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Luísa

Ducla Soares
Contos para Rir
Esta obra foi digitalizada e corrigida pelo Serviço de Leitura Especial
da Biblioteca Municipal de Viana do Castelo. Destina-se unicamente a pessoas
com necessidades especiais e não tem fins comerciais.
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A tradição portuguesa é rica em contos divertidos, que já fizeram rir muita gente
sisuda ao longo dos séculos.
Luísa Ducla Soares reconta-os agora, à sua maneira, acrescentando-lhes novas
peripécias e uma dose redobrada de humor
Vão ver como os tesouros da cultura popular, transmitidos de geração em
geração, nunca perdem a actualidade, a graça, a frescura.
E sorriam, riam, soltem umas saudáveis gargalhadas!
Luísa Ducla Soares
Contos para Rir
Ilustrações de Sandra Abafa
Pedro das Malasartes
Uma viúva morava num monte com seu único filho, chamado Pedro. Por ser
tonto, tonto e para nada mostrar jeito ou arte, todos o conheciam por Pedro das
Malasartes. Certo dia ela pediu-lhe que fosse buscar um porco â quinta dos
vizinhos.
- Trá-lo com muito cuidado. Vê lá que ele não te fuja. Passaram horas, mais
horas e o rapaz sem voltar. Meteu-se a mãe ao caminho, aflita, para ver se o
encontrava. Achou-o estendido no chão, a meio da estrada, com o porco enorme
em cima da barriga.
- Então, que te aconteceu?
-Trouxe o bicho ao colo para não se cansar. Mas não aguento tanto peso.
Ela ajudou-o a levantar-se, atou uma cordinha à pata do animal, conduzindo-o
assim até casa.
- Aprendeste como deves fazer? Fixaste mesmo?
- Com uma cordinha, com uma cordinha... -repetia o moço, para o ensinamento
não lhe sair da cabeça.
Na manhã seguinte, a mãe mandou-o trazer umas garrafas de vinho.
Pedro foi à adega, atou um cordel a cada garrafa e assim as foi arrastando, aos
safanões, por entre as pedras. Claro que quando entrou na cozinha as garrafas
estavam todas partidas. Do vinho... nem sinal!
A pobre mulher levou as mãos à cabeça.
- Ai, que parvoíce! Para a próxima vez põe as garrafas num cesto com palha para
não se partirem.
- Nunca mais me vou esquecer! - prometeu o filho, obediente.
De manhã à noite a mãe trabalhava na costura para ganhar o sustento de ambos
mas, a dada altura, faltaram-lhe as agulhas. Prestável como era, o rapaz
imediatamente se ofereceu para ir comprar meia dúzia delas à aldeia.
Dessa vez foi num pé e veio no outro.
- Fiz tudo direitinho, não tem que se preocupar. querida mãe. Aqui estão as
agulhas num cesto cheio de palha para não se partirem.
Perdeu a desgraçada a tarde inteira a remexer na palha, picou os dedos. Mesmo
assim, só conseguiu encontrar uma.
- O melhor é não contar com ele para os recados - concluiu desiludida.
Sem nada que fazer, resolveu o pateta refrescar-se numa poça de lama. Deitou-se
lá dentro, rebolou-se, rindo à gargalhada com a brincadeira.
Quando a mãe o viu todo sujo, começou a barafustar.
- Que porcaria! Vai já ao rio lavar essa roupa nojenta! Só te quero de volta
quando estiveres limpo..
- Mas como é que eu vou saber se a roupa está bem lavada?
- Ora, pergunta ia alguém que vá a passar...
Despiu-se o rapaz na praia, ajoelhou-se na areia e começou a esfregar com
quanta força tinha a camisa, as calças, as cuecas, as meias, as botas.
Já estava farto de esfregar quando surgiu, junto á outra margem, um barquito de
pesca.
- Ó do barco, acudam-me, acudam-me, que estou numa aflição! - pôs-se o rapaz
a gritar, entrando pelo rio dentro até ao pescoço.
Por cuidar que algum banhista se afogava, atirou-se o pescador pela borda fora
para o salvar.
Quando chegou ao pé do moço e este lhe perguntou se a roupa estava bem
lavada, o homem até espumou de raiva.
- Atiro-me eu à água, vestido, para isto?! Vou obrigar-te a dar um mergulho, para
veres como é bom! Vais-me pagar!
- Ai, ai, ai! Não posso pagar-lhe de outra maneira? Tenho medo dos mergulhos...
- Deseja-me muito vento para navegar à vela e não criar calos a remar - disse o
pescador, compreendendo que o jovem tinha um parafuso a menos.
- Muito vento! Que nunca lhe falte o vento! Vento, vento e mais vento!
Pedro das Malasartes vestiu a roupa a pingar, deitou pernas à estrada.
Não tardou muito que encontrasse um terreiro onde os feirantes estavam a
montar os seus toldos de lona e a espalhar as mercadorias.
- Viva! - exclamou o rapaz, louco por feiras, e, para ser simpático, acrescentou -
"Que se levante muito vento! Que nunca falte o vento!"
As ciganas, que acreditavam em pragas, receando ver os seus montes de
camisolas voarem pelos ares, ficaram furiosas. Um vendedor de loiça, um pouco
mais calmo, explicou-lhe:
- Não percebes que o vento atira abaixo os toldos e a mercadoria? O que tu deves
dizer é o seguinte: "É preciso que não caia nada."
O nosso rapazola prometeu fixar a lição.
Para evitar mais críticas, protestos das pessoas, meteu-se pelo mato. Ao menos a
bicharada não implicava com ele. Para seu azar, sendo época de caça, deu com
um grupo de caçadores. Educado como era, dirigiu-lhes logo a palavra.
- Ora muito bom-dia! Só desejo que "hoje não caia nada."
- O quê? - irritaram-se os homens. - Merecias um tiro... É preciso que caiam
patos, perdizes, coelhos. A quem vem à caça deve desejar-se "muito sangue".
- Não me esqueço - assegurou o rapaz. - "Muito sangue! Muito sangue!"
Como o barulho dos disparos não lhe agradava, rapidamente desandou dali.
Só parou na vila, Aí o rebuliço era grande. Dois matulões estavam a jogar à
pancada e ninguém era capaz de os separar.
Curioso. Pedro aproximou-se. Como não conseguia ficar calado, papagueou a
última coisa que lhe tinham ensinado.
- O que é preciso é muito sangue! “Muito sangue! Muito sangue!”
Um polícia agarrou-o por uma orelha, ameaçador:
- Queres ir para a prisão por convite à violência? O que deves dizer é: "Que se
separem depressa!"
Com medo de ser levado para a esquadra, o moço largou a correr.
No largo tudo era finalmente paz. Os sinos tocavam, da igreja saía um cortejo de
casamento. Como os convidados vinham cumprimentar os noivos, ele não quis
ficar atrás. Aproximou-se do parzinho recém-casado, feliz por apresentar
também os seus votos.
“Que se separem depressa! Que se separem depressa!"
A noiva, furiosa, atirou-lhe com o ramo de rosas ã cara. Foi preciso os
convidados agarrarem o noivo para ele não lhe pregar duas bofetadas.
Um dos convidados, que já o conhecia, pretendeu dar-lhe uma lição.
- Para a outra vez dizes: "Muitos destes é que fazem falta, principalmente para a
gente nova."
"Muitos destes é que fazem falta, é que fazem falta..."
Estava certo de que a frase não mais lhe sairia da memória.
Rumou então pela rua principal, por onde ia a passar um enterro. Os
acompanhantes vinham todos muito chorosos pois o morto era um soldado que
perdera a vida, na flor da idade, numa batalha.
Pedro não deixou escapar a oportunidade de ter uma palavra amável para quem
tanta tristeza mostrava.
"Muitos destes é que fazem falta. Principalmente para a gente nova."
Os outros soldados por pouco não deram cabo dele. Valeu-lhe o padre que
acalmou a multidão e procurou ensiná-lo:
- O que deves desejar é: "Que Deus o leve para o céu depressa."
- Nunca mais me engano! - prometeu o pato.
Seguiu até ao jardim, sentou-se num banco, à sombrinha, a ver quem passava.
Não teve muito que esperar. Nessa mesma tarde celebrava-se um baptizado. Que
lindo bebé, corado e gordinho ali chegou, todo bem vestido, ao colo da
madrinha! O nosso moço aproximou-se, deu-lhe um beijo na testa, exclamando
com entusiasmo:
"Que Deus o leve para o céu depressa!"
A mãe da criança desmaiou, o pai ficou verde, a madrinha desatou a tremer. Com
a confusão, o bebé tanto berrava que ninguém sabia o que lhe havia de fazer. Foi
essa a sorte do Pedro das Malasartes pois assim só um miúdo correu atrás dele à
pedrada.
Quando chegou a casa, ao pôr do Sol, exausto de tantas aventuras, já a roupa lhe
tinha secado no corpo.
- Estás muito limpinho. Hoje portaste-me bem -alegrou-se a pobre viúva, sem
calcular o que se tinha passado.
E abraçou-o.
- Gosto de ti -disse ela.
Ele sorriu, repetindo:
- Gosto de ti.
Os Três Desejos
Sonhar não custa dinheiro. Por isso, o Manuel e a Maria, que tinham sempre a
algibeira vazia, fartavam-se de sonhar.
- Ah, se eu fosse rico havia de arranjar um palácio e à volta uma quinta e à volta
uma floresta a perder de vista...
- Pois eu - divagava a rapariga -, nem pensava duas vezes. Ia logo viver para a
cidade, corria as lojas todas, comprava vestidos, sapatos... metia-me num
instituto de beleza. Assim não faço vista nenhuma... Enfeitava-me com jóias
maravilhosas: colares de pérolas, anéis de brilhantes, brincos de esmeraldas O
marido pôs-se a troçar.
- Não me digas que depois querias ir para o baile, toda aperaltada...
- Claro, claro que não faltava a um baile. Só não me casava com um príncipe
porque já casei com um pelintra... que és tu.
Ele irritava-se.
