Você está na página 1de 400

FilosofiA

temas e percursos
VOLUME ÚNICO
ENSINO MÉDIO
Componente curricular: Filosofia

Vinicius de Figueiredo (Organizador e autor)


Doutor em Filosofia pela Universidade de São Paulo
Professor de Filosofia na Universidade Federal do Paraná

Luiz Repa
Doutor em Filosofia pela Universidade de São Paulo
Professor de Filosofia na Universidade de São Paulo
e pesquisador do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento

João Vergílio Cuter


Doutor em Filosofia pela Universidade de São Paulo
Professor de Filosofia na Universidade de São Paulo

Roberto Bolzani Filho


Doutor em Filosofia pela Universidade de São Paulo
Professor de Filosofia na Universidade de São Paulo

Marco Valentim
Doutor em Filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro
Professor de Filosofia na Universidade Federal do Paraná

Paulo Vieira Neto


Doutor em Filosofia pela Universidade de São Paulo
Professor de Filosofia na Universidade Federal do Paraná

Berlendis & Vertecchia Editores

2ª edição, São Paulo: 2016.


Copyright do livro e textos não assinados: © 2013 berlendis editores ltda.
Copyright dos textos: © 2013 os Autores.
Direitos reservados com exclusividade a
Berlendis Editores Ltda.
Rua Moacir Piza, 63 - 01421-030 São Paulo, SP
Tel: (11) 3085.9583 Fax: (11) 3085.2344
editora@berlendis.com
www.berlendis.com

Proibida toda xerocópia, mesmo de uma página, e toda reprodução, física ou digital, de qualquer trecho, de textos e imagens deste
livro sem a prévia autorização expressa e por escrito dos detentores dos direitos correspondentes. Toda cópia não autorizada
infringe a legislação nacional e as convenções internacionais de direitos autorais.

Os editores declaram ter feito o máximo esforço em localizar os detentores dos direitos de textos e imagens utilizados neste livro. No
caso de alguma involuntária omissão ou incorreção de nossa parte, pedimos gentilmente entrar em contato com a equipe editorial.

Coordenação editorial:
Bruno Berlendis de Carvalho

Organização:
Vinicius de Figueiredo

Consultoria pedagógica:
Jairo Marçal
Jeosafá Gonçalves

Revisão:
Caio da Costa Pereira, Letícia França

Projeto gráfico:
Claudia Intatilo

Foto da capa:
Marco Giannotti, “Bernini”

Diagramação:
Claudia Intatilo
Colaboradoras: Cláudia Carminati, Najla Bunduki

Pesquisa iconográfica:
Andrea Bolanho

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Filosofia : temas e percursos / organização de
Vinicius de Figueiredo -- 2. ed. -- São Paulo :
Berlendis & Vertecchia, 2016.

Vários autores.
ISBN 978-85-7723-079-2 (aluno)
ISBN 978-85-7723-080-8 (professor)

1. Filosofia (Ensino Médio) I. Figueiredo,


Vinicius de. II. Título

16-01276 (aluno) 16-01277 (professor) CDD-107.12


Índices para catálogo sistemático:
1. Filosofia : Ensino médio 107.12

São Paulo, 2ª edição 2016


sumário

apresentação.........................................................................................................6
Nota ao leitor......................................................................................................... 8
Filosofia, o pensamento e o livro: quinze perguntas e respostas................. 10
Modo de usar....................................................................................................... 14
Sobre os autores................................................................................................. 17

unidades............................................................................................................... 18

unidade 1 • natureza e cultura.......................................................................... 20


O limite entre dois universos............................................................................ 21
O naufrágio de Robinson Crusoé...................................................................... 24
A diversidade das culturas................................................................................. 28
A ideia de “natureza humana” .......................................................................... 31
Montaigne e os canibais..................................................................................... 33
“Grandezas naturais” e “grandezas estabelecidas”........................................ 39

unidade 2 • razão e paixão...........................................................................44


Uma espécie que se diz racional....................................................................... 45
Virtude e paixão.................................................................................................. 53
A rejeição das paixões........................................................................................ 59
A razão a serviço das paixões............................................................................ 63
História, razão e paixões.................................................................................... 69

unidade 3 • lógica e argumentação................................................................... 76


Racionalidade e emoção ................................................................................... 77
A arte de persuadir............................................................................................. 82
Premissas e conclusões...................................................................................... 86
Falácia e argumento........................................................................................... 97
unidade 4 • dúvida e certeza............................................................................ 110
Vivemos cercados de dúvidas ........................................................................ 111
A dúvida, base da investigação ...................................................................... 117
Duvidando para atingir a certeza .................................................................. 124
Limites da dúvida ao garantir a certeza......................................................... 135

unidade 5 • realidade e aparência................................................................... 144


As aparências enganam?................................................................................. 145
A revolução filosófica e científica moderna.................................................. 150
Ser e parecer justo............................................................................................ 155
A realidade da aparência................................................................................. 164

unidade 6 • espírito e letra............................................................................... 172


Interpretar as regras do jogo.......................................................................... 173
Mudar a “letra” para manter o “espírito”....................................................... 177
Traduzir e interpretar....................................................................................... 182
Questões de interpretação.............................................................................. 188

unidade 7 • eu e o outro................................................................................... 196


O enigma do Eu e do Outro............................................................................. 197
O “Eu penso”: Descartes................................................................................... 204
O Eu com o Outro.............................................................................................. 207
Eu contra Outro: luta pelo reconhecimento.................................................. 212
A defesa da tolerância...................................................................................... 218

unidade 8 • liberdade e necessidade.............................................................. 224


A tragédia de Édipo........................................................................................... 225
Estoicismo e a necessidade do universo........................................................ 227
A origem da ideia de necessidade ................................................................. 235
Necessidade natural e liberdade humana..................................................... 238

unidade 9 • ordem e caos................................................................................ 250


A bagunça do meu quarto............................................................................... 251
A origem do mundo.......................................................................................... 256
A ordem política .............................................................................................. 259
Da ordem do irracional.................................................................................... 267
unidade 10 • continuidade e ruptura............................................................... 278
Como e quando algo muda?............................................................................ 279
O “movimento” segundo Aristóteles.............................................................. 288
“Perfectibilidade” e “desenvolvimento” ........................................................ 293
As revoluções científicas.................................................................................. 302

unidade 11 • princípio e temporalidade.......................................................... 308


A diferença entre fundamento e início.......................................................... 309
Platão e o tempo............................................................................................... 317
O tempo em Agostinho.................................................................................... 321
Elogio de Kant a Platão .................................................................................... 329
Regularidade da experiência........................................................................... 333
A noção de progresso científico...................................................................... 336

unidade 12 • finito e infinito............................................................................ 342


A biblioteca de Borges...................................................................................... 343
Filosofia grega e infinito................................................................................... 347
O infinito divino................................................................................................. 352
Quem é finito não pode conceber o sem-fim................................................ 357
O infinito atual nas matemáticas................................................................... 361

apêndices........................................................................................................... 371
Quadro sinótico: grandes áreas da Filosofia................................................. 372
Conteúdos e referências.................................................................................. 374
Índice de boxes bio-filosóficos........................................................................ 399
“Read the book”
6 Tim Maia (1942-1998)
Apresentação
nota ao leitor

A s palavras que seguem são importan-


tes. Seu intuito é esclarecer inicialmen-
te alguns aspectos do livro que você tem em
a um passado distante, esperando por nossa
curiosidade e vontade de saber.
No caso da filosofia, as coisas se pas-
mãos. Este texto não é bem um manual de sam de maneira semelhante. Seu estudo é
instruções, mas uma espécie de tutorial que inseparável do contato com os autores que
irá ajudá-lo a tirar todo proveito do livro. Por fizeram a história do pensamento. Isso não
isso, é uma boa ideia lê-lo com atenção. significa que o estudo filosófico seja uma
Primeiro, uma palavra sobre a estrutura decoreba das opiniões de cada um desses
geral do livro. Ao todo, ele possui doze Uni- filósofos, muito pelo contrário. Essa via é
dades, que se subdividem em módulos. Cada desinteressante e pouco pedagógica. Afinal,
Unidade está organizada a partir de um par que ganho há em decorar que Platão pensou
de noções complementares, como: Liber- assim, Descartes, assado e assim por diante?
dade e necessidade, Finito e infinito, O essencial é despertar a atenção para
Dúvida e certeza etc. Essa noções, como saber por que e como os filósofos de todos
ficará claro ao se iniciar a leitura do livro, os tempos pensaram o que pensaram. Nos-
correspondem a conceitos fundamentais da so compromisso é o de apresentar algumas
filosofia. Cada par de noções funciona como questões de forma que você se interesse pe-
uma chave de leitura para a abordagem dos las respostas que foram suscitadas por elas,
principais problemas filosóficos, questões como também pela maneira peculiar de
que ocuparam muitos pensadores ao longo formular aquelas perguntas. É preciso des-
de mais de dois mil anos de reflexão. pertar sua curiosidade, o que não deixará de
Mais de dois mil anos? Não se assuste trazer recompensas.
com isso. O teorema de Pitágoras, que você Ou melhor: trata-se de auxiliar sua curio-
conhece da matemática, também tem essa sidade a vir à superfície. Pois você logo perce-
idade. E permanece tão atual e importante berá que questões filosóficas estão por toda
quanto o foi a partir do momento em que parte. Não é um acaso se, da Antiguidade
Pitágoras o formulou. Arquimedes (287- grega até os dias de hoje, grandes pensado-
212 a.C.), outro grego genial, enunciou a lei res tenham se ocupado da filosofia. A razão
do empuxo e a lei da alavanca, válidas de lá é simples: problemas filosóficos brotam es-
para cá. Hipócrates (460-370 a.C.) foi o pai pontaneamente em nossa reflexão, desde
da medicina grega, e até hoje os médicos que o mundo é mundo. A curiosidade é o pri-
que se formam prestam o juramento que meiro passo para se fazer filosofia. Por isso, o
leva o seu nome, de zelar pela vida e saúde que um livro de Filosofia deve procurar fazer
de seus pacientes. Esses são apenas alguns é acolher nosso espanto e nossa admiração
8 exemplos de inúmeras contribuições mate- diante dos mistérios e dos problemas traba-
máticas, físicas e científicas que remontam lhados pelos filósofos, mistérios e problemas
que também são nossos. Isso, pode ter certe- O percurso de uma determinada Uni-
za, promete ser uma aventura inesquecível. dade não chega a uma resposta definitiva
Não ganhamos muito decorando as opi- e inquestionável para os problemas discu-
niões que os filósofos ao longo da história tidos nela. Um dos pioneiros da reflexão
têm a nos transmitir. Bem melhor que isso filosófica, Platão, escreveu diálogos em
é buscar compreender o que os levou a pen- que Sócrates, seu mestre, indagava a seus
sar o que pensaram, dizer o que disseram. interlocutores: “o que é a beleza?”, “o que
Se isso ocorrer, você já estará filosofando. é a coragem?”, “o que é o conhecimento?”,
Nossa escolha por organizar o livro em “o que é a justiça?”. Muitos desses diálo-
módulos no interior de Unidades temáticas gos investigam tais noções sem chegar a
foi concebida com esse objetivo. Cada uma um resultado definitivo. No entanto, nin-
das Unidades inicia-se com uma introdução guém que já teve a chance de travar con-
ao par de noções que lhe dá o título. Em se- tato com tais textos negou que houves-
guida, explora-as sob vários aspectos dife- se neles muita filosofia. A filosofia está
rentes. Cada abordagem do tema equivale menos nas respostas definitivas que nas
a uma etapa da Unidade (um módulo), que questões bem formuladas.
vai se aprofundando e assim promovendo a Mas não vá pensar que ali onde não
variação de nosso olhar sobre os problemas há respostas definitivas não possa haver
apresentados de partida. Ao longo de cada aprendizado. Aprende-se muito quando se
Unidade, como você verá, as diferentes ma- verifica que existe mais de uma resposta,
neiras de se aproximar do assunto vão lhe especialmente quando estamos falando de
dando maior complexidade. interrogações essenciais para nós. Exami-
Mas a estrutura também permite que se ná-las será parte importante de um proces-
leiam os módulos separadamente, ou numa so ao longo do qual você irá formular seu
ordem diferente daquela aqui sugerida. próprio ponto de vista sobre o mundo que
Você pode, digamos, fazer um estudo sobre o cerca. Consequentemente, para você se
diferentes aspectos da teoria do conheci- questionar e se posicionar quanto a assun-
mento. Para tanto, confira dois importan- tos os mais diversos: das ciências à ordem
tes grupos de tabelas ao final do volume. política, passando pela sociedade, a finitude
O primeiro grupo traz as referências abor- humana, a natureza, a arte... tudo isso é
dadas em cada Unidade: autores, temas, matéria de reflexão filosófica.
interdisciplinaridade etc. Além disso, você Esse livro foi concebido como uma in-
encontra um quadro sinótico (isto é: de “vi- trodução à grande aventura do pensamen-
são geral”) da distribuição, ao longo do li- to. Nosso desejo é que você aproveite a
vro, das grandes áres da Filosofia: filosofia paisagem que se descortina nas páginas 9
política, moral, estética etc. a seguir!
Filosofia, o pensamento e o livro:
quinze perguntas e respostas

1. O que é filosofia?
A palavra “filosofia” tem origem no termo grego “philosophía”, que reúne duas pa-
lavras: philía (= amor; amizade) e sophía (= sabedoria). Assim, “filosofia”, no seu
sentido mais amplo, é o amor à sabedoria. Tudo leva a crer que Pitágoras (570-495
a.C.), um importante sábio da Grécia antiga, tenha sido o primeiro a utilizar o ter-
mo com esse sentido. Ele teria chamado sua atividade de reflexão como a prática
da filosofia.
2. Q
 ualquer pessoa que levanta perguntas sobre o sentido das coisas e dos
seres é filósofo?
No sentido mais amplo de “filosofia”, sim. Por isso a filosofia é uma disciplina funda-
mental na formação intelectual de todos nós. Esse é o motivo pelo qual a filosofia
é uma disciplina escolar. Afinal, ela trata de problemas que interessam a todas as
disciplinas e a todos os indivíduos que refletem sobre o mundo que nos cerca.
3. E
 xiste então uma filosofia oriental e outra africana, ao lado da filosofia
inventada pelos gregos da Antiguidade?
Se nos ativermos ao sentido amplo de filosofia, segundo o qual a filosofia é a atividade
da reflexão em geral, todo indivíduo que refletiu sobre as questões mais essenciais
aos seres humanos praticou filosofia. Nesse sentido, ela jamais foi privilégio de
uma cultura particular. Entretanto, em seu sentido mais especializado, a filosofia
teve origem entre os gregos antigos, e no seu desenvolvimento nunca deixou de
remeter a essa origem. Foi a partir dos gregos antigos que a filosofia começou a
fixar um conjunto de textos repetidamente lidos e interpretados, e foi assim que,
ainda na Antiguidade, essa atividade do pensar se expandiu para fora da Grécia.
4. O
 nde encontrar a filosofia nesse sentido mais específico?
Nos textos que nos deixaram os filósofos, ao longo de um percurso histórico. Essa
história é longa e sinuosa. Ampliou-se com o tempo, sofreu influências árabes e
orientais, e hoje é estudada em todas as partes do mundo. Mas ela não é nada
parecida com um simples acúmulo de opiniões (gregas, romanas, árabes, medie-
vais, modernas...). Cada nova grande formulação filosófica recoloca as questões
trabalhadas por filósofos anteriores. Estudar filosofia é familiarizar-se com gran-
des questões que foram levantadas no âmbito das ciências, da literatura e da arte,
da política, da ética etc.
5. C
 omo está organizado o presente livro?
Em diversos módulos, dispostos em 12 Unidades. Cada Unidade aborda um par de
noções complementares entre si. Essas noções são referências temáticas e repre-
sentam questões que possuem dois aspectos: são muito familiares a nossa refle-
xão cotidiana e ao mesmo tempo são essenciais à reflexão filosófica.

10 6. O
 que significa a ideia de percurso no interior das Unidades?
Cada Unidade introduz grandes ideias em torno de um par de temas. Em seguida,
são apresentados desenvolvimentos que esses temas receberam por mais de um
filósofo. À medida que se avança na Unidade, os temas que lhe dão título são
aprofundados em um nível maior de complexidade. Boxes informativos situam o
contexto histórico, literário, científico, social e político em que foram enunciadas
as teses examinadas no percurso. Eventuais remissões de uma Unidade a outra
também são sugeridas ao longo de cada um dos caminhos que você é convidado
a percorrer. Além disso, em cada Unidade você encontrará Situações de aprendiza-
gem que incentivam uma reflexão qualificada sobre os temas examinados. Assim,
cada Unidade propõe um percurso reflexivo que fornece uma ampla compreensão
acerca das variações admitidas pelos temas essenciais da filosofia. Você poderá
identificar, desse modo, as alterações que os temas discutidos foram sofrendo ao
longo da história, da Antiguidade até os dias de hoje. Esse aspecto é muito impor-
tante, pois mostra que os conceitos de que nos servimos para conhecer e agir no
mundo têm uma história e nem sempre foram compreendidos como pensamos.
Além disso, houve também épocas em que as mesmas questões promoveram de-
senvolvimentos diversos por parte de grandes pensadores.
7. E
 xiste relação entre as doze Unidades do livro?
Questões filosóficas exibem inúmeras relações entre si. Não por acaso, é muito di-
fícil restringir a contribuição dos grandes autores do pensamento em um único
domínio da filosofia. Geralmente, o que foi pensado por eles diz respeito a mais
de um âmbito da reflexão, envolvendo consequências semelhantes para a ética,
a epistemologia, a estética etc. Uma vez que o livro que você tem em mãos não é
organizado por apresentações consecutivas das ideias de um filósofo, depois ou-
tro e assim por diante, mas segundo os principais temas da filosofia, você pode se
deparar mais de uma vez com um mesmo filósofo em diferentes módulos e Unida-
des. Em cada uma delas, o filósofo irá revelar uma faceta de seu pensamento, sua
contribuição para o tema em análise. Descartes, por exemplo, aparece em diversos
módulos sob perspectivas diferentes. Seu aspecto varia conforme o percurso que
está sendo proposto nesta ou naquela Unidade. E isso constitui uma primeira for-
ma de interação entre os doze grandes eixos deste livro. A outra se deve ao fato de
que os temas que dão nome às Unidades são muito amplos e, por isso, possuem
relações entre si. Mas não se preocupe, a apresentação de cada um deles foi pensa-
da de modo a tornar essas relações palpáveis a você. Cuidamos de assinalar pontos
de passagem entre as partes do livro. Assim, à medida que você for lendo-o, desco-
brirá atalhos surpreendentes entre os caminhos da reflexão filosófica.
8. N
 ão há um ponto fixo a partir do qual este livro tem início?
Não. Cada Unidade possui uma ordem interna, pensada como um percurso reflexivo
por meio do qual você será apresentado a diversas perspectivas sobre os temas
abordados. Mas isso não é tudo, pois os módulos que compõem cada Unidade
foram concebidos para permitir também uma leitura independente. Entre uma
e outra Unidade, como dissemos há pouco, há pontos de passagem de uma pro-
blemática para outra, que assinalamos no corpo do texto. Não há necessidade de
se começar a leitura por uma Unidade determinada. Claro que se pode adotar a
ordem proposta aqui, começando pela Unidade que abre o livro e seguindo linear-
mente até a que o fecha. Mas isso não é necessário, pois essa ordem não é a única
possível e nem pretende ser “a melhor”. Cabe à orientação pedagógica – ou a você, 11
se o estiver lendo de maneira autônoma – decidir qual sequência de estudo pode
ser mais interessante. Este livro é como um carrossel em movimento: você esco-
lhe um ponto de entrada qualquer e, em seguida, já dentro dele, vai se deslocando
entre os módulos e as Unidades.
9. Este livro segue uma ordem cronológica, que se inicia pelo estudo dos
filósofos da Antiguidade e termina com a abordagem de contribuições
contemporâneas sobre os temas discutidos?
Não exatamente. Cada um dos percursos apresentados nas Unidades representa
uma aventura através da história do pensamento filosófico, exibindo as princi-
pais variações que seus temas sofreram ao longo do tempo. O estudo da filosofia,
nessa medida, é o estudo da história da filosofia. Por isso, as Unidades buscam
apresentar os temas sob a forma como foram abordados na Antiguidade, na Idade
Média, na Idade Moderna, até nossos dias. Mas isso não é a mesma coisa que con-
tar a história das opiniões dos diferentes filósofos, um depois do outro, conforme
seu lugar na cronologia do pensamento. Afinal, nenhuma questão filosófica está
isolada em um passado remoto, de maneira que só tivesse interesse histórico.
A história da filosofia é marcada por retomadas de pontos de vista formulados
previamente, o que torna as noções de passado, presente e futuro relativas. Nossa
reflexão filosófica se apropria da linha da história a seu modo, ligando pontas,
desfazendo nós e criando uma temporalidade própria, para a qual nenhuma con-
tribuição é ultrapassada.
10. Como, exatamente, a filosofia “atualiza” o passado?
Isso ocorre essencialmente porque, em filosofia, o clássico é atual. Retomar e estudar
autores e textos da Grécia antiga, do pensamento medieval ou do Renascimento
tem muito a nos ensinar, a começar porque somos herdeiros, do ponto de vista
de nossos valores e concepções de mundo, da tradição cultural do Ocidente, que
é sedimentada na filosofia. Além disso, nada do que consideramos atual consiste
em uma atualidade pura, mas sempre traz consigo uma memória, uma sedimen-
tação de significados – e é muito útil escavar a profundidade dos conceitos e ideias
de que nos servimos no dia a dia para fazer ver seu brilho.
11. Diante de duas visões filosóficas diferentes sobre uma mesma questão,
onde encontrar a verdade? 
A filosofia é mais a reflexão qualificada sobre as questões do que as respostas indivi-
duais que damos a elas. A reflexão sobre valores, princípios e condutas, sejam eles
ligados à ciência, à moral, à política ou à arte, é condição prévia para tomarmos
posições a respeito do mundo em que nos inserimos. A reflexão filosófica é in-
dispensável a duas etapas da abordagem a qualquer questão. Em primeiro lugar,
porque ela nos ajuda muito a compreender e avaliar os aspectos envolvidos no
assunto em discussão. Em segundo lugar, porque ela é auxílio indispensável para
elaborarmos as razões que sustentam nossos pontos de vista sobre ele.
12. Existe uma técnica para entender as diferentes formas do “filosofar”?
Sim, e ela consiste, basicamente, na leitura e na interpretação de textos. Esse é um
excelente meio para compreender as maneiras sob as quais uma questão admite
ser problematizada. Isso nada tem que ver com decorar o que escreveu esse ou
aquele filósofo. O importante, ao lermos um trecho de determinado texto filo-
12
sófico, é observar o pensamento em ação, não para aderir a ele irrefletidamente,
mas para flagrar a razão em sua atividade discursiva, argumentativa, retórica. E,
tendo em vista os problemas e soluções apresentados pelos filósofos, enriquecer-
mos nossos próprios pontos de vista sobre as matérias discutidas.
13. Q
 ual a utilidade prática disso?
Você já viu alguém que sabe argumentar bem discutindo com alguém que vacila nas
respostas, que é muito teimoso, que não tem clareza no raciocínio, que desen-
volve mal suas ideias? Pensar de forma qualificada é sempre útil. Mesmo que seja
para não fazer nada de imediato. Pelo menos relativizamos nossas certezas, qua-
lificamos nossas crenças, passamos a conceber o mundo de forma diferente da
maneira usual. Além disso, a filosofia investiga as escolhas metodológicas, as al-
ternativas éticas, os aspectos políticos, psicológicos e estéticos presentes nos ou-
tros saberes, tais como a matemática, a física, a química, a literatura, a biologia, as
artes, a história, a geografia e a sociologia. E essa investigação é muito útil para a
compreensão das premissas e pressupostos que estão na base dessas disciplinas.
Logo, o estudo da filosofia possui grande utilidade para a formação pedagógica,
humanística e científica de modo geral.
14. Q
 uer dizer que há uma relação entre a reflexão filosófica e as outras
disciplinas do saber?
Sem dúvida! Para início de conversa, muitos autores da história da filosofia se consi-
deravam não simplesmente filósofos, mas também (às vezes, em primeiro lugar)
cientistas, pensadores políticos, teólogos ou psicólogos. Os temas que dão título
às Unidades do livro comprovam essa afirmação. Reflita um pouco sobre eles. A
noção de infinito, por exemplo, possui implicações teológicas, científicas e mate-
máticas. A noção de cultura tem um alcance ético, estético e científico. Já a noção
de certeza exige nossa abertura para as condições do conhecimento da natureza,
assim como para a psicologia e a ética. Todos os temas escolhidos para encabeçar
as doze Unidades dão ocasião para desenvolvimentos interdisciplinares, que são
explorados ao longo dos caminhos apresentados no livro que você tem em mãos.
15. Q
 ual a contribuição ética e política da filosofia nos dias de hoje? 
Com a proliferação das mídias, com a velocidade da informação – e sua volatilidade –,
hoje somos expostos a uma massa de opiniões, preconceitos, dogmas e discursos
sobre os quais muitas vezes nem temos oportunidade de refletir. A ampla circula-
ção de informações e ideias resulta em benefícios importantes, que são inegáveis.
Por outro lado, isso requer nossa atenção, porque todo esse acúmulo pode tanto
nos ajudar quanto nos desorientar. Além disso, há no mundo contemporâneo
uma tendência de as práticas e as formas de pensar tornarem-se parecidas ou até
mesmo uniformes: é o que se convencionou chamar de “pensamento único”. Daí
a importância de uma formação que incorpore, como um de seus princípios, a
capacidade individual de pensar de modo diverso do costumeiro, pensar com base
em sua própria razão e a partir de sua experiência particular. O estudo da filosofia
contribui para isso, a começar porque nos põe em contato com grandes pensa-
dores que conceberam o mundo de modo original. Pensar com eles nos ajuda a
refletir melhor sobre aquilo em que acreditamos e, consequentemente, modificar
nosso modo de pensar, ampliá-lo, torná-lo mais refinado e mais rico.
13
modo de usar

Central Press/Getty Images


As partes que constituem o livro
Este é um livro escrito a muitas mãos. Embora os
O líder dos direitos civis Martin Luther King (1929-1968) discursa na
Marcha sobre Washington (28/08/1963), no Lincoln Memorial.

diferentes módulos tenham sido confiados a espe- unidade 3 lógica e


argumentação
cialistas em suas respectivas áreas (filosofia antiga, Racionalidade
e emoção ................. 77 A rgumentos estão por toda a parte. Quan-
do queremos convencer alguém de alguma
coisa, quase sempre lançamos mão de um ar-

lógica etc.), a discussão entre todos os autores foi um


A arte de
persuadir................. 82 gumento. Acontece nos negócios, nas relações
familiares, no trabalho, na política, nos tribu-
Premissas e nais, nos livros, nos cultos religiosos  – onde
conclusões .............. 86 houver seres humanos reunidos, certamente

passo importante para chegarmos ao resul-


haverá discordância, debate, argumentação.
Falácia e
argumento .............. 97 Mas o que vem a ser um argumento? Falando
de maneira geral, poderíamos dizer que um
argumento é um tipo de discurso cuja finalidade

tado que você tem em mãos. Não fazia tanto


é dar razões capazes de convencer alguém a
respeito de algo. No entanto, apesar de ser uma
boa aproximação, essa definição talvez seja
excessivamente ampla. Ela coloca num mesmo

sentido indicar que autores escreveram essa


Expressões lógicas no nosso cotidiano grupo coisas que talvez devêssemos distinguir.
Pesquisa em banco de dados e Avançando mais um passo, digamos que
desenvolvimento individual por escrito nesse momento você não está mesmo inte-
ressado no grande artista paraibano Jackson

ou aquela parte, uma vez que todas foram


Quando fazemos pesquisas na internet do Pandeiro (nome artístico de José Gomes
ou em outros bancos de dados, muitas ve- Silva, 1919-1982), e portanto gostaria de res-
zes usamos expressões lógicas. Digamos tringir ainda mais os resultados de sua bus-
que você queira lembrar o nome de uma ca, por meio da expressão:
canção de Luiz Melodia cuja letra inclui pandeiro AND(melodia) NOT(Jackson)

profundamente redimensionadas a partir


a palavra “pandeiro”, ou conhecer grava- ou
ções dela. pandeiro +melodia -Jackson
Se, num site de buscas ou banco de da- • No exemplo acima, que operadores
dos, você digitar lógicos foram utilizados? Tente “traduzi-lo”
pandeiro OR(melodia) para a linguagem lógica formal, utilizando

desse diálogo interno. encontrará milhares de resultados que


não lhe interessam. Isso porque o mo-
tor de busca utilizou a disjunção, o ope-
rador “ou” (⋁), e trará resultados que
os operadores e símbolos explicados no
box sobre conectivos lógicos. (Um aviso:
motores de busca da internet não costu-
mam reconhecer esses símbolos; o objetivo
cionados na segunda premissa (o que não
é de modo algum necessário).
Mesmo assim, um crítico que não ti-
vesse ido à estreia poderia ter ido ao en-
tarmos a conclusão. Se a aceitamos, é por
outras razões, que não aquelas apresen-
tadas nas premissas. Como você reparou,
porém, os dois argumentos são muito pa-

Cada Unidade é composta de diferentes


tenham qualquer dos dois, ou pandeiro é somente compreender quais são esses saio geral da peça, ou então a uma outra recidos. Eles só diferem no detalhe – neste
ou melodia. conectivos e como podem ser utilizados em apresentação qualquer, no segundo ou no caso, pela substituição da palavra “todos”
Você pode direcionar melhor sua pes- uma situação prática.) terceiro dia. Poderia também ter forma- pela palavra “somente”. Isso faz com que o
quisa, por exemplo digitando no campo de • Em seguida, construa outras expressões do sua opinião conversando com colegas primeiro argumento nos engane. Ele pare-
busca: de busca, mais complexas. Por exemplo: seus, nos quais confia, que foram à peça e ce ser bom, embora na verdade não o seja.

módulos; cada módulo pode ser dividido em


pandeiro AND(melodia) você está interessado em resultados que estavam em condições de lhe dar uma des- Argumentos assim, que parecem ser bons,
ou tenham a ver com “mangueira”, que podem crição detalhada do desempenho de cada mas não são, nós chamaremos de falácias.
pandeiro +melodia ser ou não referentes à escola de samba ca- um dos atores. É fundamental que você aprenda a re-
O que significa essa expressão? Que rioca, mas que não tenham a ver diretamen- Para que você perceba melhor a situa- conhecer uma falácia. É por meio das falá-
estamos interessados em todos resulta- te com a árvore frutífera do gênero Mangife- ção envolvida, compare o argumento que cias que somos enganados – às vezes até

tópicos menores, às vezes contendo ainda dos que tragam, juntos, os dois termos ra. Como deveríamos formular a expressão acabamos de analisar com este outro: por nós mesmos. Em todos os contextos
pesquisados. Não queremos registros que de busca? Há mais de um modo de fazê-lo? “Somente os que foram à estreia da com- em que são utilizados argumentos, quem
tragam apenas um deles, só “pandeiro” Experimente formular, por escrito, duas ou- panhia de teatro puderam formar uma argumenta pode muito bem lançar mão
sem “melodia”, nem apenas “melodia” sem tras pesquisas, utilizando, cada uma, de 3 a 5 opinião bem fundamentada a respeito do de falácias, fazendo-nos tirar conclusões
“pandeiro”. elementos com diferentes operadores. desempenho dos atores. Alguns críticos equivocadas que poderíamos perfeita-

subdivisões segundo ítens específicos. De não foram à estreia. A opinião de alguns


críticos, portanto, não está bem funda-
mente evitar. É por isso que o estudo das
falácias é tão importante. Conhecendo-as,

lógica e argumentação
Falácia e argumento mentada.” Repare que a única diferença seremos capazes de identificar um mau
em relação ao argumento anterior é o uso argumento e contestá-lo (se ele nos for

forma que o conteúdo está sempre disposto


da palavra “somente” ao invés da palavra apresentado por outra pessoa), ou sim-
De acordo com a noção mais geral de apenas uma pessoa – tome como exemplo “todos”. A diferença pode parecer peque- plesmente não usá-lo (caso nós mesmos o
“argumento”, toda pessoa que argu- um vendedor que tenta convencer você a na, mas, neste caso, é decisiva. estejamos querendo apresentar).
menta está sempre tentando persuadir comprar um determinado produto numa Suponha que a primeira premissa
um determinado “auditório”. Esse audi- loja. O auditório de quem argumenta seja verdadeira: que apenas (apenas, veja Falácia formal
tório pode ter dimensões muito diferen- pode também ser composto por um pe-

dentro de uma hierarquia, o que facilita seja


bem!) as pessoas que foram à estreia es- A falácia encontrada no argumento que
tes e ser composto por pessoas dos mais queno grupo de pessoas – é o que acon- 97 tavam em condições de formar uma opi- apresentamos acima envolve uma forma
variados perfis. Pode ser composto por tece quando o professor de matemática nião fundamentada sobre o desempenho argumentativa que é falaciosa. Isso quer
dos atores. Ora, se isso for verdade, e se dizer que ela pertence a um grupo de argu-
também for verdade que alguns críticos mentos caracterizado por uma determina-

o controle do tempo dedicado a cada assunto,


não foram à estreia, a conclusão inevitá- da estrutura. Essa estrutura pode ser me-
vel é que esses críticos não estavam em lhor observada se empregarmos variáveis.
condições de dar opiniões fundamenta- Considere o seguinte esquema:
das a respeito do desempenho dos atores.
Todo(a) A é B.
Aqui, não há escapatória. O argumento é

seja as possíveis leituras ortogonais, isto é, bom. Se suas premissas forem verdadei- Algum(a) C não é A.

lógica e argumentação
ras, a conclusão também será verdadeira.
Portanto, algum(a) C não é B.
Existe, portanto, uma certa relação entre
as premissas e a conclusão, no caso do pri- Neste esquema, a letra “A” está no lugar

que não seguem o livro linearmente. Eis um exemplo


meiro argumento, que não existe no caso da expressão “pessoa que foi à estreia da
do segundo. No segundo caso, as premissas companhia de teatro”; a letra B, no lugar
dão apoio à conclusão, podem ser citadas de “pessoa que podia formar uma opinião
como evidências em favor dela, como razões bem fundamentada a respeito do desem-
para aceitá-la. No primeiro caso, não. As penho dos atores”; e a letra “C”, no lugar 99

dessa estrutura: Unidade: Lógica e argumentação;


premissas não fornecem apoio para acei- de “crítico”. Nenhum argumento que tenha

módulo: Falácia e argumento; tópico: Falácia formal.

Aristóteles
Boxes sobre os autores
Nasceu na cidade de Estágira, na Macedônia, em
384 a.C., e morreu em Atenas em 322 a.C. Foi, du-
rante algum tempo, responsável pela educação do
jovem Alexandre, filho do rei Filipe da Macedônia,
Obras de Aristóteles e sua edição crítica
Para a localização precisa de textos de Aris-
tóteles, a comunidade de pesquisadores con-
vencionou tomar como referência a edição de
Esses boxes trazem informações sobre a vida e a obra dos
autores discutidos nas Unidades. Auxiliam a compreensão do
que iniciou um domínio sobre os Gregos que seu August Immanuel Bekker das obras do filósofo.
filho iria expandir, obtendo o mais vasto império até O motivo é simples: o filólogo alemão Bekker
então conhecido, que alcançou a Índia. (1785-1871) foi o primeiro a realizar uma edição
Antes disso, com cerca de dezoito anos, Aristó- crítica dessas obras, a qual serviu de base para
teles viajou a Atenas e logo entrou para a Academia, as posteriores.

contexto cultural, social e político no qual eles se inscrevem. Os


escola fundada por Platão (428-348 a.C.). Nela per- O que significa “edição crítica”? Basicamente,
maneceu por vinte anos, deixando-a apenas após a que numa edição dessas são confrontadas e anota-
morte do mestre. Depois de retirar-se de Atenas por das todas (ou as principais) fontes documentais de
alguns anos, retorna e funda sua própria escola, o que dispomos de determinado texto. Como você
Liceu, no qual ensina até o fim de sua vida. pode imaginar, pode ser bastante trabalhoso o

boxes sobre autores também assinalam influências e afinidades


A filosofia de Aristóteles consiste numa tentati- processo de confrontar essas fontes, para localizar
va de pensar questões e problemas filosóficos her- diferenças de um documento a outro (chamadas
dados do platonismo, mas por vias e por meio de variantes: acréscimos, supressões, discrepâncias e
soluções que frequentemente se variações de ortografia e gramáti-
Cabeça de Aristóteles em mármore . Kunsthistorisches Museum,
Viena/The Bridgeman Art Library/Keystone

distanciam desse mesmo plato- ca etc.). Feito isso, o editor crítico

de determinado filósofo e eventuais repercussões de sua filoso-


nismo. Assim como seu mestre, terá de decidir, com base em uma
Aristóteles foi um autêntico fun- pesquisa mais abrangente, quais
dador de temas filosóficos, não dessas variantes o texto principal
somente em áreas que ainda deve seguir no corpo da página;
hoje consideramos como tipica- as outras variantes são anotadas
mente filosóficas, como metafí-
sica, lógica, ética, como também
em assuntos que posteriormente
ganharam autonomia científica,
em pé de página.
Voltando à edição de Bekker
para as obras de Aristóteles: a
numeração ali utilizada, e que
fia nas obras de outros pensadores. Há também a preocupação
de informar as principais obras traduzidas para a lingua portu-
como a física ou a biologia. Al- depois virou padrão nas referên-
guns de seu principais escritos cias às obras do filósofo, com-
são: Metafísica, Ética a Nicômaco, Primeiros analíticos, põe-se de três elementos: o número da página,
Segundos analíticos, Partes dos animais, Física. a coluna (a ou b) e a linha. Assim, para o seguinte
A influência exercida por Aristóteles na Anti- trecho (citado no corpo desta Unidade): “[...] é proi-

guesa em edições de qualidade e, sempre que possível, recentes.


guidade tardia, na Idade Média (especialmente a bido falar de coisas que não sejam essenciais à dis-
partir da recuperação de importantes livros seus, cussão do caso em pauta. Esse é um costume muito
à época desconhecidos no Ocidente, conservados sadio. Não é correto atrapalhar o discernimento de
lógica e argumentação

por pensadores árabes) e no início da Modernidade quem julga provocando raiva, inveja ou compaixão”,
foi extraordinária, provavelmente inigualada. Sua a referência é 1354a 14-18.

Note que, como alguns autores são examinados em mais de


metafísica e seu pensamento moral forneceram “1354”: essa página pertence ao livro da Retóri-
elementos analíticos e conceituais para a teologia ca (aliás, é a primeira, uma vez que, na edição de
cristã durante a Idade Média, e os principais pensa- Bekker, o livro vai dessa página à página 1419);
dores da Modernidade nele tiveram seu grande ad- “a” indica que o texto referido está na primeira
versário, no intuito de propor uma nova concepção coluna da página.
de ciência. Sua ética ainda é vivamente debatida por
pensadores contemporâneos.
“14-18” indica as linhas da coluna em que se
encontra o trecho citado. 85
uma Unidade, você deve localizar em qual delas se encontra o
boxe sobre o autor em pauta. Digamos que você esteja lendo a
Unidade Razão e paixão, que remete a Aristóteles[+]. O sinal
[+] ao lado do nome indica que existe, no nosso livro, um boxe

14 sobre esse autor: basta então buscá-lo na lista de boxes biográ-


ficos, ao final do volume, para localizá-lo.
Situações de aprendizagem
As situações de aprendizagem possuem duas funções. Elas são o
Expressões lógicas no nosso cotidiano
Pesquisa em banco de dados e Avançando mais um passo, digamos que
desenvolvimento individual por escrito nesse momento você não está mesmo inte-
ressado no grande artista paraibano Jackson

momento para elaboração de uma reflexão mais detida de sua parte


Quando fazemos pesquisas na internet do Pandeiro (nome artístico de José Gomes
ou em outros bancos de dados, muitas ve- Silva, 1919-1982), e portanto gostaria de res-
zes usamos expressões lógicas. Digamos tringir ainda mais os resultados de sua bus-
que você queira lembrar o nome de uma ca, por meio da expressão:
canção de Luiz Melodia cuja letra inclui pandeiro AND(melodia) NOT(Jackson)

sobre os conteúdos abordados nas Unidades e também constituem a


a palavra “pandeiro”, ou conhecer grava- ou
ções dela. pandeiro +melodia -Jackson
Se, num site de buscas ou banco de da- • No exemplo acima, que operadores
dos, você digitar lógicos foram utilizados? Tente “traduzi-lo”
pandeiro OR(melodia) para a linguagem lógica formal, utilizando

ocasião para um processo avaliativo. A especificiade da filosofia admi-


encontrará milhares de resultados que os operadores e símbolos explicados no
não lhe interessam. Isso porque o mo- box sobre conectivos lógicos. (Um aviso:
tor de busca utilizou a disjunção, o ope- motores de busca da internet não costu-
rador “ou” (⋁), e trará resultados que mam reconhecer esses símbolos; o objetivo
tenham qualquer dos dois, ou pandeiro é somente compreender quais são esses

te e possibilita formas de avaliação diferentes do esquema tradicional ou melodia.


Você pode direcionar melhor sua pes-
quisa, por exemplo digitando no campo de
busca:
conectivos e como podem ser utilizados em
uma situação prática.)
• Em seguida, construa outras expressões
de busca, mais complexas. Por exemplo:

de perguntas/respostas. Por isso, as situações de aprendizagem pro-


pandeiro AND(melodia) você está interessado em resultados que
ou tenham a ver com “mangueira”, que podem
pandeiro +melodia ser ou não referentes à escola de samba ca-
O que significa essa expressão? Que rioca, mas que não tenham a ver diretamen-
estamos interessados em todos resulta- te com a árvore frutífera do gênero Mangife-

põem atividades tais como: debate dirigido sobre os temas apresen-


dos que tragam, juntos, os dois termos ra. Como deveríamos formular a expressão
pesquisados. Não queremos registros que de busca? Há mais de um modo de fazê-lo?
tragam apenas um deles, só “pandeiro” Experimente formular, por escrito, duas ou-
sem “melodia”, nem apenas “melodia” sem tras pesquisas, utilizando, cada uma, de 3 a 5
“pandeiro”. elementos com diferentes operadores.

tados, seminários e, especialmente, desenvolvimentos dissertativos

lógica e argumentação
Falácia e argumento

individuais, nos quais você é convidado a formular, em breves reda-


De acordo com a noção mais geral de apenas uma pessoa – tome como exemplo
“argumento”, toda pessoa que argu- um vendedor que tenta convencer você a
menta está sempre tentando persuadir comprar um determinado produto numa
um determinado “auditório”. Esse audi- loja. O auditório de quem argumenta
tório pode ter dimensões muito diferen- pode também ser composto por um pe-

ções, os pontos do debate e o seu posicionamento diante deles. tes e ser composto por pessoas dos mais
variados perfis. Pode ser composto por
queno grupo de pessoas – é o que acon-
tece quando o professor de matemática
97

Citações e traduções
Parte essencial dos percursos reflexivos propostos em cada
[1] Trecho citado da obra. Sempre
entre aspas.
módulo consiste na análise e discussão de trechos de textos filosófi-
[2] Autor da obra cos que têm o que dizer sobre os temas abordados. É útil você desde
[3] Título da obra já familiarizar-se com algumas convenções. Ei-las abaixo:
[4] Organizador da obra (nem sempre
há um organizador).
[5] Em que volume da obra se encontra
[1]“A razão disto era acabar de cismar, e escolher uma resolução
o trecho citado. Essa informação só que fosse adequada ao momento. O carro andaria mais depressa que
é necessária quando a obra possui as pernas; estas iriam pausadas ou não, podiam afrouxar o passo,
mais de um volume.
[6] Cidade em que se encontra a sede
parar, arrepiar caminho, e deixar que a cabeça cismasse à vontade.
da editora que publicou a obra. Fui andando e cismando... Cuidei de recompor-lhe os olhos, a posi-
[7] Nome da editora. ção em que a vi, o ajuntamento de pessoas que devia naturalmente
[8] Ano de edição da obra.
[9] Capítulo em que se situa o trecho impor-lhe a dissimulação, se houvesse algo que dissimular. O que
citado. Essa informação pode ser vai por ordem lógica e dedutiva, tinha sido antes uma barafunda de
muito útil, quando há edições diver-
ideias e sensações, graças aos solavancos do carro e às interrupções
sas da mesma obra, com paginações
diferentes. Mas ela não é obrigatória de José Dias. Concluí de mim para mim que era a antiga paixão que
em citações. me ofuscava ainda e me fazia desvairar como sempre.” ([2] M. de Assis,
[10] 
Número da página ou das páginas
[3] Obra completa, [4] org. A. Coutinho, [5] vol. 1. [6] Rio de Janeiro: [7] Nova
em que o trecho citado se encontra.
Aguilar, [8] 1994, [9] Cap. CXXVI, [10] pp. 928-929)

Há um elemento suplementar nas indicações de um trecho citado. Trata-se do


nome do tradutor da obra. No caso acima, não há tradutor algum, já que Macha-
do de Assis escreveu em nossa língua. Mas na maior parte das citações a
“Tive comigo durante longo tempo de bárbaro e de selvagem, pelo que me

obra citada é uma tradução. E, embora nem sempre isso ocorra, é muito um homem que permanecera dez ou doze
anos nesse outro mundo que foi desco-
berto em nosso século, no lugar onde
Villegagnon desembarcou, e a que deu o
contaram, a não ser porque cada qual
chama de barbárie aquilo que não é de
seu costume; como verdadeiramente
parece que não temos outro ponto de

importante indicar ao leitor o nome do tradutor ou tradutora. Afinal,


nome de França Antártida.” (Montaigne, vista sobre a verdade e a razão a não
Ensaios. Tradução de Rosemary C. Abílio. ser o exemplo e o modelo das opiniões e
São Paulo: Martins Fontes, p. 303) usos do país em que estamos. Nele sem-
pre está a religião perfeita, a forma de
A principal conclusão que Montaige governo perfeita, o uso perfeito e cabal

trata-se de um trabalho importantíssimo que tem de ser reconhecido.


extrai do relato do viajante acerca dos cos- de todas as coisas. Eles são selvagens,
tumes e hábitos dos nativos brasileiros assim como chamamos de selvagens os
pode ser considerada como uma crítica frutos que a natureza, por si mesma e
severa à atitude que hoje chamaríamos por sua marcha habitual, produziu; sen-
de “etnocêntrica”, isto é, a afirmação de do que, em verdade, antes deveríamos

Veja um exemplo, tirado da Unidade Natureza e cultura, de


uma cultura como superior às demais (o chamar de selvagens aqueles [frutos]
termo “etnocentrismo” não foi utilizado que com nossa arte alteramos e desvia-
por Montaigne, mas por antropólogos do mos da ordem comum. Naqueles outros
século XX). Veja só: estão vivas e vigorosas as verdadeiras e
mais úteis e naturais virtudes e proprie-

um trecho de obra traduzida: “Mas, para retomar meu assun-


to, acho que não há nessa nação nada
dades, as quais abastardamos nestes, e
simplesmente as adaptamos ao prazer
Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro

“Tive comigo durante longo tempo um homem que permanecera dez ou


doze anos nesse outro mundo que foi descoberto em nosso século, no lugar
onde Villegagnon desembarcou, e a que deu o nome de França Antártida.”
natureza e cultura

(Montaigne, Ensaios. Tradução de Rosemary C. Abílio. São Paulo: Martins Victor Meirelles (1832-1903), A primeira missa (óleo sb/ tela, 1861). A missa, que simbo-

Fontes, 2000, p. 303)


liza o encontro desigual de duas civilizações, foi celebrada pelo padre Henrique de Coim-
34 bra em 26 de abril de 1500.

Esforçamo-nos para trazer sempre traduções de qualidade reconhecida. Em 15


alguns casos, nós mesmos (os autores, o organizador e o editor) traduzimos os
textos. Na quase totalidade dos casos, essa Por vezes, nos trechos citados, você irá de-
tradução foi feita a partir da língua em que os parar-se com colchetes. Veja esse caso:
textos foram originalmente escritos (grego,
“[...] posso agora dar um grande número
latim, alemão, francês etc.). Isso não significa
de provas, cada uma das quais é uma prova
que, toda vez que você encontrar trechos com a
perfeitamente rigorosa [12] [...] Posso provar
indicação: “Tradução nossa”, não haja uma ou-
agora, por exemplo, que existem duas mãos
tra boa tradução publicada em nosso idioma.
humanas. Como? Levantando minhas duas
Quando não se tratava de obras inéditas em
mãos e dizendo, enquanto faço determinado
português, motivos diferentes levaram a essa
gesto com a mão direita, ‘Aqui está uma mão’,
decisão. Em primeiro lugar, porque tivemos
e acrescentando, enquanto faço determinado
o privilégio de contar, em nossa equipe, com
gesto com a esquerda, ‘e aqui está outra’. E se,
professores que são também reconhecidos tra-
ao fazê-lo, eu provei ipso facto [13] [i.e., pela
dutores profissionais. Em segundo lugar, por-
própria evidência do fato] a existência de
que diversas boas traduções foram editadas há
coisas exteriores, vocês verão que posso fazê-
muito tempo, e assim o leitor seria remetido
-lo, então, de muitas outras maneiras: não
a publicações que hoje, na prática, são bem
há necessidade de multiplicar os exemplos.”
difíceis de encontrar. Por fim, em alguns ca-
(G. E. Moore, “Prova de um mundo exterior”.
sos, a nossa tradução possibilitou aproximar o
Tradução nossa. Edição de referência: “Proof
texto filosófico de leitores não especializados,
of an external world”, in: Philo-
tornando-o, na medida do pos-
sophical papers. Allen & Unwin,
sível, mais compreensível – mas [11] Op. cit. é a abreviatura de
opus citatum (“obra cita- 1963, 2ª ed., p. 146)
sempre com o cuidado de não dis- da”). Indica que a presente
tanciar a tradução do texto origi- citação pertence à mesma Os colchetes ou parênteses
nal. É o que poderíamos chamar edição citada anteriormen- possuem duas funções. A pri-
te, o que mudou foi apenas
de tradução dirigida (neste caso, a página. meira é a de indicar que o trecho
dirigida ao público não especia- [12] Colchetes de omissão. Com não é uma citação integral da
eles, indica-se que há pala-
lizado, em particular no contex- passagem da obra citada. Logo,
vras ou mesmo sentenças no
to do Ensino Médio). Assim, se texto original que não foram eles assinalam que ali foram
optamos por deixar o texto mais transcritas na citação. omitidas palavras ou orações do
fluido e acessível, isto não envol- [13] Casolchetes explicativos. Aqui,
palavras enunciadas não
texto original. Essas omissões
veu perda de fidelidade da tradu- são do autor citado, G. E. justificam-se na medida em
ção com relação ao original. Moore, mas nossas, e visam que pode ocorrer que, para os
esclarecer melhor o argu-
propósitos da nossa argumen-
Imagine agora que você está mento em questão.
tação, não seja necessário citar
redigindo um trabalho disser-
integralmente o trecho original.
tativo e deve citar duas vezes a
Trata-se de um princípio de economia, legíti-
mesma obra – por exemplo, essa antes men-
mo e muito utilizado mundo afora – basta que
cionada, os Ensaios de Michel de Montaig-
cuidemos de indicá-lo, toda vez que fizermos
ne. A primeira citação de um determinado
recurso a ele.
trecho é tal e qual a do exemplo que demos.
A segunda função dos colchetes ou parênte-
Mas a segunda faz referência a uma passa-
ses é a de explicar algo que possa soar estranho
gem, digamos, da página 305. Nesse caso,
ou difícil ao leitor que não está com a obra cita-
para não ter de repetir todas as informações
da em mãos. Por vezes, o autor citado já intro-
(autor, nome da obra, parte da obra, capítu-
duziu, numa passagem antecedente ao trecho
lo, tradução, cidade da editora, nome da edi-
citado, uma ideia ou explicação do que aparece
tora, ano de publicação e paginação), basta
no trecho citado. Os colchetes explicativos ser-
você escrever:
16 vem para auxiliar a compreensão adequada dos
Montaigne, Ensaios, op. cit. [11] , p. 305. conteúdos do trecho citado.
os autores
João Vergílio Gallerani Cuter formou-se em filoso-
fia pela Universidade de São Paulo (USP). Defendeu uma
tese de doutoramento (1993) a respeito das relações en- Paulo Vieira Neto formou-se em fi-
tre a teoria dos tipos de Russell e a teoria da figuração losofia pela Universidade de São Paulo
do Tractatus logico-philosophicus de Wittgenstein. Desde (USP), onde defendeu seu mestrado sobre
1995, é professor do Departamento de Filosofia da USP. Kant (1994) e doutorado sobre Espinosa
Publicou diversos artigos em revistas nacionais e inter- (2003). Leciona no Departamento de Fi-
nacionais e é autor do livro Misticismo e lógica (São Paulo: losofia da Universidade Federal do Paraná
Annablume, 2013). Atualmente, desenvolve pesquisa a (UFPR) desde 1994.
respeito dos manuscritos produzidos por Wittgenstein
no período que vai de 1929 até 1933 – o assim chamado
“período intermediário” de sua filosofia.
Roberto Bolzani Filho é bacharel e licen-
ciado em Filosofia pela Universidade de São
Paulo (USP), onde defendeu mestrado sobre o
Luiz Repa é professor de teoria das ciências ceticismo pirrônico grego  (1992) e doutorado
humanas no Departamento de Filosofia da Uni- a respeito da filosofia cética na Academia pla-
versidade de São Paulo (USP) e pesquisador do tônica (2003). Desde 1988, leciona história da
Núcleo Direito e Democracia do Centro Brasilei- filosofia antiga na mesma instituição, desen-
ro de Análise e Planejamento (NDD/CEBRAP). volvendo pesquisas nessa área. É autor de Aca-
Possui graduação (1995), mestrado (2000) e dêmicos versus pirrônicos (São Paulo: Alameda,
doutorado (2004) em filosofia pela Universidade 2013) e de artigos publicados em revistas es-
de São Paulo (USP). Fez estudo complementar pecializadas.
na Goethe-Universität de Frankfurt am Main
(2001). Publicou o livro A transformação da filoso-
fia em Jürgen Habermas: os papéis de reconstrução,
Vinicius de Figueiredo formou-se em
interpretação e crítica (São Paulo: Esfera Pública,
filosofia pela Universidade de São Paulo
2008), e coorganizou o livro Tensões e passagens:
(USP), onde defendeu seu mestrado (1993)
filosofia crítica e modernidade (São Paulo: Esfera
e doutorado (1999) sobre Kant. Foi bolsis-
Pública, 2008), e Habermas e a reconstrução: sobre
ta do programa de formação de quadros e
a categoria central da teoria crítica habermasiana
assistente de pesquisa do Centro Brasileiro
(Campinas: Papirus, 2012).
de Análise e Planejamento (CEBRAP) en-
tre 1990 e 1993. Leciona no Departamen-
to de Filosofia da Universidade Federal do
Marco Antonio Valentim formou-se em filoso- Paraná (UFPR) desde 1993. Foi presidente
fia pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), em da Associação Nacional de Pós-Graduação
2000. Cursou mestrado em filosofia, com dissertação em Filosofia (ANPOF) entre 2011 e 2012.
sobre Platão (2002), e doutorado em filosofia, com É autor de Quatro figuras da aparência
tese sobre Heidegger e Descartes (2007), ambos na (Londrina: Lido, 1995) e Kant & Crítica da
Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Des- razão pura (Rio de Janeiro: Zahar, 2005) e
de 2006, leciona no Departamento de Filosofia da organizador da coleção Filósofos na sala de
UFPR. É autor de diversos artigos de história da filo- aula (São Paulo: Berlendis & Vertecchia, 17
sofia publicados em livros e revistas acadêmicas. 2006-2009, 3 vols.).
In memoriam
18 Tom Figueiredo (1938-2013)
Unidades
©Foto: Lions Gate/ Everett Collection/Keystone
©Foto:
Cena do filme O homem urso, de Werner Herzog

unidade 1 natureza e
cultura
O limite entre dois
universos................... 21 V amos propor a você um simples experimen-
to: lembre-se do que você fez no dia de hoje,
desde a hora em que acordou. Inevitavelmente,
O naufrágio de
Robinson Crusoé....... 24 você utilizou uma série de objetos criados pelo
ser humano, que não existiam na natureza (sua
A diversidade das cama; sua escova de dentes; o livro que você tem
culturas...................... 28 em mãos). Essa é uma maneira fácil de constatar-
mos que nossa vida é permeada de cultura. Mas a
A ideia de “natureza
humana”.................... 31 cultura está muito além dos objetos que inventa
natureza e cultura

– está também na base da própria maneira como


Montaigne organizamos nosso pensamento. Assim, ao viver
e os canibais.............. 33 em sociedade, nos distanciamos do mundo natu-
ral: somos algo mais do que meros “seres natu-
“Grandezas naturais”
e “grandezas
rais”. Por outro lado, o ser humano, o homo sapiens
estabelecidas” .......... 39 sapiens, não é uma espécie que pertence ao reino
animal? Até que ponto nossas diferentes culturas
20 são capazes de nos afastar dessa realidade?
O limite entre dois universos
Há um filme documentário de Werner Thimothy acompanhava ano após ano.
Herzog, O homem urso (EUA: 2005), que Outro filme, de Sean Penn, também
conta uma história terrível. É a história reconstitui uma história verídica que
verídica de Timothy Treadwell, ecologista termina tragicamente no Alasca. Na
norte-americano que decidiu ir viver en- natureza selvagem (EUA: 2007) conta a
tre os ursos do Alasca. Por treze verões se- vida de Christopher McCandless, um jo-
guidos, Timothy tomou a direção do nor- vem norte-americano nascido em uma
te em um pequeno hidroavião, cujo piloto família rica, que decide alterar os planos
retornava seis meses após tê-lo deixado na traçados para seu futuro. Abandona os
região que ele escolhera para viver isolado. estudos, cruza o país e, depois de dois
Timothy registrava com a filmadora sua anos de estrada, decide embrenhar-se
aproximação dos ursos selvagens. Preten- no Alasca, em uma região inóspita e des-
dia ser reconhecido por eles como mem- povoada. Vive por meses em um ônibus
bro do grupo. O material registrado por abandonado na floresta, separado de
Thimothy foi incorporado por Herzog a tudo e de todos pelo inverno rigoroso,
seu filme, que intercala às cenas no Alasca até que, por causa da ingestão de se-
depoimentos de seus parentes e amigos. mentes tóxicas de uma planta silvestre,
Em sua última viagem, Thimothy levou adoece e, sem reunir forças para voltar à
consigo sua namorada, Amie Huguenard. civilização, acaba morrendo.
Quando, em outubro de 2003, aterriza Além do Alasca, essas duas histórias têm
no local combinado para trazê-los de vol- em comum o fato de que seus protagonistas
ta, o piloto encontra apenas seus res- quiseram cruzar uma fronteira. Ou melhor,
tos mortais na barraca, inteiramente aproximaram-se muito dela, experimenta-
destruída. Eles foram atacados e devora- ram de forma radical e prolongada o limite
dos por um urso. Não se sabe se o urso que separa a natureza da cultura. A expe-
agressor pertencia ou não ao grupo que riência infelizmente custou-lhes a vida.

