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DIÁRIO SECRETO DE LAURA PALMER - 1984

(De Julho a Setembro)

23 de julho de 1984

Querido Diário,
Já é muito tarde e não consigo dormir. Tive muitos pesadelos e por fim resolvi ficar
acordada. Imagino que Maddy estará cansada da viagem e vai querer tirar uma soneca
amanhã à tarde, assim eu dormirei um pouco também. Talvez com o céu claro, meus
sonhos não sejam tão escuros.
Um dos pesadelos foi terrível. Acordei chorando e tive medo que mamãe viesse, se me
ouvisse, e agora só quero ficar sozinha. Ela sempre vem e canta para mim a Valsa de
Matilda quando não consigo dormir ou, como hoje, quando tenho pesadelos. Não é que eu
não queira que ela cante para mim, mas é que havia aquele homem estranho no sonho
cantando exatamente com a voz de mamãe, e isso me deixava muito assustada a ponto de
eu não conseguir me mover.
No sonho eu andava pela floresta, perto de Pearl Lakes, e tinha aquele vento forte, mas só
em volta de mim. Era quente. O vento. E não muito distante de mim estava aquele homem
grande, de cabelo comprido, as mãos cheias de calos. Essas mãos eram muito peludas e ele
as mantinha longe de mim enquanto cantava. O cabelo dele não esvoaçava porque o vento
só estava em volta de mim. As pontas dos dedos dele eram pretas como carvão, e ele girava
as mãos em círculos à medida que as ia aproximando de mim. Eu continuava andando na
direção dele, embora eu não quisesse fazer isso de jeito nenhum, porque ele me dava muito
medo.
Ele disse: "Estou com seu gato", e Júpiter correu para trás dele e entrou na floresta, como
um risquinho branco num pedaço de papel preto. O homem continuava a cantar e tentei
dizer a ele que queria voltar para casa e que Júpiter viesse comigo, mas não consegui falar.
Então ele ergueu as mãos no ar, muito alto, como se ele estivesse ficando maior e mais alto
a cada instante, e as mãos subiam mais, e eu senti o vento em volta de mim parar e tudo
ficar em silêncio. Achei que ele estava me deixando ir porque ele parou o vento com as
mãos, assim, e eu achei que ele estava me deixando livre para ir para casa.
Então tive que olhar para baixo porque havia aquele calor no meio de minhas pernas, nada
agradável mas quente. Estava me queimando, e eu tive que abrir as pernas para refrescar.
Para que parasse de me queimar. E as pernas começaram a se abrir sozinhas, como se
fossem se separar do meu corpo, e eu pensei, desse jeito vou morrer, e como as pessoas
iriam entender que tentei manter as pernas fechadas, mas elas estavam queimando e eu não
pude. Então o homem olhou para mim e deu aquele sorriso horrível, e com a voz de mamãe
ele cantou "Você vem dançar a valsa comigo, Matilda..." Eu tentei falar outra vez mas não
consegui, tentei me mover e também não consegui, e ele disse: Laura, você está em casa. E
eu acordei.
Às vezes, quando estou sonhando, sinto-me presa em uma armadilha e com muito medo.
Mas agora, quando olho para o que acabei de escrever, já não
sinto tanto medo. Talvez eu escreva todos os meus sonhos de agora em diante para não ter
mais medo deles.
No ano passado, uma noite tive um sonho tão horrível que, no dia seguinte, na escola, não
consegui fazer nada. Donna achou que eu estava pirando, porque toda vez que ela me
chamava ou tocava em meu ombro na classe para me passar um bilhete, eu dava um pulo.
Eu não estava pirando, como Nadine Hurley nem nada, mas ainda me sentia como no
sonho. Na verdade nem me
lembro dele, mas só sei que no sonho eu tinha um monte de problemas porque
não tinha me saído bem num teste estranho, em que você tinha que ajudar um
certo número de pessoas a cruzar um rio em uma canoa, e eu não conseguia
porque só queria nadar ou qualquer coisa assim, e então mandaram alguém atrás de mim
para ficar me tocando dos jeitos mais ruins. Só me lembro disso, e espero que fique por aí.
Estou cansada de esperar para crescer. Algum dia vai acontecer e eu serei a única pessoa
que poderá fazer com que eu me sinta mal, ou bem, ou
qualquer coisa que eu queira.
Falo com você amanhã. Estou muito cansada.
Laura
Posted by LAURA PALMER 3:11 AM

24 de julho de 1984

Querido Diário,
Prima Maddy estará aqui daqui a pouco. Papai foi sozinho buscá-la na
estação porque mamãe não quis que ele me acordasse. Acordei há quinze minutos no
máximo. Não tive sonhos, mas mamãe disse que me ouviu chamar por ela e depois eu fiz
um ruído como o de uma coruja! Quase morri de vergonha. Ela disse que entrou no quarto e
que eu estava meio acordada mas... fiz esse ruído de novo; disse que eu dei uma risadinha,
virei-me na cama e voltei a dormir. Espero que ela não conte isso a ninguém. Ela sempre
conta às pessoas coisas assim quando estamos reunidos para jantar com os Hayward, por
exemplo. Sempre começa com "Laura fez a coisa mais linda e incrível..." E eu sei que
posso esperar pelo pior. Outra noite ela disse, na frente de todo mundo, que eu fui
dormindo até a cozinha, pouco antes de ela ir se deitar. Tirei toda a minha roupa, enfiei
tudo no forno e voltei para a cama. Agora, toda vez que chego perto do fogão na casa dos
Hayward, quando Donna e eu ajudamos a servir à mesa, a sra. Hayward faz uma piada,
perguntando se eu sei que o forno é um forno e não uma máquina de lavar.
Mamãe bebera um pouco na noite que contou isso, por isso está desculpada. Mas se ela
disser a todo mundo que fiz esse ruído, acho que vou morrer. Não acredito que chegue uma
hora em que os pais deixem de ser uma fonte de embaraço constante para seus filhos. Os
meus não são exceção.
Talvez se eu parar de fazer coisas estúpidas enquanto durmo, ela não tenha nada para contar
às pessoas.
Mais tarde eu volto.
Laura
(grr,grr)

Posted by LAURA PALMER 3:11 AM

27 de julho de 1984

Querido Diário,
Tenho muita coisa para lhe contar. Estas palavras chegam até você de
dentro do forte que Donna, Maddy e eu construímos. Papai e mamãe nos deixaram vir,
desde que não nos afastássemos muito. Usamos a madeira que Ed Hurley nos deu, e papai
enfiou-as no chão, uma ao lado da outra. Donna disse que, se chover, vamos ficar
encharcadas, mas acho que dá para agüentar, não importa o que acontecer.
Maddy está muito bonita. Ela tem dezesseis anos, e eu morro de inveja da vida dela!
Gostaria de já ter dezesseis! Ela tem um namorado, de quem já
sente saudades, e ele telefonou assim que ela chegou para saber se estava
tudo bem. Papai brincou com ela por causa do jeito que ela atendeu o telefone, mas Maddy
nem ligou. Donna acha que quando tiver um namorado firme provavelmente estará com
quarenta anos e um pouco surda. Eu disse que ela era louca, porque os garotos já gostavam
de nós, e que nós é que não éramos bobas de sair com eles. Fico pensando em como será
quando alguém além de meus pais me amar de verdade, e se essa pessoa telefonará quando
eu estiver fora para saber se está tudo bem comigo.
Bem, antes nós fomos ver Troy nos estábulos, e o escovamos e o
alimentamos. Donna e Maddy disseram que nunca tinham visto um pônei tão lindo na vida.
Eu só espero poder merecê-lo. Há anos que Donha deseja ter um, e o pai dela nunca lhe
deu. Será que Troy vai viver muito tempo, e eu vou sofrer muito quando ele morrer?
Donha acabou de ler o que escrevi sobre a morte de Troy, e disse que eu penso demais, e
que se eu continuar assim ninguém sabe o que pode acontecer. Donna não sabe tudo o que
eu sei. Não posso deixar de ter pensamentos tristes às vezes. São a primeira coisa que me
vem à cabeça.
Mamãe fez sanduíches e nos deu duas garrafas térmicas: uma com leite
gelado e outra com chocolate. Maddy não bebeu mais que um copo de chocolate porque diz
que dá espinhas. Eu não vejo nenhuma espinha no rosto dela. Ela ficou menstruada pela
primeira vez há três anos, e diz que é um pesadelo. Dá cravos, espinhas, e você fica cansada
e nervosa o tempo todo.
Ótimo. Outra coisa para esperar. Mamãe ficou menstruada na minha idade, e só espero que
isso não signifique que eu também ficarei este ano. Depois do que Maddy descreveu, não
estou interessada.
Nós estamos comendo sanduíche e tomando leite, e escrevendo em nossos
diários. O de Maddy é tão grande e tão cheio! O de Donna é mais cheio do que o meu, mas
eu vou tornar você muito maior do que o de Maddy. Gosto da idéia de colocar todos os
meus pensamentos num único lugar, como um cérebro onde se possa olhar dentro. Nós
penduramos uma lanterna no alto do forte para que todas possamos enxergar. Um pouco de
luz chegava das janelas da casa, mas nós fechamos todas as cortinas para não estragar a
sensação de estarmos sozinhas no meio da mata. Os cobertores e a comida já nos fazem
sentir exatamente onde estamos. No quintal atrás da casa!
Maddy disse que trouxe consigo um maço de cigarros e que mais tarde, depois que mamãe
e papei forem dormir, se nós quisermos poderemos experimentar. Ela disse que estão
mofados porque ela os tem há meses e que não os fumou porque tinha medo que seus pais
descobrissem. Talvez eu experimente um. Donna disse que não quer, e Maddy e eu
prometemos não insistir porque os verdadeiros amigos não fazem isso. Mas aposto que vou
conseguir que Donna fume um para ela ficar na mesma sintonia. Aposto que consigo.

Posted by LAURA PALMER 1:42 AM

29 de julho de 1984

Querido Diário,
Aqui vai um poema.
Da luz que entra pela minha janela ele pode ver dentro de mim
Mas eu não o vejo até que se aproxime
Respirando, sorrindo à minha janela
Ele vem para buscar-me
Girar, girar
Sair e brincar Vem brincar
Relaxe Relaxe Relaxe
Pequenas rimas e pequenas canções
Pedaços de floresta em meus cabelos e minhas roupas
Eu o vejo às vezes perto de mim
quando sei que não pode estar lá
Eu o sinto às vezes perto de mim
e sei que tenho que agüentar.
Quando chamo
Ninguém me ouve
Quando sussurro, ele acha que é uma mensagem
Só para ele
A voz pequena em minha garganta
Penso sempre que devo ter feito alguma coisa
Ou que é algo que faço
Mas ninguém, ninguém vem ajudar,
Ele diz,
Uma menina como você.

Posted by LAURA PALMER 12:34 PM

Mais tarde.
Ah! Eu disse que faria Donna experimentar um cigarro. Maddy foi buscá-los e acendeu um,
depois passou-o para mim. Gostei de soprar a fumaça de minha boca. É como se um
espírito saísse de dentro de mim, um espírito que
dança, que flutua, muito fino e delicado. Senti-me como se eu já fosse mulher feita, e as
pessoas à minha volta olhavam e queriam ser como eu.
Donna disse que eu parecia uma pessoa madura quando fumava. Eu nem
traguei, mas gostaria de saber como é isso. Donna foi a seguinte, e antes que ela dissesse
não, eu falei: "Gostei de ter experimentado, e jamais farei isso novamente se não quiser".
Então ela pegou o cigarro e soltou umas baforadas de fumaça no forte. Ela também parecia
uma boa fumante, mas de repente acho que sentiu medo, engoliu um pouco de fumaça e
começou a tossir alto. Então nós apagamos o cigarro e abanamos a fumaça de dentro do
forte para o caso de mamãe e papai terem acordado.
Acho que vou comprar um maço de cigarros um dia desses e guardá-los como Maddy. não
vou me viciar em nada. Sou muito cuidadosa.
Bem, nós vamos dormir agora, e as três estão neste momento assinando seus diários. Boa
noite para você. Acho que vamos ser excelentes companheiros.
Amor, Laura

Posted by LAURA PALMER 2:11 AM


Mais tarde.
Estou de volta.
Nós rimos tanto que sentimos o estômago doer. Maddy estava contando como dava beijos
de língua no namorado, e isso nos deixou loucas. Donna fez uma careta e disse que não
gostava da idéia, e eu fingi achar o mesmo... mas
sinceramente, Diário, quando ouvi como se faz isso, senti um friozinho na
barriga. É diferente de... deixa pra lá. Acho que vou gostar de beijo de
língua e vou querer experimentar com um garoto que eu goste o mais rápido
possível. Maddy disse que a princípio sentiu medo, mas já vem fazendo isso
há um bom tempo e agora gosta muito. Eu contei a elas que no mês passado eu tive febre à
noite e fui ao quarto de meus pais, e eles estavam nus, papai por cima da mamãe. Saí do
quarto e mamãe veio atrás de mim logo depois com uma aspirina e uma 7-UP.
Ela jamais disse uma palavra sobre isso. Donna disse que sem dúvida eles estavam fazendo
sexo, e eu já sabia disso, mas não parecia que estivessem fazendo. Parecia que estavam
apenas se mexendo bem devagar, sem nem olhar um para o outro.
Maddy acha que foi só "uma rapidinha". Argh! Meus pais fazendo sexo! Que coisa feia! Sei
que foi daí que eu vim, mas não vou me importar se nunca
mais vir isso de novo. Estou fazendo uma promessa agora: se e quando eu
fizer sexo, será muito mais divertido que aquilo.
Bem, mamãe e papai vieram nos dar boa-noite e dizer a Donna que os pais dela tinham
ligado para dizer que ela não precisava ir à igreja amanhã e
ficasse dormindo conosco. Foi muito bom ouvir isso.
Papai nos fez fechar os olhos e abrir as mãos, e colocou uma barra de doce na mão de cada
uma, pedindo para não contarmos à mamãe. Depois mamãe veio e me deu um saquinho,
pedindo para não contarmos ao papai. Havia mais
doces no saco! Maddy só olhou para o dela e suspirou. "Espinhas", foi só o
que ela disse. Mas ela ficou com os seus dois doces desembrulhados enquanto nós duas
enfiávamos os nossos na boca e tentávamos falar "Rola, rola, rola a bola" com a boca cheia.
Donna disse que as gomas de mascar era um presente que Troy nos havia mandado, e nós
cuspimos tudo.
Maddy contou uma história muito boa, e assustadora, sobre uma família que sai à noite de
casa e quando volta há pessoas escondidas lá dentro
esperando para matar todos. A história era maior que isso, mas não estou certa se quero me
lembrar dela depois. Não quero alimentar meus pesadelos.
Donna foi lá fora fazer xixi, e Maddy contou-me que também andava tendo pesadelos.
Disse que não queria falar deles na frente de Donna porque ela talvez não entendesse. Disse
que anda sonhando comigo na floresta. Donna
voltou e Maddy não disse mais nada. Será que Maddy viu o homem de cabelo
comprido? Ou o vento? Maddy escreve poemas em seu diário porque diz que às
vezes eles são mais divertidos de escrever do que as velhas besteiras de
sempre, e no caso de alguém encontrar o diário, os poemas seriam mais
difíceis de entender. Vou tentar isso amanhã.

Posted by LAURA PALMER 1:53 AM


30 de julho de 1984

Querido Diário,
Maddy trouxe um monte de roupas e me fez experimentar todas em frente do espelho. Ela
disse que eu estava deprimida com alguma coisa... Imagine.
Algumas roupas eram mesmo bonitas. Gostei do modo como me senti dentro delas.
Especialmente da minissaia com o pequeno suéter branco e sapatos de salto.
Maddy disse que eu parecia com Audrey Horne. Ela é a filha do homem,
Benjamin Horne, para quem meu pai trabalha. Benjamin é riquíssimo. Audrey
é bonita, mas muito quieta e insignificante. Os pais não prestam muita
atenção nela, e talvez por isso ela seja assim. Mas ele tem sido muito
atencioso comigo, desde que nasci. Sempre que há uma festa ou uma reunião
em Great Northern, Benjamin me faz sentar no colo dele e canta suavemente
em meu ouvido. Às vezes me sinto muito mal por Audrey; quando ela vê isso
fica muito triste e vai correndo para o quarto, e não volta até que sua mãe vá lá buscá-la.
Outras vezes eu me sinto bem quando ela sai. É como se eu fosse o centro das atenções,
sabendo que sou mais especial para ele que sua própria filha. Sei que não é bonito dizer
isso, mas só estou sendo sincera.
Para ser bem sincera, acho que gosto da maneira como fico nas roupas de Maddy. Alguma
coisa cresce dentro de mim como uma bolha. Como a gente se
sente em um carrossel quando ainda não se está acostumado às subidas e
descidas. Aposto que se eu me vestisse sempre assim as coisas seriam bem
diferentes.
Maddy e eu demos uma volta mais tarde, mas, claro, as duas com jeans e camiseta. Twin
Peaks não está acostumada a ver muitos saltos altos e
minissaias sem bandeiras em toda a volta, anunciando um baile ou um festival. Fomos até
Easter Park e nos sentamos no mirante durante algum tempo.
Maddy disse que gostava muito da casa dela, "exceto por algumas
intromissões absurdas de meus pais". Fiz questão de repetir exatamente o que ela disse,
porque achei muito bem colocado. Ela disse que há muitas coisas na vida que, para ela,
parecem não estar certas a princípio, mas depois você se enquadra.
Talvez eu devesse pensar assim. Talvez eu devesse me tornar uma pessoa melhor e não
pensar demais, o tempo todo, no que vai acontecer comigo.
Espero que chegue logo o dia em que eu esteja bastante segura para me afastar de coisas
que me perturbam tanto. Coisas que ainda não posso descrever a não ser um pedaço aqui,
outro ali. Se eu fosse uma pessoa melhor, e se eu me esforçasse diariamente, talvez tudo
isso funcionasse.
Amor, Laura.

Posted by LAURA PALMER 12:36 PM


30 de julho de 1984, mais tarde

ALGUM DIA CRESCER SERÁ MAIS FÁCIL


Lá no fundo estão os desejos da mulher de sair
Ver o céu
Ver o sol e a lua
E as diminutas estrelas na noite da mão de um homem
Às vezes pela manhã
Olho através de mim
E vejo vales e montanhas
Imagino rios subterrâneos.
Fora de mim
Floresço
Dentro estou secando
Se eu pudesse entender
A razão de meu pranto
Se pudesse parar a razão deste medo
De sonhar que estou morrendo.

Posted by LAURA PALMER 1:40 AM

2 de agosto de 1984

Querido Diário,
Há muito tempo não tenho escrito, e por isso peço muitas desculpas. Maddy foi embora há
três dias, e sinto um medo terrível de alguma coisa que não estou entendendo.
Aconteceu uma coisa boa. Ontem, no meio da noite, tive dentro de mim a mais maravilhosa
sensação. Era como um calor em meu peito e entre minhas
pernas. Todo o meu corpo parecia estar vindo para fora, e era como se eu
pudesse voar. Acho que tive um daqueles orgasmos durante o sono. É tão
estranho e tão embaraçoso escrever, mas ao mesmo tempo é uma sensação
muito boa.
Logo depois disso, tive uma fantasia de que um garoto entrava no meu
quarto e enfiava a mão dentro de minha camisola e me tocava suavemente. Ele murmurava
coisas bonitas e gentis, e depois disse que eu tinha que ficar bem quietinha ou ele iria
embora. Então ele me puxou pelos pés para a extremidade da cama, e quando meus joelhos
se dobraram para fora do colchão, ele me fez fechar os olhos e eu senti ele me abrir, cada
vez mais, e eu tinha que abrir os olhos para ver o que estava acontecendo, mas quando eu o
fiz ele já tinha desaparecido. Mas olhei para minha barriga e vi que estava grávida. Ele
estava dentro de mim como um bebê.
Gostaria que não tivesse terminado assim. Não sei por que minha cabeça faz isso.
Gostei mais quando ele me puxou para baixo gentilmente e suavemente fez o que quis.
Laura.
Posted by LAURA PALMER 1:50 AM

7 de agosto de 1984

Querido Diário,
Hoje passei a tarde com Troy, limpando, escovando e dando comida para ele. Fiquei
fascinada por quanto ele parece entender o que estou sentindo. Ele esfregava o focinho em
mim enquanto eu escovava seu rabo e sua crina, e
quando me sentei num canto da cocheira, ele baixou a cabeça e eu deixei que ele cheirasse
todo meu pescoço e meu rosto. Será que as pessoas se apaixonam tanto pelos seus cavalos
quanto eu pelo meu? Ou eu estou errada por pensar ou sentir todas essas coisas?
Gostaria que Donna estivesse aqui. Vou telefonar para saber se ela pode dormir em casa ou
qualquer outra coisa. Talvez eu durma na casa dela.
Seria até melhor. Às vezes meu quarto é o melhor lugar do mundo, outras é
como um lugar que me prende e me sufoca.
Será que é assim quando se morre... sufocante? Ou será que é como dizem na igreja. Que
você vai flutuando, flutuando, até que Jesus lhe veja e pegue em sua mão. Não tenho
certeza se quero estar perto de Jesus quando morrer. Posso cometer um erro, por menor que
seja, e deixá-lo triste.
Não conheço muito sobre ele para saber o que pode deixá-lo irritado. Claro, a Bíblia diz
que ele sabe perdoar e morreu pelos meus pecados e ama todo mundo, não importa o erro
que cometeram... mas dizem que sou uma filha perfeita, a menina mais feliz do mundo, que
não tenho problema nenhum. Isto não é absolutamente verdade. Como posso saber então se
Jesus gosta mesmo de mim? Uma pessoa assustada, às vezes má, mesmo que as pessoas
não saibam como
nem quando? Provavelmente eu serei um presente para Satã, se não me cuidar. Às vezes,
quando tenho que ver BOB, penso que estou com Satã, e que nunca me livrarei da floresta a
tempo de voltar a ser novamente a boa, verdadeira e pura Laura.
Às vezes penso que a vida seria muito mais fácil se não tivéssemos que pensar sobre ser
meninos ou meninas, homens ou mulheres, velhos ou jovens, gordos ou magros... se
pudéssemos todos ter certeza de que somos iguais. Talvez fosse chato, mas o perigo da vida
e de viver não existiria...
Voltarei depois que telefonar a Donna.
Donna gostaria que fizéssemos alguma coisa juntas esta noite, mas hoje eles vão ter uma
"noite familiar". Acho que seremos só eu e você, Diário.
Talvez possamos ir à floresta e fumar um dos cigarros que Maddy deixou para mim. Tenho
quatro, e escondi-os muito bem no balaústre da cama. É lá que escondo os bilhetes da
escola que não quero que mamãe encontre quando
vem aqui fazer limpeza - você conhece a mamãe. Eu a adoro, mas ela nunca
entende o que tento lhe dizer. Provavelmente ela teria um ataque se soubesse todas as
coisas que passam pela minha cabeça. Bem, a madeira do balaústre sai e ali tem um buraco.
Papai chamaria de "cavidade". Tem mais ou menos dez centímetros de profundidade e é um
esconderijo perfeito. Ninguém percebe se houver uma bolsa ou um suéter pendurado nessa
madeira.
Então a gente pode sair, só você e eu, levar uma lanterna e um cigarro e conversar um
pouco. Eu sei que você, ainda mais que Donna, consegue
guardar um segredo. Jamais poderia dizer a mamãe as coisas que penso sobre
sexo. Tenho medo que se isso sair da minha boca Deus possa ouvir, ou que
alguém fique sabendo como sou má e dizer... Ninguém jamais pensa essas
coisas!
Aposto que não pensa mesmo. Aposto que nunca vou conseguir o homem que eu quero
porque sempre que formos nos beijar ou andar por aí ele me achará uma pessoa maluca,
doente e estranha. Espero que eu não seja isso. Eu
ficaria terrivelmente triste se fosse verdade. Como posso parar de pensar
dessa maneira? Não posso impedir minha cabeça de querer pensar coisas como
essas. Os pensamentos que aquecem meu corpo, fazem meu peito subir e
descer, enchendo de ar e deixando sair, como acontece nos livros e nos
filmes, mas um pouco diferente, porque eles nunca falam das fantasias que
eu tenho.
Vou descer agora para jantar. Gostaria de poder esconder você também no buraco da cama.
Por enquanto vou prendê-lo na parede com uma fita, atrás
do meu quadro de avisos. Espero que você não caia!
Até mais

Posted by LAURA PALMER 2:31 PM

16 de agosto de 1984

Querido Diário,
Jamais estive tão confusa. São exatamente 5h30 da manhã, e mal consigo segurar esta
caneta de tanto que estou tremendo. Estive de novo na
floresta. Perdida. Mas fui trazida de volta. Acho que sou uma pessoa muito
má. Amanhã começarei uma nova vida. Nunca mais terei maus pensamentos. Nunca mais
pensarei em sexo. Talvez assim ele pare de vir, se eu me esforçar para ser boa. Quem sabe
não consigo ser como Donna. Ela é boa. Eu sou má.
Laura
P.S.: Prometo, prometo, prometo ser boa!

Posted by LAURA PALMER 2:44 AM

31 de agosto de 1984
Querido Diário,
Há anos que não escrevo porque estou me esforçando muito para ser feliz e boa, e procuro
estar sempre rodeada de pessoas para que nunca mais possa pensar em coisas erradas. Mas
hoje vou escrever em você para lhe contar as novidades.
Fiquei menstruada. Não é nada daquilo que eu pensava. A escola começará na próxima
semana, e agora isto. Eu estava saindo da cama esta manhã e vi o sangue. Chamei mamãe, e
é claro que ela fez o maior barulho por causa
disso. Telefonou a papai, quando lhe pedi que não contasse nada a ninguém.
E agora todo mundo em Great Northern já está sabendo. Tudo o que eu queria era um
maldito absorvente ou qualquer outra coisa, e ela começou com a
história de que agora sou uma moça e tudo mais. O.K.. O.K.. É mesmo uma coisa
muito especial. Mas que só vai piorar tudo se eu não tomar cuidado. Estou na cama agora
com cólicas.
Mamãe pôs a televisão no meu quarto, o que é bom, e estou com uma bolsa térmica na
barriga e toneladas de aspirinas no criado-mudo. A televisão
não me interessa muito, então me restam novamente os estranhos pensamentos
sobre a vida e sobre... outras coisas. Aposto que o que está saindo de mim
devia ser a fonte de vida de um outro ser. Fico feliz por não ter nada
dentro de mim agora. Pelo menos não um bebê.
Às vezes acho que há alguém dentro de mim, mas que é uma parte estranha, separada de
mim mesma. Às vezes consigo vê-la no espelho. Não sei se vou querer ter filhos. Algo
acontece com os pais, ou com as pessoas que se
tornam pais. Acho que eles esquecem que já foram crianças, e que algumas
coisas podem envergonhar ou aborrecer seus filhos, mas eles esquecem ou
resolvem ignorar isso. Muitas coisas más acontecem comigo no meio da noite, por isso
acho que jamais seria uma boa mãe. Isso me deixa triste.
Estou contente com uma coisa. Júpiter está na cama comigo, e ronronando baixinho. Como
você, Diário, ele jamais me criticaria.
Laura

Posted by LAURA PALMER 2:46 AM

1º de setembro de 1984
Querido Diário,
Meus seios doem, o que é absurdo porque eles são muito pequenos. Concordo que estão
maiores que na semana passada, e com certeza mais bonitos. Os bicos estão sempre duros.
Mas como doem!
Mamãe veio logo cedo e nós tivemos uma boa conversa. Eu disse que preferia que ela não
tivesse contado a papai sobre minha menstruação, e ela pediu desculpas mas disse que só
contou porque sabia que ele ficaria orgulhoso por sua garotinha ter se tornado uma moça.
Ela trocou a água da bolsa térmica e esfregou minha barriga durante um tempo. Não
precisávamos dizer nada uma para a outra, e ainda assim era como se estivéssemos
conversando.
Ela deitou na cama junto comigo por aproximadamente uma hora depois disso e me fez
dormir em seu ombro. Quando acordei dividimos uma lata de
soda-limonada, e pela primeira vez depois de muito tempo senti que éramos
realmente amigas.
Espero que hoje eu consiga dormir a noite toda.
Amor, Laura

Posted by LAURA PALMER 2:48 AM

9 de setembro de 1984
Querido Diário,
Descobri uma coisa sobre mim mesma. Lembra-se quando lhe contei que uma noite acordei
com uma sensação maravilhosa? Pois bem! Há um lugar especial em meu corpo que me faz
sentir aquilo sempre que eu quiser. Um lugar
fantástico e delicioso, onde tudo se dissolve e eu estou livre para me sentir bem. Meu
botãozinho vermelho secreto. Ele é todo meu. Por fim, uma coisa que me levará para dentro
de minhas fantasias. Posso fazê-lo em minha cama, bem suavemente com a ponta do meu
dedo, o que é tão gostoso. Posso fazê-lo na banheira, com a água que sai da torneira (nunca
imaginei que um banho pudesse dar tanto prazer!). Ou no chuveiro, com a água caindo de
cima. Eu me mexo, meu corpo salta, e às vezes tenho que agarrar o travesseiro e colocá-lo
sobre a cabeça, porque em geral é noite e alguém pode ouvir os barulhos. Afinal de contas,
é um segredo, e se está certo ou errado, eu me sinto muito bem e ninguém precisa saber, a
não ser você, querido Diário.
Já faz quase uma semana que tive a primeira menstruação e agora está sendo esta
descoberta maravilhosa. Agora começo a me sentir uma mulher, e um dia, talvez, não vai
demorar muito, vou dividir isto com alguém especial.
Boa noite! Boa noite! Boa noite!
Laura
P.S.: Espero de coração não estar fazendo nada errado quando me toco.
Espero que todas as garotas também façam, e que eu não seja castigada por
isso mais tarde.