- Ah, querias ser princesa! Que ridículo! As princesas hoje são umas
desgraçadas, com os fotógrafos sempre atrás. A mim apetecia-me correr mundo.
Estavam eles entretidos a sonhar quando, truz, truz. truz, alguém bateu ã porta.
Não esperavam visitas. Quem seria àquela hora?
- Cheira-me a que será um príncipe a convidar-te para dançar... - gracejou o
Manuel.
Mas deparou-se-lhes um pobre de pedir. O rapaz piscou o olho à mulher. Que
príncipe aquele! Velho, esfarrapado, sujo do pó dos caminhos.
- Se me dessem um copinho de água... - suplicou o pedinte.
Maria foi buscar a garrafa e, de caminho, cortou uma fatia de pão.
- Tome, meu amigo. É tudo o que temos. Foi também o nosso jantar. Sente-se à
lareira a aquecer, que há-de vir gelado.
O velho comeu, bebeu. Quando se preparava para sair, disse:
- Quero agradecer tanta simpatia. Por isso vou satisfazer três dos vossos desejos.
- Ai, quem me dera um chouriço para assar nas brasas! Está mesmo a apetecer-
me!
E não é que o chouriço apareceu mesmo!
O Manuel, ao ver que o primeiro desejo tinha sido desperdiçado daquela
maneira, perdeu a cabeça:
- Malvada gulodice! Havias de ficar com esse chouriço preso ao nariz!
E não é que, mais uma vez, a magia deu certa! O nariz da Maria, pequenino,
arrebitado, parecia agora uma tromba, com aquele enchido pendurado, a rematá-
lo.
Tentaram os dois puxá-lo. Não se desprendia.
- E se o cortássemos? - lembrou o rapaz.
Mas o chouriço estava tão ligado ao nariz, que formavam uma só peça.
Maria mirou-se no espelho... Quase ia caindo para o lado.
De que lhe serviriam vestidos de seda, jóias e riquezas com uma narigueta
daquelas? Antes que o marido tivesse outra ideia, exclamou:
- Ponha-me já o nariz como ele era antigamente!
Palavras não eram ditas, voltou ela a ter a mesma aparência. E do chouriço...
nem sinal. Podia ao menos ter ficado em cima da mesa para o petiscarem à
ceia...
- Cumpriram-se os três desejos - disse o velho que, ao contrário dos mendigos
que por aí encontramos, era mesmo um mágico.
O casal ainda tentou convencê-lo a conceder-lhes mais uma oportunidade. Não
poderia ele, como prémio de consolação, dar-lhes ao menos um caixote com
moedas de ouro, uma casa com vista para o rio ou uma viagem á volta do
mundo? Nem sequer um fim-de-semana no Algarve?
Mas os feiticeiros lá têm as suas regras.
- Três é o número que Deus fez - sentenciou aquele, sumindo.
Manuel e Maria encolheram os ombros. Como já era tarde, foram para a cama
dormir, sonhar.
O Troca Tintas
Muito gostava o Zé Troca-Tintas de passear e dar à língua.
- Trabalhar com as mãos faz calos - dizia ele. - Trabalhar com o miolo faz dores
de cabeça. Descansar nunca fez mal a ninguém.
Por isso a sua vida era calcorrear caminhos, pedinchando uma moeda aqui, uma
refeição acolá, dormindo onde calhava.
Certo dia abeirou-se de um cozinheiro que estava a deitar ervilhas para uma
panela.
- Dê-me qualquer coisinha... - suplicou o malandro.
- Tens bom corpo, vai para as obras! - irritou-se o outro. - De mim só levas uma
ervilha.
- Mais vale isto que nada - aceitou ele, metendo a ervilha na algibeira. - Quem
sabe se, qualquer dia, não vai ter alguma utilidade...
Foi andando, andando, até que chegou a uma feira. Quantos pintos, galinhas e
galos havia por ali! Brancos, vermelhos, sarapintados, com o pescoço pelado. O
nosso homem tirou a ervilha da algibeira mas com tão pouca sorte que esta,
pimba, caiu ao chão. Logo um dos galos se precipitou para a comer.
- Ai! Ai! - começou o 2é a gritar. - Roubaram-me! Fiquei sem nada. Quero de
volta o que me tiraram!
E, baixinho, exigia à criadora de galináceos que lhe desse o bicho que engolira a
ervilha.
Juntara-se gente à volta, curiosa, tomando partido. Aflita, para não provocar
escândalo, a mulher deu-lhe um dos galos.
Já tenho o que quis:
Da ervilha um galo fiz!
Estou bem feliz!
Sem casa onde morar, nessa noite pediu a um lavrador para passar a noite na
quinta.
- Posso deixar o meu galo no pátio?
O dono da propriedade não viu inconveniente.
Foram todos dormir. Mas, muito antes de o Sol nascer, desatou o galo a cantar:
Cocorocó! Cocorocó!
Tão barulhenta era a cantoria que nem bichos nem gente conseguiam pregar
olho. Atirou-se um porco muito dorminhoco ao galo para o fazer calar, mas tal
empurrão lhe deu, que o esborrachou com os seus cem quilos de gordura.
- Ai meu rico galo, que era toda a minha fortuna! Ou me dá um porco por ele ou
vou já chamar a polícia! - ameaçou o Troca-Tintas.
O lavrador, para evitar problemas com a polícia, entregou-lhe um porco e pô-lo
dali para fora.
Já tenho o que quis!
Da ervilha fiz um galo
Do galo um porco fiz
Estou bem feliz!
Alguma coisa já ganhara com as trocas. Mas ainda havia de ficar rico!
Partiu dali, cantarolando, à procura de alguém que caísse no conto-do-vigário.
Ainda não meio-dia quando chegou junto de uma poça onde uma manada de
vacas bebia.
O porco, pouco dado a limpezas, entrou lá para dentro e pôs-se a chafurdar,
sujando a água. Uma das vacas deu-lhe tal marrada que lhe deixou as tripas de
fora.
- Ai o meu gordinho! O meu bichinho de estimação! Ou me dão o porco de
volta, vivo e de boa saúde, ou levo daqui uma vaca.
Bem tentou o pastor chegar a um acordo com o maroto pois uma vaca é bem
mais valiosa do que um porco mas, quando foi ameaçado com o tribunal, mudou
de ideias. Tinha lá tempo para demandas na justiça ou dinheiro para encher a
bolsa de advogados... Contrariado, entregou uma vaca.
Troca-Tintas esfregou as mãos de alegria.
Já tenho o que quis!
Da ervilha fiz um galo
Do galo um porco fiz
Do porco fiz uma vaca.
Estou bem feliz!
Todos gabavam a sua sorte.
- Com a vaca tens leite fresco todos os dias, podes fazer manteiga, queijos para
vender. Acabou-se a pobreza!
- Que trabalhão, mugir a vaca! Cansar-me a bater manteiga? Estou lá para
aprender a fazer queijos... Era só o que me faltava! Vou continuar as minhas
trocas...
Vários dias andou com a vaca mas como ela era tão grande e tão forte ninguém
se atrevia a fazer-lhe mal. Estava quase desesperado, quando topou com quatro
homens, vestidos de preto, que carregavam aos ombros uma caixa de madeira,
bem comprida, com uma fechadura de prata.
- Que cofre aquele! Deve guardar um precioso tesouro - calculou Zé Troca-
Tintas.
Aproximou-se com a vaca que, brava como era, começou a marrar a torto e a
direito.
Os homens, para escaparem às chifradas, largaram a caixa, que rebolou por cima
do animal, abrindo-lhe uma ferida no dorso.
- Ah, malvados, deram cabo da minha tourinha! Ia levá-la a uma exposição de
gado... Agora já não posso. Exijo que me dêem esse cofre em troca dela.
Os quatro homens olharam uns para os outros, espantados. Ainda procuraram
contrariá-lo mas lá acederam a fazer a troca.
O nosso Zé bem se esforçou para abrir a caixa do tesouro. Estava fechada à
chave. Que iria encontrar lá dentro? Barras de ouro? Jóias maravilhosas?
Espadas de prata com punhos cravejados de rubis? O coração batia-lhe de
ansiedade quando, finalmente, conseguiu erguer a tampa.
Horror dos horrores! O que encontrou foi uma velha muito velha, morta e bem
morta. O cofre, afinal, era um caixão e a velha ia a enterrar.
Após o primeiro choque, o matreiro não se deu por achado.
- Até esta morta me vai render!
Já tenho o que quis.
Da ervilha fiz um galo
Do galo um porco fiz
Do porco fiz uma vaca
Da vaca uma velha fiz.
Estou bem feliz!
Atou o caixão com uma corda, arrastou-o até à casa mais próxima, de cuja
chaminé subia um rolo de fumo. Bateu à porta. Veio abrir um casal que, vendo-o
tão derreado, o convidou para descansar à lareira.
- Posso guardar aqui esta minha caixa?
- Pois guarde à vontade. Durma no sofá, ao quentinho, que nós vamos para a
cama.
Retirou o homem a velha do caixão e encostou-a tão perto do lume, que ficou
toda queimada.
No dia seguinte de manhã, pôs-se a gritar:
- Ai, o vosso lume queimou a minha querida avozinha! Coitadita, parece mesmo
um carvão. Têm de me dar qualquer coisa em troca!
- Só se for um saco de batatas, das que cultivamos. Vamos num instante buscá-
las.
Quando eles saíram para a arrecadação, olhou â volta. Só trastes baratuchos! Não
ia carregar com aquele lixo. Nem com o saco de batatas que lhe impingiam:
valia pouco e custava a transportar. A menina do casal, essa. é que era linda,
linda, linda... Pequenina, com os cabelos aos caracóis, ainda nem falava. Alguns
ricaços sem filhos haviam de dar bom dinheiro por ela...
Pegou num saco vazio, meteu-a lá dentro, largou a fugir.
Já tenho ò que quis.
Da ervilha fiz um galo.
Do galo um porco fiz,
Do porco fiz uma vaca,
Da vaca uma velha fiz.
Da velha fiz a menina.
Estou bem feliz.
Pôs-se á procura de uma casa rica, sem crianças, para concretizar o seu negócio.
