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Introdução ao Estudo do Direito

Prof. Nivaldo1

1. Introdução
Introdução ao Estudo do Direito  O que é direito? O que é Estudo? O que é
Conhecimento? O que é Conhecer? O que é o estudo do Direito?
É possível conhecer?
O que é estudar? É aprender algo, é conhecer - conhecer o direito.
A missão da filosofia do direito é de "crítica da experiência jurídica, no sentido de
determinar as suas condições transcendentais" (M. Reale), ou seja, aquelas condições que servem
de fundamento à experiência.
Pressupostos --- eis a principal diferença entre Ciência Positiva e Filosofia. A Ciência
Positiva é a construção que parte sempre de um ou de mais pressupostos particulares; Filosofia é
a crítica de pressupostos, sem partir de pressupostos particulares, visto como as "evidências" se
põem, não se pressupõem.
Toda ciência depende, portanto, em seu ponto de partida, de certas afirmações que se
aceita como condição de validade de determinado sistema ou ordem de conhecimentos. E até
mesmo quando se pretende abstrair de toda ordem dada, a fim de que a "indagação"ou a
"pesquisa" possa determinar as verdades de maneira livre e autônoma, ainda assim se pressupõe
a validade da pesquisa experimental como produtora ou reveladora de "assertivas garantidas"
(warranted assertibility - expressão de John Dewey em sua Lógica).
A filosofia é, assim, um conhecimento que converte em problema os pressupostos da
ciência. É sempre de natureza crítica, é sempre perquirição de raízes ou indagação de
pressupostos particulares, mas de evidências universalmente válidas.Concluindo, a filosofia tem
por objeto indagar os pressupostos ou condições de possibilidade de todas as ciências
particulares, as quais estão sempre sujeitas a novos "testes" e verificações. A investigação
filosófica pressupõe pelo menos uma verdade - admitida à vista das verdades das ciências -, e é a
capacidade sintetizadora do espírito, pela qual o homem se distingue dos outros animais, aos
quais não é dado superar, integrando-os numa unidade conceitual nova e concreta, os elementos
particulares e multíplices da experiência. (de Filosofia do Direito - M. Reale - p. 13)

2. Teoria do Conhecimento (Gnoseologia)

Introdução
É o estudo do próprio conhecimento humano. O que é o conhecimento? Como ele
acontece? Quais são suas características? Como são as estruturas para se alcançar o saber?

1
Notas que fiz das Aulas do Prof. Nivaldo Doro Jr. Quaisquer erros são de minha total responsabilidade.
Análise da Evolução Histórica do Conhecimento Humano
Porque as coisas ocorreram como ocorreram? Em algum ponto do passado humano
perdido na obscuridão da pré-história, em algum estágio da nossa evolução que não pudemos
ainda identificar, surgiu a inteligência humana.
Podemos definir a inteligência como a capacidade de manipular idéias, de manipular,
conjugar, manusear imagens à partir da experiência, de poder trabalhar as coisas em mente e não
na prática. Deve ter surgido de maneira gradativa. A dúvida elimina o conhecimento genético
(instinto) e o substitui pela inteligência. Inteligência não diz respeito à memória, não é a
capacidade de armazenar informações pura e simplesmente. É a capacidade de resolver
problemas. O homem começa então a inventar, a criar, a inovar.
O primeiro conhecimento obtido pelo homem certamente estava ligado à necessidade de
sobrevivência. Era uma medida de sobrevivência e esta deve ter sido a mola impulsionadora do
desenvolvimento da inteligência humana. Assim, podemos dizer que o conhecimento da pré-
história era marcado pela necessidade de sobrevivência. O homem adquiriu saberes que lhe
deram vantagens sobre os demais animais.
Nascemos com o poder de aprender, mas não com o conteúdo. A inteligência a priori é
oca (vazia de conteúdo), é um potencial a ser desenvolvido. É uma ferramenta de sobrevivência
humana. A inteligência é voraz, quer aprender  os sentidos colhem informações do ambiente o
tempo todo e as vai jogando em nossa mente.
Num dado momento o homem volta o seu conhecimento para a natureza. Gera uma série
de perguntas: por que isso acontece? Como isso acontece? A chuva, o sol brilhando… Começa a
perceber as primeiras relações causalísticas, atribuindo a certos fenômenos explicações
mitológicas.
Na Idade Antiga o conhecimento humano foi marcado pela busca em desvendar os
mistérios dos fenômenos naturais. As respostas que o homem encontrou para as suas dúvidas
foram envoltas em mitos, atribuindo a ocorrência dos fenômenos naturais a manifestações de
divindades que controlavam o destino de sua vida. O conhecimento era preocupado com a
natureza mas com uma influência grande de crença e religião. Os filósofos antigos teceram as
primeiras explicações sobre o cosmo.
Na Idade Média o conhecimento estava centrado na fé.O critério de validade do
conhecimento era a fé. O conhecimento só era verdadeiro se estivesse de acordo com a fé.
Podemos sintetizar a situação na frase "crer para conhecer, conhecer para crer".
A real preocupação com os problemas relacionados com os critérios de validade do
conhecimento surgiram na transição da Idade Média para a Idade Moderna, no período
conhecido por Renascimento. O conhecimento de autoridade (da igreja) imposto pela fé na Idade
Média, cede lugar ao conhecimento lógico-racional no Renascimento. Foi uma época de
profundas mudanças na sociedade. Mudanças econômicas (surgimento do capitalismo),
mudanças sociais (ascensão da burguesia) e, principalmente, mudanças na maneira como o
homem via a si mesmo. A dinamização da economia forçou mudanças nas técnicas de produção
e o desenvolvimento de novas tecnologias. O desenvolvimento de novas tecnologias
pressupunha conhecimento. Foi uma época de revolta contra a tirania da fé como critério de
validade do conhecimento e surgiu a preocupação de se saber se o conhecimento que temos das
coisas é seguro, de se estabelecer bases mínimas de validade do que se conhece. Essa foi a
origem do que conhecemos hoje por teoria do conhecimento, que surgiu com a finalidade de
prover bases teóricas e critérios seguros para o conhecimento e identificar critérios de verdade e
de validade do conhecimento que fosse consubstanciada nos fatos e na natureza, e não na fé. Era
necessário saber como saber e quando se sabe! A função da teoria é estabelecer um conceito de
conhecimento: o que é conhecimento, quando é que ele é verdadeiro, seguro e sólido. O
Renascimento é marcado pelo ceticismo, pela dúvida do conhecimento, não se contentava com a
informação, queria provas que a sustentasse.

Conceito de Conhecimento
Conhecer, aprender, apreender, é colher informações, características sobre algo. Quando
sei que tenho conhecimento? Como sei que conheço? Todo e qualquer conhecimento se
desenvolve entre alguém que conhece e algo a ser conhecido.

Sujeito Objeto do
cognoscente Conhecimento conhecimento

Para qualquer conhecimento é necessária a relação entre o sujeito cognoscente e o objeto


cognoscível. Isto é o próprio conhecimento. O próprio conhecimento é esta relação. Relacionar-
se com o objeto é conhecer. O conhecimento é uma relação que se estabelece entre aquele que
conhece e aquilo que é cognoscível. Ocorre uma transferência de informação do sujeito
cognoscente para o objeto cognoscível e vice-versa.
Do ponto de vista gnosiológico o conhecimento é uma relação interativa. Se pretende
conhecer um objeto a consciência cognescente deve exercer um papel ativo na relação com o
objeto. O objeto é sempre um barreira a ser quebrada, a ser transposta. Objeto deriva
etimológicamente de objectum (ob + jectum), aquilo que jaz em frente. É um obstáculo (obstare)
a ser transposto. O objeto é aquele para onde o homem projeta a sua inteligência. O homem,
aqui, é o sujeito (subjectum, sub=dentro). Poderíamos dizer que o homem toma de si a
inteligência e a racionalidade e projeta no objeto o jato do conhecimento. É um ato de violência
contra contra as barreiras do objeto, que resiste à razão gnosiológica. O objeto se paresenta como
uma barreira para o conhecimento, o objeto resiste a ser conhecido.
Definição de conhecimento: é uma relação bipolar entre o sujeito cognoscente e o
objeto cognoscível, caracterizada pela apreensão de características ou qualidades do objeto
pela consciência cognoscente.
Conhecimento é um ato de revelação que expõe o objeto. Quando foco o objeto com a
minha consciência o que antes era do objeto passa a ser meu também, assimilado pela minha
consciência. Assim, o conhecimento é claramente subjetivo já que é uma interação íntima do
sujeito com o objeto. O conhecimento é, por excelência, uma experiência individual. Posso
indicar o caminho mas conhecer é uma experiência pessoal. Todo conhecimento é pessoal.

O senso comum é o compartilhamento por várias consciências de um mesmo objeto. É a


coletivização do conhecimento individual. O estudo, por sua vez, é aprender, é apreender, é
conhecer.
A teoria do conhecimento é o estudo que tem por objetivo determinar a natureza, as
características gerais e o alcance do conhecimento, refletindo à respeito das relações entre o
sujeito e o objeto, os dois polos tradicionais do processo cognitivo-gnoseológico.

Planos do Conhecimento Humano


Existem várias formas de se conhecer o objeto. O objeto possui esferas de conhecimento
que são atingidas dependendo da qualidade da relação que se estabelece com o sujeito

cognoscente. A qualidade da relação é que permite que a relação bipolar deixe de ser superficial
e adentre as camadas interiores, permitindo a apreensão de características mais íntimas do objeto
pelo sujeito. A profundidade com que se conhece algo é o plano do conhecimento. Temos,
assim, os diferentes planos do conhecimento humano, intimamente relacionados:
(1) Plano Vulgar (ou comum)
(2) Plano Científico (ou lógico)
(3) Plano Filosófico
Nos três planos temos o mesmo sujeito e o mesmo objeto. O que os diferencia é a
qualidade da relação que se estabelece.

O Conhecimento Vulgar
O conhecimento vulgar é o único que é realmente indispensável para a sua vida. As
principais características do conhecimento vulgar são:
• É acidental, casual, comum
• Desordenado
• Ametódico
• Assistemático
• Particular com relação ao objeto
• Sem preocupação com a verdade
O conhecimento vulgar é comum, ou seja, acessível a qualquer pessoa. É um
conhecimento que não se preocupa com a verdade ou não do que se conhece. A verdade do
conhecimento não é questionado. É um conhecimento para a vida porque a vida exige a vontade
espiritual de viver, de conhecer. A existência exige a vontade de viver, vontade que é diferente
da vontade consciente. A razão, a vontade e a emoção são qualidades do espírito humano. É um
conhecimento acidental. Dá-se caoticamente, desordenadamente e geralmente decorre do nosso
sentido por experimentação, com base empírica, pela prática. É assistemático, ametódico, sem
critério. Não se preocupa com o aprendizado, por isso é parcial e particular (decorre de
experiência). É um conhecimento que todo ser humano tem e que "não tem um grau de certeza
elevado".
Por fim, um aspecto fundamental do conhecimento vulgar é o fato de ser particular em
relação ao objeto. Não há correlação, inter-relação, não faz relação com outros objetos. Como
exemplo citamos o caso bastante folclórico do morador da zona rural que, observando a natureza
à sua volta, prevê se haverá ou não ocorrência de chuva. O conhecimento particular que ele
possui para prever se vai chover ou não se estende a fenômenos correlatos, como a nevasca ou a
geada.
Seria possível o conhecimento vulgar do Direito? Ou seja, um conhecimento do
dia-a-dia, adquirido casualmente, não sistematizado? Sim. É aquele conhecimento que
adquirimos na nossa vivência diária. Todo mundo sabe que quem mata ou rouba vai preso. As
pessoas não sabem quais são as leis que as penalizam se cometerem esses delitos, mas já viram
ou ouviram sobre outras pessoas que foram punidas por terem cometido esses crimes - isso lhes
deu experiência para aprender que não se pode cometer crimes e que se os cometerem serão
punidas. Conhecemos as leis mas não sabemos o porquê delas.
Um exemplo de alguém que conhece o Direito vulgarmente é o rábula, que conhece as
leis, possui um conhecimento acidental mas não lógico das leis. Ele conhece as leis, só que
aprendeu sozinho, fazendo as vezes de advogado porque tem conhecimento prático: "sabe o
caminho das pedras". Ele não tem conhecimento com base teórica, por isso seu conhecimento é
parcial.

O Conhecimento Científico
No conhecimento científico altera-se a qualidade da relação sujeito - objeto. Ao contrário
do conhecimento vulgar, é marcado por ser
• Lógico, racional e coerente
• É ordenado e organizado
• Metódico: dá-se através de um método
• Sistemático
• Geral com relação ao objeto
• Tem preocupação com a verdade
No conhecimento científico existe a preocupação com a verdade. A verdade é objeto
central do sujeito. Adota uma postura de crítica e dúvida frente ao objeto. A questão central é
"Porque?". Preocupa-se com o porquê da situação. É um conhecimento que se preocupa com as
causas das coisas e não com as coisas em si, como no conhecimento vulgar. O cientista busca
causas lógicas para as coisas. É um conhecimento causalístico. O conhecimento científico é um
conhecimento geral em relação ao objeto. Para passar do conhecimento vulgar ao científico o
sujeito deve alterar sua postura frente ao objeto. O conhecimento vulgar é casual, o
conhecimento científico, causal!
O conhecimento vulgar se dá sobre um fato particular conhecido. O conhecimento
científico não se preocupa com o particular, abstrai do particular para o geral, procura extrair do
geral o que se repete muitas vezes na constância e não no acidental.

