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UNIVERSIDADE FEDERAL DO OESTE DO PARÁ- UFOPA


INSTITUTO DE CIÊNCIAS DA SOCIEDADE - ICS
PROGRAMA DE DIREITO

DERECK LUAN VIANA DE VASCONCELOS

PROTEÇÃO TRABALHISTA À CRIANÇA E AO ADOLESCENTE NO BRASIL.

SANTARÉM – PARÁ
2013
2

DERECK LUAN VIANA DE VASCONCELOS

PROTEÇÃO TRABALHISTA À CRIANÇA E AO ADOLESCENTE NO BRASIL.

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado como


requisito parcial a conclusão do Curso de
Bacharelado em Direito, da Universidade Federal
do Oeste do Pará-UFOPA, sob a orientação do
Professor Antonio Eder Jonh de Sousa Coelho.

SANTARÉM - PARÁ
2013
3

TERMO DE APROVAÇÃO

DERECK LUAN VIANA DE VASCONCELOS

PROTEÇÃO TRABALHISTA À CRIANÇA E AO ADOLESCENTE NO BRASIL.


.

Trabalho de Conclusão de Curso aprovado como requisito parcial para a obtenção do grau de
Bacharel no curso de Direito, da Universidade Federal do Oeste do Pará pela seguinte banca
examinadora:

Antonio Eder Jonh de Sousa de Coelho


Professor Orientador

_________________________________________
Professor(a) – Examinador(a) 1

_______________________________________
Professor(a) – Examinador(a) 2

Santarém, ___ de abril de 2013.


4

A minha mãe, Darciley Viana de Vasconcelos, e ao


meu irmão, Heitor Vasconcelos da Silva, que são a
razão e a motivação de todos os caminhos que
percorri e os que hei de trilhar.
5

AGRADECIMENTOS

Inicialmente agradeço a Deus por me abençoar nesta caminhada, auxiliando e me


protegendo nos momentos de fragilidade e dificuldade, me dando forças para que eu pudesse
continuar e alcançar todos os meus objetivos.
A minha mãe, Darciley Viana de Vasconcelos, pelo amor incondicional, motivação e
amparo nos meus estudos, pessoa incomparável, exemplo de vida a ser seguido, sempre me
ensinando que o caráter, a honestidade e a humildade são virtudes essenciais para lograr êxito
na vida. Mãe, obrigado por me ensinar a ter garra, perseverança e a não ter medo de enfrentar
os desafios da vida.
Ao meu irmãozinho, Heitor Vasconcelos da Silva, por me fazer sorrir mesmo nos
momentos mais difíceis, seu sorriso é o remédio para minha alma.
Aos meus avós, tios e primos, agradeço com muito carinho, o incentivo e a companhia
de todos.
A família Malcher, minha família do coração, obrigado por acreditarem na minha
capacidade e pela importante contribuição na minha formação.
Aos meus irmãos de coração, Thiago Rodrigues e Suelem Santos, pela amizade
verdadeira e companheirismo, com certeza, sem a alegria e a amizade de vocês eu não
conseguiria chegar até aqui.
As Doutoras Promotoras de Justiça, Lílian Regina Furtado Braga, Ione Missae da Silva
Nakamura e Renata Fonseca de Campos, pelo carinho, respeito, amizade, exemplos de
dedicação profissional e preciosos ensinamentos, que levarei para o resto de minha vida.
Aos professores Marlene Escher, Judith Vieira, Cyntia Soares, Luiz Otávio e Bruno
Miléo, que durante estes cinco anos contribuíram para a minha formação acadêmica.
Ao meu orientador, Professor Eder Coelho, pela imprescindível ajuda e colaboração
neste trabalho de conclusão de curso.
As minhas amigas da Turma de Direito 2008, Hemele Furtado, Elenira Nunes, Kamila
Barroso, Priscila Nonato e Vanuza Silva, pelo companheirismo ao longo desses anos que
percorremos juntos, a quem aprendi a amar e construir laços eternos. Obrigado por todos os
momentos em que fomos estudiosos, brincalhões, comilões, e cúmplices. Obrigado pela
6

paciência, pelo sorriso, pelo abraço, pela mão que sempre se estendia quando eu precisava.
Serei eternamente grato a todas vocês.
Por fim, em nome de Ana Francisca, Andreia Carvalho, Francilma Oliveira, Hoane
Viana e Hian Freitas, agradeço a todos os meus amigos, essenciais em todas as etapas da minha
vida.
7

“Nas grandes batalhas da vida, o


primeiro passo para a vitória é o desejo
de vencer”.
Mahatma Gandhi
8

RESUMO

O presente trabalho aborda a proteção trabalhista dada à criança e ao adolescente no


Ordenamento Jurídico Brasileiro. O principal objetivo do estudo é compreender como se
configura o tratamento dado ao trabalho do adolescente pela legislação pátria, bem como
refletir sobre a finalidade de sua proteção. Utilizando-se o método dedutivo, nas diversas fases
da pesquisa, foram acionadas as técnicas do referente, da categoria, do conceito operacional e
da pesquisa bibliográfica. Diante da pesquisa constatou-se que garantido pela Constituição
Federal, o Princípio da Proteção Integral defende o efetivo desenvolvimento psíquico,
biológico e físico do adolescente, através de políticas públicas que recebem caráter especial e
diferenciado com prioridade frente as outras políticas. A Convenção nº 138 sobre a idade
mínima de admissão a emprego e a Convenção nº 182 sobre as piores formas de trabalho
infantil, ambas da Organização Internacional do Trabalho, além da Convenção sobre os
Direitos da Criança de 1990, da Organização das Nações Unidas, ratificadas pelo Brasil,
servem como direcionamento do ordenamento jurídico pátrio, em relação ao trabalho e à
proteção da criança e do adolescente. A Constituição Federal de 1988, com a Emenda
Constitucional n.20/98, prescreve que o trabalho só é permitido a partir dos 16 anos, salvo na
condição de aprendiz, a partir dos 14 anos. As Leis existentes no país, também impõem limites
para que tais seres em desenvolvimento entrem no mercado de trabalho, não permitindo a sua
inserção em locais perigosos, insalubres, com dispêndios penosos e no período noturno, sob
pena de configuração do chamado trabalho infantil. Assim ao término da pesquisa, verifica-se
que o tratamento legal de proteção ao trabalho infanto-juvenil deve ser entendido como forma
de assegurar o pleno desenvolvimento da criança e ao adolescente e não como um empecilho
ao trabalho, já que este, dentro de limites e conjugado com a educação, contribui de forma
significativa para a formação e qualificação profissional do indivíduo e sua adequada inserção
no mercado de trabalho.

Palavras-Chave: Trabalho infanto-juvenil. Criança e Adolescente. Legislação Brasileira.


Doutrina da Proteção Integral. Trabalho Infantil.
9

ABSTRACT

This study focus on child and adolescent labor protection in the Brazilian juridical order. Its
main aim is to understand how the treatment for the work by adolescent is framed in the
Brazilian legislation, as well as to reflect upon the objective of this protection. Using the
deductive reasoning in the different stages of the research, we retrieved the following
techniques: referent, category, operational concept and bibliographic research. Faced with the
research we concluded that, guaranteed by the Federal Constitution, the Principle of the
Integral Protection defends the effective psychological, biological and physical of the
adolescent, through public politics which receive the special and differentiated character, with
priority over other politics. Convention n.138 on the minimal age for work admission and
convention n. 182 on the worse kinds of children work, both by the International Labor
Organization, besides the convention of the rights of the child of 1990, the United Nation
Organization, ratified by Brazil, serve as a guide for the juridical constitutional order, in
relation to child and adolescent labor and protection. The Federal Constitution of 1988, with the
Constitutional Amendment n.20/98, prescribe that labor is permitted only by the age of 16,
except as an apprentice, as of 14 years old. The laws found in the country, for instance, also
impose limits for these developing beings enter in the labor market, not allowing their insertion
on hazardous or unhealthy, heavy and night shift work, under penalty of configuring the so
called child labor. Hence, once the research was over, it was verified that the lawful processing
of child and adolescent labor protection should be understood as a way to ensure child and
adolescent full development, and not as an obstacle for labor, considering that, within the
established boundaries and combined with education, it contributes significantly to the
individual professional training and qualification and his insertion in the labor market.

Key words: Child-Adolescent labor, Brazilian Child and Adolescent legislation, Doctrine of
Integral Protection, child labor.
10

SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ........................................................................................................................ 12
1 EVOLUÇÃO HISTÓRICA DO TRABALHO INFANTIL NO BRASIL ...................... 15
1.1 Período Colonial ............................................................................................................. 15
1.2 Período Imperial ............................................................................................................. 17
1.3 Período Republicano ....................................................................................................... 19
1.4 Período do Direito do Menor .......................................................................................... 21
2 A CRIANÇA E O ADOLESCENTE NO DIREITO INTERNACIONAL ..................... 24
2.1 Direitos Humanos e sua internacionalização .................................................................. 24
2.2. SISTEMA HOMOGÊNEO DE PROTEÇÃO DA CRIANÇA E DO
ADOLESCENTE....... ............................................................................................................ 25
2.2.1. Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948) ............................................. 25
2.2.2. Pactos de Nova Iorque (1966) ................................................................................ 26
2.3. SISTEMA HETEROGÊNEO DE PROTEÇÃO DA CRIANÇA E DO
ADOLESCENTE... ................................................................................................................ 27
2.3.1. Organização Internacional do Trabalho (OIT) e Convenções ............................... 27
2.3.1.1. Convenção n. 138 da OIT e Recomendação n. 146 ..................................... 28
2.3.1.2. Convenção n. 182 da OIT e Recomendação n. 190 ..................................... 31
2.3.2. Declaração de Genbra – Carta da Liga sobre a Criança (1924) ............................. 33
2.3.3. Declaração dos Direitos da Criança (1959) ........................................................... 35
2.3.4. Convenção sobre os direitos da Criança (1989)..................................................... 37
2.3.5. Convenção Ibero-americana sobre os Direitos dos Jovens .................................... 39
3 O TRATAMENTO CONFERIDO À CRIANÇA E AO ADOLESCENTE NO
ORDENAMENTO JURÍDICO BRASILEIRO ..................................................................... 41
3.1 Legislação Brasileira ...................................................................................................... 41
3.2 Sujeitos de Direitos: menor, crianças, adolescentes e jovens ......................................... 42
3.3 Doutrina da Proteção Integral e o Sistema de Proteção aos Direitos da Criança e do
Adolescente ............................................................................................................................ 44
3.4 Dever de efetivação direitos da criança e do adolescente ............................................... 48
3.5 Critérios de interpretação do Direito da Criança e do Adolescente ................................ 49
11

4 A REGULAMENTAÇÃO E A PROTEÇÃO TRABALHISTA À CRIANÇA E AO


ADOLESCENTE ...................................................................................................................... 52
4.1 Igualdade de Direitos ...................................................................................................... 52
4.2 Distinção entre Trabalho Infantil e Trabalho Infanto-juvenil......................................... 54
4.3 Condições especiais do trabalho da criança e do adolescente ........................................ 57
4.3.1. Proibição do trabalho do menor de 16 anos ........................................................... 58
4.3.2. Proibição do trabalho noturno ................................................................................ 59
4.3.3. Proibição do trabalho perigoso .............................................................................. 60
4.3.4. Proibição do trabalho em locais prejudiciais a formação, desenvolvimento físico,
psíquico, moral e social ..................................................................................................... 61
4.3.5. Jornada de Trabalho diferenciada .......................................................................... 61
4.3.6. Acesso a escola ...................................................................................................... 64
4.3.7. Não ocorrência de prescrição ................................................................................. 65
4.3.8. Recebimento de salários......................................................................................... 65
4.3.9. Demissão por justa causa em razão da prática de ato infracional .......................... 66
4.3.10. Penalidades ao empregado ................................................................................... 67
4.4 A aprendizagem .............................................................................................................. 68
4.4.1. Conceito ................................................................................................................. 68
4.4.2. Espécies .................................................................................................................. 69
4.4.2.1. Aprendizagem empresarial .......................................................................... 69
4.4.2.2. Aprendizagem escolar profissional .............................................................. 70
4.4.3. Requisitos ............................................................................................................... 70
4.4.3. Sujeitos envolvidos na relação de aprendizagem ................................................... 72
4.4.3.1. Aprendiz ....................................................................................................... 72
4.4.3.2. Empregador .................................................................................................. 72
4.4.4. Características e condições da aprendizagem ........................................................ 73
4.4.5. Direitos do Aprendiz .............................................................................................. 74
4.4.6. Extinção do Contrato de Aprendizagem ................................................................ 75
CONSIDERAÇÕES FINAIS ................................................................................................... 76
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ................................................................................... 79
12

INTRODUÇÃO

A Constituição Federal de 1988, o Estatuto da Criança e do Adolescente, bem como a


Consolidação das Leis do Trabalho proíbem o labor de menores de dezesseis anos, salvo na
condição de aprendiz a partir dos quatorze anos de idade.
Além das disposições com relação à idade, a Constituição Federal, em seu artigo 227,
caput, assegura direitos às crianças e aos adolescentes de maneira integral, inclusive,
determinando como um de seus direitos fundamentais a proteção ao trabalho. A Consolidação das
Leis do Trabalho (CLT) e o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), caminham na mesma
direção da Constituição Federal e consagram o princípio da proteção integral, estabelecendo
normas protetivas ao trabalho infanto-juvenil, e determinando a garantia de seus direitos
fundamentais.
O tema desta monografia é a Proteção Trabalhista conferida à criança e ao adolescente
no Ordenamento Jurídico Brasileiro. Partiu-se da escolha deste tema porque o desempenho de
atividades laborativas por crianças e adolescentes apesar de se tratar de situação comum no país,
é pouco estudado, principalmente na graduação, o que gera um total desconhecimento acerca do
assunto, e não raras vezes a proteção conferida a estes seres humanos em desenvolvido é vista
como empecilho ao trabalho, a profissionalização e a inserção destes no mercado de trabalho.
A delimitação do objeto de estudo teve por base os instrumentos jurídicos de proteção
ao trabalho da criança e do adolescente, verificando as possibilidades e os limites jurídicos,
físicos, psicológicos e educacionais, explorando para tanto, duas modalidades de trabalho
infanto-juvenil e de profissionalização, quais sejam: o trabalho do adolescente e a aprendizagem.
A elaboração desta monografia partiu do seguinte problema: Qual a finalidade da
proteção trabalhista à criança e ao adolescente no Brasil?
O principal objetivo do estudo é compreender como se configura o tratamento dado ao
trabalho infanto-juvenil pela legislação pátria, bem como refletir sobre a finalidade de sua
proteção.
Dentre os aspectos específicos, está o de resgatar o surgimento e a evolução histórica
do trabalho infantil no Brasil; analisar a influência do Direito Internacional na Legislação
Brasileira de proteção trabalhista infanto-juvenil; verificar o tratamento conferido à criança e ao
13

adolescente no ordenamento jurídico brasileiro; e compreender os limites jurídicos, físicos,


psicológicos e educacionais que são impostos à inserção precoce no mercado de trabalho.
O método1 utilizado no presente estudo foi o dedutivo2, para a investigação, tratamento
e relato dos resultados. Nas diversas fases da Pesquisa, foram acionadas as técnicas 3 do
referente4, da categoria5, do conceito operacional6 e da pesquisa bibliográfica7.
Sendo assim, na tentativa de abordar os principais pontos do assunto proposto no
desenvolvimento desta monografia, o trabalho está assim dividido. O primeiro capítulo retrata a
evolução do trabalho infantil no Brasil e a postura da sociedade brasileira, nos períodos colonial,
imperial, republicano até a Constituição de 1988, com relação ao tratamento e respeito dos
menores de 18 (dezoito) anos.
O segundo capítulo apresenta a teoria dos direitos humanos, revelando a preocupação
da comunidade internacional com a proteção dos direitos humanos da criança e do adolescente,
apontando os principais documentos dos sistemas homogêneos e heterogêneos de proteção desses
sujeitos de direitos especiais.
Na sequência, o terceiro capítulo aborda a situação dos menores de dezoito anos no
ordenamento pátrio e a compreensão da doutrina da proteção integral, para a efetivação e
interpretação do Direito da Criança e do Adolescente.
Por fim, o último capítulo expõe a regulamentação e a proteção trabalhista de crianças
e adolescentes no Direito Brasileiro, na qual são realçados dispositivos de Leis descritos na
Constituição Federal, na Consolidação das Leis do Trabalho, após as alterações atribuídas pela
Lei n. 10.097/2000 e o Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei n. 8.069/90), são enfatizadas as
normas e condições especiais referentes ao trabalho do adolescente e a aprendizagem, como
idade para o trabalho, jornada a que este menor será submetido, a remuneração devida ao

1
“Método é a forma lógico-comportamental no qual se baseia o pesquisador para investigar, tratar os dados colhidos
e relatar os resultados”. (PASOLD, 2009, p. 110).
2
Para Pasol (2009) Método dedutivo consiste em estabelecer uma formulação geral e, em seguida, buscar as partes
do fenômeno de modo a sustentar a formulação geral: este é denominado método dedutivo.
3
“Técnica é um conjunto diferenciado de informações, reunidas e acionadas em forma de instrumental, para realizar
operações intelectuais ou físicas, sob o comando de uma ou mais bases lógicas de pesquisa”. (GUSTIN, 2006, p.
145).
4
Segundo Gustin (2006) técnica do referente é a explicitação prévia do motivo, objetivo e produto desejado,
delimitando o alcance temático e de abordagem para uma atividade intelectual, especialmente para uma pesquisa.
5
“Palavra ou expressão estratégica à elaboração e/ou expressão de uma ideia”. (PASSOLD, 2009, p. 145).
6
“Definição estabelecida ou proposta par a uma palavra ou expressão, com o propósito de que tal definição aceita
para efeito as ideias e ferramentas úteis para o pesquisador do Direito” (GUSTIN, 2006, p. 40).
7
Ensina Pasold (2009) que Pesquisa bibliográfica consiste em Técnica de investigação em livros, internet,
repertórios jurisprudenciais e coletâneas legais.
14

trabalhador e outras formas de trabalho proibidas ao menor que configuram o chamado trabalho
infantil.
Neste contexto é que se pretende desenvolver este estudo, demonstrando que o trabalho
do adolescente pode ser exercido de forma saudável sem atrapalhar o desenvolvimento físico,
moral, psicológico, social e educacional desses seres detentores de direitos especiais.
15

1. HISTÓRIA DO TRABALHO INFANTIL NO BRASIL

1.1. - PERÍODO COLONIAL

A exploração da mão de obra infantil no Brasil, remonta ao período do


“descobrimento”, mas precisamente a partir de 1530 com início do povoamento das terras, no
qual surgem as figuras dos grumetes e pajens que chegaram com as embarcações portuguesas na
condição de trabalhadores.
Segundo Custódio (2009) os grumetes eram crianças que realizavam as tarefas mais
perigosas e penosas, sendo submetidos a diversos castigos, bem como aos abusos sexuais de
marujos, além da péssima alimentação que lhes era imposta e dos riscos percorridos em alto mar.
Por sua vez, as crianças embarcadas como pajens da nobreza ficavam encarregadas de realizar os
serviços menos árduos que os prestados pelos grumetes, tais como arrumar os camarotes, servir
as mesas e organizar as camas.
Para Ramos (1999), o recrutamento dos grumetes e pajens variava entre o rapto de
crianças judias e a condição de pobreza vivenciada em Portugal. Eram os próprios pais que
alistavam as crianças para servirem nas embarcações como forma de garantir a sobrevivência dos
infantes e aliviar as dificuldades enfrentadas pelas famílias.
Nessa época a utilização da mão de obra das crianças era legitimada pela própria
sociedade. Logo, era algo extremamente comum a criança ser explorada sem haver qualquer
preocupação quanto a sua fase de desenvolvimento8.
Posteriormente, outro fato determinante para o fortalecimento do trabalho infantil no
Brasil durante o período colonial, se com a chegada dos Jesuítas. As missões jesuíticas que se
instalaram no território brasileiro contavam não só com o trabalho dos adultos, mas, também, de
crianças em diversos serviços, principalmente a partir dos 07 (sete) anos9.
A educação trazida pelos jesuítas cuidava de uma nova forma de ensino da doutrina
cristã, da leitura, da música e de um ofício. A experiência teve início com a educação das
crianças portuguesas, mas logo, foi ampliada para as crianças indígenas.

8
“Nesse cenário, a mortalidade precoce dos adultos e os altos índices de mortalidade infantil criavam um ambiente
no qual a percepção das etapas de desenvolvimento ainda era tênue e pouco significativa. A invisibilidade da
infância nesta época permitia a convivência com a morte de crianças sem uma profunda comoção entre os adultos,
pois se considerava uma conseqüência natural”. (SCHUELER, 2000, p. 25).
9
“O ensino de um ofício para crianças também foi um elemento de preocupação para os jesuítas, que entendiam o
trabalho como condição de dignidade, ou ainda, o caminho para a própria salvação”. (VERONESE; CUSTÓDIO,
2013, p. 20).
16

Acrescentam Veronese e Custódio (2013) que os jesuítas estabeleceram novas bases


para a educação, focalizando a infância como etapa especial de realização para seus ideais, o
ensino jesuítico trouxe consigo experiências diferenciadas para os indígenas, pois, por um lado,
servia-se do castigo no processo pedagógico, o que para os índios causava estranheza, vez que
não conheciam a prática de bater em crianças, mas, por outro lado, trouxe outras manifestações
consideradas extremamente atrativas, já que incluíam os cânticos, o exercício da imaginação e
uma ritualística nova10.
Ainda no período colonial, por volta de 1582, surgiram as primeiras iniciativas de
caráter assistencial, instaladas pelas congregações religiosas, as chamadas Casas de Misericórdia,
atendiam enjeitados, escravos, estrangeiros e expostos, sem qualquer tipo de diferença de sexo,
condição ou idade11.
Esse amparo assistencial foi objeto de mudanças com a instalação das Rodas dos
Expostos, como experiência institucional de acolhimento específico para crianças abandonadas
nas áreas urbanas, sendo instaladas a partir de 1726 e mantidas até 1950 no Brasil. O chamado
problema da orfandade requeria uma solução política que articulasse a ação compartilhada entre
as instituições de caráter assistencial e religioso subsidiadas pelo Estado (VERONESE;
CUSTÓDIO, 2013).
O abandono de crianças era habitual, em decorrência das condições de pobreza, mas
também em razão da ilegitimidade que violava os princípios fundamentais da ideia de família.
Desta feita, a Roda dos Expostos era a solução para o problema do abandono, da exposição e do
enjeitamento de crianças, que antes eram abandonadas nas ruas, nas portas das casas de famílias,
igrejas, etc (CIPOLA, 2001).
As Rodas dos Expostos contavam com subsídios do governo e os estímulos às
famílias para que realizassem o acolhimento das crianças, condição considerada vantajosa, pois

10
“Em que pesem as mais variadas críticas, as quais evidenciam que muitas práticas jesuíticas acabavam por
instrumentalizar a população indígena, não podemos desconsiderar a forte experiência comunitária desenvolvida.
Tanto que muitos jesuítas, contrários à exploração dos índios, foram expulsos pelo Marquês de Pombal, acusados de
conspiração e defesa dos índios, prova disso é que, uma vez ausentes os jesuítas, muitas aldeias foram dizimadas
pelos colonos. Portanto, não podemos, de modo algum, ignorar que tal presença humanizou esse processo inicial de
colonização, e ainda propunha tratar de modo igual os habitantes desta nova terra, em especial os pequenos índios”.
(CHABOULEYRON, 1999, p. 55).
11
“A descoberta da infância, na Europa, como etapa específica de desenvolvimento humano, trouxe reflexos nas
práticas institucionais no Brasil Colonial, inclusive com a reprodução dos modelos de acolhimento das Rodas dos
Expostos”. (MARCÍLIO, 1999, p. 52),
17

as crianças acolhidas deveriam prestar trabalhos em troca de alimentos e moradia (FREYRE,


2005).
De acordo com Veronose e Custódio:

O trabalho doméstico foi uma das formas mais frequentes de contrapartida recebidas
pelas famílias acolhedoras. As crianças também se ocupavam nos serviços dentro da
própria instituição que mantinha a Roda dos Expostos, principalmente a partir dos 7 anos
de idade, considerando o momento ideal para o início do trabalho. Essa condição era
valorizada, pois, para as famílias e para as Rodas, era uma oportunidade de mão-de-obra
gratuita, com uso do trabalho infantil legitimado pela caridade, ou seja, a exploração
transfigurada em virtude. (VERONESE; CUSTÓDIO, 2013, p. 25).

