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Da Natureza - O que Há de Parmênides

Research · October 2016


DOI: 10.13140/RG.2.2.34768.51200

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1 author:

Harry Edmar Schulz


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Da Natureza: O que há de Parmênides, Harry Edmar Schulz

DA NATUREZA

O que há de Parmênides

Harry Edmar Schulz

Outubro de 2013

1
São Carlos, 2013.
Projeto:Humanização como ferramenta de aumento de interesse nas exatas
Da Natureza: O que há de Parmênides, Harry Edmar Schulz

Prefácio
Parmênides é conhecido apenas devido a alguns
comentários que permaneceram na literatura de filosofia e a
alguns fragmentos que são tidos como daquele autor.
Interessante perceber que há uma vasta literatura
sobre o que Parmênides teria dito, suas convicções e a
influência de suas idéias no desenvolvimento do
pensamento ocidental. Ao ver o que assumidamente restou
de seu pensamento, os fragmentos que foram reunidos e aos
quais foi dado um “corpo”, sem dúvida o observador terá
dúvidas sobre a estrutura de idéias que se construiu para
este autor. De forma objetiva, dada a escassez de frases,
qualquer estrutura pode ser elaborada para sustentar idéias
que porventura se vinculem a este autor.
A palavra tem força, pode-se repetir aqui. E, de
alguma forma, a palavra de Parmênides, qualquer que tenha
sido, parece que foi forte, porque o eco de seu nome nos
atinge como se suas doutrinas estivessem realmente
presentes no pensamento que elaboramos hoje. Mas não há
doutrinas vinculadas ao seu nome, apenas o nome
vinculado a alguns fragmentos (sem dúvida há supostas
doutrinas, sobre as quais, precisamente, a literatura é farta).
Sendo, então, algo que se mostrou forte, algo que
transpôs cerca de vinte e cinco séculos sem de fato ter
muito a apresentar, torna-se interessante acompanhar as
palavras ditas serem de Parmênides para verificar afinal
qual força as tornou tão perenes. Isso é um tema que se
alinha com os objetivos do projeto “Humanização como
Ferramenta de Aumento de Interesse nas Exatas”,
mostrando, sem qualquer dúvida, que, se houve uma
“estratégia de abordagem” específica, vale a pena tentar
conhecê-la.
O presente estudo é, portanto, inserido no projeto
“Humanização como Ferramenta de Aumento de Interesse
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São Carlos, 2013.
Projeto:Humanização como ferramenta de aumento de interesse nas exatas
Da Natureza: O que há de Parmênides, Harry Edmar Schulz

na Exatas” e tem origem em uma abordagem preparada


pelo presente autor para a disciplina de Filosofia Antiga IV
no segundo semestre de 2013, no curso de Filosofia da
Universidade Federal de São Carlos.
Vale sempre frisar que também o presente estudo foi
direcionado ao contexto didático e que conclusões atingidas
nesse esforço didático podem não ser adequadas para o
estudo do autor específico.
Caso hajam questões sobre a maneira como est estudo
foi conduzido, por favor entrar em contato com o presente
autor, através de heschulz@sc.usp.br, ou
harry.schulz@pq.cnpq.br.

Harry Edmar Schulz


São Carlos, 12 de Outubro de 2013
Projeto: Humanização como ferramenta de
de aumento de interesse nas exatas

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São Carlos, 2013.
Projeto:Humanização como ferramenta de aumento de interesse nas exatas
Da Natureza: O que há de Parmênides, Harry Edmar Schulz

Sumário

1– Introdução: O ser e a linguagem no poema de


Parmênides.......................................................................(7)

2 – O poema “Da natureza” seguido dos comentários


vinculados ao objetivo proposto:....................................(9) .

Os trinta fragmentos que compõem o poema foram


renumerados (de 2.1 a 2.30)

2.1 ................................................................................(10)
2.2 ................................................................................(11)
2.3 ................................................................................(11)
2.4 ................................................................................(12)
2.5 ................................................................................(13)
2.6 ................................................................................(14)
2.7 ................................................................................(15)
2.8 ................................................................................(16)
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São Carlos, 2013.
Projeto:Humanização como ferramenta de aumento de interesse nas exatas
Da Natureza: O que há de Parmênides, Harry Edmar Schulz

2.9 ................................................................................(17)
2.10.............................................................................(18)
2.11 ............................................................................(18)
2.12.............................................................................(20)
2.13.............................................................................(20)
2.14.............................................................................(21)
2.15.............................................................................(23)
2.16.............................................................................(23)
2.17.............................................................................(24)
2.18.............................................................................(26)
2.19.............................................................................(27)
2.20.............................................................................(28)
2.21 ............................................................................(29)
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São Carlos, 2013.
Projeto:Humanização como ferramenta de aumento de interesse nas exatas
Da Natureza: O que há de Parmênides, Harry Edmar Schulz

2.22.............................................................................(30)
2.23.............................................................................(31)
2.24.............................................................................(32)
2.25.............................................................................(32)
2.26.............................................................................(33)
2.27.............................................................................(33)
2.28.............................................................................(34)
2.29.............................................................................(34)
2.30.............................................................................(35)
3 - Discussão e Conclusão: .........................................(36)
4 - O pensamento racional em cinco mil anos de
história: ..........................................................................(38)

5 - Bibliografia:............................................................(43)

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São Carlos, 2013.
Projeto:Humanização como ferramenta de aumento de interesse nas exatas
Da Natureza: O que há de Parmênides, Harry Edmar Schulz

Objeto de estudo:
DA NATUREZA
(Fragmentos)
Autor: Parmênides.

1– Introdução: O ser e a linguagem no poema de


Parmênides

Na primeira leitura efetuada do “poema de


Parmênides” considerou-se que o texto em tela possuía uma
unidade objetiva, reproduzida a partir do pensador descrito
por seus citadores (ou comentadores), ainda que composto
de fragmentos. Mais tarde verificou-se que essa unidade
não é factual, ou seja, ela foi “conferida” aos fragmentos
que foram citados em diferentes textos por aqueles que
buscaram as informações nesses textos ainda possíveis de
ser catalogadas.

A leitura, evidentemente, foi feita então no apanhado


de fragmentos procurando talvez localizar o ser como
entendido pelo autor descrito por seus citadores,
acrescentando-se a esta localização uma visualização da
possibilidade de uma relação com a linguagem, para a
comunicação do pensamento. Entende-se que os fragmentos
são cópias de cópias e, possivelmente, o pensamento
original esteja contaminado com a interpretação já dos
citadores e copistas. Entretanto, tendo havido uma idéia
original que, apesar de fragmentada, nos alcançou, um
“trânsito direcionado” através dela pode ser interessante.
Esse “trânsito direcionado”, é, no presente caso, a tentativa

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São Carlos, 2013.
Projeto:Humanização como ferramenta de aumento de interesse nas exatas
Da Natureza: O que há de Parmênides, Harry Edmar Schulz

já mencionada de localização de uma relação entre ser e


linguagem.

Note-se que buscar essa “relação entre ser e


linguagem” implica em saber o que é a linguagem, quando
tratamos dela. De forma geral, a linguagem pode ser vista
como uma estrutura sígnica inerente ao ser humano, sendo
um fenômeno universal. Nesse último sentido, a linguagem
é independente da cultura e do indivíduo. Onde houver o
ser humano, haverá a linguagem (ver, por exemplo, NEAD,
2013, que cita, também, Sassure, 1995, e Bastos e
Candiotto, 2007).

No contexto de Parmênides, havendo a manifestação


de um pensamento, há uma linguagem sendo utilizada.
Note-se que o fato de se ter uma manifestação em grego é
acidental. A “língua” é apenas a manifestação cultural da
linguagem, sendo própria de um ou outro grupo humano. Se
se buscar o indivíduo neste grupo, então a “fala” será a
forma como a linguagem é utilizada pelo indivíduo, imerso
em um contexto cultural que utiliza uma certa língua para
expressar a linguagem.

