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ARTIGO: A EVOLUÇÃO DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS

Duas são as consequências desta postura norma: a) a lei não mais se apresenta como
fórmula indiscutível e que não pode ser mudada por ditada por uma divindade.
Transformando-se em obra humana, deixando de ser divina, é reconhecida a possibilidade de
sujeitar os preceitos legais a mudanças; se a lei é feita pelo homem, este pode modificá-la; e b)
a lei, antes parte da religião e propriedade das famílias sagradas, torna-se propriedade comum
de todos.
Desse modo, o direito mudou de natureza [60], embora a Lei das XII Tábuas seja mais
uma transição entre o regime antigo e o que a sucedeu. A Lei das XII Tábuas foi elaborada
pelos patrícios, mas a pedido e para uso da plebe, pois que decorrente de movimentos
populares, identificada pela sociedade ocidental como o primeiro conjunto de leis destinado à
consagração da propriedade, da liberdade e da proteção aos direitos dos indivíduos. De acordo
com Rogério Gesta Leal[61], “os avanços jurídicos e políticos que surgem em Roma, os quais
podem aproximar-se de garantias de direitos individuais, são conquistados a duras penas e sob
pressão popular”, a exemplo do que aconteceu com a luta dos plebeus em busca de
tratamento igualitário ao da nobreza; a designação dos tribunos da plebe; a conquista de leis
editadas para nivelar as posições sociais.
Para a confecção da Lei das XII Tábuas, depois de uma luta política que durou dez anos,
foi instituído pelo Senado romano um grupo formado por dez membros, incluindo entre eles
os plebeus, razão pela qual a plebe (povo) detinha o direito de alcançar a Magistratura. Em
451, sem a presença de plebeus, foi redigida uma lei em dez tábuas, que foi aprovada pelos
comícios por centúrias. Em 450 a.C., outros decênviros redigiram as outras duas tábuas de lei,
incorporadas às dez primeiras. Com efeito, estava composta a primeira constituição romana, a
Lei das XII Tábuas[62].
A Lei das XII Tábuas era de caráter genérico e trazia todo o direito romano, incluindo
dispositivos legais de direito penal, direito público, direito privado e direito processual, embora
nada mencionasse sobre direito internacional. Seu texto se afastava muito do direito romano
primitivo, porque a cada na medida em que as classes inferiores ascendem politicamente,
alguma nova modificação é introduzida nas regras do direito (e assim continua até a
atualidade), dando início à construção de um direito novo, não inspirado pela religião e
aproximando-se cada vez mais do direito natural.
Não se pode desprezar, porém, o fato de que o pensamento religioso legou seu
subsídio à evolução dos fundamentos do direito e, por consequência, trouxe e deixou para as
gerações futuras uma nova visão sobre o ser humano: “e criou Deus o homem à sua imagem:
fê-lo à imagem de Deus, e criou-os macho e fêmea” (Gênesis, 1:27[63]). A Bíblia apresenta o
ser humano como um ser situado ente o Céu e a Terra, a um só tempo terreno e espiritual[64].
Ao lado da contribuição religiosa, os dez mandamentos da Lei Mosaica representam
“autêntico código de ética e de comportamento social, cujo cumprimento identifica um
conteúdo e uma prática voltada aos direitos humanos mais tarde protegidos”. A Bíblia em si
mesma “tem um conteúdo essencialmente humanista, que a partir de um marco religioso
presente na cultura greco-romana, consolidou-se no Cristianismo”[65].
O germe dos direitos humanos e da decorrente afirmação da dignidade humana
procede muito provavelmente do sofrimento físico e espiritual dos povos. Por exemplo, no
desenrolar da Guerra de Tróia[66], que aconteceu possivelmente entre 1194-1184 a.C.[67], o
sacrifício de Ifigênia pelo seu próprio pai Agamenon[68], um rico rei de Argos (Micenas),
praticante da arte da guerra e do uso brutal do poder, “representou, de certa forma, o
paradigma da tragédia enquanto meio de se purificar a alma de suas paixões destruidoras” [69].
De acordo com a versão mitologias da Guerra de Tróia, Agamenon, rei de Micenas ou Argos
(localizada na região hoje conhecida como Argolis, um dos distritos da Grécia, situado na zona
leste da península grega chamada Peloponeso) e seu irmão Menelau esposaram as filhas do rei
de Esparta, Clitemnestra e Helena, respectivamente. Quando Páris, filho do rei de Tróia
(localizada no atual monte Hissarlik, na planície dos Dardanelos, na costa noroeste da Turquia),
raptou Helena, mulher de seu irmão, Agamenon formou um exército para se vingar dos
troianos, recebendo apoio dos príncipes da Grécia. A expedição de soldados acabou aportando
em Áulis (Atenas, na Grécia) em razão de uma forte tempestade [70].