Assim, a roda dos expostos nada mais era que uma forma de legitimar novamente o
trabalho realizado por crianças, já que estas, na maioria das vezes, se encontravam nestes lugares
na total miserabilidade.
No Brasil Colonial, a infância como etapa específica de desenvolvimento, vai sendo
reconhecida na medida em que se estabelecem as práticas de institucionalização, educação e
assistência, modeladoras de uma forma característica de divisão social.

1.2 – PERÍODO IMPERIAL

No período imperial brasileiro é instituído um modelo de governo centralizado,


promulgada a Constituição Política do Império do Brasil, pela Carta de Lei n° 1.824.
A primeira Constituição Brasileira não apresenta uma atenção especial em relação à
criança, refletindo o papel ainda periférico da infância na legislação desse período, preocupava-se
com questões relativas à menoridade do príncipe, por se tratar de uma questão de interesse para a
manutenção das condições hereditárias do poder, mas não faz nenhuma referência significativa
em relação a infância ou ao desenvolvimento da criança, a não ser nas questões de interesse do
Estado, nas quais os infantes são tratados como meros coadjuvantes. (VERONESE; CUSTÓDIO,
2013).
No Império passa a vigorar, através de leis e decretos, o recolhimento. Esta
preocupação aparece atrelada à primeira lei penal do Império, o Código Criminal de 1830. Essa
lei estabelece a “responsabilidade penal para menores a partir dos 14 anos” (RIZZINI, 1997, p.
104).
18

O recolhimento dos menores passa a visar sua correção em instituições denominadas


Casas de Correção, que mantinham alas separadas. Umas de cunho correcional, para menores
delinqüentes, mendigos e vadios; e outra destinada à divisão criminal (BRASIL, 1830).
Neste período, o recolhimento de crianças e órfãos, amparados na legislação da
época, tem ainda sua tônica fundada na ideologia cristã. As medidas praticadas pela Igreja
Católica eram de caráter “religioso e caritativo” (RIZZINI, 1997, p. 105).
Na segunda metade do século XIX começa a aparecer mais claramente na legislação
da época, outra característica das medidas de amparo à infância pobre no Império: a formação
educacional das crianças12. A atitude do Império em relação à infância está dentro do discurso da
construção dos projetos políticos que visam a definir o futuro da ex-colônia.
De acordo com Vogel:

Com a consolidação do Estado Imperial, a preocupação com as crianças e sua educação


passou a envolver diferentes setores da sociedade. Em 24 de janeiro de 1874, pelo
Decreto 5.532, são criadas dez escolas públicas de instrução primária na Corte. O ensino
primário e secundário foram regulamentados pelos Decretos N° 630, de 17 de setembro
de 1851, e N°.1331-A, de 17-2-1854. As crianças pobres são contempladas por esses
decretos. O artigo 57, de 1854, determina a admissão de “alunos pobres” em escolas da
rede particular, mediante pagamento por parte do Governo, assim como a
implementação de medidas quando estiverem pelas ruas em estado de “pobreza” ou
“indigência”. A estes “se fornecerá igualmente vestuário decente e simples, quando seus
pais, tutores, curadores ou protetores o não puderem ministrar, justificando previamente
sua indigência perante o Inspetor Geral, por intermédio dos Delegados dos respectivos
distritos” (VOGEL, 1995, p. 306).

A partir de 1850, são regulamentadas as leis acerca de escravos e seus filhos. A


chamada “Lei do Ventre Livre ou dos ingênuos”, Lei de n°2.040 de 28 de setembro de 1871,
declarava livres os filhos de mulheres escravas nascidos após esta data. Estipulava obrigações
para os senhores de escravos e para o governo, proibia a separação dos filhos menores de 12 do
pai ou da mãe. (ABREU & MARTINEZ, 1997, p. 123).
A Lei n. 2.040 obrigava os senhores a criarem os filhos das escravas até à idade de 8
anos, após este período poderiam receber uma indenização do Estado ou os usarem como
trabalhadores até à idade de 21 anos. Num quadro econômico agro-exportador, escravista e
monocultor, a postura dos senhores de escravos tinha muitos defensores (MAUAD,1999).

12
“No campo educacional, as escolas de primeiras letras foram disseminadas em algumas localidades no Brasil e
contavam, inclusive, com a colaboração de instituições religiosas e privadas. Preocupações com o amparo e a
instrução da mocidade desamparada, a proteção de meninas e a caridade humanitária alcançavam o status de ação
patriótica”. (VERONESE; CUSTÓDIO, 2013, p. 27).
19

Após 1871, descendentes de escravos libertos, menores em geral (imigrantes e


mestiços) se tornaram objeto da elite pensante no Brasil. A partir desse período, os discursos dos
homens públicos, dos reformadores e dos filantropos propunham a fundação de escolas públicas,
asilos creches, escolas industriais e agrícolas de cunho profissionalizante, além de uma
legislação para menores. Buscava-se inserir nas práticas jurídico-policiais o encaminhamento
para Casas de Educação, Educandários e Reformatórios “para os chamados menores
abandonados e delinqüentes (ABREU & MARTINEZ, 1997).
Enfim, no Período Imperial, é muito evidente a preocupação relativa à educação, à
saúde e à assistência das crianças, mas não se pode desconsiderar que a herança político social
das raízes coloniais brasileiras e a manutenção da escravidão foram fortes componentes numa
estrutura hierarquizada que visava antes de tudo, à unificação do território nacional com a defesa
e a afirmação das fronteiras, mediante um poder centralizador (LIMANA, 1999).

1.3 – PERÍODO DA REPÚBLICANO

A República foi proclamada em 15 de novembro de 1889, dando termo à Monarquia


brasileira, dia que Rui Barbosa redige o Decreto n° 1, que “proclama provisoriamente e decreta a
forma de governo da Nação Brasileira a República Federativa, e estabelece normas pelas quais se
devem reger os Estados Federais” (BRASIL, 1889).
Com exceção de pequena referência aos Aprendizes Marinheiros, no art. 87, § 4°, a
Constituição dos Estados Unidos do Brasil não faz nenhuma referência à infância, à menoridade,
ou à juventude, deixando claro que a invenção moderna da infância era algo ainda em processo
de sedimentação na recém-criada República. (VERONESE; CUSTÓDIO, 2013).
Nas palavras de Rizzini (1997) durante o período imperial os menores eram acusados
de ociosos e criminosos. A solução foi então colocar o povo para trabalhar em troca de um
salário, começando pela infância. Sem perder o enfoque religioso e caridoso, o governo
republicano passou a contar como seu principal contribuinte, a esfera jurídica, na busca de
soluções para o problema da infância pobre e abandonada.
Descreve Arantes:

Antes da República algumas instituições destinadas à assistência de crianças e


adolescente pobres já haviam sido criadas pelo governo, tais como: criando: O Imperial
Instituto de Meninos Cegos (1854); Imperial Instituto de Meninos Surdos (1855); Escola
de Aprendiz de Marinheiro (1873); Asilo de Meninos Desvalidos, posteriormente
Instituto profissional João Alfredo (1875); Escola Quinze de Novembro (1889) incluindo
20

a Casa de Detenção, o Asilo de Mendicidade e a Colônia Correcional. No entanto, foi a


partir de finais do século XX que estas instituições começaram a Recber atenção maior
dos poderes públicos. O movimento higienista, ocorrido no início do século XX
contribui para isso, ao pressionar o Estado quanto à necessidade da criação de uma rede
profissionalizante de pressionar o Estado quanto à necessidade da criação de uma rede
profissionalizante de Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH • São
Paulo, julho 2011 9 ensino separada da assistência aos desvalidos. Já que até então, estas
instituições ofereciam algum tipo de ensino manual, prático, artesanal ou
profissionalizante. A assistência prestada aos “desvalidos” “era marcada pelos
preconceitos religiosos e racistas da época”. Os médicos higienistas do começo do
século tinham como justificativa ideológica o fator genético e o casamento eugênico
como princípios para saúde dos filhos. Essa mentalidade orientou o comportamento de
uma época no sentido da prevenção dentro de uma perspectiva de desenvolvimento.
Dentro deste contexto, acredita-se que a assistência aplicada aos desvalidos ou órfãos,
será mais que caridade, significará “defesa da sociedade e proteção ao homem honesto e
de bem”, assim justifica-se as iniciativas por parte do Estado. (ARANTES, 1995. 241).

A caridade confrontada com a nova realidade econômica e social de acordo com os


valores higienistas, fundamentada nos valores da ciência, tem como objetivo em sua ação a
prevenção da desordem. É importante observar que desde a Proclamação da República a criança é
considerada como base fundamental para a construção da Nação (ABREU & MARTINEZ,
2005).
O início do governo republicano apresentava características repressivas na tentativa
de conter as massas populares inflamadas pelo momento político que estavam vivendo. Em 1893,
foi ordenado, por um instrumento legal da época, recolher das ruas do Rio de Janeiro,
vagabundos e capoeiras. O Código Penal de 1890, baixou para nove anos de idade a
responsabilidade penal, sendo criada a Colônia Correcional de Dois Rios na Ilha Grande. Após a
reforma do serviço policial, em 1902, determinava-se a internação dos menores em colônias de
correção (BRASIL, 1902).
O recolhimento era a perda da liberdade, a coerção, o disciplinamento e a correção de
um comportamento, considerado inadequado à proposta presente na imaginário de médicos,
juristas. O objetivo era fazer com que as crianças e os adolescentes se enquadrassem
passivamente no que lhes fora destinado. Em resumo, as instituições de amparo social criadas
para servir aos desprovidos, aos desvalidos tinham como objetivo, prevenir a delinqüência,
protegendo a infância e fazendo de sua saúde física e de sua adaptação moral a mais grave

preocupação da sociedade (CARVALHO, 1 999).


Duas palavras passaram então a vigorar na questão do menor - justiça e assistência -
dando origem ao Código de Menores. O desembargador Ataulfo de Paiva, influenciado pelas
21

ideias positivistas e pelos movimentos acontecidos em diferentes partes do mundo, que


revolucionariam a concepção e o papel de justiça na época, percebe a necessidade de reformular
a justiça para menores no Brasil, pois considerava o aumento da criminalidade infantil como fato
incontestável. As mudanças visam à humanização da justiça e do sistema penitenciário. Aliás
questões já colocadas por Evaristo de Moraes, em 1898, por ocasião de visita à Casa de
Detenção, quando ficou chocado com o quadro apavorante de depravação e corrupção (RIZZINI,
1997).
A estratégia jurídica assemelhava-se à médico-higienista: intervir na família através
da criança. Rizzini (1997) destaca as estratégias de ação: divulgar o quadro real do aumento da
criminalidade e a possível proliferação desta, caso as devidas providências não fossem tomadas;
setenciar que a gênese do problema está na família, que incapaz de criar os filhos abandonava-os;
sinalizar para a prevenção social como solução dos problemas do menor. A aliança entre justiça
e assistência buscou definir as funções de cunho social, afastando-se do caráter punitivo-
repressivo, baseado na necessidade de novos modelos de intervenção junto às populações pobres.

1.4 – PERÍODO DO DIREITO DO MENOR

Para Moraes Filho (2010) embora a ideia de menoridade tenha suas raízes no
Brasil Imperial, sua consolidação jurídica só foi representada pela edição do primeiro Código de
Menores, Decreto n° 17.934-A/1927, elaborado por uma comissão de juristas, liderada pelo então
Juiz de Menores do Rio de Janeiro, José Cândido de Mello Mattos.
O novo código procurou consolidar todas as legislações relativas à menoridade e
também ao trabalho de menores, como pode ser observado no Capítulo IX. Estabelecendo a idade
mínima para o trabalho em 12 anos, a proibição do trabalho nas minas e de trabalho noturno aos
menores de 18 anos e na praça pública aos menores de 14 anos, entre outras limitações (BRASIL,
1927).
Nas palavras de Veronese e Custódio:

O Código de Menores de 1987 conseguiu corporificar leis e decretos que, desde 1902,
propunham-se a aprovar um mecanismo legal que desse especial relevo à questão do
“menor”, pois veio alterar e substituir concepções obsoletas, com as de discernimento,
culpabilidade, penalidade, responsabilidade, pátrio poder, passando a assumir a
assistência ao menor de idade sob a perspectiva educacional. Em suma, a reforma da
legislação social proposta pelo Estado nas três primeiras décadas do século XX,
22

caracteriza-se como um controle disciplinar da sociedade sobre a classe trabalhadora.


(VERONESE; CUSTÓDIO, 2013, p. 61)

Observa Veronese (2006), que abandonou-se a postura anterior de reprimir e punir


e passou-se a priorizar, como questão básica, o regenerar e educar. Desse modo, chegou-se a
conclusão de que questões relativas à infância e a adolescência deveriam ser abordadas fora da
perspectiva criminal, ou seja, fora do Código Penal.
Assim, na década de 20 tem-se a ideia de que a educação era o grande problema
nacional por sua capacidade de regenerar as populações brasileiras, erradicando-lhes a doença e
incutindo-lhes hábitos de trabalho (CARVALHO, 1999).
Logo, ainda sob a vigência do Código de Menores de 1927, é criado o Serviço de
Atendimento ao Menor (SAM), que visava amparar os menores desvalidos através do
atendimento psicossocial mediante internação, pois desse modo, haveria a recuperação dos jovens
já que estes estariam longe das más influências da sociedade (VERONESE, 1999).
Nesse período, as crianças e adolescentes são tratadas como seres influenciáveis,
ou seja, não tinham a capacidade para definir seus desejos e anseios, mas uma outra pessoa, de
preferência adulta, que seria o sujeito “certo” para decidir por eles.
Em 1934, o Brasil adota uma nova Constituição, na qual prescrevia a proteção
contra a exploração do trabalho infanto-juvenil no Brasil, trazendo a proibição do trabalho aos
menores de quatorze anos, de trabalho noturno a menores de dezesseis e em indústrias insalubres
a menores de dezoito (PASSETTI, 1999).
Entretanto, o SAM não conseguiu cumprir com suas finalidades devido aos
métodos inadequados de atendimento, onde foi necessário substituí-lo em 1941 pela Política
Nacional do Bem Estar do Menor, introduzindo a periculosidade no campo da medicina.
Nesta senda, afirma Brito Filho:

A Constituição de 1946, trata de flexibilizar os dispositivos em relação à idade mínima


para o trabalho, no sentido que atribuí aos juízes o poder de autorizar sua realização
abaixo dos limites de idade mínima, aumentando para dezesseis anos o trabalho noturno.
Percebe-se que o judiciário tinha o poder supremo, pois poderia conforme sua
conveniência decidir de forma oposta à estabelecida em lei, utilizando da vida de
crianças como um jogo ou brincadeira, sem se importar com as reais consequências que
o trabalho poderia trazer a estas. (BRITO FILHO, 2010, p. 241).
23

Em 1960, houve uma profunda mudança de modelo e de orientação na assistência


abandonada, pois se começava a fase do Estado do Bem Estar Social, com a criação da
FUNABEM, Fundação Nacional do Bem Estar do Menor e em seguida das FEBEMs, Fundação
Educacional do Bem Estar do Menor em vários estados (PASSETTI, 1999).
Desse modo, com a implantação do Estado do Bem Estar Social, o menor passa a
ser assunto do Estado, onde este, por sua vez, tinha a importante missão de orientar a infância
desvalida como modo de “defesa” da sociedade utilizando como instrumento a ideologia da
segurança nacional (MACHADO, 2003).
A Constituição Federal de 1967, seguida pela Emenda Constitucional nº 1 de
1969, modificou a idade mínima para o trabalho, que passa a ser de 12 anos, significando um
retrocesso em relação a outros países13 (PASSETTI, 1999).
Em 1979 é criado o segundo Código de Menores, o qual se diferencia pouco do
primeiro, constituindo-se basicamente à partir da Política Nacional do Bem Estar do Menor
adotada em 1964 e ressaltando a cultura do trabalho legitimando todo tipo de exploração de
crianças e adolescentes (PASSETTI).
Com o fim da ditadura Vargas, e devido à organização dos vários movimentos
sociais, mais uma Constituição é elaborada no Brasil, entrando em vigor em 1988, onde
incorporará uma série de garantias destinadas a crianças e adolescentes, as quais serão observadas
mais detalhadamente no terceiro capítulo.

13
Assevera Lima (2012, p. 10) que “quanto mais se diminui o limite de idade para o labor de crianças, mais se
legitima a desigualdade social, a miséria, a evasão escolar, dentre outros problemas marcantes na vida de meninos e
meninas”.
24

2. A CRIANÇA E O ADOLESCENTE NO DIREITO INTERNACIONAL

2.1. Direitos Humanos e sua internacionalização

Para Bobbio (2004) os direitos humanos nascem como direitos naturais,


universais, desenvolvem-se como direitos positivos particulares (quando cada constituição
incorpora declarações de direitos transformando-os em fundamentais) para, finalmente, encontrar
a realização como direitos positivos universais no processo histórico de universalização dos
direitos humanos14.
A proteção da criança e do adolescente é prioritária dentro do Direito Internacional
do Trabalho. Com efeito, a condição peculiar de pessoas em desenvolvimento de que se revestem
esses indivíduos requer que lhes seja conferida uma atenção especial, a qual implica que o
exercício de atividades laborais por essas pessoas deve ser proibido ou deve ocorrer apenas
dentro de condições especiais, de forma a não prejudicar sua formação e sua integridade pessoal
(PORTELA, 2011).
Acrescenta Rosato e Lépore (2012) todo processo de criação das bases para o
Direito Internacional dos Direitos Humanos (DIDH) deu-se por meio de três marcos históricos,
geradores de âmbitos de proteção distintos, a saber: o Direito Humanitário (DH), a Liga das
Nações (LN) e a Organização Internacional do Trabalho (OIT). Estes conjugados com a
Declaração Universal dos Direitos dos Homens de 1948, representam a vigas de sustentação do
que se chama de Direito Internacional dos Direitos Humanos, que representa uma limitação às
soberanias nacionais frente a um arcabouço normativo histórico e internacionalmente
reconhecido.
Assim, não há mais liberdade absoluta dos Estados em relação à sua disciplina
jurídica, que deve, a partir desse momento, atender aos ditames da disciplina internacional que é
constituída de dois sistemas de proteção, o heterogêneo e o homogêneo15.

14
“Para que os direitos humanos se internacionalizassem foi necessário redefinir o âmbito e o alcance do tradicional
conceito de soberania estatal, a fim de permitir o advento dos direitos humanos como questão de legítimo interesse
internacional. Foi ainda necessário redefinir o status do individuo no cenário internacional, para que se tornasse o
verdadeiro sujeito do Direito Internacional”. (PIOVESAN, 2008, p. 111).
15
“Os documentos internacionais podem proteger direitos de todos os seres humanos, ou apenas de algum grupo
especial, geralmente composto por excluídos, nesse passo, é possível apontar a existência de dois sistemas de
proteção: homogêneo e heterogêneo. No sistema homogêneo identifica-se verdadeira universalidade, pois, os direitos
de todos os seres humanos são tutelados e não de um grupo específico. Consubstancia-se e, um sistema “posto à
disposição de todos os destinatários de normas que o compõem, de forma indistinta. Ao contrário do sistema
homogêneo de proteção, disponibilizado de forma indistinta à universalidade de pessoas, o sistema heterogêneo de
25

Neste sentido, o Direito Internacional dos Direitos Humanos das Crianças e dos
Adolescentes, também é composto de dois sistemas de proteção o homogêneo e o heterogêneo.

2.2. SISTEMA HOMOGÊNEO DE PROTEÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS DE


CRIANÇAS E ADOLESCENTES

São os principais documentos que compõem o Sistema Homogêneo de proteção à


criança e o adolescente: a) Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948 (art. 25 e 26) e;
b) Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais, de 1996 (arts. 10 a 13).

2.2.1. Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948)

Nos artigos 25 e 26, a Declaração Universal dos Direitos Humanos, reconheceu


que a infância tem direito a cuidados e assistência especial, sendo que todas as crianças,
independentemente de nascidas dentro ou fora do matrimônio, gozarão da mesma proteção
especial. Neste sentido dispõe a referida Declaração, in verbis

Artigo XXV 1. Toda pessoa tem direito a um padrão de vida capaz de assegurar a si e a
sua família saúde e bem estar, inclusive alimentação, vestuário, habitação, cuidados
médicos e os serviços sociais indispensáveis, e direito à segurança em caso de
desemprego, doença, invalidez, viuvez, velhice ou outros casos de perda dos meios de
subsistência fora de seu controle.
2. A maternidade e a infância têm direito a cuidados e assistência especiais. Todas as
crianças nascidas dentro ou fora do matrimônio, gozarão da mesma proteção social.
Artigo XXVI
1. Toda pessoa tem direito à instrução. A instrução será gratuita, pelo menos nos graus
elementares e fundamentais. A instrução elementar será obrigatória. A instrução técnico-
profissional será acessível a todos, bem como a instrução superior, esta baseada no
mérito.
2. A instrução será orientada no sentido do pleno desenvolvimento da personalidade
humana e do fortalecimento do respeito pelos direitos humanos e pelas liberdades
fundamentais. A instrução promoverá a compreensão, a tolerância e a amizade entre
todas as nações e grupos raciais ou religiosos, e coadjuvará as atividades das Nações
Unidas em prol da manutenção da paz.
3. Os pais têm prioridade de direito n escolha do gênero de instrução que será ministrada
a seus filhos. (ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS, 1948).

O conteúdo insculpido neste dispositivo faz transparecer, de forma clara, a o que


mais tarde se chamaria de proteção integral à infância.

proteção tem por foco um grupo merecedor diante de várias circunstâncias – como a exclusão histórica – de atenção
especial, como ocorre com a criança, as mulheres, os portadores de necessidades especiais e outros”. (MOCACO,
2000).
26

2.2.2. Pactos de Nova Iorque (1966)

O Pacto Internacional sobre os Direitos Civis e Políticos (1966), recepcionado no


Brasil pelo Decreto n° 592/92, no seu art. 25, reconheceu à criança, os direitos à não
criminalização, à aquisição de nacionalidade e a proteção de sua família, in verbis:

1. Toda criança, terá direito, sem discriminação alguma por motivo de cor, sexo,
religião, origem nacional ou social, situação econômica ou nascimento, às medidas de
proteção que a sua condição de menor requerer por parte de sua família, da sociedade e
do Estado.
2. Toda criança deverá ser registrada imediatamente após seu nascimento e deverá
receber um nome.
3. Toda criança terá o direito de adquirir uma nacionalidade (BRASIL, 1992).

