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CIÊNCIA POLÍTICA

Unidade II
5 ESTADO, HISTÓRIA E ELEMENTOS ESSENCIAIS

Imersos nas formas-Estado, compreenderemos facilmente que as


sociedades indígenas recorram a poderosos mecanismos para inibir o pleno
desenvolvimento delas – que já estão lá e atuam, presentes na aparente
ausência. Da mesma forma e inversamente, as sociedades indígenas nos
concederão as grades de inteligibilidade para que compreendamos a
atuação das forças antiestado entre nós, inibidas e, contudo, presentes na
aparente ausência. Tudo estará em tudo e reciprocamente [...]: Estado entre
os indígenas; antiestado entre nós; Clastres nos dilemas da antropologia
contemporânea e às avessas (BARBOSA, 2004, p. 533-534).

Aproveitamos o diapasão dessa citação e seguimos pelos olhares disciplinares que miram os principais
traços e as bases do Estado; traços radicais, como aqueles trazidos por antropólogos (Maurice Godelier e
Pierre Clastres) e geógrafos (como Paul Claval), e sofisticados, como o da sociologia de Pierre Bourdieu.
Esses homens abrem caminho para os cientistas políticos (politólogos) e para economistas (como Robert
Heilbroner, da economia política).

É preciso que se diga, alinhando-nos com Atilio A. Boron (1994), que houve expansões e
retrações históricas das estruturas estatais, o que é corroborado pelas afirmações que destacamos
de Paul Claval.

Atilio A. Boron acusa certa negação de sua realidade, principalmente no caso dos britânicos,
advertindo que “a realidade social existe independentemente de nossas capacidades intelectuais
para apreendê-la” (1994, p. 244). O autor menciona o positivismo reinante (em David Easton, por
exemplo), que considera imprestáveis poder e Estado ao desenvolvimento da pesquisa política.
Claro, visto que não são tangíveis, a não ser como expressão de relações: são tipos, emergem com
as forças sociais.

Boron (1994) fala de formações estatais tardias (Alemanha e Itália) em contraposição às anglo-saxãs
(Estados Unidos da América e Reino Unido), nas quais a iniciativa burguesa inibiu o aparato estatal...

O Estado, que desde os anos 1930 foi um meio ideal de lidar com a crise,
foi convertido ideologicamente no “bode expiatório” e concebido como o
fator que a originou. Antes, nos fatídicos anos 1930, isso fazia parte da
solução. Agora se tornou – nas versões mais ululantes do neoliberalismo – a
totalidade do problema (BORON, 1994, p. 187).

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Quanto à América Latina, sistema tributário pauperizador e não devolutivo, Boron acentua:

Números sobre a tendência dos salários reais falam por si sobre o alcance
do processo de pauperização sofrido por vastos setores das populares
classes latino-americanas. É evidente que esta regressão salarial deve ter
um impacto profundo, tanto na economia como na política de nossos
países. Mas o que gostaríamos de destacar com esses dados é a magnitude
da lacuna que separa as necessidades humanas básicas – de crescentes
contingentes da população – da capacidade efetiva de intervenção do
Estado suscetível de produzir políticas compensatórias ou corretivas dos
desequilíbrios gerados pelo capitalismo selvagem. Isso pode ser expresso
graficamente com a metáfora das tesouras: as demandas geradas na
sociedade civil, as insatisfações, as privações e os sofrimentos provocados
tanto pela crise como pelos testes neoliberais postos em prática na região
deram origem a uma verdadeira barragem de reivindicações, facilitada,
por outro lado, pelo clima permissivo das sociedades que reiniciam
sua longa marcha rumo à democracia. Nestas condições, no entanto,
a mesma crise que potencializa as renovadas demandas sociais reduz
significativamente as capacidades do Estado para produzir as políticas
necessárias para resolver, ou pelo menos aliviar, as dificuldades aludidas.
O resultado é um acúmulo alarmante de tensões que poderiam levar a
um quadro de ingovernabilidade generalizada do regime democrático, sua
deslegitimação acelerada e sua provável desestabilização, com os riscos de
uma inesperada reintegração de governos autoritários de diferentes tipos
(BORON, 1994, p. 195).

Atilio A. Boron (1994, p. 200) faz considerações sobre as dívidas externas insustentáveis “que a
América Latina não pode pagar”, promovendo transferências de gigantescas quantias, e acrescenta a
mais importante das constatações de seu livro, que “estes dados [o levantamento exaustivo apresentado]
demonstram, apesar da gritaria neoliberal, a persistente importância do Estado e do gasto social nos
capitalismos metropolitanos”.

Numa análise mais pormenorizada, pode-se comprovar que nem o


presidente Ronald Reagan nem a primeira-ministra Margaret Thatcher
cumpriram suas promessas de efetivar cortes drásticos nos orçamentos
fiscais. Se algo foi provado com a sua gestão é que mesmo o discurso mais
neoliberal não conseguiu ressuscitar os mortos diligentemente enterrados
por Keynes há mais de meio século. Os ideólogos e propagandistas das
virtudes do mercado podem falar, mas suas palavras desaparecem no
ar antes da verdade efetiva das coisas. Se o Estado continua a pesar na
economia, é porque a acumulação capitalista foi “estatificada” e exige
cada vez mais o apoio dos poderes públicos para sobreviver. A história
do déficit fenomenal do governo dos EUA é demasiado conhecida
para se repetir mais uma vez: em 1985, era equivalente a 5,3% do
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PIB, enquanto a do Reino Unido, por outro lado, era de 3,1%. Como
os déficits aberrantemente keynesianos se reconciliam com um discurso
dogmaticamente neoliberal? (BORON, 1994, p. 201).

Para nossa “perplexidade” diante das declarações sobre a agonia e morte do Estado, pesquisadores
sustentam o seguinte: “como resultado do declínio das políticas econômicas neoliberais e da crise que
atravessam a maioria das economias latino-americanas, o papel econômico do Estado se verá fortalecido”
(BORON, 1994, p. 203).

Claudia Costin define de modo bem direto Estado, Estado nacional e suas partes principais.

Em sua versão moderna, o Estado contém um conjunto de organismos de


decisão (Parlamento e governo) e de execução (Administração Pública).
Nessa concepção, a organização estatal possui uma dimensão legiferante,
associada à produção de normas que regerão a vida social, e uma dimensão
administrativa, associada ao cotidiano da gestão das instituições e das
relações políticas. Assim, o Estado é mais amplo que o governo ou que a
Administração Pública, como veremos um pouco mais adiante.

Numa outra classificação, o Estado é integrado por três poderes, a que


correspondem três funções básicas: o Legislativo, o Executivo e o Judiciário.
O primeiro estabelece as leis a serem seguidas por uma sociedade. O
Executivo, por sua vez, tem por responsabilidade impor e fiscalizar a
aplicação dessas leis, além de regulamentar, nas bases por elas previstas, a
legislação aprovada pelo Legislativo, implementar políticas públicas, coletar
impostos para o desempenho das funções do Estado e de seus componentes.
O Judiciário, por fim, detém a capacidade de julgar, na maioria dos casos, a
correta aplicação da lei e das penas correspondentes a seu desrespeito.

Investido desses três poderes, o Estado possui um caráter ambíguo: designa


o comando da comunidade, como autoridade soberana que se exerce sobre
um povo e um território determinados e, ao mesmo tempo, representa,
por meio de uma pessoa que o encarna, a Nação. Essa pessoa é o chefe
de Estado, correspondente, num país como o nosso, ao presidente, e, num
regime monarquista como o inglês, ao rei ou à rainha.

[...]

Bresser-Pereira (2004, p. 4) estabelece uma distinção entre Estado-nação


e Estado. Para ele, enquanto o Estado-nação é o “ente político soberano
no concerto das demais nações, o Estado é a organização que, dentro
desse país”, tem o poder de legislar e tributar a sociedade. O autor associa
ao Estado tanto uma dimensão de organização com “poder extroverso
sobre a sociedade que lhe dá origem e legitimidade” quanto o sistema
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constitucional‑legal, “dotado de coercibilidade sobre todos os membros do


Estado nacional” (COSTIN, 2010, p. 8-15).

O Estado possui uma administração pública, fixada pelo Decreto-lei nº 200 de 1967:

Uma definição operacional de Administração Pública decorre do que vimos


anteriormente sobre o Estado. Inclui o conjunto de órgãos, funcionários
e procedimentos utilizados pelos três poderes que integram o Estado, para
realizar suas funções econômicas e os papéis que a sociedade lhe atribuiu no
momento histórico em consideração. Assim, temos dois qualificativos para
associar a esta afirmação: a Administração Pública não existe só no Executivo
e ela muda constantemente, pois as expectativas da sociedade em relação a
ela e às disputas que se fazem na esfera política para fazer valer propostas
diferentes de atuação estatal também são cambiantes (COSTIN, 2010, p. 27).

Claudia Costin cita Bresser-Pereira para tipificar a Administração Pública em três formas históricas:

Segundo Bresser-Pereira (1998, p. 20-22), há três formas de administrar o


Estado: a administração patrimonialista, a administração pública burocrática
e a administração pública gerencial, que outros autores chamam de
pós‑burocrática. O autor tira o qualificativo de pública da administração
patrimonialista, pois esta não visaria o interesse público (2010, p. 31).

A autora também apresenta em seu livro os modos básicos de alimentação do aparelho estatal, via
tributos, e de gastos públicos, via orçamento.

Depois de definir Estado e de contextualizá-lo juridicamente, vamos situá-lo no tempo com o excerto
a seguir.

Evolução histórica do Estado

Como vimos, o Estado não existiu sempre. Surgiu num determinado momento histórico
em razão de uma série de fatores sociais, políticos, econômicos etc., com o objetivo de
organizar a sociedade sob uma nova estrutura institucional de poder. Para analisarmos
as formas históricas assumidas pelo Estado, retomamos a tipologia utilizada por Norberto
Bobbio em seu Estado, Governo e Sociedade, que inclui esta sequência: Estado feudal,
Estado estamental, Estado absoluto, Estado representativo.

O Estado feudal pode parecer a muitos uma contradição em termos, mas trata-se,
evidentemente, de uma forma de Estado em que há uma fragmentação do poder em
múltiplos agregados sociais e, por outro lado, a concentração de diferentes funções diretivas
nas mãos das mesmas pessoas. Ao poder “central” do rei caberia apenas a organização do
Exército e a estruturação da defesa do território, ao passo que o protagonismo político
pertenceu aos senhores feudais.
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O Estado estamental – outra categoria nessa tipologia baseada na evolução histórica –


caracteriza-se pela constituição de órgãos colegiados que reúnem indivíduos possuidores
da mesma condição social, os estamentos, que detêm os mesmos direitos e privilégios
diante do poder soberano. Essa forma de Estado difere do Estado feudal em virtude da
transformação das relações pessoais entre os indivíduos, além da própria relação entre as
instituições, pois as assembleias de estamento surgem como contrapoder ao rei e aos seus
funcionários. Posteriormente, o absolutismo tenderá a acabar com essa contraposição de
poderes a partir da ênfase na ideia de poder soberano e absoluto.

O Estado absoluto surge com a concentração e centralização de poderes num determinado


território, tendo como referencial a figura do monarca. Com o fim da fragmentação do poder
político, pode-se pensar na constituição dos Estados-nação, com o exercício da soberania
sobre um território e suas gentes.

A soberania se expressa agora no poder de ditar leis sobre uma coletividade, no poder do
uso exclusivo da força para proteção contra ameaças externas e imposição da ordem, e no
poder de coletar impostos que é assegurado ao rei e elimina poderes autônomos estranhos
a ele. Em outros termos, o poder de cidades, sociedades comerciais ou corporações só pode
existir mediante autorização do poder central ao qual se subordinam, ganhando relevo
termos como “centralização”, “soberania” e “contrato social”.

O Estado representativo aparece na Europa na sequência da Revolução Gloriosa de 1688 e


da Revolução Francesa de 1789 e, nos Estados Unidos, após a consolidação da independência
no século XVIII. O conceito de representação associa-se à ideia de que um corpo escolhido
por cidadãos age em nome destes, e tal corpo é escolhido por meio de um procedimento
eleitoral racionalmente estabelecido. Trata-se, antes de tudo, do Parlamento, em que um
conjunto de representantes é eleito para decidir que leis deverão governar aquela sociedade
e, mais especificamente, que políticas públicas serão implementadas. Inclui também o Poder
Executivo, em que o presidente ou primeiro-ministro age representando a coletividade que
lhe outorgou o poder para tanto, por um período especificado, mas equilibrando seu poder
com o do corpo Legislativo.

No regime representativo, o poder conferido aos representantes pode ser retirado,


seja por uma não renovação do mandato no momento das eleições, seja por decisão
dos demais representantes, caso alguma lei que rege a conduta dos parlamentares ou
do chefe do Executivo tenha sido burlada, justificando, assim, a cassação do mandato,
no caso dos membros do Poder Legislativo, ou o impeachment, no caso do presidente.
Eleições parlamentares que mostrem um novo desejo dos eleitores podem levar, no sistema
parlamentarista, à nova escolha de primeiro-ministro.

A democracia representativa é realizada através de uma representação concentrada


que se divide nos poderes Executivo e Legislativo. É importante salientar a análise de
Pitkin sobre o tema, que realiza uma reflexão histórica e semântica do conceito de
representação. Segundo a autora, “representação” tem sua origem na palavra latina
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representare, que significa “tornar presente ou manifesto; ou apresentar novamente”


(PITKIN, 2006, p. 17). Por outro lado, em virtude da complexidade da representação,
surgem desafios sobre como tornar presente o que não está efetivamente presente.
Desse modo, a ausência do representado é atenuada por meio de mecanismos em que
a atuação do representante seja publicizada e, de certa forma, passível de controle, o
que não quer dizer que esse controle seja absoluto e que não haja uma margem de
autonomia nas ações do representante.

Por essa razão, segundo Manin (1995), é possível identificar três sentidos no âmbito da
democracia representativa:

• Significa que as decisões devam ser realizadas por representantes cuja legitimidade
advém da lei ou do voto, pois, embora o povo não governe, “ele não está confinado
ao papel de designar e autorizar os que governam. Como o governo representativo
se fundamenta em eleições repetidas, o povo tem condições de exercer uma certa
influência sobre as decisões do governo” (p. 8).

• Afasta a ideia de poder absoluto, na medida em que o representante deve agir


nos limites impostos pelos representados, desfrutando de relativa margem de
autonomia. Por outro lado, isso não quer dizer que o representante deva fazer o que
o representado determina. O que possibilita essa relação conflituosa é a liberdade de
opinião, que atenua a não vinculação do governante às opiniões do governado, já
que a “liberdade de opinião surge, assim, como contrapartida à ausência do direito
de instrução” (p. 12).

• Significa uma alternativa à complexidade moderna, na qual não há mais espaços


para modelos democrático-participativos diretos, a exemplo da polis grega. Assim, “a
vontade popular se torna um componente reconhecido do ambiente que cerca uma
decisão” (p. 12), tendo em vista que a seleção de representantes ocorre por meio de
um procedimento eleitoral.

Como avanço histórico, o Estado representativo introduziu a ideia de que o indivíduo


precede o Estado. Ao contrário do Estado estamental, em que a representação se faz por
categorias ou corporações, aqui indivíduos singulares (inicialmente, esclarece Bobbio, só
os proprietários) detêm direitos naturais e por lei que podem, inclusive, fazer valer contra
o Estado. Esse reconhecimento dos direitos do homem e do cidadão representou uma
revolução no relacionamento entre governantes e governados.

Para Bobbio, a evolução da democracia representativa caminhou lado a lado com


o alargamento dos direitos políticos até a introdução do sufrágio universal. Mas tal
complexidade trouxe como consequência a necessidade de se formarem partidos e
associações, [então], ao organizarem as eleições, levou à perda da noção originária de
representação, a qual já não seria mais dos indivíduos singulares, e sim das agremiações
que acabam recebendo “uma delegação em branco dos eleitores”.
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Mesmo com esses problemas, o Estado representativo é hoje ao menos a referência,


mesmo em constituições de países com modelos marcadamente autoritários. Procura-se
manter, no texto do ordenamento jurídico da maior parte dos países, ao menos a referência
ao Estado representativo.

A partir de outros pressupostos, Bresser-Pereira acrescenta à tipologia o Estado social,


marca de uma evolução que, na sequência das manifestações socialistas do fim do século
XIX e, mais recentemente, após a crise de 1929 e suas graves implicações na qualidade de
vida das populações europeia e americana, tornou o cidadão portador de direitos sociais e o
aparelho estatal uma fonte de atendimento das necessidades a ele associadas.

Mais precisamente, em decorrência da mudança nas relações sociais causada, em


especial, pela industrialização, buscou-se um novo tipo de Estado, que reconhecesse as
desigualdades sociais. A falta de condições salubres de trabalho, a ausência de direitos
trabalhistas e a exploração foram os problemas que o direito social procurou resolver.
Exigiu‑se, para tal, uma atuação positiva por parte do Estado no âmbito das relações
privadas. Predomina, no Estado social, a preocupação de proteger o homem do próprio
homem e, para tal, o Estado deve ser o ator redutor de diferenças sociais, praticando uma
verdadeira justiça distributiva.

Na concepção de Bresser-Pereira, o Estado social apresentaria três versões: o Estado do


bem-estar, o Estado desenvolvimentista e o Estado comunista. As propostas estruturam
sistemas bastante distintos entre si, mas com uma preocupação comum: dotar o Estado
de competências para promover maior igualdade econômica entre cidadãos que, para a
etapa mais recente do Estado representativo, já contariam com igualdade de direitos civis e
políticos. Isso envolve um fortalecimento das capacidades de formulação e implementação
de políticas sociais e, ao mesmo tempo, uma ênfase na promoção do desenvolvimento e
no apoio à indústria local. Além disso, estabelece-se um diálogo firme e constante com
sindicatos e associações de trabalhadores.

A crise do Estado no início dos anos 1980 e a posterior derrocada da União Soviética
e das economias dos regimes do Leste Europeu trouxeram um profundo questionamento
do Estado social. Criticava-se sua dependência de uma carga tributária elevada, a inibir
a produtividade e a saúde financeira das mesmas empresas locais que se pretendia
impulsionar, e sua desvinculação com uma lógica de trabalho como fator de crescimento
humano. Acreditava-se que auxílios pecuniários dissociados de esforço pessoal levariam
à dependência e à acomodação do ser humano. Outros criticam a insuficiência do
Estado social em resolver os problemas a que se propõe, criando atenuantes, como
salário‑desemprego, em vez de combater o desemprego, ajudas em espécie ou dinheiro
em vez de criar reais oportunidades.

Mas Peter Lindert (2002, p. 2) demonstra que não há evidências estatísticas de que os
Estados com modelos sólidos de bem-estar social financiados por uma carga tributária
relativamente elevada tenham experimentado reduções no crescimento do seu PIB e
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da produtividade. Isso se deve, segundo ele, entre outros fatores, à constituição de uma
competência para desenhar desincentivos à evasão do trabalho por parte da juventude, à
seleção de um mix de impostos mais favorável ao crescimento e ao efeito positivo do gasto
social sobre o crescimento. Não apenas a educação aumenta o PIB per capita, mas outros
gastos sociais também o fazem.

Em seu modelo predominante hoje em dia, o Estado pode ser diferenciado, no entanto,
pelas diferentes tarefas e papéis que assume, o que, por sua vez, resulta também de uma
evolução histórica.

Há pouco consenso nessa matéria. Mas, nos tempos em que a expressão Estado começou
a ser utilizada, com Maquiavel, o papel do Estado era percebido, sobretudo, como o de
prover segurança à população para conduzir suas atividades diante de agressões externas ou
crimes internos, cabendo às entidades religiosas registrar os nascimentos e óbitos, acudir os
necessitados e, para quem quisesse integrar seus quadros, a educação necessária para tanto.

Outros recebiam educação de preceptores contratados. O controle de contratos privados


surge inicialmente mais relacionado à cobrança de impostos do que à sua garantia. Além
disso, a função judiciária já era exercida antes desse período. O soberano, mesmo antes
de se pensar em separação de poderes, atuava muitas vezes como árbitro em desavenças
entre seus súditos, no perdão de dívidas entre particulares ou para com o Tesouro Real, e
estabelecia sentenças para crimes.

Progressivamente as instituições religiosas e, em alguns casos, as próprias comunidades


(como no caso americano) foram se responsabilizando pela oferta de educação a um número
maior de crianças e jovens, independentemente de vocações religiosas.

O antigo reino da Prússia foi o primeiro país a introduzir, inspirado por Martinho Lutero,
a educação pública gratuita e compulsória, de oito anos de duração, para todas as crianças,
ainda no século XVIII. A essas alturas, as primeiras escolas públicas americanas já existiam e
conviviam com escolas comunitárias e privadas. Na França, onde já existia um sem‑número
de escolas religiosas, o sistema público foi introduzido nos anos 1880, por Jules Ferry, junto
com um processo vigoroso de laicização do ensino (WEREBE, 2004). No Brasil, o governo
provisório de Deodoro da Fonseca institui, em 1890, o “ensino leigo e livre, em todos os níveis
e gratuito no primário” (Decreto nº 501/1890). Na ocasião, apenas 12% das crianças em
idade escolar tinham acesso à educação. Vamos demorar mais 106 anos para universalizar
o ensino fundamental.

A saúde surge como preocupação do Poder Público bem antes disso. Os romanos já
apresentavam obras de saneamento, afastando os dejetos humanos de áreas de concentração
de pessoas. Posteriormente, epidemias mereceram atenção de governos, como foi o caso
da peste negra, que levou à infrutífera queima de cadáveres, seguida pela mais eficiente
queima de bairros inteiros. Da mesma forma, o Estado passou a estabelecer, especialmente
a partir dos séculos XVIII e XIX, condições para o estabelecimento de cemitérios, venda de
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alimentos e destinação do lixo num introito ao que se chama hoje de Vigilância Sanitária.
Nesse sentido, fez construir também esgotos (como o famoso de Londres, cuja obra se
fez na sequência da epidemia de cólera de 1854) e aterros sanitários. Pouco a pouco, a
partir do século XIX, o Estado começou a vacinar para prevenir doenças, ao mesmo tempo
que em muitos países se estabelecia um sistema de vigilância epidemiológica. Essas novas
atribuições demandaram a constituição de uma rede de novos equipamentos públicos, em
adição a hospitais, inicialmente operados por ordens religiosas a partir de contribuições
filantrópicas. Aqui no Brasil tivemos as Santas Casas de Misericórdia, a primeira datando
de 1540, de criação apoiada pelo imperador, mas efetivamente não públicas. O mesmo
movimento seguiu o Québec um século mais tarde, com a criação do Hotel-Dieu du
Précieux-Sang, em 1639, e o Hotel-Dieu de Montreal, em 1640. No século XX, o Estado
passou a possuir hospitais, ambulatórios e centros de higiene posteriormente chamados de
centros de saúde.

Outra atividade assumida pelo Estado desde os seus primórdios, embora não com
exclusividade, foi a de construção de estradas. No auge do Império Romano, uma vasta rede
de estradas interligava rotas comerciais e permitia o deslocamento de tropas na Europa, no
norte da África, na Anatólia, na Índia e na China.

O Império Chinês fora responsável pela construção do segmento que interligava a China
à Anatólia e à Índia, conhecida como “rota da seda”. Essa porção tinha uma existência
de aproximadamente 1.400 anos quando das viagens de Marco Polo (1270 a 1290 da
era comum), certamente sua fase mais importante. As companhias comerciais, com seus
exércitos privados, as guildas, os senhores feudais, a Igreja (inclusive na coordenação das
cruzadas), as empresas e mesmo os proprietários individuais fizeram construir estradas para
facilitar o comércio, apoiar movimentação de tropas ou integrar partes distintas de uma
mesma propriedade. Mas, essa função foi percebida durante a maior parte do tempo como
uma atribuição do Poder Público, mais modernamente concedida a empresas de construção
civil, mediante contratos de concessão ou, mais recentemente, parcerias público-privadas
(outra modalidade de concessão).

As primeiras estradas brasileiras foram construídas no século XIX. Nos anos 1920
temos nossas primeiras rodovias. A primeira rodovia pavimentada foi inaugurada em
1928, a Rio-Petrópolis.

Juntam-se às estradas a construção de outras obras de infraestrutura para


desenvolvimento, como portos, ferrovias (que curiosamente surgem no Brasil como
empreendimento privado, de propriedade do Barão de Mauá), sistema de ruamento urbano,
usinas de geração, distribuição e transmissão de energia elétrica e, mais recentemente,
aeroportos e empresas de telecomunicações.

Mas as atividades do Estado na promoção do desenvolvimento não se restringem a obras


de infraestrutura. Incluem a formulação de uma política econômica adequada à atração de
investimentos e promoção do comércio, um sistema de arbitragem de disputas comerciais
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estruturado e confiável, um regime de patentes que favoreça a inovação e dê segurança a


quem nela desejar investir. Além disso, pode conter uma política industrial que favoreça e
financie empreendimentos nacionais.