Depois de três semanas os barcos danificados estavam prontos, mas cada vez que
tentavam içar velas, os ventos sopravam ainda mais fortes. Logo alguém insinuou que por traz
das tempestades estava a vontade de alguma divindade. Um vidente consultado afirmou que a
divina Ártemis era a responsável pelo vento, porque ofendida por Agamenon que havia
matado um de seus cervos numa caçada. Em troca, para se acalmar e não mais interferir nos
intentos da esquadra, exigia que Agamenon oferecesse em sacrifício seu rebento mais belo, no
caso a filha Ifigênia.
Sem ter como negar a previsão, cujo ritual previsivo aconteceu em público, com
muitas testemunhas, e diante da ameaça de deserção dos soldados caso a vontade da deusa
não fosse cumprida, Agamenon pôs o seu êxito pessoal, como chefe guerreiro, acima de uma
pessoa, no caso, a sua filha[71]. Depois de cumprir o sacrifício, ofertando no Altar de Áulis a
vida de sua filha, os mares se acalmaram e a frota seguiu navegando rumo ao destino.
Outro exemplo da compreensão, no curso da história, de que a dignidade suprema dos
seres humanos e seus direitos, tem sido “fruto da dor física e do sofrimento moral[72]”
encontra-se na máxima grega “sofrer para compreender” (“tô pathei mathos”), que segundo
Fábio Konder Comparato[73] consta no poema trágico de Ésquilo[74], chamado “Agamenon”,
escrito em 458 a.C. Ésquilo destaca a importância do sofrimento na edificação humana:
“tristezas, canta tristezas, mas possa o bem triunfar”[75]. Esses dizeres traduzem claramente a
ideia de que o sofrimento livra o ser humano de impurezas e o instrui no contexto moral.
Neste pensar:
A bem dizer, o avanço ético faz-se sempre por reação a esses
períodos de avania social. A cada grande surto de violência
aniquiladora, os homens recuam, horrorizados, à vista da ignomínia,
e compreendem afinal o sentido da dignidade humana. É a
confirmação da sabedoria expressa pela máxima grega: sofrer para
compreender[76].
A descoberta do sofrimento como fonte perene de sabedoria é atribuída a Ésquilo. O
sofrimento humano não se esgotaria, portanto, na dimensão de um castigo ou de uma punição
dos deuses, porque era tido como fonte inesgotável de conhecimento.
Destaca-se que nessa época o ser humano ainda não era totalmente livre, porque
“controlado pela vontade e arbítrio dos deuses”[77], porém o “divino” fazia parte de sua vida
diária, cujo convívio se dava de forma natural, sem conflitos, eis que:
[...] a intervenção dos deuses, no agir dos homens, não significa
nenhuma interrupção da ordem natural das coisas, nem nenhum
milagre extraordinário. Para o grego arcaico, seria impossível
interpretar a existência humana e os acontecimentos da vida
quotidiana sem essas intervenções divinas. É graças a elas que a vida
recebe seu sentido[78].
Além dessa concepção de que são os deuses que movimentam e motivam as pessoas e
as aconselham nas suas deliberações, entendia-se que na experiência da dor e do sofrimento é
que o ser humano faz valer sua liberdade, pagando o preço imposto por ela. Este clima foi
propício para o desenvolvimento da “cultura da culpa”, assim designada por Eric Robertson
Dodds[79]. Neste contexto as punições dos deuses recebiam peculiar relevo e o débito da
culpa podia ser expiado pelo indivíduo ou seu descendente.
Durante longo período da história da civilização humana, a religião imperou como
soberana absoluta, tanto na vida privada quanto pública. O Estado era definido como
“comunidade religiosa”, onde a liberdade individual era desconhecida e o ser humano ficava à
mercê do Estado em corpo, alma e bens materiais.
Com o passar do tempo foram sendo introduzidas modificações no governo, no direito
e na religião. Nos cinco séculos que precederam o Cristianismo a união entre a religião, o
direito e a política já não se manifestava tão estreita. Os velhos princípios da sociedade
humana foram abalados por diversos acontecimentos, como o esforço das classes
marginalizadas à ascensão, a decadência da casta sacerdotal, o trabalho dos filósofos e o
progresso do pensamento. Tudo isso convergiu para libertar o ser humano do império da
cultura da culpa e da submissão incontestável à vontade das divindades.
