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UNIDADE II

Ciência Política

Prof. Dr. Adilson Camacho


5. Estado, história e elementos essenciais

 “Imersos nas formas-Estado, compreenderemos facilmente que as sociedades


indígenas recorram a poderosos mecanismos para inibir o pleno desenvolvimento
delas – que já estão lá e atuam, presentes na aparente ausência. Da mesma forma e
inversamente, as sociedades indígenas nos concederão as grades de inteligibilidade
para que compreendamos a atuação das forças antiEstado entre nós, inibidas e,
contudo, presentes na aparente ausência. Tudo estará em tudo e reciprocamente [...]:
Estado entre os indígenas; antiEstado entre nós; Clastres, nos dilemas da antropologia
contemporânea e às avessas” (BARBOSA, 2004, p. 533-534).
 Seguimos pelos olhares disciplinares que miram os
principais traços do Estado; traços radicais, como aqueles
trazidos pelos antropólogos como Godelier e Clastres,
geógrafos como Claval, sofisticados, como o da sociologia
de Bourdieu. Pensamentos que abrem caminho para os
politólogos e economistas como Heilbroner.
5. Estado, história e elementos essenciais

 É preciso que se diga, alinhando-nos com Atilio A. Boron (1994), que houve
expansões e retrações históricas das estruturas estatais, o que é corroborado
pelas afirmações que destacamos de Paul Claval.

 Atilio A. Boron acusa certa negação de sua realidade,


principalmente no caso dos britânicos, advertindo que
“a realidade social existe independentemente de
nossas capacidades intelectuais para apreendê-la”
(1994, p. 244). O autor menciona o positivismo
reinante, que considera imprestáveis poder e Estado
ao desenvolvimento da pesquisa política. Claro, posto
que não são tangíveis, a não ser como expressão de
relações: são tipos, emergem com as forças sociais.
5. Estado, história e elementos essenciais

 Boron (1994) fala de formações estatais tardias (Alemanha e Itália) em


contraposição às anglo-saxãs (Estados Unidos da América e Reino Unido),
nas quais a iniciativa burguesa inibiu o aparato estatal...
 O Estado, que desde os anos 1930 foi um meio ideal de lidar com a crise, foi
convertido ideologicamente no “bode expiatório” e concebido como o fator que o
originou. Antes, nos fatídicos anos 1930, isso fazia parte da solução. Agora se
tornou – nas versões mais ululantes do neoliberalismo – a totalidade do problema
(BORON, 1994, p. 187).

 Atílio A. Boron cita decorrências de processos sociais


na América Latina, com sistema tributário pauperizador
e não devolutivo (1994, p. 195).
5. Estado, história e elementos essenciais

 Norberto Bobbio (1988) traz as noções de público e privado, que


assumem funções vitais na institucionalização das relações de poder,
nas configurações políticas.

 Robert Heilbroner (1988), na obra “A Natureza e a Lógica do Capitalismo”, ao


crivar detalhadamente o regime do capital (a composição e o movimento orgânico
da acumulação capitalista), passa à exposição dos papéis das esferas política e
econômica na distribuição do poder e na constituição do Estado nesse processo.

 Esse caminho também é trilhado por Atilio A. Boron


(1994). O autor fala em “estadolatria” para evidenciar
as posturas acríticas, naturalizantes, que tomam o
Estado como inexorável, destacando uma fatalidade.
5. Estado, história e elementos essenciais

 Diante de nossa “perplexidade” diante das declarações sobre a agonia e a morte


do Estado, pesquisadores sustentam o seguinte: “como resultado do declínio das
políticas econômicas neoliberais e da crise que atravessam a maioria das
economias latino-americanas, o papel econômico do Estado se verá fortalecido”
(BORON, 1994, p. 203).
 Em sua versão moderna, o Estado contém um conjunto
de organismos de decisão (Parlamento e governo) e de
execução (Administração Pública). Porém, o Estado é
mais amplo que o governo ou que a Administração
Pública.
5. Estado, história e elementos essenciais

 Em uma outra classificação, o Estado é integrado por três Poderes, a que


correspondem três funções básicas: o Legislativo, o Executivo e o Judiciário.
O primeiro estabelece as leis a serem seguidas por uma sociedade.

