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A GESTÃO AMBIENTAL COMO DIFERENCIAL DE COMPETITIVIDADE PARA AS


ORGANIZAÇÕES EMPRESARIAIS MODERNAS

Daniela Lopes Pereira*


Rua Siqueira Campos, 1642
84031-030 - Ponta Grossa/PR
cwbdani@yahoo.com.br

RESUMO

Este artigo tem por objetivo apresentar um breve histórico sobre a evolução das
questões ambientais no contexto das organizações empresariais, apresentando as
transformações ocorridas em suas estratégias de forma a se adequarem a uma nova
realidade, onde a preocupação com o desenvolvimento sustentável e a preservação dos
escassos recursos naturais é uma realidade incontestável.
Desta forma, a gestão ambiental empresarial que surge apenas como uma postura
frente às imposições da sociedade, acaba por se transformar numa estratégia e
ferramenta que abre oportunidades e impulsiona as organizações, levando-as a
implementação de práticas sustentáveis não só como uma postura reativa, mas com
vistas à obtenção de vantagens competitivas no mercado.

PALAVRAS-CHAVE: Desenvolvimento sustentável. Competitividade. Gestão ambiental.

RESUMEM

Este artículo tiene como objetivo presentar una breve historia de la evolución de las
cuestiones ambientales en el contexto de las organizaciones empresariales, con los
cambios que se producen en sus estrategias con el fin de adaptarse a una nueva realidad,
donde la preocupación por el desarrollo sostenible y la conservación de los escasos
recursos naturales es una realidad indiscutible.
Por lo tanto, la gestión ambiental en las empresas que sólo se plantea como una
postura en contra de las imposiciones de la sociedad, llegando a ser una estrategia y una
herramienta que crea oportunidades y anima a las organizaciones, lo que lleva a
implementar prácticas sostenibles no sólo como una postura reactiva pero a fin de obtener
ventajas competitivas en el mercado.

PALABRAS CLAVE: Desarrollo Sostenible. Competitividad. La gestión ambiental.

* Faculdade Padre João Bagozzi


Curso de Pós-graduação em Gestão e Educação Ambiental
Graduada em Geografia
Universidade Federal do Paraná
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1 INTRODUÇÃO

A preocupação da sociedade com o atual estado de degradação do meio ambiente


natural e a possibilidade de esgotamento de muitos dos recursos naturais essenciais à
satisfação das necessidades humanas, estão entre as questões mais debatidas em
diversos campos do conhecimento da humanidade.
Nexte contexto, as atividades das organizações empresariais, que até então
pareciam inconciliáveis com as questões ambientais no atual modelo socioeconômico,
passam a ser motivo de estudos e políticas com o objetivo de buscar soluções e criar
ferramentas e estratégias que busquem minimizar os impactos ao meio ambiente natural
em prol de um desenvolvimento sustentável.
Muitas empresas, de diversos setores e tamanhos, preocupadas com o desafio
apresentado por essa nova realidade e pelas exigências cada vez maiores da sociedade
e das instituições que a representam tem procurado incluir a gestão ambiental no
planejamento global da organização.
Assim, a gestão ambiental no âmbito das organizações empresariais surge como
uma tentativa de mudança de filosofia, e porque não dizer de paradigma empresarial com
vistas à atender as necessidades dos consumidores, garantindo uma melhor qualidade de
vida para toda a sociedade (da qual a organização empresarial é parte) e, ao mesmo
tempo, explorando as oportunidades que essa nova “mentalidade” apresenta.
Ao buscar se adequar para atender aos apelos de proteção ambiental,
apresentando soluções para a redução do impacto de suas atividades, as organizações
empresariais acabaram por descobrir que não só não agredir o meio ambiente é
economicamente viável, como também se apresenta como uma vantagem num mercado
globalizado e cada vez mais competitivo.

2 MÉTODO

O método científico, segundo Gressler (2004, p. 44), “pode ser definido como uma
sucessão de passos estruturados e orientados no sentido de imprimir alta probabilidade
de precisão e validade aos resultados de uma pesquisa.”,
Sobre método, Marconi e Lakatos (1992, p. 40 e 41) definem que
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[...] o método é o conjunto das atividades sistemáticas e racionais que, com


maior segurança e economia, permite alcançar o objetivo – conhecimentos
válidos e verdadeiros –, traçando o caminho a ser seguido, detectando
erros e auxiliando as decisões do cientista.

De acordo com a natureza, este artigo caracteriza-se como uma pesquisa básica,
pois envolve verdades e interesses universais e tem como objetivo gerar conhecimentos
úteis para o avanço científico, sem aplicação prática prevista. (MORESI, 2003, p. 8)
Quanto à abordagem, classifica-se como pesquisa qualitativa, pois não busca
enumerar, medir eventos, nem emprega instrumental estatístico para a análise dos dados,
tendo um amplo foco de interesse. (NEVES, 1996, p. 1)
De acordo com Downey e Ireland (apud NEVES, 1996, p. 3) “os métodos
qualitativos têm um papel importante no campo dos estudos organizacionais” .
Classifica-se também como uma pesquisa exploratória, já que tem o objetivo de
proporcionar uma visão geral acerca de determinado fato. (GIL, 1999, p. 43)
Quanto aos procedimentos técnicos, trata-se de uma pesquisa bibliográfica que
procura explicar um problema a partir de referências teóricas publicadas, “constituído
principalmente de livros e artigos científicos.” (GIL, 2002, p.44)

3 O MEIO AMBIENTE E A GESTÃO AMBIENTAL EMPRESARIAL

O homem, assim como qualquer outro animal, sempre buscou adaptar-se ao meio
para nele sobreviver. Entretanto, diferentemente das outras espécies, o ser humano é
responsável pela construção da própria história e, no decorrer da mesma, sempre
interferiu na natureza de diferentes formas. Segundo Comune (1994, p. 45), no princípio
de sua história, essa interferência era mais harmônica e menos prejudicial. Com o passar
do tempo o homem passou a modelar o meio através da criação de animais e da
agricultura, embora ainda não se possa afirmar que com essas atividades tenha havido
uma ruptura no equilíbrio com a natureza.
O desequilíbrio passa a se tornar mais evidente com o início da industrialização e
da urbanização, mas é só atualmente que atinge proporções gigantescas, quando o
homem passa a dominar e controlar o espaço global e até mesmo espaços externos ao
planeta, levando os problemas ambientais a atingirem uma proporção espantosa,
representando um verdadeiro desafio à sobrevivência da humanidade, tal o nível de
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degradação que a qualidade de vida se encontra em alguns lugares do planeta, sendo até
mesmo possível afirmar estar irremediavelmente comprometida por um longo futuro.
O grande problema desta nova fase, segundo Barbieri (2007, p. 8), é que até então
os resíduos produzidos pelas atividades humanas eram basicamente orgânicas e a partir
da Revolução Industrial esse quadro muda drasticamente, já que
a era industrial alterou a maneira de produzir degradação ambiental, pois
ela trouxe técnicas produtivas intensivas em material e energia para
atender mercados de grandes dimensões, de modo que a escala de
exploração de recursos e das descargas de resíduos cresceu a tal ponto
que passou a ameaçar a possibilidade de subsistência de muitos povos na
atualidade e das gerações futuras.

Desta forma, “se no passado a economia condicionou a utilização do meio


ambiente, sem se preocupar com a degradação e exaustão de seus recursos, atualmente
parece ser o meio ambiente que deve condicionar a economia.” (COMUNE, 1994, p. 46)
De fato, a questão ambiental nunca esteve tão em voga quanto na atualidade.
Entretanto, segundo Boschetti e Bacarji (2009, p. 2), foi a partir de 1960, com auge na
década de 70, que tais debates começaram a ganhar espaço no mundo, levando as
sociedades atuais a questionarem o modelo de desenvolvimento socioeconômico adotado
até então.
A necessidade de conciliar desenvolvimento econômico e preservação ambiental,
leva à formação do conceito de desenvolvimento sustentável, ou seja, à consciência de
que os recursos naturais não são inesgotáveis, e de que é preciso usá-los com
racionalidade, buscando a reconciliação entre as pressões aparentemente conflitantes do
desenvolvimento econômico e da proteção ambiental.
Conforme salienta Barbieri (2007, p. 8) o meio ambiente é a única fonte de
recursos originais ou primários de que a sociedade dispõe para produzir bens e serviços
que atendam as necessidades humanas, como bem exemplifica Gonçalves (2004, p. 61)
Nenhuma sociedade produz o carvão, o petróleo, o ferro, o chumbo, a
água e outros minerais, assim como o homem não produz os dias e as
noites, a radiação solar, sem o que não vivemos. Somos, como espécie,
em grande parte, extratores de petróleo, carvão, ferro, manganês, água e
outros minerais, e não seus produtores. Observemos que dizer que somos
produtores significa que depende de nossa capacidade criativa a existência
do que é produzido. Dizer que somos extratores sinaliza que extraímos
algo que não fazemos, o que significa manter prudência no seu uso.