Encontrou um palacete, onde lhe deram abrigo. Era a morada dos padrinhos da
menina. Durante a noite esta começou a choramingar e a madrinha, pé ante pé,
foi abrir o saco, encontrando lá a querida afilhada. Pegou nela com carinho, deu-
lhe um copo de leite, levou-a para a sua cama. Depois foi ao jardim buscar o cão
de guarda, que enfiou no saco.
No dia seguinte Zé Troca-Tintas bem quis ver se trocava a garota por um belo
maço de notas mas os criados logo de manhãzinha correram com ele.
- Vou ã procura de outro palacete bem depressa porque a miúda pesa que se farta
- disse ele para os seus botões. - Mas, pelo caminho, ela que vá pelo seu pé
porque já deve saber andar.
Tirou um canivete do bolso, cortou o atilho.
Zás! De lá pulou o cão de guarda, que lhe comeu o nariz.
O Zé resolveu desistir dos negócios e voltar a pedir esmolas, exibindo a sua
desgraça.
Ai, já não estou como quis.
Da ervilha fiz um galo
Do galo um porco fiz
Do porco fiz uma vaca
Da vaca uma velha fiz
Da velha fiz uma menina
Da menina um cão fiz
Que me comeu o nariz.
Não posso cheirar perfumes E não me posso assoar.
Ai, meninos e senhores, Como me vou governar?
Quando o ouvem pedinchar, todos começam a fazer troça:
- Ó Troca-Tintas, tens bom corpo, porque mo vais para as obras? Só os elefantes
é que trabalham com o nariz!
O Dinheiro Elástico
Andava o rei à caça no bosque quando encontrou um lenhador. Estava este a
rachar lenha, trauteando uma canção.
Corta, corta, meu machado, nunca pares de cortar.
Contigo ganho dinheiro para eu me sustentar.
Contigo ganho dinheiro para dívidas pagar.
Contigo ganho dinheiro ainda para emprestar.
Ficou o monarca de ouvido à escuta, intrigado com a letra da canção. E resolveu
entabular conversa.
- Muito deves tu receber por esse trabalho! Pelo menos disso te gabas...
- Saiba Vossa Majestade que ganho apenas três moedas de prata por mês e com
elas faço tudo o que digo.
Parecia impossível. Toda a gente se queixava de o ordenado não chegar mas
aquele pobretana lá se arranjava, feliz e contente, com uma ninharia. Ainda
pagava dívidas e emprestava aos outros
- O teu dinheiro é elástico? Ora diz-me lá como fazes as contas...
O homem pousou a ferramenta, limpou o suor, passando a explicar:
- Nada mais simples! Divido as despesas assim: um terço para mim e para a
minha mulher. O segundo terço para amparar os meus velhos pais, a quem tanto
devo.
O terceiro bem o gasto com os filhos. Trata-se de um empréstimo, pois espero
que mo devolvam quando deixar de ter forças para rachar lenha.
- Está bem achado! Vou apresentar esse enigma aos fanfarrões dos ministros, que
julgam que percebem muito de finanças mas só sabem esvaziar cofres. Veremos
se o conseguem adivinhar. Mas proíbo-te de falares no assunto até veres cem
vezes a minha cara.
Seguiu o rei para o palácio, apressando-se a chamar os ministros, a quem contou
a proeza do sujeito que tanto fazia render o dinheiro.
Habituados a exigir e estoirar avultadas somas, eles ficaram perplexos. Era
inacreditável tal prodígio.
- Pois fiquem sabendo, seus gastadores incompetentes, que vos despeço se até à
próxima semana não me trouxerem a solução.
Os infelizes deram voltas e mais voltas á cabeça.
O Ministro da Cultura encafuou-se na biblioteca.
O Ministro do Desporto até se pôs a fazer o pino para ver se o sangue lhe
irrigava melhor o cérebro.
O Ministro da Saúde tomou cem injecções de tónicos para avivar a inteligência.
O Ministro do Tesouro, como ainda não havia máquinas de calcular, foi fazendo
contas pelos dedos e rabiscando números em tudo o que era papel: cadernos,
folhas de embrulho, até papel higiénico.
O Primeiro-Ministro consultou as bruxas. Esticar os rendimentos daquela
maneira, só por artes mágicas.
Como nem assim achou solução, refugiou-se no bosque. Que desânimo! Ia ser
despedido!
Ao reconhecê-lo, perguntou-lhe o lenhador:
- Então, a corte está a mudar-se para a floresta? Há dias apareceu por cá o rei.
Hoje instala-se aqui o senhor.
- Pois é justamente por causa do rei que me encontro numa aflição. Quer ele que
os ministros descubram como consegue um pobre, apenas com três moedas de
prata, viver com a mulher, pagar dívidas e ainda por cima conceder um
empréstimo. Toda a gente de bom senso percebe que isso é impossível.
O espertalhão desatou a rir.
- Resolvo-lhe já o problema! Se me der cem moedas de ouro, ensino-lhe como
governo a minha vida.
Não hesitou o Primeiro-Ministro em logo ali abrir os cordões À bolsa que, pelos
vistos, andava bem recheada.
Com o dinheirinho a tilintar nas mãos calejadas, o lenhador revelou-lhe o
segredo.
Quando o prazo expirou, reuniu-se o governo na sala do trono.
- Então, já procuraram um novo emprego? - troçou o rei. - Ou sabem dar-me a
resposta certa?
O Primeiro-Ministro, todo orgulhoso, relatou, tintim por tintim o que ouvira.
Calculou o rei que o lenhador tinha faltado à sua palavra. Furioso, dirigiu-se para
o mato, pronto a castigá-lo.
- Atraiçoaste-me, desgraçado! Comigo não se brinca! Tinhas prometido que só
revelarias o mistério depois de veres cem vezes a minha cara.
- Foi o que eu fiz. Pedi ao seu ministro cem moedas de ouro. Como todas têm a
sua cara gravada, acho que não errei.
Ficou o rei, mais uma vez, surpreendido com a esperteza do indivíduo e
resolveu, em vez de castigo, dar-lhe um prémio.
Ele nada queria pedir mas, depois de muito instado, confessou um desejo.
- Gostava que Vossa Majestade me desse o direito de receber um cêntimo de
cada homem que tiver medo da mulher.
- Que parvoíce! Toda a gente sabe que os homens são muito mais fortes que as
mulheres. Elas é que têm medo deles.
- Pois nada mais me interessa.
Concedeu-lhe o rei o direito pretendido e não mais pensou no assunto.
Passado um ano, parou diante do palácio uma carruagem dourada puxada por
quatro cavalos.
Debruçaram-se os cortesãos da varanda para ver quem se apeava. Quem havia de
ser? O nosso lenhador, aperaltado que nem fidalgo.
Fizeram-no entrar os criados.
- Estou a ver que te corre bem a vida - comentou o rei. - Achaste algum tesouro?
Deves ter bela fortuna...
- Por isso venho agradecer o direito que me concedeu. Mas quero também
contar-lhe uma novidade. Acabou de chegar dos reinos do Noite a mais bela de
todas as bailarinas. Os seus olhos azuis parecem duas lagoas, os seus cabelos
lembram cascatas de ouro, a sua boca é um morango que apetece saborear.
Quando ela dança, mais leve que folha ao vento, os homens ficam loucos...
Estava o rei entusiasmado com a descrição quando a rainha se aproximou.
- Fala mais baixo que ela pode ouvir...
- Uma moedinha já para cá! - exclamou o antigo lenhador. - Apanhei mais um
que tem medo da mulher.
O Criado Esperto
Há bons e maus patrões. O da nossa história era tão ruim, tão sovina, tão
caloteiro que arranjava sempre maneira de não pagar a quem o servia. Por isso
lhe chamavam Unhas de Fome.
Um rapaz daquela terra precisava de emprego e, esquecendo o conselho que
todos os amigos lhe davam, foi bater-lhe á porta.
- Ah, vens em busca de trabalho? Isso por aqui não falta. Que ordenado
pretendes?
- Seis moedas de ouro ao fim do ano.
- Está combinado. Mas, se não fizeres exactamente o que te mando, ponho-te no
olho da ma com as algibeiras vazias.
Na manhã seguinte, deu-lhe as suas ordens
- Vais só varrer o largo em frente de casa.
O moço pegou na vassoura, varreu, varreu, varreu de uma ponta à outra.
Quando o patrão saiu, encontrou um monte de estrume malcheiroso em frente da
escada.
- Então, que porcaria vem a ser esta?
- O senhor não me mandou só varrer o largo? Não ia retirar a prenda que os
cavalos aqui lhe deixaram... Mais adiante também não toquei nas prendinhas dos
cães rafeiros... Tenha cuidado, não as pise, que pode sujar os sapatos.
Ficou o homem furioso com aquele Chico Esperto e pôs-se a matutar na maneira
de o apanhar em falta.
Não podia acusá-lo de preguiçoso, nem de mentiroso, nem de dorminhoco.
Passaram os meses e o moço, massacrado de tarefas e recados, não tinha
parança. Ainda por cima, sempre se apresentava bem-disposto.
Certa manhã, antes de sair, o patrão disse-lhe:
- Ando mal do estômago. Quero que me faças para o almoço uma comida muito
leve. Ai de ti, se não me obedeceres!
Que havia de preparar? Uma canjinha de galinha? Fruta cozida? Chá com
torradas? Alguma coisa com que não fosse possível implicar...
Teve então uma ideia luminosa. Foi buscar o canário ã gaiola e meteu-o dentro
da terrina.
Quando Unhas de Fome regressou, sentou-se à mesa, com cara de caso.
- Puseste aqui uma terrina. Achas que sopa é um prato leve? Desta vez é que vais
perder o ordenado!
- Levante a tampa e logo verá que o petisco não podia ser mais leve.
O outro levantou-a, intrigado, e logo o passarinho amarelo bateu asas, voou.
Não teve o ricaço outro remédio se não calar-se. Mas cada vez crescia mais a sua
raiva pelo espertalhão. Como não sabia que fazer, foi pedir conselho á sua velha
mãe, que era ainda mais trapaceira que ele.
