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Publicado originalmente em: TOLEDO, Marleine P. M. e F. de. Cultura brasileira: o jeito de ser e de viver de um povo.

São
Paulo: Nankin Editorial, 2004. P.202-251.

A formação da Amazônia e seu lugar no Brasil


Kelerson Semerene Costa

1. Amazônia: variações do conceito

Há meio século, ao tentar esboçar um conceito de Amazônia, Eidorfe Moreira (1912-


1989) ressaltava as dificuldades da tarefa, afirmando tratar-se de “uma região muito difícil de
definir ou delimitar, a começar pela plurivalência do sentido do termo que a nomeia, que
tanto pode significar uma bacia hidrográfica como uma província botânica, um conjunto
político como um espaço econômico”.1

As dificuldades apontadas pelo geógrafo paraense persistem e, ao escrever sobre a


grande porção setentrional do território brasileiro, um problema conceitual ainda se impõe:
afinal, a que, exatamente, nos referimos ao empregarmos o conceito de Amazônia? Na
verdade, existem vários conceitos — formulados a partir de diferentes critérios e que se
prestam a diferentes finalidades —, projetados sobre territórios que se sobrepõem e se
confundem em larga medida, embora nunca sejam coincidentes.

De fato, pode-se falar sobre a Amazônia como, por exemplo, um bioma2. Embora os
conceitos de bioma e de ecossistema sejam relativamente recentes, estando vinculados ao
desenvolvimento da ciência da ecologia ao longo do século XX, a unidade que eles
estabelecem para a Amazônia havia sido apontada, em linhas gerais, por Alexander von
Humboldt (1769-1859), em sua grande viagem de estudos pela América, entre 1799 e 1804,
em companhia do botânico francês Aimé Bonpland (1773-1858), quando se referiu pelo
nome de Hiléia ao conjunto das florestas úmidas do norte da América do Sul que recobrem
as áreas drenadas pelas bacias do Amazonas e do Orenoco.

Mas, se esse maciço verde possui, efetivamente, características que permitem defini-
lo em sua unidade, ele não é, contudo, homogêneo. Basta lembrar, inicialmente, a
tradicional distinção entre várzea — as planícies sazonalmente inundáveis das margens do
Amazonas e de alguns de seus afluentes — e a terra firme. Porém, além dessa distinção,
que tem importantes implicações para a história e a cultura regionais, o bioma Amazônia
apresenta inúmeras outras diferenças que permitem reparti-lo, pelo menos na sua porção

1
Eidorfe Moreira, “Conceito de Amazônia”, in: Obras completas de Eidorfe Moreira. Belém, Cejup, 1989. p.11. O
estudo teve sua primeira edição em 1958. Eidorfe Moreira nasceu em João Pessoa (PB), mas com menos de
dois anos de idade chegou em Belém, onde faleceu aos 77 anos.
2
Bioma é uma “unidade biótica de maior extensão geográfica, compreendendo várias comunidades em
diferentes estágios de evolução, porém denominada de acordo com o tipo de vegetação dominante (...). Pode
ser entendido como um conjunto de ecossistemas terrestres, caracterizados por tipos fisionômicos semelhantes
de vegetação, vinculados às faixas de latitude.” IBGE, Indicadores de desenvolvimento sustentável: Brasil 2004.
Rio de Janeiro: IBGE, 2004. p.363.
brasileira, em 23 ecorregiões. Cada uma dessas ecorregiões apresenta tipos de vegetação,
bem como elementos da fauna, que não são necessariamente encontrados nas demais.
Muitas delas são definidas pelas grandes áreas que separam os afluentes do Amazonas, os
chamados interflúvios. Assim, por exemplo, as florestas úmidas situadas entre os rios
Madeira e Tapajós são distintas das florestas úmidas que medram entre o Madeira e o
Purus ou entre o Tapajós e o Xingu. É como se esses grandes rios atuassem como
barreiras naturais à propagação de determinadas espécies animais e vegetais, confinando-
as a espaços restritos da floresta que assumem, assim, características singulares em
relação ao todo. Entre as diversas ecorregiões, encontram-se, também, além de florestas,
as planícies inundáveis, as savanas das Guianas, a vegetação dos tepuís, no norte do
Amazonas e na Venezuela, compondo um cenário ainda mais diverso. O bioma Amazônia
encontra seus limites ocidentais nos flancos da cordilheira dos Andes, envolvendo a
Colômbia, o Peru e o Equador. Ao norte, inclui também as bacias hidrográficas do Orenoco,
na Venezuela; do Essequibo, na Guiana; do Oiapoque, na fronteira do Brasil com a Guiana
Francesa; e do Araguari, na porção central do estado do Amapá.

Também é usual falar de Amazônia como sinônimo de bacia hidrográfica, ou seja, a


área drenada pelo rio Amazonas e seus inúmeros afluentes. Cerca de 2/3 dessa superfície
estão em território brasileiro, e o restante se distribui por outros seis países — Bolívia,
Colômbia, Equador, Guiana, Peru e Venezuela, atingindo mais de seis milhões de
quilômetros quadrados. Ao considerar rigorosamente os limites da bacia, ela alcança, por
exemplo, áreas situadas no altiplano boliviano, muito próximas de La Paz, onde se
encontram as mais remotas nascentes do Beni, um dos formadores do rio Madeira, que está
entre os mais importantes afluentes do Amazonas. A bacia alcança, também, altitudes de
até quatro mil metros na cordilheira dos Andes, onde nascem, em território peruano,
equatoriano ou colombiano, alguns significativos tributários do grande rio — o degelo que
ocorre anualmente nos cumes andinos contribui com grande parcela da água que escoa
pela bacia amazônica.

Considerar a bacia amazônica em sua unidade e totalidade é indispensável para os


estudos em hidrologia, como os que estão sendo desenvolvidos, desde a década de 1980,
pelo projeto Hidrologia e Geoquímica da Bacia Amazônica — HiBAm, fruto da cooperação
entre o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), do Brasil,
e o Institut de Recherche pour le Dévellopement (IRD), da França. Como os estudos desse
tipo investigam, entre outros aspectos, os diversos fatores que determinam o regime dos
rios, a composição química das águas, bem como as características dos sedimentos sólidos
que elas transportam, devem ser incluídas em seu raio de abrangência todas as áreas que
sejam fontes de água e de matéria erodida. Porém, ao ser tão abrangente, o conceito de

2
bacia amazônica inclui, necessariamente, áreas pertencentes a domínios naturais e
unidades culturais com características muito próprias, como os Andes e o Altiplano, ao
mesmo tempo em que exclui boa parte do estado do Pará, inclusive a cidade de Belém — o
centro a partir do qual se realizou toda a colonização do norte brasileiro —, pois o rio
Tocantins — que, junto com vários outros menores, forma o rio Pará, banhando a histórica
capital — não é afluente do Amazonas, mas o principal curso d’água de uma bacia
independente. Além disso, como partes do bioma Amazônia são banhadas por outras bacias
hidrográficas e, inversamente, a bacia amazônica alcança outros domínios naturais, seus
limites não são coincidentes, embora suas dimensões sejam semelhantes.

A extensão do bioma e da bacia hidrográfica por uma superfície correspondente a


quase metade da América do Sul permite-nos falar, também, de particulares “amazônias
nacionais”. Além do Brasil, possuem territórios amazônicos a Bolívia, a Colômbia, o
Equador, a Guiana, a Guiana Francesa, o Peru, o Suriname e a Venezuela, por participarem
da bacia hidrográfica e/ ou do bioma. Em alguns casos, essas regiões representam a maior
parte do território nacional. No Peru, por exemplo, a Amazônia, a depender do critério
adotado para estabelecer seus limites, nas encostas andinas, pode corresponder a 61% ou
74% da superfície do país. Na Bolívia, ela corresponde a 75% da superfície do país. E, para
além das fronteiras, fala-se em uma Amazônia Continental, ou Pan-Amazônia. Esse
conceito foi assimilado tanto pelos Estados nacionais — que, em 1978, assinaram o Tratado
de Cooperação Amazônica — como pelos movimentos sociais que, no âmbito dos debates
desencadeados pelo Fórum Social Mundial, organizaram, em 2002, o Fórum Social
Panamazônico.

Um conceito que se mantém confinado nas fronteiras nacionais brasileiras, e que é


preciso, pelo menos quanto aos limites geodésicos, é o de Amazônia Legal, criada por lei
federal em janeiro de 1953. Após diversos ajustes, seu território hoje compreende os
estados do Acre, Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins, e
toda a porção do Maranhão a oeste do meridiano de 44°W. Sua criação está relacionada a
critérios de planejamento do Estado brasileiro para ações de fomento em áreas pouco
desenvolvidas, e foi definida como área de atuação da Superintendência do Plano de
Valorização da Amazônia — SPVEA. Portanto, por envolverem também as áreas de cerrado
do Mato Grosso e do Tocantins e, até mesmo, partes do pantanal, bem como parte da bacia
do rio da Prata, inclusive as nascentes do rio Paraguai, os limites da Amazônia Legal não se
prendem aos critérios da ecologia e nem da hidrografia.

Embora possa assumir todos aqueles significados que acabo de enumerar, foi como
expressão das particularidades locais que o conceito de Amazônia encontrou suas origens,
forjado nas últimas décadas do século XIX — cerca de 70 anos antes dos estudos do

3
geógrafo Eidorfe Moreira, portanto —, quando teve seu emprego difundido, em momento de
afirmação de identidades regionais. Até então, a divisão política regional do Brasil restringia-
se a províncias — ou estados — do Norte e do Sul. Com o mesmo sentido surgiria — já na
República Velha (1889-1930) — a expressão Nordeste, empregada para designar uma
unidade regional estendendo-se do Maranhão à Bahia.3

Registram-se, então, os esforços de alguns intelectuais paraenses em explicar — ao


mundo e aos brasileiros das demais regiões — o significado do termo Amazônia. Um
exemplo expressivo é a obra As regiões amazônicas, de José Coelho da Gama e Abreu, o
Barão de Marajó (1832-1906) — que foi presidente das províncias do Pará e do Amazonas,
bem como intendente da cidade de Belém. Publicada em Lisboa, em 1895, e redigida de
modo a apresentar a região na Exposição Universal de Chicago no ano seguinte, nela, o
conceito de Amazônia aparece intimamente associado à idéia de uma identidade coletiva,
quando Gama e Abreu define como “filhos da Amazônia” os nascidos nos dois estados
“banhados pelo Amazonas”.4 Além disso, ao referir-se a uma identidade coletiva — que se
distingue e mesmo opõe-se ao resto do Brasil —, o termo Amazônia refaz uma comunidade
— o antigo Grão-Pará — que, no plano político-administrativo, havia-se desfeito com o
desmembramento das duas unidades do Império e a criação da província do Amazonas,
separada da província do Pará, em 1850.

Outro exemplo significativo pode ser encontrado na obra de José Veríssimo (1857-
1915). Ao dirigir-se aos leitores da capital da República, em um conjunto de artigos
publicados pelo Jornal do Brasil no ano de 1891, reunidos sob o título A Amazônia, após
defini-la como “a vasta região ocupada pelos dois Estados do Pará e do Amazonas”, chama
a atenção para as singularidades históricas e geográficas que a distinguem do restante do
Brasil e aponta a sobrevivência, ainda naqueles primeiros anos da República, de tendências
separatistas, alimentadas não apenas por aquelas singularidades como também por um
longo histórico de motins e guerras civis. Como observaria o mesmo José Veríssimo, alguns
anos mais tarde, a Amazônia seria muito maior se definida estritamente sob critério
geográfico, ao abranger toda a bacia do rio Amazonas, compreendendo, além de Amazonas
e Pará, territórios que então correspondiam ao Mato Grosso, ao norte de Goiás, à Bolívia,
ao Peru, ao Equador e à Colômbia. Mas Amazonas e Pará comporiam a “Amazônia
propriamente dita”, uma região, ainda assim, vastíssima, com “mais de três milhões de

3
Cf. Evaldo Cabral de Melo, O Norte agrário e o Império. Rio de Janeiro: Nova Fronteira; Brasília: INL, 1984.
p.12-13.
4
“[...] nós os filhos da Amazônia, isto é, os nascidos nos dois Estados banhados pelo Amazonas[...]”.Marajó,
José Coelho da Gama e Abreu, Barão de, As regiões amazônicas: Estudos chorographicos dos Estados do
a
Gram Pará e Amazônas, Belém, Secult, 1992, 2 . ed., p.6.

4
quilômetros quadrados, isto é, mais de um terço também de todo o território brasileiro”.5 Em
nossos dias, tal Amazônia, “propriamente dita”, corresponde aos estados do Acre, Amapá,
Amazonas, Pará, Roraima, parte de Rondônia e, até 1988 — ano em que foi criado o estado
do Tocantins, desmembrado do estado de Goiás e da região Centro-Oeste —, coincidia
quase integralmente com o que eram, então, os limites da região Norte.

Diante de tamanha diversidade conceitual, qual o caminho a seguir neste ensaio? O


que se pretende, aqui, é oferecer ao leitor uma breve notícia da Amazônia brasileira ao
considerar suas idiossincrasias assim como sua relação com a sociedade e a cultura
brasileiras, e ao buscar entender os processos pelos quais se formou e se organizou uma
parcela da sociedade nacional em sua relação com o território no qual se fixou. Este ensaio,
portanto, não poderá se restringir aos conceitos de Amazônia estabelecidos pelas ciências
naturais — embora deva sempre ressaltar a importância das relações entre sociedade e
natureza. Por outro lado, será difícil confiná-lo a apenas um conceito, escolhido entre
Região Norte, Amazônia Legal ou Amazônia “propriamente dita”. Antes, torna-se necessário
transitar entre eles, passar de um ao outro, uma vez que são, todos, expressões mais ou
menos duradouras do longo processo de formação, ocupação e conhecimento da região
que aqui se considera. Processo inacabado e que, em nossos dias, encontra-se em franco
movimento: não será exagero afirmar que, no presente, nenhuma outra região brasileira se
transforma de maneira tão intensa como a Amazônia ⎯ a paisagem, assim como os
homens.

2. Um deserto sem história?

Diversas tentativas de elaborar explicações para uma região tão ampla e, ao mesmo
tempo, pouco conhecida, resultaram em imagens genéricas que, ao pretenderem sintetizar
seu caráter singular, produziram algumas distorções. Entre essas imagens, aquelas que
maior influência exercem sobre as formas pelas quais a sociedade brasileira, ainda em
nossos dias, pensa e age em relação à Amazônia são as de “deserto” e “terra sem história”.