©Foto: AKPE/Julio Fiadi

natureza e cultura

Amyr Klink (1955 - ) tornou-se mundialmente conhecido quando atravessou o Oceano


­Atlântico em um barco a remo (1984). Dali em diante, fez várias navegações pelo mundo. 21
direção à Antártida. De lá, cruzou o globo
LITERATURA DE AVENTURA: terrestre, até chegar ao extremo norte, no
ALGUMAS DICAS qual permaneceu por dois meses, inteira-
Todo mundo sabe que Saint-Exupéry escreveu O
mente sozinho, com o barco cercado de
pequeno príncipe (1943). O que nem todos sabem é que
gelo e neve. No degelo, voltou ao Brasil.
ele também publicou outros livros, bem menos conheci- Poderíamos buscar outros exemplos
dos, porém mais interessantes que a obra que o imortali- para engrossar esta lista de feitos extraordi-
zou. Aí vai a lista deles: nários. Só que nosso intuito, aqui, é outro.
Queremos instituir diferenças. Compare os
L’aviateur (O aviador), 1926
Courrier sud (Correio do Sul), 1929
casos mencionados acima, veja o que eles
Vol de nuit (Voo noturno), 1931 têm em comum uns com os outros, e no que
Terre des hommes (Terra dos homens), 1939 diferem. Jack London e Saint-Exupéry, cada
Pilote de guerre (Piloto de guerra), 1942 qual a seu modo, nos contam aventuras de
Lettre à un otage (Carta a um refém), 1943/1944 homens que participaram de dois grandes
A obra de Jack London já é mais extensa. Listamos
empreendimentos econômicos: a pesca
abaixo apenas alguns títulos, os mais conhecidos, dis-
­baleeira do fim do século XIX e o início da
poníveis em tradução para o português: aviação na primeira metade do século XX.
Claro que isso não diminui em nada as faça-
A estrada (Boitempo, 2008)
nhas que retratam em seus textos. São acon-
Antes de Adão (L&PM, 1999)
tecimentos extraordinários, sem dúvida.
A praga escarlate (Conrad, 2003)
Caninos brancos (L&PM, 2004)
A diferença em relação aos dois ho-
Chamado selvagem (Hemus, 2008)
mens que perderam a vida no Alasca está
O povo do abismo (Ed. Perseu Abramo, 2004) em que os heróis de Jack London e Saint-
Tacão de ferro (Hemus, 2008) -Exupéry integram empreendimentos
De Amyr Klink, destacamos três livros: que afirmam o poder dos seres humanos
Cem dias entre céu e mar (Cia. das Letras, 2005) sobre a natureza. Esse também é o caso
Linha d’água (Cia. das Letras, 2006) dos feitos de Amyr Klink. Basta abrir um
Mar sem fim (Cia. das Letras, 2000) de seus livros para constatar seu minucio-
so cuidado em antecipar os imprevistos,
planejar alternativas, programar suas
travessias, de modo a voltar vivo para po-
Você poderá dizer: mas há tantas histó- der contar sua história e lembrá-la entre
rias assim... Os romances de Jack London nós. Amyr Klink tem algo do Ulisses da
(1876-1816), que narram as desventu- Odisseia, de Homero, que se amarrou ao
ras dos baleeiros singrando os mares por mastro de seu navio para resistir ao canto
meses a fio; os relatos de Saint-Exupéry enfeitiçado das sereias e, assim, retornar
(1900-1944), que foi aviador no início do a Ítaca, sua cidade natal.
século XX e que sobrevoava os Andes sem Amyr Klink, ao modo de Saint-Exu-
instrumentos, em meio a tempestades... péry, Jack London e tantos outros, pro-
natureza e cultura

E nem é preciso restringir-se ao passa- va que a espécie humana é capaz de um


do mais remoto. Mais recentemente, em extraordinário vigor diante das forças
1984, Amyr Klink, velejador brasileiro, da natureza. Já Timothy Treadwell
cruzou o Atlântico Sul a remo, em um bar- e Christopher McCandless, com cujos
co de oito metros de comprimento, numa exemplos começamos este módulo, pa-
aventura fabulosa que imortalizou em seu recem ter atendido outra vocação. Não
livro Cem dias entre céu e mar. Como se que quisessem perder suas vidas; mas
22 isso não bastasse, construiu outro barco talvez a tenham perdido por terem pou-
(um pouco maior, desta vez) e partiu em co a pouco esticado a corda até romper o
A solidão do Alasca

Rio Koyukuk, no Alasca .Foto:Bill Raften, U.S. Fish & Wildlife


Análise de texto ou filme e apresentação
de seminário

• Assista em equipe ao filme Na natu-


reza selvagem, de Sean Penn, que narra
a história de Christopher McCandless,
ou leia o livro em que o filme foi ba-
seado, es­ crito por John Krakauer, Na
natureza sel­vagem (Tradução: Pedro M.
Soares. São Paulo: Companhia das Le-
tras, 1998). Em seguida, busque iden-
tificar com seus colegas de equipe os
momentos da história que podem ser o modo de vida de sua família. Expo-
reportados ao problema discutido aqui nham, então, na forma de seminário
– a saber, o da relação de Christopher para os demais colegas, o que significou
McCandless com sua cultura e seu meio, para Christopher McCandless a solidão
sua rebeldia, seu desejo de abandonar que ele encontrou no Alasca.

SOZINHO NO MAR

Leia o texto a seguir, do livro em que Amyr gar ao Brasil. E, ainda que fosse distante ou extre-
Klink relata sua travessia do Atlântico Sul em mamente difícil, sabia que poderia alcançá-lo.
um barco a remo. Note como ele dispõe de Situação privilegiada, pensei. Durante tanto
um objetivo muito claro: atravessar o oceano tempo antes de partir, tudo o que sonhei, tudo
e retornar à civilização: em que pensei foi estar remando no meio do
Atlântico. E era, naquele momento, precisamente
“Aos poucos percebi que entrava em equi-
o que estava fazendo. Não podia reclamar.
líbrio com o mundo à minha volta. Um cenário
Estava realizando um velho e encardido sonho.
eterno e dinâmico a um só tempo, exatamente o
natureza e cultura

Só restava ter paciência. Por outro lado, tinha


mesmo que viram os navegadores do passado.
consciência de que vivia momentos importan-
Talvez com igual intensidade e emoção, medo ou
tes, pois poucas vezes na vida tem-se um único
alegria. E a noção de tempo tão exata a ponto de
objetivo e a firme certeza de que, a cada dia que
conhecer os décimos de segundo de cada hora,
passa, a cada hora, a cada remada, se está mais
ou tão vaga no espaço que séculos nada signifi-
próximo dele.”
cariam em transformações.
Não me encontrava em uma situação indefi- (Extraído de Amyr Klink, Cem dias entre o céu
nida ou permanente, e talvez por isso me sentisse e o mar. São Paulo: Cia. das Letras [Cia. de Bolso],
bem. Tinha um objetivo na mente, e um só: che- 2012, Cap. 9, p. 76) 23
liame que os ligava à cultura, à humani- o de Sean Penn, é a mesma: será possível
dade. Ambos, cada um a seu modo, não atravessar essa fronteira, a não ser sob o
pretendiam afirmar-se sobre a natureza, custo da própria vida? No seu último mo-
mas diluir-se nela, como se buscassem ex- mento, Christopher McCandless parece
tinguir a própria oposição entre o mundo ter-se dado conta disso, pois em seu diá-
natural e a cultura. A pergunta que suge- rio anotou o seguinte: “a vida não é para
rem os dois filmes, o de Werner Herzog e ser sozinha”.

O naufrágio de Robinson Crusoé

Para pensarmos sobre o que significa, seguida se acalma e procura reintroduzir a


para o homem, sair da sociedade e viver ordem de sua vida antiga na situação em
isolado, é muito oportuno mencionar um que agora se encontra, contra sua vontade.
livro que marcou época e até hoje é lido A primeira coisa que faz, nesse sentido, é ta-
em todo mundo. Daniel Defoe publicou A lhar em uma árvore os dias que vão se suce-
vida e as estranhas e surpreendentes aven- dendo uns aos outros, de modo a fixar, por
turas de Robinson Crusoé, marinheiro, de meio do calendário, uma ordem humana na
York em 1719. O que nem todos sabem é temporalidade indiferente da natureza.
que, para contar as aventuras de Crusoé, Uma filósofa francesa comenta bem
Defoe se inspirou em uma história real, a esse ponto: “Substituindo a preguiço-
de um marinheiro escocês, Alexander Sel­ sa fluidez dos dias e a indiferenciação do
kirk, que, após desentender-se com seu passado pela inscrição regular do tempo,
capitão, desembarcou por livre escolha
em uma ilha do arquipélago Juan Fernan-
dez, a 600 quilômetros da costa chilena,
onde viveu entre 1704 e 1709.
Há um aspecto importante na história

John Clark e John Pine. Londres: W. Taylor, 1719


de Selkirk que devemos reter, em vista da
nossa classificação entre os casos de afir-
mação do homem sobre a natureza e os
daqueles que buscam isolar-se do restante
dos homens por sua livre escolha, como se
procurassem dissolver a fronteira entre a
natureza e a humanidade. No último mo-
mento, Selkirk arrependeu-se e acenou
para voltar ao navio, mas o capitão se re-
cusou a embarcá-lo. O navegador que o en-
controu e o levou de volta ao Reino Unido
natureza e cultura

em 1709 relata o que lhe contou o próprio


Selkirk: nos primeiros meses, ele “quase
sucumbiu à melancolia e ao terror de ser
abandonado em um sítio tão ­desolado”.
Robinson Crusoé, a criação literária de
Gravura do frontispício da 1ª edição de A
Daniel Defoe inspirada em Selkirk, é vítima
vida e as estranhas e surpreendentes
do mesmo terror, tão logo se dá conta de
aventuras de Robinson Crusoé.
24 que é o único sobrevivente do naufrágio e
de que está em uma ilha deserta. Mas em
Robinson restitui o mundo à humanidade” dáveis, sendo o primeiro som de uma
(Bernardette Delamarre, Autrui. Tradução voz humana que eu escutara por mais
nossa. Paris: Notions, 2005, p. 5). de vinte e cinco anos.” (Daniel Defoe,
De fato, o meio encontrado por Crusoé A vida e as estranhas e surpreendentes
para não sucumbir à sua desventura é po- aventuras de Robinson Crusoé. Tradução
voar sua solidão com traços de humanida- nossa. Edição de referência: D. Defoe,
de, o que ele faz, primeiro, fabricando um The life and strange surprizing adventu-
calendário e, depois, mediante o trabalho. res of Robinson Crusoe. Londres: Taylor,
Você poderá se indagar qual, afinal de con- 1719 [1ª parte publicada], p. 241)
tas, a importância de construir uma casa,
deco­rá-la com algum mobiliário; qual é a Esse acontecimento é decisivo. Perce­be-
utilidade de cultivar uma horta, fazer um se, na narrativa de Defoe, como o retorno de
cercado, organizar um rebanho, acumu- Crusoé à humanidade, de que falava Berna-
lar provisões, quando, no final das con- dette Delamarre ao assinalar a importância
tas, Crusoé bem poderia do calendário, comple-
passar sem isso, sobre- ta-se apenas no instan-
vivendo modestamente te em que ele passa a se
das dádivas asseguradas Somente após Crusoé comunicar novamente
pelo clima e pela vegeta- encontrar Sexta-Feira com outro ser humano.
ção da ilha em que se viu De início, Sexta-Fei-
lançado. Mas o ponto é e lhe ensinar seu ra e Crusoé mal conse-
exatamente este: a vida, idioma, o enunciado guem se entender: co-
ao menos tal como ele a de que aquela era municam-se por sinais
entendia, não se resume e por interjeições. Não
à simples sobrevivência. “sua ilha” deixou de importa. Pela reação
O cultivo da terra já é ir ser um pensamento de Crusoé, percebemos
além da mera sobrevivên- privado. que a humanidade, pre-
cia, é ultrapas­ sá-la pela parada pelo calendário e
cultura. pelo trabalho, realiza-se
Mas essas duas coisas para valer apenas com o
– um calendário, o trabalho – serão sufi- exercício da linguagem, no horizonte da co-
cientes para habitarmos o mundo da cultu- municação entre os humanos.
ra? Crusoé fez seu calendário, ordenou um Não que, de sua chegada à ilha até este
espaço humano e começou a chamar a ilha momento, Crusoé tivesse desaprendido a
de “sua ilha”. Contudo, passaram-se mais falar, nem que estivesse privado de pen-
de duas décadas até que ele encontrasse samentos, que correspondem a signos
outro rosto humano... Assim prossegue o linguísticos de sua língua materna, o inglês.
romance: um nativo de uma ilha vizinha, Antes de encontrar Sexta-Feira, Crusoé po-
fugindo de uma tribo inimiga da sua, é sal- dia repetir a si mesmo, por exemplo, que
natureza e cultura

vo por Crusoé de seus perseguidores. Ele o estava em “sua ilha”.


acolhe, o batiza de “Sexta-Feira”, o dia da Mas somente após encontrar Sex­ta-
semana em que ocorre o encontro. O silên- Fei­ra e lhe ensinar seu idioma, o enun-
cio solitário em que vivera até ali é final- ciado de que aquela era “sua ilha” deixou
mente rompido: de ser um pensamento privado. E, ao se
tornar intersubjetivo (isto é, algo que se
“[...] ele me disse algumas palavras, passa entre dois ou mais sujeitos), esse
as quais, porém, eu não pude entender; enunciado se articula com uma forma 25
ainda assim, foram-me muito agra- de vida determinada, com uma maneira
particular da existência dos homens. No ples que seja, é a troca simbólica que os
caso de nosso romance, essa existência indivíduos pertencentes a ela estabele-
é marcada pelo afeto que os une em sua cem entre si, os valores que partilham, a
desventura, e também pela hierarquia maneira como interagem com o meio etc.
entre Crusoé e Sexta-Feira, o nativo que Para Robinson Crusoé, sua vida na
admite sem questionamentos que a ilha é ilha ganha definitivamente a forma da
de seu “patrão”. cultura apenas quando ele, ao encontrar
O romance de Robinson Crusoé ilustra Sexta-Feira, reproduz os valores de seu
bem o fato de que, para haver cultura, não modo de vida anterior, na Inglaterra.
é suficiente a existência solitária de um ho- Observemos, porém, que Sexta-Feira
mem. Partindo do nosso romance em dire- dispunha de uma cultura precedente, que
ção a um enunciado mais geral, podemos compartilhava com seu povo. Ao se depa-
afirmar que apenas há cultura ali onde há rar com Crusoé, ele abandona docilmente
trabalho e comunicação entre pessoas – ou seu modo de vida anterior e se submete
seja, ali onde a natureza é apropriada e aos ritos da cultura de que seu “senhor” é
modificada tendo em vista fins humanos. portador. Sexta-Feira, por assim dizer, tro-
E isso nos leva a outra consequência: ca um modo de afirmação sobre a natureza
se é mesmo assim, então também toda por outro, que corresponde ao de Crusoé.
comunidade humana é produtora de cul- Vamos agora extrair conclusões do per-
tura, pois o que torna um conjunto de curso feito até aqui. Vimos, primeiro, que
homens uma comunidade, por mais sim- a cultura representa uma afirmação dos
seres humanos sobre a natureza. Onde há
cultura, a natureza é modificada e apro-
priada pelos indivíduos conforme fins de
Peter Rubens (1577-1640), Prometeu carregando o fogo. Óleo sb/ tela, s/d. Museu do Prado, Madri

ordem simbólica, não apenas biológica.


Mas o fato de que haja cultura não sig-
nifica que a natureza desapareça. Os seres
humanos, embora sejam vetores da cultu-
ra, nem por isso deixam de pertencer ao
reino natural. De modo que toda cultura,
como afirmação humana sobre a natureza,
também corresponde, em certa medida, a
uma afirmação dos seres humanos sobre
o que neles mesmos é natureza. Assim, a
cultura, além de modificar o meio natural
em que se encontram os seres humanos,
também corresponde a uma intervenção
simbólica permanente dos seres humanos
sobre si mesmos.
natureza e cultura

Muitas questões atuais se agrupam


sob essa perspectiva. Por exemplo, a
ecologia dá origem a um discurso muito
presente nos dias de hoje e procura nos
advertir sobre o fato de que nossa forma
De acordo com o mito grego, ao roubar o
de civilização pode ameaçar o equilíbrio
fogo dos deuses e presenteá-lo aos humanos,
biológico do planeta. Muitos ecologistas
o titã Prometeu tornou possível a passagem
26 afirmam que corremos sérios riscos de
da natureza à cultura.
produzir catástrofes que poderiam ser
evitadas se os fins buscados por nossa
civilização fossem reconsiderados à luz
do que se designa um “desenvolvimento
sustentável”. Muito antes deles, mais de Os desafios da ecologia
um filósofo assinalou que, a depender de
como é exercida, a afirmação do ser hu- Desenvolvimento individual por escrito
mano sobre a natureza pode ser prejudi-
cial à natureza de que também é feito o • Por meio de consulta à impren-
próprio ser humano. sa, apresente, em um pequeno texto
As conclusões acima dizem respeito a de aproximadamente uma página, um
um primeiro grupo de reflexões levantado caso em que a afirmação da humani-
pelo nosso tema. Mas examinamos um se- dade sobre a natureza representa um
gundo ponto importante. Vimos também risco de dano ou mesmo de extinção
que há maneiras diferentes de os agrupa- da natureza. Em seguida, em um pará-
mentos humanos se afirmarem sobre a grafo separado, exponha o que seria,
natureza. O romance de Daniel Defoe nos do seu ponto de vista, uma afirma-
dá um exemplo disso: Crusoé e Sexta-Feira ção da humanidade sobre a natureza
são portadores de culturas muito diversas capaz de modificá-la, sem, todavia,
entre si. Ocorre que Sexta-Feira se adap- destruí-la. Como conclusão, compare o
ta completamente ao modo de vida de ponto de vista elaborado por você com
Crusoé. Mas lembremos que se trata de um o conceito de “desenvolvimento susten-
romance, cuja narrativa corresponde ao re- tável”, cujo significado você poderá pes-
lato pessoal de Crusoé. O romancista deci- quisar em livros, revistas e na internet.
diu não dar voz própria a Sexta-Feira.

The Asahi Shimbun/Getty Images

natureza e cultura

Nesta imagem aérea, vê-se a cerca para conter o vazamento de asfalto ocorrido na refinaria
localizada em Ichihara, Chiba, no Japão, em junho de 2012.
27
Isso nos leva a outra conclusão, relativa Crusoé opera com uma noção etnocêntrica
não mais à oposição geral entre natureza de cultura. Tal noção só reconhece como
e cultura. Trata-se, agora, da questão re- válida a sua própria forma de se afirmar
presentada pelo contato e embate entre as sobre a natureza. Ora, por que um modo
diferentes culturas. Você verá que, ao tomar de afirmação do homem sobre a natureza
Sexta-Feira como um indivíduo destituído tem de se impor às demais culturas, como
de civilização própria, a ser “civilizado”, se fosse a “verdadeira” cultura?

A diversidade das culturas

É fácil constatar que o homem se coloca relação a esse mesmo fenômeno. Como
face à natureza em função de sua cultura. lidamos com o fato de que outros agru-
No entanto, o universo da cultura é diver- pamentos humanos possam se pautar
sificado e multifacetado. Não há uma única por valores tão diversos dos nossos?
cultura, mas um conjunto delas. Dito de O romance de Defoe, por exemplo, re-
outro modo, os homens de diferentes cul- vela que a diversidade cultural muitas ve-
turas (por exemplo, o europeu moderno e zes não foi admitida pelos integrantes de
o ameríndio) se afirmam frente à natureza uma cultura, especialmente quando esta
segundo diferentes formas de vida. pretende ser a única civilização autênti-
É a situação exemplificada pelo ro- ca, verdadeira. Crusoé está tão preso a
mance de Daniel Defoe, Robinson Crusoé. essa convicção que chega a crer que, sem
Vivendo sozinho em uma ilha, o prota- seu auxílio, Sexta-Feira não desenvolve-
gonista do livro termina encontrando
um nativo, ao qual dá o nome de “Sex­
ta-Feira”. Crusoé logo se dá a tarefa de
“civilizar” Sexta-Feira. No romance, tudo

Joseph-Noël Sylvestre (1847-1926), óleo sb/ tela, 1890. Museu Paul Valéry, Sète. Foto: Jdsteakley
se passa como se Sexta-Feira não perten-
cesse a nenhuma cultura, nem integrasse
universo algum de simbolização antes de
se deparar com Crusoé. Sexta-Feira apare-
ce no livro como o representante de uma
natureza em estado bruto, que Crusoé
moldará conforme seus próprios valores.
Como se Crusoé representasse o polo da
cultura e Sexta-Feira, o da natureza.
Ocorre que, como informa o próprio
romance, Sexta-Feira também pertencia
a um agrupamento social do qual se des-
natureza e cultura

garrou antes de se deparar com Crusoé.


O encontro entre eles, portanto, equiva-
le ao confronto entre duas culturas di-
versas e não entre a cultura, de um lado,
e a natureza, de outro.
O saque de Roma pelos visigodos em
Isso nos leva diretamente ao ponto
410 d.C. foi visto como um golpe no
que nos interessa examinar agora. Esse
centro da civilização clássica.
28 ponto é, primeiro, a diversidade das cul-
turas. Mas é também nossa atitude em
ria as capacidades de se comunicar e de de Lévi-Strauss pela primeira vez em
adquirir conhecimento. A crer no que 1952 e depois inserido em uma obra de
pensa Crusoé, Sexta-Feira seria incapaz referência nos estudos de antropologia.
de desenvolver de modo completamente O texto original se intitula “Raça e his-
adequado a linguagem, se o europeu não tória” e inicia advertindo-nos de que re-
lhe ensinasse seu próprio idioma. pudiar o que nos parece estranho é uma
atitude muito antiga na história huma-
Diversidade e afirmação na. Formas culturais diversas das nos-
O “etnocentrismo” é o tema de um sas são classificadas como “selvagens”,
texto publicado pelo antropólogo Clau- “inadequadas”, “imorais”. Segundo Lévi-

Um filósofo-antropólogo no Brasil
Claude Lévi-Strauss (1908-2009), um dos

Joel Robine/AFP
maiores antropólogos do século XX, discorre
sobre a atitude de uma cultura que quer se
impor sobre as outras, chamando-a pelo
nome de etnocentrismo – a convicção de que
os “nossos” costumes correspondam ao cen-
tro irradiador e exclusivo de toda civilização.
De fato, a tendência a considerar quem é dife-
rente de nós como “selvagem”, “bárbaro” etc.
é antiga e não se limita aos preconceitos que
europeus manifestavam em relação a nativos
de terras desconhecidas.
Lévi-Strauss, nascido em Bruxelas, for­
mou-se em direito e filosofia em Paris. Sua
tese de doutoramento, As estruturas elemen-
tares do parentesco (1949), é o resultado de
uma extensa pesquisa, que se iniciou quando intelectual francês do século XX. Em O pensa-
Lévi-Strauss aceitou participar da missão mento selvagem (1962) Lévi-Strauss polemizou
francesa na Universidade de São Paulo (USP), fortemente com Jean-Paul Sartre (1905-1980),
entre 1935 e 1939. Foi nesse período que abrindo terreno para a difusão do estrutura-
Lévi-Strauss descobriu sua vocação de antro- lismo na cultura francesa da década de 1960.
pólogo, como ele mesmo narra em Tristes Leituras recomendadas:
trópicos (1955), obra na qual documenta sua C. Lévi-Strauss e Didier Eribon, De perto
estadia entre nós. Lévi-Strauss travou contato e de longe. Tradução: L. Mello e J. Leite. Rio
com os bororo e com os nambiquaras, em de Janeiro: Nova Fronteira, 1990 (Trata-se
natureza e cultura

Mato Grosso, em uma experiência que foi de uma longa entrevista concedida por Lévi-
decisiva para sua elaboração teórica. -Strauss a D. Eribon, muito oportuna como
Em seu retorno à França, Lévi-Strauss se introdução aos problemas e questões abor-
consagrou como autor de uma obra de refe- dados pelo famoso antropólogo).
rência internacional, além de ter sido um dos C. Lévi-Strauss, O pensamento selvagem.
principais pensadores ligados ao estrutura- Campinas: Papirus, 2005.
lismo. Foi muito próximo de Merleau-Ponty C. Lévi-Strauss, Tristes trópicos. Tradução:
(1908-1961) e de Jacques Lacan (1901-1981), Rosa F. D’Aguiar. São Paulo: Companhia das
entre outras personalidades do universo Letras, 1996.
29
A filosofia e a antropologia

Desenvolvimento individual por escrito mente diferentes daqueles que nos


habituamos a considerar “naturais”.
A antropologia apresenta-nos estu- Recorrendo à biblioteca e à internet,
dos de culturas e modos de vida muito identifique dois exemplos de estudo
diversos do nosso. As relações entre a antropológico. Em seguida, escolha
antropologia e a filosofia, por isso, são um deles e desenvolva um texto de
inúmeras. Vários estudos antropológi- aproximadamente uma página, apre-
cos possuem interesse filosófico. sentando as características principais
A história da antropologia está da cultura que foi objeto da investiga-
cheia de estudos de casos muito in- ção antropológica (localização geográ-
teressantes, exatamente porque nos fica, população, tipo de organização
colocam diante de modos de vida pau- social, forma de relação com o meio,
tados por hábitos e costumes radical- religião, instituições, etc.)

-Strauss, esse tipo de reação exprime referia ao fato de que os pássaros emitem
uma completa incompreensão em rela- sons desarticulados, confusos, por opo-
ção a modos de vida, de crença ou pen- sição ao “valor significante da linguagem
samento que nos sejam estranhos. humana”. Como acrescenta Lévi-Strauss,
O que chama a atenção é o fato de
que isso não é de hoje. Na Antiguidade,
recorda-nos Lévi-Strauss, tudo o que não Leitura recomendada
era grego era designado pejorativamente
Claude Lévi-Strauss, “Raça e história”,
pelos gregos como “bárbaro”. Do ponto
in: Antropologia estrutural – Volume 2.
de vista etimológico, “bárbaro” provavel-
Tradução: Beatriz Perrone-Moisés. São
mente se refere ao canto dos pássaros –
Paulo: Cosacnaify, 2013, pp. 357-399.
mas não no sentido de enaltecer sua be-
leza. Antes, “bárbaro” originariamente se

OS SENTIDOS DA PALAVRA “BÁRBARO”

“Bárbaro” é uma palavra de origem grega, dos indivíduos que não pertencem a ela.
natureza e cultura

por meio da qual os gregos da Antiguidade O termo “barbarismo” designa o uso deli-
designavam aqueles que não eram gregos, berado de palavras estrangeiras. Quando,
isto é, os estrangeiros. Ao mesmo tempo, a por exemplo, digo que vou pegar minha
palavra “barbárie” costuma ser utilizada em “bike”, isso caracteriza um barbarismo ou
oposição à “civilização”. Juntando as duas estrangeirismo. Discute-se muito se a pro-
coisas, seríamos conduzidos à conclusão de liferação de barbarismos (isto é, de pala-
que o “estrangeiro” é o “não-civilizado”. vras estrangeiras) é ou não prejudicial à
Toda questão recai, como se vê, sobre língua nacional.
30 a relação que uma cultura assume diante O que você pensa a respeito?
“selvagem” vai na mesma direção, pois
evoca “selva”, referindo-se à vida animal,
em contraste com a cultura dos humanos.
Nos dois casos, conclui Lévi-Strauss, é Barbaridades, bárbaros
recusada a diversidade cultural. Joga-se e barbarismos
para fora do âmbito da cultura, empurra-
Desenvolvimento individual por escrito
-se para o âmbito natural tudo aquilo que
não é considerado “normal”.
• Desenvolva um pequeno texto,
Graças às contribuições da antropolo-
de aproximadamente uma página,
gia e da etnografia ao longo do século XX
fornecendo exemplos de barbarismo
(muitas das quais devemos à obra de Lévi-
idiomático e expondo seu ponto de
-Strauss), as ciências humanas têm se mos-
vista sobre esse assunto. Não perca
trado muito críticas diante de mentalidades
de vista que, por trás dessa discussão­,
e comportamentos etnocêntricos. Hoje em
o que está em jogo é a relação entre
dia, a ideia de que povos ou simplesmente
culturas diversas.
grupos humanos que se orientam por va-
lores diferentes dos nossos sejam “primiti-
vos” ou “bárbaros” pode até vir à tona na
retórica de extremistas e xenófobos, mas, O fato é que uma questão tão com-
de maneira geral, discursos dessa ordem já plexa e instigante como a da diversi-
não são respaldados, como foram outrora, dade das culturas sempre traz desafios
por teorias ditas “científicas”. para a reflexão filosófica.

A ideia de “natureza humana”

Diferentes sociedades humanas ins- O tema dos direitos do homem ou


tituem modos diversos de se relacionar direitos humanos surgiu na cena da
com a natureza. Dizemos então que per- política mundial ao longo do século
tencem a culturas diferentes. Há, de ou- XVIII, no movimento de ideias chama-
tro lado, valores considerados universais, do “Iluminismo”, “Esclarecimento” ou
como os direitos humanos, que não esta- “Filosofia das Luzes”. Foram pensadores
riam restritos a essa ou aquela cultura. Os iluministas que deram origem ao tipo
direitos humanos supõem como válida a de discurso político e à base filosófico-
premissa de que, sob certos aspectos, to- -jurídica para a Revolução Francesa, de
dos nós – mulheres, homens, sul-ameri- 1789. Veja você mesmo o texto de apre-
canos, asiáticos, europeus, hindus, tupis, sentação e os dois primeiros artigos da
guaranis, protestantes, muçulmanos, ca- Declaração dos direitos do homem, procla-
tólicos, umbandistas etc. – sejamos iguais mada pela Assembleia nacional france-
natureza e cultura

ao menos sob um aspecto. A argumentação sa, em 1789, no contexto da revolução


em prol dos direitos humanos afirma que, que derrubou o Antigo Regime:
apesar de todas as diferenças culturais que
pesem sobre os indivíduos, somos todos “Os representantes do povo fran-
igualmente sujeitos possuindo certos di- cês, constituídos como Assembleia na-
reitos inalienáveis, que dizem respeito à cional, considerando que a ignorância,
condição humana indistintamente, isto o esquecimento ou o desprezo dos di-
é, sem distinção de raça, sexo, cultura ou reitos do homem são as únicas causas 31
classe social. das desgraças públicas e da corrupção
dos governos, decidiram expor, em
uma declaração solene, os direitos

M. L. Joseph, L’Assemblée législative. Museu Carnavalet, Paris


naturais, inalienáveis e sagrados do
homem, a fim de que esta declaração,
constantemente apresentada a todos
os membros do corpo social, lhes re-
corde incessantemente seus direitos e
deveres; a fim de que os atos do poder
legislativo e os do poder executivo, po-
dendo ser a todo instante comparados
com o objetivo de toda instituição polí-
tica, sejam a ele mais conformes; a fim
de que as reclamações dos cidadãos,
fundadas doravante sobre princípios
simples e incontestáveis, se direcionem
sempre para a conservação da Cons-
tituição e da felicidade de todos. Em
Sala do picadeiro, na qual se reuniu a
consequência, a Assembleia nacional
Assembleia Constituinte francesa a par-
reconhece e declara, em presença e sob
tir de novembro de 1789.
os auspícios do Ser supremo, os seguin-
tes direitos do homem e do cidadão.
Artigo 1º: Os homens nascem livres conceito de humanidade, do qual depende a
e permanecem livres e iguais em direito. questão dos direitos humanos?
As distinções sociais só podem se fundar Você já deve ter se dado conta do se-
sobre a utilidade comum. guinte: a argumentação que defende a
Art. 2º: O objetivo de toda associa- ideia dos direitos humanos supõe que
ção política é a conservação dos direi- a humanidade possua uma realidade em
tos naturais e imprescritíveis [isto é, si, independente das diferenças entre as
que não prescrevem, permanente- culturas. Supõe-se que há uma “natureza
mente válidos] do homem. Esses di- humana” que atravessa todas as culturas,
reitos são a liberdade, a propriedade, a abrigando sob si os indivíduos de todos
segurança e a resistência à opressão.” os povos e nações da Terra. Segundo esse
(Declaração dos direitos do homem e do ponto de vista, embora diferentes em seus
cidadão, de 26 de agosto de 1789. Tra- costumes e hábitos, sob um aspecto deci-
dução nossa. Edição de referência: A. sivo os seres humanos pertencem todos a
Monchablon [org.] L’esprit de 1789 et les uma mesma categoria, designada pelo ter-
droits de l’homme. Textes et documents. mo abstrato “humanidade”.
Paris: Larousse, 1989, pp. 75-76) O resultado disso, podemos resumi-
-lo assim: em seu significado mais geral, a
natureza e cultura

Podemos, com base no que foi dito, for- natureza se opõe à cultura; no entanto,
mar uma noção do que está em jogo. Vamos como que em resposta às diferenças entre
considerar três pontos. Primeiramente, po- os indivíduos e à diversidade de culturas,
demos dizer que a cultura é a expressão de postulou-se como válido um outro signi-
uma afirmação do homem sobre a natu- ficado para “natureza”, a saber, o de uma
reza. Mas há inúmeros modos de fazê-lo, natureza humana, que abarca todos os seres
vale dizer: o ser humano se caracteriza pela humanos, independentemente da cultura a
32 diversidade de culturas. Mas como a existên- que pertencem, do credo que professam ou
cia de diversas culturas se articula com o da condição social em que se encontram.
Dirigindo nossa atenção para a história los XI a XIII, os Estados e a Igreja católi-
das ideias, constatamos que o postulado ca postularam a retomada de Jerusalém
universalista na base da convicção de que a das mãos daqueles a quem chamavam de
humanidade abarca todos os seres huma- “infiéis”, dessa forma “demonizados” pe-
nos é quase tão antigo quanto as doutrinas los europeus que os foram combater.
que buscaram separar os indivíduos entre Com a expansão marítima e o contato
“homens” e “bárbaros”. Se, por um lado, dos europeus com os povos ameríndios,
a civilização greco-romana destituía da a partir do século XVI, a questão foi
plena condição de humanidade uma parte recolocada. Diante das civilizações pré-
considerável dos seres humanos (escra- -colombianas ou das nações indígenas
vos, mulheres, estrangeiros, crianças), de da América e da Oceania, cuja organi-
outro lado, concepções ligadas a grandes zação, religião e mentalidade eram tão
religiões, como o budismo, o cristianismo diferentes das concepções dos coloniza-
e o islamismo, por exemplo, já professa- dores, as questões em torno desse tema
vam, bem antes dos tempos modernos, ganharam um novo impulso.
que todos os seres humanos se encontram Como reporta o antropólogo Claude Lé-
sob uma mesma idêntica condição. vi-Strauss[+], as incertezas e perplexidades
Essas duas tendências opostas coexisti- trazidas pelo contato de culturas tão diver-
ram de forma mais ou menos conflituosa. sas eram percebidas de um lado e de outro.
Desde seus primórdios, por exemplo, o No século XVI, por exemplo, os espanhóis
pensamento ligado ao cristianismo bus- formaram comissões para determinar se os
cou definir como sua comunidade todas povos que habitavam as Antilhas tinham
as pessoas que tivessem sido batizadas. ou não alma. Por sua vez, e na mesma épo-
Ao contrário de certas concepções mais ca, indígenas imergiam brancos capturados
tradicionalistas do judaísmo, que apre- por longo período, a fim de descobrir se
goam uma linhagem genealógica para seus corpos se putrefaziam ou não.
seus membros, todo e qualquer homem Era mesmo de se esperar que a época
ou mulher que aceitasse os seus preceitos dos “grandes descobrimentos” instigasse
podia se tornar um membro da comuni- muitos a examinar o significado e a ex-
dade cristã. Aliás, o termo “católico” vem tensão do conceito de humanidade. Mas
do grego katholikós, que quer dizer “geral”, talvez fosse menos previsível outro des-
“universal”, “que vale para todos”. dobramento desse mesmo fenômeno. Os
No entanto, durante a Idade Média “descobrimentos” conduziram pensado-
europeia, muitos judeus, embora tivessem res europeus a relativizarem e questiona-
suas vidas poupadas, foram destituídos rem o conceito de “civilização” forjado na
dos direitos de que gozavam os cristãos. própria Europa – realizando, desse modo,
Assim também, nas cruzadas dos sécu- uma espécie de autocrítica.

Montaigne e os canibais
natureza e cultura

Nos tempos que se seguiram aos gran- taigne (1533-1592), que traz o sugestivo
des “descobrimentos”, surge na Europa título “Dos canibais”.
uma reflexão autocrítica que relativiza a Há uma curiosidade em torno deste
noção de que os europeus fossem, afinal, ensaio. Montaigne discorre sobre os nati-
tão “civilizados” como há tanto era co- vos trazidos do sul do Brasil para a França,
mum afirmar-se. Exemplo disso encon- numa expedição comandada por Nicolas 33
tramos em um ensaio de Michel de Mon- D. de Villegagnon em 1557. O ensaísta
Montaigne teve oportunidade de conhecê- “etnocêntrica”, isto é, a afirmação de uma
-los e conversar com eles com a ajuda de cultura como superior às demais (o ter-
um intérprete. O texto oferece uma exce- mo “etnocentrismo” não foi utilizado por
lente ocasião para refletirmos sobre a di- Montaigne, mas por antropólogos do sé-
versidade de culturas. culo XX). Veja só:
A base para o retrato traçado por Mon-
taigne reside, como ele nos adverte, em “Mas, para retomar meu assun-
relatos orais: to, acho que não há nessa nação nada
de bárbaro e de selvagem, pelo que me
“Tive comigo durante longo tempo contaram, a não ser porque cada qual
um homem que permanecera dez ou chama de barbárie aquilo que não é de
doze anos nesse outro mundo que foi seu costume; como verdadeiramente
descoberto em nosso século, no lugar parece que não temos outro ponto de
onde Villegagnon desembarcou, e a que vista sobre a verdade e a razão a não
deu o nome de França Antártida.” (Mon- ser o exemplo e o modelo das opiniões e
taigne, Ensaios. Tradução de Rosemary C. usos do país em que estamos. Nele sem-
Abílio. São Paulo: Martins Fontes, p. 303) pre está a religião perfeita, a forma de
governo perfeita, o uso perfeito e cabal
A principal conclusão que Montaige de todas as coisas. Eles são selvagens,
extrai do relato do viajante acerca dos cos- assim como chamamos de selvagens os
tumes e hábitos dos nativos brasileiros frutos que a natureza, por si mesma e
pode ser considerada como uma crítica por sua marcha habitual, produziu; sen-
severa à atitude que hoje chamaríamos de do que, em verdade, antes deveríamos

Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro


natureza e cultura

Victor Meirelles (1832-1903), A primeira missa (óleo sb/ tela, 1861). A missa, que sim-
boliza o encontro desigual de duas civilizações, foi celebrada pelo padre Henrique de
34
Coimbra em 26 de abril de 1500.
chamar de selvagens aqueles [frutos]
que com nossa arte alteramos e desvia-
mos da ordem comum. Naqueles outros
estão vivas e vigorosas as verdadeiras e
mais úteis e naturais virtudes e proprie-

Service Historique de la Marine, Vincennes


dades, as quais abastardamos nestes, e
simplesmente as adaptamos ao prazer
de nosso paladar corrompido.” (Mon-
taigne, Ensaios, op. cit., pp. 307-308)

Vamos analisar essa passagem. O trecho


selecionado inicia questionando a visão, co- Representação de ritual tupinambá, de
mum naquela época, de que os nativos da Théodore de Bry (1528-1598) a partir dos
América seriam bárbaros, enquanto os eu- relatos do viajante Hans Staden (1525-1579).
ropeus, civilizados. Montaigne, como é fácil
perceber, vai muito além do relato do via-
jante que lhe serviu de fonte, pois interpre- cabal de todas as coisas”. Em outras palavras,
ta, raciocina e tira conclusões desse mesmo sempre acreditamos estar corretos quanto
relato. Ele fornece uma explicação para o à religião, à política e aos demais assuntos.
fato de os nativos ameríndios serem consi- E, por conta dessa convicção, qualificamos
derados selvagens. A chave que explica isso como selvagens os outros, isto é, todos os
é simples: “cada qual chama de barbárie aqui- que não praticam nossos costumes.
lo que não é de seu costume”. Ou seja, é desig- O último segmento do trecho citado
nado e considerado “bárbaro” todo aquele dá uma orientação inovadora para a ar-
que não se comporta como nós. gumentação desenvolvida até aqui. Re-
Procure agora atentar para como Mon- leia o trecho que inicia por: “[...] sendo
taigne desenvolve essa primeira conclu- que, em verdade, antes deveríamos chamar
são. Note como ele acrescenta novos ele- de selvagens [...]”. Nele, Montaigne expõe
mentos a seu argumento, conferindo ao seu juízo, o qual promove uma verdadei-
trecho aqui citado um alcance crítico radi- ra inversão da perspectiva usual, ao dizer
cal. Ele afirma que não dispomos de “ou- que “selvagens” deveriam chamar-se os
tro ponto de vista sobre a verdade e a razão” frutos que, por serem modificados por
a não ser o de nosso país. Ora, isso equi- nós, são desviados “da ordem comum”.
vale a dizer que tanto a verdade quanto a Dito de outro modo, o “selvagem”, em
razão admitem mais de um ponto de vista, seu sentido pejorativo, é o que resulta da
mais de uma abordagem. E que, portan- “arte”, e não o que é natural. No desfecho
to, o que é verdadeiro e razoável para fula- de seu texto, Montaigne dirige uma crí-
no, que nasceu e foi educado em tal lugar, tica severa aos costumes dos seus seme-
pode ser falso e absurdo para um estran- lhantes. A civilização europeia, da qual o
natureza e cultura

geiro de terras distantes. Tudo dependerá próprio autor faz parte, adapta a nature-
da perspectiva a partir da qual considera- za “ao prazer de nosso paladar corrompido”.
mos as coisas. E essa perspectiva é variada,
depende dos costumes e hábitos do lugar Proximidade e distância da natureza
em que os indivíduos se encontram. Como se vê, o problema da diversi-
Em seguida, Montaigne recorre a uma dade de culturas, que fora renovado no
ironia: no país em que estamos, prosse- período das grandes descobertas, dá
gue o texto, “sempre está a religião perfeita, ocasião, no ensaio de Montaigne, a uma 35
a forma de governo perfeita, o uso perfeito e autocrítica da civilização europeia. Essa
Museo delle Terme, Roma ©Foto: The Bridgeman Art Library/Keystone

Alto relevo
do sarcófago
de Ludovico,
representando os
romanos em luta
com os bárbaros
(Anônimo,
mármore, c. 250-
260 d.C.).

mesma civilização aparece no discurso de ros; nenhum título de magistrado nem


Montaigne como uma sofisticação inútil, de autoridade política; nenhum uso
que, sem que percebamos, nos afasta da de servidão, de riqueza ou de pobreza;
“natureza”. É isto o que revela a continua- nem contratos; nem sucessões; nem
ção do texto de Montaigne, à mesma pá- partilhas; nem ocupações, exceto as
gina já citada anteriormente: ociosas; nem consideração de parentes-
co exceto o comum; nem vestimentas;
“Portanto esses povos me parecem nem agricultura; nem metal; nem uso
assim bárbaros por terem recebido de vinho ou de trigo. Mesmo as pala-
bem pouca preparação do espírito hu- vras que designam a mentira, a traição,
mano e estarem ainda muito próximos a dissimulação, a avareza, a inveja, a
de sua naturalidade original. Ainda os maledicência, o perdão são inauditas.”
governam as suas leis naturais, pouco (Montaigne, Ensaios, op. cit., p. 309)
abastardadas pelas nossas.” (Montaig-
ne, Ensaios, op. cit., p. 308) Todo esse passo do texto enaltece os
povos “primitivos” recorrendo a uma
Repare na adjetivação: “bárbaros” são comparação: eles são elogiados por aquilo
aqueles indivíduos ou povos que permane- que não são. Há, sem dúvida, certo grau
ceram próximos da natureza, que são gover- de idealização dos ameríndios por par-
nados por “leis naturais” e que não foram te de Montaigne. Voltaremos a isso logo
“abastardadas” pelas leis da civilização. adiante. Note, agora, como o raciocínio de
Mas o que devemos entender por essa Montaigne revela todo seu alcance moral,
natureza e cultura

proximidade com a natureza? É digno de quando ele diz que, na língua dos “primi-
nota que Montaigne descreva os nativos tivos”, inexistem termos para a mentira,
ameríndios recorrendo ao contraste com a traição, a avareza etc. Ora, presume-se
o modo de vida europeu. Trata-se de um que, se não encontramos tais termos, é
povo, diz ele em seguida: porque as ações ou sentimentos que eles
designam tampouco existem nesse esta-
“[...] no qual não há nenhuma espé- do em que os seres humanos ainda vivem
36 cie de comércio; nenhum conhecimento (como diz uma frase anterior) “muito pró-
das letras; nenhuma ciência dos núme- ximos de sua naturalidade original”.
Não é difícil enxergar o que Montaig- qualquer correspondência no mundo real?
ne quer apontar a seu leitor. Estar próxi- Tentaremos elucidar essa última ques-
mo da naturalidade original asseguraria tão pela leitura de mais um trecho do en-
certa pureza dos costumes, que os supos- saio sobre os canibais. Trata-se, a propósi-
tos avanços do mundo civilizado fariam to, do passo em que Montaigne comenta o
desaparecer. Desse modo, Montaigne rito de alimentar-se de seus semelhantes,
demonstra que os males que afligem a tão assustador a nossos olhos. Após des-
sociedade da qual faz parte – a socieda- crever como os ameríndios matam e, em
de europeia que se afirmava como a civi- seguida, assam e comem seus inimigos,
lização por excelência – têm origem no Montaigne conclui o seguinte:
distanciamento de seus costumes, práti-
cas e instituições em relação à “natureza”. “Não me aborrece que saliente-
mos o horror barbaresco que há em
Natureza, barbárie e civilização tal ação, mas sim que, julgando com
Resta, contudo, esclarecer uma questão acerto sobre as faltas deles [dos
importante, a que nos referimos há pouco, ameríndios], sejamos tão cegos para
ao falarmos da idealização dos ameríndios as nossas. Penso que há mais barbárie
no texto em debate. O que, afinal, deve- em comer um homem vivo do que em
mos entender pelo significado que Mon- comê-lo morto, em dilacerar por tor-
taigne atribui à “natureza”, no ensaio mentos e por torturas um corpo ain-
analisado aqui? Uma espécie de jardim do da cheio de sensibilidade, assá-lo aos
Éden, de paraíso terrestre – em suma, de poucos, fazê-lo ser mordido e rasgado
uma idealização filosófica e literária, sem por cães e por porcos (como não ape-
nas lemos mas vimos de recente me-
mória, não entre inimigos antigos mas
entre vizinhos e concidadãos, e, o que é
Leituras recomendadas pior, sob pretexto de piedade e de reli-
gião), do que assá-lo e comê-lo depois
A fim de aprofundar o exame desse tipo
que ele morreu.” (Montaigne, Ensaios,
de consideração no século XVIII, você pode
op. cit., p. 313)
tomar duas obras muito significativas do
Iluminismo francês: As cartas persas (1721)
Conforme diz esse parágrafo, e como
de Charles L. de Montesquieu (1689-1755) e
era de se esperar, Montaigne não é favorá-
o Discurso sobre as ciências e as artes (1750),
vel ao canibalismo. Ele, aliás, não contesta
de Jean-Jacques Rousseau[+] (1712-1778).
que deploremos esse ou mesmo outros ri-
Ambos os textos contam com mais de uma
tos e práticas contrárias a nossas convic-
edição em português. Listamos abaixo duas
ções. O que ele questiona é que sejamos
edições a título de sugestão, por trazerem
complacentes com práticas e costumes
excelentes traduções:
que, embora nos sejam habituais, são tão
natureza e cultura

Charles L. de Montesquieu, Cartas


ou mais atrozes quanto aqueles que rejei-
persas. Tradução: Renato Janine Ribeiro.
tamos nos “bárbaros” ou “primitivos”.
São Paulo: Nova Alexandria, 2005.
Admita por um momento a provocação
Jean-Jacques Rousseau, “Discurso sobre
e a ironia de Montaigne e responda você
as ciências e as artes”, in: Rousseau – Cole-
mesmo o que lhe parece pior: devorar um
ção Os Pensadores. Tradução: Lourdes S.
semelhante depois de tê-lo matado e as-
Machado. São Paulo: Abril Cultural, 1978,
sado ou, como era corrente na Europa dos
pp. 321-428.
tempos de Montaigne, torturá-lo ou quei- 37
má-lo vivo até matá-lo?
Novo Mundo tem por objetivo despertar
a consciência crítica não dos ameríndios,
mas dos próprios europeus, contempo-
© Daderot [CC0], via Wikimedia Commons
râneos de Montaigne. Afinal de contas,
ele escreve e destina seus ensaios para
leitores com os quais partilha língua,
valores, práticas e princípios. Logo, a
referência a outras culturas como a dos
povos ameríndios, com seus costumes e
práticas tão “exóticos” à primeira vista,
tem por propósito relativizar as “verda-
des” e “certezas” de sua própria cultura.
A filosofia se investe, desse modo, de
alcance questionador e crítico. Montaigne­
propôs sua reflexão filosófica como um
instrumento para auxiliar a compreender
melhor a cultura a que pertencia. Tendo
em mente o ensaio de Montaigne sobre os
canibais, podemos concluir que a referên-
cia ao Outro (no caso, a outra cultura, di-
Arte... “primitiva”? Figura antropozoo-
versa da nossa) pode ser um instrumento
morfa Malagan, coleção Papua, Nova
valioso para medir, criticar e transformar
Guiné (Museu de Etnografia, Estocolmo,
nossas próprias certezas e “verdades”.
Suécia).
Nessa direção, é interessante ressal-
tar o uso dialético que Montaigne faz do
par “natureza × cultura”. Afinal, como
mostrou nossa análise de texto, Mon-
Em vista disso, o fato de que Mon- taigne recorre a um significado de “na-
taigne enalteça o “natural” e o “primiti- tureza” para criticar a cultura a que ele
vo” adquire outro sentido. Seu intuito mesmo pertence. Desse modo, ele inau-
parece ser menos o de idealizar a “natu- gura (ao menos nos tempos modernos)
reza” – como quem propusesse abando- um tipo de crítica da cultura que terá
nar a civilização para retornar àquela na- desdobramentos significativos em pelo
tureza ideal – do que o de advertir seus menos dois momentos do pensamen-
semelhantes para a observação­de que, na to filosófico moderno. O primeiro é o
verdade, a “civilização” é atravessada por Iluminismo do século XVIII. O segundo,
inúmeras barbáries. Pois, como nos diz na assim chamada “Escola de Frankfurt”,
Montaigne no fim do ensaio, é no mundo do século XX, a linha de pensamento crí-
dito “civilizado” que prevalece a avareza, tico em que se inscreve o livro de Theodor
natureza e cultura

a inveja; é nele que se pratica a tortura e Adorno e Max Horkheimer, A dialética do


se queimam vivos em praça pública, to- esclarecimento, publicado originalmente
dos aqueles que forem considerados he- em 1947 (tradução: Guido A. de Almeida.
reges, “bruxas”, “anormais”. Rio de Janeiro: Zahar, 1985).
Ao recordar práticas tão atrozes e ao O ensaio de Montaigne antecipa elemen-
mesmo tempo tão familiares a seus se- tos decisivos da crítica ao “etnocentrismo”,
melhantes europeus, Montaigne sugere- como, por exemplo, o do europeu Robinson
38 -lhes que é preciso rever e alterar seus Crusoé que busca “civilizar” o nativo Sexta-
princípios. A referência aos canibais do -Feira no romance de Daniel Defoe.
“Grandezas naturais” e “grandezas estabelecidas”

No pensamento filosófico moderno, o acreditaram, com razão, ser preciso


par natureza/cultura é utilizado como honrar certas condições e associar a
instrumento de crítica da civilização. O elas determinados respeitos. São des-
ensaísta Michel de Montaigne, no século se gênero os títulos e a nobreza. Num
XVI, faz referência à diversidade de cul- país, honram-se os nobres; noutro, os
turas a fim de chamar a plebeus; neste aqui, os
atenção de seus pares eu- anciãos; naquele ou-
ropeus sobre os valores e tro, os jovens. E isso
costumes de sua própria por quê? Porque assim
cultura. Ele chega a afir- “Se o senhor fosse quiseram os homens.
mar que, por estarem A coisa era indiferente
duque sem ser
mais próximos da natu- antes da convenção:
reza, os “selvagens” pos- homem honesto, [...] depois dela, ela se tor-
suem hábitos e costumes eu não deixaria de na justa, porque é in-
mais puros do que aque- justo transtorná-la.
nutrir pelo senhor
les da cultura ocidental. As grandezas natu-
Montaigne não foi o o desprezo interior rais são aquelas inde-
único a empregar o par devido à sua baixeza pendentes da fantasia
conceitual natureza/cul- dos homens, porque
de espírito.”
tura com intuitos críticos. consistem em quali-
Encontramos um exem- dades reais ou efetivas
plo semelhante na obra da alma ou do corpo,
de Blaise Pascal (1623- que tornam este e
1662), filósofo francês muito importante aquela mais dignos de estima, como as
do século XVII. Vamos, abaixo, nos deter ciências, a luz do espírito, a virtude, a
sobre um discurso de Pascal, intitulado saúde, a força.
“Segundo discurso aos poderosos”, publica- Devemos algo a uma e a outra des-
do pela primeira vez em 1662. Nele, Pascal sas grandezas; mas, como elas são de
retoma o par natureza e cultura sob a di- natureza diferente, assim também
ferença entre “grandezas naturais” e “gran- lhes devemos respeitos diferentes.
dezas estabelecidas”. Essa conceituação de Às grandezas estabelecidas, nós
Pascal proporciona à oposição natureza/ devemos respeitos de estabeleci-
cultura um alcance político. Eis o texto: mento, ou seja, determinadas ceri-
mônias exteriores que, entretanto,
“É bom que saiba, senhor, o que lhe devem ser acompanhadas, de acordo
é devido, de modo que não queira exi- com a razão, de um reconhecimento
natureza e cultura

gir dos homens aquilo que não lhe é de interior de que essa ordem é justa,
direito; pois isto é uma evidente injus- sem que nos levem a conceber al-
tiça: e no entanto ela é muito comum guma qualidade real naqueles que
nos homens da sua condição, porque honramos dessa maneira. Aos reis, é
eles ignoram sua própria ­natureza. preciso falar de joelhos; nos aposen-
Há no mundo dois tipos de grande- tos dos príncipes, é preciso manter
za: grandezas estabelecidas e grandezas a postura ereta. Rejeitar-lhes esses
naturais. As grandezas estabelecidas deveres é uma estupidez e uma bai- 39
dependem da vontade dos homens, que xeza de espírito.
gundo Discurso sobre a condição dos

Juiz britânico no século XX. ©Foto: Hulton Archive/Getty Images


poderosos”. Tradução nossa. Edição
de referência: “Discours sur la condi-
tion des grands”, in: Oeuvres complètes
[ed. J. Mesnard] vol. IV, 1992)

Vamos analisar e discutir esse texto


passo por passo. O intuito do “Segundo
Discurso”, conforme se pode averiguar
logo de início, é prevenir seu destinatá-
rio – o nobre ao qual Pascal se dirige – de
não cometer uma injustiça. Qual? Aque-
la de exigir mais dos homens do que é
justo fazê-lo.
Pascal quer mostrar ao seu destina-
tário, um homem poderoso – e mostrar
à nobreza de que ele faz parte – que o
respeito devido a ele não é ilimitado. É
muito comum, diz Pascal, os nobres exi-
De acordo com Pascal, não girem mais dos homens a seu redor do
acreditaríamos na justiça se os juízes que é justo fazê-lo. A razão disso é sim-
não usassem paramentos. ples: a nobreza ignora que, do ponto de
vista da “natureza”, somos todos iguais,
independentemente da condição à qual
pertencemos.
Contudo, quanto aos respeitos na- A fim de demonstrar esse ponto, Pas-
turais que consistem na estima, nós cal expõe a divisão entre dois tipos ou
não os devemos senão às grandezas espécies de grandezas – as estabelecidas
naturais; ao contrário, devemos des- e as naturais. Não é difícil adivinhar, se
prezo e aversão às qualidades opostas prestarmos atenção à escolha dos termos
a essas grandezas naturais. utilizados por Pascal, o que está em ques-
Não é necessário que eu o estime tão aqui. De um lado, há “grandezas” ar-
por ser o senhor um duque; mas é tificiais, isto é, estabelecidas pelos huma-
necessário que eu o reverencie. Se o nos; de outro, há grandezas naturais, que,
senhor é duque e homem honesto, eu nessa medida, não dependem de nossos
demonstrarei o que é devido a uma e a valores. Pascal nos diz que as “grande-
outra dessas qualidades. Eu não nega- zas estabelecidas” não são naturais. Elas
ria por nada, ao senhor, as cerimônias são, como fica claro pela continuação do
devidas à vossa condição de duque, trecho, arbitrárias e convencionais, pois
natureza e cultura

nem a estima merecida pela de ho- “dependem da vontade dos homens”.


mem honesto. Mas se o senhor fosse Daí os exemplos: “Num país, hon-
duque sem ser homem honesto, ainda ram-se os nobres; noutro, os plebeus;
assim eu lhe renderia justiça; pois, ao neste aqui, os anciãos; naquele outro,
lhe prestar os deveres exteriores que os jovens” e assim por diante. Há uma
a ordem dos homens ligou à sua nas- grande variedade de valores, porque
cença, eu não deixaria de nutrir pelo há uma grande variedade de costumes.
40 senhor o desprezo interior devido à Mas nem por isso valores instituídos pe-
sua baixeza de espírito.” (Pascal, “Se- los homens – as assim chamadas “gran-
dezas estabelecidas” – são menos reais. rece residir nisto: como compreender a
A base sobre a qual se fundam as gran- realidade de algo que não é natural – isto
dezas estabelecidas não é natural, mas é, que possui uma realidade artificial?
humana. “E isso por quê? Porque assim Os exemplos de grandeza natural talvez
quiseram os homens.” possam nos ajudar aqui: “as ciências, a luz
Entretanto, uma vez que os homens te- do espírito, a virtude, a saúde, a força”, eis
nham estabelecido algo, “aquilo se torna o que, conforme Pascal, constitui as “quali-
justo”. Esse ponto é importante. Ele nos dades reais ou efetivas da alma ou do cor-
revela que Pascal retoma a questão da di- po”. Não é difícil imaginar o que Pascal quer
versidade de culturas. Aquilo que é justo dizer com isso: qualidades como essas não
em um país pode não ser justo em outro. seriam convencionadas, nem estabelecidas.
Mas o reconhecimento de que as cul- Elas exprimem diferenças existentes entre
turas são diversas não os homens que não de-
conduz Pascal a concluir pendem dos costumes,
que os valores de uma mas da natureza.
cultura determinada não “As ciências, a luz do A diferenciação en-
devam ser respeitados, tre esses dois tipos de
pois, uma vez que uma
espírito, a virtude, grandeza é efetuada
lei ou costume tenha se a saúde, a força”, por Pascal não para re-
estabelecido, passa a exi- são exemplos de duzir a importância de
gir nosso respeito e obe- uma delas e enaltecer
diência: “torna-se justo”,
grandeza natural, a da outra. Seu obje-
como diz o texto. que constituem as tivo é apenas mostrar
Logo em seguida, Pas- “qualidades reais ou que cada um desses
cal explica o que devemos tipos de grandeza re-
entender por “grandezas
efetivas da alma ou quer uma atitude es-
naturais”. Ele começa do corpo”. pecífica. Grandezas
contrapondo as grande- estabelecidas merecem
zas naturais àquelas que um tipo de considera-
se fundam na “fantasia ção; grandezas naturais,
dos homens”. Isso nos leva a concluir que outro. Que tipo de respeito cada forma de
as grandezas estabelecidas, que se contra- grandeza pode esperar?
põem às naturais, se fundam nas conven- Em que consistem os “respeitos de es-
ções, quer dizer, na imaginação ou fanta- tabelecimento”, devidos às “grandezas­
sia dos homens. Já as grandezas naturais estabelecidas”? Em “cerimônias exteriores”
“consistem em qualidades reais ou efeti- que, embora não sejam falsas nem vazias,
vas da alma ou do corpo”. não devem ser tomadas como o reconhe-
Note bem: qualidades “reais ou efeti- cimento de qualquer qualidade real nos
vas”... Se as grandezas naturais são reais, indivíduos assim homenageados. O exem-
natureza e cultura

não deveríamos interpretar as grande- plo é muito claro e contundente: diante


zas estabelecidas, que se opõem a elas, de alguém “superior”, como um rei ou um
como grandezas irreais, superficiais, príncipe, temos de ser humildes e respeito-
irrelevantes? Mas já observamos que as sos. Mas isso – Pascal insiste sobre o ponto
grandezas estabelecidas também são, – não significa que esse rei ou esse príncipe
a seu modo, “reais”; elas se fundam em seja naturalmente superior a nós. Afinal de
convenções humanas, mas nem por isso contas, ser rei ou ser príncipe não é uma
deixam de possuir realidade, de serem condição natural, mas estabelecida pelos 41
efetivas. Toda a dificuldade do texto pa- seres humanos, com base em convenções
teressante e rica, isto é, a ideia de que
há uma realidade naquilo que não é na-
François Quesnel, o Jovem, Blaise Pascal (óleo sb/ tela, c.1691). Château de Versailles, França
tural. Assinalamos a ocorrência dessa
ideia no trecho que acabamos de dis-
cutir. Essa realidade corresponde às
instituições e práticas culturais. Os
costumes, ritos, instituições culturais
são tão reais quanto os fatos e aconte-
cimentos naturais. Mas são dois tipos
de realidade ou, se se preferir: “nature-
za” e “cultura” correspondem a ordens
de realidade diversas entre si.
Um segundo ponto a ser observado é a
relação do texto de Pascal com uma pos-
tura autocrítica de pensadores modernos,
Blaise Pascal (1623-1662) afirmava para quem a “civilização” traz consigo
que as grandezas naturais nada têm males inexistentes em sociedades mais
que ver com a fantasia dos homens. próximas da natureza (ver, nesta Unida-
São naturais, porque não dependem de, o módulo “Montaigne e os canibais”).
dos costumes. Pascal confere um alcance mais político à
diferença entre natureza e cultura. Ele se
ocupa de assinalar que há uma diferença
que Pascal afirma serem arbitrárias. Logo, entre a moral e a política.
uma grandeza estabelecida merece apenas A moral corresponde, grosso modo,
“respeitos de estabelecimento”. Seria tolo às “grandezas naturais”, como a vir-
recusar tal respeito. Mas seria errado con- tude – que devem ser estimadas e res-
fundir essa grandeza convencionada com peitadas por si mesmas. A política, por
uma grandeza natural. sua vez, corresponde às “grandezas
Sendo assim, pode bem acontecer estabelecidas”, que variam conforme os
que nos deparemos com alguém que costumes locais. Embora Pascal afirme
respeitemos devido a seu cargo ou que devemos respeito à autoridade polí-
função, mesmo sem o mínimo respei- tica, ligada às “grandezas estabelecidas”,
to quanto a suas qualidades naturais. ele também deixa claro que a autorida-
Por exemplo, um duque tem de ser de política vale pelo que ela é – uma
respeitado por ser duque; mas, se não convenção que, de resto, admite muitas
for um homem honesto, não merece- formas, variando de lugar para lugar.
rá ser respeitado segundo o critério Já a autoridade moral, ligada às “gran-
das grandezas naturais. No entanto, dezas naturais”, é válida por si mesma,
se porventura, além de duque, for um independentemente da condição ocupa-
natureza e cultura

homem honesto, nesse caso devere- da pelo indivíduo no corpo social.


mos honrar-lhe tanto suas grandezas Essa conclusão é decisiva para com-
estabelecidas quanto as naturais. preendermos a novidade da posição de
Pascal. Com base na utilização do par
A política, uma realidade de convenção natureza/cultura, Pascal propõe uma
Há muitas lições a extrair dessas li- diferenciação entre moral e política, de
nhas de Pascal. Comecemos por uma grande importância na reflexão moderna.
42 noção que à primeira vista pode até As diferenças morais entre os indivíduos,
parecer estranha, mas que é muito in- na visão de Pascal, independem das diver-
sas condições sociais e políticas e culturais legítimo quando zela por direitos univer-
que cada um deles exerce. São diferenças sais, isto é, direitos extensíveis a todos os
que permanecem mesmo quando a cul- cidadãos de um Estado, independente-
tura e a forma de organização política se mente de sua condição social, de seu cre-
modificam. Além disso, Pascal afirma que do, gênero ou raça. Pascal havia separado
não devemos confundir esses dois planos, o núcleo ético da humanidade das for-
o da moral e o da política. mas que sua organização social e política
Pascal viveu em meados do sécu- admitem. Os iluministas, especialmente
lo XVII. Não demoraria muito para os revolucionários franceses do fim do
que os iluministas, no século seguinte, século XVIII, tomaram essa distinção e
aprofundassem as intuições de Pascal, proclamaram que a política só é legítima
proclamando que o poder político só é quando se subordina à moral.

