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Table of Contents

Title Page
Capítulo Um
Capítulo Dois
Capítulo Três
Capítulo Quatro
Capítulo Cinco
Capítulo Seis
Capítulo Sete
Capítulo Oito
Capítulo Nove
Capítulo Dez
Capítulo Onze
Capítulo Doze
Capítulo Treze
Capítulo Quatorze
Capítulo Quinze
Capítulo Dezesseis
Capítulo Dezessete
Capítulo Dezoito
Capítulo Dezenove
Nota da autora
Livro de Crista McHugh
Copyright e Biografia
Sempre ao Seu Lado
Os Irmãos Kelly, Livro 7
de
Crista McHugh

Melhores amigos podem se tornar amantes em frente às câmeras?


O ator de cinema Gideon Kelly sempre teve uma queda secreta pela amiga e
assistente de longa data, Sarah.
Um beijo ardente é tudo o que ele precisa para se convencer de que ela é a
única mulher para ele, e Gideon fará todo o possível para provar a ela que
eles podem ter um romance épico de Hollywood.
Sarah Holtz alcançou o estrelato ainda criança, mas, ao fim da adolescência,
seus dias de fama chegaram ao fim. Gideon estava lá para ajudá-la a
reconstruir sua vida e agora ela ama a vida que leva, distante dos flashes dos
paparazzi. Não querer abrir mão da sua privacidade é a única coisa que a
impede de explorar algo mais com ele. Quando um vídeo do beijo entre os
dois se torna viral, ela se pergunta se vale a pena voltar à vida pública para se
tornar a parceira dele, dentro e fora das telas.
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Capítulo Um
“Eu já comprei um presente da lista de casamento para Dan e Jenny e o
enviei para o hotel em Seattle para você.”
O estômago de Gideon revirou, mas não pela forma relaxada com que
Sarah “costurava” o tráfego na Lincoln Boulevard, como se o seu pequeno
Fiat 500e fosse um Ducati Streetfighter. Quando ele achava que ela estava
prestes a bater em um carro, ela mudava de pistas com destreza. Ele havia
andado em carros com ela o suficiente durante anos para saber quando tudo
estava sob controle.
Todos os pequenos detalhes da vida de Sarah estavam sob o seu controle,
mas, quando ela mencionou o presente de casamento, uma onda repentina de
pânico o consumiu. “Estou com medo de perguntar o que estava na lista de
presentes deles.”
Seu irmão Dan e a noiva Jenny eram gamers inveterados, e ele precisava de
tempo para entender o que “ele” havia comprado para eles antes do
casamento.
Sarah riu e jogou seus cabelos ruivos para trás. “Você deveria estar mesmo.
Até eu precisei pesquisar algumas daquelas coisas. Mas eu encontrei algo
perfeito para você.”
“O quê?”
O sorriso de Sarah cresceu, e ela adicionou uma pausa dramática. “Um
pôster de cinema autografado.”
“Você não vai me dizer qual, não é?”
“E estragar a surpresa?”
“Por favor, Ruiva, este não é o meu casamento. Se você quer que eles
acreditem que eu escolhi o presente, eu preciso ao menos saber o que é.”
“Você não confia em mim?”
Pelo contrário, nada podia estar mais longe da verdade. Ele havia confiado
a ela tudo desde que chegou em Hollywood, há seis anos. Sua carreira. Seus
compromissos. Os mil e um detalhes da sua vida diária. Até seu coração.
Se pelo menos ele conseguisse convencê-la a aceitá-lo.
“Confio”, ele disse, com um suspiro resignado. Oito meses atrás, ele
perguntou a ela se os dois podiam ser mais do que amigos, e ela enumerou
dezenas de razões para convencê-lo de que isso não podia acontecer. Isso
depois de ela concordar em voltar a falar com ele. Se ele se atrevesse a falar
no assunto novamente, isto poderia acabar com a amizade deles, e nada era
mais importante para ele.
Mas ele ainda continuava esperando que ela mudasse de ideia um dia.
“Eu só queria que você reconsiderasse a possibilidade de ir comigo ao
casamento”, ele adicionou, testando-a mais uma vez.
Ela ficou tensa e ele xingou em voz baixa. “É um encontro de família.”
“E você é parte da família para nós. Quantos feriados você passou
conosco?”
O velocímetro deslizou para trás até que ela estivesse dentro do limite de
velocidade, e ela desviou para a pista da direita. “Isso é diferente.”
“Diferente como?”
“Casamentos são diferentes de feriados”, ela respondeu, com a voz
começando a assumir um tom de cautela.
“Eu não concordo. É só mais uma oportunidade de ver a minha mãe e meus
irmãos.”
“Talvez para você.” Ela massageou a nuca.
“Ah, vamos lá. Você sabe que todos nós adoramos você.”
Ela deu um sorriso fraco para ele. “Não, eu seria uma intrusa. Além disso,
eu tenho planos para o fim de semana.”
“Que tipo de planos?”
“Apenas…planos.”
O estômago dele se apertou novamente e, desta vez, mais por medo do que
por pânico. Ele tentou manter sua voz calma ao perguntar: “Vai sair com
alguém?”
A risada dela aliviou a tensão. “Você me conhece o bastante para saber a
resposta.”
Nos três anos desde o seu acidente, Sarah havia feito todo o possível para
evitar qualquer tipo de publicidade. Ela havia saído do hospital com um nariz
menor e deixado seus cabelos ruivos crescerem naturalmente em vez de
pintá-los de loiro, como havia feito pela maior parte da sua carreira de atriz. E
a maioria das pessoas não a reconheciam, a não ser que se esforçassem muito.
Mas o seu estilo de vida eremita também a impedia de sair com qualquer
outra pessoa além dele.
O que era perfeito para Gideon. Na concepção dele, os dois eram o par
ideal. Ele só precisava fazê-la enxergar isso.
Mas se ele a visse com outro homem…
“O meu estilo de direção está deixando você nervoso?”, ela perguntou,
arrancando-o de seus pensamentos.
Ele olhou para baixo e viu suas mãos suadas e fechadas em punhos. Ele
esticou os dedos. “Não, não mesmo.”
“Não se preocupe. Nós vamos chegar ao aeroporto a tempo.” Ela acelerou
novamente e voltou para a faixa rápida.
Gideon relaxou no assento e reavaliou seus planos. Ele esperava que, se
conseguisse convencê-la a acompanhá-lo ao casamento, poderia se aproveitar
do ambiente romântico e usá-lo para derrubar as defesas dela. Mas Sarah
ainda estava se recusando a ceder.
Hora de colocar o Plano B em ação.
“Ei, Ruiva, eu estou esperando um pacote hoje da Flórida. Quando ele
chegar, você pode deixá-lo no meu quarto?”
“O que é?”
A resposta estava na ponta da língua dele. Seria tão fácil contar a ela que
ele havia finalmente recuperado o Globo de Ouro que ela tinha ganhado
quatro anos atrás. O mesmo prêmio que ela vendeu para comprar drogas
durante a sua queda vertiginosa. O mesmo prêmio que ele estava planejando
devolver a ela no seu aniversário. Mas, em vez disso, Gideon repetiu a
mesma coisa que ela disse a ele. “E estragar a surpresa?”
Ele ganhou um arquear de sobrancelha e um olhar como resposta. Era o
olhar dela que dizia “tome cuidado”, mas ele já estava imune aos seus efeitos.
Ela pegou a saída para o aeroporto e estacionou na frente da companhia
aérea de Gideon.
Gideon se certificou de que não havia ninguém esperando por ele. Uma das
vantagens de ser trazido pela Ruiva. Ninguém esperava que um ator famoso
saísse de um carro elétrico modesto. Ele pegou sua mala no banco de trás e
esticou o braço para abrir a porta.
Mas congelou quando Sarah pousou a mão no seu braço.
O calor do seu toque acabou com a tensão que cresceu durante a viagem e o
tranquilizou. Com um gesto tão simples, ela deixou claro para ele que,
acontecesse o que acontecesse, eles sempre seriam amigos.
Quando ele a encarou, o mesmo sentimento brilhou nos olhos azuis pálidos
dela. “Divirta-se, garoto. Diga olá para a família por mim.”
“Direi.” Ele esticou o braço para abrir a porta novamente, mas pausou para
perguntar mais uma vez: “Você tem certeza de que não quer vir comigo?”
E o que ele viu quase o despedaçou por dentro. Por um segundo, ele achou
que ela havia concordado em ir. Um brilho esperançoso iluminou o rosto
dela, e seus lábios se abriram. Então, o momento passou e seus olhos se
encheram de tristeza quando ela os desviou. Ela levantou a mão. “Não. Mas
obrigada.”
Ruiva estúpida e teimosa.
Ele pegou sua mala e saiu do carro antes de começar a implorar.
“Ah, e mais uma coisa”, ela disse.
Ele se apoiou na janela aberta. “O quê?”
“Eu comprei um pôster de O Império Contra-Ataca assinado pelos atores.”
Seus olhos se arregalaram, e ele assobiou baixo. A Ruiva sabia encontrar o
presente perfeito para dois geeks. “Quanto isso me custou?”, ele brincou.
“Ele é seu irmão. Você pode pagar. Além disso, eu sei como fechar um
bom negócio.”
Ele riu e se afastou do carro. “Não se esqueça do pacote.”
“Não vou esquecer.”
***
Sarah mal havia conseguido entrar na casa depois de uma viagem
estressante de volta do aeroporto quando a campainha tocou. Ela viu o
caminhão da FedEx na câmera de segurança e o deixou entrar. Um minuto
depois, ela estava recebendo um pacote do tamanho de uma caixa de sapatos
que pesava quase três quilos. O endereço do remetente pertencia a uma loja
de memorabilia em Miami.
O que o Garoto comprou desta vez?
Provavelmente, alguma coisa relacionada a esportes.
Ela carregou o pacote até o quarto dele e o colocou no seu criado-mudo,
sem dar muita importância ao seu conteúdo.
Capítulo Dois
Um mês depois

Me lembre de dar um bônus para as domésticas esta semana.


Sarah balançou a cabeça ao andar na ponta dos pés, evitando as garrafas
vazias e os corpos adormecidos. Em algumas horas, a casa limpa e
organizada no Pacific Palisades havia se transformado em uma casa de
fraternidade. A festa de última hora de Gideon na noite anterior havia
acabado de madrugada e, atrás dela, Jason e Raul estavam acordando os
últimos convidados que caíram no sono onde puderam se deitar.
Ela prendeu a respiração quando se aproximou do quarto de Gideon. Por
favor, não me deixe encontrar alguma vagabunda na cama dele.
O rosto dela aqueceu com a ideia e uma onda desconfortável de ciúme
inundou o seu estômago. Ela parou e esperou até que a sensação passasse
antes de abrir a porta. Afinal, ela não tinha nenhum compromisso com ele.
Ele podia dormir com quem quisesse. Afinal, ele era solteiro, bem-sucedido,
atencioso, bonito…
O rosto dela aqueceu por uma razão totalmente diferente, e ela abafou
aquelas emoções com o mesmo vigor. Ele era o chefe dela. E, considerando o
sucesso de bilheteria do seu último filme naquele fim de semana, ele poderia
ter qualquer mulher.
Mas o trabalho dela seria mais fácil se ela não precisasse explicar para uma
garota grogue e nua que era hora de ir para casa. O tempo já era curto sem
isso. Gideon tinha uma entrevista em Beverly Hills em 90 minutos, seguida
de uma viagem para Las Vegas, e ela era responsável por garantir que ele
fosse onde precisava estar, de preferência, em boas condições.
Apesar do sol matinal da Califórnia que brilhava na rua, o quarto dele era
uma caverna escura. As cortinas automatizadas que bloqueavam a luz do sol
eram a única coisa que ela insistiu para que ele comprasse quando redecorou
a casa, e ele a agradeceu mais de uma vez por elas. Com o toque de um
botão, elas transformavam o dia em noite, e o permitiam dormir quando a sua
agenda de filmagens ficava complicada.
Gideon estava deitado de barriga para baixo, seus longos membros
esticados em todas as direções, com um único pé saindo de baixo das
cobertas, e todas as preocupações dela sumiram. Ele estava sozinho.
“Acorde, dorminhoco”, ela disse com o que Gideon chamava de voz de
general.
Ele respondeu com uma série de resmungos incompreensíveis.
“Não estou nem aí.” Ela encontrou o controle remoto das cortinas e, alguns
segundos depois, a luz do sol invadiu o quarto. “Você precisa levantar e se
vestir.”
“Você é má.” Ele agarrou um travesseiro e o apertou sobre a cabeça.
“Não, eu sou apenas a sua assistente.” Ela arrancou o travesseiro das mãos
dele. “Agora, entre no chuveiro e livre-se dessa ressaca.”
Ele não se mexeu e, por um momento, ela se perguntou se ele havia voltado
a cair no sono. Então, do nada, uma mão agarrou o pulso dela e a puxou para
a cama. Um par de braços musculosos a segurou e a pressionou contra o
corpo rijo que fazia mulheres do mundo todo suspirarem. Se ele fosse
qualquer outro homem, ela teria respondido com uma cotovelada nas
costelas, seguida de um soco na virilha.
Mas este era Gideon.
Ele encostou o nariz na nuca de Sarah. “Como você está, Ruiva?”
Ela não teve certeza de que a sua língua conseguiria dar a sua típica
resposta objetiva. O calor do peito nu nele penetrou o algodão fino da blusa
dela e aqueceu as suas costas. Ela fechou os olhos e desfrutou do momento,
como se fosse uma massagem com pedras quentes. “Você sabe que isso pode
ser considerado assédio sexual.”
“Talvez, mas só se você considerar isso sexual ou assédio.”
Ah, se ele soubesse…
Quando ela o conheceu, eles tinham que filmar uma cena na cama juntos,
como estavam agora. O que havia começado como algo estranho havia se
tornado uma piada recorrente. Naquele momento, eles foram forçados a deitar
um nos braços do outro, como amantes. Com o passar do tempo, ela havia
passado horas deitada ao lado do seu melhor amigo, curando sua alma e
encontrando razões para voltar a sorrir.
Agora, no entanto, apesar das brincadeiras, havia uma tensão palpável no
ar. Nove meses atrás, ele havia perguntado a ela se eles podiam ser mais do
que amigos, e algo mudou no relacionamento deles. Mesmo tendo dito não,
mesmo tendo listado todas as razões pelas quais um romance nunca daria
certo entre eles, mesmo tendo explicado que ela não queria estragar a
amizade deles, uma parte rebelde e ousada dela queria a mesma coisa.
Ela conseguiu rir da situação e afastar os braços dele. “Por mais que eu
quisesse fingir que nós não temos nada para fazer hoje, você tem
compromissos.”
Ele deu um sorriso sonolento e sexy para ela. “Eu estou disposto a ficar em
casa, se você também estiver.”
“Sem chance, garoto. Você precisa impressionar aquela repórter da Pomp
and Celebrity.”
“Sim, sim, eu sei.” Ele enrolou o lençol em torno da cintura e se levantou.
“Se eu estragar isso, nunca mais vou trabalhar nessa cidade.”
Ele cambaleou até o banheiro, mas o lençol fino fez pouco para esconder o
traseiro perfeitamente esculpido embaixo dele. Sarah mordeu o lábio e
desfrutou da “paisagem” até ele fechar a porta atrás de si, totalmente ciente
do aperto em seu estômago.
Droga, eu estou encrencada.
Mais razão para focar em encontrar um novo emprego antes que eu
estrague tudo. Começando hoje.
O som de água veio do banheiro, e Sarah encontrou o porta-terno que ela
havia colocado no closet de Gideon dois dias antes. Como ela suspeitava, ele
nem sequer notou. Ela o colocou na cama e começou a fazer as malas dele
para a viagem a Las Vegas. Ele ficaria lá pelo menos três semanas
trabalhando no seu próximo filme, então, ela precisava garantir que ele
tivesse roupas suficientes para cobrir qualquer situação em que se
encontrasse.
Roupas de ginástica? Ok.
Alguns ternos para jantar? Ok.
Roupas casuais para usar em suas folgas? Ok.
Smoking? Ele podia alugar um.
Quando ela chegou às meias e roupas de baixo, o chuveiro estava
silencioso. A porta do banheiro se abriu com uma nuvem de vapor e Gideon
surgiu, parecendo uma fantasia que havia ganhado vida. O homem exalava
sexo, mesmo quando não estava tentando ser sexy. Uma toalha estava presa
em torno dos seus quadris e gotas de água ainda reluziam na sua pele. Seus
cabelos escuros formavam pontas bagunçadas. O início de uma barba
emoldurava seu rosto. Resumindo, ele ficava mais bonito depois de um banho
matinal do que a maioria dos modelos no meio de uma sessão de fotos.
Ele desfilou até a cama com graciosidade e apontou para a roupa que ela
havia separado para ele. “É para mim?”
“Não, é para o Gabe Harrison”, ela respondeu, se referindo ao ator que
contracenaria com Gideon no filme que ele iria fazer em Las Vegas. Ela
mostrou a língua e jogou uma cueca para ele. “Vista-se de uma vez.”
“Tá bom.” O resmungo exagerado dele a fez rir, mas essa era a sua hora de
sair do quarto para que ele pudesse se vestir. Depois de anos como assistente
dele, ela havia visto Gideon quase nu no set o suficiente para saber que ele
era bem “equipado”, mas, quando estavam sozinhos na casa dele, ele ainda
mantinha um pouco de modéstia. Não porque ele quisesse, mas porque ele
não queria fazer nada que a deixasse desconfortável. E, desde a sua recusa da
oferta de serem mais do que amigos no Halloween, ele começou a ficar ainda
mais diligente em se cobrir na presença dela.
Ela saiu do quarto e descobriu, para a sua satisfação, que os guarda-costas
de Gideon haviam retirado os convidados restantes da casa enquanto ela
estava no quarto.
Raul gesticulou para que ela o encontrasse na cozinha. “Eu não sei o que
está mais detonado — a casa ou aquela última garota que saiu de táxi. Ela
não conseguia nem dizer o seu endereço para o taxista.”
“Então, para onde você a mandou?”
“Para o endereço na carteira de motorista dela.” Ele tomou um gole de
água. “Ela ficou repetindo que ficaria sóbria mais rápido se pudesse “retirar”
o álcool do seu corpo. Eu fiz questão de tirá-la da casa antes que ela
demonstrasse a sua técnica.”
“Esta cidade está cheia de malucos”, Jason, o outro guarda-costas,
adicionou.
“É, nós não estamos em Nebraska, fazendeiro.” Raul jogou uma garrafa de
água para ele. “Então, o que temos na agenda para hoje, chefe?”
Sarah pegou seu telefone e revisou a agenda de Gideon, mesmo que ela
tivesse memorizado todos os compromissos. “Eu vou levá-lo até a entrevista
e a sessão de fotos no hotel. Depois, nós vamos para o LAX, pegar o voo para
Vegas às 15h.”
“Então, nós vamos ter folga até lá?” Raul e Jason comemoraram com um
high-five. “Beleza!”
“Mas esteja no aeroporto antes de nós chegarmos.”
“Entendido.” Jason anotou algo na palma da mão com uma caneta. “E
depois disso?”
“Ele tem reserva para jantar às 19h no Old Homestead, mas me garantiram
que o Gideon vai poder jantar em paz lá, então vocês terão a noite de folga.”
“Melhor ainda.” Jason ergueu o braço para mais um high-five com Raul. “E
amanhã?”
Ela deslizou o dedo sobre a tela para ver a agenda de amanhã. “Ele tem que
estar no set às 7h. Na verdade, essa deve ser uma filmagem tranquila. A
maioria das cenas serão filmadas em casas alugadas ou no estúdio, então, eu
não espero precisar muito de vocês.”
“Mas nós vamos estar lá se você precisar de nós, chefinha.” Raul acenou
para a garagem com a cabeça. “Vamos preparar o carro.”
Ela sabia, pelo tempo que havia passado com os dois guarda-costas, que
eles fariam mais do que preparar o carro. Estes homens eram mais do que
músculos, e levavam seu trabalho a sério. Eles iriam verificar os locais de
gravação, checar suas armas e pesquisar na Internet para se certificar de que
nenhuma fã obcecada fosse esperar por Gideon em algum lugar.
O telefone dela vibrou, e Sarah leu a mensagem.
Venha aqui rapidinho.
Ela prendeu o telefone no cinto e subiu as escadas. Você precisa de alguma
coisa?”
Ele estava na frente do espelho, virando de um lado para o outro para
inspecionar o blazer cor de tela que ela havia feito para ele. “Quem é o
estilista?”
O estômago dela se encheu de nós, e ela esfregou as mãos nas calças ao
aproximar-se dele a passos lentos. “Por quê?”
“Eu gostei. É Versace? Ralph Lauren? Calvin Klein? Marc Jacobs?”
O medo evaporou, e ela se posicionou entre ele e o espelho para ajeitar a
lapela. Um sorriso brilhou nos seus lábios quando ela disse, “Sálvia Ruiva.”
A boca dele se abriu, e ele ergueu o queixo dela. “Você?”
Ela afastou a mão dele e deu um passo para trás. “Eu preciso fazer alguma
coisa com a minha vida além de ser sua babá.”
“Mas eu nunca imaginei você como estilista.” Ele se olhou mais uma vez
no espelho. “E no entanto, mais uma vez, você me surpreende, Ruiva.”
“Pelo menos você entendeu a referência.”
“Como não entenderia?”
Gideon havia chamado Sarah de “Ruiva” desde o dia em que a conheceu, e
ela lhe informou que era ruiva de verdade, apenas para quebrar o gelo.
Naquela época, ela era conhecida como Sage1 Holtz e era uma das maiores
estrelas adolescentes de Hollywood. Gideon era o novato e havia sido
escolhido para fazer o papel do garoto com quem ela tem um romance em
uma série de TV. Eles tinham tanta química que os escritores decidiram
torná-lo um personagem recorrente no programa.
Claro, isso aconteceu pouco antes de tudo desmoronar.
Ele andou em direção à porta. “Então, minhas malas estão prontas para
Vegas?”
“Sim.” Ela pegou as malas dele e saiu com elas do quarto. Jason ou Raul
desceriam com elas mais tarde, mas eles preferiam ficar fora do quarto de
Gideon, a não ser que houvesse uma emergência.
“Mais alguma criação da Sálvia Ruiva aí?”
Havia um toque de provocação na pergunta dele, mas ainda assim, fez
Sarah parar. “Se isso deixa você desconfortável—”

1 Sálvia, em português

“Calma, Ruiva. Eu só estou perguntando porque gostei do que vi até


agora.”
“Então, você não está irritado por eu ter escolhido uma das minhas criações
para a sua entrevista?”
“Você está brincando?” Ele riu e segurou a mão dela. “E saber que você fez
a roupa a torna ainda mais especial. Só uma coisa.”
O elogio dele fez seus joelhos cederem, mas foi a pressão da mão dele na
sua que transformou o momento em algo sentimental. Não que ela se
importasse — muito. “O que é?”
“Prepare-se para uma avalanche de pedidos depois que a entrevista for
publicada.” Ele piscou e soltou a mão dela. “Espere um minuto. Pensando
bem, talvez seja melhor eu vestir outra coisa. Eu não quero perder a melhor
assistente do mundo para a indústria da moda.”
Ela riu e o empurrou para frente. “E esta assistente vai perder o emprego se
ela não levar você para a entrevista a tempo, então, mexa-se, Garoto.”
“Sim, senhora.”
O sorriso permaneceu nos lábios dela por muito mais tempo do que o
normal. Ela havia se arriscado revelando o seu trabalho paralelo e,
felizmente, o risco valeu a pena.
Tudo certo por enquanto. A Operação Independência estava em andamento.
***
Gideon tamborilou os dedos na porta do carro enquanto Sarah costurava o
tráfego na Santa Monica Boulevard. Eles chegariam a tempo para encontrar a
repórter e o fotógrafo no Beverly Wilshire, mas ela sempre insistia em chegar
pelo menos cinco minutos antes do horário marcado. Diferente da maioria
das pessoas em Los Angeles, ela nunca havia entendido o conceito do atraso
proposital.
A não ser que ele contasse o período em que ela passou por sua crise.
Naquela época, não era incomum que ela chegasse duas ou três horas
atrasada, se ela decidisse aparecer.
O silêncio estava o afetando. “Você faz ideia do que ela vai perguntar?”
“Eu sou sua assistente, não sua agente de relações públicas.”
“Por favor. Você é a deusa detalhista que organiza a minha vida.”
Isso a fez lançar um dos seus olhares fulminantes na direção dele.
“Ei, eu só não quero parecer um idiota.”
Ela jogou seus cabelos ruivos para trás do ombro. “Então, fique de boca
fechada.”
Era a mesma resposta atrevida que ela havia dado a ele antes da sua
primeira entrevista em Hollywood. Exatamente como antes, a resposta
acalmou os nervos dele. “É difícil fazer isso quando eu sou o assunto da
matéria, Ruiva.”
“Então, atenha-se a assuntos seguros. Seu último filme. Seu próximo filme.
Seus irmãos, se você achar apropriado.”
“Que tal falar do cachorro que eu estou pensando em adotar?”
Isso a fez erguer a sobrancelha. “Cachorro?”
“Sim, como o Jasper.”
Ela tensionou o braço e segurou o volante com tanta força que
embranqueceu seus dedos. Sempre que a mãe dele fazia uma visita, ela trazia
o grande e atrapalhado cão dos Pirineus, que adorava jogar Sarah no chão e
cobri-la de beijos caninos. “Por favor, diga que você está brincando.”
“Não. Eu pensei em fazer um teste mês que vem, quando a mamãe for para
a Europa por algumas semanas. Ela me pediu para ficar com ele.”
Um gemido ficou preso na garganta de Sarah. “Posso lhe dar o meu aviso
prévio agora?”
Ele teria rido com a reação dela, se o seu rosto não tivesse ficado pálido.
“Qual é o problema?”
“Eu não sou fã de baba de cachorro.” O tom cuidadoso da voz dela revelou
a ele que o problema era maior do que esse.
Claro, ele gostava da ideia de Jasper adorar Sarah. O cachorro havia
demonstrado o mesmo nível de afeto pelas esposas dos seus irmãos, e isso
apenas confirmava que Sarah era a garota certa para ele. A parte complicada
era convencê-la disso.
“Além disso, quem vai cuidar do cachorro quando você estiver filmando?”
“A minha adorável assistente?”
“Ah, não.” Ela balançou a cabeça, mas seus ombros tremeram com uma
risada silenciosa. “Você não ouviu a parte sobre o meu aviso prévio?”
“O que eu preciso fazer para convencer você a ficar?”
“Nada de cachorros.” Ela estacionou o carro para o manobrista dentro do
Beverly Wilshire.
“Um aumento de salário melhoraria a situação?”
Ela ergueu os ombros, tensionando o corpo inteiro, e a boca dele secou.
Jesus, ela não estava falando sério sobre o aviso prévio, estava?
Mas, depois de alguns segundos com o coração dele pulando a velocidades
aterrorizantes, os ombros dela relaxaram. “Entre lá e encante-a como você faz
com todos os repórteres. Eu vou estar esperando até você terminar.”
Não era exatamente o que ele queria ouvir, mas era melhor do que a
alternativa. “E depois, nós vamos para Las Vegas.”
“Ah, que felicidade.”
Ele amava o senso de humor dela. A maioria das mulheres adorariam ir
para Vegas com ele, mas a Ruiva tinha uma atitude totalmente blasé com
relação a essas coisas. Afinal, foi ela quem ensinou tudo a ele quando chegou
em Hollywood, há seis anos. A atitude dela o confortava mais do que ele se
atrevia a expressar. Ela não estava lá pelos holofotes e pelo dinheiro. Ela
havia tido tudo isso. Ela estava lá por ele.
Ele deu um beijo no rosto dela. “Vejo você em duas horas.”
A revista havia reservado uma suíte do hotel para a sessão de fotos. A
primeira parada era a maquiadora, seguida por uma avaliação rápida do
cabeleireiro. Os dois ficaram impressionados com a roupa dele, e seu coração
se apertou de orgulho. Sarah havia feito um bom trabalho. Quase bom
demais.
E aquele medo insistente de que ela estava tentando abandoná-lo voltou à
tona.
Se encontrasse sucesso no mundo da moda, ela o trocaria por esse sucesso?
Ele se mexeu na cadeira. Como amigo, ele queria que ela fosse bem-
sucedida. Ela havia sido uma atriz talentosa antes de sua carreira chegar ao
fim, e ele ainda sentia muito pela sua decisão de não voltar às telas. Parecia
um grande desperdício de talento. Mas agora que ela havia desenvolvido esta
nova habilidade, ele mal podia esperar para ver o que ela criaria em seguida.
Por outro lado, ele não conseguia imaginar a vida sem ela. Ela havia sido
sua assistente pelos últimos três anos, uma presença permanente ao seu lado
e, pelo menos para ele, os dois estavam praticamente casados.
Quer dizer, sem a parte do sexo. Não que ele não quisesse isso. Ele
fantasiava sobre como seria fazer amor com ela. Mas, depois da única vez em
que ele se atreveu a falar do assunto, ela parou de falar com ele por quase um
mês.
Ele aprendeu a lição.
Gideon entrou na próxima sala, onde um fotógrafo deve ter tirado centenas
de fotos dele antes que a repórter aparecesse. “Gideon Kelly, nos
encontramos novamente.”
Ele resistiu à vontade de fazer uma careta quando ouviu a voz dela. A
última vez que ele a ouviu foi em uma festa pós-Oscar, em fevereiro. Donna
Carlson, uma das principais repórteres da revista, havia focado nele naquela
noite e encontrava qualquer desculpa para tocá-lo. A noite terminou com um
convite para ir à casa dela, mas ele recusou educadamente.
Isto tinha cheiro de vingança.
Ele caminhou até as cadeiras que haviam sido preparadas para a entrevista,
evitando encará-la. A última coisa que ele queria era que ela pensasse que ele
estava abrindo a porta para uma reprise daquela noite.
Mesmo que Donna fosse velha o suficiente para ser a mãe dele, ela havia
passado por todos os procedimentos necessários para manter a imagem jovial
que Hollywood considerava essencial no showbiz. Um blazer decotado
revelava o seu busto turbinado, e uma saia lápis escura se ajustava às suas
curvas antes de parar sobre um par de panturrilhas bronzeadas. Ela sentou e
cruzou as pernas com uma expressão afetada no rosto. “Como você está?”
O suor brotava na sua nuca, e ele o secou. “Tão bem quanto esperado.”
Será que a Sarah sabia disso?
Assim que o pensamento surgiu na sua mente, Donna respondeu: “Uma das
minhas subordinadas ia cobrir esta matéria, mas a coitadinha ficou doente,
então eu tive que assumir o lugar dela.”
Bom, pelo menos a Ruiva não tem culpa nenhuma. Ele sentou e se
concentrou em parecer relaxado, mesmo que tudo o que ele quisesse fazer
fosse entrar naquele avião para Las Vegas e esquecer a hora que ele havia
passado com uma coroa metida à sedutora. Afinal, ele era um ator. Ele
conseguiria lidar com ela com um pouco de atuação.
Ele se obrigou a sorrir. “Que gentileza a sua.”
“Ah, o prazer foi todo meu.” O tom sedutor subliminar da declaração dela
fez o estômago dele revirar. “Por que não deixamos os gracejos para lá e
vamos direto ao assunto?”
Ele olhou ao seu redor e percebeu que os dois estavam sozinhos.
Merda.
Mas ele se recusou a fazer o joguinho dela. “Eu tenho que pegar um avião
às 15h, então, quanto mais cedo terminarmos essa entrevista, melhor.”
Ela apertou os lábios e ligou seu gravador de áudio digital.
Em algum lugar da sua mente, ele ouviu Sarah avisando-o para não dizer
nada que pudesse ser distorcido e usado contra ele. Julgando pelo olhar no
rosto de Donna, ela iria explorar qualquer deslize dele.
A entrevista começou tranquila. Ela perguntou sobre o último filme dele e
passou para o seu próximo projeto, com outro ator proeminente, Gabe
Harrison. “Dois dos homens mais atraentes de Hollywood na mesma tela?
Acho que vou ter que levar um leque para o cinema.”
Sim, para lidar com os seus calorões. Pelo amor de Deus, essa mulher não
desiste?
Mas ele limpou a garganta e disse: “Eu estou ansioso para trabalhar com o
Gabe. Ele é um ótimo ator, e eu espero aprender algumas coisas com ele para
melhorar o meu trabalho.”
“E o que você acha da Mackinzie Donavan? Ela é famosa por namorar seus
parceiros nos filmes.”
Ela era a única parte do filme com a qual ele não estava muito feliz.
Mackinzie era uma modelo que virou atriz sem nenhum talento, e os pobres
coitados com quem ela saía imediatamente figuravam nas páginas dos
tabloides durante seus relacionamentos relâmpago. Isso mantinha o nome
dela na mídia, o que, infelizmente, se traduzia em papéis cada vez melhores
para ela.
Claro que ele não podia dizer isso à Donna. Ele podia imaginar como ela
usaria algo assim contra ele.
Ele viu cabelos ruivos na porta com o canto do olho e sorriu. Sarah estava
ali fora, esperando por ele. E isso o fez pensar na resposta perfeita para
finalizar aquela conversa estranha. “Eu não estou muito preocupado com
Mackinzie. Já tenho alguém especial na minha vida.”
Donna se endireitou na cadeira, interessada. “É mesmo? E quem é essa
pessoa especial?”
“Alguém que viu o pior de mim e ficou ao meu lado. Alguém que está lá
para me segurar quando eu caio e me ajudar a comemorar quando as coisas
dão certo. Alguém com quem eu me importo profundamente e que, eu sei,
também se importa comigo.” Ele olhou para a porta, para ver se Sarah estava
ouvindo, mas não viu nada. Talvez, ele tivesse apenas imaginado que ela
estava ali.
“E esta pessoa misteriosa tem um nome?”
Gideon voltou sua atenção para Donna, sentindo os pelos do seu braço
levantarem. Se ele não tomasse cuidado, ela provavelmente distorceria as
palavras dele e escreveria uma matéria do tipo “Ele é gay?”. “Ela tem um
nome, mas é uma pessoa que preza a sua privacidade, e eu vou respeitar
isso.”
“E existe alguma esperança de casamento no futuro próximo?”
O olhar dele se voltou para a porta novamente. “A esperança é a última que
morre.”
Capítulo Três
Sarah apertou a mão contra o peito, mas isso não ajudou a acalmar as
batidas frenéticas do seu coração. Ouvir atrás da porta nunca era uma boa
ideia e, agora, ela sabia por quê. Ela estava esperando que Gideon repetisse a
confissão que havia feito no Halloween, bêbado. Mas, por um momento de
sabedoria divina, ele foi esperto o bastante para terminar a conversa ali,
apesar das súplicas da repórter por um nome.
Ela havia deixado Sage Holtz para trás, com toda a história associada
àquele nome. O pai que havia sido preso com uma prostituta menor de idade.
A mãe bêbada que estava no sexto marido e havia feito tantas plásticas que
podia fazer seu umbigo piscar. O fundo do poço cheio de drogas e álcool que
arruinou a sua carreira. Para Sarah, aquela pessoa havia morrido na noite em
que foi atropelada por um carro na frente de uma boate, há mais de três anos
atrás.
Em seu lugar, estava uma pessoa de quem ela gostava. Sarah Holtz podia
não ser uma estrela de cinema glamorosa, mas ela havia aceitado a si mesma
como realmente era e, finalmente, sentia-se confortável no próprio corpo. Ela
fugiu dos holofotes e dos flashes das câmeras, mas ainda estava envolvida na
indústria pela qual sacrificou tudo no passado. Ela havia encontrado o seu
equilíbrio.
E era por isso que iniciar um romance com Gideon não era uma opção.
E, se ele deixasse o nome dela escapar para aquela repórter, ela temia que o
equilíbrio que havia passado os últimos três anos tentando conquistar
desmoronasse ao seu redor.
A respiração dela acelerou quando a repórter falou em casamento. Por
favor, qualquer coisa, menos isso. O fato de todos os irmãos de Gideon
estarem casados ou em relacionamentos longos não ajudava em nada. O
desejo de se comprometer havia atingido os irmãos Kelly, para a felicidade
da sua mãe, e Gideon não estava imune a ele. Principalmente depois daquela
festa de Halloween.
“A esperança é a última que morre”, ele havia respondido.
As palavras a atingiram como um soco no estômago. Ela esperava que ele
desistisse depois de ter explicado a razão pela qual serem mais do que amigos
estava fora de cogitação, mas a resposta dele para a repórter deixou claro que
ele não havia esquecido da ideia. Ainda não. E ela não tinha certeza se devia
ficar lisonjeada ou irritada.
Talvez, ela devesse ter dado seu aviso prévio no Halloween.
Mas, em algum lugar, no centro do seu peito, ela sabia a razão pela qual
não tinha feito isso. Gideon estava certo. Ela se importava com ele. Muito
mais do que deveria. E era por isso que a Operação Independência precisava
ser um sucesso. Ela precisava provar a si mesma que seus sentimentos por ele
não estavam ligados ao fato de ele tê-la acolhido e a ajudado a se recuperar.
Ela precisava saber que era capaz de cuidar de si mesma primeiro. E depois,
se ela ainda sentisse seu corpo amolecer quando ele a abraçava e suspirava
tolices sentimentais, talvez, ela encontrasse a coragem para deixar as coisas
acontecerem.
Ela conseguiu se recompor quando Gideon saiu da sala. “Eu pensei ter
visto você me esperando.”
“Eu não tinha nada melhor para fazer. E eu acabei de pedir ao manobrista
para trazer o meu carro.”
Ele pausou e pareceu examinar o rosto dela para encontrar algum sinal de
que ela havia ouvido a sua declaração, mas seus anos em frente às câmeras a
ensinaram a transformar o seu rosto em uma máscara sem emoções. Ela sabia
fazer a cara de madame blasé como ninguém.
Depois de um momento, ele desistiu e se aproximou para sussurrar: “Me
tire daqui antes que ela dê em cima de mim de novo.”
“Eu não sei. Transar pode ser bom para você”, ela brincou.
Infelizmente, o tiro saiu pela culatra. Os olhos azuis escuros dele brilharam
com desejo, mas estavam focados nela.
O corpo dela se rebelou contra sua vontade, com um tremor de antecipação
que correu pelas suas veias e parou no centro do seu estômago. Sua
respiração acelerou ao imaginar como seria ter os lábios dele no seu pescoço,
ombros, seios. Um rubor tomou conta da sua pele e ela umedeceu os lábios.
Passar uma noite na cama dele valeria todo o caos?
Ele respondeu com um sorriso lento que deixou claro que ele havia
percebido o momento de fraqueza dela. “Foi você quem disse, não eu.”
Ele andou em direção ao elevador, deixando-a totalmente exposta ao olhar
de ciúmes da repórter.
Uma sequência de xingamentos povoou a mente de Sarah, mas ela
conseguiu alcançá-lo antes que a porta do elevador se fechasse. “É aquela
mulher da festa do Oscar, não é?”
“Bingo.” Ele correu os dedos pelo cabelo. “Eu tenho a clara impressão de
que ela está tentando criar uma matéria sensacionalista sobre mim, como
vingança.”
“E por que você deu um assunto para ela?”
“Porque ela começou a insinuar que eu seria burro o suficiente para dormir
com a Mackinzie, e depois tentou distorcer a minha resposta, fazendo parecer
que eu estava tentando esconder a minha sexualidade.” O elevador se abriu
no térreo, e ele disparou. “Vamos logo, senão vamos perder o nosso voo.”
Ela correu atrás dele, feliz em ver que o manobrista estava com o seu carro.
“É um voo fretado, Garoto.”
“Não importa.”
O silêncio na viagem até o aeroporto apenas aumentou a tensão entre os
dois, e ela amaldiçoou o dia em que ele decidiu estragar a amizade deles,
declarando que queria algo mais. Até aquele momento, ele havia sido o seu
melhor amigo, alguém com quem ela podia compartilhar cada detalhe da sua
alma. Agora, ela guardava segredos dele e a tensão estava separando-os.
Uma hora depois, eles estavam dentro do jatinho Gulfstream e se
preparando para decolar. No avião, cabiam doze pessoas, mas ela se sentou
na frente de Gideon, enquanto Jason e Raul se sentaram na mesa, na parte de
trás. Os dois só conversaram quando o avião já estava no ar.
“Desculpe, Ruiva, mas aquela entrevista me deixou... perturbado.”
“Eu posso imaginar.” Ela tomou um gole de chá e abriu sua agenda.
“Pronto para recapitular a agenda dos próximos dias?”
“Claro.” Ele se recostou na poltrona, fechou os olhos e entrelaçou os dedos
atrás da cabeça.
“Eu liguei e confirmei que vamos ficar na Titus Villa.”
Ele abriu um olho. “Por que não na Nobu Villa?”
“Ela já estava alugada.”
“Droga.”
“A limusine vai nos esperar no aeroporto e nos levar ao Caesar’s. Você vai
poder descansar um pouco antes do jantar no Old Homestead às 19h.”
“Sozinho?” O lábio inferior dele se projetou para frente, fazendo um
biquinho nada sutil.
“Eu fiz reserva para dois.”
“Perfeito.” O biquinho se transformou em um sorriso de satisfação. “Então,
nós podemos discutir o resto disso durante o jantar.”
“Gid—”
“Não discuta comigo, Ruiva. Pense apenas naquele delicioso filé que você
vai comer esta noite.”
“Por que você acha que eu fiz reserva para dois?”
“Principalmente quando eu estou pagando.”
A leveza das suas palavras significava que ele não tinha a intenção de dar
uma indireta, mas Sarah sentiu o impacto mesmo assim. Mais uma vez, a
realidade de quanto ela devia a ele veio à tona. Gideon estava pagando por
tudo. O voo. A vila, onde ela teria o seu próprio quarto. Suas refeições. Ela
era pouco mais do que uma sanguessuga.