Por sua vez, o Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais
(Decreto n° 591/92), em seu art. 10, enfatizou a necessidade de proteção da criança e do
adolescente em relação a alguns tipos de trabalho a saber: a) trabalhos nocivos à moral; b)
trabalhos nocivos à saúde; c) trabalhos que coloquem em risco a vida e, d) trabalhos que venham
a prejudicar o desenvolvimento normal, também determina que os Estados devem estabelecer
limites de idade, sob os quais fique proibido e punido por lei o emprego assalariado da mão de
obra infantil, in verbis:

ARTIGO 10
Os Estados Partes do presente Pacto reconhecem que:
1. Deve-se conceder à família, que é o elemento natural e fundamental da sociedade, as
mais amplas proteção e assistência possíveis, especialmente para a sua constituição e
enquanto ela for responsável pela pela criação e educação dos filhos. O matrimônio deve
ser contraído com livre consentimento dos futuros cônjuges.
2. Deve-se conceder proteção às mães por um período de tempo razoável antes e depois
do parto. Durante esse período, deve-se conceder às mães que trabalhem licença
remunerada ou licença acompanhada de benefícios previdenciários adequados.
3. Devem-se adotar medidas especiais de proteção e de assistência em prol de todas as
crianças e adolescentes, sem distinção por motivo i de filiação ou qualquer outra
condição. Devem-se proteger as crianças e adolescentes contra a exploração econômica
e social. O emprego de crianças e adolescentes em trabalhos que lhes sejam nocivos à
saúde ou que lhes façam correr perigo de vida, ou ainda que lhes venham a prejudicar o
desenvolvimento normal, será punido por lei. Os Estados devem também estabelecer
limites de idade sob os quais fique proibido e punido por lei o emprego assalariado da
mão-de-obra infantil (BRASIL, 1992).
27

2.3. Sistema heterogêneo de proteção dos direitos humanos de crianças e adolescentes

Compõem os principais documentos internacionais heterogêneos de proteção aos


direitos da criança e do adolescente: a) Organização Internacional do Trabalho – OIT – 1919 e as
convenções 138 da OIT sobre a Idade Mínima para a admissão em Emprego ou Trabalho (1973)
e 182 da OIT sobre as piores formas de trabalho infantil (1999); b) Declaração de Genebra –
Carta da Liga sobre a Criança (1924); c) Declaração dos Direitos das Crianças – 1959; d)
Convenção sobre os direitos da criança (1989); e) Convenção Ibero-americana sobre os Direitos
dos Jovens (2005).

2.3.1. – Organização Internacional do Trabalho (OIT) e Convenções

No início de 1919, terminada a Guerra, foi nomeada, em 25 de janeiro, a


Conferência Preliminar da Paz, composta de 15 membros, entre os quais se encontravam os
defensores do acesso dos trabalhadores à mesa de negociações. Deveu-se a proposta a Lloyd
George, cabendo logo depois a sua presidência justamente a Samuel Gomperz, que fora à Europa
com o presidente Wilson, dos Estados Unidos. Depois de 35 sessões, a comissão deu por acabado
o seu projeto de paz em 11 e 27 de abri, com pequenas modificações, inserindo-o nos diversos
tratados que encerram a guerra, do Tratado de Versalhes e nos de paz com a Ástria, Bulgária e
Hungria. Assim, pelo Tratado de Versalhes, o mais importante de todos, de 28 de junho de 1919,
constituiu-se a Organização Internacional do Trabalho – OIT, na Parte XIII, como um dos
organismos permanentes da Sociedade das Nações. Coube a sua fundação aos ideais de paz
social, como já pregavam Owen e Paul Pic, mais recentemente (ISHIDA, 2009).
A OIT é um organismo de direito internacional público, associado à ONU, como
agência especializada, mediante negociação de acordos. Compete ao Conselho Econômico e
Social desta última a coordenação de suas atividades, como agência vinculada à Organização.
Compõe-se no momento de 183, países, que se fazem representar na sua assembléia geral
(Conferência) de maneira tripartida. Com dois delegados governamentais, um de empregador e
outro de empregado. O Brasil é membro fundado, isto é, desde 1919. (MORAES FILHO;
MORAES, 2010).
28

De acordo com Rossato e Lépore (2012) a primeira Conferência Internacional do


Trabalho, promovida no ano de 1919, resultou na aprovação de seis convenções16, atendendo aos
reclames de sindicatos e da base operária do final do século XX, quais sejam: limitação da
jornada de trabalho; proteção a maternidade; proteção do desemprego; proibição do trabalho
noturno para menores de 18 anos e; definição da idade mínima de 14 (quatorze) anos para o
trabalho na indústria. As duas últimas são consideradas os primeiros documentos internacionais
que, de forma específica, promoveram, a defesa dos interesses da criança.

2.3.1.1. Convenção n. 138 e Recomendação n. 146

A Convenção n. 138 juntamente com a Recomendação n. 146, ambas da OIT,


foram promulgadas no Brasil por meio do Decreto n° 4.134/02, sendo por este motivo, de
cumprimento obrigatório no país.
A Convenção n. 138 da OIT de 197317, determinou em seu art. 2°, item 318, a
idade mínima para a admissão em empregou ou trabalho, qualquer que seja a atividade, que não

16
Entende Monaco (2000) que a convenção é o instrumento mais eficaz no caminho de um direito internacional do
trabalho uniforme e homogêneo.
17
“A Conferência Geral da Organização Internacional do Trabalho: Convocada em Genebra pelo Conselho de
Administração do Secretariado da Organização Internacional do Trabalho e reunida a 06 de junho de 1973, em
sua qüinquagésima oitava sessão; Após ter decidido adotar diversas propostas relativas à idade mínima de admissão
ao emprego, assunto que constitui o quarto ponto da agenda da sessão; Levando em consideração os dispositivos das
seguintes convenções: Convenção sobre a idade mínima (indústria), 1919; Convenção sobre a idade mínima
(trabalho marítimo), 1920; Convenção sobre a idade mínima (agricultura), 1921; Convenção sobre a idade mínima
(paioleiros e foguistas), 1921; Convenção sobre a idade mínima (trabalhos não industriais), 1932; Convenção
(revisada) sobre a idade mínima (trabalho marítimo), 1936; Convenção (revisada) sobre a idade mínima (indústria),
1937; Convenção (revisada) sobre a idade mínima (trabalhos não industriais), 1937; Convenção sobre a idade
mínima (pescadores), 1959; e Convenção sobre a idade mínima (trabalho subterrâneo), 1965; Considerando que
chegou o momento de adotar um instrumento geral sobre o tema que, gradualmente, substitua os instrumentos
atuais, aplicáveis a setores econômicos limitados, a fim de obter a abolição total do trabalho de crianças; e Tendo
decidido que tal instrumento assuma a forma de uma convenção internacional, adota no vigésimo sexto dia de junho
de mil novecentos e setenta e três, a seguinte convenção, que será denominada Convenção sobre a Idade Mínima,
1973”. (ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO, 1973).
18
“Artigo 2º 1. Todo Membro que ratificar esta Convenção especificará, em declaração anexa à ratificação, uma
idade mínima para admissão a emprego ou trabalho em seu território e nos meios de transporte registrados em seu
território; ressalvado o disposto nos Artigos 4º e 8º desta Convenção, nenhuma pessoa com idade inferior a essa
idade será admitida a emprego ou trabalho em qualquer ocupação. 2. Todo País-membro que ratificar esta
Convenção poderá notificar ao Diretor-Geral da Repartição Internacional do Trabalho, por declarações subseqüentes,
que estabelece uma idade mínima superior à anteriormente definida.3. A idade mínima fixada nos termos do
parágrafo 1º deste Artigo não será inferior à idade de conclusão da escolaridade obrigatória ou, em qualquer
hipótese, não inferior a quinze anos. 4. Não obstante o disposto no Parágrafo 3º deste Artigo, o País-membro, cuja
economia e condições do ensino não estiverem suficientemente desenvolvidas, poderá, após consulta às organizações
de empregadores e de trabalhadores concernentes, se as houver, definir, inicialmente, uma idade mínima de quatorze
anos.5. Todo País-membro que definir uma idade mínima de quatorze anos, de conformidade com o disposto no
parágrafo anterior, incluirá em seus relatórios a serem apresentados sobre a aplicação desta Convenção, nos termos
29

pode ser inferior àquela de conclusão da escolaridade compulsória ou, em qualquer hipóteses, não
inferior a 15 (quinze) anos.
Importa ressaltar que diferente do paradigma adotado pela Convenção 138 da OIT,
o Estatuto da Criança Adolescente elege a idade de 18 (dezoito) anos.
No art. 7°. Item 119, admite-se o emprego ou trabalho de jovens entre 13 (treze) e
15 (quinze) anos, em serviços leves, desde que: i) não prejudiquem sua saúde ou
desenvolvimento; e, ii) não prejudiquem sua frequência escolar, sua participação em programas
de orientação profissional ou de formação aprovada pela autoridade competente, ou sua
capacidade de se beneficiar da instrução recebida.
Foi ressalvado aos Estados Membros cuja economia e condições de ensino não
estivessem suficientemente desenvolvidas, a possibilidade de definirem a idade mínima de 14
(quatorze) anos, proibindo-se. De qualquer forma, o exercício de trabalho que prejudique a saúde,
a segurança e a moral do jovem. Consta ainda regra segundo a qual não será inferior a 18
(dezoito) anos de idade mínima para admissão a qualquer tipo de empregou ou trabalho que, por
sua natureza ou circunstância em que for executado, possa prejudicar a saúde, a segurança e a
moral do adolescente (ROSATO; LÉPORE, 2012).
No Brasil a Constituição Federal de 1988, estabeleceu inicialmente, em seu art. 7°,
inciso XXXIII, a proibição de trabalho noturno, perigoso ou insalubre aos menores de 18
(dezoito) anos, e de qualquer trabalho aos menores de 14 (quatorze) anos, salvo na condição de
aprendiz (BRASIL, 1988).

do Artigo 22 da Constituição da Organização Internacional do Trabalho, declaração: a) de que subsistem os motivos


dessa providência ou b) de que renuncia ao direito de se valer da disposição em questão a partir de uma determinada
data”. (ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO, 1973).
19
Artigo 7º. 1. As leis ou regulamentos nacionais poderão permitir o emprego ou trabalho a pessoas entre treze e
quinze anos em serviços leves que: a) não prejudiquem sua saúde ou desenvolvimento, e b) não prejudiquem sua
freqüência escolar, sua participação em programas de orientação vocacional ou de treinamento aprovados pela
autoridade competente ou sua capacidade de se beneficiar da instrução recebida. 2. As leis ou regulamentos
nacionais poderão também permitir o emprego ou trabalho a pessoas com, no mínimo, quinze anos de idade e que
não tenham ainda concluído a escolarização obrigatória em trabalho que preencher os requisitos estabelecidos nas
alíneas a) e b) do parágrafo 1º deste Artigo. 3. A autoridade competente definirá as atividades em que o emprego ou
trabalho poderá ser permitido nos termos dos parágrafos 1º e 2º deste Artigo e estabelecerá o número de horas e as
condições em que esse emprego ou trabalho pode ser desempenhado. 4. Não obstante o disposto nos parágrafos 1º e
2º deste Artigo, o País-membro que se tiver servido das disposições do parágrafo 4º do Artigo 2º poderá, enquanto
continuar assim procedendo, substituir as idades de treze e quinze anos pelas idades de doze e quatorze anos e a
idade de quinze anos pela idade de quatorze anos dos respectivos Parágrafos 1º e 2º deste Artigo.
30

No entanto, o referido dispositivo foi alterado pela Emenda Constitucional n.


20/98, que apesar de manter a proibição do trabalho noturno, perigoso ou insalubre para os
menores de 18 (dezoito) anos, passou a proibir o exercício de qualquer trabalho para o menor de
16 (dezesseis) anos (não mais 18 aos), salvo na condição de aprendiz, somente a partir de 14
(quatorze) anos (MACHADO, 2003).
O referido documento internacional no seu art. 8°, permite o trabalho de crianças e
adolescentes de qualquer idade em representações artísticas, desde que autorizado pela autoridade
competente por meio de licença concedida para cada menor individualmente, determinando o
número de horas de duração da atividade e as condições do exercício da tarefa.
Porém, importante ressaltar que a Convenção 138 da OIT não se aplica ao trabalho
do aprendiz, entendida como tal a atividade laboral feito por pessoas de no mínimo quatorze anos
de idade em escolas de educação vocacional ou técnica ou em outras instituições de treinamento
em geral, em empresas em que esse trabalho for parte integrante de curso de educação ou
treinamento ou em programa de treinamento ou orientação vocacional executado por empresa,
escola ou instituição de treinamento (PORTELA, 2011).
Observa Piovesan:

Dependendo da situação específica de cada Estado, a Convenção 138 não se aplicará


inicialmente a certas categorias, a respeito das quais se levantarem reais e especiais
problemas de aplicação, ainda que em caráter temporário (arts. 4 e 5). Os Estados podem
também excluir do alcance da Convenção 138 propriedades familiares e de pequeno
porte que produzam para o consumo local e que não empreguem regularmente mão-de-
obra remunerada. Entretanto, não poderão ser excluídas as normas de proteção dos
menores de 18 anos contra trabalhos perigosos ou em setores como mineração e
pedreira, indústria, construção, eletricidade, água, gás, serviços sanitários, transporte,
armazenamento, comunicações, plantações e outros empreendimentos agrícolas de fins
comerciais. (PIOVESAN, 2008, p. 429).

Por sua vez, assevera a Recomendação 146, inciso IV, §§ 12 e 13, que devem ser
aplicadas ao trabalho dos menores de 18 (dezoito) anos condições satisfatórias, que incluem: o
provimento de uma justa remuneração e sua proteção, tendo em vista o princípio de salário igual
para trabalho igual; a rigorosa limitação das horas diárias e semanais de trabalho e a proibição de
horas extras, de modo a deixar tempo para a educação, descanso e lazer; um período consecutivo
mínimo de doze horas de repouso noturno e o repouso semanal, à concessão de férias anuais e
remuneradas de pelo menos quatro semanas e nunca mais curtas do que as concedidas a adultos;
31

e a manutenção de padrões satisfatórios de segurança, de saúde de instrução e de supervisão


apropriadas (ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO, 1999).
Por fim, devem ser implantadas políticas de amplo escopo, voltadas a garantir o
pleno desenvolvimento da criança e a dificultar o trabalho infantil não só a partir de sua proteção,
mas também da atenção a suas famílias. Tais medidas incluem políticas de promoção do
desenvolvimento e da geração de emprego, de redução da pobreza, de fortalecimento dos serviços
de seguridade social, de melhorias da educação e de expansão das oportunidades de capitação
profissional.

2.2.1.2. Convenção 182 da OIT e Recomendação n. 190

A Convenção 182 da OIT Sobre as Piores Formas de Trabalho Infantil (1999)20


juntamente com a Recomendação n. 19021, ambas da OIT, foram promulgadas no Brasil pelo

20
“A Conferência Geral da Organização Internacional do Trabalho: Convocada em Genebra pelo Conselho de
Administração da Repartição Internacional do TrabaIho e reunida naquela cidade em 1º de junho de 1999 em sua
octogésima sétima reunião; Considerando a necessidade de adotar novos instrumentos para a proibição e
eliminação das piores formas de trabalho infantil, principal prioridade da ação nacional e internacional, incluídas a
cooperação e a assistência internacionais, como complemento da Convenção e Recomendação sobre a idade
mínima de admissão ao emprego, 1973, que continuam sendo instrumentos fundamentais sobre o trabalho infantil;
Considerando que a eliminação efetiva das piores formas de trabalho infantil requer uma ação imediata e abrangente
que leve em conta a importância da educação básica gratuita e a necessidade de liberar de todas essas formas de
trabalho as crianças afetadas e assegurar a sua reabilitação e sua inserção
social ao mesmo tempo em que são atendidas as necessidades de suas famílias; Recordando a Resolução sobre a
eliminação do trabalho infantil, adotada pela Conferência lnternacional do Trabalho em sua 83ª reunião, celebrada
em1996; Reconhecendo que o trabalho infantil é em grande parte causado pela pobreza e que a solução no longo
prazo está no crescimento econômico sustentado conducente ao progresso social, em particular a mitigação da
pobreza e a educação universal; Recordando a Convenção sobre Direitos da Criança adotada pela Assembléia Geral
das Nações Unidas em 20 de novembro de 1989; Recordando a Declaração da OIT relativa aos princípios e direitos
fundamentais no trabalho e seu seguimento, adotada pela Conferência Internacional do Trabalho em sua 86ª
reunião, celebrada em 1998; Recordando que algumas das piores formas de trabalho infantil são objeto de outros
instrumentos internacionais, em particular a Convenção sobre o trabalho forçado, 1930, e a Convenção suplementar
das Nações Unidas sobre a abolição da escravidão, o tráfico de escravos e as instituições e práticas análogas a
escravidão, 1956; Tendo decidido adotar diversas propostas relativas ao trabalho infantil,
questão que constitui o quarto ponto da agenda da reunião, e Tendo determinado que essas propostas tomem a forma
de uma convenção internacional. Adota, com data de dezessete de junho de mil novecentos e noventa e nave, a
seguinte Convenção, que poderá ser citada como Convenção sobre as piores formas de trabalho infantil, 1999”.
(ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO, 1999).
21
“No mesmo ano, a OIT adotou a Recomendação nº 190, indicando os programas de ação para a eliminação das
piores formas de labor infantil e solicitando aos Países-Membros que identifiquem, denunciem e impeçam que os
infantes exerçam tais atividades. Recomendava, ainda, que fosse dada atenção especial às crianças mais jovens, às do
sexo feminino e ao problema do trabalho oculto. A Recomendação assinala, de maneira exemplificativa,
modalidades de trabalho perigoso: aqueles em que a criança submete-se a abusos psicológicos, físicos e sexuais; as
atividades executadas em condições insalubres ou em condições especialmente difíceis; os trabalhos subterrâneos,
debaixo d’água, em lugares confinados ou em alturas perigosas; as atividades realizadas com máquinas, ferramentas
32

Decreto Presidencial n° 3.597/2000. Para efeitos desta Convenção criança é o menor de 18


(dezoito) anos, conforme prescreve em seu art. 2°.
Para Rossato e Lépore (2012) a Convenção n. 182 Sobre as Piores Formas de
Trabalho Infantil apresenta-se como um complemento à Convenção de n. 138 Sobre a Idade
Mínima. Somadas, essas convenções constituem instrumentos fundamentais de combate ao
trabalho infantil. Parte-se da necessidade de adoção de ações imediatas e globais, de
reconhecimento da importância da educação fundamental e gratuita, retirando a criança de todos
esses trabalhos, sem se esquecer das necessidades das famílias.
Segundo o art. 3°, da Convenção 182, a expressão as piores formas de trabalho
infantil, compreende:

a) todas as formas de escravidão ou práticas análogas à escravidão, tais como a venda e


tráfico de crianças, a servidão por dívidas e a condição de servo, e o trabalho forçado ou
obrigatório, inclusive o recrutamento forçado ou obrigatório de crianças para serem
utilizadas em conflitos armados;
b) a utilização, o recrutamento ou a oferta de crianças para a prostituição, a produção de
pornografia ou atuações pornográficas;
c) a utilização, recrutamento ou a oferta de crianças para a realização para a realização
de atividades ilícitas, em particular a produção e o tráfico de entorpecentes, tais com
definidos nos tratados internacionais pertinentes; e,
d) o trabalho que, por sua natureza ou pelas condições em que é realizado, é suscetível
de prejudicar a saúde, a segurança ou a moral das crianças. (ORGANIZAÇÃO
INTERNACIONAL DO TRABALHO, 1999).

Por sua vez, o art. 4°, item 1, da referida Convenção determina que os tipos de
trabalho a que se refere o art. 3°, alínea “d”, serão definidos pela legislação nacional ou pela
autoridade competente, após consulta com as organizações de empreendedores e de trabalhadores
interessadas, levando em consideração as normas internacionais pertinentes.
No Brasil o referido dispositivo foi regulamentado, por meio do Decreto n.
6.481/08, que aprovou a Lista das Piores Formas de Trabalho Infantil (Lista TIP), que enumera as

e equipamentos de risco, bem como os que envolvam manipulação ou transporte de cargas pesadas. A
Recomendação propõe que, visando pôr em prática os programas de erradicação das piores formas de trabalho
infantil, sejam compilados e atualizados dados estatísticos acerca da natureza e do alcance do trabalho da criança e
do adolescente. Sugere que os países ratificantes criem um forte sistema de monitoramento e de sanções para os
envolvidos, além de propor: o desenvolvimento de políticas empresariais que visem à promoção dos fins da
Convenção, a melhoria da infra-estrutura educacional e da capacitação de professores, a promoção de emprego e de
formação profissional aos pais das crianças, bem como a sensibilização dos adultos das famílias sobre a gravidade da
questão do trabalho infantil”. (LIMA, 2005, p. 178).
33

atividades proibidas aos menores de 18 (dezoito) anos22. O art. 2°, do referido decreto, traz
exceções a proibição das atividades enumeradas na Lista TIP, nas seguintes hipóteses:

a) ser emprego ou trabalho, a partir da idade de dezesseis anos, autorizado o Ministério


do Trabalho e Emprego, após consulta às organizações de empregadores e trabalhadores
interessadas, desde que fiquem plenamente garantias a saúde, a segurança e a moral dos
adolescentes; e
b) aceitação de parecer técnico circunstanciado, assinado por profissional legalmente
habilitado em segurança e saúde no trabalho, que ateste a não exposição aos riscos que
possam comprometer a saúde, a segurança e a moral dos adolescentes, depositado na
unidade descentralizada do Ministério do Trabalho e Emprego da circunscrição onde
ocorrerem as referidas atividades. (BRASIL, 2000).

A convenção faz o reconhecimento de que o trabalho infantil é em grande parte


causado pela pobreza, e que sua solução requer o crescimento econômico sustentado, conducente
ao progresso social e, em particular, à mitigação da pobreza e à educação universal. Parte ainda,
do princípio de que não só necessário prevenir e combater as piores formas de trabalho infantil,
como também promover a reabilitação e inserção social das vítimas e atender às necessidades de
suas famílias.
Entende Portela (2011) que as medidas para combater as piores formas de trabalho
infantil, deverão ser voltadas primeiramente a impedir a ocupação de crianças nessas práticas,
retirá-las dessas atividades e reabitá-las. A reabilitação incluirá também as crianças que tenham
sido retiradas das piores formas de trabalho infantil. As ações contra as piores formas de trabalho
infantil devem levar em consideração especial a situação das meninas e de grupos
particularmente expostos e, nos termos da Recomendação 190 (I, §1°, “c”), também as crianças
mais jovens e o problema do trabalho oculto.
Por fim, o Estado deverá adotar todas as medidas necessárias para garantir a
aplicação efetiva e o cumprimento dos dispositivos que colocam e vigor a Convenção 182,
inclusive o estabelecimento e a aplicação das sanções penais ou outras das sanções, conforme o
caso, o que independe da consulta prévia a organizações de trabalhadores e empregadores.

