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2, agosto 2020 169

A situação e os mitos da mulher a partir de Simone de


Beauvoir
Gabriela do Espírito Santo Marchiori
Graduanda na Universidade Federal do Paraná
E-mail: gabrielamarchiori2411@gmail.com

Resumo: Em sua obra O segundo sexo “fatos e mitos”, Simone de Beauvoir se


propõe uma genealogia do ser mulher considerando a questão do que fez da
mulher o “outro”. Isto porque, em sua análise existencial, a filósofa percebe a
situação da mulher como a do inessencial e inautêntico. A mulher estranha a
si mesma pois se constitui como o outro do homem. E, por sua vez, vista pelo
olhar masculino, a mulher é o misterioso de duas faces, é tudo aquilo que o
homem não é e não pode ser, o que faria da mulher o angustiante inexplicável
da existência. Nesta alteridade negativa, é construída uma história da mulher
no mundo e diversos mitos sobre o que é ser mulher, que resultam em uma
situação. Evidentemente, uma situação opressiva, para a qual a autora considera
ainda soluções, como a possibilidade de não se encerrar no destino materno e
o ganho de poder aquisitivo — que livrariam as mulheres de sua sujeição
social. Assim, expomos neste artigo como Simone de Beauvoir caracteriza a
situação e os mitos da mulher, a fim de compreender porquê seria a mulher o
segundo sexo.

Palavras-chave: Feminismo, Mulher, O outro.

I - O que é ser mulher?

“O que é a mulher?”. Esta é a pergunta que a filósofa existencialista,


Simone de Beauvoir, coloca como pergunta inicial em sua obra O segundo sexo.
Veremos que este “é” não busca uma essência, já que o existencialismo é
contrário ao essencialismo, mas antes busca qual é a situação existencial
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compartilhada pelas mulheres. Em uma espécie de genealogia1 a autora busca


identificar quais as características e que tipo de essência sempre foi colocado
como necessário para considerar alguém como uma mulher. Considerando,
evidentemente, isto de forma crítica, pois, se tal “essência” não poderia ser
mais obscura do que é, é obscura justamente por não existir:

O conceitualismo perdeu terreno: as ciências biológicas


e sociais não acreditam mais na existência de entidades
imutavelmente fixadas que definiriam determinadas
características como as da mulher; consideram o
comportamento como uma reação secundária a uma
situação (Beauvoir, 2016, p. 10).

Então, independentemente de não existir uma essência primeira que


caracterize o feminino, existe uma situação que caracteriza estes seres no
mundo. Esta situação se desvela como opressão, pois, na concretude da
existência, a mulher não é considerada um sujeito autêntico, a mulher é o
“outro” para o homem e para si mesma, já que não pode se efetivar na
autenticidade. Enquanto o sujeito autêntico define a si mesmo, o inautêntico
define a si como o outro do um. Logo, enquanto o homem é o “primeiro” e
“essencial”, a visão que o homem tem da mulher é definidora para que a
mulher estabeleça o que ela é:

Ela não é senão o que o homem decide que ela seja; daí
dizer-se o “sexo” para dizer que ela se apresenta diante
do macho como um ser sexuado; para ele, a fêmea é
sexo, logo ela o é absolutamente. A mulher determina-
se e diferencia-se em relação ao homem, e não este em
relação a ela; a fêmea é o inessencial perante o essencial.

1 Procedimento que entrelaça os fatos históricos e filosóficos.


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O homem é o Sujeito, o Absoluto; ela é o Outro


(Beauvoir, 2016, p. 13).

Em relação à situação da mulher como o “outro”, algumas questões


se colocam. Se todo sujeito se define enquanto o “um” em oposição a todos
os “outros”, por que com as mulheres não sucedeu o mesmo? Por que a
mulher se definiu a partir do homem? De acordo com a autora, a mulher abriu
mão de sua afirmação como sujeito porque aliar-se ao homem se mostrou um
caminho mais fácil. A história foi constituída de maneira que a mulher se
identificava mais com seus provedores do que com suas iguais.

O homem suserano protegerá materialmente a mulher


vassala e se encarregará de lhe justificar a existência: com
o risco econômico, ela esquiva o risco metafísico de uma
liberdade que deve inventar seus fins sem auxílios.
Efetivamente, ao lado da pretensão de todo indivíduo
de se afirmar como sujeito, que é uma pretensão ética,
há também a tentação de fugir de sua liberdade e de se
constituir em coisa. É um caminho nefasto porque
passivo, alienado, perdido, e então esse indivíduo é
presa de vontades estranhas, cortado de sua
transcendência, frustrado de todo valor. Mas é um
caminho fácil: evitam-se com ele a angústia e a tensão
da existência autenticamente assumida (Beauvoir, 2016,
p. 18).

Desta forma, se um dia a mulher se esquivou de sua liberdade como


sujeito, hoje já não pode nem pretender a esta liberdade, tamanho foi o
desenvolvimento da história criada pelos homens. Mas, sendo assim, como
tudo isto veio a ocorrer? E o que ocorreu para que, até hoje, a mulher ser
considerada a parte inessencial desta história?
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II - A genealogia

Na primeira parte da obra, chamada “destino”, Beauvoir analisa os


dados da biologia e chega a conclusão que a mulher não pode ser explicada
apenas pelos fatores genéticos, porque o que faz a mulher ser “o outro” na
sociedade patriarcal não se limita ao fator “fêmea” que a constitui. Entretanto,
é necessário entender quais fatores biológicos influenciaram a situação da
mulher na sociedade.
Comumente se pensa que a desvantagem da mulher reside em sua
suposta fraqueza e reatividade corporal e que o homem, ganharia vantagem
justamente aí, na medida em que ele seria mais forte e mais ativo. Que o corpo
da mulher é menos resistente, aguenta menos peso e outros fatores, é algo que
Beauvoir considera cientificamente plausível. Entretanto, a perspectiva
filosófica que Beauvoir adota é a de que o corpo não é uma coisa, mas uma
situação. Logo, a força do homem só pode ser vantajosa em algumas
circunstâncias sociais. A “vantagem” da força não pode ser considerada como
boa em si mesma. Mas, é de acordo com o “contexto ontológico, econômico,
social e psicológico que teremos de esclarecer os dados da biologia” (Beauvoir,
2016, p. 65). Assim, se a força é considerada uma vantagem, é porque esta foi
a narrativa que nossa sociedade construiu. Já o suposto valor “ativo” do
homem viria da ideia de que o espermatozoide representa maior poder
reprodutivo que o óvulo, o que é observado na narrativa simples de que o
homem detém a semente e que a mulher é apenas a terra que a fertiliza.
Novamente, isto se apresentará apenas como outro conto que prioriza o valor
masculino em detrimento do feminino. O espermatozoide não detém força
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mais ativa que o óvulo, pois, os processos reprodutivos são totalmente


dependentes:

Em sua união, os dois gametas superam-se e perpetuam-


se ao mesmo tempo, mas o óvulo, em sua estrutura,
antecipa as necessidades futuras. É constituído de
maneira a nutrir a vida que despertará nele. Ao
contrário, o espermatozoide não está absolutamente
equipado para assegurar o desenvolvimento do germe
que suscita. Em compensação, o óvulo é incapaz de
provocar a mudança que suscitará uma nova explosão
de vida; ao passo que o espermatozoide se desloca. Sem
a previdência ovária, sua ação seria vã; mas, sem sua
iniciativa, o óvulo não cumpriria suas possibilidades
ativas. Logo, concluímos que, fundamentalmente, o
papel dos dois gametas é idêntico: criam juntos um ser
vivo em que ambos se perdem e se superam (Beauvoir,
2016, p. 41).

Ou seja, diferente de outras espécies onde um sexo pode possuir


maior vantagem do que outro no processo reprodutivo, homens e mulheres
são totalmente dependentes uns dos outros para manterem a engrenagem da
vida rodando. Assim, o que habitualmente se caracteriza como sendo a
desvantagem da espécie feminina, não passa de dados biológicos valorados de
acordo com quem normalmente os produzia: os homens. A inferioridade da
mulher não é ser fraca em força corporal ou ser passiva nas formas
reprodutivas.
A real desvantagem da mulher, é estar presa ao domínio da natureza.
A maternidade faz da mulher serva, já que em nome da espécie ela acaba por
perder sua individualidade. Enquanto o homem “tem uma vida sexual que é
normalmente integrada em sua existência individual: no desejo e no coito, sua
superação na espécie confunde-se com o momento subjetivo de sua
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transcendência: ele é seu corpo” (Beauvoir, 2016, p. 53). Já “a mulher, como


o homem, é seu corpo, mas seu corpo não é ela, é outra coisa” (Beauvoir,
2016, p. 57). O corpo da mulher não encontra fim em si mesmo, ele está
sempre preparado parar gerar um corpo que é outro. Apesar de a gestação ser
um fenômeno natural, “a gestação é um trabalho cansativo que não traz à
mulher nenhum benefício individual e exige, ao contrário, pesados sacrifícios”
(Beauvoir, 2016, p. 57). A mulher, já de início, independentemente da situação
que se encontra, terá sempre mais dificuldade em desenvolver uma
individualidade, pois, seu próprio corpo a condena estar sempre cuidando de
uma vida que não é a sua. Assim, estes são os dados coletados por Beauvoir
para explicar em qual aspecto o corpo da mulher a coloca em uma situação
diferente da do homem.
Ainda na primeira parte do livro, a autora explicita as contribuições
ou não contribuições da psicanálise e do materialismo histórico. A
contribuição da psicanálise teria sido:

considerar que nenhum fator intervém na vida psíquica


sem ter revestido um sentido humano; não é o corpo-
objeto descrito pelos cientistas que existe
concretamente e sim o corpo vivido pelo sujeito […] Há
dados biológicos essenciais e que não pertencem à
situação vivida […] Não é a natureza que define a
mulher: esta é que se define retomando a natureza em
sua afetividade (Beauvoir, 2016, p. 67).

Entretanto, a psicanálise tampouco conseguiu explicar a condição da


mulher, já que nunca a olhava de frente, mas sempre de um distante olhar
masculino. Que a mulher seja o que é por não ter falo, não explica o que é a
mulher. A psicanálise tem determinismos de significação cheios de prejuízos.
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Pretendem que as suas significações brotaram da terra ou caíram do céu, mas


a verdade é que foram criadas por homens. Assim, seus estudos hesitam em
ver a mulher entre dois papéis: masculino e feminino, mas, não explicam
porque consideram o masculino como o ativo e o feminino como o passivo.
Em suma, não explicam o que é a mulher.
O materialismo histórico por sua vez entregou a contribuição de que
A humanidade não é uma espécie animal: é uma
realidade histórica. A sociedade humana é uma
antiphisis: ela não sofre passivamente a presença da
Natureza, ela a retoma em suas mãos. Assim, a mulher
não poderia ser considerada apenas um organismo
sexuado (Beauvoir, 2016, p. 83).

Colocando a mulher na história humana moderna, na qual existem


máquinas e pode haver auxílios à maternidade, a “inferioridade” biológica da
mulher já não é fator determinante; ela não necessita de força bruta, pode
manusear qualquer máquina da mesma forma que o homem, e a servidão da
maternidade pode ser mais leve em algumas situações. Desta forma, o
materialismo histórico verá a mulher como um ser social-econômico e
acreditará que existirá um problema feminino apenas enquanto elas não forem
economicamente dependentes. Beauvoir acredita ser este um ponto muito
relevante, mas seguindo a doutrina existencialista, o materialismo histórico lhe
parece um monismo econômico, já que: “por baixo dos dramas individuais
como da história econômica da humanidade, há uma infraestrutura existencial
que permite, somente ela, compreender em sua unidade essa forma singular
que é uma vida” (Beauvoir, 2016, p. 90). Assim, aceitando as contribuições da
biologia, da psicanálise e do materialismo histórico, Beauvoir ainda buscará
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qual o valor existencial que constituiu a mulher como o “outro” na sociedade