Estruturas do Conhecimento Científico


A ciência pretende alcançar o saber geral. Ciência é um saber lógico-racional, genérico.
As estruturas do conhecimento científico são os pilares fundamentais onde apoiamos o nosso
conhecimento, são as sustentações gnoseológicas da ciência:
(1) Tipologia
(2) Leis
(3) Princípios
Dependemos dessas estruturas para poder conhecer qualquer coisa cientificamente. Sem
isso não se faz ciência.

Tipologia
Estudo do Tipo. Não é um objeto particularizado mas o gênero, a categoria, a classe, o
conceito do objeto. O tipo é a generalização do indivíduo diante de outros indivíduos da mesma
classe. Todos possuem algo em comum, que fazem com que sejam parte do mesmo universo
estudado: o tipo, o conceito, a essência do objeto.
Tipo = gênero, categoria, classe, conceito do objeto
O tipo é a característica típica, a categoria que faz com que o
objeto seja ele e não outra coisa. O tipo, a categoria, é a classe, o
Tipo gênero do objeto, é a constância do ser. Falar em constância é falar na
essência do ser. A constância é diferente do acidental. O acidental é a
excessão.
Seja o exemplo:
Pincel Vermelho

Tipo, conceito geral Particular, acidente do objeto


Não altera ou afeta a essência do objeto

Ciência se faz no gênero e não no objeto individual. O cientista busca aquilo que torna o
objeto o que ele é, e não outra coisa. Busca o que é indispensável, a essência do objeto. Produzir
conhecimento científico implica em classificação.
Classificação ou categorização é procurar as características que são inerentes ou
essenciais ao gênero. A classificação se dá por gênero próximo ou diferença específica. Por
exemplo, como conceituar homem? Temos que proceder uma classificação:

Homens são Imateriais (Saci  é objeto do conhecimento)


Seres Inorgânicos
Materiais Vegetais
Orgânicos Irracionais

Todos os homens Animais


são seres materiais
Aqueles que têm Racionais
vida
Gênero Próximo

Conceito de Diferença Específica


Homem

Logo, a natureza humana é a racionalidade.


O ser é o que é, é porque existe. O Nada é um ser. O homem é um ser dúplice: espírito e
animal. O espírito é a sede da razão, da vontade e da emoção. É a parcela metanatural, que
anima o animal para que se torne um animal pensante.
A tipologia busca o conceito, a essência, aquilo que singulariza aquele objeto, para
alcançar a natureza das coisas, e, assim, buscar a sua essência. O objetivo é alcançar um conceito
lógico-racional das coisas.

Observação 1: Conhecimento Científico Tipológico


Conhecimento científico tipológico - se é verdade que a classificação é essencial para se
fazer ciência (a ciência depende de classificação) também é verdade que a função do cientista
não é só classificar. Com a classificação o cientista pode conhecer o objeto de forma harmoniosa.
O conhecimento científico é resultado de classificações interligadas de forma harmônica. O
conhecimento tipológico só serve para o cientista quando ele integra coerente e
harmoniosamente as classificações formando um sistema.

Sistema

Consideremos como exemplo a conceituação de alguns objetos do cotidiano:


(1) Cadeira  gênero próximo: assento individual, objeto utilizado para se sentar;
diferença específica: com encosto.
(2) Geladeira  gênero próximo: câmara; diferença específica: com capacidade para
resfriar o que estiver em seu interior
(3) Martelo  gênero próximo: ferramenta; diferença específica: apropriada para bater e
pregar.
Fica evidente quando tentamos classificar os objetos a dificuldade com que nos
defrontamos ao fazê-lo. Os objetos são resistentes quando abordados cientificamente.

Observação 2: Estrutura Formal da Lei


Quando dizemos que o Direito divide-se em Penal, Civil, Comercial etc, estamos
procedendo uma classificação do Direito. Assim, é possível estabelecer uma tipologia do Direito,
ou seja, ele pode ser conhecido cientificamente.
Toda lei está escrita de uma maneira diferenciada. A própria estrutura lógica da lei
representa uma tipologia. O Código é uma única lei. Toda lei deve ser escrita em artigos. O
artigo é a unidade básica da lei. Cada artigo é uma regra júridica, uma determinação. Os artigos
são regras júridicas organizadas (e não caóticas, desordenadas). Os artigos podem ser agrupados
ou divididos de acordo com a conveniência. Toda lei segue o mesmo padrão formal:

Lei No número/ano - a lei é um conjunto de regras de conduta


Art. 1o - o artigo é o tijolo, a célula da lei. É uma regra de conduta.
§1 - Parágrafo - subdivisão do artigo para especificar uma subdivisão ou exceção
§2 - Parágrafo
I - Inciso - subdivisão do artigo ou parágrafo, especifica itens da regra. Sempre
II - Inciso em algarismos romanos.
a) alínea - subdivisão do inciso, representadas por letras minúsculas do alfabeto.
b) alínea

A Lei é um conjunto de regras de conduta. O artigo é o tijolo, a célula da lei. É uma


regra de conduta. O caput do artigo é o enunciado principal da regra. O caput é a regra. O
parágrafo de um artigo é uma sub-regra da regra. Os parágrafos são sub-regras. Servem para
completar ou excepcionar o caput do artigo. Os incisos podem ser do parágrafo ou do caput.
Especificam itens da regra. Servem para arrolar itens da regra. A alíneas são subdivisões para
aquilo que já era divisão. São usadas para subdividir os incisos. São sub-itens dos incisos.
Os artigos podem ser divididos em categorias menores e podem também ser agrupados.
Temos a seguinte sistematização:
Lei  Partes (Geral ou Específica)
Livros: cada Parte pode ser dividida em Livros (Livro I, II, III, ..) 
Títulos: cada Livro pode ser dividido em Títulos (Título I, II, III, ..) 
Capítulos: cada Título pode ser dividido em Capítulos (Capítulo I, II, III, ..) 
Seções: cada Capítulo pode ser dividido em Seções (Seção I, II, III, ..) 
Subseções: cada Seção pode ser dividida em Subseções (Subseção I, II, III, ..) 
o o o
Artigos: cada Subseção pode ser dividida em Artigos (Art 1 , 2 , ...,9 , mas Art. 10, 11, ...)
o o o
Parágrafos: cada Artigo pode ser dividido em Parágrafos (§1 , §2 , ..., §9 , mas §10, §11, ...)
Incisos: cada Parágrafo pode ser dividido em Incisos (I, II, III, ...)
Alíneas: os incisos podem ser divididos em Alíneas (a, b, c, d, ...)

A forma da lei é feita com coerência classificatória. Tomemos como exemplo o Código
Penal:
o
Decreto-Lei N 2848/1940
Código Penal

Parte Geral Parte Especial


o
Arts. 1 a 120 Arts. 121 a 361

11 Títulos
Título I - Dos Crimes contra a Pessoa (6 Capítulos)  Gênero próximo
Capítulo I - Dos Crimes contra a Vida (Arts 121 - 128)  Característica
específica
Art. 121. Matar Alguém
Conceito de Homicídio = crime contra a vida de uma pessoa
Em suma, a classificação é um indicativo de que o direito pode ser conhecido
cientificamente.
Para se chegar ao conceito ou essência de algo é vital que se dispense o acidental, o
particular. Busca-se o geral, a constância, para se alcançar o conceito, a essência, a definição.
Para isso é necessário proceder uma classificação. Quando se chega ao conceito lógico-racional,
alcança-se o plano científico. A tipologia é a primeira estrutura do conhecimento científico.
Todo conhecimento científico está estruturado numa classificação tipológica. Toda
ciência é classificatória, isto é, implica numa tipologia. Toda ciência deve partir de processos
classificatórios para definir seu objeto de estudo.
A ciência depende de uma classificação, mas não é seu objetivo fazer classificações. O
conhecimento científico é sistematizado. Na ciência não basta apenas classificar, mas também
conjugar as classificações. Assim, a ciência classifica mas também ordena, organiza o
conhecimento sistematicamente de forma harmônica.
Sistema: conjunto de informações, elementos organizados em unidades logicamente
coerentes.

Leis
As leis são a segunda estrutura do conhecimento científico. Não há ciência sem leis. A
descrição de um fenômeno a lei é a relação de causa e efeito dentro do fenômeno. Para as leis
naturais a relação é de causa e efeito. Para as leis éticas e para as leis jurídicas, não.
A lei é uma descrição, um explicação de um fenômeno numa relação de causa e efeito
(relação de causalidade). Tomemos como exemplo a Lei da gravidade, que descreve um
fenômeno físico. Qual é a causa? A existência de duas massas (corpos). Qual o efeito? A atração
entre os corpos (atração gravitacional). Outro exemplo de lei física: Lei da ação e reação. Causa:
ação. Efeito: reação.
O conhecimento científico é causal porque se propõe a explicar as causas dos fenômenos.
E as leis quanto ao direito? É possível falar em leis no conhecimento do direito? Ainda veremos.
Existem duas classes de leis:
 Lei natural: está ligada às ciências naturais (física, química, biologia…)
 Lei ético-normativa: dentro da qual se apresentam as leis do Direito, as leis jurídicas.
Qual a diferença entre uma lei natural e uma ético-normativa? Se é que há.

Princípios
São a terceira estrutura do conhecimento científico. Um princípio é uma afirmação
inicial. Antes de abordarmos o que seja um princípio vamos introduzir o que é um juízo.
Juízo é a atribuição de um Predicado a um Sujeito lógico, ou "atribuição a um Sujeito de
um Predicado":
SéP
Isso é um juízo lógico fundamental. O sujeito do juízo é o objeto do conhecimento. O
juízo é formulado pelo sujeito cognoscente. O objeto passa a ser sujeito do juízo e o predicado o
conhecimento que dele temos. Os juízos podem ser simples ou complexos. Os juízos complexos
formam o raciocínio. Os juízos, quanto à sua origem, podem também ser divididos em derivados
e fundamentais. Os juízos derivados decorrem de outros. Os juízos fundamentais são juízos
origem, à partir dos quais vou raciocinar para atingir outros. O juízo é a pedra fundamental para
o desenvolvimento do princípio. Princípio é um juízo fundamental que dá certeza ao
conhecimento. É à partir dele que o cientista fundamente a sua ciência.
Podemos dizer que o juízo é a molécula do pensamento humano. A proposição de um
juízo pode ser falada ou escrita. Quando se aglutinam as moléculas do pensamento, produz-se o
raciocínio. O raciocínio é uma seqüência de juízos lógicos. A Lógica, por sua vez, estuda os
critérios do raciocínio humano.
O princípio lógico é o juízo ou verdade fundamental do qual desenvolvemos o nosso
raciocínio e que é garantia de certeza e de validade dos juízos dele derivados. Reduzindo-se um
juízo complexo chega-se a um juízo mais simples e, nessa seqüência de redução certificadora,
chega-se ao limite do juízo fundamental ou princípio, um juízo que não pode mais ser reduzido a
outro. Este seria um juízo que nos asseguraria a certeza do enunciado, por ser evidente,
impondo-se como presença imediata ao espírito.
O princípio é, pois, uma proposição elementar e fundamental que serve de base para uma
ordem do conhecimento. É uma proposição de caráter geral com papel fundamental no
desenvolvimento de uma teoria, servindo de alicerce ou de garantia de certeza a um conjunto de
juízos, ordenados em sistema de conceitos relativo a uma dada porção da realidade.

Tipos de Princípio
Assim como a tipologia e a lei, o princípio é uma estrutura do conhecimento científico.
Os princípios podem ser de 3 tipos:
(1) Universais ou omnivalentes - valem para todas as ciências. Não estão amarrados a
nenhum objeto em particular.
(2) Plurivalentes ou regionais: valem para muitas ciências mas não valem para todas.
(3) Monovalentes: restritos a uma única área do conhecimento científico.

1. Princípios Universais  Axiomas


Os princípios universais têm validade universal. São princípios de lógica, não estando
amarrados a objetos particulares. A Lógica é a área do conhecimento que estuda os critérios
formais de validade do conhecimento. São princípios que valem para o raciocínio humano.
Qualquer coisa que se queira conhecer cientificamente deve seguir os princípios da lógica.
Os princípios universais são evidentes, incontestáveis, pois são a própria lógica do
raciocínio. São aceitos pelo sujeito cognoscente de maneira tranqüila. São axiomas, princípios
que não precisam de comprovação.
Exemplos de axiomas:
(a) Princípio da Identidade - tudo é igual a si mesmo: A = A.
(b) Princípio da Razão Suficiente - qualquer coisa é diferente do que ela não é: A ≠ não-A.

