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Daniel Benjamin Gonçalves RA00182254

Trabalho Final de Ética - Análise do filme “Eu, Daniel Blake”

O filme aborda a situação de um marceneiro profissional chamado Daniel


Blake. Após um ataque cardíaco intenso, seus médicos não quer liberá-lo para
trabalhar, e por isso necessita da ajuda dos benefícios do estado. É nessa
necessidade que nasce o primeiro dilema ético importante do filme, o excesso de
burocracias e o papel das regras nesse ambiente de suposto cuidado ao
trabalhador.
Ao pedir ajuda no estabelecimento do Estado Inglês, Daniel Blake é
desrespeitado, ignorado, desassistido e até expulso em uma cena. Seu primeiro
contato é através de uma conversa presente na primeira cena do filme, onde
uma “profissional de saúde” do call center começa a perguntar coisas que ele já
havia respondido no formulário e conteúdos que nada tinham a ver com seu real
problema, o ataque cardíaco e os benefícios governamentais. Presencialmente,
o protagonista entre em contato quase que exclusivamente com profissionais
que encaminham o problema para outros e até chegam a expulsá-lo por intervir
na situação que Katie precisou ser ajudada pois estava sendo vítima da mesma
violência, o que no filme é comprovado ser uma estratégia para fazê-lo desistir
da ajuda estatal.
Felizmente, algumas personagens do filme vão contra essa
burocratização das relações e decidem oferecer um contato mais humano com
Blake, com uma das funcionárias da previdência social e algumas pessoas na
Lan House, oferecendo a ajuda que um único indivíduo pode oferecer, mas que
provavelmente não resolveria o problema estrutural; apresentando um outro lado
deste dilema ético: Se ater à regras e burocracias ou ajudar quem precisa ser
ajudado?
Daniel Blake se torna então uma figura de cuidado para Katie, a figura que
ele não teve, para se sentir útil e ativo novamente, mesmo com sua condição
médica. Também cuida do seu vizinho e é cuidado por ambos, que o ajudam a
se recuperar, já que o Estado se recusa a entender que ele não pode mais
trabalhar e deve se aposentar por invalidez, obrigando-o a procurar empregos e
até a participar de cursos para construção de um CV, completamente ignorando
sua liberdade individual.
Outro dilema está presente na questão dos furtos da Katie. A personagem
também vive dificuldades financeiras extremas, chegando a cozinhar o jantar
para seus filhos e Daniel Blake, mentindo que já havia jantado, pois não havia
comida para todo mundo. No Banco de Comida, um mercado social, Katie chega
a abrir uma embalagem de comida da prateleira e começa a comer escondida
pois estava com muita fome. Nesse local, o furto não foi resolvido de maneira
violenta pela administração, que chegou a acolhê-la.
Algumas cenas depois, Katie vai a um mercado privado para comprar
algumas coisas, mas acaba sendo pega roubando algumas mercadorias de
higiene básica. Então é chamada para a sala do gerente que não a pune,
deixando-a ir embora com os produtos, chegando até a ser interrompida pelo
segurança da loja para pedir desculpas e oferecer ajuda financeira. Nessas
cenas podemos perceber a importância e a necessidade de suspender as regras
e a lei em situações onde elas não cabem, preferindo um contato e uma
resolução de conflitos mais humana e solidária.
Por fim, Daniel Blake começa a praticar um cuidado excessivo com Katie,
indicando estar apaixonado, no momento em que vai confrontá-la por causa de
sua nova profissão, a prostituição. Isso também me fez perguntar os limites entre
cuidado e invasão de privacidade, assim como os limites de um contato
saudável. A última cena do filme é bem impactante, mostrando o funeral de
Daniel Blake, que morreu logo antes do julgamento do seu processo contra a
previdência social e com a leitura de seu discurso por Katie percebemos como o
protagonista foi mais uma vítima das violências do Estado, que ao priorizar a lei
acima dos humanos, desumaniza o cotidiano, afetando a saúde de quem
precisaria proteger, seus cidadãos.
Como psicólogo, e seguindo um dos pilares éticos de não causar nenhum
dano, ou seja, não piorar a situação do paciente, iria acolher Daniel Blake de
maneiras que estimulariam sua liberdade e protagonização da sua vida, já que
seus problemas são quase paralisantes na medida em que não dependem da
ação dele para serem resolvidos. Seria necessário que o psicólogo apresentasse
uma visão crítica do que foi vivido por Blake, afim de instrumentalizá-lo para os
próximos confrontos na Previdência Social, gerando autonomia e maior liberdade
para o sujeito. É necessário também buscar, na rede de cuidado público,
instituições que poderiam ajudá-lo nas barreiras burocráticas e legais do seu
processo trabalhista, já que Daniel Blake não tem acesso à internet e tem
dificuldades em encontrar essas informações.
Como disse uma das funcionárias acolhedoras da previdência social, é
uma escolha importante e difícil sair da previdência social sem ter nenhum outro
tipo de renda, algo que poderia arriscar o futuro e a vida do paciente. Mas seria
de extrema importância o psicólogo apoiá-lo nesse ataque ao sistema, um
contracontrole necessário para estabelecê-lo como sujeito ativo que pode mudar
o mundo, e que não apenas sofre as consequências de decisões alheias, como
estava acontecendo na sua relação com o governo.

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