Pare aí, senhor – um dos guardas diz, estendendo uma mão apaziguadora,
enquanto a outra distraidamente toca o bastão no quadril.
É uma ameaça. Sutil, mas ainda uma ameaça.
– Vocês sabem quem somos? – Sinjir pergunta, o queixo empinado, o nariz
abaixado. Ele entrou no modo pedante desdenhoso completamente. – Bem.
Sabem?
– Você é Sinjir Rath Velus e aquele é Temmin Wexley.
– Ah. – O ex-imperial faz uma cara como se alguém tivesse acabado com a
sua diversão. – Sim, somos nós. O que vocês querem?
O guarda que está no comando os olha com olhos de aço por cima do nariz
plano.
– Vocês devem dar meia-volta e retornar aos seus aposentos.
– Temos negócios na nossa nave – Temmin diz. – Então movam-se.
A mão do guarda aperta ao redor do bastão.
– A nave naquele hangar pertence ao general Solo.
– Ele não é mais um general e nos emprestou o troço. Ela.
– Independentemente disso, temos ordens estritas para pedir a vocês que deem
meia-volta e sigam seu caminho.
– Você pediu – Sinjir diz. – E nós recusamos. Como o garoto disse: movam-
se.
– Senhor, eu não quero que as coisas fiquem feias.
– Você já viu sua própria cara, guarda? É tarde demais para desejar beleza.
Temmin sente os outros guardas – quatro deles – se aproximarem atrás deles
enquanto aqueles na frente pegam seus bastões.
– Senhor, temos ordens...
– Ordens de quem? – Temmin pergunta. – Quem está nos mantendo aqui?
– A chanceler em pessoa.
Sinjir e Temmin se entreolham. O rosto de ambos demonstra a dúvida: será
verdade? Ambos estão desconfiados.
Temmin dá um passo à frente, puxando a camisa e revelando a arma de raios.
– Guarda, você vai se mover agora ou eu e meu amigo aqui...
– Vamos partir em paz – Sinjir diz, puxando Temmin para trás com força. Ele
protesta, mas Sinjir o silencia e continua: – Não queríamos passar do limite, e
por favor assegure à chanceler que estamos voltando aos nossos aposentos.
Temmin tenta escapar do aperto de Sinjir, mas os olhos do homem encontram
os dele. Há uma intensidade lá – e uma mensagem. A mensagem é: Deixe quieto.
O garoto cerra os dentes. Ele quer correr por entre os guardas e...
Mas não faz isso. Ele deixa quieto.
Enquanto eles saem depressa, Temmin sussurra:
– O que foi isso?
– Não sei – responde Sinjir. – Mas vamos descobrir.
– Aonde estamos indo?
– Aonde você acha? Não temos outros amigos aqui. Vamos ver Leia.
– Leia.
O nome dela, dito no escuro.
Luke. Ela tenta alcançá-lo, mas não o encontra.
A escuridão, agora iluminada com estrelas. Uma a uma, como olhos se
abrindo. Reconfortantes a princípio, então sinistros enquanto ela se preocupa:
quem está lá fora, quem está nos observando? Mãos tentam agarrá-la, mãos de
sombra, erguendo-a, tentando apertar sua garganta, seus pulsos, seu estômago...
Dentro, a criança chuta. Ela sente o bebê virando, para a direita e de ponta-
cabeça, esforçando-se para se orientar, para se libertar dela. Não é hora, ela
pensa. Só espere mais um pouco.
– Leia.
Luke, ela quer gritar, mas as palavras não vêm. A boca dela está selada e uma
mão a pressiona. Uma a uma, as estrelas ficam escuras de novo, sumindo da
existência como se uma mão lentamente se fechasse ao redor delas...
– Leia!
Ela arfa e acorda. Han. É só Han. Ele está ao lado da cama, acordando-a,
gentilmente sacudindo o ombro dela.
O sonho recua como uma onda retornando ao mar.
– Oi – ela diz, com a boca grudenta e os olhos sonolentos. Um puxão no torso,
mas não é o bebê. É um medo desconhecido se desdobrando. Os resquícios do
sonho a assombram, mas se dissolvem como um castelo de areia quando ela
senta e clareia a mente, do jeito que Luke a ensinou a fazer.
Inspire, expire. Fique consciente do mundo, da galáxia e do seu lugar nela.
Vai ficar tudo bem. A Força será seu guia.
– Você dorme como os mortos ultimamente.
– E provavelmente ronco como um Gamorreano. – Ela pisca e o observa. Ele
está inteiramente vestido, o que significa que está acordado há algum tempo. Ela
sente algo emanando dele: uma inquietude, um medo de se acomodar que só o
deixa mais inquieto. Uma imagem se forma com clareza em sua mente:
Chewbacca. Han sente saudades do copiloto. E por que não sentiria? Esses dois
estão juntos há tanto tempo que ele provavelmente devia estar casado com
aquele casaco de pelos amável em vez de com ela. – É cedo. Você já acordou. –
Ele sempre dormiu como um canalha: um olho aberto, pronto para o que vier.
Ele disse que costumava dormir aos poucos sempre que conseguia uma folga. E
tem dificuldade em chamar esse lugar de lar. Lar para ele sempre foi a Falcon.
Mesmo assim, não é uma pessoa matutina. Desde Kashyyyk, no entanto, e
desde que se despediu de Chewie, ele está assim. Vai para a cama antes dela.
Acorda antes dela. Como um animal numa jaula, andando, andando.
Mas hoje há uma sensação nova: ele está preocupado.
– Você precisar ver isso – Han diz.
– Pode esperar?
– Temo que não, querida.

HoloNet Notícias.
Tem sido uma noite longa, e Mon Mothma pensou que eles tinham chegado a
algum lugar. Se o Império estava em Jakku, ela tinha que dar passos cuidadosos
e comedidos para ver a forma da ameaça que os aguardava. Isso significava
enviar droides-sonda para fazer reconhecimento. Talvez uma nave projetada para
ser furtiva e pilotada por um dos melhores pilotos deles. Significava ver se eles
tinham qualquer pessoa em Jakku que pudesse enviar relatórios – ver o que
estava acontecendo na órbita não era o mesmo que ver o que estava acontecendo
no chão. Era uma ocupação? Eles sequer estavam na superfície? Podiam estar
procurando algo? Ou alguém?
Agora todo esse planejamento cuidadoso, toda a consideração deles...
Acabaram. Estilhaçados.
Ali, no holoprojetor, está Tolwar Wartol. Ele, como outros Orishens, tem pele
lisa pontilhada com placas desiguais, assimétricas, desconectadas – as placas são
suaves e refletem a luz como espelhos negros. A HoloNet está atualmente
reprisando um discurso que ele acabou de dar em Chandrila, na Plaza
Eleutheriana. Seus apoiadores tinham se reunido para ouvi-lo. Ele falou com
paixão, as fendas nasais se alargando, a mandíbula inferior dividida, dando à
boca a aparência de uma flor florescente sempre que atingia os pontos principais
do discurso.
E, ah, que discurso!
Mon, Auxi e Ackbar tinham todos concordado com um plano e estavam –
logo antes do nascer do sol – prontos para se separar para o dia e tentar curtir
algumas horas de sono antes de pôr as ações em movimento para estudar mais o
Império. Então uma ligação de Sondiv Sella: Você precisa ligar na HoloNet
Notícias.
A primeira coisa que Wartol disse à multidão – e à galáxia civilizada, graças
ao alcance da rede – foi:
– O Império foi encontrado.
Ao ouvir essas palavras, o coração de Mon congelou no peito.
Quê? Como? Como ele pode saber...?
No momento, a HoloNet Notícias está repetindo o discurso. Esta é a terceira
vez. O nome dele está na boca de todos. Sua popularidade, ascendendo.
Na tela, o senador Wartol está dizendo:
– A chanceler Mon Mothma descobriu onde a maior parte das forças imperiais
está se escondendo, em um planeta distante perto das Regiões Desconhecidas.
Um planeta chamado Jakku. – Então vem a acusação: – Vocês não sabiam dessa
informação, e eu também não sabia. Isso porque a chanceler esteve sentada nela,
aninhada como uma serpente guardando tesouros preciosos. Por que ela não
disse nada? O que pretendia fazer com essa informação? Se a Nova República
está livre de corrupção, oferecendo um governo que pertence aos cidadãos
galácticos, não deveria haver total transparência e prestação de contas? Segredos
nos separam. Eu pretendo derrubar esse muro de segredos, meus amigos. E
devemos ser parceiros nisso!
A plateia aplaude. Retórica jubilosa de um homem se pintando como o
salvador – todo mundo gosta de receber promessas fáceis, não gosta?
Ele continua a esboçar seu plano para a chancelaria: transparência, um
exército forte e centralizado e políticas que vão garantir que “a voz de todos será
ouvida”. Ele continua:
– Nós vemos o Império agora e devemos agir. A chanceler deseja sentar sobre
as mãos. E, a cada momento que ela espera, o Império se torna mais forte, como
uma infecção que pensamos ter derrotado. Se não intensificarmos a cura, a
doença vai retornar. Vai atacar mais uma vez, como atacou em Chandrila.
Podemos nos dar ao luxo de buscar a paz antes do fim da guerra? Podemos nos
dar ao luxo de ter mãos suaves comandando nossa democracia emergente? Acho
que não, meus amigos...
– Desligue – a chanceler diz.
Auxi faz isso.
– Absurdo – Ackbar anuncia, mais brusco e alto que de costume. Foi só
recentemente que a chanceler voltou a falar com Ackbar. Tanto ele como Leia
ainda são meio párias políticos por suas ações em Kashyyyk. Embora esse
esforço tenha dado à Nova República uma vitória muito necessária, ela os pintou
como iconoclastas; rebeldes, ironicamente. Agora, no entanto, ela está feliz por
ter Ackbar aqui. Ele permanece uma voz de estabilidade e sanidade. Ele
continua: – Você recebeu essa informação menos de um dia-padrão atrás. Seria
impossível, para não mencionar antiético, imediatamente contar à galáxia o que
foi descoberto. Seria o caos.
– Vai ser o caos – Auxi diz. – Graças ao senador de Orish.
– E nada disso explica como ele sabe – Mon comenta. Ela teme o pior:
alguém próximo dela vazou a informação. Mas quem? Auxi esteve ali o tempo
todo, só fazendo algumas pausas para pegar comida ou verificar se os filhos e o
gato-tooka estavam bem. Podia ser ela? Certamente não seria Ackbar. Embora
ele tenha ficado contra ela no caso de Kashyyyk. Será que ele está secretamente
apoiando a candidatura do senador Wartol para a chancelaria? Parece
improvável. O almirante Mon Cala é um guerreiro, sim, mas um guerreiro
comprometido com a paz em sua época. A guerra é um meio para um fim, mas,
do jeito como Wartol fala, é o meio persistente e interminável – ele vê a paz
sendo mantida por um exército forte e uma disposição de empregá-lo livremente,
mesmo depois que o Império for rechaçado. Mon quer uma coalização de forças
militares, um pacto de paz liderado por uma aliança à qual os sistemas poderiam
se juntar para apoiar uns aos outros quando o perigo se apresentar. Ackbar apoia
esse sonho.
Isso deixa quem?
Leia? Han? Não. O garoto, Temmin, e o ex-imperial?
Talvez. Eles certamente queriam tomar ações velozes. O garoto em especial
pode estar sofrendo da impetuosidade e ingenuidade da juventude. A mãe se foi.
O pai, o inimigo que quase a matou. Sem dúvida um jovem desses poderia
sentir-se atraído por uma figura como Wartol. Ela se lembra de manter um olho
atento ali. Talvez o garoto não seja de confiança.
Ela tenta flexionar o punho de novo. A conexão com os próprios dedos é
suave e distante. Como se eles pertencessem a outra pessoa.
Ela irrompe de repente, num surto de otimismo forçado:
– Isso é tudo normal. Esses são os solavancos de uma democracia em
crescimento. Não devemos esperar que a política seja arrumadinha, e fomos
lembrados disso hoje. Chega de olhar para trás. Agora olhamos para a frente.
– Nós temos que responder – Auxi diz.
– E, logo, eu temo – Ackbar acrescenta.
– Parece que mesmo algumas horas de sono não estão mais em nossa equação
– Mon diz, com um suspiro assombrado. – Vou começar a trabalhar na minha
resposta imediatamente. Auxi, contate a HoloNet Notícias e os deixe preparados
para a minha declaração. E almirante...
– Eu vou iniciar o droide-sonda imediatamente – ele diz com um aceno
brusco.
– Bom. Vamos permanecer vigilantes. Temos um dia longo à frente, e temo
que haja traidores entre nós.
Capítulo
11

Tudo se move tão rápido quanto a velocidade da luz.


Rápido até que para, como uma nave batendo em um asteroide.

– Não foi a chanceler – Leia diz a eles, aceitando uma xícara de chá do droide
protocolar. – Obrigada, Elsie.
Sinjir ergue uma sobrancelha. Ele está irritado. Talvez de modo irracional. Ele
gosta de se manter indiferente – imagina seu coração menos como um órgão
bombeando sangue para o seu corpo e mais como uma coleção de pingentes de
gelo pendendo do queixo de alguma fera da neve malévola – mas ele não
consegue mais sustentar essa máscara. Ele sabe perfeitamente bem que sair
correndo como um aventureiro de porre para a bocarra esmagadora da Frota
Imperial não foi uma decisão sábia, e uma pequena parte dele está agradecida
por eles não estarem sendo explodidos em pedacinhos neste exato momento por
um superdestróier estelar no espaço acima de Jakku. Mas o resto dele está
furioso com o fato de Norra e Jas ainda estarem em algum lugar naquele planeta.
Com sorte, vivas. E ninguém está indo atrás delas do jeito que elas foram atrás
de outros.
Talvez seja sorte que Temmin não esteja aqui. Sinjir mandou o garoto falar
com o piloto Wedge Antilles. Wedge pode saber como levá-los a Jakku.
– Então foi você – Sinjir acusa. – Você nos bloqueou.
Leia lhe dá um olhar incrédulo.
– Realmente acredita que eu sou tão dissimulada, Sinjir?
– Sim. – Ele franze o cenho e balança a cabeça. – Não. Não sei! Alguém
enviou aqueles guardas, eles não mandaram a si mesmos.
Han passa por trás de Sinjir com uma xícara de caf na mão.
– Mon pode ser evasiva – ele admite –, mas isso não é a cara dela. Aqui, beba
isso. – Ele empurra a xícara para Sinjir. – Você vai precisar.
– Eu vou precisar de algo consideravelmente mais forte.
– Isso fica pra depois. Se a gente ganhar. Ou se acabar do outro jeito.
Sinjir passa os longos dedos pelos cabelos escuros e desgrenhados com uma
mão, enquanto beberica o caf amargo com a outra. A bebida deixa um gosto
forte na língua, como se ele bebesse uma xícara de borra de vaporador.
– Precisamos chegar a Jakku.
– Isso acabou de ficar muito mais difícil – Leia diz.
– Explique pra mim de novo o que aconteceu.
– O oponente de Mon na eleição iminente sabia. Wartol sabia sobre o Império
e, pior, sabia que nós sabíamos. Nossa janela pra chegar a Jakku já era pequena,
e ao tornar essa informação pública ele acabou de fechá-la.
– Por quê?
– Porque – Han intervém – isso acabou de se tornar oficialmente político. Se
vocês saírem voando para aquele mundo de poeira, vai parecer que é um ato de
guerra em nome da Nova República antes que o Senado tivesse tempo de fazer
qualquer coisa a respeito.
– Você quer dizer como, digamos, Kashyyyk? – É uma alfinetada, Sinjir sabe,
mas ele quer que doa. Está ficando cansado dessa história de dois pesos e duas
medidas. Tão cansado quanto está da política. E de praticamente tudo o mais, a
essa altura.
– Não olhe pra mim. Eu ainda digo que vocês devem ir.
– Han – Leia avisa.
– Eu sei, eu sei. Mas é o que eu faria. E o que você faria também.
Sinjir grunhe e dá uma fungada profunda no caf embaixo do nariz.
– Nada disso explica quem enviou aqueles guardas para nos encontrar na
plataforma, explica? E quem contou ao senador Orishen sobre tudo isso?
– Não foi você, foi? – Leia pergunta. Ela está falando sério.
Ele retruca do mesmo jeito que ela:
– Realmente acredita que eu sou tão dissimulado, princesa? – Antes que ela
possa responder, ele acrescenta: – Não importa. Não responda. Não, é claro que
não. Não fui eu nem Temmin. – Ele não recorda a todos aqui que, no passado,
Temmin os traiu de fato no palácio akivano, nem que ele é jovem e um pouco
impetuoso... mas não! É impossível. – Nós tínhamos uma resposta, tínhamos um
jeito de chegar a Jakku. Não havia por que complicar a solução que já tínhamos
para o nosso problema.
Então a resposta vem a ele.
Não era só que o senador Wartol sabia de algo que não devia saber. Era que
alguém sabia de tudo que acontecia aqui.
O que significa...
Ah, diabos.
Sinjir diz, com uma careta feroz:
– As paredes têm ouvidos.
– Hein? – Han pergunta.
Mas Leia entende. Seus olhos ficam grandes como estações de combate, e ela
ergue um dedo aos lábios antes de oferecer um aceno gentil para Sinjir.
– Eu volto logo – Sinjir diz. – É hora de fazer uma visita ao nosso amigo
mútuo slicer. – O coração acelera quando ele sai do apartamento, um nome
esperando no fundo da língua, não querendo ser falado, mas presente mesmo
assim.
Conder...

A chanceler Mon Mothma já está esgotada, e o dia ainda está só começando.


Com a mão boa, ela alisa o tecido de seu vestido branco.
– Como estamos? – pergunta à mulher próxima.
Essa mulher – Tracene Kane, da HoloNet Notícias – está diante da plataforma.
Ela olha para um Sullustano rechonchudo ali perto que cacareja em sullustês
enquanto se agacha, conectando cabos da câmera que paira no ar à plataforma do
holoprojetor. Mon decidiu não falar diante de uma multidão – estrelas a livrem
de alguém da audiência a vaiar ou a repreender, só aumentando a queda
assegurada nos seus números de aprovação. Melhor aqui, onde ela pode
controlar o ambiente. E a HNN aprecia a exclusividade, especialmente em uma
época em que eles não serão mais o único jogador. Outras redes têm começado a
aparecer para competir com eles. O que é a marca de uma democracia saudável,
Mon acredita.
Muitas vozes competindo, nenhuma dominando.
Embora ela se pergunte: se Wartol ganhar a chancelaria, e daí? A voz dele será
a que domina? Ou ela está demonizando demais seu oponente? Certamente ele
quer o melhor para a galáxia, mesmo que eles discordem do melhor jeito de
realizar esse feito complexo.
– Obrigada por vir tão rápido – Mon diz.
– O prazer é meu – Tracene responde. – Eu estava... fazendo trabalho de
campo por um tempo. Cobrindo a guerra.
– Por que voltou a cobrir política?
A jornalista hesita.
– Eu não conseguia mais olhar para a guerra.
– Somos duas. – Mon suspira. – Parece que sempre estivemos em guerra. Eu
almejo pôr um fim nisso, mas fazê-lo... bem, não querendo ser direta demais,
mas significa que a única saída é atravessar pelo meio. Devemos pôr um fim ao
Império para trazer a paz. E para pôr um fim ao Império, primeiro devemos
suportar a política. – De repente, ela sorri. – Tome cuidado, senhorita Kane: a
guerra pode parecer um sonho agradável quando você encara demais o olho
abissal da máquina política.
– Anotado – Kane diz, retribuindo o sorriso. – Birt, estamos prontos?
O operador de câmera Sullustano grunhe e se levanta, erguendo dois dedões.
As abas do rosto se erguem para revelar um sorriso cheio de gengiva.
Com isso, Mon Mothma entra no círculo.
Momentos se passam. Ela se prepara e se esforça para fazer a mão esquerda
parar de tremer. As bordas da plataforma brilham de azul.
Tracene dá um aceno gentil.
Palavras surgem à frente dela, as palavras do seu discurso subindo lentamente
– é um discurso escrito às pressas, ela sabe. Geralmente, ela levaria o máximo de
tempo que pudesse em qualquer discurso que fosse divulgado tão longe e
amplamente. Mas o tempo é um luxo agora e ela tem que tomar a iniciativa
dessa história antes que se torne um escândalo pendurado em volta do seu
pescoço como um peso.
– Ontem, tornei-me ciente da possibilidade de o Império Galáctico ter recuado
para um planeta na Orla Interior, perto das Regiões Desconhecidas: um planeta
de relativa insignificância conhecido como Jakku. – Ela já se xinga; devia estar
dizendo isso sobre qualquer planeta na galáxia? Insignificante? Um rubor de
vergonha atinge seu rosto, confirmando que ela está fora de forma e tem estado
fora de forma desde que saiu do cuidado intensivo aqui em Chandrila. Então ela
afasta as dúvidas, porque, afinal, que escolha tem? Continue falando, Mon.
– Nossas forças armadas já empreenderam esforços para confirmar essa
informação. Lançamos uma nave, a Oculus, sob o comando do alferes Ardin
Deltura, um especialista que, de forma similar, nos ajudou a descobrir a ameaça
em Akiva. Acreditamos que os esforços dele vão confirmar o que nosso
reconhecimento inicial demonstrou: que grande parte da Frota Imperial está
agora no espaço acima do planeta Jakku. Ainda precisamos confirmar, porém, se
isso também inclui uma ocupação na superfície do planeta ou se é alguma outra
coisa não inteiramente compreendida.
A incerteza a atormenta. Ela odeia usar o exército como alavanca. Ao mesmo
tempo, teme ter sido prematura em ceder certos poderes. Certamente isso seria
muito mais fácil se a alocação de recursos militares não dependesse da política.
Ah, mas não era assim que Palpatine se sentia? O Senado estava no caminho do
progresso. Então ele manipulou, dominou e inevitavelmente aboliu o Senado.
Não. Ela está fazendo a coisa certa. A política deve ser turbulenta. Deve ser lenta
e constante – e elástica, também, para que o sistema dobre, mas não quebre.
– Normalmente eu não divulgaria essas informações ao público, mas fui
forçada a isso. Além do mais, é seguro presumir que o Império está ciente de
nossas sondas testando as margens de sua ocupação, o que significa que
devemos agir rapidamente para aproveitar qualquer vantagem que temos. Assim,
vou convocar o Senado para uma sessão emergencial hoje à noite, onde proporei
que mobilizemos nossas forças armadas para a guerra contra o Império Galáctico
nos céus acima de Jakku, e talvez até na superfície do planeta. É com um
coração pesado que eu nos convoco para a guerra outra vez, mas estou vigilante
para que a ameaça do Império não seja um obstáculo para nossa segurança e
sanidade. Sei que o Senado ficará do meu lado. E, quando ficar, estou confiante
de que será o fim do Império.
A chanceler dá um aceno curto e sai do círculo.
Tracene dá a Birt, o operador de câmera, o sinal. Ele corta a transmissão.
O círculo fica escuro.
– Você falou bem – Tracene diz.
– Você deve ter sentido minha apreensão.
– Não.
Ela está mentindo, Mon pensa. Mas é assim que funciona. É raro que ela ouça
a verdade diretamente de qualquer pessoa hoje em dia.
– É só que... deve ser difícil ser você. Sob ataque de todas as direções.
– Sim – Mon diz. – É difícil. Mas perseveramos. Como a Aliança Rebelde
antes de nós, como a Nova República agora. Nós perseveramos.

O homem com pele bronzeada e barba cor de areia parece surpreso com o
convidado à sua porta.
– Ah! – É tudo o que ele diz.
– Olá, Conder – Sinjir responde em saudação. Ele esfria a voz, colocando um
pouco de gelo nela, só para deixar claro que não está aqui numa missão de
misericórdia. Também quer deixar claro que ele não tem sentimentos quanto a
isso, para que ninguém ache que ele seja sentimental de alguma forma.
– Sinjir?
– Posso entrar?
– E se eu disser não?
– Então eu vou fazer um biquinho tão potente que minha amuação se tornará
corpórea e chutarei essa porta.
Os olhos afetuosos de Conder se iluminam, seu rosto se suaviza.
– O mesmo velho Sinjir. Claro. Entre.
No interior, o apartamento é o epítome da austeridade. As digitais de Sinjir
sumiram faz tempo – ele também prefere um ambiente espartano, mas gosta de
um pouco de cor aqui e lá: o rubor sangrento de um buquê de flores hai-ka ou o
cerúleo profundo de um tanque de octo-peixes de água salgada. Conder voltou a
uma decoração preta, branca e cinza. A única luz que o apartamento oferece são
as maçanetas cromadas do armário ou os ladrilhos de pedra silvra. Ele teria se
dado bem como designer de interiores nos corredores do Império.
– Eu não me sinto o mesmo velho – Sinjir diz. – Talvez só velho.
– Você não é velho. Nenhum de nós é.
– Tudo bem. Mais velho, então. E definitivamente não o mesmo.
– Parece o mesmo para mim.
– Bem, eu me sinto diferente – Sinjir dispara. Ah, não, isso não está indo
como esperado. Não que devesse ter esperado qualquer outra coisa, ele supõe. –
Eu preciso de você. Da sua ajuda, quero dizer. – Por todas as malditas estrelas
idiotas, desenrole a língua, Rath Velus. – Não sou nem eu quem precisa da sua
ajuda, então nem fique com ideias. É a princesa. Ela precisa de você.
– Ela podia ter vindo pessoalmente.
– Sim, mas isso é delicado.
Conder se encosta no balcão.
– Quer sentar? Beber algo?
Eu gostaria muito.
– Não! – Sinjir responde, brusco, brusco demais, apesar de o pensamento
contrário estar dando voltas no seu coração. – Não, eu não gostaria de uma
bebida.
– Então talvez você realmente seja um novo Sinjir. Não veio me matar, espero.
Com um chip enfiado na nuca? – Conder foi um dos que ajudaram a Nova
República a decifrar esse enigma. É por isso que Sinjir está aqui, agora, para vê-
lo.
– Acredito que tenhamos uma escuta. No apartamento de Leia.
Conder solta um hmm e arranha um sapato no chão.
– Isso tem a ver com o que está acontecendo com o Império em Jakku? – De
repente, ele se endireita. – Ah, Sin. Me diga que você não está envolvido em
tudo isso de alguma forma.
– Duas pessoas do meu time estão lá. Norra e Jas, na superfície. Embaixo da
bota do Império. Pode estar relacionado a tudo isso. Eu... não sei, ainda.
– Elas são do meu time também. – Conder estende uma mão para tocar o
braço de Sinjir...
Mas Sinjir se afasta.
– Você vai ajudar? – ele pergunta a Conder.
– Sob uma condição.
– Não há condições. Você não vai me manter refém com chantagem
emocional. Ou vai me ajudar ou não vai.
Conder suspira.
– Eu só quero saber por que você me deixou.
– Porque estávamos acabados.
– Eu pensava o contrário.
– Pensou errado.
O slicer rumina isso.
– Sim. De fato, pensei errado. – Ele está bravo agora. Bom. Fique bravo, seu
tolo. Não seja idiota a ponto de se apaixonar por um vilão como eu. – Eu vou te
ajudar. Imagino que precise disso agora.
– Preciso para ontem, mas é tarde demais pra isso, então agora vai ter que
servir.

– Você está louco – Wedge diz.


– E você está fazendo trabalho burocrático – Temmin dispara.
O capitão Antilles olha para o datapad na mão. É verdade. Ele está fazendo
trabalho burocrático. Mas o que mais ele teria para fazer a essa altura? Atrás dele
e de Temmin, o hangar está movimentado. Embora a chamada para a batalha não
tenha sido dada, eles foram avisados para ficar prontos para quando chegasse.
Isso significava reabastecer combustível. Carregar munição. Checagens por
todos os lados. Alguns desses caças – X-wings, Y-wings, A-wings, até aquele
protótipo T-70 nos fundos – vão acabar em várias naves capitais antes que a frota
da Nova República se lance para o hiperespaço até o teatro da guerra, onde as
forças malévolas do Império se agrupam.
É claro, Wedge pensa, eu não irei com eles. Nenhum dos membros do
Esquadrão Fantasma irá. Os pilotos no esquadrão recente dele são todos
fracassados e estranhos: seu tipo de time preferido. Isso o lembra dos dias – não
tanto tempo atrás! – na Aliança Rebelde quando aceitavam qualquer piloto da
roça e caçador de ratazanas womp que encontrassem e os enfiavam em caças
arranhados de batalha. A pessoa ia à guerra com os pilotos que tinha. Agora as
coisas estão mais formalizadas – mais treino, mais caixas para ticar, mais
política.
E ele fritou nessa última parte.
Ir a Kashyyyk com Leia e Ackbar foi a primeira missão do Esquadrão
Fantasma...
E a última.
Mas que escolha ele tinha? Abandonar Han e Leia? Deixar Kashyyyk ser
submetido às bombas jogadas por aqueles destróieres estelares? Às vezes fazer a
coisa certa não significava seguir ordens. Seguir ordens teria significado nunca
trair o Império, para começo de conversa. Nunca se juntar à Aliança Rebelde.
Mas a questão é essa, não é? A transição de um bando de dissidentes e
amotinados para um governo legítimo é difícil. Muitos deles ainda têm um
coração rebelde batendo no peito – é parte deles questionar ordens, resistir
quando algo não parece certo. Mesmo se está vindo de alguém em quem você
confia. As pessoas já haviam confiado em Palpatine.
Agora não importa. Em público, Wedge ganhou uma medalha. Em particular,
ele foi dispensado. E o Esquadrão Fantasma foi encerrado.
Seus colegas foram embora há tempo. Nenhum deles é piloto agora. Todos
fazem parte das equipes de apoio. Koko trabalha nas linhas de combustível.
Jethpur é mecânico de motor. Até onde ele sabe, Yarra desistiu de tudo e está em
algum lugar numa plataforma de pesca – uma daquelas orgânicas que seguem o
antigo método chandrilano de puxar peixes um por um em linhas-dyan
trançadas.
E aqui está ele. Fazendo trabalho burocrático. Administrando um hangar.
– É trabalho necessário, Snap – ele diz ao jovem.
– Não me chame assim.
– Ah. Desculpe. Eu... eu achei que você gostava do apelido.
– Eu gostava, mas agora não gosto mais. – Temmin entra na frente dele com
os braços cruzados. – Você gosta dela.
– Quê?
– Minha mãe. Você gosta dela.
– Eu... – Wedge fica nervoso, de repente, pensando nela. Tem a boca tão seca
quanto uma camisa nova, mas a nuca subitamente úmida de suor. Norra. –
Snap... desculpe, Temmin. Eu era próximo da sua mãe, nós éramos amigos...
– Vocês eram mais que amigos. – A cada palavra, Temmin aponta um dedo
acusador. Então ele joga as mãos para o alto. – E tudo bem. Eu não me importo
com isso. Mas você se importa com ela. Então, ela está lá, Wedge. Ela precisa da
nossa ajuda. Está presa no planeta, e nós podemos ir salvá-la, agora mesmo.
Você tem autorizações. Sei que tem.
Wedge dá uma risada alta e desconfortável.
– Eu não tenho mais essas autorizações, não depois de Kashyyyk. E sua mãe...
– Ele suspira e abaixa o datapad. – Eu me importo com ela, sim. Muito. E parte
da razão pela qual me importo com ela é que sei que ela é durona como um
punhado de parafusos. Aquele planeta não vai quebrá-la. O Império não vai
quebrá-la. E nós vamos tê-la de volta.
– Então você só vai abandoná-la.
– Não vou. Eu juro. Mas sou só um cara sem muito a fazer sobre tudo isso. O
que eu posso fazer é o que eu tenho pra fazer. Isso não é só trabalho burocrático.
É garantir que nossas naves e pilotos estejam prontos para voar, porque eles
precisam atingir aquela frota como um punho. É assim que a gente vai conseguir
sua mãe de volta. Não vamos enviar só você ou eu ou a Falcon. Vamos mandar
toda a Nova República.
Temmin bufa de escárnio.
– Fico feliz que consegue se sentir bem não fazendo nada. A gente se vê,
Wedge.
– Snap. – Diabos. – Temmin! Espere.
Mas o garoto já está se afastando com passos longos e furiosos.

Sinjir observa Conder através da janela. O slicer pediu a todos eles que
esperassem do lado de fora enquanto ele fazia a varredura no apartamento de
Leia. Do centro da palma de Conder, ergue-se um droide-sonda pequeno e
operado manualmente – como uma bolinha instável com um ninho de antenas
pontudas saindo dela em todos os ângulos. Ela zune e quica pela sala, um raio
verde de luz varrendo cada canto, cada balcão, cada objeto.
Mas não é o droide-sonda que Sinjir está observando.
É Conder.
Conder está confortável em sua pele, e até mais confortável em seu papel. Há
algo simplesmente atraente em alguém tão capaz e confiante. A mandíbula de
Sinjir se tensiona, como uma armadilha pronta para ser disparada.
Pare de olhar, seu imbecil.
Ele fica subitamente constrangido. Sinjir não está exatamente sozinho ali,
está? Leia, Han e seu droide protocolar insuportável estão com ele.
– Madame – T-2LC diz, enquanto oferece um biscoito digestivo para a
princesa. – Um bocado de comida insípida para acalmar seus nervos...
– Não preciso disso, Elsie, mas obrigada. – Leia dispensa a comida com um
gesto. Então se volta para Han: – Não acredito que fui tão tola. Uma escuta na
nossa casa?
– Relaxa. – Han dá de ombros. – Ainda nem sabemos se foi isso que
aconteceu. Talvez seja alguma coincidência.
– Não – Sinjir diz. – Não é coincidência. Alguém está ouvindo. É a única
explicação. – Exceto Temmin ter traído todos nós.
– Eu confirmei com Mon – Leia diz. – Aqueles guardas que afastaram vocês
da Falcon não foram enviados por ela.
Han assente.
– Isso significa que foi Wartol.
– Ele tem esse tipo de poder? – Sinjir pergunta. – É só um senador.
– Um senador candidato a chanceler. E – Leia acrescenta com um suspiro –
atualmente bem na dianteira na corrida, com uma vantagem robusta.
Solo joga as mãos para o alto.
– Política é um negócio sujo. Eu prefiro cair num ninho de gundarks famintos
a ficar preso nessas engrenagens. Wartol tem poder em lugares que não vemos.
Ele é próximo da Guarda do Senado também.
– Como candidato, ele tem acesso a eles. Eles o protegem.
Esse Orishen – Sinjir adoraria fazer uma visita a ele. Então ele gostaria que
uma vareta pesada fizesse uma visita aos joelhos do homem.
– Não se preocupem – Sinjir diz. – Conder vai encontrar alguma coisa.
Minutos depois, o slicer emerge.
– Eu não encontrei nada.
Bem, obrigado por isso, pensa Sinjir.
– Como isso é possível?
– Como? Não há nada para encontrar. Nenhuma escuta. Nenhuma câmera. A
não ser que Wartol tenha encontrado alguém que crie dispositivos mais
sofisticados do que eu. – O slicer sorri. – E ninguém é mais sofisticado que eu.
Aquele maldito sorrisinho. A confiança de olhos grandes. Aquelas bochechas
de querubim se inflando sob a barba desgrenhada. Seu demônio adorável e
incorrigível.
Mesmo assim. Ele não pode deixar Conder sair por cima.
– Você falhou. Parece que alguém por aí é mais sofisticado, porque... – Porque
é mais fácil insultar suas habilidades que admitir que estou errado. – Porque eu
estou certo. Simples assim.
– Sinto muito, Sin, mas quer dizer... eu não encontrei nenhuma...
O pequeno droide-sonda na mão de Conder começa a bipar num staccato
veloz. Ele treme sobre a palma do slicer, que dá um grunhido de surpresa quando
o droide de repente salta da sua mão e toma os ares.
Ele não vai longe, no entanto. Voa num círculo e para diante do rosto brilhante
do droide protocolar.
– Ah, não – T-2LC diz, alarmado.
A sonda examina o rosto do droide protocolar...
Então ela se acende como um detonador prestes a explodir. Luzes piscantes!
Buzinas! Zunidos e vibrações! Conder a apanha do ar e a desliga, prendendo-a
ao cinto quando fica em silêncio.
Todos os olhos se viram para o droide protocolar.
– Não sou eu, madame! – o droide objeta.
Han Solo faz uma careta e vai em direção ao droide.
– Elsie, você precisa ficar parada. Isso vai doer um pouco.

Mon Mothma entra em seu escritório. Cansada. Sentindo-se esgotada. Ela


acabou de dar seu discurso ao Senado – seu último apelo, um apelo fácil em que
pediu pelo voto deles para mandar a maior parte do exército da Nova República
a Jakku para pôr fim à opressão do Império de uma vez por todas. Ela foi mais
chauvinista que de costume, mas eles precisavam desse voto. A chanceler disse
às centenas de senadores presentes na última sessão chandrilana que esta será a
batalha definidora da guerra. Provavelmente, a batalha final da guerra. Ela
apresentou a eles todos os fatos que tem: dados dos droides-sonda e da Oculus
que demonstravam claramente que a maior parte das forças imperiais está
presente em Jakku. Os números, ela lembrou a eles, estão do lado deles. Eles não
são uma frota esfarrapada enfrentando uma estação de combate monolítica, não
mais. Suas próprias forças armadas mais que triplicaram desde a destruição da
segunda Estrela da Morte, na Lua Santuário. Enquanto isso, a frota do Império
foi talhada...
Em uma árvore, depois num galho, até em um punhado de farpas.
Então em poeira que se torna nada enquanto o vento a sopra para longe.
Pelo menos é o que ela espera.
Podemos ganhar, ela disse ao Senado. E foi sincera.
Então seu tempo no palco acabou. Aplausos a seguiram como uma onda
crescente, impelindo-a para a frente, para fora do prédio do Senado e de volta ao
seu escritório. Agora ela se sente acabada, oca, exausta, sonolenta e com o dever
cumprido.
Não está cumprido ainda. Logo. Mas não ainda. Sim, o dia quase a comeu
viva. Mas não fez isso. Ela perseverou.
Logo, Mon Mothma será triunfante. A cada momento, algum novo
emaranhado se apresentava e ela (ou Auxi, ou Ackbar) teve que passar tempo
adicional desvelando cada nó, apesar da quantidade esmagadora de tarefas
administrativas que ameaçavam arrastá-la para baixo como areia sugadora. Tudo
está preparado. No momento em que o Senador der a aprovação fácil, o
mecanismo da guerra vai se reerguer rapidamente, engatilhando os eventos
conforme necessário. Isso a lembra de uma partida de rios e estradas, o velho
jogo chandrilano de derrubar peças – uma cai sobre outra e sobre a próxima, e
assim por diante, cada vez mais rápido. Se forem dispostas corretamente, todas
caem, e caem mais depressa que as de seu oponente. Se você falhar... elas caem
lentamente demais, ou não caem.
Assim que os votos forem contados, as naves serão lançadas.
As forças de superfície vão se mobilizar.
Tudo começa.
E, com sorte, as peças dela cairão mais rápido que as do Império, e esse será
realmente o fim daqueles rios e estradas daquele regime opressivo.
Ela despenca na cadeira.
Auxi entra com uma garrafa bulbosa, de gargalo comprido, de um brandy
muito bom, na mesma mão em que precariamente traz duas taças pelas bordas.
– Acho que isso merece um gole.
– Como é aquele antigo ditado? Você nunca pode contar as estrelas, porque
algumas podem já estar apagadas. A votação não terminou ainda, Auxi.
– Mas vai. Logo mais. – Ela apoia as taças e começa a verter. Líquido âmbar
cai no vidro redondo de cada uma. – E vamos vencer. Mas o que importa?
Depois do dia que tivemos, acho que merecemos um agradinho. Ah! E seus
números já estão melhorando bastante. Eles tinham aumentado até antes de você
subir no palco.
Mon suspira e pega a taça com a mão boa.
– As pessoas gostam da guerra.
– Não, shh, pare com isso. As pessoas gostam de saber que estão seguras. E,
nesse caso, se a segurança é garantida esmagando o último stormtrooper imperial
na poeira, então pode me contar entre elas.
As taças de brandy tinem quando elas brindam.
Mon toma um gole. O licor está quente na boca, e, quando ela engole, seu
calor se espalha para a garganta e a barriga. À medida que desce, é como um
zíper abrindo-a – todo o material comprimido dentro do coração dela se
desenrolando de repente. Ela sente que está quase pronta para soltar o ar de
alívio e dormir por um longo tempo.
Não fique confortável demais, ela se avisa. Você não vai poder descansar
sobre os louros. Ackbar vai liderar essa batalha, mas é você quem deve
comandar a guerra, chanceler.
Como que obedecendo à deixa, a porta do escritório se abre com um sinal
suave. Ackbar entra.
Ela está pronta para perguntar a ele se é a hora. Hora de partir. Hora de
terminar a tarefa terrível que eles se propuseram a realizar muitos anos antes,
com as primeiras brasas remexidas da Aliança Rebelde. Mas agora ela vê o olhar
desolado no rosto dele. Mon Cala são difíceis de ler para a maioria dos humanos,
mas ela conhece Ackbar bem – e ela espia a relutância em sua postura rija, em
seus apêndices de bochechas curvados, em seus olhos semiabertos.
– Diga – ela pede.
– A proposta não passou – ele diz. – Estamos de mãos atadas, chanceler. A
frota não irá a Jakku, e lá o Império deve permanecer.
Capítulo
12

Água fria e malcheirosa atinge Norra na cara. É despejada sobre o topo da sua
cabeça, e um cheiro amargo de bile enche seu nariz. Ela tosse e cospe,
levantando-se dentro da jaula. Dois stormtroopers estão em pé no teto gradeado
de metal da prisão onde ela se encontra. Sobre eles, a Frota Imperial paira,
velada por faixas de nuvens translúcidas.
Um dos troopers segura um balde. O outro está apontando o fuzil de raios para
baixo. Da posição em que ela está, abaixo deles e com o céu acima, os imperiais
só parecem sombras – aves carniceiras prontas para bicar seus ossos assim que o
corpo dela desistir.
– Acorda – diz aquele com o balde. Ele solta o recipiente e o deixa bater
contra a lateral de sua armadura, que não é mais do branco imaculado da maioria
dos stormtroopers. Essa armadura foi marcada e cinzelada, pintada e entalhada.
O trooper com o fuzil de raios tem corante vermelho-sangue respingado na
frente do capacete, na forma tosca de um crânio, literalizando aquilo que sempre
fora metafórico sobre os stormtroopers: Somos agentes da morte, a imagem diz.
Somos matadores.
– Eu posso só atirar nela – diz o trooper do fuzil. Ele gesticula para as barras
da jaula de metal forjado, enfiando a ponta do fuzil entre duas delas. – Ela é só
mais uma boca pra alimentar. Eu posso fechar essa boca. Permanentemente.
– Faça – ela sussurra.
Ele faz.
Não!
O fuzil dispara, e tudo ao redor dela se acende de vermelho e...
A rajada cava um sulco na areia compacta sob os pés de Norra. Ela dança para
longe, dominada pelo pânico.
– Ela acordou agora – diz o trooper do balde.
Os dois troopers riem e continuam andando, as botas fazendo barulho.
Norra se ajoelha e chora.

Horas depois, ela está trabalhando em uma plataforma de gás kesium – é uma
grande perfuratriz cilíndrica aparafusada na areia e precisa de pessoas de todos
os lados para girar válvulas e puxar alavancas para equilibrar a descarga de gás
subindo de baixo do manto. Se deixarem muito subir de uma vez só, a coisa
inteira explode pelo topo, talvez transformando todos eles em vapor. Se
deixarem pouco demais, os lacres do poço se fecham conforme a areia cai de
volta no canal. Ela está aqui, acorrentada na borda com meia dúzia de outros
prisioneiros, todos algemados ao redor da circunferência do poço. Se qualquer
um deles vacila, é punido ou morto.
Para piorar, ela ainda cheira a bile e cuspe, cortesia do balde despejado sobre o
rosto. Não era água potável. Ah, não. Ninguém desperdiçaria água potável neste
planeta só para acordar uma prisioneira. Era água suja de um bebedouro de
happaívoros: uma água rançosa que tinha entrado e saído das bocarras
encouraçadas deles.
Norra nunca se sentiu tão só quanto neste momento.
Quando as trouxeram aqui, os troopers escanearam o rosto de ambas e
disseram que havia uma recompensa por Jas. Antes que Norra soubesse o que
estava acontecendo, eles estavam jogando sua amiga numa nave auxiliar
esfregada de areia – e, simples assim, Jas desapareceu.
Isso foi há uma semana. Ou mais tempo. Norra não sabe mais.
Depois que levaram Jas, algum oficial de rosto esburacado perguntou a Norra
diretamente se ela queria morrer ou se queria trabalhar. A resposta foi fácil. Se
Norra morrer, Sloane escapa. A morte não é uma opção. Não até realizar sua
vingança.
Eu vou trabalhar, ela disse a ele.
Então eles a trouxeram aqui. Onde aqui é, no entanto, ela mal sabe.
Quilômetros de um lugar chamado Cratertown, aparentemente.
Então ela trabalha. Todo dia ela opera essa mesma válvula preta, o metal na
roda tão quente que no começo criou bolhas nos dedos dela – agora, porém,
essas bolhas se tornaram calos e a pele ao redor delas está seca e rachando. Nem
sangra. Eu acho que não tenho sangue. Só a poeira seca de Jakku sussurrando
através das veias.
À direita dela, um alien de olhar vazio está curvado sobre um conjunto de
alavancas. A criatura branca como osso não fala muito. De vez em quando, geme
de dor nas costas das mãos. Ele chora lágrimas que brilham como sílica.
À esquerda de Norra está um homem de bochechas sujas, rosto redondo e
gorducho, embora o resto do corpo pareça um esqueleto vestido nos trapos da
própria pele. Às vezes ele sorri pra ela – um sorriso banguela, característico de
um verdadeiro louco – e canta algumas musiquinhas.
Gomm é o seu nome. Gomm, Gomm, o bomba-bom, o dom marrom, falando
no intercom, bombom, tonto doido holocron... Palavras dele, não dela. Uma de
suas canções bizarras. Ele lembra, de certa forma, Senhor Ossudo, se Ossudo
fosse um prisioneiro lunático preso em um planeta de poeira morto.
– Gosta de um costa – ele diz a ela.
– Gosta de um costa – ela responde, sem fazer ideia do que significa. Não
importa.
Norra precisa sair daqui.
Um sentimento óbvio, mas verdadeiro. Ela vem pensando em planos de fuga,
e nenhum deles é razoável.
As correntes que a prendem são literalmente isto: correntes passadas através
de algemas de metal. Quebrá-las não parece ser uma opção. Não sozinha, pelo
menos.
Ela pensou em sabotar a perfuratriz e deixar que explodisse. Mas como isso
iria ajudá-la? É uma fantasia pensar que de alguma forma ela iria inchar e
detonar do jeito certinho, quebrando suas correntes e libertando-a. É bem mais
provável que a transforme em um punhado de ossos chamuscados sobre a areia.
Além disso, essa plataforma de kesium não é a única. Ao todo, há uma dúzia de
outras coberturas acima de uma dúzia de outros poços que estão por todos os
lados. Se esta explodir, é capaz que todas explodam.
Isso significa que ela pode não matar só a si mesma.
De modo que isso não é uma opção. O que fazer, então?
Ela não tem resposta. Ela continua trabalhando. Ela tenta chorar, mas as
lágrimas não vêm. Norra não tem mais lágrimas, assim como não tem mais
sangue. Parece que neste planeta ela vai apenas secar e descascar enquanto os
ventos noturnos sopram.

No fim do dia, eles a jogam de volta na jaula. Uma porção de comida é


lançada com ela: um pacote plástico emborrachado com uma papa de proteína.
Às vezes é um pó acompanhado de um pouco de água, então o pó chia e se
transforma em alguma coisa: um pedaço inflado de pão, uma xícara de mingau,
um biscoito tão duro que é como morder um tijolo recém-assado. Hoje, porém, é
só esse pacote de gosma. Ela arranca a cobertura com os dentes e bebe
avidamente. Tem o gosto do cheiro de cuspe de happaívoros.
Mas vai sustentá-la.
– Ah, nada melhor que comer o próprio vômito.
Aquela voz. Ela a conhece.
Ela se vira para encarar quem falou.
E lá está Sinjir, do lado de fora da jaula. Uma inclinação convencida nos
quadris e uma expressão arrogante e convencida no rosto. Ele bebe de um frasco.
– Norra, querida.
– Como...? – ela pergunta.
– O que posso dizer? Sou chamado e conjurado. Estou aqui para resgatá-la.
Minha nossa, como nos encontramos em jaulas com frequência, não? E não
quero dizer isso como um conceito temático, também, quer dizer. Bem. Olhe ao
redor. Jaula de metal. Presa novamente. Um negócio feio, esse Império.
– Bem, me tira daqui! – ela exclama.
Uma mão cai no ombro dela. Ela se assusta e grita, erguendo um punho contra
quem quer que esteja tentando agarrá-la...
– Opa – Temmin diz, erguendo as mãos. – Ei, relaxa. Está tudo bem. Sou só
eu. Seu filho. Vamos te tirar daqui. Eu e Wedge. Aguente firme.
O filho dela. Ele está aqui. Ele voltou por ela. E logo atrás dele está Wedge
Antilles, e ele tem aquele sorriso brincalhão e aqueles olhos escuros e afetuosos,
e por um momento o pulso no pescoço acelera...
Mas como eles estão aqui, na jaula, com ela? Isso não faz nenhum sentido. De
repente ela está dobrada, o centro do corpo se contraindo enquanto ondas de
calor e frio se alternam quebrando-se contra ela. O suor deixa sua testa pegajosa,
enquanto os lábios ficam secos. Ela tenta dizer o nome do filho, mas tudo o que
sai é um gemido triste, como um roedor preso nos dentes de uma armadilha.
Ela ergue os olhos para ele, mas ele sumiu.
Sinjir também.
Eles nunca estiveram aqui, estiveram?
Não. Foram só ilusões decorrentes do calor. De repente, ela entende Gomm –
o sol e a poeira acabaram com a sanidade dela, como uma camada de tinta
descascada. E ela se pergunta se a sanidade é só isso, na verdade – algo a ser
desgastado, um verniz que, com pressão e esforço suficientes, pode ser
removido. A civilização também pode falhar da mesma forma, não pode?
Raspada até sumir, deixando apenas o metal nu da anarquia e da opressão para
trás. E a loucura. Isso é o Império. Isso é o que eles fizeram com ela e com a
galáxia. Uma força corrosiva, devorando tudo e todos.
Uma nova ilusão a toma. Essa alucinação atinge seus ouvidos antes dos olhos,
e ela ouve a voz mecanizada do droide do filho, Senhor Ossudo. Rastros de areia
deslizam como serpentes sobre um vento inesperado e carregam aquela palavra
familiar, “ENTENDIDO”, distorcida e quebrada pela estática. E lá está ele, a
alucinação completando-se ao atingir os olhos dela também. Norra ergue a
cabeça, com grande esforço, e olha por cima do ombro, vendo Ossudo marchar
pelo acampamento, empurrado por um stormtrooper cuja máscara mostra os
entalhes de espirais pontudas infinitas.
O trooper diz a um oficial próximo:
– Encontrei esse aqui na estepe. Estava fuçando em outra cápsula de fuga.
– Olha essa lata velha – diz o oficial, sentado sob uma pequena barraca
erguida na areia. É o mesmo homem arrogante de rosto esburacado que a trouxe
para cá. Effney, ela acha que é o nome dele. Que gentil da parte dele participar
da minha alucinação, ela pensa, e ri alto com a ideia absurda. Ele levanta o bico
de dentes serrados do velho droide com uma mão, enquanto usa a outra para
enxugar a testa com uma esponja molhada. – Essa velharia barulhenta passou
por algumas modificações desde as Guerras Clônicas. Provavelmente pertence a
alguma nômade ou spacer.
– Eu prendi um parafuso de contenção nele – o trooper diz. – O que você quer
que eu faça com ele?
Effney pulveriza a esponja no seu punho e um jato de água borrifa sua língua
estendida. Norra sabe que o droide é só uma visão, mas a água não é. É real. Tão
real que ela quase sente o gosto. Água...
O oficial, depois de beber, enxuga a boca com as costas da mão e responde:
– Não me importo. Destrua. Espere. Não. Envie-o na próxima nave de
transporte de volta à Dilacerador. O Velho está lá em cima, e tenho certeza de
que Borrum vai achá-lo uma antiguidade fascinante. Talvez ele nos consiga mais
umas porções aqui embaixo.
– Sim, senhor. – Ao droide, ele diz: – Mexa-se, B1.
– ENTENDIDO.
Norra empurra a testa contra o metal enferrujado de sua prisão. Ela observa
Ossudo marchar para longe, os servomotores queixando-se, suas articulações
moendo-se enquanto a sujeira do mundo é triturada entre elas.
Essa alucinação é bem persistente. A não ser que...
Fuçando em outra cápsula de fuga...
E se...? Poderia ser?
E se Temmin enviou Ossudo? E se, antes que a Mariposa atingisse o
hiperespaço, ele ejetou o droide? Ou a si mesmo? O calor novamente é
empurrado para fora dela, dessa vez não por arrepios febris, mas pela percepção
fria de que isso não é nenhum fantasma. A miragem não é miragem: é Senhor
Ossudo. É realmente ele.
Eu prendi um parafuso de contenção nele...
Envie-o na próxima nave de transporte...
Não. Ela precisa desse droide. Ossudo pode salvá-la.
Norra não tem nenhum plano. Não que haja tempo para um. De repente ela
grita:
– Esse droide é meu!
O trooper para. O oficial também.
Ossudo continua andando, até que o trooper o agarra com uma luva grossa e o
puxa para trás. O oficial e o trooper se entreolham e, com o gancho de um dedo,
Effney os manda se aproximar.
O oficial para na frente dela.
– Você – diz ele. – O que você disse?
– Eu disse que esse droide é meu. – A voz dela está arranhada, como se as
cordas vocais tivessem sido arrastadas atrás de um speeder sobre pedra
vulcânica. Ela exibe os dentes. – Eu o quero de volta. Agora.
O trooper fica parado lá, olhando dela para o droide. O oficial só ri. Ossudo,
por sua vez, parece não prestar atenção em nada disso. No centro de seu peito
estreito, parecido com uma caixa torácica, há um parafuso de contenção preto.
– Está me dizendo que você é a dona desse droide? – pergunta o oficial.
– Sou. Solte-o. E a mim também. Ou vai ter encrenca.
– Hm. – O oficial pega o fuzil de raios do stormtrooper. – Esse droide?
Ele aponta o fuzil e atira. O braço do droide voa girando, solto do corpo. A
junta do ombro faísca enquanto o braço atinge o chão.
– Não! – ela grita. – Espere. Por favor...
– Tem certeza de que está falando desse droide? – Effney pergunta com uma
careta maligna e bate o droide contra a jaula. Bam. Ela estende uma mão através
do metal, mas de repente o ar é iluminado por disparos de raios. No início, ela
não consegue ver o oficial, porque a figura de Ossudo bloqueia sua visão – mas
conforme os tiros arrancam partes do droide, pedaço a pedaço, a visão que tem
do oficial se torna mais completa. O rosto dele é uma máscara de ódio, e
novamente ela tem aquela imagem da sanidade sendo esfregada e revelando algo
inteiramente mais monstruoso por baixo.
Ossudo fica lá, parado. E aguenta o ataque. Partes dele são removidas pelo
fuzil de raios, membros e pedaços batendo na jaula antes de cair no chão.
Até ele virar uma pilha de peças soltas.
Até que Effney esteja lá em pé, suando, arfando, com um olhar malicioso.
Até que ela também se quebre e tombe para trás. Ela soluça, embora não
escorra nenhuma lágrima de seus olhos. Vira-se, arfando de náusea, mas não há
nada para expelir. Norra se encolhe e olha nos olhos do droide de seu filho –
olhos que piscam antes de finalmente se tornarem mortos e escuros.
Effney dá uma fungada desdenhosa. Ele joga o fuzil de raios para o trooper,
que mal consegue pegá-lo.
– Desculpa, escória. Parece que esse droide está com defeito. – Ao trooper, ele
diz: – Suponho que Borrum não vá ver essa antiguidade curiosa no fim das
contas.
– Tiro ele daqui? – o trooper pergunta.
– Não. Deixe-a olhar os destroços dessa máquina mutante. – Ele ofega, de
repente. – Deuses, está quente. Preciso de água, vamos.
Eles se afastam. Ossudo permanece em pedaços. Norra abraça o corpo.
Capítulo
13

Uma mancha de sangue decora a parede de pedra da cela dela.


Está seco agora. Há dias, talvez. Assim que Mercurial a vê, é fácil entender o
que aconteceu: ela resistiu e os garotos-escravos de olhar vazio de Niima a
espancaram. Um lado da cabeça da Zabrak está arranhado e coberto de cascas.
Seu cabelo – normalmente puxado para o alto, como as penas de um pássaro
orgulhoso – cai sobre esse lado da cabeça, empapado de sangue. O sangue secou
em faixas roxas no azul-marinho profundo da pele dela, formando novas
tatuagens até a sua mandíbula e emoldurando aquela careta feroz famosa.
Jas Emari. Você é minha.
Ele não se dá ao trabalho de cumprimentá-la. Não usa palavras. Só um sorriso,
largo e triunfante. É o suficiente para mostrar a ela: Fui eu quem te capturei,
peixinho. Ela pensou que tinha sido mais esperta que ele em Taris. E, ele admite,
foi mesmo. Mas havia sido só um constrangimento temporário – um passo em
falso num jogo maior.
Um jogo que ele acabou de ganhar.
Ele acena para as aberrações de Niima. Elas murmuram e resmungam,
enquanto três entram na cela, enrolando corda – corda! – ao redor dos pulsos
dela e puxando-a para fora.
Mercurial está feliz de ter a hospitalidade de Niima – e igualmente feliz por a
Hutt não estar aqui. Ele não conhece Niima, mas conhece Hutts. Eles trocaram a
igualdade por brutalidade e formalidade, e ele não tem tempo para nenhuma
dessas coisas. (Além disso, são nojentos. Parasitas gigantes e gosmentos
bebendo do fluxo sanguíneo do universo. Mercurial não tem problemas com
parasitas, dado que ele mesmo é um. Mas a gosma ele dispensa.)
Com uma postura arrogante, Mercurial lidera o grupo. Os escravos da Hutt
arrastam Jas atrás deles, e ela tem dificuldade em acompanhar. O caçador de
recompensas está quase flutuando de triunfo. Ele sente os passos mais ligeiros.
Este vai ser um bom dia. Foi tão fácil capturá-la. Ele pensou que teria uma longa
caçada à frente, então contratou um time inteiro para ajudar. E daí a garota
simplesmente cai nas suas mãos?
Uma vitória fácil. Uma vitória que ainda exigiu que ele estivesse no lugar
certo na hora certa, é claro. Ele merece isso. Merece o pagamento também.
Mas o seu time merece?
Talvez ele não pague ao time, no fim. Alguns créditos para que sumam. Ou
talvez nenhum crédito... afinal, que trabalho eles tiveram? Isso lança uma
sombra em seu sentimento de vitória. Ter que compartilhar os ganhos com
aqueles velhos boçais? Seria muito melhor guardar tudo para si – especialmente
dado que eles não fizeram nada exceto estar ali.
Mercurial pondera isso, enquanto eles percorrem as passagens de pedra lisa do
templo cavernoso de Niima. Nesse sentido, ela difere bastante dos outros Hutts
que ele conhece. Estes favorecem a opulência e o entretenimento. O palácio de
Jabba em Tatooine era praticamente barroco. Este lugar, porém, é o mais simples
possível. Os túneis são lisos em alguns lugares, ondulados em outros, e ele não
sabe se são naturais à paisagem ou se a Hutt mastigou e de alguma forma
secretou a abertura na rocha. Ainda mais estranho é que não há quase nada
eletrônico aqui. O mínimo de eletricidade. Nenhum droide. Até Emari está
amarrada com corda – não correntes, não grilhões, não algemas. Simplesmente
corda.
Eles passam por mais celas. Em uma delas, os escravos seguram um homem e
cortam tufos do cabelo do velho spacer. O homem grita enquanto o tosam até a
pele. As aberrações empurram algo dentro da boca dele – um pano sujo. Um
deles enfia uma agulha no canto do olho do homem. Seus gritos se dissolvem em
murmúrios incoerentes atrás da venda. Uma lufada de poeira cobreada e eles
começam a pintar o rosto do homem de vermelho...
Eles estão fazendo mais de si mesmos, Swift pensa. Niima escraviza seus
acólitos, e eles, por sua vez, produzem mais acólitos. Como uma doença que se
espalha.
Ele continua andando e acelera o passo. Quanto antes chegar ao fim disso,
melhor. Sua nave, uma nave auxiliar corelliana, está à espera.
Ainda assim. Algo o incomoda. Sua sensação boa está se erodindo depressa.
Também não gosta que Emari não tenha dito uma palavra. Ela está mantendo
a boca fechada e, embora isso devesse agradá-lo, não agrada, porque significa
que ela não está lhe dando nenhuma satisfação.
E Mercurial exige satisfação.
O caçador de recompensas diz a si mesmo que não vai falar nada também,
mas, um segundo depois, percebe que não vai conseguir evitar. Ele continua
andando, olhando para a frente, enquanto as palavras escapam:
– Não acho que você está apreciando a encrenca em que se meteu, Emari. E
não acho que entende que eu sou a única coisa entre você e o chefão Gyuti
arrancando sua cabeça como um troféu. Então, agora é a hora. – Ele sorri,
casualmente. Faz um gesto como um laço com o dedo acima da cabeça. – Quer
implorar, implore. Suplique, se puder. Me proponha um acordo. Vamos, Emari.
Você é uma caçadora de recompensas. Conhece a arte de ludibriar. A não ser que
queira que eu e meu time a entreguemos...
Mesmo assim, nada.
Tão decepcionante.
Ele para de repente e se vira para ela.
– A recompensa é por você viva ou morta, Emari, e fico feliz em levar sua
cabeç... espere, o que está fazendo?
As mãos dela, amarradas à sua frente, estão na frente da boca. Suas bochechas
incham até parar. Um fio de saliva conecta o lábio inferior aos nós dos dedos. Os
olhos dela lampejam de malícia.
Mercurial só percebe o que está acontecendo quando é tarde demais.
Jas inclina a cabeça – e o cabelo sobre o crânio cai de um lado para o outro.
Ao fazer isso, revela a topografia de seu crânio – e desse lado da cabeça seus
espinhos sumiram.
Três deles. Quebrados. Os tocos cobertos de sangue seco.
Onde...?
Ah. Ah, não.
Os espinhos estão na mão dela.
Swift recua cambaleando, a planta dos pés arranhando a pedra enquanto tenta
pegar os bastões pendurados do lado do corpo.
A mão de Emari forma um punho ao redor dos espinhos enquanto se move
para a frente, rápido, rápido demais, e aqueles espinhos ossudos já estão enfiados
entre as lacunas nos punhos, prensados entre os dedos apertados.
Os dedos dele encontram um dos bastões.
Devagar, tão devagar que os escravos nem veem o que está acontecendo.
O punho dela passa num borrão diante do rosto de Swift. Três espinhos
rasgam – desenhando linhas afiadas do queixo até a testa dele. A dor lateja. Tudo
que ele vê é vermelho. Ele gira o bastão, mas seus dedos se atrapalham e a arma
cai no chão.
Swift tropeça nos próprios pés. Seu ombro bate com força na parede enquanto
ele cai. Tem um vislumbre veloz de Jas Emari saltando sobre ele – com um giro
em torno do pulso, ela usa a corda para puxar dois dos escravos com ela, e as
duas aberrações despencam sobre Swift bem quando ele está tentando se erguer.
O joelho dela acerta uma das cabeças – e essa cabeça bate na ponte do nariz de
Mercurial com um pop seco. Atrás dos olhos, ele vê faixas de hiperespaço. Ele
ruge de raiva.
Quando abre os olhos, vê Jas dar um chute alto – derrubando o último escravo
Hutt. O pescoço estala. O escravo cai.
Jas Emari recua e serra a corda com os próprios espinhos.
– Emari – ele rosna, tentando se erguer.
Ela corta a corda.
– Por favor, não me machuque, Mercurial. Por favor, não me leve ao chefão
Gyuti.
Ela faz um gesto para ele com as mãos livres – esfrega os nós de cada dedo
nas bochechas enquanto o lábio superior se retorce em desdém. Ele supõe que
seja um gesto rude.
Então ela encontra um dos túneis que levam para o templo da Hutt acima,
entra no espaço e some.