 Investido desses três Poderes, o Estado possui um caráter ambíguo: designa o


comando da comunidade, como autoridade soberana que se exerce sobre um
povo e um território determinados e, ao mesmo tempo, representa, por meio de
uma pessoa que o encarna, a Nação. Essa pessoa é o chefe de Estado,
correspondente, em um país como o nosso, ao presidente.
5. Estado, história e elementos essenciais

 Bresser-Pereira (2004, p. 4) estabelece uma distinção entre Estado-nação e


Estado. Para ele, enquanto o Estado-nação é o “ente político soberano no
concerto das demais nações, o Estado é a organização que, dentro desse país”
tem o poder de legislar e tributar a sociedade. O autor associa ao Estado tanto
uma dimensão de organização com “poder extroverso sobre a sociedade que lhe
dá origem e legitimidade” quanto o sistema constitucional-legal, “dotado de
coercibilidade sobre todos os membros do Estado nacional”
(COSTIN, 2010, p. 8-15).
5. Estado, história e elementos essenciais

O Estado brasileiro possui uma Administração Pública, fixada pelo Decreto-lei nº 200
de 1967. Uma definição operacional de Administração Pública:
 “decorre do que vimos anteriormente sobre o Estado. Inclui o conjunto de órgãos,
funcionários e procedimentos utilizados pelos três poderes que integram o Estado,
para realizar suas funções econômicas e os papéis que a sociedade lhe atribuiu no
momento histórico em consideração. Assim, temos dois qualificativos para
associar a esta afirmação: a Administração Pública não existe só no Executivo e
ela muda constantemente, pois as expectativas da sociedade em relação a ela e
às disputas que se fazem na esfera política para fazer valer propostas diferentes
de atuação estatal também são cambiantes”
(COSTIN, 2010, p. 27).
5. Estado, história e elementos essenciais

Claudia Costin cita Bresser-Pereira para tipificar a Administração Pública em três


formas históricas:

 Segundo Bresser-Pereira (1998, p. 20-22), há três formas de administrar o


Estado: a administração patrimonialista, a administração pública burocrática e a
administração pública gerencial, que outros autores chamam de pós-burocrática.
O autor tira o qualificativo de pública da administração patrimonialista, pois ela
não visaria ao interesse público (2010, p. 31).

 A autora também apresenta em seu livro os modos


básicos de alimentação do aparelho estatal, pela via
tributos, e de gastos públicos, via orçamento.
5. Estado, história e elementos essenciais

5.1 Teorias do Estado; melhor que Teoria Geral do Estado

 Todo esse processo – constituição de um campo; autonomização desse campo


em relação a outras necessidades; constituição de uma necessidade específica
em relação à necessidade econômica e doméstica; constituição de uma
reprodução específica de tipo burocrática, específica em relação
à reprodução doméstica, familiar (BOURDIEU, 2012).
5. Estado, história e elementos essenciais

5.1 Teorias do Estado; melhor que Teoria Geral do Estado

 Constituição de uma necessidade específica em relação à necessidade religiosa –


é inseparável de um processo de concentração e de constituição de uma nova
forma de recursos que são do universal, em todo caso, de um grau de
universalização superior àqueles que existiam antes. Passa-se do pequeno
mercado local ao mercado nacional, seja no nível econômico, seja no simbólico.
A gênese do Estado é, no fundo, inseparável da constituição de um monopólio
do universal, sendo a cultura o exemplo por excelência (BOURDIEU, 2012).
5. Estado, história e elementos essenciais

 Tradicionalmente se distinguem dois processos de formação do Estado: um


exógeno contra a empresa e o outro endógeno. O processo exógeno remete
a fenômenos de conquista de uma empresa por outra e à implantação de uma
instituição dominante sobre as populações conquistadas por parte da população
conquistadora. O processo endógeno remete à constituição progressiva de
formas de dominação exercida por uma parte da sociedade sobre os demais
membros (GODELIER, 1980, p. 667).

 As reflexões de Claval, Bourdieu e Clastres


levam-nos a considerar o Estado como alternativa
organizacional de encaminhamento do poder.
5. Estado, história e elementos essenciais

 O que Gustavo Baptista Barbosa (2004) destaca e propõe discutir do trabalho de


Pierre Clastres é a variedade histórica, raramente tratada (comumente ignorada),
como possibilidade em Ciência Política e no Direito.