Direitos humanos no concerto das nações


Desenvolvimento individual por escrito direitos humanos não pode ameaçar a
diversidade das culturas, a começar por
No mundo contemporâneo, assisti- aquelas nas quais esses direitos não são
mos a vários tipos de conflito entre povos admitidos?
e culturas diferentes. É comum nos depa- • Com base nessas questões e con-
rarmos com a eclosão de guerras ou in- sultando a imprensa, desenvolva uma
tervenções militares em países distantes redação de aproximadamente duas pá-
sob a alegação de que seus governantes ginas. Inicie descrevendo um episódio
violam os direitos humanos. que possua as características menciona-
A objeção a este tipo de conduta e de das acima, quando, em nome da supres-
retórica consiste muitas vezes em recor- são dos direitos humanos, forças arma-
dar que a doutrina dos direitos huma- das de uma nação ou das Nações Uni-
nos pertence a uma cultura determina- das entram em conflito com um Estado
da, na qual surgiu e frutificou. Foi espe- ou região do planeta. (Alguns exemplos
cialmente no século XVIII que pela pri- possíveis: o conflito na ex-Iugoslávia, na
meira vez foram formuladas, na Europa década de 1990; a ação humanitária da
e no Ocidente, as declarações dos direi- ONU na Somália, em 1991; a guerra do
tos humanos universais. Daí a questão: Golfo, em 1991.) Após a descrição, redi-
será que esta doutrina não é particular ja um ou mais parágrafos expondo sua
a uma cultura? E, neste caso, ela não se- própria posição: você defende ou não
natureza e cultura

ria válida apenas em seu interior? Como, a universalidade irrestrita dos direitos
então, pretender estender e aplicar os humanos? Sendo positiva ou negativa
direitos humanos a todas as regiões do a sua resposta, procure justificá-la com
globo terrestre? Dito de outra forma, a base em argumentos que possam con-
afirmação incondicional da doutrina dos vencer seus colegas.

43
Rodin. Abram Shterenberg/RIA Novosti/Keystone
©Foto:

©Foto:
Auguste Rodin, O pensador (1902)

unidade 2 razão e
paixão
Uma espécie que
se diz racional............ 45 “S ó o homem, entre todos os animais, possui
razão.” Esta frase foi escrita por Aristóteles
(384-322 a.C.), filósofo que, como você já deve
Virtude e paixão......... 53
saber, viveu na Grécia Antiga. Vem dessa frase
A rejeição das e outras semelhantes de Aristóteles a mais
paixões....................... 59 famosa e mais repetida definição do ser humano:
um “animal racional”. Tal definição inclui o
A razão a serviço
ser humano entre os animais, mas, ao mesmo
das paixões................ 63
tempo, o diferencia deles por causa de sua
História, racionalidade.
razão e paixões......... 69
Uma espécie que se diz racional

Se o ser humano destaca-se de outras


espécies por ser racional, você já pode per-

Ulf Andersen | Getty Images


ceber que a razão é de enorme importân-
cia. Ela define o que é essencial do ser huma-
no, enquanto, de modo geral, suas demais
características podem ser encontradas
também em outras espécies animais.
Por outro lado, é bem provável que
você também já tenha ouvido pondera-
ções semelhantes a estas:

“Eu digo muitas vezes que o instinto


serve melhor os animais do que a razão
a nossa espécie. E o instinto serve me- José Saramago
lhor os animais porque é conservador, (1922-2010)
defende a vida. Se um animal come ou-
tro, come-o porque tem de comer, porque
tem de viver; mas quando assistimos a
cenas de lutas terríveis entre animais, o interessa discutir aqui. É a ideia de que o
leão que persegue a gazela e que a morde ser humano, embora seja dotado de razão,
e que a mata e que a devora, parece que o não se comporta inteiramente de acordo
nosso coração sensível dirá ‘que coisa tão com sua razão, porque é cruel, é indiferente
cruel’. Não: quem se comporta com cruel- em relação ao outro ou despreza os outros
dade é o homem, não é o animal, aquilo seres humanos.
não é crueldade; o animal não tortura, Vamos começar a refletir sobre essa
é o homem que tortura. Então o que eu ideia: o ser humano é racional, mas se com-
critico é o comportamento do ser huma- porta de maneira irracional. É claro que po-
no, um ser dotado de razão, razão disci- demos discutir se é sempre assim, se é com
plinadora, organizadora, mantenedora frequência ou se só algumas vezes, ou ainda
da vida, que deveria sê-lo e que não o é; o se isso se passa com todos, com a maioria
que eu critico é a facilidade com que o ser ou só com alguns dos seres humanos. Mas
humano se corrompe, com que se torna há uma noção que está na base de todas es-
maligno. [...] E é­ essa indiferença em rela- sas possibilidades: a de que a razão, sendo
ção ao outro, essa espécie de desprezo do uma característica do ser humano, possa
outro, que eu me pergunto se tem algum não ser efetiva nele, possa não ser exercida.
sentido numa situação ou no quadro de Essa é uma questão interessante e já
razão e paixão

existência de uma espécie que se diz ra- aponta para um dos significados mais
cional. Isso, de fato, não posso entender, fundamentais desse conceito de “razão”.
é uma das minhas grandes angústias.” Pois, se o ser humano é racional, mas se
(Carlos Reis, Diálogos com José Saramago. comporta de maneira irracional, então a
Lisboa: Editorial Caminho, 1998, p. 111) racionalidade, essa característica­de ser
“racional”, não é uma característica como
O autor dessas reflexões é o escritor ser alto ou baixo, ter olhos castanhos ou
português José Saramago. Há muitas verdes etc. Quer dizer, não é uma caracte- 45
ideias nessa citação, mas somente uma nos rística que é dada de uma vez por todas. O
ser humano pode se comportar de maneira
racional ou irracional. Isso significa que a

Museu de História da Arte, Viena


racionalidade é no ser humano uma facul-
dade, isto é, uma capacidade, e como toda
capacidade, ela pode ser exercida ou não,
como alguém que é capaz de fazer uma coi-
sa, mas, por diversos motivos, não a faz.
E o que caracterizaria essa capacidade
chamada “razão”? O que poderia impe-
dir que o comportamento humano fosse
racional? Para Saramago, o comporta-
mento humano não é racional porque o
ser humano comete ações cruéis, como a
tortura. Essa é uma maneira muito fre-
quente de entender a irracionalidade.
A irracionalidade se encontraria em
atos considerados maus. Se for assim, po-
demos entender que a racionalidade se en-
contra em atos considerados bons, como
ajudar quem precisa de ajuda, ser justo
com os outros, respeitar os outros etc.
Andrea Mantegna (1431-1506), São
É possível controlar as paixões?
Sebastião (c. 1459. Têmpera sb/ painel).
Isso significa, então, que toda vez que
O martírio dos santos é um caso evidente
agimos de maneira má deixamos de utili-
da “paixão” no sentido do padecimento.
zar nossa razão? Essa pergunta pode ser
substituída por outra: a racionalidade sig-
nifica apenas isso: agir de maneira boa? E, te a nova esposa de Jasão, como também
de novo, por que alguém deixaria de agir de mata os próprios filhos, frutos da união
maneira boa? Vamos tentar responder essa que teve com ele. O plano de Medeia é cas-
última questão a partir de um exemplo. Tra- tigar Jasão ao máximo e depois fugir para
ta-se de uma tragédia, de uma peça de tea- outras terras. O trecho a seguir é a cena
tro cujo desenrolar da ação termina em atos em que Medeia, abraçada aos filhos, cogi-
capazes de despertar, no espectador, sen- ta sua decisão de matá-los:
timentos de piedade e, ao mesmo tempo,
terror. Na Grécia antiga, as tragédias eram “Ai de mim! Ai de mim! Por que vol-
bastante apreciadas pelo público, a ponto tais os olhos tão expressivamente para
de haver concursos para escolher a melhor mim, meus filhos? Por que estais sor-
peça. Entre as diversas peças trágicas con- rindo para mim agora com este derra-
razão e paixão

servadas com o passar dos séculos, Medeia, deiro olhar? Ai! Que farei? Sinto faltar-
escrita por Eurípedes (480-406 a.C.), tem a -me o ânimo, mulheres, vendo a face ra-
ver diretamente com nossas questões. diante deles... Não! Não posso! Adeus,
A peça Medeia põe em cena a reação meus desígnios de há pouco! Levarei
da personagem-título quando vem a sa- meus filhos para fora do país comigo.
ber que seu marido, Jasão, casou-se mais Será que apenas para amargurar o pai
uma vez, tomando por esposa a princesa vou desgraçá-los, duplicando a minha
46 do reino de Corinto, onde eles residem. dor? Isso não vou fazer! Adeus, meus
Medeia não apenas envenena mortalmen- planos... Não! Mas que sentimentos
são estes? Vou tornar-me alvo de es-
cárnio, deixando meus inimigos impu-

Museu Hermitage, São Petersburgo


nes? Não! Tenho de ousar! A covardia
abre-me a alma a pensamentos vacilan-
tes. Ide para dentro de casa, filhos meus! 
Quem não quiser presenciar o sacri-
fício, mova-se! As minhas mãos te-
rão bastante força! Ai! Ai! Nunca,
meu coração! Não faças isso! Deves
deixá-los, infeliz! Poupa as crianças!
Mesmo distantes serão a tua alegria.
Não, pelos deuses da vingança nos in-
fernos! Jamais dirão de mim que eu
entreguei meus filhos à sanha de ini- J.-A. Watteau, Uma proposta constrangedora (1715-16).
migos! Seja como for, perecerão! Ora, O quadro, em estilo rococó, retrata uma cena amorosa
se a morte é inevitável, eu mesma, típica do início do século XVIII.
que lhes dei a vida, os matarei! [...]
Faltam-me forças para contemplar
meus filhos. Sucumbo à minha des- máximo Jasão, em seu amor de pai. Ora
ventura. Sim, lamento  o crime que Medeia cogita deixá-los naquela terra,
vou praticar, porém, maior do que mi- mas isso significaria expô-los à vingança
nha vontade é o poder do ódio,  causa do rei, cuja filha ela envenenou. Porém,
de enormes males para nós, mortais.” como mostra a última parte do trecho
(Eurípedes, Medeia. Trad. Mário da citado, Medeia decide matá-los, a fim de
Gama Kury. Rio de Janeiro: Zahar Edito- castigar seu marido. Ela sabe que comete-
res, 2001, pp. 62-64) rá um crime hediondo, mas expressa que a
paixão é mais forte que suas reflexões. Ela
Medeia se atormenta por causa do se refere à paixão do ódio e da vingança.
conflito entre sentimentos que, nessas “Paixão do ódio”? É mais comum ouvir-
circunstâncias, estão em oposição: o mos ou lermos essa palavra “paixão” rela-
amor materno e o desejo de vingança. cionada ao­sentimento de amor intenso
Para castigar Jasão, ela quer matar os entre duas pessoas, quando elas têm um
próprios filhos (que são também filhos grande prazer de estar juntas e são capa-
dele, lembre-se). Porém, tal castigo tam- zes de tudo para ficar juntas. É provável,
bém será terrível para ela mesma. Por no entanto, que você já tenha ouvido falar
isso hesita em executar seu plano. também da “Paixão de Cristo”, que designa
Ora Medeia cogita levá-los consigo, os sofrimentos pelos quais Jesus passou
mas isso significaria deixar de castigar ao até ser crucificado. A paixão é, nesse caso,
sinônimo de sofrimento, dor.
razão e paixão

Amor intenso de um lado, sofrimento


Paixão intenso de outro. Como uma mesma pa-
lavra pode significar coisas tão díspares?
Em sua origem, a palavra “paixão”
A explicação disso se encontra na origem
designava um estado de passivi-
dade, o estado de alguém passivo,
da palavra “paixão”, que designava um es-
que apenas sofre uma ação come- tado de passividade, o estado de alguém
tida por outrem ou por alguma coisa. passivo, que apenas sofre uma ação co-
metida por outrem ou por alguma coisa. 47
Nesse sentido, paixão se opõe a atividade.
A “Paixão de Cristo” expressa justamente Medeia não diz que uma de suas paixões
essa passividade de Jesus, que teve de su- é mais forte do que a outra: a paixão da vin-
portar sem reação sofrimentos horríveis, gança e a paixão do amor materno. Mas
culminando em sua crucificação. sim que a paixão da vingança é mais forte
Os sentimentos e as emoções não po- que suas reflexões, mais forte do que aqui-
dem ser escolhidos pelo ser humano a seu lo que ela delibera racionalmente como o
bel-prazer. Não podemos simplesmente es- mais correto a fazer. O conflito entre razão
colher sentir medo ou coragem, alegria ou e paixão se dá, no caso de Medeia, no mo-
tristeza. Por isso, os sentimentos e emoções mento da passagem da paixão para a ação,
foram e são vistos como fenômenos psicoló- quando resultará da paixão um determina-
gicos diante dos quais a alma humana seria do ato – manter em vida os filhos ou não.
passiva. Daí todos os sentimentos e emo- Porém o conflito já começa no embate
ções poderem ser chamados de paixões. entre sentimentos opostos. Aqui, a razão
Com maior frequência, porém, o termo não exclui os sentimentos, ela se apresenta
designa aqueles sentimentos e emoções como uma determinada maneira de lidar
que se apresentam de forma incontrolável, com os sentimentos, escolhendo aqueles
nos dominam por inteiro ou que temos cujas ações correspondentes são aceitá-
dificuldade em refrear. Por isso é comum veis. Mas isso significa justamente buscar
­dizer que a ira é uma paixão, mas também o controle sobre a paixão da vingança, que
o medo, o ciúme, o desejo, em geral todos é mais imperiosa, no caso de Medeia, que o
os sentimentos que, por sua intensidade, sentimento do amor materno.
afetam de algum modo o exercício da razão. O conflito de Medeia, o conflito entre
Conforme esse raciocínio, se a paixão paixão e razão explica por que muitas ve-
tende a nos dominar, a razão pode, por zes o ser humano deixa de exercitar ou
outro lado, ser mobilizada para controlar seguir sua razão. Ele deixa de fazer o que
a paixão. É o caso, quando ocorre na alma é racionalmente correto e aceitável, e a
um conflito entre paixão e razão, um paixão leva a melhor. A própria Medeia
conflito entre o que se deseja e o que se sabe que seu ato é irracional, que vai con-
considera certo fazer. É o caso de Medeia. tra o que ela mesma considera certo fa-
Warner Bros/Everett Collection/Keystone
razão e paixão

Michael Douglas em Um dia de fúria (Direção de J. Schumacker. EUA: 1993). O filme narra
a história de um desempregado que perde a cabeça e dá vazão à sua raiva diante de todos
48 que cruzam seu caminho.
zer. Ela sabe que o que está em jogo é um
crime terrível para os valores humanos, A LEI E OS COSTUMES
o assassinato dos ­próprios filhos. Medeia
está consciente de que cometerá um cri-

Associação Portuguesa de Apoio à Vítima / JWT


Infelizmente, a vio-
me. A paixão não a impede de perceber
lência contra a mulher
o significado de seu ato, e mesmo assim
permanece sendo um
ela o executa. Nesse aspecto, não se pode
fenômeno recorrente
dizer que a paixão a fez “perder a razão”,
em nossa sociedade.
como quando se diz que muita raiva nos
No entanto, tornou-se
faz “perder a cabeça”.
bem menos comum
Assim, a relação entre paixão e razão, na
nos depararmos com
tragédia de Eurípedes, não é uma relação de
decisões judiciais que
exclusão total, do tipo: onde há uma, não há
eximem de responsa-
outra. A razão simplesmente cede à paixão
bilidade os indivíduos
por uma questão de força. Ninguém pode
que as praticam sob a
dizer que Medeia não estava consciente do Cartaz português de
alegação de que agi-
significado de seus atos. No entanto, sua campanha contra a
ram em “defesa da
racionalidade não se exerceu por conta da violência da mulher.
honra”. Houve uma
potência da paixão. Você nota algo estra-
mudança tanto nos
nho nessa imagem?
costumes, quanto na
“Perder a razão”
interpretação dos fatos
Outra maneira de pensar a relação en-
por parte do poder judiciário, levando à convic-
tre paixão e razão é supor que, dada uma
ção de que o bem estar, a segurança e a vida
paixão extrema, a razão simplesmente se
são direitos que estão muito acima da “defesa
apaga, como nas expressões “perder a ca-
da honra”.
beça” ou “perder a razão”. Mas, se a razão
A Lei Maria da Penha, aprovada pelo Con-
se apaga, como se tivesse sido “desligada”,
gresso Nacional em 2006, exprime essas mu-
como é possível responsabilizar alguém
danças. Na Unidade Espírito e letra, módulo
por seus atos “apaixonados”, os que são co-
“Mudar a ‘letra’ para manter o ‘espírito’”, dis-
metidos por paixão? Somos responsáveis
cute-se um exemplo de nova interpretação
pela paixão, mesmo quando não há razão?
jurídica em face de mudanças nos costumes:
O código penal brasileiro, assim como
o estatuto da união estável.
o de muitos outros países, considera que
a paixão não exime de culpa o crimino-
so. Se um crime foi cometido por causa de ordem de autoridade superior, ou
de uma paixão, ainda assim quem o co- sob a influência de violenta emoção,
meteu deve responder por ele. “Respon- provocada por ato injusto da vítima.”
der por seu crime”, do ponto de vista da (Código Penal Brasileiro <http://www.
lei, significa receber uma pena, que varia planalto.gov.br/ccivil_03/Decreto-
razão e paixão

conforme a gravidade do ato cometido. Lei/Del2848.htm>, acesso em 18 de


Por outro lado, o mesmo Código Penal feveiro de 2016. A redação do item 3
Brasileiro diz o seguinte: do Artigo 65 é dada pela Lei 7.209 de
11/7/1984. Grifo nosso)
“Art. 65 - São circunstâncias que
sempre atenuam a pena: [...] Por muito tempo, esse artigo do Códi-
III – ter o agente: [...] go Penal foi utilizado nos tribunais para
c) cometido o crime sob coação a ate­nuar­­a pena para os chamados “crimes 49
que podia resistir, ou em cumprimento ­passionais”, crimes que a defesa dos réus
alegava terem sido cometidos sob fortes gumento, pois, mesmo tomada por uma
paixões. Isso ocorreu, em especial, em ca- paixão violenta, foi bem capaz de discernir
sos nos quais homens, alegando terem a qualidade de seu ato.
sido feridos em sua “honra”, cometeram São duas maneiras diferentes de ver
crimes contra suas esposas ou companhei- a relação conflituosa entre a paixão e a
ras. Graças à mobilização da sociedade ci- ­razão. No decorrer desta Unidade, você
vil, sobretudo do movimento feminista, poderá observar que essas maneiras de
mostrou-se que esse tipo de interpretação entender a relação entre a paixão e a ra-
dos fatos acobertava uma violência injusti- zão não são nem um pouco estranhas à
ficável contra os direitos da mulher. filosofia. Ao contrário, elas são tratadas de
Entre os juristas, ainda há muita dis- maneira qualificada pelos filósofos. Para al-
cussão sobre o que significa exatamente guns, sofrer a influência de paixões é algo
“violenta emoção” e “ato injusto da víti- natural do ser humano, e isso implica uma
ma”. Interessa-nos, sobretudo, o fato de ação da razão sobre as paixões, para que fi-
que a “violenta emoção” é um elemento quem sob controle.
que atenua a pena, reduzindo-a. A explica- Para outros filósofos, ao contrário, as
ção para isso é que o agente não estaria em paixões são como elementos estranhos
condições de medir seus atos, não estaria presentes na alma humana e que, portan-
em condições de exercer sua racionalidade to, devem ser enfraquecidas ao máximo
e, por isso, não estaria inteiramente cons- ou mesmo extirpadas dela. Nesse caso,
ciente de seus atos. as paixões são vistas quase como uma
Nesse caso – ao contrário de Medeia, em doença. É sobre essa última concepção que
que a razão cede à paixão –, a razão como se apoiam muitos advogados no processo
que teria sido eliminada diante da paixão, de julgamento de atos passionais violentos
da emoção violenta. Medeia, a mulher por parte de seus clientes, pleiteando a re-
­traída, provavelmente não aceitaria tal ar- dução das penas. Pois – argumentam eles
– se a paixão é quase uma doença, como
alguém poderia ser inteiramente respon-
sabilizado pelos atos provocados por ela?
©Foto: Hulton Archive/Corbis/Latinstock

Paixão, virtude e loucura


Mesmo admitindo-se que a paixão
seja uma espécie de patologia, de loucu-
ra – apenas isso bastaria para condená-la
completamente?
Essa pergunta tem endereço certo.
Você provavelmente já ouviu falar de Dom
Quixote, o personagem criado por Miguel
de Cervantes (1547-1616). Quixote é
razão e paixão

apaixonado por livros de cavalaria a tal


ponto, que passa a interpretar o mundo
em que vive como se fosse um romance
O escritor e cineasta Pier Paolo Pasolini (1922-
de cavalaria. Assim, sua paixão tem por
1975) foi encontrado morto numa praia perto de
consequência a perda do juízo. Contudo,
Roma. A imprensa e a sociedade italianas viveram
a despeito de sua loucura, Quixote revela
um intenso debate: seria um crime passional? Anos
possuir um excelente caráter. Você dirá:
depois, considerou-se que essa hipótese visava
50 sim, um louco pode ser um ótimo sujei-
encobrir um crime com motivações políticas.
to. Mas a coisa é mais complicada. Lendo
rística muito frequentemente associada
Estátua Don Quixote Plaza. Plaza de Espana, Madrid | James Mc Quarrie/123RF
ao conceito de paixão. Para muitos filó-
sofos, não é possível pensar a paixão sem
os sentimentos de prazer e desprazer.
Talvez seja este o motivo por que a razão,
como capacidade de conhecer a verdade e
de agir de maneira boa, tem dificuldades
diante das paixões. Associadas com sofri-
mento ou com prazer, elas se impõem a
toda força, pois a dor perturba e o prazer
produz bem-estar.
Vamos agora fixar alguns resultados
dessas considerações sobre razão e pai-
xão. Vimos que a razão é há muito tem-
po classificada como uma das caracterís-
ticas que definem o ser humano. Porém,
Dom Quixote, chamado “o cavaleiro da dado que o ser humano pode agir e pen-
triste figura”, e Sancho Pança, seu fiel escu- sar de maneira irracional, essa caracterís-
deiro, são célebres criações de Miguel de tica significa, antes de tudo, uma certa
Cervantes (1547-1616). faculdade, uma certa capacidade de agir
e pensar, que nem sempre está em com-
pleta atividade.
o romance de Cervantes, logo nos damos Enquanto capacidade, a razão às vezes
conta de que, a rigor, não há como sepa- não se exerce. Vimos então que as pai-
rar a nobreza de caráter de Quixote de sua xões humanas podem ser um dos prin-
loucura, de sua paixão pelos ideais de ca- cipais motivos para isso, já que suas exi-
valaria e, por fim, pelo seu desejo de agir gências podem não estar de acordo com a
como se fosse um cavaleiro. racionalidade e que são suficientemente
Também no caso de Medeia, embora fortes para superar a razão.
de modo indireto, a paixão se vincula ao As paixões podem afetar a razão em
prazer, o prazer de se vingar de Jasão. pelo menos dois sentidos: impedindo que
Antes disso, sua paixão de ódio é marcada ela se exerça na escolha da ação mais cor-
pelo desprazer, pelo sofrimento de se ver reta, considerada boa, ou impedindo que
traída. Dom Quixote, por sua vez, apesar ela exerça sua capacidade de conhecer as
de passar por dezenas de sofrimentos fí- coisas como são, fazendo com que o ser
sicos, vive em constante prazer. Tal é seu humano crie ilusões a respeito do mundo
prazer, que a imaginação sempre é g­ uiada e de si mesmo.
para ele: tudo se torna ocasião para ser Dessa maneira, a razão agrupa facul-
um nobre cavaleiro, todos os motivos dades que podem se exercitar de maneira
razão e paixão

da realidade, tal como ela é, são transfi- divergente: é possível que um indivíduo
gurados para que o ideal persista. Nesse aja de maneira correta e seja, no entanto,
sentido, o mundo ideal de Dom Quixote incapaz de conhecer a realidade; como,
também tem uma lógica interna, uma ló- inversamente, é possível que ele conheça
gica da ilusão. a realidade ao redor de si mesmo, mas aja
No entanto, independentemente do de maneira incorreta.
ponto a que chega Dom Quixote, sua pai- Por fim, vimos que a paixão está liga-
xão se vincula ao prazer como qualquer da a sentimentos de prazer e desprazer, 51
paixão. Pelo menos, essa é uma caracte- e talvez tire daí sua força sobre a razão.
Medeia versus Antígona
Debate em sala de aula e apresentação
de seminário

Formem uma equipe contendo de


três a cinco membros. Discutam em
aula a relação entre razão e paixão,
com atenção especial ao caso de Me-
deia, na tragédia de Eurípedes. Para
tornar essa discussão mais qualificada,
comparem a conduta de Medeia com a
conduta da protagonista de outra obra
muito significativa do teatro grego: An-
tígona, de Sófocles (496-406 a.C.).
É uma tragédia que traz a história
de outra mulher, cujo nome dá título
também à peça. Antígona se recusa a
acatar a ordem do rei de Tebas, seu
Creonte: E ainda assim teve a audácia de vio-
tio Creonte, que não fosse enterrado
lar as leis?
o corpo de Polinices, irmão dela. Mor-
Antígona: Por mim, ora, com certeza não foi
to em combate, Polinices havia lutado
Zeus quem determinou isso – nem foi a Justiça,
ao lado dos inimigos de Tebas. Por isso,
próxima dos deuses subterrâneos, quem orde-
quem desacatasse a ordem, cuidando
nou essas leis para os homens. Não vejo como o
dos funerais de Polinices, seria punido
decreto de um mortal como você teria força para
com a morte.
escapar às leis imutáveis, não escritas dos deu-
Era uma forma horrível de desonra,
ses. Ora, não é de hoje nem de ontem que elas
pelos costumes da época, não ser se-
vigoram, mas sempre, e ninguém sabe quando
pultado e acabar devorado pelos abu-
surgiram. Decerto eu é que não seria condenada
tres. Antígona desobedece à ordem de
perante os deuses, por temer as intenções de al-
Creonte e é descoberta. O trecho a se-
gum mortal. Bem sabia que eu havia de morrer,
guir apresenta o encontro de Antígona
com ou sem o seu decreto. Mas se vou tombar
e Creonte, depois de ela ser capturada
antes da minha hora, disso só tiro proveito. Pois,
por um dos guardas do reino.
para alguém como eu que vive cercada de tantos
“Creonte: E você aí, deixando pender males, como a morte não haveria de ser um be-
razão e paixão

a cabeça para o chão, diga: não nega ter nefício? E daí, dor nenhuma. De outro lado, se eu
cometido isso? tivesse deixado jazer insepulto o corpo que pro-
Antígona: Decerto não desminto e veio de minha mãe, isso é que seria doloroso. A
o afirmo. você, eu devo parecer uma louca. Mais louco, po-
Creonte: [...] Você sabia do decreto rém, é quem louca me considera.” (Sófocles, An-
que proibia fazê-lo? tígona, versos 441-470. Tradução nossa. Edição de
Antígona: Sabia. Como não havia referência: Antigone. Mark Griffith [ed.]. Cambridge:
de saber? Estava claro para todos. Cambridge University Press, 1999)
52
Virtude e paixão
É muito comum que uma ação boa,
um comportamento bom seja chamado
de “racional”, e que o inverso disso, uma
ação má, um comportamento mau seja
Gilson Camargo

chamado de “irracional”. Esses valores,


“bom” e “mau”, e seus comportamentos
correspondentes, são um assunto im-
portante da filosofia moral. Um compor-
tamento bom, digno de ser louvado, é
tradicionalmente chamado de “virtude”,
A obra teatral de Eurípedes
e um comportamento sistematicamente
ganhou inúmeras adaptações e
mau é chamado, por sua vez, de “vício”.
ainda hoje é encenada nos palcos
Assim, é muito comum dizer que uma
do mundo. (Medeia. Companhia
pessoa virtuosa é uma pessoa racional,
NBP Produções, 13/05/2010.
pois sua razão a faria agir e se comportar
Teatro Guaíra, Curitiba, PR).
de maneira boa.
A seguir, você lerá a passagem do livro
Ética a Nicômaco, de Aristóteles[+] (384-
322 a.C.), em que se discute o que vem a
ser, para esse filósofo, a virtude, e qual
• Conduzam a discussão em aula a partir
seria a relação desta com as paixões na
de duas questões:
alma humana. Antes de iniciar a leitu-
1) Vocês diriam que a conduta de Antígona
ra, saiba que “alma”, no vocabulário de
é mais razoável do que a de Medeia? Se sim,
Aristóteles, corresponde ao termo grego
com base no que defenderiam essa afirma-
“psykhé” e significa algo muito mais pró-
ção? Definam o que seria “conduta razoável”:
ximo do que compreendemos por “men-
aquela apoiada em argumentos? Se sim, iden-
te” do que por “espírito”.
tifiquem, no texto de Sófocles, os elementos
que atestam que Antígona justifica seus atos.
“Consideremos então o que é a vir-
2) Vocês classificariam a conduta de Medeia
tude. Uma vez que na alma se situam
como sendo completamente irracional? Caso
três tipos de coisas – paixões, faculda-
tomem esta direção, vocês terão de solucionar
des e disposições de caráter – a virtude
um problema. Medeia planeja sua vingança. Isso
deve pertencer a uma delas.
significa que ela calcula seus atos. E calcular é si-
Entendo como sendo paixões os
nônimo de raciocinar, de utilizar a razão. Logo,
sentimentos que habitualmente são
­
Medeia parece fazer um uso da razão, ainda que
acompanhados de prazer ou dor: os
se trate (por mais estranho que isso possa pare-
razão e paixão

apetites, a cólera, o medo, a audácia, a


cer) de um uso irracional da razão! Identifiquem,
inveja, a alegria, a amizade, o ódio, o
na literatura ou na vida real, outros exemplos de
desejo, a rivalidade, a compaixão. Con-
condutas como essa. Então procurem caracteri-
sidero como sendo faculdades aquilo
zar o que esses casos possuem em comum, em
graças a que se diz que somos capazes
contraste com o caso de Antígona.
de sentir tudo isso, a capacidade de nos
• Após o debate em equipe, exponham os
irarmos, de magoar-nos ou compade-
resultados de forma sucinta aos demais cole-
cer-nos. E considero disposições de ca-
gas, em forma de seminário.
ráter as coisas graças às quais a atitude­ 53
Museu Nacional Arqueológico, Atenas. Album/Dea Picture Library/Latinstock
Estudiosos reconhecem na formação (paideía) o valor de base dos gregos antigos.

que ­assumimos diante das paixões é dades que temos por natureza. Entre-
boa ou má. Por exemplo, diante da có- tanto, ninguém se torna bom ou mau
lera, nossa atitude é má, se a sentimos por natureza [...].
de forma violenta ou excessivamente Logo, uma vez que as virtudes não
fraca. Boa, porém, se a sentimos de são nem paixões, nem faculdades, só
forma moderada. E assim também no resta uma possibilidade: que sejam
que concerne às demais paixões. disposições de caráter” (Aristóteles, Éti-
Nem as virtudes, nem os vícios são ca a Nicômaco. Livro II, cap. 5 [1105b].
paixões, já que ninguém afirma que Tradução nossa)
somos bons ou maus por causa de nos-
sas paixões, mas por causa de virtudes As paixões nos seres humanos
ou vícios. Ninguém é louvado ou cen- Vejamos em que esse trecho de Ética
surado devido às paixões que possui a Nicômaco nos esclarece sobre a posição
[...], mas pelas suas virtudes e vícios de Aristóteles a respeito do par “razão” e
recebe louvores e censuras efetivas. “paixão”. Note que Aristóteles busca dar
Em contrapartida, não está em nos- uma primeira definição do que é virtude,
sa escolha sentir cólera ou medo. Já as aquilo que torna um ser humano bom e
virtudes são tipos de escolha, ou envol- digno de ser elogiado em algum aspecto.
vem escolha. Acrescente-se que com re- Como você pode perceber, ele conclui
razão e paixão

lação às paixões se diz que somos movi- que a virtude, assim como seu oposto, o
dos, já com relação às virtudes e aos ví- vício, é antes de tudo uma disposição de
cios não se diz que somos movidos, mas caráter. Para chegar a essa conclusão, ele
que possuímos tal ou tal disposição. faz uma enumeração das coisas que se
Por isso também, virtudes não são apresentam no interior da alma, e em
faculdades, já que ninguém é consi- seguida busca eliminar aquelas que não
derado bom ou mau, nem louvado ou podem ser chamadas de virtude.
54 censurado apenas por ser capaz de As três coisas que se encontram na
sentir paixões. Dispomos das facul- alma são as paixões, as faculdades, ou ca-
pacidades de sentir as paixões, e as dis- dades, das capacidades de sentir paixões.
posições de caráter. Aristóteles elimina Essa diferença parece um pouco estranha
as paixões e as faculdades, restando ape- à primeira vista. Por que sentir paixões é
nas as disposições de caráter. Vejamos, diferente de ser capaz de sentir paixões?
agora, as razões por que ele elimina as Certamente, não sentiríamos ódio ou
paixões e as faculdades. alegria se não houvesse algo em nós ca-
Primeiramente, em relação às paixões, paz de os sentir. Porém, o fato de termos
elas são definidas, de modo geral, como tal capacidade não significa que devemos
sentimentos acompanhados de prazer e sentir sempre essa ou aquela paixão.
dor. A alegria é um sentimento que nos É possível imaginar uma pessoa
dá prazer, o medo, por sua vez, geral- que nunca tenha sentido ódio ou in-
mente é sentido com sofrimento. Quem veja, mas é muito difícil imaginar uma
sente medo sente pessoa que não seja
também a apreensão capaz de sentir ódio
de que poderá ser ma- ou inveja. Entre a ca-
chucado ou destruído. pacidade de sentir e
A dor ou o sofrimento Para Aristóteles, o próprio sentimen-
pode, por outro lado, basta que o to, há uma diferença.
ser apenas o incômo- sentimento produza É essa diferença que
do, a insatisfação, a distingue as paixões e
perturbação, a infeli- na mente alguma a faculdade de sentir
cidade, causados, por sensação de prazer paixões, conforme o
exemplo, pela inveja ou de dor para texto de Aristóteles.
ou pelo ódio. Igual- Dada a definição
mente, o prazer pode que seja chamado de paixões como sen-
ser apenas um senti- paixão. timentos acompanha-
mento de satisfação. dos de prazer e dor,
Você pode notar, Aristóteles argumenta
desde já, que Aristó- que as virtudes e seus
teles entende por pai- opostos, os vícios, não
xões um amplo conjunto de sentimentos: podem ser confundidos com as paixões. E
todos aqueles que geram prazer e dor. por que não? Ele nos oferece três razões:
Não se trata, porém, de prazer e dor ime-
diatamente ligados ao corpo, como aque- 1. Ninguém pode ser chamado bom
la dor causada por um corte no dedo ou o ou mau, ser louvado ou censurado,
prazer causado por um prato suculento. por causa das paixões que sente.
Além disso, sua concepção de paixão Ao contrário, alguém é chamado
não corresponde à ideia, bastante comum bom ou mau devido às suas virtu-
entre nós, de que as paixões são apenas des ou vícios.
razão e paixão

os sentimentos avassaladores, que arras-


2. Ninguém sente paixões por escolha,
tam as pessoas de lá para cá, como é co-
de maneira deliberada, enquanto as
mum encontrar em filmes, telenovelas e
virtudes (e também os vícios) en-
letras de música. Para Aristóteles, basta
volvem escolha deliberada.
que o sentimento produza na mente al-
guma sensação de prazer ou de dor, para 3. Pode-se dizer que as paixões moti-
que seja chamado paixão. vam os seres humanos, mas não se
Por outro lado, Aristóteles sustenta pode dizer que as virtudes e os vícios 55
que as paixões são diferentes das facul- o façam; as paixões nos afetam, mas
roz gera medo na mente.
Ora, só podemos chamar “bom” e “mau”
Scuola Grande di San Rocco, Veneza.

aquilo que envolve uma certa e­ scolha. As


paixões, que não podem ser escolhidas
pela simples vontade do ser humano, não
devem ser chamadas boas e más, e nem o
ser humano pode ser chamado bom e mau
porque as sente. Se as paixões não são fru-
tos da escolha, então é preciso dizer que
elas não são provocadas pela mente ou
alma humana. São as paixões que provo-
cam um determinado movimento de alma
(o prazer, a dor), somos movidos em nossa
Tintoretto (1518-1594) foi um dos mais conhe- alma pelas paixões. Dessa maneira, as pai-
cidos pintores do estilo maneirista (Alegoria da xões indicam uma passividade da mente ou
felicidade, óleo sb/ tela, c. 1564) . da alma, uma vez que elas não são provoca-
das por nós mesmos; nós nos limitamos a
senti-las, não as criamos.
não somos afetados pelas virtudes;
A última observação (4) estabelece a
estas fazem com que tenhamos uma
diferença entre sentir a paixão, de um
disposição, uma certa atitude.
lado, e ter virtude, de outro. Paixões
Q
 uanto à diferença entre “virtude” são naturais, assim como as faculdades
e “faculdade de sentir paixão”, Aris- em nosso poder que nos levam a sentir
tóteles repete a primeira explicação paixões. Mas, embora sejam naturais, as
relacionada à diferença entre virtude paixões não estão desde sempre presen-
e paixão, mas acrescenta uma outra, tes na natureza humana, como é o caso
que é importante: das faculdades.
4. As faculdades são dadas por natu-
reza, mas ninguém se torna bom
ou mau por natureza.

Österreischische Galerie, Viena Album/Akg/Latinstock


Essas quatro razões estão relacionadas
entre si e, juntas, nos dão uma imagem
mais ampla do que Aristóteles entende
por “paixão”, e, com isso, por “virtude”.
Em primeiro lugar, trata-se de evitar que
apliquemos, para as paixões, as qualida-
des de “bom” e “mau”. Ninguém é bom ou
mau porque sente essa ou aquela paixão.
razão e paixão

Isso significa que as paixões não são boas


nem más nelas mesmas. E por que não?
A segunda razão explica de certa forma a
primeira: porque ninguém pode escolher
ter essa ou aquela paixão. Ninguém pode
Segundo Aristóteles, em nossa alma, só as pai-
intencionalmente querer ter essa ou aque-
xões nos movem (Franz Xaver Messerschmidt
la paixão. Ela simplesmente se apresenta
[1736-1783], O arquivilão, bronze, 1770).
56 na mente humana sob determinadas cir-
cunstâncias. A presença de um animal fe-
As paixões dependem das circunstân- covardia por excesso de medo. Se, por ou-
cias. Se não há motivo (real ou imaginário) tro lado, alguém, em vez de sentir medo,
para ter medo, ninguém sente medo. Mas resolve enfrentar tudo e qualquer coisa,
a capacidade de sentir medo está inscrita incorre no vício contrário: é um temerá-
na natureza humana, e assim o próprio rio, é audacioso demais. Tem o vício da te-
medo é um fenômeno natural. Porém, se meridade por escassez de medo. A virtude
as pai­xões são naturais, se não são escolhi- da coragem reside no meio termo desses
das, se não são causadas por nós mesmos, dois extremos. Ser corajoso exclui a covar-
não se pode dizer que elas sejam boas ou dia, mas também exclui a temeridade. É a
más. Ninguém se torna bom ou mau por maneira equilibrada de lidar com o medo.
natureza.
Dessa maneira, se as virtudes e os vícios A educação, o hábito e a virtude
são tudo aquilo que pode ser chamado bom Porém, você pode estar se pergun-
e mau, e se as paixões e as faculdades de tando: se as virtudes e vícios são bons e
senti-las não podem ser assim chamadas, maus, e se ninguém é naturalmente bom
então só resta dizer que as virtudes e os ou mau, como elas, enquanto disposições
vícios são disposições de de caráter, aparecem
caráter. Mas o que sig- na nossa alma? Como
nifica essa expressão: nos tornamos virtuo-
“disposição de caráter”? Ninguém pode ser sos? O termo “dispo-
Justamente aquilo que sição” significa uma
louvado ou censurado
nos faz ter uma deter- certa propensão a lidar
minada atitude em rela- por causa das com as paixões de uma
ção às paixões sentidas. paixões que sente. maneira ou de outra,
O exemplo de Aristóte- de tal modo que ela se
Ao contrário, alguém
les é claro: é mau sentir torne uma caracterís-
cólera de maneira vio- é chamado bom ou tica de nossa maneira
lenta ou muito fraca, e mau devido às suas de ser. Essa propen-
bom senti-la de manei- são, mais ou menos
virtudes
ra moderada. Não esco- estável, deve ser criada
lhemos ter as paixões, ou vícios. e exercitada por nós
mas podemos, isto mesmos, de modo que,
sim, escolher o modo diante de uma paixão,
de senti-las. Esse modo tendamos a lidar com
pode ser muito intenso, pouco intenso, ou elas dessa ou daquela maneira. Assim,
moderadamente intenso. conforme Aristóteles, é sobretudo o hábi-
Logo, as disposições de caráter são to que vai permitir criar uma disposição
aquilo que nos permite lidar de maneira de caráter e, portanto, uma determinada
boa ou má com as paixões. As virtudes e virtude ou vício.
razão e paixão

os vícios são justamente essa maneira de Esse hábito, por sua vez, é desenvolvi-
lidar com as paixões. A consequência é do pela educação e pela disciplina. Uma
evidente: as virtudes são o modo mode- boa educação nos leva a querer ser corajo-
rado, o ponto de equilíbrio entre um ex- sos e enfrentar os perigos de maneira pru-
cesso e uma falta, enquanto os vícios são dente, e com isso criamos em nós mesmos
os modos excessivos ou deficientes. Por a virtude da coragem, o que por sua vez
exemplo, considera-se covarde alguém nos leva de novo a lidar com o medo de
que sente medo e foge de tudo. Aristóte- maneira equilibrada. O hábito cria a virtu- 57
les diria ser alguém que possui o vício da de, a virtude fortalece o hábito.
No entanto, nada disso acontece se apresenta, por outro lado, na maneira
não houver escolhas, e as escolhas liga- como ele lida com as paixões. Ele não
das às virtudes são escolhas baseadas em busca evitá-las. Isso seria impossível,
pensamentos e reflexões. Dito de outro diria Aristóteles. Ele busca moderá-las,
modo, são baseadas na razão humana. agindo de maneira equilibrada.
Dessa maneira, as virtudes estão intima- Assim, a atitude ética racional – a
mente relacionadas com a racionalidade. virtude – não se opõe à paixão. Antes,
Um homem virtuoso é um homem ra- ela é fruto da educação da mente ou
cional: um homem que escuta sua razão. alma para lidar de maneira equilibrada
A racionalidade do homem virtuoso se com as paixões.

Schopenhauer, crítico de Aristóteles


Desenvolvimento individual por escrito xar enganar pelas alegrias e pelos praze-
res. Em vez de buscar essas alegrias, é
Arthur Schopenhauer (1788-1860) foi preciso renunciar à vontade de viver que
um importante filósofo alemão, que riva- está na base de todo sofrimento. Por
lizava com Georg W. F. Hegel (1770-1831) isso, Schopenhauer valoriza as técnicas
e exerceu influência sobre autores como hinduístas e cristãs de ascese, isto é, de
Friedrich Nietzsche (1844-1900) e Sigmund negação dos prazeres.
Freud (1856-1939). Em sua obra mais im- Ao contrário da ética aristotélica, Scho-
portante, O mundo como vontade e como penhauer não defende uma moderação
representação (Tradução: Jair Barboza. São das paixões e dos desejos. Antes, ele pro-
Paulo: UNESP, 2005), Schopenhauer tece põe agirmos de tal modo que possamos
considerações significativas sobre a ética, nos tornar indiferentes às alegrias (sem-
que podem servir como elemento de com- pre falsas) que a realização dos desejos
paração com a posição de Aristóteles. proporciona. O homem virtuoso, afirma
Segundo Schopenhauer, a ética dos Schopenhauer, “cessa de querer algo, evi-
gregos, com exceção de Platão, é uma éti- ta atar a sua vontade a alguma coisa, pro-
ca que busca uma vida feliz, ao passo que cura estabelecer em si a grande indiferen-
a ética dos cristãos e a ética dos hindus ça por tudo” (A. Schopenhauer, O mundo
são em geral éticas que buscam a renún- como vontade e como representação. Tomo
cia aos desejos, exercitando até mesmo, I. Trad. Jair Barboza. São Paulo: Unesp,
em algumas práticas ascéticas, a renúncia 2005, pp. 482-483).
à vontade de querer viver. • Tendo em vista esses dois pontos de
razão e paixão

Schopenhauer prefere as duas últi- vista tão distintos sobre a ética, elabore
mas àquela dos gregos, em que se des- uma redação de aproximadamente uma
taca a aristotélica. Para Schopenhauer, ou duas páginas, procurando desenvolver
a satisfação, a felicidade, é sempre algo seu próprio ponto de vista sobre o assun-
negativo, equivalendo à ausência de so- to: a vida feliz reside em saber ordenar as
frimento. A realização dos desejos é, no paixões pela razão (Aristóteles) ou em su-
fundo, a supressão momentânea do so- primir as paixões (Schopenhauer)? Ou nem
frimento que causou esses desejos. Ora, uma, nem outra dessas opções? Ou ambas,
58 se é assim, então não podemos nos dei- se é que podem ser conciliadas?
Schopenhauer
Arthur Schopenhauer (1788- após sua morte, para dois

Lebrecht / Keystone Brasil


1860) possui uma biografia com pensadores atuantes no
algumas curiosidades. Quando fim do século XIX e início
tinha dezoito anos, perdeu o pai do século XX, de extraor-
e acompanhou sua mãe em Wei- dinária relevância no pen-
mar, cidade em que viveu du- samento contemporâneo:
rante muitos anos J. W. Goethe Nietz­
sche (1844-1900) e
(1749-1832), o grande poeta do Freud (1856-1939).
classicismo alemão, que passou Dispomos de boas tra-
a frequentar a casa de sua famí- duções das obras princi-
lia. Schopenhauer faz seus estu- pais de Schopenhauer no
dos de literatura clássica e filosofia em Berlim. Brasil. Além da edição ci­tada de O mundo como
Em 1819, publica sua obra mais importante, vontade e como representação (Unesp, 2005),
O mundo como vontade e como representação, você pode consultar:
na qual polemiza com a filosofia de Immanuel A. Schopenhauer, Fragmentos para a his-
Kant (1724-1804). Passa a lecionar na Universi- tória da filosofia. Tradução: Maria L. Caciolla.
dade de Berlim, tornando-se colega de Georg São Paulo: Iluminuras, 2003.
W. F. Hegel (1770-1831), que atraía nessa época A. Schopenhauer, A arte de se fazer respei-
todas as atenções. Schopenhauer marca suas tar. Tradução: Maria L. Caciolla. São Paulo:
aulas nos mesmos horários das aulas de Hegel, Martins Fontes, 2003.
para tirar-lhe os estudantes, mas é inútil: sua A. Schopenhauer, Sobre o fundamento da
sala fica vazia, a de Hegel permanece cheia. A moral. Tradução: Maria L. Caciolla. São Paulo:
obra de A. Schopenhauer tornou-se decisiva Martins Fontes, 1995.

A rejeição das paixões


Há muitas maneiras de se pensar a homem que tivesse um único vício bem
relação entre a razão e a paixão. Para declarado do que a de quem os tem to-
Sêneca (4 a.C.-65 d.C.), autor do texto a dos, embora atenuados. De resto, são
seguir, a paixão está ligada intimamente irrelevantes as proporções de uma pai-
aos vícios humanos. Desse modo, ela se xão: por pequena que seja, recusa-se à
opõe à virtude e à razão. obediência aos ditames da razão. Tal
como nenhum animal é capaz de obede-
“Em meu entender, o que se verifica cer à razão – seja animal selvagem, seja
no homem de bem não é uma atenua- doméstico e manso (já que por natureza
ção dos defeitos, mas sim a sua comple- os animais são surdos aos conselhos) –
razão e paixão

ta ausência; os seus defeitos não devem assim também as paixões não acatam
ser diminutos, devem ser nulos, pois se nem escutam avisos, por mais reduzi-
possuir alguns, eles não tardarão a au- das que sejam. Os tigres e leões nunca
mentar e mesmo a tomar conta dele. O perdem a sua ferocidade, apenas ocasio-
mesmo sucede com a catarata: quando nalmente a atenuam, e quando menos
já completamente desenvolvida oca- se espera a sua violência domada pode
siona a cegueira, mas mesmo ainda no exasperar-se de novo. Os vícios não se
início já basta para dificultar a visão. dominam com boas maneiras. Aliás, 59
[...] Seria preferível a situação de um com o auxílio da razão, as paixões nem
modo como se nos dissessem que se
deve ter moderação na loucura ou na
doença. A virtude deve ocupar toda

Museu Nacional do Prado, Madri


a alma, pois os defeitos da alma não
são susceptíveis de moderação; é mais
fácil erradicá-los do que controlá-los.
Podemos duvidar de que aqueles vícios
da mente humana mais enraizados e
fortes a que chamamos ‘doenças do es-
pírito’ – tais como a avareza, a cruel-
dade, a falta de autocontrole – sejam
imoderados? Logo imoderadas são
também as paixões, já que se parte
sempre destas para chegar àqueles.
[...] Se não estiver na nossa mão a pos-
sibilidade de as paixões existirem ou
não, igualmente não estará o seu grau
Francisco Goya (1746-1828), O sono da de intensidade; se permitirmos o seu
razão produz monstros (gravura, 1787/98. aparecimento, elas crescerão em pro-
Série “Caprichos”). porção com as suas causas, e tornar-
-se-ão tão intensas quanto puderem.
Acrescenta-se ainda que todos os de-
sequer despertam; e se despertam con- feitos, por diminutos que sejam, têm
trariando a razão, persistirão nas mes- tendência a aumentar; tudo quanto é
mas condições. É bem mais fácil impedir nocivo ignora a justa medida; embora
que elas se originem do que dominar de- leves a princípio, as forças da doença
pois os seus ardores! vão-se insinuando em nós, até que
Consequentemente, essa atenua- um ligeiro acréscimo do mal abate os
ção dos vícios é não só falsa como inú- nossos corpos minados.” (Lúcio Aneu
til; devemos considerá-la do mesmo Sêneca, Cartas a Lucílio. Epístola 85.

Sêneca e o estoicismo antigo


Sêneca, ao lado de Cícero conhecimento de nosso lugar
De Agostini Picture Library / Glow Images

(106-43 a.C.) e Marco Aurélio na ordem universal das coisas


(121-180 d.C.), destaca-se como – que ele designa o “cosmos”.
filósofo e político dos mais pre- Dentre suas obras mais conhe-
eminentes no Império romano. cidas, você pode consultar:
razão e paixão

Sêneca foi leitor do estoicismo Sobre a brevidade da vida.


grego, que aprofundou e divul- Tradução: Gabriel N. Macedo.
gou na língua latina, tornando-se Porto Alegre: L&PM, 2006.
uma das principais fontes dessa Da vida feliz. Tradução: João
vertente muito tempo depois, C. Cabral Mendonça. São Paulo:
na época do Renascimento. Em Martins Fontes, 2009.
seus escritos, Sêneca propõe como modelo de Da tranquilidade da alma. Tradução:
virtude o indivíduo capaz de atingir a “ataraxia”, Lúcia Rebello e Itanajara Neves. Porto Ale-
60 isto é, a paz da alma ou da mente, por meio do gre: L&PM, 2009.
Tradução de José António Segurado
e Campos. Lisboa: Fundação Calouste
Gulbenkian, 2004, pp. 644-646)
A escola peripatética
Sêneca, crítico de Aristóteles
Ao ler a passagem de Sêneca, você Como Aristóteles costumava
deve ter notado que o autor se contra- lecionar caminhando, seus discí-
põe à ideia de que devemos moderar ou pulos ficaram conhecidos como
atenuar as paixões. Portanto, ele critica “peripatéticos”: em grego, “iti-
o conceito de virtude de Aristóteles[+] e nerantes”, “caminhantes”. É por
dos seus seguidores, que eram chamados­ isso que, no curso posterior da
de peripatéticos.
história da filosofia, se tornou
Em vez desse conceito de virtude,
ele nos propõe um outro bem diferente: comum encontrarmos referên-
o homem de bem, o homem virtuoso, cias à filosofia aristotélica como
é aquele que não tem nenhum defeito, “peripatética”.
isso significa dizer que ele não deve ter
nenhuma paixão, pois a paixão está na
origem dos vícios, e os vícios, por sua
vez, são doenças da alma.
param aos animais, que por natureza
Essa crítica se baseia em uma visão
não são dotados de razão ou são in-
bem diferente daquela de Aristóteles a
capazes de ouvir conselhos racionais.
respeito das paixões. Para Aristóteles, as
Essa comparação entre as paixões e
paixões seriam naturais do ser humano,
as feras não se dá por acaso. Segun-
e não coincidem nem com as virtudes
do Sêneca, as paixões são irracionais,
nem com os vícios. Elas nem mesmo po-
não fazem parte da razão humana e,
deriam estar na origem dos vícios, já que
portanto, são de natureza contrária à
estes são disposições de caráter que en-
natureza da razão. Sendo assim, se-
volvem escolhas do ser humano.
ria impossível para a razão moderar
Assim, se em Aristóteles a virtude e o
verdadeiramente as paixões. Quando
vício são definidos pela maneira como nos
menos se espera, elas atacam e domi-
relacionamos com as paixões, em Sêne-
nam a alma humana.
ca há uma total separação entre virtude e
Porém, trata-se ainda de uma com-
paixão. Para este último, “virtude” implica
paração, uma analogia com os animais.
a exclusão de toda paixão, porque toda pai-
Para provar que as paixões não podem
xão é o começo do vício. A oposição entre
ser moderadas, ele lança mão de um se-
virtude e vício, existente em Aristóteles, é
gundo argumento:
substituída, em Sêneca, por uma oposição
entre virtude e paixão.
2. Os vícios mais fortes, chamados de
razão e paixão

Você pode perceber, no texto citado,


“doenças do espírito”, como a ava-
que Sêneca nos oferece quatro argumen-
reza e a crueldade, são imoderados.
tos segundo os quais não seria possível
Ora, as paixões estão na origem
nem desejável tentar moderar as paixões.
desses vícios. Logo, elas devem ser
Vamos examiná-los um a um:
tão imoderadas quanto os vícios
aos quais chegaram. Elas não pode-
1. Se aceitamos que as paixões possam
riam ter se tornado vícios imodera-
ser fracas ou fortes, nem por isso elas
dos se já não fossem elas mesmas 61
são obedientes à razão. Elas se com-
imoderadas.
No entanto, é possível pensar que não que sejam de início, as forças da
dominamos as causas das paixões, causas doença acabam se desenvolvendo.
que estão fora de nós e que, portanto, são Este último argumento está inti-
independentes da nossa vontade. Essa é mamente ligado ao segundo. As
uma suposição que estaria bem próxima paixões são tomadas como “forças
daquela concepção de paixão defendida por da doença” pois elas estão na ori-
Aristóteles. Sêneca a aceita, mas isso lhe gem das “doenças do espírito”.
permite levantar um terceiro argumento Porém, é mais fácil combater a doença
contra a tentativa de moderar as paixões: no seu começo do que depois de desen-
volvida. Assim, para combater os vícios,
3. Se não podemos evitar a existência é preciso combater sua origem, as pai-
das paixões, então não podemos xões. É preciso eliminar as paixões logo
controlar seu grau de intensida- quando aparecem, porque, depois, já é
de. Em outras palavras, se a causa tarde demais. E é tarde demais quando
da paixão não está sob nosso con- se pretende “atenuá-las”. Uma vez ins-
trole, então temos ainda menos taladas na alma, dificilmente se poderá
controle sobre a intensidade que moderá-las.
ela adquire. Ela pode se intensifi- É possível que você se pergunte: como
car por conta própria, unicamente refrear e eliminar as paixões, mesmo em
conforme sua causa. estado inicial, se suas causas não estão
Por fim, Sêneca acrescenta um último sob o nosso controle? A resposta de Sê-
argumento: neca, como a de muitos outros que defen-
diam essa compreensão de virtude e de
4. Tudo que é nocivo não pode ter paixão (os pensadores chamados estoicos)
uma justa medida, uma medida consiste justamente no desprezo pelas
equilibrada. Logo, por mais fracas causas exteriores das paixões. Segundo
essa linha de pensamento, seria preciso
desprezar aquilo que suscita as paixões,
como os bens materiais em relação à am-
bição, e os perigos em relação ao medo. Se
não dermos nenhum valor a essas coisas
fora de nós, elas já não poderão suscitar
Roma, Piazza del Campidoglio. Foto: Jean-Pol Grandmont. CC-sa-3.0

as paixões.
Esse desprezo pelas coisas exteriores
deve ser incondicional, do contrário elas
podem tornar mais frequentes as pai-
xões, as quais se convertem em vícios.
Por sua vez, os vícios tendem a exagerar
o valor atribuído à causa exterior, difi-
razão e paixão

cultando mais e mais o desprezo por ela.