A cabeça dela dói. Os chifres na sua cabeça são ossos. Quebrá-los significa
quebrar seus ossos. Bater o crânio contra a parede de pedra inclemente da cela e
arrancá-los um por um não foi nada fácil. Depois de cada tentativa, teve que
sentar. Tentou não vomitar. Uma vez, ela desmaiou. Então se ergueu de novo:
bam, bam, bam. O sangue umedecendo a parede. O cérebro dando giros
atordoantes. Até que tinha três dos chifres como espinhos na mão.
Três chaves.
Ela tivera uma chave de verdade escondida ali – uma gazua escondida num
chifre falso –, mas os escravos da Hutt a tinham encontrado e retirado.
O que a deixou com uma escolha: quebrar os chifres.
Eles são sua saída. E ela precisa sair o mais rápido possível, porque aquela
distração rendeu uma recompensa inesperada: ela sabe onde Rae Sloane está.
Ela a viu. Aqui no templo, trabalhando com Niima a Hutt. Indo a algum tipo de
expedição.
Ela tem que voltar até Norra. E rápido.
Jas não fazia ideia de quem estava vindo pegá-la, mas o fato de ser Mercurial
tanto a satisfaz imensamente como a preocupa profundamente. Swift não é tolo e
disse algo sobre trazer um time. Ele? Trabalhando com um time? Mercurial não
brinca direito com outras pessoas. São dias estranhos, de fato.
Quem quer que eles sejam, agora são parte do plano dela.
Eles vieram para cá de algum jeito. Em uma nave, ela presume, se ele tem um
time consigo. E se ele tem uma nave, essa nave tem códigos de autorização.
Códigos de autorização significam que eles podem voar e o Império não vai
derrubá-los assim que os vir. Não será uma vantagem que elas vão poder usar
para sempre, mas é alguma coisa.
Mas, primeiro, ela precisa alcançar aquela nave.
Depois terá que tomá-la.
Os túneis aqui no templo de Niima são um labirinto carcomido por minhocas
– ela acha que está indo na direção certa, mas de repente o túnel vira sobre si
mesmo e vai para o outro lado. A maior parte dos túneis parece igual. Toda vez
que ela acredita que os entendeu, os túneis provam que está errada, e ela se
preocupa por ficar dando voltas na mesma área. Seria aquela marca um arranhão
da bota dela?
O medo a domina. Eu posso morrer aqui. Posso me perder e morrer de fome.
Ou eles podem encontrá-la. Ela para de rastejar e tira um momento só para
escutar – virando o ouvido para o túnel adiante.
Sons. Arranhando. Murmurando. Aproximando-se.
Jas se encolhe e fica à espreita à medida que os sons se tornam mais altos. São
eles. Os acólitos descerebrados de Niima. Será que conseguem farejá-la? Será
que os escravos conseguem se orientar nesse labirinto?
De um túnel que cruza o dela, um deles aparece. Rosto pálido. Dentes afiados.
A boca do escravo se abre de susto, os olhos insanos brilhando, e ele se
aproxima depressa – movendo-se como um animal, os dentes mordendo o ar,
clack, clack, clack.
Ela chuta com uma bota, acertando a boca dele. Dentes se estilhaçam e o
inimigo engasga neles. Uma vozinha dentro dela diz: Ele é um escravo, não sabe
o que está fazendo, não o mate, mas é tarde demais para ele – não há nada aí,
nenhuma mente, nenhum pensamento racional, só zelo puramente selvagem. Jas
tem que fazer o que tem que fazer.
Mas até o tempo em que ela se preocupou com isso a distrai.
Mãos a agarram por trás. Elas se fecham ao redor da garganta de Jas e a
puxam – e seu crânio bate na pedra. A náusea toma conta dela, ameaçando
enviar suas entranhas para fora; é uma náusea quase esmagadora, enquanto o
segundo escravo a puxa de volta para os túneis. Ela chuta e tenta em vão
encontrar um apoio na pedra, evitar que seja arrastada, usando todas as suas
forças para não ser puxada por esse mutante balbuciante descerebrado – mas não
adianta.
Em vez de resistir, ela decide aceitar. Como uma nadadora, ela se puxa na
mesma direção em que a aberração Hutt a está arrastando – isso lhe dá ímpeto
suficiente para bater contra ele.
Eles caem. Ela assume uma pose de luta. Ele ruge quando Jas esmurra um
cotovelo na sua traqueia. O rugido é interrompido por um gorgolejar estridente.
Jas não fica esperando. É hora de se mover de novo – e ela o faz, encontrando
um canal adjacente e se embrenhando nele. Toda vez que encontra um novo
buraco, ela entra. Só continue. Não pare. Não vomite. Ela vai encontrar alguma
coisa. Alguma saída. Algum caminho adiante...
Outro som interrompe o progresso dela.
Dessa vez, o som não está se aproximando.
É distante. É alguém gritando.
É ele. É Swift.
(Ela sente uma pontada de satisfação ao ouvir o pânico na voz dele.)
Ela foca nesse som e identifica de onde vem.
É o rumo que ela toma agora – por túneis que serpenteiam, onde os escravos
entalharam ícones loucos da sua senhora, Niima. Então, de um túnel contíguo ela
sente...
Uma leve corrente de ar.
Com ele, um cheiro: metal, kesium, ozônio. O cheiro de uma nave. Isso
significa uma doca do hangar ou plataforma de pouso. Um novo som se ergue
também. Esse som é musical e discordante em medidas iguais, e agora ela sabe
que está perto, porque, enquanto a arrastavam pelo templo de Niima, eles a
puxaram pela sala do trono da Hutt – uma área como uma catedral entremeada
com buracos que zuniam e uivavam como um instrumento de vento, como um
órgão musical formado de pedra ancestral. Se isso foi planejado, feito de
propósito – uma música lunática para apaziguar a lesma –, ou se é só um efeito
natural, Jas não sabe e não se importa. Significa uma saída. Significa liberdade.
Ela segue o ar, a estranha música e o fedor de nave que ela traz. À frente, uma
descida lisa de um buraco a aguarda...
A caçadora de recompensas rasteja sobre a barriga. Ela espia através do
espaço e, como esperava, vê o prêmio. Uma nave auxiliar, pelo visto – corelliana
e de modelo mais antigo. Asas planas e curtas. Motor grande e barrigudo. Na
dianteira, há um cone da proa arredondado. Essa é a minha saída.
Só tem um problema: há um guarda. O resto do time de Swift, quem quer que
seja, não parece estar aqui – provavelmente está procurando por ela. Jas não é de
jogar, mas apostaria alguns créditos que é sobre isso que Swift está gritando.
Mas um único guarda? Ela consegue lidar com ele.
Daqui, ela espia o chapéu de abas largas de um Kyuzo. Familiar. Familiar
demais. Não pode ser...
Quando ele vira e examina a sala, ela dá uma olhada em seu rosto e reconhece
o caçador de recompensas que costumava trabalhar com o time da sua tia: Embo.
É ele. Até hoje, ela sente saudades dele às vezes. Ele era quieto e falava só na
sua língua nativa. Mas ela tirou um tempo, quando criança, para aprender a
língua dele e, como resultado, eles se tornaram próximos. Como família, de certa
forma. (Jom Barell a lembra um pouco de Embo. Silencioso, mortal, mas doce
também. Difícil de se aproximar, mas, uma vez que você consegue, vê como ele
pode ser bom.)
É claro, se for ele mesmo – e daí? Ele sabe que está aqui para caçá-la? Será
que é leal ao trabalho – ou a ela? E se ele está do lado do trabalho...
misericórdia. Os Kyuzos são lutadores capazes. Embo está mais velho agora,
mas, se ela tivesse que jogar seus créditos, apostaria que ele não perdeu a velha
forma.
Ela precisa tomar cuidado.
Jas se centra. Ela ainda está atordoada, mas terá que superar isso.
Com um movimento fluido e silencioso, ela desliza pelo túnel e se pendura
ali, os dedos encontrando um sulco estreito e suave na pedra para ajudar a
segurar-se. Seus pés balançam. Abaixo, Embo anda de um lado para outro perto
da rampa da nave – ele está a uma boa distância, mas ela consegue pular,
contanto que não vá direto para o chão. Em vez disso, ela se balança para a
frente e...
Jas está em pleno ar. Os braços estendidos. As pernas agachadas enquanto
aterrissa acima da nave. Bam. Ela pousa o mais silenciosamente que consegue,
mas ainda faz um barulho enquanto se agacha e rola. Não há tempo para
desperdiçar enquanto ela se move para a frente depressa, agachando-se atrás de
um dos estabilizadores da nave e se achatando contra ele.
Passos. Um grunhido. Embo está procurando...
Se eu puder passar sem que ele veja, isso será bem mais fácil.
Jas escorrega no lado traseiro da nave, pulando de um foguete de impulsão
para o próximo, até que está no chão e se esgueirando ao lado da nave – talvez,
só talvez, se ela puder entrar rapidinho, Embo nem a veja. Então ela pode ligar a
nave e...
Uma figura alta surge no espaço diante dela. Perfeitamente silenciosa. Uma
balestra aponta para ela – um arco grande o bastante para arrancar sua cabeça do
pescoço, a essa distância.
Embo a encontrou. Olhos laranjas brilham na semipenumbra do hangar do
templo. A armadura peitoral dele está arranhada, o ouro desgastado há muito
tempo, e a camisa de batalha vermelha Kyuzo está desfiando na bainha.
– Embo – diz ela, surpresa.
A balestra não vacila. Ele inclina a cabeça e, em língua kyuzo, diz:
– Velha amiga. É você mesmo.
Ela lambe os lábios, olhando ao redor. Embo pode matá-la. Pode pôr fim nela
agora mesmo. Ele já enfrentou caçadores de recompensas, piratas, Jedi, Sith – e
ou triunfou ou sobreviveu para lutar mais um dia. Ela engole um nó duro e sente
as palmas suadas.
– É bom ver você de novo, Embo. Faz, hã, um tempo. Marrok está por aqui?
– Ele faleceu há alguns anos. – Marrok: o anooba de estimação de Embo. Uma
fera cruel para os inimigos de Embo, mas, para ela, o cachorro de focinho longo
era uma coisinha fofa e diligente, sempre rolando e aproveitando uma
oportunidade de ter a barriga coçada enquanto a garota ria.
– Sinto muito por isso. Ele era um bom cão.
– Era.
– Então você, ah, está trabalhando com um time de novo? – Os dois corações
dela martelam dentro do peito, batendo tão rápido que é como fogo de canhão
dentro de si. Se eu me mexer, ele vai dar cabo de mim.
– Sempre trabalho com um time. É o jeito kyuzo, não estar sozinho.
– Mas Swift, hein? Eu não teria pensado...
A isso, Embo não responde nada. Só dá de ombros.
Ela pergunta:
– Você sempre soube que estava me caçando?
– Sim.
– Então como isso vai terminar, Embo?
De trás da caçadora de recompensas, o grito distante de outra voz que ela
reconhece – o sotaque brusco e comum de outro caçador de recompensas com o
qual Sugi trabalhou por um tempo: Dengar. A presença dele aqui é uma surpresa
– Swift está realmente revirando a história com esse time. Sugi sempre odiou
Dengar. Todo mundo sempre odiou Dengar.
É claro, eles odeiam Swift também...
– De volta à nave! Ela veio por aqui! – Dengar grita.
Ela não consegue ver o velho cretino. Ainda não. Mas ele estará aqui em
breve.
Vamos, vamos, vamos.
– Embo – ela diz. – Eu sei que você tem dívidas. Você e Sugi... vocês dois
ajudaram pessoas. Vocês fizeram a coisa certa e sei que isso aborreceu o pessoal
errado. Isso custou a vocês. Eu tenho as dívidas dela também. – Ela percebe
agora que o negócio para o Kyuzo é provavelmente simples: a ficha de Embo vai
ficar limpa se ele levar Jas. Dívida por dívida. Crédito por crédito. Ela começa a
ouvir Dengar agora. Aproximando-se. – Sugi sempre fez o que era certo, embora
não admitisse, e você era leal a ela. Eu estou tentando fazer algo bom aqui
também. A coisa certa. Mesmo que não seja a coisa fácil. Mesmo se deixar o
pessoal errado furioso. Mesmo se me custar. Então, eu preciso que você não me
entregue. E... e eu preciso dessa nave.
Embo parece considerar isso.
– Eu sou velho – ele diz. – E Marrok sempre gostou de você.
Ele ergue a balestra e dá um passo para o lado.
O caminho dela está livre. Ela solta o ar.
– Não vou me esquecer disso, Embo.
– Se está dizendo, criança.
Ela quer fazer mais. Mesmo só estar aqui e falar com ele – de repente, ela se
arrepende de ter perdido o contato com ele por todos esses anos. Mas não há
tempo para isso. Enquanto corre para a rampa, ela avista aquele cretino do
Dengar indo para lá, o fuzil de cano longo ao lado do quadril.
– Jas! Não ouse correr!
O fuzil do canhão atira – ela se encolhe quando o disparo passa sobre seu
ombro. Quase caindo, consegue correr pela rampa e bater no botão atrás de si – a
rampa começa a subir enquanto ela mergulha na cabine, abre o painel de
artilharia e prepara a torre de tiro da proa da nave auxiliar para abaixar.
Enquanto aquece os motores, a torre começa a cuspir fogo através do hangar.
Dengar mergulha atrás de uma formação rochosa no segundo em que a torre
explode uma pequena cratera no ponto onde ele estava momentos antes.
É hora de sair daqui. Hora de encontrar Norra.
INTERLÚDIO
Tatooine

– Tragam-no!
Dois Cavaleiros da Chave Vermelha – Yimug, o Gran, Gweeska, o Rodiano –
arrastam o homem usando uma armadura mandaloriana familiar demais para o
centro da assim chamada Cidade Livre. O homem cambaleia para a frente, as
mãos atrás das costas. Yimug o joga no chão. Gweeska chuta seu cóccix de
modo que sua cabeça com capacete cai na areia.
Lorgan Movellan dá um passo adiante. Ao redor, os Cavaleiros da Chave
Vermelha aplaudem e gritam e assoviam. Eles margeiam os muros ao redor da
Cidade Livre, erguendo as armas de raio no ar, alguns atirando. As pessoas da
cidade estão encolhidas aqui no meio. Algumas jazem mortas, servindo como
lição para as outras. O resto espera com armas contra a cabeça para lembrar de
permanecerem dóceis, para que também não acabem com os cérebros
cozinhando na areia.
Movellan olha por cima do nariz longo e torto com uma expressão de escárnio
para Cobb Vanth. Ele ergue o lábio em desdém, puxa catarro na boca, então
cospe. A cuspida bate no capacete mandaloriano.
– Você não merece essa armadura – Lorgan diz, sua voz um silvo como areia
raspando em areia. Para enfatizar, ele o chuta com uma bota com sola de pedra,
acertando Vanth na cabeça com tanta força que o assim chamado prefeito da
Cidade Livre desaba como um saco de trigo-mox. – Isso é armadura
mandaloriana de verdade? Parece que alguém a martelou na forja de um
falsificador. Além disso... usar a armadura de um homem forte não muda quão
fraco você é. Tirem o capacete dele.
Gweeska e Yimug trabalham em conjunto, desparafusando o capacete da
cabeça de Vanth com um giro casual. Isso feito, Lorgan consegue olhar nos olhos
do homem que vem dando tanto trabalho a ele.
– Você tem sido como areia na minha engrenagem – Lorgan diz, expondo os
dentes. – Cobb Vanth. Nobre cumpridor da lei. Xerife e prefeito e completo
espinho no meu traseiro. – Ele dá de ombros. – Não estou impressionado.
– Tem que me dar um pouco de crédito – Vanth diz, como se tivesse cascalho
triturado na voz. – Fui um incômodo suficiente para trazer você até aqui.
– Quem é você, afinal?
– Só um homem tentando fazer a coisa certa.
– Qual é o seu jogo? O que você quer? Não é poder? Não é dinheiro? Com
certeza esse seu... cultozinho de personalidade está rendendo frutos. Quer
mulheres? Talvez a armadura tenha te dado ilusões de grandeza.
– Eu quero liberdade.
Ah, então é isso. Ele agarra a cabeça do homem e a empurra para a frente com
tanta força que os dentes de Vanth estalam quando seu queixo bate contra o
próprio peito.
Ali, atrás do pescoço de Vanth: um símbolo formado de tecido cicatrizado,
como uma estrela primitiva com uma série de pontos e traços. A marca de um
dono.
– Você era um escravo.
– Claro. Essa é a história que podemos contar.
Uma centelha brincalhona reluz no olho de Vanth, e só enfurece Movellan
ainda mais. Ele era um ninguém, e agora é certamente alguém. Um escravo
transformado em xerife. Um fantasma transformado em homem. Com Jabba
morto e os Hutts em desordem – e, mais ainda, sem o Império e seu imposto de
escravo depois que a segunda Estrela da Morte deu kabum –, fazia sentido que a
classe escrava aqui em Tatooine se desmanchasse. Seus escravos, uma vez que
ganharam certa liberdade, não voltariam tão facilmente à jaula. Mas quem era o
dono dele? E por que arriscar seu pescoço pelos outros?
– Deixe-me fazer uma pergunta a você – Cobb diz.
– Vou permitir. Pergunte, embora eu não prometa que você vá gostar da minha
resposta.
– O que você quer com esse lugar, no fim das contas? Tatooine é uma caixa de
areia. A água é escassa. É quente e seco como a boca de um morto. Por que não
deixar esse planeta em paz? Por que não deixar seu povo em paz?
Lorgan inspira o ar profundamente pelo nariz torto. O fedor do homem – e, na
verdade, de todos esses habitantes da Cidade Livre – é quase esmagador.
Pegajoso de suor e oleoso.
– Se deve saber, os Hutts consideram esse planeta essencial por motivos que
eu não me importo nem um pouco em compreender. O que eu sei é que Tatooine
tem alguns recursos. Óleo dilarium. Oxalato de silicax. Mas seu assim chamado
“povo” é o recurso mais essencial de todos. Parte das melhores linhagens de
reprodução da galáxia está aqui, e não gostaríamos de diminuir essas estirpes
escravas. – Ele diz a última parte como uma alfinetada contra Vanth. – Seu
fracasso aqui hoje vai colocar todas essas pessoas em correntes de novo. Você
também. Seu tempo de liberdade chegou ao fim.
– Não é o meu tempo que está acabando – Vanth diz. – Você verá.
Lorgan considera refutar o homem de novo, mas com que propósito? Não
importa. Ele dominou a cidade. Ele capturou o homem da máscara. A Chave
Vermelha está em ascensão, tanto aqui como em toda a galáxia.
Agora só falta uma coisa.
– Eu acho estranho você ter pensado que seu estratagema pudesse funcionar –
Lorgan diz. – Quer dizer, sério. Só porque você tem uma lesma Hutt não quer
dizer que possa instalá-la no palco e controlar Tatooine. É esse o motivo, não é?
Você não quer liberdade para o povo. Você vê esse lugar como um recurso,
assim como eu. Assim como eu vejo você como um recurso. Agora eu vou pegar
aquela lesma Hutt e vou vendê-la de volta aos Hutts. Você já estará morto
quando isso acontecer.
Ele ergue um dedo e dois outros cavaleiros se aproximam – o Ithoriano
Vommb, de pescoço longo, e aquela mulher bruta de ombros largos, Trayness.
Eles arrastam uma lona vermelha rasgada, uma lona que se contorce e guincha
enquanto a lesma lá dentro tenta escapar. Atrás deles, acorrentado, vem um
homem barrigudo num capuz de couro longo, sua pele sem camisa suja com
algum tipo de graxa horrível. Lodo de lesma, Movellan pensa.
Outro movimento do dedo e eles desenrolam a lona. A cria Hutt – jovem, mal
adolescente – sai rolando, agitando os bracinhos, a boca como uma cratera
chorando de medo e dor. O homem encapuzado corre até ela e começa a arrulhar,
silenciando-a, acariciando sua testa gosmenta.
– Shh, shhh – diz o Mestre das Feras. Cantarolando, ele acrescenta: – Vai ficar
tudo bem. vai ficar tudo bem, bebê Borgo...
Borgo. Eles deram um nome para a coisa.
Ele olha para Vanth pela última vez e diz:
– O Hutt é nosso. Essas pessoas serão todas escravas. Você escolheu a colina
de areia errada para morrer.
– Você também – Cobb diz, com os dentes ensanguentados.
Então um momento passa entre Cobb e o Mestre das Feras. Vanth dá um
pequeno aceno e uma piscadinha. O Mestre das Feras retribui o aceno e começa
a alisar a pele sob o queixo do Hutt, sussurrando alguma coisa...
Lorgan rosna uma ordem para Trayness, e ela se move depressa, esmurrando o
Mestre das Feras na cabeça com um punho aberto. O homem dá um berro e
desaba, apertando sua cabeça agora sangrando.
A cria de Hutt ergue a cabeça para o céu. A fenda bocal se abre e sua língua se
esgueira para fora, testando o ar. Então ele ruge. O que sai daquela garganta de
corpo inteiro é um canto fúnebre estridente de sangrar os ouvidos.
Há uma movimentação nas margens. O próprio pessoal de Movellan de
repente está virando e apontando para além dos muros da cidade – ele não
consegue ver o que os outros estão vendo, mas, quando começam a disparar as
armas de raios, sabe que alguma coisa deu errado.
Então vem um som – um rugido terrível seguido por um grito de batalha
enlouquecido. Os Cavaleiros da Chave Vermelha começam a cair dos muros
enquanto disparos de fora os derrubam. Movellan se vira, o dedo fazendo um
gesto selvagem de laço. Para Vommb e os outros, ele diz:
– Vão! Descubram o que está acontecendo.
Eles saem correndo, mas ele não tem que esperar pela resposta.
Os portões da frente da cidade são escancarados...
Um bantha enorme, maior que qualquer coisa que Movellan já viu, irrompe
pela abertura. Seu único olho tem uma cicatriz, e seu pelo está coberto com
sujeira e entremeado com ossos e engrenagens enferrujadas. Em cima dele está
um dos Tuskens, aqueles caçadores selvagens do deserto que criaram tantos
problemas para a Chave Vermelha no ano passado. Esse Tusken é, como o
bantha, maior que todos os seus colegas – ombros enormes e peludos sustentam
uma cabeça enrolada em tecido esfarrapado e coberta com óculos pretos
enormes refulgindo ao sol. Cavaleiros da Chave Vermelha atacam o bantha, mas
o Tusken manobra a fera como um artista de circo – abaixando-se, quebrando
um pescoço de um Chave Vermelha com sua arma de pau tosca, então se
enfiando sob o bantha e subindo pelo outro lado antes de tirar do ombro um fuzil
de fogo e disparar três vezes – todos os tiros atingindo a cabeça e o peito dos
homens de Movellan. Então o Tusken está de volta no dorso da fera peluda.
Outros brutamontes Tuskens começam a escalar os muros, atacando a Chave
Vermelha. E os habitantes da Cidade Livre continuam intocados...
Eles sabiam. Isso não é um ataque aleatório.
Lorgan se vira para Vanth...
O xerife está lá, em pé. Atrás dele, as algemas jazem na areia. O Mestre das
Feras – parecendo alegre, como um bebê contente – está em pé com uma gazua
magnética, depois de obviamente ter ajudado a remover as algemas.
Lorgan é veloz, mas não o bastante – enquanto ergue sua arma de raios, Vanth
lhe dá um tapa com as costas da mão. Ele cai. Uma bota encontra seu pulso,
pressionando com tanta força que seus dedos soltam o cabo da pistola. A sombra
do xerife cai sobre ele, e ele encara a silhueta formada pela luz dos sóis. Em
torno deles, há os latidos e os gorgolejos de gritos de guerra tusken.
– É engraçado – Vanth diz. – Os Tuskens consideram este lugar sagrado. E
eles não gostam de traficantes de escravos mais do que nós. Nós oferecemos um
acordo a eles. Damos água e eles nos deixam em paz. Também lhes agrada que
tenhamos um Hutt, o que nos fez ganhar algum respeito. E meu amigo aqui,
Malakili, encontrou algo bem especial para eles: uma pérola da barriga de um
dragão krayt. Isso nos deu a última peça do quebra-cabeça: a proteção deles.
Embora eu ache que eles talvez nos dessem proteção de qualquer forma. Eles
não gostam de ver vocês, do sindicato, por aqui.
Lorgan tenta rastejar para trás, mas Vanth pressiona seu pulso com tanta força
que os ossos começam a ser triturados. Ele grita.
– Você não sabe o que está fazendo, Vanth. É um idiota jogando um jogo
contra deuses. Você roubou essa armadura pensando que ia preenchê-la, roubou
um Hutt achando que pode erguê-lo ao palco... mas nunca vai ser bem-sucedido
aqui. Meus mestres virão. Eles vão te matar. Eles vão apagar este lugar do
mapa.
Vanth se ajoelha no peito dele.
– O que você diz que eu roubei, eu digo que mereci. Você acha que sou apenas
um escravo, e isso é uma parte da história. Mas não conhece o resto. O que eu vi.
Quem eu era antes. E sei que meu tempo é curto. Eu cutuquei o monstro e agora
ele está acordado. Vou morrer em serviço a essa cidade, e talvez essa cidade
morra comigo, mas não seremos a última, longe disso. Os próximos que vierem
vão me conhecer, vão conhecer minha época, vão carregar os estandartes da
Cidade Livre mesmo se a Cidade Livre não existir mais. E, um dia, Tatooine será
livre, mesmo se eu e minha armadura de “forja de falsificador” e minha
cidadezinha tiverem sido novamente reivindicados pelas areias. Agora, fique
quieto. Preciso entalhar uma mensagem no seu rosto antes de mandá-lo embora.
Lorgan grita quando Vanth o segura.
Capítulo
14

O skitterrato faz o que o skitterrato sempre faz:


Corre.
No deserto, suas patinhas fazem cócegas na terra morta enquanto ele se
apressa – as pequenas garras criando sons baixinhos, ticka ticka ticka ticka.
Este skitterrato é como outros skitterratos aqui em Jakku: pequeno o suficiente
para nunca ser visto, magro o bastante para caber num cano ou tubulação e
curioso o bastante para procurar comida nos lugares mais estranhos.
No momento, porém, não está procurando comida.
Ele quer construir um ninho. Uma toca. Sua última foi dominada por uma
cobra-vara e o rato não quer saber daquela serpente. Uma toca de skitterrato é
uma coisa peculiar: o rato tende a encontrar um buraco na pedra ou na areia e
forra seu futuro lar com pedacinhos de detrito catados de, bem, todo e qualquer
lugar. Um homem morto vai permanecer ali só até que os skitterratos venham
pegar o que quer que as aves carniceiras não pegaram: couro de uma bota, tufos
de cabelo do topo do crânio, unhas. Histórias são contadas sobre nômades no
deserto que veem um oásis borbulhante a distância só para chegar até lá e
descobrir que a fonte é na verdade uma pilha ondulante de skitterratos.
Afugente-os e eles se espalham, revelando um morto reduzido a pouco mais que
osso.
Uma vez que tem seu material para a toca, a criatura começa a procurar um
objeto maior com o qual tampá-la para manter distantes outros animais, como
cobras-vara. Agora, este skitterrato encontrou um pedaço de arame. Arame é
bom. Arame pode ser dobrado com os dentinhos de tesoura do rato e
transformados num lugarzinho para se encolher e dormir – ou num lugar para os
bebês fazerem o mesmo.
Mas esses arames são teimosos. Eles simplesmente não se movem. Puxa,
puxa, puxa.
Nada.
Estão presos. Ancorados firmemente a um pedaço volumoso de metal – pelo
menos, um pedaço de metal volumoso para os padrões do skitterrato.
Ah. Mas o que é isso? Uma coisa de metal preta. Cilíndrica e já soltando do
lado – ela zune e faísca. Isso seria um tampão de toca excelente, não seria? O
rato desiste dos arames e se move agora para essa outra coisa, e o skitterrato se
espreme entre o objeto negro e o volume de metal ao qual está conectado – ele
sente uma faísca aguda, mas, para um bom tampão de toca, ele vai suportar.
Deve suportar.
O rato guincha enquanto remove a peça preta com o focinho.
Vai para trás dela e, com suas delicadas patas frontais, começa a rolar o
cilindro para o escuro, esperando fortemente que raptores-estripadores ou
vworkkas não o espiem fazendo o trabalho laborioso de meramente sobreviver
neste planeta desalmado e ressequido.
Por um tempo, tudo fica quieto depois que o rato vai embora.
Então – então – duas luzes se acendem, tão brilhantes quanto luas.
Lentamente, certamente, alguma coisa retorna à vida.

Este é Senhor Ossudo.


A matriz de memória do droide de combate B1 se lembra de muitas coisas.
Lembra-se da escuridão.
Lembra-se de marchar com seus irmãos esqueléticos num passo perfeito,
avançando sobre um vilarejo cercado por gramíneas verdes, pessoas inocentes
encolhidas ali na noite. Pessoas inocentes que não sobreviveriam graças a esse
batalhão de droides de combate.
Lembra-se de lanças de luz, verde e azuis, atravessando a noite e
estraçalhando aqueles homens de metal, um depois do outro e depois do outro.
Chuvas de faíscas. Linhas de magma causticantes de metal derretido. Lembra-se
de algo incongruente também: aqueles feixes de luz segurados nas próprias
mãos. Não duas mãos, mas quatro. Girando, vwom-vwom-vwom-vwom.
A máquina lembra-se – ou melhor, ele se lembra de dançar o la-ley. De cantar
para crianças. Um programa para diverti-las. Um programa para agradar.
Lembra-se de seis triplos. Uma designação, talvez. No passado.
Mais escuridão.
A matriz não é uma coisa. Ela sabe disso. Ossudo é muitas mentes e muitas
vidas. Algumas conhecidas. Algumas escondidas. Programas protocolares. Artes
marciais. Estratégias de combate. Titeragem. Criação de crianças. Elas são
unidas por uma mão ávida, embora inelegante, a mão de um garoto esperto que
precisava de um amigo.
Ossudo se lembra dele também. Amigo. Garoto. Temmin.
MESTRE.
Embora o garoto não seja seu mestre por causa de como ele é programado.
Temmin é o mestre do droide porque Ossudo conhece o valor da gratidão.
Ossudo viveu muitas vidas. Todas elas, exceto esta, acabaram agora. Receber a
vida outra vez – mesmo como uma colcha de retalhos de identidades – é uma
coisa especial. Rara e preciosa. E Ossudo sabe que Temmin é seu Criador.
Assim, Temmin é seu Mestre. É justo.
Ossudo, acima de tudo, se importa com a justiça. Com a lealdade.
Com a amizade.
O rosto do seu amigo surge na mente-matriz. Brasas de dados na escuridão
desabrocham como sinapses mecânicas, e Ossudo se lembra de Temmin – em
pânico – dando uma última série de ordens. Lance a cápsula e vá para Jakku.
Encontre a mamãe! Proteja a mamãe.
Mamãe. Mãe. A mãe de Temmin.
NORRA.
É ela lá, no escuro. Uma imagem mais recente, mais fresca, atinge os bancos
de memória do droide como uma concussão explosiva: a imagem de disparos de
raios dissecando-o de modo desajeitado. Ossudo se esforça para estender sua
mente-matriz até seus membros, mas nenhum deles responde. Checagens
diagnósticas cascateiam por ele e todas relatam:
DESTRUIÇÃO. Todos os quatro membros estão desconectados e
inconscientes. A cabeça do droide também está parcialmente desconectada – sua
junta está rompida, mas o crânio de metal permanece conectado ao torso por um
cabo telescópico.
Uma sensação de pesar escurece a mente-matriz. Desespero não é meramente
uma condição humana; droides conhecem a sina da existência e o fim das coisas.
E Ossudo se preocupa de repente – uma preocupação profunda e faminta como
um poço de paredes escorregadias do qual não é possível escapar, um poço onde
até a luz é engolida por inteiro. Ele se preocupa que está morto. Que não será
capaz de cumprir sua missão. Que a vida que seu Criador e Mestre deu a ele foi
desperdiçada, acabada agora no chão desse deserto, perto da própria mãe do
Criador.
O droide deseja que isso não seja verdade. Ossudo luta contra o medo de que
todas as suas vidas tenham levado a este momento imprestável.
Mas!... O parafuso de contenção que o trooper colocou nele – suas checagens
diagnósticas retornam e lhe informam que, embora seus membros não estejam
mais ali, o parafuso também não está. Então, nessa revelação, uma nova
lembrança emerge. Ou, melhor dizendo, reemerge. Essa lembrança traz cinco
letras: ARMAS.
Cinco letras para cinco palavras:
Ativar.
Reparação.
Mecânica.
Autônoma.
SIM.
Ossudo se mete em problemas com frequência, mas a estrutura anatômica de
um droide de combate é bastante simples. Assim, começa uma rotina de
autorreparo: o cabo que conecta a cabeça do droide ao seu torso subitamente se
retrai – vvvvvvipp – e a junta, embora danificada, se abre e novamente abraça o
pescoço do B1. Ossudo abaixa a cabeça. Seu bico serrado se enterra na areia e se
fecha, movendo-o para a frente.
Ele faz isso de novo e de novo. A cada vez, o movimento move sua estrutura
para a frente alguns centímetros. É lento e árduo. Mas é progresso.
Quando ele se aproxima do braço mais próximo, novamente enfia a frente da
cabeça robótica com crânio bicudo no chão, mas, em vez de movê-la para cima e
para baixo, ele a vira de um lado para o outro. Servomotores chiam e trituram.
De novo, é o suficiente para mover o corpo para a direita – centímetro por
centímetro, até que o torso bate no braço desconectado esperando ali. Tink.
ARMAS, ativar reparação mecânica autônoma. A junta do lado do torso vibra
enquanto se magnetiza. O braço estremece no chão, tendo espasmos como se
estivesse súbita e independentemente vivo. Ele desliza depressa em direção ao
corpo. A bola se une com a junta. Grampos de metal o fixam no lugar.
Ossudo envia um sinal pela extensão do membro. Dedos se movem. O braço
dobra. EU TENHO UM BRAÇO DE NOVO. O braço é uma ferramenta
essencial que permite ao droide – como uma coisa morta sendo reanimada – se
erguer do chão, onde ele vê seus outros três membros. Duas pernas. Um braço.
Ele começa a se recompor.
Peça a peça. Apêndice por apêndice. Zumbido e clique. Garras de hiperaço
prendem cabos dentro de articulações. O droide reajusta algumas costelas
torcidas. Sua mão funciona como uma chave de fenda – o suficiente para
endireitar sua espinha, mas não para consertar a postura curva e torta. O braço
esquerdo não está inteiramente funcional. A perna direita não está inteiramente
funcional também. Reparos externos serão necessários.
Mas o droide está agora na escuridão ao lado da jaula de Norra.
Ele é Senhor Ossudo.

Na escuridão da noite de Jakku, Norra se remexe. Seus olhos se abrem de


repente. Alguma coisa está diferente. Alguma coisa está errada. Não...
Alguma coisa mudou.
Ela engole e é como comer cacos de vidro quebrado. Tudo parece seco, e
quando ela pisca a sujeira só entra mais fundo em seu olho. Ela estremece e
estende uma mão, puxando-se para se levantar.
A forma das partes desmontadas do droide sumiu. Ossudo...
Alguém deve ter vindo para levá-lo depois que ela ficou inconsciente. Outra
vez, ela se sente terrivelmente sozinha.
Então, na escuridão, alguém grita. Esse grito é interrompido. Momentos
depois, alguma coisa rola de trás dos poços da plataforma de kesium. Alguma
coisa que sai rolando até a jaula dela com um clong.
Um capacete. Quase inteiramente branco, embora estriado com as marcas de
dedos sobre a poeira de Jakku. Ele pertence – ou pertencia – a um stormtrooper.
Sangue empapa a areia embaixo dele.
A distância, outro grito agudo. Fogo de raios enche o ar logo em seguida,
iluminando a escuridão. Algo se move nas sombras. Norra pressiona o rosto
contra a jaula e vê outros dois stormtroopers correndo em direção à forma – eles
desaparecem atrás do poço de kesium, e é a última vez que Norra os vê. Mas ela
ouve seus gritos. Seus ganidos de dor.
Agora, dessa direção, vem outra pessoa.
Effney, o oficial. Ele cambaleia para a frente, caindo em um joelho, embora o
ímpeto o faça se erguer e continuar correndo. Está sem camisa e suado, um
tecido branco envolvido ao redor da testa. Ele segura uma pequena arma de
raios.
Ele atira para trás enquanto corre. Grita:
– Não! Vá embora! Me deixe em paz, seu monstro!
Ele é a presa. E seu predador se revela.
O droide de combate se move em trancos espasmódicos – Ossudo está
quebrado, Norra percebe. A perna direita se move devagar e balança na
articulação toda vez que toca o chão. O braço esquerdo – com a lâmina estendida
– convulsiona enquanto o outro braço permanece firme, apontando sua arma.
Os tiros de Effney passam longe, errando o droide por uma margem
considerável.
Ele está correndo em direção à jaula de Jas. Estará ao lado dela...
Ela rosna, agarra um punhado de areia e sujeira na mão, e quando Effney
passa correndo, em pânico – a boca aberta, os olhos arregalados –, ela os joga
em seu rosto. Ele grita e começa a esfregar os olhos.
Isso o atrasa o bastante para Ossudo alcançá-lo.
Effney gira, apontando a arma de raios. É tarde demais. A lâmina do droide
corta aquele braço, e a arma cai na areia. Então Ossudo faz o que ele fez com
Ossudo – um pedaço depois do outro, até que Effney se torna só uma pilha de si
mesmo fora da jaula de metal.
Ossudo aponta o vibropunhal para baixo, cortando através do ferrolho na jaula
de Norra. A porta se abre.
– EU PRATIQUEI VIOLÊNCIA – Ossudo diz.
– Sim, praticou – Norra responde.
– ENCONTREI VOCÊ.
– Encontrou mesmo. Obrigada. – E obrigada, Tem, por construí-lo. Seu
salvador estranho, desvairado, dançante e cortador de membros. – Temos que ir
agora, Ossudo. Senão estamos os dois mortos.
– ENTENDIDO.
Capítulo
15

Esses dias, o conselheiro Gallius Rax está atarefado. Mais atarefado do que
ele antecipou, pois o ato de administrar um Império é um feito complicado e ele
só pode delegar até certo ponto. Algumas coisas requerem a sua mão. Muitas
coisas, na verdade, e é essencial que ele permaneça no controle.
Pela manhã, é tudo administrativo. Ele senta a uma mesa sob uma tenda no
telhado do prédio principal. Isso lhe permite observar a base deles de cima, à
sombra da Cordilheira de Carbono em Jakku. Dali, ele pode ver os resultados de
seus esforços. Os dados em sua tela são trazidos à vida conforme o seu Império
cresce em poder: Transportes Blindados para Todo Terreno marcham no
perímetro, uma fila de AT-STs aguarda à esquerda e fileiras de caças TIE
esperam à direita. E, acima, os fantasmas dos destróieres estelares, prontos para
mergulhar do céu e fatiar o inimigo no meio como a lâmina de um carrasco.
A cada dia, o Império cresce. A fraqueza de dentro é cortada – como a parte
macia e madura de uma fruta retirada e deixada no chão –, e os fortes são
convocados. Eles vêm para cá. Vêm para o terreno de testes de Rax.
Vêm para o seu lar.
Ele inspira profundamente, centrando-se, como costuma fazer. Nessa
inspiração, sente o aroma do planeta onde foi criado – o aroma da pedra
aquecida pelo sol, o fedor da areia, um odor intoxicante de alguma coisa morta
que seca o interior do seu nariz. O resto dele também está naquele caminho: a
umidade foi sugada do seu interior. O Império inteiro está endurecendo – um
corte gorduroso de carne curado numa tira amarga e dura que não tem nenhum
outro propósito a não ser sustentar.
Às vezes, ele para e olha num espelho. Até ele, que manteve um treinamento
físico rigoroso desde que deixou o planeta, parece enrijecido, mais magro,
desgastado. A transformação é agradável. Sou metal martelado até virar lâmina.
Enquanto faz isso, ele cantarola para si mesmo: um antigo madrigal chamado
“Traição e Semblante”. Um dos favoritos de Palpatine.
Logo ele termina de examinar a si mesmo e ao seu Império.
Então ele vai encontrar com seu conselho interno: o general, o Velho Borrum;
o arquiteto do novo programa de stormtroopers, Brendol Hux; o propagandista
Ferric Obdur; e, por holograma, o grão-moff Randd.
Rax diz a eles que a guerra está chegando.
– É inevitável – ele explica, quase desdenhoso. – Já vimos uma nave rebelde
entrar no nosso espaço, mal conseguindo escapar. Pouco depois, detectamos um
droide-sonda e uma nave de reconhecimento nos vigiando do setor vizinho.
Todos ouvimos o discursinho de Mothma. Embora tenham me informado que ela
está emaranhada nas políticas letárgicas da Nova República, garanto a vocês: a
batalha está chegando.
– Chegando devagar – Borrum diz. E ele tem razão. Rax se pergunta qual é o
motivo disso. Ele tem assegurado ao conselho que o ataque da Nova República é
iminente. E devia ter sido, mas dias passaram e nenhum ataque chegou. Primeiro
ele se preocupou que a República tivesse uma estratégia diferente em vista, uma
que ele não conseguia prever; agora, suspeita que a verdade é mais banal: eles
ficaram tímidos. A Nova República não é uma entidade militar. É uma entidade
democrática. E é dolorosamente ingênuo pensar que a democracia possa
funcionar numa escala galáctica. É uma ideia muito ruim esperar que uma nave
pilotada por mil macacos-lagartos faça qualquer coisa exceto voar direto para o
sol.
Borrum bufa e cruza os braços.
– Estou ficando impaciente. Não podemos ficar em alerta para sempre. Isso
exaure os homens. Testa a alma.
Minha alma de fato foi testada, Hodnar Borrum.
Randd, sempre pragmático e cauteloso, diz:
– Deixe-os chegar à batalha tão lentamente quanto quiserem. Isso nos dá mais
tempo para aumentar nossos números. Cada dia vemos novas naves se reunindo.
Hoje mesmo os veteranos de Ryloth se juntaram a nós no destróier estelar
Diligente.
– A mensagem da nossa ocupação aqui... – Obdur começa a dizer, mas Rax o
silencia com um silvo. Obdur é um idiota admirável, e Rax sinceramente aprecia
o poder da propaganda. É um componente necessário e teatral do que eles fazem,
e Rax não ama nada tanto quanto ama o teatro. Mas a função de Obdur está
minguando. Não há mais nenhuma “mensagem”. O valor da propaganda é quase
nulo. A não ser que possa ser usada para incitar a Nova República a atacar...
Não. Isso seria óbvio demais. Um truque de mágica funciona melhor quando o
público não percebe que é um truque.
Está decidido. Ele vai mandar matar Obdur. Não é uma grande perda. Obdur
era um aliado feroz de Sloane, e veja como ela terminou. (Tão decepcionante.)
No entanto, dar cabo dele é uma tarefa que tem que ser feita discretamente. Rax
não quer sangue nas próprias mãos, não nesse caso. Talvez possa ser um teste
para os novos recrutas de Hux...
Falando em Hux, o homem parece preocupado. Como de costume. Seus
ombros largos estão curvados para dentro – sua postura tem sido miserável
ultimamente. O planeta está tendo um efeito nele. E, é preciso admitir, Rax tem
feito demandas excessivas do homem e seus talentos. O negócio é que Gallius
precisa de Hux. Não só agora, mas para o que vem depois. Ele deve ser
preservado em sanidade e em corpo. Pode ter chegado o momento de confiar no
homem mais completamente.
Claro, isso não deu certo com Sloane.
Um dilema, um que terá que esperar. Por enquanto, outra questão o chama, e
essa exige que ele ensanguente as mãos.
Rax os deixa antes que a reunião acabe.
Ele desce as escadas e passa pelo complexo de treinamento pré-fabricado –
onde troopers se reúnem e combatem, rodeados pelos colegas e incentivados por
oficiais sedentos de sangue. As apostas correm furiosas e velozes. Seu
treinamento é mais brutal agora. Sobrevivicionista, animalista – como é
adequado a este mundo cruel. Ele não tem tempo para observá-los destroçar uns
aos outros.
Rax segue ainda mais para baixo.
É mais frio aqui no subnível. Canos e conduítes margeiam os corredores,
circum-navegando os mecanismos necessários da base. Ele percorre os
corredores e encontra a porta – a sala além dela é basicamente um depósito de
coisas pouco importantes: a maioria, uniformes e manuais, ambos elementos de
um Império mais refinado, um Império que não pode resistir.
Nessa sala, um homem muito velho aguarda. Suas mãos estão amarradas atrás
das costas; seus joelhos tocam o chão. Como se ele estivesse rezando. Que
apropriado.
– Anacoreta Kolob – Rax diz.
O homem ergue a cabeça, os olhos se estreitando em fendas cansadas
enquanto ele encara a penumbra da sala. Até daqui, Rax consegue ver quão
velho ele se tornou. Tudo nele parece ressecado e franzido. Sulcos profundos e
manchas escuras marcam seu rosto, seu pescoço, suas mãos...
– Quem está aí? Quem é você? – A voz está trêmula e estridente.
– Você não se lembra de mim – Rax afirma.
– Deveria?
– Sua mente está enfraquecendo? Ou simplesmente sou tão esquecível assim?
O anacoreta suspira.
– Minha mente é afiada como uma pederneira. É capaz de ver todo o
sofrimento do mundo desperto, assim como se lembra dos preceitos do Eremita
sobre o tormento...
– Não lembre. Eu não preciso dos seus sermões espirituais. Exijo apenas que
você me veja. Você me reconhece?
– Eu... – Os olhos de Kolob se arregalam e se tornam fixos. Sua boca se move
para formar um sorriso conforme a lembrança toma forma. E então,
apropriadamente, o sorriso se desmancha. – Ah. Sim. O garoto que foi embora.
O garoto nas margens. Galli, é você?
– Sou eu, Kolob.
Os ombros do homem caem.
– Foi você o tempo todo.
– Perdão?
– Você tem roubado nossas crianças.
Um sorrisinho aparece no rosto de Rax.
– E por que você diria isso?
– Porque você fazia a mesma coisa antes, também. Quando era garoto, atraía
as outras crianças para longe do orfanato. Brev. Narawal. Kateena. Elas se
tornaram perdidas tanto quanto você. Selvagens e rebeldes.
– Não, não rebeldes. Eu simplesmente encontrei um propósito longe da sua fé
tola. E as crianças encontraram esse propósito também.
– E o que foi feito delas, Galli?
Eu as matei para manter um segredo.
– Elas cumpriram seu propósito.
– E por que você está roubando crianças agora? Não são seus imperiais que as
levam. São bandidos, caçadores e catadores roubando-as à noite. Mas é sua mão
que eu vejo comandando-os. Por que esconder?
Por que, de fato?
– Estou levando as crianças porque elas também servirão a um propósito para
mim. Elas serão as primeiras.
– As primeiras o quê?
A isso Rax não vai responder. Atrás dele, alguém emerge das sombras do
corredor: um homem usando uma máscara vermelha, pontuda e demoníaca, feita
de metal e afixada com rebites pretos. Esse homem é Yupe Tashu, que já foi
conselheiro do imperador Palpatine e agora é conselheiro do conselheiro Rax.
Tashu diz:
– A fé do anacoreta tem laços à Força. Ao lado luminoso. Mil anos atrás, os
anacoretas de Jakku se ligaram aos Jedi. Mas agora o lado sombrio prevalece.
Tashu inclina a cabeça e entrega a Rax uma faca longa com uma lâmina negra.
– Olhe só você – Kolob diz. – Um selvagenzinho que aprendeu a cantar. Saber
qual garfo usar não o torna menos selvagem. Aqui está você, vindo me mostrar
quanto cresceu, e no entanto eu vejo que não cresceu nem um pouco. Você fala
sobre propósito. Qual é seu propósito hoje, Gallizinho? Por que me trazer aqui?
Não, não precisa responder. Eu vejo o propósito em sua mão. Mas, depois de
todo esse tempo, por quê?
Rax entra na sala. Sua faca é leve, mas parece pesada. A lâmina é serrilhada.
Rax se aproxima do homem amarrado.
– Você me disse que as crianças eram melhores quando vistas e não ouvidas.
Você me disse que as crianças deviam ficar quietas e servir. Ajoelhar-se e sofrer
e não pedir que a vida oferecesse qualquer mérito, pois o serviço era recompensa
o bastante.
– Eu disse essas coisas. Acredito nelas.
Rax se inclina. Sua voz se abaixa até um sussurro.
– Você acredita em mentiras. Não é nosso trabalho sofrer. Não é nosso destino
apenas servir. Meu destino é maior que isso. Se tivesse dado ouvidos a você,
ainda estaria aqui nessa pedra. Ajoelhando-me por você. Rezando por você.
Ouvindo os toques de osso. Fazendo as tarefas que você exigia de mim. Mas eu
só tenho uma tarefa aqui hoje.
Ele apunhala a lâmina na barriga do homem, então a enfia mais fundo. Sua
mão fica quente e úmida.
– Galli...
– Gallius Rax, você quer dizer. Nenhuma outra criança vai ser esquecida pela
sua mão. Nenhuma mais será obrigada a servir os anacoretas.
O homem sorri, um sorriso vermelho e sombrio.
– Eu disse a você que toda a vida era sofrimento. E, para você, o sofrimento
está só... começando. Você é caçado, Galli. E seus planos vão... falhar... – Ele cai
para trás, a lâmina liberada com um som baixo e sugado enquanto ele tomba,
morto.
Está feito.
Rax sente um peso enorme erguer-se dele. Uma mão em seu ombro o puxa
para trás. Tashu, em voz baixa, diz em seu ouvido:
– Um sacrifício necessário. O lado sombrio é mais forte. Nossa missão aqui
está abençoada, agora.
Sim, está. A missão verdadeira, pelo menos. Ele acena e concorda com Tashu
– embora o homem tenha mais conhecimentos que a maioria, ainda é um louco.
Um fiel ardente do lado sombrio da Força, e Rax não gosta de misticismo. No
entanto, se isso apazigua Tashu, então a ilusão de que ele também é fiel pode
começar.
Ele vai precisar de Tashu, afinal.
Agora Tashu diz:
– Eu não desejo apressar o sacrifício. Quero lhe dar tempo para desfrutá-lo,
mas tempo é escasso e você tem um visitante.
– Um visitante?
– Sim. Venha.

Eles se aprofundam no subterrâneo, ao redor de um emaranhado de cabos de


força, passam por alguns painéis de íons e entram num corredor totalmente
escuro.
Luzes se acendem. Ali, no fundo, há uma figura de capa vermelha.
Rax sabe quem – ou o que – é. Ele dá um passo à frente, subitamente
preocupado.
– O que há para relatar? – Ele sabe que deve haver alguma coisa e que deve
ser importante. Uma visita de um sentinela como essa não ocorre à toa.
A figura na capa se vira.
O rosto do imperador Sheev Palpatine retribui o olhar de Rax. Aquele rosto
tremeluz sobre a máscara do droide. É um artifício, mas mesmo como um
representante é próximo o bastante da coisa real para assombrá-lo. Outros
sentinelas foram meros mensageiros: apareciam, davam comandos e iam
embora. Mas estes, reservados para Rax e seu plano mestre, são mais
inteligentes. São sencientes. Embora nenhum realmente esteja à altura do
brilhantismo estratégico e da mente sombria e terrível de Palpatine, chegam
perto o bastante.
A voz também é próxima o suficiente para talhar seu sangue. O droide
sentinela fala na voz de Palpatine:
– O perímetro mais distante foi violado.
– Mostre-me.
Da manga da capa vermelha, a mão de metal negra do droide emerge. No
centro de sua palma esquelética há um projetor, e agora esse círculo se torna uma
imagem holográfica no ar, gentilmente se virando.
A imagem tridimensional mostra uma caravana viajando pelo vale: carroças
com rodas e feras de carga e andarilhos. No fim de tudo, há uma plataforma
sustentada por hover-rails, guiada por homens segurando correntes pesadas. E
nessa plataforma há uma Hutt.
Niima.
O dedão do droide treme por reflexo – como um espasmo, mas um espasmo
com uma função. Com cada tremida, a imagem muda. Ela mostra a caravana de
diferentes ângulos – às vezes a distância, às vezes próxima. O vale está
pontilhado com câmeras, escondidas há tempos sob a areia e a poeira ou
incrustradas na rocha. Tudo parte de uma rede que está instalada há quase três
décadas. A imagem subitamente foca na plataforma, e Rax inspira fundo.
A imagem mostra uma mulher. Seu cabelo negro está preso por um laço
esfarrapado. Seus olhos estão escondidos por trás de óculos grossos de proteção.
Sua pele é escura.
Ele a reconhece. Ele reconheceria a grã-almirante Rae Sloane em qualquer
lugar.
– Ela vive – ele diz.
– E – Tashu complementa – se aproxima do Observatório.
– Quanto tempo?
É o sentinela que responde:
– Dada a taxa de movimentação, três dias.
Três dias. Bom. Isso é tempo suficiente para pôr fim à viagem deles.
Ao droide, Rax diz:
– Arme as defesas.
Sloane, admiro sua tenacidade. Mas tenho que acabar com isso.
Capítulo
16

Lento, lento, lento como um verme rastejando por um sulco. Rae Sloane
caminha ao lado de uma plataforma enorme – um palco, na verdade, um estrado
sobre hover-rails enferrujados que trepidam e zumbem. Ela é levada adiante
pelos escravos da Hutt, que puxam correntes gordas sobre os ombros ossudos.
No palco está sentada Niima, a Hutt, enrolada num ninho de travesseiros
esfarrapados sob uma enorme lona de couro.
A Hutt dorme. Roncando e roncando, arrotando bolhas de muco pelas fendas
nasais. O vento ocasional bagunça os laços vermelhos imundos amarrados ao
redor de seus muitos nódulos e protuberâncias.
Eles estão no final da caravana, mas o palco e seus passageiros não são todos
os seus membros; em frente caminham dúzias de escravos. Outros andam em
wheel bikes ou velhos speeders cujos grav-elevadores quebraram e agora estão
montados sobre plataformas roladoras, os motores convertidos de turbinas
limpas para locomotores que rosnam e expelem fumaça. Alguns andam sobre
feras encouraçadas e reptilianas cujos corpos possuem placas de metal e
melhorias biogenéticas toscas, como olhos telescópicos ou mandíbulas
pneumáticas. Tudo isso rola devagar através do vale chamuscado de sol e
fustigado pelo vento – e de cada lado há espiras de pedra vermelha e cânions na
forma de bigornas. Como os guardiões de um lugar esquecido.
Esses cânions projetam sombras longas sobre o vale profundo.
– Isso é árduo – resmunga Sloane.
Brentin Wexley ergue os olhos para ela. Ele está cansado. Rugas de frustração
foram permanentemente gravadas na sua testa. Suas bochechas estão coradas
graças às rajadas de areia. O próprio rosto dela deve estar corado do mesmo
modo. Seus óculos também já estão cobertos de poeira – e, como faz a cada dois
minutos, ela tem que limpá-los com as costas das mãos.
Eles se mantêm atrás do palco arrastado. Embora Niima durma, não ousam
falar nada contra ela onde alguém possa ouvir.
– Progresso é progresso – ele diz. Sempre otimista. Com certeza a essa altura
deve ser só fingimento. – Nossos destinos estão casados ao da Hutt.
– Faz quase uma semana.
– Eu sei.
– Precisamos aproveitar o momento. Eu estive pensando... – ela diz.
Um olhar preocupado atravessa o rosto dele.
– Eu quero saber?
– Quer e vai e não vai rejeitar a ideia. Eu tenho um plano.
– Qual?
– A Hutt dorme durante o dia, o que significa que é a melhor hora para atacar.
Logo, até. Hoje.
– Você está louca? Matar um Hutt não é coisa fác...
– Não vamos atacá-la.
– Quem? Os... homens dela?
Ela faz uma expressão de desdém.
– Não os chame de homens. Eles mal são isso agora. Estão escravizados há
tanto tempo que foram programados para ser outra coisa. – Mas, mesmo
enquanto o diz, ela percebe como isso deve soar para ele. Brentin estremece,
como se as palavras fossem quase físicas. As costas de uma mão lhe dando um
tapa. – Não quis dizer desse jeito, Wexley. Eles não são como você.
– Tudo bem – ele diz, ríspido. – Não vamos debater o que nos torna humanos.
Você quer atacar os escravos, então. Não temos armas.
– Eles têm. E eu sou uma arma. Sou treinada. Posso lutar.
– Não pode lutar com todos eles.
– Só preciso derrubar um ou dois. Eles têm aquelas wheel bikes. Derrubamos
os pilotos e roubamos as bikes. Aqueles motores devem ter alguma potência.
Pegamos uma e vamos. O mais rápido que pudermos.
– Eles vão nos seguir.
– Eu sei. Mas que escolha temos?
– Podemos continuar aqui, como estamos fazendo. Como você disse, já faz
quase uma semana. Por que mudar de rumo agora?
Ela entra na frente dele e bloqueia seu caminho.
– Porque eu acabei de pensar no plano. – É uma mentira, e ele aponta isso, a
voz baixa.
– O plano nem é um plano. É tão óbvio que podíamos ter feito isso desde o
começo. Não, o que mudou é que você está desesperada. Quer vingança e odeia
que ela tenha sido adiada.
– Você não se sente do mesmo jeito? Quer sua vingança também.
O rosto dele de repente fica duro com... o que é isso? Tristeza?
– Sloane, não é vingança que eu quero.
– Não minta. Se não é vingança, o que é? O que te traz para essa terra morta
dos infernos? – Ela se inclina para perto e ergue os óculos para poder encará-lo
com olhos escuros e frios. A raiva se ergue dentro dela diante da possibilidade de
ele não compartilhar de seu desejo por revanche. – Você quer me dizer que não
quer encostar uma arma de raios na testa de Gallius Rax?
– Eu quero. Estrelas me ajudem, eu quero. Mas não é por isso que estou aqui.
Eu quero compensar o que fiz.
É uma ideia tão absurda que Sloane não consegue evitar uma risada incrédula.
– Compensar o quê? Chandrila? Alguém enfiou um chip na sua cabeça,
Brentin. Você estava dançando na ponta das cordas de Rax. – Todos estávamos. –
Você não tem que se responsabilizar por isso. Pode só cortar as cordas porque é
bom cortar as malditas cordas.
– Eu preciso impedir Rax porque é assim que vou mostrar à minha esposa e ao
meu filho que não sou o homem naquele palco. É assim que vou consertar o que
fiz.
Sloane agarra a camisa dele.
– Você é um tolo. É a vingança que nos impulsiona. Esqueça todo o resto.
Ele hesita. A tristeza em seu rosto se aprofunda. O olhar que ele dá a ela é
cheio de... pena.
– Você não tem ninguém, tem? É por isso que não entende. Não há ninguém
por aí que você ame ou que a ame de volta. – As palavras são como um tiro no
centro dela, atravessando-a e deixando um buraco do tamanho de um punho. Ele
continua: – Você tem que ter algo ou alguém por quem lutar. Não apenas isso.
Não só... vingança.
– Eu tenho o que tenho.
– Você tem o Império. Pode salvá-lo.
– Essa é ótima. O rebelde me dizendo para salvar meu Império. Meu Império
está morto. Ele morreu no segundo em que tocou este planeta. A única coisa que
eu tenho, e a única coisa de que preciso, é o olhar no rosto de Rax enquanto tiro
tudo dele. – Ela olha por sobre o ombro para a caravana. O atraso deles já está
sendo notado pelos acólitos de rosto branco. – Eu vou retomar o controle da
situação. Você pode vir comigo ou pode morrer como um escravo da Hutt.
Com isso, ela se vira e marcha de volta à caravana. Sloane tem um foco único
– à frente, os escravos nas wheel bikes dão voltas pelo meio e ao redor da
caravana, o combustível kesium soltando fumaça preta do escapamento. Ela pula
sobre o estrado, calculando sua trajetória de ataque.
Um escravo entra no seu caminho. Ele é um dos poucos com uma arma de
raios – um fuzil guardado na caixa torácica de alguma criatura, o cano
emoldurado por um par de presas quebradas. Um soco e ela conseguiria essa
arma.
Isso vai atrair atenção. Ela vai precisar correr e mirar.
Mas o movimento vai sincronizar perfeitamente – aquele escravo na wheel
bike barriguda dando voltas estará no seu alcance. Ela pode derrubá-lo. Pegar a
bike. Vai ser como naquela vez em Yan Korelda quando ela era só uma recruta
no Império e mal conseguiu escapar de uma gangue de bandidos rebeldes depois
de reabastecer seu speeder. Um dos disparos de raios deles literalmente cozinhou
um tufo do cabelo dela – Sloane sentiu cheiro de queimado por horas.
Ela parte para a frente. Passa pelo estrado. Passa por dois escravos que
gorgolejam para ela, enquanto continua. Sloane não faz ideia de onde está
Brentin – se está logo atrás dela ou enfiando a cabeça na areia. Ela não se
importa. Ela não se importa. Sua meta é aquele fuzil de raios, então a wheel
bike.
Então Rax.
O escravo nem sabe que deve suspeitar dela. Quando ela chega, ele vira a
cabeça em sua direção...
Bam. Ela esmurra um punho atrás do crânio dele. Os dentes do homem batem,
e ele não emite nenhum som. Tudo o que faz é cair para a frente, plantando o
rosto na areia... e, enquanto faz isso, ela arranca a arma de raios da mão dele.
Agora Sloane tem uma arma. Niima não deixou que ela ou Brentin portassem
armas – nessa viagem, eles têm sido apenas espectadores de uma jornada que
não pediram para fazer. Isso muda agora.
Mas a wheel bike que estava vindo na direção dela subitamente joga areia
para o alto e muda de direção, o motor rosnando. Não! Volte aqui, sua aberração
amante de Hutt! Ela começa a correr, mas gritos de alarme se erguem ao seu
redor – os escravos de Niima uivando e chamando pela sua senhora. E a Hutt
não decepciona: Sloane ouve o gorgolejo mecânico da caixa tradutória da lesma
enquanto transmite sua raiva ao mundo.
– PAREM-NA.
Tudo acontece tão rápido.
Um escravo surge diante dela, e Sloane bate a coronha do fuzil no seu queixo.
Ele engole alguns dentes e cai, agitando os braços – e outros dois entram em seu
lugar. Sloane ergue o fuzil e mira.
Duas lanças de laser dão fim neles quando ela atira. Cada escravo cai com um
buraco chamuscante no centro do peito.
Algo bate do lado da cabeça dela. Seus ouvidos zunem enquanto ela tomba na
areia, rolando e instintivamente erguendo o fuzil na frente do rosto, bem quando
um escravo a golpeia com um machete – tunk! A lâmina fica presa na lateral do
fuzil. O escravo se esforça para extraí-la.
Alguém pula sobre o escravo por trás, fazendo-o recuar.
Brentin.
Wexley chuta a aberração com uma bota, então pega o machete com uma mão
e ajuda Sloane a levantar com a outra.
Enquanto faz isso, Sloane ouve um som: o silvo de areia, o cântico de
escravos, e é aí que ela sabe que alguma coisa está vindo.
Niima.
Se Sloane guarda uma crença comum sobre os Hutts, é que eles são criaturas
indolentes e letárgicas. São chamados de lesmas por um motivo. Mas Niima
facilmente desafia essa imagem. Essa criatura não é uma bolha tórpida. Sloane
olha para trás, acima dos ombros de Brentin, e o medo preenche seus espaços
vazios como fogo engolindo ar – a Hutt pula do seu palco, atingindo o chão com
uma nuvem de areia. Niima desliza até eles, rápida como uma víbora. Escravos
se agarram a ela como cavaleiros, as bocas abertas, os dentes expostos. Eles têm
armas de raios. Começam a atirar.
Sloane agarra o braço de Brentin, e eles saem correndo.
Disparos de raios levantam areia ao redor de seus pés.
Atrás deles, o silvo do corpo de Niima deslizando pela areia se torna cada vez
mais alto e próximo. Ela não tem ideia de quão perto a Hutt está deles – mas é
perto o bastante para Sloane começar a sentir o fedor terrível do monstro. Ela
pensa em virar para trás e atirar no rosto da serpente, mas os escravos vão só
atacá-la em bando. Não. O plano é o plano, e ela vai focar nele: chegue às wheel
bikes. Ela aponta o fuzil enquanto corre, avistando um dos pilotos com a mira da
arma...
Mas algo a distrai. A distância, muito longe no vale, ela avista um clarão –
algo reluzindo ao sol do meio do dia.
A Hutt ruge atrás dela. Uma sombra cai sobre Sloane enquanto Niima se
ergue, elevando a figura corpulenta com a pura força e vontade do rabo...
O ar é preenchido com luz branca. Um pilar estridente de fogo verde enche o
espaço, e, antes que Sloane saiba o que está acontecendo, há uma trovoada e ela
é jogada no chão. Uma coluna de fumaça se ergue de algum lugar e seus olhos a
seguem até a fonte...
O palco de Niima está caído na areia, cortado ao meio.
A senhora Hutt está muito perto. A lesma está atordoada e tombando para o
lado. Niima balança a cabeça enquanto seus olhos reptilianos recuperam o foco.
Areia escorre do seu crânio amassado e podre.
A Hutt berra algo em proto-huttês, mas a tradução se perde quando outro
disparo perfura o ar, e um dos wheel cars é subitamente enviado para o alto e dá
uma volta, depois duas, antes de cair em cima de uma das feras. A criatura berra
quando sua coluna quebra.
Turbolasers. É isso que está disparando neles. Sloane conhece esse som. Esse
raio. Ela nunca esteve no chão enquanto eles estão atirando – e ela nunca foi o
seu alvo –, mas sabe o que eles podem fazer e, se não se moverem, estarão todos
mortos.
Mudança de planos.
A wheel bike não vai salvá-la. Mas aqueles cânions talvez salvem. Ela se
abaixa para encontrar seu único aliado nisso tudo e...
Sloane olha e vê que metade de Brentin Wexley está faltando.
Ah, não.
Então ele senta, com areia e poeira como que derretendo dele. De alguma
forma, uma onda de areia enterrou parte do seu corpo. Ele tosse e engasga, mas
não há tempo para limpar os pulmões. Sloane vai para trás dele e o ajuda a se
erguer.
Ela aponta.
– Os cânions. Corra.
Eles correm.
No instante em que outro disparo de turbolaser transforma uma das wheel
bikes em cinzas.
INTERLÚDIO
Christophsis

No primeiro dia, cinco peregrinos deixam sua nave estelar e partem por um
dos incontáveis sistemas de cavernas profundos de Christophsis. Eles partem
com um grande propósito, trazendo consigo um presente sagrado que foi
roubado desse lugar não muito tempo atrás: cristais kyber, gemas que crescem
apenas em alguns lugares preciosos neste planeta. (Embora grande parte deste
mundo seja cristalina, os cristais kyber são considerados mais raros.) Os cristais
kyber foram tirados deste planeta pelo Império e usados para construir o laser
matador de mundos da Estrela da Morte. No entanto, também eram usados pelos
antigos mantenedores da paz desta galáxia, os Jedi, para construir seus sabres de
luz. Brin Izisca disse que eles devem ser devolvidos ao lugar de onde vieram:
Christophsis. Para o seu, nas palavras dele, “lar”.
Um dos peregrinos é um droide – um droide de carga MA-B0 que eles
chamam de Mabo – e é ele quem carrega o caixote que guarda o que foi
roubado.
No terceiro dia, enquanto eles marcham por um dique rochoso e escarpado
incrustado com espiras de cristais e escorregadio com scree, Addar, o humano,
confessa para seu amigo Jumon, o Iakaru:
– Eu não sei por que estamos fazendo isso.
Jumon dá de ombros e rosna:
– Porque isso é o que deve ser feito. – Seus bigodes estremecem quando diz
isso, como se explicasse tudo.
No entanto, Addar – que é jovem, inexperiente e inseguro – persiste:
– Quer dizer, qual é o motivo?
– Hoje à noite, ao redor da fogueira, vamos assistir aos holovídeos de novo
para ajudar você a entender. – E eles fazem isso. Quando cai a noite, acendem
uma fogueira sob uma das aberturas para o céu (onde Addar ergue os olhos e vê
uma porção de estrelas que brilham e reluzem como as paredes dessas cavernas).
Jumon manda Madrammagath, o Elomin, acionar o disco projetor. Dele é
emitida a holoforma chiante de estática de Brin Izisca: o pastor e filantropo que
governa a fé deles e sua comunidade, a Igreja da Força. A imagem de Izisca fala
sobre a herança da Força, sobre como todas as coisas estão conectadas e sobre
como os Jedi não controlam a Força, e sim são meros conduítes dela, “antenas
sintonizadas com aquela frequência cósmica”, diz o homem, e mesmo na
holoforma é fácil ver o espanto e o fascínio dançando em seus olhos como luz de
tochas. Mas Addar não está sentindo isso. Addar não está sentindo nada disso.
Quando o vídeo acaba, Jumon deve sentir sua apreensão e rosna:
– Fazemos porque fazemos. Porque estes devem retornar ao lar. – Jumon vira
no seu saco de dormir e fecha os olhos.
E é isso.
No quarto dia, eles entram na floresta de cristais. Aqui as árvores são fracas e
ralas, suas formas parecem mais fios que troncos, seus galhos como filamentos –
no entanto, elas são altas porque estão encerradas em cristal azul. Algumas até
sobem do chão e se encontram com o teto. Quando se move através delas, o
vento da caverna geme e uiva, numa cacofonia estridente acompanhada de
lamentos e suspiros sombrios.
À medida que o quarto dia termina e o quinto dia começa, Madrammagath
consulta Uggorda, a Duros. Suas bochechas perdem o rubor rosado, e seus
chifres estremecem ao dizer:
– Estamos sendo caçados.
Uggorda confirma e diz:
– Fique vigilante. – Como é raro ela falar, o aviso carrega um significado
extra, e o medo percorre cada micrômetro de Addar.
Não devíamos ter vindo, ele pensa.
No sexto dia, Madrammagath é encontrado morto. Ele vai para o meio das
árvores de cristais para se aliviar e nunca volta. Eles encontram seu corpo em
pedaços, como se cortado por uma serra.
Jumon rosna:
– Agora sabemos o que nos caça.
– O quê? – Addar pergunta.
– Kyaddak.
Eles não montam acampamento aquela noite, mas seguem adiante.
Na manhã do sétimo dia, eles ouvem os Kyaddaks: o tak-tak-tak de seus
muitos membros, o click-click-click de suas quelíceras. Ao meio-dia, começam a
ver sinais deles: arranhões nas árvores cristalinas, excremento brilhante de
silicato esfregado nas rochas. À noite, os veem: só vislumbres e sombras nas
margens, muito distantes no final de túneis, mas mais perto do que qualquer um
pretende chegar.
Com a voz trêmula e a respiração ofegante enquanto se apressam, Addar diz:
– Odeio essas coisas. Por que elas não nos deixam em paz? Devíamos só
matá-las.
Jumon diz:
– Elas são criaturas da Força também.
– E daí?
– Daí que não atacamos.
– Mas sabemos que elas vão nos atacar.
– É o jeito delas.
– Talvez o jeito delas seja o lado sombrio.
– Talvez Brin esteja certo – Jumon diz –, talvez não haja lado sombrio.
– Não pode ser tão simples. Eu acredito no mal. Brin também acredita. Além
disso... – Addar ergue a camisa e mostra o que trouxe, uma pequena pistola de
raios. – Eu tenho isso. Podemos usar.
– Você não devia ter trazido isso. Uma arma letal? Aqui? Neste lugar sagrado?
Você conhece o...
Uggorda silencia os dois, e eles prosseguem.
No oitavo dia, Uggorda é morta. Pelo menos é o que eles acreditam. Os
Kyaddaks vêm do nada, três deles – seus membros serrados a cortam enquanto
os insetos enormes saltam sobre ela, as pinças segurando-a firme. Jumon tira seu
cajado telescópico depressa e expõe os dentes, enquanto o objeto gira em suas
mãos como um rotor zumbindo – ele e Mabo entram na briga. O droide ergue
um dos Kyaddak no alto e o joga nas árvores – galhos quebram e cristal cai até o
chão como uma chuva de vidro cantante e tilintante. O cajado de Jumon acerta
uma das cabeças de muitos olhos do inseto, fechando-os permanentemente
enquanto ela irrompe numa torrente de fluido. A coisa guincha e sai correndo. O
último é o de Addar – ele corre até a criatura, com o medo governando seus
membros. Fecha os olhos e saca a pistola de raios, disparando
descontroladamente – não para matar, só para assustar a coisa. Ele sabe que,
quando abrir os olhos, o monstro estará sobre ele, abrindo suas entranhas...
Mas ouve seus muitos membros irem tak-tak-tak na outra direção.
Addar abre os olhos, e a coisa sumiu.
Juntos eles encaram o corpo morto de Uggorda – até que ela se senta de
repente, encharcada no próprio sangue. Addar se pergunta se ela voltou dos
mortos de alguma forma ou se simplesmente não estava tão ferida quanto ele
pensava. Uggorda arfa:
– Vamos seguir em frente. Esses três são só os primeiros. Eles reivindicam
essa floresta como território. Quando estivermos livres das árvores, estaremos
livres dos Kyaddaks.
Eles fazem o que ela diz, ajudando-a.
No nono dia, emergem da floresta. Aqui o chão rochoso dá lugar ao cristal por
baixo: escorregadio e liso, mil facetas onde perder o equilíbrio.
Naquela noite, eles se sentam ao redor da fogueira outra vez. Mabo trata os
ferimentos de Uggorda com uma ternura surpreendente – o droide é delicado
apesar dos membros enormes para carregar caixotes.
Ao redor da fogueira, Addar diz a Jumon:
– Quero perguntar uma coisa para você.
– Pergunte – Jumon sussurra.
– Quando você se tornou um fiel?
Jumon dá de ombros, como se não fosse grande coisa.
– Eu tive uma experiência. Uma visão me chamou três anos atrás. Me mostrou
um caminho através de um bosque perto da minha casa. Eu o segui e lá encontrei
Brin, ferido depois de cair numa fenda. Eu o ajudei, e ele me contou que era
destino que nos conhecêssemos. Que o que me guiou foi a Força.
– Você está mentindo. A Força é só para os Jedi.
– Não! – Jumon diz, não bravo, mas incrédulo. – Eles a utilizam, mas a Força
existe em todas as coisas vivas. É o que nos dá nossa intuição, o que nos impele,
o que nos conecta uns aos outros. Somos todos um com a Força.
– A Força, a Força, a Força! Tudo é a Força. – Addar está frustrado e com
medo. Ele não bota fé nisso, nem em Izisca. Só porque sua mãe o ajudou a
encontrar a igreja não significa que ele tem que ser fiel também, significa? Esta é
uma missão tola. Um desfile mortífero. Um dos supostos peregrinos já está
morto, outra quase morreu. Ele sussurra: – Quantos de nós têm de morrer para
carregar esse fardo? Nós não roubamos essas coisas. O Império roubou. Eles
deviam estar pagando penitência.
– Todos carregamos o fardo. Todos pagamos a penitência. Porque...
– Sim, sim, eu sei, porque somos todos filhos da Força.
– Você devia assistir mais à holoforma de Izisca.
– Não quero.
Mas, depois que os outros vão dormir, é exatamente o que Addar faz. Ele vê
um vídeo de Brin lendo o Diário dos Whills:
“A verdade em nossa alma
é que nada é verdadeiro.
A questão da vida
é o que fazer então?
O fardo é nosso
para a penitência, lavramos.
A Força nos liga a todos
de um certo ponto de vista”.

Addar não entende o que significa, mas admite: ele gosta de ouvir Brin. Ele
adormece se perguntando quem é o homem de verdade – ninguém parece saber
muito sobre ele. Ele e muitos dos patronos e matronas da Igreja são misteriosos.
No décimo dia, eles caminham sob um afloramento de rocha incrustada de
cristal, e uma estalactite afiada de vidro se quebra. Ela atravessa o topo da
cabeça de Uggorda, e assim ela realmente se vai.
Então sobram três.
No 12o dia, eles estão famintos. Têm comida, é claro, mas o que sobrou são
pacotes de proteína e pílulas de nutrientes, e, embora esses mantimentos
sombrios os mantenham em movimento, dificilmente são satisfatórios.
Quando a noite cai naquele dia, Mabo dá um passo em falso no chão frágil e o
manto cristalino racha sob ele. Há um momento em que todos percebem o que
está acontecendo – o droide se agarra à borda, seus olhos telescópicos ficando
brancos de pânico...
Addar pula atrás do caixote e o pega pela alça.
Mabo solta, porque certamente o droide entende que Addar não pode segurar
tanto a máquina como o caixote. (Além disso, como Jumon vai logo apontar:
“Mabo tem fé. Ele era um fiel, um peregrino como nós. E um amigo”. Mas
Addar deve se perguntar: ele é realmente um peregrino? Ou o droide tinha mais
fé que ele?) Addar salva o caixote enquanto o droide cai pela fenda.
– Brin ficaria orgulhoso – Jumon diz, com um sorriso feroz e vulpino. – Você
deu um salto de fé. E a Força o recompensou. A Força recompensou todos nós. –
Ele sorri. – Eu tenho que confessar uma coisa.
– Então confesse.
– A visão que eu tive. Ainda acredito nela, mas... – A voz dele vai morrendo.
– Mas o quê?
– Eu estava bêbado na ocasião.
– Vamos acabar logo com isso – Addar diz, revirando os olhos. – Estamos
quase lá. – Ele e o amigo, ambos carregam o caixote. É pesado, então dividem o
fardo.
E, no 13o dia, os Kyaddaks retornam. Eles vêm depressa, os membros
clicando e estalando enquanto os enxameiam de cima e de baixo, despejando-se
como sombra líquida. Eles guincham e apunhalam, e Jumon diz a Addar para
correr, correr, continuar correndo. Jumon pega o cajado dele, gira e começa a
brandi-lo de um lado para outro. Ele acerta um Kyaddak, então mais um, e os
insetos desgraçados são jogados contra a parede, guinchando de dor...
Mas há muitos. Eles saltam sobre Jumon.
Addar abraça o caixote pesado contra o peito e corre.
Suas pernas queimam. Seus joelhos parecem prestes a ceder. Tudo dói, mas
ele continua.
Um localizador no seu punho bipa. É isso. É a este lugar que os cristais
pertencem. Buracos lisos pontilham as paredes – aqui o cristal não é facetado, e
sim esculpido como vidro desgastado pelo vento. É exatamente como nos
desenhos de Brin. Ele corre, quase tropeçando numa berma de argonita se
erguendo do meio do manto de quartzina, mas consegue permanecer em pé
enquanto se abaixa e entra na escuridão dessa nova passagem. Ele corre para o
fundo, cada vez mais para o fundo. Grunhindo de dor. Contendo lágrimas.
Desviando de lanças de cristal. Escorregando no chão liso. Eu os despistei.
Despistei os Kyaddaks.
E perdi Jumon também.
Logo a caverna começa a brilhar.
Nas paredes de cristal escuras há outras gemas, menores – cada uma brilhando
forte. Cores diferentes. Como olhos observando. Vermelho, verde, azul. Uma
sensação o toma. Uma loucura estranha e vertiginosa. Ela se ergue nele,
efervescente como bolhas, e ele se pergunta: É assim que é ficar bêbado?
Então há o tak-tak-tak de membros de Kyaddaks.
Eles estão vindo.
Pânico o percorre. Ele se vira e vê que o caminho pelo qual veio é o único
caminho – não há outros pontos de entrada. Aqui, as sombras se mexem e
oscilam, invadindo com rapidez alarmante; ele saca a arma de raios, cerra os
dentes e começa a atirar loucamente no espaço.
Disparos de plasma cozinham a escuridão. Os Kyaddaks gritam.
E os cristais se estilhaçam. As paredes e o teto começam a fraturar. O ar é
preenchido de repente por um rugido do teto desmoronando, e Addar cai,
engatinhando para trás enquanto a passagem da caverna é rapidamente fechada
por uma parede de cristal quebrado.
Ele tenta recuperar o fôlego.
Os Kyaddaks não estão mais ali. A parede é impenetrável. Muitas das
criaturas podem estar enterradas sob ela; Addar não tem certeza.
Mas ele se orienta e vê agora que não há nenhum lugar mais fundo aonde ir.
Esse é o fim da caverna. Em vão, ele tenta cavar uma saída, mas não adianta. Os
cristais cortam as mãos de Addar. A parede não se mexe.
Em vez disso, ele se encosta contra a parede e puxa o caixote para si. Ele vira
uma série de trancas; a tampa se abre. Dentro o espera uma série de cristais
como os das paredes e do teto acima. Centenas deles.
Addar contém um gemido, então pega outro dos discos projetores. Ele o
coloca no colo e o acende – de novo, a holoforma de Brin Izisca aparece. O
vídeo de Brin diz:
– Assim como os Jedi são uma lente que foca a Força, o cristal kyber é uma
lente que foca a luz dentro do Jedi. E a luz dentro da arma do Jedi, o sabre de
luz. Mas esses cristais podem ser usados para poderes maiores e mais malignos:
os Sith focam a Força também, mas a usam não para a luz, apenas para a
destruição. Esses cristais foram tirados de Christophsis para fornecer energia a
duas das armas mais insidiosas já construídas, o legado de Galen Erso, o legado
de Orson Krennic, de Tarkin e dos Sith, de Palpatine e de Vader. As Estrelas da
Morte foram destruídas, a luz perseverou através da necessidade de escuridão.
Esses cristais devem voltar para casa. Essa é a sua tarefa.
Com isso, Addar começa a tirar os cristais um por um, dispondo-os na caverna
da qual foram tirados anos antes. Ele ajusta o disco para projetar a holoforma
outra vez. Tenta não pensar em como esse é o lugar onde ele vai morrer – ou, nas
palavras de Brin, onde ele vai se unir com a Força vivente, e todos saúdem a luz,
a escuridão e o cinza.
Capítulo
17

No acampamento, os troopers estão mortos.


Effney foi reduzido a partes sobressalentes.
Ossudo liberta os prisioneiros. Gomm tagarela que está livre, engatinhando de
quatro sobre a areia. A coisa com olhos vazios gorjeia uma risada, ajoelhando-se
e erguendo os braços para o céu para receber sua liberdade. Os outros se juntam
ao redor do suprimento imperial de água e bebem até ficar com dor de barriga,
provavelmente.
Norra diz a eles que é melhor fugirem depressa, porque o Império vai chegar
em breve. E, da próxima vez, podem colocá-los em covas, não jaulas.
Ela encontra uma speederbike. Ela e Ossudo a roubam e partem.
Juntos, eles viajam por horas. Passam por rotas de areia infinitas em dunas
salientes que se erguem cada vez mais alto, e logo a speederbike está atingindo o
topo de cada colina e deixando o estômago dela para trás com a queda do outro
lado. Empinar e mergulhar, subir e cair. Pior, Norra tem que manter os olhos
fechados pela maior parte do tempo – ela não tem óculos protetores, e os
salpicos de areia fazem os olhos arderem. E não é como se ela soubesse para
onde está indo. No momento, a prioridade é se afastar para qualquer direção. A
direção que ela toma é aquela que eles escolheram de primeira: a distância, vê
cânions e planaltos. Os mesmos, acredita, que ela e Jas viram quando
aterrissaram no planeta.
Então é para lá que direciona as pontas frontais da speederbike.
O céu azul começa a escurecer, sangrando na linha do horizonte. Ao longe,
Norra vê dois humanoides com olhos esbugalhados com metade da altura dela
cavando na areia. Eles nem erguem os olhos quando a speederbike passa.
Ela ouve alguma coisa. Um motor. Uma nave. Isso não pode ser bom. O
Império controla o espaço aéreo aqui. À frente, uma pequena forma no ar se
torna cada vez maior, até que ela pode ver que é uma nave auxiliar. Imperial,
provavelmente.
Norra vira a speederbike para uma duna alta e espreita na sua sombra
enquanto a nave passa por eles.
Não é imperial. Tem outra proveniência. Corelliana, ela pensa.
A nave queima o céu e continua em frente até desaparecer.
Norra diz a Ossudo para se segurar de novo, então acelera. A speederbike pula
para a frente como um varactyl chicoteado no lombo – e novamente eles estão
subindo e acelerando pelas areias, plumas gordas de areia enchendo o ar atrás
deles.
Logo, porém, ela ouve aquela nave outra vez, tarde demais para se esconder.
A nave auxiliar passa depressa acima deles. Não é o Império, então eles devem
estar a salvo, certo? Exceto que agora a nave está reduzindo a velocidade. Ela
vai diminuindo até parar, pairando acima da próxima duna – lentamente, sua
ponta arredondada começa a girar na direção de Norra. Ah, não. Quem quer que
seja, isso não pode ser bom. Eles têm que seguir em frente.
Contorne-a, ela pensa. Ela vira a speederbike para pegar um caminho longo
ao redor da nave. Só para garantir.
Mas alguém passa pela nave – e está gritando.
Com ela? Para ela?
Espere. Estão gritando o nome dela.
– Norra!
Ela inclina os calcanhares e abaixa os freios. A speederbike derrapa até parar
com um borrifo de areia. Ela tinha razão – o piloto dessa nave é um caçador de
recompensas.
Ali, em uma duna distante ao lado da nave auxiliar, está Jas Emari.

