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ADVOCACIA-GERAL DA UNIÃO

PROCURADORIA-GERAL FEDERAL
PROCURADORIA FEDERAL ESPECIALIZADA JUNTO AO INSTITUTO CHICO
MENDES DE CONSERVAÇÃO DA BIODIVERSIDADE
COORDENAÇÃO DE MATÉRIA FUNDIÁRIA

PARECER n. 00040/2021/COMAF/PFE-ICMBIO/PGF/AGU

NUP: 00810.000161/2020-11 (REF. 00551.000805/2020-79)

INTERESSADOS: INSTITUTO CHICO MENDES DE CONSERVAÇÃO DA


BIODIVERSIDADE - ICMBIO E OUTROS

ASSUNTOS: UNIDADE DE CONSERVAÇÃO DA NATUREZA

EMENTA: DESAPROPRIAÇÃO EM UNIDADES DE CONSERVAÇÃO. PERÍCIA


JUDICIAL. AVALIAÇÃO DE IMÓVEL RURAL. OBRIGATORIEDADE DE
REALIZAÇÃO POR ENGENHEIRO AGRÔNOMO. NOMEAÇÃO DE
ENGENHEIRO CIVIL PELO MAGISTRADO. NECESSIDADE DE IMPUGNAÇÃO
DA NOMEAÇÃO E DO LAUDO.

relatório

Trata-se de consulta formulada pela Coordenação Geral de Consolidação Territorial -


CGTER (8631602), nos seguintes termos:

FORMULÁRIO PARA CONSULTAS ESPECÍFICAS


Número do Processo Administração: 00810.000161/2020-11

Assunto: impedimento ou suspeição em relação ao perito nomeado


pelo Juízo

Interessado: Dirceu Cardoso
Relato dos Fatos

Versam os autos sobre ação expropriatória com a finalidade de


promover a regularização fundiária do PARQUE NACIONAL DO
ITATIAIA, unidade de conservação federal instituída pelo Decreto
nº 1713, de 14 de junho de 1937, com limites posteriormente
ampliados pelo Decreto nº 87.586, de 20/09/1982. O imóvel
expropriado objeto da presente ação, de titularidade de Dirceu
Cardoso e Mirian Conceição Vieira Cardoso (falecida), é o imóvel
rural denominado “Lote nº 23 do Antigo Núcleo Colonial de
Itatiaia” registrado junto ao 3º Ofício da Comarca de Resende/RJ
sob a matrícula nº 6.351, com área de 287.300,00 m², localizado no
município de Itatiaia/RJ.

Por meio da COTA n. 00155/2020/SEPFE-MG/PFE-


ICMBIO/PGF/AGU (8015312) e no OFÍCIO n. 00062/2021/SAP-
AFI/ER-FIN-PRF2/PGF/AGU (8507192) foi solicitado atendimento
do contido que em resumo: (i) indicação de assistente técnico do
ICMBio; (ii) apresentação de quesitos a serem respondidos pelo
perito judicial; e (iii) "informar se há alguma causa conhecida de
impedimento ou suspeição em relação ao perito nomeado pelo Juízo
(Engenheiro João Jorge de Alencar Maia, CREA-RJ 36876-D)".

Nesse sentido, foi elaborada Nota Técnica nº


3/2021/CGTER/DISAT/GABIN/ICMBio(8585506), e documentos
anexados(8585516, 8614136, 8615444, 8615474, 8615604 e 861591
2), que fazem referência  ao impedimento ou suspeição, em relação
ao perito nomeado pelo Juízo (Engenheiro João Jorge de Alencar
Maia, CREA-RJ 36876-D), considerando que por se tratar
de engenheiro civil, profissional não  competente legalmente para
realizar perícia e avaliação de imóveis rurais como o caso em
tela, com as seguintes fundamentações:

O objeto da perícia refere-se a imóvel rural, localizado no interior do


Parque Nacional do Itatiaia onde são considerados na avaliação do
imóvel e também nos demais imóveis rurais utilizadas como
amostras (paradigmas) para estimar o valor de mercado, fatores
como: solos, recurso naturais, construções rurais, fatores produtivos,
fatores de produção da terra, capacidade de uso da terra, fertilidade,
culturas existente nos imóveis, entre outros fatores inerente ao meio
rural com capacidade de gerar renda, questões bem explicitadas na
Decisão Decisão PL-0608/2007 do Confea anexa (8615474).

 Esta Decisão PL-0608/2007 (8615474) do Confea, analisou recurso


interposto, por profissional da engenharia civil, contra decisão do
Plenário do Crea-RS, que a "recomendou abster-se de avaliar
imóveis rurais" e "DECIDIU, por unanimidade: 1) Conhecer o
recurso da interessada para, no mérito, negar-lhe provimento, no
sentido de que seja mantido o posicionamento do Plenário do Crea-
RS, ou seja, a interessada deve abster-se de avaliar imóveis rurais,
por não possuir habilitação para tal, ressalvando a possibilidade de
participar de equipe multiprofissional de avaliação de imóveis
rurais, quando envolver empreendimentos relacionados à sua área
de atuação".

 Também temos a Decisão Nº: PL-3238/2003 (8615440) do Plenário


da Conselho Federal Engenharia, Arquitetura e Agronomia - Confea,
firmando entendimento que: "O objeto do arbitramento, avaliação,
perícia e vistoria, independentemente de sua localização, é que
definirá qual o profissional legalmente habilitado pela sua
execução, observando-se suas competências, nos termos da
legislação vigente." No caso em concreto os objeto da perícia são
imóveis rurais, o imóvel a ser avaliado e as amostras, com todos os
fatores e atributos inerentes aos mesmos.

 Vejamos o conteúdo da legislação vigente, a Resolução do


Conselho Federal de Engenharia, Arquitetura e Agronomia - 
Confea, Resolução nº 218, de 29 de junho de 1973 (8615912) que
"discrimina atividades das diferentes modalidades profissionais da
Engenharia, Arquitetura e Agronomia" (negrito e/ou sublinhado
nosso).