22
“Art. 4o Para fins de aplicação das alíneas “a”, “b” e “c” do artigo 3 o da Convenção no 182, da OIT, integram as
piores formas de trabalho infantil: I - todas as formas de escravidão ou práticas análogas, tais como venda ou tráfico,
cativeiro ou sujeição por dívida, servidão, trabalho forçado ou obrigatório; II - a utilização, demanda, oferta, tráfico
ou aliciamento para fins de exploração sexual comercial, produção de pornografia ou atuações pornográficas; III - a
utilização, recrutamento e oferta de adolescente para outras atividades ilícitas, particularmente para a produção e
tráfico de drogas; e IV - o recrutamento forçado ou compulsório de adolescente para ser utilizado em conflitos
armados”. (BRASIL, 2000).
34

2.3.2. Declaração de Genebra – Carta da Liga Sobre a Criança (1924)

Em 1919, foi criada, em Londres, a primeira associação Save the Children


(International Save the Children Alliance). O seu nascimento se deu por ação das irmãs
Eglentune Jebb e Doroothyu Buxton, em decorrência das conseqüências nefastas da Primeira
Guerra Mundial da Revolução Russa. Essa associação tem por finalidade promover o seu
apadrinhamento (INTERNATIONAL SAVE THE CHILDREN ALLIANCE, 2000).
Segundo Dolinger (2003) em 1920, essa Associação tornou-se a União
Internacional Salve as Crianças, considerada como vanguardista na luta pelos direitos da infância
em todo o planeta (com atuação até os atuais dias em mais de cento e vinte países); Atuou na
elaboração da Declaração de Genebra, também conhecida como Carta da Liga, com uma proposta
apresentada a Assembléia Geral da Liga das Nações23 pela delegação chilena.
Para Rossato e Lépore (2012) a Declaração de Genebra, ou também Carta da Liga
sobre à Criança, de 1984, é o primeiro documento de caráter amplo e genérico com relação à
criança. De caráter amplo e genérico, porque ao contrário das Convenções da OIT, não se
circunscreve apenas ao enfoque trabalhista da defesa dos direitos humanos da criança, mas
contempla a proteção à infância em todos os aspectos.
A Carta da Liga sobre as Crianças é composta de 05 (cinco) itens:
I – A criança deve receber os meios necessários para seu desenvolvimento normal, tanto
material como espiritual;

23
“A Liga das Nações foi uma organização internacional criada em abril de 1919, quando a Conferência de Paz de
Paris adotou seu pacto fundador, posteriormente inscrito em todos os tratados de paz. Ainda durante a Primeira
Guerra Mundial, a idéia de criar um organismo destinado à preservação da paz e à resolução dos conflitos
internacionais por meio da mediação e do arbitramento já havia sido defendida por alguns estadistas, especialmente o
presidente dos Estados Unidos Woodrow Wilson. Contudo, a recusa do Congresso norte-americano em ratificar o
Tratado de Versalhes acabou impedindo que os Estados Unidos se tornassem membro do novo organismo. A Liga
possuía uma Secretaria Geral permanente, sediada em Genebra, e era composta de uma Assembléia Geral e um
Conselho Executivo. A Assembléia Geral reunia, uma vez por ano, representantes de todos os países membros da
organização, cada qual com direito a um voto. Já o Conselho, principal órgão político e decisório, era composto de
membros permanentes (Grã-Bretanha, França, Itália, Japão e, posteriormente, Alemanha e União Soviética) e não-
permanentes, estes últimos escolhidos pela Assembléia Geral. Não possuindo forças armadas próprias, o poder de
coerção da Liga das Nações baseava-se apenas em sanções econômicas e militares. Sua atuação foi bem-sucedida no
arbitramento de disputas nos Bálcãs e na América Latina, na assistência econômica e na proteção a refugiados, na
supervisão do sistema de mandatos coloniais e na administração de territórios livres como a cidade de Dantzig. Mas
ela se revelou impotente para bloquear a invasão japonesa da Manchúria (1931), a agressão italiana à Etiópia (1935)
e o ataque russo à Finlândia (1939). Em abril de 1946, o organismo se auto dissolveu, transferindo as
responsabilidades que ainda mantinha para a recém-criada Organização das Nações Unidas, a ONU”. (FUNDAÇÃO
GETÚLIO VARGAS, 2000).
35

II – A criança que estiver com fome deve ser alimentada; a criança que estiver doente
precisa ser ajudada; a criança atrasada precisa ser ajudada; a criança delinqüente precisa
ser recuperada; o órfão e o abandonado precisam ser protegidos e socorridos;
III – A criança deverá ser a primeira a receber socorro em tempos de dificuldades;
IV – A criança precisa ter possibilidade de ganhar seu sustento e deve ser protegida de
toda forma de exploração;
V – A criança deverá ser educada com consciência de que seus talentos devem ser
dedicados ao serviço de seus semelhantes (LIGA DAS NAÇÕES, 1984)

Importa ressaltar que, apesar da importante contribuição dada a Proteção da


Criança e o Adolescente vítimas da exploração do trabalho infantil, a Declaração da Liga das
Nações, limitou-se apenas a ser mera recomendação da Liga das Nações aos governos, não
possuidora de coercibilidade.

2.3.3. Declaração dos Direitos da Criança (1959)

A Declaração dos Direitos da Criança foi adotada pela Assembleia das Nações
Unidas de 20 de novembro de 195924.
Para Veronese e Custódio (2013) a Organização das Nações Unidas proferiu a
Declaração dos Direitos da Criança, exemplo de documento interpretativo e complementar da
Declaração Universal dos Direitos Humanos, tanto que se refere a esse documento em seu
preâmbulo, mas, na sequência “apresenta o problema dos direitos da criança como uma
especificação da solução dada ao problema dos direitos do homem”.
Baseada na Resolução 1.386, e denominada de Declaração dos Direitos da
Criança, de 1959, foi responsável por uma verdadeira alteração de paradigma, pois a criança
deixou de ser considerada objeto de proteção (agente passivo), para ser erigida a sujeito de
direito, e paralelamente, em sentido amplo a infância passou a ser considerada um sujeito
coletivo de direitos.
Dolinger (2003) aponta outra significativa diferença entre as Declarações.
Enquanto na de 1924, o art. III relata que a criança deve ser a primeira a receber socorro em

24
“A Declaração dos Direitos da Criança foi proclamada pela Resolução da Assembleia Geral 1386 (XIV), de 20 de
Novembro de 1959. Tem como base e fundamento os direitos a liberdade, estudos, brincar e convívio social das
crianças que devem ser respeitadas e preconizadas em dez princípios. Aprovada por unanimidade em 20 de
Novembro de 1959, pela Assembleia Geral da ONU. É integralmente fiscalizada pela UNICEF. Organismo
unicelular da ONU, criada com o fim de integrar as crianças na sociedade e zelar pelo seu convívio e interação
social, cultural e até financeiro conforme o caso, dando-lhes condições de sobrevivência até a sua adolescência”.
(ISHIDA, 2010, p. 166).
36

tempos de dificuldade, enquanto que o Princípio 8 da Declaração de 1959 diz que a criança está
entre os primeiros a receber a proteção e o socorro.
A Declaração dos Direitos da Criança traz em seu bojo, dez princípios quais seja:

Princípio I – Universalização dos direitos a todas as crianças, sem qualquer


discriminação;
Princípio II – As Leis devem considerar a necessidade de atendimento do interesse
superior da criança;
Princípio III – Direito a um nome e uma nacionalidade, devendo ser prestada assistência
a gestante;
Princípio IV: A criança faz jus a todos os benefícios da previdência social, bem como
desfrutar de alimentação, moradia, lazer e outros cuidados especiais;
Princípio V – Aqueles que necessitarem devem receber cuidados especiais (como ocorre
com as crianças portadoras de necessidades especiais), bem como de receber amor e
cuidados dos pais;
Princípio VI – Criança deverá crescer sob o amparo de seus pais, em ambiente de afeto e
segurança, podendo a criança de tenra idade ser retirada de seus pais somente em casos
excepcionais;
Princípio VII - Direito à educação escolar;
Princípio VIII – Criança deve figurar e entre os primeiros a receber proteção e auxílio;
Princípio IX – Criança faz jus à proteção contra o abandono e a exploração no trabalho;
Princípio X – Criança deve crescer dentro de um espírito de solidariedade, compreensão,
amizade e justiça entre os povos. (ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS, 1959).

Defendem Rossato e Lépore (2012) que dentre todos esses princípios, destaca-se o
primeiro, pelo qual todas as crianças (e não só um grupo delas) passaram a ser detentoras de
direitos. Não só os filhos de reis, de governantes, de detentores do capital, mas também os filhos
do proletariado e dos excluídos. A infância qualquer que fosse a origem, passou a ser considerado
como sujeito coletivo de direitos.
Ocorre que, assim como a Carta da Liga de 1924, o problema inicial de aplicação
da Declaração dos Direitos da Criança era a carência de coercibilidade, sendo considerada mera
enunciação de direitos, sem que o seu cumprimento pudesse ser exigido pelos seus Estados
Partes25.
Entende Dolinger (2003, p. 84) que “a Declaração dos Direitos da Criança da
ONU teria mais força em comparação às declarações em geral, pois foi aprovada por
unanimidade na Assembléia Geral das Nações Unidas”.

25
“Trata-se de um problema comum às Declarações de Direitos, que exigem complementação como, por exemplo, o
mesmo fenômeno que atingiu a Declaração Universal dos Direitos Humanos e exigiu a edição dos Pactos de Direitos
de 1966”. (VERONESE, LÉPORE, 2013, p. 122).
37

Para sanar o problema enfrentado para sua aplicabilidade, em comemoração aos


vinte anos da Declaração, em 1979, ano escolhido como o Ano da Criança, foi aprovada a
proposta da Delegação Polonesa para a elaboração de uma Convenção sobre os Direitos da
Criança, documentos que só foi finalizado dez anos depois.

2.3.4. Convenção Sobre os direitos da Criança (1989)

A Convenção sobre os Direitos da Criança (1989) foi adotada pela ONU, em 1989,
e ratificada no Brasil pelo Decreto n° 99.710/199026, por se tratar de direitos humanos aprovado
antes da Emenda Constitucional n° 45/2004, tem status de supra legalidade no sistema jurídico
brasileiro, conforme posição majoritária do Supremo Tribunal Federal (BRASIL, 2010).
“Destaca-se como o tratado internacional de proteção de direitos humanos com
mais elevado número de ratificações” (ISHIDA, 2010, p. 123).
Para os fins da Convenção, a criança é todo indivíduo menor de dezoito anos,
salvo se, em conformidade com a lei aplicável à criança a maioridade seja alcançada antes (art.
1°). Neste sentido a Convenção não distingue crianças de adolescentes. O que não implica,
entretanto, que suas normas não protejam todo menor de 18 (dezoito) anos (ORGANIZAÇÃO
DAS NAÇÕES UNIDAS, 1989).
Conforme assevera Machado (2003, p. 165) “a Convenção acolhe a concepção do
desenvolvimento integral as criança, reconhecendo-a como verdadeiro sujeito de direitos, que
exige proteção especial e absoluta prioridade”.
Nas palavras de Rossato e Lépore (2012) o documento é composto por
dispositivos que seguem a filosofia fundada na Declaração Universal dos Direitos do Homem,
cuidando não só dos direitos econômicos, sociais, culturais, civis e políticos, mas também inclui
direitos humanitários e conceitos novos.
Entretanto, pode-se notar que nem todos os direitos consagrados nos documentos
de proteção homogênea foram repetidos na Convenção da Criança, o que não se apresenta como
um problema, pois é identificada a existência de um diálogo, entre as convenções sobre os
direitos humanos e a Convenção de 1989, de modo que todos os princípios consubstanciados nos

26
Decreto n° 99.710/90. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/1990-1994/D99710.htm>.
Acesso em: 14 de Jan. 2013.
38

documentos homogêneos serão aplicados à Convenção (ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES


UNIDAS, 2000).
Dentre os inúmeros direitos descritos na Convenção, destaca-se o art. 32, item 2,
alínea “c”27 que versa sobre o trabalho infantil, afirmando que cabe aos Estados estabelecer
penalidades ou outras sanções apropriadas a fim de que a criança tenha assegurado o seu direito a
não trabalhar ou a não exercer atividades pouco condizentes com a sua condição de pessoa em
desenvolvimento, dependendo essa verificação da idade da criança; Da mesma forma, o item 1,
alínea “a”, desse mesmo artigo, amplia o elenco de hipótese em que o trabalho deve ser
restringido, deixando clara a preocupação da sociedade internacional quanto à integridade da
criança em suas várias facetas (física, mental, espiritual, moral e social).
A Convenção dos Direitos da Criança adotou o critério do Best interesrs of the
child – superior interesse da criança, estabelecendo a “obrigação dos Estados de respeitar as
responsabilidades, direitos e obrigações dos pais de prover direção apropriada para o exercício,
pela criança, dos direitos reconhecidos na Convenção”. (MONACO, 2004, p. 201)
A Convenção também estabeleceu a existência do Comitê sobre os Direitos da
Criança28, criado em 1991, com a finalidade de acompanhar a implementação da convenção,
sendo por ele destacado quatro artigos da Convenção que podem ser erigidos a pilares do
diploma: 1) Princípio da não discriminação (art. 2°); 2) princípio da observância dos melhores

27
“Artigo 32 - 1. Os Estados Partes reconhecem à criança o direito de ser protegida contra a exploração econômica ou
a sujeição a trabalhos perigosos ou capazes de comprometer a sua educação, prejudicar a sua saúde ou o seu
desenvolvimento físico, mental, espiritual, moral ou social. 2. Os Estados Partes tomam medidas legislativas,
administrativas, sociais e educativas para assegurar a aplicação deste artigo. Para esse efeito, e tendo em conta as
disposições relevantes de outros instrumentos jurídicos internacionais, os Estados Partes devem, nomeadamente: a)
Fixar uma idade mínima ou idades mínimas para a admissão a um emprego; b) Adotar regulamentos próprios
relativos à duração e às condições de trabalho; e c) Prever penas ou outras sanções adequadas para assegurar uma
efetiva aplicação deste artigo”. (ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS, 1989).
28
“O Comité dos Direitos da Criança é o órgão criado em virtude dos art.º 43.º da Convenção sobe os Direitos da
Criança com o objectivo de controlar a aplicação, pelos Estados Partes, das disposições desta Convenção, bem como
dos seus dois Protocolos Facultativos (relativos ao Envolvimento de Crianças em Conflitos Armados e à Venda de
Crianças, Prostituição Infantil e Pornografia Infantil). Os Estados Partes apresentam relatórios ao Comité onde
enunciam as medidas adoptadas para tornar efectivas as disposições da Convenção (e, sendo caso disso, dos seus
Protocolos Facultativos). Os relatórios são analisados pelo Comité e discutidos entre este e representantes do Estado
Parte em causa, após o que o Comité emite as suas observações finais sobre cada relatório: salientando os aspectos
positivos bem como os problemas detectados, para os quais recomenda as soluções que lhe pareçam adequadas. Este
Comité dispõe também de competência para formular comentários gerais relativos a determinados artigos ou
disposições da Convenção, organizar debates temáticos sobre matérias cobertas pela mesma, solicitar a realização de
estudos sobre questões relativas aos direitos da criança e elaborar recomendações de ordem geral com base na
informação recolhida a partir dos relatórios estaduais ou de outras fontes”. (COMITE DOS DIREITOS DA
CRIANÇA, 2006).
39

interesses da criança (art. 3°); 3) princípio do direito à vida e à sobrevivência (art. 6°); e, 4)
princípio do direito a expressar sua opinião (art. 12).
No entendimento de Mônaco:

Com a finalidade de serem observados os direitos umanos de crianças e adolescentes, a


Convenção sobre os Direitos da Criança dez previsão – assim como fez o Pacto
Internacional dos Direitos Civis e Políticos – de uma sistemática peculiar
monitoramento, uma special enforcement machinery, com a exigência de os Estados
Partes apresentarem relatórios que serão examinados por um Comitê sobre os Direitos da
Criança, composto por dez membros. Esse Comitê não tem atribuição de sancionar, mas
unicamente expedir recomendações de adoção de medidas suficientes para “implementar
uma política der promoção e proteção dos direitos assegurados pela convenção
(MONACO, 2004, p. 284).

Importa frisar que a Convenção sobre os Direitos da Criança, comparada a


Declaração de 1959, foi um documento de suma importância na defesa dos interesses de crianças,
considerando-as como sujeitos individuais e coletivos de direitos, a adoção da chamada doutrina
da proteção integral, permitindo a intervenção da comunidade internacional e obrigando os
Estados Partes a tomarem todas as providências administrativas, legais e judiciais, no sentido da
implementação desses direitos.

2.3.5. Convenção Ibero-americana sobre os Direitos dos Jovens (2005)

A Organização Ibero-americana de Juventude (OIJ), criada em 1996 é uma


organização internacional de natureza multigovernamental que reúne os ministérios da juventude
dos países da Comunidade Ibero-Americana e que tem como objetivo principal a inclusão e
integração dos jovens através de políticas públicas de juventude (ORGANIZAÇÃO IBERO-
AMERICANA DE JUVENTUDE, 2005).
A organização é composta por 21 países: Argentina, Bolívia, Brasil, Colômbia,
Costa Rica, Chile, Cuba, República Dominicana, Equador, Espanha, El Salvador, Guatemala,
Honduras, México, Nicarágua, Panamá, Paraguai, Peru, Portugal, Uruguai e Venezuela.
Em 2005, foi firmada em Badajoz, na Espanha, a Convenção Ibero-Americana dos
Direitos dos Jovens, que tratou de forma específica a juventude, parcela da sociedade composta
por pessoas que tenham entre quinze e vinte e quatro anos de idade.
40

Rossato e Lépore apontam como os principais pontos da Convenção:

a) âmbito de aplicação: a Convenção considera como jovem as pessoas, nacionais ou


residentes em quaisquer países ibero-americanos, que tenham entre quinze e vinte e
quatro anos, considerando-as como titulares de direitos (civis, políticos, econômicos,
sociais e culturais), sem prejuízo daqueles previstos na Convenção sobre os Direitos da
Criança;
b) Direito à paz: aos jovens é assegurado o direito a paz. caracterizado por uma vida sem
violência e à fraternidade, competindo aos Estados estimulá-los à criatividade, ao
espírito empreendedor, a formação inerente a valores pelo respeito dos Direitos
Humanos;
c) Princípio da não discriminação: inadmissão de qualquer discriminação fundada em
qualquer fator, reconhecendo o direito à igualdade de gênero;
d) Importância da família: reconhece-se a importância da família na orientação de seus
filhos;
e) Reconhecimento de direitos civis e políticos: menciona-se o direito à vida, à
integridade pessoal, à proteção contra abusos sexuais, à objeção de consciência; à justiça
(em toda a sua plenitude); à identidade e a personalidade; à honra, privacidade e
imagem; à liberdade e segurança pessoal; à liberdade de expressão, reunião e associação;
de ser parte de uma família e serem ouvidos; a constituir família; à participação política;
f) reconhecimento dos direitos econômicos, sociais e culturais: menciona-se o direito à
educação, incluindo-se a educação sexual; à cultura e à arte; à saúde; ao trabalho e boas
condições de exercê-lo, com especial atenção à aplicação do art. 10, do Convênio 102 da
OIT; à proteção social; à formação profissional; à habitação; à um meio ambiente
saudável; ao lazer e ao entretenimento; ao desporto; ao desenvolvimento social,
econômico, político e cultural, bem como de serem considerados como metas prioritárias
das iniciativas que se implementam para esse efeito;
g) Previsão de mecanismos de promoção dos direitos: imposição da obrigação dos
Estados de criarem um organismo governamental permanente, responsável por
coordenar e avaliar políticas públicas de juventude, remetendo-se relatório ao Secretário
Geral da Organização Ibero-americana de Juventude; as normas da Convenção serão
aplicadas sem prejuízo de outras que reconheça, ou ampliem os direitos dos jovens.
(ROSSATO; LÉPORE, 2013. p. 50).

Importa ressaltar que o Brasil ainda não ratificou a Convenção Ibero-americana


dos Direitos dos Jovens, isso porque, à época da edição do documento o Brasil, ainda não era
membro da OIJ, a adesão do país ao Ato Fundamental da OIJ somente ocorreu em 05 de agosto
de 2005, com aprovação do Senado Federal (BRASIL, 2005).
Entretanto, o país já inseriu, por meio de legislação interna, algumas normas
jurídicas presentes na Convenção Ibero-americana, entre elas destacam-se a Lei n° 11.129/05 e a
Lei n ° 11.692/08, que instituem e regulamentam o Programa Nacional de Inclusão de Jovens –
ProJoven, o Conselho Nacional da Juventude e a Secretaria Nacional da Juventude.
41

3. A CRIANÇA E O ADOLESCENTE NO ORDENAMENTO JURÍDICO BRASILEIRO

A evolução do tratamento da criança e do adolescente, no ordenamento jurídico


brasileiro, pode ser resumida em quatro fases: a) fase da absoluta indiferença, em que não
existiam normas relacionadas a este grupo; b) fase da mera imputação criminal, em que as leis
tinham o único propósito de coibir a prática de ilícitos por aquelas pessoas (Exemplo: Código
Criminal do Império de 1830 e Código Penal de 1890); c) fase tutelar, conferindo-se ao mundo
dos adultos poderes para promover a integração sócio familiar da criança com tutela reflexa de
seus interesses pessoais (exemplo: Código Mello Matos de 1927 de Menores de 1979); e, d) fase
de proteção integral, em que as leis reconheceram direitos e garantias às crianças, considerando-
as como pessoas em desenvolvimento (exemplo: atual Estatuto da Criança e do Adolescente
1990).
Como as três fases anteriores de evolução dos direitos da criança e do adolescente
no Brasil já foram estudadas no presente trabalho, mas precisamente no capítulo primeiro, será
feito adiante uma abordagem o tratamento dado à criança e do adolescente pelo ordenamento
pátrio à luz da doutrina da proteção integral.

3.1. Legislação Brasileira

De maneira geral atualmente no Ordenamento Brasileiro, os principais


documentos legais vigentes que regulamentam e protegem o trabalho da criança e do adolescente
são: Consolidação das Leis do Trabalho29; Constituição Federal de 198830, Estatuto da Criança e
do Adolescente (Lei n° 9.069/90)31, Lei das Diretrizes Base da Educação (Lei n° 9.394/1996)32,

29
“A Consolidação das Leis do Trabalho sofreu diversas alterações no Capítulo IV, denominado Da proteção do
trabalho do menor, do Título III, que estabelece as normas especiais de tutela do trabalho. Os artigos desse citado
Capítulo e is de ns. 17, § 1° (carteira profissional), 134, § 2° (período de férias), 136, § 1° (época de férias de
membros da mesma família); § 2° (época da concessão de férias), 461 (isonomia salarial – que também diz respeito
ao adolescente) e 529, “b” (que estabelece idade para o exercício do direito do voto no sindicato)”. (PORTELA,
2010, p. 234).
30
“A Constituição Federal de 1988 trouxe a lume seis princípios básicos com relação à proteção do trabalho do
adolescente: Princípio da Idade Mínima (art. 7°, XXXIII e art. 227, § 3°, inciso I, CF/88); Princípio da Tutela
Especial (art. 7°, XXXIII, e art. 227, §3°, inciso I); Princípio da aprendizagem e formação para o trabalho (art. 7°,
XXXIII, e art. 214); Princípio da Integração ao Mercado do Trabalho (art. 203, III); Princípio das garantias
trabalhistas (art. 7°, XXXIII, e art. 227, §3°, inciso I) e Princípio da Garantia da Educação – qualificação para o
trabalho (art. 205)”. (MORAES FILHO; MORAES, 2010, p. 605).
31
“O Estatuto da Criança e do Adolescente foi estabelecido pela Lei n° 8.069, de 13.6.1990, sendo dividido em dois
Livros, sendo Parte Geral e o segundo Parte Especial. Os principais artigos do Estatuto que dizem respeito
especificamente aos direitos trabalhistas são os de números 4, 60 até 69, 94, 98, 120, 124, 136 e 201”. (ISHIDA,
2010, p. 127).
42

Decreto Lei 4.134/0233 e o Decreto n° 3.597/0034. Adiante será feito um estudo sobre a aplicação
desses dispositivos legais na consolidação da Doutrina da Proteção Integral.