- Ó filho, usa este truque que nunca falha: manda-o ao campo apanhar um molho
de ais e ao jardim colher uma dúzia de arres.
- Óptimo! Óptimo! Desta vez é que ele não acha saída.
No dia seguinte ficou o rapaz surpreendido com a exigência. Um molho de ais e
um quilo de arres:
Atrapalhado, foi até ao campo e, logo por azar, picou-se numa urtiga.
- Pois aqui está a solução! - descobriu ele. Calçou umas luvas, apanhou um
molho de urtigas bravas.
- Mas faltam-me os arres...
Foi até ao jardim que estava então cheio de rosas.
- Não há rosas sem espinhos... As roseiras vão dar-me um jeitão!
Com uma tesoura cortou uma dúzia de hastes de roseira e meteu-as dentro de um
saco, com as urtigas por cima.
Quando o patrão regressou, quis logo saber se as suas ordens tinham sido
cumpridas.
- Fiz com imensa facilidade o que o senhor me pediu. Está aqui tudo bem
fechado neste saco. É só meter a mão.
Unhas de Fome desatou o cordel, enfiou os dedos no saco e logo soltou um grito
ao tocar nas urtigas:
- Ai! Ai! Ai!
- Procure mais fundo - aconselhou o Chico Esperto.
- Arre! Arre! Arre! - explodiu o malandro, a sangrar com os espinhos.
O criado riu-se:
- Como vê, cumpri ã risca as suas ordens. Deve estar contente.
O patrão não deu parte fraca mas jurou vingar-se. Durante anos e anos tivera
criados de graça, agora este divertia-se à sua custa. Havia de arranjar maneira de
lhe estragar a vida.
Quando chegou a Páscoa, anunciou-lhe:
- É hábito nesta casa passar três dias sem comer. Portanto, até sábado não se
trinca nada.
- Não se apoquente, patrão, que eu sigo o seu exemplo.
Do nascer ao pôr do Sol trabalhava o rapaz, sem uma côdea de pão para iludir a
fome ao almoço ou ao jantar. Com a barriga a dar horas, surgiu-lhe uma
lembrança:
- Se não posso trincar, posso beber à vontade. Desceu até ao estábulo e bebeu o
leite da vaca, até sé regalar. Alambazou-se com o mel das abelhas e por fim
entrou na adega e escorropichou uma garrafa cheia de vinho.
Alegre, um pouco alegre de mais, cantava e dançava pela casa fora enquanto
fazia arrumações.
Unhas de Fome bem revistava a despensa, a arca do pão, a prateleira dos queijos,
as latas de bolachas, as tigelas de marmelada. Nada, mesmo nada lhe faltava.
Quando chegou o dia da feira, o trabalho cresceu. Foi preciso acarretar garrafões
de azeite, cabazes de fruta, apanhar as couves, as alfaces, carregar tudo para a
carroça. Juntamente com vinte coelhos, cinquenta codornizes, dez galinhas e três
porcos. Que estafa!
Lá partiram. Quando chegaram ao topo da colina fronteira à casa, com o rapaz
derreado e o patrão folgado na carroça, reparou este que faltava uma saca de
batatas.
- Não se arrelie, patrão, estou aqui para o servir. Vou num salto buscá-la. Quer a
grande ou a pequena?
- A grande, pois então! A pequena fica para os gastos da nossa cozinha.
- Não estranhe se eu me demorar, que o peso não é brincadeira! Uns cinquenta
quilos! E não tenho montada. Se desatrelasse o cavalo para mo emprestar, eu
voltava num instante.
Desatrelou-se o animal e o rapaz montou-o em pêlo.
Num instante chegou ã quinta e disse ã mãe do patrão.
- O seu filho manda pedir a bolsa grande do dinheiro.
- Essa não pode ser. Lá guarda ele as moedas de ouro com que há-de comprar a
quinta do vizinho.
- Então chegue à varanda e pergunte-lhe.
Chegou a velhota ao varanda e gritou na sua voz esganiçada:
- Qual é?
Respondeu de longe ò caloteiro alargando os braços:
- A grande!
Quando o rapaz se viu com a bolsa de cabedal bem recheada na mão, montou o
cavalo e nunca mais apareceu.
Levou o pagamento que lhe competia e o de todos os criados que, até então,
tinham sido despedidos com as mãos a abanar.
O Céu Está a Cair
Andava uma galinha a esgravatar na terra quando, de repente - pim! - um
pássaro lhe largou um inesperado presente no alto di cabeça. Que porcaria!
- Cocorocó! - cacarejou ela, numa aflição. - Caiu um bocado do céu em cima da
minha cabecinha!
Abalou pelos campos fora, com medo que o resto do céu viesse por aí abaixo,
aos trambolhões.
Encontrou um porco, debaixo de uma árvore, a comer bolotas.
- Ron, ron, ron! - grunhiu ele, admirado. - Porque foges tu, galinha?
- Caiu um bocado do céu em cima da minha cabecinha.
Temendo que o mesmo lhe sucedesse, o porco foi atrás dela.
Chegaram a um lago onde nadava um pato que, naturalmente, ficou espantado
com aquela correria.
- Cuá, cuá, cuá, que aconteceu?
- Caiu um bocado do céu em cima da minha cabecinha! - repetiu a galinha.
Para evitar semelhante desgraça, o pato saiu da água e juntou-se aos fugitivos.
Foram ter a uma rua onde estava um gato deitado ao sol. Este abriu um olho,
espreguiçou-se e perguntou:
- Miau, miau, miau, que aconteceu?
- Caiu um bocado de céu em cima da minha cabecinha! - voltou a explicar a
galinha.
O gato ficou com os pêlos todos em pé. Que horror! O melhor era escapar já dali
com os outros três.
Pata aqui, pata acolá, acharam-se num campo onde pastava, despreocupado, um
burro. Este, ao vê-los com tal pressa, ficou preocupado.
- Hihon, hihon, hihon, que aconteceu?
- Caiu um bocado de céu em cima da minha cabecinha! - disse a galinha.
O burro, ao olhar para cima, para as nuvens que se acastelavam, teve medo. Ai,
se as nuvens e até o Sol tombavam em cima dele! De certeza que lhe
amachucavam as grandes orelhas...
- Vou com vocês! resolveu, desatando a galopar. Mas a galinha, o porco, o pato e
o gato não conseguiam acompanhá-lo. Nenhum deles tinha jeito para atletismo.
- O melhor é saltarem todos para as minhas costas, ou não nos despachamos.
O gato deu logo um salto e instalou-se no pescoço do burro. A galinha e o pato
bateram as asas, tornaram a bater até que finalmente conseguiram voar até à
garupa. O porco é que não arranjava maneira de subir. Foi preciso o burro deitar-
se para aquele gorducho ser capaz de o montar.
Assim foram galgando montes e vales, atravessando campos e aldeias.
Passaram finalmente diante de uma quinta. De guarda estava um cão, que logo
começou a ladrar.
- Ão, ão, ão! Que aconteceu?
- Caiu um bocado de céu em cima da minha cabecinha! - contou, pela quarta
vez, a galinha.
Que perigo! O cão, nas suas andanças, já tinha visto caírem maçãs das árvores,
caírem bolas atiradas por miúdos, caírem perdizes em pleno voo, atingidas pelos
tiros dos caçadores. Mas bocados do céu...
-Vamos esconder-nos debaixo da cama da minha dona - propôs ele. - Aí estamos
bem, protegidos.
Assim fizeram. Como a cama era alta, enfiaram-se por baixo da colcha e
adormeceram.
À meia-noite veio a velha senhora deitar-se. Ela bem queria dormir mas as
pulgas do cão tanto lhe picavam que a desgraçada não tinha descanso. A coçar-
se, às voltas, reviravoltas, acordou a bicharada.
Que grande barafunda! Na escuridão, todos se atropelavam, numa algazarra.
Sempre teria caído o céu?
A galinha cacarejava, o pato grasnava, o porco roncava, o gato miava,
o burro zurrava, o cão ladrava, a velha gritava:
- Que grande confusão, os bichos nascem do chão debaixo do meu colchão!
O Canário
Lindo canário amarelo cacei junto da ribeira, meti-o numa gaiola da mais bonita
madeira.
Mandei-o dar de presente, pelo Natal, à rainha, que logo pôs o canário na melhor
sala que tinha.
Vinham fidalgos de longe com suas damas de honor só para ouvirem trinar o
passarinho cantor.
Vinham orquestras e bandas, conjuntos de guitarristas, ao som da sua voz fina
até choravam fadistas.
Mas numa noite de Inverno, depois de grande nevão, adoeceu o canário com
uma constipação.
Tapado com cobertores, deram-lhe chá de limão com três gotinhas de mel, outras
três de vinho Dão.
Ai, o canário a tossir, ai, o canário a espirrar! Mandem já vir os doutores, alguém
o tem de salvar!
Chegaram numa ambulância, a correr, do hospital, cem doutores de bata branca.
Acharam que estava mal.
Tanto, tanto comprimido! e tanta, tanta injecção! Ai, a maior delas todas
trespassou-lhe o coração.
Morreu o lindo canário, a rainha desmaiou. Agora, senhores, vou contar o que
depois se passou.
Vestiu-se a corte de luto para os tristes funerais. Vieram pombos e melros,
periquitos e pardais.
Mas veio o gato também ver o cortejo de luxo. Abriu a boca e meteu o canarito
no bucho.
O meu rico passarinho, num gato está sepultado! Disse a rainha e guardou o gato
sempre ao seu lado.
Vêm fidalgos de longe ouvir o gato miar e miam os violinos para o acompanhar.
Frei João Sem Cuidados
Frei João Sem Cuidados era um homem que com nada se afligia.
-Corria-lhe a vida à maneira porque, como frade, não precisava de ganhar
dinheiro para sustentar mulher nem de ouvir a choradeira dos filhos. Ria-se de
todos os homens casados porque não tinha de aturar uma sogra. Dormia e comia
à fartazana no convento. Passeava pelas ruas, conversando com toda a gente e,
quando estava cansado, sentava-se na frescura silenciosa da igreja, a rezar.