A imagem de “terra sem história” tem suas origens no século XVIII. Na verdade,
aplicava-se, então, a toda a América, onde, acreditavam os mais importantes pensadores
europeus, o desenvolvimento social e as obras humanas seriam elementos menores que
não fazem par à pujança da natureza. Porém, na medida em que as terras do Novo Mundo
foram ocupadas, florestas foram aniquiladas e os mais diversos ambientes naturais foram
dominados e transformados, sua aplicação restringiu-se cada vez mais a lugares como a

5
José Veríssimo, “Interesses da Amazônia”, In: Estudos amazônicos. Belém: UFPA, 1973. p.235. Deve-se
ressalvar que o Norte do estado de Goiás a que o autor se refere corresponde, em nossos dias, ao estado do
Tocantins.

5
Amazônia, que passou a ser uma das últimas fronteiras do planeta — reduto da natureza
primitiva e indomada.

A noção de “terra sem história” não é função da densidade populacional, mas do


nível cultural atribuído aos habitantes do lugar em questão: em geral, sociedades ágrafas
consideradas, também, “povos sem história” — conceito que influenciou e acompanhou a
historiografia século XX adentro. Portanto, aquela noção nem sempre coincidiu com a de
“deserto”. Mas, na Amazônia, elas andam juntas, desde o século XVIII, em virtude da baixa
densidade demográfica, mesmo nos dias de hoje, quando sua população é numericamente
muito superior à de 50, 100 ou 200 anos atrás.

Embora essas imagens tenham raízes remotas, muito contribuiu para fixá-las na
cultura brasileira a existência, mesmo nesse alvorecer do século XXI, de largas extensões
efetiva ou supostamente não habitadas e dominadas pela floresta que persiste, vigorosa,
como a demonstrar que, quatro séculos após o início da colonização portuguesa, é a
natureza que continua a se impor sobre o Homem — domínio que, entretanto, tem sido
duramente ameaçado nos últimos anos. Outra contribuição foi dada pela literatura, ficcional
ou não, inspirada na obra construída por Euclides da Cunha (1866-1909) a partir de sua
viagem ao rio Amazonas e ao Purus, em missão de demarcação de limites com o Peru, em
1905.6 Pouco mais tarde, ao se dirigir à elite política e econômica do estado do Amazonas,
quando de sua visita a Manaus, em outubro de 1940, Getúlio Vargas (1882-1954) reforçou
e, por assim dizer, institucionalizou essas imagens, ao pronunciar o célebre “Discurso do Rio
Amazonas” — embora seja o Negro o rio que banha aquela capital — que contém, do início
ao fim, todas aquelas impressões consagradas por Euclides a respeito da região. Em
especial, a imagem da Amazônia como “terra sem história” torna-se explícita nas seguintes
palavras:

Nada nos deterá nesta arrancada que é, no século XX, a mais alta
tarefa do homem civilizado: conquistar e dominar os vales das
grandes torrentes equatoriais, transformando a sua força cega e a
sua fertilidade extraordinária em energia disciplinada. O Amazonas,
sob o impulso fecundo da nossa vontade e do nosso trabalho, deixará
de ser, afinal, um simples capítulo da história da terra e, equiparado
aos outros grandes rios, tornar-se-á um capítulo da história da
7
civilização.

Quando Vargas morreu, ao cometer suicídio em agosto de 1954, a República


Brasileira estava preste a completar 65 anos de existência, 18 dos quais sob sua liderança.
Os primeiros quinze anos de seu governo (1930-1945) foram marcados por profundas
mudanças na organização do Estado e da economia. Ele impôs um processo de

6
Os trabalhos de Euclides da Cunha sobre a Amazônia foram reunidos em Um paraíso perdido: ensaios
amazônicos. Brasília: Senado Federal, 2000.
7
IBGE, Amazônia brasileira. Rio de Janeiro, 1944, p.3.

6
fortalecimento do poder central e redução dos poderes das oligarquias regionais —
predominantes durante a Primeira República — e chegou até mesmo a governar acima da
Constituição, a partir do golpe de Estado de novembro de 1937. Vargas fortaleceu a
estrutura do Estado, dotando-o de instrumentos de controle de dimensões cruciais da vida
do país — muitos dos quais sobrevivem até os dias de hoje, 2004 — e construindo,
efetivamente, um projeto de organização nacional no qual eram predominantes os
interesses da burguesia. Ao transcender as dimensões materiais da organização nacional,
o projeto do governo Vargas contemplou, também, a busca dos elementos que melhor
identificassem a nação brasileira e espelhassem suas raízes históricas, tarefa que ficou a
cargo do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – SPHAN, criado em 1937.
Que um chefe de Estado com tal importância para a história nacional tenha recorrido às
clássicas imagens da “terra sem história” e do “deserto” para definir suas estratégias
territoriais é revelador tanto da força daquelas imagens no pensamento nacional, até então,
como do grande reforço que receberam com aquelas palavras pronunciadas no “Discurso do
Rio Amazonas”, tornando-se o fundamento das políticas do Estado brasileiro para a
Amazônia na segunda metade do século XX — e também das palavras de ordem com as
quais elas foram legitimadas, como o clássico lema da década de 1970: “Uma terra sem
homens para homens sem terra”.

A persistência dessas imagens torna difícil uma boa compreensão da região, ao


ignorar a existência de uma dinâmica social e cultural que lhe sejam próprias. Não obstante,
forjou-se ali, no decorrer de quatro séculos, uma sociedade que revela traços específicos,
ao ser confrontada com aquelas que se formaram em outras partes do país, que
desenvolveu modos de viver peculiares e formas próprias de interação com o território. E
que, apesar de possuir traços gerais definidores, tem também diferenciações internas que
se revelam no percurso da ilha de Marajó a Tabatinga, ou das margens do rio Guaporé à
base do monte Roraima.

3. Os rios e a formação do território

Ao definirem a Amazônia como uma peculiar comunidade de homens vivendo em um


território específico — “uma região especial no Brasil”, dotada de “incontestável
diferenciação histórica e geográfica”8 —, aqueles intelectuais da elite paraense que
mencionei acima formularam, no fim do século XIX, um conceito de Amazônia que não se
prende exclusivamente nem ao conceito de Hiléia — formulado por Humboldt e que tem
como núcleo a floresta tropical —, e nem ao conceito de bacia amazônica — unidade

8
José Veríssimo, op. cit.

7
geográfica já percebida pela ciência desde o século XVIII e cuja história geológica fora
sondada timidamente por Karl Friedrich P. von Martius (1794-1868) e Alfred Russel Wallace
(1823-1913), e de maneira ousada por Louis Agassiz (1807-1873).

Contudo, embora essa definição não se subordine a critérios geográficos par


excellence, a hidrografia desempenha aí um papel muito importante, ao ser o elemento
definidor do território próprio aos “filhos da Amazônia”. Mas não se trata de toda uma bacia
hidrográfica, com aquela amplitude indispensável às investigações científicas, à qual me
referi anteriormente, e que definiria uma “Amazônia lato sensu”, mas de uma hidrografia
com a qual os homens se relacionam diretamente, que serve de suporte a uma certa
organização social. Assim, é o eixo central e unificador da bacia amazônica, e não a sua
escala subcontinental, que define uma “Amazônia propriamente dita”.

Podemos considerar também, de maneira análoga, o caso da Colômbia, onde a


hidrografia, tomada em seu sentido restrito, foi o fundamento do conceito de Amazônia
formulado na última década do século XIX por Demetrio Salamanca (1854-1925). Há
importantes diferenças entre o conceito elaborado no Pará, que é fruto de expressões
regionalistas, e a formulação de Salamanca, cujo objetivo era apoiar os esforços de
soberania do governo de Bogotá sobre aquelas regiões limítrofes da República, tendo sido
ele o primeiro a propor ao Estado colombiano um plano de colonização da região, não se
prendendo, portanto, a qualquer tipo de identidade coletiva.9 Mas, sem pretender levar
adiante essas comparações, que merecem um ensaio à parte, o que importa registrar é que,
para Salamanca, a Amazônia era o próprio vale amazônico, isto é: “toda a região banhada
pelo rio Amazonas e seus numerosos afluentes, até onde os mais extensos entre eles
deixam de ser navegáveis pelo pouco volume de água ou por suas cachoeiras
inacessíveis”.10 Assim, para ele, tampouco, a Amazônia não se compõe de toda a bacia do
Amazonas, mas apenas naquela escala que permite a ocupação pelo homem.

Embora a floresta também constitua, ao lado da rede hidrográfica, o elemento


dominante da paisagem amazônica, ela não se prestou a definir ou configurar uma região.
Porque os rios, e não as florestas, servem, a um só tempo, como vias de deslocamento dos
homens e como referências de ordenamento de um espaço desconhecido. Já o Ocidente
romano “via os rios como estradas que podiam se tornar retas; que transportavam
mercadorias e, se necessário, homens armados; que definiam entradas e paradas”. Mais
tarde, na topografia simbólica das viagens imaginárias da Renascença, eram os cursos

9
Cf. Mariano Useche Losada, El concepto de Amazonía y la colonia penal de Araracuara. In: Roberto Pineda
Camacho; Beatriz Alzate Angel (editores), Pasado y presente del Amazonas: su historia económica y social.
Bogotá: Universidad de los Andes, 1993. p.82.
10
“El valle amazónico o Amazonia es toda la región bañada por el río Amazonas y sus numerosos afluentes,
hasta donde los más extensos de ellos dejan de ser navegables por su poca cantidad de agua o por sus raudales
inaccesibles”. Demtrio Salamanca, La Amazonia Colombiana, apud. Mariano Useche Losada, op. cit., p.82.

8
d’água que guiavam os viajantes em meio às densas florestas que representavam
desorientação.11

Foi esse mesmo papel que desempenharam os rios amazônicos para os


colonizadores europeus e para seus descendentes, que prosseguiram a tarefa da
colonização a partir de 1822. Desde as viagens de Pedro Teixeira, entre 1637 e 1639 —
indo de Belém a Quito e fazendo o caminho de volta —, as descrições geográficas da região
não seriam mais que itinerários que, subindo ou descendo o grande rio, relatavam as
características físicas de suas margens, as populações indígenas que as habitavam, a
situação e o curso de seus principais afluentes. Os rios — o Amazonas e sua rede de
afluentes — foram, efetivamente, os elementos que permitiram estruturar o território
amazônico tal como ele se nos apresenta hoje nos mapas. Até um período que se situa
entre as décadas de 1960 e 1970, o movimento das populações e a ocupação da Amazônia
foram eminentemente ribeirinhos. Os interflúvios, dominados pela espessa floresta, e as
áreas em que os grandes rios deixam de ser navegáveis permaneceram, por muito tempo,
como terra incógnita — e ainda o são, em grande parte, no limiar do século XXI.

4. Índios, colonos, missionários e a expansão das fronteiras

Em meados do século XVIII, as linhas gerais que configuram a Amazônia brasileira


estavam já definidas, sacramentadas pelos tratados de Madri (1750) e de Santo Ildefonso
(1777). Novos tratados, ao longo do século XIX e início do XX, apenas ajustaram os limites,
sem alterar substancialmente o mapa da região. Os mais significativos desses ajustes foram
aqueles que decidiram a querela secular pelo Amapá em favor do Brasil, em 1900, e o
Tratado de Petrópolis que, em 1903, selou o domínio brasileiro sobre o Acre — até então,
território pertencente à Bolívia. Esses limites, porém, são apenas o ponto de chegada de um
território cujas fronteiras foram sempre móveis.

A expansão portuguesa na Amazônia não se fez de maneira predominante pelo


povoamento regular e pela fixação de colonos — como ocorreu nas áreas coloniais
litorâneas e mesmo no interior, sobretudo em Minas Gerais, no século XVIII —, mas por
meio das expedições de coletores de produtos da floresta, de caçadores de índios e dos
aldeamentos organizados por missionários religiosos. Além de uma evidente importância
estratégica no tabuleiro das disputas coloniais, a presença portuguesa na região assumiu
certa relevância nos fluxos comerciais do sistema colonial, a partir da organização de
atividades de coleta e exportação das assim chamadas “drogas do sertão”, sustentadas pelo
trabalho indígena, escravo ou não.

11
Cf. Simon Schama, Paisagem e memória, São Paulo, Cia das Letras, 1996, p.266-67 e 278.

9
A respeito do estatuto legal do trabalho indígena, pode-se dizer que, apesar de uma
extensa e relativamente confusa legislação elaborada pela Coroa portuguesa do século XVI
ao XIX, a liberdade legal era sempre assegurada aos índios aliados, e a escravidão,
justificada, era reservada aos índios inimigos, capturados por meio das “guerras justas”, ou
mesmo aos índios cristianizados quando, uma vez capturados por povos praticantes do
canibalismo e destinados a rituais antropofágicos, eram libertados pelos portugueses por
meio dos assim chamados “resgates”. No cotidiano dos sertões, porém, foi sempre difícil
preservar os limites entre as situações que garantiam a liberdade e as que permitiam a
escravidão. Mas, de um ou de outro modo, desde o século XVII até meados do século XIX,
a força de trabalho indígena foi o fundamento da economia extrativista, assim como de toda
a organização da sociedade que se formou na Amazônia. Tão grande era a sua importância,
que a célebre frase do jesuíta Antonil para definir o papel da mão-de-obra africana para os
engenhos do Nordeste, na qual afirma que os negros eram os pés e as mãos dos senhores
de engenho, não é senão uma paráfrase do que, décadas antes, ainda nos seiscentos,
dissera o padre Antônio Vieira a respeito dos índios da Amazônia. Além de conhecedores do
território, tornando-se guias indispensáveis aos novos ocupantes, pelos rios e pelos
caminhos na floresta, eram os índios que remavam, cortavam madeira, construíam
embarcações, coletavam os produtos da floresta, preparavam o terreno para o cultivo,
semeavam e colhiam. Ademais, foram os índios os componentes majoritários dos exércitos
coloniais que disputaram o domínio da Amazônia e os colonizadores lusos não teriam obtido
sucesso se não contassem em suas fileiras, desde os primeiros anos, com centenas e, às
vezes, milhares de combatentes indígenas.