(...)

Art. 1º - Para efeito de fiscalização do exercício profissional


correspondente às diferentes modalidades da Engenharia,
Arquitetura e Agronomia em nível superior e em nível médio, ficam
designadas as seguintes atividades:Atividade 01 - Supervisão,
coordenação e orientação técnica;Atividade 02 - Estudo,
planejamento, projeto e especificação;Atividade 03 - Estudo de
viabilidade técnico-econômica;Atividade 04 - Assistência,
assessoria e consultoria;Atividade 05 - Direção de obra e serviço
técnico;Atividade 06 - Vistoria, perícia, avaliação, arbitramento,
laudo e parecer técnico;Atividade 07 - Desempenho de cargo e
função técnica;Atividade 08 - Ensino, pesquisa, análise,
experimentação, ensaio e divulgação técnica; extensão;Atividade 09
- Elaboração de orçamento;Atividade 10 - Padronização,
mensuração e controle de qualidade;Atividade 11 - Execução de
obra e serviço técnico;Atividade 12 - Fiscalização de obra e serviço
técnico;Atividade 13 - Produção técnica e especializada;Atividade
14 - Condução de trabalho técnico;Atividade 15 - Condução de
equipe de instalação, montagem, operação, reparo ou
manutenção;Atividade 16 - Execução de instalação, montagem e
reparo;Atividade 17 - Operação e manutenção de equipamento e
instalação;Atividade 18 - Execução de desenho técnico.(...)Art. 5º
- Compete ao ENGENHEIRO AGRôNOMO:I - o desempenho
das atividades 01 a 18 do artigo 1º desta Resolução, referentes
a engenharia rural; construções para fins rurais e suas
instalações complementares; irrigação e drenagem para fins
agrícolas; fitotecnia e zootecnia; melhoramento animal e
vegetal; recursos naturais
renováveis; ecologia, agrometeorologia; defesa sanitária; química
agrícola; alimentos; tecnologia de transformação (açúcar, amidos,
óleos, laticínios, vinhos e destilados); beneficiamento e conservação
dos produtos animais e vegetais; zimotecnia; agropecuária;
edafologia; fertilizantes e corretivos;  processo de cultura e de
utilização de solo; microbiologia agrícola; biometria; parques e
jardins; mecanização na agricultura; implementos agrícolas;
nutrição animal; agrostologia; bromatologia e rações; economia
rural e crédito rural; seus serviços afins e correlatos.(...)Art. 7º
- Compete ao ENGENHEIRO CIVIL ou ao ENGENHEIRO DE
FORTIFICAçãO e CONSTRUçãO:I - o desempenho das atividades
01 a 18 do artigo 1º desta Resolução, referentes a edificações,
estradas, pistas de rolamentos e aeroportos; sistema de transportes,
de abastecimento de água e de saneamento; portos, rios, canais,
barragens e diques; drenagem e irrigação; pontes e grandes
estruturas; seus serviços afins e correlatos.

Não existe na Resolução nº 218/1973, em seu artigo 7º,  nenhuma


atribuição do engenheiro civil referente à atividade rural, como a
avaliação e perícia de imóvel rural  do caso em tela, com sua
características inerentes ao solos, recursos naturais, engenharia para
fins rurais, construções rurais, fitotecnia (cultivo e reprodução de
plantas) que está exclusivamente como competência do engenheiro
agrônomo no artigo 6º da Resolução.

Também vale registrar Parecer do Prof. Antônio Cláudio da Costa


Machado. publicado nas revistas USP, em 2013, anterior ao Novo
Código de Processo Civil, denominado "ART. 145 DO CPC: Da
Inabilitação de Engenheiro Civil para Proceder a Levantamento
Agronômico em Imóvel Rural", que anexamos como fundamento
à incompetência legal do profissional de engenharia civil para
perícia em em imóveis rurais".
Fundamentação

1. Conselho Federal de Engenharia, Arquitetura e Agronomia -


Confea. DECISÃO PL- 0608/2007. Habilitação
profissional para a avaliação de imóveis rurais. (8615474)
2. Conselho Federal Engenharia, Arquitetura e Agronomia -
Confea. DECISÃO PL-3238/2003: Definição da
modalidade profissional com habilitação para realizar
atividades de vistoria e perícia em imóvel rural na sua
totalidade. (8615444)
3. Conselho Federal de Engenharia, Arquitetura e Agronomia -
Confea. RESOLUÇÃO Nº 2018, de 29 de junho de 1973:
Discrimina atividades das diferentes modalidades
profissionais da Engenharia, Arquitetura e Agronomia. 
4. MACHADO, Antônio Cláudio da Costa. ART. 145 DO CPC:
Da Inabilitação de Engenheiro Civil para Proceder a
Levantamento Agronômico em Imóvel Rural.

Os servidores envolvidos na formulação e envio da consulta têm


conhecimento de fatos, circunstâncias, entendimentos jurídicos ou
técnicos ou documentos e processos administrativos ou judiciais
relevantes ao exame jurídico solicitado? Se sim, explicitar.

Sim (  x  )

Não (    )

Se sim, especificar:
Quesitos de consulta

Diante dos fatos acima narrados e por meio da Nota Técnica nº


3/2021/CGTER/DISAT/GABIN/ICMBio(8585506), submeto os
autos a esta PFE para Análise Jurídica quanto ao impedimento ou
suspeição, em relação ao perito nomeado pelo Juízo (Engenheiro
João Jorge de Alencar Maia, CREA-RJ 36876-D), considerando que
por se tratar de engenheiro civil, o mesmo não pode responsabilizar-
se  profissionalmente em perícia e avaliação de imóveis rurais e seus
atributos correlatos, como o caso em tela.

análise jurídica

O exame da questão se dará sob o enfoque eminentemente jurídico, desconsideradas as


questões de ordem técnica, financeira ou orçamentária, nos termos do art. 10, §1º, da
Lei nº 10.480/2002.

