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DIGITALIZADO POR:

PRESBÍTERO
(TEÓLOGO APOLOGISTA)
NOVO DI CI ONÁRI O DE

TEOLOGIA
Ministro da Tron Church, Glasgow;
ex-professor de teologia sistemática do
Westminster Theological Seminary, Filadélfia, EUA.

D A V I D F. WR IG HT
Catedrático de história eclesiástica do
New College, da Universidade de Edimburgo, Escócia.

EDITOR CONSULTIVO:

J. 1. P A C K E R
Professor de Teologia do
Regent College, Vancouver, Canadá

hagnos
NOVO D I C I O N Á R I O DE

TEOLOGIA
S I N C L A I R B. F E R G L S O N
Ministro da Tron Church, Glasgow ;
ex-professor d e teologia sistemática do
W estm inster Theological Seminary, Filadélfia, EUA.

D A V I D F. WR IG HT
Caredrático d e história eclesiástica do
New C o lieg e , da universidade d e Edim burgo, Escócia.

EDITOR CONSULTIVO:

J. 1. P A C K E R
Professor de Teologia do
R egent C ollege, Vancouver, Canadá

m
hagnos
Universities and Colleges Christian
Fellowship. Leicester. England 1988.
A ll rights reserved.
This translation o f New Dictionary
o f Theology first published in 1988
is published by arrangement with
Inter-Varsity Press, Leicester, United
Kingdom.
© 2011 Editora Hagnos Ltda

Revisão
Regina Aranha

Revisão técnica
Josemar de Souza Pinto

Capa
Souto Crescimento de Marca

Diagramação
O M Designers Gráficos

Ia edição - abril 2011


Todos os direitos desta edição
Gerente editorial reservados para:
Juan Carlos Martinez Editora Hagnos
Av. Jacinto Júlio, 27
Coordenador de produção
04815-160-S ã o Paulo - SP
Mauro W. Terrengui
Tel (11) 5668-5668
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Imprensa da Fé www.hagnos.com.br

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (C IP )


(C âm ara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Ferguson, Sinclair B.
Novo dicionário de teologia / Sinclair B. Ferguson, David F.
Wright. — São Paulo : H agnos, 2009.

Título original: New dictionary of theology.


ISBN 978-85-7742-063-6

1. Bíblia - Teologia - Dicionários I. Wright, David F. II. Título.

09-08598 CD D -230.04103

ín d ic e s p ara c a tá lo g o sistem á tico:

1. D ic io n á rio s : T e o lo g ia b íb lic a 230.04103


Sumário

P re fá c io ......................................................................................... 5

Como usar este dicionário...........................................................7

A breviatu ras................................................................................10

Colaboradores............................................................................. 15

Artigos do d icion ário..................................................................24


Prefácio

“Qualquer coisa que um teólogo faça na Igreja” , disse Lutero, “contribui


para a difusão do conhecimento de Deus e a salvação dos hom ens.” Essa
frase pode não resumir a atitude de todo cristão para com os teólogos e
a teologia, mas vai ao ponto certo da questão. O significado original de
“teologia” é “falar a respeito de Deus” . O que a teologia cristã procura
fazer é explicar detalhadamente o significado da revelação de Deus de
si próprio, sumamente em Jesus Cristo, assim como de sua providência
e seus propósitos para este mundo e os homens e mulheres que criou.
A teologia faz isso de diferentes modos, alguns dos quais sugeridos por
epítetos qualificativos como “teologia bíblica” , “histórica” ou “sistemática” .
Todos os mais variados métodos e modelos de teologia, no entanto, visam a
estabelecer um entendimento ordenado do pensamento revelado de Deus
— a respeito de si próprio, de suas criaturas em seu mundo e de como
planeja que vivamos em comunhão com ele e uns com os outros. O cristão
cujo alimento espiritual diário não contenha ingredientes teológicos, está
sujeito a sofrer um crescimento deficiente e não equilibrado, em lugar de
desenvolver maturidade de mente e de coração.
Este dicionário tem por objetivo proporcionar ao leitor que tenha de
fazer uso de consulta ou pesquisa nessa área um a introdução básica ao
mundo da teologia — seus temas, tanto os mais importantes quanto os
de menor relevância; suas mais famosas formulações e seus momentos
históricos mais relevantes; seus expoentes mais ilustres e notórios, tanto
do passado como do presente; suas fontes, disciplinas e estilos; seu
vocabulário técnico; seu fluxo e refluxo de movimentos, escolas e tradições
e sua interação com outras correntes de pensamento e religião. Muito
embora o ponto de vista em comum dos editores e colaboradores seja
o de lealdade à suprema autoridade das Escrituras, e sua preocupação
com partilhada a de apresentar um a base bíblica para o conhecimento e o
julgam ento das ideias teológicas, não há de sua parte a menor intenção ou
tentativa de excluir ou minimizar a diversidade de interpretações dentro
dessas linhas de demarcação.
A produção de um a obra como esta não teria sido possível sem a
participação de muitos durante muitos meses. Menção especial deve ser
feita a Richard Bauckham, que colaborou nas etapas de planejamento, e
aos sucessivos editores teológicos da IVP, David Preston, Claire Evans e
David Kingdon. A este último coube suportar o calor e o fardo da maior
parte da jornada. A recompensa deles, e a nossa, será em grande parte
saber que este dicionário cumpre seu propósito — o de propiciar um meio
de informação, biblicamente controlado, para se pensar e falar a respeito
de Deus e sua obra.

Sinclair B. Ferguson
David F. Wright
Como usar este dicionário

Esta introdução visa a orientar sobre como este dicionário pode ser usado
de maneira mais proveitosa.

Referências cruzadas
O sistema editorial adotado para o presente dicionário consistiu em
agrupar tópicos afins menores e tratá-los, juntos, em um único artigo. Por
exemplo, o texto referente a BI O ÉTICA inclui os tópicos: contracepção,
engenharia genética e eutanásia; mas não abrange o assunto ABORTO,
o qual mereceu todo um artigo independente; as diversas confissões de
fé da Reforma e pós-Reforma, por sua vez, estão reunidas em um mesmo
texto, sob o verbete CONFISSÕES DE FÊ; e vários assuntos são tratados
em um só artigo sobre EUCARISTIA. As referências cruzadas são, assim,
importantes. Quatro métodos foram adotados para isso:
1. Numerosos verbetes levam o usuário ao título do artigo, ou aos
títulos dos artigos, onde o tópico é tratado. Por exemplo,
M A S C A L L , ERIC, ver T e o l o g ia A n g l o - C a t ó l ic a .
GRAÇA COMUM, ver G r a ç a .
2. Um asterisco após um a palavra ou um a frase indica que um a
informação relevante posterior será encontrada no artigo sob
aquele título. Ele é equivalente à abreviação q.v. Os leitores deverão
observar que:
a. A forma da palavra com asterisco nem sempre será exatamente a
mesma que a do título do artigo ao qual o asterisco se refere. Por
exemplo, “Trinitarianism o”* remete o leitor para o artigo sobre
TRINDADE; “kenótico”*, para KENOTICISMO; “m isticism o”*,
para TEOLOGIA MÍSTICA.
b. O asterisco algumas vezes se aplica a duas ou três palavras, e
não apenas à palavra com asterisco. Assim “teologia do pacto”*
remete ao artigo TEOLOGIA DO PACTO, e “Tomás de Aquino”*,
ao verbete TOMÁS DE AQUINO, e não apenas a “Aquino” .
Como usar este dicionário 8

3. A referência entre parênteses no corpo de um artigo, tal como: (ver


Anjos*) ou: (cf. Oecolampadius*) já fala por si só.
4. A referência cruzada no final de um artigo é também autoexplicativa.
Por exemplo, ver também T e o l o g ia A n a b a t is t a .

Abreviaturas
Uma relação das abreviaturas usadas no dicionário é encontrada mais
adiante.

Autoria dos artigos


Os autores (em alguns casos, coautores) de artigos são indicados por
suas iniciais no final de cada artigo. Uma relação com pleta dos autores é
encontrada mais à frente, por ordem alfabética das iniciais dos nomes, e
não dos sobrenomes.

Bibliografias
Em quase todo artigo é oferecida orientação para estudos complementares
referentes ao assunto, sendo algumas vezes no corpo do próprio artigo,
mas na maioria das vezes no final do texto. Obras relativas diretamente
ao assunto do artigo são referidas em primeiro lugar. As obras citadas em
um a bibliografia podem incluir estudos que expressam opinião diversa
daquela do autor ou coautores do artigo.

V ersões da Bíblia
As citações da Bíblia são a do texto da Nova Versão Internacional, a menos
quando especificada outra versão.

Transliteração
Foram adotados os seguintes sistemas de transliteração em todo este
dicionário:

Hebraico

‫’ = א‬ d
o

‫= ד‬
‫מי‬

s*.
11

11

11

‫= ב‬ b ‫ה‬ = h ‫= כ‬ k ‫ = ע‬f ‫ = ש‬é


-sei

‫ = ב‬b ‫ = ו‬w B = p ‫ = ש‬s


n
II

‫ = ג‬g ‫ = ז‬z ‫ = ל‬l ‫ = פ‬p D —t


‫ = ח‬h ‫ = מ‬m ‫ = צ‬s
II
ti

‫ = ג‬g
‫»־׳‬

‫ = ט‬t ‫ = נ‬n
1-

‫ = ק‬q
11
at 9 Como usar este dicionário

Vogais longas Breves Muito breves

)‫= ־(ה‬ â = a r = a = a
= ê = ê “ = e ~ = e
= 1 = i = e(se)
i = ô = õ T = 0 T = 0
‫= ז‬ ü “ = u

Grego

a — a x — i p = r ρ — rh
II

cr

II
a

o, ς = s ' = h

Y - g λ = 1 x = t Y§ = n x

II
δ = d μ = m d YY = ng

ε = e v = n φ - ph αυ = au
II

tr
II
II

X
X

ευ = eu
N

o
1
11
0)1

0 — 0 ψ - ps ou = ou
ü

11

*<‫ר‬
P
Θ = th Π = p ω = õ
Abreviaturas

1. Livros e jornais B TB CH
B iblical Theology B ulletin Church H istory
(Roma, 1971-) (Scottdale, PA, etc., 1932)
ACW
A ncient Christian Writers CBQ CH LGEM P
(W estm inster, MD, & Catholic Biblical Quarterly
Cam bridge H istory o f
London, etc., 1946-) (W ashington, DC., 1939-)
La ter Greek and Early
M edieval Philosophy, ed.
CC
ANCL A. H. Arm strong
Christianity and
A nte-N icene Christian (Cambridge, 1967)
Civilization
Library (Tyler, TX, 1983-)
25 vols. (Edinburgh, CPG
1866-1897) CC CM Clavis Patrum Graecorum,
Corpus Christianorum, ed. M. Geerard
ANF Continuatio Medievalis (Turnhourt, 1983-)
(Turnhout, 1966-)
A nte-N icene Fathers
(reedição da A N C L em CPL
CCG
10 vols., Buffalo & New Clams Patrum Latinorum,
Corpus Christianorum,
York, 1885-1896, e Grand Series Graeca ed. E. Dekkers & A. Gaar
Rapids, MI, 1950-1951) (Turnhout, 1977-) (Turnhout, 21961)

CCL CT
A V (KVJ)
Corpus Christianorum, Christianity Today
Authorized Version (King
Series Latina (W ashington, 1956-)
Jam es), 1611 (Turnhout, 1935-)
CTJ
BJRL CD
Calvin Theological Journal
Bulletin o f the John Church Dogmatics, Karl
(Grand Rapids, MI, 1966-)
Rylands Library Barth,
4 vols., em 13 + index vol.
(Manchester, 1903-) DBS
(TI, Edinburgh, 1936-1981)
Dictionnaire de la Bible,
BS CG Supplement, ed. L. Pirot
Bibliotheca Sacra Christian Graduate et al.
(Nova York, etc., 1843) (London, etc., 1948-1983) (Paris, 1928-)
■ 11 Abreviaturas

DCB Hastings, IDBS


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& H. Wace, IJT
4 vols. (London, 1877- E xp T Indian Journal o f Theology
1887)
Expository Times (Serampore, etc., 1952-)
(Aberdeen, etc., 1889-)
DNB
Int
Dictionary o f N ational
FC Interpretation
Biography, ed. L. Stephen,
Fathers o f the Church (Richmond, VA, 1947-)
S. Lee et ah
(London, 1885-) (New York, etc., 1947-)
IR B
DSp FP International Reform ed
Dictionnaire de Faith and Philosophy Bulletin
spiritualité, ed M. Viller (Wilmore, KY, 1984-) (London, 1958-)
et ah
(Paris, 1937) HBT ISBE
Horizons in Biblical International Standard
DTC Bible Encyclopaedia, ed.
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Dictionnaire de théologie J. Orr, 5 vols. (Chicago,
(Pittsburg, PA, 1979-)
catholique, ed. A. Vacant 21930); nova edição, ed.
et ah, G. W. Brom iley
15 vols. (Paris, 1903- H DB
(Grand Rapids, MI, 1979-)
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Academ y o f Religion
Theology, ed. J. B. Bauer, HR
3 vols. (31967; TI, London, (Cham bersburg, PA,
History o f Religions
1970) 1967-)
(Chicago, 1961-)

EC JBL
H TR
Encyclopedia o f Journal o f Biblical
H arvard Theological
Christianity Literature
Remew
Vols. 1-4 (não mais (Boston, etc., 1881-)
publicada), ed. E. Η. (New York, etc., 1908-)
Palmer, G. G. Cohen e JE H
P.E. Hughes IB D
Journal o f Ecclesiastical
(Wilmington, DI, & The Illustrated Bible H istory
M arshalton, DL, 1964- Dictionary, ed. J. D. (London, 1950-)
1972) Douglas et ah,
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EP
Journal o f the Evangelical
Encyclopedia o f IC C Theological Society
Philosophy, ed. P.
International Critical (Wheaton, IL, 1969-)
Edwards
Commentary
8 vols. (New York, 1967)
(London, etc., 1895-) JN ES
EQ Journal o f N ear Eastern
Evangelical Quarterly ID B Studies
(London, etc., 1929-) The In terpreter’s (Chicago, 1942-)
Dictionary o f the Bible,
ERE ed. G. A. Buttrick et JR
Encyclopaedia o f Religion ah, 4 vols. (New York & Journal o f Religion
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Abreviaturas 12 m

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JSSR Dictionary o f New
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JTS N ovT RBén


Journal o f Theological Novum Testamentum Revue Bénédictine
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N PN F RG G
JTSA A Select Library o fN ice n e Die Religion in Geschichte
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S ourthem Africa o f the Christian Church, Galling,
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LCC 1990); Second Series, ed.
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H. W ace & P. Schaff, 14
Classics Reform ed Journal
vols. (New York, 1890-
26 vols. (London & (Grand Rapids, MI, 1951-)
1900); nova edição (Grand
Philadelphia, 1953-1970)
Rapids, MI, 1980)
RR
LCL The R eform ed Review
NRT
Loeb Classical Library (Holland, MI, 1947- )
Nouvelle revue théologique
(London & Cam bridge,
(Tournai, etc., 1879-)
MA, 1912-) RVS
Revised Standard Version;
NTS
LW NT, 1946; AT, 1952;
New Testament Studies
L u th er’s Works Bíblia comum, 1973
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(“Am erican edition”),
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The Oxford Dictionary o f Evangelical Theology
(Philadelphia & St. Louis,
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MC Livingstone SBT
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(London, 1911-) Theology
PG (London, 1958-1976)
MQR Patrologia Graeca,
M ennonite Quarterly ed. J. P. Migne, 162 vols. SCJ
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(Goshen, IN, 1927-) (Kirksville, MO, 1970-)
PL
NBD Patrologia Latina, SJT
New Bible Dictionary, ed. J. P. Migne, 221 vols. Scottish Journal o f
ed. J. D. Douglas et al. (Paris, 1844-1864) Theology
(Leicester, 21982) (Edinburgh, etc., 1948-)
PTR
NCE Princeton Theological SL
New Catholic Review Studia Liturgica
Encyclopedia, ed. W. J. (Philadelphia, 1903-1929) (Roterdã, 1962)
■ 13 Abreviaturas

SM TSFB As edições estão


Sacram entum Mundi, ed. Theological Students’ indicadas por um núm ero
K. Rahner et ah, 5 vols. Fellow ship Bulletin m enor sobrescrito; p o r
(New York, 1968-1970) (London, 1951-1975) exemplo, 21982.