Pode parecer estranho esse tipo de colaboração, de povos indígenas lutando lado a
lado com europeus, muitas vezes contra outros índios. Mas a trama dos conflitos
interétnicos é demasiado complexa e escapa a qualquer esquema redutor. Embora a
relação entre os colonizadores portugueses e os povos indígenas tenha sido sempre
assimétrica, predominando as situações de violência cometida sob diversas formas, a
simples imposição pela força nem sempre explica a coexistência e a colaboração entre
centenas ou milhares de índios armados e alguns poucos europeus, normalmente
minoritários na composição das tropas. Ao considerar o caso da ocupação portuguesa em
São Vicente e no planalto paulista, o historiador John Monteiro mostrou como as alianças
estabelecidas por grupos indígenas com europeus obedeciam, muitas vezes, a estratégias
definidas por aqueles grupos com o objetivo de derrotar outros povos autóctones de que
fossem inimigos, sendo clássico o caso das alianças entre os portugueses e os Tupiniquim
contra os franceses e os Tupinambá, no século XVI — no mesmo contexto, a Confederação
dos Tamoios é exemplo de estratégia diversa, em que vários grupos indígenas se unem em

10
combate ao europeu12. Na Amazônia, também ocorreram situações semelhantes. Contudo,
a força das armas foi, com freqüência, decisiva para aplacar a resistência de alguns povos e
conquistar a sua “amizade”, como foi o caso dos Mundurucu, do rio Madeira, que,
implacáveis inimigos dos “brancos” no século XVIII, foram convertidos em aliados, no século
XIX, após uma guerra intensa, e desempenharam importante papel no combate aos
insurgentes cabanos.13

A atuação das ordens religiosas foi fundamental para a incorporação de diversos


povos indígenas à sociedade colonial, organizando-os em aldeamentos como aliados diante
dos inimigos e como mão-de-obra para as atividades produtivas. Os aldeamentos
espalharam-se rapidamente. Em 1655, a Companhia de Jesus — que em 1652 conseguira
da Coroa portuguesa o controle preferencial sobre as populações indígenas do ocidente da
Amazônia — havia estabelecido 55 missões, sendo 28 no rio Amazonas. Em 1686, esse
controle preferencial foi abolido e as áreas de atuação foram redistribuídas entre as demais
ordens religiosas. Enquanto os jesuítas ficaram restritos aos rios Xingu, Tapajós e Madeira
— ou seja, aos principais afluentes do Amazonas pela margem austral — e ao Tocantins, os
mercedários puderam atuar nos rios Urubú, Anibá, Uatumã — afluentes da margem
setentrional — e em trechos do baixo Amazonas; os Carmelitas ficaram com as missões do
Negro, do Branco e do Solimões; os franciscanos da Piedade, com as do baixo Amazonas,
com centro em Gurupá; e os franciscanos da Província de Santo Antônio encarregaram-se
dos aldeamentos do Cabo do Norte, do Marajó e ao norte do rio Amazonas14. O saldo dessa
empresa foi numericamente expressivo. Na metade do século XVIII, “havia, na Amazônia,
sessenta e três aldeias, das quais dezenove eram fundações dos jesuítas, quinze dos
carmelitas, nove dos franciscanos de Santo Antônio, sete dos frades da Conceição, dez dos
frades da Piedade e três dos mercedários”.15

Contudo, mais do que reunir a força de trabalho indígena, os aldeamentos foram


fundamentais para consolidar as pretensões portuguesas sobre a região — em virtude da
extensão do território e da escassa população de origem européia disposta a povoá-lo, e
também pelo fato de que, desde o extremo oeste, a fronteira espanhola também se movia —
e, em muitos lugares, substituíram a ação militar. Embora Pedro Teixeira, ao retornar de
Quito a Belém, tenha fundado o povoado de Franciscana na confluência do rio Napo com o
Aguarico — atualmente em terras peruanas — para estabelecer aí os limites entre as
possessões ibéricas, até os primeiros anos do século XVIII a fronteira efetiva encontrava-se
12
John Manuel Monteiro. Negros da terra. São Paulo: Cia das Letras, 1996.
13
cf. Francisco Jorge dos Santos. Além da conquista: guerras e rebeliões indígenas na época do Diretório
Pombalino (1757-1798). Manaus: EDUA, 1999.
14
Cf. Victor Leonadi, Os historiadores e os rios: natureza e ruína na Amazônia brasileira. Brasília: EDUnB/
Paralelo 15, 2000. p.56; Arthur Cezar Ferreira Reis. A ocupação portuguesa do vale amazônico. In: Sérgio B. de
a
Holanda (org), História Geral da Civilização Brasileira. São Paulo: Difel, 1985, 7 ed., t.1, v.1. p.265.
15
Reis, op. cit., p.266.

11
na altura da foz do rio Negro, muito próximo de onde hoje está a cidade de Manaus. O rio
Solimões — nome que o Amazonas recebe entre a foz do Negro e a fronteira brasileiro-
peruano-colombiana — era área de atuação das missões jesuíticas a serviço da coroa
espanhola, comandadas pelo missionário austríaco Padre Samuel Fritz, que nelas atuou
desde 1685 até sua morte, em 1725.

Por outro lado, em 1702 a povoação portuguesa mais avançada, rumo ao oeste, era
Santo Elias do Jaú, aldeamento de índios Tarumã formado por missionários carmelitas na
confluência do rio Jaú com o rio Negro — região a que chegavam mercadorias holandesas
provenientes do atual Suriname e que se espalhavam por uma ampla rede de escambo,
embora os próprios holandeses jamais a tivessem alcançado16. Dessa forma, o aldeamento
desempenhava função geopolítica, concebida a partir do conceito de “fronteira humana”,
pelo qual os portugueses procuravam afirmar suas pretensões territoriais apoiando-se em
alianças com povos indígenas nos extremos do território17. No caso de Santo Elias do Jaú,
por exemplo, a presença portuguesa limitava-se a um missionário entre centenas de índios.

Nas negociações diplomáticas com a Espanha para o estabelecimento das fronteiras


legais, foi fundamental para assegurar a Portugal direitos sobre o território a presença, nos
limites pretendidos, de índios aliados e que a Coroa portuguesa tomava como súditos —
alianças que foram construídas pelos missionários e pelos coletores de produtos da floresta.
A esse respeito, Joaquim Nabuco já observava, ao recuperar a história das disputas
territoriais do Brasil com Inglaterra, na fronteira do que hoje é o estado de Roraima com a
Guiana (antiga Guiana Inglesa), que os índios foram as “muralhas dos sertões”.

5. Ruínas e desertos

A mobilidade das expedições de conquista, das “canoas do sertão” — expedições de


índios comandados por alguns poucos “brancos”, que realizavam o trabalho de coleta —e
dos missionários permitiu empurrar, continente adentro, os limites das possessões
portuguesas na Amazônia. Mas, ao mesmo tempo — e contraditoriamente —, essa
mobilidade foi um dos grandes obstáculos à efetiva ocupação e colonização das terras
formalmente conquistadas, do que resultou uma enorme defasagem entre as fronteiras dos
domínios lusos virtualmente estabelecidas e o território efetivamente ocupado e integrado à
sociedade colonial.

16
Cf. Victor Leonardi, Os Historiadores e os rios: natureza e ruína na Amazônia brasileira, Brasília, Editora
Universidade de Brasília/ Paralelo 15, 1999, p.28.
17
Cf. João Renôr, O avanço do povoamento para as fronteiras definitivas da Amazônia brasileira do período
colonial aos nossos dias. In: Boletim de pesquisa da CEDEAM, Manaus, vol. 4, no. 6, jan-jun. 1985, p.73-91.

12
É curioso observar como coincidem, em essência, as observações de alguns
homens que, em momentos diferentes entre dois séculos, expressaram suas opiniões sobre
o problema da organização social ao longo do vale do Amazonas. Refiro-me, aqui, ao padre
jesuíta português João Daniel (1722-1776); ao naturalista baiano Alexandre Rodrigues
Ferreira (1756-1815); ao engenheiro João Martins da Silva Coutinho (1830-1889); ao
funcionário público, geógrafo, historiador e arqueólogo autodidata Domingos Soares Ferreira
Penna (1818-1888); e ao presidente da República, Getúlio Vargas. João Daniel viveu na
Amazônia durante a primeira metade do século XVIII e Alexandre Rodrigues Ferreira
realizou uma grande viagem de estudos, a célebre “Viagem Filosófica”, nas décadas de
1780 e 1790. Ambos condenaram aquele constante movimento de populações, atribuindo-
lhe os repetidos fracassos dos empreendimentos lusos e defenderam a difusão da
agricultura como método de fortalecimento dos núcleos coloniais e de fixação dos colonos à
terra para consolidação da ocupação portuguesa. João Daniel, autor de um impressionante
tratado intitulado Tesouro descoberto no rio Amazonas, chegou até mesmo a propor um
amplo modelo de colonização do antigo Estado do Grão-Pará, com base em
estabelecimentos agrícolas de pequeno porte, na agricultura praticada nos aluviões da
várzea do rio Amazonas e voltada para a produção de grãos para a alimentação, e na
domesticação e cultivo dos produtos da floresta cuja exploração demandava longas e
perigosas viagens pelo sertão. Mais tarde, no século XIX, a necessidade de difusão da
agricultura ainda era defendida por estudiosos como João Martins da Silva Coutinho, que
trabalhou na província do Amazonas, na década de 1860, e Domingos Soares Ferreira
Penna, funcionário do governo do Pará, que escreveu suas obras entre 1860 e 1888, de
modo a assegurar a permanente ocupação de territórios nos quais a presença da sociedade
nacional era inconstante. Eles condenavam — assim como também o fizeram João Daniel e
Rodrigues Ferreira — os métodos destrutivos aplicados na extração dos produtos da
floresta, bem como as práticas agrícolas em vigor — a derrubada e queima — que
conduziam ao rápido esgotamento dos recursos naturais locais e, desse modo, impunham o
constante deslocamento das populações em busca de novos terrenos férteis e de florestas
ainda abundantes, determinando, por fim, o caráter efêmero das povoações que se
formavam.

Décadas mais tarde, em 1940, foi a vez do chefe do Estado brasileiro se manifestar
a respeito do povoamento da Amazônia, no “Discurso do Rio Amazonas”, ao qual me referi,
anteriormente. O momento era de crise e a exportação de borracha —que havia sustentado
com muito vigor a economia regional, durante quase toda a segunda metade do século XIX
e os primeiros anos do século XX — declinara vertiginosamente. Os seringalistas e
comerciantes da região dirigiam apelos de socorro ao governo federal. Em âmbito nacional,

13
discutiam-se planos para a valorização econômica da Amazônia e Getúlio Vargas, ao expor
os princípios que deveriam norteá-los, mais uma vez identificou na inconstância e no
nomadismo as causas do povoamento frágil, e apontou a produção agrícola organizada
como o caminho a ser seguido:

O nomadismo do seringueiro e a instabilidade econômica dos


povoadores ribeirinhos devem dar lugar a núcleos de cultura agrária,
onde o colono nacional, recebendo gratuitamente a terra,
desbravada, saneada e loteada, se fixe e estabeleça a família com
18
saúde e conforto.
Longo tempo e inúmeras diferenças separam João Daniel e Vargas, ou Ferreira
Penna, e as comparações entre eles devem ser feitas com cuidado. Mesmo assim, é
possível afirmar que todos eles se depararam com essa continuidade maior presente na
história da Amazônia: o fenômeno do arruinamento e a prevalência da destruição sobre a
construção.

Do século XVII ao século XX, o abandono e o arruinamento de povoações são temas


recorrentes na história da ocupação do espaço amazônico por portugueses e brasileiros. É
certo que esses não são fenômenos exclusivos do processo de ocupação daquela região.
Ao contrário, abandono e ruínas estão presentes em várias quadras da história da América
portuguesa, sempre onde a presença colonizadora se caracteriza pela mobilidade, e não
pela fixidez; por atividades econômicas que se sustentam apenas pelo curto período em que
são capazes de explorar determinados recursos naturais, e não pela organização produtiva
permanente e regular. Isso foi assim, por exemplo, nas regiões mineradoras, sobretudo de
Goiás e de Mato Grosso, onde, ao contrário de Minas Gerais, a riqueza resultante da
extração do ouro, com poucas exceções, não foi suficiente para dar origem a núcleos
urbanos e grandes fazendas que resistissem à débacle que se seguiu ao esgotamento do
minério e que fossem capazes de manter a tensão econômica da região, evitando o
esvaziamento e o arruinamento das povoações. Ruínas e abandono foram, também, o
resultado da agricultura predatória praticada pelos cafeicultores do Vale do Paraíba que,
após décadas de exploração, abandonaram as terras exauridas em demanda dos solos
ainda férteis do Oeste paulista e do norte do Paraná. Com as terras, abandonaram, também,
as cidades que encontravam sua energia vital no comércio do café e nas atividades que
dele decorriam. São essas as cidades mortas de Monteiro Lobato.

Mas, se no restante do território brasileiro, esses são eventos associados a períodos


bem definidos da sua ocupação, na Amazônia, ao contrário, pode-se dizer que o
arruinamento é um fenômeno crônico na história regional. Ele se deve, por um lado, às
dificuldades impostas pelo meio à ocupação humana. De fato, as grandes distâncias e as

18
IBGE, op. cit., p.2.

14
grandes massas d’água a serem enfrentadas pelos remadores, as dimensões da floresta, a
dinâmica das águas, as pragas e as doenças eram alguns dos fatores da natureza que os
núcleos populacionais nem sempre conseguiam superar em seus esforços por prover o
sustento material de seus membros.

Por outro lado, o próprio modelo de colonização que vigorou por séculos, pautado
pelo extrativismo, foi decisivo para esse processo de “construção de ruínas”. Ao lado
daqueles obstáculos naturais, mencionados acima, atuavam também fatores relacionados à
organização da produção, aos métodos empregados nas atividades extrativas e ao fato de
que a intensidade dessa atividade — e, portanto, as possibilidades de dinamização da
economia regional — subordinava-se às oscilações do mercado externo.

Algumas áreas de extração foram submetidas a uma exploração intensa, sob


métodos predatórios, a tal ponto que, em 1688, 72 anos após a fundação de Belém, a
exploração de pau-cravo nos rios Tocantins e Capim foi proibida, por dez anos, de modo a
impedir o seu desaparecimento. As castanheiras foram fartamente abatidas para a extração
da entrecasca empregada no calafeto de embarcações. E também a baunilha, a
salsaparrilha, o cacau, o óleo de copaíba, entre outros produtos, esgotavam-se nas margens
dos rios mais acessíveis e freqüentados. Desse modo, as “canoas do sertão” eram forçadas
a deslocar-se por distâncias sempre maiores, em busca de novas áreas de exploração, ao
mesmo tempo em que povoações que haviam se organizado em torno do extrativismo eram
abandonadas para serem reconstruídas em sítios mais promissores. Nos terrenos antes
ocupados e nas povoações abandonadas, crescia novamente a floresta, sempre triunfante
sobre as obras da cultura.