Sendo, segundo as descrições acima, uma faculdade


humana abstrata universal, a linguagem habilita qualquer
ser humano a exprimir aquilo que necessita em sua
comunicação. Mais uma vez, no contexto de Parmênides,
surge uma noção daquilo que poderia ser expresso pelo ser
humano, descrito de sua forma peculiar, mas que, definido
como “ser”, habilita-nos a, finalmente, buscar uma relação
entre ser e linguagem.

Note-se que sabemos que a realização da linguagem


ocorre em um contexto de uma língua. Nesse caso, a língua
pode sofrer modificações para melhor transmitir aquilo que

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São Carlos, 2013.
Projeto:Humanização como ferramenta de aumento de interesse nas exatas
Da Natureza: O que há de Parmênides, Harry Edmar Schulz

se deseja. Sem dúvida, a língua é o evento mais importante


no contexto da comunicação, uma vez que talvez não
consigamos conceber sociedades sem ela.

A linguagem, sendo universal e inerente ao ser


humano, toma uma dimensão próxima à da racionalidade.
Suas causas primeiras talvez não sejam detectadas
definitivamente. Também as causas das conexões efetuadas
a partir da linguagem entre coisas e palavras de uma língua,
bem como o estabelecimento de uma estrutura linguística,
assumem um aspecto arbitrário, conveniente para um tempo
e local no qual uma língua específica passou a ser o meio
de expressar a linguagem.

Mantendo esse resumo conceitual como base para a


leitura, a seguir apresentam-se os fragmentos do texto
denominado “Da Natureza” de Parmênides, assim nomeado
por seus citadores, buscando nele algo que permita uma
associação entre ser e linguagem.

Foram utilizadas as traduções de José Cavalcante de


Souza e de José Gabriel Trindade Santos, sendo mais
intensa a consulta à tradução do último.

2 – O poema “Da natureza” seguido dos comentários


vinculados ao objetivo proposto:

Os trinta fragmentos que compõem o poema foram


renumerados (de 2.1 a 2.30), sendo acrescentado a cada um
o comentário acerca do entendimento do fragmento. Os
dois autores lidos são aqui reproduzidos. O comentário é
apresentado em itálico.

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São Carlos, 2013.
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Da Natureza: O que há de Parmênides, Harry Edmar Schulz

2.1
José Cavalcante de Souza

As éguas que me levam até onde o coração pedisse


conduziam-me, pois à via multifalente me impeliram
da deusa, que por todas as cidades leva o homem que sabe;
por esta eu era levado, por este, muito sagazes, me levaram
as éguas o carro puxando, e as moças a viagem dirigiam.

José Gabriel Trindade Santos

Os corcéis que me transportam, tanto quanto o animo me


impele,
conduzem-me, depois de me terem dirigido pelo caminho
famoso
da divindade, que leva o homem sabedor por todas as
cidades.
Por ai me levaram, por ai mesmo me levaram os
habilíssimos corcéis,
puxando o carro, enquanto as jovens mostravam o caminho.

HES1 - Esse parágrafo, ou estrofe, se assim se pode


designar, descreve uma viagem por uma via da “deusa” ou
divindade. O caminho é aquele do homem sabedor. Em
outros termos, o caminho da “deusa” é o caminho do
homem sabedor, o que sugere, nesse primeiro contato, que
haja uma identidade entre a deusa e o saber. Nada aqui
aponta para o ser e para a linguagem.

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São Carlos, 2013.
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Da Natureza: O que há de Parmênides, Harry Edmar Schulz

2.2
José Cavalcante de Souza

O eixo nos meões emitia som de sirena


incandescendo (era movido por duplas, turbilhonantes
rodas de ambos os lados), quando se apressavam a enviar-
me
as filhas do Sol, deixando as moradas da Noite,
para a luz, das cabeças retirando com as mãos os véus.

José Gabriel Trindade Santos

O eixo silvava nos cubos como uma siringe,


incandescendo (ao ser movido pelas duas rodas que
vertiginosamente
o impeliam de um e de outro lado), quando se apressaram
as jovens filhas do sol a levar-me, abandonando a região da
Noite
para a luz, libertando com as mãos a cabeça dos véus que a
escondiam.

HES2 - Há uma alusão de libertação da “Noite”, indo à


luz. O texto é poético e, no momento, permite muitas
interpretações. Por esta ser uma metáfora recorrente no
sentido de atingir o conhecimento, deixando a ignorância,
pode ser que aqui também se refira a essa mudança. Mas o
ser não desponta como centro de atenção, nem a linguagem
surge como algo a atentar.

2.3
José Cavalcante de Souza

11
São Carlos, 2013.
Projeto:Humanização como ferramenta de aumento de interesse nas exatas
Da Natureza: O que há de Parmênides, Harry Edmar Schulz

É lá que estão as portas aos caminhos de Noite e Dia.


e as sustenta à parte uma verga e uma soleira de pedra,
e elas etéreas enchem-se de grandes batentes;
destes Justiça de muitas penas tem chaves alternantes.

José Gabriel Trindade Santos

Aí está o portal que separa os caminhos da Noite e do Dia,


encimado por um dintel e um umbral de pedra;
o portal, etéreo, fechado por enormes batentes,
dos quais a Justiça vingadora detém as chaves que os abrem
e fecham.

HES 3 - Volta-se à alusão do dia e da noite, talvez


figurativamente representando o conhecimento, com seu
portal sob controle da Justiça. Nesse caso, palmilhando em
torno do termo “Justiça”, talvez se possa inferir que isto
signifique um substantivo para a ação de “estabelecer um
juízo”, ou seja, uma ação que passa por um raciocínio (um
julgamento). Se assim for, então representa uma ação
racional, um pensamento. Com isso pode ser que se esteja
adentrando um ambiente de pensamento.

2.4
José Cavalcante de Souza

A esta, falando-lhe as jovens com brandas palavras,


persuadiram habilmente a que tranca aferrolhada
depressa removesse das portas; e estas, dos batentes,
um vão escancarado fizeram abrindo-se, os brônzeos
umbrais nos gonzos alternadamente fazendo girar,
em cavilhas e chavetas ajustados; por lá, pelas portas
logo as moças pela estrada tinham carro e éguas.

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São Carlos, 2013.
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Da Natureza: O que há de Parmênides, Harry Edmar Schulz

José Gabriel Trindade Santos

A ela se dirigiram as jovens, com doces palavras,


persuadindo-a habilmente a erguer para elas
por um instante a barra do portal. E ele abriu-se,
revelando um abismo hiante, enquanto fazia girar,
um atrás do outro, os estridentes gonzos de bronze,
fixados com pregos e cavilhas. Por aí, através do portal,
as jovens guiaram com celeridade o carro e os corcéis.

HES 4 - Fala-se de jovens (no feminino) que convencem a


Justiça (talvez a ação do juízo) a permitir passar pela porta
entre dia e noite. Não sei avaliar a presença do termo
feminino (assim como não saberia avaliar se fossem
rapazes ao invés de moças). O artigo “as” sexualiza essas
jovens. Eventualmente a ideia original estivesse impregna-
da de aspectos culturais menos claros (ou apenas se trate
de uma característica da língua). Se a ação do juízo vai
permitir a passagem entre o não-conhecer e o conhecer,
então essas “jovens” podem ter um sentido metafórico.
Talvez, abusando de uma interpretação atual, seriam
pensamentos puros, ou desejos puros de conhecimento
(estou usando uma associação como jovem=virgem=puro,
talvez válida). Mas observe-se que estou especulando, uma
vez que pretendo ir em direção ao ser e à uma identificação
desse fragmento com algo vinculado à linguagem. Em
resumo, nessa interpretação, os desejos puros (de
conhecimento) abririam a porta entre não-conhecimento e
conhecimento pela ação do juízo (pensamento).