A consulta diz respeito a saber se a perícia judicial em imóvel rural pode ser realizada
por engenheiro civil, ao invés de engenheiro agrônomo.

Acerca do tema, nesses autos foi expedida a Nota Técnica 3 (8585506) que, ao tratar da
questão, delimitou o objeto da perícia da seguinte forma:

4.4. O objeto da perícia refere-se a imóvel rural, localizado no interior do Parque


Nacional do Itatiaia onde são considerados na avaliação do imóvel e também nos
demais imóveis rurais utilizadas como amostras (paradigmas) para estimar o valor de
mercado, fatores como: solos, recurso naturais, construções rurais, fatores produtivos,
fatores de produção da terra, capacidade de uso da terra, fertilidade, culturas existente
nos imóveis, entre outros fatores inerente ao meio rural com capacidade de gerar renda,
questões bem explicitadas na Decisão Decisão PL-0608/2007 do Confea anexa
(8615474).

Informou que o Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (CONFEA) decidiu que


em caso de avaliação de imóvel rural o engenheiro civil não tem habilitação para tanto:

4.5. Esta Decisão PL-0608/2007 (8615474) do Confea, analisou recurso interposto, por


profissional da engenharia civil, contra decisão do Plenário do Crea-RS, que a
"recomendou abster-se de avaliar imóveis rurais" e "DECIDIU, por unanimidade:
1) Conhecer o recurso da interessada para, no mérito, negar-lhe provimento, no
sentido de que seja mantido o posicionamento do Plenário do Crea-RS, ou seja, a
interessada deve abster-se de avaliar imóveis rurais, por não possuir habilitação para
tal, ressalvando a possibilidade de participar de equipe multiprofissional de avaliação
de imóveis rurais, quando envolver empreendimentos relacionados à sua área de
atuação".

Apontou que o CONFEA firmou o entendimento que o que define o profissional


legalmente habilitado para a avaliação não é o local da perícia, mas o seu objeto, e que,
no caso, o objeto é a avaliação de um imóvel rural considerado estritamente como tal,
vejamos:

4.6. Também temos a Decisão Nº: PL-3238/2003 (8615440) do Plenário da Conselho


Federal Engenharia, Arquitetura e Agronomia - Confea, firmando entendimento que:
"O objeto do arbitramento, avaliação, perícia e vistoria, independentemente de sua
localização, é que definirá qual o profissional legalmente habilitado pela sua execução,
observando-se suas competências, nos termos da legislação vigente." No caso em
concreto os objeto da perícia são imóveis rurais, o imóvel a ser avaliado e as amostras,
com todos os fatores e atributos inerentes aos mesmos.

Citou a legislação do CONFEA que define as competências de cada especialidade.

4.7. Vejamos o conteúdo da legislação vigente, a Resolução do Conselho Federal de


Engenharia, Arquitetura e Agronomia -  Confea, Resolução nº 218, de 29 de junho de
1973 (8615912) que "discrimina atividades das diferentes modalidades profissionais da
Engenharia, Arquitetura e Agronomia" (negrito e/ou sublinhado nosso).
(...)
Art. 1º - Para efeito de fiscalização do exercício profissional correspondente às
diferentes modalidades da Engenharia, Arquitetura e Agronomia em nível superior e
em nível médio, ficam designadas as seguintes atividades:Atividade 01 - Supervisão,
coordenação e orientação técnica;Atividade 02 - Estudo, planejamento, projeto e
especificação;Atividade 03 - Estudo de viabilidade técnico-econômica;Atividade 04 -
Assistência, assessoria e consultoria;Atividade 05 - Direção de obra e serviço
técnico;Atividade 06 - Vistoria, perícia, avaliação, arbitramento, laudo e parecer
técnico;Atividade 07 - Desempenho de cargo e função técnica;Atividade 08 - Ensino,
pesquisa, análise, experimentação, ensaio e divulgação técnica; extensão;Atividade 09
- Elaboração de orçamento;Atividade 10 - Padronização, mensuração e controle de
qualidade;Atividade 11 - Execução de obra e serviço técnico;Atividade 12 -
Fiscalização de obra e serviço técnico;Atividade 13 - Produção técnica e
especializada;Atividade 14 - Condução de trabalho técnico;Atividade 15 - Condução
de equipe de instalação, montagem, operação, reparo ou manutenção;Atividade 16 -
Execução de instalação, montagem e reparo;Atividade 17 - Operação e manutenção de
equipamento e instalação;Atividade 18 - Execução de desenho técnico.(...) Art. 5º
- Compete ao ENGENHEIRO AGRôNOMO:I - o desempenho das atividades 01 a
18 do artigo 1º desta Resolução, referentes a engenharia rural; construções para fins
rurais e suas instalações complementares; irrigação e drenagem para fins
agrícolas; fitotecnia e zootecnia; melhoramento animal e vegetal;  recursos naturais
renováveis; ecologia, agrometeorologia; defesa sanitária; química agrícola;
alimentos; tecnologia de transformação (açúcar, amidos, óleos, laticínios, vinhos e
destilados); beneficiamento e conservação dos produtos animais e vegetais;
zimotecnia; agropecuária; edafologia; fertilizantes e corretivos;  processo de cultura e
de utilização de solo; microbiologia agrícola; biometria; parques e jardins;
mecanização na agricultura; implementos agrícolas; nutrição animal; agrostologia;
bromatologia e rações; economia rural e crédito rural; seus serviços afins e
correlatos.(...)Art. 7º - Compete ao ENGENHEIRO CIVIL ou ao ENGENHEIRO DE
FORTIFICAçãO e CONSTRUçãO:I - o desempenho das atividades 01 a 18  do artigo
1º desta Resolução, referentes a edificações, estradas, pistas de rolamentos e
aeroportos; sistema de transportes, de abastecimento de água e de saneamento; portos,
rios, canais, barragens e diques; drenagem e irrigação; pontes e grandes estruturas;
seus serviços afins e correlatos.