Outra questão apontada por Barbieri (2007, p, 20-21) é que é neste mesmo meio
ambiente que os seres humanos vão depositar suas sobras que, diferentemente do que
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acontece na natureza, nem sempre são incorporadas pelo ambiente, gerando o que,
genericamente, se chama de poluição.
Desta forma, o enfrentamento dos problemas ambientais causados pelo atual
modelo de desenvolvimento levam as sociedades a buscar soluções e criar ferramentas e
estratégias que busquem minimizar os impactos ao meio ambiente, exigindo das
organizações empresariais uma adequação e uma verdadeira mudança de
comportamento, de procedimentos e de revisão de conceitos, apontando para a
necessidade de implementação da gestão ambiental na organização.
Segundo Barbieri (2007, p. 25), a gestão ambiental pode ser entendida como
as diretrizes e as atividades administrativas e operacionais, tais como,
planejamento, direção, controle, alocação de recursos e outras realizadas
com o objetivo de obter efeitos positivos sobre o meio ambiente, quer
reduzindo ou eliminando os danos ou problemas causados pelas ações
humanas, quer evitando que elas surjam.

O termo gestão ambiental é bastante abrangente, podendo designar a gestão de


uma bacia hidrográfica ou de uma área de proteção ambiental, porém, segundo Quezada
(1998 apud SANTOS, 1999, p. 2), o termo gestão ambiental empresarial é mais restritivo,
sendo definido como
um conjunto de políticas, programas e práticas administrativas e
operacionais que levam em conta a saúde e a segurança das pessoas, e a
proteção do meio ambiente através da eliminação ou diminuição de
impactos e danos ambientais decorrentes do planejamento, implantação,
operação, ampliação, realocação ou desativação de empreendimentos ou
atividades, incluindo-se todas as fases do ciclo de vida do produto .

Pode-se dizer que as ações ambientais nas organizações têm assumido um papel
cada vez mais integrado às diferentes funções administrativas, exigindo que empresários
e administradores passem a considerar as questões ambientais em suas decisões. “Em
outras palavras, espera-se que as empresas deixem de ser problemas e façam parte das
soluções.” (BARBIERI, 2007, p. 113)
Segundo Donaire (1999, p. 13), inicialmente as organizações precisavam
preocupar-se apenas com a eficiência dos sistemas produtivos, gerar um lucro cada vez
maior e padronizar cada dia mais o desempenho dos funcionários. Contudo, essa visão
que as organizações idealizavam foi tornando-se, ao longo dos anos, cada vez mais
enfraquecida. Esse mesmo autor (1999, p.13), afirma que
as empresas que eram vistas apenas como instituições econômicas com
responsabilidades referentes a resolver problemas econômicos
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fundamentais (o que produzir, como produzir e para quem produzir) têm


presenciado o surgimento de novos papéis que devem ser
desempenhados, como resultado das alterações no ambiente em que
operam.

Boschetti e Bacarji (2009, p. 3) consideram também que a implementação de uma


gestão ambiental na organização empresarial é uma questão de princípio que procede do
desenvolvimento sustentável e que considera “valores não-tangíveis – como por exemplo,
ética, estética, cultura, entre outros – , valores ecológicos e valores econômicos.”
Contudo, é preciso considerar que a mera adoção de ações ambientais pontuais ou
esporádicas não configuram um Sistema de Gestão Ambiental, pois, como salienta
Barbieri (2007, p. 153)
Um sistema de gestão ambiental (SGA) requer a formulação de diretrizes,
definição de objetivos, coordenação de atividades e avaliação de
resultados. Também é necessário o envolvimento de diferentes segmentos
da empresa para tratar das questões ambientais de modo integrado com
as demais atividades empresariais.

Infelizmente, tais ações por parte das empresas não surgem espontaneamente,
mas somente devido às pressões exercidas por inúmeros setores da sociedade. De
acordo com Barbieri (2007, p. 113), “as preocupações dos empresários são influenciadas
por três grandes conjuntos de forças que interagem reciprocamente: o governo, a
sociedade e o mercado.”

4 A REGULAMENTAÇÃO COMO CONDICIONANTE PARA IMPLEMENTAÇÃO DA


GESTÃO AMBIENTAL NAS ORGANIZAÇÕES EMPRESARIAIS

É preciso considerar que a discussão a respeito das questões ambientais passam,


sobretudo, pela análise do consumo e consumismo da sociedade atual, já que a poluição
e a degradação estão diretamente relacionadas com o padrão de consumo da sociedade,
de forma que quanto mais irresponsável for o consumo, maior será o impacto negativo em
toda a cadeia produtiva, desde a retirada da matéria-prima até o descarte após o
consumo.
Porém, “é necessário tomar cuidado para não atribuir toda a culpa pela degradação
ambiental ao mercado produtivo, uma vez que este mercado é pautado pela lei da oferta e
da procura, sendo certo que somente produz o que o consumidor quer.” (NICHOLAS,
1995, p. 61).
Caso a sociedade não buscasse bens produzidos de forma incorreta, os mesmos
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deixariam de ser produzidos, mas se o consumidor não se importa com a forma como foi
produzido determinado bem, certamente estará alimentando a existência de empresas
que não possuem compromisso com o meio ambiente.
Entretanto, de acordo com Nicholas (1995, p. 60), não é possível acreditar que o
mercado será controlado apenas pela atitude do consumidor, pois este não detém todos
os mecanismos para controlar a produção, além de ser improvável que um dia se atingirá
o nível de conscientização necessário para que as opções de compra, de forma exclusiva,
venham a ser suficientes para a mudança de conduta das organizações empresariais.
De acordo com Rosen (2001, apud SOUZA, 2002, p. 7), há três razões para as
organizações empresariais buscarem uma melhora em sua performance ambiental:
primeiro, o regime regulatório internacional está mudando em direção à
exigências crescentes em relação à proteção ambiental; segundo, o
mercado está mudando (tanto de fatores quanto de produtos); e terceiro, o
conhecimento está mudando, com crescentes descobertas e publicidade
sobre as causas e consequências dos danos ambientais.