Jas leva a nave auxiliar em direção aos cânions de rocha vermelha, e ali,
enquanto cai a noite, elas pousam a nave nas sombras de uma saliência rochosa.
Sem nem se importar com a quem pertence essa nave nem onde Jas a
conseguiu, Norra avidamente devora a comida de um armário. Não é boa –
consiste em uma ração de sobrevivência de nozes kukula, galcot seco e algas de
kalpa. Mesmo assim, é capaz que seja a melhor coisa que ela já comeu. E elas
têm um reciclador de água também. Isso ela engole de uma vez. Está fria,
machuca a garganta dela e é incrível. Tudo é incrível. Ela quer dormir. Ela quer
dançar como Ossudo está dançando agora. Dançar, depois dormir. Dormir,
depois dançar.
Estou viva. Estou com Jas. Estou alimentada.
Jas fica em pé na porta enquanto Norra enche as bochechas de comida. A
caçadora de recompensas está apoiando o braço em um lado da porta, o quadril
inclinado e pressionado contra o outro.
– Você parece estar com fome.
– Eles mal nos alimentavam.
– Eu também não comi muito. Acredite, tive meu momento de devorar tudo
também. Desculpe por não vir antes. Eu estava num aperto parecido.
– Como? O que aconteceu?
Jas conta para ela. Sobre Niima, a Hutt, sobre Mercurial Swift, sobre roubar
esta nave.
– Sua cabeça – Norra diz, de repente vendo a crosta de sangue e os chifres
quebrados. – Você precisa de bacta.
– Eu não preciso de nada. Vou ficar bem – Jas responde, sempre estoica. –
Meus chifres estão quebrados, mas vão crescer de volta. Com o tempo. Não se
preocupe com isso. O que deve nos preocupar agora é nosso próximo passo.
Temos uma nave, e eu chequei o computador. Ela tem códigos de autorização
imperiais. Eles funcionam por enquanto, mas, se Swift relatar o roubo ao
Império, isso não vai durar pra sempre. Porém, com códigos de autorização...
Norra, podemos sair de Jakku. Agora mesmo.
O medo preenche o coração de Norra com a mera ideia de novamente
atravessar a Frota Imperial que está se reunindo aqui. Como o ataque à Estrela
de Morte de novo. Mas não. Isso seria seguro. Elas têm os códigos.
Mas com que fim? A missão delas é um fracasso.
– Eu... acho que devemos fazer isso. Voltar para Chandrila. Contar a eles o
que vimos aqui. – Ela suspira. – Embora isso signifique que nada disso valeu a
pena. Não encontramos nada. Sloane escapou e não fizemos nenhuma diferença.
Jas arqueia uma sobrancelha.
– Bem, tem uma coisa.
– O quê?
– Eu encontrei Sloane.
Essas três palavras. Mais frias e refrescantes que qualquer água. Norra perde o
fôlego.
– Diga.
– Eu não vi muito. Foi quando eles estavam me levando para a cela. A Hutt
estava se preparando para algum tipo de... expedição. O lugar inteiro era como
um ninho de vespas vermelhas sacudidas de uma árvore. Sloane estava com eles.
– E como você sabe para onde eles estão indo?
– Ouvi um pouco. Eles estavam se dirigindo para além dos cânions. Há um
vale atrás deles. É para onde estão indo, como parte de alguma caravana.
– E Sloane? O que ela estava fazendo lá?
Jas dá de ombros.
– Não faço ideia. Ela não parecia querer estar lá, mas não era uma prisioneira.
E... eu quase não a reconheci.
– Por quê?
– Ela não estava de uniforme. Não estava usando equipamento imperial nem
marcações nem nada. Parecia qualquer outra comedora de poeira ou catadora.
Ela estava falando com alguém, um homem. Outro catador, acho. E foi tudo que
vi. Eles me arrastaram de volta para a cela.
Norra termina de mastigar uma última noz kukula. Ela encara um ponto fixo
enquanto diz:
– Nós podemos ir para casa. Ou podemos ir atrás de Sloane.
– A não ser que você queira nos estabelecer em Jakku como uma dupla de
mercadoras de areia, sim, acho que são essas as nossas escolhas.
– Nós devíamos ir para casa. É a coisa mais inteligente a se fazer.
– É.
– Embora nem sempre a gente faça a coisa mais inteligente.
– Raramente, pelo visto.
Norra suspira.
– E você? O que você pensa?
– Norra, eu sou uma caçadora de recompensas. Eu sou como um anooba
farejando um rastro. Não gosto de parar até que o alvo esteja firme na minha
mandíbula. Mas não sou a chefe aqui. Você é. Você nos trouxe para cá, então a
decisão cabe a você.
– Eu quero Sloane.
– Então vamos pegar Sloane.
Norra se ergue e estende uma mão. Jas a toma e balança. Elas se abraçam. É
gostoso. Ossudo está lá de repente, enfiando o crânio de droide com dentes
afiados no meio do abraço delas. Devagar, os braços de metal as envolvem,
dando tapinhas desconfortáveis nas costas delas.
– OLÁ. EU ESTOU GOSTANDO DESSE ABRAÇO TAMBÉM. ABRAÇO
ABRAÇO ABRAÇO. UM ABRAÇO É COMO VIOLÊNCIA FEITA DE
AMOR.
Jas pergunta a Norra:
– E onde você o encontrou, exatamente?
– Eu não o encontrei. Ele me encontrou.
Capítulo
18

Jom Barell está se afogando. Ele não consegue puxar o ar e se debate contra o
mar enquanto é arrastado para baixo. Seus pulmões queimam. Alguma coisa se
envolve ao redor do seu pé – algas ou uma enguia. Ele não encontra tração. Suas
mãos se agitam como as asas quebradas de um pássaro morto, um pássaro que
não consegue alçar voo, que não consegue escapar do que está chegando – a
água salgada enche suas narinas, então uma órbita vazia e o outro olho se
arregalam como a rolha em uma garrafa prestes a explodir...
– Acorde!
Ofegante, ele se senta. Suas roupas, os lençóis, tudo está empapado de suor
azedo. Mas ele ainda não consegue respirar. Leva as mãos ao rosto e encontra
alguma coisa lá – um pano úmido. Ele o joga para longe como se fosse um
verme.
Alguém está no pé da cama. Jom grunhe e dá um soco...
Mas o invasor habilmente desvia do golpe.
Jom encara o intruso com um olho anuviado e sonolento. Ele reconhece
aquela figura: uma sombra longa e esguia, a pele da cor de madeira-sakai, tudo
tão afiado quanto uma tesoura.
– Sinjir – Jom rosna. – Que agradável da sua parte me visitar e... – Ele apanha
o pano. Água pinga dos cantos. – E jogar um pano úmido na minha cara
enquanto eu durmo.
– Um pequeno tormento numa tentativa de acordá-lo – diz o ex-imperial.
– Você poderia ter tentado um, ah, Ei, acorde, Jom. Ou que tal um cutucão?
Talvez umas cócegas. – A voz dele soa como cascalho triturado nos pulmões.
– Eu não parto direto para a simulação de afogamento, sua cabra-do-mar.
Vocês, militares, não deviam ter sono leve? Eu tentei a conversa mole e um
cutucão gentil, mas acontece que você dorme como se estivesse
temporariamente morto. Eu gritei, nada. Chutei sua cama e... nada. Aí eu me
voltei para a tortura, quando tudo o mais falhou. – Sinjir solta um hmm. – A
história da minha vida, na verdade.
Jom joga as pernas para o lado da cama. Ele tateia o espaço ao redor, usando
seu tapa-olho, que se destaca sobre a cabeça e o olho faltante. Tinham lhe
oferecido algo a mais – um olho falso ou, ainda melhor, algum tipo de
transplante ocular –, mas ele disse onde eles poderiam enfiar aquilo. Um bom
tapa-olho serviria.
– O que você quer, Rath Velus?
– Deus, você fede. Estava bebendo, seu rapazinho maroto!
– E vou continuar, assim que você me deixar em paz.
As coisas têm sido difíceis para Jom. (Uma vozinha o lembra: Você as deixou
mais difíceis, não foi?) Depois de Kashyyyk, ele se sentiu perdido. Em público,
recebeu uma medalha, mas em particular tinha abandonado a vida como um
soldado de elite. Foi repreendido por abandonar seu papel e deixar as fileiras.
Ele não sabia se o aceitariam de volta...
Ele nunca perguntou.
Só não... tinha forças em si para isso. Não tinha nada em si, parecia. Como se
fosse uma xícara derrubada, seu conteúdo derramado.
Isso não tinha (e não tem) nada a ver com Jas, ele se recorda a cada dia, a cada
hora, a cada momento acordado. Definitivamente não é porque ele a ama e sente
saudades dela e se sente perdido sem ela – porque não, que inferno, isso o
tornaria um tolo. Um tolo romântico com cabeça de gás.
(Tudo bem, talvez seja porque ele sente saudades dela.)
Mas ele também sente falta de ter um trabalho. Trabalho de verdade. Ele está
fora das Forças Especiais. Isso graças a Kashyyyk. Ele se perdeu nessa, se
comprometendo com uma ação militar não sancionada – o que significa ilegal. É
claro, foi uma ação militar que deu certo e trouxe sucesso à Nova República num
momento em que ela precisava disso. O que significa que sua dispensa foi
honrosa.
Mas ele foi dispensado mesmo assim.
Então ele está vagando. Aceita trabalho onde consegue. Recentemente, foi
arrastado até os litorais do Senado, trabalhando como guarda-costas em uma
associação de freelancers que a República está usando para fornecer proteção
extra para seus políticos. (A primeira votação depois do Dia da Libertação foi
para dar a si mesmos segurança extra – o que é provavelmente inteligente, mas,
para Jom, fede a autoproteção indulgente.) Ele foi designado a qualquer senador
que precisasse de proteção. É um trabalho tedioso. Preferiria estar de volta com
os outros soldados de elite, caindo de órbita para a atmosfera, com as armas a
postos e os colegas às costas.
Esses dias, ele teme, chegaram ao fim.
Nesses dias, ele trabalha para o Senado quando precisam dele. O resto do
tempo, ele dorme. Ele bebe. Ele toma banho – de vez em quando.
Sinjir diz:
– E eu pensava que eu tinha um problema. Pelo menos não acordo cheirando
como se tivesse marinado no próprio suor por três dias. Quer dizer, acho que
precisamos encarar a deliciosa ironia do fato que, neste momento, eu estou tão
sóbrio quanto um vicário e você está mamado até as guelras.
– Volte para o lugar de onde veio.
– O Império? Acho que essa perspectiva de trabalho logo estará extinta. Na
verdade, é por isso que estou aqui.
– Minha luta com o Império acabou.
– Talvez. Mas a de Jas, não.
Jas.
– Jas pode fazer o que quiser – Jom resmunga.
– Isso é abundantemente claro. Ela ficou com você, afinal. – Essa última parte
é dita com aquele descaramento típico de Sinjir. Jom poderia socá-lo. Mas, cada
vez que se move, a cabeça parece um aquário cujo vidro está recebendo as
batidas constantes de uma criança levada. – Apesar disso, Jas precisa da nossa
ajuda.
– Então ela devia ter vindo pessoalmente.
– Talvez ela tivesse vindo se, ah, não sei, não estivesse presa em Jakku sem
qualquer esperança de resgate.
Jakku. O nome borbulha na escuridão séptica que constitui atualmente a
memória dele. Ele não se dá ao trabalho de acompanhar as notícias, mas às vezes
as notícias são tão grandes que acompanham você – e não dá para ir a qualquer
lugar hoje em dia sem ouvir como o Império está em Jakku, dá?
Espere. Jas está em Jakku?
– Por quê? Por que ela está lá?
– Ela e Norra... hã, fizeram uma viagem não agendada numa cápsula de fuga
até a superfície, e agora temos que dar um jeito de extraí-las.
Jom se levanta num pulo. Ele bagunça o lixo no chão enquanto procura uma
camisa, ou calças, ou qualquer coisa.
– Então o que estamos fazendo parados aq... – De repente, ele leva a mão à
boca, engolindo vômito com um ugh. – Parados aqui? Encontre minha arma de
raios. E umas roupas. Vamos atrás dela.
– Não é tão fácil.
Jom se vira para ele e aponta um dedo caloso na cara do ex-imperial.
– É tão fácil, sim. É sempre tão fácil.
– Não dessa vez – Sinjir diz, seu tom sombrio. – Ao redor daquele planeta está
todo o remanescente imperial. É de se imaginar que se parece com Akiva, uma
ocupação completa. Exceto que é dez vezes pior que Akiva. Cem vezes. Jom,
nem sabemos se Jas e Norra estão vivas lá embaixo. O que sabemos é que, se
temos qualquer chance, precisamos atingir o Império o mais forte que pudermos.
E, para fazer isso, precisamos de uma resolução para batalhar com eles.
Precisamos pôr fim a essa guerra.
– Temo que não me paguem para isso, Sinjir.
– Mas podem pagar. Eu tenho um plano.
Jom esfrega o rosto não barbeado – o bigode e as costeletas que ele costumava
manter aparados cresceram e se tornaram um arbusto áspero nas bochechas e no
queixo.
– Você tem um plano. Essa vai ser ótima.
– Vai mesmo. Você trabalha para o Senado agora, correto?
– Nngh. Eu sou parte da associação de segurança, sim.
– Bom. Como se sente em relação a Nakadia nessa época do ano?
Capítulo
19

O iate do senador Tolwar Wartol é um cruzador ganoidiano de três conveses.


Com um design simples, está longe de ser uma nave de luxo. Tudo nela são
ângulos duros e superfícies planas. A proa da nave parece um lance de escadas.
Algumas partes são quadradas, enquanto outras são afiadas como facas. No
momento, o iate está atracado no hangar do Senado – é uma das últimas naves
restantes, o resto já partiu para Nakadia, onde o Senado vai se reunir. Os motores
do cruzador estão rodando, e a equipe do porto faz todas as checagens
necessárias. Um droide desconecta uma mangueira de combustível de uma
portinhola a bombordo.
Wartol não está esperando por ela, então é a hora perfeita para atacar. Antes
que a rampa seja erguida, Mon Mothma marcha – uma mulher diligente, com
propósito, flanqueada por dois guardas com capacete de pluma – e irrompe a
bordo da nave. Os guardas de Wartol, todos Orishens, tentam entrar no caminho
dela, cruzando piques à sua frente. Ela bufa para eles, destemida.
– Acham que isso é sábio? Suspeito que o senador ficará decepcionado ao
saber que seus guardas lhe custaram uma porção de popularidade porque
afastaram a chanceler da Nova República com a ameaça de violência. –
Sinceramente, ela suspeita que, a essa altura, afastá-la possa fazer a popularidade
de Wartol subir. Mas o blefe funciona: aquelas fendas nasais estremecem e se
franzem enquanto eles afastam os piques.
Ela sobe a bordo.
Wartol está sentado em uma área de estar, e ela sente uma pontada de alegria
ao vê-lo se surpreender com a sua presença. Ele se vira rapidamente para longe
da vigia, como uma criança travessa pega espiando um vizinho. Recupera a
serenidade um momento depois, e a vitória é pequena, mas no momento Mon
Mothma está aproveitando toda vantagem que puder obter.
– Chanceler – ele diz. Sua voz é uma bateria estrondosa no poço do peito. Tem
um vibrato profundo, uma música sombria. – Minhas desculpas, eu estava
perdido em pensamentos. E não a esperava.
– Estranho, já que venho tentando marcar uma reunião faz uma semana. – Ela
dá um sorriso duro.
– As coisas, como você sabe, têm me mantido ocupado.
– Você não está ocupado agora. Vou me juntar a você em sua viagem a
Nakadia. Podemos aproveitar o trajeto juntos, senador. O que acha?
– Eu tenho escolha?
O sorriso gélido dela não vacila.
– Não uma escolha fácil.
Com um gesto da mão de dedos finos, os guardas dele desaparecem da sala.
Ela dispensa os seus protetores da mesma forma.
A sala de estar é simples: tudo é tão quadrado no interior da nave quanto no
exterior. As cadeiras são de esmalte duro. As vigias são altas e encimadas com
cortinas de aço telescópicas. O chão é frio. A sala não contém tecidos, nada que
a torne aconchegante. É tão receptiva quanto um tijolo.
Como Wartol, de certa forma.
Ainda assim, ela se senta quando ele oferece uma cadeira. Não é confortável,
exatamente, mas ela admite que a rigidez é condizente com sua personalidade.
Wartol senta-se diante dela. Ele ergue uma tigela de uma mesa próxima –
enquanto a estende para ela, pequenas órbitas duras e ossudas chacoalham dentro
do recipiente. Parecem nós de dedos. Em cada uma há um pouquinho de carne
amarela seca. É comida... ela acha.
– Nektods – ele diz. – Pequenas criaturas com cascas que se formam nas
laterais de nossas naves, filtrando qualquer microfauna que conseguem. Elas
sobrevivem no vácuo do espaço. São bem duras, mas podemos marinar e assar
devagar no fogo baixo, e se tornam um aperitivo.
Por educação, Mon já experimentou a comida de inúmeras espécies – o
decoro demanda, e ela não decepciona agora. Aceita um dos pedaços ossudos e o
gira na mão repetidamente. Ele a instrui para colocá-lo nos lábios e sugar a carne
do centro, o que ela faz. Ela espera que o gosto seja... bem, ruim. Como peixe ou
carne ou fungo. Mas é estranhamente refrescante. Um travo cítrico e uma onda
salgada atingem sua língua.
Ele come um também. Mas Wartol não olha para a comida enquanto come. As
írises em formato de X de seus olhos profundos encaram Mon, como se a
dissecassem. As córneas vagueiam e pulsam. É quase hipnotizante. Sua voz
majestosa e profunda e seus olhos caleidoscópicos dão uma pista de por que ele
é tão popular. Isso e o fato de que ele porta a capa invisível da liderança. Ela cai
bem nele.
Ele pode vencer, sabe... E o que você faria se ele vencesse? Para onde iria? A
que papel serviria, Mon?
Lá fora: o clang da mangueira de combustível desconectada da nave a afasta
de seus pensamentos venenosos.
Os motores zunem, e a nave começa a se erguer.
– Eu imagino que isso não seja uma visita social – Wartol diz.
– Não é.
– Certamente é pouco ortodoxa.
– Eu não acho. É estranho que uma chanceler queira falar com um de seus
senadores?
– Um senador que se opõe a ela na eleição, você quer dizer?
Ela sorri.
– Com certeza, apesar da eleição, temos interesses em comum. Ambos
queremos o melhor para a galáxia, não queremos?
A mandíbula inferior do Orishen se abre, e sua língua rosa afunilada lambe os
dentes serrados de cada lado.
– Não há nenhum público aqui, chanceler. Não estamos no Senado. Abandone
esse teatrinho e fale diretamente. O que você quer e por que está aqui?
– A resolução para atacar a Frota Imperial em Jakku.
– A resolução que falhou, você quer dizer?
– A votação não passou por cinco votos. Apenas cinco.
Ele descarta a casca vazia de nektod na tigela. A nave estremece quando entra
na atmosfera, e logo depois todo o espaço e o tempo parecem deslizar debaixo
deles quando a nave parte para o hiperespaço.
Wartol dá de ombros.
– É assim às vezes, sabe? Votações falham, às vezes por um voto, às vezes por
mil. Não que o Senado seja grande o bastante para ter mil votos, mas será.
Quando eu for chanceler, novos mundos vão retornar para nós.
– Como você diz, não temos um público aqui, então não precisa me vender
sua candidatura. Eu quero falar sobre esses cinco senadores. Senadores Ashmin
Ek, Rethalow, Dor Wieedo, Grelka Sorka e Nim Tar. Cinco senadores, todos
votaram com você no passado. Cinco senadores que trabalharam com você em
diversos conselhos e convenções. No entanto, enquanto você votou pela
intervenção com o Império, eles votaram contra.
Ele franze o cenho.
– Eles não são autômatos.
– Não. Mas recebem suas deixas de você.
– Não dessa vez, pelo visto.
– No entanto, você não se deu ao trabalho de convencê-los. A segunda
votação é amanhã. – Ela tem sorte: as regras atuais lhe permitem apresentar a
proposta de novo, viabilizando uma segunda votação. Isso se deve ao fato de a
margem do fracasso ter sido particularmente estreita: menos de dez votos
separando os resultados possibilitam que o mecanismo de uma segunda votação
seja ativado automaticamente. Depois disso, nenhum mecanismo vai salvá-la.
Não haverá mais nenhuma votação. O que significa que ela precisa anular esses
cinco votos. – Por que você ficaria no caminho do progresso que tanto deseja,
exatamente? Por que não lutar por ele? Você tem influência com esses senadores.
Use-a.
– Como você observou, eu votei a favor da sua resolução, chanceler. Quero
isso acabado tanto quanto você. O Império deve cair.
– Então eu peço sua ajuda para convencer esses senadores – Mon diz.
– Ajudar você? O Dia da Libertação realmente embaralhou a sua cabeça, não?
Ela se inclina para a frente.
– E eu aqui pensando que você disse que queria terminar com isso tanto
quanto eu. Aparentemente, não. Você é um político e tanto. Disposto a descartar
seus princípios em favor de uma vitória.
– Se você está dizendo.
– Deixe-me pintar uma imagem – ela começa, fria. – Você sabe que o fracasso
da minha resolução é uma marca contra mim. Ela reflete uma falha de liderança
da minha parte. Então você convence cinco senadores a votar contra a resolução
enquanto se protege votando a favor dela. Desse modo, eu não posso acusá-lo
facilmente para não parecer conspiratória.
– Conspiratória, de fato.
– Você dispôs seus princípios num altar e os sacrificou.
Agora a voz de Wartol está acalorada. Sua mandíbula se divide e sua língua
ondula.
– Não fale comigo sobre sacrifício, chanceler. Orish conhece sacrifício. Orish
sabe o que é se envenenar para que o Império não possa nos consumir e
consumir o nosso planeta. O que você sabe disso? O Império nunca chegou a
Chandrila, chegou?
– Não, mas eu cheguei ao Império. Eu lutei contra eles. Eu perdi pessoas.
– Mas não perdeu seu planeta. Você teve o privilégio de perseguir essa
batalha. Meu povo não teve esse privilégio. A batalha veio até nós. Eles nos
escravizaram. Eu os vi nos acorrentarem. E nos espancarem. E começarem a
minar nosso mundo, pilhando seus recursos. Nosso lugar, nosso povo, todos sob
o dedo do Império. Até que encontramos um jeito de nos libertar.
– E eu nunca iria desprezar a perseverança do seu povo.
– Desprezar? Não. Você simplesmente iria desperdiçá-la. Você não sabe o que
é necessário. Eu e os outros Orishens somos mestres do sacrifício. Sabemos o
valor dele. Sabemos como empunhá-lo.
– É essa a questão, então? Sacrifício? – Mon pergunta. – Você vai jogar fora
nossos esforços para sua própria conquista da Nova República? O sacrifício de si
mesmo pode ser nobre, senador. Mas o sacrifício da segurança de uma galáxia
inteira? Isso é um ataque contra todos nós e não posso aceitar!
Ele se levanta, assomando sobre ela. Mon tenta não demonstrar que sente a
ameaça da sua presença – ele poderia esmagá-la com facilidade. Ela poderia ser
morta, lançada no espaço, e seria o seu fim.
– Você não pode dizer isso a mim. Não tem o direito. Talvez a verdade seja
que eu sinto que uma República com você no comando seja a maior preocupação
– ele diz, furioso. – Você é fraca. Sua liderança é mole e indulgente. O Dia da
Libertação provou que isso é verdade.
– Foi você. Você sabotou o voto.
Wartol não senta, e sim cai para trás contra a cadeira. Ele olha para longe dela
enquanto diz, quase desdenhoso:
– Eu não admito nada. Não vou encorajar fantasias conspiratórias.
– Deixe-me apresentar uma nova conspiração, então. – Ela abre a mão e deixa
um pequeno dispositivo andar sobre ela. O dispositivo tem um microfone
minúsculo no topo e, embaixo, um emaranhado de fios cortados.
Ele mal olha para o negócio.
– O que é isso?
– Você sabe o que é. Um dispositivo de áudio. Uma escuta.
– É o que você diz.
– Você a plantou.
– Essa é uma acusação ousada. Presumo que venha com provas... – Ele faz um
gesto de desprezo, a mão fechando num punho. – Ah, não, não vem. Só outra
alegação sem fundamento da sitiada Mon Mothma.
– Você sabia. Sabia que o Império estava em Jakku. Sabia que dois dos nossos
iam levar a Millenium Falcon para aquele planeta e os impediu. Ah, os guardas
não admitiram que foi você e tentaram dizer que fui eu quem impediu a Falcon.
Mas eles o escutam. Você tem autoridade. Tem antenas por toda parte, não tem?
– Você não pode provar nada disso.
– Correto. Não posso. Então terei que fazer do jeito antiquado: transformando-
o numa polpa sangrenta. – Os olhos dela lampejam com malícia. – Na eleição,
quero dizer.
– Ho, ho, boa sorte com isso, chanceler. Sua preciosa votação é de manhã.
Daqui a menos de doze horas. Pousamos em breve. Espero que arranje os votos
de que precisa. Mas o tempo é cada vez mais curto...
Ela sorri.
– Se ao menos houvesse um jeito de adiar o voto.
– Hm. Bem que você gostaria de ter tanta sorte.
A nave dá um tranco quando sai do hiperespaço. Fora da vigia, as linhas azuis
se reduzem a pontinhos e novamente eles estão no poço profundo do espaço –
mas daqui ela pode ver o limite crescente do mundo no qual o Senado será
abrigado: Nakadia.
– Belo planeta, Nakadia – ela diz.
Tolwar Wartol grunhe em resposta.
– Um fato interessante sobre Nakadia – ela continua. – Nós os libertamos do
Império, e agora eles provêm grande parte da comida para nossas tropas. Tem
algo a ver com a composição do solo. É exatamente adequado para plantar uma
série de colheitas essenciais. A votação para torná-lo um planeta protegido
Classe A... bem, isso foi um voto fácil. Você votou sim. Todos votamos. Nós nos
unimos nessa questão.
– Aulas de história são mais eficazes quando interessantes – ele diz. – E essa
não passa pelo teste.
– Sinto muito por entediá-lo. Eu achei interessante.
A porta para a sala se abre. Um Orishen de ombros estreitos está lá – não um
guarda, mas um piloto vestido de dourado e vermelho usando capacete, o visor
erguido.
– Senador, temos um problema.
Wartol olha para o piloto, então para a chanceler, então de volta para o piloto.
Ele está desconfiado agora. Bom. Devia estar.
– O que é?
– Nakadia não está permitindo nosso pouso, senador.
– E por que não?
– Estão dizendo que as varreduras preliminares indicam que estamos levando
um produto agrícola restrito. Potencialmente invasor.
Wartol se vira para ela. Ele já suspeita que ela fez algo. E, claro, tem razão.
– Chanceler, o que você fez.
Uma afirmação, não uma pergunta.
Ela finge estar envergonhada enquanto tira uma fruta pequena do tamanho de
um punho de dentro do roupão.
– Oh, minha nossa. Veja isso. Uma frutinha pta. Já meio amassada. – Ela tira o
dedão de dentro do indicador. A seiva escorrendo da pele perfurada da fruta
laranja-escura é marrom e grudenta e quase cola o seu dedão ao outro dedo.
Sementes se agarram ao suco. O que é importante, no entanto, não são as
sementes ou o suco, mas, em vez disso, a fragrância tóxica: uma que os próprios
sensores ambientais da nave teriam captado. E os escâneres nakadianos na
superfície fazem uma leitura passiva de todos os sensores de naves enquanto
passam. O que significa que esses sensores teriam captado... – A pta é proibida
em Nakadia, não é? Eles terão que fazer uma varredura da nave e procurar
outros contaminantes. Ah, nossa. Temo que isso vá nos causar um atraso e tanto.
Você não acha, senador?
Capítulo
20

O número mágico é cinco.


Cinco espiões para cinco senadores.
A esperança secreta é esta: que os cinco senadores que votaram contra a
intercessão com o Império sejam corruptos. Há um fraco indício de evidência
nesse sentido: Conder entrou – não muito legalmente – nos registros eletrônicos
das contas desses senadores, e em duas delas encontrou depósitos de créditos de
origem desconhecida. (Esses dois senadores são Ashmin Ek, de Anthan Prime, e
Dor Wieedo, de Rodia.) Só que isso não significa muito – nessa época de um
Império decadente e uma Nova República ascendente, alguns investimentos
estão dando lucro. Os mercados estão voláteis à medida que antigas indústrias
entram em colapso e novas corporações surgem, e onde há volatilidade há
pessoas se tornando surpreendente e subitamente ricas.
Isso, no entanto, junto ao dispositivo de escuta encontrado no droide
protocolar de Leia...
Eles discutem o assunto na Falcon, em órbita acima de Nakadia.
– Onde tem fumaça, geralmente tem fogo – Solo diz, antes de acrescentar, em
voz baixa: – Geralmente um fogo elétrico perto do hiperdrive, o que Chewie
sempre me avisa para... – Ele para de falar, perdido na própria cabeça.
Conder entra na brecha:
– Solo tem razão. Pode haver algo aqui.
– Seguimos a fumaça – Sinjir diz – e encontramos o fogo.
Só então, ele explica, vão encontrar algo que os ajude a conseguir os votos
para mandar a Nova República para Jakku.
Mas estão ficando sem tempo.
Nakadia.
É um planeta agrícola – campos amplos, pomares, pastagens. O céu tem um
matiz violeta mesmo no ápice do dia, e à noite as duas luas iluminam a
escuridão. O ar muitas vezes é quente como água de banho, com uma brisa
muito leve. O planeta é pastoral. Alguns até diriam atrasado. As cidades são
pequenas. Meros vilarejos. Há tecnologia, mas é toda destinada para a
agricultura – para arejar o solo, para injetar micronutrientes, para a colheita.
A capital é Quarrow, onde o Senado será abrigado pelo próximo ciclo anual e
talvez por mais tempo, se votarem para estender sua estadia. Quarrow é uma
cidade com apenas alguns milhares de habitantes. Nenhum prédio tem mais que
três andares. As ruas de fibracreto são para biológicos apenas: nenhum speeder,
nenhuma máquina, nenhum droide. (Na verdade, o planeta tem certo preconceito
contra droides. São usados quando necessário, mas em geral são os Nakadianos
que trabalham no solo e cuidam das safras. Nakadia tem uma memória longa e
lembra-se das ondas de droides que o ocuparam durante as Guerras Clônicas.
Aceita essas máquinas, mas não as trata como iguais, nem mesmo como
sencientes.)
Quarrow é uma cidade com pouca vida noturna. Sinceramente, é uma cidade
com pouca vida diurna, também – tem restaurantes e tavernas, sim. Tem um
clube-poma, onde você pode se sentar numa câmara de privação enquanto uma
música pulsante massageia todas as suas moléculas – essas câmaras são
preenchidas com poma borbulhante, um fluido derivado das sementes não
comestíveis da fruta poma-drupa. Ela relaxa os músculos. Liberta a mente.
Alguns alucinam um pouquinho. No dia seguinte, retornam aos campos – recém-
revigorados e livres do que chamam de bagagem psicológica.
Há pouco crime.
Há pouco drama.
Há pouco de tudo, na verdade.
A vida em Nakadia não é fácil, mas tende a ser simples.
A simplicidade reina.
Assim, o desafio aos cinco espiões é este: como exatamente vão pegar
qualquer um dos cinco senadores fazendo algo errado quando tudo é tão simples,
tão imaculado pela corrupção, tão ousadamente escancarado?

Noite em Nakadia. Na manhã seguinte, o Senado estará pronto para sua


primeira sessão aqui no planeta, mas no momento Quarrow está animada pelo
tipo de vida que não vê há... provavelmente nunca viu. Não apenas porque agora
há 327 senadores invadindo a cidade tranquila, mas também porque esses
senadores trazem as próprias comitivas: droides, conselheiros, adidos, irmãos,
filhos, colegas e amantes. Naves entopem as docas. A cidade de Hanna, em
Chandrila, estava pronta para o que vinha chegando. Quarrow, em Nakadia, não
está. É um bloqueio logístico. E, um a um, os senadores são expelidos de suas
naves, maculando esse planeta agradável com a nuvem arrogante e indulgente de
política e governo.
Isso, pelo menos, é o que Sinjir pensa a respeito.
No momento, ele está designado para vigiar Ashmin Ek, de Anthan Prime.
Eles não estariam aqui se não fosse por Jom. Os únicos permitidos neste local
são senadores, os membros de suas equipes, seus seguranças e aqueles que
fizeram uma solicitação para a lista de exceções. Essa lista de exceções pode
incluir jornalistas, celebridades, certos barões de negócios que querem apertar
mãos e incentivar políticas amigáveis à indústria...
A questão é que a lista é elaborada com meses de antecedência. As vagas são
limitadas e o têm sido desde que abriram. Sim, Mon Mothma ou Leia
provavelmente poderiam mexer uns pauzinhos para colocar seus nomes na lista
– mas isso seria um gesto óbvio que ligaria o que ela está fazendo no cruzador de
Wartol aos esforços deles aqui em Nakadia. A chanceler sabiamente não quis
nada que conectasse ela a eles, com medo de que tudo fosse pelos ares.
Foi aí que entrou Jom.
Jom, agora trabalhando como segurança, estava disposto a, hã, ajustar a lista –
ele removeu uma dupla de jornalistas duvidosos e colocou o nome dos dois no
lugar. Solo e Sinjir foram fáceis: ambos são mais ou menos “celebridades” entre
os políticos mais narcisistas – Solo como um genuíno herói da Rebelião e Sinjir
como uma aberração curiosa (“Ah, veja só o imperial engraçadinho. Será que ele
conheceu Darth Vader?”). Conder já trabalhou para senadores, então também
agregou valor à lista. Temmin foi mais difícil de inserir, mas eles usaram seu
apelido (“Snap”) e o colocaram como “veterano militar”, de modo que ninguém
o olhou torto.
Então, agora eles esperam. E vigiam.
É um trabalho previsivelmente tedioso.
Do outro lado do prédio do Senado de Quarrow, há um restaurante – Izzik’s.
Fica pela maior parte ao ar livre, onde mesas pouco iluminadas cobrem um trio
de terraços pairando no ar. Os senadores se amontoam neles, cotovelo a
cotovelo, ombro a ombro, tentáculos a tentáculos oculares, parabenizando-se de
modo arrogante por suas realizações questionáveis, rindo e aplaudindo de leve.
Agora, o senador com tentáculos de Torphlus está gorgolejando alguma coisa
que pode ser uma canção ou talvez um grito por ajuda, e há mais risadas e mais
aplausos.
Ek, por sua vez, não para de se mover e apertar mãos. Alguns ficam sentados
em um lugar, ancorando-se numa mesa e conversando em pequenos grupos, mas
o senador de Anthan Prime é um verdadeiro polinizador social, voejando de uma
flor política para outra e borrifando um pouquinho de si em todos. Ele é como
um droide seguindo uma programação: diz as mesmas coisas, faz os mesmos
sons, oferece os mesmos parabéns, dá as mesmas risadas nas mesmas horas.
Nada disso é suspeito. É tudo feito inteiramente às abertas.
Isso preocupa Sinjir. Porque, no momento, eles estão procurando algo que
pode não existir. A resposta mais simples é quase sempre a verdadeira, e aqui a
resposta mais simples é que os cinco senadores que votaram contra a resolução
de Mon Mothma fizeram isso porque são políticos. Eles têm planos, e esses
planos não estão necessariamente alinhados com a segurança da galáxia. Ah,
claro, é uma delícia acreditar que no fundo todos estão zelando pelos interesses
da galáxia, mas buscar poder – querer um papel para ajudar a guiar o destino da
galáxia! – é um ato de ego máximo. É um ato de si, não importa quão altruísta
seja a pessoa que o realiza. O que significa que provavelmente não há nenhuma
conspiração aqui, exceto a conspiração muito comum de interesse próprio
agressivo.
Enquanto lentamente orbita o senador Ek, enveredando discretamente pela
multidão de (ele estremece) políticos, Sinjir espia um rosto familiar do outro
lado do terraço mais alto: Conder.
Conder sorri. Tímido, jovem, brincalhão. Aquele monstro.
Sinjir o ignora. Ou tenta.
Ele se encosta no bar e fala baixinho pelo comlink no pulso:
– Não tenho boas notícias a relatar.
– Eu tenho boas notícias – Solo diz no fone de Sinjir. Han não está aqui; ele
está no espaçoporto mais ao norte, fora de Quarrow, onde o senador Dor Wieedo,
de Rodia, permanece em sua nave. Solo é uma figura razoavelmente conhecida
na Nova República, de modo que postá-lo num lugar tão público quanto o Izzik’s
seria um bom jeito de arruinar os planos. Todo mundo ficaria parando e
bajulando o “herói da Rebelião”, perguntando sobre Luke, sobre Leia, sobre
aquela maldita rota de Kessel de que ele adora de falar. – O plano de Mon
funcionou. Acabei de ouvir de um dos estivadores de folga: a nave de Wartol
está sendo mantida em quarentena enquanto esperam uma equipe de inspeção
subir a bordo. Vai levar um tempo, mas não sei quanto vamos ganhar. Doze
horas no máximo, e eu nunca gosto de esperar o melhor.
– Não vamos encontrar nada – Sinjir diz.
É a vez de Jom falar:
– A gente precisa encontrar alguma coisa, diabos! – Ele está vigiando
Rethalow, de Frong, em um dos clubes-poma. – Ainda não entendo por que não
podemos só aparecer, dar uma pancada na cabeça desses traidores e perguntar o
que estão fazendo. Sinjir, você pode fazer isso. Diga a eles para votarem como a
gente quer, senão vão ter que te ouvir falar sobre o que quer que seja que você
goste de falar. Isso seria uma verdadeira tortura.
Ouve-se uma risada no comlink. Conder.
Conder está aqui vigiando Nim Tar, o Quermiano com cabeça de bolha. O
senador de pescoço longo está sentado no canto mais distante, nervosamente
bebericando alguma bebida frutosa e parecendo não querer nem um pouco estar
aqui.
– Paciência – diz Conder. – A noite é jovem.
– Eu também – Temmin diz. Ele é o último do grupo e está do outro lado do
prédio do Senado em uma varanda, mantendo um olho em Grelka Sorka, a
senadora de Askaj. Ela já está ocupada com o trabalho, coordenando algum
comitê sobre... bem, Sinjir esqueceu sobre o quê. Provavelmente um comitê
designado para dar a eles mesmos um aumento de salário. Ou um comitê
designado para designar outros comitês. Temmin resmunga. – Sou jovem ainda,
mas me sinto ficando mais velho a cada instante. Isso é chato demais. Eu odeio
ficar aqui.
Sinjir quer repreender o rapaz – É necessário, Temmin –, mas nem ele tem
certeza de que acredita nisso. Ele quer fazer o que todos eles querem fazer: pegar
a Falcon, voar para Jakku, explodir sozinho o Império e salvar Norra e Jas em
um gesto épico e heroico. Só que eles não podem fazer isso. Vão morrer se
fizerem. Ou começar um incidente galáctico e acabar fazendo Wartol ser eleito
de qualquer jeito. Então, esperam aqui, vigiando senadores na esperança de que
pelo menos um deles seja visivelmente corrupto de modo a permitir uma
vantagem suficiente para ganhar o voto.

Horas se passam.
Nada acontece. Pelo menos, nada interessante. No Izzik’s, a pilha de
tentáculos torphlusiana ainda está “cantando”. Dois conselheiros Verpinos
entraram numa discussão alta numa mesa, chilreando e esfregando os braços de
serra juntos (cujo som resultante fez Sinjir querer furar ambos os tímpanos com
um palito de dentes), e agora os mesmos Verpinos estão inclinados sobre outra
mesa, avidamente esfregando as partes da boca. Fora isso, é o mesmo grupo de
políticos apertando mãos e dando tapinhas nas costas.
Ashmin Ek é incansável. Alguns senadores foram embora, sendo substituídos
por outros conforme a noite progride, mas não Ek – o senador de Anthan Prime
continua ali, o mesmo sorriso plástico na boca, a mesma bebida meio cheia na
mão, o mesmo tempo entre uma mesa e outra.
Os outros não estão tendo muita sorte também. Dor Wieedo continua em sua
nave. Rethalow está dentro do seu tanque no clube-poma. Temmin relata que
Grelka Sorka não está mais no comitê e que agora está fora do Senado, sem fazer
nada. Nim Tar relaxou um pouco e saiu da segurança da mesa do canto,
movendo-se uma mesa para o lado para conversar com o jovem emissário de
Ryloth, Yendor. (Sinjir espia Conder pairando nessa direção. Cada vez que o
vislumbra, seu coração acelera, a boca fica úmida, a garganta se aperta. Ele diz a
si mesmo que é porque está entediado, ou ansioso, ou não bêbado o bastante. O
que significa nem um pouco bêbado – um erro atroz, entre todos que já
cometeu.)
A noite desliza para a manhã.
Então Solo diz:
– Tenho algo aqui.
Uma torrente de perguntas: O quê? Quem? Onde?
– Um par de Miktos. Mais um Klatooiniano. Estão indo para a nave de
Wieedo. Não estão armados, mas com certeza não são de Nakadia, e nenhum dos
dois é um senador. Eu conheço escória quando vejo.
– Tome cuidado – Jom diz pelo comunicador.
– Relaxa, eu tenho tudo sob controle – Han diz.
Agora o sangue de Sinjir acelera. Provavelmente não é nada, mas sua pele se
arrepia com as sensações gêmeas de empolgação e medo. Ele se acomoda perto
do bar e mantém um olho aberto. Ek está lá ao lado de uma mesa de Arconanos
– e agora alguém se aproxima usando o dourado, vermelho e branco de
Alderaan. Será que finalmente elegeram um senador, embora o planeta esteja
destruído? Um prego de culpa se enterra no coração de Sinjir. Ele literalmente
não teve nada a ver com a destruição daquele planeta, mas, ainda assim, quando
ouviu que o Império o tinha destruído, teve pesadelos por semanas. Milhões de
pessoas morrendo...
Uma mão agarra o cotovelo dele.
Ele fica tenso como um animal pronto para atacar e dá meia-volta...
E vê só uma jovem ali em pé. Um rapaz corre atrás dela. Ela tem cabelo
dourado e pele bronzeada. Ele é um pouco mais baixo, com um corpo fino como
uma antena, mas uma cabeça redonda como uma lua.
– Você é ele – ela diz.
– E você é ela – Sinjir retruca, irritado. – Que bom que esclarecemos isso,
agora, se me der licença...
– Você é o imperial – o rapaz diz, sorrindo.
– Ex-imperial – ela corrige com uma careta breve, então seu sorriso retorna.
Para Sinjir ela diz, em voz baixa: – Peço desculpas por Dann, ele é meio tapado.
Meu nome é Merra.
– Sim. Bom. Tudo bem. Prazer em conhecê-los.
Em seu ouvido, vem a voz de Temmin:
– Espere. A senadora Sorka está indo embora, ela está saindo de fininho pelo
lado. Eu vou segui-la.
– Tome cuidado – Jom alerta. – Han, encontrou algo?
Mas não há resposta.
Sinjir tenta passar pelas duas crianças de olhos arregalados à sua frente, mas a
garota se põe diante dele, bloqueando seu caminho.
– Somos Akivanos – Merra diz, animada. – Nossa mãe, Pima Drolley, é a
senadora recém-nomeada para cá.
– Ótimo – diz Sinjir. Ele ergue os olhos acima dos dois, esperando ver Ashmin
Ek com seu contingente de Arcona, mas eles estão sozinhos com a alderaaniana.
Ek não está lá. Mas que inferno. Ele examina a multidão procurando pelo pico
de merengue de cabelo prata. Ali, é ele? Não!
– Akiva – Dann diz, com uma risada nervosa. – Sabe, o planeta que você...
ajudou a libertar?
– Aham, planeta maravilhoso. Mais quente que a barriga de um bantha, mas
maravilhoso. – Ainda nenhum sinal de Ek. Sinjir é mais alto que a maioria aqui,
então se ergue na ponta dos pés e olha para Nim Tar...
O Quermiano sumiu.
E Conder também.
– Eu tenho que ir – ele diz de repente.
A jovem interrompe de novo:
– Se você tem um momento, nossa mãe gostaria de conhecê-lo e agradecê-lo
em pessoa...
– Não tenho tempo.
– Você não é um senador muito bom – Dann diz, subitamente amargo.
Sinjir cerra os dentes.
– É porque não sou senador, seu bufão de cabeça inchada. – Ele abre caminho
entre os dois e se enfia no meio da multidão. Não está pensando direito para ser
discreto, então fala direto no comunicador: – Alô? Conder? Onde ele está?
– Como eu vou saber? – Jom pergunta. – Han, Tem, acharam algo?
Nenhum dos dois responde.
– Jom, e no seu local?
O soldado responde:
– Nada. Está tudo bem por aqui. Rethalow ainda está na câmara do tanque.
– Nenhuma figura suspeita? Nenhuma travessura?
– Não. Cadê todo mundo?
– Não sei. – Sinjir se encolhe. – Eu perdi Ek.
– Maldita estrela dos infernos, Sinjir.
Não se preocupe, também estou decepcionado comigo mesmo. Ele não diz
nada e continua se movendo, cortando pelo grupo de senadores, procurando
Ashmin Ek ou Nim Tar ou Conder (esteja bem, por favor) e não encontrando
nenhum deles. Ele pula para o terraço mais baixo, na rua de fibracreto, e dá uma
volta no restaurante inteiro. Passa pelos compactadores de lixo nos fundos, os
pés batendo em poças de uma chuva recente. Então segue para o outro lado do
prédio, por um beco estreito...
Ali.
Ashmin Ek e Nim Tar. O homem de Anthan Prime é mais baixo que o
Quemiano, mas de alguma forma parece dominar Nim Tar. Ek está furioso.
Agarra o alienígena de pescoço pela frente da camisa e com a outra mão aponta
um indicador convencido e acusatório no rosto dele. Sinjir começa a marchar até
eles.
– Ei! Ei, podem parar com isso – ele diz, antes que um plano realmente se
forme na cabeça. Eu não sou um oficial de segurança, o que estou fazendo? Eles
se viram na sua direção, parecendo crianças pegas com as mãos na gaveta de
doces.
Os olhos de Ek voam para ele. Então, para além dele. Como se...
Sinjir escuta o arranhar de uma bota.
Tem alguém atrás de mim.
Alguma coisa dura bate em sua nuca. Um brilho branco surge atrás dos olhos,
e as luzes se apagam antes que ele atinja o chão.
INTERLÚDIO
Coruscant

Coruscant está no caos, e Mas Amedda está preso. Ele é um prisioneiro de seu
próprio Império. Os poucos que permanecem aqui no impenetrável Palácio
Imperial o mantêm em seus aposentos. Ele não sai daqui há meses. Aqueles
presentes não são leais a ele, ah, não. Eles pertencem a outro: a Gallius Rax, o
verdadeiro guardião do destino e das fortunas do Império.
Rax lhe enviara uma carta manuscrita – coisa rara de se ver, algo que só
Palpatine em pessoa fazia de tempos em tempos – quando tudo isso começou.
Ela dizia, de modo bem simples:

Glorioso líder do Império,


Eu tomei Jakku. Trouxe o Império comigo. Você ainda é o líder em nome, mas
ficará confinado em seus aposentos até que tudo termine. Não tente sair. As
portas estão seladas (até aquelas para a varanda, caso você tenha a ideia de
pular) e qualquer tentativa de fuga será respondida com violência recíproca na
intenção de aleijá-lo. Eu lhe asseguro que isso é para mantê-lo a salvo, de modo
que possa nos liderar outra vez um dia.
Com grande honra e respeito,
Conselheiro Gallius Rax

Que bexiga pomposa.


Rax não estava brincando quando disse que iria aleijar Amedda no caso de
qualquer tentativa de fuga. Alguns dias após sua agradável prisão, ele tentou
atacar os dois guardas do outro lado da porta. Quebrou um prato na cabeça de
um, lançou um punho desajeitado e previsível no outro. A dupla rapidamente o
derrubou. Antes que soubesse o que estava acontecendo, uma bota acertou seu
joelho e ele caiu no chão. Outra agarrou sua perna e a girou – os tendões se
torceram e ele não conseguiu andar por dias. Até agora ela lhe dá trabalho, com
pontadas súbitas de dor subindo do calcanhar até os quadris. Infelicidade e
miséria.
Eles lhe trazem comida – boa comida, não banquetes apropriados a um
imperador, mas não mingau também. A maior parte dos dias ele passa sozinho,
exceto quando lhe dão essas refeições. Ele se perguntou, a princípio, por que
simplesmente não o matavam. Por que Rax o iria querer por perto? Então eles o
mostraram. Com uma arma de raios pressionada contra a nuca, um bando de
agentes do DSI o forçou a gravar um holovídeo agradecendo às tropas por seu
serviço, a Gallius Rax por sua liderança militar e assegurando ao Império que a
vitória logo seria deles. Eles o obrigam a fazer isso de vez em quando. Uma vez
por mês, mais ou menos. É de quebrar a alma. Ele preferiria morrer.
(Embora, às vezes, esse desejo de encontrar a morte seja suplantado por outra
coisa: um desfile de fantasias em que ele envolve os dedos no pescoço de Gallius
Rax e esmaga a traqueia do homem.)
Por um tempo, ele esperou que Sloane fosse sua salvação. Os dois tinham um
inimigo em comum. Mas Rax conseguiu dar um fim nela. Ele a atraiu para
Chandrila, onde, segundo os rumores, ela caiu de uma ponte suspensa para a
morte.
E agora Mas Amedda não tem nada nem ninguém. Ele olha ao redor dos
aposentos. Estão imundos. Ele não se lava há dias. O quarto é praticamente um
amontoado de coisas a essa altura. Até suas roupas estão sujas. Ele as mandaria
pelo tubo de vácuo da lavanderia – mas a máquina parou de funcionar há dias.
Em vez disso, ele fica sentado. Ele faz chá. Ele encara a parede.
Fora deste quarto, tudo é silencioso e sereno.
Lá na cidade, a loucura prevalece. Ele pode ver das janelas quando escolhe
olhar. De vez em quando, uma explosão floresce a distância. Sempre que abre as
cortinas, avista destroços – geralmente imperiais, um speeder ou nave do DSI, às
vezes destruída no chão ou em um telhado. Quando lhe trazem comida, ele
pergunta: o que está acontecendo? Quem está lá? Estamos a salvo? A única
resposta que recebe é que pode ter certeza de que o Palácio Imperial é
impenetrável. Então o guarda diz algo como “A cidade está bem e permanece
sob o controle do DSI”. O que é uma mentira óbvia como um nariz feio: todos
conseguem vê-lo, mesmo seu dono.
A conclusão a que Mas chegou é: eles perderam Coruscant.
Como não viu naves da Nova República, ele se pergunta para quem a cidade
foi perdida. Ainda há um bloqueio imperial no espaço? Ou o submundo
criminoso finalmente estourou como uma bolha? Os loucos tomaram controle do
hospício? Ele sempre avisou Palpatine que fomentar uma conexão tão íntima
com o submundo – e mantê-lo tão próximo – era uma aposta perigosa. Mas
Amedda é uma criatura de lei e ordem – um homem de números, um homem de
regras. Aconchegar-se com escória como aquela sempre o aborreceu.
Não que ele tenha feito uma objeção, não é? O imperador tinha seus planos.
Ele não tolerava dissidência. Não tolerava nada tão desagradável quanto um
olhar questionador. Palpatine só aceitava conselhos quando eram pedidos – e
nunca antes.
O Império. Que fracasso enorme e maligno. Uma pilha de excrementos, e Mas
Amedda está sentado precisamente no seu topo.
Ele quer chorar. Mas não tem mais forças.
Ele dorme por um tempo.
Então, um barulho. Deve ser hora da refeição de novo para o prisioneiro.
Não. Esse som está vindo do...
Do tubo de vácuo da lavanderia?
O som é baixo. Uma batida aqui, o som de metal fino sendo forçado ali: da-
dank, barramp. Um sussurro se segue.
Ah. Alguém está, finalmente, consertando o maldito tubo. Bem, pelo menos
ele vai ter roupas limpas de novo. Se ele se der ao trabalho. E talvez não se dê.
Com esse mistério resolvido, Amedda vai dormir de novo.
Até que outro barulho o acorda. Dessa vez, quando abre os olhos, ele descobre
com um choque de contrair as entranhas que não está sozinho.
Ele está, na verdade, cercado.
Crianças imundas formam um semicírculo ao redor da espreguiçadeira, e essa
presença confirma o que teme há muito tempo: sua mente está verdadeiramente
em frangalhos, e agora ele é escravo de uma vida alucinógena muito vívida. Na
frente dessa ilusão nítida está um garoto ruivo com o rosto sujo de fuligem e o
lábio repuxado por uma cicatriz de anzol que lhe dá uma careta natural.
Naturalmente, a criança tem uma arma de raios. Todas elas têm.
– Vá, atire – Amedda diz, indiferente.
O garoto parece perplexo. Ele olha para as outras cinco crianças. Uma garota
com tranças escuras formando uma coroa na cabeça faz uma expressão azeda.
– Você quer morrer? – ela pergunta. – Iggs, ouviu esse sujeito?
O menino da careta – Iggs, aparentemente – ergue a arma de raios.
– Bem, Nanz, eu sugiro que a gente atenda aos desejos desse sanguessuga e o
envie para a próxima vida.
Ele ergue a arma de raios, e é então que Mas Amedda começa a chorar. As
lágrimas não são de medo ou ódio ou fúria. São as lamúrias escandalosas e
miseráveis de um homem deixado no limite sem nunca poder se afastar da
beirada – nem pular do precipício. Aqui, finalmente, uma libertação o espera.
Mesmo que essa libertação seja o sonho de uma mente adormecida ou a visão de
uma mente quebrada.
O cano da arma, como um olho negro, o encara.
Uma das outras crianças – um garoto Ongree com olhos de inseto – torce a
boca no centro de sua testa bulbosa e diz a Iggs:
– Acho que isso não vai funcionar, Iggsy.
– Bah, diabos, acho que tem razão, Urk – diz o cara de anzol. Ele abaixa a
arma. Amedda balança a cabeça.
– Não! Vai funcionar, sim. Atire. Por favor. – Ele tenta pegar a arma, mas o
garoto a puxa num gesto provocador.
– O que vocês estão esperando? – Nanz pergunta. – Vamos despachar o
monstro antes que alguém nos ouça! Temos que sair, sabe.
– Olhe só pra ele – Iggs diz. – Ele não é quem pensamos. Esse balde de banha
molenga não poderia nem comandar um monte de esterco, que dirá o Império
inteiro. Se o apagarmos, provavelmente vamos fazer um favor para ele e o resto
dos cabeças de balde. – As crianças se entreolham e parecem chegar à mesma
conclusão, com uma série de dar de ombros e acenos.
Amedda se acomoda mais fundo no conforto da espreguiçadeira.
– Então, o que vocês vão fazer?
Nanz diz:
– Acho que não descobrimos isso ainda.
– Quem... quem são vocês?
Iggs empina o queixo, orgulhoso.
– Brigada dos Fedelhos. Ou parte dela.
Um a um, eles se identificam.
– Eu sou Iggs – diz o menino ruivo.
A garota com as tranças:
– Nanz.
O Ongree de olhos de inseto:
– Urk G’lar.
Um par de Biths que podem ser gêmeos ou talvez só Biths que se parecem
(Mas Amedda tem dificuldade em diferenciá-los) se nomeia:
– Ele é Hoolie.
– Ele é Jutchins.
– Wenchins – diz o último, outro garoto humano.
– Como vocês entraram aqui? – Amedda pergunta a eles.
O Ongree, Urk, diz:
– Pelo tubo da lavanderia. Quebramos. Subimos. É grande o bastante pra
caber uma criança.
Que ridiculamente simples, Amedda pensa. Então percebe a ironia louca no
fato de os engenheiros e arquitetos imperiais serem excelentes em criar espaços
muito estreitos – e muito vulneráveis – em seus projetos. Ele começa a se
perguntar se havia colaboradores rebeldes inserindo essas fraquezas...
– Me ajudem a escapar – Amedda diz.
– Você deve ser muito tapado – Wenchins retruca.
Iggs faz um gesto de descaso.
– Você não cabe no tubo.
– Eu posso obter acesso ao turboelevador. Só temos que esvaziar o corredor.
Podemos chegar ao elevador e eu tiro a gente daqui. O corredor tem três guardas.
Eu não posso derrubá-los, já que não tenho armas. Mas vocês... vocês têm armas
de raios. Me ajudem a escapar e eu ajudo vocês.
De novo as crianças discutem em silêncio. Há sobrancelhas erguidas por todos
os lados.
Urk se inclina para a frente, encarando com aqueles grandes olhos amarelos.
– O que a gente ganha com isso?
– Vocês são rebeldes?
– De certa forma. A gente se rebela – Iggs responde.
– Me libertem, e eu posso me entregar. Vou dar os códigos para a República
abrir as portas para o Palácio Imperial. Vou contar tudo para eles. Vou render o
Império inteiro. – É claro, Mon Mothma não aceitou sua rendição da última vez,
mas essas crianças não sabem disso. Além disso, ele talvez possa oferecer mais
desta vez. Talvez possa fazer do jeito certo. – Por favor.
É Iggs quem finalmente acena e diz:
– Combinado.
– Ele pode nos trair – Urk diz.
– Nah. Ele está acabado. Acho que se tentar isso eles vão só trancá-lo aqui de
novo. Olhem ao redor, esse molenga é só um prisioneiro no próprio quarto.
– Mas a gente pode morrer – Nanz sussurra no ouvido dele.
– Isso sempre foi uma possibilidade – o garoto diz. É uma coisa
surpreendentemente estoica para alguém dizer. Mas Amedda suspeita que a
criança já tenha visto mais que a maioria dos burocratas imperiais. – Se
morrermos, morremos. Pelo menos morremos com as mãos livres e não
amarradas atrás das costas. Vamos logo com isso. – Para Amedda, Iggs diz numa
voz baixa: – Vamos tirar você daqui. Mas, se tentar se soltar e enganar a gente,
eu vou te enfiar tão fundo no tubo de lavanderia que você vai querer estar de
volta aqui em cima dormindo na própria imundície.
– Combinado – Amedda diz.
– Combinado. Então, vamos te levar para a República.
Capítulo
21

As defesas do Observatório destruíram depressa a caravana da Hutt, mas


Gallius Rax pode ver que, lamentavelmente, não terminaram o serviço. Agora a
noite caiu e sua presa está posicionada defensivamente atrás de elevações como
pilares no vale. Ele muda de uma tela para outra, observando. Sloane e mais
alguém – um homem que ele não conhece – estão atrás do pilar mais ao leste.
Niima e alguns de seus escravos estão escondidos na sombra do pilar oeste. A
boa notícia é que eles estão todos presos, encurralados ali pelos turbolasers. Eles
poderiam tentar correr, mas acabariam como o resto da caravana: destroços
fumegantes e cadáveres emaranhados.
Rax permanece nas entranhas da base imperial. O sentinela está no canto,
projetando imagens do centro da mão.
Tashu entra na sala. E com ele vem Brendol Hux.
– Eu o recuperei – Tashu diz, com uma reverência dramática.
– Está tarde – Hux diz, batendo os lábios. – O que é isso? Por que fui
convocado a essa hora?
Hux leva um momento para examinar a cena estranha: um quarto simples com
paredes de blastocreto, um sentinela de roupão vermelho com o rosto de
Palpatine e imagens do deserto de Jakku projetadas no ar.
– Preciso da sua ajuda – Rax diz a Brendol Hux.
– Que... que tipo de ajuda?
– Preciso saber: seus recrutas estão prontos?
– Eu preciso de mais tempo... – Hux se encolhe. – Eles precisam de mais
tempo.
– Eles não têm mais tempo. Prove para mim o seu valor, Brendol.
Os olhos de Hux vão até as telas e o rosto tremeluzente da sentinela, tentando
entender tudo aquilo.
– Eu...
– Prove e eu contarei a você o que está realmente acontecendo.
– Eu não entendo...
– Falhe comigo e vai passar o resto dos seus dias vagando por esse deserto
miserável. – É uma oferta ousada. Rax sabe muito bem que Hux pode tentar ir
embora e contar aos outros membros do conselho o que está acontecendo. Eles
podem tentar dar um golpe contra ele, mesmo sem sucesso. No entanto, Brendol
Hux não é um homem popular. Ele não é do exército nem da marinha. É frio,
convencido e teimoso. Passa o tempo sozinho. Até o próprio filho fica longe
dele, e o garoto também não tem amigos aqui. Com a queda do Império, Hux e o
filho se tornaram cada vez mais alienados.
E esse é um jeito de voltar para o centro de tudo. Um jeito de sair do
isolamento. Uma recompensa, balançada bem na frente dele.
Ele vai pular e aceitar a oportunidade? Ou vai murchar como uma flor nesse
planeta morto?
Hux assente, expandindo o peito.
– Eles farão o que o senhor precisar. Apenas diga o que é e eu os deixarei
prontos para servir.
Rax sorri.
– Bom.

– O que aconteceu lá embaixo?


Norra pergunta por que a visão borrada através dos quadnóculos – roubados
da nave auxiliar corelliana, agora pousada atrás delas – não fornece qualquer
resposta significativa. Jas levou a nave até o fim efetivo dos cânions e cavernas
de Niima, pousando-a sobre um cume alto e escarpado que dá para um vale
amplo no deserto. O vale se estende, guardado dos dois lados por uma manopla
de planaltos e megálitos, estriados nas cores de sangue e fogo. Mas não é o vale
que as deixa perplexas.
É o que há nele.
Lá embaixo, a cerca de 5 quilômetros, há uma caravana em ruínas. Alguém a
destruiu. Um palco está caído, quebrado no meio como uma mesa estilhaçada.
Ao redor jazem os resquícios chamuscados de wheel bikes e speeders. Animais
de carga pontilham a área, mortos. E há cadáveres humanos também, brancos
como osso. Foram pintados assim, segundo Jas: escravos pertencentes à sua
senhora lesma, Niima.
Niima também está lá. Norra avista a lesma de rabo longo aguardando deste
lado dos planaltos. Ela não está sozinha – alguns dos escravos pintados de
branco rastejam nela como insetos sobre um tronco caído.
Norra se inclina num sulco onde duas pedras salientes se encontram, então
vira os quadnóculos para o leste.
É aí que encontra Sloane.
Sloane está agachada lá embaixo, entre a encosta de um planalto cuja saliência
lembra uma bigorna e uma pilha de pedras antigas quebradas. A almirante não
está sozinha: há alguém com ela. Um homem escondido atrás de uma pedra em
formato de pináculo.
– Meu palpite – diz Jas – é que estamos falando de turbolasers. Olhe para
além da caravana arrasada. Mais uns 2 quilômetros. – Norra refoca os
quadnóculos para uma visão mais distante. Eles são de visão noturna, mas a
visão térmica ainda distorce a imagem. Mesmo assim, ela vê alguma coisa lá
fora. Alguma coisa quadrada, ancorada aos declives dos planaltos baixos. Além
disso, há uma última elevação que fecha o vale: parece um braço estendido com
uma mão em formato de concha na extremidade, como se tentasse pegar o que
quer que possa cair do céu.
– Acho que os vejo.
– Geralmente eles são usados do ar...
– Mas, como em Akiva, estão sendo usados no chão também.
– Correto. Isso significa que podem nos cortar no meio se formos atingidas.
Norra se ergue e se encosta em uma das pedras pontudas. Os quadnóculos
pendem de sua alça.
– O que fazemos?
– A questão mais importante é: qual é o seu plano com Sloane?
– Não entendi.
Jas cruza os braços.
– Temos dois jeitos de lidar com ela. Um envolve captura e extração, isto é,
levá-la de volta a Chandrila ou Nakadia, que seja, para enfrentar um tribunal.
– O outro jeito é matá-la.
– Correto. Assassinato. Aqui e agora. Uma verdadeira vingança.
Norra sabe o que ela quer fazer. E Jas só torna essa escolha mais fácil quando
explica:
– Se a queremos morta, vamos naquela direção, com os canhões atirando. Ela
é atingida e morre, ou corre para o campo aberto onde um turbolaser a
transformará em poeira no vento.
– E o outro jeito?
– É mais difícil, porque precisaremos de tempo para colocá-la na nave, e a
área onde ela está se escondendo não nos dá muito espaço de manobra. Não é
muito confortável lá embaixo, então ficaremos bastante expostas.
– Diabos.
– A questão é: você quer justiça ou você quer vingança?
– Eu...
Imagens lampejam em sua mente. Sloane jogando o filho de Norra do telhado
do palácio do sátrapa em Akiva. Sloane escapando num caça TIE. A luta delas
em Chandrila – socos brutais e amargurados. Eu a quero morta. Quero que ela
pague. Quero minha vingança por tudo que ela fez. Mas outras imagens se
seguem: o rosto de seu filho. O de Leia também. Todos que ela conhece fazem
uma aparição: Sinjir, Solo, Jom, até Brentin.
Todos são boas pessoas. Mesmo quando estão fazendo coisas ruins. Mas será
que ela é também? Talvez seja o oposto. Ou talvez matar Sloane seja uma coisa
ruim, mas não mude o fato de ser uma boa pessoa.
Ela está sendo sincera quando afirma:
– Não sei. Por enquanto, nós... nós fazemos o necessário para capturá-la.
– Certo. Como?
Norra pensa. Um plano – desajeitado e aterrorizante – se forma.
– Não podemos derrubar aqueles turbolasers. – Ela se lembra de espiralar
sobre Myrra em Akiva num caça TIE. Essas naves são insanamente
manobráveis, e mesmo na época foi um esforço não ser pega. – Em vez disso,
voamos lá para baixo, mas nunca paramos de nos mover por muito tempo.
Alguém sai e agarra Sloane. Usamos Ossudo como apoio. – Ossudo está na nave
no momento, carregando as baterias e fazendo diagnósticos leves em si mesmo.
– Então quem estiver pilotando a nave a traz de volta, só o suficiente para abrir a
rampa e todos subirmos a bordo. E enquanto os códigos de autorização ainda
valem, saímos do planeta e voltamos para a República com a prisioneira.
– É perigoso. – O rosto de Jas se contorce num nó frustrado. – Provavelmente
vamos morrer. Por outro lado, sobrevivemos até aqui, e seu plano pode ser o
único jeito. Mas tem mais uma coisa.
– Eu quero saber?
– É hora de considerar a possibilidade de Rae Sloane não estar mais no
comando de nada aqui embaixo.
– Como assim?
– Pense bem. A grã-almirante de todo o Império está na companhia de uma
gângster Hutt, vestida como uma catadora comum. Sloane perdeu o controle,
Norra. Ela não está no comando nem de uma duna de areia, que dirá do Império.
E o que quer que haja lá fora é importante o bastante para estar guardado por
uma fileira de turbolasers de alta potência, mas secreto o bastante para não ter
nenhuma presença imperial. Alguma coisa está acontecendo aqui. Alguma coisa
grande.
Norra anda de um lado para outro. Jas tem razão. No entanto – o que elas
podem fazer? Como podem ver a magnitude disso? Será que querem?
Ela decide que não querem.
– A meta é a meta – Norra diz. – Capturar Sloane. O resto é para outra pessoa
descobrir. Fazemos nossa parte e, se levarmos de volta a antiga grã-almirante,
talvez ela possa fazer a parte dela e jogar uma luz nessas sombras, nos mostrar o
que está realmente acontecendo.
– Parece um bom plano. Pronta para tentar não morrer de novo?
– Parece ser a minha vocação.

Há alguma coisa lá em cima.


Sloane tem certeza. Ela está encarando o cume distante há uma hora, certa de
que há alguma coisa se escondendo atrás das pedras. Primeiro, pensou: Talvez
seja só um animal. No pouco tempo que passou aqui em Jakku, ela já viu
criaturas que espera nunca ver de novo: vermes devoradores sob a areia,
pássaros cujos bicos conseguem perfurar metal, lagartos enormes que correm
pelo deserto tão rápido quanto um raio. Por um tempo ela pensou que fosse
alguma fera à espreita, esperando para devorá-los se ousassem dormir. Mas
agora não tem certeza. É o modo como as sombras se movem e o modo como ela
vê a mais leve cintilação de luz estelar. É alguém, não alguma coisa.
Ela diz isso para Brentin. Ainda agachado atrás de uma rocha dobrada e torta,
ele faz a pergunta esperada:
– Quem?
– Não sei. Não temos amigos aqui. Mas não acho que seja o Império, ou eles
já teriam vindo. – É o que ela acha, pelo menos. As torres de tiro dos turbolasers
estão guardando alguma coisa espetacular. Algo que pertence a Gallius Rax.
Mas pertenceria também ao Império? Ou apenas a Rax?
– Podem ser catadores – Brentin diz.
– Talvez. – Assim como um animal pode devorá-los, catadores podem fazer o
mesmo. Procurando pilhar não a carne deles, mas o campo de destroços à sua
frente no vale aberto.
– Niima ainda não está feliz.
É difícil ver a Hutt agora, mas fácil ouvi-la. A distância que separa os dois
grupos é pequena o bastante para os resfolegares, silvos e gorgolejos de raiva da
lesma soarem nítidos em meio à noite silenciosa. Ouvem-se pancadas abafadas
também – é o rabo da Hutt, batendo no deserto.
Sloane está seriamente tentada a atrair a Hutt do esconderijo e torcer para um
dos turbolasers transformar a minhoca em névoa vermelha e uma chuva de
banha fétida. Mas isso não faria nada por Sloane, é claro, além de lhe dar um
momento de prazer – e erradicar um dos inimigos dela.
– O que Rax está escondendo além do vale? – Brentin pergunta.
– Não sei. Os boatos disseram que era algum tipo de instalação de armas.
– Por que ele esconderia isso? Parece que está escondendo do seu próprio
pessoal.
– Também não sei. – Certamente o Império tinha seus segredos. Diversos
deles, na verdade. Mesmo ela não conhece todos.
– Eu ouvi um boato uma vez. – Brentin senta-se com um grunhido, as costas
arranhando na pedra. – Trabalhar na rádio pirata para os rebeldes envolvia não só
transmitir propaganda para a galáxia, mas também interceptar comunicações do
Império. Eu trabalhei com caras que sabiam como sintonizar essas frequências,
como acessar as transmissões. Eles até descobriram como invadir hiperdrives
para captar aquelas frequências no espaço longínquo. Eu trabalhei com um
Abednedo uma vez, Awls Ooteek, e ele disse que captaram uma coisa de algum
sistema distante. Adumar, acho. No Espaço Selvagem. A transmissão falava algo
sobre um... laboratório, uma instalação escondida. Mandamos alguém procurar,
mas não deu em nada, e não era como se pudéssemos desviar muita atenção para
isso. A Aliança tinha que tomar cuidado para alocar seu pessoal. Mas eu me
pergunto se havia algo lá fora. E me pergunto se o que existe aqui é parecido.
Algo que o imperador em pessoa instalou? Talvez. A mente de Sloane retorna
àquela imagem que viu nos arquivos imperiais: Palpatine, Yularen, Mas Amedda
e o jovem Gallius Rax. Rax era um herói do Império, mas sua ficha permanecia
escondida em arquivos confidenciais. Quão próximo de Palpatine ele era? Qual
era seu verdadeiro papel?
E se o que houvesse aqui fosse como as instalações secretas que haviam
ajudado a desenvolver e projetar a Estrela da Morte? E se fosse algo ainda mais
estranho?
O que quer que fosse, eles não podiam permitir que Rax o controlasse. Não se
podia confiar aquilo a ele.
Na barriga dela, há uma pontada quando o pensamento se repete: Ele não
pode ser confiado com o meu Império. Um novo propósito queima como lava na
sua medula. Talvez Brentin Wexley tenha razão. Ela pode precisar de um
propósito além de meramente remover o coração de Gallius Rax.
Talvez ela possa reivindicar o Império. Talvez possa salvá-lo.
E talvez o que quer que ele esteja protegendo e escondendo a ajude a fazer
exatamente isso. O que significa que eles têm de dar um jeito de passar por
aqueles turbolasers e...
– Veja – Brentin diz.
Sloane é tirada da sua divagação momentânea e segue o dedo apontado. Ali,
no cume, ela espia movimento.
Uma nave auxiliar.
Ela se ergue e vem na direção deles.
A boca de Sloane se abre num sorriso travesso.
– Prepare-se.
– Para quê?
– Nós vamos tomar aquela nave.

Jas sugere que Norra pilote a nave auxiliar até a superfície, enquanto Jas desce
na areia e agarra Sloane. Isso estaria de acordo com o papel de cada uma delas.
Elas são treinadas para isso – Norra é uma piloto astuciosa, uma das melhores da
Rebelião. E Jas é uma caçadora de recompensas. Ela sabe lutar. Sabe como
apreender alguém.
Mas Norra não vai aceitar isso. Sua mandíbula se tensiona. Seus olhos estão
abertos e intensos. Quando ela diz, entre dentes cerrados, que quer – não, que
precisa – pegar Sloane, Jas concorda. A caçadora de recompensas sabe que essa
é uma luta que não pode vencer. Então ela aquiesce.
Elas estão na nave auxiliar agora. A nave sobe rápido do cume, e Jas programa
o vetor – arremetendo para o leste e entrando num ângulo oblíquo. As elevações
vão bloquear qualquer ataque significativo dos turbolasers. Norra aguarda na
rampa com Ossudo, pronta para o que está vindo. Se ela não conseguir agarrar
Sloane, o droide vai fazer o serviço e no mínimo defender Norra da almirante e
de quem quer que esteja com ela. Jas vai manobrar de volta pelas elevações do
vale, depois voltar para apanhar Norra e Sloane.
Fácil. Pelo menos é o que Jas espera.
Mas nunca é fácil, é?
Quando Jas vira para o leste, ela inclina a nave na direção da posição de
Sloane.
E é aí que suas telas se acendem, mostrando naves em aproximação.