 Na verdade, o tratamento que ele reservará ao “Estado” permite-nos


desterritorialização complementar de seu conceito de “sociedade”. O Estado,
afirma Clastres, “não é o Eliseu, a Casa Branca, o Kremlin”, mas o “acionamento
efetivo da relação de poder”: é o que nos faculta, por exemplo, afiançar que
haverá Estado entre os primitivos, presente na aparente ausência
(BARBOSA, 2004, p. 537).

 Isto é, o Estado não é coisa; não somente...


5. Estado, história e elementos essenciais

 A abordagem liberal “resolve” o problema do Estado mediante a admissão – sem


prévia análise ou discussão – de uma série de pressupostos que afirmam a
neutralidade de classe do Estado e a ausência de concentrações significativas de
poder político nas mãos de alguns grupos privilegiados (BORON, 1994, p. 248-249).

A interpretação predominante nas ciências sociais surgiu dentro da grande tradição


teórico-política-liberal – que percebe o Estado como o “espelho da sociedade”, como
a expressão de uma ordem social eminentemente consensual e representante de
toda a nação, e como o mercado neutro em que indivíduos e grupos trocam poder
e influência – foi radicalmente criticado por Karl Marx:

 para quem o Estado é a expressão midiatizada da


dominação política nas sociedades de classes.
5. Estado, história e elementos essenciais

 O materialismo histórico sustenta que as leis do movimento de um modo de


produção devem ser encontradas nas contradições estruturais entre as forças
produtivas e as relações sociais de produção [...].

 No pensamento liberal – e nem mesmo Max Weber escapou disso –, a sociedade


é concebida como a justaposição de uma série de “partes” diferentes, ordens ou
fatores institucionais, de acordo com o léxico usado por vários autores, que, em
sua existência, concreto-histórica pode ser combinada de várias maneiras.

 Isso impede que uma hierarquia de determinantes e


condicionamentos seja estabelecida, mesmo no nível
mais abstrato: aqui e agora, o econômico pode ser a
causa, mas amanhã pode ser simplesmente o efeito de
qualquer variável (BORON, 1994, p. 254-255).
5. Estado, história e elementos essenciais

 A diferença entre as teorias liberais e as do chamado “marxismo vulgar” reside no


seguinte: nas primeiras, a sociedade civil não é concebida como estruturalmente
fraturada pela existência de classes sociais; enquanto, nas segundas, a relevância
da diferenciação de classes ocupa um lugar fundamental e exclusivo.

No entanto, o economicismo arraigado de ambas as perspectivas termina na


anulação do Estado, completamente privado de iniciativa autônoma:
 construído a partir de uma competição desencadeada
entre interesses individuais e grupais, no discurso liberal.
Instrumento dócil da classe dominante, no caso do
marxismo vulgar, o problema da independência relativa
do Estado não pode sequer ser levantado, a menos que
se rompa com os pressupostos compartilhados por essas
duas perspectivas teóricas (BORON, 1994, p. 250-251).
Interatividade

Assinale a alternativa correta sobre a institucionalização da política como


aparato estatal:

a) Há exclusividade da dimensão política na constituição do Estado.


b) As perspectivas de análise funcionalistas tomam o Estado como agente
regulador neutro.
c) O Estado é uma solução política exclusiva, a mais avançada.
d) A ciência política nada tem a ganhar com os estudos
antropológicos sobre as organizações do poder.
e) Não tem cabimento falar em universalização das
relações sociais locais e regionais para designar
o Estado.
Resposta

Assinale a alternativa correta sobre a institucionalização da política como


aparato estatal:

a) Há exclusividade da dimensão política na constituição do Estado.


b) As perspectivas de análise funcionalistas tomam o Estado como agente
regulador neutro.
c) O Estado é uma solução política exclusiva, a mais avançada.
d) A ciência política nada tem a ganhar com os estudos
antropológicos sobre as organizações do poder.
e) Não tem cabimento falar em universalização das
relações sociais locais e regionais para designar
o Estado.
5. Estado, história e elementos essenciais

5.1.1 População e demografia

 Definida como um todo, a população é uma coleção de seres humanos. Ela é um


conjunto finito e, portanto, em um dado momento, “recenseável”. Esse ponto é
bastante significativo porque, se a população pode ser contada, implica que dela
podemos ter uma imagem relativamente precisa. Ainda que essa imagem, um
número, não possa ser (como não é) estável, pois se modifica o tempo todo.
 Contudo, é por esse número que a organização que
realizou o recenseamento dispõe de uma representação
da população. Sem dúvida é uma representação
abstrata e resumida, mas já satisfatória para permitir
uma intervenção que busca a eficácia. Soma-se o
conhecimento da geografia da população, cuja distinção
é o foco territorial.
5. Estado, história e elementos essenciais