2.5
José Cavalcante de Souza

E a deusa me acolheu, benévola, e na sua a minha


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São Carlos, 2013.
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Da Natureza: O que há de Parmênides, Harry Edmar Schulz

mão direita tomou, e assim dizia e me interpelava:

Jose Gabriel Trindade Santos

E a deusa acolheu-me de bom grado, mão na mão


direita tomando, e com estas palavras se me dirigiu:

HES 5 - Como mencionado na primeira estrofe (ou


conjunto de frases), o acolhimento da deusa seria o
acolhimento da razão, em havendo uma identidade entre a
deusa e a razão.

2.6
José Cavalcante de Souza

Ó jovem, companheiro de aurigas imortais,


tu que assim conduzido chegas à nossa morada,
salve! Pois não foi mau destino que te mandou perlustrar
esta via (pois ela está fora da senda dos homens),
mas lei divina e justiça, é preciso que de tudo te instruas,
do âmago inabalável da verdade bem redonda,
e de opiniões de mortais, em que não há fé verdadeira.
No entanto também isto aprenderás, como as aparências
deviam validamente ser, tudo por tudo atravessando.

José Gabriel Trindade Santos

“O jovem, acompanhante de aurigas imortais,


tu, que chegas ate nos transportado pelos corcéis,
Salve! Não foi um mau destino que te induziu a viajar
por este caminho – tão fora do trilho dos homens –,
mas o Direito e a Justiça. Terás, pois, de tudo aprender:
o coração inabalável da verdade fidedigna

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São Carlos, 2013.
Projeto:Humanização como ferramenta de aumento de interesse nas exatas
Da Natureza: O que há de Parmênides, Harry Edmar Schulz

e as crenças dos mortais, em que não há confiança genuína.


Mas também isso aprenderás: como as aparências
tem de aparentemente ser, passando todas através de tudo”.

HES 6 - A deusa (a razão, talvez metaforicamente)


cumprimenta aquele que tenta caminhar mais distante do
usual, seguindo o Direito (novamente um termo a se pensar
– o Direito depende de um conjunto de normas julgadas
como “corretas”) e a Justiça. Se se trata de utilizar o
julgamento, o pensamento, ambos os termos remeteriam a
isto (uso do pensamento), uma vez que o Direito exigiria o
exercício do pensamento para efetuar o julgamento daquilo
que se considera correto.
Aqui se fala do que se aprende (ou atinge) indo por este
caminho (da razão?): o discernimento entre o inabalável
da verdade e as crenças dos mortais. Adicionalmente,
menciona-se que se consegue discernir que as aparências
que tudo permeiam precisam parecer ser.
Nesse parágrafo, portanto, houve uma primeira alusão a
“ser”, que pode, entretanto, no contexto desse fragmento,
referir-se apenas a “existir”. Nesse caso, o pensamento
mostraria que é necessário que as aparências pareçam
reais, é necessário que pareçam existir de fato.

2.7
José Cavalcante de Souza

Pois bem, eu te direi, e tu recebe a palavra que ouviste,


os únicos caminhos de inquérito são a pensar:
o primeiro, que é e portanto que não é não ser,
de Persuasão é o caminho (pois à verdade acompanha);
o outro, que não é e portanto que é preciso não ser,
este então, eu te digo, é atalho de todo incrível;
pois nem conhecerias o que não é (pois não é exeqüivel),
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Da Natureza: O que há de Parmênides, Harry Edmar Schulz

nem o dirias...

José Gabriel Trindade Santos

Vamos, vou dizer-te – e tu escuta e fixa o relato que ouviste


– quais os únicos caminhos de investigação que há para
pensar:
um que é, que não é para não ser;
é caminho de confiança (pois acompanha a verdade);
o outro que não é, que tem de não ser,
esse te indico ser caminho em tudo ignoto,
pois não poderás conhecer o que não é, não é consumável,
nem mostrá-lo [...]

HES 7 - O texto entra no ensinamento propriamente dito,


que há um caminho que é, e um que não é. Acerca do
caminho que não é, a “deusa” (razão?) argumenta que
essa via é de total desconhecimento, porque não é possível
conhecer ou mostrar o que não é. A mensagem então se
torna, neste parágrafo: não é possível conhecer o que não
é.

2.8
José Cavalcante de Souza

............. pois o mesmo é a pensar e portanto ser.

Jose Gabriel Trindade Santos

... pois o mesmo é pensar e ser.

HES 8 - Embora sejam fragmentos recolhidos de diferentes


fontes, esta frase justifica porque não é possível conhecer o

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São Carlos, 2013.
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Da Natureza: O que há de Parmênides, Harry Edmar Schulz

que não é. Nesse momento, esta frase permite construir a


justificativa: porque conhece-se através da ação do pensar
e, sendo ser e pensar a mesma coisa, não sendo possível
não ser, não é possível pensar o que não é. Na sequência,
não sendo possível pensar o que não é, tem-se que não é
possível conhecer o que não é.

2.9
José Cavalcante de Souza

Mas olha embora ausentes à mente presentes firmemente;


pois não deceparás o que é de aderir ao que é,
nem dispersado em tudo totalmente pelo cosmo,
nem concentrado...

Jose Gabriel Trindade Santos

Nota também como o que está longe pela mente se torna


firmemente
presente: pois não separarás o ser da sua continuidade com
ser,
nem dispersando-o por toda a parte segundo a ordem do
mundo,
nem reunindo-o.

HES 9 - Nesse caso, a mente, ou a ação da razão, torna as


coisas presentes (conhecidas), mencionando-se a
continuidade do ser e uma ordem no mundo. É mencionado
que não se desagrega o ser nem dispersando-o, nem
concentrando-o. Talvez isto queira dizer que aquilo que se
torna conhecido pela mente, o ser que é, existe para
qualquer condição de sua descrição (dispersando-o ou
concentrando-o).
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São Carlos, 2013.
Projeto:Humanização como ferramenta de aumento de interesse nas exatas
Da Natureza: O que há de Parmênides, Harry Edmar Schulz

2.10
José Cavalcante de Souza

..............para mim é comum


donde eu comece; pois aí de novo chegarei de volta.

Jose Gabriel Trindade Santos

[...] para mim é o mesmo


Por onde hei de começar: pois aí tornarei de novo.

HES 10 - Eventualmente esse fragmento complete o


anterior. Se sim, “ser o mesmo” talvez se refira à situação
do “ser” ser em qualquer descrição. A frase seguinte, que
coloca o retorno ao ponto de partida, pode ser uma ênfase
ao que já foi dito (o ser se mantém em qualquer descrição,
retornando-se sempre a ele, o que pode ser interpretado
como uma característica da linguagem, que é universal,
independente da língua, por exemplo), ou pode estar
vinculado ao texto de onde esse fragmento foi retirado.
Nesse caso, mantém-se a interpretação anterior por se
considerar que as escolhas dos fragmentos envolvem o
pensamento do autor original.

2.11
José Cavalcante de Souza

Necessário é o dizer e pensar que (o) ente é; pois é ser,


e nada não é; isto eu te mando considerar.
Pois primeiro desta via de inquérito eu te afasto,
mas depois daquela outra, em que mortais que nada sabem
erram, duplas cabeças, pois o imediato em seus
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São Carlos, 2013.
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peitos dirige errante pensamento; e são levados


como surdos e cegos; perplexas, indecisas massas,
para os quais ser e não ser é reputado o mesmo
e não o mesmo, e de tudo é reversível o caminho.

Jose Gabriel Trindade Santos

E necessário que o dizer e pensar que é sejam; pois podem


ser,
enquanto nada não é: nisto te indico que reflitas.
Desta primeira via de investigação te <afasto>,
e logo também daquela em que os mortais, que nada sabem,
vagueiam, com duas cabeças: pois a incapacidade
lhes guia no peito a mente errante; e são levados,
surdos ao mesmo tempo que cegos, aturdidos, multidão
indecisa,
que acredita que o ser e o não ser são o mesmo
e o não mesmo, para quem é regressivo o caminho de todas
as coisas.