“Ruiva?”
Ela levantou o rosto e o viu observando-a com uma linha de preocupação
na testa.
“Eu estou bem, Garoto. Só... pensando.”
“Sobre o quê?”
“Coisas.”
A linha entre as sobrancelhas dele ficou mais profunda, mas ele mudou de
assunto. “Os guias de estilo da revista amaram o blazer.”
“Ainda bem que eu não constrangi você.”
“Você jamais faria isso.”
Flashbacks dos dias anteriores ao seu acidente passaram pela sua mente e
acabaram com o que poderia ser um momento de sinceridade. “Não diga isso.
Você sabe do que eu sou capaz.”
“Aquilo está no passado. Afinal, eu também sei de todas as coisas boas que
você é capaz de fazer.” Ele passou as mãos pelo blazer cor de telha. “Isto, por
exemplo. Você acha que eu poderia desfilar com mais criações da Sálvia
Ruiva no futuro?”
“Talvez.”
“Ótimo.” Ele colocou a mão dentro da mochila e tirou uma pasta. “Você
gostaria de repassar falas comigo?”
Um toque de alegria iluminou o peito dela. Ela sempre havia amado a
atuação, o desafio de dar vida a um personagem complexo. Era a única coisa
da qual ela sentia falta na sua vida antiga. Ela estava feliz sem os paparazzis e
as exigências eternas de perfeição. Cabelo, corpo, maquiagem, namorados,
eventos sociais — se ela ousasse se distanciar do que era esperado dela, a
imprensa fazia um escândalo. Mas, quando entrava no personagem, ela podia
escapar de tudo.
Ela sorriu e abriu o roteiro na cena que ele filmaria amanhã. “Você é o
chefe.”
***
Las Vegas! Meu Deus, como ele amava a cidade. Mesmo que tivesse
estado lá mais de doze vezes, Gideon ainda ficava maravilhado com os
cassinos luxuosos e exóticos na Strip. Eles eram tão diferentes dos prédios
sólidos e modestos que o seu pai havia construído em Chicago que uma
viagem à cidade do pecado parecia ainda mais especial.
Na frente dele, na limusine, Sarah deslizava o dedo sobre o tablet,
completamente absorvida pelo trabalho.
“Ei, Ruiva, você comprou ingressos para algum show?”
“Você está aqui a trabalho, Gideon, não a lazer”, ela respondeu, sem
levantar a cabeça.
Ele resmungou e voltou a atenção para a janela. “Lembra da primeira vez
que viemos aqui?”
Isso captou a atenção dela. Seus olhos azuis frios se aguçaram.
“Vagamente.”
Merda. Aqueles eram os seus anos de festa, quando Sarah saía e bebia até o
amanhecer. E aquela noite maluca no Tao…
Ele fechou os olhos e permitiu que a memória o envolvesse. Naquela noite,
ele percebeu que Sarah era mais do que uma atriz mimada. Ela era real. E era
divertida. Aquela noite solidificou a amizade deles por anos. “Eu me lembro.
Aquela viagem sempre terá um significado especial para mim.”
Ele se virou para ela e encontrou um sorriso melancólico em seus lábios.
“É. Para mim, também.”
O impulso de acabar com o silêncio que se arrastava entre eles ficava mais
forte com cada batida do coração dele. Essa era a sua chance de voltar a falar
sobre o seu desejo de levar o relacionamento deles para outro nível, usar a
viagem para Las Vegas como uma oportunidade de ver como as coisas
andariam. Mas ele era covarde demais para falar no assunto. A última vez em
que ele o mencionou, Sarah fugiu e o evitou de propósito por um mês inteiro.
Ele não queria arriscar a possibilidade de passar três semanas em Las Vegas
sem ela.
Ou pior, perdê-la completamente.
A limusine parou na entrada VIP do Caesar’s Palace, e ele perdeu a
oportunidade.
Sarah pegou a pasta que estava esperando por eles na limusine. “Eu estou
com as chaves dos nossos quartos, então não precisamos passar na recepção.
O mensageiro vai subir com as nossas malas.”
“Obrigado por organizar tudo isso, Ruiva.”
“É para isso que você me paga.”
A resposta dela irritou ainda mais a parte já sensível da psique dele. Havia
momentos em que ele podia jurar que Sarah continuava trabalhando como
sua assistente porque ela realmente se importava com ele. Ela fazia coisas
para ele que a maioria dos assistentes jamais pensariam em fazer, como se
certificar de que o gel modelador favorito dele estivesse no set, ou contratar
um serviço de buffet específico no local da filmagem. Coisas que teriam feito
Gideon parecer nervoso e exigente se ele tivesse que pedir por elas, mas,
quando Sarah pedia, as coisas eram feitas sem danos à reputação dele.
E então, ela tinha que lembrá-lo que tudo aquilo era apenas um emprego.
Raul e Jason os acompanharam cruzando o lobby e foram diretamente para
o elevador exclusivo na Torre Octavius que os levaria para a vila. Quando
chegaram ao seu andar, Sarah se adiantou e abriu a porta.
Os guarda-costas dele jamais seriam espontâneos o suficiente para dizer
“Uau”, mas o tamanho dos seus olhos provavelmente era o mesmo dos dele
quando entraram. A vila inteira era um estudo de extravagância de bom
gosto. Pisos de marchetaria polidos, mármore ornamental, plantas luxuosas,
fontes borbulhantes — tudo criava um oásis sereno, longe do excesso e
depravação pelos quais Las Vegas era conhecida. “Nada mal.”
“Sim, eu tenho que concordar.” Ela colocou sua mochila de notebook em
um dos sofás e gesticulou para que ele a seguisse.
Jason e Raul se separaram para vistoriar o lugar e se certificar de que tudo
era seguro, deixando-o sozinho com Sarah. Ela o guiou por um corredor
cercado por colunas brancas e abriu uma porta. “Este é o quarto principal.”
Cama king-size, lençóis de linho, o tintilar distante de uma fonte. Em geral,
muito tranquilo e relaxante.
Mas foi o banheiro que o deixou sem fôlego.
Assim que ele viu a banheira esculpida em ônix rosa com acessórios
dourados, o primeiro pensamento que veio à sua mente foi de que ele
adoraria relaxar ali com Sarah. Ele até suportaria um banho de espuma se
pudesse sentir a pele molhada e sedosa dela contra a sua. A fantasia cresceu
de um toque a um beijo e a uma sessão de sexo ardente, fazendo seu pênis
doer com a frustração.
Meu Deus, como ele a desejava.
Mas até que ela chegasse à mesma conclusão, tudo o que ele tinha eram
suas fantasias e uma ereção.
“Gideon?”
Ele quase pulou ao ouvir o som da voz dela. Era uma pena que suas
próximas palavras não eram um convite para ficarem nus. “Sim?”
“Você provavelmente não precisa trocar de roupa para o jantar, mas eu vou
vestir algo mais apropriado.”
Ele resistiu à vontade de contar à ela o que ele queria. Em vez disso, ele
lançou um olhar melancólico para a banheira vazia. “Sem problemas. Eu
espero.”
“São quase 19h. Um dos rapazes pode levar você até o restaurante, e eu
encontro você lá.”
Ele saiu do banheiro e a viu parada no corredor. “Eu não preciso de babá
vinte e quatro horas por dia, sabia?”
“É verdade, mas você ainda vai ter que passar pelo cassino para chegar lá, e
eu não quero que você seja atacado por nenhuma fã maluca.”
Ele se aproximou de Sarah até que seu rosto estivesse a poucos centímetros
de distância do dela. “E se eu quiser ficar com uma fã maluca esta noite?
Afinal, foi você quem disse que eu precisava transar.”
Para a felicidade dele, os olhos dela brilharam com o fogo inconfundível do
ciúme. “Bom, se você estiver procurando qualquer uma para transar—”
“Eu não estou procurando qualquer uma.” Ele estava tão perto dela, tão
perfeitamente posicionado para puxá-la para si e beijá-la como queria. Mas
ele controlou os seus desejos, exatamente como sempre fazia. “Você sabe que
eu não sou assim.”
O ângulo das suas sobrancelhas oferecia um pedido de desculpas
silencioso, e ela se afastou. “Por favor, para a sua própria segurança…”
“Tudo bem. Eu vou levar o Jason, mas vou fazê-lo andar uns dois metros
atrás de mim.”
“Obrigada.”
Quando ele chegou ao lobby, o guarda-costas já estava esperando por ele.
“Você é vidente, por acaso?”
“Não”, o rapaz interiorano respondeu com um sorriso. “Só estou fazendo o
que a chefinha mandou.”
“Eu também.”
Capítulo Quatro
Se alguém reconheceu Gideon quando ele passou pelo cassino lotado,
ninguém o abordou. Parte da razão poderia ser a montanha de músculos que
andava atrás dele, mas, pelo menos, a sua ida até o restaurante foi tranquila.
A ação não começou até o próximo cliente entrar no restaurante. Um coro
de gritinhos agudos de mulheres acompanhou o homem de cabelos escuros,
mas Gideon só entendeu o porquê da comoção quando ele se virou.
Gabe Harrison. Ator de primeira linha. Membro cativo da lista dos Homens
Mais Sexy da revista People. E seu futuro adversário na tela de cinema.
Um olhar de reconhecimento surgiu nos olhos castanhos dele, e Gabe
estendeu a mão com um sorriso. “Gideon. Que ótimo conhecer você em
pessoa, finalmente.”
“Eu digo o mesmo.” Ele olhou para Jason no momento em que ele estava
barrando o que Sarah chamava de fãs malucas. “Você é corajoso por andar
sem proteção.”
Gabe respondeu com um encolher de ombros. “É que eu esqueci de tomar
as precauções de sempre. Então, você está aqui para jantar?”
“Não, estou aqui para sentir o cheiro da carne.”
O sorriso de Gabe esvaneceu por um momento, mas ele riu e balançou o
dedo. “A Becca me avisou sobre o seu senso de humor.”
“Assim como ela me avisou das suas pegadinhas.” Uma onda de calor
subiu pela sua coluna. Ele podia jurar que o seu novo colega estava tentando
iniciar um joguinho de superioridade entre eles. Mas, felizmente, a namorada
do seu irmão, Ethan, também havia avisado Gideon sobre o lado competitivo
de Gabe. Becca era a melhor amiga da irmã de Gabe, e o conceito de seis
graus de separação havia se tornado bem menor.
“Então, não há chance de você cair em uma, não é?”
Ele ignorou a provocação de Gabe e caminhou em direção à mesa da
hostess. “Eu tenho uma reserva para dois.”
Ela piscou os olhos para ele. “Claro, Sr. Kelly.”
“Esperando companhia?” Gabe perguntou.
“Só a minha assistente.” Ele viu uma mulher com cabelos ruivos tentando
passar pela multidão reunida na porta. “Ali está ela.”
Assim que ele apontou Sarah para Gabe, ele soube que havia cometido um
erro. Não pelo visual de Sarah. Não, chamá-la de estonteante não faria justiça
a ela. O vestido preto simples contornava o seu corpo definido pela ioga em
todos os lugares certos, e o seu cabelo liso brilhava sob as luzes como seda
rubi. Ela estava simples, elegante, charmosa.
E era o objeto absoluto da atenção de Gabe Harrison.
Agora, era a vez de Gideon sentir a onda desagradável de ciúme que ele
havia percebido nela antes.
A expressão dela ficou imediatamente preocupada quando viu Gabe. “Eu
perdi algum e-mail sobre uma festa de elenco?”
Gabe pressionou um dedo sobre os lábios. “Shh! Nós não queremos que a
Mackinzie descubra onde nós estamos.”
Os lábios dela se curvaram, e uma nova onda de ciúme invadiu Gideon.
“Exato, e agora que a Sarah chegou—”
“Sarah?” Gabe esbanjava o seu charme de playboy ao segurar a mão dela.
“Você é a assistente do Gideon? Eu poderia ter confundido você com a
namorada dele.”
Ela disfarçou uma tosse rouca, e seu rosto ficou rosa.
Os dedos de Gideon se apertaram contra suas palmas. Se ele não tomasse
cuidado, Gabe a seduziria e ele nunca teria a chance de conquistar o coração
dela. Ele se posicionou entre eles, fazendo seu rival soltar a mão de Sarah.
“Se você nos der licença, eu acho que a hostess está esperando para nos levar
à nossa mesa.”
“E que tal se eu me juntar a vocês?”
Ele estava prestes a mandar Gabe para o inferno, mas Sarah pousou uma
mão tranquilizadora no seu peito e desarmou sua raiva.
“Eu acho que é melhor nós nos afastarmos da entrada antes que Jason seja
pisoteado.” Ela acenou para o guarda-costas, que pareceu precisar de
reforços.
“Uma mesa para três, então.” Gabe sorriu para a hostess e colocou a mão
de Sarah na curva do seu braço. “Eu estou ansioso para conhecer vocês dois
melhor. Quer dizer, com o seu irmão namorando a melhor amiga da minha
irmã, nós somos praticamente família.”
Gideon apertou os dentes e correu para alcançá-los. Se o seu colega de
filme não “desligasse” o charme logo, ele poderia ser obrigado a deixá-lo
com um olho roxo.
***
Apesar de todo o flerte inicial, Gabe Harrison conseguiu ser uma
companhia divertida.
Pelo menos, na opinião de Sarah. Gideon ainda parecia querer dar um soco
nele. Felizmente, havia espaço para separar os dois homens. Quando eles
chegaram à mesa, Gabe sentou no sofá ao lado dela. Gideon revirou os olhos
e sentou na cadeira, na sua frente.
O garçom apareceu para encher as taças de vinho dos homens pouco antes
dos filés chegarem.
“Eu não posso mesmo convencer você a tomar um gole?” Gabe perguntou.
Sarah balançou a cabeça. Ela estava sóbria há três anos, e se recusava
voltar àquele período negro da sua vida.
“Ela já disse não”, Gideon rosnou.
“Que pena.” Gabe a observou por um momento antes de tomar um gole. “É
muito bom.”
“Eu acredito em você.” Ela pegou seu telefone e verificou a agenda de
amanhã. “Gideon, você vai querer fazer ioga de manhã, antes de ir para o
set?”
“Claro.”
Ela inseriu o compromisso na agenda. “Perfeito. Eu vou garantir que você
acorde a tempo para isso.”
“Ioga?” Gabe levantou uma sobrancelha. “Você realmente está na costa
oeste há tempo demais.”
“Ela é muito benéfica, na verdade.” Gideon cortou o filé de wagyu coberto
com manteiga de trufas. “Ela mantém as pessoas fortes, flexíveis e relaxadas,
mais sintonizadas com o próprio corpo.”
Sarah reprimiu um sorriso. Esse era o mesmo argumento que ela havia
dado a ele anos atrás, quando estava tentando convencê-lo a experimentar a
ioga. Foi a única coisa que a ajudou a se recuperar depois do seu acidente.
Para a surpresa dela, Gabe pareceu estar realmente considerando as razões.
“Interessante. Acho que vou ter que experimentar.”
Ela fez uma avaliação sutil do físico dele. Gabe parecia ser o tipo que
preferia levantar peso na academia. Musculoso, mas um pouco duro nos
ombros e quadris. A ioga poderia ajudá-lo, mas ela quase conseguia ver
Gideon fazendo um escândalo se ela o convidasse para praticar com eles de
manhã.
Ela guardou o telefone para poder focar em manter os dois rapazes
separados pelo resto da refeição. “Eu li que você é de Nova York”, ela disse
ao Gabe, esperando dissipar um pouco da tensão. “O que o fez querer vir para
Hollywood?”
“Por que não?” Ele tentou parecer indiferente, mas havia algo mais na sua
resposta.
“Bom, existem muitas oportunidades para atuar lá.”
“Principalmente com uma família cheia de contatos, como a sua”, Gideon
adicionou.
Gabe segurou a taça de vinho com tanta força que Sarah teve medo que ela
quebrasse na sua mão. Felizmente, ele tinha bastante classe para não retornar
o golpe de Gideon. Os dois homens vinham de famílias ricas. Os dois
poderiam parar de atuar quando quisessem e ainda ter um estilo de vida
luxuoso.
Gabe tomou outro gole de vinho, e pareceu ficar mais calmo. “Eu adoraria
atuar na Broadway um dia, mas eu vim para Los Angeles para estudar na
USC, e foi aqui que a minha carreira decolou. Foi o jeito que as coisas
aconteceram.”
Claro, o fato de Gabe ser atraente ajudou muito. Ele era alto, tinha cabelos
castanhos escuros, olhos castanhos quentes e um bronzeado perfeito
conquistado em muitas horas no sol. Além disso, havia um certo je ne sais
quoi nele, um ar de sofisticação que a intrigava. Ela havia visto muitos
homens bonitos no showbiz, mas Gabe era mais do que um corpo sexy.
Infelizmente, ele sofria do mesmo mal que Gideon — ser escalado como o
gostosão em vez de ganhar os papéis complexos que os atores sérios
desejavam.
Os papéis que haviam sido oferecidos a ela um dia, antes que ela destruísse
a sua carreira.
“E você, Sarah? Você é uma aspirante à atriz?”
Gideon engasgou com o vinho do outro lado da mesa.
Sarah teria feito o mesmo se ela estivesse bebendo quando Gabe fez a
pergunta. Em vez disso, sua boca secou e ela sentiu seu estômago pesar,
como se tivesse comido uma vaca inteira em vez de alguns pedaços de filé.
“O quê?” Gabe perguntou, com as duas sobrancelhas arqueadas, fingindo
inocência. “É óbvio que ela é muito atraente, e não é incomum que jovens
atores trabalhem em outras áreas até conseguirem sua grande chance.”
Ah, se ele soubesse…
Felizmente, Gideon respondeu antes que ela fosse forçada a revelar sua
história trágica. “Sarah tem aspirações nas áreas de moda e figurino. Ela fez
esta peça, por exemplo.”
Gabe estudou o blazer e acenou com a cabeça. “Muito bom. E animador.
Tanta gente em Los Angeles acha que pode chegar ao topo dormindo com
todo mundo.”
Infelizmente, ele disse a última frase quando ela estava bebendo água, e sua
reação foi parecida com a de Gideon. Gabe escolhia a hora perfeita para falar
de certos assuntos.
“A Sarah é minha assistente, Gabe, nada mais.” Gideon falou com tanta
firmeza que ninguém jamais suspeitaria que ele quisesse mais dela do que o
seu café matinal e instruções de onde ir.
“Claro. Mas eu não estava falando dela.” Ele gesticulou para a mulher
escandalosa e aparentemente anoréxica com seios enormes que se
aproximava deles.
Mackinzie Donavan.
Sarah xingou em silêncio e apertou seu guardanapo. Seu apetite havia sido
completamente arruinado.
“Isso que é dia de sorte.” A atriz cambaleou em seus saltos de 15
centímetros e caiu na cadeira ao lado de Gideon. “Meus dois colegas jantando
juntos, e eu apareço para acompanhá-los.”
Gideon fez um pedido silencioso por ajuda quando Mackinzie colocou os
braços em torno do seu pescoço.
“Parece delicioso, Gideon. Quer me dar um pedaço?”
Por quê? É provável que ela vá para o banheiro e vomite tudo depois.
Muitos outros pensamentos terríveis passaram pela mente de Sarah, mas
nenhum chegou à sua língua.
Gentil como sempre, Gideon tentou esconder a sua careta quando ofereceu
um pedaço do filé para a mulher que parecia não ter feito uma refeição de
verdade há meses.
Mackinzie fechou os olhos e deu uma série de gemidos que eram mais
apropriados para o quarto do que um restaurante. “Que delícia.”
Eu vou vomitar. Sarah queria pôr a culpa do seu enjoo na mulher que havia
interrompido o seu jantar, mas cada vez que Mackinzie tocava em Gideon,
uma nova onda de nojo tomava conta dela.
A atriz parou de apalpar Gideon em tempo hábil para acenar para Gabe.
“Oi, lindinho. Eu fiquei tão triste em saber que não teria nenhuma cena sexy
com você, mas as que eu tenho com Gideon vão compensar.”
Gideon franziu o rosto e fez outro pedido de ajuda silencioso.
Sarah colocou seu guardanapo na mesa e deslizou para fora do sofá. “Por
mais que nós odiemos ir embora, Gideon e eu precisamos discutir algumas
coisas.”
Mackinzie apertou os olhos, indo de loira burra a mulher fatal em uma
questão de segundos. “E quem é você?”
“Eu sou a assistente dele.”
“Bem, você está interrompendo a nossa janta, então vá fazer o que lhe
pagam para fazer e nos deixe em paz.”
“Sarah foi convidada para jantar conosco, você não foi,” Gideon
respondeu, apertando os dentes.
“Mas você não precisa mais dela, precisa?” Ela gesticulou para que Sarah
fosse embora e voltou sua atenção para Gideon. “Eu adoraria conhecer você
melhor antes de começarmos a filmar as nossas cenas. Para ficarmos mais à
vontade um com o outro.”
Sarah havia lido o roteiro e sabia exatamente quais eram aquelas cenas.
Gideon faria o papel de um agente infiltrado, e parte da operação policial
envolvia seduzir a amante do traficante, interpretada por Mackinzie, para
obter informações.
Ela decidiu não estar no set durante essas cenas.
“Parece uma ótima ideia, Mackinzie.” Gabe se aproximou depois de jogar
algumas notas na mesa, e colocou sua mão nas costas de Sarah. “Por que nós
não deixamos esses dois atores sérios sozinhos esta noite?”
Antes que Sarah pudesse protestar, ele estava a empurrando na direção da
porta do restaurante.
“Talvez nós devêssemos voltar e salvar o Gideon?”
“Ele é adulto, pode tomar conta de si mesmo. Além do mais, você é
sofisticada demais para fazer o que você está pensando em fazer.”
Ela parou antes de chegar à porta e se virou. “O que você quer dizer com
isso?”
“Olhe nos meus olhos e diga que você não estava prestes a arrancar as
mãos dela de cima dele.”
Sua nuca queimou de constrangimento, e ela desviou o olhar.
“Foi o que eu imaginei. Deixe-me acompanhar você até o seu quarto,
depois eu volto e salvo o Gideon.” Gabe apontou para a porta. “Primeiro as
damas.”
A multidão havia se dissipado, mas outros membros da equipe de
segurança do cassino estavam próximos. Sarah mandou uma mensagem para
Raul, pedindo que ele descesse e ajudasse conforme o necessário enquanto
ela esperava Gabe alcançá-la.
“Chamando reforços?”
“Eu seria uma péssima assistente se não chamasse.” Ela colocou seu
telefone de volta na bolsa de mão. “E obrigada.”
“Sem problema. Até a Mackinzie chegar, o jantar foi muito agradável.”
“Eu ainda estou tentando entender por que a escolheram para o papel.”
Gabe riu. “Somos dois. E julgando pela expressão no rosto do Gideon, ele
também está.”
“O Garoto é um profissional. Ele vai lidar profissionalmente com aquelas
cenas.”
“O Garoto?”
Uma risada tímida escapou. “Sim.”
“Deve haver uma história para explicar isso, eu imagino.”
“Claro.” Ela acenou para os seguranças ao lado do elevador e usou sua
chave para chamar o elevador.
“Eu adoraria ouvi-la.” Gabe esperou até que as portas do elevador
estivessem quase fechando para dizer, “Sage.”
Seu coração parou de bater. Ela apertou o botão para abrir a porta uma
dezena de vezes, mas o elevador já estava em movimento. Quando chegou ao
seu andar, ela estava pronta para deixar o seu jantar na privada.
Gabe Harrison sabia quem ela era.
E ela suspeitava que ele usaria essa informação em benefício próprio.
***
Gideon afastou os braços de Mackinzie por tempo suficiente para ver Gabe
guiando Sarah para fora do restaurante com uma mão possessiva nas suas
costas.
Então, é assim que ele quer jogar, uh?
O que mais doía era o fato de que Sarah pareceu gostar da companhia de
Gabe. Ele se sentia como se tivesse “segurado vela” para os dois a noite toda.
“Eu estava indo para o clube”, Mackinzie murmurou no ouvido dele, “e eu
adoraria que você fosse comigo.”
Ele lançou mais um olhar para a entrada do restaurante, esperando ver a
Ruiva voltando para salvá-lo, mas só viu a cabeça de Gabe baixar enquanto
dizia algo a ela. Sarah tinha o abandonado, mas isso não significava que ele
precisava deixar este fato estragar a sua noite.
Afinal, foi ela quem disse que ele precisava transar, e se a reputação de
Mackinzie fosse verdadeira, seria fácil convencê-la a passar a noite com ele.
Mas assim que a ideia passou pela sua mente, uma onda de culpa a seguiu.
Não, ele não conseguia suportar a ideia de transar por vingança,
principalmente com a mulher bêbada que estava praticamente sentada em seu
colo.
Principalmente quando ele já estava apaixonado por Sarah.
Mas isso não significava que ele não pudesse usar os eventos daquela noite
a seu favor. “Eu adoraria ir ao Omnia, mas me deixe terminar de jantar.”
Ele devorou o resto do filé enquanto a sua colega de cena tamborilava seus
dedos na mesa e lançava olhares sedutores de baixo de seus cílios falsos. Ele
podia entender por que tantos homens perdiam a cabeça por ela. Mackinzie
Donavan era muito atraente, e sabia usar seu corpo para conseguir o que
queria. Mas não tinha nenhuma substância.
Ele pagou pelo jantar e checou seu telefone para ver se a Ruiva havia
enviado alguma mensagem.
Nada.
A imagem dela nos braços de Gabe Harrison consumiu seus pensamentos,
e ele fechou as mãos em punhos.
“Vamos lá, gostoso.” Mackinzie puxou o braço dele e o ofereceu uma visão
generosa do seu busto avantajado. “Eu quero dançar.”
Ele olhou para o telefone mais uma vez antes de colocá-lo no bolso.
Ao sair do restaurante, ele notou um homem musculoso seguindo-os.
Raul.
Talvez, a Ruiva não tivesse esquecido completamente dele.
Mas agora ele precisava de um pouco de diversão.
Capítulo Cinco
Gideon entrou na vila cambaleando e sentindo o gosto de tequila e brilho
labial com sabor de canela na língua. Ele tinha se divertido com Mackinzie.
Provavelmente, mais do que deveria, com base no número de drinks que ele
havia tomado. Mas, quando a atriz sentou no seu colo e enfiou sua língua na
boca dele, Gideon ficou sóbrio imediatamente.
Ele havia beijado muitas mulheres, na tela e fora dela, mas beijar
Mackinzie Donavan era como beijar um peixe morto há três dias.
Ele esfregou a mão no rosto e detestou a ideia de ter que fazer cenas de
amor com ela.
Pelo menos, ele confirmou uma coisa. Ele não tinha a mínima vontade de
dormir com ela.
Raul apareceu atrás dele e fechou a porta. “Você está bem, chefe?”
“Eu vou estar, de manhã.” Mesmo que seu estômago já estivesse
ameaçando se esvaziar.
O guarda-costas entrou na cozinha e voltou com uma caixa de água de
coco. “Beba um pouco antes de dormir.”
“Obrigado.”
Segurando a água de coco, ele se apoiou na parede do corredor, chegando a
uma das salas de estar, quando tudo começou a girar ao seu redor. Ele caiu no
sofá e esperou que a tontura passasse.
Um pacote aberto de M&Ms de amendoim chamou sua atenção. Ele
despejou o conteúdo na mesa e confirmou suas suspeitas.
Todos os amarelos haviam sido comidos.
Algo deve ter irritado a Ruiva.
Uma sensação de satisfação se formou no centro do seu peito. Talvez, sair
com Mackinzie tivesse funcionado à seu favor.
Ele deitou na cama, sentindo-se muito melhor do que quando chegou.
***
O rádio-relógio dizia 5:25 quando o alarme soou. Gideon deu um tapa no
botão de soneca, mas isso fez pouco para aliviar a dor pulsante em sua
cabeça.
Sarah devia ter entrado no seu quarto na noite anterior e programado o
alarme, porque ele jamais teria feito isso. Ele estava começando a cair no
sono novamente quando lembrou da razão pela qual ela estava o acordando
mais de meia hora mais cedo.
Ele havia concordado em fazer ioga com ela.
Ele caiu da cama, ainda vestindo as roupas da noite anterior. O cheiro de
fumaça e bebida ainda pairava no blazer que ela havia feito para ele, e
Gideon rezou para que a lavanderia conseguisse tirá-lo.
Quando ligou a luminária ao lado da cama, ele encontrou as roupas de
ginástica que ela já havia separado para ele. Uma olhada rápida no closet
revelou que Sarah havia desfeito a sua mala e pendurado suas roupas.
Caramba, eu preciso aumentar o salário dela.
Mas, primeiro, ele precisava acalmar a sua cabeça. Ele pegou a caixa de
água de coco da noite anterior e se encaminhou para a área central da vila.
Jason apontou para o lado de fora. “Ela está na beira da piscina”, ele disse,
sem tirar os olhos da tela do seu computador.
Sarah estava sentada no seu tapete de ioga com as pernas cruzadas e as
mãos viradas para cima, sobre as coxas. Seus olhos estavam fechados, e ela
respirava lenta e suavemente pelo nariz. Ela sempre começava sua sessão
matinal no estado meditativo, e ele tomou cuidado para não assustá-la
enquanto sentava no tapete ao seu lado e seguia as suas instruções.
Com cada respiração, a tensão saía de seus músculos, da sua mente, da sua
alma. Quando alcançou o estado de calma e relaxamento, ele a ouviu
instruindo-o a mover os braços para cima e para baixo, juntamente com as
respirações. Depois de um minuto, ela adicionou algumas torções da cintura
antes de se levantar.
Ele havia saudado o sol com ela no início do dia várias vezes antes, e
conhecia a sua rotina. Ele começou com as mãos juntas no centro do peito e
expirou. Com a próxima respiração, ele levantou os braços acima da cabeça e
deixou seus ombros caírem. Os movimentos fluíam juntos com facilidade e
graça, cada um testando a sua força e resistência, e alongando seus músculos
doloridos. A dobra para frente fluiu em uma meia lua, depois a prancha, a
cobra, e levantando com o cachorro olhando para baixo, outra meia lua e de
volta à postura de saudação inicial.
A próxima sequência adicionou algumas posturas do guerreiro, do
triângulo e outras variações da meia lua. Quando terminaram, os músculos
dele latejavam e o suor cobria o seu corpo. Quem dizia que ioga era para
fracotes nunca praticou com Sarah.
No entanto, apesar da fadiga que dominava o corpo dele, ela parecia calma
e serena. Enquanto ela o guiava pela shavasana final, os últimos traços da sua
ressaca desapareceram, e ele sentiu sua mente renovada.
Sarah não perdeu tempo e enrolou seu tapete.
“O que houve, Ruiva?”
“O que faz você pensar que houve alguma coisa?”, ela perguntou, sem
olhar para ele.
“Você só come M&Ms amarelos quando está irritada.”
Ela levantou a cabeça e olhou para ele. “Você ficou fora até tarde ontem à
noite.”
“Eu estava dançando.” Ele se levantou do tapete e o enrolou. “Eu posso me
divertir, não posso? Ou isso não está na minha agenda?”
O leve abrir de narinas dela deixou claro que ele havia a afetado, mas ela
não disse nada.
“Não se preocupe, Ruiva, eu ainda sou pura frustração sexual.”
Isso o fez ganhar um olhar de fúria. Ela colocou o tapete embaixo do braço
e voltou para dentro.
E ele a seguiu como um idiota, mesmo depois de ela deixar claro que
estava furiosa com ele. “Ruiva?”
Ela se virou tão rápido que ele colidiu com ela. Seus braços se levantaram
instintivamente para segurá-la e, antes que pudesse se controlar, ele a puxou
para si.
Os próximos segundos pulsaram com uma mistura de medo, atração e
frustração. Os olhos dela se abriram e suas mãos pressionavam o peito dele.
Mas ela não o afastou. Pelo menos, não inicialmente. O lábio inferior dela
tremeu, e seu olhar oscilou entre os olhos e a boca dele. Então, como se
houvesse conseguido levantar seus escudos, ela fechou os olhos e se soltou
dos braços dele.
Droga! Um dia, ela cederia à tentação. Um dia, ela lhe daria permissão para
provar o quão perfeitos eles seriam juntos. Um dia, ele seria livre para dizer a
ela o que estava em seu coração.
Mas até lá, ele precisava ser paciente e esperar pelo sinal de que ela estava
aberta a tudo isso.
“Você contou ao Gabe quem eu era?”
“Do que você está falando?”
Ela esfregou seu braço e subiu as escadas que levavam à vila. “Ele me
chamou de Sage ontem à noite.”
Aquele filho da mãe—
Gideon apertou as mãos para controlar a vontade de dizer todas as palavras
horríveis que cruzavam a sua mente. Ele podia lidar com pegadinhas. Bancar
superioridade fazia parte da profissão. Mas ele se recusava a ficar calado
vendo Gabe assediar Sarah. “Eu vou ter uma conversa com ele quando chegar
no set.”
“Não, por favor, não faça nenhum escândalo.”
“Mas está claro que ele perturbou você.” Ele levantou o queixo dela até que
Sarah olhasse para ele. “Ou existe alguma outra razão para o sumiço de todos
os M&Ms amarelos?”
“Apenas seja discreto. Eu gosto da minha vida como ela é agora.”
“Então, eu não corro o risco de perder a minha assistente favorita?”
Ela cobriu a mão dele com a sua e a afastou do seu queixo. “A não ser que
eu encontre Mackinzie Donavan na sua cama.”
O tom ácido da voz dela o informou que ela sabia dos acontecimentos da
noite passada. “Nós só fomos dançar. Palavra de escoteiro.”
“Então, você não vai querer ver o que publicaram na internet ontem à
noite.” Ela se virou e entrou na vila com um lembrete sutil. “Eu pensei que
você não queria que Donna Carlson tivesse algo para usar contra você.”
Merda!
Ele correu os dedos pelo cabelo e pegou seu tapete de ioga. Quando entrou,
ela já havia ido para o quarto, então, ele parou na frente do computador que
Jason e Raul haviam instalado. “Que história é essa de fotos minhas de ontem
à noite aparecerem na internet?”
Jason digitou algumas palavras e virou a tela para mostrar a ele.
Ele olhou para a foto de Mackinzie sentada em seu colo e beijando-o. A
náusea da noite anterior voltou com força.
Jesus, eu estou encrencado.
“Eu estou tentando ver se consigo acabar com a matéria antes que ela se
espalhe demais, chefe.” Jason segurou um lápis entre os dentes e digitou a
uma velocidade que deixaria a maioria dos digitadores para trás. O guarda-
costas parecia um fazendeiro caipira de Nebraska, mas sob todos aqueles
músculos, havia a mente de um hacker profissional. “Eu criei um perímetro
para limitar os compartilhamentos, mas você sabe o que dizem sobre a
internet.”
“Sim — nada morre lá.” Ele olhou mais uma vez para a foto, com nojo de
si mesmo. Ele não tinha dúvidas de que Mackinzie seria capaz de plantar um
fotógrafo no clube para pegá-lo no seu momento de fraqueza, só para que ela
pudesse ter seu nome nos tabloides novamente. “Você acha que conseguiria
fazer parecer que a minha cabeça foi colada na foto com Photoshop?”
Jason pausou e mastigou o lápis antes de tirá-lo da boca para falar. “Talvez,
mas eu teria que mudar um pouco a sua roupa, já que você usou esse casaco
na matéria da revista.”
Merda, merda, merda, merda!
“Faça o que puder.”
“Pode deixar, chefe.” O lápis voltou para a boca de Jason e ele abriu a foto
em um programa de edição.
Gideon voltou para o seu quarto e lançou um último olhar para a banheira
antes de optar por uma chuveirada rápida. Ele precisava estar no set em
menos de uma hora, e já tinha causado problemas demais por um dia.
***
Sarah chegou no set ao meio-dia com o almoço de Gideon e seu smoothie
da tarde. Ele insistia em comer quase a mesma coisa no café da manhã,
almoço e lanche todos os dias, e comia algo especial no jantar. O equilíbrio
consistente de proteína, gorduras e carboidratos ajudava a manter o seu corpo
esguio e musculoso. E depois de ser sua assistente por três anos, ela conhecia
o sistema dele como ninguém.
Uma sensação calorosa de nostalgia a invadiu ao atravessar a floresta de
luzes, fios, microfones e equipe técnica. Desde os sete anos de idade, ela
havia passado mais tempo em um set do que em casa. Não importava se era
em um filme ou programa de TV — todos tinham a mesma agitação de uma
rua da cidade na hora do rush, e ela se sentia em casa ali. Os gritos e
esbarradas, resmungos e chiados, todos se misturavam em uma cacofonia
maluca que soava mais como um lar do que qualquer casa em que ela tenha
morado. E ela odiava pensar no dia em que teria que se afastar de tudo isso.
Mantenha o foco. Se você conseguir trabalhar no figurino, ainda vai ter
acesso ao set.
A ideia a confortou de forma eficiente para mantê-la focada na Operação
Independência.
Ela encontrou Gideon sentado em uma cadeira nos fundos do set,
repassando o texto. Ele não levantou o rosto quando ela se aproximou, mas
Gabe acenou para ela de onde estava, a três metros de distância. Ela hesitou e
acenou para ele com um gesto desajeitado e cauteloso. Ela não queria irritá-lo
e fazer com que ele divulgasse a sua identidade para todo mundo no set. Pelo
menos, não até que ela tivesse a chance de confrontá-lo primeiro.
Ela tocou no ombro de Gideon e colocou a bolsa térmica no seu colo.
“Hora do almoço, Garoto.”
“Obrigado, Ruiva.” Ele se levantou para dar um beijo no rosto dela e abriu
o zíper. “Que salada você fez para mim hoje?”
A base da salada era quase sempre a mesma: uma mistura de alfaces,
espinafre e couve. Ela era coberta por carne magra, peito de frango ou peixe.
Então, ela tinha permissão para adicionar alguns extras e melhorar o sabor,
desde que se mantivesse dentro dos limites estabelecidos. “Salmão grelhado,
frutas vermelhas, queijo de cabra light, amêndoas torradas e vinagrete de
champanhe.”
“Parece incrível!” Ele encontrou o pote com a salada e provou o prato. “E o
sabor é melhor ainda do que o visual.”
“Como está a filmagem?”
“Boa.” Gideon engoliu uma garfada de comida antes de continuar. “Você
chegou em boa hora. Estamos esperando Mackinzie chegar.”
“Pobre garota”, Sarah disse com sarcasmo extra. “Você a fez ficar acordada
até tarde ontem à noite, não é?”
Ele olhou para ela com um toque de raiva brilhando em seus olhos. “Não
comece, Ruiva.”
“Tudo bem, não vou começar.” Ela abriu a garrafa d’água e tomou um
gole, desviando a atenção para o colega de Gideon. “Você já teve chance de
conversar com o Gabe?”
“Não. Ocupado demais tentando decorar essas cenas.” Ele enfiou outra
garfada de salada na boca e mastigou. “Onde vamos jantar?”
“Eu fiz reservas no Guy Savoy.”
O famoso restaurante francês sempre teve um lugar especial no coração
dela. Ela havia levado Gideon lá no aniversário de vinte e um anos dele, e
conseguido a famosa mesa do chef perto da cozinha.
Ele deu um gemido de êxtase. “Eu amo aquele lugar. E você fez reservas
para dois, não é?”
O sorriso esperançoso de Gideon aliviou um pouco a culpa dela. “Claro. Às
20h.”
Uma voz feminina aguda pôs fim nos seus devaneios sobre ter um jantar
francês elegante com Gideon. Mackinzie Donavan se posicionou entre eles e
colocou os braços ao redor do pescoço de Gideon. “Parece ótimo! Eu mal
posso esperar para ter um jantar romântico com você esta noite.”
Era em momentos como esse que Sarah desejava que a sua manicure
deixasse as suas unhas mais compridas. Ela se afastou, queimando por dentro
enquanto a atriz passava seus dedos pelos cabelos de Gideon.
Felizmente, ele parecia estar verdadeiramente constrangido. Ele segurou as
mãos de Mackinzie e criou mais distância entre eles. “Eu acho que está
havendo um engano. Eu não vou jantar com você esta noite.”
“Claro que vai. Quem mais você estaria levando ao Guy Savoy?”
Sarah franziu o rosto quando Mackinzie pronunciou errado o nome do
famoso chef francês.
Gideon olhou para ela, pedindo ajuda, mas Sarah balançou a cabeça.
Existiam batalhas que valiam a pena lutar, e haviam as loiras burras que
tornariam a vida de Gideon um inferno se ela ultrapassasse os limites da sua
função. Ele era um adulto, e precisava lidar com isso sozinho.
“Sinto muito, Mackinzie, mas eu vou levar outra pessoa.”
A atriz projetou o lábio inferior, fazendo um biquinho exagerado. “Mas
quem pode ser mais importante do que eu?”
Sarah revirou os olhos e se afastou antes que dissesse a Mackinzie
exatamente o que ela achava.
Gabe a chamou com o dedo.
Ela ergueu os ombros e marchou até ele com a intenção de silenciá-lo sobre
o seu passado.
Mas, antes que ela pudesse dizer uma palavra, ele disse: “Estou surpreso
com você.”
“Do que você está falando?”
“Você vai deixá-la ficar com ele sem fazer nada.” Ele se inclinou para
frente, descansando os cotovelos nos braços da cadeira. “Ou eu estou
interpretando mal a sua expressão de eu quero que você morra?”
“Como você sabe que ela não é para você?”
Gabe jogou a cabeça para trás e riu. “Porque se fosse, eu teria
testemunhado a força total da sua ira ontem à noite. Então, qual é a história
entre vocês dois?”
Ela olhou para trás e notou, com uma ponta de ódio, que Gideon ainda não
havia conseguido se livrar de Mackinzie. No entanto, a sua voz permanecia
calma quando ela respondeu: “É como ele disse ontem à noite. Eu sou sua
assistente. Nada mais.”