3.2. Sujeitos de Direitos: menor, crianças, adolescentes e jovens

Na legislação brasileira e nas doutrinas sobre o trabalho infanto-juvenil, há a


utilização das palavras menor35, criança36, adolescente37 e jovem38 com diferentes significados39.

32
“A Lei 9.034/1996, preocupa-se com a preparação do adolescente para o trabalho desde o ensino básico, além de
possuir um capítulo próprio à respeito da educação profissional (III do título V)”. (MORAES FILHO; MORAES,
2010, p. 500).
33
O Decreto 4.134/2002, ratificou no a Convenção n° 138, complementada peça Recomendação 146
34
O Decreto 3.597/2000 ratificou a Convenção n° 182 e a Recomendação 190.
35
“No sentido técnico-jurídico designa a pessoa que não tinha ainda atingido a maioridade. É, assim, aquela que não
tem 18 anos completos, exigidos por lei, para que seja considerado capaz”. (NASCIMENTO, 2000, p. 186).
36
“Considera-se a pessoa até 12 anos incompletos”. (BRASIL, 1990).
37
“ Nomina-se de acordo com a Lei n° 8.069/90, de 13.7.1990 (Estatuto da Criança e do Adolescente), a pessoa entre
12 e 18 anos de idade”. (SILVA, 2008, p. 70).
38
“Jovem é o indivíduo com idade entre 15 e 29 anos, conforme determina a Lei n. 11.129/05”. (ROSSATO;
LÉPORE, 2012, p. 76).
39
“A palavra menor normalmente é utilizada no Direito Civil ou Penal para significar inimputabilidade daquela
pessoa, o que não ocorre no Direito do Trabalho. No Direito Civil, faz-se a distinção entre menor de 16 anos ou
impúbere, que deve ser representado pelos pais para a prática de atos civis e que é absolutamente incapaz (art. 3º, I,
do CC). São relativamente incapazes os maiores de 16 anos e os menores de 18 anos (art. 4], I, do CC), que são os
menores púberes, que serão assistidos pelos progenitores. A capacidade absoluta dá-se aos 18 anos, ou seja, quando
cessa a menoridade (art. 5º do CC). No Direito Penal, considera-se que os menores de 18 anos são penalmente
inimputáveis, ficando sujeitos às normas estabelecidas na legislação especial (art. 27 do CP, que foi elevado ao nível
de dispositivo constitucional no art. 228 da Constituição). A rigor, a palavra menor nada significa, apenas coisa
pequena. O jovem, ou a juventude, é a faixa de idade compreendida entre 15 e 24 anos. O termo menor, porém, tem
sido utilizado mais para demonstrar a incapacidade daquela pessoa para os atos da vida jurídica. Tem, assim, a
palavra natureza civilista. As legislações estrangeiras costumam empregar as seguintes palavras para tratar da
criança: child, em inglês; enfant, em francês; fanciulli, em italiano; nino, em espanhol. Os termos mais corretos são,
realmente, criança e adolescente. A criança pode ser entendida como a pessoa que está antes da fase da puberdade. A
puberdade é o período de desenvolvimento da pessoa, em que ela se torna capaz de gerar um filho. Já a adolescência
é o período que vai da puberdade até a maturidade. Como vemos, o menor não é incapaz de trabalhar, ou não está
incapacitado para os atos da vida trabalhista; apenas, a legislação dispensa-lhe uma proteção especial. Daí por que os
termos a serem empregados são criança ou adolescente. A atual Constituição, nesse aspecto, adotou a referida
nomenclatura, mais acertada. Há no inciso II do art. 203 uma regra de assistência social destinada a dar amparo “às
crianças e adolescentes”. O Capítulo VII do Título VIII “Da Ordem Social” da Constituição empregou
expressamente a denominação “Da Criança e do Adolescente”, destinando proteção especial a essas pessoas; utiliza a
Constituição a expressão criança e adolescente no art. 227, § 1º, II, § 3º, III, § 4º, § 7º. Quando o constituinte quis
referir-se à incapacidade, utilizou a expressão menor, como no art. 228, que informa ser o menor de 18 anos
penalmente inimputável. Andou certo o constituinte ao tratar da questão, adotando expressão com origem na
legislação italiana, pois a palavra menor mostra um indivíduo que ainda não atingiu pleno desenvolvimento
psicossomático, normalmente abrangendo a pessoa entre 12 e 18 anos, ficando a juventude para as pessoas entre 15 e
24 anos, prestes a entrar para o mercado de trabalho”. (MARTINS, 2005, p.613).
43

Quanto à terminologia adotada no Brasil, até o advento da Constituição Federal de


1988, costumava-se utilizar a expressão "menor", para designar a pessoa que ainda não tinha
atingido a idade adulta. Tanto assim que vigorou no Brasil o Código de Menores.
Observa Rossato e Lépore (2012) que apesar de adotado pela CLT, e também
pelos Códigos Civil e Penal, além de ser largamente utilizado pela doutrina, o termo “menor” é
considerado pejorativo, pois remete ao antigo Código de Menores de 1979, que tratava crianças e
adolescentes como pessoas em situação irregular, e as fazia carregar o estigma de marginalização,
delinqüência e abandono. A Constituição de 1988 passou a utilizar os termos "criança" e
"adolescente", por serem mais precisos que o termo “menor”.
A Organização das Nações Unidas (ONU) aduz que criança é aquele indivíduo de
0 a 18 anos. O termo “adolescente” é empregado pela Organização Internacional do Trabalho
(OIT) com o objetivo de designar indivíduos com a faixa etária entre 15 e 18 anos
(ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO, 2008).
A Convenção das Nações Unidas sobre os direitos da Criança, adotada pela ONU
em 20 de Novembro de 1989, previu em seu artigo 1º que, para efeitos da convenção, considerar-
se-ia criança toda pessoa com menos de dezoito anos de idade, salvo se a maioridade fosse
alcançada antes, o que caracteriza um conceito muito abrangente.
A Convenção n. 138 da Organização Internacional do Trabalho restringiu a
conceituação estabeleceu que criança é o indivíduo até 14 ou 15 anos e adolescente, desta faixa
até os 18 anos de idade.
A Convenção n. 182 da OIT sobre as piores formas de Trabalho Infantil, instituída
em Junho de 1999, declarou que, para efeitos daquela Convenção, o termo designaria toda pessoa
menor de dezoito anos (artigo 2º).
A legislação brasileira, de forma distinta das Convenções Internacionais que
definem criança como todo aquele com idade inferior a 18, considera criança, a pessoa com idade
até 12 (doze) anos e adolescente quem tem idade entre 12(doze) e 18 (dezoito) anos incompletos.
Segundo o art. 2°, do ECA40, criança é a pessoa com até 12 (doze) anos
incompletos, e adolescente aquela que tiver entre 12 (doze) e 18 (dezoito) anos.

40
“Art. 2º Considera-se criança, para os efeitos desta Lei, a pessoa até doze anos de idade incompletos, e
adolescente aquela entre doze e dezoito anos de idade. Parágrafo único. Nos casos expressos em lei, aplica-se
excepcionalmente este Estatuto às pessoas entre dezoito e vinte e um anos de idade”. (BRASIL, 1990).
44

A idade é um fator determinante para a fixação de quem é criança, adolescente ou


adulto. Adota-se um critério cronológico absoluto, sem qualquer menção à condição psíquica ou
biológica (ISHIDA, 2010).
A Emenda Constitucional n. 65/2010, também incluiu no rol de proteção especial
do art. 227, da CF/88, o jovem. Segundo a Lei 11.129/05 considera-se jovem a pessoa entre 15 a
29 anos.

3.3. Doutrina da Proteção Integral e o Sistema de Proteção aos Direitos da Criança e do


Adolescente

A Constituição da República Federativa do Brasil, promulgada em 05 de outubro


de 1988, trouxe ao universo jurídico a Teoria da Proteção Integral da Organização das Nações
Unidas (ONU), revogando definitivamente a Doutrina do Direito do Menor, vigente no Código
de Menores (Decreto n 17.943-A, de 12 de outubro de 1927), assim como a Doutrina da Situação
Irregular, vigente no Código de Menores (Lei n. 6.697/79), surgindo assim um novo ramo
jurídico, o chamado Direito da Criança e do Adolescente (ROSSATO; LÉPORE, 2012).
A Teoria da Proteção Integral teve seus princípios na Declaração de Genebra, de
26 de setembro de 1924, quando a Assembléia da Sociedade das Nações Unidas adotou uma
resolução com base na proposta do Conselho da União Internacional de Proteção à Infância, a
Save the Children International Union, organização não governamental, reconhecendo pela
primeira em um documento internacional os direitos da criança (VERONESE; CUSTÓDIO,
2013).
No entanto, o marco discursivo das declarações somente ganhou força em 1979,
com a instituição do Grupo de Trabalho na Comissão de Direitos Humanos da ONU, que
iniciaram os estudos que culminou com a Convenção Internacional dos Direitos da Criança. O
Grupo de Trabalho desenvolveu suas atividades durante toda a década de 1980, o que coincidiu
com o processo de abertura democrática do Brasil e com a discussão da nova Constituição.
Em 1987, a Emenda Popular denominada Criança Prioridade Absoluta, com
milhares de assinaturas, propostas por organizações não-governamentais, foi adotada pela
Assembléia Nacional Constituinte que, no ano seguinte, promulgou o novo texto, viabilizando a
incorporação da Doutrina da Proteção Integral na Constituição de 1988 (ISHIDA, 2010).
45

A Constituição Federal de 1988 em seu art. 227 prescreve:

É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança, ao adolescente e ao


jovem, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao
lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à
convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de
negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão. (BRASIL,
1988).

Veronese e Custódio (2013) afirmam que no ano seguinte o grupo de Trabalho da


Comissão dos Direitos Humanos da ONU encerrou suas atividades e, em 20 de novembro de
1989, é aprovada pela Assembléia Geral a Convenção Internacional dos Direitos da Criança,
conforme a Resolução L. 44, posteriormente ratificada pelo Brasil, pelo Decreto n. 99.710/1990,
inscrevendo-se no corpo normativo brasileiro a Doutrina da Proteção Integral.
O art. 1°, do Estatuto da Criança e Adolescente adotou expressamente a doutrina
da proteção integral. Essa opção do legislador fundou-se na interpretação sistemática dos
dispositivos constitucionais que elevaram ao nível máximo de validade e eficácia as normas
referentes às crianças e aos adolescentes, e que, por sua vez, foram inspirados nas normas
internacionais de direitos humanos, tais como a Declaração Universal dos Direitos Humanos e a
Declaração Universal dos Direitos da Criança (ISHIDA, 2010).
Assim, pode-se apontar que o reconhecimento jurídico dos direitos da criança e do
adolescente se deu no Brasil, já em um novo patamar, mais ligado aos processos emancipatórios e
constituído por uma concepção de positivação dos direitos humanos, tornando-os fundamentais41.
(ROSSATO; LÉPORE, 2012).
A proteção à infância, em sentido amplo, é direito social amparado pelo art. 6°, da
Constituição Federal, que somente enuncia a sua existência e natureza, não trazendo qualquer
tipo de detalhamento.
Outrossim, a tutela às pessoas em desenvolvimento desdobra-se em outras
prescrições constitucionais específicas, notadamente no art. 227, que atribui à infância e à
juventude um momento especial na vida do ser humano e, por isso, assegura a crianças e
adolescentes o status de pessoa em situação peculiar de desenvolvimento, além de conferir-lhes a

41
“Os direitos fundamentais ganham a característica de fundamentais quando inseridos nos textos constitucionais”.
(SARLET, 2009, p. 29)
46

titularidade de direitos fundamentais, e determinar que o Estado os promova por meio de políticas
públicas.
O caput do art. 227 da Constituição Federal afirma ser dever da família, da
sociedade e do Estado assegurar à criança, ao adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, o
direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à
dignidade, ao respeito, à liberdade e a convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a
salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão.
Em verdade, o art. 227 representa o metaprincípio da prioridade absoluta dos
direitos da criança e do adolescente, tendo como destinatários da norma a família, a sociedade e o
Estado.
Para Rossato e Lépore (2012) pretende-se que a família se responsabilize pela
manutenção da integridade física e psíquica, a sociedade pela convivência coletiva harmônica, e o
Estado pelo constante incentivo à criação de políticas públicas. Trata-se de uma responsabilidade
que para ser realizada, necessita de uma integração, de um conjunto devidamente articulado de
políticas públicas. Essa competência difusa, que responsabiliza uma diversidade de agentes pela
promoção da política de atendimento à criança e ao adolescente, tem por objetivo ampliar o
próprio alcance da proteção dos direitos infanto-juvenis. Note-se que a fundamentalidade desses
dispositivos é tamanha que contou com reprodução praticamente integral no art. 4° do Estatuto da
Criança e do Adolescente.
Neste sentido, Silva (2008) assevera que a Constituição Federal é minuciosa e
redundante na previsão de direitos e situações subjetivas envolvendo crianças e adolescentes,
uma vez que especifica, em relação a eles, direitos já consignados para todos em geral, como os
direitos previdenciários e trabalhistas, mas estatui importantes normas tutelares especialmente das
pessoas em desenvolvimento abandonadas e das dependentes de drogas e entorpecentes,
postulando ainda, punição severa ao abuso, violência e exploração sexual da criança e do
adolescente.
Adiante se fará uma breve demonstração dos dispositivos de proteção a criança e
adolescente prescrito na Constituição Federal de 1988.
O § 1° do art. 227, determina ser dever do Estado promover programas de
assistência integral à saúde da criança e do adolescente, admitida a participação de entidades não
47

governamentais. Para tanto, o constituinte, amparado na doutrina da proteção integral,


determinou que devem ser observados os seguintes preceitos na implementação dessas políticas:

I – aplicação de percentual para recursos públicos destinados à saúde na assistência


materno infantil;
II - criação de programas de prevenção e atendimento especializado para os portadores
de deficiência física sensorial ou mental, bem como de integração social do adolescente
portador de deficiência, mediante o treinamento para o trabalho e a convivência, e a
facilitação do acesso aos bens e serviços coletivos, com a eliminação de preconceitos e
obstáculos arqutetônicos. (BRASIL, 1988).

Em adição, segundo o § 2° do art. 227 deverá a lei ordinária dispor sobre normas
de construção dos logradouros e dos edifícios de uso público e de fabricação de veículos de
transporte coletivo, a afim de garantir acesso adequado às pessoas portadoras de deficiência.
Não satisfeito em enunciar prioridade absoluta, o constituinte tratou de elencar no
§ 3° do art. 227 os aspectos que aumentariam a proteção especial à criança e ao adolescente,
dentre os quais se destacam a idade mínima de 14 (quatorze) anos para admissão ao trabalho na
condição de aprendiz, a garantia de direitos previdenciários e trabalhistas, e o acesso do
trabalhador adolescente à escola.
Ainda no mesmo dispositivo supracitado, o constituinte discriminou normas
relativas ao cometimento e consequências do ato infracional, determinando, por exemplo, a
garantia de pleno e formal conhecimento da atribuição de ato infracional, igualdade na relação
processual e defesa técnica por profissional habilitado, e exigindo obediência aos princípios de
brevidade, excepcionalidade e respeito e respeito à condição peculiar de pessoa em
desenvolvimento, quando da aplicação de qualquer medida privativa de liberdade. Para finalizar,
a Constituição traz normas referentes às pessoas em desenvolvimento que necessitam de proteção
especial, determinando o estímulo do Poder Público, através de assistência jurídica, incentivos
fiscais e subsídios, nos termos da lei, ao acolhimento, sob forma de guarda, de criança ou
adolescente dependente de entorpecentes e drogas afins.
Por sua vez, o § 4°do art. 227 da Constituição Federal determina que a lei punirá
severamente o abuso, a violência e a exploração sexual da criança e do adolescente. Note-se que
o constituinte foi enfático, ao adotar a expressão severamente. No § 5° do art. 227 enuncia que a
adoção por estrangeiros é permitida, nos termos da lei especial, que é o Estatuto da Criança e do
Adolescente. Já o § 6° estabelece a isonomia entre os filhos, independentemente da sua condição
48

de havidos ou não da relação de casamento, ficando proibidas qualquer designações


discriminatórias.
O art. 228, estabelece a garantia da inimputabilidade aos menores de dezoito anos,
assegurando aos adolescentes o direito de serem submetidos a um tribunal especial, regido por
uma legislação especial e presidido por um juiz igualmente especial, o Juiz da Infância e
Juventude. Na sequência, o art. 229 determina que os pais têm o dever de assistir, criar e educar
os filhos menores, e os filhos maiores têm o dever de ajudar e amparar os pais na velhice,
carência ou enfermidade.
Assim, verifica-se que o arcabouço constitucional de proteção, vai muito além de
ser mera adaptação legislativa, para ser em essência, um “critério assecuratório entre discurso
protetivo presente dos valores humanos e as atitudes atuais dos construtores social” (ISHIDA,
2010).
O Metaprincípio da proteção integral orienta a prescrição de direitos às pessoas em
desenvolvimento, e impõe deveres à sociedade de modo a consubstanciar um status jurídico
especial às crianças e adolescentes. Mesmo sendo pessoas em desenvolvimento tem a criança e o
adolescente, direitos em face de qualquer pessoa inclusive seus pais (ROSSATO; LÉPORE,
2012).
A proteção integral revela, pois, que crianças e adolescentes são titulares de
interesses subordinantes frente à família, à sociedade e ao Estado, indicando-se um conjunto de
normas jurídicas concebidas como direitos e garantias frente ao mundo adulto.
Como se expôs a doutrina da proteção integral consubstanciada em um
metaprincípio orientador, encontra-se impregnada aos dispositivos da Constituição Federal,
compondo um sistema constitucional de proteção à infância e juventude que encontra a sua
realização completa e objetiva nas normas do Estatuto, formando, ao lado das normas
internacionais de proteção dos direitos humanos e também das inúmeras prescrições
administrativas tais como as resoluções do CONANDA, um verdadeiro sistema de proteção dos
direitos da criança e do adolescente, existente no ordenamento jurídico pátrio.

3.4. Dever de efetivação de direitos de crianças e adolescentes

O art. 227 da Constituição de 1988 impõe o dever fundamental da família, da


sociedade e do Estado assegurar, à criança, ao adolescente e ao jovem, a observância de seus
49

direitos fundamentais, pondo-lhes a salvo de toda a forma de negligência, discriminação,


exploração, violência, crueldade e opressão (BRASIL, 1988).
Da mesma forma, o art. 4°, do Estatuto da Criança e do Adolescente, dispõe que é
dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do poder público assegurar, com
absoluta prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida, à saúde, à alimentação, à
educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à
liberdade e à convivência familiar e comunitário (BRASIL, 1990).

3.5. Critérios de Interpretação do Direito da Criança e do Adolescente

Quanto os critérios de interpretação do Direito da Criança e do Adolescente, em


que pese a prescrição do art. 5°, da Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro, o Estatuto
da Criança e do Adolescente, determina em seu art. 6°, os critérios que deverão ser utilizados
para interpretação se suas normas, são eles: a) Os fins sociais a que ele se dirige; b) As exigências
do bem comum; c) Os direitos e deveres individuais e coletivos; d) A condição peculiar da
criança e do adolescente como pessoas em desenvolvimento
Sobre os critérios de interpretação dos direitos da criança e adolescente ensina
Machado:
O primeiro critério enunciado pelo legislador exige interpretação segundo os fins sociais
a que o Estado se dirige. Nesse sentido, devem os operadores do direito trabalhar com
exegese que considere crianças e adolescentes como sujeitos de direitos e que gozam de
proteção especial que lhes confira prioridade frente às situações comuns que envolvem
as relações sociais entre os adultos. Note-se que já verdadeira preferência pela adoção do
critério teleológico ou sociológico de interpretação, que busca interpretar de acordo com
a adequação da lei ao contexto da sociedade e os fatos sociais. Já o segundo critério
exige a observância do bem comum, representando o valo diretamente ligado à justiça e
à boa fé objetiva. O terceiro critério aduz que o Estado deve ser interpretado levando-se
em conta os direitos e deveres individuais e coletivos. Essa exigência se encontra
perfeitamente aliada ao novo contexto de sociedade de massa, que urge pela tutela
transindividual como medida de eficácia social dos direitos fundamentais de titularidade
difusa, mais facilmente protegidos pelas ações coletivas do que pelas individuais. O
último critério orienta no sentido de se considerar a condição peculiar da criança e do
adolescente como pessoas em desenvolvimento. (MACHADO, 2003, p. 134).

Nos casos de lacuna normativa, utiliza-se a aplicação do art. 6 ° do ECA, para


evitar deixar desamparados aqueles que necessitam da tutela de seus direitos. Neste sentido é
entendimento da jurisprudência pátria:
50

PLANO DE SAÚDE. ADOLESCENTE. CIRURGIA NEUROLÓGICA APÓS


ATROPELAMENTO. EMERGÊNCIA. NEGATIVA DE COBERTURA DE
MATERIAIS SOLICITADOS. IMPOSSIBILDIADE. INCIDÊNCIA DA LEI DOS
PLANOS DE SAÚDE, DO CDC E DO ESTATUTO DA CRIANÇA E DOS
ADOLESCENTE. SENTENÇA MANTIDA 1. Contrato firmado após o advento da Lei
nº 9.656/98. Plano-referência. Lei que prevê cobertura integral de todos os materiais
solicitados pelo médico que fará a cirurgia. (9122384652007826 SP 9122384-
65.2007.8.26.0000, Relator: Carlos Alberto Garbi, Data de Julgamento: 19/06/2012, 10ª
Câmara de Direito Privado, Data de Publicação: 20/06/2012)

CIVIL. ESTATUTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE. APELAÇÕES CÍVEIS


INTERPOSTAS PELA MÃE E PELA AVÓ MATERNA. GUARDA REQUERIDA
PELO PAI E SUA COMPANHEIRA. DEFERIMENTO LIMINAR. APELO DA MÃE.
CONVIVÊNCIA MATERNA PREJUDICIAL À CRIANÇA. MENOR NA
COMPANHIA DO PAI HÁ QUATRO ANOS. BOM RELACIONAMENTO E
ROTINA ESTABELECIDA. PREVALÊNCIA DO BEM-ESTAR DA INFANTE (ECA,
ART. 6º). RECURSO DESPROVIDO. APELO DA AVÓ MATERNA. RECURSO
INTEMPESTIVO. NÃO CONHECIMENTO.ESTATUTO DA CRIANÇA E DO
ADOLESCENTEECA6ºÉ recomendável a alteração da guarda de menor quando
constatado que sua permanência sob a guarda da mãe prejudica-lhe o desenvolvimento,
mormente porque seus interesses estão acima de quaisquer outros, nos termos do art. 6º
do ECA. Interposto a destempo o apelo cível dele não se conhece.6ºECA (526979 SC
2008.052697-9, Relator: Luiz Carlos Freyesleben, Data de Julgamento: 10/06/2010,
Segunda Câmara de Direito Civil, Data de Publicação: Apelação Cível n. , de Joinville)

EMENTA: RECURSO ORDINÁRIO EM MANDADO DE SEGURANÇA - DECISÃO


JUDICIAL QUE MANTÉM A ENTREGA DE MENOR DE IDADE AO PAI,
PERMITINDO QUE ESTE O LEVASSE PARA SUA RESIDÊNCIA, EM OUTRO
ESTADO DA FEDERAÇÃO - AUSÊNCIA DE OITIVA PRÉVIA DA GENITORA -
VIOLAÇÃO AOS PRINCÍPIOS DO DEVIDO PROCESSO LEGAL, DO
CONTRADITÓRIO E DA AMPLA DEFESA - INEXISTÊNCIA - SITUAÇÃO DE
EMERGÊNCIA - PREVALÊNCIA DO SUPERIOR INTERESSE DA CRIANÇA. 1 -
NÃO HÁ QUE SE FALAR EM VIOLAÇÃO AOS PRINCÍPIOS DO DEVIDO
PROCESSO LEGAL, DO CONTRADITÓRIO E DA AMPLA DEFESA PELO FATO
DO JUÍZO DE DIREITO DA INFÂNCIA E DA JUVENTUDE MANTER DECISÃO
DO CONSELHO TUTELAR ACERCA DA ENTREGA DE MENOR DE IDADE (5
ANOS) AO PAI, PERMITINDO QUE ESTE O LEVASSE PARA SUA
RESIDÊNCIA, EM OUTRO ESTADO DA FEDERAÇÃO, SEM A OITIVA PRÉVIA
DA GENITORA. ISTO PORQUE A SITUAÇÃO EM QUE A CRIANÇA SE
ENCONTRAVA ERA DE EMERGÊNCIA, UMA VEZ QUE VÍTIMA DE MAUS-
TRATOS POR PARTE DO NAMORADO DA MÃE (AGRESSÃO FÍSICA E
PSICOLÓGICA), PERMANECENDO SOB OS CUIDADOS DO PAI APENAS
ENQUANTO NÃO REGULARIZADA A GUARDA, PELAS VIAS PRÓPRIAS.
ADEMAIS, A REFERIDA DECISÃO JUDICIAL APENAS OBJETIVOU
ASSEGURAR O SUPERIOR INTERESSE DA CRIANÇA, PROTEGENDO-A. 2 -
PRECEDENTES (RESP Nº 124.621/SP E RMS Nº 11.064/MG). 3 - RECURSO
ORDINÁRIO DESPROVIDO.(RMS 19.103/RJ, REL. MINISTRO JORGE
SCARTEZZINI, QUARTA TURMA, JULGADO EM 27.09.2005, DJ 17.10.2005 P.
294).