moderna.
A forma mais concreta com que Beauvoir explica a situação da
mulher é a partir da história. Assim, devemos pensar porque a história se
desenvolveu de forma que o homem dominasse a mulher e ela o permitisse.
A autora inicia a narração da história da mulher a partir das hordas primitivas,
mas nos alerta que “as informações que fornecem os etnógrafos acerca das
formas primitivas da sociedade humana são terrivelmente contraditórias”
(Beauvoir, 2016, p. 95). Apesar disto, que a mulher fosse destinada a parir e
nada mais, é o mais provável, já que períodos contínuos de gravidez as
absorviam de qualquer outra atividade. Os homens, por outro lado, gastavam
todo o seu tempo tentando extrair recursos da infecunda terra que habitavam.
O resultado disto é que “nasciam crianças demais em relação aos recursos da
coletividade; a fecundidade absurda da mulher impedia-a de participar
ativamente na ampliação desses recursos, ao passo que criava indefinidamente
novas necessidades” (Beauvoir, 2016, p. 96). A relação com os filhos, como
se pode esperar, era muito diferente da dos dias de hoje, mais do que um
herdeiro, um filho representava um encargo. Além dos múltiplos infanticídios,
muitos recém-nascidos morriam pela indiferença, assim, nos diz Beauvoir que
“a mulher que engendra não conhece, pois, o orgulho da criação; sente-se o
joguete passivo de forças obscuras, e o parto doloroso é um acidente inútil e
até importuno” (Beauvoir, 2016, p. 97). Assim, não há nada que faça a mulher
se desenvolver como indivíduo, ela permanece presa no seu destino biológico.
Já o homem, é homo faber desde o princípio; por necessidade, teve que aprender
a criar o que pudesse superar o presente. Foi neste movimento que os homens
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começaram a ver como altivo a morte, e não a vida. Dar a luz é um papel
possível de ser desempenhado por qualquer animal. Matar e dominar inimigos
e territórios é algo que o homem macho realiza como sua tarefa de afirmação
da existência. A tarefa do homem:
tem outra dimensão que lhe dá sua suprema dignidade,
e ela é amiúde perigosa. Se sangue não passasse de
alimento, não teria mais valor do que o leite; mas o
caçador não é um carniceiro: na luta contra os animais
selvagens corre riscos. O guerreiro põe em jogo a
própria vida para aumentar o prestígio da horda e do clã
a que pertence […] Não é dando a vida, é ariscando-a
que o homem se ergue acima do animal; eis porque, na
humanidade, a superioridade é outorgada não ao sexo
que engendra, e sim ao que mata (Beauvoir, 2016, p. 99).

Assim, nossa questão inicial do porque a mulher se submeteu ao


homem já começa a ser explicada aqui. Não é servindo a natureza, mas é
dominando-a e superando seus limites que o homem transcende seu destino
biológico de repetição da vida. Todavia, foi o homem que ficou encarregado
da criação de um futuro diferente, e a mulher apesar de não ter sido
possibilitada a se empenhar na criação transcendente, mas apenas na criação
da repetição, foi cúmplice do homem porque “ela é também um existente, ela
é habitada pela transcendência e seu projeto não está na repetição, mas na sua
superação em vista de um futuro diferente; ela acha no fundo de seu ser a
confirmação das pretensões masculinas” (Beauvoir, 2016, p. 99). Foi através
deste movimento existencial e biológico que nas hordas primitivas o homem
se tornou senhor e a mulher serva.
Porém, com a descoberta da agricultura, a ideia da vida ganha mais
louvor que a ideia de morte. Fixados num lugar, representando um clã “a
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comunidade pensa sua unidade e quer existência além do presente: reconhece-


se nos filhos, reconhece-os como seus, neles se realiza e se supera” (Beauvoir,
2016, p. 102). A função reprodutiva da mulher é vista como tão sagrada como
a terra que dá frutos. A mulher era confiada aos trabalhos agrícolas por
acreditarem que sua fertilidade seria de algum modo passada as plantações.
Entretanto, por conter mistérios insondáveis aos homens, tanto a mulher
quanto a natureza eram vistas como magias obscuras. O homem tenta
dominar e fertilizar o solo, mas ainda se sente passivo frente a “natureza que
distribui ao acaso a existência e a morte” (Beauvoir, 2016, p. 103). Então,
apesar de neste período a mulher ter um aspecto mais positivo, ela continua a
ser vista como o “outro”, pois:
é importante sublinhar que mesmo nas épocas em que
ainda se sentia confundido ante os mistérios da Vida, da
Natureza, da Mulher, nunca abdicou de seu poder; o
homem permanece como senhor, como é o senhor da
terra fértil; ela destina-se a ser dominada, possuída,
explorada, como o é também a natureza, cuja mágica
fertilidade ela encarna (Beauvoir, 2016, p. 108).

Então, mesmo nestas filiações uterinas, o homem com seu princípio


transcendente já procura meios de se desvencilhar da Mulher-Terra, mesmo
que ainda não possua meios reais de superar a condição de esperar da terra os
frutos de que necessita. A forma que encontra de se “libertar” de seu clã e de
suas contenções se dá na prática da exogamia. Procurando uma esposa de
outro clã para se anexar e dominar, o homem se desprende de suas raízes. E,
assim,

o que o homem deseja possuir é o que ele não é; une-se


ao que se lhe afigura Outro. Não deve, portanto, a
esposa participar do mana do esposo, precisa ser-lhe
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estranha, logo, estranha ao clã. O casamento primitivo


funda-se, por vezes, num rapto real ou
simbólico...Conquistando a mulher pela força, o
guerreiro prova que soube anexar-se uma riqueza alheia
e derrubar as barreiras do destino que seu nascimento
lhe designara (Beauvoir, 2016, p. 109).