SP TU
Studia Patristica Texte und Untersuchungen 2. O b ras cristãs
(Belin, etc., 1957-) z u r Geschichte der primitivas
altchristilichen Literatur
(Leipzig, etc., 1882-) EH
TDNT
TynB Eusébio, História
Theological Dictionary
Tyndale B ulletin eclesiástica
o f the New Testament,
(London, etc., 1956-)
ed. G. W. Bromiley, 10
vols. (Grand Rapids, Ep.
VC Policarpo, Epístola aos
MI, 1965-1976), TI
Vigiliae Christianae Filipenses
de: Theologisches (Amsterdam, 1947-)
W orterbuch zum New en
Eph.
Testament, ed. G. Kitell VT
Inácio, Efésios
& G. Friedrich (Stuttgart, Vetus Testamentum
1932-1974) (Leiden, 1951-)
Strom.
Clem ente de Alexandria,
Th USQR
Stromateis
Theology Union Sem inary Quarterly
(London, 1920-) Review (New York, 1945-)
Trai.
Inácio, Trálios
Them W TJ
Themelios W estm inster Theological
(Lausanne, 1962-1974; Journal
(Philadelphia, 1938-) 3. Livros bíblicos
nova série, London, etc.,
1975 -)
ZA W Antigo Testam ento
Zeistschrift f iir die Gn, Êx, Lv, Nm, Dt, Js,
Tr
alttestam entliche Jz, Rt, IS m , 2Sm, lR s,
Transform ation
W issenschaft 2 Rs, lC r, 2Cr, Ed, Ne, Et,
(Exeter, 1984-) Jó, SI, Pv, Ec, Ct, Is, Jr,
(Geissen, etc., 1881-)
Lm, Ez, Dn, Os, Jl, Am,
TRE Ob, Jn, Mq, Na, Hc, Sf,
ZK G
Theologishe Zeitschrift fü r Ag, Zc, Ml.
Realenzyklopãdie, ed. G. K irchensgeschichte
Krause et al. (Gotha, etc., 1877-) Novo Testam ento
(Berlin, NY, 1977-) Mt, Mc, Lc, Jo, At, Rm,
ZT K 1C0, 2C0, Gl, Ef, Fp, Cl,
TS Zeitschrift fu r Theologie lT s , 2Ts, lT m , 2Tm, Tt,
Theological Studies und Kirche Fm, Hb, Tg, lP e, 2Pe,
(Woodstock, MD, 1940-) (Tübingen, 1891-) 1J0, 2J0, 3Jo, Jd, Ap.
Colaboradores

A.A.H. A. A. Hoekem a A.T.B.M cG. A. T. B. B.R.R. Bong Rin Ro, B.A.,


(falecido), A.B., A.M. M cGowan, B.D., S.T.M., B.D., S.T.M., Th.D., reitor
D.D., Th.D., ex-professor m inistro da Trinity Possil da A sia Graduate School
em érito de Teologia and Henry Drum m ond o f Theology, Taichung,
Sistem ática do Calvin Church o f Scotland, Taiwan.
Theological Seminary, Glasgow, Escócia.
Grand Rapids, EUA. C.A.B. C. A. Baxter, B.A.,
A.V. A. Vos, A.B., M.A., Ph.D., lente no St. J o h n ’s
A.C.T. A. C. Thiselton, Ph.D., professor de College, Nottingham ,
B.D, M.Th., Ph.D., Filosofia da Western Inglaterra.
professor de Teologia Kentucky University, EUA.
da Universidade de C.A.R. C. A. Russell,
Nottingham, Inglaterra. B.D. B. Dem arest, B.Sc., Ph.D., D.Sc., C.Chem.,
M.Sc., M.A., Ph.D., F.R.S.C., professor de
professor de Teologia História da Ciência e
A.D. A. Dallim ore
Sistem ática do Denver Tecnologia da The Open
(falecido), B.Th., D.D., ex-
Seminary, Colorado, EUA. University, M ilton Keynes,
pastor da Cottam Baptist
Inglaterra.
Church, Ontário, Canadá.
B.E.F. B. E. Foster, M.A.,
M.Div., Ph.D., pastor da C.B. C. Brown, M.A.,
A.F.H. A. F. Holmes, B.A.,
Calvary Lutheran Church, B.D., Ph.D., professor
M.A., Ph.D., professor
Lemmon, South Dakota, de Teologia Sistem ática
de Filosofia do W heaton
EUA. do Fuller Theological
College, Illinois, EUA. Seminary, Pasadena,
B.J.N. B. J. Nicholls, Califórnia, EUA.
A.N.S.L. A. N. S. Lane, M.A., B.D., M.Th., D.D.,
catedrático de Doutrina presbítero da St. J oh n ’s C.D .H. C. D. Hancock,
Cristã do London Church, Mehrauli, e da M.A., B.A., Ph.D.,
Bible College, Londres, Church o f the Epiphany, professor adjunto de
Inglaterra. Gurgaon, Nova Déli, Teologia do Virginia
índia. Theological Seminary,
A.S.W . A. S. W ood Virgínia, EUA.
(falecido), B.A., Ph.D., B.K. B. Kristensen, B.A.,
F.R. Hist.S., ex-reitor M.A., lente do College C.E.A. C.E. Arm erding,
do C liff College, Calver, for Social Work, Ede, A.B., B.D., M.A., Ph.D.,
Derbyshire, Inglaterra. Holanda. diretor da Schloss
Colaboradores 16 ιβ

Mittersall Study Centre; Abeerden; secretário Eclesiástica do New


consultor acadêm ico geral do Board o f World College, Universidade de
sênior do Oxford Centre M ission and Unity, Edim burgo, Escócia.
for M ission Studies, da Igreja da Escócia,
Inglaterra. Edimburgo. D.Ga. D. Garlington,
B.A., M.Div., Th.M., Ph.D.,
C.H.P. C. H. Pinnock, D.A.Ha. D. A. Hagner, lente de Estudos Bíblicos
B.A., Ph.D., professor B.A., B.D., Th.M., do Toronto Baptist
de Interpretação Cristã Ph.D., professor de Novo Seminary, Canadá.
do M cM aster Divinity Testam ento do Fuller
College, Hamilton, Theological Seminary, D.Gu. D. Guthrie
Ontario, Canadá. Pasadena, Califórnia, (falecido), B.D., M.Th.,
EUA. Ph.D., ex-presidente do
C.M .C. C. M. Cameron, London Bible College,
B.A., B.D., Ph.D., D.A.Hu. D. A. Hughes, Londres, Inglaterra.
m inistro da St. N in ian ’s B.A., B.D., Ph.D.,
Parish Church, consultor de Educação D.G.D. D. G. Deboys,
Dunferm line, Escócia. Teológica do Tear Fund; B.D., M.Litt., cura
ex-catedrático de Estudos auxiliar de St. Augustine,
C.M.N.S. C. Μ. N. Religiosos da Polytechnic Ipswich, Inglaterra.
Sugden, M.A., M.Phil., o f Wales, Pais de Gales.
arquivista do Oxford D.G.J. D. G. Jones,
Centre for M ission D.C.D. D. C. Davis, B.A., B.Sc., M .B.B.S., D.Sc.,
Studies, Inglaterra. M.A., B.D., D.Theol., professor de A natom ia da
professor de História da Universidade de Otago,
C.O.B. C. O. Buchanan, Igreja do W estm inster Dunedim , Nova Zelândia.
M.A., bispo de W oolwich, Theological Seminary,
ex-reitor do St. J oh n ’s Filadélfia, EUA. D.G.P. D. G. Preston,
College, Nottingham, M.A., Ph.D., ex-
Inglaterra. D.C.T.S. D. C. T. catedrático de Francês,
Sheriffs, B.A., B.D., M.A., na Ahm adu Bello
C.P.D. C. P. Duriez, B.A., D.Litt., lente de Antigo University, Zaria, Nigéria.
editor de livros gerais Testam ento do London
da InterVarsity Press, Bible College, Londres, D.H.F. D. H. Field, B.A.,
Leicester, Inglaterra. Inglaterra. diretor de m inistério e
vocação, Church Pastoral
C.P.W. C P. W illiam s, D .D .S. D. D. Seats, Aid Society, W arwick;
M.A., B.D., M.Litt., Ph.D., M.A., reitor de Colton, ex-vice-reitor do Oak
ex-vice-reitor do Trinity Staffordshire; ex-lente Hill College, Londres,
College, Bristol; vigário de História da Igreja e Inglaterra.
de All Saints, Ecclesall, Teologia Histórica no
Sheffield, Inglaterra. Trinity College, Bristol, D.J.T. D. J. Tidball,
Inglaterra. B.A., B.D., Ph.D., reitor
C.S. C. Seerveld, Ph.D., do London Bible College,
mem bro titular da D.F.K. D. F. Kelly, B.A., Londres, Inglaterra.
Philosophical Aesthetics, B.D., Ph.D., professor
do Institute for Cristian adjunto de Teologia no D.K.C. D. K. Clark, B.A.,
Studies, Toronto, Reform ed Theological M.A., Ph.D., professor
Canadá. Seminary, Jackson, adjunto de Teologia e
M ississipi, EUA. Filosofia do Toccoa Falls
C.W. C. W igglesworth, College, Geórgia, EUA.
B.Sc., Ph.D., B.D., D.F.W. D. F. Wright,
M.B.E., ex- catedrático M.A., reitor da D.L. D. Lyon, B.Sc.,
de Teologia Prática Faculdade de Teologia e Ph.D., professor adjunto
da U niversidade de catedrático de História de Sociologia da Queens
η 17 Colaboradores

University, Kingston, D.W.C. D. W. Clowney, Rylands, Universidade de


Canadá. B.A., M.A., B.D., M anchester, Inglaterra
professor assistente de
D.L.B. D. L. Baker, B.A., Filosofia do Blassboro F.L. F. Lyall, M.A., LL.B.,
Ph.D., lente de Antigo State College, Glassboro, LL.M., Ph.D., professor
Testam ento do Jakarta New Jersey, EUA. de Direito Público
Theological Seminary, da Universidade de
Indonésia. E.D.C. E. D. Cook, Aberdeen, Escócia.
B.A., M.A., Ph.D., M.A.,
D.L.W. D. L. Williams, mem bro do Green F.P.C. F. P. Cotterell,
M.A., Vet M.B., College, Oxford; diretor B.D., B.Sc., Ph.D.,
M .R.C.V.S., erudito em do W hitefield Institute, mem bro do Institute
Pesquisa, W ellcom be, Oxford, Inglaterra. o f Linguists; diretor
Royal Veterinary College, da Graduate School o f
Londres, Inglaterra. E.E. E. Evans, B.D., Theology, Adis-Abeba,
Ph.D., m inistro Etiópia.
D .M. D. Macleod, presbiteriano, Pem broke
M.A., professor de Doc, Dyfeld, Inglaterra. G.A.K. G. A. Keith, M.A.,
Teologia Sistem ática no D.Phil., professor, Ayr,
Free Church College, E.E.E. E. E. Ellis, B.Sc., Escócia.
Edim burgo, Escócia. M.A., B.D., Ph.D.,
professor de Pesquisa em G.D.D. G. D. Dragas,
D.M .M acK. D. M. Teologia do Southwestern B.D., Th.M ., Ph.D.,
M acKay (falecido), Baptist Theological catedrático de Patristica
B.Sc., Ph.D., F.Inst. Seminary, Fort Worth, da Universidade de
P., ex-professor de Texas, EUA. Durham, Inglaterra.
Com unicação da
Universidade de Keele. E.F. E. Ferguson, B.A., G.G.S. G. G. Scorgie,
M.A., S.T.B., Ph.D., B.Th., M.A., Ph.D.,
D.P.K. D. P. Kingdon, professor da Abilene M.C.S., professor
M.A., B.D., gerente Christian University, assistente de Teologia do
editorial da Bryntirion Texas, EUA. Canadian Bible College,
Press, Bridgend; ex-reitor Regina, Canadá.
do The Irish Baptist E.M.Y. E. M. Yam auchi,
College, Belfast, Irlanda B.A., M.A., Ph.D., G.H.T. G. H. Twelftree,
do Norte. professor de H istória da B.A., M.A., Ph.D., m inisro
M iam i University, Oxford, da Uniting Church in
D.W.A. D. W, Am undsen, Ohio, EUA. Australia, Adelaide,
B.A., M.A., Ph.D., Austrália.
professor de Clássicos E.P.C. E. P. Clowney,
da W estern W ashington B.A., Th.B., S.T.M., G.L.B. G. L. Bray, B.D.,
University, EUA. D.D., professor em érito M.Litt., D.Litt., professor
de Teologia Prática do de Estudos Anglicanos,
D.W.Be. D. W. W estm inster Seminary, Beeson, Divinity School,
Bebbington, M.A., Ph.D., Escondido, Califórnia; Universidade de Samford,
lente de História da ex-presidente do Birm ingham , Alabam a,
Universidade de Stirling, W estm inster Theological EUA.
Escócia. Seminary, Filadélfia,
EUA. G.M. G. Maier, Dr.
D.W.Br. D. W. Brown, Theol., reitor da Albrecht
A.M., B.D., Ph.D., F.F.B. F. F. Bruce Bengel Haus, Tübingen,
professor de Teologia (falecido), M.A., D.D., Alemanha.
Cristã do Bethany F.B.A., ex-professor
Theological Seminary, em érito de Crítica e G.M.M. G. M. Marsden,
Oak Brook, Illinois, EUA. Exegese Bíblica de B.A., B.D., M.A., Ph.D.,
Colaboradores 18 ■

professor de História da Histórica do London Parkville, Victoria,


Universidade de Notre Bible College, Londres, Austrália.
Dame, Indiana, EUA. Inglaterra.
I.D .B . I. D. Bunting,
G.M.R. G. M. Roseli, B.A., Η.Η. Η. Harris, Β.Α., M.A., Th.M ., diretor
M.Div., Th.M., Ph.D., vice- D ip.Mus., B.D., de Ordenandos da
presidente de Assuntos D.Theol., erudito cristão, Diocese de Southwell,
Acadêmicos, reitor e Teversham , Cam bridge, Nottingham , Inglaterra.
professor de História Inglaterra.
do Gordon-Conwell I.Ha. I. Ham ilton, B.A.,
Theological Seminary, H.H.D. Η. H. Davis, B.A., B.D., M.Phil., m inistro
South Hamilton, Ph.D., lente de Sociologia da Loudoun Church
Massachusetts, EUA. da Universidade de Kent, o f Scotland, Ayrshire,
Inglaterra. Escócia.
G.R.B.-M . G. R. Beasley-
M urray, M.A., Ph.D., H.H.R. Η. H. Rowdon, I.He. I. Hexham,
D.D., ex-professor titular B.A., Ph.D., ex- B.A., M.A., Ph.D.,
de Novo Testam ento catedrático de História professor assistente
no Southern Baptist da Igreja do London do Departam ento de
Theological Seminary, Bible College, Londres, Estudos da Religião da
Kentucky, EUA. Inglaterra. Universidade de Calgary,
Alberta, Canadá.
G.W.B. G. W. Bromiley, H.J.L. H. J. Loewn,
M.A., Ph.D., D.Litt., Ph.D., M.Div., B.A., I.H.Ma. I. H. Marshall,
D.D., professor titular B.Th., professor adjunto M.A., B.D., B.A., Ph.D.,
em érito de História da de Teologia e diretor professor de Exegese
Igreja e Teologia H istórica da Divisão de Estudos do Novo Testam ento
do Fuller Theological Teológicos e Históricos da Universidade de
Seminary, Pasadena, do Mennonite Brethren Aberdeen, Escócia.
Califórnia, EUA. Biblical Sem inary,
Fresno, Califórnia, EUA. I.H.M u. I. H. Murray,
G.W .K. G. W. Kirby, B.A., editor geral da
M.A., ex-reitor do London Η .M.C. Η. Μ. Conn, Banner o f Truth Trust,
Bible College, Londres, Β.Α., B.D., Th.D., Litt.D., Edim burgo, Escócia.
Inglaterra. professor de Missões do
W estm inster Theological I.M cP. I. McPhee, B.A.,
G.W .M . G. W. Martin, Sem inary, Filadélfia, M.A., Ph.D., editor da
M.A., B.D., B.A., Ph.D., EUA. Trinity Press, Ontário,
m inistro da Durham City Canadá.
Baptist Church, Durham; H.O.J.B. H. O. J.
ex-reitor do Scottish Brown, B.A., S.T.B., 1.5. I. Sellers, M.A.,
Baptist College, Glasgow, S.T.M., Ph.D., professor M.Litt., Ph.D., catedrático
Escócia. de Teologia e Ética da no North Cheshire
Trinity Evangelical College, W arrington,
H.B. H. Burkhardt, lente D ivinity School, Deerfield, Inglaterra.
de Teologia Sistem ática Illinois, EUA.
no Sem inário Teológico 1.5.R. I. S. Rennie, B.A.,
St. Chrischona, Basiléia, H.W .S. H. W. Smart, M.A., Ph.D., reitor e
Suíça. B.Sc., Ph.D., escritor, professor de História
Montrose, Escócia. da Igreja do Ontario
H.D.M cD. H. D. Theological Seminary,
McDonald, B.A., B.D., I.B. I. Breward, M.A., Canadá.
Ph.D., D.D., ex-vice-reitor B.D., Ph.D., professor
e catedrático de Filosofia de História da Igreja J.A. J. Atkinson, M.A.,
da Religião e Teologia do Orm ond College, M.Litt., Dr. Theol., cônego
■ 19 Colaboradores

e teólogo da Catedral de J.E.C. J. E. Colwell, J.N.D.A. J. N. D.