DIREITO PROCESSUAL CIVIL. AGRAVO DE INSTRUMENTO. FUNÇÃO


SOCIAL DA PROPRIEDADE. PRINCÍPIO DA PROTEÇÃO INTEGRAL DA
CRIANÇA E DO ADOLESCENTE. DEVER DAS EMPRESAS-AGRAVANTES
IMPEDIREM O TRABALHO DE MENORES EM LOCAIS DE SUA
PROPRIEDADE. INEXISTÊNCIA DE EXCESSO NA OBRIGAÇÃO. A DECISÃO
DEVE SER MANTIDA EM TODOS OS TERMOS, EXCETO QUANTO A
51

OBRIGAÇÃO DAS RECORRENTES EM REALIZAR CAMPANHAS


EDUCATIVAS. MULTA COERCITIVA REDUZIDA PARA O PATAMAR DE R$
3.000,00 (TRÊS MIL REIAS). RECURSO CONHECIDO, PORÉM. (200830015324
PA 2008300-15324, Relator: ELIANA RITA DAHER ABUFAIAD, Data de
Julgamento: 31/08/2009, Data de Publicação: 17/09/2009).

Como se percebe a efetivação e a aplicação dos critérios de interpretação do


Direito da Criança e do Adolescente no Brasil, estão em processo de consolidação, e é uma das
grandes inovações do Direito Brasileiro.
52

4. A REGULAMENTAÇÃO E A PROTEÇÃO TRABALHISTA DE CRIANÇAS E

ADOLESCENTES NO DIREITO BRASILEIRO

4.1. Igualdades de Direitos

Em razão da Doutrina da Proteção Integral, as crianças e os adolescentes possuem


os mesmos direitos fundamentais que adultos, sendo-lhes assegurados os mesmos direitos
previdenciários e trabalhistas. Neste sentido, dispõe o art. 227, § 3°, inciso II, da Constituição
Federal de 1988:
Art. 227. É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança, ao
adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à
alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao
respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo
de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e
opressão.
§ 3º - O direito a proteção especial abrangerá os seguintes aspectos:
II - garantia de direitos previdenciários e trabalhistas. (BRASIL, 1988).

Isto porque, caso de forma contrária a lei, crianças e adolescente vierem a


desempenhar atividade laborativa, ou seja, trabalho infantil, devem ser assegurados a essas
pessoas os direitos dela decorrentes. Neste sentido é entendimento dos Tribunais pátrios:
AGRAVO REGIMENTAL EM RECURSO ESPECIAL. PREVIDENCIÁRIO.
AVERBAÇÃO DE TEMPO DE SERVIÇO PRESTADO POR MENOR DE 14 ANOS.
POSSIBILIDADE. CONDIÇÃO DE SEGURADO ANTERIOR À LEI Nº 8.213/91.
IRRELEVÂNCIA. CONTRIBUIÇÃO RELATIVAMENTE AO PERÍODO DE
ATIVIDADE RURAL. DESNECESSIDADE. -Ainda que mereça todo o repúdio o
trabalho exercido por crianças menores de 14 anos de idade, ignorar tal realidade, ou
entender que esse período não deverá ser averbado por falta de previsão legal, esbarra no
alcance pretendido pela lei. Ao estabelecer o limite mínimo de 14 anos, o legislador o
fez em benefício do menor, visando a sua proteção, não em seu prejuízo, razão pela qual
o período de trabalho prestado antes dos 14 anos deverá ser computado como tempo de
serviço para fins previdenciários. -"A ausência da qualidade de segurado não inviabiliza
o exercício do direito à contagem do tempo de serviço, porque não se confundem o
direito ao benefício previdenciário, ele mesmo, e o direito à contagem, conversão e
averbação de tempo de serviço, que é de natureza subjetiva, enquanto relativo à
realização de fato continuado, constitutivo de requisito à aquisição de direitos subjetivos
outros, estatutário ou previdenciário, de que é instrumental." (EDcl no REsp nº
409.986/RS, Relator Ministro Hamilton Carvalhido, Sexta Turma, DJ 24.03.2003, p.
295) - Não há falar em necessidade de recolhimento das contribuições previdenciárias,
pois, compulsando os autos, verifica-se que o período a averbar é anterior à 1.991. Dessa
forma, na égide da redação original do art. 11, II, da Lei n. 8.213/91. - Nego provimento
ao agravo regimental.8.213 REsp nº 409.986/RS11II8.213(504745 SC 2003/0035970-9,
Relator: Ministro HÉLIO QUAGLIA BARBOSA, Data de Julgamento: 01/03/2005, T6 -
SEXTA TURMA, Data de Publicação: DJ 21/03/2005 p. 448)
53

PREVIDENCIÁRIO. PROCESSUAL CIVIL. APOSENTADORIA POR TEMPO DE


SERVIÇO. EXERCÍCIO EM CONDIÇÕES ESPECIAIS. VIGILANTE. CONVERSÃO
DE TEMPO DE SERVIÇO ESPECIAL EM COMUM. EXISTÊNCIA DE DIREITO
ADQUIRIDO. POSSIBILIDADE. TRABALHADOR RURAL. RECONHECIMENTO
DE TEMPO DE SERVIÇO RURAL DO MENOR DE 14 ANOS. CABIMENTO.
CONTRIBUIÇÕES. DESNECESSIDADE. PRECEDENTES DESTA CORTE.
RECURSO ESPECIAL IMPROVIDO.1. Em observância ao direito adquirido, se o
trabalhador laborou em condições especiais (vigilante) quando a lei em vigor permitia a
contagem de forma mais vantajosa, o tempo de serviço assim deve ser contado.2. A
jurisprudência deste Superior Tribunal é firme no sentido de permitir a conversão em
comum do tempo de serviço prestado em condições especiais (Vigilante), para fins de
concessão de aposentadoria, nos termos da legislação vigente à época em que exercida a
atividade especial, desde que anterior a 28 de maio de 1998. 3. É assente na Terceira
Seção desta Corte de Justiça o entendimento de que, comprovada a atividade rural do
trabalhador menor de 14 (quatorze) anos, em regime de economia familiar, esse tempo
deve ser computado para fins previdenciários. 4. Não é exigível o recolhimento das
contribuições previdenciárias relativas ao tempo de serviço prestado pelo segurado como
trabalhador rural, em período anterior à vigência da Lei 8.213/91, para fins de
aposentadoria urbana pelo Regime Geral da Previdência Social -RGPS. 5. Recurso
especial a que se nega provimento.8.213 (506014 PR 2003/0036402-2, Relator: Ministro
ARNALDO ESTEVES LIMA, Data de Julgamento: 16/02/2006, T5 - QUINTA
TURMA, Data de Publicação: DJ 24/04/2006 p. 434)

PREVIDENCIÁRIO. APOSENTADORIA POR TEMPO DE SERVIÇO. TEMPO DE


SERVIÇO RURAL. ausência de INÍCIO DE PROVA DOCUMENTAL. prova
testemunhal. INADMISSIBILIDADE. BENEFÍCIO INDEVIDO.1- Para o
reconhecimento do exercício de atividade rural, exige-se ao menos início de prova
documental, a ser complementada por prova testemunhal.2- Impossibilidade de
reconhecimento de tempo de serviço rural com base em prova exclusivamente
testemunhal.3- No caso, mesmo que reconhecido o período de atividade rural, não faria
o autor jus ao benefício pleiteado,pois em que pese sabermos que o trabalhador que
nasce na zona rural inicia muito cedo nas lides rurais, principalmente aqueles que
trabalham em regime de economia familiar, não pode ser reconhecida atividade laboral à
criança, pois entre 10 (dez) e 11 (onze) anos de idade, já que acompanhar os pais na
execução de algumas tarefas, não pode caracterizar trabalhado rural, devendo-se tomar
como base a idade de 12 (doze) anos, início da adolescência, pois caso contrário se
estaria a reconhecer judicialmente a exploração do trabalho infantil. Além disso o
período em que o autor exerceu a atividade de empresário rural entre 24.07.1961 a
08.07.1965 efetuado na empresa "Kiyomi Okajima", era responsável pelo recolhimento
da própria contribuição previdenciária, não comprovado nos autos.4 - Assim, somado o
período de 02.09.1954 a 31.05.1961 com o período de atividade urbana devidamente
comprovada (12.07.1966 a 25.09.1969; 01.04.1970 a 28.02.1974; 25.03.1974 a
24.04.1987 e 01.07.1987 a 28.02.1989) perfaz o autor 28 anos, 07 meses e 10 dias de
serviço, tempo que de qualquer forma seria insuficiente à concessão do benefício
pleiteado.5- Incabível a condenação da Autora ao pagamento de honorários advocatícios,
considerando que ela é beneficiária da Assistência Judiciária Gratuita. Precedente do
STF.6- Apelação do INSS e remessa oficial providas. (26670 SP 2000.03.99.026670-7,
Relator: JUÍZA CONVOCADA LOUISE FILGUEIRAS, Data de Julgamento:
12/08/2008, TURMA SUPLEMENTAR DA TERCEIRA SEÇÃO)

Para Delgado (2011, p.757) “a ordem jurídica repele a utilização precarizante do


trabalho do jovem no país, sem os imperativos direitos trabalhistas e previdenciários
determinados pela Constituição no art. 227, §3°, inciso II”.
54

Assim, possuindo os mesmo direitos dos adultos, também é vedada qualquer


norma discriminatória existente contra crianças e adolescente, isto restou-se evidenciado com a
edição da Orientação Jurisprudencial 26 da SDC do Tribunal Superior do Trabalho, que dispõe:
“Salário normativo. Menor empregado. Art. 7°, XXX, da CF/88. Violação. Os empregados
menores não podem ser discriminados em cláusula que fixa salário mínimo profissional para a
categoria” (TRIBUNAL SUPERIO DO TRABALHO, 2009).
No mesmo sentido, já decidiu o Tribunal Regional do Trabalho da 24ª Região:

Convenção Coletiva. Norma discriminatória do trabalho do menor. Nulidade. O menor


só presta serviço sob duas condições: na qualidade de aprendiz e na condição de
empregado. Nesta última o menor não pode sofrer qualquer discriminação salarial pelo
simples fato da menoridade. Dispositivo normativo que consiga pagamento diferenciado
para o menor empregado, além de infringir o princípio da igualdade incerto no inciso
XXX da Carta Política Vigente e no art. 460 consolidado, afronta da mesma forma o
princípio da proteção do trabalhador que rege a aplicação do direito do trabalho, sendo
nulo de pleno direito. Pedido anulatório formulado em Ação Anulatória, julgado
procedente por unanimidade. (TRT-24ª. R, AC 5.140, AD 22, de 1995, Pleno, j.
31,10.1995, rel. João de Deus Gomes de Souza, DJ 7.12.1995).

Porém, importe observar que nos casos de redução da jornada de trabalho, nada
impede a redução dos salários do menor.

4.2. Distinção entre Trabalho Infantil e o Trabalho do Adolescente

O conceito de trabalho infantil no Brasil, não existe uma unanimidade na doutrina,


seja nacional ou estrangeira, e nem mesmo em normas internacionais e nacionais.
Para Martins:
Entende que seria o trabalho prestado por quem tem idade inferior àquela prevista por
lei. A Convenção n.º 182 da Organização Internacional do Trabalho afirma que, para o
efeito de aplicação da referida norma internacional, deverá ser considerada criança, a
pessoa com idade inferior a dezoito anos e a Diretiva n.º 94/33 da União Européia faz
idêntica afirmação em relação à idade inferior à quinze anos. (MARTINS, 2005, p. 100).

O termo infantil” muitas vezes é apenas relacionado à criança, mas a expressão


“trabalho infantil” é utilizada para indicar o trabalho realizado por crianças e adolescentes que
estão abaixo da idade mínima para a entrada no mercado de trabalho, segundo a legislação em
vigor no país. Sendo o trabalho infantil, portanto, o trabalho proibido e sua abrangência deve ser
adequada à realidade jurídica do Brasil. A condição de exploração e prejuízo à saúde e ao
desenvolvimento da criança e do adolescente, assim como o comprometimento do exercício do
direito de brincar e estudar são características do trabalho infantil (MACHADO, 2003).
55

Para Grunspun (2000), a expressão trabalho infantil, significa emprego de crianças


de forma genérica, especialmente em trabalho que possa interferir em sua educação ou colocar
em perigo sua saúde.
Já para Veronese (1999), o trabalho infantil é aquele proibido e combatido pela
Constituição brasileira, significando o trabalho realizado abaixo do limite de idade inferior a 16
(dezesseis) anos, seguindo as orientações da OIT em suas Convenções e Recomendações.
Nas palavras de Oliveira:

Trabalho infantil seria o trabalho prestado por quem tem idade inferior àquela prevista
por lei. A Convenção nº 182 da Organização Internacional do Trabalho afirma que, para
o efeito de aplicação da referida norma internacional, deverá ser considerada criança, a
pessoa com idade inferior a dezoito anos e Diretiva nº 94/33 da União Européia faz
idêntica afirmação em relação à idade inferior a quinze anos. (OLIVEIRA, 2001).

Para Rossato e Lépore (2012), a expressão “trabalho infantil” está relacionada


diretamente a vários aspectos, tanto pelo vínculo com a lei, como pelas particularidades
derivadas do termo “infantil”. O vocábulo trabalho sofre restrições quando associado a infantil,
podendo ser entendido como atividade desenvolvida com regularidade em troca de uma
contraprestação pecuniária.
Assim, privar crianças e adolescentes das atividades típicas da idade (jogos,
brincadeiras, estudos, convivência com familiares e amigos, etc.) é condená-los a um futuro
sombrio, triste, impedindo sua ascensão profissional e ceifando as oportunidades de melhoria de
sua condição social.
Por sua vez, a OIT diferenciou o trabalho infantil da atividade econômica,
esclarecendo que:

Trabalho infantil é um conceito mais restrito do que “crianças economicamente ativas”,


excluindo todas as crianças com 12 ou mais anos que trabalham apenas algumas horas
por semana em trabalhos leves autorizados e aquelas com 15 ou mais anos cujo trabalho
não é classificado como “perigoso”. O conceito de “trabalho infantil” baseia-se na
Convenção da Idade Mínima da OIT, de 1973 (n. 138), que constitui a mais completa e
oficial definição internacional sobre a idade mínima de admissão ao emprego ou ao
trabalho, indicando uma “atividade econômica”. A atividade econômica é um conceito
amplo que engloba a maioria das atividades produtivas realizadas por crianças, sejam ou
não para o mercado, remuneradas ou não, por algumas horas ou em tempo integral, de
forma ocasional ou regular, legais ou ilegais; excluem-se as pequenas tarefas realizadas
pelas crianças em sua casa ou na escola. Para ser considerada como economicamente
ativa, uma criança deverá ter trabalhado pelo menos uma hora em qualquer dia, num
período de referência de sete dias. “Crianças economicamente ativas” é um conceito
estatístico e não uma noção jurídica” (ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL DO
TRABALHO, 2000).
56

Como já visto, o art. 7º, inciso XXXIII da CF de 1988, alterado pela EC n.º 20, de
15 de dezembro de 1988, proíbe o trabalho noturno, perigoso ou insalubre aos menores de 18
(dezoito) anos de idade e de qualquer trabalho aos menores de 16 (dezesseis) anos, salvo na
condição de aprendiz, a partir de 14 (catorze) anos. O art. 60 do ECA, também preconizava a
proibição de qualquer trabalho aos menores de 14 (catorze) anos, salvo na condição de aprendiz,
conforme a seguinte redação: “proibição de trabalho noturno, perigoso ou insalubre, a menores de
dezoito, de qualquer trabalho a menores de dezesseis anos, salvo na condição de aprendiz, a partir
dos quatorze anos”.
Para Machado (2003, p. 02), “as normas jurídicas que definem a idade mínima ao
trabalho, têm suma importância, pois assinalam um marco importante: abaixo da idade mínima o
trabalho é proibido”.
Nas palavras de Martins (2005), o ideal seria que crianças e adolescentes
pudessem ficar no seio familiar, usufruindo as atividades escolares necessárias, sem entrar
diretamente no mercado de trabalho, até por volta dos 24 (vinte e quatro) anos, obtendo plena
formação moral e cultural, mas, no caso de nosso país, isso se tem verificado impossível.
O termo “trabalho infantil”, é entendido como aquelas atividades econômicas e/ou
atividades de sobrevivência, com ou sem finalidade de lucro, remuneradas ou não, realizadas por
crianças ou adolescentes em idade inferior a 16 (dezesseis) anos, ressalvada a condição de
aprendiz a partir dos 14 (catorze) anos, conforme prevê a Magna Carta de 1988.
No que concerne à proteção do trabalhador adolescente e do jovem adulto, será
considerado todo trabalho desempenhado por pessoa com idade entre 16 (dezesseis) e 18
(dezoito) anos incompletos e, na condição de aprendiz, de 14 (catorze) a 24 (vinte e quatro) anos
incompletos, conforme determina a recente Lei n.º 11.180, de 23 de setembro de 2005, desde que
preenchidos os requisitos mencionados em seu art. 2º.
A utilização da expressão “trabalho infantil” serve para facilitar a distinção do
trabalho dos adolescentes, com idade na qual o trabalho é permitido, desde que não prejudique o
seu processo de formação e desenvolvimento moral, social, cultural, psíquico e físico, não
prejudicando principalmente sua frequência escolar.
57

4.3. Condições Especiais do trabalho da criança e do adolescente

Os direitos fundamentais, inseridos no art. 227, da CF, engloba, direitos que


encerram direitos individuais e direitos sociais, com uma característica que encerram direitos
individuais e direitos sociais, com uma característica que lhes é peculiar, vez que são direitos
fundamentais de pessoas em desenvolvimento42.
. E são direitos fundamentais ainda que não inseridos no Título II da Constituição
Federal, porque sabidamente, o rol constante desse Título não é taxativo, existindo outros direitos
fundamentais espalhados por todo o texto. Além do mais, considerando-se que a dignidade da
pessoa humana é um valor supremo do Estado Democrático de Direito,43 e sendo a criança e o
adolescente pessoas merecedoras de maior atenção, em razão de se encontrarem em
desenvolvimento, tem-se que todos os seus direitos, indicados na Constituição, são fundamentais,
guardando-se coerência valorativa do ordenamento jurídico e de sua interpretação (BOBBIO,
1992).
Os direitos fundamentais da criança e do adolescente são especiais, no sentido de
distintos dos direitos dos adultos, sob dois aspectos: um de natureza quantitativa e outro de
natureza qualitativa. Neste sentido explica Veronese e Custódio:

Sob o aspecto quantitativo, porque crianças e adolescentes tem mais direitos que os
próprios adultos. Em comum, encontram-se todos os direitos individuais e sociais
reconhecidos ao ser humano em atenção ao princípio da igualdade. Porém, são
assegurados às crianças e adolescentes outros direitos fundamentais, não positivados
para os adultos. E assim ocorre em razão da peculiar situação de desenvolvimento em
que se encontram. (VERONESE; CUSTÓDIO, 2013, p. 230)

42
“É inequívoco que os direitos indicados no caput do art. 227 e seu parágrafo terceiro e no art. 228 são direitos
fundamentais da pessoa humana: a própria natureza deles assim o faz. E nesse sentido, assevera: “Com o perdão da
obviedade: se o caput do art. 5° da CF menciona a vida, a liberdade, a igualdade, para depois especificar os inúmeros
desdobramentos (ou facetas) desses direitos nos seus incisos, e se o art. 227, caput, refere-se expressamente à mesma
vida, liberdade, dignidade, para em seguida desdobrá-las, seja no próprio caput, seja no parágrafo 3°, seja no art.
228, evidente que se trata de direitos da mesma natureza, ou seja, direitos fundamentais da pessoa humana”.
(MACHADO, 2003, p. 106).
43
Sobre a noção de Estado Democrático de Direito e a realização dos direitos fundamentais, observou Piovesan: “A
noção de Estado Democrático de Direito está, pois, indissociavelmente ligada à realização dos direitos fundamentais.
É desse liame indissolúvel que exsurge aquilo que se pode denominar de plus normativo do Estado Democrático de
Direito. Mais do que uma classificação de Estado ou de uma variante de sua evolução histórica, o Estado
Democrático de Direito faz uma síntese das fases anteriores, agregando a construção das condições de possibilidades
para surgir as lacunas das etapas anteriores, representadas peça necessidade do resgate das orinessas da modernidade,
tais como igualdade, justiça social e a garantia dos direitos humanos fundamentais”. (PIOVESAN. 2008, p.107).
58

Para Machado (2003) são direitos especiais de crianças e adolescentes : direito à


convivência, ao não trabalho dos menores de dezesseis anos, à profissionalização, à alimentação
e à inimputabilidade penal. De outro lado, os direitos fundamentais de crianças e adolescentes
também são especiais sob o aspecto quantitativo, em razão da conformação estrutural especial
que receberam do texto constitucional. Sob esse aspecto, os direitos fundamentais de crianças e
adolescentes geram prestações positivas, dever de asseguramento, e não dever de abstenção,
independentemente de serem positivados como direitos civis ou sociais.
Esse argumento é reforçado pela própria norma constitucional contida no art. 227,
da Constituição Federal, que não fez distinção entre classes de direitos fundamentais,
conformando todos sob o corte das obrigações que deles derivam, como eminentemente de
prestação positiva.
Mas esse não é o único motivo da especialidade qualitativa desses direitos. Essa
especialidade, também advém da absoluta prioridade assegurada constitucionalmente, de modo
que esses direitos têm preferência na efetivação quando comparado aos direitos dos adultos.
Desse modo, crianças e adolescentes têm mais direitos que os próprios adultos,
assegurados em razão de sua condição de pessoa em desenvolvimento e também da prioridade
absoluto que fazem jus. Como ressalta Ishida (2009) não é incompatível como se sabe, com a
Constituição uma diferenciação protetiva do trabalhador menor, ao contrário, a Carta Magna de
1988 expressamente a determina, ao vedar o trabalho noturno, perigoso ou insalubre aos menores
de dezoito anos (art. 7°, XXXIII) e ao se referir a uma proteção especial à criança e ao
adolescente (art. 227, CF/88).
A seguir, serão analisados esses direitos diferenciados.