HES 11 - O discurso é mais ambíguo aqui. Comenta-se que


dizer acerca de algo (descrever algo) e pensar algo (pensar
que algo seja) precisam ser, pois o que “não é” nada é.
Assim, entende-se que a deusa (razão, na metáfora
possível?) está afastando o estudioso da condição de
admitir pensar em algo que não é. O dizer, o descrever,
parece que é colocado como uma “ferramenta didática”.
Não se pode dizer o que não é, assim como não se pode
pensar o que não é. Fazendo uma conexão com os
parágrafos anteriores, em qualquer descrição não será
possível descrever o que não é, o que remete à
impossibilidade de haver uma linguagem que descreva o
não ser. A linguagem se identifica naturalmente com o ser.

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São Carlos, 2013.
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2.12
José Cavalcante de Souza

Não, impossível que isso prevaleça, ser (o) não ente.


Tu porém desta via de inquérito afasta o pensamento;
nem o hábito multiexperiente por esta via te force;
exercer sem visão um olho, e ressoante um ouvido,
e a língua, mas discerne em discurso controversa tese
por mim exposta.

José Gabriel Trindade Santos

Pois nunca isto será demonstrado: que são coisas que não
são;
mas afasta desta via de investigação o pensamento,
não te force por este caminho o costume muito
experimentado,
deixando vaguear olhos que não veem, ouvidos soantes
e língua, mas decide por argumento a prova muito
disputada de que falei.

HES 12 - Há o reforço ao parágrafo anterior, no sentido de


que não se deve insistir esforços em conciliar ser e não ser.

2.13
José Cavalcante de Souza

Só ainda (o) mito de (uma) via


resta, que é; e sobre esta indícios existem,
bem muitos, de que ingênito sendo é também imperecível,
pois é todo inteiro, inabalável e sem fim;
nem jamais era nem será, pois é agora todo junto,
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São Carlos, 2013.
Projeto:Humanização como ferramenta de aumento de interesse nas exatas
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uno, contínuo; pois que geração procurarias dele?


Por onde, donde crescido? Nem de não ente permitirei
que digas e pense; pois não dizível nem pensável
é que não é; que necessidade o teria impelido
a depois ou antes, se do nada iniciado, nascer?

José Gabriel Trindade Santos

Só falta agora falar do caminho


que é. Sobre esse são muitos os sinais
de que o ser é ingênito e indestrutível,
pois é compacto, inabalável e sem fim;
não foi nem será, pois é agora um todo homogêneo,
uno, continuo. Com efeito, que origem lhe investigarias?
como e onde se acrescentaria? Nem do não-ser te deixarei
falar, nem pensar: pois não é dizível, nem pensável,
visto que não é. E que necessidade o impeliria
a nascer, depois ou antes, começando do nada?

HES 13 - Efetua-se uma descrição do ser, com suas


características de unidade, indestrutibilidade, não-finitude,
etc., não havendo o que lhe acrescentar. Acerca do não ser,
ele é indizível e impensável, não tendo razão para começar
em qualquer momento, por ser nada. A impossibilidade de
descrição do não ser novamente cria um vínculo entre o ser
e sua possibilidade de descrição, ou seja, uma linguagem
apenas descreverá o que é.

2.14
José Cavalcante de Souza

Assim ou totalmente necessário ser ou não.


Nem jamais do que em certo modo é permitia força de fé
nascer algo além dele; por isso nem nascer
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São Carlos, 2013.
Projeto:Humanização como ferramenta de aumento de interesse nas exatas
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nem perecer deixou justiça, afrouxando amarras,


mas mantém; e a decisão sobre isto está no seguinte:
é ou não é; está portanto decidido, como é necessário,
uma via abandonar, impensável, inominável, pois
verdadeira
via não é, e sim a outra, de modo a se encontrar e ser real.
E como depois pereceria o que é? Como poderia nascer?
Pois se nasceu, não é, nem também se um dia é para ser.
Assim geração é extinta e fora de inquérito perecimento.

José Gabriel Trindade Santos

E assim, é necessário que seja de todo, ou não.


Nem a forca da confiança consentira que do que não é
nasça algo ao pé dele. Por isso nem nascer,
nem perecer, permite a Justiça, afrouxando as cadeias,
mas sustem-nas: esta é a decisão acerca disso –
é ou não é –; decidido está então, como necessidade,
deixar uma das vias como impensável e inexprimível (pois
não é
via verdadeira), enquanto a outra é autêntica.
Como poderia o que é perecer? Como poderia gerar-se?
(20) Pois, se era, não é, nem poderia vir a ser.
E assim a gênese se extingue e da destruição se não fala.

HES 14 - Há a ênfase no aspecto exclusivo: ou é, ou não é.


O julgamento (ação da razão, visto aqui como uma
interpretação para o termo “Justiça”) apenas permite que
algo seja ou não seja. Não há possibilidade de um início
para o ser, este sempre é. Da mesma forma não há a
possibilidade de um início para o não ser, este sempre não
é. Este último, novamente é dito, é inexprimível. Nada o
pode exprimir, nada o pode descrever, não há linguagem
para o não-ser.

22
São Carlos, 2013.
Projeto:Humanização como ferramenta de aumento de interesse nas exatas
Da Natureza: O que há de Parmênides, Harry Edmar Schulz

2.15
José Cavalcante de Souza

Nem divisível é, pois é todo idêntico;


nem algo em uma parte mais, que o impedisse de conter-se,
nem também algo menos, mas é todo cheio do que é,
por isso é todo contínuo; pois ente a ente adere.

José Gabriel Trindade Santos

Nem e divisível, visto ser todo homogêneo,


nem num lado é mais, que o impeça de ser continuo,
nem noutro menos, mas é todo cheio do que é
e por isso todo contínuo, pois o que é é com o que é.

HES 15 - O parágrafo efetua uma ênfase da continuidade e


homogeneidade do ser, utilizando de metáforas volumétri-
cas e de saturação, dizendo que o ser não pode ser
dividido, nem ser “de um lado” mais do que “no outro”,
sendo cheio (saturado), terminando com a identidade do
ser consigo mesmo.

2.16
José Cavalcante de Souza

Por outro lado, imóvel em limites de grandes liames


é sem princípio e sem pausa, pois geração e perecimento
bem longe afastaram-se, rechaçou-os fé verdadeira.
O mesmo e no mesmo persistindo em si mesmo pousa.
e assim firmado aí persiste; pois firme a Necessidade
em liames (o) mantém, de limite que em volta o encerra,
para ser lei que não sem termo seja o ente;
23
São Carlos, 2013.
Projeto:Humanização como ferramenta de aumento de interesse nas exatas
Da Natureza: O que há de Parmênides, Harry Edmar Schulz

pois é não carente; não sendo, de tudo careceria.

José Gabriel Trindade Santos

Além disso, é imóvel nas cadeias dos potentes laços,


sem princípio nem fim, pois gênese e destruição
foram afastadas para longe, repelidas pela confiança
verdadeira.
O mesmo em si mesmo permanece e por si mesmo repousa,
e assim firme em si fica. Pois a potente Necessidade
o tem nos limites dos laços que de todo o lado o cercam.
Portanto, não é justo que o que é seja incompleto:
pois não é carente; ao que [não] é, contudo, tudo lhe falta.

HES 16 - Mais um parágrafo que continua a descrição da


“perfeição” do ser (uso de forma livre este termo), sendo
imóvel, sem princípio, fim, repousando em si mesmo, sendo
completo. O não-ser, por outro lado, nada tem.