Sheffield, Inglaterra. B.D., Ph.D., lente de A nderson (falecido),
T eologia Sistem ática O.B.E., M.A., LL.D.
J.A.E.V. J. A. E. do Spurgeon’s College, (hon.), D.D., Q.C., F.B.A.,
Verm aat, dr., escritor Londres, Inglaterra. ex-professor de Direito
e jornalista, Leiden, Oriental e diretor do
Holanda. J.G. J. Goldingay, B.A., Institute o f Advanced
Ph.D., ex-reitor e lente Legal Studies da
J.A.K. J. A. Kirk, B.D., de Antigo Testam ento Universidade de Londres,
B.A., M.Phil., A.K.C., do St. J o h n ’s College, Inglaterra.
reitor do Mission Nottingham , Inglaterra.
Selly Oak College, J.N.I. J. N. Isbister,
Birm ingham , Inglaterra. J.G.M cC. J.G. M .A ., diretor-gerente da
M cConville, M.A., B.D., SIM A (UK) Ltd., Oxford,
J.A.P. J. A. Punshon, Ph.D., catedrático de Inglaterra.
M.A., instrutor de Estudos da Religião
Estudos Quaeres do do Cheltenham and J.P. J. Philip, M.A.,
W oodbroke College, G loucester College m inistro da Holyrood
Selly Oak, Birm ingham , o f Higher Education, Abbey Church of
Inglaterra. Inglaterra. Scotland, Edim burgo,
Escócia.
J.B. J. Barrs, B.A., J.H.E. J. H. Elias, B.Sc.,
M.Div., professor de B.D., catedrático de J.P.B. J. P. Baker
Estudos Cristãos e Estudos da Religião da (falecido), M.A., B.D., ex-
Cultura Contem porânea Polytechnic o f Wales, Pais reitor de Newick, Lewes,
do Covenant Theological de Gales. East Sussex, Inglaterra.
Sem inary, St. Louis,
Missouri, EUA. J.H.G. J. H. Gerstner, J.S.W . J. Stafford W rith
B.A., M.Div., Th.M., (falecido), ex-rei tor do
J.B.R. J. B. Root, B.A., Ph.D., D.D., L.H.D., Tyndale Hall, Bristol;
M.A., vigário da Saint professor em érito do cônego da Catedral de
J am es’ Church, Alperton, Pittsburgh Theological Bristol, Inglaterra.
Middlesex, Inglaterra. Sem inary, Pensilvânia,
EUA. J.T. J. Tiller, M.A.,
J.B.W a. J. B. Walker, B.Litt., chanceler e
M.A., B.D., D.Phil., reitor J.X.P. J. I. Packer, cônego-residente da
do Q ueen’s College, M.A., D.Phil., professor Catedral de Hereford,
Birm ingham , Inglaterra. de Teologia do Regent Inglaterra.
College, Vancouver,
J.B.W e. J. B. W esbster, Canadá. J.W. J. W ilkinson, B.D.,
M.A., Ph.D., professor de M.D., F.R.C.P., M.F.C.M.,
Teologia Sistem ática do J.I.Y. J. Isamu D.T.M .&H., especialista
W ycliffe College, Toronto, Yam am oto, B.A., M.A., em M edicina Com unitária
Canadá. editor-gerente do Public do Lothian Health Board,
M anagem ent Institute, Edim burgo, Escócia.
J.D.De. J. D. Dengerink, San Pablo, Califórnia,
LL.D., ex-professor EUA. J.W .C. J. W. Charley,
de Filosofia Cristã M.A., vigário de Great
das Universidades de J.M .F. J. M. Frame, A.B., M alvern St. Mary,
Groningen e Utrecht, B.D., M.Phil., professor W orcestershire,
Holanda. adjunto de Apologética e Inglaterra.
Teologia Sistem ática do
J.D.Do. J. D. Douglas, W estm inster Theological J.W .G. J. W. Gladwin,
M.A., B.D., S.T.M., Ph.D., Sem inary, Califórnia, M.A., Dip.Theol., bispo de
editor e escritor. EUA. Guildford, Inglaterra.
Colaboradores 20 ■

J.W .W . J. W. Ward, B.D., University o f St. A n drew ’s Christ Church (Church


B.Sc., M.Sc., diretor de School o f Psychology. o f South India), Madras,
Estudos do Elim Bible índia.
College, Nantwich, M .A.N. M. A. Noll, B.A.,
Cheshire, Inglaterra. M.A., Ph.D., professor N.J.S. N. J. Smith,
de História do W heaton B.A., B.D., D.D., lente
J.Y.A. J. Y. Amanu, College, Illinois, EUA. de M issiologia da
B.A., Th.M ., adjunto Universidade da África
de Pesquisa do Dallas M .C.G. M. C. Griffiths, do Sul, Pretória; ex-
Theological Seminary, M.A., D.D., m inistro em professor de M issiologia
Dallas, Texas, EUA. Large da International no Theological Seminar,
Fellowship o f Evangelical Universidade de
K.Be. K. Bediako, B.A., Students. Stellenbosch, África do
M -ès-L, Doct.3e.cycle, Sul.
Ph.D., diretor do Akrofi- M.D. M. Dowling, B.A.,
Christaller M em orial B.D., M.Th., Ph.D., lente N.L.G. N. L. Geisler, B.A.,
Centre for M ission de História da Igreja e M.A., Th.B., Ph.D., reitor
Research and Applied Teologia Histórica do do Liberty Center for
Theology, Acra, Gana. Irish Baptist College, Christian Scholarship,
Belfast, Irlanda do Norte. Virginia, EUA.
K.Bo. K. Bockm uehl
(falecido), Dr. Theol., ex- M.D.G. M. D. Geldard, N.M .deS.C. N. M. de S.
professor de Teologia e M.A., vigário de St. John Cameron, M.A., B.D.,
Ética do Regente College, the Divine, Liverpool, Ph.D., correitor dos
Vancouver, Canadá. Inglaterra. Program as Doutorais
Acadêm icos e catedrático
K.G.H. K. G. Howkins, M.F.G. M. F. Goldsm ith, do Departam ento de
M.A., B.D., catedrático M.A., lente no All Nations Teologia Sistem ática
de Estudos da Religião Christian College, Ware. da Trinity Evangelical
do Hertfordshire College Divinity School, Deerfield,
o f Higher Education, M.G.B. M. G. Barker, Illinois, EUA.
Inglaterra. M.B., Ch.B., F.R.C.P.Ed.,
F.R.C.Psych., D.P.M., N.P.F. N. P. Feldmeth,
K.R. K. Runia, B.D., psiquiatra consultor da A.B., Th.M., Ph.D.,
M.Th., Th.D., ex-professor Bristol and Weston Health professor adjunto
de Teologia Prática do Authority, Inglaterra. assistente de História
Reformed Seminary, da Igreja do Fuller
Kampen, Holanda. M .J.H. M. J. Harris, Theological Seminary,
M.A., Dip.Ed., B.D., Califórnia, EUA.
L.L.M. L. L. Morris, Ph.D., ex-professor
Ph.D., M.Th., M.Sc., ex- de Exegese do Novo N.R.N. N. R. Needham,
reitor do R idley College, Testam ento e de Teologia B.D., ex-bibliotecário
Melbourne, Austrália. da Trinity Evangelical da Rutherford House,
Divinity School, Deerfield, Edimburgo, Escócia.
L.P.Z. L. P. Zuidervaart, Illinois, EUA.
B.A., M.Phil., Ph.D., N.S. N. Sagovsky, B.A.,
professor adjunto de M.J.N.-A. M. J. Nazir-Ali, Ph.D., reitor do Clare
Filosofia do Calvin M.Litt., Ph.D., bispo de College, Cambridge,
College, Grand Rapids, Rochester; ex-secretário Inglaterra.
Michigan, EUA. geral da Church
M issionary Society, N.T.W. N. T. Wright,
M.A.J. M. A. Jeeves, Londres, Inglaterra. M.A., D.Phil., reitor de
M.A., Ph.D., F.B.Ps. Lichfield.
S., F.R.S.E., professor N.J. N. Jason, B.A., B.D.,
honorário de Pesquisa da M.A., Ph.D., pastor da N.Y. N. Yri, B.D., M.Th.,
m 21 Colaboradores

Dr. Theol., professor P.H.L. P. H. Lewis, pastor P.T. P. Toon, M.A., M.Th.,
de Estudos do Novo titular da Cornerstone D .Phil., professor de
Testam ento do Lutheran Evangelical Church, Teologia do Philadelphia
Theological College, Nottingham , Inglaterra. Theological Seminary,
Tanzânia. EUA.
P.J.A.C. P. J. A. Cook,
O .M .T .O .'D . O.M.T. B.A., M.A., Ph.D., lente R.B. R. Brown, M.A.,
O ’Donovan, M.A., D.Phil., da Episcopal High B.D., M.Th., Ph.D., ex-
professor régio de School, Louisiana, EUA. reitor do Spurgeon’s
Teologia M oral e Pastoral College, Londres,
da Universidade de P.M.B. P M. Bechtel, M.A., Inglaterra.
Oxford; cônego da Christ Ph.D., professor emérito
Church, Inglaterra. de Inglês do Wheaton R.B.G. R. B. Gaffin
College, Illinois, EUA. Jr., A.B., B.D., Th.M.,
O.R.B. O. R. Barclay, Th.D., professor de
M.A., ex-secretário geral P.M .J.M cN. P. M.J. Teologia Sistem ática do
de Universities McNair, M.A., D.Phil., W estm inster Theological
and Colleges Christian Ph.D., professor e chefe Sem inary, Filadélfia,
Fellowship, Leicester, do Departam ento de EUA.
Inglaterra. Italiano da Universidade
de Birm ingham , R.D.K. R. D. Knudsen,
P.A.L. P. A. Lillback, Inglaterra. A.B., Th.B., Th.M.,
B.A., Th.M ., Ph.D., pastor S.T.M., Ph.D., professor
da Bethany Orthodox P.M.K. P. M. Krishna, adjunto de Apologética do
Presbyterian Church, B.A., LL.B., M.Litt., W estm inster Theological
Oxford, Pensilvânia, EUA. Ph.D., Dip. em Filosofia Seminary, Filadélfia,
e Religiões da índia, ex- EUA.
P.D.L.A. P. D. L. Avis, professor de Estudos
B.D., Ph.D., vigário de Orientais da Universidade R.D.P. R. D. Preus,
Stoke Canon, Exeter, de Durban, Westville, Ph.D., D.Theol.,
Inglaterra. Africa do Sul. presidente do Concordia
Theological Seminary,
P.D.M. P. D. P.M.W. P. M. W alters, Fort W ayne, Indiana,
Manson, B.Sc., B.D., M.A., Ph.D., Diretor EUA.
superintendente geral de Pesquisa do Keston
da Área Sul de Gales da College. R.E.F. R. E. Frische,
Baptist Union o f Great pastor da Casa das
Britain. P.N.H. P. N. Hillyer, D iaconisas, Berna,
B.D., Ph.D., ex-lente e lente do Colégio
P.E. P. Ellingworth, M.A., de Teologia do B ish op’s de Pregadores, St.
B.A., Ph.D., consultor College, Calcutá, índia. Chrischona, Basiléia,
de tradução das United Suíça.
Bible Societies, Aberdeen, P.P.J.B. P. P. J.
Escócia. Beyerhaus, D.Th., R.F.G.B. R. F. G.
diretor do Instituto de Burnish, J.P., B.A.,
P.F.G. P. F. Jensen, M.A., Disciplina de Missões M.Th., Ph.D., organizador
B.D., D.Phil., reitor do e Teologia Ecum ênica de área do Centro-Sul da
Moore College, Sydney, da Universidade de Inglaterra da The Leprosy
Australia. Tübingen, Alem anha. Mission, Peterborough.

P.H. P. Helm, M.A., P.R.F. P. R. Forster, R.G.C. R. G. Clouse,


professor de História e M.A., B.D., Ph.D., B.D., M.A., Ph.D.,
Filosofia da Religião do instrutor titular do St. professor de História da
K in g’s College, Londres, J o h n ’s College, Durham, Universidade do Estado
Inglaterra. Inglaterra. de Indiana, EUA.
Colaboradores 22 9

R.G.H. R. G. Hower, M.A., Ph.D., ex-diretor D.D., ex-dirigente de


B.D., S.T.M., Th.D., de Educação Religiosa curso do Non-Stipendiary
professor adjunto de de The Academ ical Ministry Training Course,
H istória da Igreja da Institution, Irlanda do Oak Hill College, Londres,
Evangelical School of Norte. Inglaterra.
Theology, M yerstown,
Pensilvânia, EUA. R.P.G. R. P. Gordon, S.B.F. S. B. Ferguson,
M.A., Ph.D., lente de M.A., B.D., Ph.D.,
R.J.B. R. J. Bauckman, teologia da Universidade m inistro da Tron
M.A., Ph.D., professor de Cam bridge, Inglaterra. Church, Glasgow,
de Novo Testam ento Escócia; ex-professor de
da Universidade de St. R.P.M . R. P. Martin, B.A., Teologia Sistem ática do
Andrews, Escócia. M.A., Ph.D., ex-professor W estm inster Theological
adjunto de Estudos Sem inary, Filadélfia,
R.J.S. R. J. Song, B.A., Bíblicos da Universidade EUA.
instrutor de Ética do St. de Sheffield, Inglaterra.
J o h n ’s College, Durham, S.H.T. S. H. Travis, M.A.,
Inglaterra. R.S.G. R. S. Greenway, Ph.D., lente de Novo
B.A., B.D., Th.M ., Th.D., Testam ento no St. J oh n ’s
R.K. R. Kearsley, B.D., diretor executivo da College, Nottingham,
Ph.D., lente de Teologia Board o f W orld M inistries Inglaterra.
Sistem ática do Glasgow o f the Christian Reformed
Bible College, Escócia. Church o f North Am erica, S.J.S. S. J. Smalley,
Grand Rapids, Michigan, B.D., M.Th., ex-lente
R.L.G. R. L. Greaves, B.A., EUA. de Teologia Histórica
M.A., Ph.D., F.R.Hist.S., e Contem porânea
professor de História da R.S.W. R. S. W allace, da Universidade de
Universidade do Estado M.A., B.Sc., Ph.D., M anchester, Inglaterra.
da Flórida, EUA. professor em érito de
Teologia Bíblica do S.N.L. S. N. Lieu,
R.L.S. R. L. Sturch, M.A., Colum bia Theological M.A., D.Phil., F.R.A.S.,
D.Phil., reitor de Islip, Seminary, Decatur, F.R.Hist.S., lente de
Oxfordshire, Inglaterra. Geórgia, EUA. H istória An tiga da
Universidade de W arwick,
R.M .P. R. M. Price, B.A., R.T.B. R. T. Beckwith, Inglaterra.
M.T.S., M.Phil., Ph.D., M.A., D.D., ex-
instrutor do M ontclair bibliotecário da Latim er S.N.W. S. N. Williams,
State College, Upper House, Oxford, Inglaterra. M.A., Ph.D., professor
M ontclair, New Jersey, de Teologia Sistem ática
EUA. R.T.J. R. T. Jones, do Union Theological
D.Phil., D.D., D.Litt., College, Belfast, Irlanda
R.M.V. R. M. Vince, ex-reitor do Coleg Bala- do Norte.
M.A., B.D., M.Th., M.Sc., Bangor, Bangor, Irlanda
diretor da St. M ark’s do Norte. S.P.K. S. P. Kanemoto,
D ay School, Shreveport, B.S., M.S., M.A., M.Dv.,
Louisiana, EUA. R.W .A.L. R. W. A. Th.M ., lente do Tokyo
Letham , B.A., M.A., Christian College; lente
R.N. Roger Nicole, Th.M., Ph.D., m inistro do Kyoritsu Christian
M.A., Th.D., Ph.D., ex- da Em m anuel Orthodox Institute, Japão.
professor de Teologia Presbyterian Church,
do G ordon-Conwell W ilm ington, Delaware, S.R.P. S. R. Pointer, A.B.,
Theological Seminary, EUA. M.A., Ph.D., professor
Massachusetts. assistente de História do
R.W .C. R.W. Cowley Trinity College, Deerfield,
R.N.C. R. N. Caswell, (falecido), M.A., B.D., Illinois, EUA.
■ 23 Colaboradores