 O recenseamento permite conhecer a extensão de um recurso (que implica


também um custo), no caso, a população. Nessa relação que é o recenseamento,
por meio da imagem do número, o Estado ou qualquer tipo de organização,
procura aumentar sua informação sobre um grupo e, por consequência,
seu domínio sobre ele.
 Mas a essa empresa do poder corresponde à resistência
ao poder e talvez aí resida o caráter ambivalente da
população. A população é concebida como um recurso,
um trunfo, portanto, mas também como um elemento
atuante. A população é mesmo o fundamento e a fonte
de todos os atores sociais, de todas as organizações.
Sem dúvida é um recurso, mas também um entrave no
jogo relacional (RAFFESTIN, 1993, p. 67).
5. Estado, história e elementos essenciais

 As políticas populacionais no Brasil, no final do século XX, ficaram muito


contaminadas por uma associação espúria entre política populacional, planejamento
familiar e controle da natalidade. Entretanto, esses três conceitos não são sinônimos.
 Uma política populacional refere-se aos três componentes da dinâmica demográfica:
mortalidade, natalidade e migração.
 Planejamento familiar, um termo ambíguo e que serve a vários propósitos, tem a ver
com idade ao casar e do primeiro filho, espaçamento das gestações, “parturição por
terminação”, e métodos de concepção e contracepção.
 O controle da natalidade torna-se uma forma coercitiva
de planejamento familiar se for adotado como exigência
do Estado.
5. Estado, história e elementos essenciais

 As políticas populacionais ocorrem por meio de ações voltadas para a dinâmica


demográfica visando ao bem público e ao acesso da população às fontes de
emprego, ao sistema de educação, aos programas de saúde e a outros direitos
econômicos, sociais e culturais (ALVES, 2006, p. 9-10).
5. Estado, história e elementos essenciais

 A imagem a seguir “apresenta um esboço da abrangência, do caráter, dos meios


e dos níveis das políticas populacionais”. Há problemas de clareza na legislação
na comunicação dessas questões. Também há países que “não possuem uma
política populacional explícita e intencional”. Destaca-se a impossível
neutralidade, mesmo quando declarada em relação às metas traçadas para o
comportamento demográfico, pois “dificilmente as políticas sociais de um país
deixam de ter, em um sentido ou noutro, algum efeito sobre a dinâmica
demográfica” (ALVES, 2006, p. 9-10).
5. Estado, história e elementos essenciais

Mortalidade/esperança de vida
Sobre a dinâmica demográfica Natalidade/fecundidade/fertilidade
Migração nacional e internacional
Nupcialidade
Expansionista (natalista)
Sobre o ritmo de crescimento Reducionista (controlista)
Neutra (laissez-faire)
Individual
Sobre o nível de aplicação Familiar (casal)
Institucional
Pública
Sobre o caráter das políticas
Privada
Sobre a transparência dos Implícita
objetivos Explícita
5. Estado, história e elementos essenciais

 Foucault (2008, p. 103), em sua perspectiva genética da população, toma os


conceitos, animando-os e lhes conferindo sentido histórico. Como é o caso do
conceito população, que, após a problematização dos seres vivos nas áreas de
história natural, da biologia, da linguística, da economia e da política, população
passou de um a outro, enriquecendo-se no percurso que o autor denomina “jogo
incessante entre as técnicas de poder e o objeto destas que foi pouco a pouco
recortando no real, como campo da realidade, a população e seus
fenômenos específicos”.
5. Estado, história e elementos essenciais

 É a partir da constituição da população como correlato, das técnicas de poder que


podemos ver abrir toda uma série de domínios de objetos para saberes possíveis.
E, em contrapartida, foi porque esses saberes recortavam sem cessar novos
objetos que a população pôde se constituir, se continuar, se manter como
correlativo privilegiado dos modernos mecanismos de poder (FOUCAULT,
2008, p. 103).
5. Estado, história e elementos essenciais