2. Princípios Plurivalentes ou regionais  Postulados


Os princípios são regionais quando têm validade para um grupo de ciências, mas não para
todas (por ex.: para a física, a química, a astronomia). Essas ciências podem estar apoiadas em
princípios que lhes são comuns, que deram fundamento à física, à química, à astronomia. Os
princípios plurivalentes são constatações feitas ao longo do tempo e que se tornam verdade por
convenção. São postos ou impostos pela prática e pelo conhecimento humano. São os
postulados. Os postulados são princípios postos por convenção mas não evidentes em si mesmo.
Exemplos:
(a) Princípio da causalidade:
Para toda causa há um efeito causalístico. A relação causal é uma relação de certeza:
Se A é, B é, C é, …
Ou seja, se A é (causa), então B é (efeito/causa), então C é (efeito/causa), …
O princípio da causalidade é adequado para o conhecimento da natureza. Os fenômenos
naturais são constantes, cíclicos, repetitivos, portanto são previsíveis. Se a causa está presente, o
efeito (fenômeno) com certeza ocorrerá. A lei da gravidade, por exemplo, descreve um
fenômeno físico. Presente a causa, a presença de corpos no espaço, o efeito, a atração entre esses
corpos sempre será observada. Logo, a lei da gravidade é universal e repetitiva, tem uma
constância. Todo fenômeno natural pode ser conhecido causalmente. A natureza é causal. Temos
que partir da idéia de que os fenômenos naturais têm causa. A aplicabilidade do princípio da
causalidade está relacionada com o conhecimento humano. Na natureza, mantidas as causas os
efeitos serão sempre os mesmos. Tomemos por exemplo os fenômenos biológicos. O agrônomo
é um cientista que estuda os fenômenos causais relacionados com o desenvolvimento vegetal.
O princípio da causalidade é universal? Não. Ele não vale para o homem
comportamental. O homem pode ser dividido em duas essências distintas. O homem é natureza,
é um animal, possui um corpo biológica e fisiologicamente
Homem funcional e, neste aspecto, está sujeito ao princípio da
causalidade. O corpo se comporta de forma causal. A
Espírito medicina, que estuda o corpo humano, sua estrutura e
Corpo funcionamento, é uma ciência causal.
Mas o homem também é espírito. O espírito é a sede
da razão, da vontade e da emoção. Metafisicamente falando
são esses elementos que compõem o homem ou a natureza humana, o seu espírito. O espírito é
um fenômeno metanatural, que se desenvolve à margem da natureza. A racionalidade é a
capacidade de entender o próprio ato, de moldar e decidir seu próprio destino. O homem tem
liberdade de conduta. Se pensa, escolhe; se escolhe, é livre. A escolha está na consciência das
opções. Quem escolhe, decide. A racionalidade dá ao homem a capacidade de se auto-governar.
Não existe destino para o homem. Construímos o nosso destino pelas escolhas que fazemos na
vida. A racionalidade dá ao homem o livre arbítrio. Por isso somos livre, racionais, podemos
delimitar nosso próprio destino. Não existem vestígios para a causalidade no comportamento
humano. A influência do meio pode motivar determinado comportamento mas não é sua causa.
O meio cria motivações para condutas mas a escolha do caminho a seguir é do homem. A
conduta humana é regida pela própria razão humana. O comportamento, que está sob o jugo da
razão, da vontade e da emoção, não se rege pela causalidade, mas pelo livre arbítrio (capacidade
para escolher a racionalidade, a vontade e a emotividade - segundo o poder de escolha, de
liberdade, enfim, do livre arbítrio). A decisão é fruto da escolha humana. A decisão pode ser boa
ou má. O que realmente conta é que a escolha foi feita. Como motivos não implicam em efeitos,
não há como prever cientificamente o comportamento humano.
A natureza é previsível, mas o homem não. Então não é possível explicar o espírito
humano de forma causal. O que se pode fazer é levantar o motivo que o levou a desencadear ou
impulsionar algum comportamento. O Direito parte do pressuposto de que o homem é
imprevisível e livre para fazer o que quer, para fazer suas escolhas de acordo com a sua
consciência, por isso, existe a proibição (só se pode proibir o que é livre). Essa é a base do
Direito.
O Nazismo iniciou sua limpeza étnica eliminando os deficientes físicos e mentais,
visando a purificação da raça. Depois, passou a eliminar as pessoas potencialmente perigosas.
Do ponto de vista científico a pena de morte não pode ser defendida, pois não há como prever
que quem tenha matado muitas vezes volte a incorrer no delito, já que o comportamento não
pode ser explicado causalmente. A pena de morte tem âmbito preventivo, não punitivo.
A questão do livre arbítrio é muito importante para o Direito, pois este seria inviável se
ao homem não fosse possível a escolha consciente e livre de suas condutas. Lembremos que
motivos e causas não são equivalentes. Os motivos atuam sobre a vontade, que é livre ou não.
Mesmo sob coação ainda existe liberdade de escolha. A lei jurídica relaciona conduta e
conseqüência, e não causa e efeito.
Qual é, então, o princípio que serve para conhecer o homem espiritual?
Um ato criminoso não é causado, mas motivado por algo (por um comportamento) - não
há razão causalística para um crime, mas um motivo. Para o estudo do comportamento humano é
indispensável que se trabalhe com outro princípio (que não o da causalidade), mas o princípio da
imputação (imputabilidade) ou o princípio da finalidade. A natureza humana (espírito,
comportamento) não está vinculada ao princípio da causalidade, entretanto, isso não quer dizer
que o princípio da causalidade não se aplique ao direito. Contudo, a lei é uma relação de causa e
efeito, mas é também uma lei ético-normativa (jurídica, do direito), não se submetendo
exclusivamente ao princípio da causalidade, mas também ao princípio da imputação
(imputabilidade) ou finalidade.

(b) Princípio da finalidade ou Princípio da Imputação


Este é o princípio aplicável ao homem em conduta: o homem só faz para algo. O
comportamento só é determinado para determinado fim. Se você faz, é responsável pelo que faz:
Se A é, B deve ser
Aqui A é o motivo. Se o motivo existe devo esperar uma conduta humana (B). Assim, a
existência do motivo implica em condutas que devem ser tomadas mas que podem não ser
concretizadas. Ao invés de uma causa existe um motivo; ao invés de um efeito, deve existir um
resultado comportamental.

3. Princípios Monovalentes
São princípios que valem apenas para um campo do conhecimento científico. Cada
ciência possui os seus próprios postulados. No caso do Direito poderíamos citar os seguintes
princípios:
(a) Legalidade - nullum crimen nulla poena sine lege
(b) Isonomia - todos são iguais perante a lei
(c) Inescusabilidade - ninguém pode escusar-se de cumprir um lei alegando não
conhecê-la.
(d) Personalidade da pena
(e) Irretroatividade geral
Se o Direito tem princípios, tudo indica que pode ser conhecido cientificamente.
Recordando, o conhecimento científico possui três pilares fundamentais: tipologia, leis e
princípios. Na natureza as leis são sempre relações de causa e efeito.
A lei jurídica, ao contrário, é uma relação imputativa entre motivo e causa.
Resumindo, o que é conhecimento científico?
É o conhecimento geral, metódico, organizado, sistemático, causal (se for da natureza) ou
imputativo (se for do espírito humano) etc. O conhecimento científico pode ser causal, se disser
respeito às ciências naturais e, quando for referente às ciências humanas, será imputativo. Então
pode ser causal ou imputativo dependendo do objeto de estudo.

Conhecimento Filosófico
Lembremos de que o conhecimento possui três planos: o vulgar, o científico e o
filosófico. O conhecimento vulgar caracteriza-se por ser um conhecimento particular com
relação ao objeto (singularidade). O conhecimento científico é geral com relação ao objeto
(generalidade do ser). A principal característica do conhecimento filosófico é o caráter de
universalidade. Com ele chega-se à máxima exponência gnosiológica e visamos entender o
objeto em sua universalidade.
Filosofia significava na Antigüidade conhecimento em sentido amplo. Hoje têm um papel
importante no estudo dos processos do conhecimento. Um exemplo bem simples:
Cor, tamanho  casual
Pincel utensílio  científico
Há algo?  filosófico
A filosofia questiona aquilo que não se questiona. Ela começa onde a ciência termina.
Quanto maior é o grau de profundidade em relação ao conhecimento que temos do
objeto, maior é a planificação desse conhecimento.
Vulgar: Conhecimento particular decorre de experiências individuais, saber casual,
fragmentado, caótico

Plano Científico: Conhecimento geral, busca as causas, os porquês, saber causal, lógico-
racional, sistemático, ordenado, conhecimento auto-sustentável, verdade lógica
Filosófico: é o conhecimento universal (além do científico), alcança não o geral
(como o científico), mas o universal.
O filósofo vai além do limite do cientista, mergulha o objeto de estudo na universalidade
para apreendê-lo. O jurista estuda a lei, o filósofo estuda a justiça. A filosofia contesta o que a
ciência não contesta. Ex.: Para a ciência: A = A, para a filosofia: o que é a igualdade? Os
questionamentos são diferentes. Do particular extrai-se o geral; do qual extrai-se o universal.
O rábula conhece as leis mas não conhece a estrutura do direito - o conhecimento vulgar
é limitado, parcial e não se sustenta por si só. O jurista tem uma visão ampla do direito, conhece
os mecanismos do direito, ele dá a explicação, o porquê. O conhecimento científico é
auto-sustentável.
Ramos da filosofia:
 Gnoseologia: Teoria do conhecimento
 Ontologia: Teoria dos objetos, dos seres
 Epistemologia: ramo do conhecimento filsófico aplicado à uma ciência específica (Ex.
Epistemologia do Direito)
 Axiologia: Teoria dos valores

Outros Planos do Conhecimento


Além dos planos vulgar, científico e filosófico é possível identificar outros planos do
conhecimento. Dois outros planos dos quais não trataremos são o religioso e o metafísico. Com
isso terminamos o capítulo sobre a gnoseologia, o estudo da relação que se estabelece entre
sujeito cognoscente e o objeto cognoscível.

3. Teoria dos Objetos (Ontologia)

I. Introdução
A gnoseologia estuda o processo do conhecimento. A ontologia estuda o que pode ser
conhecido, ou seja, os objetos do conhecimento. Partindo da premissa de que tudo pode ser
conhecido, não existem limites para a capacidade cognitiva humana. A questão é saber: o que
pode ser conhecido pelo homem?
Conhecimento é uma relação bipolar entre o sujeito cognoscente e o objeto cognoscível,
que ocorre dentro de um juízo lógico. O objeto pode ser definido como sujeito de um juízo
lógico. O que conheço? O que posso conhecer? O que pode ser objeto de conhecimento do
homem? De que tipo podem ser os objetos? Quais objetos posso conhecer? Posso conhecer
qualquer objeto que exista no universo (isso é um pressuposto). O direito é objeto do
conhecimento humano? Que tipo de objeto ele é?

II. Tipos de Objetos - Categorias Ônticas


A base do conhecimento científico é a tipologia. Logo, deve-se classificar os objetos.
Esferas ônticas (esferas dos objetos), são as esferas objetivas, os grupos de tipos de objetos que
se pode conhecer. O que pode ser conhecido pode ser objeto do conhecimento humano. A
primeira categoria ôntica é a dos objetos naturais, aqueles que existem na natureza (sejam físicos
ou psíquicos).

1. Objetos Naturais Físicos


Quaisquer objetos que existam na natureza. São geralmente conhecidos no plano vulgar e
nossa percepção deles depende dos sentidos. Ex.: caneta, pincel. Podem ser conhecidos pelo
homem. Existem na natureza e são materiais. As características dos objetos naturais físicos são:
 Espacialidade: são feitos de matéria, ocupam lugar no espaço
 Temporalidade: conhecidos no passado, presente e futuro. Não são eternos.
 Neutralidade a juízos de valor
 Princípio da causalidade é o princípio aplicado para conhecê-los.
Quando dizemos que os objetos são imunes a juízos de valor, o que queremos dizer. Os
juízos (S é P) podem ser de realidade, ou seja, descritivos como a cor e peso de uma cadeira; ou
de valor, de finalidade ou de atribuição, em que se atribui ao predicado uma impressão subjetiva:
cadeira útil, confortável, bonita. Os objetos naturais físicos estão sujeitos aos fatores de espaço e
tempo e são isentos de valoração (não interessa se a cadeira é bonita ou feia).
Juízos (S é P) de realidade: descritivo das características naturais do ser
de valor: atribui uma finalidade ao objeto
O juízo de realidade reflete o princípio da causalidade (interessa se a cadeira é branca ou
preta, porque depende da cor para a absorção ou não da luz).
Se quero conhecer o objeto natural físico não posso valorá-lo. O cientista tem que se
colocar numa posição neutra frente ao objeto do conhecimento. Ao fazer juízo de valor ele
contamina o objeto do conhecimento. Assim, os objetos naturais físicos são imunes a juízos de
valor.
Com relação ao princípio utilizado para estudar os objetos naturais físicos, é o princípio
da causalidade. Quando falamos em causalidade falamos em relações de causa e efeito. Para
conhecermos os objetos naturais físicos temos que olhar para eles de forma neutra e descritiva,
identificando os padrões causais do espaço e tempo. O princípio de causalidade é o princípio
base para se conhecer os objetos naturais físicos. Ou seja, os objetos naturais físicos estão
sujeitos a relações de causa e efeito.