Norra não tem nenhuma intenção de “apreender” Sloane. Seu coração já está
lhe dizendo que, na batalha entre justiça e vingança, ela sabe o que tem que ser
feito. À medida que elas se aproximam, sua vontade de fazer a mulher pagar
pelo que fez cresce como uma infecção. Se tiver uma chance, vai aproveitá-la.
Não haverá necessidade de trazê-la a bordo da nave. Jakku levará o corpo depois
que Norra fizer o que precisa ser feito.
O vento fustiga Norra, pendurada no pistão pneumático que permite à rampa
ficar aberta, enquanto a nave corelliana costura e mergulha pelo vale. Ossudo
está atrás dela, pendurado em outro pistão como se fosse um poste de luz em que
ele está dançando – um braço e uma perna estendidos como se tivesse acabado
de fazer um truque de mágica, tá-dá.
Com a mão livre, Norra traz os quadnóculos aos olhos de novo e os aponta
para a posição de Sloane. A imagem borrada se torna mais clara conforme elas
se aproximam – pixels gordos se definem em menores, e ela vê Sloane se
erguendo e apontando direto para a nave em aproximação. Seu coração arde com
a necessidade de ver a mulher derrotada.
Bom. Saiba que estou indo te pegar, Rae Sloane.
Então o homem escondido ali se ergue também.
Os quadnóculos focam nele, e seu rosto fica nítido...
Não. Não pode ser.
É como ser lançada no nada sem ar do espaço. O vácuo a consome, sugando
todo o oxigênio dos pulmões, quando ela percebe:
É Brentin.
É o marido dela.
Ela quase solta o pistão enquanto a cabeça gira – os quadnóculos caem da sua
mão, mas Ossudo é rápido e os pega com uma garra antes que caiam no vazio.
– Brentin – Norra diz, mas sua voz é engolida pelo rugido dos motores da
nave e ela só consegue ouvir o nome dentro da própria cabeça.
Norra agarra os quadnóculos de Ossudo e olha de novo.
Sloane e Brentin não estão mais olhando para a direção deles.
Ainda estão olhando para cima. Dessa vez, em outra direção. É então que a
nave auxiliar dá uma guinada brusca para a esquerda – indo para longe de
Sloane, para longe do marido dela. Não! Não é possível! Ela grita para dentro da
nave:
– O que você está fazendo?
A fúria se ergue dentro dela como algo vivo, e Norra se lança de volta para
dentro da nave, atravessa o compartimento principal e irrompe na cabine. A nave
desvia de novo, e ela quase perde o equilíbrio enquanto cambaleia até a caçadora
de recompensas e pega os controles.
– Temos que voltar!
Jas grita:
– Tem naves imperiais chegando!
– Não importa. Brentin está lá embaixo! Meu marido. – Ela luta pelo controle
do manche. Jas agarra o queixo de Norra e a puxa para perto.
– Escute o que vou dizer – pede ela. Sua voz é fria, e os olhos, mortalmente
sérios. – Se descermos lá, estamos mortos. Estamos todos mortos.
– Por favor – Norra implora.
– Os imperiais não estão nos seguindo, porque temos códigos de autorização.
Nós vamos observar. Vamos esperar. Vamos fazer isso do jeito certo. Ok?
– É Brentin, Jas, é Brentin. – Até Norra consegue ouvir a loucura em sua voz
enquanto implora.
– Preciso que confie em mim, Norra. Você confia em mim?
– Confio...
– Então sente-se. Precisamos sair daqui. Rápido.

– Não temos para onde ir – Brentin diz. E tem razão. Se fugirem da proteção
da elevação, os turbolasers os destruirão. Se ficarem ali, serão um alvo para
qualquer um que venha atrás deles.
Sloane não entende o que acabou de acontecer. A nave que estava a caminho –
uma nave auxiliar corelliana, pelo que ela viu – deu meia-volta no último
segundo, quando um trio de naves imperiais surgiu sobre o cume. Essas três são
naves auxiliares classe Lambda e rugem enquanto mergulham baixo sobre o
deserto, erguendo poeira atrás de si. A nave corelliana foge. Catadores,
afugentados pela presença do Império? Ou salvadores? Parece que ela nunca vai
saber.
Sloane olha o fuzil de raios na mão e tenta pensar no que fazer com ele.
Coloque-o embaixo do queixo, ela pensa.
Mas não. Ela vai chegar ao final disso. Não há saída dessa situação, mas de
um jeito ou de outro ela vai encontrar um modo de seguir em frente. Sloane vai
recuperar o Império. Ela fará isso com unhas e dentes. Vai abrir caminho à força
até o assento do poder. Talvez seja assim que chegará lá. Aproveite todas as
oportunidades, ela pensa.
As naves aterrissam, longe o bastante para bloquear qualquer chance que ela e
Brentin poderiam ter de fugir na noite.
Rampas descendem com vapor tóxico.
Stormtroopers descem dessas rampas sem qualquer formação – só um
destacamento desleixado e caótico de soldados. Mais mercenários, a esse ponto.
Então ele vem.
Gallius Rax.
Ele usa o branco de um grã-almirante, de algum modo ainda limpo apesar da
imundície deste planeta. Uma capa vermelha esvoaça atrás dele, agitando a areia.
Stormtroopers cercam Brentin e Sloane. Eles rosnam ordens para que ela solte
a arma, e ela as cumpre.
Eles abrem espaço para deixar Rax passar.
– Sloane – ele diz, abaixando o queixo num pequeno aceno.
– Conselheiro.
– Achei que você tinha sido morta em Chandrila. – O vento balança a capa
dele. – Ou feita prisioneira.
O pulso lateja nas têmporas dela. Seus dedos se fecham instintivamente em
punhos. O maior desejo de Sloane é saltar agora mesmo e dar um soco na cara
dele – um único golpe que enterre seu nariz no cérebro. Mas ela seria morta por
disparos de raios antes que chegasse perto.
– Eu estou viva. E vou recuperar o Império agora. Obrigada por salvaguardá-
lo, mas seu tempo acabou. – Isso é um blefe e uma bravata, e ela sabe
perfeitamente bem que ele não vai concordar.
– Seu Império seguiu em frente sem você – ele diz, erguendo a mão com um
gesto de descaso. – Você entende. Depois de um período de luto, o que podíamos
fazer?
– Então você o trouxe aqui. Para este lugar morto.
– Temos um destino aqui. Todos nós temos.
Meu destino é vê-lo morrer, ela pensa.
Então, da outra elevação, vem um rugido de fúria. Ali, Niima, a Hutt uiva e
desliza veloz pelo deserto em direção a eles. Os turbolasers não atiram enquanto
ela cruza o vale. (Isso confirma que Rax os controla – as torres não miraram
automaticamente nem nele nem em suas naves.)
Niima guincha em proto-huttês, a caixa de tradução oferecendo sua
interpretação numa voz monótona, alta e mecanizada:
– CONSELHEIRO, O QUE VOCÊ ESTÁ ESCONDENDO AQUI NO...
Mas Rax simplesmente ergue um dedo e faz um gesto quase preguiçoso. Os
troopers se viram em direção à Hutt, os fuzis empunhados, e começam a atirar.
Lasers vermelhos cortam a noite, chiando enquanto atingem a Hutt e os escravos
que a montam. A lesma ruge. Escravos caem.
Mas ela não para.
De repente, Niima muda de direção e se dirige a uma das naves auxiliares.
Uivando de dor e fúria, ela se move com velocidade assustadora até a nave mais
próxima e a acerta como uma fera atacando. Enfia a cabeça sob a nave e a ergue
– Sloane solta o ar em surpresa quando a nave vira de lado, a asa quebrando
enquanto os troopers continuam atirando.
Agora a Hutt está vindo para cá. E Sloane pensa: É isso, essa é a minha saída.
Ela começa a olhar para os troopers, analisando quais ela consegue derrubar...
Niima cai para a frente, derrapando. Seu último escravo, o que tinha
originalmente pendurado o alto-falante no pescoço (ou melhor, falta de pescoço)
da lesma, atinge a areia correndo e ululando...
Um tiro entre os olhos o derruba.
E, novamente, tudo fica em silêncio.
– É um serviço desagradável lidar com traidores – Rax diz.
– É mesmo – concorda Sloane. – Como você verá.
– Isso é uma ameaça?
– Sim. – Ela sente o corpo se movendo em sincronia com a pulsação,
balançando de um lado para outro, pulando para cima e para baixo caso tenha
que correr, atacar, socar, chutar, qualquer coisa. Ela olha para Brentin de relance.
Nesse olhar, tenta transmitir uma mensagem clara: Esteja pronto para tudo. Ela
olha para os stormtroopers de novo – não, não todos eles. Só um. O mais
próximo. Aquele trooper está lá em pé, o capacete com listras raivosas cheias da
poeira vermelha-ferrugem de Jakku. Para o trooper, diz: – Eu sou a grã-almirante
Rae Sloane. Eu lhe ordeno que capture o conselheiro Gallius Rax sob a acusação
de traição ao trono.
O trooper se encolhe – mas não se mexe.
– Eles não obedecem as suas ordens – diz Rax, calmamente. – Uma nobre
tentativa. E fico triste que pense que o que fiz é traição. Você não entende,
Sloane? Eu dei um lugar para o Império de novo. Um propósito.
– Chegou a isso, então? Morte num mundo morto. Você nos levou até o limite
da galáxia. Ao limite de tudo.
– Como eu disse: há um propósito.
Ela bufa de desprezo.
– Deixe-me adivinhar: eu nunca vou saber qual é.
– Pelo contrário. Eu vou levá-la de volta. Viva.
– Por quê?
Um sorriso lento e convencido divide o rosto dele.
– Um espetáculo deve ter seu público, querida Sloane. – Ele se vira para
Brentin. – Mas, quem quer que ele seja, ele pode ir.
Os troopers erguem os fuzis.
Brentin grita quando os dedos deles se fecham ao redor dos gatilhos.
Sloane entra na frente dele.
– Não. Não. Ele vem comigo.
Rax dá risada.
– Mas por quê?
Porque se existe alguém que pode me ajudar é ele. Ele a salvou uma vez. Já a
ajudou inúmeras vezes. Se o matarem agora, ela vai perder qualquer utilidade
que ele ainda possa ter.
Não que ela possa dizer isso a Rax.
– Ele é um rebelde, acredite se quiser. Tinha um chip na cabeça, um chip que
você ajudou a colocar. Você não quer ver o que suas sementes fizeram brotar?
Quer um público? Uma testemunha? Então, deixe-o ver o que você forjou.
– Ah. Hm. Um rebelde, é mesmo? – O inimigo dela hesita e pensa, e ela o vê
chegar a uma conclusão silenciosa. – Eu posso usá-lo também. – Para os
troopers, Rax diz: – Coloque-os a bordo. Vamos levá-los de volta à base.
Os troopers prendem os braços dela atrás das costas e a empurram para a
frente, ao lado de Gallius. Enquanto passa, ela cospe no uniforme dele – reunir
toda essa umidade é um esforço quase heroico, mas o resultado sai como
desejado: sua saliva contém a sujeira do planeta e mancha o branco.
Ele diz:
– Este planeta transformou a todos nós, pelo visto.
– Você não tem ideia – ela diz, enquanto a empurram em direção à nave.
– Bem-vinda a Jakku, Rae Sloane. Bem-vinda a Jakku.
Capítulo
22

O sol da manhã já é uma presença abrasadora e opressiva, como uma bota na


nuca. Jas observa Norra esgueirando-se pelos destroços – ela se move em meio
aos escombros da caravana como um fantasma. Suas lamúrias chegaram ao fim.
Ela havia passado um bom tempo na noite anterior uivando enfurecida. Agora,
está exausta. Provavelmente pensava que não poderia piorar. Até que viram
Brentin.
E depois viram Brentin ser levado de novo.
Jas não faz ideia do que tudo isso significa. Por que Sloane está usando roupas
de catadora? Por que capturaram Brentin e ela como se fossem inimigos do
Império? Por que Brentin está aqui? Por que Niima concordou com isso – e por
que a Hutt está morta agora?
– Não há nada aqui – Norra diz, repetindo as mesmas palavras que já tinha
dito meia dúzia de vezes. Seus olhos arranhados e vermelhos vasculham os
destroços, procurando qualquer resposta às perguntas que Jas mantém no fundo
da mente.
– É melhor irmos – Jas diz.
– Sim – responde Norra, embora continue vagando. Ela chuta os destroços
chamuscados de uma wheel bike e toca o cotovelo do cadáver coberto de areia
de um escravo. Jas tenta chamá-la de novo, avisando-lhe que os turbolasers estão
desligados agora, mas não há garantia de que vão continuar assim.
– Norra.
– Eu sei.
– Temos que ir.
– Eu sei.
– Ainda podemos pegá-lo. Ele e Sloane.
– Como? – Norra pergunta, pronunciando essa palavra mais alto que todas as
outras, impregnada de pesar, desespero e fúria. – Não sabemos para onde eles
foram. Ou por quê. Não temos nada, Jas. Estávamos perto. Estávamos tão perto.
Então simplesmente... – Ela ergue a mão e a fecha no ar. Lágrimas frescas
ameaçam deixar novos rastros pelas bochechas manchadas de sujeira.
Jas não sabe como responder.
Ela quer oferecer esperança, mas isso não é sua especialidade. Jas não quer
mentir. Perder Sloane e Brentin desse jeito significa que a esperança está
minguando depressa.
Então...
Um arroto gasoso irrompe quando a carcaça da Hutt rola para o lado. Norra dá
um grito. Jas também, recuando assustada aos tropeções, silvando um antigo
xingamento iridoniano. Ela ergue o fuzil e o aponta para a lesma.
Niima toca o chão, tentando se erguer. Sangue escuro vaza de buracos no seu
corpo em fios viscosos. Ela gorgoleja em alguma antiga forma de huttês – Uba,
Zabrak! Nolaya bayunko. O corpo se endireita, então desliza sobre as carcaças
dos escravos. Cada movimento extrai um grunhido agoniado da minhoca
deslizante.
Norra dá um olhar para Jas, em pânico. Nele, a mensagem: O que fazemos?
Jas dá de ombros, alarmada. Vamos ver no que dá.
Finalmente, a Hutt parece encontrar o que estava procurando. Ela ergue uma
caixa preta do chão. Parece ser um dispositivo de tradução. Com uma luva
encouraçada, Niima bate a caixa contra o peito – onde ela gruda no sangue seco
e pegajoso.
Novamente ela grita em huttês, mas agora a caixa apresenta uma tradução
estrondosa e cheia de estática:
– VOCÊ. A ZABRAK. VOCÊ ESTAVA NA MINHA MASMORRA.
Jas mantém o fuzil apontado.
– É verdade.
– MAS AGORA VOCÊ ESTÁ AQUI.
– Isso... também é verdade.
– EU DEVERIA MATÁ-LA E COMÊ-LA.
A língua preta da Hutt desliza sobre sua boca fendida. Seu único olho pisca
quando um riacho de sangue fresco escorre sobre ele.
– Não acho que você esteja em condição de fazer isso.
A lesma se examina, depois olha para os cadáveres ao seu redor. Seu corpo de
minhoca se abaixa como se desse de ombros.
– SIM. VOCÊ PODE TER RAZÃO. ME AJUDE E EU A AJUDAREI.
Jas e Norra se consultam em silêncio. Norra dá um pequeno aceno. Então,
okay. Jas coloca um pouco de deferência na voz quando diz:
– Do que precisa, ó grande e poderosa Niima?
– LEVE-ME AO MEU TEMPLO.
– E o que ganhamos nessa troca?
– EU POSSO DAR A VOCÊS CÓDIGOS DE AUTORIZAÇÃO.
– Já temos códigos.
– NÃO PARA A BASE IMPERIAL.
Bem. Isso responde à questão.
Jas assente.
– Norra, vá pegar a nave auxiliar. Vamos levar Niima para casa.
Capítulo
23

– Conder! – Sinjir grita, ofegando, ao erguer o rosto das pedras duras do beco.
Seu queixo descola do chão, gosmento de sangue. Ele arfa, sentindo um trago de
cobre úmido. Uma mão abana na sua frente.
Sua visão clareia, e ele vê Temmin.
Ele grunhe enquanto aceita a mão. O jovem o ajuda a se levantar.
– O que... – Sinjir tosse. – O que aconteceu?
– Eu... não sei – Temmin diz. – Grelka saiu de fininho, e eu tentei segui-la.
Mas alguma coisa estava bloqueando meu comunicador.
– Os outros – Sinjir diz. Ele ergue os olhos e vê que o céu está da cor de
lavanda. É manhã. Quanto tempo ele teria ficado inconsciente? – Onde estão?
– Também não sei. Eu não consegui contatar ninguém no comlink. Virei a
esquina aqui e encontrei você, de cara no beco.
Não é a primeira vez que isso acontece, Sinjir pensa.
A memória da noite anterior fica mais nítida: esperar no Izzik’s, perder o
rastro de Ashmin Ek, ver Ek e Nim Tar no beco antes que alguém esmurrasse
seu velho cérebro, forçando-o a parar e tirar uma longa soneca. Isso prova que
algo está acontecendo. Mas o quê?

Eles encontram Solo em uma lixeira atrás da doca de pouso onde a nave de
Dor Wieedo estava (mas não está mais) estacionada. Ele está vivo. Não precisam
se esforçar muito para trazê-lo de volta à consciência – alguns tapas leves na
bochecha fazem o serviço. Ele pula para fora, rosnando.
– Por que eu sempre acabo no lixo? – Solo pergunta. Quando ninguém
responde, ele continua: – Que foi? Ninguém tem nada engraçado a dizer sobre
isso?
– Não tenho nenhuma resposta engraçadinha – Sinjir diz. Seus nervos estão
encrespados como nuvens de chuva. A preocupação o corrói por dentro
enquanto imagina Conder em uma série de situações ruins. – Só... nos conte o
que aconteceu.
– Hãã – Solo diz, tirando algumas verduras meio podres do cabelo. – Eu segui
os bandidos. Ia me esgueirar para dentro da nave. Mas havia um quarto homem e
ele me surpreendeu e... – Ele bate as mãos uma na outra. – Disparo de
atordoamento nas costas. Daí ele me jogou fora com o lixo de ontem.
Temmin tira algum tipo de macarrão do ombro esquerdo de Solo.
Sinjir está prestes a dizer algo...
Quando seu comlink estala.
Conder.
Mas é Jom.
– ...lô? Eu estiv... – Mais estática. – ... fiz uma coisa... – Silvo, estalo. – ... a
bordo da Falc...
– Parece melhor a gente ir para a Falcon – Solo diz.

Jom os aguarda na Millenium Falcon. E não está sozinho.


Sentado ao seu lado junto a um tabuleiro de holoxadrez está o senador
Rethalow, de Frong. Os antebraços do Frong – longos e azuis, percorridos por
sugadores contraídos – estão amarrados com o que parece ser algum tipo de cabo
elétrico. Os túbulos faciais do Frong estremecem e sofrem espasmos, e seus
grandes olhos negros lustrosos se contraem quando eles se aproximam. Jom está
sentado com um braço ao redor do senador. O cabelo do antigo soldado de elite
está bagunçado. Tudo nele grita que está no limite – faiscando como um fio
elétrico desgastado. Sinjir pensa: Eu sei como é. E ele entende a fonte disso
também: Temos pessoas com quem nos importamos presas em situações ruins.
Queimaríamos o mundo para salvá-las, não é?
– Jom – Sinjir diz devagar, como se falasse com uma criança. – O que você
fez?
– Absolutamente nada – ele diz, com um gesto casual. – Okay, tudo bem.
Talvez eu tenha causado um pequeno incidente intergaláctico. Talvez. Nada que
não possa ser perdoado e esquecido, tenho certeza.
– Jom.
– Tudo bem, tudo bem. Eu arrebentei a câmara do tanque e arrastei o estimado
senador Rethalow aqui, chutando e berrando. Ele estragou meu comlink, esse
traidorzinho gordo. Mas, depois disso, o senador me contou umas coisas bem
interessantes. Achei que vocês iam querer ouvir.
Todos os olhos pousam em Rethalow.
O Frong permanece em silêncio. Jom dá uma cotovelada no senador.
– Vamos, craca. Conte pra eles o que me contou.
– Nossos votos foram comprados – o Frong diz na língua básica, as palavras
saindo tão rápido que no começo Sinjir mal consegue compreender. – Três de
nós, pelo menos. Eu, Ek e Wieedo.
– Sabemos que Ek e Wieedo receberam pagamentos – Solo diz. A bem da
verdade, eles não sabiam disso, mas agora é seguro presumir. – O que você
ganhou?
– Um... acordo comercial – o Frong balbucia.
Um acordo comercial?
Sinjir se inclina para a frente.
– E os outros dois? Nim Tar e Sorka? O que eles ganharam pelo voto?
– Ameaçados. El-eles foram ameaçados. O filho de Nim Tar foi tomado. E o
jerba da senadora Sorka também.
Sinjir lança um olhar para os outros.
– Jerba? Alguém me ajuda, por favor.
É Solo que responde.
– É meio que um... animal sem pelos. Você pode montá-lo, ordenhá-lo, comê-
lo. Tem toda uma subcultura de criadores; uma vez eu contrabandeei dois de
Tatooine para um comprador privado. Pessoalmente, acho que são mais feios que
o traseiro de um bantha raspado, mas essa é só a minha opinião.
Sorka desistiu do seu voto porque seu animal de estimação foi levado, Sinjir
pensa. Que lindo. A democracia é realmente frágil, não é?
Sinjir pergunta a Rethalow:
– Quem fez isso, senador?
– Eu... não devo dizer.
Jom parece estar a um segundo de enfiar outro cotovelo nas costelas do Frong,
mas Sinjir se inclina e o impede com uma mão gentil e um aceno da cabeça.
Então se ajoelha diante de Rethalow.
– Senador – diz Sinjir, a voz calma e lenta embora sua mente seja um furacão
rugindo com temores por Conder. – Preciso da sua ajuda aqui. Uma amiga minha
está desaparecida e acredito que quem quer que tenha aliciado seu voto é
responsável. Eles lhe ofereceram um acordo comercial?
Hesitante, o Frong assente. Seus túbulos se curvam para dentro de medo.
– A No-Nova República ainda não protegeu a Orla Exterior. Frong é v-
vulnerável. Dando meu voto, eu garanto proteção para o meu planeta e meu
povo. Entende? Entende? A Nova República n-não pode estender sua proteção a
nós, ainda não, ainda não, e até lá não temos nenhuma marinha, nenhuma
frota...!
Não é um acordo comercial. É um esquema de proteção.
Isso significa...
– Criminosos – Sinjir diz. – Você deu seu voto a criminosos.
– S-sim.
– Quem?
– Eu...
Ainda assim ele não confessa. E por que o senador faria isso? O Frong sabe
quem tem poder aqui. Sinjir precisa de poder. Ele precisa de uma vantagem.
Então ele mente. Um pouquinho.
– Eu sou próximo da chanceler. Sou um conselheiro dela. Posso garantir a
você que vamos estender proteções da Nova República ao seu planeta
imediatamente. Não os deixaremos na escuridão. Isto é, se você colaborar. Se me
der o que eu preciso saber, vamos ajudar. Senão, é o fim. Você não será mais
membro do Senado. Seu planeta vai ser deixado aos monstros, e ofereceremos
pouco mais que um adeus triste. Você será envergonhado por falhar com eles.
Isso é culpa sua. Mas essa situação não pode continuar impune, então ou você
nos ajuda ou é o fim. A porta se fecha e não temos nada, exceto o exílio, para
você.
É tudo calculado. Sinjir não sabe muito sobre os Frongs – seu planeta fica em
um sistema distante com uma estrela fraca e tem pouco a oferecer à galáxia além
de algumas frutas, especiarias e água limpa. Mas ele sabe que os Frongs são
insulares e organizados em clãs. São muito unidos, vindos de linhagens
praticamente incestuosas. Quando diz palavras como envergonhado e exílio, nota
que são conceitos que os Frongs conhecem intimamente. E isso fica claro no
rosto de Rethalow: os olhos dele se dilatam enquanto Sinjir fala.
– Eu... eu conto para vocês.
– Quem fez isso, senador? E onde estão eles?
– Eu não sei onde. Não sei! Mas sei quem. O Sol Negro e a Companhia da
Chave Vermelha formaram uma aliança. São... parceiros.
Dois sindicatos. O venerável Sol Negro e a ascendente Chave Vermelha. Se os
dois estão se aliando, é sinal de que alguma coisa está vindo. Faz sentido, de
certa forma. Se a Nova República ganhar uma vitória final, então convém aos
sindicatos assegurar seus bens e formar alianças contra a ameaça iminente de um
governo que não vai tolerar suas atividades ilícitas.
Então ele percebe. Ele entende. Se a Nova República ganhar uma última
vitória em Jakku, o Império está acabado. Quanto mais tempo a guerra se
estender, melhores as chances de os sindicatos sobreviverem – eles podem se
alimentar do caos e usar esse tempo para fortalecer seus esforços. É disso que se
trata. A votação para atrasar a guerra não tem nada a ver com política. Tem a ver
com os sindicatos querendo permanecer no jogo.
Ele se levanta.
– Obrigado, senador. Vamos colocá-lo em segurança. – Ele está falando a
verdade. Se o Sol Negro e a Chave Vermelha adivinharem que um dos seus
senadores está comprometido, vão disparar um laser em um de seus olhos. A
mente dele acelera. Os outros estão falando com ele, falando sabe-se lá o quê,
mas ele não está ouvindo. Está tentando pensar num jeito de encontrar Conder,
de encontrar o filho de Nim Tar e o jerba de espetáculo idiota de Sorka. Os
raptores permaneceriam aqui em Nakadia? Eles ficariam por perto, certamente.
Tanto para observar a votação como para garantir que os senadores votassem do
jeito que devem. O que significa que estariam na superfície do planeta ou no
espaço...
Em uma nave.
Ele balbucia:
– Eles podem estar em uma nave.
Ele vê o momento em que Solo compreende.
– Certo. Certo! A nave de Dor Wieedo sumiu do hangar.
– É lá que eles estão. Mas devem estar por perto. Em órbita.
Solo abre um sorriso.
– Vamos dar uma volta na Falcon.

Tolwar Wartol passa o tempo ricocheteando entre períodos de silêncio


taciturno e ameaçador e momentos de raiva contra ela. Nestes últimos, ele se
levanta e anda de um lado para outro com passos largos e ameaça destruí-la na
mídia pelo que ele chama de seus “truques sujos”, fazendo joguinhos com o
processo político.
Mon simplesmente fica sentada e quieta, ocasionalmente lembrando Wartol de
que ele é livre para falar com a mídia se quiser.
– Tenho certeza de que a HoloNet estaria muito interessada em uma história
sobre como todo o seu mecanismo político foi feito refém por uma mulher e uma
frutinha.
Ele bufa, depois senta, depois fica quieto de novo.
Por fora, ela é uma máscara de calma – um lago chandrilano imóvel, plácido e
suave. Por dentro, é tumulto e confusão. Ela sabe que o tempo está escorrendo
depressa. Seu atraso não vai durar para sempre.
Os inspetores nakadianos sobem a bordo, vestidos em trajes de bolha grossos
com máscaras areadoras. Eles fazem uma varredura lenta e constante da nave,
tanto do exterior como do interior. Wartol, deve ser dito, é educado mesmo que
sua raiva ondule sob a superfície. Ele não os repreende; não os manda se
apressar. Os inspetores passam escâneres portáteis por todos os recantos e fendas
do cruzador – um raio esmeralda procurando mais contaminantes. A inspetora-
chefe, uma mulher chamada Rekya, explica a eles em muitos detalhes que
Nakadia é um ambiente protegido que toma todos os cuidados para equilibrar
seu ecossistema e manter espécies invasoras afastadas – e ela os recorda, um
pouco irritada, que todos os senadores deviam ter recebido mensagens em suas
pastas digitais pessoais lembrando-os exatamente disso.
– A democracia para de funcionar quando o protocolo é quebrado – Rekya diz
a eles. – E acreditem quando eu digo que o protocolo foi quebrado.
O tempo todo, Mon assente e sorri, escutando com atenção enquanto torce
para que o atraso valha a pena. Os agentes de Leia na superfície precisam
encontrar alguma coisa – e logo, porque, quando os inspetores saem, a nave
começa novamente a se mover para pousar em Nakadia.
Wartol diz:
– Pronto. Seus truques sujos lhe compraram um pouco de tempo. – Ele
informa aos guardas que ele e a chanceler vão se dirigir diretamente às câmaras
do Senado quando pousarem. – Sem mais atrasos – ele diz. – É hora de enfrentar
seu fracasso, chanceler.

A Falcon está empoleirada no espaço vazio. A maior parte das naves acima de
Nakadia já pousou – a votação do Senado estava marcada para uma hora atrás, o
que significa que todo o corpo de votação deverá estar presente lá embaixo
quando o atraso (causado pela própria chanceler, com um plano pensado por
Leia) for finalmente retificado.
Lá, através da escotilha, vê-se o cruzador de Wartol.
Eles observam quando duas naves nakadianas – cruzadores com formato de
uma garra, com capacidade para quatro pessoas, pequenos e ágeis – se afastam
da nave de três conveses ganoidiana. Essas naves reentram na atmosfera ardendo
forte.
E a nave de Wartol começa a se mover em direção à superfície também.
Sinjir xinga.
– Estamos ficando sem tempo. – E não encontramos nada. A nave de Dor
Wieedo não está lá em cima. Isso quer dizer que ou pulou para o hiperespaço e
sumiu ou simplesmente está em algum outro lugar na superfície de Nakadia.
Mas a primeira opção não faz muito sentido: Wieedo e os outros precisarão estar
presentes para votar. Significa que voltaram para a superfície. – Subir aqui foi
uma perda de tempo. Foi um erro. Eu cometi um erro.
Ele está falando diretamente com Solo, sentado no assento do piloto, olhando
para fora.
– Solo? – ele pergunta de novo.
– Sim, estou ouvindo. – A voz do homem é baixa, como se ele estivesse muito
distante, embora esteja sentado bem ali. Não é difícil descobrir o que está
acontecendo. Solo acha que é bom no papel de canalha durão de pele grossa; ele
sempre tem os escudos levantados, pronto para se defender com improviso e
bravata.
Mas Sinjir vê como o homem fica olhando para essa direção. Para o painel.
Para o assento do copiloto. Ele realmente sente falta daquele Wookiee. No
começo, isso não fez muito sentido para Sinjir. Porque, sério, é um Wookiee.
Chewbacca é amável e tudo o mais, mas é um pilar gigante de pelo que cheira
como a barriga de um gundark. E todos aqueles rosnados sem sentido? E os
abraços?
No entanto, ele é copiloto do homem. Seu amigo. Sua família.
Eu tenho copilotos também. Sinjir levou algum tempo para perceber isso.
Certamente ele passou a ver as pessoas ao seu redor como amigos, sua família.
Porém, há mais um copiloto por aí.
Conder Kyl.
Diabos, raios, diabos.
Eu nunca devia tê-lo deixado.
Conder torna Sinjir um homem melhor. Assim como Chewie ajudava a tornar
Solo um homem melhor. Ambos precisamos dos nossos copilotos.
– Temos que pensar – Sinjir diz –, porque eu preciso de Conder de volta. Ele é
importante para mim, Solo. Você entende?
– Entendo perfeitamente.
– Por que eles o levariam?
– Moeda de troca, talvez. Ou por ser um slicer e quererem que ele faça algo.
– Moeda de troca. Sim. Porque, mesmo se interceptarmos os outros senadores
antes da votação, eles terão Conder para usar. É essa a trama, não é? Nós
estamos com ele, então não atrapalhem a votação ou o destruiremos.
Solo parece decepcionado.
– Por que eles não me pegaram? – Ele faz um biquinho. – Me jogaram como
se eu fosse lixo.
– Eles não te pegaram porque você é importante demais. Se pegarem o
venerável Han Solo, arriscarão que seu velho amigo Luke os corte em pedaços
com sua lâmina laser requintada. – Sinjir pensa, mas não diz: Não me pegaram
porque sou um ex-imperial e eles não podiam arriscar uma falta de simpatia.
Ah, bem, é só o velho Sinjir. Ninguém vai sentir falta dele. – Se querem usá-lo
como slicer, precisam de um prédio perto do Senado com canos digitais, cabos.
Isso pode se destacar. Nakadia não é bem conectada.
– Ainda precisamos fazer uma pesquisa na superfície – Han diz. – Não temos
tempo para esses tipos de...
Os comlinks dos dois de repente estalam em uníssono.
Da estática vem a voz de Conder:
Kkksssh.
– ...de estou?
O coração de Sinjir pula no peito como uma lebre sobre uma poça. Ele fala no
comunicador:
– Conder? Onde você está? Está bem?
O slicer não responde. Pelo menos, não responde a Sinjir, mas continua
falando.
– Quando meus amigos chegarem aqui, você vai se arrepender.
– Ele está transmitindo – diz Solo. – De algum jeito.
Vamos, Conder. Nos dê algo. Qualquer coisa.
O slicer continua:
– Não pense que eu não vejo essa marca da Chave Vermelha no seu bíceps. Eu
sei quem é o seu dono. E você aí. Sol Negro?
Um som abafado: alguém falando com Conder. Mas Sinjir não consegue
entender as palavras da outra pessoa. Já sabemos que é a Chave Vermelha,
Conder. E o Sol Negro. Continue falando. Continue nos dando informações.
– Parece um... – Um chiado de estática come a palavra, mas ela reemerge
através dos estalos: – ...ósito. Telhado vermelho. Dois andares...
A outra pessoa diz alguma coisa. Parece um Cale a boca.
Então: bam. O comlink transmite um baque surdo e um grito alto e estridente
antes de desligar de novo.
– Conder? Conder?
Jom e Temmin enfiam a cabeça na cabine.
– Ouviram isso? – Jom pergunta.
– Acho que ele disse “depósito” – Temmin diz.
Sinjir aperta o encosto do assento do copiloto com tanta força que pensa que
vai arrancá-lo do piso.
– Precisamos...
– Entendido.
Solo já está se inclinando sobre os controles. A Falcon pula para a frente – e
em segundos a nave está balançando enquanto queima a atmosfera, o vazio
negro do espaço dando lugar ao céu diurno de Nakadia.
Estamos chegando, Conder. Estamos chegando.

A chanceler se move devagar, fingindo mancar enquanto desce a rampa do


cruzador ganoidiano. Ela acena para as pessoas reunidas – parece que o tempo
deles presos no espaço causou certo alvoroço, um pouco de drama, e agora os
Nakadianos se reuniram para ver o fim da história. Câmeras pairam por perto,
transmitindo. Ela espia um rosto familiar nas margens: Tracene Kane, da
HoloNet Notícias.
Enquanto caminha mancando, Wartol vem para o lado dela. Ele sorri,
acenando para a multidão, mas suas palavras baixas traem qualquer
contentamento que demonstre no rosto.
– Pare. De. Mancar.
– Parece que eu machuquei meu tornozelo um pouco. Eu vou superar.
– Outro estratagema.
– Dificilmente – ela mente. – Meu bom amigo Ackbar me colocou num
regime de exercícios bastante rígido desde que o ataque me deixou em cuidado
intensivo, e temo que eu tenha me forçado demais. Como é o ditado? Devagar e
sempre, vence-se a corrida? – Ela enfatiza as últimas três palavras: vence a
corrida.
– O fato de estar recorrendo a truques baratos como esse deixa claro quão
patética é. Só vai adiar o inevitável, chanceler. – Ele acena para uma câmera
próxima de modo paternal antes de sussurrar no ouvido dela: – Você ainda vai
perder. Vai perder tudo. Nenhum estratagema vai impedir isso.
Acima de suas cabeças rugem os motores de um cargueiro familiar...
A Millenium Falcon.
A esperança são brasas, mas, com essa visão, ardem mais forte. Mon reza para
que tenham encontrado alguma coisa, qualquer coisa, que lhe dê uma vantagem.

A duas ruas do prédio do Senado há um depósito agrícola com um telhado


vermelho. Atrás dele, há plataformas de pouso destinadas a ceifadeiras e agri-
droides, mas uma delas está ocupada com uma nave diferente: a chalupa
tyrusiana de Dor Wieedo.
É isso. Sinjir tem certeza. Ele espera que não estejam atrasados demais. Eles
não têm muito tempo para discutir um plano. O que sabem é isto: convocar a
Guarda do Senado ou os oficiais de paz nakadianos não vai funcionar. O
problema é comum: não há tempo.
Eles pensam em interceptar os quatro outros senadores subornados e
chantageados para o prédio do Senado, mas essa também é uma tarefa
impossível – a segurança lá será rígida e entrar atirando com armas só vai servir
para matá-los.
Eles poderiam tentar impedir a votação. No entanto, a votação precisa
acontecer. Se qualquer parte dessa história for revelada, o resultado quase
certamente será uma votação atrasada por uma investigação – o que levará
semanas para se resolver. Semanas nas quais Jas e Norra serão deixadas em um
mundo ocupado pelo Império.
E esses planos colocam Conder em perigo.
Isso os deixa com um único caminho possível e pouco tempo para planejar o
ataque. Solo não encontra nenhum lugar seguro para colocar a Falcon –
nenhuma doca próxima, nenhum hangar, nenhuma plataforma.
Ele sorri. Aquele sorriso escandaloso de bumerangue.
– Eu tenho um plano – ele diz.
– Ponha-o em prática – Sinjir manda, sem nem perguntar qual é.

Eles o tiram da Academia. Ele é selecionado pessoalmente por uma mulher


brutal com rosto de tijolo chamada oficial Sid Uddra. Uddra diz a Sinjir Rath
Velus que ele não será um trooper: ele é furioso demais e esperto demais, ambas
qualidades que tornam um soldado ruim.
– Eles são só bucha de canhão, de toda forma – ela comenta casualmente,
torcendo o nariz para um exército inteiro.
Ele acaba num programa de treinamento, localizado num prédio quadrado de
duracreto. Essa estrutura severa é o Ninho da Víbora e fica empoleirada em um
cume cercado pelos oceanos bravios de Virkoi. É onde o Departamento de
Segurança Imperial treina seus ALs – agentes de lealdade.
Uddra conta que vem do mesmo sistema que ele: Velusia. Ele é de Luassete,
ela é de Luasseis.
– Você é como eu – ela diz a ele. – Não se dá bem com ninguém. Eles não
gostam de você, e você não gosta deles. Não importa quando começou. Com o
tempo, você aprendeu a se proteger antecipadamente odiando todo mundo. Você
despreza e desconfia até de mim. Bom. Esse ódio vai salvá-lo. Mais importante,
esse ódio vai salvar o Império.
E ela explica a ele que seu papel será no Império de agora em diante – ele vai
treinar para se tornar o agente de lealdade Rath Velus. Vai se esconder em plena
vista. Vai usar esse ódio dos outros para enxergar as fraquezas deles – cada
imperial fraco é uma moleira onde a pele é fina e o Império se torna vulnerável.
Então ela diz a ele que seu treinamento começa agora.
Ela o espanca. Ele é jovem e tolo e acha que consegue se defender dessa
mulher pequena e dura. Ele está enganado. Os movimentos de Uddra são curtos
e precisos. Ele golpeia. Ela abaixa. Ele pula. Ela desvia. Toda vez ele erra e ela
acerta um golpe. Nas costelas dele. Na lateral de seu pescoço. Nos rins. Logo
ele está arfando e soluçando no chão, apoiado nas mãos e nos joelhos. Uddra
continua o trabalho. Chicoteia-o com uma toalha úmida enrolada. Vira seus
dedos para trás – não até quebrarem, mas para que a dor o force a confessar
tudo sobre si mesmo. Insere pequenas farpas de metal sob suas unhas. A dor é
intensa. Também é esclarecedora. Ela o escancara, e tudo o que ele é vaza de
sua boca balbuciante.
Isso acontece de novo e de novo. Sinjir treina durante o dia e sofre à noite.
Uddra nunca demonstra emoção. Ela o estuda como uma aranha decidindo qual
parte da mosca comer primeiro. Uddra o disseca.
Ele não é como ela. Ele não é frio e calculista. Ele é furioso, cruel, cheio de
raiva. Uddra explica:
– Eu vou queimar isso de você até que tudo que sobre esteja carbonizado e
preto. Carvão quente esfriado. – Então ela quebra os dedos do pé dele.
Daí, um dia, chega a vez dele. Não de lutar com ela, não. Mas de virar o que
ele aprendeu – o que foi feito com ele – contra outro.
Ela o leva até uma porta. Nessa porta há uma janela, e através dessa janela
ele vê um homem num uniforme preto de oficial – barras no peito desse sujeito
indicam que o homem com olhos pequenos e um nariz de cachorro é um tenente
da Marinha Imperial.
Uddra diz a Sinjir:
– Ele será seu primeiro. – Ela explica por que o homem está ali. –
Acreditamos que ele seja parte de uma conspiração que quer tirar Palpatine do
trono tentando assassinar a mão direita do Imperador, Darth Vader. Você vai
desenterrar os nomes dos outros conspiradores. Antes disso, no entanto, há uma
última lição.
Ela o leva para fora, onde uma tempestade uiva. Em Virkoi, uma tempestade
sempre uiva. Uddra pega um fuzil de raios de uma prateleira na parede do
Ninho da Víbora e aponta para o horizonte negro, assolado pela tempestade.
Uddra atira.
O disparo atravessa a chuva e os ventos. Ele se move depressa – um clarão
veloz perfurando o escuro, até se tornar um pontinho e desaparecer.
– Você deve ser assim – ela sibila no ouvido dele. – Você é aquele raio de
plasma lancinante. Você nunca vai desviar. Não importa a chuva ou o vento.
Não importa quão quente ou quão frio. Através do ar. Através do vácuo. Você
deve ser o raio de luz mais brilhante. Só então a verdade será revelada.
Sinjir entende. Ele afasta sua raiva. Ele tortura o tenente Alster Grove por
duas noites, até que o homem revela os nomes de seus conspiradores. Uddra
joga Grove, aos gritos, no mar revolto. Os outros conspiradores são caçados por
Vader e decapitados.

Eu sou o raio de luz mais brilhante.


Tudo o mais é caos. É como o mar bravio de Virkoi. Ele não será afetado por
isso. Ele não deve ser afetado por isso.
Solo usa a torre na barriga da Falcon para explodir um buraco no telhado do
depósito. Então pousa a Falcon diretamente sobre ele. Vump. Temmin fica para
trás para vigiar Rethalow. O resto deles desce.
Sinjir é o primeiro na brecha.
O depósito está escuro. O barulho já atraiu inimigos. Eles o atacam em um
movimento que parece ser de câmera lenta.
Eu sou o raio de luz mais brilhante.
Um Nikto de crânio grosso gira um machado serrado em direção à cabeça
dele. Ele desvia da lâmina com facilidade, então gira o braço do bandido para
trás, trás, trás – até haver um som baixo e vegetal de tendões se rompendo. Sinjir
joga o Nikto para trás e um raio de plasma atravessa o ar e derruba o bandido.
Era de Jom, que está chegando logo atrás – e gritando algo para Sinjir, algo
sobre continuar em frente, continuar se movendo, eu cubro você, mas o ex-
imperial mal registra isso.
Eu sou o raio de luz mais brilhante.
Dois outros bandidos Nikto surgem dentre estantes com partes de motor-vator
– mais dois disparos de luz no espaço escuro. Um de Han, o outro de Jom.
Ambos os inimigos descobrem que os calcanhares estão deslizando enquanto são
derrubados, um depois do outro.
Sinjir se esgueira na semiescuridão. Ele saca a própria arma de raios. Um
Ithoriano de pescoço torto corre para atacá-lo – mas o braço de Sinjir já está
erguido, seu dedo já se apertando. O Ithoriano de dois olhos passa a ter três
quando um buraco ardente se abre no meio de sua testa.
Eu sou o raio de luz mais brilhante.
A tempestade de violência forma um redemoinho. Uma estante cai contra
outra. Jom está no chão, empurrado por um Iotrano de rosto amassado – os dois
lutam pelo fuzil dele, se debatendo. À frente, Solo corre e atira, desviando e se
agachando, a arma de raios cuspindo plasma.
Lanças vermelhas brilhantes cruzam o espaço em frente a Sinjir, entalhando
linhas causticantes em sua visão. Um movimento vem da direita – Sinjir não
para e observa. Seu movimento é automático, batendo a coronha do fuzil com
força desse lado – ele acerta a garganta de um pirata de um olho só, com uma
cabeça pequena e uma barriga grande. O homem uiva e gorgoleja com a traqueia
esmagada. Sinjir atira no peito dele, então o chuta para longe antes de continuar
atravessando o depósito.
Eu sou o raio de luz mais brilhante.
E agora essa luz brilha sobre Conder Kyl. Tudo se foca nesse ponto: Conder
nos fundos do depósito, ajoelhado no chão, a cabeça abaixada, as mãos
amarradas atrás das costas. Além dele, outra figura: uma criança numa jaula de
metal, uma criança com uma cabeça balançante sobre um pescoço de haste
branco. É o filho de Nim Tar, raptado e mantido ali. Nenhum sinal do jerba, mas
Sinjir não dá a mínima para isso. Verdade seja dita, ele também não se importa
com a criança. O único com quem se importa é Conder.
Um Herglico enorme está ao lado do slicer, uma mão enluvada agarrando a
nuca de Conder – o monstro puxa a cabeça dele para trás, e agora Sinjir pode ver
o rosto machucado de Conder, o nariz quebrado. A mandíbula gigante do
Herglico se abre e ruge uma ameaça – Aproxime-se e eu quebro o pescoço dele
–, e Sinjir sabe que essa fera pode fazer isso. Que vai fazer isso. Mas só se Sinjir
for lento.
E Sinjir é muito rápido.
Eu sou o raio de luz mais brilhante.
Enquanto o brutamontes ainda está terminando sua ameaça, Sinjir já está
disparando a arma de raios.
Armas nunca foram sua especialidade. Uddra disse a ele: Você é a arma;
nenhuma arma de raios jamais fará o estrago que você pode fazer quando está
perto. Mas ele não está perto agora, e essa é a única ferramenta que ele tem. Ele
tem que acertar. Ele tem que dar um tiro certeiro.
O disparo de plasma atravessa o ar.
O Herglico aperta mais forte.
Não o machuque, não ouse machucá-lo...
Conder grita, os olhos se arregalando...
Não, não, não!
O disparo de plasma atravessa a boca aberta do Herglico e sai por trás da
cabeça. O Herglico geme, o balido de um aiwha moribundo, e cai para trás como
uma pilha de caixotes.
Conder cai para o lado. Imóvel.
Eu sou o raio de luz mais brilhante.
Brilhante, sim. Mas foi o mais rápido?
O fuzil de raios cai com um barulho.
Os passos de Sinjir ecoam junto com seu coração martelando. Ele cai de
joelhos, deslizando para levantar Conder, segurando-o nos braços. A cabeça do
slicer pende sem vida para o lado e Sinjir sente lágrimas quentes arderem nos
olhos...
Eu não fui o mais rápido. Fui lento demais.
Então um olho de Conder se abre. Ele ofega. Sinjir arfa junto com ele.
– Conder. Você está bem? Me diga que está bem. Me diga que está bem. – Ele
está acostumado a extrair informações das pessoas uma unha de cada vez, mas
agora só quer a informação mais básica: Você está bem, Conder, você está bem?
– Você demorou – diz Conder, com um sorriso atordoado.
Sinjir se inclina e o beija. Suas mãos de dedos longos puxam o rosto barbado
do outro homem para o seu. O momento dura para sempre.
E, mesmo assim, não o suficiente, porque agora Han está aqui e apoia uma
mão no ombro de Sinjir.
– Não acabamos ainda, lembre-se.
Sinjir se lembra. Ele encara os olhos de Conder.
– Eu vou te soltar. Sei que está ferido, mas precisamos da sua ajuda. Você
consegue captar uma transmissão?
– Com você ao meu lado, consigo fazer qualquer coisa.
Capítulo
24

A câmara de Nakadia não é como a de Chandrila – a câmara chandrilana tinha


uma amplitude épica, com infinitos terraços se erguendo sobre infinitos terraços,
até onde os olhos conseguiam ver. A de Nakadia é menor e mais simples. É de
madeira, não pedra. Cadeiras simples em camarotes de madeira. Nada é
esculpido, nada é ornamentado. Os assentos não estão meramente diante dela,
mas à sua volta no que parece um turbilhão de rostos olhando para ela de cima.
Julgando-a, ela suspeita.
O discurso que Mon Mothma dá antes da votação é essencialmente igual ao
que ela deu em Chandrila uma semana atrás, mas mais curto e mais raivoso. A
raiva é real porque ela teme que, não importa o que diga, não vá fazer diferença.
Ela teme que esteja gritando no vácuo.
Temos que votar sim.
Temos que acabar com o Império.
Não devemos ser hesitantes. Não agora. Não tão perto da conclusão.
E acrescenta uma última alfinetada, uma frase que ela sabe que um dia vai se
arrepender de ter dito, porque não parece algo que ela diria – a ameaça, a
bravata, o veneno –, mas que diz mesmo assim:
– Aqueles que votarem não: saibam que estarão marcados. Ficarão marcados
como covardes, no melhor dos casos, e traidores, no pior.
Ela não gosta de como isso soa, embora saiba que as palavras são sinceras. Eu
pareço uma ditadora. Ela parece Palpatine.
A chanceler deixa o palco circular descendo um lance de degraus em espiral.
No pé da escada, ela quase desaba contra o corrimão, de tão cansada, tão
exausta. Depois de se endireitar, termina no pequeno escritório dado a ela, um
escritório subterrâneo cuja janela está literalmente pressionada contra o solo: no
solo rico, ela vê a forma de raio de raízes ramificadas e os túneis serpenteantes
com minhocas rastejando.
Auxi entra depois.
– Foi um ótimo discurso – ela diz.
– Eu forcei demais no final. Fui longe demais.
– Talvez eles respeitem alguém que vá longe demais.
Ela diz a Auxi que precisa de um tempo sozinha.
Depois que Auxi vai embora, Mon passa um tempo tentando flexionar a mão
no final do braço ferido. Os dedos têm a força de asas de mariposa. Ela vê uma
mancha na manga: um pouco de suco de pta, da fruta. Mon fica sentada assim
por um tempo. Olhando para baixo. Flexionando os dedos fracos. Curvada cada
vez mais para a frente, até que se senta como um monge tão reverente e
venerador que vai se dobrar sobre si mesma e se tornar uma com a Força.
O ar muda. Há alguém aqui.
Ela ergue os olhos, constrangida; sente um rubor subindo às bochechas,
geralmente pálidas. Auxi está lá. Seu rosto está pálido.
A votação falhou de novo. Ela pode ver.
– E agora? – Mon pergunta, fraca e desesperada.
– Terminamos a guerra – Auxi responde.
– O quê?
– A votação passou, Mon. A votação passou.
INTERLÚDIO
Devaron

Nas sombras profundas de uma noite sem luar, sombras mais profundas se
reúnem. Além delas aguardam os declives baixos das Montanhas Karatokai. À
frente delas, há um vale estreito, com um posto avançado que trocou de dono
muitas vezes ao longo dos séculos: já foi um posto avançado da República, caiu
nas mãos do Império quando o governo imperial controlava Devaron e agora
retorna ao controle da República revivificada.
Aqui a selva é barulhenta. Bandos de taka-tey de penas douradas gralham no
emaranhado de vinhas acima, chilreando seus cack-cack-cack. Mil insetos
diferentes zunem e trilam em um coral cacofônico. Alguma coisa a quilômetros
de distância dá um bramido, chamando outra do seu tipo na direção oposta.
Mas as sombras permanecem quietas e imóveis.
Elas são pacientes. Elas estão esperando.
No vale, o posto avançado é iluminado por raios ousados de holofotes, raios
que capturam as névoas escorregadias e oscilantes da noite. Uma onda de
movimento acompanha o pouso de naves e o descarregamento de suprimentos. A
Nova República está estabelecendo postos avançados novos e antigos na
superfície do planeta. Eles trazem pessoas. Eles trazem comida e água potável.
Eles têm diplomatas, intermediários, cientistas e, claro, soldados.
Eles são invasores.
Este é um lugar sagrado. A 100 quilômetros daqui, fica um antigo templo Jedi.
Não é o único local neste planeta em que a Força é muito presente. As sombras
não podem sentir isso sozinhas, pois elas não são condutoras da Força, mas
meras escravas dela. (Assim como todas as coisas vivas. Todas são pegas no rio
de poder que é a Força, presas por suas correntes. Só aqueles que se rendem ao
lado sombrio da Força são capazes de mudar essas correntes; eles são barragens.
Eles não se rendem ao destino. Eles são seus inimigos.)
As sombras são os Acólitos do Além. Aqui aguardam duas dúzias deles,
embora sejam apenas uma célula entre muitas na galáxia. Embora fiquem
impacientes, elas sabem aguardar. Não devem decepcionar seus mestres.
Kiza, uma jovem Pantorana da cidade de Coronet, em Corellia, enfrenta uma
onda de dúvida súbita. Ela está entre pessoas que não são exatamente suas
amigas, mas são suas companheiras: Yiz, Lalu, Korbus e seu colega corelliano,
amigo e às vezes amante, Remi. Ela não é nem um pouco como Remi, embora
finja ser. Ele, como ela, como todos eles, teve os sonhos. Recebeu as visões da
escuridão: sonhos dos Sith, tanto antigos como vivos recentemente,
atormentando suas noites. E ama isso. Ama ser parte de algo. A escuridão não o
tomou – ele se deu a ela.
Kiza finge ser igual, mas não tem tanta certeza. Ela sente raiva e sabe disso.
Como uma pivete de rua nas piores partes da cidade de Coronet, tem muita raiva
distribuída entre os malditos que tornaram sua vida mais difícil: os oficiais de
paz que a assediaram, o escritório de créditos e débitos que a perseguiu até a
última dívida nas contas da família dela, os corellianos aristocráticos que torciam
o nariz para uma garota das sarjetas malnascida como ela. Quando os sonhos
começaram, e quando o homem veio recrutá-la, os Acólitos pareciam uma
escolha fácil. Ela tinha raiva para dar e vender, e lhe disseram que sua raiva era
purificadora – uma virtude, o homem disse a ela, um vício necessário. Foi a
raiva que moldou a galáxia. Foi a raiva que impeliu os motores da mudança.
Fazia sentido. Parecia seu lar.
Ela começou de baixo na ordem, como todos eles. Pichava paredes com a
máscara de Vader e o aviso: VADER VIVE. Roubava créditos e os doava à
causa. Enquanto outros estavam sliceando a HoloNet ou atacando forças de
segurança, ela ainda estava procurando locais para entrega de informações ou
encontros. Então apareceu Remi. Ele tinha essa mistura perfeita de confiança e
injúria – como um monstro que fora domado, uma fogueira cujas chamas eram
tanto brutais quanto belas. Ele era jovem. Ele era furioso. Ele era lindo.
Foi então que ele disse o que ela precisava fazer em seguida. Ela conseguiria
um emprego na estação P&S. Kiza trabalharia com os oficiais de paz.
Arranjaram documentos para ela, novas impressões digitais, um novo histórico
digital. Kiza, a rata de rua, tinha desaparecido. Aqui estava Kiza, a boneca de
boa estirpe, uma dama entre as secretárias.
Então veio a noite em que os Acólitos atacaram a cidade. Uma distração para
que ela e Remi pudessem roubar algo dos arquivos sob a estação: uma relíquia
de um Sith caído.
Um sabre de luz.
Um sabre de luz que agora pende do cinto de Remi. Daquela noite em diante,
Remi se tornou mais egoísta. Ele acende a lâmina às vezes e a encara, a boca se
movendo como se estivesse sussurrando para ela. Eles sacrificaram outros sabres
de luz para os Sith do além – aqueles que morreram e que aguardam além do véu
e cujas ordens os Acólitos seguem. (Aqueles espectros antigos são quem lhes
envia os sonhos, afinal.) Mas agora eles começaram a ficar com os sabres de luz.
Eles guardam os sabres e outros artefatos, e só os Acólitos mais estimados têm
permissão para segurá-los, usá-los e guardá-los.
Esta noite eles vão além da coleção de relíquias. Esta noite eles atacam. Não
só aqui. Os ataques acontecerão por toda a galáxia. Este é o primeiro ataque e,
dessa forma, será pequeno: em vários sistemas, os Acólitos se reuniram em
planetas diversos para massacrar enclaves e postos avançados da Nova
República. Eles não têm os números ou o poder para fazer coisas maiores, ainda
não. Mas terão. Este é só o começo.
E Kiza tem medo.
Ela não sabe se é isso que é.
Ela não sabe se é tão forte quanto Remi.
Ela não sabe nem se as visões que experimentou são reais.
Kiza pensa: Se eu seguir em frente com isso, se for nesse ataque, vou ficar
para trás. Vou fingir que estou fazendo alguma coisa. Como se estivesse
participando. Talvez eu acerte alguém. Ou jogue um detonador e exploda uma
nave auxiliar. A raiva que ela sente há tanto tempo talha e azeda. Transforma-se
em medo. Estranhamente, é esse medo que ela teme. Se ela fugir – se aceitar o
medo e deixar que ele a guie –, eles irão atrás dela. Remi não a deixará escapar.
Ele vai encontrá-la esta noite. Ou em uma semana. Ou em um ano. Remi não
tolera coisas que o decepcionam.
Enquanto ela trabalha diligentemente para acalmar seu coração, uma nova
sombra se junta a eles. Essa sombra é mais negra que todas as outras.
É o mestre deles. É Yupe Tashu.
Os Acólitos se inclinam para ele. Eles balbuciam sua alegria por vê-lo depois
de tanto tempo. Tashu não é o único mestre deles. É um de muitos (embora os
mestres vivos estejam em número bem menor que os mortos), mas é o mais
próximo que eles têm do Império Sith criado ao redor de Sidious e Vader. Eles o
veneram, e ele adora isso, seu rosto sulcado inclinando-se para trás com prazer.
Kiza não se junta a eles. Está aterrorizada demais para fazer qualquer coisa,
até para se mover. É como se ela fosse uma pilha de pedras e, se se mexer, tudo o
que é vai desmoronar e desabar.
Tashu começa a distribuir armas a eles. Tinham ordens para esperá-lo aqui.
Ele diz que eles são especiais. Eles recebem artefatos e relíquias dos falecidos
Sith. Para alguns, entrega trajes escuros. Para outros, cristais vermelhos
brilhantes e cordões de couro.
Então ele se vira para Kiza.
E lhe entrega uma máscara.
A máscara é de bronze escovado. O metal liso é pontilhado com pequenos
torreões martelados. Os olhos são de vidro negro. Não há nariz nem boca – no
lugar onde deveria estar a boca há uma linha de rebites pretos.
– A máscara do vice-rei Exim Panshard – ele diz, dando risinhos. – Uma
máscara feita de metal meteórico e contendo os gritos de cem inocentes
massacrados para o prazer do vice-rei. Máscaras têm poder. Algumas são usadas
na tumba. Outras na vida. Esta, como as outras da minha coleção, agregou a
escuridão da Força vivente! Use-a. Você está ungida, Kiza de Corellia.
– Eu...
Os outros a encaram. Alguns, maravilhados. Outros, sombriamente.
O olhar de Remi é venenoso. Ele diz, abertamente:
– Isso devia ser meu. – E tenta alcançar a máscara.
Tashu abocanha o ar. Sua boca se abre e se fecha, seus dentes meio quebrados
batendo enquanto a mão de Remi se encolhe.
– Você não tem direito de negar os desejos dos veneráveis espectros – Tashu
sibila.
– Eu...
– Além disso, a dama precisa de uma arma. Não precisa? – Os olhos de Tashu
brilham com um tipo especial de loucura enquanto se abaixa e puxa o cabo do
sabre de luz do cinto de Remi; depois, ele o coloca cuidadosamente na mão dela.
O sabre lateja com poder. Ela sabe que não deve ligá-lo – ainda não. Seu
brilho vermelho poderia revelar a posição deles. Mas seu potencial pulsa contra
a palma dela. Quando ergue o queixo e deixa a máscara descansar sobre o rosto,
ela sente uma escuridão maravilhosa passar sobre si. É um vácuo consumidor e
faminto, que mastiga seu medo e o devora em goles grandes e ávidos. Sem o
medo, sua raiva reemerge de novo. Ela transborda como uma coisa viva dentro
dela. Uma criatura cruel se choca no seu coração.
O tempo se move estranhamente. Ela pisca e, de repente, tudo começou. Ela
está lá, agora, no posto avançado. Não estou sozinha, ela pensa. Os outros estão
aqui. Eles portam suas armas mundanas: porretes e lâminas de oficinas e
machados feios, todos pintados de vermelho, a cor dos Sith. Tolos da República
gritam e fogem. Um vem em sua direção, e a lâmina vermelha se estende do
cabo em sua mão – ela sente sua vibração até o cotovelo, até a ponte dos ombros
e até os dentes. Um golpe da lâmina interrompe um grito. Outro corta as pernas
de uma mulher em fuga. O ódio pulsa nela. Seu coração bate tão forte que é
como se fosse quebrar seu esterno no meio.
Kiza se move com pouca precisão. Ela golpeia com a lâmina. A Força não se
move através dela, mas a arma ainda é diferente de tudo que ela já viu – corta
carne, osso, metal. A luz deixa faixas queimando diante de sua vista. Ela sente a
excitação.
Então, cai. Alguma coisa bate de frente com ela. Sua cabeça atinge o chão.
Escória da Nova República! Uma raiva que não é inteiramente dela se entremeia
em seu corpo como vinhas trançadas, e quando rola para o lado ela vê que não é
um soldado da República, no fim das contas.
É Remi.
Seu rosto está pálido e contorcido de fúria. Ele grita com ela, cuspe voando da
boca.
– Você não é digna. Isso é meu. Tudo que você tem, eu te dei! Sua pivete
fraca! Sua covarde! Sua ladra!
A mão dela está vazia. O cabo do sabre de luz sumiu. Ela tateia o chão,
chutando com pés desajeitados enquanto ele pula sobre ela. Os dedos longos de
Remi encontram seu pescoço e se fecham ao redor dele. Ele chora e ri enquanto
aperta mais forte. Ela engasga, tentando inspirar. Suas próprias mãos batem na
grama molhada e não encontram nenhum sabre de luz. Acima deles há a
escuridão da plataforma de pouso do posto avançado, e ela ouve os gritos e
berros dos Acólitos e suas vítimas. Alguém cai da borda e aterrissa ali perto com
um baque.
Tudo começa a ficar preto.
As pálpebras dela tremulam.
Então ela o encontra. Os dedos fecham ao redor de metal frio.
Acontece rápido, mas parece lento. Ela bate a lâmina desligada na têmpora de
Remi. Os olhos dele ficam redondos e subitamente temerosos.
A lâmina vermelha perfura o crânio dele. Suas pálpebras se arregalam. Os
olhos cozinham e ficam vermelhos antes de arder e virar cinzas.
Ele cai.
Kiza se ergue, ajustando a máscara.
Então ela deixa a raiva dominá-la outra vez e retoma seu ataque. Logo, o
posto avançado vai cair. Logo, os Acólitos vão celebrar o triunfo.
Capítulo
25

A guerra está chegando.


Leia senta e tenta não pensar sobre isso. Ela não liga a HoloNet. Não vai à
varanda em Chandrila e ergue os olhos para o céu, onde a frota se reúne em
órbita. Em vez disso, senta numa cadeira no quarto que em breve se tornará o
berçário do seu filho. O berço está ali perto. Ao lado dele fica a árvore-santuário
que lhe fora dada pelo pequeno Ewok Wicket. Ela nunca foi capaz de sentir a
árvore – a chamada “enigma da serpente” – com a Força, mas pode ver com os
olhos que a casca dourada polida tem um brilho viçoso, e a cada dia os galhos
entrelaçados exibem novas folhas escarlates.
Mas seu filhinho? Ele, ela sente sem dificuldade. Não só da mesma forma
como todas as mães sentem a criatura viva dentro de si, mas com as mãos
invisíveis da Força: com ela, Leia sente as bordas da sua mente em formação,
conhece seu humor, consegue dizer que ele está saudável. Ele é menos uma coisa
em forma humana e mais uma faixa de luz pulsante e viva. Uma luz que às vezes
diminui, que às vezes está entremeada com uma veia de escuridão. Ela diz a si
mesma que é normal – Luke lhe disse: Leia, todos temos isso. Ele explicou que,
quanto mais forte a luz, mais escura a sombra.
No momento, o filho está inquieto, virando-se dentro dela como se não
conseguisse ficar confortável. A luz dele tremeluz com a escuridão. Ela para e se
concentra. As paredes do quarto desaparecem. Tudo é branco, então preto. Em
seguida ela está no vácuo calmo e sem ar. À medida que Leia encontra sua paz, o
filho também encontra. Ele para de se virar...
E fica com soluços.
Hic. Hic. Hic.
Ela suspira e se desconcentra, mas ri também, porque os soluços fazem
cócegas nela. São como pequenas bolhas – uma efervescência curiosa que não é
como nada que ela já sentiu.
Meu filho está vivo. O futuro é radiante.
Mas esse futuro radiante projeta sombras escuras, e agora a guerra está
novamente no horizonte. Não uma guerra nova – não, a mesma guerra em que
eles vêm lutando todo esse tempo. Uma guerra que começou como uma rebelião
e logo se transformou numa luta entre o Império e a República. Agora, ela
espera, vai chegar ao fim. O futuro é radiante, sim, mas só se isso der certo. Só
se o Império se queimar em um clarão abrasador e virar cinzas.
Han chega em casa não muito tempo depois e a encontra no quarto. Ele conta
a ela um pouco sobre o que aconteceu em Nakadia, mas é suficiente para ela
saber que ele ajudou a acertar as coisas.
– É nisso que você é bom – ela lhe diz, erguendo-se para encontrá-lo enquanto
ele se abaixa. – Acertar as coisas.
Ela beija sua bochecha. Ele parece todo envergonhado.
– Vai acontecer – ele responde. – Jakku.
– Eu sei.
– Vai ser uma batalha e tanto. Pode dar errado.
– Sei disso também.
Ele morde o lábio.
– É estranho, não é?
– Não estar lá, você quer dizer.
– É. Eu, você, Luke. Chewie. A Falcon. Aquelas duas lixeiras ambulantes. É
estranho não ser parte disso.
– Temos nossa própria aventura. – Ela acaricia a barriga.
– É o fim de uma era – ele diz.
– E o começo de uma nova.
O bebê se vira dentro dela de novo, perturbado por algo que ela não consegue
sentir e ainda não consegue entender.

A guerra está chegando.


E, com sorte, logo em seguida vai acabar. Sinjir não se importa com os
caprichos da guerra – ele diz a si mesmo que não liga se a Nova República
ganhar ou perder, embora esteja ansioso para ver o fim do Império ao qual já
serviu. No entanto, ele precisa da guerra porque é o único jeito de chegar a Jas e
Norra de novo.
– Ai – geme Conder, encolhendo-se. – Você não está prestando atenção no que
está fazendo de novo.
– Estou prestando atenção perfeitamente – Sinjir diz, enfiando um pequeno
tampão de tecido-fibra absorvente no nariz de Conder. O slicer estremece e se
afasta.
– Sua mente está vagando como uma criança num mercado de brinquedos.
Sinjir dá de ombros.
– Sim, tudo bem, talvez. Desculpe. Estou mais acostumado a causar dor do
que confortá-la. – Ele enfia outro pedaço de tecido na segunda narina.
Os dois estão de volta a Chandrila. Solo os trouxe para casa. Eles
consideraram ficar em Nakadia por um tempo, mas Conder não aprovou,
dizendo que o planeta bucólico fazia Chandrila parecer Coruscant. Tudo lá são...
colheitas, ele disse, e Sinjir tendia a concordar.
Agora Sinjir cuida do rosto ferido do slicer. Bacta, gaze, tecido-fibra e a boa e
velha dupla agulha e linha. O pior golpe foi o último que Conder recebeu –
aquele que os dois ouviram pelo comlink.
– Devo parabenizá-lo de novo – Sinjir diz. – Um dente transreceptor? Genial.
E eu nem sabia. – Foi assim que Conder transmitiu o que se passava, usando a
língua para lenta e arduamente acessar o canal de comlink deles. A transmissão
terminou quando o bandido Herglico o esmurrou na cara.
– Um homem deve ter seus segredos.
– Eu não. Não tenho nenhum. Chega de segredos.
– Por algum motivo, eu duvido, Sinjir.
Os olhos gentis de Conder cintilam. Sinjir admira o homem. Sua
determinação. Sua capacidade. Depois de resgatar o slicer do depósito, eles
tiveram que se mover depressa – a boa notícia era que, como suspeitaram, os
bandidos do Sol Negro e da Chave Vermelha tinham hackeado uma conexão aos
datapads dos cinco senadores. Mas a conexão era criptografada, e foi aí que
entrou Conder. O slicer fez o que seu nome sugeria, sliceando através de
algoritmos como um homem cortando laços com uma lâmina. Em apenas alguns
minutos, Conder – espancado, atordoado, coberto no próprio sangue – roubou o
acesso aos datapads dos senadores.
E, assim, eles entregaram as mensagens.
A ideia inicial de Sinjir era ameaçá-los. Mas Sinjir também sabia que ameaças
criavam medo e o medo fazia as pessoas agirem de certa forma. Uma coisa é ter
alguém amarrado numa cadeira; ali, você controla o medo. Você o empunha
como uma arma. Mas os senadores estavam soltos. Uma resposta de luta ou fuga
poderia tê-los levado a fazer uma série de coisas imprevisíveis – se entregar,
fugir ou até votar, como os sindicatos exigiam que fizessem, na esperança de que
isso os salvasse.
Não; em vez disso, Sinjir sugeriu que fizessem uma oferta – uma oferta
entremeada na ameaça. Ele fez Conder enviar uma mensagem dizendo a eles que
receberiam perdão se votassem com a chanceler. Além disso, disseram a Nim
Tar que seu filho estava a salvo e a Sorka que o jerba premiado tinha sido
resgatado. (Essa última foi uma mentira necessária; Sorka logo descobriria que
os sindicatos já haviam vendido seu animal premiado no mercado negro de
açougueiros.)
E, assim, eles conseguiram.
Solucionaram a trama. Conquistaram os votos. A batalha final está chegando.
Conder diz:
– Você está preocupado.
– Sou tão óbvio?
– Geralmente, não. Desta vez, sim. – Conder pega a mão dele. – Jas e Norra
ficarão bem.
– Eu posso ir. Eu devo ir. Devo exigir ser posto numa nave. Como Jom. Como
Temmin. Eu devia estar lá.
– Você não é um soldado.
– Eu treinei para ser um, no passado – Sinjir diz. – Eu sei lutar.
– Se quer ir, eu vou também. Eles podem precisar de um slicer.
Sinjir assente.
– Suponho que não seja impossível. – Ele odeia querer estar lá. Conhece a si
mesmo e devia se recusar a fazer isso. Leva a lealdade só até certo ponto, e,
apesar de já ter sido o homem que testava a dos outros, ele mesmo não é
particularmente fã do conceito. No entanto, aqui está ele, querendo se meter no
perigo de novo pelos seus amigos. Ele devia parar de se surpreender com isso.
Eu me tornei uma pessoa diferente do que esperava. Ou talvez fosse uma pessoa
diferente o tempo todo, guiado por um mito sobre si mesmo criado por ele
mesmo. É assim que as pessoas são? Todas têm dois lados: quem realmente são e
quem acreditam ser?
– Para quem pedimos?
– Considerando o tamanho do favor que fizemos à chanceler, acho que
podemos pedir a ela.
Conder inspira fundo.
– Vamos para Jakku? Vamos mesmo fazer isso?
– Acho que sim, meu querido Conder, acho que sim.
– Eu estava torcendo por umas férias mais agradáveis.
Sinjir solta um hmm.
– Somos dois.
A guerra está chegando.
Foi para isso que Jom Barell foi feito. Ele nunca sentiu de verdade que treinou
para a guerra, só que era simplesmente feito dessa forma. Sua vida toda tem
girado em torno da guerra. Ele lutou contra o Império em Onderon. Ele lutou
contra seus próprios irmãos de sangue lá. Ele lutou como rebelde. Ele lutou
como um soldado de elite para a Nova República. Ele lutou com Norra e o time
dela.
E agora ele quer lutar de novo.
A sargento Dellalo Dayson, com seu time de Forças Especiais, está carregando
munições num U-wing de baixa atmosfera. É um caça estelar barrigudo usado
para transporte de tropas, projetado para inserção rápida e arriscada em território
inimigo. É uma classe antiga de caça, mas esta é uma classe antiga de soldado.
Jom se sente assim também.
Ele assovia para Dayson enquanto contorna um dos quatro motores da nave.
– Sargento – ele chama.
Ela se vira e o encara por cima do nariz longo.
– Você deu um jeito nessa cara – ela diz. E é verdade. Ele raspara toda a
barba, embora tenha deixado o bigode de guidão e as costeletas. E penteou o
cabelo. Isso era o máximo que pôde fazer para parecer um soldado de elite de
verdade outra vez. – O que quer, Barell?
– Quero ir com você.
– Não posso. Não é decisão minha. Se quer voltar, tem toda uma cadeia de
comando que você tem que subir. – Ela vê a cara dele e ergue as duas mãos num
gesto apaziguante. – Não fique bravo comigo, Jom. Você abandonou as fileiras e
agiu sozinho. Vá falar com o general Tyben, talvez ele te dê um selo e te ponha
de volta no caminho. Mas não vai ser com o meu time.
– Diabos, Dayson!
– Sargento Dayson, fazendo o favor.
As narinas dele se dilatam.
– Sargento. Essa luta importa. Talvez mais que todas as outras. – Ela deve
pensar que ele diz isso porque pode ser o último viva do Império. E isso é
verdade. Mas, para Jom, é pessoal. Para Jom, é sobre Jas. Ele solta a mochila e
inclina o pescoço, fazendo as vértebras estalarem. – Eu posso lutar com você por
isso. Posso lutar com o pelotão inteiro por isso. Se eu derrubar mesmo um de
vocês, quero o lugar daquele soldado de elite.
Dayson ri.
– Iríamos te matar.
– Talvez. Mas é melhor do que ter que superar a burocracia.
Descendo da rampa, empurrando uma grav-plataforma vazia, vem outro
soldado de elite das Forças Especiais: um Gran com focinho de cabra e três
olhos chamado Margle. Jom o conhece um pouco. Ele é como Jom: bom com
artilharia pesada.
– Ouvi alguma coisa sobre uma luta? – o Gran rosna. – Estou dentro!
– Calma lá – Dayson diz. – Ninguém vai sair no soco hoje, e você tem razão
sobre a burocracia. Se começar a fazer barulho aqui, eu posso ter que escrever
relatórios. E, malditas sejam as estrelas, eu odeio escrever relatórios.
– Dayson. Sargento.
– Cale-se, Jom. Quer ir nesta missão? Tudo bem. Eu tenho um assento extra.
Se quer fazer a sua parte, suba a bordo e se esconda na proa até entrarmos no
hiperespaço. Mas, depois disso, eu não vou te defender. Se voltar pra casa, eles
podem te levar para a corte marcial ou te dar uma medalha de desonra. Esse peso
está nos seus ombros e eu não vou carregá-lo.
– Obrigado, sargento.
– Partimos em cinco minutos. Apresse-se, soldado. A guerra não vai esperar.