“Claro.” Ele arrastou a palavra, como se soubesse que ela estava mentindo.
“Então, eu acho que você não vai se importar se ele a levar para um jantar
romântico no Guy Savoy em vez de você.”
O coração dela bateu com força e o sangue correu para os seus músculos,
enquanto olhava para a atriz exageradamente sexual. Se ele levasse Mackinzie
ao restaurante deles…
“É, exatamente como eu imaginava. Não está acontecendo nadinha entre
vocês dois.”
Ela voltou sua atenção para Gabe, que estava observando todos os
acontecimentos com um sorriso animado. “Não da forma que você está
insinuando. E, agora, eu preciso falar com você sobre algo que disse ontem à
noite.”
Ele entrelaçou os dedos atrás da cabeça e se recostou na cadeira. “O quê?”
“Você me chamou pelo nome errado quando eu entrei no elevador.”
“É mesmo?” ele perguntou, fingindo inocência.
Desgraçado! Ela controlou o impulso de bater o pé ou enfiar o dedo no
centro do peito dele e mandá-lo calar a boca. Junto com Gideon, Gabe
Harrison era o homem mais frustrante com quem ela já havia lidado. “Por
quê?”
“Por que o quê?”
“Por que você me chamou por aquele nome?”
As duas sobrancelhas dele se ergueram em uma expressão de surpresa
sarcástica. “Você está dizendo que aquele não é o seu nome?”
“Você sabe que não é, especialmente depois de você ter me chamado pelo
meu nome correto a noite toda.”
“Foi um engano. A culpa é do vinho.” Sua expressão se definiu em um
sorriso de provocação. “Por um momento, eu podia jurar que você é—”
Sarah o silenciou, tapando a boca dele com a mão. “Não se atreva a dizer
esse nome aqui.”
Ela estava tão ocupada se certificando de que ninguém estava ouvindo a
conversa que não notou quando Gabe se levantou da cadeira e se posicionou
a poucos centímetros dela. Ele removeu a mão de Sarah e sussurrou: “Com
medo que eu revele a sua identidade secreta, Batgirl?”
Apavorada seria a palavra certa. Sua boca secou, e ela tentou dar uma
resposta que escondesse a sua ansiedade, mas o sorriso dele se abriu ainda
mais, e ele baixou o rosto até o ouvido dela.
“Não se preocupe, Sage. O seu segredo está seguro comigo.”
Ele se afastou, caminhando tranquilamente como se fosse pegar o jornal na
porta de casa, em contraste direto com a forma determinada com que Gideon
se aproximou dela.
Seu chefe a segurou pelo braço e a levou para um local mais reservado no
set, que os isolava da atividade ao seu redor. “Meu Deus, eu não sei se vou
conseguir terminar esse filme sem mandá-la para aquele lugar.”
“O que aconteceu?”
“Ela não se manca. Eu estava prestes a dizer a ela que nós somos casados.”
Uma nova onda de pânico tomou conta dela, e seu estômago se apertou.
“Você não faria isso.”
“Ou digo isso, ou digo que sou gay. Mas quando eu me dei conta de que
qualquer uma das mentiras poderia me encrencar mais tarde, eu tentei fazê-la
entender a situação.”
Uma risada interrompeu o seu ataque de ansiedade. “Para isso, ela
precisaria ter um cérebro.”
“Nem me fale.” Ele pressionou a mão sobre a testa, tomando cuidado para
não borrar a maquiagem. “Felizmente, alguém do departamento de
maquiagem chegou para levá-la, senão eu seria obrigado a constrangê-la.”
“Ela consideraria isso publicidade gratuita.” Sarah limpou todos os traços
de Mackinzie na camisa dele e enrugou o nariz ao sentir o tecido. “Essas
roupas são terríveis.”
“É uma pena eles não terem a Sálvia Ruiva como figurinista.” Ele sorriu e
pousou as mãos na cintura dela, puxando-a para si até que suas testas se
tocassem. “Eu vestiria qualquer coisa criada por ela.”
“Deixe disso.” Ela respondeu com uma risada, mas o comentário dele
acalmou a sua raiva. “Termine as cenas de hoje e vista o seu terno para o
jantar.”
“Jantar com você.” Ele tocou na ponta do nariz dela com o dedo antes de se
juntar ao diretor no set.
“Ah, sim”, uma voz grave disse, atrás ela. “Não há nada entre vocês dois.”
Gabe Harrison piscou e passou por ela para alcançar Gideon.
Mas, diferente da noite anterior, ela não sentiu o mesmo medo congelando
suas veias. Sim, Gabe sabia quem ela era, mas, pelo menos, ele parecia
confiável. A única coisa que a perturbava eram as insinuações constantes de
que ela estava envolvida amorosamente com Gideon.
Afinal, eles eram só amigos.
Não é?
Capítulo Seis
Apesar de Sarah ter visto Gideon usando um terno escuro muitas vezes, seu
coração nunca deixava de bater mais rápido quando ela o via vestindo um.
Esta noite não foi diferente. O blazer marinho contornava seus ombros largos
e destacava seu físico atlético, além de fazer seus olhos parecerem mais
brilhantes e ainda mais magnéticos.
E aqueles olhos estavam completamente focados em Sarah, quando ela saiu
do seu quarto. “Uau, Ruiva.”
Seu rosto corou, e ela não pôde evitar um sorriso. Ela tinha decidido ser um
pouco ousada e usar um dos vestidos que havia criado. O vestido de seda
branco tinha cristais transparentes como detalhes e era inspirado nos vestidos
de noite elegantes dos anos 30. O babado sobre o peito oferecia um leve
vislumbre do seu busto, enquanto a faixa na cintura unia o tecido de forma a
acentuar suas curvas modestas. Um par de luvas de ópera e uma travessa de
cabelo clássica completavam o look. O efeito final era de glamour
hollywoodiano. “Você gostou?”
“Você está…” Ele ficou sem fôlego, e seu olhar percorreu todo o corpo
dela. “Divina.”
“Eu me contento em estar bem para o jantar.”
“E eu digo que sou um homem de muita sorte.” Ele enganchou o braço dela
no seu. “Você acha que conseguimos chegar lá sem a equipe?”
Ela olhou para Jason e Raul, que estavam prontos para acompanhá-los até o
restaurante. “Sim, eu acho que não vamos ter problemas.”
“Ouviram isso?” Gideon perguntou aos guarda-costas. “Vocês estão de
folga esta noite. Sarah e eu queremos ficar sozinhos.”
Jason deu uma risadinha e cutucou Raul antes que ambos se retirassem para
a sua central de comando.
“Continue agindo assim, e não vai ser difícil que as pessoas acreditem que
nós somos um casal.” As palavras caíram da sua boca antes que ela pudesse
se controlar, mas depois de dizê-las, ela desejou não ter dito.
Principalmente depois de ver o brilho de desejo nos olhos dele. Ele passou
o dedão pelo lábio inferior dela. “Você não vai me ouvir reclamando, Ruiva.”
Ela tremia por dentro, e quase esqueceu de como respirar. Uma parte
rebelde dela queria ceder e parar de lutar contra os desejos secretos do seu
coração. Como ele havia conseguido passar de melhor amigo para um
homem que ela queria arrastar para a cama pelo resto da vida?
Ela sufocou essas emoções e o lembrou da reserva para o jantar.
Isso o fez acordar do seu transe. “Então, não vamos ficar parados aqui.”
A ida da vila para o restaurante foi tranquila, mas, como na noite anterior,
alguém inesperado estava esperando por eles.
O vestido de Mackinzie era uma mistura de lantejoulas e fendas de mal
gosto. O decote chegava à sua cintura, com apenas duas tiras finas de tecido
cobrindo o centro dos seus seios e deixando tudo mais à mostra. Fendas
semelhantes chegavam até os seus quadris, revelando suas pernas longas e
esguias. Ela desfilou até eles e enganchou seu braço no de Gideon com um
sorriso sedutor. “Eu estava me perguntando quando você ia aparecer. Eles se
recusaram a me levar até a nossa mesa até que você chegasse.”
“Isso porque eu não ia jantar com você”, ele respondeu, apertando os
dentes. Ele tentou se afastar dela, mas Mackinzie parecia ter mais braços do
que uma deusa hindu.
Ela riu. “Ah, pare de se fazer de difícil, Gideon. Nós dois sabemos que a
sua assistente só está aqui para me substituir, caso eu não aparecesse.”
Se você bater nela, vai constranger o Gideon. Sarah continuou repetindo
isso sem parar em sua mente. Mas o fogo que corria em suas veias continuava
aceso.
“Não, eu deixei bem claro no set que não ia jantar com você.” Gideon
conseguiu se soltar quando a atriz ficou paralisada com o choque.
“Você está me dando um fora?”, ela perguntou, sua voz ficando mais aguda
com cada palavra.
“É difícil dar um fora em alguém que nem sequer foi convidada.”
Sarah cobriu seu sorriso com a mão enluvada. Gideon estava deixando-a
orgulhosa, colocando Mackinzie no seu devido lugar. Mas a sua felicidade
desapareceu rapidamente, assim que ela notou que todos os olhos estavam
focados no escândalo que eles estavam fazendo. A última coisa que ela queria
era ser o centro das atenções.
Mackinzie hiperventilou até parecer estar prestes a desmaiar. Um soluço
escapou de seus lábios vermelhos e uma lágrima caiu de seus olhos, como em
uma boa cena dramática. Talvez, ela fosse uma atriz melhor do que
imaginavam. “Eu não acredito que você me envergonharia em público desse
jeito, Gideon Kelly.”
Sarah a xingou em silêncio e puxou Gideon. “Cale a boca dela antes que
ela o arraste para o inferno dos tabloides.”
“Como? Jantando com ela em vez de você? Sem chance, Ruiva. Esta é a
nossa noite.”
Os soluços se transformaram em berros que deixariam uma criança de dois
anos tendo um ataque de birra no chinelo, mas uma coisa ficou bem clara:
Mackinzie Donavan ficava horrível chorando.
“Você pode me compensar depois.” Ela gesticulou para Mackinzie. “Vá de
uma vez, antes que as revistas de fofocas comecem a chamar você de ‘o
maior canalha da América’.”
Ele apertou os olhos para ela, como se estivesse tentando entender o seu
raciocínio antes de suspirar. “Eu vou apressar as coisas ao máximo e vou
fazer reserva para o nosso jantar, outra noite.”
“Isso é ótimo.” Ela apertou a mão dele antes de se afastar. Seu estômago
revirou ao pensar nele jantando com aquela vagabunda em vez de com ela,
mas Sarah sabia bem como um evento podia ser explorado pela mídia e quão
rápido a percepção do público podia mudar como resultado. Ela abriria mão
do seu lugar naquela mesa se isso significasse salvar a carreira de Gideon.
Ele lançou mais um olhar melancólico para ela antes de se virar para lidar
com a ex-modelo com o rosto coberto de rímel. “Por que nós não nos
sentamos na mesa e conversamos sobre isto, Mackinzie?”
Como se apertasse um botão, ela se transformou de mulher desesperada em
uma Barbie esfuziante. “Sério?”, ela perguntou, piscando os olhos.
Gideon franziu o rosto antes de concordar. Pelo menos, ele não iria se
divertir jantando com outra mulher. Ele segurou Mackinzie pelo cotovelo e a
guiou para dentro. “Sim, mas eu quero deixar algumas coisas muito claras.”
Ele desapareceram, e Sarah finalmente soltou a risada que estava
reprimindo desde que convenceu Gideon a jantar com a sua colega de filme.
Ela se virou e esbarrou em uma muralha musculosa de smoking.
“Eu achei que encontraria você aqui”, Gabe Harrison disse, com um sorriso
lento e fácil. “Cedeu o seu lugar na mesa para ela, é?”
“Foi melhor do que vê-la sujar o nome de Gideon pela Internet inteira.”
Sarah levantou seu vestido para passar por ele, mas Gabe bloqueou o seu
caminho.
“Talvez, eu possa fazer algo por você.”
“Só se estiver disposto a jantar com a Mackinzie…”
Gabe fez uma careta. “Eu estava pensando em levar você para jantar.
Afinal, você se arrumou toda para esta noite. Parece um desperdício deixar
uma mulher bonita jantar sozinha.”
“Primeiro, deixe-me chamar reforços para resgatar o Garoto.” Ela pegou o
telefone e pausou por um momento. Seria muito fácil pedir ao Raul para
pegá-lo, mas seria ainda mais engraçado se ela chamasse Maureen. Ela
enviou uma mensagem de texto para a mãe de Gideon, dizendo que ele queria
muito falar com ela. Quando ela ligasse, ele poderia se desculpar
educadamente e fugir da refeição. “Pronto.”
Ele ofereceu seu braço a ela. “Você gosta do Nobu?”
“Nunca estive lá.” Ela guardou seu telefone na bolsa e enganchou seu braço
no dele, intrigada o bastante para fazer o jogo dele.
“Então, você vai ter uma ótima surpresa.”
Mas, em vez de levá-la ao restaurante no andar térreo, ele a guiou de volta
aos elevadores da Torre Octavius. Uma sensação de alerta a dominou até que
a porta do elevador se abriu no último andar.
“Eu espero que você não se importe, mas eu pedi para que um dos chefs
preparasse o jantar no meu apartamento. Eu imaginei que seria mais seguro
do que jantar no restaurante.” Gabe pegou a chave do quarto e abriu a porta
da famosa Vila Nobu.
Os aromas de limão e gengibre e os sons serenos de música suave a
envolveram no momento em que ele abriu a porta. Ela entrou e respirou
fundo, livrando-se de toda a sua tensão ao expirar. As linhas básicas e abertas
da vila faziam a de Gideon parecer abarrotada e espalhafatosa. “Então, foi
você que alugou a Vila Nobu antes de nós?”
“O que eu posso dizer? Eu gosto de ter o melhor.” Ele gesticulou para que
ela o seguisse até o terraço. “Venha ver a vista.”
Daquela altura, o caos da rua parecia pouco mais do que uma dança
elaborada de luzes e movimento. As fontes do Bellagio estavam terminando
seu show elegante ao som de uma música que ela não conseguia ouvir, e o
vulcão no Mirage estava cuspindo lava. O exterior de concreto ainda radiava
o calor do dia, mas a brisa seca do deserto fazia os pelos do seu braço
arrepiarem. “É muito bonito aqui em cima.”
“Eu concordo.” Gabe se inclinou no parapeito e olhou para a Strip. “Você
quer jantar aqui ou lá dentro?”
“Lá dentro, se você não se importar.”
“Claro.” Ele abriu a porta para ela. “Vamos fazer o nosso pedido ao chef?”
Depois de fazerem suas escolhas, um chef desapareceu dentro da cozinha
particular, deixando-os sozinhos na mesa semicircular.
Gabe puxou uma cadeira para ela e sentou na cadeira ao seu lado. “Fico
feliz por ter esbarrado em você esta noite.”
“Não há nada de aleatório no nosso encontro, já que você estava esperando
por mim do lado de fora do restaurante e tinha um chef preparando jantar
para dois aqui em cima.”
“Eu poderia ter pedido jantar para três se Gideon tivesse decidido se juntar
a nós. E isso me dá a chance de conhecer você melhor, Sarah.”
Ele adicionou mais ênfase ao nome dela, lembrando-a de que ele conhecia
alguns dos seus segredos. Ela alinhou os talheres. “Não há muito para
contar.”
“Bem pelo contrário. A razão pela qual um dos maiores nomes do mundo
do entretenimento decidiu desistir de tudo para viver a vida de uma assistente
anônima é muito intrigante.”
Ela levantou a cabeça e apertou os olhos. “Não é tão difícil de entender.”
“Então, me conte.” Ele se recostou, descansando os braços nos contornos
curvados da cadeira, e esperou.
“Você conhece a minha história, Gabe.”
“Apenas parte dela. Sage Holtz, uma das jovens estrelas mais brilhantes de
Hollywood. Indicada a um Oscar. Vencedora de um Globo de Ouro. E, agora,
eremita inesperada.”
Ela revirou os olhos. “Você esqueceu da parte sobre a menina rebelde,
viciada e alcoólatra que se autodestruiu na frente das câmeras para o mundo
inteiro ver.”
“Eu estava tentando ser positivo.” Ele encolheu os ombros. “Então, o que
mudou tudo isso?”
“Não sei se você se lembra, mas eu fui atropelada.” Ela tomou um gole do
chá verde quente que acabara de ser trazido à mesa. “Essas coisas fazem uma
pessoa acordar e mudar suas prioridades.”
“Então, isso explica por que você não bebeu ontem à noite. Mas isso não
explica você e Gideon.”
“O Garoto me ajudou quando eu estava no fundo do poço.”
“O ‘Garoto’?”
“É uma piada recorrente entre nós.” Ela cruzou as mãos sobre o colo e
focou em manter sua voz firme ao relatar as memórias dolorosas. “Eu não me
lembro do que aconteceu naquela noite. Só lembro de acordar no hospital e
encontrá-lo lá, do lado da minha cama. A minha mãe não estava lá. Meu pai,
muito menos. Apenas ele. Eu havia fraturado o nariz, o quadril e a pélvis,
então, não tinha a mínima condição de ir para casa sozinha. Ele me deixou
ficar na casa dele até que eu pudesse me levantar e andar novamente. Foi
quando eu descobri que estava completamente falida.”
“Caramba!” Gabe franziu o rosto e serviu um pouco de saquê em um
pequeno copo branco. “O que aconteceu com o seu dinheiro?”
“Meus pais gastaram uma boa parte, e eu já tinha gasto o resto com
compras, drogas e as despesas do hospital. Quando eu comecei a pensar em
voltar ao trabalho, tinha engordado treze quilos, tinha um nariz novo e meu
cabelo tinha voltado à sua cor natural. Ninguém me reconhecia. E, mesmo
que reconhecessem, não me contratavam com base na minha reputação. Eu
estava falida e desempregada, então, Gideon me ofereceu o emprego de
assistente até que eu pudesse organizar a minha vida. Isso foi há três anos
atrás.”
“E a sua vida está finalmente em ordem agora?”
Ela pensou na tensão que crescia entre ela e Gideon e no conflito em seu
coração. Não, ela não podia dizer que sua vida estava em ordem. Na verdade,
parecia estar tão caótica quanto antes. Mas ela se forçou a sorrir e respondeu.
“Está chegando mais perto a cada dia.”
“Você fica com ele porque não está pronta para deixá-lo? Ou porque sente
que deve isso a ele?”
A coluna dela retesou. Ele não perdia tempo com indiretas e, por um
momento, ela pensou em ir embora. Mas, se ela demonstrasse quão perto ele
havia chegado do centro da questão, Gabe podia usar isso contra ela. “Eu fico
porque nós somos amigos — melhores amigos — e cuidamos um do outro.”
“Como você fez quando Mackinzie começou a se exaltar esta noite.”
“Exatamente.” Ela tomou outro gole do chá, aliviada por ter evitado mais
uma crise. “E eu não estou planejando em viver dele para sempre.”
“Qual é o seu plano? Voltar a atuar?”
Ela queria rir e balançar a cabeça, mas a pontada de dor no centro do seu
peito a lembrou de quanto ela sentia falta da profissão. Ela alimentava a sua
alma, mas, ao mesmo tempo, a escurecia. “Não, eu acho que não vou voltar.”
“Por que não? Você mostrou tanto potencial.”
“Até o ‘showbiz’ acabar comigo.” Ela se afastou um pouco da mesa,
desejando que eles mudassem de assunto.
“Você está falando dos seus vícios?”
“Até antes disso. Eu era gorda demais, magra demais, pálida demais,
bronzeada demais, isso, aquilo, aquele outro. Não importava o que eu fizesse,
alguém sempre encontrava algum problema em mim.”
“Que se danem. O seu visual não deveria ser importante, desde que você
tenha talento. E você, Sage, tem talento.”
“Obrigada, Gabe, mas as coisas são diferentes para as mulheres. Um
homem pode ficar careca e barrigudo e ainda conseguir papéis bons. Mas,
com as mulheres — se engordarmos dois quilos ou começarmos a
desenvolver linhas de expressão e rugas, vamos ser trocadas por um modelo
mais novo. Eu vi isso acontecer com a minha mãe, e vi como isso a afetou.
Ela passou tanto tempo perseguindo aquela ideia irreal de perfeição que
perdeu a si mesma no processo. Eu não quero que o mesmo aconteça
comigo.”
Gabe pareceu ponderar as palavras dela, depois a examinou de cima a
baixo. “Você ainda é muito atraente.” “Mas eu não visto mais tamanho 34, e
estou bem assim. Se estou grande demais para a tela, que seja. Eu estou forte
e saudável, e isso é uma melhora significativa em comparação com o meu
estado depois do acidente. Deixo para a Mackinzie lidar com o ciclo de
anorexia e bulimia para se manter magra.”
Gabe reprimiu uma risada e esvaziou seu copo de saquê. “Então, não existe
nenhuma possibilidade de eu fazer um filme com você?”
“Não. Os meus dias de atriz acabaram.”
“Então, por que você continua envolvida no showbiz?” A garganta dela se
apertou e ela se mexeu nervosamente na cadeira.
“Porque alguém precisa manter o Gideon longe dos problemas.”
Ele riu e balançou a cabeça. “Não, eu não acho que seja por isso. Você e eu
e talvez até Gideon — nós começamos a atuar porque amamos a profissão.
Nos apaixonamos pela arte de atuar muito jovens, e passamos horas
melhorando nossas habilidades para que fôssemos reconhecidos pela nossa
arte e não apenas por sermos bonitos. E você não se esforça tanto para
conseguir algo só para abandonar tudo depois.”
“Fale por si mesmo.” Ela tentou manter um tom de sarcasmo na voz, mas,
por dentro, ela sentiu medo por ver o quão próximo ele estava da verdade.
Ela não podia deixar Hollywood para trás — não totalmente. Ela evitava os
holofotes, mas ainda permanecia nas sombras. Era o suficiente para satisfazer
a criança dentro dela que amava brincar de ser algo que não era.
“Eu estou fazendo isso, e acho que uma parte de você concorda comigo.”
Ele desdobrou o guardanapo e o colocou no colo quando o primeiro prato
chegou da cozinha. “Enquanto isso, você podia me dar algumas dicas sobre
como distrair o Gideon.”
“Você está querendo pregar uma das suas peças no Garoto?”
Gabe riu. “Exatamente.”
***
Gideon fechou a porta da sua vila e apoiou a cabeça na parede. Por favor,
não deixe ela me seguir até aqui.
O jantar havia sido um nível de tortura que Dante tinha esquecido de incluir
nos seus sete níveis do Inferno. Mackinzie era um tipo especial de cabeça-de-
vento. Correção — insípida, burra, estúpida, ou simplesmente sem noção
eram todas boas descrições dela. Obcecada com si mesma viria em segundo
lugar. Ele precisou de quase meia hora para convencê-la de que não estava
interessado em fazer nada com ela fora do set e, mesmo assim, ele não
acreditava que isso havia entrado na sua cabeça vazia, com base no ‘boa
noite’ sedutor que ela lhe havia desejado.
Isso o fez apreciar a inteligência de Sarah ainda mais. A ligação da sua mãe
havia chegado no momento em que ele estava prestes a perder a paciência.
Claro, ele precisou de mais meia hora para certificar à mãe de que tudo estava
bem e depois ouvi-la falar sem parar sobre o cachorro, Jasper, seus irmãos, o
filho recém-nascido de Ben e Hailey e uma centena de outras coisas.
Ele se afastou da parede e foi procurá-la.
Mas a única outra pessoa na vila era Raul.
“A Sarah voltou?”, ele perguntou ao guarda-costas.
“Eu não a vi.”
Gideon xingou em silêncio e pegou seu telefone. Ele imaginou que ela
estaria esperando pela volta dele, não passeando em Las Vegas. Quando ele
tentou ligar para ela, a chamada caiu na caixa postal. A Ruiva sempre atendia
o telefone. Imagens dela morta em um beco qualquer passaram pela sua
mente, e ele estava prestes a mandar Raul sair à sua procura quando o seu
telefone bipou. Ele leu a mensagem de Sarah na tela.
Jantando com Gabe. Vou para casa daqui a pouco.
O pânico dele se transformou em outra emoção irracional que ele não tinha
nenhum desejo de sentir.
Ciúme.
Ele tentou se consolar com pensamentos racionais. A Ruiva era solteira.
Ela tinha todo o direito de jantar com Gabe Harrison. Ninguém tinha nenhum
compromisso com ela. Ela era livre para fazer o que quisesse. Mas esses
pensamentos racionais fizeram pouco para diminuir o fogo que ardia no
centro do seu estômago.
Então, ele pegou uma cerveja na geladeira e a bebeu até a porta da frente se
abrir.
Sarah entrou na sala de estar, tirando uma das suas luvas longas e brancas.
Ela parou imediatamente quando o viu. “Sua mãe salvou você?”
“Sim, mas por um preço. Ela falou sem parar.”
“Você precisa conversar mais com a sua mãe mesmo.” Ela colocou suas
coisas na mesa e abriu uma garrafa de água. “Mas fora isso, como foi o
jantar?”
“Eu não sei se vou conseguir terminar esse filme sem explodir com ela.”
Ele tomou um longo gole da cerveja. “Já é terrível ter que fingir que estou
apaixonado pelo personagem dela.”
“É isso que chamamos de ‘atuar’.”
“Então, esta performance deveria me garantir uma indicação ao Oscar.” Ele
colocou a cerveja na mesa e se aproximou dela. “E você?”
Ela não olhou para ele ao perguntar: “E eu o quê?”
“Onde você encontrou o Gabe?”
“Ele estava na frente do restaurante.”
As chances eram de dez para um de que isso era mais do que uma
coincidência. “E como foi o jantar com ele?”
“Legal.”
Ele lutou contra o impulso de beijá-la de uma forma que a fizesse esquecer
de todos os outros homens. “Legal?”
“Sim. Legal.” Ela finalmente se virou para ele. “Ele está na vila Nobu, e
pediu para um dos chefs preparar o jantar para nós.”
Jantar que ele deveria estar tendo com ela, não Gabe. “E depois?”
“E depois eu vim para cá.”
Ele queria acreditar que tudo havia acontecido tão inocentemente quanto
ela havia descrito mas ele viu a forma que Gabe olhou para ela na noite
anterior. O fato de ele estar esperando fora do restaurante para abordá-la o fez
se perguntar se a Mackinzie tinha algum acordo com ele. Afinal, já era a
segunda vez que ela monopolizava a atenção dele em um jantar, permitindo
que Gabe aparecesse e resgatasse Sarah.
Ela apertou a tampa da garrafa de água. “Você vai querer fazer ioga
amanhã cedo?”
“Claro.” Ele precisaria da calma antes da tempestade, principalmente
porque o roteiro de filmagem de amanhã incluía cenas com Mackinzie.
“Ótimo”, ela disse, com um sorriso genuíno que eliminou toda a
negatividade dele. “Vejo você de manhã, então. Boa noite.”
Ele a viu desaparecer em seu quarto e desejou poder se juntar a ela. Em vez
disso, ele terminou a cerveja e se arrastou para a sua cama king-size, sozinho.
Sempre que fechava os olhos, ele era assombrado por sonhos com Sarah
trocando-o por Gabe. E, quando o alarme disparou, ele havia chegado a uma
nova conclusão.
Ele precisava fazer Sarah se apaixonar por ele antes que a perdesse para
outra pessoa.
Capítulo Sete
Gideon estava pronto para vomitar. Ele estava preso na mesma cena de
amor com Mackinzie pelas últimas quatro horas. Normalmente, uma cena de
10 minutos precisaria de apenas duas ou três tomadas, mas Mackinzie não
parava de errar suas falas. Claro, os erros só aconteciam depois de ele ter que
aguentar mais um beijo intenso.
Correção — o que ela considerava um beijo. Ela enfiava a língua na boca
dele e a retorcia, como um daqueles homens infláveis em estacionamentos.
Ela mal podia esperar até que o diretor, Karl, gritasse: “Corta.” No segundo
em que ouviu aquela palavra abençoada, ele se afastou de Mackinzie e
limpou a boca.
Sua colega de cena se atirou na cama com um sorriso de satisfação.
“Hmm... eu amo beijar você, Gideon.”
Ele gostaria de poder dizer o mesmo, mas tinha medo das consequências se
dissesse a verdade. Em vez disso, ele olhou para Karl. “Foi bom o
suficiente?”
Karl esfregou o queixo e olhou para a tela do computador antes de balançar
a cabeça. “Não. Quero ver um pouco de química, gente.”
“Eu estou fazendo o que posso”, Mackinzie disse, fazendo biquinho. “A
culpa não é minha se o Gideon não está colaborando.”
Ele apertou os dedos contra as palmas e tentou enviar um SOS silencioso
para Karl. Quando não conseguiu capturar a atenção do diretor, ele apelou
para o homem ao seu lado.
Gabe Harrison.
Seu colega de profissão piscou e cutucou o diretor. “Por que não
terminamos por hoje? Eu acho que o Garoto vai estar descansado e pronto
para continuar de manhã.”
A pele de Gideon queimou. Qual é a dele, me chamando de “Garoto”? Só
a Ruiva me chama assim.
“Você pode estar certo, Gabe. Esses dois já desgastaram essa cena.” Karl
levantou seu boné de beisebol e passou os dedos pelos cabelos finos. “Ok,
vamos terminar essa cena amanhã de manhã e seguir em frente.
Entenderam?”
“Com certeza.” Gideon pegou seu robe e o vestiu por cima das roupas de
baixo que vestiu a tarde inteira. Naquele momento, tudo o que ele queria era
fugir de Mackinzie antes que ela sugerisse mais “ensaio.” E tomar um banho
quente e relaxante para tirar todos os traços dela do seu corpo.
Ele havia acabado de vestir seu jeans quando alguém bateu na porta do seu
camarim. Ele prendeu a respiração e rezou para que não fosse Mackinzie.
“Quem é?”
“Gabe.”
Ele suspirou alto e terminou de abotoar as calças. “Entre.”
“Dia difícil, Garoto.” Gabe se recostou no soleiro da porta, com os braços
cruzados sobre o peito.
“Não me chame assim.” Ele enfiou os braços nas mangas da camisa.
“Por que não? A Sarah chama você assim.”
“A Ruiva é a única pessoa que tem esse direito.” Ele abotoou a camisa
rapidamente. “O que você quer?”
“Oferecer as minhas condolências pelo que pareceu ser uma experiência
dolorosa, e talvez oferecer consolo com uma bebida na minha vila.”
Um arrepio de alerta correu pela coluna dele. Gabe estava armando alguma
coisa. “Você não estaria tentando armar uma das suas pegadinhas, não é?”
“De jeito nenhum. Não é divertido quando você está preparado para ela.
Mas eu prometo que não vai haver nenhum truque esta noite. Eu até consegui
encontrar umas Belching Beaver de manteiga de amendoim.”
Agora, os pelos do seu corpo todo se arrepiaram. Como Gabe sabia qual era
a sua cerveja favorita? Tudo isso era muito estranho.
“Não olhe assim para mim”, Gabe disse, com um sorriso de lado. “Sarah
disse que ia comprar algumas para você hoje de manhã—”
“Você falou com ela de manhã?”
“Sim. Ela veio ao set, mas você estava ocupado demais beijando a
Mackinzie para notar.”
Ele xingou em voz baixa e colocou suas coisas na mochila. A última coisa
que ele queria era que a Ruiva o visse na cama com outra mulher, mesmo que
fosse apenas atuação.
“Então, eu pedi a ela para comprar algumas garrafas para eu experimentar”,
Gabe continuou como se não houvesse nenhum problema. “Eu espero que
você não se importe por eu ter pedido à sua assistente para fazer isso para
mim.”
Gideon colocou a mochila no ombro e se aproximou do ator. “Qual é a sua,
afinal?”
“Eu só queria ter uma conversinha com você.” Gabe não se mexeu, apenas
deu um sorriso que deixou os nervos de Gideon à flor da pele. “Afinal, nós
vamos trabalhar juntos nesse filme pelas próximas semanas, e eu estou
sentindo uma certa hostilidade vinda de você que eu gostaria de eliminar
antes que ela afete as filmagens.”
Gideon esticou cada um dos dedos. Esta era a sua chance de mandar Gabe
ficar longe da Ruiva. “Tudo bem.”
“Excelente.” Gabe abriu caminho para Gideon. “Depois de você.”
Eles ficaram em silêncio até chegarem à vila Nobu, o que agradou Gideon.
Quanto menos ele precisasse dizer a Gabe, melhor. Além disso, ele teve a
chance de compor o que queria dizer quando estivessem no apartamento.
O perfume suave de limão e gengibre que pairava na vila acalmou os seus
sentidos, e os músculos nos seus ombros começavam a relaxar um pouco
quando Gabe pegou duas garrafas da cerveja e a serviu nos copos
apropriados.
“Já que você não confia em mim, eu vou deixá-lo escolher o seu.”
Gideon pegou o copo na esquerda, mas não bebeu imediatamente. O
perfume familiar de manteiga de amendoim e chocolate exalou da espuma,
mas isso não significava que Gabe não havia adulterado a bebida.
As sobrancelhas de Gabe se ergueram. “Nossa, pegue leve comigo! Eu vou
até tomar o primeiro gole.”
Quando ele tomou — e não se engasgou — Gideon o seguiu. A cerveja o
lembrava do cereal de amendoim da Reese que ele amava quando era criança,
e era uma das suas únicas tentações. Por isso, a Ruiva havia mencionado que
compraria algumas para ele. Se ela viu o que ele teve que suportar hoje, Sarah
sabia que ele precisaria de uma.
“Viu? Eu posso me comportar.” Gabe tomou um longo gole e examinou o
copo. “Nada mal. Acho que terei que perguntar à Sarah onde ela comprou as
cervejas.”
“Dá para você parar de monopolizar a minha assistente, por favor?” As
palavras escaparam na boca de Gideon antes que ele pudesse evitar, mas
Gabe apenas sorriu.
“Mas a sua assistente me intriga.”
“De que forma?”
“De muitas formas, na verdade. Ela é inteligente, talentosa, linda...” Os
dentes de Gideon se apertavam com mais força com cada palavra, até Gabe
terminar com: “e totalmente dedicada a você.”
Isso tranquilizou um medo. Nenhum dos truques que Gabe havia usado
nela na noite anterior havia funcionado. “Ela é a minha melhor amiga.”
“Engraçado. Ela me disse exatamente a mesma coisa.” Gabe começou a
andar na direção da sacada e gesticulou para que Gideon o seguisse.
O sol estava começando a se pôr sobre a Strip, e a vida noturna ainda não
havia começado. Esta era a hora mais tranquila em Vegas, a hora em que a
maioria dos visitantes voltavam para os seus quartos para escapar do calor da
tarde e se preparar para o jantar ou um show.
Gideon olhou para o lado sul da Strip. “Nós podemos ir direto ao assunto,
por favor?”
“Claro.” Gabe colocou seu copo na mesa e cruzou os braços novamente.
“O que existe entre vocês, de verdade?”
“Por que você quer saber?”
“Eu acho que isso é óbvio.” O olhar calmo de Gabe caiu sobre ele como se
estivesse examinando um concorrente. “Mas a última coisa que eu quero é ser
acusado de separar o que parece ser um casal perfeito.”
“Nós não somos um casal”, Gideon resmungou. “Ainda.”
“Então, vocês são mais do que apenas amigos?”
“O seu sarcasmo está começando a me tirar do sério.”
Gabe riu e relaxou os braços. “Eu sou de Nova York. Nós somos famosos
pelo nosso sarcasmo.”
“E eu sou de Chicago, e nós somos famosos por sermos bons de briga,
então, vá com calma, ok?”
“Entendi. Eu não quero servir de saco de pancadas.” Gabe tomou outro
gole de cerveja. “Então, por que vocês não são um casal?”
“Pergunte à Ruiva.” Por mais que ele agradecesse o desejo de Gabe de não
ofendê-lo, ele não sentia a necessidade de fazer confissões a ele.
“Eu perguntei. E a resposta dela foi bastante vaga.”
“E você achou que, me embebedando, conseguiria extrair mais informações
de mim?”
Gabe encolheu os ombros. “Eu acho que está bem claro que eu não tenho a
mínima chance com ela se você ainda estiver na parada, então, eu achei que
era hora de mudar o meu objetivo.”
“E qual é o seu objetivo agora?”
“Ajudar você a conquistá-la.”
Gideon deixou as palavras girarem na sua mente antes de responder. Por
um segundo, ele se perguntou se tinha ouvido direito. “Por que você iria
querer fazer isso?”
“Ei, se eu não posso ficar com ela, você deveria ficar.”
“Eu odeio ter que lhe dizer, mas eu já tentei convencê-la a sermos mais do
que amigos, e quase a perdi no processo. Não vou passar por isso de novo.”
Ele se virou para voltar para dentro, mas parou quando Gabe falou.
“Está com medo?”
Ele se virou rapidamente. “Sim, estou. A Sarah é minha melhor amiga, e eu
prefiro tê-la como amiga do que perdê-la completamente.”
“Mesmo que você esteja apaixonado por ela?”
A pergunta o atingiu como um soco no peito, arrancando o ar dos seus
pulmões. Ele pressionou a palma da mão sobre a dor em seu coração. “É tão
óbvio assim?”
Gabe acenou com a cabeça. “E eu acho que ela sente o mesmo, mas, assim
como você, ela está com medo.”
“É, eu sei. Ela não quer estragar a nossa amizade.”
“Não, eu acho que é mais do que isso.” Gabe pegou uma cadeira e montou
nela, com uma expressão séria no rosto. “Ela está com medo de voltar a ser o
centro das atenções.”
“Naturalmente. Você conhece a história dela.”
“Sim e, como eu disse a ela ontem à noite, é uma pena que ela esteja
escolhendo desperdiçar seu talento.” Ele recostou o queixo sobre a mão.
“Mas, talvez, a sua solução para ganhar o coração dela esteja aí.”
“Do que você está falando?”
Gabe bateu na bochecha com o dedo indicador, olhando para o nada.
“Alô, Terra para Gabe?”
“Me dê um minuto, Garoto. Eu estou criando o plano perfeito.”
Gideon esvaziou o copo, esperando que a cerveja aliviasse a sensação de
enjoo se formando no centro do seu estômago. Ele sabia que vir aqui tinha
sido um erro.
“Sim, isso poderia funcionar.” Gabe focou sua atenção em Gideon. “Você
topa?”
“Topo o quê?”
“Meu plano para fazer a Sarah superar o seu medo do palco.”
“O que isso tem a ver com ela e eu?”
“Tudo.” Gabe pulou da cadeira. “Vamos pegar outra cerveja e discutir os
detalhes. Se nós conseguirmos fazê-la se sentir confortável sob os holofotes
novamente, ela não terá mais desculpas para não ficar com você.”
Ele havia encontrado o ponto central do problema, mesmo que Gideon não
tivesse revelado a verdadeira razão pela qual eles não podiam ser mais do que
amigos, de acordo com Sarah. Ela havia lhe dito meses atrás que a namorada
dele teria que acompanhá-lo nos eventos e sorrir para as câmeras, e ela não
queria voltar a fazer parte desse mundo. Mas, se ele havia conseguido deduzir
a origem do problema, talvez, o plano de Gabe pudesse ajudá-lo a superá-lo.
Ele seguiu Gabe de volta para a sala e aceitou a garrafa aberta de cerveja.
“Então, qual é o plano?”
“A parte um envolve ajudá-la a lembrar da alegria de atuar.”
“E como você pretende fazer isso?”
Gabe riu. “Deixe isso comigo.”
“Você não vai conseguir um papel para ela no filme, não é?” Ele tomou um
gole da garrafa e se arrependeu imediatamente. Sua boca e sua garganta
queimaram. Ele cuspiu a cerveja e pegou uma garrafa de água no balcão.
Gabe tirou uma pequena garrafa de molho picante do bolso. “Peguei você.”
“Idiota.”
“E, agora que passamos dessa fase, podemos seguir em frente com a
Operação Minha Bela Dama.”
“Você não conseguiu pensar em um título melhor do que esse?”
Gabe lhe alcançou uma garrafa fechada de uma cerveja mexicana. “Espere
e verá.”
Mas enquanto Gideon ouvia, seu próprio plano começou a se formar em
sua mente. O plano que ele tinha sido covarde demais para executar no mês
passado. O plano que ainda estava em uma caixa fechada em seu quarto.
Talvez, a ideia de Gabe de fazer Sarah lembrar do seu talento fizesse
sentido.
E ele tinha a oportunidade ideal para fazer isso.
Capítulo Oito
Gideon estava parado em um canto escuro do set, se esforçando ao máximo
para não rir. Nenhuma das cenas de hoje precisavam dele, mas, quando soube
que Gabe teria que passar pela sua própria cena de beijo com Mackinzie, ele
decidiu que valeria a pena comparecer. Principalmente porque ele havia
planejado a pegadinha perfeita para se vingar de Gabe pelo molho picante de
alguns dias atrás.
Além disso, era uma chance de sair da vila e ficar longe de Sarah. Ele havia
pedido à sua empregada doméstica para lhe enviar o Globo de Ouro da
Ruiva, e ele tinha chegado há menos de uma hora atrás. Agora, ele precisava
descobrir a melhor forma de dá-lo a ela. Por mais que ele achasse que ela
apreciaria o gesto, parte dele ainda se preocupava com a possibilidade do
presente ter o efeito oposto, e fazer com que ela o deixasse. Essa era a razão
principal pela qual ele ainda não havia dado o prêmio a ela.
Agora, era a vez de Gabe se contorcer sob as luzes, enquanto Mackinzie
esfregava seu corpo esquelético contra ele e enfiava a língua na sua garganta.
O sorriso de Gideon se alargou. Todas as vezes em que Gabe havia
observado e feito piada com as cenas dele e Mackinzie estavam se voltando
contra ele. A vingança tardou, mas não falhou.
Assim que Karl gritou “Corta!” Gabe limpou a boca e fez o que pôde para
não sair correndo do set.