A organização do trabalho extrativista, baseada no trabalho indígena, impôs ainda


um outro fenômeno, que caminha junto com a morte das povoações: a morte das
populações indígenas. Quem percebeu muito bem esse fenômeno, ainda em meados do
século XIX, foi Paul Marcoy, um francês que, na década de 1860, atravessou a América do
Sul dos Andes ao Atlântico, tendo navegado por todo o rio Amazonas. Mais do que
ocorrências isoladas, as ruínas que encontrava eram, para Marcoy, a característica da
presença ocidental na região. Ele não se refere, aqui, ao “atraso”, à “ausência de
civilização”. Ao contrário, as ruínas eram, na verdade, testemunhos da ação destruidora do
colonizador/ civilizador, que, no rio Amazonas, não foi capaz de produzir mais do que o
desaparecimento ou a dispersão dos povos indígenas.

Uma estranha tristeza parece misturada ao ar que se respira em suas


margens. É verdade que as lembranças históricas aí evocadas não
são de modo a emprestar-lhe uma viva alegria; tudo fala, a cada
passo, de missões e de vilas desaparecidas, de nações extintas ou

15
dispersas, em cujos territórios vagam, tanto mais que não são
19
sedentárias, tribos despossuídas de seu solo primitivo.
Para Marcoy, a morte era assim como um espectro, que impregnava as povoações,
os homens e a própria natureza, ao fazer dos grandes rios de água preta a manifestação
maior do luto: “Esses grandes lençóis negros, quando os vimos pela primeira vez,
pareceram-nos carregar o luto das castas indígenas”.20 A cada povoação em abandono por
que passa, Marcoy encontra homens e mulheres — sempre indígenas — à beira da morte e
testemunha sua agonia. Desse modo, a morte de povoações e a morte de povos indígenas
são, para ele, o resultado de um mesmo processo colonizador que, ao realizar-se por meio
da violência, das guerras, da escravidão e da exploração sem tréguas do trabalho humano,
nada tem de construtivo e edificante. Ao percorrer todo o rio Amazonas, Marcoy atravessa
longos trechos desabitados, onde reina o silêncio absoluto e só se escuta o eco do barulho
produzido pelo choque dos remos com a água. Por onde passa, as margens do grande rio e
de seus afluentes assemelham-se, muitas vezes, a um deserto. Mas, à diferença dos
autores que viram na Amazônia um deserto sem história, há séculos desafiando a
civilização para que o domasse, o que o viajante francês pôde ler por meio das ruínas e das
fisionomias moribundas dos homens foi, justamente, a história da formação do deserto.

6. O despovoamento

As investigações arqueológicas na Amazônia, que conheceram grande impulso a


partir da década de 1950, partiram do pressuposto de que o presente etnográfico da
Amazônia seria uma permanência de sua história pré-colonial, ou seja, o padrão
demográfico, de organização social e de ocupação do espaço das sociedades indígenas
que hoje habitam as regiões de floresta nos interflúvios da bacia amazônica corresponderia
ao modelo de organização das sociedades que habitavam a Amazônia às vésperas dos
primeiros contatos com os europeus. Essas investigações logo deram início à discussão
sobre os fatores que teriam limitado o desenvolvimento de populações humanas na região
— cuja ocupação ter-se-ia iniciado por volta de 12.000 anos antes do presente, segundo as
datas mais antigas já obtidas —, procurando explicar a pouca evolução cultural da América
do Sul não-andina e o padrão de dispersão populacional. Orientadas pela teoria do
determinismo ambiental, encontraram aqueles fatores no meio ambiente.21

Mais ainda, o ambiente da floresta tropical não apenas seria um obstáculo ao


desenvolvimento de sociedades complexas, como também provocaria a decadência de

19
Paul Marcoy, Voyage de l’Océan Pacifique à l’Océan Atlantique à travers l’Amérique du Sud, In: Tour du
Monde (nouveau journal des voyages); Paris, Hachette, 1867, Tome XV., p.139. Tradução livre.
20
Idem, ibidem.
21
Emílio Morán, A ecologia humana das populações da Amazônia, Petrópolis, Vozes, 1990, p.150.

16
grupos humanos mais numerosos, dotados de organização social e de conhecimento
tecnológico relativamente sofisticados. Seria essa, segundo Betty Meggers, a explicação
para o desaparecimento da tradição marajoara, fase da ocupação humana da ilha de Marajó
datada entre os séculos V e XI ou XII da era cristã e que se supõe originária do noroeste da
América do Sul.22 A tradição marajoara é caracterizada por sofisticada cerâmica policrômica
com motivos geométricos, pela construção de grandes aterros onde eram edificadas as
aldeias e por certa estratificação social e especialização das atividades artesanais, mas a
fase que lhe é imediatamente posterior, a Aruã, representa, sob o aspecto técnico e
artístico, uma regressão, que foi explicada como resultado da pressão inibidora do meio23.
Os Aruã, aliás, habitavam a ilha de Marajó quando os portugueses ali chegaram, no século
XVII. Dois séculos mais tarde, Domingos Soares Ferreira Penna teve a oportunidade de
entrevistar o último sobrevivente do grupo, coletando algumas palavras para um pequeno
vocabulário daquela língua moribunda.24

Assim, no século XVI, a Amazônia seria capaz de abrigar apenas sociedades


simples, vivendo da caça, da pesca e da coleta combinados com agricultura de coivara
(derrubada e queima) em pequena escala, suficientes apenas para sustentar uma pequena
população. Porém, desde a década de 1970, escavações arqueológicas e novas leituras de
dados fornecidos por trabalhos mais antigos conduziram diversos arqueólogos a proporem
uma outra interpretação da Amazônia pré-colonial, de modo que:

O quadro que começa a se delinear não é o da transitória presença


de um grupo alienígena de alta cultura na foz do Amazonas [a
tradição marajoara], mas uma longa tradição de povos estabelecidos
25
ao longo de todo o rio, desde 1000 a.C. até 1500 d.C.
Esses povos estariam distribuídos, sobretudo, ao longo da várzea do Amazonas e de
alguns de seus afluentes, organizados em sociedades relativamente complexas e de
numerosa população, que passaram a serem conhecidas como “cacicados. As revisões da
pré-história da Amazônia vão além, ao deixarem de considerar a grande floresta tropical
brasileira como área que apenas teria recebido inovações culturais originadas em outras
regiões — como seria o caso da tradição marajoara —, para considerá-la, ela própria, como
região de origem e de difusão de importantes aquisições técnicas:

22
André Prous não crê que se possa explicar pelo argumento dos limites ambientais pré-existentes o declínio de
uma tradição que ocupou uma mesma região por cerca de 800 anos. Cf. André Prous, Arqueologia brasileira,
Brasília, UnB, 1992.
23
Antônio Porro, “Os povos da Amazônia à chegada dos europeus”, In: O povo das águas, Petrópolis, Vozes,
1996, p.18-19.
24
“Língua moribunda” ou “língua em perigo” é como os lingüistas convencionaram chamar as línguas com
poucos falantes e que já não são aprendidas pelas crianças, em claro prenúncio de seu desaparecimento. Cf.
José Ribamar Bessa Freire, Rio Babel: a história das línguas na Amazônia. Rio de Janeiro: EDUERJ/ Atlântica
Editora, 2004. p.47.
25
Antônio Porro, “Os povos da Amazônia...”, op. cit., p.19.

17
De fato, o que agora sabemos sobre a pré-história da Amazônia
revela uma longa e complexa seqüência de ocupação intensa, sem
nenhum sinal de retardamento devido a limitações impostas pelo
meio ambiente. As populações da região, longe de serem
culturalmente atrasadas e de sempre terem recebido inovações
vindas de fora, desenvolveram importantes inovações culturais que
26
mais tarde se difundiram pelo Novo Mundo.
Embora os cacicados tenham se desenvolvido apenas cerca de 2000 anos antes da
chegada dos Europeus, as primeiras sociedades ceramistas da região — “as mais antigas
do Novo Mundo” — teriam surgido ali 7200 anos antes do presente, 3000 anos antes do
surgimento da cerâmica nos Andes e na Mesoamérica.27 A agricultura também não seria
uma “importação”, mas o resultado de um desenvolvimento autóctone, admitindo-se que a
horticultura da mandioca já estava plenamente desenvolvida entre 4.000 e 2.000 anos antes
do presente, nas terras baixas a leste dos Andes.28

Essas teses sobre o povoamento da Amazônia às vésperas da chegada dos


europeus conferem novo valor aos relatos dos primeiros cronistas, como Frei Gaspar de
Carvajal, da expedição de Francisco de Orellana; Francisco Vásquez, Pedro de Monguía,
Altamirano e Zuñiga, autores de algumas das várias descrições da célebre viagem de Pedro
de Ursua e Lope de Aguirre, no século XVI; e o padre Cristóbal de Acuña, que desceu o
Amazonas com Pedro Teixeira, no século XVII. Eles descreveram densas populações
ocupando a várzea do grande rio e, diante da idéia de que a região não permitiria o
desenvolvimento de povos numerosos, seus relatos não foram considerados mais do que
fantasias e projeções, sobre a semi-desértica Amazônia, de imagens do rico e populoso
Oriente visitado por Marco Polo.

Assim, o cenário com que os primeiros exploradores e colonizadores se defrontaram,


nos séculos XVI e XVII, foi o de uma várzea ocupada por diversos e numerosos povos.
Alguns estudos de demografia histórica indicam que toda a Amazônia brasileira seria
habitada, no século XVI, por cerca de dois milhões de pessoas, metade das quais nas áreas
de terra firme — que perfazem 98% da superfície total da região — e a outra metade nas
áreas de várzea — correspondendo aos 2% restantes e que teriam, portanto, uma
densidade demográfica de 14,6 hab./km2. Mas o processo colonizador levado a cabo a partir
do século XVII fez com que, em meados do século seguinte, quase todos os povos que
originalmente habitavam a várzea estivessem extintos ou bastante reduzidos — como se
sabe, pelas doenças, pelas guerras, pela escravidão e pelas fugas à pressão colonizadora,

26
Ana Roosevelt, Determinismo ecológico na interpretação do desenvolvimento social indígena da
Amazônia. In: NEVES, Walter (org.). Origens, adaptações e diversidade biológica do homem nativo
da Amazônia. Belém: MPEG/ CNPq/ SCT/PR, 1991. p.113.
27
Idem, p.113-116.
28
Idem, p.116.

18
os clássicos processos que caracterizaram o contato entre europeus e índios em toda a
América.

Em muitos casos, as doenças e os captores de escravos adiantaram-se em muitos


anos aos núcleos coloniais, atingindo áreas que só seriam povoadas pelos colonos muitas
décadas ou mais de um século depois, o que deu origem ao despovoamento de grandes
regiões, sobretudo nos rios Negro e Solimões. Elas já não eram habitadas pelos povos que
ali viveram por longos períodos e ainda não eram ocupadas pelos colonos, resultando em
enormes vazios demográficos — muitos dos quais persistem até hoje. Nesse sentido, então,
a colonização impôs uma descontinuidade da ocupação humana em algumas áreas da
Amazônia, cujo resultado, no que concerne ao meio ambiente, foi a retomada, pela floresta,
dos espaços que haviam sido ocupados e modificados pelo homem, compondo uma
paisagem que passou a ser considerada como absolutamente natural. Assim, o processo
colonizador na Amazônia, antes de representar tentativas de ocupação do deserto,
consistiu, ele mesmo, na construção do deserto.

7. O vapor e a borracha

À ruptura dos laços políticos do Brasil com Portugal, em 1822, não correspondeu
uma ruptura interna no plano social e econômico. Ao contrário, como método de expansão
sobre os vastos territórios que herdaram, apenas demarcados pelos antigos tratados
coloniais, todas as formas coloniais de opressão — com destaque para o tráfico de escravos
e o trabalho cativo, bem como a invasão de terras de outros povos, os indígenas — foram
mantidas pelas elites brasileiras, formadas ao longo de três séculos e que, desde então,
assumiam o comando do novo Estado independente. No antigo Estado do Grão-Pará,
transformado em província do Império do Brasil, as elites estabelecidas em Belém e na
Barra do Rio Negro, depois Manaus, mantidas pelo comércio de produtos do extrativismo e
pela exploração do trabalho indígena, continuaram a tarefa que os colonizadores lusos não
concluíram, mantendo, dessa forma, um colonialismo interno29 em relação aos povos
indígenas. Assim, aqueles efeitos destrutivos do colonialismo português, que levaram ao
abandono e à morte de povoações e povos, continuaram presentes na Amazônia, após a
independência.

Essa afirmação é válida mesmo quando consideramos o período mais dinâmico da


economia e da sociedade regionais, durante a expansão baseada na exportação da
borracha, cujo apogeu ocupou a segunda metade do século XIX e os primeiros anos do

29
Cf. Victor Leonardi, Entre árvores e esquecimentos: história social nos sertões do Brasil. Brasília: UnB/
Paralelo 15, 1996.

19
século XX. A exportação da borracha e as atividades a ela vinculadas, ao transmitirem
grande impulso à economia regional, foram responsáveis pelo crescimento da população e
pela consolidação de núcleos urbanos, em processo até então desconhecido na Amazônia.
Mas a extração da borracha não teria alcançado tais dimensões sem o grande impulso
promovido pela navegação a vapor, introduzida no rio Amazonas nos primeiros anos da
década de 1850.

Antes da introdução do vapor, a navegação na Amazônia era feita por embarcações


movidas à força dos remos, principalmente. Empregavam-se também embarcações à vela,
mas os ventos só representavam uma força motriz importante em uma parte do ano, quando
o “vento leste” penetrava o vale do Amazonas e se fazia sentir até as proximidades de
Manaus. Havia, então, o problema da disponibilidade de mão-de-obra para equipar as
embarcações com suficientes remeiros, recrutados sempre entre as populações indígenas.
O caráter da força motriz disponível impunha limites, também, ao tamanho das
embarcações e, em conseqüência, à sua capacidade de carga. Assim, as trocas e as
comunicações eram restritas e realizadas num ritmo que se media em semanas, ou meses.
Uma viagem de Belém até Manaus, no verão amazônico — isto é, o período em que chove
menos, o volume das águas é menor e há ventos abundantes — durava cerca de 40 dias.
Em condições menos favoráveis, porém, no período das maiores chuvas, com rios mais
volumosos e ausência de ventos para a navegação, o mesmo percurso era feito em 90 dias.
Mas, com os barcos a vapor, o mesmo trajeto passou a ser feito em apenas oito dias.
Assim, a navegação a vapor alterou a relação entre tempo e espaço estabelecida pelas
embarcações tradicionais e permitiu o deslocamento de homens e mercadorias — e,
também, de idéias — em um ritmo até então desconhecido.

Desse modo, a adoção de uma nova tecnologia de comunicação e transportes e, ao


mesmo tempo, a intensificação da atividade econômica baseada na extração e comércio da
borracha, permitiram que a região conhecesse uma série de transformações, sob diversos
aspectos.