A guerra está chegando.


E Temmin quer estar lá. Ele entra na frente de Wedge e solta a mochila
arrumada às pressas no chão com um baque. Wedge olha para ela e ergue uma
sobrancelha.
– O que é isso? – ele pergunta.
– Estou me alistando.
– Não funciona assim, Tem.
– Não importa. Eu quero ir para Jakku.
– Você é um garoto.
– Não mais. Você estava me treinando para ser parte do Esquadrão Fantasma.
Eu sei pilotar um X-wing.
Wedge abaixa o datapad. Ao redor dele, o hangar zune com atividade – a
maior parte dos caças estelares e seus pilotos já foi se unir à frota acima de
Chandrila, prestes a partir para Jakku. Mesmo assim, essa é apenas a primeira
onda. Eles têm que preparar mais caças, mais pilotos. Aprontar torpedos, testar
os sistemas de armas, preparar os próximos pilotos. Há muito a se fazer e ele o
diz a Temmin:
– Você sabe pilotar um simulador de treino. Garoto, eu tenho trabalho para
fazer...
– Eu pilotei a Halo. Eu pilotei a Falcon. Você até me deixou dar umas voltas
num X-wing. Eu sei lutar. E eu vou. Vou roubar uma nave, se tiver. Vou roubar
um carregador de tijolos e o bater no convés frontal de um destróier estelar. Eu
vou para Jakku. E preferiria que você estivesse lá comigo.
– O Esquadrão Fantasma acabou.
Temmin dá um passo por cima da mochila e olha para Wedge. Os olhos do
jovem estão inflamados com fúria.
– Então o traga de volta dos mortos! Ninguém tem que saber que estamos
fazendo isso. Ninguém tem que saber que estamos chegando. Podemos ser como
fantasmas de verdade, Wedge. Não seremos heróis nos livros, mas quem se
importa em estar nos livros? – Lágrimas brotam nos olhos de Temmin agora. –
Minha mãe está lá. Meu droide também. Eu os quero de volta. Não quer me
ajudar a recuperá-los? Tudo bem. Mas daí vou saber quem você realmente é, e
não é o cara que voou contra duas Estrelas da Morte e o Império inteiro. Vou
saber que você não é mais um piloto. É só um macaco de hangar, um velho
cansado, com seus sim-senhores, que se importa mais com registros de atracação
do que com pessoas de verdade.
Agora é a vez de Wedge: raiva e luto se erguem dentro dele, a raiva como
fogo, o luto como fumaça. Quer dizer a Temmin que ele está errado, mas não
consegue. Porque o garoto não está errado, está?
Novamente, Wedge se lembra da Aliança Rebelde. E de Kashyyyk. E de todos
os sacrifícios feitos em nome da Nova República.
Às vezes fazer a coisa certa não significava seguir ordens.
– Ah, esquece – Temmin diz, enxugando os olhos com as costas das mãos.
Seu lábio treme. – Eu devia saber que você saiu do jogo.
– Espere.
Temmin congela, a mão na alça da mochila.
– Por que deveria?
– Me encontre no hangar 47 no lado norte em duas horas.
– O que tem no hangar 47?
– O Esquadrão Fantasma.

A guerra está chegando.


Ela aguarda na escuridão. A comodoro Kyrsta Agate está na ponte da
Concórdia, a primeira starhawk marco um de Nadiri comissionada para a Nova
República, e não a última – duas outras starhawks pairam no espaço acima de
Chandrila. Elas esperam junto a dezenas de outras naves capitais: a Pico Solar
alderaaniana; a Redentor corelliana, uma fragata de ataque; e, é claro, a nave
capitânia deles, a Lar Um mon calamari.
As mãos dela estão tremendo. Como de costume.
No vidro da vigia, no entanto, há um fantasma pairando em meio à frota, um
fantasma com um rosto arruinado. Metade do rosto é suave e plástico,
encaixando-se mal contra a outra metade, mais natural. Esse plástico não tem
nenhuma das máculas associadas com a pele: nenhuma pinta, nenhuma marca,
nenhuma ruga ao lado dos olhos, nenhuma linha curva entalhada do lado da
boca. Ela se encaixa de modo imperfeito também – ao redor do olho, a pele
termina prematuramente, dando lugar aos mecanismos escuros e giratórios que
apoiam o olho mecânico.
Esse olho brilha vermelho. Ele gira telescopicamente quando a fenda se abre e
foca seu próprio reflexo, pois a face da assombração é só a própria máscara de
Agate.
No Dia da Libertação, um dos ex-prisioneiros rodianos a atacou, levado ao ato
por um chip de controle no cérebro. Ele atirou, e ela foi atingida no lado do
rosto. Eles reconstruíram o osso, mas a carne sumiu. O que há aí agora é nu-pele,
criada num laboratório e aplicada com um pincel. Com o tempo, deve parecer
mais natural, mas nunca será sua própria pele. Agate sempre vai saber.
O olho teve que ser descartado. Ela pediu um substituto mecânico: a lente-
oculus que eles instalaram pelo menos tinha função, embora não tivesse forma. É
feia e saliente e a faz se sentir menos que humana. Mas com ele ela pode ver
assinaturas de calor e outros dados, se fechar o outro olho (humano).
– Comodoro.
Atrás dela, o almirante Ackbar sai do turboelevador. A porta se fecha atrás
dele com um silvo. Ackbar tem sido um amigo ao longo de tudo isso – uma
presença reconfortante ao lado da cama do hospital e depois de todas as
cirurgias.
– Nunca pensei que estaria de volta – ela diz. Sua voz está diferente desde o
ataque. O disparo arrancou alguns dos seus dentes e danificou sua mandíbula.
Foi reconstruída, mas agora ela soa diferente. Ela odeia isso.
– Fico feliz por você ter aceitado o convite.
Ela se vira. O Mon Calamari se aproxima, as mãos unidas atrás das costas.
Enquanto ele vem, ela diz:
– Significa muito para mim, almirante. Mas ainda tenho dúvidas. Não sei se
estou pronta.
– Está. Tem que estar. Comodoro, você está entre as nossas melhores e mais
brilhantes...
– Eu perdi um pouco dessa luz, almirante.
– E apesar do que aconteceu, continua sendo uma das nossas comandantes
mais vitais porque reconhece o fardo da guerra. Não entra nela irrefletidamente.
Não chega com raiva, nem mesmo depois que o Império nos atacou e roubou seu
olho.
– Eu recusei o comando desta nave.
– E eu o devolvi a você. O primeiro-tenente Spohn está contente em servir sob
seu comando.
– Eu não estou pronta.
A voz de Ackbar se suaviza. Ele apoia uma das mãos membranosas no ombro
dela.
– Nenhum de nós está pronto. Ninguém realmente está pronto para o que a
guerra traz. O melhor que podemos fazer é encontrá-la com a cabeça erguida e o
coração limpo. Você fará isso. Sei que fará.
– Eles sabem que estamos chegando. Têm que saber. Com um governo aberto
e a mídia livre, a HoloNet terá relatado o resultado da votação. E certamente o
Império sabe que a Oculus os está espionando de longe.
– É quase certeza que sim. O alferes Deltura relata que a frota deles cresceu e
está consolidando um arranjo defensivo. Isso não será uma surpresa para eles
nem para nós. É a forma mais pura de batalha. Os dois lados prontos para lutar.
– Pode ser um truque. Eles podem estar nos atraindo para...
– Se for o caso, nós estaremos prontos.
Ela sente uma única lágrima ameaçar cair do olho bom e pisca depressa para
afastá-la.
– Me diga que vamos vencer isso. Diga que será o fim de tudo. O fim do
Império e o começo de uma nova galáxia.
– Não sou um profeta, Kyrsta. Não sei quem vai vencer o dia nem se alguém
sobreviverá para ver o resultado. Só sei que será uma honra lutar ao seu lado de
novo, seja esta nossa última batalha ou a primeira de muitas. – Seus dedos
longos apertam o ombro dela.
Agate se esforça para não chorar. Ela quer correr para longe da ponte e ir para
casa. Subir na cama, se esconder embaixo das cobertas, desligar as luzes e
esperar que a HoloNet informe quem ganhou, quem perdeu, quem viveu, quem
morreu. Quando eu me tornei essa covarde? Por que estou tremendo como uma
criança medrosa?
– Que a Força esteja com você – é tudo que ela diz.
Ackbar assente.
– E com você, comodoro. Eu devo ir. Está quase na hora.
A guerra está chegando. E logo, ela reza, vai terminar.
Capítulo
26

A nave auxiliar imperial circula a base. Daqui de cima, Sloane consegue ver
tudo: o quartel-general de comando, as plataformas de pouso, as linhas dos
andadores e dos caças estelares. Tudo parece pré-fabricado, como se fosse
construído às pressas.
Como se fosse tudo temporário, ela pensa.
A nave auxiliar pousa do lado oposto da base, entrando em uma doca de
hangar cuja entrada é eclipsada pela sombra de um cume alto.
Rax não está nesta nave com ela. Brentin, sim. Ele está sentado em silêncio
em frente a Sloane. Está assustado. Ela pode ver isso nos olhos dele – os olhos
de uma presa encarando a mandíbula de um predador.
Sloane não vai ter medo. Ela se recusa. Eu sou o predador, ela pensa. Estou
perto agora. Tão perto. Rax pode tê-la capturado, mas também colocou as mãos
dela muito próximas de seu pescoço.
A rampa é aberta. Sloane vê que duas outras naves estão à direita dela. Um
dos troopers empurra Brentin e ela pela rampa. Wexley se desequilibra e cai com
força, e o trooper que o impele adiante para e o chuta com força no tronco. Os
outros riem. Esse não é o meu Império, ela pensa. É desleixado e cruel.
Eles erguem Brentin e o empurram para o lado dela. Atrás das suas costas, as
algemas magnéticas estão desconfortavelmente apertadas.
Rax a espera, já fora da nave auxiliar. Troopers formaram fileiras dos dois
lados dele. E Brendol Hux está aqui também: o homem por trás de Arkanis. Hux
estava treinando a próxima geração de stormtroopers. Com a ajuda do caçador
de recompensas Mercurial Swift, ela ajudou a extrair Brendol e seu filho de
Arkanis antes que caísse à República. Agora ele está no próprio Conselho das
Sombras de Rax. O homem é um asno fanfarrão, e ela vê que ele se descuidou:
uma barriga grande distende seu cinto. O cabelo está uma bagunça. Os olhos
parecem cansados.
Esses olhos vão para as margens do hangar, da esquerda à direita, e é então
que Sloane vê que outros se juntaram a eles também.
Ao longo de cada parede do hangar, há crianças. Duas dúzias delas, mais ou
menos. São jovens – algumas nos primeiros anos da adolescência, outras mais
novas. Todas usam uniformes brancos simples. Como roupões de dormir.
Rax sorri.
– Troopers, abaixem as armas, por favor. Somos todos amigos.
Os stormtroopers abaixam as armas de raios.
Mas Rax diz:
– Não, não, até o fim. Até o chão.
Os troopers se entreolham, confusos, mas fazem o que é pedido: eles se
abaixam e dispõem as armas no chão.
Rax vai até Sloane e a examina.
– Vê como os troopers marcaram sua armadura? Eles a pintaram. Entalharam.
Queimaram com metal quente. Eles transcenderam o mero serviço. Não são só
soldados. São algo muito mais tribal, mais feroz, menos humano, inteiramente
animal. – Ele suspira. – Mas ainda não sei se é suficiente.
– O que você fez com o meu Império? – ela pergunta, desesperada.
Ele sorri.
– Ah. Deixe-me mostrar.
A mão de Gallius Rax se ergue no ar, formando um punho. Ele estala os dedos
uma vez...
As luzes no hangar se apagam. O coração de Sloane pula para a garganta.
Seus olhos se ajustam lentamente, mas os ouvidos escutam a balbúrdia. Ela
pensa em correr, se agachar, se encolher, fugir, mas não consegue sequer
imaginar aonde iria ou o que faria. Tudo o que faz é tensionar o corpo e se
encolher até apresentar o menor perfil possível – acocorando-se de modo que o
queixo esteja enfiado entre os joelhos.
Tiros de raios perfuram a escuridão agora. Mas não dura muito. Depois disso
há baques, batidas, estalos – e grunhidos de dor.
O silêncio se alonga por um segundo, dois, três...
Até terminar com outro estalar de dedos.
As luzes se acendem. Novamente os olhos dela têm que se ajustar. Tudo vai
do preto esmagador ao branco cegante, e conforme a visão dela se reconstitui,
Sloane vê que o chão está coberto de corpos.
Os corpos pertencem aos stormtroopers. Todos mortos, aparentemente.
Ao lado deles estão as crianças. Muitas portam facas afiadas e rudes com
cabos enrolados em fita escura, as lâminas feitas de aço preto e fosco. Algumas
facas estão enterradas na nuca dos troopers – apunhaladas de modo elegante,
enfiadas perfeitamente sob o capacete até o tronco encefálico. Algumas estão
embaixo dos braços dos troopers, onde outra brecha na armadura os torna
vulneráveis. Algumas das crianças também seguram armas de raios. Fuzis
expelem fumaça.
Uma das crianças é uma garota alta com o cabelo raspado até o crânio. Seu
rosto é uma máscara morta e sem emoção. Brendol Hux, pelo contrário, está
sorrindo. É o sorriso de uma criança – bobo, largo, como se estivesse vendo o
espaço pela primeira vez ou tivesse acabado de experimentar um doce. Será que
ela já o viu sorrir antes? É aterrorizante.
O que foi que Rax tinha lhe dito na Dilacerador, quando lhe ordenara que
resgatasse Brendol de Arkanis? O Império deve ser fértil e jovem. As crianças
são cruciais para o nosso sucesso. Muitos de nossos oficiais são velhos.
Precisamos de vitalidade. O tipo de energia que recebemos dos jovens. O
Império precisa de crianças.
Sloane não consegue conter um estremecimento. Ela quer vomitar, mas não
vai dar essa satisfação a Gallius Rax.
O conselheiro, por sua vez, dá aplausos lentos e comedidos.
– Observe, Sloane – ele diz. – O futuro do meu Império. Espero que tenha
gostado do espetáculo. Logo verá que isso é apenas o começo.
Ela está sem palavras. Brentin também está quieto, recaído sobre o cóccix,
encostado no corpo imóvel do trooper que o estava vigiando. Sua boca está
aberta e frouxa. Seus olhos estão arregalados de terror. E é aí que Brendol,
finalmente se controlando, dá um passo à frente e sussurra algo no ouvido de
Rax.
É a vez de o conselheiro sorrir.
– A batalha final está chegando – ele diz. – Eu gostaria que vocês a vissem. Os
dois. São testemunhas tanto do antigo Império como dos rebeldes
conquistadores. Vou deixar um lugar reservado para vocês. Brendol, você e as
crianças vão acompanhar esses dois aos seus lugares. Parece que tenho um
discurso para fazer.

Finalmente, chegou o momento.


Finalmente, a Nova República sentiu o cheiro de sangue que ele vem
pingando na água e finalmente estão vindo dar uma mordida.
Está tudo se encaixando. Os soldados-crianças de Hux comprovaram sua
habilidade – sim, aqueles troopers estavam desarmados, mas a pura velocidade
com que as crianças despacharam soldados treinados foi emocionante de ver.
Elas o fizeram com avidez, mas sem alegria e sem medo.
Além disso, ele capturou Sloane. O Observatório está protegido, e ele pode
finalmente mostrar a ela agora o que vem fazendo – e como o fracasso dela em
ter fé nele lhe custou um papel no grande final.
Agora é hora de fazer seu discurso.
Ele considera não dar nenhum discurso. Tempo é crucial – a frota da Nova
República estará aqui em questão de horas. Talvez minutos. Ele e os outros vão
ter que voltar ao Observatório...
Mas não. O discurso será essencial. Ele deve encher o Império de fogo! É sua
função inflamá-los, enfurecê-los, preparar o detonador antes de jogá-lo. Além
disso, esta será a marca final dele. Será capturada e gravada. Será transmitida por
gerações. Este é um momento para a história.
Eu estou fazendo história. Rax tem que se lembrar disso. Sua pegada será
indelével, eternamente pressionada no manto da memória da galáxia.
Ele se encontra com Tashu e Brendol. Ambos parecem excessivamente felizes
consigo mesmos. (Rax não vê motivo agora para lembrá-los de que devem tudo
a ele. Deixe que se inchem no gás da própria satisfação.) Juntos, saem da base
para encontrar o resto do conselho antes que seu Império se reúna para ouvi-lo
falar pela última vez.
Hodnar Borrum vem até ele, as mãos atrás das costas, o queixo empinado. De
repente, ele parece dez anos mais jovem, como se a perspectiva de guerra fosse a
comida que o alimenta, do mesmo modo que a água revive uma flor murcha.
Enquanto caminham, Borrum diz:
– Vamos ganhar o combate terrestre facilmente, conselheiro.
Randd está na forma de holograma (pois está atualmente a bordo do destróier
estelar Inflictor), emitido por um projetor na mão de Yupe Tashu. O grão-moff
diz, enquanto a projeção oscila:
– A frota deles será maior que a nossa, mas temos a Dilacerador. A força
deles é desorganizada, estrategicamente mal alimentada e formada por naves e
esquadrões incompatíveis. Nós somos unificados. E com essa unificação vamos
vencer a batalha.
– Excelente – diz Rax, enquanto marcha ousadamente até o palco. E está
sendo honesto. É excelente. Mesmo a parte sobre a qual eles estão errados.
O general pergunta:
– Onde está Obdur? Devemos considerar nossas comunicações durante tudo
isso.
– Ferric está mal – Rax responde, brusco. Não é uma mentira. Não de verdade.
Ser esfaqueado até a morte na cama deixa a pessoa bem mal. Esse momento
serve como outro sucesso do programa de Hux. Algumas das crianças se
provaram particularmente eficazes.
Os “conselheiros” dele querem continuar tagarelando. Mas o que eles têm a
dizer importa pouco, no fim das contas, e só serve a eles próprios.
É hora de falar.
Rax silencia os outros com um gesto e passa por eles a passos largos, então
sobe um lance de degraus de metal até o palco. O palco é pequeno, erigido
diante da base e de frente para as dezenas de milhares de troopers reunidos.
Acima, a frota paira como espectros. Ao redor dele e das tropas, há caças TIE,
bombardeiros, cargueiros de tropas, naves auxiliares, naves-transporte,
andadores.
O motor da guerra acordou e vibra.
O Império aguarda a fala dele, embora, sinceramente, no momento, ele só
tenha um espectador que importa: atrás e acima de si, no telhado do quartel-
general do comando, ele sabe que Sloane e aquela escória rebelde com quem se
associou estão assistindo.
Rax vai até a frente do pódio e fala. Sua imagem está ampliada atrás dele, uma
enorme holoestátua tremeluzente. Sua voz retumba sobre todos eles, de modo
que é menos como um homem falando e mais como um deus cujo comando
divino vem numa onda esmagadora.
O discurso que ele dá vem sendo ensaiado há meses. Foi escrito como um
mecanismo – os melhores discursos são performances designadas não a dar
informações ou a transmitir a verdade, mas a criar um efeito. É essencial não
fazer as pessoas pensarem, só obrigá-las a sentir. Ele não quer deixá-las com
insegurança. Elas precisam apenas de respostas.
O melhor discurso não é um ponto de interrogação. É uma exclamação.
Sua voz ressoa ao falar:

“Soldados leais do Império Galáctico, a loucura bate à nossa porta. Facínoras


e bárbaros da Aliança Rebelde reivindicaram um governo sem legitimidade, um
governo entregue à corrosão, ao caos e à corrupção nascida de mentes
alienígenas e ensinamentos terroristas radicais. Foi o nosso imperador Palpatine
que nos mostrou a fraqueza que se apresenta quando uma república se torna
enferma com a doença de políticas medrosas e o mal de oligarcas de elite que
forçam suas intenções sobre nós.
Com a morte do nosso amado imperador, nosso próprio Império foi deixado à
desordem. Isso deu força aos ilegítimos e incentivou sua reivindicação
fraudulenta de trazer paz e justiça à galáxia – no entanto, por tanto tempo, quem
foram os campeões da paz? A única guerra que recaiu sobre a galáxia foi aquela
trazida pela Aliança Rebelde criminosa.
Debandados e perdidos, podíamos ter morrido. Depois de atacar Chandrila e
ferir os políticos fraudulentos que procuram roubar a santidade da nossa galáxia,
eu nos trouxe aqui para Jakku, unindo nosso povo e nossos poderes neste planeta
distante – um planeta duro que testou nossa coragem e nos forjou e afiou numa
lâmina mais forte. Uma lâmina com a qual cortaremos a garganta dos traidores
que rastejam até a nossa porta. Logo, eles virão! Logo, tentarão terminar o que
começaram. Eles querem destruir o Império. Querem se instalar como um tumor
num corpo saudável, sugando o sangue enquanto se tornam mais gordos, como
parasitas. Eles negam nossa legitimidade. Eles mentem sobre a estabilidade e a
sanidade que criamos para a galáxia. Pois estas são suas armas mais verdadeiras:
engano e ilusão. Não devemos nos render. Não devemos acreditar que eles têm
razão. Devemos vê-los como são:
Brutos e bárbaros! Eles são sub-humanos. Eles são alienígenas diferentes de
nós e não merecem nenhuma misericórdia da nossa parte. Chegou a hora H, e eu
os convoco agora a cumprir seu dever pela luz do glorioso Império Galáctico. A
batalha que se segue não é uma luta por Jakku nem uma luta pelo Império. É
uma luta por toda a galáxia. Se falharmos aqui, falhamos em todo lugar.
Falhamos com nossos entes queridos. Falhamos com as nossas crianças.
Falhamos com todos aqueles que anseiam por constância e luz nestes tempos
sombrios.
Nós não perseguimos outra meta que não a liberdade da opressão, a liberdade
das mentiras, a emancipação da depravação.
Hoje é o dia em que resistimos e recuperamos nossa galáxia.
Hoje é o dia em que a Nova República morre na mão do Império.
Hoje conquistamos o nosso futuro!”

(Se eles ao menos soubessem o que esse futuro significa.)


E então é como se a galáxia toda estivesse ouvindo, como se a Força estivesse
realmente do lado dele, pois o que ocorre é um evento de tal sincronia teatral
que Gallius Rax quase cai de joelhos e chora como um bebê.
O ataque começa.
Trovões ondulam enquanto a frota da Nova República lanceia o céu, já
atacando com uma saraivada de tiros – e a Frota Imperial acima dispara em
resposta. Muito acima da cabeça deles, turbolasers rasgam o céu. Torpedos
espiralam. Lanças de plasma pesado fatiam o azul.
Rax berra uma última súplica:
“A batalha está sobre nós. Vão! Vão e os arrastem para o chão e quebrem o
pescoço deles com suas botas! Cortem suas cabeças! Ponham fim à sua tirania!”

E agora ele deve coletar os outros e subir a bordo de uma nave antes que seja
tarde demais. O Observatório o chama, e é hora do egresso dele.

Não, não, não...


Sloane está de joelhos. Suas mãos estão amarradas. Seus tornozelos também.
Brentin caiu, deixando-se tombar para o lado, e está se abraçando. Os dois estão
no telhado do prédio de comando do Império, sob a aba de uma tenda. Estão
sozinhos. Ninguém os vigia. Primeiro, Sloane pensou: Que estranho, mas agora
ela entende: ela não teria aonde ir, mesmo se conseguisse se libertar. Enquanto
ela e Brentin são forçados a sentar ali e engolir o discurso de Rax, ela tenta
entender o que está acontecendo. Por que deixá-la testemunhar isso? O que
deveria estar vendo?
O discurso do homem é vulgar e tedioso e cheio do pomposo tempero retórico
do qual Gallius Rax se alimenta – e, no entanto, funciona, não funciona? Sloane
sente isso na própria barriga. O rugido ressonante e triunfante de um Império
injustiçado. O medo de uma Nova República ascendente. A certeza de estar certo
e cometer violência contra aqueles que estão errados...
E, com isso, uma pequena centelha de dúvida nasce nela. A semente cria
raízes depressa, e ela se pergunta: Eu sou o produto de mentiras confiantemente
defendidas? Meu Império foi sempre assim? Ele vai morrer aqui em Jakku?
Quando a retórica de Rax chega ao fim, os céus se abrem e – como se
perfeitamente cronometrada com a conclusão do discurso – a batalha começa.
Naves rugem na órbita do planeta. Armas disparam como trovões. Pontos
aparecem no céu e se transformam de fantasmas translúcidos a moscas negras
que zunem – caças estelares despejam das naves da Nova República. Elas já
entraram na atmosfera, sulcando o chão com plasma.
E o Império ruge de encontro a eles. Caças TIE se erguem e em momentos
estão avançando como rochas de um estilingue. Logo o céu está em meio ao
caos. Caças irrompem em chamas. Fogo de laser rasga o ar. X-wings e caças TIE
dançam no meio e ao redor de nuvens enquanto andadores imperiais se viram
para marchar no deserto, prontos para proteger a base a qualquer custo.
A batalha nos céus começou, e, logo, a batalha terrestre vai ter início.
Os números da frota da Nova República são maiores. Ela pode ver isso daqui.
Talvez Rax tenha inflamado a ferocidade adequada nos seus troopers e talvez, só
talvez, o pessoal dele consiga coordenar uma resposta apropriada. Hodnar
Borrum é um dos estrategistas de combate terreno mais inteligentes que há, e as
tropas confiam nele. Mas, se ela está correta, Randd é o homem no comando dos
céus – e embora o grão-moff seja um líder capaz, ele não tem a coragem nem a
criatividade para vencer uma luta dessa magnitude.
Sloane deseja, de repente, estar lá em cima. É o lugar dela: comandando
aquelas naves, governando os céus, destruindo todos que ousam profaná-los. A
Dilacerador projeta uma sombra enorme, e ela sabe que quem quer que esteja no
comando daquela nave é inadequado para o serviço. Devia ser ela. Ela podia
salvar o Império com a Dilacerador. Se ela tivesse a chance de chegar até ela...
Que ego, ela pensa. Talvez o poder de fogo daquele superdestróier estelar lhes
dê a chance de salvar o dia. O Império pode vencer esta batalha.
Mas, mesmo se ganhar, qual será o custo?
E o que mais Rax esconde na manga?
Qual é o espetáculo? Quem é a plateia?
Capítulo
27

A pedra treme. Escorre poeira do teto da caverna e scree dos buracos lisos que
povoam o templo de Niima. Norra olha para Jas, preocupada.
– Eu quero saber?
É Ossudo que responde. O droide inclina a cabeça esquelética em direção ao
teto e solta um hmm.
– ESTOU INTIMAMENTE FAMILIARIZADO COM O SOM DE
VIOLÊNCIA, E ESTE É O SOM DE VIOLÊNCIA.
– Guerra – Jas diz. – E agora estamos bem no meio dela.
Será que a Nova República finalmente trouxe sua frota para cá? Norra não
sabe bem o que pensar sobre isso. Ela se perguntou se seria como Kashyyyk –
um planeta controlado pelo Império abandonado ao sofrimento graças à
hesitação de um Senado nervoso.
– Vai complicar as coisas – ela diz.
Jas dá de ombros.
– A essa altura, não sei se pode ficar mais complicado, Norra.
Com isso, as duas terminam de vestir seus uniformes de oficiais imperiais.
Norra está de preto, Jas no cinza-padrão. A roupa de Norra indica seu papel
como administradora de prisão, enquanto as barras no uniforme da caçadora de
recompensas servem para exibir seu status como uma sargento do exército.
Ossudo pergunta:
– EU GANHO UM UNIFORME?
– Acho que eles não têm nada no seu tamanho – Norra responde.
– Talvez, se a gente te dobrar, você possa ser um droide rato.
Norra ri. É bom rir – ainda que não dure muito. Mesmo esse curto momento
de alegria a faz se sentir melhor. Como se elas pudessem fazer qualquer coisa.
Uma pequena parte dela pensa que as duas vão conseguir. Sim, é perigoso. E
completamente tolo. Provavelmente uma missão suicida. Mas que escolha elas
têm? Ela ainda quer Sloane, mas Brentin é a prioridade agora. Não é mais uma
missão de vingança, e sim de resgate.
Niima, para a grande surpresa delas, escolheu ajudá-las. (Embora, a bem da
verdade, a sua ajuda não seja inspirada pela gentileza, mas pela vingança. Parece
que a soberana Hutt não gosta muito de ser perfurada por tiros de raios.) Ela
acabou de lhes fornecer uma nave auxiliar imperial (antiga), alguns uniformes
(empoeirados e mastigados por traças) e códigos de alto escalão (com sorte,
válidos).
– Estamos prontas? – Jas pergunta.
– Não sei se existe algo como estar pronta.
– Ei – Jas diz, estendendo uma mão reconfortante. A preocupação no rosto de
Norra deve estar nítida. – Estamos fazendo a coisa certa. Estamos pagando
nossas dívidas. Terminando o serviço. Não há honra maior.
– Jas, sei que você abriu mão de muita coisa para estar aqui. Não é isso que
você faz e você interrompeu sua vida para me ajudar. Eu acho que nunca te
agradeci. Você adotou uma causa que não era sua e...
– Pare. É minha causa porque eu a tornei minha causa. Minha tia era uma
caçadora de recompensas e ajudava as pessoas. Ela abandonava trabalhos para
salvar um grupo de fazendeiros ou ajudar a libertar um bando de Wookiees.
Quando eu era jovem, ouvia todas essas histórias e pensava que ela era ingênua.
Eu dizia que nunca seria como ela. Mas aqui estou eu. E sabe o que eu percebi?
Ela estava certa. O trabalho não é nada. O trabalho é só um trabalho. E aquelas
dívidas não significam tanto quanto estas dívidas, as dívidas entre mim e você,
as dívidas entre... – Ela parece constrangida de repente, como se estivesse
expondo muito de si mesma e não conseguisse encontrar as palavras. – Aquelas
entre as pessoas comuns e o resto da maldita galáxia. Fazer parte do seu time me
mudou, Norra Wexley. E eu tenho uma dívida com você por isso.
Ela oferece uma mão. Norra a toma. Elas se puxam para um abraço. Sobre o
ombro da caçadora de recompensas, Norra diz:
– Isso soa demais como um daqueles discursos que as pessoas fazem antes de
morrer.
– Não sei se vamos morrer, mas estamos prestes a entrar no covil do dragão e
estamos fazendo isso num mundo esmagado entre duas forças. Acho melhor
aceitar que podemos não sobreviver.
– Ótimo discurso de incentivo.
– Podia ser pior. Eu podia ser Sinjir.
– Deuses, sinto falta dele. E do meu filho.
– Também sinto falta deles. Então vamos parar de papear e fazer o serviço.
Juntas, elas saem da pequena gruta e voltam para onde a nave auxiliar espera.
Enquanto se aproximam, Jas gira de repente e aperta uma mão sobre a boca de
Norra, sussurrando para que ela fique em silêncio.
O que...?
Jas encosta um dedo no ouvido de Norra. Um sinal para ouvir.
Então ela ouve.
Vozes. Elas flutuam através de passagens – e instantaneamente Jas reconhece
uma delas: Mercurial Swift.
Jas gesticula para que eles sigam, sussurrando a Ossudo para não fazer
barulho. As pernas do droide se dobram para dentro, e ele se move para a frente
nas pontas dos dedos esqueléticos. Eles se reúnem na curva antes que a
passagem se abra para uma caverna lisa e esculpida onde a nave auxiliar está
pousada. E lá eles veem Swift.
Ele não está sozinho. Com ele há três outros: um Kyuzo de ombros largos, um
humano barrigudo com a cabeça envolvida em uma faixa imunda e uma Rodiana
alta com antenas tão longas que quase caem sobre seus olhos azul-negros
bulbosos.
Eles estão diante de Niima. A nave auxiliar espera logo além.
O que significa que o caminho está bloqueado.
Mercurial diz a Niima:
– Eu sei que ela está aqui, Hutt. Nós vimos nossa nave pousar. Diga onde está
a Zabrak e vamos embora em paz.
– E SE NÃO DISSER? – a Hutt pergunta.
É o homem com a faixa que responde. Ele aponta um fuzil de cano longo e
rosna:
– Daí você fica em pedaços.
– NÃO É SÁBIO AMEAÇAR UM HUTT.
– Esse é Dengar – Jas sussurra.
Mercurial se inclina para a frente, o queixo empinado.
– E não é sábio me decepcionar. Eu estou na folha de pagamento do Sol
Negro, lesma. Eu importo. Você é só uma minhoca num fim de mundo sem
nenhum poder na galáxia. Parece que alguém já te furou bem e fico feliz em
terminar o...
A mão de Niima se estende e o pega pela garganta. Ela o ergue alto. As pernas
dele balançam enquanto seu rosto fica vermelho, depois roxo.
– Grrk! – é o som que ele faz.
– SEU PONTINHO INSIGNIFICANTE DE EXCREMENTO DE INSETO...
Dengar encosta o fuzil no rosto de Niima. O cano pressionado com força
contra as fendas nasais dela.
– Cuidado, amor. Eu também não gosto muito de Swift, mas vou ter que pedir
que o deposite gentilmente. Eu odiaria borrifar sua cabeça gosmenta em todas
essas pedras bonitas, hein?
O coração de Norra afunda. Ela esperava que Niima fosse capaz de lidar com
isso. Mas a Hutt faz o que é ordenado – ela solta Mercurial.
– Eu tenho um plano – Jas sussurra.
– Estou ouvindo.
– Eu os distraio. Você e Ossudo pegam a nave e vão.
– Quê? Você deve ter sofrido uma concussão quando quebrou aqueles
espinhos na sua cabeça, Jas. Eu não vou te deixar para trás.
Jas puxa Norra para trás com delicadeza e se aproxima, nariz a nariz.
– Ouça, Norra. Aqueles caçadores são experientes. Se os deixarmos vivos,
eles vão alertar o Império que estamos chegando e nosso disfarce vai pelos ares.
– Ossudo pode lidar com eles.
O B1 chacoalhante assente furiosamente.
– Você vai precisar dele – Jas diz. – Não podemos arriscar. Eles me querem,
então vão me ganhar. Eu alcanço vocês depois.
– Jas, espere...
Mas é tarde demais. Ela volta pelo caminho de onde vieram.
Diabos, Emari.
Um segundo depois, está acontecendo. Jas grita de algum ponto mais no fundo
nas passagens e, com isso, os caçadores de recompensas se viram em direção ao
barulho – e, seguindo o plano, correm para ele. O som de disparos de raios enche
o templo, ecoando nas câmaras.
Norra quer esperar e ajudar. Quer usar Ossudo e dar um fim nos caçadores.
Mas Jas tem razão: ela não pode arriscar.
Brentin. Sloane. A base imperial. Essa é a meta. Há coisa demais em jogo, e
ela não pode arriscar.
Cerrando os dentes, Norra diz a Ossudo para se apressar e eles correm juntos
até a nave auxiliar.
Capítulo
28

A distância, as táticas de combate dependem do espaço de batalha ou da arena


onde se luta. O espaço de batalha acima de Jakku é quase ilimitado – as luas do
planeta orbitam longe o suficiente para não entrar na briga, não há campos de
destroços ainda e o único objeto formando um limite para o ataque é o próprio
planeta.
Isso dá à Nova República a vantagem de atacar a arena de todos os ângulos,
exceto por baixo.
Mas a vantagem do Império é que a frota está comprimida – eles criaram um
perímetro defensivo quase perfeito com seus próprios destróieres, com a
Dilacerador no centro de tudo. Aquele couraçado tem a chance de disparar seus
armamentos consideráveis de uma segurança relativa, mas seu ângulo de ataque
é limitado pelas naves que formam uma esfera de perímetro. Ele não pode
disparar à vontade, sem considerar suas próprias naves.
Isto é guerra. É o posicionamento de naves. São as vantagens e desvantagens
desse posicionamento. Consiste em como você se move, como atira, que armas
traz. Cada peça se encaixa num todo maior: munição numa arma de raios, arma
de raios na mão do piloto, piloto dentro de um caça estelar ou uma fragata. Tudo
é um recurso. Como empregá-los? Em qual direção? A distância, a guerra é um
jogo, embora mortal – conduzir essa nave para lá, essa nave para cá, convergir,
atirar, dominar, defender.
Mas, quando se está no meio dela, não existe nenhuma distância.
Quando se está no meio dela, as decisões parecem menos táticas e mais
elementares – pois você é parte de duas forças que se batem como ondas, como
duas montanhas caindo uma sobre a outra, como dois planetas colidindo e se
rompendo. Não há distância, não há separação. Não para a comodoro Kyrsta
Agate, pelo menos, que não consegue se manter à parte do caos orquestrado
além da vigia da sua starhawk – não, ela, sua tripulação e sua nave são parte do
tecido do espaço de batalha. Ela não é uma mão divina engendrando o
movimento de peças em um tabuleiro.
Em vez disso, é uma das peças.
A ponte está repleta de tensão. Oficiais de comunicação a mantêm em contato
com Ackbar e as outras starhawks. Oficiais de artilharia, liderados pelo alferes
Sirai, um Pantorano, coordenam todos os sistemas para garantir os alvos mais
eficazes. Um trio de navegadores de capacete branco está sentado ali perto,
guiando o movimento da nave através do espaço de batalha – cortando o caos
como um machado.
E Agate está no centro de tudo. Ela recebe comandos de Ackbar. Ela transmite
seus comandos à ponte por meio do oficial sênior, o primeiro-tenente Spohn. O
tempo todo, ela sente que é a estrela ao redor da qual tudo o mais orbita. Não é,
claro, mas suspeita que todo oficial comandando uma nave de linha se sente
dessa forma – lá fora, nas vigias amplas que se erguem acima dela como os arcos
de uma catedral, caças TIE passam num borrão, perseguidos ou perseguindo
naves da Nova República. Corvetas lideram o ataque, avançando em direção aos
destróieres, lançando seu armamento completo – torpedos que deixam rastros
índigo no preto. As outras duas starhawks deslizam cada uma de um lado da
Concórdia – a estibordo está a União, a bombordo está a Amizade.
Agate sente tudo. Como se sua pele e seus nervos estivessem todos
conectados à batalha por cordas de marionete. Sua pele se arrepia. Os pelos no
pescoço se espicham. É a sensação mais estranha, e nunca deixa de encontrá-la:
a suspeita de que se ela piscar ou mexer um dedo do jeito errado ou ousar tossir
ou espirrar, de alguma forma, o movimento vai repercutir pela batalha – sua
nave vai bater, seus amigos vão morrer, o inimigo vai conquistar todos eles.
Absurdo, mas é assim que Agate se sente sobre a guerra. Não há nenhuma
distância. É intimidade. É ansiedade. Ela é parte da guerra, e a guerra é parte
dela, do mesmo modo que um coração não é separado do corpo no qual bate.
Uma das corvetas explode em uma bola brilhante de energia.
Um X-wing espirala, faiscando, pelo espaço.
Uma das fragatas nebulon deles se quebra no meio – sua extremidade
dianteira ainda atirando um destacamento completo de artilharia, acertando o
lado de um destróier estelar.
Agate sente tudo isso. Cada morte parece a sua própria.
Mas o truque é esse, não é? Ela não pode deixar que isso a desconcerte. Isso
acontecerá quando tudo acabar (se ela sobreviver): à noite, vai parecer de novo
que ela foi jogada sobre a beira de um abismo. Ela vai querer morrer. Vai morder
um cinto ou o lado da cama para impedir todos os pensamentos e a repetição
infinita da violência passando em sua mente sem parar.
Tudo que ela se permite agora é o leve estremecimento que sempre vem,
aquele que ela não pode negar, que se tornou parte de quem ela é. Tudo o mais,
todos os outros tremores, vão esperar até a noite. De novo, se ela sobreviver.
Agora, ela e as outras starhawks têm um trabalho:
Derrubar aquele couraçado. Destruir a Dilacerador, pôr fim à batalha.
Vamos lá, então.

Temmin está perdido.


Ele disse a si mesmo que ficaria bem. Ele pensou: Eu já pilotei naves antes. E
semanas atrás ele estava aqui, no mesmo espaço acima de Jakku – ele sobreviveu
àquilo e disse a si mesmo que podia sobreviver a isso.
Mas agora não tem tanta certeza.
Wedge disse que o plano era simples: não era para eles estarem aqui na
batalha, então seu papel era fornecer apoio. Ficar fora do caminho das naves
grandes e derrubar os caças TIE enxameando ao redor.
O Esquadrão Fantasma saiu da velocidade da luz atrasado para a batalha e,
como uma fera gigante, ela o engoliu completamente.
Caças TIE passam rugindo. Temmin está separado dos outros. À frente,
destróieres estelares assomam no espaço, que vira com um giro caleidoscópico.
Uma corveta corelliana mergulha no espaço aberto diante dele, sua extremidade
traseira se rompendo em plumas de fogo que vão do vermelho para o verde para
o dourado conforme diferentes gases e combustíveis são expelidos no preto.
Temmin grita, puxando o manche e tentando endireitar o velho X-wing que está
pilotando – mas ele não sabe que lado é para cima, para baixo, esquerda, direita.
Use as telas. Use o console. Ele olha, encontra o monitor do estabilizador, então
ergue os olhos de novo e...
Alarmes começam a soar.
Eu vou bater numa fragata da Nova República. O lado da nave assoma
gigante, aparecendo depressa como um muro desmoronando...
Outro grito quando Temmin vira o X-wing para estibordo, espiralando através
da zona de batalha tão rápido que ele sente que está prestes a vomitar no
capacete.
A nave balança quando tiros de raios a acertam por trás. O astromec dele – um
droide com domo hexagonal e designação R3-W5 – assovia, e sua tela se enche
de avisos. As miras mostram que ele não está sozinho – dois TIE estão atrás dele
como moscas no lombo de um nerf, exceto que ele não tem um rabo para afastá-
los e não pode simplesmente despistá-los. Eles sentem o fedor da doença nele –
ele é o elo fraco do bando, aquele que um predador sabe instintivamente que
deve caçar. Maldição, vamos, Temmin, tire a cabeça do traseiro e fique vivo...
Boom. Um dos caças TIE explode, virando uma bola de canhão em chamas ao
lado dele. Ela rola para longe, destruída. A voz de Koko enche o comunicador
dele com um viva e um grito. O Narquois ri e diz:
– Um destruído, só falta o resto do maldito Império!
O piloto azul peludo assovia e arrota no microfone um segundo antes de seu
X-wing passar depressa.
O próximo é Jethpur, o Quarren: ele diz algo em quarrenês, mas Temmin não
faz ideia do que seja. Yarra completa os detalhes:
– Jeth tem razão, Snap, você é como um alvo aí fora. – A Twi’lek surge ao
lado dele enquanto seu Y-wing atira no segundo dos TIE, colado nele como um
carrapicho.
O X-wing de Wedge surge à sua frente.
– Todos entrem em formação atrás de mim. Snap, você está bem? Se quiser
colocar as coordenadas para casa, ninguém te culparia.
– Eu te culparia! – Koko grita, então arrota de novo.
– Não – Temmin diz, embora o que ele queira dizer é sim, sim, é, eu cometi
um erro mesmo, preciso ir para casa, eu não pensei direito nisso. Mas, então, ele
pensa na mãe. Ela está aqui. Então ele também está aqui. – Estou bem. Fico com
vocês. Mas tenho que ser sincero, está louco aqui em cima.
E está mesmo. Mesmo em formação atrás de Wedge e tendo alguém para
seguir, a mera quantidade de informação visual está prestes a lhe dar um
sangramento nasal. Linhas borradas de plasma. Torpedos serpenteando na
distância entre naves de linha. Caças por todo lado, e fogo, e destroços, para não
falar daquele anel de destróieres estelares evitando que o couraçado se aproxime
das naves de linha da Nova República...
– O garoto tem razão – Yarra diz. – Está um pouco quente demais aqui. A
gente precisa de espaço para respirar. – Acima deles, um A-wing corta o vácuo.
– Ideias?
É Temmin que fala:
– Talvez a gente possa descer. Podemos abrir um buraco nas defesas deles de
ar-para-espaço, liberar caminho para nossas forças terrestres. – É uma ideia
burra, e ele sabe. É também uma ideia egoísta: ele só quer sair daqui. E quer
estar o mais próximo possível de Jakku. É lá que estão sua mãe, seu droide e sua
amiga.
Então ele fica surpreso quando Wedge concorda.
– Snap, ótima ideia. Tudo bem, Esquadrão Fantasma. Vamos dar uma olhada
de perto em Jakku. Derrubem tantos bandidos quanto puderem no caminho.
Koko comemora.
Temmin inspira fundo e empurra o manche, seguindo Wedge e os outros para
o caos. Estou chegando, mãe.

Pilares de fumaça negra se erguem acima do horizonte enquanto Norra leva a


nave auxiliar imperial sobre o último cume do cânion e desce de novo sobre as
dunas. Acima, ela vê as duas frotas em órbita. Os céus lampejam e pulsam com
os raios de artilharia entre uma nave e outra. Aqui embaixo, caças já estão
enxameando. A Nova República está estabelecendo zonas de pouso 100
quilômetros ao leste, em direção a Cratertown – e ela vê os U-wings
mergulhando como pássaros gordos, despejando soldados de elite. Ela já começa
a ver as areias cobertas de escombros: cascas esqueléticas e vigas dobradas
chamuscando ao sol infernal de Jakku. Seus olhos seguem o movimento, e ela vê
uma nave maior – uma corveta, pelo visto – avançando em direção à superfície
de montanhas distantes. Do jeito que se move, é como se estivesse em câmera
lenta – fogo e fumaça deixando um rastro enquanto pedaços caem, refletindo a
luz. Como fogos de artifício caindo de volta ao chão. Seria bonito se ela não
soubesse que há vidas em risco. As pessoas lá dentro já podem estar mortas. Se
não agora, então em breve, quando a nave bater. (Uma realidade de cada nave
derrubada: nem todo mundo chega a uma cápsula de fuga.)
– Eu tenho um mau pressentimento sobre isso – ela diz a Ossudo, que está
sentado, obedientemente, ao seu lado. Servomotores chiam quando o droide vira
a cabeça para ela.
– PREPARAR PARA DISPARAR TODOS OS CANHÕES – Ossudo diz, sua
voz distorcida de modo que tem um sotaque estranho e duro. – COMENTÁRIO:
EU SUGIRO QUE EXPLODAMOS A SACOLA DE CARNE PARA EVITAR
O TRABALHO, MESTRE.
– Ossudo, você está bem?
O droide fica rijo por um momento, então relaxa de novo.
– DESCULPE, MÃE DO MESTRE TEMMIN. – O droide dá de ombros. –
FALHA TÉCNICA.
Ótimo. Voando numa zona de guerra com um droide de combate defeituoso.
Em uma nave auxiliar imperial roubada, ainda por cima.
À frente, a batalha ruge como uma tempestade. Ela tem margens. Ela contém
escuridão. E Norra voa direto para o coração dela.
Soldados marcham abaixo. Fogo de raios pontilha a parte de baixo da nave –
porque esses são soldados da República e ela está numa nave inimiga. É claro
que vão atirar. Ela relaxa o manche, erguendo a nave mais alto no ar, se
afastando das forças terrestres.
Faltam cerca de 500 quilômetros ainda para a base...
As telas dela brilham de vermelho. Duas naves mergulham e seguem no seu
encalço depressa. Dois caças estelares da República. A galáxia aparentemente
acha que ela gosta de ironia, porque as duas naves que oferece são Y-wings,
como aquela que ela costumava pilotar.
A nave auxiliar balança quando atiram nela.
As opções são poucas, e nenhuma delas é boa. Ela pode tentar contatá-los,
mas no melhor dos casos eles não vão acreditar nela; no pior, ela arrisca que o
Império intercepte a transmissão e perceba que ela roubou sua nave. Ela pode
tentar enfrentá-los, mas a última coisa que quer na consciência são dois aliados
que tiveram que morrer só para ela conseguir manter seu disfarce. A única opção
que ela tem é despistá-los, o que não será fácil nessa nave barriguda. Uma nave
auxiliar é um alvo fácil.
Mas talvez eles não queiram um alvo fácil.
E se ela lhes der um alvo melhor?
Ali, à frente, logo depois daquelas dunas salientes, um andador AT-AT gigante
marcha sobre a superfície de Jakku. Não está sozinho: uma dupla de andadores
de duas pernas AT-ST caminham com ele, um de cada lado, atirando canhões
sobre uma onda de soldados da República que avançam.
Pronto. Isso vai dar aos Y-wings algo com que lidar. O Y-wing é melhor como
bombardeiro do que como nave de combate aéreo próximo – e aquele AT-AT vai
ser um alvo tentador. Norra cerra os dentes e traz a nave auxiliar rente ao chão,
mirando diretamente a pequena cabine na cabeça do grande andador. Os Y-wings
só precisam ver que eles têm um alvo melhor e...
Enquanto ela se aproxima – perto! Perto demais! –, Norra ergue a nave com
força. Ela estremece quando atinge um ponto de turbulência – então Norra
desliga os motores para que a nave reduza a velocidade até parar.
Abaixo dela, os Y-wings passam num borrão. Em direção ao andador.
Pronto. Agora, para tirar essa nave do ponto morto...
Os motores rugem, mas não ligam.
Não, não, não, vamos, sua peça velha de sucata imperial, vamos...
A nave auxiliar surfa à crista de um travesseiro de ar... e começa a cair de
volta em direção a Jakku. De volta em direção aos andadores, aos soldados, em
direção à areia e à rocha inclemente. A nave espirala. Norra ruge de frustração
enquanto luta com os controles, tentando ligar os motores...
Aqui embaixo ele consegue respirar. O espaço é atordoante, mas a superfície
do planeta, como uma entidade separada do céu azul, permite a Temmin se
orientar. E com a orientação vem a sua confiança.
Ele estala os dedos e aperta o manche. Alinha o caça e segue o resto do
Esquadrão Fantasma. Wedge diz a eles para romper a formação acima do campo
de batalha e derrubar quaisquer TIE ou transportadores de tropas que virem.
Temmin leva o X-wing para cima das colinas baixas de areia, e agora, agora ele
está começando a sentir. A nave parece menos uma máquina na qual ele está
sentado e mais uma parte dele – como um membro, como um conjunto de asas,
como uma extensão da sua mente. Não pense. Só faça. À frente, um transporte
surfa uma duna, abre suas asas e dispara todos os quatro canhões laser – as asas
cospem luz ardente e ele nem precisa olhar as miras. Todos os disparos atingem
o transporte e a extremidade dianteira desmorona, caindo na areia e fazendo a
extremidade traseira virar sobre a dianteira. Boom.
Os vivas loucos de Koko enchem seus ouvidos enquanto ele puxa o manche.
– Você é como um cirurgião com esse negócio, Snap!
É isso aí, sou mesmo.
Não muito longe a bombordo, um caça de patrulha TIE gira no ar, caindo na
areia graças a Wedge, que cruza seu T-65 em frente ao de Temmin. A distância,
Temmin pode ver um andador caminhando sobre a areia, atirando em dois Y-
wings que o circulam como urubus esfomeados.
No comunicador, Wedge diz:
– Vamos dar uma ajudinha aos Áses Amarelos com aquele andador.
O Esquadrão Fantasma arranca em direção aos andadores. Temmin pensa em
atacar os AT-STs...
Mas um alvo melhor se apresenta – uma nave auxiliar imperial espiralando em
direção ao chão. Ele considera deixá-la em paz, porque aquela nave está prestes
a virar sucata e vapor. No entanto, de repente, os motores irradiam um brilho
azul e se acendem, e a nave escapa da queda momentos antes do impacto. Ela se
ergue no ar, com uma das asas quase desenhando uma linha na areia antes de se
endireitar e partir na outra direção.
É uma nave auxiliar de comando. Isso significa que oficiais estão a bordo.
Oficiais são alvos de alto valor. Isso ele aprendeu em seus dias caçando
imperiais com a mãe e os outros. Oficiais são aqueles com rostos nas cartas
pazaak – quando você está lutando contra um monstro, corta a cabeça e as mãos.
E é isso que ele vai fazer aqui. Ele diz a Wedge:
– Está vendo aquela nave imperial, Líder Fantasma? Está fugindo, mas eu vou
atrás dela.
– Tudo bem. Boa caçada, Snap. Não vá longe demais.
– Pode deixar, Líder Fantasma.
Temmin sorri e vira o caça estelar na direção do novo alvo.

Assim que Norra endireita a nave e aponta seu nariz para o retículo locacional
da base imperial, um novo bipe aparece na sua mira, piscando um aviso.
Um X-wing. Modelo mais velho – um T-65C-A2.
Ela se move para evadir. Lasers disparam ao seu lado. Justo quando ela
pensou que estava a salvo, a perseguição recomeça. Seu coração martela contra o
peito – e a nave estremece também, quando a asa é atingida pelo fogo de quem
quer que a esteja perseguindo.
Norra traz a nave baixo sobre as dunas, depois sobe de novo, pairando acima
de uma formação rochosa arqueada que parece um homem de joelhos. Ela vira
para a esquerda e então para a direita, mas o X-wing não é persuadido a se
afastar. Fica colado nela como se tivesse travado um raio trator, perfeitamente
alinhado e pronto para matar.
Mais disparos de laser. Um dos motores da nave auxiliar se apaga. A nave se
inclina para a esquerda. O interior da cabine se enche com o fedor de ozônio e
cabos queimando.
Que coisa, ela pensa. Ser derrubada no fim pelo meu próprio lado.
Há um clarão na cabine. Mísseis mirados nela! Aquele X-wing deve estar
carregado com torpedos de próton – isso não é surpreendente. O que é uma
surpresa é que quem quer que esteja pilotando aquela coisa gastaria um para
derrubar uma nave auxiliar de comando. É demais. O piloto naquela nave é
ingênuo – há alvos muitos melhores lá fora para essa artilharia.
Ossudo, para a surpresa dela, se ergue de repente. A pequena antena no topo
de seu crânio (que por sua vez está apoiado e fixado em um osso pequeno e
estreito) começa a piscar uma luz verde.
– Aonde você está indo? – ela pergunta entredentes, tentando manter a nave
sob controle.
Ossudo não responde. Em vez disso, ele aperta um botão no console.
A rampa. Ele está abaixando a rampa. Ele está saindo da nave.
– Ossudo! Volte aqui! Ossudo!

Um frio percorre a barriga de Temmin. Seu sangue se agita, seus nervos


zumbem como vibropunhais. Ele ficou no encalço da nave como se estivesse
colado nela – o suficiente para lhe permitir travar mísseis nela facilmente. À
frente, a nave entra em foco e seu dedão pousa no topo do manche. Ele não tem
consciência nesse momento. Ele não pensa em quem está naquela nave. Ele sabe
que vai matá-los, mas não pensa dessa forma. Temmin sente algo inteiramente
mais maligno e apartado – ele só quer vencer, ele só quer conseguir uma vitória
para a República, e o Império aqui é menos uma nave auxiliar carregando
oficiais e mais um símbolo.
Um símbolo que ele pode derrubar, aqui e agora.
O dedão paira sobre o botão.
Então a rampa da nave começa a descer. No meio do ar. O que...? Talvez
quem quer que esteja lá dentro esteja tentando pular. Mas por quê? A
extremidade dianteira daquela coisa é uma cápsula de fuga – basta soltá-la e
fugir.
Um droide desce pela rampa. Ele se segura ao pistão pneumático pelo qual a
rampa descende.
O droide dele acena para Temmin.
Oh, deuses, esse é...?
– Ossudo?
Pelo comunicador, vem a voz mecanizada do droide:
– ACHEI QUE PUDESSE SER VOCÊ, MESTRE TEMMIN. POR FAVOR,
AGUARDE.
– Por favor, aguarde? O que você está...? Ossudo? Ossudo?
Momentos depois, ouve-se um estalo quando a voz da mãe dele vem do
comunicador de pulso:
– Temmin? Temmin?

A princípio, ela não entende. Parece tão absurdo. O droide cai de volta na
cadeira, chacoalhando, inclina a cabeça para ela e diz:
– VOCÊ DEVE FALAR COM O MESTRE TEMMIN AGORA.
Ela não diz o nome do filho tanto quanto a palavra se derrama dela.
Transmitida do próprio alto-falante do droide vem a voz de seu filho. Como?
Ossudo tem um sensor de proximidade, não tem? Ele deve ter ligado quando
aterrissou em Jakku. Assim que Temmin estava perto, o comunicador se
conectou automaticamente. Ela se enche de luz e vida quando o filho diz:
– Mãe?
Mãe. Aquela única palavra. Ela sentiu tanta falta de ouvi-la.
– Garoto – ela diz, os olhos queimando com a ameaça de lágrimas. – Senti
saudades, garoto. Cadê você? É você... é você nesse X-wing?
– Sinto muito, mãe, eu não sabia! Eu quase atirei em você, me perdoe. Espere.
O que você está fazendo numa nave imperial?
– Eu... – Mas o que ela conta para ele? Diz que encontrou o seu pai? A reunião
de família pela qual ela anseia está muito próxima. Eles poderiam resgatá-lo
juntos. No entanto, esse é um território perigoso. Ela está indo direto para o
coração da ocupação do Império. Ela sabe que parece terrivelmente obstinada,
mas, se fizer isso sozinha, talvez Temmin não a siga e não se machuque. Pelo
menos naquele X-wing ele está no controle, além de ter outros pilotos dando
cobertura. – Wedge está com você?
– Está. – Graças às estrelas. – Eu posso nos pôr em contato com...
– Não. Eu não posso estar na rádio. Se o Império captar o que estou fazendo,
Tem...
– O que você está fazendo?
– Eu peguei o rastro de Sloane. E... – Nesse momento, ela decide não contar a
ele sobre o pai. Ela sabe que pode se arrepender depois, mas, assim que ouvir
sobre Brentin, Temmin vai começar a agir com o coração, não com a cabeça. –
Eu... roubei uma nave auxiliar. Tenho códigos de autorização. Estou me
dirigindo à base imperial que fica depois de algo chamado Campos de Areia
Movediça.
– Eu te acompanho.
– Não pode, garoto. Se eles te virem nas miras, vão te fazer em pedaços e
talvez eu também. – Mesmo que doa, ela diz a ele: – Você, fique aí. Fique com
Wedge. Ele vai te manter a salvo! Avise-o que estou bem.
– Você está bem? Mãe?
– Estou. Prometo. Tenho Ossudo comigo. Você fez um ótimo trabalho com
ele. Ele já salvou minha vida aqui.
– Pouse a nave, mãe. Podemos achar um jeito.
– É uma zona de guerra, Tem. Não posso pousar aqui. Nem você. – Adiante,
ela vê que a linha defensiva das forças imperiais aguarda. – Você precisa dar
meia-volta. Eles têm torres de tiro. Turbolasers. Morteiros. Andadores, TIE,
tudo. Vai saber o que mais. Você não quer se aproximar demais das defesas da
base. Se eles te virem, podem descobrir quem eu sou também, então estaremos
os dois mortos. – Ela pisca lágrimas e implora: – Por favor. Dê meia-volta.
– Mãe, espere...
– Temmin, por favor. Vá!
– Prometa que eu vou te ver de novo.
– Você vai me ver de novo. – É uma promessa que ela não sabe como manter.
Nem ela tem certeza de que acredita nisso. – Seremos uma família de novo em
breve. Okay? Eu te amo, garoto. Fique a salvo.
– Ossudo! Você cuide bem dela!
– ENTENDIDO, MESTRE TEMMIN.
– Eu te amo, mãe. Pegue Sloane. Vejo você do outro lado.
E, com isso, o bipe desaparece da tela, conforme o filho se afasta da
perseguição.
Capítulo
29

– Não.
– Desculpe, como? – Sinjir pergunta.
– Eu disse não, Sinjir – a chanceler responde.
– Ah. Eu entendo. Acho que estamos com um problema de comunicação. Eu
não sou chandrilano e, embora acredite que compartilhemos o mesmo espírito
afiado, devo estar batendo em alguma barreira linguística crucial. Presumo isso
por causa dos meus ótimos feitos a serviço da Nova República e porque,
certamente, certamente quando eu peço para ir a Jakku ajudar meus amigos sua
única resposta deveria ser um incondicional sim, Sinjir, absolutamente, Sinjir,
por favor, leve esta medalha e também este saco de dinheiro, Sinjir.
Mon Mothma está sentada à frente dele. Suas mãos estão unidas sob o queixo,
embora claramente uma não esteja funcionando tão bem. Parece paralisada,
pendendo ao lado da outra. Ela sorri acima da ponte dos dedos, como se não se
incomodasse com aquilo. Como se não se incomodasse com ele.
– Senhor Rath Velus – ela diz –, eu aprecio sua consternação...
– Aprecia? De verdade?
– ... mas não posso aprovar sua viagem a Jakku. Você não é um soldado. Nem
um piloto. Nem um oficial. Você quer seus amigos de volta, isso eu reconheço. É
um desejo nobre. Mas um desejo que não posso ajudá-lo a cumprir, infelizmente.
Política, ele pensa. A única coisa pior que a política são os políticos.
Ele se inclina para a frente, sabendo perfeitamente que está não apenas
ultrapassando um limite, mas francamente saltando sobre o limite, como um
gizka em pleno ar.
– Escute aqui, chanceler. Eu arrisquei meu pescoço e todas as outras partes do
corpo por você. Levei um dia só para conseguir esse encontro e...
– Se quer ir a Jakku, só vá a Jakku.
– O quê?
– Eu não posso impedi-lo. Encontre uma nave. Entre nela. Voe até aquele
planeta desértico infeliz dilacerado pela guerra. Você vai cair direto na loucura e
provavelmente ser afastado como uma mosca incômoda, mas isso é problema
seu, não meu.
– Tudo bem. Sim. Ótimo. Vou fazer exatamente isso.
Ela balança a cabeça gentilmente.
– Que as estrelas acelerem sua viagem. – Ele começa a se levantar e ela ergue
um dedo no ar. – Só mais uma coisa, porém.
– Hm?
– Se você perecer acima de Jakku... ou na superfície, ou em qualquer lugar
perto do planeta, não vai poder aceitar o emprego que estou oferecendo a você.
Que brincadeira hedionda é essa? Ele estreita os olhos até se tornarem duas
pequenas aberturas desconfiadas, reptilianas.
– Emprego? Não sei nada sobre isso.
– Sim, porque ainda não me ouviu fazer a oferta.
– Perdão, estou sofrendo um curto-circuito como um droide molhado? Do que
estamos falando aqui?
Com a mão fraca, ela gentilmente indica a cadeira. A mensagem é clara:
Sente-se e ouça a oferta, ou saia e não ouça.
– Inferno, tudo bem. – Ele senta na cadeira como um aluno insolente,
reclinando-se e fingindo desdém. – Que emprego é esse, então?
– Eu preciso de um conselheiro.
– E quer que eu te encontre um?
– Quero que seja um.
Ele dá uma gargalhada.
– Quê? Sério? – Ele vê no rosto dela que está falando sério. Mortalmente
sério. Ele se endireita, estranhamente constrangido. – Ah. Você não está
brincando. Pelo bem da galáxia, por quê?
– Porque você é bom em levar as pessoas a fazer o que você quer.
– Frequentemente dobrando os dedos delas para trás até se quebrarem. Isso
não cai bem para uma pacifista da sua estatura.
Ela retribui o olhar. Só agora ele percebe como ela pode ser intensa. Ele não
sabe bem o que é a Força nem como funciona, mas imagina que ela deve possuí-
la, dado o modo como seu olhar parece um par de pinças dissecando-o, átomo
por átomo.
Ela flexiona a mão paralisada como se a exercitasse.
– Sim, sua reputação nesse quesito o precede, Sinjir. Mas outra reputação está
começando a se formar e crescer: você é até mais incisivo com a língua do que
com a violência. Pode ser assustadoramente convincente, como evidenciado pelo
que disse ao senador Rethalow. Também pelo modo como manipulou aqueles
senadores para votar comigo. Eu preciso de alguém assim. Auxi é uma
conselheira excelente em questões políticas, mas eu preciso de um cínico.
Alguém que desconfia do sistema, que talvez até o despreze. Também preciso de
alguém que saiba jogar o jogo e obter o que eu quero. Esse alguém é você.
– Isso é uma piada, certo? Uma pegadinha? Eu digo sim e então um coro de
espectadores pula daquele vaso de planta e de baixo dessa cadeira e começam a
rir? Porque com certeza você não está considerando contratar um ex-agente de
tortura imperial para te aconselhar sobre como governar a galáxia civilizada
inteira.
– Não é piada. Eu não tenho um senso de humor muito bom, de toda forma.
Ele bufa.
– Eu odeio política.
– Eu também.
– Eu odeio políticos.
– Ótimo. Dessa forma, você poderá manipulá-los para que façam o que quer.
Ele se inclina, cruzando os braços. Com uma sobrancelha tão erguida que está
quase em órbita, ele pergunta:
– Eu vou ter um salário?
– Considerável.
– Ficaria em Nakadia ou aqui, em Chandrila?
– Meu escritório principal vai permanecer aqui em Chandrila, por enquanto,
mas vou ter uma mesa em Nakadia também.
Uma oferta de emprego. Da chanceler. Ele tem que ruminar essa por um
tempo. É claro que ele não quer. Bah. Pfft. O reino político é um circo grotesco,
um carrossel instável girando ebriamente como uma criança vendada brandindo
um galho na sua festa de natividade. A opinião de Sinjir sobre a farsa toda é:
derrube tudo. Queime. Dance sobre as cinzas enquanto entorna uma garrafa de
algo bom. Essa é a opinião dele. Mas, talvez...
Talvez ele deva tentar essa história de estabilidade outra vez.
Se ele e Conder estão tentando de novo...
Se a guerra realmente está chegando ao fim e o time acabou...
Que lugar ele tem na galáxia? Ele confessa: sua única opção agora é levar seu
traseiro estreito para algum bar distante e ver se consegue encontrar um canto
onde possa se fixar como o bêbado residente. Mas ele admira Conder. Aí está um
homem que quer trabalhar. Que quer fazer a coisa certa, com habilidade,
desenvoltura e um sorriso estendendo-se por aquelas bochechas adoráveis. Ele
merece ficar tão impressionado comigo quanto eu fico com ele. Talvez assim eu
consiga isso.
– Eu preciso de tempo para considerar – ele diz.
– Você tem trinta segundos.
– Eu... quê?
– Decida agora. Eu preciso agir depressa. Ter uma vaga na minha equipe de
conselheiros já prejudicou meu desempenho como chanceler, e eu não quero
esperar. Então, o tempo está passando.
– Chanceler...
– Vinte segundos, agora.
– Bem...
– Digamos, dez.
– Não é dez. Você está adiantando o relógio. Isso é trapaça!
– É, mas eu posso trapacear. Quer saber, Sinjir? Vou te oferecer um bônus. Eu
tenho duas tarefas em mãos, e, se você disser sim agora, pode escolher qual vai
para você e qual vai para minha outra conselheira, Auxi.
– Quais são as tarefas?
Ela balança um dedo como um metrônomo.
– Não, não, não. Não até você dizer sim.
– Hm. Tudo bem. Sim.
O sorrisinho dela aumenta um, talvez dois microns, e Mon Mothma diz:
– Esplêndido. A primeira tarefa é ir às compras.
– Compras? Eu ouvi direito?
– Sim. Você sabe o que comprar para um recém-nascido? Afinal, nossa
querida amiga Leia vai dar à luz.
Sinjir faz cara de quem cheirou uma fralda.
– Uísque?
– Isso seria melhor para a mãe e o pai, eu suspeito. Não, uísque não. Talvez
você não devesse comprar presentes para bebês.
Ele faz um biquinho.
– E talvez você não devesse delegar essa tarefa pessoal e íntima a um mero
conselheiro.
– Sim, bem. Vamos tentar a segunda tarefa. Eu preciso entregar um presente
ao senador de Orish, Tolwar Wartol. Um pedido de desculpas, de certa forma.
– Um pedido de desculpas? Estrelas me livrem, por quê?
A chanceler suspira.
– Pelo visto, ele não estava se opondo malevolamente à minha votação e
manipulando os senadores diretamente...
– Não, ele só falhou em ajudar as engrenagens da democracia a girar. E está
concorrendo contra você! Ele é seu oponente, chanceler!
– Não se pode culpar um tooka por brincar com um rato. Ele é quem é, então
achei necessário entregar um pequeno presente para me desculpar pelo meu
estratagema na nave dele.
– Entrega de presentes não me parece muito conselheiresco, chanceler.
– Você não quer nem ver o presente?
Ele não diz nada, apresentando em vez disso uma expressão duvidosa. Mon
limpa a garganta e ergue uma pequena cesta coberta com tecido lavanda suave.
Ela lhe diz para ir em frente e dar uma olhada, e ele obedece.
É uma cesta de frutas. Cheia de um único tipo de fruta: a fruta pta.
Ele não pode disfarçar o sorrisinho convencido que repuxa seus lábios.
– Ah, chanceler. Pensei que tinha dito que não tinha senso de humor.
– Talvez haja uma faísca de um aqui. Como você diria: nós compartilhamos
um espírito afiado, não é?
– Acho que sim.
– Então você a entrega?
– Entrego.
– Aproveite. E bem-vindo à política, Sinjir Rath Velus.
Capítulo
30

O mundo de Jas Emari se acende. Seus dentes estão grudados uns nos outros.
Os músculos da sua mandíbula estão tão rijos que ela teme que vão se tensionar
e romper. Então acaba outra vez, a onda de dor e luz recua novamente. Ela fica
arfando e resfolegando no chão da nave auxiliar corelliana enquanto Mercurial
Swift novamente afasta o bastão elétrico. Ele o gira na mão.
– Sua ordinária – ele sibila. Seu rosto, arranhado do ataque dela no templo de
Niima com os espinhos de cabeça, assoma sobre o dela. Atrás dele, Dengar está
relaxado. Embo está na outra extremidade do compartimento da nave, sentado
com as costas retas, observando os acontecimentos com todo o interesse e a
emoção de um cabideiro.
Da cabine, a Rodiana grita:
– Swift! É perigoso demais. Estão por todo o canto. O Império. A República.
Não há para onde ir.
A decepção no rosto de Swift é palpável.
– Tudo bem. Pouse em algum lugar nos cânions.
Jas rola para o lado. Cada parte dela parece estar sendo tão alongada que não
vai voltar à sua forma original. Ela descobriu que ser eletrocutada algumas vezes
é um bom jeito de fazer a pessoa se sentir assim. Ela arfa e consegue grunhir as
palavras:
– Então, qual... é o seu plano, Swift?
– Cale. A. Boca.
– Não, sério. – Ela grunhe. – Qual é o esquema? Códigos de autorização não
vão te manter a salvo no meio de uma zona de guerra. Alguém vai tentar atirar
em nós.
– Eu não tenho que me explicar para você.
– Não – Dengar intervém –, mas pode ter que explicar para nós. Sabe, seu
time? Você tem um plano, chefe?
Pelo jeito como o corelliano, com o peito estufado feito um barril, diz esta
última palavra – chefe –, ela sabe que não é um termo de grande afeto.
Interessante.
Swift se vira para encarar o velho caçador de recompensas, como se estivesse
prestes a ralhar com ele. Então, parece esfriar um pouco.
– Vamos pousar por um tempo. Esperar uma oportunidade de atingir a órbita e
levar nossa presa de volta ao chefão Gyuti em Nar Shaddaa. Só precisamos ser
pacientes.
– Ele vai te enganar – Jas diz.
Swift se vira depressa e enterra um punho na barriga dela. Ela se encolhe para
dentro como um inseto.
– Fique quieta. Ninguém está me impedindo de te levar para Gyuti em cinco
sacos diferentes.
– Ele só tá bravo porque você acabou com a carinha bonita dele – Dengar diz.
– Cala a boca, Dengar.
– Você não... – Jas estremece quando se senta; a voz, um arquejo sofrido. –
Não quer saber o que estou fazendo aqui em Jakku? Eu posso te dar um...
Bzzt. Outro cutucão do bastão de choque, dessa vez contra o lado do pescoço.
O crânio dela é um ninho de insetos que a picam. Ela tenta não gritar, mas o
grito vem mesmo assim, uma coisa viva que não pode ser contida. Então acaba.
Jas tomba, gemendo.
– Eu quero ouvir o que ela tem a dizer – Dengar observa.
– Eu disse para calar a boca, Dengar.
Jas pisca e, no tempo que leva para fazer isso, ouve o clack de uma arma de
raios sendo engatilhada. Quando a visão retorna, ela vê que Dengar tem o fuzil
apoiado no joelho e apontado diretamente para o torso de Swift.
– Eu não tô a fim de calar a boca, seu cretino convencido. Tenho o direito de
falar com a garota. Eu e a tia dela, a gente se conhecia. Eu devo um papo pra ela.
Vá em frente, Jazzy.
– Eu... nggh. Eu estou caçando alguém aqui.
– Quem?
– Rae Sloane.
– Ela não é ninguém – Swift diz. – Sloane estava no topo da cadeia alimentar,
mas seu tempo chegou ao fim. Agora ela não vale nada.
Jas dá de ombros, indiferente.
– Vale para a... Nova República. Eles a querem muito e estão dispostos a
pagar para tê-la servida numa bandeja. Ela sabe de coisas. Ela é a chave. Pelo
menos é o que acreditam. Eu nem me importo se têm razão ou não; só me
importo com o que estão me pagando, e é muito dinheiro.
Tudo isso é mentira. Mas, apesar do ditado banal, a verdade certamente não
vai libertá-la.
– Quanto eles estão pagando?
A pergunta é feita por Embo. Falada na língua kyuzo.
Ela odeia mentir para ele. De verdade, ela odeia.
Mas mente mesmo assim.
– Um milhão.
Seus olhos tornam-se tão grandes quanto estações de combate. Dengar
assovia.
– Muita grana por uma garota só. Mesmo assim, trabalhar para a Nova
República não é muito aconchegante, é?
– É quando eles te oferecem um perdão total.
E essa é a declaração que suga o ar da cabine. Todos são deixados em choque
com essa oferta. Um perdão tem significado. Cada um deles tem uma lista de
pecados criminosos mais longa que o rabo de uma lesma Hutt. E, com a galáxia
pendendo para o lado da Nova República, vai chegar o dia, mais cedo que tarde,
em que os caçadores de recompensas serão forçados a fugir para as margens se
não quiserem ser dominados e presos. A tensão na nave aumenta. Jas aproveita o
momento.
Ela continua:
– Se trabalharem comigo, dou uma parte a vocês. Todos recebem perdões
totais. Embo, Dengar. Vocês dois trabalharam com Sugi. Talvez haja algo bom
na tradição, hein?
– Eles não vão me deixar – Swift protesta com um olhar vulpino. – Eles
sabem o seu lugar. Trair Gyuti e se tornar inimigos do Sol Negro não vai ajudá-
los em nada. Eles vão ficar comigo.
– Você se esqueceu de uma parte – Dengar diz.
Mercurial ergue uma sobrancelha.
– Qual?
– A gente não gosta de você.
O velho caçador de recompensas esmurra a lateral da cabeça de Swift com a
arma de raios. O bonitão desaba ao lado dela, mas não está disposto a cair sem
uma luta, ah, não. Swift se move depressa, indo para trás de Jas e pressionando o
antebraço contra a traqueia dela. Com as costas do calcanhar, ele chuta e abre um
dos lados da nave auxiliar – a parede se ergue, a rampa abaixa e a luminosidade
do sol de Jakku enche a cabine, quase cegando todos eles.
Ele faz Jas recuar para a porta, usando-a como escudo.
– Vocês poderiam ter sido todos ricos – ele diz, furioso.
Dengar está apontando o fuzil, mas não consegue uma mira limpa. Embo está
em pé, mas parece casualmente desinteressado nos eventos. Ela conhece esse
olhar. Não é desinteresse que vê. É um olhar que diz que confia nela para lidar
com isso.
– Você... se esqueceu... de uma coisa – ela diz, enquanto o braço de Swift se
aperta.
– Eu não esqueci de nada – ele rosna no ouvido dela.
Você esqueceu que não removeu todos os meus chifres, idiota.
Com um grunhido alto, ela bate a cabeça para trás, contra o rosto dele. Seus
chifres em formato de espinhos perfuram a carne da outra bochecha de Swift,
que uiva – e, por um segundo, relaxa o aperto na garganta dela.
Jas se move depressa. Ela escorrega como um homem escapando da forca,
então se agacha rapidamente e chuta com força...
Seu pé acerta a barriga de Swift.
E o caçador de recompensas sai voando pela porta aberta da nave auxiliar.
Ofegante, Jas bate no botão e a rampa sobe outra vez enquanto a porta se
fecha. Ela esfrega os olhos e desaba contra a parede, exausta. Dengar a olha
tanto com surpresa como com satisfação no rosto. Ele lhe dá um aceno curto.
– Bom trabalho, Jazzy.
Embo assente também. Em kyuzo:
– Fico feliz que acabou assim.
A Rodiana – cujo nome ela nem sabe ainda – berra:
– O que está acontecendo aí atrás?
Jas se encolhe.
– Ela é leal?
– Quem, Jeeta? Pssh. Não ao Swift.
– Então acho que tenho um novo time – Jas diz.
Dengar oferece um sorriso relaxado e uma piscadela.
– Acho que sim, amor.
INTERLÚDIO
Cidade das Nuvens, Bespin

