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"Quando o mundo estiver unido na busca do conhecimento, e não mais lutando


por dinheiro e poder, então nossa sociedade poderá enfim evoluir a um novo
nível."
© Le andro Karnal, 2014

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Sindicato Nacional dos Editore s de Livros, RJ

K28p Karnal, Le andro, 1963-


Pe car e pe rdoar: De us e o home m na história /
Le andro Karnal. - 1. e d. - Rio de Jane iro : Nova
Fronte ira, 2014.

208 p. : il. ; 23 cm.


ISBN 978-85-209-4060-0
1. Vida cristã. 2. De us. I. Título.
14-16607
CDD: 248.4
CDU: 27-584
Para Davi de Rossi Karnal, emesperança
~
S UMÁRIO

Introdução

1. O prazer de normar e o afã de pecar

2. As formas da infração e os códigos

3. O pecado envergonhado

4. Sexo, comida e o império do prazer

5. Dores góticas, volúpias privadas

6. Setenta vezes sete

7. Perdão grande e perdão pequeno, da Cruz às cruzes

8. Novos pecados e novos perdões

9. Oremos

Conclusões

Notas
~
Introdução

Deus é um desespero que começa onde todos os outros acabam.


Emil Cioran

Custou-me ace itar o convite de ste livro. Re lute i até . O te ma da


e xpe riê ncia re ligiosa é parte da minha pe squisa e da minha vida
de profe ssor. Mas imaginava que um livro com os ve rbos pe rdoar
e pe car cairia e m um buraco ne gro ingrato. Os re ligiosos se riam
atraídos, mas ve ndo que o autor não é um de le s, re cuariam. Os
não re ligiosos se riam re chaçados pe los ve rbos. Se ria um livro
para ningué m.
Volte i a re fle tir. Se re cuso um te xto porque acho que não
se rá lido por algué m, é porque dialogo mal com minha vaidade . A
vaidade — o orgulho — constitui, na tradição re ligiosa, o prime iro
pe cado. Aí e stá parte da chave do que ace ite i quando come ce i a
e scre ve r.
As ide ias judaicas, cristãs e islâmicas de pe cado e mbasam
quase todo comportame nto mode rno, inclusive dos não re ligiosos.
O pe rdão jurídico, as propostas de juntas conciliadoras, a
pre scrição de de litos e outros traços do Ocide nte nasce m e
cre sce m à sombra de e struturas re ligiosas. O pe nsame nto
re ligioso se gue vigoroso no chamado mundo líquido mode rno.
Talve z até te nha cre scido por causa de ssa liquide z.
Esse é um campo de compre e nsão do que somos, e scrito
por algué m que não é re ligioso. Mas, importante de stacar, não é
um te xto antirre ligioso. O me rcado pulula de obras re ligiosas. De
uns te mpos para cá, surge m muitos trabalhos com ê nfase no
ate ísmo ou agnosticismo. Este livro não de fe nde uma fé e não
te m por me ta atacar ne nhuma. Este livro pe nsa sobre o humano
e a maioria dos se re s humanos pe rte nce a unive rsos onde a
re ligião ainda te m importância.
Trace i uma linha clara e comple xa para e scre ve r. Como
historiador, e nte ndo que toda ide ia te m orige m e te m
de se nvolvime nto e que tudo é transformado pe lo te mpo. As ide ias
nasce m de de te rminadas comple xidade s sociais e individuais e ,
uma ve z e stabe le cidas, age m sobre e ssas comple xidade s. Ide ias
criam e são criadas. Ide ias são parte da chamada re alidade e
vive m re laçõe s de circularidade com o mundo concre to.
Quando algué m diz que não de fe nde rá ne m atacará re ligião,
causa um incômodo. Quase toda pale stra que ministro a públicos
variados sobre um te ma re ligioso, na hora das pe rguntas, ve m a
ine vitáve l e óbvia que stão: qual é a sua religião? Já me pre paro
porque e ssa dúvida é le gítima, ainda que fruto de um clichê . Já
me disse ram que algué m se m re ligião não pode ria trabalhar com
re ligiõe s. Se mpre imagino se o mé dico oncologista se nte falta de
te r um cânce r para chamar de se u. A me táfora é infe liz: re ligião
não é um tumor. Vamos a uma me táfora me lhor: o gine cologista
home m te ria compe tê ncia me nor por não dispor do aparato
pe ssoal que e studa?
Normalme nte , no e ntanto, me us ouvinte s ficam
incomodados. Pre cisam que e u de clare algo, que tome um
partido. Na cabe ça da maioria das pe ssoas, ou algué m é
corintiano ou palme ire nse , ou colorado ou gre mista, ou atle ticano
ou flame nguista, ou vascaíno ou… Me u proble ma é com a
conjunção coorde nativa alte rnativa OU. No me smo caminho,
re afirmo: quando me pe rguntam para qual time torço, digo a
ve rdade : ne nhum. Mas o fato de jamais te r torcido e m um jogo
não significa que e u de sconside re a e norme importância
simbólica, política e e conômica do fute bol no mundo,
e spe cialme nte no Brasil. Não te nho time . Milhõe s vive m e
morre m por se us time s. Re conhe ço isso. É um fato significativo.
Não se ria importante , poré m, ouvir re ligiosos sobre o te ma
re ligião? Sim, e isso e xiste e m grande quantidade nas livrarias,
locadoras e outras fonte s. Os re ligiosos faze m ce rimônias,
e scre ve m livros, produze m filme s e ofe re ce m ao mundo um
cardápio ime nso de possibilidade s. Escritore s militante s ate us
che garam ao público um pouco de pois e e m me nor quantidade .
Richard Dawkins e Christophe r Hitche ns cavaram suas notáve is e
be m-suce didas trinche iras e m de fe sa do ate ísmo. Acho que e ssa
polarização ince ntiva o de bate , mas, como toda polarização,
adje tiva mais do que e xplica. Eu diria que , hoje , o de fe ito dos
militante s pró-ate ísmo é te re m apre ndido as de svantage ns das
re ligiõe s: a cate que se e nfática e a intole rância com a dive rgê ncia.
Isso é ruim, se ja vindo de um re ligioso, um ate u ou um
ve ge tariano…
Acre dito que há um e spaço pouco e xplorado. Ele se insinua
e m uma obra de Alain de Botton, Religião para ateus (Intrínse ca,
2011). Esse suíço, “ate u obstinado”, abandona a militância contra
as colinas sagradas e de cide pe nsar sob um ângulo novo: como
aprove itar o me lhor da re ligião e m um mundo se m De us? Sua
proposta ganha e m sutile za se comparada a outras obras.
Poré m, e m vários se ntidos, Alain de Botton pe nsa a re ligião como
um vasto balcão frigorífico de supe rme rcado e m que o ate u pode
pe gar algumas pe ças úte is e aque cê -las para se u uso. Sua re ligião
e stá conge lada e taxide rmizada, e mpalhada e fria. Ele conside ra
se u ate ísmo como o clarão do futuro, quase ine vitáve l. Esse é o
ponto onde me afasto do se u e nfoque .
Mas o que e u gostaria de dize r não é sobre a qualidade boa
ou ruim do que e xiste , ape nas de uma lacuna. É para pre e nchê -
la que de cidi e scre ve r e ste te xto. A e xpe riê ncia re ligiosa e stá
e ntre as mais antigas da humanidade . Vários dirão,
e spe cialme nte acadê micos, que se trata de um e rro afirmar isso,
pois o que um romano clássico e nte ndia como re ligião é
inte irame nte dife re nte do que um jude u ortodoxo da Polônia do
sé culo XVIII e nte nde . A própria palavra re ligião te m um
significado distinto para um gre go da é poca clássica e m contraste
com um católico do sé culo XVI, na Espanha. Isso é corre to. Mas
me u caminho não e nfatizará tanto e sse corre to — ainda que
pre ciosista — e nfoque .
Vivemos um momento único. No século XVIII, durante o
Iluminismo, os homens esclarecidos acreditavam que a superação
da re ligião institucional seria um progresso. Em vários sentidos,
tinham razão. O pensamento não re ligioso e racional faria crescer a
ciência, faria a medicina avançar e traria progresso. Associavam
religião com Inquisição, repressão, censura e atraso. Grande parte
desse otimismo racional continuou pe lo século XIX. Muitos liberais e
filósofos proclamaram a “morte de Deus” e o fim das igrejas. A
ciência era Darwin, e a re ligião, o conto de fadas criacionista. A
ciência era Pasteur, e a re ligião, o atraso de tudo.
A experiência do século XX marcou uma virada. A ciência
tinha criado a metralhadora, as armas com gás, o tanque e o avião.
Veio 1914. Depois, ve io 1939. Os números de mortos das duas
guerras mundiais levavam ao tom espantado do pensador e poeta
Paul Valéry, na França: “Nós, civilizações, sabemos agora que
somos mortais.” Os horrores de Auschwitz lançaram medo sobre a
racionalidade a serviço da morte. Se a Espanha ultracatólica matou
milhares em nome de Deus na Idade Moderna; a União Soviética e
a China de Mao mataram milhões em nome da racionalidade ate ia
e “científica”, ateus e re ligiosos já não podiam se apresentar para o
debate de mãos limpas. Torquemada e Stálin se entreolhavam e
nós, pessoas comuns, estávamos ainda mais perdidos do que e les.
Parte de sse vácuo é o mundo líquido que Zygmunt Bauman
popularizou como conce ito. Quase todas as pe ssoas que me
ce rcam tive ram formação re ligiosa. Quase todos nós tínhamos
avós mais re ligiosos do que nós. Quase todos nós vive mos a
ge ne alogia que o rabino Jonathan Sacks sinte tizou tão be m no
livro Teremos netos judeus? (Maayanot, 2002): “O avô re za e m
he braico, o pai e m inglê s e o ne to não re za.” É uma e xpe riê ncia
de um jude u inglê s. Pode ria se r de um católico mine iro que ainda
se se nte lige irame nte inclinado ao mundo católico da sua infância,
mas não manipularia mais o te rço que sua avó de sfiava com
de stre za.
A biografia de milhõe s de pe ssoas no Ocide nte re produz, na
e scala individual, um mome nto de transição cultural que vive mos
de sde o sé culo XVIII. O De us da infância não cre sce u e como e le
foi conce bido para se comunicar com uma criança a partir de um
código infantil, calou-se na vida adulta. Sofre u a agonia que
sofre ram Papai Noe l, Coe lhinho da Páscoa e a Fada do De nte :
viraram le mbranças te rnas e me lancólicas, mas que nosso pe so
de adultos impe de de tornar cre nça orgânica. A maior injustiça
que De us sofre no mundo conte mporâne o é e sta: ficar conge lado
no passado e se r acusado de não re sponde r mais à angústia do
adulto.
Este livro é sobre pe car e pe rdoar. Ele trata da e xpe riê ncia
humana mais básica e fundame ntal: o de svio da norma e o
re stabe le cime nto da confiança e m si e nos outros. Em si? Claro,
pe rdoar-se é fundame ntal. Mas pe rdoar é dife re nte de re le var
se us de fe itos com indulgê ncia. Vive mos e m uma e ra de grande
indulgê ncia consigo, e m que ne nhum trauma pode se r imposto a
ne nhuma criança, e todas as açõe s de ve m se r pre miadas pe lo
simple s e sforço da te ntativa. Pe rdoar vai alé m de mimar-se .
Errar é humano. Não e xiste nada mais banal como
afirmativa. Talve z a própria afirmativa já se ja um e rro e m si, pois
é uma tautologia, a re pe tição de algo, um ple onasmo. Se r
humano é e rrar e isso vai alé m de tre iname nto, prática ou
tale nto. Pe gue -se um e xe mplo banal. Você caminha,
provave lme nte , de sde doze me se s de idade , um pouco mais ou
um pouco me nos. Você tre inou caminhar nos últimos vinte , trinta
ou se sse nta anos. Você caminha todos os dias. E,
supre e nde nte me nte , uma atividade tre inada todos os dias ainda
incorre e m e rro. Você e e u trope çamos. Erramos o passo, vamos
ao chão ou quase . Erramos na atividade que praticamos
ime nsame nte e ao longo de uma vida toda. Falhamos onde é
fácil. Mas, junto com o trope ço, e xe rcitamos nossa indulgê ncia.
Não, não fui e u que trope ce i. Foi o tape te , e ste maldito tape te !
Ce rtame nte , a culpa é de ste de grau que surgiu do nada! Os
obje tos inanimados pare ce m ganhar vida e , como e le s se
de slocaram de forma traiçoe ira até me u passo e me
de rrubaram, a culpa não foi minha. O e rro nasce com o pe rdão,
ou a e xplicação pe lo e rro.
Errar, pe car, falhar, pe rdoar, e xplicar, e sque ce r, supe rar…
Os ve rbos são inúme ros e inte re ssante s. Falam muito de nós. As
re ligiõe s, e spe cialme nte as monote ístas que são acompanhadas
de moral e é tica, tratam de ssa vasta e xpe riê ncia humana de
inse rção no mundo re al.
Ence rro e sta introdução falando de algo muito pe ssoal.
Cre sci acre ditando que , de ntre minhas virtude s, pe rdoar brilhava
com inte nsidade . Orgulhava-me da rapide z com que ace itava, com
since ridade , de sculpas pe las falhas alhe ias. Exultava e m pe rce be r
que incorporava o faltoso ao me u unive rso afe tivo com rapide z,
como se nada houve sse ocorrido. Se ntia que não havia rancore s
e xpre ssivos no me u e spírito, quando e nfre ntava dissabore s ou
de ce pçõe s. Eu me irritava muito. Me u gê nio se mpre te ve um
caráte r de ira ime diata e pote nte . Poré m, passada a raiva
mome ntâne a, normalizado o ritmo cardíaco, e u sorria ou
brincava com o faltoso. Nunca fui um se r tão cordato quanto e u
gostaria, mas supunha-me não vingativo e de fácil pe rdão.
Conhe ce r-se é , socraticame nte , o início árduo da Filosofia…
Um dia, fui obrigado a me conhe ce r mais. Já adulto, fui
fe rido por uma pe ssoa muito próxima e muito importante para
mim. Pior, a ofe nsa ocorre u e m um campo muito se nsíve l para
mim: o trabalho. Um incide nte colocou-me e m choque com uma
grande amiga. Se nti-me atacado dire tame nte . Algué m que e u
tinha e m alta conta produziu atitude s com intuito de me
pre judicar. Talve z você , que e stá le ndo isto, já te nha passado por
e ssa e xpe riê ncia. É um soco no e stômago. A traição, o ato
agre ssivo, a se ta com ve ne no disparada por arco amigo. Fique i
se m chão, misturando duas dore s muito inte nsas: a dor pe lo ato
e m si e a dor por te r sido pe rpe trada por que m e u jamais
e spe raria. Doe u e sse soco simbólico e doe u muito pe lo punho
que o de sfe ria. Dois nocaute s e e u e sticado na lona da de ce pção.
Be m, como disse , até e ntão e u pe rdoava fácil. Mas pe rce bi
que , até e ntão, nunca tinha sido ge nuiname nte ofe ndido no ponto
que importava. As muitas brigas que tive , as pe que nas e mé dias
de ce pçõe s diante do mundo, as falhas minhas e alhe ias tinham
sido e pite liais. Eu e stava diante de um fato novo: não pre cisava
pe rdoar algo fácil de pe rdoar, mas algo muito difícil. Na ve rdade ,
e u e stava confrontando a prime ira ne ce ssidade de pe rdoar.
Ne sse dia, caro le itor, que rida le itora, e u me de scobri muito
humano. Não conse guia pe rdoar. Notava, surpre e ndido, um
obstáculo inte rno, uma dor, uma fe rida que sangrava e re cusava
ataduras. Tinha sido me ntira o que e u supunha até e ntão: e u não
e ra uma pe ssoa de fácil pe rdão. Eu me de scobri rancoroso,
re ple to de raiva, transbordando no fe l e scuro e viscoso da
de ce pção. Eu cultivava e ssa dor. O pe nsame nto voltava com
fre quê ncia: como ela foi capaz?
Conve rsamos sobre o e pisódio mais de uma ve z. Analisamos
o e ve nto. Choramos ambos. Houve , de pois de um te mpo, ge nuíno
e since ro se ntime nto de arre pe ndime nto. Havia o mome nto
quase lite rário de ambos trocarmos se ntido abraço e e nte nde r
que sim, houve um e rro e que ace itar o e rro e ra parte do
apre ndizado da amizade . As cordas do violino do pe rdão e stavam
e sticadas e afinadas, e spe rando ape nas que e u tomasse do arco
e as fize sse soar. Mas o arco pe rmane ce u sobre o aparador
imaginário…
Le mbre i-me de um poe ma que e stude i na juve ntude . Era “Le
vase brisé ” (O vaso que brado), de Sully Prudhomme . O poe ma
narrava que um vaso fora que brado. E que , ape sar de não se r
pe rce ptíve l aos olhare s do mundo, não pode ria mais se r tocado.
No poe ma francê s, as re laçõe s e ram como um fino vaso que
pode ria se r colado, mas que suas rachaduras pe rmane ce riam e
que , um dia, ao toque simple s, re ve lariam a fratura. O vaso e ra
o coração humano. O poe ma, lido trinta anos ante s, voltava com
força. Se ria possíve l re faze r o vaso? Confiança se ria como
virgindade : só se ria possíve l pe rde r uma ve z?
Prudhomme ganhou o prê mio Nobe l de lite ratura, e m 1901.
Se us ve rsos voaram na minha me nte muitas ve ze s. Me táforas são
boas? Vasos são ine rte s; pe ssoas são orgânicas. Se ria válida a
comparação? Qual o limite da re construção da confiança?
São que stõe s muito humanas. Essas foram pe dras
fundame ntais na construção das re ligiõe s. Este livro trata de tudo
isso. É uma jornada pe los valore s e pe las muitas re spostas dadas
a e sse s valore s. Vive r é se mpre pe rigoso, e nvolve acide nte s de
pe rcurso. Afinal, como te rmina e sta minha história? Essa é parte
da vontade de e scre ve r e ste livro. Vamos a e le .
Capítulo 1
~
O prazer de norm ar e o afã de pecar 1

So many laws argues so many sins.


John Milton, Paradise Lost, livro XII

VOLTANDO AO ÉDEN

Na Introdução, e u afirme i que as re ligiõe s, e spe cialme nte as


monote ístas, e stavam na base da conce pção de socie dade que
e laboramos até hoje . Vamos de se nvolve r e ssa ide ia.
A Bíblia narra uma história criada na tradição judaica e
compartilhada pe los dois filhos da fé de Abraão: Cristianismo e
Judaísmo. É a narrativa do prime iro pe cado. De us coloca Adão no
ce ntro de um jardim maravilhoso. Adão é um se r único, pois,
como e nsinam os e spe cialistas na Torá, a humanidade inte ira
de sce nde de le e isso institui a frate rnidade unive rsal. Somos filhos
do me smo Pai: ningué m é e strange iro ou e stranho ne ste plane ta.
De us se apre se nta nos capítulos iniciais da criação como
dotado dos atributos da mise ricórdia e da justiça. A tradição
inte rpre tativa judaica (Midrash) ide ntifica e sse s dois atributos
como importante s: se o mundo for criado só com mise ricórdia,
have rá muitos pe cadore s; se for criado e xclusivame nte com
justiça, ningué m pode rá subsistir. Assim, o mundo é e laborado
com mise ricórdia e justiça. Em outras palavras: se De us for muito
compre e nsivo com sua criação, cada um fará o que be m e nte nde
e se distanciará do Criador; se for e xclusivame nte justo, ou se ja,
punir que m e rra de acordo com a Le i, que m pode ria sobre vive r
ao rigor do olhar divino? Assim, o mundo foi ge rado com o
atributo divino da mise ricórdia (Midat Harachamim) e com o da
justiça (Midat Hadin). É uma forma de e quilíbrio ditado por De us.
A primeira norma surge antes da criação de Eva: não comer
da árvore da vida. Liberdade absoluta: tudo poderia ser utilizado,
menos o fruto da árvore do saber, do bem e do mal. A primeira
regra da criação já veio com o primeiro código penal: “No dia em
que comeres dela, morrerás” (Gênesis 2:17). Criar punição antes da
infração indica que já se sabe da dificuldade na observação da
regra. Quando estabeleço o que acontece com quem não obedecer,
já reconheço que obedecer é uma opção e que é humano enfrentar
a regra.
É interessante imaginar que uma norma seduz para a
possibilidade da infração. Diga-se a uma criança que pode brincar
com TUDO naquele espaço MENOS com o brinquedo verme lho que
está sobre a cade ira. Não é necessário ser um grande psicólogo ou
pedagogo para imaginar que será exatamente o brinquedo proibido
o alvo maior do interesse de la. O mais lógico é imaginar que,
exatamente por causa da proibição, o brinquedo interditado será o
único desejado, pois o interdito ganhou uma aura de interesse.
Aquele brinquedo deve conter algo muito especial e todos os outros
são monótonos.
De alguma forma, o e rro, o pe cado, a infração são criados
pe la norma que os institui. A gramática e stabe le ce a me dida que
torna algué m mau usuário da norma culta. Que m e scre ve uma
gramática e stá criando os incultos da língua. A re gra é a mãe do
infrator. Talve z isso e xplique que a justiça de De us ande de mãos
dadas com sua mise ricórdia. É uma pe rce pção sábia, pois
e stabe le ce uma norma como me ta e já pre vê a ine vitáve l
infração.
Se ria te ntador imaginar que a culpa do pe cado e ste ja e m
De us. Ele de te rminou algo que se ria impossíve l de e vitar, como é
impossíve l à criança fre ar a vontade do brinque do ve rme lho sobre
a cade ira. Mais forte se ria imaginar que a norma conté m um
se cre to de se jo de infração. Na cabe ça do le gislador, e staria uma
vontade de e xaltar a re gra e sua sabe doria, pois pe la
transgre ssão, ficariam e vide nte s a re ta inte nção e a justiça do
autor da re gra. O pe cador faz a justiça de De us brilhar, be m
como torna ne ce ssária sua mise ricórdia.
Há uma que stão no prime iro pe cado que é muito
inte re ssante . De us diz que não se pode come r do fruto da Árvore
da Vida. A maçã, como consagrou a tradição, e ra inte rditada ao
paladar humano. Poré m, quando a se rpe nte te ntou, insinuou o
contrário; Eva argume ntou que não pode ria ne m come r e “ne m
tocar no fruto” (Gê ne sis 3:3). Eva e xage ra a re gra e a muda. Eva
acre sce nta mais inte rdição. O re forço imaginativo talve z e vide ncie
o quanto de se dutor havia no não.
A te ntação é iniciada pe la se rpe nte , mais astuta do que
qualque r animal. Pare ce que a inte ligê ncia é associada ao
pe cado. Poste riorme nte , e ssa se rpe nte se ria ide ntificada com o
de mônio, mas isso é mais cristão do que judaico, pois o de mônio
te m maior autonomia e força no Cristianismo do que no
Judaísmo. Inte ligê ncia pe rmite te r consciê ncia. A se rpe nte a
possui ante s do e pisódio da que da. Consciê ncia só e xistirá para
Adão e Eva após o pe cado. Como pe rsonage ns, Adão e Eva são
totalme nte rasos e de sinte re ssante s quando e stão e m ple na
comunhão com De us. O casal só nota a nude z de pois de te r
comido a fruta e cria um traje de folhas de figo. Inte ligê ncia,
consciê ncia e , agora, moral: e stava ocorre ndo uma se gunda
criação do se r humano.
Na prime ira criação, surgira um se r se m doe nças, pe rfe ito e
inte grado ao Criador. A se gunda criação é o surgime nto do
mundo como o conhe ce mos: infrator, culpado, com de svios
ince ssante s. De us criou Adão e Eva e , com o pe cado, Adão e Eva
nos criaram. De fato, somos de sce nde nte s do prime iro casal,
mas os filhos só nasce ram fora do Paraíso. Somos nós,
me lancólicos de uma orde m da qual só ouvimos falar: o mundo
se m e rro e se m pe cados.
O grande Maimônide s havia adve rtido que o livre -arbítrio e ra
re spe itado por De us (Os oito capítulos). Fomos criados com a
capacidade de optar e ntre o Be m e o Mal. Eva disse para a
se rpe nte que sabia da norma. A se rpe nte disse que e la não
morre ria, mas vive ria e te rname nte . É uma pe rgunta colossal e
um drama cósmico: por que e scolhe mos, conscie nte me nte , o que
sabe mos se r e rrado? Talve z e ssa se ja a pe rgunta mais
importante de todas. Vai dos pe que nos dramas cotidianos às
que stõe s cósmicas. Por que optamos pe lo e rrado?
Eva de monstra, ime diatame nte , a vontade do be m. Re sponde
com a re gra que e la sabe corre ta. Se duzida para agir mal, a
prime ira mãe re sponde be m. Eva é nosso mode lo humano.
Quase se mpre não pre cisamos que algué m nos diga o ce rto.
Agimos e rrado com consciê ncia do e rro. Como e u disse , isso
come ça nas pe que nas de cisõe s. Sabe mos o dano que causa a
fritura. Te mos clara profe cia sobre o dia se guinte ao optar pe la
be bida e m e xce sso. Sabe mos que o dinhe iro gasto daque le je ito
fará falta. Eva e nve re dou por uma de cisão crucial, como nós
e nve re damos diariame nte pe los pe que nos de sastre s.
A re sposta mais óbvia é que o e rro nasce do praze r
ime diato que se ante cipa. Engordar e stá no futuro e o
brigade iro se dutor e te nro e stá no pre se nte . Poupança é árdua
e o gasto ime diato é uma maravilha. O dia e stá pe la fre nte ,
frio, e a cama e stá que nte e e nvolve nte agora. Errar se ria
abandonar a virtude do futuro pe lo praze r pre se nte . Errar se ria
colocar satisfação no aqui e agora e e vitar o inve stime nto de
longo prazo. Errar se ria ape nas uma e straté gia te mporal? O
be m X e stá no ponto mais próximo e palpáve l e o be m Y e stá
longínquo; e ntão… opto pe lo X. Olhando te cnicame nte , o e rro
se ria ape nas um e quívoco te mporal, ou um choque e ntre uma
noção de de ve r de longo prazo contra um ganho ime diato.
Curiosame nte , há um se ntime nto ge ne ralizado: as pe ssoas
muito “ce rtinhas”, aque las que se mpre apostam no ade quado,
que poupam, que come m alime ntos corre tos, que nunca se
atrasam, que dorme m nas horas e xatas e na quantidade
pre scrita pe la Organização Mundial de Saúde se riam… chatas. Há
mais: se riam pouco aptas ao inovador, ao ine spe rado. Esse s
apóstolos da virtude se riam burocráticos e fadados ao fracasso
no campo do e mpre e nde dorismo.
A Bíblia foi e scrita ante s de o e mpre e nde dorismo virar a
Te ologia da nossa é poca. A Bíblia foi e scrita ante s do próprio
capitalismo. O de fe ito da e scolha de Adão e Eva é mais vasto. Não
diz re spe ito a um praze r ime diato e inovador, mas a uma
ce gue ira. O prime iro casal de se jou se r Criador, alme jou e le var a
criatura. Isso é , basicame nte , idolatria. Em um se ntido e strito, a
idolatria é o culto de e státuas de de use s falsos. No se ntido mais
amplo, é a substituição do Criador pe la criatura. Adão e Eva
de se jaram “se r como De us”, a prome ssa que a se rpe nte fe z.
O prime iro e rro é uma forma de idolatria, de ntro da qual
e stá inse rida a de sobe diê ncia. Não e ra fome ou um praze r
ime diato. Não e ra o praze r juve nil da re volta. Era uma ambição
de supe rioridade impossíve l de se r conte mplada.
O se gundo e rro é mais sutil. Adão e Eva come ram da árvore
do conhe cime nto, cujo fruto pronto e maduro se apre se ntava. O
conhe cime nto, na tradição judaica, é uma obrigação, um de ve r
imposto aos home ns. Mas o conhe cime nto é fruto do e sforço, do
contínuo ape rfe içoame nto, da luta pe lo e sclare cime nto. Tomar o
conhe cime nto pronto e maduro não é o verdade iro
conhecimento, mas apenas a vaidade de possuí-lo. Esse é o outro
e fundame ntal e rro: o atalho. Se m luta inte rna, se m uma gue rra
consigo (física e psíquica), o conhe cime nto é vazio. O sabe r nasce
de ssa luta e não do conhe cime nto e m si. O caminho é o
conhe cime nto. A luta por sabe r é o sabe r. Essa é outra lição do
Gê ne sis.
Ne sse caso, não se trata de substituir o praze r no longo
prazo pe lo praze r ime diato. Adão e Eva pe rde ram o Paraíso não
pe lo gosto do fruto ou pe lo praze r infrator. Não foi uma dúvida
e ntre te r praze r agora ou cumprir uma orde m e m longo prazo.
Nossos pais primordiais de se jaram o longo prazo irre alizáve l ao
e rrare m. Ele s come ram para se r como De us, apostaram e m
uma falsa pre missa. Sua busca pe lo disce rnime nto absoluto
ape nas trouxe à tona sua falta de capacidade para isso. Ne sse
caso, o pe cado é um e quívoco de outra forma de idolatria
orgulhosa: julgar-se capaz de mais do que se pode . O pe cado é
um e rro de avaliação. O pe cado é filho da vaidade .
Ficamos com um caso curioso. Ao de se jare m conhe cime nto
ime diato e pronto, Adão e Eva de monstraram que não tinham
conhe cime nto algum. A ignorância, e m si, não é um e rro, mas o
orgulho de la e a pe rmanê ncia ne la, sim.
O e pisódio de Adão e Eva na Torá traz mais uma re ve lação.
Já ide ntificamos a justiça que pune e a mise ricórdia que ampara.
O castigo pe la de sobe diê ncia é duro: e xpulsão do Paraíso. Adão
te ria de trabalhar com dificuldade e se u suor se ria o custo da sua
sobre vivê ncia. Eva te ve duplo castigo: parir filhos na dor e se r
submissa ao marido. Faltam milê nios para um pe nsame nto
fe minista de spontar na linha do horizonte . Dor, trabalho, pe rda
do Paraíso: e norme s puniçõe s pe lo e rro. Mas… logo após e ssas
pragas sobre Adão e Eva e toda a humanidade , ve m a
mise ricórdia. Um ve rsículo simple s, isolado, que pare ce re ve rte r
todo o jogo até aqui (Gê ne sis 3:21). De us fe z túnicas de pe le e
ve stiu home m e mulhe r. Foram e xpulsos de casa, mas com ite ns
básicos de guarda-roupa. A justiça foi fe ita e a mise ricórdia,
ate ndida. Come ça a história humana. Principiamos com a que da.
O pe cado nos humanizou.
O pre ço da humanização é alto. Fora do Paraíso, Adão e Eva
ge ram filhos. É inte re ssante notar que nunca e xistiu uma família
comple ta no Paraíso. Adão e Eva foram pe rfe itame nte fe lize s sem
filhos. Só foram fé rte is após o pe cado. A dor da conce pção faz
parte do castigo da mulhe r. A orde m de cre sce r e multiplicar
tinha sido dada, mas só se rá re alizada no lado e xte rno do Jardim
das De lícias. Caim nasce aqui, ne ste mundo, no famoso Vale de
Lágrimas. O agricultor Caim logo te ria um irmão, o pastor Abe l.
Formou-se a prime ira família humana.
O prime iro homicídio nasce de uma disputa de afe to. Caim
ofe re ce u um fruto da te rra a De us. Abe l fe z o me smo com o
primogê nito do se u re banho. A Bíblia não diz te xtualme nte , mas a
tradição judaica fala que Caim ofe re ce u produtos com de scuido e
Abe l trouxe , de coração limpo, o me lhor do re banho. Em todo
caso, De us olhou para o sacrifício de Abe l e não para o de Caim.
O re sse ntime nto instalou-se no coração do prime iro filho.
Em uma é poca de comunicação mais livre e ntre De us e os
home ns, o Altíssimo vê a triste za de Caim e o que stiona. Há
uma pe que na passage m muito significativa no capítulo 4 do
Gê ne sis. De us diz a Caim que o be m o faz andar de cabe ça
e rguida e o mal faz o pe cado e spre itar à porta: “A ti vai se u
de se jo, mas tu de ve s dominá-lo” (Gê ne sis 4:7). Tu de ve s dominar
te u de se jo, é tradição mais corre nte nas Bíblias, e spe cialme nte
as cristãs. Se ficarmos mais fie is ao he braico da Torá, o ve rbo
não é de ve r, mas pode r. No te xto he braico, não é re ssaltado
um de ve r e xatame nte , mas uma capacidade . É uma tradição
forte na Bíblia: o mal e spre ita e o home m te m capacidade de
agir be m e re cusar o pe cado. Se pe car, de ve arre pe nde r-se e
De us o pe rdoará. Se a te ntação e a força do mal fosse m
maiore s do que nossa capacidade , não se ria pe cado de fato,
pois não have ria e scolha ne m libe rdade .
No Novo Te stame nto, na carta aos Romanos que abre a
cole ção de te xtos atribuídos a Paulo, há uma passage m que
dialoga com e ssa tradição. O home m de Tarso diz que onde
aume nta o pe cado, a graça transborda (Romanos 5:20). Uma das
possibilidade s de inte rpre tação de ssa passage m é que se mpre
e xiste a fortale za dada pe lo Espírito para que cada um possa
re sistir aos e rros. Não há te ntação maior do que nossa vontade
e , assim, todo pe cado é uma e scolha, muito clara, pe lo Mal,
e scolha conscie nte e de libe rada.
O dire ito e o costume conte mporâne os introduziram
re fle xõe s que , e m alguns casos, justifica ou sociologiza o e rro. Por
causa de um de svio me ntal, por causa de sua orige m social, e m
função de uma insanidade te mporária ou um traço e spe cífico, o
criminoso torna-se me nos culpado ou até digno de uma
absolvição. A tradição bíblica é distinta. Por um lado, o e rro é
e scolha de cada um, conscie nte e de libe rada. Por outro lado,
re conhe ce ndo o e rro e se arre pe nde ndo de le , o pe rdão pode
e xistir. Todos são imputáve is na Bíblia, mas ne m todos são
pe rdoados.
Caim matou o irmão e passou a e rrar pe la Te rra com um
sinal colocado por De us, para que não se ja morto e vague pe lo
mundo. Re flita, e stimado le itor: e stamos falando da prime ira
família humana, aque la que mais próxima e ste ve de De us e te ve
um come ço tão fe liz. Ne ssa família não e xistia sogro ou sogra,
ge nro ou nora, ne m avós distintos para se parar as fe stas. Adão e
Eva não tive ram infância. A prime ira mãe ouviu o de mônio, o
prime iro pai a se guiu, o filho mais ve lho é assassino e o mais novo
e stá morto. No próximo Natal ou na Fe sta de Hanucá, ao ve r
pe que nos proble mas domé sticos, alguma ironia ve lada ou
chantage m e mocional, se ja um pouco mais ge ne roso com a me sa
familiar. Se os filhos não se e nte nde re m, se houve r intrigas e ntre
cunhados, se o marido ou a mulhe r e stive re m de mau humor,
re flitam: e stamos me lhor do que Adão e Eva…

O FUROR DE QUEM LEGIS LA


Norma e e rro, le i e pe cado; e sse binômio pare ce inse paráve l.
Difícil de finir a primazia do ovo ou da galinha. Pe camos pe la
norma que e xistia ou a norma ve io para coibir o e rro come tido?
Algué m se atrasava quando não e xistia re lógio? Até o surgime nto
da família patriarcal monogâmica como mode lo e xistia adulté rio?
Se a Bíblia for nossa fonte , a re sposta é variada. Adão e Eva
e rraram de pois de uma norma clarame nte e xposta. Caim matou
se u irmão se m que o mandame nto “não matarás” tive sse sido
ainda e nunciado. As chamadas Se te Le is de Noé surge m após o
castigo do dilúvio. Ou se ja, tomando ape nas o te xto bíblico como
fonte , os home ns e rravam se m que houve sse um código. Às ve ze s
a de sobe diê ncia é poste rior à orde m, como no caso do faraó
ante Moisé s. Às ve ze s não pare ce te r e xistido código e a punição
surge me smo assim.
Uma coisa fica clara: quanto mais multiplicamos re gras,
quanto mais le i e e statutos ocorre m, mais o e rro se disse mina.
Pare ce uma re lação de causa e e fe ito. Noé tinha se te le is. Moisé s
re ce be u de z e o conjunto das normas da Torá para um jude u
re ligioso che ga a 613.
Fora do campo re ligioso, há també m uma que stão curiosa. A
constituição norte -ame ricana é muito me nor do que a brasile ira.
Provave lme nte , a noção de le i nos Estados Unidos é mais forte do
que no Brasil. Pare ce que multiplicamos re gras à me dida que
pe rde mos a fé na sua e ficácia.
Le gislar é uma forma de controle , ao me nos no pape l. Aqui
se e stabe le ce um jogo duplo do pe cador e do moralista, do e rro
e do le gislador. Não e xiste pe cador se m um moralista e se u
código. Mas, re conhe çamos, não e xiste moralista se m pe cador.
Ele s formam um par inse paráve l.
Ide ntidade é algo dado e m confronto com o outro. Se i que m
sou pe la comparação. Em família, é comum e xistir ape nas uma
pe ssoa ocupando um único posto. Exe mplo: um filho é o
e studioso, outro é o vagabundo, outro é o re voltado e tc. Pare ce
que são pódios onde só cabe um vitorioso ou um de rrotado. Isso
se re pe te nas e mpre sas, nas igre jas, na socie dade . Uma ve z
e stabe le cido um pape l, o outro se constrói e m oposição a e le , ou
talve z ambos cre sçam e ntre laçados.
A ide ntidade do moralista é construída no orgulho de não se r
pe cador. O moralista le gisla contra o pe cador, mas le gisla para
obte r sua ide ntidade . Aque le que faz re gras, aque le que
multiplica proce dime ntos, anse ia pe lo e rro e pe la infração da sua
re gra. Há um discre to praze r no que aplica a multa, a
re prime nda, a punição, o castigo. Fico imaginando se um guarda
de trânsito no e xe rcício do se u dificílimo de ve r passasse todo o
dia se m obse rvar uma única infração. Todos os carros dirigindo
na ve locidade pre vista, piscando a se ta, parando longe da faixa de
pe de stre . Se rá que e ssa abne gada autoridade do trânsito voltaria
sorride nte para sua casa dize ndo: “Mulhe r, o dia foi ótimo, não
multe i ningué m!” A re gra pare ce só te r validade e brilhar no
mome nto e m que um rato infrator ingre ssa na ratoe ira da
moral. Aliás, se a virtude fosse unive rsal, o guarda de trânsito
pe rde ria se u e mpre go.
Mas há outros praze re s na infração. A Pe ste Ne gra do sé culo
XIV foi lida como castigo de De us pe los pe cados dos home ns. A
tube rculose do sé culo XIX e ra o castigo aos boê mios, aos que se
e ntre gavam à noite , ao absinto, aos cabaré s e ao de sre grame nto.
A Aids se ria o castigo aos homosse xuais e usuários de droga.
Bacté rias e vírus foram vistos como cavale iros do apocalipse
moral. Assim, ao ve r um tube rculoso ou um portador de HIV, o
moralista pode ria, com praze r se cre to pouco disfarçado, sorrir
e m paz porque o castigo do pe cador e ra sua re de nção moralista.
Não se trata da clássica hipocrisia burgue sa ou farisaica.
Não e stamos analisando aque le s que apontam e rros que e le s
próprios come te m, ainda que isso se ja bastante comum. Estou
indicando que a moral só se re aliza, o código só é vitorioso e a
norma só triunfa com a e xistê ncia do infrator. Se m o inve rno
punitivo, a cigarra se ria ape nas mais fe liz do que a formiga,
que , no fundo, é uma workaholic que disfarça sua de pre ssão
como manto da re sponsabilidade . Mas o inve rno mata a cigarra
cantora e mostra que a dor da formiga que se ne gou por
comple to e m nove me se s do ano, e nfim, e ncontra paz nos trê s
me se s de frio. Que ale gria inde scritíve l na face da formiga,
quando a folgada cigarra bate à sua porta trê mula de frio. Que
coisa boa ve r que se u e sforço é tão válido que , os que não
tinham a me sma convicção e stão se ndo punidos. A fe licidade no
formigue iro só come çou de pois que a porta foi batida na cara
da cigarra pe dinte . Agora, os nove me se s de trabalho insano
tinham e ncontrado razão. O te ma da cigarra animaria o
auste ro e corre to ambie nte das formigas e , e nfim, e las
e ncontrariam razão de se r. O formigue iro che io de
trabalhadoras só se rá fe liz com a punição das “folgadas”.
Imagine mos que o prime iro pe cado não tive sse ocorrido.
Suponhamos que Adão passasse se us inacre ditáve is 930 anos de
vida (ou mais se tive sse ficado no Éde n) e m comple to afastame nto
da árvore fatídica. Te ria sido cumprida toda a arquite tura divina
moral e nunca te ríamos e xpe rime ntado a morte e o sofrime nto.
Mas… a Bíblia te rminaria ao final do capítulo 2 do Gê ne sis. Toda
narrativa sagrada se ria re sumida aos dois capítulos iniciais, ou a
uma de scrição insuportáve l e longa do cotidiano paradisíaco. O
diário de Eva re gistraria, milê nio após milê nio, constataçõe s como
“dia radioso, Adão me ama mais hoje do que onte m, noite
tranquila de sonhos pe rfe itos, tatatatarane tos ate nciosos e
de licados comigo…”
Se m a transgre ssão, não te riam surgido Abraão, Moisé s, os
Salmos de Davi, as profe cias de Isaías e a própria figura de
Je sus. Ne nhum apóstolo te ria de spontado e ne nhum santo te ria
surgido. Se m a argila do pe cado, o e difício impone nte do plano
divino se ria re duzido à choupana de Adão. O pe cado, como já foi
dito, humanizou-nos, mas també m de spe rtou a história. Se i que
é difícil para algué m que te m fé , mas de ve ríamos re conhe ce r que
somos filhos de De us e do Diabo.
Em um famoso hino de Páscoa, a igreja cristã chega a dizer
que a culpa de Adão é fe liz, pois mereceu um tão grande
redentor. Oh Felix culpa! Que culpa fe liz que teve remédio tão doce.
O pecado original é a marca da humanidade e é seu berço
também. Mais: graças ao pecado original, ve io o salvador.
Exe rce ndo, poré m, se u pape l, o moralista le gislador não
e ncara o pe cado como parte indissociáve l da e sfe ra humana. A
transgre ssão pe rte nce , para e le , ao campo da e xce ção
abomináve l. Nosso de stino como se re s criados à image m de De us
se ria o Éde n. Não transgre dir se ria voltar ao Paraíso. Mas o mais
curioso: o home m pe rfe ito e inte grado, o prime iro casal se m
mancha alguma de infração, surge de fato no final do capítulo 1
do Gê ne sis e de sapare ce , como virtuoso, no me io do capítulo 2
do me smo livro. A virtude humana não che ga a pre e nche r dois
capítulos. Todo o re sto do te xto sagrado é a história da
transgre ssão.
Os mais de se te nta livros que os cristãos conside ram como
Bíblia apre se ntam a luta contra o e rro, a que da, cole tiva e
individual, de quase todas as pe rsonage ns. Da be be de ira de Noé
ao crime de Davi contra Urias, das intrigas de Je ze be l à dança de
Salomé : home ns e mulhe re s passam todos os cinco mil anos
se guinte s pe cando, caindo, se ndo punidos, re ge ne rando-se e …
pe cando de novo. O afã de pe car pare ce se r o ape lo mais forte
do Gê ne sis ao Apocalipse . A Bíblia come ça se m pe cado algum no
se u prime iro capítulo. Para os cristãos, te rmina se m pe cado
algum, com a vitória do Corde iro contra o Anticristo, no
Apocalipse . No me io são milhare s de páginas de e rros, trope ços,
faltas, pe cados e omissõe s.
A Bíblia pode ria se r sinte tizada como o choque do pe cado
onipre se nte e unive rsal com a re gra de De us. Pe dro, o príncipe
dos apóstolos, fraque jou na fé ao andar sobre as águas, dormiu
na agonia de Je sus no Horto e ainda ne gou o me stre trê s ve ze s.
Esse foi o home m que Je sus e scolhe u como o mais próximo, o
pe scador de home ns, o que te m o pode r das chave s do cé u.
Tiago e João re ce be ram o ape lido de filhos do trovão, o que
talve z indique uma pe rsonalidade , digamos, forte . Tomé se
re cusa a te r fé abstrata. Judas não pre cisa se r de scrito e m suas
faltas, todos conhe ce m a tradição dominante que o torna o maior
traidor. Não e ra o grupo virtuoso e cândido que os santinhos de
pape l católicos antigos faziam cre r.
Toda e ssa de scrição de ve ria tornar os líde re s re ligiosos be m
mais compre e nsivos com uma apare nte nature za humana
inclinada ao pe cado. Não foi o que ocorre u historicame nte .
Os protestantes do século XVI quase sempre concordaram com
a tese de que a natureza humana estava corrompida pe lo pecado.
Com isso, insistiram no dom gratuito da salvação, no mistério da
entrega de Jesus a uma humanidade que não merecia um redentor
tão bom. Aqui, poderíamos encontrar uma escotilha para olhar fora
do barco moral para o oceano dos seres reais. Porém, as
sociedades calvinistas e luteranas não foram mais tolerantes com o
desvio do que tinham sido a católica e a ortodoxa. Diferentes
concepções da Graça ou do Pecado humano não mudaram o afã de
normar. O dedo acusador tornaria amigos Lutero, Calvino, Inácio
de Loyola e Teresa D’Ávila.
Grande parte da fala de Jesus nos Evange lhos é a
proclamação da vitória do amor e da compaixão sobre a frieza da
Lei. Jesus convida a um gesto que vá além da regra, mesmo que
ela seja clara. Sua briga com os fariseus sempre insiste no mesmo
ponto: e les compreenderam tudo que estava escrito na Torá, mas
não captaram nada do que seria essencial. Os fariseus tinham se
apegado à forma e condenavam todos os outros. Achavam que
levar a palavra de Deus consigo era amarrar um trecho da Torá
junto ao corpo. Jesus proclamava um conteúdo e condenava a
esterilidade da letra. O amor deveria ir além da lei.
Se olharmos a história do Cristianismo, não se ria e rrado
indicar que o movime nto que busca Je sus de Nazaré como
fundador foi vitorioso, e m parte , porque se afastou de Je sus de
Nazaré . A vitória das instituiçõe s re ligiosas foi a vitória dos
farise us: a re gra, as pe nitê ncias, a aparê ncia. De alguma forma,
o Grande Inquisidor, o conto de ntro da obra Os irmãos Karamazov,
de Dostoié vski2, de staca e ssa consciê ncia. O ve lho Inquisidor diz
ao próprio Je sus que a ide ia de le não pode ria dar ce rto. A
comunidade que Je sus imaginou e stava fadada ao fracasso
numé rico. A Igre ja Católica tinha ve ncido por te r ignorado o
e sse ncial da me nsage m de Je sus e criado um me canismo
institucional para milhõe s. O Inquisidor, ne sse tre cho de be le za
quase ate rradora da lite ratura, pare ce de monstrar uma
consciê ncia alé m da usual. Se re duzísse mos o argume nto do
carde al e spanhol ao mínimo múltiplo comum, se ria algo como:
e stamos corre tos porque , e m e ssê ncia, e stamos e rrados. Ou
se ja, e stamos corre tos na e straté gia e no ê xito; e rrados no
conte údo e na fide lidade ao original.
Todos somos inquisidore s. Eu que e scre vo e você que me
lê . Amamos le gislar e indicar ce rto e e rrado. Alé m do pe cado,
le gislar pare ce se r um dos maiore s de le ite s humanos. Le gislar
é indicar o quanto e u e stou ce rto. Claro que não me re firo
ape nas aos le gisladore s morais da Inquisição ou aos códigos
canônicos. Re firo-me a todo e xe rcício de domínio que o
julgame nto apre se nta. Sou le gislador e moralista quando:

• Orgulho-me de se r fie l à minha família, não se r


promíscuo, não se r adúlte ro e vive r e xclusivame nte na
fe licidade da fortale za moral que imagino habitar.
Abomino e sta ge nte de pravada e infe liz que ve jo ao me u
re dor.
• Sou de e sque rda, apoio as boas causas da re forma
agrária, manife sto e ntusiasmo com invasõe s e gre ve s,
abomino os podre s pode re s burgue se s e capitalistas.
• Sou conse rvador e e xalto as virtude s do trabalho
me tódico, do re spe ito absoluto à proprie dade , do e sforço
hone sto e da poupança. Abomino e ste s vagabundos que
anse iam pe lo Estado.
• Sou ve ge tariano e e cologista, re ciclo lixo, e ntro e m
harmonia com o cosmos e grito e m cachoe iras e
gramados; abraço árvore s e abomino os monstros que
de rrubam as matas.
• Estudo diariame nte e faço cursos, procuro compre e nde r
o mundo e se us me canismos, de cifro siste mas e abomino
os alie nados e acomodados me ntalme nte .

A lista poderia ir até o centro da galáxia. Mas o leitor,


inquietado (talvez alguma categoria o tenha atingido), começa a
supor que esteja ali a defesa do imobilismo, ou de um vazio
absoluto, já que tudo está errado e não haveria virtude na virtude.
Ah, meu bom Dostoiévski… que falta você me faz. O centro da lista
não está nas atitudes, mas no verbo ABOMINO que se repete. É
um verbo re ligioso. Deus abomina o pecado; o justo abomina o
caminho do mal. Sodoma e Gomorra foram que imadas por serem
abominações. Os sacerdotes de Baal foram mortos porque
seguiam uma abominação. Os que estiverem à esquerda de Jesus
no Juízo Final serão malditos e abominados. Todos que abominam
distanciam-se pe lo ato de estabe lecer hierarquias morais que
criam pecadores. O problema aqui não é se existe o erro ou não,
mas que o ponto de virtude onde me coloco é a tranquilidade do
fariseu que cumpriu o jejum correto e segue a norma do descanso
do sábado, pagou o dízimo das mínimas coisas e só se esqueceu
de um detalhe: amar.
Ao criar a regra (que naturalmente é a correta, porque a criei
ou acredito ne la ou pertenço ao sistema que criou a regra), invento
o pecado e a minha fe licidade de não pertencer ao bando dos
perdidos. Legislo não para atacar o erro, mas para estar fe liz ao
lado do acerto. Como se diz tradicionalmente, os hospícios não
foram criados exatamente para restringir a liberdade dos
chamados loucos, mas para garantir que eu tenha certeza de que
não sou louco por não estar no hospício. Sou normal porque se
não fosse não estaria aqui fora. Sou macho porque não estou na
Parada Gay. Sou ético porque não sou aque le famoso político. Sou
bom marido porque tenho um amigo que faz poucas e boas. Eu
me cuido e evito glúten e frituras, ao contrário de fulana que está
um cachalote de tão gorda. E la nave va.
Le gislamos, classificamos, e com isso criamos a clare za que
e vita nossa inclusão no lado mau. Ente nde mos be m o conce ito da
justiça de De us que indique i no início do capítulo. Fraque jamos na
mise ricórdia.
O furor de quem julga e legisla é o medo de ser igual. Em
sua rancorosa Carta ao pai3, Franz Kafka solta toda a mágoa
acumulada contra Hermann, o chefe da família. Uma das críticas é
exatamente a figura paterna sentada na cade ira julgando tudo e
todos. Estavam errados o imperador, os generais, os banque iros, os
judeus de Praga, os católicos de Praga e os ateus de Praga. Logo,
conclusão do grande escritor, só o pai estava correto. Só e le sabia
as boas respostas e os bons procedimentos. A crítica era a
construção de um e logio. Este é o jogo do legislador moral: é um
ato de e logio a si. Quem critica fala de si. Ve lho adágio: quando
Pedro fala de Paulo, Pedro fala de si. É difícil amar alguém
moralista.
Vive mos um e stranho autismo, voltados aos nossos valore s e
ao que acre ditamos se r. De sfilamos pe lo mundo, classificando.
Um cuida de mais da aparê ncia, outro nada; e ste e studa muito e
não é fe liz, aque le nada lê ; minha e mpre gada é uma pre guiçosa
comple ta, minha patroa é uma prófuga que não faz nada; me u
che fe é um incompe te nte , me us cole gas são folgados; me us
subordinados não são proativos; os arge ntinos são che ios de si, os
brasile iros são incompe te nte s e assim vai.
Poucas construçõe s sobre a visão para o suposto e rro alhe io
são tão hilárias como a le vada a cabo por Umbe rto Eco no livro O
cemitério de Praga. Lá e ncontramos Simonini, o falsário e
pre conce ituoso narrador que e scre ve sobre todos os e rrados do
mundo. Ao falar dos ale mãe s, nosso falsário diz que :

[
Um ale mão produz e m mé dia o dobro das fe ze s de
um francê s. Hipe ratividade da função inte stinal e m
de trime nto da ce re bral, o que de monstra sua
infe rioridade fisiológica. No te mpo das invasõe s
bárbaras, as hordas ge rmânicas conste lavam o
pe rcurso com monte s de sarrazoados de maté ria
fe cal. Por outro lado, me smo nos sé culos passados,
um viajante francê s logo compre e ndia se havia
transposto a fronte ira alsaciana pe lo volume anormal
dos e xcre me ntos abandonados ao longo das e stradas.
E não some nte : é típica do ale mão a bromidose , ou
se ja, o odor re pugnante do suor, e e stá provado que
a urina de um ale mão conté m 20 por ce nto de azoto,
ao passo que a das outras raças, some nte 15. O
ale mão vive e m um e stado de pe rpé tuo transtorno
inte stinal, re sultante do e xce sso de ce rve ja e daque las
salsichas de porco com as quais se e mpanturra4.