2. Objetos Naturais Psíquicos


Os objetos que ocorrem no cenário da natureza humana, no campo psíquico da natureza,
como o amor e as emoções. As suas principais características são2:
 aespacialidade: não são feitos de matéria, não ocupam lugar no espaço
 Temporalidade: nenhuma emoção é atemporal, são todas resultantes da ação do
tempo. Não são eternos.
 Neutralidade a juízos de valor: a emoção é um fenômeno psíquico, não pode ser
valorada sob pena de ter suas características deturpadas pelas impressões
pessoais do sujeito. Do ponto de vista científico elas não comportam valoração.
Ao valorá-la, o sujeito não será capaz de perceber a emoção estudada, pois a
valoração contamina o objeto com impressões do sujeito.
 Princípio da causalidade é o princípio aplicado para conhecê-los.
Por serem objetos naturais também são explicáveis pelo princípio de causalidade. A
natureza é causal. O objeto natural psíquico ocupa uma dimensão que não é física, mas psíquica
(relaciona-se com as sensações e emoções humanas). É a-espacial (não ocupa lugar no espaço), é
temporal (se esgota no tempo) e neutro no que se refere a um juízo de valor. A causalidade se
repete constantemente em causa e efeito nos objetos físicos ou psíquicos.
As emoções que regem a nossa personalidade são causadas por outras. As emoções são
causalísticas. Emoções podem motivar o comportamento humano mas não causam o
comportamento. As emoções não regem a conduta humana. O homem é regido pela razão.
Emoções decorrem de princípios causais e da experiência de vida, mas não o comportamento
humano. Não podemos dizer que as emoções determinarão o nosso comportamento.

2
O prefixo a- significa não e indica oposição lógica, incompatibilidade, ausência de possibilidade. Os
prefixos i-, in- também significa não, mas indica contrariedade. Por exemplo, um homem pode ser imoral mas um
cachorro só pode ser amoral.
3. Objetos Lógicos ou Objetos Ideais
Os objetos lógicos ou ideais são objetos que existem no mundo ideal lógico, um mundo
paralelo ao mundo da natureza em que vivemos. São os conceitos lógicos e só podem ser
percebidos pela razão, pela inteligência. A razão é o caminho que faz com que o homem conheça
os objetos lógicos. Os conceitos vivem no mundo das idéias e não no mundo dos objetos
corpóreos. Os objetos lógicos ou ideais são objetos das lógicas, das matemáticas. Como
exemplos podemos considerar os números e os objetos geométricos. O objeto ideal retângulo só
tem existência no mundo ideal lógico. A porta, retangular, tem a forma de um retângulo mas não
é o retângulo em si. É apenas uma representação materializada de um retângulo capturada pela
nossa razão à partir de sua interação com o mundo ideal.

Psíquica Razão Mundo Ideal Lógico

Física

Mundo da Natureza

As características dos objetos lógicos são:


 Aespacialidade: não são feitos de matéria, não ocupam lugar no espaço. Quando
falamos no triângulo como objeto ideal, por exemplo, não estamos falando da
coisa em sua forma mas em conceito.
 Atemporalidade: Os conceitos existem independentemente da razão humana.
Eles não têm existência limitada no tempo. O conceito 3 é, sempre foi e sempre
será 3.
 Neutralidade a juízos de valor: não podem ser valorados sob pena de perderem
sua existência no mundo ideal.
 Princípio da Implicabilidade ou da Idealidade é o princípio aplicado para
conhecê-los. Os conceitos se implicam mutuamente. Exemplo: 2 + 2 implicam 4.
Os objetos ideais são os objetos lógicos, os conceitos. Ex.: matemática, lógica, números,
triângulos, circunferências etc. O conceito é a abstração que existe sobre a coisa. Que princípio
emprega o matemático para conhecer os números? Emprega o princípio da implicabilidade (ou
idealidade), princípio através do qual se estuda os objetos ideais. O mundo da idéias não se
relaciona, não é regido pelo princípio da causalidade, mas pelo princípio da implicabilidade ou
da idealidade.
Mundo das Idéias
O homem é a ponte entre esses dois O homem é um ser natural. Consegue
mundos. Consegue atingir as duas esferas enxergar o mundo (através dos sentidos) e
ônticas enxergar o mundo das idéias através de
sua razão

Mundo das Coisas


Somente os homens podem ter acesso ao mundo das idéias, através da razão.
4. Objetos Culturais
Diferentemente dos demais objetos vistos até agora, os objetos culturais são objetos
complexos, no sentido de que incluem, em sua estrutura objetos dos tipos anteriores. Trataremos
deles nos capítulos que seguem. são aqueles que estão presentes no mundo cultural. É um objeto
natural ou ideal funcionalizado e que ganhou um sentido para o homem (ele transformou algo
natural para satisfazer a sua necessidade e, assim, "pôs cultura" nesse objeto), para uma
finalidade humana (cultural). São objetos complexos: porque ou são objetos naturais ou objetos
ideais transformados.
São objetos valorados. Ex.: música, tem uma carga valorativa.

Mundo da Natureza versus Mundo da Cultura


O homem vive no mundo da natureza porque o homem é um ser animal. O homem é
híbrido. Possui uma parte animal (natural) e tem agregado à sua essência uma parte espiritual,
metanatural, que se manifesta na razão, na vontade e na emoção humanas. O homem é natureza
e razão.
Psíquica Animal (Natural)

Razão (Espírito)
Física

Mundo da Natureza

Desde que o homem teve consciência de que era consciente ele se pergunta sobre sua
própria existência. O que sou eu? O que é o homem? Estas são as questões centrais do
Existencialismo.
Estamos sujeitos aos mesmos mecanismos da natureza. Enquanto a nossa existência
natural se esvai no tempo, o espírito humano se engrandece, se desenvolve, se enriquece com o
tempo. A racionalidade aprimora-se enquanto o corpo deteriora-se com o tempo. O homem
busca o conhecimento sobre si mesmo: de onde vim, para onde vou?
Na ânsia pelo conhecimento o homem acaba se voltando contra aquilo que já existe. Se
sou animal, mas não só animal, que tipo de animal eu sou? O homem tenta desvendar na
natureza a espiritualidade, tenta enxergar-se nas coisas. Qual a participação do homem no todo?
A tentativa de entender-se faz com que o homem projete a sua racionalidade sobre as coisas para
tentar entendê-las. O homem projeta seu espírito sobre as coisas da natureza. O objeto é
funcionalizado pelo homem. Nesse processo o objeto adquire o espírito humano, passa a ter algo
de humano.
Esse lado espiritual humano com razão, vontade e emoção lhe dá liberdade para agir
através do livre arbítrio. Tendo o homem vontade e emoção, deve supri-las. A vontade e emoção
impulsioná-lo-ia a agir, para suprir suas necessidades básicas. Através da razão o homem
consegue canalizar (instrumentalizar) e trabalhar com suas emoções e vontades, daí a liberdade
humana de reger o seu próprio comportamento. A presença do espírito humano transforma o
mundo natural, em outro mundo, o da cultura.
O homem dotado de razão projeta seu espírito e consegue instrumentalizar o mundo
natural de acordo com sua vontade e emoção, recriando um mundo paralelo. Coloca as coisas
naturais à sua disposição e vontade. O homem funcionalizou a natureza, deu uma finalidade
diversa da que ela tinha, e assim, criou o mundo da cultura. Ele transforma, converte o natural
em cultural.
A Cultura é a projeção da razão, da vontade e emoção sobre o natural. O homem recria a
realidade de acordo com sua necessidade e intenção, recriando então, uma realidade cultural.
Ex.: Mesa - enquanto a madeira era uma árvore, era um objeto natural, mas quando a árvore foi
derrubada e dela construída uma mesa, esta passou a se um objeto cultural, quando lhe foi
agregado um valor.
Tomemos como exemplo a pedra, objeto natural físico. Ao utilizá-la como peso de papel,
ou como bloco para a construção de um muro, ou como um projétil, o espírito do homem é
transferido para a pedra. Passa a ser não só um objeto natural mas passa a ter um fim, uma
finalidade. O homem projeta sua espiritualidade sobre a natureza e cria o mundo da cultura. Este
é o mundo construído pelo homem para si mesmo. É o mundo onde vivemos.
O mundo da cultura é, portanto, o
espaço de vida do homem para o homem. O
Mundo da espaço onde vivemos é o mundo da natureza
Cultura
espiritualizado. A ação volitiva do homem
cria o mundo em que vivemos, resultado da
objetivação da vontade humana. A ação
Mundo da Natureza
Objetos volitiva do homem transforma a vontade
Culturais humana em objetos.
O mundo da cultura é o mundo das
intencionalidades objetivadas. É um mundo que nós construímos para nós mesmos. A finalidade
dos objetos é estabelecida pelo homem. Como exemplo, podemos citar que o homem criou a
cadeira, que tem sua existência como objeto natural físico mas é, em essência, um objeto
cultural. O que define o objeto cultural é a finalidade que o homem atribui a ele.
Os objetos culturais são sempre complexos. O objeto cultural tem sempre dois
elementos, duas partes. Eles se compõem de uma base, de um suporte ou substrato, que é sempre
um objeto de outra categoria (natural ou ideal),em que o homem projeta o seu espírito (sua
vontade, sua necessidade) e dá ao objeto um sentido, um significado, uma finalidade. Ou seja, o
objeto cultural é uma base a que se atribui uma finalidade. Todo objeto cultural tem um sentido,
um significado, uma finalidade. É um objeto por derivação. Sobre o objeto projeto a minha
espiritualidade e o transformo em objeto cultural. Como exemplo de objetos culturais temos a já
mencionada cadeira, que existe como objeto natural físico, a sua base, e que, em função da
finalidade que se lhe atribui, torna-se um objeto cultural. Podemos dizer que a música é a
espiritualidade se manifestando, é um produto humano. O som é um objeto natural físico mas o
homem o produz, o transforma, de modo a que agrade à sua sensibilidade. É sempre um objeto
natural ou ideal funcionalizado, voltado para suprir uma necessidade ou vontade humana. Antes
mesmo de ser cultural, era um objeto natural (físico ou psíquico) ou ideal.
O que pode ser base para um objeto cultural?
(a) Objetos Naturais Físicos - Como vimos, os objetos naturais físicos podem ser base para um
objeto cultural. São objetos culturais por derivação.
(b) Objetos Naturais Psíquicos - Também podem ser base para objetos culturais. Passam a existir
quando atribuímos sentido a nossa emoções. Um exemplo folclórico, em todos os aspectos, é o
do saci-pererê, que só existe no mundo psíquico humano. A música, como cultura, é um objeto
cultural com base psíquica. O mesmo pode-se dizer dos objetos de origem mitológica.
(c) Objetos Ideais - Também podem ser base para objetos culturais. Como exemplo, temos a
atribuição da idéia de azar ao número 13. Do mesmo modo, as formas geométricas utilizadas nas
placas de trânsito correspondem à transformação de objetos do mundo ideal em objetos culturais.
Quando passam a ter uma finalidade tornam-se objetos culturais.
Exemplos:.
 Mesa: objeto natural físico ⇒ madeira; sentido, utilidade ⇒ mesa ⇒ passa a ser então um
objeto cultural. Assim, a mesa é ao mesmo tempo um objeto natural físico (enquanto
madeira) e um objeto cultural, quando lhe é atribuído o sentido de finalidade.
 Fogo (objeto natural físico) ⇒ objeto cultural quando é usado no fogão, na lareira, no
isqueiro.
 Música: objeto físico ⇒ o som, objeto cultural ⇒ a melodia com a finalidade de
entretenimento.
 Saci (não é um objeto natural físico, mas psíquico), revela por ex. o medo de uma pessoa +
sentido ⇒ de utilidade ⇒ cria uma lenda/fábula, cria uma figura, isso é um objeto cultural.
 Triângulo (objeto ideal)/triângulo de trânsito + sentido ⇒ de utilidade (orientar), passa a ser
um objeto cultural.