Argumenta que não há atribuições do engenheiro civil que tenham ligação com a
atividade rural: 

4.8. Não existe na Resolução nº 218/1973, em seu artigo 7º,  nenhuma atribuição do
engenheiro civil referente à atividade rural, como a avaliação e períca de imóvel rural 
do caso em tela, com sua características inerantes ao solos, recursos naturais, engenharia
para fins rurais, construções rurais, fitotecnia (cultivo e reprodução de plantas) que está
exclusivamente como competência do engenheiro agrônomo no artigo 6º da Resolução.

E conclui que o perito nomeado pelo Juízo, por se tratar de engenheiro civil, não está
habilitado para a realização da perícia:

5.1. Com referência  ao impedimentos ou suspeição, em relação ao perito nomeado pelo


Juízo (Engenheiro João Jorge de Alencar Maia, CREA-RJ 36876-D), considerando que
por se tratar de engenheiro civil, o mesmo não pode responsabilizar-se 
profissionalmente em perícia e avaliação de imóveis rurais e seus atributos correlatos,
como o caso em tela.

Com efeito, a desapropriação em unidades de conservação de posse e domínio público é


uma obrigação do Poder Público, prevista em diversos artigos da Lei 9.985/2000, que
disciplina o disposto no art. 225, §1º, III da Constituição Federal, que dada a sua
hierarquia normativa e importância vale sempre a transcrição.
  Art. 225. Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso
comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à
coletividade o dever de defendê-lo e preservá- lo para as presentes e futuras gerações.
(...)
III - definir, em todas as unidades da Federação, espaços territoriais e seus componentes
a serem especialmente protegidos, sendo a alteração e a supressão permitidas somente
através de lei, vedada qualquer utilização que comprometa a integridade dos atributos
que justifiquem sua proteção;         (Regulamento)

O referido artigo veda expressamente qualquer utilização dos espaços territoriais e


seus componentes especialmente protegidos que comprometa a integridade dos atributos
que justifiquem sua proteção. É essa a disposição constitucional que informa e sustenta
a desapropriação em unidades de conservação, sejam as de uso e domínio público, nas
quais não há necessidade de ulteriores justificativas para a realização da
desapropriação, seja por incompatibilidade entre os objetivos da unidade e a atividade
privada (Lei 9.985/2000, arts. 12, §2º, art 13 §2º). Ora, em uma unidade de proteção
integral, um Parque Nacional como é o caso dos autos, é admitido apenas o uso indireto
dos recursos naturais, segundo dispõe a Lei do SNUC, vejamos:

Art. 2o Para os fins previstos nesta Lei, entende-se por:


(...)
VI - proteção integral: manutenção dos ecossistemas livres de alterações causadas por
interferência humana, admitido apenas o uso indireto dos seus atributos naturais;
(...)
IX - uso indireto: aquele que não envolve consumo, coleta, dano ou destruição dos
recursos naturais;

(...)

Art. 11. O Parque Nacional tem como objetivo básico a preservação de ecossistemas
naturais de grande relevância ecológica e beleza cênica, possibilitando a realização de
pesquisas científicas e o desenvolvimento de atividades de educação e interpretação
ambiental, de recreação em contato com a natureza e de turismo ecológico.
§ 1o O Parque Nacional é de posse e domínio públicos, sendo que as áreas particulares
incluídas em seus limites serão desapropriadas, de acordo com o que dispõe a lei.

Diante dessa vedação é absolutamente incompatível com a existência de propriedades


privadas no interior de unidades de conservação de proteção integral, e, determina a lei,
que sejam indenizados os proprietários, por meio do processo de desapropriação. Ou
seja, salvo a desafetação da unidade de conservação, finalidade para a qual se exige lei
específica, vale dizer, salvo se a área deixar de ser unidade de conservação, a única
possibilidade para o proprietário de área particular é ser indenizado justa e previamente,
e, após a indenização, que desocupe a área.

Embora a desapropriação tenha nítido caráter ambiental, indispensável ao meio


ambiente ecologicamente equilibrado, que deverá ser realizada com a máxima urgência,
considerados os estreitos limites orçamentários, e, considerados os princípios da
supremacia do interesse público sobre o particular, da função social da propriedade e
outros, não é possível esquecer que a propriedade privada é um direito fundamental
consagrado na Constituição Federal e que deverá ser respeitado, nesse caso, mediante
justa e prévia indenização em dinheiro, vejamos os dispositivos constitucionais:

Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se
aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à
liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:

(...)
LIV - ninguém será privado da liberdade ou de seus bens sem o devido processo legal;
(...)
XXII - é garantido o direito de propriedade;
XXIII - a propriedade atenderá a sua função social;
XXIV - a lei estabelecerá o procedimento para desapropriação por necessidade ou
utilidade pública, ou por interesse social, mediante justa e prévia indenização em
dinheiro, ressalvados os casos previstos nesta Constituição;
(...)

A desapropriação em unidades de conservação, por sua vez, tem regramento próprio,


especial, dada a natureza de instrumento da proteção constitucional ao meio ambiente, 
a obrigatoriedade da sua efetivação e regras específicas para a composição da
indenização (art. 45 da Lei 9.985/2000). Dessa maneira, o Decreto-Lei nº 3.365/1941
que trata das desapropriações em geral, é aplicado no que for compatível com o
regramento especial. Com efeito, não há nesse quadro legislativo parâmetros expressos
para a determinar qual é a especialidade técnica suficientemente apta a realizar perícias
em imóveis rurais. No entanto, na Lei 8.629/1993, que disciplina a reforma agrária,
estabeleceu os parâmetros para revelar o que é a justa indenização de imóveis rurais,
vejamos:
Art. 12.  Considera-se justa a indenização que reflita o preço atual de mercado do
imóvel em sua totalidade, aí incluídas as terras e acessões naturais, matas e florestas e as
benfeitorias indenizáveis, observados os seguintes aspectos:                     (Redação dada
Medida Provisória nº 2.183-56, de 2001)
(...)
§ 3o  O Laudo de Avaliação será subscrito por Engenheiro Agrônomo com registro de
Anotação de Responsabilidade Técnica - ART, respondendo o subscritor, civil, penal e
administrativamente, pela superavaliação comprovada ou fraude na identificação das
informações.                      (Incluído dada Medida Provisória nº 2.183-56, de 2001)