Posted by LAURA PALMER 2:50 AM

15 de setembro de 1984
À pessoa que invadiu minha privacidade:
Não posso acreditar na desconfiança que tenho de minha família e de meus amigos. Tenho
certeza de que alguém encontrou meu diário e o leu, talvez
mais de uma pessoa. Não vou mais escrever neste diário durante um bom tempo, talvez
nunca mais escreva. Você destruiu a minha confiança e minha sensação de segurança.
Odeio você por isso, seja quem for!
Nestas páginas escrevi coisas muitas vezes assustadoras ou embaraçosas, até mesmo para
mim se as ler novamente... Confiei que estas páginas só pudessem ser viradas por mim,
somente quando eu quisesse.
Muitas coisas estão me magoando e deixando-me confusa. Eu preciso deste diário, para
poder enxergar minha cabeça por dentro, trazendo-a para fora. Por favor, fique longe dele.
Estou falando sério.
Laura

Posted by LAURA PALMER 2:51 AM

DIÁRIO SECRETO DE LAURA PALMER - 1985


(De Outubro a Dezembro)

3 de outubro de 1985
Querido Diário,
Resolvi, depois de um ano, voltar a falar com você. Encontrei um
esconderijo, do qual não vou falar, para o caso de você ser encontrado fora dele e algum
abelhudo querer saber onde é.
Sei que não foi culpa sua ser encontrado e alguém ter resolvido espiar dentro, mas precisei
de um longo tempo até me sentir segura o suficiente para escrever outra vez em suas
páginas. Muitas, muitas coisas aconteceram desde a última vez que você ouviu falar de
mim, e muitas delas provaram que meus pensamentos sobre o mundo ser um lugar cruel e
triste estavam certos e foram confirmados.
Eu não confio em ninguém, quase nem em mim. Foram muitas manhãs, tardes e noites de
batalha para saber o que é certo e o que é errado. Não sei se estou sendo castigada por algo
que fiz de errado, algo de que não me
lembro, ou se isso acontece com todo mundo e eu que sou uma estúpida por não entender
isso.
Em primeiro lugar, descobri que não foi papai que me deu Troy. Foi
Benjamin Horne. Os detalhes não importam, mas digamos que eu tenha ouvido
Audrey discutindo com o pai sobre isso, quando eu estava em Great Northern
visitando Johnny. Johnny é irmão de Audrey, outro filho de Benjamin. Ele é
retardado. É mais velho do que eu, mas tem mentalidade de uma criança pequena. Pelo
menos foi o que disse o médico.
Às vezes penso que ele só escolheu ficar quieto porque é muito mais
interessante apenas ouvir as pessoas em vez de falar com elas. Ele nunca
fala, exceto "sim" e "índio". Ele adora índios. Ele usa constantemente um
cocar. É um feito com lindas penas coloridas e tiras de couro. Em seus olhos o mundo é
uma mistura de alegria e dor, e acho que entendo Johnny mais do que entendo muitas
outras pessoas. Talvez eu encontre um jeito de passar mais tempo com ele. Em geral eles o
deixam sozinho durante muito tempo.
Fico contente de Troy ser meu, e adoro andar nele, caminhar com ele ou só olhar ele raspar
a pata no chão. Mas agora me sinto constrangida com
papai. Como se ele fosse menos honesto por ter dito a todo mundo que Troy era um
presente dele. Talvez Benjamin tenha querido assim, não sei. Não importa o que seja, de
alguma maneira Benjamin me deixa intrigada, e é como se eu pertencesse mais a ele do que
a papai.
Às vezes acho que seria melhor não ter um pônei só meu, porque assim não teria perdido o
respeito por papai, e Benjamin teria continuado a ser só
Benjamin. Pior que isso, Audrey e eu nunca mais vamos nos entender. Eu me
sinto um pouco mal por ter sido a causa de tudo. Por outro lado, me dá uma
sensação de poder. Por que essas coisas acontecem comigo?
Sabe, de todos os homens que conheço, o dr. Hayward tem sido o mais
carinhoso comigo. Ele não é egoísta, é gentil, e tem sempre um sorriso de
perdão e incentivo para mim - ou de qualquer outra coisa que de alguma
maneira preenche este vazio que sinto. Há treze anos, ele me trouxe ao mundo e segurou
firme meu corpinho, só por um momento. Em minhas fantasias, imagino esse momento
como um dos mais carinhosos de toda a minha vida. Eu o amo por ter me segurado, aquela
criancinha recém-nascida, assustada com o ar e com a luz, e por me fazer acreditar, sem
nunca ter dito uma só palavra, que me seguraria novamente sempre que eu precisasse. Ele
me faz lembrar alguém que não me importaria ver todos os dias de minha vida. Um avô
carinhoso, dentro da mão protetora de um pai.
Voltarei depois do jantar. Há muito mais novidades.
Amor, Laura

Posted by LAURA PALMER 2:54 AM


3 de outubro de 1985, mais tarde
Querido Diário,
O jantar estava ótimo hoje. Um dos meus pratos favoritos, panquecas de batata com creme
de milho e vegetais. Vou ter que começar a mudar o meu
jeito de comer, ou corro o risco de engordar como um balão. Mamãe fez essa
comida especial para mim porque sabe que ainda estou triste por causa de
Júpiter. Ela e papai comeram galinha.
Júpiter é a notícia. Geralmente ele sai para brincar no quintal. Lá não há cerca, mas ele
nunca fugiu. Acho que era esperto demais para sair da casa de pessoas que o amavam tanto,
que o alimentavam tão bem. Embora eu não
escreva com freqüência sobre ele, era uma das coisas mais importantes que
havia para mim, sempre tão doce e tão delicado. Sempre gostou de mim, não
importava como eu estivesse ou o que tivesse feito de certo ou errado
naquele dia.
Sempre, nas noites em que eu não conseguia dormir, nós dois íamos brincar lá embaixo
com um novelo de barbante, somente com a luzinha de um abajur acesa. Depois ele
adorava tomar um sorvete na cozinha. Baunilha era o seu preferido. Com a casa escura, nós
dois ficávamos ali até o sono chegar,
horas depois de já termos desistido de dormir. Ainda tenho uma foto que papai tirou de nós
dois no sofá da sala, depois de uma dessas noites. Não houve tempo de voltarmos para cima
e dormimos ali mesmo no sofá.
Dei essa foto ao xerife Truman para que ele mostrasse na delegacia. Espero que encontrem
quem atropelou Júpiter. Provavelmente foi um acidente,
porque minutos antes de acontecer, ele tinha encontrado um rato ou qualquer coisa assim...
Não prestei muita atenção, mas ele saiu correndo atrás e foi pego por um carro. Mamãe
ouviu o barulho e mandou-me ficar onde estava até saber o que tinha acontecido. Mas às
vezes mamãe e eu pensamos as mesmas coisas, temos os mesmos sonhos, e ela sabia que eu
não ficaria no quarto se soubesse. Mas eu não ouvi o que ela disse e saí para vê-lo; ele
ainda respirava, mas sangrava pelos olhos e pela barriga.
Não posso acreditar que alguém atropele um gato como ele, em pleno dia, e não diga nada a
ninguém. Que não pare para pensar e não vá à casa mais
próxima para contar o que aconteceu. Mamãe ouviu o carro frear, e papai disse que se
estivesse em casa saberia que tipo de carro era só pelo barulho do freio. Duvido, mas foi
um pensamento bonito.
Agora ele está enterrado lá fora. Um bom amigo se foi, quando eu preciso tanto deles.
Preferia que outra coisa tivesse morrido em vez de Júpiter.
Para ser sincera com você, como tenho sido sempre, muitas pessoas em Twin Peaks gostam
de mim. Muitas sabem meu nome, e na escola sou muito popular. O único problema é que
realmente não conheço nenhuma dessas pessoas da maneira que elas pensam que me
conhecem. E acho que posso dizer com
segurança que elas não me conhecem de jeito nenhum. Donna é a única. Mas ainda tenho
medo de contar a ela minhas fantasias e meus pesadelos, porque às vezes ela consegue
entender e outras fica dando risada, e eu não tenho saco de perguntar a ela o que há de tão
engraçado. Então fico me sentindo mal outra vez e calo minha boca por um bom tempo.
Gosto muito de Donna, mas às vezes fico com medo que ela não fique do meu lado quando
souber o que se passa dentro de mim. É negro e escuro, e recheado de sonhos com homens
muito grandes, e os diferentes modos de eles me pegarem e me submeterem à sua vontade.
Uma princesa encantada que pensa ter sido salva da torre, mas descobre que o homem que
a pega não está lá para
salvá-la, e sim para entrar dentro dela, muito fundo. Para domá-la como se
ela fosse um animal, mexendo com ela, fazendo-a fechar os olhos para ouvi-lo dizer tudo o
que faz. Passo a passo.
Espero que isso não seja uma coisa ruim de se pensar.
Amor, Laura

Posted by LAURA PALMER 2:54 AM

20 de outubro de 1985
Querido Diário,
Pouco mais de uma semana e tenho mais novidades. Desculpa por não ter
escrito, mas realmente parece que tudo enlouqueceu por aqui... bem, pelo
menos aqui dentro de mim. Em casa está tudo na mesma. Em geral muito
irritante. Meu Deus, sinto-me às vezes tão amarrada, como se tivesse que
manter esse sorriso constante no rosto ou todos iriam cair em cima de mim.
Será que a dor, não a do tipo que acontece quando seu gato é assassinado, ou quando a sua
tia morre, mas daquele tipo que você tem que conviver... será que ela pode ser boa? A dor
como uma sombra ou companhia. Será que é possível...
Seja como for, a novidade é estranha. Estou um pouco nervosa pelo tanto que gostei de
correr todo aquele perigo, mas vou lhe contar tudo, e do
fundo do meu coração. Talvez seja como meus sonhos, menos difícil de entender se a gente
puder ver no papel.
Vamos lá.
Na quinta-feira passada, anteontem, Donna e eu voltamos ao Book House, mais ou menos
às quatro horas da tarde. Acho que fomos esperando encontrar Josh, Tim e o outro amigo
deles, e talvez enlouquecer com outro cigarro daqueles. Nós nos vestimos especialmente
para isso, nada muito exagerado ou louco, porque conhecemos praticamente todas as
pessoas da cidade e não queremos que nossos pais fiquem sabendo. Mas estávamos com
saia bem curta e um pouco mais apertada do que as pessoas aprovariam, menos os rapazes,
é claro, e usamos um pouco de maquiagem que a mãe de Donna, a sra. Hayward, deu a ela
na Páscoa porque Donna insistia em usar as dela e a mãe queria que ela tivesse as suas
próprias.
Bom, vamos lá! Chegamos ao Book House e não havia ninguém além de Big Jake
Morrissey, que é quem cuida do lugar. Vou falar um pouco sobre esse lugar que é pra você
saber onde eu estava. É um bar, em geral para rapazes -
permitem-se mulheres -, mas é mais como um "clube do Bolinha". Há livros
espalhados pelas mesas e em prateleiras, que cobrem três de suas paredes, até o fundo.
Cheira a cigarro, sabão de barba e café. Há sempre café pronto. E dessa vez notei uma foto
do homem perfeito para as minhas fantasias! Não disse nada, é claro, mas ele era perfeito.
Ele era rude e forte, mas tinha olhos doces e pele macia.
A foto mostra ele de jeans e jaqueta de couro, segurando um livro e
sentado em uma moto, lendo. Estou apaixonada! Como não tinha mais ninguém
ali além de nós, Jake nos deu um café e disse que as pessoas começariam a
chegar logo, e seria bom que saíssemos logo, principalmente vestidas daquele jeito.
Ele falava meio sério, meio de brincadeira, quando nos perguntou: "Será que vocês estão a
fim de programa?"
Donna ficou toda vermelha, e eu só disse a ele o que diria aos meus pais se eles ficassem
sabendo. "Só estamos brincado e curtindo. É só uma
brincadeira e você não tem nada a ver com isso." Ele entendeu, melhor que isso, "engoliu",
e depois de beber o café nós saímos.
Na saída, eu disse a Jake que há mais ou menos uma semana três rapazes canadenses super
legais tinham ido lá e nos ajudado a consertar os pneus das bicicletas que tinham murchado,
depois que passamos sobre cacos de garrafas de cerveja quebradas que sempre havia na
frente da Casa da Estrada. Pedi a ele que, se os visse, dissesse que queríamos agradecê-los,
oferecendo uma xícara de café ou qualquer outra coisa. Disse também que estaríamos lá
atrás conversando, caso eles quisessem aparecer. Jake prometeu que daria o recado se os
visse.
Adivinhe! Eles apareceram. Jake deu o recado, porque eles saíram rindo, sem nos dar
tempo de inventar outra mentira. Donna foi rápida e esperta em dizer que "nós queríamos
ter certeza de que vocês eram legais antes de dizer quem nós somos".
Todos eles disseram que estávamos muito bonitas; descobri que o nome do terceiro era
Rick e todos tinham vinte e dois anos! Dissemos que a nossa
idade não importava e não nos impediria de nos divertirmos, desde que
chegássemos em casa antes das dez horas. Se tivéssemos que nos atrasar,
deveríamos telefonar. Josh disse que tinha alguma coisa para bebermos, e
se tivesse algum lugar que conhecêssemos para acender um pequeno fogo na
floresta, poderíamos ir e fazer uma festinha. A essas alturas eram mais ou
menos cinco e meia da tarde.
Dessa vez eles estavam em uma caminhonete ao invés de bicicletas, e então Donna e eu nos
sentamos na carroceria e dissemos a eles para cruzar a
Lucky Highway 21 e seguir direto para a floresta atrás de Low Town. Donna
e eu achávamos que estaríamos seguras ali, e se alguma coisa acontecesse
eu poderia dizer que nos perdêramos, que tínhamos saído para dar uma volta
e perdido a noção de onde estávamos. Imaginei que estaria tudo bem, não
importa o que acontecesse. Os rapazes me pareciam bem legais, e assim
confiamos neles mais uma vez.
Chegamos a um lugar onde havia um rio e agulhas de pinheiros espalhadas pelo chão, e
portanto uma fogueira não teria perigo. Tim e Rick acendiam o fogo enquanto Josh abria a
garrafa de... acho que era gim. A única coisa alcoólica que Donna e eu já tínhamos tomado
era uma taça de champanhe -
uma única, no aniversário do dr. Hayward no ano passado. Isso era novidade
para as duas. Donna estava excitada mas nervosa. Eu estava absolutamente
excitada, e fui a primeira a dar um gole naquilo depois de Josh. A garrafa
rodou... até acabar.
Donna e eu ficamos bêbadas quase imediatamente. Rick não parava de dizer: "Cara, elas
estão chumbadas".
Mas eu e Donna tivemos que fazer xixi, então nos afastamos do fogo alguns metros e nos
agachamos atrás de uma árvore. Só um pouquinho ali e já
começamos a ficar com medo. Realmente um pouquinho ali e já começamos a ficar com
medo. Não sabíamos o que fazer, e as duas ficaram se lembrando das besteiras que
tínhamos dito, ou dando bandeira de que éramos infantis ou qualquer coisa do tipo.
Quando me levantei, minha cabeça se iluminou. Pensei comigo mesma: "Agora é tarde
demais, você já está completamente bêbada, o melhor a fazer é
curtir, e não esquecer de ficar ligada no relógio!" Donna concordou que o
melhor mesmo era deixar acontecer, e ficamos grudadas uma na outra, se
sentíssemos medo mais uma vez.
Tim ligou o rádio do carro, e eu perguntei se eles não iam me achar uma boba se eu
dançasse um pouco, porque curtia aquele som. Todos os três
disseram que tudo bem, e Donna só ficou ali olhando para o fogo um tempo.
Tim foi se sentar bem ao lado dela e cochichou alguma coisa em seu ouvido.
Os olhos dela se arregalaram, ela deu uma risada esquisita, e depois relaxou. Acho que ele a
fez sentir-se bem, ou bonita ou qualquer coisa. Tenho que me lembrar de perguntar a ela o
que foi que ele disse.
Então eu estava dançando, e Josh e Rick não tiravam os olhos de mim... e eu comecei a me
sentir muito à vontade, ou confiante, ou as duas coisas, e enlouqueci um pouquinho mais e
entrei numa dança mais sexy. Uma que
praticava sozinha no meu quarto, na frente do espelho. Movia os quadris em
círculos e deixava os braços se moverem devagar, passando de vez em quando
as mãos pelos quadris como se me sentisse muito bem de estar tocando em
mim mesma.
Saco! Mamãe está chamando lá embaixo para lavar a louça. Volto depois. Há muito mais
que isso!
Amor, Laura

Posted by LAURA PALMER 2:55 AM

Diário, voltei. Desculpe ter interrompido.


Bom, eu estava dançando, e Donna via o que eu estava fazendo e me olhava como se eu
estivesse louca. Ela olhou em volta um tempo e aposto que
queria ter parte daquela atenção, ou qualquer coisa assim, porque olhou para o relógio e
disse: "Vamos brincar de tirar tudo!" Por aí dá pra imaginar quanto Donna estava bêbada.
Todo mundo ficou quieta e só ficou ouvindo a música, e então eu disse: "Vamos nessa!"
Então Donna e eu tiramos a roupa... todinha. Quase ficamos de calcinha, mas não quisemos
que eles pensassem que éramos garotinhas bobinhas. Eles estavam sentados no rio,
encostados em pedras, quando nós duas chegamos perto do fogo. O riozinho tem no
máximo um metro na sua parte mais funda.
Então nós tiramos a roupa e ficamos ao lado do fogo um tempo. Quando
começamos a ir para a água, Josh disse: "Parem! Aí. Só por um minuto". Nós paramos. E
quando estávamos lá paradas, ele disse a Tim e Rick: "Vocês já viram na vida coisa mais
bonita que essas duas gatas?" Os dois fizeram uns barulhos de quem tinha gostado. Donna e
eu ficamos meio incomodadas quando sacamos que eles olhavam para nós de um jeito... um
jeito meio íntimo, entende? Tim disse: "Vejam como o fogo faz sombras no corpo delas".
Donna e eu olhamos uma para a outra, e olhamos outra vez para
eles. Não era fácil enxergá-los porque estávamos muito perto da luz e eles
estavam no escuro, dentro do rio. Rick disse: "Por favor, venham para a
água conosco". Nós fomos.
Foi bom demais. O jeito que eles ficaram quando chegamos pela água,
deslizando bem devagar, como se fosse um sonho. Eu nunca tinha sentido nada tão bom e
tão íntimo nas minhas fantasias. Os três estavam... estavam... estavam... acho que posso
dizer de pau duro, porque "pênis" me soa como se eu estivesse lendo um livrinho da
Coleção de Sexo. Então eles estavam super duros.
E eu disse (principalmente porque sabia que Donna estava mais pirada do que eu com tudo
aquilo): "Esta vai ser uma noite maravilhosa... nós todos
podemos voltar pra casa com aquela sensação incrível de querer que fosse
mais... Donna e eu não vamos fazer até o fim com vocês".
Quando isso saiu da minha boca, eu nem acreditava. Quem estava falando? O que eu, Laura
Palmer, de treze anos de idade, estava fazendo ali na floresta com três rapazes nus, nove
anos mais velhos que eu?
Eles toparam, mas Josh disse: "Podemos pelo menos pegar em vocês, dar um beijinho?"
Donna olhou para mim do mesmo jeito que no ano passado, quando
Maddy contou sobre os beijos. Eu disse que, para mim, tudo bem, mas que, se Donna não
estivesse a fim, ninguém ia forçá-la. Alguma coisa me diz agora, quando me lembro, que
isso foi a coisa mais excitante que aqueles caras já tinham vivido. Não acho que eles teriam
feito alguma coisa de mal, mesmo que tivéssemos pedido, porque eles estavam morrendo
de medo.
Foi uma noite tão estranha e tão particular. Como se a floresta nos
fizesse agir como loucos, como as árvores, e o fato de que estava escurecendo nos fazia
esquecer que todo o resto existia.
Ajoelhei dentro da água, na frente de Josh e molhei os cabelos. Então
olhei para ele e disse: "Você pode pegar, se quiser. Está tudo bem." Então, bem devagar,
ele pôs a mão em meu seio, que deve ter um bom tamanho, acho, para a minha idade, e
estremeceu, como se estivesse assombrado. Eu me senti no topo do mundo. Fazia aquele
cara de vinte e dois anos enlouquecer! Ele começou a tocá-los, e pegava só nos bicos, e era
difícil para mim não dizer que isso era bom, por isso ri.
Tim começou a tocar nos seios de Donna, e ela só o observava em silêncio. Rick não tinha
ninguém para ficar, então eu disse: "Pegue em mim,
também...mas lembre-se que fizemos um trato... certo?" Ele concordou e se
arrastou pela água até mim e pôs a boca na ponta do meu seio. Tive que
fechar os olhos para que eles não me fizessem pirar completamente. Era tão
incrível! Eu só conseguia pensar no cara da foto do Book House, e mesmo
que pareça estranho, vou dizer. Eu tive o pensamento erótico de que ele mamava em mim.
Como se ali dentro tivesse todo o carinho e alimento de que ele necessitava... esse cara
mais velho, precisando de mim. Senti-me forte e quase como se estivesse fantasiando para
eles. Josh pôs a boca no outro bico, e Tim e Donna se afastaram um pouco de nós na água e
começaram a conversar. Depois Donna saiu com Tim, os dois se vestiram e sentaram perto
do fogo... sempre conversando. Eu não liguei, ou não queria ligar. Eu não ia parar aquilo a
não ser quando quisesse, e era bom demais para estragar.
Sussurrei para Josh e Rick que tinha vontade de que um deles me beijasse, bem devagar e
bem macio... e que o outro poderia continuar fazendo o que fazia. Rick disse a Josh que
podia me beijar, desde que ele também pudesse depois, mais tarde ou qualquer outra hora.
Então Josh se inclinou sobre mim e chegou bem perto, e antes de me beijar ele disse, bem
baixinho: "Bem macio, certo?" Eu disse que sim. E ele continuou: "Bem macio e bem
gostoso..." Ele abriu a boca, e eu abri a minha, e nossas línguas começaram a se mover,
como se estivéssemos querendo cada vez mais... mas não era depressa, era devagar... bem
gostoso e bem devagar. E Rick chupava meu seio e fazia barulhos de quem tinha fome e
estava comendo, ou como se tomasse um sorvete delicioso. Sei lá o que ele estava sentindo,
mas posso garantir que eu me sentia dez vezes melhor do que ele.
Entrei num sonho, não sei por quanto tempo, enquanto aquilo acontecia, e era como se nada
de mal jamais fosse acontecer comigo. Tudo desaparecera e de repente não me importei de
nunca mais ver Donna, mamãe, papai, ou qualquer pessoa... nunca mais. Essa sensação
deliciosa de ser querida, necessitada, e especial, como se eu fosse um tesouro... era só o que
eu queria sentir, sempre.
Eu não tinha idade, e não existiam horários, trabalhos de escola, trabalhos domésticos,
chateações, nada para nublar minha cabeça ou levar-me de volta para a pequena Laura. Eu
não tinha idade, e era tudo o que aqueles rapazes queriam. Era algo saído do sonho deles!
Rick começou depois a me beijar, e era tão delicado e tão doce quanto
Josh, embora beijasse diferente. Ele mexia a língua e os lábios de outro jeito, parando às
vezes e mordendo de leve meu lábio, como se me provocasse.
Desculpe falar tanto, Diário, mas tenho que falar com alguém, e Donna, mesmo estando lá,
na verdade não estava como eu. Ela ainda não estava
pronta para aquilo ou para o que pudesse sentir. Não que haja qualquer coisa errada nisso,
mas Donna ainda está mais interessada em ser boa... o tempo inteirinho. Eu, parece que
tenho sido tão boa quanto posso, e talvez mais do que muita gente, mas tive que esquecer
essas coisas por um bom tempo ali... e acho que foi uma ótima solução.
Nada além disso aconteceu no rio, a não ser que toquei os dois no meio das pernas. Fui bem
delicada com eles da maneira como eles foram comigo, e adorei senti-los tão duros, e saber
que aquela coisa dura flutuava na
água... isso eu só podia sentir e não ver. Exatamente como eu queria que
fosse. Era capaz de querer mais, e capaz de adorar o que eu tivesse.
Tim e Donna trocaram números de telefone enquanto eu me vestia, e a única coisa que me
preocupava é que eu estava mesmo bêbada e começava a sentir o estômago enjoado. Acho
que Donna também, porque Tim disse: "Acho melhor a gente ajudá-las a vomitar, senão vai
acontecer quando chegarem em casa...
Donna está preocupada, sabe, em como vai explicar para os pais dela".
Eu nem acreditava como aqueles caras estavam sendo legais conosco. Eles não fizeram
piadas e nem nos fizeram sentir que éramos nada perto deles. Sei que não somos, mas foi
bom, especialmente no estado que estávamos, não ouvir nada desse tipo.
Rick disse que tinha chicletes no porta-luvas do carro, e se nós quiséssemos ele iria buscar.
Tentei me imaginar indo para casa do jeito que eu estava, completamente zonza. Vomitar
não parecia uma coisa agradável, mas Tim sugeriu que talvez nos deixasse sóbrias, então
Donna e eu viramos de lado e enfiamos o dedo na garganta. Veio logo. Foi horrível, mas
me senti melhor, e Donna disse que estava mais fácil para ela depois disso. Eu disse que
poderíamos voltar, e que se eles não se importassem, poderiam nos deixar a um quarteirão
de casa, mas de que casa?
Achei que a viagem de volta, o ar fresco, fosse nos ajudar.
Aguenta um pouquinho, Diário, mamãe quer dar um beijo de boa-noite.
Posted by LAURA PALMER 2:56 AM

Tudo bem, estou de volta. Graças a Deus que ela não viu você.
Quando os rapazes nos deixaram, nós saltamos da carroceria, e Tim beijou a mão de Donna
todo romântico, e Rick e Josh disseram que tinham gostado muito de tê-la conhecido.
Eu fui para a janela do motorista, onde estava Josh, e já ia agradecer-lhe... e dizer o que me
viesse à cabeça... mas ele me fez parar. (Um arrepio correu pela minha espinha.) Ele
encostou o dedo nos meus lábios e disse: "Obrigado por confiar em nós como confiou".
Eles foram embora, e Donna e eu quase choramos.
Estávamos a um quarteirão da casa de Donna e cada uma de nós pôs mais um chiclete na
boca e começamos a pensar numa história. Estávamos na floresta, conversando.
Inventávamos histórias e contávamos os sonhos que
tivemos, e... o futuro.
Donna disse que não achava que estava mentindo porque foi o que ela e Tim fizeram. Eles
se beijaram algumas vezes, e Donna admitiu, pouco antes de
entrarmos na casa dela, que gostou muito.
Resolvi que não explicaríamos nada do que fizemos enquanto estivemos fora, a menos que
alguém perguntasse. Já vi pessoas exagerarem na explicação das coisas, e parecer que estão
mentindo ou escondendo algo; podia acontecer
conosco.
Os pais dela estavam dormindo no sofá quando entramos, e nós passamos bem de mansinho
e fomos para o quarto. Escovamos os dentes e ajeitamos um
pouco o cabelo, e antes de descer nos abraçamos. Não dissemos uma palavra.
Só nos abraçamos. Acho que foi nossa maneira de dizer que era nosso
segredo, e que ainda éramos amigas e que tudo estava bem. Estávamos em casa, e estava
tudo bem.
Donna acordou o pai dela e disse que esperara para acordá-lo porque ele estava dormindo
tão gostoso, ali deitado no ombro da sra. Hayward. Ele se
ofereceu para me levar em casa, então liguei para mamãe e ela disse que nem tinha prestado
atenção na hora porque estava lendo um livro ótimo. Disse que papai já tinha ido dormir. E
que ela ia esperar eu chegar.
Não sinto nenhuma culpa pelo que aconteceu, mas acho que é só porque
ninguém ficou preocupado e porque os rapazes eram tão legais. Não posso evitar de ficar
triste ao pensar que tudo terminou. Esta noite se foi, e sou Laura outra vez. Treze anos de
idade, e a menina dos olhos de papai.
Sem raiva, mas com certa ansiedade, gostaria muito de ser mais velha, e dona do meu
próprio nariz, sem ter ninguém para prestar contas.
Deus abençoe mamãe e papai, Troy e Júpiter - que sua alma descanse -, e os rapazes, Josh,
Tim e Rick. Obrigada, Deus, por ter me dado aquelas horas
de... BENÇÃO.
Já, já, L
P.S.: Sinto que cada vez que me lembro desta noite eu mudo um pouco. Os rapazes são um
pouco mais rudes comigo a cada vez. Vou ficando mais
atrevida, e os faço dizer o que sentem quando me tocam. Quero que eles me
digam como é para eles. Não sei por que isso mudou... Gostei da maneira como foi, mas
quando repito em minha cabeça, quero que eles sejam um pouco mais obscenos. Gosto
disso. Gosto que eles sintam mais do que eu.