 Daí esta consequência: a temática do homem pelas ciências humanas que o analisam
como ser vivo, indivíduo trabalhador, sujeito falante, deve ser compreendida a partir da
emergência da população como correlato de poder e como objeto de saber. O homem,
afinal de contas, tal como foi pensado, definido a partir das ciências ditas humanas do
século XIX e, tal como foi refletido no humanismo do século XIX, esse homem nada
mais é finalmente que uma figura da população. Ou, digamos ainda, se é verdade que,
enquanto o problema do poder se formulava dentro da teoria da soberania, em face da
soberania não podia existir o homem, mas apenas a noção jurídica de sujeito de direito.
 “A partir do momento em que, ao contrário, como vis-à-vis
não da soberania, mas do governo, da arte de governar,
teve-se a população, creio que podemos dizer que o homem
foi para a população o que o sujeito de direito havia sido
para o soberano [...]” (FOUCAULT, 2008, p. 103).
5. Estado, história e elementos essenciais

 Os deslocamentos de populações em contextos variados e envolvendo ao longo


do tempo escalas espaciais diferenciadas conferiram complexidade crescente ao
conceito de mobilidade como expressão de organizações sociais, situações
conjunturais e relações de trabalho particulares. A cada nova ordem política
mundial correspondeu uma nova ordem econômica com a emergência de novos
fluxos demográficos.
 Entretanto, a ameaça de crescente flexibilização dos mercados de trabalho com o
aumento da exclusão social, ao lado das já visíveis mudanças nas configurações
étnico-culturais das áreas de destino, tem impelido a construção de novos “muros
da vergonha”. “[...] esse é um movimento que se opõe aos
fluxos migratórios e que aponta para a formação de um
novo ‘muro’ separando ricos e pobres – os novos ‘blocos
de poder’ – não mais ideológicos, mas essencialmente
econômicos” (BECKER, 1997, p. 319-320).
5. Estado, história e elementos essenciais

 A migração de grupos significativos que a autora periodiza lança normalmente


grandes contingentes populacionais em uma condição instável e de precariedade
jurídica, econômica e cultural. A mobilidade de indivíduos por vontade própria,
com vistas à melhoria de vida, não se configura como problema geográfico e
psicossocial, portanto, não requer atenção emergencial e respostas urgentes de
políticas públicas, são ações planejadas.

 A migração como objeto de análise das ciências sociais


[...] pode ser definida como mobilidade espacial da
população. Sendo um mecanismo de deslocamento
populacional, reflete mudanças nas relações entre as
pessoas (relações de produção) e entre essas e o seu
ambiente físico.
Interatividade

Assinale a alternativa correta acerca dos aspectos populacionais dos Estados:

a) Estudos de população e sociológicos são idênticos.


b) Geografia da população e demografia são similares.
c) Os estudos das populações são importantes à realização de políticas, porém
servem também à manipulação, estatística, por exemplo.
d) Foucault faz alusões quantitativas sobre as implicações dos
estudos populacionais.
e) Todos os países esforçam-se sobre seus dados
demográficos ou populacionais para elaboração de
políticas públicas universais.
Resposta

Assinale a alternativa correta acerca dos aspectos populacionais dos Estados:

a) Estudos de população e sociológicos são idênticos.


b) Geografia da população e demografia são similares.
c) Os estudos das populações são importantes à realização de políticas, porém
servem também à manipulação, estatística, por exemplo.
d) Foucault faz alusões quantitativas sobre as implicações dos
estudos populacionais.
e) Todos os países esforçam-se sobre seus dados
demográficos ou populacionais para elaboração de
políticas públicas universais.
5. Estado, história e elementos essenciais

5.1.2 Território, aspectos físicos, biológicos e culturais

 Ratzel, no século XIX, investe no conceito de Estado uma série de elementos


normalmente desconsiderados, sobretudo as condições ambientais (referidas por
solo) e culturais (modos de trabalho e organização sociais mais amplas).

Corrêa (1981, p. 104 apud RATZEL, 1983) destaca o seguinte:


 Mas, não só a sociedade e o Estado têm uma base
territorial, mas com esta se relacionam. Por isso, diz
Ratzel, “A sociedade é o intermediário pelo qual o Estado
se une ao solo. Segue-se que as relações da sociedade
com o solo afetam a natureza do Estado em qualquer
fase do seu desenvolvimento que se considere”.
5. Estado, história e elementos essenciais

Para Milton Santos:

 Por território entende-se, geralmente, a extensão apropriada e usada. Mas o


sentido da palavra territorialidade como sinônimo de pertencer àquilo que nos
pertence [...], esse sentimento de exclusividade e limite ultrapassa a raça humana
e prescinde da existência de Estado. Assim, essa ideia de territorialidade se
estende aos próprios animais, como sinônimo de área de vivência e de reprodução.
Mas a territorialidade humana pressupõe também a preocupação com o destino, a
construção do futuro, o que, entre os seres vivos, é privilégio do homem.