Enfim, a exogamia é a forma que o homem encontra tanto de fugir


de sua mãe, quanto de expandir seu domínio e criação: “ele aspira evadir-se
do círculo” (Beauvoir, 2016, p. 109). Assim, sem muita demora o homem
encontrou meios para afirmar por fim o princípio masculino. Com a passagem
da pedra para o bronze o homem já não depende do acaso da natureza, ele
“molda a ferramenta de acordo com seu objetivo, impõe-lhe com as mãos a
forma de seu projeto; diante da natureza inerte, que lhe resiste, mas que ele
vence” (Beauvoir, 2016, p. 110). Assim, se os mistérios da natureza já não são
necessários para a perpetuação da vida, se o homem já sabe como dominar o
solo e é ele mesmo o perpetuador da vida, não há razão para se submeter a
Terra-Mãe. Tudo aquilo que é inexplicável e fora de acesso do homem e de
sua razão dominante do mundo, passa então a ser visto como o mal.
O patriarcado se estabelece definitivamente, a mulher permanece em
sua condição servil e procriadora. Mas, existe algo interessante que Beauvoir
chama a atenção: porque os homens não encaram a mulher com a mesma
benevolência que encaram outros subordinados como as crianças e os
animais? As “virtudes ambivalentes” da mulher fizeram com que de sagrada
ela fosse vista como profana. O mistério é visto negativamente por aqueles
que acreditam deter a razão do mundo. A mulher representa agora aquilo que
é indomável e ininteligível. Assim como Eva não resiste as tentações daquilo
que não se deveria conhecer, Pandora tampouco acata as ordens do “pai
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supremo”, acabando por desencadear todos os males do mundo. A mulher


acaba por ser assim a “diversidade que quebra a unidade, a matéria oposta à
forma, a desordem que resiste à ordem” (Beauvoir, 2016, p. 116). Mas, apesar
disto, a mulher é necessária para a perpetuação do homem, de forma que ela
será muito bem-aceita se, como no cristianismo, ela for virgem, casta e dócil.
É a face dupla da mulher que permanecerá como uma “dificuldade” ao
homem, que ora pretende vê-la como serva e ora como companheira e, que,
sem dúvida, refletirá na história da mulher.
Já nos tempos modernos, a opressão da mulher se realiza no desejo
(do homem) da perpetuação da família ao mesmo tempo em que deseja
manter intacto os seus bens. Filhos e bens não são coisas que divide o homem
com sua mulher, já que de toda forma, ela é um de seus bens. A mulher
constitui a propriedade privada, ora do pai, ora do esposo, o que constitui
afinal o patriarcado. E apesar de isto não ser uma lei universal da história, cada
território e estado detinham sua maneira particular de opressão as mulheres,
que com muitas ou poucas diferenças, ainda possuíam a mesma
intencionalidade.
Entre os séculos XV e XIX alguma mudança começa a ser percebida
— embora inicialmente voltada apenas nas classes privilegiadas. Rainhas e
santas não detêm poucas possibilidades de ser, o que demonstra “com brilho,
que uma mulher pode elevar-se tão alto como um homem quando por um
espantoso acaso as possibilidades de um homem lhe são dadas” (Beauvoir,
2016, p. 151). No século XVI algumas damas começam a se distinguir “pelo
espírito, pela sua influência intelectual e por seus escritos” (Beauvoir, 2016, p.
151). No século XVII o mesmo acontece, é pelo viés intelectual que alguma
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distinção se dá. No século XVIII “os costumes em princípio permanecem


severos: a jovem recebe apenas uma educação sumária; é casada ou encerrada
num convento sem que a consultem” (Beauvoir, 2016, p. 152). Entretanto,
certa liberdade já se mostra através da contestação desta falta de liberdade.
Escritoras, escritores e filósofos começam a voltar-se a causa das mulheres.
Virginia Woolf é um exemplo formidável com seus muitos escritos; dentre
eles, o que Beauvoir ressalta é “Um quarto só para si”, no qual Woolf inventa
uma suposta irmã para Shakespeare, tão talentosa como ele, mas que remenda
trapos enquanto ele aprende latim. De nomes hoje ainda conhecidos, La
bruyére, Voltaire, Diderot e Condorcet são alguns dos que consideravam a
situação da mulher uma injustiça.
Imaginaríamos então que o período das luzes retiraria as mulheres
da sombra — mas, não foi o que aconteceu. “A revolução burguesa mostrou-
se respeitosa das instituições e dos valores burgueses; foi feita quase
exclusivamente pelos homens” (Beauvoir, 2016, p. 158). As mulheres
burguesas também não ousaram manifestar reivindicações, já que seus
privilégios de classes representavam um interesse maior do que seus interesses
próprios. Já que, afinal, quem lhes dava sua “classe” econômica eram seus
maridos. Assim, a mulher burguesa tem noção de que:

libertada do homem, seria condenada ao trabalho; pode


lamentar não poder ter sobre a propriedade privada
senão direitos subordinados aos do marido, porém
deploraria ainda mais que essa propriedade fosse
abolida; não sente nenhuma solidariedade com as
mulheres da classe proletária: está muito mais próxima
do marido do que das operárias da indústria têxtil. Faz
seus os interesses do marido. (Beauvoir, 2016, p. 163).
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De toda forma, a história segue e “provoca a emancipação da classe


laboriosa e, correlativamente, a da mulher” (Beauvoir, 2016, p. 163). Mas,
mesmo que os ideais socialistas visassem a igualdade dos sexos, a revolução
do trabalho não resultou uma verdadeira revolução na vida das mulheres.
Além de exploradas, não juntavam forças para reivindicar melhorias e assim,
só tardiamente foram regulamentados os serviços femininos. Porém, como a
mulher continuava como constituinte da família conjugal, ela não necessitava
de autossustento, mas trabalhava apenas para alguma ajuda na casa. Resultado
disto, os salários eram baixos e aceitos deste modo, sendo que os trabalhos
realizados pelas mulheres eram os mesmos dos homens. Tal fato não era de
pouca estima dos contratantes, que detinham mão de obra barata, mas, para
os operários isto tudo aparecia de forma hostil, por temerem seus próprios
cargos. Além disto, a mulher tem um problema fundamental com o trabalho,
que é conseguir conciliar o labor econômico com o seu serviço mais
fundamental: o reprodutor. Função reprodutora que “na origem da história,
vota a mulher ao trabalho doméstico e a impede de participar da construção
do mundo” (Beauvoir, 2016, p. 171). Só livre de seu papel reprodutor que a
mulher pode se integrar na sociedade, necessário para isto então métodos
contraceptivos. Métodos tais que a moral religiosa impossibilitou e até hoje
tentam impossibilitar de maneira contínua. A autora encerra sua história do
segundo sexo, declarando que:

Pelo fato de ter tomado consciência de si e de poder


libertar-se também do casamento pelo trabalho, a
mulher não aceita a sujeição com docilidade. O que ela
desejaria é que a conciliação da vida familiar com um
ofício não exigisse dela desesperantes acrobacias.
Mesmo assim, enquanto subsistem as tentações da
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facilidade — em virtude da desigualdade econômica que


favorece certos indivíduos e do direito reconhecido à
mulher de se vender a um desses privilegiados —, ela
precisa de um esforço moral maior que o do homem
para escolher o caminho da independência (Beauvoir,
2016, p. 195-196).

Beauvoir conclui, então, que a libertação da mulher só se daria através


da possibilidade de ela não se encerrar no destino materno e não ver no
homem seu sustentador, ou seja, a inclusão efetiva no mundo econômico.
Mas, um problema continua fundamental e muito mais evidente hoje, 70 anos
após a publicação de O segundo sexo. A liberdade econômica e biológica foi por
muitas mulheres conquistadas, em sua vida prática, elas são independentes de
homens e de filhos. Entretanto, de alguma forma não conseguiram quebrar a
imagem do ser mulher que o homem construiu. Em tal ponto, novamente
palavras escritas 70 anos atrás continuam sendo verdadeiras: “Em conjunto,
elas ainda se encontram em situação de vassalas. Disso decorre que a mulher
se conhece e se escolhe, não tal como existe para si, mas tal qual o homem a
define” (Beauvoir, 2016, p. 196).
Vemos assim que a história se transformou, mas as ideias que
definem o que é a mulher continuam sendo as mesmas de sempre. Isto se
mostra na luta das mulheres nos dias atuais, que continuam tendo que
reelaborar sua própria imagem construída pelo homem — que via de regra,
só consideram mulher aquilo que têm em sua mente que ela deveria continuar
a ser. Entretanto, as mulheres agora se veem no impasse de decidir o que são
ou o que querem ser. E, para realizar isto, talvez seja necessário observar em
quais personagens a figura da mulher foi criada historicamente. Tomando
consciência dos mitos fundadores, podemos mostrar suas contradições e
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observar como eles não nos definem inteiramente. Os homens criaram seu
destino; é tempo de criarmos o nosso.

III - Os mitos

Com a história vimos como se deu a concretização do papel do


homem de sujeito e o da mulher como o “outro”. Todavia, para se denominar
o sujeito, é necessário ter consciência de um outro, que lhe é oposto. Se, para
o homem, a natureza é o outro total, não realizando oposição efetiva, a mulher
é para o homem “uma consciência separada da minha e idêntica a ela”
(Beauvoir, 2016, p. 200). Ou seja, um meio pelo qual ele pode efetivamente se
afirmar pela diferenciação. Pois, “é a existência dos outros homens que tira o
homem de sua imanência e lhe permite realizar a verdade de seu ser, realizar-
se como transcendência, como fuga para o objeto, como projeto” (Beauvoir,
2016, p. 200). Mas, se frente a um igual, o homem se sente em perigo, é na
mulher que ele se realiza. A mulher é para o homem:
o intermédio desejado entre a natureza exterior ao
homem e o semelhante que lhe é por demais idêntico.
Ela não lhe opõe nem o silêncio inimigo da natureza,
nem a dura exigência de um reconhecimento recíproco;
por um privilégio único, ela é uma consciência e no
entanto parece possível possuí-la em sua carne
(Beauvoir, 2016, p.200).

A autora Susan Griffin também demonstra muito bem de que


maneira a mulher é vista aos olhos do homem:
Ele diz que a mulher fala com a natureza. Que ela escuta
vozes vindas das profundezas da terra. Que o vento
sopra em suas orelhas e as árvores sussurram para ela.
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Que a morte canta através de sua boca e que o choro


das crianças é claro para ela. Mas para ele este diálogo
está acabado. Ele diz não fazer parte deste mundo, que
ele está neste mundo como um estranho. Ele define a si
próprio como separado da mulher e da natureza
(Griffein, 1978, p. 05)2.

Quando o homem define a mulher como o “outro”, e a mulher por


sua vez não se define ― ou seja, não cria um mito para si própria, quem o faz
é o homem. A criação de mitos sempre foi uma necessidade humana para
explicar ou criar uma narrativa para tudo aquilo que é. Entretanto como ele
não é um objeto móvel, mas "habita as consciências sem nunca postar-se
diante delas... é por vezes tão fluido, tão contraditório que não se lhe percebe,
de início, a unidade" (Beauvoir, 2016, p. 203). O mito do ser mulher têm uma
unidade, porém, ela é dupla. Por representar ao homem tudo aquilo que ele
deseja e teme, o necessário e o inalcançável, a vida e a morte, a mulher é
definida como o ambivalente por excelência. A essência da mulher aos olhos
do homem, é ter uma dupla face.
Assim, o destino biológico da mulher é dar a vida, e é deste modo que
o homem a enxerga. Se, por um lado, isto faz da mulher um ser louvável, por
outro ela é repugnante. O homem que colocou como sua essência o
transcendente, vê seu corpo não como vida, mas como a certeza iminente da
morte. Ele desejaria ser espírito absoluto, em sua condição carnal, ele se

2 “He says that woman speaks with nature. That she hears voices from under the earth. That wind
blows in her ears and trees whisper to her. That the dead sing through her mouth and the cries of
infants are clear to her. But for him this dialogue is over. He says he is not part of this word, that he
was set on this world as a stranger. He sets himself apart from woman and nature” (tradução livre
do autor).
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considera um deus destronado. Ter nascido só lhe dá certeza de sua gratuita e


infortuna morte.
O culto da germinação sempre se associou ao culto dos
mortos. A Terra-Mãe encerra em seu seio as ossadas de
seus filhos. São as mulheres ― Parcas e Moiras ― que
tecem o destino humano; mas são elas igualmente que
cortam os fios. Na maioria das representações
populares, a morte é a mulher, e é às mulheres que
cabem chorar os mortos, porquanto a morte é obra sua.
Tem assim, a Mulher-Mãe um rosto de trevas: ela é o
caos de que tudo saiu e ao qual tudo deve voltar um dia;
ela é o Nada (Beauvoir, 2016, p. 207).