Posted by LAURA PALMER 2:57 AM

11 de novembro de 1985
Querido Diário,
Ontem, pela primeira vez há muito tempo, dormi a noite toda. Quando
acordei, nem podia me lembrar dos sonhos que tive, ou se tive algum. Dizem
que todo mundo sonha o tempo todo, e sempre me lembro dos sonhos. Bem, eu
estava escovando Troy no estábulo quando de repente veio à minha cabeça um
endereço: River Road, 1400, River Road, 1400. Eu tinha sonhado com isso.
De repente senti vontade de ir lá. Tinha que encontrar esse lugar e ver o
que era. Decidi telefonar dos estábulos para a mamãe e dizer que ia dar
uma volta com Troy, e voltaria logo.
Eu tinha alguma idéia de onde era River Road, 1400, e confirmei com Zippy para ter
certeza. Ele disse que não era longe,mas não havia muita coisa
lá. Eu disse que queria sair um pouco com Troy e ir aonde eu nunca tivesse
ido antes. Não quis dizer que tinha sonhado com esse endereço e precisava
descobrir se ele existia. Temi que ele achasse estranho e, por outro lado,
nem eu mesma sabia muito bem por que tinha que ir. Achei que por tudo o que já
acontecera, era melhor ficar quieta. Manter segredo, como de tantas outras coisas. Zippy
disse para não esquecer de entrar à esquerda quando a estrada de terra bifurcasse, porque
senão eu iria parar numa estrada asfaltada, e isso não seria bom para os casos e as
ferraduras de Troy.
Prometi, e lá fomos nós.
Todo tipo de pensamento passou pela minha cabeça, e até chorei um pouco
porque comecei a pensar em Josh, Tim e Rick, e talvez nunca mais os visse.
Pensei que Donna não tinha me telefonado ainda hoje, e me preocupava que ela pensasse
que eu fosse suja, ou má, ou qualquer outra coisa, e senti uma profunda necessidade de
conversar com ela. Espero que ela não pare de gostar de mim.
Não sei o que faria se isso acontecesse. Então, continuava vendo aquele endereço na minha
cabeça, a cada vez que terminava de pensar uma coisa, não importava o que fosse, e de
repente me vi em frente àquele posto de gasolina abandonado. Desmontei de Troy e
amarrei-o a um poste que ainda
estava lá. O poste que segura a cerca em volta da bomba. Aquele que assinala qual bomba é
o quê. O mato crescia em toda a volta; deixei Troy pastando por ali e comecei a olhar o
lugar.
Quando dei a volta em Troy, para ficar exatamente de frente para o posto, vi a Senhora do
Cepo ali parada, muito quieta, segurando o cepo, bem
embaixo do pedaço de madeira onde estava escrito River Road, 1400. Ela riu
para mim, e lembrei que tinha visto aquele rosto no sonho. Não dissemos nada por um bom
tempo. Só olhávamos uma para a outra e sorríamos. Eu não estava incomodada, mas
bastante curiosa para saber por que estava lá, e no instante em que pensei isso, ela falou:
- Sei que você está curiosa para saber que lugar é este e quem sou eu.
Eu concordei.
- Vi num sonho que iria encontrar você aqui, para que nos conhecêssemos melhor - disse
ela.
Senti um baque no estômago e fiquei de boca aberta.
- Às vezes sonho com pessoas - disse calmamente. - Acontece.
Jamais pude imaginar que Margaret, a Senhora do Cepo, fosse tão gentil. Nós nos sentamos
na grama, na frente do posto, e ela começou a me dizer que sabia muita coisa sobre mim,
coisas muito especiais. Disse que eu não devia me preocupar tanto. Se eu prestasse atenção
às coisas à minha volta, essas mais especiais viriam até mim.
Sempre ela pegava o cepo e ficava em silêncio como se o estivesse ouvindo. Muitas vezes
ela ria como se fosse muito engraçado, ou agradável. Outras, ela dizia para o cepo que não
queria ouvir aquilo. Que não era a hora. A última vez que aconteceu, ela virou-se para mim
e cochichou: "As coisas não são bem o que parecem".
Ela olhou para a frente, depois se virou com outra expressão no olhar, como se estivesse
aliviada por ainda estarmos sós. Ela disse que sabia que eu andava sonhando em ser uma
moça, e que isso era bom porque todas as
garotas também sonhavam. Então as palavras começaram a ficar meio confusas... ela disse
muita coisa sobre a floresta, e procurei ouvir com muita atenção porque confiava nela e
achava que talvez ela soubesse alguma coisa que poderia me ajudar. Um monte de coisas
que ela dizia me parecia besteira. Lembro-me do que foi, vou escrever, mas não sei o que
significa. Talvez entenda mais tarde. O que consegui entender me fez muito bem, como se
eu não estivesse sendo má o tempo todo, e pudesse continuar esperando
pelas coisas sem ter medo de estar sendo egoísta.
Algumas coisas que ela me disse: que a floresta é um lugar para se
aprender sobre as coisas, e sobre si mesmo. Outras vezes é um lugar para
outras criaturas, não para nós. Disse que às vezes as pessoas vão acampar
e aprendem coisas que não devem. Às vezes as crianças são as vítimas...
Acho que foi isso o que ela disse. O que mais...? Estou me esforçando para me lembrar de
tudo. Ah! Ela disse que tinha de ficar de olho, e que um dia as pessoas iam descobrir que
ela vê as coisas e que se lembra delas. Disse que é importante lembrar o que você vê e
sente. As corujas às vezes
são grandes. Isso! Isso é uma coisa que eu tinha esquecido completamente.
As corujas às vezes são grandes. Espero que isso não se refira àquele
"sonho de coruja" que mamãe disse que eu tive. Acho que não, mas só por isso a frase faz
sentido para mim. Espero poder entender logo essas coisas. Tanto faz; nós continuamos ali
sentadas, e ouvi ela cantarolar uma música que nunca ouvira antes, e que achei muito
bonita. Fazia-me sentir segura, e acho que ela estava querendo isso mesmo. Sinto pena dela,
que as pessoas a acham estranha e perigosa. Ela não é nada disso. Eu podia ver nos olhos
dela que alguma coisa a machucara, mas nem quis começar a entender o que era até mamãe
me contar quando cheguei em casa.
Ela disse que Margaret (a Senhora do Cepo) tinha um marido que era
bombeiro. Ele morreu apagando um incêndio, e mamãe disse que foi horrível
porque ele tropeçou numa raiz, ou qualquer coisa, e caiu de cabeça em um
braseiro e queimou até morrer, a começar pelo rosto. Eles tinham se casado
havia pouco quando isso aconteceu, e desde então Margaret não falou mais com ninguém e
guardou a dor para si mesma. Mamãe disse também que ela não usava aquele cepo antes de
o marido morrer.
Eu não sabia nada disso até encontrá-la ali na River Road, 1400, mas isso não tem
importância, acho. Eu disse a ela que a achava uma pessoa muito
boa e especial, e que estava contente por ter prestado atenção ao meu sonho, porque não
gostaria de ter perdido a chance de poder conversar com ela. Disse também que esperava
que ela estivesse certa a respeito de minha vida ter coisas especiais, que eu iria atrás delas
porque queria que minha vida fosse boa. Depois eu disse uma coisa que espero que ela
nunca repita. Eu não esperava dizer aquilo, e para falar a verdade não sei de onde veio.
Disse que às vezes aconteciam coisas das quais ninguém sabia. Elas aconteciam na
floresta, quando já estava bem escuro. Disse a ela que às vezes eu não tinha certeza se essas
coisas eram reais, e outras achava que eram mais reais que o sol nascendo a cada dia, e que
pensar nisso me dava muito medo. Lembro-me que ela afastou os olhos de mim, quando
terminei. Achei ter dito algo que a aborrecera. Ela segurou o cepo com firmeza, olhou de
volta para mim e disse que eu era muito bonita e que muita gente iria me amar na vida.
Espero que sim. Um dia alguém me amará como os rapazes me amaram, até
mais. Gostaria de saber onde está essa pessoa agora, se está se perguntando onde eu estou e
como sou, e quando finalmente nos encontraremos. Será que Margaret já pensou em sexo
da mesma maneira que eu?
A caminho de casa tentei me lembrar da canção que ela cantarolou, mas não consegui.
Estava me sentindo muito bem depois que saí da River Road 1400,
e continuei me sentindo assim durante todo o caminho de volta, até chegar
em casa no carro de mamãe. Continua forte até agora. Espero que Margaret
não esteja se sentindo sozinha. Espero que esteja tão feliz quando eu. Só
gostaria de ter dito a ela que sua vida poderia ser muito feliz.
Até mais, Laura
P.S.: Donna ainda não me ligou.

Posted by LAURA PALMER 3:12 AM

13 de novembro de 1985

OUVINDO A FLORESTA
Acho que as árvores têm alma
Alma que cresce e que muda
No silêncio de cada folha
A memória de momentos que ninguém vê
E nenhum homem jamais ouviu
Pede um tempo para se pensar
Que as árvores tudo vêm
E no jeito como sussurram
Indicam que querem falar.
Talvez tentem cochilar
Na palma da mão de alguém
que se lembram da garotinha
E que dentro dela há um vazio
E uma boca nova e bem menor
Mas ninguém as ouve ou se importa
Que talvez
As árvores saibam
Que há algo de muito errado
Que elas querem falar da tristeza
Vista durante tantas noites
Acho que o mundo inteiro
Deveria andar pelas florestas
Ouvindo atentamente,
As vozes das folhas.
Ver os detalhes, os minúsculos mapas
Das pegadas, e às vezes as nódoas
Devia ver que as folhas
Têm forma de lágrimas
Devia olhar o desenho das agulhas caídas
Talvez existam marcas no chão
Que conduzam o mundo
Àquele que tudo fez.

É tarde, e ele veio esta noite. Não sei se a Senhora do Cepo falava da Laura Palmer certa.

Posted by LAURA PALMER 3:14 AM

20 de novembro de 1985
Querido Diário,
Acabei de ter um sonho que me fez acreditar que não vou dormir esta noite. Eu estava no
quarto. Estava completamente vazio, e eu me sentia mal por isso. Era como se a culpa fosse
minha por não ter nada nele. Eu estava
encolhida a um canto do quarto, olhando para aquele ponto na outra extremidade, porque
sabia que alguma coisa iria aparecer, logo, logo.
Pouco depois comecei a sentir muito frio. Achei que tinha visto alguma coisa, mas
desapareceu. Então olhei adianta porque estava tentando
encontrar a porta que dava para o outro quarto, porque queria ver se havia
móveis lá. Eu me sentia muito mal por alguma coisa e queria entender, para
que eu pudesse parar de me sentir tão... culpada. Acho que era isso o que
eu sentia: culpa.
Virei-me para olhar o quarto e lá estava um rato enorme. Eu sabia, no
sonho, que ele estava atrás de mim, e queria comer meu pé. Quase morri de
medo! Vi que ele chegava cada vez mais perto, e tentei pensar numa maneira de pará-lo, ou
correr para algum lugar, mas não havia para onde ir ou o que eu pudesse fazer!
Sei que pode parecer engraçado, mas era assustador. Sentei-me
absolutamente quieta e tentei manter o pé bem junto ao corpo de modo que o
rato não pudesse pegá-lo. Não podia deixar de pensar em como seria terrível sentir ele
cravando os dentes em meu tornozelo e cortando-o fora. Eu não queria sentir isso, e não
queria que o rato se aproximasse. Não chegue perto de mim! Fiquei pensando na dor que
sentiria... E então, no sonho, porque sabia que ele só queria o meu pé, eu mesma o comi.
Quando acordei, mal podia respirar de tão assustada! Ainda posso ver o rato, e acho que ele
estava atrás de mim porque havia algo errado com o quarto, ou eu estava sendo castigada
por alguma coisa. Mas eu estava mais assustada com os dentes do rato e quando ele iria me
ferir... Por isso decidi fazê-lo. Eu mesma me feri, antes que ele o fizesse. Embora eu não
soubesse porque o rato queria me ferir, sabia que eu mesma teria que fazê-lo, ou ele o faria.

Não gostei nada desse sonho. Por favor, Diário, sei que parece bobagem, mas não me
julgue como outras pessoas que ouvissem esse sonho.Espero nunca mais sonhar com isso.
Nem quero saber o que ele significa, ou se quero
continuar me lembrando dele. Decidirei isso amanhã, quando a escuridão se for e as coisas
forem mais fáceis de serem vistas quando estiverem atrás de mim.
O que me deixa louca é saber que não posso contar nada a mamãe. Tenho medo
de que as pessoas riam de mim. Vou tentar ser mais como Donna. Serei boa, e farei tudo o
que esperam de mim. Assim, não haverá nada que alguém possa
descobrir e que seja motivo de riso. Não haverá nada que possam dizer que fiz de errado.
Aposto que o que fiz com Donna e os rapazes está causando tudo isso. Mal posso pensar
direito e decidir se valeu a pena. Alguma coisa está causando noites como esta. Vou tentar
melhorar. Pararei de fazer coisas que só garotas mais velhas podem fazer. Não deixarei que
ninguém me machuque, como no sonho. Eu vou me machucar primeiro. Sei quais são os
lugares mais sensíveis. De agora em diante eu causarei os ferimentos, até que tudo isto
pare!!!!
Gostaria de poder contar a mamãe.
Laura

Posted by LAURA PALMER 3:18 AM

16 de dezembro de 1985
Querido Diário,
Não sei se vou continuar escrevendo em você. Acabei de ter outro sonho.
Devo ter adormecido enquanto esperava pelo sol.
Não sei por quê, mas fiquei vendo você aparecer e sumir no colo das
pessoas. Sentadas à mesa para comer ou nos bares. Encostadas no capô de seus carros antes
de saírem para um passeio. Tentava tirá-lo delas, mas você escorregava de minhas mãos.
Você ia dizer a todo mundo o que estava escrito em seu interior.
Algumas pessoas liam e se transformavam em ratos. Queriam arrastar-me com elas como
BOB faz. Acho que até eu poder entender melhor, não devemos mais nos falar. Não sei por
que tive esse sonho... mas tenho muito medo de
correr o risco. Se escrever não faz os pesadelos, o fogo, as cordas e as laminazinhas
prateadas desaparecerem... Talvez eu deva entrar nessas coisas. Talvez seja o que se espera
de mim. Talvez eu tenha que ser paciente e parar de lutar contra, para que elas então
desapareçam.
Detesto ter que dizer adeus a um bom ouvinte como você. Sinto que devo, entretanto, até
descobrir se de alguma maneira você está contando a alguém sem eu saber.
Estarei ficando louca? Mal posso esperar que as férias terminem e a escola recomece, para
que eu tenha algo com que me ocupar. Vejo as outras garotas que conheço, ou que apenas
cruzo nas ruas, e todas elas riem como eu. Por dentro estarão começando a perder tudo o
que conhecem ? Terão deixado de
confiar nelas mesmas e em todos os que as rodeiam ? Por favor, não permita
que eu descubra ser a única na Terra com esta dor.
Laura

Posted by LAURA PALMER 12:44 PM

DIÁRIO SECRETO DE LAURA PALMER - 1986


(De Abril a Dezembro)

23 de abril de 1986
Querido Diário,
Passou-se um longo tempo desde que escrevi pela última vez. A escola está ótima mais
fácil demais. Não exige muito de minha cabeça para que ela se
mantenha longe dos rapazes ou das fantasias. Donna e eu tivemos várias
discussões este ano porque ela diz que estou agindo de modo estranho, e que não estou
sendo a amiga que fui. Se eu odeio chorar, por que foi tão fácil depois? Só estou tentando
ser boa e me manter ocupada, e não ficar falando e delirando demais porque acho que isso
chateia as pessoas e coisas ruins podem acontecer comigo.
Agora Donna está furiosa porque não quero dizer a ela o que estou sentindo realmente; é
que estou com medo! Não posso dizer que tenho medo porque ela iria querer saber o
motivo. Jamais poderei dizer. Nem mesmo tenho me tocado onde sei que devo para me
sentir bem. Tenho medo, porque aquilo
está ligado com sexo, e resolvi não pensar nisso nunca mais... Mas como é
difícil!!!
Eu me odeio. E odeio a vida! Papai tem trabalhado até tarde com Benjamin, lá em Great
Northern, e estou começando a me sentir como Audrey, quando o pai dela dedica mais
tempo e atenção a mim do que a ela. Agora está
acontecendo o contrário; só estou tentando ser boa e fazer com que isso pare, mas só o que
consigo é ter mais dificuldade para dormir e até para comer! Não quero mais me sentir
assim. Se continuar, sei que algo terrível vai acontecer.
Ontem à noite sonhei que tinha cavado um buraco no quintal para um poço, porque estava
tentando conseguir água para nós, e achei que seria bom
construir um poço para a família. Mamãe adorou a idéia e deu um sorriso lindo. Mas
quando ela saiu no quintal, no meio do sonho, eu estava enterrando a mim mesma no
buraco, tentando me matar. Ela percebeu que eu tinha mentido, e isso a deixou muito mal.
Ela correu para me impedir de continuar, e eu gritei que não queria mais acordar no meio
da noite, toda coberta de folhas. Queria ser uma árvore para ouvir as broncas lá da floresta.
Ao mesmo tempo ia me enterrando. Mas eu estava dentro de alguma coisa que não era um
buraco.
Mamãe veio ao meu quarto logo depois para saber se estava tudo bem, e eu disse que estava
ótima. Só estava tendo pesadelos com a floresta. A
expressão do rosto dela passou da tristeza à compreensão. Então, infelizmente ela começou
a dizer uma coisa que eu não queria ouvir de jeito nenhum! Começou a falar sobre os
pássaros e as abelhas, sobre bebês e controle de natalidade, e todas essas coisas ridículas
sobre como meus sonhos eram só uma parte das mudanças que aconteciam em meu corpo,
e que talvez eu só necessitasse de algumas respostas.
Ela não parava de falar, e eu ficava pensando em outras coisas.
Pensava em flores e em rostos sorridentes, ou em qualquer outra coisa...
caminhões enormes carregados de cacarecos, em pássaros, em Donna, Donna,
Donna... só coisas boas. Não ouvir, não poder ouvir aquela voz dizendo todas as coisas que
seriam chavezinhas para as portas de quartos nos quais eu não devia entrar! Como isso
pôde acontecer? Ela falou quase durante uma hora, e eu tinha que segurar minha mão... A
vontade era bater nela, destruir aquele rosto sorridente e solícito, e gritar: "Como você faz
isso? O que está acontecendo com essa parte de mim?"
Quer saber qual parte que mais me assusta? A única coisa que as pessoas acham de mim
agora é que estou atravessando a adolescência! Todo mundo ainda vê a risonha Laura
Palmer. A garota com ótimas notas, um cabelo
lindo e mãozinhas perfeitas, que querem, às vezes, no meio da noite, entrar dentro do
espelho e estrangular a garota sonhadora e problemática que vejo refletida!
Hoje irei ver Donna e falar com ela. Falarei o melhor que puder. Não tenho trabalho de
escola para fazer, e já terminei os dois projetos extras para nota. Já fiz o quadro de honra e
preparei o debate da equipe de calouros.
Não paro de rezar e nunca me senti tão mal na vida. Estou começando a
pensar que alguns momentos bons, no meio de milhares de maus, são melhores
que nenhum. Espero que Donna ainda queira ser minha amiga.
Se puder, vou lhe contar o que acontece com Donna.
Tchau, Laura

Posted by LAURA PALMER 12:45 PM

24 de abril de 1986

Alguma coisa está pintando...


A memória de uma brincadeira
Eu era pequena, olhava para ele
E ele me manda deitar
Ou dizer coisas
Antes de falar
Que abrir a boca era ruim
Que tínhamos um segredo
Antes de ele começar a me virar do avesso
Com suas garras nojentas
Antes de eu me sentar no morrinho
Nós costumávamos brincar
De mãos dadas
Falar do que víamos
Ele me dizia o que via
Mas eu não podia ver
Estive cega
Acho
Desde que a brincadeira parou.

Quero ficar sozinha como outras pessoas ficam. Quero aprender sobre esta gostosa roupa
branca que uso, como todos fazem.
Quero esquecer coisas que de repente me lembro... Algo muito ruim está
acontecendo... Por que comigo?
Acho que é real. Acho que é real!
Depois de me encontrar com Donna, talvez eu possa lhe dizer o que estive lembrando. Já
esqueci muito... mas não sei dizer se é melhor ignorar ou não lembrar mesmo nada.
Por favor, Donna, continue sendo minha amiga!

Posted by LAURA PALMER 12:46 PM

21 de junho de 1986
Querido Diário,
Ontem passei o dia com Donna. Durante muito tempo ela não disse realmente nada.
Quando comecei a chorar, saí correndo da casa dela e não podia parar. Fiquei muito feliz
quando ela veio atrás de mim, também chorando. Eu disse a ela o máximo que pude. Que
eu estava preocupada em ser boa porque andava tendo sonhos maus, muito maus mesmo, e
não estava brincando
quando disse a ela que não estava dormindo nada. Disse também que gostaria
de conversar sobre a noite no rio com os rapazes que eu tinha tido um sonho horrível e
pensado que o que acontecera fora ruim. Disse que precisava ouvir o que ela pensava sobre
aquela noite. Tinha que saber se ela achava que devíamos ser punidas por aquilo, ou se eu
deveria, porque fizera mais que ela... eu tinha que saber!
Donna disse que tinha medo de que eu não estivesse conversando com ela porque estava
furiosa por ela não ter ido tão longe quanto eu com os
rapazes, e que não gostava mais dela por causa disso! Perguntei como ela podia pensar isso
quando nos demos aquele abraço tão bom quando a noite terminou, e que ainda me
lembrava desse abraço como uma das partes mais claras e mais bonitas da noite toda! Disse
que só estava muito confusa, e disse também que metade do tempo eu não sabia se devia ter
gostado daquilo tanto quanto gostei, ou se devia estar me sentindo mal.
Donna disse que a única razão de ela ter saído da água foi que não tinha certeza se achava
certo fazer aquilo, mesmo que os rapazes fossem tão
legais. Depois ela chorou e olhou para mim, de um modo muito estranho, e
disse uma coisa que achei realmente esquisita. Disse que outro motivo de ela não ter
entrado mais foi por medo, porque eu parecia tão à vontade em tudo aquilo, e ela não sabia
o que devia fazer, ou como fazer. Quis saber se aconteceu comigo naturalmente, ou se eu
estivera com outro cara e não tinha contado para ela.
Não consegui responder. Não sei se sabia a resposta. O que ela quis dizer com isso? Eu
disse, depois de um bom tempo, que me lembrava de estar me
sentindo sexy, e muito feliz por eles gostarem de mim e me quererem, mas que metade de
tudo, talvez mais, eram coisas que os rapazes faziam e não eu.
Além do mais estávamos bêbados, e era tão bom fazer coisas que eu
imaginara durante tanto tempo... Ela me interrompeu aí e disse que também
pensava nos rapazes do mesmo jeito. Eu perguntei como era, como o que faziam quando
ela sonhava com eles, e ela disse que eles a tiravam para dançar, ou olhavam para ela na
escola, ou a deixavam andar em seus carros. Disse que imaginava sair com caras mais
velhos que a tratavam como uma princesa, e que à noite eles entrariam numa cama bonita e
bem grande ao lado dela, e eles conversariam e se beijariam, e de vez em quando fariam
amor.
Ela disse que não gostava de ir tão longe porque parecia estragar o resto da fantasia. Sim,
pensava em sexo, ela disse. Mas um tipo de sexo que vai muito devagar, como nas novelas
água-com-açúcar. Ela disse que vê a coisa
em câmera lenta, ouve a música tocando ao fundo, e eles rolando pelo chão,
ela e o cara, muito lentamente, até que tudo desaparece de sua cabeça. Ela
disse que esperava que as minhas fantasias fossem tão sexy quanto as dela.

Ah, Diário, foi tudo muito bem até conversarmos sobre isso! Eu tive que dizer que minhas
fantasias eram idênticas às dela, e que nós não devíamos
ter discutido, e eu sentia muito por tê-la magoado. Que eu devia ter me aberto mais com
ela, e que só estava preocupada por ela estar me odiando por ter ido tão longe naquela
noite. Ela disse que me achou muito corajosa, e que se me fez bem, então eu devia pensar
que fora uma coisa boa. Mas, e quanto às fantasias dela? Eu quase morri quando soube que
eram tão puras, tão delicadas e tão gentis. Por que ela não pensa as mesmas coisas que eu?
Eu esperava tanto que fosse assim... eu dependia disso.
Sei que ela falava a verdade pela maneira como ela dizia, e como ficou sem graça quando
falou sobre aquele cara que ia para a cama com ela. Mal posso acreditar em como ela é
pura! Acho que as vezes que fui para a floresta no meio da noite me envenenaram.
Aposto que seria como Donna, se eu ainda ficasse brincando entre as
árvores, em vez de... o que acontece agora. Mas... eu jamais desejei isso
que está acontecendo! Desejava coisas que me fizessem sentir sexy e
brincalhona, coisas que não me obrigassem a fazer todo o trabalho, coisas como o outro
tentando me dar prazer, em vez de eu estar sempre me esforçando para tornar todos felizes.
Gostaria que houvesse um lugar onde se pudesse ir e alguém desse as
respostas para as perguntas, e dissesse se o que se está fazendo é certo ou errado. Como se
espera que eu saiba, quando não posso sequer falar
realmente sobre as coisas? Fico falando as mesmas um milhão de vezes. Estou girando em
círculos, e é hora de parar.
Donna e eu ainda somos amigas, ainda gosto muito dela, mas as coisas agora são diferentes
para mim. Não posso pensar como ela, não poso nem tentar
mais. Pensarei no que sinto e tentarei fazer com que as pessoas vejam as
coisas como eu. Gostaria de um cigarro de maconha agora. Ela me faz sentir
como se eu não risse há muito, muito tempo.
Obrigada por me ouvir.
Laura

Posted by LAURA PALMER 12:47 PM

22 de junho de 1986
Querido Diário,
Só vou escrever e não pensar muito, talvez assim eu consiga me lembrar mais. Acabei de
acordar; são 4h12 da manhã.
Não me lembro como começou, mas ele sempre tem cabelo comprido. Sabe tudo sobre
mim e sabe como me amedrontar mais que qualquer dos outros sonhos
que já lhe contei.
Primeiro ele começa brincando comigo. Nós nos escondemos por entre as
árvores e vamos procurar um ao outro, mas ele sempre me encontra... e eu nunca consigo
encontrá-lo. Ele dá um pulo atrás de mim, agarra meus ombros
e pergunta como me chamo. Eu digo que é Laura Palmer, e ele me solta, fica
rodando em volta de mim e dando risada.
Pensando agora, ele nunca brinca da maneira como deveria. É sempre malvado e me põe
medo o tempo todo. Acho que ele gosta quando estou com medo. Eu me sinto assim toda
vez que ele vem me buscar. Gosta de me envergonhar
puxando a minha calcinha e enfiando o dedo dentro de mim, bem fundo. Quando percebe
que está me machucando, ele puxa para fora e cheira a mão. Sempre diz que meu cheiro é
ruim. Grita alto para as árvores que eu fedo, que sou suja, e que ele não sabe por que gosta
de mim. Diz que se eu não implorasse todas as vezes, ele jamais voltaria.
Eu nunca imploro para ele voltar. Nunca. Gostaria que sumisse daqui. Eu juro.
Quando comecei a ficar mais velha, ele me dizia coisas sobre mim que eu não sabia. Não
acho que dissesse a verdade. Acho que estava mentindo e
inventando enquanto falava. Ele sempre soube o que me assustava, e exatamente as coisas
que devia dizer para me fazer chorar. Depois agarrava meu pescoço... e apertava. Apertava
meu pescoço com força até eu parar de chorar. Só soltava quando eu estava desmaiando...
acho que desmaiava... às vezes ainda acontece. Tudo começava a escurecer e o corpo a
formigar, e minha cabeça girava e eu não podia ver nada, e tinha que parar de chorar ou ele
continuava apertando.
Às vezes ele diz: "O que tem aqui embaixo?... O que tem aqui, Laura
Palmer?" Ele sempre diz meu nome inteiro, como se assim se mantivesse longe de mim,
mas chegando de todos os outros jeitos. Às vezes eu chegava em casa sangrando. Sangrava
e não podia dizer nada a ninguém, e ficava a noite inteira sentada no banheiro,
completamente sozinha, esperando que parasse o sangramento. Às vezes ele me cortava
entre as pernas, outras dentro da minha boca. Sempre pequenos cortinhos, centenas deles.
No banheiro, eu tinha que usar uma lanterna, ou meus pais poderiam acordar e o problema
seria muito maior.
Algumas noites ele faz com que eu me lambuze de porra. Ele bate uma
punheta bem depressa, me manda pegar a porra na mão, fechar os olhos, e
recitar este poeminha enquanto lambo a mão até ficar limpa. Só me lembro um pedaço. Há
muito tempo que isso não acontece. Ele me obriga a dizer:

A putinha está
Terrivelmente triste
A putinha
Engole tudo de uma vez
(Não consigo lembrar mais, só a última linha.)
Nesta semente está realmente a morte.

