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A tolice das multidões

Investidores tendem a perseguir a última moda


07 de Abril de 2011 | The Economist

Ao ver uma multidão fora de uma loja de departamentos, pressupõe-se que há uma grande
liquidação. Se a fila for à porta de um banco, há uma boa chance de que os depositantes
estejam tentando sacar seus fundos. Em ambos os casos, as ações de outras pessoas são um
sinal de que segui-las pode nos ser útil.

Mas será que a sabedoria das multidões se aplica aos investimentos? Quando ativos estão em
picos de alta, vale a pena fazer exatamente o oposto das massas. Bolhas ocorrem quando a
população cria uma euforia por uma classe particular de ativos, sejam ações de tecnologia no
final dos anos 90, ou imóveis na metade dos 2000. A história diz que, em 1929, Joseph
Kennedy vendeu toda sua carteira de ações quando soube que um engraxate (em algumas
versões, um menino ascensorista) estava dando dicas de ações.

Contudo, bolhas são raras. No curso normal dos eventos, seguir a multidão pode ser até mais
rentável. Afinal, os vigilantes da Renda-fixa precisam manter um olho desconfiado para a
inflação, enquanto na bolsa deveriam prever as recessões vindouras.

Para investigar o sucesso nos investimentos das masssas, The Economist pediu à Morningstar,
uma empresa de pesquisa de investimentos, qual o fluxo de dinheiro que cada um dos Fundos
de Investimentos americanos recebeu e seus dados de desempenho e rentabilidade. Em seguida
aplicou alguns testes simples. Será que investidores preferem fundos que tiveram bom
desempenho nos últimos 12 meses? E essa estratégia voltou a render bons frutos nos 12 meses
após esse investimento?

O gráfico mostra que multidões tendem a ser mais tolas do que sábias. Os fundos que mais
receberam dinheiro dos investidores foram aqueles que tinham sido muito rentáveis nos
últimos 12 meses, geralmente ganhando da concorrência em 2% ao ano. Infelizmente, nos 12
meses seguintes, esse mesmo setor foi pior do que a média em torno de 3%. Em cerca de 60%
das ocasiões, o retorno do setor mais popular, piorou após tornar-se popular.
Todavia, o comportamento da turba pode ser útil, pois mostra exatamente aquilo que se deve
evitar. Aqui há uma boa notícia e uma má notícia: os chamados “fundos párias”, aqueles que
vão contra-a-maré, superam os fundos de setores mais populares, mas não conseguiram superar
o retorno médio geral.

Outra forma de analisar quão videntes são os investidores é verificar como eles se saíram na
escolha dos melhores fundos, analisando um período de 12 meses qualquer, após terem
investido em algum fundo. Como os grandes sucessos normalmente são muito específicos,
como China, imóveis ou América Latina, eles não recebem grandes aportes de investidores. A
maioria dos investidores americanos acaba escolhendo ações de blue chips ou títulos do
governo. Aqui, novamente verificou-se que investidores estão muito mais pra Nostraburros do
que Nostradamus. Incrivelmente, os fundos que tiveram os piores desempenhos nos 12 meses
seguintes, forma aqueles que receberam mais capital do que a média, U$ 166 milhões, contra
U$ 72 milhões dos fundos que tiveram os melhores desempenhos.

Talvez investidores fiquem cegos pelos conselhos que recebem. As previsões dos Bancos de
Investimentos são as mais usadas para prever o preço das ações e rendimentos de longo prazo.
Mas nos últimos 25 anos, a previsão desses Bancos nunca sugeriu um crescimento menor do
que 10% ao ano para as empresas norte-americanas.

Essas previsões não passaram nem perto da realidade. Elas sempre exageram para mais,
chegando a níveis absurdos. No ano 2000, pouco antes do crash das pontocom, esses bancos
estavam fazendo previsões que o mercado continuaria subindo a níveis absurdos. Os gurus não
eram mais espertos que seus seguidores.

(N.T.- mais em função da falta de escrúpulos do que ignorância.)

A multidão só é sábia se as pessoas pensarem a mesma coisa individualmente. Por exemplo,


em um concurso de adivinhar quantos quilos tem um boi, vários fazendeiros podem pensar
independentemente valores similares. Contudo, no momento em que se sabe o que o outro está
pensando, essa influência leva ao erro.

(N.T. – Alguns estudos constataram que as pessoas preferem perder com o grupo a serem os
únicos do mesmo grupo que deixaram de ganhar. Um exemplo comprovável é fazer um bolão
de loteria entre amigos. Todos contribuem, ainda que com valores ínfimos porque, no caso da
vitória não foram “burros” de não apostar e, na derrota, são apenas mais um.)

Talvez as pessoas estejam programadas para seguir o rebanho. Warren Buffett repete um conto
de um explorador de petróleo que chega aos portões do céu, mas São Pedro lhe diz que as
vagas para garimpeiros estão todas preenchidas. O explorador se inclina por entre os portões e
grita “Ei rapazes, descobriram petróleo no inferno!” Uma debandada de homens com pás e
picaretas sai correndo do céu. São Pedro então convida o homem a entrar no céu. “Não
obrigado,” diz o garimpeiro. “Eu vou até o inferno checar aquele boato do petróleo. Vai que é
verdade...”

Tradução: Helio Henrique Winter