Uma das mais importantes dessas transformações foi o processo de urbanização,


com o surgimento de novas povoações e a introdução de melhoramentos naquelas já
existentes. Em Belém, por exemplo, eram raras as edificações em pedra e cal até meados
do século XVIII. Sua transformação em capital do Estado do Grão-Pará e Maranhão, em
1751, firmando a posição de centro político e econômico, concedeu-lhe privilégios
materializados em uma série de edifícios civis, militares e religiosos, os mais relevantes dos
quais erguidos sob os traços do arquiteto bolonhês Antônio José Landi. Arruinada e
despovoada pelas lutas travadas durante a Cabanagem (1833-1838), a cidade voltou a
crescer a partir da década de 1850, sob o impulso das novas atividades econômicas,

20
submetendo-se, inclusive, a amplas reformas urbanas nos primeiros anos da República, na
longa administração do Intendente Antônio Lemos.

Foi também nessa época que Manaus ganhou ares de cidade. Elevada à condição
de capital da província do Amazonas — criada em 1850 e instalada em 1852 —, a antiga
Fortaleza da Barra do Rio Negro, fundada em 1669, conheceu, então, vertiginoso processo
de urbanização. A cidade se expandiu sobre a floresta e igarapés foram aterrados para dar
lugar a novas ruas. Sobrados, palacetes e monumentos, como o Teatro Amazonas, foram
erguidos, compondo uma arquitetura de estilo eclético. Junto com Belém, Manaus esteve
entre as primeiras cidades brasileiras a receber os serviços de luz elétrica, de bondes e de
água encanada.

Esses centros urbanos conheceram, também, as modernas relações laborais


fundamentadas no trabalho assalariado, com o surgimento, tanto em Belém como em
Manaus, de um proletariado ligado às atividades da navegação fluvial, da estiva, das
pequenas fábricas, da tipografia, do comércio e de outros serviços que se expandiam com o
crescimento da vida urbana. Formaram-se, sobretudo a partir da última década de 1890,
diversos partidos operários — inclusive o Partido Operário do Pará, inspirado em idéias da II
Internacional —, muitos dos quais mantiveram uma imprensa militante.30

Mas não apenas as capitais amazônicas sentiram os impulsos da economia da


borracha: ao longo dos rios, antigas taperas transformavam-se rapidamente em vilas ou
pequenas cidades com ruas calçadas e edificações em alvenaria substituindo a lama, o
adobe, a palha e a madeira. Quem hoje viajar pelo rio Solimões, de Manaus a Tabatinga,
em uma extensão de quase 1.500 quilômetros, não encontrará em suas cidades uma única
edificação anterior à década de 1880, período em que a extração da borracha passou a ser
importante naquele rio — embora Coari, Tefé, São Paulo de Olivença e Amaturá devam
suas origens a aldeamentos jesuíticos fundados 200 anos antes, na segunda metade do
século XVII.

A constante abertura de novas frentes de extração do látex e a ramificação dos


vapores em dezenas de linhas que percorriam os mais diversos afluentes até os longínquos
limites da navegação conduziram também a um inaudito processo de povoamento dos rios
amazônicos. Alguns deles, como o Purus e o Juruá, até então freqüentados apenas por
caçadores de índios e das “drogas do sertão”, receberam suas primeiras povoações, que se
comunicavam diretamente, em apenas alguns dias, com Manaus e Belém. Por outro lado,

30
Sobre o tema do movimento operário no Pará, cf. Francisco Foot Hardmann e Victor Leonardi, História da
indústria e do trabalho no Brasil: das origens aos anos 20. São Paulo: Global, 1982; e Vicente Salles, Marxismo,
socialismo e os militantes excluídos: capítulos da história do Pará. Belém: Paka-Tatu, 2001.

21
regiões já habitadas receberam novos moradores, de modo que, entre 1850 e 1910, a
população do Amazonas e do Pará saltou de 200 mil para 1,2 milhão de habitantes.

Mas esse crescimento, que contava com modernos elementos do capitalismo do


século XIX — os investimentos do capital financeiro, a tecnologia do vapor, os padrões
burgueses de consumo, o trabalho assalariado e as mobilizações do proletariado nas
principais cidades — era, ao mesmo tempo, sustentado por relações de trabalho e métodos
de apropriação do território que em nada diferiam daqueles empregados nos séculos XVII e
XVIII, nos quais estavam envolvidos índios e imigrantes nordestinos.

Quanto aos imigrantes nordestinos, fugitivos do flagelo da seca e da fome, passaram


a constituir a linha de frente do confronto com os índios e do avanço sobre suas terras, ao
mesmo tempo em que se submeteram a relações de trabalho que constituíam um tipo de
servidão por dívidas, conhecidas localmente pelo nome de aviamento: o trabalhador (o
seringueiro) encarregava-se de extrair o látex em determinada área de uma propriedade (o
seringal). Porém, todo o material de que necessitava — instrumentos de trabalho, roupas,
alimentos, armas e munição — deveriam ser adquiridos no armazém, ou “barracão”, do
proprietário (o seringalista), constituindo uma dívida que o tornava dependente, impedindo-o
de se retirar voluntariamente, e cujo pagamento passava a ser o objetivo de todos os seus
esforços.

Quanto aos povos indígenas, o deslocamento das novas frentes pioneiras promoveu
o contato com muitos daqueles que, até então, haviam mantido-se distantes da sociedade
nacional, renovando os episódios de confronto, escravização ou mesmo o desaparecimento
de populações inteiras. Na segunda metade do século XIX, esses fenômenos foram mais
intensos nos rios Purus e Juruá, até o atual estado do Acre, que eram as principais áreas de
expansão.

Além de se fundamentar em relações de trabalho arcaicas e na destruição de povos


autóctones, cujas terras eram ocupadas na base da violência, a economia da borracha não
promoveu uma acumulação local de capitais que permitisse a sustentação da economia
regional quando os preços internacionais e o volume das exportações conheceram uma
queda vertiginosa, na segunda década do século XX. Ao contrário, quando o
desenvolvimento de seringais cultivados no sudeste asiático permitiu a quebra do monopólio
amazônico sobre o comércio mundial de borracha, a economia e a sociedade da Amazônia
conheceram um novo processo de retração. Os investimentos minguaram; comerciantes e
produtores foram à falência ou se retiraram; seringais foram abandonados; vilas e cidades
que surgiram — ou ressurgiram — sob o impulso das intensas atividades produtivas foram
abandonadas e viram-se, outra vez, arruinadas; a população, crescente desde meados do

22
século XIX, declinou — passou de 1.200.000, em 1910, para um milhão, em 1920, quando
muitos dos antigos imigrantes retornaram aos seus estados de origem.

Entre tantas outras cidades e vilas, esse foi o caso, por exemplo, de Airão. Criada
em 1694, por um missionário da Ordem das Mercês, como aldeamento de índios Tarumã,
na confluência do rio Jaú com o rio Negro, Airão conheceu grande prosperidade nas duas
últimas décadas do século XIX, constituindo-se na referência maior para o extrativismo no
baixo rio Negro. Recebeu sólidas casas de alvenaria, grandes casas comerciais e uma
ampla igreja. O comércio era intenso e os vapores visitavam o lugar duas vezes por
semana. Com a crise da borracha, todo isso desapareceu: a cidade estagnou e sua
população se retirou, instalando-se em outro lugar, até que foi definitivamente abandonada,
restando apenas ruínas. A floresta avançou sobre as edificações abandonadas e as antigas
casas tem apenas o dossel por cobertura.31

O Teatro Amazonas, inaugurado em 1896 e, até os dias hoje, símbolo maior da


cidade de Manaus, é uma das poucas edificações amazônicas tombadas pelo Instituto do
Patrimônio Histórico Nacional, por ser considerada uma das maiores expressões materiais e
culturais daquele período. Ao lado dele, porém, deveriam ser tombadas, também, ruínas que
se espalham por vários rios amazônicos, como as ruínas do Velho Airão: tanto quanto as
grandes obras de arte, elas revelam o sentido profundo e concentram a memória daquele
período marcante da história da Amazônia.

8. As metamorfoses da população

Em que pesem as contradições e a fragilidade do desenvolvimento promovido pela


economia de exportação da borracha, e a decadência que a ele se seguiu, algumas
transformações ocorridas naquele período, sobretudo no que se refere à composição da
população, foram decisivas para a definição dos traços culturais da Amazônia que hoje
conhecemos e para impulsionar, na segunda metade do século XIX, seu processo de
integração à nação brasileira, que estava em processo de formação.

O caboclo amazônico, o ribeirinho, foi consagrado como o habitante típico da região.


Aparentemente incapaz de promover alterações significativas na vasta natureza que o
cerca, deslocando-se lentamente em sua frágil igara no meio de colossais massas de água,
reproduzindo, a cada geração, costumes e práticas cujas origens parecem perdidas no
tempo, o ribeirinho tem sido a encarnação da idéia de que, na Amazônia, os homens são
impotentes diante da natureza: antes, são dominados por ela, constituindo sociedades

31
A história do Velho Airão, a partir de suas ruínas, foi objeto de pesquisa de Victor Leonardi, consistindo no
tema do ensaio Os historiadores e os rios, citado anteriormente.

23
cristalizadas, imersas em um tempo que não se mede pelas ações humanas, mas pelos
ciclos da natureza. Isso apenas reforçou a idéia de que a Amazônia é uma “terra sem
história”.

Contudo, o ribeirinho, assim como toda a população da Amazônia, é produto de um


processo de formação que, bem ao contrário de uma longa e monótona continuidade,
conheceu mudanças e rupturas desde o século XVII. Esse processo de formação, aliás, não
está encerrado nem consolidado: em nossos dias, as grandes transformações a que a
Amazônia tem sido submetida resultam, também, em alterações não apenas quantitativas,
mas também qualitativas, em sua população.

Já me referi, em tópico anterior, à primeira grande transformação na composição


populacional, que está relacionada aos impactos da colonização sobre os povoadores pré-
coloniais da região e resultou daquilo que o historiador Antônio Porro definiu como “traço
fundamental”32 na história indígena do rio Amazonas: em meados do século XVIII, quase
todos os povos da várzea estavam extintos ou bastante reduzidos.

Ao mesmo tempo, e em decorrência daquele processo de despovoamento, a várzea


passou a ser ocupada por povos deslocados das margens dos afluentes para o grande rio
pelos missionários, que os reuniam em aldeamentos. O processo de integração dos índios à
sociedade colonial, por meio da escravidão ou dos aldeamentos, destruiu as estruturas
culturais e sociais às quais, até então, estiveram vinculados, e que diferenciavam e
conferiam existência particular aos vários povos da Amazônia, o que deu origem ao “tapuio”,
o índio genérico, destribalizado, cuja identidade diluiu-se por meio da integração forçada.

O “tapuio” constituiu a maioria da população amazônica até a metade do século XIX,


sendo reduzido o número de brancos. Como afirma o antropólogo Carlos de Araújo Moreira
Neto, apesar de o tapuio ser o resultado de um processo de desestruturação cultural de
diversos povos, assim mesmo “é inegável que restou um substrato oriundo de várias
tradições indígenas particulares, constituindo uma espécie de base comum do modo de ser
do habitante típico da Amazônia”.33 Esse “substrato indígena” predominou na composição
dos hábitos e costumes locais, na ausência de “uma cultura de raízes predominantemente
européias ou nacionais”, não só entre a população de origem indígena e mestiça, como
também entre a população branca menos abastada, que assimilou hábitos, costumes e
técnicas das populações locais. Tal situação é comparável àquela estudada por Sérgio
Buarque de Holanda para o planalto paulista, entre os séculos XVI e XVIII.34

32
Antônio Porro, “História indígena do Alto e Médio Amazonas”, In: O povo das águas, op. cit., p.37.
33
Carlos de Araújo Moreira Neto, Índios da Amazônia: de maioria a minoria. Petrópolis, Vozes, p.110.
34
De Sérgio Buarque de Holanda, pode-se consultar, sobre esse assunto, Raízes do Brasil, Caminhos e
fronteiras e Monções.

24
Uma das mais expressivas manifestações do predomínio de uma cultura de bases
indígenas ocorreu no campo lingüístico. Ao longo do processo de contato entre portugueses
e índios, desenvolveu-se uma Língua Geral Amazônica (LGA) — distinta da Língua Geral
Paulista, associada à expansão bandeirante desde São Paulo até Minas Gerais, Goiás e o
Mato Grosso. A LGA, ou nheengatu — a “fala boa” —, foi desenvolvida a partir do
tupinambá, língua do tronco tupi que era falada entre a costa do Maranhão e foz do
Tocantins, e seu emprego foi amplamente estimulado pelas autoridades portuguesas até
meados do século XVIII, como instrumento de comunicação dos colonizadores com a
grande diversidade de povos que encontraram — calcula-se que, no século XVI, eram
faladas mais de 700 línguas na Amazônia brasileira — sendo a língua ensinada nas escolas
mantidas por missionários nas aldeias. Ao mesmo tempo, como o número de falantes do
português era reduzido, essa língua não se expandiu na Amazônia durante mais de dois
séculos, período no qual predominou na região um bilingüismo, que tinha na LGA uma
língua supra-étnica, acompanhada de alguma outra língua falada na região: o português ou
diversas línguas vernáculas.35

Mas o tapuio começou a perder o lugar de destaque. Em primeiro lugar, por


decorrência da grande revolta da Cabanagem, na década de 1830, que deixou um saldo de
40 mil mortos — dos quais ele constituía a maior parte — e do recrutamento forçado para a
Guerra do Paraguai, na década de 1860. No processo de recrutamento, 2.070 homens de
origem indígena, do Pará e do Amazonas, foram integrados às tropas brasileiras, e muitos
outros, em fuga do alistamento forçado, simplesmente abandonaram as povoações e o
contato direto com a sociedade nacional.

O “golpe” decisivo, porém, viria a partir da década de 1850, quando as migrações de


nordestinos — sobretudo do Maranhão, do Ceará, da Paraíba, de Pernambuco, do Rio
Grande do Norte e de Alagoas —, acentuadas a partir da década de 1880 e estimuladas
pela ascensão da produção de borracha, ensejaram a segunda grande transformação da
composição populacional da região: ao serem as principais responsáveis pelo crescimento
da população do Pará e do Amazonas em mais de três vezes em 30 anos — de 390 mil, em
1880, para 1.200.000 em 191036 —, as levas migratórias promoveram a substituição do
“tapuio” pelo “caboclo amazônico”, um “novo ribeirinho”, resultado da miscigenação desses
brasileiros de origem nordestina com elementos de origem indígena e, em menor escala,
africana, que se firmou como tipo predominante na população amazônica ao longo de todo o
século XX. Essa ruptura se fez acompanhar de grandes transformações culturais, das quais

35
Cf. José Ribamar Bessa Freire, Rio Babel: a história das línguas na Amazônia. Rio de Janeiro, Eduerj/
Atlântica, 2004. Para as línguas indígenas no Brasil, ver também Aryon Dall’Igna Rodrigues, Línguas brasileiras:
a
para o conhecimento das línguas indígenas. São Paulo: Loyola, 1994. 2 ed.
36
Dados de população extraídos de Roberto Santos, História econômica da Amazônia (1800-1920). São Paulo:
TAC Editora, p.12.