Cada vez mais o Estado tem sido chamado, nos países em desenvolvimento, a assumir
um importante papel no incentivo à competitividade do que neles é produzido. Esse papel,
no entanto, deve ser equilibrado com duas outras funções do Poder Público: a redistributiva
e a estabilizadora.

Em situações de pobreza e desigualdades sociais, políticas compensatórias podem


completar os investimentos públicos em saúde e educação. Isso, por outro lado, gera um
impacto, em termos de carga tributária, que encarece os produtos nacionais e rouba-lhes
a competitividade e a possibilidade de criação de empregos – o que agrava a situação
social. Da mesma maneira, a política industrial pode, dependendo de seu desenho, levar a
desequilíbrios orçamentários, que, por sua vez, acarretam inflação, endividamento ou ônus
a políticas sociais.

Recentemente, o Estado vem se retirando da produção direta de bens e serviços para


o mercado. Isso se deve a uma combinação de fatores: o surgimento de um conjunto de
empresas em condições de assumir a direção de empresas públicas que anteriormente
ofereciam esses bens, a crise fiscal que resultou no esgotamento da capacidade de
investimento do setor público e uma visão ideológica de defesa da redução do tamanho do
Estado (o que se convencionou chamar de neoliberalismo).

Mas é interessante observar que, se o Estado se retirou da atividade produtiva em


diferentes setores, ele retornou com outras atribuições, geralmente associadas à regulação
de serviços públicos concedidos, em mercados que tendem à formação de monopólios. No
Brasil, em energia elétrica, área em que muitas empresas de distribuição foram privatizadas,
foi criada a Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica), com funcionários de carreira e
independência para atuar no segmento. Da mesma forma, em telecomunicações, a Anatel
(Agência Nacional de Telecomunicações) se propõe a regular a atuação das empresas que
receberam a concessão de serviços de telecomunicações.

Primeiramente, tais agências se situam na interface entre Estado e governo e não


se submetem à hierarquia funcional, orçamentária e decisória da Administração Pública
clássica. Em segundo lugar, o que reforça essa liberdade de decisão das agências é o
próprio arcabouço jurídico-normativo presente nas diversas legislações de cada uma
delas. Em linhas gerais, algumas características presentes nas agências são centrais para
o seu desenvolvimento institucional autônomo, tais como: a) mandatos dos diretores não
coincidentes com os mandatos do chefe do poder executivo que os nomeou; b) garantias
em relação à demissibilidade ad nutum; c) autonomia funcional e financeira que permita
se organizar livremente; d) impossibilidade de reforma de suas decisões pela Administração
Pública direta. Em terceiro lugar, as agências reguladoras se distinguem também do ponto de
vista do conteúdo da decisão. No contexto regulatório, opera-se uma desconcentração das
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competências e atribuições, de modo que à Administração Pública caiba proferir decisões


políticas, ao passo que às agências caiba proferir as decisões técnicas.

O conjunto das atividades públicas desenvolvidas hoje nos países com Estado estruturado
contempla ainda a fiscalização, a diplomacia, a defesa e o policiamento – atividades que,
junto com a regulação, são normalmente definidas como exclusivas de Estado. A segurança
dos cidadãos diante de agressões externas ou crimes internos, a representação da nação
e de seus interesses no exterior, a arrecadação de impostos vitais para a implantação de
políticas públicas e a verificação da conduta de empresas e particulares quanto a leis e
políticas públicas que protegem o ambiente, a saúde da população e dos rebanhos ou a
correta aplicação dos recursos da seguridade social são algumas dessas atividades que o
Estado precisa desempenhar para manter uma sociedade organizada e protegida em seus
direitos (inclusive os chamados direitos republicanos).

Fonte: Costin (2010, p. 8-15).

Saiba mais

Para se aprofundar no assunto, leia a obra de Claudia Costin:

COSTIN, C. Administração pública. Rio de Janeiro: Elsevier, 2010.

5.1 Teoria geral do Estado

Todo esse processo – constituição de um campo; autonomização desse


campo em relação a outras necessidades; constituição de uma necessidade
específica em relação à necessidade econômica e doméstica; constituição
de uma reprodução específica de tipo burocrática, específica em relação à
reprodução doméstica, familiar; constituição de uma necessidade específica
em relação à necessidade religiosa – é inseparável de um processo de
concentração e de constituição de uma nova forma de recursos que são do
universal, em todo caso, de um grau de universalização superior àqueles que
existiam antes. Passa-se do pequeno mercado local ao mercado nacional,
seja no nível econômico, seja no simbólico. A gênese do Estado é, no fundo,
inseparável da constituição de um monopólio do universal, sendo a cultura
o exemplo por excelência (BOURDIEU, 2012).

Tradicionalmente se distinguem dos processos de formação do Estado: um


exógeno contra a empresa e o outro endógeno. O processo exógeno remete
a fenômenos de conquista de uma empresa por outra e à implantação de
uma instituição dominante sobre as populações conquistadas por parte
da população conquistadora. O processo endógeno remete à constituição

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progressiva de formas de dominação exercida por uma parte da sociedade


sobre os demais membros (GODELIER, 1980, p. 667).

As reflexões de Claval, Bourdieu e Clastres levam-nos a considerar o Estado como alternativa


organizacional de encaminhamento do poder.

O que Gustavo Baptista Barbosa (2004) destaca e propõe discutir do trabalho de Pierre Clastres é a
variedade histórica, raramente tratada (comumente ignorada) como possibilidade em ciência política e
no direito.

Na verdade, o tratamento que ele reservará ao “Estado” permite-nos desterritorialização


complementar de seu conceito de “sociedade”. O Estado, afirma Clastres, “não é o Eliseu, a Casa Branca,
o Kremlin”, mas o “acionamento efetivo da relação de poder”: é o que nos faculta, por exemplo, afiançar
que haverá Estado entre os primitivos, presente na aparente ausência (BARBOSA, 2004, p. 537).

O autor traz tal possibilidade como uma força organizadora da realidade; isto é, saber, conhecer,
o que pode fazer toda a diferença na hora de planejar e intervir na realidade. As façanhas de outros
povos devem nos esclarecer tanto sobre o alcance da razão quanto sobre a riqueza de combinações
e convenções entre pessoas. É quando fala em revolucionar o conhecimento, evocando o feito de
Copérnico, ao mostrar o poder inusitado de um chefe indígena quando comparado a nossas formas de
poder estatal, por exemplo:

A “revolução copernicana” a que Clastres nos convida, em Copérnico e os


Selvagens, exige que pensemos “dívida” e “guerra” em sua positividade, e
não como reflexos da falta de fé, leis e reis, que condenariam as sociedades
primitivas a um estádio aquém do político. A dívida evidencia o lugar do
político nos grupos indígenas, ao produzir, num só movimento, um chefe
sem poder e uma sociedade sem Estado, sem corpo político que paire acima
dela, portanto. Será o mesmo fito que perseguirão a máquina produtiva e a
máquina de guerra dos primitivos, ambas resguardando a totalidade una das
sociedades primitivas, isto é, mantendo-as como todo homogêneo e evitando
a emergência do Um, do Estado, da distinção entre um “chefe‑que‑ordena”
e um “grupo-que-obedece” (BARBOSA, 2004, p. 549).

Raciocínio similar acontece quando o antropólogo brasileiro considera a dimensão econômica das
organizações sociais/societais.

A máquina produtiva primitiva persegue um ideal de autarquia, porque


opera segundo uma lógica do centrífugo, exatamente como a máquina
de guerra. Opondo os grupos, os conflitos armados conspiram contra sua
unificação e permitem a cada um manter a sua totalidade una contra o
princípio unificador do Um, o Estado: as sociedades primitivas exigem uma
leitura de Hobbes às avessas (BARBOSA, 2004, p. 549).

68
CIÊNCIA POLÍTICA

Borbosa aponta que Pierre Clastres não faz ciência política convencional,

Clastres jamais fez ciência de Estado. Não exatamente no sentido de


que não tenha constituído uma sociologia política. Ainda que não tenha
propriamente instituído uma escola, – Clastres “pertence a uma família
de espíritos sem espírito de família” [afirma Meunier] –, fundou, sim, uma
sociologia política, só que de outro modo e a partir de outra perspectiva.
Trata-se aí do sentido mesmo da revolução copernicana por ele proposta,
ao proceder ao deslocamento da privação para a oposição e identificar, nas
sociedades indígenas, não ausências – de fé, leis e reis –, mas presenças
e vontades afirmativas contra a economia e o Estado. A asserção acerca
do estatuto plenamente político das sociedades indígenas assenta-se
numa aposta: a de que é possível escapar ao guarda-chuva do Estado e
pensar fora das fronteiras por ele impostas, o que, no limite, culminará com
o questionamento da própria instituição como princípio inescapável de
organização social (BARBOSA, 2004, p. 551).

Tocando no ponto nodal de nossa questão, a de tomar, contrariamente ao verdadeiro espírito


científico, as instituições cristalizadas, como é o caso do Estado, ao modo de dados inamovíveis e
eternos, temos que

Tanto a chamada antropologia política quanto a filosofia política viciaram‑se


muito cedo no ponto de vista do Estado e tenderam a conduzir a atenção
para a análise da ordem, da coesão e das instâncias de controle. Entretanto,
tal privilégio denuncia precisamente certa consagração da perspectiva do
Estado, como se se aceitasse como “necessidade antecipadamente dada
aquilo que talvez só exista como seu modo próprio de operação”. O círculo,
dessa maneira, fecha-se em discutível filosofia da história, à qual Clastres
confronta uma etnologia que nos exclui nem tanto como objetos, mas como
pontos de vista (BARBOSA, 2004, p. 552).

Quanto ao poder associado às classificações, Barbosa cita a ideia de Clastres sobre a inadequação
das tipologias transplantadas da realidade conhecida pela ciência europeia para todas as outras partes
do mundo:

Apesar de a tradição das gerações mortas pesar como pesadelo sobre o


espírito das novas, muito cedo os trópicos imporiam suas particularidades
aos antropólogos que aqui desembarcaram a partir da década de 1960.
O instrumental analítico de inspiração fortesiana que muitos traziam em
sua bagagem logo revelaria suas insuficiências. “As tipologias britânicas
das sociedades africanas são possivelmente pertinentes para o continente
negro; não servem de modelo para a América”, antecipa Clastres. Salvo no
caso de raras exceções, a equação tradicional que reduz o poder à coerção
e à relação comando-obediência – precisamente nossa concepção do que
69
Unidade II

deva ser a política – não funciona na América, e, por detrás da recusa


da etnologia em reconhecer o caráter eminentemente político do poder
não potente característico das sociedades ameríndias, esconde-se, em
eterna espreita, o “adversário sempre vivaz” da pesquisa antropológica, o
etnocentrismo, que, ao fazer de nós mesmos inescapáveis telos de todos
os grupamentos humanos, “mediatiza todo olhar sobre as diferenças para
identificá-las e finalmente aboli-las”. Se as sociedades indígenas rejeitam o
poder político como coerção ou violência, tal negação não necessariamente
traduz um vazio. “Algo existe na ausência”, assegura Clastres. Pode-se pensar
o político sem a violência, mas não há como pensar o social sem o político
(BARBOSA, 2004, p. 552).

É muito oportuno que o pensamento ocidental volte-se sobre si mesmo à procura das falhas
proporcionadas pelo etnocentrismo, tão colado nas perspectivas ingênuas.

Observação

Formalistas apegados na lógica elementar são europocêntricos.

Étienne de La Boétie promove um deslizamento da história para a lógica


e espanta-se que tantos tenham se sujeitado a só um e que o tenham
feito de bom grado: “[Q]ue malencontro foi este que tanto desnaturou
o homem, o único nascido, de verdade, para viver livremente […]?” (La
Boétie, em 1576). O assombro deve-se ao fato de que, ainda que as
sociedades a que se refere La Boétie lhe fornecessem apenas exemplos do
malencontro, ao menos no terreno da lógica poderia imaginar-se que tudo
pudesse processar-se de outro modo. Clastres proporá outro deslizamento,
da lógica de volta para a história – o que, por ironia, demonstrará que o
Estado não é historicamente inelutável.

Seu espanto diferencia-se do de La Boétie. Ele pergunta-se: por que


Jyvukugi, o “chefe” dos Guayaki em Arroyo Moroti, obrigava-se a ir de tapy
em tapy notificar seu povo daquilo de que todos já tinham conhecimento,
porque previamente informados pelo paraguaio que se encontrava à frente
do acampamento? (BARBOSA, 2004, p. 556).

O autor assevera que nossas concepções de Estado são muito arraigadas e não nos damos conta das
possibilidades reais de combinação de sociedades humanas.

Presenciamos aí, sob nossos olhos, um “não Estado” em operação, que


confere nova inteligibilidade ao Estado, também em operação, e já entre nós
(e não apenas). Ensina Clastres: o Estado não é “os ministérios, o Eliseu, a
Casa Branca, o Kremlin. […] O Estado é o exercício do poder político”. Diante
70
CIÊNCIA POLÍTICA

de um poder que se exerce, a pergunta “como isto funciona?” é mais profícua


do que as alternativas, e muito mais ambiciosa: “o que isto significa?” ou “de
onde isto vem?”.

Isso funciona pela concorrência de máquinas sociais e figuras subjetivas


específicas, que fazem isso funcionar. O mesmo vale para um poder que
não se exerce.

[No] poder que não se exerce, o “não Estado” opera por meio de máquinas
sociais e figuras subjetivas que conjuram diuturnamente a possibilidade
da emergência da divisão no seio do grupo. As sociedades contra o Estado
recorrem a estratégias próprias e lançam mão de vigorosos mecanismos –
como a guerra, a economia, a religião, a linguagem e a própria “subjetivação”
de seus “chefes – de forma a evitar que surjam nelas o mau desejo de
comandar e, como sua necessária contrapartida, o de obedecer. E vemos,
assim, o quanto há de político no desejo (BARBOSA, 2004, p. 556-557).

Barbosa destaca mais um pouco da riqueza da vida humana contraposta a soluções de outros
períodos e necessidades.

Hobbes e os selvagens. Desse embate, surge o “Contra-Hobbes” de Clastres: sói


pensar a guerra de outra forma. Não mais como sintoma de estado associal (ou,
pior, pré-social, em raciocínio que de novo nos eleva a telos inescapável dos grupos
indígenas) e de caos inclemente, mas como mecanismo mesmo de instituição
do cosmos social primitivo. A guerra, como máquina antiestado por excelência,
preserva a lógica do múltiplo, característica dos grupos indígenas, e conspira
contra o Um: há uma socialidade que se institui na e pela guerra, o que nos
obriga ao saudável exercício intelectual de, por um lado, evitar os maniqueísmos
dialeticamente excludentes e, por outro, pensar guerra e sociedade a um só tempo.
Para Clastres, a politeia selvagem, forma original da política, institui-se na e pela
guerra, não porque a guerra atraia a troca e clame o nascimento da razão, mas
porque, na e pela guerra, passamos de “lobos a homens”. A comunidade primitiva
inscreve sua ordem política num território de onde se exclui violentamente o
Outro, e isto demarca sua política externa; sua política interna conspirará para
sua afirmação como unidade homogênea, impedindo a emergência de qualquer
clivagem em seu seio, de qualquer divisão entre dominantes e dominados.

“Como se faz um chefe? Com suas palavras – e também com o suor de seu
próprio rosto. E o de suas mulheres, que a poliginia estrategicamente lhe
concede” (CLASTRES, 1962, p. 33). Os três termos – palavras, bens e mulheres
–, cuja troca havia-nos garantido a travessia definitiva da animalidade para
a sociedade, servem-se agora a torções –, e não no terreno etéreo das
mitologias, mas sob nossos olhos, assegurando-nos a passagem, também
ela irrevogável, da sociedade para a socialidade política.
71
Unidade II

Impede-se, desse modo, que se torne predominante um poder que já está lá,
presente na aparente ausência (BARBOSA, 2004, p. 556-558).

Citando Deleuze e Guattari, Barbosa adverte:

Conjurar é preceder e, se as sociedades primitivas rejeitam o Estado, é


porque ele já está lá: “sim”, concede Clastres, “o Estado existe nas sociedades
primitivas”. De fato, quanto mais os arqueólogos escavam, mais descobrem o
Estado (DELEUZE; GUATTARI, 1980, p. 23).

A presença diuturnamente conjurada do Estado nas sociedades primitivas,


além de emprestar inteligibilidade ao funcionamento da politeia selvagem,
aos mecanismos sociais primitivos e às figuras subjetivas específicas, por meio
das quais ela opera, permite-nos ver o “não Estado” onde ele aparentemente
não está e, ainda assim, atua entre nós.

Viabiliza-se, dessa maneira, uma antropologia que se entende como diálogo,


como ponte – e de via dupla – lançada entre nossas sociedades e aquelas
de “antes da partilha”. Exposta a absoluta vulnerabilidade dos dualismos
ontológicos excludentes, que obrigam a que as sociedades ou tenham Estado
ou não o tenham, que sua política ou se defina como segmentária ou como
centralizada, que sejamos ou homens ou jaguares, e que os Bororo sejam
ou Bororo ou araras; descartadas apriorística e prematuramente as férteis
possibilidades de misturas e justaposições, novos horizontes descortinam‑se
para a análise, em indicação de que “fecundantes corrupções” podem –
desde que pensemos contra a corrente – revelar potencialidades até então
insuspeitas em “idiomas” antes tomados no radical isolamento de seu
monadismo (BARBOSA, 2004, p. 559).

Citando Meunier, o antropólogo acentua:

Há, assim, um certo estado de Estado, constante e presente por toda parte, e
um certo estado de guerra, também ele constante e presente por toda parte,
um ou outro, inibidos ou potencializados, a depender da forma como se dá
a operação dos mecanismos sociais e das figuras subjetivas por meio dos
quais atuam. Num e noutro estado, entretanto, algo sempre ficará de fora,
reclamando e impondo presença apesar da ausência aparente (BARBOSA,
2004, p. 560).

Pierre Bourdieu contribui muito diretamente com o assunto que trazemos, do poder envolvido
na própria construção das categorias religiosas/teológicas, filosóficas, científicas e jurídicas, tudo
“devidamente” plasmado no mundo da vida, laboratório de aplicação (e legitimação) de produtos da
“engenharia social” milenar, de controle das maiorias.

72
CIÊNCIA POLÍTICA

Lembrete

Gustavo Baptista Barbosa (2004) propõe discutirmos o trabalho de Pierre


Clastres, acentuando a variedade histórica, raramente tratada (comumente
ignorada) como possibilidade em ciência política e no direito.

A seguir destacamos um trecho das famosas aulas de Bourdieu nas quais aponta processos e
estratégias de redefinição de organizações sociais locais em nome do “nacional” e do “internacional”.

As duas faces do Estado

Eu mesmo [Pierre Bourdieu], em todos os meus trabalhos anteriores sobre a escola, tinha
completamente esquecido que a cultura legítima é a cultura de Estado...

Essa concentração é ao mesmo tempo uma unificação e uma forma de universalização.


Ali onde havia o diverso, o disperso, o local, há o único. Germaine Tillion e eu tínhamos
comparado as unidades de medida nas diferentes aldeias cabilas numa área de 30
quilômetros: encontramos tantas unidades de medida quantas eram as aldeias. A criação
de um padrão nacional e estatal de unidades de medida é um progresso no sentido da
universalização: o sistema métrico é um padrão universal que supõe consenso, acordo sobre
o sentido. Esse processo de concentração, de unificação, de integração é acompanhado por
um processo de desapossamento, já que todos esses saberes e competências associados a
essas medidas locais são desqualificados. Em outras palavras, o próprio processo pelo qual se
ganha em universalidade é acompanhado por uma concentração da universalidade. Há os
que querem o sistema métrico (os matemáticos) e os que são remetidos ao local. O próprio
processo de constituição de recursos comuns é inseparável da constituição desses recursos
comuns em capital monopolizado pelos que têm o monopólio da luta pelo monopólio do
universal. Todo esse processo – constituição de um campo; autonomização desse campo
em relação a outras necessidades; constituição de uma necessidade específica em relação
à necessidade econômica e doméstica; constituição de uma reprodução específica de tipo
burocrática, específica em relação à reprodução doméstica, familiar; constituição de uma
necessidade específica em relação à necessidade religiosa – é inseparável de um processo
de concentração e de constituição de uma nova forma de recursos que são do universal, em
todo caso, de um grau de universalização superior àqueles que existiam antes. Passa-se do
pequeno mercado local ao mercado nacional, seja no nível econômico, seja no simbólico. A
gênese do Estado é, no fundo, inseparável da constituição de um monopólio do universal,
sendo a cultura o exemplo por excelência.

Todos os trabalhos anteriores que fiz poderiam resumir-se assim: essa cultura é
legítima porque se apresenta como universal, oferecida a todos, porque, em nome dessa
universalidade, pode-se eliminar sem medo os que não a possuem. Essa cultura, que
aparentemente une e na verdade divide, é um dos grandes instrumentos de dominação,

73
Unidade II

visto que há os que têm o monopólio dessa cultura, monopólio terrível, já que não se pode
reprovar a essa cultura o fato de ser particular. Mesmo a cultura científica apenas leva o
paradoxo a seu limite. As condições da constituição desse universal, de sua acumulação,
são inseparáveis das condições da constituição de uma casta, de uma nobreza de Estado,
de “monopolizadores” do universal. A partir dessa análise, podemos nos dar como projeto
universalizar as condições de acesso ao universal. Ainda assim, convém saber como é
preciso para isso despossuir os “monopolizadores”? Vê-se bem que não é desse lado que
se deve procurar.

Termino com uma parábola para ilustrar o que eu disse sobre o método e sobre o conteúdo.
Há uns trinta anos, numa noite de Natal, fui, numa pequena aldeia bem no interior do Béarn,
ver um modesto baile camponês. Alguns dançavam, outros não; um grupo de pessoas, mais
velhas que as outras, de estilo camponês, não dançavam, conversavam entre si, assumiam
uma atitude para justificar o fato de estarem ali sem dançar, para justificar sua presença
insólita. Deveriam ser casados, já que os casados não dançam mais. O baile é um dos lugares
de trocas matrimoniais: é o mercado dos bens simbólicos matrimoniais. Havia uma taxa
muito elevada de solteiros: 50% na faixa de idade 25-35 anos. Tentei encontrar um sistema
explicativo para esse fenômeno: é que havia um mercado local protegido, não unificado.
Quando o que chamamos de Estado se constitui, há uma unificação do mercado econômico
para a qual o Estado contribui por sua política e uma unificação do mercado das trocas
simbólicas, isto é, o mercado da postura, das maneiras, da roupa, da pessoa, da identidade,
da apresentação. Aquelas pessoas tinham um mercado protegido, de base local, sobre o qual
tinham um controle, o que permitia uma espécie de endogamia organizada pelas famílias.
Os produtos do modo de reprodução camponês tinham suas chances naquele mercado: eles
permaneciam vendáveis e encontravam as moças. Na lógica do modelo que evoquei, o que
acontecia naquele baile era resultante da unificação do mercado das trocas simbólicas, que
fazia com que o paraquedista da pequena cidade vizinha, que ia para lá dando-se ares de
importante, fosse um produto desqualificante, que tirava valor desse concorrente que é o
camponês. Em outras palavras, a unificação do mercado, que pode se apresentar como um
progresso, ao menos para as pessoas que emigram, ou seja, para as mulheres e todos os
dominados, pode ter um efeito liberador. A escola transmite uma postura corporal diferente,
maneiras de se vestir etc.; e o estudante tem um valor matrimonial nesse novo mercado
unificado, ao passo que os camponeses são desclassificados. Aí reside toda a ambiguidade
desse processo de universalização. Do ponto de vista das moças do campo que partem para
a cidade, que se casam com um carteiro etc., há um acesso ao universal.

Mas esse grau de universalização superior é inseparável do efeito de dominação. Publiquei


recentemente um artigo, espécie de releitura de minha análise do celibato no Béarn, daquilo
que eu tinha dito na época, que intitulei, para me divertir, “Reprodução proibida”. Mostro
que essa unificação do mercado tem como efeito proibir de fato a reprodução biológica
e social a toda uma categoria de pessoas. Na mesma época, trabalhei sobre um material
encontrado por acaso: os registros das deliberações comunais de uma pequena aldeia de
duzentos habitantes durante a Revolução Francesa. Nessa região, os homens votavam por
unanimidade. Chegam os decretos dizendo que é preciso votar por maioria. Eles deliberam,
74
CIÊNCIA POLÍTICA

há resistências, há um campo e outro campo. Pouco a pouco, a maioria vence: ela tem
atrás de si o universal. Houve grandes discussões em torno desse problema levantado
por Tocqueville numa lógica continuidade/descontinuidade da Revolução. Resta um
verdadeiro problema histórico: qual é a força específica do universal? Os procedimentos
políticos desses camponeses de tradições milenares muito coerentes foram varridos pela
força do universal, como se eles estivessem se inclinado diante de alguma coisa mais forte
logicamente: vinda da cidade, apresentada em discurso explícito, metódica e não prática.
Tornaram-se provincianos, locais. Os relatórios das deliberações passam a ser: “Tendo o
prefeito decidido…”, “O conselho municipal se reuniu…”. A universalização tem como reverso
um desapossamento e uma monopolização. A gênese do Estado é a gênese de um lugar de
gestão do universal, e ao mesmo tempo de um monopólio do universal, e de um conjunto de
agentes que participam do monopólio de fato dessa coisa que, por definição, é o universal.