Gideon o alcançou na cozinha da casa que haviam alugado para representar
a mansão de Esteban. “Se divertindo?”
Gabe cuspiu a água com que estava gargarejando e tossiu. “Eu preciso
beber.”
Ele tentou ao máximo manter uma expressão séria enquanto Gabe abria a
geladeira. Na noite anterior, ele havia trazido um pacote com seis garrafas de
Coca-Cola diet de 600ml e preparado uma armadilha. Quando chegou no set,
ele trocou os refrigerantes que estavam reservados para Gabe na geladeira.
Um único Mentos estava pendurado sob a tampa, e no momento em que
Gabe abriu a garrafa, a bala caiu no refrigerante e criou um gêiser que
explodiu no rosto do seu colega de filme.
Gabe gritou, e Gideon caiu na risada. “Peguei você!”
“Seu filho da—”
“Ei, você estragou a minha cerveja favorita com molho picante. Agora,
estamos quites.”
“Errado, Garoto.” Gabe sacudiu as mãos cobertas de refrigerante. Não
havia um pedaço dele da cintura para cima que não estivesse molhado. “Você
passou dos limites.”
E o brilho dos olhos dele informaram Gideon de que ele já estava
planejando a próxima pegadinha para se vingar.
Uma das mulheres responsáveis pelo figurino entrou, abrindo a boca de
surpresa quando viu Gabe, e disse: “O que você fez com a sua roupa?”
“Pergunte a ele.” Gabe tirou o casaco encharcado e o deu para ela, seguido
da camisa e gravata. “É só Coca diet, deve sair fácil.”
“De uma gravata de seda?” A assistente de figurino apertou os olhos e
lançou seu olhar gelado para Gideon. “Da próxima vez que vocês dois
quiserem pregar peças um no outro, façam isso fora do set.”
Gideon continuou a rir enquanto ela saía da cozinha, irritada. No entanto, a
sua alegria evaporou no segundo em que Mackinzie apareceu.
“Ai, Gabe.” Ela colocou as mãos no peito dele e praticamente fincou as
unhas na sua carne. “Você fica ainda mais sexy sem camisa. Acho que vamos
ter que refilmar aquela cena com você assim — gostoso, nu e molhado.”
De alguma forma, ela conseguiu fazer as últimas três palavras soarem
como o título de um filme pornô.
O efeito era visível no rosto de Gabe. Seus olhos se abriram e ele fez o
possível para aumentar o espaço entre eles. “Eu acho que isso prejudicaria a
imagem de Esteban.”
“Por quê? Você pode ser um garanhão. Afinal, ele é mexicano, não é?”
“E o que isso tem a ver com ele ficar sem camisa?” Gideon perguntou.
“Eu—hm…” O rosto dela ficou tão vazio quanto a sua mente.
“Foi o que eu pensei.” Gideon pegou um pano de pratos e o jogou para
Gabe. “Acho melhor você pegar alguma coisa para beber e ir embora
enquanto pode.”
Ela lançou um sorriso amarelo para ele e pegou uma das garrafas
preparadas antes de sair com o nariz em pé.
“Obrigado, Garoto”, Gabe disse ao terminar de se secar.
“Não me chame assim.” Gideon se recostou no balcão e se perguntou
quanto do seu plano ele deveria contar ao colega. Afinal, Gabe parecia mais
do que disposto a ajudá-lo com Sarah há alguns dias atrás. “Eu queria discutir
uma coisa com você.”
“Então, você não apareceu aqui só para pregar uma peça em mim? Estou
emocionado.”
“Não, é sério, isso tem a ver com a Operação Minha Bela Dama.”
Gabe levantou a cabeça rapidamente, com a expressão alerta e concentrada.
“Estou ouvindo.”
“Você sabe que ela ganhou um Globo de Ouro, não é?”
“Sim, como Melhor Atriz Coadjuvante em uma minissérie.”
Gideon pausou, se perguntando o quanto do passado de Sarah ele deveria
revelar. “Bem, há alguns anos atrás, ela o vendeu.”
“Ela fez o quê?” O rosto de Gabe franziu de horror, como se ela tivesse
cuspido na cara do Papa, ou algo parecido. “Por quê?”
“Ela estava com pouco dinheiro.” Uma mentira, em parte. Na verdade, ela
havia vendido o prêmio para comprar ecstasy, uma caixa de champanhe
Cristal para os amigos, e só Deus sabe o que mais. “Mas isso não vem ao
caso. Um mês atrás, eu o encontrei e o comprei de uma loja de memorabilia
em Miami.”
“E o que ela disse quando você o devolveu a ela?”
Gideon olhou para as marcas de sujeira em seus sapatos e criou mais uma
em seu momento de incerteza. “Eu, hum, não o devolvi a ela. Ainda não.”
“E por que não?” Gabe deu um tapa na nuca dele. “Você está sentado em
uma mina de ouro — desculpe o trocadilho — e ainda não fez nada?”
“Eu sei como ela se sente a respeito do seu passado e da sua carreira
anterior. Eu fiquei preocupado que o presente pudesse trazer aqueles
sentimentos negativos à tona novamente.”
“Ou você estava com medo de não conseguir desempenhar sob pressão,
porque eu garanto que ela iria querer transar com você a noite inteira como
agradecimento.”
“Não fale da Ruiva assim. As coisas não são assim entre nós.” O que não
quer dizer que ele não quisesse que fossem.
“Então, qual é o problema? Você está feliz com essa farsa aparentemente
platônica de vocês que está encobrindo uma montanha de tensão sexual? Ou
você está disposto a se arriscar e fazer as coisas acontecerem?”
“Nós nem sequer nos beijamos.” Ele se afastou do balcão e andou de um
lado para o outro, passando a mão pelos cabelos. “A não ser quando estava
no roteiro.”
“Mas ela não ajuda você a decorar falas?”
“Claro que sim. Mas eu sempre parei quando o texto ficava romântico. É
uma regra implícita entre nós.”
“Isso só está aumentando a sua frustração.” Gabe abriu a geladeira e pegou
uma garrafa de água. “Você não adulterou essas, não é?”
“Não.”
Gabe tomou um longo gole de água, mas a tensão em seus ombros refletia
uma mente sobrecarregada. “Por que você não ensaia uma cena com ela até o
fim?”
“Porque eu—” Gideon parou e se recostou no balcão. “Se eu tivesse visto
qualquer sinal de interesse dela, tivesse a mínima noção de que ela sente o
mesmo que eu sinto por ela, eu teria agido há muito tempo atrás.”
“E o que faz você pensar que ela não sente a mesma coisa?”
“Porque quando eu perguntei se ela queria ser mais do que minha amiga,
qualquer um pensaria que eu tinha pedido a ela para matar alguém.”
Gabe fechou o espaço entre eles. “Era repulsa? Ou medo?”
“A segunda opção.” Eu espero.
“Então, tente amolecer o coração dela de outra forma. Você já tem o
necessário para fazer isso.”
“Então, você acha que vai funcionar?”
Antes que Gabe pudesse responder, um grito estridente soou na sala ao
lado. “Aqueles desgraçados!” Mackinzie gritou.
Merda! Ele havia esquecido da Coca-Cola diet.
“Vá, Garoto.” Gabe o empurrou na direção da porta. “Vá embora antes que
ela pegue você. Eu cuido das coisas aqui. Apenas encontre uma forma de dar
o prêmio para Sarah.”
Os protestos de Mackinzie ficaram mais altos, lembrando-o da noite em
que ela havia arruinado o jantar dele com Sarah no Guy Savoy. E como
naquela noite, ele não queria acabar preso na armadilha dela quando já tinha
planos com Sarah.
Ele correu para a porta e não olhou para trás.
***
“Gideon, aí está você!”
Sarah o interceptou antes que ele conseguisse entrar no quarto para pegar o
prêmio. Ela enganchou seu braço no dele e o guiou até o quarto dela. “Eu
quero lhe mostrar algumas coisas.”
Ela estava tão entusiasmada, tão animada, tão iluminada que ele não
conseguiria negar nada a ela. Tudo o que ele podia fazer era ficar
maravilhado com o seu brilho.
“Primeiro, eu consegui reagendar o nosso jantar no Guy Savoy para a
semana que vem.”
Ele pausou e repassou sua agenda mentalmente. “Eu acho que vamos para
o deserto na semana que vem.”
“Você vai.” Claro — a Ruiva sabia o que estava na agenda de Gideon
melhor do que ele. “Mas você deve ter tempo suficiente para tomar banho e
trocar de roupa para jantar às 21h.”
Ela o empurrou para dentro do seu quarto e fechou a porta.
A pulsação dele acelerou. Ele estava sozinho com ela. No seu quarto. Seria
a oportunidade perfeita para segurá-la em seus braços e beijá-la até que
ambos caíssem na cama…
“Voilà!” A fantasia dele foi interrompida bruscamente quando ela levantou
um vestido preto.
Seu sorriso luminoso o forçou a esconder sua decepção. “É um vestido.”
Os cantos da boca dela caíram, e ela franziu a testa. “Sim, mas foi eu quem
o fez. É uma das criações da Sálvia Ruiva.”
Merda! Ele pensou desesperadamente em algo para dizer. “É... bonito.”
“Ah.” Ela baixou o vestido e se virou.
Agora, ele se sentia um canalha ainda maior. Ele segurou a mão dela. “Me
desculpe, Ruiva. Eu não sei muito sobre roupas femininas.”
“Ainda bem”, ela brincou, com um sorriso de lado, e um pouco da
preocupação dele foi tranquilizada.
“Eu aposto que ele ficaria melhor em você.” Ele a puxou para mais perto,
até que o único espaço entre eles fosse a largura das suas mãos unidas. “Que
tal você desfilar para mim?”
“Eu posso fazer mais do que isso. Por que eu não o uso esta noite, e nós
podemos sair e visitar alguns lugares turísticos?”
“Parece que você já tem planos.” Sage Holtz poderia ter agido conforme o
momento, mas a Sarah na sua frente não era conhecida pela sua
espontaneidade.
“Na verdade, eu tenho.” Um brilho malicioso surgiu nos seus olhos antes
que ela o empurrasse para fora do quarto.
Ele teria que esperar até que ela se vestisse para descobrir os seus planos
para a noite. Mas, pelo menos, isso lhe deu uma chance de correr para o seu
quarto e pegar um chapéu e o Globo de Ouro.
A caixa estava danificada, e ele passou um minuto inteiro tentando decidir
se deveria abri-la e dar a estátua a ela, ou deixá-la abrir a caixa e se
surpreender. No fim das contas, ele decidiu ficar com a segunda opção. Ele
chegou no quarto dela no momento em que ela estava abrindo a porta.
Seu queixo caiu, e ele se esqueceu completamente da caixa em sua mão.
Sarah se apoiou na soleira da porta como uma estrela clássica de
Hollywood, naquele vestido preto que acentuava cada curva e fazia seus seios
parecerem duas vezes maiores do que eram. Com o cabelo preso em um
coque simples, ela parecia uma versão mais sexy de Holly Golightly, de
Bonequinha de Luxo, mas sem as joias. Ela estava elegante, charmosa, e
mesmo assim conseguia deixá-lo salivando.
“Assim está melhor?”
“Muito.” Foi tudo o que ele conseguiu dizer, sentindo todo o sangue em seu
corpo correr para o seu pênis.
“Eu vou considerar isso uma vitória”, ela disse, com um sorriso suave,
antes de voltar ao seu quarto e pegar uma pilha de papéis grandes. “Eu estou
aperfeiçoando este design há semanas.”
Ele a seguiu e examinou os papéis. Cada folha continha o desenho de uma
variação do vestido que ela estava usando, mas ele precisou concordar que o
produto final estava muito melhor do que qualquer coisa no papel. Ele
examinou o quarto e notou outras pequenas pilhas de papel sobre a cama e no
chão. “Mais designs?”
“A-hã.” Ela colocou as folhas em sua mão na escrivaninha e andou pelo
quarto, reunindo as outras pilhas de papel, dando a ele uma ótima visão do
seu traseiro quando ela se curvava. “Eu preciso levar esse projeto de design
de moda a sério se quero ter qualquer esperança de deixar a minha vida antiga
para trás.”
O sangue dele congelou, e todos os resquícios de desejo que ele havia
sentido há poucos segundos atrás sumiram. “Deixar para trás?”
“Sim, eu—” Ela parou quando se virou. “O que houve?”
Ele lambeu os lábios, mas sua boca estava seca demais para umedecê-los.
A caixa em sua mão pareceu triplicar de peso. “Por que você quer me
deixar?”
Ela olhou para ele pelo que pareceu uma eternidade, antes de baixar seus
olhos e deixar as folhas nas suas mãos caírem no chão. “Já faz três anos,
Gideon.”
“Eu sei, mas não há pressa.” Ele deu um passo na direção dela, desejando
abraçá-la e mantê-la perto dele pelo resto dos seus dias, mas a queda dos
ombros dela o alertou para não testar a sorte. “Eu estou falando sério, Ruiva.”
Ele queria dizer mais, dizer que ela não precisava seguir em frente. Ou
deixá-lo. Ou mesmo fazer o que ela estava fazendo agora. No seu mundo
ideal, ela seria a sua esposa, não sua assistente. Ela dormiria ao seu lado todas
as noites, na sua cama, não no quarto ao lado. E se ela quisesse seguir uma
carreira na moda, poderia fazer isso porque queria, não porque achava que
precisava.
“Eu sei. E você foi mais do que paciente comigo enquanto eu organizava a
minha vida, mas eu preciso deixar o showbiz para trás e começar uma nova
carreira em outra área. Talvez assim, eu consiga me mudar do seu
apartamento, finalmente.” As palavras delas estavam cheias de frustração. Ela
suspirou e encolheu os ombros. “Mas chega disso. Eu consegui ingressos
ótimos para o Blue Man Group pela metade do preço, então é melhor nós nos
apressarmos se quisermos chegar lá antes que a cortina suba.”
Essa foi a sua maneira de mudar de assunto, e ele se perguntou se era a
melhor hora para dar o presente mais uma vez. Ela queria deixar Hollywood
para trás, e ele trazia uma prova da grandeza dela na sua mão.
Sarah apontou para a caixa. “O que é isso? Outra bola autografada?”
Ele tinha um segundo para decidir. Dar a caixa para ela agora, ou esperar
um momento mais apropriado?
Ele se acovardou. “Hum, sim.”
“Você e a sua coleção esportiva.” Ela revirou os olhos e passou por ele.
“Vamos, Garoto.”
Ele deixou a caixa na escrivaninha dela, colocou o chapéu e a seguiu para
fora do quarto.
***
Quatro horas depois, as portas do elevador se abriram e Sarah o puxou pela
mão. “Vamos, Garoto.”
Gideon esperava que a réplica da Torre Eiffel no Cassino Paris estivesse
lotada àquela hora da noite, mas havia apenas um outro casal no deck. Ele
cambaleou para fora do elevador e se juntou a Sarah no parapeito. A Strip se
alongava sob eles em toda a sua glória depravada, mas, no entanto, ela
parecia estranhamente romântica dessa altura.
Quando Sarah mencionou fazer algum turismo esta noite, ele não sabia o
que esperar. Ou pior, o que aconteceria se alguém o reconhecesse andando
pelas ruas. Mas ninguém o reconheceu. Era como se o universo tivesse se
alinhado perfeitamente para permitir que ele fosse apenas uma pessoa comum
e pudesse desfrutar de uma noite na cidade com Sarah. Eles conseguiram
entrar no show no último minuto, depois, comeram um lanche de rua rápido
e, finalmente, foram até a Torre Eiffel falsa. Durante a noite toda eles riram,
brincaram um com o outro e voltaram a ter o relacionamento tranquilo que
tinham nove meses atrás, quando eram melhores amigos.
Antes de ele sugerir que os dois se tornassem mais do que isso.
Mas, no momento em que ele ficou parado ao lado dela no parapeito, as
coisas mudaram. Melhores amigos podiam ir a um show ou comer algo na
cidade, mas este local era mais apropriado para amantes. Por que a Ruiva o
trouxe ali?
Ela olhou para o horizonte, com uma expressão vazia no rosto. A sua única
demonstração de emoção foi endireitar a postura.
Ele a imitou enquanto o vento bagunçava suas roupas. “Fale comigo,
Ruiva.”
O silêncio se alongou entre eles, fazendo-o pensar que havia encontrado
uma das barreiras impenetráveis dela que ele jamais havia conseguido
derrubar. Mas depois de alguns minutos, ela disse: “Você não gosta da ideia
de eu trabalhar com moda, não é?”
“O que a faz achar isso?”
“Eu vi o seu rosto antes de sairmos.”
Ele se inclinou sobre o parapeito e apoiou o peso do corpo no outro pé. Ele
podia ser um ótimo ator, mas Sarah o conhecia bem demais. “Eu estou
preocupado.”
“Com o quê? Com a possibilidade de eu fracassar?”
“Não, não, não.” Ele se endireitou e pressionou as mãos sobre as têmporas.
“Eu estou mais preocupado com você ser um sucesso.”
Seus lábios se abriram e ela virou a cabeça. “Gideon, eu—”
“Não, por favor, me ouça.” Ele segurou as mãos dela e a encarou. “Você é
uma mulher incrivelmente talentosa, Sarah, e eu sei que você vai transformar
esse projeto em um sucesso, e isso me assusta demais.”
“Por quê?”
Porque você vai me deixar.
Era isso que ele queria dizer. Mas seu orgulho o fez encontrar uma outra
desculpa. “Porque quando você abrir a sua loja de alta costura em Paris, não
terá mais tempo para mim.” Ele arrumou uma mecha de cabelo que se soltou
do coque dela. “Me chame de egoísta, mas eu sentiria falta da minha melhor
amiga.”
Pronto. Ele havia corrido o risco de expor seus sentimentos sem dizer que a
amava. Esta era a zona segura, um lugar onde ele podia testar coisas e ver
como ela responderia. Se ela se fechasse, ele saberia que havia passado dos
limites. Mas se ela não se fechasse…
Em vez de desviar o olhar, ela continuou encarando-o. “Eu sempre vou
estar lá quando você precisar, exatamente como você fez por mim. Mas eu
preciso fazer isso. Eu preciso ver o que consigo fazer sozinha. Eu não posso
depender de você para tudo. Eu já aceitei a sua caridade por tempo demais.”
“Não é caridade.”
Ela levantou uma sobrancelha, e ele adicionou: “Bem, talvez, no começo,
fosse. Mas depois que você se recuperou do acidente, você trabalhou duro, e
eu não podia ter pedido por uma assistente melhor.”
Nossa. Isso soa tão patético.
O rosto dela confirmou isso. “Eu estou lidando com isso do jeito errado,
não é?”, ele perguntou.
“Depende de onde você está tentando chegar.”
Hora de se arriscar mais uma vez. Ele ergueu o queixo dela, seus lábios tão
próximos dos dele que Gideon ficou tentado a traçá-los com o dedo e depois
com os lábios. “Você esteve comigo desde o início, e eu ficaria perdido sem
você.”
A expressão dela suavizou, e a certeza de algo brilhou nos seus olhos. Era
exatamente o que ele queria. Ele podia ver as suas barreiras cedendo, suas
defesas enfraquecendo, seu coração amolecendo. Ela se aproximou e ficou
tão perto que ele prendeu a respiração, caso ela o beijasse.
Mas, quando os seus lábios estavam a um único centímetro dos dele, ela se
afastou.
“Gideon.” Ela disse o nome dele como uma súplica resignada.
Se ele fosse um dos machos alfa que interpretava nos filmes, este seria o
momento em que ele tomaria o controle da situação e a beijaria. Mas,
conhecendo a Ruiva, isso só faria com que ela desse um tapa no seu rosto,
principalmente agora em que havia uma vulnerabilidade nela que ele nunca
havia visto. Ele havia derrubado algumas barreiras, e a mulher que ele
encontrou atrás delas parecia ser mais preciosa e frágil do que ele imaginava.
“Desculpe”, ele sussurrou.
“Você não precisa se desculpar.” Ela fungou e esfregou seus braços nus.
Ele tirou seu casaco e o colocou sobre os ombros dela. Um segundo depois,
ela recostou seu corpo no dele, e ele a abraçou. Ele não conseguia lembrar da
última vez em que ela o havia deixado segurá-la assim, mas Gideon não se
atrevia a estragar o momento com perguntas. Ele apenas saboreou a
proximidade, o calor, o peso da cabeça dela no seu ombro enquanto ele a
confortava.
“Eu não estou tentando deixar você. Só estou tentando ser independente.”
“Você sempre foi, Ruiva.” Ele pousou a bochecha sobre a cabeça dela e
sentiu o perfume do seu shampoo.
“Ah, o amor de juventude”, uma mulher disse atrás deles.
Sarah pulou e ele se virou para encontrar um casal idoso caminhando de
braços dados atrás deles.
O homem sorriu para a esposa e acariciou sua mão. “Me lembra um pouco
de nós dois naquela época.”
“E até hoje”, a mulher respondeu ao passar por eles, sem perceber nada ao
seu redor, a não ser o homem ao seu lado.
Quando Gideon se virou para Sarah, o rosto dela estava tão vermelho
quanto o seu cabelo. Ela olhou para ele com uma timidez inesperada e, mais
uma vez, ele teve esperança de que ela o visse como mais do que um amigo.
Ela entrelaçou seus dedos nos dele. “É melhor nós irmos antes que as pessoas
comecem a ter ideias sobre nós.”
Ela se direcionou para o elevador, mas ele a segurou. “Você está com medo
de que eles possam estar certos?”
Medo cruzou o rosto dela, seguido de algo mais que o impediu de perder
toda a esperança. Uma mistura de surpresa e confusão fez a testa dela franzir,
como se estivesse vendo Gideon pela primeira vez e tentasse descobrir como
reagir. Finalmente, a expressão dela voltou à máscara calma e serena que ele
conhecia bem. “Estou com medo de que eles reconheçam você e nós
acabemos em todos os tabloides, isso sim.”
A Ruiva de sempre estava de volta.
Dentro do elevador, ele olhou para baixo e percebeu que ela ainda estava
segurando a sua mão.
Ele podia não ter dado o Globo de Ouro recuperado a ela. Ele podia não tê-la
beijado. Mas, no fim das contas, ele podia considerar esta noite uma vitória.
Capítulo Nove
Sarah passou pela multidão reunida no cassino e mostrou o distintivo que a
produção havia dado a ela. Os seguranças abriram caminho e ela correu para
o lounge VIP, onde eles iriam filmar a cena de hoje. Por precisarem fechar
uma seção do cassino, eles haviam começado a filmar às 2h da manhã. O sol
havia acabado de nascer sobre a Strip uma hora atrás, e ela estava trazendo o
“almoço” de Gideon quando a maioria das pessoas estaria se sentando para
tomar café da manhã.
Ela esperava encontrar as câmeras ligadas ou a equipe correndo para
preparar a próxima cena, mas o set parecia vazio. A estranheza da situação a
incomodou. Ela encontrou Gideon sentado em uma cadeira ao lado de Gabe e
correu até eles. “O que aconteceu?”
“Ainda estamos esperando pela Mackinzie.” Gideon pegou a salada das
mãos dela, mas não começou a devorá-la como fazia normalmente. “Ela
simplesmente não apareceu.”
“Ela sabia do horário de gravação?”
“Sim.” Gabe cruzou os braços e se recostou na cadeira. “Eu mesmo a
lembrei várias vezes ontem à noite.”
Havia algo no sorriso dele que indicava que Gabe sabia mais sobre a atriz
desaparecida do que estava disposto a dizer, mas, francamente, isso não era
algo que Sarah estava interessada em investigar. As poucas vezes em que ela
tinha visto Mackinzie “tentar” atuar a afetaram como unhas raspando em um
quadro negro. E apesar de Gideon ser profissional demais para reclamar, ele
havia ido para casa mais frustrado do que o normal desde o início das
gravações.
Ela colocou a mão dentro da bolsa e tirou uma garrafa de chá de kombucha
gelado para Gideon. “Então, o que vocês fizeram nesse meio tempo?”
“Repassamos falas, decidimos o que podemos fazer em algumas outras
cenas, conversamos sobre beisebol.” Gideon pegou a garrafa de chá, mas não
a abriu, exatamente como fez com o almoço. “Estamos relaxando.”
“É bom ver que vocês dois não estão mais brigando.” Durante a semana
anterior, a rivalidade entre os dois atores havia desaparecido visivelmente,
assim como as cantadas de Gabe, para o alívio dela.
Gabe lançou um olhar de lado para Gideon, e seu sorriso se alargou. “Você
pode dizer que nós chegamos a um acordo.”
Gideon revirou os olhos. “Sim, principalmente depois que você colocou
molho picante na minha cerveja.”
“Considere isso a sua iniciação, Garoto.” Gabe desviou a sua atenção para
ela. “Quais são os seus planos para hoje, Sarah?”
“Nada demais”, ela respondeu, com um encolher de ombros. Claro, nada
poderia estar mais longe da verdade. Ela precisava responder e-mails e
ligações para Gideon, principalmente aqueles que diziam respeito ao artigo
na Pomp and Celebrity. Depois disso, ela tinha algumas ideias de design nas
quais queria trabalhar, mas ela duvidava que Gabe quisesse ouvir sobre isso.
“Se você tiver um minuto, por que não ajuda o Gideon com esta cena?” Ele
se inclinou para frente, descansando os cotovelos nos braços da cadeira e com
as mãos entrelaçadas. “Assim, quando a Mackinzie finalmente decidir nos
agraciar com sua presença, ele terá tudo decorado e pronto para filmar.”
Ela olhou para o set com uma mistura de medo e ansiedade. Seria divertido
desaparecer em um personagem por alguns minutos, tempo adequado para
satisfazer a vontade de atuar pela última vez. “Qual é a cena?”
“Quando Colton beija Rae pela primeira vez.” Gideon deu a ela algumas
páginas do seu roteiro. “A cena deveria levar literalmente três minutos, mas
como a Mackinzie não está aqui…”
Sarah abafou uma risada. A atriz devia estar desmaiada de tanto beber em
algum canto. Claro que ela não tinha nenhum direito de criticar. Ela também
havia estado na mesma situação. Em vez de criticar, ela pegou as páginas do
roteiro e as leu algumas vezes para decorar as falas. “Ok, me diga o que o
Karl quer para esta cena.”
Gideon a pegou pela mão e a guiou pelo set. “Eu acho que ele queria que
Mackinzie começasse aqui, na mesa do 21. De acordo com as instruções dele,
ela vê Colt a observando e se aproxima dele.”
“Ok, pode deixar comigo.” Ela fechou os olhos e agitou o corpo para
aliviar a tensão enquanto se permitia entrar no personagem.
Ela havia lido o suficiente do roteiro para ter uma boa noção de quem era
Rae. A amante do traficante era um personagem complexo, que ela adoraria
ter interpretado se ainda estivesse atuando. Na superfície, ela parecia ser mais
do que uma vadia interesseira, que era o mais longe que Mackinzie levaria a
personagem. Mas, por trás disso, existia uma mulher que se sentia presa na
situação em que se encontrava, uma mulher que havia saído do nada e
chegado à uma vida de conforto. E, no entanto, ela era uma mulher que
estava disposta a arriscar tudo o que tinha, devido ao seu senso de moralidade
e o seu relacionamento crescente com Colt. Ela era um coringa, uma agente
dupla, uma personagem impiedosa, porém trágica, que apostou e perdeu tudo.
Quando Sarah abriu os olhos novamente, ela viu o mundo pelos olhos de
Rae. Sua postura mudou para enfatizar suas curvas. Sua cabeça se inclinou
em um ângulo sedutor que combinava com os olhares que ela estava
lançando para o personagem de Gideon.
Ela o encarou e, naquele momento, o set desapareceu. Não existia mais
Sarah e Gideon. Na mente dela, havia apenas Rae e Colt. Ela se aproximou
dele lentamente, mexendo os quadris com cada passo, e disse a primeira fala
do roteiro. “‘Viu algo interessante?’”
“‘Talvez’”, ele respondeu, sua voz grave e tensa.
Ela enrolou a gravata dele ao redor do dedo, aproximando-se dele. “‘É
melhor você tomar cuidado. Se continuar olhando para mim desse jeito, nós
podemos nos encrencar.’”
“‘Depende da sua definição de encrenca.’” O corpo dele ficou rijo, até que
quase parecesse um soldado em posição de sentido, mas seus olhos
queimavam de desejo.
Em algum lugar na mente dela, Sarah queria aplaudi-lo pela sua
performance. Colt era um agente encarregado de se infiltrar no cartel. Seu
plano era seduzir Rae para obter mais informações, sem imaginar que ele
acabaria se apaixonando pela amante do traficante. A dificuldade em manter
o controle podia ser vista nas linhas de tensão do rosto dele.
Sarah permaneceu no personagem e pressionou seu corpo contra o dele,
ainda segurando sua gravata como uma coleira. Rae sabia que Colt estava
enfeitiçado por ela, e ela estava determinada a subjugá-lo. Seus lábios
estavam a poucos centímetros dos dele, provocando, tentando, testando-o.
“‘Você sabe o que dizem sobre brincar com fogo. Você vai acabar se
queimando.’”
“‘Mas, ah, que forma de se queimar.’” Ele colocou o braço ao redor da
cintura dela e a beijou.
Ela sabia que, de acordo com o roteiro, eles deveriam se beijar, mas Gideon
sempre parava no momento do beijo quando eles repassavam falas. Por essa
razão, o beijo a assustou inicialmente. No entanto, depois que o choque
inicial passou, uma onda quente de prazer se espalhou de onde ele a tocou.
Um alerta distante soou em um canto longínquo da sua mente, mas ela
estava ocupada demais desfrutando da sensação de beijar Gideon para dar
ouvidos a ele. Durante meses, ela havia lutado para ser responsável, se
manter no controle, ignorar os desejos secretos do seu coração, com medo de
voltar ao caos. Ela quase cedeu na outra noite, no topo da Torre Eiffel.
Talvez, ela tivesse cedido se o casal idoso não tivesse interrompido o
momento. Mas ela havia se comportado por tempo demais. Agora, tudo o que
ela queria era ser imprudente.
Ela soltou a gravata e colocou seu braço em torno do pescoço dele,
entrelaçando os dedos nos cabelos dele. Gideon interpretou as ações dela
como uma permissão para aprofundar o beijo, e a pulsação dela acelerou. O
desejo fluía em suas veias no mesmo ritmo lânguido dos lábios e língua dele
e, antes que pudesse se controlar, ela estava retornando o beijo.
Ela já havia beijado Gideon antes em um papel. Afinal, o primeiro papel de
destaque dele foi como seu namorado na TV. Naquela época, ela precisava se
controlar para não cair na risada durante as cenas de beijo, porque a situação
era bastante desconfortável. Mas, desta vez, era diferente. Este beijo era puro
prazer. Ele havia despertado os sentidos dela como nenhum beijo tinha feito
antes. Ela sentiu a leve doçura da maçã na língua dele. Ela inspirou o seu
perfume familiar com cada respiração. Ela saboreou a pressão da mão dele
em suas costas e as batidas firmes do seu coração vibrando em seu peito. Ela
ficou cada vez mais ciente dele com cada movimento da sua língua, dos seus
lábios, até que ela não conseguiu mais negar a sua atração por ele.
Ela queria Gideon Kelly. De preferência, na sua cama.
O que, obviamente, estragaria tudo.
Mas isso não a impediu de desfrutar do momento. Ela não fez nenhum
esforço para terminar o beijo até que alguém assobiou alto e começou a
aplaudir.
A realidade a atropelou com a força de um ônibus, e ela se afastou com um
suspiro. Sua visão estava embaçada, mas isso não a impediu de empurrá-lo e
cambalear para trás. Sua respiração ficou rápida e curta, como se ela tivesse
acabado de terminar uma sessão de corrida na esteira. Mais aplausos
encheram o set e, quando a sua visão voltou ao normal, ela percebeu que
Gabe e vários membros da equipe estavam aplaudindo.
O constrangimento se transformou rapidamente em pânico. Isso não podia
estar acontecendo. Seu coração batia em seus ouvidos, e seu rosto queimava
enquanto ela olhava ao seu redor. Todo mundo estava a observando. Todos a
viram beijar Gideon.
Ela voltou para a pessoa que havia começado tudo aquilo. Gideon esticou a
mão para ela. “Ruiva?”
Ela tentou falar, mas sua garganta se apertou. Meu Deus, ela só queria
respirar, mas, quanto mais ele se aproximava dela, mais difícil era inspirar o
ar que lhe mantinha viva. Ela precisava se afastar dele. Seus olhos ardiam
com lágrimas. Ela continuou andando para trás até colidir com um dos
membros da equipe técnica. Isso foi o suficiente para tirá-la do seu ataque de
pânico. Ela se virou e correu para a porta.
***
“Ruiva!” Gideon fez menção de correr atrás de Sarah, mas Karl bloqueou o
seu caminho e segurou seu braço.
“Quem era aquela?”, o diretor perguntou.
Ele tentou se soltar, mas, quando conseguiu se livrar de Karl, Sarah já
havia sumido.
Merda!
“Me responda, Kelly.”
A derrota o abalou. Ele a beijou. Ele havia se arriscado e a beijado. E ela
estava retornando o beijo até o assobio de alguém estragar tudo. Mas aqueles
poucos momentos preciosos…
Foi o mais próximo do paraíso que ele já havia chegado.
Ele respirou algumas vezes e esperou que o seu coração parasse de pular.
“Ela é minha assistente.”
“Mentira.” Karl o encarou e colocou o dedo no peito de Gideon. “Se é para
ter outra atriz perturbando o meu set—”
“Ela não é atriz.” A mentira o desestabilizou. Qualquer um que estivesse os
observando teria visto o talento da Ruiva. “Pelo menos, não é mais. Ela é
apenas a minha assistente.”
“O que você está tentando fazer?”
“Nada, Karl. Ela só estava me ajudando a definir a cena para que, quando a
Mackinzie aparecer, eu esteja pronto.”
Ele repassou os eventos recentes na sua mente. Ele deveria ter parado como
havia feito no passado, mas, quando ela pressionou seu corpo contra o dele e
o encarou com aquele olhar sedutor, todo o bom senso saiu pela janela. Era a
sua chance de fazer o que desejava fazer fora do set, beijá-la e ver se ela
sentia a mesma faísca de atração. Ele nunca esperou que a faísca se
transformasse em um incêndio florestal.
Talvez, houvesse alguma verdade naquele roteiro. Ele havia brincado com
fogo, e agora estava se queimando.
Karl deu um passo para trás, mas seu rosto manteve uma expressão de
desconfiança. “Ela é boa.”
“Eu sei. Por que você acha que eu pedi a ela para me ajudar?”
“Não, eu estou dizendo que ela é boa o suficiente para trabalhar no set, não
trazendo o seu café. Quem é ela?”
Gideon respirou profundamente e deu um aviso silencioso a Gabe para não
revelar a identidade dela. Pelo que ele sabia, eles eram os únicos que
conheciam o passado de Sarah.
O sorriso pretensioso do seu colega de cena levantou mais perguntas do
que respostas. Depois de encontrar a Ruiva e se desculpar, ele precisava ter
uma conversinha com Gabe.
Ele voltou a atenção para Karl. “Ouça, eu conheço a Sarah há anos, e quero
respeitar a privacidade dela.”
“Tarde demais para isso. A equipe inteira e todo mundo lá fora viram a sua
pequena cena.” Ele apontou para a multidão de observadores parados atrás
dos seguranças. “Se você quer respeitar a privacidade de uma garota, beije-a
entre quatro paredes.”
O peito dele se apertou. Eu teria feito isso se tivesse a chance. Ou a
coragem.
“Mais uma vez, Kelly. Quem é ela?”
Ele se lembrou de como ela pareceu ganhar vida quando entrou no
personagem, como se pareceu mais com a atriz carismática que ela era
quando ele a conheceu. Nos últimos três anos, ela havia escondido sua
paixão, seu brilho, mas, quando entrou em um set, ela brilhou como a estrela
que era. Era isso que ela havia nascido para fazer. Ele só esperava que ela o
perdoasse no fim de tudo isso. “Sage Holtz.”
Os olhos de Karl se arregalaram, e ele respirou fundo. “Você está
brincando.”
“Você a viu. E a não ser que eu a alcance, existe uma boa chance de que ela
pegue o próximo avião de volta para Los Angeles.”
Ele tentou passar pelo diretor mas, mais uma vez, Karl o impediu. “Sério?
Ela é a Sage Holtz?”
“Ela era Sage Holtz. Agora, ela é apenas a minha assistente.” As palavras
doeram ao sair da boca dele. Droga, por que ele não tinha pensado nisso
antes? Por que ele não havia ajudado Sarah a reconquistar a sua carreira?
Mas, no fundo, ele sabia a resposta. Se Sarah superasse o seu medo de atuar,
ela o deixaria.
O sentimento de culpa o derrotou. “Ouça, Karl, por favor, não conte a
ninguém. Ela se tornou uma pessoa muito reservada e, se isso se tornasse
público, as consequências poderiam ser ruins para ela.”
“Sim, claro”, o diretor respondeu, parecendo estar pensando em outra
coisa.
O estômago de Gideon se apertou. Ele estava tão ansioso para beijar Sarah,
que não pensou em consequências como esta. “Me ligue se a Mackinzie
aparecer. Eu preciso encontrar Sarah e pedir desculpas.”
“Sim, claro”, Karl repetiu da mesma forma distraída.
“Eu vou mantê-lo longe de encrenca.” Gabe surgiu ao lado dele com um
boné dos Yankees e um par de óculos de sol. “Use isso, Garoto.”
“Não me chame assim.” Mas ele enfiou o boné na cabeça. “E eu odeio os
Yankees.”
“Por que você acha que eu escolhi esse boné?” Gabe riu e colocou os
óculos de sol. Graças a todos os jogadores de pôquer que os usavam, eles
podiam andar pelo cassino sem chamar muita atenção. “Onde podemos
começar?”
“Na minha vila.”
A segurança do cassino ajudou a deter qualquer pessoa que quisesse segui-
los e, quando chegaram do lado de fora, Gideon assumiu a sua nova
anonimidade. Mesmo com a maquiagem de cena, ele não se destacava muito
em Vegas. “Isso costuma funcionar com você?”
“Por que você acha que eu sempre tenho alguns na minha mochila? Em
LA, todo mundo quer ser visto, mas, em Nova York, nós gostamos de ser
discretos de vez em quando e desfrutar da cidade sem sermos perseguidos
pelos paparazzis.”
“Eu estou vendo alguns bonés do White Sox no meu futuro.” Ele esperou
até que eles entrassem no Caesar’s antes de perguntar: “Tudo isso era parte
do seu plano?”
“Claro. Me desculpe pela demora para me livrar de Mackinzie. Aquela
mulher é mais burra do que eu tinha pensado.”
As portas do elevador se abriram, mas Gideon não entrou imediatamente.
“Espere aí. Você fez alguma coisa com a Mackinzie?”
Gabe riu e entrou no elevador.
Gideon o seguiu e, quando as portas se fecharam, Gabe disse: “A
Mackinzie ainda deve estar a caminho de Roma.”
“O quê?”
“Você sabe que a minha família tem conexões importantes.” Gabe se
apoiou nos calcanhares, parecendo estar muito orgulhoso de si mesmo. “Eu a
apresentei a um príncipe italiano que eu conheço. Ele tem o dobro da idade
dela e não tem muito mais do que o título, mas Mackinzie não pôde resistir à
chance de se tornar uma princesa. Eu sugeri que ela fosse passar alguns dias
em Roma com ele.”
“Por quê?”
“Porque nós precisávamos nos livrar dela para que Sarah assumisse o seu
lugar. Além disso, ela ficou muito feliz em se livrar de nós.” O elevador abriu
no andar de Gideon e Gabe saiu, deixando mais perguntas sem resposta para
trás.
Perguntas que podiam esperar até que eles encontrassem a Ruiva. Gideon
abriu a porta e chamou por ela.
Jason saiu da cozinha. “Nós não a vimos desde que ela foi ao set levar o
seu almoço.”
Gideon xingou em silêncio. Se Sarah não estava aqui, onde diabos ela
poderia estar? Ele abriu a porta do quarto dela e encontrou todas as suas
coisas ali. Desenhos de várias roupas cobriam sua cama arrumada.
Gabe pegou um deles. “Nada mal.”
“Eu sei. É nisso que ela vem trabalhando.” Ele examinou os desenhos e
ficou ainda mais preocupado. Sarah tinha talento. Os designs seriam um
sucesso quando ela os produzisse. E então ela iria embora.
Mas, embaixo dos desenhos na escrivaninha, exatamente onde ele havia
deixado, estava a caixa fechada com o Globo de Ouro dela. O peito dele se
apertou ao vê-lo, e ele lembrou que ainda tinha uma carta para jogar. “Bem,
pelo menos temos uma boa notícia. Ela não está indo para o aeroporto.”
“Como você sabe disso?”
“Porque ela não deixaria tudo isso para trás. Ela trabalhou muito duro nos
designs.”
Gabe colocou os desenhos de volta na cama. “Então, onde ela está,
Sherlock?”
Não havia nada de elementar no cérebro de uma mulher, principalmente
quando ela estava em um estado irracional e emocional. Sarah estava
morrendo de medo. Ele havia visto o terror nos seus olhos quando ela
percebeu o que havia acontecido. Mas ele a conhecia melhor do que qualquer
pessoa e, se alguém conseguisse encontrá-la, esse alguém seria ele.
Ele ligou para o número dela, mas a chamada caiu na caixa de mensagens.
“Ruiva, me ligue quando puder. Me diga se você está bem.”
Isso era tudo que ele se sentia confortável para dizer na frente de outras
pessoas. Quando estivesse sozinho com ela, ele não pensaria duas vezes antes
de implorar pelo seu perdão.
E, no entanto, ele não estava arrependido. Não de verdade. Ele queria beijá-
la. Ele gostou de beijá-la. E ele amou a forma como ela retornou o beijo. Se
tivesse a oportunidade, ele a beijaria de novo. A única parte ruim da situação
foi ela ter fugido dele depois.