Desta forma, o que leva uma organização empresarial a implementar a gestão


ambiental são as pressões das regulamentações, a busca por melhor reputação, a
pressão dos acionistas, investidores e bancos, a pressão dos consumidores e da própria
concorrência.
Em um estudo com 69 empresas americanas, principalmente indústrias químicas,
em 1997, Lau e Ragothaman (1997, apud SOUZA, 2002, p. 7), destacam que as
principais forças que levam a implementação da gestão ambiental por uma organização
empresarial são as regulamentações ambientais, seguidas pela reputação, iniciativa da
alta administração, redução de custos e a demanda dos consumidores, demonstrando
que a maioria das organizações empresariais desenvolve ações ambientais mais como
respostas às regulamentações do que como uma política pró-ativa.
Neder (1992, apud SOUZA, 2002, p. 8) seguindo a mesma linha pesquisou, no
início da década de 1990, 48 organizações industriais brasileiras e constatou que as
ações ambientais das organizações empresariais se concentravam na modernização dos
sistemas de controle da poluição, como resultado das crescentes exigências das
regulamentações ambientais.
Desta forma, torna-se evidente que é necessário que se tenha intervenção do
Estado para coibir as atitudes abusivas das empresas responsabilizando-as pelos
excessos que cometerem, além de obrigá-las a incluir em seus custos o valor do bem
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ambiental que é por elas utilizado, sendo fundamental a instituição de leis ambientais para
minimizar os impactos negativos causados pelas organizações empresariais.
De acordo com Monteiro (2007, p. 1) a legislação ambiental brasileira se divide em
antes e depois de 1981.
Até 1981, “poluição” era definida como “emissões das indústrias que não
estivessem de acordo com os padrões estabelecidos por leis e normas técnicas”, sendo
toleradas as emissões de poluentes que atendessem a determinados parâmetros, já que
se considerava que toda a atividade produtiva causava certo impacto negativo sobre o
ambiente.
Com a Lei nº 6.938, de 31 de agosto de 1981, conhecida como Política Nacional do
Meio Ambiente, Monteiro (2007, p. 1) considera que uma diferença conceitual foi
introduzida, não havendo mais emissão de poluentes tolerada, introduzindo-se o conceito
de responsabilidade objetiva, ou do risco da atividade, segundo o qual os danos não são
partilhados com a comunidade. Assim, este mesmo autor (2007, p.1) considera que
a sutil diferença está em que uma empresa pode estar atendendo aos
limites máximos de poluição legalmente impostos, e assim mesmo vir a ser
responsabilizada pelos danos residuais causados. Para tanto, basta que se
prove um nexo de causa e efeito entre a atividade da empresa e um
determinado dano ambiental. Isso é, em essência, o que se chama de
responsabilidade objetiva: para que se constitua a obrigação de reparar um
dano ambiental, não é absolutamente necessário que ele tenha sido
produzido em decorrência de um ato ilegal (não atendimento aos limites
normativos de tolerância, concentração ou intensidade de poluentes), até
porque a responsabilidade objetiva dispensa a prova da culpa. É suficiente,
em síntese, que a fonte produtiva tenha produzido o dano, atendendo ou
não aos padrões previstos para as emissões poluentes.

Estabelecidos os contornos do novo tratamento legal dado ao meio ambiente, a


Constituição Federal promulgada em outubro de 1988 dedicou um capítulo inteiro à
proteção ao meio ambiente, enfatizando a necessidade de defesa e preservação do meio
ambiente e estabelecendo mecanismos para que isso ocorra, determinando uma série de
obrigações às autoridades públicas, dentre as quais a educação ambiental em todos os
níveis escolares e a exigência de estudos de impacto ambiental para a instalação de
qualquer atividade que possa causar significativa degradação ao meio ambiente.
Outra Lei que regulamenta a atuação das organizações empresariais e que merece
destaque é a Lei nº 12.305, de 02 de agosto de 2010, que institui a Política Nacional de
Resíduos Sólidos, pois busca o enfrentamento de um dos mais graves problemas
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ambientais da sociedade.
A produção de lixo no mundo e no Brasil é extremamente preocupante. Segundo
dados do IBGE do ano de 2000, das 125.281 toneladas de lixo produzidas diariamente
no Brasil, 47,1% era destinada a aterros sanitários, 22, 3% a aterros controlados e 30,5%
a lixões. Ou seja, mais de 69% de todo lixo coletado no Brasil estaria tendo um destino
final adequado. Contudo, o número de lixões e vazadouros a céu aberto, onde o lixo é
depositado sem qualquer tratamento, ainda é bastante expressivo, causando riscos à
saúde pública, poluição do solo e do ar e a contaminação das águas superficiais e
subterrâneas.
“O advento desta lei foi muito esperado pela sociedade, uma vez que ela vem dar
tratamento avançado ao tema, estabelecendo uma nova visão sobre a responsabilidade
para com os resíduos sólidos.” (LOUBET, 2011, p. 1)”
A expressão “resíduos sólidos” é definida pela Lei no artigo 3º, XVI como
material, substância, objeto ou bem descartado resultante de atividades
humanas em sociedade, a cuja destinação final se procede, se propõe
proceder, nos estados sólido ou semissólido, bem como gases contidos em
recipientes e líquidos cujas particularidades tornem inviável o seu
lançamento na rede pública de esgotos ou em corpos d´água, ou exijam
para isso soluções técnica ou economicamente inviáveis em face da
melhor tecnologia disponível.

O importante é que, a partir desta Lei, a responsabilidade no que diz respeito à


questão dos resíduos sólidos passa a ser compartilhada, em toda a cadeia de vida do
produto, desde o desenvolvimento, a obtenção de matérias-primas e insumos, o processo
produtivo, o consumo até a disposição final, não sendo mais apenas responsabilidade do
Poder Público, mas exigindo o envolvimento de toda a sociedade.
Contudo, o Poder Público não pode se eximir de sua responsabilidade de principal
articulador desta política e de principal responsável pelo tratamento final da questão,
exigindo que cada um dos demais integrantes da cadeia produtiva assuma seu papel e
arque com suas responsabilidades.
Dentre as várias questões tratadas nesta Lei, uma que chama bastante a atenção,
merece destaque e que, certamente, será alvo de muitas discussões e debates nas
organizações empresariais é a questão da responsabilidade pós-consumo ou logística
reversa, definida no artigo 3º, XII como
instrumento de desenvolvimento econômico e social caracterizado por um
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conjunto de ações, procedimentos e meios destinados a viabilizar a coleta


e a restituição dos resíduos sólidos ao setor empresarial, para
reaproveitamento, em seu ciclo ou em outros ciclos produtivos, ou outra
destinação final ambientalmente adequada.

Segundo Loubet (2011, p. 2), para que haja responsabilidade pós-consumo, deverá
haver anteriormente o consumo para que então o rejeito desta atividade seja imputado
àquele que lucrou com ela. Este princípio é consequência do princípio do poluidor-
pagador, “uma vez que pretende a internalização de uma externalidade ambiental: neste
caso, o resíduo oriundo do consumo de um produto.”
Para se entender essa questão do poluidor-pagador é preciso considerar que um
dos pressupostos básicos do mercado é de que o preço de qualquer produto deve refletir
todos os custos gerados para sua produção, bem como os benefícios dele advindos.
Entretanto nem sempre este conceito se reflete na realidade, pois existem inúmeros
custos e benefícios que não são incluídos no preço final do bem ou serviço.
De acordo com Nusdeo (2004 apud LOUBET, 2011, p. 2) “quando um custo é
desconsiderado na elaboração do preço final de um produto/serviço, está-se diante de
uma externalidade negativa, [...] quando um benefício gerado por produto/serviço não é
incluído em seu preço, está-se diante de uma externalidade positiva.”
Assim, toda produção que causa poluição sem que se esta ou o eventual
tratamento, sejam incluídos no custo do produto é uma externalidade negativa, assim
como a não inclusão no preço de fatores sociais e ambientais positivos, como a produção
de produtos orgânicos vendidos pelo mesmo preço de não-orgânicos, por exemplo, trata-
se de uma externalidade positiva.
O fato é que a existência de externalidades, segundo Loubet (2011, p. 2), é uma
distorção do mercado, já que o preço final dos bens e serviços não reflete todos os custos
e benefícios dele advindos, tornando evidente que a não internalização destas
externalidades representa uma injustiça não privilegiando as organizações empresariais
que produzem de forma ambiental/social responsável e beneficiando aquela que produz
de forma irresponsável.
De acordo com Rodrigues (2002, p. 142), não havendo a internalização das
externalidades haverá uma “privatização dos lucros e socialização das perdas”, já que o
lucro acaba ficando integralmente com quem produziu e a sociedade arcará com as
perdas sociais e ambientais. Desta forma, é preciso compreender que os bens ambientais
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e sociais têm um custo de utilização e este deve ser assumido por quem o utiliza com fins
econômicos.
Assim, pode-se concluir que todo tratamento e destinação correta de resíduos de
um bem ou serviço colocado no mercado deve ser custeado por toda a sociedade, visto
que o fornecedor obteve o lucro e o consumidor as vantagens com a aquisição do
mesmo, sendo, portanto, a finalidade da logística reversa combater a distorção “de forma
que o custo desta externalidade ambiental passe a ser arcado pelo fornecedor do produto
que obteve lucro na operação.” (LOUBET, 2011, p. 2)
Inúmeros produtos já possuem regulamentação e exigência de logística reversa
mesmo antes da Lei da Política Nacional de Resíduos Sólidos, como é o caso dos
agrotóxicos, pilhas e baterias, óleos lubrificantes e pneus. Entretanto, há casos ainda não
regulamentados, mas aos quais podem, segundo Loubet (2011, p. 4), ser aplicados a
responsabilidade pós-consumo devido a periculosidade intrínseca do produto e/ou
periculosidade decorrente do consumo em massa, pela justiça ou regulamentações do
CONAMA.
Neste sentido, ressalta-se que as regulamentações são necessárias e, de certa
forma, criam pressões que motivam a empresa a buscar a implementação de uma gestão
ambiental, resultando na inovação e em benefícios para toda a sociedade.