[...]

Antes de mais nada, farei uma distinção entre o enfoque que chamo genético e o
enfoque histórico comum.

[...].

Primeiro ponto, portanto, distinguir o enfoque genético do enfoque histórico ordinário;


segundo, tentar mostrar em que o enfoque genético é especialmente indispensável. Por
que, tratando-se de um fenômeno como o Estado, o sociólogo é obrigado a se fazer
historiador, arriscando-se, é claro, a cometer um dos atos mais fortemente tabus no trabalho
científico, que é o ato sacrílego que consiste em transgredir uma fronteira sagrada entre
disciplinas? O sociólogo se expõe a que todos os especialistas lhe batam nos dedos e, como
assinalei, os especialistas são extremamente numerosos. Dito isto, se o enfoque genético
se impõe é porque me parece que, nesse caso particular, ele é, digamos, não o único, mas
um dos instrumentos maiores de ruptura. Retomando as indicações bem conhecidas de
Gaston Bachelard, para quem o fato científico é necessariamente “conquistado” e depois
“construído”, penso que a fase de conquista dos fatos contra as ideias recebidas e o sentido
comum, no quadro de uma instituição como o Estado, implica necessariamente o recurso à
análise histórica.

Uma das análises que eu tinha feito bem longamente dizia respeito a essa tradição
que vai de Hegel a Durkheim e que consiste em desenvolver uma teoria do Estado que,
a meu ver, não passa de uma projeção da representação que o teórico tem de seu papel
no mundo social. Durkheim é característico desse paralogismo ao qual os sociólogos são
com muita frequência expostos, e que consiste em projetar no objeto, sobre o objeto, seu
próprio pensamento do objeto, que é justamente o produto do objeto. Para evitar pensar o
Estado com um pensamento de Estado, o sociólogo deve evitar pensar a sociedade com um
pensamento produzido pela sociedade. Ora, a menos de se crer em a prioris, em pensamentos
transcendentes que escapam à história, é de imaginar que só temos, para pensar o mundo
social, um pensamento que é produto do mundo social no sentido muito amplo, isto é, desde
75
Unidade II

o senso comum até o senso comum erudito. No caso do Estado, sente‑se particularmente
essa antinomia da pesquisa em ciências sociais e talvez da pesquisa em geral, antinomia
que vem do fato de que, se nada se sabe, nada se vê, e se se sabe corre-se o risco de se ver
apenas o que se sabe.

O pesquisador totalmente desprovido de instrumentos de pensamento, que ignora os


debates em curso, as discussões científicas, as contribuições, que não sabe quem é Norbert
Elias etc., arrrisca-se, seja a ser ingênuo, seja a reinventar o já conhecido, mas, se ele conhece,
arrisca-se a ficar prisioneiro de seu conhecimento. Um dos problemas que se apresentam a
todo pesquisador, em especial nas ciências sociais, consiste em saber e em saber se livrar dos
saberes. É fácil dizer, nos discursos epistemológicos sobre a arte de inventar leem-se coisas
assim, mas na prática é formidavelmente difícil. Um dos recursos maiores da profissão de
pesquisador consiste em encontrar astúcias – astúcias da razão científica, se posso dizer –
que permitam, justamente, contornar, pôr em suspenso todos esses pressupostos que são
assumidos pelo fato de que nosso pensamento é o produto do que estudamos e de que
nosso pensamento tem aderências de todo tipo. “Aderências” é melhor que “adesão”, pois
isso seria fácil demais se se tratasse simplesmente de adesão. Sempre se diz: “É difícil porque
as pessoas têm vieses políticos”; ora, está ao alcance do primeiro que aparece saber que,
sendo mais de direita ou mais de esquerda, estamos expostos a tal perigo epistemológico.
Na verdade, é fácil suspender as adesões; o que é difícil é suspender as aderências, isto é, as
implicações tão profundas do pensamento que elas próprias não se reconhecem.

Se é verdade que só temos para pensar o mundo social um pensamento, que é produto
do mundo social, se é verdade, e podemos retomar a famosa frase de Pascal, mas dando-lhe
um sentido totalmente diferente, que “o mundo me compreende mas eu o compreendo”,
e acrescentarei que eu o compreendo de maneira imediata porque ele me compreende, se
é verdade que somos o produto do mundo em que estamos e que tentamos compreender,
é evidente que essa compreensão primeira que devemos a nossa imersão no mundo que
tentamos compreender é particularmente perigosa, e precisamos escapar a essa compreensão
primeira, imediata, que eu chamo de dóxica (da palavra grega “doxa”, retomada pela tradição
fenomenológica). Essa compreensão dóxica é uma possessão possuída ou, poder-se-ia dizer,
uma apropriação alienada: possuímos um conhecimento do Estado, e todo pensador que
pensou o Estado antes de mim se apropria do Estado com um pensamento que o Estado
lhe impôs, e essa apropriação não é tão fácil, tão evidente, tão imediata senão porque é
alienada. É uma compreensão que ela mesma não se compreende, que não compreende as
condições sociais de sua própria possibilidade.

Com efeito, temos um controle imediato das coisas de Estado. Por exemplo, sabemos
preencher um formulário; quando preencho um formulário administrativo – nome,
sobrenome, data de nascimento –, eu compreendo o Estado; é o Estado que me dá ordens
para as quais estou preparado; sei o que é o estado civil, que é uma invenção histórica,
progressiva. Sei o que é uma identidade, já que tenho uma carteira de identidade; sei que,
numa carteira de identidade, há certas propriedades. Em suma, sei um monte de coisas.
Quando preencho um formulário burocrático, que é uma grande invenção do Estado,
76
CIÊNCIA POLÍTICA

quando preencho um pedido ou quando assino um certificado, e que tenho poder para
fazê-lo, seja uma ficha de identidade, seja um certificado médico, seja uma certidão de
nascimento etc., quando faço operações como estas, compreendo perfeitamente o Estado;
sou, em certo sentido, um homem de Estado, sou o Estado feito homem, e, ainda assim, não
entendo nada dele. É por isso que o trabalho do sociólogo, nesse caso particular, consiste
em tentar se reapropriar dessas categorias do pensamento de Estado que o Estado produziu
e inculcou em cada um de nós, as quais se produziram ao mesmo tempo que o Estado se
produzia e que aplicamos a todas as coisas, e em especial ao Estado para pensar o Estado,
de sorte que o Estado permanece o impensado, o princípio impensado da maioria de nossos
pensamentos, inclusive sobre o Estado.

Fonte: Bourdieu (2012, p. 196-208).

Atilio A. Boron (1994) expõe a retórica de assimilação da esfera política pela econômica, que promove
reducionismo do aparato estatal como mera instituição e árbitro eventual; tais ações de esvaziamento
político do poder dão-se no campo de forças neutras:

O fato de que existem inúmeros grupos sociais competindo livremente – em


união com a natureza “neutra”, meramente “técnica”, das regras do jogo –
impede alguém de acumular muito poder e perturbar o equilíbrio geral do
sistema. Existem elites, é claro, mas a elas faltam a consciência e a coesão
necessárias para se tornarem uma classe dominante. O Estado permanece
afastado e indiferente diante da incessante luta de interesses sociais,
limitando-se a evitar a concentração de poder nas mãos de alguns grupos
particulares e a acomodar e reconciliar as aspirações em conflito. Seu papel
é o de um árbitro imparcial que supervisiona a competição entre diferentes
coalizões ou, como afirma Miliband em uma metáfora engenhosa, o de “um
espelho que a sociedade coloca diante de seus olhos”.

Em síntese: a abordagem liberal “resolve” o problema do Estado mediante a


admissão – sem prévia análise ou discussão – de uma série de pressupostos
que afirmam a neutralidade de classe do Estado e a ausência de concentrações
significativas de poder político nas mãos de alguns grupos privilegiados
(BORON, 1994, p. 248-249).

Assim, Atilio A. Boron traz-nos análise minuciosa do papel e da natureza do Estado:

A interpretação predominante nas ciências sociais que surgiu dentro


da grande tradição teórico-política liberal – que percebe o Estado
como o “espelho da sociedade”, como a expressão de uma ordem social
eminentemente consensual e representante de toda a nação, e como o
mercado neutro em que indivíduos e grupos trocam poder e influência
– foi radicalmente criticada por Marx, a partir de seus escritos juvenis,
para argumentar que o Estado é a expressão midiatizada da dominação
77
Unidade II

política nas sociedades de classes. É, na verdade, o “resumo oficial” de


uma sociedade de classes e, consequentemente, não é neutro diante
das lutas e antagonismos sociais produzidos por suas desigualdades e
desigualdades estruturais. Da mesma forma que o mercado “realmente
existente”, e não o imaginado pelos teóricos liberais, o Estado é o lugar
onde os sujeitos formalmente livres e iguais, mas profundamente
desiguais, estabelecem relações políticas de superordenação e
subordinação. Essa assimetria está arraigada, em primeira instância,
na posição e nas funções que os diferentes sujeitos desempenham no
processo produtivo. No entanto, a realização do predomínio político
da classe dominante no capitalismo requer algo mais: a intervenção de
uma densa rede de mediações – estruturas estatais, tradições políticas e
ideologias, organizações e práticas sociais de vários tipos – sem a qual a
supremacia econômica da burguesia não pode se projetar no âmbito mais
global da sociedade civil em seu conjunto (BORON, 1994, p. 248-249).

O sociólogo argentino também expõe os equívocos da teoria marxista quanto às concepções e


implantações do Estado:

Apesar disso, deve-se dizer que a teoria marxista não tem estado imune a
deformações flagrantes produzidas por uma concepção instrumentalista do
Estado, que o reduz a uma simples ferramenta perpetuamente controlada,
direta e imediatamente, pela classe dominante. A metáfora inerte do espelho
reaparece, só que agora vê a imagem quebrada de uma sociedade de classes.
Dessa forma, um economicismo vulgar veio substituir toda a riqueza analítica
do marxismo, com resultados análogos aos que caracterizam a interpretação
liberal-pluralista: o Estado perdeu completamente sua especificidade, sua
eficácia prática e seu grau variável de autonomia – sempre relativo, é claro
– em relação à sociedade civil. Se antes o espelho liberal projetava a imagem
cândida de um mercado de homens livres e iguais, na vulgata economicista
reflete apenas – de maneira imediata e mecânica – a predominância
monolítica da classe dominante (BORON, 1994, p. 250).

Sobre a relação entre Estado e sociedade civil, o autor acentua:

Uma das consequências dessa infeliz coincidência tem sido a impossibilidade


de pensar teoricamente sobre a relação entre o Estado e a sociedade civil
e, sobretudo, de conceber o problema dos limites – certamente elásticos,
mas não por isso menos resistentes – da autonomia do primeiro. Como
vimos, na ciência política de inspiração liberal, os laços entre Estado e
sociedade foram dissolvidos, postulando em consequência a ficção de
um cidadão isolado e independente que adere ou pertence a múltiplos
grupos de interesse, eventualmente caracterizado pela defesa de
interesses “mutuamente cruzados”, com o que evita a superposição de
78
CIÊNCIA POLÍTICA

clivagens sociais, e que eles “fazem” a política em um campo tão neutro


quanto o mercado que é chamado de “arena política” ou sistema político.
Aprioristicamente assume-se que o poder político encontra-se disperso
entre uma multiplicidade de grupos, associações e instituições, e que estes
competem – pública e incessantemente – pela apropriação de algumas
parcelas de um fantasmagórico aparato estatal, ou pela imposição de certas
políticas públicas do governo. Na realidade, toda a complexidade do Estado
moderno é reduzida ao governo, e ambos se tornam sinônimos, quando
na realidade não o são. Por outro lado, o mesmo governo é rebaixado para
a condição de simples constelação de agências, escritórios e organismos
completamente carentes de coerência e unidade. Estes funcionam como
se fossem barcos a vela mudando de orientação e de referências com base
nas correlações flutuantes de forças produzidas pelas iniciativas e reações
da miríade de grupos de interesse que constituem a sociedade civil. É
mediante essa linha de argumentação que o pensamento liberal desemboca
em um economicismo grosseiro, no qual a anarquia – ou, eventualmente, a
poliarquia – reinante no mercado é linearmente transferida para o campo
da política, fechando assim as portas que permitem um repensar teórico de
uma reflexão sobre a questão da especificidade, efetividade e autonomia do
Estado e dos processos políticos. No marxismo “instrumentalista” o resultado
é análogo: o Estado e a vida política, como a ideologia, são concebidos
como meros reflexos do desenvolvimento das forças produtivas, fechando
a possibilidade de recuperar a dialética complexidade das ligações entre
economia e política. A diferença entre as teorias liberais e as do chamado
“marxismo vulgar” reside [no seguinte:] nas primeiras a sociedade civil não é
concebida como estruturalmente fraturada pela existência de classes sociais,
enquanto nas segundas a relevância da diferenciação de classes ocupa um
lugar fundamental e exclusivo.

No entanto, o economicismo arraigado de ambas as perspectivas termina na


anulação do Estado, completamente privado de iniciativa autônoma: reflexão
especular do mercado, ou simples “paralelogramo de forças” construído
a partir de uma competição desencadeada entre interesses individuais e
grupais, no discurso liberal. Instrumento dócil da classe dominante, no caso
do marxismo vulgar, o problema da independência relativa do Estado não
pode sequer ser levantado, a menos que se rompa com os pressupostos
compartilhados por essas duas perspectivas teóricas.

Parece claro que nenhuma dessas duas alternativas tem condições para
abrir caminhos promissores para o estudante de política; pelo contrário,
constituem sérios obstáculos ao desenvolvimento da pesquisa científica.
Como superar, portanto, o impasse teórico que envolve a questão do Estado?
(BORON, 1994, p. 250-251).

79
Unidade II

O pesquisador segue com a reflexão sobre o papel do marxismo:

No campo marxista, o problema é colocado em termos completamente


diferentes. O Estado é uma instituição de classe, uma afirmação que desde
o início coloca toda essa teorização nos antípodas da concepção liberal.
Essa oposição é ainda mais evidente para um autor como Nordlinger, que
atomisticamente fragmenta o Estado no grupo de burocratas que administram
o aparelho do governo. É por isso que, ao defini-lo, ele argumenta que o
Estado é “constituído por – e limitado a – aqueles indivíduos dotados de
autoridade decisória de alcance social”. Na tradição marxista, ao contrário, o
Estado é, simultaneamente: (a) um “pacto de dominação” por meio do qual
uma certa aliança de classes constrói um sistema hegemônico capaz de gerar
um bloco histórico; (b) uma instituição dotada dos correspondentes aparatos
burocráticos e suscetível de ser transformada, sob certas circunstâncias, em
“ator corporativo”; (c) um cenário de luta pelo poder social, um terreno em
que os conflitos entre diferentes projetos sociais que definem um padrão
de organização econômica e social são resolvidos; e (d) o representante dos
“interesses universais” da sociedade e, como tal, a expressão orgânica da
comunidade nacional.

É impossível, portanto, recuperar totalmente o significado do fenômeno


do Estado, se essas quatro dimensões não forem levadas em conta. Pensar
nisso apenas como um pacto de dominação, como faz o marxismo vulgar,
ou como um poderoso ator corporativo, como defensores de abordagens
“estatocêntricas”, ou como uma simples “arena” de grupos em conflito, como
quer a tradição liberal, ou finalmente como representante dos interesses
gerais da sociedade, como os burocratas e discípulos distantes de Hegel
proclamam, só pode terminar numa visão deformada e caricaturada do
Estado. A superioridade teórica do marxismo nessa questão reside justamente
em sua capacidade de pensar o Estado na riqueza e multiplicidade de suas
determinações, nenhuma das quais pode sozinha explicar o fenômeno em
sua plenitude.

O que queremos dizer, resumidamente, é o seguinte: o problema da


autonomia do Estado não pode ser adequadamente colocado no quadro
teórico oferecido pela tradição liberal, e isto é assim dada a ausência de
premissas fundamentais que permitem estabelecer algum tipo de relação
estrutural entre economia e política. Em outras palavras, falar de autonomia
– embora “relativa” – logicamente se refere a um pressuposto sobre o sistema
de relações sociais que articula em um todo orgânico e significativo todos
os diferentes aspectos e níveis que tornam a vida social. O materialismo
histórico sustenta que as leis do movimento de um modo de produção
devem ser encontradas nas contradições estruturais entre as forças
produtivas e as relações sociais de produção. Dentro dessa formulação, a
80
CIÊNCIA POLÍTICA

questão sobre os limites desse condicionamento estrutural, que em nenhum


caso pode ser absoluto, torna-se significativa. Entretanto, no pensamento
liberal – e nem mesmo Max Weber escapou disso – a sociedade é concebida
como a justaposição de uma série de “partes” diferentes – ordens ou fatores
institucionais, de acordo com o léxico usado por vários autores –, que, em
sua existência histórica concreta, podem ser combinadas de várias maneiras.
Isso impede que uma hierarquia de determinantes e condicionamentos seja
estabelecida, mesmo no nível mais abstrato: aqui e agora o econômico
pode ser a causa, mas amanhã pode ser simplesmente o efeito de qualquer
variável (BORON, 1994, p. 254-255).

Saiba mais

Para entender melhor o que acentuamos no excerto, leia:

BORON, A. Estado, capitalismo e democracia na América Latina. Rio de


Janeiro: Paz e Terra, 1994.

Paul Claval (1979, p. 150) aborda a questão do Estado em sociedades arcaicas, intermediárias ou
históricas (com escrita) e modernas. As estruturas políticas do mundo tradicional ordenam-se em
torno do Estado, do regime feudal e da cidade-Estado, tratando-se esse Estado de “uma engrenagem
bastante secundária da arquitetura das sociedades”, com controle efetivo bastante reduzido por parte
do soberano.

Os dois primeiros (Estado e sistema feudal) são capazes de ordenar vastos espaços,
mas de maneira imperfeita e, no segundo caso, criando um mosaico de unidades
independentes. A cidade-Estado está mais apta a assegurar um enquadramento
eficaz, mas tem dificuldade em se estender sem se desfigurar. Por vezes o
conseguiu – na Grécia e em Roma –, mas tornando-se uma engrenagem de um
Estado mais amplo. O Estado começa a existir antes que se inicie a história. Ele
realiza a síntese da autoridade e do poder puro, indispensável quando se quer
controlar um grande conjunto (CLAVAL, 1979, p. 104-105).

A análise de Paul Claval, aqui, limita-se a tomar o Estado como configuração histórica, sem tomá-lo
como alternativa de exercício de poder social, entretanto, indicando suas limitações quando comparado
ao Estado moderno (CLAVAL, 1979).

Mesmo quando o príncipe é soberano absoluto, tem direito de vida e de morte


sobre seus súditos, dispõe de um exército numeroso e se cerca de uma pompa
impressionante, aquilo que ele controla efetivamente se reduz a pouca coisa:
1) dispõe de uma arrecadação que, pela modéstia, faria sorrir os dirigentes
das mais democráticas nações do mundo moderno; 2) assegura a defesa do

81
Unidade II

território e a organização da polícia e da justiça – para as causas em que as


instâncias normais não resolvem; 3) tem um direito de fiscalizar as relações
comerciais com o mundo exterior (CLAVAL, 1979, p. 150).

No que diz respeito ao intervencionismo estatal, pode haver divergências sobre intensidade e
intenções, contudo, não sobre o caráter normativo expansivo de seu aparato contemporâneo; pois:

[...] com o Estado hegeliano, parece chegada a hora da intervenção do governo e


da administração em todas as esferas da vida social. Mas as correntes ideológicas
igualitaristas que triunfam então modificam a ação do poder: em lugar de
dominar a sociedade e dobrá-la à sua livre vontade, ele só conserva sua autonomia
servindo ao interesse geral. Isso dá à sociedade civil, ao conjunto das relações
societais que se tecem sob as questões públicas, um lugar e primeira escolha:
ela domina, de direito, a estrutura das sociedades liberais que procuram eliminar
todas as manifestações inúteis do poder. Na verdade, ela desempenha assim um
grande papel nas sociedades totalitárias que lhe negam toda a autonomia, mas
que são obrigadas a contar com as forças e as tensões que a interação social
produz espontaneamente (CLAVAL, 1979, p. 151).

Paul Claval (1979) segue caracterizando esse Estado nos seguintes termos:

• concentração e economias de escala;


• economias externas, poluições e inconvenientes;
• controle social;
• opinião pública e especialistas.

Para ele, “as sociedades liberais favorecem o nascimento, sob o Estado, de uma sociedade civil à
qual ele transfere muitas responsabilidades”. Ocorrem muitas transformações dos antigos sistemas
de organização social “sem desaparecerem no mundo moderno”, com atuações reduzidas; e pior, “o
controle coletivo diminui pouco a pouco. A família, em quase todos os ramos, se vê privada de suas
funções produtivas, participando de modo reduzido na socialização com o incremento da escolarização,
havendo participação plena na lógica do consumo (CLAVAL, 1979, p. 158).

A vida social vai sendo estruturada pelas burocracias, mais do que no passado. Segundo ele, os
processos sociais envolvem:

a. As burocracias.

b. As coletividades e as classes.

c. As formas econômicas de regulação social.

82
CIÊNCIA POLÍTICA

d. As formas sociais de regulação.

e. A diferenciação social e a segregação espacial.

f. Os traços geográficos da sociedade civil (CLAVAL, 1979, p. 169).

A seguir o autor acentua o papel do sistema político nas sociedades liberais:

g. As missões do sistema político.

h. Os problemas de representação.

i. A soberania nacional e a autonomia local.

j. O balanço do Estado liberal (CLAVAL, 1979, p. 169).

Para Norberto Bobbio (1994), sociedade civil e Estado são conceitos e realidades inseparáveis,
portanto, devem ser considerados como relacionados em qualquer reflexão sobre as sociedades
ocidentais convencionais. Como vimos, tudo isso é muito diferente se estivermos estudando grupos
indígenas ou comunitários de outras referências culturais.

E o autor continua:

Na linguagem política de hoje, a expressão “sociedade civil” é geralmente


empregada como um dos termos da grande dicotomia sociedade civil/Estado.
O que quer dizer que não se pode determinar seu significado e delimitar sua
extensão senão redefinindo simultaneamente o termo “Estado” e delimitando
a sua extensão. Negativamente, por “sociedade civil” entende-se a esfera das
relações sociais não reguladas pelo Estado, entendido restritivamente e quase
sempre também polemicamente como o conjunto dos aparatos que num
sistema social organizado exercem o poder coativo. Remonta a August Ludwig
von Schlozer (1794) – tendo sido continuamente retomada pela literatura
alemã dedicada ao assunto – a distinção entre societas civilis sine império e
societas civilis cum império, na qual a segunda expressão indica aquilo que
na grande dicotomia é designado com o termo “Estado”, num contexto em
que, como se verá depois, ainda não nasceu a contraposição entre sociedade
e Estado e basta um único termo para designar um e outra, embora com uma
distinção interna em espécies (BOBBIO, 1994, p. 33).

Norberto Bobbio segue tecendo comentários sobre o político e o não político (distinção entre
societas civilis sine império e societas civilis cum império), discorrendo acerca do espectro político, que
vai do Estado superposto à sociedade civil, dominando-a no pano de fundo jusnaturalista (numa forma
próxima da hobbesiana); passa pelo Estado como representação da sociedade civil; e chega ao Estado
com hora para acabar.

83
Unidade II

Mas mesmo numa noção assim vaga (Estado: sociedade civil como conjunto
de relações não reguladas pelo Estado, portanto, como tudo aquilo que
sobra uma vez bem delimitado o âmbito no qual se exerce o poder estatal)
podem‑se distinguir diversas acepções conforme prevaleça a identificação
do não estatal com o pré-estatal, com o antiestatal ou inclusive com o
pós‑estatal. Quando se fala de sociedade civil na primeira dessas acepções,
quer-se dizer, em correspondência consciente ou não consciente com a
doutrina jusnaturalista, que antes do Estado existem várias formas de
associação que os indivíduos formam entre si para a satisfação dos seus
mais diversos interesses, associações às quais o Estado se superpõe para
regulá-las, mas sem jamais vetar-lhes o ulterior desenvolvimento e sem
jamais impedir-lhes a contínua renovação: embora num sentido não
estritamente marxiano, pode-se neste caso falar da sociedade civil como
uma infraestrutura e do Estado como uma superestrutura. Na segunda
acepção, a sociedade civil adquire uma conotação axiologicamente positiva
e passa a indicar o lugar onde se manifestam todas as instâncias de
modificação das relações de dominação, formam-se os grupos que lutam
pela emancipação do poder político, adquirem força os assim chamados
contrapoderes. Desta acepção, porém, pode-se também dar uma conotação
axiologicamente negativa, desde que nos coloquemos do ponto de vista
do Estado e consideremos os fermentos de renovação de que é portadora
a sociedade civil como germes de desagregação. Na terceira acepção,
“sociedade civil” tem um significado ao mesmo tempo cronológico, como
na primeira, e axiológico, como na segunda: representa o ideal de uma
sociedade sem Estado, destinada a surgir da dissolução do poder político.
Esta acepção está presente no pensamento de Gramscí nas passagens em
que o ideal característico de todo o pensamento marxista sobre a extinção
do Estado é descrito como “reabsorção da sociedade política pela sociedade
civil”, como a sociedade civil na qual se exerce a hegemonia distinta da
dominação, livre da sociedade política. Nas três diversas acepções, o não
estatal assume três diversas figuras: a figura da pré-condição do Estado, ou
melhor, daquilo que ainda não é estatal, na primeira, da antítese do Estado,
ou melhor, daquilo que se põe como alternativa ao Estado, na segunda, da
dissolução e do fim do Estado na terceira (BOBBIO, 1994, p. 34-35).