25
a lingüística foi a mais evidente. Com a chegada de centenas de milhares de brasileiros,
provenientes do nordeste, falantes do português, o nheengatu começou a declinar de sua
posição hegemônica. Só então, passado cerca de meio século desde a Independência, é
que a língua oficial do país se impôs como língua hegemônica na Amazônia. Além da
língua, a imigração nordestina contribuiu para difundir na Amazônia uma maior variedade de
elementos da cultura brasileira, oriundos, muitas vezes, de áreas de colonização
estabelecidas desde o século XVII, onde a presença de homens de origem européia e
africana fora mais expressiva.

Apesar disso, a presença de elementos de origem indígena no modo de ser e de


viver da população amazônica ainda é muito significativa, variando, contudo, em intensidade
e formas de expressão em diferentes partes da região. Em alguns lugares, há povos que
ainda preservam sua identidade, diferenciando-se da sociedade envolvente, embora
mantenham intercâmbio permanente com ela — dos 350 mil índios que ainda existem no
Brasil, cerca de 250 mil vivem na Amazônia Legal, segundo dados da Fundação Nacional do
Índio – Funai. Em outros lugares, as origens indígenas apenas identificam-se por meio de
elementos que permaneceram na cultura regional.

Por exemplo, ao considerar, ainda uma vez, o problema das línguas, o que se pode
notar é que, sem embargo de todas aquelas transformações — o desaparecimento de
inúmeras línguas, o desenvolvimento de uma língua geral com base no tupi e seu posterior
declínio em favor do português —, mais de cem línguas são ainda faladas na Amazônia
brasileira, e a Amazônia Continental, onde atualmente são faladas aproximadamente 240
línguas, continua a ser “a região de maior densidade lingüística do continente americano”37.
O nheengatu persiste entre as populações do alto rio Negro, região que concentra grande
parte da população indígena brasileira — só em São Gabriel da Cachoeira registram-se 22
diferentes línguas indígenas, havendo indivíduos capazes de se comunicar em muitas delas.
Nesse município do noroeste do Amazonas, a população indígena, numerosa e muito
organizada, obteve a aprovação de uma lei municipal que estabelece o nheengatu, o tukano
e o baniwa como línguas oficiais, ao lado do português.

Além disso, a introdução de novos hábitos e visões de mundo, na segunda metade


do século XIX, nem sempre representou um confronto com hábitos e visões de mundo
indígenas. Ao contrário, houve, em grande medida, acomodação entre uns e outros. No que
se refere à adaptação ao meio ambiente, por exemplo, totalmente distinto daquele de onde
provinham os imigrantes, houve uma assimilação, pelos recém-chegados, dos hábitos e
práticas das populações locais, mais bem adaptadas à floresta tropical e aos rios
amazônicos. Também se percebe, com muita freqüência, entre as populações amazônicas
37
José Ribamar Bessa Freire, op. cit., p. 47.

26
ribeirinhas não indígenas, a idéia de que animais e plantas são também dotados de alma e
de que suas ações são guiadas por certa intencionalidade, de modo que os elementos são
capazes de interferir diretamente sobre as ações e o destino dos homens, e reciprocamente.
Esse fio de continuidade entre homens, plantas e animais torna-se evidente em diversas
situações como, por exemplo, por meio da crença em entidades que guardam a floresta e os
rios, na influência de certos animais nos destinos dos homens, na possibilidade de
transformação de animais em homens, bem como de homens em animais.

Talvez sejam os encantados a mais expressiva dessas formas de continuidade entre


o humano e o não humano. O antropólogo Raymundo Heraldo Maués assim os definiu:

Os encantados são pessoas que não morreram, mas se encantaram


e que vivem ‘no fundo’ dos rios e lagos, em cidades subterrâneas ou
subaquáticas. São normalmente invisíveis aos seres humanos
comuns, mas se apresentam sob a forma de animais aquáticos,
cobras, botos, jacarés, peixes e, por isso, são chamados de ‘bichos
do fundo’. Em outras ocasiões, aparecem à margem dos rios, nos
mangais (manguezais) ou nas praias de areia, sob forma humana e,
neste caso, são conhecidos como oiaras [variação de iara]. Além
disso, incorporam-se, permanecendo invisíveis, nos pajés, ou
curadores, durante as sessões xamanísticas e ajudam a curar
doentes, sendo, neste caso, conhecidos como caruanas. Trata-se de
seres ambíguos que, assim como curam, podem provocar doenças,
38
como castigo ou por maldades.
Assim, vivem os homens comuns em relação com os encantados, que podem
interferir em suas vidas, para o bem ou para o mal, e que se manifestam em ocasiões rituais
capazes de, por assim dizer, abrir a porta entre o mundo humano e o não humano, ou a
passagem para o encante — o mundo dos encantados —, revelando a continuidade entre
ambos. A iara e o boto — que assume a forma de um homem capaz de seduzir as mulheres
— são apenas os encantados mais conhecidos, ao lado de Norato Antônio, ou Cobra
Norato, que a obra de Raul Bopp divulgou para todo o Brasil.

O encantado assimilou elementos de tradições introduzidas na Amazônia pelas


ondas migratórias em diferentes períodos. Desse sincretismo, resultaram diversas versões
para as estórias do encante. Entre elas, algumas das mais interessantes são aquelas que
incorporaram a tradição portuguesa do sebastianismo e afirmam ser o próprio rei D.
Sebastião o rei dos encantados, habitando algum lugar da Amazônia — o fundo de um lago
— aguardando o momento propício para promover “uma subversão da ordem mística e
social atualmente existente, pois todas as cidades conhecidas afundarão, vindo para a

38
R. H. Maués, “Amazônias: Identidade regional e integração nacional”, In: Uma outra invenção da Amazônia:
Religiões, histórias, identidades, op. cit, p.92-93. Para uma abordagem específica e aprofundada do tema do
encantado, em particular sobre as imagens do boto na Amazônia, consultar Candace Slater, The dance of the
dolphin: transformation and disenchantment in the amazonian imagination, Chicago, The University of Chicago
Press, 1994.

27
superfície as cidades dos encantados e instaurando-se, a partir daí, o governo de D.
Sebastião sobre o mundo”.39

A permanência dessas bases indígenas não impediu que o catolicismo lançasse


bases sólidas na cultura regional amazônica. Ao contrário, ainda no período colonial, nos
aldeamentos, os missionários introduziram cantos e danças indígenas em celebrações
católicas, como a festa do Divino Espírito Santo que, ainda hoje reúne grande número de
devotos na região. Outra festa católica muito celebrada em festejos profanos, pela
população em geral, era a de São João, que coincidia com o começo do verão amazônico
— quando o nível das águas começa a baixar, dando início à estação da abundância e da
fertilidade. Porém, o exemplo mais significativo da força do catolicismo na região é a festa
do Círio de Nazaré, celebrada em louvor de Nossa Senhora de Nazaré e cujas origens
remontam ao ano de 1783. Realizado em várias cidades do Pará, é o Círio de Belém,
contudo, o mais expressivo, constituindo-se no maior festejo católico do Brasil, reunindo até
dois milhões de devotos a cada ano. Trata-se, contudo, de um catolicismo com fortes raízes
populares, avesso às tentativas de controle por parte da hierarquia eclesiástica, e que
recebeu grande “reforço” com a migração de trabalhadores oriundos das áreas rurais do
Nordeste.

A presença de homens e mulheres de origem africana restringe-se às áreas


amazônicas em que houve escravidão negra, bem como às áreas que, por serem
suficientemente isoladas em dado momento histórico, se constituíram em refúgio para a
formação de quilombos. Começaram a chegar em quantidade expressiva a partir da década
de 1750 para trabalhar nos engenhos formados em Belém e arredores, bem como no rio
Tocantins e na região Bragantina, constituindo, desde então, uma população bastante
significativa nessa porção da região amazônica, chegando a representar 15% da população
do Grão-Pará e 20% da população de Belém, nos princípios do século XIX. Sua
expressividade não é apenas numérica, mas registra-se, também, em festejos profanos —
como a marujada de Bragança, realizada desde 1798 — e celebrações religiosas. Segundo
dados da Federação Espírita Umbandista e dos Cultos Afro-Brasileiros do Pará – Feucabep,
existem cerca de mil terreiros dedicados aos cultos afro-brasileiros apenas na região
metropolitana de Belém.

As marcas da escravidão africana na Amazônia ainda estão presentes nas mais de


200 comunidades remanescentes de quilombos existentes no estado do Pará — na região
banhada pelos rios Trombetas, Erepecuru, Acapu e Cuminá (margem norte do Amazonas),
em Santarém, nas imediações de Belém, no baixo Tocantins, na zona Bragantina, na ilha de
Marajó e no Salgado (o litoral marítimo paraense). Em menor quantidade, há comunidades
39
R. H. Maués, op. cit., p.94.

28
desse tipo também no Amapá e, ao considerar a Amazônia Legal, no Maranhão e no Mato
Grosso. Essas comunidades lutam pela regularização de suas terras prevista pela
Constituição Federal de 1988, mas, passados 16 anos, assegurada para apenas uma
reduzida parcela entre elas.

9. A Amazônia Legal e a ocupação dos espaços vazios

A situação da Amazônia em 1940, quando Vargas pronunciou o célebre discurso em


Manaus, era o legado da crise da borracha. O período de euforia e promessas de
prosperidade havia se encerrado, deixando um rastro de abandono que apenas reforçava a
idéia de que o Homem continuava impotente diante da natureza naquela terra sem história.
Em meio à crise, algumas medidas de apoio à região foram adotadas ainda durante o
Estado Novo e, mais tarde, a Constituição Federal de 1946 (artigo 199), por iniciativa do
deputado amazonense Leopoldo Peres, previu a criação de um Plano de Valorização
Econômica da Amazônia, a ser implementado por um órgão criado especificamente com
essa finalidade — a SPVEA – Superintendência do Plano de Valorização Econômica da
Amazônia, criada em 1953. Um conceito legal de Amazônia surgiu, portanto, da
necessidade de delimitar, com precisão, a área de aplicação do Plano.

Mas, como apontei nas primeiras páginas, os limites da Amazônia Legal não se
pautam apenas por critérios físicos — a hidrografia, a botânica ou a ecologia — ou
históricos. Com a incorporação de parcelas do que eram então os estados do Mato Grosso
e de Goiás, definiu-se não estritamente a Amazônia, mas toda a fronteira brasileira ainda a
ser ocupada — não os limites do país, mas os limites da própria sociedade nacional. Assim,
a formulação do conceito de Amazônia Legal dever ser entendida como uma estratégia de
desenvolvimento nacional que pressupunha a ocupação das grandes extensões do território
brasileiro que, 203 anos depois do Tratado de Madri, permaneciam despovoadas, ou pouco
povoadas: a Amazônia Legal correspondia a uma superfície de pouco mais de cinco milhões
de quilômetros quadrados povoada, em 1950, por 3,5 milhões de habitantes.

A estratégia de delimitação da Amazônia Legal compartilha, portanto, o mesmo


princípio expansionista que, poucos anos antes, norteara a “Marcha para o Oeste”,
deflagrada durante o Estado Novo, que preconizava o reconhecimento e a ocupação das
áreas situadas entre o vale do rio Araguaia, no extremo oeste de Goiás, e o vale do rio
Xingu, no Mato Grosso. E, poucos anos mais tarde, a construção de Brasília, entre 1957 e
1960, também se inseria nesse esforço de ocupação do território nacional. Ao mesmo tempo
em que transferiu para o interior do país a capital da República, Brasília estabeleceu um
novo centro impulsionador de ocupação e desenvolvimento de áreas até então pouco ou

29
nada integradas à dinâmica da sociedade brasileira. Não só em virtude da proximidade que
a capital passou a manter em relação ao Norte e ao Centro-Oeste do país – onde, afinal, se
estabeleceu. Mas, também, em virtude da abertura de rodovias que acompanharam a sua
construção, permitiram ampliar as redes de conexão do litoral e do centro ao interior do país
e serviram como vias de penetração para uma nova fase de ocupação do Centro-Oeste e da
Amazônia A Belém-Brasília, por exemplo, que corta uma extensão de 2.162 km, foi
construída entre 1958 e 1960. A BR-364, que liga Cuiabá a Porto Velho, já era transitável
em 1963.

Constituíram-se, desse modo, nos anos 40 e 50, algumas das bases do modelo de
ocupação da Amazônia que ganhou impulso a partir da década de 1960 e que possui
características que o diferenciam do modo de ocupação que predominou até a metade do
século passado. A primeira característica a destacar é a forte participação do Estado
brasileiro no processo de ocupação, por meio da formulação de planos de desenvolvimento
e da criação de agências governamentais para atuação direta sobre a região, da concessão
de créditos e incentivos fiscais, do investimento em obras de infra-estrutura — como
rodovias e usinas hidrelétricas, entre outras.

O apoio do Estado, por sua vez, criou condições para investimentos maciços na
indústria de extração mineral e nos empreendimentos agropecuários de grande porte,
realizados por empresas de capital nacional ou estrangeiro. Essas atividades assumiram o
papel preponderante na economia regional em detrimento do extrativismo vegetal tradicional
— extração de resinas, frutas e essências —, o que constitui a segunda característica
distintiva da ocupação no período. Ao mesmo tempo, o Estado recorria ao território da
Amazônia como estoque de terras para promover a reforma agrária, em esforço para aliviar
a pressão exercida pelo excesso de contingente de trabalhadores nas áreas mais
populosas.

A terceira característica do novo processo de ocupação é que os eixos de


deslocamento e organização do território já não são, predominantemente, os rios, mas as
grandes rodovias, ao longo das quais se formaram novos núcleos de povoamento. Além da
Belém-Brasília e da Cuiabá-Porto Velho, foram construídas a Cuiabá-Santarém e a
Transmazônica — esta, a rodovia que carrega todo o simbolismo do esforço estatal por
ocupar a região, ao ser construída com o propósito de estabelecer um eixo terrestre que
cortaria a Amazônia horizontalmente, de um extremo ao outro. Decorre daí outro aspecto
que distingue o atual processo de ocupação da Amazônia, que se realiza, de maneira
predominante, nas terras altas do Planalto Brasileiro e do Planalto das Guianas, em
contraste com a ocupação ribeirinha que predominou durante cerca de 350 anos.