4.3.1. Proibição do trabalho pelo menor de 16 anos

O art. 2 °, item 3, da Convenção da OIT – Convenção sobre a idade mínima de


1973, promulgada no Brasil pelo Dec. 4.134/2002, prevê a idade mínima para admissão em
empregou ou trabalho, qualquer que seja a atividade, não pode ser inferior a quinze anos.
Importante ressaltar que para os efeitos da Convenção considera-se criança o ser humano com
idade de até 15 (quinze) anos.
Neste sentido explica Sussekind:
59

Recordemos, nesse passo, que a Convenção 138, da OIT fixou em quinze anos a idade
mínima para o trabalho, facultando, todavia, ao país cuja economia e meios de educação
estejam insuficientemente desenvolvidos, que esse limite seja de quatorze anos. Este,
sem dúvida, é o caso do Brasil, o qual, paradoxalmente, e ao contrário do que se verifica
e, países plenamente desenvolvidos, estabeleceu a idade mínima para o trabalho em
dezesseis anos, só admitindo contrato de aprendizagem a partir dos quatorze anos.
(SUSSEKIND, 2005, p. 160).

Inicialmente o Brasil adotou como idade mínima para o trabalho quatorze anos.
Contudo, com a Emenda Constitucional n. 20/1998 houve alteração da norma constitucional, de
modo que a idade mínima para o desempenho de qualquer trabalho passou a ser de dezesseis
anos, salvo na condição de aprendiz (art. 7°, XXXIII da CF)44.
Posteriormente, com o Dec. n. 4.134/2002, determinou a execução da Convenção
da OIT. De acordo com o art. 2°, daquele Decreto, considerou-se para, todos os fins, como sendo
de dezesseis anos a idade mínima para admissão a empregou ou trabalho.
Para Rossato e Lépore (2012, p. 80) “se a idade mínima para o exercício do
Trabalho não for observada estar-se-à diante do trabalho infantil, proibido constitucionalmente”.

4.3.2. Proibição do Trabalho Noturno

Trabalho noturno é aquele realizado entre as vinte e duas horas de um dia e as


cinco horas do dia seguinte, tal como prescrevem o art. 7°, XXXIII, da Constituição Federal, o
art. 404, da CLT e o art. 67, I, do ECA. Essas disposições são aplicáveis ao trabalhador urbano,
ao passo que o rural há norma especial regulamentadora.
Nesse sentido, o art. 1°, da Lei 5.889/73, determina que as relações de trabalho
rural serão reguladas por esta lei e, no que com ela não colidirem, pelas normas da CLT. A lei
também veda a execução do trabalho noturno pelo menor de dezoito anos (BRASIL, 1973).
O horário noturno, no trabalho rural, não é igual aquele previsto para o urbano,
conforme se extrai do art. 7°, havendo diferenciação entre o trabalho executado na lavoura e na
atividade da pecuária. Com efeito, enquanto que para o primeiro considera-se noturna a atividade
desempenhada entre as vinte e uma horas de um dia e as cinco de horas do dia seguinte, para o

44
“As Constituições de 1824 (Imperial) e a Republicana de 1891 nada dispuseram a respeito. A primeira
Constituição Federal a cuidar da questão foi a de 1934 (art. 121, letra d), seguindo-lhe a Constituição Federal de
1937 (art. 137, letra J), ambas estabelecendo o limite de quatorze anos para o trabalho, princípio mantido pela Carta
Magna de 1946 (art. 157, IX). Esse limite foi reduzido para doze anos, pela Constituição Federal de 1967 (art. 158,
X)”. (ALMEIDA, 2006, p. 166).
60

segundo será considerada a atividade executada entre as vinte horas e as quatro horas do dia
seguinte (VERONESE; LÉPORE, 2013).
Esse horário deve ser estendido também aos adolescentes, sobrepondo-se à regra
geral, naquilo que beneficiar o adolescente, considera-se noturno aquele desempenhado entre as
vinte e uma (e não vinte e duas) horas de um dia e as cinco horas do dia seguinte. De outro lado,
para o trabalho na pecuária, considera-se noturno e executado entre as vinte horas de um dia e as
cinco horas do dia seguinte.
Para Rossato e Custódio o trabalho na pecuária realizado por menor de dezoito
anos – o horário não termina às quatro horas, como é a regra geral constante da Lei n. 5.889/73,
mas deve estender-se até as cinco, como previsto na Constituição Federal, CLT e Estatuto.
Porém, em sentido diverso Carrion (2011) sustenta que o trabalho noturno, na atividade pecuária,
segue o parâmetro fixado pela Lei 5.889/73, portanto entre 20 e 4 horas.
A lei ainda faculta ao juiz da Vara da Infância e da Juventude autorizar a
execução de atividades por menores de dezoito anos, em horário noturno “em teatros, circos e
similares, o que alcança as televisões, seja em logradouros públicos (art. 406 c/c art. 405, §§ 2° e
3°, alíneas “a” e “b”, da CLT)”.

4.3.3. Proibição do Trabalho perigoso

Proíbe-se a realização de trabalho perigoso, insalubre e penoso por adolescente,


este último por influência do Estatuto da Criança e do Adolescente.

De acordo com o art. 3°, da Convenção 182 da OIT, a expressão “piores formas
de trabalho infantil” abrange: a) todas as formas de escravidão ou práticas análogas à escravidão,
tais como a venda e tráfico de crianças, a servidão por dívidas e a condição de serviço, e o
trabalho forçado ou obrigatório de crianças para serem utilizadas em conflitos armados; b) a
utilização, o recrutamento ou a oferta
61

4.3.4 Proibição em locais prejudiciais à formação, ao desenvolvimento físico, psíquico,


moral e social

Prescreve o art. 403, da CLT:

Art. 403. É proibido qualquer trabalho a menores de dezesseis anos de idade, salvo na
condição de aprendiz, a partir dos quatorze anos.
Parágrafo único. O trabalho do menor não poderá ser realizado em locais prejudiciais à
sua formação, ao seu desenvolvimento físico, psíquico, moral e social e em horários e
locais que não permitam a freqüência à escola
Art. 405 - Ao menor não será permitido o trabalho:
§ 3º Considera-se prejudicial à moralidade do menor o trabalho:
a) prestado de qualquer modo, em teatros de revista, cinemas, buates, cassinos, cabarés,
dancings e estabelecimentos análogos;(Incluída pelo Decreto-lei nº 229, de 28.2.1967)
b) em emprêsas circenses, em funções de acróbata, saltimbanco, ginasta e outras
semelhantes;
c) de produção, composição, entrega ou venda de escritos, impressos, cartazes, desenhos,
gravuras, pinturas, emblemas, imagens e quaisquer outros objetos que possam, a juízo da
autoridade competente, prejudicar sua formação moral;(Incluída pelo Decreto-lei nº 229,
de 28.2.1967)
d) consistente na venda, a varejo, de bebidas alcoólicas. (Incluída pelo Decreto-lei nº
229, de 28.2.1967). (BRASIL, 1967).

Para Oliva (2001) poderá, o Juízo da Vara da Infância e da Juventude autorizar a


execução dos trabalhos em teatros de revista, cinemas, boates, cassinos, cabarés, dancings,
empresas circenses em função de acrobata, saltimbanco, ginasta e outras semelhantes, desde que
a representação tenha fim educativo ou a peça de que participe não possa ser prejudicial à sua
formação moral e, também, desde que se certifique de que a ocupação do menor será
indispensável à subsistência de sua pessoa ou de seus pais e avós, além de não advir qualquer
prejuízo a sua moral.

4.3.5 – Jornada de Trabalho Diferenciada

Continuando na linha de direitos diferenciados existentes em pro dos interesses


do adolescente, justificados pelo fato de sua condição peculiar de pessoa em desenvolvimento,
deve ser analisada a jornada de trabalho diferenciada prevista nos artigos 412, 413 e 414, da
Consolidação das Leis Trabalhistas.
Vários são os fundamentos da limitação do tempo de trabalho como lembra
Sussekind à saber:
a) de natureza biológica, porque elimina ou reduz is problemas psicofisiológicos
oriundos da fadiga; b) de caráter social, por ensejar a participação do trabalhador em
62

atividades recreativas, culturais ou físicas, propiciar-lhe a aquisição de conhecimentos e


ampliar-lhe a convivência com a família; c) de ordem econômica, porquanto restringe o
desemprego e aumenta a produtividade do trabalhador, mantendo-o efetivamente na
população economicamente ativa. (SUSSEKIND, 2004, p. 230).

Acrescenta Paula (2002) que a limitação de tempo, para com o adolescente,


justifica-se com muito maior razão, na medida em que a duração de trabalho prolongada poderá
causar-lhe danos à saúde, bem como prejudicar a qualidade dos estudos.
Inicialmente, a CLT estabeleceu que a duração de trabalho do menor será
regulada pelas disposições legais relativas ao trabalho adulto, resguardadas as previsões que
especifica que, por sua vez, devem ser adequadas ao Sistema.45 Desse modo, a limitação do
tempo de trabalho do menor será regida por normas gerais (previstas para os adultos), bem como
por normas particulares, que derrogam a regra geral.
Para Sussekind (2002) ao limitar o tempo de trabalho, o legislador contemplou
vários aspectos, como: a) jornada normal de trabalho; b) intervalo intrajornada; c) intervalo entre
duas jornadas; d) trabalho extraordinário; e) descanso semanal.
A partir dessa constatação, é possível fazer um paralelo entre esses aspectos e o
tratamento diferenciado oferecido aos adolescentes trabalhadores, analisando-se os dispositivos
da Consolidação das Leis Trabalhistas e promovendo-se as devidas adequações, vislumbrando-se,
desde já, que as diferenciações existentes referem-se principalmente para o trabalho
extraordinário.
No que se refere à jornada de trabalho tem-se que é aplicada a regra geral de
duração de trabalho não superior a oito horas diárias e quarenta e quatro horas semanais, ou
ainda, jornada de seus horas, para o trabalho realizado em turnos inimterruptos de revezamento
(art. 7°, XIII e XIV, da Constituição Federal), observando-se a Súmula 675, do Supremo Tribunal
Federal, segundo a qual “os intervalos fixados para descanso e alimentação durante a jornada de
seus horas não descaracterizam o sistema de turnos de revezamento para efeito do art. 7°, XIV,
da Constituição”.

45
“Duração de trabalho compreende noção mais ampla e abrange o lapso temporal de labor ou disponibilidade do
empregado perante seu empregador em virtude do contrato, considerados distintos parâmetros de mensuração: dia
(duração diária, ou jornada), semana (duração semanal). A jornada por sua vez representa o tempo diário em que o
empregado tem de se colocar em disponibilidade perante seu empregador, em decorrência do contrato. E o horário de
trabalho significa o lapso temporal entre o início e o fim de certa jornada laborativa”. (DELGADO, 2011, p. 234).
63

Se o menor de dezoito anos for empregado em mais de um estabelecimento, as


horas de trabalho em cada um serão totalizadas, de modo que não poderão exceder os limites
estabelecidos na Constituição Federal (art. 414, CLT).
Em relação ao intervalo intrajornada, não há qualquer diferenciação, devendo ser
observadas as regras constantes doas artigos 71 e 72, da CLT.
Quanto ao intervalo entre as jornadas, embora exista regra prevendo no art. 412,
tem-se que a mesma não se diferencia da previsão geral, pela qual é exigido que, após cada
período de trabalho efetivo, quer contínuo, quer dividido em dois turnos, haverá um intervalo de
repouso, não inferior a onze horas.
Quanto ao descanso semanal, também não há qualquer alteração: é garantido o
descanso semanal de, no mínimo, vinte e quatro horas (art. 67 da CLT).
Já no que se refere ao trabalho extraordinário, de acordo com o contido
literalmente no art. 413 da CLT, é vedada sua execução por trabalhadores adolescentes, salvo: a)
até duas horas, independentemente de acréscimo salarial, mediante convenção ou acordo, desde
que o excesso de horas em um dia seja compensado pela diminuição em outro, de modo a ser
observado o limite máximo de 48 horas semanais ou outro inferior legalmente fixado; b)
excepcionalmente, por motivo de força maior, até o máximo de doze horas, com acréscimo
salarial de, pelo menos, 25% sobre a hora normal e desde que o trabalho do adolescente seja
imprescindível ao funcionamento do estabelecimento.
É vedada ainda, a imposição aos adolescentes de execução de trabalho
extraordinário, pois isso importaria em prejuízo aos estudos. Porém, os menores de dezoito anos
podem trabalhar, “em sobrejornada em contextos de regime de compensação ou de força maior
(art. 413, CLT), observando o seguinte:
I – no máximo por duas horas diárias, em sistema de compensação, desde que haja
previsão em acordo ou convenção coletiva, independentemente de acréscimo salarial,
observando-se o limite máximo de 44 horas semanais ou outro inferior legalmente
fixado:
II – por motivo de força maior, com pagamento de acréscimo de 50%, até o máximo de
quatro horas por dia (chegando-se a doze, portanto) desde que o trabalho do menor seja
imprescindível ao funcionamento do estabelecimento, com comunicação ao Ministério
do Trabalho e do Emprego:

No primeiro caso, Rossato e Lépore (2012) apresentam os requisitos para


trabalho extraordinário por compensação praticado por menores de dezoito anos:
64

a) limite máximo de duas horas diárias; b) sistema de compensação, de modo que a


semana trabalhada não exceda ao limite máximo constitucional de 44 horas, ou outro
inferior legalmente fixado, normalmente com supressão do expediente aos sábados – a
chamada semana inglesa; c) previsão em acordo ou convenção coletiva; d) que as horas
extras não adentrem ao horário noturno, proibido aos menores (das 22 horas às 05
horas); e) seja observado o descanso obrigatório entre jornadas; e, f) desnecessidade de
pagamento de acréscimo salarial.

Como se vê, o banco de horas é vedado ao menor, nos moldes em que existe, na
medida em que as horas devem necessariamente ser compensadas na mesma semana, cuja carga
horária não pode passar das 44 horas previstas constitucionalmente.
No segundo caso, para Lépore e Rossato (2012), são requisitos da jornada
extraordinária:
a) incidência de motivo de força maior, assim compreendido “todo acontecimento
inevitável, em relação à vontade do empregador, e para a realização do qual este não
ocorreu, direta ou indiretamente” (art. 501, caput, CLT), conferindo a legislação
tratamento único para a força maior e o caso fortuito. b) limite máximo de quatro horas
por dia, os quais, somando-se às oito horas regulares, chega-se ao máximo de doze horas
referidos no inciso II do art. 413; c) não basta que haja força maior a justificar o trabalho
extraordinário do menor. Além disso, o seu trabalho deve ser imprescindível ao
funcionamento do estabelecimento; d) comunicação da ocorrência da sobrejornada por
motivo de força maior à Delegacia , Regional do Trabalho; e, e) pagamento de
acréscimo de 50 %.

De toda forma, a prorrogação de jornada exige que seja precedida de um período


de descanso de quinze minutos (ar. 413, parágrafo único, CLT).
Porém, alerta Veronese e Custódio (2012) para o fato de não ser admitida a
ocorrência, tratando-se de trabalhadores menores, da prorrogação em virtude de serviços
inadiáveis (art. 61, caput e § 2°, CLT), justamente por não se encontrar prevista no art. 413, CLT,
como ocorre em outras hipóteses de prorrogação (por exemplo, a prorrogação para reposição de
paralisações empresariais).

4.3.6 – Acesso à Escola

Nos termos do ar. 227, § 3°, III, da Constituição Federal, a proteção especial
abrangerá a garantia do trabalhador adolescente à escola. Além disso, estabelece o Estatuto a
proibição do trabalho pelo adolescente quando realizado em horários e locais que não permitam a
frequência à escola (art. 67, IV).
65

4.3.7 – Não ocorrência de prescrição

Em conformidade com o art. 440, da Consolidação das Leis Trabalhistas, contra


as pessoas que tenham menos de dezoito anos não corre qualquer prazo prescricional. Essa
disposição segundo o art. 10, parágrafo único da Lei n. 5.889/73, é aplicável tanto ao trabalhador
urbano quanto o rural.
Nas palavras de Delgado (2011, p. 868) “trata-se de norma específica, aplicável
as pessoas que tenham menos de dezoito anos, independentemente de ser absoluta ou
relativamente incapaz”.
Entende Almeida (2005, p. 249) que “a menoridade constitui-se como causa
impeditiva da prescrição, sendo irrelevante a diferenciação feita pelo Código Civil, pois será
possível que eventualmente ocorra a indevida exploração do trabalho infantil”.
Assim, verifica-se que esta causa impeditiva se fundamenta no fator idade,
presumindo a lei como sendo um indicativo de restrição sofrida pelo titular do direito em relação
à defesa de seus próprios interesses, de modo que a prescrição não poderia favorecer o devedor.

4.3.8 – Recebimento de Salários

O adolescente poderá firmar contrato e recibo pelo pagamento dos salários. Neste
sentido, já decidiu o Tribunal Regional do Trabalho da 2ª Região:

Menor de idade tem capacidade relativa. Do art. 439 da CLT, que indica as limitações de
suas manifestações de vontade, deduz-se que o menor pode contratar independentemente
de assistência de seus responsáveis. Presume-se existir autorização pela posse da carteira
de trabalho, posto que sua expedição está condicionada à autorização expressa de seu
responsável legal. Se houvesse o impedimento do menor firmar contrato sem assistência,
sua nulidade ou descaracterização (prazo determinado para prazo indeterminado, por
exemplo), estariam previstas pelo legislador no Capítulo IV da CLT – da Proteção do
Trabalho do Menor. Não havendo qualquer proibição legal, prevalece válido o contrato
experimental firmado pelo reclamante menor de 18 anos de idade” (TRT/SP, RO
15.166/85, rel. Valentin Carrion, AC. 17.11.1996).

Porém tratando-se de rescisão de contrato de trabalho, é vedado ao mesmo dar,


sem assistência de seus responsáveis legais, quitação ao empregador pelo recebimento de
indenização que for devida, por força do art. 439, da CLT.
66

Almeida (2005) entende que a assistência pode ser suprida com a assinatura do
respectivo sindicato e cita, para tanto, o seguinte julgado: “A assistência sindical prestada nos
termos do § 1°, do art. 477 da CLT, supre aquela prevista no art. 439” (TRT/SP RO
0290002440497 rel. Juiz Roberto Rerraiolo, DOE, 10.09.2002. p. 126).
E acrescenta que: “sem o atendimento a uma ou outra exigência (responsáveis
legais ou sindicato), a quitação é nula de pleno direito”.
Assim também é o entendimento majoritário da jurisprudência pátria:
Pedido de dispensa e termo de rescisão firmados por menor, sem assistência do
responsável, hão de ser considerados nulos, por ausência de formalidade essencial
(TRT/RJ, RO 15.756/93, 1ª T., rel. Carlos José Schefer, DJ 31.07.1995, p. 215).

RITO SUMARÍSSIMO. RESCISAO CONTRATUAL. MENOR. EXIGÊNCIA DA


ASSISTÊNCIA DO REPRESENTANTE LEGAL. ART. 439 DA CLT.439CLTEmbora
autorizado pelo legislador a firmar recibo de pagamento de salários, o artigo 439 da
CLT, veda ao menor de 18 (dezoito) anos outorgar, sem assistência dos seus
responsáveis legais, quitação ao empregador pelo recebimento da indenização que
eventualmente lhe for devida.439CLT (2306200624102005 SP 02306-2006-241-02-00-
5, Relator: CARLOS FRANCISCO BERARDO, Data de Julgamento: 10/07/2007, 11ª
TURMA, Data de Publicação: 17/07/2007)

RESCISÃO. CONTRATO DE TRABALHO QUITAÇÃO. MENOR DE IDADE.


ASSISTÊNCIA RESPONSÁVEL. NECESSIDADE1. A norma do artigo 439, da CLT,
no que contempla a exigência de assistência do empregado menor de dezoito anos para
quitação da rescisão contratual, surte efeito apenas quando e se o interessado negar o
pagamento. Ademais, gera uma presunção relativa de que o empregado não recebeu as
verbas rescisórias, invertendo-se o ônus de tal modo que caberá ao empregador produzir
prova cabal de que o pagamento foi efetivado.2. Se o próprio empregado não põe em
dúvida o recebimento da verba rescisória, não há razão para, apenas por questão formal,
declarar-se que é inválida a quitação e, virtualmente, ensejar uma repetição de
pagamento de verbas rescisórias.3. Recurso de revista de que não se conhece.439CLT
(4888663019985025555 488866-30.1998.5.02.5555, Relator: Maria do Perpétuo
Socorro Wanderley de Castro, Data de Julgamento: 04/10/2006, 1ª Turma,, Data de
Publicação: DJ 17/11/2006.)

4.3.9. Demissão por Justa Causa em razão da prática de ato infracional

Prescreve o art. 482, alínea “d”, da CLT, a condenação criminal constitui justa
causa para a demissão, desde que haja o trânsito em julgado da sentença penal e não seja deferida
a suspensão da pena.
Trazendo para a questão do trabalho do adolescente, faz-se o seguinte
questionamento: a aplicação da medida socioeducativa ao adolescente, importaria na demissão
por justa causa?
67

Como é sabido, o art. 228 da Constituição Federal encampa a norma que


assegura a inimputabilidade da criança e do adolescente em razão da prática prevista na lei como
crime ou contravenção penal.
Em contrapartida, essa norma não assegura a irresponsabilidade dessas pessoas.
Em especial em relação aos adolescentes, estarão os mesmos sujeitos a uma ação especial,
denominada ação socioeducativa, pela qual será buscada a apuração do ato ilícito praticado, o ato
infracional, com a possibilidade da aplicação de uma das medidas socioeducativas46 previstas no
rol taxativo do art. 112 do Estatuto da Criança e do Adolescente.
Sobre a modalidade demissão por prática de ilícito penal, lembra Sussekind que:

A razão primeira a justificar a rescisão do contrato de trabalho é a impossibilidade de o


empregado não comparecer ao serviço. E a partir desta constatação, conclui que se for
aplicada ao empregado pena diversa da restritiva de liberdade, ou em regime semiaberto,
ou ainda, se desde já, for deferida a suspensão do processo, não haverá motivo para a
demissão por justa causa, com fundamento na condenação criminal. (SUSSEKIND,
2004, p. 354)

Neste sentido, aplicando os ensinamentos do referido autor a questão do trabalho


do adolescente e a aplicação de medida socioeducativa, por sentença transitada em julgada,
importará tão somente em demissão por justa causa desde que seja impossibilitado ao adolescente
comparecer ao trabalho, o que só poderá ocorrer nos casos de aplicação das medidas
socioeducativas de internação com prazo indeterminado, eventualmente, com medida de
semiliberdade.47

4.3.10. Das penalidades ao empregador

Há previsão nos artigos 434 d 438 da CLT de penalidades que devem ser
impostas aos empregadores que burlem a legislação pertinente aos adolescentes, com
possibilidade de aplicação de pena de multa.