 Em um sentido mais restrito, o território é um nome


político para o espaço de um país. Em outras palavras,
a existência de um país supõe um território (SANTOS;
SILVEIRA, 2006, p. 19-22).
5. Estado, história e elementos essenciais

5.1.3 Governo: soberania e autonomia

 Pouco a pouco foi-se estabelecendo, entre os séculos XVI e XVIII, a


correspondência entre estruturas territoriais, políticas e econômicas em bases
nacionais. “A soberania territorial tornou-se, no século XVII, e continua a ser, a
base de um certo status de igualdade entre os Estados, como a que deve existir
entre os soberanos” [...]. E esse processo foi acompanhado, de forma crescente,
pela implementação das ideias e das práticas do mercantilismo
(ARROYO, 2004, p. 49-57).
5. Estado, história e elementos essenciais

 O Tratado de Westfália de 1648 traz a primeira base legal do sistema interestatal


moderno, já que reconhece a soberania de cada Estado no seu território e implica
a obrigação de não interferir nos assuntos internos de outros Estados. A soberania
territorial transforma-se, assim, em uma atribuição do Estado com relação ao
controle exclusivo de um âmbito geográfico definido. O território torna-se uma
categoria do Direito Internacional (ARROYO, 2004, p. 49-57).
5. Estado, história e elementos essenciais

 Em um sentido mais restrito, o território é um nome político para o espaço de um


país. Em outras palavras, a existência de um país supõe um território
(MARTIN, 1998, p. 46-48).
5. Estado, história e elementos essenciais

 Conforme Lia Machado (1998, p. 41-49), os limites e fronteiras, normalmente, são


tomados como sinônimos, embora existam diferenças fundamentais entre eles. O
conceito fronteira significa “aquilo que está na frente”, cuja origem está ligada às
dinâmicas das sociedades expandindo seu mundo vivido, suas atividades, até que
se encontrem; formando-se, assim, espaços de comunicação e de política. Tal é o
sentido de fronteira quando nos referimos aos casos das “fronteiras agrícolas”,
“fronteiras migratórias”, entre outras.
5. Estado, história e elementos essenciais

 Já a acepção de limite indica mais o fim, “membranas” ou “películas” envoltórias


de conjuntos (territórios das populações), daí seu uso político (soberania dos
Estados-nação). O chamado “marco de fronteira” é, na verdade, um símbolo
visível do limite. O limite pode ser traçado em escritórios, não requerendo, em
suas localizações, vida social. É abstrato, generalizado nas formas de leis
nacionais e internacionais. O limite pode estar distante dos desejos e aspirações
dos habitantes da fronteira (MACHADO, 1998, p. 48).
5. Estado, história e elementos essenciais

Quanto às transformações do Estado, acentuamos:


 Essa evolução perversa (da tirania financeira desde o fim de Bretton Woods)
adquiriu novas dimensões a partir de 1985, com a aceleração exponencial do
processo de “financeirização” acompanhado por sucessivas crises, cada vez mais
frequentes e com efeitos cada vez mais devastadores sobre as economias da
periferia capitalista mundial. De maneira tal que vários analistas e economistas do
próprio mundo anglo-saxão vêm considerando, de forma cada vez mais séria,
a hipótese de que o capitalismo global esteja perdendo sua aura de infalibilidade,
e de que, portanto, a simples competição intercapitalista em mercados
desregulados e globalizados não assegure o
desenvolvimento, muito menos a convergência entre as
economias nacionais do centro e da periferia do sistema
capitalista mundial (FIORI, 1999, p. 14).
Interatividade

Assinale a alternativa correta sobre o papel do território no Estado nacional:

a) Estado territorial é antagônico ao Estado nacional.


b) Território tem tanto um sentido ligado às práticas sociais quanto ligado ao
plano institucional.
c) Território, para Ratzel, é o solo de plantio, pois sua preocupação é com a
produção agrária.
d) Fronteiras e soberania são conceitos inconciliáveis.
e) Limites e fronteiras são equivalentes.
Resposta