A independência do direito e da política ocorreu na medida da descrença nas
divindades, não porque as pessoas deixaram de ser religiosas, mas porque a antiga religião
estava desgastada e desacreditada.
Ávidos pelo preenchimento desse vazio, o sentimento religioso foi revigorado pelo
Cristianismo[80]. O Cristianismo é uma crença que se formou em torno dos ensinamentos de
Jesus Cristo, que nasceu no ano 01 da era atual da civilização humana e foi morto no ano 33.
Logo depois de sua morte, seus ideais se espalharam rapidamente na Ásia, na áfrica e na
Europa, principalmente entre aqueles mais pobres e oprimidos, porque trazia mensagens de
paz, respeito, amor e consolo, como se extrai, por exemplo, do seguinte texto bíblico escrito
por Lucas, apóstolo e discípulo de Jesus Cristo: “o Espírito do Senhor repousou sobre mim,
pelo que Ele me consagrou, com sua unção e enviou-me a pregar o Evangelho aos pobres, a
sarar os quebrados de coração”[81]. A religião fez muitos seguidores em pouco tempo, tanto
que o Imperador Constantino[82] concedeu liberdade de culto aos católicos no ano de 313 d.C.
Mais tarde, em 392, o cristianismo foi transformado por Constantino na religião oficial do
Império Romano. Com as grandes navegações, que começaram no Século XIV, ainda na Idade
Média, a religião católica chega às Américas, por meio dos padres Jesuítas, que receberam por
missão catequizar as comunidades indígenas das colônias recém-descobertas.
A crença cristã reconquistou o comando sobre o espírito humano, tornando-se menos
material que as religiões anteriores. Se no passado foram forjados deuses com alma humana
ou com grandes forças físicas, e cada homem fizera o seu deus, havendo tantos deuses
quantas as famílias e as cidades, o Cristianismo prega o monoteísmo e o amor entre as
pessoas, consideradas filhas de um só Deus. Esta divindade, por sua essência, é estranha à
natureza humana. Com efeito, o “divino” foi colocado do lado de fora e acima da natureza
visível. “Deus” é apresentado pelo Cristianismo como Ser único, infinito e universal.
O monoteísmo já constava na Lei Mosaica, porém, naquela época a religião não era
nem essencialmente ética nem profundamente espiritual. Deus era venerado como legislador
supremo e mantedor inflexível da ordem moral do universo. O Deus de Moisés interessava-se
quase tanto pelos sacrifícios e pela observância dos ritos como pela boa conduta e pela pureza
de coração. Além disso, a religião não se preocupava fundamentalmente com assuntos
espirituais. Nada oferecia além de recompensas materiais nesta vida, e nenhuma na vida
futura. O Cristianismo transformou a religião exterior em espiritual. Modificou no ser humano
a natureza e a forma de adoração. O temor a Deus foi substituído pelo amor de Deus.
Ademais, o Cristianismo não é uma religião doméstica de determinada família, mas
uma crença nacional de uma cidade ou de um povo, com missão universal. Desde o início não
pertenceu a um grupo de pessoas, mas chamou a si toda a humanidade[83].
Não foi fácil nem mesmo para os primeiros discípulos de Jesus Cristo obedecer à
ordem “ide e ensinai a todas as gentes”[84], porque nunca antes a religião havia ultrapassado
as barreiras de uma família, de uma cidade, ou de uma raça. Ainda existia o pensamento de
que o Deus dos hebreus não queria ser adorado por estrangeiros, do mesmo modo que
acreditavam os povos greco-romanos antigos de que cada raça tinha sua divindade, sendo que
a propagação do nome e do culto do deus significava a renúncia a um bem próprio. Mas o
Deus da crença cristã não fazia diferença entre raças (gentios, judeus, etc.).
O Cristianismo, revelado depois de um longo progresso do pensamento humano[85],
apresentou um único Deus para ser adorado por toda a humanidade, um Deus universal, para
todos, que não tinha povo eleito e não distinguia raças, famílias ou Estados. Isso acabou
refletindo no direito e nas relações políticas. As barreiras internacionais entre povos e raças
foram afrouxadas. Nos tempos antigos, a religião e o Estado formavam um todo. Em lugar
disso, Jesus Cristo ensina que o seu reino não é deste mundo. Separa a religião do Estado. A
religião, não sendo terrena, deixa de imiscuir-se nas coisas da terra. Jesus Cristo acrescenta:
“dai a César o que e de César, e a Deus o que é de Deus”[86]. Foi a primeira vez que se
distinguiu nitidamente Deus do Estado. Esse princípio foi à fonte de onde brotou a liberdade
do individuo. Uma vez que a alma se libertou, realizou-se o mais difícil, e a liberdade tornou-se
possível na ordem social.