S.S.S. S. S. Smalley, T.R.A. T. R. Albin, B.A., M .A., B.D., S.T.M.,


M.A., B.D., Ph.D., deão M.A., lente do University Ph.D., instrutor de
da Catedral de Chester, o f Dubuque Theological Novo Testam ento e
Inglaterra. Seminary, Dubuque, bibliotecário do St.
Iowa, EUA. J oh n ’s College, Durham,
T.A.N. T. A. Noble, Inglaterra.
M.A., B.D., professor de T.W .J.M . T. W. J.
Teologia do Nazarene Morrow, M.A., B.D., W.J.R. W. J. Roxborogh,
Theological Seminary, M.Th., Ph.D., ministro B.E., B.D., Ph.D., lente
Kansas City, Missouri, da Lucan Presbyterian de História da Igreja e
EUA. Church, Co., Dublin, de Novo Testam ento do
República da Irlanda. Sem inari Theoloji, Kuala
T.G.D. T. G. Donner, Lumpur, Malásia.
V.K.S. V. K. Samuel,
B.D., Ph.D., lente de
B.Sc., M.Litt., D.D., W .N.K. W. N. Kerr,
Teologia H istórica do
diretor executivo da B.A., B.D., Th.D., Ph.D.,
Sem inário Bíblico de
International Fellowship professor de História da
Colombia.
o f Evangelical M ission
Igreja do Gordon-Conwell
Theologians, Oxford,
T.H. T. Howard, B.A., Theological Seminary,
Inglaterra.
M.A., Ph.D., professor M assachusetts, EUA.
de Inglês do St. J oh n ’s
W.C.K. W. C. Kaiser
Seminary, Boston, W .R.G. W. R. Godfrey,
Jr., A.B., B.D., M.A.,
Massachusetts, EUA. A.B., M.Div., M.A., Ph.D.,
Ph.D., deão acadêm ico
professor de História da
e vice-presidente de
T.J.N. T. J. Nettles, B.A., Igreja do W estm inster
Educação, professor
M.Div., Ph.D., professor Theological Seminary,
de Línguas Semiticas e
adjunto de História de Antigo Testam ento, Califórnia, EUA.
da Igreja da Trinity da Trinity Evangelical
Evangelical Divinity Divinity School, Deerfield, W .W .C. W. W. Chow,
School, Deerfield, Illinois, Illinois,EUA. B.Sc., B.D., M.A., Ph.D.,
EUA. reitor da China Graduate
W.D.B. W. D. Beck, B.A., School o f Theology, Hong
T.L. T. Longm an III, B.A., M.A., Ph.D., professor Kong.
M.Div., M.Phil., Ph.D., de Filosofia da Liberty
professor e catedrático do University, Lynchburg, W.W .G. W. W. Gasque,
W estm inster Theological Virginia, EUA. B.A., B.D., M.Th., Ph.D.,
Seminary, Filadélfia, reitor do Eastern College,
EUA. W.G.M . W. G. Morrice, Davids, Pensilvânia, EUA.
A BELA R D O , PEDRO 24 S

beirava o triteísmo*. Opôs-se ao


A realismo de Guilherme de Cham-
peaux, colocando-se como seu
ABELARDO, PEDRO (1079-1142) preletor rival em Paris, forçando-o
(ou, mais acuradamente, Abailard). a deixar a cidade e a repensar sua
Nascido próximo a Nantes, França, posição a respeito dos conceitos
de pais bretões, foi provavelmente o universais. Deu, mais tarde, o
mais brilhante pensador do século mesmo tratamento a Anselm o de
XII, tendo sua vida repetidamente Laon (m. 1117), de quem discordou
m arcada pela tragédia. dos métodos exegéticos. Deixando
Abelardo estudou primeira- Laon, Abelardo retornou a Paris,
mente sob Roscelin (m. c. 1125), onde cometeu grave imprudência.
consumado nominalista*, depois Hospedou-se na casa de Fulbert,
sob Guilherme de Cham peaux (c. cônego de Notre Dame, de cuja
1070-1121), realista também con- atraente e inteligente sobrinha, He-
sumado. Embora Roscelin fosse loísa, tornou-se preceptor. Heloísa
acusado de considerar os conceitos veio a engravidar dele, dando à
universais como meras palavras luz um menino. Fulbert vingou-se
sem nenhum a realidade em si mais tarde, com terrível incidente,
mesmas, Guilherme sustentava mandando castrar Abelardo.
que o conceito universal é mais Em 1122, Abelardo escreveu
real do que os individuais e que, na Sic et Non [Sim e não]. Nesse livro,
verdade, existe independentemente considera 158 questões teológicas
destes. Abelardo adotou um a posi- diferentes, justapondo passagens
ção mediana, vendo os conceitos aparentemente contraditórias da
universais como mentais. Eles não Bíblia, dos pais da igreja e de ou-
teriam existência independente tras autoridades. Seu alvo não era,
dos indivíduos em particular, mas como se chegou a supor, desacre-
não seriam nomes arbitrários. Um ditar essas autoridades. Queria, na
conceito universal, como “cachor- verdade, confiar na razão como ár-
ro”, por exemplo, é real, mas não é bitro para reconciliar autoridades
algo que exista independentemente conflitantes e, se necessário, fazer
dos cães individuais. Ele precede opção entre elas. Todavia, não
os cães individuais no sentido inventou esse método. Graciano
de que, quando Deus planejou a (morto não depois de 1179), espe-
criação dos cães, a ideia universal cialista em direito canônico*, usou
de “cão” estava em sua mente; ela dessa abordagem com grande su-
existe nos cães individuais; e existe cesso em sua obra Concord o f Dis-
em nossa mente quando temos o cordant Canons [Concordância de
conceito de “cão”. Essa ideia veio a cânones discordantes[. A novidade
ser geralmente aceita e encerrou a de Abelardo reside em sua aplica-
discussão até a época de Guilherme ção à teologia e aos documentos da
de Occam*. revelação.
Abelardo não apenas discordou No Sic et Non encontra-se a abor-
de seus mestres, mas opôs-se ati- dagem básica de Abelardo à teolo-
vãmente a eles. Atacou a doutrina gia. Anselmo*, semelhantemente a
de Roscelin sobre a Trindade,* que Agostinho, tinha seguido o método
is 25 A BELA RD O , PEDRO

da fé em busca do entendimento: aponta aqui para a “teoria da in-


“Eu creio a fim de que possa en- fluência m oral” da expiação, que vê
tender” (ver Fé e Razão*). Abelardo seu valor em seu efeito sobre nós.
reverteu esse pensamento, intro- A ideia de que a cruz desperta
duzindo o método da dúvida. O um a resposta de am or de nossa
caminho para encontrar a verdade parte é, sem dúvida, verdadeira;
é o da dúvida, o de questionar. No mas, expressamente, não faz jus, de
prefácio de Sic et Non, Abelardo modo total, a Rm 3.19-26. Estaria
afirma que “pela dúvida chegamos Abelardo, no entanto, procurando
ao questionamento, e pelo questio- de fato limitar a expiação a um sim-
namento alcançamos a verdade” . pies exemplo de amor? Em outro
Ele vê a dúvida* não propriamente lugar de seu texto, ele continua a
como um pecado (visão tradicio- empregar a linguagem tradicional
nal), mas, sim, como o começo de que Cristo suportou a puni-
necessário de todo conhecimento. ção por nossos pecados. Alguns
A teologia torna-se ciência em vez sustentam que tais passagens não
de meditação, como ocorria na tra- podem ser consideradas seria-
dição da teologia monástica*. mente à luz de um com entário de
Em seu comentário de Roma- Romanos. Outros as vêem como
nos 3.19-26, Abelardo aplica esse prova de que não era pretensão de
método à doutrina da expiação*. Abelardo reduzir a cruz a mera-
Questiona quanto ao significado da mente um exemplo de amor. Pode
afirmação de que somos redimidos ser significativo o fato de que, ao
pela morte de Cristo. Ridiculariza a mesmo tempo que ele nega que
ideia, já declinando em popularida- haja sido pago um resgate a Sata-
de desde Anselmo, de que o Diabo nás, indague tão-somente p o r que
tenha algum direito sobre a huma- seria necessário que fosse pago
nidade. Se existe algo nesse sentido, um resgate a Deus. Talvez com Sic
então a sedução de Satanás à raça et Non seu objetivo tenha sido o
humana nos dá, sobre ele, o direito de estimular um questionam ento
de reparação. A morte de Cristo não racional, e não o de desacreditar o
foi oferecida a Satanás como resga- ensino das Escrituras.
te pela raça humana. O resgate foi O brilhantismo inovador de
pago a Deus, e não ao Diabo. Abelardo juntam ente com seu des-
Abelardo, porém, continua a dém por aqueles que foram seus
questionar quanto à necessidade orientadores, más não superiores
de resgate, qualquer que seja. a ele, lançaram-no em um a rota de
Como poderia Deus exigir a morte colisão que terminaria de forma de-
de um homem inocente, muito me- sastrosa. Sua obra Sobre a Unidade
nos a morte de seu próprio Filho? e a Trindade divinas foi condenada,
Como poderia Deus se reconciliar em sua ausência, no Concilio de
com o mundo mediante um a mor- Soissons, em 1121, e queimada.
te? Abelardo vê de modo diverso o Isso não afetou sua carreira para
significado da cruz. Ele a vê como sempre. Mas ele conseguiu incor-
um exemplo supremo do am or de rer na ira de Bernardo de Claraval
Deus por nós que desperta uma (Clairvaux)*, que ficou chocado
resposta de am or em nós. Abelardo com sua abordagem racionalista
ABORTO 26 ■

e o acusou de inventar um quinto um pouco mais leve, posicionando


evangelho. Abelardo foi intimado a um ponto crítico, o do “despontar
com parecer perante um concilio em da alm a” (60 a 80 dias após a
Sens, em 1140, e ali foi condenado. concepção), antes do qual o aborto
Apelou para Roma, mas Bernardo já teria um caráter criminoso, embo-
havia convencido o papa mediante ra sem ser considerado um pecado
seu tratado intitulado Os erros de capital. Essa abordagem dualista,
Pedro Abelardo. Recolheu-se então no entanto, acha-se amplamente
como monge na abadia de Cluny, desacreditada.
onde veio a morrer em 1142. A principal base teológica para
um posicionamento estritamente
Bibliografia antiaborto é a convicção de que
Obras: PL 178 e C C C M 11-12. Sic et cada ser humano é feito à imagem
Non, ed. B. B. Boyer & R. McKean de Deus desde a sua concepção
(Chicago, 1976-1977); A Dialogue (cf. Gn 1.27). A retirada da vida,
o f a Philosopher..., tr. P. J. Payer tal qual sua doação, é um a prer-
(Toronto, 1979); Ethics, tr. D. E. rogativa de Deus, e do homem se
Luscombe (Oxford, 1971). requer um mandato especial para
Estudos: L. Grane, Peter Abelard poder acabar com a existência
(London, 1970); J. R. McCallum, física de qualquer ser humano. A
A b e la rd ’s C h ristian T h eology permissão para matar é concedida
(Oxford, 1948); R. E. Weingart, nas Escrituras em circunstâncias
The Logic o f Divine Love. A Critical cuidadosam ente definidas, como
Analysis o f the Soteriology o f Peter restrita resposta à injustiça (mais
Abelard (Oxford, 1970). especificamente, assassinato e
A .N .S .L. guerra, cf. Gn 9.6; lR s 2.5-6); mas
nenhum feto, evidentemente, terá
ABORTO. É a perda ou a expulsão, feito coisa algum a que justifique
do ventre materno, de um feto sua execução por um a pena de
vivo antes que haja alcançado seu morte. O aborto, portanto, moral-
estado de viabilidade. Muitos abor- mente é considerado mau.
tos ocorrem espontaneam ente, O suporte bíblico para essa
enquanto outros são deliberada- conclusão é frequentem ente en-
mente induzidos. Esse último tipo contrado nas alusões do Antigo
de aborto constitui o ponto focal Testam ento à vida antes do nasci-
de um debate ético e teológico con- mento (e.g., SI 139-13.17; Jr 1.5;
temporâneo. Ec 11.5) e no uso que o NT faz da
Tradicionalm ente, a opinião palavra grega brephos para des-
cristã tem sido de forte resistência crever tanto o feto como a criança
ao término deliberado de qualquer (Lc 1.41; 2.12). Tais referências
gravidez. Tertuliano* foi um a auto- presum em a continuidade de um a
ridade típica dentre as que denun- pessoa em qualquer desses aspec-
ciaram o aborto como “precipitação tos do nascim ento.
de assassinato” , porque, quanto ao A posição rígida antiaborto tem
feto, “ele também é um homem, que sido desafiada de três modos.
está por ser um deles” (Apologia Prim eiro, a Igreja C a tólica
9). Agostinho* assumiu um a linha Rom ana (que, de outro modo, é
a 27 ACOM ODAÇÃO

implacavelmente contra o aborto) A ética situacional tem estado


permite que um a gravidez possa sob pesado fogo de artilharia por
ser interrompida, sob o preceito parte dos cristãos que preferem a
ético de “duplo efeito” , quando autoridade das Escrituras. Em ne-
um procedim ento médico visando nhum lugar, a Bíblia ensina que o
a salvar a vida da gestante (como, am or substitui o princípio divino
por exemplo, um a histerectomia, ou cancela a lei divina. Tam pouco
no caso de câncer) possa resultar oferece suporte à suposição uti-
na morte do feto. litária de que as melhores ações
Em segundo lugar, alguns teólo- devem ser tomadas pela contagem
gos protestantes argumentam que o de votos.
feto é mais um potencial de pessoa No entanto, a ênfase dos situa-
do que propriamente um a pessoa cionistas sobre a compaixão é um
real em potencial. Muito embora o lembrete salutar e bíblico de que
feto exija cuidados e respeito em aos que se opõem ao aborto em
qualquer estágio de sua existência, princípio cumpre encontrar tam-
argumentam eles, sua reivindica- bém alternativas práticas e amoro-
ção de vida deverá ser proporcional sas para as mulheres com gravidez
ao seu estágio de desenvolvimento. indesejável (cf. Tg 2.14-17).
Por mais plausível que essa teoria
possa parecer, no entanto, não se Ver também B io é t ic a ; É t i c a .
coaduna facilmente com a ênfase
bíblica sobre a continuação da Bibliografia
personalidade, além de não ser, de R. F. R. Gardner, Abortion (Exeter,
modo algum, de fácil aplicação na 1972); Ο. Μ. D. O ’Donovan, The
prática. Christian and the Unborn Child
Em terceiro lugar, e de maneira (Bramcote, Nottingham, 1973); M.
mais radical, afirmam os cristãos Potts, P. Diggory, J. Peel, Abortion
situacionistas que somente o amor (Cambridge, 1977); M. J. Gorman,
deverá ditar a decisão de aborto, Abortion and the Early Church (Do-
ou não, em cada caso particular. wners Grove, IL, 1982).
A compaixão pela mulher (se sua D .H .F.
vida ou saúde estiver ameaçada),
ou pela criança ainda não nasci- ABSOLVIÇÃO, ver C ulpa e P e r d Ao .
da (se provavelmente estiver para
nascer deformada ou defeituosa), ACO M O D A ÇÃ O ,ou condescen-
poderá ditar o final antecipado da dência. É um princípio básico
gravidez. Além disso, alegam eles, subjacente a toda revelação de
já que o amor deve sempre ditar a Deus ao homem. Significa que
escolha de máximo benefício para o Deus nos fala de form a adequada
maior número de pessoas possível, à nossa capacidade de ouvintes,
o aborto pode ser indicado também tal com o um pai se dirige a um
quando o bebê não seja desejado filho pequeno ou um professor a
pela família, ou pela sociedade, um aluno ainda criança. O exemplo
ou ainda, desse mesmo modo, por supremo de acomodação é a encar-
um mundo superpovoado como é nação*, mediante a qual Deus nos
o atual. falou do modo o mais apropriado
ADÃO 28 ■