O te xto de Eco constrói, na figura e xe cráve l de Simonini,


todos os pre conce itos do sé culo XIX. Ele ode ia italianos,
france se s, jude us, padre s, maçons, je suítas e mulhe re s. Simonini
é o e ste re ótipo do tipo pre conce ituoso: quase um signo de signo
do que tantas cabe ças, infe lizme nte , compartilharam ao longo da
História.
Mas o mais inte re ssante é que Simonini usa várias fantasias
para sair à rua. Um dia, ao ve r no se u quarto a roupa de um
re ligioso que usara pouco ante s para um dos se us golpe s, te m
dúvida se um re ligioso re al o visitou ou se aque la é uma fantasia.
Che gamos ao grau mais sofisticado de toda fantasia moral ou
imoral: a cre nça ne la. De tanto re pe tir códigos e pre conce itos,
acabamos acre ditando que somos o que e nunciamos. Filhos todos
do pó da Te rra e de stinados ao pó no final, cada um supõe sua
poe ira como fino mármore e re finado alabastro. Com o te mpo
se e stabe le ce e sta e stranha e dolorosa e squizofre nia: falamos de
algué m que de se jamos se r como se fôsse mos. A distância e ntre o
pó e o mármore é o e spaço da nossa vida.

PECADOS DE GENTE BOA

É fácil pe nsar nos vilõe s da Bíblia como grande s pe cadore s.


São pe ssoas más e que le vam ao de sastre , à morte e à punição
final. Já citamos alguns ne ste capítulo: Caim, Judas, Je ze be l,
Salomé . Nada de bom há ne le s. Se u pe cado é coe re nte com sua
maldade e strutural. No e ntanto, a Bíblia não é um livro ape nas
manique ísta, com pe rfe ita divisão e ntre dois polos morais. O
pe cado e stá disse minado e ntre os he róis da virtude . A narrativa
da Bíblia é muito mais comple xa e rica do que se us inimigos
afirmam. Ve jamos, para e xe mplificar a comple xidade do pe cado,
quatro pe ssoas do be m que se de sviaram da se nda do Se nhor
após o Éde n.
Come ce mos com o virtuoso Noé . Ele é apre se ntado no
Gê ne sis de forma ge ne rosa: “Noé e ra home m justo e ínte gro
e ntre os conte mporâne os e se mpre andava com De us” (Gê ne sis
6:9). Re pare e m um de talhe : toda a humanidade e stava
pe rve rtida e De us tinha de cidido pre se rvar ape nas uma família, a
de Noé . Isso aume nta o mé rito da se le ção: Noé foi aprovado no
concurso mais duro que já foi imaginado, foi o único finalista
e ntre toda a e spé cie humana. Uma única vaga e e le a pre e nche u!
Noé e sua família são luze s e m um mundo de tre vas. Pouco ante s
da catástrofe , De us re força o pare ce r: “Tu é s o único justo que
e ncontre i ne sta ge ração” (Gê ne sis 7:1). Um justo e ntre milhõe s de
humanos.
Como se rá no futuro com Abraão, a caracte rística de Noé é
a obe diê ncia ime diata. Na prática, a cre nça na palavra de De us
sobre prome ssas futuras é a fé na maior parte da Torá. De us
manda que e le construa uma arca gigante sca e e le faz. De talhe :
quando o dilúvio inicia, Noé te m se isce ntos anos (Gê ne sis 7:6),
fase e m que a maioria dos home ns já anse ia pe lo de scanso da
apose ntadoria. O trabalho da arca durou vários anos. O aviso foi
re forçado e pre parado. Como nas futuras pragas do Egito, a
cóle ra de De us é ante ce dida por claros anúncios, princípio que a
tradição judaica chama Hatraá.
A prime ira prova do justo é cumprir o plano de De us na fé . A
fé é e ntre ga se m provas. Não há dilúvio e Noé e stá construindo
sua arca. Sua fé implica trabalho e de dicação. A nature za havia
sido e ntre gue ao controle dos home ns, mas e sse controle
implicava virtude . Com a corrupção da humanidade a nature za se
re be la. O pode r do home m sobre o mundo natural foi
e stabe le cido com Adão, mas de pe nde , no mundo bíblico, do uso
ade quado e virtuoso dos re cursos. De se struturada a é tica da
humanidade , a nature za se de se strutura també m. Come ça o
dilúvio. É a punição e nviada por De us e o caos do mundo natural.
O prime iro de safio foi construir uma arca gigante sca. Então
come çava a se gunda prova de Noé . Um ano de ntro da arca com
duas tare fas: harmonizar o convívio de oito pe ssoas dife re nte s e o
trabalho de alime ntar todos os animais. O ato de Noé re staura a
nature za e mostra o home m como se nhor do mundo criado, mas
també m como pe ça na manute nção e quilibrada de ste mundo.
Noé , sua e sposa, se us trê s filhos e trê s noras re cupe ram o que
tinha sido pe rdido: o pape l de domínio re spe itoso do humano
sobre os outros se re s.
Após e ssa longa provação, Noé viu as águas baixare m. Ele
de sce u da arca com a família e ofe re ce u um sacrifício a De us. O
Ete rno re ce be u tudo com satisfação e abe nçoou se u se rvo. O
Altíssimo prome te u jamais usar de água para de struir a
humanidade de novo. As chamadas le is de Noé foram e nunciadas
por De us, proibindo homicídio, idolatria e outros de svios. Para
coroar e ste mome nto fe liz, e stabe le ce o arco-íris: e ra o sinal
visíve l da sua aliança com o novo Adão, Noé .
Aqui, che gamos ao ponto mais inte re ssante para nosso
obje tivo. Noé é o justo pe rfe ito, o home m de fé , o incansáve l
trabalhador de De us. O Se nhor acaba de lhe faze r ime nsos
e logios e lhe dar o mundo lavado do pe cado para se u uso. O que
faz nosso campe ão da virtude ? Planta uma vinha e se e mbe be da.
Não bastasse te r se passado no álcool, ainda fica pe lado na sua
te nda. Sim, o me smo Noé que foi apontado como o único justo
de todo o plane ta não re sistiu à pre ssão re ce nte e foi fundo no
vinho. No nosso mundo novame nte ime rso no pe cado, um
pile quinho de pois de um cataclismo global se ria algo até virtuoso.
Mas Noé não pe rte nce ao mundo do indivíduo conte mporâne o
autoindulge nte . O justo e virtuoso e stá pe lado na sua barraca.
Noé “e nche u a cara”.
A Bíblia não diz, mas a tradição judaica (Midrash) acre sce nta
que o de mônio, se mpre astuto, matou quatro animais na raiz da
vide ira de Noé : um corde iro, um le ão, um porco e um macaco. O
sangue de sse s quatro animais pe ne trou nas raíze s da vinha e
marcou se u fruto para se mpre . O re sultado é o e fe ito do vinho
nos home ns. Ao be be r um copo ficamos como um corde iro.
Somos mais dóce is e sociáve is. No se gundo, viramos algo próximo
ao le ão e m audácia e orgulho. Somos inve ncíve is. No te rce iro,
assumimos os ge stos do porco e rolamos no chão. No quarto
copo de vinho, somos um macaco a faze r palhaçadas. Noé , alé m
de se comportar como todos e sse s animais, ainda ficou nu.
Curioso que a Bíblia não conde na a be be de ira de Noé . Se us
mé ritos pare ce m te r dado um cré dito a e le . Se u filho Cam, ao
contrário, ao ve r o pai nu, é conde nado. Cam narrou aos irmãos
o fato bizarro, e m ve z de cobrir o pai. Pior: no Talmude judaico,
Cam atacou se xualme nte o pai. Essa se ria a base re al (não
de scrita na Bíblia) da pe sada conde nação de Noé ao filho: se ria
e scravo dos irmãos.
Na Bíblia, o se r humano é um mosaico. As pe rsonage ns
oscilam com fre quê ncia. O que narramos ocorre u na família
mode lo e scolhida por De us e ntre milhõe s de outras. Pai pe lado e
bê bado, filho com e stranhos impulsos, praga pate rna sobre o
filho: as me smas pe ssoas que , pouco ante s, tinham fe ito um
e norme e sforço e m cumprir a vontade do Ete rno. O coração
humano te m muitas camadas e o livre -arbítrio pe rmite que cada
um opte diariame nte pe la virtude ou pe lo pe cado. Essa é a lição
de ssas pe rsonage ns.
Be m, pare ce que o re mé dio do Dilúvio não foi tão e ficaz.
Pouco de pois, ocorre o e pisódio da torre de Babe l e De us faz
surgir as línguas variadas para que os home ns ficasse m confusos
e fosse m punidos pe lo se u orgulho. Babe l que r dize r confusão.
De finitivame nte , somos uma causa pe rdida.
Noé foi um se gundo Adão e , tal como o prime iro, de rrapou
na re gra. Vamos avançar para um novo he rói da fé : Davi. Sua
história já não pe rte nce à Torá, mas e stá no livro do profe ta
Samue l.
Há dife re nças inte re ssante s. Adão é o único home m que não
te ve infância. Nasce u adulto, como ainda ve mos no te to da Cape la
Sistina. Noé é chamado por De us já ve lho. Abraão també m te rá
sua vocação na maturidade . Ape sar de te rmos de talhe s do
nascime nto de Moisé s, já é como home m adulto e casado que o
Se nhor lhe apare ce na sarça. Davi é uma e xce ção: é um he rói de
uma vocação juve nil.
Davi é ungido pe lo profe ta Samue l contra todas as
e xpe ctativas. O próprio Samue l imagina que o irmão mais alto e
forte de Davi, Eliab, se rá o e le ito de De us. Os se te (ah, e sse
núme ro) filhos maiore s de Je ssé foram apre se ntados ao profe ta.
Ne nhum se ria o indicado, mas Davi, que e stava no campo, o
me nor e mais novo. Davi é o me nino de cabe los ruivos ungido pe lo
profe ta. O fato é algo pe rigoso: foi ungido um novo líde r e o
antigo, Saul, ainda vive e gove rna.
O me nino de Je ssé ainda te m uma habilidade : se u dom
musical afasta a me lancolia do re i Saul. Saul te m de pre ssão e
ouvir o jove m Davi tocar a cítara o tranquiliza. O prime iro re i de
Israe l, se m sabe r, trouxe para junto de si o se gundo re i de
Israe l. O e pisódio se guinte é be m conhe cido. Davi, o pe que no
Davi, e nfre nta o gigante Golias. Golias te ria algo como trê s me tros
de altura. Davi o e nfre nta com sua funda de pastor. Confiava que
De us o prote gia quando lutou com um le ão e um urso que
atacavam o re banho. Assim, armado de ple na confiança, e le se
apre se nta a Saul e pe de para e nfre ntar o gigante . Saul lhe dá a
armadura do re i e sua e spada. Um e pisódio que daria quase
uma ce na cômica: Davi não conse gue andar com aque le aparato;
não e stá acostumado. O pe que no me nino ruivo não sabe usar
roupa de soldado. É um pastor, não um militar. Davi abre mão
da roupa de soldado e se arma de cinco pe dras de um riacho,
sua funda e se u cajado. Te m se u traje de pastor e sua fé e m
De us. Golias, ao ve r o me nino ruivo, pe que no e audaz, ri e
prome te dar a carne do jove m impe rtine nte aos animais.
O resultado foi uma lição histórica. Davi usa a funda e atinge o
gigante Golias com tanta força que a pedra fica encravada na testa
do filisteu. Correndo até e le, Davi corta sua cabeça. Os
companheiros de Golias, apavorados, saem em debandada e os
soldados de Israel promovem grande matança. A fraqueza com
confiança em Deus virou força contra a fortaleza que não temia ao
Senhor. A fé move montanhas e derruba gigantes.
Lógico, que rido le itor, que o de pre ssivo re i Saul come çaria a
te r inve ja de se u musical e scude iro. Todos amam Davi na corte do
re i. O povo e xalta as vitórias do jove m. Até o filho do re i, Jônatas,
inicia uma comove nte amizade com o pastor de cabe lo
ave rme lhado. Saul, poré m, te m inve ja de Davi. A inve ja corrói o
e spírito já de pre ssivo do prime iro re i de Israe l. Os capítulos
se guinte s do livro de Samue l narram o choque e ntre os dois.
Ne sse atrito, Davi de monstra cada ve z mais é tica. Evita matar
Saul quando te m oportunidade . O ve lho re i, poré m, afunda-se no
pe cado no inte nto de de struir o pastor. Ele mata sace rdote s e
consulta mortos. O final não pode ria se r outro. De us e ntre ga
Saul à e spada dos filiste us. O prime iro re i de Israe l pe rde a
batalha, os trê s filhos e a cabe ça. O se gundo livro de Samue l
trata da história de Davi re i.
Davi te m trinta anos quando se torna re i, mas já e ra um
he rói bíblico de sde a adole scê ncia. É o home m que fortifica
Je rusalé m, a cidade de Davi. Ne la e stá, hoje , um túmulo
simbólico. Davi traz a Arca da Aliança para Je rusalé m e manife sta
ao profe ta Natã sua intranquilidade : e le habita e m palácio de
ce dro, e nquanto o Se nhor não possui um te mplo. Mas a profe cia
é clara: Davi não construirá o Te mplo, e sim um filho se u.
Davi é o he rói e scolhido por De us, o re i-poe ta, o gove rnante
que dança de ale gria à fre nte da Arca da Aliança. Davi é o nome
que a Bíblia associa aos Salmos. Um pastor tirado do re banho
para guiar Israe l, tomado pe lo e spírito do Todo-Pode roso. Davi
tinha uma capacidade de le aldade e pe rdão não comum. Te ndo
tido mais de uma chance de matar Saul, que de se java matá-lo,
não o fe z. Elogiou aque le s que de ram honras fúne bre s ao corpo
do se u inimigo. Lastimou a morte daque le que o pe rse guia.
Inquie tou-se e m morar be m e nquanto o Se nhor não tinha casa.
Ouviu Samue l e ouviu Natã, os profe tas do Altíssimo. Davi foi,
lite ralme nte , um home m de De us. Davi foi um home m de De us, o
que significa que , ante s de se r de De us, e ra um home m.
Está e m curso uma campanha militar contra os amonitas. O
re i ficou na sua cidade , Je rusalé m. O sol cai sobre a cidade
dourada e o re i poe ta e stá no te rraço. Ele vê uma be la mulhe r
tomando banho. É Be tsabá casada com um soldado de Davi,
Urias. Davi a de se ja e manda trazê -la. Da união ile gal, re sulta
uma gravide z e um proble ma. Urias voltará da gue rra e sua
e sposa e stá grávida. O de se jo le vou ao pe cado e aqui come ça
uma cade ia de e rros.
Como e ncobrir um e rro como e ste ? Como e vitar o
e scândalo? Davi manda chamar Urias da fre nte de batalha. Se u
plano: sob o pre te xto de ouvir notícias da gue rra, Davi fará Urias
ficar uma noite e m Je rusalé m para, ce rtame nte , fazê -lo visitar
sua e sposa que não vê há me se s e e ncobrir a pate rnidade . Urias
ve m, como orde nado. O plano é bom, mas e sbarra na virtude e
solidarie dade militar de Urias: como se us companhe iros e stão na
gue rra e le não vai até sua casa e dorme e m uma e ste ira junto
aos oficiais de Davi, se m visitar Be tsabá. O prime iro plano de Davi
falhou.
A cade ia de e rros aume nta. Não pode ndo e ncobrir a
pate rnidade da amante , o re i manda uma carta a se u ge ne ral:
de ve colocar Urias no pior local da batalha e abandoná-lo. O
condutor da carta é o próprio Urias. O soldado fie l de sconhe ce
que carre ga sua se nte nça de morte . Como orde nado, Urias foi
conduzido à morte . Davi e stava livre para tomar a viúva do se u
soldado fie l.
O se gundo plano funcionou. Poré m, De us que tudo vê ,
mandou Natã ao re i. O profe ta contou uma história comove nte e ,
apare nte me nte , fictícia. Um rico possuía ove lhas e bois e m
grande núme ro. Um home m pobre tinha ape nas uma ove lha,
criada com carinho no lar simple s, por se r o único be m da
família. Quando o rico re ce be u um hóspe de , e m ve z de dispor de
um animal se u, tomou a única ove lha do pobre e mandou matá-la
para se rvir ao hóspe de .
Davi ouviu a fábula e ficou indignado. Disse que o rico
me re cia a morte e que o pobre tinha de se r inde nizado e m
quatro ve ze s. Natã, e ntão, re ve lou a me táfora: e sse home m rico
e ra Davi. Ele tinha muitas mulhe re s, mas de cidiu tomar a mulhe r
de Urias, que só tinha uma. Ele e ra o pe cador. Por isso a e spada
jamais se afastaria da sua casa e e le se ria traído por um filho.
Praga adicional: o filho de Davi com Be tsabá morre ria.
Ao ouvir a re ve lação ate rradora, Davi diz: “Pe que i contra o
Se nhor!” (2Samue l 12:13). A frase é curta. Davi não se e xplica.
Não justifica se u ato e rrado. Re conhe ce o pe cado ime diatame nte .
Mais: Davi fica no chão e faz um rigoroso je jum. A consciê ncia de
Davi é ime diata e sua pe nitê ncia, since ra. A palavra de De us se
cumpre : morre o filho do re i com Be tsabá. Ela e ngravida de novo
e , e ntão, nasce Salomão, o rico e sábio te rce iro re i de Israe l.
O pe cado de Davi, a famosa ove lha de Urias, marca uma
e tapa inte re ssante . Saul ficou e mpe de rnido no e rro e insistia
e m faze r coisas que de sagradavam a De us. Davi agiu dife re nte :
re conhe ce ime diatame nte que agiu mal. Natã anuncia que o
Se nhor pe rdoa se u pe cado e , graças a e sse re conhe cime nto,
sobre vive e não pe rde o trono ou a vida. De us manté m sua
palavra e morre o filho do pe cado. Davi també m e nfre nta a
re be ldia de outro filho, Absalão, que te nta tomar o trono do
pai.
Adão, Noé e Davi. Trê s home ns de De us. Trê s pe cadore s. Os
trê s tive ram proble mas com filhos. Caim, Cam e Absalão nasce m
e m famílias pie dosas e re ple tas da palavra de De us. Mas, como
os pais, come te m de svios. Talve z isso se ja a maior se paração
e ntre o e stilo bíblico que não ide aliza as pe rsonage ns como
pe rfe itame nte boas de narrativas me die vais da vida de santos. As
famílias bíblicas são che ias de te nsão, ace rtos e e rros; virtude s e
pe cados. O pe cado não é visto como um raio e m um dia de cé u
azul, algo ine spe rado e e xce pcional. O pe cado é narrado de ntro
de um proce sso inte rno humano, uma clara opção e uma
afirmação de libe rdade .
Adão ouve sua mulhe r e se gue no ato inte rditado de tomar o
fruto. Caim, homicida, é tomado de inve ja do irmão Abe l. De us o
adve rte : cuidado com o que se passa e m se u coração. Noé be be
e m e xce sso e fica nu. Cam não age corre tame nte com o pai. Davi
de se ja a e sposa de um de dicado soldado e é mandante de um
homicídio motivado pe lo de se jo se xual. Os he róis da Bíblia são
de sobe die nte s, inclinados ao álcool, homicidas e tomados de
luxúria. São home ns normais, próximos a nós. Um almoço na
arca de Noé ou no palácio de Davi pode conte r todas as te nsõe s
de um almoço dominical de ntro de uma típica família brasile ira
do sé culo XXI: amore s, intrigas, afe tos e inve jas. O pe cado e stá
te cido firme me nte na trama da virtude e o de se nho do humano
e xiste com os dois fios, da virtude e do vício. Por de trás das duas
e scolhas (se guir ou ne gar a vontade de De us), a libe rdade
humana, sua individualidade , o livre -arbítrio, o misté rio da e scolha
e as conse quê ncias de cada ato.
Somos he róis trágicos como os home ns da Bíblia. De us, o
arquite to de um plano grandioso, e stabe le ce altíssimas inte nçõe s
e de se nha um rote iro é pico de re de nção para o Unive rso. O
plano do Todo-pode roso e sbarra no de se jo de um home m por
uma mulhe r que toma banho. De us te m de re e scre ve r se u plano
por causa de um mome nto, uma fe bre e rótica, um impulso que
um banho frio ou cinco minutos de ponde ração te riam supe rado.
A se rpe nte do Éde n tinha razão: se comê sse mos do fruto
proibido se ríamos como de use s… O pe cado é nossa única criação
original. Criar é se r como De us. Come mos da árvore , criamos o
próprio unive rso, e ne ste vale de lágrimas chamado mundo, os
moralistas são, e m e ssê ncia, os me lancólicos da orde m passada.
Inocê ncia só se pe rde uma ve z e a nossa foi pe rdida nas
prime iras linhas da Bíblia.
Capítulo 2
~
As form as da infração e os códigos

Cometi o pior dos pecados que um homem pode cometer. Não fui feliz.
Jorge Luis Borges

PODE E NÃO PODE

No capítulo ante rior, foi dito que os moralistas e os produtore s


de normas pre cisam classificar. Uma das mane iras de dominar o
mal é nome á-lo, dize r se u nome e se u grau. No e vange lho mais
antigo de Marcos, Je sus e ncontra um home m que vivia possuído
por de mônios no me io de túmulos. Je sus pe rgunta: “Qual é o se u
nome ?” (Marcos 5:9). O mal pre cisa se r chamado pe lo nome .
Os mandame ntos dados a Noé e , poste riorme nte , o código
dado a Moisé s, são uma mane ira de e nume rar “pode ” e “não
pode ” para a vida do fie l. Re ligiõe s monote ístas, como a judaica, a
cristã e a islâmica, são re ligiõe s moralistas. Moral produz códigos
e de cálogos, pois re ligião també m é uma forma de orde m. Cre r
é orde nar, pe lo me nos cre r de ntro de uma instituição.
Tocamos e m um ponto no capítulo ante rior. Por ve ze s, o
inte rdito e o código e stão na base da e laboração me ntal do
pe cado. “Não de se jar a mulhe r do próximo” traz ao que nunca a
de se jou (é possíve l supor que tal se r e xista) a ide ia de que isso
se ja um fato concre to e talve z se ja suficie nte me nte importante
para move r a palavra de De us aos home ns. Eve ntualme nte , a
inte rdição pode e stimular a imaginação e a vontade , ve stíbulos
do pe cado. Se nunca ante s de se je i a mulhe r alhe ia, agora e ssa
ide ia bate à minha porta com insistê ncia.
Há mais de trinta anos ouvi uma história inte re ssante . Um
cole ga de e studos, inte riorano, contou-nos um caso da
adole scê ncia. Encontrou o te rmo “be stialidade ” proibido, com
ê nfase , por De us. Pe rguntou ao profe ssor do que se tratava. O
me stre mandou-o le r o livro de Le vítico 18:22-23: “Não te rás
re laçõe s carnais com um animal, manchando-te com e le . A
mulhe r não se ofe re ce rá a um animal para copular com e la, é
uma pe rve rsidade ”.
“Pronto. Estava plantada a se me nte da imaginação pe rve rsa”,
disse e le . Ele jamais imaginara um animal com uma mulhe r até
aque la le itura. De sde que le u e sse tre cho da Torá, não conse guia
mais ve r um cavalo, um touro ou outro animal simbolicame nte
masculino que passava a supor a ce na, construí-la na imaginação.
Me u imaginativo cole ga che gou a sonhar, de talhadame nte , com a
ce na. A re gra re ligiosa, no afã de e stabe le ce r um limite ao
de se jo, tinha plantado um de se jo pe culiar na cabe ça de le . Nunca
mais acompanhe i se u de se nvolvime nto pe ssoal. Não nos ve mos há
dé cadas. O que te rá aconte cido com e ssa pe rturbação inte rna? A
re gra moral te ria criado uma fantasia ou ape nas de satado um nó
inconscie nte que se mpre e xistira? Nunca sabe re i.
A proibição de pe car não pode se r vaga. Ela implica
classificação, pois não basta dize r ao motorista “não corra”;
pre ciso dize r qual o limite de ve locidade e quais as puniçõe s
para o ato de corre r. De ixar a noção do e rro para de cisão
individual é diluir o e rro na subje tividade do indivíduo. Então,
como é natural supor, moralistas e códigos são inse paráve is.
Os códigos surge m para que você não customize , não adapte ,
não conduza se u de us inte rno a um de cálogo só se u.
As re gras de Noé e Moisé s são os mais famosos códigos
iniciais. O código ante rior e ra o mais simple s, tinha ape nas uma
proibição: não come r o fruto proibido. Noé re ce be se te re gras e
Moisé s, de z. Pare ce que e las se mpre aume ntam e m quantidade .
Para uma pe ssoa com informaçõe s me dianas no Ocide nte , o
código conhe cido é o dos de z mandame ntos. Os trê s prime iros
re fe re m-se à re |xclação do home m com De us: é obrigatório
amá-Lo, não tomar Se u nome e m vão e guardar o sábado.
Para os jude us, o prime iro mandame nto e stá contido na
introdução a e sse te xto, e m De ute ronômio 6:4: “Ouve , ó Israe l! O
Se nhor nosso De us é o único Se nhor.” Ouvir é a prime ira orde m,
e a frase toda é a chamada She má Israe l. Todo jude u de ve dizê -
la nas oraçõe s da manhã e da noite . Essa frase e stá e m um
pe que no e stojo nas portas de lare s judaicos: a me zuzá. Atada nos
chamados filacté rios, e stá junto ao corpo do re ligioso. Essa é a
orde m principal e de la de riva toda virtude . Se e u tive r consciê ncia
de que o Se nhor é o único Se nhor, não se rvire i a falsos se nhore s,
se jam e le s se xuais, políticos ou finance iros. É a frase mais
de finidora da fé judaica. Se todo o mais de sapare ce sse , o jude u
guardaria e ste pre ce ito: ouvir ao De us de Israe l, único e
pode roso.
Os outros mandame ntos, a partir do quarto até o dé cimo
(padrão cristão ge ral de nume ração), constitue m normas para
as re laçõe s e ntre os home ns. Tomando a orde m de Êxodo 20, o
quarto se ria honrar pai e mãe . Obse rve a hie rarquia: prime iro
De us e de pois os mais ve lhos. O prê mio por honrar pai e mãe é
e nunciado: “Para que se prolongue m te us dias sobre a Te rra.”
Se e u honrar pai e mãe , vive re i te mpo suficie nte també m para
se r honrado um dia. A sabe doria judaica é dire ta e clara no
ite m e sforço e re compe nsa. Que m ouve a De us e a se us
mandame ntos te m vida tranquila ne ste mundo.
O quinto mandame nto inte rdita matar. Isso cria uma
apare nte contradição, pois há uma e xte nsa lista de crime s que
le vam à pe na capital na própria Bíblia. De us manda ape dre jar
uma grande quantidade de infratore s. De us orde na que a
fe itice ira não se ja de ixada viva. Se ria uma contradição? Parte
de sse proble ma se re solve pe lo he braico, já que De us inte rdita,
na ve rdade , assassinar. Assassinar é tirar a vida de um outro se r
humano fora do âmbito le gal. Há e rros que são punidos com
pe na de morte , pre vista para muitos casos, mas e xe cutada
de ntro de um siste ma jurídico-re ligioso conhe cido. Algué m pode
se r morto, mas não pode se r assassinado. O monopólio da
violê ncia pe rte nce aos juíze s da le i e da fé . Não posso se r o
ve rdugo autônomo a partir do me u impulso. Assassinar é e rrado.
Matar pode se r pre visto.
O se xto te m muitas formas poste riore s. Não adulte rarás;
não pe carás contra a castidade ; não fornicarás. As dive rsas
ve rsõe s, ao longo dos sé culos, mostram a transformação na
própria noção da se xualidade . O de se jo se xual é conside rado
uma dádiva de De us de ntro de de te rminados parâme tros. Fora
do casame nto e do intuito re produtivo, come çam os campos
proble máticos e inte rditos da se xualidade . A importância que
damos ao se xo oscila muito na História. Só para dar um
e xe mplo, Dante conde na as infraçõe s da castidade ao se gundo
círculo do Infe rno, com ve ntos e te rnos e um sofrime nto le ve .
Muito mais fundo e proble mático é o pe cado da fe lonia, ou se ja,
a traição aos supe riore s e be nfe itore s, de slocada sua punição
para o mais profundo dos nove círculos. No fundo, o
Cristianismo me die val e laborava me nos a inte rdição se xual do
que o sé culo XIX. A Bíblia trata da se xualidade com caráte r
mais dire to do que o mundo burguê s vitoriano.
O sé timo proíbe o furto. Sacralizamos a proprie dade . Me smo
que a Bíblia conte nha, e m se u e spe ctro político, um radical mais
“à e sque rda”, como o profe ta Amós, a crítica e stabe le ce o dire ito
sagrado da proprie dade privada — “não furtarás”.
Em uma socie dade onde a grande prova é o de poime nto de
te rce iros, e nte nde -se a importância do oitavo: “Não darás falso
te ste munho contra o te u próximo.” A me ntira que pre judica
algué m e m juízo é crime grave .
O de cálogo e nce rra com um mandame nto que irrita
fe ministas: “Não cobiçarás a casa do te u próximo. Não cobiçarás
a mulhe r do te u próximo, ne m se u e scravo, ne m sua e scrava,
ne m se u boi, ne m se u jume nto, ne m coisa alguma do que lhe
pe rte nça” (Êxodo 20:17). De ntro de uma lógica tribal e patriarcal,
e nume ra posse s de um home m: casa, mulhe r, e scravos, animais.
Pe lo modo atual de pe rce be r a socie dade , e le traz dois
e le me ntos comple xos. O prime iro é a coisificação (re ificação) da
mulhe r, algo que não foge ao padrão do mundo antigo, mas que
fe re ouvidos do sé culo XXI. Outra que stão é tornar a e scravidão
posse natural que se que r pode se r inve jada. De ssa forma, o
de cálogo consagra a prática do se r humano como me rcadoria.
As re gras e stão inse ridas e m um conte xto histórico. O te xto
te m um mome nto e uma conce pção e spe cífica. Nada há de
e stranho nisso. Ouço muito a pe rgunta: “Mas e le s não tê m ide ia
de que a e scravidão é um e rro?” Ge ralme nte , re spondo que e le s
també m não tê m computadore s ne m aviõe s a jato. Cobrar de um
te xto que e le fale com nossa voz, com nossos valore s e com o que
acre ditamos é incorre r no e rro mais comum e fatal para um
historiador: anacronismo. É tão lógico cobrar re lativismo
antropológico nas re laçõe s de Elias com os sace rdote s do de us
Baal, como é cobrar que e le não use tablets.
Uma crítica possíve l se ria que a Bíblia, e xatame nte pe la sua
pre te nsão de te xto inspirado ou dado por De us, de ve ria conte r
ve rdade s ate mporais, acima de mome ntos históricos. A prime ira
dificuldade é que nossos valore s, se jam muito mome ntâne os ou
mais pe rmane nte s, são valore s moldados també m pe la Bíblia. A
Bíblia é um molde antigo e histórico e é difícil sabe r se e la
corre sponde ou não ao nosso mode lo porque , e m grande parte ,
e la o formou mode lo. A se gunda dificuldade se ria conside rar que ,
se o te xto que se imagina dado por De us aos home ns fosse
comple tame nte divino e pouco inse rido no humano, e le te ria um
de fe ito e strutural: não se ria possíve l se r lido pe los home ns.
Acho que a mane ira como um re ligioso de ve ria imaginar a
Bíblia é como um te xto e nde re çado a um te mpo e uma socie dade
que sobre vive muito e foi se ndo apropriado por outros home ns e
outras socie dade s e m outra é poca. A Bíblia não se ria, assim, o
te xto ate mporal, mas o diálogo te mporal de De us com os
home ns. Sim, a Bíblia te m e scravos. Abraão te ve e scravos. Os
e scravos e xiste m ao longo de todo o te xto. Poré m, o te xto
sagrado é suficie nte me nte longo e amplo para comportar uma
ne gação da e scravidão no Novo Te stame nto. A total unidade do
gê ne ro humano é dada na carta de Paulo aos gálatas: “Já não há
jude u ne m gre go, e scravo ou livre , home m ou mulhe r; porque
todos vós sois um e m Cristo Je sus.” (3:28). O me smo te xto que
usa e scravos ao largo de de ze nas de páginas, promove , com e sse
ve rsículo, um ve rdade iro manife sto abolicionista, igualitário e até
fe minista. Te nho dúvida e m dize r se isso se ria uma contradição
da Bíblia ou o ce rne da sua rique za como fonte .

UMA RUPTURA?

Je sus optou e m re sumir os mandame ntos a dois. Faltando


pouco para morre r e re sponde ndo a um de safio fe ito por um
farise u sobre qual o maior mandame nto, e le diz:

[
“Amarás o Se nhor te u De us, com todo te u coração,
com toda tua alma e com todo o te u e nte ndime nto!
Esse é o maior e o prime iro mandame nto. Ora, o
se gundo lhe é se me lhante : amarás te u próximo como
a ti me smo. Toda Le i e os Profe tas de pe nde m de sse s
dois mandame ntos”.
(Mate us 22:37-40)
]

Há uma tradição judaica re forçada pe lo rabino Hile l (pouco


ante rior a Je sus) que e nfatizava a re ciprocidade e o amor.
Muitos me stre s haviam dito que , se e u e nte nde sse o amor a
De us com toda a minha e ne rgia pe ssoal, não have ria infraçõe s
aos mandame ntos se guinte s. Assim, Je sus anuncia como
inse paráve is o amor ao que e stá acima (De us) e ao que e stá ao
lado (próximo). Nisso, e staria toda le i (Torá) e os profe tas.
O código sinté tico do Nazare no é sábio e prático. Mas há
uma ê nfase curiosa ne le : o re conhe cime nto de que o amor, por
si, é um parâme tro muito bom, pois de vo amar ao outro como
amo a mim. Não foi um parâme tro inve ntado por Je sus, mas
apare ce na Torá: “Não te vingarás e ne m guardarás ódio contra
os filhos do te u povo, e amarás te u próximo como a ti me smo.
Eu sou o Ete rno” (Le vítico 19:18). Nada e xistirá de mais
inte re ssante ne sse crité rio do que sabe r que somos, por
nature za, o maior obje to do amor. Quase pode ríamos imaginar
Je sus dize ndo: “Transforme se u amor por si me smo no amor
unive rsal. Se u e goísmo é o que de mais de nso há e m você . Use
e sse e goísmo e inclua mais ge nte ne le !”
No caso do Le vítico, e sse código ainda é mais inte re ssante ,
visto que pe de para não guardar rancor do compatriota. Com
noção forte de povo e le ito, muitas re gras dos mandame ntos
judaicos dize m re spe ito ape nas à re ação e ntre jude us, como a
proibição de lançar maldição contra outro jude u. O Evange lho,
e scrito e m gre go e e m ambie nte he le nizado, com influê ncia da
noção unive rsalizante de Paulo de Tarso, e liminaria e ssa ide ia de
povo e le ito. Se m código alime ntar, se m circuncisão e com é tica
unive rsalizante , o proje to paulino tinha condiçõe s té cnicas de sair
da ide ntidade re ligiosa nacional do Judaísmo e conquistar o
mundo romano. Curiosame nte , tudo isso foi fe ito pre gando os
princípios judaicos e a é tica básica do Antigo Te stame nto.
Sob de te rminados aspe ctos, pode mos dize r que o carisma
da pre gação de Je sus é o domínio da compaixão e do amor
sobre o te xto. De novo, o rabino Hile l, o cabalista de é poca de
He rode s, o Grande . Estamos falando dos anos próximos ao
nascime nto de Je sus. A influê ncia da e scola de Hile l é ainda
maior se le varmos e m conta que se u ne to, Gamalie l, foi
profe ssor de Paulo de Tarso, ou se ja, do maior autor do Novo
Te stame nto. É de Hile l a frase que , adaptada, e stá na boca de
Je sus: “Não faças aos outros aquilo que não gostarias que te
fize sse m a ti. Essa é toda a Torá, o re sto é come ntário; agora
ide e apre nde i.” A chamada “re gra de ouro” é um ponto de
contato e ntre várias propostas re ligiosas e foi transformada e m
um famoso pôste r de Norman Rockw e ll (1894-1978). Existe , com
variadas re daçõe s, na Torá, nos Evange lhos, no Corão e nos
te xtos sagrados das grande s re ligiõe s e m ge ral.
Um mandame nto que e stabe le ce uma re gra de tole rância
unive rsal é muito inte re ssante . Por que tole rância? Pode ríamos
usar a palavra compaixão, mais re ligiosa. Pode ríamos radicalizar
e che gar ao amor unive rsal. Amar como a si me smo. Ve r no
outro a si para e ncontrar no outro a De us. Todas as variaçõe s
históricas do Cristianismo colocaram e sse princípio como me ta e
todas e las, e m algum aspe cto, de slizaram para se u oposto. Como
e xplicar isso?
Um alie níge na que olhasse à distância e ste lar o
de se nvolvime nto dos Cristianismos, diria que e le s são um fracasso
e m re lação à sínte se que Je sus de u para os mandame ntos. Amar
ao próximo como a si me smo? A Inquisição católica, a carta de
Lute ro re come ndando matar os jude us, os calvinistas e nforcando
supostos fe itice iros e m Sale m: a história cristã é , basicame nte ,
uma história de crime s. Acima de tudo, é uma história
institucional de ne gação da solidarie dade e da compaixão. O
alie níge na te ria apoio amplo e ntre ate us e antirre ligiosos de ste
plane ta.
Vamos ade nsar a re fle xão e ajudar nosso hipoté tico
obse rvador. Os fe nôme nos re ligiosos vão um pouco alé m disso.
Se ria curioso notar que , e m muitos se ntidos, a crítica às
instituiçõe s re ligiosas e se u passado inte nso e comprome te dor é ,
basicame nte , uma crítica re ligiosa. Como? Estou acusando de
incoe rê ncia, de não fide lidade à me nsage m, de fascinação pe lo
pode r e pe lo be ne fício mundano. Essa é a crítica de Je sus aos
farise us e saduce us. Os ricos saduce us se guiam se u be m-e star e
não a De us. Os farise us impunham re gras rígidas aos outros e
se guiam uma vida de incoe rê ncia. O alie níge na e staria faze ndo,
e m e ssê ncia, uma crítica de base moral e re ligiosa às re ligiõe s.
Você já pe nsou que o de mônio é um pode roso auxiliar de
De us? Assim e le é visto no Judaísmo. O Cristianismo, e m ge ral,
de u mais pode r ao arcanjo de caído. Mas pe nse comigo: se te nho
uma e mpre sa rival à sua e luto contra você , por que e u de ve ria
punir os infratore s que não cumpriram as re gras da sua
e mpre sa? Se o de mônio fosse , de fato, um se r malé volo, e le
daria prê mios aos adúlte ros, ofe re ce ria de lícias e te rnas aos
ladrõe s e cumularia de honras a prostituição. Isso pe rve rte ria o
código. Ora, unir o pe cado e m infe rno e te rno é dize r que De us
e stá corre to e se u código é maravilhoso. O pre ço da infração é
te rríve l. O cumprime nto da le i é re forçado pe lo Judiciário. O
de mônio é o Judiciário de De us. Amar a De us se m te me r o
castigo é o de safio a que Te re sa d’Ávila se propôs. Continua
se ndo um ge nuíno de safio. O te xto que se atribui a e la (ou a São
João da Cruz ou outro) é e ste , já traduzido livre me nte para o
portuguê s:

[
Não me move , me u De us, para que re r-Te
O cé u que me te ns prome tido,
Ne m me move o infe rno tão te mido
Para de ixar por isso de ofe nde r-Te .
Tu me move s, Se nhor, move -me ve r-Te
Cravado e m uma Cruz e e scarne cido,
Move -me ve r te u Corpo tão fe rido,
Move m-me tuas afrontas e tua morte .

Move -me , e nfim, o te u amor, e de tal mane ira,


Que a não have r cé u, ainda Te amara,
E a não have r infe rno Te te me ra.

Nada te ns que me dar porque Te que ira,


Que se o que ouso e spe rar não e spe rara,
O me smo que Te que ro Te quise ra.
]

O DRAGÃO DE S ETE CABEÇAS


Há pe cados que ge ram outros. São pe cados capitais, palavra
de rivada de cabe ça e m latim (caput). Que r dize r que , a partir
de le s, surge m outros. Pode riam se r chamados, mais
poe ticame nte , de pe cados-se me nte s, pois ge rminam com frutos
abundante s: os vícios.
Já afirme i que a moral se e sforça e m classificar. O prime iro
passo de controle (e toda moral é uma forma de controle ) é a
tipologia. O comportame nto humano é pouco afe ito a re gras fixas
e tipologias e , e xatame nte por isso, te m de se r dome sticado e
padronizado no vício e na virtude . De sde ce do, a igre ja cristã
e laborou listas de pe cados capitais. Elas mudaram ao longo dos
sé culos. Ape nas para dar um e xe mplo, o pe cado da me lancolia
foi se transformando para virar o pe cado da pre guiça. Me lancolia
é vaga como e xpre ssão. Com a asce nsão do valor do trabalho,
pre guiça passou a se r mais clara e e spe cífica. A me lancolia
també m e ra chamada de acé dia (ou acídia), palavra que re me te a
torpor, indife re nça e abatime nto. Pre guiça é be m mais dire ta:
falta de vontade de faze r algo que de ve se r fe ito, e spe cialme nte
trabalho.
A me lancolia é um pe cado, claro. Triste za de monstra pouca
compre e nsão do plano de De us. Me lancolia não combina com
Evange lho, e m gre go, boa-nova. Se é boa, e nche de ale gria a
alma do fie l. Me lancolia é re cusa e m compartilhar do ale gre
amor de De us. Poré m, como já foi dito, a me lancolia foi ficando
vaga. Um mundo cada ve z mais burguê s ne ce ssitava de uma
e spe cificidade . A me lancolia de u lugar à pre guiça.
Para que todos se le mbrasse m da lista, a Igre ja Católica
criou uma palavra mne mônica, ou se ja, uma palavra que ajuda a
re cordar. A palavra é SALIGIA. As le tras parte m dos pe cados e m
latim. O S é de superbia (sobe rba, orgulho); o A, de avaritia
(avare za); o L, de luxuria; o I, de invidia (inve ja); o G, de gula; o I,
de ira; e o A, de acedia (a já citada acé dia ou pre guiça). També m
foi comum re pre se ntar e ssa lista com animais: um sapo para a
avare za; cobra para inve ja; le ão para ira; caracol para a
pre guiça; porco para a gula; cabra para a luxúria e um pavão
para o orgulho. Se te pe cados, se te animais e uma palavra para a
arte mne mônica: SALIGIA.
Tratam-se de bons re cursos didáticos. Re forçam a
re cordação e ajudam no combate . Um grande e spe cialista no
controle dos de fe itos, Inácio de Loyola (1491-1556), re come ndava
nos se us Exe rcícios Espirituais que cada pe cado particular fosse
anotado e de pois, e m e xame de consciê ncia, fosse m re cordadas
as ve ze s e m que e le foi come tido, comparando-se um dia com
outro para ve r se o núme ro e stava diminuindo ou cre sce ndo. Essa
quantificação minuciosa do pe cado é uma e straté gia típica da
e spiritualidade mode rna e das ide ias práticas do basco Inácio
para controle . De forma mais poé tica, e le dizia: “Non coerceri
maximo, contineri tamen a minimo, divinum est”; que , e m tradução não
lite ral, pode se r lido como: “Não te me r o grandioso, contudo
ate r-se també m ao porme nor, é divino.” Ningué m foi mais
diviname nte fixado e m porme nore s do que Inácio de Loyola.
A PEDRA FUNDAMENTAL: O ORGULHO

Lúcifer foi o pai do orgulho. Era be lo, o portador da luz: Luz-


cifer. O mais be lo de todos os arcanjos; admirava-se. Ele jamais
entendeu que a única be leza possíve l é Deus e que a be leza de cada
um é um dom a serviço. Lúcifer achou-se bonito ao espe lho, a
superfície polida e reflexiva mais a serviço do demônio.
A Bíblia não conta, mas uma tradição afirma també m que
De us, ao criar o home m, chamou todos os outros se re s ce le stiais
para admirare m e louvare m a obra. Anjos, arcanjos, tronos,
dominaçõe s, pote stade s, que rubins, se rafins, virtude s e
principados che garam para o comando divino. Fe sta nas hoste s
ce le stiais: a le gião acorre , transbordando de júbilo e cantando
louvore s a Ele , que tudo faz, tudo vê e tudo pode . Rufar de asas e
farfalhar de ve ste s, clangor de e spadas: dia carre gado de
ale luias. Poré m, ne m todos compartilharam o clima do mome nto.
Lúcife r, que já sabe mos o mais be lo, fe z muxoxo. Se u de sdé m
e ra compre e nsíve l: se e le , que e ra formoso, alado e imortal, não
e ra ve ne rado, por que de ve ria louvar a uma obra infe rior a e le ?
Lúcife r foi atacado pe lo orgulho. Come çava a pe sar, com o
chumbo vaidoso, o coração angé lico. Era o princípio de uma
se dição.
Lúcife r, o vaidoso, e nfre ntou a De us. A Bíblia també m não
forne ce de talhe s da gue rra. Uma tradição me die val fala que e le
inspirou um te rço das le giõe s dos cé us. Um te rço dos anjos se guiu
o novo líde r e te ntou criar uma nova orde m. Ousou pe nsar-se
mais com se u orgulho. Curiosame nte criou um se r único, capaz,
na sua sanha individualista, de se parar-se da comunhão com
De us. O arcanjo re be lde é , a rigor, o prime iro se r autônomo na
Criação.
Para e nfre ntar o arcanjo cada ve z mais de stituído da graça,
Migue l lide ra um e xé rcito pode roso. Se u nome significa “que m
como De us” (ou “que m pode ria se r como De us é ?”), é a forma
be la de dize r que contra se u opositor sua pre te nsão é inútil… e
orgulhosa.
A batalha foi ve ncida pe los anjos fié is. Eram supe riore s
nume ricame nte e contavam com a logística oniscie nte de De us.
Por que um se r inte lige nte como Lúcife r e nfre nta uma gue rra
que não pode ve nce r? Lúcife r sabe que o pode r de De us é maior
que o se u. A re sposta é parte da e ssê ncia do pe cado, de todo
pe cado, mas do orgulho e m particular.
Há um tipo de e rro ou de pe cado mais inconscie nte . Se i, pe lo
me nos e m algum lugar se i, que agir de um je ito e rrado implica
risco, mas faço. Talve z e u aposte no caráte r ale atório do e rro e
pe nse que sim, fumo ou dirijo e m alta ve locidade , mas pode se r
que não ocorra nada. Em ge ral, quando somos mais jove ns,
somos ou mais otimistas ou mais ce gos na cre nça da nossa
invulne rabilidade . O e nve lhe cime nto nos torna mais covarde s.
Te mos mais me do dos riscos e da dor causada por açõe s
pe rigosas. Esse me do, ge ralme nte , é chamado de virtude .
Não é e sse o caso de Lúcife r. Ele não se re be lou porque
acre ditava que pode ria ve nce r. É uma batalha pe rdida de sde
se mpre . Não e xiste vitória na age nda do pe cador. Poré m,
re be lou-se me smo assim e , de sobra, ainda le vou um grupo com
e le . Foi pe cador e foi carismático. Assumiu a sobe rba e a
lide rança. Tombou com o pe so da sua vaidade . Je sus diz que viu
Satanás caindo do cé u como um re lâmpago (Lucas 10:18). Ante s
de Je sus, Isaías come ntava o me smo fato: “Como caíste de sde o
cé u, ó Lúcife r, filho da alva. Como foste cortado por te rra, tu que
de bilitavas naçõe s” (Isaías 14:12).
Aqui e stá uma parte fascinante do pe cado. No plano cósmico
e e te rno, por que um se r inte lige nte como Lúcife r come ça uma
e mpre itada se m chance de ê xito? No plano cotidiano e banal, por
que e u como o que não de vo, ou fumo, ou e nfre nto uma briga de
trânsito? A re sposta te ntadora e fácil sai na hora: porque é bom.
Bacon frito é me lhor do que alface . Re be lião dá mais adre nalina
do que submissão. O gosto do praze r ime diato nubla a
pe rspe ctiva do futuro. Pe co porque e rro o te mpo: aposto no aqui
e agora e de spre zo o futuro distante . Miopia cronológica? Talve z.
Lúcife r ficou associado a um dragão ou a uma se rpe nte . A
força máscula de Migue l foi de stacada na arte . Migue l é o arcanjo
fie l; Lúcife r, o re be lde . Mas o insubordinado e stá mais próximo
da humanidade do que o fie l.
Há uma se dução no e rro e isso e xplica parte de nossa
insistê ncia ne le . O e rro, como já disse , é uma individuação, é um
proce dime nto de afastar minha consciê ncia da consciê ncia de
que m manda. Pintar fora da linha é dize r que sou mais forte do
que a linha. Borrar é ousar. Ousar é vive r como indivíduo. Nosso
sé culo, mais lucife rino do que qualque r outro, ama a ousadia e a
transgre ssão. Parte da mitologia do e mpre e nde dor é lucife rina. O
e nquadrado, o fie l, o cumpridor de re gras é uma “vaquinha de
pre sé pio”, outra me táfora bíblica. A vaquinha de pre sé pio e stá lá,
cumpre boviname nte sua função e stática de compor a ce na.
Lúcife r alte rou a história.
Aqui tocamos no orgulho de novo. Séculos de tradição,
toneladas de autoridade, uma linhagem de código se, de repente,
não mais que de repente, o indivíduo diz o contrário. Qual a base
disso? Eu digo, simplesmente, que do meu je ito é me lhor. Eu sou
superior a todos os mestres e regras. Fui além do cânone. Meu
nome é Galileu, ou Picasso, ou Lúcifer, ou qualquer um que
transgrida. De onde nasceu a cente lha da transgressão? Claro, do
meu eu e da minha crença ne le. Humildade abaixa a coluna em
mesura à tradição. Orgulho ergue a testa do vaidoso acima dos
outros. Dizemos que o orgulho cega. Talvez fosse me lhor dizer que
o orgulhoso não fica incapaz de ver o mundo, apenas passa a ver a
si, como se os olhos se invertessem e, em vez de comunicar ao
cérebro o que está do lado de fora de le, comunica o que está
dentro. O resultado pode ser o desastre absoluto ou a mudança de
paradigma, o fim do orgulhoso, sua queda espetacular ou o
reconhecimento da sua genialidade.
A vaidade inaugurada pe lo arcanjo é um dos pe cados mais
irritante s. Por quê ? Porque passa por cima da minha vaidade .
Ode io o pavão que se e xibe (o pavão é um dos símbolos da
vaidade ) porque a cauda de le é maravilhosa, e le não se inte re ssa
pe la minha e , acima de tudo, e u é que gostaria de abrir minhas
plumas ao sol. A vaidade alhe ia é ape nas o pre âmbulo da minha
inve ja. Gosto dos humilde s porque sou vaidoso e os humilde s
re spe itam me u brilho, me u e spaço e me u pode r. Ode io os
vaidosos porque sou vaidoso e e le s não pe rmite m que e u brilhe .
“Vaidade de vaidade s, […] tudo é vaidade ”, diz Salomão, idoso e
mais sábio do que nunca (Ecle siaste s 1:2). Lúcife r abriu um rio
que inaugurou um vasto oce ano humano. Estamos todos afogados
e m vaidade .
O ge sto de Lúcife r, como o de Adão, re pre se nta uma
re be ldia inaugural. Re be lar-se contra um profe ssor? Banal.
Atacar a orde m de um síndico? Quase uma obrigação.
De sre spe itar um gove rno? Pode até se r um ato de cidadania. Ir
contra a orde m do unive rso e stabe le cida pe lo Ete rno e Todo-
pode roso De us? Isso sim que é re be ldia. O re sto é bobage m…
Talve z haja uma admiração ve lada por isso. É a ambiguidade
do ve rso de Milton, e m Paraíso perdido, que volta à me nte : é
me lhor se r se nhor do infe rno do que e scravo no Paraíso. O
infe rno é o campo do sofrime nto, da maté ria, da sombra. O
infe rno pode se r e scaldante (como e m várias me táforas) ou
ge lado (como e m Dante , e ntão um e urope u, para que m o frio é o
grande sofrime nto). Mas é me u e spaço, onde sou re i, onde minha
vontade manda, pe nsaria Lúcife r. Os Campos Elísios dos be m-
ave nturados já tê m dono. Lá se mpre have rá um Se nhor maior do
que e u. Lá a onipotê ncia de um, do UM, ofusca toda luz. Que m
pode rá brilhar diante da Luz e te rna e fulgurante de De us? Que m
pode rá se r diante do SER?
Lúcife r pre fe riu abandonar o cargo importante da maior
multinacional de todos os te mpos e abrir um pe que no, mode sto,
sombrio, mas próspe ro ne gócio. Lúcife r é o prime iro
e mpre e nde dor de todos os te mpos. Migue l, o arcanjo pode roso e
vitorioso, é o que re pe te a orde m do sócio majoritário. Migue l
agradaria me nos ao De partame nto de Re cursos Humanos
alinhado com a inovação. Pode roso, mas comum; impone nte ,
mas se m iniciativa própria; che io de e ne rgia, mas care ce de
carisma e de lide rança. Na arte , o arcanjo Migue l, ve stido de
ce nturião romano, pisa na cabe ça orgulhosa de Lúcife r. A ce na
mostra a humilhação do re be lde . A tradição de u vitória a Migue l.
A história dos coraçõe s humanos mostrou que Lúcife r e ra o
ve rdade iro visionário. Lúcife r é o “pai da me ntira”, mas,
conve nhamos me u de voto le itor, isso pode se r propaganda da
concorrê ncia.

