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A falência
PROF. HENRIQUE LANDIM
JÚLIA LOPES DE ALMEIDA
Júlia Lopes de Almeida foi uma escritora e estudiosa brasileira. Nasceu no Rio
de Janeiro em 1862. Filha de ricos imigrantes portugueses, teve acesso a uma
boa educação. Dos sete aos 23 anos, morou numa fazenda com a família em
Campinas, São Paulo, e publicou suas primeiras crônicas no jornal local. Em
1886, mudou-se para Lisboa. Seu primeiro livro foi um volume de contos,
Traços e iluminuras, publicado com recursos próprios em Portugal, em 1887.
Júlia voltou ao Brasil em 1888, casada com o poeta português Filinto de
Almeida. Seu primeiro romance, Memórias de Marta, foi lançado em 1889,
em São Paulo, cidade em que o casal morou por quatro anos. Depois,
mudaram-se para o Rio de Janeiro, onde, durante parte das décadas de 1900
e 1910, foram os proprietários de um casarão no bairro de Santa Teresa
conhecido como Salão Verde — espaço frequentado por intelectuais e
comandado por Júlia. O nome da autora foi cogitado para figurar na lista de
membros fundadores da Academia Brasileira de Letras (1897), mas, com o
intuito de manter a Academia exclusivamente masculina, seu nome foi
preterido em favor do marido, Filinto. Em 1925, a família fixou residência em
Paris e lá permaneceu por seis anos. Em 1934, aos 72 anos, Júlia morreu, em
sua cidade natal, vítima de malária.
OBRA: A falência
AUTORA: Júlia Lopes de Almeida

ANO DE PUBLICAÇÃO: 1901

GÊNERO LITERÁRIO: Gênero Narrativo(romance composto de 25 capítulos)

MOVIMENTO LITERÁRIO: Pré-Modernismo

FOCO NARRATIVO: Narração em 3ªpessoa onisciente

ESPAÇO: ação do romance transcorre em 1891, no Rio de Janeiro, ano “em


que o preço do café assumira proporções extraordinárias”, logo após a
implantação da República
CONTEXTO HISTÓRICO:

República Velha (1889-1930) :

Guerra de Canudos

Revolta da Vacina

Revolta da Armada

Revolta da Chibata
AS CONTRADIÇÕES DO PRÉ-MODERNISMO:

CONSERVADOR X RENOVADOR

Ligado à sobrevivência das Incorporação de aspectos da


mentalidades positivista que
realidade brasileira,
se expressava no estilo
realista-naturalista- refletindo situações
parnasianista. (Código) históricas novas. (Conteúdo)
O PROJETO LITERÁRIO:
 Denúncia da realidade brasileira: nega-se o Brasil literário do Romantismo e do
Parnasianismo; o Brasil não oficial – do sertão nordestino, dos caboclos interioranos, dos subúrbios –
é o grande tema do Pré – Modernismo;

 Tipos humanos marginalizados: o sertanejo nordestino, o caipira, os funcionários


públicos, os mulatos;

 Ligação com fatos políticos, econômicos e sociais contemporâneos:


diminui a distância entre realidade e ficção. São exemplos: Triste fim de Policarpo Quaresma (retrata o
governo de Floriano Peixoto e a Revolta da Armada). Os sertões, de Euclides da Cunha (um retrato da
Guerra de Canudos);
O PROJETO LITERÁRIO:
 Ruptura com o passado, há certo caráter inovador (Coloquialismo) em determinadas
obras: a linguagem de Augusto dos Anjos, por exemplo, ponteada de palavras “não poéticas”
(como cuspe, vômito, escarro, vermes), era uma afronta à poesia parnasiana ainda em vigor;
OS PERSONAGENS:
1. Francisco Theodoro 13. Mattos
2. Camila / D. Emília 14. Inocêncio Braga / Gama Torres
3. Mário / Paquita 15. Motta
4. Ruth 16. Negreiros
5. Lia 17. Ribas
6. Raquel 18. Sancha
7. Nina / Joca
8. Noca
9. Dr. Gervásio / Sidônia
10.Capitão Rino / Catarina
11.Maestro Lêlio Braga
12.Itelvina / Joana (Senhoras Rodrigues)
A FREIRA DE NORMANDIA E SEU ENGANO
Só no fim de um ano, quando ele se cansara de a amar, foi que a mísera percebeu que o
seu cavaleiro não era o capelão - mas o diabo em pessoa! Arrepiada, transida de medo,
fugiu por montes e vales, de cruz alçada, balbuciando preces, com o fito no convento e em
redimir-se com árduas disciplinas. Andou assim, noites e dias, léguas e léguas, por mataria
espessa, mal se sustentando nas pernas fracas e nos pés ensanguentados, até que à luz
frouxa de uma madrugada viu um dia os penhascos abruptos do convento, e caiu de
joelhos, persignando-se. (p. 123)

Os enganos de:

a) Francisco para com Inocêncio Braga


b) Camila para com Gervásio
A REPÚBLICA VELHA
Mas é mesmo com A falência que Júlia Lopes de Almeida inscreve seu nome entre os
grandes autores da literatura brasileira. A ação do romance transcorre em 1891, ano
“em que o preço do café assumira proporções extraordinárias”, logo após a implantação
da República, época também das grandes especulações financeiras na Bolsa de Valores,
período conhecido como Encilhamento. Em A falência, “estudo do meio carioca ao
tempo das dramáticas derrocadas comerciais provocadas pelo Encilhamento”, como
bem define Margarida Lopes de Almeida no documento inédito Biografia de dona Júlia,
Júlia Lopes de Almeida consegue ao mesmo tempo oferecer um notável panorama das
repercussões do boom do café no final do século XIX na formação da nascente
burguesia urbana, e retratar, com impecável maestria, os meandros de uma
sociedade machista e hipócrita, na qual subsistem as relações escravocratas e
aprofundam-se as desigualdades sociais.
O ENREDO:
Trajetória de Descrição da Aparece num O romance que
ascensão social casa comercial diálogo a figura Dr. Gervásio leva
de Francisco Francisco do comerciante para Camila
Theodoro Theodoro (início Gama Torres (Relação
do livro) amorosa dos
dois).

O Capitão Rino Após o passeio Passeio Bate boca entre


vai embora para aparece uma domingueiro no Mila e Mário
o Pará mulher (Sidônia) navio Netuno do
Capitão Rino

Aniversário de Mário se casa Inocêncio Braga


Nina com Paquita organiza um negócio
com Francisco
O ENREDO:
A quebra do Francisco Francisco se Um mês depois,
espelho / Theodoro entra mata à frente de a família muda-
presságio em falência Camila se para uma
negativo pequena casa

O Capitão Rino Camila propõe Camila Mário volta da


volta do Pará ajudar a família desencanta com Europa e dialoga
nos trabalhos do o Dr. Gervásio com a mãe
lar
A FALSA RELIGIOSIDADE
O romance também explora a falência dos valores do catolicismo por
meio das figuras representativas de Joana e Itelvina (Senhoras
Rodrigues), personagens caracterizadas pela avareza e a falsa
moralidade católica.
ESCRAVIDÃO:
Com o fim da monarquia, os ares abolicionistas no Brasil tornaram mais nítidos, aspecto
representativo na figura de Ruth, personagem que defenderá a negra Sancha das violências
cometidas pelas Senhoras Rodrigues.
Quando a Noca atravessava o largo. com uma criança por cada mão, para a ladeira do Seminário, sentiu que
alguém, que viera correndo, lhe puxava pela saia; voltou-se e viu Sancha, com ar de medo, de quem foge.
- Ué! que é que você quer?
- Quero pedir um favor, disse a negrinha, meio engasgada, tirando do seio uma nota de quinhentos réis
amarrotada e imunda.
- Que favor, gente?
- Quando voltar cá, traga isto de arsênico, disse ela apontando o dinheiro que oferecia à mulata. (P. 22)