Dava conselhos com um sorriso, resolvia problemas num abrir e fechar de olhos.
Tanto o rei ouviu falar do frade, que pensou metê-lo em trabalhos.
- Ando eu para aqui a preocupar-me com os negócios do reino, sem saber como
resolvê-los e o felizardo com fama de não ter cuidados...
Mandou-o chamar à sua presença, falando-lhe com cara de poucos amigos:
- Dou-te vinte e quatro horas para responderes a três perguntas: Aonde fica o
meio da Terra? Quanta água há no mar? Em que estou eu a pensar? Se não
acertares, mando-te cortar a cabeça porque afinal não te serve para nada.
Pela primeira vez na vida, sentiu-se o frade preocupado.
Consultou os sábios do reino, folheou os poeirentos alfarrábios da biblioteca mas
em parte alguma achava resposta para aqueles enigmas.
Pediu ajuda aos santinhos dos altares mas os santos de pau carunchoso nem se
dignaram abrir a boca.
Sentou-se então numa pedra, desesperado.
Passou um moleiro que, ao ver o rio de lágrimas que lhe nascia dos olhos, quis
saber o que se passava.
Contou o frade a conversa do rei e logo o outro ali o consolou:
- Não se preocupe, Frei João Sem Cuidados. Empreste-me a sua fatiota que
amanhã eu irei ao palácio real em seu lugar. Somos da mesma altura, a minha
barriga é tão grande como a sua...
- E se o rei manda cortar-te a cabeça?
O outro riu-se a bom rir enquanto trocavam de roupa.
No dia seguinte apresentou-se o moleiro na sala do trono, diante de toda a corte.
Puxou o capuz até ao nariz para não ser reconhecido.
- Ora vamos lá a saber onde fica o meio da Terra... - disse o soberano, trocista.
O moleiro nem hesitou:
- Não há pergunta mais fácil. Toda a gente sabe que a Terra é redonda como a
laranja - respondeu ele, tirando uma da algibeira. - Onde fica o meio deste fruto?
Em qualquer parte, porque é redondo.
Sentiu-se o rei embatucado com aquela resposta mas não se deu por achado.
- Pois agora, diz-me, sem errares, quanta água há no mar.
O moleiro não tinha papas na língua
- Qual a dificuldade? Facilmente se mede a água do mar. Basta Vossa Majestade
mandar tapar primeiro a foz de todos os rios para não se misturar a água doce
com a salgada.
Ficou o rei perplexo com a esperteza do homem e calou-se pois não achava
maneira de barrar todos os rios.
- Bem, finalmente vais adivinhar em que estou eu a pensar.
O falso frade, mais uma vez, não se atrapalhou.
- Pensa Vossa Majestade que está a falar com Frei João Sem Cuidados. Mas veja
bem quem eu sou... o 2é Moleiro!
Isto dizendo, destapou a cara.
- Pois enganaste-me bem enganado! - confessou o rei, meio engasgado. - Tenho
de dar o braço a torcer. Podes fazer-me um pedido, que bem o mereces. Queres
uma bolsa de ouro? Um burro para carregares farinha? Um moinho novo?
O espertalhão não demorou a falar.
- Quero que Vossa Majestade me diga onde é o lugar das cabeças.
- Em cima dos pescoços, está bem de ver.
- Pois então, deixe-as ficar no sítio delas, que é onde se sentem bem.
Parece que o rei seguiu o conselho e Frei João Sem Cuidados continua sem
cuidados.
Dom Caio
Era uma vez um alfaiate medroso, medroso, mesmo medricas. Tinha medo das
aranhas por terem muitas patas, dos gafanhotos por darem grandes saltos. Até
fugia das galinhas, que o podiam picar.
Estava ele, num quente dia de Verão, sentado à porta da loja a coser um par de
calças, quando viu aproximar--se um enxame de moscas.
-Ai, que horror! Se pousam em mim... até desmaio. Aflito, horrorizado, deixou
cair a agulha, levantou as calças no ar e começou a bater nas moscas. Logo sete
caíram mortas a seus pés.
Orgulhoso com o feito, pôs-se a anunciar:
- Sou um valente! Mato sete de uma vez!
Subiu-lhe a proeza à cabeça de tal modo que até compôs uma cançoneta. De
manhã a noite não se cansava de a entoar:
Matei sete de uma vez, é verdade, verdadinha. Não há para aí valentia igual ou
maior que a minha!
Quem vinha de longe e passava pela rua ficava de boca aberta, julgando que
aquele homem se distinguira numa sangrenta batalha.
Andava nesse tempo o reino em guerra e nela morrera o chefe das tropas reais, O
bravo Dom Caio.
Quem havia de o substituir?
Quem seria tão forte, destemido como o famoso general?
Chegou aos ouvidos do rei a fama daquele alfaiate que aos sete ventos apregoava
que matava sete de uma vez. Era o que lhe convinha.
Mandou-o trazer à sua presença e perguntou-lhe:
- É certo o que para aí dizem? És um herói? Que fizeste tu?
- Matei sete de uma vez!
Ficou o rei todo satisfeito e, como as guerras não esperam, de
imediato deu as suas ordens:
- Tragam-me já o cavalo branco de Dom Caio. Quem doravante o vai
montar é o novo chefe do nosso exercito, que vos apresento.
Trouxeram o cavalo, bem aparelhado. Era tão fogoso que os criados
mal conseguiam contê-lo. Fardaram o alfaiate a rigor, puseram-lhe ao
peito todas as medalhas e condecorações do seu antecessor e
enterraram-lhe um capacete com plumas até às orelhas. Assim pouco
se lhe distinguia a cara.
Que altura tinha a montada! Olhar para baixo até fazia vertigens…
Dava cada coice, ainda por cima…
Atrapalhado, o falso valentão, deixou cair as rédeas, agarrou-se às
crinas e apertou com quanta força tinha a barriga do animal, que logo
largou a galope.
- Eu caio! Eu caio! - gritava, a plenos pulmões, o desgraçado.
E mais puxava pelas crinas do animal que sabia de cor o caminho para a guerra.
- Eu caio! Eu caio! - ia vociferando cada vez mais alto, com esperança de que
alguém o viesse salvar.
Em vez disso, encontrou-se no meio da guerra. Era ainda pior do que alguma vez
imaginara. As espadas cortavam mesmo cabeças e as lanças furavam as barrigas!
- Afinal Dom Caio não morreu! - entusiasmaram-se os soldados reais. - Vamos
atrás dele.
- Eu caio! Eu caio! - berrava, louco de pavor, o alfaiate, conduzido pelo
imparável corcel.
Os inimigos, ao verem a fúria com que avançava, seguido pelas suas tropas,
resolveram fugir a sete pés.
Assim foi vencida a batalha.
O alfaiate regressou à corte, onde foi recebido em triunfo.
As ruas estavam engalanadas de flores. As fanfarras de música tocavam.
- Como hei-de recompensar-te por teres salvo o meu país? - interrogou-se o rei. -
Não há dinheiro nem honrarias que paguem a tua valentia.
O alfaiate, sem saber o que pedir, olhou para a princesa, a ver se ela tinha
alguma ideia.
- Ah, queres casar com a minha filha! Faz-se já o casamento!
Lá se celebraram as bodas, com todo e esplendor.
Na noite de núpcias, quando os noivos se iam deitar, apareceu um rato no quarto.
O nosso herói, apavorado, subiu para uma cadeira, trepou para cima do armário e
lá ficou a tremer como varas verdes. A princesa é que espantou o bicharoco,
atirando-lhe com um chinelo.
- Mas que valentaço me saíste tu! Como é que mataste sete duma vez? Vou
contar tudo ao meu pai.
O fanfarrão ajoelhou-se aos pés da mulher e confessou que não passava de um
alfaiate, cuja proeza fora matar sete moscas duma vez.
- És alfaiate? Isso é que me convém! Os outros maridos que me queriam arranjar
passavam a vida nas guerras, não percebiam nada de modas. Tu vais estar o
tempo todo ao meu lado, dedicando-te á tua arte.
No dia seguinte foram ambos comprar veludos, sedas, brocados e o alfaiate
cortou, provou, coseu os mais maravilhosos trajes para a princesa.
E, claro, quando alguma mosca os vinha incomodar, dava cabo dela.
Não há memória de um casal mais feliz.
As Galinhas Faladoras
Hoje as mulheres passam as noites a ver televisão. Mas dantes umas
namoravam,
outras faziam renda, outras perdiam-se na conversa. As mais preguiçosas iam
naturalmente para a cama dormir.
A Senhora Mariquinhas, que morava num casinhoto mesmo ao lado do palácio
real, entretinha-se, por trás das cortinas, a bisbilhotar tudo o que por lá se
passava. As três filhas, essas, coitadas, esfregavam os tachos, bordavam toalhas
e faziam bonecas de trapos para vender pois dinheiro era o que não abundava
naquela casa.
Por isso se queixavam:
- Ó mãe, podia, ao menos, ajudar-nos...
- Calem-se, meninas, que eu estou a tratar da vossa felicidade.
Quando alguma delas se lembrava de entoar alguma canção, logo tinha de fechar
a boca.
- Chiu, meninas, que estou a tratar da vossa felicidade e para isso preciso de
silêncio.
As moças olhavam umas para as outras, encolhiam os ombros, continuavam a
trabalhar. Mas, entre si. murmuravam:
- Que mãe tão preguiçosa havia de nos sair na rifa! Põe-nos a trabalhar pela noite
fora enquanto se distrai, na bisbilhotice.
Estava um dia a Senhora Mariquinhas a regar as alfaces, ao entardecer, quando
viu a rainha a apanhar rosas no jardim ao lado. Aproximou-se do muro e
perguntou-lhe:
- Não quer Vossa Majestade que eu ensine as suas galinhas a falar?
- O quê? - espantou-se a rainha.
- Fique sabendo que, com as minhas aulas, aprendem melhor que papagaios.
Seriam a grande atracção da corte!
- E os galos também aprendem?