VAIDADE DAS VAIDADES , MES MO NO DES ERTO


Somos vaidosos, já disse o Ecle siaste s. Mas todos nós
se re mos? A vaidade se rá um e le me nto unive rsal me smo? Eu, que
e scre vo sou e vide nte me nte vaidoso, ou não e scre ve ria. Talve z
algué m que me le ia sinta a vaidade de se r le itor, contra tantos
que não o são. Fácil me re conhe ce r vaidoso, mas isso se ria o mal
de todos?
Vou tomar uma tradicional história cristã. Antão (Antônio)
ouviu a voz do Evange lho aos vinte anos de idade , quando o
Cristianismo ainda e ra ile gal no Impé rio Romano, no te rce iro
sé culo. Re nunciando se us muitos be ns te rre nos, virou um home m
místico no de se rto próximo ao Egito. Passou mais de oite nta anos
e m je jum, pe nitê ncia, oração e ê xtase s diante de De us. Sua vida
foi de scrita por Atanásio de Ale xandria, analisada pe la pe na
irre ve re nte de Flaube rt, pintada por gê nios de Bosch, Brue ghe l,
Ve rone se , Pare ntino e Dalí, e ntre muitos outros. Sua luta virou
filme e ópe ra. Antão foi uma luz da prime ira Igre ja que iluminou
os sé culos se guinte s. Morre u aclamado como santo, aos 105 anos
de idade .
Façamos uma re fle xão no caminho de Flaube rt e Atanásio,
de se nvolve ndo (ou de formando) suas inte nçõe s. O ce ntro da
narrativa de Santo Antão do de se rto é sua re sistê ncia ao
de mônio. Intuindo, talve z, que e le se ria tão grande no futuro, o
pai da me ntira de dicou ao monge anacore ta todo o se u
e mpe nho. Antão sofria com te ntaçõe s de castidade . Na obra de
Flaube rt (que havia visto o quadro de Brue ghe l), até a rainha de
Sabá, a mítica mulhe r que se duziu Salomão, foi até Antão. A
ate nção do mundo infe rnal a e sse home m e xce dia a mé dia. O
monge do de se rto virou um case da e scola de moníaca.
Antão se conce ntrava no se u crucifixo e e is que o corpo
sofrido do Re de ntor e ra transformado e m uma mulhe r nua a sua
fre nte para distraí-lo. Antão de itava sobre uma e ste ira no chão,
se m ne nhum conforto, re nunciando a tudo. Sob a e ste ira,
surgiam as mais te ntadoras mulhe re s que a imaginação de
Satanás pode ria conce be r. Pode mos supor que o de mônio,
conhe ce dor da nature za humana e da psicologia de Antão,
indicava a se dução da luxúria na forma mais ade quada para
provocar a que da do pobre pe nite nte . Pre fe ria Antão, talve z,
mulhe re s mais che ias ou com se ios notáve is? Ali e stavam.
Inclinavam-se os hormônios do monge a mulhe re s de olhos e
lábios pe ne trante s? Eis que pululavam tais fê me as. Ante s da sua
re núncia, ante rior aos se us vinte anos, tinha Antão fe ste jado com
e gípcias de quadris com cadê ncia oscilante e notáve l? Elas
voltavam com a ilusão do re i do infe rno.
Imagine o le itor se u obje to se xual mais de se jáve l? O que e stá
nos se us sonhos mais se cre tos? Que corpos habitam se us de lírios
e anse ios inconfe ssáve is? Lá e stavam, e xatame nte assim, com
e ssa forma e fáce is, ao alcance da mão e de se jando e sse toque .
Imagine ainda, le itor, que isso ocorre u ao longo não de uma
se mana, mas de dé cadas. E, notáve l alma de aço do santo, nunca
caiu e m te ntação. Fazia um sinal da cruz, invocava o nome de
De us, virava-se à visão e prosse guia firme na de cisão de se rvir a
Je sus. Importante dize r: e stamos na passage m do te rce iro para
o quarto sé culo e , faltando mais de um milê nio para o
nascime nto de Sigmund Fre ud, re nunciar ao se xo e ra virtude , e
não sintoma patológico. Não “psicanalise mos” o bom Antão. Sua
pe rsonage m não comporta e sse anacronismo.
Claro, se Antão morre u com 105 anos, vamos supor lícito
que a te ntação da carne de ixasse de se r he roica, digamos, aos
75 anos? Acalmava-se a carne de Antão. Aguavam-se se us
hormônios? O de se jo virava me mória? O dilige nte de mônio variou.
Ofe re cia image ns de comidas maravilhosas. A fome continua até
a morte , quando calam todos os outros de se jos. Je juava Antônio
na quare sma e pulavam as comidas mais te ntadoras e com
che iro inigualáve l. Pode mos també m supor que , no auge do
je jum, na Se xta-fe ira Santa, Antão e ra apre se ntado aos pratos
mais bonitos e com o de se jo mais forte . També m ne sse campo
não ce de u nosso he rói da fé .
Não conse guindo faze r o santo pe car contra a castidade ou
contra se us je juns, o de mônio e nce ta nova tática: a distração.
Inte nsame nte conce ntrado na sua oração, o pobre monge e ra
le vado ao ar por vários de mônios e jogado e m que da livre para
se r amparado logo e m se guida. Bastava de cidir e ntoar um
simple s Pai-Nosso, para que sua montanha-russa de moníaca
come çasse . Le vado para lá e para cá, e m se us traje s
e sfarrapados de pe nite nte , Santo Antão continuava santo. Nada,
absolutame nte nada o de move u do se u propósito e da prática
santa da pe nitê ncia. Sua conce ntração supe rava todo o mar de
ritalina que hoje banha as praias da falta de ate nção de crianças
e jove ns. Não ocorre u ao de mônio introduzir Antão e m uma re de
social, havia que se re spe itar a cronologia. Essa artimanha
diabólica te ria de e spe rar um pouco.
Mais de oite nta anos de e sforços de moníacos inte nsos. Antão
e ra um caso único: um home m para todas as e staçõe s, um
cristão de fé . Estariam e rrados os cé ticos que afirmavam que o
único cristão do mundo morre ra na cruz? Já have ria um par, ao
me nos, de sse s home ns notáve is acima da própria nature za
humana: Je sus e o próprio Antão? Talve z te nha sido e sse o
pe nsame nto de Lúcife r. Ele arrastava multidõe s ao se u domínio.
Se u fascínio se duzira um te rço dos anjos. Se o olhar de Lúcife r
podia se duzir um se r ce le stial e criado de pura maté ria divina,
quanto mais e sta humanidade de caída, os ge me nte s filhos de Eva
fe itos de barro, e ste s home ns que fornicam, pe cam, que choram
e que bram todos os votos. Era uma que stão de honra.
Há dois finais para e ssa história. Um que o e xalta até o fim e
mostra como re sistiu a tudo. Um santo de e ne rgia acima do
humano. Um he rói da fé . Esse s são os finais das narrativas de
santos. Talve z, por isso me smo, as histórias de santos se jam tão
se dutoras e tão longe de todos nós.
Gosto mais de outra que amplio, a partir de Flaube rt. Pe rto
da sua morte mais que ce nte nária, Antão ainda re siste às
inve stidas do pai da me ntira. O de mônio te ntara de tudo, mas
tinha sido de rrotado e m cada e sforço criativo infe rnal. Por fim,
caso único na história, Lúcife r anuncia sua de sistê ncia. Apare ce a
Antão e diz que irá se re tirar daque la cave rna onde de spe rdiçara
oite nta anos de e straté gias e magias. O ve lho se nte uma curiosa
since ridade na e xpre ssão de moníaca. Satanás se vai. Antão se
ajoe lha, humilde , e agrade ce re ple to de pie dade diante do
crucifixo: “Obrigado, Se nhor, finalme nte me torne i um santo.” O
de mônio ouve a oração e volta, sorride nte . Antão fora ve ncido
pe lo pe cado do orgulho de le me smo, orgulho da sua virtude , da
sua santidade . O me smo pe cado que de rrubara Lúcife r, só que
agora trave stido de humildade . O orgulho do be m: a vaidade da
mulhe r virtuosa que olha para a adúlte ra; o se ntime nto de
supe rioridade do político hone sto diante do cole ga corrupto; o
de sdé m vaidoso do aluno que e studou ao obse rvar o cole ga que
pratica fraude e m uma prova. Há algo de profundame nte vaidoso
na virtude . O orgulho é , de longe , o prime iro e mais unive rsal
pe cado. Sinta-se be m, le itor, Antão foi tão mais longe na e strada
da virtude e trope çou ne ssa pe dra quase invisíve l. Nós que somos
tão me nos…
O pe cado do orgulho associado à santidade é be m ilustrado
ne ssa ve rsão da vida de Santo Antão. Mas um aconte cime nto
me nos conhe cido da vida de Francisco de Assis me re ce també m
se r narrado. Todos conhe ce m a história do jove m playboy da
Úmbria, rico e bonito, que um dia abandonou todo o conforto da
casa do pai e todo o luxo e praze r das fe stas e se jogou de
cabe ça na vida re ligiosa. Francisco tornou-se um dos mais
populare s e românticos santos da Igre ja Católica. Sua vida
transbordou os limite s corporativos e alguns não cristãos
manife stam admiração pe lo “pove re llo”, o pobre zinho de Assis.
Já te ndo muitos se guidore s e com ce rto re conhe cime nto,
Francisco pode ria se ntir-se fe liz. Fundara sua orde m no amor à
pobre za e à simplicidade . Pre gara o Evange lho se m pompas
re tóricas e vive ra de acordo com e sse s princípios. Mas… O
cre scime nto de uma instituição e scapa um pouco ao controle do
fundador. Francisco pe rce bia que a nova ge ração de frade s não
e ra mais tão amante da pobre za. Alguns luxos se insinuavam aqui
e ali. Bibliote cas surgiram nos conve ntos. Supe riore s come çavam
a comprar te rras para que a obra franciscana ficasse mais be m
asse ntada. O carisma do fundador já come çava a se pe rde r com
Francisco ainda vivo. A e rva daninha do cotidiano sufocava a
se me nte do de spojame nto absoluto.
O santo come çou a e ntrar e m profunda de pre ssão. Por que
lutara tanto? De que se rvira sua luta abne gada pe la vida nos
molde s do Evange lho? Sua de dicação aos le prosos, sua vontade de
conquistar os coraçõe s de não cristãos, suas oraçõe s
acompanhadas de ê xtase s, se us je juns prolongados e sua poe sia
de spre te nsiosa louvando as criaturas de De us? Tudo pare cia
irre cupe ráve l e inútil, pois sua obra se pe rdia já agora, imagine -se
dali a duze ntos ou quinhe ntos anos? Se u sonho pare cia, agora,
uma utopia, uma quime ra, uma pe rda total de se ntido.
A alma de Francisco pe sava como nunca. Sua fé mancava. A
ce rte za do futuro, base de toda fé , e stava abalada. O santo
re corre u à sua mais ardorosa se guidora. A be la Clara e ra de
uma família muito rica e de uma be le za e spantosa. Tal como
Francisco e por e le inspirada, fugiu de casa e se de dicou à vida de
oração e pe nitê ncia. Clara e ra uma fre ira com votos e mitidos,
cabe los cortados e a ale gria de nada te r ne ste mundo e tudo
e spe rar no outro.
Francisco foi se abrir com a amiga Clara. Ele a tinha
inspirado uma ve z e , agora, tinha suposto que e la pode ria ajudá-
lo a re de scobrir sua vocação. A alma de Francisco sucumbia
diante da dúvida sobre valor e o se ntido do que fize ra. Foi assim
que Francisco procurou a doce Clara: choroso e me lancólico. A
be la Clara, agora de hábito e vé u, ouviu se u guru. A situação se
inve rtia. Era Francisco o discípulo angustiado. E o e x-jove m rico
e xpôs suas dore s por muito te mpo. A e x-jove m rica nada
come ntou. Ape nas ouviu e ouviu e ouviu. Quando o cálice da dor
do santo já tinha se e sgotado e de rramado, quando tudo tinha
sido dito e ntre lágrimas e suspiros, quando nada havia mais a
narrar, Clara, e nfim, falou: “Francisco, que rido pai Francisco, o
proble ma é que você ainda não é pobre …”
Silê ncio na sala. Clara e Francisco e stavam acompanhados
como mandava a santa e tique ta das visitas pie dosas. Os
acompanhante s se e spantavam. Como Clara pode ria dize r isso a
um home m que andava maltrapilho há anos, só comia e rvas,
dormia no chão e nada tinha e m se u nome ? Como dize r que não
e ra pobre um home m que havia abe rto mão de rica he rança do
se u pai, Pe dro Be rnardone , e que havia proclamado, nu, que
agora pode ria re zar: “Pai Nosso, que e stais nos cé us”, pois já não
tinha outro Pai a não se r o ce le stial? Mas Clara ignorou o e spanto
ge ral e o silê ncio constrange dor. Após pausa bre ve , e xplicou-se :
“Que rido Francisco, você se tornou pobre no se ntido mate rial.
Você abriu mão das coisas de fora, dos be ns, das roupas e da
se gurança das posse s. Mas ficou ape gado a um be m: se u le gado
e sua obra. Sua dor é a dor de que m que r de ixar um be m para
os outros, a orde m santa e pobre . Isso, que rido Pai Francisco, é
vaidade e orgulho de proprie dade . Tudo foi dado aos outros,
me nos o orgulho do se u nome e da fama da sua obra.”
Francisco olhava admirado para as palavras da discípula.
Nunca havia pe nsado que sua dor, como toda dor, tinha algo de
narcísico. A de pre ssão que e nfre ntava não e ra a dor re ligiosa de
te r agido e m vão, mas a dor do orgulho fe rido, da vaidade , a
me sma de Lúcife r. O de mônio havia se orgulhado da sua be le za
e xtraordinária; Francisco se ape gara à be le za da sua orde m
Franciscana. Ambos come te ram o me smo pe cado.
Foi uma iluminação, uma e pifania, uma manife stação do
divino para e le . Sim, tinha se ape gado a um be m e pre cisava
abrir mão de le . Nada possuía e nada le varia de ste mundo, ne m a
e spe rança de que sua obra frutificaria. Essa e ra a ve rdade ira
pobre za, aque la que não se ape ga ne m à própria virtude .
Francisco e stava pronto para partir, pobre de fato, e não ape nas
pobre por não te r be ns mate riais.
A vaidade é se mpre mais insidiosa do que pare ce . Lúcife r,
Antão e Francisco: trê s se re s muito e spe ciais que , de alguma
forma, foram traídos pe lo orgulho.
O prime iro pe cado capital é o orgulho. É uma forma de
idolatria, pois atribuo a um se r criado (no caso, e u) um valor e m
si. Ve ne ro uma criatura e não ve ne ro ao Criador. É um be ze rro
de ouro, a image m que o povo he bre u adorou ao fraque jar na
sua fé . É o prime iro e mais vasto pe cado e um que e ntra e m
todos os outros. Há orgulho e m todos os pe cados e també m na
maioria das virtude s.
Os budistas, que ne gam a e xistê ncia de um De us criador e
dire cionador de tudo, e ne gam uma alma imortal, acham que o
orgulho e o ape go do e u aos se us valore s é um dos pontos de
maior dificuldade na iluminação do se r.
O orgulho atrave ssa toda a Bíblia. Jacó luta com um
anjo/De us. Moisé s se e nfure ce e mata um e gípcio. Jonas lame nta
que uma cidade não se rá de struída como e le anunciou. Ele
que ria que toda Nínive fosse e xte rminada para que sua palavra
de profe ta tive sse validade . Re ce be u uma lição de mise ricórdia.
Talve z se ja a grande lição da Bíblia. A vaidade orgulhosa paira
sobre todos.
Arrogante s são de spre zados por De us. Mas a virtude pode
e sconde r e ssa se rpe nte , se o virtuoso não e nte nde r que age be m
porque assim De us o inspirou e e le ace itou e ssa orie ntação.
Pode mos e nce rrar e sta mirada orgulhosa com uma re fle xão
que só um não re ligioso pode ria faze r. Imagine uma pe ssoa que
lhe disse sse que re r se r a única pe ssoa da sua vida. Imagine que
e ssa pe ssoa ame ace de struir, matar me smo, qualque r outra
pe ssoa ou me smo você se olhar para outra. Imagine que e ssa
pe ssoa usa a palavra com ce rto orgulho: sou ciume nto! Suponha
que e ssa pe ssoa e stabe le ça normas e mate , lite ralme nte mate ,
que m não ficar ade quado a e las. Imagine que e ssa pe ssoa
le mbre a você se mpre e de forma obse ssiva, todo o be m que e la
fe z a você . Tudo o que e la de u se ria le mbrado muitas ve ze s. Essa
pe ssoa só se re fe riria a si como a me lhor de todas e que tudo o
que e la faz é corre to. Você não acharia e ssa pe ssoa
insuportave lme nte orgulhosa? Não imaginaria que e la e stá che ia
de si? Que se u orgulho a torna autoritária, viole nta e até
assassina? Be m, e u acabo de de scre ve r De us no Antigo
Te stame nto… Sábias palavras de Salomão: vaidade das vaidade s,
TUDO é vaidade .
Capítulo 3
~
O pecado envergonhado

Tu, de quantos dragões o Inferno encerra


És o pior, Inveja pestilente!
Morde a virtude, ao mérito faz guerra
Teu detestável, teu maligno dente.
Manuel Bocage

Come ce i falando do mais fundame ntal de todos os pe cados, o


pe cado-pai de todos os outros: o orgulho. Praticame nte tudo o
que que bra as normas da moral e stabe le cida nasce de sse
se ntime nto. Vimos e ssa ambiguidade de tal forma que
pode ríamos dize r que o orgulho que bra as normas e stabe le cidas
pe lo grupo grande porque colocamos a re gra do me nor grupo
possíve l: nosso e u. Roubo, me ntira, fraude , violê ncia e tudo o
mais nasce de alguma forma a partir do me u inte re sse
sobre posto ao inte re sse dos outros.
O orgulho é uma opção que ge ra todas as outras opçõe s.
Uma mãe abne gada (ne m se mpre isso é um ple onasmo) que e m
uma crise e conômica de cide abrir mão do se u pão para que se u
filho coma, uma mulhe r que ignora o anse io da fome pe lo amor
mate rnal, é um se r capaz de um amor e xtre mo. Poré m, no
fundo de ssa alma mate rna, e xiste o orgulho de te r fe ito isso, de
se r boa mãe , de se de dicar ao outro mais do que a si. A ce rte za
de que é um se r maravilhoso talve z alime nte mais do que o pão
ao qual e la re nunciou.
Mas é pre ciso falar de um pe cado que não é o ce ntro do
nosso siste ma, mas que ocupa um e spaço e stranho, a inve ja. Que
e spaço se ria e sse ? Todas as nossas falhas ge ram, e m algum
lugar, um se ntime nto de vaidade . Se sou che io de ira, se
transbordo de luxúria, se me u se r vive para a gula, e m algum
lugar, algo diz que isso é bom. Há se mpre orgulho na capacidade
do me ntiroso, na habilidade do adúlte ro e nas e straté gias
viole ntas de de marcação de e spaço de algué m inclinado à ira. Um
avare nto é capaz de dize r: “Eu sou é pre ve nido, não e sbanjo, os
que gastam muito é que ficam com dificuldade s.” O orgulhoso
pode dize r que se trata de autoe stima, e , invocando o princípio
vazio e idiota de toda autoajuda, pode de sfe rir a se nte nça: que m
não se ama não pode amar ningué m. Todo de fe ito comporta
uma vontade de se dife re nciar e um amor à sua mane ira de se r.
Um de fe ito me distingue como indivíduo e me torna e spe cial.
Assim, os pe cadore s chamam a se us de slize s de idiossincrasias,
algo que os torna como são.
Mas… Há um lado e scuro do unive rso dos de fe itos. Existe
uma forma de se r que se e sconde nas dobras da alma. É um
monstro noturno, sorrate iro, de olhos brilhante s e me lancólicos.
É o de mônio da inve ja. A inve ja é um pe cado e nve rgonhado. Há
que m bata no pe ito e diga que vive para o se xo, ou para a
comida, ou para a vaidade e sté tica. Mas, confe sse me u caro
le itor, você já e ncontrou algué m que diga que é muito inve joso? Já
e sbarrou com uma pe ssoa que re conhe ça que não pode ve r a
fe licidade alhe ia que já cai e m dor mortal como todo inve joso?
Acho que não, e já ve re mos o motivo.
Ante s de de se nvolve r a e strutura e nve rgonhada da inve ja,
se ria bom faze r uma distinção. A inve ja é , com fre quê ncia,
confundida com a cobiça. Cobiçar é de se jar aquilo que outra
pe ssoa te m. Quando que ro o carro, a casa, a roupa, o corpo ou
a e sposa ou o marido de algué m, e stou cobiçando. O
mandame nto fala sobre não cobiçar a mulhe r do próximo. Não
há uma adve rtê ncia sobre inve ja no de cálogo, de forma dire ta,
mas um inte rdito para a cobiça. Que re r algo que outro te m pode
ge rar roubo, de struição ou outros male s. Cobiçar, como já
me ncionado, é que re r e até avançar sobre o que pe rte nce a
outro.
A inve ja é algo mais sutil e ve ne noso. Inve jar é te r dor pe la
fe licidade alhe ia. O que me incomoda não é , e xatame nte , o que
o outro te m, mas o quanto e le é fe liz com isso. Não que ro a casa
do outro, mas fico incomodado como e le vive be m ne la. Não
inve jo o corpo e m si, mas o suce sso que o corpo de le faz. Não
que ro te r o que você te m, mas me pe rturba mortalme nte que
você o te nha. A inve ja é dife re nte da cobiça. A inve ja nunca é boa,
ou usando uma e xpre ssão duvidosa, nunca é “branca”. A inve ja é
se mpre de strutiva, se mpre te rríve l e se mpre “ruim”.
Não e xiste inve ja boa. O que pode se r me nos danoso é um
tipo de cobiça muito e spe cial. Acho muito boa sua capacidade de
falar inglê s. Admiro e de se jo te r a me sma capacidade . Então, me
matriculo e m uma boa e scola de inglê s e passo a e studar quatro
horas por dia, no intuito de atingir o bom padrão que você te m.
Você se tornou uma re fe rê ncia e me e sforço para atingir se u
níve l. Isso não pre cisa se r ruim ou de strutivo, ou, pe lo contrário,
pode se r e stimulante . Cobiço e star no padrão que você e stá e me
e sforço para isso. O me smo pode ocorre r com toda habilidade
física ou inte le ctual ou toda posse mate rial. De alguma forma, e
voltando ao te rmo ambíguo, e xiste uma “cobiça branca”.
A inve ja nunca é positiva. Eu não re conhe ço que o que você
te m nasce u de algum e sforço ou de algum acaso fe liz. Ape nas me
incomoda sua ale gria. Se u riso, se u suce sso, sua fe licidade são
chicote s nos me us ouvidos. Por isso a inve ja é e nve rgonhada:
inve jar é re conhe ce r-se infe rior, se r me nos do que algué m. O
inve joso te m uma dor profunda, que é o limite da sua
capacidade , ou do que e le imagina que se ja sua capacidade .
Dante colocou os inve josos no Purgatório com os olhos atados
com arame s. Inve ja ve m de invidere, não ve r, e m latim. O
inve joso, e m ve z de olhar para si e para se u unive rso, vê ape nas o
outro. O inve joso é um ce go e spiritual, um míope ao me nos,
incapaz de se olhar, ape nas se compara com o mundo e xte rno.
O ce ntro do olhar do inve joso é o outro. Em linguage m mode rna,
falta psicanálise ao inve joso; e le não te m se nso crítico sobre si e
ne m conhe cime nto das suas motivaçõe s. Em linguage m filosófica,
o inve joso não cumpre o mandame nto socrático de conhe ce r a si
me smo.
Qual é a raiz da dor causada pe la inve ja? Ela dói porque e la
me re conhe ce me nos. O que o outro pare ce conse guir de forma
tão fácil, e u não consigo ou não te nho. Todos ao me u re dor
pare ce m mais le ve s. Comigo as coisas se mpre pare ce m mais
pe sadas. A inve ja dói porque me e xclui dos e le itos e me coloca
e m um círculo nublado e opaco, e la aume nta minha solidão. Dói
por dois lados: e u não sou assim e o outro é . Isso me diminuiu e
e xalta o outro. A inve ja compara, amarga, e nve ne na e pe sa.
Corrói como ácido fraco, pois não que ima ime diatame nte e de
forma total, mas de sgasta pingando do te to do re sse ntime nto
uma e stalactite aguda sobre mim.
Inte rpre tando, como vários outros, que o poe ma “Mal
se cre to”, de Raimundo Corre a (1859-1911), se ria sobre a Inve ja,
Zue nir Ve ntura5 cita e ste sone to do maranhe nse marcado pe la
be la sonoridade das palavras tônicas:

[
Mal se cre to

Se a cóle ra que e spuma,


a dor que mora n’alma,
e de strói cada ilusão que nasce ,
tudo o que punge , tudo o que de vora
O coração, no rosto se e stampasse .
Se se pude sse o e spírito que chora,
Ve r atravé s da máscara da face ,
Quanta ge nte , talve z, que inve ja agora
Nos causa, e ntão pie dade nos causasse !

Quanta ge nte que ri, talve z, consigo


Guarda um atroz, re côndito inimigo,
Como invisíve l chaga cance rosa!

Quanta ge nte que ri, talve z e xiste ,


Cuja a ve ntura única consiste
Em pare ce r aos outros ve nturosa!
]

O sone to pode indicar duas coisas. Inve ja e m prime iro lugar,


mas també m uma patologia de re pre se ntar fe licidade
pe rmane nte e inte nsa. Em te mpos nos quais as re de s sociais e
e ntre vistas nos obrigam a uma fe licidade orgiástica e
pe rmane nte , os ve rsos pode m se inclinar para e ssa se gunda
inte rpre tação, se m omitir a prime ira.
Que re mos pare ce r be m e fe lize s se mpre . Arrumamos a casa
para que os outros não ve jam nossa de sorde m. Pe ssoas passam
cre me s para que não e stampe m a idade que tê m. Ve stimos
traje s e fantasias no grande te atro do mundo, como
pe rsonage ns. Postamos fotos de jantare s e viage ns. Usamos todos
os re cursos te atrais para que nosso público nos ace ite pe lo vié s
da ple na re alização. Assim como diz o poe ta, somos pe ssoas cuja
única ve ntura ve rdade ira é pare ce r aos outros ve nturosa.
As máscaras ade re m ao rosto, tornam-se parte de le . O
principal de fe ito das me ntiras que usamos para o mundo é que ,
com o te mpo, passamos a cre r ne las. Esta se ria a de finição
clássica do mitômano: algué m que me nte e que acre dita no que
diz. Ao postar sua vida maravilhosa nas re de s sociais, o indivíduo
re ce be várias “curtidas” e , ao vê -las, vai se conve nce ndo de que ,
afinal, não vive tão mal. Sua fraque za inte rna o faz de pe nde r do
apoio e aprovação e xte rnos. Me smo isso não se ndo, a rigor,
inve ja, e stá na base idê ntica do pe cado capital. O inve joso é um
me ntiroso para si, me nte pe la incapacidade de pe nsar sobre si.
Me nte pe lo silê ncio inte rno, compe nsado pe lo olho e xte rno.
Em te mpos mais re ce nte s, um te xto — “Mal se cre to”, de
Wally Salomão — foi musicado pe lo carioca Jards Macalé . Sua
le tra faz re fe rê ncia dire ta a e sta inte rpre tação: o mal não se ria
a inve ja, mas a vontade de mascarar a dor aguda de e xistir.

[
Mal se cre to

Não choro,
Me u se gre do é que sou rapaz e sforçado,
Fico parado, calado, quie to,
Não corro, não choro, não conve rso,
Massacro me u me do,
Mascaro minha dor,
Já se i sofre r.
Não pre ciso de ge nte que me orie nte ,
Se você me pe rgunta
Como vai?
Re spondo se mpre igual,
Tudo le gal,
Mas quando você vai e mbora,
Movo me u rosto no e spe lho,
Minha alma chora.
Ve jo o Rio de Jane iro
Comovo, não salvo, não mudo
Me u sujo olho ve rme lho,
Não fico calado, não fico parado, não fico quie to,
Corro, choro, conve rso,
E tudo mais jogo num ve rso
Intitulado
Mal se cre to.
]

Talve z e ste ja aqui uma curiosa combinação que ilumina o


te xto ante rior de Raimundo Corre a. Disfarçar se ria um impulso
do orgulho. Você pode te r pode r sobre mim a ponto de me fe rir,
mas e u continuo se ndo orgulhoso e não que ro dar-lhe e sse gosto.
Inve ja com orgulho, me ntira e máscaras: é a combinação
pode rosame nte humana.
O mais curioso ne ste mundo líquido é que , de tanto re pe tir
que e stamos be m, te nde mos a acre ditar. Nossa vida é e xpre ssiva;
nossos filhos, lindos; nossa casa, boa; nossos companhe iros e
companhe iras, e spe ciais; nossa ida para aque le hote l foi MUITO
BOA… De tanta ve ntura de sfrutada, e ve ntualme nte até ficamos
pare ce ndo ve nturosos. E para o re sto? Be m, e xiste m
antide pre ssivos…
Mas há outra linha distinta de inte rpre tação dos poe mas. A
ve rdade ira inve ja não se volta ao te atro do mundo e xte rno. O
inve joso não é algué m que de se ja apare ce r como X ou Y. A inve ja
dói fora do palco, e ntre de nte s, nunca e m fala abe rta. A inve ja é
um pe cado individual. Ao contrário da gula e da ira, que pode m
se r come tidos e m grupo e animados pe lo grupo, a inve ja é
solitária.
Claro, muitos inve josos inve jando e m grupo constitue m uma
sólida tribo de inve josos, mas não são solidários e jamais e stão
e m comunhão.
Ela é , paradoxal e individualme nte cole tiva. Vamos pe nsar
me lhor ne ssa contradição. Há opiniõe s cole tivas que são,
abe rtame nte , opiniõe s inve josas. Para isso basta uma re vista
e stampar o suce sso de algué m. Um autor que ve nda muito, para
muitas pe ssoas; um cantor que lote e stádios; um jogador que
ganhe milhõe s; uma nove la de audiê ncia e le vada ou um filme
blockbuster: ime diatame nte , surge m críticas pode rosas. Se mpre
que as le io, concordo com várias pre missas. Sim, tal autor ve nde
muito, mas se us te xtos são supe rficiais. Ve rdade que as filas
para aque le musical dobram o quarte irão, mas as me lodias são
e motivas e as le tras, pobre s. O suce sso se suste nta mais na
pirote cnia do ce nário do que na de nsidade do musical e m si. Os
críticos tê m razão e se us se guidore s també m. O gosto mé dio,
como diz a palavra, é mé dio, tanto pe la mate mática pura como
pe la sua e statura.
Poré m, há uma forte que stão ve lada. Ela pode se mpre se r
pe rce bida. Não é ape nas uma análise ponde rada sobre a
supe rficialidade , sobre o clichê de tal obra ou um lame nto pe la
falta de de nsidade . A raiva que a crítica mal conse gue e sconde r é
pe lo suce sso e m si. Quando digo crítica, não me re firo ape nas
aos profissionais da áre a, alguns muito bons. Re firo-me a todos
nós, e spe cialme nte ao come ntário ge ral sobre produçõe s
culturais ou fe nôme nos de me rcado. Aqui a inve ja vira fe nôme no
social.
Uma ve rdade sólida: todos a que m inve jamos, não dize mos
isto. Ningué m diz: “Fulano não pare ce se r brilhante , mas ganha
milhõe s e e u, que sou tão bom, ganho me nos.” Buscamos, ve lho
re curso humano, e mbasame nto té cnico e moral. Douramos a
pílula: “Fulano e scre ve para as massas, e u e scre vo para um
pe que no grupo.” A crítica mal disfarça a inve ja. Ora, se e scre vo
para poucos e não busco o gosto açucarado das massas, de vo
e star muito fe liz e m ve nde r pouco. Se me u filme é “cabe ça”, que
maravilha que as cabe ças pe nsante s da cidade , quatro ou cinco,
te nham apre ciado. Se minha proposta artística é de tal vanguarda
que pouquíssimos e nte nde rão, de ve ria e xultar que pouquíssimos
e nte nde ram.
Dourar a pílula da inve ja é algo forte me nte tradicional.
Te mos um arse nal analítico a nosso alcance . Não inve jo se u
corpo, ape nas acho que você é supe rficial e se de dica mais ao
físico. Assim, minha inve ja vira virtude e e u sou uma pe ssoa
profunda. É mais fácil do que re conhe ce r que , alé m de inve joso,
te nho corpo ruim. Você é um político populista; e u digo a ve rdade
aos me us e le itore s, por isso não te nho tantos votos. Ou se ja, você
foi e le ito e e u, não. Você é obse ssivo com trabalho e não valoriza
as coisas simple s da vida. Em outras palavras: você ganha mais do
que e u.
É tradicional se dize r que a te ntação de moníaca não age com
a roupa do mal, mas do be m. O de mônio da pre guiça não nos
diz, “durma mais porque dormir é bom”. Ele insinua ao ouvido:
“Você trabalhou tanto onte m que se ria me lhor dormir mais hoje ,
assim você se rá mais produtivo e mais criativo.” O de mônio da
gula nunca diz “pe gue e ste brigade iro, é gostoso”. Ele sussurra:
“Você se priva de tantos mome ntos bons, agora você te m dire ito
e a e ste prê mio que é o brigade iro, pois você já re nunciou a
muito no passado.” Tornar de fe itos qualidade s, dourar vícios e m
virtude s, mostrar que me u mal é , no fundo, me u be m (e e u,
bom) é uma e straté gia que os re ligiosos atribue m ao de mônio e
os psicanalistas, a outras motivaçõe s.
O me smo ocorre com a inve ja. Atrás de cada crítica virtuosa
e xiste uma insinuante inve ja. Não consigo dize r, simple sme nte , o
quanto de ruim e inve joso corre de ntro dos labirintos do me u se r.
Me lhor se ria disfarçar com algo e le vado e nobre . Como é fácil
de sconstruir qualque r ação alhe ia. Como a oposição é a mais
confortáve l das situaçõe s políticas, e u ataco pe lo vié s do be m e da
virtude . O curioso se mpre é imaginar por que , e m de te rminado
mome nto, e u imagino que só possa construir o muro da minha
ide ntidade com as pe dras re tiradas dos outros. Essa é a inve ja.
No Ensino Mé dio (que , na minha é poca, chamava-se Se gundo
Grau) e u, adole sce nte , mais bobo ainda do que sou hoje , tive uma
iluminação inte re ssante . Havia uma cole ga muito abaixo da
e statura mé dia da turma, muito me smo. També m havia um
cole ga particularme nte alto. Um dia, no e mbate e ntre ambos, e la
soltou, irritada, ao se r classificada como gnomo: “A e ne rgia que
você usou para cre sce r, e u te nho guardada no me u cé re bro.”
A frase e ra boa. De ve te r sido lida e m um para-choque de
caminhão ou e m um almanaque do Biotônico Fontoura (ve jam a
idade avançada de ste autor com e ssa citação). Ime diatame nte
pe nse i, no ve rdor ingê nuo dos me us quatorze anos, que e ra uma
e xce le nte re sposta. O alto insultara a baixa e le vara o troco na
hora e e m moe da sonante . De pois, voltando para casa, imagine i:
mas… ela é uma das piores alunas da classe. Logo, a frase pronta não
se aplicava. Ela e ra baixa e a e ne rgia acumulada não tinha sido
conce ntrada e m se u cé re bro. Ela e ra ape nas uma me nina baixa.
A frase a consolava, mas e ra falsa. Nas notas, nas frase s no
grupo, nas açõe s: nada indicava que minha diminuta amiga fosse ,
se que r, acima da mé dia. També m pode ria analisar a afirmação
de um rapaz acima da e statura mé dia que que ria provar, como
valor, a fita mé trica. Mas a re sposta da me nor ape nas indicava,
na de fe sa e nfraque cida, que e la concordava que altura e ra um
valor. Sua frase e ra uma home nage m ao valor social da altura.
Sua frase te ntava disfarçar a inve ja que se ntia.
Aqui pode mos tocar e m outro aspe cto importante . Inve jamos
coisas próximas. Rarame nte a inve ja atinge algo muito distante . O
suce sso de Ale xandre , o Grande , há mais de 2300 anos, não
causa se ntime ntos e xaltados. Nunca e ncontre i algué m que
acordasse no me io da noite irritado com a rique za de Cre so, re i
da Lídia; a força de Mílon, de Crotona, que carre gava um touro
às costas na Gré cia Clássica ou a inte ligê ncia pre coce de Stuart
Mill. A be le za de He le na de Troia foi cantada por todos os
clássicos. Nunca vi uma mulhe r inve já-la no sé culo XXI.
Assim, a força de um atle ta gre go do pe ríodo clássico pode
se r admirada. O braço do amigo que faz musculação comigo não
pode . A be le za de He le na é o rosto que “lançou mil navios às
praias de Troia”. Ela não me incomoda, mas minha cole ga de
trabalho… A inte ligê ncia de Stuart Mill ou a pre cocidade de
Mozart causam admiração, mas me u cole ga de de partame nto…
A inve ja pre cisa ve r ao lado o obje to inve jado. A inve ja é um
e spe lho e a figura re fle tida pre cisa e star próxima. A admiração
costuma ocorre r, quando e stamos uns ce m anos distante do
obje to admirado, ou ao me nos, um contine nte . A traje tória de
ê xito de Ste ve Jobs pode ve nde r mais do que me incomoda o
suce sso do me u cole ga de trabalho. A amargura inve josa te m
pouco alcance . É um tiro curto que só atinge o que e stá ao lado.
O inve joso te m um GPS com hipe rme tropia.

DE NOVO, A BÍBLIA
Um dos Evange lhos mais bonitos, o de Lucas, conta parábolas
se guidas no capítulo 15. É uma re sposta de Je sus ao
que stioname nto de farise us e e scribas. Farise us e e scribas
re pre se ntam o cumprime nto e strito da le i, a busca da salvação
pe la fide lidade lite ral ao te xto. As me táforas de Je sus indicam um
caminho distante de ste : a mise ricórdia de ve se impor ao te xto.
Isso e ra bastante inovador no campo da Le i como os farise us a
liam.
O te xto que mais me inte re ssa agora come ça no ve rsículo 11
de sse capítulo. A parábola ficou conhe cida como a do “filho
pródigo”. Um home m tinha dois filhos. O mais novo pe diu,
ante cipadame nte , sua he rança. Na Bíblia, o filho mais novo quase
se mpre é o foco da ação, como e m Caim e Abe l, Esaú e Jacó. O
mais novo pe gou se u dinhe iro e partiu para um lugar distante . Lá,
se duzido por amigos fáce is que a fortuna atraía, gastou tudo.
Passou a se r conhe cido como aque le que e sbanja, o filho pródigo.
Para Dante , que m nada dá ou tudo dá é igualme nte culpado.
O autor da Divina comédia conde na ambos ao me smo lugar do
Infe rno. Se r pródigo é um pe cado, tal como se r avare nto.
Esbanjar tudo ou poupar tudo são de fe itos morais para e ste
unive rso. O filho pródigo gastou toda a he rança e se arre pe nde u.
Um dia, premido pe la fome, o mais novo desejou voltar para a
casa do pai. Sua reflexão mais amarga ocorreu quando foi
obrigado a cuidar de porcos, certamente uma das ocupações mais
impuras na cabeça de um judeu. Lá, em um chiqueiro imundo, e le
chegou a desejar comer o que se dava aos porcos, mas nem isso
conseguia. Imaginou que os empregados do pai comiam pão à
vontade, e e le estava ali, no fundo do poço da indignidade. Aqui as
primeiras lições do texto: não confie em amigos dados pe la
abundância e não gaste tudo o que tem inutilmente. Mas são lições
menores no objetivo dessa parábola.
O filho pródigo, pobre e arre pe ndido, re torna para a casa do
pai, na e spe rança de , ao me nos, se r admitido e ntre os
e mpre gados da família. Ao se aproximar da casa pate rna, foi
visto pe lo pai, que se e nche u de compaixão. O pai orde na aos
criados que tragam a me lhor roupa, que tragam um ane l
pre cioso e uma sandália boa. Mais, o bondoso ancião e stabe le ce
que se mate um novilho be m gordo e que haja uma fe sta pe lo
re torno do filho. Aqui outra lição importante : a le i, aque la que os
farise us de fe ndiam, pe rmitia ao pai re pudiar o filho pródigo,
porque já re ce be ra sua parte na he rança e se portara com
indignidade . A le i apoiava o pai se quise sse maltratar se u filho.
Se ria justo, no se ntido da justiça formal, dize r ao filho que não se
aproximasse . O pai usou de mise ricórdia e compaixão porque o
filho tinha se arre pe ndido. A frase do filho pródigo e nte rne ce u o
coração do pai: “Pai, pe que i contra De us e contra ti. Já não
me re ço se r chamado te u filho” (Lucas 15:21). O pai, que tinha a
le i ao se u lado, usou ape nas de amor. Por isso Lucas é chamado
o Evange lho do Amor.
A lição principal do te xto é o domínio da mise ricórdia sobre a
le i, do amor sobre o te xto, da compaixão sobre a justiça. Era a
ê nfase de Je sus e m uma tradição judaica do e spírito sobre a
norma, mas que combatia outra tradição judaica que e ra a opção
farisaica: o te xto é maior do que tudo. Je sus insistia que o
sábado tinha sido fe ito para o home m, e não o home m para o
sábado. Em outras palavras: a norma só e xiste se me le var a
De us e a Se u amor, se e la atrapalhar, de ve se r ignorada.
Pode ríamos inte rrompe r aqui e ssa be la narrativa. Poré m,
para me u obje tivo ne ste capítulo, o que ve m a se guir é o mais
importante . Trata-se da inve ja e m família, do re sse ntime nto que
a virtude pode de monstrar.
Entra e m ce na o filho mais ve lho. É dito que e le e stava no
campo, ou se ja, continuava a trabalhar para o pai de forma
constante e fie l. Ao se aproximar da casa, ouve a música da fe sta
e pe rgunta a um e mpre gado do que se trata. É informado da
volta do irmão e da fe sta dada por orde m do pai. Então, o ze loso
irmão mais ve lho, trabalhador constante e de dicado, fica com
raiva e não de se ja participar da fe sta. Sua indignação é a
indignação da virtude . Como já foi dito, isso de ve se r dourado e
modificado pe la consciê ncia. O mais ve lho te ve inve ja da fe licidade
do mais novo e inve ja do amor que o pai lhe de dicava. Mas, e m
ve z de ape nas re conhe ce r e sse profundo re sse ntime nto inve joso,
e le se disfarça de virtude .
A fala do mais ve lho é um e xe mplo clássico. Ele não diz ao
pai que inve ja o amor ao mais novo. Ele não fala que e stá
magoado por isso. Se u re sse ntime nto busca a virtude :

[
Eu trabalho para ti há tantos anos, jamais de sobe de ci
a qualque r orde m tua, e nunca me de ste s um cabrito
para e u fe ste jar com me us amigos. Mas quando
che gou e ste te u filho que e sbanjou te us be ns, com as
prostitutas, matas para e le um novilho gordo”.
(Lucas 15: 29-30)
]

A fala do irmão é muito curiosa. Traz a última lição do


capítulo 15. O mais ve lho invoca a obe diê ncia, o ze lo, o trabalho e
a de dicação. Naturalme nte , re clama que não foi re compe nsado à
altura de tanto e sforço. De dicou-se ao be m, mas se ntiu-se
amargurado com e le . Se u be m transmutou-se e m inve ja. Outro
de talhe : o te xto não fala que havia notícias do irmão pródigo, mas
o mais ve lho sabe que e le de spe rdiçou com prostitutas. Pode se r
uma de dução ou uma notícia trazida, não sabe mos. Mas a fala
de nuncia o de se jo do irmão mais ve lho: e m ve z de trabalhar, e le
pre fe riria te r saído com prostitutas e ido a fe stas com amigos.
Havia um playboy e scondido naque le trabalhador abne gado.
A prime ira inve ja é sobre a vida do irmão. “Me u irmão te ve a
fe licidade que e u não te nho e e u a de se jo.” A se gunda inve ja é
sobre a ate nção do pai. “Ele ama mais ao me u irmão do que a
mim”, o e te rno proble ma de todos os filhos. O pai, ao acalmá-lo,
diz que tudo o que e le te m també m é do mais ve lho, mas que o
filho pródigo “e stava morto e tornou a vive r, e stava pe rdido e foi
e ncontrado” (Lucas 15:32).
A lição principal do te xto é sobre o pe rdão e a mise ricórdia
que de ve m sobre pujar a re gra. Mas o e nce rrame nto da parábola
indica outro caminho possíve l, uma lição sobre o proble ma da
inve ja. De us te m ale gria com um pe rdido que re torna ao caminho
da virtude . As ove lhas de sgarradas, os abandonados e fora do
siste ma, quando re e ncontram o caminho do Se nhor são
re ce bidos de braços abe rtos, de sde que , como o filho pródigo,
re conhe çam que e rraram. O pe rdão implica arre pe ndime nto. O
pai, me táfora de de us, abre os braços se m que stionar nada
assim que se u filho e sbanjador diz: “Pai, pe que i…” Um ge mido de
arre pe ndime nto abranda a cóle ra divina, se gundo e ssa
inte rpre tação. Mas não sabe mos se o irmão mais ve lho mudou de
opinião. Je sus nos de ixa e m suspe nse e abre caminho para nossa
imaginação.
Se mpre digo, e m aulas e pale stras, que a Bíblia é mais rica
do que os re ligiosos faze m pare ce r. Aliás, que a Bíblia sobre viva
fora do domínio re ligioso é um dos fe nôme nos mais notáve is da
História. O te xto e xce de sua função moral ime diata ou se u
e mbasame nto a pre te nsõe s corporativas. Vou de monstrar.
A parábola do filho pródigo é , no prime iro instante , a vitória
do amor sobre o rigor da le i. Mas e la també m indica que o
pe cador, humano e falho, o e sbanjador, é nossa pe rsonage m
que , juntame nte com o pai mise ricordioso, constitue m a dupla
ce ntral da narrativa. Aque le que de monstrou pouca inte ligê ncia
finance ira, foi inse nsato, che gado às prostitutas, incapaz de
distinguir ve rdade iros de falsos amigos é o foco principal e título
da parábola. Ele , o mais novo, é o humano, o jove m ple no de vida
e vitalidade e vazio de bom se nso. Trata-se de um rapaz de
iniciativa, ou até , se pre fe rire m, um e mpre e nde dor fracassado,
mas um e mpre e nde dor.
O mais ve lho é o acomodado na virtude , no e mpre go da
e mpre sa familiar, cumpridor de horário, roupas se mpre
corre tas, provave lme nte casado e fie l, que , me smo adulto, ainda
mora com o pai. O mais ve lho é a image m da virtude e … da
chatice . É curioso que os farise us, de onte m e de hoje (e como
e le s se multiplicaram…) usam e ssa parábola e ncarnando um
discurso que os aproxima mais do irmão mais ve lho do que do
caçula. Os moralistas, aque le s que Je sus conde nou, pre gam com
e sse te xto. Asse me lham-se a um fe nôme no que se mpre me
intrigou: assistir e m um te atro luxuoso, tomado por plate ia be m
arrumada e pe rfumada, uma pe ça de Ne lson Rodrigue s que
acaba com a moral da família de classe mé dia. A me sma classe
mé dia bate palmas, fe liz e e xtasiada com um te xto que a
combate u, be m como a se us valore s. Sae m fe lize s como público,
se m te re m e nte ndido que são, no fundo, as pe rsonage ns.
A pe rsonage m ce ntral do te xto de Lucas é o pe cador
arre pe ndido e a mise ricórdia de De us. A se cundária, o virtuoso.
Há algo de amargo na biografia do mais ve lho. Sua inve ja,
trave stida de bom comportame nto, é quase insuportáve l. Ele va
um vício à condição de virtude e mostra que sua fraque za e
submissão não nasce ram do amor ao pai, mas da vontade de
re conhe cime nto.
Um pe nsador francê s pe ssimista, François de La
Roche foucauld (1613-1680), disse que a “virtude não iria tão longe
se a vaidade não lhe fize sse companhia”. Be m mais à fre nte , um
re be lde como He nry Thore au (1817-1862) afirmava que pode riam
e xistir “999 profe ssore s de virtude para cada pe ssoa virtuosa”. A
tônica continua se ndo a me sma de Je sus: a de núncia da virtude
apare nte , da máscara social do be m, do filho mais ve lho que
habita, casto e pontual, e m todos nós.
O filho mais ve lho e ra um profe ssor de virtude , como que ria
Thore au. Era també m um home m vaidoso e orgulhoso do próprio
proce dime nto, como e nsina La Roche foucauld. Sua virtude não
e ra re al, mas uma e nce nação que disfarçava sua inve ja do irmão
mais novo. Ele e ra o único não virtuoso de toda história, porque
não e ra since ro consigo ou com os outros. Conde nava e criticava,
porque o jove m irmão fe z o que e le de se jaria te r fe ito. Ale grou-se
com as notícias do se u fracasso. De ve te r e xultado quando soube
que se u irmão e stava e m um chique iro porque tinha sido ousado
e pródigo. Ele se se ntiu re compe nsado quando imaginava se u
irmão fracassado. Toda a sua maldade ve io à tona quando o
amor pate rno pre miou, e m ve z de punir. Ele , a formiga, só
pode ria se r fe liz se a cigarra morre sse conge lada. Se a rainha do
formigue iro acolhe sse a cigarra boê mia, volto a e sse e xe mplo
se mpre , as ope rárias e ntrariam e m gre ve …
Esse te xto é uma de núncia sobre os profe ssore s de virtude .
Ele fala do mal que se e sconde atrás do bom comportame nto.
Voltando ao nosso mundinho, o te xto e xibe o e norme sorriso do
motorista prude nte quando vê , que aque le que o passou pe lo
acostame nto, se dutor e ile gal, e stá se ndo multado à fre nte . Que
de lícia! Que vista ine briante ! O infrator e stá se ndo punido! Eu, que
se mpre fique i na faixa corre ta, que nunca uso e sse acostame nto
se dutor, sou pre miado por alguma autoridade imaginária que
incorpore i e m mim e que o outro, livre e le ve , não o fe z. Claro,
não digo que e stou fe liz. Pre firo analisar algo como: que bom que
o mau cidadão às ve ze s é punido pe lo Estado. De ntro de mim
vibra não a chama aurive rde da cidadania, mas o olhar do irmão
mais ve lho da parábola que amaria se o pai tive sse e scorraçado o
pródigo. Só na dure za da le i e no rigor da punição é que minha
fraca convicção de virtude pode se re alizar. A inve ja e a ale gria
pe la que da do obje to da minha inve ja de monstram, a se u modo,
que a punição daque le que fe z o que e u de se jo é a única forma
de acalmar minha covardia moral. A covardia, com fre quê ncia,
e stá no coração do virtuoso. Pe rdão le itore s, acho que li La
Roche foucault de mais na juve ntude . Logo voltare mos aos Campos
Elísios do bom comportame nto.