Ele quer que eu goste disso, quando está comigo. Quer que eu diga que sou suja e que tenho
um odor. Que eu devia ser jogada no rio para me limpar.
O tempo todo eu me cuido para manter-me limpa. Sempre me lavo entre as pernas, sempre
durmo de calcinha limpa, para o caso de ele aparecer. Fico
preocupada com que ele chegue e eu não esteja de calcinha limpa. Diz que
tenho sorte por ele sempre vir e perder tempo comigo. Diz que é o único homem que vai
querer me tocar.
Ele aparece na janela e eu o vejo. Vejo-o sempre, e ele está sorrindo como se fôssemos
curtir muito juntos. Chego bem perto de pedir socorro aos meus pais, mas tenho medo do
que possa acontecer. Não posso deixar que ninguém saiba dele. Se eu continuar a vê-lo,
talvez ele se canse de mim e nunca mais volte. Talvez se eu parar de lutar, ele não venha
mais me procurar.
Se eu não tiver medo. Se eu puder não sentir medo...
Jamais pensei nele dessa maneira antes.
Se Deus existe, espero que ele entenda que estou tentando manter-me limpa; isso é um teste
pelo qual estou passando, e eu vou conseguir passar.
Aposto que Deus quer que eu prove que sei obedecer, ou talvez que não tenho medo da
morte e poder estar com ele. Talvez BOB conheça Deus, e é por isso que sempre sabe o que
estou sentindo. Deus deve estar lhe dizendo o que fazer comigo. Deus quer que eu não
tenha medo de ser suja. Se eu não tiver medo, ele me levará para o céu.
Espero que sim.
L
Posted by LAURA PALMER 12:48 PM

25 de julho de 1986
Querido Diário,
Tenho me esforçado muito para não sentir medo.
Tenho saído com um cara de quem já lhe falei antes. Eu não gostava dele, mas acho que
agora é perfeito para mim. Ele me lembra muito aquele cara do retrato na parede do Book
House. Veste-se do mesmo jeito, mas não tem moto. Fiz catorze anos. Não deixei que
ninguém celebrasse o meu aniversário. Fiz mamãe prometer que não planejaria nada. Disse
a ela, um dia antes, na mesa do cozinha, que tinha muito que pensar sobre o que fazer da
minha vida. Queria passar o aniversário sozinha. Queria caminhar sozinha, talvez saísse
com Troy para um passeio: deixei claro que não pretendia magoá-la, mas que tinha
necessidade de passar algum tempo sozinha. Ela reclamou um pouco e ficou perguntando
por que eu não fazia isso no dia seguinte. Por fim eu disse que estava meio confusa e só
queria voltar para casa à noite com tudo resolvido. Eu não iria muito longe, prometi. Só
queria sair. Prometi que no ano que vem e no outro, nos meus esperados dezesseis anos,
faríamos uma festa como ela quisesse.
Assim, passei meu aniversário sozinha. Fui para onde costumo ir com BOB. Fui andando,
como que num sonho horrível, até ver um pedaço de corda caído atrás do tronco de sua
árvore preferida. Senti um arrepio, mas fui em
frente. Procurei olhar atentamente para a árvore, tentando descobrir alguma coisa que
explicasse por que ele escolhera esse lugar, essa árvore. Não havia nada. Certifiquei-me de
que não havia mesmo ninguém por perto antes de fazer o que tinha planejado.
Olhei bem, e quando tive certeza de que estava sozinha, tirei do bolso um baseado. Bobby
conseguiu um para mim. Ele queria fumar comigo, mas eu disse que não podia.
Fumaríamos depois, talvez. Fumei bem devagar e comecei a pensar em sexo. Em homens,
em todo tipo de homem, dentro de mim.
Procurei pensar nas coisas que BOB gostava. Tirei uma calcinha do bolso e comecei a
esfregá-la na árvore. Eu a estava usando antes de sair de casa,
por isso sabia que o cheiro ainda era forte... Não tenho mais medo de cheirar mal. Sei que
não cheiro. Meu cheiro é igual ao de todas as garotas.
Quando pus a calcinha no nariz e cheirei, imaginei uma garota na minha frente, e onde um
homem gostaria de tocá-la. Chego perto. BOB diz que se chama boceta. Eu quero tocar
nela, está ouvindo, BOB! Eu a cheiro e digo a
mim mesma que não tenho medo. Repeti isso muitas vezes, enquanto fumava e
pensava em todos os jeitos que eu poderia pegar em Bobby... Em coisas que
eu queria que ele fizesse. Pensei em todas as maneiras de fazer com que BOB viesse. Acho
que ele estava lá, mas escondido.
Então fiquei completamente chapada, sozinha, e me joguei no chão, rolando sobre as folhas
e as agulhas de pinheiros, e olhei lá em cima a grande árvore. Queria que a árvore me visse,
memorizasse o rosto da nova
garotinha que estava ali deitada. A antiga não estava mais. Tinha ido embora. Eu só usava a
voz dela, às vezes; é tão mais fácil conseguir o que quero quando falo docemente, como
uma menininha. Tirei a roupa e comecei a tocar meus seios, lamber os dedos e esfregar os
bicos com eles molhados. Circulava- os como os garotos fazem com a língua. Soltava sons
quando era gostoso. Gritei quando os belisquei com força e deixei-os vermelhos. O vento
começou a soprar, e eu o sentia sobre meus seios nus; lembro-me de ter dito: "Oh, seja o
que isso for, eu gosto... Sim... Gosto muito..." Comecei a sentir uma pequena umidade
dentro da calcinha... então me despi completamente e gritei bem alto para BOB enquanto
esfregava meu botãozinho secreto. "BOB... Bobby... Laura tem um docinho gostoso aqui
para você... Gostoso, limpo e... mmmmmmm... Acho que o gosto dele também é bom...
Vem, BOB... sai daí e vem brincar..." O vento aumentou, mas BOB não apareceu.
Tive um orgasmo como nunca me acontecera antes. Meu corpo não parava, e eu me
agarrava à árvore, arrancava pedaços da casca, agarrava outra vez,
raspava com as unhas... e então foi parando. A maconha e meu espetáculo para as árvores
me fizeram tão bem que quase peguei no sono ali, nua. Mas eu não podia fazer isso. Eu
tinha vencido esta. Ele não tinha aparecido. Dia ou noite, não conta. Mostrei a ele que não
tenho medo. Me masturbei sob a árvore dele. Eu o chamei e o fiz de bobo. Vou passar
nesse teste... você vai ver. Se BOB quer sujeira, tudo que preciso é de um pouco de tempo.
Posso ser a garota má que ele tanto quer.
Saindo da floresta, quase morri de susto quando uma coruja passou voando na minha frente,
vinda não sei de onde. Pude sentir o poder de suas asas batendo perto de mim. Pensei na
Senhora do Cepo. Em algo que ela dissera: "Muitas coisas não são o que parecem".
Em geral tudo isto me assustava. Este lugar, o mais leve pensamento de me masturbar, e me
excitar, tudo me assustava. Não assusta mais. Não, esse
lugar onde estive não é o que parecia. Sei agora que é um lugar de trevas,
mas eu gosto dele. Seja bem-vindo! Não vou mais resistir, mesmo quando ele
escorrega para dentro de mim e me machuca. Encontrei luz e prazer dentro
desse horror. Meu plano ainda não se completou. Voltarei, BOB. Voltarei para me abrir e
fechar como você jamais pensou que eu faria. Voltarei.
Laura

Posted by LAURA PALMER 12:49 PM

3 de agosto de 1986
Querido Diário,
Só para completar, passei o resto do dia com Troy nos estábulos. Estar com ele me relaxa, e
voltei para casa nessa tarde sentindo-me forte,
completamente nova por dentro. Não me perturbei pensando que fui má, ou
errada, por ter feito o que fiz. Eu tinha decidido parar de ser machucada e judiada por
aquele homem. Um homem do qual eu só sei o primeiro nome. Não sei onde mora, de onde
vem. Mas vou fazê-lo voltar. Não há prazer num jogo de tortura se a vítima pára de sofrer.
Isso foi há mais ou menos duas semanas... não, talvez uma. Me concentrei muito depois
disso. É bom sair com Bobby Briggs. Ele sempre está onde eu quero que esteja, com
qualquer coisa que eu quero que ele traga. Ontem resolvi que ele esperara muito tempo para
ficar comigo do jeito que ele
quer. Eu, também, já me cansei de só ficar no malho e voltar para casa com a sensação de
que tem uma rolha enfiada dentro de mim, impedindo o que eu tanto quero que aconteça.
Mas eu quero que ele me veja como a garotinha de catorze anos que acha que sou...
Papai e mamãe saíram a tarde toda, e eu avisei que também estaria fora, mas que queria
ajudar no jantar, por isso estaria em casa por volta das seis e meia. O rosto de mamãe
brilhou ao ouvir isso. Eu tinha que manter meus pais felizes. Tinha que continuar gostando
deles, como esperavam que sua garotinha gostasse. Tinha que suportar o que não escolhera,
mas que simplesmente me fora dado. Duas vidas. Duas vidas muito diferentes. A sapeca da
Laura tinha um encontro com Bobby Briggs em Low Town. Ele disse que conhecia um
celeiro abandonado onde ninguém nos encontraria. Gostei da idéia de poder tê-lo só para
mim em um lugar onde eu pudesse deixá-lo louco. Fiquei nervosa, um pouco, porque
saquei que ele não era o BOB que eu tanto odiava, mas o Bobby que paquerara a risonha
Laura Palmer e perguntava se ela queria ser dele. Não importa, eu faria o que ele
precisasse. Eu sabia que ele estava ciente de que eu nunca transara com outro cara... sabia
que seria diferente com alguém que tivesse cuidado... sabia que ele me faria voltar aos
meus treze anos, quando aprendi a gostar da mão de um homem, à noite em um rio, e
chorei porque ele se fora tão depressa. Não podia me deixar levar por isso. Sabia que tinha
que ser forte. Podia fazer com que BOB me observasse agora... a qualquer momento. Não
podia me apaixonar... certamente não de um modo declarado. Bobby era bonito, e eu diria
que ele estava nervoso porque não conseguia pronunciar bem as palavras, e o cobertor que
ele trouxera na garupa da bicicleta insistentemente não ficava estendido do jeito que ele
queria.
Isso o deixou nervoso, porque eu equilibrava uma garrafa de vodca, uma pequena para os
dois, e um baseado (já fumado) entre os dedos, e já não estava tão firme quanto gostaria, e
acabei caindo de joelhos para evitar que algo se quebrasse.
Ele ficou muito mal, mas dei um jeito de ele se sentir mais um herói do que um estúpido.
Ele não era nem um nem outro, mas deixei-o erguer-me do chão e me apoiar em seu braço.
A única coisa que eu pensava era em tomar um drinque e fumar um pouco para poder
relaxar. As coisas ficam muito mais fáceis quando me sinto solta e confiante.
Uma das razões de eu gostar de Bobby é que ele consegue maconha sempre que eu peço...
tem um amigo que nos compra álcool, sempre que eu quero. Eu gosto disso, dessa espécie
de devoção. Gosto do jeito como ele se move, em minúsculas ondas, quando me debruço
sobre ele e digo: "Estou a fim, mas vamos com calma". De seu sorriso imediato e de sua
prontidão quando assumo o comando.
Afinal, pela primeira vez eu estava começando uma experiência sexual com interesse e
afeição. Um pouco de controle sobre mim mesma. Sabia que ele
tomaria as iniciativas quando eu deixasse. Mas, por ora, se era para ele
continuar a me oferecer pequenos prazeres, queria que sentisse que era algo muito valioso...
que ele não escolhera um peixe morto, como prometi jamais ser.
Uma hora depois, após me divertir com os lábios dele, e ele vez em quando alimentá-lo
com maconha, ou vodca, eu estava pronta, e disse a ele para se deitar e imaginar o que
quisesse. Disse-lhe para construir um sonho em sua cabeça e deixar a imaginação me
seguir. Era só para ele, nós dois sabíamos disso. Eu o pus, rígido, em minha boca, e tinha na
cabeça a imagem das mãos de BOB fazendo nele mesmo... quando ele me fez segurá-lo
com a mão... e então estava de volta ao celeiro. Diminuí a velocidade, encontrei o
ritmo que ele gostava, e, mantendo a língua sempre em movimento, eu subia
e descia a boca em volta dele, seguindo os barulhos que ele fazia,os gemidos... ouvindo
com delicadeza, certificando-me de que o mantinha onde ele queria estar. Dessa vez não se
tratava de atiçá-lo para ter ou não prazer. Ele gozou do jeito que imagino que os homens
gozam... subitamente, depois de uma longa escalada interior, e sentou-se ereto com um
olhar de assombro e admiração... de gratificação. Um sorriso.
A hora seguinte nós passamos tão grudados um no outro, até acontecer de ele escorregar
para dentro. Abri os olhos e o vi fechar os dele. Forcei a
memória de querer isso... para longe de mim. Sentindo-se assim teria sido
muito fácil, mas ao mesmo tempo eu não podia tornar-me fraca.
Nós nos movíamos juntos, e descobri que era cada vez mais fácil manejar, mais fácil de
realmente curtir, com meus olhos fechados. Podia me mover junto com ele, rolar e ficar por
cima, pôr a mão dele onde eu gostava de senti-la. Ele me fez tão bem, sem dizer uma
palavra. Queria que ele
soubesse como foi maravilhosamente bom, trancado dentro de mim, sem nunca
querer sair, só querendo mais e mais! Nós rolávamos, puxávamos e empurrávamos um ao
outro, e nos separamos horas mais tarde, quando era impossível continuar.
Senti-me verdadeiramente satisfeita, como se anos de busca e de um vaivém emocional
tivessem terminado. A barra de aço que me mantinha pendurada era flexível, transformava-
se em carne e se desfazia. A tensão e a ansiedade
há tanto tempo sentidas, sobre como seria quando alguém me quisesse realmente. Não
porque quisessem me ver chorar ou morrer lentamente de uma
tristeza inominável. Qualquer um que se importasse com meus sentimentos ia
querer ter certeza de que foi muito bom. Eu me sentia como devia ser, como
se sentem todas as garotas... mas não podia me esquecer que existiam outros mundos para
se pensar. Outros momentos. Rudes despertares às horas mais tardias da noite. Um homem
à minha janela, sorrindo... oferecendo um desafio só por abanar uma luva preta. Ali deitada,
eu me perguntava se ele viria logo, ou se por uma simples decisão minha ele não me
assustaria mais, estaria de certa forma eliminado.
Eu não podia confiar nesse tipo de sonho. E de repente me vi diante de um terrível
problema. Um terrível e triste problema o qual eu teria de
enfrentar sem a emoção que eu também queria proporcionar! Da boca de Bobby
saíram, lentamente, pequenas palavras de amor, e depois confissões. Logo
em seguida, promessas de fidelidade e felicidade eterna.
Laura, Laura, não ouça nada disso. Só fique observando ele mover os
lábios, disse a mim mesma, só isso. Mas Bobby falava a sério. Era, afinal, o cara que há
anos me admirava, que puxava meu rabo-de-cavalo o tempo todo
que usei um, e logo depois fazia questão de cruzar comigo pelo menos uma
vez por dia, ou atrair meu olhar na classe. E sorria, como se tivesse sido
um olhar inesperado.
Sei que tinha planejado tudo isso. Mas a Laura que correspondia ao amor dele, a jovem que
tanto queria que ele a procurasse na hora certa, não podia sair para brincar. Ela estava lá
dentro, descansando. Bem lá dentro, embalada pela metade mais corajosa. Aquela que quer
ver Bobby satisfeito sim, mas além disso não tem nenhum outro interesse. Não há força
nele... não há desafio. Vou mantê-lo comigo, vou cuidar dele para ela, até que ela possa
voltar com segurança. Mas essas palavras de amor são reais demais, inocentes demais. E
esse cara, tão jovem, é um mero mensageiro para a Laura que está vivendo aqui e agora.
Fui obrigada a cometer uma crueldade. Algo que o fez talvez, repensar tudo o que sentia
por Laura. Era preciso que ele a visse como algo que jamais
pensara existir. Eu tinha que rir dele. Muito. Rir até que seus olhos perdessem o brilho.
Tinha que acabar com ele, não podia permitir que ele se tornasse tão atraente à mesma
Laura que BOB queria. Aquela que, tenho
certeza, ele está esperando. Para salvar a mim mesma, tive que rir na cara
de um garoto, que talvez nunca mais consiga ser sincero novamente. Eu tive que fazê-lo!
Por que dói tanto me proteger? Onde estava esse amor quando eu implorava de joelhos por
ele? Merda! Sei que o magoei... espero que um dia ele entenda por quê. Nunca quis acabar
com alguém do modo como acabaram comigo. Se tivesse sido eu a causa desse riso, não sei
se conseguiria me manter em pé novamente - jamais me aproximaria de alguém nem
mesmo para cumprimentar, porque essa risada ainda estaria soando em meus ouvidos.
Novamente estou envergonhada e confusa com as coisas que acontecem comigo. Seria um
truque de BOB? Outro teste? Arruinando minha chance de amar o cara certo, forçando-me
a humilhá-lo, o jeito como tenho sido, e agora
fria e amarga por causa dessas cicatrizes?... Será que Bobby vai se recuperar e ver que não
tive essa intenção? Ou será que fui obrigada a estragar um romance ao qual deveria
proteger pelo menos durante o dia?
O que a vida quer de mim? O que foi que eu fiz, e o que vou fazer agora? Só quero parar
essa dor, e não eu mesma começar a espalhá-la.
Estou pensando... pensando.
Tudo o que tinha de ser feito foi feito. Se isso foi algo que BOB fez, então ele só terá uma
vitória surpreendente se eu não mostrar nenhum lamento... nenhum... remorso. Não
importa. Se não voltar, é só assobiar que ele responde. Deixe que o cara mereça minha
atenção fora da luxúria do
celeiro, fora dos beijos que só dou quando estou a fim, não só porque estou a fim. Vou me
tornar uma profissional em não sentir absolutamente nada. Vou descobrir o jeito de fazer
isso. A metade do tempo nem mesmo acredito que o que estou vivendo é real. Estou
perdida. Perdida. Mas uma Laura mais forte, mais manipuladora, está levantando a cabeça,
e se abrindo para os perigos e os jogos que só acontecem no escuro.
Quando eu descobrir quem ele é, vou dizer a todo mundo!
A uma Nova Força, Laura

Posted by LAURA PALMER 8:40 PM

4 de agosto de 1986
3h30 da madrugada
Querido Diário,
Ocorreu-me agora que decidi topar. Depois de repetir isso a mim mesma
parece que há anos, finalmente tenho a sensação de que resolvi juntar-me a
ele com o único propósito de combater. Unir-me à escuridão, e talvez contar com o
pouquinho de luz que ainda existe dentro de mim, e usá-la como a força que deveria ter
sido sempre.
Ah, os encantos da vida! Esse momento especial em que uma mão se ergue, seja de uma
forma visível ou verbal, para gritar "PARE, ela está morrendo!" Essa criança está morrendo
sem uma personalidade firme que todo mundo parece combater, como se fosse uma
inconveniência.
Procurei com muito cuidado e encontrei um espaço dentro de mim que diz que talvez seja
tarde demais, que os meus olhos não são os de uma menina de quinze anos, mas de alguém
que tem medo de olhar à sua volta e questionar
as coisas mais simples.
Minha cabeça, continua, não é a de uma jovem que imagina a vida como um monte de
suéteres quentes enquanto a fria sedução passa ao largo. Conforta-me saber que a cabeça
com a qual vivo pertence a alguém que
conhece muito a vida e como ela quase sempre termina sem calor. Como ela nos distribui
bofetadas, nos desafia a sonhar quando na verdade não serve para nada. Como dá um jeito
de não considerar que existe um plano traçado no planeta para mim. Esta cabeça sabe. Da
realidade de que não existe escolha em momento algum, porque antes de você chegar a
abrir os olhos para ver a luz pela primeira vez, alguém de um grande e sub-reptício mal já
escolheu você. Gira uma garrafa e se ri diante do poder, num simples jogo de seleção.
Laura

Posted by LAURA PALMER 8:43 PM

6 de agosto de 1986
4h47 da madrugada

Querido Diário,
Não posso me permitir dormir porque quero ver BOB quando ele entrar pela minha janela.
Preciso estar pronta.
Tenho pensado muito sobre a minha vida. Estou envelhecendo sem que eu
própria tenha dado permissão. Acredito que, quando ele vier me buscar, ou eu sairei de casa
e voltarei ferida mas satisfeita com a morte brutal de um inimigo, ou nunca mais voltarei. E
na morte admitida silenciosamente eu nada saberei da força de meu inimigo nem de seus
desejos.
No momento estou meio insensível, meio em carne viva. Uma garota que ainda consegue se
levantar todas as manhãs e sair de um lugar que depois vão ter que me lembrar que eu
chamava de minha casa. Como se nada fosse mais
importante que o rastro de sangue atrás de mim.
Não duvido que BOB esteja ciente de todos os meus movimentos. Que esse horror que
chama a si próprio de homem se levante quando o sol brilha ou
talvez se encolha nas profundezas. Não importa. Ele me observa com olhos que me cavam
por dentro, vendo cada pontinha de dúvida, sentindo cada palpitação de meu coração
quando passa um rapaz, cada abraço de uma mãe que nem imagina a que distância está o
quarto de sua filha.
Tento todos os dias memorizar o rosto que me olha do espelho. Procuro não esquecê-lo.
Imagino que estarei nas nuvens quando compará-los aos restos
mortais que, tomara, logo serão encontrados.
Sinto tanta raiva e uma necessidade de atacar o céu, de chamar o vento de mentiroso por
nunca querer se mostrar. Uma necessidade de gritar aos dois que permitiram meu
nascimento. Gritos de socorro a qualquer um que os ouvir. Gritar nas ruas que existe uma
ausência de milagres na própria Mãe Natureza. Sua divindade é mentira.
Repetidamente tenho sido levada a uma floresta cheia de árvores. Ali tem lugar uma
operação de natureza estranha e indescritível. Sangra. Essa Mãe
Natureza nada tem feito contra esse mal, não abriu suas matas para deixar que um grito
escape. Em vez disso, ela protege esse homem e o impede de ser descoberto, a salvo da luz
do dia. Ele sabe que o planeta não vai traí-lo. Essa luz virá, e ficará, saindo apenas para
voltar na hora marcada. Ele conta com isso. Com os hábitos do universo, cumprindo
convenientemente doze horas fixas nos dois extremos.
A sua hora é a noite, durante a qual a salvação é menos possível, e quando a maioria das
mais puras esperanças e lembranças, os sonhos mais queridos, estão profundamente
adormecidos. Seus olhos movem-se rápidos sob os
cílios. Sem ver nada.
Jamais há um ruído que atrapalhe mesmo aqueles que dormem no quarto ao lado. Jamais o
mundo se volta um pouco para mim, faz um olho se abrir...
Ver o homem... ver o modo como seus olhos congelam a imagem de meu rosto num grito.
Não se explica POR QUE ele me escolheu, ou pelo menos tem algum plano.
Eu só posso esperar. Manter abertos os meus olhos cansados com a energia do desafio.
Uma batalha para ver quem é, de fato, o mais escuro. Quem, quando for obrigado a ver o
outro lado, realmente sobreviverá?
Espero sentada a sua chegada, mantendo-me acordada com a certeza de que posso me
acostumar muito mais facilmente à escuridão do que ele à luz.
Laura

Posted by LAURA PALMER 8:45 PM

10 de setembro de 1986
Querido Diário,
Fechadas se encontram minha cabeça e suas lembranças. Convenientemente falta ao
inimigo uma característica - consciência. "Culpa" é só uma palavra que ele usa para me
calar. Ele nem liga para a mortalidade e muito menos para o perigo.
Como poderia esse intruso temer a morte, ou a possibilidade de um
encarceramento, e conseguir ainda vir até minha casa com tanta freqüência,
e usar minha janela como se lhe fosse muito familiar?
Ele zomba de mim, entrando com ares de amigo. Como se fosse um vizinho. Um vendedor
ambulante que casualmente se convida a entrar, chega ao ponto de pedir um café, muito
educado, antes de se dissolver na fantasia que às vezes é.
Será que ele espera se sentar e bater um papo, antes de tirar de seu
quarto a única criança da casa, para tratá-la como um experimento? Ou eu sonho com ele
para viver e devagar estou me matando, ou ele avisou meus pais de suas visitas e ofereceu,
em troca da segurança deles, que elas continuem sem possibilidade de interrupção. Eles
simplesmente não sabem de nada. Uma carta anônima, em algum lugar da casa. Imagino
que eles me ouviriam quando saio. É possível que não se importem?

Posted by LAURA PALMER 8:54 PM

11 de setembro de 1986
2h20 da madrugada
Querido Diário,
Nem posso lhe dizer quanto me chateia não ser uma ameaça para ele.
Ele está muito seguro com a certeza de que sempre pode entrar na minha casa e sair
impunemente, sem nenhum ruído. No escuro, ele sabe que vai
conseguir agarrar meu braço com força bastante para me calar, e levar-me,
como uma criança arrasta sua boneca, a um lugar onde ninguém me encontrará. Ele sabe
disso porque esse lugar está a quilômetros de qualquer outra fonte de luz além daquela que
emana de vez em quando, isso é tão claro em minha memória, de seus lábios e dos olhos - a
luz que é roubada de dentro de mim. A garota que, desde que pode se lembrar, esforça-se
pacientemente para tolerar, para fazer segredo sobre o próprio homem que quer roubar sua
inocência, não permitindo jamais que ela amadureça, não lhe permitindo jamais os prazeres
da maturidade.
A fase com a qual essa garotinha tem sonhado desde que aprendeu a pular, a correr, a sorrir
até para a mais suave brisa, o jeito como essa brisa a acaricia. Generosamente ela vem se
dando sempre, esvaziando o delicado cesto que há dentro dela, de sua alma.
Espero poder chamá-lo logo à minha janela. Tenho medo de que ele esteja esperando por
mim, cansado demais dessas noites inteiras escrevendo em você. Esses momentos em que
eu fluo para dentro e para fora de uma parte de mim que planeja abrir a janela desta vez e
estender minha mão ansiosamente. A parte de mim que duvida que algo realmente exista e
que de agora em diante não há mais nada a temer para lá dessa janela, e por isso estou
querendo me aventurar no lugar de sempre, sem luta. Eu que juro que um ruído ou um
poderoso tapa na cabeça não causará sequer a menor alteração nos passos. A parte de mim
que tem ensaiado pedidos de muito mais incisões, mais inserções, mais insultos e ameaças,
e planejou continuar com isso até que o apetite dele, antes insaciável, comece a diminuir. O
animal petrificado diante do cano de sua arma, implorando para preencher o espaço vazio
em sua parede de troféus.
Elimine a excitação. Programe-se. Haverá dor, mas nada pior do que já foi. Agarre-se à
imagem de seu lar e de sua cama, e do cheiro gostoso dele
quando você lava, lava, lava. Sua casa espera por você como sempre o fez.
Brinque com ele como ele brinca com você. Aceite que é suja, má e barata e deve ser
atirada aos lobos como carniça, e jamais poderá ter filhos, porque quem sabe quais seriam
suas características ocultas desde o nascimento até a morte... Não se esqueça de ignorar.
Deixe um espaço interior bastante amplo para receber o peso do corpo dele com todo o ódio
e métodos de redução que apenas se aplicam às porções emocionais de cada um, as mais
vitais e insubstituíveis de todas.
Acredite que ele só está intrigado com o medo que ele provoca, com a falta de interesse que
você demonstra pela vida quando ele a deixa novamente
sozinha em seu quarto. O modo como ele finge tocar a campainha, caçoar de você, da sua
vida, das suas esperanças, das suas inseguranças mais íntimas; ele observa enquanto você
luta contra a sensação de que não vale nada, de sequer poder entrar na casa onde você deu
seus primeiros passos, como se ele estivesse observando você reter uma lágrima antes de
ela sair de seus olhos - olha para ele e já não o vê mais ali.
Como se já fosse uma religião, eu entoei inspirações a mim mesma, porque há dias que
venho implorando, insultando, e quase querendo que ele venha, e ele não vem. Sinto uma
terrível dor de cabeça ao tentar pensar na
fraqueza dele, quando, de fato, eu não poderia começar a conhecê-las.
Talvez eu também esteja errada a respeito do tesão que ele sente só pelo medo desta sua
determinada vítima... Preciso dizer sinceramente, estou
cansada de tentar entender esta situação, e acredito que, se eu não dormir
logo, vou começar a ver BOB em todo lugar. Isso, devo dizer, não seria bom
para mim agora.
Estou sozinha aqui, e me vejo pensando em Bobby, que me envolveria em seus braços de
um modo que não posso imaginar mais ninguém fazendo.
Tenha cuidado, Laura

Posted by LAURA PALMER 8:58 PM

1º de outubro de 1986
Querido Diário,
Desculpe por não ter escrito, mas muita coisa aconteceu. Hoje, quando
comecei a tirar a roupa para dormir, Bobby Briggs apareceu na janela. Foi uma visão muito
bonita que me balançou. Ele disse que tinha uma festa que não podíamos perder, no fim de
Sparkwood. Um amigo dele, Leo - acho que já ouvi alguma coisa sobre ele, alguma fofoca
- está dando a festa. Eu o preveni, a única coisa que eu pensava era em ficar abraçada com
ele, e confessei que andava dormindo muito pouco para ser sociável. Ele garantiu que não
haveria problema quando a esse departamento de me manter acordada, porque ele tinha
uma coisa para eu experimentar que às vezes impede completamente a necessidade de
dormir.
Eu já estava do lado de fora da janela, Diário. Shhhhh!
Vou lhe contar tudo quando voltar. Estou escondendo você... cuidado com BOB... Às vezes
ele se atrasa.
Laura
P.S.: Acaba de me ocorrer que o nome de BOB é em si mesmo um aviso...
B. BEWARE
O. OF
B. BOB*

* Literalmente "Cuidado com Bob". (Nota da Tradutora)