- Então não haviam de aprender? Como a especialidade deles é cantarem,
entoam qualquer cantiga. Até dão para fadistas e cantores de ópera.
Com entusiasmo aceitou a soberana a proposta, ordenando aos criados que
carregassem para o quintal da mulherzinha as 797 galinhas e os 85 galos das
capoeiras reais. Juntamente vieram sacas e sacas de milho para a alimentação.
Volvidos quinze dias, assomou a rainha ao muro, perguntando:
- Então, têm feito progressos?
- Alguns, alguns. Já dizem bom-dia, também boa-tarde. Mas aprenderiam mais
depressa se tivessem melhor ração. Se provassem comida de gente: bacalhau
com natas, uns bifes com batatas fritas, principalmente bolos de chocolate.
- Não quero que a bicharada se atrase nos estudos... Os cozinheiros vão preparar
belos petiscos.
Muito bem passaram a comer em casa da Senhora Mariquinhas! As filhas, que
eram tão magriças que até os ossos pareciam furar-lhes a roupa, ganharam
formas tão ondulantes que todos os rapazes começaram a reparar nelas.
Outros quinze dias decorreram. De novo a rainha se empoleirou no muro para
saber notícias.
A falsa professora gabou as alunas:
- Já contam até cem! Sabem os nomes dos meses e as estações do ano. No
entanto, mais aprenderiam se bebessem um copo de vinho às refeições.
- Arranja-se já - disse imediatamente a rainha, mandando retirar das caves umas
garrafas do melhor vinho de mesa.
Muito bem se passou a beber em casa da Senhora Mariquinhas!
Ao cabo de mais quinze dias, voltou a rainha a interessar-se pelo progresso dos
seus galináceos.
- Ah, Majestade... Os bichinhos são um fenómeno a falar! Não têm papas na
língua. Veja lá que até me vieram contar que a senhora se encontra de noite, às
escondidas, com o jardineiro...
A rainha que, de facto, dava umas facadinhas no casamento, ficou aflita. Se o rei
descobria, estava desgraçada!
- Dizem que me viram? Que horror! Mata já essa bicharada linguareira. Encho-te
bem as algibeiras para não espalhares a notícia.
Foi o que a marota quis ouvir.
No dia seguinte, logo de manhã, alugou uma carroça, despachando toda aquela
multidão cacarejante para a feira mais próxima. Lá comprou vestidos, sapatos
novos para as filhas e cuidou que cada uma arranjasse um rico enxoval.
- Ó mãe, como estamos felizes! - alegraram-se elas. -Já temos uns noivos
jeitosos debaixo de olho...
Casaram as três no mesmo dia mas foram viver para o outro extremo da cidade.
Com uma mãe tão bisbilhoteira, é sempre mais prudente manter alguma
distância, não concordam?
Quanto ã Senhora Mariquinhas, lá continua, por trás da cortina, a espreitar a vida
alheia.
As Senhoras das Capinhas Pretas
Chico Melaço fez-se ao caminho com um pote de mel para vender na feira. Era
tudo o que tinha.
Quem cria ovelhas faz queijos.
Quem engorda porcos faz chouriços.
Quem semeia trigo faz pão.
Chico Melaço vivia no monte, regalado, folgado, repimpado. Encostava-se a
uma árvore e via as abelhas a trabalhar. Eram o seu rebanho.
Não precisava de cão ou cajado para correr atrás delas em busca de pastagem.
Não precisava de comprar rações para quem se contenta com o pólen das flores
do rosmaninho, da alfazema, do pinheiro.
Ficava-se a ouvir o zumbido das suas bichinhas, cantarolando:
Zum, zum, zum, abelhas no ar...
Quem é que adivinha onde vão pousar?
Zum, zum, zum, abelhas ao vento, que me vão trazer um doce sustento.
Zum, zum, zum, que bom mel doirado De tanto o comer, já estou lambuzado.
Pois lá seguia o rapaz agora, estrada fora, com o pote a transbordar, pensando no
rico dinheiro que iria meter ao bolso.
Podia vender o mel aos pasteleiros para bolos regionais.
Podia vendê-lo aos farmacêuticos para rebuçados da tosse.
Podia vendê-lo às meninas gulosas, que com ele barram o pão, as bolachas e, por
fim, o devoram às colheradas.
Quem lhe daria mais por ele?
A certa altura, um enxame de moscas, atraído pelo cheiro delicioso, começou a
esvoaçar à sua volta.
- Vêm comprar a minha mercadoria? Quem quiser que se aproxime.
Como resposta, as moscas pousaram todas no pote.
- Pagam bem?
Como resposta, as moscas baixaram a cabeça para petiscarem o pitéu.
Chico Melaço ficou-se a vê-las banquetearem-se. Eram tantas e tantas que
formavam uma nuvem negra.
Como a música lhe corria no sangue, logo inventou uma nova modinha:
Zum, zum, zum, vou ficar rico e comprar logo um burrico.
Zum, zum, zum, nessa montada arranjo uma namorada.
Zum, zum, zum, no Castelo do Queijo a morar eu já me vejo.
Quando o pote ficou vazio, esperou Chico Melaço pelo pagamento mas, para sua
surpresa, as finórias das moscas não lhe entregaram moedas ou notas.
- Vão a casa buscar o dinheiro! - ordenou o jovem. Obedientes, elas largaram
dali, direitinhas à quinta mais próxima.
Esperou o nosso Zé, à sombra duma oliveira, mas das moscas, nem sinal.
Foi o Sol deslizando pelo céu até ficar a pique, ao meio-dia. Depois desceu,
desceu, desceu, escondendo--se finalmente para além da serra para dar lugar à
Lua.
Já era noite. Das marotas, nem recado....
No dia seguinte, deslocou-se o nosso vendedor até à vila, a pedir conselho.
Havia de se vingar daquele bando de caloteiras.
- Ora, vai ao tribunal! - galhofou o chefe da Polícia, ao receber a queixa. - Só a
justiça te pode valer.
Dirigiu-se o Chico Melaço ao tribunal e expôs o seu caso: - Sr. Juiz,
umas senhoras com capinhas pretas atiraram-se ao meu pote de mel, paparam-no
todo sem pagar.
- Sabes o nome delas? - indagou o magistrado.
- Não, senhor.
- E a morada?
- São umas galdérias, não têm pouso certo...
- Mas se as vires és capaz de as reconhecer?
- Ah, com certeza. São pequenas, morenas, usam sempre capinha preta. E
impossível confundi-las.
O juiz, mais satisfeito, sugeriu:
- Quando encontrares alguma, agarra-a e trá-la cá para eu a prender.
Chico Melaço ficou atrapalhado.
- Elas fogem depressa, são difíceis de apanhar.
- Fogem à lei? Então dá uma paulada na primeira que encontrares.
O rapaz fixou o juiz e mais atrapalhado ficou.
- Com sua ordem, posso dar a paulada?
- Com certeza - assegurou o outro.
Num ápice o rapaz pegou num pau e zás! pregou uma paulada na careca do juiz,
onde uma mosca estava pousada.
Mas nem assim a justiça se cumpriu. Um galo enorme começou a crescer no
sítio onde estivera a senhora da capinha preta, que depressa se esgueirou para
junto das suas companheiras. Todas juntas, até hoje, vão rindo da humanidade.
Zum, zum, zum, caçam-se leões e pesca-se atum.
Mas apanhar moscas, quem é que consegue?
Já falhou mais um! Zum, zum, zum.
A Pele do Piolho
Era uma vez um rei que não primava pelo asseio. Tinha tal medo da água que
nunca se lavava.
- Tomar banho no rio é perigoso, posso afogar-me. Meter-me numa banheira é
perigoso, posso escorregar. Esfregar-me com uma toalha molhada é perigoso,
pode cair-me a pele - dizia ele.
Não havia perfume que cobrisse o seu mau cheiro. A rainha tinha morrido,
intoxicada. O pessoal da corte mantinha--se todo à distância, o que ele achava
natural, como sinal de respeito.
Só a filha se aproximava, com uma mola de roupa de ouro a tapar-lhe o nariz.
- É a nova moda - desculpava-se ela para não o ofender.
Certo dia, ao penteá-lo, até estremeceu.
- Ai, senhor, que grande piolho! Vou já tirar-lho.
- Não o tires que me faz companhia. Meu rico bichinho de estimação!
Acompanha-me a toda a hora, para onde quer que eu vá... Cães ou gatos não são
mais dedicados.
Deixou a filha ficar o animal que, com o tempo, foi crescendo, crescendo,
crescendo. Ficou tão grande que até parecia um chapéu pousado no cocuruto da
real cabeça. Até a coroa deixou de lhe servir.
Também a princesa cresceu, tão bela, esperta e asseada que ninguém diria que
era filha de tal pai.
Estavam pois ambos crescidos quando o piolho adoeceu.
Tinha o rei andado a passear ao sol e o pobre apanhara um escaldão. Agora
tossia, espirrava que era um dó de alma e tinha tanta, tanta febre que a cabeça do
monarca escaldava.
Vieram veterinários de longe para o tratarem mas todos eles estavam habituados
a matar e não a curar piolhos. Besuntaram-no com cremes, friccionaram-no com
álcool, picaram-no com injecções. O doente não melhorava. Obrigaram o dono
do bicharoco a tomar xaropes, comprimidos, injecções pois este só se alimentava
com o seu sangue. Nem assim recuperava a saúde.
Entre choros e lamúrias acabou-se-lhe a vida.
- Vamos enterrá-lo no jardim, junto aos cravos perfumados - propôs a princesa.
- Nunca! - disse o pai. - Quero-o sempre junto de mim. Com a sua pele vou
mandar fazer, em segredo, um tambor.
Assim aconteceu.
Sentia-se o rei enfraquecer com a idade mais o desgosto pela morte do
companheiro inseparável. Resolveu então casar a filha para não a deixar
desamparada.
- Só aceito um marido ao meu gosto! - exclamou ela. Só caso com quem
adivinhar de que é feito o tambor de Vossa Majestade.