O medo do homem frente a morte necessária a vida cria também


diversos tabus sobre a fertilidade da mulher, que assim que ganha a
possibilidade de concepção, é vista como impura. Impureza esta por muito
significada no horror masculino ao sangue menstrual: o que mais carrega em
si a ideia de vida e morte. Contrário senso, o sangue da desvirginização é um
motivo de orgulho nas sociedades patriarcais, pois ele é a prova da dominação
do homem, que toma a mulher, seu hímen e sua virgindade como posse.
A associação da mulher como natureza também demonstra o desejo
de dominação presente no homem.
Para o marinheiro, o mar é uma mulher perigosa,
pérfida, difícil de conquistar mas que ele ama através de
seu esforço para domá-la. Orgulhosa, rebelde, virginal e
má, a montanha é uma mulher para o alpinista que a
quer violar ainda que correndo perigo de morrer
(Beauvoir, 2016, p. 219).

Assim, mesmo que a mulher represente a força suprema daquela que


dá e tira a vida, ela também representa para o homem um meio pelo qual ele
pode tentar dominar a natureza. Uma das formas por qual tal dominação se
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dá é na exigência da beleza "pois, apertando nos braços uma coisa viva só


pode encantar-se com ela esquecendo que toda vida é habitada pela morte" e
assim "exige-se que seu corpo ofereça as qualidades inertes e passivas de um
objeto" (Beauvoir, 2016, p. 220). Em algumas épocas o ideal de beleza se
apresenta na mulher gorda, em outros na mulher extremamente magra, mas o
ideal por trás do ideal é que a mulher seja sempre impotente, pois, em um caso
o corpo é “amolecido pela gordura” e em outro é “tão diáfano que qualquer
esforço lhe é proibido” (Beauvoir, 2016, p. 221). O adornamento vem
também para corroborar a função de petrificação da mulher, pois, o
embelezamento oculta a deterioração natural de tudo aquilo que é carne.
Na mulher enfeitada, a Natureza está presente mas
cativa, moldada por uma vontade humana segundo o
desejo do homem. Uma mulher é tanto mais desejável
quanto mais se acha nela desabrochada e escravizada a
natureza; a mulher “sofisticada” sempre foi o objeto
erótico ideal. E a predileção por uma beleza mais natural
não passa, muitas vezes, de uma forma especiosa de
sofisticação (Beauvoir, 2016, p. 222).

Enquanto a mulher é posse do indivíduo, é preciso transformá-la em


ídolo ― não porque assim ela será louvada como superior, mas porque a
transformando em ideia, a alteridade não se faz necessária. A mulher é sempre
associada à natureza, mas, assim como a natureza, ela apresenta vários
aspectos: fecundidade, vida, envelhecimento, morte. Esteticamente a mulher
sempre teve que representar ao mesmo tempo o natural e o antinatural. O
homem exige da mulher então que além de physis ela se apresente como
antiphysis. Isto porque o homem vai como caçador tentar aprisionar a vida, mas
ao se deparar com sua segunda face, a morte, se assusta. Assim, se a jovem e
bela mulher precisa ser adornada para ser adorada, a mulher velha e estéril
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suscita “um ódio empregado de medo”. Tudo isto pois o caráter essencial do
dualismo projetado à mulher é o de vida e morte: “o que o homem ama e
detesta antes de tudo na mulher, amante ou mãe, é a imagem imóvel de seu
destino animal, é a vida necessária à sua existência, mas que a condena à
finitude e à morte” (Beauvoir, 2016, p. 229). Através desta imagem dualista
primeira, várias personagens representativas do ser mulher são criadas.
No cristianismo duas figuras centrais definem o duplo mulher: Eva e
a Virgem Maria. Enquanto adão foi criado para louvar Deus, Eva foi criada a
partir de Adão para lhe tirar de sua solidão. Seu destino primeiro era servir de
objeto amado, mas, ela não só sai de seu papel passivo quando comete o
pecado original, também leva seu marido ao pecado, sendo ambos expulsos
do paraíso. Por um lado, Eva representa o lado vil, ela foi criada da carne do
homem e já é corrompida em essência. Com este papel Eva é um eterno
lembrete aos homens para que não confiem nas mulheres. Por outro lado, a
Mãe de Deus ou Virgem Maria foi a primeira mãe a se ajoelhar e se colocar
como inferior ao filho. Isto porque é só pelo papel de mãe que a mulher pode
ser amada no cristianismo. Entretanto, até o poder materno lhe é tirado, pois
a mãe de deus, além de tudo, precisa ser virgem, pois a vida e a morte já não
são dependentes dos caprichos femininos, agora são assuntos decididos por
deus.
Não há mais lugar na terra para a magia: Deus é o único
rei. A natureza é originalmente má, porém diante da
graça é impotente. A maternidade, como fenômeno
natural, não confere nenhum poder. Só resta, portanto,
à mulher, se quiser superar em si mesma a tara original,
inclinar-se diante de Deus cuja vontade a escraviza ao
homem. E mediante essa submissão, ela pode assumir
novo papel na mitologia masculina […] Desde que foi
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escravizada como Mãe, é primeiramente como mãe que


será querida e respeitada (Beauvoir, 2016, p. 237).