Posted by LAURA PALMER 1:23 AM

Passei a noite na festa mais ultrajante que já tive notícia, e mamãe ficou lá sentada,
imaginando-me envolvida pelas palavras de um bom livro e
enrolada em um cobertor sobre a grama. Terei que dar um jeito de Troy sair
para um passeio à noite... de alguma maneira... merda! Não tinha pensado nele até agora...
Espero que Zippy não telefone para saber se deve sair com Troy... saco. Voltarei logo. Vou
telefonar já para os estábulos.
Bom! Bobby pediu a caminhonete do tio para sairmos à noite, e enquanto estávamos na 21
não corríamos o risco de ser pegos... Bobby sem carteira de motorista, eu sem dormir, e
uma imensa mentira, no meu caderno, a meus pais...? Dá pra imaginar?
Nós fomos, e a música tocava surpreendentemente alto e claro pela idade da caminhonete...
isso me fez sentir que tudo daria certo. O vento soprando nas árvores, a velocidade da
caminhonete, a música, meus nervos quando comecei a tirar o vestido que ganhei de
aniversário, presente da prima Maddy, que chegou pelo correio.
Não lhe contei que falei com ela durante quase uma hora, na semana passada? Bem, é um
vestido lindo de morrer, grudado no corpo, e já vem com um sutiã próprio que permite, se a
gente quiser, erguer mais os seios ao invés de deixá-los amassados como acontece com
algumas roupas. Bobby quase nos matou, quando não viu uma árvore a poucos metros de
distância. Ele disse que não se importaria de morrer "com meus olhos presos nuns peitinhos
tão lindos como os seus". Isso não parece letra de música country ou qualquer coisa do
gênero... presos nuns peitinhos lindos como os seus...?
Bobby me puxou para o lado do carro antes de entrarmos na casa. Ele me beijou e disse que
era importante eu saber que Leo era um cara legal,
divertido, que conseguia se manter num papo. Depois ele balançou a cabeça
em um drástico "N.Ã.O." Eu quis saber que diabo aquilo queria dizer, isto é, e se eu fizesse
o que ela dizia para N.Ã.O. fazer? Bobby virou-se quando já estávamos entrando na casa e
disse: "Hoje isso não importa. Tenho certeza de que você vai ficar ligada em mim... só não
transe com o cara. Ele pratica um tipo de merda muito estranha, esse cara, o Leo..." Eu só
olhei, e de repente estava inequivocamente intrigada com a frase "merda muito estranha" e
seu contexto sexual. Bobby foi pegar uma cerveja para mim, acho, e Leo se aproximou.
Merda... ali estava, bem na frente.
Nós dois sabíamos, e ele disse: "Laura Palmer... como vai? A última vez que vi você, o
velho Dwayne Milford estava lhe dando uma placa ou algo
assim... algum prêmio que você ganhou...?"
Eu o interrompi: "O Melhor Desempenho/Cinco Anos Consecutivos".
Ele perguntou se tinha uma prova de qualidade de desempenho, e eu garanti que provas
havia em abundância mas eu estava quase dormindo e morrendo de sede ao mesmo tempo.
Ele chamou Bobby, pelo que fiquei muito agradecida, que me via entrando em um quarto,
depois de ter me avisado e tudo. (Aguenta aí, vou esticar umas duas carreiras... estou
baixando e a fim de lhe contar uma coisa incrível - aguenta.) Então eu estava nesse quarto
com Leo e com Bobby, e já íamos começar a cheirar quando a porta de um banheiro se
abriu. Um banheiro no quarto... e Ronnette Pulaski saiu dele, parecendo
que tinha desistido de comer um monte de porcaria e começara a cuidar muito bem do que
entrava em seu corpo, menos pelo nariz.
Ela estava um tanto alta, e só pelo jeito de Leo balançar a cabeça e dizer um rápido "oi", vi
que aquilo acontecia com freqüência.
Quer saber uma coisa louca? Não tinha ficado claro para mim até agora, mas quando fui
para o lugar que BOB me leva... e eu estava dizendo que às vezes cheiro minha calcinha e
quero pôr o rosto entre as pernas de uma
garota e provar a... (Céus, às vezes é tão fácil dizer, outras não consigo.) Bem, na verdade,
eu tinha acabado de pensar em Ronnette, só porque ela foi a única garota além de Donna
que já vi sem roupa... nós estivemos juntas num acampamento há uns dois anos, talvez
mais, e trocamos de roupa... e sorrimos uma para a outra... acho que me senti de certa forma
atraída por ela... pelo jeito como seus olhos me pareceram tristes, mas frios. Eu gostei do
corpo dela... bem, foi estranho encontrá-la ali. Nem imagino o que ela pensa de mim...
duvido que seja bom perguntar.
Imagine se agora eu preciso de fofocas sobre mim e Ronnette, que estamos nos "vendo" em
todas as oportunidades que temos. Mamãe iria parar no dr. Hayward, quem sabe no
hospital, e papai certamente preferiria pensar que
estamos nos vendo para conversar sobre um novo jogo... uma variação de "chutar a lata",
talvez? Quem se importa com isso!!!!
Nossa, estou no maior barato, parece que estou escrevendo mil palavras em um minuto.
Espero pelo seu próprio bem que esteja legível, porque, só Deus sabe, não estou em
condições de ir mais devagar. Essa é a droga que esperei toda a minha vida! Sinto-me
confiante, forte, sexy, inteligente e super legal, tenho que dizer, e ninguém nessa noite
mencionou minha idade.
Posso me segurar numa boa... deu pra sentir a vibração quando entramos. Bobby tinha
razão: ia ser uma daquelas super festas. Uma coisa muito doida estava acontecendo num
canto qualquer. Leo olhava na maior concentração, e então Bobby e eu fomos ver o que era.
Cara, lá estava aquela gata, deitada com a saia erguida, e apostando que ninguém ia
conseguir fazê-la gozar... e, se conseguissem, só se fossem uns cem dos maiores. Ela pedia
cinco para começar.
Lembre-se de que eu estava naquela festa há um bom tempo, e já estava pra lá de louca,
simultaneamente sedada e incrivelmente ligada... Olhei pra
todo mundo em volta, e devia estar tudo ali na minha cara, porque Bobby me
puxou pelo braço mas eu disse que queria tentar, se ele não se incomodasse, mas ele só me
olhou como se eu não fosse desistir da idéia de jeito nenhum... então... acho que ele nunca
pensou que eu já tivesse ao menos considerado uma coisa daquelas...
Perguntei se podia falar particularmente no ouvido dela... antes de me decidir, e ela disse
que adorava minha voz tão perto... então me inclinei
e disse que ia fazê-la se sentir muito bem... Que mais de cem paus já estavam rolando nas
apostas...
Olhei por um momento para cima e perguntei se ela estava relaxada. Ela disse que tinha a
estranha sensação de que eu sabia o que ia acontecer...
Fiz ela se ajeitar no sofá e a beijei. Só um beijinho de leve nos lábios.
Antes de eu chegar a tocá-la, ela quis que eu soubesse como se chamava... eu disse que a
chamaria do que ela precisasse ouvir. Eu estava começando a sentir tesão, o que não
pensava que fosse acontecer... mas ajudou... por que os sentimentos trabalharam juntos... e
pegou fogo.
Eu a abri e disse que ela era bonita, sabia? Ela fez que sim com a cabeça. Eu disse que não
tinha ouvido... Ela disse SIM em voz alta! Eu ri. "Sim, o quê?", perguntei. "Não ouvi
nada..."
Ela respirou fundo e enfiou os dedos na boca, e os caras atrás começaram com um "Ééé..."
Alguém derrubou um copo e disse: "Cara, essa mina tá conseguindo fazer a coisa... a outra
tá até pedindo, cara..."
Eu sabia que ela queria falar alguma coisa... sabia que ia pedir,
gritar... ela queria ouvir aquilo... para que os caras que estavam lá
ouvissem.
Eu disse que estava todo mundo olhando. Disse que eles podiam
sentir e provar com os olhos... alguns mexiam os dedos para deixar as mãos
quentes. Eu sabia que era para ela, e eu só tinha que mantê-la protegida... ela queria que eu
fosse má, e eu disse que ela era bonita. Buum! Ela estava agarrada em mim... puxando meu
cabelo... chamando "Laura, Laura... Ai, o que você me faz sentir...!"
Um cara grandão tentava abrir caminho entre os outros para chegar mais perto, e eu pedi a
ele que esperasse um pouco... o estado dele não era dos melhores, mas conseguiu ver que a
garota precisava desesperadamente de um
minuto só para ela.
Ela me puxou pelo cabelo e disse: "Não consigo fazer isso há dois anos... gostaria de ver
você outra vez, se é que não tem medo". Saquei que não era hora de mencionar que eu
estava baixando, talvez pela dose excessiva de beijos açucarados... Esse cara avançou até
mim e me olhou bem nos olhos.
"Gatinha", ele esperou. "Eu tinha que ver você de perto, sua pele e tudo mais." Ele riu.
"Nunca vi tantos caras só ficarem olhando para ela como se fosse nada e só querendo ser
você."
Eu disse que ficava contente que ele tivesse gostado... só não queria ter interrompido a
festa... era chato ter feito isso... acho que estava meio
fora de sintonia... que eles estavam indo embora porque eu tinha ido um
pouco...
Ele riu e disse: "Ninguém vai a lugar nenhum a não ser lá fora atrás da casa, com uma
imagem sua flutuando dentro da cabeça... Vão voltar assim que se aliviarem".
A garota finalmente se levantou do sofá e veio beijar meu peito, no decote do vestido,
abaixo do pescoço. Ela quis que eu soubesse que me devia uma, se nossos caminhos se
cruzassem outra vez. Leo fez questão de dizer que eu fiz a festa dele. Os caras iam falar
nela por muito tempo... Falar de um jeito muito estranho de conhecer pessoas... Vou logo
fazer uma visita ao Leo e ver até onde meus pensamentos batem com os dele... Talvez ele
proponha alguma daquelas coisas das quais Bobby me preveniu... Aposto que Bobby ficou
chocado comigo... não sei o que deu em mim, mas fiz o que quis... queria tentar e deu no
que deu... Pouco importa se estou ou se estava no maior barato... me senti bem fazendo
aquilo. Pode apostar que vou repetir.
Laura

Posted by LAURA PALMER 1:31 AM


3 de outubro de 1986
Querido Diário,
Não sei por onde começo! Voltei para casa na manhã seguinte, sem nenhum problema com
os cães de guarda, mamãe e papai. Eu já estava no meio do
caminho quando me dei conta de que seguíamos em direção a uma parte da cidade cheia de
gente pelo menos seis ou dez anos mais velhas do que eu... e eu achava que voltaria antes
do sol nascer? Nunca! Sem mencionar que Bobby tinha um tipo de "acelerador" para mim,
em algum lugar... pelo menos achei que fosse essa a situação até chegarmos na casa de
Leo... Sou culpada pela declaração incompleta do ano em relação a ele. Mas, seja como for,
quero antes me gabar um pouco da confusa trama que eu mesma armei, sem que nenhum
fiozinho ficasse fora de lugar ou tenha sido questionado, quando cheguei em casa por volta
das seis horas do dia seguinte!
Preciso dizer que agora eu já tinha passado para uma dimensão de intensa falta de sono?
Três dias e quatro noites... e considerando-se o
presente que ganhei como um prêmio de iniciação quando saí, eu poderia ficar acordada até
o mês que vem, perdendo de um modo indolor um quilo atrás do outro... (cinco ou seis
desde o último dia que dormi). Descobri que qualquer que seja a droga, se houver alguma,
que tenho dentro de mim, quanto menos durmo, menos como.
O bilhete era simples e ia direto no ponto. Pule essa parte se ela lhe aborrece, mas acho que
ganhei uma certa satisfação e prazer por jogar areia nos olhos da "rapaziada" (como diz
Bobby).
Mãe, são cinco horas da manhã e estou tentando insistentemente voltar a dormir. Depois de
quase duas longas horas de tentativas inúteis, me lembrei de repente da clareira na qual
estive à tarde com Troy. Ele gostou de pastar por lá, e acho que um cobertor e um livro são
o que preciso para a distância que eu acho que preciso sentir.
Não de você, mãe! Posso ver você tomando isso pessoalmente, mas não. O que eu quero é
ficar longe das pessoas. Passar algumas horas com meu pônei,
Troy, e talvez conversar um pouco com Nancy Drew ou qualquer coisa assim.
Por favor, não se preocupe. Telefonarei antes das seis horas se ainda não tiver chegado.
Amor, Laura.

Posted by LAURA PALMER 1:26 AM

14 de dezembro de 1986
Diário...
Sonhei com BOB essa noite. Não foi um sonho nada bom, um pouco
desagradável, na minha opinião, porque sinto muito ódio por ele ter me
estragado... fazendo-me sentir feia e má por querer amor e afeição... Ele
destruiu todo o meu orgulho e amor próprio há muito tempo... A única coisa
que conseguia era ser boazinha e doce, porque isso era muito fácil... ter
boas notas mais fácil ainda. Ninguém me queria... Eu nem conseguia aceitar
que sabia o que era sexo.
Ele me destruiu, não foi? Isto é, no sonho ele foi até a janela de Leo e me viu. A cena era
pior no sonho do que tinha sido na realidade. Ele
ficava mostrando essa imagem para mim o tempo todo.
E então ele ficou parado embaixo da árvore, dizendo: "VOCÊ NÃO TERIA
CONSEGUIDO FAZER NADA DISSO SE NÃO FOSSE POR MIM".
Eu disse que ele estava enganado. Disse que aprendera tudo o que viu
quando estava sozinha, porque eu tinha conseguido me sentir bem e curado as feridas que
ele me causara.
Ele disse: "AH, SIM, ENTÃO POR QUE VOCÊ QUER QUE LEO AMARRE VOCÊ,
TALVEZ QUE COMA VOCÊ ASSIM, E FAÇA DE VOCÊ UMA ESCRAVA ? SEI QUE
VOCÊ QUER ISSO... EXATAMENTE COMO LHE ENSINEI, PUTINHA. VI VOCÊ
COM O PAU, BRINCANDO CONSIGO MESMA... ESTAVA PENSANDO NESSE
CARA MAU, O LEO, E NÃO NO BONZINHO DO BOBBY QUE FICA
CHORAMINGANDO DEPOIS DE SER FODIDO POR UMA PORCA COMO VOCÊ".
E eu acordei. Envergonhada. Horrorizada. Culpada. E de repente parece que o vi, bem na
minha frente, nos pés da cama.
VOCÊ ESQUECEU, LAURA, QUE EU SEI DE TUDO, VEJO TUDO, VOU AONDE
QUERO... SEI MUITO MAIS DOS SEUS PENSAMENTOS SECRETOS DO QUE
VOCÊ MESMA! VOCÊ BAIXOU A GUARDA, NÃO FOI? EU QUERO TIRAR UMAS
BOAS FÉRIAS DA VAGABUNDA QUE VOCÊ É... E VOCÊ VAI TER QUE ME
CHAMAR DE VOLTA... PUTINHA RANÇOSA! VOCÊ É BEM MALVADINHA
COMIGO QUANDO ESCREVE, NÃO É? VAMOS TER QUE ACERTAR ISSO. FAZER
VOCÊ ME AMAR COMO SEMPRE ME AMOU. LEMBRO-ME QUE... LOGO VAI
ACONTECER.
E então ele desapareceu. Preciso fazer alguma coisa certa e boa, hoje
mesmo!
Quem é ele, caralho, e por que me odeia tanto?
Quero morrer e esquecer tudo isso. Não agüento mais! Começo a me sentir bem e de
repente vem alguém que me faz sentir suja. Então outro me beija em seguida e me sinto
desejada e excitada novamente. Preciso saber se o que estou fazendo está certo. Não posso
permitir que seja BOB o responsável por eu querer que me amarrem às vezes. Não quero
nunca que me machuquem. Nunca. Só quero participar de jogos onde tenha que dizer coisas
feias às vezes, não as que BOB pensa, e se for punida, que seja com sexo, não com dor.
BOB não coloca idéias em minha cabeça. Não quero que seja ela a fazê-lo. Esses
pensamentos são meus e particulares.
Tenho medo de nunca mais conseguir ter outra experiência sexual, nunca, sem ficar
achando que ele virá para contar a todo mundo mentiras a meu
respeito. Se alguém que gosta de mim ler isto daqui para a frente, por favor não me odeie.
Só é assim porque é o que sinto. Não estou magoando ninguém, nem quero fazer isso.
Esforço-me diariamente para ser uma pessoa melhor, como
acho que o mundo espera de uma garota como eu. Mas eu sou Laura. Sou uma pessoa triste.
Meu Deus, estou triste de novo! Por quê? Não consigo mais rir ou viver de dia, um tempo
que é passado com meus amigos que não dão importância ao que penso nas horas tardias da
noite.
Eles não me odeiam por às vezes sonhar enquanto durmo, com uma das
mãos enterrada entre as pernas, morta de vergonha, e desejando que a outra
mão simplesmente aperte o gatilho.
BOB, proíbo você de me procurar outra vez, seja em sonhos ou na realidade.
Você não é bem-vindo! Odeio você.
Sinto-me sozinha, Laura

Posted by LAURA PALMER 1:32 AM

DIÁRIO SECRETO DE LAURA PALMER - 1987


(De Janeiro a Dezembro)

10 de janeiro de 1987
Querido Diário,
Tentei conversar com papai à mesa do café mas ele ficou ali se contraindo, como se não
tivesse tempo para pensamentos extras. Não tem tempo para os malditos sonhos suicidas
que sua própria filha está tendo. Nenhum dos dois quis falar comigo... O que é isso? Algum
tipo de sonho?
Papai tirou toda a roupa e gritou: "Isso é um sonho... Relaxe, está
bem?... Então sua mãe viu fotos suas lambendo as partezinhas privadas de outras mulheres.
Eu aparecia naquelas fotos nas quais você se divertia
sozinha. Isso é verdade?"
Nunca tive tanto medo quanto agora, neste exato minuto. Nem percebi que estava dormindo
quando isto foi escrito... Será que estava? Merda, isso é muito estranho. Muito, muito
estranho.
Será que BOB estava aqui? Será que BOB estava dentro...?
Nem quero pensar nisso.

Posted by LAURA PALMER 1:34 AM

3 de fevereiro de 1987
Querido Diário,
Não há cocaína. Ela desapareceu. Odeio o modo como me sinto... como se estivesse num
vácuo, meu corpo tem sido violado, meus pensamentos, meus
sonhos, a imagem que tenho de minha mãe e de meu pai são agora de figuras
terríveis e deprimentes, as quais não consigo deixar de ver... Ah, se ela
soubesse das coisas que têm acontecido.
Será que alguém acreditara se eu contasse tudo o que sei sobre ele?
Poderia ter a polícia esperando quando ele se mostrasse, mas ele saberia, como sabe de tudo
o que se passa em minha cabeça. Minha cabeça é o brinquedo dele. Algo em que ele bate
com suas patas. Vou contar pra todo mundo e fazer com que acreditem. Vou dizer...
DIZER O QUÊ, LAURA PALMER? DIZER QUE A LEVO COMIGO E VOCÊ NUNCA
RECLAMA? DIZER QUE SÓ VOCÊ ME VÊ E NINGUÉM MAIS? NINGUÉM VAI
ACREDITAR, LAURA
PALMER... EU SOU MUITO CUIDADOSO.
Deus do céu, aconteceu outra vez... Ele está aqui em cima da página... Não era nada disso
que eu queria escrever! Assusta-me terrivelmente saber que BOB consegue entrar nas
páginas do meu diário como se estivesse
alimentando minha mente com palavras, uma fração de segundo antes para que
eu pense que elas são minhas.
Existe alguma coisa que eu possa conseguir para você, BOB... alguma coisa que a família
possua e que sirva como garantia para que você desapareça
definitivamente? Fale comigo BOB... para um acordo... proponha alguma coisa.
EU TOPO. VAMOS FAZER UMA TROCA.
O que é?
NÃO POSSO DIZER AQUI NESTA COISA... POSSO MUDAR DE IDÉIA.
Foi o que pensei.

Posted by LAURA PALMER 3:58 AM

2 de abril de 1987
Diário,
Preciso de coca, saco, ou jamais vou conseguir.
Tenho que achar o Bobby. Onde, caralho, ele se enfia quando preciso? Isso é demais. Aqui
estou eu, Laura Palmer, ótima aluna, cidadã modelo de Twin Peaks... e acabo de adquirir
um novo hábito. Não estou preparada para isso... Ainda tenho medo de que BOB esteja
esperando. Se ele estiver na floresta vai me pegar agora, porque eu que me dane se não der
um jeito de enfiar uma carreira bem grande de confiança dentro do meu nariz em no
máximo meia hora. Uma linhona branca que chame por mim do jeito que um amante faria.
Gostaria que BOB tivesse proposto a troca. Se ele topar, vou tentar encontrar a pessoa e
dizer que tome cuidado COM O
HOMEM QUE PODE QUEM SABE ESCORREGAR PARA DENTRO E PARA FORA
DE VOCÊ COMO O VENTO QUE NINGUÉM PERCEBE, DEPOIS RASTEJA EM
CIMA DE VOCÊ E ENFIA UM PUNHO DENTRO DO ESPAÇO DA MULHER QUE
VOCÊ PARECE GOSTAR TANTO, LAURA PALMER... VOCÊ NÃO DEVIA
DESEJAR NADA... VOCÊ NÃO VAI CONSEGUIR O QUE QUER, PODE TER
CERTEZA. LEMBRE-SE, LAURA PALMER, POSSO MANIPULAR SUA
CONSCIÊNCIA PARA QUE VOCÊ NÃO SINTA NADA ALÉM DO QUE EU
PERMITIR. NÃO SENTE QUE ESTÁ MORRENDO, LAURA PALMER? NÃO
PERCEBE QUE ESTÁ CEDENDO PARA MIM NOVAMENTE? RECEBA-ME DE
VOLTA E EU NÃO PROVOCAREI UM HORRÍVEL ACIDENTE LOGO MAIS. SE
ALGUÉM SAIR FERIDO, VOCÊ PODE SORRIR SABENDO QUE FOI TUDO POR
SUA CAUSA, EGOÍSTA, VICIADA, LÉSBICA!
Vai se foder!
Talvez se eu for atrás de Leo por um pouco de coca, consiga reunir toda a minha merda e
merecer a liberdade. Minha privacidade de pensamento,
inteirinha. Quero-a de volta. Ela me pertence. Só preciso de um pouco de
coca... tenho que sair um pouco daqui... foda-se, vou andar. Vou descer essas escadas e sair
por aquela porta como se nada estivesse errado.
Consigo um pouco de coca e tudo ficará melhor. Vou conseguir pensar. Vou andando até a
casa de Leo e tudo ficará ótimo.
Vou levá-lo comigo, Diário -
Laura

Posted by LAURA PALMER 3:59 AM

2 de abril de 1987
Querido Diário,
Leo tinha companhia do sexo feminino, e eles não estavam em condições de abrir a porta.
Oh, céus... dinheiro... merda! Talvez ele me apresente a coca e eu possa pagar depois, ou...
espere, ele está saindo de casa. Conversaremos mais tarde,
Leo vai topar que eu traga o dinheiro depois. Espero, espero, espero.

Posted by LAURA PALMER 4:00 AM


2 de abril de 1987
De volta, e feliz, da casa de Leo.
Ele tinha, e era ótima. Ele me levantou com uma boa cheirada... e minha cabeça já começa
a repassar os arquivos mentais outra vez... sinto o sangue nas veias... Eu disse a Leo que
não era como aquele viciado horrível, mas há tanto tempo que eu não dormia... Espere!
BOB se foi. Não posso senti-lo à minha volta. Talvez porque eu esteja tão alta. Talvez eu
esteja louca e o tenha inventado... Não, nada disso. Sou louca se pensar que ele só existe na
minha imaginação... ele é real. Sei que é real. Tenho certeza. Eu não poderia e não criaria
algo tão mal como esse homem de quem falo.
Estou começando a ser aquilo que BOB me disse que me tornaria. Uma garota decaída,
maltratada, não confiável, perdida, que adora sexo e drogas
porque eles estão sempre aí, me proporcionando as viagens que espero... sem surpresas.
Não vê que está me matando, BOB? É aí que você quer chegar?
Lá se foram os dias de apenas um ano atrás em que eu mal podia me lembrar de alguma
coisa... só sabia que certas noites eu chegava em casa, chorava muito e me escondia atrás da
porta do banheiro, envergonhada. Lembro-me do que você me disse, seu bosta! Lembro
muito bem! Sei que você me cortou quando eu era bem pequena, várias vezes, e me disse
que eu estava numa enrascada porque estava sangrando. Disse que as crianças boas não
sangravam entre as pernas. Disse que eu não era uma criança de Deus! Será que havia
alguma coisa na qual você me deixava ser normal ? Cresci com você sempre por perto,
mostrando as evidências de meu maldito sangue e minha maldita natureza. Você era aquela
voz... seu filho da puta.
Leo precisa falar comigo sobre dinheiro... Espero que essa transação seja tranqüila, indolor
e silenciosa. Eu pedi a Leo que se Bobby aparecesse,
que me procurasse imediatamente.
Tínhamos que encontrar um novo traficante só para essa noite... O resto da pura eu já tinha
cheirado, menos a da reserva pessoal de Leo, porque é exatamente o que diz o nome:
pessoal. Se eu não tivesse tanta merda na cabeça, não precisaria mais que isso para a noite,
mas eu tinha. Tinha que
ter. É só o que tenho agora, cara. Minha amiga, a linha branca, de quem eu
lembro convenientemente o tempo todo, sempre que viajo numa rodovia, ou vejo uma
tempestade de neve, ou talco de bebê, vem me provocar dentro de minha casa.
Espero que a gente consiga mais. Temos que conseguir. Depois dos últimos dias sem
dormir, esse maldito BOB... simplesmente não vou conseguir pegar no sono. É perigoso
demais.
E O QUE SÃO, LAURA PALMER, DOIS, TRÊS DIAS DESDE QUE VOCÊ RESPIROU
PELA PRIMEIRA VEZ... VOCÊ É UMA PUTA ATRAPALHADA... QUE AINDA ESTÁ
AQUI.
Vai se foder, BOB. Então sou o que você sempre me disse que era. Uma putinha, suja e
desleixada, que fode com todo mundo para pagar as drogas. Você venceu. Você me causou
dor quando eu não sentia nenhuma, e quando eu sentia dor você dizia que a culpa era
minha... acho que você é o cara mais repulsivo, maligno e conivente que já pôs os pés na
minha vida, e sem ser convidado; não tinha esse direito. O que você quer, caralho? Você
trapaceia porque nunca teve que enfrentar ninguém mais forte... Ganhe alguém assim, e eu
admitirei que você venceu. Até vou atrás de você. Sem brigas.
Laura Palmer acredita que você é um impostor.

Posted by LAURA PALMER 4:01 AM

24 de junho de 1987
Querido Diário,
Já é muito tarde e nem me importei em me registrar ou avisar alguém de onde estou ou se
estou a salvo. Nem estou ligando para isso. Não quero
saber mais nada sobre mim mesma, por ninguém... muitas mentiras entraram
em mim, como projéteis que entraram em mim, como atrás eu teria percebido.
Começo a sentir a fraqueza. Cair no mundo das drogas. O mundo do sexo pelo espetáculo e
pelo poder. Pela força que pensei que quisesse, procurei as pessoas erradas.
A parte de mim com autonomia para decidir se uma coisa é certa ou errada desapareceu.
Uma decisão dura um único momento, antes que eu duvide delas e me amaldiçoe por
sempre achar que fosse capaz de escolher o certo em vez do errado... eu devia ter aprendido
há anos como me lembrar de você. Talvez tivesse me salvado em momentos muito tristes,
em sonhos muito maus, em várias centenas de tentativas desesperadas de retornar um eu
melhor.
Aquele que recebeu você tão bem. Aquele a quem você deve uma vida inteira.
Certamente espero que você consiga o que deseja.
Não posso ter boas coisas, não agora. Não conheço o caminho da
responsabilidade, não sei como utilizá-lo. Tão simples, é só sair andando...
Mandei Troy embora. Libertei-o com várias chicotadas no lombo (um método que me fez
correr por um bom tempo, você se lembra, BOB?). Ele se foi. Eu não o mereci, e nem ele
merece uma vida que começa e termina todo dia num pequeno quadrado. Uma lembrança
constante, se preferir, de que ele não é livre mas que pertence a alguém.
Deixei o pônei ir. Uma das minhas últimas esperanças, antes de anular tudo por você...
merda. Já não importa mais nada.
Espero que Troy entenda por que fiz ele me deixar.
Tenho tanto medo que qualquer coisa que eu toque corra o risco de
estabelecer contato com BOB. Estarei investigando a morte... não se preocupe. Posso sentir
você decidindo quando e onde. Seu cretino.
Laura