Lembrete

Atilio A. Boron (1994) expõe a retórica de assimilação da esfera política


pela econômica, promovendo reducionismo do aparato estatal como mera
instituição e árbitro eventual.

84
CIÊNCIA POLÍTICA

5.1.1 População e demografia

Definida como um todo, a população é uma coleção de seres humanos. Ela


é um conjunto finito e, portanto, num dado momento, “recenseável”. Esse
ponto é bastante significativo porque, se a população pode ser contada,
implica que dela podemos ter uma imagem relativamente precisa. Ainda
que essa imagem, um número, não possa ser (como não é) estável, pois se
modifica o tempo todo. Contudo, é por esse número que a organização que
realizou o recenseamento dispõe de uma representação da população. Sem
dúvida é uma representação abstrata e resumida, mas já satisfatória para
permitir uma intervenção que busca a eficácia. O recenseamento permite
conhecer a extensão de um recurso (que implica também um custo), no caso
a população. Nessa relação que é o recenseamento, por meio da imagem do
número, o Estado ou qualquer tipo de organização procura aumentar sua
informação sobre um grupo e, por consequência, seu domínio sobre ele.

Mas a essa empresa do poder corresponde a resistência ao poder, e talvez aí


resida o caráter ambivalente da população. A população é concebida como
um recurso, um trunfo, portanto, mas também como um elemento atuante.
A população é mesmo o fundamento e a fonte de todos os atores sociais, de
todas as organizações. Sem dúvida é um recurso, mas também um entrave
no jogo relacional (RAFFESTIN, 1993, p. 67).

Alves (2006) faz uma introdução à demografia ou estudos populacionais.

Durante cerca de 200 anos, desde fins do século XVIII, houve um acirrado debate
sobre políticas populacionais controlistas e natalistas. Mas na Conferência
Internacional sobre População e Desenvolvimento (CIPD), realizada na cidade
do Cairo em 1994, houve uma mudança de paradigma com a introdução do
conceito de direitos reprodutivos. O objetivo deste texto é refletir e colocar
questões sobre as políticas populacionais na América Latina e no Brasil neste
início do século XXI e também discutir como a noção de direitos reprodutivos
pode contribuir para a superação do “paradigma de Huntington” [...].

A questão das políticas populacionais no Brasil, ao longo das três últimas


décadas do século XX, ficou muito contaminada por uma associação
espúria entre política populacional, planejamento familiar e controle
da natalidade. Entretanto, estes três conceitos não são sinônimos. Uma
política populacional refere-se aos três componentes da dinâmica
demográfica: mortalidade, natalidade e migração. Planejamento familiar,
um termo ambíguo e que serve a vários propósitos, tem a ver com idade
ao casar e do primeiro filho, espaçamento das gestações, “parturição
por terminação” e métodos de concepção e contracepção. O controle da
natalidade, mesmo sendo um direito do ponto de vista individual, torna‑se
85
Unidade II

uma forma coercitiva de planejamento familiar se for adotado como


exigência do Estado.

Martine e Camargo já advertiam há 20 anos: “No decorrer das últimas duas


décadas, diversos aspectos da questão populacional têm sido amplamente
debatidos, mas, na maioria das vezes, tem faltado profundidade e
objetividade a essa discussão. Interesses políticos, econômicos e
ideológicos, em nível nacional e internacional, têm impedido a maturação
de avaliações mais adequadas quanto à inter-relação entre população,
desenvolvimento e bem-estar ou quanto às implicações dessa inter‑relação
para a formulação de políticas”.

[...]

As políticas populacionais ocorrem através de ações voltadas para a dinâmica


demográfica visando o bem público e o acesso da população às fontes
de emprego, ao sistema de educação, aos programas de saúde e a outros
direitos econômicos, sociais e culturais. As nove políticas populacionais
podem ter um caráter ex post, ou serem concebidas ex ante, isto é, como
medida preventiva que atendesse a eventualidades futuras mais ou menos
previsíveis. Contudo, as políticas têm a ver com quem manda, por que
manda e como manda. Elas não são abstratas, mas sim sociais e históricas.
Dessa forma, as ações e os discursos políticos referentes à população não
estão isentos de uma forte carga doutrinária e ideológica.

Numa primeira aproximação, podemos definir as políticas populacionais


como sendo aquelas ações (proativas ou reativas) realizadas por instituições
(públicas ou privadas) que afetam ou tentam afetar a dinâmica da
mortalidade, da natalidade e das migrações nacionais (e/ou internacionais),
ações essas que buscam influenciar as taxas de crescimento demográfico
(positivo ou negativo) e a distribuição espacial da população. As políticas
populacionais podem ser intencionais ou não intencionais, explícitas ou
implícitas, democráticas ou autoritárias e podem ser definidas em nível
macroinstitucional ou micro (indivíduos e famílias). Elas sintetizam poder,
conflitos e finalidades (ALVES, 2006, p. 9-10).

Observação

A demografia tem vínculos estritos com a geografia da população,


que são estudos populacionais que se ocupam do caráter espacial dos
dados, mais do que com seu comportamento e instrumentalização
interna (modelos matemáticos e estatísticos), mais próprios aos
estudos demográficos.
86
CIÊNCIA POLÍTICA

A figura a seguir “apresenta um esboço da abrangência, do caráter, dos meios e dos níveis
das políticas populacionais”. Há problemas de clareza na legislação na comunicação dessas
questões. Também há países que “não possuem uma política populacional explícita e intencional”.
Destaca‑se a impossível neutralidade, mesmo quando declarada em relação às metas traçadas
para o comportamento demográfico, pois “dificilmente as políticas sociais de um país deixam de
ter, em um sentido ou noutro, algum efeito sobre a dinâmica demográfica” (ALVES, 2006, p. 9-10).

Mortalidade/esperança
Natalidade/fecundidade
Sobre a dinâmica demográfica Migração nacional e internacional
Nupcialidade

Expansionista (natalista)
Sobre o ritmo de crescimento Familiar (casal)
Neutra (laissez-faire)

Individual
Sobre o nível de aplicação Familiar (casal)
Institucional

Sobre o caráter das políticas Pública


Privada

Sobre a transparência dos objetivos Implícita


Explícita

Figura 1 – Políticas populacionais

É muito rica a perspectiva genética de Foucault (2008, p. 103) sobre população, tanto que, ao tomar
os conceitos, ele os anima e lhes confere sentido histórico. Como é o caso do conceito de população: após
a problematização dos seres vivos nas áreas de história natural, da biologia, da linguística, da economia
e da política, população passou de um a outro, enriquecendo-se no percurso que o autor denomina
“jogo incessante entre as técnicas de poder e o objeto destas que foi pouco a pouco recortando no real,
como campo da realidade, a população e seus fenômenos específicos”.

É a partir da constituição da população como correlato das técnicas


de poder que pudemos ver abrir toda uma série de domínios de
objetos para saberes possíveis. E, em contrapartida, foi porque esses
saberes recortavam sem cessar novos objetos que a população pôde se
constituir, se continuar, se manter como correlativo privilegiado dos
modernos mecanismos de poder.

Daí esta consequência: a temática do homem através das ciências humanas


que o analisam como ser vivo, indivíduo trabalhador, sujeito falante, deve
ser compreendida a partir da emergência da população como correlato de
poder e como objeto de saber. O homem, afinal de contas, tal como foi
pensado, definido a partir das ciências ditas humanas do século XIX e tal
como foi refletido no humanismo do século XIX, esse homem nada mais é
finalmente que uma figura da população. Ou, digamos ainda, se é verdade
87
Unidade II

que, enquanto o problema do poder se formulava dentro da teoria da


soberania, em face da soberania não podia existir o homem, mas apenas
a noção jurídica de sujeito de direito. A partir do momento em que, ao
contrário, como vis-à-vis não da soberania, mas do governo, da arte de
governar, teve-se a população, creio que podemos dizer que o homem foi
para a população o que o sujeito de direito havia sido para o soberano.
Pronto, o pacote está empacotado e o nó dado (FOUCAULT, 2008, p. 103).

Em Olga Maria Schild Becker, também encontramos considerações sobre os elementos constituintes
da questão populacional:

Os deslocamentos de populações em contextos variados e envolvendo ao


longo do tempo escalas espaciais diferenciadas conferiram complexidade
crescente ao conceito de mobilidade como expressão de organizações
sociais, situações conjunturais e relações de trabalho particulares. A cada
nova ordem política mundial correspondeu uma nova ordem econômica
com a emergência de novos fluxos demográficos.

Desde as invasões dos povos bárbaros asiáticos até os migrantes dos


novos tempos, grupos populacionais põem-se em movimento: lutam pela
hegemonia de novos territórios, fogem de perseguições étnicas e repressões
múltiplas, vislumbram a possibilidade de terras e mercados de trabalho mais
promissores, ou simplesmente perambulam em busca de tarefas que lhes
assegurem a mera subsistência.

Fatos contemporâneos como a queda do muro de Berlim, ocorrida em 1989,


a crise do Golfo, a maré humana de refugiados africanos empurrados pelos
confrontos tribais e ditatoriais, e as lutas nacionalistas, [dos quais a] guerra
civil na Iugoslávia e recentemente na Albânia são trágicos exemplos, atestam
o esfacelamento do mapa do mundo (dos países e dos povos) desenhado no
pós-Segunda Guerra. O mundo foi redefinido, porém, a partir da emergência
dos chamados blocos econômicos: Mercado Comum Europeu, Nafta, Apec. A
conjugação dessa nova geografia político-econômica com situações de extrema
miséria na África e na América Latina originou fluxos migratórios de magnitude
considerável, caracterizando o fenômeno migratório dos anos 1990.

Entretanto, a ameaça de crescente flexibilização dos mercados de trabalho


com o aumento da exclusão social, ao lado das já visíveis mudanças nas
configurações étnico-culturais das áreas de destino, tem impelido a
construção de novos “muros da vergonha”. [...] esse é um movimento que
se opõe aos fluxos migratórios e que aponta para a formação de um novo
“muro” separando ricos e pobres – os novos “blocos de poder” – não mais
ideológicos, mas essencialmente econômicos (BECKER, 1997, p. 319-320).

88
CIÊNCIA POLÍTICA

A migração de grupos significativos que a autora periodiza lança normalmente grandes contingentes
populacionais em uma condição instável e de precariedade jurídica, econômica e cultural. A mobilidade
de indivíduos por vontade própria, com vistas à melhoria de vida, não se configura como problema
geográfico e psicossocial, portanto, não requer atenção emergencial e respostas urgentes de políticas
públicas, ou ações planejadas.

A migração como objeto de análise das ciências sociais,

[...] pode ser definida como mobilidade espacial da população. Sendo um


mecanismo de deslocamento populacional, reflete mudanças nas relações
entre as pessoas (relações de produção) e entre essas e o seu ambiente físico.

A mobilidade tem sido objeto de diferentes interpretações ao longo do


tempo, expressando-se, entre outros, através dos enfoques neoclássico e
neomarxista (BECKER, 1997, p. 323).

O quadro a seguir dá uma ideia das diferentes concepções e variadas abordagens da migração.

Quadro 1 – Paralelo entre os enfoques neoclássico e neomarxista em migração

Enfoque neoclássico Enfoque neomarxista


Decisão de migrar:
Decisão de migrar:
– Ato de caráter individual, de livre escolha, não
determinado por fatores externos. – Migração como mobilidade forçada pela necessidade
de valorização do capital, e não como ato soberano de
– Enfoque atomístico reduzido ao indivíduo; pretensamente vontade pessoal.
neutro e apolítico.
Significado:
Significado:
– Elemento de equilíbrio em economias subdesenvolvidas,
especialmente as mais pobres. – Resultado de um processo global de mudanças.
– Industrialização e modernização como força positiva – Expressão da crescente sujeição do trabalho ao capital.
propulsora da migração.
Metodologia:
Metodologia:
– Análise histórico-estrutural das migrações. Visões
– Análise descritiva, dualista e setorial do fenômeno. de processo.
– Enfoque causal, isolado e pontual das migrações. – Enfoque dialético.
– Considera as características individuas dos imigrantes. – Considera a trajetória dos grupos sociais.
Categoria de análise: Categoria de análise:
– O indivíduo. – Os grupos sociais.
Dimensão espaçotemporal: Dimensão espaçotemporal:
– Deslocamento do indivíduo entre dois pontos no espaço – Movimento de um conjunto de indivíduos, num certo
(fluxos, linhas, pontos). período do tempo, sobre o espaço geográfico. A trajetória
pode apresentar vários pontos e ser de longa duração, pois
– Visão fixa de mercado de trabalho homogêneo e pontual. representa um processo, e não apenas fluxos isolados.

Fonte: Becker (1997, p. 344).

89
Unidade II

5.1.2 Território: aspectos físicos, biológicos e culturais

O progresso da humanidade, que só é possível graças ao contato dos povos


e à sua concorrência, deveria necessariamente ser entravado ao alto ponto
por práticas desse gênero. No círculo estreito e sempre homogêneo do
Estado familiar, nenhuma personalidade original poderia se constituir e as
inovações seriam impossíveis. Elas supõem, com efeito, que uma primeira
diferenciação se tenha produzido no seio da sociedade e que, além disso,
tenham estabelecido relações entre as diferentes sociedades de maneira que
possa haver entre elas como que uma mútua estimulação para o progresso.

[...]

E é preciso que o fato não se produza uma só e única vez, mas que se
repita. É essa mesma ideia que exprimia Comte quando dizia que, fora o
meio, havia uma força, capaz de ou estimular ou retardar o progresso, na
densidade crescente da população, na necessidade crescente de alimentos
que aparece ao mesmo tempo, e na divisão do trabalho e na cooperação que
dela resultam. Se Comte se tivesse elevado a uma concepção propriamente
geográfica, se tivesse compreendido que essa força como esse meio têm
o solo por base e dele não podem ser separados porque o espaço lhes é
igualmente indispensável, teria ao mesmo tempo aprofundado e simplificado
toda a noção que tinha do meio (RATZEL, 1983, p. 97-100).

Ratzel, no século XIX, investe no conceito de Estado uma série de elementos normalmente
desconsiderados, sobretudo as condições ambientais (referidas por solo) e culturais (modos de trabalho
e organização sociais mais amplas). Vejamos:

De início, o Estado está mais solidamente estabelecido sobre um solo bastante


povoado, de onde ele pode tirar mais forças humanas para sua defesa e uma
maior variedade de recursos de toda espécie do que se a população fosse
pequena. Também não é simplesmente segundo a extensão de seu território
que é preciso apreciar a força de um Estado; tem-se uma medida melhor na
relação que a sociedade sustenta com o território. Porém, há algo mais; essa
mesma relação age também sobre a constituição interna do Estado. Quando
o solo está dividido igualmente, a sociedade é homogênea e propende para
a democracia; ao contrário, uma divisão desigual é um obstáculo a toda
organização social que daria a preponderância política aos não proprietários
e que seria, por conseguinte, contrária a toda espécie de oligocracia. Esta
atinge seu máximo de desenvolvimento nas sociedades que têm em sua
base uma população de escravos sem propriedade e quase sem direitos.

Daí vem uma grande diferença entre dois tipos de Estado: em uns, a sociedade
vive exclusivamente do solo que ela habita (quer seja pela agricultura,
90
CIÊNCIA POLÍTICA

quer seja pela criação, não importa) e o domínio de cada tribo, de cada
comuna, de cada família tende a formar um Estado no Estado; nos outros,
os homens são obrigados a recorrer a terras diferentes e frequentemente
muito afastadas [das quais] estão estabelecidos.

[...]

Encontramos então, mesmo nos estágios mais elevados da evolução social, a


mesma divisão do trabalho entre a sociedade que utiliza o solo para habitar
e para dele viver, e o Estado que o protege com as forças concentradas em
suas mãos.

Poderá nos ser objetado talvez que essa concepção deprecia o valor do povo
e sobretudo do homem e de suas faculdades intelectuais, porque ela exige
que seja levado em conta o solo sem o qual um povo não pode existir. Mas a
verdade não deixa de ser verdade. O papel do elemento humano na política
não pode ser exatamente apreciado, se não se conhecem as condições às
quais a ação política do homem está subordinada. “A organização de uma
sociedade depende estreitamente da natureza de seu solo, de sua situação;
o conhecimento da natureza física do território (pays), de suas vantagens
e de seus inconvenientes, resulta então na história política”. A história nos
mostra, de uma maneira muito mais penetrante, até que ponto o historiador
é a base real da política.

Uma política verdadeiramente prática tem sempre um ponto de partida na


geografia. Em política como em história, a teoria que faz abstração do solo
toma os sintomas por causa.

[...]

Nessa poderosa ação do solo, que se manifesta através de todas as fases


da história como em todas as esferas da vida presente, há alguma coisa
de misterioso que não deixa de angustiar o espírito; porque a aparente
liberdade do homem parece como que anulada.

[...]

Vemos, com efeito, no solo, a fonte de toda servidão. Sempre o mesmo e


sempre situado no mesmo ponto do espaço, ele serve como suporte rígido
aos humores, às aspirações mutáveis dos homens, e quando lhes acontece
esquecer esse substrato, ele lhes faz sentir seu império e lhes lembra, por
sérias advertências, que toda a vida do Estado tem suas raízes na terra. Ele
regula os destinos dos povos com uma brutalidade cega. Um povo deve viver
sobre o solo que recebeu por acaso, deve nele morrer, deve submeter‑se à
91
Unidade II

sua lei. É no solo, enfim, que se alimenta o egoísmo político que faz do solo
o objetivo principal da vida pública; ele consiste, com efeito, em conservar
sempre e apesar de tudo o território nacional, e em fazer de tudo para
permanecer o único a dele desfrutar, mesmo quando os laços de sangue
e as afinidades étnicas inclinassem os corações para as gentes e as coisas
situadas além das fronteiras (RATZEL, 1983, p. 97-100, grifo do autor).

As relações entre sociedade, Estado e território (solo, para Ratzel) dão-se em vários níveis: dos
recursos ambientais, das ações políticas, econômicas e culturais, com grande valor para a história e a
biologia. Assim, “solo” assume múltiplos sentidos e evoca o ambiente e seus recursos para as atividades
do principal agente da “geopolítica clássica”: o Estado.

Para obter realidades confiáveis, é preciso observar os contextos e os traços históricos na caracterização
dos Estados-nação, seu imaginário e “suas vocações”.

Ratzel é importante por trazer as dimensões ambientais e territoriais às definições de Estado e poder.

Corrêa (1981, p. 104 apud RATZEL, 1983) destaca o seguinte: “Mas não só a sociedade e o Estado têm
uma base territorial, mas com esta se relacionam”. Por isso, diz Ratzel, “A sociedade é o intermediário
pelo qual o Estado se une ao solo. Segue-se que as relações da sociedade com o solo afetam a natureza
do Estado em qualquer fase do seu desenvolvimento que se considere”.

Agora, nessa sofisticada definição de Estado, temos a visão de “solo” de Ratzel, que deve ser
considerada no sentido mais amplo possível. Há uma ação geopolítica que se volta à manutenção e
conquista de recursos e, portanto, de território; isso ocorre com a ajuda da geografia política. As ações
sociais acontecem em estruturas sociais homólogas às suas estruturas territoriais. Os conceitos e as
realidades de espaço e sociedade são mutuamente conversíveis.

Vejamos o texto do geógrafo baiano Milton Santos sobre a importância do território.

A questão: o uso do território

A linguagem cotidiana frequentemente confunde território e espaço. E a palavra


extensão, tantas vezes utilizada por geógrafos franceses (étendue), não raro se instala
nesse vocabulário, aumentando as ambiguidades. Uma discussão nos meios geográficos se
preocupa em indicar a precedência entre essas entidades. Isso se dá em razão da acepção
atribuída a cada um dos vocábulos. Para uns, o território viria antes do espaço; para outros,
o contrário é que é verdadeiro [...].

Por território entende-se geralmente a extensão apropriada e usada. Mas o sentido


da palavra territorialidade como sinônimo de pertencer àquilo que nos pertence [...] esse
sentimento de exclusividade e limite ultrapassa a raça humana e prescinde da existência de
Estado. Assim, essa ideia de territorialidade se estende aos próprios animais, como sinônimo
de área de vivência e de reprodução. Mas a territorialidade humana pressupõe também a
92
CIÊNCIA POLÍTICA

preocupação com o destino, a construção do futuro, o que, entre os seres vivos, é privilégio
do homem.

Num sentido mais restrito, o território é um nome político para o espaço de um país. Em
outras palavras, a existência de um país supõe um território.

Mas a existência de uma nação nem sempre é acompanhada da posse de um território


e nem sempre supõe a existência de um Estado. Pode-se falar, portanto, de territorialidade
sem Estado, mas é praticamente impossível nos referirmos a um Estado sem território.

Adotando-se essa linha, impõe-se a noção de “espaço territorial”: um Estado, um espaço,


mesmo que as “nações” sejam muitas. Esse espaço territorial está sujeito a transformações
sucessivas, mas em qualquer momento os termos da equação permanecem os mesmos:
uma ou mais nações, um Estado, um espaço.

O que interessa discutir é, então, o território usado, sinônimo de espaço geográfico.


E essa categoria, território usado, aponta para a necessidade de um esforço destinado a
analisar sistematicamente a constituição do território. Como se trata de uma proposta
totalmente empiricizável, segue-se daí o enriquecimento da teoria.

Entretanto uma periodização é necessária, pois os usos são diferentes nos diversos
momentos históricos. Cada periodização se caracteriza por extensões diversas de formas de
uso, marcadas por manifestações particulares interligadas que evoluem juntas e obedecem
a princípios gerais, como a história particular e a história global, o comportamento do
Estado e da nação (ou nações) e, certamente, as feições regionais. Mas a evolução que se
busca é a dos contextos, e assim as variáveis escolhidas são trabalhadas no interior de uma
situação [...] que é sempre datada. Interessa-nos, em cada época, o peso diverso da novidade
e das heranças.

O território, visto como unidade e diversidade, é uma questão central da história


humana e de cada país e constitui o pano de fundo do estudo das suas diversas etapas e do
momento atual.

Na medida em que são representativas das épocas históricas, as técnicas, funcionando


solidariamente em sistemas, apresentam-se assim como base para uma proposta de método.
Esses sistemas técnicos incluem, de um lado, a materialidade e, de outro, seus modos de
organização e regulação. Eles autorizam, a cada momento histórico, uma forma e uma
distribuição do trabalho. Por isso a divisão territorial do trabalho envolve, de um lado, a
repartição do trabalho vivo nos lugares e, de outro, uma distribuição do trabalho morto e
dos recursos naturais. Estes têm um papel fundamental, [são] repartições do trabalho vivo.
Por essa razão a redistribuição do processo social não é indiferente às formas herdadas,
e o processo de reconstrução pararela da sociedade e do território pode ser entendido a
partir da categoria da formação socioespacial [...]. A divisão territorial do trabalho cria uma
hierarquia entre lugares e redefine, a cada momento, a capacidade de agir das pessoas,
93
Unidade II

das firmas e das instituições. Nos dias atuais, um novo conjunto de técnicas torna-se
hegemônico e constitui a base material da vida da sociedade. É a ciência que, dominada por
uma técnica marcadamente informacional, aparece como um complexo de variáveis que
comanda o desenvolvimento do período atual. O meio técnico-científico-informacional é a
expressão geográfica da globalização.

O uso do território pode ser definido pela implantação de infraestruturas, para as quais
estamos igualmente utilizando a denominação sistemas de engenharia, mas também pelo
dinamismo da economia e da sociedade. São os movimentos da população, a distribuição da
agricultura, da indústria e dos serviços, o arcabouço normativo, incluídas a legislação civil,
fiscal e financeira, que, juntamente com o alcance e a extensão da cidadania, configuram as
funções do novo espaço geográfico [...].

Debruçando-nos sobre esse novo meio geográfico, buscamos compreender o papel


das formas geográficas materiais e o papel das formas sociais, jurídicas e políticas,
todas impregnadas, hoje, de ciência, técnica e informação. Outro dado indispensável ao
entendimento das situações ora vigentes é o estudo do povoamento, abordado sobretudo
em sua associação com a ocupação econômica, assim como os sistemas de movimento de
homens, capitais, produtos, mercadorias, serviços, mensagens, ordens. É também a história
da fluidez do território, hoje balizada por um processo de aceleração [...]. Com a instalação
de um número cada vez maior de pessoas em um número cada vez menor de lugares, a
urbanização significa ao mesmo tempo uma maior divisão do trabalho e uma imobilização
relativa e é, também, um resultado da fluidez aumentada do território. O peso do mercado
externo na vida econômica do país acaba por orientar uma boa parcela dos recursos coletivos
para a criação de infraestruturas, serviços e formas de organização do trabalho voltados para
o comércio exterior, uma atividade ritmada pelo imperativo da competitividade e localizada
nos pontos mais aptos para desenvolver essas funções. Isso não se faz sem uma regulação
política do território e sem uma regulação do território pelo mercado. É desse modo que se
reconstroem os contextos da evolução das bases materiais geográficas e também da própria
regulação. O resultado é a criação de regiões do mandar e regiões do fazer.