5 VANTAGENS DA IMPLEMENTAÇÃO DA GESTÃO AMBIENTAL

Hoje, de acordo com Souza (2002, p. 2), as dimensões econômicas e


mercadológicas da questão ambiental têm se tornado extremamente relevantes para as
organizações empresariais, pois representam “custos e/ou benefícios, limitações e/ou
potencialidades, ameaças e/ou oportunidades”, passando a ser tratada não mais apenas
como uma “agenda negativa”, mas “acentuando os vínculos positivos entre preservação
ambiental, crescimento econômico e atividade empresarial.”
Boschetti e Bacarji (2009, p. 3) consideram que as ferramentas de gestão
ambiental são utilizadas pelos gestores “de forma que se integrem as normas e
sistematizem suas operações de acordo com as exigências do mercado.”
Dados de uma pesquisa realizada com 1451 organizações empresariais brasileiras
em todos os setores por CNI/BNDES/SEBRAE em 1998 revelam uma mudança da
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mentalidade empresarial no Brasil. Apesar dos resultados ainda apontarem para as


exigências das regulamentações como principal motor da adoção de práticas ambientais,
a política social já se destaca como uma importante razão para a melhoria da
performance ambiental das empresas, assim como outros fatores externos como redução
de custos e melhoria da imagem da empresa. (SOUZA, 2002, p. 8)
“Uma empresa sustentável seria aquela que cria valor de longo prazo aos
acionistas ou proprietários e contribui para a solução dos problemas ambientais e sociais.”
(BARBIERI, 2007, p. 115)
De acordo com Barbieri (2007, p. 128) “a evolução do tratamento das questões
ambientais nas empresas seguiu em muitos sentidos uma trajetória análoga à que
ocorreu com o conceito de qualidade.” Isto quer dizer que, inicialmente a questão é vista
como um problema a ser resolvido, evoluindo para uma abordagem prevencionista e
finalmente acaba sendo entendida como uma questão estratégica ao contribuir para a
competitividade da empresa.
Para adaptar-se à nova realidade de exigências ambientais, as empresas
desenvolvem diferentes formas de abordagens para a gestão ambiental empresarial, que
também podem ser vistas como fases de um processo de implementação de práticas de
gestão ambiental numa empresa, como bem exemplificadas no quadro 1.

QUADRO 1 Gestão Ambiental na empresa - Abordagens


Abordagens
Características
Controle da Poluição Prevenção da Poluição Estratégica
Preocupação básica Cumprimento da Uso eficiente dos Competitividade
legislação e resposta às insumos
pressões da comunidade
Postura típica Reativa Reativa e proativa Reativa e proativa
Ações típicas Corretivas Corretivas e preventivas Corretivas, preventivas e
Uso de tecnologias de Conservação e antecipatórias
remediação e de controle substituição de insumos Antecipação de
no final do processo Uso de tecnologias problemas e captura de
(end-of-pipe) limpas oportunidades utilizando
Aplicação de normas de soluções de médio e
segurança longo prazos
Uso de tecnologias
limpas
Percepção dos Custo adicional Redução de custo e Vantagens competitivas
empresários e aumento da
administradores produtividade
continua
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conclusão
Abordagens
Características
Controle da Poluição Prevenção da Poluição Estratégica

Envolvimento da alta Esporádico Periódico Permanente e


administração sistemático
Áreas envolvidas Ações ambientais Crescente envolvimento Atividades ambientais
confinadas nas áreas de outras áreas como disseminadas pela
produção, compras, organização
desenvolvimento e Ampliação das ações
marketing ambientais para toda a
cadeia produtiva
Fonte: BARBIERI, 2007, p. 119.

A implementação da gestão ambiental nas empresas é tida como voluntária.


Entretanto, devido às pressões exercidas pelos vários setores da sociedade inúmeras
organizações implantam tais sistemas e acabam por descobrir que elas apresentam
vantagens competitivas.
Financeiramente, as organizações economizam matéria-prima, diminuem os gastos
com a destinação de resíduos e aumentam a eficiência na produção, além de diminuírem
os riscos de encargos causados por acidentes, pagamento de multas por descumprimento
de leis ambientais e incapacidade de obtenção de crédito.
Um dos benefícios da gestão ambiental é a possibilidade de obter melhores
resultados com menos recursos, em decorrência de ações planejadas e coordenadas.
(BARBIERI, 2007, p. 153)
Deste modo, a implementação de uma gestão ambiental se revela como uma
oportunidade para que as organizações identifiquem e reduzam os impactos negativos de
sua empresa sobre o meio ambiente, “orientando de forma otimizada os investimentos
para implementação de uma política ambiental eficaz, capaz de gerar novas receitas e
oportunidades de negócio.” (ANDREOLI, 2002, p. 65)
Os benefícios da adoção de um SGA pelas organizações são inúmeros. Segundo
Andreoli (2002, p. 66), as principais vantagens são
a minimização de custos, de riscos, a melhoria organizacional e a criação
de um diferencial competitivo. Os custos são reduzidos pela eliminação de
desperdícios, racionalização de recursos humanos, físicos e financeiros e
pela conquista da conformidade ambiental ao menor custo. A
implementação do SGA possibilita também a precisa identificação dos
passivos ambientais e fornece subsídios ao seu gerenciamento. Esses
procedimentos promovem a segurança legal, a minimização de acidentes,
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passivos e riscos através de uma gestão ambiental sistematizada que


permite a sua integração à gestão dos negócios. Essa atitude melhora a
imagem da empresa, aumenta a produtividade, promove novos mercados
e ainda melhora o relacionamento com fornecedores, clientes e
comunidade.
Assim, não só a organização reduz custos, como melhora sua imagem e tem a
possibilidade de conquistar novos mercados e gerar maior satisfação dos clientes, cada
vez mais exigentes de produtos ambientalmente adequados.
A imagem positiva da organização empresarial com relação às questões
ambientais é considerada por Souza (2002, p.10) como uma vantagem competitiva, pois
permite explorar opções de mercado lucrativas e incrementar o valor de mercado da
empresa, já que sua imagem é função da credibilidade, confiabilidade e responsabilidade
que representa.
Da mesma forma Donaire (1999, p. 59), considera que os benefícios econômicos e
estratégicos da adoção da gestão ambiental nas organizações empresariais são
importantes, como bem exemplificados no quadro 2.

QUADRO 2 – Benefícios da gestão ambiental


BENEFÍCIOS ECONÔMICOS
Economia de custos
• Economias devido à redução do consumo de água, energia e outros insumos.
• Economias devido à reciclagem, venda e aproveitamento de resíduos e diminuição de efluentes.
• Redução de multas e penalidades por poluição.
Incremento de receitas
• Aumento da contribuição marginal de “produtos verdes” que podem ser vendidos a preços mais
altos.
• Aumento da participação no mercado devido a inovação dos produtos e menos concorrência.
• Linhas de novos produtos para novos mercados.
• Aumento da demanda para produtos que contribuam para a diminuição da poluição.
BENEFÍCIOS ESTRATÉGICOS
• Melhoria da imagem institucional.
• Renovação do “portfólio” de produtos.
• Aumento de produtividade.
• Alto comprometimento do pessoal.
• Melhoria nas relações de trabalho.
• Melhoria e criatividade para novos desafios.
• Melhoria das relações com os órgãos governamentais, comunidade e grupos ambientalistas.
• Acesso assegurado ao mercado externo.
• Melhor adequação aos padrões ambientais.
Fonte: DONAIRE, 1999, p. 59

Outro resultado positivo, segundo Savi ( 2008, p. 7) é que a gestão ambiental


15

contribui nos aspectos sociais para uma melhoria nas condições de trabalho de algumas
organizações, como por exemplo, a redução de materiais particulados e de mau cheiro,
beneficiando inclusive o entorno da organização.
Entretanto, para o sucesso da implementação de um SGA é preciso
comprometimento e disseminação das preocupações ambientais em toda a organização.
Barbieri (2007, p. 153) diz que “um bom sistema é aquele que consegue integrar o maior
número de partes interessadas para tratar as questões ambientais.” Sobre a importância
do comprometimento, Andreoli (2002, p. 68 e 69), considera que
Em algumas organizações a implementação do SGA pode sofrer
resistência por parte de algumas pessoas, por considerarem que ele
representa burocracia, custos e aumento na jornada de trabalho. Podem
ocorrer resistências devido às mudanças e às novas responsabilidades.
Para conseguir vencer esses obstáculos, é preciso ter certeza de que
todos entendem por que a organização necessita do SGA efetivo e como
ele pode ajudar no controle dos impactos ambientais e consequentemente
dos custos. Manter as pessoas envolvidas no projeto e implementação do
SGA demonstra o comprometimento da organização com o meio ambiente
e ajuda a verificar que ele é realista, prático e que agrega valor.