2.17
José Cavalcante de Souza

O mesmo é pensar e em vista do que é pensamento.


Pois não é sem o que é, no qual é revelado em palavra,
acharás o que pensar; pois nem era ou é ou será
outro fora do que é, pois Moira o encadeou
a ser inteiro e imóvel; por isso tudo será nome
quanto os mortais estatuíram, convictos de ser verdade,
engendrar-se e perecer, ser e também não,
e lugar cambiar e cor brilhante alterar.
Então, pois limite é extremo, bem terminado é,
de todo lado, semelhante a volume de esfera bem redonda,
do centro equilibrado em tudo; pois ele nem mesmo algo
maior
24
São Carlos, 2013.
Projeto:Humanização como ferramenta de aumento de interesse nas exatas
Da Natureza: O que há de Parmênides, Harry Edmar Schulz

nem algo menor é necessário ser aqui ou ali;


pois nem não-ente é, que o impeça de chegar
ao igual, nem é que fosse a partir do ente
aqui mais e ali menos, pois é todo inviolado;
pois a si de todo igual, igualmente em limites se encontra.

José Gabriel Trindade Santos

O mesmo é o que há para pensar e aquilo por causa de que


há pensamento.
Pois, sem o que é – ao qual está prometido –,
não acharás o pensar. Pois não é e não será
outra coisa além do que é, visto o Destino o ter amarrado
para ser inteiro e imóvel. Acerca dele são todos os nomes
que os mortais instituíram, confiantes de que eram reais:
"gerar-se" e "destruir-se", "ser e não ser",
"mudar de lugar" e "mudar a cor brilhante".
Visto que tem um limite extremo, e completo
por todos os lados, semelhante à massa de uma esfera bem
rotunda, em equilíbrio do centro a toda a parte; pois, nem
maior,
nem menor, aqui ou ali, e forçoso que seja.
Pois nem é o que não é, que o impeça de chegar
até ao mesmo, nem é possível que o que é seja
maior aqui, menor ali, visto ser todo inviolável:
pois é igual por todo o lado, e fica igualmente nos limites.

HES 17 - Tem-se uma identificação explícita entre ser,


pensar e a causa do pensamento. Os nomes para as
mutabilidades são mencionados como uma consequência
daquilo que se acreditava ser real (e que não são). Mas
esses nomes são “acerca dele” (do ser), retornando-se a
metáforas volumétricas do ser como uma esfera. Entende-
se que, se se diz algo, diz-se algo do ser. A linguagem
apenas pode dizer algo do ser. Assim, os nomes

25
São Carlos, 2013.
Projeto:Humanização como ferramenta de aumento de interesse nas exatas
Da Natureza: O que há de Parmênides, Harry Edmar Schulz

mencionados estão relacionados ao ser, porque o não ser


não é descritível.

2.18
José Cavalcante de Souza

Neste ponto encerro fidedigna palavra e pensamento


sobre a verdade; e opiniões mortais a partir daqui
aprende, a ordem enganadora de minhas apalvras ouvindo.

José Gabriel Trindade Santos

Nisto cesso o discurso fiável e o pensamento


em torno da verdade; depois disso as humanas opiniões
aprende, escutando a ordem enganadora das minhas
palavras.

HES 18 - Há uma menção de conclusão de um discurso. Se


se trata da conclusão de um argumento, isto é um tanto
ousado afirmar, uma vez que se trata de uma coletânea de
fragmentos. A deusa (razão, eventualmente como metáfora)
comenta que se deve aprender as opiniões humanas,
provavelmente acerca das coisas, mas é mencionada uma
“ordem enganadora” das palavras (da deusa?, razão?).
Eventualmente se procure incentivar o estudioso a efetuar
uma comparação entre o que foi dito como verdade e o que
é acreditado como verdade pelos humanos. Talvez se deva
escutar a ordem das opiniões humanas, enganadora das
palavras da verdade. Ou seja, seria uma ordem (humana),
enganadora das palavras. É uma possibilidade. De
qualquer forma, entendo que todo o conjunto de fragmentos
vise induzir ao pensamento e à verificação da
impossibilidade de se pensar o que não é, de se descrever o

26
São Carlos, 2013.
Projeto:Humanização como ferramenta de aumento de interesse nas exatas
Da Natureza: O que há de Parmênides, Harry Edmar Schulz

que não é. Nesse sentido, se há uma linguagem


descrevendo algo, ela descreve o ser.

2.19
José Cavalcante de Souza

Pois duas formas estatuíram que suas sentenças


nomeassem,
das quais uma não se deve - no que estão errantes -;
em contrários separaram o compacto e sinais puseram
à parte um do outro, de um lado, etéreo fogo de chama,
suave e muito leve, em tudo o mesmo que ele próprio
mas não o mesmo que o outro; e aquilo em si mesmo
(puseram)
em contrário, noite sem brilho, compacto denso e pesado.
A ordem do mundo, verossímil em todos os pontos, eu te
revelo,
para que nunca sentença de mortais te ultrapasse.

José Gabriel Trindade Santos

E estabeleceram duas formas, que nomearam,


das quais uma não deviam nomear – e nisso erraram –,
e separaram os contrários como corpos e postaram sinais,
separados uns dos outros: aqui a chama do fogo etéreo,
branda, muito leve, em tudo a mesma consigo,
mas não a mesma com a outra; e a outra também em si
contraria, a noite sem luz, espessa e pesada.
Esta ordem cósmica eu ta declaro toda plausível,
de modo a que nenhum saber dos mortais te possa transviar.

HES 19 - Mais uma vez menciona-se nome, ou, mais


precisamente, “nomear”, mas nesse momento acrescenta-
se que foram estabelecidas duas formas, as quais foram
27
São Carlos, 2013.
Projeto:Humanização como ferramenta de aumento de interesse nas exatas
Da Natureza: O que há de Parmênides, Harry Edmar Schulz

nomeadas. Se estamos nos movendo no contexto das formas


como “idéias” imutáveis, perfeitas, etc., então há uma
crítica à possibilidade de haver duas formas. Fazendo a
conexão entre ser e forma, tendo o ser esse mesmo conjunto
de adjetivos, então apenas se pode nomear o ser.
Subentendo que a outra forma estaria vinculada ao não-
ser, a qual, por envolver o não-ser, não pode ser nomeada.
Não há linguagem que permita fazer isso. As duas formas
são descritas como “sinais opostos”, ou a chama leve de
um lado e a noite espessa do outro. Note-se que nomear é
uma característica da língua, na qual se efetua uma
conexão necessária decorrente da linguagem, ou seja, da
capacidade inerente ao ser humano para o ato de
comunicação. Nomear o ser, então, como aquilo que pode
ser descrito e pensado, é uma atividade decorrente da
linguagem.

2.20
José Cavalcante de Souza

Mas desde que todas (as coisas) luz e noite estão


denominadas,
e os (nomes aplicados) a estas e aquelas segundo seus
poderes,
tudo está cheio em conjunto de luz e de noite sem luz,
das duas igualmente, pois de nenhuma (só) participa nada.

José Gabriel Trindade Santos

Mas, uma vez que tudo é chamado luz ou noite


e o conforme a estas potências é dado a isto e aquilo,
tudo é igualmente cheio de luz e de noite obscura,
ambas iguais, visto cada uma delas ser como nada

28
São Carlos, 2013.
Projeto:Humanização como ferramenta de aumento de interesse nas exatas
Da Natureza: O que há de Parmênides, Harry Edmar Schulz

HES 20 - O parágrafo informa que a luz e a escuridão


impregnam tudo, sendo a mesma coisa, apenas havendo
potências diferentes.

2.21
José Cavalcante de Souza

Saberás e expansão luminosa do éter e o que, no éter,


é tudo signo, do sol resplandecente, límpido
luizeiro, efeitos invisíveis, e donde provieram;
efeitos circulares saberás da lua de face redonda,
e sua natureza; e saberás também o céu que circunda
donde nasceu e como, dirigindo, forçou-o Ananke
a manter limites de astros.