TEM JEITO?
A inve ja é chamada de “olho grande ” ou “olho gordo”, na fala
popular. Pare ce guardar re lação com o se ntido do ve r de mais o
que não se de ve , o se ntido da visão míope sobre a qual já fale i.
Os olhos do inve joso são a jane la do se u re sse ntime nto. Caim
olha com inve ja para o agrado que De us manife stou sobre a
ofe rta de Abe l. Cássio, na tragé dia shake spe ariana Otelo, o mouro
de Veneza, olha com inve joso rancor a promoção de outro que não
e le . Cássio inve ja a posição do outro, inve ja se u che fe Ote lo,
inve ja tudo a se u re dor. Cássio olha para aquilo que não de ve .
Se ndo mal do olho, vários amule tos contra a inve ja
apre se ntam o símbolo da visão. É o caso do olho gre go ou turco.
É o caso, també m, de uma planta aqui da Amé rica, o huayuro
(Ormosia coccinea), que se asse me lha a um olho. O pode r
purificador do sal grosso també m é antigo re mé dio para de purar
as e ne rgias inve josas que nos assolam. A figa, e le me nto fálico, é
utilizada para que brar a força do inve joso. Pe rfume s, como
alfaze ma, pode m te r e sse pode r. Na bainha do ve stido da noiva
pode m se r colocados dive rsos obje tos para prote gê -la da inve ja.
Um vaso com se te e rvas pode rosas (guiné , arruda, e spada/lança
de São Jorge , pime nta, comigo-ningué m-pode , manje ricão,
ale crim) de ve e star e m um ambie nte onde os olhos dos inve josos
possam cair. Se uma das e rvas morre r, é sinal de que absorve u a
e ne rgia inve josa. Claro que , se ndo plantas de dife re nte s
capacidade s de re sistir à água e à se ca, e stando juntas, uma irá
morre r, ne ce ssariame nte . Há muitos outros re cursos para
e spantar a inve ja alhe ia. A inve ja é unive rsal, mas o alvo da inve ja
pode se de fe nde r. Por que tantos amule tos contra a inve ja? Por
que pare ce se r o mal mais difundido? Há mais amule tos contra a
inve ja do que contra o e stupro ou o roubo. A inve ja se ria mais
grave ?
Talve z a re sposta e ste ja na e strutura da inve ja. Como já visto,
ningué m é inve joso, ou, ao me nos, ningué m se conside ra inve joso.
Na e xata inve rsão comple me ntar de ssa ide ia, todos somos alvos
de inve ja. Suponha o indivíduo com que m a nature za foi avara e m
conce de r be ne fícios físicos e inte le ctuais. Suponha que o me smo
indivíduo se ja care nte de be ns, de graça pe ssoal, de traços
positivos. Componha o quadro do se u Quasímodo, o corcunda de
Notre Dame . Te nha ce rte za: e le se se nte inve jado. Talve z se ja a
última de fe sa de todo se r humano: se r inve jado. Algué m que não
te m ne m se que r algo a se r inve jado, re alme nte e stá no fim da
pirâmide alime ntar humana. Mais de uma ve z, ao ouvir algué m se
anunciar alvo de muita inve ja, te nho o impulso inte rno de
pe rguntar: “Mas do quê ?” Não faço a pe rgunta, não se ria
e le gante . Balanço a cabe ça e te nho uma clássica re ação bovina:
hummmm… Se o de stino e a nature za já re tiraram tudo de algué m,
por que e u de ve ria re tirar a última cre nça de valor de la?
Be m, tirando você , que me lê , e e u, que e scre vo, o re sto do
mundo é inve joso. Por que as outras pe ssoas que não nós são
assim? Come çamos nossa análise sobre orgulho e inve ja. São
pe cados comparativos. Se mpre have rá algué m acima ou abaixo
de mim, a e stimular me u orgulho de supe rioridade ou o rancor
da inve ja. Você se acha fe io? Cre ia, e m alguma alde ia das
montanhas chine sas há algué m pior. Você se acha pobre ? Have rá
algué m com me nos. Se u raciocínio é le nto? Há ge nte ainda mais
le rda. Se u de se mpe nho se xual é pífio. Não pre cisa sair do se u
condomínio para algo mais ine xpre ssivo ainda. Se mpre há
pe ssoas piore s, mais fráge is, me nos dotadas física e
inte le ctualme nte . Me u orgulho pode se r sobe rano.
Me sma re fle xão se rve para a inve ja. Se mpre há algué m
acima. Como não notar isso? Como não pe rce be r os muitos
se re s acima de mim e m qualque r conce ito que e u imagine ? Você
pode se r o mais be m-suce dido da sua família. Sua be le za pode
impre ssionar na re união de condomínio. Se u guarda-roupa pode
te r pe ças acima da mé dia da re partição. Mas amplie isso para o
padrão municipal, e stadual, nacional, unive rsal. Em algum
mome nto, você cairá no ranking. Claro que você sabe se r mais
importante se r supe rior ao se u cole ga do que à humanidade ,
mas há algué m a inve jar se mpre .
Esse é um jogo comple xo. Minha ide ntidade de pe nde da
comparação. Se i que m sou e m re lação aos outros. Se tive sse
nascido isolado no unive rso, jamais te ria algum adje tivo claro para
mim: alto, baixo, gordo, magro, inte lige nte ou burro. Todos são
adje tivos posicionais, ou se ja, de pe nde m dos outros e da
comparação que e stabe le ço. Por que digo isso? Porque orgulho e
inve ja nasce m da nossa ide ntidade e da dificuldade e m
e stabe le ce r e ssa comparação.
Ence rro pe rguntando se te m je ito, ou se ja, se é possíve l não
se r inve joso ou orgulhoso. Acho que não. No e xtre mo, algué m que
disse sse que e stá fe liz por não se r orgulhoso, no fundo e stá
dize ndo do se u orgulho de se r humilde . Se não te nho inve ja de
nada, provave lme nte já fiz a transição para o país da morte , pois
vive r, e m parte , é inve jar. Mortos não inve jam, mas ainda pode m
se r inve jados.
Não te m je ito me smo. Mas não se de se spe re . Existe uma
re fle xão que nos torna mais amigos da sabe doria (já que sábio,
de ve rdade , nunca ficare mos). A inve ja e o orgulho são naturais
na vida social, mas são e quivocados. Posso pe nsar que o e quívoco
e ste ja no campo re ligioso. Ganhe i de De us dons para se rvir aos
outros e cumprir o plano divino. O que te nho ou não faz parte de
uma arquite tura te ológica. Se muito re ce bi, muito se rá cobrado.
Se outro re ce be u mais ou me nos do que e u, o divino autor te ria
e scrito e sse s rote iros. A mim cabe atuar no palco dado, no
máximo do me u e sforço. Essa é , e m parte , a parábola dos
tale ntos e das minas, contida e m Mate us 25 e Lucas 19,
re spe ctivame nte . O traço ce ntral da parábola é que um se nhor
de u uma quantia X a um, me nos a outro e ainda me nos a um
te rce iro. Os que re ce be ram mais multiplicaram com
inve stime ntos e cuidados. O que pouco re ce be u e nte rrou se u
tale nto e nada multiplicou. Há muitas possibilidade s de le r e sse
te xto. Uma de las é que cada um re ce be um quinhão ne ssa
he rança divina e a cada um cabe multiplicar isso. Assim, tale ntos
a mais ou a me nos (conside rando que a palavra tale nto de nomina
uma me dida de rique za no mundo antigo e para nós é uma
palavra que significa dom) ape nas significam cobranças a mais ou
a me nos. Como diz De us a Jó, que m se ríamos nós para
e nte nde r as tramas do de stino e da obra de De us?
O re ligioso pode se ntir e sse conforto. Há um plano, e inve jar
que m re ce be u papé is maiore s ou orgulhar-se de te r uma
importância mais e xpre ssiva é uma bobage m e uma ousadia
profana. Tudo e stá dado e De us faz tudo te r se ntido. Está
afastado o absurdo da e xistê ncia e a dor da de sigualdade . Afinal,
a mais ou a me nos, que m pode se comparar ao Altíssimo? A
magnitude de De us torna a todos nós, igualme nte , poe ira
cósmica, amada pe lo Todo-pode roso, mas poe ira.
O não re ligioso te m me nos de sse conforto. Mas cabe ria aqui
uma re fle xão um pouco filosófica e um pouco psicanalítica. Se r
orgulhoso ou inve joso é me dir a si pe lo me tro alhe io. É uma
impossibilidade té cnica, já que o outro pouco ou nada diz de mim.
Sabe r se sou bom porque o outro é me lhor ou pior ate nde pouco
a mim e ape nas busca, e m uma proje ção e stranha, o que e u
pe nso e o quanto e u me ço ao outro. A inve ja e o orgulho são
tipos distintos, mas similare s de e stupide z, já que não le vam ao
autoconhe cime nto socrático ne m e stabe le ce m uma re fle xão
crítica.
Essa é outra mane ira de dize r que se ntir-se che io de orgulho
ou transido de inve ja pode m se r unive rsais e ine vitáve is, mas que
com e ssa consciê ncia, ao me nos, e xiste a possibilidade de
e nfre ntar tais coisas. Sim, pois a sabe doria nunca se rá ple na e a
iluminação se mpre comportará fre stas. Assim, cabe mais te r
consciê ncia dos nossos limite s e le r o que que re mos dize r quando
nos se ntimos supe riore s ou infe riore s a algué m.
Há poucas pe ssoas capaze s de faze r isso. Há poucos se re s
com olhos voltados para si. É a pe rgunta pe rmane nte de Sócrate s
e m O Banquete. O que você e nte nde por isso? Quais são se us
parâme tros? Como você te m ou não consciê ncia de sse s
conce itos? Como se us particulare s dialogam com os unive rsais?
Quais as pe rguntas ce ntrais que você e vita? Quais são suas
contradiçõe s? Quais as re spostas que você não pode e ncontrar?
Quais as que re alme nte são as suas re spostas? Sócrate s pare cia
te r e sse dom de faze r as pe rguntas corre tas. Orgulho-me muito
de e nte nde r sua busca comple xa e te nho uma bruta inve ja da
capacidade socrática. Ops, de volta ao divã.
Capítulo 4
~
S exo, com ida e o im pé rio do prazer

Faltando o vinho, a mãe de Jesus lhe disse:


“eles não têm vinho.”
João 2:3

“Não vos recuseis um ao outro, a não ser de comum acordo e por algum
tempo, para vos entregardes à oração. Voltai depois à convivência
normal, para que Satanás não vos tente, por vossa falta de domínio
próprio.”
1Coríntios 7:5

Há anos faço uma citação jocosa e m sala de aula. Pe rmito-me


re produzi-la aqui, e spe cialme nte por se r o capítulo re fe re nte aos
pe cados do corpo. Se mpre e logio as e straté gias da Igre ja
Católica, que , afinal, sobre vive u a muitos de safios dife re nte s e m
quase dois mil anos. Só faço uma “crítica”: para afastar os padre s
do se xo, e m de te rminado mome nto, a igre ja proibiu-lhe s o
casame nto. Minha fala é que , para afastar algué m do se xo, a
única coisa 100% e ficaz é o casame nto… O pijama é a mortalha
do se xo, cita um amigo me u. Basta casar para o gráfico do
de se jo sair de um quadrante para outro. O mome nto de ssa
virada é indicado por um símbolo: o be ijo na te sta. Be ijar a
mulhe r ou o marido na te sta é assumir o caráte r sacrossanto do
lar e de ixar o de se jo de lado. Be ijar na te sta é oração na forma
de ósculo, asse xuada, indolor, insípida e marital. Claro que se
trata de uma piada, não é ?
A luxúria é o pecado da transgressão sexual. É diferente do
orgulho e da inveja, pois esses são pecados espirituais, de reflexão.
A luxúria é concreta, pois tem um pé no corpo e outro, no
pensamento. Hormônios desencade iam processos nem sempre
tão controláveis. Posso refletir sobre a inveja e chegar a uma
posição mais sábia que a afaste. Nenhuma reflexão, por mais
densa que seja, afasta o desejo sexual. Ele pode ser reprimido e
sublimado claro, mas não suprimido. O desejo existe mesmo
quando as condições de realizá-lo de forma concreta não existem
mais. Luxúria e gula tem isto em comum: são parte de um
processo biológico que a cultura ressignificou. Seriam pecados
biológicos e mais “naturais” do que os outros?
As re ligiões morais como Cristianismo, Judaísmo e Islamismo
estabeleceram um enorme código sobre o corpo. O controle
corporal é, de muitos modos, o maior esforço da moral. Talvez
porque o corpo seja mais rebe lde do que a alma. Essa é a leitura
tradicional, especialmente cristã. O corpo é um rebe lde que
atrapalha a caminhada para Deus. Suas demandas são fortes,
como a fome e o sexo. No caminho quase oposto, o rabino Milton
Bonder escreveu A alma imoral6. Nesse livro que virou peça, e le
desenvolve a ideia de que é a alma que busca a perversão e que
mascara os desejos naturais do corpo. Ele propõe que sejam
rompidas as amarras da tradição, que ousemos mais, que
consigamos ser mais honestos conosco. Na peça, a atriz fica nua o
tempo todo, desnuda ao olhar do público, trazendo o corpo
desvelado para o debate moral. A exce lente interpretação de
Clarice Niskier, a que assisti, conseguiu dar linha e forma a um
texto com passagens mais complexas. Duas passagens do texto
mostram o enfoque do rabino:

[
A proposta da imutabilidade é mais do que
inde corosa: e la viole nta um indivíduo. Ela propõe que
continue mos a faze r o que foi fe ito no passado (p.
39).

Existe e m nós uma te ndê ncia de que re r agradar a


nós, aos outros e à moral de nossa cultura. Com isso,
vamos gradativame nte nos pe rde ndo de nós me smos
(p. 64).
]

Talvez a contradição não seja tão forte. Bonder defende uma


transgressão que nos coloque em contato com nossa verdade, algo
que dialoga com o corpo. O corpo tem sua lógica e sua verdade.
Esse é o problema tradicional dos pecados do corpo.
O controle dos corpos cre sce u ao longo dos sé culos. Nosso
se mpre citado Dante coloca os pe cadore s da luxúria no se gundo
círculo do Infe rno, varridos por um ve nto constante . Lá, e le
e ncontra a be la história de Paolo e France sca, no canto V do
Infe rno.
France sca da Rimini é uma be la mulhe r, de Rave na, e m
ple no sé culo XIII. Se u casame nto fora arranjado com Gianciotto
Malate sta, um influe nte político e gue rre iro, mas com gê nio
te rríve l e um de fe ito físico. O casame nto arranjado não foi
e nvolto e m paixão, mas um acordo e ntre grande s famílias. Para
distrair-se , France sca pe de ao cunhado, Paolo, para le re m
romance s de cavalaria, e spe cialme nte as narrativas da e sposa do
re i Artur, Gine vra (Guine ve re ) e se u amante , o cavale iro
Lance lote .
A le itura de um romance de cavalaria pare ce te r e stimulado
os cunhados. Diante da narrativa de um be ijo da rainha no se u
cavale iro, o livro tombou e os cunhados re pe tiram o que
acabaram de le r. Tinham tornado-se amante s. Assim,
e ntre laçados ne sse de le ite amoroso, foram surpre e ndidos pe lo
colé rico marido, que matou a ambos.
Paolo e France sca continuam unidos no Infe rno. Ainda há
fala de amor ne la e de scrição do se u e nle vo romântico. Mas e la
afirma que a dor maior é re cordar-se do te mpo fe liz na misé ria
(“Ne nhuma dor maior do que se re cordar do te mpo fe liz na
misé ria”). A história é tão se ntida, que Dante de smaia, impactado
pe la dor da narrativa. O ve nto se gue fustigando o casal, que voa
se m dire ção no ar pe sado do submundo. Existe e m Paolo e
France sca um pouco da ambiguidade do pe cado do amor ilícito.
Dante de ve colocar os adúlte ros no Infe rno. Ele s que braram os
votos sagrados do matrimônio, sacrame nto pre se rvado pe la le i
dos home ns e de De us. Mas a narrativa é doce , de admiração
até , e somos le vados a uma profunda compaixão porque , afinal,
e rraram por amor. A transgre ssão fica re le vada e m função do
afe to.
Me smo o católico Dante nos diz que o amor é algo que
ultrapassa o controle . Isto é uma das be le zas e m Dante : a
humanização dos se us infratore s. Paolo e France sca pe caram
contra De us por praticare m adulté rio. Há um círculo mais
profundo, o sé timo, e m que , na te rce ira vala, o poe ta flore ntino
e ncontra se u e x-profe ssor, o re nomado inte le ctual Brune tto
Latini. Lá, o e x-me stre de Dante é atacado por uma te rríve l chuva
de fogo. Brune tto pe cara contra a castidade també m, mas
contrariou De us e a nature za na visão me die val, pois e ra
sodomita. A re lação e ntre pe ssoas do me smo se xo e ra
conde nada e re ce be castigo pior do que o adulté rio. Mas, me smo
ali, e m chuva de fogo e m me io a sodomitas, Dante e logia se u
profe ssor e o humaniza. Em vários se ntidos, um te xto do início do
sé culo XIV é me lhor do que muitos moralistas atuais.
O de se jo se xual foi dado aos home ns te ndo e m vista a
re produção de ntro do casame nto. “Cre sce i e multiplicai-vos”
(Gê ne sis 1:28), diz De us no capítulo inaugural da Bíblia. Para os
jude us isso é uma “mitzvá”, um mandame nto, uma indicação de
que De us que r que todo se r humano se case e te nha filhos. O
Judaísmo não e nalte ce a vida ce libatária. De us ama os casais e
ama ainda mais os casais com muitos filhos.
Fora do casamento e sem ter objetivo de cumprir a ordem
divina, o sexo é errado. O sexo entre dois homens é uma
abominação (Levítico 18:22), palavra forte na Bíblia. Deus destrói
Sodoma e Gomorra, segundo uma interpretação, porque seus
habitantes praticavam essa abominação (de onde vem a palavra
sodomita, termo re ligioso para homossexualidade) e, segundo
outros, porque seus habitantes quebraram o código sagrado da
hospitalidade ao quererem perturbar os emissários de Deus. A
hospitalidade entre tribos do Oriente Médio é tão sagrada, que no
episódio narrado, Ló (sobrinho do patriarca Abraão) oferece suas
filhas virgens para que e las sirvam a uma multidão de homens
tomados de intenções ruins com os dois anjos que e le hospedava.
Para que os homens não perturbem seus hóspedes, Ló prefere
que ataquem suas filhas. A multidão ataca a casa e os seres
celestiais cegam os habitantes de Sodoma. Estavam sendo punidos
pela sodomia? Essa é uma tradição, mas é enfraquecida pe lo fato
de Ló ter tentado seduzi-los com suas filhas, algo que um sodomita
tradicional não ace itaria como moeda de troca. Estavam sendo
punidos pe la falta de hospitalidade? É possíve l, e isso é reforçado
pelo esforço de Ló como opositor aos pecadores de convidar os
anjos e se dispor a sacrificar suas filhas para manter seus
hóspedes. Por um ou outro motivo, ou por ambos, além de terem
ficado cegos, ainda foram que imados com fogo e enxofre. Deus
castigou a transgressão da falta de hospitalidade, ou a
homossexualidade, ou ambas, de forma direta e pesada. O
capítulo 19 do Gênesis é um capítulo moral, mas muito mais dos
riscos de habitar entre estrange iros de costumes distantes do que
da moral vitoriana que condenou Oscar Wilde.
Come çamos falando de que brar os votos do casame nto e da
sodomia. Vamos se r mais simple s e triviais. A masturbação é
ainda mais onipre se nte do que adulté rio e homosse xualidade .
Uma das palavras que se usa para falar de masturbação é o
te rmo de orige m bíblica, onanismo. Trata-se de um e quívoco.
Onan é citado no Gê ne sis como ne to de Jacó, filho de Judá.
O irmão mais ve lho de Onan foi morto por De us se m que
saibamos o motivo e xato. Esse irmão de ixou uma viúva com o be lo
nome de Tamar. O pai de Onan mandou que o filho e ngravidasse
a cunhada. Era um princípio orde nado por De us, o le virato. O
proble ma é que , se Tamar e ngravidasse , se ndo viúva do mais
ve lho, todos os be ns passariam a se u filho e Onan pe rde ria a
he rança do pai. Onan praticou uma forma contrace ptiva antiga:
coito inte rrompido. Em ve z de fe cundar a cunhada Tamar,
e jaculava na te rra. De us não gostou do que viu e matou Onan
també m, como fize ra a se u irmão. Como se vê , associar
onanismo à masturbação é um e quívoco consagrado.
A punição de Onan não é e xatame nte se xual. Ele de scumpriu
a orde m do le virato e foi de sone sto, pois ficava com a cunhada e
não produzia o he rde iro e m nome do irmão. Onan te nta e nganar
sua família e a De us. Sua punição foi por e ssa falsidade
ide ológica, não pe la prática se xual e m si.
Por não te r fins re produtivos, a sodomia e o onanismo (e m
qualque r ace pção do te rmo) e stão inte rditados. També m a
be stialidade (ou se ja, zoofilia, se xo com animais), a ne crofilia (se xo
com cadáve re s) e todas as ime nsas variante s que sé culos
trouxe ram para nosso re pe rtório.
Da té cnica se xual de Onan ao adulté rio de Paolo e
France sca, o se xo transgre ssor te ve carre ira gloriosa. A socie dade
do sé culo XIX, ao me dicalizar os comportame ntos se xuais, ao
criar apare lhos que e vitasse m a masturbação, ao criminalizar a
sodomia e criar o te rmo homosse xualismo como doe nça e como
crime , provave lme nte , e ra mais conse rvadora do que a Flore nça
de Dante ou as tribos do de se rto.

HOUVE UM CULPADO?
O Cristianismo é uma re ligião muito moral. He rdou do
Judaísmo muitos inte rditos e , e m algumas ve rte nte s, acre sce ntou
outros, como a proibição do divórcio. Quase tudo que é bom é
pe cado. O impe rativo cate górico se xual foi circunscrito ao
casame nto. A castidade foi e le vada, ao contrário da matriz
judaica, à cate goria de virtude supe rior. A carne corrompe e o
se xo conspurca.
Tradicionalme nte , a raiz de ssa postura é atribuída a Paulo.
Difícil avaliar a e xte nsão da influê ncia de Paulo de Tarso. O
Cristianismo, às ve ze s, pare ce se r mais obra de Paulo do que de
Je sus. O prime iro home m a e scre ve r te xtos comple tos sobre a
e xpe riê ncia cristã foi Paulo. Suas cartas ante ce de m,
cronologicame nte , aos Evange lhos. Se u domínio do gre go, suas
viage ns, sua oposição aos limite s da ide ia de povo e scolhido que
alguns líde re s como Tiago tinham, acabou se ndo imposto como a
ve rte nte vitoriosa do Cristianismo.
Paulo nunca se casou. Isso não e ra comum e ntre jude us. Já
vimos que a orde m do Gê ne sis (cre sce r e multiplicar-se ) e ra lida
como um mandame nto. Se r solte iro não e ra um valor na é poca
paulina. Ele fala de um e spinho na carne , algo que o incomoda,
algo que o impe de de ficar orgulhoso (2Coríntios 12:7). Paulo
re come nda a castidade . Te ria re lação com se u e spinho na carne ?
Um de fe ito físico? Um gosto se xual fora do padrão? Nunca
sabe re mos. Mas e sse home m solte iro e com e spinho na carne
ditou as grande s re gras do nasce nte Cristianismo.
Je sus andara com prostitutas e come ra na casa de
publicanos. Para a mulhe r adúlte ra, diz que ningué m pode julgar
alé m de De us. Como Paulo te ria convivido com o Me stre que
idolatrava, mas que , de fato, nunca e ncontrou? Te ria achado
Je sus pare cido com a irre quie ta comunidade de Corinto? O Je sus
re al, e não o Cristo da fé , te ria incomodado o Paulo re al?
Nunca sabe re mos, mas quase todas as pe ssoas apontaram
Paulo como a raiz do pe nsame nto se xual cristão. Claro que ,
de pois, Agostinho e tantos outros doutore s contribuíram bastante .
O pape l de Paulo de Tarso é suficie nte para o mau humor de
Nie tzsche para com e le . Mulhe re s de cabe ças cobe rtas e boca
calada; home ns que , se pude re m, de ve m e vitar casame nto;
indignação com as alte rnativas se xuais dos coríntios…
Quando os romanos cortaram sua cabe ça na posta Óstia, diz
a tradição que e la pulou várias ve ze s. O corpo que dou-se imóve l.
Me táfora inte re ssante : se parar cabe ça do corpo, e sse é o grande
le gado paulino até e m sua morte .

A MORAL DOS S ÍMIOS

A dome sticação de corpos é um e sforço re ligioso e social.


Dialoga com a é tica judaica tradicional e patriarcal, mas e stá
tingida com as core s do platonismo como e le foi lido pe los
cristãos. O corpo é maté ria apare nte . O corpo é o visíve l
individual. O ide al é invisíve l e e stá distante . A prostituta que aluga
o corpo é uma pe cadora. O profe ssor que aluga o cé re bro é um
trabalhador hone sto? Qual se ria a dife re nça e ntre a prostituta e
o profe ssor? Só a cultura moral pode dar e ssa e xplicação, pois,
na prática, e la não e xiste . O que se ria o corpo se m cultura e
moral?
Uma re sposta possíve l e stá nos macacos bonobo (Pan
paniscus). No coração da África, me smo contine nte que originou a
e spé cie humana, e stão e sse s primos que , pe la ge né tica
incrive lme nte próxima a nossa, talve z de ve sse m se r chamados de
irmãos. Há base para dize r que compartilhamos 98,7% do código
ge né tico de sse s macacos. A se me lhança não e staria ape nas no
ge noma, mas e m comportame ntos como e mpatia, comunicação e
até cóce gas. Onívoros como a e spé cie humana, sociais ao
e xtre mo, nossos pare nte s bonobos são admiráve is.
Há algo ainda mais inte re ssante do que tudo que foi dito
ante s. Os bonobos são panse xuais. Praticam masturbação, coitos
e ntre macacos do me smo se xo, e stimulação do clitóris das
fê me as (maiore s e ntre os bonobos do que nos de mais
mamífe ros) e passam uma parte e xpre ssiva do dia te ndo re laçõe s
com quase todos os me mbros do bando e de todas as formas
possíve is. Estima-se que 75% das atividade s se xuais de sse s
animais não tê m obje tivo de re produção, ou se ja, são ape nas por
praze r. Se a me táfora fosse válida, e sse s macacos passam o dia
e m orgias inte nsas. Curiosame nte , ine xiste m as disputas
te rritoriais e por fê me as que marcam outros mamífe ros. O se xo
pare ce te r um e fe ito re laxante e pacificador nos bandos bonobos.
Ao e studar e sse s comportame ntos, dois pe squisadore s,
Christophe r Ryan e Cacilda Je thá, produziram um livro chamado
Sex at dawn, how we mate, why we stray, and what it means for modern
relationships7. O livro faz uma te ntativa inte re ssante de aproximar
os comportame ntos dos nossos pare nte s tão próximos e os
comportame ntos se xuais humanos e como criamos a monogamia,
tão e stranha aos nossos primos da se lva.
Be m, não é possíve l dize r com caráte r cie ntífico, mas é lícito
imaginar: uma socie dade se m inte rditos morais e re ligiosos sobre
o se xo é a socie dade dos bonobos. Essa se ria a nossa socie dade
nas me smas condiçõe s, ou se ja, de spidos da formação de tabus,
le is e pe cados? Talve z. Assista a algum víde o ou docume ntário
sobre e sse s macacos e de pois re flita, ou corra para o banhe iro.
Mas vamos de fe nde r a moral re ligiosa. Não há como obte r
uma e nque te qualitativa e ntre os macacos para sabe r o grau da
satisfação se xual. Ape nas sabe mos que praticam muito se xo
ge nital. Ele s não se pronunciam sobre a fe licidade . Somos nós
que , re primidos pe las le is re ligiosas e pe los costume s sociais,
ve mos nas orgias alhe ias ou simie scas um grande valor.
Mas é justo re conhe ce r que o proibido é uma mola do
de se jo. Funciona assim com drogas, com e spe táculos, com
se xualidade . No mome nto e m que são colocadas barre iras à água
corre nte do de se jo, e le flui com inte nsidade pe las fre stas do
possíve l. O proibido re staura a adre nalina que o ortodoxo, o
conse ntido e o usual te nde m a diminuir. A re gra do tabu faz o
coração bate r mais forte , a re spiração arfar e os olhos
cre sce re m. “Não pode ” é sinônimo do “e u que ro”. Aqui vale o
me smo princípio do fruto da árvore do Paraíso. Posso come r de z
milhõe s de tipos de frutas. Só uma fruta não posso come r. É
e xatame nte e ssa que e u de se jo.
Não te mos a narrativa do gosto da fruta. A Bíblia não foi
e scrita pe los de fe nsore s da orgia, mas pe los que te ntavam limitá-
la. Se rá que foi me lhor do que tudo o que tinha sido comido
ante s?
O que e stou te ntando de se nvolve r é que os inte rditos
re ligiosos, a ide ia de pe cado, de e rro e de transgre ssão tornou
o se xo mais de se jáve l e procurado, mais capaz de e stímulo
se nsorial e comportame ntal. No mome nto que a monogamia se
instalou, a psicologia do adúlte ro e da adúlte ra surgiu.
O que a re ligião fe z? Algo muito inte re ssante : pe rde mos a
cara de re lativo e nfado que você pode obse rvar na cara da fê me a
bonobo de itada no chão com outros por sobre e la. A libe rdade
absoluta tornou o se xo dos macacos um ato re pe titivo. Em outras
palavras: a libe rdade de u aos bonobos o se xo monogâmico com
muitos. Nossos tabus transformaram e m proibido o de se jo com
ape nas um. Madame Bovary lê a Bíblia e sorri… Somos todos
filhos de la.

AINDA O CORPO

Vamos subir o foco até a boca. Ou me lhor, alce mos o olhar


ao nosso palco. Sim, tanto a luxúria que trate i até aqui como a
gula come çam pe lo olhar e pe lo olfato. São pe cados se nsoriais.
Que re mos come r o que ve mos e o que che iramos tanto quanto o
que imaginamos.
Hoje a palavra gula e stá associada a come r e m e xce sso, se m
fome , pe lo praze r de come r ape nas. “Vou come r e ste
chocolatinho só por gula”, diz, sorrindo, a fofa se nhora que
acabou de faze r uma longa re fe ição.
A gula é mais do que isso, me u que rido le itor, minha amada
le itora. São Gre gório de te rminou que també m faz parte da gula
come r e ntre as re fe içõe s. Claro que o santo jamais fre que ntou
um nutricionista mode rno que re come nda muitas pe que nas
re fe içõe s. É gula aguçar o paladar com muitos te mpe ros, gastar
muito com te mpe ros sofisticados e ingre die nte s luxuosos, e até
manife star grande satisfação ao come r. De ve mos come r para
sobre vive r, e não vive r para come r. Transportar praze r para a
me sa e não para a obra de De us é uma forma de idolatria, como
todo pe cado. Os gulosos, no Infe rno, e stão conde nados ao
te rce iro círculo, onde lama e chuva castigam os que se de dicaram
aos praze re s da me sa. Para agravar o sofrime nto dos gulosos,
Cé rbe ro, o cão de trê s cabe ças, fica e ntre e le s de spe daçando as
almas dos come dore s.
No Purgatório, onde são punidos pe cados come tidos e m
maté ria ou de forma mais le ve (ve niais), os gulosos passam uma
fome constante , ce rcados de alime ntos maravilhosos que some m
quando são tocados. No pe núltimo te rraço do Paraíso e stão
pade ce ndo de fome almas como Tântalo, no Infe rno gre go:
e stimulados pe la visão, não alcançam o que tanto de se jam. Os
e xe mplos da Virge m Maria nas Bodas de Caná e de João Batista
come ndo gafanhotos no de se rto são mostrados para a
re e ducação alime ntar daque las almas.
A igre ja cristã surgiu e m um me io onde as re fe içõe s, no
Impé rio Romano, tinham um significado e uma duração muito
grande s. As almas cristãs foram e stimuladas ao je jum, pre visto no
Antigo e Novo Te stame nto. Os padre s aboliram o código alime ntar
judaico, facilitando a ace itação do Cristianismo. Jainistas na Índia
e jude us re ligiosos pe lo mundo apre se ntam e ssa dificuldade
e spe cífica: suas re gras alime ntare s são muito e laboradas e os
inte rditos obrigam a ce rto isolame nto da comunidade . Uma das
raras re gras alime ntare s fora o je jum foi a abste nção da carne
ve rme lha da Quare sma, e m particular na Se xta-fe ira da Paixão.
Essa re gra foi se ndo abrandada até que , no sé culo XX, vários
bispos e até o papa criticaram o hábito de substituir a carne
ve rme lha por alime ntos ainda mais e laborados, como o bacalhau.
Nos moste iros me die vais e e m colé gios católicos até o sé culo
XX, a hora da re fe ição e ra acompanhada de le ituras pie dosas.
Era uma mane ira de e le var o e spírito que e stava ali diante do
praze r da me sa, para que a inspiração re ligiosa não se pe rde sse
e m me io aos praze re s da re fe ição. Havia que se pre cave r de
muitas formas para que não se pe rde sse a carne , se mpre fraca,
na contramão da ide ia do rabino Bonde r.
Curiosamente, Jesus frequentava festas e bebia. Seu
primeiro milagre foi transformar água em vinho, narrado no único
evangelho sobre esse milagre, o de João, e que serviu de epígrafe a
este capítulo. Jesus comeu em casa de Zaqueu, homem famoso
pela boa mesa e riqueza. Seu último encontro com os doze originais
foi em um jantar, a Quinta-feira Santa. Nesse dia, ocorria uma
cerimônia de Pessach, a Páscoa judaica. Um dos e lementos mais
significativos de toda a cerimônia é o preparo de comidas especiais.
Jesus não pediu que algum apóstolo lesse enquanto e les comiam.
Bem, talvez e le não precisasse.
Há uma parte do Cristianismo que se ergueu contra a boa
mesa. Mas há outras… Podemos dizer que existe uma bifurcação
cristã com o pecado da gula. Por um lado, moste iros e conventos
tornaram-se centros culinários. Licores famosos, doces refinados,
cervejas especiais e quitutes variados estavam, indelevelmente,
associados a essas instituições re ligiosas.
Em Portugal, até hoje , há nome s me io re ligiosos e me io
profanos para e sse s doce s. Você pode come r uma de liciosa
“barriga de fre ira”, doce conve ntual de tradição sólida na nossa
e x-me trópole . Uma conce pção original de fé batiza uma
sobre me sa maravilhosa de “toucinho do cé u”. Indica tanto o
praze r ce le ste da comida como pare ce suge rir que o Cé u é
coroado de glicose . Assim vai uma lista e norme : bolachas do Bom
Je sus, pasté is de São Francisco e , me us pre fe ridos, pasté is de
Santa Clara. Santos famosos pe los je juns prolongados e pe la
de dicação à magre za batizam iguarias que nos afastam do corpo
angé lico.
Quando criança e u tinha uma ime nsa dificuldade de
compre e nsão do código alime ntar católico, e spe cialme nte na
Se xta-fe ira da Paixão. O dia tinha um tom soturno. Minha avó
Maria falava que não pode ríamos corre r ou gritar. Ce rta fe ita,
contou aos nossos ouvidos assustados, que uma criança tinha
de cidido subir ale gre me nte e m árvore s ne sse dia de luto pe la
morte de Je sus. Eis que , de re pe nte , surgiu uma cobra ime nsa
no alto da árvore e a de vorou. A ale gria e ra inte rditada. Ge nte
mais antiga narrava até música fúne bre nas rádios.
A Se xta-fe ira Santa e xistia e m um fe riado que , ge ralme nte ,
tinha come çado no fim da quarta-fe ira ante rior. Estávamos e m
família. Então, no almoço de sse dia fúne bre , minha mãe trazia o
bacalhau à me sa. Na re gião que nasci, e ra o único dia no qual
e xistia bacalhau. Na forma de postas com batatas, e m sala e e m
crocante s bolinhos, e le vinha à me sa e e ra muito e spe rado por
todos. Era me u paradoxo: a me lhor comida e xistia no dia de
triste za e luto. O clima dizia algo que a me sa contrariava.
Sim, por um lado, muitos frades comiam bem e muito da
cozinha ocidental passa pe la tradição re ligiosa. Por outro lado,
sempre houve um louvor e um estímulo ao jejum e à moderação à
mesa. Os homens de Deus ficaram muito famosos pe los
prolongados períodos sem comer nada.
Santa Maria Egipcíaca (e ntre o te rce iro e quarto sé culo) e ra
uma moça muito bonita que se e ntre gou à prostituição na grande
Ale xandria. Me io por té dio, me io por pe rspe ctiva de mais clie nte s,
e mbarcou e m uma viage m a Je rusalé m com um grupo de
pe re grinos. Ao te ntar ingre ssar na Igre ja do Santo Se pulcro, uma
e stranha força a impe diu. Come çou a ficar ate nta a um plano
e spiritual que jamais pe rce be ra ante s. Atravé s de voze s e visõe s,
foi conduzida a uma conve rsão e rumou para o de se rto, para se
tornar uma asce ta, uma pe ssoa que vive solitária praticando
pe nitê ncias e m cave rnas como o já citado Santo Antão.
Assumindo uma vida de total auste ridade , e spe cialme nte com
a comida, solitária e e m je juns prolongadíssimos, e la ficou isolada
por quase cinque nta anos, se m e ncontrar outro se r humano,
com o cabe lo longo a cobrir o corpo que já não tinha roupas. Um
dia ante s de morre r, e ncontrou outro santo, Zósimo, a que m
contou sua vida e de le re ce be u a comunhão e uma capa para se
cobrir. Tornou-se um mode lo de santidade e de e nfre ntame nto
do corpo.
Santa Maria do Egito é uma das mais famosas anoréxicas da
história. Sempre representada como uma mulher esque lética, e la
segue o caminho interessante da anorexia do altar. Os santos são
magros, com a exceção notáve l de Tomás de Aquino. Tomás dizia
comer muito pouco, mas tinha uma vasta corpulência, sendo o
pioneiro daque la famosa história: eu não como nada e vivo
engordando…
Dois pe squisadore s publicaram um te xto inte re ssante : Do altar
às passarelas, da anorexia santa à anorexia nervosa8. O te xto analisa a
lipofobia, o horror à gordura do mundo, se ja por base re ligiosa
ou e sté tica. O corpo continua incomodando até hoje . A luta
contra a gula, a luta contra a gordura, a e ducação pe la pe nitê ncia
ou pe las acade mias, por motivos re ligiosos ou da fluide z
conte mporâne a: o corpo é se mpre alvo do moralismo te ológico
ou lipofóbico.
Há um demônio específico para a gula. Chama-se Be lzebu,
ou seja, o senhor das moscas. É meu dever alertar o leitor: como
todo demônio, e le nunca atrai com o discurso do mal ou do pecado.
Mentirosos e sedutores, os demônios são verdade iros políticos.
Dizem à consciência frágil do pecador que depara com a chance de
uma comida muito boa: “Coma, você está se privando há semanas
de coisas boas, você merece.” Ou: “Pegue aque la coxinha, você já foi
à academia hoje e pode.” Assim, seduzidos pe lo bem, somos vítimas
do mal. A política demoníaca criou a estratégia básica de vendas até
hoje: primeiro fale dos benefícios de tudo, só depois, do preço a
pagar por e les.
Acompanhe , me u faminto le itor: frade s e fre iras e ram e são
famosos pe la boa cozinha. Moste iros ve nde m compotas e pãe s
com amê ndoas até hoje . A image m de um frade gordo e bom de
copo acompanha o Cristianismo há muito te mpo. Fre i Tuck, da
le nda de Robin Hood, é só um dos milhare s de e xe mplos de
re ligiosos rubicundos. Come r como um vigário e ra e xpre ssão
antiga para que m acompanhava o rito da me sa com satisfação
e norme . E, e m todos e sse s conve ntos onde as cozinhas não
ce ssavam de produzir iguarias, image ns pie dosas de santos
magros e marcados pe lo je jum adornavam as pare de s. Que os
santos se jam magros, nós cá na Te rra nasce mos para babar com
trave ssas sucule ntas.
Te nho ouvido, com fre quê ncia, discursos de pe ssoas que ,
para alcançar de te rminada graça, prome te m e liminar o chocolate
por um pe ríodo. Obse rvo intrigado e ssa nova mística da classe
mé dia. Abste r-se de chocolate mostra capacidade de re núncia,
e spe cialme nte para um chocólatra. Como bônus, ganha-se e m
forma física e garante -se uma graça. É uma prome ssa dupla:
e magre ço e consigo um be ne fício do Cé u. Nunca passa pe la
cabe ça de ssas pe ssoas não pe nsar mal da sogra, faze r uma
oração por um político ou, simple sme nte , não faze r fofoca
durante a Quare sma. Cortar o chocolate é mais fácil e mais
produtivo. Esse sacro comé rcio é ainda me lhor: alé m de
e magre ce r, se mpre é comunicado às pe ssoas próximas.
Ofe re ce m uma mousse de chocolate be lga com aparê ncia de
faze r Santo Antão fraque jar. Eu afasto o prato de moníaco e digo:
“Não posso, fiz uma prome ssa muito dura por amor a um filho.”
Todos me olham admirados à me sa. A magre za e ra um bom
bônus, agora ganhe i admiração. Mas pode se r que e u, pie doso e
discre to, nada conte sobre e sse me u sacrifício. Guardo ape nas
para mim a re núncia ao cacau e te nho ale gria inte rna pe nsando
e m como amo tal pe ssoa e como sou bom. Voltamos ao te ma de
se mpre , a vaidade é o prime iro pe cado.

O PÃO NOS S O DE CADA DIA

Um dos se te pe didos do Pai-Nosso, a única oração e nsinada


por Je sus, fala do pão de cada dia. Pe ço várias coisas, mas pe ço
també m o suste nto do corpo na me táfora do pão.
Estude i e m um colé gio do inte rior do Rio Grande do Sul, o
São José , onde as fre iras assavam pãe s nos fornos da e scola
quase todos os dias. O che iro e ra mais forte no corre dor da
cape la; aque le che iro muito bom de pão fre sco e que ntinho
se ndo assado e m forno à le nha. Eu o se ntia da cape la e o che iro
do pão distraía qualque r te ntativa (já e scassa) de conce ntração.
Viram como Be lze bu atua?
Mas volte mos ao pão. Je sus te ve fome no de se rto e o
de mônio suge riu que transformasse as pe dras e m pão. Ele se
re cusou, e citando o te xto sagrado, afirmou que ne m só de pão
vive o home m. Já me ncione i o carde al inquisidor criado pe lo
grande Dostoié vski no livro Os irmãos Karamazov. Na obra do russo,
se Je sus tive sse transformado as pe dras e m pão, te ria atraído
muito mais ge nte para a re ligião, pois o povo busca o conforto
básico do alime nto. Ao apre se ntar um afastame nto do pão e uma
de fe sa de valore s maiore s (e abstratos), Je sus te ria ide alizado
uma re ligião para poucos. O pão, a comida ime diata, o fim da
fome ; e sse s e ram valore s que pode riam se r muito alarde ados. A
busca das coisas e le vadas do Re ino de De us; e sse é um valor para
pouca ge nte .
Me ncione i que o e sforço de domar os corpos é o grande
e sforço da re ligião moral. Não e xistia isso na Gré cia, pois a moral
não e ra um fato amalgamado com os mitos. Os de use s gre gos
não e ram e ntidade s morais, e , como tal, compartilhavam com os
home ns de se jos, limitaçõe s e impulsos. A re ligião gre ga e os
corpos dos gre gos e stabe le ciam re laçõe s distintas das do
Judaísmo ou Cristianismo.
Para você se ntir e ssa dife re nça cultural, compare a ce na na
qual De us se re ve la a Moisé s e m uma sarça arde nte (Êxodo 3). O
futuro le gislador dos he bre us vai a uma áre a isolada para
admirar o fe nôme no e de pois é obrigado a re tirar as sandálias. A
ce na, bastante conhe cida, é tomada de ssa grandiosidade que
marca uma mudança na conce pção de De us. O De us intimista de
Abrão e de Jacó, capaz de come r pão ou lutar, assume um pape l
mais grandioso e pre cisa de mais inte rme diários. Mas
re conhe ce mos aqui o sagrado se e xpre ssando, e imaginamos, ao
le r o Êxodo, o impacto e a grandiosidade de De us. Se um gre go
le sse e sse te xto e soube sse que que m chamava o nobre pastor
e ra Ze us (Júpite r para os romanos) te ria outra ide ia. Ze us
chamava ate nção com fe nôme nos variados: uma águia, um touro,
uma chuva de ouro… Em todos os e pisódios, e ra um e stratage ma
para conquistar, se xualme nte , home ns e mulhe re s que o tinham
agradado. Se Ze us mandasse algué m tirar as sandálias, sua
inte nção se ria distinta daque la narrada no Êxodo. Essa é a
dife re nça de conce pção e ntre uma re ligião moral e uma não
moral.
Os puristas pode m dize r, e e le s tê m razão, que re ligião não
é algo que se de va aplicar a gre gos, pois re ligião de riva de re ligar,
uma orde m me tafísica pe rdida, uma que stão que não e xistia na
Gré cia. Mas e ste não é um livro de conce itos e muito me nos um
livro para os puristas, me smo os conce itualme nte corre tos.
O Cé u cristão é um e spaço asse xuado e se m comida ou
praze re s do corpo. Curiosame nte , o Infe rno é o e spaço da
maté ria, pois, me smo se ndo almas, e como tal não te ndo corpos,
toda a tradição infe rnal fala de sofrime nto físico, fome , frio,
dore s e torturas. O Infe rno é o corpo e o Paraíso é o puro
e spírito. O corpo nos inclina à maté ria e ao pe cado, assim dizia a
mais sólida e histórica tradição moral cristã.
Se u corpo é se u inimigo moral. Se u corpo arde de de se jo,
ronca de fome , pisca de sono, e ructa, flata; te m vida própria.
Sua alma te m alguma e spe rança. Nie tzsche dizia que o
Cristianismo e ra platonismo para as massas, algo como uma
ve rsão ge né rica e mais fácil do filósofo gre go. O que vale a pe na
e stá alé m de nossos órgãos dos se ntidos. Por muitos sé culos, a
maior he re sia moral continua se ndo e ssa te ntativa de unir corpo
e alma e e nte nde r biologia fora da le itura de valore s.
Algumas ve rte nte s do Cristianismo valorizaram o controle do
corpo. É inte re ssante notar como hoje , e m pe ríodo de tão forte
de scristianização nas cidade s ocide ntais, a dome sticação do corpo
e ste ja ainda e m alta. Sacrifícios, die tas, e xe rcícios, tudo vale
ne sta nova moral e sté tica.
Os home ns me die vais cravaram cilício na carne , e spinhos
pontiagudos para castigar o domínio corporal. Os home ns
conte mporâne os corre m e m uma e ste ira até se e sgotare m. Os
home ns morais comiam pouco para je juare m e de monstrare m
como amavam a De us. Os conte mporâne os come m pouco para
re duzire m sua taxa de gordura. Os home ns de outrora pe rdiam
parte dos praze re s da vida para te re m ace sso ao alme jado
praze r da e te rnidade . Nós, agora, abrimos mão de muitos
praze re s pe lo praze r da disciplina, da admiração física e que
e xalte m nossa contínua capacidade de disciplina e e mpe nho. Na
Idade Mé dia, todo e sse sacrifício chamava-se fé . Hoje , é mais
comum que de nomine mos autoe stima, e mpre e nde dorismo e
coaching. Me smo se ndo e u um não re ligioso, sou obrigado a
que stionar: a fé ofe re cia o Paraíso e te rno e m troca de toda e ssa
re núncia. O que e spe ra o e mpre e nde dor hoje após tudo isso? O
mundo corporativo é ruim e m me tafísica.
Capítulo 5
~
Dores góticas, volú pias privadas

O FIM DO HEDONIS MO GREGO

O he donismo gre go sobre vive u até o final do quarto sé culo da


nossa e ra — o e picurismo foi se u canto de cisne . Alinhado à
tradição platônica, Epicuro produziu a mais atrae nte filosofia do
se u te mpo. Brotada da profunda raiz he dônica gre ga, e la se
propagou pe lo mundo gre go e m e scolas e guias práticos,
e nsinando como vive r uma vida de praze re s. Assim, quando
apóstolos e padre s da Igre ja quise ram cristianizar os gre gos,
se ntiram-se obrigados a combate r não ape nas as divindade s
pagãs, mas o he donismo e ntranhado na alma gre ga e sua
e xpre ssão mais atual e popular, o e picurismo.
Epicuro pagou um pre ço alto por e sse confronto
involuntário: sua obra praticame nte de sapare ce u. Os
fragme ntos que sobraram, e ntre tanto, indicam a dime nsão da
sua grande za, mas não da sua unidade . A e xpre ssão unificada
dos e nsiname ntos dispe rsos de Epicuro pode se r e ncontrada
no poe ma filosófico “Sobre a nature za das coisas”, do se u
discípulo Lucré cio. Alé m, de ssa visão de conjunto, Lucré cio
apre se nta uma re fle xão pe culiar sobre o se xo, o amor, a
morte e o ódio e as ilusõe s que costumam acompanhá-los.
Lucré cio faz uma análise me ticulosa de ssas ilusõe s como
doe nças que infe ccionam a alma e cuja cura de pe nde de uma
te rapia; a filosofia e picurista é e ssa me dicina da alma. Ne la, os
argume ntos filosóficos funcionam como instrume ntos cirúrgicos
e xtirpando da alma as cre nças falsas e ge rando assim uma vida
de praze r se m mágoas, me dos ou obse ssõe s.
Por ante cipação, a filosofia de Epicuro constituía um
contraponto crítico virule nto às aspiraçõe s e cre nças cristãs:
ne gava a possibilidade de inte rve nção divina no mundo, ne gava a
imortalidade da alma e não admitia um be m maior que o praze r.
Por e ssa razão, Epicuro transformou-se , aos olhos dos
e vange listas, e m uma e spé cie de Cristo às ave ssas. Outra razão
para que Epicuro te nha sido e scolhido como o alvo dos ataque s
indire tos dos cristãos é me rame nte e straté gica: o e picurismo e ra
a filosofia a se combate r por e star disse minada pe lo mundo a se r
cristianizado. Até o final do quarto sé culo de nossa e ra, e stava
e spalhada pe lo Impé rio — na Lícia, na Síria, no Mar Ne gro, e não
conce ntrada ape nas e m Ate nas. Nas palavras de Lucré cio, foram
as “de scobe rtas divinas” de Epicuro que fize ram com que sua
fama se disse minasse e atingisse “o cé u”.
Como explicar essa atração que Epicuro exerceu sobre seus
contemporâneos? Epicuro parte do seguinte ponto: se uma vida
edificada sobre o poder, a riqueza e o status social não consegue
proteger o ser humano das mais agudas perturbações, se e le
continua movido pe la raiva e por outras paixões agressivas e acaba
por destruir a própria vida, contra sua vontade, é preciso que a
filosofia construa uma fortaleza segura capaz de proteger e curar
o indivíduo das doenças psíquicas que o impedem de viver uma vida
prazerosa e fe liz.
A me táfora da fortale za é apre se ntada por Lucré cio da
se guinte forma: quando o ve nto agita o oce ano, gostamos de
assistir, da te rra, às pe ssoas e nfre ntando a te mpe stade ; não
porque te mos praze r e m conte mplar o sofrime nto de algué m,
mas porque dá praze r obse rvar os proble mas dos quais e stamos
livre s. Os maiore s praze re s são obtidos quando subimos ao topo
das re giõe s mais tranquilas, fortificadas pe la sabe doria. Do alto,
olhamos para baixo e ve mos os outros, vagando a e smo, e m
busca do modo ce rto de vive r — compe tindo por pre stígio,
rique za, pode r, e scalando a vida social e m me io a uma
te mpe stade de pe rturbaçõe s e dore s.
Para Epicuro, ne nhuma de ssas coisas — rique za, pode r ou
pre stígio — pode se r o fim último da vida humana, a não se r o
praze r. Ele é o último te rmo da sé rie de obje tos do de se jo, não
have ndo nada que possa se r de se jado de pois de le ou a partir
de le . Todas as de mais coisas que pode m se r de se jadas são
ape nas me ios para atingi-lo. Como o supre mo be m, o praze r é o
be m que de ve se r buscado, e a dor, é o mal a se r e vitado. Assim,
todo praze r, se ndo praze r, é bom; e toda dor, se ndo dor, é má.
Para Epicuro, a e vidê ncia inconte stáve l disso é que os animais
e spontane ame nte buscam o praze r e re je itam a dor. Tal
e vidê ncia não pre cisa se r de monstrada por argume ntos, como
não pre cisamos de argume ntos para provar que a ne ve é branca,
o fogo é que nte , o me l é doce . A pe rce pção é suficie nte para
de monstrar isso.
Mas isso obviame nte não é tudo. Ne m todos os praze re s são
dignos de e scolha, as circunstâncias faze m a dife re nça. O maior
praze r é , na re alidade , a re moção de toda dor. Portanto, todos
os praze re s que re sultam e m e xce sso de dor de ve m se r e vitados.
Não de ve mos e scolhe r praze re s no pre se nte que re sulte m
maiore s dore s futuras, mas de ve mos, por outro lado, e scolhe r
dore s que provoque m maiore s praze re s futuros. Como ve mos,
e stamos de volta ao cálculo he donista inve ntado por Platão no
Protágoras. Isso torna Epicuro um he donista prude ncial cujo
princípio fundame ntal, a prudê ncia, forne ce a atitude sóbria e
racional ne ce ssária para inve stigar as razõe s pe las quais, por
me io de nossas e scolhas e re cusas, pode mos obte r os praze re s
da tranquilidade e assim nos afastarmos das cre nças ilusórias
que nos lançam e m um oce ano de pe rturbaçõe s.
A fortale za é uma image m da alma impe rturbáve l. Quando
ce rtos obstáculos são re movidos, conquista-se a ataraxia, a
impe rturbabilidade , o supre mo be m. Esse s obstáculos são, na
sua maioria, cre nças falsas sobre be ns, que não são e sse nciais
para a fe licidade humana. O e picurista te m cre nças ve rdade iras
sobre o mundo e , ne sse se ntido, e stá e m consonância com o
cosmo e de sfruta de uma fe licidade que e m nada de ve à
fe licidade impe rturbáve l dos de use s.
Sócrate s, como vimos, havia chamado de ilusórios os
praze re s que re sultam do alívio das dore s. Ele s ocupariam na
e scala dos praze re s uma posição inte rme diária e ntre os falsos
praze re s e os ve rdade iros, ponto ze ro na e scala de praze re s.
Coe re nte me nte com a sua visão de que o praze r é movime nto —
pre e nchime nto de de ficiê ncias —, Sócrate s afirma que o re pouso
não pode ria se r chamado de praze r. Epicuro re je ita e ssa ide ia e
distingue dois tipos de praze re s: os ciné ticos e os e státicos. Os
prime iros são praze re s que advê m da ausê ncia de qualque r
de se jo não satisfe ito (a fome , a se de , o frio). Os praze re s
e státicos, ao contrário, tê m sua e xistê ncia fundada no re pouso. A
fe licidade humana e staria ne sse e stado ise nto de toda
pe rturbação e de todo de sconforto me ntal ou físico.
Se , por um lado, Epicuro ace ita que haja praze re s no alívio
das dore s, re je ita, por outro, a vida de maximização dos
praze re s. Combate , portanto, o ide al de Cálicle s no Górgias: a
pleonexia. Re je ita a vida dos “vasos furados”. Os praze re s ciné ticos
e stão e m uma posição de infe rioridade e m re lação aos praze re s
e státicos. Infe rioridade não significa, no e ntanto, que e le s de vam
se r e xtirpados ou que não de se mpe nham um pape l na fe licidade
humana. Todo e qualque r praze r ciné tico que não implique dor é
indispe nsáve l à vida.
Os praze re s e státicos são pare nte s próximos dos praze re s
puros platônicos. Não de rivam de de ficiê ncia dolorosa, ou pe lo
me nos e ssas de ficiê ncias não são se ntidas como dolorosas. Os
praze re s do se xo, da comida re finada e da be bida são vistos
como pre judiciais ape nas quando não produze m be ne fícios e m
longo prazo. Portanto, a dife re nça e stabe le cida por Platão e ntre
ape tite s naturais, ou ne ce ssários, e ape tite s artificiais, ou vazios,
é mantida pe lo e picurismo. Ape tite s como se de e fome são
ne ce ssários e naturais. Não há nada de e rrado com e le s. Há
outros que são naturais, mas não são ne ce ssários: ouvir música,
ve r uma be la paisage m, se ntir um sabor agradáve l. Há aque le s
ainda que não são ne m naturais ne m ne ce ssários: a ganância —
de se jo por rique za ilimitada — a e ambição de pode r e fama, são
formas de pleonexia que nos de sviam do conte ntame nto e da
tranquilidade .
Como se e xplica a e xistê ncia de de se jos que não são naturais
ne m ne ce ssários? Se gundo o e picurismo, e sse s ape tite s são
prove nie nte s de falsas cre nças. Na sua maioria, são me dos
irracionais. Não que todos os me dos se jam irracionais — me dos
não são naturalme nte danosos. É racional te me rmos um abismo,
ou te me r coisas que colocam nossa vida e m risco, ou te me r
coisas que provocam dor. Há me dos, no e ntanto, que são
causados por coisas irre ais e afe tam nossa alma se m que
pe rce bamos. O me do da morte , por e xe mplo, é totalme nte
irracional. É um me do de uma coisa que absolutame nte não
e xiste . Por te me rmos coisas ine xiste nte s, e rgue mos uma
prote ção imaginária construída com o pode r, a fama, a rique za.
Lucré cio chama e ssa construção imaginária de “ante câmara do
Infe rno”. Há modos de vida que não habitam a fortale za no alto
da montanha, mas o caste lo de are ia das falsas cre nças à be ira-
mar.
A te rapia filosófica do e picurismo prome te e xtrair
cirurgicame nte e sse s me dos. Como e le s de pe nde m de cre nças, a
me ra de monstração de que são falsas é suficie nte para faze r
com que os me dos de sapare çam. Tome mos o me do da morte
como e xe mplo. Quando compre e nde mos que somos um
composto de corpo e alma, um composto de átomos,
compre e nde mos que nada pode sobre vive r à dissolução de sse
composto. Essa compre e nsão faz o me do de sapare ce r porque
e le e stá fundado na cre nça de que e stare mos lá quando a morte
ocorre r. Mas, quando a morte ocorre , já não e xistimos mais. A
morte não é uma coisa e xiste nte . Não é , portanto, nada.
Outra cre nça que de ve se r e xtirpada é a da providê ncia
divina. Os de use s de Epicuro9 e stão e m um e stado pe rmane nte
de pe rfe ita impe rturbabilidade e de conte ntame nto com e le s
me smos. Não pode m ouvir pre ce s e clamore s humanos, isso
se ria pe rturbá-los. Ele s se rve m, no e ntanto, como mode los
inspiradore s de vida ple na de praze re s.
Compre e nde -se , assim, por que Epicuro foi alvo do ataque
de apóstolos e padre s da Igre ja. A violê ncia apropriadora que ,
como ve re mos, adaptou Platão aos ide ais cristãos, e ncontrou e m
Epicuro um obstáculo intransponíve l. Se u he donismo, se u
mate rialismo, sua ne gação da providê ncia divina e da imortalidade
da alma, e ra inconciliáve l com o novo tipo de asce tismo que o
Cristianismo come çava a inve ntar. Plotino ilustra be m e sse
re conhe cime nto quando afirma que os e picuristas se riam
pássaros pe sados de mais para voar alto.