É dessa maneira que o vício atua como
doença: faz atribuir um grande valor a
coisas de pouco ou nenhum valor, levan-
do o indivíduo a persistir no erro.
Sendo incondicional logo de início, o
Cópia em bronze de estátua de Marco
desprezo pela causa exterior da paixão
Aurélio (121-180), imperador romano
62 faz dissipar a própria paixão, e a alma se
que foi adepto do estoicismo.
livra de uma doença.
A razão a serviço das paixões
As noções de razão e paixão, que se conformam a seus preceitos. Afir­
foram problematizadas no pensamento ma-se que toda criatura racional é
filosófico antigo, atravessaram a Idade obrigada a regular suas ações pela
Média e animaram a reflexão ética mo- razão; e se qualquer outro motivo ou
derna. Como já ocorrera na Grécia, tam- princípio disputa a direção de sua con-
bém na modernidade muitas vezes este duta, a pessoa deve se opor a ele até
par conceitual surgiu sob a forma de uma subjugá-lo por completo ou, ao menos,
alternativa: razão versus paixões. até torná-lo conforme àquele princí-
Uma contribuição decisiva para esse pio superior. A maior parte da filoso-
debate foi fornecida por David Hume[+] fia moral, seja antiga ou moderna,
(1711-1776), célebre filósofo escocês, cuja parece estar fundada nesse modo de
obra se tornou muito debatida na segunda­ ­pensar. E não há campo mais vasto,
metade do século XVIII. Hume tornou-se tanto para argumentos metafísicos
conhecido por seus ensaios, foi historia- como para declamações populares, que
dor e manteve laços profundos com os essa suposta primazia da razão sobre
intelectuais franceses que participaram a paixão. A eternidade, a invariabili-
da filosofia das Luzes (também designada dade e a origem divina da razão têm
como “Iluminismo” ou “Esclarecimento”). sido retratadas nas cores mais van-
Hume também é discutido em outras tajosas; a cegueira, a inconstância e
Unidades do livro que você tem em mãos, o caráter enganoso da paixão foram
como Dúvida e certeza (módulo “Os li- salientados com o mesmo vigor. Para
mites da dúvida ao garantir a certeza”) e mostrar a falácia de toda essa filoso-
Princípio e temporalidade (módulo “A fia, procurarei provar, primeiramente,
regularidade da experiência”). Aqui va- que a razão, sozinha, não pode nunca
mos nos ater a um aspecto do pensamen- ser motivo para uma ação da vontade;
to de Hume: a abordagem que ele propõe e, em segundo lugar, que nunca po-
ao tema “razão versus paixão”. deria se opor à paixão na direção da
A posição de Hume é muito inovado- vontade.” (Hume, Tratado da natureza
ra em relação a autores da Antiguidade, humana. Tradução: Daniela Danowski.
como Aristóteles[+] ou Sêneca[+]. A novi- São Paulo: Editora da Unesp, 2009, pp.
dade é que, para Hume, a razão está a 448-449)
serviço das paixões. Vejamos, por partes,
alguns trechos do Tratado da natureza hu- Você pode notar, já no primeiro parágra-
mana (1739-1740), em que Hume expõe fo desse texto de David Hume, que ele tem
suas principais ideias filosóficas. dois objetivos, que concernem diretamen-
te ao tema desta Unidade. Ele quer mostrar
razão e paixão

Combate entre razão e paixão? que não faz sentido falar em um combate
Iniciemos pela leitura de um trecho do entre razão e paixão e, por isso, que não
Tratado, de Hume: faz sentido falar que a razão deve ser supe-
rior à paixão, nem que a paixão deve obe-
“Nada é mais comum na filosofia, decer à razão. Com isso, Hume vai contra
e mesmo na vida corrente, que falar boa parte da filosofia moral, que trata das
no combate entre a paixão e a razão, ­questões ­sobre as virtudes humanas, sobre
dar preferência à razão e afirmar que o bem e o mal. Para alcançar seu duplo ob-
os homens só são virtuosos quando jetivo, Hume adverte seu leitor de que irá 63
mostrar que a razão não pode influenciar
a vontade e que a razão não pode se opor
à paixão na direção da vontade. Passemos,

Biblioteca Nacional da França


então, à continuação do texto de Hume.

A razão, instrumento das paixões

“É evidente que, quando temos a


perspectiva de vir a sentir dor ou pra-
zer por causa de um objeto, sentimos,
em consequência disso, uma emoção
de aversão ou de propensão, e somos
levados a evitar ou a abraçar aquilo
que nos proporcionará esse desprazer
ou essa satisfação. Também é evidente Aqui, a razão detém e controla a fúria, repre-
que tal emoção não se limita a isso; ao sentada pelo leão. Para Hume, o que se passa
contrário, faz que olhemos para todos é bem o contrário (Jean-Baptiste Chapuy
os lados, abrangendo qualquer objeto [1760-1802], A razão. Gravura, 1793).
que esteja conectado com o original
pela relação de causa e efeito. É aqui,
portanto, que o raciocínio tem lugar, tóteles, a virtude era um modo de con-
ou seja, para descobrir essa relação; e trolar, de moderar as paixões. Para Sêne-
conforme nossos raciocínios variam, ca, a virtude excluía todas as paixões. Em
nossas ações sofrem uma variação ambos os casos, a virtude está ligada à
subsequente. Mas é claro que, neste razão, embora de modos diferentes.
caso, o impulso não decorre da razão, Com seu objetivo duplo, a posição de
sendo apenas dirigido por ela. É a Hume é claramente diferente daquela de
perspectiva de dor ou prazer que gera Aris­tóteles e de Sêneca. Afinal, se, como
a aversão ou propensão ao objeto. E defende Hume, a razão não pode exercer
essas emoções se estendem àquilo que nenhuma influência sobre a vontade, nem
a razão e a experiência nos apontam pode se opor às paixões, então ela não po-
como as causas e os efeitos desse obje- deria nem moderar as paixões, nem impe-
to. Nunca teríamos o menor interesse dir que as paixões apareçam e direcionem
em saber que tais objetos são causas a vontade. Hume também dispõe de um
e tais outros são efeitos, se tanto as conceito bem diferente de razão, em com-
causas como os efeitos nos fossem paração com Aristóteles e Sêneca.
indiferentes. Quando os próprios ob- O que restaria, então, à razão em re-
jetos não nos afetam, sua conexão ja- lação às paixões, segundo Hume? Ela é,
mais pode lhes dar uma influência; e e deve ser, uma escrava das paixões. Para
razão e paixão

é claro que, como a razão não é senão Hume, um escravo não deve ser contrário
a descoberta dessa conexão, não pode ao senhor. Ele deve, em vez disso, servi-
ser por meio dela que os objetos são -lo, ajudá-lo. E como a razão ajuda as pai-
capazes de nos afetar.” (Hume, Trata- xões? Quando ela mostra as condições e
do da natureza ­humana. Tradução: D. os meios adequados para satisfazê-las.
Danowski, op. cit., p. 450) Vamos examinar agora como ele pro-
va que a razão não pode influenciar a
64 Vamos contrapor essa postura de vontade, ser o motivo de a vontade que-
Hume a dois autores antigos. Para Aris- rer algo e agir. Hume também apresenta
o que ele entende por paixões e o que ele mos indiferentes aos objetos, isto é,
entende por razão: se não tivermos interesse por eles. Se
eles não nos afetam, não buscamos
1. Paixões são, basicamente, as emo- saber o que é causa e o que é efeito.
ções de aversão e de propensão que Ora, os objetos nos afetam, temos in-
sentimos quando temos perspec- teresse por eles porque acreditamos que
tiva de vir a sentir dor ou prazer possam gerar dor ou prazer. Raciocina-
por causa de um objeto. Sentimos mos porque os objetos nos afetam, e não
repulsa por alguma coisa porque o contrário (eles nos afetam porque ra-
achamos que ela vai causar dor, e ciocinamos). Mas por que raciocinamos
sentimos propensão ou atração por quando alguma coisa nos afeta? Porque
alguma coisa porque achamos que precisamos saber quais são os meios que
ela vai nos causar prazer. permitem ter a coisa ou repeli-la. Esses
meios nos são informados pela razão, já
2. Razão é capacidade de descobrir a
que ela é capaz de estabelecer o que é a
conexão entre causa e efeito. A par-
causa provável e o que é o efeito provável
tir dessa descoberta, ela é também
de alguma coisa.
capaz de raciocinar: dado um objeto
qualquer, inferimos que ele é causa
A força das paixões
de um outro, que seria seu efeito,
Sigamos ainda um instante o raciocí-
ou, ao contrário, que ele é efeito de
nio de Hume, a fim de descortinar por
um outro, que seria sua causa.
que, ao seu ver, cabe à
Voltemos agora ao
razão somente obede-
que Hume quer pro-
cer às paixões:
var. Se a razão é uma
faculdade de desco- Para Hume, a razão “Nada pode se
brir relações causais é, e deve ser, uma opor ao impulso da
e de raciocinar, como paixão, ou retardá-
ela poderia ser o mo- escrava das paixões. -lo, senão um i­ mpulso
tivo para agir? Nós Um escravo não contrário; e para que
agimos porque racio- deve ser contrário esse im­pulso contrá-
cinamos ou raciocina- rio pudesse alguma
mos porque agimos? ao senhor. Ele deve, vez resultar da razão,
Se nós agimos porque em vez disso, servi-lo, esta última faculdade
raciocinamos, isso ajudá-lo. teria de exercer uma
significa que a razão influência original
criou em nós o impul- sobre a vontade e
so para agir. A razão ser capaz de causar,
criaria, nesse caso, bem como de impe-
razão e paixão

algo próximo da paixão ou igual à paixão: dir, qualquer ato da vontade. Mas se
uma aversão ou uma atração. Ao con- a razão não possui uma influência
trário, se raciocinamos porque agimos, original, é impossível que possa fazer
então o impulso para agir é anterior à frente a um princípio com essa efi-
razão. A resposta de Hume está na parte cácia, ou que possa manter a mente
final do parágrafo: em suspenso por um instante sequer.
Vemos, portanto, que o princípio que
3. Não temos interesse em saber qual se opõe a nossa paixão não pode ser
objeto é causa e qual é efeito se for- o mesmo que a razão, sendo assim 65
denominado apenas em um sentido a esperança ou o medo, a tristeza ou
impróprio. Quando nos referimos ao a alegria, o desespero ou a confiança,
combate entre paixão e razão, não está fundada na suposição da existên-
estamos falando de uma maneira filo- cia de objetos que não existem real-
sófica e rigorosa. A razão é, e deve ser, mente. Segundo, quando, ao agirmos
apenas a escrava das paixões, e não movidos por uma paixão, escolhemos
pode aspirar a outra função além de meios insuficientes para o fim pre-
servir e obedecer a elas [...]. tendido, e nos enganamos em nossos
A princípio, o que se pode pensar juízos de causas e efeitos. Quando
sobre esse ponto é que, uma vez que uma paixão não está fundada em fal-
nada pode ser contrário à verdade ou sas suposições, nem escolhe meios in-
à razão exceto o que se refira a ela de suficientes para sua finalidade, o en-
alguma maneira, e, uma vez que so- tendimento não pode nem justificá-la,
mente os juízos de nosso entendimen- nem condená-la. Não é contrário à ra-
to o fazem, deve-se seguir que as pai- zão eu preferir a destruição do mundo
xões só podem ser contrárias à razão inteiro a um arranhão em meu dedo.
enquanto estiveram acompanhadas Não é contrário à razão que eu escolha
de algum juízo ou opinião. De acordo minha total destruição só para evitar
com esse princípio, que é tão evidente o menor desconforto de um índio ou
e natural, um afeto só pode ser dito de uma pessoa que me é inteiramente
contrário à razão em dois sentidos. desconhecida. Tampouco é contrário à
Primeiro, quando uma paixão, como razão eu preferir aquilo que reconhe-
ço ser para mim um bem menor a um
bem maior, ou sentir uma afeição mais
forte pelo primeiro que pelo segundo.
Galleria Borghese, Roma.

Um bem trivial pode, graças a certas


circunstâncias, produzir um desejo su-
perior ao que resulta do prazer mais
intenso e valioso.” (Hume, Tratado da
natureza humana. Tradução: D. Dano-
wski. op. cit., pp. 450-452)

Agora você deve estar se perguntando, e


com muita sensatez, se essa crença­de que
algo pode gerar dor ou prazer se baseia em
uma relação de causa e efeito, e portanto
em um raciocínio. Por exemplo, diante de
uma fogueira, sabemos por experiência
que o fogo pode causar dor, raciocinamos
razão e paixão

assim e nos afastamos. Não foi a razão que


criou a aversão ao fogo, porque ela nos en-
sina que o fogo pode ser a causa da dor?
Mas Hume poderia responder a isso com
uma pergunta: você nunca viu gente que
O que pode a razão diante da
adora o fogo, que gosta até mesmo de pas-
paixão do amor? (Giorgione [1470-
sar a mão sobre ele constantemente?
1510], O cantor apaixonado. Óleo
66 Expectativas de dor e prazer são mui-
sb/ tela, c. 1510)
to relativas, cada indivíduo tem as suas,
elas não se explicam. Simplesmente temos
essa crença de que algo vai produzir dor

Yuri Arcurs/Dreamstime
ou prazer. Diante de um mesmo objeto ou
pessoa, alguns dentre nós podem se sentir
atraídos, porque acham que vão ter algum
prazer com esse objeto ou pessoa, enquan-
to outros podem sentir aversão, porque
acham que vão ter algum desprazer. Trata-
-se muitas vezes de preferências que não
podemos nem explicar, nem justificar. Há
pessoas que se apaixonam por outras que
nem conhecem de perto, que não sabem
como são e por quem vivem suspirando. Segundo Hume, a razão não decide aquilo que nos dá
Para Hume, portanto, somente as pai- prazer ou desprazer. Ela só pode nos auxiliar a conse-
xões podem impulsionar a vontade de agir guir obter aquilo que buscamos por nossas paixões.
desta ou daquela maneira. A razão pode
ajudar, pode informar, com base em ra-
ciocínios, o que nos aproxima ou afasta do
objeto. A razão nos diz como fazer fogo, razão e paixões. Ela não influencia a vonta-
para quem gosta de fogo, e como apagar de, a não ser de um modo.
o fogo, para quem não gosta de fogo. Mas
Como a razão serve às paixões
ela mesma não pode criar nem aversão
No restante do texto citado, Hume
nem atração pelo fogo. Note que, no tex-
quer mostrar fundamentalmente que a
to citado há pouco, são as paixões que nos
razão pode ser útil às paixões jus­tamente
levam a olhar para todos os lados a fim de
quando mostra para a von­tade quais são
descobrir o que pode estar ligado ao ob-
os meios suficientes para ­alcançar os ob-
jeto, por relações de causa e efeito. Em
jetos delas. Nesse ponto, ela pode ser con-
suma, são elas que nos levam a raciocinar,
trária não às paixões, mas às opiniões, aos
porque nos levam a agir, e não o inverso.
julgamentos errados que acompanham as
Isso significa que a razão não pode criar
paixões. Note que não se trata de nenhu-
motivos para impelir a vontade nessa ou
ma rebeldia da razão. Ela apenas informa
naquela direção. Somente as paixões são
à vontade que, se for o caso, aquilo que ela
esses motivos.
quer por causa de uma paixão não exis-
A razão não pode se opor às paixões te, e que, portanto, a paixão não pode ser
Hume mostra que a razão tampouco satisfeita. Ou ela informa que os meios
pode se opor às paixões. Seu argumento para atingir as finalidades da paixão não
está ligado ao primeiro. Se a razão não pode são suficientes e que, portanto, a paixão
influenciar a vontade, ela não pode criar tampouco pode ser satisfeita.
razão e paixão

um impulso nela que seja contrário a algu- Por exemplo, alguém crê que um ele-
ma paixão. Ela não pode nem mesmo sus- fante com asas existe e deseja vê-lo de
pender ou retardar a mente para agir con- perto. Cabe à razão mostrar que essa
forme uma paixão. A única maneira seria crença, essa opinião, é inteiramente falsa.
combater a paixão com outra paixão, mas, Que nunca se viu e que não se tem notí-
como vimos, a razão é incapaz de criar algo cia da existência de elefantes alados. Ou
idêntico ou similar a uma paixão. Se não há alguém quer comprar um carro vendendo
como se opor às paixões por meio da razão, sua ­bicicleta. A razão mostra que há uma
não faz sentido falar em um combate entre desproporção entre a finalidade, o carro, e o 67
meio, a venda da bicicleta. Esses exemplos enfatizar o que estava em jogo desde
são exagerados, mas o que importa aqui é o quando mostrou a incapacidade da razão
papel da razão. Ela não contraria as paixões, em influenciar a vontade. Preferência é
mas apenas suas suposições e seus cálculos. preferência, e não pode ser justificada ra-
cionalmente. A única coisa que resta à ra-
Nenhuma preferência pode ser
zão é mostrar que algumas preferências
racionalmente justificada
são irrealizáveis.
O último passo da argumentação é
somente uma explicitação do que vinha A razão nada decide
antes. Você pode notar que Hume usa Vejamos, para terminar, a conclusão
exemplos drásticos: não é contrário à ra- de Hume:
zão que eu prefira a destruição do mundo
inteiro a um arranhão em meu dedo, e “As consequências disso são evi-
assim por diante. Posso até mesmo es- dentes. Como uma paixão não pode
colher algo que sei ser menos proveitoso nunca, em nenhum sentido, ser dita
para mim do que algo muito mais provei- contrária à razão, a não ser que esteja
toso. Com esses exemplos, Hume quer fundada em uma falsa suposição ou

Eclipse da razão, de Horkheimer


Análise de texto e desenvolvimento indivi- é uma racionalidade corporificada nas re-
dual por escrito lações entre os seres humanos, no mundo
Pode-se concluir, do social e mesmo na natureza. Para Horkhei-
exame de Hume, que ele mer, a primeira é essencialmente uma ra-
Ullstein Bild | Getty Images

sustenta que a razão é zão instrumental, que lida apenas com os


um instrumento para as meios mais eficazes para alcançar fins da-
paixões: cabe-lhe calcular dos, não importando quais fins sejam es-
os meios exigidos para a ses. Já para a razão objetiva, importa antes
realização de fins que ela de tudo fundamentar os fins.
não escolhe. Essa concep- Ainda segundo Horkheimer, a razão
ção, que foi recusada por subjetiva e instrumental se impôs na épo-
muitos autores, também ca moderna como a racionalidade predo-
foi interpretada como um minante. Com isso, os seres humanos aca-
sinal dos tempos, como baram se tornando objetos, coisas, para si
se ela expressasse determinada visão so- e para os outros, já que sua razão se limita
bre como nos situamos no universo – uma a calcular e encontrar meios para fins que
razão e paixão

concepção que, como dirão alguns filósofos, ela mesma não define.
privilegia os aspectos instrumentais da razão. • Articule, elaborando um texto de no
É este, por exemplo, o ponto de vista de máximo duas páginas, os pontos de vista
Max Horkheimer (1895-1973). Em Eclipse da de Hume e de Horkheimer. Um caminho
razão (1947), uma de suas obras mais co- natural é seguir esse roteiro: (1): carac-
nhecidas, Horkheimer compara dois tipos terizar a posição de Hume; (2): expor a
de razão. Uma, subjetiva, outra, objetiva. objeção de Horkheimer; (3): exprimir sua
A razão subjetiva é a faculdade de conhe- própria posição a respeito dos problemas
68 cimento e de raciocínio lógico. A objetiva levantados nos pontos (1) e (2).
que escolha meios insuficientes para pensa assim. A questão, ele alega, é que
o fim pretendido, é impossível que confundimos a razão com algumas pai-
razão e paixão possam se opor mu- xões que estão tão arraigadas em nós,
tuamente ou disputar o controle da que são tão sólidas e calmas, que mal as
vontade e das ações.” (D. Hume, Trata- notamos no seu caráter de paixões.
do da natureza humana. Tradução: D. Por exemplo, o amor à vida. Ele é
Danowski, op. cit., p. 452) uma paixão tão firmemente enraizada
em nós, que não o consideramos como
Como você pode perceber, Hume reitera o que é, uma paixão, mas sim como algo
que, no combate entre as paixões, a razão próprio da razão. E por isso dizemos que
nada decide. Uma paixão é simplesmente é irracional desejar a própria destruição,
mais forte do que a outra e se impõe em de- como se isso estivesse fundado na razão,
terminadas circunstâncias. e não na paixão. Mas é um modo equi-
Mas será que somos realmente tão vocado de falar, segundo Hume, porque
caprichosos ou formidáveis, a ponto de não é a razão que está sendo prejudica-
preferirmos uma coisa de pouco valor a da, mas uma outra paixão bem enraiza-
outra de muito valor, ou mesmo a pró- da em nossa natureza humana: nosso
pria destruição? O próprio Hume não amor pela vida.

História, razão e paixões

As paixões humanas não são imutá- “entre prazer dos sentidos e paz de alma
veis. Elas estão inscritas em um percurso só resta ao homem a angustiante escolha”
histórico. Podemos dizer que a história da (Friedrich Schiller, “O ideal e a vida” , versos
humanidade é também a história das nos- 7-8. Tradução nossa. Edição de referência:
sas paixões. Elas, assim como a razão, evo- Sämtliche Werke. Munique: Hauser, 1962,
luem no decorrer dos tempos. Por isso, a vol. 1, p. 201)
relação entre a razão e as paixões é dinâmi-
ca, ela se altera no tempo. Em um momen- O autor destas linhas é o famoso poeta,
to, pode haver certo equilíbrio entre elas. dramaturgo e filósofo alemão Friedrich
Em outro, esse equilíbrio pode ser rompi- Schiller (1759-1805), que refletiu profun-
do, para depois, talvez, ser recomposto. damente sobre as questões morais levan-
Se as paixões possuem historicidade (isto tadas pelo par “razão e paixões”.
é: se elas se alteram conforme o contexto Nos versos citados acima, os dois con-
histórico da sociedade em questão), como, ceitos, como já advertimos, são confronta-
então, elas se apresentam nos tempos mo- dos entre si. O homem, diz o poema, vê-se
dernos? Haverá diferenças importantes muitas vezes diante da escolha entre o pra-
razão e paixão

entre a Antiguidade e a Modernidade? Po- zer sensual (os sentidos, as paixões) e a paz
demos explicar essas diferenças com base da alma. Esta última evoca a serenidade
nas maneiras como cada etapa da história que o estoicismo antigo converteu em ideal
humana articula paixões e razão? de sabedoria, que equivale ao domínio da
razão sobre as paixões.
A consciência dividida da Modernidade Qual dos dois lados você negligencia-
Vamos discutir essas questões toman- ria: a razão ou os sentidos? E qual c­ aminho
do como ponto de partida dois versos de toma nosso poeta-filósofo: o da razão ou o 69
um poema escrito no fim do século XVIII: da sensualidade das paixões? Ou será que
Schiller, contrariando nossa curiosidade tão em conflito, independentemente das
e recuando diante de nossa pressa por circunstâncias em que nos encontramos,
­encontrar respostas, achou melhor não da época em que vivemos, da cultura em
tomar partido nessa disputa? que nos inserimos. É essa, ao que tudo
Note que esta última interpretação indica, a avaliação dos filósofos estoicos
é perfeitamente cabível e coerente com antigos. Paixões – diz o filósofo romano
a ­letra dos versos citados. Pode bem ser Sêneca[+] – são como doenças da alma. E,
que Schiller, ao invés de querer nos levar como tais, têm de ser extirpadas, hoje,
a aderir a um dos partidos, esteja pondo ontem, sempre.
a ênfase sobre a “assustadora” ou “angus- Mas você não é obrigado a seguir o ra-
tiante escolha” que a humanidade se vê ciocínio de Sêneca e, menos ainda, a se
pressionada a fazer entre os sentidos e a tornar um estoico. E, se a ideia for reba-
razão. Schiller talvez esteja lamentando o ter Sêneca, um bom começo para isso é
fato de que, em sua época, razão e praze- assinalar exatamente o caráter histórico
res se situem em campos opostos. das paixões...
Não seria possível, quem sabe em outro Vamos levar a comparação adiante.
tempo, encontrá-los alinhados sob as mes- Ora, sabe-se que há inúmeras doenças
mas fileiras? Se isso se confirmasse, nesse associadas aos hábitos sedentários da
caso a humanidade não estaria irremedia- sociedade contemporânea. Algumas en-
velmente condenada a escolher um dos fermidades do passado desapareceram,
dois lados momentaneamente em conflito. outras surgiram e outras tantas se modi-
Essa interpretação é reforçada por ficaram ao longo do tempo.
uma observação que nós podemos tirar O mesmo vale para nossos gostos, e
de nosso dia a dia. Ter de fazer uma “an- também no campo dos costumes e das
gustiante escolha” significa ter de tomar opiniões. Pode ocorrer, por exemplo, que
uma decisão em um contexto de cons- algo que era chique há pouco tempo tenha
trangimento e pressão. Qualquer um que hoje se tornado completamente fora de
já tenha passado por isso sabe que, em moda. Se as doenças, os gostos e as ten-
geral, decisões tomadas no calor da hora, dências se modificam no curso do tempo,
de modo precipitado, costumam produ- por que seria diferente com as paixões?
zir resultados indesejados.
Ora, talvez seja exatamente isso o que A história de nossos sentimentos
Schiller queira nos mostrar com esses dois Admitamos, por um instante, que as
versos. Talvez ele esteja chamando aten- paixões e os sentimentos possuem uma
ção para o fato de que, enquanto tiver de história, que sofrem variações confor-
optar pela razão ou pelos prazeres, a hu- me o momento e o lugar – enfim, que
manidade estará em apuros. Segundo essa mudem segundo o contexto em que es-
leitura, os versos não querem nos fazer tão inseridas.
decidir entre razão ou paixões, mas sim Nesse caso, já não será difícil imaginar
razão e paixão

enfatizam a situação embaraçosa que nos que a oposição entre razão e paixão seja
obriga a escolher um desses lados. datada, momentânea e – por que não? –
Será que tal situação é incontornável modificável, dinâmica.
e a escolha, necessária? Ou ela depende Se for mesmo assim, o constrangi-
de circunstâncias específicas, que, uma mento a que se vê submetida a huma-
vez bem compreendidas e enfrentadas, nidade, ao ter de obrigatoriamente op-
poderiam ser superadas? tar pela razão ou pelas paixões, poderá
70 Você pode ser da opinião, por exem- ser passageiro. A “angustiante escolha”
plo, que a razão e as paixões sempre es- do verso de Schiller pode ser o sintoma
Schiller e “Tempestade e Ímpeto” (o pré-romantismo)
Friedrich Schiller (1759-1805) teve como pai se importando com
um militar de Würtemberg, na Alemanha. Em- a razão. A posição

Biblioteca de Artes Decorativas, Paris


bora tenha tido uma infância modesta, contou final de Schiller
com o apoio do Duque de Würtemberg para se- sobre esse assunto
guir em seus estudos. Forma-se em medicina e é um pouco mais
passa a exercer a profissão, ao mesmo tempo complicada do que
em que escreve peças de teatro e poesia. Co- a simples opção por
nhece Johann W. Goethe (1749-1832) em 1788, um dos partidos em
ano em que obtém um cargo de professor de disputa (a razão, de
história da filosofia na Universidade de Iena. um lado, e as pai-
Por causa de uma doença pulmonar, morre em xões, de outro).
Weimar, com 45 anos de idade. Para as obras
Schiller ocupa um lugar decisivo na história de Schiller em por-
da literatura e da dramaturgia modernas. Ao tuguês, dispomos
lado de J. W. Goethe, Schiller protagonizou o de excelentes traduções:
movimento “Tempestade e Ímpeto”, que está F. Schiller, Poesia ingênua e sentimental. Tra-
na origem do Romantismo alemão. São carac- dução M. Suzuki. São Paulo: Iluminuras, 1991.
terísticas centrais dessa corrente, que incluiu F. Schiller, A educação estética do homem.
artistas, poetas, escritores e dramaturgos, a re- Tradução R. Schwarz e M. Suzuki. São Paulo:
beldia contra a ordem e a defesa da fantasia e Iluminuras, 1990.
do gênio como impulsos da atividade poética. F. Schiller, Do sublime ao trágico. Tradução
Informar-se sobre o contexto no qual P. Süssekind e V. Vieira. Belo Horizonte: Au-
foram escritos os versos citados no início deste têntica, 2011.
módulo é útil para examinarmos mais de perto Para uma boa edição de uma tragédia de
o que o poeta quis dizer com eles. Sabemos Schiller, do período de “Tempestade e Ímpe-
que Schiller foi romântico, quando jovem. Em- to”, veja:
bora já tivesse questionado o Romantismo ao F. Schiller, Intriga e amor. Tradução de M.
redigir esses versos, seria difícil imaginar que, L. Frungillo. Editora da UFPR: 2005.
diante da alternativa, Schiller optasse pela Para a troca de cartas entre Schiller e
razão e descartasse as paixões. ­Goethe, veja:
Por outro lado, engana-se quem pensa que J. W. Goethe, Goethe e Schiller – Compa-
Schiller tenha sido um ferrenho defensor das nheiros de viagem. Tradução: C. Cavalcanti.
paixões e, de modo geral, dos sentidos, pouco São Paulo: Nova Alexandria, 1993.

de uma época determinada, não de todas pensadores do século XVIII, elogiava a


razão e paixão

elas. Em outro tempo (passado ou futu- civilização da antiga Grécia exatamente


ro), marcado por outras paixões e senti- por isso. Conforme Schiller, os gregos
mentos, caracterizado­por outra forma da Antiguidade viviam sob um regime
de vida, a humanidade talvez não tenha no qual razão e paixões constituíam um
se visto (nem precise se ver) obrigada a todo harmonioso. Entre os gregos, no
escolher entre os sentidos e a razão, um entender de Schiller, natureza e cultura,
excluindo o outro. sensibilidade e racionalidade estavam em
Comecemos pela Antiguidade gre- harmonia. É o que ele afirma neste outro 71
co-romana. Schiller, assim como outros escrito seu:
“Quando se recorda a bela natu-
reza que envolvia os gregos antigos;

Biblioteca Nacional da França


quando se reflete sobre quão intima-
mente esse povo podia viver com a
natureza livre sob seu céu feliz; quão
mais próximos estavam da nature-
za simples seu modo de representar,
sua maneira de sentir, seus costu-
mes, e que reprodução fiel dela são
suas obras poéticas, é de estranhar
a constatação de que nesse povo se
encontrem tão poucos vestígios do in-
teresse sentimental com que nós ou-
tros modernos podemos apegar-nos a
cenas e caracteres naturais.” (Schiller,
Poesia ingênua e sentimental. Tradução
de Marcio Suzuki. São Paulo: Iluminu-
ras, 1991, pp. 54-55)
“– Bela dama, aceitaria meu braço?
– Sua paixão é sutil demais para que
Antes de mais nada, saiba que Schiller
eu possa crer nela!” (Honoré Daumier
utiliza o termo “sentimental” em um sen-
[1808-1879], litografia, 1851)
tido distinto do comum. “Sentimental”,
para Schiller, significa “reflexivo” e, em
alguma medida, “melancólico”.
O indivíduo sentimental, nesse caso, sentar convergiam com o natural. Já nós,
é aquele que possui consciência de que modernos, não; abriu-se uma grande dis-
perdeu algo decisivo: sua relação direta tância entre nosso modo de compreen-
com a natureza. É dessa relação direta e der, sentir as coisas e, de outro lado, a
imediata com a natureza que, conforme natureza. O interesse sentimental que
Schiller, os gregos da Antiguidade dão temos pela natureza demonstra isso: nós
testemunho. Por isso, para Schiller, os agimos sentimentalmente porque sabe-
gregos antigos caracterizam-se por uma mos que há uma grande distância a nos
atitude “ingênua”. separar da natureza.
Com isso, ele não quer dizer que os É por isso que Schiller afirma, na mes-
gregos fossem tolos, mas apenas que ma obra, que “nosso sentimento pela
eles estariam muito mais próximos da natureza assemelha-se à sensação do
“natureza simples” do que nós, moder- doente em relação à saúde” (Schiller, Po-
nos. O “modo de sentir” deles – o que esia ingênua e sentimental, op. cit., p. 56).
inclui seus sentimentos e paixões – era Desejamos a natureza porque nos torna-
razão e paixão

mais espontâneo. mos pouco naturais e até mesmo artifi-


A Modernidade, ao ver de Schiller, ciais. Já os gregos, não; eles eram espon-
complicou as coisas... A tal ponto que é tâneos, joviais ou, como diz Schiller: os
muito comum sentirmos um “interesse gregos eram “ingênuos”.
sentimental” pela natureza, coisa que os
gregos praticamente desconheciam. A divisão do ser humano moderno
O motivo disso é que os gregos usu- É bem possível que o retrato que
72 fruíam a natureza, viviam em harmonia Schiller traçou dos gregos seja o resulta-
com ela. Sua arte, seu sentir e seu repre- do de alguma idealização. Mas não é nis-
so que estamos interessados aqui. Mais dos gregos, na Antigui­dade, era ingênua,
importante é o fato de que, por meio da com isso querendo dizer: espontânea,
referência à Grécia antiga, Schiller apon- harmoniosa, direta. Por outro lado, nós,
ta para as características contraditórias modernos, somos todos “sentimentais”,
e conflituosas de seu próprio tempo, na medida em que temos consciência de
do qual a nossa época é uma extensão. que a civilização e a cultura, por terem se
Esse tema é importante para a filosofia: desenvolvido muito, nos tornaram, em
quais são, afinal, as singularidades dos certa medida, artificiais.
tempos modernos em relação às épocas O raciocínio de Schiller soa plausí-
antigas e medievais? vel em nossos dias. Pode-se considerar
Uma questão tão ampla quanto essa aceitável que passemos horas na fren-
possui muitos aspectos, dos quais discu- te da televisão ou do computador, por
tiremos apenas um. exemplo, ou que concebamos projetos
Vimos que, para Schiller, a Grécia an- espaciais ou busquemos petróleo nas ca-
tiga representa uma prova de que a “an- madas profundas do oceano. Mas numa
gustiante escolha” que a humanidade coisa Schiller parece ter razão: dificil-
tem de fazer entre sensi- mente alguém diria que
bilidade e razão não vale isso é “natural”...
para todas as épocas da Não faltam exemplos
história ou para todas Conforme Schiller, para ilustrar que o pro-
as sociedades. Na Grécia gresso da cultura – ou, se
os gregos da
antiga, ele argumenta, a preferirmos, das ciências
humanidade não se de- Antiguidade viviam e das artes – modificou
parava com a tarefa de sob um regime no profundamente nosso
escolher pela razão ou modo de vida. Por um
qual razão e paixões
pela sensibilidade, pois lado, algumas dessas
era capaz de incorporar constituíam um mudanças vieram para
ambas em uma única todo harmonioso. melhor. Pense na des-
forma de vida. coberta da vacina ou da
Em contrapartida, a anestesia, na invenção
época moderna é proble- da imprensa, dentre tan-
mática. Nela, a humanidade se separou de tas outras coisas. De outro lado, também
si mesma; o ser humano se dissociou de é verdade que o progresso trouxe junto
sua essência, deixou de ser o que era natu- consigo hábitos e costumes que mui-
ralmente. Ter de escolher entre dois par- tos pensadores julgaram questionáveis.
tidos (as paixões ou a razão) é uma tarefa Mais importante que isso, o desenvol-
que se impôs para nós, modernos. E isso, vimento técnico e científico, ao lado da
porque foi na Modernidade que a relação complexidade cada vez maior da vida
entre sensibilidade e razão, anteriormen- social contemporânea, parece ter modi-
razão e paixão

te harmônica, se tornou conflituosa. ficado profundamente nossas paixões,


O que fazer, então? A primeira ati- assim como nossa própria razão.
tude a tomar, de acordo com Schiller, é Nesta mudança reside o problema le-
ter consciência de nossa condição. Não vantado por Schiller. Haveria como recu-
adianta querer ser ingênuo nos tempos perar, no presente, a articulação harmo-
modernos, por exemplo. E você já sabe niosa entre paixões e razão, característica
que este adjetivo, “ingênuo”, possui signi- da Antiguidade? Como reconciliar a hu-
ficado filosófico para Schiller. “Ingênuo” manidade consigo mesma, em uma épo- 73
é o oposto de “sentimental”. A atitude ca em que nos vemos tendo de escolher
por um dos lados que constituem nosso o desenvolvimento das ciências e das ar-
ser – a sensibilidade ou a razão? tes, os avanços tecnológicos, a sofistica-
De acordo com Schiller, contornar essa ção da vida, a divisão do trabalho – todos
alternativa entre razão ou sensibilidade é esses fenômenos romperam a unidade,
o grande desafio da filosofia. A tarefa fi- existente na Grécia antiga, entre razão e
losófica por excelência reside, conforme sensibilidade. A consciência moderna é
Schiller, em superar a alienação que pesa uma consciência dividida, cindida, entre
sobre a condição humana ­moderna. os dois opostos que a constituem.
Nos dicionários, “alienação” significa:
(i) “cessão de bens, venda”; (ii) “perturba- A arte: ponte entre sensibilidade
ção mental”; (iii) “indiferença em relação e razão
ao que se passa em volta; alheamento” Que solução dar para a alienação mo-
(Dicionário Unesp do português contem- derna? Em uma obra publicada em 1795,
porâneo. São Paulo: Editora da Unesp, Schiller formula explicitamente esse pro-
2004). Alienar-se significa também tor- blema, ao indagar-se o seguinte: “como
nar-se estranho a si mesmo. reconstituiremos a unidade da natureza
É neste sentido que o termo “aliena- humana, que parece completamente su-
ção” tem a ver com as questões discuti- primida por esta oposição originária e
das aqui por Schiller. O ser humano, na fundamental?” (Schiller, Cartas sobre a
Modernidade, alienou-se, tornou-se es- educação estética do homem. Tradução de
tranho a si próprio. Já sabemos o porquê: R. Schwarz e M. Suzuki. São Paulo: Ilumi-
nuras, 1990, p. 71).
Para isso, é preciso levar em conta
que o ser humano não é apenas razão e
tampouco apenas paixão. Contentar-se
com uma ou outra dessas duas caracte-
rísticas da humanidade corresponderia,
Museo Thyssen-Bornemisza, Madrid.

diz Schiller, a uma visão parcial do ser hu-


mano. Ao contrário, é preciso considerar
as duas exigências que pesam sobre o ser
humano: a da sensibili­dade e a da razão.
A única maneira de lidar com essa
dupla exigência é promover a reaproxi-
mação entre os sentidos e a razão, o que
pode ocorrer pelo cultivo de sentimentos
nobres. “O caminho para o intelecto pre-
cisa ser aberto pelo coração”, diz Schiller
(Cartas, VIII). Somente desse modo pai-
xões e razão podem se ver novamente
razão e paixão

reunidas e em harmonia.
A solução para o problema da alienação
moderna, conclui Schiller, está em cultivar
os sentimentos estéticos. É mediante eles
que os seres humanos, a meio caminho
Degas, um dos expoentes do impressio-
entre o ser e o dever ser, entre a natureza
nismo, retratou a dança em inúmeros
e a razão, poderão se tornar tudo aquilo
quadros e esculturas (Edgar Degas [1834-
74 que podem e até devem ser idealmente. Só
1917], Bailarinas em verde, 1877-79).
assim poderão reaver a unidade entre na-
tureza e razão e, desse modo, atingir uma humanidade, porém conferindo a essa
condição equivalente ao ideal que Schiller unidade uma nova forma, adequada aos
enxergou na cultura da Grécia antiga. tempos em que vivemos. Como nos diz
Mas note: uma equivalência não é Schiller: “Pela beleza, o homem sensível
uma igualdade. Não se trata, na solução é condu­zido à forma e ao pensamen-
de Schiller, de adotar costumes e for- to; pela beleza, o homem espiritual é
mas de vida dos gregos do passado. Isso reconduzido à ma­téria e entregue de vol-
seria impossível. ta ao mundo sensível” (Schiller, Cartas
Trata-se, isso sim, de reaver a unida- sobre a educação estética da humanidade,
de entre os elementos que compõem a op. cit., p. 95).

O belo pode nos tornar melhores?


Debate em sala de aula e apresentação paz de despertar. Como “aspec­­tos morais”
de seminário queremos designar os aspectos relativos
à nossa disposição em face dos indivíduos
Agora que você já conhece a tese de que nos cercam. Já ocorreu a você de se
Schiller, procure examiná-la por sua con- sentir pertencendo em maior grau a uma
ta, no debate com seus colegas. Vamos comunidade, a um grupo de pessoas, por
admitir um instante, com esse pensador, intermédio de uma canção, por exemplo?
que o indivíduo moderno se veja dividido Se sim, isso não atesta o poder da arte em
entre sua razão e suas paixões. Você con- transformar a maneira como compreen-
cordaria com a convicção de Schiller de demos nossa inserção na sociedade?
que o belo e a arte podem fazer a ponte Uma questão interessante, que ser-
entre sensibilidade e razão, reunificando, virá como fio condutor da discussão em
desse modo, os dois elementos que, jun- classe e depois para a apresentação aos
tos, compõem nossa humanidade? demais em forma de seminário, é a se-
Para desenvolver essa questão, certi- guinte: será que o poder da arte em rela-
fique-se, de partida, de que a arte pode ção às paixões está sempre voltado para
realmente alterar nossas paixões. Pense o objetivo de nos tornar moralmente me-
no que você já sentiu, por exemplo, dian- lhores? Pense em determinados filmes
te de um filme que o impressionou, ou de que, conforme opinião difundida hoje em
uma música que evoca sentimentos níti- dia, suscitam em nós impulsos agressi-
dos, como a tristeza ou a alegria, tão logo vos e estimulam a violência. Com base no
você a escute. Esses são indícios claros de exame que fizemos das ideias de Schiller,
razão e paixão

que a arte é capaz de alterar nossos senti- qual posição vocês podem formular acer-
mentos ou mesmo suscitar em nós novas ca de casos como esses, em que a arte
emoções e paixões. parece despertar em nós paixões que a
• Com base nisso e trabalhando em razão reprovaria? Ou você diria que es-
uma equipe com mais dois colegas, pro- ses não são exemplos de obras de arte?
cure ­ levantar os aspectos morais que Lembre-se de respaldar suas conclusões
uma obra de arte (um filme, um quadro, em razões que possam ser expostas aos
uma peça de teatro ou uma música) é ca- demais colegas na aula.
75
Central Press/Getty Images
O líder dos direitos civis Martin Luther King Jr. (1929-1968) discursa na
Marcha sobre Washington (28/08/1963), no Lincoln Memorial.

unidade 3 lógica e
argumentação
Racionalidade
e emoção .................. 77 A rgumentos estão por toda a parte. Quan-
do queremos convencer alguém de alguma
coisa, quase sempre lançamos mão de um ar-
A arte de
persuadir.................. 82 gumento. Acontece nos negócios, nas relações
familiares, no trabalho, na política, nos tri-
Premissas e bunais, nos livros, nos cultos religiosos – onde
conclusões............... 86 houver seres humanos reunidos, certamente
haverá discordância, debate, argumentação.
Falácia e
argumento............... 97 Mas o que vem a ser um argumento? Falando
de maneira geral, poderíamos dizer que um
argumento é um tipo de discurso cuja finalidade
é dar razões capazes de convencer alguém a
respeito de algo. No entanto, apesar de ser uma
boa aproximação, essa definição talvez seja
excessivamente ampla. Ela coloca num mesmo
grupo coisas que talvez devêssemos distinguir.
Racionalidade e emoção

O que diferencia, por exemplo, um ar- tível. Foram criados, então, os “clubes de
gumento bom de um argumento ruim? caroneiros” ou “clubes de carona solidária”.
Será correto dizer que um argumento é Esses clubes, patrocinados pelo governo
bom quando ele é convincente? Ou será norte-americano, reuniam pessoas que
que existem argumentos que, apesar de não se conheciam, mas moravam no mes-
convincentes, não são bons? Um argu- mo bairro e trabalhavam na mesma região.
mento bom é sempre convincente? Ou A ideia era que os membros dos clubes se
será que existem argumentos que, ape- comprometessem a dar carona uns aos
sar de serem bons, falham na hora de outros, economizando gasolina. Cartazes
nos convencer? Vamos pensar um pouco como esse tinham o objetivo de incentivar
a respeito da mensagem veiculada neste as pessoas a ingressarem nesses clubes.
cartaz confeccionado nos EUA durante a O que nos interessa, aqui, é o fato de
Segunda Guerra Mundial: que há um argumento implicitamente
contido nesse cartaz. Você seria capaz de
explicitá-lo?
Weimer Pursell, 1943. World War II Poster Collection Database. Northwestern University

Há diversas maneiras de identificar esse


argumento. Eis aqui uma possibi­lidade:

1) S
 e faltar combustível nos EUA,
Hitler será favorecido.
2) S
 e as pessoas dirigirem sozinhas,
haverá falta de combustível nos
EUA.
3) P
 ortanto, quem dirige sozinho está
fazendo um favor a Hitler.
4) Q
 uem não se associa a um clube
de carona solidária dirige sozinho.
5) P
 ortanto, quem não faz favores a
Hitler associa-se a um clube de
carona solidária.

Como se disse anteriormente, esta é


apenas uma das maneiras possíveis de
SOZINHO,
Quando você dirige explicitar o argumento contido naquele
r!
você dirige com Hitle cartaz de propaganda. Ela nos servirá,
porém, para estabelecer algumas distin-
lógica e argumentação

clube
Junte-se HOJE a um ções e conceitos importantes.
de caroneiros! Observe em primeiro lugar a ocorrên-
cia da palavra “portanto” nas sentenças 3 e
Como você pode ver, trata-se de um 5. Ela é, talvez, a palavra mais importante
discurso que tem o objetivo de convencer o num argumento. É ela que marca o mo-
leitor de uma determinada tese, dando-lhe mento em que uma determinada conclu-
certas razões para tanto. Em 1943, os EUA são é tirada a partir de determinadas pre-
estavam em guerra contra a Alemanha na- missas. A sentença 3 é apresentada como 77
zista, e era preciso economizar combus- uma consequência das sentenças 1 e 2.
Isso quer dizer uma coisa muito simples. Não faz sentido, porém, dizer que um
Uma pessoa que aceite a verdade das pre- argumento é “verdadeiro”, ou que ele é
missas deveria, em princípio, ser levada a “falso”. Argumentos não são nem ver-
aceitar a verdade da conclusão. Se alguém dadeiros nem falsos. Eles podem ser
aceita que Hitler é favorecido pela falta de bons ou ruins. Quando um argumento
combustível nos EUA (primeira premis- é bom, dizemos que ele é válido. Quando
sa), e também aceita que haverá falta de é ruim, dizemos que é inválido. Mas, o
combustível caso as pessoas dirijam so- que caracteriza um argumento válido?
zinhas (segunda premissa), esse alguém Embora possa parecer estranho, o que
terá boas razões para acusar aqueles que torna um argumento válido não é o fato
dirigem sozinhos de estarem colaborando de que sua conclusão é verdadeira, ou o
indiretamente com o inimigo (conclusão). fato de o argumento possuir premissas
Mas a história não para aí. Como vimos, verdadeiras. Um argumento pode ser
a conclusão desse primeiro argumento é, válido e, mesmo assim, ter tanto as pre-
por sua vez, utilizada como premissa de missas quanto a conclusão falsas. Consi-
um outro argumento, que vem logo abaixo. dere o seguinte exemplo:
Com efeito, a conclusão tirada na senten-
Quem gosta de comer pipoca
ça 5 se baseia nas sentenças 3 e 4, sendo
também gosta de ouvir música
que, como acabamos de ver, a sentença 3
clássica.
já é a conclusão de um argumento anterior.
Quem não toma banhos demorados
Temos, portanto, dois argumentos articu-
gosta de comer pipoca.
lados entre si. Tratemos de analisá-los.
Portanto, quem não gosta de ouvir
A primeira coisa que devemos com-
música clássica toma banhos
preender é que argumentos não são nem
demorados.
verdadeiros nem falsos. Isto é fundamen-
tal. O que pode ser verdadeira ou falsa é Pode parecer estranho, mas este argu-
uma sentença tomada isoladamente. As mento está perfeitamente ordenado. É
premissas de um argumento são senten- um argumento válido. Para ver isso, bas-
ças. A conclusão é uma sentença. Elas po- ta examinar o seguinte gráfico:
dem ser verdadeiras ou falsas. A quarta
premissa, por exemplo, afirma que toda
pessoa que não se associa a um clube de
carona dirige sozinha. Isso pode ser ver-
dadeiro, mas pode também ser falso.
Pode acontecer, por exemplo, de
muitas pessoas não se associarem a
nenhum clube e, no entanto, darem e
pegarem carona todos os dias, ou de
simplesmente dirigirem acompanhan-
lógica e argumentação

do parentes ou amigos. Tome-se, ainda,


o caso da conclusão: “Quem não faz fa- A área vermelha representa aqui as
vores a Hitler associa-se a um clube de pessoas que gostam de música clássica.
carona.” Podemos imaginar a existência Toda a área cinzenta do retângulo, exte-
de pessoas que não colaboraram nem rior à área vermelha, representa as pes-
direta nem indiretamente com Hitler soas que não gostam de música clássica.
e que, no entanto, não se associaram a A área laranja representa as pessoas que
78 nenhum clube. Neste caso, a conclusão gostam de comer pipoca. A inclusão da
seria falsa. elipse laranja dentro da vermelha serve,
neste caso, para simbolizar a primeira rados. Ou seja, se aquilo que está dito nas
premissa: todos que gostam de comer premissas fosse verdadeiro, aquilo que
pipoca gostam de ouvir música clássica. está dito na conclusão seria verdadeiro
Finalmente, o losango verde representa também. É por isso que esse argumento é
as pessoas que não gostam de tomar ba- bom. Suas premissas são obviamente fal-
nhos demorados. Sua inclusão no inte- sas. Sua conclusão também é falsa. Mas se
rior da área laranja representa, portan- as premissas fossem verdadeiras, a conclu-
to, a segunda premissa: pessoas que não são também seria.
gostam de banhos demorados gostam Agora, veja que interessante. Há uma
de comer pipoca. correspondência perfeita entre esse argu-
Agora, repare numa coisa. Toda a mento envolvendo pipoca, música clássica
área externa ao losango verde represen- e banhos demorados, e aquele outro que
ta pessoas que gostam de tomar banhos vimos há pouco, envolvendo Hitler, mo-
demorados. Se você recortasse o retângu- toristas solitários e clubes de carona. Va-
lo verde do centro da figura, tudo o que mos dispor os dois argumentos lado a lado
sobrasse representaria o conjunto dessas para que você perceba isso:
pessoas que gostam de ficar horas embai-
xo do chuveiro: Quem dirige Quem gosta de
sozinho comer pipoca
está fazendo um gosta de ouvir
favor a Hitler. música clássica.

Quem não
Quem não entra
toma banhos
para um
demorados
clube de carona
gosta de comer
dirige sozinho.
pipoca.

Quem NÃO faz Quem NÃO gosta de


favores a Hitler ouvir música clássica
ENTRA para um TOMA banhos
clube de carona. demorados.
É fácil verificar que a área cinzenta do
retângulo está toda ela incluída nessa fi-
gura com um buraco no meio, em forma Como você pode ver, os dois argumen-
de losango. Como a área cinzenta repre- tos possuem exatamente a mesma estru-
senta exatamente as pessoas que não tura. Para obter o segundo a partir do pri-
gostam de música clássica, é fácil verifi- meiro, basta substituir “dirigir sozinho”
car que, nesse mundo que estamos ima- por “gostar de comer pipoca”, “não entrar
ginando, todas as pessoas que não gos- (ou entrar) para um clube de carona” por
tam de música clássica tomam banhos “não tomar (ou tomar) banhos demora-
demorados. E é exatamente isso o que dos”, e “estar (ou não estar) fazendo fa-
lógica e argumentação

diz a conclusão de nosso argumento. vores a Hitler” por “gostar (ou não gos-
O que isso mostra? Mostra que, se vi- tar) de ouvir música clássica”. O mesmo
vêssemos num mundo no qual pessoas gráfico que usamos para demonstrar que
que gostassem de pipoca fossem todos o segundo argumento é válido poderia
aficionados por música clássica, e no qual ser usado para mostrar que o primeiro
pessoas que não tomassem banhos de- também é. Ou seja, nada nos garante que
morados adorassem pipoca, então, nesse as premissas do primeiro argumento se-
mundo, todos os que não gostassem de jam verdadeiras, mas, se elas forem ver- 79
música clássica tomariam banhos demo- dadeiras, a conclusão também será.
Apelos emocionais apelos emocionais. É o que fazem os polí-
É isso o que dá força racional a um ar- ticos, os publicitários, os jornalistas, e até
gumento. Se as pessoas que escutam meu mesmo você, quando quer convencer al-
argumento têm a tendência a considerar guém de alguma coisa. Examinemos mais
verdadeiras as premissas de que eu parto, e uma vez nosso cartaz reproduzido à pág.77.
se, além disso, reconhecem como válidos os Repare, em primeiro lugar, que as duas
argumentos que eu uso, elas serão levadas sentenças inscritas nele terminam com
a aceitar como verdadeiras as conclusões pontos de exclamação. Quem lê o cartaz
que eu tiro. Isso faz com que os argumen- deve imaginar uma voz falando alto, em
tos possam ser usados como instrumentos tom exaltado, de comando, como se fosse
de persuasão. Quem argumenta deve levar um militar falando a seus subordinados.
em conta determinadas crenças que são Para reforçar esse efeito, as letras foram
compartilhadas por seu “auditório”, isto escritas em tons altamente contrastantes.
é, pelas pessoas que ele deseja convencer A sentença de cima, em preto, contra um
de algo. Ele constrói, então, um argumen- fundo ocre. A de baixo, em ocre, contra
to que toma algumas dessas crenças como um fundo preto. Isso reforça ainda mais o
premissas e procura mostrar que essas pre- “tom” impositivo da sentença. Além disso,
missas obrigam quem as assume a tirar de- há duas palavras em destaque, escritas com
terminadas conclusões. É esse o mecanis- letras maiúsculas: “sozinho” (“ALONE”) e
mo racional que está embutido no cartaz “hoje” (“TODAY”). A palavra “sozinho” nos
de propaganda que estamos analisando. remete à situação que se deseja combater:
Será só isso, porém? Será que argumen- motoristas dirigindo seus carros sozinhos,
tos só envolvem mecanismos racionais gastando um combustível precioso em épo-
de convencimento? De maneira alguma. ca de guerra. A palavra “hoje” nos remete
Quem domina a arte de argumentar sabe àquilo que o cartaz deseja provocar: uma
fazer uso de expedientes racionais, mas adesão imediata aos clubes de carona. Tudo
deve saber utilizar também uma série de isso envolve o argumento implícito nas

William Gottlieb/Corbis/Latinstock:
lógica e argumentação

O “american way of life”: a foto, tirada em Nova York em 1952, capta os ideiais da classe média
norte-americana nos anos seguintes à Segunda Guerra Mundial.
80
duas sentenças num clima altamente emo- sem esses outros elementos a argumen-
cional, dando a ele uma força redobrada. tação seria ineficaz. Imagine o que acon-
O principal elemento emocional desse teceria se, em vez de usar esse cartaz, o
cartaz, no entanto, não está inscrito nessas governo norte‑americano tivesse utiliza-
duas sentenças, mas sim na imagem que a do este outro:
acompanha. Reparem na figura do homem
dirigindo. Ele tem um carro grande, espa-

Arte: Najla Bunduki


çoso, confortável. Os espaços vazios nos S EUA PEDE
bancos ressaltam o desperdício de gasoli- O GOVERNO DO OS
na decorrente daquela situação. Podemos CIDADÃ
A TODOS OSSID
imaginar outras três pessoas confortavel- EREM
QUE CON
GUMENTO
mente acomodadas nesse carro, o que faria
O SEGUINTE AR
outros três veículos não circularem naquele
.
dia. Reparem na fisionomia do motorista. será favorecido
co m bu st ív el nos EUA ,Hitler fa lta
Ele dirige completamente despreocupado, Se faltar zinhas, haverá
s dirigirem so
Se as pessoa í que quem
tranquilo, alheio a qualquer coisa à sua vol- ível no s EU A . Segue-se da
de combu st vor a Hitler.
es tá fazendo um fa
ta. Numa época em que milhões de cida- dirige so zi nh o
se associa a um
es tã o de fato, quem não
dãos norte‑americanos estavam nos cam- Como qu
na solidária di
rige sozinho.
clube de caro da pessoa qu
e
pos de batalha, lutando por seu país, essa co nc lu ir, po rtanto, que to ar
Devemos soci
passividade e despreocupação certamente tler deve se as
r favores a Hi
não quer faze carona so lid ár ia .
assumiam um aspecto um pouco revoltan- a um clube de
te. O pensamento que se procura despertar
COM A
CONTAMOS E TODOS
em quem vê o cartaz é mais ou menos o se-
guinte: “Nossos jovens estão morrendo na
ÃO D
Europa, e esse sujeito não se preocupa em COLABORAÇ
fazer algo tão simples quanto evitar des-
perdício de combustível!”.
Acima de tudo, porém, é a figura de Hi-
tler, esboçada ao lado do motorista, que O que você acha? A campanha teria al-
traz o apelo emocional mais forte. A men- guma chance de sucesso?
sagem subliminar passada ao público é É claro que, em muitas situações, o apelo
mais ou menos a seguinte: “Quando se re- emocional é reduzido ao mínimo. Isso acon-
cusa a aderir à campanha em prol da caro- tece, por exemplo, no contexto científico.
na solidária, o que você faz é dar uma ca- Examine, digamos, o seguinte argumento:
rona a Adolf Hitler. Você o ajuda a atingir
Ninguém tem mais de
seus objetivos, fazendo-lhe um importan-
5 milhões de fios de cabelo.
te favor”. Isso tem por efeito estigmatizar
o motorista que não aderia à campanha. O Rio de Janeiro tem
Quem o visse desfilando sozinho com seu 6 milhões de habitantes.
lógica e argumentação

carro pela cidade era levado a vê-lo como


Pelo menos 2 habitantes do Rio de
uma espécie de traidor da pátria.
Janeiro têm exatamente o mesmo
Nada disso é dito. Isso é mostrado pelo
número de fios de cabelo.
cartaz, e é perfeitamente entendido por
quem o vê. Os contornos emocionais Este é claramente um argumento vá-
dessa mensagem é que dão a ela grande lido. Suponha que você fosse o criador do
parte de sua eficácia. A argumentação mundo, e quisesse a todo custo evitar que
racional subjacente certamente tem um dois habitantes do Rio de Janeiro tivessem 81
papel no convencimento do cidadão, mas o mesmo número de fios de cabelo.
Você cria o primeiro habitante careca; Pense a respeito daquilo que acontece
cria o segundo com apenas um fio de cabe- com você mesmo, em seu cotidiano. Su-
lo; o terceiro, com apenas dois fios; o quar- ponha que você, no fim de semana, esteja
to, com três; e assim por diante. Quando querendo sair à noite, mas seus pais não
chegar aos 5 milhões de habitantes, fará estejam gostando dessa ideia. Você terá de
um ser humano com 4.999.999 fios de argumentar com eles. Irá procurar conven-
cabelo. O seguinte terá 5 milhões de fios, cê-los. Você diria que essa argumentação é
que é o número máximo de fios de cabelo. puramente racional? Ou será que ela vem
Portanto, quando criar o habitante seguin- envolta numa boa dose de emotividade, e
te, terá de necessariamente criá-lo com um busca não apenas convencer racionalmen-
número de fios de cabelo idêntico ao de te, mas também seduzir?
alguém que você já criou antes. Não tem
jeito, portanto. Se as premissas desse argu-
mento forem verdadeiras, a conclusão tam-
bém será. O argumento, portanto, é válido.
A enunciação desse argumento, no en-
tanto, não lançou mão de nenhum apelo
emocional. Só a conexão racional entre Faça uma campanha
as premissas e a conclusão foi levada em você mesmo
­conta. E essa conexão, em determinados
Atividade em equipe e debate em sala
contextos, é suficiente.
de aula
Não é o que acontece, porém, na maior
parte das situações de nossa vida. Um ar-
Em dupla com um colega, bolem uma
tigo de jornal, por exemplo, mesmo ape-
peça publicitária (cartaz, painel, anúncio
lando fortemente para a nossa razão, será
em revista, ou o conjunto desses ele-
quase sempre escrito de modo a conquis-
mentos) com o objetivo de estimular os
tar a nossa simpatia, ressaltando determi-
motoristas de automóvel a respeitar a
nados aspectos da questão e pondo outros
faixa de pedestres. Em seguida, apre-
na penumbra. A mesma coisa irá acontecer
sentem a “campanha” para os demais
com um advogado defendendo seu cliente
colegas de classe.
diante de um juiz.