Ou seja, a Lei considera como parâmetro mínimo para a justa indenização de um imóvel
rural que será desapropriado para fins de reforma agrária que essa seja feita por um
Engenheiro Agrônomo. De modo que não é razoável crer que para os imóveis rurais no
interior de unidades de conservação seja diferente, diante da ausência de previsão
legislativa expressa nesse sentido. Além disso, o próprio Conselho Federal de
Engenharia e Agronomia tem entendimentos no sentido de que é o Engenheiro
Agrônomo o profissional habilitado tecnicamente a realizar o laudo pericial, e que o
Engenheiro Civil, em regra, não possui habilitação para tanto.

Porém, o entendimento do Supremo Tribunal Federal, do Superior Tribunal de Justiça e


dos Tribunais Regionais Federais é oscilante e ora mantém perícias feitas por
engenheiros civis, ora as inadmite, com o fundamento que a disposição do art. 12, §3º
da Lei 8.629/1993 é destinada apenas à Administração Pública e não ao Poder
Judiciário.

Colaciono alguns dos entendimentos jurisprudenciais do e. STF e do e. STJ: 

SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL

DECISÃO: Trata-se de agravo de instrumento contra decisão inadmitiu recurso


extraordinário (art. 102, III, a, da Constituição) interposto de acórdão proferido por
Tribunal Regional Federal cuja ementa possui o seguinte teor: “ADMINISTRATIVO.
AÇÃO DECLARATÓRIA DE PRODUTIVIDADE. AÇÃO CAUTELAR.
NULIDADE DO LAUDO PERICIAL ELABORADO POR ENGENHEIRO CIVIL.
ART. 12, § 3º, DA LEI Nº 8.629/93. APLICAÇÃO DO ART. 249, § 2º, DO CPC.
CRITÉRIOS PARA DETERMINAÇÃO DO GRAU DE EFICIÊNCIA NA
EXPLORAÇÃO - GEE. GEE INFERIOR A 100%. IMPRODUTIVIDADE
RECONHECIDA. 1. Tratando-se de laudo pericial que se destina a produzir prova
em contrário a laudo de improdutividade elaborado nos termos do art. 12, § 3º, da
Lei nº 8.629/93, deve ser atendida a determinação legal de elaboração por
Engenheiro Agrônomo com registro de Anotação de Responsabilidade Técnica, sob
pena de nulidade. 2. No caso, podendo ser decidido o mérito a favor do INCRA, parte
a quem aproveitaria o reconhecimento do vício no laudo, a nulidade deve deixar de ser
declarada, nos termos do art. 249, § 2º, do CPC. 3. Tendo sido encontrado Grau de
Eficiência na Exploração do imóvel rural em índice inferior a 100%, tanto pelo INCRA
em sua vistoria inicial quanto na perícia realizada judicialmente, prevalece a presunção
de legalidade e legitimidade dos atos administrativos praticados pelo INCRA,
permanecendo íntegro o reconhecimento de improdutividade do imóvel rural (art. 6º da
Lei nº 8.629/93). 4. Apelação e remessa oficial providas.” (fls. 388) Alega-se violação
do disposto nos arts. 5º, XXII, XXIII, XXXV e LV; 184; 185, II e parágrafo único, e
186, da Constituição federal. O recurso não merece seguimento. Inicialmente, verifico
que inexiste a alegada ofensa ao art. 5°, XXXV e LV, da Constituição, pois o Tribunal a
quo inequivocamente prestou jurisdição, em observância aos princípios do devido
processo legal, do contraditório e da ampla defesa, tendo enfrentado as questões
suscitadas com a devida fundamentação, ainda que com ela não concorde a parte.
Ademais, concluir diversamente do Tribunal a quo demandaria o prévio exame da
legislação infraconstitucional e do quadro fático-probatório, o que é vedado no âmbito
de cognição do recurso extraordinário (Súmulas 279 e 636/STF). Por fim, observo que
os fundamentos infraconstitucionais do acórdão recorrido não foram afastados pela via
própria do recurso especial perante o Superior Tribunal de Justiça (REsp 840.648, rel.
min. Denise Arruda, DJ de 07.11.2006). Aplica-se, portanto, o disposto na Súmula
283/STF. Do exposto, nego seguimento ao presente agravo. Publique-se. Brasília, 13 de
agosto de 2010. Ministro JOAQUIM BARBOSA.  AI 643680 / PR - PARANÁ AGRAVO DE
INSTRUMENTO Relator(a): Min. JOAQUIM BARBOSA Julgamento: 13/08/2010

Ementa: AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO EXTRAORDINÁRIO COM