Assim nasce a mãe devota, a figura mais útil da mulher para a


sociedade. Agora, cabe a mãe amar aos filhos mais do que a ela mesma, e é
responsabilidade materna a criação e a educação moral dos filhos: ela se
apresenta agora como a guardiã da moral e dos costumes. Ela é nas palavras
irônicas de Virginia Woolf, “o anjo do lar”3. Os homens a amam ou a odeiam
quanto mais amam ou odeiam a moral e os costumes. Não obstante, o respeito
que se lança a mãe, se esvai e se alivia frente a figura da sogra.

Ele detesta que a mulher amada tenha sido engendrada:


a sogra é evidentemente a imagem da decrepitude a que
votou a filha ao dá-la à luz; sua obesidade, suas rugas,
anunciam a obesidade, as rugas da jovem esposa cujo

3“Naqueles dias — os últimos da rainha Vitória — toda casa tinha seu Anjo. E,
quando fui escrever, topei com ela já nas primeiras palavras. Suas asas fizeram sombra
na página; ouvi o farfalhar de suas saias no quarto. Quer dizer, na hora em que peguei
a caneta para resenhar aquele romance de um homem famoso, ela logo apareceu atrás
de mim e sussurrou: “Querida, você é uma moça. Está escrevendo sobre um livro que
foi escrito por um homem. Seja afável; seja meiga; lisonjeie; engane; use todas as artes
e manhas de nosso sexo. Nunca deixe ninguém perceber que você tem opinião
própria. E principalmente seja pura”. [...] Fui para cima dela e agarrei-a pela garganta.
Fiz de tudo para esganá-la. Minha desculpa, se tivesse de comparecer a um tribunal,
seria legítima defesa. Se eu não a matasse, ela é que me mataria. Arrancaria o coração
de minha escrita. Pois, na hora em que pus a caneta no papel, percebi que não dá para
fazer nem mesmo uma resenha sem ter opinião própria, sem dizer o que a gente pensa
ser verdade nas relações humanas, na moral, no sexo. E, segundo o Anjo do Lar, as
mulheres não podem tratar de nenhuma dessas questões com liberdade e franqueza;
se querem se dar bem, elas precisam agradar, precisam conciliar, precisam – falando
sem rodeios – mentir. Assim, toda vez que eu percebia a sombra de sua asa ou o brilho
de sua auréola em cima da página, eu pegava o tinteiro e atirava nela” (Woolf, 2018,
p. 12-13).
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futuro assim tristemente se prefigura; ao lado da mãe,


essa jovem esposa não se apresenta mais como um
indivíduo, e sim como o momento de uma espécie; não
é mais a presa desejada, a companheira querida, porque
sua existência singular se dissolve na vida universal
(Beauvoir, 2016, p. 240).

Se a velhice e feiura da sogra causa arrepios aos olhos dos homens, é


por verem que a esposa como objeto adquirido cedo ou tarde perderá seus
atrativos que a faziam ser um objeto desejado. Isto, pois, a esposa é para o
homem o mesmo que são suas terras e riquezas para ele: propriedades que
carregam seu nome e demonstram seu poder. Cada cultura apresentará o valor
da mulher como constituinte da propriedade privada e patriarcal, de forma
diversa. Nas sociedades burguesas, a mulher serve para manifestar o poder do
marido sendo bonita ou inteligente. Em algumas sociedades orientais, quanto
mais gorda a esposa é, mais se sabe que seu marido tem poder de alimentá-la.
Já os mais pobres contentam-se em colocarem suas mulheres como detentoras
de qualidades serviçais e morais. Os muçulmanos, por sua vez, como não
apoiam a exibição das qualidades da mulher, admiram a quantidade, logo,
quanto mais esposas têm, mais um homem é considerado. Além disto, a
esposa em sociedade, assume o mesmo papel fundamental que tinha em
estado primitivo: “ela ainda é natureza, mas com todas as virtudes úteis à
sociedade, à família, ao chefe da família” (Beauvoir, 2016, p. 242).
Tais são os papéis que foram delegados às mulheres: para serem
legitimadas pela sociedade devem estar anexas ao homem, ora como boa mãe,
ora como boa esposa. Entretanto, sempre que olham para as mulheres,
principalmente as que não estão salvaguardadas por estes papéis, o homem só
consegue enxergar uma terrível contradição. Isto porque o homem que
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naturalmente tem contradições em si, só poderia inventar uma ideia de mulher


contraditória.
Eles inventaram-na. Mas ela existe também sem essa
invenção. Eis por que é, ao mesmo tempo, a encarnação
do sonho masculino e seu fracasso. Não há uma só
representação da mulher que não engendre de imediato
a imagem inversa: ela é a Vida e a Morte, a Natureza e o
Artifício, o Dia e a Noite. Sob qualquer aspecto que a
consideremos, encontramos sempre a mesma oscilação
pelo fato de que o inessencial volta necessariamente ao
essencial. Nas figuras da Virgem Maria e de Beatriz
subsistem Eva e Circe (Beauvoir, 2016, p. 254).

Por assim ser, apesar de termos visto que é exorbitante o movimento


de associação da mulher à natureza, ao carnal, ao terreno, já que assim pode-
se culpá-la de antemão como responsável pelos pecados do mundo,
mantendo-a contida, embora essa não seja a única forma de transformar a
mulher em “outro”. Se a mulher pode ser o outro por ser demasiado imanente
e terrena ao homem, ela pode também ser demasiado transcendente para ele
alcançá-la. Assim surge o “eterno feminino”, um movimento aparentemente
contrário ao da assimilação da mulher à natureza, é a assimilação da mulher às
ideias eternas. O eterno feminino proclama que a mulher possui um profundo
segredo sobre a verdade do mundo, de forma que tudo que ela é e representa,
é justificado como contendo uma verdade que os homens não conseguem
alcançar. A mulher surge espiritualizada e sublime, assim a figura feminina é
utilizada para compor a imagem das cidades, dos países, da casa, do lar: a
mulher é a “alma” de todas estas coisas.