Em síntese, pode-se dizer que a gestão ambiental proporciona às organizações


uma posição competitiva, num mercado cada vez mais exigente.

6 MODELOS DE GESTÃO AMBIENTAL

Os modelos de gestão ambiental estão fundamentados na ideia de prevenção da


degradação ambiental e encaram os problemas ambientais a partir de uma visão ampla
que deve estar alinhada à estratégia da organização empresarial.
Donaire (1999, p. 108), considera que a questão ambiental precisa estar
incorporada ao planejamento estratégico e operacional da organização empresarial,
compatibilizando os objetivos ambientais com os demais objetivos da organização.
Os diferentes modelos, apesar de representarem de maneira simplificada a
realidade da empresa, permitem orientar as decisões acerca dos problemas ambientais e
de como essas decisões se relacionam com as demais questões que envolvem a
organização empresarial. (BARBIERI, 2007, p. 130)
A adoção de um modelo de gestão ambiental pela organização, quer criado por ela
própria ou não, é fundamental, entendendo modelos como “construções conceituais que
orientam as atividades administrativas e operacionais para alcançar objetivos definidos.”
16

(BARBIEIRI, 2007, p. 129)


Como cada modelo apresenta pontos fortes e fracos, é possível combinar seus
elementos para criar um modelo próprio, uma vez que eles não são mutuamente
exclusivos. Esses modelos ou suas variações permitem implementações isoladas, ou
seja, uma dada empresa com seu próprio esforço podem adotar um desses modelos,
embora sempre haja a necessidade de articulação com fornecedores, transportadores,
recicladores, entidades apoiadoras e outros agentes.

6.1 O modelo Winter

De acordo com Donaire (1999, p. 108), um dos primeiros modelos de gestão


ambiental foi o sistema Integrado de Gestão Ambiental, conhecido como Modelo Winter.
O modelo foi desenvolvido pela empresa Ernest Winter & Sonh, em 1972 e procura
estabelecer o sistema por meio de vinte módulos integrados cujos objetivos incluem
facilitar sua implantação, definir prioridades e definir o cronograma de atuação.
Os módulos integrados, apresentados no quadro 3, ainda segundo este autor,
definem o papel completo da gestão ambiental na empresa e, quando conhecidos devem
ser avaliados pelo administrador e implementados, adaptando a gestão ambiental às
condições atuais da empresa.

QUADRO 3 – Módulos integrados do Modelo Winter


1. Motivação da Alta Administração 11. Gestão de materiais
2. Objetivos e estratégia da empresa 12. Tecnologia da produção
3. Marketing 13. Tratamento e valorização de resíduos
4. Disposições internas em defesa do ambiente 14. Veículos da empresa
5. Motivação e formação do pessoal 15. Construção das instalações e equipamentos
6. Condições do trabalho 16. Finanças
7. Alimentação dos funcionários 17. Direito
8. Aconselhamento ambiental familiar 18. Seguros
9. Economia de energia e água 19. Relações internacionais
10. Desenvolvimento do produto 20. Relações públicas
Fonte: DONAIRE, 1999, p. 110
17

6.2 Modelo de Atuação Responsável da ABIQUIM – Responsible Care

O Responsible Care é um programa criado no Canadá, em 1985, pela Canadian


Chemical Producers Association em resposta à perda de confiança do público em relação
à indústria química e à ameaça de uma regulamentação mais rigorosa. No Brasil, o
modelo de “Atuação Responsável” foi adotado pela ABIQUIM (Associação Brasileira da
Indústria Química) em 1992, inicialmente de forma voluntária pelas empresas associadas
e obrigatória a partir de 1998.
O modelo, que passou por uma revisão em 2011, é um instrumento que pretende
prover as empresas associadas “de uma ferramenta que as permitirá desenvolver, de
maneira simples, objetiva e efetiva os temas relacionados à saúde, à segurança e ao
meio ambiente considerando os processos, produtos, instalações e serviços.” (ABIQUIM,
2011, p. 6)
De acordo com a ABIQUIM (2011, p. 7), o modelo de gestão está estruturado
conforme o modelo PDCA (Plan-Do-Check-Act)

FIGURA 1 – Modelo PDCA

Fonte: Núcleo de Estudos Científicos em Sustentabilidade (NECS)


Disponível em: <http://necs.preservacaoambiental.com>

O programa é implementado e mantido através de comissões de lideranças


representadas pelas empresas associadas, possuindo seis elementos criados para “tornar
realidade a ética na qual o programa se sustenta” (ABIQUIM, 1992, apud SOARES, 2006,
p. 2):
18

• Princípios Diretivos do Atuação Responsável;


• Códigos de Práticas Gerenciais;
• Comissões de Lideranças Empresariais;
• Conselhos Comunitários Consultivos;
• Difusão para a Cadeia Produtiva;
• Avaliação do Progresso.
Estes grupos subsidiam o desenvolvimento dos Códigos de Práticas Gerenciais,
que auxiliam as empresas a implementar o Atuação Responsável, englobando seis áreas,
de acordo com a ABIQUIM (2000, apud BARBIERI, 2007, p. 131):
• Segurança de processos: objetivando a não ocorrência de acidentes nas
instalações, identificando as fontes de riscos;
• Saúde e segurança do trabalhador: garantindo melhores condições de trabalho;
• Proteção ambiental: gerenciamento dos processos de produção da forma mais
eficiente possível;
• Transporte e distribuição: otimizando todas as etapas de distribuição, reduzindo
riscos e melhorando as respostas aos acidentes com produtos químicos;
• Diálogo com a comunidade, preparação e atendimento de emergência: manter
canais de comunicação com os trabalhadores, vizinhos e comunidades, atuando
em situações de emergência;
• Gerenciamento de produtos: para que as questões relativas à saúde, à segurança
e ao meio ambiente sejam consideradas em todas as fases de desenvolvimento,
produção, manuseio, utilização e descarte de produtos químicos.
O objetivo é que por meio destas práticas em todas as fases do ciclo de vida do
produto seja minimizado a geração de efluentes e resíduos sólidos e a possibilidade de
eventuais acidentes que afetem os trabalhadores, o meio ambiente e a comunidade
vizinha.

6.3 Administração da Qualidade Ambiental Total - Total Quality Environmental


Management (TQEM)

O modelo de Administração da Qualidade Total (TQEM) é baseado na extensão


dos princípios e das práticas do TQM (Total Quality Management ou Gestão da Qualidade
19

Total) às questões ambientais e tem o propósito de envolver todos os integrantes da


organização, seus fornecedores, agentes reguladores, comunidade e clientes num
esforço contínuo para produzir e comercializar bens e serviços que atendam às
expectativas ambientais. (BARBIERI, 2007, p. 132)
Segundo Miles e Russell (1997 apud CAMPOS, 2009, p. 11), a TQEM surgiu na
década de 1990, devido à busca de produtos/serviços ambientalmente responsáveis por
parte dos consumidores. Sua criação é atribuída ao Gemi (Global Environmental
Management Initiative), uma ONG criada por 21 grandes empresas multinacionais, entre
elas a Coca-Cola, a Kodak, a IBM e a AT&T.
De acordo com Barbieri (2007, p. 133) o TQEM apresenta os mesmos elementos
básicos do TQM, considerando o atendimento das expectativas do cliente como base do
sucesso da organização empresarial, a saber:
• Foco no cliente;
• Qualidade como uma dimensão estratégica;
• Processos como unidade de análise;
• Participação de todos;
• Trabalho em equipe;
• Parcerias com os clientes e fornecedores;
• Melhoria contínua.
A qualidade ambiental é vista no TQEM como a superação das expectativas dos
clientes internos e externos em termos ambientais, tendo como meta a poluição zero.
As ferramentas mais utilizadas pelas organizações que aplicam o TQEM são as
mesmas utilizadas no TQM como benchmarking, diagramas de causa e efeito, gráfico de
Pareto, diagramas de fluxos de processos e ciclo PDCA. (BARBIERI, 2007, p. 133)

6.4 Produção Mais Limpa (PmaisL) – Cleaner Production

O conceito de Produção Mais Limpa, definido pelo United Nations Industrial


Development Organization (UNIDO), no início da década de 1990, é
a aplicação contínua de uma estratégia econômica, ambiental e
tecnológica integrada aos processos e produtos, a fim de aumentar a
eficiência no uso de matérias-primas, água e energia, através da não
geração, minimização ou reciclagem de resíduos gerados, com benefícios
20

ambientais e econômicos para os processos produtivos.