Ele fechou os olhos e se colocou no lugar da Ruiva. Ela estava
transtornada. Ela estava com medo. Ela estaria procurando por algo para
acalmá-la. Ela iria querer as suas “bolinhas de sol.”
Ele correu para a porta. “Eu sei onde ela pode ter ido.”
“Onde?” Gabe correu ao lado dele e conseguiu entrar no elevador antes que
a porta se fechasse.
“No M&Ms World.”
“O quê?”
“Confie em mim. Quando a Ruiva está nervosa, ela come M&Ms
amarelos.”
“Só os amarelos?”
Gideon confirmou. “É uma das manias dela, e eu aposto 100 dólares que
ela foi lá para comprar mais.”
“Apostado.”
Como esperado, quando eles chegaram lá, a atendente confirmou que uma
mulher com cabelos ruivos havia acabado de sair de lá com meio quilo de
M&Ms amarelos. Gideon arqueou a sobrancelha e lançou um olhar que dizia
“eu te disse” para Gabe.
Seu colega de cena resmungou e tirou uma nota da carteira. “Então, ela
estava aqui, mas para onde ela foi?”
O telefone de Gideon vibrou, e uma mensagem de texto de Jason apareceu
na tela.
Ela voltou, chefe.
Gideon levantou o aparelho para mostrá-la a Gabe. “Parece que nós fomos
em direções opostas.”
“Bom. Agora, vamos pensar em um plano antes de voltar. Afinal, eu não
contratei um jatinho particular para levar Mackinzie para Londres por nada.
Você tem uma chance de conquistá-la, Garoto, não estrague tudo.”
Uma nova determinação tomou conta dele. Até aquele ponto, ele havia
aceitado ser apenas amigo de Sarah, mas aquele beijo tinha mudado as coisas.
Ele sabia o que queria, e não desistiria desta vez. “Pode contar com isso.”
***
Sarah colocou outro M&M amarelo na boca e puxou os joelhos até o peito.
Ela não havia saído desta posição ao lado da porta desde que voltou da loja,
horas atrás. Jason e Raul haviam batido na sua porta e perguntado se ela
estava bem, mas nenhum sinal de Gideon.
Ela pegou outro lenço e assoou o nariz. Ele estava tão vermelho quanto
seus olhos. Felizmente, ela havia conseguido permanecer no controle até estar
segura atrás de uma porta fechada. Foi a única coisa que a vida sob os
holofotes havia ensinado a ela: Nunca pareça vulnerável na frente dos outros.
E vulnerável era a única palavra que ela conseguia usar para descrever seus
sentimentos. Nas suas reuniões do AA, eles a avisaram que tomar uma bebida
poderia ser o início de uma volta ao vício. Ela havia tratado Gideon da
mesma forma que tratava o álcool, porque sabia que, quando sentisse o sabor
dele, ela correria o risco de perder o controle. E foi exatamente isso que
aconteceu naquela manhã. Se alguém não tivesse lembrado os dois de que
estavam sendo assistidos, ela teria corrido o risco de fazer muito, muito mais
do que apenas beijá-lo.
O rosto dela ardeu com a ideia, mas isso não impediu a sua imaginação de
continuar se perguntando “e se”. E se ele a tivesse beijado aqui na vila em
vez de no set? Eles estariam enrolados nos lençóis da cama dele agora? Ela
teria gritado “eu te amo” enquanto ele fazia amor com ela?
Sua respiração acelerou e uma nova forma de dor se formou no centro do
seu peito. Ela sabia que o amava. Ela o amava há anos, mas apenas como
amigo. Mas agora, ela estava começando a se perguntar se o amava de outras
formas também. E se amasse, ela conseguiria deixá-lo quando precisasse?
Afinal, Gideon era um homem incrível que merecia alguém melhor do que
ela. Alguém que não fosse frágil e não tivesse a cabeça cheia de problemas.
Alguém que não viesse com pais igualmente problemáticos e toneladas de
bagagem emocional. Alguém que não tivesse medo de ficar ao lado dele.
Uma nova onda de lágrimas se formou em seus olhos e escorreram pelo seu
rosto. Talvez fosse a hora de ir antes que as coisas ficassem mais
complicadas do que já estavam. Ela podia voltar para Los Angeles, encontrar
um novo apartamento, pegar suas coisas e se mudar, tudo antes que ele
terminasse as gravações. Seria uma separação rápida. E talvez, se ele a
perdoasse, eles pudessem voltar a ser amigos.
Ela fechou o pacote de M&Ms amarelos e se levantou. Seria mais fácil
fugir antes que voltasse para a vila. Ela pegou sua mala e começou a colocar
suas coisas nela.
Ela conseguiu arrumar metade das suas coisas na mala quando alguém
bateu na porta.
“Abra, Ruiva. Nós precisamos conversar.”
Ela congelou, segurando um dos seus vestidos. Seu coração saltou, fazendo
seu corpo inteiro tremer até que ela não pudesse mais confiar nos seus joelhos
para se manter em pé. Ela não estava pronta para encará-lo.
A maçaneta da porta virou, mas ela ainda estava trancada.
“Droga, Ruiva!” Uma batida sacudiu a porta, e ela pulou de susto.
Sarah jogou seu vestido na mala e correu para pegar o resto das suas coisas.
Ela desistiu de dobrar as roupas, bastava passá-las quando ela chegasse em
LA.
Alguns cliques soaram do outro lado da porta e, por um breve momento,
ela esperou que ele tivesse desistido e ido embora. Então, a porta se abriu
rapidamente, revelando-o parado ali com uma chave de fenda na mão.
“Obrigado”, ele disse, devolvendo a ferramenta para Jason. Então, ele
entrou no quarto dela, fechou a porta atrás dele e parou a alguns metros de
distância dela com os braços cruzados e um olhar de pura determinação no
rosto.
Sarah tentou forçar seu corpo a se mover, mas seus músculos
permaneceram paralisados. E o que era pior, ela não conseguia desviar o
olhar dele. O Gideon que ela conhecia era calmo e descontraído, mas o
homem na sua frente a assustava e a excitava. Ele parecia forte, confiante e
completamente persistente.
E isso a fez desejá-lo ainda mais.
“Então, vamos conversar”, ele disse em uma voz calma e suave.
O tom foi o suficiente para quebrar o feitiço que ele havia colocado nela.
Ela jogou uma pilha de roupas na mala e voltou para a gaveta para pegar sua
lingerie. “Não há nada para dizer.”
“Não me venha com essa.” Ele agarrou o braço dela e jogou suas roupas de
baixo de volta na gaveta. “Alguma coisa a perturbou muito para fazê-la
querer arrumar suas coisas e ir embora, e eu não vou soltar você até ter uma
chance para consertar as coisas.”
“Você passou dos limites.” A resposta dela foi tão seca quanto o deserto, e
as lágrimas ameaçaram cair novamente. “Por que você fez isso?”
“Estava no roteiro.”
“Então, foi só atuação?” Ela soltou o braço das mãos dele e pegou sua
lingerie novamente. “Engraçado, você nunca seguiu essas instruções
específicas antes quando eu o ajudei a ensaiar.”
Ele esperou até que ela colocasse suas calcinhas na mala antes de
responder. “O que você quer que eu diga, Ruiva? Que sinto muito? Porque eu
não sinto.”
Ela precisou de cada gota de resistência para não desabar ali mesmo. Até a
sua voz ameaçou revelar seus sentimentos. “Mas você sabia como eu me
sentia a esse respeito. Você sabia.”
“Sim, mas eu também sei como eu me sinto.”
“O que me dá mais uma razão para ir embora.” Ela esticou o braço
embaixo da cama para pegar seus sapatos, mas Gideon a levantou e a segurou
nos braços.
O beijo que se seguiu era totalmente diferente do outro, mas causou o
mesmo efeito nela. Ele era agressivo, apaixonado, descontrolado e, no
entanto, ela se viu completamente enfeitiçada por ele. Ela o acompanhou,
toque por toque, mordida por mordida, até que os dois estivessem em uma
batalha por domínio. O desejo que ela sentiu havia se transformado em puro
tesão, e ela fantasiou secretamente com ele arrancando as suas roupas e a
devorando.
Pena que Gideon era comportado demais para fazer isso. As roupas dela
permaneceram no lugar, e ele conseguiu terminar o beijo antes que eles
terminassem na cama. Mas ele não a soltou. Ele a manteve em seus braços,
com o corpo pressionado contra o dela, enquanto ambos lutavam para
recuperar o fôlego. O olhar dele pareceu derrubar todas as defesas dela e ver
a confusão em sua alma.
“Se você não sentiu absolutamente nada, se este beijo não deixou você
querendo mais, se você nunca ficou acordada à noite, sozinha na cama, e se
perguntou como seria se eu estivesse deitado ao seu lado, então, vá embora.
Mas se você sentiu pelo menos uma fração do que eu sinto por você, por
favor, não fuja do que poderia ser algo incrível entre nós” Ele beijou os lábios
dela suavemente antes de soltá-la. “Por favor, Ruiva, dê uma chance para
nós.”
A fúria sustentou o silêncio absoluto dela até que ele saísse do quarto. Ela
se recusava a deixá-lo saber o quanto estava certo. Se ele soubesse, Gideon
nunca desistiria até que ela se rendesse a ele. E ela não podia fazer isso, não
com ele. Ela teria que ser forte e resisti-lo para não estragar a vida dele, como
havia feito com a dela.
No entanto, no segundo em que a porta fechou, ela desabou na cama. Por
mais que a sua mente dissesse que ela deveria ir embora, seu coração queria
ficar, mesmo que apenas para sentir o amor que ele a oferecia.
Claro, isso acabaria partindo o coração dela no processo.
Com o passar das horas, ela se dividiu entre ir e ficar. Ela se levantava para
colocar mais algumas coisas na mala e parava para lembrar o quanto havia
gostado do beijo. Ela xingava a si mesma por ser covarde, mas, dez minutos
depois, voltava a fazer a mala.
Era quase meia-noite quando ela descobriu a caixa na escrivaninha. Era a
caixa que Gideon havia deixado em seu quarto alguns dias atrás.
O idiota não consegue nem abrir suas encomendas, mesmo quando se trata
de uma bola de futebol americano estúpida.
O endereço do remetente era da casa dele em Pacific Palisades, mas, ao
olhar mais de perto, ela viu outra etiqueta embaixo da primeira.
A loja de memorabilia em Miami.
Dezenas de perguntas ocuparam a sua mente enquanto ela examinava a
caixa. Ela havia dado o palpite sobre a bola de futebol, mas a caixa parecia
pesada demais. E mesmo que fosse uma bola, por que ele pediria que ela
fosse enviada para Las Vegas? E o mais importante, por que ele teria deixado
a caixa no quarto dela e não voltado para pegá-la?
A curiosidade a dominou, e ela pegou uma tesoura para cortar a fita. Ela já
havia aberto as correspondências dele antes. Afinal, ela era a assistente dele.
Pelo menos, até que ela entregasse sua carta de demissão a ele em Los
Angeles.
Camadas de papel-bolha protegiam o objeto dentro da caixa, mas, ao retirá-
las, sua garganta começou a se apertar. Ela reconheceu a esfera dourada na
parte de cima. Anos atrás, ela havia beijado um globo parecido depois de
ganhar o prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante. Mas aquele prêmio havia
desaparecido anos atrás, em uma noite da qual ela mal conseguia lembrar.
Sua respiração acelerou quando a última camada de papel-bolha caiu no
chão, revelando o nome na placa.
O nome dela.
O olhar de Sarah ficou embaçado, até que ela não conseguisse mais ver as
letras, apenas seu próprio reflexo no metal brilhante. Quase quatro anos
haviam se passado desde a última vez que ela segurou o seu Globo de Ouro
nas mãos, mas, graças a Gideon, ela estava o segurando novamente.
Não havia como segurar as lágrimas agora. Ela abraçou seu prêmio perdido
e deixou as lágrimas caírem. Mas, desta vez, elas não refletiam medo, ou
tristeza, ou frustração. Ela chorou como havia chorado na noite em que
ganhou o prêmio — de pura alegria.
Diferente dos beijos, isso não era algo espontâneo. Isso era algo que ele
havia planejado por meses. Algo que demonstrava amor, compromisso e
dedicação. Ele poderia ter feito um espetáculo para dar o presente a ela, mas,
em vez disso, ele havia deixado a caixa no seu quarto para que ela o
encontrasse. A humildade do seu gesto fez o coração dela desejá-lo ainda
mais, mas de uma forma diferente da que ela sentiu ao beijá-lo. Isso era mais
do que pura atração sexual.
Só Gideon Kelly conseguiria deixá-la furiosa e fazê-la se apaixonar por ele
na mesma noite.
Quando suas lágrimas secaram, ela finalmente sabia o que precisava fazer.
Ele queria que ela lhe desse uma chance de transformar a amizade deles em
algo mais. E, agora, ela precisava de coragem para aceitar a oferta dele. Nada
de fugir. Nada de evitar o assunto. Quando ele chegasse do set amanhã à
noite, ela o encararia — talvez até o beijaria — e veria o rumo que as coisas
tomariam.
Mas, primeiro, ela voltaria ao conforto da sua rotina normal e faria o
smoothie matinal dele antes de ir para a cama.
Capítulo Dez
Gideon bateu no rádio-relógio para silenciá-lo e esfregou o sono dos olhos.
Três da manhã era terrível. Principalmente quando ele precisava beber para
dormir.
Principalmente quando ele estava sozinho na cama e desejava uma certa
ruiva.
Mas sempre que pensava nos beijos, ele não conseguia se arrepender deles.
Nem de toda a sua excitação. Porque, em ambas as vezes, ela tinha retornado
o beijo.
Agora, vinha a parte difícil — convencê-la de que eles tinham sido feitos
um para o outro. Ele repassou todos os passos do plano de Gabe, mas não
conseguia deixar de suspeitar de que haviam alguns detalhes cruciais que o
seu colega de cena estava escondendo dele. No entanto, tudo havia
funcionado a seu favor até agora. Ele finalmente tinha beijado Sarah e ela
havia respondido. Ele só esperava que ela tivesse permanecido no quarto
durante a noite e não tivesse fugido para o aeroporto assim que ele foi para a
cama.
Ele se arrastou para fora da cama e desejou ter uma sessão de ioga com ela
marcada para esta manhã. Em vez disso, ele se obrigou a fazer alguns
alongamentos e vestiu algumas roupas no escuro. A esta hora da noite, ele
não se importava com o visual. E ele duvidava que filmaria as cenas com
Mackinzie marcadas para hoje, já que ela ainda estava em Londres e não
fazia a mínima ideia de que tinha sido enganada por Gabe.
Claro, o diretor e o resto da equipe não faziam a mínima ideia de onde ela
estava. Para eles, ela tinha simplesmente abandonado o filme, o que podia ser
uma bênção. Gideon podia indicar pelo menos uma dezena de atrizes que
fariam uma Rae melhor do que a dela.
Mas a performance de Sarah ontem... Tinha sido tão boa, que ele ficou
arrepiado. Se houvesse a mínima chance de convencê-la a voltar às telas, ele
imploraria para que ela assumisse o papel.
Ele foi até a cozinha e abriu a geladeira. Exatamente como nas manhãs
anteriores, havia um smoothie ali, pronto para ele. Ele o pegou e encontrou
Raul. “A Sarah preparou isto?”
“Sim, ela apareceu por volta da meia-noite e o preparou para você”, o
guarda-costas respondeu, sem tirar os olhos da tela do computador.
“Onde ela está agora?”
“No quarto dela.” Ele gesticulou para que Gideon se aproximasse. “Você
precisa dar uma olhada nisto aqui, chefe.”
Gideon foi até ele para ver do que ele estava falando. Seu estômago se
encheu de nós quando ele viu a tela. Lá, postado no YouTube, estava um
vídeo escuro e amador dele e Sarah se beijando no set no dia anterior.
“Foi por isso que a Sarah ficou toda loca ontem?” Raul perguntou.
“Sim.” O vídeo terminou quando as palmas começaram, então, ele não
precisou ver Sarah fugir aterrorizada novamente. Seja quem fosse a pessoa
que enviou o vídeo, ele ou ela foi bastante gentil para parar de filmar ou
excluir aquela parte. “De onde veio isso?”
“Parece que foi filmado no celular de alguém.” Ele pressionou algumas
teclas do teclado. “Foi postado por alguém com o nome de usuário
‘FãDosYankees1718’, e parece que ele não postou nenhum outro vídeo.”
Gideon apertou os lábios. Não era preciso ser um detetive para reconhecer
o trabalho de Gabe.
“E aqui está a pior parte, chefe.” Raul abriu uma tela de pesquisa e digitou
“Gideon Kelly e mulher misteriosa.” Vinte ocorrências apareceram na
primeira página. “Os sites de fofocas já estão sabendo.”
A cabeça de Gideon estava começando a doer devido a força com que ele
estava apertando os dentes. Ele não fazia ideia de por que Gabe havia postado
o vídeo, mas ele já estava causando muitos problemas. “Não conte para a
Ruiva.”
“Não vou contar, chefe, mas eu tenho que dizer — ela é boa.”
“Eu sei disso.” Ele assumiu o controle do mouse e clicou em um dos sites
para ler a história que haviam inventado sobre o vídeo. “Todos eles dizem
que ela é minha namorada secreta?”
“Alguns. Outros dizem que ela estava fazendo um teste para assumir o
papel de Mackinzie Donavan, já que ela foi vista em Roma ontem. Nenhum
deles sabe o nome dela.” Ele pausou e voltou para a sua cadeira. “Ainda. É só
uma questão de tempo.”
“Eu sei. E se ela descobrir, o que aconteceu ontem vai parecer um passeio
no parque.” Ele passou os dedos pelo cabelo. “Se algum deles a identificar,
me avise.”
“Sem problemas.” Raul desligou o monitor e pegou suas coisas. “Pronto
para ir para o set?”
“Claro.” Parte dele se sentia um pouco tolo sendo escoltado por um guarda-
costas, mas, a esta hora da manhã, a Strip estava cheia de bêbados prontos
para causarem problemas. Raul era um incentivo grande o bastante para
impedi-los de se aproximar.
Quando chegaram na parte do cassino que havia sido reservada para a
gravação, ele abordou Gabe imediatamente. “O que você estava pensando,
postando aquele vídeo no YouTube?”
“Quem disse que eu fiz isso?” ele respondeu, fingindo inocência.
Gideon tirou o boné da mochila de Gabe e o jogou nele. “Não negue. Só
me diga por quê.”
“É tudo parte do meu plano.”
“O que você está tentando fazer?” Ele fechou o espaço entre eles, louco
para conectar o seu punho ao rosto pretensioso de Gabe. “Causar um
escândalo? Sujar o nome dela em todos os tabloides?”
Gabe endireitou a postura e não se intimidou. “A minha intenção era
mostrar a todos o quão talentosa ela realmente é.”
“Com que propósito?”
“Isso ainda não está definido.” Os lábios dele se curvaram em um sorriso
antes que Gideon ouvisse o seu nome sendo chamado do outro lado do set.
Karl estava ao lado de uma cadeira de maquiagem e apontava para ela.
“Parece que o diretor quer conversar com você”, Gabe murmurou antes de
se afastar.
Gideon atravessou o set e sentou na cadeira. Uma das maquiadoras
apareceu e começou a aplicar a base no rosto dele, mas Karl permaneceu na
sua linha de visão, com os braços cruzados.
“Você estava mentindo quando me contou sobre a sua assistente ontem?”
“Depende de qual parte você está falando.”
“Sobre ela ser Sage Holtz.”
Gideon interrompeu a maquiadora e gesticulou para que se retirasse.
Quando ficou sozinho com Karl, ele disse: “Ela ficaria furiosa se as pessoas
soubessem quem ela era.”
“Eu não dou a mínima para o que ela pensa. Eu tenho um filme para fazer e
a minha atriz principal sumiu. Além disso, a produtora viu a sua performance
com a sua assistente, e eles estão me pressionando para saber detalhes que eu
não posso dar a eles.”
“Por que eles querem saber mais sobre ela?”
“Eles querem que ela faça um teste, e estão ameaçando parar a produção
até que isso aconteça.” Karl se inclinou para frente, apoiando-se nos braços
da cadeira, e ficou a centímetros do rosto de Gideon. “Então, ou você a traz
para cá agora, ou todos nós estamos desempregados.”
“Não é tão simples, Karl.” Gideon o empurrou e pulou da cadeira. “A
Ruiva não tem nenhuma intenção de voltar a atuar.”
“Mas ninguém suspeitaria disso, vendo a performance incrível dela ontem.”
“Eu sei, mas…” Ele passou os dedos pelo cabelo mais uma vez e andou de
um lado para o outro. Meu Deus, quando as coisas ficaram tão complicadas?
Então, ele recebeu apoio inesperado do causador de todos os seus
problemas.
Gabe se aproximou deles e disse: “Nos dê alguns dias, Karl. Você sabe
como os últimos anos da carreira da Sage foram antes de ela desaparecer, e se
você quer ter alguma chance de convencê-la a voltar, nós precisamos de
tempo para convencê-la de que o papel vale a pena.”
“Vale a pena?” Karl lançou um olhar preocupado para Gabe. “Em termos
de dinheiro?”
“Não, não tem nada a ver com dinheiro”, Gideon respondeu. “Sarah gosta
da sua privacidade. Ela já está fora do showbiz há tanto tempo que ninguém
sabe quem ela é. Se ela aceitasse este papel, ela voltaria a ser reconhecida, e
eu não tenho certeza de que ela estaria disposta a trocar a sua liberdade pela
fama.”
“Mas nós vamos fazer o máximo para convencê-la a mudar de ideia.” Gabe
o encarou com um aviso silencioso para não abusar da sorte. “Por enquanto,
vamos focar em gravar as cenas sem a Rae, para continuarmos dentro do
cronograma.”
“Este filme vai me dar uma úlcera.” Mas Karl se virou e voltou para o set,
para verificar a iluminação.
Gideon focou sua atenção em Gabe. “Então, esse é o seu plano? Fazer a
Ruiva assumir o papel da Mackinzie?”
“Quem você prefere? Aquela idiota anoréxica? Ou uma mulher com talento
de verdade?” Gabe cruzou os braços como se estivesse guardando o seu
território. “Vai ser uma situação ideal para todos nós.”
“Você tem certeza? Porque eu conheço a Ruiva, e isso é a última coisa que
ela quer.”
“E eu acho que você a protegeu por tempo demais. Ela quer voltar. Ela só
precisa de alguém com a coragem para colocá-la no caminho certo.” Gabe
relaxou e se virou, adicionando: “Observe e aprenda, Garoto.”
Um sussurro de dúvida repetiu as palavras de Gabe na mente de Gideon. Será
que ele estava impedindo Sarah de voltar? Era isso que ela queria? E se fosse,
ela o deixaria para trás?
Capítulo Onze
Sarah continuou olhando para o teto muito depois da luz do sol surgir na
janela do seu quarto. Antes de Gideon virar o mundo dela de cabeça para
baixo, ela já sabia o que precisava fazer. Ela tinha decidido ir embora,
começar do zero e provar a si mesma que ela podia ser independente. E ela
sabia que devia ter ido embora na noite anterior em vez de sentar no chão, ao
lado da porta, chorando e comendo M&Ms amarelos descontroladamente até
que ele aparecesse para fazê-la mudar de ideia.
Mas aquele beijo…
Não, não era só atuação. Existia fogo ente eles. Química. Um turbilhão de
hormônios que a deixou mais confusa do que quando era adolescente. Mas
uma coisa era certa — se ele a beijasse novamente, ela duvidava de que teria
a força de vontade para fazê-lo parar.
E havia o gesto incrivelmente romântico dele recuperar o prêmio dela. Se
fosse qualquer outra mulher, ela teria ido ao quarto dele e lhe dado um
agradecimento especial. Mas ela não era. Ela tinha se escondido atrás da
porta, comido suas últimas bolinhas de sol, e pesado os prós e contras de se
tornar a namorada dele. No fim, o seu desejo e medo acabaram em um
impasse quando seus olhos se fecharam.
Ela apertou seu travesseiro e abafou um grito de frustração. Depois da
explosão, a clareza retornou à sua mente, que a lembrou de que ficar
escondida no quarto não resolveria nada. Ela se arrastou para fora da cama e
vestiu sua roupa de ioga favorita.
Jason e Raul estavam sentados na frente da tela do computador quando ela
saiu do seu quarto. “O que está acontecendo?”
Os dois se viraram rapidamente, com a mesma expressão de culpa no rosto.
“Nada”, Jason respondeu. “Só estamos checando as notícias sobre o chefe,
sabe como é.”
Ele estava tentando despistá-la, mas ela não estava interessada em
interrogá-los naquele momento. “Fiquem longe dos problemas. O Gideon já
está encrencado o bastante.”
Os guarda-costas trocaram olhares antes de acenarem com a cabeça.
“Entendido, chefinha”, Raul respondeu.
Era quase meio-dia, com base nas sombras que cruzavam a área da piscina,
e o sol quente de verão brilhou nos seus ombros nus enquanto ela desenrolava
o tapete de ioga. O bom senso teria dito a ela para ficar na sombra ou passar
protetor solar antes que ela acabasse com mais sardas, mas o calor estava
gostoso. Ele afastou o medo gelado que cercava o coração dela desde o
primeiro beijo de ontem. Quando terminou de praticar suas posturas, sua
mente havia se elevado para um lugar em que ela se sentia poderosa.
Infelizmente, ela ainda não tinha certeza do seu próximo passo. Ficar e
correr o risco de estragar tudo? Ou fugir e possivelmente perder o melhor
homem que ela conhecia?
Seu telefone tocou quando ela saiu do banho. “Alô?”
“Alô?”, uma mulher perguntou. “Estou falando com Sage Holtz?”
O coração dela parou de bater, até que o aperto em seu peito o forçasse a
bater novamente. Nenhuma das pessoas que tinham este número a conheciam
como Sage. Ela era apenas Sarah, a assistente de Gideon Kelly. “Sinto muito,
você ligou para o número errado”, ela disse rapidamente antes de desligar.
Ela fechou os olhos e controlou a respiração. Foi só um engano. Um erro
que não vai se repetir.
Mas se Gabe tinha reconhecido Sage depois de todos esses anos, outra
pessoa poderia ter feito o mesmo?
Ela havia conseguido terminar o banho antes que o telefone tocasse
novamente, desta vez, a chamada era de outro número. “Alô?”
“Oi, eu gostaria de falar com Sage Holtz”, um homem com uma voz
anasalada disse. “Você sabe onde eu posso encontrá-la?”
“Não, sinto muito, você ligou para o número errado.” ela repetiu e desligou
ainda mais rápido do que antes.
Alguma coisa estava errada, e a sua intuição dizia que o que estava
acontecendo tinha algo a ver com o que Jason e Raul estavam examinando no
computador naquela manhã. Ainda vestindo seu robe, ela correu para a
central de comando deles. “Por que eu estou com a sensação de que algo
além do que vocês me disseram está acontecendo?”
“Do que você está falando?” Jason perguntou, com a voz um pouco mais
aguda do que o normal.
“Eu recebi duas ligações na última meia hora, e as duas usaram o meu
nome artístico.”
Raul limpou a garganta antes de se virar para Jason. “É melhor mostrar
para ela.”
Jason xingou em voz baixa e abriu um site.
A respiração de Sarah acelerou ao ver a imagem dela e Gideon se beijando.
“De onde veio isso?”
“Deve ter vindo do vídeo no YouTube.” Jason abriu a página para mostrar
a ela.
Os joelhos de Sarah tremeram e ela desabou sobre uma cadeira próxima.
Sim, era terrível que ela tinha sido exposta, mas isso não era nada em
comparação com a certeza que a atingiu no centro do peito. Eles eram
perfeitos juntos, como em um romance clássico de Hollywood.
“Nós encontramos o vídeo hoje de manhã, mas a matéria”, Jason
continuou, voltando à página original, “deu o seu nome. Disseram que você
vai substituir a Mackinzie no filme.”
“Isso é uma grande mentira.” A voz dela estava fraca e trêmula, o oposto
do controle e calma que ela havia lutado tanto para conquistar nos últimos
três anos. “Eu só estava ajudando o Garoto a repassar falas.”
“Pode ser, mas a matéria é bastante convincente.” Jason se afastou da tela.
“Você quer lê-la?”
Ela balançou a cabeça. A anonimidade da qual ela havia desfrutado desde o
acidente tinha acabado. Agora, todo mundo saberia que Sarah Holtz, a
assistente de Gideon, era, na verdade, a ex-estrela mirim Sage Holtz. Seu
estômago revirou, e o desejo por mais M&Ms amarelos aumentou. “Existe
alguma forma de tirar essa matéria do ar?”
“Nós vamos tentar, mas ela foi publicada por um site famoso. A pessoa que
vazou a informação deve ser bem conectada.”
Eu vou vomitar. Ela se levantou, sentindo um peso de 50 quilos sobre os
ombros.
“Você está bem?” Raul perguntou, segurando-a pelo cotovelo.
“Não, mas eu vou lidar com isso.” Afinal, lidar com tudo era o que ela
fazia de melhor.
O toque do seu telefone ecoou na sala, e ela pulou. “Algum de vocês pode
atender?”
Raul pegou o telefone. “Hola?” Ele parou para ouvir e balançou a cabeça.
“Não, não tem ninguém aqui com esse nome.”
Sarah cruzou os braços ao redor da cintura e abraçou a si mesma. Talvez
fosse a hora de mudar de número.
Raul desligou e devolveu o telefone para ela. “Foi engano.”
“Você é um péssimo mentiroso.” Mas ela deu um sorriso fraco para ele.
“Eu vou terminar de me vestir e decidir o que fazer.”
“Pode deixar, chefinha.” Raul voltou ao seu lugar ao lado de Jason na
frente do computador, e o som de digitação encheu a sala.
Ela mal havia conseguido se vestir quando o telefone tocou novamente. E,
como uma idiota, ela atendeu.
“Aqui é Donna Carlson”, uma mulher disse em um tom esnobe. “Eu quero
falar com Sage Holtz.”
Merda! A repórter que queria devorar Gideon. “Sinto muito, mas não há
ninguém aqui com—”
“Espere um minuto”, a repórter interrompeu. “Você é a Sage, não é?”
Sarah desligou o telefone antes que revelasse o seu pânico para a repórter.
O telefone tocou dentro de segundos, ficando mais escorregadio nas mãos
suadas dela. Seu coração batia em seus ouvidos, e ela não conseguia respirar
direito.
Ignore.
Mas assim que a ligação era redirecionada para o correio de voz, o telefone
voltava a tocar.
Merda! Merda! Merda!
Sarah correu para a porta, segurando o telefone na sua frente como se fosse
um animal raivoso. Os toques eram constantes. Desesperada para acabar com
aquele assédio, ela se voltou para a piscina. A água serena trouxe a solução
perfeita. Ela jogou o telefone na piscina sem pensar duas vezes.
E o silêncio se seguiu.
Raul correu até ela. “Você quer que eu pegue o telefone antes que a água o
destrua?”
Ela balançou a cabeça. “Eu vou comprar um novo.”
Raul a estudou como se estivesse tentando determinar se ela precisava de
reforços. Mas, depois de dez segundos, ele voltou para a vila, deixando-a
sozinha na beira da piscina.
Sarah olhou para o telefone sentada em uma das cadeiras do deck,
paralisada pelo medo. Primeiro, os beijos de Gideon. Depois, o prêmio
recuperado. Agora isso. A serenidade da sua vida estava ameaçada, e o caos
na sua alma estava ficando cada vez maior e ameaçava destruí-la. A última
vez em que ela havia se sentido assim foi nas semanas anteriores ao acidente.
E, de repente, a vontade de beber a consumiu.
Sua mente se aterrorizou com a ideia de cair novamente nos seus velhos
hábitos, e gritou para que ela ligasse para o seu padrinho de AA, mas Sarah já
estava caminhando na direção do bar antes que pudesse se controlar. Sua mão
tremia ao servir a vodca em um copo com gelo.
Só um drink para acalmar os meus nervos. É só isso que eu preciso. Esse é
o meu limite. Eu posso me controlar.
Ela continuou repetindo isso para si mesma sem parar, enquanto levava o
copo aos lábios.
***
Gideon limpou a maquiagem do rosto e passou os dedos pelo cabelo.
Hoje havia sido especialmente terrível. Ele gravou suas cenas como se
estivesse cercado por uma névoa, focando apenas no que estava à sua frente
em vez de tentar ver além. A Ruiva não tinha aparecido no set, e ele ficou
preocupado com a localização dela. Ela estava na vila, esperando por ele? Ou
tinha pego o próximo voo para Los Angeles, como tinha ameaçado fazer na
noite anterior?
Ele pegou seu telefone e ligou para ela.
A chamada foi direto para o correio de voz sem tocar nenhuma vez.
A tensão começou a irradiar da sua nuca. A Ruiva sempre estava com o
telefone. O fato do telefone estar desligado confirmou os seus receios. O
pânico o moveu pelo set lotado. Ele tinha que voltar para a vila e ver se os
seus medos eram justificados.
O toque agudo do telefone dele o fez parar. Talvez ela estivesse retornando
a ligação. Ele atendeu sem ver o número. “Ruiva, nós precisamos conversar.”
Uma voz muito diferente respondeu. “Desculpe, querido, mas não é a
Sarah.”
Ele reprimiu o gemido em sua garganta. Uma ligação interminável com a
mãe era a última coisa de que ele precisava. “Oi, mãe. Eu adoraria conversar,
mas estou ocupado agora.”
“Você está se preparando para filmar outra cena? Eu achei que o trabalho já
tivesse acabado por hoje.”
Seria muito fácil mentir para a mãe, mas uma voz baixa nas profundezas da
sua mente o instigou a conversar com ela. “E acabou, mas eu estou em uma
situação complicada.”
“Está tendo problemas com a Sarah de novo?”, sua mãe perguntou, com
um ar de pretensão maternal. A mulher o conhecia bem demais.
“Sim, pode-se dizer isso.” Ele procurou um lugar silencioso no set para
conversar, escolhendo um canto nas beiradas do set. “Ela está brava comigo
de novo, e por uma boa razão.”
Ele relatou a sua versão dos eventos da última semana rapidamente. Tudo,
desde o plano de Gabe para fazer com que Sarah substituísse Mackinzie, até
os seus próprios sentimentos confusos sobre beijar Sarah, tudo sem
interrupção. E, quando ele terminou, sua mãe permaneceu em silêncio.
“Então, é isso, eu estou em uma encrenca daquelas.”
“É isso que você quer?”
“A encrenca? De jeito nenhum.”
“Então, o que você quer, meu amor?”
A pergunta dela o pegou de surpresa. Haviam tantas coisas que ele queria,
mas, no fundo, ele sabia a resposta. “Eu só quero que a Sarah seja feliz.”
“Boa resposta”, sua mãe respondeu. “Mas você acha que ela seria feliz com
você?”
Ele respirou fundo. Todo esse tempo, Gideon estava tão focado no que ele
queria — convencer a Ruiva de que eles seriam perfeitos juntos — que nunca
havia considerado os sentimentos dela sobre o assunto. Eles haviam sido
amigos por tanto tempo, por que não seriam felizes juntos como um casal?
Mas a pergunta da mãe o lembrou das vezes em que Sarah tinha reclamado
sobre a fila de maridos da mãe e a infidelidade do pai. Ela não tinha crescido
com pais que realmente amavam um ao outro. Ela devia estar com medo da
possibilidade do relacionamento deles acabar como o dos seus pais.
“Eu não sei”, ele admitiu, com a voz cheia de dor como o seu coração. “Eu
acho que ela seria, mas…”
“Dê tempo ao tempo, e não deixe os outros apressarem as coisas.”
“Você está dizendo que eu deveria mandar o Gabe parar de se meter?”
“Com certeza. Ele tem os seus próprios interesses, e eles não estão
totalmente alinhados com os seus. Não deixe esse filme complicar as coisas.
Se você quer que a Sarah lhe dê uma chance, você precisa mostrar a ela que
vocês dois podem ser felizes juntos sem expô-la ao que ela mais quer evitar.”
Os holofotes.
Ele xingou em silêncio, finalmente vendo o erro no plano de Gabe para
unir os dois. Sim, o plano havia funcionado para que ele pudesse beijá-la
finalmente, mas também tinha gerado outros problemas. Se quisesse ter um
relacionamento com Sarah, Gideon precisava fazer isso sem uma câmera
gravando cada movimento deles. E ele podia fazer isso. Aquela noite na
Torre Eiffel era apenas um exemplo de como eles podiam ter uma vida
normal.
“Falando nisso, eu vi aquele vídeo de vocês ensaiando a cena.”
Merda! Se a mãe dele havia visto o vídeo, significava que ele já era viral.
“E?”
“Vocês dois têm muita química juntos. Mas eu já sabia disso.”
Ele se viu sorrindo, apesar das preocupações que o atormentaram o dia
todo. “Obrigado, mãe.”
“De nada, querido. Apenas respire fundo e tenha uma conversa honesta
com ela. E se você precisar que eu vá para aí e seja a mediadora…”
Ele riu. Sua mãe era uma advogada quando casou com o seu pai, e a sua
habilidade para mediar havia sido útil muitas vezes entre ele e seus irmãos.
“Eu acho que nós somos adultos.”
“Você não faz ideia de quantos adultos precisam de um terceiro para ajudar
a conciliar as coisas entre eles.”
“Obrigado pela oferta, mas deixe-me tentar conversar com ela primeiro.”
“Ok, se é isso que você quer.” Mas o tom de dúvida por trás das palavras
dela deixou claro que ela ainda não estava convencida de que ele conseguiria
acertar as coisas sozinho. “Me ligue se precisar de alguma coisa.”
“Eu tenho vinte e quatro anos, não oito.”
“Eu sei, mas você sempre será o meu bebê.”
Ele revirou os olhos. Parte da dor de cabeça de ser o mais novo era o fato
de que a sua mãe sempre o via usando fraldas. “Obrigado, mãe. Tenho que
ir.”
Ele desligou antes que ela conseguisse deixar a conversa ainda mais
desconfortável, e se virou, vendo Gabe observando-o com um sorriso de
satisfação.
“Ainda está falando com a mamãe?”
“Sim”, Gideon respondeu com uma boa dose de irritação. “Não vá me dizer
que você nunca conversa com a sua mãe.”
“Converso, mas eu costumo esperar que ela ligue, já que eu nunca sei em
que fuso horário o iate dela vai estar.”
E eu achei que vinha de uma família privilegiada. Pelo menos, os meus
pais viviam no mundo real.
Gabe jogou sua mochila sobre o ombro e se aproximou. “Falou com a
Sarah?”
“Não.” Gideon pegou suas coisas para ir embora antes que Gabe o
convencesse a participar de outro plano infalível.
“Você contou a ela sobre o teste?”
“Como contaria, se eu não falei com ela desde ontem à noite?” Ele
apressou o passo. Primeiro, ele precisava saber se ela ainda estava na vila
antes de falar desse assunto.
Gabe continuou o seguindo. “Você vai contar para ela?”
“Ainda não decidi.”
Um alerta de mensagem no seu telefone o fez parar, e ele olhou para a tela.
Você precisa vir para cá rápido, chefe.
A mensagem de Jason fez Gideon se arrepiar de preocupação. O guarda-
costas raramente enviava mensagens para ele, e ele suspeitava que isso tinha
alguma coisa a ver com Sarah.
“O que houve?” Gabe perguntou.
“É a Ruiva.” Ele colocou o telefone no bolso e correu para a porta, sem se
importar com a possibilidade de derrubar alguém no caminho até a vila.
Quando ele chegou na frente dos elevadores da Torre Octavius, seus
pulmões sem ar queimavam com a corrida, e uma sensação terrível de medo
apertava a sua garganta.
Gabe chegou atrás dele e se apoiou no seu braço esticado, respirando
fundo. “O que houve?”, ele repetiu.
“Eu não sei, mas, quando Jason me pediu para vir para cá o mais rápido
possível, eu sabia que algo estava errado.”
O elevador se abriu e Gabe entrou primeiro. Sua expressão de teimosia
desafiava Gideon a dizer alguma coisa.
Ele xingou em silêncio e entrou no elevador. As coisas já estavam
complicadas sem o envolvimento de Gabe. Para ele, Gabe podia estar ali para
gravar mais vídeos para postar no YouTube. “Fique fora disso, Harrison.”
“Tarde demais. Eu estou tão envolvido nisso quanto você.”
“Então, nós dois estamos encrencados.” O elevador abriu e Gideon não
perdeu nenhum segundo abrindo a porta da frente.
Raul o recebeu no hall de entrada, com uma expressão preocupada no
rosto, apesar da música dançante que tocava ao fundo. “Você foi rápido.”
“Jason não teria me enviado uma mensagem se não fosse urgente.”
“E é.” O guarda-costas apontou o dedão para Gabe. “Você quer que ele
fique aqui?”
Com uma só palavra, Gideon podia mandar Raul expulsar Gabe dali, e o
guarda-costas musculoso o faria em uma questão de segundos. Mas, como
Gabe disse, eles estavam nessa juntos. “Ele pode vir, principalmente porque
isso deve ser culpa dele.”
Os lábios de Raul se apertaram e ele estalou os dedos, olhando para Gabe.
Isso não era um bom sinal.
“Me diga o que está acontecendo”, Gideon ordenou, saindo do hall.
“A chefinha precisa de você.”
Isso pelo menos confirmava que ela ainda estava em Las Vegas. A questão
era, por quanto tempo?
Raul gesticulou para que eles o seguissem, e os levou até a sala de estar. A
música tocava em volume alto no aparelho de som, mas Gideon não ouviu as
palavras. Sua atenção estava focada na mulher ruiva em um vestido justo que
terminava um pouco abaixo do seu traseiro voluptuoso. Sarah estava
dançando com os olhos fechados, movendo seu corpo em um ritmo sensual
que fez todo o sangue correr para o pênis dele. O desejo se esvaiu
rapidamente, no momento em que ele viu o copo na mão dela e a garrafa de
vodca pela metade no bar.