A arte de persuadir
Em muitos tipos de discursos argumen- Numa paquera, buscamos atrair a pes-
tativos, encontramos elementos de apelo soa que nos interessa, usando para isso di-
emocional ao lado de elementos racionais. versos tipos de recursos: vamos bem vesti-
O caso extremo é aquele em que a dos a um local em que sabemos que a outra
emotividade toma conta de todo o discurso, pessoa estará nos vendo, procu­ramos pas-
lógica e argumentação

não deixando lugar para ponderações racio- sar uma boa imagem de nós mesmos, pro-
nais. Pense no caso de alguém se afogando e curamos falar aquilo que achamos que a
pedindo socorro. Ou, então, numa paquera. outra pessoa está querendo ouvir, e assim
Nessas situações, buscamos atingir o outro por diante.
emocionalmente, sem que nenhum tipo de É comum que peças publicitárias ou de
argumento intervenha no processo. A pes- propaganda misturem a argumentação ra-
soa que está se afogando procura expressar cional com o apelo emocional. Considere
82 seu desespero, na esperança de provocar este cartaz a seguir, confeccionado duran-
compaixão naquele que o está ouvindo. te a Segunda Guerra Mundial:
The Hartman Center for Sales, Advertising & Marketing History /
Duke University Libraries - Digital Collection

AGORA

AJUDE-OS A GOLPEAR
OS NAZISTAS

Das Praias
para Berlim

5º EMPRÉSTIMO
DE GUERRA

COMPRE MAIS
BÔNUS DE GUERRA

Vamos analisar o cartaz. Você não en- Democracia e retórica


contrará nenhum tipo de argumento im- As relações entre argumento e emo-
plícito. O apelo, aqui, é muito mais dire- ção foram estudadas pelos filósofos des-
to. É como se o cartaz gritasse o seguinte de a Antiguidade. O primeiro texto a se
às pessoas: “Por favor, doem dinheiro! demorar longamente nesse assunto foi a
Mais um pouco, e a guerra estará ganha. Retórica de Aristóteles (384-322 a.C.).
Nossos soldados precisam mais do que Em Atenas, cidade em que ele viveu
nunca de sua ajuda!”. grande parte da vida, as principais deci-
Repare na cena retratada graficamente. sões eram tomadas por assembleias. Um
Um soldado vai atirar uma granada numa cidadão, para defender seus pontos de
casa tipicamente europeia, cheia de sol- vista, deveria ser capaz de persuadir os
dados inimigos. Numa das janelas, vemos membros da assembleia. A retórica ser-
o cano de um fuzil, pronto para atirar. O ve exatamente para isso: ela é a arte de
soldado tem que se arriscar, expondo-se persuadir. Devido à utilidade dessa arte
a levar um tiro a qualquer momento. Ele na vida do cidadão, havia muitos profes-
precisa de ajuda. No entanto, os inimi- sores de retórica em Atenas.
gos estão visivelmente acuados dentro No começo do seu livro, Aristóteles faz
lógica e argumentação

da casa. Apesar do risco, vencê-los é uma uma crítica dos métodos recomendados por
questão de tempo. As janelas da casa estão muitos desses professores. Leia este trecho,
quebradas. Se o soldado conseguir acertar e tente determinar que críticas são essas:
a granada numa delas, a casa será tomada. “Os estudiosos que compilaram
Note que o apelo é totalmente emo- os atuais manuais de retórica nos
cional. Nem por isso deixa de ser eficaz apresentaram apenas de uma peque-
e de convencer. Muitas pessoas compra- na parte dessa arte. Pois os meios de
ram os bônus de guerra motivados por persuasão racional são os únicos ele- 83
cartazes como esse. mentos genuínos da retórica. Tudo o
mais é meramente acessório. Apesar zer isso é como entortar a régua que
disso, esses estudiosos nada dizem a será usada pelo carpinteiro.” (Aristóte-
respeito dos argumentos, que são o les, Retórica, 1354a. Nossa versão indi-
corpo da persuasão racional; eles se reta a partir da tradução inglesa de J. H.
ocupam muito mais de coisas que não Freese. Cambridge; Londres: Harvard
dizem respeito ao assunto. University Press; Heinemann, 1926)
Apelar para os preconceitos, para a
compaixão, para o ódio e emoções des-
se tipo nada tem a ver com aquilo que
é essencial à retórica. Provocar essas
emoções é só um meio de manipular
Você é capaz de
a pessoa que irá decidir uma questão. convencer um júri?
Daí que muitos professores e li- Análise de texto e debate em sala de aula
vros de retórica já não teriam mais
• Analise o trecho da Retórica aqui
nenhuma utilidade, se fossem sempre
citado. Conduza sua análise procuran-
aplicadas as regras a esse respeito que
do responder a essas questões: – Qual
existem em certas cidades, especial-
a opinião de Aristóteles a respeito do
mente nas bem governadas.
ensino da retórica em sua época? – Que
No fundo, todos acham que essas
críticas ele dirige aos autores de livros
regras deveriam existir. Mas ocorre
de retórica? – Quais são, segundo Aris-
que apenas em alguns lugares essas
tóteles, os elementos essenciais da re-
regras são seguidas, como acontece no
tórica? – De outro lado, quais são os
Areópago, onde não é permitido falar
elementos que não são essenciais a ela?
de coisas que não sejam essenciais à
• Em seguida, formando um par com
discussão do caso em pauta.
um(a) colega, discutam juntos a seguin-
Esse é um decreto e um costume
te situação: imaginem que vocês vivem
muito sadio. Não é correto atrapalhar
em Atenas à época da democracia anti-
o discernimento de quem julga provo-
ga, em que as audiências eram realiza-
cando raiva, inveja ou compaixão. Fa-
das no Tribunal, ao ar livre, congregan-
do muitos cidadãos.
Suponham que um homem está
sendo acusado de roubo e vocês estão
Foto: CC-BY-SA-3.0 Joanbanjo

tentando condená-lo. Vocês não têm


provas de que ele é culpado, mas irão
apelar para coisas que nada têm a ver
com o roubo em si, de modo a fazer os
jurados sentirem raiva desse homem.
Como vocês poderiam fazer isso?
lógica e argumentação

Suponham então que, inversamen-


te, vocês estão tentando absolver esse
homem, mas todas as provas parecem
incriminá-lo. O que vocês podem fazer
para que os jurados sintam compaixão
O Aerópago era um conselho existente na desse homem, e acabem por absol­­vê-lo
Atenas antiga, formado por aristocratas que ou ao menos atenuem a sua pena?
desempenhavam funções políticas. A retórica • Apresentem aos demais colegas
84 tinha papel crucial nos debates. de classe os seus resultados.
Aristóteles

Nasceu na cidade de Estágira, na Macedônia, em Obras de Aristóteles e sua edição crítica


384 a.C., e morreu em Atenas em 322 a.C. Foi, du- Para a localização precisa de textos de Aris-
rante algum tempo, responsável pela educação do tóteles, a comunidade de pesquisadores con-
jovem Alexandre, filho do rei Filipe da Macedônia, vencionou tomar como referência a edição de
que iniciou um domínio sobre os Gregos que seu August ­Immanuel Bekker das obras do filósofo.
filho iria expandir, obtendo o mais vasto império até O motivo é simples: o filólogo alemão Bekker
então conhecido, que alcançou a Índia. (1785-1871) foi o primeiro a realizar uma edição
Antes disso, com cerca de dezoito anos, Aristó- crítica dessas obras, a qual serviu de base para
teles viajou a Atenas e logo entrou para a Academia, as posteriores.
escola fundada por Platão (428-348 a.C.). Nela per- O que significa “edição crítica”? Basicamente,
maneceu por vinte anos, deixando-a apenas após a que numa edição dessas são confrontadas e anota-
morte do mestre. Depois de retirar-se de Atenas por das todas (ou as principais) fontes documentais de
alguns anos, retorna e funda sua própria escola, o que dispomos de determinado texto. Como você
Liceu, no qual ensina até o fim de sua vida. pode imaginar, pode ser bastante trabalhoso o
A filosofia de Aristóteles consiste numa tentati- processo de confrontar essas fontes, para localizar
va de pensar questões e problemas filosóficos her- diferenças de um documento a outro (chamadas
dados do platonismo, mas por vias e por meio de variantes: acréscimos, supressões, discrepâncias e
soluções que frequentemente se variações de ortografia e gramáti-

Cabeça de Aristóteles em mármore . Kunsthistorisches Museum,


Viena/The Bridgeman Art Library/Keystone
distanciam desse mesmo plato- ca etc.). Feito isso, o editor crítico
nismo. Assim como seu mestre, terá de decidir, com base em uma
Aristóteles foi um autêntico fun- pesquisa mais abrangente, quais
dador de temas filosóficos, não dessas variantes o texto principal
somente em áreas que ainda deve seguir no corpo da página;
hoje consideramos como tipica- as outras variantes são anotadas
mente filosóficas, como metafí- em pé de página.
sica, lógica, ética, como também Voltando à edição de Bekker
em assuntos que posteriormente para as obras de Aristóteles: a
ganharam autonomia científica, numeração ali utilizada, e que
como a física ou a biologia. Al- depois virou padrão nas referên-
guns de seu principais escritos cias às obras do filósofo, com-
são: Metafísica, Ética a Nicômaco, Primeiros analíticos, põe-se de três elementos: o número da página,
Segundos analíticos, Partes dos animais, Física. a coluna (a ou b) e a linha. Assim, para o seguin-
A influência exercida por Aristóteles na Anti- te trecho (citado no corpo desta Unidade): “[...] é
guidade tardia, na Idade Média (especialmente a proibido falar de coisas que não sejam essenciais à
partir da recuperação de importantes livros seus, discussão do caso em pauta. Esse é um costume e
à época desconhecidos no Ocidente, conservados um decreto muito sadio. Não é correto atrapalhar
lógica e argumentação

por pensadores árabes) e no início da Modernidade o discernimento de quem julga provocando raiva,
foi extraordinária, provavelmente inigualada. Sua inveja ou compaixão”, a referência é 1354a 14-18.
metafísica e seu pensamento moral forneceram “1354”: essa página pertence ao livro da Retóri-
elementos analíticos e conceituais para a teologia ca (aliás, é a primeira, uma vez que, na edição de
cristã durante a Idade Média, e os principais pensa- Bekker, o livro vai dessa página à página 1419);
dores da Modernidade nele tiveram seu grande ad- “a” indica que o texto referido está na primeira
versário, no intuito de propor uma nova concepção coluna da página.
de ciência. Sua ética ainda é vivamente debatida por “14-18” indica as linhas da coluna em que se
pensadores contemporâneos. encontra o trecho citado. 85
DOZE HOMENS E UMA SENTENÇA
Há um filme norte-americano que estreou
em 1957 e que se tornou muito conhecido

Everett Collection/Grupo Keystone


na segunda metade do século XX, intitulado
Doze homens e uma sentença. (O título origi-
nal, em inglês, é um pouco diferente: Twelve
angry men, que pode ser traduzido mais ou
menos assim: “Doze homens irritados”.) O
ator principal é Henry Fonda (1905-1982), o
diretor, Sidney Lumet (1924-2011). A histó-
ria é a seguinte: doze jurados examinam a
acusação de homicídio feita a um réu. Inicial- convence de que não há provas cabais de
mente, todos estão convencidos de que ele é que ele seja realmente culpado. Entretanto,
culpado. Entretanto, um dos jurados, repre- enfrenta dificuldades tremendas para con-
sentado por Henry Fonda, decide reexaminar vencer os demais jurados de que estão rea-
os argumentos levantados pela promotoria a lizando um julgamento precipitado sobre o
fim de condenar o réu e, pouco a pouco, se caso. O desfecho é surpreendente.

Premissas e conclusões
Existe uma distinção fundamental en- Por fazer uma afirmação, a sentença
tre verdade e validade. Apenas sentenças declarativa possui uma propriedade mui-
podem ser verdadeiras ou falsas. Argu- to importante: ela pode ser avaliada do
mentos podem ser válidos ou não. Essa ponto de vista de sua verdade ou falsidade.
distinção é tão fundamental que merece Compare isto com o que acontece no
ser aprofundada. caso dos pedidos ou das perguntas. Não
As sentenças de uma língua podem ser faz sentido perguntar se a sentença “Que
classificadas de diversas maneiras. Um dos horas são?” é verdadeira ou falsa. Temos
critérios que podemos utilizar para produ- aqui uma pergunta, e perguntas não são
zir uma classificação é a função desempe- (nem podem ser) verdadeiras ou falsas.
nhada pelas sentenças em nossas vidas. Questões podem ser avaliadas, sim,
Algumas servem para fazer pergun- mas não quanto à sua verdade ou falsi-
tas  – “Que horas são?”. Outras servem dade. Elas podem ser convenientes ou in-
para dar ordens ou fazer pedidos – “Pas- convenientes, precisas ou confusas, fáceis
se-me o pão, por favor”. Há sentenças que ou complicadas, mas não podem ser ver-
servem para pedir socorro, fazer elogios, dadeiras ou falsas. O mesmo pode ser dito
insultar, rezar ou simplesmente brincar. dos pedidos, das preces etc.
lógica e argumentação

Mas há um tipo especial de sentença, que Só sentenças declarativas podem ser


merece uma consideração à parte, pela avaliadas dessa forma. Por exemplo, a
importância que tem para a vida humana­ sentença:
em geral. São as chamadas sentenças de-
“Há 15 livros espalhados
clarativas.
sobre a minha mesa”
Uma sentença é declarativa, como o
próprio nome indica, caso ela declare algu- pode ser avaliada do ponto de vista de
86 ma coisa a respeito de algum assunto­ – caso sua verdade ou falsidade (basta verifi-
faça aquilo que chamamos de “afirmação”. car se existem livros espalhados sobre a
­ inha mesa, e contá-los). Por isso mes-
m de examinar enunciando a conclusão an-
mo, é chamada de sentença declarativa. tes das premissas:
Para começo de conversa, um argu-
Há menos livros sobre a mesa do que
mento não é uma sentença, mas uma ar-
na estante, pois sobre a mesa há 15
ticulação de sentenças declarativas. Com
livros e na estante há mais de 50.
isso, queremos dizer duas coisas. Em pri-
meiro lugar, que um argumento sempre Neste caso, a palavra “pois” indica que,
envolve mais de uma sentença declarativa. depois dela, serão dadas as razões que eu
Uma sentença sozinha, isolada, que não en- tenho para afirmar que há menos livros so-
volva nenhuma outra sentença, jamais será bre a mesa do que na estante. Essas razões
um argumento. Além disso, porém, quere- não são outra coisa senão as premissas que
mos dizer algo ainda mais importante. me permitiram tirar a conclusão que tirei.
Um argumento não é um amontoado de E a lista não para aqui. Outras construções
sentenças. Um argumento deve apresen- poderiam ser usadas, todas elas sinalizan-
tar sentenças articuladas entre si, relacio- do essa mesma articulação entre sentenças
nadas de um determinado modo. De que que é característica de um argumento: a re-
modo? Neste ponto, é melhor recorrermos lação entre as premissas de que eu parto e a
a um exemplo típico de argumento: conclusão a que eu chego.
É essa relação que é avaliada, quando
Há 15 livros sobre a mesa.
avaliamos um argumento. O que per-
Há pelo menos 50 livros na estante. guntamos basicamente é se as premissas
dão ou não suporte à conclusão – se elas
Portanto, há menos livros sobre a mesa
permitem que eu conclua o que concluí.
do que na estante.
No caso que examinamos, isso claramen-
Não se pode subestimar a importân- te acontece: se é verdade que há 15 livros
cia que tem a palavra “portanto” nestes sobre a mesa, e se é verdade que há mais
contextos. Ela marca a passagem das pre- de 50 livros na estante, então tem de ser
missas de um argumento à sua conclusão. verdade que há mais livros na estante do
As premissas são as afirmações de que que sobre a mesa. É impossível que essas
partimos. A conclusão é a afirmação a premissas sejam verdadeiras e a conclu-
que chegamos. A palavra “portanto” mar- são seja falsa. Se estou disposto a afirmar
ca explicitamente essa relação. Ela não é, as premissas, tenho de estar disposto a
aliás, a única expressão capaz de fazer afirmar a conclusão. Por isso dizemos
isso. Em vez de “portanto”, poderíamos que esse argumento é válido.
usar uma série de outras expressões: Nesse caso, a validade do argumen-
to dependia completamente do uso que
­fazemos dos números naturais (como 15
Segue-se daí que...
e 50) e também de palavras como “mais” e
“menos”. Se há 15 objetos de tipo A (“li-
lógica e argumentação

... há menos livros


Podemos concluir daí
sobre a mesa do vros sobre a mesa”) e mais de 50 objetos
que...
que na estante
de tipo B (“livros na estante”), então há
Em consequência
disso, ...
menos objetos de tipo A do que objetos de
tipo B: isso vale para quaisquer objetos
que estejamos contando. A relação entre
Essa articulação entre as premissas e a as premissas e a conclusão será sempre
conclusão pode inclusive vir marcada de boa: se supusermos que as premissas são
um modo mais sutil. Poderíamos expres- verdadeiras, seremos obrigados a supor 87
sar o mesmo argumento que acabamos que a conclusão também é.
Sentenças universais, particulares e Sentenças que se referem a todos os
singulares elementos de um determinado grupo são
Em muitas ocasiões, porém, não uti- chamadas de universais.
lizamos números para nos referirmos Sentenças que se referem a apenas al-
a objetos de um certo tipo. Veja o que guns desses elementos são chamadas de
acontece neste argumento: particulares.
Finalmente, temos sentenças que po-
Todo contador tem uma boa memória.
deríamos chamar de individuais ou singu-
Há pelo menos um atleta que não tem
lares, pois se referem a um indivíduo espe-
uma boa memória.
cificamente. Por exemplo:
Há pelo menos um atleta que não é
contador. Ludovico é contador.
Ele é tão válido quando o argumento
Não estamos falando aqui simples-
dos livros sobre a mesa, que vimos mais
mente que “alguém” é contador, sem es-
acima. A situação descrita nessas duas
pecificar quem. Estamos nos referindo a
premissas pode ser representada grafica-
uma pessoa específica, a um indivíduo.
mente do seguinte modo:
Existe um número enorme de argu-
mentos envolvendo sentenças univer-
sais, particulares e singulares, tanto afir-
mativas quanto negativas. Esta seção é
dedicada ao estudo desses argumentos e
do funcionamento do vocabulário lógico
associado a eles.
A primeira coisa a ser notada é que
existem inúmeras maneiras de expressar
sentenças universais e particulares. Em
A inclusão do círculo vermelho no círcu- vez de dizer:
lo verde representa aqui a sentença “Todo Todo contador tem boa memória.
contador tem boa memória”, e o “X” posto
podemos dizer:
na área cinzenta representa um atleta que
não tem boa memória. Ora, se esse X é um Todos os contadores têm boa memória.
atleta que não tem boa memória, então fica Contadores têm boa memória.
evidente que ele também não é um conta- Não há contador que não tenha boa
dor: se existem atletas fora do círculo das memória.
pessoas de boa memória (como diz a se- Os contadores têm boa memória.
gunda premissa), esses atletas têm de estar
E assim por diante. É bem verdade que
fora do círculo dos contadores (como diz a
essa equivalência não é perfeita. Cada
conclusão), já que (como diz a primeira pre-
uma dessas variantes possui conotações
missa) todo contador tem boa memória.
lógica e argumentação

específicas, que variam de um contex-


Como você percebe, aqui não temos nú-
to para outro. Assim, é bastante comum
meros organizando o nosso argumento. Em
usarmos uma sentença como a segunda e
seu lugar, temos expressões como “todo”,
a última de nossa lista para dizer que, em
“pelo menos um” e “não”. As premissas
geral, em sua maioria, os contadores têm
não dizem quantos contadores existem, ou
boa memória. Outras vezes, a pessoa está
quantas são as pessoas de boa memória.
querendo se referir a todos, sem exceção:
Diz apenas que (sejam elas quantas forem)
todas as pessoas pertencentes ao primeiro Tubarões são carnívoros.
88
grupo pertencem também ao segundo. Os tubarões são carnívoros.
Ninguém imaginaria, nesse caso, que exceção, e casos em que nos referimos a
a pessoa esteja admitindo a hipótese de pelo menos um membro de um certo grupo.
que alguns tubarões sejam vegetarianos. Se estamos falando de pelo menos um
O que se está querendo dizer, claramente, membro de certo grupo, há duas possi­
é que todos são carnívoros. bilidades. Podemos afirmar alguma coi­sa
Da mesma forma, os enunciados par- desse indivíduo, ou negar alguma coisa a
ticulares podem ser expressos de muitas respeito dele. Essa diferença pode ser facil-
formas: mente expressa, em português, mediante
Alguns atletas não têm boa memória. o uso da palavra “não”. Compare:
Há atletas que não têm boa memória. Algum contador tem boa memória.
Algum atleta não tem boa memória. Algum contador não tem boa memória.
Existe pelo menos um atleta que não Da mesma forma, podemos afirmar ou
tem boa memória.
negar algo a respeito de todos os membros
Novamente, existem diferenças sutis entre de um grupo. No primeiro caso, usaremos
esses enunciados. Note que a última sen- a palavra “todo”:
tença menciona “pelo menos um atleta”, ao
Todo contador tem boa memória.
passo que as outras duas primeiras falam
em “atletas” e “alguns atletas”, no plural. No segundo caso, se usarmos a palavra
Em determinados contextos, o uso “todo” obteremos uma construção que
do plural nesse tipo de sentença deve ser não soa muito bem em português:
levado em conta; noutros, ele não tem
Todo contador não tem boa memória.
maior importância. Se digo que alguns
alunos serão selecionados para ganhar Embora não esteja errado nos expressar-
uma bolsa de estudo, e só um aluno for mos dessa maneira, é muito mais simples
selecionado, haverá dúvidas a respeito da e mais usual recorrermos, nesse caso, à
natureza de minha promessa. Dizendo palavra “nenhum”:
aquilo, eu havia prometido que pelo menos
Nenhum contador tem boa memória.
dois alunos seriam selecionados; ou o uso
do plural, nesse caso, não deve ser levado A sentença tem exatamente o sentido que
ao pé da letra? Novamente, só o contexto pretendíamos que ela tivesse. Estamos fa-
poderá dizer o que está acontecendo em lando a respeito de todos os contadores, e
cada caso. estamos dizendo que todos eles, sem exce-
No que diz respeito à lógica, porém, ção, são desprovidos de boa memória.
essas coisas têm de estar muito bem de-
terminadas, pois dizer “pelo menos um” Negação de sentenças
é muito diferente de dizer “pelo menos Agora, veja que coisa interessante. Nor-
dois” ou “pelo menos três”. Quem tem malmente, a palavra “não” é utilizada para
pelo menos dois amigos, tem pelo me- construir a negação de uma certa sentença:
lógica e argumentação

nos um; mas é possível ter pelo menos Fui à feira. / Não fui à feira.
um sem que se tenha pelo menos dois. É
Está chovendo. / Não está chovendo.
preciso distinguir cuidadosamente esses
pequenos detalhes. Para isso, vamos fazer Ludovico é contador. / Ludovico não é
contador.
uma convenção.
Além dos casos em que estamos falan- Uma sentença é a negação de uma outra
do de um único indivíduo, estudaremos, se a verdade de uma implica a falsidade da
nesta seção, casos em que nos referimos a outra e vice-versa. Se é verdade que fui à 89
todos os membros de um certo grupo, sem feira, é falso dizer que não fui. Se é verdade
que não fui, é falso dizer que fui. Se é ver- vá criar o mundo novamente. Você quer
dade que exatamente esse pedaço do chão criar um mundo no qual seja falso que al-
está molhado, é falso dizer que não está. gum contador tenha boa memória. Nesse
Se é verdade que não está molhado, é falso mundo, nenhum contador poderia ter boa
­dizer que está. Uma sentença e sua negação memória. Por outro lado, num mundo no
sempre devem ter valores de verdade opos- qual é verdadeiro que existe pelo menos um
tos. Não é isso o que acontece, porém, com contador dotado de boa memória, é falso
as sentenças: que nenhum contador tenha memória boa.
Isso nos mostra que a negação de:
Algum contador tem boa memória.
Algum contador
Algum contador não tem boa memória.
tem boa memória
Note que estas sentenças podem perfeita- não é
mente ser verdadeiras ao mesmo tempo.
Algum contador não tem boa memória
Como questão de fato, aliás, é bem provável
que haja contadores dos dois tipos: os que mas sim
têm boa memória e os que não têm. Se é as-
Nenhum contador tem boa memória
sim, então devemos concluir que a segunda
sentença não é a negação da primeira. Nesse Da mesma forma, a negação de
caso, não basta acrescentar um “não” à sen-
Algum contador não tem boa memória
tença para obtermos a sua negação. Temos
que recorrer a algum outro meio. é
Para descobrir qual é a negação das duas
Todo contador tem boa memória;
sentenças acima, vamos imaginar que você
pois a única forma de criar um mundo
no qual seja falso que exista um contador
com boa memória é criar um mundo no
qual todos tenham.
Temos, portanto, quatro tipos de
Exercício individual em sala de aula
sentenças a considerar. Elas se opõem
duas a duas:
Veja se consegue determinar qual é
a negação das seguintes sentenças:
Todo Nenhum
1) Todo cantor que está iniciando sua
contador contador
carreira gosta de ser aplaudido. tem boa tem boa

x
2) Algum dos convidados não estava memória. memória.
presente.
3) Há pelo menos um jogador que não
irá receber a medalha.
4) Ninguém gosta de ser traído.
lógica e argumentação

5) Alguém não trouxe os documentos Algum Algum


que pedi. contador contador
tem boa não tem boa
6) Carlos chegará da Inglaterra amanhã memória. memória.
ao meio-dia.
7) Todos estão ansiosos com as provas. A cruz no meio desse diagrama indica
8) Nem tudo que reluz é ouro. as proposições que se contradizem, isto é,
9) Quem desdenha quer comprar. que são a negação uma da outra. Utilizan-
10) Há males que vêm para o bem. do a terminologia que acabamos de ado-
90
tar, chegaremos ao seguinte gráfico:
Sentenças universais afirmativas, da
UNIVERSAL UNIVERSAL forma “Todo S é P”, serão representadas
AFIRMATIVA NEGATIVA do seguinte modo:

x
PARTICULAR PARTICULAR
AFIRMATIVA NEGATIVA
Aqui, a área cinzenta representa a
inexistência de qualquer coisa nessa re-
gião do círculo S que está fora do círcu-
A negação de uma sentença universal lo P. Representa o fato, portanto, de que
afirmativa é sempre a sentença particular não existe nenhum S que não seja P, ou,
negativa correspondente; e a negação de como costumamos dizer, o fato de que
uma sentença universal negativa é sempre todo S é P.
a sentença particular afirmativa corres- Sentenças universais negativas, do
pondente. tipo “Nenhum S é P”, serão simbolizadas
Esse esquema com os quatro tipos prin- assim:
cipais de sentenças foi proposto pela pri-
meira vez por Aristóteles[+], em seu Tratado
da interpretação. Ele ficou conhecido com o
nome de “quadrado da oposição”, pois nele
estão representadas as principais oposições
existentes entre proposições desse tipo.
Nas diagonais, temos sentenças contraditó-
rias entre si, isto é, sentenças que se negam
umas às outras. À esquerda, temos proposi- A região cinzenta, agora, está posta na
ções afirmativas; à direita, proposições ne- intersecção entre S e P, mostrando que
gativas. Acima, temos proposições univer- não existe nenhum elemento comum às
sais; abaixo, proposições particulares. duas regiões. Em palavras, é isso que ex-
pressaríamos dizendo: “Nenhum S é P”.
Como argumentos funcionam Para simbolizar as sentenças particu-
Toda essa discussão teve início com o es- lares, utilizaremos um “x” posto dentro
tudo de argumentos que estão baseados de uma certa região do círculo para in­
no uso de palavras como “algum”, “todo”, dicar que, ali, existe pelo menos um indi­
“nenhum” e “não”. Agora que estudamos víduo. Por exemplo, para dizermos que
em detalhe o funcionamento de sentenças “Algum S é P”, utilizaremos o diagrama:
lógica e argumentação

nas quais essas palavras aparecem, estamos


em condições de compreender melhor como
é que aqueles argumentos funcionam. Para
isso, precisaremos de um modo uniforme
de se representar as sentenças do quadra-
do da oposição. Usaremos diagramas se-
melhantes ao que usamos no começo deste
módulo, mas que se aplicam a um número 91
muito maior de casos.
Finalmente, para dizer que “Algum S mos, então, de uma figura na qual exis-
não é P”, poremos o “x” na região de S tem três círculos entrelaçados:
que é exterior a P, indicando que existe A C
pelo menos um elemento que está incluí-
do em S, mas não em P:

M
Usando esses diagramas, podemos
testar um grande número de argumen- Agora, devemos representar as premis-
tos que estão baseados no uso das pala- sas do argumento nesse diagrama. Por
vras “todo”, “algum”, “nenhum” e “não”. onde começar? Pela primeira premissa ou
Vamos voltar ao argumento que estuda- pela segunda? Normalmente, tanto faz.
mos no início deste módulo e ver como No entanto, como existe aqui uma pre-
ele poderia ser simbolizado com o auxí- missa particular e uma universal, é sem-
lio de nossos diagramas. O argumento pre melhor (e causa menos problemas)
era o seguinte: começar pela representação da universal.
Todo contador tem uma boa memória. Representemos, então, a primeira premis-
Há pelo menos um atleta
sa, afirmando que todo contador (C) tem
que não tem uma boa memória. boa memória (M). Os círculos que nos in-
Portanto, há pelo menos um atleta
teressam são apenas os círculos de C e de
que não é contador. M. Para dizer que todo C é M, devemos
pintar de cinza toda a região de C que está
Utilizando as letras “C”, “M” e “A” para
fora de M. O resultado será este:
representar respectivamente as expres-
sões “contador”, “pessoa com boa memó-
ria” e “atleta”, teríamos um argumento A C
com a seguinte forma:
Todo C é M.
Algum A não é M.
Portanto, algum A não é C.

Sabemos como representar a primei-


ra premissa. Sabemos como representar
a segunda premissa. E também sabemos M
lógica e argumentação

como representar a conclusão. Cada uma


dessas sentenças corresponde a um dos Agora, vamos representar a segunda
diagramas que acabamos de examinar. premissa – uma sentença particular nega-
Como poderíamos, porém, representar tiva – nesse mesmo diagrama. Ela diz que
as duas premissas ao mesmo tempo? Elas existe pelo menos um atleta (A) que não
não envolvem dois círculos apenas. En- tem boa memória (M). Tudo o que temos
volvem três: o círculo dos contadores (C), a fazer é ir até o círculo dos atletas e pôr
o círculo das pessoas com boa memória uma letra “x” na região que está fora do
92 (M), e o círculo dos atletas (A). Partire- círculo das pessoas que têm boa memória.
O diagrama ficará assim: Portanto, há pelo menos um atleta que
é contador.

A C (Repare que só retiramos a palavra


“não” da segunda premissa e da conclu-
são.) Será que esse argumento é válido?
Vamos primeiro esquematizá-lo, usando
as mesmas letras que usamos antes:
Todo C é M.
Algum A é M.
Portanto, algum A é C.
M
Notem que o diagrama para a primeira
premissa não muda. Só teremos que mu-
Pronto. Aí estão as duas premissas re- dar a simbolização da segunda premissa.
presentadas. Como saber se o argumento Ao invés de pormos o “x” na região de A
é válido? exterior a M, devemos pôr o “x” na região
Vamos lembrar o que é necessário para comum aos atletas e aos homens que têm
que um argumento seja válido. Se um argu- boa memória. No entanto, existem aqui
mento é válido, deve ser impossível que as duas possibilidades. Reparem que essa re-
premissas sejam verdadeiras e a conclusão gião comum tem duas sub-regiões:
seja falsa. Quando um argumento é válido,
A C
se imaginarmos as premissas verdadeiras,
somos obrigados a imaginar que a conclu-
são é verdadeira também.
Estamos diante de uma “figura” daqui-
lo que as duas primeiras premissas afir-
mam que acontece: todos os contadores
terem boa memória e existir pelo menos
um atleta que não tenha boa memória.
Vejamos se é possível imaginar que a M

conclusão do argumento é falsa. Ela afir-


ma que existe pelo menos um atleta que E agora? Onde posicionar o nosso “x”?
não é contador. Ora, é fácil ver que o dia- Na região vermelha, ou na região azul? A
grama das premissas me obriga a aceitar segunda premissa não me diz nada a res-
essa conclusão como verdadeira. O mes- peito. Ela só me diz que existe um atleta
mo “x” que usamos para representar a que tem boa memória. Não me diz se esse
existência de um atleta que não tem boa atleta de boa memória está fora do círculo
memória está ali representando a exis- dos contadores...
tência de um atleta que não é contador.
lógica e argumentação

É impossível, portanto, que as premissas A C


sejam verdadeiras e a conclusão seja falsa.
O argumento é válido.
Considere, agora, um outro argumen-
to muito semelhante a esse primeiro:
Todo contador tem uma boa memória.
Há pelo menos um atleta que tem uma
boa memória. 93
M
... ou dentro dele:

A C

Argumentos válidos?
Desenvolvimento individual por
escrito.

Vamos agora testar a validade dos


seguintes argumentos:
M 1) Não há médico competente que
Como a premissa não diz nada, deve- não seja estudioso. Nenhum mé-
mos adotar uma solução neutra: poremos dico que trabalha nesse hospital
o nosso “x” em cima da linha, indicando é competente. Portanto, nenhum
que não sabemos se ele está dentro ou médico que trabalha nesse hos-
fora do círculo dos contadores: pital é estudioso.
2) Não há médico estudioso que
A C
não seja competente. Nenhum
médico que trabalha nesse hos-
pital é competente. Portanto, ne-
nhum médico que trabalha nes-
se hospital é estudioso.
3) Todos os rios desta região estão
poluídos, embora nem todos se-
jam perigosos. Pode-se concluir
M
daí que nenhum rio poluído des-
Pronto. Agora, temos uma boa repre- ta região é perigoso.
sentação de nossas duas premissas. 4) Não há rio que seja seguro, em-
A pergunta que devemos fazer é a bora alguns sejam fascinantes.
seguinte: se isso que o gráfico represen- Isso mostra que nem tudo que é
ta fosse verdadeiro, seria possível que a fascinante é também seguro.
conclusão fosse falsa? A resposta é cla- 5) Todos os policiais que faziam a
ramente “sim”. A conclusão afirma que ronda da cidade a cavalo desper-
existe pelo menos um contador que tem tavam o orgulho de seus familia-
boa memória. Nosso gráfico está afir- res. Todo aspirante que se clas-
mando isso? É claro que não. Nosso grá- sificava entre os dez melhores
fico nos mostra exatamente o contrário: alunos do curso passava a fazer
estamos em dúvida a respeito disso. As a ronda da cidade a cavalo. Pode-
premissas não nos obrigam a posicionar -se concluir daí que todo policial
lógica e argumentação

o “x” no interior do círculo dos contado- que despertava o orgulho de


res. O “x” pode tanto estar dentro daque- seus familiares havia se classifi-
la região, quanto fora dela. Portanto, é cado entre os dez melhores alu-
perfeitamente possível que as premissas nos do curso.
sejam verdadeiras e a conclusão seja fal- 6) Nem tudo que reluz é de ouro, e
sa. O argumento não é válido. nem tudo que é de ouro nos traz
felicidade. Portanto, nem tudo
que reluz nos traz felicidade.
94
ALGUNS PRINCÍPIOS DE LÓGICA FORMAL

A lógica contemporânea desenvolveu-se a Uma característica dessas linguagens artifi-


partir dos trabalhos de autores como Gottlob ciais é possuir símbolos especiais corresponden-
Frege (1848-1925) e Bertrand Russell (1872-1970), tes a palavras e expressões da linguagem coti-
que criaram linguagens artificiais para codificar os diana que são fundamentais para entendermos
processos de inferência. Sentenças da linguagem os processos de inferência. Abaixo estão algu-
cotidiana podem ser reescritas nessas linguagens mas das principais palavras desse tipo e alguns
artificiais – adquirindo um aspecto um pouco es- dos símbolos usados nas linguagens artificiais
tranho para não especialistas, mas muito útil para da lógica para representá-las. Vejamos como
se testar se uma inferência é válida ou não. funciona cada um desses símbolos.

Nome Interpretação na
Símbolo
formal linguagem comum

Negação ¬ “não”

Conjunção ⋀ “e”

Disjunção ⋁ “ou”

Condicional ⟶ “se... então”

Bicondicional ⟷ “se e somente se”

Negação (“não”) Conjunção (“e”)


É a operação que inverte o valor de verdade de A a palavra “e” também é importante para a lógica.
uma proposição. Se p for uma proposição qualquer, Uma proposição na qual duas outras proposições
então, se p for verdadeira, ¬p será uma proposição estão unidas pela palavra “e” é chamada na lógica de
falsa; se p for falsa, ¬p será verdadeira. Podemos “conjunção”. Uma conjunção só é verdadeira caso
representar o funcionamento desse símbolo lógico as duas proposições conectadas pela palavra “e”
por meio de uma tabela de verdade: forem verdadeiras. Um dos símbolos comumente
usados pelos lógicos para simbolizar a conjunção é
⋀. Eis a tabela de verdade de uma conjunção:
p ¬p
V F p q p⋀q
F V V V V
V F F

A tabela nos mostra o funcionamento do F V F

símbolo ¬, que como vimos corresponde à pa- F F F


lavra “não” da linguagem cotidiana. Na coluna
da esquerda, listamos os dois valores de ver- Como se vê, a conjunção “p ⋀ q” só é verda-
dade que a proposição p pode possuir: ou ela deira na primeira linha, quando tanto p quanto
é verdadeira (V), ou é falsa (F). Na coluna da q são verdadeiras. Em todas as outras linhas, a
direita, você vê o valor que a negação assume conjunção é falsa.
em cada caso: falsa quando p é verdadeira, e Vamos imaginar que no lugar da letra “p” te-
verdadeira quando p é falsa. nhamos a proposição “5 é um número primo”
ALGUNS PRINCÍPIOS DE LÓGICA FORMAL

e que no lugar da letra “q” tenhamos a pro- Recorrendo mais uma vez a nosso exemplo,
posição “9 é múltiplo de 2”. A conjunção p ⋀ q obteremos a proposição:
corresponderia à sentença: “5 é um número primo ⟶ 9 é múltiplo de 2”
“5 é um número primo ⋀ 9 é múltiplo de 2” Esta é uma proposição falsa, pois “5 é um nú-
que é falsa, pois a proposição correspondente à mero primo” (o antecedente) é uma proposição
letra “q” é falsa. Temos, portanto, o caso corres- verdadeira e “9 é múltiplo de 2” (o consequente)
pondente à segunda linha da tabela. é uma proposição falsa. Se invertermos a posição
do antecedente e do consequente, porém, tudo
Disjunção (“ou”)
muda. A proposição:
Para que uma disjunção seja verdadeira,
“9 é múltiplo de 2 ⟶ 5 é um número primo”
basta que apenas um dos elementos conectados
é verdadeira, pois tem antecedente falso e
seja verdadeiro.
consequente verdadeiro, o que corresponde à
terceira linha de nossa tabela.
p q p⋁q Note que, se tivermos duas proposições
V V V falsas, o condicional será verdadeiro, como se

V F V pode ver consultando a última linha da tabela.


Assim, muito embora isso pareça estranho, a
F V V
proposição:
F F F “A Lua é de queijo ⟶ 2+3=77”
é uma proposição verdadeira, pois tem antece-
dente falso e consequente falso.
Colocando as mesmas proposições no lugar
das letras “p” e “q”, obteríamos agora a proposição
“5 é um número primo ⋁ 9 é múltiplo de 2” Bicondicional (“se e somente se”)
que é uma proposição verdadeira, conforme se Um bicondicional só será verdadeiro se
pode verificar na segunda linha da tabela. o valor das duas sentenças conectadas for o
mesmo.
Condicional (“se... então”)
Um enunciado condicional tem a forma “se p,
então q”, e é simbolizado nas linguagens artifi-
x y x⟷y
ciais da lógica por meio do símbolo ⟶. A pro-
V V V
posição que é posta antes desse símbolo é cha-
mada de “antecedente”; a que é posta depois é V F F

chamada de “consequente”. Um condicional só F V F


é falso caso seu antecedente seja verdadeiro e F F V
seu consequente seja falso. Em todos os outros
casos, o condicional é verdadeiro. Vejamos isso
numa tabela de verdade:
Note que a proposição
“5 é um número primo ⟷ 9 é múltiplo de 2”
p q p⟶q
é falsa, pois a primeira proposição é verdadeira e
V V V
a segunda é falsa. Já a proposição
V F F
“A Lua é de queijo ⟷ 2+3=77”
F V V
é verdadeira, pois as duas proposições têm o
F F V
mesmo valor de verdade (ambas são falsas).
Expressões lógicas no nosso cotidiano
Pesquisa em banco de dados e Avançando mais um passo, digamos que
desenvolvimento individual por escrito nesse momento você não está mesmo inte-
ressado no grande artista paraibano Jackson
Quando fazemos pesquisas na internet do Pandeiro (nome artístico de José Gomes
ou em outros bancos de dados, muitas ve- Silva, 1919-1982), e portanto gostaria de res-
zes usamos expressões lógicas. Digamos tringir ainda mais os resultados de sua bus-
que você queira lembrar o nome de uma ca, por meio da expressão:
canção de Luiz Melodia cuja letra inclui pandeiro AND(melodia) NOT(Jackson)
a palavra “pandeiro”, ou conhecer grava- ou
ções dela. pandeiro +melodia -Jackson
Se, num site de buscas ou banco de da- • No exemplo acima, que operadores
dos, você digitar lógicos foram utilizados? Tente “traduzi-lo”
pandeiro OR(melodia) para a linguagem lógica formal, utilizando
encontrará milhares de resultados que os operadores e símbolos explicados no
não lhe interessam. Isso porque o mo- box sobre conectivos lógicos. (Um aviso:
tor de busca utilizou a disjunção, o ope- motores de busca da internet não costu-
rador “ou” (⋁), e trará resultados que mam reconhecer esses símbolos; o objetivo
tenham qualquer dos dois, ou pandeiro é somente compreender quais são esses
ou melodia. conectivos e como podem ser utilizados em
Você pode direcionar melhor sua pes- uma situação prática.)
quisa, por exemplo digitando no campo de • Em seguida, construa outras expressões
busca: de busca, mais complexas. Por exemplo:
pandeiro AND(melodia) você está interessado em resultados que
ou tenham a ver com “mangueira”, que podem
pandeiro +melodia ser ou não referentes à escola de samba ca-
O que significa essa expressão? Que rioca, mas que não tenham a ver diretamen-
estamos interessados em todos resulta- te com a árvore frutífera do gênero Mangife-
dos que tragam, juntos, os dois termos ra. Como deveríamos formular a expressão
pesquisados. Não queremos registros que de busca? Há mais de um modo de fazê-lo?
tragam apenas um deles, só “pandeiro” Experimente formular, por escrito, duas ou-
sem “melodia”, nem apenas “melodia” sem tras pesquisas, utilizando, cada uma, de 3 a 5
“pandeiro”. elementos com diferentes operadores.
lógica e argumentação

Falácia e argumento

De acordo com a noção mais geral de apenas uma pessoa – tome como exemplo
“argumento”, toda pessoa que argu- um vendedor que tenta convencer você a
menta está sempre tentando persuadir comprar um determinado produto numa
um determinado “auditório”. Esse audi- loja. O auditório de quem argumenta
tório pode ter dimensões muito diferen- pode também ser composto por um pe-
tes e ser composto por pessoas dos mais queno grupo de pessoas – é o que acon- 97
variados perfis. Pode ser composto por tece quando o professor de matemática
demonstra um teorema na lousa. E pode Portanto, se o que as premissas dizem é
também ser composto por milhões e mi- verdadeiro, o que a conclusão diz deve
lhões de pessoas  – pense, por exemplo, ser verdadeiro também – o saldo de Antô-
em campanhas políticas ou publicitárias. nio deve ser superior ao de Vicente.
Em todos esses casos, temos uma pes- Compare esse argumento que acaba-
soa (ou um grupo de pessoas) tentando mos de examinar com este outro: “Todos
convencer seus ouvintes (ou leitores) a os que foram à estreia da companhia de
respeito de alguma coisa, e via de regra teatro puderam formar uma opinião bem
quem procura convencer lançará mão de fundamentada a respeito do desempe-
argumentos: tentará levar seu auditório a nho dos atores. Alguns críticos não foram
aceitar uma determinada conclusão tendo à estreia. A opinião de alguns críticos,
como base determinadas premissas. portanto, não está bem fundamentada.”
As premissas são as sentenças de que O que você acha? Este argumento é
tanto eu quanto o meu bom? É fácil mostrar
auditório partimos. A que não.
conclusão é a senten- Suponhamos que se­
ça a que pretendo fazer Nem todo argumento ja mesmo verdade que
meu auditório chegar. A todos os que foram à
que parece bom
questão, porém, é que estreia puderam formar
nem todo argumento é realmente é. Muitas uma opinião bem fun-
bom, e nem todo bom vezes pensamos damentada a respeito
argumento tem a mesma do desempenho dos ato-
poder chegar a
força. Um argumento é res. É claro que isto não
bom caso suas premis- certa conclusão precisa ser verdadeiro.
sas efetivamente levem à pelas premissas, Alguém pode ir à estreia
conclusão desejada. e dormir durante todo o
mas na verdade não
O problema é que nem espetáculo, ou pode ter
todo argumento que pare- podemos. uma ligação afetiva tão
ce bom é realmente bom. forte com um dos atores
Há argumentos que nos que se mostre incapaz
enganam. Muitas vezes, de formar uma opinião
somos levados a pensar que estamos auto- minimamente isenta. Suponhamos, en-
rizados pelas premissas a chegar a uma cer- tretanto, que a premissa seja verdadei-
ta conclusão, mas na verdade não estamos. ra  – suponhamos que todas as pessoas
Vejamos como isso acontece. que foram à estreia saíram do teatro em
Considere, em primeiro lugar, o se- condições de formar uma opinião fun-
guinte argumento: “O saldo bancário de damentada a respeito do desempenho
Carlos, embora positivo, é metade do dos atores.
saldo de Antônio. O saldo de Vicente é Suponhamos que a segunda premissa
lógica e argumentação

1/3 superior ao de Carlos. É óbvio, por- também seja verdadeira e que alguns crí-
tanto, que o saldo de Antônio é superior ticos teatrais não tenham ido à estreia da
ao de Vicente.” peça em questão. Novamente, é claro que
O argumento é irretocável. Se é verda- isto pode ser falso. Supondo, no entanto,
de que o saldo de Carlos, embora positi- que as duas premissas sejam verdadeiras,
vo, é metade do saldo de Antônio, então será que a conclusão tem que ser verda-
o saldo de Vicente teria de ser o dobro do deira também? É claro que não. Supo-
98 saldo de Carlos para alcançar o de Antô- nhamos que os críticos a que se refere a
nio. Como é só 1/3 superior, não alcança. conclusão sejam idênticos àqueles men-
cionados na segunda premissa (o que não tarmos a conclusão. Se a aceitamos, é por
é de modo algum necessário). outras razões, que não aquelas apresen-
Mesmo assim, um crítico que não ti- tadas nas premissas. Como você reparou,
vesse ido à estreia poderia ter ido ao en- porém, os dois argumentos são muito pa-
saio geral da peça, ou então a uma outra recidos. Eles só diferem no detalhe – neste
apresentação qualquer, no segundo ou no caso, pela substituição da palavra “todos”
terceiro dia. Poderia também ter forma- pela palavra “somente”. Isso faz com que o
do sua opinião conversando com colegas primeiro argumento nos engane. Ele pare-
seus, nos quais confia, que foram à peça e ce ser bom, embora na verdade não o seja.
estavam em condições de lhe dar uma des- Argumentos assim, que parecem ser bons,
crição detalhada do desempenho de cada mas não são, nós chamaremos de falácias.
um dos atores. É fundamental que você aprenda a re-
Para que você perceba melhor a situa- conhecer uma falácia. É por meio das falá-
ção envolvida, compare o argumento que cias que somos enganados – às vezes até
acabamos de analisar com este outro: por nós mesmos. Em todos os contextos
“Somente os que foram à estreia da com- em que são utilizados argumentos, quem
panhia de teatro puderam formar uma argumenta pode muito bem lançar mão
opinião bem fundamentada a respeito do de falácias, fazendo-nos tirar conclusões
desempenho dos atores. Alguns críticos equivocadas que poderíamos perfeita-
não foram à estreia. A opinião de alguns mente evitar. É por isso que o estudo das
críticos, portanto, não está bem funda- falácias é tão importante. Conhecendo-as,
mentada.” Repare que a única diferença seremos capazes de identificar um mau
em relação ao argumento anterior é o uso argumento e contestá-lo (se ele nos for
da palavra “somente” ao invés da palavra apresentado por outra pessoa), ou sim-
“todos”. A diferença pode parecer peque- plesmente não usá-lo (caso nós mesmos o
na, mas, neste caso, é decisiva. estejamos querendo apresentar).
Suponha que a primeira premissa
seja verdadeira: que apenas (apenas, veja Falácia formal
bem!) as pessoas que foram à estreia es- A falácia encontrada no argumento que
tavam em condições de formar uma opi- apresentamos acima envolve uma forma
nião fundamentada sobre o desempenho argumentativa que é falaciosa. Isso quer
dos atores. Ora, se isso for verdade, e se dizer que ela pertence a um grupo de argu-
também for verdade que alguns críticos mentos caracterizado por uma determina-
não foram à estreia, a conclusão inevitá- da estrutura. Essa estrutura pode ser me-
vel é que esses críticos não estavam em lhor observada se empregarmos variáveis.
condições de dar opiniões fundamenta- Considere o seguinte esquema:
das a respeito do desempenho dos atores.
Todo(a) A é B.
Aqui, não há escapatória. O argumento é
bom. Se suas premissas forem verdadei- Algum(a) C não é A.
lógica e argumentação

ras, a conclusão também será verdadeira.


Portanto, algum(a) C não é B.
Existe, portanto, uma certa relação entre
as premissas e a conclusão, no caso do pri- Neste esquema, a letra “A” está no lugar
meiro argumento, que não existe no caso da expressão “pessoa que foi à estreia da
do segundo. No segundo caso, as premissas companhia de teatro”; a letra B, no lugar
dão apoio à conclusão, podem ser citadas de “pessoa que podia formar uma opinião
como evidências em favor dela, como razões bem fundamentada a respeito do desem-
para aceitá-la. No primeiro caso, não. As penho dos atores”; e a letra “C”, no lugar 99
premissas não fornecem apoio para acei- de “crítico”. Nenhum argumento que tenha
essa forma é válido. Todos eles são falacio- claramente que a conclusão não está re-
sos, o que você pode constatar facilmente presentada. A conclusão afirmava que al-
fazendo um diagrama. Simbolizemos pri- gum C não é B, e o diagrama mostra que
meiramente a premissa universal, afirman- as premissas simplesmente não me per-
do que todo A é B: mitem decidir se isso é verdade ou não.
A B Todo e qualquer argumento que tenha
essa forma, portanto, é falacioso, e é por
isso que chamamos esse tipo de falácia de
“falácia formal”.

Sentenças com termos equívocos


Nem toda falácia, no entanto, é for-
mal. As mais importantes e frequentes,
C aliás, não o são. Um exemplo simples de
Agora, simbolizemos a segunda pre- falácia não formal é aquela que envolve
missa, afirmando que algum C não é A. o uso de termos equívocos, ou seja, com
Para isso, faremos um “X” na região do mais de um significado. Considere a se-
círculo C que está fora do círculo A. Ora, guinte sentença:
se você observar bem, verá que há duas
Todos os bancos desta praça estão
regiões em que esse “X” poderia ser posto:
quebrados.
dentro da parte que é comum a C e a B,
ou então dentro da parte que pertence ex- A palavra “banco”, você sabe, pode se
clusivamente ao círculo C. Ora, nossa pre- referir a uma instituição financeira, e
missa não me permite decidir entre uma também a um objeto: um assento feito de
região e a outra: ela me diz que algum C madeira, pedra ou outro material. Tanto
não é A, mas não me diz se esse C que não a instituição financeira quanto o assento
está incluso em A pertence a B ou não. A podem estar “quebrados”, mas em senti-
premissa não toma nenhuma decisão a dos diferentes. A instituição financeira
esse respeito e, por isso, nós também não “quebra” quando suas dívidas são irrever-
devemos tomar. Vamos posicionar o “X” sivelmente maiores que seus haveres. O
em cima da linha divisória, para mostrar assento está quebrado quando está mate-
que não temos como saber se esse X per- rialmente partido. Contudo, convém lem-
tence a B ou não: brar que a palavra “praça” também é equí-
voca. Ela pode significar uma “área pública
aberta dentro de uma cidade”, como a Pra-
A B
ça do Rosário, em Caruaru; mas pode tam-
bém significar a “comunidade comercial e
financeira de uma cidade”, isto é, o con-
junto dos estabelecimentos de comércio e
lógica e argumentação

serviços de uma cidade (definições base-


adas no Dicionário Houaiss da Língua Por-
tuguesa, Rio de Janeiro: Objetiva, 2009).
Neste último sentido, podemos dizer que
C Fulano “não tem crédito na praça”, ou
Pronto. Esse diagrama é o “retrato” seja, não consegue fazer compras a presta-
das duas premissas de qualquer argumen- ção nas lojas, nem tomar empréstimo nos
100 to que tenha a mesma forma da falácia bancos de uma cidade. Portanto, a sen-
apresentada acima. Nele, podemos ver tença que demos acima tem dois sentidos
completamente diversos. Ela pode querer respeito do sistema financeiro a partir
dizer que todos os assentos de uma pra- de uma premissa afirmando que todos os
ça estão partidos, e também pode querer assentos de uma praça pública estão da-
dizer que todas as instituições financeiras nificados. E isso é obviamente ilegítimo.
de uma cidade estão insolventes. Para que o argumento seja válido,
Considere agora o seguinte argumento: é preciso que os termos mantenham o
mesmo significado nas premissas e na
Todos os bancos desta praça estão
conclusão.
quebrados.