Características dos Objetos Culturais


As características dos objetos culturais são:
 Podem ser Espaciais ou a-espaciais, dependendo da base. Ex.: A cadeira é
espacial; o saci é a-espacial; o triângulo (enquanto conceito) é a-espacial, mas a
placa de trânsito é espacial
 Temporalidade: são sempre temporais, independente da base, porque sua
finalidade é sempre temporal, mesmo que sua base seja a-temporal. É sempre
temporal porque foi criado pelo homem, é fruto da ação humana - para alguma
finalidade.
 Não são neutros a juízos de valor: tenho que valorá-los para conhecê-los, senão
perco uma de suas características principais, a finalidade. Há um valor de juízo
subjacente a todo objeto cultural. Não para compreender o objeto cultural sem
valorá-lo.
 Princípio da finalidade é o princípio aplicado para conhecê-los.
Cultura só pode ser entendida no tempo. Buscar nos objetos culturais o que eles têm de
humano exige que eu o valore. Não posso permanecer neutro diante do objeto. Tenho que me
deixar emocionar. Tenho que sentir a humanidade que o objeto transmite para mim. Tomemos
como exemplo um quadro. Se não abordá-lo espiritualmente não há nada nele além de tinta e
tela. Ele só será uma obra de arte se ele de alguma forma nos emocionar. O exercício de
valoração é necessário para que se possa entender a cultura.
Se um objeto cultura não é neutro a um juízo de valor, pode-se então, entendê-lo a partir
do princípio da causalidade? NÃO. Uma cadeira é útil não por uma causa, mas por um princípio
valorativo. Não existe um princípio causal para a utilidade. A causalidade é incompatível com o
mundo cultural. O princípio da idealidade/implicabilidade aplica-se ao estudo do objeto cultural.
O objeto cultural não pode ser explicado, mas sim, compreendido. Deve-se apreender o
valor da coisa - "sinto" a beleza de um quadro, mas não explico causalisticamente essa beleza.
Pertinente é a frase de Dilthey: "A Natureza se explica; a Cultura se compreende".
Explicar é enunciar ou descrever as relações de causa-efeito que existem no objeto. O
conhecimento que temos da natureza é explicativo e descritivo. A ciência não é algo, é como. É
como conhecer o objeto. Compreender deriva de com e apreender o conhecimento. Quando se
trata de cultura, compreendemos. Compreender é alcançar a dimensão de si mesmo com o
objeto, apreendendo o objeto com o sujeito dentro. Compreender é buscar a dimensão humana
dentro do objeto, dimensão esta que o objeto já tem. Tomemos como exemplo um artefato
encontrado numa escavação arqueológica. Para que serviria? Temos que valorar o objeto para
poder aprender, para poder compreendê-lo. Comunicar é tornar comum um pensamento. Se não
abordarmos o objeto cultural espiritualmente, com as emoções, se não o valorarmos, não
podemos conhecê-lo. As ciências do homem não podem ser neutras.
Qual é o princípio utilizado para conhecer o objeto cultural? O princípio da finalidade.
Tenho que partir do princípio de que o objeto tem uma finalidade, tem um sentido.
Por fim, um objeto pode pertencer a mais de uma categoria. Como exemplo, temos que
Deus pode ser encaixado, numa abordagem científica, nos quatro tipos de objetos:
 É um objeto natural físico pois Deus está em todas as coisas.
 É um objeto natural psíquico pois é uma emoção.
 É um objeto ideal pois habita um mundo paralelo, ideal. Daí a idéia do paraíso.
 É um objeto cultural, pois pensamos Deus com as características humanas. Podemos dizer
que o homem fez Deus à sua imagem e semelhança para dizer que Deus o criou à sua
imagem e semelhança.

"A natureza se explica e a cultura se compreende"
Descreve um fenômeno natural na sua Analisa a projeção do espírito humano
relação causalística (de causa e efeito). (compreender é muito mais que
A tarefa é descrever a realidade explicar) e implica em valorar, buscar
causalisticamente, como o fenômeno um sentido, o que a realidade
acontece e se repete (constância). representa para o homem. Um valor
não pode ser explicado, logo, não se
pode usar o princípio da causalidade
para compreender o objeto cultural

Não há cultura humana sem valoração. O sentido de um objeto cultural é o valor que
atribuímos a ele. O que são valores?

Teoria dos Valores (Axiologia)

1. Introdução
O que é valor? Beleza, justiça, utilidade e santidade são valores. Valor não é, vale. Vale
a sua própria existência. Sentimos a beleza nas coisas. Conseguimos dizer que isto ou aquilo é
belo mas não conseguimos definir o que é belo. O valor não é nada, o valor vale.
Não devemos confundir o valor com a coisa valorada. A obra de arte não á a beleza, é a
coisa valorada. Somos capazes de enxergar coisas belas. A beleza é algo que vale, vale o que é.
A utilidade também é um valor. A coisa útil não é a utilidade. O valor não é, ele vale; a coisa é.
Beleza = qualidade do belo; utilidade = qualidade do útil, portanto, valor não se conceitua.
O homem é capaz de perceber a existência do valor pela emoção. Emoção é o caminho
que leva o homem ao valor. Graças à emoção o homem consegue perceber o valor, e o reconhece
nas coisas valoradas.
O valor é a referência por meio da qual podemos
chamar algo de belo, feio, útil, etc. A emoção é a via
Valor adequada para se conhecer o valor. Buscar o valor é
deixar-se emocionar. O valor não pode ser atingido pela
razão. A justiça é um valor, e como tal não pode ser
atingida pela razão.
Coisas
valoradas Valor não se explica. Valor só,pode ser entendido
pela emoção. Sabemos que existe beleza mas não sabemos
explicar o que é. Sentimos a presença do valor beleza. É
preciso deixar claro que valor e valia são conceitos diferentes. Valia é uma expressão econômica,
é a expressão monetária, patrimonial de um objeto. O valor tem um sentido/significado para o
homem. É o preço que as coisas têm. O correto seria perguntarmos qual a valia e não o valor de
um carro. Quando dizemos que um quadro (coisa) é belo (valor), nós o estamos valorando. O
fato de custar um milhão de dólares é tão somente a sua valia, não seu valor. Valorar é
reconhecer o valor nas coisas.

2. Relação dos Valores com outros Objetos


Que tipo de coisa o valor é? É o valor um objeto do conhecimento humano? O valor não
é um objeto natural físico. Não podemos confundir o valor com a coisa valorada. O valor não é
espacial, não é físico. Não vemos a beleza, vemos coisas belas. O valor também não é um objeto
natural psíquico. O valor não é uma emoção. Ela nos faz perceber os valores. Do mesmo modo,
valor não é um objeto cultural, ainda que seja parte dele. Seria o valor um objeto ideal?
O valor é um objeto do conhecimento humano? SIM. O objeto cognoscível é o sujeito de
um juízo lógico. Embora o valor não possa ser explicado, ele pode ser sentido, então, é o sujeito
de um juízo lógico, o que o torna um objeto do conhecimento. Que tipo de objeto é o valor? O
valor não é um objeto cultural, mas é parte desse objeto cultural, também não é um objeto
natural, nem ideal.
Assim como os objetos ideais, os valores são aespaciais e atemporais porque têm
natureza objetiva. A beleza já existia como conceito mesmo antes da existência da coisas belas.
O valor não muda com o tempo. A beleza existe independentemente do próprio homem. A
valoração da coisa, esta sim é temporal. Não somos nós que criamos o valor. Ele já existe,
independentemente de nossa própria existência. Vejo a beleza com minha emoção e a reconheço
ou não no objeto que olho.
Tomemos como exemplo a famosa escultura de Michelangelo: "Os Escravos". A série de
esculturas que fazem parte do Museo dell'Accademia mostram formas humanas se projetando
para for a do bloco de mármore. Dizia Michelangelo quando perguntado acerca de como
concebia suas esculturas que o que fazia era eliminar os excessos para que os outros pudessem
ver o que ele já tinha visto.
Os objetos ideais chegam ao homem através da razão; os valores através da emoção. Os
valores não são objetos ideais. As diferenças entre eles são:
(1) Os objetos ideais podem ser quantificáveis enquanto que os valores, não. Não se mede, não
se quantifica um valor.
(2) Um objeto ideal é; ele pertence à categoria do ser. O valor não é; ele não pertence ao mundo
do ser, mas ao mundo do dever ser. A beleza é aquilo que as coisas devem ser para serem
belas.
Miguel Reale identifica três realidades ou três mundos: o mundo da natureza, o mundo
dos objetos ideais e o mundo dos valores. Para ele, os valores fazem parte de uma outra categoria
autônoma. O objeto cultural está conjugado aos valores. Assim, as coisas que podem ser
Físicos
Objetos culturais
Objetos naturais
SER Psíquicos
Objetos ideais
União de ambas as dimensões
⇒ SER enquanto DEVER SER

DEVER SER Valores Base Sentido

conhecidas pelo homem pertencem a essas dimensões.


Um objeto natural ou um objeto ideal é aquilo que posso dizer dele. Os valores devem ser
aquilo que representam referências para alguma coisa. Os objetos culturais só são enquanto
devem ser já que são projeções do homem quando em contato com o mundo do enquanto deve
ser. A cadeira só é enquanto deve ser (útil, confortável etc). É objeto cultural.
Conhecer é apreender características do objeto. Não preciso definir o valor mas preciso
conhecê-lo. O homem pode conhecer valores. Os objetos culturais surgem da união do mundo do
ser com o mundo do dever ser. A existência de um objeto não é a sua existência conceitual. O
objeto natural físico é neutro a juízos de valores. Se eu valorá-lo passa a ser um objeto cultural.
Para a Corrente do Hedonismo (prazer) tudo o que dá prazer é valor, e, por isso, o valor é
um objeto ideal (que está no mundo das idéias). O valor teria: a-espacialidade e a-temporalidade.
Crítica do Reale:
1 - Objeto ideal é algo, e, portanto, posso explicá-lo e dizer algo sobre ele. Mas não posso
explicar um valor (por ex. a beleza), portanto, não é um objeto ideal em natural psíquico.
2 - O valor não pode ser um objeto ideal, porque (valor) é incomensurável (portanto, não
pode ser quantificado, mensurado), ao passo que os objetos ideais podem ser mensurados (ex.:
algo é três vezes maior que….)
Por isso, Reale desdobra o valor numa categoria ôntica própria. A coisa é. O valor não é,
mas vale, então, o valor deve ser assim considerado. A realidade objetiva (dos objetos) é dividida
em duas esferas fundamentais (Reale):
- SER: - Objeto natural - físicos
- psíquicos
- Objeto ideal
- DEVER SER: é a realidade do valor
Da conjunção dessas duas realidades nasce o objeto cultural, o qual é enquanto deve ser,
posto que o valor deve ser.
Explique o conceito de objeto cultural para Miguel Reale:
Para Reale o objeto cultural é a conjunção da realidade do ser com a realidade do dever
ser. E na sua consideração o valor é uma esfera ôntica autônoma, com características próprias
ligada ao objeto cultural.

3. Características dos Valores


Apresentaremos agoras as características dos valores.

Objetividade
Valores são objetivos, não são frutos da subjetividade humana, pertencem a um mundo
particular, não são criados pelos homens. A coisa valorada é obra humana, é a cultura.

Referibilidade

Valor
O valor é uma referência para o homem. O valor é
uma entidade vetorial: é aquilo que aponta para algum lugar,
com base no que vou valorar coisas. O valor é a referência
Coisa com base na qual o homem valora as coisas.

Preferibilidade

Valor A preferibilidade permite ao homem escolher, permite


ao homem preferir, ter uma preferência. O valor é objetivo
mas as escolha é subjetiva. O valor é objetivo mas a minha
Coisa valoração da coisa é subjetiva. O ato de preferir é um juízo de
Escolha Escolha escolha. A escolha é pessoal, subjetiva, mas o valor não. Só
posso gostar ou não de algo se tiver uma referência.

Historicidade
Todo valor só pode ser concebido, conceituado, percebido, dentro da história. Só tem um
conteúdo histórico, ou seja, seu conteúdo é temporal e espacial. O valor é atemporal e aespacial
em forma, mas não em conteúdo, que é histórico e, portanto, temporal.
Beleza é uma forma, uma categoria. O que está contido na idéia de beleza é temporal,
histórico. É uma categoria formal cujo conteúdo só pode ser percebido historicamente. A idéia
de beleza, seu conceito e conteúdo, mudou ao longo da história.

Possibilidade de Graduação Hierárquica (Hierarquizabilidade)


Os valores são referências, como um farol no horizonte que indica o
caminho para o espírito humano. Daí a natureza vetorial dos valores. Cada
1 valor é uma referência, cada um deles aponta para um horizonte axiológico.
2 Valores podem ser arranjados de forma hierárquica. Dentre os diversos
3 valores alguns podem ser mais importantes para a minha vida do que
4
outros: a escala pode ser hierarquizada de pessoa para pessoa ou de
sociedade para sociedade. Além disso, existe mobilidade na escala de
valores.
Podemos mesmo classificar as pessoas com base nos valores que
lhes são mais caros:
 Pessoas estéticas são aquelas para as quais a beleza é o valor principal. O objetivo da vida é a
busca da beleza. A meta é a estética.
 Pessoas práticas são aquelas cujo valor mais importante é a utilidade.
 Pessoas santas são aquelas para as quais o valor da santidade, do sagrado, é o que vale.
 Pessoas teoréticas são aquelas que se pautam pelo justo. A justiça é o valor primeiro.
A justiça é o valor mãe de todos. Devemos esclarecer que as palavras bom e justo não
têm o mesmo sentido. Justo é dar para quem merece.
Um exemplo típico da mobilidade da escala de valores é o que se verificou nos Estados
Unidos após o atentado de 11/09/2001. Até então o valor reitor de sua existência era a liberdade.
Os EUA eram conhecidos como a terra da liberdade e da oportunidade. Liberdade de expressão,
liberdade de ir e vir, liberdade até mesmo de se armar. Após 11/09 a sociedade americana
percebeu que a liberdade não dava segurança. A segurança passou a ser o valor principal. Era
uma valor secundário até então. Agora, a intervenção em outros países tem como principal
justificativa garantir a segurança do povo americano. Houve um drástica mudança na escala de
valores.
As condutas de uma sociedade são reflexos dos valores que a orientam. No Brasil de hoje
o valor que parece estar imperando é o da igualdade. Nesse contexto, vemos aparecer leis para
dar igualdade às pessoas, como reservas de vagas, casamento entre homossexuais etc.