46
As medidas sócioeducativas, consistem em medidas jurídicas aplicadas ao adolescente autor de ato infracional.
São dividas em medidas sócio-educativas em meio aberto – quando o adolescente poderá permanecer em liberdade,
sob a guarda de sua família vivendo em comunidade – e medidas restritivas de liberdade – aquelas em que o
adolescente ou tem a sua liberdade parcial ou totalmente restrita. São medidas de meio aberto: advertência, obrigação
de reparar o dano, prestação de serviços à comunidade e liberdade assistida. Por sua vez, são medidas restritivas de
liberdade a semiliberdade e a internação. (ROSSATO; LÉPORE, 2012. p. 93).
47
“Ao aplicar-se a medida socioeducativa da internação, com prazo indeterminado, a liberdade do adolescente estará
totalmente restrita, na medida em que o mesmo deverá permanecer em entidade de atendimento”. (MACHADO,
2003, p. 100).
68

4.4. Aprendizagem

O instituto da aprendizagem está disciplinado fundamentalmente em três


diplomas legais: Constituição Federal, Estatuto da Criança e do Adolescente e a Consolidação
das Leis de Trabalho.
A Constituição Federal, em seu art. 7°, XXXIII (com redação dada pela EC
20/98, determina que poderá ser aprendiz o adolescente a partir de 14 (quatorze) anos. Por sua
vez, o Eca (nos seus arts. 60 a 69) e a CLT (nos arts. 424 a 233, com redações dadas pelas Leis
10.097/2000, 11.180/2005, e 11.788/2008) estabelecem o conceito, os princípios e as condições
do trabalho no regime de aprendizagem.

4.4.1. Conceito

Segundo determinação dos arts. 62 e 63 do Estatuto da Criança e do Adolescente,


considera-se aprendizagem a formação técnico-profissional ministrada segundo as diretrizes
bases da legislação de educação em vigor.
Oliveira (2005) assevera que a base do trabalho em regime de aprendizagem é a
formação técnico-profissional, ou seja, aquela que implica na alternância entre a teoria e a
prática, sob pena de descaracterizar-se.
Sobre a alternância entre a pratica e a teoria preceitua Custódio e Veronese:

Houve um tempo em que a alternância se fazia diariamente. Hoje se entende que o


elemento tempo pode ser distribuído diversamente, alternando-se períodos mais longos
na teoria e na prática, cabendo ao programa elaborar a distribuição do tempo dedicado a
ambas. (VERONESE; CUSTÓDIO, 2013, p. 120).

O art. 428 da CLT estabelece que a aprendizagem configura-se por um contrato


de trabalho especial, ajustado por escrito e por prazo determinado, em que o empregador se
compromete a assegurar ao maior de 14 (quatorze) e menor de 24 (vinte e quatro) anos inscrito
em programa de aprendizagem formação técnico-profissional metódica. Compatível com o seu
desenvolvimento físico, moral e psicológico, e o aprendiz, a executar com zelo e diligência as
tarefas necessárias a esta formação.
69

4.4.2. Espécies
Existem na doutrina dois tipos de aprendizagem: a aprendizagem empresarial e a
aprendizagem escolar de formação profissional. Adiante serão estudadas de forma detalhada cada
uma delas.

4.4.2.1. Aprendizagem Empresarial

Ensina Veronese e Custódio (2013) aprendizagem empresarial trata-se da mais


comum modalidade de aprendizagem, que se refere à situação em que o adolescente ou o jovem
desenvolve sua atividade de formação técnico-profissional no âmbito de uma empresa.
Acrescentam ainda, a configuração desta modalidade se dá com a situação como
um trabalho pessoal, continuado, e subordinado a empregador, e que gera a proteção
normalmente conferida ao trabalho em regime regular com vínculo trabalhista entre o aprendiz e
a empresa.

4.4.2.2. Aprendizagem Escolar Profissional


Preceitua o art. 431 da CLT, trata-se da hipótese em que a aprendizagem se
realizará no âmbito das entidades sem fins lucrativos (art. 430, II, CLT), que tenham por objetivo
a assistência ao adolescente e à educação profissional, registradas no Conselho Municipal dos
Direitos da Criança e do Adolescente,48 caso em que não gera vínculo de emprego com a empresa
tomadora dos serviços.
Entende Machado (2003, p. 230) que a modalidade de aprendizagem escolar
profissional “o vínculo de emprego do aprendiz será com a entidade sem fins lucrativos, e não
com a tomadora de serviços”.
Nos ensinamentos de Oliveira, na hipótese escolar de formação profissional:

A entidade passa a ter duas funções: de empregadora e de centro de formação, devendo


encaminhar o adolescente para prestar serviços em uma empresa, que é simples
tomadora dos serviços. Configura-se, assim, uma relação jurídica triangular, que tem em
seus ângulos: o adolescente, a empresa como tomadora e a entidade, assumindo em todas
as obrigações inerentes a um contrato em regime de emprego. Ainda nessa hipótese, a

48
É o principal espaço para discussão e formulação das políticas de atenção a infância e adolescência no município.
É o órgão que deve deliberar e exercer o controle do atendimento às crianças e aos adolescentes em todos os níveis,
previsto na Lei Federal nº 8.069 de 13 de julho de 1990 - Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA. (BRASIL,
1990).
70

entidade deve exigir que a empresa tomadora lhe repasse todo o numerário bastante para
cobrir tudo o que é devido ao adolescente aprendiz e os ônus que a entidade tem como
empregadora. (OLIVEIRA, 2008, p. 129).

A entidade deve ter especial cuidado em fazer uma seleção criteriosa de


empresas tomadoras, porque, se estas falharem no repasse, a entidade não se exime da
responsabilidade do cumprimento das obrigações trabalhistas. Por outro lado, as empresas
tomadoras deverão ter o mesmo cuidado, porque, se a entidade deixar de fazer o repasse,
frustrando direitos dos aprendizes, a empresa tomadora responde subsidiariamente pelas
obrigações (MACHADO, 2003).

4.4.3. Requisitos
Conjugando-se o § 1° do art. 428 da CLT, responsável por estabelecer alguns
pressupostos, ao art. 63 do ECA, disciplinador de alguns princípios, tem-se que para a válida
consideração da aprendizagem devem ser respeitados:
a) anotação na Carteira de Trabalho e Previdência Social;
Nascimento (2009) ensina que até 18 anos, o menor depende de autorização do
responsável para contratar trabalho. A carteira de trabalho, para a qual já se faz necessário essa
permissão, basta como prova da existência dessa outorga.
As anotações serão feitas normalmente, nos campos destinados aos contratos de
trabalho (ISHIDA, 2010).
b) matrícula e freqüência do aprendiz na escola em ensino regular
Trata-se de um requisito que se alinha à exigência insculpida no art. 205 da
Constituição Federal, que toma a educação como um direito de todos e dever do Estado e da
família, que será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando o pleno
desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e qualificação para o
trabalho.
No mesmo sentido enuncia o art. 53 do ECA, ao determinar que a criança e o
adolescente têm direito à educação, visando ao pleno desenvolvimento de sua pessoa, preparo
para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho.
Desta feita, a aprendizagem só se configura como uma atividade positiva para a
formação da pessoa em desenvolvimento se estiver alinhada à freqüência escolar, sob pena de se
71

tornar, ao mesmo tempo, inconstitucional e ilegal, apresentando-se como prática vedada pelo
ordenamento jurídico (VERONESE; CUSTÓDIO, 2013).
Chama a atenção, no entanto, a regra insculpida no §7°, do art. 428 da CLT,
segundo a qual nas localidades onde não houver oferta de ensino médio para o cumprimento da
exigência supracitada, a contratação do aprendiz poderá ocorrer sem freqüência à escola, desde
que já tenha concluído o ensino fundamental.
Trata-se de regra bastante razoável, uma vez que não se pode impedir a
profissionalização de um adolescente ou jovem (direito reconhecido com absoluta prioridade pelo
art. 227 da Constituição Federal) devido a ineficiência estatal em ofertar o ensino médio em todas
as localidades (conforme determina o art. 208 da CF, com redação dada pela EC 59/2009).
Mantendo-se o tratamento diferenciado aos portadores de necessidades especiais,
a CLT, no § 6°, de seu art. 428, estabelece a regra que, para os fins do contrato de aprendizagem,
a comprovação da escolaridade de aprendiz portador de deficiência mental deve considerar,
sobretudo, as habilidades e competências relacionadas com a profissionalização, não se
vinculando às normas regulares de comprovação de matrícula e frequência escolar.
c) inscrição em programa de aprendizagem desenvolvido sob orientação de
entidade qualificada em formação técnico profissional metódica
Nascimento entende que a inscrição em programa de aprendizagem é:
É um ato de controle para que uma instituição credenciada a ministrar aprendizagem
forneça o programa, o acompanhamento, as fases em que, na prática, a aprendizagem
será desenvolvida no estabelecimento do empregador, onde executará, com zelo e
diligência, as tarefas próprias da sai condição e que serão aquelas que o programa da
instituição em que está inserido mencionará. O empregador encarrega-se de dar
cumprimento ao programa que na empresa será ministrado, de acordo com os critérios
que estabelecer como órgão de qualificação da mão de obra do aprendiz.
(NASCIMENTO, 2009, p. 345)

d) Atividade compatível com o desenvolvimento do adolescente


Uma vez que a aprendizagem tem por objetivo a profissionalização por meio da
formação técnico profissional, a atividade prática a ser desempenhada no âmbito da tomadora de
serviço deve guardar absoluta relação com a teoria ensinada, sob pena de desvirtuamento do
objetivo almejado com o trabalho do aprendiz, podendo, assim, representar a violação de direitos
do adolescente, principalmente se ele tiver entre 14 e 16 anos, haja vista que nessa situação
somente se admite o trabalho na condição de aprendiz (MACHADO, 2003).
72

e) Horário Especial para o exercício das atividades


Se o desempenho do labor depende da formação teórica e da escolarização, cabe
à tomadora de serviço oferecer ao adolescente ou jovem horário compatível com os estudos que
buscam a sua formação, sob pena de prejuízo ao trabalhador e desnaturação da relação de
aprendizagem (ISHIDA, 2010).

4.4.3. Sujeito envolvidos na relação de aprendizagem


4.4.3.1. Aprendiz

Poderá ser aprendiz toda pessoa que tenha entre 14 e 24 anos de idade. Portanto,
como regra, poderá ser aprendiz o adolescente (porque o ECA considera como tal a pessoa entre
12 e 18 anos), e o jovem (porque a legislação brasileira de acesso ao trabalho entende como tal a
pessoa entre 15 e 29 anos).
Essa determinação legal só encontra exceção no caso dos deficientes (melhor
designados como portadores de necessidades especiais), que não se submetem à limitação de
idade podendo ser aprendizes até mesmo após os 24 anos.

4.4.3.2. Empregador

Como já abordado anteriormente, poderá figurar como empregadora a empresa


(aprendizagem empresarial) ou a entidade sem fins lucrativos (aprendizagem escolar de formação
profissional).
O Art. 429 da CLT determina que os estabelecimentos de qualquer natureza são
obrigados a empregar e matricular nos cursos dos Serviços Nacionais de Aprendizagem (SENAC,
SENAI, SENAT, SENAR) número de aprendizes equivalente a 5% (cinco por cento), no mínimo,
e 15% (quinze por cento), no máximo, dos trabalhadores existentes em cada estabelecimento,
cujas funções demandem formação profissional (NASCIMENTO, 2009).
Complementando essa exigência, a legislação aclara, ainda, que as frações de
unidade, no cálculo de percentagem darão lugar à admissão de um aprendiz (art. 429, § 1°, da
CLT).
73

Estes limites, no mínimo e máximo, de aprendizes só são válidos para a


aprendizagem empresarial, pois, conforme enuncia o §1°-A. também, o art. 429 da CLT, eles se
aplicam apenas quando o empregador for entidade sem fins lucrativos, que tenha por objetivo a
educação profissional.
Na prática, no entanto, pode ocorrer de não existirem vagas suficientes nas
entidades do Sistema “S” para atender à demanda das empresas.
Pensando nisso, o legislador trouxe nova regra ao art. 430 da CLT, determinando
que na hipótese de Serviços Nacionais de Aprendizagem não oferecerem cursos ou vagas
suficientes para atender à demanda dos estabelecimentos, esta poderá ser suprida por outras
entidades qualificadas em formação técnico-profissional metódica, que deverão contar com
estrutura adequada ao desenvolvimento dos programas de aprendizagem de forma a manter a
qualidade do processo de ensino, bem como acompanhar e avaliar os resultados, das Escolas
Técnicas de Educação e das Entidades sem fins lucrativos, que tenham por objetivo a assistência
ao adolescente e à educação profissional, registradas no Conselho Municipal dos Direitos da
Criança e do Adolescente - Ministério do Trabalho e Emprego deverá fixar normas para
avaliação da competência dessas entidade (BRASIL, 2007).

4.4.4. Características e condições de realização da aprendizagem

a) Jornada de Trabalho
A duração do trabalho do aprendiz não excederá 6 (seis) horas diárias, sendo
vedadas a prorrogação e a compensação de jornada. Este limite poderá ser de até 8 (oito) horas
diárias para os aprendizes que já tiverem completado o ensino fundamental, se nelas forem
computadas as horas destinadas à aprendizagem teórica, nos termo do art. 432 da CLT.
b) Duração da Aprendizagem
Quanto a duração, há regra clara no § 3°, do art. 428 da CLT, no sentido que o
contrato de aprendizagem é por tempo determinado, e não poderá ser estipulado por mais de 2
(dois) anos, exceto quando se tratar de aprendiz portador de deficiência.
c) Local e atividades de aprendizagem
Segundo redação do § 4° do art. 428 da CLT:
74

A formação técnico profissional a que se refere o caput deste artigo caracteriza-se por
atividades teóricas e práticas, metodicamente organizadas em tarefas de complexidade
progressiva desenvolvidas no ambiente de trabalho (BRASIL, 1967).

Conforme ensina Oliveira (2001) entende-se como formação profissional


metódica de ofício ou ocupação, o trabalho do menor matriculado em curso do SENAI, SENAC,
SENAT e SENAR, ou em cursos por eles reconhecidos nos termos da legislação que lhes for
pertinente.
Como já destacado, estas atividades teóricas e práticas serão desenvolvidas nos
centros de formação (parte teórica) e nas tomadoras de serviço (parte prática).

4.4.5. Direitos do Aprendiz

a) Remuneração
Como trabalhador que é, o aprendiz faz jus à contraprestação salarial. Nessa
linha, vale ressaltar o disposto no art. 7°, XXX, da Constituição Federal, que veda as diferenças
de salário em razão da idade.
Ao menor aprendiz salvo condição mais favorável. Será garantido o salário
mínimo hora (art. 428, § 2° da CLT).
Também pode o aprendiz adolescente firmar recibo pelo pagamento dos salários.
Tratando-se, porém, de rescisão do contrato de trabalho, é vedado ao adolescente dar, sem
assistência dos seus responsáveis legais, quitação ao empregador pelo recebimento da
indenização que for devida (art. 439 CTL).
Neste ponto, vale o esclarecimento a respeito da regra disposta no art. 64 do
ECA, que garantia bolsa de aprendizagem ao adolescente de até quatorze anos.
Referida norma está revogada pelo art. 7° XXXIII, da CF, que, com redação dada
pela EC 20/98, só admite a aprendizagem ao adolescente de até quatorze anos.
Por ter condição de trabalhador, o aprendiz tem direito a reclamar por suas
verbas trabalhistas, beneficiando-se, assim, da regra disposta no art. 449 da CLT, segundo a qual
contra os menores de 18 (dezoito) anos não corre nenhum prazo de prescrição.
Para Nascimento (2005):
Qualquer que tenha sido a época, quer da lesão do direito, que mesmo da rescisão do
contrato do trabalho, até os 20 anos, o menor poderá mover reclamação trabalhista. Os
prazos para reclamar fixados peça Constituição Federal (art. 7°, XXIX) começam,
75

portanto, a correr em função da aquisição da maioridade trabalhista e não do direito


lesado, o que amplia o prazo de prescrição das reclamações trabalhistas movidas para a
cobrança dos créditos originados da menoridade.

b) Certificado de qualificação profissional


Aos aprendizes que concluírem os curso de aprendizagem, com aproveitamento,
será concedido certificado de qualificação profissional (art. 430, § 2°, CLT)
c) Demais direitos Trabalhistas e Previdenciários
Conforme dispõe o art. 65 do ECA, ao adolescente aprendiz, maior de quatorze
anos, são assegurados os direitos trabalhistas previdenciários.
Assim terá o aprendiz acesso a todos os direitos trabalhistas e previdenciários
garantidos aos empregados, sem prejuízo da proteção especial que ele recebe do ordenamento
jurídico.

4.4.6. Extinção do Contrato de Aprendizagem

A extinção do contrato de aprendizagem encontra-se regulamentada pelo art. 433


da CLT, que dispõe que o contrato de aprendizagem extingue-se:
Normalmente: a) no seu termo até dois anos; b) quando o aprendiz completar 24
(vinte e quatro) anos (ressalvada a hipótese do aprendiz portador de deficiência).
Antecipadamente: a) por desempenho insuficiente ou inadaptação do aprendiz; b)
pela prática de falta disciplinar grave (art. 493 da CLT, ou seja, a prática de qualquer dos fatos a
que se refere o art. 482 da CLT, quando por sua repetição ou natureza representem séria violação
dos deveres e obrigações do aprendiz); c) pela ausência injustificada à escola que implique perda
do ano letivo; d) a pedido do aprendiz.
Por fim, o § 2° do art. 433 da CLT, determina que não se aplica o disposto nos
art.s 479 e 480 da Consolidação das Leis do Trabalho nas hipóteses de extinção do contrato de
aprendizagem.
Os artigos 479 e 480 da CLT trazem regra segundo a qual nos contratos por
prazo determinado, a despedida (por parte do tomador) ou a demissão (por parte do trabalhador)
sem justa causa, geram o dever de indenizar.
Assim, a extinção – mesmo sem justa causa – do contrato de aprendizagem não
gera direito à indenização para nenhuma das partes.
76

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

O presente trabalho procurou demonstrar que o Brasil possui uma das legislações
mais avançadas do mundo no que tange à proteção do trabalho da criança e do adolescente. Tanto
é assim que a idade mínima para o ingresso no mercado de trabalho é de 16 (dezesseis) anos, ao
passo que a Convenção n.º 138 da OIT fixa em 15 (quinze) anos (para os países desenvolvidos) a
idade limite para a entrada no mercado de trabalho.
É preciso reconhecer que o Direito da Criança e do Adolescente instaurou um
sistema de garantias de direitos para a proteção trabalhista a criança e ao adolescente. Desse
modo promoveu um reordenamento institucional, redistribuindo responsabilidades para a família,
para a sociedade e para o Estado, visando assegurar os direitos fundamentais.
A utilização da mão-de-obra infantil e do adolescente está inclusa na história do
Brasil desde o período colonial, uma vez que eram tratados como adultos mirins sem qualquer
direito a tutela especial.
As primeiras manifestações do Estado quanto à proteção do adolescente já traziam
em seu bojo a necessidade da profissionalização como uma das soluções dos problemas sociais.
O Estado, através de políticas públicas almeja viabilizar a profissionalização do
adolescente mediante o ensino técnico e profissionalizante, com o fim de ser inserido no mercado
de trabalho como mão-de-obra qualificada, e não se submeter a qualquer tipo de trabalho noturno
e perigoso.
Com a Constituição Federal de 1988, o ordenamento jurídico brasileiro instituiu o
princípio da proteção integral que confere a criança e ao adolescente tratamento diferenciado, os
fazendo dignos de absoluta prioridade frente aos direitos e garantias fundamentais. A proteção
integral ao atribuir absoluta promoção dos direitos reconhecidos as crianças e aos adolescentes,
revela sua importância como norma auxiliadora e interpretativa no caso concreto, devido a sua
falta de rigidez.
Da mesma forma, a Consolidação das Leis do Trabalho e o Estatuto da Criança e
do Adolescente versam sobre a idade mínima para o ingresso no trabalho, as formas de trabalho
autorizadas ao adolescente, as formas de proibição, o instituindo como componente de formação
profissional ao aliar o ensino à prática e a permissão do trabalho na condição de aprendiz para os
maiores de 14 (quatorze) anos.
77

O adolescente, através da permissão da lei, poderá constituir relação de trabalho ou


relação de emprego. A relação de trabalho, de forma genérica, engloba todas as relações jurídicas
que envolvam uma obrigação de fazer consistente em trabalho humano, como por exemplo o
trabalho educativo. A relação de emprego apresenta-se com formas específicas de relação de
trabalho positivadas no ordenamento jurídico, com as características definidas na CLT, como
exemplo no contrato especial de aprendizagem e o contrato comum de emprego.
Ao adolescente é permitido a celebração do contrato de emprego, atribuindo
condições especiais de proteção a pessoa e ao seu trabalho, conferindo todos os direitos
garantidos aos adultos e proibição do exercício de atividades nocivas à sua formação, como as
perigosas, insalubres, penosas e noturnas.
Sabe-se que a erradicação do trabalho irregular não se dará apenas com o
afastamento da criança ou adolescente do trabalho. A situação de pobreza que atinge grande parte
da população, o desconhecimento das normas de proteção ao trabalho e do direito à
profissionalização e a tolerância por parte da sociedade, faz com que o ciclo de exploração e
desqualificação vivenciado pelos seus familiares prossiga. Esse situação precisa ser modificada.
E é nesse contexto que a regularização do trabalho do adolescente deve existir, favorecendo a
condição peculiar de pessoa em desenvolvimento e o crescimento da renda familiar.
Portanto, a introdução do adolescente no mercado de trabalho antes da idade
mínima constitucionalmente estabelecida para o exercício lícito acarreta problemas no seu
desenvolvimento. A prioridade na vida do adolescente deve ser o estudo, exatamente por serem
compreendidas como pessoas em fase de desenvolvimento biológico, psíquico e social é que toda
a sociedade e governo devem observar e fiscalizar a tutela das crianças e dos adolescentes no que
diz respeito ao emprego de sua mão-de-obra no mercado de trabalho, estabelecendo um elo entre
a necessidade de se obter o retorno remunerativo e a sua formação educacional e profissional.
Ao término da pesquisa, verificou-se que a finalidade da proteção trabalhista dada
a criança e ao adolescente no Brasil é assegurar o pleno desenvolvimento destes seres sem
desenvolvimento, não podendo ser vista como um empecilho ao trabalho, já que este, dentro de
limites e conjugado com a educação, contribui de forma significativa para a formação e
qualificação profissional do indivíduo e sua adequada inserção no mercado de trabalho.
78

Assim verifica-se que o trabalho do adolescente trará benefícios na sua


qualificação profissional, se iniciado no momento certo, de forma correta, com responsabilidade e
legalidade, fazendo dele um profissional competente, ágil, com formação escolar diversificada,
estratégias de geração de renda e preparado para a concorrência no mundo mercantil.
79

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