Nenhum banco estrangeiro está Apelando para convencer


quebrado. Um outro tipo de falácia decorre de
uma característica muito importante
Nenhum banco desta praça é estrangeiro.
associada aos contextos argumentati-
Em princípio, o argumento parece vos. Os contextos em que os argumen-
bom. Usemos as seguintes abreviações: tos aparecem em nossa vida cotidiana
envolvem uma mistura de elementos ra-
A: banco (instituição financeira) desta
cionais e emocionais.
praça (localidade comercial e financeira)
Quando argumentam, as pessoas não
B: banco que está quebrado buscam simplesmente convencer um
auditório por meio de expedientes ra-
C: banco estrangeiro
cionais. A emoção é frequentemente uti-
Podemos simbolizar aquilo que está lizada. Buscamos comover, enternecer,
dito nas duas primeiras premissas por enraivecer, divertir, seduzir nosso audi-
meio do seguinte diagrama: tório ao mesmo tempo em que buscamos
convencê-lo. Pense em como se comporta
A B um vendedor, por exemplo. Ele irá usar
argumentos para persuadi-lo a comprar
uma mercadoria, mas ao mesmo tentará
estabelecer uma relação emocional po-
sitiva entre você e ele, ou entre você e a
mercadoria que está sendo vendida.
Esse apelo às emoções é em grande
medida inevitável. O bom argumentador
C sabe eleger o tom adequado a uma deter-
É fácil ver que, ao simbolizar as duas minada circunstância. Não vai usar um
premissas, a conclusão já fica simbolizada. palavreado erudito se estiver se dirigin-
Com efeito, a conclusão de nosso argu- do a pessoas muito simples. O bom argu-
mento (“Nenhum banco desta praça é es- mentador também deve ajustar seus ar-
trangeiro”) seria abreviada pelo esquema gumentos às crenças de quem irá ouvi-lo.
lógica e argumentação

“Nenhum A é C”, e o diagrama exibe toda a É inútil usar premissas de caráter religio-
região comum aos círculos A e C preenchi- so quando argumentamos com um ateu.
da de vermelho e de verde, indicando que A escolha do tom e das premissas ade-
aí não existe nenhum elemento. Formal- quadas só pode ser feita quando refleti-
mente, portanto, o argumento é correto. mos com cuidado a respeito do contexto
No entanto, como os termos “ban- em que estamos inseridos. Quem são as
co” “praça” e “quebrado” são equívocos, pessoas que estamos querendo conven-
alguém poderia ser levado a querer, por cer? No que elas acreditam? Quais são 101
meio desse argumento, concluir algo a suas inclinações e preferências estéticas?
o próprio nome está dizendo, esse tipo
de falácia procura atingir a pessoa que

Mike Segar/Reuters/ Latinstock


argumenta, e não os argumentos apre-
sentados por ela. É muito comum ver
esse tipo de expediente ser utilizado por
políticos durante campanhas eleitorais.
Imaginemos uma situação desse tipo.
O candidato A sugere uma certa mudan-
ça na legislação ambiental. O candidato
B, então, diz o seguinte: “Aqui está um
documento provando que o senhor está
sendo processado por desmatar suas
fazendas. O senhor não é uma pessoa
Debate eleitoral entre o candidato confiável para propor qualquer mudança
democrata Barack Obama e o candidato
na legislação ambiental. As mudanças
republicano Mitt Romney em outubro de
2012, na disputa eleitoral pela presidência
que o senhor propõe devem ser rejeita-
dos Estados Unidos da América. das”. Esse tipo de alegação costuma ter
um efeito muito forte sobre os eleitores.
Se não encontrar uma boa resposta, o
candidato A ficará desmoralizado. Va-
Que formação anterior elas possuem? E mos refletir um pouco sobre a relevância
assim por diante. São exatamente essas desse tipo de argumento.
perguntas que um bom publicitário faz Em princípio, poderíamos pensar
antes de dar início a uma campanha, e que ele é completamente irrelevante. De
que um político experiente também faz fato, importa considerar os argumentos
antes de participar de um comício ou de apresentados pelo candidato A em favor
um debate. Não há nada de errado nis- de sua proposta. Se ele tem problemas
so. Como já dissemos, em grande medida na Justiça, isso é outra história. É per-
isto é parte integrante da arte de argu- feitamente possível que ele esteja sendo
mentar. processado e que, por outro lado, suas
O problema surge quando pretende- propostas para a área ambiental sejam
mos usar as emoções para fazer nosso realmente boas. Se é assim, porém, por
auditório tomar como bom um argu- que esse tipo de argumento é levado em
mento que é ruim. Desde a Grécia antiga consideração e costuma mesmo ser de-
os filósofos ocuparam-se do estudo des- cisivo em determinadas circunstâncias,
se tipo de situação e procuraram chegar como acontece num debate eleitoral?
a uma classificação geral das principais Basicamente, porque os eleitores não
falácias cometidas (intencionalmente têm informações suficientes para ava-
ou não) pelas pessoas. Durante a Idade liar com precisão os argumentos apre-
lógica e argumentação

Média, esse estudo teve continuidade. sentados num debate. Os candidatos


As falácias, então, passaram a ser co- apresentam dados. Serão esses dados
nhecidas por nomes latinos que são usa- verdadeiros? Serão os únicos? Não ha-
dos até hoje. verá uma série de fatores que estão sen-
do propositalmente deixados de lado?
Argumento ad hominem O eleitor só pode aceitar as conclusões
A mais importante delas é conhecida a que os candidatos chegam caso confie
102 como argumento ad hominem, ou argu- nesses candidatos. Ou seja, caso não te-
mento “dirigido a um homem”. Como nha motivos para achar que está sendo
enganado. Diante de uma acusação gra- de suas intenções ao propor uma mudan-
ve, ele pode ser levado a reavaliar a con- ça na legislação. Pode ser que verifique-
fiança que deposita numa certa pessoa. mos, por exemplo, que ele está querendo
É por isso que o argumento ad hominem apenas se beneficiar com a mudança na
funciona tão bem nessas circunstâncias. lei. O candidato B, portanto, teria ra-
É preciso, entretanto, tomar cuidado. zão quando diz que o candidato A não
O fato de alguém estar sendo processado é uma pessoa confiável. Será possível,
por desmatar a própria fazenda não sig- no entanto, concluir a partir daí que as
nifica necessariamente que essa pessoa mudanças propostas devem ser rejeita-
seja pouco confiável quando argumenta das? A resposta, aqui, parece ser “não”.
em favor de uma mudança na legislação É perfeitamente possível que, apesar de
ambiental. É possível, por exemplo, que não ser uma pessoa confiável, o candida-
ela seja inocente e o processo tenha sido to A esteja apresentando uma boa pro-
instaurado mesmo assim. Como também posta. O fato de ele não ser uma pessoa
é possível que, ao ser processada, ela te- confiável não significa que tudo o que
nha sentido na pele um aspecto inade- ele diz a respeito da legislação ambiental
quado da legislação atual e agora tenha, seja falso. Significa apenas que devemos
portanto, excelentes motivos para pro- ficar com um pé atrás, e buscar informa-
por alterações na lei. ções de outras fontes. Como, no entan-
to, a acusação do candidato B provocou
Conforme se pode notar, não há re-
em nós uma aversão pelo candidato A,
gras fixas. Não existe um “diagrama” que
nós temos a tendência de transferir essa
possamos fazer para saber se o argumen-
aversão do candidato para a proposta
to ad hominem é relevante ou não é. Só
que ele fez. “Se veio dele, boa coisa não
um exame minucioso de cada caso nos
deve ser”, pensamos. A rigor, no entan-
permitirá separar o joio do trigo. É pos-
to, a rejeição da proposta não encontra
sível, porém, tirar algumas lições gerais
apoio nas acusações que um candidato
do caso que estamos estudando. Exami-
fez ao outro.
nemos mais uma vez o argumento apre-
sentado pelo candidato B. Ele poderia ser
Argumento ad verecundiam
reescrito da seguinte maneira:
Um outro tipo muito comum de argu-
1. O senhor está sendo mento, e que também é estudado desde
processado por desmatar suas a Antiguidade, é o chamado argumento
fazendas. ad verecundiam. Em latim, a palavra ve-
2. Portanto, o senhor não é recundia (com acento tônico na terceira
uma pessoa confiável para sílaba) pode ser usada para significar o
propor mudanças na legislação mesmo que “respeito” ou “reverência”.
ambiental. Podemos ter “verecundia” pelas leis, ­pelos
3. Portanto, as mudanças que pais, pelas autoridades e assim por dian-
lógica e argumentação

o senhor propõe devem ser te. O argumento ad verecundiam é aquele


rejeitadas. que faz apelo ao respeito que nosso au-
ditório sente por uma autoridade num
Já vimos que nem sempre podemos determinado assunto. Para provar que o
concluir 2 a partir de 1. Pode acontecer, que dizemos é verdadeiro, citamos essa
no entanto, que, ao examinar o caso com autoridade.
cuidado, cheguemos à conclusão de que Novamente, como ocorria no caso do
o processo movido contra o candidato A argumento ad hominem, há muitos usos 103
seja um bom motivo para desconfiarmos legítimos do argumento ad verecundiam.
Figura 1 Figura 2

c2=a2+b2 h=√2

22
c2
a2 12
a c 1 h

b
1

d2
12

Nem sempre que citamos uma autorida- desse teorema existente no livro Os
de estamos querendo enganar alguém ou elementos, escrito por um matemático
levá-lo a uma conclusão errônea. Quando grego chamado Euclides por volta do
citamos um autor consagrado num texto, ano 300  a.C. Como Euclides é uma au-
estamos fazendo um uso perfeitamente toridade consagrada em geometria, o
legítimo desse tipo de argumento. Veja leitor tem excelentes razões para aceitar
nas figuras acima um exemplo elaborado o apelo à autoridade feito nesse raciocí-
por nós mesmos: nio. Não há nada de errado nisso.
É claro que a eficácia do argumento ad
“Conforme está demonstrado nos verecundiam depende em grande parte
Elementos, de Euclides, a área de de meu auditório reconhecer autoridade
um quadrado construído sobre a hi- no autor que está sendo citado. De nada
potenusa de um triângulo retângulo adiantaria citar uma autoridade desco-
é igual à soma das áreas construídas nhecida do público ou, pior, uma que o
sobre cada um dos catetos. (Figura 1) público em pauta não respeitasse. Mais
Ora, se o lado de um quadrado mede uma vez, é essencial sabermos de ante-
1m, sua área mede 1m2. Portanto, mão quem é o nosso auditório, quais são
se temos um triângulo retângulo suas crenças e seu modo de vida para
isósceles com catetos medindo, cada ­escolhermos corretamente o argumento
lógica e argumentação

um deles, 1m, a área do quadrado mais adequado em cada situação.


construído sobre a hipotenusa deve Muitas vezes, não encontramos no
ter 2m2 e a hipotenusa deve medir argumento ad verecundiam um autor
2m (Figura 2).” específico sendo citado. Basta citar, por
exemplo, toda uma categoria profissio-
Não há nada de errado aqui no uso nal. Veja este exemplo:
do argumento ad verecundiam. Em vez
de demonstrar o teorema de Pitágoras, “Qualquer engenheiro irá lhe dizer
104
podemos mencionar a demonstração
­ que essa coluna está mal posicionada.
Portanto, é recomendável que o senhor Esse apelo genérico à autoridade de
construa uma nova, para reforçar a uma categoria profissional está muito
estrutura. Podemos incluir esse serviço bem representada na ópera cômica O
no orçamento?” elixir do amor, do compositor italiano
Gaetano Donizetti (1797-1848). A ópe-
Quem argumenta assim não está ci- ra conta a história de Nemorino, um
tando um livro ou uma pessoa especí- camponês ingênuo que se apaixona por
fica. Está falando dos engenheiros “em Adina, rica fazendeira que não lhe dá a
geral” e apelando para a autoridade des- menor atenção. Desesperado, Nemori-
ses “engenheiros” para dizer que a colu- no recorre a um charlatão, Dr. Enciclo-
na está fora do lugar. Este apelo é legíti- pédia, que está de passagem pela cidade
mo? Pode ser e pode não ser. Quem fala vendendo um elixir que teria o poder
isso pode ser um pedreiro experiente, de curar qualquer doença e solucionar
que já trabalhou com muitos engenhei- qualquer problema. O falso médico as-
ros e aprendeu a avaliar se uma coluna segura a Nemorino que, se ele tomar a
está bem ou mal posicionada. Mas tam- poção, irá conquistar o amor de Adina.
bém pode ser um espertalhão, querendo Pede apenas que espere um dia para que
vender um serviço desnecessário. a poção faça o seu efeito (e ele tenha
Como lidar com essa situação? Não tempo de fugir). Nemorino acredita na
há receitas prontas. Só podemos nos autoridade do Dr. Enciclopédia: toma a
valer de certos dados contextuais: a ido- garrafa toda e fica bêbado – o tal “elixir”
neidade da pessoa com quem estamos não passava de uma bebida alcoólica ba-
falando, a experiência que ela tem (ou rata. Como sabe que tem que esperar um
que imaginamos que ela tenha), as in- dia, quando se encontra com Adina, ele
formações de uma segunda opinião – finge que não a vê. Tem medo de abordá-
eventualmente, a de um engenheiro. -la antes de o elixir fazer efeito. Adina

@Foto: Hiroyuki Ito/Getty Images

lógica e argumentação

“O elixir do amor”, de Gaetano Donizetti, em abril de 2007, no Metropolitan Opera House


(Nova Iorque, EUA). 105
toma aquilo por desprezo, fica com o ­ leem resolveu explorar isso. Anunciou
G
orgulho ferido e, pela primeira vez, olha que a pasta continha um novo compo-
Nemorino com outros olhos. Após uma nente, chamado “GL70”, que protegia os
série de episódios engraçados, Adina fi- dentes ao longo de todo o dia. Nasceu as-
nalmente se apaixona pelo camponês, sim o slogan: “Gleem... o creme dental para
que acaba recebendo uma herança e se as pessoas que não podem escovar os dentes
casa com sua amada. No final da ópera, após cada refeição”. Anúncios foram vei-
todos festejam os poderes do elixir do culados em revistas e na televisão explo-
amor fabricado pelo Dr. Enciclopédia. rando essa ideia.
Esta ópera de Donizetti ilustra duas A natureza desse componente miste-
coisas muito importantes. Em primeiro rioso – o GL70 – não era conhecida. Não
lugar, é um excelente exemplo do uso havia evidência de que a pasta cumpris-
falacioso do argumento da autoridade. se o prometido. Mas o anúncio tenta dar
O Dr. Enciclopédia não é médico, em um ar “científico” às coisas que são ditas
primeiro lugar. Investe-se, portanto, de sobre esse creme dental. O nome dado
uma autoridade que ele não tem. Sabe à substância misteriosa sugere que ela
perfeitamente, além disso, que a poção pertence a toda uma família de com-
não é capaz de produzir os efeitos pro- postos químicos que foram exaustiva-
metidos. Há uma outra coisa a ser notada mente testados, um a um, na busca dos
aí, no entanto. O charlatão afirma que, se melhores resultados. O leitor é levado a
Nemorino tomar a poção, irá conquistar pensar que, antes do GL70, foram tes-
Adina – e isso realmente acontece. Não tados o GL69, o GL68, o GL67 e assim
por causa da poção, é claro, mas por uma por diante. Só no setuagésimo compos-
série de acasos. O argumento não se tor- to os cientistas envolvidos na pesquisa
na menos falacioso por conta de aquilo teriam ficado satisfeitos e incorporado
que estava previsto em sua “conclusão” o produto à pasta de dentes. Repare nas
(o amor de Adina) acontecer. É daí exa- duas imagens das bactérias vistas sob a
tamente que o enredo da ópera extrai seu lente de um microscópio. O leitor pensa
caráter humorístico. Todos os persona- que está diante de resultados de labora-
gens (com exceção do médico) passam a tório, comprovando a eficácia do GL70.
acreditar no engodo porque não se pre- Nada disso. As figuras foram escolhidas
ocupam em verificar aquilo que seria es- para impressionar o leitor e fazê-lo con-
sencial nesse caso: se o Dr. Enciclopédia fiar nas palavras ditas no texto. Tudo
é de fato uma autoridade (ele não é), e se isso só funciona porque a maioria dos
o elixir produz mesmo os efeitos prome- leitores não tem formação científica, e
tidos (ele não produz). por isso têm respeito, verecundia (como
se dizia em latim) por cientistas que sa-
Vamos analisar agora um anúncio de bem lidar com microscópios e utilizam
publicidade (reproduzido na página ao nomes técnicos obscuros como “GL70”.
lógica e argumentação

lado) no qual se faz um uso mais sutil do Muitas vezes, aliás, não é preciso
argumento ad verecundiam. nem mesmo referir-se indiretamente à
Essa campanha foi feita na década de ciência. Basta citar uma frase numa lín-
1950. E durante alguns anos foi muito gua desconhecida pelo auditório para
eficiente. Grande parte das pessoas pas- impor respeito e obter o convencimen-
sava o dia fora de casa e escovava os den- to. Vejam o que diz o filósofo alemão
tes apenas uma, no máximo duas vezes Arthur Schopenhauer[+] (1788-1860) a
106 por dia. A estratégia de comunicação da respeito disso:
Aqui está por que
Revista Life, ed. 23, 04/06/1956. Coleção particular
tantas pessoas usam

SOMENTE GLEEM...
o creme dental para as pessoas que
não podem escovar os dentes após
cada refeição.

APENAS UMA ESCOVAÇÃO


destrói as bactérias causadoras
do mau hálito e da cárie.

PROVA

As bactérias Após uma


da boca, escovação
principal com Gleem,
causa da cárie, até 90%
desenvolvem- dessas
se durante a bactérias
noite deste estão
modo. destruídas.

Se você pudesse escovar os


dentes após cada refeição,
O mau hálito foi evitado
“Eu não qualquer bom creme dental
o dia todo com uma
posso serviria... Mas se, apesar de ser
escovação usando
escovar preferível sempre escovar os
Gleem. Testes científicos
os dentes dentes, você não puder fazer
comprovam que uma
após cada isso, então você deve usar Gleem.
escovação com Gleem
refeição e Uma escovação com Gleem
antes do café da manhã
por isso EU destrói a maioria das bactérias...
dá à maioria das pessoas
CONFIO EM oferece resistência adicional
proteção durante todo o
GLEEM.” contra as cáries. Além disso, o
dia contra o mau hálito.
sabor de Gleem é tão maravilhoso
Comece o seu dia com
que mesmo as crianças gostam
Gleem.
de usá-lo regularmente! E, para as
crianças, uma escovação regular
SOMENTE após as refeições é um modo
GLEEM tem comprovado de reduzir as cáries.
GL70 para Lembre-se de que existe somente
combater as um Gleem – o creme dental
cáries. para as pessoas que não podem
escovar os dentes após todas as
refeições.
lógica e argumentação

“Os incultos têm um respeito todo pletamente inventadas para a oca-


seu diante de floreios gregos e lati- sião: na maior parte das vezes, ele
nos. Também se pode, se necessário, [o oponente] não tem o livro à mão
não apenas deturpar as autorida- e nem saberia manejá-lo. O melhor
des, mas até falseá-las de uma vez, exemplo disso quem dá é o vigário
ou mesmo citar outras que são com- francês que, para não pavimentar a 107
rua diante­de sua casa como tinham cipais.” (Schopenhauer, “A arte de sus-
de fazer todos os demais cidadãos, tentar a razão”. Tradução nossa. Edi-
citou um provérbio bíblico: paveant ção de referência: Der handschriftliche
illi, ego non pavebo [i.e., “eles te- Nachlass [O espólio manuscrito], Manus-
mem, eu não temerei”]. Isto bastou critos de Berlim, 1818-1830. Frankfurt:
para persuadir as autoridades muni- Kramer, 1970, p. 689)

Uma outra lógica: Newton da Costa


Um dos princípios lógicos mais impor-
p ⋀ ¬p
tantes é o princípio de não-contradição. Ele
diz que nenhuma proposição pode ser ao você estará simplesmente expressando
mesmo tempo verdadeira e falsa. De acordo esse dilema, e dizendo algo que lhe parece
com ele, se tomarmos uma proposição e sua ser correto naquela circunstância e (mais
negação, jamais pode acontecer de ambas importante ainda) que poderia mesmo ser
serem verdadeiras. A validade desse princí- correto. Pode haver obrigações morais que
pio pode ser exibida numa tabela de verda- são contrditórias, de tal modo que deva-
de. Dizer que tanto uma proposição quanto mos fazer duas coisas que não se conciliam
sua negação são verdadeiras corresponderia entre si.
a afirmar a conjunção O professor Newton da Costa, nascido
p ⋀ ¬p em 1929, é um brasileiro que criou siste-
mas de lógica nos quais as contradições são
Traduzindo: que uma sentença e sua nega-
permitidas, ou seja, sistemas nos quais as
ção, sejam juntas verdadeiras. Isso contraria
tabelas de verdade são muito diferentes da-
o princípio de não-contradição que, mesmo
quelas apresentadas em nosso boxe sobre
sem o uso das tabelas de verdade, foi aceito
conectivos. Essas lógicas, chamadas de “ló-
desde a Antiguidade. No entanto, há deter-
gicas paraconsistentes”, permitem lidar com
minadas situações que parecem oferecer
situações como a que descrevemos acima,
contraexemplos a ele. Suponha que você
estudando que tipo de consequência essas
esteja numa guerra, e um general lhe dê a
“contradições” trariam para as teorias nas
ordem para bombardear uma cidade. Supo-
quais elas fossem admitidas. Se utilizamos
nha que p seja a proposição
uma lógica “clássica”, na qual vale o princípio
“Eu devo obedecer às ordens do general” de não-contradição, os dilemas morais têm
de ser “negados” de algum modo. Se utiliza-
Nesse caso, ¬p será a proposição
mos uma lógica paraconsistente, é possível
“Eu não devo obedecer às ordens do general” admiti-los e lidar com eles no interior de
Pode acontecer de, numa situação como uma teoria sem maiores problemas.
lógica e argumentação

essa, você ficar diante do que chamamos O professor Newton da Costa publicou
de um “dilema moral”. Você não sabe o que diversos livros e artigos a respeito de suas
deve fazer. Por um lado, você reconhece que lógicas paraconsistentes e tornou-se inter-
deve obedecer às ordens de um superior; nacionalmente reconhecido por esse traba-
por outro, não lhe parece correto destruir lho. Quem desejar conhecer algo da sua pro-
vidas de civis ao bombardear aquela cidade. dução, pode consultar o livro Ensaio sobre os
Nessa situação, é possível argumentar que, fundamentos da Lógica (São Paulo: Hucitec,
se você disser a proposição 1994), de sua autoria.
108
Identificação de falácias
Debate em sala de aula e apresentação 6) “Especialistas disseram a este telejor-
de seminário nal que a única maneira de o Brasil
crescer a taxas elevadas é baixando
Para “ganhar traquejo”, como se diz, os impostos para favorecer o investi­
discuta em equipe os seguintes argu- mento privado.”
mentos, procurando dizer quais são fa- 7) M inha professora de Geografia disse
laciosos, e por quê. que o rio Indo tem a maior parte de
1) Esse cachorro é seu. Esse cachorro é sua extensão em território indiano.
pai. Portanto, esse cachorro é seu pai.
2) O presidente da companhia abriu a • Forme par com um colega e anali-
reunião dizendo: “Precisamos fazer sem a argumentação implícita na peça
alguma coisa”. Um de seus funcio- publicitária fictícia abaixo.
nários apontou para o plano que ele Em seguida, apresente os resultados
próprio havia elaborado e emendou: para os de mais alunos da classe, em
“Isto é alguma coisa. Portanto, preci- forma de seminário.
samos fazer isso”.

Ilustração: Najla Bunduki com imagem de Anderm/Can Stock


3) “É público e notório que essa mulher
nunca foi fiel no casamento. Se ela
não merece a confiança do próprio
marido, como pode pretender ter a
sua confiança, caro eleitor?”
Reflita sobre esse argumento: ele pro-
cede racionalmente? Se mudarmos os
gêneros de seus termos (“mulher” para
“homem”; “marido” para “esposa”), ele
permanece soando idêntico aos ouvidos
do auditório? Por quê? Fundamente a
sua resposta e discuta com os colegas.
4) “Quem é você para me dizer que re-
frigerante faz mal à saúde? Você tam-
bém toma um montão...”
5) “Quem é você para me dizer que refri-
gerante faz mal à saúde? Você não é
médico nem nutricionista...”
lógica e argumentação

109
Shutterstock
©Foto:
A encruzilhada representa uma dúvida e uma decisão: que rumo tomar?

unidade 4 dúvida e
E certeza
m nossas vidas, nas ações e acontecimentos
mais comuns, todos nós, em muitos momen-
tos, temos dúvidas. Essas dúvidas são de vários ti-
Vivemos cercados
dúvidas......................111 E
posdee de importância bem
Às vezes, por exemplo,tos
m nossas vidas, nas ações e acontecimen-
diferente.
maisdecomuns,
saímos todos anós, em muitos
casa e começa
momentos, temos dúvidas. Essas dúvidas são
A dúvida, base chover. E nos perguntamos: “Será que fechei a ja-
da investigação nela ...... 117
de vários
do quarto?”. Essa é umatipos e de simples,
dúvida importância ba- bem diferente.
Às vezes,
nal, que só surgiu por causa por exemplo,
da chuva, e quesaímos
talvezde casa e começa
Duvidando a chover.
se dissipe quando parar E nos perguntamos:
de chover, mas que por al- “Será que fechei a
para atingir janela
guns instantes toma contadodequarto?”. Essa é uma dúvida simples,
nossos pensamentos
a certeza................... 124
banal, queresolvê-la
e preocupações. Tentaremos só surgiurecordando
por causa da chuva, e que
Limites da dúvida
talvez antes
as ações que executamos se dissipe quando
de sair. Talvezparar
con- de chover, mas
ao garantir a sigamos lembrar que quefechamos
por alguns instantes
a janela toma conta de nos­
e diremos
certeza......................
a nós 135 soslembro-me
mesmos: “Sim, pensamentos e preocupações.
agora, depois que Tentaremos
coloquei os sapatos, resolvê-la
fechei arecordando
janela, antes as de
ações
sairque executamos
do quarto”, ou algoantes
assim.de sair. Talvez consigamos lembrar que
fechamos a janela e diremos a nós mesmos:
“Sim, lembro-me agora, depois que coloquei os
sapatos, fechei a janela, antes de sair do quarto”,
ou algo assim.
Vivemos cercados de dúvidas

Há dúvidas que podemos solucionar se Vários outros exemplos poderiam ser


lembrarmos o que fizemos, como: “Fechei dados além desse para ilustrar casos co-
a janela do quarto?”. Mas há outras que muns e banais de dúvidas que nos ocorrem.
não conseguimos resolver recorrendo à Há também, digamos assim, dúvidas
nossa memória. Uma dúvida dessa poderá mais sérias e importantes, que nos acom-
ter efeitos diferentes em cada um de nós. panham durante muito tempo, às vezes
Alguns, mesmo sem concluir se fecharam durante anos, porque estão relaciona-
ou não a janela, deixarão a dúvida de lado, das ao nosso futuro e à nossa felicidade.
ainda que saibam que a chuva poderá mo- Por exemplo, é muito natural que um es-
lhar o quarto, e levarão seus pensamentos tudante que está terminando o Ensino
para assuntos mais importantes. Outros, Médio se pergunte: “Que profissão devo
porém, poderão passar o dia pensando seguir? Aquela que meus pais gostariam
nisso, enquanto estudam, trabalham ou se que eu seguisse ou aquela de que gosto?”.
divertem, ansiosos para voltar para casa e Ou então: “Será que conseguirei passar no
descobrir. Outros ainda, se não estiverem vestibular sem fazer cursinho?”. Ou mes-
muito longe de casa, chegarão a dar meia mo uma dúvida ainda mais geral: “Será
volta, entrar em casa de novo e verificar que terei uma vida feliz?”.
se fecharam ou não a janela (descobrindo, Também nesses casos, as pessoas rea-
muitas vezes, que a tinham fechado). gem de modos diferentes a essas dúvidas,
de acordo com suas próprias personali-
Insley Pacheco. Coleção particular

dades. Para certas pessoas, a dúvida é um


estímulo para encarar novos desafios; para
outras, pode ter um efeito paralisante, até
que novas circunstâncias permitam ultra-
passá-la.
Essas reações mostram que estamos
agora diante de casos mais importantes de
dúvidas. Nossas decisões sobre como en-
frentá-las terão profundo impacto em nos-
so futuro. E não podemos solucioná-las tão
fácil e rapidamente como no caso da janela
do quarto. Na verdade, muitas vezes pas-
samos nossas vidas convivendo com elas.
Mas há também outro tipo de dúvida,
talvez mais complicada, que muitos de
nós podemos ter. Certamente não são
dúvida e certeza

todas as pessoas que formulam esse tipo


de dúvida, e mesmo os que o fazem, não
o fazem com frequência. Mas alguns po-
dem dar muita importância a elas. Al-
Machado de Assis (1839-1908), con-
guns exemplos: “Deus existe?” – “O uni-
siderado um dos maiores escritores
verso terá fim?” – “Qual foi sua origem?”
brasileiros, é autor de romances como
– “Por que devemos respeitar regras mo-
Dom Casmurro e Memórias Póstumas
rais e leis?”... Essas dúvidas podem ser 111
de Brás Cubas.
chamadas de “filosóficas”.
Anônimo, séc. XVIII. Coleção particular
Um jovem diante da difícil decisão entre a vida monástica e a vida mundana
(Anônimo, A difícil escolha. Óleo sb/ madeira, século XVIII).

São elas, e outras semelhantes a elas, tu, namorados de infância que se casam e
que os filósofos vêm elaborando e ten­ têm um filho, Ezequiel, e que são amigos
tando solucionar durante séculos. próximos do casal Sancha e Escobar. Mas
Questões filosóficas, então, envolvem o casamento se desfaz porque Bentinho
dúvidas e interrogações – veja que as dú- chegou à conclusão de que sua esposa e seu
vidas foram sempre apresentadas como amigo o teriam traído e que o menino se-
pensamentos sob a forma da interroga- ria, na verdade, filho do outro. O próprio
ção. Mas existiria uma forma particular Bentinho é o narrador em primeira pessoa,
de expressar essas dúvidas filosóficas? Em já um homem idoso, nunca plenamente
certo sentido, a maneira como um filósofo recuperado dos acontecimentos, transfor-
enfrenta suas dúvidas e questões é seme- mado numa pessoa fechada, o “casmurro”
lhante àquela que adotamos em nossas do título. “Casmurro” significa “teimoso”,
dúvidas corriqueiras. “implicante”, mas também “triste”, “cala-
Quando tento me lembrar das ações do”, “ensimesmado”, e é nestes últimos sig-
que executei antes de sair de casa, para nificados que o termo é empregado.
descobrir se fechei a janela, ou mesmo O fato de ser todo o romance uma nar-
voltando para casa a fim de observar se o rativa de alguém “ensimesmado”, isto é,
fiz, estou adotando uma espécie de “méto- “voltado para si mesmo”, é relevante aqui:
do”, que escolhi antes de agir. Devo fazer todo o tempo Bentinho oferece ao leitor
dúvida e certeza

uma “investigação” e preciso definir um uma sucessão de experiências pessoais,


procedimento para fazê-la. E isso também de emoções e pensamentos próprios re-
será necessário se eu quiser descobrir se sultantes de seu contato com a realidade.
existe um Deus, se o universo terá fim etc. É sempre nesse registro de intimidade e
Vamos examinar um caso célebre envol- “interioridade” que vemos surgir e crescer
vendo uma dúvida e uma investigação que nele uma dúvida, uma suspeita sobre sua
tenta solucioná-la. Dom Casmurro, um dos esposa e seu amigo, que certos aconteci-
112 mais famosos romances de Machado de mentos transformarão, para ele, numa ab-
Assis, conta a história de Bentinho e Capi- soluta certeza.
Em dado momento do romance, quan- dúvida, e para isso ele desce da carruagem
do Escobar morre afogado, Bentinho nar- em que se encontrava, para pensar melhor
ra ter visto Capitu olhar para o defunto de enquanto caminha. Observe-se a oposição
maneira apaixonada. Esse é o momento entre “ordem lógica e dedutiva”, presente
em que surge para ele a dúvida: teria sua nesta série de pensamentos de Bentinho, e
Capitu o traído com seu melhor amigo? a “barafunda de ideias e sensações” de que
Observe que é uma dúvida totalmente era tomado há pouco, na carruagem (bara-
inesperada e, certamente, indesejada. funda: confusão, balbúrdia, baderna). Ago-
Agora, contra sua própria vontade, Ben- ra, ele acha que pode compreender melhor
tinho tem de chegar a uma resposta que os acontecimentos. Essa análise detida e
solucione sua dúvida, tem de descobrir a ponderada que Bentinho acredita fazer du-
verdade, pois não pode mais viver sem ela. rante a caminhada leva-o a concluir que a
Leia agora a seguinte passagem: clareza de seu pensamento se vira atrapa-
lhada pela “antiga paixão”. Por algum tem-
“A razão disto era acabar de cismar, po, ele conclui que não tem razão para du-
e escolher uma resolução que fosse ade- vidar de Capitu. Mesmo assim, o resultado
quada ao momento. O carro andaria é incerto, ou pelo menos hesitante, pois as
mais depressa que as dúvidas continuarão a
pernas; estas iriam incomodá-lo.
pausadas ou não, po- É bem importante
diam afrouxar o pas- Quando queremos essa distinção entre um
so, parar, arrepiar ca- esforço de pensamen-
resolver uma dúvida,
minho, e deixar que to “dedutivo”, “lógico”
a cabeça cismasse à também tentamos – pelo qual Bentinho,
vontade. Fui andan- pensar de forma pensando consigo mes-
do e cismando... Cui- mo (“concluí de mim
“lógica” e “dedutiva”
dei de recom­ por-lhe para mim”), julga ser
os olhos, a posição – procuramos pensar capaz de analisar de
em que a vi, o ajunta- no assunto de forma forma isenta os aconte-
mento de pessoas que cimentos antes de che-
objetiva, clara,
devia naturalmente gar a uma conclusão – e
impor-lhe a dissimu- sem “paixão”. a “paixão” que estava
lação, se houvesse prejudicando suas diva-
algo que dissimular. gações anteriores sobre
O que vai por ordem o assunto.
lógica e dedutiva, tinha sido antes uma Quando queremos resolver a dúvida
barafunda de ideias e sensações, gra- sobre se fechamos a janela do quarto, tam-
ças aos solavancos do carro e às inter- bém tentamos pensar de forma “lógica” e
rupções de José Dias. Concluí de mim “dedutiva”, isto é, procuramos pensar no
dúvida e certeza

para mim que era a antiga paixão que assunto de forma objetiva, clara, sem “pai-
me ofuscava ainda e me fazia desvairar xão”. Se queremos descobrir se fechamos
como sempre.” (M. Assis, Dom Casmur- ou não a janela, não devemos pensar nis-
ro, in: Obra completa. org. A. Coutinho, so levando em conta o fato de que deseja-
vol. I. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, mos ter fechado a janela. Esse desejo não
1994, cap. CXXVI, pp. 928-929) nos ajuda em nada em nossa investigação.
No caso de Bentinho, parece que ele julga
“Cismar” é a palavra que nessa passagem possível chegar a uma certeza sobre o seu 113
expressa a reflexão de Bentinho sobre sua problema, ele acredita que tal certeza­será
­ btida sem que suas emoções se misturem
o Vejamos agora outra passagem:
e atrapalhem sua investigação. Ele se jul-
ga capaz de deixar de lado seus próprios “Palavra que estive a pique de
sentimentos – o ciúme, o ódio, a decep- crer que era vítima de uma grande
ção – para avaliar os fatos com isenção. Ao ilusão, uma fantasmagoria de alu-
mesmo tempo, é toda a sua felicidade que cinado; mas a entrada repentina de
está em jogo nessa investigação, e seu re- Ezequiel, gritando: ‘Mamãe! Ma-
sultado lhe mostrará se ainda poderá ser mãe! é hora da missa!’ restituiu-me
feliz como antes. à consciência da realidade. Capitu e
No decorrer da narrativa, Bentinho eu, involuntariamente, olhamos para
julga descobrir mais indícios de que foi a fotografia de Escobar, e depois um
traído. Conforme Ezequiel vai crescen- para o outro. Desta vez a confusão
do, ele vê no menino mais semelhança dela fez-se confissão pura. Este era
com Escobar, e isso vai dando força à aquele; havia por força alguma foto-
suspeita de que o menino é filho do fale- grafia de Escobar pequeno que seria
cido amigo, o que o deixa furioso. o nosso pequeno Ezequiel. De boca,
Para ele, essa semelhança se torna porém, não confessou nada; repetiu
uma forte evidência da traição. Sua dúvi- as últimas palavras, puxou do filho e
da se dissipa progressivamente, porque saíram para a missa.” (M. Assis, “Dom
os fatos vão lhe mostrando qual seria a Casmurro”, op. cit., cap. CXXXIX, p. 938)
verdade. Isso faz com que passe a sentir
repulsa pela criança, embora em alguns Aqui, a conclusão é definitiva. Se até en-
momentos ainda sinta ternura por ela. tão as dúvidas de Bentinho, embora fortes,
Seus sentimentos são conflitantes. Mas não eram ainda suficientemente intensas
ele julga que suas conclusões são absolu- e fundamentadas para o levarem à certeza
tamente corretas e objetivas. da traição, agora se apresenta um fato que

Stefanie Mohr Photography/Shutterstock


dúvida e certeza

Bem me quer, mal me quer... Há quem despetale uma margarida para saber se a
pessoa amada corresponde ou não a esse amor. A dúvida, nesse caso, se resolve pelo
114 recurso ao que foge de nosso alcance: a sorte.
Paramount Pictures/Album/Latinstock
Glenn Close em cena de Atração fatal
(direção: A. Lyne, EUA: 1987). O filme
narra a história de um advogado bem
sucedido, casado, que se envolve com
outra mulher. O caso torna-se um
inferno para ambos.

julga decisivo e que desfaz para ele a pos- certeza incontestável, porque encontrou
sibilidade de que fosse vítima de “ilusão” fatos e razões que lhe garantem essa cer-
e “fantasmagoria”. Não há mais lugar para teza. Sua dúvida foi investigada e o levou
dúvida, a certeza se impõe como incontes- a essa convicção. A dúvida, assim, é pon­
tável: ele foi traído por Capitu e Escobar. to de partida para a chegada a uma certe­
Passa então a recordar-se de aconteci- za. Onde ainda há dúvida, não há certeza;
mentos e agora vê neles novas evidências onde há certeza, não há mais dúvida.
do romance dos dois: “episódios vagos e Contudo, podemos nos perguntar:
remotos, palavras, encontros e inciden- Bentinho interpretou adequadamente os
tes, tudo em que a minha cegueira não pôs fatos ou se deixou levar por suas paixões?
malícia, e a que faltou meu velho ciúme. Está realmente provado que Capitu o traiu
Uma vez em que os fui achar sozinhos e com Escobar? É perfeitamente possível
calados, um segredo que me fez rir, uma que a certeza de Bentinho não correspon-
palavra dela sonhando, todas essas re- da à verdade dos fatos. Pode ser que Capi-
miniscências vieram vindo agora, em tal tu não o tenha traído, ela sempre o negou.
atropelo que me atordoaram” (M. Assis, Estamos convencidos dessa traição? Mui-
Dom Casmurro, op. cit., cap. CXL, p. 939). tos leitores do romance diriam que sim,
Se antes não conseguia saber da verdade, muitos outros diriam que não.
agora ele a conhece e é capaz de desco­bri- Posso ter uma certeza sobre algo, cer-
la em muitos fatos diversos. teza que considero bem fundamentada,
Machado parece ter deliberadamente que, no entanto, se revele falsa. E isso vale
deixado incerta a solução do enigma: Ca- até mesmo para a janela de meu quarto.
dúvida e certeza

pitu realmente traiu Bentinho, ou este foi Pode ser que eu a tenha fechado, mas que
vítima de seu próprio ciúme? Não há uma logo depois a tenha aberto por alguma
resposta evidente e óbvia a essa pergunta. razão, e que, quando me lembrei dos fa-
Há bons motivos para defender as duas tos, recordei-me apenas do primeiro, não
posições, e parece ter sido essa a intenção do segundo. Nesse caso, ao retornar para
do escritor. De qualquer modo, com isso casa, trarei comigo a certeza de ter fechado
se pode também destacar um aspecto im- a janela, mas a encontrarei aberta.
portante relacionado ao tema. Certo ou Assim, minha certeza pode ser fal- 115
errado, Bentinho julga ter chegado a uma sa e não é necessariamente garantia da
A dúvida de Hamlet

O ator David Garrick no papel de Hamlet (séc. XVIII).


Desenvolvimento individual por escrito

Você provavelmente já escutou esta


frase: “Ser ou não ser, eis a questão”. Ela

James McArdell / Library of Congress


é enunciada por Hamlet, o protagonista
daquela que talvez seja a tragédia mais
conhecida da história do teatro mundial:
A trágica história de Hamlet, príncipe da Di-
namarca, publicada em 1603. Seu autor,
William Shakespeare (1564-1616), fez de
Hamlet, seu personagem mais famoso,
um indivíduo assolado pela dúvida.
Muitos estudiosos apontaram nisto
uma característica do herói moderno, O livro, em tradução brasileira:
marcado pela reflexão, pela melancolia, William Shakespeare, Hamlet. Tradução:
pela incerteza e dúvida em relação ao Millôr Fernandes. Porto Alegre: L&PM Edi-
papel que devemos exercer na sociedade tores, 1997.
e no mundo. A ideia desses estudiosos é Há outras traduções em português, sen-
que Hamlet é moderno porque extrai da do que uma delas merece menção especial.
dúvida a matéria de sua virtude. Referimo-nos à tradução de Péricles Eugê-
Eis duas questões que merecem nossa nio da Silva Ramos (São Paulo: Abril, 1976).
atenção: A tradução de Millôr Fernandes, em todo
1) O que motiva a dúvida de Hamlet no caso, também é excelente e tem a vanta-
ato III, cena 1 da obra? gem de ser de fácil acesso.
2) Quais consequências essa dúvida Versões cinematográficas:
produz sobre Hamlet e sobre os aconte- Hamlet. Direção de Laurence Olivier.
cimentos da peça? Reino Unido: 1948.
Para responder às duas questões, você Hamlet. Direção de Kenneth Branagh.
terá de se familiarizar com a tragédia de EUA: 1996.
Shakespeare. Há duas maneiras de fazê-lo • Após ler a tragédia ou assistir a
(e elas são complementares): ler a obra em uma das versões cinematográficas,
questão ou assistir a uma das versões ci- redija um texto curto, de aproximada-
nematográficas que dela foram realizadas. mente duas páginas, procurando res-
Eis algumas referências. ponder às questões sugeridas acima.
dúvida e certeza

verdade dos fatos. “Certeza” não é si- tentando o tempo todo se convencer de
nônimo de “verdade”. A primeira é um que essa sua certeza subjetiva é também
estado individual, subjetivo, íntimo – objetiva, de que sua desconfiança é real,
lembre-se de que Bentinho está sempre não apenas produto de seu ciúme. Por
falando de si próprio, de seus pensa- isso está em busca de evidências para
mentos –, a segunda é algo relacionado essa certeza.
116 à realidade, aos fatos. A primeira é subje- Imagine que aquelas dúvidas chama-
tiva, a segunda é objetiva. Bentinho está das de “filosóficas”, apesar das grandes
diferenças entre seus conteúdos, te- com os mesmos tipos de dificuldades,
nham tudo isso em comum com as dú- e o modo como as abordamos podem
vidas de Bentinho e com aquelas sobre possuir consequências significativas em
a janela. Também elas têm que lidar nossas vidas.

A dúvida, base da investigação


A primeira coisa a levar em conta, cimento? Não vamos desistir ainda,
quando abandonamos as dúvidas mais não é?
comuns, aquelas que surgem diariamen- T.: Absolutamente, a não ser que
te, e passamos para o âmbito da filosofia, seja você quem desista.
reside no fato de que, com isso, a dúvida S.: Diga então, o que diremos dele,
adquire novo significado e valor. Por um sem que entremos nós próprios em
motivo simples: em filosofia, a dúvida contradição?
também pode revelar-se um importante T.: Aquilo mesmo que tentamos há
instrumento da investigação. Há um texto pouco, Sócrates, pois eu não sei dizer
que põe essa novidade bem diante de nos- mais nada.
sos olhos. Trata-se de uma passagem de S.: O quê?
um dos diálogos mais importantes de Pla- T.: Que a opinião verdadeira é
tão[+] (427-347 a.C.), denominado Teeteto. conhecimento. Ao menos é sem erro
Nesse diálogo, Platão coloca em cena dar opinião verdadeira, e tudo o que
o filósofo Sócrates e seu interlocutor, surge disso vem a ser belo e bom.
­Teeteto, ambos em busca do significado S.: Teeteto, diz o condutor do rio
do conhecimento. De início, porém, ao in- que o próprio rio mostra o caminho. Se
vés de fixarem sua atenção sobre o signi- investigarmos seguindo em frente, tal-
ficado de conhecimento, desviam-se dele vez aquilo que investigamos se mani-
para investigar o que é a falsidade. Logo feste diante de nós, mas, se permane-
esse desvio revela-se uma má escolha. cermos parados, nada se manifestará.
Pois como seria possível conhecer o que é T.: Você está certo. Vamos em
a falsidade, antes de sabermos exatamen- frente, ao exame.
te no que consiste... “o conhecer”? Como S.: Certamente é caso de um exa-
poderíamos conhecer algo sem previa- me breve, já que uma arte inteira
mente ter definido o que é conhecimento? mostra a você que o conhecimento não
Vejamos a passagem: é aquilo.
T.: Como, e qual é essa arte?
“Sócrates: Então, meu jovem, nos- S.: Aquela dos maiores em maté-
so argumento com razão nos censura e ria de sabedoria, que são chamados
mostra que investigamos erroneamen- de oradores e advogados. Por meio de
dúvida e certeza

te, quando abandonamos o conheci- sua arte própria persuadem, não


mento para investigar antes a opinião pelo ensino, mas fazendo os outros
falsa? Ora, é impossível que alguém a opinarem como eles desejam. Ou
conheça antes de compreender suficien- você acha que existem professores
temente o que é o conhecimento. tão hábeis que consigam ensinar
Teeteto: Sócrates, agora é mesmo satisfatoriamente a verdade dos fa-
preciso pensar como você diz. tos, no pouco tempo que possuem, a
S.: Então, para começar tudo de quem não testemunhou um roubo ou 117
novo, o que alguém dirá ser o conhe- outra violência?
meado –, enquanto aquilo que possui
Metropolitan Museum of Art, Nova York

justificação é objeto de conhecimento.


[...]
S.: Então, se alguém, sem uma
justificação, adquire uma opinião
verdadeira sobre algo, sua alma tem
a verdade sobre isso, mas não a co-
nhece. Pois quem não pode dar e re-
ceber uma justificação sobre algo, não
tem conhecimento sobre isso. Mas se
adquiriu uma justificação, possui um
conhecimento perfeito.” (Platão, Teete-
to, 200c-202c. Tradução nossa)
Antes de morrer, Sócrates pediu a um amigo que saldasse Antes de mais nada, é importante ob-
uma dívida sua, um galo que devia a Asclépio (J.-L. David servar que Sócrates e seu jovem interlocu-
[1748-1825], A morte de Sócrates. Óleo sb/ tela, 1787). tor Teeteto estão tentando encontrar o que
em filosofia se costuma chamar de defini-
ção, e que essa definição deverá nos forne-
T.: Acho que não ensinam, acho cer uma resposta à pergunta: “o que é...”
que persuadem. Em nosso caso, como se pode consta-
S.: Então você afirma que persua- tar na fala inicial de Sócrates, busca-se
dir é fazer outra pessoa opinar? a definição daquilo que é chamado pela
T.: Sem dúvida. maioria das traduções de “conhecimento”
S.: Nesse caso, quando os juízes fo- (o termo grego usado por Platão é epis-
ram persuadidos de maneira justa so- téme; daí “epistemologia” – o estudo das
bre fatos que só quem viu pode conhe- condições do conhecimento em geral).
cer, e não de outra maneira, tomando O filósofo se refere à necessidade de
então sua decisão depois de ouvir os terem uma adequada apreensão sobre “o
relatos e de posse de uma opinião que é o conhecimento”, e é isso que, se-
verdadeira, decidiram sem conheci- gundo ele, os motiva e conduz a “investi-
mento, ainda que, se foram bem ins- gar”. Temos, portanto, uma investigação,
truídos, tenham sido persuadidos em atividade típica das diversas correntes da
favor do certo? filosofia, a respeito de uma palavra, de
T.: Certamente. um conceito, de uma ideia sobre a qual
S.: Meu caro, se num tribunal opi- paira uma dúvida: afinal, o que quere-
nião verdadeira e conhecimento fos- mos dizer quando afirmamos que temos
sem a mesma coisa, um juiz compe- conhecimento de algo?
tente não teria opiniões corretas sem Mas repare também que, ao tentar
conhecimento, mas agora uma e outra responder à pergunta “O que é o conheci-
dúvida e certeza

parecem coisas diferentes. mento?”, buscando então uma definição


T.: Sócrates, algo que ouvi dizer e do termo, Sócrates e Teeteto precisam
havia esquecido me vem à mente ago- produzir conhecimento a respeito do
ra: opinião verdadeira acompanhada próprio conhecimento.
de justificação é conhecimento, opi- Para esclarecer o que isso quer dizer,
nião verdadeira sem justificação está observe a seguinte comparação. Quando
fora do conhecimento, e aquilo de que me pergunto: “Deixei a janela aberta?”, ou
118 não se tem justificação não é objeto “Que dia do mês é hoje, mesmo?”, o con-
de conhecimento – é assim que foi no- teúdo de minhas dúvidas são fatos obje-
tivos, acontecimentos que podem ou não Nessa mesma passagem, Sócrates
ter ocorrido. Estou, nesse caso, em busca menciona também algo muito impor-
de um conhecimento sobre a realidade, tante: é preciso manter-se atento, para
sobre fatos. O mesmo se passa quando me evitar “investigar erroneamente”, o que
pergunto: “Existe um deus?”, ou “Qual a implica admitir que existe um modo
origem do universo?”. Também nesses correto de investigar (e outro não). O
casos, as respostas que obterei me darão que, segundo ele, significaria investigar
conhecimentos objetivos, sobre os conte- corretamente? Note que, pelo que diz a
údos da realidade em que estou inserido. Teeteto, Sócrates não está se referindo
Ora, quando me pergunto “O que é ao resultado da investigação, mas a seu
conhecimento?”, não estou em busca de procedimento, ao modo como se conduz
uma verdade sobre o mundo em que me essa investigação: “investigamos errone-
encontro, mas sim à procura de uma res- amente, quando abandonamos o conhe-
posta para uma dú­vida sobre o próprio cimento para investigar antes a opinião
ato de conhecer. falsa. Ora, é impossível
Se é verdade que, que alguém a conheça,
nos exemplos anterio- antes de compreender
res, as respostas me É comum prestarmos suficientemente o que
darão conhecimentos é o ­conhecimento”.
sobre Deus, o uni-
atenção às respostas Então, o erro que
verso, a ação de uma que temos para as Sócrates e Teeteto co-
pessoa ou a janela, nossas interrogações, meteram em sua inves-
no outro caso pode- tigação sobre o conhe-
-se dizer que a respos-
mas nos esquecemos cimento consiste em
ta me dará conheci- de nos perguntar: tentar responder a uma
mento sobre o próprio “Por que essa dúvida pergunta que, para ser
conhecimento – sobre bem respondida, exige
o que está presente no
que tenho deve ser que uma outra pergun-
ato de conhecer, quais respondida?” ta tenha sido formula-
são as condições ne- da e respondida antes.
cessárias para que eu Há então certa ordem
diga que conheço uma de questões que deve
coisa, qualquer coisa. ser seguida por quem quer investigar bem
Nesse caso, o objeto de definição e e corretamente. Esse é um procedimento
de conhecimento é o próprio conhe- metodológico importante.
cimento. E o conhecimento não é um Frequentemente, prestamos a máxi-
fato, uma realidade externa, é antes um ma atenção às respostas que temos para
fenômeno que não faz parte da reali- as nossas dúvidas e interrogações, mas
dade, mas que está presente no indiví- nos esquecemos de nos perguntar: “Por
dúvida e certeza

duo que conhece algo. Isso terá impor- que essa dúvida que tenho deve ser res-
tantes consequências, como veremos, pondida? Qual sua importância? Para
mas já se pode aqui destacar o seguinte: respondê-la bem, há alguma outra per-
é um importante tema e preocupação da gunta que deva ser respondida antes?”.
filosofia saber como se pode conhecer o Eis o problema para o qual, ao utilizar a
mundo, ao mesmo tempo ou até mesmo forma do diálogo, Platão consegue cha-
antes de conhecê-lo. E isso faz com que mar nossa atenção.
haja uma “dúvida” e uma “investigação” Mas por que é preciso antes investi- 119
sobre esse assunto. gar o que é o conhecimento, para depois
poder compreender como é possível a incorreto, ele não o diz simplesmente por-
opinião? Pelo que vimos, não parece ser que é seu desejo pessoal investigar uma
muito difícil de compreender, mas vamos questão antes da outra. Ele o faz porque
tentar formular mais claramente. reconhece que há uma necessidade pre-
Se, segundo a hipótese investigada, sente na relação entre as duas questões,
conhecimento é opinião verdadeira, para necessidade que o leva a adotar aquela or-
compreender como se dá a opinião falsa é dem de investigação.
necessário já saber o que é opinião verda- Note que isto marca uma diferença im-
deira. Sem essa explicação – que nos dá a portante em relação a quem desconfie que
definição do verdadeiro e do que significa sua mulher o traiu, como o Bentinho do
para uma opinião ser especificamente ver- romance Dom Casmurro, de Machado de
dadeira – não teríamos como compreen- Assis. Bentinho se viu obcecado pela sua
der o falso. Isso porque o falso é justamen- investigação não porque achasse que essa
te a ausência do verdadeiro e só pode ser era uma questão “filosófica” indispensá-
compreendido com referência a ele. vel para qualquer investigação posterior,
Para definir o que é a falsidade e, por- mas, sim, porque sua felicidade pessoal
tanto, explicar justificadamente como estava em jogo.
pode surgir em nós uma opinião falsa, Sócrates, por sua vez, mostra a Tee-
sendo ela a falta da verdade, é necessário teto que é necessário, independente de
antes saber o que é a verdade, o que ca- nossas preferências pessoais, investigar
racteriza uma opinião como verdadeira. primeiro uma questão, para então poder
investigar outra, pois sem isso não se
Argumento e necessidade pode obter sucesso.
Assim, quando Sócrates diz a Teeteto Para entender essa necessidade, vol-
que a investigação está seguindo um rumo temos à fala inicial de Sócrates. Observe
como ele expressa a Teeteto o erro da
investigação: “nosso argumento com ra-
zão nos censura e mostra que investiga-
mos erroneamente...”. A expressão im-
Wallace Collection, Londres

portante, agora, é “nosso argumento”.


“Argumento” traduz um dos termos
mais importantes da filosofia platônica e
de toda a filosofia grega clássica: lógos. A
palavra tem um significado bastante am-
plo (está associado ao verbo légo, que sig-
nifica “dizer”) e seu emprego pode variar,
conforme o contexto em que aparece. Mas
podemos ter uma boa ideia de seu signifi-
cado mais básico, observando palavras das
dúvida e certeza

línguas modernas que derivam dela. A co-


meçar por lógica, que é o estudo das formas
de pensamento e dos tipos de enunciados
François Lemoyne (1688-1737) foi que as comunicam. A lógica busca com-
expoente da pintura rococó, apreciada preender de maneira sistemática e rigo-
na primeira metade do século XVIII (O rosa os mecanismos fundamentais desses
tempo salvando a verdade da falsidade esquemas de pensamento. A lógica, entre
120 e da inveja. Óleo sb/ tela, 1737). outras coisas, analisa e sistematiza formas
de argumentos, e, como vimos, Sócrates se
refere à investigação que ele e Teeteto es-
tão fazendo como “nosso argumento”.
Isso significa que a investigação de Só- A palavra lógos
crates e Teeteto a respeito do saber e do
conhecimento deve procurar, digamos as- A palavra lógos indica um tipo de
sim, obedecer ao lógos, ser racional. E esse pensamento e de linguagem que
lógos, diz Sócrates, deve impor-se às nos- aspira a ser “lógica”. Também po-
sas vontades pessoais. Não escolhemos, demos dizer, usando outro termo
diz Sócrates a Teeteto, investigar primei-
muito empregado para traduzi-la,
ro o que é conhecer, para só então res-
ponder à pergunta sobre a opinião falsa. que a palavra aponta para o esfor-
A anterioridade da primeira questão em ço de elaboração de um discurso
relação à segunda é inevitável em virtude racional sobre determinado tema
de seus próprios conteúdos, porque ela é ou assunto. Lógos se traduz, muitas
uma anterioridade “lógica”.
vezes, por razão, porque expressa o
Platão tem uma maneira bem interes-
sante de comunicar a seu leitor a força esforço de dizer as coisas segundo
dessa necessidade: ele personifica o lógos, regras de pensamento sistemáticas
como vimos na fala de Sócrates. É como se e plenamente inteligíveis. Isso expli-
o lógos, na condição de uma personagem, ca também sua presença em quase
dirigisse uma “censura” aos dialogantes,
todas as palavras que indicam pro-
resultando na dificuldade em que ambos
se encontram. Essa personificação é a for- postas de compreensão sistemática
ma encontrada pelo filósofo para expres- e científica de diferentes objetos e
sar a inevitabilidade do lógos e de suas temas: “psicologia” (um lógos sobre
regras. E também, para quem se dispõe a alma, ou psiquê), “sociologia” (um
a investigar a verdade e encontrar defini-
lógos sobre a sociedade), “biologia”
ções, o quão superior ele é, se comparado
a vontades individuais e interesses pró- (um lógos sobre a vida), “antropolo-
prios daqueles que investigam. gia” (um lógos sobre o homem) etc.

Razão, justiça e conhecimento


A mesma forma de conceber o poder do
lógos se apresenta em alguns momentos
daquele que provavelmente é o mais impor- vale a pena registrar: “Mas não deve ser
tante e influente diálogo escrito por Platão: assim, como nosso argumento (lógos) nos
A república. Nele, Sócrates e seus interlocu- indicava há pouco, e devemos obedecê-lo,
tores investigam e tentam responder à per- até que alguém nos convença com outro,
gunta “o que é a justiça”, e a investigação os melhor” (Platão, República, 388e, tradu-
dúvida e certeza

levará a tentar compreender o que são um ção nossa); e “Não sei ainda, mas por onde
Estado justo e um indivíduo justo. o argumento (lógos) nos conduzir, como o
Diante de manifestações de seus jo- vento, para lá deveremos ir” (Platão, Repú-
vens interlocutores, que se reconhecem blica, 394d, tradução nossa).
em dificuldade para levar adiante uma in- Não se engane: o fato de que o argu-
vestigação tão difícil e importante, o ex- mento nos conduz “como o vento” não
periente filósofo lembra-lhes de um pro- significa que vamos para qualquer lu-
cedimento metodológico importante, em gar, porque o vento sopraria de maneira 121
pelo menos dois trechos do diálogo, que sempre imprevista, resultando daí que a
mento” é “opinião verdadeira”. Sócrates

Gravura. Biblioteca Nacional, Paris


então vai mostrar-lhe que essa definição
não é satisfatória.
Marcantonio
Raimondi (c. Sobre método e definições
1480-1534), Segundo Sócrates, a arte da oratória,
A eloquência, empregada nos tribunais, mostra que a
a filosofia e a definição de Teeteto não é boa. Por quê?
ciência – Será Antes de tentarmos compreender como
que essas três isso se dá, é necessário ter em mente algu-
figuras sempre mas ideias que parecem pressupostas em
se entendem? todo esse raciocínio, que dizem respeito
ao modo como Platão, neste diálogo e em
alguns outros, parece compreender o que
está em jogo quando nos propomos a dar
uma definição de algo.
Se respondo à pergunta: “o que é conhe-
investigação não teria rumo certo. Tra­ta- cimento?”, afirmando que “conhecimento”
se de uma metáfora que indica que nós, é “opinião verdadeira” (em outras palavras,
os investigadores, somos conduzidos por dando uma definição de “conhecimento”),
caminhos que não escolhemos, definidos então estou afirmando que “opinião ver-
pela necessidade interna à argumentação. dadeira” contém algo sem o que “conheci-
Voltemos agora ao trecho citado do diá- mento” não seria “conhecimento”.
logo Teeteto. Sócrates e Teeteto constatam Mas será correto concluir que (1)
o equívoco que haviam cometido. Tentaram sempre que houver “conhecimento”, ha-
descobrir o que pode ser opinião falsa, sem verá “opinião verdadeira”, e (2) sempre
antes saber o que é conhecimento. O mo- que houver “opinião verdadeira”, haverá
tivo: passaram a investigar o que é opinião “conhecimento”?
falsa, porque foi afirmado que o conheci- A estratégia de Sócrates, com o exemplo
mento se define como opinião verdadeira; dos oradores e advogados, consistirá em
para saber o que é opinião verdadeira, a mostrar que a exigência (2) não é satisfeita:
investigação julgou necessário investigar há casos em que se adquire “opinião ver-
também o que seria opinião falsa. Mas dadeira” sem com isso adquirir “conheci-
como saber o que é opinião falsa, se não se mento”, o que mostra que “conhecimento”
sabe ainda o que seria o conhecimento? A e “opinião verdadeira” não são a mesma coi-
investigação parece andar em círculo – está, sa – e era isso que estava por trás da ideia
portanto, condenada ao erro. Eis por que, de uma definição. Assim, se Sócrates puder
diz Sócrates, é preciso “começar de novo”. mostrar que é verdade que se pode adquirir
Observe a metáfora do rio para expres- “opinião verdadeira” sem adquirir “conhe-
dúvida e certeza

sar a ideia de que quem nos conduz, de cimento”, “opinião verdadeira” não será
fato, é o caminho traçado pelo próprio rio, mais uma definição adequada para “conhe-
e não um caminho que nós vamos criar. cimento”, por não satisfazer a exigência (2).
Assim como no caso do vento na passa- Eis então como Sócrates argumenta:
gem de A república, aqui seremos conduzi-
dos pela força da correnteza do rio – pela 1. 
No tribunal, um orador ou ad-
força da correnteza do lógos. vogado precisa, em pouco tem-
122 Sem saber o que mais dizer, Teeteto po, produzir nos juízes uma opi-
insiste na resposta anterior: “conheci- nião favorável ao que ele defende.
Deve, segundo o termo empregado

John Morgan. Bucks County Museum, Londres


por Sócrates, persuadir. Persuadir
é produzir em alguém uma opinião
que deverá parecer verdadeira – no
caso, aos juízes.
2. Nessas condições, o advogado pre-
cisa produzir tal opinião sem que
os juízes tenham conhecimento do
que ocorreu, porque eles não tes-
temunharam os fatos. Por isso, os
juízes julgam com base apenas no
que dirão esse e outros advogados e
testemunhas. Até que ponto um bom advogado faz a principal
3. Portanto, se ele conseguir produzir diferença em um julgamento? (John Morgan [1822-
nos juízes uma opinião verdadeira, 1885], Cavalheiros do júri. Óleo sobre tela, 1861)
e se esses mesmos juízes admitem
não ter conhecimento dos fatos, en-
tão ficará claro que é possível que al-
guém tenha opinião verdadeira sem condição suficiente para possuí-lo. Algo mais
conhecimento. deve estar presente quando temos conheci-
4. Ora, os advogados conseguem fa- mento, sem o qual ele não existirá.
zer isso. Esse “algo a mais” é chamado de “justi-
5. Portanto, existe opinião verdadeira ficação” e é apresentado como aquilo sem
sem conhecimento. o que “conhecimento” não seria “conheci-
mento”. Pode-se dizer, então, que a defini-
Estabelecido esse ponto, Teeteto pro- ção que Sócrates e Teeteto estão procuran-
põe uma nova definição possível de conhe- do em sua investigação deve conter duas
cimento: “opinião verdadeira acompa- características importantes. Uma, mais
nhada de justificação”. Duas observações genérica, está presente também em outras
devem ser feitas sobre essa nova tentativa coisas que não são o objeto da definição –
de definição. em nosso caso, “opinião verdadeira” é algo
Em primeiro lugar, veja que a nova presente em “conhecimento”, mas também
proposta de definição não abandona a an- no que não é “conhecimento” (as opiniões
terior, mas a enriquece e aprofunda. Ela verdadeiras dos juízes nos tribunais). Mas
mantém que conhecimento é “opinião ver- há ao lado disso outra característica especí-
dadeira”, acrescentando agora: “acompa- fica de “conhecimento”, que o distingue de
nhada de justificação”. Afirma em seguida outros tipos possíveis de opinião verdadei-
a importância desse acréscimo: “opinião ra: “justificação”.
verdadeira sem justificação está fora do É fundamental saber que a palavra
dúvida e certeza

conhecimento, e aquilo de que não se tem aqui empregada, “justificação”, também


justificação não é objeto de conhecimento”. traduz aquela palavra já nossa conheci-
Podemos expressar essa importância, da: lógos. Então, o conhecimento se dá
em termos filosóficos mais precisos, dizen- quando, além de possuirmos uma opinião
do que “opinião verdadeira”, mantendo-se verdadeira sobre algo, somos capazes de
na definição, é uma condição necessária para fornecer justificação para isso. Em outros
a posse de conhecimento. No entanto, se termos, diremos que o conhecimento con-
pode existir, como vimos, opinião verda- siste em ser capaz de fornecer argumentos. 123
deira sem conhecimento, esta não é uma Esses argumentos dão as razões que nos
permitem afirmar por que nossa opinião
verdadeira é verdadeira.
Ora, o fato de que o mesmo lógos nor-
teia a investigação de Sócrates e Teeteto, e é A experiência do diálogo
uma exigência indispensável para o conhe-
cimento, sugere que a própria investigação Atividade em equipe e debate em sala
é uma tentativa de encontrar uma “opinião de aula
verdadeira, acompanhada de justificação”.
1. Em dupla com um(a) colega, esco-
Como vimos, trata-se de tentar conhe-
lha uma questão qualquer extraída do
cer o que é conhecer. Portanto, a investiga-
noticiário cotidiano, como um aconteci-
ção esteve, todo o tempo, servindo-se de
mento político ou cultural, ou um fato
um procedimento que agora se apresenta
que diga respeito a seu dia a dia, como,
claramente. O objetivo de afastar a dúvida­,
por exemplo, o comportamento de mo-
em favor da posse de uma certeza­, é, afi-
toristas e pedestres nos centros urba-
nal, a tentativa de encontrar boas razões
nos brasileiros, ou a discussão sobre o
para aceitar que algo é verdadeiro.
tema da segurança pública. Em segui-
A investigação do filósofo será, por
da, procurem montar um breve diálogo
isso, inevitavelmente um procedimento
que contenha uma investigação, inspi-
argumentativo, uma procura por razões e
rada no exemplo do diálogo Teeteto,
justificações. Não basta “ter opiniões ver-
apresentando-a em sala de aula.
dadeiras”, é preciso saber justificá-las. Eis
2. Em dois diálogos diferentes, Platão
o que tentam fazer Sócrates e Teeteto.
afirma que o pensamento consiste num
A posse de uma justificação permite,
“diálogo silencioso da alma consigo
segundo o texto, dar o passo fundamental
mesma” (cf. Teeteto, 189e; Sofista, 263e).
e estabelecer uma diferença importante,
Partindo disso, procure apresentar uma
entre estar de posse da verdade e conhe-
espécie de diálogo interior, no qual
cê-la como verdadeira. Eis-nos de volta à
você pode pensar sobre uma questão
distinção entre certeza e verdade. O que
e construir um conjunto de perguntas e
nosso texto considera como “posse da
respostas, também inspirados nos diá-
verdade pela alma” equivale a uma certeza
logos platônicos estudados. Apresente
subjetiva. Somente a presença de uma jus-
os resultados em dupla, para os demais
tificação poderá conferir a essa “verdade”
colegas da classe.
o sentido forte de conhecimento.