De acordo com o CEBDS – Conselho Empresarial Brasileiro para o


Desenvolvimento Sustentável – ([20--?] , p. 7), o princípio básico da metodologia de
PmaisL é não deixar para eliminar a poluição no final, mas durante o processo de
produção, pois todos os resíduos gerados tiveram um custo para a empresa (em matéria-
prima e insumos) e continuam a gerar custos seja sob a forma de gastos com o
tratamento, armazenamento, multas ou ainda danos à imagem da organização
empresarial.
A PmaisL envolve produtos e processos, estabelecendo uma hierarquia de
prioridades: prevenção, redução, reuso e reciclagem, tratamento com recuperação de
materiais e energia, tratamento e disposição final. (BARBIERI, 2007, p. 135)
A figura 2 apresenta os diferentes níveis de PmaisL. No nível 1 encontram-se as
alternativas prioritárias, pois envolvem a redução de emissões e resíduos na fonte, bem
como a diminuição da toxicidade. No nível 2 encontram-se as emissões e resíduos que
continuam sendo gerados e que devem ser reutilizados internamente. No nível 3, quando
as emissões e resíduos não tem como ser aproveitados internamente, deve haver a
reciclagem externa ou, em última hipótese, serem tratados para disposição final.

FIGURA 2 – Produção Mais Limpa – Níveis de intervenção

Fonte: CNTL/SENAI-RS (1999, p. 62 apud BARBIERI, 2007, p. 137).


21

6.5 Ecoeficiência

Ecoeficiência é um modelo de gerenciamento ambiental introduzido em 1992, pelo


World Business Council for Sustainable Development (WBCSD). Atualmente,
Organization for Economic Co-Operation and Development (OCDE) e o WBCSD são os
promotores mais atuantes dessa proposta de gestão ambiental.
De acordo com o WBCSD e o OCDE (1998, p. 17 apud BARBIERI, 2007, p. 137 e
138), a ecoeficiência é alcançada através da entrega de bens e serviços com preços
competitivos que satisfaçam as necessidade humanas e melhorem as condições de vida,
ao mesmo tempo que reduzem o impacto ambiental e o consumo de recursos ao longo do
ciclo de vida, a um nível igual à, no mínimo, a capacidade de sustentação estimada do
planeta.
O modelo de ecoeficiência exige que as organizações empresariais tracem
estratégias de gestão ambiental preventivas ao longo do ciclo de vida de seus produtos e
serviços, aliando excelência ambiental com a empresarial, através de algumas práticas
que, de acordo com Almeida (2002 apud LEAL, 2009, p. 8), são as seguintes:
• Redução do consumo de materias com bens e serviços;
• Redução do consumo de energia com bens e serviços;
• Redução da emissão de substâncias tóxicas;
• Intensificação da reciclagem de materiais;
• Maximização do uso sustentável de recursos renováveis;
• Prolongamento da durabilidade dos produtos;
• Agregação de valor aos bens e serviços.
As bases da gestão ecoeficiente dizem respeito às ações de reciclagem interna e
externa e também à questão da durabilidade dos produdos, sendo estruturada na ideia de
que a redução de materiais e de energia aumenta a competitividade da organização
empresarial e reduz as pressões sobre o meio ambiente, pressupondo uma nova relação
com o consumidor com vistas à redução dos impactos ambientais, incluindo, por exemplo,
a responsabilidade estendida ao produtor. (LEAL, 2009, p. 8)
De acordo com Barbieri (2007, p. 138), apesar da semelhança, a ecoeficiência vai
além da PmaisL na questão da preocupação com a reciclagem interna e externa, ao
preocupar-se não só com a prevenção da poluição durante todo o processo, mas também
22

com o produto em si e seus impactos ambientais.


Conforme recomendações do WBCSD (apud LEAL, 2009, p. 8), a empresa deve
fazer uso de quatro instrumentos fundamentais na aplicação de práticas de ecoeficiência:
implantação de um sistema de gestão ambiental; obtenção de certificação ambiental para
seus produtos e/ou serviços; uso da técnica de Análise do Ciclo de Vida (ACV) para
avaliação dos impactos ambientais de seus produtos; e, finalmente, a adoção da técnica
de Produção mais Limpa.

6.6 Projeto para o Meio Ambiente – Design for Environment (DfE)

O DfE, também denominado ecodesign, é um modelo de gestão centrado na fase


de concepção dos produtos e dos processos de produção, distribuição e utilização.
Desenvolvido em 1992 pela American Electronics Association, em resposta às
preocupações de algumas empresas da indústria eletrônica em incorporar a questão
ambiental aos seus produtos. (BARBIERI, 2007, p. 139)
Segundo Fiskel (1997, p. 3 apud BARBIERI, 2007, p. 139), o modelo integra um
conjunto de atividade e disciplinas que sempre foram tratadas separadamente, tais como
saúde e segurança dos trabalhadores e consumidores, conservação de recursos,
prevenção de acidentes e gestão de resíduos.
A ideia básica desse modelo é solucionar os problemas ambientais na fase de
projeto, pois as dificuldades e custos aumentam à medida que as etapas do processo se
consolidam. Barbieri (2007, p. 140) afirma que o modelo DfE apresenta diferentes
possibilidades conforme os objetivos ambientais propostos: aumentar a quantidade de
material reciclado no produto, reduzir o consumo de energia para o cliente, facilitar a
manutenção, favorecer a separação de materiais pós-uso, etc. Neste sentido, Graedel e
Allenby (1995 apud BARBIERI, 2007, p. 140) popularizaram o conceito de Design for X
(DfX), onde o X representa o que se quer obter, por exemplo:
• DfA (A de assembly): facilitar a montagem do produto;
• DfM (M de manufacturability): facilitar o processo de fabricação;
• DfS (S de serviceability): facilitar a instalação e manutenção do produto.
Entretanto, é preciso considerar que o conceito DfX, embora melhore o
desempenho ambiental da empresa, representa uma maneira limitada de incorporar a
23

questão ambiental aos projetos de produtos e processos, pois os critérios ambientais


serão apenas mais alguns considerados entre tantos.