– Lobot, estamos em casa. – Lando ergue uma sobrancelha duvidosa enquanto


olha ao redor, exasperado. – Acho que o Império não faz uma faxina há um bom
tempo.
Este é o andar do cassino. Máquinas de jogo ocupam os pisos azuis lisos até
onde a vista alcança. Mesas de sabacc também. E pazaak. E rodas de jubileu. Na
parede mais distante há fileiras de holoprojetores que exibem a última corrida de
swoop nas pistas que atravessam a atmosfera de Zona Vermelha tóxica de
Bespin. Antigamente, esse era um pilar brilhante de exagero de apostas: elegante
e claro com a luz que entrava pelas janelas com vista para nuvens beijadas pelo
sol. Agora está arruinado. Lixo esvoaça e rola. Máquinas foram derrubadas e
seus créditos arrancados de dentro delas, como comida da barriga de uma fera.
As janelas estão cobertas com metal. Os holoprojetores estão apagados.
Lobot para ao lado de Lando. O computador que forma uma meia-lua atrás da
cabeça calva do homem pisca e pulsa, e no pulso de Lando vem uma
comunicação de seu amigo e companheiro:
Vou começar a recontratar os funcionários imediatamente.
– Faça isso – Lando diz. Então ele ergue um dedo. – Ah. Mas não deixe de
contratar alguns refugiados, tudo bem? – A galáxia é como uma xícara que foi
virada, e agora está tudo derramando. Planetas inteiros foram desalojados pela
guerra. Lando não pode deixar a Cidade das Nuvens se transformar de uma
cidade de luxo em uma cidade de tendas de expatriados e evacuados, mas pode
dar empregos a essas pessoas. É o tipo de arranjo preferido dele: o tipo em que
todo mundo ganha alguma coisa. Eles ganham. Ele ganha. O ideal de como tudo
devia funcionar.
A Cidade das Nuvens sempre foi isso para Calrissian. Era uma trégua – um
refúgio do Império, enquanto, ao mesmo tempo, não existia para despeitar o
Império. Ele pensava: Ei, todo mundo pode ser feliz, baby. O Império não tinha
que se importar. Os rebeldes não precisavam se importar. A Cidade das Nuvens
podia pender no ar acima de Bespin, separada de todo o caos, de todos os
combates. Venha aqui e sinta um gostinho do luxo. Enquanto isso, ele podia
minerar o gás tibanna e vender a qualquer fabricante de naves que quisesse (o
negócio era perfeito para fazer hiperdrives, porque, com tibanna, pouco rendia
muito). Enquanto isso, Lando podia se reclinar, tomar uma bebida, rolar uns
dados, encontrar uma dama ou três.
É. Não funcionou assim.
Ele sabe agora: em uma guerra como essa, não dá para ficar no meio. Não dá
para jogar dos dois lados. Ele viveu a vida inteira atirando exatamente no centro,
sem nunca adotar uma causa – exceto as causas que apoiavam seus próprios
bolsos vazios. Aqueles dias chegaram ao fim, e seu amor à neutralidade doce
também. Quando Vader veio para cá, tudo mudou. Ele perdeu Han, por um
tempo. Ele perdeu Lobot e a Cidade das Nuvens. Ele quase perdeu tudo.
Mas ganhou um pouco de perspectiva.
E ele escolheu um maldito lado. Porque, às vezes, se você quer vencer, tem
que apostar alto. Tem que pôr sua pilha de chits em um único lugar.
Valeu a pena. O Império acabou. E agora ele é um herói da Rebelião (e ah,
pode apostar que ele usou isso para conseguir mais do que uma porção justa de
bebidas grátis, para não mencionar a atenção de lindas admiradoras). Mas tudo
que ele quer é sua cidade de volta. Depois de Endor, ele pensou que poderia só
voltar para cá como um belo rei retomando seu trono no céu – mas então aquele
filho-de-uma-lesma do governador Adelhard formou o Bloqueio de Ferro. Ele
manteve as pessoas presas aqui não só com um remanescente imperial bem
organizado, mas também com uma grande mentira: que Palpatine não estava
morto. E Lando sabe que aquele velho cenobita murcho está morto – porque foi
ele que destruiu o núcleo do reator da Estrela da Morte. E porque Luke disse que
o monstro estava morto. Dá para acreditar? Palpatine e Vader. Ambos mortos.
Dois flagelos, flagelados pela galáxia.
De repente, ele tinha uma segunda guerra para lutar. Ele pensou que o Império
estava acabado e a Cidade das Nuvens era sua novamente. Que tolo ávido. Nada
nunca é tão simples, é? Levou meses e meses. Ele teve que promover uma
revolta. Teve que se comunicar com Lobot de dentro. Teve que cobrar favores
com um monte de canalhas – como Kars Tal-Korla, aquele pirata. Tudo porque a
Nova República não queria se comprometer com uma ação militar para retomar
a cidade. Ele respeita essa decisão, entende essa decisão, e Leia deu a melhor
explicação quando disse:
– A Rebelião foi fácil, Lando. Governar é mais difícil.
A chanceler estava só tentando manter qualquer vantagem que tivesse – e
então, com o ataque no Dia da Libertação em Chandrila...
Bem. Tudo isso acabou. Não há por que ficar pensando nisso.
A Cidade das Nuvens é dele novamente. Lando fez Adelhard passar fome. A
maior parte dos imperiais se rendeu. Acabou. Graças às estrelas.
Ele entra no andar do cassino. Ele e Lobot não estão sozinhos. Há uma força
diversificada com eles: algumas das forças de segurança da sua Guarda Alada,
mas alguns soldados da Nova República também. É o suficiente para fazer uma
limpeza naqueles que ficam para trás, agarrando-se à ilusão de que ainda podem
vencer.
Juntos, eles marcham pelos escombros do nível do cassino. Ele pergunta a
Lobot:
– Os retentores estão à frente?
Sim. Na sala Bolo Tanga.
– Certo, certo, vamos acabar logo com isso e despejar nossos últimos
inquilinos.
Enquanto caminham, Lobot o examina quando uma nova comunicação
lampeja no seu pulso: Eu devo lembrá-lo de que a princesa vai dar à luz em
breve e você ainda não procurou o presente natalício padrão para eles.
– Quê? Isso é impossível. Ela acabou de... juro que eles acabaram de se
casar... eu não acabei de dar um presente de núpcias?
Chegou o tempo biológico apropriado. Você simplesmente não percebeu
quanto tempo se passou. Estivemos ocupados.
– Eles também, pelo visto.
Além disso, você nunca deu um presente de núpcias.
Ele suspira.
– Okay, okay. Comprar presentes para uma criança. Acho que podemos
comprar uma capinha bonita e um bigode para ele se parecer com o velho tio
Lando.
Lobot não responde, oferecendo apenas um olhar sem humor.
– Certo, certo, eu vou pensar sobre o caso. – A mente dele vaga brevemente
para Han e Leia. Han, um dos seus melhores e mais antigos amigos. E, claro, um
dos seus maiores rivais também. Ele sente falta do velho réprobo. Que tempos
loucos viveram juntos!
Bons tempos, mesmo quando eram ruins. Agora, Han está com Leia. Minha
nossa! Esses dois são um par de foguetes funcionando a toda potência. Lando só
torce para que os dois motores estejam atirando na mesma direção – porque, se
um dia forem apontados um para o outro, vão explodir.
Chegamos, diz Lobot.
À frente está a porta para a sala Bolo Tanga. Lando pode ver que ela foi selada
com liga de magnésio. Ele se vira para o capitão Gladstone da Guarda Alada.
– Temos imagens?
Gladstone assente.
– Eles estão enfurnados lá. Quebraram até o duto de ventilação, o que em
teoria deve levá-los para a subcamada de engenharia...
– Mas os gases subindo desse duto vão matá-los se tentarem.
– Exatamente, barão administrador.
– Então eles estão encurralados.
– Como insetos-creto em um saco de besouro.
– Está bem, vamos abrir... não, quer saber, espere. Eles conseguem me ouvir
através desta porta?
– Conseguem se o senhor se aproximar.
Lando assente e puxa a arma de raios – uma peça refinada da época em que se
colocava um pouco de arte no design. É uma pistola Rossmoyne Vitiator, uma
arma de raios de uma era mais elegante. (Lando a ganhou recentemente em um
jogo de Limite Gizka de Seis Cartas de um diplomata Aybariano bêbado de
especiaria.) Cada Rossmoyne que saía da linha de produção era gravada à mão e
adornada por artesãos da família original. O punho desta arma em particular
exibe maravilhosas espirais e curvas – como um labirinto serpenteante que você
pode seguir com um dedo cego. Talvez, com o fim do Império, os artesãos
retornem à galáxia. E, com eles, sua beleza.
Isso é para depois. Por enquanto...
Ele bate na porta com a Vitiator.
– Olá, aqui é Lando Calrissian – ele diz alto para que possam ouvi-lo. – Sou o
barão administrador da Cidade das Nuvens, para não falar herói da Rebelião.
Suspeito que já ouviram falar de mim. Conseguem me ouvir direitinho? Batam
na porta se sim.
Nada. Mas daí...
Três batidas. Bom. Ele continua falando, colocando um pouco de suavidade
extra na voz para mantê-los calmos, para mantê-los ouvindo.
– Vai acontecer o seguinte. Eu sou um homem de apostas, então vou apostar
que vocês estão aí dentro, famintos e assustados e sentindo-se como pessoas sem
um país. E são, porque a essa altura tenho certeza de que ouviram que a história
de Adelhard sobre Palpatine estar vivo era uma grande mentira. Vou seguir com
essa aposta e dizer que vocês estariam dispostos, perfeitamente dispostos, a
soltar suas armas para que a gente possa abrir esta porta, acompanhá-los até lá
fora e lhes dar uma refeição quente e uma cama macia. Não estou interessado em
acusá-los. Não vou jogá-los em nenhuma masmorra da Nova República. Até vou
abaixar minha arma de raios, para, quando entrar aí, vocês saberem como estou
falando sério. Batam se entenderam.
Toc, toc, toc.
– Bom. – Ele se afasta, enfiando a arma no coldre no quadril. Lando sinaliza
para Gladstone. – Abra.
Os engenheiros da Guarda Alada começam o serviço, agachando-se de cada
lado da porta, máscaras de raios sobre os olhos enquanto acendem lanças de
plasma para queimar a liga de metal inchada que está selando a porta. Faíscas
queimam linhas no ar.
Então está feito. Há dois engenheiros, um de cada lado da porta. Eles usam as
alavancas nas extremidades das lanças para forçá-la.
Ela cai com força na direção de Lando, e ele dá um passo suave para o lado
quando ela atinge o chão. Bam. Um sopro de fumaça e um redemoinho de brasas
se segue. Lando sabe que uma salva de lasers pode disparar daquela porta aberta
e cortá-lo em pedaços – mas ele também sabe que quem quer que esteja lá dentro
percebe que vai ser cortado em pedaços também.
Nenhuma refeição quente. Nenhuma cama macia. Só sacos para o corpo de
cada um deles.
Conforme a fumaça se dissipa, ele vê os homens e mulheres imperiais ali, as
mãos na cabeça, as armas de raios aos pés. Lando ri e os incentiva a sair da sala
Bolo Tanga. Eles parecem assustados. E cansados. Cada um mostra um rosto
magro com lábios secos e olhos vermelhos.
– Vamos lá, está tudo bem. Acabou. Vocês tomaram a decisão certa.
Algumas dúzias saem e são levados pela Guarda Alada. Os soldados da Nova
República mantêm distância. Então Gladstone diz:
– Barão administrador, senhor. – Uma pontada de preocupação na voz. Ele
gesticula para dentro da sala.
Lando entra, a arma de raios ainda no quadril.
Um retentor permanece dentro da sala Bolo Tanga, lá do outro lado da mesa
de cartas, onde o crupiê geralmente ficaria. É um sujeito de peito largo usando
duas peças de armadura: um peitoral negro e um capacete branco de trooper. Ele
está em pé contra a parede dos fundos. Tem um fuzil na mão. O cano do fuzil
está apontado para o chão.
O que significa que ele não sabe o que fazer ainda...
Ou ele estava esperando por esse momento.
– Deixe-me adivinhar – Lando diz. – Você é o comandante.
Uma pausa antes que o homem diga:
– Sargento.
– O último sargento, sargento. Todos os outros se renderam ou estão mortos.
Adelhard se foi. E o Império não parece mais uma opção tão boa, amigão. Então
o negócio é o seguinte. Você se rende. Ou vai pelo outro caminho.
O fuzil pende. O homem não o solta.
E a mão dele não está tremendo.
Ele vai pelo outro caminho.
Acontece rápido.
– Vida longa ao Império!
O imperial ergue o fuzil...
E nunca atira.
O sargento cai quando um único tiro da Vitiator de Lando perfura sua
armadura e penetra seu coração. O fuzil nunca deixa a mão do soldado – seu
corpo só tomba por cima dele.
Lando enfia a arma de volta no coldre. O coração está pulsando no peito. Um
arrepio louco o atravessa enquanto ele pensa: Ainda sou bom. E aquele tolo
estava apostando que Lando era lento demais, que sua arma não sairia do coldre
e que não perfuraria a armadura se saísse.
Errado nos dois casos.
– Às vezes você ganha, às vezes perde – Lando diz, estalando a língua. Ele vai
até o morto e arranca o capacete de visor preto debaixo dele. O sargento é um
homem de mandíbula quadrada, com uma testa que lembra um afloramento
rochoso. Um cara durão.
Mas não durão o suficiente.
– Ei – Lando diz, girando o capacete na mão. Ele olha para Lobot. – Tive uma
ideia. Toda criança precisa de um abajur, certo? Como uma lâmpada noturna.
Será que os engenheiros podem transformar isso num abajur? Seria algo
especial, não seria?
Lobot diz pelo comunicador: Não.
– Tá, okay, isso é um argumento convincente – Lando diz, rindo. Ele se ergue
e joga o capacete de uma mão para outra antes de soltá-lo no chão. – Mesmo
assim, o garoto tem que ver por que os pais lutaram. E suspeito, conhecendo os
pais dele, que ele vai se envolver em lutas também.
É aí que Lando tem uma ideia.
Ele saca a arma de raios de novo e a gira na mão.
– O garoto vai se meter em encrenca um dia. – Toda criança se mete, mas com
o sangue de um canalha e uma princesa nas veias, sua rebeldia vai fazer as
estrelas tremerem. – Ele vai precisar de ajuda. E é aí que entra o tio Lando. –
Lando ergue a arma e a admira.
No pulso dele, Lobot protesta: Não vamos dar uma arma de raios ao menino.
Crianças não devem brincar com armas de raios. O rosto de Lobot é severo.
– Não, não agora. Depois. Quando chegar a hora. Quer saber, eu vou escrever
um bilhete, algo como... Ei, garoto, sou eu, o tio Lando, se você precisar de
ajuda e não quiser chamar seu pai, venha me encontrar e a gente resolve tudo.
Vou colocar na arma de raios, guardá-la num armário aqui na Cidade das Nuvens
e dar a chave a Han. E não vou falar para ele o que tem dentro, porque ele vai ter
um ataque se vir. Vai ser para o garoto, quando ficar mais velho.
Isso não resolve o problema de ter que dar um presente para ele agora,
Lando.
Ele lança a arma de raios para Lobot, que a pega sem jeito e retribui com um
olhar grave. Lando revira os olhos.
– Tudo bem, tudo bem, mande outra coisa também. O que temos? Ah, já sei.
Temos aquele catamarã vantilliano na doca do leste. Dê a nave para eles, eles
podem usar em, sei lá, cruzeiros familiares ou algo do tipo.
Lobot assente. Uma palavra surge no comunicador: Aceitável.
– Dá pra acreditar? – Lando pergunta. – Han e Leia. Uma família. Os tempos
estão mudando. Você acha que eu devo começar uma família?
Mais uma palavra: Não.
Ele ri.
– Novamente, meu amigo, estamos de acordo. Vamos beber.
Eu não bebo.
Lando põe um braço ao redor dos ombros rijos de Lobot.
– Eu sei. Não tem problema. Eu bebo duas para deixar as coisas mais justas.
Desse jeito, nós dois ganhamos.
Capítulo
31

Rae Sloane se entregou e se rendeu. Gallius Rax a deixou aqui com um


assento na primeira fileira para o que pode muito bem ser a última batalha desta
guerra – porque mesmo que o Império vença em Jakku, como vai ser depois? O
Império que esse mundo abrigou não é o Império dela. É uma coisa deturpada e
perversa, coberta de areia e transformada em sucata.
Então, ela se ajoelha. A ardência nas pernas diminuiu até se tornar uma dor
abafada e adormecida. Seus ombros doem também. Seu pescoço. Tudo dói. Seus
lábios estão secos. Os olhos parecem frutas deixadas ao sol por tempo demais.
Pior, a lateral do corpo dói – bem onde aquela maldita mulher, a piloto, a atingiu
em Chandrila. Cada vez que ela se dá ao trabalho de inspirar, é como se alguém
estivesse lentamente enfiando e puxando uma faca de suas costelas.
Ela não pode ir a lugar algum. Está com Brentin no telhado – e considerou
rastejar até a beirada e rolar para fora, mesmo que caísse só o suficiente para
quebrar o pescoço e dar fim à sua infelicidade. Enquanto isso, Brentin está
abraçando o próprio corpo, gemendo e rolando. Claramente se perdeu para a
loucura.
O tempo todo, ela observa a batalha se aproximar cada vez mais da base. A
linha do Império não está se quebrando, mas está recuando. A distância, ela
avista uma pluma de fogo em forma de cogumelo irromper de um andador antes
que ele tortuosamente caia. Não longe dali, um X-wing – tão distante que quase
parece o brinquedo de uma criança – bate a asa num pináculo de pedra e bate
numa torre de tiro DF9. Corpos de troopers saem voando.
No céu, as duas frotas se enfrentam. É difícil ver o que está acontecendo – o
sol é tão forte que parece que vai pôr fogo nas córneas dela. Pelo que Sloane
pode ver, a Frota Imperial está aguentando firme. As naves da República não
estão nem arranhando as deles. Ainda não. Mas ela teme que vão.
É inevitável.
Logo o confronto vai chegar aqui, à base. É isso que Rax quer. Não só ela vai
ficar sentada vendo tudo desabar, mas vai estar sob o fogo. Quando a base for
destruída, ela será também. Talvez capturada. Provavelmente morta.
E Rax vai escapar.
Mas para onde? E por quê? É a meta final dele que ela não consegue entender.
Tudo isso é um espetáculo. Feito a serviço de alguma coisa. E aquele lugar que
ele estava protegendo no vale perto da Mão Lamentosa significa algo.
Não que importe. Ele foi embora. Ela permanece.
Sloane ri, então chora, então inclina a cabeça como um monge penitente.
– Gah! – Brentin grita, de repente. Ele rola, arqueando as costas e expondo os
dentes para o céu. A dor parece atravessar seu rosto. De súbito, uma onda de
energia pulsa no ar, fazendo os pelos dos braços e do pescoço dela se
enrijecerem. Brentin se ergue, balançando as mãos – as duas algemas ao redor de
seus pulsos caem.
Ela olha para ele, pasma.
– Você está livre.
– Hã-rã. E você é a próxima. – Ele se inclina, recolhendo algo nas mãos
abertas, enquanto diz: – Já notou como este planeta é sujo? Não estou falando do
jeito como todo planeta é sujo. Quer dizer, é tão seco, tão dessecado, que tudo se
desgasta até virar poeira. A poeira é pega pelo vento e soprada para todo canto.
Como aqui.
Ele mostra as mãos, que agora estão cobertas de poeira marrom e cor de
ferrugem. Então vai para trás dela e começa a massagear a poeira nas algemas.
– O que está fazendo?
– Rebeldes como eu são treinados para escapar de todos os tipos de situações.
Algemas magnéticas são difíceis de tirar, mas não impossíveis, contanto que
você consiga enfiar algo entre os acoplamentos magnéticos. Neste caso...
Bzzt! Outro pulso de energia quando as algemas caem dos pulsos dela.
– A poeira de Jakku.
Estou livre, ela pensa.
– Você é engenhoso, Brentin Wexley. – Ela sabe agora que seu instinto de
preservar a vida dele estava certo.
– Nós, rebeldes, tínhamos que ficar à frente de vocês de algum jeito.
– Precisamos correr – ela diz. – Encontrar uma nave. Interceptar Rax.
– Você acha que ele voltou para o vale.
– É nossa única chance. Alguma coisa está acontecendo aqui. Alguma coisa
grande que eu não entendo. – Mesmo que ele não esteja lá, o que ele está
escondendo será a chave para entender tudo. – Venha.
Sloane anda a passos largos, ignorando a dor na lateral do corpo, nas pernas,
na garganta. Ela ignora a desidratação, fingindo que não existe. Quando encontra
o turboelevador para descer, já está formulando um plano na cabeça – eles vão
precisar de uma nave. Ir por terra não vai funcionar. Seria lento demais, e com a
batalha ocorrendo aqui atravessar a superfície de Jakku é uma perspectiva
inatingível. Isso significa que eles precisam ser levados por ar em algo rápido.
Um TIE pode funcionar, porque é rápido, ágil, versátil.
A boa notícia é: eles têm uma série de caças imperiais aqui – uma esteira
automática instalada para o abastecimento, lançamento, pouso e
reabastecimento. Produzir e acender. Caças. Interceptores. Bombardeiros. Caças
de patrulha. São passados para a frente e enviados para o espaço.
O elevador desce com um zunido e abre com um tinido. Eles saem e veem um
corredor varrido de areia – vazio. A base é como uma tumba. Coberta de poeira e
imunda e silenciosa como um túmulo também. Já está abandonada?, Sloane se
pergunta. Ou é só um sinal de que todas as forças imperiais já estão lá fora,
lutando com unhas e dentes contra a incursão da Nova República? Ela suspeita
que seja o último caso. Todas as peças foram empurradas para o tabuleiro. Não
há nenhuma na reserva. Rax está apostando o Império: tudo ou nada.
Um droide rato passa girando, chiando e rangendo quando vira um canto. É o
único sinal de vida que eles veem.
Isto é, até que eles viram esse mesmo canto.
O droide rato volta chiando e passa no meio das pernas de Sloane – há um
momento de distração quando ela dança para longe dele...
E, quando se vira de novo, está cara a cara com uma oficial imperial. Vestida
de preto. Um pequeno chapéu torto. As barras no peito da mulher indicam que
ela é uma agente da prisão, o que não faz sentido porque...
– Norra – Brentin diz.
– Você – Sloane diz à mulher.
Uma arma de raios é erguida para o rosto de Sloane.
– Sim. Eu.

Norra saiu da doca de pouso e encontrou uma base praticamente vazia:


nenhum trooper, só droides e alguns oficiais andando sem rumo. Na hora ela
pensou: É isso, esse é o fim do Império, eles só não sabem ainda, e, por mais
estranho que seja, um senso de desesperança se assentou nela e, com ele, uma
sensação de propósito perdido. O Império tem sido seu inimigo por tanto tempo
– o que vai acontecer quando desaparecer? É como apagar um fogo sugando
todo o oxigênio da sala. O fogo está apagado, mas como você respira?
No entanto, ela teve que pôr isso de lado, porque, como lembrou a si mesma,
ainda tinha um propósito. Encontrar seu marido. Encontrar Sloane. Num minuto
ela está caminhando pela base labiríntica, passando por uma sala de suprimentos
abandonada e esvaziada – e no próximo está virando um canto e encontrando sua
presa cara a cara.
Ela leva um segundo para reconhecer Sloane.
Leva ainda mais para perceber que seu marido está dizendo o seu nome.
No segundo seguinte, ela tem a pistola de raios erguida e apontada direto para
o rosto de Sloane. Imediatamente, quer apertar o gatilho e libertar os miolos da
mulher do crânio – um surto de raiva se ergue nela como um gêiser, como um
borrifo de ácido corrosivo. Nada de justiça. Só vingança. Mas Brentin firma sua
mão.
– Norra, não.
– Brentin – ela diz, pronunciando o nome não com alegria, mas com receio e
luto. – Tire a mão de mim. Por que está aqui? Por que está com ela? – Paranoia
se desvela na mente de Norra. De repente ela teme que ele ainda esteja
programado, ainda escravizado pelo chip embutido em seu tronco encefálico...
Ossudo aproveita a deixa e agarra o punho dele, girando-o com tanta força que
ele grita de dor. O droide pressiona o marido dela contra a parede.
– VOCÊ FERIU TEMMIN.
O droide B1 intensamente modificado começa a torcer o braço dele para trás,
para trás, até que Norra ouve ossos estalando e tensionando...
– Ossudo – ela diz, com uma censura relutante. – Pare. Só o segure.
– Norra – Brentin implora –, eu não estou com o Império, eu não quis fazer
aquelas coisas, nosso filho está bem?
Sloane, com as mãos erguidas, diz:
– Ele tem razão. Foi forçado a fazer aquilo.
– Cale a boca – Norra sibila para ela. – Vocês dois. Fiquem quietos. Não
temos tempo para conversa. O que vai acontecer é que vamos voltar para a
minha nave. Vamos sair daqui. E assim que abrir uma janela, vou levar vocês de
volta a Chandrila.
– Não sou eu que você quer – Sloane diz.
– Norra, ela tem razão...
– Quieta, grã-almirante.
– Olhe para mim. Eu pareço uma grã-almirante? Estou me esgueirando numa
base imperial com um rebelde. Norra, não seja idiota. – A essa palavra, Ossudo
estende seu outro braço, aquele que não está preparado para quebrar o membro
de Brentin, e estende seu vibropunhal escondido. Ele se ergue sob o queixo de
Sloane. Rasga a pele; a gota de sangue que se avoluma ali é como um pequeno
balão. – Eu... sinto muito por te chamar de idiota. Mas há mais acontecendo aqui.
– Norra, por favor. Escute o que ela tem a dizer.
Sloane continua:
– Há um homem chamado Rax que está no comando do Império. Foi ele quem
pôs um chip na cabeça do seu marido. Foi ele quem ordenou o ataque no Dia da
Libertação. Eu fui só uma... – Sloane se encolhe, como se fosse difícil para ela
admitir isso. – Eu fui só uma distração. Ele é o titereiro. Há alguma coisa além
dos cânions e das cavernas de Niima. Um vale. Rax está protegendo algo lá. Me
leve para lá. Podemos pôr um fim nisso.
A indecisão dilacera o coração de Norra.
Ela quer atirar no peito de Sloane. Ou esmurrar sua cabeça. Ou arrastá-la
pelos cabelos de volta à nave auxiliar. Ela quer beijar seu marido. E matá-lo. E
esganá-lo, e perguntar “por quê?”, e desculpar-se por deixá-lo para trás, e fingir
que nada disso aconteceu e que ela e o filho e o marido ainda estão em Akiva,
vivendo o melhor da vida.
Norra diz a si mesma: Sloane está mentindo. A mulher é uma enganadora
experiente. E Brentin está na coleira de qualquer que seja o chip de controle que
ela martelou em sua cabeça. No entanto, ela claramente está falando uma
verdade: Sloane não é mais uma grã-almirante. Ela foi trazida aqui como
prisioneira. O Império não considera Rae Sloane sua líder, nem mesmo um dos
seus.
E se ela tiver razão?
E se esse homem, Rax, for a resposta para tudo?
Norra diz a si mesma: Eu não tenho que me importar com isso. Eu posso fazer
o trabalho que vim fazer aqui. Capturar Sloane, salvar o marido e ir para casa.
Mas e se isso não consertar nada? E se Norra tem uma chance, uma chance,
de impedir o monstro real nos bastidores? E se esse Rax realmente for o mestre
titereiro que Sloane diz que é? Norra pode simplesmente... deixá-lo escapar?
– Vamos – ela diz.
– Norra, espere...
– É bom que você tenha razão sobre esse Rax – Norra diz. – Porque, se eu
descobrir que está errada ou me enganando, vou fazer meu droide aqui quebrar
cada centímetro de cada osso do corpo de vocês. Está claro?
Sloane sorri.
– Claro como o céu azul, Norra Wexley.
INTERLÚDIO
A Imperialis, 25 anos atrás

É a primeira vez que Galli sai de Jakku em dez anos, e é só a segunda vez no
total – pelo menos, que ele consegue se lembrar. Ele não sabe quem são seus
pais nem de onde eles vieram. Às vezes imagina que vieram de algum lugar
distante, um lugar de rios e florestas. Um lugar com um oceano. Outras vezes,
fica bravo com eles e pensa: Quem são meus pais não importa. Eles não são
tudo para mim. Eles não são nada para mim. Ele imagina, nesses momentos de
raiva, que eles são mercadores de poeira ou fazendeiros de areia de Jakku e que
será o seu maior prazer transcendê-los.
(É bem mais provável que eles estejam mortos.)
Agora ele se senta numa sala confortável, mais opulenta do que qualquer coisa
que já viu antes. Essa é a mesma nave na qual ele saiu de Jakku da última vez,
mas desta vez ele não é um clandestino. Não está escondido num espaço de
carga.
Ele está sentado em uma cadeira.
É a cadeira mais confortável na qual já se sentou.
Ele quer viver nesta cadeira. Por ele, Galli morreria nesta cadeira.
E morrer nesta cadeira pode ser, de fato, o que o aguarda. O homem a quem
esta nave pertence, um homem chamado Sheev Palpatine, é um enigma. Galli só
o viu uma vez, mas o homem tem assombrado seus sonhos desde então. Aquela
túnica escura, aquele rosto de lua esburacada. São só sonhos, é certo – no
entanto, eles parecem reais. Como se o homem estivesse realmente visitando
Galli de alguma forma durante aquelas poucas horas que ele consegue reservar
para o sono.
Ele conheceu os droides do homem também – alguns são droides protocolares
frios, outros assassinos, astromecs e escavadores que ajudaram a limpar o
terreno em Jakku. E ele falou repetidamente com um conselheiro: alguém
chamado Tashu.
Mas Galli só viu o homem uma vez.
E agora está prestes a ter o seu segundo encontro.
Ele teme que a morte seja o resultado. Ele tem sido usado para um propósito
e, agora, esse propósito acabou. O Observatório está construído. Galli fez o que
tinha que fazer para manter todos afastados. Ninguém descobriu o lugar, que
agora está enterrado sob as areias perto da Mão Lamentosa. Minha utilidade
acabou, ele pensa. O homem vai matá-lo. Parte de Galli encontra um conforto
estranho nisso. Outra parte pensa: Não, eu vou matar o homem primeiro. Embora
o homem tenha magia, magia real, e não os truques de salão dos anacoretas. O
modo como ele convocou areia à sua mão como uma serpente voadora...
Espere.
Ele está aqui.
Em pé, na porta. As mãos unidas sob as mangas longas da túnica negra como
a noite. Só metade do rosto pode ser vista sob o capuz. Naquele rosto, o garoto
vislumbra algo pavoroso – como se magia negra tivesse distorcido suas feições.
É um lembrete bom de que este homem tem um poder verdadeiro, diferente de
tudo que Galli já viu, e, assim, o garoto rapidamente abafa qualquer ameaça em
sua mente, caso o velho feiticeiro tenha a habilidade de extrair pensamentos
rebeldes de dentro do seu crânio.
Palpatine entra na sala, e, com um gesto suave, uma cadeira se move em
direção a ele – ela para e gira, acomodando-se em frente à própria cadeira de
Galli. O homem senta e começa a fazer outro gesto: a palma se ergue, como se
pedisse a um adorador para se erguer de joelhos. Galli não tem certeza se o gesto
é destinado a ele, mas logo vê que não – assim que a cadeira se move, uma mesa
se move também, erguendo-se de um portal telescópico no chão. A mesa não é
como nenhuma mesa que Galli já viu: sua forma é circular, mas ela tem um
tabuleiro quadrado entalhado no topo. Aquele quadrado maior está gravado à
mão com um campo de quadrados menores pretos e brancos, e nesses quadrados
há círculos de cores opostas.
Conforme a mesa se ergue, peças também se erguem desses círculos. Cada
ídolo é um entalhe, cruamente esculpido. Eles são simétricos de cada lado do
tabuleiro: cada lado tem o mesmo contingente de peças. Ele vê peças como
feras, como homens com chapéus largos, como guerreiros, como algo que pode
ser uma nave estelar. Também vê peças na extremidade de cada lado que não são
tão diferentes do próprio Palpatine – altas, mas curvadas, e usando túnicas
similares. A peça diante de Palpatine está usando uma túnica preta e tem um
rosto branco. A peça diante de Galli está vestida de branco e tem um rosto
escuro.
– Olá, Galli – Palpatine diz.
– Olá.
– Faz algum tempo.
Ele engole um nó na garganta. Seja forte. Você não é um garoto. É quase um
homem agora. Você é um vworkka, não um rato. Você matou por ele. Com isso,
ele empina o queixo trêmulo para parecer destemido e orgulhoso.
– Faz.
– Os artefatos estão no lugar. O núcleo foi perfurado. Os sentinelas e meu
conselheiro, Tashu, relatam que você tem sido muito leal a nós. – Ele respira
fundo e mostra os dentes amarelos num sorriso. – O Observatório chegou ao fim,
e seu tempo naquele planeta miserável também.
– Sim. – Lá vem, ele pensa. Sua morte o aguarda. Os dez anos que se
passaram desde que ele viu este homem eram só um adiamento do inevitável. –
Eu não quero morrer. – Ele diz não para suplicar, mas só para dizer. O homem
tem que saber.
– É claro que não. Você tem um destino. Aqueles com um destino estão
fadados a lutar pela vida, porque a vida e o destino estão irrevogavelmente
entrelaçados.
– E aqueles sem um destino?
O homem faz um gesto de descaso com a mão, branca como osso.
– Eles não sabem que anseiam pela morte, mas anseiam.
– Você vai me matar?
– Não é minha intenção.
– Então por que estou aqui?
– Como eu disse, seu tempo em Jakku acabou. Você cumpriu seu papel. Fez o
que eu pedi, e vou recompensá-lo com uma vida nova longe daquele lugar.
O coração dele dá um salto. Longe de Jakku...
– Eu vou voltar para lá?
– Hoje não. Talvez um dia.
– Eu não quero voltar nunca.
Um sorriso lento se alarga. Os lábios do homem são arroxeados. Como um
hematoma dividido no meio, de modo que língua e dentes possam emergir pela
fenda.
– No entanto, pode ser o seu destino. Essa parte não está clara. – Palpatine se
inclina para a frente, desenhando linhas invisíveis sobre o estranho tabuleiro com
um dedo. – Você conhece este jogo, Galli?
– Não.
– Não, imaginei que não conhecesse. É um jogo muito antigo. Shah-tezh,
nesta iteração, embora ao longo das eras eu o tenha visto gerar muitas variantes.
Dejarik. Moebius. Xadrez. Na maioria das iterações, os mecanismos centrais
permanecem.
– Vamos jogar?
– Sim. Mas primeiro eu preciso que você entenda não só como as peças se
movem, mas por que se movem. Não só como jogar, mas por que jogamos. –
Palpatine sorri. – Ouça com atenção.
Então Palpatine explica o jogo.
– No jogo de Shah-tezh – Palpatine diz ao jovem Galli –, o tabuleiro se chama
demesne e cada peça sobre o demesne tem a sua própria função especial e suas
manobras especiais. Cada jogador recebe uma de cada tipo. – Com uma garra
artrítica, o imperador gira uma peça que parece um homem excessivamente
magro usando um chapéu estranho em formato de pináculo. – O Vizir só pode se
mover na diagonal, mas não há limite de casas que pode andar. – Com a lateral
de uma unha amarelada, ele bate em outra peça: uma figura pesada e encapuzada
segurando algo que pode ser um fuzil ou uma lâmina longa; a abstração do
entalhe torna difícil dizer. Enquanto a unha faz click click click na peça,
Palpatine diz: – Este é o Cavaleiro. Ele é versátil e pode se mover duas casas em
qualquer direção. Distância limitada, mas liberdade de movimento.
Ele prossegue assim por um tempo, descrevendo uma peça após a outra: o
Pária, a Viúva, o Discípulo, o Conselheiro, a Fera, a Nave. Ele descreve como
elas se movem, a que função elas servem e até conta um pouco da história do
jogo (iterações posteriores, ele disse, removeram o Pária, pois o Pária era “uma
peça anárquica demais” e os jogadores buscavam um jogo “mais estável”).
Galli acompanha, sem ter certeza do que deveria estar aprendendo. Mas ele
presta atenção e nunca pisca, nunca afasta o olhar, temendo que tudo possa
desaparecer no instante em que fizer isso.
– Cada peça existe a serviço de outra peça. – Aqui, o professor ergue a última
figura do tabuleiro, a peça de túnica, semelhante ao próprio Palpatine. – O
Imperador. Todas as peças do demesne estão aqui para proteger o imperador. Se
o Imperador cair, o jogo acaba. Isso acontece independentemente de quantas
peças permaneçam no tabuleiro. Entende?
– Entendo.
– Então me diga o que isso significa.
Galli engole. Ele se concentra muito para decifrar a mensagem – a lição que o
imperador está tentando ensinar a ele. Ele pigarreia e diz:
– Significa que, sem o Imperador, o demesne não pode sobreviver.
Um sorriso se insinua no rosto do imperador, como um centípede rastejando
sobre uma parede rachada.
– Bom. Bom. Isso é correto. Isso é perspicaz. – O sorriso de repente some. O
rosto do homem se retorce numa careta de decepção. Venenosamente, ele afirma:
– Mas não é inteiramente correto. Não é simplesmente que o demesne não pode
sobreviver. É que aqueles que permaneceram não merecem sobreviver. – A voz
dele está carregada de raiva. O volume sobe e as palavras saem mais rápido à
medida que ele continua: – Elas têm um único papel. Esse papel é proteger o
imperador. Se um Império não consegue proteger seu imperador, então esse
Império deve ser considerado um fracasso. O Império entra em colapso não só
porque sua figura central sumiu, mas porque não se deve permitir que continue!
Ao final da bronca do homem, Galli tenta falar – e não consegue. Ele tenta
respirar – e não consegue. Ele aperta o pescoço e arranha a garganta; um
lamento estridente é o único som que escapa da sua boca. Seu rosto pulsa e
lateja. Sua visão começa a escurecer.
É isso. Eu vou morrer. Eu fracassei na lição.
Palpatine dá um aceno, e a pressão fechando a garganta de Galli desaparece
tão depressa quanto veio. O jovem arfa e tenta não chorar.
Palpatine estende uma mão e toma a de Galli com um aperto
assustadoramente gentil. A pele do homem é fina como papel. É quase afiada,
como se correr as mãos pela pele dele na direção errada pudesse rasgar a pessoa
como uma navalha.
– Enfurece-me – Palpatine diz com tristeza – pensar em um Império que
fracassou com seu imperador. Mas deve-se admitir que isso é possível. E, diante
dessa possibilidade, é sábio planejar um jogo longo. Chegou a hora de eu
examinar o resultado imperdoável e planejar de acordo com ele. Você é parte
desse plano.
– Como?
– Você, meu filho, é a Contingência.
– O que é isso?
– Há custos imprevisíveis que devem ser pagos. Você pode ser a pessoa que
terá que pagar esses custos, Galli. Isso significa que chegou a hora de se juntar
ao Império. Você vai me servir de qualquer forma que eu possa exigir, e, se tudo
der certo, vai permanecer como a Contingência. Se falhar comigo, então
encontrarei outro, pois esse papel tem um grande propósito e destino. Você será
o que eu preciso?
– Sim.
O sorriso dele retorna.
– Excelente.
– Mas não sei como.
– Ah. Isso virá com o tempo. Por enquanto: você gosta de ópera?
Capítulo
32

O garoto ruivo está sentado em uma nave sem vigias, então não pode ver as
dunas infinitas nem a guerra que ressoa ao redor deles. Tudo que vê agora são as
outras crianças: duas dúzias delas sentadas em bancos de cada lado da nave de
transporte, todas de branco, todas encarando a criança pequena como se ela fosse
um naco de carne, e elas, um bando de yenávoros salivantes.
Elas são famintas e selvagens, e ele tenta não tremer.
Mas, ao contrário, o garoto treme mais ainda.
A porta da doca de transporte se abre, e um homem entra no compartimento –
o garoto conhece esse homem: conselheiro Rax.
O homem se põe diante do garoto, olhando para baixo.
– Olá, Armitage.
– Senhor – o garoto ruivo diz, baixinho. – Olá.
– Seu pai explicou a você o que está acontecendo?
– Não, senhor.
– Hm. Suspeito que Brendol não goste muito de você.
Lágrimas roçam as pálpebras do garoto enquanto ele assente em
concordância.
– Suspeito que esteja certo, senhor.
– Ouça só você. O ápice de uma educação particular. Que evocação afiada de
palavras para um rapazinho. Mesmo com medo, você fala de modo claro e
direto. Bom trabalho, Armitage. – O homem suspira e se ajoelha. – Inicialmente,
eu não fui tão afortunado quanto você. Eu nasci aqui em Jakku. Neste mundo
horrível. Aqueles nascidos aqui já estão mortos, ou era o que eu pensava. Mas eu
renasci. Eu fui trazido para o Império pelo nosso falecido imperador e refeito. Eu
fui transformado de um selvagem esfregado de areia de Jakku em algo
consideravelmente mais civilizado. Porém, era como você em um aspecto: eu
também estava com medo.
– Eu estou com medo, senhor.
– Sim. Isso é sábio. O medo é útil quando nos guia, mas se torna perigoso
quando nos governa. Estou aqui para dizer a você o que vai acontecer. Nós
vamos levar esta nave para um local onde uma segunda nave aguarda. Você e
essas outras crianças serão levadas para muito longe. Seu pai vai junto, assim
como eu. Vamos nos encontrar no nosso destino. Juntos, vamos começar algo
novo. Vamos deixar tudo isso para trás. Entende?
O garoto não entende e admite isso.
– Não, senhor. Não completamente.
O homem ri baixinho.
– Não tem problema, Armitage. Tudo ficará claro um dia. Por enquanto, eu o
deixo com um presente.
– Que presente, senhor?
– Essas outras crianças, elas encaram você, não é?
– S... sim, senhor.
– Temo que elas queiram matá-lo. Elas querem arranhá-lo com as unhas.
Querem mordê-lo até que você se torne apenas pedaços irreconhecíveis. Se
tivessem a chance, iriam espancá-lo com simples pedras até que todos os seus
membros fossem apenas gravetos quebrados. Assim como eu já fui um selvagem
de Jakku, essas crianças são selvagens também. O trabalho do seu pai só
fortaleceu esse impulso. Ele as amolou do jeito como se amola uma faca.
O menino está verdadeiramente com medo. A necessidade de ir ao banheiro
cresce, e de repente ele tem certeza de que vai se molhar. E sabe também que,
quando fizer isso, as outras crianças vão saltar sobre ele ao comando do homem.
Vão cheirar sua fraqueza e massacrá-lo.
– Eu...
– O presente. Você quer saber sobre o presente. Aqui vai, Armitage: você vai
liderar essas crianças. Elas o servirão. E um dia, em breve, seu pai vai passar
todos os seus ensinamentos a você, e você vai aprender a fazer o que ele fez.
Será o trabalho da sua vida pegar crianças como esses selvagens e martelar suas
mentes maleáveis em qualquer forma que precisar. Elas serão ferramentas
construídas para o trabalho em questão. Esse é o meu presente a você, garoto.
Um dia seu pai vai morrer. Um dia em breve, eu temo. E você tomará o lugar
dele.
Então ele se ergue e fala com as outras crianças:
– Ouçam com atenção. Este garoto, Armitage Hux, comanda vocês. Vocês
farão como ele decidir. Vão dar suas vidas por ele se precisarem. Balancem a
cabeça se entenderam.
Todas elas assentem em uma simultaneidade que tanto perturba como
empolga Armitage.
– Obrigado – Armitage diz ao conselheiro Rax.
– O prazer é meu. O futuro do Império precisa de você. Agora fique sentado.
Estamos quase no Observatório. Nosso destino não está longe.
Com isso, Rax se vira e anda pelas fileiras de crianças até sair do
compartimento de transporte. A porta se fecha atrás dele.
Todas as crianças novamente se voltam para encarar Armitage. Ele teme que
tudo isso tenha sido o truque de um trapaceiro, uma peça pregada nele – elas não
vão escutá-lo. Ele não comanda nada nem ninguém. Elas vão rir dele e, como o
homem disse, vão espancá-lo, arranhá-lo, mordê-lo.
Ele inspira fundo e aponta para uma das crianças com um dedo trêmulo – é
um garoto como ele, mas com cabelo preto como piche e pele marcada pelo sol.
– Você – Armitage diz a ele.
O garoto não diz nada.
– Você concorda em fazer o que eu digo? – Armitage pergunta.
O garoto de cabelo negro assente.
Armitage fecha os dedos em punhos e se prepara.
– Eu quero que você bata no garoto à sua direita. Com força.
O garoto de cabelo negro se vira para um rapaz de cabelo arenoso, com
bochechas pálidas. Então ergue um punho e esmurra o outro garoto na lateral da
cabeça. O menino grita. Um filete de sangue verte de um pequeno corte na
bochecha da vítima.
Armitage sente um arrepio estranho e sinistro de empolgação.
Capítulo
33

Mais uma vez, a luz de Jakku pressiona com força os olhos de Sloane,
enquanto ela e Brentin são conduzidos por Norra Wexley e aquele droide insano.
Quando seus olhos se ajustam de novo, a primeira coisa que ela vê no céu é a sua
nave.
A Dilacerador.
Sloane sente uma dor profunda, como uma corda sendo dedilhada, a vibração
resultante zumbindo em sua medula. O arrependimento flui por ela como
veneno. Uma escolha se apresenta agora: ela pode fugir, ou dominar Norra, e
roubar uma nave. Ela pode levar essa nave até a Dilacerador. Ela pode pousar e
recuperar o controle. Não seria uma tarefa fácil, mas ela confia em sua
habilidade de cumpri-la. Então poderia tomar controle da sua nave e
simplesmente... ir.
Não seria um ato de covardia, mas de sobrevivência. A Dilacerador é um
superdestróier estelar – um couraçado de proporções imensas. É, por si só, uma
cidade voadora gigante. Tem espaço suficiente para reunir um remanescente
poderoso do Império. Tem os armamentos para resistir a uma frota inteira –
como está fazendo agora mesmo, rechaçando a armada da Nova República. Ela
poderia pegar a Dilacerador. Poderia salvar uma pequena porção do Império e
voar para as estrelas com aquela nave imensa. Com ela, Sloane poderia começar
de novo.
O Império poderia começar de novo.
Mas isso significaria pôr sua vingança de lado.
E isso é algo que ela não pode fazer. A sede de vingança é como um gancho
em sua bochecha e a está atraindo miseravelmente em sua direção, puxando,
puxando, puxando.
Rax arruinou tudo. Ele tocou o Império com uma mão imunda, e rastros
poluídos da sua traição estão por todo lado, corroendo tudo que ela ama. O
Império para Sloane era uma entidade de ordem e disciplina. Significava manter
a estabilidade em uma galáxia caótica. Era derrotar a incerteza e oferecer um
jeito de fazer as coisas: um esquema, uma espinha dorsal, um caminho para
todos seguirem se quisessem estar a salvo.
E agora é isso. Um remanescente selvagem e brutal, como uma lança
quebrada enfiada na areia. Os troopers se transformaram em bandidos comuns.
Os oficiais estão assombrados e sobrecarregados. Este é um lugar primitivo e os
transformou em seres primitivos. O Império que ela ama desapareceu. A
revelação a atinge de novo, e, agora, pela última vez.
No seu coração, ela abandona a Dilacerador.
Assim como abandonou Adea Rite.
E assim como está abandonando todas as suas esperanças para o futuro do
Império.
A arma de raios de Norra a cutuca nas costas.
– Quer continuar andando? Não temos tempo para turismo, almirante.
– Só Sloane – ela diz. – Não sou mais uma almirante. – Só uma rebelde como
você. Ela continua se movendo em direção à nave auxiliar.
E em direção à sua vingança.

A cadeira de Ackbar gira de estação a estação enquanto ele examina o mapa


da batalha – seus enormes olhos gelatinosos voam de uma tela para outra,
analisando a situação. E a conclusão não é ideal.
Devia estar sendo mais fácil. A frota da Nova República é maior. O Império
estava em declínio. Em teoria, é uma vitória fácil...
No entanto, até agora, tem sido tudo menos fácil. Eles já perderam um
contingente de corvetas. Duas fragatas foram derrubadas. Incontáveis caças
estelares caíram sob o enxame de TIE que ocupam o vácuo.
É claro, o almirante Ackbar é um estudante da história, e em muitos casos
forças menores e menos poderosas foram mais fortes e espertas que as
superiores. A frota Sonda Fantasma contra a armada Sith. Os Mandalorianos
contra o Grande Exército da República. E, claro, a Aliança Rebelde contra o
Império.
A história é cheia de exemplos de forças menores derrotando outras mais
fortes. E isso pode acontecer aqui também se eles não forem inteligentes e
cautelosos.
O Império mudou de tática – eles estão lutando de um jeito brutal e caótico
inédito em seu repertório. Uma fragata quebrou no meio quando um único
bombardeiro TIE bateu de frente na ponte que conectava as duas metades da
nave. Eles empregam suas armas em todas as direções. Seus ataques não
apresentam lógica – as antigas manobras imperiais, tão previsíveis e típicas, ou
estão sendo propositadamente ignoradas ou só foram esquecidas. Isso dá à
defesa deles um aspecto desesperado e perigoso. É, para ser sincero, difícil de
combater. (Ackbar supõe que foi também exatamente o que tornou sua própria
frota tão difícil de derrotar como rebeldes.)
O outro componente é aquele maldito couraçado. Tem dez vezes as cargas de
armamentos de um único destróier estelar – sua sombra é mais profunda e larga
do que a escuridão do espaço além dela. Os destróieres menores o circulam,
afastando-se apenas o suficiente para permitir que torpedos e turbolasers atirem
no espaço, danificando a frota da Nova República enquanto protegem o
couraçado. É como uma colmeia cuidando de sua rainha. Mas, se matarmos a
rainha, a colmeia morrerá.
No momento, três das melhores naves da frota estão avançando sobre a Frota
Imperial a fim de derrubar aquele couraçado – a União, a Amizade e a
Concórdia. Essas três starhawks, com suas extremidades dianteiras como
machadinhas arredondadas, têm o objetivo de abrir uma brecha no bloqueio de
destróieres estelares do Império – mas simplesmente não estão conseguindo
passar. Estão emaranhadas com os destróieres enquanto tomam fogo da
Dilacerador, aceitando todo o impacto enquanto ganham pouca vantagem.
Ele considera falar com Agate para discutir uma nova estratégia.
Mas isso terá que esperar, já que o holograma do general Tyben aparece.
Tyben é um homem de ombros estreitos, a cabeça tão quadrada e calva quanto
um cubo de gelo (e é quase tão pálido quanto um também). Suas feições estão
contorcidas de preocupação.
– Relatório? – pergunta Ackbar.
– As forças terrestres estão tendo algum sucesso, almirante – Tyben responde.
O holograma vacila, o que não é incomum dado o caos da batalha. Há muitas
frequências e fontes de energia capazes de interromper a transmissão. –
Empurramos a linha de frente deles, quilômetro a quilômetro. Podemos chegar à
base até o cair da noite. Isto é, se conseguirmos conter nossas perdas. Estamos
sofrendo uma hemorragia de vidas. O Império está lutando menos como o
Império e mais como uma força insurgente, almirante. Eles assumem riscos.
Sacrificam seus soldados. É um pandemônio, mas eles parecem estar usando isso
em sua vantagem, não prejuízo.
– Estamos experimentando algo parecido aqui em cima – Ackbar rosna. – Mas
não tivemos tanta sorte quanto você; ganhamos pouco terreno. Continue
forçando. Se tiver sucesso na superfície, isso pode nos dar uma vantagem aqui.
Tyben assente e hesita antes de dizer:
– Eu devia estar aí.
– Você é mais útil em Chandrila, a distância. – E é mesmo. Ackbar disse à
chanceler para manter um dos melhores estrategistas militares deles em reserva,
seguro com ela. Ele a alertou de que Jakku poderia ser um truque: uma tentativa
do Império de provocá-los a atacar, deixando tanto Chandrila como Nakadia
vulneráveis a outro ataque. Isso significava dividir as forças deles e manter a
segurança alta nos planetas da Nova República. Mesmo assim, parece ter sido
uma preocupação falsa. Não houve nenhum sinal de ameaça ainda. – Seus
homens no chão estão sendo liderados pelo tenente-general Brockway.
– Mas comigo presente...
– Não temos tempo para isso, general Tyben. Eu agradeço sua preocupação e
as notícias. – Ackbar desliga a transmissão holográfica, então se vira para abrir
um canal para Agate. Mas sua mão membranosa hesita, fixada sobre o console,
enquanto ele olha pela vigia para a ponte da Lar Um.
Seu sangue se torna frio como sal quando ele observa a tragédia se desenrolar.
Um dos destróieres estelares – a Punição – vira drasticamente de frente para
estibordo. Ele vai direto para a starhawk Amizade. E a Amizade tem pouco
espaço para manobrar, dada sua proximidade tanto à Concórdia de Agate como à
batalha rugindo ao redor.
É suicídio, Ackbar pensa. Ele acredita que deve ser um acidente, mas parece
ser deliberado. O nariz da Punição é como uma lâmina ceifadora e bate na
extremidade arredondada da Amizade, atravessando-a. Fogo desabrocha no
espaço. Corpos flutuam. E a Punição continua em frente. Propulsores queimam
na extremidade traseira e repulsores se acendem dos lados – o destróier se torna
uma arma enquanto corta a starhawk no meio; destroços de ambas as naves
explodem em todas as direções enquanto raios refulgem entre as duas naves
destruídas.
A própria nave de Agate está bem no meio de tudo.
Ele abre o canal depressa.

Tudo se estreita em um único ponto. Agate ouve Ackbar no ouvido e está


levemente ciente da presença dele em azul holográfico à sua direita. Ele está
avisando sobre o campo de escombros indo na direção dela, mas não precisa
informá-la sobre isso. Ela os vê nas suas telas: uma centena de pontos vermelhos
piscando como olhos furiosos no escuro. Cada um é um pedaço de escombros, e
cada pedaço dispara até ela como uma arma – os destroços não são de uma nave,
mas de duas.
Essa onda de destruição chegará aqui em menos de três minutos.
Ela grita para Spohn fortalecer os escudos a bombordo. Mas sabe que eles só
vão suportar até certo ponto. Todos aqueles fragmentos são demais.
– Abandonar a nave, Comodoro! – Ackbar ruge. – Isso é uma ordem.
– Sim, senhor – ela diz, soando como se estivesse a mil anos-luz de distância.
É assim que acaba, ela pensa. Seu retorno à guerra acabou tão rápido quanto
começou. A estratégia de força bruta deles para quebrar o bloqueio de
destróieres estelares chegou ao fim. A Amizade foi destruída. A Concórdia não
vai durar. Ela rosna para o oficial de comunicações alertar a União – eles têm
espaço para manobrar, para sair de alcance. Não só a Concórdia vai criar seu
próprio campo de destroços, mas com aquele destróier estelar e as duas
starhawks abandonando o campo, a União vai ficar vulnerável a ataques do
imenso couraçado esperando no centro de tudo.
Abandonar a nave.
Ela dá o comando. É a coisa certa a fazer. E eles vão ter que agir depressa – e
o pior é que só podem usar as cápsulas de fuga a estibordo. Caso contrário, serão
lançados diretamente na onda de destroços.
Luzes vermelhas pulsam. Buzinas soam. Há uma agitação ao redor dela
enquanto as pessoas da ponte fazem o que foram treinadas para fazer, dirigindo-
se de modo eficaz e eficiente para as saídas – a tripulação de comando tem
cápsulas de fuga próprias à pouca distância da ponte.
O olho artificial dela foca nas telas. Ela corre um dedo, avançando
rapidamente pelas consequências esperadas – o computador dá uma previsão do
resultado mais provável. Os destroços vão prejudicar, mas não destruir a
Concórdia. Vão, entretanto, deixá-la aberta a um ataque do couraçado. E
próxima como está do topo da atmosfera de Jakku, a nave provavelmente vai
mergulhar em direção à superfície, batendo em areia e pedra. Eles vão perder a
Concórdia de um jeito ou de outro.
Spohn agarra o cotovelo dela.
– Comodoro, é hora.
– Vá – ela diz. – Estarei logo atrás.
Mas é uma mentira.
– Comodoro...
– Eu disse para ir. Eu vou em seguida.
Ackbar começa a se perguntar o que ela está fazendo. Ela desliga a
comunicação com ele. Sinto muito, almirante. Mas ela percebe uma coisa:
Se a destruição da Punição e da Amizade deixaram a nave dela sujeita a um
ataque do couraçado...
Então também deixa o couraçado sujeito a um ataque pela Concórdia.
Ela tem a oportunidade que buscava.
É uma oportunidade à qual provavelmente não vai sobreviver. Mas os custos
da guerra são altos, mesmo na vitória. Esse tem sido um de seus princípios
orientadores e reguladores. É uma realidade dura que influencia tudo o que ela
faz em combate.
A mão dela não treme mais. Está firme, talvez graças ao primeiro momento de
certeza que ela experimenta há um bom tempo. Quem diria.
Ela usa a mão agora estável para acelerar a Concórdia, de modo a aproveitar a
lacuna na barricada do destróier estelar, avançando com ímpeto em direção ao
couraçado. Sobre sua cabeça, luzes piscam de vermelho para verde: cápsulas
sendo lançadas uma após a outra à medida que o seu pessoal abandona a nave.
Bom. Vão. Fiquem a salvo.
Ela tira um momento para olhar ao redor. Está sozinha. Como uma pequena
ilha no centro de um lago calmo e silencioso.
Suas telas se acendem. Como esperado, o couraçado está atacando
furiosamente – bem quando destroços das duas naves erradicadas começam a
atingir a Concórdia. As luzes se apagam, depois se acendem, depois se apagam
de novo. A nave chacoalha e balança como um brinquedo na mão de uma
criança descuidada.
Do console da ponte, Agate passa para os consoles de armas. Prepara tudo que
eles têm, cada peça de artilharia que esta nave possui.
Se trouxeram o inferno à minha porta, eu o trarei à sua.
Ela dispara tudo. Bancos de turbolasers. Torpedos de íons. Mísseis
concussivos. Faixas brilhantes de morte atravessam a escuridão. Linhas idênticas
– fogo, castigo, calor – são lançadas da Dilacerador em direção a ela. Como
raios de luz buscando uns ao outros. Mas passam uns pelo outros em vez disso,
cada um dirigindo-se à frente para um ato de destruição, não de criação.
A Concórdia ruge e vai de encontro aos disparos, mesmo quando seus escudos
defletores começam a falhar de um lado. A nave pende a estibordo. Destroços
perfuram o casco. Os motores falham. De alguma forma, ela mantém a nave se
movendo.
A esperança é um fogo que se extingue depressa dentro dela. Ela vê a fúria
liberada pelo couraçado – a previsão mostra a Concórdia perdendo essa luta. Os
disparos dela não são páreo para os da Dilacerador. A Dilacerador é uma fera
que não pode ser saciada. Ela vai danificá-lo. A que ponto, não sabe dizer; mas,
se ela o abrir para ataque... Ela tenta calcular mentalmente. Se abrir um buraco
do lado daquela coisa, vai ter algum efeito, mas não o suficiente. E se os outros
destróieres estelares fecharem o vão e protegerem os danos feito à Dilacerador?
E depois?
Lá fora, através dos arcos de vidro que lembram catedrais, ela vê as armas
vindo em sua direção.
É o fim.
Mas então: Agate tem uma ideia nova.

A guerra traz seus momentos de inevitabilidade. Uma nave destruída. Uma


horda atacante. Uma ferida mortal. O pior tipo, Ackbar pensa, são os momentos
em que você vê seus amigos morrerem. Especialmente quando acontece devagar,
tão devagar, como se todos os momentos que levassem àquele fossem estendidos
e alongados, como imagens lampejando em sua mente.
Este é um desses momentos. Agate interrompe a comunicação, e ele vê a
Concórdia arder intensamente e se mover em direção ao couraçado, enquanto
tanto ela como a monstruosa Dilacerador disparam tudo o que têm uma contra a
outra.
O problema é que as armas da Dilacerador são muito mais potentes do que as
de uma única starhawk. As armas da starhawk são prodigiosas e melhores até do
que as que ele tem na Lar Um. São o ápice da tecnologia deles: armamentos de
ponta. Mas, sozinhas, não têm chance de danificar o couraçado.
E vão se destruir a serviço desse ato.
Agate ainda está a bordo. Ele sabe disso. Ela vai afundar com a nave – um
gesto dramático que ele espera que tenha um propósito por trás. Ackbar suspeita
que ela se sinta na obrigação de comandar cada momento entre o agora e o seu
fim, que deve ser a sua mão conduzindo a nave e sua rajada de disparos.
Mas a starhawk faz um desvio inesperado.
A Concórdia pende bruscamente para estibordo, manobrando com rapidez
para virar esse lado para o ataque iminente. O bombordo já está danificado pelo
campo de destroços. Deixar que o lado a estibordo receba os ataques – os
escudos já falharam, Ackbar vê – pode não destruir a starhawk de uma vez, mas
vai afundá-la. Os motores já estão danificados. A atmosfera vai agarrar aquela
nave como lama grudando na bota de um soldado.
Um holograma se acende no console dele.
É Agate.
– Agate! Saia dessa nav...
– Almirante, ouça. Ordene a todos que puderem que disparem na popa
daquele couraçado. Destrua os motores dele. Mande todos os caças estelares,
todos os CR90, qualquer um...
– Comodoro, eu ordeno que abandone essa nave.
– Almirante, literalmente me dói negar a sua ordem. Mas, por favor, confie em
mim. Ouça o que estou dizendo. Os motores!
Pela vigia e na tela, ele vê a rajada da Dilacerador se aproximar da
Concórdia.
– O que você está fazendo? Atingir aqueles motores... A Dilacerador não está
se movendo. Os motores não são onde devemos concentrar nosso ataque...
– Só confie em mim.
– Comodoro...
– Obrigada, almirante. Foi a maior honra.
– Kyrsta!
Então ela some de novo.
Só confie em mim.
A guerra traz consigo seus momentos de inevitabilidade, sim. Mas também
comporta o oposto: momentos de grave incerteza superados apenas por atos de
fé cega. Quando eles dizem um ao outro Que a Força esteja com você, é
exatamente isto que estão dizendo: um desejo de que, quando chegar a hora de
saltar no vazio e tomar uma decisão baseada em instinto e confiança, você seja
recompensado por esse ato, não punido. A esperança é que, se encontrar a
galáxia na metade do caminho, ela o encontre na metade também e o carregue
pelo resto do trajeto. Ackbar decide confiar e saltar.
E rezar para que a Força esteja com todos eles.

A troca de destruição é intensa. A rajada da Concórdia atinge a Dilacerador,


abrindo um buraco na lateral da nave gigantesca com a ferocidade de um rancor
mordendo e rasgando. O dano é preto e profundo, mas não fatal. E as próprias
armas do couraçado atingem a Concórdia, ultrapassando o que restou dos
escudos defletores e atravessando-os diretamente. Oxigênio é expelido no vácuo.
Fogo desabrocha à medida que substâncias químicas são liberadas no espaço. A
nave solta um gemido. Em algum lugar da sua barriga, explosões começam –
células de combustíveis e baterias magnéticas sofrendo uma reação em cadeia,
boom, boom, boom. Não vai explodir a nave inteira. Mas vai estripá-la.
A nave está morta na água.
E sem os repulsores de baixo mantendo-a suspensa, a atmosfera de Jakku é
como uma mão estendida que tenta reivindicá-la. Ela sente a nave se deslocar
para baixo devagar.
Mas as starhawks foram projetadas com uma coisa em mente: atualização. Os
rebeldes tiveram que lidar com uma frota envelhecida e fragmentada por tanto
tempo que, quando chegou a hora de finalmente projetar algo novo para servir a
República nascente, eles reformularam tudo. Cada sistema interno, cada recurso
do design exterior, cada arma – tudo foi atualizado além do padrão determinado
pelas naves mon cala anteriores e até das capacidades conhecidas das naves
sobreviventes do Império.
Um dos recursos que tiveram o maior aumento de capacidade?
O raio trator.
A função do raio trator é simples: apanhar um objeto no espaço, geralmente
uma nave, a fim de conduzi-lo de modo seguro para uma doca de pouso ou para
apanhar a nave e puxá-la para perto. Os raios tratores em um destróier estelar
eram notoriamente terríveis, com força para arrastar uma corveta corelliana até
sua doca – ou para impedir que uma fragata nebulon desse o salto para a
velocidade da luz.
O raio trator na starhawk tem dez vezes essa potência. Cristais de magnita
ampliaram tanto o alcance como a força do raio. Uma starhawk pode capturar e
mover uma nave com muitas vezes o seu tamanho.
Agate aciona o raio trator e o aponta para a Dilacerador.
E atira.
Se eu cair, ela pensa, você vem comigo.

O grão-moff Randd está sentado em um assento na ponte da Dilacerador. Até


agora, ele se sentiu no controle supremo desta batalha. A Dilacerador é uma
nave cujo poderio é atualmente incomparável na Frota Imperial, e ter recebido o
seu comando por Rax em pessoa é uma honra que ele não vai desperdiçar. Suas
forças rechaçaram a frota da Falsa República dos rebeldes toda vez – embora ele
não seja um grande estrategista, tem muitas mentes brilhantes trabalhando para
ele, e o plano delas de formar um perímetro de naves ao redor do couraçado foi
lógico.
Até agora.
As três naves forçando a barreira – starhawks, como ele acredita que sejam
chamadas, fabricadas para a Falsa República – foram mantidas nas margens,
embora os destróieres estelares estivessem sendo atingidos por seus disparos.
Então algo aconteceu com a Punição. O oficial no comando daquela nave,
capitão Groff, apareceu em pânico: ele disse que o destróier estava sofrendo um
vazamento de refrigerador dos geradores de escudo que estava se espalhando
pelos níveis superiores. Em algumas áreas, estavam despontando incêndios. Ele
parecia praticamente ensandecido – esse era um fator com o qual Randd estava
preocupado há muito tempo. Vir a esse planeta desolado, esse sistema afastado,
trouxe consigo a possibilidade de exaurir a alma dos homens. Poderia erodir uma
mente mais fraca. Quando explicou esse temor ao conselheiro Rax, o homem
disse: Não se preocupe com isso. Os imperiais que vieram a Jakku são os
melhores do nosso pessoal. Eles não vão quebrar. A dureza deste planeta só vai
nos fortalecer. Vamos endurecer como calos, Randd.
E foi isso.
Em Rax eles confiavam.
Randd ainda confia nele. Eles sobreviveram até agora. E sem dúvida Rax é
admirável, capaz, um verdadeiro herói do Império. Randd é fã de uma vida de
restrições e dificuldades, e usar Jakku para endurecer o coração deles para a luta
que viria era, para ele, genial.
Mas agora... o que ele mais temia estava acontecendo.
Groff perdeu a cabeça. Disse que não vai abandonar sua nave. A Nova
República iria torturá-lo e executá-lo. Seu próprio pessoal se viraria contra ele.
Ele estava espumando de raiva, gritando de repente sobre como a Nova
República era composta de traidores e que todos mereciam a morte como
cachorros e que eles não deviam dar qualquer trégua, nenhuma trégua. A última
coisa que disse foi:
– Eu devo ser uma lâmina mais forte! Uma... uma lâmina com a qual cortar a
garganta dos traidores que rastejam até a nossa porta!
Randd reconheceu a frase do discurso do conselheiro Rax.
Os comunicadores de Groff foram desligados depois disso.
Então ele bateu a Punição na starhawk mais próxima.
Isso levou a uma cadeia de eventos que até agora Randd não entende
completamente – destroços das duas naves atingiram uma segunda starhawk, e
ele pensou que essa certamente ficaria fora do jogo. Mas não. Aquela nave
acelerou na brecha diretamente em direção à Dilacerador, atirando todas as suas
armas, e, portanto, Randd exigiu que eles devolvessem fogo com tudo o que
tinham – disparando todo o sistema de artilharia que tinham na starhawk que
avançava, uma nave que agora se identifica como Concórdia.
A Concórdia virou-se de lado e suportou os disparos, assim como a
Dilacerador aguentou os dela. A nave estava afundando. Ele não precisava dos
seus sistemas para confirmar. Seus olhos lhe diziam tudo o que precisava saber.
Enquanto isso, a Dilacerador estava bem – danificada, sim, e agora mais
vulnerável, mas ele redirecionou força aos defletores para ampliar a proteção
naquela fenda e...
E a coisa mais estranha aconteceu.
A Concórdia prendeu o couraçado com um raio trator.
Randd não é um homem com tendências humorosas – sua esposa, Danassic,
acredita que ele ri uma, talvez duas vezes ao ano. Mas naquele instante ele quase
riu. Por que, em todo o espaço e tempo, a capitã daquela starhawk achou
apropriado prendê-lo com um mero raio trator? Talvez para se salvar da queda da
atmosfera? A Dilacerador servindo como âncora? Ele odeia contar a ela, mas a
gravidade é uma amante cruel. Ela toma tudo o que quer e não aceita recusas.
De repente, a Dilacerador se move.
Ela se move, mas Randd não ordenou que se movesse.
– Relatório – ele rosna, sua voz calma se tornando esganiçada de súbito, como
a de um garoto que acabou de ganhar pelos no peito. – Relatório!
Ali perto, o vice-almirante Pierson aparece, com suor se formando na testa.
– A starhawk nos afixou com um raio tra...
– Sim, eu sei disso. Como estamos... – A nave se movimenta de novo. – Como
ela está nos movendo?
– Eu... eu não faço ideia, deve ser potente...
– Fortaleça nossos motores. Reverta o rumo! Repulsores de fog...
Alarmes soam. A nave balança de novo – dessa vez, a sensação é diferente.
Como se alguma coisa a estivesse atingindo.
Os olhos de Pierson se arregalam.
– Eles estão concentrando o fogo na nossa popa.
As telas mostram um ataque repentino de caças estelares de todos os tipos
contra os motores deles. Se perderem os motores...
– Motor cinco está desligado! – um alferes grita.
– Agora os submotores três a seis! – um oficial de engenharia grita.
A Concórdia está tentando nos arrastar para Jakku. A audácia.
– Dispare todas as armas contra aquela starhawk...
– Senhor – Pierson responde –, o sistema de armas vai entrar em ciclo em dois
minutos. Nós já os atingimos com tudo que tínhamos, seguindo suas ordens.
– Então mande TIE atrás dela!
– Mas eles estão protegendo nosso flanco. Os motores!
De novo, a nave chacoalha. Mais forte, dessa vez. Quando acontece, é como
tentar mover algo pesado sem sucesso até que, de repente, o objeto cede – a
Dilacerador desliza e mergulha com tanta força que a mandíbula de Randd se
fecha com tudo, os dentes se cerrando com força sobre a língua. Ele sente o
gosto de sangue e xinga.
– A atmosfera – Pierson diz. – Estamos entrando na atmosfera, senhor.
– Fortaleçam os motores! Fortaleçam os repulsores! Fortaleçam tudo!
Mas, na sua cabeça, Randd conhece essa dança: é tarde demais. A
Dilacerador está acabada. Ele desperdiçou sua chance, e, agora, a esperança
morreu. A maior arma do arsenal do Império está perdida por causa dele. Um
temor óbvio o atormenta: Devia ser Rae Sloane nesta cadeira, não eu.
O negócio é que Randd não é um sicofanta. Ele não é um fanático. Admira
Rax. Confiou nele. Mas não será crucificado por isto.
No caos do momento – as luzes piscantes, a nave chacoalhando, a agitação na
ponte –, Randd se esgueira, entra numa cápsula de fuga e se lança no espaço.