Nesse arcabouço levamos em conta tanto as técnicas que se tornaram território, com
sua incorporação ao solo (rodovias, ferrovias, hidrelétricas, telecomunicações, emissoras de
rádio e TV etc.), como os objetos técnicos ligados à produção (veículos, implementos) e
os insumos técnico-científicos (sementes, adubos, propaganda, consultoria) destinados a
aumentar a eficácia, a divisão e a especialização do trabalho nos lugares.

É nesse sentido que um território condiciona a localização dos atores, pois as ações
que sobre ele se operam dependem da sua própria constituição. Uma preocupação
com o entendimento das diferenciações regionais e com o novo dinamismo das suas
relações tem norteado particularmente a busca de uma interpretação geográfica da
sociedade brasileira.

Fonte: Santos; Silveira (2006, p. 19-22).

94
CIÊNCIA POLÍTICA

5.1.3 Governo: soberania e autonomia

Mais do que em seu desenvolvimento histórico, o Estado é estudado em si


mesmo, em suas estruturas, funções, elementos constitutivos, mecanismos,
órgãos etc., como um sistema complexo considerado em si mesmo e nas
relações com os demais sistemas contíguos. Convencionalmente, hoje,
o imenso campo de investigação está dividido entre duas disciplinas até
didaticamente distintas: a filosofia política e a ciência política. Como todas
as distinções convencionais, também esta é lábil e discutível.

Na filosofia política são compreendidos três tipos de investigação:

a) da melhor forma de governo ou da ótima república;

b) do fundamento do Estado, ou do poder político, com a consequente


justificação (ou injustificação) da obrigação política;

c) da essência da categoria do político ou da politicidade, com a prevalente


disputa sobre a distinção entre ética e política.

Essas três versões da filosofia política são exemplarmente representadas, no


início da idade moderna, por três obras que deixaram marcas indeléveis na
história da reflexão sobre a política: A Utopia, de More [1516], desenho da
república ideal; Leviatã, de Hobbes [1651], que pretende dar uma justificação
racional e, portanto, universal da existência do Estado e indicar as razões
pelas quais os seus comandos devem ser obedecidos; e O Príncipe, de
Maquiavel [1513], no qual, ao menos numa de suas interpretações (a única,
aliás, que dá origem a um “ismo”, o maquiavelismo), seria mostrado em que
consiste a propriedade específica da atividade política e como se distingue
ela enquanto tal da moral.

Por “ciência política” entende-se hoje uma investigação no campo da vida


política capaz de satisfazer a essas três condições:

a) o princípio de verificação ou de falsificação como critério da aceitabilidade


dos seus resultados;

b) o uso de técnicas da razão que permitam dar uma explicação causal em


sentido forte ou mesmo em sentido fraco do fenômeno investigado;

c) a abstenção ou abstinência de juízos de valor, a assim chamada


“avaloratividade”.

Considerando as três formas de filosofia política acima descritas, observe-se


que a cada uma delas falta ao menos uma das características da ciência.
95
Unidade II

A filosofia política como investigação da ótima república não tem caráter


avalorativo; como investigação do fundamento último do poder, não deseja
explicar o fenômeno do poder, mas justificá-lo, operação que tem por
finalidade qualificar um comportamento como lícito ou ilícito, o que não
se pode fazer sem a referência a valores; como investigação da essência da
política, escapa a toda verificação ou falsificação empírica, na medida em
que isso que se chama presunçosamente de essência da política resulta de
uma definição nominal e, como tal, não é verdadeira nem falsa (BOBBIO,
1994, p. 55-56).

Bobbio (1994, p. 58) aborda o binômio Estado-governo apresentando-o pelas concepções


funcionalistas e marxistas. São dois grandes modos de ver a realidade social: um, de base mecânica,
em defesa da neutralidade política e psicológica, busca sempre o parâmetro das máquinas; o outro
caracteriza-se pelo encaminhamento crítico das relações sociais condicionadas pelos projetos dos
grupos de poder, que estruturam as relações de produção e consumo, principalmente a criação de valor
pelo trabalho.

Para o autor, governantes e governados estão no centro da discussão sobre os governos das
sociedades, instalados em seus Estados.

Ao lado das diversas maneiras de considerar o problema do Estado,


examinadas até aqui, com respeito ao objeto, ao método, ao ponto de vista,
à concepção do sistema social, deve-se mencionar uma contraposição
que, em geral, não é levada na devida conta, mas que divide em dois
campos opostos as doutrinas políticas talvez mais do que qualquer outra
dicotomia. Refiro-me à contraposição que deriva da diversa posição que
os escritores assumem com respeito à relação política fundamental –
governantes-governados, soberano-súditos ou Estado-cidadãos –, relação
que é geralmente considerada com relação entre superior e inferior, salvo
numa concepção democrática radical [na qual] governantes e governados
identificam-se ao menos idealmente numa única pessoa e o governo se
resolve no autogoverno. Considerada a relação política como uma relação
específica entre dois sujeitos, dos quais um tem o direito de comandar
e o outro o dever de obedecer, o problema do Estado pode ser tratado
prevalentemente do ponto de vista do governante ou do ponto de vista
do governado: ex parte principis ou ex parte populi. Na realidade, numa
longa tradição que vai de O Político, de Platão, [ao livro] O Príncipe, de
Maquiavel, da Ciropedia, de Xenofonte, ao Princeps Christianus, de Erasmo
[1515], os escritores políticos trataram o problema do Estado principalmente
do ponto de vista dos governantes: seus temas essenciais são a arte de
bem governar, as virtudes ou habilidades ou capacidades que se exigem
do bom governante, as várias formas de governo, a distinção entre bom e
mau governo, a fenomenologia da tirania em todas as suas diversas formas,
direitos, deveres e prerrogativas dos governantes, as diversas funções do
96
CIÊNCIA POLÍTICA

Estado e os poderes necessários para cumpri-las adequadamente, os


vários ramos da administração, conceitos fundamentais como dominium,
imperium, maiestas, auctoritas, potestas e summa potestas que todos
referem apenas a um dos dois sujeitos da relação, àquele que está no alto e
que se torna desse modo o verdadeiro sujeito ativo da relação, sendo o outro
tratado como sujeito passivo, a matéria com respeito à forma (formante)
(BOBBIO, 1994, p. 62-63).

5.1.4 Fronteiras internas

Abordando a questão de fronteiras internas, Martin (1998, p. 46) acentua o seguinte:

Vimos que no período moderno as fronteiras aparecem como as molduras


dos Estados-nações, de modo que tanto o seu estabelecimento como
eventuais modificações são manifestações de transformações que estão se
processando no interior das sociedades, sem se esquecer, é claro, das relações
de vizinhança. Essas últimas, por sua vez, são também bastante elásticas e
mutáveis, podendo variar desde uma situação de amizade crescente que
tende para a integração, até a indiferença que aos poucos vai se tornando
uma viva hostilidade. Por fim, como o poder de cada Estado nacional varia
bastante, pode-se dizer que existe uma vizinhança próxima e outra distante,
estabelecendo-se na intermediação entre uma e outra as alianças regionais.
É claro que todas essas considerações só podem se concretizar no exame
das condições socioeconômicas e políticas que envolvem cada momento
histórico determinado. Como se trata de um número muito grande de casos
individuais e de situações históricas bastante díspares, temos que toda
tentativa de sistematização, de classificação, implica distorções mais ou
menos aceitáveis, mais ou menos graves, segundo os vários pontos de vista.
Antes de apresentarmos algumas das tipologias mais divulgadas, porém,
parece conveniente tentar evitar algumas confusões muito frequentes,
precisando o sentido de palavras que até aqui estávamos empregando
como sinônimos. É o caso, portanto, de distinguir “fronteira” e “limite”;
“demarcação e delimitação”; “fronteira externa e interna”.

Fronteira e limite são termos distintos, às vezes tomados como sinônimos, mas sempre supostos
mutuamente, como vemos a seguir:

A identificação entre “limite” e “fronteira internacional” decorre


provavelmente da mobilidade e imprecisão cartográfica que na maior parte
do tempo acompanhou o desenvolvimento das sociedades. Mas os Estados
modernos necessitam de limites precisos, [nos quais] possam exercer sua
soberania, não sendo suficientes as mais ou menos largas faixas de fronteira.
Assim, hoje o “limite” é reconhecido como linha, e não pode, portanto, ser
habitado, ao contrário da “fronteira”, que, ocupando uma faixa, constitui
97
Unidade II

uma zona, muitas vezes bastante povoada, onde os habitantes de Estados


vizinhos podem desenvolver intenso intercâmbio, em particular sob a
forma de contrabando. Daí que para os Estados não é admissível uma “zona
neutra”, de limites imprecisos, recomendando-se, inclusive, que não sejam
transitórios, mas os mais permanentes possíveis, o que contribui para evitar
transtornos à população fronteiriça. Não é demasiado lembrar como se
torna distinto o cotidiano vivido de um lado ou de outro do limite. Muitas
vezes, embora as características físicas comuns possam haver ensejado
estilos de vida semelhantes nos dois lados do limite de uma mesma região
fronteiriça, a presença do Estado impõe distinções marcantes. Obrigações,
como pagamento de impostos e prestação do serviço militar, e direitos,
como os serviços públicos, serão diferentes, assim como o estabelecimento
dos preços, ainda que o obstáculo representado pela moeda possa ser
contornado através da atenção à taxa de câmbio. Estabelece-se, assim, um
choque entre o “direito de ir e vir” e o princípio da “soberania dos Estados”.
É a esfera da política que decidirá se o Estado irá incentivar ou dificultar o
intercâmbio com os vizinhos.

Para o professor britânico A. E. Moodie, a “fronteira” se distingue do “limite”


precisamente porque a primeira é “natural” e remete, portanto, à geografia,
enquanto a segunda é “artificial” e remete diretamente ao Estado. Já tivemos
ocasião de observar como é vago esse tipo de distinção. Mesmo a rigidez do
limite em contraste com a fluidez da fronteira é algo questionável. Num
outro sentido, as fronteiras é que são permanentes, na própria proporção em
que grandes contingentes humanos, solidamente fixados, não conseguem
transpor facilmente desertos (quentes ou gelados), grandes cordilheiras,
pântanos ou florestas equatoriais, ou num sentido mais preciso, têm
dificuldade em ocupar, colonizar e civilizar esses espaços. O “anecúmeno”
resiste, embora a tecnologia tenda a fazê-lo recuar. Como disse Ancel, “o
vazio é o inimigo do gênero humano”, daí que o homem procura saltar os
obstáculos naturais, passar por cima deles. Os oceanos, a esse respeito, são
exemplares: fáceis de cruzar, mas difíceis de delimitar, ocupar, colonizar.

Já os limites podem ser alterados sem grandes transtornos, desde que os


dois Estados litigantes tenham disposição política em fazê-lo, bastando
para isso o concurso de técnicos competentes: topógrafos, geógrafos e
juristas. No entanto, mesmo no Direito Público, apesar da costumeira
demarcação da linha divisória, pretende-se que, para maior tranquilidade
da população fronteiriça, seja preferível sempre reconhecer uma faixa
de certa largura. Chega-se mesmo a considerar indispensável que o
poder central possa dispor da área aí incluída (no Brasil republicano,
tradicionalmente calculada em 100 km a partir do limite) para que ele possa
exercer convenientemente sua tarefa de defesa das fronteiras. Não raro,
um mesmo Estado apresenta zonas de diferentes larguras: uma criminal,
98
CIÊNCIA POLÍTICA

outra militar e outra ainda aduaneira. Para complicar ainda mais o quadro,
note-se que tecnicamente são necessárias várias operações: primeiro, são
colocados marcos no terreno; depois, realiza-se um croqui que procurará
fazer corresponder os elementos do terreno e os do desenho. Estabelecem-
se as coordenadas geográficas, a escala, são escolhidos esboços, símbolos
e números que representam as diferentes formações do terreno, e tem-se,
por fim, o problema da projeção. Como a superfície da Terra é esférica,
cada espaço delimitado representará, com efeito, uma porção do geoide,
que, consequentemente, não será plana. Torna-se necessária então uma
operação que os matemáticos definem como um deslocamento dos pontos
do pedaço de esfera, até que haja coincidência com um plano, o que é
denominado “anamorfose”.

Vê-se, assim, que os juristas, embora geralmente invoquem a história antes


que a geografia, acabam enfrentando problemas de imprecisão análogos
aos dos geógrafos. De seu ponto de vista específico, porém, existe uma
distinção clara entre o dado “real” e o dado “intelectual”. O limite de um
Estado, então, aparece como uma linha puramente imaginária, marcada
na superfície terrestre por objetos naturais ou artificiais. Pode-se, portanto,
tentar acrescentar outro elemento, ao mesmo tempo distinto tanto do
limite quanto da fronteira: trata-se da divisa, isto é, o aspecto visível do
limite. Assim, o marco e a baliza aparecerão como pontos fixos, erguidos
pelo homem, os quais, alinhavados, expressam o limite de jurisdição dos
Estados. A divisa, por fim, é o limite que se apoia geralmente em cursos
d’água, cristas montanhosas, coordenadas geográficas ou outras linhas
geodésicas. Desse modo, boa parte da literatura técnica a respeito dedica‑se
a discutir qual o melhor apoio físico para os limites. Tem-se, então, que
diferenciar a demarcação da delimitação (MARTIN, 1998, p. 47-48).

Conforme Lia Machado (1998, p. 41-49), os limites e fronteiras, normalmente, são tomados como
sinônimos, embora existam diferenças fundamentais entre eles. O conceito fronteira significa “aquilo
que está na frente”, cuja origem está ligada às dinâmicas das sociedades expandindo seu mundo vivido,
suas atividades, até que se encontrem; formam-se, assim, espaços de comunicação e de política. Tal é o
sentido de fronteira quando nos referimos aos casos das “fronteiras agrícolas”, “fronteiras migratórias”,
entre outras.

Já a acepção de limite indica mais o fim, “membranas” ou “películas” envoltórias de conjuntos (territórios
das populações), daí seu uso político (soberania dos Estados-nação). O chamado “marco de fronteira” é na
verdade um símbolo visível do limite. O limite pode ser traçado em escritórios, não requerendo, em sua
localização, vida social. É abstrato, generalizado na forma de leis nacionais e internacionais. O limite pode
estar distante dos desejos e aspirações dos habitantes da fronteira (MACHADO, 1998, p. 48).

A partir dessa breve distinção, há inúmeras referências à geopolítica, seja como disciplina ou área do
saber, seja como ação (ou melhor, conjunto de ações políticas territorializadas em busca de recursos):
99
Unidade II

a. A palavra limite foi criada para designar o fim daquilo que mantém coesa
uma unidade político-territorial, isto é, sua ligação interna.

b. A conotação política de limite foi reforçada pelo moderno conceito


de Estado, no qual a soberania corresponde a um processo absoluto
de territorialização. A fronteira é considerada uma fonte de perigo ou
ameaça porque pode desenvolver interesses diferentes daqueles do
governo central.

c. Podemos afirmar que fronteira está orientada “para fora” (forças centrífugas),
enquanto limites estão orientados “para dentro” (forças centrípetas).

d. Fronteiras seriam vivas, representando interesses de agentes, enquanto


limites podem ser apenas demarcações territoriais no espaço geográfico,
criados e mantidos pelos governos centrais, não tendo vida própria e nem
mesmo existência material, são um polígono (MACHADO, 1998, p. 49).

Quanto às transformações do Estado, acentuamos:

Essa evolução perversa (da tirania financeira desde o fim de Bretton Woods)
adquiriu novas dimensões a partir de 1985, com a aceleração exponencial
do processo de “financeirização” acompanhado por sucessivas crises, cada
vez mais frequentes e com efeitos cada vez mais devastadores sobre as
economias da periferia capitalista mundial. De maneira tal que vários
analistas e economistas do próprio mundo anglo-saxão vêm considerando,
de forma cada vez mais séria, a hipótese de que o capitalismo global
esteja perdendo sua aura de infalibilidade, e de que, portanto, a simples
competição intercapitalista em mercados desregulados e globalizados
não assegure o desenvolvimento, muito menos a convergência entre
as economias nacionais do centro e da periferia do sistema capitalista
mundial (FIORI, 1999, p. 14).

Tratemos, então, do desenvolvimento capitalista moderno, desacreditado, segundo Fiori (1999), e


perverso, como afirma Milton Santos (1994), entre tantos outros.

[...] E, no entanto, desde o início do século XIX e, em particular, depois


de 1850, o que a humanidade assistiu foi a um impressionante e
aceleradíssimo processo de concentração do poder político e da riqueza
capitalista nas mãos de um reduzido número de Estados, a maioria deles,
europeus. Uma espécie de pequeno “clube de nações”, que se consolida
entre 1830 e 1870 e que acumularia, a partir daí e até o início da Primeira
Guerra Mundial, taxas cada vez maiores do poder e da riqueza mundiais.
No mesmo período, exatamente quando a economia capitalista se
transformava num fenômeno global e unificado, a Europa assumia
100
CIÊNCIA POLÍTICA

o controle político colonial de cerca de 1/4 do território mundial e


constituíam-se as redes comerciais e a base material do que foi chamado
mais tarde de periferia econômica do sistema capitalista mundial (FIORI,
1999, p. 15-16).

Nesse contexto, destacamos o G8 (Grupo dos Oito):

[...] o fórum informal que reunia oito países desenvolvidos, mais a União
Europeia. Seu objetivo era debater assuntos-chave relacionados à
estabilidade econômica global, políticas nacionais e cooperação com as
instituições econômico-financeiras internacionais. Desde 2008, este grupo
foi alargado, e agora atende pelo nome de G20.

Ao contrário do que se pensa, o G8 não reúne as oito maiores economias


do mundo, e sim as autoproclamadas oito mais industrializadas nações
democráticas. Daí a ausência da China, cujo PIB supera os de Alemanha,
Reino Unido, França, Itália e Canadá, e a inclusão da Rússia, cuja economia
regula com a de países como o Brasil, a Índia e o México. A União Europeia
participa apenas das discussões econômicas, nunca das políticas.

Desde 1975, um grupo de chefes de estado e diplomatas das seis nações


mais ricas e industrializadas se reúne anualmente para discutir questões
econômicas e políticas comuns. Inicialmente batizado de G6, o grupo
recebeu no ano seguinte a participação do Canadá, tornando-se o G7.

Com as mudanças políticas, econômicas e sociais do fim do século e o


incremento da globalização, o grupo reconhece a importância da Rússia,
(principal herdeira da antiga União Soviética) no cenário internacional,
e o país adere ao G7 formalmente em 2006, apesar de participar das
conversações desde 1994.

O G8 tem origem na crise do petróleo de 1973 e na recessão econômica


mundial que se desencadeou a partir dela. Naquele ano, os Estados Unidos
promoveram uma reunião informal entre os ministros de finanças de alguns
governos europeus, do Japão e de seu próprio [ministro] para discutir os
problemas criados pela crise (SANTIAGO, [s.d.]).

Apresentamos casos de crescimento (e de desenvolvimento) de três países considerados centrais no


sistema econômico global e cujas experiências particulares são vitais para compreender o desenvolvimento
na trama global. O conteúdo é ancorado no trabalho organizado por José Luís Fiori (1999). Os países são
os Estados Unidos da América, a Alemanha e o Japão.

Tardio, nessa visão, é quem chegou atrasado num alvo autoproclamado: os países mais industrializados
e de maior poderio bélico! Adiante vamos questionar essa tese hegemônica.
101
Unidade II

Se apenas “alguns poucos territórios privilegiados conseguiram superar o seu atraso com relação à
Inglaterra”, é principalmente em razão do “aumento da desigualdade na distribuição da riqueza mundial
que lança os menos afortunados progressivamente no coração do sistema capitalista global e à sua
competição interna de tipo imperialista” (FIORI, 1999, p. 16).

Trata-se, segundo o autor, dos primeiros “milagres econômicos” e da industrialização acelerada dos
“capitalismos tardios” alemão, norte-americano e japonês. Para ele, trata-se, também, do período de:

[...] enriquecimento de algumas ‘“colônias de povoamento” inglesas,


como foi o caso de Canadá, Nova Zelândia e Austrália, mas também
da Argentina e do Uruguai. Territórios que não lograram industrializar-
se durante a “era dos impérios”, mas conseguiram aumentar a sua
participação relativa na riqueza mundial, dando às suas populações
brancas níveis “europeus” de bem-estar econômico e social. Neste mesmo
meio século, o resto do mundo incorporado à economia europeia, como
colônias ou semicolônias, não conseguiu escapar à camisa de força
de um modelo econômico baseado na especialização e exportação de
alimentos e matérias-primas, e viveu um período de baixo crescimento
econômico intercalado por crises cambiais crônicas. Em síntese, entre
1830 e 1914, a riqueza mundial cresceu, mas de forma extremamente
desigual, ao mesmo tempo que se expandia o poder político do núcleo
europeu do sistema interestatal no qual foram incorporados os Estados
Unidos e o Japão (FIORI, 1999, p. 15-16).

Fiori (1999), ao considerar o processo multifacetado e acelerado de expansão do capital


e o aumento progressivo de sua concentração socioespacial, aponta a ampliação da produção
e do comércio com a criação de uma rede cada vez mais extensa e integrada de transportes,
incorporando um número cada vez maior de regiões e países à dinâmica propulsora da economia
da Grã-Bretanha imperialista, antes da consolidação da centralização estadunidense com o
financiamento da economia internacional após a Segunda Guerra. Concentração, que fique bem
claro, não necessariamente de aparato produtivo concreto, mas de decisões e de capital, como
condição à centralidade administrativa.

Nesse período (1870-1913), organiza-se e passa a funcionar o “padrão-ouro” clássico, primeiro a


unificar o sistema monetário internacional.

Aproximando-nos da sociologia do desenvolvimento, lembramos Juscelino Kubitschek, que


prometeu em sua candidatura à presidência do País “avançar cinquenta anos em cinco”.

Assim, temas como crescimento/desenvolvimento econômico, planejamento econômico,


subdesenvolvimento, pleno emprego, substituição de importações, divisão internacional do trabalho,
deterioração dos termos de troca e centro/periferia, que compunham o léxico econômico, tornam-se
referência para as interpretações sobre a realidade brasileira do período (1950).

102
CIÊNCIA POLÍTICA

Nesse momento, as ciências sociais, em especial a sociologia, debruçaram‑se


sobre a problemática do desenvolvimento brasileiro, enfrentando de forma
particular a questão nacional do Brasil de meados do século XX. Nesse
sentido, é possível associar aqueles temas aos que compuseram as discussões
específicas nas ciências sociais, tais como mudança social, atraso/moderno,
desenvolvimento social, planejamento social, reforma social, crise, revolução
social, imperialismo, nação, alienação, transplantação (MARTINS, 2010, p. 212).

Após algumas palavras sobre o desenvolvimento, passamos às considerações sobre a sociologia


do desenvolvimento.

Walter Frantz (2010, p. 14), citando Wallerstein, retrata a sociologia do desenvolvimento como um
esforço de compreensão dos processos de mudança e transformação. Apontando diferentes teorias
sobre desenvolvimento, afirma que ela é um campo de conhecimento:

[...] a sociologia do desenvolvimento [...] procura entender e explicar como


esse fenômeno humano se processa historicamente. [Ela] é um campo
de investigação que se afirmou no século XX, portanto é relativamente
novo. A discussão sobre desenvolvimento tomou corpo, especialmente,
após a Segunda Guerra Mundial, por volta da segunda metade do século
passado, quando se ampliou o foco do debate, incorporando dimensões não
econômicas (WALLERSTEIN, 2008 apud FRANTZ, 2010, p. 14).

[...]

As identidades coletivas implicam, portanto, um espaço tornado próprio


pelos seres que as instituem, enfim, implicam um território. Se é possível
estender para outras sociedades o conceito de desenvolvimento, dele
retirando o seu caráter moderno produtivista, podemos, então, afirmar que
o devir de qualquer sociedade, seu desenvolvimento próprio, inscreve-se
numa ordem específica de significados, entre os quais o modo como elas
marcam a terra, rigorosamente do ponto de vista etimológico, se geografam
(GONÇALVES, 1992, p. 10).

O desenvolvimento almejado deve gradativamente tornar a relação de


forças entre empreendimentos que não visam apenas nem principalmente
os lucros e os que o fazem, mais favorável aos primeiros. Se e quando a
economia solidária, formada por empreendimentos individuais e familiares
associados e por empreendimentos autogestionários, for hegemônica, o
sentido do progresso tecnológico será outro, pois deixará de ser produto
da competição intercapitalista para visar à satisfação de necessidades
consideradas prioritárias pela maioria (SINGER, 2004).