Duvidando para atingir a certeza

Há situações de investigação em que se negativo e indesejado. À primeira vista,


dúvida e certeza

busca responder a uma questão, como “o ninguém quer ter dúvidas e, quando as
que é conhecimento?”. Pode-se dizer, nes- temos, todos nós queremos resolvê-las.
se caso, que havia uma dúvida no início da Contudo, é possível também consi-
investigação, que motivava essa investiga- derar a dúvida como um caminho para
ção e sem a qual a investigação não acon- a certeza, fazendo da dúvida um método
teceria. Toda busca de certeza consiste para encontrar a verdade. Pode parecer es-
numa forma de eliminar uma dúvida­. A tranho, mas, desse ponto de vista, trata-se
124 dúvida, então, pode ser vista como um de procurar a dúvida, de escolher duvidar,
obstáculo a ser transposto, como algo exercitando a dúvida deliberadamente.
Nesse caso, ela passa a ser um momen-
to indispensável na descoberta da verdade.

Frans Hals. Museu do Louvre, Paris


Aqui, estamos bem longe das situa-
ções de dúvida e investigação de nossa
vida cotidiana. Quando me pergunto, no
meio da rua e debaixo de chuva, se fechei
ou não a janela do meu quarto antes de
sair de casa, não escolhi essa dúvida, ela
se impôs a mim. Do mesmo modo, quan-
do alguém se põe a investigar se foi ou
não traído por sua esposa, ele tampouco
escolheu essa dú­vida. Muito pelo contrá-
rio, a pessoa daria tudo para não viven-
René Descartes
ciar essa experiência.
No caso da filosofia, entretanto, as (1596-1650)
coisas se passam diversamente. Como
você logo irá verificar, houve filósofos
que sustentaram que a dúvida seria o
procedimento que nos garantiria estar- E será mesmo muito útil rejeitar
mos de posse de verdades incontestá- como falsas todas aquelas coisas nas
veis. Nesses casos, a dúvida é desenvol- quais pudermos imaginar a menor
vida como um caminho ou método que dúvida, de modo que, se descobrirmos
escolhemos para alcançar a verdade. algumas que, apesar dessa precau-
O filósofo que elevou o papel da dú- ção, parecerem-nos manifestamente
vida a essa condição de instrumento fi- verdadeiras, consideremos então que
losófico indispensável na busca da cer- são muito certas e as mais fáceis de
teza foi René Descartes (1596-1650). conhecer.” (Descartes, Princípios da fi-
Para compreender como Descartes losofia. Paris: Hachette, 1904, pp. 107-
considerou a relação entre dúvida e 108. Tradução nossa)
certeza, vejamos algumas passagens de
sua obra: Descartes é considerado uma espécie
de fundador da filosofia moderna, e uma
“Porque fomos crianças antes de das razões que justificam essa atribuição
termos nos tornado adultos, e por- está justamente na nova maneira de con-
que julgamos ora bem, ora mal acer- ceber o papel da dúvida na filosofia.
ca de coisas que se apresentaram a A passagem que lemos nos dá boas
nossos sentidos em uma época na indicações dessa nova concepção. Inicial-
qual não dispúnhamos ainda do in- mente, o texto afirma uma característi-
teiro uso de nossa razão, aconteceu ca de nossa condição: desde a infância,
dúvida e certeza

que muitos juízos, formados com estamos habituados a levar em conta pri-
precipitação, impedem-nos de che- vilegiadamente o que percebemos pelos
gar ao conhecimento da verdade. E o nossos sentidos. Como, nessa época da
fazem de modo que não há aparência vida, estamos pouco habituados ao uso
de que possamos nos libertar, salvo de uma razão ainda em formação, natu-
no caso de nos dedicarmos a duvidar ralmente adquirimos certas convicções
uma vez em nossas vidas de todas as que se alojam em nós com muita força,
coisas nas quais encontramos a me- mas que são, na verdade, “juízos forma- 125
nor suspeita de incerteza. [...] dos com precipitação”.
Descartes, fundador da filosofia moderna

René Descartes (1596-1650) viveu na passa- No Discurso do método, que o torna conhe-
gem de uma época para outra, uma transição cido entre os doutos, Descartes defende um
para a qual ele mesmo contribuiu muito. A Fran- novo estilo de pensamento, inspirado na cla-
ça em que cresceu se tornou, ao longo do sécu- reza, na evidência e na ordem das matemáti-
lo XVII, a principal monarquia católica europeia, cas. Em 1641, publica as Meditações metafísicas,
superando de vez a Espanha e rivalizando com em que demonstra, baseado nesse método, a
o Reino Unido na disputa política mundial. imortalidade da alma e a existência de Deus. Os
Acompanhando o processo de afirmação da Princípios da filosofia são de 1644, e As paixões
cultura nacional, Descartes foi um dos primei- da alma, em que expõe sua filosofia moral, de
ros pensadores a publicar textos não apenas 1649. Descartes encontra-se naquele momento
em latim, mas também em francês, dirigindo-se em Estocolmo, na Suécia, a convite da rainha
a um público mais amplo que aquele formado Cristina. Obrigado a se levantar às 5h da manhã
pelos teólogos e professores ligados às univer- todos os dias para instruir a rainha, contrai uma
sidades (em especial, a da Sorbonne, em Paris). doença pulmonar e falece.
Inovou nas ciências (aderiu às teses de Ga- As principais obras de Descartes estão
lileu Galilei) e nas matemáticas (foi o criador da traduzidas para o português. Citamos apenas
geometria analítica e do sistema de coordena- algumas delas a seguir, para consulta:
das... cartesiano, que você deve conhecer). Mas R. Descartes, Obras escolhidas. Tradução: J.
foi sobretudo no âmbito da filosofia que a contri- Guinsburg, B. Prado Jr., N. Cunha e G. Guins-
buição de Descartes para o surgimento da filoso- burg. São Paulo: Perspectiva, 2010. (Esse volu-
fia moderna foi decisiva. Ele é o autor do “penso, me contém Discurso do método, Meditações me-
logo existo”, o famoso cogito, que representou tafísicas, Paixões da alma e a Geometria, entre
uma façanha em relação ao pensamento de sua outros textos.)
época, ainda preso, sob muitos aspectos, ao le- R. Descartes, O mundo ou Tratado da luz (Tra-
gado de Aristóteles e de Tomás de Aquino. Com dução: C. A. Battisti). O Homem (Tradução: M.
o cogito, a filosofia se torna de vez reflexiva e Donatelli). Campinas: Editora da Unicamp, 2009.
subjetiva – o sujeito do pensamento ganha uma Para estudo introdutório, ver:
relevância extraordinária, que iria marcar pro- Franklin L. e Silva, Descartes – A metafísica
fundamente os rumos posteriores da filosofia. da modernidade. São Paulo: Moderna, 2005.
A biografia de Descartes possui grande inte- (Há, em DVD, uma aula de Franklin L. e Silva
resse. Estudou em uma escola jesuíta, o Colégio que aborda de modo muito claro as contribui-
La Flèche. Em seu Discurso do método (1637), ele ções filosóficas de Descartes e Kant como mar-
nega ter aprendido ali qualquer matéria que cos do pensamento moderno: “Uma reflexão
fosse relevante para a vida. A fim de aprender sobre o pensamento moderno”. São Paulo:
com o mundo, pôs o pé na estrada e viajou inten- Editora Abril e Fundação Padre Anchieta, 2002.)
samente pela Europa. Em 1618, alista-se nas tro- J. Cottingham, Dicionário Descartes (Tradu-
dúvida e certeza

pas de Maurício de Nassau (1567-1625), quase ção: H. Martins). Rio de Janeiro: Jorge Zahar
vindo combater por nossas terras, por conta da Editor, 1995.
ocupação holandesa no Nordeste brasileiro. Há um excelente estudo sobre a filosofia
Mas, na noite de 10 de novembro de 1619, moral cartesiana, escrito nos anos 1950 por
Descartes tem um sonho que, segundo rela- um dos primeiros professores brasileiros a
tou depois, iluminou-lhe a ideia de uma nova adotar um método rigoroso e instigante de lei-
ciência. Renuncia à carreira militar por volta de tura de textos clássicos:
1620. Munido de uma herança materna, passa Lívio Teixeira, Ensaio sobre a moral de Des-
126 a dedicar-se aos estudos científicos e filosóficos. cartes. São Paulo: Brasiliense, 1990.
Ora, essas convicções se tornam mui- A dúvida metódica de Descartes
to intensas e temos muita dificuldade É costume dizer que em Descartes há
para perceber que podem ser obstáculos uma “dúvida metódica”. “Metódica” por-
na tentativa de “chegar ao conhecimento que é praticada sistematicamente, com
da verdade”. método, voluntariamente e por inicia­
Aqui se mostra um aspecto importan- tiva própria, como um meio de pôr à
te do pensamento cartesiano e de várias prova nossas convicções e opiniões. Ela
outras filosofias: quando adotamos uma não tem como objetivo tentar solucionar
atitude filosófica, colocando-nos em bus- um problema que surge inesperadamen-
ca da verdade, deparamos com certas te em nosso caminho, como a d ­ ú­vida so-
“verdades” que adquirimos desde cedo em bre ter ou não fechado a janela ao sair de
nossas vidas, que nos são transmitidas casa ou a do marido desconfiado quanto
também pela educação e pelos hábitos, e à fidelidade de sua esposa: o filósofo, ao
que tendemos a considerar como absolu- contrário, cria ele próprio dúvidas, per-
tamente óbvias e evidentes. guntando-se se e como elas podem ser
É essa atitude natural que deve ser re- solucionadas.
jeitada, pois, se estivermos em busca do Esse modo de encarar a dúvida está pre-
conhecimento, essas presumidas “ver- sente nas Meditações metafísicas de Descar-
dades” devem ser vistas tes, o mais importante de
com cautela e tornar-se seus tratados filosóficos.
objeto de nosso ques- A primeira de suas seis
tionamento. Sendo a fi- O filósofo cria ele Meditações reúne um con-
losofia, para Descartes, junto de argumentos que
próprio dúvidas,
aquilo que nos permite põem em dúvida todas as
a libertação dos juízos perguntando-se se opiniões estabelecidas,
apressados, da falsidade e como podem ser para, na sequência, des-
e da incerteza, é preciso cobrir verdades que per-
solucionadas.
que nosso conhecimento mitirão a construção de
seja baseado em ver- um sistema sólido e rí-
dades dotadas de uma gido de conhecimentos.
certeza absoluta. E isso Observe, então, como o
não pode ser alcançado se não encontrar- filósofo inicia esse texto fundamental, e
mos um meio de basear nossos conhe- como nesse início encontramos aquela ati-
cimentos em alguma verdade que seja tude metodológica:
comprovadamente irrefutável.
E como Descartes acredita poder so- “Já há algum tempo me dei con-
lucionar o problema? Sua resposta, como ta de que, desde os meus primeiros
vimos, consiste em adotar uma atitude anos, eu havia recebido muitas fal-
diante da dúvida: “nos dedicarmos a du- sas opiniões como verdadeiras, e que
dúvida e certeza

vidar uma vez em nossas vidas de todas aquilo que eu a partir daí fundei so-
as coisas nas quais encontrarmos a me- bre princípios tão mal fundados não
nor suspeita de incerteza.” Observe que podia ser senão muito duvidoso e
duvidar, agora, é uma atividade delibe- incerto; de maneira que era preciso
rada: para bem filosofar, é preciso ten- que eu resolvesse a sério, uma vez na
tar colocar todas as verdades aceitas em vida, desfazer-me de todas as opi-
suspenso, considerando as razões que te- niões que eu havia acolhido até en-
mos para questioná-las e verificando se, tão em minha crença e começar tudo 127
de fato, resistem à dúvida. de novo, desde os fundamentos, se
eu desejava­estabelecer alguma coi-
sa firme e constante nas ciências.”

Bildergalerie, Potsdam
(R. Descartes. Meditações metafísicas,
Tradução nossa. Edição de referência:
Descartes, Oeuvres. Paris: Vrin [Adam &
Tannery] 1982, vol. IX-1, p. 13)

Ao colocar a dúvida metódica e sis-


temática no início do trajeto filosófico,
Descartes dá significado importante à
relação entre dúvida e certeza. Se é ver-
dade que onde há dúvida não há certe- Caravaggio (1571-1610), A incredulidade de
za, agora, com Descartes, a certeza só Tomé (óleo sb/ tela, 1599. Bildergalerie, Pots-
será absoluta se resistir à dúvida. Só dam). Este episódio da vida de Jesus é descrito
poderei aceitar como verdade absoluta- no Evangelho de João (24:24).
mente certa algo que a dúvida não pu-
der alcançar.
Continuemos a examinar a ideia da
dúvida metódica e, para isso, voltemos é preciso, em certo sentido, adquirir
a uma frase citada há pouco, que afirma gosto por duvidar, aprender a duvidar
que o filósofo deve tomar a iniciativa de e não evitar a dúvida. Diferentemente
“duvidar, uma vez em nossas vidas, de de nossa atitude mais corriqueira, Des-
todas as coisas nas quais encontramos a cartes e outros pensadores entendem
menor suspeita de incerteza”. que, sem duvidar seriamente de tudo,
Já sabemos por que é preciso tomar nunca saberemos com certeza onde se
a iniciativa de duvidar, mas reflitamos encontra a verdade.
um pouco mais sobre essa ideia. Como Nossa frase diz também que é preci-
estamos habituados a ver na dúvida algo so tomar a iniciativa de duvidar “uma
negativo, que pode mesmo gerar em nós vez na vida”. É claro, portanto, que
angústias e apreensão, não percebemos Descartes não acha que passaremos a
facilmente o que isso significa. Na ver- vida inteira a duvidar de tudo. Isso está
dade, Descartes está aqui nos apresen- em total concordância com o fato de
tando uma justificativa para uma atitu- que sua dúvida é “deliberada” e “metó-
de tipicamente filosófica: interrogar e dica”. Nesse caso, a atitude de duvidar
levantar questões a respeito de tudo. consiste numa escolha estratégica da-
É comum ouvir dizer, de alguém que quele que quer encontrar verdades in-
gosta de fazer perguntas e duvidar mais contestáveis e julga que só o conseguirá
do que de hábito, que é um “filósofo”, e se puser tudo à prova. Quando botar-
nesse caso o termo admite uma conotação mos essa estratégia em ação e isso nos
dúvida e certeza

meio jocosa, como uma espécie de ironia. permitir descobrir as verdades, deixa-
Mas não deixa de ser verdade que a filo- remos de duvidar.
sofia se transformou, sobretudo a partir Isso mostra que essa dúvida não im-
de Descartes, numa atividade de inves- plica fazer referência a nosso estado
tigação e reflexão que precisa começar psicológico, a nossas inseguranças e
com perguntas ou dúvidas – como já fa- hesitações individuais. Aqui a dúvida
zia Sócrates na Grécia antiga. Por mais não envolve, por exemplo, o desespe-
128 estranho que possa soar a ouvidos pou- ro de um ciumento desconfiado, como
co habituados a conceitos filosóficos, o Bentinho de Machado de Assis, que
vê ameaçada toda a sua felicidade por Para compreender realmente o que
conta da suspeita de que foi traído por isso quer dizer, nada melhor do que co-
sua esposa Capitu­. ­Se c­ onseguirmos en- nhecer algumas dúvidas apresentadas na
contrar verdades absolutamente certas primeira das Meditações metafísicas. Des-
e irrefutáveis, elas permanecerão assim cartes duvida se está, naquele momento,
para sempre, independentemente de diante de sua lareira, vestido com seu
quem as pense e investigue. robe de chambre, porque talvez esteja,
O resultado da investigação não de- naquele momento, apenas sonhando –
pende das vontades subjetivas dos in- e por que não? Muitas vezes sonhamos
vestigadores. Essa necessidade presente com acontecimentos que parecem reais.
nas descobertas da investigação tem Para Descartes, pode ser que eu não
algo a ver com o lógos – argumento, ló- esteja agora fazendo o que julgo fazer,
gica, razão – encontrado nos diálogos de porque posso estar sonhando, ou até
Platão[+]. Também Descartes pretende mesmo pode ser que tudo o que me pas-
que seu método de duvidar de tudo lhe sa pela cabeça não seja mais do que uma
dará em troca a descoberta de verdades ilusão enganosa, produzida por um deus
necessariamente certas, obtidas por um enganador ou um gênio maligno! Parece
procedimento rigoroso de dúvida e in- então que podemos e devemos duvidar
vestigação. até mesmo da verdade das sensações ou
Outra característica incomum da representações mais evidentes, como a
dúvida metódica de Descartes é que de que estou neste momento em fren-
ela se dirige a toda e qualquer supos- te a um computador escrevendo este
ta ver­d ade que puder ser questionada, texto. Assim colocada a questão, parece
inclusive, como vimos, aquelas que re- que podemos e devemos duvidar de tudo,
cebemos desde a infância (“de todas as contanto que exista “a menor suspeita
coisas nas quais encontramos a menor de incerteza”. Ora, como isso é possível,
suspeita de incerteza”, diz o texto dos como podemos aceitar que uma dúvida
Princípios da filosofia). dessas seja razoável?

Warner Brothers/Everett Collection/Keystone

dúvida e certeza

Cena de Matrix, filme dirigido pelos irmãos Wachowski (EUA/Austrália: 1999). Uma
rede de computadores criou o mundo aparente por meio de software, para explorar
os humanos. Alguns deles descobrem que nada é o que parece ser. 129
Duvidoso ou incontestável nos fortes. Eu digo que neste momento
A resposta para essas questões encon- olho pela janela e “não tenho nenhuma
tra-se na sequência da passagem citada. dúvida” de que não está chovendo. Digo
Ela nos dá importantes informações so- também que tenho dúvidas sempre que
bre o sentido dessa dúvida, informações preciso escolher um prato nos cardápios
que poderão nos auxiliar a compreender de restaurantes. E digo ainda que tenho
tudo o que está em jogo com esse mé- dúvidas se viverei até os oitenta anos.
todo: “E será mesmo muito útil rejeitar No primeiro caso, estou convicto. No
como falsas todas aquelas coisas nas segundo, minha dúvida se dissipará rapi-
quais pudermos imaginar a menor dú- damente, basta que eu escolha um prato.
vida”. O início é curioso: propõe que eu No terceiro, só saberei na hora, se é que
devo considerar falso aquilo de que du- saberei... São situações completamente
vido, o que à primeira vista não parece distintas para mim, que expressam esta-
fazer muito sentido. dos psicológicos inconfundíveis entre si.
Quando saio de casa Mas Descartes está
e começa a chover, e à procura de uma for-
me vem a dúvida se ma de encontrar ver-
fechei mesmo a janela: dades absolutamente
se chego a duvidar que Para Descartes, verdadeiras e não pode
a tenha fechado, não é não devemos aceitar separar dessa maneira
por isso que vou con- seus estados de dúvi-
como verdadeiro o
cluir que é falso que da. Por isso, ele decide,
eu a tenha fechado. Se que for duvidoso: por um ato de sua von-
tenho dúvidas a res- o conhecimento tade, tratar como falso,
peito, é porque não sei mesmo sem saber se é
deve partir
se minha impressão realmente falso, tudo
de que a fechei é ver- de certezas que for minimamente
dadeira ou é falsa. É incontestáveis. duvidoso.
só isso que então está Observe ainda que
sob suspeita: fechei Descartes diz que va-
ou não a janela? Ora, mos imaginar essa
o que nos recomenda “menor dúvida”. Esta
Descartes é outra coisa. Ele nos propõe palavra, “imaginar”, é importante e pe-
que consideremos tudo o que seja mini- rigosa: importante porque nos ajuda a
mamente duvidoso como se fosse abso- compreender que essa dúvida não é uma
lutamente falso. convicção pessoal do filósofo, algo em
Descartes quer que não aceitemos que ele realmente necessite acreditar. Ele
como verdadeiro o que for duvidoso – deve apenas ser capaz de imaginá-la. Pe-
quer que nosso conhecimento seja basea- rigosa porque sempre que usamos esse
dúvida e certeza

do em certezas incontestáveis. Se algo se verbo, “imaginar”, pensamos que se tra-


mostrar impossível de se colocar em sus- ta de algo fantasioso e irracional, e isso
peita – algo de que não possamos “ima- pode parecer completamente incompa-
ginar a menor dúvida” – isto terá que ser tível com a ideia de “razão”, que, como
considerado como verdadeiro, porque vimos, Descartes emprega aqui. Veja,
terá escapado da dúvida. aliás, que ele não hesitou em usar outra
Preste atenção na expressão: “a menor expressão que pode nos soar estranha,
130 dúvida”. Pense como, em nossas vidas, para comentar seu procedimento me-
todos nós temos dúvidas mais ou me- todológico de duvidar: “Decidi fazer de
Anibale Carracci. Museu Nacional de Capodimonte, Nápoles

A mulher da direita representa o prazer; a da esquerda, a difícil via


da virtude (Annibale Caracci [1560-1609], A escolha de Hércules,
óleo sb/ tela, 1596.

conta que todas as coisas que tinham até razão de duvidar, fundamentando esse
esse momento entrado em meu espírito “imaginar”, esse “fazer de conta”.
não eram mais verdadeiras que as ilusões Assim, a investigação de Descartes
de meus sonhos” (Descartes, Discurso do vai ampliar o máximo possível essa dú-
método, tradução nossa. Edição de refe- vida, procurando, diante de tudo, uma
rência: Descartes, Oeuvres. Paris: Vrin razão para duvidar, de modo a fazer de
[Adam & Tannery], 1982, vol. VI, p. 32). conta que tudo o que é duvidoso é tam-
“Fazer de conta” é outra expressão bém falso. A expressão “fazer de con-
que requer muito cuidado. Estamos ta”, afinal, indica apenas que essa dú-
acostumados a associá-la a fantasias vida não é a expressão de uma situação
literárias, romances, contos de fadas, realmente vivida pelo indivíduo René
nunca a investigações filosóficas. Mas Descartes em seu cotidiano. Trata-se,
o que ela quer dizer aqui? Retomemos isso sim, de apenas uma estratégia de
as dúvidas mencionadas. O fato de que descoberta de uma ou mais verdades
às vezes eu tenha sonhos que me pa- indubitáveis, de modo a obter um con-
reçam absolutamente reais me leva a junto sólido e inatacável de conheci-
“fazer de conta” que neste momento es- mentos. Mas isso não retira dessa dúvi-
teja sonhando – e, de fato, posso estar da sua força e importância: ao baseá-la
dúvida e certeza

sonhando o tempo todo. Não importa em razões, Descartes está justamente


se creio ou não nisso, o que importa é dissociando a dúvida de motivações in-
que consigo “imaginar” essa possibili- dividuais, que digam respeito apenas a
dade como uma possibilidade razoável. si mesmo. Todos nós temos que reco-
Há uma razão para ela – muitas vezes, nhecer que há uma “dúvida mínima”,
sonhamos com fatos reais –, e essa ra- uma possibilidade ínfima de que pos-
zão é suficiente para que eu, metódica samos estar agora sonhando. A dúvida
e deliberadamente, “faça de conta” que é, então, razoável, e isso basta para os 131
estou sonhando o tempo todo. Há uma propósitos da investigação filosófica.
O CONTRAPONTO DE PASCAL AO “SONHO” DE DESCARTES

O pensador francês Blaise Pascal (1623- ria mais ou menos os mesmos males que a
1662) desenvolveu, de maneira esparsa, realidade.
aquilo que poderíamos chamar de contra- Mas porque os sonhos são todos diferentes
-argumentações ao procedimento de dúvi- e porque mesmo um se diversifica, aquilo que
da metódica sugerido, em Descartes, pela lá vemos afeta-nos bem menos do que o que
indistinção inicial entre sonho e vigília. Leia vemos acordados, por causa da continuidade
atentamente o seguinte trecho de Pascal: que, contudo, não é tão contínua e uniforme a
“Se, todas as noites, nós sonhássemos a ponto de não mudar ela também, mas menos
mesma coisa, ela nos afetaria tanto quanto bruscamente, a não ser raramente, como quan-
os objetos que vemos todos os dias. E se um do viajamos e então dizemos: parece-me estar
artesão estiver seguro de sonhar todas as sonhando; pois a vida é um sonho um pouco
noites durante doze horas que é rei, acredito menos inconstante. (Pascal, Pensamentos,
que ele seria quase tão feliz quanto um rei §803. Edição de referência: Pascal, Pensées
que sonhasse todas as noites durante doze [edição de Lafuma]. Tradução nossa.)
horas que é artesão. Você há de notar que, entre os trechos
Se, todas as noites, nós sonhássemos que citados de Pascal e de Descartes, há alguns
estamos sendo perseguidos por inimigos e pontos em comum, mas seus desenvolvimen-
perturbados por esses fantasmas angustian- tos são bastante diferentes. A rigor, Pascal
tes, e que transcorremos todos os dias em não está preocupado em definir se estamos
meio a diferentes ocupações, como quan- ou não sonhando, nem em descobrir um cri-
do viajamos, nós sofreríamos quase tanto tério que possibilite diferenciar com certeza o
quanto se isso fosse verdade, e estimaríamos sonho da vigília. Para Pascal, a vigília se dife-
o dormir como nós estimamos o acordar, rencia dos sonhos porque costuma ser mais
quando, com efeito, tememos ingressar em constante que eles. E isso lhe basta para con-
tais desgraças. E, com efeito, isso nos causa- tornar a dificuldade levantada por Descartes.

A certeza filosófica dessa forma essas opiniões verdadeiras


Nosso trajeto em torno das relações adquirem a qualidade de serem aceitas
entre “dúvida” e “certeza” nos mostrou por todos, merecendo assim a denomina-
que a interrogação, expressão de uma dú- ção de “conhecimento”.
vida, deve ser respondida de modo a nos Com Descartes, continua valendo esse
dar uma “certeza” que aspira a ser uma tipo de distinção entre verdades apenas
“verdade” ou um “conhecimento”. subjetivas e individuais e verdades de-
Os filósofos, ainda que empregando monstradas como irrefutáveis para to-
vocabulário variado, frequentemente dos. Porém, a forma como ele lida com
dúvida e certeza

querem que certezas individuais, isto é, essa distinção é profundamente original


crenças particulares que não estão fun- em comparação com seus antecessores.
dadas em boas razões, sejam superadas e Vejamos por quê.
nos conduzam a verdades incontestavel- Ao duvidar de tudo que é possível,
mente provadas. Platão, no diálogo Tee- Descartes conclui que a própria existên-
teto, propunha que esse ideal só pode ser cia do mundo externo pode ser apenas
alcançado quando opiniões que se pre- uma ilusão. É o ponto culminante do
132 tendem “verdadeiras” estejam realmente processo deliberado de considerar falso
baseadas em “razões” e “justificações”. Só tudo aquilo que é minimamente duvido-
so. Assim termina a primeira de suas Me- reaver aquelas crenças iniciais, acres-
ditações. Ao iniciar a segunda, ele cons- cidas porém desta vantagem: agora, a
tata o seguinte: se duvido, então sou certeza obtida a respeito dessas ver-
algo enquanto duvido. Só posso duvidar dades é outra, é filosófica e científica...
porque existo. Então, está fora de dúvida Você já sabe no que reside a diferença:
que eu sou, eu existo. Essa é a primeira a certeza, agora, extrai sua garantia de
verdade que a investigação obtém. Por algo que se encontrava presente naque-
que é fora de dúvida que existo? Porque la primeira verdade: “eu sou, eu exis-
se eu não existisse, não poderia duvidar. to”. Para compreender o que isso quer
A dúvida não pode questionar essa ver- dizer, vejamos mais uma passagem car-
dade, porque minha existência é exigi- tesiana, agora do Discurso do método:
da para que eu duvide. Como duvidar é
pensar, concluo: penso, logo existo. “Considerei em geral o que é exigi-
Dessa primeira verdade, a investiga- do para que uma proposição seja ver-
ção partirá para a descoberta de novas dadeira e certa. Pois, visto ter acaba-
verdades, que, aos poucos, permitirão a do de encontrar uma que sabia ser as-
Descartes colocar fora de dúvida mui- sim, pensei que devia também saber
tas crenças básicas que haviam sido em que consiste essa certeza. E tendo
objeto de suspeita, como, por exemplo, observado nada haver em tudo isto –
que não estou sonhando, que existe eu penso, eu existo – que me assegure
um Deus veraz e bondoso, que existe o que eu diga a verdade, a não ser que
mundo exterior. Descartes acreditava eu vejo com muita clareza que, para
nisto antes de iniciar o processo dubi- pensar, é preciso existir, julguei que
tativo. Mas se viu obrigado, por decisão poderia erigir como regra geral que
própria, a duvidar de tudo isso. as coisas que concebemos com muita
Com a obtenção da primeira certeza clareza e distinção são todas verda-
(o cogito) e, com base nela, a descober- deiras, havendo apenas alguma difi-
ta de outras verdades, Descartes pode culdade em notar quais são aquelas

Até que ponto você é capaz de resistir à dúvida?


Atividade em equipe e desenvolvimento • Organizando-se em equipes dis-
individual por escrito pondo de três a cinco participantes
cada uma, busque então responder à
Faça, como exercício momentâneo de seguinte questão: até onde somos ca-
dúvida e certeza

reflexão, a seguinte experiência. Adote pazes de duvidar de nossas certezas?


a perspectiva cartesiana e procure boas Sistematize os resultados em forma de
razões para colocar em dúvida suas con- redação, apresentando as razões favo-
vicções mais fortes. Você não precisa ráveis e contrárias, em primeiro lugar,
comprometer-se com o conteúdo dessas à ampliação da dúvida e, em segun-
dúvidas, e sim imaginar razões para du- do lugar, à afirmação de certezas que
vidar, e essas razões devem ser aceitá- porventura consigam se mostrar resis-
veis a qualquer um e não apenas a você. tentes a ela.
133
que concebemos distintamente.” (R. de verdades realmente objetivas, que
Descartes. Discurso do método, IV par- têm valor de conhecimento em senti-
te, Tradução nossa. Edição de refe- do forte. Daí se dizer com frequência
rência: Descartes, Oeuvres. Paris: Vrin que, com Descartes, a filosofia se torna
[Adam & Tannery], 1982, vol. VI, p. 33) uma reflexão sobre o sujeito do conhe-
cimento, antes de mais nada, e que tal
A expressão fundamental aqui é regra investigação sobre o sujeito do conhe-
geral. Da única verdade conhecida, isto é, cimento traz ganhos para conhecer o
da única certeza absoluta, Descartes extrai próprio mundo, além de nos permitir
uma regra geral que vai permitir saber, de descobrir até onde esse conhecimento
agora em diante, “o que é exigido para que pode chegar.
uma proposição seja verdadeira e certa”. E Vale a pena registrar que, conforme
a regra geral é: “as coisas que concebemos Descartes, a atitude de duvidar de tudo
com muita clareza e distinção são todas serve a uma finalidade teórica, cognitiva,
verdadeiras.” Essa será a regra geral não de “contemplação da verdade”. Logo, ela
porque o filósofo quis assim, mas porque não deve ser aplicada aos negócios e pro-
encontrou essas características – clareza e blemas de nossa vida diária. Veja o que
distinção de concepção – na única verdade Descartes diz neste passo dos Princípios
que possui: eu penso, logo existo. da filosofia:
“Clareza e distinção” são, portanto,
critério de verdade. Quais pensamentos “Entretanto, é preciso observar
seus satisfazem esse quesito? É através que não penso que devamos nos ser-
dessa questão que Descartes irá prosse- vir de uma maneira tão geral de du-
guir em sua investigação. Ao examinar vidar, a não ser quando nos aplicar-
a ideia de Deus, ser infinito, Descartes mos à contemplação da verdade. Pois
conclui que ele mesmo seria incapaz de é certo que, no que concerne à condu-
pensá-la, caso ela não fosse produzida ta de nossa vida, somos obrigados a
por algo fora de sua consciência. Afinal, seguir muito frequentemente as opi-
como é que um ser finito poderia dis- niões apenas verossímeis, visto que a
por, sozinho, da ideia do infinito? Por ocasião para agir em nossos negócios
essa via, Descartes obtém a certeza da se perderia quase sempre, antes que
existência de Deus, uma conclusão que conseguíssemos nos livrar de todas
também satisfaz o critério de verdade e as nossas dúvidas. E, se toda vez que
que se torna, com isso, uma verdade de- nos deparamos com diversas dessas
monstrada e irrefutável. Na sequência ocasiões concernindo a um mesmo
da investigação, o filósofo deve sempre assunto, acontece não percebermos,
se perguntar se está diante de uma con- talvez, mais verossimilhança numa
cepção clara e distinta de algo; em caso delas que nas demais, se a ação não
afirmativo, terá obtido mais uma verda- admite demora, a razão exige que
dúvida e certeza

de. Assim se vai recuperar, agora como escolhamos uma e que, após tê-la
um conjunto sistemático, o conjunto escolhido, que a sigamos constante-
das verdades fundamentais. mente, como se a tivéssemos julgado
Por que, então, é tão frequente ou­ muito certa.” (Descartes, Princípios
vir-se afirmar que o pensamento de da filosofia. Paris: Hachette, 1904, pp.
Descartes inaugura a filosofia moder- 108-109. Tradução nossa.)
na? Porque agora uma verdade “subje-
134 tiva” – eu penso, logo existo – se tor- Observe que Descartes não propõe
na ponto de partida para a descoberta que essa “maneira tão geral de duvidar”
Instituto Collectie, Holanda
Descartes alistou-se nas tropas de Mauricio de Nassau e quase veio ao Brasil (H, Ambrosius Packx
[1603-c. 1658] Príncipe Maurício de Orange na batalha de Niewpoort. Óleo sb/ tela, 1623).

deva interferir em nossa vida diária, questão que interessará a outros pensa-
mas, sim, que ela serve ao propósito de dores, a do papel da dúvida filosófica na
nos proporcionar a adequada “contem- vida comum.
plação da verdade”, isto é, o verdadeiro Eis um tema filosófico de grande inte-
conhecimento da realidade. Com isso, resse, do qual pensadores posteriores a
ele coloca em discussão também uma Descartes também irão se ocupar.

Limites da dúvida ao garantir a certeza

Qual será a relação entre nossas dúvi- um estilo de filosofar de seu anteces-
das filosóficas e a nossa vida comum? Há sor francês. A começar porque, embora
dúvidas completamente corriqueiras em chegue a conclusões bem diferentes de
nossas vidas: “fechei a janela ao sair de Descartes, Hume também concentra
casa?”, e há dúvidas deliberadamente cria- seu esforço filosófico sobre a mente ou
das, com o objetivo de descobrir verdades razão humana.
dúvida e certeza

fundamentais: “estou sonhando neste mo- Basta atentar para o título de uma de
mento?”, como fez, com grandes conse- suas principais obras para dar-se conta
quências, René Descartes[+] (1596-1650). disso: Investigação sobre o entendimento hu-
Vejamos como alguns dos filósofos que o mano (1748). Note-se já um enfoque tipi-
sucederam lidaram com esse assunto. camente cartesiano do sujeito do conheci-
Nosso primeiro caso é o de David mento, revelado pelo fato de que se trata,
Hume[+] (1711-1776), filósofo escocês aqui também, de “nosso entendimento”.
do século XVIII, um crítico da filosofia A questão posta pelo filósofo é, em re- 135
cartesiana que, contudo, deve muito a sumo, a seguinte: em minhas inferências­
está em cima da mesa, esperar que o mes-
mo efeito nutritivo e sabor agradável dos
pães que comi até hoje se encontrarão no
Worcester Art Museum, Worcester
pão que tenho diante de meus olhos ago-
ra. O que é esse passo, pergunta Hume,
sem o qual eu não poderia comer o pão
tranquilamente?
As análises de Hume o levarão a con-
cluir – e nisso ele já não tem nada de car-
tesiano – que não é nenhum processo ló-
gico que acontece em minha mente, mas
apenas a ação do hábito, e que em todos
os meus pensamentos sobre fatos que
consistem em previsões sobre o futuro,
previsões sem as quais eu seria incapaz
Segundo Hume, nem mesmo o padeiro de tomar decisões práticas, é apenas o
pode prever quando nos alimentamos hábito que está presente. Observemos
de pão. (Job Adriaensz [1630-1693], O como Hume, em seu texto, responde a
padeiro. Óleo sb/ tela, 1681). uma possível objeção, quando está ain-
da apresentando sua dúvida e formulan-
do o problema:
mais comuns, como funciona minha
mente, quando faz uma previsão sobre “Poder-se-ia dizer que nossa prá-
um fato? Tomemos o exemplo do próprio tica refuta nossas dúvidas, mas isso é
Hume: quando, durante meu café da ma- interpretar mal o significado de minha
nhã, pego um pão e o como, fui levado a questão. Como agente, estou plena-
isso porque previ que aquele pão me ali- mente convencido sobre esse ponto,
mentaria. Tra­ta-se de um acontecimento mas, como filósofo que tem sua parce-
banalíssimo em nossas vidas, mas, per- la de curiosidade, não direi de ceticis-
gunta o filósofo, o que aconteceu em mi- mo, quero compreender o fundamento
nha mente que me levou a dar esse passo, dessa inferência.” (Hume, Investigações
a fazer essa inferência, isto é, a supor que sobre o entendimento humano, IV, 2.
o pão iria me alimentar? Tradução: José O. de A. Marques. São
Parte da resposta é dada, natural- Paulo: Editora da Unesp, 2004, p. 69)
mente, se afirmamos que me baseio na
experiência passada: os muitos pães Como se pode ver, se alguém apresen-
que já comi me levam a esperar, com tar ao filósofo a objeção de que sua práti-
toda evidência, que esse pão que está ca – o fato de que ele come pães todos os
diante de mim vai me alimentar. Con- dias sem precisar saber por que – refuta
dúvida e certeza

tudo, diz Hume, isso não basta como suas dúvidas sobre o motivo de fazê-lo,
resposta: minha experiência passada ouvirá como resposta que não entendeu
não me diz diretamente que esse pão o sentido da dúvida filosófica. Hume não
diante de mim, que nunca comi, me está propondo que enquanto não desco-
alimentará, diz apenas que os pães que brirmos por que comemos pães devemos
comi me alimentaram. deixar de comê-los: está afirmando que,
Então, minha mente faz uma inferên- como filósofos, como indivíduos dota-
136 cia que lhe permite, comparando as se- dos de curiosidade filosófica, temos todo
melhanças entre os pães que comi e o que o direito de querer saber o que acontece
em nosso intelecto que nos leva a comer [...] Posso provar agora, por exemplo,
pães, esperando que o futuro será como o que existem duas mãos humanas.
passado. À sua maneira, que não é exata- Como? Levantando minhas duas mãos
mente a mesma que a cartesiana, Hume e dizendo, enquanto faço determina-
entende que dúvidas filosóficas estão su- do gesto com a mão direita, ‘Aqui está
ficientemente desvinculadas de efeitos uma mão’, e acrescentando, enquanto
na prática, o que torna legítimo que as faço determinado gesto com a esquer-
levantemos sem que elas interfiram em da, ‘e aqui está outra’. E se, ao fazê-lo,
nossa vida cotidiana. eu provei ipso facto [i.e., pela pró-
pria evidência do fato] a existência
A prova do mundo exterior de coisas exteriores, vocês verão que
Atentemos agora para mais uma ques- posso fazê-lo, então, de muitas ou-
tão, formulada por outro filósofo britâni- tras maneiras: não há necessidade de
co, George E. Moore (1873-1958). Aqui multiplicar os exemplos.” (G. E. Moore,
está um enfoque um tanto distinto dos “Prova de um mundo exterior”. Tradu-
de Descartes e de Hume, porque Moore ção nossa. Edição de referência: “Proof
parece defender a tese de que certo tipo of an external world”, in: Philosophical
de dúvida jamais teria lugar em nossa papers. Londres: Allen & Unwin, 1963,
reflexão filosófica. Observe como esse 2ª ed., p. 146)
filósofo lida com uma dúvida elaborada
por Descartes e de grande repercussão: Para Moore, essa é, como ele mesmo
a dúvida sobre a existência do mundo disse, uma “prova rigorosa”, porque sa-
exterior. Eis como, num instigante ar- tisfaz às três exigências que devemos fa-
tigo denominado “Prova de um mundo zer a qualquer tentativa de prova:
exterior” (publicado postumamente em
1. A conclusão – “existem neste mo-
1958), Moore trata dessa questão:
mento duas mãos” ou “existem ob-
jetos externos” – diz algo diferente
“[...] posso agora dar um grande
da premissa – “aqui está uma mão e
número de provas, cada uma das quais
aqui está outra”.
é uma prova perfeitamente rigorosa
2. O conteúdo da premissa é objeto de
conhecimento seguro.
3. A conclusão realmente se segue da
premissa.
Biblioteca Trinity College, Dublin

A seguir, Moore mostra por que e


como as três exigências foram satisfeitas.
Contudo, segundo ele, muitos filósofos
não aceitariam que ele conseguiu provar
a existência de objetos externos porque
dúvida e certeza

ele não teria provado a premissa “aqui


está uma mão e aqui está outra”. Moore
reconhece que não a provou e acrescen-
ta que não pretendeu prová-la. Segundo
ele, no momento em que fez gestos com
as mãos e proferiu sua premissa, ele sa-
G.E. Moore bia, e não simplesmente tinha uma cren-
(1873-1958) ça subjetiva, que ali estavam duas mãos. 137
Portanto, segundo ele, a premissa não
necessita ser provada. Ele não pôde pro-
var que ali estavam duas mãos, mas con-

BackyardProduct/Can Stock Photo


sidera absurdo duvidar disso, porque
isso é evidente.
Para aqueles que acham que, por causa
disso, sua prova não é de fato uma prova
– noutros termos, que não estabelece um
conhecimento em sentido forte –, mas
apenas uma crença, Moore simplesmen-
te afirma, como conclusão:

“Posso saber de coisas as quais


Posso provar agora, por exemplo, que existem
não posso provar; e, dentre as coisas
duas mãos humanas. Como? Levantando
que eu seguramente sabia, mesmo se
minhas duas mãos e dizendo ‘Aqui está uma
(como penso) não podia prová-las,
mão e aqui está outra’.
estavam as premissas de minhas
duas provas. Eu diria, portanto, que
quem estiver insatisfeito com aque-
las provas, se é que alguém está, tra, bem diferente, é sermos capazes de
alegando meramente que eu não co- prová-lo.
nhecia suas premissas, não tem uma Para Moore, em resumo, nem tudo
boa razão para sua insatisfação.” (G. pode ser provado, mas isso não é um
E. Moore, “Prova de um mundo exte- problema. Há certezas que estão acima
rior”. Tradução nossa, op. cit., p. 150) da necessidade de prova, porque sobre
elas há “razões conclusivas”, “evidências
Observe, antes de mais nada, que o conclusivas”. Se assim for, então a refle-
verbo “conhecer” é empregado nesse xão filosófica não mais será uma investi-
momento no sentido rigoroso, queren- gação que, para chegar a certezas abso-
do dizer que muitos diriam que ele não lutas, necessita colocar tudo em dúvida,
tinha “conhecimento”, mas apenas uma porque haveria certezas que estão fora
crença subjetiva. do alcance da dúvida filosófica. E talvez
Note também que Moore está se co- seja preciso, seguindo a lição de Moore,
locando frontalmente contra certa con- concluir que mesmo em filosofia as dú-
cepção da investigação e da dúvida filo- vidas não são tão diferentes daquela que
sóficas, segundo a qual podemos levar me levaria a voltar para casa num dia de
a dúvida às suas últimas consequên- chuva para verificar se fechei ou não a
cias, indistintamente. Para ele, isso não janela. O mesmo valeria talvez para nos-
é verdade, e seu comentário a esse res- sas certezas.
peito é interessante, justamente por-
dúvida e certeza

que nos mostra que sua crítica diz res- A filosofia e a visão comum do mundo
peito àquela atitude filosófica presente É comum ouvirmos que a filosofia
no cartesianismo. Segundo Moore, não é uma prática de questionamento de
há como provar que estamos diante nossas certezas habituais. Entretanto,
de duas mãos. Fazê-lo exigiria provar, até que ponto, afinal, podemos ampliar
antes de mais nada, que não estamos a dúvida sobre nossas crenças?
sonhando. Ora, é evidente que estou Essa questão, que vimos formulada
138 acordado. Mas possuir essa evidência, por G. E. Moore, foi aprofundada por
estar certo desse fato, é uma coisa. Ou- um filósofo brasileiro, Oswaldo Porchat
Até onde vamos com a filosofia?
Atividade em equipe e debate em sala ser necessário sob um aspecto e não sob
de aula outros. Por exemplo: segundo Hume, há
investigações filosóficas das quais po-
Como você já se deu conta, na história demos prescindir em nosso cotidiano.
da filosofia há inúmeras “provas” – ou “de- Nesta linha, sugere Hume, podemos até
monstrações” – sobre objetos em relação mesmo pôr em dúvida, por exemplo, a
aos quais a maioria das pessoas não exi- existência do mundo exterior – mas se-
ge prova ou demonstração. Dito de outro ria artificial e forçado supor que levemos
modo, filósofos, ou parte deles, parecem essa dúvida a sério, quando estamos
convencidos da necessidade de demons- indo para casa ou voltando da escola ou
trar, por argumentos tirados da razão, ocupados no trabalho.
pontos que são acolhidos sem hesitação • Discutam, inspirados pela argumen-
por quase todos nós. Um exemplo nos tação de Hume (o que não significa que
oferece a prova da realidade do mundo precisem concordar com ele), se há exem-
exterior, ou a prova de que, agora, não plos de questões sobre as quais se pode
estamos sonhando. levantar dúvidas apenas do ponto de vista
• Forme um par com um(a) colega e, filosófico, não do ponto de vista prático.
antes de mais nada, reflitam sobre ou- Quer a conclusão de vocês seja afirmativa,
tros exemplos de prova ou demonstra- quer negativa, procurem fundá-la sobre
ção filosófica de temas e objetos que argumentos, que deverão ser apresen-
não despertam nenhuma sombra de dú- tados em sala para os demais colegas.
vida para o senso comum. Em seguida, Não deixem de considerar que essa dis-
discutam a seguinte questão: vocês di- cussão sobre até onde vai a filosofia ao
riam que demonstrações desse tipo são duvidar das coisas talvez já constitua um
necessárias? Ao discutirem esse ponto, aprofundamento filosófico que defende
não deixem de recordar que algo pode nossas convicções cotidianas.

Pereira (1933 - ) em um ensaio impor- designando tudo aquilo que não é ne-
tante publicado em 1981. Nesse tex- cessário nem decisivo. Porchat susten-
to, Porchat defende que a filosofia nos ta que nem mesmo os filósofos podem
incita a desconfiar de certezas das quais levar suas dúvidas mais radicais a sério,
nem mesmo o filósofo, na condição de como, por exemplo, a de que estamos
dúvida e certeza

indivíduo inscrito no mundo, pode- em vigília ou de que a maioria dos seres


ria seriamente duvidar. Dito de outro humanos tem duas mãos.
modo, Porchat, assumindo como válido Conforme Porchat, assim, a dúvida
o argumento de Moore sobre o caráter filosófica, quando se torna generalizada,
indubitável de certas crenças naturais, exprime uma atitude arbitrária dos filó-
afirma que a dúvida filosófica se torna sofos, o exercício gratuito de sua descon-
artificial toda vez que se aplica às evi- fiança em relação ao mundo no qual se
dências do senso comum. “Artifício” encontram. Os filósofos – especialmen- 139
possui, aqui, um significado negativo, te aqueles pertencentes à tradição do
“idealismo”, acrescenta Porchat – f­azem
pouco do mundo, menosprezam as evi-

© Robson Mereu
dências e crenças mundanas, trocando o
senso comum por uma atitude presumi-
damente sofisticada.
Leiamos um parágrafo do ensaio em
questão, no qual Porchat desfere sua
crítica a esse comportamento especu-
lativo presente em muitas correntes da
filosofia:

“Em tais filosofias, na melhor das


hipóteses, o Mundo é apenas o ponto Oswaldo Porchat Pereira
de partida que se vai deixando para (1933- )
trás, ou o porto de embarque que se
perde logo de vista, na medida em que
o discurso filosófico vai tomando for-
ma e a viagem filosófica se processa. como arbitrário e artificial o incessante
Procuram-se formas de expressão, mé- questionamento que muitas filosofias
todos, critérios; buscam-se certezas, exercem sobre ele. O que equivale a di-
verdades, intuições; tudo se empreen- zer que Porchat eleva a visão comum do
de, menos recorrer ao que lá atrás se mundo ao nível de um saber filosófico.
deixou e se desqualifica. Se se utilizam Ao fazê-lo, Porchat defende um ponto
as verdades comuns, é a contragosto e de vista baseado nas certezas munda-
sempre como se fora provisório. Qual nas, certezas que situa em um âmbito
verdades em trânsito, sem direitos a inalcançável pela dúvida filosófica:
um visa de permanência no discurso
da filosofia. Verdades cujos préstimos “O mundo reconhecido, que não
se tolera aproveitar como que aciden- é um problema, será o referencial
talmente, mas a que se recusa confe- permanente para a formulação de
rir a cidadania filosófica.” (Porchat problemas e a proposição de solu-
Pereira, “A filosofia e a visão comum ções. Alfa e ômega da filosofia, ori-
do mundo”, in: Rumo ao ceticismo, São gem e fim não questionáveis dos
Paulo: Editora da Unesp, 2007, p. 60) questionamentos filosóficos. E a fi-
losofia remeterá constantemente ao
Como se vê, Porchat identifica uma Mundo para orientar, aperfeiçoar
postura negligente de muitas filosofias ou mesmo corrigir suas formulações.
em face do mundo. O mundo, para es- O caminhar da filosofia tem agora
sas filosofias, não passa de um ponto de parâmetros bem fixos que o bali-
dúvida e certeza

embarque, uma porta de entrada para zam.” (Porchat Pereira, “A filosofia e a


uma investigação que, logo em seguida, visão comum do mundo”, op. cit., p. 67)
lhe dá as costas. Mesmo quando se uti-
liza das “verdades comuns”, o discurso Para concluir nosso percurso, vale
filosófico não reconhece nelas nenhuma lembrar que Ludwig Wittgenstein
digni­dade própria: elas dispõem de um (1889-1951), um dos filósofos mais
estatuto apenas provisório. importantes do século XX, formulou
140 De seu lado, Porchat assume a defesa reflexões de grande importância a par-
da visão comum do mundo, recusando tir das teses de G. E. Moore sobre o ca-
O NEOPIRRONISMO DE OSWALDO PORCHAT

É interessante observar que Porchat, nos suspensão de juízo retira suas perturbações,
anos seguintes à publicação de seu ensaio diferente dos filósofos ditos dogmáticos, que
“A filosofia e a visão comum do mundo”, julgam ter encontrado verdades incontes-
modificou sua posição filosófica, assumindo táveis, o fi­lósofo cético passa a argumentar
o que designou como o “neopirrosnismo”. com esses filósofos, sempre apresentando
Com isso, Porchat propõe a retomada do teses conflitantes às deles, para que, como
“pirronismo”, ou “ceticismo pirrônico”, surgi- ele, também suspendam seus juízos e se
do na Antiguidade. Seu iniciador foi Pirro de tornem céticos. Ao mesmo tempo, conduz
Élis (séc. IV a. C.) e pouco se sabe de seus de- sua vida cotidiana apenas seguindo os “fe-
senvolvimentos posteriores. Filósofos pouco nômenos”, o que lhe aparece do mundo, tal
conhecidos, como Enesidemo e Agripa, são como aparece, sem afirmar sua verdade ou
citados por alguns escritores antigos. Co- falsidade.
nhecemos os princípios do pirronismo por Observe que os céticos, afinal, dizem-nos
meio dos textos do filósofo e médico Sexto que não temos meios estritamente racionais
Empírico (séc. II ou III d. C.), que escreveu de garantir que nossas certezas pessoais
uma obra intitulada Esboços pirrônicos, além e subjetivas possam ser aceitas por todos
de outros tratados. como verdades absolutas.
O conceito fundamental do ceticismo pir- Ao assumir o neopirronismo, Porchat re-
rônico é o de suspensão de juízo: perturbado lativizou a defesa da visão comum do mundo,
pelas questões e dúvidas resultantes de sua sem, entretanto, abandoná-la completamen-
experiência, o filósofo, inicialmente, preten- te. Ele apenas concluiu que, para defender a
de resolvê-las encontrando a verdade. Con- visão comum do mundo, não é preciso afir-
tudo, constata que, sobre qualquer questão mar que ela seja rigorosamente verdadeira.
ou tema, sempre há afirmações conflitantes, As “verdades” da visão comum do mundo
dotadas de um poder de persuasão seme- permanecem sendo valorizadas pelo novo
lhante, o que o leva a “suspender seu juízo” posicionamento de Porchat, sem que, con-
sobre elas, ou seja, a reconhecer sua incapa- tudo, este procure conferir-lhes um estatuto
cidade, mediante recursos argumentativos e filosófico privilegiado. Elas valem pelo que
racionais, de optar por qualquer tese como são: crenças com base nas quais agimos no
verdadeira. Observando que tal estado de mundo e nos compreendemos nele.

ráter indubitável de algumas certezas, ção de Moore, conforme a qual não há


o que concerne diretamente aos con- meio de pôr em dúvida que a Terra exis-
ceitos de dúvida e certeza abordados tia antes de nosso aparecimento nela:
nesta Unidade.
dúvida e certeza

Estas reflexões, embora tendo sido “Pode-se no entanto perguntar:


interrompidas pela morte de Wittgens- ‘Pode alguém possuir um fundamento
tein, foram compiladas por dois de seus plausível para crer que a Terra exista
discípulos mais próximos, G. E. M. Ans- só há pouco, digamos, só a partir de
combe e G. H. Von Wright, e publicadas seu nascimento?’ – Admitin­do-se que
originalmente em 1969 em um volume isto sempre lhe teria sido dito – teria
intitulado Sobre a certeza. Abaixo, ci- ele um bom fundamento para duvi-
tamos uma dessas reflexões, nas quais dar disso? Houve homens que acre- 141
Wittgenstein se debruça sobre a afirma- ditaram poder fazer chover; por que
Pinacoteca Antiga, Munique
Pirro teria apontado como modelo de indiferença o porco que se alimentava
tranquilamente em meio ao caos (Petrarca-Meister, ativo no início do século XVI,
O filósofo Pirro no mar tempestuoso, entre 1500 e 1515).

não se poderia criar um rei na crença Como poderíamos situar estas refle-
de que o mundo teria começado com xões de Wittgenstein em comparação
ele? E então, se Moore e esse rei se com o posicionamento de Moore e, em
­encontrassem e discutissem, poderia determinado momento de sua trajetória,
Moore efetivamente provar que sua de Porchat, tal como os expusemos aqui?
crença é a correta? Não digo que Moore Note que a objeção de Wittgenstein
não seja capaz de converter o rei para a a Moore reside, essencialmente, em ar-
sua concepção, mas esta seria uma con- gumentar que toda evidência em rela-
versão excepcional: o rei seria levado a ção a um aspecto pontual da realidade
ver o mundo de outra maneira. se insere em um quadro de compreen-
Observe-se que às vezes uma con- são global da realidade, fruto de práti-
cepção convence mediante sua simpli- cas, hábitos, costumes e educação. O
cidade ou simetria, isto é: leva a que que para alguém parece ser de evidência
dúvida e certeza

se adote esta concepção. Então diz-se inquestionável pode ser muito duvido-
simplesmente: ‘Precisa ser assim’. (Witt- so para outra pessoa, inscrita em outra
genstein, Sobre a certeza. Tradução nos- “forma de vida”. Isso não significa que
sa. Edição de referência: Anscombe & nossas crenças não possam ser revistas,
Wright [eds], Über Gewissheit/ On certain- mas que, quando isso ocorre, encaramos
ty. Nova York: Harper Torchbooks, p. 14) o mundo de forma diferente.

142
Wittgenstein
Ludwig Wittgenstein (1889-1951) nasceu
em Viena, na Áustria, mas passou boa parte

Akg/Newscom /Glow Images


de sua vida adulta na Inglaterra, onde foi pro-
fessor na Universidade de Cambridge. Apesar
de ser um dos filósofos mais influentes do
século XX, Wittgenstein publicou apenas um
livro durante toda a sua vida – o Tractatus logi-
co‑philosophicus, editado em 1921, que marca
a primeira fase de seu itinerário intelectual.
Deixou, no entanto, uma quantidade imensa
de escritos inéditos, que foram sendo publi-
cados após a sua morte. O conjunto mais in-
fluente deles provavelmente são as Investiga-
ções filosóficas, publicadas em 1953, obra em
que ele faz uma crítica frontal à filosofia que
ele mesmo expusera no Tractatus.
Tanto no Tractatus quanto nas Investigações
o principal tema de Wittgenstein foi a linguagem As duas obras principais de L. Wittgens-
e a natureza do sentido proposicional. No Trac- tein estão traduzidas para o português:
tatus, ele considerava que todas as linguagens L. Wittgenstein, Tratactus logico-philoso-
possíveis têm que compartilhar uma mesma phicus. Tradução: Luiz H. L. dos Santos. São
estrutura básica, e que essa estrutura coincide Paulo: Edusp, 1993 (Esta edição traz uma
com a estrutura do próprio mundo. Essa ideia “Apresentação” excelente do tradutor e es-
é completamente abandonada na fase madura, pecialista na obra de Wittgenstein).
quando Wittgenstein passa a considerar cada L. Wittgenstein, Investigações filosóficas.
uma das linguagens criadas pelo ser humano Coleção: Os Pensadores. Tradução: J. C.
como uma teia aberta de jogos linguísticos em Bruni. São Paulo: Abril Cultural, 1979.
constante modificação e cumprindo as mais di- Para introdução ao Tractatus, veja:
versas finalidades em nossas vidas. João V. Cutter, “Você entendeu esse títu-
Tanto a primeira quanto a segunda filoso- lo?”, in: V. Figueiredo (org.). Filósofos na sala
fia de Wittgenstein exerceram uma enorme de aula – Vol. 3. São Paulo: Berlendis & Ver-
influência sobre diversos filósofos do século tecchia, 2009, pp. 158-201.
XX. O Tractatus marcou os trabalhos dos posi- Edgar Marques, Wittgestein & o Tractatus.
tivistas lógicos ligados ao Círculo de Viena – R. Coleção Passo-a-Passo, Rio de Janeiro: Zahar
Carnap (1891-1970), M. Schlick (1882-1936), F. Editores, 2005.
Waismann (1896-1959), etc. –, enquanto as In- Para uma introdução à segunda fase do
vestigações filosóficas influenciaram os traba- pensamento de Wittgenstein, veja:
dúvida e certeza

lhos de autores como G. Ryle (1900-1976), P. A. Moreno, Wittgenstein e os labirintos da


F. Strawson (1919-2006) e, mais recentemen- linguagem. Campinas: Editora da Unicamp,
te, John McDowell (1942- ). 2000.

143
Arcimboldo. Museo Civico Ala Ponzone, Cremona
Esse rosto é humano – ou apenas parece sê-lo? (Giuseppe Arcimboldo
[1527-1599]. O jardineiro vegetal. Óleo sb/ painel, c.1590)

unidade 5 realidade e
aparência
As aparências
enganam?.................145 “R ealidade e aparência”: eis uma dupla
de conceitos que dá o que pensar...
Como você buscaria defini-los? Nossa primeira
A revolução filosófica e
científica moderna...150
tendência talvez seja afirmar: “É simples, o real se
diferencia da aparência porque possui realidade,
Ser e parecer enquanto a aparência, não”. Mas reflita um
justo...........................155 pouco mais. Você perceberá que as coisas não são
tão simples assim. Se a aparência não é real, por
A realidade
da aparência.............164
que falamos tanto dela? Isso já leva a crer que,
embora seja considerada muitas vezes o oposto
da realidade, a aparência também deve ter
alguma forma de existência. Mas de que maneira
ela existe? Possuiria uma existência “menos­real”
do que as outras coisas?
As aparências enganam?