30
10. Transformações: um novo cenário regional

Novos agentes sociais entraram em cena. Imigrantes de vários estados do país


afluíram para uma larga faixa que se estende do oeste do Maranhão, passa pelo sudeste e
sul do Pará, noroeste do Tocantins, atravessa todo o norte do Mato Grosso e ocupa todo o
estado de Rondônia, já se estendendo para o Acre, ao longo da qual se instalou a nova
fronteira agrícola e que constitui o cenário das principais transformações hoje em curso na
Amazônia. Essa faixa é conhecida como “Arco do Desmatamento”, por concentrar quase a
totalidade da derrubada e queima de florestas na Amazônia. Pequenas unidades de
produção familiar foram estabelecidas e empregam a maior parte da força de trabalho do
setor agropecuário. Porém, são as grandes fazendas de gado e monocultura que detém o
controle da maior parte das terras da região.

A população da Amazônia Legal passou de 8,2 milhões, em 1970, para 20,1 milhões
em 2000. No mesmo período, a população apenas dos estados do Acre, Amapá, Amazonas,
Pará, Rondônia e Roraima passou de 3,6 para 11,7 milhões.40 Em ambos os casos, as taxas
de crescimento regionais foram superiores à nacional. Embora o crescimento vegetativo
tenha sido o principal responsável pelo crescimento da população nas décadas de 1970 e
1980, houve também grande contribuição da migração oriunda de outras regiões do país.
Nas décadas de 1970 e 1980, o saldo migratório dos seis estados foi responsável por,
respectivamente, 35% e 41% do aumento da população daquelas unidades da Federação. A
partir de 1986, porém, as migrações para a Amazônia diminuíram muito, embora ainda
registrem-se saldos migratórios positivos.41 O que desde então predomina, contudo, são as
migrações internas, deslocamentos entre os estados da região.

Os grandes fluxos migratórios das décadas de 1970 e 1980 dirigiram-se, sobretudo,


para os estados de Rondônia e Roraima. A população de Rondônia cresceu mais de quatro
vezes em apenas dez anos: passou de 111 mil habitantes, em 1970, para 491 mil, em 1980,
superando a marca de um milhão em 1991.42 Roraima, por sua vez, conheceu maior
crescimento nos anos 80, quando sua população praticamente triplicou — de 79 mil, em
1980, para 217 mil, em 1991. Como se vê, Rondônia e Roraima, antigos territórios federais,
praticamente povoaram-se nas últimas décadas, fundamentando sua economia sobre a
pecuária, agricultura e a mineração — em bases legais ou por meio do garimpo clandestino.
Nesse processo, forjaram-se elites locais que, estando à frente da expansão econômica,
passaram a controlar também o processo político regional. Em geral, os membros dessa
40
De acordo com dados do IBGE.
41
Cf. Donald Sawyer, Evolução demográfica, qualidade de vida e desmatamento na Amazônia. In: Brasil.
Ministério do Meio Ambiente. Causas e dinâmica do desmatamento na Amazônia. Brasília, 2001, p. 73-90.
42
De acordo com dados do IBGE.

31
elite pouco têm a ver com os antigos comerciantes controladores do extrativismo, sendo
oriundos de outros estados. É o caso do governador de Rondônia, Ivo Cassol, cuja família
chegou àquele estado em 1977 — no auge de sua expansão — proveniente de Santa
Catarina. Em Mato Grosso, por sua vez, a ascensão ao governo do estado de Blairo Maggi,
proprietário do grupo empresarial que é o maior produtor mundial de soja, é a expressão
maior do domínio econômico e político dos grandes proprietários e empresas agropecuárias,
oriundos, em geral, dos estados do sul do país — como é o caso do gaúcho Maggi. As elites
matogrossenses, de tradição secular, tiveram que dividir o poder com os grupos emergentes
na economia e na política locais.

A situação também se modificou em Manaus, desde o estabelecimento da Zona


Franca e do Pólo Industrial, em 1967. Grandes empresas multinacionais produtoras de
eletrodomésticos e eletrônicos, beneficiárias de incentivos fiscais, passaram a constituir o
setor mais importante da economia do Amazonas, principais responsáveis pelo fato de que
o setor industrial contribua com mais de 20% do PIB da Região Norte. Ao lado dessas
empresas — cujas sedes estão fixadas a milhares de quilômetros dali, em São Paulo ou no
exterior — têm papel de destaque na economia do Amazonas os empresários do ramo da
importação, muitos deles estrangeiros, beneficiando-se da zona de livre-comércio. As
antigas elites, sobreviventes dos tempos da borracha, desprovidas de capitais que fizessem
frente às exigências do momento, participaram desse processo em papel econômico
secundário, mas detendo ainda o poder político. Ao mesmo tempo, as novas indústrias
instaladas fortaleceram, numericamente, um proletariado industrial, antes pouco expressivo
no Amazonas — empregam, hoje, cerca de 75 mil trabalhadores — e, diante da estagnação
reinante nas áreas interioranas, a capital tornou-se o pólo de atração de migrantes,
reunindo, em nossos dias, 50% de toda a população do estado.

Além de ocasionarem grande incremento no número de habitantes da Amazônia, os


processos de ocupação iniciados na década de 1960 têm ensejado novas transformações
na composição da população regional e em seu modo de vida. Tais transformações ainda
estão em andamento e, nestes primeiros anos do século XXI, somos os espectadores dessa
cena. Ao contrário das migrações ocorridas no século XIX, esses novos habitantes não
procederam apenas dos estados da região Nordeste, mas também das outras regiões do
Brasil — o Sul, o Sudeste e o Centro-Oeste (Goiás e Mato-Grosso do Sul) — atraídos pelas
esperanças de terra e trabalho, ou de sorte grande no garimpo. Dessa forma, nas novas
regiões de povoamento, situadas, sobretudo, nas terras altas, está em formação uma
população com maior diversidade em suas bases culturais e em seus traços físicos, se a
compararmos com as populações estabelecidas nas históricas e tradicionais áreas
ribeirinhas. Além disso, enquanto a várzea tornou possível o desenvolvimento de um modo

32
de vida relacionado ao regime das águas e à inserção do homem na floresta, inclusive no
que se refere às crenças e mitos, isso não ocorre nas terras altas, onde as atividades
predominantes — a agricultura, a pecuária, a extração madeireira e o garimpo — impõem a
destruição da floresta e a construção de uma paisagem radicalmente distinta.

Atualmente, 60% da população da Amazônia Legal vivem em cidades. Mas, ainda


que o número de municípios e cidades tenha crescido muito, a população urbana está
concentrada em alguns centros de grande e médio porte, sobretudo as capitais dos nove
estados, onde residem cerca de oito milhões de pessoas ou 2/3 de toda a população urbana
da Amazônia Legal: Manaus e Belém somam mais de três milhões de habitantes; São Luís
e Cuiabá têm, juntas, perto de dois milhões de habitantes; e as demais capitais — Porto
Velho, Macapá, Rio Branco, Boa Vista e Palmas — alcançam, ao todo, pouco mais de um
milhão. Na maior parte dos municípios da região, menos da metade dos habitantes vive na
área urbana. São, também, municípios pequenos, a maioria deles com a população
variando entre 10 e 50 mil habitantes, marcados pela relação direta com as atividades
agropecuárias, pelo espírito pioneiro e pela mobilidade da população. De acordo com o
Censo 2000, entre 31 municípios brasileiros com maior percentual de população não-natural
(índices superiores a 80%), 27 situam-se na Amazônia Legal, dos quais 21 em Mato Grosso,
cinco em Rondônia e um no Tocantins,43 o que é mais um indicador do alto nível de
mobilidade da população local.

11. Permanências: violência e trabalho compulsório no século XXI

Embora estejam produzindo um novo cenário regional, as frentes pioneiras abertas


na segunda metade do século XX e que ainda avançam sobre a Amazônia recorrem aos
mesmos métodos de acumulação empregados nos séculos XVII e XVIII: a apropriação
indiscriminada de terras, sem qualquer hesitação em desalojar, por expulsão ou extermínio,
povos indígenas que as ocupam tradicionalmente; a exploração da força-de-trabalho por
meio da coerção física e da privação da liberdade, com a preservação de relações de
trabalho consideradas análogas à escravidão; o emprego da força nas disputas pela terra e
pelos recursos naturais, com a imposição pela violência dos mais fortes sobre os mais
fracos. Nos cenários contemporâneos, esses métodos clássicos da acumulação primitiva de
capital se unem a alguns fenômenos que apenas agravam a situação: o crime organizado
que associa o tráfico de drogas e de mulheres — em redes internacionais de prostituição —,
o contrabando de madeira, de animais silvestres, de metais e pedras preciosas. Enfim, no
deslocamento das fronteiras, a violência continua a ser o método de expansão, ignorando as

43
IBGE, Atlas do Censo Demográfico 2000. Rio de Janeiro, 2003.

33
leis e convenções que têm regulado a vida em sociedade e procurado assegurar o respeito
à vida humana.

Territórios indígenas foram cortados pelas novas rodovias ou inundados por


reservatórios de hidrelétricas. No caso dos Waimiri-Atroari, por exemplo, povo da família
lingüística karib localizado no estado do Amazonas, o território sofreu os dois tipos de
mutilação: foi cortado pela BR-174, que liga Manaus a Boa Vista — cuja construção foi
assegurada mediante o emprego da violência, contra os índios, pelas Forças Armadas
brasileiras — e inundado pela represa da hidrelétrica de Balbina, no rio Uatumã, uma obra
construída para fornecer energia elétrica para as fábricas do distrito industrial de Manaus.

Os Panará, índios da família Jê, habitantes do Mato Grosso, estavam no caminho da


BR-163, que liga Cuiabá a Santarém. Foram contatados em 1973 e removidos para o
Parque Indígena do Xingu. Nesse processo, as doenças reduziram a população Panará de
cerca de 300 para apenas 70 índios. Hoje, passados 30 anos, recuperaram uma pequena
parte de suas terras e sua população já atinge 250 indivíduos. Outra rodovia, a
Transamazônica, cortou ao meio o território dos Arara, povo da família karib, habitantes do
estado do Pará. Nas margens da rodovia, núcleos de colonização agrícola foram instalados,
conduzindo milhares de homens sem terra, não para uma “terra sem homens”, mas para a
terra dos índios Arara. Mais uma vez, muitos índios morreram em virtude das doenças
levadas pelos brancos e, sobre isso, o sertanista Sydney Possuelo, da Funai, que
comandou os trabalhos de atração dos Arara — que duraram muitos anos, sendo
concluídos em 1981 —, deu o seguinte depoimento ao Núcleo de Estudos Amazônicos da
Universidade de Brasília:44

Quando os Arara adoeceram, mandei filmar. Então, pela primeira vez


você tinha nosso trabalho no meio dos índios doentes. Eu queria
mostrar: — Olha o que acontece! Essa porra acontece! Coisa
horrível! Caminhando na selva, trazendo índios nas costas, para dar
os remédios, né?
Os Cinta Larga e os Urueu-uau-uau, da família tupi, são apenas dois entre tantos
grupos indígenas afetados pela construção da BR-364, que liga Cuiabá a Porto Velho. A
rodovia, construída nas décadas de 1970 e 1980, facilitou a penetração de novas frentes de
expansão, em busca de madeira e riquezas minerais.

Embora milhares de homens e mulheres tenham sido atraídos para a Amazônia sob
a promessa de que teriam, enfim, sua parcela de terra, a tão alardeada reforma agrária
revelou-se uma quimera. Formaram-se, com efeito, muitas novas unidades familiares de
produção, mas a situação fundiária da Amazônia caracteriza-se pela concentração de terras
entre poucos grandes proprietários. Muitas dessas terras foram adquiridas com os

44
Terra das Águas: revista de estudos amazônicos. Brasília: Paralelo 15, Ano I, Nº 1, 1º sem. de 1999. p.199.

34
benefícios fiscais concedidos pelo governo federal para o estabelecimento de
empreendimentos agropecuários de grande porte. Outra parte, porém, foi apropriada
ilegalmente, em processo popularmente conhecido como grilagem, que envolve tanto terras
desocupadas como, também, terras ocupadas por pequenos produtores ou comunidades
extrativistas, mediante o emprego da violência. Ademais, a inexistência de assistência
técnica, bem como as dificuldades de produção e comercialização levaram muitas famílias a
abandonarem ou venderem, a baixos preços, suas parcelas nos assentamentos rurais,
ocasionando novo processo de concentração da propriedade fundiária onde ela havia sido
parcelada.

Em busca das riquezas prometidas em uma terra aparentemente aberta a todas as


possibilidades, circula um exército de trabalhadores sem terra e sem emprego fixo, o que,
somado à ausência da Justiça e dos órgãos de regulação das relações laborais, cria as
condições para a manutenção das mais aviltantes formas de exploração, entre as quais o
trabalho compulsório. Não se trata de casos isolados, mas de milhares de trabalhadores
submetidos a centenas de empregadores, o que confere a essa forma odiosa de trabalho
um lugar de destaque no funcionamento da economia regional.

Esses trabalhadores são, em geral, recrutados para trabalhar no corte de madeira e


na formação de pastos em grandes fazendas. Outras vezes, são empregados na coleta da
castanha, da piaçava ou de outros produtos do extrativismo vegetal, sempre mediante a
promessa de um salário. Porém, desde que chegam ao local de trabalho, vêem-se
comprometidos com dívidas: o transporte até a fazenda, a alimentação diária,
medicamentos e tudo o mais do que necessitem é fornecido pelo contratante, junto ao qual
assumem dívidas insolúveis, muito superiores aos seus vencimentos e que os mantêm
presos à fazenda. Em tais condições, a vigilância armada é constante e, em muitas
fazendas, descobriram-se cemitérios clandestinos onde foram sepultados aqueles que
perderam a vida em tentativas de fuga ou, simplesmente, em virtude das más condições
sanitárias e de alimentação.