6.7 Modelos inspirados na natureza

De acordo com Barbieri (2007, p. 143), inúmeros modelos de gestão ambiental


foram criados a partir de conceitos extraídos da ecologia, tentando aproximar os sistemas
de produção com o que ocorre com os organismos no ecossistema. Entre eles estão o
Metabolismo Industrial, a Ecologia Industrial e a Simbiose Industrial.
O principal objetivo destes modelos, segundo este mesmo autor (2007, p. 146), “é
a criação de sistemas de produção inspirados nos fluxos de materiais e energia entre os
organismos e seu meio físico, nos quais as perdas são mínimas”, o que requer a
articulação entre um conjunto de empresas, para que os resíduos de uma empresa sejam
usados por outras, formando uma comunidade de empresas integradas, à semelhança de
uma comunidade biológica.
Uma vantagem é que enquanto nos demais modelos os resíduos são vistos como
problemas a serem minimizados, nos modelos baseados na natureza eles podem ser o
início da solução, uma vez que é por meio deles ocorre a articulação entre as diferentes
unidades produtivas. (BARBIERI, 2007, p. 149)

6.8 Família de Normas ISO 14.000

A ISO (International Organization for Standardization) é uma organização


internacional, fundada em 23 de fevereiro de 1947, com sede em Genebra na Suíça e é
responsável pela elaboração de normas internacionais.
De acordo com o Barbieri e Cajazeira (2005, p. 10 e 11), o British Standards
Institution iniciou a criação de uma norma sobre SGA no final dos anos de 1980,
resultando na BS 7750 em 1991. A partir de então, em vários países, foram criadas
normas para este fim, gerando restrições ao comércio internacional. Em 1992, a ISO cria
um grupo denominado Strategic Advisory Group on the Environment (SAGE) para estudar
as questões decorrentes da diversidade crescente de normas ambientais e seus impactos
sobre o comércio internacional.
24

O SAGE recomenda então a criação de um comitê específico para a elaboração de


normas sobre gestão ambiental, o Comitê Técnico 207 (TC 207) e em 1996 são editadas
as primeiras normas sobre gestão ambiental: a ISO 14.001 e 14.004, ambas sobre SGA.
Donaire (1999, p. 117 e 118), considera que o objetivo da norma ISO 14.001 é
proporcionar às organizações elementos de um SGA eficaz e passível de integração com
os demais objetivos, aplicando-se a todos os tipos e partes de organizações, o que
depende do comprometimento de todos os níveis e funções e proporciona um processo
de melhoria contínua, conforme a figura 3.
FIGURA 3 – Sistema de Gestão Ambiental para ISO 14.001

Fonte: Adaptado de Donaire (1999, p. 117)

Cajazeira e Barbieri (2005, p. 11), consideram que a ISO 14001 trata do que fazer,
enquanto a ISO 14004 trata do como fazer, já que especifica os princípios e elementos
que constituem um SGA, de acordo com Donaire (1999, p. 118 – 119) e ISO 14.004
(1996, p. 6 e 7):
Princípio 1 – comprometimento e política: “É recomendado que uma organização defina
sua política ambiental e a assegure o comprometimento com o seu SGA.”
• comprometimento e liderança da Alta Administração;
• avaliação ambiental inicial;
• estabelecimento da política ambiental.
Princípio 2 – planejamento: “É recomendado que uma organização formule um plano para
25

cumprir sua política ambiental.”


• identificação de aspectos ambientais e avaliação dos impactos ambientais
associados;
• requisitos legais e outros requisitos;
• critérios internos de desempenho;
• objetivos e metas ambientais;
• programa de gestão ambiental.
Princípio 3 – implementação: “Para uma efetiva implementação, é recomendado que uma
organização desenvolva a capacitação e os mecanismos de apoio necessários para
atender sua política, seus objetivos e metas ambientais.”
• assegurando a capacitação:
• recursos humanos, físicos e financeiros;
• harmonização e integração do SGA;
• responsabilidade técnica e pessoal;
• conscientização ambiental e motivação;
• conhecimentos, habilidades e atitudes.
• ações de apoio:
• comunicação e relato;
• documentação do SGA;
• controle operacional;
• preparação e atendimento a emergências.
Princípio 4 – medição e avaliação: “É recomendado que uma organização mensure,
monitore e avalie seu desempenho ambiental.”
• medição e monitoramento;
• ações corretiva e preventiva;
• registros do SGA e gestão de informação.
Princípio 5 – análise crítica e melhoria: “É recomendado que uma organização analise
criticamente e aperfeiçoe continuamente seu sistema de gestão ambiental, com o objetivo
de aprimorar seu desempenho ambiental global.”
• análise crítica;
• melhoria contínua.
26

7 INSTRUMENTOS DE GESTÃO AMBIENTAL

Seja qual for o modelo de gestão ambiental adotado pela organização empresarial,
será necessário a adoção de instrumentos de gestão, entendidos como “meios ou
ferramentas para alcançar objetivos específicos em matéria ambiental.” (BARBIERI, 2007,
p. 149)
Dentre os principais instrumentos adotados pelas organizações empresariais estão
a auditoria ambiental, a avaliação do ciclo de vida, estudos de impactos ambientais,
sistemas de gestão ambiental, relatórios ambientais, rotulagem ambiental, gerenciamento
de riscos ambientais e educação ambiental empresarial, entre outros.
De acordo com Barbieri (2007, p. 149 e 150), muitos também são instrumentos de
políticas públicas, como, em certos casos, o estudo de impactos ambientais e a auditoria
ambiental. Outros são de caráter horizontal, podendo ser aplicados em qualquer
organização empresarial, independente de seu tamanho e área de atuação, como os
sistemas de gestão ambiental. Alguns se aplicam diretamente aos produtos, como a
rotulagem ambiental e a avaliação do ciclo de vida; outros na empresa como um todo ou
em parte dela, como o sistema de gestão, a auditoria e a avaliação do desempenho
ambiental.
Há instrumentos, como o desempenho ambiental, que são aplicados em situações,
operações ou ativos existentes para a melhoria do desempenho ambiental, enquanto
outros visam encontrar soluções antes que os problemas apareçam, como o estudo
prévio de impacto ambiental e os projetos para o meio ambiente.
O mesmo autor afirma ainda que a lista pode ser ampliada com a inclusão dos
instrumentos convencionais utilizados nas empresas para fins de qualidade e
produtividade, tais como análise de valor, listas de verificação, cartas de controle,
diagrama de relações, diagrama de cause-e-feito, ciclo PDCA, análise de falhas,
manutenção preventiva, gestão eficiente de materiais, práticas correntes de
housekeeping, etc.

7.1 Sistemas de Gestão Ambiental (SGA)

Segundo o Sebrae (2012, p.15) , os Sistemas de Gestão Ambiental (SGA) “podem


27

ser aplicados a qualquer atividade econômica, […] especialmente naqueles


empreendimentos que apresentam riscos de provocar impactos negativos ao meio
ambiente”, possibilitando às organizações empresariais controlar e minimizar os riscos
ambientais, além de representar uma vantagem competitiva no mercado.
Dentre as características de um SGA apontados pelo Sebrae, ajudam a empresa a:
a) Identificar e controlar os aspectos, impactos e riscos ambientais relevantes para a
organização;
b) Atingir sua política ambiental, seus objetivos e metas, incluindo o cumprimento da
legislação ambiental ;
c) Definir uma série básica de princípios que guiem a abordagem da sua organização
em relação a suas futuras responsabilidades ambientais;
d) Estabelecer metas de curto, médio e longo prazos para o desempenho ambiental,
assegurando o equilíbrio de custos e benefícios, para a organização e para seus
vários acionistas e interessados;
e) Determinar que recursos são necessários para atingir tais metas, garantir
responsabilidades por elas e comprometer os recursos necessários;
f) Definir e documentar tarefas, responsabilidades, autoridades e procedimentos
específicos para assegurar que cada empregado aja no curso de seu trabalho
diário para ajudar a minimizar ou eliminar o impacto negativo da empresa no meio
ambiente;
g) Comunicar tudo isso à organização e treinar pessoal para cumprir eficazmente
seus compromissos;
h) Medir o desempenho em relação a padrões e metas preestabelecidos e modificar a
abordagem, se necessário.

7.2 Avaliação de Impacto Ambiental (AIA), Estudo de Impacto Ambiental (EIA) e


Relatório de Impacto Ambiental (Rima)

Impacto Ambiental, segundo o artigo 1º da Resolução 001/86 do CONAMA é:


[…] qualquer alteração das propriedades físicas, químicas e biológicas do
meio ambiente, causada por qualquer forma de matéria ou energia
resultante das atividades humanas que, direta ou indiretamente afetam:
I. a saúde, a segurança e o bem-estar da população;
II. as atividades sociais e econômicas;
28

III. a biota;
IV. as condições estéticas e sanitárias do meio ambiente;
V. a qualidade dos recursos ambientais.

Na definição da NBR ISO 14.001, impacto ambiental é “qualquer modificação do


meio ambiente, adversa ou benéfica, que resulte no todo ou em parte, das atividades,
produtos ou serviços de uma organização”.
Portanto, a definição de Impacto Ambiental está associada à alteração ou efeito
ambiental considerado significativo, podendo ser negativo ou positivo.
De acordo com Hosken ([201-?], p.14) AIA é um procedimento formal, usado para
analisar os impactos econômicos, ambientais e sociais de uma nova atividade ou
instalação sobre o meio ambiente.
Trata-se, portanto, de um instrumento de política ambiental, formado por um
conjunto de procedimentos capazes de assegurar que se faça um exame sistemático dos
impactos ambientais e suas alternativas, e que os resultados sejam apresentados para
considerações e tomada de decisão.
O EIA, é um dos elementos do processo de avaliação do impacto ambiental,
tratando-se da execução de tarefas técnicas e científicas, por equipe multidisciplinar, de
modo a analisar sistematicamente as consequências da implantação de um projeto.
O Rima é o documento final, que apresenta os resultados dos estudos de avaliação
de impacto ambiental, devendo esclarecer todos os elementos da proposta, de forma que
possa ser divulgado e apreciado.