8/7
Epicuro e Lucré cio foram os últimos re pre se ntante s da
tradição he donista gre ga. Ela foi se ndo le ntame nte riscada do
mapa até de sapare ce r comple tame nte na antiguidade tardia. O
próprio impe rador Juliano justificava, no quarto sé culo, o
de sapare cime nto dos e scritos de Epicuro como e fe ito da
inte rve nção dire ta dos de use s. Santo Agostinho, por outro lado,
e m uma carta do ano de 410, afirmava que e stoicos e e picuristas
não fariam mais parte da e scola de re tórica. Esse s são sinais do
apagame nto do e picurismo no mundo antigo. Com e le ,
de sapare ce o he donismo gre go.

PLATONIS MO PARA CRIS TÃOS

Não é difícil, portanto, imaginar por que os apóstolos, no seu


esforço de cristianizar os gregos, identificaram no hedonismo seu
grande inimigo e em Epicuro seu representante mais perigoso. São
Paulo, por exemplo, vai à praça grega, ao Areópago, pregar, entre
outros, aos epicuristas. Familiarizado com a doutrina filosófica
epicurista, Paulo esforça-se para falar como um “grego para os
gregos”, fazendo da mensagem libertadora cristã uma alternativa
atraente para o hedonismo em pleno vigor. Esse combate ao prazer
— que começa buscando apenas uma transposição do prazer do
plano mundano para o sagrado — acaba valorizando o outro lado
da moeda: a dor. Essa valorização acompanha o surgimento de um
tipo novo de ascetismo, construído a partir de experiências físicas e
espirituais extremas.
Na epístola aos filipenses, Paulo parece atacar o epicurismo —
sem nomeá-lo — quando alerta “cuidado com o cão” (Filipenses 3:2).
Como o cachorro, para os gregos, sempre esteve associado ao
despudor, Paulo tenta fazer de Epicuro um hedonista rústico, que
aceita irrestritamente qualquer tipo de prazer. Outra referência
indireta é: “seu deus está na barriga” (Filipenses 3:19). De fato,
Epicuro afirma que o estômago está na raiz de todos os bens.
Tomando as coisas pe la raiz, Epicuro entende que o prazer está
desde o início ao fim, mas isso não significa, em absoluto, a redução
de todos os prazeres aos prazeres do apetite — que para Epicuro
são cinéticos. Paulo fabrica uma idealização dos apetites e prazeres
na imagem do deus-estômago para combater, ainda que
retoricamente, Epicuro.
Os amigos do praze r tornam-se assim “os inimigos da cruz”.
E o praze r sofre um de slocame nto crucial: passa da e sfe ra
pública para a e sfe ra privada: “me us irmãos”, e xorta e le ,
“te nham praze r no Se nhor”. Esse de svio te rá muitos
de sdobrame ntos e aprofundame ntos futuros. Cabe ao cristão,
se gundo Paulo, te r praze r na dor, te r conte ntame nto no
sofrime nto. A luta contra o De mônio torna ine vitáve l o sofrime nto
para o cristão, e a re sistê ncia ao mal, uma dor com valor
positivo. O praze r ainda é possíve l, mas de sde que se ja um
praze r “no Se nhor”. Esse ace sso privile giado e privado ao Cristo,
pe la pre ce ou por qualque r outro me io, prome te um praze r
alte rnativo aos praze re s ligados à vida humana, e uma paz
conquistada “até me smo no sofrime nto”. Paulo sabe do que fala:
e m Filipos, e le cantava hinos ale gre me nte de pois de te r sido
e spancado e atirado na prisão. Paulo suge re que é e le o mode lo
a se r imitado: “Façam també m e ssas coisas que você s
apre nde ram, re ce be ram, ouviram e viram e m mim e De us e stará
convosco. Eu te nho muito praze r no Se nhor”, (Filipe nse s 4:9).
Em re sumo, o Cristianismo inve rte o sinal de valor do praze r
e da dor e stabe le cidos pe la tradição gre ga. Enquanto na tradição
gre ga o praze r te m um valor positivo e a dor, ne gativo, o praze r
passa a te r sinal ne gativo quando não é prove nie nte de uma
re lação individual com a divindade , e a dor física, valor positivo,
se ndo buscada por e la me sma. Ela re pe te o sacrifício do Cristo e
pe rmite , assim, ante cipar os praze re s, não de sta, mas da outra
vida.
Ao contrário de Epicuro — na me táfora platônica de Plotino
—, Platão foi visto como um pássaro le ve , capaz de voar até as
alturas do Re ino do Cé u cristão. Para que isso fosse possíve l, a
doutrina platônica das ide ias pre cisou se r apropriada e
adulte rada pe los e scritore s cristãos, e o he donismo platônico,
re ve rtido e m um he donismo místico, motivando, assim, a criação
de um novo tipo de asce tismo.
Oríge ne s é um bom e xe mplo da apropriação da filosofia
platônica pe los padre s e e scritore s cristãos. Para e le , todas as
coisas pe rce bidas pe los se ntidos te riam e xistê ncia ple na de
inte nsidade na fonte de todas as coisas: De us. O re ino e spiritual
e staria, portanto, che io de praze re s cujo de le ite se nsório te ria
sido e scondido por uma e spé cie de dormê ncia e spiritual. Essa
ale gria original da sabe doria de De us — e xpe rime ntada por
profe tas e e vange listas — e staria ace ssíve l, mas ape nas àque le s
“que de rre te re m se us coraçõe s conge lados”. Trata-se de uma
rique za de se nsaçõe s e spirituais que e scapa à e xpe riê ncia
ordinária: é possíve l ve r, ouvir, se ntir o sabor, o odor e se r
tocado por De us. Para isso, uma re volução de todos os se ntidos é
re que rida. Para sabore ar o gosto doce da sabe doria de De us é
pre ciso que os se ntidos sofram uma limpe za da se nsibilidade ,
e mbotada por uma longa ne gligê ncia. É pre ciso um re torno ao
e stado original da se nsibilidade .
A tarefa de Orígenes, como guia espiritual, era conduzir seus
discípulos a esse retorno. O retorno implicava tanto a recusa das
sensações físicas comuns como a restauração do contato da alma
com as de lícias de outro mundo. Esse desvio, do sensíve l para o
espiritual, ofereceria prazeres muito mais intensos que os
ordinários. A ideia de um retorno a um estado original é uma
adaptação teológica do hedonismo platônico que justifica um
hedonismo místico. Um “platonismo se lvagem”, como já foi
chamado, apresentado por Orígenes nas suas Homilias sobre o
cântico dos cânticos, escrito em torno de 240.
A ênfase do Cristianismo nascente é colocada, portanto, em um
tipo de experiência de prazer espiritual e privada. Enquanto os
prazeres puros platônicos — ligados, por exemplo, ao conhecimento
— eram públicos, compartilhados no diálogo, inseparáveis de uma
relação com os outros e com o mundo, os prazeres do espírito são
obtidos por um acesso privilegiado ao Cristo, são prazeres “em
Cristo”. Já não dizem respe ito, portanto, ao mundo vivido, são
delícias antecipadas de outra vida, que confirmam a promessa de
uma vida posterior à morte. Além desse prazer sagrado, a dor
passa a ter também uma fonte espiritual. Passa a ser pensada
como dor mimética, imitação dos sofrimentos do Cristo na
crucificação. Com o aprofundamento do ascetismo cristão, a dor
caminha a passos firmes para assumir o centro da cena re ligiosa e
cultural no final da Idade Média.
Esse platonismo não se re sume simple sme nte à re je ição da
e xpe riê ncia se nsíve l. O e spírito pre cisa apre nde r a de sfrutar a
de lícia dos praze re s profundos que advé m de Cristo. Isso
significava, na ve rdade , para Oríge ne s e se us suce ssore s, que a
disciplina dos se ntidos não e ra simple sme nte a conte nção, mas
e xigia que e le s fosse m ultrapassados. Se gundo e ssa visão, as
e xpe riê ncias se nsórias normais produziriam uma
antisse nsibilidade , um e mbotame nto da ve rdade ira capacidade do
e spírito de obte r praze r ve rdade iro. Essa antisse nsibilidade
funcionaria como uma “almofada”, amorte ce ndo e re duzindo o
impacto dos praze re s mais vivos e mais profundos do e spírito.
A me táfora da almofada amorte ce dora re me te e se e xplica
por outra, platônica. Sócrate s, no Fédon, afirma que quando
e xpe rime ntamos uma se nsação inte nsa de praze r ou dor somos
le vados a tomar sua causa como a coisa mais re al e ve rdade ira,
me smo que não se ja re al. O praze r te ria, assim, uma dime nsão
cognitiva, e staria re lacionado à ve rdade ou à falsidade . A
pe rce pção que te mos do mundo é o ponto de vista de uma prisão
construída com praze re s-pre gos. Uma prisão inte nsiva que
pote ncializa as se nsaçõe s faze ndo com que cada e xpe riê ncia de
praze r se ja vista como uma e xpe riê ncia com a mais profunda
re alidade . “A alma de algué m que se aproxima da filosofia e stá
pre sa”, diz Sócrate s. Ne ssa situação, é obrigada a ve r “as coisas
re ais”, não como são, mas “atravé s das fre stas de ssa prisão”. A
me táfora do canal e ntupido cria a ide ia de que te mos ace sso
ape nas a uma parte da re alidade , filtrada pe la pe rspe ctiva da
prisão.
Essa ide ia mobilizou toda uma tradição mística e psicodé lica.
Re criada pe lo “platonista se lvage m” William Blake e m um livro
cé le bre (O casamento do céu e do inferno), que afirma e m uma das
passage ns mais famosas: “Se as portas da pe rce pção fore m
de sobstruídas, cada coisa surgirá para o se r humano como é :
infinita./Pois o home m se trancou de tal modo que e le vê todas
as coisas atravé s das fre stas e stre itas de sua cave rna.” A
re fe rê ncia à passage m do Fédon é clara, se m me ncionar o jogo
que e le faz e ntre a prisão e a cave rna, protótipo platônico da
e xpe riê ncia se nsória. Blake e scre ve u e sse poe ma no final do
sé culo XVIII. Em me ados do sé culo XX, Aldous Huxle y publicava As
portas da percepção, faze ndo e coar mundo afora a e nigmática
hipóte se de Blake como um convite — ainda sóbrio — à
psicode lia.
Em ve z do conta-gotas mise ráve l da re alidade ordinária,
e xistiria um fe ixe e norme de se nsaçõe s pronto para invadir os
olhos, como o jato de uma torne ira abe rta no rosto. O livro de
Huxle y é o re lato das e xpe riê ncias quase cie ntíficas com a
me scalina. Se us re sultados confirmam e re formulam a hipóte se
de Blake e m te rmos psicotrópicos: “Se houve r uma substância
química capaz de de sobstruir os canais pe rce ptivos humanos, as
coisas se rão vistas como e las re alme nte são.” A substância para a
de sobstrução dos canais se nsórios e nfim fora de scobe rta: a
me scalina. Iluminaçõe s, e pifanias e de lírios sine sté sicos, privilé gio
outrora de santos, artistas e loucos, e stavam agora à disposição
da humanidade .
Alguns anos de pois, o re nomado profe ssor Timothy Le ary,
voltando de uma viage m ao Mé xico, monta um ousado proje to de
pe squisa e m Harvard sobre alucinóge nos. O jove m beat Alle n
Ginsbe rg se ofe re ce para participar da e xpe riê ncia. Estava
montada a ce na, Ginsbe rg e Le ary, conve ncidos de que o LSD
ampliava a consciê ncia humana, sae m e m caravana divulgando os
novos ê xtase s baratos e portáte is. A viage m e stava pre ste s a
pode r se r fe ita se m sair do lugar, e o le ma de Le ary torna-se um
mantra: “Fique ligado, sintonizado e dê o fora.”
De Rimbaud e se u “de sre grame nto de todos os se ntidos”,
passando pe lo alargame nto da consciê ncia de Le ary, ao
ne odionisismo de Jim Morrison, e cos do “platonismo se lvage m”
continuaram a re ve rbe rar na cultura psicotrópica
conte mporâne a.

O LABORATÓ RIO DA DOR S AGRADA:


OS PADRES DO DES ERTO
Lutar contra o praze r pare ce se r uma luta vã. Montaigne
pare ce che gar a e ssa conclusão quando afirma que todos
concordam que “me smo que e scolham dife re nte s me ios para
atingi-lo: o praze r é o nosso obje tivo.” “Até me smo”, acre sce nta,
“aque le s que o procuram na virtude e m si, que re m no final a
volúpia”. Esse pare ce se r o caso da re cusa do he donismo gre go e
da valorização da dor e do sofrime nto pe lo Cristianismo. O
re sultado te rminou por traze r de volta o praze r, ainda que um
praze r paradoxal, e xtraído da dor.
Asce tismo é uma noção gre ga. Askesis significa e xe rcício,
disciplina, tre iname nto para a aquisição de be le za, força ou
virtude . O asce tismo gre go de se mpe nhou uma função importante
na cultura atlé tica, gue rre ira e filosófica. De ne nhum modo e le
e stá associado à de svalorização do corpo; é , ao contrário, um
tre iname nto para torná-lo mais forte , mais be lo, e xce le nte . No
asce tismo cristão, uma apropriação do asce tismo gre go, não se
te m mais o ginásio com se us atle tas, gue rre iros e filósofos, mas o
de se rto — ou a are na —, com se us mártire s, e re mitas e santos.
O asce tismo passa a se r não um e xe rcício para dominar de se jos
e praze re s, como e ra comum e ntre os gre gos, mas um
tre iname nto para e xtirpá-los. De ve mos imaginar mártire s e
santos cristãos como participante s de uma e stranha olimpíada
nas are nas de Roma, lutando contra pagãos e contra e le s
me smos. Já foi dito como a re pre se ntação dos e ve ntos da Paixão
no Novo Te stame nto apre se ntam, na re alidade , uma inve rsão do
ide al atlé tico olímpico. A agonia no jardim, o de snudame nto, a
flage lação, até o coroame nto — e m ve z de louros, e spinhos —
são mome ntos inve rtidos das provas atlé ticas gre gas.
Uma dife re nça crucial fundame nta a visão gre ga do corpo da
visão que come ça a circular e ntre os cristãos do se gundo sé culo.
Os gre gos e nte ndiam o corpo como uma multiplicidade , como a
multidão de uma cidade que pre cisava se r administrada. O corpo
podia se r controlado, dominado, mas não transformado. No
se gundo sé culo, e ssa visão come ça a mudar. Os filósofos gre gos
tinham e stabe le cido um ide al da conte nção, tre inado a re sistê ncia
aos ape tite s e praze re s, apre ndido a não se subme te r a e le s,
e xe rcitado instintos para atingir me tas racionais. Os cristãos
propõe m outro ide al: não e xpe rime ntar ne nhum de se jo, ne nhum
praze r físico; e liminá-los.
O corpo — se us de se jos e praze re s — passa a se r visto
como lugar privile giado da manife stação do mal, e , para
combatê -lo, o asce tismo cristão pre cisou inve ntar novos
e xe rcícios e disciplinas. Ne sse conte xto, as te ntativas de
conce be r um novo se ntido e valor para a dor apare ce no e sforço
prático dos prime iros padre s da igre ja, no ce ntro e na pe rife ria
do Cristianismo nasce nte . Um e sforço ide ológico tanto para
adaptar a filosofia gre ga a fins cristãos como para criar um novo
corpo.
O de se rto foi o laboratório para a criação de sse novo tipo de
e xpe riê ncia com os de se jos e praze re s. O de se rto, por se r o
ave sso do mundo humano — e spaço árido, inóspito, onde a vida é
pe re mptoriame nte re cusada —, passa a se r o lugar ide al para
e ssa inve nção. E a re cusa tornou-se a condição ne ce ssária para a
criação de uma vida apare nte me nte impossíve l de se r vivida. A
aniquilação do de se jo e dos praze re s te m como re quisição a
e xistê ncia de um novo tipo de se r humano, també m
apare nte me nte impossíve l. “Faze r do de se rto uma cidade ” e do
ave sso do home m um novo home m — e sse é proje to dos Padre s
do De se rto.
O de se rto é e scolhido por se r uma fronte ira e ntre uma
ge ografia humana e outras de sconhe cidas. Para que m que r
e scapar do mundo, o de se rto possibilita a insólita e xpe riê ncia de
e star fora e , ao me smo te mpo, de ntro do mundo. Mas se , por
um lado, e star fora do mundo pare ce tornar a vida humana
impossíve l, por outro, é uma oportunidade de vive r a vida no
limite do possíve l, e talve z ultrapassá-lo, e vive r a vida impossíve l.
Como isso se dá na prática? O de se rto de safia a
sobre vivê ncia porque impe de a satisfação dos ape tite s e praze re s.
É, portanto, o laboratório pe rfe ito para que m que r ne gar a força
ine xoráve l dos instintos humanos. A fome , por e xe mplo, foi o
prime iro de safio ao qual os monge s do Egito do quarto sé culo
pre cisaram re sistir. A nova humanidade , que se nutria ape nas de
coisas e spirituais, come çou a se r construída pe la abstinê ncia
alime ntar.
A ne gação dos ape tite s te m a vantage m de aproximar ao
máximo o asce ta do Cristo, mas traz uma ame aça que passa a
rondar sua ce la: a que da na be stialidade . Vida humana e vida
animal e stão pe rmane nte me nte corre ndo o risco da indistinção.
Ao te star os limite s humanos no de se rto, o animal de ntro do
asce ta pode acabar ganhando a luta. Era e sse o maior te mor
e ntre os Padre s do De se rto: a be sta inte rna. O grande de safio
e ra pe rmane ce r humano e m uma paisage m inumana; o pre ço a
pagar e ra vive r acuado pe las e xigê ncias de supe ração dos de se jos
e praze re s; a finalidade , obte r uma glória e spe cial. Essa glória
e ra a re cupe ração do corpo de ante s da que da, ante s que os
de se jos e os praze re s fosse m instalados ne le . É a glória de Adão
no prime iro e stágio do se r humano. Por isso, para buscar o
re torno do corpo adâmico, o je jum e ra a principal prática
ascé tica.
Comer o fruto proibido da árvore do conhe cime nto — e ssa
te ria sido a prime ira transgre ssão. Ne ssa ve rsão da que da, foi a
fome , e não a se xualidade , o que te ria instigado Adão e Eva a
de vorar a maçã. Essa e ra uma cre nça corre nte . O de se rto
ofe re ce ria, assim, a chance de lutar contra a prime ira e mais
te rríve l te ntação de Adão, a fome .
Embora ne sse conte xto a conduta dos asce tas pare ça movida
ape nas pe lo ódio ao corpo e à vida, a motivação é outra. Não se
trataria ape nas de de struição e ne gação da vida. A se ve ridade das
re striçõe s impostas ao corpo e sconde ria o obje tivo positivo da
transfiguração do corpo humano. A e spe rança de uma mudança
radical na fisiologia humana é a e spe rança que suste ntaria as
te rríve is e xpe riê ncias de automortificação praticadas ne sse s
monasté rios.
Os asce tas acre ditavam que o corpo, na sua orige m, e ra
movido a e ne rgia própria. No mome nto da criação, portanto, não
pre cisava de alime nto. Os corpos de Adão e Eva se riam como
e sse s e nge nhos que são capaze s de funcionar inde finidame nte
por si me smos. Com a que da, o uso do alime nto —
de sne ce ssário — acabou ge rando um e xce sso de e ne rgia que
te ria e xace rbado os ape tite s, as e moçõe s e o impulso se xual. Por
me io da abstinê ncia, os asce tas buscam não a autoaniquilação,
mas a re cupe ração, nos próprios corpos, do corpo glorioso de
Adão.

CRUCIFICAÇÃO ENCARNADA: A DOR S AGRADA


Extrair praze r da dor não é uma novidade na cultura gre ga.
Vimos que um misto de praze r e dor de se mpe nhava um pape l
positivo na poe sia de Safo, e te rnizando e xpe riê ncias e róticas
lancinante s. Em Platão, a dor ganha um valor ambivale nte . Pode
se r “boa”, quando funciona como me io para re staurar o e quilíbrio
na alma; e má, quando significa o movime nto vazio do de se jo. A
e xpe riê ncia da tragé dia gre ga dá a mais e loque nte e intrigante
de monstração de que a conte mplação da dor dos outros pode
se r um e spe táculo de inte nso praze r. É justame nte e sse tipo
e stranho de praze r prove nie nte da dor que Aristóte le s te nta
e xplicar com a ide ia de catarse . A tragé dia, se gundo e le ,
mobilizaria ce rtas e moçõe s — no caso, o me do e a compaixão —
de tal modo, que produziria a catarse , a purificação de ssas
e moçõe s. A purificação das e moçõe s é uma e xpe riê ncia de
compre e nsão dos aspe ctos mais profundos da e xistê ncia humana.
Ape nas e m um se ntido indire to, portanto, pode mos dize r que , no
conte xto ge ral da cultura he dônica gre ga, a dor é boa. A dor
sagrada, a dor que te m valor ne la me sma, não é gre ga na
orige m.
Em muitas das suas cartas, Paulo, o apóstolo, trata a ale gria
com o sofrime nto como e fe ito de um sacrifício ritual. Paulo utiliza
vários te rmos gre gos e spe cíficos do antigo ritual do sacrifício de
animais para falar do sacrifício cristão. Por e xe mplo, na carta aos
Romanos, e le afirma: “Rogo-vos, irmãos, pe la mise ricórdia de
De us, que ofe re çam os vossos corpos e m sacrifício vivo e sagrado
e agradáve l a De us.” (Romanos 12:1). O ve rbo parastesai (ofereçam) é
o te rmo té cnico para de signar o ofe re cime nto do animal
sacrificial no altar. Essa adaptação do sacrifício gre go e stá
insiste nte me nte pre se nte nas Escrituras, e não ape nas e m Paulo.
De sse modo, como o corpo do animal é ofe re cido no ritual
pagão, o corpo de cada cristão de ve se r e ntre gue e m sacrifício a
Cristo.
Em He síodo, a comunicação e ntre de use s e home ns é
possibilitada pe lo sacrifício. Ne sse ato, trê s te rritórios são
de marcados — dos de use s, dos home ns e dos animais. Para cada
um, há de se jos e praze re s corre sponde nte s. No sacrifício cristão,
a vítima sacrificial é o próprio se r humano vivo, e o tipo de
comunicação que e le possibilita pe rmite a participação no praze r
divino por me io de um contato — dire to, privado e privile giado —
com a própria divindade . Esse canal é abe rto por me io do
sacrifício, ou se ja, pe la dor e pe lo sofrime nto, e o praze r que
de corre do sacrifício é um praze r re ligioso, de outro mundo e
outra nature za que os praze re s de sfrutados ne sta vida.
Já no se gundo sé culo d.C., te ólogos cristãos justificavam o
martírio invocando a crucificação, o sofrime nto e a morte de
Cristo, como a re ação corre ta do cristão e m re lação à
pe rse guição romana. Te rtuliano (c.190 d.C.), por e xe mplo,
aconse lhava aos de votos de Cristo: “Tome a sua cruz e carre gue -a
como o fe z o se u Se nhor.” A chave do Paraíso e stá no sangue
de rramado. A partir dos prime iros sé culos cristãos, muitos já
e stão dispostos a de rramar se u sangue por Cristo. No final da
Idade Mé dia, e sse martírio assume o caráte r de um fe nôme no
mais amplo, e le vando e ssa tradição a alturas e a dore s e xtre mas.
Embutida ne ssa ide ia de sofre r pe lo Cristo, e stá a ide ia de
que a vítima da dor pode compartilhar sua e xpe riê ncia, sofre r
pe los outros e afe tar os outros com se u sofrime nto. Ne sse
se ntido, como diz o profe ssor de Te ologia Arie l Glucklich, a
e xpe riê ncia da dor é transitiva, compartilháve l. Essa transitividade
ocupa o ce ntro da vida cristã, é a condição para o sacrifício e
para a imitação do Cristo. Nos e stigmas, a dor compartilhada
atinge se u alcance máximo quando as fe ridas da crucificação de
Cristo surge m visíve l no próprio corpo de que m e xpe rime nta um
sofrime nto compartilhado. Paulo, na carta aos Colosse nse s, fala
e m comple tar, com se us sofrime ntos, os sofrime ntos de Cristo.
Essas inovaçõe s culturais e psicológicas e xigiam, como vimos,
uma transformação do corpo e dos me ios ne ce ssários para
re alizá-la. Essa possibilidade foi abe rta pe lo fato de o próprio
De us te r sido corporificado, crucificado e re ssuscitado. Moisé s é
um e xe mplo da re alização de ssa possibilidade . Ele passou
quare nta dias no Monte Sinai, com o corpo comple tame nte
transfigurado pe la pre se nça de De us, e se us ape tite s foram
abolidos durante todo e sse te mpo. É para re alizar e ssa
possibilidade , livrando o corpo dos de se jos, que o asce ta se
e xe rcita na abstinê ncia e na re núncia dos praze re s. O cristão
de ve buscar outro corpo, e scapar das garras da animalidade . A
re núncia aos de se jos se ria o me io prático de matar o animal
inte rno de ntro de cada um.
Um e le me nto complicador faz da re núncia uma tare fa
inte rpre tativa e inte re ssante . A possibilidade de Satanás e ntrar na
alma de algué m e lhe dar pe nsame ntos e de se jos é tão re al
como a de De us faze r a me sma coisa. Surge assim um proble ma:
como distinguir pe nsame ntos e de se jos satânicos dos
pe nsame ntos e de se jos divinos? Essa ince rte za passa a
atorme ntar os cristãos e faze r com que qualque r coisa que
aconte ça e m se u corpo e e m sua alma se ja obje to de um
implacáve l crivo inte rpre tativo. É pre ciso vigilância e ate nção
re dobrada para re conhe ce r o que e stá na raiz do de se jo.
Manife staçõe s involuntárias, como os ape tite s, são o campo de
ação pre fe re ncial do mal. O ato se xual, por e xe mplo, visto como
um ato — uma atividade — pe los gre gos, passa a se r tomado
como uma paixão, uma passividade . Santo Agostinho, por
e xe mplo, vê na e re ção uma clara indicação de punição pe lo
pe cado original. Qualque r manife stação inde pe nde nte me nte da
nossa vontade traz a marca da que da.
O mode lo do novo corpo buscado pe lo asce tismo cristão é ,
portanto, o corpo glorioso do Cristo re ssuscitado. Um corpo che io
de marcas, de e stigmas. Estigma é o te rmo usado para de signar as
fe ridas da crucificação de Cristo e m mãos, punhos, pé s e cabe ça,
causadas pe la coroa de e spinhos. Paulo inaugura a tradição
e stigmática, que e ncontrará se u cume na dor “gótica”, quando
diz: “Eu trago no me u corpo as marcas (e stigmas) de Je sus.” (Gl 6,
17) São Francisco de Assis foi o prime iro, na história cristã, a
manife star e stigmas. Se gundo re latos, se us pulsos e pé s
pare ciam te r sido pe rfurados por pre gos, cabe ças de pre gos
surgiam e m se us me mbros infe riore s, no se u torso, como se
tive sse sido pe rfurado com uma lança, uma grande fe rida
sangrava e molhava sua túnica e suas calças com o “sangue
sagrado”.

MARTÍRIOS E S UPLÍCIOS : AS DORES GÓ TICAS


O te rmo gótico e tudo que a e le e stá associado e xe rce um
e norme fascínio sobre as tribos conte mporâne as, e suas
re ssonâncias me die vais colaboram para isso. O gótico re me te a
um e stilo de arquite tura visto pe la Re nasce nça como oposto ao
e stilo clássico e , portanto, irracional, de sorde nado, bárbaro. As
tribos originais góticas, os godos, re sponsáve is pe las invasõe s
bárbaras, que contribuíram de cisivame nte para a que da do
Impé rio Romano, ofe re ce ram o mode lo ne gativo para e ssa
adje tivação.
Como gê ne ro de ficção, o gótico surge e m me ados do sé culo
XVIII, e m ple no Iluminismo, como a face sombria — as Tre vas —
das Luze s. A lite ratura gótica é , assim, obscura, lúgubre , e se us
te mas, re pulsivos — o me do, o nojo e o te rror. Invocam
prioritariame nte ide ias e obje tos que , por suposto, causam dor e
incômodo no le itor. Re me te m ao pe ríodo do fim da Idade Mé dia,
e m que a arquite tura gótica pode simbolizar, e ntre outras coisas,
a inte nsificação de e xpe riê ncias e xtre mas com a dor.
Essa inte nsificação pode se r obse rvada na iconografia do
pe ríodo. As image ns do Cristo e nsangue ntado e torturado
pre dominam sobre as do Cristo criança dos sé culos ante riore s.
Esse foco nas dore s e xcruciante s pe rmitia que e las fosse m vistas
pe los mártire s e santos como uma “doce comunhão” e os sons da
autoflage lação, ouvidos como música.
Na batalha pe la salvação da alma, a dor, de sde o início do
Cristianismo, e ra a principal arma para e xorcizar de mônios e
de sviar te ntaçõe s. Ne ssa batalha contra a carne , a e spada do
e spírito e ra usada para cortá-la de forma a obte r a mortificação
ne ce ssária para a salvação. O mode lo é Cristo carre gando a cruz.
A cruz humilha, disciplina e castiga. A doe nça e a dor, por
e xte nsão, são muito be m-vindas, pois pode m se r usadas como
armas de gue rra; a gue rra a que se re fe ria Santo Agostinho,
e ntre o Espírito e a Carne .
No pe ríodo “gótico”, e ssa gue rra fe z da dor, que e ra um
me io para atingir um novo corpo, um fim a se r buscado por e le
me smo. A vida de santos e místicos abundam com de scriçõe s de
autotorturas e me smo automutilaçõe s que apontam para e sse
de svio. A re sistê ncia à dor que o cristão manife stava na are na
romana, quando e ra de vorado vivo por fe ras, ou a do je jum dos
Padre s do De se rto, são be m dife re nte s da dor da autoflage lação
voluntária e cultivada pe los santos e mártire s do pe ríodo gótico.
Toda Se xta-fe ira Santa, por e xe mplo, Clara de Rimini de ixava-se
amarrar a uma pilastra e e ra chicote ada por torturadore s de
alugue l. Edwige s da Silé sia já fazia isso e la me sma: açoitava-se
impie dosame nte , ou com a ajuda de outra fre ira. Charle s de
Blois atava cordas che ias de nós ao re dor de se u pe ito que lhe
causavam inúme ras fe ridas e dore s te rríve is. Cristina de Spole to
pe rfurava o próprio pé com pre gos. Já Be atrice d’Ornacie ux
pe rfurava as mãos e dizia ve r, ne las, e stigmas. He nrique de Suso
batia-se com um chicote com pontas com tanta violê ncia que um
dia o chicote se partiu e m trê s e os pre gos voaram contra a
pare de . Ve ndo-se todo e nsangue ntado, e le pe rce be u que se u
corpo tinha assumido a me sma aparê ncia do corpo de Cristo. O
praze r e spiritual, ante s atingido indire tame nte pe lo uso das
dore s, passa a se r e xtraído dire tame nte de las.
Esse tipo de experiência “gótica” com a dor no final da Idade
Média é retratado em obras de pregadores, teólogos, pintores e
poetas que se esforçaram em levar às casas dos cristãos e aos
espaços públicos o sofrimento extremo de Cristo e da Virgem
Maria. Escritores e artistas enfatizavam em suas representações os
aspectos mais chocantes e terríve is — as feridas, o sangue, a
expressão da dor física — do sofrimento de Cristo. Como esse
sofrimento tinha força positiva, redentora, desde o século XIII ele
não parou de alimentar o imaginário ocidental. Tomás de Aquino,
por exemplo, dedicou-se a mostrar que Cristo tinha sofrido em
todos os seus sentidos: os olhos que imados pe lo fogo, as ore lhas
agredidas por ruídos e insultos, o nariz ofendido pe lo mau che iro, a
boca amargurada com o gosto de fe l e sua pe le ferida pe los golpes
das chicotadas. Se levarmos em conta imagens e textos desse
período, nem Cristo nem a Virgem teriam ficado impassíveis diante
do sofrimento. Expressaram o sofrimento por me io de palavras,
lágrimas e gestos: Suas palavras che ias de dor e gestos che ios de
lágrimas poderiam amolecer um coração de pedra. Estava
franqueado o caminho para a maximização da expressão das dores
extremas.
Henrique de Suso pergunta-se por que Cristo teve de sofrer
tanto para expiar o pecado humano, isso não poderia ter sido fe ito
de outra forma, evitando a dor e a degradação da crucificação? A
resposta é previsível: algumas coisas estão além da compreensão
humana. Mas Suso acaba vendo uma orientação prática nas
inversões implicadas na crucificação do Cristo: “Sua deformação
dolorosa será, pe la graça espiritual, a be leza alegre da minha alma;
seu esforço punitivo será meu descanso perfe ito; seu naufrágio
pesado será para mim constância em virtude e e levação; seus
ferimentos graves devem curar minha alma de feridas e pecado.”
Quem quiser, portanto, seguir o Cristo, deve imitar seus
sofrimentos e lutar com todas as suas forças para sentir as
mesmas feridas, a mesma dor, a mesma humilhação e o mesmo
sofrimento que e le sofreu.

MEDICALIZAÇÃO DA DOR
Ce nto e cinque nta anos de psicologia mé dica varre ram da
nossa me mória cultural e ssa e xpe riê ncia e m que a dor te m um
significado positivo para que m a se nte . Sobrou-nos ape nas o
aspe cto ne gativo, de sinte grativo, da dor. Ne sse se ntido, Arie l
Glucklich fala de uma amné sia cultural cole tiva e m re lação à dor
re ligiosa. A dor tornou-se uma se nsação privada, muda,
incomunicáve l, não compartilháve l. No e ntanto, sabe mos que a
dor não é tão simple s. A dor física de um pacie nte te rminal ou a
de uma vítima de um acide nte é comple tame nte dife re nte , por
e xe mplo, da dor buscada voluntariame nte pe los praticante s da
automutilação.
Glucklich re coloca a que stão: por que as pe ssoas re ligiosas se
autoflage lam? Qual o e fe ito de sse tipo de dor na pe ssoa? A dor
re ligiosa pare ce pe rmitir uma alte ração do e stado de consciê ncia
e uma alte ração e mocional que faz com que a pe ssoa se sinta
parte de uma cole tividade mais ampla, ou te ndo ace sso a um
e stado mais profundo da e xistê ncia. A dor sagrada, por e xe mplo,
te ria função inte grativa. Fortale ce ria os laços com a divindade e
com uma comunidade . Essa força inte grativa e stava
apare nte me nte pe rdida.
Dos Padre s do De se rto ao Marquê s de Sade , o proble ma da
dor foi inte nsame nte de batido. Hoje e m dia, tanto na áre a
mé dica quanto no âmbito me tafísico, é e stranhame nte pouco
discutida. Esse de sinte re sse pare ce te r alguma re lação com a
amné sia da dor sagrada e com a me dicalização da dor.
Com a inve nção da ane ste sia, e m 1840, o proce sso da
me dicalização da dor foi de se ncade ado, mas não se m
re sistê ncias. Como re sultado de sse proce sso, a pe ssoa que se nte
qualque r tipo de dor, manife sta ape nas sintomas. A dor não te m
ne nhum significado para e las. Como consumidora de se rviços
mé dicos e psicológicos, o pacie nte de ve le var sua dor para se r
“lida” e inte rpre tada por um e spe cialista. A ide ia de que a vida
indolor é um dire ito fundame ntal come ça a se impor como um
ide al (com a re ssalva de que de pe nde da qualidade dos se rviços
mé dicos e das condiçõe s de compra de sse se rviço pe lo pacie nte ).
Em um livro cé le bre , Ste phanie Snow mostrou como a
re ligião — mais e spe cificame nte , o Cristianismo — contribuiu para
re tardar a ace itação do uso de ane ste sia para aliviar a dor e o
sofrime nto dos pacie nte s. Na introdução do livro, e la afirma: “Na
te ologia cristã, a dor e ntrou no mundo após a de sobe diê ncia de
Eva no Jardim do Éde n e pe rmane ce u ce ntral para a
humanidade .” Em uma e strutura cristã, o sofrime nto durante o
parto, por e xe mplo, e ra conside rado um le mbre te ne ce ssário e
pe rmane nte do pe cado de Eva. A citação bíblica “Multiplicare i
grande me nte a sua dor na gravide z; com sofrime nto você dará à
luz filhos” (Gê ne sis 3:16), e ra usada como um argume nto para
que o uso de é te r ou clorofórmio fosse m proibidos no parto. Era
comum se acre ditar que e vitar a dor e ra agir contra a vontade de
De us, e isso te ria impe dido a ime diata ace itação da ane ste sia. A
Virge m Maria e ra o mode lo positivo: não te ria sofrido ne nhuma
dor física. A me nsage m e ra clara: a dor e stava na alma,
re sultado do pe cado e da culpa.
O adve nto da ane ste sia, ve nce ndo as re sistê ncias re ligiosas,
pe rmitiu que a dor fosse re avaliada e passasse a se r assunto
mé dico, um assunto que tinha mais a ve r com o corpo do que
com a pe ssoa e m um se ntido mais amplo.
O sofrime nto, e ntre tanto, é me nos uma se nsação qualque r
do que uma re ação e mocional a um se m núme ro de coisas não
ne ce ssariame nte dolorosas. O sofrime nto pe la pe rda de uma
pe ssoa que rida, por e xe mplo, não é provocado por uma se nsação
física, é uma re ação e mocional. Embora saibamos hoje , mais do
que nunca, sobre os me canismos ne urológicos da transmissão e
da pe rce pção da dor, me smo a dor como se nsação (“o dano e m
um te cido”), te m uma dime nsão significativa que não se de ixa
re duzir ao me rame nte “físico”. Ne sse se ntido, e la pode até se r,
como ve re mos a se guir, uma solução para o sofrime nto, quando
usada como analgé sico psicológico para aliviar a ansie dade , a
culpa e até me smo a de pre ssão. Mas um fato é ine gáve l: a dor,
de algum modo, re cupe rou se u valor e se u se ntido “gótico”. Talve z
isso e xplique o pape l fundame ntal que a dor re pre se nta na vida
conte mporâne a.

A FINA LINHA VERMELHA

A cre sce nte ace itação social de algumas das chamadas arte s
corporais e stá apagando le ntame nte a linha que se para o que
pode ríamos chamar de e xpre ssão pe ssoal e as patologias clínicas
que e stavam tradicionalme nte associadas à produção de dor. O
sadomasoquismo, o piercing, a tatuage m, os rituais de marcas
se xuais, as pe rformance s de sangue , as modificaçõe s corporais
de vários tipos se tornaram parte da cultura conte mporâne a. Um
re nascime nto do inte re sse pe lo unive rso gótico é cre sce nte .
Histórias de vampiros, rituais de sangue , automutilação tornaram-
se obje tos de consumo cole tivo tanto nas arte s re cre ativas como
na dita Grande Arte . A linha fina e ntre moda e compulsão e stá
cada ve z me nos pe rce ptíve l. Curiosidade , e xpe rime ntação ou
distúrbios psiquiátricos tornaram-se indisce rníve is. Como se pode
hoje crite riosame nte se parar o re cre ativo do compulsivo?
Ao contrário do que se imagina, o mundo conte mporâne o, na
sua apare nte disparidade e multiplicidade irre dutíve is, manife sta
uma irre fre áve l te ndê ncia ascé tica. A dor sagrada ou a dor a
se rviço de fins supe riore s e stá mais viva que nunca no mundo
conte mporâne o. Basta obse rvar os e xe rcícios físicos e xte nuante s,
os e ve ntos e sportivos, as acade mias de ginástica, as die tas
radicais, os ritos de iniciação, militare s ou e studantis. A dor
pare ce contribuir, ainda que de modo e nigmático, mais para
re solve r do que para ge rar proble mas.
Tome mos, por e xe mplo, a automutilação. Ela e stá mais do
que pre se nte nos variados se gme ntos da vida conte mporâne a. O
te ma, de sde os anos 1980, ve m chamando a ate nção de
e spe cialistas e da mídia. O caso de Jill, citado por Glucklich, é um
e xe mplo intrigante . Jill é uma adole sce nte de uma família
e quilibrada de Chicago, que , ape sar de be m-suce dida, vivia e m
constante e stre sse , pre ocupada de mais e m agradar os outros.
Aos quatorze anos, fe z uma de scobe rta surpre e nde nte : se
cortasse alguma parte do se u corpo e obse rvasse se u sangue
corre r, fazia de sapare ce r, pe lo me nos por algum te mpo, se u
insuportáve l sofrime nto psíquico.
“‘Eu e stava no banhe iro”, conta e la, “e havia lá cortador de
pape l de pare de . Eu e stava tão ansiosa que não conse guia me
conce ntrar e m nada, pe gue i e ntão o cortador e come ce i a cortar
minha pe rna e fique i e xcitada ao ve r me u sangue . Era bom ve r
me u sangue saindo e nquanto minha outra dor saía també m
junto”. Jill passou e ntão a cortar-se e m lugare s re se rvados,
usando não ape nas lâminas de barbe ar, mas outros obje tos
cortante s, como cacos de vidro e agulhas, e m re giõe s do corpo
me nos visíve is. Ela passou a se r ape nas um núme ro da e statística
de uma nova e pide mia e ntre adole sce nte s. A e pide mia que o
psiquiatra Armando Favazza chama de “corpos sob ce rco” (bodies
under siege). Favazza e stima que o núme ro (no final dos anos 1990)
de “cortadore s” e ra de 750 por cada 100 mil norte -ame ricanos,
e m um total de dois milhõe s, mas e le adianta que o núme ro re al
pode se r be m maior.
Qual é a e xplicação para e sse fe nôme no? Em se u livro
sobre o assunto, Glucklich propõe uma que stão intrigante e
fe cunda: se ria possíve l e nte nde r a automutilação
conte mporâne a a partir da flage lação sagrada de santos e
místicos? Nos dois casos, a dificuldade é e nte nde r como uma
dor que normalme nte é e vitada se torna boa e que rida? Como
a dor “má” se torna dor “boa”? Não se e nte nde isso
ple name nte e m te rmos me rame nte de sinte grativos. Dize r que
é um comportame nto autode strutivo é insuficie nte . A solução
de ve ria se r buscada do lado positivo da alte ração da
consciê ncia e da ide ntidade . Mas e ssa alte ração só é possíve l
e m um conte xto e m que a dor é e xpe rime ntada com
significado e valor.
Os automutiladore s conte mporâne os muitas ve ze s falam
como se fosse m mártire s; são “re ligiosos se m te ologia”, como diz
Glucklich.
O te rmo mais fre que nte usado por e le s para justificar o que
faze m é o pode r. “Se outra pe ssoa e stá me machucando”, diz
outra garota, “ou me faze ndo sangrar, e u pe go o instrume nto, e
e u me sma me faço sangrar; assumo o controle ”. Muitas
dife re nças os se param, mas só uma coisa une os
automutiladore s conte mporâne os: o se ntime nto de que são
vítimas de ausê ncia de pode r, o se ntime nto de que são
dominados e controlados por uma vontade anônima e alhe ia.
No sacrifício conte mporâne o, cortar é a mane ira de
subme te r alguma coisa infe rior a um fim supe rior. Ne sse se ntido,
quando re tiramos uma parte infe ctada do nosso corpo, te ntamos
e liminar a doe nça, alte rar nosso corpo e m favor de algo supe rior,
a saúde . Garotas e mártire s cortam-se porque de scobriram um
me io de alte rar a pe rce pção que e le s tê m sobre si me smos, um
me io de produzir um se ntime nto de pode r pe ssoal, e de e ntrar
e m uma re lação ide ntificatória com algo de orde m supe rior. A
dor, e m suma, dá alime nto simbólico a um e u faminto.
Se m a e strutura te ológica que suste nta a dor sagrada, as
e xpe riê ncias conte mporâne as voluntárias com a dor pare ce m
re ssoar no vazio. Elas produze m ce rtame nte um alívio de outra
dor, o sofrime nto de impotê ncia, de ausê ncia de pode r, mas a
instância supe rior ao qual ace de m pare ce se r um lugar vazio.
Sabe mos, no e ntanto, que e la forne ce um tipo e spe cífico de
praze r, o alívio da dor. Um praze r ne gativo, um traço distintivo da
vida conte mporâne a.
O que parece claro na vida de santos e mártires — um
contexto cultural que oferece crenças, emoções e valores para que
essas re lações violentas com o corpo sejam possíve is — é obscuro
na contemporane idade. O uso da dor para produzir estados
específicos de consciência e fazer nascer uma nova identidade
aponta para fenômenos psicológicos e re ligiosos definidos
culturalmente onde indivíduo e cultura se encontram.

8/7
As práticas ascé ticas e as e xpe riê ncias e xtáticas com a dor
na Idade Mé dia aproximam-se paradoxalme nte das e xpe riê ncias
com o praze r. Se ria o caso de pe rguntar, como já o fize ram, se a
filosofia da me scla de praze r com dor do Marquê s de Sade não
colocaria e m xe que a filosofia de Epicuro. Este , como vimos,
conce be o praze r como a ausê ncia de dor. Mas o mundo
conte mporâne o e staria disposto a ace itar um praze r não
misturado com dor? Epicuro ce rtame nte diria que o Marquê s de
Sade não ofe re ce um praze r que pode constituir uma Vida Boa.
Mas talve z hoje se ja difícil pe nsar um grande praze r humano que
não produza dor, ou se ja inte nsificado por e la. A de finição de
praze r como “ausê ncia de dor” de Epicuro não pare ce ria re alista
e atrae nte para o mundo de hoje . A se nsibilidade atual pre cisa
se r pe rturbada e fe rida para julgar que alguma coisa é digna do
se u inte re sse .
Capítulo 6
~
S etenta vezes sete

Crer emDeus nos dispensa de crer emqualquer outra coisa — o que supõe
uma vantageminestimável. Sempre invejei quemcria nele, ainda que crer-se
Deus me pareça mais fácil que crer emDeus.
Cioran, Aveux et Anathèmes

MUITOS PECADOS , UM S Ó PERDÃO?

Todo o e sforço moral de scrito nos capítulos ante riore s constitui-


se uma forma de controle e de classificação. Me dicina e Te ologia
apre se ntam e m comum e ste obje tivo: conse guir que o se r
humano re sponda a de te rminadas classificaçõe s, sintomas, e
que , a partir disso, possam se r suge ridos tratame ntos para o
corpo ou para a alma.
A variedade humana é imensa. Cada indivíduo é um universo.
Criar quatro tipos a partir de fluidos do corpo (sanguíneo,
fleumático, colérico e me lancólico); criar doze signos do zodíaco
(cada um com sua idiossincrasia); inventar tipologias sexuais
(heterossexual, bissexual, homossexual, pansexual); desenvolver
categorias, patamares, mode los e regras: e is o mais antigo, sólido e
constante trabalho do conhecimento sobre os homens. Sem
uniformizar, catalogar e inventar sintomas respectivos, não
existiriam a Teologia, a Psicologia, a Pedagogia, a Medicina, a
Astrologia, a Homeopatia, a Sociologia e quase todas as outras
expressões do nosso esforço de universalizar o único ou tipificar o
irrepetível.
Quando ministro uma aula, por vezes, penso que, mais do
que o conhecimento, os alunos e eu nos esforçamos por uma rede
que abarque o conhecimento e o domine. Shakespeare escreveu
peças históricas, tragédias, comédias, sonetos e outros poemas.
Bach é barroco, Mozart, clássico e Chopin, romântico. Diferencio
Maneirismo de Rococó; ensino as primeiras fases, descrevo apogeus
e decadências, crio tipologias de técnicas militares. Em todo canto
sinto-me muitas vezes enredado na rede, como se a classificação
fosse mais importante do que a coisa em si. Ah, então este texto é
do período romântico de Machado de Assis? Por quê? Por tais e tais
características. Evidentemente esta escada tem mais e lementos da
Art Nouveau que da Art Déco. Esta Virgem ainda tem traços
bizantinos ou já apresenta o caminho do Renascimento? Conhecer é
classificar. Ensinar é classificar. As categorias antecedem a tudo.
Os pecados capitais são sete, como vimos. Os mandamentos
cristãos são dez. Os mandamentos da Igreja Católica são cinco. Os
dons do Espírito Santo são sete. As festas de santos podem ser de
santos confessores, doutores, mártires, virgens etc. As heresias são
cristológicas, pneumáticas, soteriológicas etc. Esta passagem bíblica
é javista, e loísta ou sacerdotal? Infinitas gavetas para um infinito
armário do esforço de dominar.
Aqui começa uma curiosidade. Os pecados são muitos, o
perdão é um só. Claro que a Igreja criou, lembrarão os mais
católicos, indulgências plenárias e parciais. Mas e las perdoam por
igual, variam apenas na quantidade perdoada: tudo ou parte. Existe
até um tribunal em Roma chamado Penitenciária Apostólica, que
cuida das indulgências. É o mais antigo dos tribunais da Cúria
Romana. Ao longo dos séculos, a Penitenciária Apostólica deve
regular, prescrever, examinar e tratar do perdão, suas formas e a
quantidade, seus locais e regras. Porém, perdão é perdão. Como já
foi dito, varia a quantidade, mas perdão é perdão. Começamos
agora nosso mergulho nas águas purificadoras do perdão.