A Concórdia segurou a nave maior com seu poderoso raio trator e a arrasta
para a atmosfera. Caças da Nova República disparam nos motores da
Dilacerador, um depois do outro, repetidamente, num circuito repetitivo de
fogo, enquanto dois CR90 mantêm os TIE afastados. A União, a última starhawk
remanescente, recuou a uma distância segura e está usando seu considerável
arsenal para dar cobertura à Concórdia, bombardeando os destróieres estelares
próximos com tudo o que tem.
Então a starhawk pende consideravelmente quando a atmosfera a beija, a parte
de baixo da nave brilhando com o calor súbito da reentrada.
O Esquadrão Lâmina relata que o último motor principal da Dilacerador está
apagado. Só os submotores permanecem, e eles não vão salvar a nave.
A extremidade dianteira do couraçado segue a starhawk primeiro, entalhando
uma linha no topo do céu onde o preto se torna azul como um hematoma – uma
aura de fogo começa a brilhar ao redor da ponta da Dilacerador.
Ackbar assiste à queda dos dois titãs.
A Concórdia vai primeiro. Agate provavelmente permanece a bordo. Ela não
está respondendo às mensagens dele, mas uma varredura da starhawk mostra que
nenhuma cápsula está intacta, e as docas dos caças estão vazias ou destruídas.
Ela não tem como sair daquela nave, e é tarde demais e arriscado demais
resgatá-la.
Conforme a starhawk mergulha, ela arrasta a Dilacerador junto. Como um
cavaleiro puxando sua montaria na direção da beirada de uma cascata, cada vez
mais perto...
Até que os dois mergulham no espaço e caem no céu. Até que a gravidade
envolve cada um e os arrasta inevitavelmente para baixo.
Ackbar agarra o comunicador e avisa os que estão abaixo:
– Soldados e pilotos da Nova República! O couraçado Dilacerador está
caindo sobre Jakku! Cuidado com os destroços e encontrem cobertura!
Ao redor dele, vêm os vivas daqueles na ponte da Lar Um enquanto observam
a nave colossal ir cada vez mais rápido em direção a Jakku. Mas Ackbar não
comemora. Ele assente em silêncio e murmura uma prece rápida à Força,
pedindo que proteja aqueles abaixo, sob os gigantes caídos, e, além disso, que
aceite Kyrsta Agate em si.
Eu estou pegando o jeito.
Em Akiva, existem insetos que voam sobre a água – poliasas, são chamados –,
que voejam sobre a superfície, mudando de rumo em um estalar de dedos. Eles
voam para um lado e para o outro, apanhando moscas menores do ar e
capturando-as no trajeto com uma mordida.
Temmin quer ser como esses poliasas. É assim que vê o seu X-wing. Ele vira
o caça estelar rápido como um raio, ziguezagueando para que os TIE não o
vejam se aproximar. Seu coração está batendo tão rápido no peito que ele tem
medo de que tente abrir um buraco. Seu sangue ruge como um rio nos ouvidos.
Um arrepio efervescente o eleva a alturas quase atordoantes. Ele é encorajado,
também, pelo fato de a mãe estar viva. E de Ossudo a estar protegendo.
Este é um bom dia, ele pensa. A Nova República vai vencer esta guerra.
Minha mãe está viva. Meu melhor amigo está aqui. E eu estou num X-wing! E
não estou morto! Ele gargalha como Koko com o microfone ligado. Koko
gargalha de volta enquanto os dois cruzam um na frente do outro, cuspindo
lasers e se desviando de caças TIE.
Um surge no encalço de Wedge, e Temmin morde o lábio para conter o sorriso
que ameaça se abrir em seu rosto.
– Líder Fantasma, você tem um inseto nas costas. Deixe que eu o afasto pra
você.
Wedge abaixa o X-wing sobre uma ravina vermelha seca, ultrapassando um
esquadrão de soldados da Nova República que se protegem nas sombras da vala.
Os TIE disparam no espaço atrás do X-wing do Líder Fantasma, e Temmin
pensa em entrar num ângulo oblíquo – caso contrário, arrisca acidentalmente
acertar Wedge com seus disparos de laser. Ele vira à esquerda, depois vira a
ponta da nave para a direita de novo...
O TIE aparece na sua mira. Mas Temmin não precisa de telas. Ele atira, e os
quatro canhões em suas asas estendidas disparam lanças de plasma...
Mas nunca encontram seu alvo.
Temmin dá um grito quando um pedaço de metal preto bate logo à sua frente,
separando-o da sua perseguição oblíqua ao TIE. O pedaço atinge o chão e ergue
uma nuvem de poeira vermelha. Temmin tira a nave do rumo pretendido,
virando o X-wing bruscamente para desviar de outros escombros.
Maldição, isso parece um pedaço de nave. Uma turbina, pelo visto. O
comunicador dele rosna com a voz do almirante Ackbar:
– Soldados e pilotos da Nova República! O couraçado Dilacerador está
caindo sobre Jakku! Cuidado com os destroços e encontrem cobertura!
A Dilacerador caiu?
Ele comemora quando sua alegria delirante se torna ainda mais intensa. Com a
Dilacerador fora do jogo, um enorme buraco na Frota Imperial será aberto.
Aquele monstro era tudo que o Império tinha. Se não existe mais...
A Nova República acaba de ganhar esta batalha.
E, talvez, a guerra toda.
Agora só falta a limpeza.
Wedge ainda está sendo seguido por aquele inseto, então Temmin leva o X-
wing para a direita de novo, procurando o Líder Fantasma na mira – ah, lá está
ele, bem em frente, movendo-se sobre um trecho plano onde a areia se parece
com ondas congeladas no espaço e no tempo. Ele avista Yarra chegando pelo
outro lado e pensa: Okay, Yarra, vamos ver quem vai explodir esse monstrinho
primeiro.
Ele mira seu disparo...
Bam! Algo atinge sua nave com força, e no segundo seguinte ele está girando
como um parafuso. Seu cérebro se obriga a acompanhar a cabeça enquanto ele
espirala sem controle, e, através de cordas de eletricidade estalante, ele vê que
suas asas foram cortadas de um lado – elas sumiram!
Eu vou cair.
Fui atingido.
Mãe...
Ele puxa o manche e endireita a nave bem quando o X-wing cai de barriga na
poeira, beijando a superfície de Jakku e mandando uma onda de areia atrás dele.
A nave desliza, triturando e silvando – a cabeça de Temmin é jogada com força
para um lado e para o outro, batendo no vidro blindado das vigias da cabine,
chacoalhando seu crânio e deixando-o atordoado.
A cabine se separa com um estouro, e ele tateia as bordas do assento,
puxando-se para fora. Temmin rola sobre a beirada do X-wing, aterrissando no
espaço onde as asas deviam estar. Seu ombro cai em pedra. Ele se vira e arfa,
nauseado.
Quando finalmente olha para cima, vê o que o derrubou.
A duas dunas de distância, esmagando um par de ailerons-X, há um punho de
metal do que parece ser uma starhawk. Uma starhawk? Achei que a Dilacerador
tinha sido atingida...
E tudo começa a cair.
Meteoros feitos de naves quebradas começam a perfurar o chão. Cada vez que
atingem a superfície, Jakku tosse outro gêiser de areia. Temmin grita com a
cacofonia de sons – a bateria ressoante do planeta sendo atingido, o sussurro de
areia se erguendo e caindo de volta sobre si mesma, as explosões distantes. Seus
ouvidos zumbem, e Temmin aperta as mãos sobre eles.
Ele arrisca olhar para cima, para ver se consegue avistar o resto do Esquadrão
Fantasma. Mas, assim que faz isso, a luz é bloqueada. O dia se transforma em
noite em questão de segundos.
É a Dilacerador.
O colosso imperial flutua diante da luz, eclipsando o sol. Outra nave o precede
– é a starhawk. Fogo é expelido da lateral da nave da Nova República; tornados
de chamas crepitam de buracos na nave.
Ele pensa: Vai cair em cima de mim. Não há para onde fugir. Não há nenhum
lugar onde estarei a salvo. Mas o pânico diminui quando ele percebe que sua
perspectiva está incorreta. Sim, a nave é gigante, mas não está caindo aqui. Vai
despencar a dezenas de quilômetros de distância. Mas o que vai atingir? Quem
vai destruir? O seu pessoal está naquele lado. O inimigo também. Essa é a linha
de frente imperial – o combate está acontecendo bem ali. Temmin puxa o
comunicador do pulso e começa a balbuciar nele, dizendo a todos para ir, se
mexer, sair do caminho, mas o dispositivo subitamente crepita e cospe faíscas
antes de morrer.
Um som sai dele: um gemido baixo e temeroso. Ele nunca viu nada assim na
vida. Ele se pergunta se foi assim que sua mãe se sentiu voando para dentro da
Estrela da Morte – e então escapando e a vendo detonar atrás de si.
A Dilacerador se esforça para permanecer no ar – ele consegue ver, mesmo na
semiescuridão do dia eclipsado, como embaixo da nave os propulsores se
acendem de tempos em tempos, trabalhando desesperadamente para tentar evitar
que ela caia de ponta no chão, mas não conseguindo impedir a queda.
A nave se move inescapavelmente em direção ao solo, inclinando-se com
força para o lado.
A starhawk cai primeiro. Voom. Temmin corre até a duna mais próxima e
observa a nave de linha da Nova República bater na areia, sendo esmagada como
se um gigante tivesse pisado nela – ele vê um andador AT-AT se movendo para
longe do local do impacto o mais rápido possível, o que, da posição dele, parece
terrível e dolorosamente lento. E não vai importar, no fim.
Sem a starhawk, o raio trator é cortado e os propulsores da Dilacerador
passam a compensar demais – a nave começa a se inverter, virando-se de barriga
para cima enquanto cai.
A Dilacerador é atingida em seguida. Ela despenca amplamente, não
lancetando o chão, mas caindo plano contra ele, de ponta-cabeça. O AT-AT não
tem chance. Nem os caças estelares presos na sombra do couraçado antes que ele
caia. Ninguém tem. É como assistir ao teto cair sobre um quarto de brinquedos
de uma criança. A Dilacerador abre um sulco na areia, e o impacto balança o
mundo todo – a vibração se propaga em uma onda monstruosa, fazendo areia
subir junto à onda de choque, e derruba Temmin quando atinge o local onde está.
Novamente seus ouvidos zumbem. Tudo vibra: seus dentes, seus dedos, todos os
seus ossos. Ele se esforça para se levantar...
E não consegue mais ver a Dilacerador.
Uma nuvem de poeira de proporções colossais foi lançada para o céu. Uma
bigorna de fumaça negra se ergue. Uma onda escura se estende a partir daquele
ponto.
Está vindo em direção a ele. A poeira vermelho-sangue se incha e encapela,
rolando para a frente como uma onda de morte e desespero. Temmin volta
desesperadamente para dentro do X-wing derrubado, entrando na cabine e
fechando-a com força enquanto a poeira e a areia lavam a nave. Ela traz o ruído
branco de mil sussurros raivosos ao seu redor, contra o vidro, contra a nave.
E dura pelo que parece uma vida inteira.

– Saia daí! – Norra ruge. – Deixe que eu piloto.


– Eu sei pilotar – Sloane rosna do assento do piloto, os dedos brancos de
segurar o manche da nave auxiliar. Ela leva a nave para dentro e para fora de
uma chuva de destroços enquanto cada pedaço cai ao chão como um cometa. –
Eu sou uma piloto boa pra caramba. Escapei de você, não se lembra?
Norra se lembra. Ela cerra os dentes e se agarra à alça acima da cabeça,
enquanto Sloane leva a nave através dos destroços em queda. Brentin está
sentado no assento do copiloto, o rosto pálido, os olhos fechados. Ele nunca
gostou de voar. Parte dela quer confortá-lo; outra parte quer pegar a arma de
raios dele e bater o cabo na sua cabeça até ele arranjar um pouco de juízo.
Ossudo está em pé atrás dela, estabilizado sem segurar em nada.
Ela está prestes a dizer mais alguma coisa...
Quando o dia se torna noite. O olhar de Sloane se ergue. Ela ofega: um som
rouco e desesperado.
– Não. Minha nave.
Essas três palavras transmitem tanto luto que Norra não pode evitar ser tocada
por elas. É absurdo, talvez, ficar tão apaixonada e conectada a uma nave, mas
Norra entende. Ela não teve uma longa carreira naquele Y-wing, mas no pouco
tempo que teve passou a amá-lo como Temmin ama aquele droide.
Os olhos de Norra se afastam da Dilacerador para a nave que o precede – é
uma das starhawks. Ela não sabe qual, mas o medo a devora como ácido. É a
Concórdia, não é? Norra não conhece Kyrsta Agate muito bem, mas a mulher
foi gentil com ela quando não precisava ser. Sua reputação era de ser dura, mas
ter empatia – não só pelo seu próprio povo, mas pelo inimigo também. Norra
torce para ver Agate de novo.
A starhawk atinge a superfície de Jakku, e instantes depois a Dilacerador a
segue. Ela cai com força. O choque ergue uma onda e balança a nave. Norra tem
um pensamento distante e desconectado no qual não pode focar para que não a
destrua: Quantos morreram? Quantos morreram na nave? Ou embaixo dela,
quando caiu? O pensamento é acompanhado pela sensação de vitória no
coração, que lhe diz que a Nova República pode ter terminado esta guerra. É
uma dicotomia grosseira ter esse sentimento; ela já o teve antes e o terá de novo.
O coração triunfante lutando com o luto nascido da guerra.
Norra se controla. A luta dela não acabou. Nada disso acabou. Sloane parece
se controlar também. A ex-almirante tensiona a mandíbula e determina o rumo
do voo, afastando-se da Dilacerador.
– Nuvem de poeira chegando – ela avisa.
Está lá fora, uma tempestade veloz derramando-se sobre eles. A nuvem está
acesa com raios biliosos. Há o estrondo de um trovão.
Sloane puxa a nave auxiliar para longe, mas a nuvem ainda os envolve. Nesse
momento, a nave balança para a frente e para trás, atingindo marés de
turbulência que quase fazem Norra perder o equilíbrio. Através da tempestade de
poeira, ela vê nuvens pretas se erguendo enquanto pilares de fogo e raios
iluminam o ar. Então a onda some, passando por eles e se dissipando. O ar ainda
está sujo com matéria particulada, mas eles podem ver o horizonte de novo.
Ossudo subitamente se enrijece. Sua antena brilha em uma luz verde, bipando.
– O MESTRE TEMMIN ESTÁ PRÓXIMO.
– O quê? Onde?
– ABAIXO. POSSO IR?
Norra sabe que se ele for ela ficará vulnerável. Se seu marido ainda é escravo
do chip de controle e tomar o lado de Sloane contra ela, ela não tem certeza de
que conseguirá sobreviver. Mas se Temmin realmente está perto... e talvez em
perigo...
Então não é nem uma escolha.
– Vá.
Ossudo corre, os pés com garras batendo no metal enquanto abre a rampa na
barriga da nave. Ela o vê mergulhar, encostando a cabeça bicuda no peito e
envolvendo os braços com muitas articulações ao redor dos joelhos antes de sair
rolando da nave em direção a Jakku.

Quando a tempestade passa, Temmin novamente abre a cabine e emerge –


embora a onda tenha se dissipado, uma poeira translúcida ainda paira no ar, e ele
tosse e pisca ao cair no chão e cambalear na areia. O que acontece em seguida
são alguns momentos de um silêncio quase sinistro: o mundo imóvel nos
instantes após o impacto.
Então, em algum lugar ao longe, há uma explosão – dos destroços da
Dilacerador, ainda por cima. Sobre o couraçado, espectros negros de fumaça se
erguem, e aquelas nuvens escuras pulsam com um brilho intermitente. Um fedor
de metal queimado e combustível gasto faz arder o nariz dele. Depois disso,
retornam os sons da guerra: guinchos de raios e motores de caça rugindo acima,
pulsos concussivos e detonações de granadas. Soldados gritando. O silêncio
acabou. De novo ele tosse, encolhendo-se. A distância, avista um contingente de
soldados de elite da Nova República entrincheirados atrás do sulco de areia
criado por um transporte arruinado. Troopers avançam sobre eles. Temmin
pensa: Eu devia fazer alguma coisa. Eu devia ajudar.
De um ponto próximo, vem o som de um pistão pneumático e os passos
pesados de algo muito familiar: um andador AT-ST. Ele vê sua cabine brutal
atingir a crista da duna mais próxima, seus canhões o rastreando – Temmin sabe
que não pode derrubar aquele negócio, então saca a arma de raios e corre na
direção oposta, os pés o levando sobre uma duna e por baixo de outra, enquanto
os canhões do negócio certamente rastreiam seu movimento...
De repente, ele está correndo a toda velocidade na direção de um trio de
troopers do deserto, sua armadura arranhada, os sulcos e as articulações cobertas
de poeira.
Eles erguem as armas de raios, e ele derrapa até parar, erguendo a dele.
Os troopers não dizem nada a princípio. Isso já o deixa nervoso – soldados
imperiais seguem um protocolo. Eles têm um padrão. Avisam você. Ordenam
que abaixe a arma. Como se estivessem num programa.
Mas, desta vez, eles não seguem nenhum protocolo. Ficam em silêncio.
Atrás dele, o AT-ST escala a duna com passos pesados. Sua sombra cai sobre
Temmin, uma sombra tão condenatória que é como se tivesse seu próprio peso.
Temmin engole com força, sentindo o suor escorrer pela mandíbula, o pescoço, a
clavícula.
– Eu...
– Cale a boca – o trooper do meio diz. Seu capacete tem um amassado duro na
superfície de plastoide. Ele tem uma dragona sobre o ombro direito, vermelha e
escura como um carvão quente. É o líder. – Escória rebelde.
– Vamos nos divertir com esse aqui – diz o trooper da direita, a frente do
capacete pintada com listras cinza.
O da esquerda tira o capacete. O rosto com papadas e uma barba áspera de um
homem está por baixo, inflamado de raiva. Ele aponta a arma de raios.
– Vamos arrancar pedaços dele. Um por um. Mãos. Orelhas. Cada joelho. Ver
quanto tempo ele fica vivo. Daí o AT-ST pode acabar com ele. Dissipar seus
átomos.
Aquele com as dragonas diz:
– A gente precisa ser rápido e voltar para a batalha.
– A batalha acabou – Listras Cinzas diz. – Vamos nos divertir.
Ninguém está ouvindo o líder.
Ninguém está ouvindo ninguém.
Eu vou morrer.
Rosto Barbado olha para cima.
– Ei, o que...?
Wong.
Temmin gira e vê algo aterrissar como um caranguejo sobre o crânio de cabine
do AT-ST. Esse algo ergue a cabeça, selvagem e vermelho, expondo um conjunto
de dentes serrados feitos à mão.
Ossudo!
Os troopers abrem fogo, mas Ossudo é rápido – rápido demais para eles. O
droide agarra a borda do AT-ST, pendurando-se como um macaco-lagarto antes
de se jogar na areia, pousando num agachamento. Disparos de raios preenchem o
espaço onde ele estava um segundo atrás, enquanto ele gira, faz piruetas e
começa a se mover sobre as mãos na areia. Plasma cozinha o ar à medida que ele
desvia de cada lança de luz ardente. Braços são puxados para trás. Punhais
espetam.
Ossudo começa o serviço. Ele entra embaixo do líder de dragonas, enfiando
um vibropunhal sob o queixo do capacete com um estalo surdo. O corpo do
homem estremece, e sua arma de raios cai. O droide B1 modificado gira ao redor
do cadáver ainda em pé como se fosse um poste, chutando e empurrando Listras
Cinzas para trás. Enquanto aquele trooper cai, Ossudo salta no seu peito e – bam,
bam, bam – perfura a armadura repetidamente com os punhais. Os calcanhares
do homem chutam o chão.
Rosto Barbado grita para que o AT-ST atire, e ele atira – explosões altas dos
seus canhões golpeiam a areia, errando Ossudo por pouco, mas mandando o
droide para trás, com os membros estendidos. O trooper barbado ergue o próprio
fuzil para atirar em Ossudo, e Temmin se lança sobre o homem. Seu ataque é
desengonçado e óbvio, mas o stormtrooper sem capacete não está prestando
atenção – Temmin bate a própria arma de raios nas têmporas do soldado e o
homem tomba como uma árvore. Unnff.
Ossudo se ergue de novo, dando piruetas para fugir dos canhões do AT-ST. O
andador segue seu rastro, mas sua cabeça é lenta demais e o droide, rápido
demais. O guarda-costas mecânico de Temmin retorna ao lugar onde pousou,
subindo depressa pela perna do andador, metal batendo em metal, até atingir o
topo novamente.
O droide se esforça, seus servomotores moendo e os pneumos guinchando
enquanto ele arranca o topo do AT-ST, lançando a portinhola atrás de si. Ossudo
enfia os pés silenciosamente na cabine do andador.
Então começam batidas e sacudidelas. O andador balança para a frente e para
trás de leve. Leva dez segundos, não mais, até que Ossudo emerja usando um
dos capacetes de rosto aberto dos pilotos, com um par de óculos de segurança
com lentes pretas pendendo na frente das próprias lentes oculares do B1.
– OLÁ, MESTRE TEMMIN.
Temmin cai de joelhos, aliviado.
– Ossudo, senti saudades, amigo.
– EU SENTI SAUDADES TAMBÉM. EU PRATIQUEI VIOL...
De repente, o topo do andador irrompe em fogo e estilhaços, explodindo.
Temmin é jogado para trás, expelindo ar dos pulmões numa lufada. Ele afasta a
fumaça da frente do rosto e esfrega a areia dos olhos; quando ela se dissipa, ele
vê o andador ali na frente...
Só tem duas pernas agora. A cabine está descascada como uma flor de metal
aberta, suas pétalas de hiperaço queimadas e chamuscadas.
Ossudo não está em lugar nenhum.
Ossudo. Não, Ossudo, não...
Ele grita, perguntando-se o que aconteceu – o andador detonou sozinho? O
droide fez algo para que ele explodisse?
Então dois A-wings aparecem pairando e passam velozes.
Foram eles. Eles atiraram no andador.
E em Ossudo.
Temmin rasteja nas mãos e joelhos, procurando partes do seu droide – ele
encontra membros carbonizados e derretidos. Encontra rebites e sucata. Mas não
vê mais nada. Nada de crânio. Nada da placa-mãe. Ele puxa areia nas mãos, mas
ela escapa pelos dedos e não resta nada. Ossudo salvou sua vida e agora se foi.
Seu melhor amigo está em pedaços.
Temmin pressiona a testa contra a areia quente e chora.
Capítulo
34

– Você não tem que fazer isso – Conder diz.


Sinjir dá um suspiro lamentoso.
– Aparentemente, tenho. Trabalho é trabalho e... ah, deuses, eu tenho um
trabalho novo. Qual é o meu problema?
Os dois estão diante do cruzador ganoidiano do senador Tolwar Wartol.
Felizmente, a nave está aqui em Chandrila de novo e eles não precisaram dar um
pulinho rápido naquele Planeta de Fazendas Blá Blá Chato, Nakadia – ou, pior,
ao arquipélago de asteroides acima de Orish que Wartol e os seus chamam de lar.
Sinjir não se importa com o motivo de estar de volta a Chandrila; a conveniência
o satisfaz, e ele é sobretudo um homem que aprecia facilidades.
Conder faz aquela cara – um biquinho meio duvidoso. Uma sobrancelha
erguida, os lábios curvados, os quadris inclinados.
– Não quis dizer isso especificamente. Quero dizer o pacote todo. O trabalho,
Chandrila, eu.
– Você? Não estou entendendo.
– Você não tem que ficar comigo. O destino nos colocou juntos outra vez,
mas... nós não temos que fazer isso.
– Ah, temos, sim. – Sinjir segura o rosto barbado do homem, fazendo uma
carícia gentil e, então, um tap-tap-tap afiado. – Meu caríssimo tolinho, todo o
meu tempo longe passei pensando sobre como te odiava, e eu te odiava porque
gostava muito de você. Demais, na verdade. É nojento o modo como me sinto
sobre você. É como... – Sinjir faz uma careta, como se tivesse chupado um
dedão sujo. – Não é natural para mim. Mas eu percebi que não sei de que inferno
estou falando. Minha cabeça é idiota. Meu coração sabe tudo. Eu quero o que
quero. O que quero é uma vista para a praia, uma taça fria de alguma coisa que
me deixe muito bêbado, e você. Você, você, você, seu tolo nobre de rosto
peludo. Então, se isso significa me tornar minimamente mais respeitável e entrar
no serviço da nossa estimadíssima chanceler, é isso que será feito.
– Você não é do tipo que se acomoda.
Sinjir revira os olhos com tanta força que teme que possam sair rolando da
cabeça.
– Bah. Quem disse que estou me acomodando? Acomodar-se é algo tão
passivo. Acomodar-se é uma lesma Hutt se sentando. Eu estou me acomodando
desde Endor. Me acomodando com o que quer que apareça no meu caminho.
Geralmente um banco de bar, para ser sincero. Você, este emprego, esta vida...
tudo isso é uma montanha. E eu pretendo escalá-la até o topo.
Conder sorri. Sinjir destrói esse sorrisinho com um beijo forte – as mãos atrás
da cabeça do outro, puxando a cabeça do homem para a dele.
– Bem – Conder diz.
– Bem. – Sinjir se vira para o cruzador. – Acho que chegou a hora. – Aos seus
pés, está uma cesta de fruta pta; olhar para ela o faz lembrar de novo de como
admira a chanceler. Não por toda a liderança e o governo, que é bom e tudo
mais, mas pelo veneno potente que ela claramente esconde por trás daquela
fachada tediosa de túnica branca. Ela é um galho cruel, um verdadeiro açoite de
ser humano, e ele acha que eles podem ter um relacionamento profissional longo
e fascinante.
– Ainda acho que Tolwar é sujo.
– Não posso afirmar nada sobre o asseio dele.
– Não, quero dizer... acho que ele é corrupto.
Sinjir dá de ombros.
– É claro que é corrupto. Ele é um político.
– Aquela escuta no droide de Leia? Foi ele que plantou. Eu não consegui
rastreá-la até ele, mas ele foi o único que ganhou com a informação. Tinha que
ser ele, Sinjir. Tenho certeza.
– Suspeito que tenha sido. Ele usou aquilo para ganhar uma vantagem política,
não criminosa. Os Orishens são quase excessivamente nobres, enlouquecidos por
um senso de honra agressivo. Alguma baboseira sobre sacrifício, alguma
bobagem de um pai severo contando ao filho como é difícil lá fora. – Ele faz
uma expressão de escárnio. – Eu desprezo como eles nomeiam a si mesmos.
Tolwar Wartol. Vendar Darven. TimTam TamTim. Era de imaginar que seriam
mais originais.
– É cultural.
– Bem, isso não é desculpa.
– Vá – Conder diz. – Entregue sua fruta. Seja tão educado quanto conseguir.
Não comece um incidente intergaláctico.
– Esses eu deixo para Jom.
– Divirta-se no trabalho, querido.
– Obrigado, boneca. E, se me chamar de “querido” de novo, vou arrancar essa
barba do seu rosto pelo a pelo com fisgadas. – Ele faz a mímica com a mão, caso
Conder não entenda.
– Você é tão romântico.
– Meu coração é um ninho seco de pássaros mortos. – Ele se inclina para
beijar a bochecha áspera do homem. – Tchau, Con.
– Tchau, Sin.

Wartol está sentado. Imóvel como o campanário de um antigo templo. À


frente dele, há uma xícara de alguma coisa com um cheiro amargo:
provavelmente algum tipo de velho suco de raiz que os Orishens consomem.
Vapor se ergue dela.
Ao redor, o cruzador ganoidiano está decorado do jeito Orishen: severo,
esparso, quadrado, desagradável. Sinjir gosta. É silencioso também. Nenhum
segurança. Nenhum piloto. Ninguém, exceto o senador em pessoa.
Ele coloca a cesta no chão.
– Um presente da chanceler.
– Você é o ex-imperial. – A voz de Wartol tem um timbre profundo e vibrante.
– E você é o candidato a chanceler que foi enganado vez após vez, inclusive
por uma mulher ruiva com uma única fruta passada. Opa.
As narinas fendidas do senador se franzem com irritação enquanto sua
mandíbula se abre gentilmente, antes de se fechar de novo.
– Você trabalha para ela agora? Você é um sintoma. Entende isso, não
entende? Um sintoma de uma doença maior e mais pestilenta.
– Conte mais.
– Um imperial trabalhando para a chanceler? Todo aconchegado com ela?
Minha nossa, que cosmopolita. Sua presença infectou o processo. Você está
sussurrando no ouvido dela, certamente. Ah, mas eu lhe dou crédito demais.
Você não vai conduzi-la. Ela vai conduzir você. Ela vai conduzir todos nós. Mon
não precisa que você afine o código moral dela, porque já é mais fino que cuspe.
Mon Mothma é fraca. Ela vai destruir essa República se deixarmos. Pessoas
como você ao lado dela só vão apressar esse fim. Vamos piscar e, um dia, a
República terá caído; o Império vai sair da sombra dela e suavemente tomar o
seu lugar.
Sinjir considera segurar a língua, mas, de verdade, qual seria o propósito? A
chanceler sabia no que estava se metendo quando enviou justamente ele. Se você
pede a um cão que encontre um osso, pode contar com alguns buracos cavados
no jardim. E não é como se as frutas pta fossem uma mensagem sutil, não é?
Não, ela queria que Wartol se irritasse um pouco. Sinjir cuidará disso para que
ela não tenha que cuidar.
Ele diz:
– É irônico, sabe? Você fica falando que teme outro Império, mas é você que
me lembra todo autocrata imperial, todo oficial que liderava pela intimidação e
que pensava que o melhor jeito de comandar seria por meio de atos de
severidade, de um desfile de crueldade só para recordar aos homens que mmm, a
vida é dura e você deve ser mais duro ainda. Eles falam sobre sacrifício, mas
nunca realmente sacrificam coisa nenhuma, ah, não, porque são eles em cima da
bota pesada amassando o pescoço, não embaixo dela. Você quer guerra. Você
quer defesa. Você é um predador que vê todo o seu povo como carriças-leves
indefesas. E você vai salvá-los se eles desistirem da noção fantasiosa de que
podem se liderar, de que podem se proteger.
– Você não entende nada.
– Enquanto isso – diz Sinjir, realmente entrando no clima agora –, sua
oponente é uma mulher que quer estender a democracia à toda a galáxia.
Liberdade para todos. Opressão para nenhum.
– É ingênuo.
– Talvez. Mas, a esta altura, prefiro ficar do lado da ingenuidade preciosa dela
a apoiar sua bravata autoritária. Aproveite a fruta, senador. Vamos mandar um
suprimento para a vida toda como consolo quando perder a eleição.
Sinjir põe a cesta sobre a mesa.
Quando faz isso, percebe três coisas.
Primeiro, que Wartol nunca se ergueu. Isso é estranho. É praxe se levantar e
cumprimentar convidados, não importa o quanto você os despreze,
especialmente entre os Orishens, que seguem o protocolo à risca.
Segundo, a mão esquerda de Wartol segura a xícara de suco escuro e quente –
mas a direita nunca esteve acima da mesa. Repousa abaixo dela.
Terceiro, na superfície da mesa do outro lado onde o Orishen está sentado, há
um anel leve de umidade. Como que de uma xícara deixada ali, uma xícara que
suou sua condensação ou vapor no topo da mesa.
O olhar de Sinjir se vira para ela, então para Wartol. O senador o está
observando. Wartol viu o seu olhar. É necessário, talvez, reconhecer isso.
– Tivemos um convidado? – Sinjir pergunta.
– Não é da sua conta, imperial.
– Não, não é. Você tem razão. – Ele está na defensiva, o senador. Sinjir
conhece linguagem corporal, e grande parte dela transcende espécie, sexo, idade.
Não é só que Wartol está escondendo alguma coisa, é que o que ele está
escondendo entrou sob suas placas de pele, aninhando-se lá como crias de
minhoca. Ele está incomodado com isso. Não quer que seja descoberto. Então
Sinjir decide que ele vai cutucar essa ferida e ver o que sangra. – Mesmo assim.
Não quer me contar? Somos amigos, não somos? Eu não conto para ninguém.
Wartol não diz nada. Ele mal se mexe. Sinjir permanece onde está, meio
inclinado sobre a cesta de frutas. O silêncio é um muro entre eles.
Então a parede estoura. Wartol dá um chute para trás, erguendo-se e
estendendo a mão – a arma de raios em seus dedos parecidos com garras. Sinjir
encara a boca daquela pistola, uma arma de raios de cano gordo com a ponta
arrebitada de fabricação Kanji...
Como a que criminosos usam.
... e a arma dispara, mas Sinjir se vira para o lado, inclinando o rosto para
baixo enquanto o tiro acerta a parede oposta da sala de estar do cruzador. Ele não
tem nenhuma arma em mãos (Maldição, Sinjir, você sempre deve trazer uma
arma quando está metido com um político), então agarra o que está mais
próximo.
A cesta.
Ele enfia os dedos longos sob ela e a vira com força em direção ao Orishen.
Wartol a afasta com um tapa. Frutas voam para todo lado. Atravessando um
borrifo de suco pta, Sinjir ataca o homem – então o ar se acende de novo e algo
bate em Sinjir com força, jogando sua cabeça para trás. Ele cheira a sangue
chamuscado e cabelo queimado. Tudo passa depressa enquanto o mundo gira
embaixo dele. Seus olhos ficam vesgos. Eu levei um tiro. Um pensamento
absurdo, porque ele tem quase certeza de que levou um tiro na cabeça, o que não
é um bom jeito de viver e é, na verdade, um ótimo jeito de morrer.
Wartol cambaleia até ele, uma forma borrada enquanto a visão de Sinjir luta
para encontrar clareza. A arma de raios é erguida de novo...
Os dedos longos de Sinjir tateiam o chão, encontrando algo ali, úmido,
pegajoso, cheio de sementes...
– É tarde demais – Wartol diz. Misterioso. O que é tarde demais?
A arma de raios dispara. Sinjir rola para o lado quando um clarão de energia
quente cava um buraco no chão ao lado da sua cabeça. Um zumbido estridente
toma conta de seu ouvido, sua bochecha está quente, e o outro lado da sua
cabeça parece úmido...
Ele ergue a mão e joga o que quer que estivesse nela.
Uma fruta pta acerta inutilmente o rosto de Wartol. Ela bate na cara dele.
Escorre. Cai de novo no chão. A mandíbula dele se estende e se projeta para a
frente, e o senador solta uma lufada de ar para cima, desalojando suco pta das
suas fendas nasais e testa.
– A fruta não vai te salvar.
Sinjir diz:
– Não. Mas te distraiu, não distraiu?
Wartol solta um som confuso, quase animalesco – nngh? –, no instante em que
uma arma de raios dispara e o acerta no ombro. Ele gira como um pião de
brinquedo e bate contra a própria cadeira. Sua xícara do que quer que seja verte
em cima dele e se estilhaça. A pistola cai. Conder dá um passo à frente, com a
arma de raios em mão, e pisa nele.
Com um deslizar veloz do pé, manda a arma de raios girando até Sinjir, que a
pega e se ergue, atordoado.
– Eu levei um tiro na cabeça? – ele pergunta a Conder.
Os olhos de Conder se arregalam em choque, e sua boca forma um “O”
alarmado. Bem, acho que isso responde à pergunta. A mão de Sinjir voa para o
lado da cabeça – e sai úmida do seu próprio sangue. Parte dele já foi cauterizado,
tornando-o viscoso nos dedos. O disparo passou pela lateral da cabeça,
entalhando um sulco que começa na têmpora.
– Sin, acho que você vai ficar bem...
– Vou ficar bem. Meu lindo cabelo, não tanto. – Ele avança e assoma sobre
Wartol. – Você. Explique-se.
– Morra, escória imperial.
Sinjir aponta a arma de raios e atira no joelho do homem. Ele berra.
– Agora, estou considerando não matar você, porque sou um dos bonzinhos
hoje em dia e tenho que manter as aparências. Mas vou te fatiar até que não
sobre nada além de uma cabeça falante e balbuciante. Por que sacar uma arma de
raios? O que você está escondendo?
– Eu te disse, é tarde demais.
– O que é tarde demais?
– Eu não posso impedi-lo agora.
Sinjir atira no outro joelho. Wartol ruge, sentando-se de repente como um
livro sendo fechado. Ele aperta o joelho enquanto sangue roxo borbulha entre os
dedos.
– Impedir quem? Do que você está...
Primeiro, ele pensa que o som distante é um trovão. Mas o trovão é um ronco
baixo, como uma barriga expressando sua fome. Este som é mais surdo, mais
profundo, e único. Um boom duro e trêmulo. Uma explosão.
– O que você fez, Wartol? O que você fez?
A risada de Wartol se dissolve numa confissão balbuciante:
– Sacrifícios são necessários, imperial. Às vezes uma doença é tão
desenfreada que você precisa cortar membros para salvar o corpo. Como em
Orish. O Império era um câncer na galáxia. Assim como Mon Mothma era um
câncer na República.
Era um câncer.
Era.
– Você não fez isso – Sinjir sibila.
Mas Wartol simplesmente chora – não de luto, não, mas do que Sinjir vê que é
claramente alívio.
Conder recua e ergue a manga – por baixo não há nada tão pequeno quanto
um comunicador, mas, em vez disso, há uma manopla tecnológica inteira. Com
ela, ele consegue slicear entradas ou droides de programa ou uma série de coisas,
mas também consegue acessar várias transmissões: HoloNet, controle de órbita,
NRN Notícias e, é claro, transmissões de escritórios de segurança locais. Ele
acessa a frequência...
O ar se enche de estática, que se define em uma voz.
– ... código quatro-dois-quatro, repito, código quatro-dois-quatro, relatos de
uma explosão na torre norte do prédio do Senado. Código quatro-dois-quatro...
Sinjir pensa não, não, não, não é possível. Ele corre para a porta e desce a
rampa até a doca de pouso. Todas as docas de pouso ficam no alto, sobre a costa,
e desse ponto é fácil ver o centro da cidade de Hanna, onde fica o prédio do
Senado.
Assomando sobre esse prédio fica a torre onde se localiza o escritório de Mon
Mothma. Onde Sinjir estava apenas algumas horas antes.
Um buraco foi explodido do lado dela. Mesmo daqui ele pode ver como
cinzas e destroços estão pairando no ar, como a parede de permacreto branco
está chamuscada, coberta de fuligem e línguas de fogo. A fumaça se ergue como
um demônio em fuga.
A chanceler. Ela estava lá...
Ele a deixou lá sozinha...
Sinjir se vira e entra de novo. A pistola erguida. Atravessa a área de estar com
passos largos, passa por Conder e se joga no peito de Wartol. Ele aperta o cano
da arma de raios Kanji com tanta força na testa do homem que quase quebra as
placas duras que revestem sua cabeça.
– Você a matou.
– Mandei matar – Wartol diz, rouco.
– Vai pagar por isso.
– Faça. Me mate. Eu não tenho mais carreira. Mas me sacrifiquei para fazer
uma galáxia melhor. A chanceler Mon Mothma não será mais capaz de espalhar
sua mancha corrosiva sobre a Nova República emergente. – Wartol empurra a
cabeça contra a arma. – Puxe o gatilho! Covarde!
Sinjir ruge e afasta a arma de raios. Seu peito ofega enquanto a raiva flui tão
quente dentro dele que é como uma estrela se queimando. Mas ele resiste.
– Você não vai morrer hoje. Você vai a julgamento. Vai à prisão. Vai ver seu
nome e seu povo arrastados diante de todos nós como traidores covardes.
Ele olha para Conder. O homem assente de leve. É uma pequena concessão:
um pontinho de luz em um dia subitamente escuro. Mas é tudo que tem, então
ele se agarra a isso com toda a força.
INTERLÚDIO
Desgoverno da Liberdade

O couraçado não é mais a Aniquilador. Não é mais chamado assim porque


essa não é mais sua função. Agora ele serve como nave de linha em uma nova
nação se formando nas margens da galáxia, no Espaço Selvagem e além. O nome
da nova nave: Desgoverno da Liberdade. Esse nome significa algo diferente para
cada um que o ouve, mas Eleodie Maracavanya – líder pirata desta nave e desta
nova nação ainda sem nome de depravados e canalhas – escolheu o nome em
primeiro lugar porque, sinceramente, elu gosta do maldito som. Mas também
porque significa que a nave não é mais usada para destruir. Agora é usada para
criar: um novo governo, uma nova nação, uma armada de piratas que tomam
butins iguais em um esforço para criar algo duradouro.
A maior parte dos piratas pega o que pega para viver e lutar outro dia. Eles
pegam os butins para sobreviver ou desperdiçar.
Mas Eleodie quer algo maior. Melhor. Algo eterno. O Império está morto, e a
Nova República não consegue se governar. Isso abre espaço – o ar soprando
entre os tijolos onde Eleodie pode entrar e sair como um respiro, escondendo-se
nos espaços intersticiais, crescendo como um exército de fantasmas.
No momento, elu está diante de uma das milhares de escotilhas da
Desgoverno da Liberdade, olhando sobre sua nação heterogênea de naves – uma
nação sem planeta, mas que talvez nunca precise de um. As estrelas são nossa
nação, elu pensa. Nós cintilamos como mil sóis, nossos corações tão negros
quanto o vácuo onde viajamos. Ao lado de Eleodie está a garota, Kartessa. O
cabelo dela está raspado até o crânio, suas bochechas sujas de trabalhar na sala
do motor (escolha dela, pois ela alegou, corretamente, ser boa com máquinas).
Kartessa diz:
– A frota está aumentando.
– A cada dia – Eleodie diz, com orgulho. A frota da nação agora tem duas
dúzias de naves, isso sem falar no contingente de antigos caças estelares que eles
trouxeram a bordo e atualizaram, que estão agora exibindo as cores da nova
nação do Espaço Selvagem: vermelho, amarelo e preto. A frota é composta
metade por naves que eles roubaram, metade por aquelas trazidas ali no caos de
uma galáxia em colapso. Piratas e refugiados que não têm para onde ir, que
viram as proteções do Império se transformarem em vapor, que temem a chegada
da Nova República e suas leis varrendo os sistemas.
Eleodie teme isso também. A Nova República está crescendo. O Império logo
vai desaparecer. Mesmo agora, elu recebeu informações confiáveis de que, num
planeta chamado Jakku, o Império está perdendo sua batalha – talvez sua última
batalha – contra a República. E depois? O que acontecerá com o resto da
galáxia?
Eleodie volta seu olhar da nação que está fora do destróier estelar para aquela
que está dentro dele. Muitos vêm pedindo asilo, mas sem ter naves.
Aqueles que agora servem como tripulação.
Bem abaixo já houve uma série de docas de hangar conectadas – cinza,
estéreis, com uma única função. Isso mudou. Agora as docas do hangar são
casas: tendas, cápsulas de transporte, barracas feitas de caixotes empilhados.
Milhares moram lá. Vivem. Operam mercados. Cozinham usando aberturas
termais improvisadas entalhadas nos dutos sob o piso. E há cores por todo lado.
Tons variados de tendas vermelhas, contêineres identificados com tinta spray, os
trajes de muitas culturas e muitas espécies e muitos mundos. Tudo é arte e caos e
barulho. Exatamente como Eleodie quer.
– Sua mãe está por aqui? – Eleodie pergunta à garota.
– Não. Eu a despistei no subnível de engenharia. – Kartessa faz um biquinho.
– Ela não me deixa em paz.
– Ela é sua mãe. É função dela não deixar você em paz. Você deveria ser mais
gentil com ela. A pobre mulher te seguiu para este hospício glorioso, esta nação
maravilhosa de insanidade. Não a afaste.
Kartessa suspira.
– Tudo bem.
– Bom.
Depois de alguns minutos arrastando os pés, a garota diz:
– Posso perguntar uma coisa?
– Pode.
– Como tudo isso vai funcionar?
– Tudo isso o quê?
– Essa... nação pirata. Piratas não formam nações.
– Estes piratas formam. Eu formo.
– Por quê? Como?
– Garota, é o seguinte: o mar está mudando e as marés estão agitadas. As
coisas vão ficar feias para nós, patifes. Estaremos correndo do novo xerife da
cidade ou tentando nos matar em sistemas distantes e miseráveis, esfaqueando
uns aos outros por sobras do que já foi nosso por direito. Estou propondo que
nos unamos e fiquemos juntos. Patifes como nós sempre trabalharam juntos, só
não era oficial. Então estou oficializando.
Frustração escurece o olhar de Kartessa.
– Mas isso não responde à minha pergunta. Piratas são egoístas. Vocês agem
por vantagem própria.
– Isso é verdade – elu admite. – Mas podemos todos trabalhar pelo benefício
mútuo. Alguns predadores são solitários, grandes, assustadores e sozinhos.
Outros sabem quando precisam uns dos outros. Sabem quando precisam formar
um bando. Antigamente eu tinha uma tripulação pirata de algumas centenas.
Agora tenho uma de 10 mil, e esse número só cresce. Vamos saquear, pilhar e
roubar. Vamos matar menos, porque é a ameaça dos nossos números, não a
ameaça das armas, que vai nos preceder. Vamos dividir os butins igualmente,
não para ficar ricos, mas para poder nos alimentar e ser gordos e felizes juntos.
Vamos nos embebedar e cantar e fazer qualquer outra devassidão que nossas
mentezinhas sujas consigam pensar.
A garota parece ruminar isso, como se fosse um pedaço de cartilagem que não
consegue tirar dos dentes. Parece que está prestes a dizer algo mais, mas uma
interrupção do seu imediato Omwati, Shi Shu, não permite isso.
O bico de Shi estala.
– Temos visitantes.
– Vieram admirar minha elegância? – Eleodie pergunta.
O Omwati parece cauteloso.
– Precisamos de você na ponte agora.
Eleodie pergunta à garota:
– Quer vir?
– Quero.
– Então vamos.
Juntes elus percorrem a varanda com vista para o convés do hangar
(atualmente chamado de Cidade do Hangar, embora esse seja seu terceiro nome
e outros possam ainda surgir), antes de se virar na direção dos turboelevadores.
Elus pegam o elevador até a ponte, em silêncio; Eleodie enfiade em sua capa
cromatófora como num casulo.
Na ponte, elu vê o que acabou de sair do hiperespaço.
Três destróieres estelares, “classe imperial dois”, diz o artilheiro Carklin
Ryoon, um Ssori com olhos de inseto, uma boca pequena e dentes afiados.
Muitos Ssoris preferem usar trajes mecânicos para compensar seu tamanho
diminuto, mas Ryoon sempre preferiu continuar, como ele diz, “puramente
orgânico”. O Ssori diz:
– Eles estão tentando nos saudar agora. – Um dos olhos bulbosos estremece. –
Podem achar que somos imperiais de verdade. Não viram o resto da frota ainda.
Pode ser um bom truque.
O Omwati concorda. Shi Shu diz:
– Sim, isso pode funcionar. Vamos incentivá-los a pensar que somos um
remanescente, oferecemos segurança e socorro, então os dominamos...
– Nós vamos destruí-los – Eleodie declara.
– Quê? Mas aquelas naves são boas.
– Vamos destruí-las e mandar suas peças para a Nova República. Junto com
qualquer cápsula de fuga que pudermos pegar na nossa redezinha. – Notando os
olhares lançados em sua direção, Eleodie esclarece: – Essas naves estão fugindo.
Vejam os danos de batalha. Elas foram atacadas recentemente. E observem
aqueles vetores de hipervelocidade. Eles saíram de perto das Regiões
Desconhecidas. Estão vindo de Jakku. Nós vamos fazer uma limpezinha aqui
para a Nova República, depois mandar a conta para eles.
– Mas a Nova República não é nossa amiga – Kartessa diz.
– Não. E nunca será. Mas talvez isso os convença a fazer vista grossa por um
tempo. Talvez isso nos dê um ar de legitimidade – Eleodie retruca, fazendo um
gesto como se estivesse tentando correr os dedos entre uma chuva de poeira
estelar. – Mande a frota inteira atacar.
– Eles têm um poder de fogo considerável...
– Faça.
– Os outros capitães da frota vão querer discutir...
– Se eles sofrerem danos, eu os pagarei pessoalmente. Haverá recompensa. Eu
estou exercitando meu direito divino. Ataque.
Shi Shu assente, hesitante, então comanda o resto da equipe da ponte – a
exigência cascateia por eles, e começa a agitação. Computadores de alvo são
erguidos. Sistemas de armas acionados. O raio trator é preparado. Kartessa olha
para Eleodie.
– Você sabe o que está fazendo?
Eleodie sorri como um raio de luar.
– Não, garota. É o que torna isso tão interessante. O presente é um par de
dados prestes a sair da minha mão, e nunca sei se vou tirar zero ou um, vencer
ou perder.
Lá fora, o vazio se acende com fogo quando o ataque começa. Os destróieres
estelares não têm chance. Logo a Nova República receberá um presente de sua
alteza, sua glória, sua maravilha, sua luminosa magnificência. Le corsárie!
Saqueadore! Líder pirata do Espaço Selvagem! Valete com glória, Eleodie
Maracavanya!
Capítulo
35

Este é o Observatório.
É um dos muitos espalhados pela galáxia. Todos são laboratórios, de certa
forma, e todos olham para além das margens da galáxia em diferentes direções.
Ao mesmo tempo, cada um é uma entidade própria. Palpatine começou a
estabelecer Observatórios antes do começo do Império Galáctico, infundindo
cada um com um propósito: alguns iriam abrigar antigos artefatos Sith, outros
guardariam os projetos de armas potentes (ou as próprias armas), outros ainda
serviriam como prisões, empregando a força vital dos prisioneiros para uma
variedade de objetivos estranhos.
Este, o Observatório de Jakku, tem uma função própria.
É parte da Contingência.
Daqui, o Observatório parece ser apenas um bunker praticamente enterrado na
areia. Se alguém se aproximasse, as torres de tiro ou os droides sentinelas dariam
cabo neles rapidamente. O Observatório está protegido aqui há muito tempo,
quase inteiramente escondido, e só emergiu há pouco tempo sob o comando
dele. Enquanto Gallius Rax e a nave de transporte entram na sombra da Mão
Lamentosa, aproximando-se do Observatório, ele envia outro comando: para
desligar as defesas dos turbolasers e os droides sentinelas. Ele envia esse
comando por meio do sentinela que pilota a nave (pois todos os sentinelas fazem
parte da mesma rede).
Atrás do Observatório, outra forma emerge, porque, ao mesmo tempo que
desliga as defesas, ele também programa o domo de pouso para se erguer. E ele
se ergue, borbulhando da areia, gentilmente se virando enquanto scree e sujeira
escorregam da sua superfície arredondada. O domo de metal se abre
telescopicamente.
E revela uma nave brilhando com força ao sol filtrado de poeira.
– A Imperialis – Brendol Hux diz, reclinando-se para a frente na cabine. Tashu
está com eles e dá uma risadinha ao ver a nave, batendo palmas como uma
criança glutona vendo uma bandeja de bolo sair do forno. Hux tem um tom de
reverência e confusão quando diz: – Eu... achei que a nave do imperador tinha
sido destruída.
– E foi – Rax responde. – Roubada por um apostador, depois desmantelada.
Mas foi uma de muitas.
Até onde ele sabe, todos os Observatórios abrigam uma réplica funcional do
iate de passeio do imperador. Os Observatórios também servem como
receptáculos para antigos artefatos Sith – e se esses artefatos precisarem um dia
ser movidos para outro lugar, os iates estão lá para isso.
Devagar, o transporte se acomoda no vale, deslizando suavemente contra a
pedra varrida de areia. O Observatório aguarda. Daqui, é apenas uma porta
ampla do lado de uma duna. O resto está escondido sob Jakku.
– Ainda não entendo o que está acontecendo – Hux diz.
– O Império acabou. Um novo deve começar. – O demesne está vazio, o
tabuleiro limpo, ele pensa. Um novo demesne deve ser feito. – Pegue seu filho e
as outras crianças. Vá até a Imperialis. Prepare a nave para decolagem.
– Como pode haver um novo Império? – Brendol balbucia. – O que tínhamos
se foi. Não temos números suficientes para começar do zer...
– Há outros – Tashu cantarola.
– Quando conseguimos os cálculos, enviamos outra nave na frente.
– Cálculos. Que cálculos? Do que vocês estão...
– Brendol, por favor. O tempo voa rápido, rápido demais. Vá até a nave. Eu o
encontrarei lá. – Só para garantir, Rax põe uma mão gentilmente ameaçadora no
braço do homem. – Entenda, você será um arquiteto do futuro. Você é um
visionário e é por isso que está aqui, sozinho. Agora não é hora de me testar. É
hora de confiar em mim. Você confia em mim?
O homem, de rosto corado e obviamente amedrontado, assente.
– Eu... confio.
– Bom. Agora vá, vá como um skitterrato. – Para Tashu, ele diz: – Está pronto
para cumprir nosso destino, conselheiro Tashu?
Tashu lambe os dentes e estremece, como se experimentasse um prazer
espiritual.
– Toda glória à Contingência. Toda glória a Palpatine.
– Sim – Rax diz, imitando o mesmo sorriso sicofanta. – Toda glória.
As mãos de ambos são necessárias para abrir a porta. Tashu de um lado, Rax
do outro. As placas do escâner brilham ao redor dos dedos abertos deles. Atrás
da porta, um mecanismo se acende, chiando e triturando.
A porta, dourada como o sol, se abre lentamente, rolando para cima.
Quando eles entram, ela se fecha atrás deles.
Rax vai na frente. Ele se move com passos confiantes. O corredor pentagonal
desce devagar num ângulo suave. É feito de metal escovado e vidro preto, com
linhas de luz vermelha emoldurando cada ângulo. A cada dez passos, há um pilar
segurando o mundo, evitando que as areias façam pressão para baixo e engulam
o Observatório por completo.
Tudo é limpo e intocado pela imundície do planeta. Como uma ironia, Rax
corre a mão pela parede, deixando para trás uma leve faixa de óleo e suor.
Pronto, agora o planeta deixou sua marca, ele pensa.
Mas não. Ele diz a si mesmo que não é deste planeta. Ele o transcendia.
Palpatine viu isso. Sim, o velho estava enganado sobre as forças místicas que
governavam a galáxia, dando crédito demais a elas – acreditava que só porque
ele tinha habilidades além da compreensão dos mortais, todas as coisas aderiam
ao mesmo poder. O que é loucura, na verdade. É a atitude primitiva de uma
criatura aprendendo a fazer fogo pela primeira vez, certo de que o fogo que fez
era o único poder que governava a galáxia.
No entanto, Palpatine não estava enganado sobre o estado da galáxia e o papel
do Império. Embora estivesse infundido com uma boa dose de tolices mágicas,
era um estrategista magistral e sabia como fazer um jogo tão longo que a linha
do horizonte era na verdade a linha de partida.
Palpatine viu algo em Rax. Um destino, ele chamou. Mesmo agora, Gallius –
Galli, de certa forma, pois ele se sente estranhamente jovem e inocente de novo,
como aquela criança de Jakku correndo no deserto – sente esse destino inchando
dentro de si. Ele tira um momento para aproveitar a sensação. Para se sentir
preenchido por ela; a saciedade ressoa por ele.
Mas o trabalho não chegou ao fim. Ainda não.
Adiante, o corredor se abre numa câmara de oito lados. No centro dela há um
banco de sistemas computacionais – mas não sistemas como os encontrados num
destróier estelar ou mesmo na Estrela da Morte. Não, esses são mecanismos
computacionais antigos de uma civilização anterior. De quando precisamente,
Rax não sabe dizer. A Velha República? O Império Sith caído? Ele não sabe e
não se importa. A história deles é irrelevante.
Só o presente importa.
Acima dos computadores, há uma projeção de um mapa estelar tridimensional
que não equivale a nenhum mapa conhecido da galáxia. O que faz sentido, dado
que não mapeia a galáxia conhecida, não é?
Há décadas esses computadores vêm planejando uma viagem. Fora da galáxia
conhecida há uma infinidade inexplorada, Palpatine explicou, bloqueada por um
labirinto de tempestades solares, magnetosferas rebeldes, buracos negros, poços
de gravidade e coisas bem mais estranhas. Ninguém que tentou conquistar
aquele labirinto sobreviveu. As naves foram obliteradas ou retornaram à galáxia
sem viajantes. As comunicações daqueles exploradores eram incompreensíveis –
ou continham tanta estática que o conteúdo era inútil ou estavam cheias de
balbucios vazios que serviam como um sinal claro de que o explorador tinha
ficado totalmente louco lá no isolamento. Mas Palpatine tinha alguém na
marinha que conhecia algo das Regiões Desconhecidas: o almirante Thrawn, um
alienígena com pele azul-gelo que veio de fora das margens da galáxia
conhecida. Palpatine só o mantinha próximo por causa do que ele sabia sobre
atravessar aqueles interstícios mortais. Grande parte do que Thrawn conhecia foi
inserida nos computadores desta máquina.
Palpatine disse que essa galáxia seria dele, mas que era apenas uma entre
muitas. De novo aquela frase: a infinidade inexplorada. Isto, ele observou, era o
demesne dele. A galáxia seria seu tabuleiro.
Se ele perdesse esse jogo, o tabuleiro deveria ser quebrado no meio e
descartado. Um novo demesne deveria ser encontrado.
Os computadores têm procurado há muito tempo um modo de cruzar as
tempestades e os espaços negros. Lenta, mas certamente, têm formado um mapa:
uma jornada para o caos. O Império mandou droides-sonda para testar os
cálculos conforme os computadores os faziam. Muitos nunca retornaram.
Mas alguns continuaram enviando relatórios, apitando o transponder aqui.
Cada droide que chegava mais longe contribuía com o mapa. E, com a distância
atingida, os computadores, através dos droides-sonda, continuaram a mapear o
rumo e a computar os próximos setores de navegação.
Antes da morte de Palpatine nas mãos dos rebeldes, os computadores
terminaram seus cálculos, finalmente encontrando um caminho através do
desconhecido. O imperador estava convencido de que alguma coisa esperava por
ele lá fora – alguma origem na Força, alguma presença sombria formada de
substância malévola. Ele disse que conseguia sentir as ondas daquilo radiando
agora que o caminho estava claro. O imperador alegava que era um sinal –
convenientemente, um sinal que só ele conseguia ouvir. Mesmo seu maior
apoiador, Vader, parecia não o identificar, e Vader também afirmava ter domínio
sobre a Força sombria, não é? Rax acreditava que Palpatine tinha ficado louco.
O que ele estava “recebendo” não era nada mais que seus próprios desejos
preciosos sendo transmitidos de volta para ele mesmo – um eco que ele próprio
criou. Ele acreditava que havia algo além, então isso se tornou uma obsessão
singular. (Quando você acredita em mágica, é fácil ver todo o universo como
evidência dela.)
Agora que Palpatine se foi, o propósito original do Observatório pode ser
mantido. O jogo foi perdido. É hora de sair e encontrar um novo demesne.
O Império está morto.
Mas o Império pode viver de novo sob Rax.
Primeiro, porém, preparações devem ser feitas. Além da câmara do mapa
estelar, há mais um corredor – esse com degraus levando pra baixo. Quando Rax
passa pelos computadores, ele vê no lado oposto um presente que Palpatine
deixou para ele:
É um tabuleiro de Shah-tezh quebrado. Ele está no chão pela metade. Ao
redor jazem as peças, também quebradas. Só duas peças sobrevivem: o
Imperador e o Pária. Ele se pergunta se era assim que Palpatine o via: como o
Pária? Isso é novo. Gallius nunca soube. É como um tapa na cara. Ele quer
recusar essa denominação, enfurecer-se contra a ideia de que ele era algum tipo
de exilado nas margens do Império...
No entanto, ele era, não era? Rax sempre manteve distância. Seu papel nunca
foi preservar o Império, mas destruí-lo.
Ele pega as duas peças. Mexendo os dedos, rola as figuras na palma da mão.
O que quer que Palpatine tenha pensado sobre ele antes, Rax não é mais o Pária.
Ele se tornou o Imperador.
Gallius coloca as duas peças no bolso e segue em frente, cantarolando sua
cantata preferida. O corredor em frente está revestido com artefatos do antigo
Império Sith: uma máscara vermelha, uma lança branca, um estandarte
ensanguentado, um holocron tão negro que parece consumir toda a luz ao redor.
Entre cada um dos artefatos, há um droide-sonda de rosto liso, adormecido em
sua câmara, pronto para ser despertado se uma ameaça se aproximar.
Além disso tudo, fica o poço. O poço é um canal perfurado através do xisto e
do manto de Jakku, tão fundo que toca o centro do planeta. Ele brilha com fiapos
de névoa azul que sobem por uma luz de fogo laranja. A luz pulsa e vibra como
uma coisa viva. Palpatine disse a ele que, no passado, este mundo era verdejante
– coberto de plantas e abrigo de oceanos. Também disse que, embora a superfície
do planeta não desse mais sinais disso, o núcleo ainda tem aquela fagulha de
essência vital. (E, acrescentou, “essa essência me enoja”.)
Tashu salta em frente aos artefatos, a ponta dos dedos dançando sobre seus
invólucros. Ele murmura consigo mesmo, e Rax vê que mastigou os próprios
lábios até sangrarem.
– Está pronto? – ele pergunta ao velho conselheiro de Palpatine.
– Estou – Tashu diz, virando-se. Seu rosto está úmido de lágrimas. Seus
dentes estão tingidos de vermelho. – Palpatine ainda vive. Vamos encontrá-lo lá
na escuridão. Tudo ocorreu como o nosso mestre previu. Todas as coisas se
movem rumo ao grande destino. Os sacrifícios foram todos feitos.
Nem todos, pensa Rax.
– Você deve estar vestido em um traje de escuridão – Rax diz. – O manto do
lado sombrio é seu, pelo menos por um tempo. Pelo menos até podermos
encontrar Palpatine e revivificá-lo, trazendo sua alma de volta à carne
novamente. – Tudo isso é mentira, é claro. Ele não acredita em nada disso. É
uma artimanha feita para Tashu. (Mentiras são como coleiras. Se as puxar do
jeito certo, todos que acreditam vão segui-lo.)
E o lunático acredita, porque os lunáticos sempre acreditam nas coisas que
confirmam sua visão da galáxia. A visão de Tashu é que o lado sombrio é tudo,
que Palpatine era o mestre não só do Império, mas de todos e tudo, e que, por
isso, o Lorde Sombrio vai renascer.
Bom. Deixe que acredite nisso.
Rax o ajuda a portar a lança e o estandarte. Com cuidado, ele põe a máscara
sobre a cabeça do homem, prendendo-a com faixas de couro preto e uma fivela
de cromatita antiga e enferrujada. Tashu possui muitas máscaras e acredita que
todas elas contêm um fragmento do lado sombrio. Mas nunca antes usou uma
como esta: é uma coisa cruel e bestial, com presas curvas de aço preto e olhos de
cristais kyber vermelho-sangue. Quando ela é presa em seu rosto, Tashu se
enrijece, um gemido faminto mal contido sob a mandíbula cerrada.
– A peça final – Rax diz, entregando o holocron a Tashu. Quando o homem o
pega, parece sugar a luz do entorno. Tashu fica ainda mais pálido quando o toca.
As veias em sua mão se destacam, negras, em contraste.
– Sim – Tashu diz. Uma palavra, curta, breve, extasiada. Seus braços se
estendem para os lados. As mãos tremem. – Sim. Eu consigo sentir. Sou um foco
de energias sombrias. Toda a morte e todo o desespero do mundo estão sendo
filtrados por mim. Eu sinto na língua. Capturado lá como uma mariposa se
debatendo...
– Então venha, vamos rezar. – Ele interrompe Tashu porque, caso contrário, o
homem vai continuar a lenga-lenga por minutos, horas, talvez até os dois
morrerem de velhice e virarem poeira. Gallius Rax conduz Tashu como um pai
conduz uma criança, pela mão. Juntos, eles vão até o poço.
Quando se aproximam, uma plataforma estreita se estende, como se
pressentisse a presença deles. Ela se projeta sobre o poço: uma tábua onde
devem caminhar.
Eles vão juntos. Aqui o ar é, de alguma forma, tanto quente como frio. Um
hálito quente entremeado por suspiros de gelo.
– Palpatine ficará satisfeito com você – Rax diz.
– Sim, vai. E com você também. Nós conseguimos. Punimos os indignos.
Ativamos a Contingência. Vamos fazer uma prece à escuridão, uma prece a todas
as coisas que aguardam...
– Primeiro, meu irmão, eu gostaria de lhe perguntar algo.
– Sim, pequeno Galli?
– O que você dirá a ele quando vir nosso mestre de novo?
– Eu...
Rax não lhe dá chance de responder. Ele empurra Tashu.
O homem dá uma pirueta através da névoa e da luz, girando, gritando; seu
corpo bate na lateral do poço de rocha com força, silenciando seus gritos. O
corpo desce cada vez mais, até que Rax não pode mais vê-lo.
Alguns segundos de silêncio e imobilidade. Um. Dois. Três.
O mundo estremece. Um rugido feroz sobe pelo poço e a luz laranja fica
subitamente vermelha – então os fios azuis de névoa enegrecem. Palpatine tinha
razão. Os artefatos contêm uma boa dose de energia.
E agora eles foram jogados no núcleo deste planeta. Com o poço aberto, essa
energia vai ser descarregada. Assim começará a reação em cadeia que vai
destruir tudo. O planeta vai começar a rachar em breve. Vai se estilhaçar. Vai
engolir o Império e as frotas da Nova República e os soldados. Ao fazer isso, vai
deixar essa galáxia nas mãos de catadores e da escória, podres como uma fruta
esquecida na poeira. Embora um pensamento fugaz o preocupe: Toda fruta, não
importa quão podre, pode deixar sementes para trás...
É hora de ir embora. A Imperialis aguarda. O destino chama com um sussurro
sedutor. Então, ele percebe que está ouvindo vozes. Vozes reais. Não está mais
sozinho aqui. E reconhece uma dessas vozes.
Olá, Sloane, ele pensa.

O chão estremece de repente abaixo deles, movendo-se com força para a


direita. Norra quase perde o equilíbrio. Brentin a segura, e ela afasta as mãos
dele, dando-lhe um olhar desconfiado.
– Você não confia em mim – ele diz.
– Não – ela confirma baixinho. Não sei o que há na sua cabeça. Não sei se o
chip ainda está controlando você. Não sei por que, de todas as pessoas, estava
com ela. Ele está prestes a dizer algo mais, mas Sloane interrompe.
– Olhem – Sloane diz, apontando um banco de computadores octogonal.
Acima deles, holotelas piscam com pontos vermelhos. Um diagrama mostra o
que parece ser um buraco de mineração através de camadas de manto e xisto.
Está pulsando uma luz branca. Há um número acima dele – uma porcentagem,
caindo aos poucos.
– O que estou vendo? – Norra pergunta.
– Não sei – Sloane responde.
Brentin corre até a máquina, examinando o teclado com um olhar confuso – as
teclas são triangulares, a maioria de ouro, algumas de prata. Ele as ignora e
gesticula para a holotela em si. Quando seus dedos a tocam, ela se enche de
dados que correm depressa.
– Eu... ah, não.
– O quê? – Norra e Sloane perguntam em uníssono, antes de cada um lançar
um olhar irritado e desconfiado para o outro.
– A integridade do planeta foi comprometida. Alguma coisa... alguma coisa
está afetando o manto. Um sistema de tremores causando uma falha que está se
alastrando a partir do núcleo. Esse duto, esse... buraco é a chave, um canal
focalizando a onda sísmica. Há chicanas aqui, tubos telescópicos para fechar o
poço, mas elas estão trancadas.
– O que tudo isso significa? – Sloane pergunta.
– Significa que este planeta não tem muito tempo.
Os joelhos de Norra quase cedem. Temmin... ele está aqui. Jas também.
Wedge. A droga da frota inteira da República. Se Jakku for destruído, eles
também serão.
– Você consegue fechar o poço? – Norra pergunta.
– Posso tentar.
– Faça isso – Sloane rosna. – Eu vou encontrar Rax. Ele tem que estar aqui em
algum lugar. – A voz dela soa gasta e desesperada.
Norra aponta a arma de raios para a outra mulher.
– Não.
Sloane encara o cano da pistola.
– Eu não sou o inimigo aqui.
– É a minha inimiga. Corrompeu meu marido e o trouxe nessa missão
lunática. Você...
– O que eu sou é alguém sem tempo. É Rax quem está por trás de tudo isso.
Abaixe essa pistola, Norra Wexley. Deixe-me fazer o que preciso fazer.
Brentin agora surge por trás de Norra, e ela estremece, temendo que ele esteja
prestes a atacá-la. Mas tudo que ele faz é dizer:
– Por favor, Norra.
A mão dela treme tanto que ela tem medo de que caia.
Norra abaixa a pistola.
– Vá.
– Você podia me dar a pistola.
– O único jeito de eu te dar essa pistola é apertando o gatilho primeiro.
– Justo. E, afinal, eu não preciso de uma arma. Sou arma o suficiente.
Sloane dá um aceno, como se reunisse coragem o bastante para tornar sua
última declaração verdade. Então se vira e se afasta, entrando num corredor
adjacente. Ela não olha para trás.
Norra se vira para o marido e sibila:
– Você precisa consertar isso. Brentin, escute com atenção. Temmin está aqui
em Jakku. Seu filho. Se o ama, e se me ama, e se se importa um pouco que seja
com a Nova República que você lutou para construir, conserte isso.
Medo e incerteza cruzam os olhos de Brentin como raios, mas ele assente e,
numa voz baixa e firme, diz:
– Vou consertar.

Sloane o encontra esperando por ela. Abaixo de um lance de escadas,


passando por uma parede revestida com o que parecem ser droides desligados,
Rax aguarda. Um brilho infernal se ergue atrás dele, brasas azuis formam um
turbilhão no ar.
– Olá, Rax – Sloane diz.
Ela está aqui, sozinha com ele. Ela não tem nada. Nenhuma arma. Aquela
maldita Norra Wexley não lhe emprestou nem uma arma de raios. Aquela mulher
terrível é tão teimosa quanto as raízes de uma árvore velha. Foi uma decisão
esperta, é verdade. Sloane tinha considerado simplesmente arrancá-la da mulher,
mas não consegue imaginar sequer uma circunstância em que Brentin Wexley
permitiria isso. Então ela diz a si mesma o que disse a eles:
Sou arma o suficiente.
Pelo menos ela sabe que não a deixarão para trás. A nave auxiliar morreu
segundos depois de pousar: já estava quase destruída quando eles a roubaram da
base imperial, e, conforme se acomodava em direção ao chão, pousando em
meio às lufadas de areia e à poeira que girava, os motores se apagaram, os
repulsores falharam e a nave inteira caiu com um baque surdo. O painel ficou
escuro. A nave morreu. Lá se vai nossa carona, ela pensou. A boa notícia é que
eles não tiveram que usar a nave para explodir a porta. A porta não estava
fechada. Sloane simplesmente a abriu.
Nenhum turbolaser. Nenhuma defesa. Uma porta destrancada. A preocupação
a corroeu: Rax nem sequer estava aqui? Eles chegaram tarde demais?
Agora ela sabe. Ele está aqui. Isso termina.
Rax parece desarmado também. Ela não vê nenhum coldre no seu quadril. Ele
está em pé, os ombros para trás, o peito inflado no seu uniforme naval branco
com uma capa vermelha esvoaçando atrás. Minha nossa, ele parece satisfeito
consigo mesmo, ela pensa. Um repuxar arrogante nos lábios dele deixa isso ainda
mais claro.
Ela considera arrancar essa arrogância do rosto dele com um soco.
– Você viu o espetáculo? – Rax pergunta.
– Vi – ela responde. – Foi tudo para mim?
– Não. A galáxia inteira era meu público. Mas você... – Ele beija o ar. – Você
sabe mais que a maioria. O que significa que entendeu melhor do que quase
qualquer um.
– Eu não entendi nada. Por que você não explica para mim? – Ela ergue as
mãos e dá de ombros. – Você está tão orgulhoso do que realizou aqui. Conte-me.
O que está acontecendo, conselheiro? Ou deveria chamá-lo de Galli? Um
querido orfãozinho.
Isso o irrita. Ele tenta não demonstrar, mas seu lábio se contrai e o cenho
estremece. A provocação o atinge.
– Não tenho tempo para isso. Estou indo embora.
As mãos dela se fecham em punhos.
– A única saída é passar por mim.
– Que seja.
Rax vai em direção a ela. Uma determinação lenta parece impeli-lo, a mesma
determinação de um predador perseguindo sua presa – com passos certos, mas
um andar tranquilo e afável. Quase como se dissesse: Não preocupe seus bigodes
comigo. Eu não a machucarei, criaturazinha.
– Tenho que admitir – Rax comenta enquanto dá um passo deliberado depois
do outro. – Você estava tão próxima. Nós estávamos tão próximos. Sempre
pensei que você estaria aqui comigo, no fim. E aqui está você. – A expressão
dele se torna amargurada. – Só não do jeito que imaginei.
– Ainda achou que eu trabalharia com você? Depois de Akiva? Depois de
Chandrila? Você me jogou na fogueira repetidamente.
– O fogo forja algumas lâminas. – Ele faz um gesto de descaso, como alguém
jogando fora um pouco de lixo. – E arruína outras.
Ele está bem diante dela agora. Rax para de andar e sorri.
– Eu não vou deixar você sair daqui vivo – ela diz.
– Como vai ser, então? Eu não tenho uma arma de raios. – Ele afasta a capa
para mostrar que não porta nenhuma arma. – Suponho que deveria ter trazido
uma. Você também.
– Se desejos fossem naves espaciais...
Ele termina o refrão:
– Fazendeiros voariam.
Sloane se lança no vão, movendo-se depressa. Tudo o que aconteceu antes
levou a esse momento, e ela é como uma mola comprimida que foi solta – como
se, até então, tivesse poupado todo aquele ódio e toda aquela raiva, reprimindo-
os tão profundamente que, agora, está prestes a explodir como um gêiser
escaldante. A raiva e o ódio terminam na frente do seu punho.
Rax não é um boxeador. Ele não tem que lutar a própria luta desde sempre –
desde nunca, talvez. Ele não vê o soco chegando.
O punho o atinge no nariz, que se quebra com um pop.
Rax cai, e ela salta em cima dele, rosnando.

No computador, os dedos de Brentin se movem com hesitação sobre as teclas.