Incomensurabilidade
Conseguimos valorar mas não medir a quantidade de um valor (mensurar=medir).

Inexauribilidade
Exaurir significa acabar com o tempo. O valor, portanto, não está sujeito à ação do
tempo. Passe o tempo que for, sempre haverá beleza. A escala e o conteúdo podem mudar mas o
valor em si é atemporal.

Realizabilidade
Os valores podem se realizar nas coisas. As coisas
Valor podem se tornar como os valores indicam. O homem pode
valorar a coisa e, ao fazê-lo, faz com que elas tendam a ser o
que os valores indicam.
Coisa Valor
A idéia de que as coisas são como são, imperfeitas,
mas poderiam ser diferentes, é uma característica do valor. A coisa poderia ser o que o valor
indica, mesmo que não o seja. Falta a ela algo que a faça melhor do que é.

Exigibilidade
Os valores são exigíveis do homem. São uma dívida espiritual que o homem tem consigo
mesmo. Manifestam-se na sua vida mesmo contra a sua vontade. Não conseguimos não valorar.
Valorar é um ato humano. Faz parte de nossa essência.
A exigibilidade e a realizabilidade tornam o homem pró-ativo para transformar o que as
coisas são no que elas deveriam ser. O homem tem motivação para alterar o que está à sua volta,
fazendo com que adquira o que o valor quer que ela seja. Ser pró-ativo significa atuar antes que
algo aconteça. Assim, o homem tenta sair do mundo de imperfeições e busca o mundo ideal, o
mundo dos valores, o mundo melhor. O homem tenta construir um mundo perfeito com base nos
valores.
Bipolaridade

Desvalor Valor Para todo valor existe o seu contraponto, o seu


desvalor. Assim, para a beleza existe a feiúra, para a
santidade existe o profano etc.

Implicação recíproca
Todo valor está reciprocamente ligado a outro. O conteúdo de um valor só pode ser
percebido associado a todos os outros valores. Quando altero a percepção de um valor altero o
valor de todos os outros que existem e que com ele estão intimamente vinculados.

4. Conceito do Direito

I. Introdução
Estudamos, até o momento, a teoria do conhecimento, a teoria dos objetos e a teoria dos
valores. A nossa questão inicial era: o que é Introdução ao Estudo do Direito? Se vamos estudar
o Direito significa que queremos conhecê-lo. Já vimos que é possível conhecê-lo vulgarmente.
Queremos conhecê-lo cientificamente.
Como caracterizar o Direito? Abordaremos o conceito do Direito como um objeto do
conhecimento, e trataremos da visão de ciência do direito. Veremos qual é o processo científico
do conhecimento do direito.

Direito - Objeto
O que é Direito como objeto do conhecimento humano?
Temos que entender o Direito numa dimensão lógica, buscar o conceito de todo e
qualquer Direito. A busca é pelo gênero e não pelo particular. Qual é o substrato, a natureza, a
essência do Direito? Não a essência de um Direito mas de qualquer Direito.
O homem busca o conceito do Direito desde que começou a conhecer a si mesmo. Ao
longo de toda a história foram formadas várias concepções do que é o Direito, várias teorias.
Faremos uma apresentação lógica das teorias, sem qualquer preocupação com o momento
histórico. Ou seja, não serão apresentadas de ordem cronológica. Não nos preocuparemos
também com a denominação dessas teorias, mas as apresentaremos conforme a maneira como
elas vêem o Direito.

1. O Direito é um FATO
Fato é uma ocorrência, um acontecimento, aquilo que acontece.

1.1 - Naturalismo Jurídico: o Direito é um Fato Natural Físico


Já se sustentou que o Direito é um fato natural físico. Isso implica que o Direito é um
objeto natural físico do conhecimento. No universo natural tudo o que acontece só acontece
graças a uma composição harmônica entre as coisas, e que pode ser concebida como uma regra
de existência no universo com uma
Meta-Natureza disposição necessária para que seja daquela
forma e não de outra.
Tudo o que está dentro da natureza
só pode ser conhecido no mundo da
natureza. Não podemos retirá-lo do mundo
da natureza para tentar conhecê-lo, pois ele
Mundo da Natureza é parte do mundo natural e só existe nele.
Deixa de existir O Direito está contido em todas as coisas
do universo natural físico. O universo entra
em colapso quando tiro um elemento de
natureza de seu mundo.
A existência do homem na natureza é um fato. O comportamento do homem na natureza
é um fato físico. A existência e a ação humanas são fatos inseridos na natureza. O que é o Direito
senão mais um fato humano diante do universo. A existência e a ação humanas só podem ser
entendidas dentro da natureza. Se conseguimos desvendar a regra de existência de toda a
natureza podemos desvendar as regras de existência e ação do homem. Conhecendo o universo
por inteiro poderemos conhecer as suas partes.
Se tomamos o homem e qualquer objeto, tem que haver uma harmonia entre nós para que
possamos existir. Uma regra das próprias coisas. Deve haver uma regra que harmonize todas as
coisas no universo e, conhecendo-a, conheceremos o homem. Segundo Pontes de Miranda, todas
as coisas têm o seu próprio Direito, basta descobri-lo.
A regra universal prevê a temporalidade das coisas. Matar é um fato dentro do universo.
Não há a intenção de se encontrar a causa do ato de matar, mas de considerar o ato como um fato
jurídico. Essa teoria tem uma visão macroscópica, não microscópica, dos fatos. A teoria é mais
um objetivo que uma explicação.

1.2 - Psicologismo Jurídico: o Direito é um Fato Natural Psíquico


O Direito só pode ser conhecido dentro das relações psíquicas entre os homens. O Direito
só existe para regular conflitos de interesses. É um fato no campo psíquico, no campo das
emoções humanas.

Interesse
O interesse (inter = entre, esse = ser) é uma condição
Coisa psíquica, é aquilo que psicologicamente me liga às coisas. Só me
interesso pelo que tenho vontade, pelo que tenho necessidade. Por
aquilo que me satisfaz biológica e psiquicamente. É a necessidade
que faz com que me sinta atraído pela coisa.
O interesse é portanto um estado psicológico decorrente da vontade diante da necessidade
humana. O interesse cria uma atração pela coisa. Temos infinitas necessidades, tanto do corpo
quanto da mente: prazer moral, ético, intelectual. O interesse
humano é ilimitado, infinito. As coisas são finitas, limitadas. Daí
Conflito nasce o conflito.
Enquanto tenho interesse pela coisa, outra pessoa também o
Int. tem. Nasce um conflito de interesses entre duas pessoas, um conflito
Int.
Coisa psíquico. A maneira como resolvemos os conflitos de interesses é o
Direito. Assim, só é Direito se resolve os conflitos de interesses.
Quando entendermos as relações psíquicas entre os homens entenderemos o Direito.
Assim, para conhecermos o Direito temos que estudar Psicologia.
1.3 - Sociologismo Jurídico: o Direito é um Fato Social
Fato social é aquilo que acontece na sociedade, ou seja, é uma questão coletiva. A
maneira como as pessoas se comportam em grupamento é o Direito. Para se conhecer o Direito
deve-se estudar as sociedades, ou seja, Sociologia. Se soubermos como a sociedade funciona
saberemos o que é o Direito, posto que ele é só mais um fato social.
Norma deriva de normal, aquilo que acontece na sociedade, que faz parte de nossa
estrutura social. A proibição de matar é só um fato da sociedade. Desvendando a estrutura social
conheço o próprio e verdadeiro Direito. Direito é um conjunto de fatos e acontecimentos sociais.

2. O Direito é um VALOR
Outras teorias vêem o Direito como um valor, no caso a Justiça, que é o valor que aponta
para como as coisas devem ser para serem justas. Direito é aquele que age corretamente, não é
um fato ou acontecimento, mas uma idéia do justo. O Direito é um objeto axiológico. Para
conhecê-lo devemos nos dedicar ao estudo da filosofia dos valores. Descobriremos o Direito
quando descobrirmos a concepção de Justiça. Nesta corrente enquadram-se o Moralismo
Jurídico e o Jusnaturalismo (Direito Natural).
Não devemos confundir Jusnaturalismo com Naturalismo Jurídico. O primeiro relaciona-
se ao Direito Natural e o segundo ao Direito como fato natural. Segundo o Direito Natural existe
um Direito naturalmente aplicável a todos os homens em todos os tempos e em todos os lugares.
É um Direito atemporal e aespacial, ou seja, é um valor. É um Direito como valor de Justiça em
si mesmo. Um Direito que cada cidadão tem, independentemente do tempo e do espaço. É um
Direito por natureza. Neste caso, o Direito é a própria Justiça.

3. O Direito Como NORMA


Primeiramente, temos que salientar que Norma e Lei não são a mesma coisa. Norma é a
idéia da conduta proibida ou permitida. A Lei é a forma como a norma se manifesta.
A teoria que adota essa concepção do Direito, de que o Direito é Norma, é conhecida por
Normativismo Lógico e foi defendida por Hans Kelsen. O Direito é Norma, e o que é Norma
senão uma idéia, um objeto lógico, um objeto ideal! Se tomarmos como exemplo o Art. 121 do
Código Penal, temos: “Matar alguém. Pena: reclusão de 6 a 20 anos”. Esta é a lei. A norma que
dá origem a esta lei é: “É proibido matar”.
O Direito é uma norma lógica. Para conhecê-lo temos que estudar a norma como objeto
lógico. O Direito é a forma segundo as quais se expressam as normas, as proibições. Para
conhecê-lo o Jurista3 deve estudar a lógica das normas. Na visão Kelseniana o jurista deve
estudar a lógica da norma, não a justiça.
O Direito é uma estrutura lógica que permite que todos compreendam as normas. Não
tem aspectos de justiça ou correção. A ciência do Direito é norma pura. A justiça, como valor,
não é relevante para o estudo do Direito mas o é para o estudo de outras ciências (política,
sociologia etc).

3
O Legislador é aquele que escreve as leis, o Jurista é o cientista do Direito que estuda as leis e o Juiz é o
aplicador do Direito, que aplica as leis.
4. Teoria Tridimensional do Direito
Essas três concepções do Direito defendem posições flagrantemente incongruentes entre
si. Por proporem uma visão unilateral do Direito são denominadas teorias monistas ou
reducionistas. Resumindo, as teorias reducionistas consideram o Direito como:
a) Fato
b) Valor  Justiça é um valor, não é, vale. Direito é a visão do justo, é subjetivo.
c) Norma  Direito é uma norma lógica que pode ser compreendida racionalmente por qualquer
um.
Segundo a visão tridimensionalista, Direito é ao mesmo tempo Fato, Valor e Norma. O
Direito é um objeto de 3 dimensões. Direito é um fato, mas um fato que deve ser de uma maneira
ou de outra imbuído de um valor, justo. O fato justo só pode ser compreendido através de uma
norma lógica. Segundo Miguel Reale, as Normas decorrem da valoração dos Fatos.
O Direito é, portanto, norma com conteúdo.
Lembremos que um objeto cultural é formado por uma
Valores Fatos Normas base à qual se agrega um valor. O Direito é manifestação
da cultura. É um objeto cultural, não sendo, portanto,
neutro a juízos de valor. Para aplicarmos o Direito temos
que ler a norma e entendê-la do ponto de vista do valor. O
Direito é do homem e para o homem. É do homem como
um ser cultural.
Vejamos, por exemplo, o Art. 233 do Código Penal, referente aos atos obscenos. Uma
mulher que nos anos 1920 fizesse top-less numa praia pública certamente seria presa por ato
obsceno. Hoje isso já não seria visto da mesma maneira e a mulher poderia até passar
despercebida. Como se pode observar, a lei é a mesma mas as normas variam com a sociedade,
justamente por serem culturais.