7.3 Auditoria Ambiental

Segundo o Sebrae (2012, p. 16 e 17), a auditoria “é um processo que analisa a


efetividade de um sistema para alcançar seus objetivos declarados, inclusive as
exigências legais e reguladoras”, podendo ser aplicadas a estruturas organizacionais,
procedimentos administrativos e operacionais, áreas de trabalho, operações, processos
ou documentação.
No caso da auditoria ambiental, busca-se analisar o impacto ambiental das
atividades de um projeto ou instituição.
O quadro 4, apresenta um resumo dos principais tipos de auditoria ambiental, de
acordo com Barbieri (2007, p. 214).
29

QUADRO 4 – Alguns tipos de Auditorias Ambientais


Tipo Objetivos Principais intrumentos de referência
Auditoria de Verificar o grau de conformidade com a Legislação ambiental
conformidade legislação ambiental. Licenças e processos de licenciamento
Termos de ajustamento
Auditoria de Avaliar o desempenho de unidades Legislação ambiental
desempenho produtivas em relação à geração de Acordos voluntários subscritos
ambiental poluentes e ao consumo de energia e Normas técnicas
materiais, bem como aos objetivos Normas da própria organização
definidos pela organização.
Due diligence Verificação das responsabilidades de Legislação ambiental, trabalhista,
uma empresa perante os acionistas, societária, tributária, civil, comercial, etc
credores, fornecedores, clientes, Contrato social, acordos com acionistas e
governos e outras partes interessadas. empréstimos
Títulos de propriedade e certidões
negativas
Auditoria de Avaliar os desperdícios e seus impactos Legislação ambiental
diligências e ambientais e econômicos com vistas às Normas técnicas
emissões melhorias em processos e equipamentos Fluxogramas e rotinas operacionais
específicos. Códigos e práticas do setor
Auditoria Verificar as causas do acidente, Legislação ambiental e trabalhista
pós-acidente identificar as responsabilidades e avaliar Acordos volustários subscritos
os danos. Normas técnicas
Plano de emergência
Normas da organização e programas de
treinamento
Auditoria de Avaliar o desempenho de fornecedores Legislação ambiental
fornecedor atuais e selecionar novos. Acordos voluntários subscritos
Selecionar fornecedores para projetos Normas técnicas
conjuntos. Normas da própria empresa
Demonstrativos contábeis dos
fornecedores
Licenças, certificações e premiações
Auditoria de Avaliar o desempenho do sistema de Normas que especificam os requisitos do
sistema de gestão ambiental, seu grau de SGA
gestão ambiental conformidade com os requisitos da Documentos e registros do SGA
norma utilizada e se está de acordo com Critérios de auditoria do SGA
a política da empresa.

7.4 Avaliação de Desempenho Ambiental

A avaliação do desempenho ambiental de uma determinada organização é um


método que permite medir e melhorar os resultados da gestão ambiental praticada numa
dada organização ou atividade econômica, quer exista ou não um SGA implementado.
(HOSKEN, [201-?], p.14)
30

7.5 Levantamento de Passivo Ambiental

De acordo com o Sebrae (2012, p. 17), as atividades empresariais são potenciais


geradoras de riscos ao meio ambiente e à saúde pública, sendo assim todas as etapas de
um empreendimento devem ser submetidas à cuidadosa análise de probabilidade e do
tamanho dos impactos ambientais.
O levantamento do passivo ambiental, permite agir com mais efeiciência em
emergências, antecipar e atuar sobre eventos danosos ao meio ambiente, identificando
responsabilidades e planejando ações de controle.
Os programas de gerenciamento de riscos gerados pelo levantamento dos
passivos ambientais, garantem que os fatores de risco sejam mantidos em níveis
aceitáveis, considerando desde a manutenção de equipamentos até os cuidados com a
terceirização de serviços.

7.6 Avaliação do Ciclo de Vida

A Análise do Ciclo de Vida é um método técnico para avaliação dos aspectos


ambientais e dos impactos potenciais associados a um produto, compreendendo etapas
que vão desde a retirada dos recursos da natureza até a disposição do produto final. Esta
técnica auxilia na identificação de prioridades e afasta-se do enfoque tradicional de end-
of-pipe (tratamento no final do processo) para a proteção ambiental. (HOSKEN, [201-?],
p.14)
FIGURA 4 – Ciclo de Vida dos produtos e serviços

Fonte: Sebrae (2012, p. 20)


31

7.7 Educação Ambiental

A educação ambiental tem como objetivo fundamental fazer com que os indivíduos
e a sociedade em geral compreendam a natureza complexa do meio ambiente natural e
do meio ambiente criado pelo homem, resultante da integração de seus aspectos
biológicos, físicos, sociais, econômicos e culturais, adquirindo conhecimentos, valores,
comportamentos e habilidades práticas para participar responsável e eficazmente da
prevenção e solução dos problemas ambientais, e da gestão da qualidade do meio
ambiente. (HOSKEN, [201-?], p.14)
De acordo com o Sebrae (2012, p. 23) , o papel das empresas na educação
ambiental é fundamental, pois podem identificar as necessidades de treinamento em
diversas áreas e em todos os níveis, oferecendo atividades e motivando os colaboradores
a participarem como centro do processo de aprendizagem.

8 CONCLUSÃO

É fundamental compreender que crescimento econômico e uso racional dos


recursos naturais não são conceitos incompatíveis ou excludentes. Um desenvolvimento
sustentável, que atenda as necessidades humanas atuais ao mesmo tempo em que
garante o atendimento das necessidades das gerações futuras, tem se mostrado factível,
apesar de ainda existir muito por se fazer.
A questão principal de toda a discussão é que algo precisa ser feito, pois não é
possível continuar a explorar o Planeta como se seus recursos fossem infindáveis. Hoje,
mais do que nunca, graças ao desenvolvimento da tecnologia e do conhecimento, a
humanidade é capaz de ver a finitude dos recursos de que dispõe e a necessidade de
transformar a realidade e mudar paradigmas se quiser continuar a existir como espécie
neste Planeta.
Neste contexto, a sociedade e suas instituições têm cobrado uma maior
participação das organizações empresariais com relação aos problemas ambientais,
pressionando e impondo regulamentações que limitem e/ou minimizem os impactos sobre
o meio ambiente natural, de forma a beneficiar a sociedade como um todo.
E é fundamental que isso ocorra. A sociedade precisa desenvolver mecanismos
32

que incentivem as empresas a adotarem práticas mais sustentáveis como


regulamentações e políticas que privilegiem as empresas ambientalmente responsáveis e
que excluam àquelas que não atendem aos requisitos legais mínimos e podem prejudicar
a perspectiva de transformação do setor empresarial em relação à metas de
desenvolvimento sustentável.
Desta forma, inúmeros mecanismos de adaptação a essas novas exigências
permitiram às organizações empresariais perceberem que as ações em prol do
desenvolvimento sustentável possibilitam que tenham vantagens competitivas no
mercado, levando muitas empresas a se tornarem pró-ativas em relação ao ambiente
natural.
Portanto, conclui-se que o processo de formação de estratégias ambientais e a
implementação da gestão ambiental de forma consistente nas organizações empresariais
são processos de aprendizagem que requerem boas práticas administrativas com vistas a
transformar suas estratégias em vantagens competitivas, resultando em benefícios para
toda a sociedade ao preservar os recursos naturais, ao mesmo tempo em que cumpre
seu papel enquanto organização criada para atender as necessidades humanas.

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