Essa verdade enterrada na noite das coisas resplende


também no céu. Perfeita imanência, a Alma é ao mesmo
tempo o transcendente, a Ideia. Não somente as cidades
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e nações mas também entidades e instituições abstratas


apresentam traços femininos: a Igreja, a Sinagoga, a
República, a humanidade são mulheres, e também a Paz,
a Guerra, a Liberdade, a Revolução, a Vitória. O ideal
que o homem põe diante de si como o Outro essencial,
ele o feminiza porque a mulher é a figura sensível da
alteridade; eis porque quase todas as alegorias, tanto na
linguagem como na iconografia, são mulheres
(Beauvoir, 2016, p. 245).

Fica claro então a suposta duplicidade da mulher, se ela pode ser vida
e morte, natureza e idealidade, é porque ela é um mito. Por ser a mais acabada
e inacabada criação do homem, a mulher é tudo aquilo que ele quer e não
quer, que deseja, mas não alcança. A mulher, por ser essencialmente o outro,
representa tudo de confuso que o homem vê no mundo. Ela é vida e morte,
santa e puta, mãe e amante, sagrada e profana. Para cada mãe, cada esposa,
criarão uma madrasta, uma sogra. Existe todo tipo de mito e perfil para tentar
definir o que é a mulher. Mas, no final, ela é tudo. Tudo o que o homem não
é e nem pode ser. Tudo que ele deseja e teme e é por ser desejo e aversão do
homem, que a mulher é vista como o eterno duplo. A “mulher” como criação
masculina é o reflexo de todos os seus medos e desejos, por isto apresenta
duas faces. O motivo pelo qual alguns homens veriam a mulher sob um
aspecto e outros sob outro aspecto, Beauvoir guarda a solução à psicanálise,
mas, deduz que a maneira com que o homem se comporta com a esposa tem
de ter relação com a maneira com que ele via a mãe. Assim, se a mãe foi vista
e desejada em seu aspecto carnal, o homem verá isso também em outras
mulheres. Se o homem sentiu desgosto ao perceber a mãe como um ser carnal
e tentou esquecer isto, provavelmente haverá reflexos na relação com outras
mulheres. De acordo com Beauvoir, isto aconteceria porque “cada mulher é
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habitada pela essência geral da Mulher, logo da Mãe, é certo que a atitude em
relação à Mãe repercutirá nas relações com a esposa e as amantes; porém
menos simplesmente do que muitas vezes se imagina” (Beauvoir, 2016, p.
265).

IV – Conclusão

Vimos então qual o processo histórico que colocou a mulher como o


outro, tirando sua capacidade de tornar-se sujeito, e como, por fim, os homens
criaram definições e limitações para o que a mulher é ou poderia ser. Em
resumo a mulher é:

tudo a que o homem aspira e tudo o que não alcança.


Ela é a sábia mediadora entre a Natureza propícia e o
homem: é a tentação da Natureza indomada contra toda
a sabedoria. Do bem ao mal, ela encarna carnalmente
todos os valores morais e seus contrários; é a substância
da ação e o que se lhe opõe, o domínio do homem sobre
o mundo e seu malogro […] Serva e companheira, ele
espera que ela seja também seu público e juiz, que ela o
confirme em seu ser; mas ela o contesta com sua
indiferença, e até com seus sarcasmos e risos. Ele
projeta nela o que deseja e o que teme, o que ama e o
que detesta. E se é tão difícil dizer algo a respeito é
porque o homem se procura inteiramente nela e ela é
Tudo. Só que ela é Tudo à maneira do inessencial: é todo
o Outro. E, enquanto outro, ela é também outra e não
ela mesma, outra e não o que dela é esperado. Sendo
tudo, ela nunca é isso justamente que deveria ser; ela é
perpétua decepção, a própria decepção da existência que
não consegue nunca se atingir nem se reconciliar com a
totalidade dos existentes (Beauvoir, 2016, p. 267).
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Ademais, Beauvoir acreditou que para que a mulher saísse de sua


condição, ela deveria conquistar os meios materiais de sobrevivência
independente e conquistar lugares na sociedade que a possibilitassem ser mais
do que a procriadora por excelência. Entretanto, hoje vemos que, apesar de
muitas mulheres, longe de ser a regra, terem conquistado esses lugares de
sujeito, elas ainda não são vistas como se fossem tal. Aos olhos dos homens,
as mulheres continuam vistas como o “outro” de duas únicas possíveis faces,
assim a luta feminista continua a ter que se apresentar como luta, pois:
A partir do momento em que se torna livre, a mulher
não tem outro destino senão aquele que ela cria
livremente. A relação entre os dois sexos é, então, uma
relação de luta. Tornando-se uma semelhante para o
homem, apresenta-se como tão temível quanto no
tempo em que era para ele a Natureza estranha […] é o
preço que paga o homem por se ter afirmado, com má-
fé, como o único essencial (Beauvoir, 2016, p. 260).

Logo, se ser o “segundo sexo” é a colocação de um sujeito apenas


como referente ao outro, para encontrar sua libertação as mulheres devem se
colocar como sujeitos, encontrarem sua própria narrativa, criarem o que
querem ser e lutarem politicamente contra as limitações que delegam às
mulheres. Desta forma, é trabalho de cada mulher lançar olhar sobre todos os
impositivos e mitos que lhe foram destinados e martelá-los, mas, ao mesmo
tempo, criarmos o nosso destino através de tal movimento. Assim, olhar
nossas pretensões, nos livrar das destinações impostas e por fim, criar a nossa
história.

Referências
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BEAUVOIR, S. O segundo Sexo: Volume 1. 3 ed. Rio de Janeiro - RJ- Brasil:


Nova Fronteira, 2016.

GRIFFIN, S. Woman and nature: the roaring inside her. [S.L.]: Sierra Club
Books, 1978. 274 p.

WOOLF, V. Profissões para mulheres e outros artigos feministas. 2012


ed. Porto Alegre - RS - Brasil: L&PM, 2018. 106 p..

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