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THE NEW YORK TIMES (HTTPS://WWW1.FOLHA.UOL.COM.

BR/MUNDO/NYT/)
CORONAVÍRUS (HTTPS://WWW1.FOLHA.UOL.COM.BR/COTIDIANO/CORONAVIRUS)

Há um nome para seu mal-estar na pandemia:


chama-se 'definhamento'
Um estado mental às vezes negligenciado pode embotar sua motivação e seu foco;
e pode ser a emoção predominante em 2021

21.abr.2021 às 13h00

Adam Grant
Psicólogo organizacional em Wharton, autor de "Think Again: The Power of Knowing What
You Don’t Know" e apresentador do podcast WorkLife na TED

THE NEW YORK TIMESNo princípio eu não


reconheci os sintomas
(https://arte.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2021/03/teste-como-voce-

se-protege-covid/) que todos tínhamos em comum.


Amigos diziam que estavam tendo dificuldade
para se concentrar. Colegas relatavam que
mesmo com as vacinas
(https://arte.folha.uol.com.br/ciencia/2021/veja-como-esta-a-vacinacao/)

à vista eles não estavam entusiasmados com


2021. Uma parente ficava acordada até tarde
para assistir a "National Treasure" de novo,
apesar de já conhecer o filme de cor. E, em vez
de pular da cama às 6h, eu estava ficando lá
até as 7h, jogando "Palavras com Amigos".

Não era esgotamento —nós ainda tínhamos


energia. Não era depressão
(https://www1.folha.uol.com.br/seminariosfolha/2021/02/brasil-lidera-

indices-de-ansiedade-e-depressao-durante-pandemia-aponta-

—não nos sentíamos


levantamento.shtml)

impotentes. Apenas nos sentíamos um pouco


sem alegria e sem objetivo. Mas existe um
nome para isso: definhamento.

É um sentimento de estagnação e vazio.


Parece que você está se arrastando pelos dias,
vendo sua vida através de uma janela
embaçada. E poderá ser a emoção
predominante em 2021.
Pandemia tem aprofundado questões de saúde mental - Ilustração Estela May

Enquanto cientistas e físicos trabalham para


tratar e curar os sintomas físicos da
(https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2020/03/quais-sao-os-

sintomas-do-novo-coronavirus.shtml)Covid

(https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2020/03/quais-sao-os-

persistente, muitas
sintomas-do-novo-coronavirus.shtml)

pessoas estão lutando com a persistência


emocional da pandemia
(https://www1.folha.uol.com.br/podcasts/2021/04/os-efeitos-da-

pandemia-na-saude-mental-ouca-podcast.shtml).
Ela pegou
alguns de nós despreparados, quando o medo
e a dor intensos do ano passado se
dissiparam.

Nos primeiros dias incertos da pandemia, é


provável que o sistema de detecção de
ameaças do seu cérebro —chamado amígdala
— estivesse em alerta máximo para lutar ou
fugir. Conforme você aprendeu que as
máscaras ajudavam a nos
(https://aovivo.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2020/03/17/5890-veja-

perguntas-e-respostas-sobre-coronavirus-e-mande-suas-

duvidas.shtml)proteger

(https://aovivo.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2020/03/17/5890-veja-

perguntas-e-respostas-sobre-coronavirus-e-mande-suas-duvidas.shtml)

—mas esfregar embalagens não—,


provavelmente desenvolveu rotinas que
reduziram sua sensação de temor. Mas a
pandemia se arrastou, e o estado agudo de
angústia deu lugar a uma condição de
abatimento crônico.
Na psicologia, pensamos em saúde mental
(https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2021/02/pressao-na-pandemia-

torna-urgente-falar-de-saude-mental-no-trabalho.shtml) em um
espectro que vai da depressão ao
florescimento. O florescimento é o apogeu do
bem-estar: você tem um forte sentido de
significado, domínio e importância para os
outros. A depressão é o vale do mal-estar
(https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2021/01/depressao-nas-

periferias-de-sp-se-agrava-com-pandemia-e-preocupa.shtml): você se
sente pesado, esgotado e inútil.
O definhamento é o estado médio
negligenciado da saúde mental. É o vazio
entre depressão e florescimento —a ausência
de bem-estar. Você não tem sintomas de
doença mental, mas também não está num
quadro de saúde mental. Você não funciona
com plena capacidade. O definhamento
embota sua motivação, perturba sua
capacidade de se concentrar e triplica a
probabilidade de você regredir no trabalho.
Ele parece ser mais comum que a depressão
completa —e, de certas maneiras, pode ser
um maior fator de risco para a doença mental.