José Gabriel Trindade Santos

E conhecerás a natureza do éter e no éter de todos os


sinais e dos raios da pura lâmpada do sol
as obras destruidoras, e de onde nascem,
e conhecerás as obras que rodam em torno da lua de olho
redondo
e a sua natureza, e saberás do céu que os tem a volta,
e de onde nasce, e como guiando-o a Necessidade o obriga
a conter os limites dos astros.

HES 21 - O parágrafo descreve possíveis conhecimentos


que se vinculam a aspectos físicos, ou pelo menos se
relacionam a eles (sol, lua, céu, astros), mencionando uma
Necessidade que faz o céu conter os astros em seus limites.
“De onde nasce o céu” parece implicar em uma descrição
de uma criação, ou talvez “da” criação. No que tange à
29
São Carlos, 2013.
Projeto:Humanização como ferramenta de aumento de interesse nas exatas
Da Natureza: O que há de Parmênides, Harry Edmar Schulz

linguagem e ao ser, este parágrafo não parece acrescentar,


à primeira vista, uma informação direta. Vale aqui
mencionar que na mitologia grega não há o ato da criação
como nas mitologias judaica, cristã e muçulmana, por
exemplo. Em sua versão mais divulgada, o caos era o
estado primal, de onde surge Gaia e outras entidades
divinas. Gaia, sem ser fecundada, gerou Urano. Com
Urano gerou novos deuses, sendo Cronos o filho mais
rebelde, que castra o pai. A mitologia é cheia de detalhes
sexuados, que são também observados daqui para frente,
nos fragmentos do poema de Parmênides.

2.22
José Cavalcante de Souza

................. Como terra, sol e lua,


éter comum, celeste via láctea, Olimpo
extremo e de astros cálida força se lançaram.

José Gabriel Trindade Santos

... como a terra e o sol e a lua


e o éter que a tudo é comum e a Via Lactea e o Olimpo
extremo e o calor ardente dos astros forçados a nascer.

HES 22 - Mais uma vez, este fragmento remete a aspectos


físicos e mitológicos (Olimpo), mencionando o calor
extremo dos astros que nascem (uma visão provavelmente
pessoal). O aparecer dos astros, considerando o fragmento
anterior e a menção do Olimpo, mais uma vez parece
implicar em uma descrição de uma criação. O que o
fragmento pretende não é claro.

30
São Carlos, 2013.
Projeto:Humanização como ferramenta de aumento de interesse nas exatas
Da Natureza: O que há de Parmênides, Harry Edmar Schulz

2.23
José Cavalcante de Souza

Pois os mais estreitos encheram-se de fogo sem mistura,


e os seguintes, de noite, e entre (os dois) projeta-se parte da
chama;
mas no meio destes a Divindade que tudo governa;
pois em tudo ela rege odioso parto e união
mandando ao macho unir-se á fêmea e pelo contrário o
macho à fêmea.

José Gabriel Trindade Santos

Pois as coroas mais estreitas enchem-se de fogo sem


mistura
E as que vêm à noite depois destas, mas com elas lança-se
uma parte de chama.
No meio delas está a divindade que tudo governa;
Pois em tudo comanda o parto doloroso e a mistura,
Impelindo a fêmea a unir-se ao macho, e ao contrario o
macho a fêmea.

HES 23 - A inserção da divindade no centro governante de


tudo o que ocorre mais uma vez reforça a idéia de
“criação”, na qual há um par de opostos: o macho e a
fêmea. Volta-se a mencionar que o termo “criação” aqui
não remete à mitologia judaica, cristã, ou muçulmana, mas
à mitologia grega, onde deuses sexuados competem,
havendo gerações sem fecundação, bem como a
fecundação de uma mulher comum por um deus, gerando
um filho que realiza grandes serviços entre os mortais. No
poema de Parmênides, macho e fêmea, esse par de opostos
se contrapõe, em princípio ao uno anteriormente proposto
mesmo na luz e na escuridão (fogo e noite). Aqui a fêmea se
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São Carlos, 2013.
Projeto:Humanização como ferramenta de aumento de interesse nas exatas
Da Natureza: O que há de Parmênides, Harry Edmar Schulz

une ao macho, mas não há a indicação segura de uma


combinação com diferença de potência. Nesse caso, como o
presente estudo visa a relação entre ser e linguagem, o
aspecto “criador” não é aqui aprofundado.

2.24
José Cavalcante de Souza

Primeiro de todos os deuses Amor ela concebeu.

José Gabriel Trindade Santos

Primeiro que todos os deuses, concebeu Eros.

HES 24 - A mitologia tem a sua força neste fragmento.

2.25
José Cavalcante de Souza

Brilhante à noite, errante em torno à terra, alheia luz.

José Gabriel Trindade Santos

Facho noturno, em torno à terra, alumiado a uma alheia luz

HES 25 - Continuam os aspectos físicos, mas, na


sequência, o fragmento posterior é de uma “espreita”, que
personaliza, ou confere vontade para um ato.

32
São Carlos, 2013.
Projeto:Humanização como ferramenta de aumento de interesse nas exatas
Da Natureza: O que há de Parmênides, Harry Edmar Schulz

2.26
José Cavalcante de Souza

Sempre olhando inquieta para os raios do sol.

José Gabriel Trindade Santos

Sempre a espreita dos raios do sol.

HES 26 - A espreita mencionada. Sua existência nesse


contexto mantém a impressão de criação. Ser e linguagem
não são evidenciados nesse conjunto de fragmentos.

2.27
José Cavalcante de Souza

Pois como cada um tem uma mistura de membros errantes,


assim a mente nos homens se apresenta; pois o mesmo
é o que pensa nos homens, eclosão de membros,
em todos e em cada um; pois o mais é pensamento.

José Gabriel Trindade Santos

Pois, tal como cada um tem mistura nos membros errantes,


assim aos homens chega o pensamento; pois o mesmo
é o que nos homens pensa, a natureza dos membros,
em cada um e em todos; pois o mais [o pleno] é o
pensamento.

HES 27 - Aqui o se diz que “o pensamento é o que nos


homens pensa...em cada um e em todos...pois o pleno é o
pensamento”. Tal fragmento, se remete ao pensamento, é
33
São Carlos, 2013.
Projeto:Humanização como ferramenta de aumento de interesse nas exatas
Da Natureza: O que há de Parmênides, Harry Edmar Schulz

difícil de inserir no contexto “de criação” anteriormente


observado. Há a impressão de sugerir que há um único
pensamento para todos (os homens). Seria necessário,
entretanto, ter textos adicionais que permitissem concluir
por essa proposta.

2.28
José Cavalcante de Souza

À direita os rapazes à esquerda as moças.

José Gabriel Trindade Santos

A direita os machos, a esquerda as femeas.

HES 28 - Há um retorno ao contexto de criação, apontando


a existência de dois opostos vinculados ao gênero. Mais
uma vez, isso parece destoar do uno com diferentes
potências.

2.29
José Cavalcante de Souza

Mulher e homem quando juntos misturam sementes de


Vênus,
nas veias informando de sangue diverso a força,
guardando harmonia corpos bem forjados modela.
Pois se as forças, misturando o sêmen, lutarem
e não se unirem no corpo misturado, terríveis
afligirão o sexo nascente de um duplo sêmen.

34
São Carlos, 2013.
Projeto:Humanização como ferramenta de aumento de interesse nas exatas
Da Natureza: O que há de Parmênides, Harry Edmar Schulz

José Gabriel Trindade Santos

Quando a mulher e o homem juntos misturam as sementes


de Vênus,
a força que se forma nas veias a partir de sangues diversos,
mantendo em equilíbrio, gera corpos bem formados.
se, contudo, misturados os sêmens, as forças se opõem,
e não fazem unidade, misturados no corpo, cruéis,
atormentam o sexo da criança com o duplo sêmen.