Posted by LAURA PALMER 4:02 AM

12 de novembro de 1987
Querido Diário,
Espero que Deus leia isto: poderia utilizar a ajuda.
É definitivamente o fim da minha vida, o fim da minha crença em mim mesma... a
confiança... tudo se foi! Leo e Bobby foram me buscar no estábulo porque eu mal podia dar
um passo. Bobby disse que telefonara para casa avisando que me levaria a um jantar
surpresa... voltaríamos tarde. Isso foi muito delicado da parte dele, devo admitir. Mas como
eu disse ao Leo e ao Bobby, do banco traseiro do carro enquanto trocava de roupa (outra
vez graças ao Bobby por ter pedido emprestado alguma coisa de Donna - que disse a ele
que estava preocupada comigo).
Admito alguma surpresa aqui, não por duvidar da lealdade de Donna ou de sua amizade,
mas por agora acreditar muito mais em BOB. Eu disse a eles que estava preocupada. Que
tinha um bom motivo para não ir a nenhum lugar, naquela noite. Disse que eu estava mais a
fim, se todos concordassem, de voltar e deixar a cocaína para amanhã. Bobby riu e Leo deu
um tapinha na minha mão como se eu fosse muito engraçadinha, um cuco que ficava
repetindo sem parar a mesma mensagem. Puxou um elástico nas minhas costas,
desnecessariamente.
"Eu não acho que isto esteja muito seguro."
Nós passamos por Mill Town e entramos em Low Town. Jamais vi uma noite tão escura.
Não havia lua. Isso também preocupava Leo, que tenho certeza tomará conta de mim, até o
fim. Tudo o que preciso agora é uma substância ou a grana para comprar a substância.
Minha amiguinha. Outra mentira, mas pelo menos encarei esta bem de frente e disse que
acreditava nela. A felicidade temporária é melhor do que, aos poucos, ir colecionando
amigos, família e amantes, um terrível vislumbre de como estou muito perto da
autodestruição. Não se aproximar demais: já não há nenhuma segurança. Eu lhe garanto
isso.
Entramos em uma estradinha sem sinalização de espécie alguma, mas que
parecia ser a certa, já que era a única há muitos quilômetros. Bobby parou o carro e ficou
ali, antes de seguir até a casa. Leo o encorajou: "Anda, Bobby, vamos lá". Eu tentei
também chamar a atenção dele, mas sinceramente ele parecia estar em outro mundo. Sua
cara era de quem estava no Limite da Realidade.
No instante em que Bobby voltou a si, começou a descer a estrada, e na completa escuridão
a nossa frente se escondia uma casa. Que eu esperava estar repleta a um nível obsceno de
cocaína e um rápido drinque se eu conseguisse sorrir... Mostrar os dentes, pensei.
Leo olhou para mim como se de repente tivesse sacado que não era bom estar ali, naquelas
condições, sem conhecer ninguém, e carregando mais de mil
dólares em dinheiro. Eu afundei no banco de trás e calei a boca, percebendo de repente
como foi ridículo ter mudado de roupa... só podia estar vestida para confusão, indo a Low
Town tão tarde da noite, naquela escuridão, ainda não explicada em nenhum jornal ou
noticiário de rádio.
Eles nunca dizem que há uma falha no poder.
- Vocês sabem quanto tempo a polícia leva para chegar até aqui? -
perguntei.
Bobby tirou de dentro da jaqueta o revólver de seu pai. A coisa brilhou levemente, e eu
disse que ele era completamente maluco de andar com aquilo. Eu já tinha certeza de que o
que eu estava experimentando não era uma dor de estômago, mas sim um óbvio instinto
visceral de dar meia volta e começar a correr, e só parar quando estivéssemos perto de casa.
O carro não parou e não voltou. Não havia sinal de vida na estrada, nenhuma casa,
nenhuma maldita alma por ali... bem, talvez uma ou duas... o que era uma razão a mais para
fazer uma retirada silenciosa enquanto ainda tínhamos chance de sair de lá juntos.
Por nada, me pareceu, Bobby meteu o pé no freio. A caminhonete rodou duas vezes, e a
poeira brilhou na luz dos faróis. Por fim paramos. Estávamos os três assustados. "Pensei ter
visto alguém", disse Bobby. "Não quis passar
por cima."
Nós saímos e começamos a andar bem devagar no escuro. De repente alguém me agarrou
por trás e começou a me enforcar. Não acredito que vou morrer assim, pensei... em Low
Town, em plena escuridão, ninguém jamais admitiria que isso acontecesse, tentando
comprar drogas, cocaína para ser mais específica, e sem que os dois caras fortes e
corpulentos que estavam comigo percebessem que eu estava sendo estrangulada! Pensei
nisso... eu tinha ido comprar uma maldita fazenda ali. Em dinheiro. E à vista. Os dedos se
afrouxaram, minha visão ficou embaçada e comecei a ficar fria.
Acordei naquela droga de casa do traficante com uma dor de cabeça que
pensei ser um aneurisma. Bobby e Leo entraram no quarto, e Bobby obedientemente
sentou-se ao meu lado e mostrou-se preocupado com minha cabeça, e isso me fez lembrar o
que tinha acontecido. Eu disse (devo acrescentar que com uma boa dose de sarcasmo): - De
quem foi a brilhante idéia de me estrangular até eu ficar gelada?
Ninguém respondeu.
- Então quer dizer que é assim que os caras chegam nas meninas aqui em Low Town? -
Silêncio.
- Que finos!
O mais gordo dos quatro almofadinhas tirou um revólver da camisa e apontou para mim.
Olhei-o como se ele estivesse completamente por fora... que um "Cala a boca" ou "Vai se
foder" seria perfeitamente claro para mim. Ele
armou aquela maldita coisa e encostou no meu rosto.
- Peço desculpas, docinho. Não posso esperar que todo mundo que use
vestido seja uma garota. - Ele olhou para mim e lambeu o revólver.
- Lindos peitinhos!
- Eu sei.
- Não que a explicação dele por ter me estrangulado fizesse algum sentido. Suas desculpas
foram aceitas e, falando seriamente, muito
preferíveis a um buraco na minha cabeça. Ofereci minha mão e agradeci por
ele não ter atirado. Isso teria estragado realmente minha noite. Houve uma
pausa... e nenhum aperto de mãos.
Lentamente, e com grande prazer, ele começou a curvar os cantos da boca para cima, e
terminou o espetáculo num sorriso gelado, do tipo "coma a bosta e morra!, como eu só
tinha visto uma única vez na vida. Sabia que aquilo era falso. De repente me vi em estado
de alerta e muito atualizada na etiqueta do silêncio, pelas quatro armas que encontraram
partes muito importantes do meu rosto para descansar seus canos. Metal gelado. Um
arrepio na base do pescoço. Medo. Pode me chamar de covarde, mas as armas sempre me
provocam hiperventilação e um imenso desejo de grandes quantidades de ar puro.
Eu disse a eles que precisava ir para o carro. Me concentrei no pensamento de que um dos
revólveres ia se afastar e traçar uma linha reta para mim. Eu tinha que tomar ar, o que se
tornava mais difícil do que em geral é por causa da contração que se instalou no meu
pescoço. Por outro lado, morro de medo de balas e aposto um bom dinheiro que elas
provocam dor quando entram dentro da carne em alta velocidade.
De repente vi gente com uniformes do exército, todos postados como
pesadelos congelados em volta da casa. Um dos soldados se aproximou da minha janela e
eu estava toda encolhida porque fazia frio e eu estava com medo.
Com uma das caras mais assustadas que eu já vi, ele perguntou:
- Você já pensou em morrer?
- Não, senhor. Não numa situação como esta.
Ele me olhou como se eu tivesse feito chegar sua promoção poucos dias
antes da data marcada. - Por favor, senhorita, queira sair do veículo.
- Você vai atirar em mim ou qualquer coisa assim?
- Foi roubada uma boa quantidade de cocaína dessa casa. Achei que a
senhorita gostaria de me mostrar que está tudo limpo com sua caminhonete, e nos deixe
trabalhar. É só rotina. Saí, e achei que meus ossos fossem se partir em pedacinhos, de tão
assustada que eu estava.
- Está tudo bem?
- Do lado de cá da minha arma, está.
Eu não conseguia me mexer.
- Aí do seu lado não é exatamente uma festa, não?
- Não. Não, é mais como acordar... não uma festa em que eu gostaria de ir. Senhor.
- Você pode entrar no carro e relaxar.
- O que está acontecendo na casa, agora?
Ele deu de ombros. - Acho que os rapazes estão reunidos, discutindo se estouram ou não a
cara deles ou se os mandam de volta a High Town do mesmo
jeito que eles vieram.
- Ah. Me sinto muito melhor agora. Obrigada.
Tive que ficar ali naquela maldita caminhonete por quase quarenta minutos esperando para
saber se Bobby e Leo voltariam para casa em estado ainda sólido em vez de numa forma
líquida. Finalmente eles saíram pela porta da frente dando tapinhas nas costas daqueles
valentes e rindo como se fossem velhos conhecidos. Eu pensei, pô, isso é demais! Estou
aqui sujeita a levar um tiro à queima-roupa por ter passado a mão em um quilo de cocaína
(com cuidado enfiei o pacote embaixo do vestido, sem deixar fazer volume para não dar
bandeira do roubo), e o agradecimento que recebo é esses dois virem para o carro a passo
de lesma. E dando um exemplo grosseiro da solidariedade masculina, se é que já vi alguma.

E então vi um medo absoluto saindo pelo olhar de Bobby direto para mim e registrei.
"Olhe!" Os revólveres começaram a atirar, como se a NRA
(National Recovery of Administration - Reconquista Nacional de Administração) tivesse
aceitado recrutas reconhecidamente cegos. As pessoas estavam atirando umas nas outras...
paranóicas, e com uma fúria que, se fossem atingidas, só perceberiam amanhã.
Eu escorreguei no banco do carro e dei um jeito de me enroscar em Leo, que estava
escondido, desarmado, rezando como um louco, e o carro arrancou em direção à cidade.
Então foi minha vez de lançar um olhar de "Merda!" Quando já estávamos perto do asfalto,
olhei pelo retrovisor e vi alguém na cama da caminhonete com Leo, e Leo ia perder uma
coisa terrível. Bobby sacou a arma e com a mão livre esticou-se para fora da janela e disse
pro cara que ele tinha dois segundos para sumir dali ou morrer. Tinha que escolher
depressa...
O cara sentou, e Bobby atirou no peito dele a uma distância de menos de um metro. A força
da bala jogou o cara para o fundo da caminhonete, no chão
atrás de nós. Bobby gritou para mim: "Vamos embora daqui. Guie!"
Tão logo chegamos no asfalto, Bobby abaixou-se na cabine, ainda com a arma na mão,
como se estivesse pronto para atirar. Ele ficou em silêncio o caminho todo. Leo estava lá
atrás agradecendo a Deus pelo milagre da prece. Eu queria saber se havia muito sangue
espalhado e se o cara tinha morrido...
Na casa de Leo, desci do carro e perguntei se não tinha ninguém lá. Ele
disse que não, então tirei o quilo de cocaína de dentro da saia, envolvido
em um plástico, novinho em folha. Bom trabalho, pensei, para uma amadora.
Pedi desculpas ao Bobby por provavelmente ter causado a presença daquele homem no
carro.
Fui revistada, contudo, e o cara disse que eu estava limpa. Achei que eles estivessem
convencidos, ao ver todo mundo abraçado na saída.
- Eles estavam dizendo para nós, baixinho e bem devagar, que nos
encontrariam e cortariam nosso pau centímetro por centímetro. Se o bofe que veio conosco
estivesse sentado em cima da cocaína deles, não ia demorar para irmos parar no hospital e
direto pro inferno.
Eu me sentei e pensei um pouco na palavra "bofe".
- Ô caras - disse - sinceramente eu sinto muito. Não teria feito isso se não achasse que
vocês iam pular de alegria quando soubessem.
Nenhuma resposta.
- Não fui eu que disse pra não irmos lá?
Um sorriso dos dois.
Leo balançou a cabeça na direção do pacote e disse: - Você tem uma parte nisso.
Bobby virou-se para mim e me olhou orgulhoso. - Uma perfeita dupla Bonnie e Clyde.
Esse drama terminou e outro ainda estava por vir. É claro que nós
começamos a cheirar em quantidades jamais aceitáveis pelo corpo humano. Se as balas não
tinham nos matado, a montanha de cocaína faria o serviço logo, logo.
Nós estávamos na maior loucura. Resolvi sair. Queria alguma coisa lá do Cash and Carry.
Nenhum dos dois podia sequer imaginar em sair do sofá.
Estavam grudados na televisão, e curtindo um orgulho de macho por estarem diante de uma
montanha de cocaína, com três canudos enfiados num buraco feito no saco.
Eles olharam para mim com cara de cachorro cansado, as pupilas dilatadas e disseram: -
Tudo bem se a gente ficar aqui? - Fiquei um pouco chateada com Bobby por não se
oferecer para escoltar sua própria namorada, a mesma que arriscara a própria vida, por mais
desvalorizada que estivesse no momento, para garantir todo aquele barato que estávamos.
Tive vontade de torcer aqueles dois e decidi que podia guiar duas quadras até o Cash and
Carry, sem ficar molhada de suor ou ter um colapso
emocional.
Saí com o carro, e quando passei pelas únicas duas casas que havia no
caminho, notei uma revista caída no chão da caminhonete, que antes eu não
vira. Fleshworld Magazine.
Minha cabeça começou a trabalhar; essa revista talvez pudesse me ensinar alguma coisa
que eu ainda não soubesse... e BAM! Subi com a caminhonete na calçada, e antes que eu
pudesse sair para ver o que tinha atingido, vi a mim mesma há quatro anos. Uma
menininha, despertada pelo barulho, sair correndo pela porta de sua casa e diminuir a
velocidade ao ver o bichinho no meio da rua.
Ela olhou pra ele e chegou mais perto, mas não muito, como se para poupar a si mesma da
realidade. Virei-me e vi Júpiter. Um gato idêntico àquele que fora meu melhor amigo antes
que uma drogada como eu surgisse e, insensatamente, se interessasse mais pelas histórias
de uma revista pornô do que com o que estivesse atravessando a rua.
Comecei a chorar. E não consegui mais parar. Eu era a pessoa que, anos atrás, eu tanto
tinha odiado por levar meu gato de mim quando eu mais
precisava da companhia dele. Eu disse à menininha que faria tudo o que ela quisesse. Se ela
quisesse um outro gato, ficaria feliz em comprar... Ela olhou para mim - e tentou me
consolar! Seu gato é atropelado na rua por
causa das minhas loucuras com drogas, e ela tentava fazer com que eu me
sentisse melhor. Ela deu a volta no carro, onde eu estava encostada. Eu não conseguia
encará-la.
Sentia uma vergonha tão grande que não conseguia me mexer.
- Por favor, não chore.
Céus, ela até tinha a voz parecida com a minha!
- Por que está tão triste? Não precisa se sentir tão mal.
Eu olhei para ela e vi uma coisa da qual eu sentia muita saudade. Uma
necessidade muito grande de perdoar. Que coração! Essa garota podia amar o
país inteiro e não deixar que ninguém se sentisse só.
- Quando eu tinha a sua idade, tive um gato muito parecido com o seu. Ele chamava Júpiter,
e acho que era o meu melhor amigo. Alguém o atropelou, eu ouvi o barulho e fui correndo
ajudá-lo. Lembro-me de ter ficado espantada com a rapidez... com que a morte saciou sua
fome.
Por um momento só havia o vento. Nós não dissemos nada. Então ela olhou para mim e
perguntou: - Você perdoou a pessoa que o
atropelou?
Eu me encolhi do lado do carro e disse que Júpiter fora atropelado por alguém que batera
nele e fugira. - Acho que ele foi pro céu, mas sinto muita saudade... perdoei a morte dele,
mas acho que não esqueci que alguém pegou meu gato e não para dizer que sentia muito.
Ela estendeu a mão, e a camisola dela, de flanela, me fez rir. - Meu nome é Danielle. - Ela
apertou minha mão com firmeza.
- O meu é Laura Palmer. - Dei um abraço nela e ela apertou os braços em torno de mim,
carinhosamente. - Foi muito bom conhecer você, Danielle - me pus de pé.
- Você é uma menina muito especial por saber perdoar com tanta facilidade. Ela segurou
minha mão um pouco, e depois de pensar com cuidado, olhou para mim e disse: - Quando
ouvi o barulho, fiquei com medo de que o gato estivesse machucado... Mas saí e vi você
chorando mais do que eu por se lembrar do seu gato, e muito triste por ter machucado este.
Para que fazer
você se sentir ainda pior por algo que tenha feito? Eu gosto muito de você, Laura Palmer.
- Danielle, você é ainda mais especial porque vem com muito açúcar por cima. - Olhei para
o gato e de novo para ela.
- Minha mãe vem pegá-lo.
A pequena Danielle, mais que qualquer pessoa, fez com que eu soubesse que ainda havia
chance de tudo melhorar. Cheguei até a pensar que um outro
gato seria muito bom...
E então me lembrei que tinha soltado meu cavalo. Só espero não tê-lo
mandado para um lugar em que ele possa se machucar, ou que não cuidem dele
como se deve. Acho que devia ter pensado nisso antes de ter me deixado levar pelo impulso
de libertá-lo, para fazer o que quisesse e ir aonde tivesse vontade... sozinho.
Cara, eu passei dos limites essa semana, não? Que coisas terríveis e ao mesmo tempo
mágicas aconteceram comigo! Por quê? Será que devo voltar à vida e arranjar um
emprego? Ou ainda estarei voando em direção à morte? Só sei que quis devolver aquela
caminhonete imediatamente, deixar a droga para trás e chorar um pouco enquanto voltava a
pé para casa. Talvez mamãe me fizesse um chocolate quente, e eu conseguisse entender
tudo o que tinha acontecido, ficando ali com ela.
Deixei a caminhonete e vim para casa. Andando. Só queria chegar.
Estou escrevendo agora.

Posted by LAURA PALMER 4:04 AM

13 de novembro de 1987
Querido Diário,
Estou em casa. É cedo. Leo e Bobby não ficaram muito felizes por eu querer voltar para
casa. Leo tinha decidido que ia ser uma noite de coisas novas e "incomuns". Bobby estava
muito, mas muito alto mesmo, e achei que Leo
tinha dito a ele que falasse comigo para topar tudo o que Leo quisesse, porque eu nunca o
vi tão interessado em manter-me em algum lugar. Seus olhares constantes para Leo me
fizeram pensar que Bobby se sentia culpado,
ou talvez em dúvida se devia ou não me fazer entrar nisso. Balançar o queijo na frente do
rato... um ratinho loiro e muito assustado. Está vendo a ratoeira? Está? Então vai. Você
sempre quis isso, lembra-se? Leo balançou a cabeça quando eu disse que tinha resolvido ir
embora porque algo acontecera e tinha me deixado tão... e parei. Não acabei a frase porque
vi de repente que os dois não estavam em condições sequer de fingir que se importavam
com um gato lá na rua. Um animal branco, que talvez ainda estivesse lá... ou como eu o
imaginava enquanto dirigia devagar, com os faróis apagados, no caminho de volta. Vi seus
olhos mortos presos na imagem de uma mãe, provavelmente cansada e preocupada em
saber se sua filha estava bem. Perguntando-se, enquanto erguia o corpo do animal, se a
morte parara logo ali. Talvez ela pensasse no trabalho que teria no dia seguinte, em andar
sem rumo pela rua... tão cansada, sempre cansada.
Acho que estou pensando em mim mesma. Estou cansada. Sou eu que pergunto: será a
morte apenas a imagem congelada do corpo de um animal? As cinzas de meu avô, apenas
um jeito mais fácil de caber dentro da urna? Ele é apenas um corpo, no fim das contas: por
que não enfeitar o que sobrou?
Quando eu morrer, acho que vão me enterrar. Espero que o gato tenha sido enterrado.
Pensei em ficar para ajudar, mas tudo estava perto demais. O corpo ali, como uma
mensagem. Talvez os atropelamentos sejam mais do que parecem. Mensagens, como foi
ontem à noite... ou exemplos aos quais nunca prestamos atenção. Isso é o que é. Silêncio.
Eterna privacidade. Eu não queria ficar essa noite com os rapazes. Queria vir para casa,
dormir na minha cama, ser outra vez uma menininha. Fingir uma doença ou cólicas e pedir
à mamãe para cuidar de mim. Ler A Bela Adormecida ou O Pequeno Polegar, beber café
enquanto ela vira as páginas e toma conta de mim.
Era o que eu queria, mas sabia que acabaria ficando naquela casa. Sair de lá às escondidas,
antes de o sol nascer... desligar o alarme do despertador segundos antes de ele tocar.
Despir-me completamente e enfiar-me embaixo dos lençóis. Eu sabia que lhe contaria o que
aconteceu.
Simplesmente. Com uma caneta e nenhum som. As palavras têm sido estranhas para mim
nesses últimos dias. São só mentiras, o tempo todo. Outra vem para ajudar a mentira
anterior a sobreviver... tornar-se real. As palavras de Bobby têm sido como pequenas facas.
Sei que ele não tem intenção de me magoar, mas as surpresas com meu comportamento
outra noite, ontem à noite, a diferença que ele vê quando estou drogada... e tem acontecido
muito
isso. Ele diz que jamais pensou que eu fosse tão selvagem. Acho que ele quer dizer que
jamais imaginou que eu fosse tão má. Ele nunca conheceu a Laura Palmer como a floresta,
as árvores, a terra conhecem. Sempre trêmula e com raiva, ameaçada, paralisada, incapaz
de correr. Ou nunca a escolheu.
Ensinaram a Laura Palmer que ela merece a dor e um tipo de intimidade em que a maioria
das pessoas nunca pensa ou fala porque acha errado. Laura
Palmer? Ela nasceu sem escolha. Uma noite há muito tempo disseram-lhe bem
baixinho que ela iria gostar ou teria que morrer.
Eu fiquei na casa. Leo quis que eu bebesse alguma coisa. Relaxasse. Ele disse que me
queria do jeito que tinha sido. Disse que eu prometera a ele. Garantiu que eu estaria em
casa a tempo... ninguém ficaria sabendo. Ele se ajoelhou na minha frente e agarrou meus
pulsos com força. Eu pensei em BOB
e fechei os olhos. Eu devo ter gemido, emitido qualquer som, porque ele
disse: "Eu sabia. Sabia que isso queria dizer alguma coisa para você".
Abaixou as mãos para as minhas. Segurou-as mais gentilmente. "Ótimo. Sabia que você ia
entender. Eu vi isso." Ouvi Bobby se levantar da cadeira e Leo fazê-lo parar. "Senta,
Bobby. Já. Laura vai buscar uma bebida para você.
Ela vai abrir os olhos, e vamos todos beber um pouco."
Abri os olhos devagar. Leo deixou minhas mãos em meu colo. Me levantei e fui para a
cozinha pegar a bebida para Bobby. Podia ouvir os dois
conversando na sala. Começaram a discutir. Achei que era por minha causa, ou os planos
para a noite. Realmente me incomodava quando eles discutiam. Eu não queria mais isso.
Fui até onde eles estavam e os fiz calar a boca.
Queria que eles se calassem. Eu faria ou diria tudo o que os "jogos" da noite exigissem.
Não precisavam brigar por isso. Eu queria me divertir. Queria curtir um barato. O barato
que eles estavam. Queria esquecer o que
acontecera lá fora na rua.
Bobby foi até a cozinha e me disse que eu tive sorte de Leo não ter me dado um bofetão por
ter lhe mandado calar a boca dentro da casa dele. Eu
disse que não era sorte. Sabia que Leo gostava de mim. Se alguma vez ele me batesse era
porque fazia parte das regras.
Bobby disse que gostaria de viajar, só nós dois, na próxima semana talvez. Ele sentia
saudades de estar com Laura. Eu o odiei por isso. Tive vontade de bater nele. Em vez disso,
disse que eu não sentia saudade nenhuma de Laura. Disse que ele nunca mais a veria.
Ficamos um bom tempo ali sentados, só bebendo, cheirando e olhando Leo: não sei para
quê, mas sabia que tinha que estar pronta. Talvez ele fosse
legal, talvez não. Eu não ficava olhando para Bobby o tempo todo. Quis ter
certeza de que ele me veria com Leo. Não gostava da saudade que Bobby sentia da doce
Laura. Não posso acordá-la agora. Ela não gosta de noite assim. Não iria querer brincar. Eu
sim. Eu tinha necessidade de ser diferente dela... tinha que chacoalhar o que quer que
chamasse BOB à minha janela. Chacoalhar o aroma da inocência. Eu decidi uma coisa.
Disse a eles que queria ir lá fora, no meio da mata. Leo pareceu gostar e olhou para Bobby.
Virou-se para mim e indicou com a cabeça o meu copo vazio. "Você tá a fim de foder?" Eu
disse que estava, mas não queria mais ficar lá dentro.
Não gostava da luz. Disse que ela tornava as coisas fáceis demais.
Comecei a pegar um pouco de pó para levar até a floresta e Leo me olhou como se eu
estivesse roubando ou algo assim. "Olha, eu roubei essa merda, certo? Sou eu que vou fazer
a sua noite... e não vou começar a baixar
quando estiver lá fora na floresta." Ele disse que só estava olhando. Disse que eu podia
relaxar. Então se aproximou de mim, bem perto. Disse que gostava quando eu me
agüentava por mim mesma, mas não haveria nenhum quarto para isso lá na floresta.
De repente me vi na escuridão de braços abertos e girando, girando, Leo e Bobby no meu
campo de visão cada vez que passava por eles... Depois aos
poucos comecei a sonhar com Leo, seus olhos bem grandes, gostando, os lábios
entreabertos, as mãos se juntando e devagar aplaudir meu espetáculo.
Antes de sairmos da casa, Bobby veio do banheiro e disse que estava
cansado, não estava a fim de andar. Disse que sabia que essa noite era para mim e para Leo.
Disse que talvez me telefonasse em poucos dias. Leo sorriu quando Bobby saiu batendo a
porta.
- Bobby é um cara esperto.
Concordei, mas por dentro queria matar Bobby por me fazer sentir tão mal. Ele queria que a
pura e doce Laura corresse atrás dele, fosse andando ao lado dele para casa, de mãos dadas
com ele. Por um instante ele me fez querê-la. Não era seguro. Ele não podia entender como
isso era inseguro para todos nós, especialmente fora daqui. A floresta precisava me ver essa
noite. Precisava ver como eu tinha crescido, no que tinha me tornado. Então poderia dizer a
BOB que se afastasse de mim. Que ele soubesse que seu trabalho comigo estava terminado.

Leo veio até mim e escorregou a mão por dentro de minha blusa, fixou os olhos nos meus,
seus dedos encontraram os bicos. Olhando-me nos olhos, sem
deixar que eu desviasse os meus, ele disse: "Você não quer perdê-lo, não
quer perder ninguém".
Ele liberou meu olhar; minhas pernas quase não me sustentaram. "Leve-me a algum lugar,
faça-me esquecer." Segurei no braço dele para recuperar o equilíbrio. Ele disse que estava
pensando em uma coisa. Disse que eu podia me assustar mas que estava tudo bem. Disse
que gostava de mim depois de tudo o que tinha acontecido nessa noite e realmente
podíamos nos tornar mais íntimos. Ele queria estar comigo pela primeira vez, sozinho.
Perguntou se eu gostava de me assustar.
Eu disse que às vezes aconteciam coisas assustadoras, mas que desapareciam pela manhã.
Disse que queria ficar realmente excitada, que precisava sentir isso. Há muito tempo que
não sentia. Tinha estado muito ocupada fazendo isso para os outros.
Quando saímos da casa, ele me vendou. E cochichou: - Está sentindo a
escuridão?
Eu disse que sim.
- Ótimo. Vou levar você para dentro dela. Como você gosta. Eu guio, e você só me
acompanha até eu mandar parar.
Começamos a andar, e quando o fizemos, senti perto as árvores acima,
percebi o vento, diminuindo até parar, incapacitado de voltar para o céu... Ouvi Leo
respirar. Senti sua mão forte em minhas costas. Quis dizer
a ele que estava com aquela sensação na barriga. Aquela que faz você se
soltar, querer coisas... Mas ele não me deixava falar. Disse que faria tudo sem falar até
precisar saber alguma coisa de mim. Disse que sabia muito bem como estava me sentindo
sem que eu precisasse dizer.
Me pareceu um tempo longo antes de pararmos. Como não sabia o que fazer, esperei. Por
uma ordem. Quando por fim paramos, ouvi-o começar a me
circular, os passos abafados pelas folhas no chão. Sentia os olhos dele como se fossem
mãos, subindo e descendo, seguindo uma e outra curva. Ele parou atrás de mim.
- Pode guardar um segredo, menininha?
Não estava certa se devia responder.
- Tudo bem, vá em frente e me responda.
- Sim, sei guardar segredo.
De repente comecei a sentir o mesmo cheiro profundo da floresta.
Conhecia-o bem. Senti meus pés se firmando, e eu tinha que soltar a cabeça, relaxar... lutar
contra ela. Lembrar-me do que aquilo significava.
- O segredo é que às vezes, bem aqui neste ponto, eu ouço vozes. Percebo que não estou só.

- Que vozes são essas?


- Vozes que não conheço... Mas às vezes, se fico bem quieto, descubro que posso sentir
pessoas à minha volta. Posso ouvi-las falar sobre mim, mas se tento vê-las, desaparecem
completamente.
- Está ouvindo vozes agora?
- Acho que ouço bem baixinho. Vindas dessa direção. Isso assusta você?
- Acho que não. Eu estava preparada para a chegada de um ônibus lotado de caminhoneiros
e começar alguma cerimônia estranha... De repente senti-me totalmente exposta. Gostaria
de saber quantas pessoas haveria por ali.
- Vou ajudar você a sentar. Aqui.
Leo me sentou e percebi que estava numa cadeira muito confortável, ali no meio da
floresta. Que lugar era aquele? Será que já o vira durante o dia?
Uma música começou a tocar. Estranhos sons de água, e algo que não pude identificar... e
um tambor... baixo. Sentia-o em meu peito. Estava tão alto que não podia mais perceber
pelo som se havia ou não alguém perto de mim.
Alguém falou em meu ouvido: "Espere aqui... relaxe. Curta".
Não tenho certeza se consigo descrever as cinco horas que se seguiram. A música era
constante, um ritmo que me movia e machucava mais que qualquer outra coisa. Mais que as
mãos que de repente estavam em mim, lábios em meu pescoço, mãos no meu peito, coxas,
rosto. Vozes em meu ouvido, falando
baixinho... se afastando.
Acho que havia três mulheres e pelo menos quatro homens, incluindo Leo. Eu estava
amarrada, obviamente, à cadeira com uma corda que apertava minhas mãos quase ao ponto
do desconforto, o que eu sabia fazer parte do jogo, tudo muito planejado. Toda e qualquer
fantasia que alguém pudesse ter nas horas tardias da noite, com exceção de animais, foram
realizadas em mim, comigo e para mim. Era como se eu tivesse engolida por um sonho,
perfeito de todas as maneiras. Minha única responsabilidade era manter minha cegueira e
permitir a cada um que viesse e ficasse comigo.
Podia ouvi-los, os outros que estavam na fila esperando. Apenas vozes na floresta, cujos
corpos tornavam-se imagens que eu podia ouvir, vê-las
através dos sons que faziam... tudo se tornara muito sensível. Eu podia
ouvi-los a noite excitando-se uns aos outros ao ponto de pequenas convulsões, milhares de
pequeninas ondas de luz, água, eletricidade, correndo através deles. Todos reagiam com
estranho prazer e assombro... uma sede quando alguém alcançava o clímax. Mesmo eu,
sentada longe deles como se estivesse numa vitrine (mais um troféu que uma viciada em
drogas), senti prazer nos sons ao redor de meus pés.
Essas pessoas, de idades variadas, passavam suas noites na floresta,
esquecendo nomes e histórias, usando somente seus sentimentos e desejos mais básicos,
para serem amarradas, tocadas, desejadas e completamente aceitas, não importava como
fossem fisicamente, ou quem eram no trabalho ou na escola nas manhãs seguintes. Estava
escuro, estranho e às vezes quase intoxicante. Eu oscilava, a cabeça pesando na escuridão.
A energia era tão densa, eu quase podia sentir o ar se separar, abrindo-se para que eu
pudesse me mexer. Todo e qualquer nervo do meu corpo tinha algo a dizer... um grito
embaixo da pele, constante e muito mais alto que o habitual porque eu não podia senti-lo
chegando. Eu podia jurar que havia horas que eu estava sensível demais para sentir os
dedos que me tocavam. Via-os pela maneira como sentia através da pele... cada toque como
linhas luminosas por trás de meus olhos.
Quando vi novamente, com meus olhos, a imagem foi de minha casa. A luz incidindo do
lado, imediatamente antes de o sol nascer... uma névoa de luz amarelada que ainda lutava
com a sombra que não concluíra sua estada.
Levei um minuto para conseguir focar. Leo estava sentado ao meu lado no
caminhão dele. Ele disse que estava indo, e que a mulher dele logo estaria em casa. Para
nos encontrarmos novamente, deveríamos planejar muito bem.
Eu tinha me esquecido da mulher dele. Shelley. Muito bonita.Era garçonete do Double R,
junto com Norma. Por isso disse a ele que me telefonasse. Ele disse que tinha uma coisa da
qual eu poderia precisar enquanto ele estivesse fora.
Ganhei um saquinho cheio até a boca. Leo aconselhou-me a não abri-lo até que estivesse
sozinha. Beijou-me, ficou olhando eu entrar em casa e foi
embora.
Tive uma fantasia enquanto subia a escada para meu quarto que mamãe
acordava... e perguntava como tinha sido a orgia. Eu contei em detalhes, e
ela começou a revelar suas próprias experiências de estranhas noites na
floresta. Ela queria ligar para os amigos e contar que sua filha participara de uma orgia... e
não era maravilhoso? A fantasia terminou quando cheguei no alto da escada e vi que a porta
do meu quarto estava
escancarada - parei petrificada. Olhei para o quarto de meus pais. A porta estava bem
fechada.
Quando voltei-me, o que vi foi aterrorizante. Vi claramente o sapato de um homem atrás da
porta, e então ele apareceu, sorrindo. Era BOB. Com uma das mãos agarrou-me o pulso, e
com a outra tapou minha boca. "SHHHH." Com um tranco ele me puxou para dentro do
quarto. A porta bateu atrás de nós.
Pare. Só pode ser um sonho. Estou muito drogada. Não dormi. Não acorde mamãe e papai
agora ou saberão que estive fora. Farão perguntas às quais não poderei responder. Pense.
Eu comecei a pirar, fugindo e lutando contra os pensamentos, as palavras, a imagem
daquele lugar obsceno. Afaste-se de mim, BOB!
FAÇO O QUE EU QUISER.
Afaste-se desta casa! Deixe-me em paz ou juro que vou encontrar um jeito de você se
arrepender.
NÃO POSSO ME ARREPENDER, LAURA PALMER.
Veja onde estou por sua causa, por sua sordidez, sua fraqueza. Você é uma criatura nojenta.