[...]
103
Unidade II

E o que é interessante notar é que também, como no caso dos teóricos do


desenvolvimento do século XX, Smith, Ricardo, Malthus, Stuart Mill e Marx
foram todos a um só tempo teóricos e “publicistas” que escreveram suas
teorias visando propor caminhos e soluções e influenciar as políticas do seu
tempo. E foi, sobretudo, quando tentaram sustentar suas teses políticas nas
suas análises econômicas que os teóricos da economia política clássica, em
nome de um projeto científico, acabaram dando origem às grandes utopias
modernas, sendo que a mais antiga delas – a utopia liberal – foi a que
permaneceu viva por mais tempo, culminando com a ideia da globalização
(FIORI, 1999, p. 11).

Se o apanágio/ideário do desenvolvimento capitalista (internacionalista por vocação e globalizante


por consequência) é um meio político de propiciar a manutenção da concentração de poder e riqueza
(FIORI, 1999, p. 15), baseando-nos na linhagem intelectual do Iluminismo (ROUANET, 2000), então, é
preciso garantir seu contraponto ético original, cujo objetivo é corrigir os desvios e excessos decorrentes
da produção de desigualdade social, inerente à expansão do sistema pelos países ‟periféricos.

Rouanet (2000) afirma o seguinte:

A modernidade é a coexistência contraditória desses dois vetores (o


instrumental, funcional, e o emancipatório, da união dos povos). Ela é uma
prisão, uma stahlhartes Gehäuse (jaula de ferro), na expressão de Weber,
mas também uma promessa de autonomia, é o reino da racionalidade
instrumental, que submete o homem a imperativos sistêmicos, mas também
o prenúncio de uma humanidade mais livre. Pois bem, a modernidade tende
à internacionalização, nesses dois vetores. Ela se mundializa, para usarmos,
modificando-lhe o sentido, uma palavra habitualmente utilizada pelos
teóricos franceses.

[…]

A globalização tende a nivelar todas as particularidades, porque sua força


motriz é a otimização do ganho, através de uma racionalidade de mercado
que supõe a criação de espaços homogêneos. A universalização é pluralista,
porque seus fins só podem ser atingidos por uma racionalidade comunicativa
que supõe o desejo e o poder dos sujeitos de defenderem a especificidade
das suas formas de vida. A globalização é a união dos conglomerados.

Então, há dois caminhos de melhoria social, distintos, que devem ser explorados teoricamente: um,
tomado pela crítica da economia política clássica, é o das práticas sociais instauradas pela própria
modernidade capitalista; o outro, o das práticas anteriores. Contudo, ambos podem ser concomitantes
e associados de várias maneiras àquelas das sociedades de mercado capitalistas, tendo como marca
um horizonte de contratos mais amplos, que envolvam a vida toda (biocêntricos), como sugerido por
figuras como Enrique Leff (sociólogo), Michel Serres (filósofo) e Humberto Maturana (neurobiólogo).
104
CIÊNCIA POLÍTICA

Assim, temos os desenvolvimentos das sociedades que escolhem seus caminhos versus o
desenvolvimento de via única. Dessa questão, derivam os pontos de vista sobre a diversidade cultural e
seus desdobramentos geográficos, econômicos e políticos. A produção (agricultura e indústria) sustentável
original ou saberes e personagens vernáculos, com domesticação, cultivo e criação de plantas e animais
em experiências e práticas sustentáveis, tem a seu favor o argumento da sustentabilidade, ainda num
horizonte filosófico. Todavia, é preciso ter cautela para não resvalarmos num dualismo paralisante,
numa simplória “teoria dos contrastes”, visto que as comunidades vernáculas, ou o que resta delas, não
constituem, em si mesmas, o antiparadigma do desenvolvimento único, linear.

Carlos Walter Porto Gonçalves relata que há inflexão no debate acerca do desenvolvimento. Vejamos
o que ele destaca:

Por um lado, pelo fato de se recobrir com a chancela de cientificidade que,


sabemos, constitui-se no “critério de verdade” (Foucault) por excelência
da sociedade moderna e contemporânea, configurando-se, por isso, em
um discurso autorizado, poder-se-ia dizer sacralizado (Bourdieu), ou,
ainda, em um discurso competente (Chauí). Ao contrário dos movimentos
ditos contraculturais, que, sem dúvida, foram os primeiros a levantar
essa questão. Por outro lado, é a primeira vez que um discurso com as
prerrogativas de científico e avalizado por uma instituição internacional
do porte da ONU afirma abertamente que há limites para o crescimento
(GONÇALVES, 1992, p. 11).

Nessa conjuntura, inicia-se a discussão sobre os limites do crescimento, o que é muito importante,
pois coloca em pauta a relação sociedade-natureza; abrindo espaço para essa reflexão, “visto que a
sociedade moderna se institui sancionando a dominação da natureza e, como tal, legitima a dominação
dos seres humanos semiotizados como naturais” (GONÇALVES, 1992, p. 12). E o autor continua: a
“passagem do desenvolvimento para o desenvolvimento sustentável indica, assim, a mudança não
só nas crenças e valores que devem orientar a sociedade como também inscreve, como vimos, novos
parâmetros nas relações internacionais” (GONÇALVES, 1992, p. 12).

Aqui o autor mostra-se bastante arguto e aponta que a ideia de desenvolvimento está ligada à
geografia política, e que desenvolvimento pressupõe crescimento, até porque desenvolver-se significa
“des-envolver”, o que implica abrir/quebrar/romper o que estava envolvido. Acentua o seguinte:

É interessante observar que em diferentes línguas (inglês, espanhol,


francês, italiano e português) desenvolver tem exatamente o sentido de
retirar do invólucro, do envelope, de algo que está arrolhado, envelopado
(GONÇALVES, 1992, p. 12).

Gonçalves (1992, p. 14) assinala a diferença entre as concepções de desenvolvimento na biologia,


“que diz respeito ao metabolismo interno do ser vivo, cujo embrião/semente já traz em si mesmo as
suas fases de crescimento/desenvolvimento na sua especificidade”; e nas ciências sociais, afirmando
que o conceito de “desenvolvimento, tecido na Modernidade, pretende-se universal. Os demais povos
105
Unidade II

não europeus passaram a ser vistos como selvagens, quer dizer, da selva, isto é, da natureza, e, por isso,
deviam ser civilizados”.

O autor faz alusão crítica à “força propulsora, portadora da chave modernizadora universal, o
colonialismo e o imperialismo europeus”, promovendo a civilização europeia, fazendo “com que outros
povos saiam da selvageria ou da barbárie […] para a civilização” (GONÇALVES, 1992, p. 13). E acrescenta:

Isso implica, evidentemente, uma determinada forma de se apropriar da


natureza, do espaço, do tempo, enfim, de atribuir lugar às coisas, sejam elas do
reino da natureza, sejam dos homens. Há uma Geografia Política que emana,
que é coinstituinte desses pressupostos, configurada nas relações Metrópole e
Colônia, numa relação do tipo centro-periferia, na configuração de um mundo
que, a partir do Renascimento, não cessará de, cada vez mais, tornar-se um
mundo contraditoriamente unificado (GONÇALVES, 1992, p. 13).

Então, surge a ideia do decrescimento, polêmica, em virtude da variedade de países com padrões de
crescimento muito distintos. Todavia, vale como um projeto sustentável quando da solução da miséria
com acesso justo à riqueza nacional.

Nesse momento, trazemos também a ideia de “decrescimento sustentável”, a ousada tese do francês
Serge Latouche (2012a), para diminuirmos a devastação dos recursos naturais do planeta. Haveria o
desenvolvimento capitalista (doutrinário) de um lado e o decrescimento de outro.

Na base do funcionamento da doutrina do desenvolvimento, estão as crenças no desenvolvimento


ilimitado e seus discursos. Contrapondo as teses do decrescimento, temos Serge Latouche (2012a),
Gilbert Rist (2001) e, de outro modo, Carlos Walter Porto Gonçalves (1992).

O maior estratagema do núcleo liberal, defensor do movimento do capital, é a doutrina do


desenvolvimento. Para Latouche (2012, p. 4): “Dessacralizar o crescimento consiste em desvendar a
maneira como foi construída a sua sacralização: a hipóstase do dinheiro, a teologização da economia, e
a criação dos ídolos do progresso, da ciência e da técnica”.

A seguir apresentamos um texto de Serge Latouche (2012b).

Por uma sociedade do decrescimento

Para conceber e construir uma sociedade de abundância frugal e uma nova forma de
felicidade, é necessário desconstruir a ideologia da felicidade quantificada da modernidade.
Em outras palavras, para descolonizar o imaginário do PIB per capita, devemos entender
como ele se enraizou.

Às vésperas da Revolução Francesa, quando Saint-Just declara que a felicidade é uma


ideia nova na Europa, é claro que não se trata da bem-aventurança celeste e da felicidade
pública, mas de um bem-estar material e individual, antessala do PIB per capita dos
106
CIÊNCIA POLÍTICA

economistas. Efetivamente, nesse sentido, trata-se justamente de uma ideia nova, que surge
um pouco em todos os lugares da Europa, mas principalmente na Inglaterra e na França.

A Declaração de Independência do dia 4 de julho de 1776 dos Estados Unidos da América,


país em que se realiza o ideal do Iluminismo em um campo considerado virgem, proclama
como objetivo: “A vida, a liberdade e a busca da felicidade”. Na passagem da felicidade
para o PIB per capita, verifica-se uma tripla redução suplementar: a felicidade terrestre
é assimilada ao bem-estar material, com a matéria sendo concebida no sentido físico do
termo. O bem-estar material é reconduzido ao “bem-ter” estatístico, isto é, à quantidade de
bens e serviços comerciais e afins, produzidos e consumidos. A estimativa da soma dos bens
e dos serviços é calculada sem descontos, ou seja, sem levar em conta a perda do patrimônio
natural e artificial necessária para a sua produção.

O primeiro ponto está formulado no debate entre Robert Malthus e Jean-Baptiste Say.
Malthus começa comunicando-lhe a sua própria perplexidade: “Se a pena que nos dá
por cantar uma canção é um trabalho produtivo, por que os esforços que são feitos para
tornar uma conversa divertida e instrutiva e que seguramente oferecem um resultado bem
mais interessante deveriam ser excluídos do grupo das produções atuais? Por que não se
deveriam incluir nisso os esforços que devemos fazer para moderar as nossas paixões e para
nos tornarmos obedientes a todas as leis divinas e humanas, que são, sem possibilidade
de desmentir, os bens mais preciosos? Por que, em substância, devemos excluir uma ação
qualquer cujo fim é o de obter o prazer ou de evitar a dor, seja no momento, seja no futuro?”.

Materiais e imateriais

Certo, mas é o próprio Malthus depois que observa que essa solução levaria diretamente à
autodestruição da economia como campo específico. “É verdade que, de tal modo, poderiam
ser incluídas nisso todas as atividades da espécie humana em todos os momentos da vida”,
nota com justiça. Por fim, adere ao ponto de vista redutivo de Say: “Se depois, junto com
Say”, escreve Malthus, “desejamos fazer da economia política uma ciência positiva, fundada
na experiência e capaz de dar resultados precisos, devemos ser particularmente precisos
na definição do termo principal do qual ela se serve (isto é, a riqueza) e compreender nele
somente aqueles objetos cujo aumento ou diminuição sejam tais que possam ser avaliados.
E a linha mais óbvia e útil a ser traçada é a que separa os objetos materiais dos imateriais”.

Em concordância com Jean-Baptiste Say, que define assim a felicidade pelo consumo,
há não muito tempo, Jan Tinbergen propunha que se rebatizasse o PNB [Produto Nacional
Bruto] simplesmente como FNB [Felicidade Nacional Bruta]. Na realidade, essa pretensão
arrogante do economista holandês é só um retorno às fontes.

Se a felicidade se materializa em bem-estar, versão eufemizada do “bem-ter”, qualquer


tentativa de encontrar outros indicadores de riqueza e de felicidade seria vã. O PIB é a
felicidade quantificada. É fácil condenar essa pretensão de equiparar felicidade e PIB per
capita, demonstrando que o produto interno ou nacional mede só a “riqueza” comercial.
107
Unidade II

Com efeito, do PIB, são excluídas as transações fora do mercado (trabalhos domésticos,
voluntariado, trabalho informal), enquanto, pelo contrário, os custos de “reparação” são
contados positivamente, e os danos gerados (externalidades negativas) não são deduzidos, nem
a perda do patrimônio cultural. Diz-se ainda que o PIB mede os outputs ou a produção, não os
outcomes ou os resultados. É apropriado lembrar o belíssimo discurso de Robert Kennedy (escrito
provavelmente por John Kenneth Galbraith), pronunciado alguns dias antes do seu assassinato:
“O nosso PIB […] inclui a poluição do ar, a publicidade dos cigarros e as corridas das ambulâncias
que recolhem os feridos nas ruas. Inclui a destruição das nossas florestas e o desaparecimento da
natureza. Inclui o napalm e o custo da estocagem dos rejeitos radioativos. Em compensação, o
PIB não contabiliza a saúde das nossas crianças, a qualidade da sua educação, a alegria dos seus
jogos, a beleza da nossa poesia ou a solidez dos nossos matrimônios. Não leva em consideração
a nossa coragem, a nossa integridade, a nossa inteligência, a nossa sabedoria. Mede qualquer
coisa, mas não aquilo pelo qual a vida vale a pena ser vivida”.

A sociedade econômica do crescimento e do bem-estar não realiza o objetivo proclamado


pela modernidade, isto é: a maior felicidade para o maior número de pessoas. Constatamos
isso claramente: “No século XIX, nota Jacques Ellul, a felicidade está ligada essencialmente
ao bem-estar, obtido graças a meios mecânicos, industriais, e graças à produção. […] Uma
tal imagem da felicidade nos levou à sociedade do consumo. Agora que sabemos por
experiência que o consumo não traz felicidade, conhecemos uma crise de valores”.

O fato é que, na redução economicista, como observa Arnaud Berthoud, “tudo


aquilo que faz a alegria de viver juntos e todos os prazeres do espetáculo social onde
cada um se mostra aos outros em todos os lugares do mundo – mercados, laboratórios,
escolas, administrações, ruas ou praças públicas, vida doméstica, lugares de diversão...
– são removidos da esfera econômica e colocados na esfera da moral, da psicologia ou
da política. A única felicidade que ainda se pode esperar do consumo está separada da
felicidade dos outros e da alegria comum”. [...]

O projeto de uma “economia” civil ou da felicidade desenvolvido por um grupo de


economistas italianos (representado principalmente por Stefano Zamagli, Luigino Bruni,
Benedetto Gui, Stefano Bartolini e Leonardo Becchetti) se reconecta à tradição aristotélica
e traz sua origem de uma crítica ao individualismo. A construção de uma tal economia
ressuscita a “felicidade pública” de Antonio Genovesi e da escola napolitana do século XVIII,
que o triunfo da economia política escocesa rejeitou.

A felicidade terrestre, à espera da bem-aventurança prometida aos justos no além,


gerada por um governo reto (bom governo) que busca o bem comum, era, com efeito, o
objeto de reflexão dos iluministas napolitanos. Integrando o mercado, a concorrência e a
busca por parte do sujeito comercial de um interesse pessoal próprio, eles não repudiavam
a herança do tomismo. Esses teóricos da economia civil são perfeitamente conscientes do
“paradoxo da felicidade”, redescoberto pelo economista norte-americano Richard Easterlin.
“É lei do universo – escrevia Genovesi – que não se pode fazer a nossa felicidade sem fazer
a dos outros”.
108
CIÊNCIA POLÍTICA

Foram necessários dois séculos de destruição frenética do planeta graças ao “bom


governo” da mão invisível e do interesse individual elevado à divindade para redescobrir
essas verdades elementares.

[...]

Mercadorias fictícias

Como Baudrillard havia visto bem em seu tempo, “uma das contradições do crescimento
é que ele produz bens e necessidades ao mesmo tempo, mas não os produz no mesmo
ritmo”. Resulta disso aquilo que ele chama de “uma pauperização psicológica”, um estado
de insatisfação generalizada, que, diz, “define a sociedade de crescimento como o oposto de
uma sociedade da abundância”.

A frugalidade reencontrada permite reconstruir uma sociedade da abundância


com base naquilo que Ivan Illich chamava de “subsistência moderna”. Isto é, “o modo
de vida em uma economia pós-industrial dentro da qual as pessoas conseguiram
reduzir sua própria dependência com relação ao mercado e fizeram isso protegendo
– com meios políticos – uma infraestrutura em que técnicas e instrumentos servem,
essencialmente, para criar valores de uso não quantificado e não quantificável pelos
fabricantes profissionais de necessidades”.

Trata-se de sair do imaginário do desenvolvimento e do crescimento e de reencaixar o


domínio da economia no social por meio de uma Aufhebung (remoção/superação).

Porém, sair do imaginário econômico implica rupturas muito concretas. Será


necessário fixar regras que enquadrem e limitem a explosão da avidez dos agentes
(busca do lucro, do sempre mais): protecionismo ecológico e social, legislação do
trabalho, limitação da dimensão das empresas e assim por diante. E, em primeiro lugar,
a “desmercantilização” daquelas três mercadorias fictícias, que são o trabalho, a terra
e a moeda.

Sabe-se que Karl Polanyi via na transformação forçada desses pilares da vida social em
mercadoria o momento fundante do mercado autorregulador. A sua retirada do mercado
mundializado marcaria o ponto de partida de uma reincorporação/reenxerto da economia
no social.

Paralelamente a uma luta contra o espírito do capitalismo, será oportuno,


portanto, favorecer as empresas mistas em que o espírito do dom e a busca da justiça
mitiguem a aspereza do mercado. Certamente, para partir do estado atual e alcançar a
“abundância frugal”, a transição implica novas regras e hibridizações, e, nesse sentido,
as propostas concretas dos altermundialistas, dos defensores da economia solidária
até as exortações à simplicidade voluntária podem receber o apoio incondicional dos
partidários do decrescimento.
109
Unidade II

Se o rigor teórico (a ética da convicção de Max Weber) exclui os compromissos do


pensamento, o realismo político (a ética da responsabilidade) pressupõe o compromisso pela
ação. A concepção da utopia concreta da construção de uma sociedade de decrescimento é
revolucionária, mas o programa de transição para alcançá-la é necessariamente reformista.
Muitas propostas “alternativas” que não reivindicam explicitamente o decrescimento
podem, assim, felizmente, encontrar lugar dentro do programa.

O espírito do dom

Um elemento importante para sair das aporias da superação da modernidade é a


convivialidade. Além de enfrentar a reciclagem dos rejeitos materiais, o decrescimento deve
se interessar pela reabilitação dos marginalizados. Se o melhor descarte é aquele que não
é produzido, o melhor marginalizado é aquele que a sociedade não gera. Uma sociedade
decente ou convivial não produz excluídos.

A convivialidade, cujo termo Ivan Illich toma emprestado do grande gastrônomo francês
do século XVIII, Brillat Savarin (A Fisiologia do Gosto: Meditações sobre Gastronomia
Transcendental), visa justamente refazer o laço social desfeito pelo “horror econômico”
(Rimbaud). A convivialidade reintroduz o espírito do dom no comércio social ao lado da
lei da selva e retoma assim a philia (amizade) aristotélica, lembrando ao mesmo tempo o
espírito da ágape cristã.

Essa preocupação se reconecta plenamente à intuição de Marcel Mauss, que, em seu


artigo de 1924, “Apreciação sociológica do bolchevismo”, defende, “sob o risco de parecer
antiquado”, que se deve voltar “aos velhos conceitos gregos e latinos de caritas (que hoje
traduzimos tão mal por caridade), de philia, de koinomia, dessa ‘amizade’ necessária, dessa
‘comunidade’, que são a essência delicada da cidade”.

É importante também desconjurar a rivalidade mimética e a inveja destrutiva que


ameaçam toda sociedade democrática. O espírito do dom, fundamental para a construção
de uma sociedade de decrescimento, está presente em cada um dos Rs que formam o círculo
virtuoso proposto para dar vida à utopia concreta da sociedade autônoma. Principalmente
no primeiro R, reavaliar, já que indica a substituição dos valores da sociedade comercial
(a concorrência exacerbada, o cada um por si, o acúmulo sem limites) e da mentalidade
predadora nas relações com a natureza, pelos valores de altruísmo, de reciprocidade e de
respeito ao ambiente.

O mito do inferno de longos tridentes com o qual se abre a segunda parte do livro
La Scommessa della Decrescita [A Aposta do Decrescimento] é explícito: a abundância
combinada ao “cada um por si” produz miséria, enquanto a divisão, mesmo na frugalidade,
gera satisfação em todos, até alegria de viver.

O segundo R, reconceitualizar, insiste, pelo contrário, na necessidade de repensar a


riqueza e a pobreza. A “verdadeira” riqueza é feita de bens relacionais, aqueles fundados
110
CIÊNCIA POLÍTICA

justamente na reciprocidade e na não rivalidade, no saber, no amor, na amizade. Pelo


contrário, a miséria é principalmente psíquica e deriva do abandono na “multidão solitária”,
com a qual a modernidade substituiu a comunidade solidária. [...]

É imperativo reduzir o peso do nosso modo de vida na biosfera, reduzir a pegada


ecológica cujos excessos se traduzem em empréstimos pedidos às gerações futuras e ao
conjunto do cosmos, mas também ao Sul do mundo. Portanto, temos a obrigação de dar em
troca aquilo que se encontra no centro da maior parte dos outros Rs: redistribuir, reduzir,
reutilizar, reciclar.

Redistribuir remete à ética da divisão. Reduzir (a própria pegada ecológica), à recusa da


predação e do acúmulo. Reutilizar, ao respeito pelo dom recebido. E reciclar, à necessidade
de restituir à natureza e a Gaia aquilo que foi tomado de empréstimo delas.

Fonte: Latouche (2012b).

6 O ESTADO CONTEMPORÂNEO: POPULAÇÃO OU POVOS? FRACASSO DA


AUTODETERMINAÇÃO

Se dissermos, seguindo Lefebvre, que só existe o poder político, isto


significa, levando-se em consideração o que precedeu, que o fato político
não está inteiramente refugiado no Estado. Com efeito, se o fato político
atinge a sua forma mais acabada no Estado, isto não implica que não
caracterize outras comunidades: “Estudando de forma comparativa o
poder em todas as coletividades, pode-se descobrir as diferenças entre o
poder no Estado e o poder nas outras comunidades’’ [Maurice Duverger].
Para uma discussão do fato político, remetemos a Balandier. Admitimos
que há poder político desde o momento em que uma organização luta
contra a entropia que a ameaça de desordem. Esta definição, inspirada
em Balandier, nos faz descobrir que o poder político é congruente a toda
forma de organização (RAFFESTIN, 1993, p. 17-18).

Juntamos a voz de Raffestin aos demais críticos da compreensão única da realidade política, que
enxergam o Estado como única forma possível. O Estado como forma cristalizada historicamente é
também concebido nos termos demográficos ou populacionais. População ou demografia é um
conceito matemático-estatístico de classificação (manipulação e planejamento). Nada mais distante
da associação de pessoas reais... É verdadeiro, apenas, quando se consideram as massas de dados de
pesquisas censitárias.

Os povos fracassaram em mostrar que somente há o caminho da participação para escolher em meio
à imensa diversidade de opções.

111
Unidade II

6.1 Povos: quem são o povo, a nação e os estrangeiros

Qual é a questão fundamental da democracia? Constituições democráticas


e os titulares de funções do seu respectivo sistema de dominação preferem
falar – e falam mais frequentemente – do “povo”. A razão disso é simples: eles
precisam justificar-se como todas as formas de poder. E aqui a invocação do
povo fornece a legitimação mais plausível.

Não obstante – e, se olharmos o problema mais de perto: justamente por


essa razão –, a simples pergunta “Quem é esse povo?” nunca é formulada
como uma pergunta analítica. Supõe-se tacitamente que, afinal de contas,
todos saibam quem é esse povo. Eis um típico discurso de legitimação que
tranquiliza em vez de criar transparência.

Mas, se formularmos essa pergunta – e isso é o que estamos fazendo aqui –,


começam as maiores dificuldades. Quem é o povo? As pessoas que vivem de
fato no país [faktische Inländer]? As pessoas que vivem legalmente no país
[rechtliche Inländer]? Os titulares dos direitos de nacionalidade? Os titulares
dos direitos civis? Os titulares dos direitos eleitorais ativos e passivos? Apenas
os adultos? Apenas os membros de determinados grupos étnicos, religiosos
ou sociais? Em incontáveis países do passado e/ou do presente que se
denominaram ou denominam “democráticos” há pretensões reconhecidas
de direitos [Berechtigungen] em várias gradações, discriminações mais
grosseiras ou mais sutis, privilégios mais ou menos juridicizados, exclusões
e inclusões que fazem com que aquilo que poderia ser chamado realiter
“povo” dilua-se em um mosaico desorientador. Constata-se logo que
“povo” não é um conceito simples nem um conceito empírico; povo é um
conceito artificial, composto, valorativo; mais ainda, é e sempre foi um
conceito de combate. Historicamente isso é recapitulado nesse livro em
uma retrospectiva que remonta à polis sumeriana, passa por Atenas e por
Roma e pela igreja cristã primitiva até chegar ao presente, no qual, por meio
de práticas como expulsão, reassentamento, “limpeza” étnica, o “povo”,
respectivamente desejado pelos donos do poder, é manipulado ou criado
à força. Tal barbárie em nome de “demo” cracia é uma “cracia” no sentido
mais duro do termo, mas não tem nada a ver com “demos”: “povo” é usado
aqui como expressão seletiva, como conceito finalista, como lema de guerra
(MÜLLER, 2009, p. 93-94).