AGRAVO. DESAPROPRIAÇÃO. INTERESSE SOCIAL. REFORMA AGRÁRIA.
JUSTA INDENIZAÇÃO. ALEGADA OFENSA AO ART. 5º, XXIV, DA
CONSTITUIÇÃO FEDERAL. INFRACONSTITUCIONAL. REEXAME DE
CONJUNTO FÁTICO PROBATÓRIO. IMPOSSIBILIDADE. ÓBICE DA SÚMULA
279 DO STF.
(...)
5. In casu, o acórdão originariamente recorrido assentou: “ADMINISTRATIVO –
DESAPROPRIAÇÃO – RECURSO ESPECIAL – OMISSÃO NO ACÓRDÃO –
VALOR DE INDENIZAÇÃO – DATA DA AVALIAÇÃO DO IMÓVEL –
INDIVIDUALIZAÇÃO DA PROPRIEDADE – JUSTA INDENIZAÇÃO. 1. Não resta
evidenciada a alegada violação do art. 535 do CPC, pois a prestação jurisdicional foi
dada na medida da pretensão deduzida, conforme se depreende da análise do acórdão
recorrido. 2. O Tribunal de origem reconheceu que o laudo do perito oficial apresentou
valor correto para a justa indenização e determinou a inclusão das florestas naturais e as
matas nativas, como partes integrantes do solo. Modificar tal entendimento, como
pretende o recorrente, implicaria, necessariamente, em revolvimento do material fático-
probatório. Incidência da Súmula 07 do STJ. 3. Não prospera a alegada inaplicabilidade
do art. 26, caput, do Decreto-Lei n. 3.365/41, uma vez que o referido artigo dispõe que o
valor da indenização deve ser contemporâneo à avaliação, tal como ocorreu na hipótese
dos autos. Não restou demonstrada a responsabilidade do desapropriante ou a do
desapropriado para a demora de 20 anos entre imissão de posse, em favor do INCRA, e
a data da avaliação do imóvel desapropriado. 4. Aplica-se o § 1º do art. 26 do Decreto-
Lei n. 3.365/41 pois, ao contrário do alegado pelo recorrente, restou caracterizada a
perfeita individualização da propriedade expropriada. Recurso especial conhecido em
parte e improvido.” 6. A justa indenização prevista no art. 5º, XXIV, da Constituição
Federal, tem o seu procedimento regulado por meio de legislação infraconstitucional,
Lei nº 8.629/93. 7. Agravo Regimental a que se nega provimento.(ARE 683104 AgR,
Relator(a): LUIZ FUX, Primeira Turma, julgado em 11/09/2012, ACÓRDÃO
ELETRÔNICO DJe-188 DIVULG 24-09-2012 PUBLIC 25-09-2012)

SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA

RECURSO ESPECIAL. PROCESSUAL CIVIL. ACÓRDÃO RECORRIDO.


PUBLICAÇÃO ANTERIOR À VIGÊNCIA DO NOVO CPC. DESAPROPRIAÇÃO
PARA FINS DE REFORMA AGRÁRIA. OFENSA AO ART. 535 DO CPC/1973 NÃO
CONFIGURADA.
PERÍCIA. LAUDO PERICIAL SUBSCRITO POR ENGENHEIRO MECÂNICO E
NÃO POR ENGENHEIRO AGRÔNOMO. EXCEÇÃO QUE DEVE SER
CABALMENTE JUSTIFICADA.
INDENIZAÇÃO. MÉDIA ARITMÉTICA ENTRE A QUANTIA OFERTADA PELO
EXPROPRIANTE E O VALOR APRESENTADO NO LAUDO PERICIAL.
IMPOSSIBILIDADE. VIOLAÇÃO DO ART. 12 DA LEI 8.629/1993.
HISTÓRICO DA DEMANDA 1. Trata-se, na origem, de ação proposta pelo INCRA
visando à expropriação de imóvel rural, denominado "Fazenda Alvorada", localizado no
Município de Caucaia-CE.
SUBSCRIÇÃO DE LAUDO POR ENGENHEIRO MECÂNICO 2. A regra nos
processos de desapropriação para fins de reforma agrária é que o perito do juízo
seja engenheiro agrônomo. Contudo, admite-se, de maneira excepcional e
cabalmente fundamentada, nomeação de perito de outra área, que detenha
conhecimento técnico para tanto, quando na região inexistir profissional do ramo
específico da agronomia. Precedentes do STJ: REsp 1.050.215/CE, Rel.Ministra
Eliana Calmon, Segunda Turma, julgado em 23.6.2009, DJe de 4.8.2009; REsp
924.105/ES, Rel. Ministro Luiz Fux, Primeira Turma, julgado em 16.12.2008, DJe de
19.02.2009 VIOLAÇÃO DOS ARTS. 12, § 1º, DA LEI 8.629/1993, 131, 436 DO
CPC/1973, 26 DO DECRETO-LEI 3.365/1941 E 12 DA LEI COMPLEMENTAR
76/1993 3. O critério utilizado para fixar a indenização consistente na média aritmética
da quantia oferecida pelo expropriante e do valor inserto no laudo pericial não reflete a
justa indenização a que alude a Constituição da República e ofende o disposto no art. 12
da Lei 8.629/1993. O julgador não pode fixar critérios distintos dos legais. O STJ
entende que, embora o magistrado não esteja vinculado às conclusões do laudo
oficial, a prova pericial é indispensável ao pleito expropriatório, revestindo-se de
fundamental importância para a fixação do justo preço. Assim, concluindo o
julgador pela invalidade e insuficiência do laudo pericial para a fixação do justo
preço, torna-se necessária a renovação da prova técnica.
CONCLUSÃO 4. Recurso Especial provido.
(REsp 1302364/CE, Rel. Ministro HERMAN BENJAMIN, SEGUNDA TURMA,
julgado em 08/11/2016, DJe 26/08/2020)