Ao colocar Deus, a família, a pessoa humana, acima da pátria, muda a natureza do
direito, que não mais recebe as regras de divindades. O Cristianismo não teve a pretensão de
regular o direito, tornando-o independente da religião.
O Cristianismo é responsável também por instituições seculares como a democracia e
a ciência e fomentou valores como respeito pela dignidade humana, direitos humanos e a
igualdade humana. Conforme Dinesh D’Souza[87]:
A preciosidade e a dignidade comum a cada vida humana é uma ideia
cristã. Somos iguais porque fomos criados iguais aos olhos de Deus.
Essa é uma ideia de implicações significativas. Na Grécia e Roma
antigas, a vida humana tinha muito pouco valor. Os Espartanos, por
exemplo, lançavam criancinhas fracas nas ladeiras para que
morressem. As culturas grega e romana foram erigidas sobre a
escravidão. O Cristianismo baniu o infanticídio e a morte do mais
fraco e “dispensável”, e mesmo hoje os valores cristãos são
responsáveis pelo horror moral que sentimos quando ficamos
sabendo dessas práticas. O Cristianismo inicialmente tolerou a
escravidão - uma instituição universal naquela época - mas mobilizou
gradualmente os recursos morais e políticos para por fim a ela. Desde
o início, o Cristianismo desencorajou a escravidão de irmãos cristãos.
A escravidão, o fundamento das civilizações grega e romana,
definhou e desapareceu em grande medida no decurso da
cristandade medieval na Idade Média.
De acordo com José Soder[88], “a compreensão para os direitos do ser humano surgiu,
na organização política, após o aparecimento do Cristianismo”. Nas suas palavras:
[...] o reconhecimento dos direitos do ser humano, medrou em solo
cristão. O fator primordial que, em evolução lenta, porém segura,
levou à eclosão das modernas declarações dos direitos, foi o
cristianismo com sua concepção transcendental da dignidade
humana. Esta noção cristã do ser humano descerra um panorama
velado para a antiguidade. Constitui, entretanto, a grande mola que
acionou toda a evolução jurídica no sentido de uma centralização
sempre maior em torno do ser humano, reconhecido em seu valor
inalienável de pessoa.
Ainda segundo José Soder[89] são dois os aspectos mais importantes do Cristianismo à
afirmação dos direitos humanos: a dignidade humana e a fraternidade universal. O
cristianismo concebe o indivíduo como pessoa que:
[...] possui uma alma espiritual imperecível e uma finalidade eterna, a
ser realizada na ressurreição dos corpos e na visão beatífica de Deus.
A pessoa humana é não apenas criatura, mas também filho e imagem
de Deus, sendo Jesus Cristo o filho unigênito do Pai, o primeiro entre
muitos irmãos.
O conceito cristão de dignidade humana engloba também as relações dos indivíduos
entre si, abrange, também, as relações dos indivíduos entre si. É o que se extrai do texto
bíblico de Gálatas, capítulo 3, versículo 28: “não há judeu nem grego; não há servo nem livre;
não há macho, nem fêmea. Porque todos vós sois um em Jesus Cristo” [90].
A doutrina cristã prega o amor ao próximo e a fraternidade universal:
O mandamento típico de Jesus Cristo é o mandamento do amor ao
próximo. A lei da caridade universal é tão fundamental no conceito
de Jesus Cristo, que a equipara à lei máxima do amor a Deus. Mais
ainda, através da fraternidade universal, através das obras de amor
ao próximo, deve-se realizar, segundo a vontade de Jesus Cristo, o
amor a Deus, dependendo destas obras o destino eterno do ser
humano. Tão universal e tão perfeita há de ser esta caridade, que ela
inclua mesmo os inimigos, a exemplo do amor que neste mundo o
próprio Deus tem para com os homens maus[91].
Desse modo, o Cristianismo consagrou a dignidade humana e fraternidade universal
como seu princípio maior, influenciando de modo extraordinário para o desenvolvimento e
reconhecimento dos direitos dos indivíduos, tanto pelo Estado quanto pela sociedade. Para os
seguidores da doutrina cristã, apenas a pessoa humana possui valor absoluto, então, o Estado
não poderia constituir a entidade absoluta de outrora.