Assinale a alternativa correta sobre o papel do território no Estado nacional:

a) Estado territorial é antagônico ao Estado nacional.


b) Território tem tanto um sentido ligado às práticas sociais quanto ligado ao
plano institucional.
c) Território, para Ratzel, é o solo de plantio, pois sua preocupação é com a
produção agrária.
d) Fronteiras e soberania são conceitos inconciliáveis.
e) Limites e fronteiras são equivalentes.
6. O Estado contemporâneo: população ou povos? Fracasso da
autodeterminação

 Se dissermos, seguindo Lefebvre, que só existe o poder político, isso significa,


levando-se em consideração o que precedeu, que o fato político não está
inteiramente refugiado no Estado. Com efeito, se o fato político atinge a sua
forma mais acabada no Estado, isso não implica que não caracterize outras
comunidades: “Estudando de forma comparativa o poder em todas as
coletividades, pode-se descobrir as diferenças entre o poder no Estado e o poder
nas outras comunidades” [Maurice Duverger]. Para uma discussão do fato político,
remetemos a Balandier. Admitimos que há poder político desde o momento em
que uma organização luta contra a entropia que a ameaça de desordem.
Essa definição, inspirada em Balandier, nos faz descobrir
que o poder político é congruente a toda forma de
organização (RAFFESTIN, 1993, p. 17-18).
6. O Estado contemporâneo: população ou povos? Fracasso da
autodeterminação

6.1 Povos: quem são o povo, a nação e os estrangeiros

 Qual é a questão fundamental da democracia? Constituições democráticas e os


titulares de funções do seu respectivo sistema de dominação preferem falar – e
falam mais frequentemente – do “povo”. A razão disso é simples: eles precisam
justificar-se como todas as formas de poder. E aqui a invocação do povo fornece
a legitimação mais plausível.
 Não obstante – e, se olharmos o problema mais de
perto: justamente por essa razão –, a simples pergunta
“Quem é esse povo?” nunca é formulada como uma
pergunta analítica. Supõe-se tacitamente que, afinal de
contas, todos saibam quem é esse povo. Eis um típico
discurso de legitimação que tranquiliza em vez de criar
transparência (MÜLLER, 2009, p. 93-94).
6. O Estado contemporâneo: população ou povos? Fracasso da
autodeterminação

 Então, quem é o povo? Friedrich Müller (2009) afirma que essa pergunta está na
base da democracia moderna, acentuando que o conceito povo tem inumeráveis
atribuições.
 O termo “democracia” deriva etimologicamente da noção de povo – demo (povo),
e cracia (poder) –, e significa poder do povo. Entretanto, são muitos os
descaminhos, e há muita retórica nos discursos.
 Darcy Ribeiro (1995) faz brilhante aproximação do povo
brasileiro considerando a mistura dos grupos negros,
brancos e índios derivando novos grupos. Do ponto de
vista sociológico, pode-se procurar os grupos sociais
que se identificam por meio dos mesmos papéis e
status. Também há o sentido político-cultural que
adquire valor em meio às relações de poder das
classificações dos membros da sociedade.
6. O Estado contemporâneo: população ou povos? Fracasso da
autodeterminação

6.2 Estado-nação como solução e problema

 Segundo Mónica Arroyo, “a convergência de território, mercado e Estado é um


processo histórico e, ao mesmo tempo, conceitual, perfeitamente datado”
(ARROYO, 2004, p. 49). Ela questiona a forma pela qual essa convergência se
desenvolveu no continente europeu para, por fim, chegar aos territórios coloniais
e refletir, em particular, sobre a América Latina.
6. O Estado contemporâneo: população ou povos? Fracasso da
autodeterminação

 Talvez seja a contiguidade (territorial), como atributo central do Estado territorial,


uma das escolhas políticas de maior influência na história dos mercados.
Longe de ser uma evolução espontânea, trata-se de um processo de caráter
basicamente político, que acarreta oposições e confrontos:
 O mercado nacional, finalmente, é uma rede de malhas irregulares,
frequentemente construída a despeito de tudo: a despeito das cidades demasiado
poderosas que têm sua política própria, das províncias que recusam a
centralização, das intervenções estrangeiras que acarretam rupturas e brechas,
sem contar interesses divergentes da produção e das
trocas, pensemos nos conflitos da França entre portos
atlânticos e portos mediterrânicos, entre interior e frente
marítima. A despeito também dos enclaves de
autossuficiência que ninguém controla
(BRAUDEL, 1986, p. 265).
6. O Estado contemporâneo: população ou povos? Fracasso da
autodeterminação