ADMINISTRATIVO E PROCESSUAL CIVIL. AGRAVO INTERNO NO RECURSO


ESPECIAL. DESAPROPRIAÇÃO. INDENIZAÇÃO POR BENFEITORIAS.
NEGATIVA DE PRESTAÇÃO JURISDICIONAL. NÃO OCORRÊNCIA. LAUDO
PERICIAL FIRMADO POR ENGENHEIRO CIVIL. INEXISTÊNCIA DE
NULIDADE. PROVA EMPRESTADA. CERCEAMENTO DE DEFESA. REEXAME
DO CONJUNTO FÁTICO-PROBATÓRIO DOS AUTOS. IMPOSSIBILIDADE.
SÚMULA 7/STJ. FALTA DE IMPUGNAÇÃO, NO RECURSO ESPECIAL, DE
FUNDAMENTO DO ACÓRDÃO COMBATIDO, SUFICIENTE PARA A SUA
MANUTENÇÃO. INCIDÊNCIA DA SÚMULA 283/STF. AGRAVO INTERNO
IMPROVIDO.
I. Agravo interno aviado contra decisão que julgara Recurso Especial interposto contra
acórdão publicado na vigência do CPC/73.
II. No acórdão objeto do Recurso Especial, o Tribunal de origem julgou parcialmente
procedente o pedido, em ação ajuizada pela parte agravada, na qual postula a
condenação do ora agravante e do Banco do Brasil S/A ao pagamento de indenização
por danos morais e por benfeitorias realizadas em imóvel expropriado, do qual era
arrendatária.
(...)
Assim, em ação de desapropriação, não viola a regra contida no art. 12, § 3º, da Lei 8.629/93 a
nomeação de engenheiro civil para subscrever laudo pericial. Nesse sentido: STJ, REsp
1.050.215/CE, Rel. Ministra ELIANA CALMON, SEGUNDA TURMA, DJe de 04/08/2009; REsp
924.105/ES, Rel. Ministro LUIZ FUX, PRIMEIRA TURMA, DJe de 19/02/2009.
V. No caso, o Tribunal de origem, com base conjunto probatório dos autos, concluiu
que "as impugnações ao mesmo laudo lançadas pelo INCRA nos autos da ação de
desapropriação foram devidamente esclarecidas pelo perito (impugnações - fls.
475/477;esclarecimentos periciais - fls. 479/489, do processo expropriatório)'. A
reforçar tal entendimento está a petição de fls. 423/430, onde o espólio comenta 'a
'impugnação ao Laudo Pericial' apresentada pelo INCRA, através do Assistente Técnico
[...]'.
Ademais, do laudo pericial (fls. 15/33) constam as respostas às perguntas formulada
pelo INCRA, na qualidade de expropriante e, como não se poderia deixar de mencionar,
a exclusão do arrendatário do pólo passivo da ação expropriatória somente se deu na
sentença, depois de esgotadas todas as discussões acerca do laudo pericial, o que inclui
os valores devidos ao arrendatário. Desse modo, não há como se falar em ausência de
contraditório e ainda, que a indenização das benfeitorias constitui matéria nova,
conforme pretende o INCRA/apelante". Nesse contexto, infirmar os fundamentos do
acórdão recorrido demandaria o reexame de matéria fática, o que é vedado em Recurso
Especial, nos termos da Súmula 7/STJ.
VI. Ademais, a parte agravante, nas razões de seu Recurso Especial, deixou de
impugnar o fundamento do acórdão recorrido no sentido de que "cumpriria ao INCRA,
alegar em sua contestação, toda a matéria de defesa. Assim não o fazendo, ou seja, não
tendo o INCRA impugnado na contestação as conclusões do laudo pericial constante da
petição inicial, inexiste qualquer óbice à adoção da prova emprestada, como assim o fez
o julgador sentenciante". Assim, a pretensão recursal esbarra, inarredavelmente, no
óbice da Súmula 283 do Supremo Tribunal Federal, por analogia.
VII. Agravo interno improvido.
(AgInt no REsp 1412979/AL, Rel. Ministra ASSUSETE MAGALHÃES, SEGUNDA
TURMA, julgado em 19/03/2019, DJe 26/03/2019)

ADMINISTRATIVO. DESAPROPRIAÇÃO. REFORMA AGRÁRIA. AVALIAÇÃO.


NOMEAÇÃO. PERITO. ENGENHEIRO AGRÔNOMO. ENGENHEIRO CIVIL.
1. A nomeação de engenheiro civil para auxiliar engenheiro agrônomo na avaliação do
imóvel rural desapropriado não tem o condão de anular a perícia técnica.
2. O artigo 12, § 3º, da Lei nº 8.629/93 estabelece que: "O Laudo de Avaliação será
subscrito por Engenheiro Agrônomo com registro de Anotação de Responsabilidade
Técnica - ART, respondendo o subscritor, civil, penal e administrativamente, pela
superavaliação ou fraude nas informações".
3. In casu, em atendimento ao art. 12, § 3º, da Lei n.º 8.629/93, o juízo de primeira
instância nomeou engenheiro agrônomo para a avaliação da terra nua e das plantações
encontradas no imóvel expropriado e engenheiro civil para a avaliação das construções
havidas no imóvel.
4. Deveras, não pode ser nulificado o ato judicial que se revela diligente mercê de
razoável a sua conclusão no sentido de alcançar o postulado constitucional da justa
indenização, haja vista que visa obter um trabalho pericial praticado por
profissional que expresse com maior exatidão o valor econômico do bem
desapropriado.
5. A regra do art. 12, § 3º, da Lei n. 8.629, de 1993, é dirigida à administração
pública e não em relação ao auxiliar do Juiz, que deve ser um perito de confiança
do Juízo. Precedentes: REsp 849.225/RJ, Rel. Ministro JOSÉ DELGADO, DJ.
27/03/2008; REsp 811.002/RN, Rel.
Ministro TEORI ALBINO ZAVASCKI, DJ 01/10/2007; AgRg no REsp 902.595/CE,
Rel. Ministro FRANCISCO FALCÃO, DJ 31/05/2007; REsp 866.053/CE, Rel. Ministra
DENISE ARRUDA, PRIMEIRA TURMA, DJ 07/11/2006.
6. Recurso especial desprovido.
(REsp 924.105/ES, Rel. Ministro LUIZ FUX, PRIMEIRA TURMA, julgado em
16/12/2008, DJe 19/02/2009)