Esteve o rei de acordo, mandando em breve reunir todos os oficiais, fidalgos e
príncipes que aspiravam á mão da princesa. Para cima de uma centena!
Entretanto ela já fizera a sua escolha. Era um jovem capitão da marinha, que não
temia nem as mais revoltosas águas do mar. Por isso, aproximou-se dele às
escondidas e murmurou:
- O tambor é de pele de piolho.
Ora um criado muito velho, que andava por ali a servir bebidas, ouviu a frase.
Correu, mesmo com a bandeja na mão, até ao trono, anunciando:
- Descobri! Descobri! O tambor é de pele de piolho. A princesa desfez-se em
lágrimas mas o rei só tinha uma palavra, não podia voltar com ela atrás.
- Escolhe o dia do casamento que serás meu genro, embora, pela idade, pudesses
ser meu avô.
A princesa é que não esteve pelos ajustes. Diante de toda a gente, enfrentou o
noivo:
Se comigo te casares, vais sofrer desilusão, em vez de te dar um beijo,
dou-te logo um bofetão.
Eu durmo na cama fofa, tu dormes no meio do chão, eu como bolos de mel
e tu os ossos do cão.
Eu vou para o baile dançar, tu vais carregar melão.
Hei-de ter sete filhinhos, os sete dum capitão.
Se não posso dar-lhe a mão, dou-lhe corpo e coração.
Por aquela declaração pública é que o velhote não esperava. Levar pancada, ser
gozado e atraiçoado pela mulher era de mais!
- Desisto! Desisto!
A princesa casou com o capitão. Mandaram construir um palácio com vinte
casas de banho e uma grande piscina diante da sala.
À entrada do portão há um letreiro que avisa:
A Mulher Gulosa
A Maria da Graça só achava graça aos bons petiscos. Não paravam na despensa
os queijos amanteigados, os chouriços e presuntos, as tigelas de marmelada, os
potes de mel. Escorropichava das garrafas o vinho doce porque, francamente, a
água só era boa para os peixes.
Mal o marido abalava de casa, toca a partir ovos, a misturar farinha, manteiga e
açúcar para fazer bolos. Quando o desgraçado voltava do trabalho nem uma
fatiazinha sobrara para provar ao jantar.
- Quem é a gulosa que devora tudo o que é bom? -perguntava o homem, fitando
a mulher, cada dia mais corada e gorda.
- Eu não sou! - exclamava ela, roendo-se com vontade de rir. - Lambareira é a
gata. Tem artes de chegar a todo o lado. Ralha com a Tareca.
O Zé Nabo enxotava a bichana, furioso, exasperado.
- Vai comer ratos! Vai comer ratos!
Bem mandava o homem fechar a porta, as janelas para a gata não entrar mas a
razia continuava. Era um ver se te avias, todos os petiscos desapareciam num
abrir e fechar de olhos. Cerejas vermelhinhas, bolachas da feira, frascos de
compota, amêndoas, chocolates não duravam nem um dia.
- Ó Maria da Graça, tu fazes o que te disse? Não deixas a gata passar do quintal?
Ela arranjava logo desculpa.
- Bem vês que não abro porta nem janela mas a malandra entra pela chaminé. Se
eu a tapar, por onde sai o fumo?
Parecia impossível que a Tareca, com os ossos quase a furar o pêlo, se
alambazasse com tamanha fartura. Em compensação a dona ia ficando redonda
como uma bola...
- Tu não me enganes... - refilava o desgraçado. -Passo eu o dia a trabalhar e tu a
trincar...
Andava o ambiente tão mau entre o casal que parecia impossível durar aquele
casamento.
Com medo de perder o marido e os petiscos com que ele enchia a despensa, teve
a matreira uma ideia luminosa.
- Acusas-me a mim e desculpas a gata. Pois proponho-te que tires a limpo qual
de nós é culpada. Amanhã vamos à capela da Senhora da Graça, minha
madrinha, e perguntamos à santa quem tem razão. Se eu falar verdade, trazes-me
de volta, às costas, para casa. Se falar mentira, sou eu que te carrego às cavalitas
e prometo sair da tua casa e da tua vida.
"Os santos não mentem", pensou o homem, aceitando o desafio.
No dia seguinte meteram-se à estrada bem cedo porque a capela ficava a muitas
horas de caminho.
Quando chegaram a um vale entre montanhas, a mulher sentou-se numa pedra,
queixando-se de dores nos pés.
- O Zé, já pouco falta para chegarmos à igreja. A santinha deve ouvir-nos daqui.
Experimenta fazer a pergunta, que eu não consigo dar mais um passo.
O ingénuo acedeu.
- Senhora da Graça, - gritou ele com toda a força dos seus pulmões - quem é a
gulosa, a mulher ou a gata?
Para seu espanto, ouviu-se o eco, repetindo:
- A gata... a gata... a gata...
Atónito, o homem insistiu com a pergunta:
- Quem é a gulosa, a mulher ou a gata?
De novo o eco reproduziu o final da frase:
- a gata... a gata... a gata... Rejubilante, a mulher ordenou:
- Baixa-te para eu trepar para as tuas costas. Bem vês que tenho razão.
Agachou-se o burro e fez-se ao caminho, carregando o peso desconforme da
comilona.
Chegou a casa mais morto que vivo, deitando os bofes pela boca. Descarregou a
mulher, aliviado. Em seguida pegou na vassoura e atirou-a à Tareca. Magra,
ligeira, esta esgueirou-se a tempo.
Se quiserem saber o que depois se passou, oiçam a canção trocista que ainda
hoje entoam os miúdos daquela terra:
Atirou o pau à gata, mas a gata não morreu. O Zé Nabo assustou-se com o berro
que a gata deu. Miau!
A gata caçava ratos, a mulher ia ao chouriço.
Ai, mas que grande injustiça a bicha pagar por isso! Miau!
Deitou as unhas de fora, arranhou aqueles dois. Foi roubar um carapau e fugiu
logo depois. Miau!
Dança, Cacete!
Era uma vez um rapaz sem eira nem beira. Andava, de barriga a dar horas, em
busca de emprego mas não achava quem o aceitasse.
- És tão magro que até passas entre as gotas da chuva - riam-se as governantas
das casas fartas.
- És tão pálido que te confundem com um fantasma -riam-se os taberneiros.
- És tão fraco que não podes com uma gata pelo rabo, quanto mais com um saco
de cimento - riam-se os mestres de obras.
Nas suas andanças encontrou certo dia uma velhota descalça, sentada nuns
degraus de pedra.
- Doem-me tanto os pés... Até já estão a sangrar. Não haverá uma alma caridosa
que me dê sapatos? - lamuriava ela.
Ora aqui está alguém ainda mais pobre do que eu, pensou o jovem e, num
generoso impulso, descalçou as botas cambadas, entregando-as à mulherzinha,
que imediatamente as calçou.
- Em paga da tua bondade vou oferecer-te uma prenda - disse ela, tirando da
sacola remendada uma bolsa de cabedal. - Quando precisares de dinheiro, basta
pronunciares as seguintes palavras: "Abre-te bolsa!" e logo ela te fornecerá uma
mancheia de moedas de ouro.
O rapaz agradeceu, espantado com tamanha sorte pois não é todos os dias que se
recebe uma oferta daquelas. Seguiu caminho em busca de um lugar decente para
dormir pois, com dinheiro a tilintar na algibeira, já não precisava de passar a
noite ao relento.
Chegado a uma estalagem, não foi no entanto bem recebido.
- Aqui não entram pelintras de pé descalço - disse a proprietária. - Onde é que tu
tens dinheiro para pagar um quarto?
O moço, como resposta, retirou a prenda da algibeira, pronunciando as palavras
mágicas.
- Abre-te, bolsa!
Para espanto da implicante criatura, espalhou-se no balcão um punhado de
moedas reluzentes.
Logo ela pensou em apoderar-se do fantástico objecto. Esperou que o hóspede
fosse jantar, entrou pé ante pé no quarto e trocou a bolsa milagrosa por outra
aparentemente igual.
Só quando o rapaz pretendeu de novo arranjar dinheiro é que descobriu que fora
roubado.
Triste, foi ter com a velhinha para lhe contar o sucedido. Estava pobre como
antigamente e não tivera sequer oportunidade de comprar um par de sapatos.
- Não te preocupes. Arranjo-te outra prenda. Toma esta toalha. Quando tiveres
fome, estende-a e ordena: "Serve-me um jantar!"
O jovem novamente se dirigiu à estalagem, com a toalha debaixo do braço.
Quando o ratinho da fome começou a roer-lhe o estômago, estendeu a toalha na
mesa do quarto para não ser visto. Mal sabia ele no entanto que a estalajadeira
estava a espreitar pelo buraco da fechadura.
-Uma terrina a fumegar com canja, bacalhau no forno, faisão assado, arroz de
pinhões, saladas várias, pratos de bolos e pudins aterraram num instante na
toalha. Não faltaram os vinhos finos, os sumos exóticos.
Bem comido e bebido o nosso amigo depressa adormeceu. Era o que a marota
desejava. Correndo ao armário das roupas, apressou-se a trocar a toalha mágica
por outra bem parecida.
Ao descobrir, no dia seguinte, que de novo que tinha sido enganado, o rapaz
dirigiu-se, mais uma vez, à rua onde encontrara a velhinha. Desta vez ela
mostrou-se bastante aborrecida.
- Então, largas em qualquer parte as preciosidades que te dou? Deixas que uma
larápia lhes deite a mão? Vais receber a terceira e última prenda. Governa-te com
ela e nunca mais cá apareças!
Ao ver que ela lhe estendia um cacete de pau de marmeleiro, ficou intrigado.
- Para que quero eu isso?
- Pode ter grande utilidade. Quando alguém te fizer mal, basta dizeres: "Dança,
cacete!"
Como continuava sem casa e não havia por ali mais hospedarias, regressou o
moço ao local onde lhe tinham tirado a bolsa e a toalha. Mas desta vez não
passou da sala.
A proprietária veio, muito pressurosa, ter com ele, ao notar que trazia um novo
objecto.
- Que belo cacete! Para que serve?