NENHUMA CONSCIÊNCIA, NENHUMA CULPA. VOCÊ MESMA DISSE. VI QUE


VOCÊ SE FODEU NA NOITE PASSADA. UMA CORUJA ME CONTOU. ENTROU
MESMO NESSA TAL DE COCA,
NÃO? MENINA SUJA, LAURA PALMER, JÁ DEVIA SABER QUE NÃO PODE ME
IMPRESSIONAR... NÃO ESTOU INTERESSADO NO QUE VOCÊ FAZ COM SEUS
AMIGUINHOS VICIADOS. VOCÊS SÃO TODOS RIDÍCULOS.
Sai da minha cabeça. Agora!
NÃO.
Deixe-me em paz, seu cretino nojento. Como você ousa! Não quero você aqui! Vai embora!
Vai embora! Já estou cansada de aceitar você toda vez... Eu
odeio você. Sai!
ISSO NÃO DEPENDE DE VOCÊ, LAURA PALMER. DEVIA OBSERVAR ESSE EGO.
É
INACREDITÁVEL.
Vai se foder.
CHORAR TAMBÉM NÃO VAI ME IMPEDIR DE FICAR. SOU IMUNE À SUA AUTO
PIEDADE E SUAS QUEIXAS EMOCIONAIS E ADOLESCENTES, SUA PUTA
LÉSBICA E FODIDA. SOU A MELHOR COISA DA SUA VIDA.
Não é não. Isso não é verdade!
NÃO?
Pare de mentir para mim. Tenho coisas melhores na vida que você. Eu sei disso.
AH, É? DIGA UMA.
Meus pais.
DUVIDO. ELES NÃO ME IMPEDEM DE LEVÁ-LA, NÃO É? NENHUM DOS DOIS
CONVERSA COM VOCÊ COMO COSTUMAVAM. PARARAM DE FAZER
CARINHO EM VOCÊ HÁ MUITO TEMPO. ELES TOLERAM VOCÊ. EU SOU MUITO
MELHOR.
Donna.
A "MELHOR AMIGA" COM QUEM VOCÊ NUNCA CONVERSA? AQUELA QUE
VOCÊ TROCOU
PELAS DROGAS? VOCÊ ESTÁ REDONDAMENTE ENGANADA.
Tenho a mim mesma. Sou melhor do que você!
NÃO. EU TENHO VOCÊ. VOCÊ ME PERTENCE. NÃO FAZ NADA SEM MINHA
PERMISSÃO. DIRIJO SUA VIDA, FAÇO DE VOCÊ AQUILO QUE QUERO.
Não!
AINDA ESTOU AQUI.
Você não é real! Recuso-me a acreditar que você seja real! Estou só
imaginando você... eu crio você... eu posso parar! Você desaparecerá se eu
parar de acreditar.
TENTE NOVAMENTE. ESTOU AQUI HÁ ANOS E ANOS. SUA CRENÇA NÃO
ADIANTA NADA. SUA OPINIÃO É NADA. PENSE NISSO. VEJA A SUA VIDA.
VOCÊ FICA FODENDO POR AÍ COM AS PESSOAS. DROGAS O TEMPO TODO.
LOGO FARÁ DEZESSEIS ANOS. SUA VIDA É
MERDA E VOCÊ AINDA NEM TEM DEZESSEIS ANOS. OLHE-SE NO ESPELHO E
SE VEJA. VOCÊ É NADA.
O que... você quer?
QUERO VOCÊ.
Por quê? Para quê?
PRA ME DIVERTIR. ADORO OBSERVAR VOCÊ LUTAR CONTRA A VERDADE.
Que bosta de verdade?
SUA VIDA NÃO VALE NADA PARA NINGUÉM, INCLUSIVE VOCÊ MESMA.
FAÇO-LHE UM GRANDE FAVOR. EU A ENSINO. VOCÊ ME DEVE LEALDADE.
VOCÊ ME DEVE TUDO.
Eu não devo nada a você.
SOU A MELHOR COISA DA SUA VIDA.
Adeus!
EU ESTAREI POR AQUI.
Vai se foder.
LOGO, LOGO. EU IREI.
Pare.
VEJO VOCÊ À NOITE... LAURA PALMER.
Foda-se! Foda-se! Foda-se!
Fique longe de mim desta vez. Você está na minha cabeça. Ninguém mais pode vê-lo ou
ouvi-lo, portanto deve estar na minha cabeça. Não vou mais deixar você voltar a este
quarto. Nunca mais. Você é só uma idéia. É um medo. É só uma criação da menininha que
tem medo da floresta! Está vendo? Você não pode voltar agora, não é? Você não tem
nenhum poder se eu não lhe der... Desta vez vou mantê-lo longe. Esta é minha vida! É
minha! Você não tem lugar aqui... Ha! Eu tenho trabalho a fazer. Sono para dormir. Você
está morto. Não é sequer uma memória.
Laura
P.S.: OLHE PARA A JANELA, LAURA PALMER.

Posted by LAURA PALMER 12:32 AM

15 de dezembro de 1987
Querido Diário,
Desculpe por ter demorado tanto para escrever, mas tenho trabalhado muito! Há muita
coisa que você não sabe.
Em primeiro lugar, resolvi fazer um trato com os Horne. Notei, quando
estive lá na última vez, que Johnny parecia desanimado, até mesmo malcuidado. Triste.
Então propus a eles que tomaria conta de Johnny, três vezes por semana, durante pelo
menos uma hora, uma hora e meia por dia,lendo, conversando etc., por um pequeno salário.
Eles adoraram a idéia, e concordaram em me pagar cinqüenta dólares por semana, duzentos
ao mês. O dinheiro me ajuda bastante com a cocaína, mas o melhor é estar perto de Johnny,
porque ele me ama, não importa o que eu faça quando estamos juntos. Ele não me magoa,
não me provoca ou quer dormir comigo, não me amarra e não me corta, ou qualquer outra
das milhares de coisas que quero que as pessoas façam comigo o tempo todo... Elas sempre
falam e me levam para algum lugar, querem sempre mais, cada vez mais. Só o que Johnny
quer é que eu leia para ele. A Bela Adormecida é a sua preferida. Gosta de deitar a cabeça
no meu colo e olhar para mim enquanto leio. Reservamos sempre um momento para ver as
figuras, e em geral tenho que explicá-las, tanto quanto algumas partes da história, de um
modo que Johnny possa entendê-las melhor. Em geral ele me olha como se estivesse
confuso, perdido, como se tivesse medo de não estar entendendo nada.
Sempre paro quando vejo que ele está assim, e passo para uma outra coisa. Muitas tardes
vamos para o gramado na frente da casa e brincamos de arco e flecha. Ele tem aquele
búfalo de borracha no qual sempre atira. Dá um belo sorriso quando o acerta. É o seu
barato. É uma cena muito estranha. Johnny no gramado, a grama criando um tapete verde
sob seus mocassins, a flecha colocada no arco esticado, o sorriso. Ele atira depois de muito
se
concentrar. A flecha parece disparar muito lentamente, Johnny baixa os braços, ergue-se na
ponta dos pés, e espera... Bem no alvo. Ele dá um salto no ar, salta, salta... Vira-se para
mim e dá aquele sorriso de felicidade.
- Índios! - exclama.
Cumprimento-o pelo tiro certeiro, e encorajo-o a tentar outros. Ele sempre repete. Preciso
fazer muitas carreiras quando estou com Johnny, ou às vezes no banheiro... sempre que
sinto vontade.
É terrível quando perco a paciência com ele. Aconteceu uma vez e me senti muito mal, até
ter certeza de que ele esquecera o incidente ou me
perdoara.
Não entrarei em detalhes porque meu comportamento foi terrível. Em resumo, fiz uma
imitação de BOB diabolicamente convincente. Foi cruel. Nunca me senti tão mal. Fiz o que
pude para me desculpar e me explicar de todas as
maneiras tão logo aconteceu. Quis que ele soubesse que me dei conta e parei.
Saí e tirei um envelope e dois vidrinhos de dentro de minha bolsa para ficar bem doida.
Assim eu conseguia pensar melhor. Fica mais difícil quando estou sem nada. Por isso
Bobby e eu estamos nos vendo tão freqüentemente e de um modo tão inocente. Mas você
não sabia disso, não é?
Muito bem, espera aí. Preciso ir até o buraco da cama... e esticar umas duas linhas antes que
mamãe suba e me chame para lavar os pratos, recolher o lixo etc. Merda.
Não posso acreditar em como minha vida muda quando saio pela porta desta casa.
Voltarei assim que for possível.
Laura

Posted by LAURA PALMER 12:32 AM

16 de dezembro de 1987
Querido Diário,
Desculpe por ter se passado um dia inteiro, mas mamãe e eu tivemos uma conversa na
cozinha enquanto eu limpava os pratos, e isso durou quase quatro horas. Papai chegou e se
juntou a nós durante uns quarenta minutos, depois subiu para se deitar.
Acho que Benjamin quer que ele trabalhe em algum novo projeto. Papai
simplesmente revira os olhos quando mamãe e eu perguntamos do que se trata.
Às vezes acho que minha mãe e eu podíamos ser grandes amigas. De vez em quando olho
nos olhos dela e acho que já sentiu as mesmas coisas que eu.
Tenho a sensação de que ela é capaz de compreender minhas experiências, mas ela vem de
uma família e de uma geração que não gosta muito de falar de coisas que não a deixam
muito à vontade.
Talvez BOB não a deixe muito à vontade. Talvez papai também o conheça, mas mamãe
não queira conversar sobre ele porque ficamos todos muito... envergonhados... sei lá.
De qualquer maneira acho que a conversa foi boa, porque ela estava muito contente quando
subiu para dormir. Eu fiquei mais um pouco lá embaixo e
fui examinar a parede pela qual BOB sobe na minha janela. É surpreendente que ele ainda
não tenha se matado ou pelo menos caído.
Nas noites em que saio furtivamente sempre sou ajudada a descer. Será que consigo dar um
jeito de ele cair? Ele sempre encontra o caminho, e ainda quero Bobby Briggs entrando por
essa janela para me aliviar... uma transa rapidinha quando meus pais estão dormindo ou
fora de casa.
Foi isso também o que quis recuperar. Bobby Briggs. Estamos nos
encontrando como fazem os rapazes e as garotas da escola. É estranho. Estou me
encontrando mais com Donna atualmente, e ela está com Mike. Acho que estão bem, mas
eles me lembram um comercial de goma de mascar: "Felicidade e ambição, esporte e
educação." Ha, ha, ha!
Na semana passada consumi todo um envelope de cocaína para conseguir sair com eles
depois do cinema, comer um hambúrguer. Bobby e eu não estávamos a fim. Ele consumira
uma tonelada de porcarias enquanto víamos o filme, e eu estava alta demais para sequer
pensar em comer. Donna encheu a cara, e eu sabia que o resultado seria um monte de
espinhas e as roupas mais apertadas no dia seguinte. Aposto que ela ganhou uns bons
quilos. Mike é
um porco. Ele fica enfiando batata frita e hambúrguer dentro da boca, como se fosse
absolutamente desnecessário mastigar. Eu juro!
Também não gosto do jeito como ele olha para Donna. Preocupo-me com ela porque ele me
parece um idiota... acha que é um super-herói dentro daquela jaqueta de couro, o tempo
todo. Merda. Não estou nem aí. Donna não é boba.
Não posso acreditar que o dr. Hayward já não tenha dito alguma coisa.
Então, o motivo de estar me encontrando com Bobby dessa maneira, de irmos ao cinema,
jantarmos, estudarmos na casa dele, usarmos o carro do pai dele para ir a Pearl Lakes etc., é
porque finalmente ele concordou em vender
cocaína para Leo. Para mim. Há muito tempo que eu esperava por isso, mas
tive que prometer que agiria como sua namorada novamente. Então topei.
Quando estou a fim, ou quando quero cheirar. Gosto muito de Bobby, mas ele jamais
poderá compreender o que às vezes acontece comigo. O motivo de eu ir para a orgia com
Leo, o motivo de deixar que ele me amarre e às vezes bata em mim, o motivo de tudo isso,
além de um prazer estranho, é porque sinto que pertenço a lugares tenebrosos como aquele.
Pertenço a homens horríveis que na verdade são bebês chorões.Provoco-os e não demora
eles estão me chamando de "mamãe", e enfiando a cabeça no meu
colo para chorar suas mágoas... e depois eu digo a eles o que me devem fazer. É assim que
eles gostam. Pertenço a eles. Deve ser, ou não seria tão generosa com eles.
Digo a eles o que fazer comigo. Ordeno-lhes. E quando fazem, quando está bom e posso
dizer a eles o que estão tentando, começo a falar o que estou sentindo. Eles são demais!
"Vocês são muito, muito bonzinhos!" Digo que
mamãe está contente. E eles adoram. Homens e crianças, tudo ao mesmo tempo.
Todos eles, os amigos de Leo e de Jacques (preciso falar sobre isso!), são muito bonzinhos
comigo. Acho até que estão lá por minha causa. Não sei. Já me enganei antes.
Então Bobby vende o pó pela cidade, e Leo vende do outro lado da
fronteira, no Canadá. Em geral recebo a minha parte, e sempre que encontro
Leo ele me dá um vidrinho cheio ou um envelope.
Bobby consegue bom dinheiro e todos estão felizes. Não é isso o que
interessa na vida? Outro dia uma coisa me deixou chateada. Bobby e eu fomos tirar meu
dinheiro do cofre (eu não ia guardar milhares de dólares no buraco da cama), e ele me disse
que Mike ia ajudá-lo a a vender.
Fiquei louca da vida e disse que se ele fizesse isso - e se Mike contasse para Donna -, eu
jamais falaria com ele outra vez. Donna contaria ao pai dela. Eu tinha certeza. Isso eu não
suportaria. O dr. Hayward ficar
desapontado comigo... isso sim me mataria.
Bobby disse que ainda não tinha muita certeza se devia. Mas o fiz
prometer, e ele prometeu. Depois disso fomos para a árvore onde enterrávamos a bola de
futebol, perto da casa de Leo. A droga e o dinheiro eram trocados nessa bola de futebol.
Leo sempre caçoava de Bobby pelos lugares que ele escolhia como esconderijo. "O craque
do futebol", dizia. E Bobby é um craque. Pelo menos é o que pensam todos na escola.
Jacques disse que jogava futebol, até descobrir que não tinha que ser
socado por um bando de caras enormes o dia inteiro para conseguir dinheiro. Jacques vivia
na floresta numa cabana, junto com um papagaio chamado Waldo. Ele fala e sabe meu
nome perfeitamente. Jacques, Jacques Renault, trabalha do outro lado da fronteira em um
cassino qualquer. Ele é um cara grandalhão, gordo, mas às vezes me faz perder a cabeça. É
do tipo bebezão-homenzarrão, mas sabe um bocado de coisas sobre o corpo e uma mulher,
muito mais do que Leo.
Uma noite, fui por minha conta à casa de Jacques, ficamos muito loucos e entramos num
barato sexual dos mais estranhos. Eu estava num ponto que ele disse apenas "Mostre pra
mim, menininha... mostre pra mim", e eu topei.
Waldo repetia tudo o que dizíamos naquela noite, até quase amanhecer.
Quando voltei para casa ainda ouvia Waldo dizendo: "Mostre pra mim...
mostre pra mim... menininha... menininha". Foi nessa manhã que saquei que as orgias de
Leo aconteciam em frente à cabana de Jacques. A cadeira estava lá... Sentei nela e saquei.
Já, já eu volto. Tenho planos para esta noite.

Posted by LAURA PALMER 2:17 PM

21 de dezembro de 1987
Querido Diário,
O Natal já está aí. Comecei a procurar outro trabalho, alguma coisa que nem me paguem a
cada suas semanas... dinheiro de verdade. Mamãe está começando a ficar preocupada por
eu estar comendo tão pouco. Eu adoro. Juro que junca gostei tanto do meu corpo. Ainda
tenho seios muito bonitos, quadris bem torneados, mas sem as gordurinhas de antes.
Nenhum dos caras com quem saio tem se queixado. Todos acham meu corpo ótimo.
Preciso trabalhar para ganhar mais dinheiro, e também para dizer à mamãe que estou
comendo fora. É impossível continuar forçando a comida garganta abaixo como venho
fazendo.
Leo e Jacques me deram alguns exemplares de Fleshworld Magazine outra
noite. Abri e fiz algumas daquelas poses para eles, dancei um pouco, coisas que eu tinha
inventado... e eles ficaram me olhando, até nós três não agüentamos mais e começamos
uma brincadeira.
Sei que pode parecer sujo, mas só estou fazendo o que de repente costumava fazer...
Inventar um espetáculo para outras pessoas apreciarem, enquanto na minha cabeça
mergulho em um sonho. Uma platéia enorme, pelo menos cem pessoas. (Faço isso porque
quanto mais pessoas, mais me parece que está
tudo bem, e não que eu esteja fazendo uma coisa ruim ou proibia.) Todas elas, homens e
mulheres, ficam me olhando. Olham eu me mover, ouvem os pequenos sons que saem pela
minha boca quando começo a me excitar... Imagino um homem ou uma mulher... às vezes
os dois... e os vejo na primeira fila, completamente ligados. Digamos que seja um homem
para ser mais fácil de descrever. Então eu desço para a platéia, e estou usando alguma coisa
preta e
transparente, e o pego pela mão para levá-lo ao palco comigo. Ele não quer, mas eu
prometo que ele não vai ficar envergonhado e nem vou machucá-lo. Ele confia e vai para
debaixo dos refletores. Digo baixinho a todo mundo que acho o cara lindo e conto por quê.
Eu o descrevo para que ele adquira confiança e tenha uma ereção imediata. A platéia o
adora, tanto quanto eu. Em geral mudo o sonho a cada vez, mas ele sempre acaba com o
parceiro escolhido e eu trepando na frente de todo mundo.
Fico muito doida às vezes quando penso que BOB vai me ver nesse sonho e percebo que
finalmente vou ficar livre. Então eu tenho essas revistas para onde as pessoas mandam suas
fantasias para serem publicadas. Eu contei tudo isso ao Leo e ao Jacques quando eles me
deram as revistas, e eles ficaram ali se divertindo com as fantasias que às vezes tenho. Os
dois me aconselharam a enviar algumas e ver se seriam publicadas. Disseram que se eu
topasse, eles produziriam a fantasia exatamente como eu as escrevesse. Exatamente como
eu quisesse.
Acho que vou topar. Gosto da idéia de uma noite especial, planejada com antecedência por
Laura Palmer. Talvez eu escreva aqui essas fantasias para que você saiba exatamente o que
estou planejando, se elas forem publicadas. Vou pensar nisso.
Algumas fotos da revista são tão... sujas. Sujas até para mim, mas entendo por que algumas
pessoas se impressionam com elas. Em geral são fotos de pessoas em algum lugar, ou com
alguém totalmente inventado. Não há ontem nem amanhã. Nem horas nem minutos ou
regras, pais, manhãs, nada com que se preocupar. Gosto disso, mas algumas fotos são de
mulheres sendo capturadas e levadas por esses homens. Em geral não gosto muito dessas,
pela simples razão de que... Não sei, mas me lembram demais as visitas de BOB. As
mulheres são muito jovens, inocentes ou algo no gênero.
Gosto de ser levada por alguém, mas também gosto de provocar e de sugerir algumas
fantasias e idéias. Não gosto de medos, mentiras ou gritos, e
algumas das fotos são assim. Tudo bem com a escuridão no sexo, desde que ela seja
estranha, misteriosa, e não as trevas do inferno, dos pesadelos e da morte. Isso não é para
mim. Gosto de coisa boa. Que seja quase mal, mas que dê para brincar com o mal, e não
pegá-lo pela mão e enfiá-lo para dentro.
Preciso fazer compras para o Natal amanhã. Não tenho nenhuma idéia do que comprar para
ninguém. Acho que não seria bom querer ganhar cocaína no
Natal... uma tonelada de neve branquinha e macia em cima de mim.
Até mais, Laura

Posted by LAURA PALMER 2:17 PM

23 de dezembro de 1987
Querido Diário,
Terminei a jaqueta de Donna, e são 4h20 da manhã. Não estou conseguindo dormir e acho
que vou até a casa de Leo ou de Jacques atrás de um pó, ou quem sabe daquele Valium que
Jacques me deu há algumas semanas. Foi ótimo. Talvez eu telefone antes. Não gosto de
andar à noite pela floresta sem ter um bom motivo. Voltarei em um minuto,

Posted by LAURA PALMER 2:34 PM

Aqui de novo, e muito contente por não ter saído sem antes telefonar. Não sei se já contei
sobre a noite em que me perdi na floresta. Quase morri de medo da escuridão e fiquei ali
chorando até o céu começar a clarear e eu conseguir encontrar o caminho de volta.
Ofereceram-me uma carona para casa, mas como eu tinha medo que papai chegasse em
casa tarde, eu chegaria com Jacques ou Leo um pouco antes. Papai prefere sua filhinha
como ela sempre foi... talvez ainda seja... Não.
Bem, falei primeiro com Leo, e ele disse que estava com saudades. Shelley tinha voltado do
enterro da tia, e a herança que eles esperavam não veio. Ela teria que voltar na semana
seguinte porque tinha alguma coisa para
receber. Perguntou se eu tinha trabalhado na minha fantasia. Contei a ele que
trabalhara um pouco, mas precisava ficar menos louca para isso. Ele riu e
disse que Jacques queria me dizer uma coisa. Jacques pegou o telefone e eu me desculpei
por ter ligado tão tarde. Ele disse que só se incomodaria se eu não tivesse ligado, depois me
chamou de "amorzinho" e eu sorri, mas não disse nada. Disse que Leo contara a ele por que
eu tinha ligado, e que já tinha se
preparado para isso. Disse que no sutiã que eu estava usando outra noite, o de renda branca,
ele tinha escondido o meu presente de Natal. Pedi que ele esperasse um pouco até eu
encontrar, mas ele disse que Leo precisava usar o telefone. Shelley estava esperando que
ele ligasse de algum posto, fora do Estado.
Aposto que, por hora, ele não quer estar com ela. Eu desliguei e fui
procurar o sutiã na gaveta. O sutiã de renda branca é um dos preferidos de Jacques. Tem
um suporte de arame que faz meus seios ficarem muito bonitos. Encontrei-o... graças a
Deus eu não tinha tido tempo de lavá-lo!
Dentro do forro do bojo havia um pacotinho, do tamanho de um maço de
cigarros só que mais fino. Que sorte mamãe não ter encontrado! Quando abri, percebi que o
invólucro era uma página arrancada da Fleshworld, mostrando um cara com o corpo
parecido com o de Jacques, ajoelhado na frente de uma loira muito bonita. Acho que era a
mulher mais bonita que eu já vira nessa revista. Na foto, ela estava quase nua com um
papagaio no ombro, e o cara beijava os pés dela como se a adorasse. No pé da página
Jacques escrevera: "Lembrei de você, garota fantasia".
Dentro havia quatro Valiums, dois baseados, um quarto de grama de coca e um bastonete
prateado, novinho em folha. Fiquei tão excitada que quase me esqueci da hora, e ouvi
mamãe me chamar para saber se estava tudo bem. Voei para apagar todas as luzes, menos
uma, enfiei o pacotinho de volta no sutiã e joguei tudo embaixo da cama. Pus a jaqueta de
Donna no colo e fingi que tinha adormecido.
Pouco depois mamãe entrou no quarto, acordou-me delicadamente e me disse para deitar na
cama. Fui brilhante no papel da inocente filha adormecida. Beijei-a, murmurei alguma
coisa, e depois que ela saiu esperei uns quarenta minutos para me levantar. Peguei todos os
presentes, espalhei tudo sobre a colcha e fiquei brincando no escuro, até poder enfiar uma
toalha embaixo da porta e acender novamente a luz. Acendi apenas a do criado-mudo
porque era mais sexy que a grande no teto.
Entrei numa fantasia profunda, drogada, feliz, séria, obscena e ainda
assim inocente. Mais tarde eu conto... agora estou tão sonhadora... tomei
dois Valiums, cheirei outra carreira de coca e fumei meio baseado. Um exagero, mas quero
me foder se não me sentir absolutamente bem.
Acho que vou dar uma espiada nas Fleshworld antes que me escape. Ou eu conto a fantasia
que acabei de ter, uma outra idéia que tive ao folhear as
revistas.
Noite, noite. L

Posted by LAURA PALMER 2:34 PM

Dia de Natal, 1987


Querido Diário,
Estou na sacada, tentando sintonizar os cânticos natalinos em minha
cabeça. Mamãe os tocou a manhã inteira. Gosto do Natal, mas com minha cabeça como
está, mal posso suportar. Papai me pegou quando eu estava saindo e pediu para dançar com
a sua garotinha preferida. Acho que há anos papai e eu não dançamos.
Lembranças das festas em Great Northern, o borrão das bandeiras e dos
pratos e dos cristais entrando em minha cabeça, como eu os via quando papai e eu
rodávamos e rodávamos. Ele me girava com uma velocidade que fazia meu estômago
saltar, e nós ríamos, ríamos, ríamos.
Essa dança desta manhã foi na sala de visitas. As luzes das árvores já estavam acesas para
que mamãe pudesse preparar as comidas dentro do verdadeiro espírito natalino, e eu olhava
o vermelho, o verde e o azul
passarem por mim. Olhei dentro dos olhos de papai para não ficar muito tonta, e vi que eles
se acenderam, e uma lágrima se formou e escorregou devagar pelo rosto dele. O giro
diminuiu e ele me abraçou com força, segurando-me como se temesse alguma coisa.
Mamãe veio da cozinha e disse que ver papai e eu abraçados daquele jeito na frente da
árvore de Natal era o melhor presente que ela poderia
receber. Muitas coisas estranhas acontecem na vida. Na minha vida, quero dizer. Poucas
horas antes daquela dança eu
estava no meu quarto mergulhada num mundo completamente diferente. Espero jamais ter
que escolher entre esses dois mundos. Cada um me faz uma pessoa feliz por diferentes
motivos. Vim para cá para escrever a minha fantasia, mas está meio frio e bonito demais
para pensar nisso agora. Pelo menos aqui e agora. Vou até o Double R para beber um café
quente. Talvez encontre um reservado só para mim.
Volto logo.

Posted by LAURA PALMER 2:36 PM

Dia de Natal de 1987, mais tarde


Querido Diário,
Quando cheguei aqui, no Double R, imediatamente Norma me serviu uma xícara de café.
Perfeito. Disse a ela que queria escrever algumas coisas
particularmente, algo para a escola, por isso vim para o reservado em vez
de ficar no balcão.
Antes de me sentar, peguei minha xícara de café no balcão e notei uma
velha muito quieta, sentada dois bancos adiante. Ela estava mergulhada em um livro cujo
nome era Mortalha da Inocência. Ela virou a página, completamente absorvida pela leitura.
Vi em seu prato que ela tinha comido um pedaço de torta de cereja e começava a beber um
café.
Olhei para Norma, que sorriu, e eu balancei a cabeça como se dissesse "Que figura!" Uma
senhora de rosto bonito e delicado, que saíra para comer uma torta, beber um café e ler um
livro. Fui para o reservado e me sentei a
uma boa mesa. Já ia começar a escrever minha fantasia, quando... Shelley
Johnson surgiu do cômodo dos fundos.
A mulher de Leo é mais bonita do que eu me lembrava. Olhei para ela.
Examinei cuidadosamente seu corpo se mover, seu sorriso, sua voz. De repente me vi
hesitar entre entrar numa disputa ou não ter nenhuma chance com ela. Então ouvi ela dizer
alguma coisa a Norma sobre Leo. Algo como ele nunca estar em casa, ou quando está
querer sair. Eu tinha vencido.
Senti-me uma puta por estar pensando nisso, mas pensei, porque já há um bom tempo vinha
fazendo isso com ele... E vou continuar se ele quiser.
Sei que não era a isso que ela se referia, mas senti muita pena dela, ou jamais conseguiria
ver Leo novamente. Eu não sabia como lidar com essa
situação.
Fiquei observando a velha no balcão tentar se levantar para sair.
Obviamente era difícil para ela, e por um instante senti vontade de ajudar... mas Shelley se
adiantou.
Norma trouxe outro café e disse que aquela mulher ia muito lá, mas tinha muita dificuldade
de se movimentar. As muletas ajudavam, mas ela lutava
para dar cada passo, como eu podia ver.
Norma disse também que há muitos velhos em Twin Peaks que não têm quem cuide deles.
Não há para onde mandá-los... a menos que seja em Montana. A maioria preferia ficar aqui
mesmo. É mais tranqüilo. Em geral eles se sentem bem. Isso ficou na minha cabeça. Um
problema para ser solucionado. Eu poderia fazer mais do que ajudar a mulher a chegar até a
porta! Ah, a Laura
competitiva, frente e costas. Nunca mais tinha me sentido assim desde a
escola primária. Fiquei animada em descobrir um jeito de ajudar os velhos
que Norma mencionou.
Deixei um bilhete para Norma quando paguei a conta. Disse que gostaria de conversar mais
sobre um jeito de ajudar aquelas pessoas. Pedi a ela que me telefonasse quando pudesse.
Vou tentar pegar uma carona até a casa de Johnny com Ed Hurley. Posso
vê-lo daqui de dentro. Espero que ele esteja indo para aquele lado.
Logo nos falaremos, Laura
P.S.: Natal, à noite. Mais tarde eu conto, mas ouvi alguma coisa sobre "um telefonema que
perturbou Norma", na cafeteria.
Quando eu estava com Johnny ouvi Benjamin falando com o xerife ou algo assim. Vou
tentar saber o que foi mais tarde porque Benjamin ficou muito
chateado com isso.
Sei que Norma não me telefonaria logo porque Hank, o marido dela, a quem eu nunca vi
muito apaixonado, matou um homem na estrada ontem à noite,
acho que quando voltava do Lucky 21, na fronteira.
Seja como for, ele vai passar um tempo agora envolvido com um processo de homicídio
culposo. É bom que ele fique um tempo longe. Parece que Norma está sempre mal com ele.
Sinto muito por ela. Não por ele.