 O Estado, que desde os anos 1930 foi um meio ideal de lidar com a crise, foi
convertido ideologicamente no “bode expiatório” e concebido como o fator que o
originou. Antes, isso fazia parte da solução, agora se tornou – nas versões mais
ululantes do neoliberalismo – a totalidade do problema (BORON, 1994, p. 187).
 A suspeição do Estado é um caminho necessário, posto que a inércia, nesse
caso, pode ser bastante incômoda; o que é mais alarmante junto a um Estado
intensamente privatizado como o brasileiro.
 Cabe menção ao tratamento crítico de Robert
Heilbroner, em “A natureza e a lógica do capitalismo”,
no qual o autor especula e teoriza acerca das relações
entre as esferas formadoras do Estado nacional,
refletindo sobre a dominação ou redução à instância
econômica (1988, C.4).
6. O Estado contemporâneo: população ou povos? Fracasso da
autodeterminação

 Milton Santos, nesta entrevista (1994), dá-nos uma pista sobre a face problemática
da institucionalização do poder via Estado.
 Margem – E a questão do Estado e da nação?
 Milton Santos – Há aí dois pontos. Uma coisa é dizer que Estado e nação
acabaram. Outra é discutir o que é o Estado. Nós, ocidentais e brancos, admitimos
a visão de Estado que vem da Europa, não temos a visão de um Estado de uma
tribo africana. Será que hoje a dimensão do Estado industrial, que chamaríamos
antes de supranacional, que tem o poder de impor regras a que não
se pode desobedecer, estaria acima do próprio Estado?
O que representam hoje o Banco Mundial, o FMI, a Unesco,
o Grupo de Banqueiros de Paris etc.? Será que eles têm a
função tática de impor normas que terão que ser aceitas de
uma forma ou de outra? (SANTOS, 1994, p. 179-180).
6. O Estado contemporâneo: população ou povos? Fracasso da
autodeterminação

Milton Santos continua:

 Porque o mundo se tornou global, então se globalizaram as relações, se


desmanchou aquela arquitetura política anterior, e se superimpõe uma estrutura
de nível mais alto? O discurso então é que não se tem mais o Estado, não se
precisa mais do Estado. Na verdade, precisa-se menos. Por quê? Pelo grau de
racionalidade técnica que a nossa sociedade atingiu. Aí reaparece a geografia: o
território também se tornou racional.
6. O Estado contemporâneo: população ou povos? Fracasso da
autodeterminação

 No caso do Brasil, o território que está em torno de São Paulo – nos estados de
São Paulo, Paraná, Mato Grosso do Sul – é organizado de forma extremamente
racional, o que facilita o seu uso racional pelos vetores hegemónicos da política,
da sociedade, da economia. Nesse contexto, realmente, o Estado não é tão
necessário. É a “mão invisível”, que se realiza através do espaço obediente, das
grandes empresas e das grandes organizações internacionais. É a volta da “mão
invisível” do Smith, não é...? (SANTOS, 1994, p. 179-180).
Interatividade

Assinale a alternativa correta quanto às bases do Estado-nação.

a) O Estado é uma espécie de espelho da nação, principalmente para o marxismo.


b) O Estado, para Robert Heilbroner e para Atílio A. Boron, é a única solução
política para a organização do poder.
c) Milton Santos acha que o Estado está em vias de acabar.
d) A discussão nacional é antiquada.
e) As relações entre nação e povos devem ser
necessariamente tratadas em suas tensões
culturais e políticas.
Resposta

Assinale a alternativa correta quanto às bases do Estado-nação.

a) O Estado é uma espécie de espelho da nação, principalmente para o marxismo.


b) O Estado, para Robert Heilbroner e para Atílio A. Boron, é a única solução
política para a organização do poder.
c) Milton Santos acha que o Estado está em vias de acabar.
d) A discussão nacional é antiquada.
e) As relações entre nação e povos devem ser
necessariamente tratadas em suas tensões
culturais e políticas.
ATÉ A PRÓXIMA!

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