Não se trata, a rigor, de uma reprodução da escravidão clássica, conhecida na


Antigüidade, ou da escravidão moderna à qual foram submetidos os povos africanos na
América, nas quais o trabalhador é, ele próprio, uma mercadoria que pode ser vendida ou
trocada. Entre os autores que se dedicaram ao assunto, não há um termo consensual para
definir essa relação de trabalho que, aliás, tem assumido formas variantes segundo o lugar
da Amazônia em que venha a ocorrer. No entanto, tem-se difundido, entre pesquisadores, o
conceito de “escravidão por dívida”. Quanto aos trabalhadores submetidos a tamanha

35
degradação, parecem usar o sentimento por que são tomados para definir sua condição:
“trabalho humilhado”.45

De todo modo, qualquer que seja o conceito empregado, trata-se de uma forma de
trabalho compulsório muito semelhante àquela que, durante o período áureo da exportação
de borracha, ficou conhecida como “aviamento”, pela qual o seringueiro tornava-se
dependente do seringalista por meio da contração de dívidas — como descrevi algumas
páginas atrás. Desde então, a legislação brasileira aboliu formalmente todo tipo de trabalho
não consentido e regulamentou as relações entre capital e trabalho, estabelecendo alguns
direitos relevantes para os trabalhadores do campo e da cidade. Entretanto, o trabalho
compulsório atravessou o século e persiste em constituir, na Amazônia, um importante meio
de acumulação de capital. Não se trata, portanto, de um ressurgimento, mas de uma
permanência, revitalizada pelas frentes pioneiras desde a década de 1970.

Em seu minucioso estudo sobre o tema, que elaborou como tese de doutorado no
Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Ricardo Rezende Figueira,
padre que atuou durante 19 anos no sul do Pará, apresenta uma lista de 445 fazendas
acusadas, entre 1969 e março de 2004, de utilizar trabalho escravo, sobretudo no sul e
sudeste daquele estado. Na lista, figuram diversas empresas agropecuárias de expressão
regional, ao lado de empresas como os bancos Bamerindus e Bradesco, as seguradoras
Atlântica Boa Vista e Sul América, a siderúrgica Ferro Gusa do Maranhão, a construtora
Encol e a Volkswagen do Brasil.46 Como se vê, os beneficiários da escravidão por dívida já
não são apenas os velhos “coronéis de barranco”, representantes de um Brasil retrógrado,
ao qual se oporia um Brasil moderno. São, também, grandes empresas representantes do
capital financeiro e da indústria que se beneficiaram de financiamentos e incentivos fiscais
do governo federal para adquirir grandes extensões de terra e instalar empreendimentos
agropecuários na Amazônia.

O caráter destrutivo do atual modelo de ocupação da Amazônia se manifesta,


também, por meio de uma capacidade inaudita de destruição do meio ambiente. Após quase
400 anos da fundação de Belém, estima-se que a Amazônia brasileira tenha perdido pouco
mais de 15% de suas florestas, ou aproximadamente 650 mil quilômetros quadrados, o que
parece pouco ao lembrarmos que, na Mata Atlântica, as áreas remanescentes representam
apenas 7% de sua cobertura original. Mas os números constituem motivo de preocupação
ao considerarmos que quase todo o desmatamento tem ocorrido nos últimos 30 ou 40 anos.
E que, nos últimos três anos, as taxas de destruição da floresta têm se mantido entre as

45
Para uma discussão conceitual detalhada, cf. Ricardo Rezende Figueira, Pisando fora da própria sombra: a
escravidão por dívida no Brasil contemporâneo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2004. p.33-48.
46
Ricardo Rezende Figueira, op. cit., p.415-33.

36
mais altas da série histórica, por volta de 23 mil Km2 por ano. Ao mesmo tempo, estima-se
que 20% da área já derrubada, ou 165 mil Km2, encontra-se sub utilizada ou degradada.
Das 27 unidades da Federação, apenas 15 têm área superior à dessas terras degradadas,
que corresponde à superfície conjunta dos estados da Paraíba e Pernambuco e é maior que
os estados do Acre e do Amapá, por exemplo. Essas terras foram esgotadas pelos
agricultores ou pecuaristas e muitas poderiam ser submetidas a um processo de
recuperação e reaproveitadas, de modo a evitar que novas áreas sejam devastadas. Mas as
frentes pioneiras não têm tempo de olhar para trás e contemplar o seu próprio rastro. Se, no
passado, as marcas da ocupação foram as cidades abandonas, o que vemos no presente é,
além de cidades em ruínas — muitas cidades foram abandonadas no Mato Grosso nas
décadas de 1980 e 1990 —, uma natureza em ruínas.

12. Uma colônia do Brasil?

Que a atitude do Estado brasileiro configure um tipo de colonialismo interno, ao


promover a invasão de terras de outros povos situadas nos limites estabelecidos pelos
acordos entre as antigas metrópoles — Portugal e Espanha — não significa que a Amazônia
seja uma colônia do Brasil, como apregoa um pensamento regionalista gestado em alguns
estados amazônicos, com variantes “conservadoras” e “progressistas”.47 Segundo essa
forma de pensar o lugar da Amazônia no Brasil, os principais problemas da região devem-se
à concentração, nas mãos do governo federal e das elites dos estados do “Sul”, do poder de
decisão sobre seus rumos. Espoliada pelas elites dos estados mais ricos, a Amazônia só
encontrará a solução de seus problemas quando seu povo — o povo amazônida — for
ouvido e os interesses regionais forem defendidos e respeitados.

Não compartilho essa opinião. Em primeiro lugar, porque ela nega, oculta ou relega a
um plano de menor importância — a depender de suas variantes — as diferenças de classe
existentes na Amazônia, colocando como vítimas do mesmo processo a população
trabalhadora das cidades, do campo, das beiradas de rio; os povos indígenas; e as velhas e
novas elites da região. Ora, nas páginas anteriores, procurei descrever o papel histórico
desempenhado pelas elites regionais amazônicas. Formadas no período colonial, foram as
elites do Pará e do Amazonas que deram continuidade ao processo de ocupação de terras
indígenas e de exploração do trabalho, nos mesmos moldes dos séculos XVII e XVIII,
atuando, elas mesmas, como colonialistas diante de muitos povos que até então não haviam
entrado em contato com a sociedade nacional. Na disputa pelo botim, deflagraram-se
conflitos violentos entre elas, como nas duas tentativas dos comerciantes de Manaus —

47
Uma análise desses discursos pode ser consultada em Pere Petit, Chão de promessas: elites políticas e
transformações econômicas no estado do Pará pós-1964. Belém: Paka-Tatu, 2003. O autor é professor do
Departamento de História da Universidade Federal do Pará.

37
quando ainda era apenas a Fortaleza da Barra do Rio Negro, em 1823 e 1832 — de formar
uma província independente do Grão-Pará, recorrendo, para isso, ao apoio do governo
central do Império. Foi desses conflitos entre as facções da elite regional pelo controle do
comércio, das terras e da força de trabalho indígenas que resultou o atual estado do
Amazonas, separado do Pará em 1850.

Além disso, eventuais conflitos entre essas mesmas elites e o governo central não
devem ser entendidos como oposições de pólos antagônicos, mas como conflitos ocasionais
entre partes que se complementam, e é assim que devem ser entendidas as críticas aos
planos e ações federais para a região. De um modo geral, as elites regionais solicitaram o
socorro do governo central em momentos de crise, participando como sócias menores nos
empreendimentos, beneficiando-se dos cargos de mando nas agências governamentais
para a região e, muitas vezes, locupletando-se com seus orçamentos. Como exemplo, pode
ser lembrado o papel decisivo desempenhado pelos deputados dos estados amazônicos –
Pará e Amazonas — na elaboração do Plano de Valorização da Amazônia, inscrito na
Constituição de 1946, e na formação do órgão de Superintendência do Plano, a SPVEA, em
1953 — não podendo, portanto, ser essa iniciativa de planejamento regional atribuída a
mera intervenção arbitrária do poder central.

A Amazônia não é, tampouco, uma criação “externa”. Foram, afinal, as elites


amazônicas que, ao delimitarem seu próprio espaço de domínio, inventaram o conceito de
Amazônia, no sentido mesmo de pátria, tema que abordei nas páginas iniciais deste ensaio.
É muito significativo que esse conceito tenha ganhado evidência na Primeira República,
período em que os poderes locais se fortaleceram no Brasil e os regionalismos se
exacerbaram. É significativo, também, que a defesa da identidade regional tenha se tornado
explícita justamente num momento em que região passava por grandes transformações,
com o afluxo de milhares de imigrantes nordestinos.

Por outro lado, a constatação de que a sociedade formada na Amazônia tem


singularidades que a distinguem daquela que se formou nas demais regiões brasileiras não
deve levar à conclusão de que existe uma sociedade amazônica oposta à brasileira. Ao
contrário, essa diversidade — que se verifica, também, no Sul ou no Nordeste, por exemplo
— deve ser entendida como uma característica do processo de formação da cultura e da
sociedade brasileiras, e não como resultante de antagonismos ou de um processo
independente.

Ao considerar o processo de formação da população que habita a região amazônica,


o que se constata é que — à exceção dos povos indígenas, seus ocupantes imemoriais —
não faz sentido falar em uma população regional, a-histórica que teria sido sempre

38
silenciada e submetida a desígnios externos — de Portugal e, depois, do Brasil. Como
procurei argumentar ao longo deste ensaio, a formação da população da Amazônia é
marcada por rupturas e resulta de um processo complexo e contraditório, o qual,
contemplado em perspectiva histórica, revela que, muitas vezes, o mesmo grupo social
desempenhou diferentes papéis, em diferentes momentos. Por exemplo, em nossos dias,
pelo menos em algumas áreas da Amazônia, índios e extrativistas têm sido reunidos sob a
categoria “povos da floresta”. Ora, se essa categoria tem o valor de expressar a
possibilidade real de convívio pacífico entre índios e não-índios e de impulsionar a
mobilização comum desses grupos étnicos e sociais em defesa de seus direitos, ela não
pode, entretanto, ser projetada desde o presente sobre o passado de modo a ocultar os
violentos conflitos que marcaram a história de índios e seringueiros, antes que eles
pudessem conviver pacificamente.

Os seringueiros — esses trabalhadores deslocados pela seca e pela fome em busca


de dias melhores — constituíram a linha de frente da ocupação do território amazônico e do
avanço sobre terras indígenas. Isso fica claro ao relembrarmos o processo de formação do
estado do Acre, quando os imigrantes nordestinos — então, recém-chegados, e, hoje, a
base da população amazônica — representaram a ponta de lança do colonialismo: ao
incorporarem pelas armas uma porção do território boliviano ao território brasileiro, e ao
promoverem a chacina de povos como os Jamamadi, os Kulina, os Kaxinawá, os Apurinã e
os Kanamari, ocupando suas terras.48 Embora mais de um século de convivência tenha
tornado possível o convívio entre índios e não-índios, em muitos lugares da Amazônia ainda
é difícil que isso aconteça. O preconceito contra povos indígenas é maior entre as
populações das cidades e vilas circundantes, que disputam com eles o acesso às terras e
aos recursos naturais.

Ademais, a população da Amazônia está em franco processo de transformação e


movimento, recebendo novos imigrantes e deslocando-se constantemente no interior da
região. O pequeno produtor rural de hoje, assentado em sua pequena propriedade, era, a
uma ou duas décadas, o colono recém-chegado de algum lugar do país, convidado a
desbravar uma floresta que lhe era totalmente desconhecida, e sua história se repete a cada
dia, com outras tantas famílias.

Por tudo isso, a questão da Amazônia não diz respeito apenas aos seus habitantes
— cuja participação ativa é, contudo, indispensável — e a solução de seus problemas não
passa por algum tipo de “autodeterminação dos povos da Amazônia”. E nem, muito menos,
pelo “fortalecimento” das elites locais para lutar pelos interesses regionais. A Amazônia é
um problema nacional, para o qual não haverá solução se algumas questões que dizem
48
Cf. Victor Leonardi, Entre árvores e esquecimentos: história social nos sertões do Brasil. Op. cit, p.93 e 94.

39
respeito a toda a sociedade brasileira não forem resolvidas. É o caso, por exemplo, da
questão agrária, de cuja superação depende, em grande parte, a solução para que as terras
indígenas deixem de ser invadidas e os direitos desses povos não sejam mais contestados;
ou para o problema da crescente concentração fundiária na região, que repete um modelo
cujas conseqüências são por demais conhecidas — ele tem sido a origem de grande parte
da violência que acompanha a história do nosso país e alimento dos bolsões de miséria que
continuam a crescer, e dos novos que se formam, inclusive na Amazônia.

13. Um lugar para as utopias

Com freqüência, encontramos livros e ensaios que se esforçam por oferecer ao leitor
uma Amazônia sem mitos. De minha parte, não foi o que pretendi. Afinal, seria realmente
desejável romper definitivamente o manto de mistério e encantamento de que a Amazônia
ainda se reveste — não apenas para aqueles que não a conhecem senão à distância, mas
também para muitos de seus moradores para os quais, afinal, é no fundo das águas
amazônicas que habitam os seres encantados? Pois foi o mistério, o desconhecido, assim
como a grandiosidade dos seus rios e a força vital que a floresta revela que nutriram, e
ainda nutrem, inúmeras utopias ao longo de quatro séculos.

A Amazônia foi, no século XVII, o lugar em que alguns missionários e aventureiros


projetaram a utopia do Paraíso terrestre. O franciscano francês Claude D’Abbeville, por
exemplo, encontrou não apenas nas Escrituras Sagradas, mas também nos fundamentos da
física aristotélica, as explicações para a temperança do clima e constante primavera, a
fertilidade da terra e a abundância de peixes e animais terrestres que faziam do Maranhão
— onde ele esteve, em 1612, com os homens de La Ravardière — um lugar muito
semelhante ao Paraíso.

A Amazônia foi, também, o lugar da utopia do padre João Daniel, missionário jesuíta
expulso do Pará no ano de 1757. Em seus projetos, João Daniel fez da Amazônia o lugar de
realização da mais ambicionada promessa do Paraíso terrestre: libertar o homem das penas
do trabalho, maldição que o acompanha desde a Queda. Quando, um século depois de
João Daniel, Henry Walter Bates (1825 – 1892) escreveu que o vale do Amazonas poderia
ser chamado de Paraíso do Naturalista, ele não estava se referindo apenas a um lugar que
oferece aos estudiosos da natureza enorme diversidade de espécies vivas. Referia-se,
também, a um lugar “onde as forças da Natureza, em perfeito equilíbrio, mantinham um solo
e um clima que pareciam exemplificar a ordem e a beleza do Universo”. Aliás, foi ali que o
próprio Bates desfrutou plenamente sua juventude — ele viveu na Amazônia dos 23 aos 34
anos —, em um estado de contentamento que se manifesta ao longo de todo o seu relato de
viagem.

40
Em nossos dias, muito mais já se sabe sobre a Amazônia e quase a quinta parte da
floresta que a recobre já foi destruída. O que, entretanto, não impede que muitos homens
continuem encontrando naquela região a inspiração para suas esperanças.

____________________
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Kelerson Semerene Costa é professor do Departamento de História e do Núcleo de Estudos Amazônicos da
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