5. Formas de Conhecimento
Podemos esquematizar as várias formas de conhecimento de acordo com o seguinte
quadro:

Dedução
Mediata ou Indireta Método Indução
Analogia
Forma
Sensível
Imediata ou Direta Intuição Formal
Espiritual Intelectiva
Real Emotiva
Volitiva

No quadro acima temos que no conhecimento de forma direta o sujeito está em contato
direto com o objeto, através da intuição. Através da forma direta obtém-se um entendimento
vulgar das coisas.
Método é o caminho para se apreender alguma realidade, o caminho para se adquirir
conhecimento. Método é uma forma de se apreender a realidade. É uma forma de conhecimento
indireto, mediato.
Temos então que na intuição, uma forma de conhecimento direto, o sujeito e o objeto do
conhecimento estão e contato. A forma de intuição mais comum é a sensível, obtida pelos
sentidos. O conhecimento vulgar é adquirido por meio da intuição sensível. A intuição não-
sensível ou espiritual vem do intelecto. Este tipo de intuição pode ser formal, que apreende o
exterior da coisa, ou real, que lhe apreende a essência, o conteúdo, aquilo que está na própria
essência da coisa.
A intuição real, por sua vez, é baseada nas faculdades psíquicas da mente. Assim, o
pensamento dá origem à intuição intelectiva; o sentimento, à intuição emotiva; e as ações, a
vontade, à intuição volitiva. Uma intuição é intelectiva (Husserl) quando leva à essência do
objeto. Miguel Reale a chama intuição eidética (eidos = essência). Ela é emotiva (Bergson),
quando nos auxilia a apreender o valor do objeto. Finalmente, ela é volitiva (Dilthey) quando nos
auxilia a apreender a existência do objeto. A estrutura do objeto é dada por sua essência, seu
valor e sua existência. Exemplos de intuição: intuição do sagrado (emotiva), tribunal de júri
(emotiva). Os valores são apreendidos por intuição emotiva.
O estudo da intuição intelectiva está associado ao nome de Edmund Husserl, criador do
método fenomenológico, que se fundamenta na intuição intelectiva e estabelece um método para
comprovar o conhecimento. Segundo esse método a aplicação do Direito se dá em duas partes
(Carlos Cossio):
1- intuição do caso: apreensão do justo, correto.
2- métodos que confirmariam a tese, explicando-a com base no ordenamento jurídico.
Como vimos, o método nos indica as etapas a serem percorridas para se alcançar a
realidade.

Indução
Método de conhecimento que faz uso da experiência, também conhecido como método
empírico-indutivo. Empírico subentende conhecimento adquirido através dos sentidos. Segundo
Hume, só existe conhecimento quando há experiência. O método indutivo parte do particular
para o geral. Experimentando e observando vários entes particulares concretos podemos chegar à
formulação de um princípio geral, uma premissa, que seja comum a todos eles.
Completa  observa todos os elementos de um conjunto; não há
descoberta
Indução
Amplificadora  tem valor de descoberta para a parcela não
observada da realidade
Qual é o fundamento da indução? O método parte do pressuposto de que a natureza é
regular e constante.
A indução é aplicável ao Direito? Sim, numa visão reducionista como a do sociologismo
ou empirismo jurídico. Segundo Montesquieu, lei (no sentido físico) é uma relação necessária
entre fenômenos. Na visão do sociologismo, à partir da observação das relações entre os
fenômeno pode-se, por indução, chegar à lei subjacente. Nessa visão a indução é a maneira de se
conhecer o Direito.
Dedução
Também conhecido como método racional-dedutivo, é eminentemente racional, analítica,
não dependendo de experiência. É um método em que se parte do conhecimento geral para o
particular. Parte-se de uma premissa universal para verdades particulares. É o método utilizado
para o conhecimento das ciências ideais, lógicas, das matemáticas. A dedução sempre é mostrada
através de um silogismo, a união de dois juízos que resulta num terceiro juízo. A estrutura básica
do silogismo é:
P>  premissa maior, que tem que ser universal, ter extensão ampla
p<  premissa menor, com extensão menor
c  conclusão

Por exemplo:
P>: Todo homem é mortal
p<: Ora, Sócrates é homem
c: Logo, Sócrates é mortal
No silogismo, homem é denominado o termo médio, que tem por finalidade unir as idéias. Na
conclusão, as idéias se unem e o termo médio desaparece. Saímos de uma premissa geral para
uma conclusão particular.
No Direito, para a elaboração das leis, numa visão reducionista, utilizamos a indução. Na
visão tridimensionalista a lei é feita da valoração de um fato social mas o processo de sua
elaboração nasce da indução.Observamos vários entes particulares para chegar à lei.
A aplicação do Direito é toda calcada na dedução, através do silogismo judiciário, em
que:
P>: Norma
p<: Fato
C: Decisão
A sentença é organizada de forma silogística:
p<: I – Relatório: síntese de tudo o que aconteceu
P>: II – Fundamentação
C: III – Dispositivo

Analítica/Formal/Silogística  não há descoberta, não tem nenhum


valor de descoberta. A conclusão é uma particularização da
premissa e não descobre nada fora do sistema. A conclusão está
contida na premissa maior. A conclusão é um desdobramento da
Dedução premissa maior.

Amplificadora  ocorre a inclusão de um termo externo.

Na dedução amplificadora chegamos a uma conclusão que


Exemplo de dedução amplificadora:
P>: Todo aquele que comete roubo com arma recebe um agravante. A
dedução analítica não funciona porque não definimos se arma de
brinquedo é arma.
p<: Fulano roubou com arma de brinquedo
P>: arma é tudo o que coage
arma: p<: arma de brinquedo coage
c: arma de brinquedo
é arma
c: Fulano terá agravante
A dedução amplificadora permite a inclusão de um elemento exterior na estrutura do
silogismo. Tem valor de descoberta pois permite a inclusão de um termo exterior no silogismo.
Temos que sair fora da cadeia silogística. Não basta o silogismo reto. Temos que buscar num
elemento externo aquilo que vai compor o raciocínio. A dedução analítica, como vimos, não
permite a inclusão de nenhum termo novo. Seja agora o seguinte silogismo:
P>: Todo aquele que subtrai algo comete furto..
p<: Fulano subtraiu uma melancia
c: Fulano cometeu furto
Do ponto de vista do normativismo Fulano cometeu furto e será condenado. O que
importa é só a forma lógica da lei. Lei de conteúdo: se A é, B deve ser. Do ponto de vista do
tridimensionalismo Fulano seria absolvido com base no princípio da bagatela.

Dialética
Dialética, na filosofia grega, significava movimento, transformação. Como método do
conhecimento humano tem duas vertentes: o idealismo dialético (Hegel) e o realismo dialético
(Marx).

Idealismo Dialético
Segundo o idealismo dialético o homem pensa em contraposição, em oposição e
contraposição, para toda tese existe uma antítese. Para toda idéia humana existe uma
contraposição lógica. Da tensão dialética que existe entre tese e antítese nasce a síntese. A
síntese será tese e antítese de uma nova tensão dialética e assim por diante. Essa é a base
(contraposição de opostos) do conhecimento dialético. Tudo se dá no campo da razão. O
raciocínio humano nasce da contraposição de tese e antítese, daí nasce o conhecimento
científico.

Realismo Dialético
É o método dialético não como forma do raciocínio humano mas como o mecanismo de
como as coisas acontecem. Para Hegel era o mecanismo de como o homem conhece. A tensão
dialética é transferida para a realidade, temos a realidade contraposta.
A noção sobre as coisas depende dos contrapostos que as coisas têm. O grande só é
grande em comparação com o pequeno. O conhecimento se dá por contraposição, através da
síntese de realidades que são contrapostas.
Para Hegel o homem imagina o quadrado diferente do redondo. Para conhecer de modo
seguro temos que pensar de modo contraposto, comparativo. Nós é que dizemos que as coisas
são grandes ou pequenas.
Para Marx, o quadrado é contraposto ao redondo, não é imaginado. As coisas só podem
existir em função de seus contrapostos.
A síntese é a composição entre a tese e a antítese, é a aglutinação das idéias. Quando
descubro a dialética chego ao conhecimento científico.
O método do materialismo dialético teve grande repercussão nas ciências sociais, no
estudo dos fenômenos sociais, sendo um método adequado para o estudo das sociedades
(materialismo histórico). É um método altamente apropriado para a compreensão das estruturas
sociais.
A sociedade se comporta tal qual a natureza dialética, é formada pela contraposição de
opostos. A sociedade é a síntese da tensão dialética entre capital e trabalho. O que vemos da
sociedade é uma superestrutura que se manifesta como resultado de uma infra-estrutura sujeita às
tensões dialéticas. A superestrutura só existe porque abaixo dela existe uma infra-estrutura que
faz com que a sociedade se pareça com o que ela é. A sociedade é a síntese do que está no fundo
dela: a oposição entre capital e trabalho.
O que a sociedade tem de dialético: a infra-estrutura econômica. Todos os fenômenos
sociais são reduzidos a tensões econômicas da sociedade. A liberação dos direitos de igualdade
entre homens e mulheres atendeu a um modelo de estrutura social.
Temos sempre um conflito entre capital e trabalho que se dá entre uma classe dominante
e uma dominada, que resulta na sociedade como a temos. É uma tensão constante entre quem
tem os meios de produção e quem não os têm.
A sociedade, na sua dimensão coletiva, assenta-se numa infra-estrutura econômica
contraposta por uma superestrutura ideológica. O Direito é uma manifestação ideológica de uma
realidade dialética (contraditória) econômica. É, portanto, um fato econômico. É só uma
justificação ideológica de uma classe dominante sobre uma classe dominada. Maquiamos a
sociedade econômica com manifestações ideológicas. Manifestações ideológicas da classe
dominante.
O Direito é estritamente decorrente da relação econômica, totalmente condicionado à
atividade econômica. É uma manifestação de superestrutura. Está a serviço da luta entre as
classes. Esta é uma visão reducionista do Direito pois ignora os aspectos norma e valor. Só
consigo conhecer o Direito na visão Marxista se tiver uma visão reducionista. Para Marx o que
vale é o fato. Não importam os valores.
Na visão tridimensionalista a idéia Marxista não tem espaço. Nenhuma dialética pode ser
empregada para o conhecimento do Direito. É necessária uma dialética que parta da
complementaridade e não da contraposição entre opostos. Que veja ao mesmo tempo as 3
dimensões como um todo, como 3 pólos que interagem entre si para se completarem. A norma já
tem em si fatos e valores. Na dialética a norma tem fatos e valores.
6. Direito e Moral

Introdução
Fato
Valor
Direito como objeto:
Norma
Norma decorrente da valoração de Fatos

Direito é uma dimensão cultural viva. Norma só pode ser entendido do ponto de vista
social. A norma é a dimensão mais importante do Direito. Não podemos ignorá-la pois é o nosso
ponto de partida. O Direito deve ser visto como realidade normatizada. Norma é a idéia da
proibição, é a idéia daquilo que deve ser ou não ser feito. É uma realidade que indica como as
coisas devem ser.
O Direito é uma estrutura lógica que me indica como devo me comportar em uma
determinada situação fática. A função da norma jurídica é prescrever o que deve ou não ser feito.
Indica como deve ser o comportamento humano.
Matar alguém  não se deve matar alguém.
A função da norma é indicar o comportamento futuro. O Direito tem função
transformadora: transforma aquilo que é naquilo que deve ser.
Por que criar uma norma jurídica? Para estabelecer proibições ou permissões que abrem
caminho para o comportamento. Tenho que dizer ao homem como não deve agir, pois ele tem a
opção de agir de uma maneira ou de outra (liberdade de agir). O comportamento é uma escolha
pessoal., livre (livre arbítrio). O homem age como quer. Mas existem comportamentos que não
são corretos, justos. Qual o caminho certo a seguir em minha ação? Isto é indicado pela norma.
A norma é necessária em função da liberdade de agir do homem. É um parâmetro, uma
orientação de comportamento. O valor é percebido individualmente por manifestação subjetiva.
O que deve ser feito? Norma é expressão objetiva do valor a ser seguido. A norma é a expressão
objetiva e lógica de justiça social. É uma regra clara e objetiva que indica o que se deve fazer.
Lei ≠ Norma: pessoas fazem lei,não norma. A lei não é resultado do direito. Norma é o
resultado da valoração de fatos. Não tem nada a ver com senso comum. O Direito não é bom
senso. A norma é o bom senso objetivado. Na visão tridimensional o valor é parte da norma. A
lei é o rascunho que me faz lembrar a norma, é a forma de representar uma norma. Norma é a
idéia da proibição, daquilo que pode ou não pode ser feito, daquilo que deve ou não deve ser
feito. O Direito é norma; o Direito não é lei!
Situação
Fática
PN1
V1 Norma
PN2 Poder Obrigatória
V2 PN3
PN4
V3

Na teoria tridimensional, temos que ao fazermos incidir o complexo volitivo sobre o


complexo fático serão geradas proposições normativas. Qual delas vai valer. Apenas uma virará
norma!. Quem escolhe é quem tem o poder de ditar regras. Uma norma que decorrerá de fatos
valorados previamente selecionada por quem detém o poder. Ou seja, o Direito está vinculado ao
poder. Toda norma jurídica tem origem no poder.
Existem normas que são parâmetros de comportamento para o ser humano. Existem
infinitas regras. Cumprimos regras o tempo todo. São todas elas jurídicas? Não. Existe a noção
intuitiva de que as normas podem ser jurídicas e não jurídicas. Na antiguidade o que era Direito
já eram normas de caráter religioso. As normas eram frutos de um costume religioso. Dos
costumes temos os modos morais (mores = costumes) de comportamento, do comportamento
para consigo mesmo, para com o próximo e para com Deus.