Nos Tribunais Regionais Federais, não é diferente a oscilação dos entendimentos. Cito


alguns precedentes acerca da questão em cada Tribunal Regional Federal.
TRF1 - (TRF-1 - AC: 877 TO 2005.43.00.000877-4, Relator: DESEMBARGADOR
FEDERAL TOURINHO NETO, Data de Julgamento: 11/12/2006, TERCEIRA
TURMA, Data de Publicação: 12/01/2007 DJ p.14); (TRF-1 - AI:
00463210620154010000, Relator: DESEMBARGADORA FEDERAL MONICA
SIFUENTES, Data de Julgamento: 02/02/2016, TERCEIRA TURMA, Data de
Publicação: 11/02/2016); (TRF-1 - AC: 00176684719994013300, Relator:
DESEMBARGADOR FEDERAL OLINDO MENEZES, Data de Julgamento:
14/10/2014, QUARTA TURMA, Data de Publicação: 04/11/2014); (TRF-1 - AC:
35869820064013806, Relator: DESEMBARGADOR FEDERAL NEY BELLO, Data
de Julgamento: 11/11/2014, TERCEIRA TURMA, Data de Publicação:
28/11/2014); (TRF-1 - AC: 00001794520144013502, Relator: DESEMBARGADOR
FEDERAL NÉVITON GUEDES, Data de Julgamento: 29/05/2018, QUARTA
TURMA, Data de Publicação: 28/06/2018).

TRF2 - (TRF-2 - AG: 00009448220154020000 RJ 0000944-82.2015.4.02.0000,


Relator: MARCELO PEREIRA DA SILVA, Data de Julgamento: 28/10/2015, VICE-
PRESIDÊNCIA); (TRF-2 - APELREEX: 00003385520074025005 ES 0000338-
55.2007.4.02.5005, Relator: MARCELLO FERREIRA DE SOUZA GRANADO, Data
de Julgamento: 12/04/2016, 5ª TURMA ESPECIALIZADA); (TRF-2 - AG:
201002010109603 RJ 2010.02.01.010960-3, Relator: Juíza Federal Convocada
FATIMA MARIA NOVELINO SEQUEIRA, Data de Julgamento: 13/07/2011,
OITAVA TURMA ESPECIALIZADA, Data de Publicação: E-DJF2R -
Data::20/07/2011 - Página::431/432).

TRF3- (TRF-3 - AC: 00409078520114039999 SP, Relator: DESEMBARGADOR


FEDERAL ANTONIO CEDENHO, Data de Julgamento: 01/12/2016, TERCEIRA
TURMA, Data de Publicação: e-DJF3 Judicial 1 DATA:12/12/2016)

TRF4 - (TRF-4 - APL: 50102091320184047000 PR 5010209-13.2018.4.04.7000,


Relator: VÂNIA HACK DE ALMEIDA, Data de Julgamento: 25/02/2019, TERCEIRA
TURMA). (TRF-4 - AC: 50083631420204049999 5008363-14.2020.4.04.9999,
Relator: ROGER RAUPP RIOS, Data de Julgamento: 12/08/2020, PRIMEIRA
TURMA), (TRF-4 - APL: 50077955820174047200 SC 5007795-58.2017.4.04.7200,
Relator: CÂNDIDO ALFREDO SILVA LEAL JUNIOR, Data de Julgamento:
03/10/2018, QUARTA TURMA)

TRF5 - (TRF-5 - AC: 336011 AL 2003.80.00.003463-6, Relator: Desembargador


Federal Edílson Nobre (Substituto), Data de Julgamento: 18/05/2006, Terceira Turma,
Data de Publicação: Fonte: Diário da Justiça - Data: 05/07/2006 - Página: 923 - Nº: 127
- Ano: 2006), (TRF-5 - AMS: 81370 CE 2000.81.00.002854-6, Relator: Desembargador
Federal Napoleão Maia Filho, Data de Julgamento: 19/11/2002, Quarta Turma, Data de
Publicação: Fonte: Diário da Justiça - Data: 18/02/2003 - Página: 973), (TRF-5 - AC:
219608 CE 2000.05.00.033452-4, Relator: Desembargador Federal Paulo Roberto de
Oliveira Lima (Substituto), Data de Julgamento: 16/04/2002, Segunda Turma, Data de
Publicação: Fonte: Diário da Justiça - Data: 10/07/2002 - Página: 593); (TRF-5 -
Apelação Civel -: 00104830920134058100, Relator: Desembargador Federal Frederico
Dantas (Convocado), Data de Julgamento: 08/02/2018, Terceira Turma, Data de
Publicação: DJE - Data::23/02/2018 - Página::175)

Os argumentos expendidos em todos os julgados costumam ser casuísticos,


argumentando-se pela suficiência técnica do laudo, pelo exercício da ampla defesa, e
pelo livre convencimento do Juiz. Há um argumento usado em diversos julgados para
afastar a incidência do art. 12, parágrafo 3º da Lei 8.629/1993, mesmo em
desapropriações para fins de reforma agrária, no sentido de que a obrigatoriedade da
perícia ser realizada por Engenheiro Agrônomo seria apenas para a Administração
Pública, o que com a devida vênia, não é possível extrair da interpretação do
dispositivo, afinal justa indenização quer dizer que ela não é insuficiente nem
demasiada, e, para que seja obtido esse valor exato é necessário um profissional
devidamente habilitado.

conclusão

Diante disso, recomenda-se que a nomeação de engenheiro civil para a realização de


perícia judicial em imóvel rural seja sempre objeto de impugnação. Igualmente, caso
não seja acolhida a impugnação da nomeação, que seja comunicado o fato ao Conselho
Profissional competente, para que avalie a conduta do profissional em aceitar a
nomeação para atuar fora de sua habilitação técnica, e que seja apontada a questão na
impugnação ao laudo pericial. A impugnação, se possível, deverá demonstrar, ainda, a
clara possibilidade de nomeação de peritos com a devida habilitação na região,
informação que é possível de obter junto ao CREA correspondente e em outros
processos administrativos, judiciais etc.

À consideração superior, com sugestão de ulterior encaminhamento à CGTER.

Porto Velho, 01 de maio de 2021.

Fábio de Farias Feitosa

Procurador Federal

SEPFE-ICMBio
GR1- Base Avançada de Porto Velho

Coordenação de Matéria Fundiária

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