O termo foi cunhado por um sociólogo


chamado Corey Keyes, que ficou
impressionado pelo fato de muitas pessoas
que não estavam deprimidas também não
estarem prosperando. Sua pesquisa sugere
que as pessoas com maior probabilidade de
experimentar grande depressão e transtornos
de ansiedade na próxima década não são
aquelas que têm esses sintomas hoje. São as
pessoas que estão definhando neste
momento. E novas evidências de profissionais
de saúde da pandemia na Itália
(https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2021/04/mais-da-metade-da-

populacao-vive-em-paises-com-ritmo-acelerado-ou-nivel-alto-de-covid-

19.shtml) mostram que as que estavam


definhando na primavera de 2020 tinham três
vezes maior inclinação que seus pares a ser
diagnosticadas com transtorno de estresse
pós-traumático.

Parte do perigo é que quando você está


definhando pode não perceber o
embaçamento do prazer ou a diminuição do
impulso. Você não se pega escorregando
lentamente para a solidão; você é indiferente
à própria indiferença. Quando alguém não
pode ver o próprio sofrimento, não busca
ajuda ou faz alguma coisa para se ajudar.

Mesmo que você não esteja definhando,


provavelmente conhece pessoas que estão.
Compreender melhor isso pode ajudar você a
ajudá-las.

UM NOME PARA O SEU SENTIMENTO

Os psicólogos acham que uma das melhores


estratégias para lidar com as emoções é lhes
dar nomes. Na última primavera [outono no
hemisfério Sul], durante a angústia aguda da
pandemia, a postagem mais viral na história
da Harvard Business
(https://www1.folha.uol.com.br/sobretudo/carreiras/2020/11/formacao-

em-engenharia-e-a-que-tem-maior-incidencia-entre-os-ceos-mais-bem-

avaliados.shtml)Review

(https://www1.folha.uol.com.br/sobretudo/carreiras/2020/11/formacao-

em-engenharia-e-a-que-tem-maior-incidencia-entre-os-ceos-mais-bem-

avaliados.shtml) foi um artigo que descreveu nosso


desconforto coletivo como sofrimento
(https://www1.folha.uol.com.br/colunas/claudiacollucci/2020/04/pandem

ia-de-covid-19-faz-reviver-antigos-lutos-e-antecipar-novos.shtml).

Juntamente com a perda de pessoas amadas,


estávamos lamentando a perda da
normalidade. "Sofrimento." Isso nos deu um
vocabulário conhecido para entender o que
parecia uma experiência desconhecida.
Embora não tivéssemos enfrentado uma
pandemia antes, a maioria das pessoas tinha
experimentado perdas
(https://www1.folha.uol.com.br/paineldoleitor/2021/03/leia-relatos-

daqueles-que-perderam-pessoas-queridas-para-a-covid.shtml). Isso
nos ajudou a cristalizar lições de nossa antiga
resiliência —e ganhar confiança em nossa
capacidade de enfrentar a adversidade atual.

Ainda temos muito a aprender sobre o que


causa definhamento e como curá-lo, mas
nomeá-lo pode ser um primeiro passo. Pode
nos ajudar a desembaçar a visão, dando-nos
uma janela mais clara para o que era uma
experiência borrada. Pode nos lembrar de que
não estamos sós: o definhamento é comum e
compartilhado.

E pode nos dar uma resposta socialmente


aceitável para "Como você está?".

Em vez de dizermos "Ótima!" ou "Bem",


imagine se respondêssemos: "Honestamente,
estou definhando". Seria um contrapeso
revigorante para a positividade tóxica
(https://www1.folha.uol.com.br/webstories/2021/04/o-que-e-

positividade-toxica.shtml) —essa pressão tipicamente


americana para estarmos animados o tempo
todo.

Quando você acrescenta "definhamento" ao


seu vocabulário, começa a percebê-lo ao seu
redor. Ele aparece quando você se sente
desanimado com sua curta caminhada à
tarde. Está na voz de seus filhos quando você
lhes pergunta como foi a escola online. Está
nos "Simpsons" cada vez que um personagem
diz "Meh".

No último verão, a jornalista Daphne K. Lee


tuitou sobre uma expressão chinesa que
significa "procrastinação vingativa na hora de
dormir". Ela a descreveu como ficar acordada
até tarde da noite para recuperar a liberdade
que perdemos durante o dia. Eu comecei a me
perguntar se não é tanto uma retaliação
contra a perda de controle quanto um ato de
desafio silencioso contra o definhamento. É
uma busca por felicidade em um dia árido,
por conexão em uma semana solitária ou por
objetivo em uma pandemia eterna.

ANTÍDOTO PARA O DEFINHAMENTO

Então o que podemos fazer a respeito disso?