José Soder[92] é enfático ao afirmar que “a concepção cristã do Estado e do direito
expressa, de maneira insofismável, os princípios que contêm em gérmen os direitos do
homem”, acrescentando que “um estudo acurado nas bases constitucionais do Estado cristão
mostraria a presença da maioria daqueles princípios que a época moderna formulou em
solenes declarações de direitos”.
No ano de 392 d.C., o Cristianismo se organiza na “religião católica” e é transformado
na religião oficial do Império Romano. Dominando o cenário religioso, a Igreja Católica passa a
ser a instituição mais poderosa da sociedade medieval [93]. Foi com base nos pilares cristãos da
dignidade humana e da fraternidade universal que a construção dos direitos humanos seguiu
seu curso, adentrando a era medieval.
Em apertada síntese, sobre a afirmação dos direitos humanos, a civilização greco-
romana, embora audaciosa, não chegou a compreender direitos humanos, mas delineou os
contornos fundamentais do moderno reconhecimento desses direitos por meio de estudos
doutrinários sobre o direito natural.
Destaca-se que o fato de a sociedade greco-romana não ter conhecido os direitos
humanos, não impediu que os filósofos, através do desenvolvimento sobre o direito natural,
construíssem bases de liberdades fundamentais, porém não conseguiu evoluir até alcançar o
ponto de transformar seus postulados em correspondentes princípios de organização
política[94].
Numa visão de hoje sobre o passado, verifica-se que os povos que viveram na Idade
Antiga greco-romana vivenciaram duas situações relacionadas aos direitos humanos: a) a
conhecida distância entre a teoria e a prática na aplicação dos direitos, sejam eles quais forem,
que sobrevive ao tempo e permanece como principal obstáculo à concretização dos direitos
humanos. Atualmente o tema é devidamente discutido e os direitos humanos são
proclamados em importantes textos aderidos pela maioria dos países, porém, no momento de
realização muitos são os empecilhos, grande parte deles relacionados à má gestão
administrativa e desorganização dos Estados; b) a restrição da liberdade dos povos greco-
romanos pelas divindades. Os governantes se declaravam constituídos por deuses que lhes
concediam poderes absolutos sobre os súditos. Noções sobre os valores da pessoa humana,
como dignidade e toda a amplitude e complexidade que o termo encerra, só conseguiu espaço
para seu desenvolvimento com a idealização da junção das divindades num só Deus
(monoteísmo) e da unificação das religiões pelo Cristianismo[95].
Pelo menos até o período babilônico antigo, a finalidade da fixação por escrito e
proclamação de coleções de leis parece ter sido, pois, corrigir abusos e restabelecer a justiça.
As civilizações antigas não chegaram a conhecer direitos humanos como definidos na
atualidade, nem mesmo direitos internacionais, exceto as estreitas relações entre nações
vizinhas que falassem o mesmo idioma e congregassem divindades comuns. Fora dessas
situações especiais e esporádicas, não existia uma regulamentação normativa de aplicação
comum entre os povos[96]
Em suma, o desenvolvimento da cultura dos direitos humanos teve início por volta dos
séculos XI e X a.C., com a instituição da unificação do Reino de Israel, uma forma rudimentar
de unidade estatal, mas só veio a acontecer de fato na Idade Média, por volta do século XII,
como resultado de diversos fatores, com destaque para a difusão do Cristianismo e a
unificação da igreja. De fato, a forte concepção religiosa trazida pelo Cristianismo, com a
mensagem de igualdade de todos os seres humanos, independentemente de origem, raça,
sexo ou credo, influenciou diretamente a consagração dos direitos humanos enquanto
necessários à dignidade humana[97].
Não se pode falar em “direitos humanos” como hoje definidos, na Antiguidade. O
máximo que existiu foi o reconhecimento de algum direito individual. No entanto, podem-se
identificar já na Mesopotâmia vestígios de uma proto-história pelo menos do reconhecimento
da dignidade do indivíduo enquanto ser humano e mesmo sem conhecer a técnica de
limitação do poder estatal, alguns povos se preocuparam em privilegiar, de algum modo, o ser
humano nas suas instituições sociais, cultura e costumes.
O desvendamento do passado contribui para a valorização do direito contemporâneo,
porque a evolução foi muito lenta e extremamente árdua, fruto de muito sofrimento, sacrifício
e abnegação das civilizações antepassadas.

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