PERDÃO E CULPA NO ANTIGO TES TAMENTO


Os judeus têm um dia do perdão, o Yom Kippur (dia do
perdão) . É uma das festas mais importantes do calendário judaico.
Para muitos, é o dia mais importante de todo o calendário. Dia de
jejum e de orações, dia no qual na sinagoga reencontram-se
pessoas que não se viam há um ano, desde o último Yom Kippur.
Ele ocorre no décimo dia, no sétimo mês (tishrei) do calendário
religioso. Corresponde, no hemisfério Norte, ao outono. No
calendário gregoriano, cai em setembro ou outubro. Nesse dia há
proibições específicas contra comer, usar calçados de couro, usar
perfumes, ter re lações sexuais, banhar-se por prazer. Nesse dia
deve-se fazer a teshuvá, o retorno. Devo pedir perdão a meu irmão
pelo mal que cause i e a Deus pe los pecados contra o Todo-
poderoso . Esse retorno à graça de Deus prepara os judeus para o
Ano-novo, para ser inscrito no livro da vida novamente no período
que se inicia. A análise de si serve para aumentar a consciência e o
arrependimento. Não é à toa que a psicanálise nasceu entre
intelectuais judeus.
O arrependimento é antigo e sólido na Bíblia judaica. Às
vezes é rápido, como o de Davi diante da denúncia sobre seu crime
contra Urias. Também é imediato em Nínive, a grande cidade,
denunciada por seus pecados pe lo profeta Jonas. A cidade era
enorme e custava três dias a pé para atravessá-la. O anúncio do
profeta é duro: “Dentro de quarenta dias Nínive será destruída”
(Jonas 3:4). Milagre do arrependimento: do mais humilde ao re i,
todos vestiram sacos e fizeram penitência. Os ninivitas converteram-
se apenas com uma pregação de Jonas. Assim: “Deus viu o que e les
fizeram e como voltaram atrás de seus caminhos perversos.
Compadecido, desistiu do mal que tinha ameaçado. Nada fez”
(Jonas 3:10).
Aqui um fato curioso: Jonas ficou irritado com a não
de struição de Nínive . Se u orgulho foi maior do que a
ge ne rosidade de De us. Ele que ria a de struição porque e le a tinha
anunciado. O Se nhor re pre e nde Jonas, pois o profe ta te m mais
mise ricórdia por uma planta do que por toda a cidade de Nínive .
O e pisódio traduz a lição: De us pe rdoa, se houve r since ro
arre pe ndime nto.
José do Egito pe rdoa os irmãos que te ntaram matá-lo e o
ve nde ram como e scravo. De us orde na a Ose ias que tome uma
mulhe r adúlte ra e se us filhos como e sposa, pe rdoando os
pe cados de la e ainda diz que ama Israe l do me smo je ito, como
se ama a uma adúlte ra (Ose ias 3:1-5). De Adão, no Gê ne sis, até
Malaquias (último livro do Antigo Te stame nto), há uma suce ssão
e norme de e rros pe rdoados por De us e també m de pe ssoas se
pe rdoando.
O te ma do pe rdão e do arre pe ndime nto pe lo e rro é quase
uma tônica narrativa nos salmos atribuídos ao re i Davi. É o grito
da alma atorme ntada que se dirige ao Criador: “Vê minha
misé ria e minha pe na e pe rdoa todos os me us pe cados” (Salmos
25:18).
Tudo fica ainda mais forte no famoso salmo 51:

[
Ó De us, te m pie dade de mim, conforme a tua
mise ricórdia; no te u grande amor cance la me u
pe cado. Lava-me de toda minha culpa, e purifica-me
do me u pe cado. Re conhe ço a minha iniquidade e me u
pe cado e stá se mpre diante de mim” (Sl 51 , 1-5).
[

A condição da volta, da já chamada teshuvá, é a consciê ncia


do e rro. Pe ço pe rdão porque se i que e rre i e re conhe ço que o
pe cado e stá diante de mim. No ve rsículo se guinte , o salmista
ainda insiste que foi ge rado na culpa e conce bido pe la mãe no
pe cado (Salmo 51:7). Essa afirmação já foi utilizada para
justificar a cre nça católica na culpa cole tiva da humanidade e m
função do Pe cado Original. Aqui, na tradição das oraçõe s
judaicas, te m mais ligação com a ide ia de que a nature za
humana vive e m diálogo com o pe cado e que De us nos ama
ape sar disso, como a mulhe r adúlte ra de Ose ias.
A consciê ncia do e rro é a condição do pe rdão. Não há grito
mais angustiado na Bíblia do que o salmo 130, conhe cido pe la
e xpre ssão e m latim De profundis. Lá, o pe cador se se nte
de samparado nas profunde zas e clama a De us. També m le mbra
o autor que , se De us se le mbrar das culpas das pe ssoas,
ningué m e scapará (Salmo 130:3). De us se torna a única
e spe rança daque le que ora, o único confiáve l e junto a e le e stá a
mise ricórdia e a re de nção. É o salmo do de se spe ro absoluto e da
confiança absoluta. Come ça clamando das profunde zas e te rmina
falando de De us no alto. Ne ssa be la traje tória, e stá a base da
e spe rança de que m crê .
Há uma que stão curiosa que fala muito das nossas
transformaçõe s. O salmo 130 foi, largame nte , um dos mais
populare s na história da fé judaica e da cristã. O de se spe ro do
pe cado e a confiança e m De us; culpa e pe rdão, de samparo e
amparo. Ce nte nas de ge raçõe s se ntiram a e moção de suas
palavras e re citaram o 130 para obte r força.
É inte re ssante que , se hoje e u fize sse um le vantame nto,
ce rtame nte o salmo blockbuster se ria o 23:

[
O Se nhor é me u pastor, nada me falta. Ele me faz
de scansar e m ve rde s prados, a águas tranquilas me
conduz. Re staura minhas forças, guia-me pe lo
caminho re to, por amor do se u nome . Se e u tive r de
andar no vale e scuro, não te me re i mal ne nhum, pois
comigo e stás. O te u bastão e o te u cajado me dão
se gurança. Diante de mim pre paras uma me sa aos
olhos dos me us inimigos; unge s com óle o minha
cabe ça, me u cálice transborda. Fe licidade e graça
vão me acompanhar todos os dias da minha vida e
vou morar na casa do Se nhor por muitíssimos anos”
(Sl 23, 1-6).
[

Não se trata de comparar a be le za do 130 com o 23. Ambos


são, poé tica e re ligiosame nte , be líssimos. Mas é e vide nte que o
130 trata de uma nature za humana confiante , mas e smagada
pe lo se ntime nto de dor e do pe cado, confiante e m De us, mas
com a pe rspe ctiva do fundo do abismo. O salmo 23 fala de um
home m vitorioso, pois anda prote gido no vale da sombra e ce ia à
vista dos inimigos, conduzido por De us. É uma me táfora
agropastoril, tão cara ao mundo dos salmos: De us é um pastor
que prote ge suas ove lhas. O tratame nto e a conce pção de De us
no salmo 23 é digamos, no mínimo, mais carinhoso. O De us do
salmo 130 é o que distribui mise ricórdia do alto dos cé us. O De us
do salmo 23 me pe ga e me conduz. Um é De us de mise ricórdia e
de fé abstrata; outro é o De us concre to que me faz ve nce r ne ste
mundo.
Já brinque i e m sala, ao analisar e ste te xto, que e ssa
me táfora agropastoril te m um proble ma: ficou distante dos jove ns
urbanos. O que significa, para um cidadão de quinze anos, na
cidade de São Paulo, por e xe mplo, dize r que De us é se u pastor e
anda com um cajado na mão? Provave lme nte nada. Se ria mais
rápido como me nsage m o salmo dize r: “O Se nhor é minha
cone xão de banda infinita, e le nunca cairá.” Claro que é só uma
piada ímpia. Uma das forças da re ligião é a linguage m arcaica. A
atualização e straté gica e nve lhe ce mais rápido do que o te xto
canônico.
Volte mos ao te ma. O mundo re ligioso foi ficando cada ve z
mais um mundo do mode lo do salmo 23. De us, me u pastor,
próximo a mim, prote tor, amparo e re fúgio se guro, foi se
impondo a um De us da dor do abismo. De us, e spe cialme nte no
Cristianismo do sé culo XX, foi ficando cada ve z mais amigo e
próximo. De us do juízo final ou da dor, De us que conde na e
castiga, De us que afoga e mata todos ou que que ima cidade s ou
consome sace rdote s ine ptos com se u fogo (os filhos de Aarão), foi
se afastando. Surge um De us pastor, amigo, que me prote ge de
forma carinhosa e única.
Provave lme nte , cada salmo foi traçando um aspe cto dos
muitos atributos divinos. O 96 se aproxima de um mantra ao
re pe tir “Cantai ao se nhor”, tal como o 147 e o 150. O 137
de scre ve uma me lancolia poé tica nacional e xtraordinária: “Nos
rios da Babilônia…” Se rviu de base para a linda música de Ve rdi,
Va pensiero. O 139 é muito psicologizante ; talve z, se ja o mais
de nso de todos de sse ponto de vista. Poré m, o 23 é hoje o mais
citado, o mais louvado, o mais re pe tido. O De us apre se ntado no
salmo 23 é a face ta de De us mais cara às almas
conte mporâne as. Essa image m se ria re forçada por Je sus,
he rde iro da mística judaica: “Eu sou o bom pastor. O bom pastor
dá a vida por suas ove lhas” (João 10:11).

MINHA PARTE NO PERDÃO


De us e xige o arre pe ndime nto e prote ge o pe cador
since rame nte transformado e tocado pe la consciê ncia do e rro.
Esse é o ponto mais constante da narrativa bíblica. A punição
quase se mpre ve m para o e mpe de rnido, o insiste nte no e rro,
aque le que se re cusa a re conhe ce r se u de slize . A te ologia cristã
chamará a e ssa atitude , no futuro, de pe cado contra o e spírito,
ou se ja, a birra. É um pe cado impe rdoáve l, porque o livre arbítrio
o tornou um obstáculo ao próprio De us.

[
“Por isso, e u vos digo: todo pe cado e toda blasfê mia
se rão pe rdoados; mas a blasfê mia contra o Espírito
Santo não se rá pe rdoada. Me smo se algué m falar
uma palavra contra o Espírito Santo, não se rá
pe rdoado, ne m ne sse mundo, ne m no mundo que há
de vir”.
(Mate us 12:31-32)
[
A birra, o pe cado contra a graça inspiradora do Espírito
Santo, fica assim tornado pe cado he diondo e impre scritíve l; se m
pe rdão. Esse pe cado irre missíve l é a re je ição da graça de De us,
apre se ntada aos home ns constante me nte , insinuada a se us
ouvidos, mostrada a se us olhos. Essa te imosia é um pe cado
insupe ráve l.
Todos e rram. Todos cae m. Até Jó, mode lo de paciê ncia já
citado, te m um mome nto de de se spe ro contra De us. O santo e
pacie nte Jó e nfre ntou be m a morte de todos os filhos. Não se
re be lou quando todos os se us be ns foram roubados. Nada
disse quando se u corpo come çou a apodre ce r e m vida. Re sistiu
a discursos irritante s de , digamos, amigos. Por fim ve io sua
e sposa també m re clamar. Talve z a gota d’água te nha sido um
último amigo, de fe nsor absoluto dos planos de De us, Eliú. Jó
e nfre ntou morte de filhos, pe rda de be ns, insolê ncia de trê s
amigos, pe ste corporal e até a e sposa irritada, mas um
moralista no me io de tudo isso, algué m que ainda ve m falar e
insistir na be le za dos planos de De us naque la situação. Ne ste
mome nto Jó pe rde sua prove rbial paciê ncia. De us conve rsa
pe ssoalme nte com Jó e o re pre e nde . De pois de uma dura
inte rpe lação do Altíssimo sobre o infe liz Jó, e le baixa sua já
cansada cabe ça e re conhe ce : “acuso-me a mim me smo e me
arre pe ndo, no pó e na cinza” (Jó 42:6).
Um não re ligioso pe nsará que e ssa humilhação do
arre pe ndime nto é um e xe rcício de pode r de De us. Para a
te ologia do livro de Jó, o te ste (morte , pe rda de be ns, doe nças)
traduz uma re organização de nossas prioridade s, uma
pre paração para o que re alme nte importa e uma disciplina para
nosso orgulho. Mais do que uma punição, o sofrime nto se ria uma
e ducação. Após todo o sofrime nto, Jó diz algo muito inte re ssante :
“Eu te conhe cia só por ouvir dize r, mas, agora, ve jo-te com me us
olhos” (Jó 42:5). Aprofundando e ssa Te ologia, o me nos
importante na vida de Jó é a posse de be ns mate riais ou de
saúde . O me nos importante é pe rde r tais coisas ou ganhá-las de
novo ao final. O mais importante é de scobrir, ne sse e xe rcício de
humildade , que e u nada controlo de fato do de stino ou do
unive rso, que a sabe doria e stá e m re conhe ce r De us e m tudo. O
arre pe ndime nto e o pe rdão não se riam humilhaçõe s diante de
uma autoridade ou algué m mais forte , mas o re e ncontro da
orde m das coisas e ntre Criador e criaturas.
Toda paixão ou submissão, ne ssa pe rspe ctiva, é e scravidão.
Subme te r-me ce game nte a um Estado, a um partido, a be ns
mate riais, a paixõe s físicas, a vícios: tudo isso diminui minha
libe rdade . Essas e ntre gas me re duze m a re laçõe s horizontais
e ntre criatura e criatura. Quando me e ntre go a algo assim, de ixo
de se r livre , e ncolho moralme nte , pioro pe ssoalme nte e me
afasto da sabe doria. Tudo no mundo e scraviza.
A única coisa que libe rta é a submissão a De us. Por quê ?
Porque De us me fe z, na fé re ligiosa judaico-cristã-islâmica a sua
image m e se me lhança. Sou da me sma substância de De us.
Entre gar-me a Ele não é ne gar minha libe rdade , mas e ncontrá-la
de ve rdade e para se mpre . A e ntre ga a De us libe rta. A submissão
ao Criador traz mais libe rdade .
Assim, o pe dido de pe rdão, e m ve z de humilhar, de fato, me
conduz de volta ao caminho corre to e natural. Some nte sou de
fato livre e digno quando ace ito a total e absoluta transce ndê ncia
de De us sobre me u mundo. Essa é a libe rdade de Jó e a grande
lição do se u livro. Diluir-me na ime nsidão de De us é , e nfim,
e ncontrar-me . Re cupe rar me us be ns e minha saúde , me us filhos
e uma vida longa (e le vive u 144 anos de pois de sse s e pisódios) são
bônus se cundários para almas um pouco me nos grandiosas. A
Bíblia foi e scrita també m para e ssas almas.
Os não re ligiosos e stranham e ssa e ntre ga absoluta. També m
é possíve l dize r que talve z todo home m se m fé , ao conde nar e ssa
e ntre ga, afirma sua libe rdade e ntre me ada de ce rta inve ja
daque le que e ncontra se ntido total na transce ndê ncia de De us.
Só De us basta, diz Te re sa de Ávila, só De us comple ta, pre e nche
totalme nte , não de ixa e spaço para nova insatisfação. Só na
re lação com De us e ssa e ntre ga, e m ve z de e svaziar, pre e nche
por comple to. Essa é a chave da mística e que torna o home m de
fé no inte rior de uma cave rna no de se rto mais fe liz do que o re i
opule nto ce rcado pe la corte . O re i nunca te rá ce rte za se se us
vassalos se curvam por me do, tradição ou até ironia. O re i
morre rá acossado pe las te orias conspiratórias e pe lo se ntime nto
do cinismo humano e das aparê ncias. Se u narciso pe de , mas se u
inte le cto de sconfia da ate nção que lhe che ga. O home m de fé
te m ce rte za, não de sconfia, e ntre ga-se , ace ita. Se te ve dúvidas ou
se e las pe rsiste m na noite da sua alma, e ntre ga-se mais e re ce be
e ssa re sposta. Só De us basta. A criação de ssa ide ia é a mais
brilhante de todas as propostas re ligiosas. Jó de scobriu isso para
alé m do se u be m-e star.
O PERDÃO CRIS TÃO

As palavras perdão e amor existem largamente na tradição


judaica. Mas seria mais correto identificar que o assunto central de
Deus, na Torá, é sua justiça. A regra é clara: você pode errar e se
arrepender, mas a punição poderá vir mesmo assim. Deus é justo,
ou usando uma expressão quase universal no Antigo Testamento, os
caminhos do Senhor são retos. De algumas formas, os caminhos do
Senhor no Novo Testamento passam de retos a sinuosos. Sinuosos
para reforçar um dado que existe na tradição judaica e que, na
leitura dos seguidores de Jesus, vai se transformar no perdão total.
Caracterizar o Antigo Testamento como um Deus
exclusivamente de autoridade, duro, inflexível e che io de vinganças é
uma construção essencialmente cristã. Os textos e as falas de Jesus
sempre reforçam a continuidade da Lei, mesmo quando adapta ou
revoga algo como o divórcio mosaico. Jesus cita a tradição da Torá
para enfrentar o demônio ou para sintetizar os mandamentos. A
ruptura para um Deus de amor não seria apoiada por Jesus. Mas
há mudanças.
O texto teórico de referência da proposta do rabino Jesus é
o chamado Sermão da Montanha, o qual já foi citado
anteriormente. Amar aos inimigos, perdoar sempre, bendizer quem
nos persegue, fazer o bem a quem nos faz o mal. Amar quem nos
ama é comum aos pagãos. O político corrupto, o assassino, o cínico,
o vaidoso; todos amam seus filhos. Qual seria a diferença para a
proposta de Jesus? O amor é um dom que deve ser dado sem
distinção de pessoas. Não se ama alguém por ser bom, mas por
ser. O amor é uma proposta universal e o perdão vem acoplado a
essa ideia. Esse pensamento pertence a uma linha que liga Jesus
ao rabino Hilel, o cabalista que viveu um pouco antes de Jesus.
Amor, perdão, compreensão são pilares da fé judaica, ou pe lo
menos, de algumas vertentes da fé judaica.
Jesus aprofunda a proposta judaica e a direciona no caminho
da hermenêutica da Lei. O que seria hermenêutica? De forma
rápida, o conce ito diz respe ito à interpretação, da busca de sentido
dentro do texto. O Judaísmo é uma re ligião da hermenêutica. Por
quê? Porque um judeu re ligioso considera que a Torá foi um
presente de Deus aos homens, mas que cada homem,
individualmente, a lê, interpreta e vive de mane ira distinta. Deus é
único, mas as mane iras de eu me aproximar de le são muitas. As
autoridades rabínicas ajudam, os tribunais re ligiosos podem
determinar, mas o Judaísmo é uma re ligião de liberdade da minha
consciência diante de Deus. Tal como o Catolicismo ou o Islamismo,
o Judaísmo pode ser seguido como um minucioso código de regras.
Elas existem de forma abundante em todas as re ligiões, ainda que
as regras dos outros sempre nos pareçam estranhas e as nossas,
corretas e coerentes. O Judaísmo apresenta milhares de regras,
algumas tão pormenorizadas que parecem um contrato jurídico
tratado entre partes desconfiadas uma da outra. Mas não são as
regras que definem um judeu, pois e le será judeu pe la sua re lação
com Deus, e não pe lo ângulo da mezuzá cravada na sua porta.
Não existe no Judaísmo uma autoridade central como o
papa. Não há um dogma claro. Porém, essa abertura interpretativa
comporta também o fundamentalismo. A comunidade judaica
excomungou o filósofo Espinoza. Parece um pouco complicado dizer,
mas excomungar um judeu com pensamento que aque la
comunidade acha errado ou ace itar rabinas em comunidades
judaicas liberais dos Estados Unidos, são procedimentos da
liberdade judaica. A abertura é dada, inclusive, para o fechamento.
Não se trata apenas de comparar o século XVII com o XXI (no caso
Espinoza e rabinas), mas de entender a falta de unidade teológica
absoluta dentro do Judaísmo. Contrariando o que sempre se diz
por aí, o Judaísmo é uma re ligião da liberdade da fé.
Je sus é a vitória de uma he rme nê utica, de uma
inte rpre tação. Je sus é e se mpre foi um absoluto, re ligioso e
de nso jude u, um jude u re ligioso que se guiu um caminho me nos
lite ral da Le i. Como ante s de le e como ce nte nas de pois,
apre se ntou-se como o Me ssias. O Judaísmo é a re ligião da
e spe ra pe lo Me ssias a partir de de te rminado mome nto. Isso não
e ra um anse io de Moisé s ou de Abraão, de Salomão ou de Davi,
mas cre sce u muito de ntro da tradição judaica a partir do
He le nismo e da dominação romana. O pape l de Me ssias re força
o pode r da he rme nê utica de Je sus e també m de um novo
ambie nte : o Judaísmo he le nizado. Os Evange lhos e stão e m gre go
e isso é uma mudança. A Torá tinha sido traduzida para o gre go,
mas os Evange lhos foram conce bidos e m gre go, não traduzidos.
Voltando ao e ixo, o perdão proposto por Jesus está bem
inserido na tradição judaica. Sua essência já foi narrada na
parábola do filho pródigo, quando citamos a inveja do irmão mais
velho. O pai perdoa o filho que tudo gastou porque e le tudo gastou.
O perdão não é para os virtuosos, mas para os pecadores. Isso é
reafirmado de diversas formas por Jesus. Perdão é para o faltoso,
o pecador, o desviado, o que não agiu certo e, a rigor, talvez nem
mereça. A condição é a volta, a teshuvá hebraica, o arrependimento,
a disposição de emenda.
O Pai-Nosso, a única oração ensinada por Jesus nos
Evangelhos, é absolutamente baseado na tradição judaica:
“perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem
nos tem ofendido.” No Yom Kippur, pedimos perdão ao irmão e a
Deus. Perdoamos também quem nos pede perdão na esperança de
um perdão divino. O Pai-Nosso poderia ser rezado no Yom Kippur,
sem embaraços teológicos.
“Perdoar as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a
quem nos tem ofendido.” O primeiro objeto é Deus, chamado de
Pai. Peço que e le me perdoe. E, como condição e complemento
desse perdão, eu também perdoo. É um exercício de ida e volta,
circular ou complementar. Que perdão esperar de Deus se eu não
o exerço? O aprendizado vem do alto, da fonte da verdade e se
completa no exercício terreno.
O pe rdão é um ge sto que re conhe ce a fraque za, a
falibilidade e o e mbaraço humano e strutural diante do Be m. A
dure za moral nasce do orgulho — de novo, se mpre o orgulho.
Quando não pe rdoo e stou dize ndo que , e m prime iro lugar,
minha ofe nsa é mais importante do que tudo. Ao me ofe nde r,
ao me agre dir, ao me trair, você atingiu me u e u. Ao se u pe cado
e u re spondo com o me u. Há uma ime nsa vaidade moral nisto:
e u não sou adúlte ro, e u se mpre fui fie l, e u nunca traí, logo, não
sou capaz de pe rdoar sua traição. Em sínte se : ao não pe rdoar
sua falta, e xe rço a minha. Há uma quase e xaltação da minha
virtude ao conde nar sua falta. Se você é um pe cador te rríve l,
por antíte se , e u sou um virtuoso confe sso, ou assim me ve jo, e
sou orgulhoso. Não se e ngane le itor: a pe ssoa pontual ama que
o mundo se atrase , pois só assim e la brilha como uma luz no
lodo cronológico dos outros. Os pontuais re clamam,
e spe rne iam, insultam, ironizam e , se mpre , de stacam como e le s
se e sforçaram para che gar na hora. A crítica ao atraso nasce do
orgulho da pontualidade . O pontual coloca na cara do atrasado
a virtude que imagina supe rior. Pe rdoar se ria e quivale r, igualar.
Mas o pontual se mpre pe rdoa, porque o que e le busca é , de
fato, a e xaltação da sua virtude .
Como afirme i ante s e agora, há uma e xube rância quase
malé vola na virtude . O virtuoso grita, aos quatro cantos do
mundo, como e le gostaria que todos se guisse m se u e xe mplo.
Provave lme nte ficaria apavorado se isso ocorre sse . “Eu não jogo
um grão de arroz fora”, grita o pre vide nte e e conômico. “Eu
nunca le ve i multa”, afirma outro. “Eu e ntre go me u imposto de
re nda no prime iro dia, não como e ssas pe ssoas que de ixam para
a última hora.” “Eu arrumo minha mala com um mê s de
ante ce dê ncia e che go ao ae roporto com quatro horas de folga.”
“Eu re viso o carro ante s do prazo.” “Eu falo baixo.” “Eu falo
corre tame nte .” “Eu e scre vo be m.” “Eu cozinho como poucos.” “Eu
e studo diariame nte .” “Eu nunca falte i ao trabalho.” “Eu dou total
ate nção aos me us filhos se mpre .” Afe! Já dá um cansaço
e strutural. A virtude , alé m de uma base orgulhosa, é
profundame nte cate qué tica. O pe cador ao me nos não grita sua
podridão como o virtuoso e ste nde no varal público da casa o
le nçol branco do se u currículo imaculado. E pe rce bam que e u
ne m toco na possibilidade de e ssa virtude se r ape nas re tórica ou
franca me ntira. Se sua virtude alarde ada for ve rdade ira, você é
um vaidoso, um sobe rbo da moral. Se e la for ape nas ce na e
me ntira, alé m de vaidoso, você é um me ntiroso, um
e ste lionatário da alma.
Como disse ante s: a formiga só é fe liz e re compe nsada
quando vê a cigarra conge lar, faminta, no lado de fora. Só isso
justifica todo o e sforço de la. De que adiantaria trabalhar tanto se
todo o mundo fosse um formigue iro? Magros, poupadore s com
re se rvas, pontuais, e le gante s, le itore s voraze s, pais ate ntos,
profissionais compe te nte s: todos só tê m ple na re alização ao
e ncontrare m se u oposto, o faltoso, o pe cador. Se você , me u
que rido le itor, minha que rida le itora, pe nsou agora, mas eu não sou
assim, be m, sob a sole ira sólida do se u caste lo inte rior, a bruma
da vaidade já come çou a e ntrar.
Não pe rdoar re força minha virtude . Que ro tornar ainda mais
brilhante e notáve l o fato de que e u não de slize i, não e rre i. A
me lhor mane ira é dize r: “O que você fe z não te m pe rdão.”
Quando o que você faz é impe rdoáve l, implica dize r que o que e u
faço é muito louváve l. Re ssalto se u crime e se u e rro e re baixo sua
re putação. Assim, minha virtude é transformada e m nova
montanha. Você chafurda no barro e nos pântanos morais e e u
na glória da montanha.
Acompanhe a conve rsa das pe ssoas. Na grande maioria das
ve ze s, o te ma gira e m torno das virtude s dos inte rlocutore s. A
re tórica da virtude , quando e ncontra o vício como contrae xe mplo,
e ntra e m ê xtase . De que vale ria se r malhado e de finido com
0,5% de gordura se o mundo inte iro e stive sse assim? Que praze r
sair da acade mia, onde suamos e come mos me ia barrinha de
ame ixa light com granola orgânica colhida ao luar e nos
de paramos com um se r ime nso, adiposo, atracado no se u
cheeseburger com um milkshake. O praze r do gordo come ndo é
quase e mocionante . Ele de ve se r punido. Para que e le não te nha
pe rdão, sua gordura é sua se nte nça. Não posso pe rdoar que m
não se cuida, porque que m não se cuida vive como cigarra. Como
e u, formiga se m glúte n e malhadora, posso sorrir para que m faz
um prato de salada com batata e maione se e uma picanha e
de pois arre mata com um quindim? Se e u ficasse magro de pois
de sse praze r, me u mundo de sabaria. Minha dor de ve se r
re compe nsada, a ale gria de le de ve se r punida. Só assim e u fico
fe liz.
Pe rdoar é igualar-se e conside rar que , se um e rrou,
pe rte nce a minha e spé cie . O fato de e u não come te r aque le e rro
e m particular, ape nas torna o e rro alhe io distinto dos me us, não
me torna me lhor.

UM ADULTÉRIO E UM PERDÃO
O pe rdão cristão e ncontra mome ntos particularme nte
tocante s no Novo Te stame nto. Me u pre fe rido é a história da
adúlte ra (João 8). Uma mulhe r foi surpre e ndida e m adulté rio. Foi
flagrante , não há e scusas. Havia te ste munhas. Se o jogo de
palavras não fosse e xce ssivo, até pode ríamos dize r que foi com a
“boca na botija”. Alvoroço total na comunidade . Que de lícia
e ncontrar um bode e xpiatório. Uma mulhe r que se e ntre gou por
de se jo e amor a um home m que não e ra se u marido. Um se r
humano que buscou fe licidade fora da re gra. Todos aque le s que
de se jaram isso ano após ano e não tive ram ne m oportunidade e
ne m corage m, agora apontavam o de do furiosos, e fe lize s. Ela
ousou, e la fe z, e la de ve pagar. A le i é clara: ape dre jame nto.
Matar com pe dras é uma morte simbólica. Pe rmite a todos
atirare m parte da sua raiva na pe ssoa que se de sviou. Um
e nforcame nto só dá e sse praze r ao carrasco. Guilhotinar é
me cânico. Fuzilar é quase assé ptico. Ape dre jar é que é gostoso.
Posso, pe dra após pe dra, ir ve nce ndo o mal que e u ve jo e m mim,
mas que o outro e xe rce u. Ape dre jar é e xorcizar. Com força,
atiro minha pe dra e ace rto, de pre fe rê ncia na parte que mais
ode io do pe cador. Ape dre jar é uma socie dade anônima de ódios
com divide ndos para todos os inve stidore s. A adúlte ra de ve se r
ape dre jada.
“Mas por que apenas matar esta pecadora? Poderíamos
também levar o caso a Jesus”, dizem fariseus e doutores da Lei.
Ele seria confrontado com um caso claro e sem possibilidade de
interpretação. Jesus deveria participar da sociedade anônima. Isso
significa que a fama de um Jesus que perdoava e pregava o
perdão já incomodava muita gente. A hermenêutica de Jesus a
favor de um esgarçamento da Lei era, certamente, notória. O
episódio teria ocorrido depois do Sermão da Montanha, quando o
programa moral de Jesus já estava enunciado.
O e pisódio de monstra duas raivas dos moralistas. Uma é
contra a infração do código. Essa raiva se volta contra a mulhe r.
O outro polo de ódio é contra que m que r diminuir as pe nas,
inte rpre tar as re gras e pe rdoar. Esse se ntime nto se de scarre ga
contra Je sus. Dois coe lhos, uma só cajadada. Que dia glorioso
para a virtude farisaica. Se vivos, os farise us te riam pe dido a
re dução da imputabilidade pe nal para se te anos, transmutando
e m pre ocupaçõe s sociais se u ódio.
A ce na é bastante te atral. Os farise us arrastam a mulhe r até
Je sus. O Nazare no, quase como e m um rote iro, ignora os
acusadore s. Je sus, o Supre mo Be m, não ouve o que falam de
mal sobre o mau ou a má. Ele é surdo à acusação e fica
e scre ve ndo no chão. O que e scre ve ? Nada sabe mos. Se mpre que
le io sobre e ssa ce na pe nso nos alunos e nte diados com a aula
rabiscando uma folha e m branco (há alguns anos, hoje se ria
digitando e m apare lhos). Estaria Je sus de monstrando té dio com a
acusação? Falaria de ntro do me stre uma voz com a frase : “Oh
não, e ste s farise us de novo, não apre nde m nunca…”? Não
pode mos afirmar isso. Nunca se disse nada sobre o té dio de
Je sus. Se ria he re sia supô-lo?
Je sus e scre ve , indife re nte ao grupo ruidoso. Se u
protagonismo é dado pe lo silê ncio. O Evange lho diz que Je sus se
e ndire itou, pre ssupondo que ante s e stava curvado, ou acocorado
e scre ve ndo, e m todo caso, e m uma posição abaixada. De
re pe nte , uma frase : “Que m de ntre vós não tive r pe cado, atire a
prime ira pe dra” (João 8:7). Frase bombástica! Ape dre jar se ria
confe ssar o orgulho de se pre sumir acima do pe cado e da
humanidade . Isso ne m os farise us pode riam dize r, ainda que
pude sse m pe nsar. Foram se afastando. O Evange lho dá mais
uma pista — a re tirada se guiu orde m cronológica: foram saindo a
partir do mais ve lho. Quanto mais idade , mais me mórias de
pe cados e mais re morsos, mais consciê ncia pe sada. Um a um,
todos se re tiraram. Re stavam Je sus e a mulhe r. Se mpre imagino
e ssa ce na e m um palco. Talve z te nha sido e scrita com e sse
propósito.
Ve jam uma dife re nça: no prime iro sé culo da nossa e ra,
me smo e ntre farise us, e ra impe rativo re conhe ce r-se pe cador. No
nosso sé culo, te mpo de autoajuda, de e stímulo ao positivo e ao
orgulho de si, e m é poca de re forço dos narcisos pe lo e nsino
totalme nte lúdico e pais culpados, se Je sus fize sse a me sma
pe rgunta, talve z tive sse chovido uma saraivada de pe dras sobre a
pobre mulhe r. Hoje , há poucos pe cadore s e culpados. Hoje , a
culpa é sinal de angústia mal re solvida, se ntime nto de pe cado
pode se r tratado com psicanálise e lítio. O pe ssimismo sobre a
nature za humana de sapare ce e m re de s sociais. Fe lizme nte para
a adúlte ra, aque le mome nto e ra outro.
Je sus sozinho com uma mulhe r aos pé s; o me stre faz uma
pe rgunta re tórica, como se fosse indife re nte de fato a tudo:
“Onde e stão os que te acusavam? Ningué m te conde nou?” Ela
re força que não. Então Je sus diz que també m não a conde nará.
Mas o re torno da adúlte ra a te shuvá te m uma condição: não
pe car de novo. Quando Je sus diz “não torne s a pe car”, e stá
dize ndo que sabe que e la pe cou, que o de poime nto dos farise us
e ra ve rdade iro, que não e ra uma calúnia. Je sus te m ple na
consciê ncia: e ra uma adúlte ra e foi pe ga no ato. “Não torne s a
pe car” mostra que o pe rdão é e fe tivo e incide sobre um e rro re al
e come tido. Mais: adúlte ra, ao longo do capítulo 8 de João, e m
ne nhum mome nto e la ne ga isso ou diz que é inoce nte (ah, como
e stamos longe de sse dia e m que a de sculpa pronta não brotava
magicame nte dos lábios de todos). A adúlte ra sabe que adulte rou.
Je sus sabe que a adúlte ra adulte rou. Todos sabe m do adulté rio.
Ningué m o ne ga. Pe rdoar não é e sque ce r ne m dar livre passe
para mais e rros. É só o re conhe cime nto de que houve um e rro e
que há a disposição para que não ocorra de novo. Pe rdoar é só
re conhe ce r a humanidade do pe cador, nunca é uma de fe sa do
pe cado.
No capítulo 8 de João, Je sus dá mais uma pista importante .
Ele afirma se r a luz do mundo (ve rsículo 12) e , mais importante ,
acusa os farise us de julgare m se gundo a carne e que e le “a
ningué m julga” (Jo 8, 15). Talve z se ja o mais importante tre cho
sobre pe rdão da Bíblia. Je sus, o filho de De us, a se gunda pe ssoa
da Trindade , o Me ssias, o home m-De us e ncarnado, diz que não
julga ningué m. Ele , a luz do mundo, é o único que pode ria de finir
a tre va, já que todos os se re s não são luz; somos ape nas
iluminados ou não. Je sus, a luz do mundo, não julga. Fascinante
e sta passage m: uma de rrubada de quase tudo que a tradição
acre dita sobre punição, moral, castigos e te rnos, fogo e danação.
De us é amor, a frase sínte se de João: “Que m não ama não
che gou a conhe ce r De us, pois De us é amor” (I Jo 4, 8).
Vamos, e ntão, piorar o de safio de Je sus aos farise us: aque le
que nunca julgou algué m atire a prime ira pe dra. Agora sim, não
sobraria ningué m.
Te mos um dado final ne ssa história e dificante . O capítulo
te rmina no ve rsículo 59 com um fato pouco e xplorado pe la
tradição. De pois de todo o de bate sobre culpa e pe rdão, de pois
de te r se anunciado a luz do mundo, de pois de dize r que não
julga ningué m e te r humilhado os ávidos ape dre jadore s, e nfim…
Te ntam ape dre jar Je sus. Je sus e sconde u-se , fugiu e e vitou que a
re ligião da cruz se tornasse a re ligião da sagrada pe dra. Não
sabe mos se e le se ocultou de forma não natural ou se saiu
corre ndo. Sabe mos que saiu e e vitou sua lapidação.
O último bastião do ódio é contra que m pe rdoa. Não
castigar transfe re a raiva para o que pe rdoa. Apare nte me nte , o
castigo e xpia, e scoa, conce ntra e ajuda a diminuir a raiva cole tiva,
ou, pe lo me nos, o castigo de svia a raiva do pe cado para o
pe cador e sua punição re stabe le ce a orde m unive rsal. Quando e u
não puno, talve z, o mal se torne difuso e incomode muito. Como
é próprio da nossa e spé cie , odiar re úne muito mais de se jo do
que amar ou pe rdoar. Talve z por isso me smo, se ndo amor,
Je sus de fine que não julga. Amor não julga. Como somos
humanos e o amor não che ga a se r todo o nosso se r, julgamos
muito, com praze r, todo dia, e stabe le ce ndo no julgame nto nossa
supe rioridade , pois só julgo me u infe rior moral, ou pe lo me nos
julgo para que algué m se torne me u infe rior moral.
O julgame nto e a punição acalmam. De ve se r o silê ncio,
e stranho e profundo que se se gue às muitas de scriçõe s que
te mos das e xe cuçõe s públicas. A multidão grita, apupa, joga
coisas. A cabe ça cai na guilhotina e o de lírio é absoluto. De pois,
e m silê ncio, re tiram-se para casa. Passou o crime , foi punido o
criminoso. Expiou-se o pe cado. Re stabe le ce u-se a orde m. O que
faze r? Ou te ntar ape dre jar que m pe rdoou ou achar outro
pe cador. Para sorte de todos os farise us, na te nda ao lado
have rá outra adúlte ra, outro sodomita, um pre varicador e um
novo ladrão. Que sorte ! Se m e le s se ríamos obrigados a pe nsar
e m nós me smos. A pe drada na adúlte ra e ra para nocaute ar
nossa consciê ncia. Graças a Je sus, de ssa ve z, a pe dra re tornou e
atingiu todos. Se jamos francos: o trabalho de um farise u nunca
te rmina. Francame nte , e sse Je sus é um e straga-praze re s!
Capítulo 7
~
Perdão grande e perdão pequeno, da Cruz às cruzes

O ERRO E O UNIVERS O

Qual é a importância prática do pe cado da adúlte ra do capítulo


ante rior? Absolutame nte ne nhuma. O e pisódio se de staca pe la
posição sobre o pe rdão, mas nunca pe lo adulté rio e m si. Diante
do cosmos, dos milhõe s de galáxias e bilhõe s de e stre las, diante
da ime nsidão do te mpo, o que re pre se nta uma conve nção social
chamada monogamia ou o de se jo de um home m e uma mulhe r?
Nada, absolutame nte nada. Para que m e ngana ou é e nganado,
claro, adulté rio é , e m algum mome nto, todo o unive rso. A traição
move paixõe s inde scritíve is e arrasta vidas e m um torve linho
de scontrolado. Mas, saia um pouco da ce na individual e obse rve
um adulté rio: que e le me nto da nature za fica alte rado? Nada,
absolutame nte nada. Nossos pe cados são irre le vante s quando
colocados na pe rspe ctiva da e te rnidade .
Posso pensar o mesmo de quase qualquer pecado ou erro.
Mas poderia pensar o mesmo de qualquer prazer. Colocados todos
os e lementos em uma balança, sejamos objetivos. O prazer de uma
escapadela no casamento (se eu pretendo mantê-lo), seus riscos à
paz da casa, eventuais riscos à minha vida e riscos ao meu
patrimônio e constrangimentos com filhos e com a família da pessoa
que foi traída; considerando tudo: vale mesmo a pena? Aque les
instantes fugazes, mesmo que intensos, diluídos ou amortizados
pelos riscos, compensam? Claro que estou querendo que as
pessoas sejam racionais e o impulso sexual ou prazer de pecar não
são, em última análise, uma decisão cartesiana. Mas reforço a
reflexão apenas para nos retirar do foco obsessivo que temos sobre
nós e nossos atos.
Voltemos para nossa adúltera. Poucos anos depois do
episódio, Jerusalém foi destruída pe los romanos; o segundo templo,
queimado; judeus, assassinados aos milhares; mulheres,
estupradas. A resistência heroica da fortaleza de Massada foi
vencida pe la engenhosidade militar romana. Seria correto pensar
que aque les fariseus, que antes se ocupavam do sexo alheio, agora
corriam desesperados para salvar algo mais precioso do que sua
moral? Mulheres que apoiavam a campanha de maridos re ligiosos
contra as adúlteras, esposas ze losas que tinha ficado fe lizes com a
possibilidade de a pecadora ser apedrejada, agora viam as filhas
serem estupradas por romanos violentos. Quem se lembraria de
uma adúltera jogada aos pés de Jesus anos antes? Acho que
ninguém.
Quase todos os nossos deslizes são de uma insignificância
atroz. Importantes para nós e para quem é atingido por e les. Mas,
na prática, fidelidade ou adultério arranham pouco a parede
milenar da História. Na cidade pecadora da Babilônia, mulheres se
entregavam, por dever re ligioso, à prostituição sagrada. Na pudica
Jerusalém, mulheres que pulavam a cerca eram apedrejadas. As
duas foram destruídas pe los inimigos. Moral parece ser
fundamental para os re ligiosos, mas é pouco expressiva como fator
histórico.

JES US E OS CHATOS
Jesus perdoou a adúltera. Não foi uma dificuldade enorme.
Não era Jesus o traído, nem era o traidor. Sua isenção divina era
reforçada pe la humana: e le não era parte envolvida. Jesus discutia
um princípio, não uma paixão.
Mas o pe rdão brilha mais quando nos atinge de ve rdade e
quando a que stão é mais re le vante . Por isso, se o pe rdão da
adúlte ra é uma e xce le nte história sobre a te ologia de pe rdoar, o
pe rdão da cruz é o ponto alto da sua prática.
Pre so na madrugada e ntre quinta e se xta-fe ira, chicote ado,
coroado de e spinhos, humilhado, e sbofe te ado, e xaminado por
ge nte muito chata como He rode s, Anás, Caifás e Pilatos (se rá
mais doloroso apanhar ou ouvir pe rguntas imbe cis como as de
Pilatos?), Je sus e stava se ndo muito castigado. Sob o sol claro de
uma primave ra e m Je rusalé m, carre gou sua cruz e ne la foi
pre gado. Foi torturado na fre nte da mãe e , ce rtame nte , isso
de ve ria doe r muito també m, pois via a dor nos olhos de Maria.
Atingido e m toda a e xte nsão de uma punição, física e moral;
e sticado há horas na cruz, te ndo se de e xtre ma e te ndo pre gos na
re gião altame nte se nsíve l dos ne rvos do pulso, Je sus che gou ao
mais fundo do sofrime nto. Le mbre mo-nos que , ao e ntrar ne ste
ciclo, e le já havia suado sangue e não dormido no Horto das
Olive iras naque la noite . Ao se u re dor, a dor aume ntada pe lo
sofrime nto dos poucos amigos ali pre se nte s e talve z aume ntada
pe la ausê ncia da maioria dos discípulos. Era o máximo do
máximo do que qualque r se r pode ria suportar.
Aque le home m na cruz pe rdoou aos que lhe impunham e ssa
dor. “Pai, pe rdoa-lhe s, e le s não sabe m o que faze m” (Lucas
23:34). Je sus tornava se u martírio um crime culposo, ou talve z
ne m tornasse um crime . O pe rdão brotava da cruz com mais
ê nfase do que aque le dado à pe cadora, com mais e moção, com
sangue na boca, mas e ra o pe rdão. Essa foi a supre ma coe rê ncia
da narrativa sobre Je sus. Pe rdoou quando e ra fácil e quando
ficou difícil.
Outro de talhe . Para mim ao me nos, se mpre foi fácil se r
compre e nsivo be m se ntado, aque cido, tranquilo e banhado.
Tomando um bom chá ou uma boa taça de vinho, ce rcado de
afe to e com boa saúde , o pe rdão brota dos me us lábios com
facilidade . Sou tranquilo, quando tranquilo. Poré m, no calor da
hora e da irritação, outro e u apare ce , ou se ria, de fato, me u
ve rdade iro e u? Por que digo isso? Porque o mome nto e m que
Je sus pe rdoou e ra de e xtre ma te nsão física e psicológica. Je sus
morre u gritando. Sim, Je sus de u um grito e xtre mo, de agonia, de
de se spe ro. Não foi uma morte tranquila. Quando e ntre ga se u
e spírito, Je sus grita. É uma morte dolorosa e se ntida, inte nsa e
no e xtre mo do possíve l. Ne sse mome nto, Je sus pe rdoou. Esse
pe rdão brilha ainda mais.

DORES ANTES DA GRANDE DOR

Vive r é acumular contrate mpos. Je sus nasce u e m um local


improvisado porque não havia lugar nos locais ade quados. Re cé m-
nascido, foi obrigado a fugir, inse guro e frágil, para o Egito, longe
da fúria de He rode s. Como se ria a vida de um carpinte iro
e strange iro no país que havia e scravizado aque le grupo sé culos
ante s? Como vive ria José , que e ra um he bre u, no país do qual
se us ance strais tinham fugido? Ce rtame nte não foi fácil. Pobre s,
e strange iros, pe rse guidos e se m dominar a língua local. O título
de Nossa Se nhora do De ste rro é uma forma bonita de de scre ve r
a situação angustiante de todo imigrante .
Ao voltare m, a vida e m Nazaré e ra pobre també m.
Nazare nos (me smo que Je sus, a rigor, não fosse ) não e ram be m
vistos pe los outros jude us. A re gião da Galile ia e ra discriminada.
De pois, a morte do pai de ve te r abalado a pe que na família.
Come ça a vida pública, suste nta a mãe , e scolhe discípulos, discute
todo dia com os farise us chatos. Je sus é pe rse guido por
multidõe s para que os tocasse . Le prosos, ce gos, surdos,
mulhe re s com sangrame ntos, pobre s, posse ssos, loucos: todos
que re ndo vê -lo, asse diá-lo, ouvi-lo, te r be ne fícios com se us
pode re s. E, de novo, farise us pe rguntando a cada cinco minutos
coisas difíce is. Andar por trê s anos a pé por uma te rra se ca,
dormindo e m qualque r lugar… Não é de e stranhar como Je sus
não re cusava uma fe sta, como na casa de Zaque u: e ra uma
chance de re composição de forças. E os farise us de novo, e
discípulos não e nte nde ndo nada, e mulhe re s de scontroladas
lavando se us pé s com os cabe los, e loucos, e le prosos e mais
farise us. As ce le bridade s falam de sse jogo ambíguo: é bom se r
famoso, mas cansa o assé dio. Cansa não te r intimidade . É bom
dar autógrafos, mas se ria bom ir a um re staurante e ape nas
come r. A fama cansa. A fama com poe ira e se m domicílio fixo
de ve cansar mais do que a fama e m hoté is cinco e stre las.
Poucas ve ze s, e m me io a milagre s tão e xtraordinários, as
pe ssoas de scre ve ram e sse cotidiano de sgastante , longo e
trabalhoso de Je sus. Vou dar um e xe mplo. Je sus falou quase o
dia todo e a multidão ouviu. Fe z um e norme e sforço didático ao
ar livre . Fe z a pre gação clara, mas falou se m microfone para
muita ge nte . Ao final, e m ve z de uma salva de palmas, e m ve z de
ire m e mbora e mocionadas e agrade cidas, as pe ssoas come çam a
re clamar de fome , e os discípulos també m se pre ocupam. Je sus
faz o milagre da multiplicação do pão. Transforma poucos pe ixe s
e m pãe s e alime ntos para milhare s mais de uma ve z. Me táfora
da futura e ucaristia, e spalha sua dádiva sobre muitos.
Talve z por e u se r profe ssor, e ssa ce na me toca muito: e le
acabou de dar a aula e ainda que re m que provide ncie a
me re nda? É muita pre ssão. É muito chato. Não te ríamos outra
e xpre ssão: as pe ssoas são chatas porque de mandam se m parar
e quanto mais re ce be m mais que re m. Que m se aproxima de
algué m famoso rarame nte le va e m conta outra coisa que sua
ansie dade , sua vontade de um autógrafo, sua foto tirada se m
muita ne ce ssidade de pe rmissão. É uma contradição
inte re ssante : busco o contato com o famoso porque e le é
famoso. Mas me smo se ndo meu o inte re sse na pe ssoa famosa,
não a le vo e m conta e m ne nhum minuto, ape nas que ro para
mim: minha foto, me u autógrafo, o te ste munho do que vivi. A
fama traz se u pe so.
Há um jogo ambíguo, já disse . É bom te r o e go acariciado
pe la pre se nça da multidão. Sou o ce ntro das ate nçõe s: o que e u
digo é importante . Poré m, ao final, o ciclo não se e nce rra.
Que re m mais, de mandam mais. O cantor de ve ficar muito
e mocionado com as palmas pe lo show. De ve gostar
me dianame nte do se u camarim lotado de pois do show. De ve
odiar se algué m quise r que e le continue e m casa com um show
privado. O proble ma da fama e do carisma é que os outros não
conhe ce m limite s no se u de se jo de absorve r, tomar, de glutir,
fagocitar o obje to do se u de se jo. E Je sus é famoso. Ele é muito
famoso. Ele criou a fama, agora que de ite na cama, ou na cruz…
Se ria por isso que Je sus tinha 72 discípulos, mas andava
mais de pe rto com doze e , com fre quê ncia, e scolhia ape nas trê s
para se re tirar? Se rá que é por isso que e le , ante cipando tantas
de mandas, come çou sua vida se re tirando por quare nta dias e m
um de se rto? Esse pe ríodo de isolame nto total, o único da sua
e xistê ncia, se ria le mbrado com carinho no futuro? Be m, o
de mônio o pe rturbou no de se rto. Quando não e ram os le prosos,
e ra o diabo!
Trago e ssa narrativa à tona para pe nsar nas pe que nas
cruze s e nos pe que nos pe rdõe s. O da cruz é o mais é pico de
todos os pe rdõe s. Mas, se foi grandioso e coe re nte , não de ve mos
diminuir o pe rdão cotidiano. O pe rdão das coisas pe que nas, das
marolas que de sgastam o píe r das re laçõe s. Esse pe rdão é
fundame ntal porque a maioria das pe ssoas não te rá de pe rdoar
um ge nocídio, um e stupro cole tivo, uma mortalidade de milhõe s.
Os pe cados é picos e grandiosos che garão pouco para a maioria
de nós.
Se i que e xage ro quando digo isto, mas talve z se ja mais fácil
e nfre ntar um cânce r do que ce nte nas de pe que nas dore s diárias.
Por quê ? O cânce r nos mobiliza. Uma doe nça grave provoca
re açõe s, e ve ntuais re de s de solidarie dade , busca de soluçõe s e ,
com sorte e mé todo, uma cura re de ntora. Mas há as gripe s
inte rmite nte s, as diarre ias, as dore s de de nte , as e nxaque cas, as
luxaçõe s, as cólicas, as insônias, a e spinha que brota
e sple ndorosa no dia do compromisso importante , o joane te , as
costas que pe sam, o olho que cansa.
Claro que , se algué m com uma doe nça grave tive sse de
e scolhe r e ntre se u tumor lancinante e de ze nas de cólicas, a
e scolha re cairia sobre a dor me nor. Mas não é uma figura
re tórica: e nfre ntar um grande mal mobiliza tudo de ntro de nós.
Diante do risco da morte , da ime nsa pe rda, da de vastação,
surge m e ne rgias inauditas. Diante das ce nte nas de pe que nas
dore s, a maior das e ne rgias se de sgasta. A dor é pica nos torna
um pouco he róis. A dor pe que na nos torna ape nas chatos.
As pe que nas dore s são como os pe que nos pe rdõe s.
Individualme nte são fáce is. Lógico que é mais árduo e sque ce r
uma traição amorosa do que a toalha molhada sobre a cama.
Colocados lado a lado, adulté rio e urina fora da privada não são
comparáve is. Mas há uma chance do se gundo e rro se r mais
fre que nte do que o prime iro. Os pe que nos e rros, diários,
re pe titivos, aque le s que são constante s e suave me nte irritante s. A
pe ssoa que fala de mais quando você che ga. O marido ou a
mulhe r que não e nte nde que você de se ja um pouco de paz e de
silê ncio. A pe ssoa que lhe de scre ve e m de talhe s longos uma
história de uma irre le vância abissal. Pior: inte rpre tam se u silê ncio
como ate nção conce ntrada, e não como e sforço para não gritar e
mandá-la calar a boca.
A grande traição amorosa chicote ia nossa consciê ncia.
Incomoda muito supor que m você ama e m outros braços e
me ntindo para você . É um soco forte e m e stômago de licado.
Mas… e as pe que nas traiçõe s cotidianas? Os ge stos bruscos? As
falas e ntre cortadas? Os murmúrios de de sdé m? As contradiçõe s
e m público? Nada pior do que e star com o cônjuge e m uma fe sta,
contar algo e se r de sme ntido e m público se m ce rimônia. Pior,
que m nos ouve dará cré dito ao de sme ntido porque , afinal, e le
dorme conosco e sabe muito de nós. É um praze r sádico e
e stranho que e xiste e m muitas re laçõe s. De baixo da ponte dos
amore s pode corre r um pode roso rio de re sse ntime ntos.
Não adianta. A grande cruz é impactante e , normalme nte ,
de spe rta solidarie dade . As pe que nas cruze s não causam o
me smo se ntime nto, e ningué m que r ouvir falar de las. São e las
que de mandam os pe que nos e constante s pe rdõe s.
Há pessoas especiais que não se irritam com coisas miúdas.
Admiro-as do fundo do meu coração. Elas não precisam distribuir o
perdão em doses homeopáticas porque já deram um perdão geral
ao mundo. São seres, realmente, especiais. Pertencem a uma
espécie distinta da minha. São sábias. São filhas menores e fe lizes
de Jó. Por que jogar lenha na fogue ira da dor de coisas tão
minúsculas?
É claro que é fácil pe rdoar apaixonado ou e m um mome nto
bom. Ne sse caso, ne m se trata de pe rdão. É, digamos, um
te mpe ro colorido da vida a dois. Vou narrar um caso, e m parte
autobiográfico. A chave da porta da fre nte , se virada, impe de que
outra pe ssoa use sua chave e e ntre na casa. Na prime ira ve z,
morando junto há pouco, sorrio e digo como funciona. “Não vire a
chave assim, amor, que e u não consigo e ntrar, ok?” Dou uma
piscade la de cumplicidade e um be ijo. Se ria muito ne urótico
brigar por um de slize tão pe que no e não inte ncional. No dia
se guinte , pe la se gunda ve z, o me smo proble ma. “Amor, você não
se le mbra do que e u disse onte m?” Sorrisos um pouco mais
amare los, pe didos de de sculpas, pe rdão fácil, mas 0,25% mais
difícil do que onte m. A re incidê ncia diminui a virgindade da boa
inte nção. Na te rce ira e quarta ve z não há mais sorrisos. E há a
quinta, quando você che ga louco para ir ao banhe iro, te m pouco
te mpo para sair de novo e … a porta não abre , porque a chave
e stá virada novame nte ; o me smo e rro, de novo, mais uma ve z.
Agora pare ce m várias coisas: “Se rá que não sou ouvido ou não
sou importante ?”; “Se rá que e xiste uma de ficiê ncia me ntal?”,
“Se rá que é uma mane ira de impe dir minha e ntrada súbita e m
casa para não ve r algo?”, “Se rá que e sta chave simboliza a não
e ntre ga e a pre se rvação de uma individualidade re siste nte ao
amor?” As pe rguntas malé volas, as ilaçõe s pé rfidas, tudo se
mistura e m um turbilhão a partir da simple s chave que não gira.
O leitor pode pegar um exemplo só seu. Eu ofereci um meu.
É real. Depois de uma briga forte (por algo tão besta), há uma
reconciliação, um pedido recíproco de desculpas, algum choro, uma
tentativa de se amar. Os amigos são depositários de uma
declaração dupla de cada um dos polos envolvidos: os amigos de
quem fica para fora ouvem e afirmam que ali está uma pessoa
difícil de conviver, pois não respe ita o direito constitucional de ir e
vir; não houve respe ito por seu pedido. Os amigos da parte que o
deixou para fora ouvem e garantem que ali está uma pessoa difícil
que por causa de algo tão insignificante briga diariamente. Cada
grupo de amigos do casal cumpre sua função que é intrigar a
relação e reforçar aquilo que já acreditamos antes de procurar o
conselho de les.
Bem, ficaria muito cansativo, mas houve uma milésima vez da
chave. E houve mais uma depois da milésima. Diante da inutilidade
das análises e dos choros e das brigas eu… troque i a fechadura por
um mode lo que não apresentasse esse problema.
O leitor já exclamou: “Claro, por que isso não foi feito antes?
Por que dar continuidade a uma questão tão pequena? Por que não
buscaram uma solução prática para isso?” A troca da fechadura
resolveu integralmente o obstáculo. Mas foi anotada em um canto
rancoroso do cérebro: tive de gastar dinheiro por culpa alheia. Ficou
anotado em um recanto úmido algo como: “Desta vez eu me movi
para resolver, na próxima eu quero que resolvam por mim.”
Perdoei e resolvi a chave, mas não perdoe i nem esqueci a diferença
entre nós. Não perdoe i a história das discussões sobre a chave.
Construí uma memória que funciona como uma ferida: pode
cicatrizar, mas a área está afetada para sempre. O “vaso partido”
com o qual iniciei meu livro volta ao foco. Foi uma fratura, foi
colada, está funcional de novo, mas acrescentou um grama ou uma
tonelada ao prato da balança permanente de todo casamento: será
que vale a pena?
Aí fica mais clara a posição que te nte i de fe nde r. Se o marido
te m de fe itos e struturais, como violê ncia inte nsa ou impulsos
homicidas; a mulhe r, normalme nte , não te m dúvidas de que de ve
sair corre ndo daque la re lação e m le gítima de fe sa. Na agre ssão
e norme , dire ta, a re ação fica mais clara. O ato e xtre mo le va a
uma maior clare za na re ação. Mas imagine a chave se re pe tindo,
a toalha molhada na cama, o ne rvosismo de le ou de la quando
dirige , a mania de convidar se m avisar, a incapacidade de dormir
um pouco mais no dia que você e stá e xausto(a), ou a incapacidade
de sair da cama e stando e m Paris e m um dia de sol lindo de
abril. Imagine isso ao longo de anos. Conse gue imaginar? Be m, se
você já foi ou é casado, conse gue .
Eu não posso che gar ao juiz e dize r: “Exce lê ncia, te nho de
se parar porque e la pre fe re se mpre vinho branco e isso é um
sinal claro de falta de conhe cime nto e nológico. Ou: e le se mpre
que r brindar, me smo com copo de re que ijão e água do filtro e
isso de squalifica o brinde nas ocasiõe s e spe ciais. Ou: as piadas
de la são infame s e se m graça. Ou: e le gosta de filme s idiotas.
Não é possíve l se se parar por isso, mas suponho que se jam e ssas
as grande s causas da se paração.
Suponho que a traição ve nha de pois de tudo o que ve io
ante s. O adulté rio se ria o ce nté simo e rro, de pois de 99 chave s
viradas e rradas. Volte mos à mulhe r adúlte ra narrada no capítulo
ante rior. O e vange lista não tomou a me dida jornalística de ouvir o
outro lado. Por que e la traiu o marido? Se rá porque e le e ra
muito chato me smo? Se rá que e le trancava a te nda por de ntro e
a de ixava para fora? Nunca sabe re mos.