Um conceito chamado "fluxo" pode ser um
antídoto para o definhamento. Fluxo é aquele
fugidio estado de absorção em um desafio
importante ou uma ligação momentânea, em
que sua sensação de tempo, lugar e self se
dilui. Durante os primeiros dias da pandemia,
o melhor previsor de bem-estar não era
otimismo ou atenção plena —era o fluxo. As
pessoas que mergulhavam mais em seus
projetos conseguiam evitar o definhamento e
mantinham sua felicidade
(https://www1.folha.uol.com.br/turismo/2021/03/saudades-de-um-

cruzeiro-ne-mae.shtml)pré-pandêmica

(https://www1.folha.uol.com.br/turismo/2021/03/saudades-de-um-

cruzeiro-ne-mae.shtml).
Um jogo de palavras de manhã cedo me
projeta no fluxo. Uma sessão de Netflix na
madrugada às vezes também faz o truque —
ela o transporta para dentro de uma história
em que você se sente atraído pelos
personagens e preocupado com o bem-estar
deles.

Enquanto encontrar novos desafios,


experiências agradáveis e trabalho
significativo são possíveis remédios para o
definhamento, é difícil encontrar fluxo
quando você não consegue se concentrar. Isso
já era um problema muito antes da pandemia,
quando as pessoas ficavam verificando o e-
mail 74 vezes por dia e mudando de tarefas a
cada dez minutos. No último ano, muitas
pessoas também estiveram lutando com
interrupções desse tipo com crianças dentro
de casa, colegas do mundo todo e chefes 24
horas por dia. "Meh."
A atenção fragmentada é inimiga do
envolvimento e da excelência. Em um grupo
de cem pessoas, somente duas ou três serão
capazes de dirigir e memorizar informação ao
mesmo tempo sem que seu desempenho
piore em uma ou nas duas tarefas. Os
computadores
(https://www1.folha.uol.com.br/educacao/2021/04/meu-cerebro-nao-

estava-acostumado-a-tanto-computador-leia-relato-de-jovem-sobre-

podem ser feitos para


educacao-na-pandemia.shtml)

processamento paralelo, mas os seres


humanos são melhores em processamento
serial.

TEMPO SEM INTERRUPÇÕES

Isso significa que precisamos definir limites.


Anos atrás, uma grande empresa de software
da Índia testou uma política simples: nada de
pausas na terça, quarta e quinta-feiras antes
do meio-dia. Quando os engenheiros
cuidaram do limite eles próprios, 47% tiveram
produtividade acima da média. Mas, quando a
companhia definiu um tempo de silêncio
como política oficial, 65% conseguiram
produtividade acima da média. Produzir mais
não foi melhor só para o desempenho no
trabalho; sabemos hoje que o fator mais
importante na alegria e motivação diárias é a
sensação de progresso.

Não acho que haja algo mágico em terça,


quarta e quinta antes do meio-dia. A lição
dessa ideia simples é tratar blocos de tempo
ininterrupto como tesouros a se proteger. Eles
eliminam distrações constantes e nos dão
liberdade para nos concentrarmos. Podemos
encontrar alívio em experiências que captam
toda a nossa atenção.

PEQUENO OBJETIVO

A pandemia foi uma grande perda. Para


transcender o definhamento, experimente
começar com pequenas vitórias, como o
minúsculo triunfo de descobrir um "quem fez
algo" ou a emoção de encaixar uma palavra de
sete letras. Um dos caminhos mais claros para
o fluxo é uma dificuldade que se supera por
pouco: um desafio que força suas capacidades
e enaltece sua decisão.

Isso significa encontrar tempo diário para se


concentrar em um desafio que é importante
para você —um projeto interessante, um
objetivo válido, uma conversa significativa. Às
vezes, é um pequeno passo na direção de
redescobrir parte da energia e do entusiasmo
que lhe fizeram falta durante todos esses
meses.

O definhamento não está apenas em nossa


cabeça —está em nossas circunstâncias. Você
não pode curar uma cultura doente com
ataduras pessoais. Ainda vivemos em um
mundo que normaliza os desafios de saúde
física, mas estigmatiza os desafios de saúde
mental. Ao rumarmos para uma nova
realidade pós-pandêmica
(https://www1.folha.uol.com.br/mpme/2021/04/casamentos-com-

viagens-e-varios-dias-de-festa-sao-tendencia-para-o-pos-pandemia.shtml),

é hora de repensar nossa compreensão da


saúde mental e do bem-estar. "Não
deprimido" não significa que você não sente
dificuldades. "Não esgotado" não significa que
você está totalmente ligado. Ao admitir que
tantas pessoas estão definhando, podemos
começar a dar voz ao desespero silencioso e
iluminar um caminho para sair do vazio.

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https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2021/04/ha-um-nome-para-
seu-mal-estar-na-pandemia-chama-se-definhamento.shtml

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