possível — como um ser humano Bibliografia


mesmo. Nas Escrituras*, também, F. L. Battles, God was Accom m oda-
a palavra de Deus vem a nós de ting H im self to Human Capacity, In-
um modo humano — por meio de terpretation 31(1977), p. 19-38; J.
autores humanos, usando um a B. Rogers, (ed.), Biblical Authority
linguagem humana, dirigindo-se a (Waco, TX, 1977), p. 19-29.
nós em situações humanas espe- A .N .S .L.
cíficas. No ministério da palavra
e dos sacramentos, Deus nos fala ADÃO. 1. Do heb. ’ãdãm. Na maior
e se com unica conosco de um a parte do Antigo Testamento, a pala-
form a adaptada à nossa condição vra é genérica, significando “homem” ,
— seja mediante agentes humanos “homens” ou “raça humana” {e.g.,
seja mediante os elementos terre- SI 73.5; Is 31.3). Em Gênesis 1— 5,
nos como o pão e o vinho. todavia, a palavra denota, seja espe-
A acom odação, se corretam ente cificamente seja como nome próprio
entendida, significa não que Deus (“Adão”), o primeiro ser humano. A
se com unique conosco falsam en- primeira mulher, Eva, é formada de
te, mas, sim, que nos com unica a seu corpo (Gn 2.22; 3.20). Macho e
verdade de um a m aneira que, ne- fêmea eles são, distinguindo-se de
cessariam ente, tem de ser menos todas as outras criaturas por serem
que perfeita. E zequiel reconhece feitos por Deus à sua própria “ima-
as lim itações de sua visão de Deus: gem”* ou “semelhança” (Gn 1.27;
“Essa foi a aparência da figura da 5.1,2; ver Antropologia*, Criação*,
glória do Senhor” (Ez 1.28). Paulo Teologia Feminista*, Imagem de
reconhece a im perfeição de todo o Deus*). Inicialmente, eles são bons
nosso presente conhecim ento de e sem pecado; mas, subsequente-
Deus, concluindo: “Agora, pois, mente, juntos, pecaram, trazendo
vem os apenas um reflexo obscu- a maldição de Deus sobre si e a
ro” (1C0 13.9-12). A m ensagem totalidade da criação (Gn 3; ver
bíblica nos é dada em linguagem Queda*, Pecado*).
hum ana e em form as de pensa- Adão é mencionado em outro
m ento de épocas específicas não lugar do AT somente um a vez,
porque os escritores a tenham em um a genealogia em 1Crônicas
“entendido errado” , m as simples- 1.1 (possivelmente também em Jó
m ente por ser essa a única form a 31.33 e em Os 6.7); aparece tam-
de a palavra de Deus chegar a nós. bém no Novo Testamento, especial-
Em sua condescendência, Deus mente em Paulo, como explicação
preferiu subm eter sua verdade a de sua importância. Todavia, de
um processo lim itativo e de re- modo evidente, o que Gênesis 1— 3
dução a um nível hum anam ente ensina a respeito de Adão não so-
com preensível do que preservá-la mente fundamenta como domina
pura no céu. profundam ente todo o AT: a origem
A ideia da acomodação era e a unidade da humanidade pela
comum aos pais primitivos (e.g., descendência de Adão e Eva; a
João Crisóstomo, c. 344/354-407), singularidade do homem, feito à
tendo sido revivida por Calvino* e imagem de Deus; o homem como
outros. dependente de Deus e responsável
■ 29 ADÃO

perante ele; a origem do pecado e pecado e à queda (Rm 1.21-23;


da morte, e a natureza do pecado, 3.23). Em Atos 17.26, Paulo (em
não como um fenômeno natural seu sermão no Areópago) ensina
praticamente inevitável, mas como sobre a origem e a unidade da raça
um a transgressão voluntária do humana em Adão: “De um só ele
homem da lei de Deus. fez todos os povos”.
2. O NT se refere a Adão em cin- 3. Romanos 5.12-19 e ICorín-
co lugares: Lucas 3.38; Romanos tios 15.21,22,45-49 contrastam
5.14; ICoríntios 15.22,45; ITim ó- Adão com Cristo e ao mesmo tempo
teo 2.13,14; Judas 14. Diversas identificam este como o último Adão
outras passagens contêm alusões (explicitamente em IC o 15.45,47).
inconfundíveis. Em Lucas 3.38, ele O propósito desse contraste é abrir
é o cabeça da genealogia de Jesus: a mais ampla visão da obra de Cris-
“Filho de Adão, filho de Deus” . Di- to. Em ICoríntios, Adão é o grande
ferente de Mateus, que remonta a contraponto do Cristo ressurreto:
genealogia de Jesus a Abraão (Mt assim como a morte entrou no
1.1), a extensa genealogia de Lucas mundo por meio de um homem,
provavelmente pretende apontar Adão, em quem todos morrem,
para Jesus como o último Adão assim também a ressurreição veio
(ver abaixo). Além disso, o lugar mediante um homem, Cristo, em
da genealogia em Lucas, não no quem todos (os crentes) serão vivifi-
começo de seu evangelho, como cados (w . 21,22). Sendo, portanto,
Mateus, mas no meio da narrativa, o oposto à morte trazida por Adão
exatamente antes do relato que faz no começo da história da humani-
da tentação de Jesus (Lc 4.1-13), dade, a ressurreição de Cristo não
sugere uma comparação: enquan- constitui meramente um evento
to Adão sucumbiu diante de uma isolado no passado, mas, sim, pos-
simples tentação de Satanás e nas sui profunda significação ligada ao
circunstâncias favoráveis do jardim futuro: representa “as primícias” da
do Éden, Jesus resiste com êxito a grande colheita da ressurreição, em
múltiplas seduções de Satanás e que os crentes têm seu lugar reser-
sob condições difíceis no deserto. vado no final da história humana
Primeira Timóteo 2.13,14 se refere (v. 20); (ver Ressurreição Geral*,
a Adão e Eva com a finalidade de Ressurreição de Cristo*).
regularizar as assembleias da igre- O paralelo em antítese desen-
ja. As mulheres não podem ensinar volvido detalhamente nos versí-
ou exercer autoridade sobre os ho- culos 42-49, começando com as
mens na congregação não porque diferenças entre o corpo morto
sejam moralmente mais fracas ou (“semeado”) e a ressurreição cor-
inferiores a eles, mas por causa da poral dos crentes (v. 42-44a), se
ordem da criação e da desordem in- amplia nos versículos 45-49 para
troduzida pela queda: Adão, e não incluir Adão e Cristo. Eles não so-
Eva, foi criado primeiro; Eva, e não mente exemplificam esses corpos,
Adão, foi enganada primeiro. Em respectivamente, mas também
outros lugares do NT, é feita alusão constituem a chave, as figuras re-
a Adão como criado à imagem de presentativas, a cabeça das ordens
Deus (IC o 11.7-9; Tg 3.9), ao seu contrastantes da existência. Adão
ADÃO 30 Μ

é “o primeiro hom em ” (w . 45,47), imagem escatológica de Deus (ver


não havendo nenhum outro antes 2C0 4.4; Cl 1.15). Os crentes, que
dele; Cristo é “o segundo” (v. 47), agora portam “a imagem do homem
não havendo nenhum entre Adão terreno’” (Adão), quando ressusci-
e ele; e Cristo é também “o últim o” tarem corporalmente, portarão “a
(v. 45), não havendo nenhum outro imagem do homem celestial” (v. 49),
depois dele. Em virtude da criação a imagem do Cristo exaltado (cf.
(não por causa da queda, observe- Fp 3.20). É a conformidade a essa
se o uso de Gn 2.7 no v. 45b), Adão imagem o objetivo de sua predes-
se tornou “um ser vivente” (psychê) tinação* por Deus (Rm 8.29), con-
e, assim, representa o “homem formidade essa que presentemente
natural” (psychikos, w . 44,46) ou já está sendo neles realizada (2Co
de ordem “terrena” (w . 47-49), 3.18; E f 4.23,24).
sujeito agora à morte, desde a O significado representativo
sua queda. Pela ressurreição (cf. e determ inante de Adão e Cristo
w . 20,21b,22b), Cristo, “o último é também tema importante em
Adão” , se torna (economicamente, Romanos 5.12-19. Adão “era um
não ontologicamente) “espírito vivifi- tipo daquele que haveria de vir”
cante” (v, 45c; pneum a aqui se refere (v. 14) porque seu pecado coloca
ao Espírito Santo; ver esp. 2Co 3.6: o mundo sob o “reino” (v. 17) do
“O Espírito vivifica”, e a única outra pecado, da condenação e da morte
ocorrência no NT do contraste entre em antítese ao “reino” de justiça*,
o “natural” e o “espiritual” é em 1Co justificação* e vida, assegurado
2.14,15); como tal, ele representa a a todos (os crentes) por Cristo.
correspondente ordem “espiritual” Uma questão debatida de maneira
(w . 44,46), “celestial” (w . 47,49), constante é exatamente como “por
da vida escatológica. Em foco estão, meio da desobediência de um só
enfim, duas criações, a original se homem muitos foram feitos peca-
tornando “perecível” em contraste dores” (v. 19a). Tendo em vista a
com a final, “imperecível” (v. 42), ênfase dada a um só pecado de um
cada um a delas tendo seu próprio só homem (v. 15-19), assim como
Adão. O Cristo ressurreto, no poder o modo paralelo antitético, tanto
do Espírito, é a cabeça de nada aqui como em outros lugares (ver
menos que um a nova criação (cf. esp. Rm 4.1-8), pelo qual os crentes
2Co 5.17). Todavia, essa antítese são justificados, todos os homens
não significa propriamente um são pecadores não somente porque
dualismo* irredutível. Na ressur- herdam um a natureza pecaminosa
reição de Cristo, são alcançados os de Adão, mas, principalmente, por-
propósitos originais de Deus para a que seu pecado lhes é imputado ou
criação. Onde Adão falhou, o último considerado como sendo deles.
Adão obtém sucesso. A consumação 4. Desde o Iluminismo*, espe-
pretendida para a ordem “natural” cialmente, a historicidade de Adão
é realizada na “espiritual” , que é a tem sido negada ou questionada.
ordem da ressurreição. A imagem Sob a aceitação de um ponto de
de Deus, distorcida pelo pecado de vista evolucionista quanto à origem
Adão, é restaurada em Cristo; na do homem (ver Criação*), Gênesis
verdade, como ressuscitado, ele é a 1— 3 é geralmente interpretado
■ 31 A D IÁ FO RA

como um mito*, um a parábola diferentes”) foi explorado de modo


ilustrativa da condição humana em controverso, particularmente, por
geral. Típica (e.g., Karl Barth*, Η. teólogos luteranos* em meados do
Berkhof*) é a transposição da sequ- século XVI, época em que o movi-
ência “antes” e “depois” da criação e mento protestante se encontrava
queda histórica para um a dialética sob am eaça do poder católico na
atem poral entre “acim a” (a criação Alemanha. A questão básica se
com o boa, o homem como livre) e relacionava ao status de determi-
“abaixo” (o homem na condição de nados ritos e cerimônias, públicos
pecaminoso). No entanto, não há ou privados, não ordenados nem
nenhuma evidência exegética ou proibidos pela palavra de Deus nas
literária que possa sugerir esses Escrituras, que haviam sido intro-
capítulos devam ser entendidos duzidos na igreja, como se alegava,
como menos históricos do que as em nome da boa ordem, do decoro
narrativas relativas aos patriarcas e da disciplina. Um grupo, liderado
em capítulos posteriores. Além do por Filipe Melâncton*, sustentava
mais, os escritores do NT veem de que, em um período de persegui-
modo claro Adão, historicamente, ção, alguém poderia, em sã consci-
como o primeiro ser humano (ver ência, por causa da insistência do
as passagens listadas acima, em inimigo, restaurar certas coisas,
Gn 2). Romanos 5 e ICoríntios 15 como o rito da confirmação*. Ou-
ensinam que existe um a relação tro grupo, liderado por Matthias
essencial e inseparável entre a rea- Flacius (1520-1575), afirmava
lidade histórica da obra de Cristo que sob nenhuma circunstância
e a realidade histórica da queda isso poderia ser feito em sã cons-
de Adão. O entendimento bíblico a ciência. Na Fórmula de Concórdia
respeito da criação, do homem, da (1577), no cap. X, que se intitula
pessoa de Cristo e sua obra e da “Os ritos eclesiásticos chamados
salvação está enraizado na histori- ‘adiáfora’ ou coisas indiferentes” , é
cidade de Adão. proposto um meio-termo. Em tem-
pos de perseguição, não devem ser
Bibliografia feitas concessões, mas em outras
K. Barth, CD IV. 1, p. 504-513; H. ocasiões, “a comunidade de Deus
Berkhof, Christian Faith (Grand em qualquer lugar e em qualquer
Rapids, MI, 1979); J. Murray, The época tem o direito, autoridade
Epistle to the Romans, 1 (Grand e poder para mudar, reduzir ou
Rapids, MI, 1959); H. Ridderbos, am pliar as cerimônias, de acordo
Paul (Grand Rapids, MI, 1975); J. com suas circunstâncias, desde
P. Versteeg, Is Adam a “Teaching que isso seja feito sem levianda-
M odel” in the New Testament? (Nu- de e transgressão, mas de modo
tley, NJ, 1978); G. Vos, The Pauline ordenado e apropriado [...] para a
Eschatology (1930: Grand Rapids, boa ordem, o decoro evangélico e a
MI, 1979). edificação da igreja” .
R .B.G . A questão da adiáfora foi tam-
bém motivo de debate contencioso
ADIÁFORA. Esse conceito (da pa- na Inglaterra do século XVI, no
lavra grega significando “coisas in- pietismo* luterano do século XVII
ADOÇÃO 32 m

e tem sido levantada, de forma (psilos anthrõpos — daí o rótulo


vigorosa ou moderada, em igrejas de “psilantropism o”), termo des-
que consideram a palavra de Deus tacado, na própria definição dos
como autoridade normativa. adocianistas da sua prévia falta
de fé, como um a negação “não
Bibliografia de Deus, mas de um hom em ” .
C.L. Manschreck, Melanchton, De acordo com Hipólito*, Teodoto
The Quiet Reform er (New York & “estava determ inado a negar a
Nashville, 1958); B. J. Verkamp, divindade de Cristo” . Artemon,
The Indifferent Mean. Adiaphorism convertido em Rom a ao ensino de
in the English Reformation to 1554 Teodoto, procurou estabelecer a
(Athens, OH, 1977). origem histórica do adocianismo;
P.T. a significativa resposta de um con-
temporâneo, sustentada por al-
ADOÇÃO, ver F il ia ç ã o . guns eruditos como de Hipólito, foi
a de dem onstrar que todos e cada
ADOCIANISMO. Term o mais co- um dos primitivos apologistas*
mumente aplicado à ideia de que cristãos “proclam am Cristo tanto
Jesus era meramente um homem sendo Deus como hom em ” .
comum, mas de virtude ou pro- O mais fam oso herdeiro da pri-
ximidade com Deus, incomuns a m itiva tradição do adocianism o foi
quem Deus “adotou” em filiação Paulo de Samósata, o qual, segun-
divina. Essa elevação excepcional, do a m aior parte dos testem unhos
que no adocianismo primitivo esta- prim itivos, está ligado firm em ente
va geralmente associada ao evento ao ensino de Artem on. Paulo de
do batismo de Cristo, implica, no Sam ósata foi condenado por suas
entanto, somente um a atividade di- ideias no Sínodo de Antioquia
vina especial sobre Jesus, ou nele, (268 d.C.). Não se possui nenhum
e não a presença individual em sua registro contem porâneo de sua
pessoa de um segundo membro da doutrina, mas não há dúvida de
Trindade*, sob o nome próprio de que ele é tido com o tendo ensina-
Verbo (Logos*) ou Filho. do que Jesus era “por natureza
Embora seja escasso o material um hom em com um ” (koinou tên
primitivo relativo ao adocianismo, p h y sin anthrõpou). No século se-
tudo indica que o movimento pas- guinte, foi acusado por Eusébio*,
sou a ser proeminente a partir do historiador da igreja, de sustentar
ensino de Teodoto, mercador de um a ideia aviltante de Cristo e,
couro e erudito que vivia em Roma desse modo, negar “seu Deus e
por volta do ano 190. Ele ensinava seu Senhor” . Esse seu aviltam en-
que o “Espírito” ou “Cristo” desceu to, alegava Eusébio, suprim ia o
sobre Jesus no batismo, induzindo reconhecim ento de que o Filho de
poderes miraculosos em alguém Deus desceu do céu, confessando,
que, embora suprem amente vir- pelo contrário, que Jesus tinha
tuoso, era apenas um homem vindo “de baixo” .
comum. Teodoto causou indigna- As cristologias modernas al-
ção aos seus críticos por definir gumas vezes se defendem, com
Jesus com o um “mero hom em ” algum a propriedade, da suspeição
■ 33 ADORAÇÃO

de adocianismo, por negarem, traduzir em mudez, paralisação,


conscientemente, certos aspectos emulação ou dedicação.
insustentáveis do movimento de
adocianismo original, tais como Revelação e resposta
a interpretação de um a presença No centro da adoração cristã, está
divina não pessoal em Jesus, o próprio Deus. Dois elementos
omissão da iniciativa divina nas fundamentais são necessários à
realizações humanas e a falta de verdadeira adoração: a revelação,
clareza quanto à distinção, no NT, mediante a qual Deus se mostra
entre a filiação de Cristo e a cor- ao homem, e a resposta, pela qual
relata adoção divina dos crentes. o homem, afetado pelo assombro,
Esses aspectos duvidosos eram, responde a Deus. Martinho Lutero
no entanto, pelo menos no enten- afirmava que “conhecer a Deus é
der dos críticos do movimento, de adorá-lo” . Nessa afirmativa, ele
certo modo secundários, em rela- resumia os dois aspectos da ado-
ção à identidade expressa inade- ração. Insistia também em que a
quadamente pelo adocianism o do adoração não é algo extra e opcio-
Jesus nascido de Maria. Seu erro nal para a pessoa piedosa, mas,
característico foi, de fato, negar sim, um sintoma ou expressão
a origem e a identidade divinas essencial desse conhecimento.
de Jesus, considerando-o mero Deus se faz conhecido de diver-
homem, erro com batido depois sas maneiras: mediante suas obras
pelo titulo Theotokos (portadora de na criação (SI 19.1); por meio de
Deus) conferido a Maria*. sua palavra escrita (SI 19.7); e, de
Adocianismo (ou adotianismo) modo supremo, por meio de Jesus
é, tecnicamente, o título também Cristo (Jo 1.18), assim como do
para um movimento menos co- Espírito Santo (Jo 16.13).
nhecido na igreja da Espanha, no A adoração cristã se apoia nes-
século VIII, condenado por fazer a sa revelação. Está, assim, fundada
humanidade de Cristo participante na teologia — o conhecimento de
de sua dignidade como Filho so- Deus. O caminho mais curto para
mente por adoção. um a adoração mais profunda e
mais rica é um a teologia mais
V er tam bém M o n a r q u ia n is m o . clara. Isso capacita o adorador a
conhecer quem e quão grande é
Bibliografia Deus. Além disso, informa ao ado-
Grillmeier, Christ in Christian Tra- rador sobre como Deus quer que a
dition, vol. 1: From the Apostolic adoração seja expressa.
Age to Chaldecon AD 451 (London.
21975); J. N. D. Kelly, Early Chris- Culto
tian Doctrines (London, 51977). As palavras bíblicas usadas para
adoração transmitem um a compre-
ADORAÇAO. O senso de admira- ensão significativa de sua natureza.
ção do homem ante o magnificente, Uma das palavras hebraicas mais
o assombroso ou o miraculoso dá comuns deriva da raiz ‘ebed, que
um a ideia, em parte, do que seja significa “serviçal” . Contém, assim,
“adoração” . A resposta pode-se a ideia de serviço de toda espécie,
ADORAÇÃO 34 I#