O PERDÃO MAIS DIFÍCIL

Por fim, o pe rdão mais complicado, se m foco, o pe rdão


difuso e não acompanhado de raiva dire ta. O pe rdão é
complicado porque é aguado e fraco o mal que o origina. O
pe rdão insosso, insípido e inodoro: o pe rdão pe la chatice . A
chatice contamina até se u pe rdão. O pe rdão para os chatos
també m é chato. Mas a chatice é comple xa. Vamos a e la.
O conce ito de sse e rro (pe cado?) é difícil. Por e xe mplo, no
e pisódio da chave virada na porta, e ra chato que m dava a
instrução e não e ra ouvido ou que m virara a chave e não ouvia?
OU ambos se riam chatos? Ou, pior, a própria de scrição de sse
e pisódio já se ria chata e m si.
A prime ira de finição de chato é aquilo que te m supe rfície
plana. É o que que r dize r a palavra e m latim. Por me táfora, o
chato é plano, ou se ja, se m acide nte s, se m re e ntrâncias,
re pe titivo na forma, monótono. Se m brilho, uniforme , maçante ,
insiste nte : o chato e stá associado ao invariáve l. Um livro, um
filme , uma pe ssoa, uma e strada; aquilo que não nos surpre e nde ,
nada nos acre sce nta, não provoca surpre sas é , por de finição,
chato.
Mas vamos complicar e sse tipo. O chato é , alé m de
re pe titivo, falso. Por e xe mplo, nada mais chato do que algué m
que re pe te uma informação, uma atitude , uma mania ou um
ge sto. Mas o chato de fato é o que re pe te e ssa informação e e la
e stá e rrada ou re pre se nta um conhe cime nto que e le não
domina. Por e xe mplo, um e nólogo pode se r chato no te mpo que
le va para apre ciar a corre ta cor, o aroma, o corpo ou a lágrima
do vinho. Se e le discorre r horas sobre isso, pior ainda. Poré m, o
“e nochato” traz informaçõe s corre tas. Ele pode se r chato por
monopolizar a conve rsa ou por e xibir um conhe cime nto que não
atingimos. Poré m, o “e nochato” traz boas informaçõe s que e u,
se m a me sma chatice , posso até re produzir de pois. Mas há algo
pior: o “e nobobo”. O “e nobobo” faz o me smo que o “e nochato”,
mas não sabe o que diz. Olha o vinho contra a luz e ,
inde pe nde nte me nte da cor que pe rce be , tasca ao dogma: cor
rubi inte nsa. Gira a taça mais do que um carrosse l e aspira com
suavidade afe tada para afirmar: buquê inte nso, amade irado, com
inte nsa oxirre dução. Ele não sabe o que é oxirre dução e o vinho é
jove m de mais para te r tudo o que e le diz, mas o que pode de te r
um “e nobobo”? Enfre nte -o com uma informação contrária. Ele
dirá que já le u mais de ce m livros sobre o te ma, argume nto
pouco convince nte , já que as traças já come ram milhare s e não
são sábias ou cultas. As traças, após muitos livros, continuam
traças. Tole re chavõe s, porque e le s brotarão e m um fluxo de
clichê s. E após muito te mpo de ansie dade , e le dará o ve re dicto
ao impacie nte maître que aguarda: pode se rvir! Você o conhe ce ,
sabe que há pouco e le apre ciava vinho ale mão de garrafa azul
com o me smo e ntusiasmo que agora, re cé m-apre ndido o te xto,
só tole ra os borgonhas e nve lhe cidos. Você sabe que o horizonte
ge ográfico e cultural de le te rmina e m Boca Raton, mas e le
discorre sobre as vinícolas da Toscana e uma obscura cave ,
de sconhe cida de todos, e m Dijon, que e le visitou com um grupo
de e le itos. Esse se ria o chato pre te nsioso.
A prime ira raça de chatos é a dos re pe titivos. Por e xe mplo, o
chato que fala se mpre a me sma piada, que já não tinha graça da
prime ira ve z. Como é difícil forçar o riso para não tornar a
situação ainda pior. O re pe titivo da de sculpa també m é
insuportáve l. Se mpre a me sma para não faze r algo. O re pe titivo
da crítica, do me smo filme , da me sma e xpe riê ncia.
A se gunda raça é o já indicado pre te nsioso. Pode se r no
conhe cime nto, pode se r no uso da gramática. Já te ste munhe i
milhare s de ve ze s algué m criticar um pre side nte qualque r pe lo
mau uso da língua com frase s incorre tas. Ningué m é pe rfe ito no
uso da norma culta, mas alguns conse gue m ve r muita impe rfe ição
ape nas nos outros.
A te rce ira raça é o trágico mal-humorado. Se mpre anuncia
de sgraças. Se mpre re come nda que fujamos para as montanhas
com raçõe s e água. Se mpre traz conspiraçõe s que vão do le ite ao
Banco Ce ntral. Se mpre aume ntam as crise s. Se mpre le mbram o
pior de tudo. Nada é bom. Qualque r de poime nto sobre um bom
rote iro, um re staurante agradáve l, um livro inte re ssante : e le
re dargui com informaçõe s te rríve is. Nada pode se r bom ou che io
de praze r.
A quarta, é o chato concorre nte . Você te m nove nta mil
pontos na sua milhage m? Ele te m um milhão. Você já foi quatro
ve ze s ao Vie tnã? Ele foi onze . Você gastou duze ntos dólare s e m
um vinho e spe cial? Isso não é nada, onte m… Você te m dore s de
cabe ça forte s? Ele te m um tumor! Nada pode se r mais — às
ve ze s me lhor e às ve ze s pior — do que aquilo que e le possui. Até
a dor de sse chato é se mpre dificílima. Eve ntualme nte e le pode
se r dive rtido. Você conta que plantou duas árvore s e e le diz que
plantou a Amazônia inte ira. Você afirma que já le u A montanha
mágica e e le já le u toda a cordilhe ira. Enfim, você pode
surpre e ndê -lo dize ndo: já broxe i cinco ve ze s. Ele ficará te ntado a
dize r: e e u cinque nta! Mas te rá um minuto de he sitação. É o
mome nto dive rtido de ssa quarta raça.
Quinto unive rso da chatice : o cate quista. Pode se r algué m
que se gue home opatia, é budista, ou e vangé lico, ou ate u, ou
ve ge tariano, ou faz pilate s, ou fe z um curso de le itura dinâmica.
O chato cate qué tico faz se rmõe s e pre ga sua opção. Ele faz um
se rmão, de se nvolve a ide ia e continua te ntando conve nce r você .
Ele é unive rsal: pode e star na e xtre ma dire ita ou na e xtre ma
e sque rda, te r fé ou se r agnóstico: o importante para e le é
conve rte r as pe ssoas. E quando você não ague nta mais, e le
prome te livros, folhe tos, panfle tos para que você pe rce ba como a
posição de le é a me lhor possíve l. Ele acabou de le r um livro que
mudou a vida de le ? Ótimo. Pe rfe ito. Ele indica para você le r?
Maravilhoso, porque , afinal, é uma pre ocupação com você . Ele
cobra a cada se mana que você ainda não le u e insiste e volta ao
assunto toda ve z? Aqui come ça a cate que se . O chato cate quista
atorme nta, e ssa se ria a me lhor palavra. Ele não de siste . Não
adianta me ntir que le u o livro e gostou: e le sabatinará cada
conte údo para te r ce rte za da sua conve rsão. Por fim, quando
você acha que sobre vive u a tudo, e le indicará outro livro do
me smo autor, já que você gostou tanto do prime iro…
A se xta raça é a maior e mais comple xa. É um tipo de hybris,
de de se quilíbrio, de de sme dida. É a e xpre ssão gre ga para aquilo
que de tona uma tragé dia. Engloba todas as cate gorias ante riore s
e anuncia outras. É a pe ssoa que e xce de muito o padrão usual de
algo. Exe mplo: é bom lavar uma fruta ante s de come r. O chato
da de sme dida lava com e scova, de ixa de molho e m hipoclorito,
se ca com le nços e ste rilizados e … pre ga a você que faça o
me smo. É bom gostar das pe ssoas, abraçar que m se ama,
pre se nte ar como prova de afe to. O chato do de se quilíbrio afe tivo
abraça de mais, dá e xce sso de pre se nte s, manda e xce sso de
me nsage ns de afe to, diz que gosta de mais de você muito de mais.
É muito bom te r um hobbie, mas o chato hybris só fala disso.
Muito saudáve l se guir uma die ta e quilibrada: o chato é o que não
come se m sabe r o grau de acide z do aze ite de oliva e e xige o
ce rtificado gine cológico para sabe r se é e xtra-me ga-ultra-blaste r
virge m.
Essa raça pulula nas re de s sociais. São os que obrigam você
a sair de um grupo porque mandam me nsage ns por cada átomo
que se movime nte durante o dia. Tiram fotos e m e xce sso e
mandam todas para você . E se você insinua que isso é um
e xage ro, de sculpam-se e m e xce sso, mandam muitas e xplicaçõe s
e e ntulham se u computador com me nsage ns pe dindo de sculpas
por te re m mandado muitas me nsage ns. São e xce ssivame nte
afe tivos, e xce ssivame nte fofos, e xce ssivame nte que ridos e
e ducados. São e xce ssivame nte chatos.
A se xta raça inclui os que se gue m de forma e strita as re gras:
um de se quilíbrio da obse rvância. É muito bom se r bom motorista
e uma prova inte nsa de cidadania. O chato da se xta raça é o que
você de u carona e , ao sair, afirma: “Você e stá a 52 cm da guia
da calçada.” Mas isso não é um ze lo pe la chance de você le var
multa por me nos de uma pole gada ou cuidados com o e spaço
público. É só chatice me smo. Você se rviu um prato clássico e
mudou a re ce ita? Não e scapará aos ortodoxos da culinária. Ele s
não conse gue m dize r ape nas “pre firo de sta forma”, e le s
e xplicarão o motivo de se re m me lhore s e insistirão com você até
o fim dos te mpos.
O sé timo tipo são aque le s que , como e u, faze m listas dos
tipos de chatos. A e spe rança de sse tipo é , ao falar de chatos, não
se r conside rado chato. Have rá algo mais chato do que listas?
Be m, incluir-me no sé timo tipo foi modé stia e xtre ma: ide ntifico-
me como chato e m quase toda a tipologia ante rior. Salvo-me com
uma obse rvação final: todos te mos dire ito a um mome nto de
chatice diária ou se manal. Pode mos ESTAR chatos e m
de te rminado mome nto. De ve ríamos lutar para não SER. A chatice
de ve ria se r como um hote l vagabundo onde passamos quase por
acide nte . Nunca de ve ríamos faze r carre ira como concierge de le .
Mas o que faz e ste pe que no tratado de chatice ne ste livro?
Como e u dizia ante s, os grande s crime s é picos são
impre ssionante s e de mandam uma e scala de pe rdão gigante sca.
É o pe rdão da cruz, o pe rdão por uma grande causa para um
mal grandioso que pre cisa se r dado e m um mome nto de
dilace rante angústia. Esse é o te ma da paixão de Cristo nos
Evange lhos. Esse é o te ma de Crime e castigo, de Dostoié vski; do
Hamlet, de Shake spe are ; do Édipo rei, de Sófocle s; da Medeia, de
Eurípe de s. As mais altas e laboraçõe s me ntais da lite ratura e da
arte giram e m torno do crime , castigo, pe rdão ou vingança de
atos como e ste s: fratricídios, homicídios, de icídios, uxoricídios,
ge nocídios, re gicídios e outros. É a face é pica e grandiosa do mal.
Mas há os pe que nos de litos, os minúsculos incômodos, as
chatice s do dia a dia e o convívio com os chatos. Aqui as faltas são
mais le ve s, mas e xaspe rante s. Talve z o pe rdão se ja me nos
e laborado, mas há o sacrifício da re pe tição e de não mobilizar
toda a nossa e ne rgia.
Outra que stão: o arre pe ndime nto do e rro. Um re i que
mandou matar se u soldado para ficar com sua e sposa, como
Davi, pode se arre pe nde r e se r ace ito novame nte . Davi come te u
um crime , mas não é , e struturalme nte , um criminoso. Davi pode
se arre pe nde r e se voltar para o Be m. Mas um chato pode se
arre pe nde r de se r chato? Algué m chato pode se “de se nchate ar”?
Ve ja, todo se r humano te m mome ntos de chatice , de pe nde ndo
da fase ou do humor. Mas falo do chato e strutural. Ele pode
ficar, digamos, inte re ssante ?
Vamos a um filme para tornar tudo me nos chato. O dire tor
Yve s Robe rt (1920-2002) dirigiu, e m 1992 , um filme chamado Le
bal des casse-pieds. No Brasil, a fita ficou conhe cida como Este
mundo é dos chatos. Na obra, o dire tor aponta todos os tipos de
chatos. Em um jantar formal, há a chata que não cala a boca e
fala sobre os fiorde s da Norue ga e pe ga no braço do pobre
protagonista ao falar. Não se i o motivo, mas os chatos adoram
pe gar e m você quando e stão e mitindo suas chatice s. Surge o
chato do acide nte de trânsito, que assume postura le galista. Mas
há uma ce na ótima ao final e que de fine tudo. O casal se se nta
no avião, mas não conse gue ficar e m lugare s lado a lado. No
me io de le s há um home m, a propósito, um chato. Chatos voam
com fre quê ncia. A ae romoça indica ao home m chato que e le
pode se ntar-se e m outro lugar me lhor do que aque le , mas e le
pre fe re ficar ali, no me io do casal. Che ga a comida e o chato
re cusa. Não obstante , fica pe dindo pe daços do que che gou para
os jove ns ao se u lado. Já lhe aconte ce u isso que rido le itor,
que rida le itora? Sua companhia não que r sobre me sa ne m vinho,
mas fica pe gando do se u? Você pe rgunta: “Você não que r pe dir
para você ?” “Não obrigado, não como doce ”, e vai mais uma
garfada no se u. E mais um gole de sua be bida… Nova pe rgunta e
re sposta irritada: “Eu já disse , e u não be bo.”
Com e sse chato no avião, o narrador, e nfim, e nte nde que o
mundo é dos chatos, o mundo pe rte nce a e le s, que e le s são os
le gítimos proprie tários de ste plane ta e de todas as socie dade s.
Que m não é chato é uma e spé cie de convidado, um se r e xótico,
e xcê ntrico, que de ve te ntar não irritar de mais os nativos. Se ndo
um filme dos anos 1990, o autor não che gou a incluir uma
te ntativa de cance lar uma linha de ce lular. Daria um ime nso
quadro ne sse re corte . Ate ndime nto ao te le fone de uma grande
e mpre sa é a obra-prima da chatice , o ponto máximo que a
humanidade che gou após sé culos de te ntativas.
O pe rdão mais difícil é pe la chatice , e spe cialme nte quando o
chato é be m-inte ncionado. Mais ainda: quando o chato é um
pare nte ou um amigo. O cara lhe contou a piada porque de se ja
se r e ngraçado. Talve z que ira agradar. Ele gosta de você . Como
mandá-lo se calar? Outro discorre sobre a grande viage m da sua
vida há uma hora? Você sabe que e le e stá e ntusiasmado e que
foi importante para e le , mas não é tão importante para ningué m
no mundo. Há um limite para a ge ne rosidade humana.
É ne sse ponto e xato, nas pe que nas e grande s chatice s do
cotidiano, que o pe rdão de ve ria vir mais rapidame nte . Pode mos
pe nsar no se ntido e stoico: os chatos são fe itos da me sma
maté ria que e u sou fe ito, são me us irmãos, constitue m a
humanidade como e u. Mas o de safio é grande .
Se algué m for uma pe ssoa muito tomada de sse se ntime nto
de humanidade , pode ria de monstrar inte re sse por uma conve rsa
muito aborre cida. O que o irrita, le itor? A mim, que sou ansioso,
as histórias de talhadas de cotidiano: “Aí, né , e u e ntre i. Então,
quando e u e ntre i, e u já e stava de ntro da sala. Aí e u vi que e la
e stava lá. Eu tinha e ntrado e e stava me io e scuro e e u le ve i um
te mpo para e ntrar e me acostumar com a pouca luz. Ela me
olhou e e u fique i olhando, né ? Não me movi, porque e la e stava
me olhando, né ? Daí e u pe nse i, já que e u e ntre i, e u vou falar. Daí
e u fale i, né …” Não se i se a pe ssoa pe rce be . Mas a falta de be le za
na narrativa, a irre le vância do te ma, a re pe tição de palavras, a
falta de e xpre ssividade ao contar, a chatice do cotidiano: tudo
e ncontra e co no me u olhar, que grita se m dize r: “Pe lo amor de
De us, vá ao final de sta história imbe cil.” Be m, quase se mpre e u
consigo não dize r ou gritar isso. Mas me us olhos dize m. Costumo
olhar para o re lógio; ou para a porta, ou para a jane la pe nsando
e m saltar por e la. A narrativa fática e se m be le za me irrita. Que
tipo de conve rsa o irrita?
Se não grite i ne m me suicide i, se conse gui acompanhar a
história e balançar a cabe ça sorrindo de quando e m ve z, se
conse gui fingir inte re sse e fui até o fim, me smo assim, não
conse gui se r um e xce le nte se r humano. O olhar que lanço é de
conde sce ndê ncia. Conde sce ndê ncia implica ce rta supe rioridade ,
me smo ge ne rosa. É o olhar do pai e da mãe para a criança que
narra um aconte cime nto muito irre le vante como se de scre ve sse a
batalha de Wate rloo. Eu posso fingir acompanhar e te r inte re sse ,
mas finjo porque conside ro que e u te nha histórias mais le gais ou
proble mas maiore s. Logo, o prime iro ponto para pe rdoar a
chatice pe que na é para que se pe rdoe a minha vaidade de me
achar um não-chato. E, no frigir dos ovos, de vo le mbrar: se r
chato não é pe cado, se r vaidoso, é .
Não te m je ito. Se e u for re ligioso, de vo e nte nde r, como os
budistas dize m, que uma pe ssoa difícil ou chata e stá lá para
que imar me u carma e me te star. Se e u for um cristão pie doso,
de vo le mbrar que muito mais Je sus sofre u e que e sse s
contrate mpos são um te ste para nosso orgulho. Se e u tive r bom
trato psicanalítico, posso pe nsar que o ponto que me chate ia
re ve la muito de mim e mostra minha fragilidade . Algo pe que no só
se torna grande se for, e m algum se ntido, grande para mim.
Posso ape lar a e stoicos, à mística islâmica sufi, aos e xe rcícios
cabalísticos, às fugas de libe radas dos chatos. Posso tudo. Poré m,
e m algum mome nto, o chato vai me pe gar pe lo braço e e u
pre cisare i pe nsar muito firme me nte e m uma adaptação das
palavras de Je sus na cruz: “Pai, pe rdoa-lhe s, porque não sabe m
que são chatos.”
Capítulo 8
~
Novos pecados e novos perdões

UMA RODA EM UM MUS EU

No Muse u do Prado, e m Madri, re vi re ce nte me nte uma obra que


conhe ço há muito. Visitar uma obra-prima é como e ncontrar um
ve lho amigo com novidade s. Mude i e a obra pare ce te r novas
informaçõe s se mpre . A pe ça e m que stão é do pintor flame ngo
Hie ronymus Bosch (1450-1516), famoso por suas figuras
imaginativas (e até bizarras) que inspiraria os surre alistas no
sé culo XX. Em Madri, Bosch assume o bonito nome de El Bosco.
A obra e stá de itada e m uma vitrina e de ve se r vista de cima
pe lo visitante , como se obse rvasse uma me sa com tampo
trabalhado. Me dindo 120 cm × 150 cm é chamada Os sete pecados
capitais e as quatro últimas coisas. É prováve l que te nha sido pintada
por volta do ano do de scobrime nto do Brasil, 1500.
Em quatro círculos nos quatro cantos e stão as chamadas
últimas coisas. Na Te ologia Católica tradicional e las são: Morte ,
Julgame nto, Cé u e Infe rno. Em portuguê s, usamos mais a
e xpre ssão re tirada do livro Ecle siástico, novíssimos, ou
lite ralme nte , e m tradução mode rna: “Em todas as tuas obras
le mbra-te do te u fim e jamais pe carás” (Ecle siástico 7:40). Todos
morre re mos, todos se re mos julgados, todos e stare mos ou no
Cé u ou no Infe rno. Ape sar da cre nça católica sobre o Purgatório,
e le não consta aqui por não se r de finitivo. Ningué m ficará para
se mpre no Purgatório. Poré m, Morte , Julgame nto, Cé u e Infe rno
são irre ve rsíve is.
No círculo ce ntral, a ilustração sobre os se te pe cados já
tratados nos capítulos ante riore s. Sabe mos que ainda não havia
pre guiça, mas acé dia. Cada pe cado te m uma pe que na ce na na
qual é re pre se ntado na sua forma cotidiana. São e sque te s
domé sticos, facilme nte ide ntificáve is pe los obse rvadore s. No
círculo ce ntral, uma e spé cie de olho, de pupila e stilizada, de onde
e me rge a figura do Cristo re ssuscitado. Em latim, uma frase
forte : “Cave Cave Deus Videt”; e m tradução livre , “Cuidado, cuidado,
De us vê ”.
Acima e abaixo do grande círculo há uma citação latina de
dois ve rsículos do livro do De ute ronômio (32:28-29): “É ge nte que
pe rde u o juízo, a que m falta o conhe cime nto. Se fosse m sábios,
compre e nde riam e disce rniriam o que os e spe ra.”
Do ponto de vista artístico é uma obra muito importante ,
mas na me sma sala pe rde o foco das ate nçõe s para o Jardim das
Delícias, o impre ssionante tríptico. Do ponto de vista te ológico é
uma sínte se be m fe ita: pe cados, ce ntralização e m Cristo, de stino
final e uma conce pção, corre nte até pouco, de um De us vigilante
e julgador. Não importa quão se cre to se ja se u vício, De us vê ,
anota, obse rva. Ante s do Big Brothe r de Orwe ll o unive rso já e ra
pre e nchido por te le te las te ológicas.
Na ce na da morte há um anjo e um de mônio pe sando a
alma do de funto com se us atos bons e ruins. A mate mática de ssa
ope ração de ve ria apavorar muita ge nte . O me do se mpre foi um
e ste io moral importante para re unir o re banho. Os latinos diziam
que as moscas são mais atraídas pe lo me l do que pe lo vinagre ,
para dize r que os discursos bons são e ficaze s. A tradição católica
mais antiga pe nsava o contrário: as chamas do Infe rno assustam
mais do que se duze m harpas do Cé u. O me do da conde nação é
muito importante para se guir e sse mode lo de De us.
Pe rcorre mos os se te pe cados e se us e xe mplos, sua te ologia
e sua re pre se ntação. O quadro de Bosch sinte tiza grande parte
de sse caminho. Para o mundo urbano e laico, o mundo de tablets
e de ve locidade , tudo isso pode pare ce r um pre ciosismo do
passado, uma re líquia arque ológica, um pe nsame nto que
de monstra como é ramos mais primitivos. Gostaria de de monstrar
o contrário.
A parte da humanidade que e laborou a lista de pe cados e
suas puniçõe s é a humanidade que e xiste até hoje , com mais
apare lhos e mais te cnologia. Sob a pe le e xte rna das mudanças
rápidas, se mpre jaz um unive rso de continuidade s. A te ologia
moral católica me die val fala muito do mundo do sé culo XX. Na
ve rdade , se você notou be m, e ste foi grande parte do me u
e sforço nas páginas ante riore s: de monstrar que ve lhas me táforas
te ológicas falam de que stõe s muito atuais.

DE BOS CH AOS EMPREENDEDORES


Os pe cados são um contradiscurso. Significa que e xaltam,
com ve tor trocado, as virtude s. Assim, falar de virtude s é falar de
pe cados e vice -ve rsa. Quase todo discurso moral te m e sse jogo
duplo. Falo e , que re ndo ou não, construo o oposto do que digo.
Hoje trate i da virtude do e mpre e nde dorismo. Já a cite i ne ste
livro. O indivíduo proativo, che io de iniciativas inovadoras,
de safiador e de safiante , não de pe nde nte de zonas de conforto;
criador, e né rgico na condução dos se us propósitos: e ste é o novo
superman do mundo líquido. É louvado e m livros, biografado e m
mode los canônicos, alme jados pe los de partame ntos de RH das
grande s e mpre sas e vira case de e studos. A Idade Mé dia tinha
santos, nós te mos e mpre e nde dore s. Ele s guiam a um tipo de
Paraíso: o divino ou o suce sso finance iro e pe ssoal.
O e mpre e nde dor foge da caixa, pe nsa fora do círculo, cre sce
quando todos fracassam, lucra e m me io ao caos, transforma
obstáculos e m oportunidade s. O e mpre e nde dor é o farol da raça
e mostra para as pe ssoas o que e las ainda não imaginam
de se jare m. É muito citado o e xe mplo de Ste ve Jobs falando de
um dos criadore s da indústria automobilística mode rna, He nry
Ford: “Se e u pe rguntasse aos me us clie nte s o que de se javam,
e le s te riam dito cavalos mais ve loze s.” He nry Ford foi alé m e fe z
o automóve l e m sé rie ; Ste ve Jobs le vou adiante o proje to da
Apple . Em re sumo, as massas se que r sabe m o que de se jam e
cabe ao e mpre e nde dor mostrar aos andare s abaixo a ce noura
que de ve m pe rse guir na asce nsão. O ve rdade iro e mpre e nde dor
não é o que ate nde o público, mas o que o ante cipa e até dirige
gostos e ne ce ssidade s da massa.
Havia muitas biografias de santos na Idade Mé dia, e ram as
hagiografias. De scre viam e m de talhe s o que tinha ocorrido com
cada alma e m busca da pe rfe ição. As hagiografias e ram o
mate rial de MBA te ológico nos sé culos XII e XIII. Os santos
conse guiram e se guiram um caminho X. Cabe ria a mim, alma
fie l, se guir o me smo caminho. Na é poca mode rna, cre sce m os
mé todos de santidade . Tomás de Ke mpis, Te re sa d’Ávila, Inácio
de Loyola, Francisco de Sale s e tantos outros nome s criaram
grande s caminhos para o suce sso que , na é poca, e ra a santidade
e o Paraíso. També m havia propostas mais simple s, só para citar,
O Cura d’Ars (João Maria Vianne y) e Te re sa de Lisie ux. Eram
indicados para almas mais singe las, talve z, e m linguage m atual,
microe mpre sários. Os ante riore s e ram para e mpre e ndime ntos
colossais e mudança do mundo.
Os e mpre e nde dore s católicos clássicos de ram lugar aos
conte mporâne os. Sob a influê ncia católica romana, o mundo e ra
dividido e ntre os que iam para o Cé u e para o Infe rno, como
re pre se ntou Bosch. Sob influê ncia da nova Roma, os Estados
Unidos da Amé rica, o mundo e stá dividido e ntre winners e losers. O
novo Infe rno é o fracasso e conômico, a infe licidade pe ssoal, a
falta de forma física, o pe ssimismo, a acomodação. A falta de
fama, o de clínio do dinhe iro, e ngordar, se r abandonado, não
atingir cargos de lide rança e mpre sarial, todos são os castigos
te midos para os losers.
O e mpre e nde dorismo é uma virtude capital que se opõe a
um pe cado mortal conte mporâne o: a acomodação. Os
acomodados são os novos ade ptos da pre guiça antiga. O de fe ito
que o de mônio Be lfe gor produzia, foi substituído pe la falta de
mé todo, pe la falta de plano, de obje tivos. A Te ologia e a guia das
almas de ram orige m ao coaching, nosso novo confe ssor. Ve ja
be m le itor(a), não é uma crítica ne m à Te ologia e ne m ao
coaching; ape nas ide ntifico uma continuidade . Um guia e spiritual
do sé culo XVI, como Inácio, mandava a alma pie dosa e scre ve r
sua biografia e analisar quais as me tas que re alme nte vale m a
pe na e o se ntido da sua vida. O que Inácio chamou de Exe rcícios
Espirituais, hoje apare ce como orie ntação de coaching.
Vamos supor uma tarde na São Paulo colonial de 1750. A
cidade cre sce u com o ouro de scobe rto por paulistas e m Minas.
Já é uma dioce se e há mudanças por todo o lado. Na tarde de
uma se xta de Quare sma, um home m bom (se ria o me mbro da
e lite de e ntão) procura um pie doso be ne ditino para se confe ssar.
Conta que possui muitos e scravos ne gros e indíge nas, algo pe lo
qual o re ligioso não o conde na. Conta que ganhou dinhe iro com
tropas de mulas que e stabe le ce u na fe ira de Sorocaba e que
daria uma importante contribuição para a Igre ja. Por fim, conta
que , e m um mome nto de fraque za, dormiu com uma das
e scravas. O monge , sonole nto até e ntão, quase pula no
confe ssionário e conde na ve e me nte me nte o ato. Era um pe cado
e o arre pe ndido paulista de ve ria re zar um rosário inte iro e se
afastar da fonte da te ntação. De ve ria colocar na cabe ça que isso
não pode ria se re pe tir, que de ve ria le r tais e tais te xtos, faze r
uma pe re grinação, buscar as coisas do alto para que a morte
não o surpre e nde sse no pe cado. Era uma se ssão de
aconse lhame nto possíve l de ntro dos valore s da é poca. Nós
mudamos o móve l, o padre , os te mas. Mantive mos a vontade de
obte r ê xito de ntro de de te rminado siste ma de valore s. A função
do re ligioso e ra aproximar e xpe ctativas: a e spiritual indicada pe la
Igre ja e a te rre na se guida pe lo home m bom.
Talve z e xista uma mudança muito radical e ntre o santo
vitorioso moral no sé culo XIII e o e mpre e nde dor do XXI. O santo,
como no caso que narre i longame nte , Santo Antão, pode ria se
re tirar para uma cave rna, se m te ste munho algum. O santo
pode ria obte r vitória e m silê ncio e sozinho. A santidade pode ria
(ne m se mpre o foi) se r alcançada e m uma re lação solitária. O
De us que tudo vê , se gundo o ce ntro do círculo de Bosch, e ra a
única te ste munha. Me smo e m comunidade s, a santidade e ra um
fe nôme no muito inte rno, acompanhado por um conse lhe iro
e spiritual. No caso de Te re sa de Lisie ux (1873-1897), causava
e norme e spanto para as outras fre iras que e la mantive sse um
diário de prodígios e spirituais. Te re sinha pare cia, de longe e de
pe rto, uma jove m pouco chamativa, discre ta, absolutame nte
comum. Aque la jove m tube rculosa de 24 anos, que morre ria
poucos dias de pois, não pode ria se r santa para suas
companhe iras, e m 1897. Some nte se u confe ssor e De us
te ste munhavam as lutas inte rnas. Some nte a poste ridade viu ne la
valore s e a transformou e m doutora da Igre ja.
A santidade , ao contrário do e mpre e nde dorismo, pode ria
privile giar os pouco inte lige nte s. São João Maria Vianne y (1786-
1859) é o padroe iro de todos os vigários. Jove m muito e sforçado,
mas muito limitado inte le ctualme nte , foi de signado para um local
obscuro, Ars-sur-Formans, na re gião de Rhône -Alpe s, na França.
Era um se minarista e de pois um padre muito agradáve l e
de dicado, mas de capacidade me ntal re duzida. No se ntido
e stritame nte inte le ctual da palavra, Vianne y e ra burro, muito
burro. Não conse guia comparar conce itos, a me mória e ra fraca,
a inte rpre tação de te xtos, um de sastre , e o pode r de abstrair
quase nulo. Se fosse um conse lho de classe atual e m uma e scola,
e le se ria aprovado, pois e ra limitado, mas muito e sforçado. Ele
e ra o clássico “bonzinho”, que r dize r, burro e simpático.
O mode sto cura come çou se u trabalho no pe que no vilare jo
de Ars. Não e ra um São Be rnardo no púlpito, com me táforas
ince ndiárias e braços no ar. Havia apre ndido francê s na e scola
(falava um diale to provinciano e m casa) e nunca se tornou um
grande conhe ce dor da língua de Racine e Bossue t. Simple s,
simpático, se m de safiar ningué m, confe ssava o povo do local por
horas. De stacou-se por isso. Não falava de puniçõe s, mas do
carinho do Bon Dieu (Bom De us) para com todos.
Ne sse se rviço opaco e inte riorano de confe ssar pe ssoas
simple s, foi ficando conhe cido. Passava horas vivame nte
inte re ssado nas histórias narradas por se us paroquianos. Quando
morre u, tinha fama de santo. Canonizado pe lo papa Pio XI, e m
1925, tornou-se padroe iro de todos os vigários. Sua fe sta, 4 de
agosto, é o dia do padre . O corpo incorrupto do Cura d’Ars e stá
e m vitrina transpare nte e m uma basílica que brotou da sua ação.
A alde ia virou ce ntro de pe re grinação. A fé comporta e sse tipo de
vitória sile nciosa. A re ligião pode consagrar os limitados. O
e mpre e nde dorismo, não.
O e mpre e nde dor é inte lige nte , o santo pode se r burro no
campo inte le ctual. O e mpre e nde dor e xplode e m e ne rgia e ação:
o santo pode se r sile ncioso e tímido. Poré m, a grande dife re nça
e ntre as virtude s do mundo cristão e do capitalismo
conte mporâne o e stá e m outro campo. Talve z se ja o mais
importante . Só e xiste vitória no capitalismo conte mporâne o de
forma pública.
O e mpre e nde dor é horizontal, e não ve rtical. O santo mira
no alé m e acima. O e mpre e nde dor mira no mundo que vive ,
me smo que sonhe ve rticalme nte . Só há se ntido e m ve nce r se for
para se de stacar da multidão. Só é bom o carro de luxo se ne m
todo mundo pude r possuí-lo. O e mpre e nde dorismo não pode
conte mplar a todos, ao contrário da santidade . Se todos fore m
Ste ve Jobs, que m trabalhará no Vie tnã de madrugada faze ndo
smartphones ge niais e re volucionários? Que m pagaria o pre ço do
trabalho re pe titivo e mal re mune rado que pude sse se r a base
para que gê nios e mpre e nde dore s ficasse m milionários?
Suspe ito que a compe titividade de mode lo norte -ame ricano,
que se e spalha por ce rtas camadas do mundo, te m como grande
motor não e xatame nte o suce sso pe ssoal e
profissional/finance iro, mas o de staque sobre o fracasso alhe io.
A vitória do self-made man é a vitória sobre os que não se fize ram,
ou que se fize ram com base e m outros mode los. O
e mpre e nde dor é o santo que atingiu o Paraíso. O loser é o novo
pe cador por e xce lê ncia, conde nado ao Infe rno da me diocridade ,
do pouco dinhe iro e do não re conhe cime nto. Mas e mpre e nde dor
de suce sso e loser são face tas de pe nde nte s da me sma moe da,
como se mpre o foram De us e o diabo. Um siste ma implica o
outro, e xplica o outro, comple ta o outro.
O foco do e mpre e nde dor é ve r o que os outros não viram,
inve stir no campo que ningué m pe rce be u como se ndo de futuro,
aplicar e ne rgias e m áre as que a maioria não conse guiu ainda
captar. O e mpre e nde dor é , ante s de tudo, algué m que luta para
não se r tragado pe lo unive rso de pe rde dore s. O e mpre e nde dor
pre cisa se de stacar dos outros. Esse é se u vórtice , se u me do e
se u Infe rno. Difícil sabe r se e le mira acima para cre sce r ou mira
abaixo para e vitar. Este ndido na te nsão de ssa corda nie tzschiana
e ntre o nada e o alé m-do-home m, o e mpre e nde dor se e quilibra,
se contorce e dá suas pirue tas abismo abaixo. Ne m pre cisamos
dize r a que m e le que r impre ssionar: o povo do abismo abaixo, os
losers.
Ente ndam-me , pacie nte le itor e pacie nte le itora. Não fiz um
ataque ao e mpre e nde dorismo. Estou e scre ve ndo e ste livro e m
um computador que muito de vo a um de le s. Minha sala e stá
iluminada pe la inve nção de outro, mais antigo, que criou a
lâmpada. À minha fre nte há livros impre ssos que nasce ram de
ide ias na China e na Ale manha. De Gute nbe rg a Edison, de
Einste in a Jobs te mos muito a de ve r a me nte s inquie tas,
produtivas e brilhante s. Me u prime iro obje tivo foi comparar duas
te ologias; uma mística e re ligiosa e outra, laica. Mas també m
que ria, sim, criticar a ide ia de que a fe licidade acompanha o
e mpre e nde dorismo. Há uma ide ia dominante de que o mundo é
o mundo ve rdade iro ape nas para o e mpre e nde dor. E se Einste in
tive sse morrido como funcionário obscuro e m um de partame nto
de pate nte s na Suíça? E se Ste ve Jobs se guisse o impulso de se r
té cnico e m e le trônica e se guisse conse rtando te le visore s e m uma
mode sta oficina? Ambos não te riam a importância atual, ambos
não te riam re volucionado o mundo e ambos não te riam e sse
ime nso impacto nos sé culos XX e XXI. Mas te riam sido mais ou
me nos fe lize s? Te riam sido bons pais ou maridos, algo que e le s
ne m se mpre foram?
Para o historiador, há dois te mpos ve rbais proibidos: o futuro
do pre té rito e o futuro. Não posso nunca analisar o que te ria
ocorrido. Nunca dire i o que te ria aconte cido se … També m nunca
profe tizo, não posso fazê -lo. Não há ve rbo condicional e ne m
pre visão profé tica na minha áre a, ainda que se mpre se jam as
duas pe rguntas mais fe itas aos historiadore s. História só te m, e m
portuguê s, o pre té rito pe rfe ito.
Não posso dize r o que te ria ocorrido com qualque r pe ssoa.
Nunca te re i a e vidê ncia cie ntífica para comprovar a pre missa.
Ve jamos um e xe mplo. Joana d’Arc nasce u campone sa, mulhe r e
analfabe ta. A lógica natural do sé culo XV na França a te ria
transformado e m e sposa, mãe , pobre e agricultora. Por motivos
que me re ce riam outro livro, e la ouviu voze s, dirigiu-se ao De lfim,
ajudou a libe rtar parte da França do controle inglê s e acabou
que imada como bruxa, e m 1431. Sua vida saiu do e squadro
tradicional. Virou uma le nda e uma paladina do ide al francê s.
Virou símbolo fundame ntal na construção do imaginário nacional.
Transformou-se e m e státua. Era um e xe mplo militar e re ligioso
de convicção pe ssoal e xtre ma e , por que não dize r, de
e mpre e nde dorismo. Muitas ve ze s, ao ve r sua e státua dourada e m
Paris, pe rgunto-me (não como historiador) se e la, na cade ia ou na
fogue ira, fantasiou como e staria agora, com de ze nove anos, na
sua alde ia natal, já com vários filhos, ve ndo o fogo junto à lare ira.
Te ria se arre pe ndido? Pe nsaria e m dose s maiore s de chá de
camomila ao ouvir voze s (na ausê ncia de garde nal)? Por que trago
e ssa re fle xão à tona? Há um pre ço be m alto na lide rança, na
iniciativa, na ação de vanguarda. Achar que e le se mpre vale a
pe na é uma das grande s fantasias da nossa é poca.

NOVOS PECADOS PARA NOVAS VIRTUDES


Todos os siste mas te ológicos tinham se us he ré ticos e os que
ficavam inte irame nte de fora. Na Idade Mé dia e ram os he ré ticos,
como cátaros, e os de fora, como os islâmicos. Eram o outro
inte rno e e xte rno. No mundo do e mpre e nde dorismo, os
acomodados são os he ré ticos inte rnos; os fundame ntalistas de
outros paíse s são os de fora. Um dos grande s proble mas
conte mporâne os continua se ndo conve rte r todo o plane ta ao
me smo mode lo, grosso modo, o capitalismo libe ral. Para isso há
víde os, cursos, bolsas de e studo, inte rcâmbios. O inglê s é o latim
da nossa é poca e , como foi um dia o gre go no Me dite rrâne o,
uma porta para o mundo “ve rdade iro e iluminado”.
Um grande e sforço dos re ligiosos foi colocar De us e se u
controle de ntro do indivíduo. Um De us e xte rno e distante controla
pouco. A consciê ncia culpada, o e xame pe ssoal, o De us de ntro de
mim é uma coisa mais e ficaz. A roda de Bosch fala que De us
tudo vê . A onisciê ncia foi lida não como um atributo da divindade ,
mas como forma de controle . Uma ve z que o indivíduo carre gue o
próprio tribunal inte rno, as prisõe s ficam de sne ce ssárias.
Todos nós falamos mal da Inquisição ibé rica e italiana pe los
assassinatos, pe la pe rse guição, pe la re pre ssão a home ns como
Galile u, Giordano Bruno e tantos grupos como os cristãos novos.
Tudo isto é ve rdade . Mas há algo mais a dize r ne sse conte xto da
inte rnalização da re pre ssão. A Inquisição tornou a de lação uma
virtude , algo que as pe ssoas de ve riam faze r pe lo be m comum.
Claro, algumas fize ram por ve nalidade : de nunciaram o
concorre nte ou o que inve javam. Mas imagine -se que um grande
núme ro de de núncias ocorre u por causa da convicção inte rna do
de nunciador de que aque le se r he ré tico, judaizante ou sodomita
e ra, de fato, um risco ao todo. Le vá-lo ao tribunal não e ra uma
me squinharia, um de slize moral, mas um ge sto de bom caráte r.
Eu me aproximava de De us e do se u Re ino ao possibilitar a
tortura e pe rda de be ns de algué m assim. Esse siste ma també m
foi come ntado no nazismo ou no stalinismo: a vigilância social é
quase tão e ficaz como foi a Ge stapo.
A ide ia de e mpre e nde dor inte rnaliza no indivíduo a única
sorte pe lo se u de stino. É um pe cado me u. Se fracasse i, se não
conse gui progre dir, se não inove i, só e xiste um único culpado: e u
me smo. Isso se e spalha para todas as áre as: como e stá me u
corpo, como e stá minha família, como e stá me u inte le cto, tudo
de pe nde de mim e da minha ação, da minha proatividade .
Nisso os pe cados capitais andam ao lado das virtude s e dos
vícios mode rnos. A gula e ra um pe cado. Engordar e ra se u e fe ito,
mas o glutão tinha ouvido o de mônio e se e ntre gava ao e xce sso.
Hoje somos lipofóbicos. A gula é falta de e ducação alime ntar.
Corpo obe so é fruto de me nte se m vontade . Inte rnalizamos a
culpa absoluta e somos agora filhos e xclusivos da vontade . O
pe cador antigo ainda pode ria culpar o de mônio pe la te ntação. O
gordo do sé culo XXI não te m mais e ste paliativo.
A asce nsão da vontade individual é , grosso modo, um mé rito
da laicização iluminista e burgue sa. Viramos suje itos históricos. Eu
diria que a Cidade dos Home ns ve nce u a Cidade de De us. Não
somos mais um e spe lho de um plano e os de te rminismos
re ligiosos (e me smo os biológicos que che garam a e xistir)
diminuíram muito. Acre ditamos no home m se nhor da sua vontade
e que , ape sar das circunstâncias adve rsas, pode dize r para a vida
que rumo tomar.
Se r suje ito histórico é , a rigor, bom. Abandonar de stino,
carma, sina, maldição e tc. nos torna mais adultos, pe lo me nos.
Pe rde mos uma noção mágica e infantil que , me smo assim,
sobre vive na autoajuda. Esse ncialme nte , a autoajuda manté m a
carga infantil básica: pe nse e aconte ce rá, você diz e as coisas
surge m, sua cre nça muda as coisas.
Mas há algo de pe rve rso no novo pe nsame nto. Um pobre é
pobre e m um siste ma de castas indiano porque assim foi
de te rminado pe la roda das e ncarnaçõe s. Jó e mpobre ce na
Bíblia porque De us pe rmitiu que o de mônio fize sse isso. Um
pobre na África pode ria se r pobre no pe nsame nto racista do
sé culo XIX de vido à suposta infe rioridade racial que e le
apre se ntava. Em ce rtas re fle xõe s marxistas, a pobre za é
produzida por um siste ma comple xo de opre ssão que pre cisa
re duzir a maior parte da socie dade à pobre za. Nos quatro
casos, por incríve l que pare ça, a pobre za é e xte rna e ante rior
ao indivíduo. A rigor, e le não é re sponsáve l por isso. Posso se r
pobre porque De us quis, porque me u carma mandou, porque
me u DNA é ruim ou porque o siste ma capitalista me impe de
totalme nte de obte r qualque r dignidade mate rial. Mas, nos
quatro casos, não sou re sponsáve l por isso. Ao contrário, nos
casos de scritos, que m te m mais te m ce rta obrigação caritativa,
porque també m sua situação privile giada não é se u mé rito.
No mundo e mpre e nde dor, libe ral e conte mporâne o, a
pobre za passa a se r e xclusiva de uma opção pe ssoal e
intransfe ríve l. O fracasso pe rde qualque r aura de de stino e
passa a se r um ge sto de libe rado, e me u, de che gar ao fundo.
Eu sou inte irame nte re sponsáve l pe lo me u de stino e , assim,
ningué m pode se r acusado, ne m De us, ne m o capitalismo, ne m
me u sangue e ne m Brama ou Vishnu ou Shiva. É prováve l que
e ste jamos na pior é poca social para a pobre za, pe lo me nos
quanto à culpa. També m se ria possíve l supor que , e m muitos
lugare s, re sponde ndo a isso, os pobre s re inve nte m um novo
siste ma de culpabilização e xte rna. Agora, que m provocou e de ve
re solve r minha misé ria é o Estado. O re forço do ape lo
(e spe cialme nte no Brasil) ao Estado como um de us ex-machina
capaz de tudo pode ria se r visto, sob de te rminados e nfoque s,
como uma re ação ao re forço da culpa individual pe la situação.

UMA NOVA LEGIÃO PARA LÚ CIFER

O orgulho foi o prime iro pe cado, sabe mos e analisamos


quase de forma cansativa. Lúcife r se achou bonito e caiu. O
orgulho ge rou todos os outros male s.
Onde e stá o orgulho conte mporâne o? Vamos voltar um
pouco. Na socie dade oligárquica de nobre s e ple be us, no mundo
onde não havia claros canais de asce nsão social, um conde
se mpre se ria um conde , me smo que fracassasse mate rialme nte .
Sua posição e ra fixa e havia pouco de safio social.
Vive mos no mundo do capitalismo onde a posição do indivíduo
varia muito mais. O home m mais rico do Brasil pode que brar e m
que stão de me se s. Um come diante obscuro pode virar um
de putado fe de ral. Pe ssoas que tive ram orige m muito humilde
pode m asce nde r por me io do trabalho no me rcado ou pe la
política ou pe la carre ira artística. E, ciclo inte rmináve l, pode m
todos cair rapidame nte .
As barre iras mais claras que ainda pe rsistiam no passado
foram se ndo re tiradas. Viajar de avião, por e xe mplo, não é mais
apanágio da e lite . Viage ns para o e xte rior não se constitue m mais
e m algo muito e spe cial. A simpática aristocrata quatroce ntona
de scobre que sua faxine ira te m uma te le visão de te la plana maior
do que a sua, paga e m um carnê de hoje até a se gunda vinda de
Je sus. Tudo ficou mais plano, ainda que continue mos e m uma
socie dade de de siguais. O que mudou foram as fronte iras e a
ce rte za do passaporte de cada um. De re pe nte , vapt, algué m
pe de cidadania e m um país de re nda maior. Mais um minuto e ,
vupt, outro caiu. As pe sadas portas de bronze da socie dade
tradicional foram trocadas por práticas portas giratórias.
É e xatame nte ne ste unive rso que me u orgulho de ve cre sce r.
Como ningué m re conhe ce minha supe rioridade , como e la pode
se r tomada e como os e le me ntos de mocratizante s e igualitários,
como a simple s fila, me e xaspe ram, vivo atacando com a frase
e nigmática: “Você sabe com que m e stá falando?” Naturalme nte ,
como foi visto com o orgulho, quando e u pe rgunto isso é porque ,
obviame nte , se i que a pe ssoa não sabe . Se pre ciso pe rguntar, é
ce rto que o conhe cime nto a me u re spe ito é be m me nor do que
e u gostaria. Minha fama é tão fraca e me u rosto tão obscuro que
e u pre ciso re forçar com e sse ge sto autoritário. Esse é o orgulho
filho da infe rioridade .
Já toque i nesse ponto. Vivemos um momento no Ocidente no
qual somos estimulados ao orgulho e toleramos pouco a crítica.
Darei um exemplo. Era uma vitória uma nota média ou alta quando
eu era aluno. Hoje, quando atribuo oito a uma análise de um aluno,
ele me olha um pouco incomodado: por que não dez? O anse io de
brilhantismo universalizou-se mais rápido do que sua prática efetiva.
O ensino não piorou e nem os alunos estão menos capazes do que
outrora. Posso assegurar aos meus leitores: meus alunos são tão
inteligentes hoje como outros eram há trinta anos. A diferença não
está na inteligência ou na capacidade, mas na crença em si e no
orgulho. Menos do que o máximo é, hoje, um insulto. Acho pesado o
que vou dizer, mas pense i muito antes de escrever: somos uma
civilização de mimados. Ao ler essa frase você ficou irritado? Bem,
era exatamente isso o que eu queria demonstrar. Somos todos
mimados.

NOVAS GULAS

A gula é uma incompre e ndida. Quando tratamos de la,


pe rce be mos que e la é muito mais do que come r muito. Mas
vamos à e strutura das coisas. Come r muito é um e fe ito
se cundário de um ato ante rior. O ato que caracte riza a idolatria
da comida é pe nsar muito e constante me nte ne la.
A gula é uma forma de idolatria. Como já me ncionado,
substitui o Criador pe la criatura. Come r muito de strói o corpo e
a alma. Mas a gula atual apre se nta uma variação fascinante :
pe nsar e m comida, me dir suas calorias, avaliar se us ingre die nte s,
de bate r e xaustivame nte a té cnica culinária, e vitar gorduras trans,
fugir das frituras, ince ntivar os orgânicos — tudo isso aponta para
uma forma nova de gula.
Ime diatame nte me us de dicados le itore s pularão do local de
onde faze m a le itura e gritarão: “Mas é saudáve l procurar
alime ntos orgânicos.” Sim, e ince ntivo e ssa prática e , se mpre que
posso, sigo a alime ntação mais saudáve l possíve l. Não e stou
falando disso. Do ponto de vista re ligioso, come r de forma le ve e
e quilibrada é uma virtude . Eu falo do pe nsame nto obse ssivo que a
comida de spe rta hoje .
O longo código de ade quação alime ntar, kasher, foi criado a
partir da tradição bíblica para que tudo o que fosse inge rido
re me te sse a De us. Quando e u abato um boi se m sofrime nto,
quando e u re zo ante s da re fe ição, quando e u agrade ço após
come r e stou dize ndo que , já que e u pre ciso come r, que isso se ja
e m consonância com o divino.
O que ocorre hoje é um novo código kasher. Fazemos extensas
listas de coisas que pode ou não pode tendo em mira não o
Altíssimo, mas o baixíssimo ventre. Comer fibras, marinar, não
fritar, aze ite extra virgem, nada de carboidratos à noite, cuidado
com a lactose, evitar muita glicose, carne branca, atenção ao
ômega 3; somos mais ze losos com a comida do que um rabino
ortodoxo polonês do século XVII. Esta farinha é branca ou integral?
Este açúcar é refinado ou mascavo? A salsinha deste tempero é
orgânica? A água que lavou esta alface é esterilizada? Mais uma
vez: é muito bom cuidar da alimentação. Sempre que eu consigo
eu cuido. Aqui chamo atenção apenas para um novo tipo de gula,
que talvez seja até comer menos, mas pensar infinitamente mais
na comida do que os glutões que Dante encontrou no Inferno e no
Purgatório.
O glutão clássico que ria come r. O novo glutão que r come r (o
que for corre to ou bonito ou na moda) ou não come r (o que for
incorre to, fe io ou cafona). Multiplicam-se també m as
idiossincrasias infantis e adultas: e u não gosto de alho, e u só
como ce bola roxa, me u adoçante é só de sta marca, no me u chá
a água de ve e star a oite nta graus…. Se mpre e stranhe i as pe ssoas
com e ssa e spe cificidade de gosto absoluta que não pode m tocar
ou che irar um produto X mas se e le for fe ito da forma Y, amam.
Estranhas manias de alime ntação. Só e nte ndo e apoio que m não
gosta de coe ntro, porque é horríve l me smo; o re sto é tudo
fre scura.