Segundo o Novo Dicionário Houaiss de Língua Portuguesa (2009), povo é o “conjunto de pessoas que
falam a mesma língua, têm costumes e interesses semelhantes, história e tradições comuns [...] vivem
em comunidade num determinado território; nação, sociedade”. Então, partimos de povo como simples
termo dicionarizado para fundamento das organizações sociais, sendo o conceito expressão de poder e
dominação de alguns grupos por outros.

112
CIÊNCIA POLÍTICA

Segue um trecho bastante interessante do modo como as noções de povo são manipuladas pelo
poder imperial, com vistas a submeter vastas regiões, estendendo os braços da retórica, com produção
científica e artística.

O bom povo português: usos e costumes d’aquém e d’além-mar

A reforma de 1946, impulsionada pelo então ministro das Colônias, Marcelo Caetano,
foi realizada quando das celebrações dos quarenta anos da Escola e em um contexto
internacional cambiante, no qual o futuro das colônias se mostrava novamente incerto.
É nesse momento que, sob indicação do ministro, a sua diretoria é assumida por um
intelectual de renome, o antropólogo portuense Antônio Augusto Esteves Mendes Corrêa,
que há muito se dedicava ao estudo dos “indígenas” dos espaços coloniais portugueses.

Considerado o “primeiro antropólogo português”, doutor em medicina pela


Universidade do Porto, Mendes Corrêa destacou-se por desenvolver estudos que, partindo
da antropologia física e da antropologia criminal, passam cada vez mais por um enfoque ora
“etnopsicológico”, ora histórico e cultural, sem, contudo, abandonar jamais determinados
postulados da biologia. Sobressaiu-se ainda como promotor do I Congresso de Antropologia
Colonial Nacional, que teve lugar no Porto em 1934, por ocasião da I Exposição Colonial
Portuguesa. Na Exposição Colonial de 1934, professores e alunos, sob a coordenação de
Mendes Corrêa, realizaram estudos antropométricos e inquéritos com os indígenas vindos
das colônias africanas, da Índia, de Macau e do Timor. Os estudos realizados no Porto se
mostrariam fundamentais para uma apreensão totalizadora dos povos que compunham
o império colonial português, e foram sistematicamente recuperados na sua obra de
maturidade Raças do Império, publicada em 1945.

Em Raças do Império, Mendes Corrêa sintetiza um conjunto de informações que vai da


composição “racial” aos costumes “exóticos” ou “pitorescos” de cada um dos grupos sociais
e étnicos da metrópole e das colônias. Trata-se de uma obra, ao mesmo tempo, “científica” e
de divulgação, ricamente ilustrada com fotografias e desenhos; da sua leitura saímos com a
nítida sensação de apreender o Império na totalidade dos tipos humanos que o compõem:
o Império não se traduz apenas em uma entidade política, mas em um todo orgânico e
solidário, que a diversidade racial e cultural revela e ilumina. Nos termos de Mendes Corrêa,

Vinte milhões de portugueses compõem essa multidão em que


tamanha diversidade não impede uma unidade essencial de aspirações e
interesses, uma solidariedade fraterna, a existência duma ampla e perfeita
comunidade nacional, baseada simultaneamente na história, na política,
num sentimento profundo de simpatia e compreensão universalista.

Logo no início de Raças do Império, Mendes Corrêa salienta a necessidade de não


desprezarmos o conceito de “raça” em favor do de “cultura”: ambos estariam profundamente
relacionados. Dessa forma, o antropólogo português não apenas recupera sua trajetória
como se contrapõe às correntes da moderna antropologia de então, que questionavam a
113
Unidade II

importância excessiva que escolas antropológicas oitocentistas conferiam à noção de “raça”,


afirmando assim o objeto privilegiado da antropologia, a “cultura”. Mendes Corrêa deixava
clara sua opção por um estudo que considerasse os aspectos biológicos e hereditários de
cada grupo humano, bem como seus comportamentos psicossociais, sua aptidão maior
ou menor ao trabalho e sua produção cultural. Sua opção teórica e metodológica ganha
maior sentido quando atentamos para a sua proposta de trabalho: dar conta da totalidade
das “raças” que convivem no interior de uma estrutura política, o Império, que, na verdade,
traduz uma nação extremamente heterogênea na multiplicidade dos povos que a habitam,
mas nem por isso carente de uma unidade de espírito.

Da “cabeça” do Império e ilhas adjacentes (a quem dedica mais da metade de sua


obra), Mendes Corrêa dirige-se às colônias ultramarinas: Cabo Verde, São Tomé e Príncipe,
São João Batista de Ajudá, Angola, Moçambique, Índia, Macau e Timor. Os arquipélagos
atlânticos e o forte de São João Batista de Ajudá são frutos exclusivos da obra de Portugal;
já os demais territórios teriam a sua própria pré-história, mas é a presença portuguesa
que os situa em uma mesma corrente evolutiva. Para chegar a essas conclusões, o autor
combina dados arqueológicos e fontes históricas portuguesas com informações etnográficas
obtidas no campo ou com os indígenas na Exposição Colonial do Porto de 1934. Da extrema
diversidade étnica e cultural dos nativos desses territórios, passa a informações genéricas
sobre as atuais tendências sociodemográficas, “usos e costumes”, feitiçaria, crenças e
religião e, ainda, aptidão maior ou menor para o trabalho braçal ou intelectual. Chega, por
fim, às modernas condições de colonização, à situação dos colonos brancos e aos problemas
relativos à mestiçagem.

Diante deste último aspecto, Mendes Corrêa manifesta uma postura curiosa: realidade
de algumas colônias portuguesas – como Cabo Verde –, e tendo oferecido à nação
vigorosos frutos, a mestiçagem não é, contudo, aconselhável de forma intensa e em toda
a extensão do Império, sob pena de o povo português diluir suas particularidades entre
terras e gentes estranhas e distantes da matriz. Quando trata de “A política de população
do Império”, o antropólogo conclui que, se na ausência da mulher branca a mestiçagem
é quase “inevitável e fatal”, ela não deve ser uma regra na totalidade do Império, sob
pena de “quebra da continuidade histórica” do povo português. O mestiço seria uma
questão a mais de “política indígena”, devendo ser dado a ele um tratamento justo e
humano e, quando este manifestasse “perfeita identificação” com o “sentir, as tendências
e aspirações do povo português”, poderia ser, inclusive, incorporado no campo da política
e administração geral do país (MENDES CORRÊA, 1945, p. 620). O antropólogo atenua,
assim, o juízo manifestado por ocasião do Congresso de 1934, quando afirmou imensa
preocupação diante da mestiçagem [...].

Os problemas biológicos e sociais do mestiçamento, em toda a sua


intensidade angustiosa e dramática, não preocuparam, por exemplo, ainda
suficientemente os nossos investigadores. Vão ser, não podiam deixar de ser,
debatidos neste Congresso, esquecidos por assim dizer desde esses tempos
dourados em que o grande Afonso de Albuquerque favorecia o cruzamento
114
CIÊNCIA POLÍTICA

de portugueses com mulheres indígenas, esforçando-se por legalizar


jurídica e religiosamente as uniões contraídas com tamanho desembaraço
que até, segundo rezam as crônicas, um banquete em que se festejavam
simultaneamente vários matrimônios acabou pela confusão dos casais uns
com os outros, numa tremenda orgia pagã.

Mendes Corrêa faz jus aos princípios inscritos no Ato Colonial e no indigenato:
reconhecimento da “diversidade natural” dos povos do Império e o não abandono da
tradicional fraternidade cristã que teria caracterizado, desde sempre, a expansão lusitana
(1945, p. 621), manutenção da hierarquia a partir da administração rigorosa das relações
entre os diferentes grupos culturais que habitavam as colônias (basicamente colonos e
indígenas) e do controle dos processos de assimilação. A partir da disciplina antropológica,
afirma a superioridade do elemento metropolitano, o imperativo da assimilação – sempre
que esta preserve (eugenicamente) a continuidade histórica e antropológica do povo
português – e uma política de inclusão que tenha em conta a diversidade (e a desigualdade)
característica dos indígenas das distintas colônias. Política e antropologia juntam-se,
então, na preservação da tradição colonial portuguesa e dos “usos e costumes” dos povos
indígenas: é na garantia política da preservação da diferença e no seu estudo a partir dos
meios antropológicos que teríamos a reprodução hierárquica da desigualdade, e com isso a
perpetuação do Império.

Sua postura não é, assim, muito distinta daquela apresentada no Congresso Colonial de
1940, quando discorre, entre outros temas, acerca de uma “antropologia da mestiçagem”. A
disciplina era vista, naquele momento, como pertencente ao campo das ciências naturais,
e os estudos na área atentavam para as características “biológicas” e “psíquicas” dos
indivíduos ou grupos; o objetivo era analisar uma determinada “realidade” (o mestiço) para
definir sua possibilidade de aproveitamento (ou não) para o projeto colonial português do
Estado Novo. As questões que se colocavam eram: como se combinam as heranças de pais
de raças distintas na prole mestiça? Seria esta mais ou menos fértil que os seus progenitores
(questão descartada rapidamente por Mendes Corrêa)? Como se dá a hereditariedade de
caracteres inferiores e superiores? Se era evidente para Mendes Corrêa que a colonização
e a formação do Brasil só tinham sido possíveis graças à mestiçagem, também o era a
hegemonia política, mental e econômica do elemento branco, apesar da alta proporção de
mestiços, negros e índios na população brasileira.

Fonte: Thomaz (2001, p. 67-70).

Todo o poder emana do povo, mas qual povo? É essa a pergunta de Gomes e Setton (2016) ao
considerar o processo eleitoral e as relações de representatividade:

Parte-se da hipótese de que esses consultores, chefes das equipes de


marketing político, em especial aqueles de maior visibilidade e influência
sobre a área profissional, poderiam assumir a posição de intérpretes da
cultura; como produtores de mídias, de modo crescente nos últimos anos,
115
Unidade II

visam influir sobre certos modos de ser, pensar e agir dos cidadãos no âmbito
da política no Brasil. Não é sem fundamento que, ao estudar escritores
da literatura brasileira, Renato Ortiz (2006) afirma que a problemática da
cultura tem sido, até hoje, uma questão política. Segundo ele, a noção
de identidade nacional deve ser vista como uma construção simbólica
resultante de recortes arbitrários, ligada a uma reinterpretação do popular
pelos grupos sociais e à própria imagem do Estado brasileiro. Ortiz revela que
alguns escritores contribuíram para a consolidação de noções sobre o povo
e a nação. Conclui que eles ocuparam o papel de mediadores simbólicos,
confeccionando uma ligação entre o particular e o universal, o singular e o
global, e acabaram por elaborar uma reinterpretação simbólica.

[...]

Uma mediação que visa romper o abismo que separa os eleitores, os partidos
e os candidatos, bem como aproximá-los, pelo menos no momento das
eleições. Eles atuam como coordenadores gerais, mestres ou conselheiros
do processo de mediação e da ligação entre a produção e a recepção de um
repertório de ideias. Como diria Ortiz, trabalhariam na construção simbólica
de uma interpretação interessada de Brasil filiada a grupos sociais visando
unificar percepções acerca do povo.

As reflexões deste artigo emergiram de uma pesquisa inédita sobre as


relações entre o marketing político e a educação. Por isso, a aproximação
introdutória das temáticas foi realizada com o devido cuidado para não
produzir associações ligeiras. Inspirado na relação entre a sociologia
da educação e a sociologia da cultura, disciplinas que se ocupam da
identificação e análise das maneiras de ser, agir e pensar dos indivíduos e as
estratégias das instituições socializadoras, buscou-se examinar e discutir o
trabalho dos consultores na construção de representações em seus aspectos
culturais. Partiu-se do pressuposto de que refletir sobre as mídias políticas é
uma forma de desvelar um dos mecanismos de formação de consensos bem
como uma maneira de identificar estratégias de construção e articulação
de categorias de pensamento acerca da dinâmica política no Brasil. Assim,
foi possível apreender as construções difusas de uma socialização política
operada por esses cada vez mais influentes intérpretes do Brasil.

Primeiramente, observou-se a relevância das pesquisas eleitorais


para orientação da produção das campanhas e para a adequação de
performances midiáticas dos candidatos. Na construção de um programa
eleitoral, verificou‑se uma persistência dos gêneros midiáticos de amplo
reconhecimento, apoiados no conceito de entretenimento e na relação
paradoxalmente mágica e eficiente entre famosos e populares. Identificou‑se,
ainda, que na apresentação dos candidatos e nas suas relações com eleitores
116
CIÊNCIA POLÍTICA

o trabalho do marketing político favorece um entendimento de que os


políticos estão ao lado do povo, são amigos do povo, possuem intimidade
e conhecem a realidade de todos; embora tratados como celebridades, os
candidatos estendem a mão para os menos favorecidos, numa demonstração
de sabedoria, benevolência e superioridade; ademais, observou-se uma
forte presença da religiosidade nas peças de campanha como expressivo
instrumento mobilizador das populações brasileiras e belenenses. Desse
modo, o marketing político utiliza os recursos de identidade de mais fácil
apreensão com a finalidade de viabilizar associações positivas e criar
condições para apropriação dos conteúdos políticos.

Não é por acaso que o uso da fé e da visita à casa dos eleitores nos programas
de campanha compõe uma das estratégias do marketing para retratar os
vínculos sociais harmoniosos e cúmplices entre os agentes da política,
especialmente os eleitores e os candidatos. Essa tática compõe uma didática
que visa estabelecer uma noção de intimidade, comunhão, entre os agentes,
uma aproximação simbólica entre eles, de modo que os demais eleitores
abram-se para uma audiência e atribuam cumplicidade ao que é dito e
proposto nos programas eleitorais. Com isso, contribui para a reafirmação
de uma interpretação de que, na condição de eleitor, o brasileiro é um ser
ordeiro, hospitaleiro, receptivo e acolhedor. Tudo leva a crer que a estratégia
tem como finalidade vincular os eleitores e os candidatos em uma única
identidade horizontal e igualitária, mostrando que são um a cara do outro.
Como diria Ortiz (2006), unificam agentes que em circunstâncias diversas
estariam separados (GOMES; SETTON, 2016).

Então, quem é o povo? Friedrich Müller (2009) afirma que essa pergunta está na base da democracia
moderna, acentuando que o conceito povo tem inumeráveis atribuições.

O termo “democracia” deriva etimologicamente da noção de povo – demo (povo), e cracia (poder) – e
significa poder do povo. Entretanto, são muitos os descaminhos, e há muita retórica nos discursos.

Darcy Ribeiro (1995) faz uma brilhante aproximação do povo brasileiro; considera que da mistura
dos grupos negros, brancos e índios derivam novos grupos. Do ponto de vista sociológico, podem-se
procurar os grupos sociais que se identificam por meio dos mesmos papéis e status. Também há o
sentido político-cultural, que adquire valor em meio às relações de poder da classificação dos membros
da sociedade.

6.2 Estado‑nação como solução e problema

O progresso está aí, no trabalho de homens como ele. Através dele mesmo,
os escravos, pretos rudes e praticamente irracionais, encontravam no serviço
humilde o caminho da salvação cristã, que do contrário nunca lhes seria
aberto, faziam suas tarefas e recebiam comida, agasalho, teto e remédios,
117
Unidade II

mais do que a maioria deles merecia, pelo muito de dissabores e cuidados


que infligiam a seus donos e pela ingratidão embrutecida, natural em negros
e gentios igualmente. O povo em geral, este tinha muitas fazendas a que
se agregar, muitos ofícios a praticar, podia vender e comer o que pescasse
nas águas agora libertadas, podia, enfim, levar a mesma vida que levava
antes, com a diferença sublime de que não mais sob o jugo opressor dos
portugueses, mas servindo a brasileiros, à riqueza que ficava em sua própria
terra, nas mãos de quem sabia fazê-la frutificar (RIBEIRO, 1984, p. 31-32).

Entender a convergência, anunciada por Mónica Arroyo (2004), entre “território, mercado e Estado”
pressupõe sua relação socioambiental radical, que, a um só tempo, é: produtiva, baseada na exploração
e na troca de recursos; organizacional, em razão da divisão e institucionalização dos poderes dos seus
membros; e territorial, ao se especializarem (materializarem) todas as ações.

O texto de Mónica Arroyo (2004) é bastante relevante para tratarmos das relações entre as formas e os
processos de aplicação do poder dos grupos sociais envolvidos na construção do país (que se constituem
em Estado e governo) e os instrumentos dos agentes investidores (ações mercantis institucionalizadas,
territorializadas); falamos de instrumentos de controle e de governança cuja legitimidade dá-se pela
via estatal. Segundo a autora, “a convergência de território, mercado e Estado é um processo histórico
e, ao mesmo tempo, conceitual, perfeitamente datado” (ARROYO, 2004, p. 49). Ela questiona a forma
pela qual essa convergência se desenvolveu no continente europeu para, por fim, chegar aos territórios
coloniais e refletir, em particular, sobre a América Latina.

A autora destaca com precisão o conceito de território e Estado. Leia com atenção o excerto a seguir.

Território, mercado e Estado: uma convergência histórica

Território e Estado, as origens

Se pensamos o “território” como um conceito que supõe o exercício do poder e que


implica um processo de apropriação, de delimitação e de controle, estamos enfatizando,
sem dúvida, sua dimensão política. E se, além disso, pensamos na legitimidade desse poder
e, portanto, na ideia de soberania, estamos cada vez mais próximos de sua dimensão
jurídica. Por sua vez, a dimensão político-jurídica do território está associada à existência do
“Estado” como a instituição que detém o poder de soberania, ou seja, o controle exclusivo
de um âmbito geográfico definido. Chegamos, assim, à ideia de território do Estado ou de
Estado territorial.

Desde a conformação do sistema interestatal moderno, o Estado territorial é a


unidade primária e principal da política internacional; daí que o mapa desse sistema
esteja composto de territórios dos Estados, delimitados por fronteiras que são o resultado
do exercício da soberania. Esse mapa político mundial está atualmente subdividido em
mais de duzentos territórios estatais. Mas quando e como começou o processo de associar
território e Estado?
118
CIÊNCIA POLÍTICA

O termo território foi aplicado no início às cidades-Estado do mundo clássico para


designar a zona que circundava uma cidade e que estava sob sua jurisdição (GOTTMAN,
1973). Aplicou-se, mais tarde, às cidades medievais italianas. Todavia, os territórios
das cidades clássicas e medievais não eram soberanos. A união entre território e
soberania surge, séculos mais tarde, como resultado da dissolução do regime feudal
e da erosão do poder temporal da Igreja. Trata-se de um longo processo que se
estende desde 1494 – quando da invasão das cidades-Estado italianas pela França
e depois pela Espanha – até o Tratado de Westfália, em 1648, fim das pretensões de
universalidade do império e do papado. É nesse período que se perfila a configuração
dos Estados territoriais soberanos.

O Tratado de Westfália de 1648 traz a primeira base legal do sistema interestatal


moderno, já que reconhece a soberania de cada Estado no seu território e implica a
obrigação de não interferir nos assuntos internos de outros Estados. A soberania territorial
transforma-se, assim, em uma atribuição do Estado com relação ao controle exclusivo de
um âmbito geográfico definido. Dessa perspectiva, o território torna-se uma categoria do
direito internacional.

Conforme Peter Taylor (1994), os Estados territoriais definem-se em termos de um


“dentro” e de um “fora”: por um lado, relacionam-se com a sociedade civil e as atividades
econômico‑sociais existentes dentro de seu âmbito; por outro, cuidam das relações
com o resto do sistema interestatal. A extensão geográfica de sua jurisdição e sua
posição associam-se a aspectos importantes das relações exteriores, como proximidade,
contiguidade, distância e acessibilidade. Essa concepção do exercício da soberania
territorial começa a se espalhar gradual e lentamente, através dos continentes, como o
modelo dominante de organização política.

As funções básicas do Estado territorial, segundo Jean Gottman (1973, p. 52), são
segurança e oportunidade. A primeira relaciona-se com as origens políticas do sistema
interestatal, e a segunda com a formação do incipiente mercado mundial:

A soberania tinha sido interpretada com demasiada frequência


como função da regulação do poder, e especialmente do poder
político. Na administração do território, contudo, a soberania tinha
de lidar com os recursos e os serviços econômicos, com a gestão
dos modos de vida e com a melhoria e o desenvolvimento, assim
como com a regulação, a limitação e a prevenção. Os deveres e
responsabilidades do soberano tinham sido essencialmente políticos,
religiosos e militares até o século XVI. Com um mundo em expansão
abrindo‑se diante de um número crescente de Estados soberanos,
novos propósitos de governo foram passando ao primeiro plano
no reino econômico. As características do território e seu uso iam
adquirindo um novo significado.

119
Unidade II

A partir da proposta de Gottman, poderíamos pensar que, pelo lado da segurança,


o território aproxima-se do Estado e que, pelo lado da oportunidade, o território
relaciona‑se com o mercado. Mas a associação entre território e mercado começa nesse
momento ou é anterior?

Território e mercado, as origens

Na realidade, se seguirmos a interpretação de Karl Polanyi (1944), o ponto de partida


para pensar o mercado poderia ser a obtenção de bens distantes, como numa caça: “A
aplicação dos princípios observados na caça para obter bens encontrados fora dos limites
do distrito levou a certas formas de troca que nos apareceram, mais tarde, como comércio”.
Para esse autor, o comércio a longa distância é um resultado da localização geográfica
das mercadorias e da “divisão do trabalho” dada pela localização. Esse comércio muitas
vezes engendra mercados, uma instituição que envolve atos de permuta e, se o dinheiro é
utilizado, de compra e venda.

Segundo Fernand Braudel (1979, p. 12), a palavra mercado pode aplicar-se a todas as
formas de troca desde que ultrapassem a autossuficiência. Para ele “o mercado, mesmo
elementar, é o lugar predileto da oferta e da procura, do recurso a outrem, sem o que
não haveria economia no sentido comum da palavra, mas apenas uma vida ‘encerrada’ na
autossuficiência ou na não economia”.

Quando a fase de pura subsistência é ultrapassada, torna-se necessário que os excedentes


de cada grupo sejam trocados. É o momento da troca simples, do escambo. Mas esse tipo
primitivo de comércio não tem força para mudar a forma particular [pela qual] cada grupo
valoriza o tempo e o espaço. É o comércio especulativo que traz mudanças, por criar uma
nova relação social com a introdução da mercadoria e da moeda. A sociedade local tem de se
adaptar ao novo processo produtivo e às novas condições de cooperação (SANTOS, 1978). Não
há, portanto, história simples e linear do desenvolvimento dos mercados, sobretudo porque,
“uma vez que a troca é tão velha como a história dos homens, um estudo histórico do mercado
deveria estender-se à totalidade dos tempos vividos e situáveis” (BRAUDEL, 1979, p. 193).

Nas primitivas fases do desenvolvimento da cidade antiga, a ideia de mercado como ponto
de junção das rotas de comércio já era reconhecida. “Não há necessidade de duvidar que o
mercado apareceu inicialmente para regular a troca local, muito antes que qualquer ‘economia
de mercado’, baseada em transações tendo em vista um lucro monetário e a acumulação
de capital privado, viesse a existir” (MUMFORD, 1961, p. 85). Assim, para este autor, as duas
formas clássicas do mercado, a praça aberta ou o bazar coberto, e a rua de barracas ou de lojas,
possivelmente já tinham encontrado sua configuração urbana por volta de 2000 a.C.

Sem a pretensão de uma análise através do tempo multissecular, e seguindo a proposta


de Polanyi (1944), podemos continuar nossa indagação refletindo sobre a natureza dos
mercados, tanto locais quanto de longa distância. Para este autor, ambos os mercados
baseiam-se no princípio da complementaridade:
120
CIÊNCIA POLÍTICA

O mercado externo é uma transação; a questão é a ausência de alguns


tipos de mercadoria naquela região. O comércio local é limitado às
mercadorias da região, as quais não compensa transportar porque são
demasiado pesadas, volumosas ou perecíveis. Assim, tanto o comércio
exterior quanto o local são relativos à distância geográfica, sendo
um confinado às mercadorias que não podem superá-la e o outro às
que podem fazê-lo. Um comércio desse tipo é descrito corretamente
como complementar (POLANYI, 1944, p. 74).

Podemos pensar, então, que essa complementaridade implica uma divisão territorial do
trabalho. O intercâmbio de produtos é possível porque existe uma repartição do trabalho
vivo em diferentes lugares, mais ou menos próximos. Isso pressupõe, por sua vez, a existência
de certa especialização produtiva dos lugares.