Moral
Conjunto de normas de comportamento.

Semelhanças entre Direito e Moral


1) Ambos são um conglomerado normativo, ou seja, são conjuntos de normas.
2) Normas determinam comportamentos, ou seja, dizem respeito ao “dever ser”.

Diferenças entre Direito e Moral


No final da Idade Média e no início da Idade Moderna surgiu a preocupação com o
estudo do Direito. Como diferenciar o Direito dos outros campos do dever ser? É possível uma
norma ser jurídica sem ser moral?
1) Por volta de 1700, o filósofo alemão Christian Thomasius propôs a seguinte
diferenciação entre Direito e Moral: Moral trata do foro íntimo, Direito trata do foro externo.
Deste modo, toda ação externa é jurídica, enquanto que toda ação interna, que ocorre no âmbito
da consciência, toda intenção, é moral. O Direito não se destina a regulamentar os aspectos do
foro íntimo.
Pode-se dizer também que o Direito se diferencia da Moral porque se ocupa da ação
humana (foro externo) , ao passo que a Moral se ocupa da intenção, da vontade (foro íntimo). O
Direito regulamenta o que você faz; como você faz é uma questão moral. A hipocrisia é imoral.
A moral se preocupa com o que você pensa quando realiza o ato.
Será que o Direito nada tem a ver com a vontade? Toda ação humana é finalista, tem por
objetivo um fim, um resultado. Temos então o dolo. O que você faz está intimamente ligado ao
que se quer. Animus é qual a sua intenção ao realizar a conduta. A boa fé, por sua vez, é o estado
psicológico de quem pratica o ato. O Direito está vinculado à questão da intenção e da vontade.
A diferença, portanto, não é tão visível.
2) Heteronomia e Autonomia
O Direito tem validade objetiva e transpessoal porque a norma jurídica será aplicada
independentemente da aceitação dos destinatários. Diz-se que ela é heterônoma. A norma é
autônoma quando ela depende da própria pessoa para existir, depende da aceitação do seu
destinatário. A norma autônoma é a que dita as próprias regras, cumpre regras que ela mesma
cria. A norma moral só vale se o seu destinatário aceitá-la, ela está dentro de nós. Já a norma
heterônoma não está condicionada à prévia aceitação psicológica. A norma jurídica é sempre
heterônoma.
3) Coercibilidade
O Direito é sempre coercível, a Moral nunca é. Coerção implica violência, força,
implica força externa. Ler a norma jurídica é ver a expressão do castigo que se impõe, inclusive
com o emprego da força e violência. O Direito não é recomendação: não pede, ordena! Direito
não dá opção, Direito cumpre-se! Como vimos na teoria tridimensional, o Direito é manifestação
de uma autoridade.
O descumprimento de uma norma jurídica acarretará em sanção, em um castigo ou
pena. A coercibilidade do Direito pressupõe uma força externa que fará com que a norma seja
cumprida. O Direito não espera que a pessoa se arrependa.
A sanção da norma moral, por sua vez, é a dor moral, o remorso, o peso na consciência,
é uma força íntima, não externa.
4)

7. Direito e Ciências Afins

I. Introdução

Vimos que o Direito pode ser entendido como objeto do conhecimento (Direito norma)
ou como Ciência (a maneira de saber, não o que saber). Quando falamos em Ciência, falamos em
universalidade de saber. O cientista tenta buscar em tudo um conhecimento lógico das coisas. À
medida que o homem se aprofunda no conhecimento, vai surgindo a necessidade de
detalhamento dos tópicos. Surge então a necessidade de se quebrar a universalidade da ciência
em ciências autônomas. Como são separadas essas ciências autônomas? Para que as ciências
possam ser dimensionadas cada qual em sua área soa necessários critérios de separação.
Temos os seguintes critérios de separação:
1) Separação pelos objetos do conhecimento: para efeito de evolução do conhecimento científico
podemos dizer que o objeto do conhecimento da ciência foi se dividindo em diferentes
objetos. Os objetos naturais físicos, por exemplo, são objetos de estudo da Física, da Química,
da Astronomia etc. Os objetos culturais sã objetos de estudo da Sociologia, da Política, da
História etc.
2) Separação pela forma do conhecimento: ciências que são próximas estudam o mesmo objeto,
são ciências afins. Guardam uma proximidade maior entre si pela proximidade do objeto de
estudo. O que as diferencia é a visão sob a qual se vai conhecer o objeto. Por exemplo, a
Física e a História têm objeto de estudo diferentes. Já a Física e a Química estudam o mesmo
objeto, mas com uma metodologia diferente. O que chamamos de Ciências Afins são ciências
autônomas que estudam o mesmo objeto. O que gera a afinidade é a identidade do objeto.

O que é o Direito objeto? Quais as ciências que estudam o mesmo objeto que o Direito?
1) Direito Norma: a Lógica, que estuda o padrão do raciocínio humano ordenado, e, por
semelhança, a Matemática, que estuda os objetos ideais abstratos.
2) Direito Valor: a Axiologia, que é parte da Filosofia, mas não é uma ciência. A ética, que
estuda o padrão comportamental humano.
3) Direito Fato (Social): neste aspecto queremos separar a ciência do Direito de outras ciências:
É o Direito uma ciência autônoma? É possível uma ciência autônoma do Direito? Queremos
também integrar o Direito às outras ciências. O Direito não é uma ilha de conhecimento
isolada das outras ciências. O Direito possui autonomia metodológica mas não é isolado das
outras ciências, que estudam o fato social sob outro ponto de vista.

Direito e Sociologia
A Sociologia é a ciência mais próxima do Direito. Ambos têm o Fato Social como objeto
do conhecimento científico. Quais são as teorias à respeito da relação entre Sociologia e Direito?

1. Teoria do Positivismo Científico (Comte)


É uma teoria radical. O Direito, ao se reportar ao fato social, é mero capítulo da
Sociologia. O Direito não é uma ciência autônoma, não existe como ciência. Existe a Sociologia
e, dentro dela, um subdivisão que é o Direito. Não existe o jurista, apenas o cientista social.

2. Sociologismo Jurídico ou realismo americano


O Direito estuda só o fato social jurídico. Também é um reducionismo. Não retira do
Direito seu caráter científico mas estuda exatamente o que a sociologia estuda. Existe uma
ciência delimitada do Direito.

3. Teoria Pura do Direito (Kelsen)


Kelsen queria limpar o direito de outras ciências, eliminar os –ismos. Segundo Kelsen, o
Direito não tem nada a ver com a Sociologia. A teoria seria pura porque na sua concepção o
objeto de estudo do Direito seria a norma, não o fato social. Este seria objeto de estudo da
Sociologia. Não haveria, assim, afinidade com a Sociologia, sendo ambas ciências autônomas.

4. Visão da Teoria Tridimensional do Direito


A teoria tem uma visão autônoma do Direito. O Direito está relacionado com a sociologia
mas não se reduz a ela. Ambos estudam o fato social, mas o fazem de maneira distinta. Cada um
tem uma visão própria do fato social. Cada qual tem o seu ponto de vista. O sociólogo estuda
como a sociedade é. O jurista estuda como a sociedade deve ser e nisso depende da valoração do
fato social. Como saber o que a sociedade deve ser sem saber o que ela é? O sociólogo, por sua
vez, estuda o funcionamento da sociedade, que é fundamentada no Direito. A sociedade deve ser
como ela não é. O sociólogo vê a sociedade como ela é porque ela já está orientada pelo Direito.
O jurista, por sua vez, vê a sociedade como ela deve ser.

Direito e Economia
Tanto a Economia quanto o Direito estudam os fatos sociais econômicos. A Economia
estuda a produção, circulação e transformação de bens que são necessários ou úteis para a
sobrevivência humana. A Economia produz ou faz circular riquezas na sociedade.

1. Materialismo histórico (Marx)


A contraposição dialética entre capital e trabalho gera uma infra-estrutura econômica
sobre a qual são edificadas as manifestações ideológicas na sociedade. O Direito não tem
identidade própria pois o fato jurídico é uma manifestação da superestrutura ideológica. Para
conhecer o Direito temos que estudar Economia. O Direito não é autônomo mas parte da
Economia, do conhecimento do fato social econômico. Direito é um objeto da economia.

2. Teoria Stammler
O fatos humanos em sociedade são compostos de conteúdo econômico e de forma
jurídica. A Economia preocupa-se com o conteúdo das relações humanas. A forma das relações
é ditada pelo Direito.
Conteúdo das relações humanas  Economia
Forma dos fatos humanos  Direito
Assim, o “Direito condiciona a Economia” como se o Direito desse forma aos fatos
econômicos. Resumindo: se não há Direito não existe Economia; só há relações econômicas
porque há o Direito. Os fatos humanos econômicos só ocorrem porque existe o Direito. Como se
vê essa teoria tem uma tendência normativista, já que vê o Direito só como forma. O Direito dá a
forma à relação econômica. Sem ele não há como elas existirem. O fato econômico vira um fato
jurídico mas só em forma (sem conteúdo).

3. Visão da Teoria Tridimensionalista


Na visão tridimensionalista o Direito se relaciona com a Economia. O materialismo
histórico ignora a dimensão de valor que o Direito tem. O Direito não é só fato mas o
materialismo histórico o reduz a mero fato econômico (visão reducionista), ignorando as demais
dimensões.
A visão de Stammler também é falha: o Direito condiciona a Economia e a Economia
depende do Direito para existir.
Economia Direito

Valores e
Fato Econômico Normas

Fato Jurídico

O Direito também se ocupa dos fatos econômicos na sociedade. Como? Dando a eles
apenas uma forma? Não. Quando o Direito estuda o fato econômico ele trás o fato econômico
para dentro de seu próprio objeto e este passará a ser um fato jurídico em forma e conteúdo.
Tomemos como exemplo uma relação de compra e venda. É um fato econômico já que envolve a
circulação de riquezas. O Direito faz com que seja um fato jurídico. A própria compra e venda
passa a ser um fato jurídico com um conceito próprio que não é necessariamente o mesmo da
Economia.
O Direito é algo como o Rei Midas da mitologia: tudo em que toca vira fato jurídico, em
forma e essência. Não é um fato da economia a que o Direito dá forma, mas passa a ser um fato
jurídico. Assim, o economista e o jurista vêem o mesmo fato de formas diferentes, sob pontos de
vistas diferentes, com princípios e metodologias próprias. O jurista verá o fato com base nos seus
valores e nas normas.

Direito e Ciência Política


A Ciência Política se ocupa do fato social que está atrelado a uma estrutura de poder.
Estuda o fato social à luz do poder ou do Estado. Estado é um tipo de sociedade politicamente
organizada em um determinado território e com uma autoridade superior que dita e impõe regras
de convivência para os seus membros. O Estado é formado pelo território, pelo povo e pela
soberania.
Temos na teoria tridimensionalista que da valoração da situação fática são derivadas
várias proposições normativas dentre as quais uma é escolhida pelo poder, via de regra, do
Estado para tornar-se uma norma obrigatória, coercível e heterônoma.

Situação
Fática
PN1
V1 Norma
PN2 Poder Obrigatória
V2 PN3
PN4
V3

Assim. O Direito é resultado de um fato político. Será, então, que o Direito é parte da
Ciência Política? O Direito normatiza a atividade política do próprio Estado, dizendo como o
Estado vai agir, inclusive para criar o próprio Direito. O Direito ciência é diferente da Ciência
Política porque o Direito foca sua atenção para a vontade da lei (mens leges), enquanto que a
Ciência Política foca sua atenção para a vontade do legislador (mens legislatoris). O jurista deve
identificar a vontade da lei e não a vontade do criador da lei ao criar a lei. O cientista político, ao
discutir o fato político, deve entender a vontade daquele que fez a lei. A lei é o resultado da
vontade do legislador.
Como a norma tem dentro de si valores, ela tem vontade própria, que é atualizada pelo
valor em cada momento histórico. A figura abstrata do legislador passa no momento histórico. A
figura abstrata do legislador se perde num determinado momento histórico-cultural. A lei sempre
se modifica pela interação dialética com o valor.

Direito e História
A História estuda o desenvolvimento e a transformação das sociedades através do tempo.
É o estudo cronológico do desenvolvimento e da transformação da sociedade. Direito e História
são independentes? Sim. Mas a História tem importância para o Direito, para que se possa
entender como as coisas vieram a ser o que são. A função do direito é apontar para como a
sociedade deve ser ou deveria ser. A História estuda como a sociedade foi. A História estuda
uma sociedade já orientada antes pelo Direito e vice-versa. O amanhã do Direito será o passado
do depois de amanhã da História.

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