- Já vai saber - respondeu o rapaz, pronunciando as palavras fatais - Dança,
cacete!
Desatou o pau a dançar, zumba que zumba, malhando nas pernas, nas costas, nos
braços da matreira.
- Ai, ai, ai! Pára, pára com esta dança que eu devolvo-te a bolsa mais a toalha! -
gritava ela, numa aflição.
O cacete só descansou quando os objectos roubados voltaram às mãos do dono.
Então, o rapaz meteu-os num saco e desandou dali para nunca mais ser visto.
Que será feito dele? Algum de vocês é capaz de me dizer?
o Príncipe com Orelhas de Burro
A rainha Regina e o rei Reinaldo queriam desesperadamente ter um filho. Quem
havia, depois deles, de reinar naquelas terras?
Por mais que consultassem médicos, bruxas e feiticeiros, não havia meio de
concretizarem o seu desejo.
Até que finalmente, no dia em que faziam 25 anos de casados, nasceu um
principezinho. Era uma criança forte, saudável, encantadora.
- Vamos chamar-lhe Máximo, porque ele é realmente o máximo! - resolveu o
pai, já com longas barbas brancas.
A mãe, acariciando o menino com ternura de avó, sugeriu:
- Que tal convidarmos umas fadas para o fadarem? O monarca abraçou logo a
ideia. Por mais caros que fossem os serviços mágicos, para o herdeiro da coroa
tudo valia a pena.
Pois lá vieram as três fadas da praxe, cada qual com sua cintilante varinha de
condão. Entraram pela janela aberta e reuniram-se à volta do berço de ouro.
- Eu te fado - disse a primeira -, para que sejas o mais belo deste planeta.
- Eu te fado - anunciou a segunda -, para que sejas inteligente como ninguém.
O real casal estava radiante. Que surpresa maravilhosa lhes reservaria a terceira
fada?
Esta franziu a testa, torceu o nariz.
- Com essas duas qualidades, vais tornar-te um convencido... Pois eu te fado para
que tenhas orelhas de burro!
Logo duas orelhas grandes, peludas, cinzentas substituíram as orelhinhas rosadas
do pequerrucho.
A rainha desmaiou. O rei puxou da espada para se vingar mas as fadas depressa
desapareceram sem deixar rasto.
Quando vieram a si, os pais até arrepelaram os cabelos. Que vergonha terem um
filho com aqueles apêndices espetados! Ainda se fossem orelhas de gato, de cão
ou mesmo de porco... Mas de burro... Que horror!
Desde logo decidiram esconder de todos o defeito monstruoso do príncipe. A
rainha costurou à pressa uma enorme touca de seda que lhe enfiou pela cabeça.
Despediu a ama ê passou, ela própria, a tratar do filho.
Cresceu o rapaz em tamanho, beleza e esperteza. Com seis meses falava várias
línguas. Com dois anos resolvia complicados problemas de matemática. Todos
ficavam admirados com a perfeição do seu corpo, a agudeza do seu espírito.
Mas o mais curioso era a estranha capacidade que ele tinha de ouvir o que
ninguém mais escutava: os passos das formigas, a fala dos peixes, a música das
estrelas.
Por mais que alguém quisesse esconder um segredo, sempre ele o desvendava.
- Que bisbilhoteiro! - criticavam os namorados.
- Que génio! - elogiavam os professores de música, embasbacados com o seu
talento para a arte dos sons.
A Polícia passou a utilizar os seus dons para apanhar quadrilhas de ladrões que
combinavam assaltos.
O Exército Real ganhava todas as batalhas pois o príncipe lhes revelava, pondo a
cabeça junto ao chão, os movimentos longínquos dos inimigos.
Máximo era realmente o máximo, até em elegância. Quem podia gabar-se de
possuir uma colecção tão extraordinária de chapéus, barretes, toucados,
turbantes, capacetes, elmos?
Haveria alguém mais feliz no mundo?
Mas, na solidão do quarto, o jovem olhava-se no espelho e uma cascata de
lágrimas corria por vezes dos seus olhos negros. Conhecia pessoas com o nariz
comprido, os dentes encavalitados, a cara cheia de borbulhas. Coxos e marrecas.
Magricelas que pareciam palitos e gordos que não passavam nas portas. Fizera-
se amigo dos pobres, dos doentes, daqueles que a pouca sorte marcara e a
sociedade desprezava como lixo. Mas nunca encontrara um rapaz com orelhas de
burro... Haveria maior defeito? Que princesa aceitaria casar com ele?
Quando começou a deitar barba, foi preciso arranjar-lhe um barbeiro porque
ainda não tinham sido inventadas as máquinas de barbear.
Mandou o rei chamar um profissional da sua confiança e perguntou-lhe:
- Sabes guardar um segredo?
- Sim, Majestade.
- Se não conseguires, separo-te a cabeça do tronco com a minha espada.
Como o homem jurasse que mantinha o silêncio, foi levado até aos aposentos do
príncipe.
- Para fazer bem o meu trabalho, preciso que tire o barrete - avisou ele.
Quando Máximo o retirou, o sujeito ia caindo para o lado. Podia suspeitar que o
herdeiro do trono fosse careca... mas não que tivesse orelhas de burro. Em
muitos anos de ofício nunca tal vira.
Que pena não poder contar o que sabia... Com aquela novidade atravessada na
garganta, até perdeu o apetite.
Em casa, a mulher, muito coscuvilheira, queria saber de que cor eram os cabelos
do príncipe, de que forma era a sua cabeça.
- Tem umas orelhas bem feitinhas? Tem? - insistia a filha.
- Metam-se na vossa vida! - barafustava o sujeito, nervoso, desandando porta
fora.
No palácio, na rua, por toda a parte, choviam as perguntas.
Sem mais forças para resistir, certo dia, o barbeiro saiu da cidade e só parou no
alto de um monte sem viva alma. Abriu uma cova com as mãos, junto a um
canavial e desabafou finalmente:
- O príncipe tem orelhas de burro! O príncipe tem orelhas de burro!
Aconteceu que, passado algum tempo, por ali passou um pastor. Partiu uma cana
para fazer uma flauta e pôs-se nela a soprar. Qual não foi o seu espanto quando o
instrumento começou a cantar:
- O príncipe tem orelhas de burro! O príncipe tem orelhas de burro!
Foi-se espalhando a notícia daquela estranha flauta. De boca em boca, de aldeia
em aldeia, chegou ao palácio real.
Quando o rei teve conhecimento do assunto, chamou o pastor à sua presença e
mandou-o tocar. Sem acreditar nos próprios ouvidos, quis o monarca
experimentar, ele próprio, a flauta. Logo ela se pôs a espalhar a terrível verdade.
Furioso, foi o soberano ter com o barbeiro, com a espada em punho, para o
degolar.
- Ai, senhor, tende piedade de mim. Ninguém ouviu o segredo dos meus lábios.
E explicou o que fizera para fugir a tentação. Que problema havia em falar para
um buraco no chão?
Ficou el-rei perplexo. Devia ou não cortar-lhe a cabeça?
O príncipe já sabia, naturalmente, de tudo. Mas mantivera-se calado. Só então
interveio:
- Deixe o homem, meu pai, que ele é um bom barbeiro. Nunca me fez uma
arranhadela... Como já toda a gente sabe que tenho orelhas de burro, escuso de
continuar a usar estes incómodos barretes. Ainda bem!
A rainha, que entretanto chegara, recomendava:
- Máximo, meu filho, esconde o teu defeito. Nunca te descubras! Quem vai
acreditar numa flauta?
Aflita, prometeu oferecer todas as suas jóias à fada antipática se esta retirasse ao
príncipe as orelhas desconformes.
De asinhas a dar a dar, a fada não tardou a aparecer. Desta vez vinha bem-
disposta, pronta a ajudar.
- O príncipe já viveu tempo suficiente com os enfeites que lhe coloquei. Passem-
me para cá as jóias que eu vou tirar-lhe as orelhas de burro.
Preparava-se ela para dar o toque com a varinha, quando o jovem lhe pediu que
esperasse.
- Se eu ficar sem as orelhas de burro não oiço mais o canto dos peixes, a fala das
formigas, a música das estrelas?
- Não! - disse a fada. - Passas a ser como as outras pessoas.
- Não me vou sentir mais irmão de todas as criaturas imperfeitas, que agora
amo?
- Não.
- Então, deixe-me ficar como sou e quem quiser que me aceite.
A rainha bem tentou segurar a mágica criatura pela orla do vestido. O rei ergueu
a espada para ela não poder passar.
Mas a fada sumiu.
O rapaz pôs-se á janela, com as orelhas ao vento, e começou a rir, a rir, a rir. No
outro lado da praça um amigo contava a outro uma anedota deveras divertida.
No ano seguinte a grande moda na corte era usar orelhas postiças.
Na escola, os professores colocavam-nas, como prémio, na cabeça dos melhores
alunos.
Os burros deixaram de carregar pesadas cargas, passando a animais de
estimação.
A princesa de um reino vizinho, que só conseguia adormecer abraçada a bonecos
de pelúcia, apaixonou-se pelas longas orelhas macias do príncipe Máximo.
Casaram, foram muito felizes e tiveram sete filhos, nenhum deles com orelhas de
burro.
A história não devia acabar assim. Mas acabou.
Outro fim pode inventar quem deste não gostar.
As Três Pombas
Vou contar-lhes uma história que a minha avó me contou.
Eram três pombinhas, as três dum pombal.
A mais velha casou-se, foi para o pinhal.
A pomba do meio fez-se pombo-correio.
A terceira quis voar Para além do mar.
E que mais? E que mais? E que mais? Querem saber? Perguntem aos pardais.
Pedro das Malasartes
Três Desejos
O Troca-Tintas
O Dinheiro Elástico
O Criado Esperto
O Céu Está a Cair
O Canário
Frei João Sem Cuidados
Dom Caio
As Galinhas Faladoras
Senhoras das Capinhas Pretas
A Pele do Piolho
A Mulher Gulosa
Dança, Cacete!
O Príncipe com Orelhas de Burro
As Três Pombas

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