HES 29 - O fenômeno de concepção é evocado a partir de


um equilíbrio (eventualmente harmonia) entre homem e
mulher na “força que se forma nas veias”. Ainda que se
esteja no contexto de uma criação (concepção), a visão
criadora passa a ser concentrada no fenômeno da
formação de um ser humano, denotado pela “criança” que
se forma.

2.30
José Cavalcante de Souza

Assim, segundo a opinião, nasceram estas (coisas) e agora


são
e em seguida a isso se consumarão, uma vez crescidas;
um nome lhes atribuíram os homens, distintivo de cada.

José Gabriel Trindade Santos

Assim, segundo a opinião, as coisas nasceram e agora são


e depois crescerão e hão de ter fim.
a essas coisas puseram um nome que a cada uma distingue.

35
São Carlos, 2013.
Projeto:Humanização como ferramenta de aumento de interesse nas exatas
Da Natureza: O que há de Parmênides, Harry Edmar Schulz

HES 30 - Este último parágrafo (estrofe) está


adequadamente colocado no final, criando mais uma vez a
impressão de uma conclusão de um discurso. A localização
é feliz, pois encerra uma descrição daquilo que se entendeu
ser uma versão “criacionista” (no contexto grego, bem
entendido) do mundo, associada a uma descrição da
concepção e geração de um ser humano. Entretanto, o
aspecto mais interessante na presente busca é a menção de
que “a essas coisas puseram um nome que a cada uma
distingue”. Considerando a definição de linguagem e a sua
manifestação cultural através de uma língua, adicionada
ao fato de que a associação entre palavra e coisa possui
um componente forte de arbítrio, este último verso
empresta arbitrariedade justamente ao “nomear” as coisas
criadas (se os fragmentos de fato remetem ao pensamento
original). Uma vez que o texto lido se compõe de
fragmentos, é ousado associar eventuais conclusões de
suas diferentes partes, mas um exercício nesse sentido é
feito a seguir, sempre reconhecendo a possível insatisfação
em efetuar essa associação.

3 - Discussão e Conclusão:
As indicações em amarelo nos comentários acima
indicam onde foram localizadas passagens que permitiram
concatenar pensamento, ser e linguagem nesta leitura
direcionada. Trata-se dos parágrafos ou fragmentos aqui
renumerados como: 3, 4, 6 até 11, 13, 14, 17, 18, 19, 30.

O que se evidencia nesse texto, considerando as


afirmações efetuadas e não a possibilidade de existência
daquilo que se afirma, é que o “ser” é aquilo que pode ser
objeto do pensamento, objeto de descrição. O ser é aquilo
que pode ser conhecido. Considerando que a linguagem,
como faculdade inerente ao homem, é aquilo que permite
36
São Carlos, 2013.
Projeto:Humanização como ferramenta de aumento de interesse nas exatas
Da Natureza: O que há de Parmênides, Harry Edmar Schulz

efetuar uma comunicação, apenas se poderá efetuar uma


comunicação daquilo que admitir uma descrição. Nesse
caso, apenas o “ser” preenche esse requisito. O não ser, por
não admitir o pensamento e a descrição, não é atingido pela
linguagem. Ele nada é. A linguagem está, neste conjunto de
fragmentos, naturalmente vinculada ao ser.

Nos fragmentos arrolados encontra-se mencionado o


termo “nomear”, embora não seja feita uma descrição de
como essa ação seja efetuada. Isto remete a um atributo
relevante nas línguas, como manifestação da linguagem,
que é a sua arbitrariedade, não havendo nexo causal entre a
palavra que se refere à coisa e a coisa à qual a palavra se
refere. Assim, não encontrar uma “fórmula” para nomear as
coisas nesse conjunto de fragmentos, ou seja, para nomear
os seres criados e que podem ser descritos, deve ser visto
como uma consequência do desconhecimento dessa
fórmula. Nomear é um ato arbitrário, embora talvez não
seja aleatório, mas suas normas não estão estabelecidas.
Quando o texto menciona que “foram nomeados”,
certamente não se refere a não-seres, porque esses não
podem ser descritos. Mais uma vez desponta a relação entre
o ser e aquilo que pode ser nomeado, ou seja, que pode ser
descrito por uma língua, pelo menos no que tange á sua
identificação, e que manifesta a linguagem universal.

Entende-se que a leitura direcionada permitiu


localizar uma relação entre ser e linguagem nesse conjunto
de fragmentos, conforme proposto inicialmente. Entretanto,
se havia a preocupação em Parmênides de estabelecer esta
relação como hoje a entendemos, isso não é possível
atestar. Ademais, os fragmentos foram considerados em
suas afirmações sem haver preocupação com a natureza do
ser descrito. Se a natureza do ser for aventada, a sua
infinitude, completude, e demais características o tornam,

37
São Carlos, 2013.
Projeto:Humanização como ferramenta de aumento de interesse nas exatas
Da Natureza: O que há de Parmênides, Harry Edmar Schulz

por si só, um ser sensivelmente particularizado. Como os


fragmentos não possuem complementos, também não se
avança aqui em mais conjecturas.

Para exemplificar a busca efetuada, podemos


perguntar sobre o que dizer de um fragmento de mármore
caído numa parte não construída da ilha de Kos?
Conjecturas são possíveis, mas daí a inferir toda a obra
arquitetônica da qual esse fragmento talvez tenha feito parte
é reconhecidamente impossível. Podemos e devemos pensar
e conjecturar. Mas não devemos crer obstinadamente nas
conclusões. Apenas o pensar possibilidades merece
reconhecimento, nesses casos de reconstituição impossível.
De resto, se se for construir hoje algo naquela ilha,
respondendo a anseios atuais que peçam obras civis, o
concreto armado, o aço, o vidro, os materiais sintéticos em
constante evolução permitirão criar obras mais duráveis que
o próprio mármore. Assim, também no pensamento pode-se
reconhecer sua infância nos tempos abordados pelos
registros mais antigos, sendo válido reconhecê-los como
parte de uma evolução. Mas convém continuar essa
evolução, buscando respostas que se vinculem às
ansiedades mais atuais dos conglomerados humanos. Um
fragmento de pensamento é só um fragmento e não uma
doutrina. A imaginação de cada qual poderá criar estruturas
que suportem a presença desse fragmento, mas ainda assim
é impossível assegurar a existência da estrutura.

4 - Adendo: o pensamento racional em cinco mil anos


de história

Tendo-se sugerido a leitura de José Gabriel Trindade


Santos, vale talvez mencionar sua introdução em Santos
(texto sem data lido em 2013), em que o autor remete à
Grécia de “mais de 25 séculos” a origem da “identidade
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São Carlos, 2013.
Projeto:Humanização como ferramenta de aumento de interesse nas exatas
Da Natureza: O que há de Parmênides, Harry Edmar Schulz

cultural do Ocidente” via “reflexão”, identidade esta


colocada como humanística e científico-tecnológica. Sem
dúvida a coletânea possível de fragmentos de textos, que
sobreviveram por um tempo ao manuseio, ação de umidade
e insetos, e que puderam ser copiados e recopiados a partir
de então, remete àquela parte do mediterrâneo, localizada
no que hoje é próximo à linha que se tornou, na própria
cultura humana, o limite entre “Ocidente e Oriente” na
superfície de uma esfera.

Sabe-se, entretanto, que, antes do estabelecimento de


uma cultura grega, civilizações já tinham se formado por
outros tantos 25 séculos, tendo comerciado entre si entre o
que se denomina de Oriente e Ocidente. Seria talvez um ato
de ingenuidade, ou, em menor escala, de arrogância,
admitir o reconhecimento para nós próprios de uma história
“racional” de 25 séculos e não reconhecê-la para os nossos
antecessores nos outros 25 séculos precedentes. Sendo a
linguagem uma faculdade inerente ao homem, seu uso
certamente se efetuou em todas as épocas humanas.