Shutterstock
Todos conhecemos aquele ditado: “As
aparências enganam”... Ele existe em di-
versas línguas, o que dá a entender que tal
opinião é muito comum e circula há mui-
to tempo em nossa cultura. Veja abaixo
formulações do ditado conforme o qual
devemos desconfiar das aparências em cin-
co línguas e procure identificar os idiomas
correspondentes:
“Fallitur visus”
“Las apariencias engañan”
O horizonte de Chicago: o que é céu, o que é água?
“Der Schein trügt”
“Appearances are deceptive”
“L’apparenza inganna”
fície. Na realidade, nós o vemos assim por
O que é que tiramos disso? Note que causa do fenômeno óptico da refração. Ou
esse provérbio nos faz uma advertência. A seja, os sentidos nos enganam sobre a reali-
ideia é a seguinte: as aparências enganam, dade, na medida em que nos fornecem apa-
porque nos iludem sobre o que seja a verda- rências que não correspondem aos fatos.
deira realidade. Logo, a aparência é como É fácil estender essa conclusão sobre
a ilusão, possui o mesmo tipo de existên- a ilusão visual para os demais sentidos:
cia que ela. Nem por isso, claro, a discussão o gosto, o olfato, o tato, a audição. Quan-
está encerrada. Falta-nos ainda explicar o do estamos doentes, o doce parece amar-
que se deve compreender pela existência go; se nos encontramos indispostos, os
ou realidade de uma ilusão. odores se acentuam e incomodam. Essas
Antes, porém, vejamos os motivos pelos variações já indicam que os sentidos não
quais se afirma que as aparências enganam. constituem uma base totalmente segura
Um deles, muito repetido, é a convicção de para descobrirmos quais são as qualidades
que as aparências nos apresentam somen- reais das coisas “por trás” ou “abaixo” da
te o aspecto superficial das coisas, deixan- superfície das aparências. Isto é, os senti-
do ocultas suas características essenciais. dos exprimem qualidades subjetivas, que
As aparências permanecem na “superfície” nem sempre correspondem às qualidades
das coisas, o que explica o engano promovi- objetivas das coisas.
do por elas, mesmo quando ninguém quer E isso pode ser constatado não apenas
enganar ninguém. As coisas aparecem para quando adoecemos, mas também em cir-
nós de um jeito; só que, no “fundo”, são de cunstâncias normais, quando estamos bem
realidade e aparência

outro. Captar a realidade, desse modo, exi- dispostos e saudáveis. Deslizo a mão sobre
ge uma investigação que faça abstração das a mesa, ela aparenta ser lisa. Porém, sua su-
aparências, já que elas nos fazem crer em perfície, quando examinada microscopica-
coisas que, se melhor examinadas, se reve- mente, é irregular, porosa e cheia de vincos.
lam diversas do que parecem ser de início. A impressão táctil, conclui-se daí, me enga-
Há um exemplo clássico da história da na sobre a realidade da superfície da mesa.
filosofia que ilustra esse tipo de engano. O Os sentidos fornecem apenas uma aparên-
pedaço de pau submerso na água aparenta cia que não corresponde à estrutura real da
possuir um ângulo, ali onde toca a super- natureza. 145
A investigação da realidade por trás em termos quantitativos. Nem por isso,
das aparências entretanto, os corpos naturais deixam
Essa convicção é muito comum. Pense de aparecer para nós como entidades do-
na orientação principal das disciplinas tadas de qualidade: possuem cor, textu-
científicas atuais. As ciências da natu- ra, por vezes exalam cheiros ou emitem
reza não nos ensinam que devemos des- sons que nos agradam ou desagradam
confiar das aparências fornecidas pelos etc. Mas a ciência nos instrui que as coi-
sentidos? sas tais como nos aparecem podem não
De fato, o saber científico que nos é corresponder às coisas tais como são.
transmitido hoje em dia possui duas carac- Aprendemos que, a fim de compreender
terísticas centrais: é abstrato e também, em a estrutura real das coisas, precisamos
grande parte, se expressa fazer abstração daqui-
matematicamente. Você lo que nossos sentidos
alguma vez já se indagou nos apresentam. Deve-
por que há tanta matemá- Se a ciência da mos abstrair das apa-
tica na física? física requer o rências sensíveis.
A palavra “física” vem Essa é uma orienta-
conhecimento da
do termo “phýsis”, pala- ção muito importante
vra grega que significa matemática, isso se para a maioria dos cien-
“natureza”. Conforme deve à convicção de tistas atuais, sobretudo
nos ensina a ciência hoje os físicos. É isso o que
que a matemática
em dia, a “phýsis” ou “na- em grande parte apren-
tureza” possui elementos descreve boa parte demos nos bancos esco-
cujas relações são funda- da estrutura real da lares. O que talvez você
mentalmente quantificá- não saiba é que essa
natureza.
veis. Isso equivale a dizer concepção acerca da na-
que, a crer numa corren- tureza já havia sido de-
te dominante da Física, fendida na época dos
as relações entre os entes primórdios da filosofia,
naturais “no fundo” se expressam como na Antiguidade grega, em um período an-
uma ordem matemática. Logo, se a ciência terior a Sócrates, Platão[+] e Aristóteles[+].
da física requer o conhecimento da mate-
mática, isso se deve à convicção de que a O “cosmos” de Pitágoras
matemática descreve boa parte da estru- Pitágoras (c.580-495 a.C.), nascido na
tura real da natureza. ilha de Samos, foi um importante filóso-
Há muitos exemplos à mão para ates- fo e matemático. Sua contribuição mais
tar que, de fato, fenômenos da natu- conhecida para a história da filosofia está
reza podem ser expressos por meio de em ter formulado uma doutrina confor-
relações matemáticas. Conceitos como me a qual a verdadeira realidade das
realidade e aparência

“massa”, “força”, “movimento”, assim coisas são os números. Para Pitágoras,


como a lei geral da queda dos corpos ou o princípio e a essência da realidade não
a definição do “peso” de um corpo etc., residem nem no fogo, nem na água, nem
ilustram bem isso. Sua compreensão no éter, como pretendiam alguns de seus
não passa pelo conhecimento sobre as antecessores. Essa essência, diz Pitágo-
qualidades sensíveis dos corpos. Para a ras, reside nos números. Em que isso tem
formulação de leis, os físicos trabalham a ver com nosso assunto, é fácil inferir.
146 com conceitos tais como massa, força, Números exprimem relações abstratas
energia, que devem poder ser expressos entre as coisas. Afirmar que a realidade é
constituída de números equivale a dizer o universo dispõe de ordem e que esta
que a realidade está além das aparências, última pode ser apreendida pela razão
além do que nos apresentam imediata- humana. Dito de outro modo, Pitágoras
mente nossos sentidos. defendia que o universo não é disforme,
Vale destacar a novidade de Pitágo- nem caótico; ao contrário, ele forma um
ras no quadro dos primórdios do pensa- “cosmos”, no sentido básico deste termo.
mento filosófico. Filósofos como Tales Um grande estudioso norte-america-
de Mileto (624-548 a.C) ou Anaxímenes no de filosofia antiga nos ajuda a com-
(588-524 a.C) afirmavam que o princípio preender o que estava aqui em jogo.
e essência das coisas residia na água ou Conforme assinala Francis. M. Cornford
no vapor, isto é, postulavam que a essên- (1874-1943), “cosmos”, em grego, signifi-
cia do ser era sensível. Pitágoras, susten- ca “beleza” e “ordem”. Reflita sobre as pa-
tando que a realidade última das coisas lavras: “cosmético”, por exemplo, designa
reside em algo incorpóreo (os números), produtos ligados ao embelezamento, ao
promove diante de seus contemporâneos ornamento, às aparências. Sua origem
uma inovação radical, que será retomada etimológica é a palavra grega “cosmos”,
no período moderno por muitos cientis- que, à época de Pitágoras, estava asso-
tas e filósofos. ciada a estética. Pitágoras, diz Cornford,
Na história do pensamento, Pitágo- teria sido o primeiro a empregar o termo
ras representa o primeiro passo rumo “cosmos” para designar o universo.
à ideia de que a realidade das coisas não O interesse dos pitagóricos pela m
­ úsica
corresponde ao modo sob o qual elas se tem tudo a ver com isso. Pois a mú­­sica re-
apresentam a nossos sentidos. Por isso, úne sons muito diferentes em harmonias
quando a física atual nos ensina que as leis que obedecem à ordem e à medida – uma
do movimento se expressam na forma de harmonia, assim, que é estética e mate-
enunciados matemáticos, ela aprofunda mática.
as intuições e o pensamento de Pitágoras. Pitágoras tomou esse modelo para
É interessante observar que, ao defen- compreender a ordem das coisas na natu-
der essa noção sobre a “phýsis”, Pitágoras reza, por trás do aparente caos sob o qual
também tinha em conta questões estéti- elas se manifestam a nós. Como diz Corn-
cas. Seu ponto principal era sustentar que ford, isso explica a doutrina pitagórica da
física, conforme a qual não é na matéria
e no ilimitado que reside o princípio das
coisas, mas antes no princípio da forma e
©Foto: NASA/JPL/Space Science Institute

da medida. E assim Pitágoras pode com-


preender a diversidade das manifestações
naturais como sendo pautada pela propor-
ção e pelo número. Visto que o número é
mensurável, então a natureza, assimilada
realidade e aparência

por Pitágoras ao número, revela ter medi-


da e, assim, pode ser conhecida.
A abstração que caracteriza a ciência
atual, como se vê, é uma tendência que
possui origem nos primórdios da filoso-
fia grega. E isso diz respeito não somen-
te à física, mas abarca também outra
Os discos e duas luas de Saturno: para Pitágoras, o
disciplina que integra nosso currículo 147
“cosmos” designa o universo, belo e ordenado.
escolar, a química.
O LEGADO PITAGÓRICO NA MÚSICA
Os discípulos de Pitágoras se dedicaram ao estudo das proporções em música, nota-
damente a afinação das notas musicais, cujas relações expressaram numericamente.
Tal escola teria estabelecido o método que, com alguns ajustes, ainda hoje usamos
para calcular a afinação das notas da escala natural, um dos mais básicos fundamen-
tos da música (e da construção de instrumentos musicais). Tome-se um corpo vibrató-
rio, por exemplo, um bloco chato ou uma barra de madeira. Digamos que, ao percuti-
-la, ela soa a nota dó:

Ora, fazendo outra barra com o mesmo material, a mesma espessura e largura, mas
com metade do comprimento da primeira, ao percuti-la, também teremos um dó, po-
rém o dó acima (mais agudo em uma “oitava” em relação ao primeiro):

 
Os pitagóricos estabeleceram, para todas as notas da escala natural, essas relações
de proporção:

1/2 2/3 3/4 4/5 3/5 8/15 8/9

oitava quinta quarta terça sexta sétima segunda


justa justa justa maior maior maior maior

Observação: metade de comprimento do corpo vibratório ou coluna de ar equivale ao


dobro da frequência; 2/3 de comprimento, a 3/2 da frequência, e assim por diante (isto
é: são inversamente proporcionais).
Em notação musical, e na ordem em que costumamos tocar escalas, teríamos:

1 8/9 4/5 3/4 2/3 3/5 8/15 1/2

tônica segunda terça quarta quinta sexta sétima oitava

(O mesmo fenômeno pode ser experimentado com uma corda, digamos de violão, ou
com a coluna de ar de um instrumento de sopro: 1/2 corda ou coluna de ar equivale a
uma oitava; 2/3, a uma quinta justa etc.)
realidade e aparência

Esse sistema musical foi tão bem-sucedido que, no Ocidente, foi o sistema vigente du-
rante um extenso período. Ainda Jean-Phillipe Rameau (1683-1764), o grande teórico
musical francês, fundamentava os princípios de sua teoria musical e harmônica nesse
cálculo. Ele só foi fundamentalmente revisto com o advento da escala temperada –
que, a partir de suas formulações iniciais no séc. XVI até a completa realização no XIX,
permitiu aos instrumentos tocar 12 notas no intervalo de uma oitava, e não apenas
as 7 da escala natural. Mesmo assim, ainda hoje usamos proporções numéricas para
calcular a altura das notas na escala temperada, embora estas não estejam mais ba-
148
seadas na escala pitagórica.
Ao se debruçar sobre a estrutura da
FILÓSOFOS OU CIENTISTAS?
matéria, o químico sabe que ela é cons-
tituída de elementos atômicos tais como Quando mencionamos pensadores gregos como
o hidrogênio, o zinco, o carbono etc. – Leucipo (primeira metade do século V a.C) e De-
nenhum deles podendo ser percebido mócrito (460-370 a.C.) – considerados os defen-
pelo olhar humano. Árdua tarefa, a do sores do atomismo – é comum referi-los como
professor de química: seu ensino passa filósofos pré-socráticos.
por nos mostrar de início que... a natu- Ou seria mais adequado
reza da matéria não é como vemos, como chamá-los de cientistas?
imaginamos! Por isso, quem ensina quí- Hoje em dia, costumamos
mica solicita que deixemos de lado as distinguir esses dois ramos
imagens, que abandonemos as percep- de investigação: de um

ções imediatas fornecidas pelos senti- lado, as ciências; de outro,


a filosofia. Mas nem sem-
dos, já que, se permanecermos atrelados
pre foi assim.
a elas, não seremos capazes de atingir a
Na Grécia antiga, antes
real estrutura da matéria que nos cerca
mesmo do período em
e da qual também somos feitos. que viveu Sócrates (470-
Assim como os físicos de hoje em dia, 399 a.C.), mestre de Pla-
os químicos contemporâneos também tão, homens dedicaram
refizeram os passos de um caminho já suas vidas ao pensamento
trilhado por pensadores gregos, que, na sobre a natureza, o univer-

Gravura de Demócrito. Coleção particular


linha de Pitágoras, insistiram em afirmar so e a sociedade. Na sua visão, tratar de temas
que os sentidos enganam sobre a natu- tão amplos exigia possuir, em grande medida,
reza da realidade. Conforme esse argu- afinco e curiosidade, espanto e sabedoria. Não
mento, os sentidos nos revelam apenas lhes passava pela cabeça, entretanto, definir suas
aparências. A verdadeira realidade das pesquisas conforme a alternativa entre filosofia

coisas (ou sua “realidade última”, como ou ciência, que se tornou habitual muito depois.
Entendiam fazer as duas coisas de uma só vez,
também se diz em filosofia) escapa aos
porque compreendiam o estudo da natureza
sentidos e só pode ser apreendida pela
como investigação pertencente ao âmbito da fi-
razão. Logo, a fim de atingir o conheci-
losofia. Assim, a explicação da estrutura da na-
mento da realidade, é preciso fazer abs- tureza era orientada pela especulação filosófica
tração do que ensinam os sentidos. sobre a origem e o princípio da realidade.
Graças a microscópios eletrônicos, hoje
sabemos que essa antiga convicção estava
certa. A tecnologia de que dispomos nos to, a hipótese de que a estrutura da matéria
dias de hoje possibilita verificar, por exem- é atômica, hipótese que terminou sendo
plo, que a matéria realmente possui uma confirmada por esses aparelhos, pôde ser
estrutura atômica. Mas a primeira formu- estabelecida sem tal tecnologia, apenas
lação da teoria de que a realidade da ma- com base na especulação filosófica sobre a
realidade e aparência

téria é constituída de átomos data de uma natureza que nos cerca.


época na qual não havia nada de semelhan- Com efeito, Leucipo e Demócrito, filóso-
te ao mais rudimentar microscópio. Filó- fos gregos que viveram depois de Pitágoras
sofos da Grécia antiga, na linha aberta por e antes de Sócrates, se tornaram conheci-
Pitágoras, já haviam elaborado a teoria do dos na história da filosofia e das ciências
átomo sem qualquer recurso a instrumen- como “atomistas”, isto é, como defenso-
tos desse tipo. Claro que a invenção desses res da ideia de que tudo são átomos. Atra-
aparelhos representou um acontecimento vés dos tempos, e nem sempre por linhas 149
decisivo no âmbito das ciências. Entretan- ­retas, essa doutrina chegou à modernidade.
Tomohiro Ohsumi/Bloomberg/Getty Images
Algas unicelulares vistas através de microscópio na Universidade de Tóquio (Japão), em maio de
2013. Imagine se os atomistas gregos tivessem instrumentos assim!

Atualmente, na comunidade científica, há os homens teriam se empenhado em in-


consenso quanto à matéria ser estruturada ventar aparelhos capazes de apreender o
em moléculas, átomos e suas partículas. que escapa ao olhar humano. Dito de outro
Essa história nos ensina algo sobre a re- modo, foi a convicção prévia de que a rea-
lação entre saber e tecnologia. É frequente lidade última da natureza se diferencia do
que descobertas e inventos tecnológicos que aparece sob nossos sentidos o que mo-
promovam o progresso científico, tornan- tivou, no curso da história, a invenção de
do-nos capazes de “ver” o microcosmos, aparelhos científicos capazes de apreender
assim como galáxias distantes, na imensi- o que escapa ao olhar humano, como, por
dão do espaço. exemplo, telescópios e microscópios. Esses
Só que, não fosse a orientação filosófica instrumentos confirmaram uma orienta-
de buscar compreender a realidade por trás ção geral presente na história de nosso sa-
das aparências – uma orientação que, sabe- ber, caracterizada por situar a questão da
mos agora, é muito antiga –, dificilmente verdade fora do plano das ­aparências.

A revolução filosófica e científica moderna


realidade e aparência

As disciplinas científicas atuais pare- mente; a química, que a estrutura essencial


cem concordar com o dito popular: “as da matéria é feita de elementos impercep-
aparências enganam.” A tal ponto, que tíveis ao olhar humano. Já a cosmologia
chegam a sugerir que a natureza escapa descobre novas realidades que só podemos
aos nossos sentidos. atingir pelo pensamento, mas que, nem por
150 A física diz que as relações no mundo isso, c­ onsideramos serem menos existentes
natural podem ser expressas matematica- do que os objetos que estão ao nosso redor.
Pensadores gregos da Antiguidade, analogamente como, muito antes deles, já
como Pitágoras, Demócrito e Leucipo, havia feito Pitágoras. A explicação para isso
mesmo sem os recursos tecnológicos de está no fato de que o legado de Pitágoras
que dispomos hoje em dia, já haviam enve- não foi vitorioso em comparação com as
redado por esse caminho. ideias que outros filósofos e cientistas da
Seria engano, porém, concluir daí que Antiguidade formaram sobre a natureza.
a ciência atual é uma simples continua- Embora tenha gozado de prestígio entre
ção da concepção de natureza elaborada muitos de seus contemporâneos, Pitágoras
por Pitágoras e pelos atomistas gregos. A ficou em segundo plano durante um longo
história do pensamento científico não é período da história da ciência. A causa dis-
como uma estrada que corta em linha reta so reside no enorme prestígio obtido pela
um terreno sem acidentes. Ela se asseme- filosofia e pela física de Aristóteles[+] (384-
lha mais a um percurso cheio de curvas, 322 a.C.), que seguiu uma direção diversa
voltas, rupturas e retomadas. No lugar de daquela de Pitágoras. Vamos reconstruir
uma linearidade, o desenvolvimento cien- essa história em seus momentos decisivos.
tífico é marcado por revoluções, como, Sabe-se que a compreensão matemáti-
aliás, defende um importante filósofo da ca da natureza inaugurada por Pitágoras
ciência do século XX, Thomas Kuhn[+]. influenciou profundamente Platão, no sé-
Uma verdadeira revolução na história culo IV a.C. Essa influência se reflete em
da ciência aconteceu entre os séculos XVI trechos da obra platônica que conferem
e XVII. Confrontando o ensino da época, grande importância ao estudo da mate-
pensadores como Johannes Kepler (1571- mática para a compreensão da natureza e
1630), Galileu Galilei (1564-1642) e René do universo. Ocorre que o ensino platôni-
Descartes[+] (1596-1650) estabeleceram co foi objeto de uma profunda reinterpre-
os alicerces do grande edifício que se tor- tação por parte de Aristóteles.
nou a ciência moderna. Após ingressar na Academia platônica
O interessante nessa história é que es- e estudar com Platão, Aristóteles elabo-
ses homens tiveram de enfrentar o ensino rou sua própria filosofia, que, sob muitos
difundido em sua época para matematizar aspectos decisivos, representou uma obje-
a física e, juntamente com ela, o universo, ção ao platonismo e uma ruptura com ele.
Museu Nacional, Cidade do México

Galileu disse ter


passado em Pádua
realidade e aparência

os anos mais felizes


de sua vida (Felix
Parra [1845-1919],
Galilei na Escola
de Pádua. Óleo sb/
tela, 1873).

151
A concepção que Aristóteles elaborou tar o que a natureza é, pois assim tam-
acerca da natureza – isto é, da phýsis –, em bém veremos do que trata a ciência da
especial, não dá à matemática a importân- natureza (e se pertence a uma ou mais
cia que ela possuía aos olhos de Pitágoras ciências investigar as causas e os princí-
e de Platão. pios das coisas).” (Aristóteles, Metafísica,
Isso não significa que Aristóteles igno- Livro II, 995a. Tradução nossa)
rasse o valor das matemáticas. Mas, do
Quem, entretanto, venceu esta disputa?
seu ponto de vista, as matemáticas cons-
Ao longo da Idade Média, a concepção
tituem uma ciência à parte, cuja aplicação
pitagórico-platônica foi muito influente
ao universo natural é inadequada, porque
por um longo período, até meados do sé-
a natureza que nos cerca não admite a pre-
culo XII. Conheciam-se poucas obras de
cisão e a certeza dos números.
Aristóteles, às quais, naquele contexto,
A natureza, diz Aristóteles, é constitu-
não era dado grande relevo. Foi então que
ída pela “matéria”, e esta última não obe-
universidades europeias, como a de Bo-
dece aos parâmetros exatos que caracteri-
lonha e a de Paris, tomaram contato com
zam o saber matemático. Por isso, segundo
os pensadores árabes, que haviam redes-
Aristóteles, buscar aplicar as matemáticas
coberto e preservado os textos de Aristó-
à natureza é cometer um equívoco sobre
teles. Influenciados pelos matemáticos e
o objeto investigado, é ignorar sua verda-
cientistas árabes, os doutores das univer-
deira característica. A física dos corpos ter-
sidades europeias quase abandonaram o
restres, segundo Aristóteles, não pode ser
platonismo em troca do aristotelismo re-
matemática. Querer matematizá-la equi-
cém redescoberto.
vale a impor à física um modelo que não
No século XIII, Tomás de Aquino
corresponde à sua realidade. Veja como
(1225-1274) reuniu, no âmbito da espe-
Aristóteles assume uma posição oposta
culação metafísica, a filosofia de Aristóte-
àqueles que, na linha iniciada por Pitágo-
les e a teologia cristã.
ras, procuraram matematizar a phýsis:
Essa concepção se tornou dominante
“A precisão das matemáticas não na Europa até o momento em que pen-
deve ser exigida em todos os casos, mas sadores como Nicolau Copérnico (1473-
apenas no caso de coisas que não pos- 1543), Johannes Kepler, Galileu Galilei e
suem matéria. Assim, o método das ma- René Descartes elaboraram novamente
temáticas não coincide com o método da hipóteses matemáticas sobre a phýsis e
ciência natural; pois presumivelmente o o universo. Só então, no século XVII, a
conjunto da natureza possui matéria. natureza foi outra vez concebida como
Logo, temos primeiramente de pergun- sendo essencialmente matemática. Por
em bronze. Campo dei Fiori, Roma Foto: Marie-Lan Nguyen.
Ettore Ferrari (1845-1929), O julgamento de G. Bruno. Relevo
realidade e aparência

O filósofo e escritor Giordano


Bruno (1548-1600) é um caso
célebre de pensador que, por
não se retratar frente às autori-
dades, terminou pagando pela
heterodoxia de suas ideias com
a própria vida.

152
isso, a ciência moderna representou uma como exemplo esse pedaço de cera,
verdadeira revolução diante do saber que acaba de vir da colmeia. Ele nem
tradicional, uma revolução no modo de perdeu ainda a doçura do mel que con-
pensar a natureza que custou muitos es- tinha, retém ainda alguma coisa do
forços e mesmo a vida de alguns homens, aroma das flores de que foi recolhido.
que até o fim afirmaram suas convicções Sua cor, figura e grandeza são aparen-
científicas contra as concepções corren- tes, pois é duro, frio, quando tocado,
tes sobre a natureza e o ­universo. e, caso bater nele, emitirá algum som.
Esta breve remissão à história do pensa- Em suma, encontram-se nele todas as
mento científico nos ajuda a formar ideia coisas que tornam possível conhecer de
da novidade das linhas citadas abaixo, em modo distinto um corpo.
que Galileu Galilei, um dos principais res- Só que, enquanto falo, ele é apro-
ponsáveis pelo advento da moderna ciên- ximado ao fogo. Exala-se o que nele
cia da natureza, afirma que o universo é um ainda­havia de sabor, o aroma desapa-
livro escrito em símbolos matemáticos: rece, a cor muda, a figura some, a gran-
deza aumenta, ele se torna líquido, se
“A filosofia é escrita neste enor- aquece, já é difícil tocá-lo. E, ainda que
me livro que temos continuamente se bata nele, já não emitirá som algum.
aberto diante de nossos olhos (quero Permanece o mesmo após essa mudan-
dizer, o universo), mas não é possí- ça? É preciso admitir que permanece,
vel ­compreendê-lo, se primeiro não se ninguém pode negá-lo. Mas o que, en-
com­preende sua língua e os caracteres tão, tanto se conhecia de forma distin-
nos quais está escrito. Ele está escrito ta nesse pedaço de cera? Certamente,
em língua matemática, e os caracteres nada de tudo o que nele notei por meio
são triângulos, círculos, e outras figu- dos sentidos, uma vez que todas as
ras geométricas, sem recurso às quais coisas que caíam sob o paladar, ou o
é impossível compreender dela uma olfato, ou a visão, ou o tato, foram al-
palavra; sem isso, perdemo-nos inu- teradas, embora a mesma cera perma-
tilmente em um obscuro labirinto.” neça. Talvez fosse o que penso agora:
(Galileu Galilei, O ensaiador. 1ª edição: a cera não era nem a doçura do mel,
1623. Tradução nossa. Edição de refe- nem o aprazível aroma das flores, nem
rência: Il saggiatore. Coleção Ricciardi a brancura, nem a figura, nem o som
[org. F. Flora] 1953, Cap. VI, pp. 16-17) – mas apenas um corpo que, até há
pouco, me aparecia sob essas formas, e
As metamorfoses do pedaço de cera que agora se mostra de outra maneira.
Leia agora esta passagem escrita por Mas o que exatamente imagino, quan-
René Descartes, que compartilhou de do a concebo desse modo?
muitas convicções de Galileu Galilei em Consideremos isso mais cuidado-
sua filosofia: samente e, deixando de lado todas as
realidade e aparência

coisas que não pertecem à cera, exami-


“Consideremos, de partida, as coi-
nemos o que sobra. Certamente, não
sas mais comuns, que acreditamos
permanece nada que não seja algo de
compreender de modo mais distinto
extenso, flexível e mutável. Mas o que
– os corpos que tocamos e vemos. Não
é isso – flexível e mutável? Será que
quero falar dos corpos em geral, já que
imagino que essa cera, redonda que é,
noções gerais desse tipo são habitual-
pode tornar-se quadrada e passar do
mente mais confusas, quero falar de
quadrado para uma figura triangu- 153
alguns deles em particular. Tome-se
lar? Não, certamente não é isso, pois
a concebo como capaz de receber uma
infinidade de mudanças semelhantes,
e não poderia, contudo, seguir essa
infinidade­com minha imaginação, e,
portanto, essa concepção que possuo da
A ciência contemporânea
cera não é produzida pela faculdade de
é… pitagórica?
imaginar.” (Descartes, Meditações meta-
Debate em sala de aula e apresentação
físicas, II. Tradução nossa. Edição de re-
de seminário
ferência: Descartes, Oeuvres. Paris: Vrin,
1982, vol. IX-1, pp. 23-24)
Há inúmeros exemplos de aplica-
Se fizermos uma leitura conjunta do ção desta concepção abstrata da na-
trecho de Galileu e do trecho de Descartes, tureza no ensino atual da Física. Pen-
observaremos que eles são complementa- se, por exemplo, a lei geral da queda
res. Descartes nos diz o que a natureza dos corpos (formulada pela primeira
corpórea não é; Galileu, aquilo que a natu- vez, aliás, por Galileu). Sua aplicação
reza é. Mas ambos estão de acordo sobre o requer que façamos abstração da re-
sentido geral do que seja a “natureza”. sistência que o ar oferece aos corpos
O exemplo escolhido por Descartes em queda. Como você pode imaginar,
para realizar sua demonstração de que os Aristóteles teria sérias objeções a esse
sentidos enganam é o pedaço de cera. Ora tipo de recurso...
ele parece ser uma coisa, ora outra. Inicial- Outro exemplo nos é dado pelo
mente, é sólido e exala um odor. Mas, se o princípio da inércia (1ª lei de Newton):
aproximamos do fogo, derrete e esquenta. parece contrário à nossa percepção
Daí a pergunta: é o mesmo ou é outro? corriqueira que um corpo, uma vez em
Ao menos uma coisa, avança Descar- movimento, não vá parar senão por
tes, pode-se concluir desse caso: o pedaço ação de alguma outra força. Para que
de cera “não pode ser absolutamente nada possamos compreender isso, somos
de tudo aquilo que nele observei por inter- obrigados a abstrair o atrito, ou seja, o
médio dos sentidos”... fato de que nenhuma superfície real é
Eis-nos, desse modo, já posicionados perfeitamente lisa e de que essas im-
no caminho de volta a Pitágoras, o primei- perfeições terminam por “frear” os ob-
ro a sustentar que os sentidos nos apre- jetos que deslizam sobre ela.
sentam apenas aparências. A realidade úl- • Forme uma equipe com dois ou
tima das coisas, aponta Descartes­na linha três colegas para discutir, em sala, es-
sas questões. Notem que o que está
em discussão, nesses casos, é o recur-
so a modelos abstratos que, aplicados
Leitura recomendada à experiência, servem para explicar
realidade e aparência

fenômenos naturais. Listem, utilizan-


René Descartes, Obras escolhidas. Tra- do como apoio o livro de Física, ou-
dução: J. Guinsburg, B. Prado Jr., N. tros exemplos de casos nos quais o
Cunha e G. Guinsburg. São Paulo: Pers- recurso à abstração é essencial para
pectiva, 2010. a explicação de fenômenos naturais.
René Descartes, Meditações metafísicas. Em seguida, apresentem em forma
1ª edição: 1641. Tradução: Homero San- de seminário os casos levantados por
tiago. São Paulo: Martins Fontes, 2005. vocês para o restante da sala.
154
de Pitágoras, não pode ser captada pelos guagem matemática. Pois, diz Galileu, o
sentidos, mas apenas pelo intelecto. universo “está escrito em língua mate-
Não é exatamente isso o que ensina o mática”. Em oposição ao que defendia
trecho de Galileu citado acima? Afir­ma- Aristóteles, Galileu afirma que temos
se ali que a realidade do universo pode o direito e mesmo o dever de aplicar a
ser facilmente apreendida por nós. Basta matemática à natureza, caso desejemos
que estejamos familiarizados com a lin- compreender o universo.

Ser e parecer justo

A desconfiança em relação às aparências cias, o argumento é o de que as aparências


percorreu a história das concepções sobre são superficiais, enquanto a realidade é
a ciência e a filosofia da natureza, desde a profunda. No caso das condutas humanas
Grécia antiga até os dias de hoje. Mas as é diferente. As aparências são frequente-
consequências desse par de noções não se mente tomadas como sendo um artifício
resumem ao campo da investigação da na- produzido com o intuito de esconder a
tureza. Vamos explorar um aspecto da opo- realidade. É isso o que se verifica quando
sição entre realidade e aparência relaciona- abandonamos o âmbito do conhecimento
do ao universo das nossas ações e condutas. científico e adentramos o âmbito da mo-
Também aqui, é comum depararmos ral, da pedagogia e da política.
com a afirmação de que as aparências en- Podemos ver exemplos disso no dia a
ganam. Mas, neste caso, a ilusão não se dia das relações humanas. Dizemos que
deve ao fato de elas ocultarem a profundi- fulano ou beltrano não é como parece,
dade das coisas e dos seres, mas ao fato de que disfarça o que sente, dissimula o que
simularem algo diverso do que são as coisas pensa, apresenta de si mesmo uma ima-
e os seres. No primeiro caso, o das ciên- gem diversa do que realmente é.
Nesse caso, o caráter ilusório da apa-
rência se deve ao caráter artificial com
o qual podemos revestir a realidade. De
fato, muitas vezes os artifícios servem
para esconder algo. Por isso, afirma-se
Museu Nacional do Bargello. Florença/ DeAgostini/Getty Images

que por meio deles dissimulamos nossa


“essência”, o que somos de verdade.
Mas pense bem: o que, exatamente,
seria essa essência? Como ela se manifes-
ta, a não ser de um modo que inevitavel-
mente traz consigo uma imagem ou uma
impressão e, portanto, sob uma forma
realidade e aparência

que sempre é aparência de algo? Será que


haveria dois tipos de aparência, uma fiel,
outra infiel ao original?
Sob influência de Pitágoras, Platão
aprofundou a tese de que a essência da
No âmbito da ética, a aparência é às
realidade se localiza para além das apa-
vezes tomada como falsidade (Vincenzo
rências. Platão fez isso tanto no que con-
Danti [1530-1576], A honra derrota a
cerne ao saber científico, quanto ao que 155
falsidade. Mármore, 1561).
concerne à moral. A alegoria da caverna,
a­ presentada no Livro VII de A república e Recordemos por um instante o con-
de que tratamos na Unidade Princípio e texto do diálogo escrito por Platão. A
temporalidade é um exemplo disso. Não República se inicia com o relato de uma
por acaso, em outra passagem de A repú- visita que Sócrates e Glauco fizeram, no
blica, anterior ao Livro VII, Platão utiliza o dia anterior, ao Pireu, a cidade portuária
par “realidade” versus “aparência” a fim de próxima de Atenas. Como na maior par-
abordar questões de ordem moral. te de suas obras, o principal personagem

Platão
Platão nasceu em Atenas, em 428 ou 427 próprio Platão – é o único capaz de governar e
a.C., e morreu nessa mesma cidade, em 348 legislar com justiça, garantindo à cidade e seus
ou 347 a.C. Filho de família importante, es- cidadãos uma vida realmente feliz.
tava destinado, como tantos outros jovens Além de escrever diálogos, Platão fundou
filhos de famílias como a sua, a se tornar um a primeira escola filosófica conhecida, a Aca-
influente cidadão e político, numa cidade que demia, onde ensinava e debatia seu pensa-
criara e celebrava o regime democrático e o mento com seus discípulos.
uso público da palavra Os diálogos de Platão formulam e desen-

Museu Capitolino, Roma/The Bridgeman Art Library/Keystone


nas assembleias. volvem pela primeira vez vários temas funda-
Ocorreu, contudo, mentais para o pensamento do Ocidente. Os
que o jovem Platão co- principais são: República – talvez o mais rele-
nheceu Sócrates (470- vante –, Fédon, Banquete, Fedro, Teeteto, Sofis-
399 a. C.) e se tornou ta, Timeu, Leis. Em língua portuguesa, há uma
seu seguidor. O ensino tradução completa dos diálogos, publicada
do velho filósofo o trans- pela Editora da Universidade Federal do Pará,
formou profundamen- com tradução de Carlos Alberto Nunes e en-
te. Numa carta prova- saios introdutórios de Benedito Nunes, além
velmente escrita já em de várias outras publicações por diferentes
sua velhice, lamentará a editoras e tradutores.
condenação e morte de Em particular sobre A república, podem-se
Sócrates, o “mais justo mencionar duas outras traduções:
homem de seu tempo”, Platão, A República. Tradução Maria He-
nelas vendo um grave sintoma dos proble- lena da Rocha Pereira. Lisboa: Fundação Ca-
mas por que passava a democracia atenien- louste Gulbenkian, 1993.
se, sobretudo em virtude da derrota contra os Platão, A república. Tradução Anna Lia
espartanos na chamada Guerra do Pelopone- Amaral de Almeida Prado. São Paulo: Martins
so, que levara a uma profunda e preocupante Fontes, 2006.
crise moral e política. Como leitura introdutória ao conjunto dos
realidade e aparência

Por tudo isso, conclui Platão que somente diálogos, pode-se ler:
a “Filosofia” poderia salvar a cidade de seus José Trindade Santos: Para ler Platão (3
problemas morais e políticos. Sua obra, escrita vols.). São Paulo: Loyola, 2008-9.
em diálogos, consistiu afinal em um grande es- Particularmente sobre A república, tam-
forço de retomar o estilo socrático de reflexão bém como texto introdutório:
moral, de modo a transformá-lo numa doutri- R. Bolzani Filho: “Platão: verdade e justiça
na capaz de reformar a vida da cidade. A tese na Cidade”, in: V. Figueiredo (org.), Seis filóso-
central dessa obra parece ser, por isso, que o fos na sala de aula, São Paulo: Berlendis & Ver-
156 filósofo – tal como o compreende e define o tecchia, 2006.
posto em cena por Platão é Sócrates, de vezes, Platão expõe suas próprias ideias
quem Platão foi discípulo, quando jovem. por meio da personagem de Sócrates,
Platão escreveu a maior parte de seus diá- sendo impossível separar o que pertence
logos após a condenação à morte e a exe- a Platão do que pertence ao Sócrates pla-
cução de Sócrates em Atenas, em 399 a.C. tônico. É o que ocorre em A república.
E prestou-lhe homenagem ao fazer de Só- Platão é o primeiro filósofo a explo-
crates seu principal personagem. Muitas rar a forma do diálogo, através da qual

AS DIVERSAS FORMAS DOS TEXTOS FILOSÓFICOS

Não é sempre que o texto filosófico se apre- ferentes pontos de vista. Por isso, muitas vezes
senta como uma exposição de molde disser- essa é a forma adotada para se redigir uma
tativo, com uma forma, por assim dizer, aber- abordagem crítica a respeito de um assunto ou
tamente “não ficcional”. A tradição filosófica de uma obra. Também é comum que o ensaio
contou, desde a Antiguidade, com uma diver- se apresente como expressão de uma série de
sidade de soluções no modo de formular suas vivências do autor (hipotéticas ou concretas).
questões e argumentações. A forma diálogo é Seja no assunto tratado, seja no seu desen-
característica dos textos de Platão, que fundou volvimento, espera-se que o ensaio exiba uma
uma tradição. O diálogo filosófico é a forma unidade razoavelmente clara.
adotada, por exemplo, por Denis Diderot (1713- Um estilo mais livre de redação é o de afo-
1784) para tratar de questões morais e estéticas rismos, em que cada pensamento filosófico é
em seu texto O sobrinho de Rameau. O esquema apresentado na forma de um pequeno texto au-
segue grosso modo o modelo platônico: alguns tônomo, podendo às vezes ser um pouco mais
interlocutores (no caso, dois) debatem ideias de- extenso. Em obras organizadas dessa maneira,
fendendo pontos de vista diferentes, podendo com frequência cada aforismo, embora consista
ou não chegar a um consenso a respeito delas. numa unidade autônoma, dialoga com os de-
Antes de Platão, o pré-socrático Parmêni- mais. Exemplos desse tipo de redação filosófica
des de Eleia (séc. V a.C.) havia formulado sua são encontrados nas Considerações para mim
filosofia na forma de um poema, do qual pos- mesmo, do filósofo estoico (e imperador roma-
suímos fragmentos. Outro poema filosófico no) Marco Aurélio (121-180 d.C.) e, mais recente-
muito influente no Ocidente é Da natureza das mente, em diversos livros de Friedrich Nietzsche
coisas (De rerum natura) do filósofo epicurista (1844-1900). Eis o exemplo de um curto aforis-
romano Lucrécio (séc. I a.C.). mo nietzschiano que, de tão sintético, é quase
Uma forma bastante prezada no mundo uma máxima: “A maldade é rara – A maioria dos
antigo é a epístola. Nela, o autor se dirige a homens está ocupada demais consigo mesma
um amigo como se escrevesse uma carta, para ser má.” (Humano, demasiado humano, I, nº
mas nela desenvolve um argumento filosófi- 85, tradução nossa).
co endereçado ao seu interlocutor, que pode Por fim, mencionemos o simpósio, uma
realidade e aparência

ser real ou imaginário. Um exemplo bastante forma muito característica da filosofia romântica
lembrado são as Epístolas morais a Lucílio, do alemã, grupo que compreende Novalis (1772-
filósofo, escritor e político romano Lúcio Aneu 1801), Friedrich Schlegel (1772-1829) e outros.
Sêneca (séc. I d.C.). Ela se originou a partir de encontros de jovens
Pode-se dizer que Michel de Montaigne pensadores e escritores alemães, notadamente
(1533-1592) foi o criador de um gênero filosó- na cidade de Iena. Esta forma se diferencia do
fico e humanista de grande repercussão: o en- diálogo na medida em que o saber se produz
saio. Nele, uma questão central é desenvolvida não tanto pelo confronto de um interlocutor com
em estágios, num percurso que contempla di- outro, mas por uma conversa a muitas vozes. 157
apresenta seu pensamento. A leitura tas em cena e do debate que protagoni-
dos diálogos platônicos mostra que nem zam, o leitor é apresentado a questões
sempre a atividade filosófica se resume a que mobilizam divergências e pontos de
apresentar teses, demonstrá-las ou aban- vista antagônicos. Seu interesse está me-
doná-las. Por vezes, a filosofia reside em nos na solução do problema que na ex­
pôr em cena um debate entre interlocu- posição de seus diferentes aspectos.
tores – e também ocorre que esse deba- Como a opção de Platão pela forma
te não atinja um termo, uma conclusão dialógica se exprime em A república?
satisfatória, uma verdade definitiva. A Nessa obra, Sócrates conduz a investiga-
escolha de Platão pela forma do diálogo, ção sobre a natureza da justiça. Ele refu-
por isso, já define uma posição filosófica ta seus interlocutores e, diferentemen-
do autor. Por meio das personagens pos- te de diálogos que hesitam em apontar

Praticando as diferentes formas do filosofar


Atividade em equipe, elaboração conjun- final dessa fase, cada grupo lê o resulta-
ta de texto e desenvolvimento individual do de sua produção textual para o res-
por escrito tante da classe. Note: escolher uma for-
ma mais sintética, como a do aforismo,
A seguinte situação de aprendizagem, não é necessariamente vantajoso – pois
a ser desenvolvida em três etapas, tem é muito difícil expressar ideias sofistica-
antes o intuito de fomentar a atenção das numa simples frase!
para a forma da argumentação do que Fase 2 – Cada grupo retém o seu
para o tema desta Unidade. Para come- tema, mas muda de forma, e redige um
çar, divida-se a classe em quatro grupos. pequeno texto sobre o mesmo assunto
Fase 1 – Cada grupo produzirá um texto anteriormente proposto, mas agora ex-
de pequena extensão (de 1 a 2 páginas no plorando outro gênero textual: quem co-
máximo), desenvolvendo um tipo específi- meçou pelo ensaio, agora fará aforismo
co de argumentação a partir de um assunto ou diálogo, assim por diante.
dado pelo(a) professor(a). Cada grupo tem Fase 3 – Atividade individual. Cada es-
como ponto de partida um tema diferente. tudante desenvolve, por escrito:
a. O grupo 1 o fará na forma diálogo a. um breve diálogo a partir de um afo-
(dois interlocutores, um rebatendo rismo;
o outro); b. um parágrafo ensaístico a partir de
b. o grupo 2, um parágrafo como de um trecho de diálogo filosófico;
realidade e aparência

um pequeno ensaio; c. um aforismo a partir de um parágra-


c. o grupo 3, um aforismo ou um pe- fo de ensaio.
queno conjunto de aforismos (cada Dica: especialmente nos casos do
um contendo de 1 a 5 frases); diálogo e do simpósio (mas também,
d. o grupo 4, como simpósio (4 a 5 inter- defensavelmente, no do ensaio), você
locutores com posições diferentes e pode lançar mão de elementos fictícios
complementares). – sempre que pertinentes ao assunto –,
Cada grupo se reúne e discute suas de forma a ajudá-lo a desenvolver a for-
158 ideias; em seguida, as põe por escrito. Ao ma textual.
uma conclusão, defende uma posição dar as costas para ela. Esta é uma posi-
bem rigorosa sobre o assunto em pauta. ção de consequências importantes. Caso
Mas não é disso que trataremos. Quere- a aceitemos, aceitaremos também que a
mos, aqui, chamar a atenção para o iní- conduta justa é exercida não por seu va-
cio do debate, no segundo dos dez livros lor intrínseco, mas para atender a um ou
que compõem o diálogo, ali onde Glau- mais interesses. Assim como ingerimos
co e Adimanto fazem uso da palavra, e um remédio amargo com o intuito de res-
Sócrates se contenta em responder. O tabelecer a saúde, assim também, confor-
tema da discussão, como dissemos, é me o argumento de Glauco, agimos com
a natureza da justiça, e, como você irá justiça apenas porque desejamos viver em
perceber, é nesta discussão que surge a paz com os demais. Se não fosse por isso,
oposição entre realidade e aparência. O seríamos injustos.
passo é muito importante, porque gran-
de parte de A república reside na respos- A justiça: um mal necessário?
ta que Sócrates fornecerá às questões Vamos reconstruir, agora, uma passagem
levantadas aqui. do texto de Platão, a fim de discutir a argu-
Quais são as questões levantadas mentação de Glauco mais detalhadamente.
por Glauco no Livro II de A república? O primeiro momento dessa argumentação
Tra­­ta-se de um argumento muito elabo- corresponde ao trecho citado a seguir:
rado. A breve fala de Glauco contém uma
tese de fôlego, difícil de refutar. Ele inicia (Glauco:) “Pelo que se diz, por na-
sua argumentação distinguindo três clas- tureza, fazer injustiça é um bem e so-
ses de coisas boas (República, 357b-358a): frê-la, um mal. Mas sofrê-la aparece
mais, pois o mal que há em sofrê-la
1. aquelas que gostaríamos de obter
supera o bem que há em fazê-la. Des-
pelo que possuem de bom em si
se modo, quando os homens, nas re-
mesmas (a alegria, os prazeres
lações que mantêm, fazem injustiças
inocentes);
e dela são vítimas, sentem o gosto de
2. aquelas que são boas em si mesmas
uma e outra; e, caso não sejam capa-
e nos resultados que produzem (a
zes de evitar uma e realizar a outra,
inteligência, a vista, a saúde);
parece-lhes útil fazer um contrato
3. aquelas que, embora sejam em si
que os proíba a todos de fazer injus-
mesmas desagradáveis, são benéficas
tiça e sofrê-la. E foi a partir desse
(o tratamento das doenças, os meios
momento que os homens passaram
de se obter dinheiro).
a instituir suas leis e convenções e
A questão em jogo é clara, mesmo que chamar legal e justo o que fosse pres-
a resposta seja difícil: em qual dessas crito pela lei. Eis a origem e essência
classes incluir a justiça? Eis a pergunta da justiça, situada entre o ótimo, que
que Glauco faz a Sócrates. é fazer injustiça e não ser punido, e
realidade e aparência

Sócrates defende a tese de que a justiça o péssimo, que é ser vítima da injus-
se situa entre as coisas do grupo (2), que tiça e não poder vingar-se. A justiça
são as coisas que proporcionam a verda- está entre esses dois extremos e é es-
deira felicidade. Glauco, de seu lado, de- timada não como um bem, mas como
fenderá que a justiça se encontra, na ver- algo que é reconhecido por falta de
dade, entre as coisas do grupo (3), que são ânimo de fazer injustiça, pois quem
desagradáveis em si mesmas, mas úteis o pudesse fazer e fosse realmente um
para nós. Segundo Glauco, se pudéssemos homem não firmaria com ninguém 159
dispensar a justiça, não hesitaríamos em convenção alguma que o proibisse
de fazer injustiça e de sofrê-la. Isso
seria loucura. Pois bem, Sócrates, eis
a natureza da justiça e sua origem,
pelo que se diz.” (Platão, República, II, A justiça – um bem?
358e-359b. Tradução nossa.)
Atividade em equipe e debate
em sala de aula
Como se vê, logo de início Glauco evoca
o que diz ser a opinião geral sobre a natu-
• Em dupla com um colega, reflitam
reza e a origem da justiça. É comum, afir-
sobre o argumento de Glauco e pro-
ma Glauco, definir a justiça como o meio
curem elementos que corroborem ou
termo entre dois extremos: de um lado, o
refutem sua tese – conforme a qual, se
bem máximo, que reside em praticar impu-
cada um de nós se atém à justiça, não é
nemente a injustiça; de outro, o pior dos
porque a consideramos um “bem em si
males, que equivale a sofrer injustiças sem
mesmo”, mas apenas devido à impossi-
poder fazer nada.
bilidade de cometer a injustiça impune-
Se Glauco estiver correto, então a justiça
mente. Pense sobre as consequências
é fruto de um cálculo. Entre o que desejo fa-
sociais e políticas dessa tese. Caso ela
zer (a injustiça) e o que posso sofrer (nova-
seja verdadeira, o que se pode concluir
mente, a injustiça), é melhor ser prudente e
a partir dela sobre nossa vida em so-
adotar... um meio termo. O raciocínio é, es-
ciedade? Estamos pensando no seguin-
sencialmente, o seguinte: não exercerei de
te: se Glauco estiver correto, por que
modo absoluto minha vontade e com isso,
respeitamos regras sociais, ao invés
em troca, não correrei o risco de ser expos-
de simplesmente fazer o que bem en-
to aos mandos e desmandos dos outros.
tendermos? Glauco tem uma resposta
Assim, Glauco também aponta qual se-
para isso. Procurem compreendê-la,
ria o fundamento da ordem social: cada um
desenvolvendo por conta própria o ar-
de nós, que vivemos juntos num Estado,
gumento proposto por ele.
calcularia os prós e contras e concluiria ser
mais vantajoso abrir mão de obter o bem
máximo (= praticar impunemente a injusti-
ça), a fim de não se expor ao pior dos males anel para um lado, torna-se invisível; ao
(= sofrer injustiças sem nada poder fazer). voltá-lo para sua posição inicial, visível. Daí
em diante, a vida de Giges muda comple-
O anel de Giges tamente. Invisível, Giges entra no palácio,
Logo após expor desse modo a tese de mata o rei, casa-se com a rainha, torna-se o
que a justiça seria apenas um mal neces- governante. Eis a conclusão de Glauco:
sário, não um bem em si mesmo, Glauco
recorre à fábula, a fim de corroborar, com “Se existissem dois anéis como esse,
ela, seu argumento. Trata-se da história e o homem justo colocasse em seu dedo
realidade e aparência

de Giges, um pastor que servia ao então um deles, o injusto o outro, não haveria
governante da Lídia. quem fosse tão resoluto a ponto de per-
Descendo por uma fenda que fora aber- severar na justiça e tão resistente que
ta por um terremoto, Giges encontra um se mantivesse longe dos bens alheios e
cavalo de bronze, oco por dentro. Através deles não se apropriasse, estando livre
de uma porta, enxerga, em seu interior, para, sem temor algum, pegar no co-
um cadáver, que possuía um anel de ouro. mércio o que quisesse, adentrar nas ca-
160 Leva consigo o anel e pouco depois desco- sas e aí conviver com quem entendesse,
bre, sem querer, seus poderes: ao girar o matar e libertar quem quisesse e fazer
tudo o mais. Pois, entre os homens, se-

Biblioteca da Abadia de Monserrate


ria como um deus.” (Platão, República II,
360b-c, tradução nossa.)

A história de Giges evocada por Glau-


co tem por fim comprovar a conclusão
exposta no primeiro momento de sua
argumentação. O que caracteriza a figura
de Giges? Tornando-se invisível, ele pode
fazer o que bem entender.
Graças ao anel mágico, Giges se tor-
na impune: nenhuma censura o alcança,
nenhuma reprimenda ou condenação
pode atingi-lo. Conforme as premissas de
Glauco, ele já não precisa temer a prática
da injustiça. E, tão logo o cálculo do qual
se obtém normalmente a justiça se torna Alegoria da Justiça – Sócrates
dispensável para Giges, ater-se a ela se indaga, no Livro II da República:
torna inútil. Giges se torna injusto por- Seria ela apenas um remédio?
que não precisa mais ser justo.
Estamos, com isso, no coração da con-
trovérsia entre Glauco e Sócrates. Trans- acrescenta ainda um terceiro elemento em
porte-se para o diálogo e responda por si favor da tese de que a justiça é apenas um
mesmo: se você pudesse ser injusto tendo mal necessário. Ele propõe a Sócrates uma
a certeza de estar isento de toda censura comparação entre dois tipos opostos en-
ou punição, abriria mão desse poder? Se tre si: o homem perfeitamente justo e o
pudesse agir “como um deus”, o que fa- homem perfeitamente injusto. Este últi-
ria? Responda a isso sem perder de vista o mo, o “injusto perfeito”, é tão bom em sua
texto. A lição a tirar da alegoria do anel de injustiça, que a executa sem que pareça
Giges é clara: a justiça seria um simples ins- ser injusto: ele é capaz de dissimular suas
trumento, necessário para todos aqueles ações. Aparenta agir com justiça, embora
que não podem fazer o que bem entendem. cometa injustiças o tempo todo. Já o seu
Isso implica uma conclusão radical: oposto, o homem perfeitamente justo, “é
se as coisas se passam como diz Glauco, um homem simples e generoso que [...]
então a justiça revela uma fraqueza dos não quer parecer justo, mas sê-lo” (Repú-
homens, visto ser-lhes útil apenas na me- blica, II, 361b, tradução nossa).
dida em que cada um, nas relações que É assim, aliás, que Glauco nos propõe
mantém com os demais, não pode fazer o imaginá-lo: como alguém que é justo, mas
que bem entende. A justiça, sob esse as- que possui a reputação de injusto, pois ape-
realidade e aparência

pecto, aparece como um remédio contra nas desse modo poderemos determinar se
nossa fraqueza de não poder fazer tudo o ele age unicamente movido pela jus­tiça, ou
que desejamos. É por isso que Glauco a si- por aquilo que a reputação da justiça lhe
tua entre as coisas boas da terceira classe assegura. “Que ele, sem praticar injustiça,
(os remédios, a ginástica etc.), conforme a possua a reputação de completa injustiça,
classificação com que inicia seu argumen- para que, não se deixando abater pela má
to e que examinamos anteriormente. fama e suas consequências, fique confir-
Para terminar sua ofensiva argumenta- mada a autenticidade de sua justiça” (Re- 161
tiva, Glauco, após narrar a fábula de Giges, publica, II, 361c-d, tradução nossa).
Após a caracterização desses dois ti-
pos, Glauco lança-nos a questão decisiva:
qual deles você diria ser o mais feliz – o
injusto que aparenta ser justo, ou o justo Os tipos e seu exagero
que aparenta ser injusto? característico
Não é difícil notar que essa questão e a
Debate em sala de aula e
argumentação que a prepara constituem
apresentação de seminário
uma variante da narrativa do anel de Gi-
ges, apresentada por Glauco pouco an-
A literatura, o cinema e o teatro es-
tes. Só que, em lugar da fábula de Giges
tão cheios de tipos, de personagens
descobrindo o anel mágico que o torna
que encarnam de maneira exagerada
invisível, Glauco agora nos propõe ima-
determinadas características. E o que
ginarmos uma oposição de tipos cujas
dizer, então, das telenovelas? Você cer-
características são definidas sem recurso
tamente já viu, na tevê, tipos semelhan-
à fabulação e ao mito.
tes ao homem injusto que parece ser
Você bem pode indagar se, na vida real,
justo, apresentado dialeticamente por
existe alguém que seja tão perfeitamente
Glauco. A personagem de Flora, repre-
injusto que pareça a todos o mais justo dos
sentada por Patrícia Pillar em A favorita
homens. Mas o essencial, aqui, é a caracte-
(2008-2009), telenovela criada por João
rização de um tipo, o do homem injusto
Emanuel Carneiro, é apenas um exem-
que sabe fazer com que suas ações tenham
plo dentre tantos outros.
a aparência enganosa da virtude.
• Em uma equipe de três a quatro in-
Note que a apresentação desse tipo
tegrantes, pesquisem, em sala de aula
possui uma função conceitual. É pen-
ou em casa, exemplos de tipos como
sando no fato de que os exageros podem
aquele proposto por Glauco. Após sua
auxiliar na abordagem e compreensão
caracterização, examinem se persona-
de um problema que Glauco, persona-
gens assim são de fato possíveis na vida
gem de Platão em A república, lança mão
real. Caso a resposta seja positiva, apre-
desses dois homens fictícios: o perfeita-
sentem exemplos que comprovem suas
mente justo e o perfeitamente injusto.
conclusões. Caso seja negativa, exami-
nem esta última questão: por que, então,
A crítica da aparência por Sócrates
as novelas, os romances, o cinema e o
Vimos a questão levantada por Glau-
teatro sempre recorrem a essas caracte-
co no Livro II de República: quem é mais
rizações exacerbadas?
feliz, o justo que parece injusto, ou o in-
justo que parece justo? Na verdade, essa
é uma pergunta retórica, pois Glauco já
direciona a resposta conforme a manei-
ra que formulou a questão. Bastará ima- to, mas apenas aparentar sê-lo” (A repú-
realidade e aparência

ginar o destino reservado a ambos para blica, II, 361e -362a, tradução nossa).
responder que o injusto será mais feliz Essa última conclusão de Glauco con-
que o justo. Como acrescenta o próprio firma a lição que ele havia extraído da
Glauco, aquele que aparenta ser virtuo- história do anel de Giges. Trata-se de um
so será recoberto de glória e admiração, elemento complementar, coerente com
embora, na verdade, seja injusto; o ver- a argumentação sustentada por Glauco,
dadeiramente justo, ao contrário, sofrerá e que podemos resumir assim: caso pos-
162 “açoites e torturas”, e só ao fim da vida samos ser injustos sem parecê-lo, seremos
“compreenderá que não importa ser jus- felizes. Ou seja, só somos justos, porque
não conseguimos todo o tempo ser in- em seu lugar outra medida para conceber
justos aparentando ser justos. Podemos a distinção entre realidade e aparência.
concluir da fala de Glauco que só é feliz... No entender de Sócrates, a aparência
aquele que parece ser justo. corresponde a uma realidade inferior, de-
O que poderá retrucar Sócrates dian- rivada da realidade propriamente dita. A
te disso? realidade, argumentará Sócrates, se situa
Como você pode imaginar, Sócra- no mundo transcendente das Formas ou
tes discorda completamente da posição Ideias, no qual o simulacro, as aparên-
apresentada por Glauco. Segundo Sócra- cias, não têm lugar.
tes, seu amigo e interlocutor se equivoca Na refutação dos argumentos de
ao dar prioridade à reputação pública de Glauco, Sócrates lança mão do que se
que gozam os cidadãos na cidade-Estado. tornou conhecido como a doutrina das
Se formos nos ater à reputação, vá lá, Ideias, também apresentada na Unidade
nesse caso, Glauco até teria certa razão. Princípio e temporalidade (módulo­
Mas por que deveríamos nos ater a coi- “Platão e o tempo”), ao comentar a ale-
sas tais como “fama”, “reputação”, etc.? goria da caverna. Só vale a pena ser in-
Será esse tipo de critério para ser feliz justo e parecer justo em um contexto em
que Sócrates irá desqualificar, propondo que prevalece o simulacro, o engano, a

“NÃO BASTA SER HONESTO, É PRECISO APARENTAR SÊ-LO”


Um episódio da vida do Foi instaurado um proces-
líder romano Caio Júlio César so judiciário para deliberar

Busto em mármore de César, Séc. I. Houston Museum of Natural Science. Foto: Ed Uthman. CC-as-2.5
(100-44 a.C.) deu origem a uma sobre o sacrilégio que pertur-
máxima muito repetida quan- bara a festividade. Durante
do se trata de julgar e valorizar esse processo, os juízes per-
as aparências. guntam a César por que ele
Em 62 a.C., César ocupava, não denunciara Clódio. César
havia aproximadamente um declara nada ter contra ele. In-
ano, o cargo de máxima auto- terrogado então por que repu-
ridade religiosa de Roma (pon- diara Pompeia, ele argumenta
tifex maximus). No calendário que nem sequer uma suspeita
sagrado romano, um festejo poderia pairar sobre a esposa
de grande importância era o de um pontífice. Daí se origi-
dedicado à Bona Dea (“a boa nou a máxima: “Não basta à
deusa”), que sempre devia ser rea­lizado na re- mulher de César ser honesta; ela também tem
sidência do pontífice, sendo proibida a presen- de parecer honesta”.
ça de todo e qualquer homem, inclusive a do O dito realça o papel da fama (ou das apa-
realidade e aparência

senhor da casa. rências) na vida prática, especialmente na vida


Naquele ano, porém, deu-se um escândalo: política. (Na realidade, César tinha outras mo-
durante a festa ritual, um homem foi descober- tivações para fazê-lo. Estava defendendo seus
to na casa do pontífice, travestido de mulher. próprios interesses políticos: não queria se
Uma criada teria arranjado um encontro amo- pronunciar pública e oficialmente contra Cló-
roso entre esse homem, Clódio, e a então espo- dio, que era muito prestigiado pelas camadas
sa de César, Pompeia (filha de outro grande po- populares; além disso, César se aproveitou da
lítico romano). César imediatamente repudiou ocasião para selar um novo acordo político
a esposa (isto é: separou-se legalmente dela). mediante outro matrimônio.) 163
ilusão. E esse contexto é caracterizado se contentar com uma vida afastada da
por Sócrates como a caverna de que fala verdade, como, a crer no Sócrates pla-
a alegoria do Livro VII de A república. tônico, ocorre com o filósofo. Vê-se em
Em seu interior, prevalecem a ilusão e que medida a condenação e execução do
as aparências. Mas o indivíduo que sair Sócrates histórico foi importante para a
da caverna descobrirá esse engano, en- solução apresentada em A república, por
xergará as coisas como elas são, à luz do meio da personagem de Sócrates elabo-
sol. E quem tiver feito isso já não poderá rada por Platão.

A realidade da aparência

Se a realidade nem sempre é aparente, a maioria de nós dedica às aparências é


mas pode estar oculta, devemos perma- um reconhecimento de que elas são parte