OS NOVOS FARAÓ S

Ao assumir o trono do Egito, o faraó começava a construir sua


pirâmide. Era seu primeiro ato e consumiria todo o seu re inado. O
Egito era uma civilização fúnebre e, talvez, o povo que mais se
dedicou ao além da vida em toda a história humana.
Nós somos uma civilização com tanatofobia. Te mos me do da
morte . Evitamos e xe cuçõe s públicas, te mos horror a cadáve re s,
não visitamos muito ce mité rios. As cape las com ossos como as de
Évora, e m Portugal, provocam horror nos conte mporâne os. Não
ve lamos mais os mortos e m casa. Quase não falamos na morte .
Que m nos obse rvasse , pe nsaria que somos todos imortais.
Mas há um ponto em que, especialmente a classe média e
alta, ficamos similares aos egípcios. Somos fixados na preparação
do futuro. Previdências privadas, fundos de pensão, seguros de
saúde e de vida, antecipação de gastos possíve is, reservas etc.
Temos muita fixação no controle do futuro. Quanto mais a pessoa
trabalha e enve lhece, mais e la pensa nisso. Quem não pensa é
advertido pe los amigos: “Olha lá, um dia…”
É uma virtude atual e muito forte pre parar uma ve lhice
tranquila. Estamos vive ndo be m mais do que no passado e te mos
de le var isso e m conta. Mas isso anda de lado com um novo tipo
de avare za: a avare za da morte .
Se r avaro hoje para se r pródigo de pois. Inve rsão da parábola
do filho pródigo: gasto pouco agora, poupo bastante ne sse
mome nto que minha saúde e stá no auge para que , quando me u
corpo fraque jar, e u possa te r para gastar. Te m algo
e stranhame nte lógico ne ssa e quação. O lógico é que
pre cisare mos de re cursos no futuro, sim. O e stranho é a
te ntativa de controle de sse futuro e de uma avare za dirigida. Os
novos faraós não falam de morte ne m de vida no alé m, mas
cuidam muito do ve stíbulo da morte .
Pais se orgulham de te re m a faculdade do se u filho paga com
vinte anos de ante ce dê ncia. Não sabe m se o filho de se jará faze r
faculdade , mas, just in case… Os be ns são distribuídos com
usufruto ante s do fim da vida, para e vitar os pe sos da
transmissão da he rança. Em alguns casos, até o pre vide nte
re cursos do se guro fune rário é pago. Minha unive rsidade só
pe rmite que e u vá ao e xte rior se e u tive r uma ve rba pre vista no
se guro de re e nvio do corpo. Nós, os novos faraós, vive mos uma
avare za inve rtida. Jamais falamos ou pe nsamos na morte , mas
de cidimos ladrilhar o caminho para e la com as pe dras mais
brilhante s possíve is.

LA NAVE VA

Voltamo-nos para o que stioname nto do cristão Gilbe rt


K. Che ste rton. Afinal, e m que passamos a acre ditar quando
de ixamos de acre ditar e m De us? A re sposta não é muito
animadora.
Um mundo de vícios e virtude s se m me tafísica ou te ologia é
comple xo. Te nho de e ncontrar valore s para todos se m te r um
absoluto para me di-los.
Se ria uma te ntação e xplicativa lançar mão do ve re dicto:
siste mas totalizadore s e e xplicativos como a te ologia tradicional
foram se ndo substituídos por siste mas como a cre nça no suce sso,
o e mpre e nde dorismo e tc. Não é falso dize r isso, ape nas é
parcial.
Mas e u e nce rro e ste capítulo convidando você , pacie nte le itor
e pacie nte le itora, a um último giro me ntal ante s da sua pausa
para o banhe iro. Sou fascinado pe la obse rvação de um shopping
e m uma tarde de domingo. Sinto-me como o flâneur de As flores
do mal, do poe ta Baude laire . Que m não te m Paris, caça com
shopping me smo.
Há uma multidão, e spe cialme nte aqui e m São Paulo. Não
te mos praia a concorre r com o passe io me rcantil. Por falar e m
nature za, se chove r, a multidão se multiplica muito. É um
programa disputado e altame nte compe nsador, nada mais
e xplicaria algué m faze r uma longa fila e m um e stacioname nto
(pago!) e ficar rodando muito te mpo e m e spaços limitados para
achar sua vaguinha. Na falta de la, vale (com culpa me diana)
invadir a áre a re se rvada a outros portadore s de e spe cificidade s.
O casal, os amigos, a família inte ira, os solitários: todos sae m dos
carros com ale gria. A prime ira prova foi ve ncida.
Come ça um ritual que , obse rvado por um antropólogo
marciano, daria muitas te se s de doutorado nas unive rsidade s
daque le plane ta. O povo (chame mos assim, porque é mais
charmoso e político do que bando) come ça a andar pe los
corre dore s iluminados. A maioria não apre se nta um propósito,
ape nas anda, e para de quando e m ve z para ve r uma vitrina.
Obse rvam os pre ços, come ntam, de scobre m que o mundo fabril
trabalhou inte nsame nte e foi comple me ntado pe la arte da
propaganda para dispor tudo ao se u agrado.
De scubro ne ce ssidade s que e u não tinha ante s de sair de
casa. O tê nis te m um solado com um novo mate rial que e u, que
não sou atle ta, ne ce ssitare i para a carre ira e sportiva que e u não
te nho. Acre ditar naque le tê nis é como cre r no pode r da re líquia
de um osso de santo: só a fé pode re ve lar o que os olhos comuns
não pe rce be m.
Mais alguns me tros e voilá: um quiosque que ve nde capinhas
de ce lular. A imaginação kitsch, no capitalismo, só e ncontrou sua
forma artística no campo capinhas para ce lular. O conce ito de
cafona te m de se r alargado para conte r os novos mode los. Não
há ne nhuma funcionalidade , mas compro uma nova capinha.
Coloco-a, obse rvo, conte mplo com o ê xtase de um artista de
ícone bizantino. Eis minha nova capa de celular, pe nso orgulhoso.
Proble ma ne wtoniano: como fotografar o ce lular com a capa com
o ce lular? Algo para a nova ge ração de ce lulare s re solve r, talve z
no próximo domingo.
Caminho. Reflito que já estive naque le corredor. Ou não? Toca
o ce lular. Começo a falar andando, contando que estou falando
andando no shopping. Dou risadas. Olho mais vitrinas. Putz! Uma
nova capinha no andar de cima bem me lhor do que a minha. Agora
ficarei com esta, pe lo menos até semana que vem. Ando, falo e
olho. Descrevo para meu interlocutor o que se passa. Imagino que
ele esteja em outro shopping, andando e falando.
Pausa para comer. Tantas opções. Fico em dúvida, mas é uma
dúvida retórica: o bom da praça da alimentação é que tudo tem o
mesmo gosto. Isso facilita a escolha. É quase um milagre da
simplificação dos pães: tudo, absolutamente tudo, remete ao
mesmo gosto e textura e odor. Que era fe liz que vivemos: tantas
coisas para escolher e nenhuma necessidade de fazê-lo.
Talve z um filme . Já vi quase todos os lançame ntos. Talve z,
caso e xtre mo, e ntrar e m uma livraria. Olhar os livros do
mome nto. Folhe ar alguns. Le mbrar que há de z e m casa ainda
não lidos.
Continuo minha pe re grinação. Encontro conhe cidos. Toca o
ce lular mais quatro ve ze s, e e xplode ao infinito a pe rgunta mais
ge ográfica e filosófica já apre se ntada ao home m líquido: “Onde é
que você e stá?”
Já não passe i por e ste corre dor? Ah sim, a loja tal, le mbro-
me de sta ofe rta. O te mpo avança. Amanhã é dia de trabalhar.
Não posso gastar mais nada, e sta capinha já foi uma fortuna.
Ando mais um pouco e come nto vitrinas como quadros e m uma
e xposição. Ide ntifico e scolas, valore s de me rcado, idiossincrasias
dos artistas.
Já fiz a visita ao santo dos santos do mundo conte mporâne o.
Já e labore i minhas pre ce s. Já adquiri uma image m sagrada para
le var ao lar: minha capinha nova. Compartilhe i com outros fié is a
de voção cole tiva. Tome i uma comunhão naque la lanchone te .
Pe re grine i por infinitos corre dore s. Subi ao cé u, pe la e scada
rolante . De sci ao infe rno, a garage m. Me u carro, minha barca de
Caronte , e stá lá parado, intacto. Ufa. De voção fe ita, hora de
re tornar para Emaús. De z da noite , vai fe char: Ite, missa est. Somos
ou não somos a civilização mais re ligiosa que já e xistiu?
Capítulo 9
~
Orem os

Francamente, não sei se creio em Deus. Às vezes imagino que, no caso


de existir Deus, essa dúvida não o desgostaria. Na realidade, os elementos
que ele (ou Ele?) mesmo nos deu (raciocínio, sensibilidade, intuição) não
são em absoluto suficientes para nos garantir nem sua existência nem sua
não existência. Graças a um impulso do coração, posso acreditar em
Deus e acertar, ou não acreditar em deus e também acertar. E então?
Talvez Deus tenha uma face de crupiê e eu seja apenas um pobre diabo
que joga no vermelho quando dá preto, e vice-versa.
Mario Benedetti, A trégua

CORPO E ALMA

Um católico e stá ajoe lhado e re za. Um jude u fica de pé e re za.


Um islâmico coloca-se no chão para re zar. Um e vangé lico pre fe re
o ve rbo orar. Alguns jude us re ligiosos dançam quando e ntra a
Torá na sinagoga. Um grupo de fié is bate as mãos na cabe ça,
outro no pe ito. Há que m balance o corpo de forma ritmada. Há
que m assuma imobilidade total.
Algumas orações assumem a forma repetitiva e quase
hipnótica do mantra. Há orantes que e laboram uma espécie de
conversa mental na qual o re ligioso expõe de forma mais
sistemática o que deseja expressar. Dervixes rodopiam e entram
em transe na Turquia. Seguidores do Daime cantam, dançam e
tomam um chá com fortes efe itos sobre a percepção das coisas.
Por todo o plane ta, ne ste mome nto que você e stá le ndo,
milhare s ou milhõe s e stão e m alguma atitude de oração. Como
os ate us e agnósticos não apre se ntam, e m ge ral, rituais, as
oraçõe s individuais e cole tivas tornam os re ligiosos be m mais
visíve is. As re ligiõe s são, se m julgame nto de valor, mais te atrais do
que o ate ísmo.
A oração é um dos pilare s das re ligiõe s. É també m uma
se paração muito radical e ntre que m crê e que m não crê . Por
quê ? Uma pe ssoa que re za acre dita, profundame nte , no pode r
da oração. Mais: um orante se nte que e stá na pre se nça de algo
maior. Essa e xpe riê ncia não pode se r transmitida a que m não
crê . Que m não acre dita e m De us, um ate u, ou que m não imagina
que se possa ne gar ou afirmar a e xistê ncia de divindade s (um
agnóstico); não se nte e ssa pre se nça. Os cé ticos só pode m te r
ace sso à oração como algo e xte rno, só pode m ve r e analisar o
fie l na sua atitude e na sua fala. Se fosse um de sfile de Carnaval,
o ate u e o agnóstico e nte nde m a ale goria nas roupas e a dança,
mas não e nte nde o motivo da ale gria do sambista.

UM DIÁLOGO MATERIAL E TRANS CENDENTE

A oração conforta que m crê . Estabe le ce um e lo, um vínculo


com algo maior, que confe re se ntido a mim e ao me u mundo. A
oração inse re o fie l e m um siste ma que e le compartilha, ao
me nos, com De us. Na solidão do quarto, na ansie dade da
poltrona do avião que de cola, na sala de e spe ra do hospital onde
se u filho é subme tido a uma cirurgia, no pe rigo de uma trave ssia
solitária por uma e strada, no mome nto de uma dor aguda — e m
todos e sse s casos o orante não te m ou não pode te r ne nhuma
alte rnativa se não re zar. Re zar conforta. Traz a ide ia, re al para a
pe ssoa de fé , que e la e stá e m uma pre se nça que pode ouvir,
ajudar, inte rce de r, re solve r.
Se for um hábito antigo de infância, ao re pe tir a fórmula
(Pai-Nosso, She má de Israe l e tc.) você se cone cta com bons
mome ntos da infância, com sua história, com se u passado e com
os afe tos, e m ge ral ide alizados, de um mundo se guro que
passou. A oração, como todo hábito, pode re staurar a orde m ao
re criar o passado no qual fui fe liz. Te ndo passado, e u te nho
pre se nte , sou algué m, e stou ligado a um unive rso maior e mais
fe liz do que a mise ráve l solidão do se r.
As raíze s da oração e stão no passado, se u motor é uma
pe rce pção do pre se nte e se u proje to é de futuro. Re zo porque já
re ze i ante s e porque isso me conforta; o passado. Re zo porque
hoje que ro agrade ce r, pe dir, inte rce de r, confortar e confortar-
me ; e ste é o pre se nte . Re zo porque e spe ro um caminho bom
para trilhar à fre nte e um Cé u após isso; e ste é o futuro.
Se for cole tiva, a oração confe re força e ide ntidade . É muito
pode roso ouvir, e m uníssono, um grupo re zando uma fórmula
conhe cida de todos. Uma só voz, uma só alma e , ne ste mome nto,
o grupo me prote ge , sou uma cé lula e m um corpo, um e lé tron
minúsculo e m um átomo pode roso e minha insignificância
e ncontra e co e amparo e m um corpo vasto. Re zar e m conjunto é
muito forte e , por alguns instante s, a solidão humana fica diluída
e e sque ce mos que nossa consciê ncia é nossa prisão. A força da
tribo re ssurge e e u fico de spido da e xpe riê ncia angustiante de um
se r mode rno e sozinho.

REZANDO EM TRÊS LOCAIS

Imagine e star na pe re grinação a Me ca, dando voltas ao re dor


da sagrada Caaba, prática mile nar do Islã. Você e stará,
provave lme nte , usando branco. A multidão se pare ce
e ste ticame nte e cria unidade . Somos todos iguais, um dos pilare s
da fé islâmica. O be lo ve rso, e m nome de Alá, o Cle me nte , o
Mise ricordiador, congre ga todos. De us é maior, Alá Akbar, falam
milhare s de pe re grinos. Mais: naque le mome nto, na be líssima
me squita e m Me ca, olhando para o te mplo que o profe ta
purificou, passando pe lo me te oro ne gro que de porá no fim dos
te mpos falando de todos que ali passaram, e u não ape nas e stou
no Paraíso ante s da morte , mas e stou junto a mais de 1,4 bilhão
de islâmicos. A e xpe riê ncia é muito inte nsa e transformadora.
O muçulmano que fe z a pe re grinação (hajj) no último mê s do
cale ndário islâmico (a data corre ta) fe z, como diz a palavra hajj,
uma jornada, e isso o transformou. Ve stiu a roupa branca (ihram)
e se tornou igual diante de todos, de scalço, se m re lógio,
corre nte s ou pulse iras. Nada pe rmite distinguir sua classe social.
Diante de Alá a igualdade é absoluta, como se rá o ce mité rio
islâmico, se m ne nhum sinal de distinção no túmulo. Do Único
saímos e ao Único voltare mos. A oração do pe re grino o inte gra a
todos e ao Um.
Continue mos com nossa imaginação de fé . Sou um jude u
re ligioso que se aproxima do Muro do Se gundo Te mplo, e m
Je rusalé m. Ali e stão as e norme s pe dras que ce rcavam a áre a
sagrada. Pe rto e stá o Monte do Te mplo, e spaço sacratíssimo
onde ficava, nos te mpos de Salomão, a Arca da Aliança. Cubro a
cabe ça com quipá, coloco manto, amarro filacté rios, se param-se
home ns e mulhe re s e me aproximo, re ve re nte , do Kote l, o Muro
das Lame ntaçõe s.
Um bilhe te colocado ali, acre ditam os fié is, é um pode roso
pe dido dire to ao Criador. Um rabino me disse , uma ve z: “É uma
ligação a cobrar para o ce lular de Adonai, que ate nde todos.” Nos
vãos do Kote l e stão ce nte nas de bilhe tinhos, pé talas de de se jos
que alme jam alçar ao cé u. A e xpe riê ncia é única.
Prossigamos ne ste tour por locais sagrados. Um católico se
aproxima no nicho onde e stá a e státua de Nossa Se nhora da
Conce ição Apare cida. Ante s e le já te m uma história. Já pode te r
comprado um rosário, andado pe la sala dos ex-votos e lido e visto
a narrativa de milhare s de milagre s. Lá e stão diplomas
unive rsitários (doutorado inclusive ), mule tas, pane las de pre ssão
re torcidas que e xplodiram se m fe rir o dono, cabe ças de ce ra,
fotos de casas: graças que a Virge m lhe s alcançou. Mais: de sde a
infância de ve te r sido acompanhado, e m casa ou na paróquia,
pe las image ns da Virge m de Apare cida.
O fie l e ntra na fila e come ça a se aproximar. A e moção
aume nta. Alguns choram, olhos e le vados para o nicho onde a
Virge m usa um manto de azul inte nso e uma coroa radiosa. Suas
mãos e stão postas e m oração. Diante da image m é ine vitáve l: as
pe ssoas apre se ntam re açõe s e motivas que contagiam as outras.
Um pouco tribal, um pouco individual, um pouco catártico, um
pouco conscie nte . A mãe de De us e minha mãe me olha, more na
e cálida, e me ouve com a ate nção que só as mãe s pode m te r.
As trê s ce nas são re ais. Já acompanhe i as duas últimas. O
ace sso à Me ca e à Caaba é inte rditado a não islâmicos sob pe nas
grave s. Tirando curiosos, como Richard Burton, que arriscaram a
vida para te r e ssa e xpe riê ncia, só muçulmanos pode m faze r a
pe re grinação. Mas os locais pare ce m indicar se me lhanças e ntre
os fié is nos trê s lugare s.

TUDO É IGUAL?
Re zar, e m e spe cial e m um local conside rado sagrado, traduz
uma das mais antigas e forte s tradiçõe s da e spé cie humana. Se i
que um e spe cialista e m re ligiõe s fará uma crítica corre ta. A
palavra re ligião não pode se r aplicada a todas e ssas e xpe riê ncias
ao longo dos milhare s de anos da e spé cie humana. Mais: o fato
de um indivíduo e star e m oração no Kote l ou e m Apare cida não
torna ambos portadore s da me sma e xpe riê ncia. Essa é uma
crítica corre ta à chamada fe nome nologia: ao julgame nto de algo
e xte rno que aproxima situaçõe s que só e ncontram e sta
proximidade na minha cabe ça.
A crítica é corre ta. As pe dras de Stone he nge não foram
e dificadas com o me smo propósito do Kote l. Poré m, me smo
ace itando que a fe nome nologia se ja um proble ma, é pre ciso
re conhe ce r que , de muitas formas, por muitos caminhos, com
muitos e sforços distintos, e gípcios, jude us, árabe s e outros povos
compartilhavam uma cre nça ao faze re m suas construçõe s
sagradas: aque le s e ram locais e spe ciais onde suas oraçõe s
che gavam de forma mais dire ta ao mundo do alé m.
Acade micame nte , não pode mos analisar toda oração como
algo idê ntico. É corre to e nte nde r cada tipo de cre nça e m um
conte xto e spe cífico e irre pe tíve l, inse rida na História. Quando
ministro aulas sobre o te ma, critico a visão que aproxima o xamã
da Sibé ria do je suíta e spanhol e do rabino e m Nova York. São
coisas dife re nte s. Na prática, fora do rigor conce itual, quando um
católico se aproxima do Muro das Lame ntaçõe s, fica e mocionado,
porque algo ali, e m uma fé distinta da sua, o ligou a algo que e le
crê maior. Passe ar no Jardim Baha’i, e m Haifa, Israe l, e spaço
que a fé pe rsa fe z quase como um re fle xo do Paraíso, toca
re ligiosos de todas as orie ntaçõe s. A fe nome nologia que a
acade mia re je ita com boas razõe s é se ntida de muitas formas
pe lo fie l que não lê críticas acadê micas.
Na “casa do me u Pai há muitas moradas” (João 14:2) diz
Je sus no último e vange lho. Essa frase pode se r lida de muitas
formas. Para o re ligioso, provave lme nte , significa que posso e star
e m dive rsos locais, com dive rsas fé s, de dive rsos modos e que ,
sobre todos e tudo, e xistirá um Pai. Provave lme nte e sse é o
se ntime nto dominante dos re ligiosos.

POR DEUS E POR FREUD


Para aque le que não acre dita, a oração é uma ilusão, um
hábito, um e xe rcício de vazio para dar consolo e se gurança. Para
aque le que crê é uma comunicação dire ta e pode rosa com planos
supe riore s que traz a luz de De us para se u íntimo e ate nde ao
pe dido, à ação de graças, à pe nitê ncia e ao de se jo do fie l.
Para o não cre nte , a oração é um place bo, um substituto ao
ve rdade iro re mé dio. Cie ntificame nte , os place bos tê m e fe ito re al.
Se nada mais pude r se r dito sobre a pre ce , se r place bo já se ria
algo concre to. Place bos funcionam. É algo pare cido com o que diz
o filme de 2012, As aventuras de Pi. No filme , um indiano (Pi Pate l)
conta a se u amigo uma história trágica: um naufrágio. No navio
e stavam toda a sua família e uma cole ção de animais.
Sobre vive m, e m um bote , e le , um tigre , uma hie na, uma ze bra e
um orangotango. A longa de riva no mar, a te nsa convivê ncia com
os animais (e m e spe cial o tigre ) e as be líssimas paisage ns que e le s
e ncontram no oce ano são o e ixo narrativo.
Ao final (ate nção, spoiler à vista!), vamos e nte nde ndo que não
e ram animais, mas pe rsonage ns re ais, como um irritante
cozinhe iro e a mãe de Pi. O narrador diz a se u amigo, anos
de pois: nas duas histórias (a dos animais e a das pe ssoas re ais),
sua família morre , o naufrágio continua ocorre ndo, a tragé dia
pe rmane ce . Qual se ria a me lhor história? Há uma analogia:
acre ditar na ave ntura com animais se ria como acre ditar e m
De us, torna tudo me lhor, mais bonito e mais palatáve l. O
re sultado é o me smo: ate us e re ligiosos morre m. Qual o
conte údo mais útil para le var no nécessaire de sta viage m ine vitáve l?
Para o re ligioso é a fé .
Mas a conclusão de Pi tem algo de estranho para os re ligiosos.
Pelo menos para os sinceros, a crença em Deus não é um
recurso, um placebo, um paliativo para enfrentar algo mais duro.
É algo real que, por vezes, leva até a fazer coisas que tornam a
vida mais difícil. Claro que a fé é um conforto para o crente e a
oração, um e lo poderoso, mas a re ligião só nasce da fantasia ou
da ingenuidade na cabeça do crítico da re ligião. Ela também é
conforto, mas e la não é apenas conforto.
Conto e m sala uma história re al, que mostra um pouco de
tudo isso e da minha alma irônica ou de fe nsiva, se pre fe rire m.
Pe la prime ira ve z na vida, há alguns anos, vivi um pouso
inte rrompido por uma “arre me tida” no ae roporto de Congonhas.
O avião vai de sce ndo, toca o solo com o impacto usual e ,
se gundos de pois, e m ve z de fre ar, ace le ra bastante . Era o
ae roporto e a pista onde , tragicame nte , ocorre ra ante s um
acide nte te rríve l. No mome nto que a ae ronave te nta de colar
novame nte e subir, vive mos se gundos de te ste da força do
e sfíncte r anal de cada um.
Aparentemente, não tenho medo de morrer. Em situações de
perigo (já aterrissei de emergência no Senegal) vem uma tensão
aliada com curiosidade. O que será que vai acontecer? O que vem
depois? Mas minha racionalidade costuma ser forte e mantenho a
calma, mesmo testando a força do já referido músculo. Lembrei-
me que no filme de 2010, Chico Xavier, sobre o médium brasileiro,
há uma cena muito engraçada. O avião no qual ele viajava sofre
uma densa turbulência. O médium fica apavorado e começa a
gritar. Seu guia espiritual aparece no avião e lhe pede compostura
e dignidade, que afinal, sabe que todos temos nossa hora
determinada. Ele concorda e… continua a gritar apavorado: “Eu
não quero morrer!”
Voltamos ao me u voo. Em me io à te nsão da arre me tida,
continue i le ndo, ou te ntando, ou fingindo le r. Ao me u lado, uma
se nhora e le gante fazia inúme ros sinais da cruz. O ge sto, re pe tido
fre ne ticame nte , e ra a re sposta a um me do. Te ntava, por ce rto,
e vitar que ocorre sse o mal maior, ou, se ocorre sse , pre parava-se
para a trave ssia. Eu, firme no me u livro, prosse guia impávido, ou
quase .
Finalme nte , o avião atinge a altitude mais se gura e pare ce
e stabilizar. Se nte -se o alívio ge ral. “Não foi de sta ve z”, “Esta
passou pe rto”, e um e ntusiasmado grita “ale luia”. A se nhora ao
me u lado faz as últimas pe rsignaçõe s, fe cha os olhos e agrade ce
a prote ção de forma mais longa.
Aliviada, e nfim, conte mpla a mim, le ndo. Pe rgunta e ntão
e ntre o e spanto e a curiosidade : “O se nhor não re za?” Eu
re spondi: “A se nhora re zou bastante , imagino que a áre a mínima
de prote ção inclua minha poltrona també m.” Ela le vou um te mpo
para proce ssar a frase . Quando o fe z, pare cia contrariada.
Foram as únicas frase s que trocamos. Quando ate rrissamos de
novo, saí mais rápido do que e la. Nunca mais a vi. Não se i se e la
conta e ssa história da me sma mane ira que conto. Não se i se
pe rmane ço na me mória de la. Ela e a ce na, como quase tudo,
pe rmane ce m na minha le mbrança para se mpre .
Abstraia a minha frase . Pe nse na se nhora. Nada havia a
faze r. Ne nhuma atitude humana, prática, racional ou mate rial
de te ria o incide nte . Ela lançou mão da única coisa: faze r um
ge sto re ligioso. A oração funciona? Te nho ce rte za que , na maioria
dos acide nte s grave s da aviação, muitas pe ssoas fize ram um sinal
da cruz ou, ao me nos, gritaram “me u De us!”. E os aviõe s caíram.
Suponho, igualme nte , e m todos os hospitais do mundo, re ligiosos
de todos os cre dos fize ram pre ce s por e nte s que ridos que
agonizavam e e sse s pacie nte morre ram. Não é e statística, mas é
algo possíve l de imaginar: de cada ce m pacie nte s te rminais ou
casos grave s e irre ve rsíve is de doe nças, digamos que um ou dois
tive ram uma re cupe ração milagrosa, não e xplicáve l. Para a
maioria absoluta, o milagre não ocorre . Se fosse uma me dicação,
a pre ce se ria conside rada, mate maticame nte , ine ficaz. Mas
continua se ndo fe ita.
Pe nse e m todos os que re zam se manalme nte para que se u
jogo se ja sorte ado e m alguma lote ria. Qual se ria a proporção de
e ficácia ne sse caso? Já me disse ram que a chance de ganhar na
Me ga-se na com uma carte la é de mais de um e m cinque nta
milhõe s. Se ria corre to imaginar que muitos milhõe s jogaram. A
maioria pode te r re zado. Só um ganhou. O mais curioso: na
se mana se guinte , os pe rde dore s re zarão novame nte . A maioria
fará disso um ritual: jogar, re zar, pe rde r, jogar, re zar, pe rde r…
é fácil ao cé tico ironizar e ssa cre nça.

AFINAL, PARA QUÊ?


Um e m cinque nta milhõe s. Um re mé dio te ria sido
abandonado. Esse núme ro de rruba quase tudo. Não de rrubaria a
fé . Em prime ira instância, pe lo óbvio: a oração é uma e scolha,
por ve ze s final. Nada mais re sta. É a tábua e m um naufrágio. É
instintiva. Pe nse na me táfora: você e stá se afogando e passa um
pe daço pe que no de made ira. Você pode se r racional e dize r,
“minha massa corporal é e xce ssiva para o pode r de flutuação
de ste pe daço de made ira, logo é de sne ce ssário e u me agarrar a
e le , pois continuare i afundando.” Essa é a lógica. Esse é o dr.
Spock. Mas Spock não é humano, é vulcano. O humano se agarra
à tábua. O mé dium, humano, grita no avião, “e u não que ro
morre r!”. Uns disfarçam o me do le ndo, outros re zando. Todos
que re m gritar.
Uma oração é a tábua no instante do afogame nto. Suponha
de outra forma. Você e stá morre ndo e nve ne nado. Te ntou todos
os tratame ntos mais avançados da me dicina e todos os antídotos.
Nada. Há poucas horas de vida pe la fre nte . O fim, ine xoráve l, se
aproxima. A Inde se jada, como e ra chamada a morte na
lite ratura antiga, ou Cae tana, como é chamada até hoje no
Norde ste , ace na. Mostram a você um copo com um líquido azul.
Dize m: “Não se sabe o e fe ito, talve z cure , a maioria não foi
curada, há pouca chance , mas talve z funcione . A chance de cura
com e ste antídoto é de uma e m cinque nta milhõe s.” Você
re cusaria? “Be m, muito baixa a e statística para se r e ficaz”, você
diria. Acho que não. Você tomaria. Eu tomaria, ce rtame nte .
Se ria forte , mas insuficie nte , faze r e sta me táfora: a oração
é a tábua quando você e stá afundando ou o antídoto ince rto
pe rto da morte ce rta. A oração, para o cre nte , é be m mais.
Já ide ntifique i ante s algumas forças da pre ce : se ntime nto de
ide ntidade , volta a boas le mbranças da infância, dissolução e m
um grupo maior e até e fe ito place bo. Há mais uma, quase
psicologizante . A oração é um mome nto de parada, de tomada
de consciê ncia. Ela ocorre de forma que e u e nuncie o que se
passa. É o mome nto de e u dize r: “Estou de fato doe nte ” ou “Me u
filho pode morre r” ou “Eu posso pe rde r me us be ns.” Ela é uma
re fle xão sobre o que e stá ocorre ndo já que , para pe dir, e u te nho
de e nunciar o que me aflige . Funciona como um olhar dire to na
Me dusa paralisante , armado com o e scudo da fé . Curiosame nte ,
que m re za pe nsa, e toma consciê ncia, e e ncara o proble ma.
Para ate us, a oração é uma fuga. Ela pode se r. Mas pode se r se u
oposto: uma consciê ncia.
Mas a oração pode se r de agrade cime nto. Ne sse caso, a
consciê ncia també m e xiste . Eu tomo consciê ncia das graças
alcançadas e digo obrigado. Essa é a função do obrigado: e u
re conhe ço que re ce bi um be ne fício, um pre se nte .
A oração pode se r de e xpiação, de me ditação sobre o
pe cado, de dor pe lo e rro come tido. Mais do que nunca, e la se
torna um e xe rcício de consciê ncia. Pe que i; e rre i contra De us e
contra me u irmão; sinto-me mal pe lo que fiz, disse ou de ixe i da
faze r; te ntare i não faze r de novo. É um e xame de consciê ncia
com ince nso, psicanálise de joe lhos, e não no divã. O re sultado
de ssa consciê ncia é tão ince rto quanto a psicanálise , mas te m
uma pe que na vantage m: a pre ce é mais e conômica.

CAMADAS MAIS FUNDAS


Há um último de talhe . Fale i da oração comum, daque la que
a maioria faz. Por comum e nte nda-se , aqui, o nume ricame nte
dominante , não o pior. A oração mais comum é de pe tição, de
busca por algo que se de se ja obte r ou impe dir. També m cite i
outra, a de agrade cime nto e , por fim, a de e xpiação.
Existe uma oração e m camadas mais abaixo de ssas. É,
provave lme nte , me nos usual do que as ante riore s. É a oração de
conte mplação. Essa é a que mais e scapa aos cé ticos. Trata-se da
pre ce mais comple xa para de scre ve r. É a me nos pre visíve l ou
e xplicáve l.
O fie l não te m nada a pe dir. Se for um cristão, a cada Pai-
Nosso já fe z se te pe didos básicos e , o mais importante , “se ja fe ita
a Vossa vontade ”. O de voto já afirmou que a vontade de De us é
sobe rana e se mpre a me lhor. Te r fé , diria um muçulmano, é
subme te r-se a De us, pois os caminhos de De us são pe rfe itos. É o
e xe mplo que as trê s re ligiõe s ve ne ram: “Toma te u filho único,
Isaac, a que m tanto amas, dirige -te à te rra de Moriá e ofe re ce -o
ali e m holocausto sobre o monte que e u te indicar” (Gê ne sis
22:2). Abraão fe z. Subme te u-se . É o pai do tronco judaico e de
dois galhos frondosos de sse tronco: Cristianismo e Islamismo.
Abraão amou De us sobre todas as coisas e se subme te u.
Ensinam os místicos que De us não pre cisa da nossa oração. De us
não me lhora, não piora, não se nte falta quando não faze m ou
fe licidade e bom humor quando muitos praticam a comunicação
com Ele . De us é imutáve l para os monote ístas. Afirmava Agostinho
de Hipona: “De us não se rá maior se o re spe itas, mas tu se rás
maior se o se rvire s.”
O home m pre cisa da oração para inse rir-se na orde m da
criação e de scobrir-se criatura, frágil e se m pode r, mas amada.
A oração é um re conhe cime nto de fraque za, sim, mas uma
e ntre ga ao Amor maior. Por isso, dize m os re ligiosos, pre cisamos
da oração: para sabe r que nada somos, nada pode mos, mas
somos amados por que m tudo pode e tudo é .
O máximo de ssa e ntre ga é alcançado por poucos. É a oração
de conte mplação. É o mome nto de e star diante de De us, se m
pe didos, se m fórmulas, e m silê ncio, de olhos fe chados. Por que
falar se De us tudo sabe e tudo conhe ce ? Por que se de se spe rar
se tudo que ocorre r faz parte de um plano? Por que tantos por
quê s? Entre ga, confia, ace ita. Sile ncia, acima de tudo, sile ncia.
Como um be bê no re gaço da mãe , alime ntado e aque cido, como
o namorado de itado sobre as pe rnas da namorada, como a
e sposa abraçando o marido, como uma banhe ira que nte e
re laxante após um dia de trabalho pe sado — a alma se e ntre ga,
se m pe rguntas ou re spostas, ape nas se nte .
A oração de conte mplação acompanha místicos. Não
pe rte nce à infância da fé , mas a se u pe ríodo maduro. Se ria, e m
uma re lação a dois, aque le mome nto que você não pre cisa mais
falar muito: a intimidade criou um silê ncio e loque nte . Olhamos
para o se r amado e e nte nde mos. Re ce be mos o olhar de
re tribuição e sorrimos. É a comunicação que e stá alé m das
palavras. Impossíve l quantificar, de scre ve r ou avaliar. Ape nas é .
Assim De us se de finiu a Moisé s na sarça: “Eu sou aque le que sou”
(Êxodo 3:14). Se r que chama os se re s. Essa oração produz e sse
fe nôme no muito difícil de e scre ve r: sou junto a que m É, e xisto
com que m de fine o se r, sou com que m SOU. Estranho do ponto
de vista gramatical, sou com que m SOU, mas inte nso
te ologicame nte . O último de grau da oração é e sse .
~
Conclusões

Ama e faz o que quiseres. Se calares, calarás com amor; se gritares,


gritarás com amor; se corrigires, corrigirás com amor; se perdoares,
perdoarás com amor. Se tiveres o amor enraizado em ti, nenhuma coisa
senão o amor serão os teus frutos.
Santo Agostinho

Anuncie i, no come ço, que tinha re sistido a e ste livro. O


se ntime nto foi sumindo. Virou e ntusiasmo. O livro foi ge stado por
muitos me se s e e scrito e m poucas se manas. A prime ira ide ia
surgiu no isolame nto de um hote l no Butão. Estava sozinho e m
um quarto ime nso. No me io da Ásia, e u e stava se m ningué m ao
me u re dor falando a minha língua, e com pe ssoas que falavam
um inglê s, digamos, dife re nte do me u. No silê ncio abissal das
montanhas do Himalaia, olhe i o sol nasce ndo nos picos ne vados
ao longe . Fique i hipnotizado pe la ce na. A foto ficou pífia; a
me mória, não. Solidão, be le za, re fle xão, morna fe licidade de
e star diante do be lo. Se m ce lular e se m te le visão e , de novo, o
silê ncio ime nso, mais profundo do que jamais ouvira. E o sol na
ne ve , ao alto. Foi uma e pifania e sté tica.
O Butão te m lugare s paradisíacos. Eu e stava no ce ntro do
Jardim do Éde n. De se je i e scre ve r sobre como saímos dos
paraísos, sobre pe cado e sobre pe rdão. Ve ndo a be le za quase
pura, de se je i falar do pe cado. Por que de ixamos o local pe rfe ito?
O sábio te m se us de fe itos diante de si se mpre . Como não
sou sábio, te nho um olhar agudo para os de fe itos alhe ios. A
humanidade se ria maravilhosa se fosse como e u de liro se r. Minha
fantasia de pe rfe ição é jogada sobre os outros, mas e la me
poupa. Sou o farise u quase clássico. O livro foi um e sforço de
e xorcizar o farise u-juiz-pe que no-burguê s que se e ntranhou e m
mim a ponto de me de finir muitas ve ze s. Foi um e xorcismo.
Existe m te xtos de autoajuda. Este foi de autoe xorcismo.
Há dias nos quais e xulto comigo me smo: como consegui ser
equilibrado! Onte m, e xausto, com muita fome , te ndo acordado às
cinco da amanhã, saía de uma aula quase cambale ante . Uma
aluna de cidiu me faze r pe rguntas sobre o livro do Gê ne sis. O
e ntusiasmo e as dúvidas de la durariam até o livro do Apocalipse ,
mas me u corpo e stava me mandando gritar, ou e strangulá-la
le ntame nte . Das profunde zas surgiu força e re spondi, por de z
minutos, à dúvida de la sobre um tre cho javista. De spe di-me com
um sorriso. Ne sse s dias che go fe liz: conse gui supe rar o e u que
que ria gritar e ince ntivar o e u que se se nte orgulhoso e vaidoso
de ajudar, me smo cansado. O e u-orgulhoso-narcísico é o me smo.
Volto a Santo Antão: vaidade da virtude é sofisticada, mas
continua se ndo vaidade .
Há dias nos quais o sol do Butão sobre o topo ne vado ilumina
um canto do me u coração que , dize m algumas alunas muito
que ridas, é me io peludo (me táfora, cre io, para coração maldoso).
Quando faço algo muito bom, e las dize m que de pile i me u ce ntro
cardíaco. Quando brota um come ntário ácido, e las dize m que
cre sce ram os pe los de novo.
Há dias bons e dias e m que o coração pe ludo concorre com
Rapunze l. Há ce nas de grosse ria que faço que assustam até a
mim. Um dia, no trânsito, discuti com uma jove m. Ela me disse :
“Eu te nho me do do se nhor.” Re spondi: “Eu també m.” São os dias
que não consigo e ncarar me u rosto no e spe lho, pois tal como a
Górgona, pe trifico. Te nho me do de mim com fre quê ncia. Não se
trata de e squizofre nia ou, pe lo me nos, não de um caso mais
grave de e squizofre nia. Pre ciso se r sábio. Ne ce ssito disso. Pre ciso
que a vaidade da virtude domine as outras vaidade s e , me ta ainda
mais utópica, de ixar de lado todas as vaidade s.
Se r sábio é como usar a me todologia dos Alcoólatras
Anônimos: de cido não be be r só por hoje , já que não be be r nunca
mais é muito difícil. De cido se r sábio só hoje . Vinte e quatro
horas é um prazo e xe quíve l. A vida toda é de mais. Eu de cido que
só hoje te ntare i não se r vaidoso, guloso, avare nto, luxurioso,
irado, pre guiçoso e inve joso. Há manhãs de vitória, tarde s de
ime nsa de rrota e dias de e mpate té cnico. Já pe rce bi que sou
mais virtuoso nas prime iras horas da manhã e vou piorando…
A grande virtude de combate aos nossos traços que
conside ramos ne gativos é a constância da e spe rança. É uma luta
pe la insistê ncia pe rmane nte . A pe le ja diária e forte , e a de rrota
quase ce rta, de sanimam. Te m de re come çar. Isso pode se r vivido
no calor da fé ou no mais comple to ate ísmo. Um se r humano
ate u e um re ligioso variam e m várias coisas, mas ambos são
humanos e , por força da nature za, do de stino, do carma ou da
pre se nça de carbono e m nós, falhamos.
No início de ste livro, ao tratar do te ma pe rdão, fale i de um
incide nte com uma amiga. Se nti-me traído por um ato. Magoe i-
me ao e xtre mo. Se nti o sangue e a bílis ne gra, a raiva e a
me lancolia que se e xpe rime nta ne sse s casos. Passaram-se alguns
anos. Conve rsamos algumas ve ze s. O vaso da re lação foi colado.
Cada um se guiu se u rumo. A vida urbana e social nos absorve u.
Novos afe tos e re de s de cumplicidade foram formados. O
fantasma do que ocorre u continuou pairando toda ve z que ,
voltando de carro de algum lugar, e u cruzava a rua de la. Minha
boa me mória é ruim ne ste s casos: e la re produz diálogos
vivame nte , traz à luz do hoje rostos de coisas ocorridas muito
ante s.
Ministre i várias pale stras sobre pe rdão. A re fle xão ajudou a
pre parar e ste livro. Ne sse me io te mpo, morre u me u pai. A
e xpe riê ncia da morte de que m se ama muito é impactante , como
vários dos me us le itore s sabe m be m. O mundo muda de lugar.
Pe rde r pai ou mãe provoca um súbito e nve lhe cime nto. Pe nsamos
nos valore s das coisas e como pe rde mos te mpo com o que é
se cundário. No se gundo anive rsário da morte de le , e scre vi uma
carta:

]
Há algo na morte que eu jamais experimentara. Está
na expressão do poema de Edgar Allan Poe: nunca mais.
Nunca mais o vere i, nunca mais falarei com e le, nunca
mais o abraçare i no dia conjunto do nosso aniversário.
Nunca mais, como grasna o corvo do poema. Nunca
mais. Nunca outra vez ver. Apenas lembrar e tecer
memórias, como em num inventário infinito; até o dia
que esta mortalha também me cubra e eu me torne
uma sombra apenas. Virei tecelão de fios e rastros
tênues. Cultivo o tempo passado do meu pai até que
meu próprio se esgote. Passaram-se dois anos.
[
Volto ao caso da minha amiga. A vida prosse gue , a morte ao
nosso re dor nos le mbra se mpre da bre vidade de tudo. Esse
se ntime nto faz surgir cé ticos e místicos. Já passe i pe las duas
e xpe riê ncias. A mágoa é de sgastada pe lo te mpo. O orgulho
pe rmane ce be m mais.
Talve z e xista um de grau acima da possibilidade do pe rdão. O
pe rdão, re pe ti ao longo do livro, te m algo de vaidoso, na me dida
e m que e stabe le ce uma parte corre ta (a que pe rdoa) e outra,
e rrada (a que ne ce ssita do pe rdão). O pe rdoador, o
mise ricordiador, é um juiz que pode de cidir. Ele funciona com o
pode r e a e mpáfia do clie nte que dá ou não gorje ta ao garçom. O
e mpre gado não pode pe dir a gorje ta. Ele anse ia por e la, mas não
pode re clamá-la. Fica ali de pé , olhando, e spe rando, e m uma
te rríve l e assimé trica re lação de pode r. Talve z e le ame quando o
clie nte é ge ne roso, talve z até e le não me re ça algo a mais porque
o se rviço foi ruim, talve z e le se ja muito bom — nada disso
importa, que m de cide é o clie nte .
O que pe rdoa é clie nte , dono da ve rba e da de cisão. Talve z
aqui e ste ja o proble ma: de cidir pe rdoar ou não te m como base ,
e m última instância, quanto do me u orgulho foi fe rido. “Como foi
possíve l faze r isso comigo?” O ce ntro da que stão é a palavra
comigo.
Dive rge m os te ólogos se e xiste chance de De us pe rdoar a
traição do de mônio um dia. Alguns insiste m na re de nção final de
todos os se re s, inclusive os de caídos. Claro que o de mônio
de ve ria e star arre pe ndido. Só e xistiria pe rdão divino ne sse caso.
Mas o que os te ólogos discute m pouco é se Lúcife r conse guiria
pe rdoar De us. Te r sido amado talve z se ja mais impe rdoáve l do
que te r sido magoado. Com o amor dado, transforme i-me ,
cre sci, fui nutrido. Isso cria um hiato ainda maior do que a
ofe nsa.
Todo o futuro dos pe rdõe s que você e e u, que rido le itor e
que rida le itora, te re mos de dar ou re ce be r, de pe nde do orgulho.
“Ama e faz o que quise re s”, diz a e pígrafe do bispo de Hipona
ne ste capítulo. A barre ira do orgulho é a mais e ficaz contra o
amor.
Aque le s que sofre ram bullying na e scola sofre m muito. Um
dia, talve z, pre cise m pe rdoar se us agre ssore s, ou, ao me nos,
passar muitas horas discutindo isso com um analista. Pouco se
discute o fardo do agre ssor, o que promove u ou lide rou o assé dio
físico, e mocional ou ve rbal. O bullyer pre cisa agre dir pe la dor que
se nte consigo, para e liminar naque le que acha fraco a própria
fraque za. O custo da vítima é altíssimo, mas a re de comple xa de
dore s inclui o agre ssor. As fe ministas diziam, há quase cinque nta
anos, que o movime nto e ra també m para libe rtar o home m do
machismo, não ape nas a mulhe r. O home m se obrigava a coisas
e a um código que e ra custoso a e le també m, tal como e ra
viole nto para as mulhe re s. O agre ssor e o agre dido sofre m na
maioria dos casos, ainda que , claro, o custo físico ou psicológico é
se mpre e norme para a vítima.
Che gamos próximo ao fim da nossa viage m ao longo do
conce ito de pe cado e de pe rdão. Pe rdoar é muito inte re ssante ,
mas a de cisão se há ou não o pe rdão é um ge sto de vaidade .
Encaste lar-se na virtude (muitas ve ze s apare nte ) mascara o jogo.
É a dialé tica do se nhor e do e scravo de He ge l: um é re fé m da
e scravidão, outro é re fé m da situação de te r de controlar o
e scravo. Tanto o carce re iro quanto o ape nado e stão na prisão. O
me do pre side a ambos. A grade se para duas angústias
imbricadas.
Se r sábio é livrar-se ou lutar contra o me do. Pe rdoar não é
dize r, “e u sou me lhor”, mas afirmar que també m é humano. Por
não se r me lhor é que posso dar o pe rdão. Por achar que , e m
circunstâncias similare s, posso faze r o me smo ou pior, e u
abomino aque le ato, mas dou me u pe rdão. Não dou porque sou
ge ne roso, mas porque não sou ge ne roso, porque sou ruim,
porque també m fui e xpulso do Éde n. Então, puf, e vaporou-se
mais um pe daço do pe que no moralista de ntro de nós.
Se r sábio é que re r me lhorar. Se r me lhor talve z já se ja
pre te nsioso. Então, pe ço pe rdão aos me us le itore s e a minhas
le itoras pe la e xte nsão da jornada. Pe ço pe rdão aos que ofe ndi ao
longo de toda a minha vida, e spe cialme nte como profe ssor. Pe ço
pe rdão pe lo me u olhar duro, pe la palavra te rríve l, pe lo gê nio de
cão. Pe ço pe rdão a uma amiga que pe diu me u pe rdão, pois e u
ajude i a criar uma situação que me e ncaste lou na virtude .
Sim, o poe ta tinha razão, um vaso colado talve z nunca mais
possa te r flore s com água. Um vaso partido e stá partido e pe rde
sua função original. Então, se m água, e le possa guardar
chocolate s, ou te xtos, ou fotos, ou faze r e co para novos risos. O
substantivo é vaso. Partido é adje tivo. O e sse ncial se manté m.
Que ro muito isso. Obrigado por te re m che gado até aqui. Pe rdão
pe los me us de fe itos e , acima de tudo, pe ço pe rdão pe las virtude s
que imagino te r.
Que todos pe rdoe m os atrasados, os inse guros, os que
trope çam na língua portugue sa, os fofoque iros, os pre guiçosos.
Mas, acima de tudo, que todos pe rdoe m muito os pontuais, os de
fala se gura, os de portuguê s pe rfe ito, os le ais e os dilige nte s.
Esse s també m ne ce ssitam muito do amparo de todos. E que
ningué m caia sob o pe so dos se us pe cados ou das suas virtude s.
~
Algum as indicações para m ais ideias

Ao longo do livro, utilize i citaçõe s da Bíblia. Opte i pe la re ce nte


tradução da CNBB, se gunda e dição. Te m uma linguage m boa,
mas não alte raria muita coisa se e u tive sse utilizado a tradução
de São Je rônimo, a de João Fe rre ira de Alme ida (que algumas
ve ze s foi utilizada para me lhor compre e nsão) ou a Bíblia do Re i
Jame s. Me u obje tivo não e ra a e rudição bíblica, mas a ide ia
contida no te xto. Espe ro te r de monstrado uma coisa na qual
acre dito: a Bíblia é uma re fe rê ncia cultural, me smo que o le itor
não te nha o me nor traço de fé . A Lite ratura, a Arte e a
Psicanálise ocide ntais ancoram-se e m narrativas da mitologia e da
Bíblia.
Como vive mos e m um mundo de image ns, també m vou
re come ndar alguns filme s. Ele s ajudarão a aprofundar te mas e
de spe rtar novas pe rguntas. É uma lista subje tiva que pode se r
aume ntada ao infinito. Ne m todos são obras-primas, mas todos
faze m pe nsar.

1. Homens e deuses (2010) é história de monge s trapistas que


foram mortos e m circunstâncias miste riosas na Argé lia,
e m 1996. Fala de violê ncia, corage m, pe rdão e fé .
2. A chave de Sarah (2010) é um filme sobre uma vítima do
holocausto, Sarah Starzynski, que carre ga uma ime nsa
culpa pe la morte do irmão. Sua história é re sgatada pe la
jornalista Julia Jarmond. O filme te m um aspe cto pouco
trabalhado: nossa e ve ntual incapacidade de supe rar a
culpa ou a dor.
3. As aventuras de Pi (2012), citado no livro. É uma história
me tafórica sobre a opção de cre r e m De us. Filme bonito,
mais bonito do que de nso, mas que vale a pe na.
4. O sétimo selo (1957) é uma obra-prima de Be rgman e fala
de todos os e ixos e sse nciais tratados ne ste livro: morte ,
pe rdão, pe cado, humanidade . Filme indispe nsáve l sobre o
humano e sua insuficiê ncia.
5. A separação (2011) discute um proble ma conjugal no Irã e
os dile mas de uma mulhe r que de ve cuidar do pai. Filme
inte re ssante para discutir opçõe s e re ligião.
6. O gato do rabino (2011) é uma animação dive rtida sobre
um gato que re ce be o dom de falar e que r se conve rte r
ao Judaísmo, não se m ante s que stionar a fé .
7. Alexandria (2009) é um filme e spanhol que conta a história
de Hipácia, mate mática e filósofa do quarto sé culo que foi
pe rse guida e morta por cristãos. Discute a re lação e ntre
ciê ncia e fé e agrada muito aos críticos da re ligião.
PUBLISHER
Kaíke Nanne

EDITORA EXECUTIVA
Carolina Chagas

EDITOR
Rodrigo Almeida

COORDENAÇÃO DE PRODUÇÃO
Thalita Aragão Ramalho

PRODUÇÃO EDITORIAL
Jaciara Lima

PREPARAÇÃO DE TEXTO
Fernanda Silveira

REVISÃO
Thamíris Leiroza

DIAGRAMAÇÃO E PROJETO GRÁFICO


Carmen BeatrizzSilva José

PROJETO GRÁFICO DE CAPA


Mayu e Dushka (Estúdio Vintenove)
~
Notas

1 O título é calcado em
um livro de 1988,
México: El Placer de
Pecar y el Afan de
Normar. Organizado
por Joaquín Mortiz
para o Instituto
Nacional de
Antropologia e
História. O assunto
do livro é a sociedade
colonial ibérica e seus
dilemas morais.
2 DOSTOIÉVSKI,
Fiódor. Os irmãos
Karamazov. Trad.
Paulo Bezerra. São
Paulo: Editora 34,
2008.
3 KAFKA, Franz. Carta
ao pai. Trad. Modesto
Carone. São Paulo:
Companhia das
Letras, 1997.

4
ECO. Umberto. O
cemitério de Praga.
Record: São
Paulo/Rio de Janeiro,
2011. p. 14.
5 VENTURA, Zuenir. Mal
secreto — inveja. Rio de
Janeiro: Objetiva, 1998.
6 BONDER, Nilton. A
alma imoral. São
Paulo: Rocco, 1998.
7 Nova York: Harper,
2010.
8 CORDAS, Taki,
WEINBERG, Cybelle.
São Paulo:
Annablume, 2010.
9 Epicurismo e
Hedonismo não são a
mesma coisa. Mas,
como trato da visão
religiosa do prazer,
repito aqui a fusão
que o pensamento
moral cristão
produziu para ambos.

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