Três anos de sobriedade, e eu sou o responsável por estragar tudo.
“O que você está fazendo, Ruiva?”, ele perguntou, odiando a si mesmo
cada vez mais a cada segundo.
Ela abriu os olhos e sorriu para ele. “Dançando”, ela respondeu, arrastando
a palavra.
Ele tirou o copo da mão dela e o colocou no bar. “Não é disso que eu estou
falando e você sabe que não é. Você deveria ter ligado para o seu padrinho.”
“Não seja um estraga-prazeres. Afinal, eu não tenho mais telefone. Caiu na
água. Tchauzinho, telefone.” Ela colocou os braços em torno do pescoço dele
e o puxou para si.” Eu só estava me arrumando para sair e me divertir um
pouco.”
Com o corpo dela tão perto do dele, “se divertir um pouco” ganhou um
novo significado.
Um que não envolvia sair.
Por mais que ele quisesse passar as mãos pelas curvas dela e provar a
doçura dos seus lábios, levá-la para a cama e fazer amor com ela como
sempre imaginou, ele não podia fazer isso. Ela estava bêbada, e ele se
recusava a se tornar o canalha que se aproveitaria dela. Em vez disso, ele a
afastou. “É melhor você não sair, Ruiva.”
Ela projetou o lábio inferior para frente, fazendo um biquinho perfeito para
beijar. “Por quê?”
“Eu tenho mesmo que responder isso?” Principalmente porque, na última
vez em que ficou nesse estado, ela saiu correndo de um clube e foi
atropelada. Ele quase a perdeu naquela noite, e não permitiria que ela ficasse
naquela posição novamente.
Ela se afastou, franzindo a testa, confusa. “Mas eu achei que você gostava
de sair. Você gostou de sair com a Mackinzie.”
As coisas ficaram ainda mais complicadas quando ele ouviu o ciúme na
voz dela. O fato de ela sentir que precisava beber metade de uma garrafa de
vodca já era ruim. “E não tenho a mínima vontade de fazer isso de novo.”
“Tudo bem.” Ela se virou para Gabe, com um sorriso ainda mais
insinuante. “Talvez o Gabe possa me levar para sair.”
Agora, era a vez dele de ser consumido pelo ciúme, apesar de suspeitar que
ele sentia com muito mais intensidade. Ele se posicionou entre os dois. “Eu
duvido que ele faça isso.”
“Fale por si mesmo.” Gabe pegou a mão de Sarah e a levou para longe de
Gideon. “Eu adoraria levar você para se divertir na cidade, já que eu não
preciso estar no set até às 10h da manhã.”
Filho da puta desgraçado.
Ele pressionou os dedos contra as palmas das mãos e se obrigou a
permanecer calmo. “Antes de irmos—”
“Eu achei que você não queria sair.” Sarah levantou uma sobrancelha e
esperou que ele respondesse.
“Se ele vai, eu também vou, nem que seja apenas para manter você longe
dos problemas.” E da cama de Gabe.
“Excelente! Vou pegar a minha bolsa.” Sarah desapareceu no seu quarto,
cambaleando em seus saltos altos com cada passo.
Assim que ela se afastou, Gideon desligou a música e foi na direção de
Jason. “Que diabos aconteceu?”
“Eu não sei de todos os detalhes, chefe, mas ela ficou recebendo umas
ligações de pessoas querendo falar com a Sage e ela se irritou. Então, quando
me dei conta, o telefone dela estava no fundo da piscina e ela estava no bar.”
“E você não pensou em impedi-la??”
Jason balançou a cabeça. “Eu nem sabia que ela estava bebendo até que
ouvi a música.”
Merda! As coisas só melhoram. Ele olhou para Gabe. “Isso tudo é sua
culpa.”
“Minha culpa?”, ele perguntou, fazendo o possível para parecer inocente.
“Se você não tivesse postado aquele vídeo no YouTube, ninguém teria
ficado sabendo sobre nós.”
“É pior do que isso, chefe.” Raul apontou para a matéria na tela do
computador de Jason.
Uma sequência de palavras de baixo calão saíram da boca de Gideon
enquanto lia a matéria que expunha Sarah. “Ela só podia voltar a beber com
tudo isso. É melhor você me dar uma boa razão para não encher a sua cara de
socos agora mesmo, Gabe.”
“Porque você precisa de mim para impedir que esse filme se atrase ainda
mais, e você também precisa de mim para ajudar a mantê-la na linha.” Gabe
ofereceu o braço para Sarah quando ela voltou. “Você está linda como
sempre, Sarah.”
Ela enganchou o braço no dele e riu. “Obrigada, Gabe.”
O nó do ciúme se apertou ainda mais dentro de Gideon e, mais uma vez, ele
lutou contra o impulso de nocautear Gabe. Mas havia um ponto válido no
raciocínio dele. Se Sarah queria cair na farra esta noite, ele precisaria de toda
a ajuda que conseguisse.
“Fique próximo”, ele sussurrou para Raul antes de colocar o braço em
torno da cintura de Sarah e puxá-la para longe de Gabe. “Você sabe onde
gostaria de começar?”
Ela riu, terminando com um soluço. “Lembra de como nós nos divertimos
no Tao?”
Como ele poderia esquecer? Esse era o clube onde ela o levou na véspera
do aniversário de vinte e um anos dele. “Vamos começar lá, então.”
“Perfeito.” Ela foi em direção à porta, depois pausou e colocou os braços
em torno do pescoço dele. “Ah, e mais uma coisa.”
“O quê?”
Ela o respondeu com um beijo que acabou com todas as dúvidas sobre qual
dos dois ela preferia ter ao seu lado esta noite. Foi lento e sedutor, suave e
exigente, calmo, mas urgente. Era o tipo de beijo que Gideon havia
imaginado receber dela centenas de vezes e, por um breve segundo, ele se
perguntou se estava sonhando. Se Gabe não tivesse limpado a garganta para
lembrá-los da sua presença, ele teria permitido que o beijo continuasse até
que os dois precisassem respirar.
Ela o encarou sem nenhum traço de constrangimento. “Eu abri a caixa”, ela
disse, suavemente.
A respiração dele congelou. Ele tinha esquecido do Globo de Ouro que
havia deixado no quarto dela. O grande gesto de amor que ele havia
imaginado tinha ido pelos ares. “E?”
“Obrigada.” A serenidade daquela palavra refletiu o brilho carinhoso nos
olhos dela, e o fez esquecer de todos os medos, hesitações e do caos que
havia presenciado momentos antes.
Ela descansou a cabeça no seu ombro, e ele não pôde deixar de imaginar se
as coisas poderiam ficar melhores do que isso esta noite.
Capítulo Doze
Os sonhos de Sarah foram tão confusos quanto ela estava naquele
momento. Imagens de beijos ardentes iam e vinham, mas todos tinham uma
coisa em comum.
Gideon.
Ela havia sonhado que passou a noite nos braços dele, com seu corpo
quente pressionado contra o dela, abraçando-a. Ela finalmente entendeu o
significado de ser protegida, valorizada, amada. Ela até sonhou que ele havia
prometido essas coisas a ela.
Que sonho maravilhoso.
Seus lábios se curvaram ao lembrar dele.
À distância, ela o ouviu murmurar que a amava antes que o sonho sumisse
na escuridão.
A próxima sensação da qual ela ficou ciente foi a dor em sua cabeça,
seguida de um enjoo crescente. Ela tentou continuar sonhando, mas a ressaca
provou ser mais forte. Ela se virou na cama e ousou abrir um olho.
O quarto estava coberto de sombras, obscurecendo a hora do dia. Seu olhar
focou no rádio-relógio à sua frente.
10:34.
O que havia acontecido com a noite?
Uma onda de culpa a invadiu. Ela não bebia tanto desde a noite do seu
acidente. Felizmente, ela não acordou em uma cama de hospital desta vez.
No entanto, ela não estava no seu próprio quarto.
Que diabos aconteceu ontem?
O burburinho distante de uma fonte penetrou o medo paralisante. O som
era familiar, mas ela ainda não conseguia identificá-lo. Ela sentiu a textura
macia e sedosa dos lençóis na sua pele nua, muito diferente do que um hotel
qualquer poderia oferecer.
E então, outro pensamento abalou a realidade dela. Ela estava quase nua
sob os lençóis. Uma olhada rápida confirmou que ela ainda estava de sutiã e
calcinha fio-dental, apesar das peças não cobrirem muito. Seu coração batia
em seus ouvidos, acompanhado de um coro de xingamentos.
E se tudo aquilo não tivesse sido apenas um sonho?
Ela sentou na cama e se arrependeu imediatamente. O quarto girava ao seu
redor, e ela pegou a lixeira que havia sido deixada convenientemente no
criado-mudo para ela. Seu estômago se esvaziou em uma série de contrações
e, quando terminou, ela descansou a cabeça nas bordas frias de metal e
repassou tudo o que ela conseguia lembrar do dia anterior.
As ligações para Sage.
A primeira bebida.
A necessidade de dançar.
As batidas incessantes do clube.
A rigidez de um corpo sexy contra o dela.
Os beijos que ainda faziam seu corpo tremer com a lembrança.
E o homem que permaneceu ao seu lado até que ela não conseguisse
lembrar de mais nada.
Gideon.
Ela levantou a cabeça e olhou ao seu redor.
Ela estava no quarto dele.
Seu rosto queimou, e algumas outras peças do quebra-cabeça se
encaixaram. Ela estava praticamente nua na cama dele.
Merda!
O pânico reviveu a náusea que ainda revirava o seu estômago. Ela tinha
dormido com ele? Ela tinha cruzado o limite e estragado tudo? Ela apertou os
dedos contra as têmporas, mas, por mais que tentasse lembrar, sua mente
estava vazia. Ela não conseguia sequer lembrar como tinha voltado para a
vila.
Um tremor percorreu o seu corpo e ela rezou para não ter feito o que ela
temia ter feito. Ela sempre gostou de Gideon. Ele era seu melhor amigo. E até
o momento em que ele a beijou, ela havia ignorado a parte egoísta dela que
queria ser mais do que sua amiga. Afinal, ele merecia alguém melhor. Ela
acabaria partindo o coração dele no fim. Mas se ela havia estragado tudo
dormindo com ele, Sarah desejou pelo menos conseguir lembrar do que havia
acontecido.
Ela colocou a lixeira no chão e tentou se arrastar para fora da cama. Suas
pernas tremiam no caminho até o banheiro e o quarto girava, fazendo-a cair
de joelhos na frente da privada. Ela fechou os olhos e lutou contra as ondas
de náusea cada vez mais fortes.
Por favor, eu não quero vomitar mais.
Seu estômago se aquietou consideravelmente para que ela conseguisse abrir
os olhos.
Mas no segundo em que ela viu a aliança dourada no seu dedo anelar
esquerdo, o vômito voltou com força total.
***
Gideon entrou no trailer com ar condicionado e fechou a porta antes que o
precioso ar refrigerado escapasse. Ele havia estado sob o sol do deserto desde
às 10h da manhã, e sua roupa estava encharcada de suor. Felizmente, Karl
pediu uma pausa de duas horas quando notou que a equipe inteira estava
murchando sob o sol.
No entanto, isso não impediu Karl de importunar Gideon, insistindo que ele
convencesse Sarah a fazer um teste. Ele não deu nenhuma resposta. No
momento, ele tinha problemas maiores do que quem iria interpretar a
mocinha do filme.
Ele pegou uma garrafa de Gatorade com Jason e procurou uma sala
afastada onde ele podia ter um momento de privacidade. Ele havia esperado a
manhã inteira para ligar para Adam, mas ele não estava ansioso para ter a
conversa que estava prestes a ter. Seu irmão mais velho provavelmente o
chamaria de impulsivo e irresponsável, mas, ao lembrar de que ele havia
acordado ao lado de Sarah naquela manhã, ele tinha certeza de que tudo tinha
valido a pena.
Um sorriso se formou nos seus lábios ao lembrar da forma como ela
suspirou quando ele disse que a amava antes de ter sido obrigado a deixá-la.
Se não tivesse que estar nesse canto remoto do inferno no deserto de Nevada,
ele teria adorado ficar ao lado dela o dia inteiro. No entanto, a sua “noite de
núpcias” não havia sido exatamente o que ele imaginava, já que Sarah estava
inconsciente quando eles chegaram na vila. Ele a carregou nos braços como
deveria, mesmo que por uma razão totalmente diferente.
Pelo menos, uma questão havia sido resolvida na noite anterior. Sarah o
amava, mesmo que tivesse precisado beber meia garrafa de vodca para
admitir isso.
Claro, isso também significava que ele teria que fazer Sarah voltar às
reuniões do AA e lembrá-la de ligar para o seu padrinho antes de pensar em
beber novamente. Pelo menos, ele havia pedido ao Raul para tirar todo o
álcool da villa, para que ela não tivesse acesso fácil a nada.
Mas havia outra ligação que ele precisava fazer agora. Ele pegou o telefone
e tentou criar coragem enquanto digitava o número de Adam.
“Como estão as coisas em Vegas?”, seu irmão perguntou assim que
atendeu.
“Quente.” Ele abriu os botões de cima da sua camisa úmida e passou a
garrafa gelada pelo pescoço e peito. “Mas eu não liguei para falar do tempo.”
“Então, por que você ligou?”
Gideon se preparou para o sermão que ele sabia que viria. “Lembra quando
você me disse para fazer um acordo pré-nupcial se eu decidisse me casar um
dia?”
“Sim”, Adam respondeu, em um tom de alerta.
“Bem, hum, se eu não assinei um antes—”
“Espere aí, Gideon. Por favor, não me diga que você bebeu e foi a uma
daquelas capelas de Las Vegas.”
“Eu posso afirmar honestamente que não bebi ontem a noite.”
“Merda.” Mais resmungos incompreensíveis se seguiram, e Gideon
conseguia imaginar seu irmão mais velho deslizando a mão pelo rosto. “O
que você fez?”
“Sarah e eu nos casamos ontem à noite.”
“Uh?” A surpresa substituiu o tom crítico na voz de Adam. “Você e a
Sarah?”
“Sim, foi uma coisa meio espontânea.”
“Não me diga.” Adam pausou, parecendo ponderar antes de continuar.
“Você contou para a mamãe?”
“Não, e não contei porque eu não tenho certeza de como isso vai acabar.
Por isso, eu estou ligando para falar sobre o acordo pré-nupcial.”
Um suspiro de cansado lhe respondeu. “Comece do começo.”
Gideon sentou no pequeno sofá que ficava na frente do ar condicionado e
esticou as pernas para maximizar a sua exposição ao ar frio. “Sarah ficou
bêbada ontem à noite e me propôs casamento, e eu pensei, ‘é agora ou
nunca’.”
“Mas ela não estava pensando direito quando vocês se casaram. Isso é
razão para uma anulação.”
“Eu sei. É por isso que eu não vou contar para a mamãe até ver como as
coisas vão ficar.”
“Mas parece que você quer que esse casamento dê certo.”
Gideon fechou os olhos e lembrou dos beijos apaixonados da noite anterior.
Ele precisou de toda a sua força de vontade para controlar o seu desejo, mas
se recusou a dormir com Sarah quando ela estava bêbada.
Mas, se ela o tivesse beijado daquele jeito quando estava sóbria…
“Sim, eu quero que dê certo. Eu a amo, Adam. Eu acho que sempre amei. E
ela finalmente admitiu que também me ama.”
“Você não escolheu a forma mais fácil de começar as coisas.”
“Eu sei, e é por isso que eu preciso do conselho do meu irmão mais velho.
Eu duvido que ela queira o meu dinheiro, mesmo que queira terminar tudo.”
“Não tenha tanta certeza. Afinal, ela mora no seu apartamento há três
anos.”
Gideon ficou tenso, sentindo a necessidade de defendê-la. “E trabalhando
como minha assistente para pagar o aluguel e as suas despesas. Ela não é uma
aproveitadora.”
“Mas ela também não está motivada a seguir em frente.”
“Está sim. Ela vem trabalhando para abrir sua própria marca de roupas.”
Então, ele sentiu o impacto no centro do seu peito. Ela estava preparando
tudo para deixá-lo, e agora ele havia jogado baixo para mantê-la com ele.
“Droga, Adam, eu estou com medo de ter estragado tudo entre nós com esse
casamento, e preciso saber qual é a melhor forma de convencê-la a ficar
comigo.”
“Você transou com ela?”
“A mamãe e o papai nos criaram bem demais para que eu me aproveitasse
de uma mulher bêbada.” Apesar de ele ter sentido uma pontada de irritação
pelo irmão sequer ter pensado em fazer a pergunta.
“Bom. Pelo menos, você não complicou a situação com o sexo.” O som
suave de passos encheu a linha, indicando que Adam estava andando de um
lado para o outro. “Você já disse a ela como se sente?”
“Eu—” Uma coisa era confessar seus sentimentos por ela quando ela estava
bêbada ou dormindo ao seu lado. Mas confessar diretamente? “Não disse.”
“Por que não?”
“Pelas mesmas razões pelas quais eu estou com medo da conversa que
teremos esta noite. E se ela não se sentir do mesmo jeito agora que está
sóbria?”
“Então é melhor você anular esse casamento dentro de 60 dias, antes que
ela tenha direito à comunhão de bens.”
Gideon xingou em voz baixa. Adam parecia tão frio, tão racional, tão fora
de sintonia com o turbilhão de emoções dentro dele. Mas ele precisava da
perspectiva do irmão. Ele o impedia de agir como um adolescente. “Eu vou
pensar nisso”, ele respondeu em um tom baixo e tristonho, pensando no que
poderia acontecer.
“Me desculpe pelo banho de água fria, Gideon.” A confiança de Adam
pareceu diminuir quando ele adicionou rapidamente: “Você precisa que eu vá
até aí e ajude—”
Gideon o interrompeu. “Não, não preciso. Afinal, eu sou adulto. Eu criei
essa situação. Agora, preciso resolver tudo sozinho.”
“Não, você não precisa. É só dizer que eu vou para aí.”
Ele prendeu a respiração e lutou contra a vontade de deixar o irmão vir e
resolver tudo. “Não, Adam. Pode deixar comigo. Mas, por favor, não conte
para a mamãe.”
“Me mantenha informado.”
“Farei isso.” Gideon desligou o telefone, mais confuso do que nunca.
Capítulo Treze
Sarah alisou o vestido amassado e lutou contra a vontade de tomar outro
drink. Mesmo depois de ter pedido o telefone de Jason emprestado para ligar
para o seu padrinho do AA, ela ainda não tinha conseguido superar a vontade.
O álcool havia complicado a vida dela mais de uma vez, e a aliança de
casamento no seu dedo era o lembrete de que ela precisava para continuar
longe dele.
Ela massageou a testa, mas ainda não conseguia preencher o vazio da noite
anterior. O que ela fez? Ela estava realmente casada? E se a resposta era sim,
com quem? E se ela tivesse casado com algum maluco da rua?
Não, Gideon estava lá com ela. Ele não deixaria nada de ruim acontecer
com ela. Se ela estava casada com alguém, só podia ser com ele.
Apesar de ela não conseguir deixar de pensar que Gabe Harrison também
estava lá.
Meus parabéns, Sarah. Você está casada e nem consegue lembrar do nome
do seu marido. Se continuar assim, você logo vai estar no quarto marido,
exatamente como a sua mãe.
Ela xingou e começou a andar de um lado para o outro. A noite havia caído
e Gideon ainda não tinha retornado. Raul disse que eles iriam gravar cenas no
deserto o dia todo, mas ele não sabia onde exatamente.
Controle-se. Você não pode estar tão frágil quando ele chegar. Ela se
obrigou a parar e respirar fundo.
Pelo menos, as aventuras da noite anterior haviam trazido algo de bom. O
bar da suíte estava completamente livre de álcool. Se ela quisesse beber, teria
que sair da vila e, com base na atenção que a mídia havia dado ao seu
pequeno “teste”, ela seria reconhecida imediatamente.
Uma nova onda de pânico a invadiu e a fez perder o fôlego. E se a mídia
tivesse descoberto o que aconteceu ontem à noite?
A porta da frente se abriu e ela correu até lá antes que perdesse a coragem.
Ela precisava de respostas, mesmo que confirmassem o que ela mais temia.
“Gideon, nós precisamos conversar sobre ontem à noite.”
No entanto, Gideon não havia voltado sozinho. Ao seu lado, estava Gabe
Harrison.
Ela perdeu a capacidade de falar quando os viu juntos, e a sua coragem se
esvaiu. Mesmo que ela conseguisse dizer algo coerente, ela não queria lavar
sua roupa suja na frente dos outros.
Gabe deu um sorriso charmoso para ela e beijou seu rosto. “Como está a
linda noiva esta noite?”
O estômago dela despencou e, por um segundo, ela se perguntou se iria
desmaiar ou vomitar. Ou ambos.
Gideon manteve distância, sem fixar seu olhar nela. Se ela quisesse ajuda,
era improvável que ele a ajudasse.
Ela se afastou de Gabe. “Por favor, me diga que isso é algum tipo de piada
de mau gosto.”
“Quer dizer que você não se lembra?” Um brilho malicioso surgiu nos
olhos escuros de Gabe. “Você, eu e o Garoto viramos a Strip do avesso
ontem.”
“Eu estava com medo que você dissesse isso.” Sua cabeça girava, e ela
desabou sobre a cadeira mais próxima. “Eu quero saber os detalhes?”
Gabe cutucou Gideon. “Devo contar a ela sobre as tatuagens iguais que nós
fizemos? Ou sobre o striptease que ela fez no bar? Ou como nós fugimos dos
policiais que estavam nos perseguindo?”
A garganta dela começou a fechar e sua visão ficou embaçada. Há alguns
anos atrás, esse tipo de história a seguia por todo lugar. Agora, depois de ter
trabalhado tanto para corrigir a sua vida, ela havia acabado exatamente onde
começou.
“Cale a sua maldita boca.” Gideon empurrou Gabe e se ajoelhou na frente
dela, com a testa franzida de preocupação. “Você está bem, Ruiva?”
Ela balançou a cabeça, sem confiar no que sairia da sua boca se ela a
abrisse. Uma única lágrima escapou do seu olho e deslizou pelo seu rosto
vermelho.
“Nada disso aconteceu.”
“Você promete?”
“Com certeza.” Gideon apertou a mão esquerda dela.
Foi então que ela notou a aliança no dedo dele. Sua respiração tremeu ao
apontar para ela. “Mas isso aconteceu.”
O rosto de Gideon murchou e ele baixou os olhos. “Vamos conversar sobre
isso depois.”
“Não, vamos falar sobre isso agora.” Ela afastou sua mão da dele e a
levantou para apontar para a aliança. “Eu estou esperando o dia inteiro para
nós conversarmos sobre como eu acabei com uma dessas.”
“Não deve ter sido uma noite de núpcias muito memorável”, Gabe
gracejou.
O rosto de Gideon se retorceu em algo que se parecia muito com fúria. Ele
se levantou e empurrou Gabe contra a parede. “Eu mandei você calar a boca.”
“Foi você que me pediu para vir como sua testemunha.” Gabe arrancou as
mãos de Gideon do seu peito e deu um passo para o lado, alisando a camisa.
“Se você quer que eu vá embora com as provas—”
“Não, fique.” Os ombros de Gideon caíram, e ele voltou à cadeira do outro
lado da sala de estar. “Mas, por favor, mantenha os seus comentários para si
mesmo.”
“Que provas?”, ela perguntou, mesmo temendo ouvir a resposta.
“Primeiro, já que você obviamente não se lembra de tudo”, Gabe disse com
um sorriso: “mazel tov.”
“Gabe”, Gideon avisou.
“O quê?” Ele levantou as mãos e se virou para Gideon. “Eu não posso
parabenizar vocês por terem se casado?”
“Ah, meu Deus.” Mesmo que a sua ressaca tivesse passado horas atrás, a
dor de cabeça ameaçava voltar com força total. Ela cobriu o rosto com as
mãos para que nenhum dos dois visse as lágrimas que ameaçavam correr.
“Viu? Eu disse para você que era melhor casar comigo, mas—”
“Pare com isso.” A fúria com a forma com que Gabe estava fazendo piadas
com a situação fez Sarah perder todo o controle que ainda tinha. Ela se
levantou e cruzou a sala para encarar o único homem que poderia lhe dar uma
resposta direta. “Nós estamos ou não casados?”
Gideon a encarou, e um lampejo de tristeza surgiu nos seus olhos.
“Estamos.”
Merda!
Outro tremor subiu pela coluna dela, até que seus dedos tremessem de
raiva. “Como você se atreveu a se aproveitar de mim desse jeito? Eu estava
bêbada, e você me convenceu a casar com você.”
“Ah, mas aí é que você está errada, Sarah.” Gabe parou ao lado dela com o
seu telefone na mão. “Foi você que o pediu em casamento.”
Pela segunda vez em poucos minutos, o sangue fugiu da sua cabeça, até
deixá-la prestes a desmaiar. “O quê?”
“Dê uma olhada na prova.” Ele apertou o botão e deu o telefone a ela com
um gesto formal.
A cena aconteceu na mesa de um bar escuro. Ela estava sentada no colo de
Gideon, com a saia levantada o suficiente para expor as cicatrizes de onde os
médicos haviam operado o seu quadril quebrado há três anos atrás. Seus
lábios estavam praticamente colados nos dele, e a imagem do beijo reviveu o
desejo que ela havia sentido em seu sonho daquela manhã.
Ela se atreveu a olhar para Gideon pelo canto do olho. Ele estava
observando-a com uma intensidade que a fez se esquecer de respirar.
De alguma forma, ela conseguiu voltar a sua atenção para a tela quando o
beijo terminou.
“Eu tenho uma ideia maluca”, ela ouviu a si mesma dizer no vídeo.
“O quê?” Gideon perguntou, enrolando o cabelo dela com o dedo e
sorrindo tão sedutoramente que ela se perguntou como tinha conseguido ficar
vestida naquele momento.
“Vamos nos casar.”
O sorriso sumiu e ele piscou várias vezes. “O quê?”
“Eu disse, vamos nos casar.” Ela alisou a gola da camisa de Gideon e
pressionou o corpo contra o dele. “O que você acha?”
Ela conhecia Gideon tão bem que podia ler as emoções no seu rosto. A
primeira foi surpresa. Depois, hesitação. Depois, culpa. E, finalmente,
aceitação. “Você tem certeza de que quer se casar?”
Ela acenou com a cabeça. “Eu amo você, Gideon,” ela disse, antes de
começar a beijá-lo de novo.
O vídeo parou, mas o constrangimento com o que ela havia acabado de ver
permaneceu. Ele queimou a pele dela, fez suas mãos ficarem úmidas de suor,
e encheu seu estômago de nós. Ela se afastou, sem conseguir olhar nos olhos
de nenhum dos dois.
“Então, é como você viu, Sarah, a ideia foi toda sua.” Gabe colocou seu
telefone no bolso. “Agora, se vocês me dão licença, eu vou dar um pouco de
privacidade aos recém-casados.”
Um silêncio desconfortável encheu a sala depois da saída de Gabe, mas foi
Gideon que o interrompeu.
“Ruiva…”
“Não fale comigo.” A visão dela ficou embaçada com as lágrimas, mas ela
se recusava a deixá-las cair. “Só me deixe sozinha.”
Durante os últimos dias, a piscina havia se tornado o local onde ela
procurava calma e serenidade, mas exatamente como ontem, ela fez pouco
para acalmar o seu espírito. Uma brisa soprou, vinda do deserto, distorcendo
o reflexo dela na água. A culpa do que havia acontecido era dela e, no
entanto, era mais fácil atacar Gideon do que dirigir a sua raiva para si mesma.
“Eu não vou a lugar nenhum até nós conversarmos sobre isso” ele disse
detrás dela.
Ela se virou rapidamente. “Você não deveria ter aceitado. Você sabia que
eu não estava pensando direito.”
“Engraçado, porque não foi isso que os seus beijos me disseram.” Ele
fechou o espaço entre eles com um brilho estranho nos olhos. “E agora que
você está sóbria, eu quero continuar de onde nós paramos.”
E se ele estava falando do beijo no bar, não havia como saber onde as
coisas iriam terminar.
Na verdade, ela sabia exatamente onde as coisas terminariam — com ela
nua na cama dele.
Sarah começou a andar para trás, até que seu pé pisou em nada, além de ar.
Ela esticou os braços em uma tentativa desesperada de se equilibrar, mas
acabou na piscina mesmo assim. Ela voltou à superfície e outra onda de água
espirrou no seu rosto, causada pelo pulo de Gideon.
“Droga, Gideon!” Ela esfregou a água dos olhos. “Não piore as coisas
ainda mais.”
“Eu gosto de ver você toda molhada. Você não faz ideia de como foi difícil
dormir ao seu lado ontem à noite e me comportar.”
Ela seguiu a linha de visão dele, que focava no contorno dos seios dela sob
o tecido fino do seu vestido. Um arrepio a atravessou, e ela quis poder culpar
o ar frio pela sensação. Ela o imaginou segurando seus seios nas mãos,
esfregando seus dedões sobre os centros até que os seus mamilos doessem de
desejo.
Ela cruzou os braços sobre o peito para esconder os picos rijos e nadou
para trás. “Nós deveríamos parar antes que façamos mais alguma coisa da
qual vamos nos arrepender.”
Gideon balançou a cabeça e atravessou a água como um jaguar caçando sua
presa. “Eu não me arrependo de casar com você. Você abriu a porta, Ruiva, e
eu teria sido um idiota se deixasse a oportunidade passar.”
“Eu estava bêbada.”
“Eu sei.” Ele parou a poucos centímetros dela. “Mas eu estava sóbrio.”
“E você achou que seria uma boa ideia se casar comigo?”
Ele concordou, com o rosto estranhamente sem expressão.
“Por quê? Qualquer idiota conseguiria ver que eu sou a pessoa errada para
você.”
“Então, eu devo ser um idiota.” Ele a puxou para si e silenciou os seus
protestos, colando seus lábios nos dela.
Todos os pensamentos coerentes fugiram da mente dela. Naquele
momento, ela teria acreditado facilmente que eles eram perfeitos um para o
outro, que o seu lugar era nos braços dele, que o que ela havia dito na noite
anterior era a verdade. E, nas partes mais profundas do seu coração, ela sabia
que o amava, mesmo que ainda não estivesse totalmente pronta para admitir
isso sóbria.
Ela segurou o rosto dele entre as mãos e aprofundou o beijo. Um gemido
ecoou no silêncio da noite, mas ela não tinha certeza se o som vinha dela ou
dele. Ele a apertou mais até que a batida rítmica do seu coração vibrasse nela
por meio do seu peito. Um brilho quente de satisfação fluiu do centro do
peito dela, aliviando a tensão em seus ombros. O desejo se seguiu,
redirecionando a tensão para o seu ventre e acelerando sua pulsação.
Gideon se afastou, com a voz rouca ao perguntar: “Viu como nós somos
bons juntos?”
Na sua mente, ela queria dizer não. Ela queria gritar e empurrá-lo para
longe e se esconder no seu quarto até que pudesse controlar suas emoções.
Mas o seu corpo assumiu o controle. Por mais que a sua mente dissesse que
ela devia ir, seu corpo — e talvez até seu coração — forçavam-na a ficar.
“Você só vai piorar as coisas.”
“Esse é um risco que eu estou disposto a correr.”
Ele a beijou novamente e, desta vez, deixou o seu objetivo claro. Ele a
queria, e não ia parar até que ela se rendesse. Suas mãos percorreram o corpo
dela, segurando suas coxas, apertando seu traseiro, massageando suas costas,
até que a alça do seu vestido caísse do seu ombro. Ele passou dos lábios para
a sua pele nua, mordiscando a carne até que ela desejasse estar totalmente nua
para que ele pudesse provar seu corpo inteiro.
Com cada carícia, a resistência dela diminuía. Há quanto tempo ela
desejava fazer amor com ele? Há quanto tempo ela havia lutado contra seus
sentimentos por ele? Por quanto tempo ela continuaria a negar a si mesma a
única pessoa que desejava?
Ela agarrou a camisa dele e a tirou com um gemido de impaciência. Alguns
segundos depois, ela tirou o vestido, que caiu em algum canto da piscina. Um
movimento impulsivo e cheio de desejo após o outro criou um striptease
sensual e torturante entre eles.
Primeiro, as calças dele.
Depois, o sutiã dela.
Depois, as cuecas dele, até que ele estivesse nu na piscina ao lado dela.
Ela fechou a mão em torno do pênis grosso dele, massageando todo o
comprimento e imaginando como seria delicioso tê-lo dentro dela.
Gideon gemeu e apoiou seus dois braços na beirada da piscina, um em cada
lado dela, apertando os olhos. “Ah, meu Deus, Sarah.”
O controle na voz dele era o mesmo do seu corpo. Por mais que ele a
quisesse, Gideon ainda estava esperando que ela tomasse a decisão final. Ela
podia se render a ele e experimentar tudo o que ele podia oferecer, ou podia
parar tudo agora, antes de levar o relacionamento deles para um nível do qual
ela nunca mais poderia voltar. Desejo ou lógica. Paixão ou prevenção. Tudo
dependia dela.
Em vez de usar um beijo ardente para convencê-la a continuar, Gideon
passou o dedão sobre o lábio inferior dela e a encarou. O amor que brilhava
nos seus olhos a deixou sem fôlego. Este não era um homem que se
aproveitaria do estado inebriado dela para realizar os seus desejos sexuais.
Este era o homem que procurou por meses para encontrar algo importante
para ela, e o devolveu sem alarde. Este era o homem que sempre havia estado
ao seu lado quando ela precisou dele. Este era o homem que havia esperado
pacientemente todo esse tempo para que ela reconhecesse o amor entre eles.
“Por favor, Sarah, deixe-me entrar.”
A cabeça dela girou com as implicações. Ele queria mais do que sexo. Ele
queria que ela o deixasse entrar no seu coração. Ela ficaria aberta e exposta.
Ela arriscaria destruir tudo o que mais amava. Com uma só palavra, ele
poderia destruí-la e mandá-la de volta para a escuridão em que estava há três
anos atrás. E, no entanto, se havia uma pessoa na qual ela podia confiar com
o seu coração frágil, essa pessoa era o seu melhor amigo.
O queixo dela tremeu ao acenar com a cabeça.
Ele a segurou nos braços e a empurrou contra a parede da piscina. O
controle sumiu e a paixão descontrolada assumiu o seu lugar. Ele a beijou até
que a sua hesitação fosse esquecida, até que os seus medos dessem lugar à
necessidade, até que a fome dela se igualasse a dele.
E Deus, como ela o desejava. Era engraçado como o objeto do seu desejo
era o único homem que ela jamais havia considerado porque não conseguia
vê-lo como nada além de um amigo. Ela sempre achou Gideon atraente. A
maioria das pessoas no showbiz eram atraentes. Mas, quando ele passou as
mãos quentes sobre a sua pele nua, quando ele a beijou até deixá-la sem
fôlego, quando ele pressionou seu corpo rijo contra o dela, ela o desejou mais
do que jamais havia desejado alguém antes.
Ela arrancou a calcinha e entrelaçou as pernas em torno da cintura dele.
Esse era o convite que ele precisava. Ele ergueu os quadris dela e a
penetrou com uma estocada rápida.
O corpo inteiro de Sarah ficou tenso com a sensação. Deus, ele era
delicioso. E, quando ela achou que as coisas não podiam ficar melhores, ele
começou a se mover dentro dela.
Ele começou devagar, prolongando cada estocada como se quisesse fazer o
momento durar para sempre. Seus beijos seguiram seus movimentos, suaves
e carinhosos e cheios de emoções calorosas, como amor. Mas, por mais que
ela gostasse deles, alguma parte rebelde dela queria mais. Ela demonstrou seu
desejo inicialmente com uma mordiscada no lábio dele, depois, com o
movimento impaciente dos seus quadris e, finalmente, apertando seus
calcanhares contra o traseiro dele em uma súplica silenciosa para que ele a
penetrasse mais fundo.
Ele riu e seguiu os comandos dela. Seus movimentos ficaram mais rápidos,
mais vigorosos, mais fortes, até que ela gritasse de prazer com cada estocada.
Era isso o que ela queria, o que merecia. Uma transa sem pudores. A firmeza
dos movimentos despertou a menina rebelde que estava dormente dentro dela
há tanto tempo, que ela quase tinha esquecido de como havia sido um dia. Ela
estava finalmente livre para baixar a guarda, para ser ela mesma e ainda ser
desejada, mesmo expondo o seu lado obscuro.
Gideon respondeu com uma aceleração do ritmo até que ela mal
conseguisse respirar. Seu corpo ficou rijo e tenso, cada vez mais próximo do
ponto em que ela não conseguiria mais segurar o seu clímax. Ela fincou as
unhas nos ombros dele e gritou seu nome ao gozar.
“Tão. Incrivelmente. Linda.” As palavras saíram como rosnados e
terminaram com o grito de êxtase dele. Gideon se esticou para segurar a
beirada da piscina, sentindo as pernas cederem. Eles se aprofundaram na
água, até que apenas suas cabeças permanecessem sobre a superfície, mas
seus corpos ainda permaneciam intimamente entrelaçados sob a água.
Ela não fazia ideia de quanto tempo havia se passado antes que ele
sussurrasse: “Eu disse que nós seríamos bons juntos.”
“Você estava certo.”
Um sorriso esperançoso reviveu a expressão dele, e ele a beijou
suavemente mais uma vez. “Então, vamos dar uma chance para esse
casamento.”
Por mais que ela quisesse concordar, suas dúvidas voltaram com força
total. Ela sabia o que significava ser esposa dele. A matéria de ontem seria
apenas o início de um circo midiático em torno deles. Seria pior do que era
antes do seu acidente.
E, no entanto, se havia alguém que pudesse protegê-la de tudo aquilo, esse
alguém era Gideon. Afinal, ele a ajudou a se esconder em plena luz do dia
pelos últimos três anos. Eles haviam conseguido andar pela Strip na outra
noite sem serem reconhecidos. Se eles conseguissem manter o segredo…
Ele não esperou pela resposta dela e a puxou para fora da água. “Nós
precisamos nos arrumar se quisermos chegar às 21h para jantar.”
Merda! Ela tinha esquecido completamente das reservas no Guy Savoy esta
noite. O ar frio da noite fez sua pele nua se arrepiar dos pés à cabeça. Ela se
encostou nele. “Meu Deus, Gideon, nós estamos nus.”
“E daí?”
“E está frio demais.”
Ele riu de uma forma que a acalmou imediatamente. “Então, talvez, eu
deva encontrar uma maneira de aquecer você.”
O pensamento dela se voltou para a cama king-size no quarto dele, mas,
quando entraram na vila, ele a carregou até o banheiro. Ele a colocou na
banheira de ônix rosa e ligou a água. “Eu sonho com você nessa banheira
desde o dia em que chegamos.”
Ela se recostou e esticou os braços, escondendo nada dele. “É mesmo?”
“Sim.” O calor nos olhos dele afastou todo o frio e reacendeu o desejo dela.
Ele olhou para ela como se fosse algum tipo de iguaria deliciosa que ele só
podia experimentar mais tarde, apesar de desejá-la agora.
Ela gesticulou para que ele se juntasse a ela. “E depois?”
Ele deslizou para dentro da água e a puxou para cima do seu colo, com o
pênis rijo e pesado entre as coxas dela. “E depois, eu faço você gozar de
novo.”
E ele fez.
***
O coração de Sarah batia a um ritmo irregular, mas ela não tinha certeza se
a causa era o homem que segurava a sua mão ou ela estar saindo da vila
sóbria pela primeira vez desde que a sua identidade foi descoberta. O seu
casamento com Gideon apenas geraria mais material para os tabloides no que
estava se tornando uma viagem maluca para Vegas.
“Relaxe, Ruiva”, Gideon sussurrou quando as portas do elevador se
fecharam.
Ela o invejava. Ele parecia tão calmo, tão sob controle, tão tranquilo com a
situação que ela se perguntou qual efeito o sexo tinha nos cérebros
masculinos. Seria o melhor sedativo de todos? Ou Gideon estava
simplesmente aliviado por ela ter cedido aos seus pedidos para serem mais do
que amigos?
Não, ela não cedeu. Ela também queria isso. Ela só estava com medo de
admitir. Ou de expressar os seus sentimentos com ações.
Mas agora que ela havia agido, um novo medo se alojou no seu estômago.
Como ela faria a transição para o seu novo papel na vida
de Gideon? Assistentes costumavam ficar em segundo plano. Mas
namoradas? Correção — esposas — não ficavam.
“E se houver repórteres lá embaixo?”, ela perguntou, com a voz tensa e
aguda.
“Não há nenhum no segundo andar. Eu já pedi para o Raul investigar para
nós.”
Um pouco da tensão saiu dos seus ombros, e ela descansou a cabeça no
ombro dele. “Desculpe se eu estiver exagerando.”
“Eu disse que você estava?” Ele deu um beijo na testa dela e as portas do
elevador se abriram, revelando um lobby quase vazio. “Aconteça o que
acontecer, eu vou estar do seu lado.”
Como sempre esteve.
Ele apertou suavemente a mão dela e a guiou para fora do elevador.
A última vez que ela havia tentado jantar no Guy Savoy, eles haviam sido
surpreendidos pela Mackinzie. Apesar de Gideon ter assegurado a ela que a
atriz estava a milhares de quilômetros de distância com seu príncipe
italiano, Sarah ainda não conseguia deixar de sentir a apreensão fria que subia
pelo seu pescoço enquanto eles se encaminhavam para a mesa. E se os
funcionários do restaurante lembrassem deles?
Ou o que era pior, e se eles a reconhecessem do vídeo que circulava na
internet?
Mas nada de extraordinário aconteceu. Ninguém sussurrando nos cantos.
Nenhum olhar disfarçado ou óbvio quando eles passaram. Nenhum flash de
câmera. Apenas um restaurante cheio de pessoas desfrutando o jantar.