Evidentemente descrevemos a história a partir dos


documentos que dispomos. Assim, as informações das
viagens marítimas, do calendário, da moeda como valor de
troca, da urbanização, do alfabeto, das leis e da política nos
chegam por intermédio das cópias documentais que a
tecnologia de cada época permitiu manter com maior ou
menor precisão e a loucura humana não destruiu por força
de credos, etnias, ou linhagens de monarcas. Mas os 25
séculos precedentes geraram civilizações que, como hoje,
se estruturaram em torno de mandatários, comerciantes,
aglomerados humanos de magnitude não desprezível, para
os quais a vida social também trazia questões de convívio
em nível humano e tecnológico. E, salvo melhor juízo, esse
convívio exige a racionalização dos atos humanos e das

39
São Carlos, 2013.
Projeto:Humanização como ferramenta de aumento de interesse nas exatas
Da Natureza: O que há de Parmênides, Harry Edmar Schulz

posturas frente aos desafios (de qualquer natureza), bem


como de uma comunicação compreensível no seio das
sociedades.

Vale lembrar que a civilização egípcia tem seu início


computado por volta de 3.150 antes do marco zero do atual
calendário, tendo convivido com o advento da civilização
grega e posteriormente sucumbido a Roma. A matemática,
o comércio, o pensamento, bem como outras características
que reconhecemos no período dos 25 séculos mais recentes
floresceram também antes naquela civilização, nos 25
séculos precedentes, muito embora hajam dificuldades
substanciais em resgatar traços documentais que tratem do
pensamento menos vinculado ao mito (este sobrevive nos
túmulos que permaneceram selados através dos milênios).
Em adição, talvez seja mais natural supor que um conjunto
humano que comece a se estabelecer em um espaço onde já
transite um primeiro conjunto “mais adiantado” venha a
assimilar os aspectos “adiantados” deste primeiro conjunto,
posteriormente podendo superá-lo. Nesse caso, estabelecer
a data de nascimento de uma atividade racional
desvinculada do mito, como sendo estritamente grega, pode
ser um pouco ousado. Permito-me dizer que ainda não me
convenci acerca deste ponto específico. Sim, os
documentos reconstituídos levam a se observar a discussão
entre mito e “realidade” (abusando do termo) na Grécia.
Mas não se pode concluir que discussões ou posturas
similares não tenham havido nos 25 séculos precedentes,
em sítios outros que não aquele das cidades gregas. Assim,
os registros reconstituídos permitem ir até a Grécia dos 600
anos antes do marco zero. Não permitir ir mais ao passado
não implica que não haja “mais passado” para o
pensamento, mas que não foram encontrados registros dele,
eventualmente porque se perderam (e não apenas admitindo
que não houve uso racional da faculdade da linguagem)..

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Assim, talvez se pudesse aventar a possibilidade de


um pensamento racional convivendo com um pensamento
místico em ambientes não-gregos pelo menos em parte dos
25 séculos que estão geralmente não incluídos em citações
documentais (que atestem que houve ou que não houve tal
discussão). Note-se que o atual “estado” da nossa
civilização é igualmente híbrido no que tange ao convívio
do mito com a racionalidade. Podemos discutir a
racionalidade, mas não podemos assumir a pureza racional
do atual “estado da civilização”. Há, por exemplo,
estruturas educacionais e de poder atuais que se
fundamentam essencialmente na força de mitos, sendo
difícil identificar quem possa estar “descontaminado” de
sua influência.

Dizer que a filosofia se ocupa com o conhecimento


desmistificado é, muito provavelmente, correto. Mas essa
atitude pode também ter permeado através dos pensadores
naqueles anos não alcançados por nossas citações
documentais. Usar o nascimento do termo “filosofia” para
denotar o nascimento de um pensamento desmistificado é
algo que limita o pensar à língua (grega, no caso, não
remetendo à linguagem, universal e inerente ao ser
humano). Não haver registros documentais sobreviventes
apenas permite que se “aja” agora por semelhança. Hoje
questionamos racionalmente (ou assim tentamos), mesmo
havendo correntes místicas historicamente fortes.
Possivelmente atitudes semelhantes ocorreram antes do
advento dessas correntes místicas, eventualmente nas
sociedades que se acostumaram, naquele então, a conviver
com outros mitos.

Vale ainda mencionar que mais adiante, na Ásia,


reinos organizados passaram a existir ao longo do Rio
Amarelo, ao que se sabe, desde cerca de 2000 anos antes do

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marco zero do atual calendário. Cidades com origem


próxima a 1900 anos antes do marco zero já foram
descobertas, o que lança a possibilidade de um segundo
berço para um pensamento humano “racionalizado”.
Havendo rotas de comércio como aquela que se denominou
de Seidenstrasse (a rota da seda) entre Oriente e Ocidente
convivendo com o advento do que se denominou de cultura
grega, e estando a Grécia em uma das regiões atravessadas
pelas ramificações dessas rotas, seguramente seus
habitantes se beneficiaram da troca de culturas e
informações entre as diferentes civilizações que então
impulsionavam a “empreitada humana” (novamente, estou
sendo livre com os termos). Os atuais fragmentos de
produtos dessas civilizações permitem concluir pelo contato
comercial muito antigo entre pontos distantes da atual
China e pontos situados no norte da África (Egito) e
Europa. Esse contato é anterior ao advento da parcela da
civilização Grega à qual geralmente se associa o nascer da
nossa “identidade cultural”, possibilitando uma inferência
também de observações culturais mútuas muito antigas
(como, de resto, continua acontecendo até os presentes
dias). Em suma, parece ser difícil estabelecer o que seja
grego no pensamento humano primevo. Mas, com mais
segurança, podemos dizer que o registro de uma parte do
pensamento humano primevo, que pôde ser mantido devido
a incidentes, acidentes, evoluções e momentos históricos, é
grego.

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5 - Bibliografia
Bastos, C.L. e Candiotto, K.B.B. (2007), Filosofia da
Linguagem, Ed. Vozes, Petrópolis.

NEAD (2013), Filosofia da Linguagem, UNIFRAN, 54 p.

Parmênides de Eléia, Sobre a Natureza (DK 28 B 1-9), in


Fragmentos Pré-Socráticos, Extraídos do Volume
Pré-Socráticos da Coleção Os pensadores, texto
disponibilizado para consulta.

Parmênides. Da Natureza. Tradução do Prof. Dr. José


Gabriel Trindade Santos. Modificada pelo tradutor.
Primeira edição, Loyola, São Paulo, Brasil, 2002.
Original em grego, conforme o texto estabelecido por
J. Burnet.

Santos, J.G.T., Para que serve a Filosofia, texto sem data


lido em 18/09/2013 em versão pdf no site:
http://umonline.uminho.pt/uploads/clipping/NOT_43
015/2011050125b61f01052011215201.pdf

Saussure, F. de (1995), Curso de Linguística Geral, Ed.


Cultrix, São Paulo.

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Imagem da capa:

A capa foi elaborada juntando fragmentos que se


sobrepõem a uma imagem de um busto de mármore de
Parmênides. Os fragmentos que não necessariamente se
completam, e as cores adotadas não necessariamente se
combinam ou não são matizes que dão continuidade ao
todo. Mas, não obstante, o todo tem uma forma. Essa
construção fragmentária de uma imagem de Parmênides
serve de metáfora para a construção dos fragmentos tidos
como de Parmênides, unidos na estrutura de um poema.
Assim como não podemos assegurar que Parmênides tenha
tido um olhar semelhante àquele que percebemos na
imagem fragmentária, também não podemos assegurar que
a estrutura e mensagem dos fragmentos coletados tenha tido
o sentido que hoje lhe damos.

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