de atos de adoração como o fazem Deus transcendente e imanente


os coros (e.g., Êx 3.12; 20.5; Dt A tensão entre a transcendência
6.13; 10.12; Js 24.15; SI 2.11). Já o de Deus (sua total alteridade) e
uso ocasional da palavra histahawã imanência (estar disponível) tem
(prostrar-se, seja religiosamente frequentemente causado dissensão.
seja durante a realização de um Em ambos os Testamentos, esses
dever), refere-se exclusivamente, no atributos são explícitos (Êx 19.10;
AT, a atos rituais (Gn 27.29; 49.23). Jó 38— 41; SI 8; Is 40.12ss; Jo 1.1-
Seu equivalente grego, proskyneõ, é 14; Hb 1— 2; e Gn 3.8; Dt 7.21,22;
usado mais extensivamente na LXX SI 23; Is 43.1,2; Mt 1.23; 28.20; Fp
e no NT (e.g., Mt 4.9,10; 14.33; Mc 4.19). A partir do AT, fica claro que
15.19; At 10.25). o pecado* separa o povo de Deus,
As duas palavras mais im- mas, mediante sacrifício, o Senhor
portantes com o significado de efetua nova aliança (Gn 3; Lv 26;
adoração no NT são: 1. latreia, na cf. Redenção*). Com a expiação*
acepção de “serviço” ou “adoração” , definitiva, feita pelo próprio sacrifí-
dependendo a tradução exata do cio* de Jesus*, os rituais de Êxodo,
contexto (ver, especialmente, Rm Levítico, Números e Deuteronômio
12.1 e discussão em comentários, não são mais relevantes; mas
assim como Mt 4.10; Lc 2.37; At sua exposição cuidadosa é ainda
26.7; Hb 8.5; 9.9); 2. leitourgia, importante, porque eles revelam
palavra tomada do uso secular, princípios permanentes da adora-
significando serviço à comunidade ção. Por exemplo, a sinceridade, a
ou ao Estado, geralmente sem ônus pureza e a santidade são exigências
ou salário (Lc 1.23; 2Co 9.12; Fp constantes, assim como a oferta
2.30; Hb 9.21; 10.11), implicando daquilo que se tem de melhor para
que adoração cristã e serviço são, Deus (e.g., Êx 24— 40; Lv 1— 10; 16;
essencialmente, a mesm a coisa. 21— 27; Nm 7; 15; 28; 2Cr 3— 4).
Segundo a Bíblia, somente Deus No NT, os mandamentos de
deve ser adorado ou servido (Êx Jesus implicam amplo entendi-
20.1-3). Ele deve ser servido pelo mento de adoração e serviço (e.g.,
ser humano na totalidade deste comunhão, Jo 13.34; ordenanças,
(Dt 6.5; Lc 10.27): tanto a mente Mt 28.19,20; IC o 11.23,24; evan-
como as emoções, o físico como os gelização, Mt 28.19,20). O cum-
sentimentos devem se combinar primento desses mandamentos é
no louvor de Deus. A verdadeira adoração — “no esplendor da sua
natureza de Deus, sobrepujante santidade” (SI 96.9).
em seus atributos, exige do homem Com o derramamento do Espíri-
tudo de si. A adoração pessoal, in- to de Deus sobre todos os crentes
dividual, é praticada (e.g., Salmos), em Cristo (At 2), em Pentecoste,
e atos coletivos são descritos (e.g., em cumprimento à profecia (J1
2Cr 7). O hino de Wesley, Ah, se 2.28-32; Jo 14.26; 16.7), a igreja
eu tivesse mil vozes para cantar o fica capacitada como “reino e sa-
louvor de meu grande Redentor” , cerdotes para servir a [...] Deus”
reflete este fato: de que Deus é tão (Ap 1.6; Êx 19.6). De tempos em
grande que ninguém pode adorá-lo tempos, em sua história, a igreja
adequadamente. tem-se engajado em controvérsias
IS 35 ADORAÇÃO

divisoras a respeito da natureza dos Com a Reforma*, a prática reli-


dons* do Espírito, mas os cristãos, giosa no Ocidente foi grandemente
sem exceção, concordam em que a liberta da superstição e daquilo
capacitação do Espírito é vital para que se havia tornado meramente
o serviço de adoração. cerim onial ou ritual. A ênfase da
Reforma na palavra como centro
Adoração na história da adoração levou ao realce protes-
Desde o começo, a igreja cristã tante na pregação*, na condição de
reconheceu a si mesma como um sacramento real e da mais elevada
povo que adora, e não tanto como razão de ser da adoração coleti-
um lugar de adoração. Na igreja va. No contexto de exposição da
primitiva, os cristãos normalmente Escritura com am plitude mental,
adoravam em lares (At 2.46; 11; relevância e entusiasmo, a litur-
12.12), lugares públicos (At 19.9), gia de música e oração se tornou
sinagogas (At 13.14ss; 14.1; 17.1,2) mais simples e menos ritualística.
e no templo (At 2.46; 3). A evange- Essa ênfase tem estado por de-
lização era feita naqueles lugares e trãs da adoração evangélica até
ao ar livre (At 16.13,14; 17.22,23). hoje, aliada a um destaque sobre
A conversão do imperador Cons- a necessidade de avivamento do
tan tino (312 d. C.) trouxe maior pregador e da congregação pelo Es-
liberdade para a construção de pírito Santo. As tensões continuam
basílicas para a adoração coletiva. entre os que buscam um a liturgia
A música e o canto eram par- comum, unindo igrejas onde quer
tes importantes da adoração do que se reúnam, e os que se apoiam
judaísm o bíblico (e.g., Salmos; lC r em um a expressão espontânea da
16.7ss; 25). Constituía, juntam en- fé. Muitos têm achado ser neces-
te com a leitura e explanação das sãria a liberdade de se poder usar
Escrituras e a oração, o cerne da ambas as formas. O que é central
adoração na sinagoga, mantendo- na adoração cristã não é a “form a” ,
se paralelamente ao aspecto sacri- mas, sim, a presença do Deus
ficai da adoração tem plária (lC r trino, que, mediante sua palavra, a
22.17-19; 2Cr 6.12ss; Ne 8.1-8). Bíblia, e seu Espírito Santo, aviva,
Os cristãos primitivos adotaram a ilum ina e capacita todos que creem
música e o canto em suas reuniões a fim de que possam adorá-lo em
(Cl 3.16; E f 5.19), assim como na espírito e em verdade.
devoção pessoal (At 16.25), em-
bora a história mostre sensíveis Bibliografia
diferenças de opinião a respeito J. J. von Allmen, Worship — Its
da posição da música e de outras Theology and Practice (London,
artes criativas na adoração. 1965); O. Cullmann, Early Chris-
A divisão entre a igreja do Orien- tian Worship (London, 1953); R. P.
te e a do Ocidente, no século XI, Martin, The Worship o f God (Grand
refletiu tensões nos pontos de vista Rapids, MI, 1982); N. Micklem,
quanto à adoração, para as quais Christian Worship (Oxford, 1936);
contribuíram o elemento místico J. I. Packer, Keep in Step with the
mais forte do Oriente e o elemento Spirit (Leicester, 1984); R. Otto, The
racional do Ocidente. Idea o f the Holy (Oxford, 1923); E.
ADVEN TISM O DO SÉTIM O DIA 36 ■

Underhill, Worship (London, 1948). As primeiras sedes centrais da


Artigos em HDB; ERE. Igreja Adventista do Sétimo Dia
P.D .M . foram em Battle Creek, Michigan,
sendo transferida, em 1903, para
ADVENTISMO DO SÉTIMO DIA. A Takom a Park, subúrbio de Wa-
Igreja Adventista do Sétimo Dia shington, DC. O total de membros
teve início oficialmente em 1863, no mundo, em 1985, era calculado
quando se realizou sua primeira em 4.863.047. Quatro entre cada
Conferência Geral, nos Estados cinco adventistas do sétimo dia
Unidos. W illiam Miller (1782- residem fora dos Estados Unidos.
1849), estudioso leigo da Bíblia Os adventistas sustentam um am-
(mais tarde, pregador batista) pre- bicioso program a missionário e são
disse que Cristo retornaria à terra muito ativos em empreendimentos
a qualquer instante entre 21 de educacionais e médicos.
março de 1843 e 21 de março de A denominação compartilha
1844. Um dos seguidores de Mil- com os demais grupos evangélicos
ler adiou a segunda data, depois, doutrinas como as da Trindade, da
para 22 de outubro de 1844. Um divindade de Cristo, da obra expia-
“grande desapontam ento” ocorreu, tória de Cristo e de sua segunda vin-
no entanto, quando Cristo não re- da. Mas os adventistas sustentam
tornou à terra naquele dia. também doutrinas que os colocam
Os três grupos sucessores dos à parte da cristandade evangélica.
“m ileritas” se uniriam , mais tarde, Uma delas é o ensino de que o dia
para form ar um a Igreja Adventista próprio de descanso para o cristão
do Sétimo Dia. O prim eiro deles é o sábado, o sétimo dia semanal
era o grupo alinhado em torno de dos judeus. Outra é a doutrina do
Hiram Edson (1806-1882), que, chamado “julgamento investigativo”
na m anhã seguinte ao “grande — ou seja, de que após a morte de
desapontam ento” , teve um a visão cada pessoa é realizada um a inves-
de Cristo entrando em um san- tigação de sua vida para determinar
tuário celestial — que ele inter- e revelar se será considerada digna
pretou como o significado real da de participar da “primeira ressur-
profecia de Miller; o segundo era reição” (a ressurreição dos crentes).
o grupo que seguia Joseph Bates Ensina-se, além disso, que a Igreja
(1792-1872), capitão da M arinha Adventista do Sétimo Dia é a “igreja
am ericana aposentado, que por remanescente” , a saber, o último
meio de estudo individual da Bí- remanescente do povo que guarda
blia se tornou convencido de que o os mandamentos de Deus. Uma
sétimo dia era o próprio Sabbath* das marcas da igreja remanescente,
dos judeus; o terceiro, o grupo dizem os adventistas, seria o dom
dos seguidores de Ellen G. W hite de profecia* que foi dado a Ellen G.
(1827-1915), que com eçou a ter White, sendo seus ensinos consi-
visões, firmando vários dos en- derados fundamentais na teologia
sinam entos que seriam adotados adventista. Observam, ainda, nor-
posteriorm ente pelos adventistas, mas de alimentação natural, sendo
e que foi reconhecida com o dotada os adventistas mais conservadores,
de dom profético. quase sempre, vegetarianos.
■ 37 AGO STIN H O

O Adventismo do Sétimo Dia expressar a perspectiva de que a


pode ser considerado um ramo do evidência da existência de Deus
cristianismo evangélico? Isso ainda ê contrabalançada pela evidência
não está bem definido. A alegação contra ela e que, assim, a única
adventista de ser sua igreja a única posição consistente em relação à
remanescente implica que todos questão é não julgar. À m edida que
os outros cristãos estão vivendo o agnosticism o se fundam enta na
sob algum grau de trevas. Ellen G. ética da crença que exige que se
White disse, certa vez, que a ob- acredite apenas no que apresenta
servãncia do sábado como sétimo evidência suficiente, a posição
dia distinguia os súditos leais de agnóstica foi desafiada de form a
Deus dos transgressores. Muitos interessante por W illiam Jam es
adventistas, hoje, gostariam de ser (1842-1910), que argum entava
considerados cristãos evangélicos, ser racional acreditar sem evidên-
e, em anos recentes, tem havido cia suficiente quando a escolha
considerável discussão interna so- envolvida era “viva, poderosa e
bre questões doutrinárias centrais. coerciva” .
Mas a doutrina da igreja remanes- O agnosticismo, se não no nome,
cente, que permanece como um é, de fato, um a conseqüência dos
ensino oficial adventista, parece argumentos de Kant a respeito do
tornar difícil, senão impossível, conhecimento humano estar preso
sua identificação com as principais às categorias de tempo e de espaço.
correntes evangélicas. Deus, que está além do tempo e do
espaço, é o incognoscível. É mais
Bibliografia um agnosticismo a respeito de
Seventh-day Adventists Answ er Deus que sobre a questão de se ele
Questions on Doctrine (Hager- existe ou não. Mais recentemente,
stown, MD, 1957); D. M. Canright, esse debate mais antigo a respeito
Seventy-day Adventism Renounced do limite do conhecimento humano
(1889; reimpr. Grand Rapids, MI, foi suplantado pelas declarações
1961); J. Craven, The Wall o f Ad- inspiradas pelo positivismo de que
ventism, CT 28 (1984), p. 20-25; a própria linguagem utilizada para
A. A. Hoekema, The Four M ajor falar de Deus, do ponto de vista
Cults (Exeter, 1963); G. Land, (ed.), cognitivo, é sem sentido, pois não é
Adventism in Am erica: A History verificável (veja Positivismo lógico).
(Grand Rapids, MI, 1986); G. J. O agnosticismo sempre foi um
Paxton, The Shaking o f Adventism elemento na teologia que quer
— A documental account o f the cri- observar os limites da revelação
sis among Adventists over the doc- divina e evitar a especulação, além
trine o f justification by fa ith (Grand de reconhecer que falar de Deus
Rapids, MI, 1978). contém elementos analógicos.
A .A .H
AGOSTINHO (354-430). O maior
AGAPE, ver A mor; N ygren, A nders. teólogo entre os pais latinos e um
dos maiores de todos os tempos.
AGNOSTICISMO. Termo cunhado Sua influência dom inou o cristia-
por T. H. Huxley (1825-95) para nismo medieval no Ocidente (onde
A GO STIN H O 38 ϊ»

se tornou um dos quatro “Doutores das algemas do maniqueísmo) e do


da Igreja”) e proporcionou o mais impacto do movimento ascético*
poderoso estímulo não bíblico para do Oriente. Seu ideal era agora a
a Reforma. Tanto para católicos busca contemplativa da verdade
quanto para protestantes, per- pelos caminhos gêmeos da razão e
manece como um a grande fonte da fé, e ele os palmilhou tanto em
teológica. retiro antes de seu batismo como
em um a comunidade ascética após
Vida voltar a Tagaste.
Agostinho nasceu em Tagaste, no Seus escritos desse período,
norte da África sob governo roma- parcialmente dirigidos contra o
no (atual Souk Ahras, na Argélia), maniqueísmo, mostram quão pro-
filho de Patricius, que mais tarde fundamente o neoplatonismo (ver
se tornaria cristão, e da piedosa Platonismo*) o influenciou. Diversos
Mônica, que o levou a ser cate- deles são diálogos no estilo de Pia-
cúmeno ainda na infância. Suas tão. Agostinho esperava confian-
Confissões (espécie de autobio- temente que a filosofia platônica
grafia espiritual e intelectual) são pudesse revelar os tesouros da fé
a principal fonte para se conhecer da igreja (cf. Religião verdadeira,
seu desenvolvimento. Durante 389-391). Para defender a posição
sua formação, local e, depois, em da fé e da autoridade na religião,
Cartago, sua conexão com o cris- contra as objeções dos manique-
tianismo era tênue. Distinguiu-se, ístas, argumentou que a fé deve
nos estudos, em literatura e retó- preceder o entendimento (cf. Is 7.9,
rica, mas nunca dominou o grego. LXX), mas possui as próprias bases
Sua leitura de Hortensius (373), em que se apoia — bases que ele
obra perdida de Cícero, inflamou-o encontrou nas realizações morais e
com ardente amor pela sabedoria numéricas da igreja mundial (cf. O
divina (filosofia), pelo que se voltou proveito de crer, 391-392). Contra o
para o maniqueísmo*, deprezando determinismo maniqueísta, insistiu
a leitura das Escrituras. Enquanto em que o pecado culpável procede
ensinava retórica na África e em somente do abuso do livre-arbítrio*
Rom a (383) e Milão (384), perma- (cf. Livre-arbítrio, 391-395). Contra
neceu adepto do maniqueísmo, a o dualismo* maniqueísta, enfatizou
despeito do crescente desencanto a bondade da criação* e adaptou a
com suas pretensões intelectuais. abordagem neoplatõnica do mal*,
Foi em Milão que se converteu. vendo-o como ausência do bem,
Sua conversão (386) e batismo (Pás- carente de realidade substancial.
coa de 387) resultaram das persis- Seu platonismo cristão nutria alta
tentes orações de sua mãe, Mônica, estima pelo potencial moral e espi-
da pregação do bispo Ambrósio* ritual do homem.
(que lhe mostrou como interpretar a Em 391, Agostinho foi recruta-
Bíblia espiritualmente ou alegórica- do para o ministério da igreja em
mente e cuja sabedoria o impressio- Hipona (atual Annaba). Logo se
nou profundamente), dos escritos tornava bispo de sua congregação
neoplatõnicos de Plotino e Porfirio (396), fazendo da casa do bispo um
(que completaram sua libertação seminário asceta com cabido. As
β 39 AGO STIN H O