Gideon puxou a cadeira e colocou uma mão tranquilizadora no ombro dela
antes de tomar o seu lugar na mesa. “Esperando problemas?”
“Somos nós que estamos em todos os sites de fofocas.”
“Não esta noite.” Ele pegou o menu e sorriu para ela. “Esta noite, nós
estamos desfrutando de um jantar muito antecipado juntos, e eu não consigo
pensar em uma maneira melhor de começar a nossa aventura juntos.”
Aventura. Uma palavra tão estranha para descrever o casamento. Com base
no histórico da mãe, ela o chamaria de “prisão”, ou “enganação”, ou “O que
diabos eu fui fazer?” Mas com Gideon, “aventura” parecia fazer sentido.
Mas ela conseguiria sobreviver a esta aventura intacta?
Gideon esperou até que os dois tivessem feito seus pedidos para dizer: “Me
diga o que realmente está preocupando você.”
“Você sabe o que está me preocupando.” Ela endireitou os talheres. “Por
três anos, eu consegui passar despercebida. Mas depois dos últimos dias…”
“Você ainda pode ter a sua privacidade, Sarah. Veja esta noite, por
exemplo. Você está vendo alguma comoção?”
“Não…” ela arrastou a palavra, esperando que tudo viesse abaixo naquele
momento.
“E essa história do vídeo vai sumir em uns dois dias.”
Ela apontou para a aliança no seu dedo. “Mas e isto?”
“Eu pedi para o Gabe subornar o atendente e o juiz de paz para não
vazarem nada para a imprensa.”
Algo não fazia sentido. Gabe parecia ser cúmplice de muitas coisas, mas
por que ele pagaria para manter o casamento deles em segredo? “E ele fez
isso?”
“Sim”, Gideon respondeu com um tom de finalidade que sugeria que algo
mais havia acontecido na noite anterior que ele não estava disposto a contar.
“Mas eu garanto, nós fizemos todo o possível para manter o casamento longe
da mídia.”
“Por quê?”
“Porque eu quero isso, Ruiva.” Ele esticou os braços e segurou as mãos
dela. Seus olhos queimavam com tanta determinação e desejo que ela se
sentiu a mulher mais linda do mundo. “Eu me lembro que uma das razões
pelas quais você recusou a minha proposta em outubro era ficar sob os
holofotes novamente. Então, eu vou fazer tudo o que puder para fazer você
feliz, começando por provar a você que nós podemos ficar juntos sem que
ninguém saiba que estamos casados. E, quando você estiver confortável para
divulgar a notícia, nós mandaremos uma nota à imprensa por meio do meu
RP e isso será o suficiente.”
“Você acha que esse plano vai funcionar?”
“Tudo o que nós podemos fazer é tentar e ver o que acontece. Agora, pare
de se preocupar e aproveite o jantar comigo, por favor.”
Ela queria muito acreditar nele. Se havia uma chance de fazer esse
casamento durar, ela a aceitaria. Mas, por enquanto, tudo o que ela podia
fazer era esperar que ele estivesse certo.
Capítulo Quatorze
Gideon acordou da mesma forma que havia acordado na manhã anterior —
com uma ruiva sexy nos braços. Mas hoje, ele tinha um sorriso de satisfação
no rosto.
A vida de casado fazia bem para ele, e isso se devia a mais do que apenas
sexo de qualidade. O sexo realmente era ótimo. Ele e Sarah podiam incendiar
o quarto, o sexo era quente demais. Mas o que aconteceu na noite anterior ia
além da conexão física que se formava entre eles. Ele testemunhou uma
mudança nela, uma suavidade, uma vulnerabilidade que o fez querer segurá-
la nos braços e nunca mais soltar. E o fez se apaixonar ainda mais por ela.
Agora que ele precisava descobrir como convencê-la de que o casamento
deles era mais do que um capricho em um momento inebrio, e que eles
podiam manter o segredo até que ela estivesse confortável.
Ele deslizou para fora da cama, tomando cuidado para não acordá-la. Por
mais que quisesse ficar, ele precisava estar no set em uma hora. Felizmente,
este deveria ser o seu último dia de filmagem em Vegas, já que eles ainda não
tinham encontrado alguém para o papel de Rae, e depois, ele poderia passar
alguns dias aproveitando a vida de casado até que Mackinzie voltasse ou eles
encontrassem alguém para substituí-la.
Ele olhou para a esposa. A mistura de curvas suaves, pele macia e cabelos
cor de vinho era bem eficaz para trazer muitas imagens de uma femme fatale
à sua mente. A Ruiva seria perfeita para o papel de Rae. Se ele conseguisse
convencê-la disso...
Não. Pare com isso imediatamente. Você sabe que a Sarah não quer se
envolver mais com Hollywood. Não tente forçá-la a fazer isso.
Gideon apertou os dentes e pensou nos argumentos de Gabe para fazer com
ela voltasse às telas. Podia ser um desperdício de talento, mas a felicidade
dela era o mais importante.
Ele correu para o chuveiro, ainda dividido entre respeitar os desejos dela e
o seu desejo de vê-la voltar à sua glória passada. E ele não estava mais
próximo de solucionar o dilema quando desligou a água.
A porta do box se abriu, e um par de braços femininos se esticaram para
tocá-lo por meio das nuvens de vapor. Sarah entrou no box e passou os dedos
pelos cabelos molhados dele. “Ia sair sem se despedir?”
“Eu não queria perturbar o seu sono.” Mas agora que ela estava acordada,
ele não perdeu tempo e a beijou, até que ela o pegou pela mão e o levou de
volta para a cama.
Por mais que ele quisesse fazer amor com ela lentamente, ele já estava
correndo o risco de se atrasar. Ela pareceu sentir a urgência dele e o virou de
barriga para cima. “Isso vai ser rápido”, ela disse, ao montar no colo dele.
Ela desceu sobre o pênis dele, e ele quase gozou imediatamente. Ele amava
vê-la cavalgá-lo, seus quadris se movendo para cima e para baixo, seu
pescoço inclinado para trás, suas mãos deslizando pela pele nua dele. Mas vê-
la não era o bastante. Ele precisava tocá-la, segurar os seus seios, guiar os
seus movimentos até que eles encontrassem o ritmo perfeito. E, quando
encontraram, ele foi recompensado com gemidos de prazer e beijos
deliciosos.
Ele gozou praticamente sem aviso, mas, quando ela parou de repente, suas
paredes internas pulsando em torno dele, Gideon estremeceu. Ele a segurou
até que as ondas de prazer passassem, amando a sensação de estar dentro
dela. Até os seus orgasmos pareciam estar em perfeita sincronia. Mais um
sinal de como os dois eram perfeitos um para o outro.
Quando a visão dele voltou ao normal, a primeira coisa que notou foi o
brilho no rosto dela, seguido de um sorriso satisfeito. O coração dele vibrou
ao vê-la. Ele nunca a tinha visto tão feliz, e estava feliz por ser a razão
daquela felicidade.
Ela deslizou o dedo pelo centro do peito dele e baixou os olhos em um
momento raro de timidez. “Você precisa tomar cuidado, Garoto. Se nós
continuarmos assim, você vai ganhar uma reputação por chegar atrasado no
set.”
“Você vale a pena.”
Ela levantou o olhar para encontrar o dele, e seu sorriso se alargou. “Vá,
antes que eu amarre você na cabeceira.”
“Eu não sabia que você tinha um lado pervertido.” Ele conseguiu desviar
de um tapinha brincalhão e deu um beijo no rosto dela antes de sair da cama.
“Mas se você quiser experimentar hoje à noite…”
“Devo adicionar algemas à lista de compras?”, ela entrou na brincadeira.
O pênis dele enrijeceu ao pensar em Sarah fazendo o papel de dominatrix.
“Pare com isso, Ruiva, ou eu vou acabar tendo uma ereção o dia inteiro.”
“Então, talvez eu tenha que surpreender você quando chegar em casa.” Ela
deslizou para fora da cama e desapareceu no banheiro.
E, pela primeira vez desde o momento em que disse “sim” no altar, ele
finalmente acreditou que esse casamento funcionaria.
***
Sarah colocou uma tira de camisinhas que havia comprado em uma das
lojas do hotel na bolsa e pegou o almoço de Gideon no balcão. A noite
passada e esta manhã haviam ultrapassado os limites do comportamento de
risco e, se ela não tivesse cuidado, iria acabar grávida de Gideon.
A ideia a fez suspirar fundo. Algumas semanas atrás, ela teria comparado
uma gravidez não planejada a uma prisão por dirigir embriagada —
apavorante e trazendo graves consequências. Mas agora, por mais maluco
que parecesse, ela queria ter um bebê dele.
Mas talvez não agora. Afinal, eles ainda não haviam completado 48 horas
de casados.
Casados. A palavra parecia tão estranha para ela e, no entanto, se ela iria
casar com alguém, teria que ser com alguém como Gideon. Mas ela ainda
precisava de mais tempo para se acostumar a pensar nos dois como um casal.
A viagem de elevador até o lobby foi extremamente tranquila em
comparação com o caos que a recebeu quando as portas se abriram. Flashes
de câmera. Vozes altas. Dezenas de repórteres disputando a atenção dela.
Seu coração saltou na sua garganta, e ela lutou contra o impulso de voltar
correndo para a vila e se esconder.
“Deixem a moça passar”, um dos guardas ordenou.
Sarah o seguiu pelo caminho que ele abriu na multidão, protegendo o rosto
das perguntas que a acompanharam.
“Sage, é verdade que você vai substituir Mackinzie Donavan?”
“Sage, você e Gideon Kelly estão namorando?”
“Onde você esteve todos esses anos, Sage?”
“Conte-nos o que realmente está acontecendo em Las Vegas.”
Anos de vida pública a ensinaram como evitar calmamente perguntas como
essas sem demonstrar a raiva e a frustração dentro dela. Ela manteve seu
rosto sem expressão, seu olhar fixo nas costas do guarda, e sua boca fechada.
Os repórteres já tinham bastante material para criar alguma história maluca
sobre ela. Ela não precisava dar nada mais a eles.
O guarda deve ter pedido reforços, porque mais dois guardas a cercaram
quando ela passou pela multidão de repórteres.
“Onde a senhorita está indo?”, um deles perguntou.
“O ponto de táxi, por favor.” Gideon estava em um estúdio próximo à Strip
hoje para filmar cenas no que deveria ser um escritório governamental.
O guarda acenou com a cabeça e a levou até a entrada VIP, onde havia um
táxi esperando por ela.
Ela só conseguiu respirar de alívio quando o táxi já estava em movimento.
Uma onda de náusea se seguiu quando ela repassou as perguntas na sua
mente.
Eles sabiam do casamento?
Uma segunda onda de náusea a invadiu quando ela percebeu que estava
protegendo o rosto com a mão esquerda, exibindo a aliança para todas as
câmeras.
Merda!
De alguma forma, ela havia conseguido estragar tudo sem sequer abrir a
boca.
***
Gideon ligou para o número de Sarah por hábito, mas, quando a chamada
caiu direto na caixa de mensagens, ele lembrou que o telefone dela ainda
estava secando, depois de ter sido jogado na piscina.
Compre um novo telefone para a Ruiva, ele escreveu em uma mensagem
para Jason. Afinal, ele queria poder falar com a esposa quando quisesse.
Seus lábios se curvaram ao lembrar da ameaça provocadora que ela havia
feito naquela manhã sobre as algemas. E se ela estivesse em alguma loja
naquele momento, comprando lingerie sexy para esta noite? Talvez, até um
par de algemas, ou um chicote, ou uma máscara de veludo…?
Seu pênis enrijeceu e ele se mexeu na cadeira antes que a dor se instalasse.
Ah, ele adorava a ideia de voltar para ela todas as noites.
Gabe se aproximou dele e apontou para um grupo de repórteres que se
aglomeravam fora do set. “Será que eles sabem de alguma coisa que nós não
sabemos?”
“Você não vazou nada desta vez, não é?”
“Não.” Gabe balançou seu telefone. “A única prova do casamento de vocês
está bloqueada por duas senhas e alguns subornos bem generosos.”
“Eu imaginei que você já tivesse contado para alguém a essa altura.”
“Por favor.” Ele sentou em uma cadeira próxima e secou a testa. “Eu tenho
respeito por momentos sagrados. E, falando no seu casamento, como foram
as coisas ontem à noite?”
“Bem”, Gideon respondeu com um meio sorriso, lembrando de como Sarah
estava linda quando gozou.
“Bem? Ou bem, bem, bem?” Gabe levantou as sobrancelhas
sugestivamente.
“Eu não sou o tipo de cara que fala das suas conquistas.”
Gabe levantou os dois braços. “Um ponto para o Garoto!”
“Cale a boca.” Gideon o empurrou de leve, alargando o sorriso.
“Mas, sério, ela perdoou você, não é?”
“Sim.”
Gabe acenou com a cabeça, presunçosamente. “Ótimo. Agora que
resolvemos o seu problema, podemos focar em coisas mais importantes.”
Antes que ele pudesse perguntar do que Gabe estava falando, Karl surgiu
atrás dele. “Onde está a Sage?”
“Não faço ideia”, Gideon mentiu. “O telefone dela está desligado.”
“Não era isso que eu queria ouvir.” Karl passou os dedos pelo cabelo até
transformá-lo em uma bagunça cheia de pontas. “A produção vai ser
suspensa se não encontrarmos alguém para o papel de Rae.”
“E vocês já encontraram a Mackinzie?” Gabe perguntou, casualmente
demais.
“Não.” O olhar que Karl lançou para Gabe dizia que ele sabia que o ator
estava por trás do desaparecimento da atriz. “E, pessoalmente, eu estou feliz
por ter me livrado dela. Eu quero a Sage.”
O olhar do diretor focou em Gideon, e ele se mexeu na cadeira. “Eu já lhe
disse, Karl, ela não tem nenhuma intenção de voltar a atuar.”
“E eu digo que isso é bobagem. Nós vamos oferecer tanto dinheiro a ela
que Sage seria uma idiota se recusasse o papel.”
Antes, ele havia a defendido porque ela era sua melhor amiga. Agora que
ela era sua esposa, ele se sentiu ainda mais pressionado a defendê-la. “A
Sarah não está interessada em dinheiro.”
“Então, o que ela quer?”, o diretor gritou. “Uma droga de um Oscar?”
“Ela não tem um desses”, Gabe gracejou. “Só um Globo de Ouro.”
“Fique fora disso, Harrison.”
Hora de acabar com a discussão antes que Karl começasse a jogar coisas no
colega de cena de Gideon. “Ouça, Karl, eu contei para ela sobre o teste e, se
ela quiser, vai fazê-lo. Mas eu não vou forçá-la a fazer algo com o qual ela
não está confortável.”
Karl respirou rápido algumas vezes, abrindo as narinas com cada
inspiração. “Tudo bem. Mas se ela não aparecer aqui hoje à tarde, eu vou
dizer para a imprensa que ela é a razão pela qual esse filme foi suspenso.”
Gideon pulou da cadeira, fechando as mãos em punhos, mas Gabe
conseguiu se posicionar entre ele e Karl.
“Calma, Kelly”, Gabe murmurou. “Você já está encrencado, não piore as
coisas.”
“Mande a sua assistente aparecer aqui antes das seis, ou você já sabe.” Karl
se virou e saiu como se não tivesse visto Gabe impedindo Gideon de dar um
soco nele.
Gabe o empurrou de volta para a cadeira e esperou até que o diretor
estivesse longe antes de perguntar: “Você já contou a ela sobre o teste?”
“Claro que não.”
Agora era a hora do rosto de Gabe assumir um tom avermelhado. “Por que
diabos não? Depois de tudo o que eu fiz—”
“Ela não vai aceitar.” Gideon o interrompeu, mantendo a voz firme. “Eu a
conheço. Eu vi o que a fama fez com ela, e jamais quero que ela volte a se
sentir daquela forma de novo.”
“A não ser quando ela está bêbada o bastante para propor casamento a
você, não é?”
Gideon estalou os dedos. Karl já havia conseguido irritá-lo, mas ele se
recusava a deixar as provocações de Gabe afetá-lo. “Você viu como ela
estava aquela noite. Agora, imagine vê-la daquele jeito todas as noites.
Imagine—” A garganta dele se apertou ao lembrar daquela noite há três anos
atrás. “Imagine vê-la correr para a rua e ser atropelada. Imagine o seu coração
parando ao vê-la caída, imóvel no chão. Imagine correr até ela, sem saber se
ela estava viva ou morta.”
Gabe apertou os lábios e deu um passo para trás.
“Eu estava lá aquela noite, e nunca mais quero viver aquele pesadelo. E se
eu tiver que esconder informações dela para isso, que seja.”
“Você não pode protegê-la para sempre, Garoto.”
“Isso é o que você acha.”
***
Quando o táxi chegou ao set, o estômago de Sarah tinha mais nós do que
uma corda de escoteiro. A multidão aglomerada do lado de fora do estúdio só
aumentou a sua apreensão. O que havia começado como uma manhã
deliciosa havia se transformado de repente em um pesadelo de proporções
épicas.
Ela segurou a bolsa contra o peito e se perguntou se seria melhor dar meia
volta e retornar ao hotel. O sol brilhou sobre a sua aliança de casamento, e a
tensão nos seus ombros cedeu. Eles já tinham tirado fotos da aliança na sua
mão esquerda. Não havia mais nada a esconder agora.
Depois de respirar fundo para ganhar coragem, ela abriu a porta do táxi e
correu na direção do set. Os guardas a viram antes dos repórteres, e ela
conseguiu passar por eles com o mínimo de esforço. As portas se fecharam
atrás dela, deixando-a dentro do set relativamente seguro, e parada a poucos
centímetros de um sorridente Gabe Harrison.
Ele deu a ela um boné de beisebol de Las Vegas e um óculos de sol barato.
“Eu recomendo usá-los se você quiser andar pela cidade sem uma dúzia de
paparazzi atrás de você.”
“Obrigada.” Ela colocou os itens na bolsa e esticou o pescoço para olhar ao
seu redor. “Onde está o Garoto?”
“Terminando uma cena, eu acho.” Ele a estudou por um momento antes de
adicionar: “Eu conheço alguém que está morrendo de vontade de conhecer
você.”
A pele da nuca dela se arrepiou. “Quem?”
“Karl, o diretor.” Gabe enganchou a mão dela no seu braço. “Vamos
cumprimentá-lo!”
Parte dela queria parar onde estava e esperar Gideon, mas, antes que
percebesse, ela estava ao lado do diretor com olhos arregalados.
“Puta merda, você veio”, ele disse, com um leve tremor na mão.
“O quê?” Ela olhou para Gabe, pedindo ajuda, mas ganhou apenas um
olhar vazio.
“Você chegou na hora certa.” Karl colou a mão nas costas dela e a
direcionou para duas mulheres paradas ao lado de uma mala de maquiagem.
“Nós estamos entre tomadas, então, essa é a hora perfeita para o seu teste.”
“Meu teste?” Ela procurou Gideon no set, mas não o encontrou. Enquanto
isso, Karl já havia a colocado em uma cadeira e estava dando ordens para as
maquiadoras.
“Eu quero que ela esteja pronta para filmar em dez minutos. Vocês
entenderam?”
Uma das mulheres avançou com uma lata de base e a segurou perto do
pescoço de Sarah para ver se a cor era a mesma.
A outra franziu a testa e balançou a cabeça. “Ela não vai entrar nas roupas
da Mackinzie”, ela disse ao diretor.
Ótimo. Me lembre de que eu não visto mais 34.
“Ela pode fazer o teste com a roupa que está vestindo.” Karl pausou para
pedir para um dos assistentes mover uma câmera. “Isso não é uma tomada. É
algo para mostrar aos produtores e convencê-los de que a Sage é perfeita para
o papel.”
Sarah se desvencilhou da mulher que maquiava seu rosto e se levantou da
cadeira. “Espere aí um minuto. Quem disse que eu concordaria em fazer um
teste para o papel?”
“Bonitinho, Sage”, Karl disse com uma risada. “Vamos fazer uma cena
rápida, e depois o seu empresário pode negociar o seu salário.”
Ele se virou para voltar ao set, mas ela o segurou pelo ombro e o virou. “Eu
acho que você está confundindo as coisas.”
“Não, não estou. Eu disse para o Kelly trazer você aqui para fazer o teste, e
ele me disse que você viria quando estivesse pronta. Eu já estou atrasado
demais, e não vou perder essa oportunidade, então, seja uma boa garota e
sente na cadeira para que nós possamos andar logo com isso.”
Karl saiu, deixando-a sem palavras.
Gideon sabia disso e não contou a ela.
Ou, o que era pior, talvez esse fosse o plano desde o começo e ele estava
fazendo tudo o que podia para forçá-la a voltar a atuar.
A maquiadora a guiou de volta para a cadeira, para terminar de aplicar a
base. Um assistente de produção deixou uma cópia do roteiro no colo dela
alguns segundos depois, e lhe informou qual cena seria gravada. Sarah não
precisava do roteiro. Ela havia lido e relido o texto com Gideon muitas vezes
e já conhecia o papel de cor.
Quando seu marido apareceu, ela estava maquiada e pronta para atuar.
Gideon olhou para ela, com uma expressão enigmática. “O que você está
fazendo?”
“Como se você não soubesse.”
“Você não precisa fazer isso.”
“Você ia me dar a chance de decidir se eu queria fazer ou não?”
Assim que disse as palavras, a realização de algo se tornou clara. Lá no
fundo, ela queria estar ali. Ela queria fazer o teste e queria o papel de Rae. E
se ela não tivesse vindo ao set naquele momento, a chance teria escapado
pelos seus dedos. “Por que você não me contou?”
A expressão dele assumiu uma máscara de teimosia, e ele cruzou os braços.
“Porque.”
“Porque o quê?”
“Você realmente quer voltar a ser Sage Holtz?”
“Sou eu quem tem que tomar essa decisão.”
“Eu gosto das coisas como estão agora.”
Para qualquer outra pessoa, Gideon teria parecido confiante, mas ela o
conhecia bem demais. Ela não deixou de perceber a hesitação nos seus olhos,
a apreensão na sua voz, o leve tremor na sua mão, a forma como ele respirava
com dificuldade ao esperar a resposta dela. Ele estava com medo.
“O que mais você escondeu de mim?”, ela perguntou.
As linhas ao redor da boca dele franziram ainda mais, mas Karl
interrompeu antes que ela conseguisse uma resposta.
“Ótimo. Vocês dois estão aqui.” Ele colocou o braço ao redor dos ombros
de Gideon como se fossem velhos amigos. “Estou tão feliz por você tê-la
convencido a fazer isso. Agora, se vocês dois puderem criar metade da
mágica do outro dia, isso vai ser moleza.” Ele deu um tapinha no peito de
Gideon. “Vá lá e me surpreenda de novo.”
O diretor assumiu seu lugar atrás da câmera, mas nenhum dos dois desviou
o olhar um do outro. Sarah se esforçou para manter o rosto impassível,
mesmo que uma sequência infinita de perguntas inundassem a sua mente. Ele
estava tentando mantê-la fora do filme? Ou estava tentando fazê-la assumir o
papel de Mackinzie desde o começo? E onde o casamento deles se encaixava
em tudo isso?
A única coisa que ela sabia com certeza era que Gideon não havia sido
completamente honesto com ela, e isso a fez duvidar de tudo, incluindo o
casamento.
Ela olhou para o roteiro. “Diz aqui que eu preciso de uma arma.”
Um dos assistentes trouxe a arma cinematográfica para ela. Ela checou para
se certificar de que a arma estava descarregada e se posicionou na sua marca,
sem olhar para ver se Gideon se juntaria a ela.
Ela fechou os olhos e entrou no personagem. Nesta cena, Rae estava
confrontando Colt depois de descobrir que ele era um agente duplo. Era um
momento desafiador e emocionante, e tão cheio de elementos que ela mal
podia esperar para explorar. Seria fácil sentir as emoções necessárias para a
cena e, quando ela abriu os olhos, viu o mundo do ponto de vista de Rae.
Gideon assumiu seu lugar na frente dela, e assim que Karl gritou “Ação”,
ela levantou a arma.
“‘Acalme-se’”, Gideon disse em uma voz tranquilizadora. “‘Vamos
conversar como adultos civilizados.’”
“‘Seu filho da puta desgraçado.’” Ela controlou as lágrimas ao dizer a fala,
entendendo o sentimento de traição de Rae bem demais. “‘Você me usou.’”
“‘Não, não foi assim que as coisas aconteceram.’” Ele deu um passo na
direção dela, mas parou quando ela encostou a arma 9mm na cabeça dele.
“‘Mentiroso. Você estava me usando para se aproximar de Esteban,’” ela
disse, referindo-se ao personagem de Gabe. “‘Você achou que, me seduzindo,
eu o entregaria para você. Todas as suas palavras doces, todas as suas
promessas — tudo não passou de mentiras.’”
“‘Não, eu não menti. Tudo o que eu disse era a verdade.’” A súplica de
Gideon pareceu tão sincera que ela se perguntou se ele estava falando a
verdade ou era apenas um ótimo ator. “‘E se você me der uma chance, eu
prometo que irei protegê-la. Eu vou consertar tudo.’”
E exatamente como Rae no roteiro, ela hesitou. Ela queria acreditar nele.
Ela queria ter um final feliz para sempre. Ela queria acreditar no amor
verdadeiro. Mas tudo ao seu redor era falso. A equipe. As luzes. Até a arma
na sua mão. Isso não passava de uma história, e ela não passava de uma atriz
que estava lá para entreter o público.
“‘Eu queria poder acreditar em você.’”
“‘Rae, por favor.’” Gideon avançou para tocá-la e, como o roteiro
mandava, ela puxou o gatilho.
O clique suave quase não pôde ser ouvido, mas, pela reação dela, poderia
ter sido verdadeiro. Gideon se encolheu como se tivesse sido atingido. O
pânico assumiu o controle quando ela o viu cair. Mesmo que a sua mente a
dissesse que tudo não passava de faz-de-conta, aquilo era tão real para ela
quanto teria sido para Rae. A arma caiu das suas mãos, e ela cobriu sua boca,
horrorizada com o que havia feito.
“‘Colt, me desculpe. Eu sinto muito.’” Ela deu um passo na direção dele,
engolindo a bílis que queimava a sua garganta. “‘Fale comigo.’”
Ele gemeu para que ela soubesse que ele ainda estava vivo, mas, antes que
a cena pudesse continuar, o som do diretor gritando “Corta!” quebrou o
silêncio.
No segundo em que levantou a cabeça, ela estava fora do personagem, mas
ainda não tinha conseguido deixar de sentir a traição que Rae sentiu.
Gideon se levantou e correu até ela. “Você foi incrível, Ruiva”, ele disse,
com uma mistura de orgulho e arrependimento no rosto.
O coração dela se apertou, e ela não soube o que dizer.
Gabe se juntou a eles e apertou a mão de Gideon, parabenizando-o. “Ela
arrasou no teste. Eu disse que o nosso plano ia funcionar.”
A confusão evaporou, e ela voltou à posição defensiva. “Que plano?”
A boca de Gabe se abriu, seguida de alguns sons incompreensíveis. “Eu—
Eu—quer dizer, nós—”
“Esqueça, Harrison.” Ela enfiou a arma nas mãos de Gabe, encarando
Gideon. “Que plano é esse de vocês dois?”
“Não importa, Ruiva.”
“Pelo contrário, eu acho que importa sim.”
Conforme o silêncio se prolongava, ela começou a montar o quebra-
cabeças. Gideon queria ser mais do que amigo dela e, agora, eles estavam
casados. Mas o que ainda não estava claro era o filme e o teste sobre o qual
ele não contou a ela, e como tudo começou com o beijo que a fez questionar
o relacionamento deles…
“Você me enganou”, ela sussurrou, quando tudo se encaixou.
“Não, não foi isso que aconteceu.” Ele tentou se aproximar, mas ela se
afastou.
“Não, você e o Gabe me enganaram. Naquele dia em que nós repassamos
as falas e os vídeos e os vazamentos para a imprensa — vocês dois estavam
por trás disso. E, como uma idiota, eu permiti que você me manipulasse.”
Como ondulações em um lago, as consequências de cada ato ficavam cada
vez maiores. Se ela não tivesse repassado as falas com Gideon naquele dia,
ele nunca teria a beijado, e a cena nunca teria parado na Internet, e o telefone
dela não teria sido bombardeado com ligações e feito com que ela começasse
a beber no outro dia.
E se ela não tivesse ficado bêbada…
Ela arrancou a aliança do dedo e a enfiou na mão de Gideon. “Eu não posso
fazer isso, não com alguém que não consegue ser honesto comigo.”
Ela pegou sua bolsa e correu para a porta antes que a sua coragem falhasse.
Capítulo Quinze
O choque deixou Gideon paralisado enquanto Sarah colocava sua aliança
na mão dele e ia embora. Uma sensação estranha de déjà vu o invadiu.
Sarah, brava com ele depois de uma discussão, fugindo cegamente.
Um grupo de repórteres se aproximou para colher todos os detalhes,
tentando cercá-la enquanto ela corria para a rua.
E na direção de um carro que passava.
O coração dele parou, e a corda do pânico estrangulou a sua voz. Ele não
podia vê-la ser atropelada de novo, não depois da última vez. E se eles não
tivessem a mesma sorte?
Isso foi suficiente para fazê-lo superar o medo. Ele correu atrás dela.
“Sarah, pare!”
O barulho de freios sendo acionados e pneus cantando lhe respondeu, e os
repórteres preencheram o espaço entre eles, bloqueando a sua visão.
Por favor, diga que ela está bem, ele rezou enquanto abria caminho pela
multidão.
Quando a multidão se abriu satisfatoriamente para que ele pudesse vê-la,
ela não estava caída no asfalto como da última vez. Mas vê-la entrar em um
táxi e ir embora não o alegrou.
“Que azar, Garoto”, Gabe disse atrás dele.
Ele havia chegado perto. Tão perto.
E, agora, tudo estava explodindo na sua frente.
“Eu disse que ela queria o papel”, Gabe continuou. “Obrigado por estragar
o meu plano.”
Gideon fechou a mão em um punho e golpeou. Seus dedos conectaram com
o maxilar do colega de cena, e uma onda de dor subiu pela sua mão e se
alojou no pulso.
A cabeça de Gabe caiu para trás e, um segundo depois, era ele quem estava
caído no chão.
Gideon balançou a mão, desejando que isso parasse a dor lancinante no seu
dedo mindinho. Dois membros da equipe o cercaram para impedi-lo de dar
um segundo soco e o arrastaram para dentro enquanto outros dois levantavam
Gabe e fecharam as portas do set antes que os repórteres pudessem gravar
mais cenas da briga. “Você não podia ficar de boca fechada.”
Gabe moveu o maxilar de um lado para o outro antes de cuspir sangue.
“Isso não foi muito legal da sua parte.”
Uma sequência de xingamentos explodiu da boca de Gideon enquanto ele
tentava se desvencilhar dos dois homens que o seguravam, mas eles
continuaram puxando-o na direção do set. As câmeras do lado de fora deviam
ter capturado o soco, mas ele não se importava mais. Ele queria que Gabe
sentisse a mesma dor que ele sentia. Ele queria que ele sentisse o mesmo
desespero, a mesma frustração, o mesmo aperto no centro do peito.
“Mantenha a droga do seu nariz longe da minha vida.”
Gabe o seguiu e esperou que ele se acalmasse antes de responder. “Tudo
bem, mas se você tivesse o mínimo de bom senso, estaria correndo atrás dela
em vez de ficar aí gritando comigo e criando drama suficiente para os
repórteres encherem uma edição inteira da People.”
Gideon parou de lutar em tempo hábil para pensar naquelas palavras.
Droga! Gabe estava certo. Os membros da equipe o soltaram, e ele passou os
dedos pelo cabelo. “Você faz ideia de onde ela foi?”
Gabe apontou a direção para onde o táxi foi. “Para lá.”
“Ok.” A dor na mão dele se intensificou, mas isso podia esperar.
“O que diabos está acontecendo?” Karl gritou, com o rosto em um tom
estranho de violeta. “Você tem muito a explicar, Kelly.”
“Mais tarde”, ele disparou. Primeiro, ele precisava encontrar a Ruiva antes
que ela desaparecesse completamente. Ele focou sua atenção em Gabe. “Você
pode vir ou ficar aqui, mas você vai ficar fora do meu caminho a partir de
agora. Entendeu?”
Ele correu para a porta. Um par de passos o seguiu, e ele agradeceu em
silêncio por Gabe não ser um idiota completo.
Mas, quando ele pisou do lado de fora, tudo o que viu foi uma multidão de
repórteres disparando perguntas.
“Gideon, o que está acontecendo entre você e Gabe Harrison?”
“Gideon, por que você deu um soco em Gabe?”
“Gideon, é verdade que Sage Holtz vai substituir Mackinzie Donavan?”
“Gideon, isso é uma aliança de casamento no seu dedo?”
“Gabe, você pode confirmar os rumores?”
Gabe o segurou pelo ombro e o puxou de volta para dentro. “Ela já está
longe, Garoto.”
“Não, não está. Ela só está alguns minutos na nossa frente.” Ele pegou seu
telefone e começou a escrever uma mensagem para Jason. “Seja útil e chame
um táxi, Harrison.”
Conhecendo a Ruiva, ela estava indo para a vila para pegar suas coisas. Se
Jason e Raul conseguissem segurá-la lá por um tempo satisfatório para que
ele conseguisse chegar, talvez, ainda houvesse uma chance para implorar o
perdão dela.
“O táxi está chegando”, Gabe disse, um minuto depois.
“Quando?”
“Cinco minutos. Será o tempo necessário para tirarmos essas roupas.”
Gideon xingou em silêncio. Eram cinco minutos demais quando se tratava
da mulher que amava.
***
Sarah não fazia ideia de quanto havia corrido para fugir dos repórteres. Ela
apenas manteve os olhos fixos à sua frente e seus pés em movimento. Por
sorte, ela encontrou um táxi vazio. Ela entrou e pediu que o motorista a
levasse para o Caesar’s o mais rápido possível.
O suor corria pelo seu rosto, misturando-se com as poucas lágrimas que ela
deixou escapar. Ela não fazia ideia do que iria decidir fazer no fim das contas,
mas uma coisa era certa. Ela precisava se afastar de Gideon se queria ter a
mínima chance de pensar claramente.
Raiva pulsava nas suas veias, mas ela não conseguia dizer se era mais
direcionada a ele ou a ela. Como eu pude ser tão idiota?
Um nó se formou na sua garganta ao lembrar de quão perto ela estava de
admitir que o amava na noite anterior.
Idiota, idiota, idiota.
Ela não conhecia Gideon tão bem quanto achava que conhecia.
O pior era que ela não conseguia entender os seus motivos. Se ele queria
que ela substituísse Mackinzie no filme, por que não contou a ela sobre o
teste? Nada fazia sentido.
O táxi parou com uma freiada na entrada VIP do Caesar’s, e ela jogou um
maço de notas no motorista. “Me dê dez minutos.”
Os guardas a cercaram no momento em que ela saiu do táxi, e a guiaram
através do cassino até os elevadores particulares. Quando saiu do elevador,
ela entrou na vila o mais discretamente possível e pegou sua mala quase
pronta de alguns dias atrás. Em menos de três minutos, ela havia conseguido
pegar todo o essencial — incluindo seus desenhos — e correu para os
elevadores.
Quando as portas estavam fechando, ela viu Raul e Jason correndo atrás
dela.
Merda! O Gideon deve ter os alertado.
Ela prendeu a respiração e martelou no botão de fechar até que o elevador
começasse a descer. Um obstáculo vencido. Muitos outros a vencer.
Ela conseguiu fixar sua máscara sem expressão no rosto antes que as portas
se abrissem novamente. Desta vez, ela não deu nada aos repórteres. Apenas
um olhar tranquilo enquanto seguia os guardas até a entrada VIP.
Felizmente, o táxi ainda estava esperando. O motorista colocou sua mala no
porta-malas enquanto ela entrava, ignorando as vozes que chamavam seu
nome.
“Para onde vamos agora?” o motorista perguntou.
“Para o aeroporto.”
Ela estava cansada de Vegas. E se a sorte continuasse do seu lado, ela
estaria de volta em Los Angeles ao fim do dia, tirando suas coisas do
apartamento que havia sido seu lar pelos últimos três anos. Por mais que o
seu coração doesse pela forma como as coisas terminaram, ela sabia o que
precisava ser feito.
Ela cobriu os olhos com os óculos escuros que Gabe havia dado a ela e
deixou as lágrimas rolarem.
Era a hora de deixar Gideon para sempre.
Capítulo Dezesseis
Por mais que Gideon agradecesse a urgência do motorista, ele preferia ter
evitado a viagem alucinante pelas ruas alternativas de Vegas. Sua mão direita
havia dobrado de tamanho, e cada curva fechada o fazia bater a mão em
alguma coisa. Ele apertou os dentes e se lembrou da razão pela qual estava
passando por tudo isso.
O carro parou na entrada VIP do Caesar’s, fazendo seus olhos arderem com
mais uma batida da mão.
“É melhor um médico olhar essa mão”, Gabe disse casualmente, antes de
abrir a porta.
A cena no hotel estava quase tão ruim quanto no set. Talvez pior. Os
repórteres o atacaram no momento em que o viram. Ele manteve os olhos
para baixo e os passos firmes, enquanto Gabe o guiava para dentro. Nenhum
dos dois importava. Ele só queria alcançar a Ruiva antes que ela fosse
embora.
Mas a única voz que ele não queria ouvir o fez parar.
“Gideon Michael Kelly.”
Ele levantou a cabeça e viu a mãe parada a alguns metros de distância, com
os braços cruzados e uma expressão perturbada que significava apenas uma
coisa.
Ele estava encrencado.
Ele se forçou para sorrir “Mãe, o que você está fazendo aqui?”
Ela levantou uma sobrancelha como resposta.
“Sra. Kelly”, Gabe disse, correndo para apertar a mão da mãe de Gideon,
“que bom conhecê-la, finalmente. Por que não conversamos lá em cima?”
“Parece uma ótima ideia.” A mãe lançou mais um olhar de fúria para ele
antes de se posicionar ao lado de Gabe, com os ombros erguidos de uma
forma que dizia que era melhor que ele os seguisse.
Ótimo. Esse dia pode ficar ainda pior?
Maureen Kelly manteve suas costas para ele até que todos estivessem
seguros dentro da vila. Quando Gideon se virou, ela o puxou pela orelha de
uma forma que orgulharia qualquer freira de internato, e o arrastou até a
cadeira mais próxima. “Você tem muito a explicar, meu jovem.”
“Mãe, eu não tenho mais seis anos.”
“Então, pare de agir como se tivesse.” Ela o soltou na poltrona e ficou
parada na sua frente. O corte reto do seu terno cor de creme refletiu o tom do
interrogatório, e Gideon não pôde deixar de se sentir como se estivesse no
banco dos réus sendo questionado.
Gabe pegou uma garrafa de água na geladeira e tomou um longo gole antes
de se atirar no sofá. “Isso vai ser bom.”
“Cale a sua boca, porra.” Já era difícil ser o alvo das críticas da mãe. Ele
não precisava de comentários engraçadinhos.
“Veja como fala, meu jovem.” Sua mãe balançou o braço na direção dele,
como se estivesse prestes a dar um tapa no seu rosto por usar nomes feios,
mas parou e flexionou os dedos algumas vezes, como se estivesse tentando
controlar seu temperamento. “O que está acontecendo entre você e a Sarah?”
Ele foi poupado de ter que responder, graças a uma batida na porta da
frente. Gideon ficou alerta e esticou o pescoço, esperando ver a Ruiva
entrando no quarto.
Mas o que ele viu foram dois guarda-costas corpulentos. “Nós tentamos
pará-la, chefe”, Jason disse, desculpando-se.
Outro xingamento parou na ponta da sua língua, mas um olhar da mãe o
impediu de soltá-lo. “Alguma ideia de onde ela foi?”
“Não é preciso ser um gênio para deduzir isso, Garoto.” Gabe tomou mais
um gole antes de continuar. “Aposto mil dólares que ela está indo para o
aeroporto.”
“Então, vamos atrás dela.” Gideon se levantou da poltrona, apenas para ser
empurrado de volta pela mãe.
“Você não vai a lugar nenhum até responder as minhas perguntas.”
Gideon apertou os dedos contra a palma da mão, voltando a sentir a dor
lancinante. Ele respirou fundo até que a dor diminuísse bastante para que ele
conseguisse falar. “Mãe, se eu não a impedir de ir, vou perdê-la para
sempre.”
“Então, use a sua cabeça em vez de correr atrás dela como um idiota.”
Maureen se virou para Jason. “Você ainda brinca com computadores?”
Apesar de ser uma muralha de músculos com 1,90m e 115 quilos, Jason
deu um passo para trás e gaguejou quando Maureen focou nele. “Hum, sim,
um pouco.”
“Ele ainda é um hacker, mãe, se é isso que você está querendo dizer”,
Gideon adicionou, defendendo o guarda-costas. “Jason, você acha que
consegue impedir Sarah de deixar Las Vegas?”
Maureen fechou o espaço entre eles, até que Jason estivesse pressionado
contra a parede e bem mais pálido do que antes.
Ele olhou para Gideon, sentindo as gotas de suor se formarem na sua testa.
“Hum, eu acho que posso.”
“Então faça isso.” Maureen se virou rapidamente e voltou para Gideon.
Ele gesticulou para os guarda-costas, que correram de volta para a central
de comando.
“Você não precisa intimidá-los desse jeito, mãe.”
“Então, contrate guarda-costas que tenham culhões.” Ela sentou ao lado de
Gabe no sofá e cruzou as pernas, como uma esposa comportada tomando chá
no country club com uma amiga. “Agora, vamos voltar para a Sarah.”