Ele aperta um botão, e a holotela pisca furiosamente, um pulso de luz vermelha
enchendo a sala. Brentin xinga e fecha os olhos, concentrando-se.
O chão treme de novo, mandando o coração de Norra para a garganta. Norra
vê a porcentagem diminuindo. Agora caiu para 47.
– Devíamos ter dado a arma para ela – Brentin diz de repente.
– Quê?
– Sloane. Ela está sozinha e desarmada.
Norra expõe os dentes para ele, então gesticula com a arma.
– Brentin, eu nem sei que parte é você e que parte é o chip na sua cabeça. Até
sairmos daqui, nunca vou saber. Só desligue essa coisa.
– Sinto muito – ele diz, encarando as teclas, os dedos se movendo
freneticamente. – Sinto muito por tudo.
– Não é o momento.
– Pode ser o único momento, Norra. Eu quero que você saiba que o homem
que fez aquelas coisas em Chandrila não era eu.
– Eu sei. Mas também não sei que homem você é agora.
– Sou eu. Não é o chip.
– Então por que está com ela? – Norra pergunta, furiosa. – Ela é o inimigo,
Brentin. Aquele que você prometeu combater com unhas e dentes quando se
uniu à Rebelião. E agora você está aqui, viajando com ela! Talvez o chip na sua
cabeça tenha bagunçado seu cérebro, mas ela não é sua esposa.
– Ela não está mais com o Império.
– Ah, que reconfortante. Tenho certeza de que apaga tudo que ela fez.
– Não apaga. Sei que não apaga. Mas... – O marido de Norra solta um gemido
incoerente que se transforma num rosnado frustrado. A tela subitamente brilha,
vermelha, e ele aperta as duas mãos em punhos. – Eu não sei como explicar. Não
sei, ok? Só sei que, mesmo que eu não estivesse sob meu próprio controle, fiz
uma coisa ruim e quero consertar. Sloane queria a mesma coisa, acho, e nós nos
encontramos aqui com um propósito comum...
– Juntos. Que ótimo.
– Não assim – ele implora. – Por favor. Eu te amo. Estou aqui por você. E por
Tem. Eu queria fazer algo certo para compensar o mal que cometi. Estar em
Jakku parecia certo. Parecia justo.
– O que você quer fazer, Brentin? Ir atrás dela?
– Ela precisa da nossa ajuda. Não é tão ruim quanto você pensa.
– Isso não a torna boa.
– Há um mal maior aqui...
– Então deixe que ela o combata sozinha.

A raiva e o ódio cegam, e Sloane percebe isso tarde demais. Ao libertar esses
sentimentos, sentiu como se um clarão branco se acendesse, prazeroso e
aconchegante. Mas esse clarão a cegou. Rax foi atingido e caiu – muito
facilmente. Em cima dele, ela vê aquele brilho nos olhos do homem – esperto e
desconfiado – e sabe que foi induzida a cometer outro erro.
O punho dele esmurra a lateral do corpo dela – bem onde as costelas nunca
sararam, onde Norra atirou nela em Chandrila. E o punho não acerta como um
conjunto de nós de dedos duros; ele tem um pico. Um gume. A dor a atinge
como um raio, e ela ruge. Seus olhos se fecham por meio segundo...
Então sua cabeça é jogada para trás quando ele se empurra para cima dela,
batendo a testa em seu queixo, bam. Os dentes dela mordem os lábios. O sangue
enche sua boca, e ela cai de cima dele. Estrelas dançam e a visão fica borrada.
Ela se engasga com o sangue enquanto rasteja para trás, sentindo a angústia
varrê-la como uma maré de ácido.
Rax está de pé novamente, marchando em direção a ela. Sloane tenta se
levantar, mas ele chuta a ponta da bota contra a lateral do seu corpo. O mesmo
lado. Alguma coisa se quebra. Um osso. Uma costela. Ela grita e desaba.
Ele tem algo na mão. Rax gira o objeto...
Um entalhe de algum tipo. Uma figura encapuzada.
Ele a move de volta para a palma da mão, deixando o topo espiar na fenda
entre os dedos. Brincalhão, ele esmurra o ar com aquele punho, swish, e agora
ela vê o que a feriu quando ele a socou.
– Uma peça de um tabuleiro de Shah-tezh – Rax diz, as palavras pingando de
satisfação. É como se ele estivesse se admirando diante de um espelho. – Aposto
que dói. Eu vi você tomando cuidado com esse lado do corpo na base, aliás.
Parece que meus instintos estavam certos em atingi-la aí. – O sorriso arrogante
subitamente fica vazio de alegria e congelado no rosto. – Estou realmente
decepcionado que tenha acabado assim. Você devia estar comigo agora, como
uma aliada. – Algo cruza o rosto dele, como uma epifania. – Você era uma pária
também, de certa forma. Não era? Mantida a distância por um Império que não
queria conhecê-la...
O chão retumba. Uma rachadura fende o piso.
– O que está acontecendo? – ela pergunta.
– O fim de todas as coisas – Rax diz, com um biquinho teatral.
Ela chuta, esperando surpreendê-lo e acertá-lo no joelho – ele está próximo
agora, tentadoramente próximo, e se ela conseguir derrubá-lo...
Rax agarra seu pé e a vira de lado com força surpreendente. O corpo dela bate
em um dos pilares. Mais dor irradia dela, em ondas concêntricas.
– Achou que eu não sabia lutar? – ele pergunta com um esgar, os lábios
torcidos. Os olhos estão acesos com uma loucura que ela nunca viu nele antes. –
Como você disse, eu era um órfão neste planeta. Era criança quando matei um
homem pela primeira vez, um catador que encontrou este lugar e pensou que
tinha encontrado um tesouro. Eu amassei a garganta dele com minhas próprias
mãos. Eu matei homens, feras, outras crianças. Você lutava boxe para ganhar
troféus. Eu lutei para salvar minha vida e servir ao imperador.
Através de uma bolha de cuspe e sangue, ela diz:
– Eu não sirvo ao imperador. Eu sirvo ao Império.
– O seu Império se foi. Eu o matei. – Ele inclina a cabeça, como se estivesse
ouvindo algo. – Você tem amigos. Não está sozinha. Vamos chamá-los, que tal?
Ele cai em cima dela e agarra sua mão esquerda. Sloane tenta se desvencilhar,
mas ele a pressiona com o joelho, apertando seu ombro até o chão. Ele agarra o
menor dedo na mão e...
Snap. Dobra-o para trás até quebrar.
Sloane grita.
– Sim. Grite. O balido de um animal convocando seu bando. – Ele pega o
dedo seguinte. – De novo!
E quebra esse dedo.
Ele cantarola uma canção, engolida pelos gritos dela. Só mais tarde ela vai
reconhecê-la:
A cantata de Cora Vessora.

O grito de Sloane chega aos ouvidos deles.


A porcentagem na holotela abaixou para 33. As paredes começaram a rachar.
O chão também. Os tremores não vêm de modo intermitente – agora são
constantes, um ronco baixo enquanto poeira chove ao redor deles.
A guerra não dá trégua no coração de Norra. Rebeldes versus imperiais.
Liberdade versus opressão. Mas é mais complicado que isso. Agora há uma
guerra entre ela e o próprio marido. Quem é ele? O que se tornou? Eles poderão
voltar a ser do jeito que eram? E então há a batalha por Sloane. Norra quer
deixar a mulher cuidar dos negócios dela. Deixá-la vencer ou morrer. Ela diz a si
mesma que o que quer que esteja acontecendo além daquela porta não é de sua
conta. Ela quer deixar que eles resolvam a questão, e quem emergir vai ser
arrastado diante de um tribunal da Nova República ou encontrar a arma de raios
dela. (Mesmo isso é uma guerra de grave indecisão. De novo há o confronto da
velha dicotomia: justiça versus vingança. Justiça é da mente. Vingança do
coração. Qual vence? Qual merece vencer?)
Sloane está determinada a buscar vingança. Norra viu isso nela.
Se a deixar lá sozinha, não estará fazendo o mesmo?
Isso não a torna igual a Sloane?
Então: um segundo grito. Vivo e dolorido.
Maldição!
Ela dá as costas ao computador e ergue a pistola. Brentin pergunta:
– O que você está fazendo?
– Não sei – ela responde. É uma resposta sincera.
– Vai ajudar Sloane.
– Talvez. Não. Não sei. Você, fique aqui.
– Estou fazendo progresso. Fechei uma das chicanas, só preciso acessar as
defesas e chegar às outras.
– Apresse-se.
Norra se afasta em direção aos gritos de Sloane.
À frente, há um corredor longo que descende num ângulo suave. Luzes
vermelhas ao redor do metal negro dão um brilho diabólico a tudo. Pilares
revestem os lados como guardas silenciosos e cintilantes. Além, ela espia o rosto
vazio e implacável de droides selados nas paredes. Isso a faz lembrar da nave-
prisão em Kashyyyk, e ela não consegue conter um estremecimento.
Aonde vai essa passagem? O que a espera no final? Não há sinal de nada nem
ninguém aqui. Está sinistramente silencioso. Ela está prestes a gritar o nome de
Sloane...
Mas, então, a vê. A mulher está sozinha no chão, inconsciente, o cabelo
espalhado ao seu redor como uma poça. Atrás dela há um poço gigante que
emite um brilho infernal. O buraco, ela pensa.
Sloane ergue a cabeça e vira um olho turvo para ela.
– Corra – Sloane diz, a voz embargada.
O aviso chega um segundo atrasado.
Alguém pula de trás de um dos pilares. Norra dá um grito, erguendo a arma de
raios – mas a palma do homem vem sob seu queixo, batendo na mandíbula de
Norra com tanta força que sua cabeça inteira chacoalha. A escuridão atrás dos
seus olhos explode com luz, e a outra mão do homem pega a arma de raios dela,
girando-a para fora dos dedos de Norra com facilidade – tanta facilidade, na
verdade, que a faz se sentir envergonhada pelo modo como perdeu sua única
arma. Ela grita e tenta fugir, mas...
A arma de raios bate em sua cabeça, e, enquanto cambaleia sobre as mãos e os
joelhos, ela olha por sobre o ombro para vê-lo erguer a arma. O homem de
branco naval. Este homem em sua capa vermelha. Gallius Rax. O arquiteto por
trás de tudo, se Sloane está falando a verdade.
Então o olhar dele foca em algo atrás dela...
O som de passos correndo ecoam.
Brentin.
O marido salta, batendo com força em Rax. A arma de raios dispara, mas o
tiro erra, acertando o teto acima da cabeça dela. Brentin se enfia sob a arma e a
empurra para cima. Os homens lutam. Tudo parece acontecer em câmera lenta.
Norra tenta se erguer, atordoada pelo golpe – mas ela se move, tem que se
mover, mesmo que pareça que seu cérebro não está conectado a nada, que seus
pés estão presos na lama. Ela joga o corpo contra a parede atrás de Rax e tenta
agarrá-lo...
Mesmo enquanto ele chuta com uma bota, empurrando Brentin para trás...
Mesmo enquanto Rax ergue a arma de raios...
Mesmo enquanto ela se ouve gritar...
Mesmo enquanto as mãos dela se fecham na garganta dele por trás, enquanto a
arma dispara, enquanto Brentin recua tropeçando, enquanto um buraco preto
desabrocha no centro do peito do marido dela, como uma flor escura se abrindo
para o sol...
Brentin cai para trás, agarrando o peito.
Rax gira para ver Norra cara a cara. Seu rosto é um esgar de raiva crua e
fervente – é a fúria de um demônio encurralado e desesperado para abrir
caminho com as garras. Ele enfia um joelho no estômago dela. Ela se dobra, mas
força o corpo para a frente, empurrando-o contra a parede. A pistola sai voando e
bate na sua bochecha, então ela sente algo ceder – um disco em seu pescoço,
deslizando enquanto a dor irradia em todas as direções pelo corpo. Ela quer
parar. Ela quer rolar e desistir e implorar – Deixe-me ter um momento com meu
marido, só um, antes de me matar. Mas esse cisco de desespero é engolido por
uma onda de raiva. Norra ruge enquanto agarra o homem por trás da perna e a
puxa – ele cai para trás, e os dois vão para o chão.
A arma de raios está entre eles. Todas as mãos a buscam. Eles lutam. Ele a
empurra para o lado. A cabeça dela bate na parede, causando uma concussão.
Sua visão começa a desaparecer como uma engrenagem quebrada. Pela vista
borrada, ela vê Brentin na parede, segurando o peito, olhando para ela. A boca
dele forma palavras que ela não ouve, mas vê.
Eu te amo.
– Eu também te amo – ela diz, as palavras truncadas e embargadas.
Ela grita enquanto reúne cada molécula de força do corpo e ergue a arma
centímetro por centímetro em direção ao peito de Rax.
Seu dedo encontra o gatilho...
A cabeça dele bate com força na dela. A arma dispara. Rax grita e a joga para
longe. Ele se ergue enquanto o lugar todo treme, chacoalha e balança. O homem
segura o próprio ombro; sangue mancha seu uniforme branco.
– Você atirou em mim – ele diz, incrédulo.
Norra geme e se puxa em direção ao marido. O nome dele escapa de seus
lábios em um mantra balbuciado, Brentin, Brentin, Brentin; então ela rasteja até
ele e segura sua cabeça, dizendo que ele vai ficar bem, que ela vai conseguir
ajuda, que sobreviveu à morte tantas vezes que sabe que ele consegue sobreviver
também. Mas os olhos dele estão mortos como moedas, e sua boca está frouxa.
Norra grita. Ela o segura. Ela desaba sobre ele.
Eu só quero dormir. Eu só quero estar com ele de novo. Sinto muito, Brentin.
Sinto muito por não ter acreditado em você. Sinto muito...
Rax se afasta cambaleando e desce o corredor, segurando o ombro ferido. Pela
visão embaçada, Norra o observa escapar.
Não. Volte. Eu não acabei com você ainda...
Ela se arrasta para longe de Brentin, rastejando como um vira-lata em direção
do inimigo em fuga. É então que a mão encontra alguma coisa...
A arma de raios.
Ele não a tem. Ela tem.
Cerrando os dentes, com tanta força que teme que possam ser triturados até
virar pó, ela ergue a pistola do chão...
Sua mão abaixa e vacila. A visão está manchada. Tudo é piorado pela
tremedeira. O chão balança sob os pés dela.
Então uma forma passa por Norra. É Sloane. A outra mulher se ergueu e agora
está perseguindo Rax. Pela visão dupla – agora tripla –, Norra assiste aos dois
imperiais brigarem de novo, cada um brutalizando o outro com punhos e chutes.
Norra aponta a pistola para um, depois para o outro, então sente a mão
enfraquecer. Ela nem sabe se tem a força para apertar o gatilho. Sloane grita,
jogada contra a parede, enquanto Rax usa essa mesma parede para se equilibrar e
subir os degraus.
Ela fala uma palavra. Um nome.
– Sloane.
A mulher se vira para ela.
Com o último resquício de força que tem, Norra lança a arma de raios sobre o
chão, na direção da mulher. A inconsciência a leva como um rio veloz.
Capítulo
36

Speeders de segurança pairam no espaço ao redor da torre do Senado. Luzes


estreboscópicas pulsam contra a iluminação branca. Lá embaixo, uma multidão
se reuniu, e Sinjir entra no meio deles, abrindo caminho, impelido pelas forças
opostas do luto e da raiva. Ele não sabe o que está procurando nem o que espera
realizar – depois que as forças de segurança chegaram e levaram Tolwar Wartol,
Sinjir teve que vir para cá e ver por si mesmo. Talvez para fazer uma vigília.
Talvez como detetive. Talvez simplesmente para ser testemunha disso tudo.
Isso o faz se lembrar novamente de Endor. Depois que tudo aconteceu, com a
batalha terminando e seus companheiros ensanguentados e derrotados, ele sentiu
o mesmo deslocamento. Como se não estivesse mais conectado a nada – um
homem sem amarras. Takask wallask ti dan. Homem sem uma estrela.
Mas agora ele tem uma estrela. Ou tinha, até acontecer isso.
À frente, ele vê alguém vindo em sua direção...
– Leia – ele diz.
Ela está segurando a barriga, mas não reduz o passo.
– Eu devia saber que eles tentariam matá-la de novo. Eles a odeiam. Eu devia
ter visto, o jeito como ela estava no centro de tudo. – Para a multidão, ela rosna:
– Movam-se. Saiam do meu caminho! – Um murmúrio de espanto a segue.
À frente, em meio à multidão, Sinjir vê algo impossível.
Um espectro, certamente. Um espírito criado pela sua própria culpa.
Ele a vê só por um momento, quando as forças de segurança ao redor da
mulher se afastam. É a chanceler Mon Mothma, tirando um cobertor dos ombros
e negando o seu conforto. Não. Não pode ser. Pode? A multidão se fecha ao
redor dela de novo, e Sinjir não consegue enxergar. Ele pensa em entrar na frente
de Leia para ajudá-la a abrir caminho, mas a princesa está fazendo um bom
trabalho sozinha; o volume da voz se ergue para expressar seu dom natural de
comando. Enquanto todos se movem para o lado, Sinjir pula atrás de Leia para
segui-la. Um guarda entra na frente dele, separando Sinjir da princesa e
apontando um bastão elétrico para ele. Leia estende uma mão para trás e bate na
mão do homem. O bastão cai com um barulho. Dois guardas entram na briga
quando...
– Parem!
A voz dela. Uma palavra. Dobrando como um sino, clara e afiada.
A chanceler se adianta e se põe entre o oficial de segurança e Sinjir.
– Ele é meu conselheiro – ela diz, calmamente.
– Chanceler, eu... – Sinjir ofega. – Você está viva.
– Estou. – O rosto dela é uma máscara severa e sombria.
Leia arfa:
– Mon.
E as duas se encontram em um abraço esmagador. A cabeça de Leia cai no
ombro da chanceler, e Mon inclina a cabeça para trás, os olhos fechados,
parecendo aproveitar o momento.
Quando elas se afastam, Sinjir pergunta:
– Mas como? Aquela explosão...
– Eu não estava nela. Não estava aqui. – Ela vê a confusão no rosto dele,
então responde: – Você me fez sentir culpada por não comprar um presente
pessoalmente para uma amiga querida, lembra? – Com isso, lança um olhar de
cumplicidade para Leia. – Eu saí sozinha. Deixei Auxi no meu lugar...
Aquela última frase é dita com esforço. A tristeza cruza seu rosto como a
sombra de uma nuvem em movimento.
– Auxi – Leia diz. – Ela está...?
Mon assente.
– Auxi se foi. Isso o torna meu único conselheiro, Sinjir. E preciso do seu
conselho, com urgência. – Para Leia, diz: – O seu também, minha amiga.
Sinjir garante a ela:
– Vamos encontrar quem fez isso, começando agora.
– Não, não com isso. Com outra coisa.
– O que poderia ser mais importante?
Ela aperta as mãos com força.
– Mas Amedda saiu de seu esconderijo e quer assinar um cessar-fogo. Ele
quer acabar com isso. Tudo isso. O Império está se rendendo, e eu preciso de
vocês dois.
Capítulo
37

O chão está tremendo tão forte agora que Rae Sloane tem certeza de que o
Observatório vai desabar em uma fenda que engolirá a todos eles. Sloane não
sabe se pode fazer algo quanto a isso, mas tem que tentar – ela está aqui, presa
neste planeta, e o que pode fazer além de tentar salvá-lo? Atordoada,
ensanguentada e espancada, ela segue Rax escada acima.
A arma de raios na mão.
Ele olha por sobre o ombro, um medo covarde cruzando seu rosto enquanto a
máscara de confiança cai.
– Vá embora – ele sibila, gesticulando com uma mão sangrenta. Sloane atira
atrás da perna direita dele.
Gallius Rax – Galli – uiva de dor e cai sobre os degraus. Grunhindo, ele
empurra a si mesmo com as duas mãos.
Ela atira no outro ombro dele. Ele cai de novo, soluçando.
Então ele se vira, as mãos erguidas em rendição enquanto implora:
– Não, não, não, por favor...
Ela atira no estômago dele.
Cada disparo parece perfeito. Cada disparo tem gosto de vingança. Sloane já
ouviu histórias sobre vingança, sobre como nunca realmente acaba com nada,
sobre como nunca realmente completa a pessoa, mas, neste momento, ela não
acredita em nada disso – porque se sente melhor do que jamais se sentiu antes.
As mãos de Rax se movem para o centro do corpo, onde a tinta vermelha se
espalha, manchando seu traje. Logo o branco naval combina com a capa
vermelha derramada atrás dele.
Sem piscar, ele a encara. A boca arfando. Algo molhado desliza no fundo da
garganta como uma coisa rastejante.
– Você está morrendo – ela diz a ele. E ele está. Isso é evidente. Os lábios dele
estão ressecados e pálidos.
– Minha colega pária – ele diz.
– Sim.
– Você serve à Contingência agora.
– Eu não sirvo a ninguém – ela diz.
– Ouça. Ouça. Há uma nave. A uma curta caminhada daqui. – Ele resfolega. –
Imperialis. Pegue-a. Hux está lá. Outros também. Use o mapa estelar. No
grampo no... no computador. Trace um rumo para o inexplorado... – Ele tosse.
Pontos vermelhos pontilham seus lábios com borbulhas de cuspe. – Infinidade.
Já mandei uma nave à frente... um couraçado... do imperador...
Ela entende. É claro. Em Coruscant, olhando os arquivos imperiais e fazendo
uma contagem de todas as naves, uma se destacou por não estar contabilizada –
foi dito que a Nova República a tinha derrubado, mas nenhum registro de
rastreamento mostrava esse destino.
– A Eclipse – ela diz.
Ele assente.
– Vá até ela. Deixe este lugar. Encontre um novo demesne. Comece o jogo de
novo. – Os dentes dele se apertam como uma prensa. Através deles, ele continua
falando, agora balbuciando. – Indigno. Eu sou indigno. Só um skitterrato, não,
um vworkka. Pária, sempre o pária. Shah-tezh. Cora Vessora. Indigno...
A cabeça dele bate no degrau. Uma linha de sangue escorre do nariz, enquanto
o último resquício de luz se apaga atrás dos olhos.
Sloane se ergue. Da mão dele, ela tira algo: o par de peças. O Imperador e o
Pária. Meus, ela pensa.

A vibração embaixo dela a acorda. Norra se ergue com um grunhido. O


marido está embaixo dela. Com os olhos fechados, como se dormisse. Ela finge
que é isso que está acontecendo. Ele só está dormindo. Eu o acordo depois.
Quando for a hora de ir. Ela se apoia na parede e se levanta.
Movendo-se em direção aos degraus, vê outro corpo ali. É ele. Gallius Rax.
Sua capa vermelha está empoçada sobre o corpo, como vísceras espalhadas. A
respeito dele, ela conta uma história diferente: Ele não está dormindo. Está
morto. A vingança ganhou o dia. A justiça fugiu para as sombras.
Ali perto, ouve um som – de dedos em teclas. O chão subitamente balança
com força, e ela quase perde o equilíbrio. Norra continua subindo as escadas, um
passo agonizante por vez. Seu olhar segue o som, o som de teclas sendo
apertadas, e em frente há uma figura em pé, um pouco borrada – mas, quando ela
pisca, a mancha translúcida de sua visão ganha foco. É Sloane.
A pistola de armas está no chão entre elas.
Norra cambaleia até ela e a apanha.
– Sloane – ela diz, apontando a arma.
A imperial – ou não, vai saber a quem a mulher deve lealdade a esta altura –
se vira para ela, as mãos ao lado do corpo. Atrás de Sloane, os computadores
projetam a imagem de um mecanismo: trancas e bandas de transmissão e portas
telescópicas. São as chicanas que Brentin estava tentando fechar – mas não
conseguiu. Porque parou para salvá-la. Não, porque parou para morrer.
– Norra Wexley – Sloane diz. – Você e eu, novamente. No fim das contas.
– Sim – é tudo que ela consegue dizer. O que mais há? Alguma parte disso ao
menos é real? Ou é tudo um sonho febril? Estaria ela ainda deitada no chão ao
lado do marido, adormecido, morrendo ou já morto?
– Brentin. Ele está...
– Ele está bem – Norra exclama, as palavras tão firmes e ferozes que servem
como um protesto afiado. Mas ela sabe que não está. Lágrimas escorrem por seu
rosto, e ela tem que empinar o queixo para tentar negá-las. – Ele se foi – ela diz,
finalmente admitindo a verdade em voz alta.
– Sinto muito. Ele foi um companheiro de viagem melhor do que eu merecia.
– Sim. Isso é verdade. – Norra engole com força.
– O que vamos fazer?
– Não sei ainda.
– Eu preciso terminar o que Brentin começou e impedir que este planeta se
destrua. Alguma coisa aconteceu no núcleo, mas eu posso pará-la. Até onde
posso ver, há mecanismos que podem fechar o buraco, que podem impedir a
reação de aquecer o manto e rachar este planeta como um geodo.
– Ah.
– Você devia me deixar fazer isso. Por segurança, devia escapar.
– Não sei para onde.
– Encontre seu filho. Vá para casa. Tenha uma vida.
– Mais fácil dizer do que fazer.
– Mais fácil para você do que será para mim. Eu não tenho nenhuma dessas
coisas. Nunca tive um marido ou esposa para morrer nos meus braços. Nunca
tive um filho. Eu só tinha um Império e agora... – Norra não precisa que ela diga
mais nada.
– Fico triste por você – Norra diz, surpresa ao constatar que fala a verdade.
– Eu também. Você vai me matar?
– Brentin disse que você não era tão ruim quanto eu achei que era.
Sloane dá de ombros.
– Amaldiçoada com elogios questionáveis outra vez, pelo visto.
– Não somos todos? Amaldiçoados, quero dizer.
– Talvez. Talvez não.
– Siga em frente. Salve o mundo. Eu vou embora – Norra diz, suspirando e
enxugando lágrimas. A arma de raios cai da sua mão com um barulho metálico.
– Vamos torcer para que Brentin tenha razão e você não seja tão ruim quanto eu
acho.
Sloane dá um aceno curto.
– Boa sorte, Norra Wexley.
– Você também, grã-almirante Sloane.
Norra se vira e desce a escada para recolher o marido.

Lá fora, o ar está vermelho, asfixiado de poeira. Norra encolhe o queixo e a


boca sob o colarinho da camisa, o que lhe dá alguma proteção. Brentin é pesado,
mas é um fardo que ela sente ser necessário suportar. Ela pretende levá-lo de
volta a Akiva. De volta para onde ela possa enterrar um corpo nos pântanos de
sal, como é o costume do seu povo. De volta a um mundo onde ele não é apenas
uma lembrança. Onde ele pode ser um rosto que seu filho possa tocar. Um corpo
sobre o qual Temmin possa se enlutar.
Mas aonde? Aonde ela pode ir?
Mais uma vez, o chão estremece. Ela tropeça, caindo sobre um joelho, então
se esforça para levantar de novo.
A nave auxiliar. Ela vai estar a salvo lá, pelo menos da tempestade. Norra leva
o corpo para dentro da nave imperial escurecida. Reúne na boca o máximo de
saliva que consegue (o que é muito pouco) e limpa as bochechas.
Então, tenta ligar a nave.
Nada. Está morta. Os motores falharam e as células de combustível morreram
tentando dar vida a essa máquina arruinada.
Ela está ilhada.
Norra se senta no assento do piloto. Acomoda Brentin no assento ao seu lado.
Segura sua mão fria e dura. Por um tempo, ela dorme.
O som do motor de uma nave a acorda. Ela olha pela escotilha da cabine e vê,
através da tempestade de areia, uma nave cintilante se erguer dentre as nuvens
vermelhas – o iate se move rapidamente e some. Uma alucinação, ela pensa.
Algum fantasma terrível para provocá-la. Olhe a navezinha bonita. Não gostaria
de estar nela?
O sono a toma outra vez. Sono como morte, escuro e sem sonhos.
O mesmo som, uma repetição, a tira outra vez do sono profundo: motores de
uma nave zumbindo. Ela espia e não vê nada.
Mas o arranhar de uma bota atrás dela a faz se erguer de um pulo.
Sloane.
– Norra!
Não é Sloane. É Jas. Jas, flanqueada por um alienígena Kyuzo alto, usando
um chapéu amplo e arredondado. Jas Emari, sua salvadora. Jas Emari, sua
carona para casa.
Capítulo
38

Um Império não termina de uma só vez, e este, o Império Galáctico que


começou quando Palpatine roubou a Velha República, não é diferente.
Para este Império, a morte chega com mil cortes. É um sangramento lento que
talvez tenha começado não quando a primeira Estrela da Morte foi destruída,
mas muito antes, quando ele matou os Jedi para abrir caminho para o seu regime.
Quando dois gêmeos – um chamado Luke; a outra, Leia – caíram pelas
rachaduras, perdidos para o pai e o seu mestre sombrio, ambos cegados pelo
ódio e pelo ego. Outros ferimentos só apressaram seu fim: o nascimento da
Rebelião, a morte da primeira superarma deles, a desconfiança que alargou a
brecha entre Vader e o imperador e, claro, a perda colossal do Império em Endor.
Agora, uma perda ainda maior em Jakku foi a ferida final. A história se
lembraria de que a Nova República foi vitoriosa neste dia, e isso é verdade. A
história vai esquecer, entretanto, que na verdade essa última ferida foi
autoinflingida: um plano de contingência criado por um imperador impiedoso e
vingativo que nunca quis seu Império nas mãos de um sucessor.
Mesmo assim, embora a morte do Império seja feita de mil cortes, só uma
coisa a torna oficial: a assinatura de um cessar-fogo, que compreende tanto o fim
do combate como a rendição completa e incondicional do Império Galáctico.
Mas Amedda sai de seu esconderijo, resgatado (segundo seu relato) por um
grupo de crianças de Coruscant que ajudaram a formar a espinha dorsal de um
movimento de resistência próprio. Ele foi mantido prisioneiro pelo seu próprio
pessoal, sob ordens do usurpador Gallius Rax. Agora libertado e com as forças
imperiais destruídas, estava livre para assinar um Instrumento de Rendição
Imperial significativo.
Mon Mothma exige que isso ocorra em Chandrila – o mesmo lugar que o
Império atacou no Dia da Libertação. A assinatura é feita nos penhascos de
cristal ao norte da cidade de Hanna, sob uma árvore de tintoliva antiga. A
chanceler é acompanhada por seus dois conselheiros: Sinjir Rath Velus e o líder
hosniano, Sondiv Sella. A princesa Leia está presente também. A cerimônia
ocorre durante a terceira hora do seu trabalho de parto, embora ela só conte isso
ao marido depois que a cerimônia está completa – quando corre para a câmara de
nascimento no coração de Hanna.
O Império é rendido com concessões mínimas. O Instrumento de Rendição da
Concordância Galáctica demanda não apenas que todas as batalhas cessem em
nome do Império, mas também que o governo imperial se dissolva
imediatamente. Depois disso, Mon Mothma assina mais uma declaração
explicitando que todos os oficiais imperiais ainda vivos são categorizados como
criminosos de guerra. Funcionários não combatentes dentro do governo imperial
recebem perdões condicionais, desde que continuem a agir conforme os artigos
da Concordância Galáctica. Mas Amedda, por sua vez, escapa sem censura
formal, embora certamente o estigma nunca o abandone. A mídia e os livros de
história o consideram um puxa-saco, lacaio e um dos arquitetos dispostos –
ainda que fracos – do Império. Mesmo assim, ele recebe um governo provisional
(e impotente) em Coruscant, deixado com supervisores da Nova República que
garantem que ele permanecerá pouco mais que um testa de ferro, continuando
seu governo desdentado sobre um planeta conturbado.
Depois que a cerimônia termina, Mon Mothma agradece a Sinjir com uma
garrafa de algo caro: um lacrimel anterior ao nascimento do Império. Dentro da
garrafa, o líquido – que, se vamos ser honestos, são apenas as lágrimas
fermentadas das abelhas sencientes da colmeia Nem – tem um brilho dourado,
como a luz do sol no mar. Quando é balançado, o brilho aumenta.
– Esperança por meio da agitação – Mon Mothma explica. – A luz fica mais
forte quando lutamos.
– Anterior ao Império, você disse? – ele pergunta.
– De uma época melhor, sim.
Ele agradece. Ela pergunta se vai beber.
– Não – ele diz, surpreendendo a si mesmo. – Hoje não, pelo menos. Isso
parece especial demais para ser violado com minha língua grosseira.
– Você amadureceu – ela diz.
– Assim como esse vinho – ele responde, com uma piscadela.

A guerra acaba, o Império morre e a batalha continua.


Embora o cessar-fogo seja assinado, a Batalha de Jakku permanece. As forças
no planeta se recusam a se render. Lutam além do ponto da sanidade. Por
semanas. Então, meses. O remanescente imperial destroçado não tem estratégia.
Sua base é tomada. Os capitães da Frota Imperial sobrevivente usam táticas mais
dramáticas e desesperadas à medida que a batalha prossegue, muitos tentando
imitar o truque com o raio trator que serviu como a última manobra de Agate
nesta vida. Alguns desses capitães, usando coordenadas misteriosas, pulam para
o Espaço Desconhecido. Presume-se que seu desaparecimento equivalha a um
suicídio.
Esse remanescente é como um parasita com a cabeça enterrada na carne de
sua própria incerteza, os dentes mordendo com força. Leva meses para as lutas
acabarem de vez, meses para os soldados da Nova República reunirem os
prisioneiros e contarem os mortos, todo esse tempo para o fantasma do Império
alcançar a morte do próprio corpo e perceber que a luta realmente acabou.
Mesmo então, ela não termina em toda a galáxia. Remanescentes ainda
existem. Alguns se escondem, esperando que um salvador venha resgatá-los.
Outros saem, com atos espetaculares de violência e crueldade. Mas esses
remanescentes são poucos. Gallius Rax fez um serviço meticuloso ao destruir o
demesne. Aqueles que permanecem não conseguem ficar por muito tempo. O
resto são prisioneiros, tantos que a Nova República não tem ideia do que fazer
com eles.
Em Jakku, a guerra deixa para trás um mundo de escombros. Catadores se
deleitam com as sobras. Niima, a Hutt emerge mesmo antes que os combates
terminem de fato para começar a acumular o que ela e seu pessoal conseguem
encontrar. Um mercado negro se forma em torno da sucata e dos destroços –
armas e computadores e motores, todos pontilhando a areia como mercados de
um cemitério gigante. Niima senta no centro deste mercado negro como um
tumor gordo e pulsante desviando o fluxo sanguíneo para si mesmo.
A galáxia sara.
As pessoas também.
Mas danos tão graves como os causados pelo Império não podem sarar sem
deixar cicatrizes como lembrança.

Akiva.
A selva é espessa, embora o ar seja ainda mais. As tradições funerárias deste
planeta são muitas, mas esta é a que Norra e a família adotam: o corpo de
Brentin Wexley é enrolado em um tecido translúcido. Amigos e familiares o
cobrem de coroas de flores hai-ka, que são tão laranjas e suaves quanto as penas
de um pássaro de fogo. Então cantam canções e contam histórias sobre o corpo
antes de afundá-lo no pântano de sal. O sal vai comer o corpo em pouco tempo e
reivindicá-lo. Ele pode retornar a Akiva como uma criança de Akiva – da água
eles vêm, para a água retornam. Átomos para átomos.
Mas, antes que o corpo afunde, Temmin corre até o pai e dispõe sobre ele um
honorífico diferente.
Um braço de metal. Um braço de droide. Ele pertenceu a Ossudo, e foi a única
parte do amigo mecânico que conseguiu resgatar das areias de Jakku. Temmin,
tentando desesperadamente não chorar, sussurra:
– Ossudo, cuide do meu pai, okay? Mantenha-o a salvo. – Então ele abraça os
dois.
O pântano toma o corpo.
Norra cai ao chão, chorando, e Temmin a abraça por um tempo, enquanto suas
tias aguardam por perto. Quando todos os outros foram embora, ele a ajuda a se
levantar. Eles passam alguns dias com as tias, então é hora de ir para casa.

Graças a um amigo que agora é aparentemente um conselheiro de alto escalão


da chanceler da Nova República, Jas Emari não só consegue perdões completos
para Dengar, Embo e Jeeta, mas arranja para eles algum dinheiro da Nova
República. Não tanto quanto ela prometeu, não. Mas é o suficiente para impedir
que eles a matem – e suficiente para convencê-los a continuar juntos como um
novo time. Dengar parece particularmente satisfeito com isso.
– Os tempos estão mudando, meus tolinhos. Vamos precisar cuidar uns dos
outros, hein?
Mesmo assim, ela reserva algum tempo em Chandrila para si mesma. Diz ao
seu novo time que vai rastreá-lo quando chegar a hora.
Agora, diz que tem de encontrar outra pessoa.
Ela ouviu uma história de que Jom Barell foi a Jakku para salvá-la. Risível, na
verdade, porque como assim ele vai salvar a ela? Ela não sabe se virar, então?
Jas acha que provou muito bem que sabe, de modo que seu plano é ir até o
apartamento dele, olhá-lo direto no olho (o único olho, porque o outro se foi),
lhe dar uma palestra severa sobre sua capacidade de salvar a si mesma, muito
obrigada, e depois beijá-lo até ele não conseguir respirar. Quando ela chega lá,
ele não está em casa.
Outra pessoa está. Uma mulher. Uma soldado de elite, pelo uniforme. Jas fica
envergonhada e balbucia desculpas...
A mulher diz que está lá para coletar os pertences de Jom.
– Por quê? Aonde ele foi?
– Ao lugar para onde todos vamos – a mulher responde. Jas ainda não
entende, então a mulher explicita: – Ele morreu em Jakku.
Leva tempo demais para Jas entender. Mesmo quando compreende, ainda não
compreende. A mulher diz que há um vídeo do U-wing – e pergunta se Jas quer
vê-lo. Ela não quer, mas diz que sim e assiste. É curto e agitado – o padrão para
uma câmera de combate. A nave cai na atmosfera, e os soldados das Forças
Especiais estão perto da saída, prontos para pular e se juntar à guerra mesmo
antes da maldita coisa ter uma chance de pousar. Jas vê Jom ali; ele se inclina na
direção da câmera e dá uma piscadela e um aceno duro.
– Nova República, ahuga...
E o resto dos soldados de elite, homens e mulheres, ecoam essa palavra:
– AHUGA!
É algum grito de guerra que Jas não entende.
Jom sorri pela última vez.
De fora da porta, da superfície de Jakku, Jas vê algo cintilar. Um míssil,
talvez. Concussivo, provavelmente.
Nenhum dos outros vê. Nenhum, exceto Jom. Ele grita:
– CHEGANDO!
Então faz o impensável. Jom coloca o pé na borda da porta aberta e salta sobre
o canhão de raios para o ar. Ele se mantém flutuando, pulsando seu jetpack –
dois jatos fortes de energia azul nas costas – e se dirige para o míssil.
O U-wing vira para bombordo, erguendo-se e afastando-se do projétil que se
aproxima. Enquanto se move, Jom desaparece do vídeo – e Jas sente as
entranhas se contorcendo enquanto grita por dentro que quer que a câmera vire
para baixo de novo, para baixo, para baixo, para poder vê-lo pela última vez.
Tudo fica branco e pixelado.
– Eu... eu não entendo – Jas diz quando o vídeo acaba. – Ele devia ter
apontado aquele canhão...
– Teria levado alguns segundos para girar para cima. Seria tarde demais.
– Ele não precisava ter feito isso.
– Mas fez. E nos salvou.
É tudo que Dayson precisa dizer.
Jas agradece à mulher e vai embora. Ela leva dias para processar. Dias
andando como se estivesse no corpo de outra pessoa, dias até que a realidade a
atinja com o impacto de uma parede desmoronando sobre si: Ele foi me salvar e
morreu a serviço disso. Ele seguiu seu coração e foi morto. Então se pergunta:
ela teria feito a mesma escolha? Ela tem um propósito maior, uma dívida maior,
e está disposta a pagá-la? Talvez seja ela que não tenha uma estrela.
Jas passa a semana seguinte na cama, encarando o teto.
A guerra é sobre perda, sim. Mas, quando termina, a alegria triunfa. Como
poderia não triunfar? Enterrar os mortos é um ato pesaroso, mas a celebração
que se segue confirma que eles não morreram em vão. Eles morreram para
libertar a galáxia.
E a galáxia comemora, com certeza. A mão de ferro do Império não apenas
soltou o pescoço da galáxia – ela sumiu de vez. A opressão chegou ao fim, e as
comemorações duram semanas. Fogos de artifício em Chandrila. Festivais
culinários em Nakadia. Festas infindáveis nas ruas e nos telhados de Coruscant.
E desta vez o Império não está lá para pôr fim em tudo isso. Eles não policiam
esses carnavais e festividades. Não há nenhum trooper para atirar nos desfiles ou
executar os manifestantes. É só mais um sinal de que o Império realmente se foi.
A Nova República demonstra que é o oposto total do Império Galáctico: ela
incentiva as comemorações, promove folias e desfiles e exultações de alegria
oficiais. Onde quer que a luz da Nova República toque, ela marca a ocasião com
um feriado.
O Dia da Libertação é transformado nos sete dias do Festival da Libertação.

E, depois, há a questão de uma criança.


No dia em que os Instrumentos de Rendição são assinados, um bebê nasce em
Chandrila, filho de Leia Organa e Han Solo. Amigos e familiares se reúnem.
Rumores voam sobre quem estava lá e quem não estava. Alguns dizem que o
garoto dourado Luke Skywalker fez uma aparição e depois sumiu de novo, em
alguma missão desconhecida. Outros dizem que a ausência dele foi suspeita.
Também faltou o copiloto de Solo, que disseram ter finalmente encontrado a
própria família Wookiee em Kashyyyk. Histórias do parto vão do dramático e
fortuito ao absolutamente agourento – uma história sugere que a câmara de
nascimento ficou ocupada por três dias inteiros enquanto Leia sofria. Outra conta
que o parto foi rápido e indolor: ela só precisou se acalmar e meditar para tornar
o momento tão tranquilo quanto um lago de montanha. Alguns dizem que o
garoto nasceu com um tufo de cabelo negro, outros que tinha um conjunto
completo de dentes, outros que era só um bebê como todos os outros, doce num
momento, berrando no próximo e aninhando-se com a mãe como qualquer
criança saudável.
O que se sabe é isto: o nome da criança é Ben, e deram-lhe o sobrenome do
pai, mesmo que Leia mantenha apenas o nome de sua família, Organa.

Han olha nos olhos do filho.


Meu filho.
Como diabos isso aconteceu? Bem, ele sabe como aconteceu – uma noite sob
as estrelas na copa das árvores de Endor. Mas, no sentido mais amplo, a galáxia
é um lugar mais estranho do que ele imaginava se está deixando que ele seja um
pai.
Solo está na sala do bebê, sozinho. O garoto, Ben, se debate e gorgoleja na
bolha branca de proteção que é o berço. Han se inclina sobre ele, os braços
cruzados em cima do berço enquanto olha o rosto gorducho da criança e seus
olhos escuros. Eles se examinam. A criança gargareja.
Enquanto Leia está em outro cômodo tomando banho, Han diz em voz baixa:
– Ei. Somos você e eu, garoto. A maldita galáxia inteira contra nós, mas
vamos conseguir. Eu não vou ser sempre o melhor pai... quer dizer, não sei que
diabos estou fazendo aqui. Mal consigo cuidar de mim mesmo. Mas sempre vou
nos manter apontados na direção certa... mesmo que haja uns zigue-zagues no
caminho até ela. Aqui vai sua primeira lição: às vezes fazer a coisa certa não
significa seguir uma linha reta. Às vezes você tem que... – Ele gesticula como se
fosse um peixe nadando de um lado para outro, esquerda e direita e para cima e
para baixo. – Não conte para sua mãe que eu disse isso.
Ben começa a chorar. O choro vem depressa, como uma tempestade tropical.
Num momento ele está olhando para cima e de repente atinge, boom. O corpinho
se enrijece, e as mãozinhas se tornam punhos e socam o ar. As bochechas
brancas se tornam vermelhas. O som que sai dele é como uma sirene de
tempestade.
Han se encolhe. Ah, maldição. Ele olha ao redor como se devesse haver algo
ou alguém lá para salvá-lo – ali perto, ele encontra uma pequena boneca tooka
que Lando enviou, exibe-a no ar acima do garoto e a sacode.
– Aqui. Olhe. O gato está, aaahhh. O gato está dançando? Um tooka dançante.
Vamos, garoto, você tem que me ajudar aqui.
Isso não ajuda em nada a conter o fluxo de lágrimas.
Han resmunga, procurando outra coisa. Ele está prestes a gritar por Leia – mas
lá está ela de novo, entrando pela porta.
– Ele está, aaah, sabe? Fazendo aquele som de novo.
– Ele está chorando.
– Certo. É. – Han ergue um dedo. – Não é culpa minha!
– Han – Leia diz, indo até ele, ainda de toalha. – Está tudo bem. Ele é um
bebê. Bebês choram. É assim que você sabe que eles querem alguma coisa.
– Ah. É, não, claro. Talvez você deva fazer seu... – Com mímica, ele faz a
mão flutuar no ar, em um gesto quase religioso. Leia tem uma conexão com o
garoto que ele nunca poderá ter. Como Luke, ela tem a Força. Isso é algo em que
ele não acreditava, mas, desde que se envolveu com esse grupo, viu muita coisa
estranha para acreditar que fosse só um monte de baboseira. Leia não consegue
fazer o que Luke consegue e talvez nunca consiga, mas ela é capaz de aquietar a
criança com o gesto mais leve. Ele odeia admitir, mas tem inveja. Han nunca terá
isso com Ben. Os dois estão conectados de um jeito que ele nem consegue
começar a entender. – Sabe? Use a Força.
– Por que não tentamos outra coisa?
– Um pouco de brandy nas gengivas?
– Segure-o – ela diz.
– Só... segurá-lo?
– Sim. Ele é seu filho. Use suas mãos. Vamos, Han. Segure-o. Ele quer ficar
abraçadinho.
– Eu faço contrabando, não cafuné.
– Han.
Ele suspira.
– Ok! Ok. – Ele se inclina e cuidadosamente pega o filho. Ele o ergue, e Ben
se contorce em seus braços. Ele é tão pequeno. Han pensa em como seria fácil
quebrá-lo. Ou derrubá-lo. O menino é vulnerável a qualquer coisa. Então ele faz
o que parece mais natural: protege a criança trazendo-o para perto do corpo. E
simples assim...
Ben para de chorar. O garoto se aconchega no seu peito. Arrota uma vez, os
olhos escuros se fecham e ele apaga como uma lâmpada.
– Viu? – ela disse. – Você não precisa da Força.
– Mas eu nunca terei o que você tem com ele.
– Não precisa – ela diz, gentilmente. – Você vai ter algo próprio, porque é o
pai dele.

Semanas depois, o antigo time de Norra se reúne outra vez. Não para uma
missão. Eles se reúnem porque pode ser a última vez que vão se ver por um
tempo. Talvez para sempre, considerando como as coisas acontecem às vezes. A
taverna onde se encontram é uma das favoritas de Sinjir, do lado de um penhasco
com vista para o Mar de Prata. Eles se reúnem para beber, e brindam a Jom, a
Auxi, a Brentin Wexley e claro que brindam a Senhor Ossudo e contam histórias
sobre aquele droide assassino dançador maluco até que estão todos rindo tanto
que estão chorando. Eles brindam ao Império e à Nova República. Eles brindam
a Leia e Han e ao novo bebê que certamente os está mantendo acordados de
noite. (“Macaquinho choradeiro”, Sinjir chama a criança.)
Quando falam da criança, Sinjir acrescenta, como se estivesse surpreso:
– Sabe que ele não cheira mal? Não cheira mal mesmo.
Conder ri e explica:
– Sin pensou que o bebê iria feder.
– Claro que pensei. Bebês são coisinhas nojentas, cobertos em sua própria
gosma infantil. Eu esperava que cheirassem a azedo. Ou... como fraldas.
– Ah, Sinjir, não – Norra diz, o rosto corando com um pouco de inebriamento
do junipera que está bebendo. – Não, não, não. Os bebês têm um cheiro
maravilhoso. Um cheiro doce e fresco e inocente.
– Parece que você quer comê-los – Sinjir diz. – Espere, talvez devêssemos
comê-los. Eles são como pãezinhos que se contorcem.
Conder enfia um cotovelo nas costelas dele. Sinjir solta um oof.
Norra continua:
– Pare, não há nada como o cheiro de um bebê novo. Aquela criancinha
estelar cheirava como se fosse feito de toalhas limpas. Este aqui cheirava tão
bem... – Ela se inclina para o filho, que, claro, está bebendo um suco jogan como
um rapaz responsável. Temmin torce o nariz de vergonha e não consegue fugir
da mãe enquanto ela aperta suas bochechas e faz um som como gugu-dada.
– Mãe.
– Ah, relaxe, Tem. Eu sou sua mãe. Tenho permissão de te envergonhar de
tempos em tempos. É meu direito maternal, sagrado e universal.
– Ugh.
Jas se reclina com a graça de um patife e estala a língua.
– Acho que a gente devia te chamar de Snap agora, não é?
De novo ele está envergonhado. O rosto fica vermelho.
– É assim que outros pilotos no Esquadrão Fantasma me chamam. É porque
eu posso virar assim... – Ele estala os dedos, snap. Todo mundo sabe que é por
causa do seu hábito nervoso, compartilhado com o pai. Mas ninguém o corrige
hoje.
– Esquadrão Fantasma. Mais como Esquadrão Fantasiado – Sinjir diz. – Mais
fantasiosa ainda é essa leve camada de... o que tem no seu lábio e no rosto aí?
Poeira? Pó de choko? – Ele se inclina e cutuca com um dedo.
– Ai, ei – Tem exclama. – Eu só estou deixando a barba crescer.
– Como Jom – Jas diz.
– Como Jom – o resto deles ecoa. De novo eles erguem as taças. E de novo
brindam e bebem.
Conder se inclina para a frente e diz a Temmin:
– Um droide rato me contou que a Nova República vai fundar uma nova
academia de voo em Hosnian Prime. E ouvi dizer que você será um aluno lá, é
verdade?
– É. Não é nada de mais.
– Talvez você aprenda a pilotar uma nave finalmente – Sinjir diz com uma
piscadela. – Você sabe que não são brinquedos para bater no chão.
Conder dá um tsk e diz:
– Não deixe que ele seja sarcástico com você.
Sinjir faz uma careta.
– Eu sou um bastardo sarcástico. É parte da minha natureza.
– Sério, você devia se orgulhar, Temmin – Conder diz. – Mas aposto que vai
sentir falta da sua mãe, hein?
– Então... – Temmin começa.
– Eu vou com ele – Norra diz. Sobrancelhas se arqueiam de curiosidade, e ela
responde às questões não feitas com: – Ah, relaxem. Não é assim, eu não sou a
mãe zelosa incapaz de dar liberdade ao filho estrela. Wedge vai ser o instrutor-
chefe lá, pelo menos para organizar a escola. E ele me convidou para ensinar
também. – Ela não diz nada sobre como ela e Wedge têm passado um tempo
considerável juntos. Não é romântico. Pelo menos, é o que ela diz a si mesma. A
lembrança de Brentin ainda está fresca como uma queimadura. É cedo demais
para deixá-la esmaecer. Ela quer se segurar àquela dor pelo máximo de tempo
possível. – Aparentemente, eles acham que eu não sou uma piloto tão terrível.
Mais parabéns percorrem a mesa.
Eles falam um pouco sobre o que farão em seguida. A ascensão do Sol Negro
e da Chave Vermelha fez Jas querer pagar suas dívidas – algo que seu novo time
heterogêneo de caçadores de recompensas pode ajudá-la a fazer. Sinjir vai
continuar aconselhando a chanceler – e agora a corrida está aberta para encontrar
um terceiro conselheiro, com o propósito de ajudar a balancear o par Sinjir e
Sondiv Sella, em constante discussão. Embora Han e Leia não estivessem ali, os
dois aparentemente vão permanecer – ainda que Sinjir observe que a princesa
está bem ansiosa para voltar a ajudar aqueles mundos ainda sob o jugo de
remanescentes imperiais.
A noite continua, e a lua ilumina o Mar de Prata. A conversa começa a morrer
e, quando isso acontece, eles vão embora um a um. Jas diz que vai partir com o
novo time. Sinjir faz uma cara de vômito e diz que será submetido a outra
reunião de manhã cedo, o que, segundo ele, é “um ato de tortura tão vil que eu
devia ter utilizado como arma no meu arsenal todo esse tempo”.

Fora do bar, Sinjir diz a Conder para ir na frente e ele e Jas ficam para trás.
Uma brisa suave sopra do mar. Abaixo deles, ondas quebram contra os
penhascos. Jas observa Sinjir – há algo um pouco diferente nele, agora. Seus
ombros não estão tão tensos. Seus ângulos se suavizaram, mesmo que só um
pouco. Parece que algo o deixou: uma pressão, um fardo, uma presença que ela
não sabe direito definir. Isso lhe deu uma postura mais tranquila, como se ele
tivesse encontrado algum tipo de paz, por mais estranha e temporária que seja.
– Parece que você encontrou sua estrela – Jas diz.
– Conder?
– Não ele. Bem, talvez ele. Quer dizer, você encontrou uma vida. Um
propósito. Esteve vagando desde Endor. Você não é mais takask wallask ti dan.
Ele se aproxima e coloca um braço ao redor dela.
– Ah, não sei. Sem você, acho que vou me sentir bem perdido.
– Você vai ficar bem. Tornou-se respeitável, lembra?
– Respeitável? Bah. Eu desci vários degraus na hierarquia moral quando
passei de torturador imperial para conselheiro político.
– Só estou feliz por você ter encontrado um propósito.
– Parece que todos encontramos nosso propósito.
Ela dá um risinho, inclinando a cabeça de modo que seu cume singular de
cabelo vire e revele o lado do crânio onde os chifres foram quebrados.
– Eu nunca perdi o meu.
– Mas mudou um pouco, não mudou?
– Hm. Sim. Eu aprendi a brincar em grupo, para começar. – Ela suspira. – E
aprendi que talvez minha tia não estivesse errada sobre tudo. Talvez eu devesse
aceitar alguns trabalhos mais, hããã, éticos a partir de agora. Não há nada de
errado em ajudar as pessoas de vez em quando. Contanto que haja uma sacola de
créditos no fim. A pessoa precisa ser paga, afinal.
– Você vai ficar bem?
Jas franze o cenho.
– O quê? Está falando das minhas dívidas? Vou ficar bem. Eles me
perseguiram esse tempo todo e agora eu tenho um time cuidando de mim. – Ela
enrijece. – Tudo bem que é um time que provavelmente vai me trair assim que
receber uma oferta viável, mas eu vou queimar essa ponte quando chegar até ela.
– Não. Eu quis dizer por causa de Jom.
Jom. O nome é como um soco. Foi pronunciado a noite inteira, e um chute no
estômago toda vez.
– Jom e eu nunca teríamos algo real. Mas tínhamos algo tolo e incompleto e
eu estava bem com isso. Ele era... – Ela tenta não desmoronar. Ela se controla,
mesmo que com dificuldade. – Ele era um idiota que gostava de mim mais do
que eu gostava dele, e isso o matou.
– Não é culpa sua.
– Não, não é. É dele. Mas eu me sinto mal com isso e me sinto pior porque
não há nada que eu possa fazer para equilibrar a balança. Essa é uma dívida que
eu não posso pagar porque não há ninguém a quem pagá-la.
– Nem tudo na vida são dívidas.
– Tudo na vida são dívidas. Você as acumula e as paga. Outros têm dívidas
com você e você tenta cobrá-las, por sua vez.
– Sua vida inteira é um livro de contabilidade?
– Mais ou menos.
Ele a abraça com força.
– Seu cinismo me dá vida, cara Jas.
– O sentimento é recíproco. Infelizmente, tenho que ir.
– Vamos nos ver de novo, não vamos?
– Não sei – ela responde, e é uma resposta sincera.
– Justo.
Ele beija a têmpora dela. Ela o segura por mais algum tempo, permanecendo
no penhasco enquanto o mar se aproxima e bate contra as pedras. Então ela vai
para um lado, e ele, para outro.

– Nós vamos vê-los de novo – Temmin diz.


– Eu sei.
– Eu sinto falto do papai. E de Ossudo. Eles deveriam estar aqui.
– Eu sei. Sinto falta deles também. – Ela olha para o filho. Mesmo agora, é
estranho ver como ele cresceu no pouco tempo desde que retornou a Akiva. Seu
rosto está mais redondo. Seu cabelo, mais volumoso. Os olhos estão um pouco
mais escuros agora também. Os ombros ficaram mais largos – quando ele era
bebê, ela se maravilhou ao vê-lo começar a engatinhar, depois ficou perplexa
com a transição veloz para um menino. Então de menino a adolescente, e agora
de adolescente a um jovem rapaz. Tantas mudanças.
Isso a entristece, ao mesmo tempo que a emociona.
– Vamos ficar bem – ele diz, dando tapinhas na mão dela como se sentisse sua
angústia. Ele tem uma boa cabeça nos ombros. Talvez tenha levado um tempo
para colocá-la no lugar, e ela não ajudou. Deixando-o em Akiva? Jogando-o no
meio de uma guerra? Eu sou basicamente a pior mãe do mundo, ela pensa. Mas
ambos estão vivos. Então, ela decide se perdoar por todas as coisas que
aconteceram. Justiça e vingança são duas forças conflitantes, mas Norra rejeita
ambas. Não há mais necessidade de se vingar contra si mesma pelo que fez ou de
buscar justiça e recompensa pelo tipo de mãe que tem sido. Perdão para si
mesma desabrocha dentro dela, tão brilhante quanto uma estrela e quente como o
sol do meio-dia. Talvez seja a bebida. Talvez seja a noite com os amigos. Mas
parece que uma boa dose de feiura nela é subitamente arrastada para o mar.
Desaparece, adeus.
– Amo você, garoto – ela diz ao filho.
– Amo você, mãe.
– Passou da sua hora de dormir, Snap.
Ele estala os dedos para demonstrar.
– Ou a gente poderia ficar acordado a noite inteira e ver os barcos saírem para
pescar de manhã.
– Só desta vez. Depois temos que fazer as malas. A Academia Corelliana
aguarda.
Eles se erguem e vão, sem ter certeza se suas aventuras terminaram ou só
começaram.
Epílogo
As Regiões Desconhecidas

Percorrer o abismo além da galáxia conhecida leva meses.


Os meses são duros e solitários para Sloane. A Imperialis é uma nave fria e
impecavelmente projetada, e ela a compartilha com um bando de crianças
selvagens e o remanescente emaciado e assombrado do homem chamado
Brendol Hux. Os primeiros dias da viagem ela passou preocupada se um dia Hux
iria mandar seus órfãos hediondos para massacrá-la enquanto dormia. Mas,
depois que viu que as crianças obedeciam ao filho de Hux – um garoto pálido e
magrelo com um tufo de cabelo ruivo –, foi até ele e pediu ao jovem Armitage
que fizessem um acordo. Ela disse:
– Se estiver disposto a me manter a salvo das crianças, eu o mantenho a salvo
do seu pai. Temos um acordo?
O garoto assentiu e disse que tinham.
Então ela encontrou Brendol Hux no quarto dele e lhe mostrou um pedaço da
capa ensanguentada de Rax e o grampo contendo as coordenadas do mapa
estelar. Ela disse que sabia que Brendol sempre a odiou e que o sentimento era
mútuo, mas que, se eles iam empunhar o estandarte do Império, tinham que ser
aliados, mesmo que relutantes.
O imbecil cometeu um erro, em seguida: pulou sobre ela. Suas mãos tentaram
se fechar na garganta de Sloane. Mesmo espancada e machucada, ela não
demorou muito para estender o joelho dele com um chute duro. Enquanto ele se
dobrava no meio, choramingando, ela agarrou um tufo do cabelo desgrenhado e
começou a espancá-lo. Ela socou e chutou o homem até ele estar no chão, de
joelhos, gemendo. Sloane lhe disse:
– Se um dia você me trair, vou provocar a mesma violência em você, cem
vezes pior. O que quer que nos aguarde lá fora, você está do meu lado. Você não
vai me trair. Você não vai me questionar. Entendido?
Ele assentiu. Sorriu em meio às lágrimas. Balbuciou que era o homem dela.
Então ela acrescentou:
– Seu filho. Armitage. Sei que você não gosta dele. Suspeito que o tenha
machucado. Psicológica ou fisicamente, não sei, e não me importa. Você vai
deixá-lo em paz. E vai ensinar ao garoto tudo que sabe. Está claro?
Mais balbucios, mais acenos.
Isso resolveu esse problema.
Não resolveu, entretanto, o problema da solidão dela. Durante a viagem, ela se
manteve longe das crianças, longe de Hux. Manteve-se apartada, ocupando seu
tempo olhando os registros da nave – estudando sua história, seu registro de voo,
suas comunicações e armas. A nave, como todos os iates de Palpatine, tem marca
de fabricação de Raith Sienar. Talvez não seja surpreendente que esteja bem
equipada com artilharia escondida; a maioria dos iates, afinal, não é carregada
com canhões de plasma eletromagnéticos Umbaran. Também não é
surpreendente que esta nave, sendo uma réplica, tenha muito pouco tempo de
voo. Foi do estaleiro sobre Castell para Jakku e ficou lá por anos – remontando
ao tempo em que Sienar era uma corporação da República.
O que é surpreendente é que, pouco tempo depois de decolar, a nave
transmitiu um pequeno pacote de dados a uma dúzia de fontes diferentes.
Transmissores da nave, pelo visto. E ela tem dificuldade para desvendar até
mesmo isso. Sloane não tem ninguém a quem perguntar, exceto o estranho
droide pilotando a nave; então, pergunta ao sentinela:
– O que transmitimos? E a quem?
O sentinela responde:
– Coordenadas de rota. Enviadas a imperiais considerados leais.
– Quem os considerava leais? Rax?
– O imperador Palpatine.
– Você é leal a Palpatine?
– Todos os sentinelas e mensageiros são programados para servir à vontade
dele, mesmo na morte.
– Bom – ela disse. Embora ela não tivesse, e ainda não tenha, certeza de quão
bom isso é. O que os aguarda ainda é um mistério. Quem os aguarda – e quem
seguirá os passos deles – é um dilema ainda mais perturbador.
Tudo isso, presumindo que eles vão sobreviver.
A viagem pelas Regiões Desconhecidas tem sido aflitiva. Dar saltos curtos no
hiperespaço através do caos tem sido como percorrer um labirinto perigoso a
toda velocidade. Mas o sentinela lhe assegurou que a rota era segura. Eles
desviaram de supertempestades e viram estranhas criaturas na escuridão do
vácuo. Perderam a energia do sistema quando uma rajada magnética de origem
misteriosa irradiou pelo espaço – mas só por algumas horas e, com a energia
restaurada, eles puderam prosseguir.
Não ajuda que todo o tempo a lateral do corpo dela doa fortemente. Toda
manhã ela checa o antigo ferimento e, embora o hematoma tenha diminuído, as
costelas parecem macias e afundadas. Mesmo o toque mais leve e suave da ponta
dos dedos sobre a pele causa enorme dor. Algo está quebrado por dentro. Ela diz
a si mesma que vai consertar quando eles pousarem na Eclipse. Se eles pousarem
na Eclipse.
A verdade é que Sloane quase não veio nessa viagem.
Quando finalmente desligou o mecanismo de autodestruição no Observatório
– que teria partido o planeta de Jakku no meio, destruindo tanto as forças do
Império como da Nova República –, ela considerou permanecer naquele mundo.
Então pensou em seguir Norra e procurar um caminho para a Nova República.
Talvez a prendessem. Talvez lhe dessem um emprego. Talvez alguém
discretamente cortasse sua garganta e a jogasse no mar. Não importava o
resultado; pelo menos ela teria encontrado um propósito, mesmo que breve.
Então, a antiga ambição renasceu – uma fogueira que ela pensara estar
apagada novamente brilhava com brasas revividas. Se há uma chance de
reconstruir o Império, eu não deveria aceitá-la? Não poderia torná-lo melhor? À
sua própria imagem? Ela sentiu a promessa de uma nação de fronteira criada a
partir da lealdade e da ordem, e não abandonada a traições e incesto, como o
Império que Palpatine criou e Gallius Rax destruiu. Eles são pioneiros nesse
espaço. São os primeiros fora dos limites conhecidos da galáxia.
Ela percebeu: Pode ser meu se eu estiver disposta a tomá-lo.
Logo, eles chegarão ao seu destino.
E logo ele estará pronto para ser tomado por ela.

A Imperialis desliza, cintilando nas margens de uma tempestade geomagnética


– a distância, parecem fios de luz difusa, diáfana e espectral, emergindo de uma
nuvem azul e preta e se encontrando no vácuo. A luz se entrelaçando e
contorcendo.
– Lá – Brendol Hux diz. Hux deu um jeito na aparência. O cabelo e a barba
estão aparados. Ele perdeu um pouco da barriga que trouxe consigo. Sloane vê o
que ele indica: ao longe, a lâmina esguia de um superdestróier estelar flutua além
da luz e dentro da escuridão.
Ela conhece essa nave.
A Eclipse.
Ao droide sentinela pilotando a Imperialis, ela diz:
– Leve-nos para lá. É hora de nos unir com aqueles que vieram antes. – Ela
não sabe inteiramente quem foi enviado à frente. Nem Hux sabia. A tripulação
original da Eclipse? Será que os outros foram escolhidos a dedo por Palpatine –
ou por Rax? Ela não sabe dizer e está ansiosa para resolver esse mistério – e
também preocupada com a resposta. Se aqueles presentes são leais a outros, mas
se recusarem a ser leais a ela, então sua gestão desse novo Império será
terrivelmente curta. Ela sabe que, não importa o que aconteça, sua luta não
terminou. Só começou, e isso a preocupa consideravelmente.
Suas preocupações são muitas. Será que Hux vai traí-la quando eles se
juntarem aos outros? Quem vem depois deles? Eles servem a ele ou a ela? Ela
pode ser o legado de Palpatine ou deve sempre combater o fantasma de Gallius
Rax, sua presença persistindo naqueles que restaram? A influência daquele
homem era um vírus. Infeccioso e potencialmente incurável. Então há a questão
das crianças: aqueles monstros de olhos brilhantes. Elas treinam todo dia aqui a
bordo da nave, sob o comando tanto de Brendol como do seu filho Armitage.
Armitage se tornou mais cruel nesses meses, mesmo para um garoto tão
pequeno.
Sloane gosta dele. Mas também se preocupa com ele.
Eles podem colonizar tudo.
Sua nova galáxia nunca terá conhecido uma época sem um Império.
Isso a empolga.
E, na verdade, a preocupa também.
– É hora de começar de novo – ela diz a Hux. – Esta é nossa primeira ordem.
Começar de novo. E acertar dessa vez.
– É claro, grã-almirante. O que precisar. Glória à grã-almirante Sloane.
– Não – ela diz. – A glória é apenas ao Império.
Meu Império, ela pensa.
AGRADECIMENTOS

Acho que o maior agradecimento que devo fazer é àqueles arquitetos e


sonhadores que tornaram esta galáxia tão real para mim como para tantos outros
durante as últimas (minha nossa!) quatro décadas: George Lucas, Kathleen
Kennedy, Leigh Brackett, Irvin Kirshner, Dave Filoni, Timothy Zahn, J. J.
Abrams e, logo, Rian Johnson. Essa é só uma lista simplificada das centenas,
talvez milhares de pessoas que moldaram essa galáxia de histórias de alguma
forma, seja grande ou pequena, ao longo dos anos.
Obrigado também à grã-almirante editora Elizabeth Schaefer, ao vizir Tom
Hoeler (que também tem um segundo emprego como tradutor do huttês e
compositor) e à agente literária supersecreta da Primeira Ordem Stacia Decker.
STAR WARS / FIM DO IMPÉRIO
TÍTULO ORIGINAL:
Star Wars / Empire’s End
COPIDESQUE:
Isabela Talarico

REVISÃO:
Giselle Moura
Tássia Carvalho
Ana Luiza Candido

CAPA, PROJETO GRÁFICO E DIAGRAMAÇÃO:


Desenho Editorial
ILUSTRAÇÃO:
Scott Biel

DIREÇÃO EXECUTIVA:
Betty Fromer

DIREÇÃO EDITORIAL:
Adriano Fromer Piazzi
EDITORIAL:
Bárbara Prince
Andréa Bergamaschi
Renato Ritto
FINANCEIRO:
Roberta Martins
Sandro Hannes

COMUNICAÇÃO:
Luciana Fracchetta
Leandro Saioneti

COMERCIAL:
Lidiana Pessoa
Roberta Saraiva
Giovani das Graças
COPYRIGHT © & TM 2017 LUCASFILM LTD.
COPYRIGHT © EDITORA ALEPH, 2018
(EDIÇÃO EM LÍNGUA PORTUGUESA PARA O BRASIL)
TODOS OS DIREITOS RESERVADOS.
PROIBIDA A REPRODUÇÃO, NO TODO OU EM PARTE, ATRAVÉS DE QUAISQUER MEIOS.
FIM DO IMPÉRIO É UM LIVRO DE FICÇÃO. TODOS OS PERSONAGENS,
LUGARES E ACONTECIMENTOS SÃO FICCIONAIS.
EDITORA ALEPH
Rua Tabapuã, 81, cj. 134
04533-010 – São Paulo – SP – Brasil
Tel.: [55 11] 3743-3202
www.editoraaleph.com.br
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) de acordo com ISBD

W469s Wendig, Chuck


Star Wars: Fim do Império [recurso eletrônico] / Chuck Wendig ; traduzido por Isadora Prospero. -
São Paulo : Aleph, 2018.
381 p. ; 4,19 MB.
Tradução de: Star Wars: Empire’s End
ISBN: 978-85-7657-417-0 (Ebook)
1. Literatura norte-americana. 2. Ficção científica. I. Prospero, Isadora. II. Título.

2018-1069 CDD 813.0876


CDU 821.111(73)-3

Elaborado por Odilio Hilario Moreira Junior - CRB-8/9949


Índice para catálogo sistemático:
1. Literatura : Ficção Norte-Americana 813.0876
2. Literatura norte-americana : Ficção 821.111(73)-3
STAR WARS - Dívida de honra
Wendig, Chuck
9788576573715
464 páginas

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O imperador está morto, e os vestígios de seu derrotado governo estão recuando.


Na emocionante continuação de STAR WARS: Marcas da guerra, a Nova
República luta para instaurar uma paz estável na galáxia após a destruição da
segunda Estrela da Morte. É um momento de novos começos e novos destinos e,
para Han Solo, isso significa pagar uma última dívida, ajudando Chewbacca a
libertar seu mundo natal, Kashyyyk. Enquanto isso, o grupo de Norra Wexley
persegue agentes imperiais remanescentes pela galáxia, levando-os à justiça.
Mas ainda não conseguiram capturar a grã-almirante Rae Sloane, a nova líder do
Império, uma mente ardilosa e disposta a tudo para restaurar a antiga ordem
política. A caça a Sloane é interrompida quando Norra recebe um pedido de
ajuda urgente da princesa Leia Organa. Em sua tentativa de libertar Kashyyyk,
Han e seu grupo de contrabandistas caíram em uma emboscada, que resultou na
captura de Chewie e no desaparecimento de Han. Agora, alguém precisa resgatá-
los; e quem melhor que esse desajustado time, que inclui agentes rebeldes, um
ex-imperial, uma caçadora de recompensas, um aspirante a piloto e um droide
psicopata, para trazer Han Solo de volta para casa? Ao aceitar a missão e seguir
para a última localização da Millenium Falcon, Norra e sua equipe se preparam
para qualquer desafio que possa dificultar essa busca. Mas eles nem imaginam a
verdadeira dimensão dos perigos que os aguardam – ou a crueldade implacável
do inimigo que os está encurralando.

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herdeiro e seu treinamento nas doutrinas secretas de uma antiga irmandade, que
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profecias ancestrais também o cercam entre os nativos de Arrakis. Seria ele o
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Fundação, de Isaac Asimov, e O Senhor dos Anéis, de J. R. R. Tolkien, Duna é
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Quando Malachi Constant, um irreparável milionário fanfarrão, recebe a


profecia de que viajará pelo espaço e terá um filho com uma parceira inusitada,
sua reação se divide entre o encanto e a incredulidade. Nem mesmo esse aviso
poderia prepará-lo para o seu destino, que envolve lavagem cerebral, um
exército marciano, uma amizade com fim trágico e estranhas criaturas de
Mercúrio. As Sereias de Titã é uma divertida e ultrajante história sobre livre
arbítrio e moralidade. Com seu humor sarcástico e agridoce, a força narrativa
inconfundível de Vonnegut guia o leitor pelas bizarras desventuras de um
homem pelo espaço, ao mesmo tempo em que fala sobre militarismo, religião e o
propósito da vida humana.

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Cama de gato
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Cama de Gato, clássico do reverenciado autor Kurt Vonnegut, é uma divertida


sátira do homem moderno e de suas loucuras. As desventuras de seu
protagonista começam quando ele decide escrever um livro sobre o dia do
bombardeio em Hiroshima. Em sua pesquisa sobre o inventor da bomba atômica,
o escritor entrevista diversas pessoas que conviveram com o cientista, e essas
interações o fazem descobrir histórias e lugares inusitados e conhecer
personagens cômicos. Guiada por uma controversa religião fictícia cheia de
ensinamentos sarcásticos, sua narrativa fala sobre moral, ciência, política, e o
fim do mundo. O humor de Vonnegut é subversivo e incômodo. Com seu estilo
inigualável, ele criou, em Cama de gato, a mais peculiar ficção apocalíptica já
escrita.

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As Brigadas Fantasma
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Na continuação do premiado livro Guerra do Velho, a tenente Jane Sagan


descobre uma armadilha sendo tramada contra a humanidade e um plano para a
subjugação e a erradicação de sua espécie inteira. É um genocídio planejado
detalhadamente com base na cooperação, até então inédita, entre três raças. E um
ser humano. Para lidar com essa trama, as Brigadas Fantasma, com soldados que
já nascem com o propósito de proteger a raça humana, precisam entrar em ação.
Passando por conflitos de identidade, mas com um forte senso de
companheirismo, esses soldados serão liderados por Jane Sagan, que precisa
impedir uma guerra entre espécies enquanto lida com um fato preocupante: em
meio a suas fileiras, pode haver um traidor. Com a escrita dinâmica, leve e
inteligente característica de John Scalzi, As Brigadas Fantasma discute questões
éticas e de identidade enquanto envolve o leitor na história de uma grande
conspiração política e bélica.

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Table of Contents
Folha de rosto
Dedicatória
Prelúdio
Parte Um
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulo 11
Parte Dois
Capítulo 12
Capítulo 13
Capítulo 14
Capítulo 15
Capítulo 16
Capítulo 17
Parte Três
Capítulo 18
Capítulo 19
Capítulo 20
Capítulo 21
Capítulo 22
Capítulo 23
Capítulo 24
Parte Quatro
Capítulo 25
Capítulo 26
Capítulo 27
Capítulo 28
Capítulo 29
Capítulo 30
Capítulo 31
Parte Cinco
Capítulo 32
Capítulo 33
Capítulo 34
Capítulo 35
Capítulo 36
Capítulo 37
Capítulo 38
Epílogo
Agradecimentos
Créditos