Vejamos a trajetória dos mercados externos. Originalmente, o comércio exterior esteve


ligado à aventura, exploração, caça, pirataria e guerra. A partir dele, os mercados se
desenvolveram em todos os lugares onde os transportadores tinham de parar, nos vaus, portos
marítimos, cabeceiras de rios ou nos pontos onde as rotas de expedições se encontravam.
Podemos pensar no sistema de intercâmbios existentes na bacia do Mar Mediterrâneo no
mundo romano. Tecidos de Constantinopla, de Odessa, de Antioquia, de Alexandria, vinhos,
azeites e especiarias da Síria, papiros e trigos do Egito, da África e da Espanha, vinhos da Gália
e da Itália circulavam, unindo as duas grandes regiões do Império, o Oriente e o Ocidente.

O caso de Marselha, citado por Henry Pirenne (1925, p. 19) como o grande porto da
Gália até o começo do século VIII, pode ser um exemplo:

O movimento econômico de Marselha propaga-se naturalmente


ao hinterland [interior] do porto. Sob a sua influência, todo o
comércio da Gália se orienta para o Mediterrâneo. Os impostos mais
importantes do reino dos francos estão circunscritos aos arredores
da cidade: Fos, Arles, Tolun, Sorgues, Valência, Viena e Avinhão. Eis
uma prova evidente de que as mercadorias desembarcadas na cidade
eram expedidas para o interior. Pelo curso do Ródano e do Sena, assim
como pelas vias romanas, atingiam o norte do país.

O comércio de longo curso também exerceu grande influência no renascimento


econômico da Europa ocidental a partir do século XI, fundamentalmente sob a ação de dois
centros: Veneza e Flandres. Já no decorrer do século XIII, toda a Europa, do Mediterrâneo
ao Báltico e do Atlântico à Rússia, achava-se aberta ao grande comércio. Lãs finas da
Inglaterra, vinhos do Reno, especiarias e sedas do Oriente, armas da Lombardia, açafrão
e prata da Espanha, couros da Pomerânia, tecidos acabados de Flandres, ícones religiosos
e objetos devocionais de vários centros de arte circulavam por rotas marítimas e fluviais
avançando para o interior do continente. Esse comércio está sempre ligado à vida urbana,
com a atividade dos mercadores dinamizando o mundo dos negócios.
121
Unidade II

Pirenne (1925) atribui aos portos – “lugar por onde se transportam mercadorias,
portanto um ponto particular ativo de trânsito” – um papel central no estabelecimento
de cidades na Europa Ocidental. Já Lewis Mumford (1961) inverte essa equação, insistindo
em que o comércio de longa distância não produziu cidades medievais, mas promoveu seu
crescimento, como em Veneza, Gênova, Milão, Arras, Bruges, embora tenham sido fundadas
para outras finalidades:

A verdade, pois, está na interpretação contrária a Pirenne: foi a


revivescência da cidade protegida que ajudou a reabrir as rotas
de comércio regionais e internacionais e conduziu à circulação
transeuropeia dos bens excedentes, particularmente os artigos
de luxo, que podiam ser vendidos com altos lucros aos príncipes e
magnatas, ou os artigos suficientemente escassos no suprimento
local para serem pagos a bons preços (MUMFORD, 1961, p. 280).

Independentemente da origem das cidades medievais, o importante é destacar sua


relação com seus mercados externos e o modo como eles ajudavam a desenhar sua
topologia. O comércio a longa distância permitiu que as cidades estendessem suas trocas
bem além de suas muralhas, mobilizando parte importante da sociedade feudal e instalando
uma tendência à ampliação do comércio que não teria retorno nos próximos séculos. Não
apenas os grupos de mercadores, mas também as instituições feudais, especialmente a
Igreja, interessavam-se pelo comércio:

Já no século VIII os agentes dos mosteiros franceses mostravam-se


ativos em Flandres, comprando lã para manufatura. No comércio
de vinho da Borgonha, eram os mosteiros os centros importantes, e
as abadias no Loire e no Sena possuíam uma frota de embarcações
fluviais para executar seu comércio. Na Inglaterra, o mais antigo
estabelecimento de mercadores alemães parece ter sido uma ordem
de monges. Os cistercienses estavam por toda parte empenhados
ativamente no comércio de lã com mercadores flamengos e italianos
(DOBB, 1963, p. 105).

Claro que esse processo não foi linear, nem livre de conflitos. Por um lado, praticava-
se a pirataria como se fosse uma atividade industrial; os naufrágios eram constantes;
o mau estado dos caminhos tornava difícil e lento o trânsito terrestre. Por outro, a
atitude dos príncipes perante o comércio nem sempre era estimuladora. Criaram-se
alguns pedágios, que funcionavam como impostos afastados, a maioria das vezes, de
um propósito público.

A portagem da Idade Média, usurpada pelos príncipes territoriais,


tornou-se um mero direito fiscal que gravava de forma brutal o
trânsito. Nem um centavo do dito imposto se gastava em reparar os
caminhos ou em reconstruir as pontes (PIRENNE, 1933, p. 94).
122
CIÊNCIA POLÍTICA

Pode-se falar, outrossim, de uma geopolítica mediada pelo comércio, na qual as cidades
têm uma participação crescente. Por exemplo, com o objetivo de preservar os interesses
dos mercadores ao longo da costa do Mar Báltico, um grupo de cidades sob a liderança de
Lubeck formou uma associação comercial, conhecida como a Liga Hanseática, que chegou
a aglutinar numerosos centros urbanos. Mas as cidades não eram apenas protetoras dos
mercados, eram também um meio de impedi-los de se expandirem. Segundo Pirenne (1933,
p. 149), “entre as cidades italianas, as guerras são constantes e cada uma se empenha
em destruir o comércio das rivais, para aproveitar-se de sua ruína”. É assim que “essa
confederação de cidades marítimas alemãs, que oferece um contraste tão marcante com as
contíguas guerras das cidades italianas do Mediterrâneo” (p. 155), permite observar a dupla
relação das cidades medievais com os mercados, que elas tanto envolviam como impediam
de se desenvolver.

O Estado territorial, o mercado nacional

Os mercados a longa distância e os mercados locais não diferiam apenas em tamanho,


eles funcionavam separados dentro dos limites da cidade medieval. O comércio local
estava sujeito a uma rigorosa regulamentação (no caso dos alimentos, era exigida
publicidade obrigatória das transações e exclusão de intermediários e, no caso dos
artefatos industriais, a produção era regulada de acordo com as necessidades). Desde o
século XII promulgaram‑se pregões e ordenanças cujos textos versavam sobre:

[...] proibição de “recortar” os víveres, isto é, de comprá-los ao


camponês antes de chegarem à cidade; obrigação de levar diretamente
todos os gêneros ao mercado e expô-los [lá] até certa hora, sem
poder vendê‑los a pessoas que não fossem burgueses; proibição aos
carniceiros de conservar carne nos porões ou aos padeiros de obter
mais trigo do que o necessário para o seu próprio forno; proibição,
enfim, a cada burguês de comprar mais do que o suficiente para si e
para a família (PIRENNE, 1933, p. 181).

Tomavam-se essas medidas a fim de controlar o comércio e impedir a elevação dos


preços. Já o comércio a longa distância não era tão estritamente regulado, fugindo bastante
ao controle das administrações municipais. As grandes feiras, que desempenharam um papel
de primeira ordem enquanto prevaleceu o comércio errante, são um bom exemplo disso:
“O direito reconheceu às feiras uma situação privilegiada. O terreno em que se realizam é
protegido por uma paz especial, que estabelece castigos particularmente severos em caso
de infração” (PIRENNE, 1933, p. 105). Nos mercados locais, a única proibição que afetava
o mercador estrangeiro era a venda a varejo, podendo participar neles somente através de
corretores. Por sua vez, a produção para a exportação era apenas formalmente supervisada
pelas corporações de artesãos.

A separação estrita entre o comércio local e o de exportação não permitia, por sua vez,
espalhar essas práticas muito além das muralhas, impedindo a ampliação dos mercados:
123
Unidade II

Mantendo o princípio de um comércio local não competitivo e um


comércio a longa distância igualmente não competitivo, levado a
efeito de cidade a cidade, os burgueses dificultaram, por todos os
meios ao seu dispor, a inclusão do campo no compasso do comércio e
a abertura de um comércio indiscriminado entre as cidades e o campo
(POLANYI, 1944, p. 78).

Na prática, isso significa que as cidades fortificadas levantavam todos os obstáculos


possíveis para que os negócios e o comércio se difundissem pelos territórios vizinhos.

Os mercados medievais apresentavam-se como uma série de pontos, ficando muitos


vazios, à margem dos tráficos. Apesar de os mercadores organizarem ligações e constituírem
linhas de troca, sua ação não chega a espraiar-se como uma mancha sobre os territórios.
Não se criam superfícies mercantis contínuas: “O mapa comercial da Europa nesse período
mostraria corretamente apenas cidades, deixando em branco o campo – este pareceria não
existir no que concerne ao comércio organizado” (POLANYI, 1944, p. 77). Essas cidades,
que eram a expressão político-administrativa dos mercados, levantaram todo tipo de
obstáculos à formação de um mercado interno: sua preocupação era assegurar o caráter
não competitivo – isto é, monopólico – do comércio municipal e de longa distância.

Até a época de Revolução Comercial, o que pode nos parecer


como comércio nacional não era nacional, e sim municipal. Os
hanseáticos não eram mercadores germânicos; eles eram uma
corporação de oligarcas comerciais, sediados em diversas cidades
do mar do Norte e do Báltico. Longe de “nacionalizar” a vida
econômica germânica, a Hansa deliberadamente isolava o interior
do comércio. O comércio de Antuérpia ou Hamburgo, Veneza ou
Lyon não era, de forma alguma, holandês ou germânico, italiano
ou francês (POLANYI, 1944, p. 77).

Quando e como surge, então, o mercado nacional? Ele não é uma consequência direta,
“natural”, dos mercados já existentes? Por ser considerado um mercado intermediário, que
não se desenvolve espontaneamente a partir dos mercados anteriores, tanto locais quanto
a longa distância?

É com a formação dos Estados territoriais que chega seu processo correlato: a formação
dos mercados nacionais. São aqueles, e não as cidades-Estado, que facilitam a existência
de um sistema econômico integrado em grandes unidades territoriais. Criam-se superfícies
mercantis contínuas e delimitadas.

Talvez seja a contiguidade, como atributo central do Estado territorial, uma das escolhas
políticas de maior influência na história dos mercados. Para Camille Vallaux (1914, p. 309),
“não se registra transformação tão profunda nem tão rica em consequências, na história do
globo, como o advento da contiguidade sem interrupção dos Estados”.
124
CIÊNCIA POLÍTICA

Longe de ser uma evolução espontânea, trata-se de um processo de caráter basicamente


político, que acarreta oposições e confrontos:

O mercado nacional, finalmente, é uma rede de malhas irregulares,


frequentemente construída a despeito de tudo: a despeito das cidades
demasiado poderosas que têm sua política própria, das províncias que
recusam a centralização, das intervenções estrangeiras que acarretam
rupturas e brechas, sem contar interesses divergentes da produção e
das trocas, pensemos nos conflitos da França entre portos atlânticos
e portos mediterrânicos, entre interior e frente marítima. A despeito
também dos enclaves de autossuficiência que ninguém controla
(BRAUDEL, 1986, p. 265).

Podemos perguntar-nos, com Richard Rosecrance (1986), por que cidades como Veneza,
Gênova e os membros da Liga Hanseática, que acumularam grandes riquezas comerciando e
navegando por diferentes lugares do mundo, não formaram uma confederação de pequenos
Estados mantida por um comércio oceânico? Por que, então, não surgiu uma concepção
linear da organização estatal em lugar daquela baseada na superfície, na contiguidade,
fundamento do Estado territorial?

As cidades-Estado enredaram-se em conflitos de competência entre elas mesmas; o


comércio não era completamente livre nem carecia de obstáculos, e consequentemente
cada uma delas desejava reservar-se determinadas zonas para monopolizar seu comércio
ou para dispor do domínio sobre determinadas fontes de produtos-chave. As cidades mais
poderosas não raro tratavam de conquistar suas vizinhas mais fracas para suprimir um
mercado rival:

[...] uma das razões pelas que não se estabeleceu ao início da


Idade Moderna uma organização linear dos países foi porque as
cidades‑Estado comerciais mantiveram entre elas uma guerra
contínua e não foram capazes de estabelecer um esquema estável e
duradouro de cooperação (ROSECRANCE, 1986, p. 91).

A base puramente local das cidades muradas, a despeito do comércio a longa distância
que elas exerciam, é apontada por Mumford como uma de suas fraquezas:

Para que exercessem controle monopolístico dentro de seus muros,


era essencial que fossem capazes de governar o reino também fora
deles: isso implicava o hábito de harmonizar seus próprios interesses
com os do campo e, com o tempo, de provocar uma organização
federada de regiões em torno de cidades. Contudo, as normas reais
adotadas pelas mais poderosas e dinâmicas cidades medievais eram
agressivamente encaminhadas em direção oposta (MUMFORD,
1961, p. 366).
125
Unidade II

Na Europa ocidental o comércio interno ou nacional foi criado, sobretudo, por uma
vontade política. O Estado, que lentamente ia adquirindo seu caráter territorial, começou
a se projetar como o instrumento da “nacionalização” do mercado e criador do comércio
interno. Por sua vez, e em contraste com o comércio externo e o local:

[...] o comércio interno é essencialmente competitivo. Além das trocas


complementares, ele inclui um número muito maior de trocas nas
quais as mercadorias similares, de fontes diferentes, são oferecidas em
competição umas com as outras. Assim, somente com a emergência
do comércio interno ou nacional é que a competição tende a ser
aceita como princípio geral de comércio (POLANYI, 1944, p. 74).

Podemos pensar que à divisão espacial do trabalho e à especialização produtiva – base


dos mercados locais e externos – soma-se uma competitividade entre os lugares, trazida com
a criação dos mercados nacionais. Os limites que impõe o Estado territorial contribuiriam,
também, para esse processo.

Pouco a pouco foi-se estabelecendo, entre os séculos XVI e XVIII, a correspondência


entre estruturas territoriais, políticas e econômicas em bases nacionais. “A soberania
territorial tornou-se, no século XVII, e continua a ser, a base de um certo status de igualdade
entre os Estados, como a que deve existir entre os soberanos” (GOTTMAN, 1973, p. 54). E
esse processo foi acompanhado, de forma crescente, pela implementação das ideias e das
práticas do mercantilismo.

Fonte: Arroyo (2004, p. 49-57).

A suspeição do Estado é um caminho necessário, visto que a inércia, nesse caso, pode ser bastante
incômoda; o que é mais alarmante num Estado intensamente privatizado como o brasileiro. Milton
Santos (1994) dá-nos uma pista sobre a face problemática da institucionalização do poder via Estado.
A seguir destacamos um trecho do livro Técnica, Espaço, Tempo. Globalização e Meio Técnico-Científico
Informacional (1994).

Margem – E a questão do Estado e da nação?

Milton Santos – Há aí dois pontos. Uma coisa é dizer que Estado e nação
acabaram. Outra é discutir o que é o Estado. Nós, ocidentais e brancos, admitimos
a visão de Estado que vem da Europa, não temos a visão de um Estado de uma
tribo africana. Será que hoje a dimensão do Estado industrial, que chamaríamos
antes de supranacional, que tem o poder de impor regras a que não se pode
desobedecer, estaria acima do próprio Estado? O que representam hoje o Banco
Mundial, o FMI, a Unesco, o Grupo de Banqueiros de Paris etc.? Será que eles têm
a função tática de impor normas que terão que ser aceitas de uma forma ou de
outra? Porque o mundo se tornou global, então se globalizaram as relações, se
desmanchou aquela arquitetura política anterior, e se superimpõe uma estrutura
126
CIÊNCIA POLÍTICA

de nível mais alto? O discurso então é que não se tem mais o Estado, não se
precisa mais do Estado. Na verdade, precisa-se menos. Por quê? Pelo grau de
racionalidade técnica que a nossa sociedade atingiu. Aí reaparece a geografia:
o território também se tornou racional. No caso do Brasil, o território que está
em torno de São Paulo – nos estados de São Paulo, Paraná, Mato Grosso do
Sul – é organizado de forma extremamente racional, o que facilita o seu uso
racional pelos vetores hegemônicos da política, da sociedade, da economia.
Nesse contexto, realmente, o Estado não é tão necessário. É a “mão invisível”,
que se realiza através do espaço obediente, das grandes empresas e das grandes
organizações internacionais. É a volta da “mão invisível” do Smith, não é...?
(SANTOS, 1994, p. 179-180).

Pensando nas determinações históricas, nos atavismos das instituições e do conteúdo social que
as engendraram, temos, segundo as próprias questões de Milton Santos, movimentos com avanços e
retrocessos como parte de sua condição político-cultural, haja vista as forças em “acordos” e confrontos
no jogo social serem de cooperação sofrível.

Margem – Hoje existe um movimento interessante com relação à questão


das fronteiras. Temos a formação da Comunidade Europeia, temos as
questões nacionalistas na extinta URSS, parece que há uma confusão
generalizada envolvendo o problema. No seu livro Pensando o Espaço
do Homem, do início dos anos 1980, o senhor frisava a importância das
fronteiras e da defesa. Como o senhor abordaria hoje a questão?

Milton Santos – De um lado temos o Estado passando para este outro patamar
de que falávamos anteriormente. De outro, creio que o Estado‑nação continua
sendo uma unidade extremamente importante para o nosso estudo, em
virtude das heranças. Há uma série de heranças que são resultado da presença
do Estado, como o nosso comportamento etc. Mas também porque questões
como a das classes sociais são ligadas a uma arquitetura do Estado‑nação.
O cenário e os preços não são internacionais. O Estado-nação colocou o dedo
durante muito tempo nessas questões. Além do mais, o Estado teve um papel,
em certo momento, na consolidação de nações que continuam tendo peso.
Assim, o que está se desmantelando na Europa? É uma certa definição de
fronteiras. Mas será que isso vai permitir que a Europa se transforme numa
enorme geleia? Será que particularidades enraizadas não vão durar ainda
muito tempo? O que fica em cada país? Antes havia a fronteira, o dinheiro, a
língua, a nação. Acho que muita coisa vai continuar pesando ainda.

Margem – A quebra de fronteiras e as novas composições fazem então a


categoria de região voltar a ser discutida?

Milton Santos – É importante pensar como essa ideia de desterritorialização


se manifesta neste fim de século. Isso tem que ser pensado, porque o ataque à
127
Unidade II

fronteira hoje não acontece necessariamente por divisões. Existem outras formas
de desagregar um país. Sobretudo porque, muito mais do que antes, é possível
comandar, a distância, ações econômicas e políticas de forma dissimulada.
Portanto, a questão das fronteiras ganha uma nova dimensão, a partir de uma
nova definição do que seria a fronteira após esta invasão, por exemplo, pela
informação, pela mídia.

Margem – As fronteiras terão então perdido a sua materialidade? É possível


pensar nisto?

Milton Santos – Eu creio que não. Creio que a maior prova da materialidade
da fronteira é o contrabando (risos). O contrabando, as free-shops, as free‑zones
representam o atrito de duas moedas e de dois níveis de salários diferentes. Daí
os países serem obrigados a fazer as free-zones. O Brasil, que às vezes é precoce,
foi quem descobriu isso. Porque Manaus é uma cidade que responde a essa nova
materialidade da fronteira. É uma free‑zone destinada, de um lado, a ajudar o
Norte a se desenvolver e, de outro, a vender aos nossos bons vizinhos.

Margem – Seria então uma nova forma de fronteira, dada pelas moedas de
cada lado?

Milton Santos – Sim, pois o Estado mantém o monopólio da moeda. Na


Europa a última dificuldade a ser superada é exatamente esta. Como é que
fica se você aliena o monopólio da moeda? E mesmo assim você não muda
tudo. Eu não sei se o salário francês vai se igualar ao da Suíça, ou ao da
Espanha, não sei. As questões das classes e do salário, entre outras coisas, são
ligadas ao Estado-nação, e isso não se desmancha rapidamente. São temas
que temos que rever completamente. Perguntas como essas são desafios que
temos que aceitar como fundamentais (SANTOS, 1994, p. 180-181).

A atribuição de avanços e recuos políticos a determinados processos, e seus idealizadores, depende


dos pontos de vista e do envolvimento do observador, assim como a União Europeia foi rejeitada
pelo movimento de desintegração, o Brexit. Do mesmo modo, a exaltação ao ciberespaço (do tráfego
em bits) deve ser ponderada com as considerações sobre a completariedade da verdadeira sede dos
acontecimentos, o espaço geográfico (dos deslocamentos de átomos). Informações e corpos estão
associados nos objetos e na vida psicossocial, nos lugares, nas regiões e nas nações.

Nesse cenário, as soluções que a institucionalização do poder como Estado oferecem tornam-se
incômodas para as próprias utopias liberais (o liberalismo tem dificuldades na relação com o Estado,
requerendo até mesmo o neoliberalismo para dar conta das mudanças), bem como sua rejeição é
angustiante para as utopias libertadoras e libertárias (comunismo e anarquismo).

Vamos explorar o campo político internacional entre os Estados.

128
CIÊNCIA POLÍTICA

Resumo

Nesta unidade, estudamos as noções de Estado-nação, seu papel


como agente político e econômico privilegiado, bem como as reflexões
sobre sua realidade e as críticas a ele dirigidas. As teorias do Estado
colocam-no como figura central no campo das relações internacionais.
Sua constituição jurídica, política, geográfica, econômica e cultural
supõe as dimensões populacionais ou demográficas, espaciais ou
territoriais, com suas riquezas ambientais, seu caráter soberano e as
fronteiras de seu arcabouço.

Depois, acentuamos as distinções entre fronteira e limites, algo


importante para entendermos o Estado.

Conhecemos algumas visões de desenvolvimento, a convencional e as


alternativas, que estão na base do tratamento do Estado-nação.

Nesse contexto, destacamos as implicações sobre população,


demografia, povos e nação. Apresentamos o debate entre aqueles cuja
população equivale às reduções demográficas e aqueles que a tomam de
modo mais complexo, como povo (ou povos), por exemplo. As nações são
resultado de histórias de relacionamentos mais ou menos difíceis entre os
povos formadores.

Vimos que o Estado-nação é uma solução histórica de organização que,


como costuma acontecer, torna-se também um problema, carregando esse
problema para o campo internacional quando se relaciona com os demais
Estados territoriais.

Exercícios

Questão 1. Considere os itens a seguir:

I – Tem como característica o empreendimento de uma série de guerras, com o objetivo de dominar
a Europa.

II – Tem como característica a concentração e centralização de poderes num determinado território,


tendo como referencial a figura do monarca.

III – Tem como característica a ideia de que um corpo escolhido por cidadãos age em nome destes, e
tal corpo deve ser escolhido por meio de um procedimento eleitoral racionalmente estabelecido.

129
Unidade II

Sobre o Estado absolutista, é correto apenas o que se destaca em:

A) I e II.

B) Todos os itens estão corretos.

C) I e III.

D) II e III.

E) Nenhuma das alternativas anteriores está correta.

Resposta correta: alternativa A.

Análise das afirmativas

I) Afirmativa correta.

Justificativa: Luís XIV (1638-1715), rei da França (1643-1715), foi um dos maiores representantes do
Estado absolutista. Conhecido como Rei Sol, impôs um governo absolutista na França e empreendeu uma
série de guerras, com o objetivo de dominar a Europa. Seu reinado caracterizou-se pelo florescimento
da cultura francesa.

II) Afirmativa correta.

Justificativa: no Estado absolutista, o monarca representava a maior autoridade e seu principal


objetivo era manter a concentração e centralização de poderes.

III) Afirmativa incorreta.

Justificativa: em tempos de Estado absolutista, o procedimento eleitoral de escolha inexistiu para os


cidadãos. Na monarquia, a transmissão de poder tem ocorrido de forma hereditária.

Questão 2. Leia o texto a seguir de Bobbio, Matteucci e Pasquin (1998):

“Para a nossa geração, reentra agora, no seguro patrimônio do conhecimento científico, o fato de
o conceito de ‘Estado’ não ser um conceito universal, mas serve apenas para indicar e descrever uma
forma de ordenamento político surgida na Europa a partir do século XIII até o fim do século XVIII ou
início do XIX, na base de pressupostos e motivos específicos da história europeia e após esse período se
estendeu – libertando-se, de certa maneira, das suas condições originais e concretas de nascimento – a
todo o mundo civilizado. [...] Em tal sentido, o ‘Estado moderno europeu’ nos aparece como uma forma
de organização do poder historicamente determinada e, enquanto tal, caracterizada por conotações que
a tornam peculiar e diversa de outras formas, historicamente também determinadas e interiormente
homogêneas, de organização do poder”.
130
CIÊNCIA POLÍTICA

As alternativas a seguir destacam o Estado moderno e suas principais características, EXCETO:

A) A impessoalidade do comando político.

B) A racionalização da gestão do poder.

C) A territorialidade da sociedade.

D) A democracia representativa.

E) A restrição dos direitos humanos.

Resolução desta questão na plataforma.

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