Posted by LAURA PALMER 2:47 PM

DIÁRIO SECRETO DE LAURA PALMER - 1988


(De Janeiro a Março)

3 de janeiro de 1988
Querido Diário,
O Natal foi interessante. Papai tirou três dias de folga e criou a maior dificuldade, sem
perceber, para eu conseguir me drogar. Tive que fingir
cólicas pré-menstruais para poder ficar sozinha em meu quarto.
Ao subir a escada, parei quando ouvi ele dizer: "Mas estamos no Ano
Novo... estou de férias... Por que ela quer ficar sozinha?"
Ouvi mamãe explicar naquela sua vozinha delicada e muito sábia que eu era uma
adolescente. "Os pais são uma chateação para os adolescentes,
Leland... Temos sorte que ela passe tanto tempo conosco. Ficou fora de
casa só por três horas durante o Ano-Novo, e voltou antes da meia-noite para celebrar
conosco."
Mamãe estava fazendo um bom trabalho, então prossegui meu caminho para o quarto, em
busca de privacidade e uma bem merecida carreira. Uma carreira cura todos os males.
Bobby e eu passamos um Ano-Novo realmente bom, como mamãe disse, durante três
horas. Das oito e meia às onze e meia. Fomos para o clube de golfe, onde cerca de trinta
casais tiveram o mesmo plano: pegar um cobertor e a droga de sua escolha (o álcool foi o
grande campeão, embora Bobby e eu tenhamos fumado um baseado), e ficar abraçadinhos
na grama olhando as estrelas.
Estávamos mais longe dos outros, mas perto o suficiente para ouvir,
enquanto fumávamos o baseado, os outros casais fazerem planos para o ano e
pedidos às estrelas. Bobby virou de lado e pôs o baseado na minha boca. Traguei, e lembro-
me de ter pensado: "Ele vai falar alguma coisa muito séria... estou sentindo".
Ele deu uma profunda tragada, segurou, olhou para cima, soltou a fumaça... olhou para
mim.
- Laura...?
- Oi, Bobby. - Eu estava me sentindo muito bem. Adoro um baseado.
- Laura, eu sinto muito que às vezes as coisas entre nós tenham que ser como são. Quer
dizer, gostaria que nós dois... eu não sei.
- Ah, Bobby, vamos lá. Eu estou ouvindo você. Continue.
- Não posso dizer por você, mas às vezes sinto que estamos tão próximos... Mesmo quando
não estamos dormindo juntos. Somos tão íntimos...
Virei-me de lado e apoiei a cabeça na mão. Há muito tempo não conversávamos. Também
estávamos bem chapados.
- Continue, eu concordo.
- Outras vezes... sei lá que diabo é o quê. É como se eu estivesse fazendo da minha vida
uma merda... toda a merda de Bobby Briggs... mas isso não me afeta como talvez devesse.
Entende?
Queria entender, então dei a dica. - Você quer dizer, há uma parte de você que vai à escola,
participa do coro, trabalha meio período, ou seja lá o que for, mas a outra parte, aquela que
sente e se importa com as coisas, está lá dentro adormecida?
- É... É mais ou menos isso. Mas estou perdendo o mais importante.
Ele me ofereceu a última tragada do baseado. Eu aceitei, e fumei enquanto ele ainda
segurava entre os dedos. Adoro o cheiro da pele de Bobby. Dei a última tragada, e ele
continuou.
- Estive pensando que você e eu estamos juntos só porque é isso que
esperávamos que fizéssemos. Isso faz sentido para você?
Concordei. Sabia o que ele estava dizendo.
- Eu não quero que fiquemos juntos por causa de um trato que fizemos
porque... quero dizer, Leo e toda a "neve" na casa dele. Às vezes acho que isso não tem
importância, outras acho que se você tivesse de escolher entre mim e a neve... Bom, acho
que eu perderia.
Baixei os olhos para o cobertor onde estávamos sentados. Tentei ver o
xadrez no escuro, mas só enxerguei vagas sombras do preto e vermelho que eu sabia que
tinha. Puxei um pedaço de lã nervosamente. Por fim consegui erguer os olhos para ele.
Disse-lhe que às vezes eu escolheria a coca sim, mas que eu escolheria a coca a qualquer
outra pessoa. Disse que não queria magoá-lo, ou a qualquer outro. Apenas sentia que às
vezes só era boa companhia para mim mesma, pelo que está acontecendo com a minha
vida.
Ele disse que talvez entendesse isso, mas queria saber se eu achava que a coca era o
problema.
Disse a ele, muito calmamente, que só tinha começado a gostar realmente da coca porque
não tinha que pensar em "problema" nenhum. E que gostava de maconha pela mesma
razão.
Lembro-me de dizer: "Não posso lhe contar nada, Bobby. Não posso
simplesmente. Entendo que você queira me deixar por causa disso, mas não
posso contar a você nem a ninguém". Eu sabia que a coca era um problema,
mas não era nada perto de BOB.
Ele não disse nada por um bom tempo. Depois me beijou. Beijou-me
longamente, e quando parou, e olhou para mim, disse que eu não conhecia
todos os problemas dele, e que ele tentaria entender as vezes que eu não
quisesse dar saltos de alegria. Algo mais ou menos assim. Depois disse que sentia que
pertencíamos um ao outro, pelo menos naquele momento.
As coisas ficaram estranhas pelo resto da noite. Não de um jeito ruim, mas diferente da
maneira como Bobby e eu costumamos ficar quando estamos juntos. Continuamos ali
durante horas, e depois, e isso estou dizendo
sinceramente, fizemos amor.
Sem jogos, sem controles, sem ego, sem maus pensamentos ou pensamentos sobre qualquer
outra coisa exceto sobre o que estava acontecendo. Foi fantástico. Nós dois achamos isso.
Sabia que amava Bobby naquele momento, e sei que o amo agora. Só queria saber se posso
me permitir ter qualquer um desses sentimentos puros e
maravilhosos sem criar problemas com BOB.
Por que sempre, sempre tenho que pensar duas vezes sobre minha vida e meus
sentimentos? Por que não posso simplesmente amá-lo, lutar junto com ele, beijá-lo etc.,
sem me preocupar se vou morrer por isso?
Por que outras garotas têm o direito de ser felizes? Por que não posso contar a verdade a
ele?
VOCÊ NÃO CONHECE A VERDADE.
Você está aqui.
ESPERTINHA.
O que você quer?
SÓ CHECAR AS COISAS.
Ótimo. Estou aqui. Já checou. Agora vá embora.
VI SUA LUZ ACESA SEIS NOITES SEGUIDAS.
Você e todo mundo que passou na rua.
LAURA PALMER... SEJA BOAZINHA.
Você nunca me ensinou isso.
BOA. DEFINIÇÃO: NÃO SER RUDE.
Já estou num ponto em que nada mais me importa, BOB. Faça o que tiver que fazer.
NÃO TENHO QUE FAZER NADA.
Que bom para você! Agora caia fora da minha cabeça!
QUERO COISAS.
Não consigo ouvi-lo.
NÓS DOIS SABEMOS QUE VOCÊ PODE.
Diário, estou aqui sozinha em meu quarto. Tive um dia maravilhoso, e agora estou sentada
na cama, por cima das cobertas, escrevendo em você. Sei que posso controlar isto. Sei que
posso VER BOB PORQUE ELE É REAL. UMA AMEAÇA REAL. PARA VOCÊ,
LAURA PALMER. PARA TODO MUNDO QUE ESTÁ PERTO DE VOCÊ.
SEJA BOAZINHA. FIQUE CONTENTE POR ME VER.
Nunca!
VOCÊ SÓ TORNA AS COISAS PIORES ASSIM.
Isso é impossível! Saia da minha cabeça, caralho!
GOSTO DAQUI. VOU FICAR MAIS UM POUCO.
Ótimo.
SEJA BOAZINHA.
Boazinha? Oi, BOB, é você? Que bom você ter entrado na minha cabeça. A porta está
sempre aberta, você sabe. Por que nós dois não vamos dar um
passeio na floresta, BOB? Vamos! Vamos dar um passeio. Podemos jogar o jogo de hoje. O
que vai ser... sexo?
NÃO. VOCÊ NÃO PRESTA.
Você está errado.
TENTE DE NOVO, LAURA PALMER.
Não vale a pena.
TENHO UM RECADO.
Recado de quem...?
DE UM HOMEM MORTO.
Estou ficando louca! Você não é real! É simples. Preciso procurar um
médico porque estou criando isto. Tenho que me cuidar. Calma. Preciso ter
calma.
RECADO: UM LUGAR ESTÁ SENDO GUARDADO PARA VOCÊ... LAURA
PALMER.
Pare!
VOLTO LOGO.
Está vendo? Você está na minha cabeça. Ninguém mais além de você sabe os detalhes do
meu sonho com a morte. Nem mesmo Bobby. BOB não é real.
Laura

Posted by LAURA PALMER 1:36 AM

7 de janeiro de 1988
AOS OLHOS DO VISITANTE
Sou algo constante
Um animal de caça
Tanto faz quantas vezes
Me atacam
Volto ao ninho
Sangrando
Eu fico.
Sou o maior dos tolos.
Uma falha no ciclo da vida.
Uma criatura sem nenhum
Respeito
Pela vida
Por si mesma
Por seus inimigos
Estou sempre ali
No caminho do inimigo.
Eu fico.
Não tenho nenhum respeito
Nada sobrou
Para o inimigo
Para o ninho
Para a planta
Para a caça.
Espero
Sem nenhuma escolha
Enfrento sua ameaça
Para levar esta criança
Pela mão até a Morte.

Posted by LAURA PALMER 1:37 AM

20 de janeiro de 1988
Querido Diário,
Tenho boas notícias.
Passei a tarde com Johnny. Ele estava especialmente de bom humor e decidi que o dia
estava bonito demais para ficarmos dentro de casa.
Fomos para o gramado que se estende diante da casa. Fomos para o gramado que se estende
diante da casa. É uma grande extensão de grama e flores, cuidadas o ano inteiro por um
batalhão de homens e mulheres de dedos
verdes e todo o resto também. É um lugar perfeito para se passar a tarde de sábado. Em
geral fico com Johnny às segundas, quartas e sextas, mas parece que ontem ele foi visto por
um especialista, e Benjamin pediu-me para ir hoje ao invés de ontem.
Entre mim e você, Diário, hoje é muito melhor para mim. Ontem, pela
segunda vez na vida, faltei na escola. Passei o dia todo no meu quarto,
reorganizando as coisas. Mamãe e papai viajaram às seis da manhã para uma
convenção e passaram o dia fora.
Arrumei as gavetas e comprei uma tranca para a porta. Foi fácil instalar porque é um trinco
de corrente. Algumas parafusadas mais tarde e minha privacidade estava garantida. Se tudo
fosse tão simples assim! Nem
perguntei aos meus pais se isso poderia incomodá-los, porque sei que eles
pensam que só vou me trancar quando estiver lá dentro. Não é bem assim, mas por
enquanto, até que eu consiga pensar em um motivo que eles aprovem, sem questionar... é
isso aí.
Mergulhei nos números mais recentes da Fleshworld Magazine e cheguei à conclusão que
está na hora de submeter minha fantasia a julgamento. Há um concurso só durante este mês,
"A Fantasia do Mês". O vencedor recebe duzentos dólares. Garante-se o anonimato,
embora seja necessário um endereço para correspondência. Meu cofre no banco dá direito a
seis semanas de uso gratuito de caixa postal. Vou lá mais tarde para cuidar disso. Não
haverá perigo nenhum se eu usar um pseudônimo.
Hoje ganhei um novo impulso. O tempo que passei com Johnny foi
maravilhoso, e eu diria até quase espiritual. Ficamos deitados de bruço na grama, um na
frente do outro, e ele quis que eu contasse várias histórias.
Assim que eu terminava uma, ele aplaudia e pedia: "História!" Também não queria que eu
lesse. Queria histórias reais. Experiências de vida. A primeira coisa que me passou pela
cabeça foi: isso é impossível. Não posso contar a ele nenhuma das minhas histórias. Mas
então me lembrei que eu não só tinha algumas histórias bastante adequadas como há muito
me esquecera do nível mental de Johnny. Poderia recitar uma lista de compras com a
entonação de um contador de histórias, e ele ficaria feliz do mesmo jeito. O que ele queria
era estar envolvido em uma conversa cara a cara, em algum tipo de interação. Falar, e não
conversar sobre alguma coisa.
Eu consegui parar de sentir pena de mim mesma e me lembrei das épocas mais felizes da
minha vida, tanto quanto das tristes. Cada história me ajudava mais do que a Johnny. Tive a
oportunidade de entender a que distância a felicidade estava de mim, e quanto eu sentia
falta dela.
Como você pode imaginar, basicamente tirei vantagem absoluta dessa
oportunidade, só por ficar tagarelando com alguém, história ou não,
ininterruptamente. Nenhuma pergunta, nenhuma comentário, nenhum julgamento
sobre quem eu era ou para onde eu iria depois que morresse. Johnny é o
melhor ouvinte que conheço.
Senti-me renovada e até entretida, graças às mímicas faciais de Johnny durante a conversa.
Ele sempre meneava a cabeça se estava entendendo... sorria quando eu sorria, e ao ouvir a
palavra "fim", usava toda a sua energia para me aplaudir.
Por volta de duas e meia da tarde, a sra. Horne, a quem me surpreendeu ver sem sacolas de
compras embaixo do braço e uma multa de trânsito na boca, chamou nós dois para
comermos alguma coisa. Quando olhei o relógio, levei um susto ao ver que quase três horas
e meia haviam se passado.
Antes que eu pudesse me levantar, Johnny me pegou pela mão e deu um dos maiores
sorrisos que já vi em seu rosto. Ele fechou os olhos, voltou a abri- os e disse a sua primeira
frase! Ele disse: "Eu amo você, Laura".
Poderia continuar escrevendo durante horas sobre como foi maravilhoso tudo isso, sobre o
incrível salto que foi para ele, tanto quanto para mim. Foi o maior elogio que já recebi na
vida.
Depois de comer fui resolver a questão da caixa postal. Vou ter que pensar muito bem
nessa fantasia. Talvez não deva escrevê-la aqui, nas suas
páginas, porque, a menos que seja editada, na verdade nunca aconteceu comigo. Ou será
que aconteceu?
Logo mais, Laura

Posted by LAURA PALMER 1:38 AM

1º de fevereiro de 1988
Querido Diário,
São tantas as minhas experiências sexuais que resolvi que é importante dar uma olhada ao
menos nas iniciais das pessoas com quem estive.

B.
B.B.
L.J.
R.P.
J.C.L.
T.T.R.
D.M.J.
C.D.M.
M.R.M.
D.G.
G.N.
G.P.
D.L.
M.R.
M.F.
R.D.
T.T.O.
K.M.Y.
S.R.
A.N.
M.D.
J.H.
M.F.
C.S.
B.G.D.
L.D.
J.H. E todos os desconhecidos que eu não vi - na cabana.
T.P.S.
M.T.
G.L.
J.S.
M.V.L.
C.S.
D.M.J.
A.W.N.
M.S.R.
D.D.
S.C.
H.P.
B.E.

Posted by LAURA PALMER 10:54 PM

9 de fevereiro de 1988
Querido Diário,
Uma coisa muito estranha aconteceu.
Saí furtivamente de casa ontem à noite para encontrar Leo e Jacques na cabana. Ronnette
deveria estar lá também, e eu estava muito a fim de vê-la. Aliás, há muito tempo que não
converso com uma mulher. Donna não entenderia tudo isto. Precisava desesperadamente de
uma amiga.
Comecei a andar, mas então resolvi chegar mais depressa (um grande erro), e fui para a
Rodovia 21 na esperança de pegar uma carona de uns três
quilômetros até a cabana.
Passaram-se cerca de quinze minutos e apareceu uma máquina enorme,
parecida com o caminhão de Leo, descendo a estrada. Ergui o polegar e, é claro, o
caminhão parou e a porta se abriu. Dentro da cabine havia quatro caminhoneiros bêbados e
muito drogados, pelo que pude perceber, vindos da cidade. Um deles me ofereceu cerveja, e
eu aceitei. Não porque quisesse, mas porque de repente tive medo de contrariá-los.
Disse onde queria descer, e pouco antes do ponto, terminei a cerveja e comecei a arrancar o
rótulo nervosamente. Saquei que não íamos parar. Disse ao motorista que íamos passar o
meu "ponto", e ele me disse que eu devia contar com isso ao pegar carona tarde da noite
com um corpo como o meu, me oferecendo como eu estava naquele jeans e naquela
camiseta.
Juro que eu não estava me "oferecendo" com aquela roupa, Diário. Meu único erro foi sair
da trilha pela floresta e ir sozinha para a estrada. Foi um grande erro, mas eu... nem pensei
nisso.
Passamos pelos Picos Gêmeos e continuamos subindo até um motel quase
destruído, e eu imaginei que estivesse fechado ou abandonado por causa da aparência. Mas
nem preciso dizer que esses caras já tinham dois quartos lá e basicamente me carregaram
para dentro de um deles. Gravei o número na porta: 207. Se eu conseguisse pedir ajuda,
saberia onde estava. Não tinha muita certeza se sairia de lá inteira.
Todos eles eram incrivelmente briguentos. Gritavam a todo o pulmão e se comunicavam
numa linguagem vulgar. Pensei então que se eu conseguisse me levantar sem que eles
percebessem, poderia correr mais que qualquer um
daqueles bêbados. Fui o mais cuidadosa possível, mas no momento em que me levantei,
três deles estavam em cima de mim.
- Aonde pensa que vai, benzinho?
- Hei, por que nós dois não vamos lá dentro e fazemos um número de dança particular? -
Esse era o mais feio de todos.
Eu sabia que se não fizesse alguma coisa logo, algo para manipular a
situação do meu jeito, eles se tornariam violentos e com certeza me estuprariam. Sabia que
não sairia de lá viva. Estava apavorada. Forcei um sorriso. - Ouçam... todos vocês. Um
deles me olhou como se eu fosse doida por estar tomando essas "liberdades". Contudo, ele
estava interessado no que eu ia dizer, porque fez os outros calarem a boca e se aproximar da
cadeira onde eu estava. Consegui arrancar outro sorriso de meu rosto e continuei: - Olha, se
vocês estão a fim de brincar... e vocês sabem o que estou dizendo... então vamos fazer a
coisa direito, tá?
Um deles, o mais jovem, e o único que parecia demonstrar algum interesse por mim,
sugeriu aos outros que ouvissem o que eu tinha a dizer.
Endireitei-me na cadeira e olhei para cada um deles, cuidadosamente. Pensei, vamos lá. Ou
você convence esses caras, ou provavelmente vão estuprar e matar você. Não vá deixar que
gente desse tipo acabe com a sua vida. Vá inventando alguma coisa enquanto vai em frente,
Laura.
- Bom, eu não tenho nada contra bebida, drogas ou sexo, desde que seja tudo dentro da
medida. Não tenho nada contra uma trepada, bancar a mamãezinha ou a menininha...
principalmente a menininha. E nem vou me negar a fazer meu show especial, pra todos
vocês.
Os quatro balançavam a cabeça e arrotavam, os olhos cada vez mais
arregalados.
- Acho que todos vão gostar muito do meu show... vou inventar algumas
coisas novas; o que vocês quiserem que eu faça, é só dizer no meu ouvido... Vamos fazer
uns joguinhos, tá? Mas vamos ter que fazer um trato: vou pegar uma carona de volta para a
cidade, e sair daqui do mesmo jeito que entrei. Sem violência.
Um deles achou que era macho demais para isso e disse: - Dou um murro na sua cara se
estiver a fim, sua puta.
Respirei fundo para me controlar; inclinei-me na direção dele como se
fosse fazer uma confidência. - Se você sentir vontade de me bater, como
acabou de dizer, de dar um murro na minha cara, eu não poderei fazer... a
minha parte. - Engoli em seco. - Pode me chamar de puta, do que quiser, mas vamos fazer
do meu jeito, tá...?
Precisei de uns quarenta minutos mais para que eles aceitassem em assistir ao meu show e
parar com todas as atitudes agressivas e os gritos. Por fim ofereci um Valium a cada um na
cerveja e pedi que sentassem na cama,
bebessem, que eu ia começar. Jamais senti tanto medo, eu juro. Esqueci dos pesadelos, dos
carros em alta velocidade em pista molhada, esqueci até de BOB, simplesmente porque,
comparado àquilo, eram quatro para um. E cada um deles era grande o suficiente para me
comer inteira como aperitivo antes do almoço.
Eles se sentaram na cama, menos um deles, que eu pedi para ficar na porta para que
ninguém pensasse que eu estava planejando fugir. Coloquei a
cadeira no meio do quarto. Uma cadeira de madeira com encosto alto... quase perfeita. Dei
alguns passos pelo quarto e apaguei todas as luzes. Comecei a tirar a roupa devagar, e cada
peça que eu tirava, tentava me lembrar onde a "jogava" (se eles apagassem conforme eu
esperava), para me vestir depressa e dar o fora.
Eu falava comigo mesma. Imaginava estar chapada para conseguir relaxar. Eu morria de
medo que algum deles fosse saltar em cima de mim e dizer: - Você é demais, benzinho. -
Mas não aconteceu.
Lentamente dei início à seqüência da "menininha perdida na floresta"... o número preferido
de Leo e Jacques porque eu me transformava em "Mamãe" muito depressa.
Eu rezava para conseguir mantê-los ligados o tempo suficiente de suas
pálpebras começarem a pesar. Fui até o cara que estava na porta, provavelmente o menos
perigoso, ergui a mão dele, que estava surpreendentemente relaxada, coloquei-a sobre meu
seio e falei suavemente
com ele.
Passaram-se uns bons quinze minutos até que ele começasse a me tocar e entrar realmente
numa conversa comigo, e pude senti-lo se entregar, exatamente como Jacques. Um outro
começou a ficar enciumado e disse: - Ei, que tal vir aqui?
- Calma, rapazes, eu não estou cansada. Jamais me chateio, e não me
esqueceria nunca de quem está aqui.
Tinha que manter todo mundo feliz. Girei a cadeira e pedi ao cara que
estava comigo para se ajoelhar. Falei suavemente com ele para que isso não parecesse uma
ameaça, e comecei a dançar. Dei a volta pelo quarto...
prestando atenção a cada um deles... admirando-os, nenhum problema com
eles... mentindo... (Ninguém parecia ter sono!) Por fim voltei para a cadeira. Em seguida
começou a parte mais quente de todo o número... uma seqüência agitada de senta-e-gira
durante a qual todos eles se inclinaram para olhar mais de perto o que eu fazia. Continuei
com isso e caprichei ao máximo... prolongando quanto pude.
Fiz o que foi possível inventar para mantê-los física e emocionalmente intoxicados. Todos
pareciam cansados, mas ainda conseguiam aplaudir e assobiar.
Para resumir, foram três horas disso até eles apagarem e eu ficar apenas com um. Um
grandalhão meio bobo, com uma barba de três dias e olhos
esbugalhados. Disse que eu tinha hipnotizado todo mundo. Perguntei se ele queria ir para o
outro quarto. Ele tinha a chave. Me aproximei do ouvido dele e perguntei: - Que tal no
caminhão?
- Claro, a escolha é sua, benzinho.
Então juntei como pude as minhas roupas, menos as meias e o sutiã, e me aventurei pela
noite, tentando pensar num jeito de sair daquele lugar... o
mais rápido possível. Tinha que dar o fora. Me drogar. Chegar em casa.
Tão logo foi possível, sentei no banco do motorista e convidei o cara
fazendo biquinho com os lábios. Ele escorregou rapidamente pelo assento de vinil.
Mergulhou a cabeça em meus seios, e eu pensei, agora, Laura,
encontre a garrafa com a outra mão... ali! Não vá tão depressa. Mantenha-o distraído, e
BAM!
Acertei a cabeça do cara com a garrafa e começou a sangrar. Ele sangrava por todos os
lados. Saltei do caminhão e comecei a correr, quase nua... mas e daí? Queria me livrar
daqueles caras antes que eles percebessem o que eu tinha feito.
Fui para a cabana de Jacques na esperança de que ele e Leo estivessem lá, ainda com
Ronnette. Quando cheguei, estava pálida, emocionalmente abatida. Explodi em lágrimas e
caí de joelhos no chão. Ronnette me ajudou a deitar. Eu não parava de chorar! E ainda
sentia vergonha de ter conseguido escapar daquilo tudo da maneira como fiz... Sentia-me a
pessoa mais suja do mundo! BOB tinha razão, ele tinha toda a razão.
Agarrei-me ao braço de Ronnette e a ouvi dizer: - Ela está toda suja de sangue, vou ter que
limpá-la. Esse sangue só vai fazê-la sentir-se pior.
A próxima coisa que me lembro é acordar na minha própria cama, com um
bilhete preso no meu pulso:

"Querida Laura,
Tentamos fazer o possível para acalmá-la, mas você estava histérica... e só pedia para voltar
para casa. Acho que ninguém nos ouviu entrar, mas se isso aconteceu, conte a eles o que
aconteceu. Agora está tudo bem. Você estava muito assustada... Quem sabe a gente se
encontra logo para conversar um pouco ou qualquer outra coisa, tá?
Ronnette"

Então foi essa a minha noite. Você pode estar achando que aprendi, mas acho que por
alguma razão isso não aconteceu.
Tenho pensado, desde que acordei esta manhã, que meu show para aqueles caras poderia ter
sido melhor! Minha cabeça não consegue pensar em outra coisa, como uma fita que se
repete num gravador, só que a cada vez o show vai ficando melhor, mais relaxado... Digo
coisas mais excitantes. Para dizer a verdade, estou pensando em sair e procurar por aqueles
caras!
Devo estar ficando louca... isso tudo está errado! Eu sou totalmente
errada!
Falamos depois, Laura

Posted by LAURA PALMER 10:55 PM

4 de março de 1988

Querido Diário,
Ontem passei o dia com Donna, e vi que não temos mais nada para dizer uma à outra. Claro
que conversamos, e ela falou dela, mas o tempo todo eu não
pensava em outra coisa que não fosse ir embora. Podia sentir murinhos perfeitos e puros se
fechando à minha volta.
Ela me levou para o quarto dela, fechou a porta e começou a me contar que ela e Mike logo
iriam transar. Eles estavam fazendo todos os planos. Seria terça-feira à noite...? Não me
lembro. Então ela me contou isso e esperava que eu dissesse: - Uau, Donna! Você tem
certeza de que quer isso mesmo?
Pareceu-me, então, que Donna ia indo muito bem com o melhor amigo de
Bobby, Mike. Lembra-se dele? O comercial de goma de mascar? Só posso desejar que ele
seja gentil com ela. Continuo achando ele um idiota... mas não tenho que trepar com ele,
certo?
Divirta-se, Donna.
Laura

Posted by LAURA PALMER 11:07 PM


10 de março de 1988
Querido Diário,
Eu estava aqui sentada no meu quarto, pensando em Bobby. Antes não
tivesse contado a ele o que aconteceu com os caminhoneiros, porque desde então ele não
falou mais comigo. Só contei a verdade, exatamente como
combinamos na noite de Ano-Novo. A gente quer ser sincero... A gente diz
que se ama... Só fiz o que fiz para sair viva de lá.
Benjamin Horne acabou de telefonar. Mamãe gritou lá de baixo que era para mim, e que era
Benjamin Horne. Minha primeira pergunta, antes mesmo de
dizer "alô" foi: "Johnny está bem?"
Ele me pediu para sentar. Eu sabia que papai estava em casa, mamãe também... Johnny
estava bem... "O que foi?
Ele disse que Troy tinha sido encontrado de manhã nas trilhas perto da fronteira. Tinha uma
perna quebrada, e estava sem três ferraduras... sem falar de seu total estado de desnutrição.
Ele não conseguira encontrar
comida. Benjamin disse que era mesmo Troy por causa da marca do Broken
Circle gravada nele.
Disse também que vira o guarda da fronteira atirar nele. Dois tiros na cabeça. Disse que
parecia que alguém o tinha soltado. Prometeu pelo telefone que encontraria essa pessoa
horrível e ela ficaria sabendo o que
fizera com um pônei tão bonito.
Eu desliguei.
Olhei à minha volta, e tudo começou a ficar cinza, preto, cinza, preto... Sou tão má! Para
todo lado que me volto as coisas me dizem que sou uma pessoa maligna, errada, maldosa...
Como fui capaz de fazer uma coisa dessas com Troy?
Se eu não fosse tão terrível, sairia, agora mesmo, para me encontrar com ele. Iríamos os
dois para os campos onde poderíamos sobreviver de alguma
maneira.
Não acredito no que está acontecendo com a minha vida! Como é possível que um dia seja
tão precioso, e o outro um pesadelo... um sonho mau que me leva para a morte...
exatamente neste instante.

Posted by LAURA PALMER 11:20

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