necessidades da igreja passaram dade da Igreja Católica, 405). Os


a determ inar cada vez mais sua ensinos de Agostinho se basearam
produção teológica. Dedicou-se em Ticõnio e em Optato de Milevis
intensamente ao estudo das Es- (c. 365-385), o único prior católico
crituras, especialmente em Paulo, da África que era crítico do dona-
sob o incentivo de Ticõnio (c. 370- tismo com consistência teológica.
390), donatista* não conformista
de quem Agostinho aprendeu so- Donatismo
bre diversos pontos significativos. Às argumentações exclusivas do
A exposição à realidade pastoral donatismo, Agostinho opôs tanto
também prontamente minou seu a universalidade (ou catolicidade)
otimismo humanista, conduzindo da igreja, conforme predito nas
a um a consciência mais profunda Escrituras, quanto o seu caráter
da fraqueza e da perversidade hu- misto, ou seja, o de conter o joio e
manas. Fruto dessa mudança é a o trigo, juntos, até o juízo final. A
análise perscrutadora de sua pró- busca por um a comunidade pura
pria pecaminosidade nas Confis- estava condenada a falhar (por-
sões (397-401). Outra decorrência que somente Deus conhece quem
foi Para Simplício, sobre questões são os seus), sendo contrária às
diversas (396), em que mostra ha- Escrituras. A santidade da igreja
ver Romanos 9.10-29 o convencido não é a de seus membros, mas,
das inter-relações básicas entre sim, a de Cristo, seu cabeça, e só
eleição, graça, fé e livre-arbítrio, seria realizada escatologicamente.
que mais tarde defenderia contra os Agostinho enfatiza a ligação entre
pelagianos*. Somente nessa sub- Cristo e seu corpo de tal modo
sequente controvérsia, percebeu que poderia deles dizer serem “um
ele que Romanos 7.7-25 deveria Cristo amando a si m esm o”, ou até
se referir ao cristão, e não a um a “um a única pessoa’” com pactada
pessoa sob a lei anterior à graça, pelo amor ou pelo Espírito (que
como argumenta em Simplício. Agostinho identificou intimamente
Em Hipona, Agostinho conti- — ver abaixo).
nuou a refutar os erros maniqueís- Visto que o cisma* é, acima de
tas. Defendendo o AT das críticas tudo, um a ofensa ao amor, os cis-
destes, apresentou a argumenta- máticos não possuem o Espírito de
ção cristã mais substancial, até amor. Embora professem a fé cató-
época, sobre a questão das guerras lica e administrem os sacramentos,
justas (em ContraFausto, 397-398). estes permanecem sem proveito
Mas os adversários donatistas da para eles até que entrem para o re-
igreja passaram a se tornar sua banho católico, que é a única esfera
principal preocupação, oferecendo do Espírito. Todavia, reforçando o
ele, então, importante contribuição abandono, ocorrido no século IV,
para as doutrinas ocidentais sobre da posição africana original {cf.
a igreja* e os sacramentos* (cf. Cipriano*), Agostinho argumenta
especialmente Contra a carta de que os sacramentos cismáticos
Parmenas, 440; Batismo, contra ou heréticos são válidos (mas não
os donatistas, 400-401; Contra as regulares), porque a validade de-
cartas de Petílio, 401-405; e A uni­ les não depende da dignidade do
AGO STIN H O 40 ■

ministro humano, mas de Cristo, obra antipelagiana (411-430). Des-


que é o verdadeiro ministro dos de o primeiro de seus muitos es-
sacramentos. Agostinho pode, as- critos (Os méritos e a remissão dos
sim, aceitar os donatistas na igreja pecados e o batismo infantil, 411-
sem exigir deles o (re)batismo* ou 412), ele uniu diversas ênfases dos
a (re)ordenação, mas é bastante pelagianos* em um a única heresia.
sutil sua distinção entre a validade A controvérsia se desenvolveu em
sacramental (dependente de Cristo) três fases: contra Celéstio e Pelágio
e o proveito sacramental (depen- (411-418: O Espírito e a letra; Natu-
dente do Espírito). Era a própria reza e Graça, Λ perfeição da justiça
doutrina da igreja que realmente humana, A Graça de Cristo e o pe-
precisava de desenvolvimento para cado original, Epístola 194); contra
poder acomodar os cismas ortodo- Juliano (419-430: Casamento e
xos como o donatismo. A distinção concupiscência, Contra duas cartas
artificial feita por Agostinho ajudou dos pelagianos, Contra Juliano,
a apadrinhar a infeliz noção do “ca- Obra inacabada contra Juliano); e
ráter” indelével dos sacramentos, contra os monges, chamados “se-
sem considerar seu relacionamento m ipelagianos”, da África e da Gália
com a comunidade eclesiástica. (427-430: Graça e livre-arbítrio,
Agostinho ofereceu também uma Correção e graça, Epístola 217, A
justificação teológica à coerção dos predestinação dos santos, O dom
hereges e cismáticos (Epístola 93, da perseverança).
408; Epístola 185, 417). As ameaças O longo conflito testemunhou a
e sanções deveriam ser essencial- edificação, por Agostinho, de uma
mente corretivas (e, assim, nunca fortaleza teológica inexpugnável e
poderiam incluir a pena de morte), tremenda, como jam ais tinha ha-
mediante serviço especial à religião vido. Seu material de construção
por cristãos exercendo um a tarefa incluiu: um a elevada visão das
de natureza secular. Agostinho ado- perfeições de Adão e Eva e, em
tou basicamente essa diretriz por decorrência disso, as desatrosas
motivos pragmáticos, mas a defen- conseqüências da queda*; a insis-
deu com o uso dúbio das Escrituras tência em que, havendo todos pe-
(incluindo textos como Lc 14.23) e cado “em Adão” (no que Agostinho
em termos de como Deus lidava usou da interpretação incorreta
com a humanidade recalcitrante de Rm 5.12 nas Am brosiasteή,
— por meio de rigorosa disciplina acham-se todos presos aos casti-
de sua “severidade benevolente” . gos decorrentes desse pecado —
Nesse contexto foi que Agostinho morte espiritual, culpa e a desor-
proferiu seu ditado frequentemente dem doentia da natureza humana;
citado de modo errôneo: “Ame, e “concupiscência” , da qual nenhum
faça o que quiser” — por ele emitido ato sexual da humanidade decaída
em favor de um castigo corretivo de está isento (mesmo no casamento
caráter paternal. cristão), por ser o próprio meio de
transmissão do pecado original de
Pelagianismo pais para filhos; a impossibilidade
O legado mais influente de Agos- de haver mesmo que seja “o surgi-
tinho ao protestantismo foi a sua mento de fé” sem o dom da graça
âs 41 AGOSTIN HO

preveniente*, mediante cujo poder sido frequentemente levantada a


“a vontade é capacitada” a se vol- questão (e.g., por Harnack*) de
tar para Deus; a estrita limitação se as doutrinas institucionais da
dessa graça a quem for batizado, igreja e do batismo contidas em
de modo que a criança que venha seus escritos antidonatistas podem
a morrer sem estar batizada já se sobreviver ante a pesada carga
acha condenada ao inferno — a antipelagiana do seu conceito de
não ser, talvez, em virtude de um certus numerus de eleitos. Dogma-
maior alcance de indulgência pela ticamente, a falha deve estar na
graça ou relativamente a um “nú- desconexão entre o Deus amoroso
mero fixo” de eleitos que recebem que elege alguns e o Deus justo
a graça tão somente pela miseri- que condena o restante. Todavia,
córdia livre e soberana de Deus, em suas obras menos controversas
estando o resto da humanidade (e.g., O Espírito e a letra), a teologia
entregue aos seus justos mereci- de Agostinho oferece um a exposição
mentos (Agostinho raramente fala do incomparável evangelho paulino
de um a predestinação* divina para pregado na igreja primitiva.
a condenação paralelamente à
predestinação para a salvação); a Trindade
negação de que Deus “deseja que Em seu longo labor da obra Da
todas as pessoas sejam salvas” e Trindade (399-410), Agostinho
a disjunção de eleição e batismo, entregou-se à busca do entendi-
pois nem todos os batizados per- mento da fé, livre das pressões
tencem aos eleitos; a infalibilidade de controvérsia. O resultado é
da redenção* eterna dos eleitos, um respeitável exercício em teo-
em quem a graça de Deus opera logia dogmática, bem como um a
irresistivelmente (mas não coerciti- investigação profundam ente con-
vãmente) e que recebem o “dom da templativa. Ele dedica excepcio-
perseverança”; e a apelação defini- nal im portância à ideia da plena
tiva ã inescrutabilidade dos juízos igualdade das três pessoas divinas,
de Deus quando meros homens se que diferem somente em suas re-
atrevem a questioná-los. lações mútuas. Começa não com
A igreja, tanto no Ocidente o Pai como a fonte da divindade,
quanto no Oriente, repudiou as mas com o próprio Deus, de quem
crenças pelagianas básicas, mas fala como tendo mais “essência”
não canonizou a visão total da do que “substância” (para evitar
refutação de Agostinho, fosse na implicações derivadas das catego-
mesma época fosse mais tarde, no rias aristotélicas). Rejeita qualquer
Segundo Concilio de Orange (529). sugestão de que a essência única
No próprio pensamento de Agosti- de Deus e das três pessoas exista
nho, identifica-se indubitável avan- em níveis diferentes, referindo-se
ço em alguns pontos importantes, em termos como “pessoa” e “hi-
especialmente quanto à natureza e póstase” para a própria essência
à transmissão do pecado original*, divina em suas relações internas.
em comparação com a abordagem A inseparabilidade das obras da
voluntarista do pecado em sua Trindade o conduz à sugestão de
obra Livre-arbítrio (391-395). Tem que algumas das teofanias* do AT
AG O STIN H O 42 ‫׳‬8

podem ter sido mais do Pai ou do pensamento sobre a história* e


Espírito do que do Filho. a sociedade*. O interesse domi-
Como alternativa quanto a “pro- nante dessa obra é a história da
ceder” em relação à diferença do salvação*, baseada na concepção
Espírito (como tendo sido “gerado” cristã comum dos sete dias-eras do
do Filho), Agostinho contempla o mundo. A era da igreja é no sexto
Espírito como “dom ” e “am or” . Na dia, anterior ao sábado eterno. É o
qualidade de vínculo de comunhão milênio de Apocalipse 20. Abando-
entre Pai e Filho, o Espírito é seu nando decisivamente o quiliasmo
am or mútuo, assim como o dom (milenarismo) do cristianismo pri-
que une o povo de Deus. Agostinho mitivo, que havia sustentado em
liga, assim, a Trindade e a igreja. O determ inada época, Agostinho vê
espírito é, sem ambigüidade, o Es- agora o período total entre a encar-
pírito de ambos, do Pai e do Filho, nação e a parúsia como homogê-
de form a que Agostinho é um claro neo. Rejeita a teologia de Eusébio
adepto do filioque. do Império Romano cristão como
Uma vez que o ser humano foi nova fase nos propósitos de Deus.
feito à imagem* de toda a Trindade, A cidade de Deus, consistente-
Agostinho procura na criação do mente, despreza a im portância da
homem padrões de relacionamento história secular, mesmo a de Roma
que ajudem o entendimento das sob governantes cristãos. Pagãos e
relações trinitárias. Com a ajuda cristãos têm investido igualmente
de ideias neoplatônicas, encontra muito capital religioso nela. A
a mais sugestiva analogia na au- existência da cidade de Deus sobre
torrelação da mente ou alma na a terra é definitivamente indepen-
m em ória (conhecimento latente de dente do Estado ou da sociedade.
si mesma), no entendimento (com- Todas as instituições humanas são
preensão ativa de si mesma) e na essencialmente ambíguas na visão
vontade ou no amor (ativando tal de Agostinho, de forma que a cida-
autoconhecim ento). O modelo da de de Deus não pode ser identifi-
mente seria mais próximo ainda cada sim pliciter com a igreja tanto
disso, lembrando, conhecendo e quanto a cidade do Diabo o seria
amando o próprio Deus. Como com Roma, porque somente Deus
imagem de Deus, o ser humano é conhece os amores, de Deus ou do
chamado a se tornar mais seme- próprio ego, que nos torna cidadãos
lhante a Deus. A contemplação das de um a cidade ou de outra.
imagens da Trindade no homem A noção de Agostinho do papel
serve, portanto, para conformá-lo do governo é minimalista: ele existe
à imagem divina. A teologia, a ado- para refrear os excessos do pecado,
ração e a santidade têm aqui um embora os governantes cristãos,
frutífero ponto de encontro. como cristãos, tenham o dever
de promover a igreja. Está muito
Cidade de Deus longe, também, de sugerir qual-
A obra Cidade de Deus também quer espécie de poder eclesiástico
ocupou Agostinho por muitos anos teocrático (como teoristas medie-
(413-426). Oferece um a cristali- vais erroneamente o entenderam).
zação de grande alcance de seu Como bom cristão platonista e
m 43 AGOSTIN IANISM O

teólogo bíblico, ele projeta a sólida levantamento só pôde ser seletivo,


realidade para além deste mundo, concentrando-se principalmente em
para o céu e para o futuro. suas “doutrinas da graça” (antipela-
gianas), às quais o agostinianismo,
Bibliografia como um sistema teológico, mais
A edição mais útil de obras (em comumente se refere.
andamento), Bibliothèque Augusti- A reação crítica aos escritos de
nienne (Paris, 1947ss); P. Brown, Agostinho começou ainda em vida,
Augustine o f Hippo (London, com os pelagianos* e semipelagia-
1967), com tabelas cronológicas e nos*. O resultado dessa controvér-
detalhes de obras, sobre os quais sia foi a canonização do cerne do
veja também B. Altaner, Patrology ensino de Agostinho nos séculos
(New York, 1960); literatura atual V e VI, tendo confirmando o papa
é revista em Reuue des études au- Bonifácio II, em 531, os decretos
gustiniennes. do Segundo Concilio de Orange.
G. Bonner, St. Augustine o f
Hippo (London, 21986); H. Chad- Legado
wick, Augustine (Oxford, 1986); H. Agostinho já desfrutava, porém, de
A. Deane, The Political and Social elevada estima. Cesário de Aries
Ideas o f St. Augustine (New York & (m. 542), que geralmente m ostra
London, 1963); G. R. Evans, Au- ter sido mais do que simples adap-
gustine on Evil (Cambridge, 1982); tador de Agostinho, assim como
E. Gilson, The Christian Philosophy outros pais da igreja posteriores,
o f St. Augustine (London, 1961); S. como Gregário, o Grande* e Isidoro
J. Grabowski, The Church: An Intro- de Sevilha (c. 560-636), tratam-no
duction to the Theology o f St. Augus- com respeitosa admiração. Muitos
tine (St. Louis, 1957); A. Harnack, sumários e florilégios de seus es-
History o f Dogma, vol. 5 (London, critos foram produzidos, como, por
1898); R. A. Markus, m/CHLGEMP, exemplo, por Próspero de Aquitânia
p. 341-419; idem, Saeculum: His- (m. 463), Eugípio, um abade das
tory and Society in the Theology o f proximidades de Nápolis (m. 535),
St. Augustine (Cambridge, 1970); Beda (m. 735) e Floro de Lião (m.
J. B. Mozley, A Treatise on the Au- c. 860). Na Renascença carolíngia,
gustinian Doctrine o f Predestination da qual um a das inspirações era a
(London, 31883); J. J. O ’Meara, The obra de Agostinho voltada para a
Young Augustine (London, 1954); A. cultura e a educação, Da doutrina
Pincherle, La form azione teologica cristã, fizeram muito uso de suas
di SantA gostino (Roma, 1947); E. ideias as homílias de Paul Deacon
TeSelle, Augustine the Theologian (m. c. 800) e outras e os comentá-
(New York, 1970); G. G. Willis, St. rios bíblicos e compilações teoló-
Augustine and the Donatist Contro- gicas de Alcuin (m. 804), W alafrid
versy (London, 1950). Strabo (m. 849), Rabanus Maurus
D .F.W . (m. 856) e muitos outros.
No século IX, Gottschalk* foi
AGOSTINIANISMO. A influência de um expoente da controvérsia ao
Agostinho tem sido tão grande no agostinianismo, em particular,
cristianismo ocidental que o presente quanto à dupla predestinação* e
AGOSTIN IANISM O 44 m