“Você sabe como a Ruiva é. Ela vai voltar quando tiver tempo de se
acalmar e pensar direito.” Pelo menos, as coisas sempre tinham sido assim no
passado. A intuição dele dizia que, desta vez, as coisas eram diferentes.
Seus pés balançavam, e a voz nas profundezas da sua mente dizia que ele
estava perdendo tempo, mas no segundo em que ele tentava se levantar, sua
mãe fazia um som de aviso e apontava para a cadeira.
“Você não vai sair dessa sala até me contar tudo, rapaz.”
O sorriso de Gabe aumentou para um nível de presunção que fez Gideon
querer socá-lo de novo.
Maureen pegou seu telefone na bolsa. “Eu recebi um alerta do Google
estranho quando estava vindo para cá, dizendo que vocês dois estão casados.
Você pode esclarecer isso?”
Merda!
Ele afundou os pés no carpete e tentou encontrar uma posição confortável
na poltrona. “Posso perguntar por que você está aqui primeiro?”
“Adam e eu estávamos conversando sobre você ontem à noite, e ele estava
tão preocupado com você quanto eu. Então, eu decidi vir esta manhã para
checar as coisas.”
“Um aviso seria bem-vindo.”
“Eu tentei ligar para a Sarah, já que eu sabia que você estava trabalhando,
mas a caixa de mensagens dela estava cheia.” Ela guardou o telefone.
“Vamos voltar à essa alegação de que vocês estão casados.”
Ele enterrou o rosto nas mãos, sentindo suas têmporas latejarem tanto
quanto a sua mão. “Sim, mãe, nós estamos casados.”
“Você gostaria de ver um vídeo da cerimônia?” Gabe ofereceu seu telefone
para Maureen. “Nada de muito elaborado, mas eu tenho certeza de que esses
dois pombinhos vão lembrar sempre desse momento.”
Com exceção da noiva, que não lembrava de nada.
“Você pode mostrar para ela depois.” Gideon deslizou pela poltrona e
olhou para o teto, frustrado. “Mas sim, nós nos casamos e agora ela está tão
brava comigo que é provável que ela me mande os papéis de divórcio até o
fim dessa semana.”
“Não se você parar um pouco e pensar antes de agir”, sua mãe respondeu.
“Você sempre foi tão impulsivo.”
“Eu estava pensando antes de agir.”
“E você estava pensando por si mesmo ou indo atrás dele?” Ela inclinou a
cabeça, apontando para Gabe, e esperou que ele respondesse.
Ele transformou o que queria dizer em uma mistura de resmungos e
continuou atirado na poltrona. Ele sabia que não valia a pena discutir com
ela. Seria mais fácil deixá-la dizer o que ele havia feito de errado e como
corrigir as coisas.
Gabe finalmente o defendeu. “Sim, eu admito que nós a enganamos e a
algumas outras pessoas para conseguir o que queríamos, mas até Sarah fugir,
tudo funcionou. Gideon conseguiu conquistá-la e eu consegui a parceira de
cena que eu queria.”
“Não, não conseguiu.” Gideon levantou a cabeça para olhar para Gabe,
apertando os olhos. “Você conseguiu que ela fizesse o teste, mas ela não vai
aceitar o papel.”
“Eu não concordo. Ela queria o papel. Por qual outra razão ela teria feito
tão bem o teste?”
Seu estômago revirou, e ele fechou os olhos para não vomitar. Gabe estava
certo. Se a Ruiva não quisesse o papel, ela teria feito algo para sabotar o teste.
Ou até se recusado a fazê-lo. “Isso não está me ajudando a reconquistá-la.”
“Por que ela fugiu, Gideon?”, sua mãe perguntou.
A imagem do seu rosto pálido ao saber da traição, a mágoa nos seus olhos,
as lágrimas que enchiam seus olhos quando ela lhe devolveu a aliança —
tudo o atormentou ao relembrar dos segundos antes da sua fuga. “Ela nos
acusou de manipulá-la.”
“E vocês fizeram isso.”
“Eu sei.” Ele suspirou e levantou da poltrona, sentindo seu corpo pesado
com a derrota. “E, antes disso, ela estava irritada porque eu não contei a ela
sobre o teste de cena.”
“Porque você tinha certeza de que ela não estaria interessada no papel.”
“Por favor, mãe. Há quanto tempo você conhece a Sarah? Há quanto tempo
ela tem jurado que nunca voltaria a atuar?”
Ela apertou os lábios por um segundo antes de se virar para Gabe. “E você
teve a mesma impressão?”
“De forma alguma.” Gabe esticou o braço sobre o encosto do sofá. “A
Sarah estava dizendo uma coisa, mas, no fundo, ela queria o oposto,
exatamente como fez quando eu perguntei a ela sobre o Gideon.”
Ele pausou e esperou que Gideon explicasse. Quando isso não aconteceu,
ele continuou.
“Sarah disse que eles eram apenas amigos e nada mais, mas qualquer um
que os visse juntos saberia que ela estava mentindo. Tudo o que ela precisava
era um empurrão na direção certa.”
Ou meia garrafa de vodca.
“Então, você deu esse empurrão?” Maureen perguntou a Gabe.
“Talvez, um pouquinho.” Um toque de culpa surgiu no seu rosto e ele ficou
tenso, apoiando os cotovelos nos joelhos. “Ouça, Garoto, eu sei que eu sou
parcialmente responsável pelas coisas—”
“Parcialmente?” Gideon cruzou a sala para confrontá-lo. “Se você tivesse o
mínimo de respeito pela Ruiva, nunca teria postado aquele vídeo.”
Gabe se levantou com um pulo e o encarou, exibindo o hematoma que
crescia no seu maxilar. “Você não é totalmente inocente, então, não tente
jogar toda a culpa em mim.”
“Meninos!” Maureen pressionou uma mão no peito de cada um e os
separou. “Já chega. Repassar a culpa nunca resolve nada.”
Raul entrou e parou, como se estivesse com medo de se contaminar pela
tensão na sala. “É um bom momento para lhe dar notícias, chefe?”
Gideon agradeceu a distração. Ele se virou e voltou para a poltrona.
“Claro.”
“Jason conseguiu bloquear todos os cartões de crédito dela. Ela não vai
conseguir comprar uma passagem ou alugar um carro, ou até conseguir um
quarto de hotel sem um.”
“Perfeito.” Ele sentou e tentou pensar no próximo passo do plano, agora
que sabia que ela estava presa em Vegas.
“Agradeça o Jason por mim.” Maureen deu um sorriso charmoso para Raul
que permaneceu no seu rosto até o guarda-costas sair da sala. “Agora que
temos algum tempo, vamos pensar em um plano para convencê-la a voltar.”
“Eu estou prevendo muitos pedidos de desculpas no futuro do Gideon”,
Gabe provocou.
“No seu também, meu jovem”, Maureen o corrigiu. “Mas, precisamos fazer
uma outra coisa antes de seguirmos em frente, Gideon.”
“O quê?”, ele perguntou, com irritação na voz.
“Você precisa fazer um raio-x dessa mão. Parece estar quebrada.”
Desta vez, ele deixou o xingamento escapar.
Capítulo Dezessete
“Como assim, este cartão também foi recusado?”
“Sinto muito, Srta.-” disse a atendente da locadora de automóveis ao olhar
para o cartão de Sarah e para ela, com uma expressão de suspeita, “-Holtz,
mas eu já tentei passar todos os cartões que você me deu. Talvez, você
devesse entrar em contato com o atendimento do cartão de crédito e me
deixar atender o próximo cliente.”
Sarah pegou seu cartão e carteira de motorista e saiu irritada, com a mala
na mão. O dia havia ido de mal a pior em questão de horas. A traição de
Gideon já havia sido terrível. Ela queria apenas se esconder atrás dos óculos
de sol, voltar para Los Angeles e seguir em frente com a sua vida. Mas,
quando ela chegou ao aeroporto, descobriu que todos os seus cartões de
crédito haviam sido cancelados.
Isso só podia ser coisa do Gideon. Quem mais teria os recursos necessários
para prendê-la ali?
Ela caiu sobre uma cadeira e escondeu o rosto nas mãos. Sua pele estava
porosa devido às lágrimas, e ela estava com medo de ver como a sua
maquiagem estava sob os óculos de sol baratos que Gabe tinha dado a ela.
Combinado com o boné de beisebol de Las Vegas, ela devia parecer alguma
jogadora sem sorte que estava morando no aeroporto.
O que não estava muito longe da verdade.
Se ainda tivesse seu telefone, ela podia ligar para alguém e pedir uma
carona ou dinheiro, mas o telefone estava estragado, graças ao seu mergulho
recente na piscina. Por um segundo, ela considerou a possibilidade de ligar
para a mãe a cobrar, mas teria que ouvir horas de sermão se fizesse isso.
Além disso, a sua mãe nunca estava lá quando ela precisava. A única pessoa
que sempre estava lá era Gideon.
Ela tocou no dedo anelar esquerdo sem pensar, e lembrou de que a aliança
não estava mais ali. Ela já sentia falta do peso, da sua presença, da sua
promessa. Apenas algumas horas atrás, ela estava apaixonada. E agora?
Eu estou mais encrencada do que nunca.
Ela deslizou na cadeira e fechou os olhos. O barulho das máquinas caça-
níqueis abafava os seus pensamentos e entorpecia os seus sentidos. Ela não
fazia ideia de quanto tempo havia se passado, quando alguém se sentou ao
seu lado e disse: “Dia difícil, Ruiva?”
Ela abriu um olho e viu um homem vagamente familiar com um boné dos
Yankees sorrindo para ela. “Gabe?”
“Você não me reconheceu imediatamente, não é? Eu disse para o Garoto
que essas coisas funcionavam.” Ele olhou por sobre a armação dos óculos e
piscou para ela. “Então, quando é o seu voo?”
A alegria breve que Sarah sentiu ao ver um rosto familiar sumiu quando ela
se lembrou que ele e Gideon haviam virado melhores amigos de repente. Ela
se afastou dele e falou com a voz seca, “Como se você não soubesse.”
“Eu não sei mesmo. Eu saí quando a Maureen levou o Gideon para a
emergência.”
“Emergência?” Ela ficou reta, tencionando os músculos a ponto de ter uma
lesão. “O que aconteceu? Ele está machucado? Ele vai ficar bem?”
O sorriso de Gabe se alargou, beirando à arrogância. “Então, você se
importa com ele?”
Desgraçado. Ele a enganou. Ela encolheu os ombros e tentou parecer
desinteressada, mesmo que seu coração estivesse pulando
descontroladamente de preocupação. “Só estou curiosa para saber o que o
Garoto fez desta vez.”
“Ele quebrou a mão me deixando assim.” Gabe virou a cabeça para o lado
para revelar o hematoma inchado no seu maxilar.
Ela não sabia se devia rir ou chorar. Uma mistura estranha dos dois saiu da
sua boca antes que pudesse impedir, e ela limpou a garganta. “Bem feito.”
“Eu não ganho nenhuma pena?”
“Não.” Ela cruzou os braços e voltou a assumir a sua postura de não estou
nem aí. “Então, por que você está aqui me incomodando?”
“Incomodando você?” Ele colocou a mão sobre o peito, como se ela o
tivesse ferido. “Eu estou aqui para resgatar você, e é esse o agradecimento
que eu recebo?”
“O que faz você pensar que eu preciso ser resgatada?”
“Além de Jason ter informado todos os seus cartões de crédito como
roubados?”
Ela mordeu o lábio para não xingar. Ela sabia que Gideon estava por trás
disso.
Gabe riu. “Eu pensei que o Raul fosse o cérebro e Jason fosse os músculos,
mas parece que eu estava errado. E talvez eu tenha que roubar Jason de
Gideon quando voltarmos para LA.”
“Há! Boa sorte com isso.” Graças às suas raízes na fazenda, Jason era
extremamente leal. Era uma das razões pelas quais ela havia o contratado
como guarda-costas de Gideon. A sua habilidade como hacker foi apenas um
bônus.
“Mas vamos voltar ao seu resgate. As filmagens acabaram para mim, e eu
estou aqui para alugar um jatinho para voltar para Los Angeles amanhã.” Ele
pausou e se aproximou mais. “Tem lugar para você lá, se quiser se juntar a
mim.”
Ela esfregou as mãos nas calças enquanto considerava a oferta. “E o
Gideon?”
“O que tem ele?”
“Ele vai estar no mesmo voo?”
“Não. Só eu. E claro, você, se decidir vir comigo.”
“E a imprensa?”
“Já cuidei disso. E o jatinho é particular.”
Parecia bom demais para ser verdade. E conhecendo Gabe, provavelmente
era. “Qual é o truque?”
“Quem você acha que eu sou? Algum tipo de vigarista?”
“A sua ficha fala por si mesma.”
Ele deu uma risada autodepreciativa. “Tudo bem. Eu admito que tenho a
fama de fazer pegadinhas de vez em quando, e fui eu que elaborei o plano
para que você substituísse a Mackinzie, e sinto muito por isso.” Ele baixou o
óculos de sol para olhar para ela com olhos tristes. “Por favor, me deixe
recompensá-la. Você pode ficar na minha vila esta noite, voar para LA de
manhã e, depois, nós nos separamos. O que você diz?”
“Eu não sei. O aeroporto tem o seu charme.”
“Eu vou pedir serviço de quarto do Guy Savoy.”
A boca dela salivou ao lembrar da famosa culinária francesa, mas o sabor
era agridoce. Ela havia jantado lá na noite anterior com Gideon.
“Ok. Eu sabia que você se faria de difícil.” Gabe tirou um pacote de
M&Ms amarelos do bolso. “Isso melhora a minha oferta?”
Ela não conseguiu deixar de sorrir. “Talvez.”
“Eu posso comprar um pacote maior para você no caminho de volta.”
“Não, este já é suficiente.” Ela pegou o pacote com suas pequenas gotas de
sol e se levantou. “Por mais que eu queira ir embora de Las Vegas, acho que
posso esperar mais um dia.”
“Fico feliz em ajudar.” Gabe pegou a mala dela e enganchou o seu braço no
dele. “É cedo demais para pedir perdão?”
Ela apertou os lábios. Parte dela queria dizer sim, mas sua alma ainda
estava abalada demais com as últimas 24 horas. Talvez ela pudesse perdoá-
los.
Mas ela não era burra o suficiente para esquecer.
“Veremos.”
***
A cabeça de Gideon girou quando ele se levantou, e Raul e a mãe correram
para segurá-lo quando o viram cambalear como um bêbado em um bar.
As drogas estavam começando a fazer efeito.
Mas, pelo menos, a dor na sua mão havia aliviado. Pena que as drogas não
conseguissem anestesiar a dor no seu coração. Talvez, se tomasse outro
Percocet, ele ficaria grogue demais para se importar.
Não, ele ainda sonharia com Sarah.
Não havia saída.
A enfermeira da emergência o examinou, franzindo a testa com
preocupação. “Você precisa de uma cadeira de rodas?”
Gideon balançou a cabeça. A última vez em que ele tomou remédios para a
dor foi após a extração do seu siso. Ele só precisava de alguns segundos para
se firmar. “Eu vou ficar bem.”
Jesus, até as minhas palavras estão se arrastando.
Ele olhou para a tala grossa de fibra de vidro na sua mão direita. O médico
disse que ele havia tido uma fratura de boxeador, mas tinha sorte por não
precisar de cirurgia. Isso ainda não mudava o fato de que ele precisaria usar a
tala pelas próximas seis semanas.
Que maravilha.
Não havia nada que pudesse ser feito agora.
Ele colocou o óculos de sol e o boné dos White Sox que Raul havia
comprado para ele naquela tarde. Até o momento, o disfarce de Gabe parecia
estar funcionando. “Vamos antes que eu fique grogue demais para caminhar.”
Raul e a mãe dele permaneceram ao seu lado enquanto ele saía da
emergência e entrava em um táxi parado. Quando começaram a se mover, ele
fechou os olhos, mas sua mente não o deixava cochilar.
“Alguma notícia da Sarah?”, ele perguntou ao Raul.
“O Jason ainda está no aeroporto, procurando por ela.” Raul pegou o
telefone e enviou uma mensagem. Logo depois, o telefone bipou. “Ele não
conseguiu encontrá-la em lugar nenhum, antes da área de embarque.”
O que significava que ela havia encontrado uma forma de pegar um avião
ou já tinha saído do aeroporto. Seria mais fácil encontrá-la em Los Angeles,
desse jeito. “Diga a ele para voltar. Vamos reagrupar e repensar a situação.”
Sua mãe levantou as sobrancelhas. “Já está desistindo?”
“Só estou encarando o fato de que a causa está perdida.”
Exatamente como a ideia de ter um futuro com Sarah. Ele tirou a aliança do
dedo e a rolou entre os dedos, sem saber o que fazer com ela.
Sua mãe a pegou dele e a segurou. “O quanto você quer isso?”
Inicialmente, ela parecia estar perguntando sobre a aliança em si. Mas
depois de um momento, ele entendeu que ela estava falando do que a aliança
representava. “Eu quero. Muito.”
“Então, não desista tão rápido.” Ela devolveu a aliança a ele.
Ele a colocou de volta no dedo, desejando poder voltar no tempo e fazer as
coisas de outra forma. “Você acha que um anel de noivado faria a Ruiva
voltar? Talvez, como um sinal de que eu quero fazer as coisas certas desde o
começo?”
“Os diamantes são os melhores amigos das mulheres.” Maureen alisou seus
cabelos grisalhos, apesar de não haver um fio fora do lugar.
“E você não conhece a Ruiva. Ela não é superficial assim.”
“Mas ela pode apreciar o gesto.”
Essa era a única razão pela qual ele havia feito a sugestão. E se ela não
tivesse proposto casamento, bêbada, naquela noite? O que ele teria feito? Ele
teria continuado tentando convencê-la a dar uma chance aos dois? Ele teria a
beijado até que ela visse a verdade? Ele teria a cortejado como um herói
cinematográfico antigo? “Você acha que ela me daria uma segunda chance?”
“Você nunca sabe até tentar.”
O desafio da mãe permaneceu na sua mente até chegarem no Caesar’s.
Quando ele saiu do táxi, suas pernas não tremeram. O efeito das drogas já
estava passando, e sua mente estava mais clara do que antes.
E ele sabia que ela estava certa.
Raul começou a guiá-los até os elevadores, mas Gideon o fez parar e se
virou para a mãe. “Mãe, eu gostaria da sua opinião sobre diamantes.”
Ela sorriu para ele. “Eu sei que a Cartier e a Tiffany’s têm lojas no Forum.”
“Então, siga-me.”
Duas horas depois, ele estava armado com uma pequena caixa vermelha da
Cartier com o anel de noivado perfeito para Sarah. Mas isso fez pouco para
dissolver o nó na sua garganta ao lembrar que ela tinha ido embora. Ele
entrou na vila com uma pequena esperança de que ela estivesse lá, esperando
por ele, mas Jason foi o único que o recebeu.
Os ombros do guarda-costas estavam caídos, e até a sua voz soou
desanimada quando ele disse, “Desculpe, chefe.”
“Nenhuma notícia dela?”
Jason balançou a cabeça, mas seu rosto ficou mais animado. “Eu vou ver se
consigo hackear o sistema de câmeras do aeroporto.”
“Não precisa. Você já fez muito para irritar a polícia, e a última coisa que
eu preciso é que você vá preso por minha culpa.” Gideon desabou no sofá e
jogou a caixinha com o anel na mesa. “Nós vamos encontrá-la mais cedo ou
mais tarde.”
Ele pegou seu telefone para verificar as mensagens. Quatro ligações de
Karl, duas dos produtores, mas nenhuma da Ruiva. “Você chegou a dar um
telefone novo para ela?”
Jason desviou o olhar e enviou as mãos nos bolsos de trás das calças. “Ele
está na minha mesa.”
Era de se imaginar.
Sua mãe trouxe outro analgésico, e ele não tentou resisti-la. Por mais que
odiasse a sensação de confusão que o remédio causava, ele preferia ficar
dormente agora.
Ele deve ter cochilado, porque, quando percebeu, o dia tinha se tornado
noite e havia alguém batendo na porta. Sua pulsação acelerou ao pensar que
Sarah estava voltando, e ele pulou para recebê-la.
Tudo isso para ver Gabe entrar na vila com um olhar de pena no rosto.
“Você está terrível.”
“Vai se foder.” Ele balançou o braço para ignorar o colega de cena, mas o
movimento o desequilibrou, e ele caiu no sofá. Uma onda de dor subiu pelo
seu braço direito e ele gemeu.
Este estava sendo o pior dia de todos.
“Acalme-se, Garoto. Você não precisa quebrar outro osso.” Gabe arrastou a
cadeira até o sofá e montou nela, para que o encosto agisse como um escudo.
Ele apontou para a caixa vermelha de veludo. “Andou fazendo compras, é?”
“E o que você tem a ver com isso?”
“Gideon”, sua mãe disse, transformando a palavra em um aviso claro.
Ele suspirou e pegou a caixa. Examinando-a de todos os ângulos em vez de
olhar para Gabe. “Por que você está aqui?”
“Para ver como você está.”
“Como você pode ver, eu quebrei a mão, então, você pode dizer ao Karl
que o filme vai ter que ser suspenso até que eu tire a tala.”
Gabe pareceu analisar as notícias. “Isso nos dará o tempo necessário para
convencer a Sarah a aceitar o papel.”
“Ela não vai aceitar.” Ele jogou a caixa da Cartier na mesa e se inclinou
para frente, com os cotovelos nos joelhos. “Tudo foi só um sonho.”
“As coisas não acabam até acabarem.” Ele jogou a chave de um quarto na
mesa. “O que você diria se eu dissesse que consegui uma segunda chance
para você?”
“Eu diria que você está mentindo.”
Gabe fez um biquinho e se virou para Maureen. “Eu estou tentando ajudá-
lo, mas ele não dá a mínima para mim.”
“Eu escuto.” Ela deu uma garrafa de água para Gabe e sentou em uma
cadeira na frente deles.
Gabe apontou para a mesa. “Essa chave é a sua chance de se redimir,
Garoto.”
“Do que você está falando?”
“Talvez, você devesse pegá-la e descobrir por si mesmo.”
Gideon levantou a cabeça e o encarou. “As drogas acabaram com a minha
tolerância para piadinhas, então fale de uma vez.”
“Eu sei onde a Sarah está.” Gabe tomou um gole exagerado da garrafa de
água, testando os limites da paciência de Gideon com cada segundo que se
passava.
“Onde ela está?”
“Essa água é maravilhosa.” Ele terminou de beber o resto da água,
observando Gideon do canto do olho enquanto bebia.
Gideon fechou o punho da mão que estava intacta e pesou as consequências
de socá-lo de novo. “Onde. Está. A. Minha. Mulher?”
“Lá em cima, na minha vila.”
Imagens de Sarah na cama com Gabe escureceram a visão dele. Ele sabia
desde o início que Gabe estava atrás dela e, agora, ele estava aqui para jogar
na sua cara que havia vencido. A mão esquerda de Gideon se fechou, e ele se
levantou lentamente do sofá com a intenção de tirar o sorriso presunçoso do
rosto de Gabe. “Seu filho da puta desgraçado.”
“Gideon!” Sua mãe o jogou de volta no sofá antes que ele pudesse dar um
passo na direção de Gabe.” Eu sei que você está medicado, mas isso não é
desculpa para esse comportamento.”
“Ele queria roubá-la de mim desde o começo.”
Gabe jogou a cabeça para trás e riu. “Essa é boa.”
“O que mais eu deveria achar?”
“Se eu achasse que tinha a mínima chance com Sarah, você acha que eu
teria concordado em ser seu padrinho naquela noite?”
A resposta apaziguou o seu orgulho ferido. “Está bem”, ele disse com um
resmungo e esperou que Gabe continuasse.
“Enquanto vocês estavam na emergência, eu fui ao aeroporto e salvei a
donzela em perigo, já que eu sabia que tinha uma chance maior de convencê-
la do que você. Eu a convenci a ficar na minha vila esta noite, mas ela quer ir
para LA comigo amanhã, então, essa é a sua última chance.” Ele segurou a
chave da vila. “Ela está sozinha com um pacote de M&Ms amarelos e uma
caixa de lenços. Veja se você consegue mudar isso.”
O desafio transformou o seu estômago em geleia. Ele tinha só uma chance,
e não podia desperdiçá-la. Não quando os riscos eram tão altos.
Ele olhou para a mãe, em busca de orientação. “Você tem algum
conselho?”
“Seja sincero.”
As poucas vezes em que tentou fazer isso, ele havia esbarrado nas defesas
dela e recebido uma bela dose de silêncio por um mês inteiro. Essa era uma
das razões pelas quais ele nunca havia dito que a amava. Ele temia que, se
dissesse, ela fugisse antes que ele pudesse piscar. “E se isso a assustar?”
Sua mãe ficou séria. “Se você demonstrar o que realmente sente por ela e,
ainda assim, ela for embora, você saberá que não era para ser. Apenas
lembre-se do que você me disse no outro dia, sobre o que você realmente
queria.”
Que Sarah fosse feliz.
E se ele não fosse o homem que a faria feliz, ele precisava deixá-la ir.
Mas, primeiro, ele iria dar mais uma chance ao seu casamento.
Os músculos das suas coxas tremeram quando ele levantou e colocou a
caixa com o anel de noivado dentro do bolso. Então, ele pegou a chave do
quarto com Gabe. “Não me interrompa desta vez.”
“De jeito nenhum.” Antes de Gideon sair, Gabe adicionou: “Boa sorte,
Garoto. Estamos todos torcendo por você.”
“Obrigado”, ele disse, ignorando a náusea que se formava no seu estômago.
Ele precisava de toda a sorte do mundo.
Capítulo Dezoito
Sarah assoou o nariz com um lenço e abraçou uma almofada no sofá. Suas
lágrimas haviam acabado horas atrás, mas seu nariz ainda estava vermelho e
inchado. Pelo menos, ela tinha reprises de As Super Gatas para alegrá-la.
Como havia prometido, Gabe pediu que uma tigela da famosa sopa de
alcachofras e trufas pretas do Guy Savoy fosse entregue no quarto. Então, ele
a deixou sozinha para jantar em paz.
Ela não o culpou por deixá-la. Ela certamente era uma companhia péssima,
e esta era a última noite dele em Vegas. Ele provavelmente queria se divertir
um pouco antes de voltar para Los Angeles. Além disso, o silêncio a
acalmava tanto quanto o aroma de limão e gengibre que pairava no ar. Ela
comeu a sopa, fez algumas posturas de ioga e acampou na frente da TV com
a intenção de esvaziar a mente dos eventos do dia.
Mas, na hora dos comerciais, sua mente voltava para Gideon. Ele já tinha
voltado da emergência? Ele estava realmente ferido? Havia alguém lá para
cuidar dele?
Ela jogou a almofada do outro lado da sala e procurou sua chave na bolsa,
dizendo a si mesma que precisava ver como ele estava. Três passos depois,
ela pensou melhor. Ele era adulto e precisava aprender a cuidar de si mesmo.
Ela havia cuidado dele por tempo demais. E, se ela aparecesse na vila dele
novamente, ele podia pedir para Raul e Jason mantê-la prisioneira. Afinal, ele
havia cancelado todos os seus cartões de crédito. Ele devia estar sentado lá,
esperando que ela voltasse rastejando para ele.
Ela apertou a chave até que as beiradas penetrassem seus dedos e a
lembrassem de como ele já havia a machucado hoje.
E, como uma covarde, ela tinha fugido.
É melhor terminar tudo rapidamente. Se você esperasse, quem sabe o que
teria acontecido.
Uma dezena de cenários passaram pela sua mente, indo desde ficar com o
papel a começar o seu próprio império da moda. Mas, para cada cenário da
sua vida sem ele, um outro continuava reaparecendo. Ela podia perguntar por
que ele a tinha enganado. Ela podia perdoá-lo. Ela podia juntar os pedaços da
amizade deles e recuperá-la. Ela podia até dar uma chance ao casamento
maluco deles.
Ela podia dar uma chance a ele.
Seu peito se apertou e ela soltou a chave. Essa era a moral de tudo aquilo.
Ela teve tanto medo de perder o que tinha com Gideon que escolheu não ver
tudo o que ele tinha a oferecer. E, agora, ela havia realmente perdido tudo.
Eu não posso fazer isso, não com alguém que não consegue ser honesto
comigo.
As últimas palavras que ela havia dito a ele a assombravam. Sim, parecia
covardia fugir, mas, no seu coração, ela sabia que era preciso mais coragem
para ir do que para ficar, desta vez. Se ela não exigisse honestidade dele
agora, o relacionamento deles seria baseado em nada mais do que um alicerce
de mentiras.
O barulho suave da porta da frente se fechando a arrancou dos seus
pensamentos, e ela fingiu um sorriso para Gabe.
Ele sumiu quando Gideon entrou.
“O que você está fazendo aqui?” ela perguntou, com a voz tensa.
“Eu…” A angústia encheu os seus olhos, e ele esticou o braço para tocá-la,
mas desistiu no último segundo. “Nós precisamos conversar.”
“Eu já disse tudo o que precisava dizer.” Ela pegou o restante dos seus
M&Ms e saiu em direção ao seu quarto.
“Droga, Ruiva.” Gideon enganchou sua tala em torno do braço dela para
impedi-la e gemeu imediatamente.
Ela se virou com o som, e o viu segurando sua mão lesionada com força. A
compaixão lutou com a sua raiva. Ela não se mexeu para confortá-lo, mas não
o deixou. “Qual é a gravidade da lesão?”
“Não é muito grave, de acordo com o médico, mas dói demais assim
mesmo.”
A raiva dela diminuiu mais um pouco. “Você precisa pedir ao Frank para
ensinar você a bater.” Principalmente porque o irmão dele havia começado
muitas brigas.
“Pode crer.” Ele olhou para ela, cheio de esperança no rosto, e esticou a
mão. “Por favor, você pode me ouvir?”
Ela lutou para se manter impassível. Parte dela queria continuar fugindo,
enquanto a outra queria correr para os braços dele. “Como eu vou saber se
você não está tentando me enganar de novo?”
“Porque eu tomei remédios demais para pensar em uma mentira
convincente.”
Ela sorriu, apesar do seu desejo de permanecer distante, e cobriu a boca
para esconder o sorriso. “É o que você diz.”
“Você não vai facilitar as coisas para mim, não é?”
Ela balançou a cabeça e cruzou os braços. “Por quê?”
“Por que o quê?”
“Por que você me enganou? Por que você não me contou sobre o teste? Por
que—?” Sua garganta se apertou ao fazer a última pergunta. “Por que você se
casou comigo?”
“Porque eu amo você.”
Ele disse as palavras com uma sinceridade tão simples que ela quis
acreditar. Mas ele também era um ótimo ator, e ela não tinha certeza se podia
acreditar nele.
Ele deu um passo na direção dela, sua mão esticada ainda aberta para que
ela a aceitasse. “Eu amo você, Sarah. Eu estou apaixonado por você há tanto
tempo que nem me lembro quando os meus sentimentos mudaram de
amizade para amor, porque quem poderia ser um amor melhor do que a
minha melhor amiga?”
Os olhos dela arderam e seu coração bateu mais forte. As palavras soavam
tão doces, mas as ações dele na última semana diziam algo totalmente
diferente, não é?
“Eu tentei morder a língua, manter meus sentimentos por você escondidos,
esperando que você se desse conta de que sentia a mesma coisa. Mas desde o
Halloween, eu vi você ficar cada vez mais distante, e fiquei desesperado. Eu
estava com medo de perder você.”
A voz dela tremeu ao perguntar: “E foi por isso que você decidiu me
enganar?”
Ele fez uma careta e abaixou a mão. “Eu disse que estava desesperado. E
quando Gabe sugeriu que eu beijasse você durante um ensaio, eu aceitei a
chance. Eu estava controlando os meus sentimentos há tanto tempo, Ruiva, e
achei que se eu finalmente forçasse as coisas—”
“Achou que eu faria o quê? Cairia nos seus braços e me apaixonaria
loucamente por você?”
“Não. Quer dizer, talvez.” Ele fechou o espaço entre eles, desviando o
olhar dos lábios para os olhos dela. “Eu queria lhe mostrar o que eu já sabia
— que a pessoa que o seu coração mais desejava estava ali o tempo todo.”
Ela abriu a boca para dizer que o relacionamento deles não funcionaria,
mas sua língua se recusou a mentir. Sua mente tentou encontrar o erro no
argumento dele, mas seu coração assumiu o controle. Tudo o que ele havia
dito era verdade, ela sabia disso. Ela o amava. E se ele não a tivesse beijado,
ela nunca teria reconhecido seus sentimentos por ele.
“Eu sei que compliquei tudo, Ruiva, e sinto muito. Eu não devia ter tentado
prender você. Você é tão talentosa, e isso me assusta e me deixa fascinado.
Você poderia recomeçar a sua carreira se aceitasse o papel de Rae, mas eu
tenho medo do que a fama faria com você. Ao mesmo tempo, eu sei que você
seria incrível nesse projeto de moda. Você pode fazer o que quiser. E, em vez
de querer manter você ao meu lado, eu devia tê-la incentivado a ir atrás dos
seus sonhos. Mas eles têm que ser os seus sonhos, e não os meus.”
Um silêncio caiu sobre a sala, harmonizando com a decoração zen da vila
Nobu. A pulsação dela desacelerou, como se ela estivesse no meio de uma
shavasana final, e não em uma discussão tensa com o homem para quem ela
tinha medo de dar seu coração. “E quais são os seus sonhos, Gideon?”
“Isto.” Ele tirou a pequena caixa vermelha com detalhes dourados do bolso
e a ofereceu a ela.
A mão de Sarah tremeu ao pegá-la e abri-la. Ao lado da sua aliança de
casamento, estava um solitário de diamantes incrível, cercado de uma auréola
de diamantes menores.
“Eu quero acordar de manhã e ver o seu rosto no travesseiro ao lado do
meu. Eu quero alguém que esteja disposta a viajar comigo nessa aventura
maluca que chamamos de vida, e não ser apenas um troféu no tapete
vermelho. Eu quero que você me repreenda e me enlouqueça como você faz.
Eu quero ser a pessoa que vai apoiar você no que for melhor para a sua vida.”
Ele acariciou o rosto dela até seu dedão tocar seus lábios. “Eu quero o que já
tenho. Eu quero estar casado com a minha melhor amiga. Mas, mais do que
tudo, eu quero que você seja feliz.”
Um soluço apertou sua garganta, até que ela o soltou com uma risada
estrangulada. Ela se sentiu como se estivesse em uma cena de filme, e não
ouvindo as divagações de um homem sob o efeito de remédios que havia
conquistado o seu coração sem que ela sequer notasse. E, no entanto, amar
Gideon era tão natural para ela quanto respirar. Ela só era teimosa demais
para admitir.
Ele apertou seu nariz contra o dela, seus lábios a poucos centímetros dos
dela. “E, agora, você sabe de tudo o que está no meu coração.”
“Engraçado, porque é a mesma coisa que está no meu.”
“Que sorte a minha”, ele murmurou antes de beijá-la de uma forma que a
fez esquecer de todos os detalhes triviais e focar na única coisa que realmente
importava.
Seu melhor amigo.
Capítulo Dezenove
Gideon endireitou a gravata e alisou as lapelas do casaco. Ele precisava
parecer cool, confiante, como se fizesse parte daquele mundo, mesmo que a
sua mente não parasse de gritar que ele era um impostor. Ele examinou o
lugar, procurando seu alvo, mas, em vez de encontrá-lo, ele a encontrou.
Ela era uma visão de beleza exótica. Seus cabelos ruivos pareciam uma
cortina de cetim sobre os seus ombros nus e brilhavam sob as luzes do
cassino. O vestido de noite que ela vestia contornava as curvas que fariam a
maioria dos homens babar e, apesar de estar acompanhada de outro homem,
ele não conseguia desviar os olhos. Ele a desejava.
Ela olhou em seus olhos e o tempo pareceu parar. O coração dele parou de
bater, assim como seus pulmões. Então, os lábios dela se curvaram em um
sorriso lento, injetando ondas de desejo em suas veias e trazendo-o de volta à
vida.
O olhar durou apenas alguns segundos, mas ele estava apaixonado. Ele a
seguiu até a mesa de 21 e não pensou duas vezes antes de pagar a aposta
mínima de quinhentos dólares.
O acompanhante dela se virou para conversar com alguém, e ela lançou
mais um dos seus olhares quentes para ele, tímido e convidativo ao mesmo
tempo.
O croupier deu as cartas, e ele desviou sua atenção para olhar as que havia
recebido.
Duas rainhas.
Talvez a sua sorte estivesse prestes a mudar.
Ela olhou para as suas cartas e fez sua aposta.
Mil dólares.
Ele verificou as fichas no seu bolso para se certificar de que tinha o
suficiente para cobrir a aposta dela. Ele tinha, com dez dólares de sobra. Ele
colocou todas as fichas na mesa e esperou.
Ela virou as cartas.
Um ás e um rei.
Seu estômago se apertou quando o croupier virou as cartas dele e deslizou
suas fichas para ela.
Ela checou para se certificar que o seu acompanhante ainda estava
conversando antes de se aproximar dele. “Melhor sorte da próxima vez”, ela
sussurrou de uma forma que fez o pênis dele endurecer.
Então, Sarah piscou e enganchou o braço no de Gabe.
Ele a viu ir embora, sabendo que não seria a última vez que a veria.
“E corta!” Karl gritou atrás dele.
Gideon saiu do personagem e deu um beijo no rosto da esposa. “Você foi
incrível, Ruiva.”
“A Rae perfeita, como eu sabia que ela seria.” Gabe tirou o braço dela do
seu. “Olhe o domínio que você teve sobre ele.”
“A arte às vezes imita a vida.” Ela sorriu para Gideon, e ele lutou contra o
impulso de levá-la para cama naquele instante.
“Mas nós temos um final muito mais feliz do que o de Colton e Rae.” Ele
entrelaçou seus dedos nos dela, tentando manter seu desejo sob controle.
Sarah apertou os dedos dele, uma sensação que ele havia aprendido a amar
desde que tinha tirado a tala alguns dias atrás, antes de se virar para Gabe.
“Nós reservamos uma mesa no Guy Savoy para comemorar o nosso
aniversário de dois meses esta noite. Você quer vir?”
Gabe franziu o nariz. “Para ver vocês dois namorando?”
“Não vai ser só nós.” Gideon colocou o braço em torno da cintura dela.
“Meus irmãos, Adam e Ethan e suas parceiras vão estar lá.”
“São seis, uma mesa cheia.” Gabe tirou o casaco e o entregou para um
membro da equipe. “Além disso, eu me sentiria como se estivesse segurando
vela para todos vocês se estivesse lá.”
“Você nem quer ver a Becca?” Sarah perguntou.
Gideon ficou tenso. Ele conhecia o tom de preocupação na voz dela e, se
não tomasse cuidado, o jantar com a família dele se transformaria em uma
intervenção para o Gabe.
Gabe deu um meio sorriso para ele. “Eu posso encontrá-la amanhã. Ela é a
melhor amiga da minha irmã. Nós não somos amigos de infância. E eu não
quero perder a chance de descobrir alguns podres da Ari para usar contra ela
depois.”
“Você deveria encontrar uma garota legal e—”
Os dois correram para interrompê-la, mas Gideon chegou primeiro. “Meu
Deus, Ruiva, você está começando a falar como a minha mãe.”
“E eu estou ocupado demais agora para me envolver com alguém. Essas
refilmagens já estão irritando o diretor do meu próximo filme porque eu
precisei estar aqui em vez de lá. E mais, depois de ver o drama entre vocês,
eu acho que preciso de uma folga dos relacionamentos.”
“Nós não somos dramáticos”, Sarah disse.
“Nós somos apenas…” Gideon buscou a palavra certa, e a encontrou
quando olhou para ela. “Perfeitos.”
Gabe riu e tirou seu boné e óculos de sol da mochila. “E teimosos. E
estúpidos. E esquentados. E muito piegas. Preciso continuar?”
Sarah riu e deu um tapinha de leve em Gabe. “Não, você já disse tudo.”
“Mas sério, vocês dois são bons um para o outro, e eu fico feliz em ter tido
um papel em fazê-los ver isso.” Ele pendurou a mochila no ombro e colocou
os óculos de sol. “Agora, se vocês me derem licença, eu tenho que decorar
um roteiro em dois dias.”
Ele saiu do set, mas a partida de Gabe não apagou a expressão pensativa do
rosto de Sarah.
“Eu queria que nós conhecêssemos alguém para ele.”
“As coisas vão acontecer no tempo certo.” Gideon passou os dedos pelos
cabelos sedosos dela. “Falando em tempo certo, nós devemos contar as
notícias para a família esta noite?”
Ela balançou a cabeça. “Vamos esperar mais um mês.”
No aniversário de um mês deles, Sarah percebeu que sua menstruação
estava atrasada. Um teste de gravidez confirmou o que eles já suspeitavam.
Parecia que nem tudo que acontecia em Vegas ficaria em Vegas desta vez.
Mas a sua história certamente merecia um final de Hollywood.
Nota da autora

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Livro de Crista McHugh
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Esta é uma obra de ficção. Nomes, lugares, empresas, personagens e
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fictícia. Qualquer semelhança com pessoas reais, vivas ou mortas, eventos
reais ou locais é pura coincidência. ISBN-13: 978-1-940559-70-4
Biografia da Autora

Crescendo em uma pequena cidade do Alabama, Crista contava histórias


como uma forma natural de passar o tempo e para entreter suas duas irmãs
mais novas.
Hoje, ela mora nos subúrbios de Seattle com o marido e dois filhos,
mantendo seu alter ego de médica durante o dia, e realizando seu sonho como
escritora à noite e nos finais de semana.
Fato engraçado: para pagar as contas, Crista trabalhou como barista,
bartender, sommelier, assistente de palco, atriz, recepcionista de funerária e
assistente de autópsia.
E ela também é uma LARPer (jogadora de RPG com ação ao vivo) em
recuperação. (Culpa dos seus dias de faculdade)
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