A negrinha tinha-se refugiado a um canto, perto do fogão, e exagerava as dores, torcendo-se toda, amparada
pela compaixão da Ruth. D. Itelvina avançou os dedos magros, e, agarrando-a por um braço, puxou-a para si; a
sobrinha então abraçou-se à negrinha, unindo a sua carne alva, quase nua, ao corpo preto e abjeto da Sancha.
- Bata agora! tia Itelvina, bata agora! gritava ela, em um desafio nervoso, sacudindo a cabeleira sobre os
ombros estreitos. D. Itelvina atirou fora a vara e disse para a negra: - Vai-te deitar, diabo! foi o que te
valeu...Mas nós havemos de ajustar contas... Sancha esgueirou-se para um quarto escuro, onde os ratos
faziam bulha, e Ruth, arrepiada, trêmula, voltou silenciosa para o quarto da tia Joana. (P. 125)
A CONDIÇÃO FEMININA:
O romance traça uma crítica ácida a respeito do despotismo masculino. A opressão de
Camila se dá tanto pelo marido, Francisco Teodoro — “não quis casar com mulher
sabichona. É nas medíocres que se encontram as esposas”, orgulha-se ele —, como pelo
amante, Gervásio, sujeito arrogante e superficial, que faz dela obra sua, transformando-
a “ao influxo dos seus gostos, da sua convivência e do seu espírito”. Catarina,
personagem secundária, irmã do capitão Rino, dono de um barco a vapor, expressa, em
sua opção por manter-se solteira, a quase impossibilidade da independência feminina
na época: os homens “são enganosos, e eu sou franca. Imagina o conflito”, conclui,
desalentada.
GRADIENTES SENSORIAIS DA OPOSIÇÃO ENTRE O
TRABALHO BRAÇAL E O TRABALHO INTELECTUAL.
EXERCÍCIOS DE APLICAÇÃO
01 - Analise todos os itens a seguir feitos sobre a obra A falência, de Júlia Lopes, para em seguida marcar
o único errado sobre o romance:
a) A narrativa em questão se passa no “ano de 1891 em que o preço do café assumira proporções
extraordinárias” (ALMEIDA, 2003, p. 31).
b) Imigrante português pobre, Teodoro conseguiu, por meio do trabalho árduo, enriquecer, e desejava,
ainda, ser considerado o maior comerciante de secos e molhados do Rio de Janeiro.
c) As menções ao passado de Francisco Teodoro surgem como meio de justificar o seu comportamento
ambicioso, o qual levou a personagem a envolver-se em transações que desembocam, ao final da
narrativa, em sua falência e na perda de todos os bens, inclusive da casa da família.
d) Francisco Teodoro é apresentado como um comerciante sério e altivo, orgulhoso de sua fortuna.
Porém, é também um homem de pouco estudo, que vê tanto no Dr. Gervásio quanto em Inocêncio
uma superioridade intelectual.
e) As constantes referências a Gama Torres como o Rottschild brasileiro despertam a inveja do
protagonista, que acaba por ceder às investidas de Inocêncio, muito embora seus amigos tenham
opiniões negativas a respeito dele.
EXERCÍCIOS DE APLICAÇÃO
02 - No início o romance A falência, de Júlia Lopes, o ambiente do armazém e da área do
comércio, como podemos verificar, é sempre quente, sendo utilizadas palavras do mesmo
campo semântico para descrevê-lo: quente, arfante, fornalha, bafejante/bafejada,
incêndio, febre/febril, arder/ardente. Elas contribuem
a) para ressaltar a ideia de calor e estão também associadas à ideia de ambição.
b) para expressar a noção de justiça social do livro.
c) ao revelar o bem estar dos funcionários do lugar.
d) mostrando o quanto é fácil o trabalho braçal.
e) para dizer o quanto é rico o Brasil, por isso a riqueza descrita do café.

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