ao supralapsarianismo. Entre seus O legado de Agostinho foi re-


oponentes, estava o neoplatônico conhecido, igualmente, por movi-
Eriugena*, que devia muito a um mentos monásticos, que ganharam
outro lado de Agostinho, embora sua denominação em razão da obe-
entre os que o sustentavam esti- diência ao regulamento ou à regra
vesse Ratramnus*, cuja visão mais agostiniana (que passou a ganhar
espiritual da eucaristia* dirigia- influência somente no século XI,
se contra o ensino “realista” de sendo até hoje discutida a autenti-
Pascásio Radberto*. Am bos foram cidade de suas diferentes versões).
capazes de apelar para Agostinho Confrarias de cônegos, ou padres,
— aspecto muito comum das dis- agostinianos (regulares) foram cria-
putas eucarísticas tardias. das durante a reform a gregoriana,
Tanto Anselmo*, pioneiro da no século XI, reunindo seus parti-
abordagem da nova escolástica* em cipantes não em um a única ordem,
teologia, como Bernardo*, um de mas em congregações separadas.
seus críticos mais incisivos, muito Entre essas, a dos vitorinos*, em
ficaram devendo a Agostinho. A cor- Paris, que se constituiria destaca-
relação da fé com a razão (ver Fé e da escola cultora do pensamento e
Razão*) feita por Agostinho parecia da espiritualidade de Agostinho. Já
um a justificação feita sob medida a de Windesheim, nos séculos XIV
para o escolasticismo, enquanto a e XV, contaria com os principais
espiritualidade de Bernardo e sua representantes monásticos do mo-
obra Graça e livre-arbítrio usaram vimento de renovação conhecido
Agostinho com efeito totalmente como Devotio Moderna, em cujas
diverso. Apesar de o escolasticismo fileiras pontificavam Geert de
substituir Platão* por Aristóteles* Groote (1340-1384), fundador dos
como apoio filosófico à teologia, Irmãos da Vida Comum, e Thomas
Agostinho permaneceu sendo a à Kempis (ver Espiritualidade*).
autoridade predominante, nada Erasmo*, altamente influenciado
menos que em Pedro Lombardo* e pela agitação que alimentou a
Tomás de Aquino*; mas a tendência Reforma* em diversos pontos, foi
dos escolásticos foi a de se inclinar também, por algum tempo, padre
cada vez mais para explanações da agostiniano.
relação entre livre-arbítrio* e méri- No século XIII, formava-se um a
to* humano e a graça* divina, que ordem de monges ou frades agosti-
eram, na verdade, semipelagianas. nianos. Originariamente eremitas,
Os franciscanos*, em particular, logo se tornaram mendicantes.
concederam um lugar de destaque Gregório de Rimini*, dirigente da
a Agostinho em seus estudos teo- ordem, era um teólogo agostinia-
lógicos. Boaventura*, por exemplo, no assumido. Os estudiosos têm
era mais platonista do que aris- analisado com interesse a força
toteliano, expondo um a teoria da e a im portância que exerceu um
iluminação não diferente da de agostinianismo renovado entre os
Agostinho. Duns Scotus* assimi- agostinianos em geral, nos séculos
lou também motivos agostinianos imediatamente precedentes à Refor-
em sua ênfase sobre a liberdade de ma. Algumas dessas congregações
Deus e sobre vontade e amor. de frades agostinianos, mais tarde,
■ 45 AGOSTINIANISM O

aderiram à Reforma (tornaram-se outra forma de equivalência do se-


congregações de estritos “obser- mipelagianismo. Os nominalistas*,
vantes” do Regulamento), incluindo tais como Guilherme de Occam* e
a confraria alemã, de que Lutero* Gabriel Biel*, ensinavam que fazer
fazia parte, em Erfurt, em 1505. o que estava no poder natural de
Seu vigário geral era John Staupitz um a pessoa (facere quod in se est)
(1460/1469-1529), predecessor de representava a primeira infusão da
Lutero como professor de Bíblia graça procedente de Deus (meritum
em Wittenberg. Era um expoente de congruo). O inglês Thomas Bra-
inflexível da doutrina da eleição, dwardine* se opôs fortemente ao
ensinada por Agostinho, que a ela semipelagianismo de Occam com
correlacionou um pacto* unilate- um agostinianismo relativamente
ral, pelo qual Deus designou Cristo extremo.
como mediador* da justificação* Os reformadores realçaram dife-
para os eleitos. Staupitz enfatizava rentes pontos em Agostinho. Calvino
o louvor a Deus, entusiasmado sistematizou mais plenam ente sua
pela dependência total do homem doutrina da predestinação, en-
à eleição e justificação divinas e quanto Lutero foi atraído por sua
por sua certeza de poder contar inflexível descrição da humanidade
com a presença pessoal do Cristo decaída, provavelmente indo além
ressurreto. A influência de Staupitz da narrativa de Agostinho sobre a
sobre Lutero foi significativa em servidão da vontade. Em alguns
um a época dramática para este, elementos, como livre-arbítrio e pe-
apontando-lhe o amor de Deus cado original, outros reformadores
na cruz e dando a interpretação também favoreceram formulações
de suas tentações como um sinal divergentes, mas o cerne do agos-
de sua eleição divina. Carlstadt (c. tinianismo foi, por toda parte, o
1450-1541), colega de Lutero e seu coração do evangelho protestante.
crítico radical, dedicou seu comen-
tário sobre a obra de Agostinho O Catolicismo romano
Espirito e a letra a Staupitz, embora Roma, porém, não poderia perm itir
tenha sido Lutero que o trouxe de que os protestantes fossem consi-
volta ao estudo de Agostinho. derados os verdadeiros intérpretes
de Agostinho. Os dois séculos se-
Os reformadores protestantes guintes à Reforma foram marcados
Todos os reformadores de caráter por controvérsias no catolicismo
dominador como que se assen- a respeito da im portância dos
taram aos pés de Agostinho. Eles ensinos de Agostinho. De forma
beneficiaram-se da redescoberta da concentrada, foi sendo descoberto
antiguidade cristã pela Renascença. continuamente o espectro de um
Diversas novas edições de Agosti- criptoprotestantism o se infiltrando
nho foram impressas, notadamen- no rebanho católico. M ichel Baius
te por Erasmo. Por causa de sua (De Bay, 1513-1589), teólogo de
lealdade a Agostinho, o protesto da Louvain, Bélgica, que alegava ter
Reforma foi dirigido contra a pre- lido setenta vezes as obras anti-
ponderância, na teologia medieval pelagianas (!), teve condenadas,
do final daquele período, de um a ou em 1567, por bula papal, muitas
AGOSTINIANISM O 46 S

das proposições de seus escritos. também favorável à renovação da


Baius, sem dúvida, esposava piedade e da devoção. O alvo prin-
um a versão mais pronunciada do cipal dos jansenistas era a teologia
agostinianismo que o catolicismo dos jesuítas, especialmente o moli-
da Contrareform a poderia tolerar. nismo. Em 1653, o papa Inocêncio
Isso se tornou evidente na adoção X condenou cinco proposições,
oficial pela, então, nova Ordem supostamente extraídas do livro de
Jesuíta* das opiniões molinistas, Jansen, que afirmavam o seguin-
substancialmente semipelagianas. te: os mandamentos de Deus não
Dominicanos* que acusavam os je- podem ser cumpridos sem a graça;
suítas de pelagianismo foram, por a graça é irresistível; o homem de-
sua vez, acusados de calvinismo. caído é livre da coerção, mas não
Um a disposição papal de 1607, da necessidade; o erro dos semipe-
no entanto, perm itiu essas duas lagianos era a negação da irresisti-
principais correntes de ensino. A bilidade da graça; é semipelagiano
controvérsia irrompeu renovada dizer que Cristo morreu por todos
um século depois, em torno de os membros da raça humana. Os
Henri Noris (1631-1704), eremita jansenistas contestaram essa apre-
agostiniano, autor de um a história sentação do ensino de Jansen, e a
erudita do pelagianismo e defesa disputa continuou. Em 1713, uma
do agostinianismo contra o moli- condenação papal mais abrangente
nismo. O resultado foi mais um a foi feita a um a obra escrita pelo
autorização de adoção de sistemas francês Pasquier Quesnel (1634-
diferentes de pensamento na igre- 1719), da congregação da Oratória.
ja. Na prática, o molinismo semi- Port-Royal foi fechada em 1709,
pelagiano dos jesuítas se tornou mas os jansenistas holandeses for-
am plamente predominante. maram um bispado independente,
O ano de 1640 viu a publicação que tem sobrevivido como parte da
de um a obra póstum a chamada Veterocatólica Igreja.
Augustinus, escrita por Cornelius Essa longa controvérsia estimu-
Jansen (1585-1638), holandês que lou o extensivo estudo de Agostinho
lecionava em Louvain. Essa obra e dos episódios pelagianos. Um de
deflagrou um conflito bastante seus frutos foi a edição de suas
intenso, especialmente na França, obras, considerada ainda a mais
onde o convento cisterciense de completa, feita pelos beneditinos
Port-Royal, com dois estabeleci- mauristas (1679-1700). Concor-
mentos, em Paris e próximo dali, dãncias com os jansenistas são
tornou-se o quartel-general do observadas entre os mauristas.
jansenism o, sob a liderança de St. Desde o século XVIII, a teologia
Cyran (Jean Duvergier de Hauran- agostiniana tem sido um a questão
ne, 1581-1643, abade de St. Cyran), menos controversa para os católi-
Antoine Arnauld (1612-1694) e sua cos. O estudo de suas obras con-
irm ã Jacqueline Angélique (1591- tinuou a aumentar com o advento
1661), abadessa de Port-Royal. Eles de diversos periódicos e centros de
receberam apoio dos dominicanos, pesquisa, especialm ente o Institut
de Pascal* e de outros, simpáticos des Études Augustiniennes [Insti-
a um movimento que se pretendia tuto de Estudos Agostinianos], em
8p 47 ALBERTO M AGNO

Paris. Na teologia construtiva, ou- sen, 1957-1958); D. C. Steinmetz,


tros aspectos de seu pensamento Misericórdia Dei: The Theology o f
têm despertado, de modo crescen- Johannes von Staupitz in Its Late
te, interesse mais intenso do que Medieval Setting (Leiden, 1968); D.
toda a sua obra antipelagiana. Trapp, “Augustinian Theology o f
the Fourteenth Century” , Augusti-
Protestantismo niana 6 (1956), p. 146-274.
No protestantismo, o legado do D .F.W .
agostinianismo antipelagiano tem
sido grandemente considerado ALBERTO MAGNO (c. 1193-1280)
segundo as tradições luterana e estudioso, santo e bispo da igreja
reformada. O dualismo platônico* medieval que nasceu na Bavária
é tido por teólogos da tradição de em algum momento entre 1193
Barth* como a maior falha estru- e 1206. Em 1223, ele ingressou
tural no ensino de Agostinho. Eles na ordem dom inicana e estudou
também o culpam pela preocupa- nas universidades de Pádua e de
ção ocidental maior com a antro- Bolonha. Durante o período de
pologia do que com a cristologia. 1228-40, ele lecionou em conven-
O “realismo cristão“ de Reinhold tos da Alemanha, onde compôs
Niebuhr muito deve, explicitamen- um a série de comentários sobre
te, a Agostinho, sendo sua obra a obra Sentences [Sentenças], de
Natureza e destino do homem, em Pedro Lombardo. Ele frequentou
geral, considerada como a Cidade a Universidade de Paris, obtendo
de Deus da atualidade. seu doutorado lá e se tornando
professor de 1245 a 1248. Foi nes-
Bibliografia sa época que Tomás de Aquino foi
N. J. Abercrombie, The Origins o f seu aluno e assistente. Em 1248,
Jansenism (Oxford, 1936); J. Ca- ele foi enviado para Colônia a fim
dier, “S. Augustin et le Réforme” , de instituir um novo currículo para
Rech. august. 1 (1958), p. 357-371; sua ordem. Depois, ele tornou-se
L. Cristiani, “Luther et S. Augus- bispo de Regensburgo (1260-62).
tin”, in Augustinus Magister, vol. 2 Ele, após deixar suas obrigações
(Paris, 1954), p. 1029-1035; H. De administrativas, passou o resto de
Lubac, Augustinism e et théologie sua vida em Colônia, onde foi es-
m odem e (Paris, 1963); A. Hamel, critor, professor e controversista.
D er Junge Luther und Augustin, 2 Alberto foi um dos principais
vols. (Güttersloh, 1934-1935); H. líderes do movimento conhecido
Marrou, St. Augustine and His In- como escolasticismo. Esse mo-
fluen ce Through the Ages (London, vimento, em sua definição mais
1957); H. A. Oberman, Masters o f ampla, foi o produto intelectual da
the Reformation (Cambridge, 1981), tentativa das universidades me-
cap. 6, The Augustine Renaissance dievais de harm onizar fé e razão.
in the Later Middle Ages; A. Sedgwi- Houve escolásticos místicos, como
ck, Jansenism in Seventeenth-Cen- Bernard* e Bonaventura, escolásti-
tury France (Charlottesville, VA, cos empíricos, como Robert Grosse-
1977); L. Smits, S. Augustin dans teste (c. 1175-1253) e Roger Bacon
Voeuvre de Jean Calvin, 2 vols. (As- (c. 1214-92) e houve escolásticos
A LBIG EN SES 48 ■

racionais, como Alberto e Tomás Em um sentido, Alberto foi


de Aquino. Os escolásticos racio- único, tendo vivido durante a “era
nais, como os estudiosos judeus e dourada do escolasticism o” e, a
árabes contemporâneos, tentavam despeito da vida muitíssimo ata-
conciliar sua fé com a filosofia de refada e variada, dominou o mais
escritores pagãos da Antiguidade, avançado conhecimento de sua
especialmente Aristóteles,* por época. Ele, impaciente com outros
meio da razão. que não tinham sua compreensão,
Alberto sentiu-se atraído pelas combinou sua leitura de obras
obras científicas de Aristóteles, que científicas com observações da na-
estavam sendo traduzidas e estu- tureza, tentando sempre ajustar os
dadas nas universidades europeias detalhes em esquemas coerentes.
pela primeira vez. Ele dominou As realizações dele foram reconhe-
esse assunto em um a série de tra- cidas por seus contemporâneos,
balhos que foram republicados em muitos dos quais acreditavam que
28 volumes (1890-99). Ele leva o elas se deviam à mágica. Ele foi
crédito de ter instituído o estudo da canonizado em 1931 e tornou-se
natureza como um a preocupação patrono dos que estudam ciências
legítim a dos intelectuais cristãos naturais.
do Ocidente. A abordagem enciclo-
pédica da época levou-o a lidar com Bibliografia
um a vasta gam a de assuntos nas S. M. Albert, Albert the Great
ciências naturais, incluindo geo- (Oxford, 1948); Thomas Maria
grafia, psicologia, física, botânica, Schwertner, St Albert the Great
zoologia e mineralogia. Seus prin- (Milwaukee, WI, 1932); James A.
cipais livros sobre o pensamento W eisheipl, Albertus Magnus and
religioso são comentários sobre a the Sciences: Commemorative Es-
obra de Lombardo, explicações dos says (Toronto, 1979).
profetas maiores e menores e um R.G .C .
livro de teologia (Summa theologiae
[Suma teológica]). Sua obra difere ALBIGENSES. O albigensianismo,
da de muitos outros escolásticos seita medieval dualista, é o der-
porque ele não com enta cada linha radeiro herdeiro do ensinamento
do texto, mas, em vez disso, para- maniqueísta,* que se espalhou ao
fraseia a obra e acrescenta suas longo das rotas de comércio do
próprias observações. Ele não foi Oriente Médio e se tornou popular
tão bem-sucedido em desenvolver no norte da Itália e no sul da Fran-
um a síntese entre o cristianismo ça durante os séculos XI e XII. Os
e o pensamento aristotélico, como seguidores desse grupo, às vezes
seu aluno Tomás de Aquino, mas chamados de cataristas, ficaram
ele insistiu na integridade tanto na conhecidos como albigensianos por
área da revelação* como no reino causa de sua grande força centrada
da razão. Ele ensinou a importân- na cidade de Albi. Eles ensinavam
cia do aprendizado secular, mas que havia um deus de luz (espírito)
afirmou que, em últim a instância, e um deus de trevas (matéria). A
esse conhecimento não pode con- vida perfeita, destituída de coisas
tradizer a revelação divina. materiais, podia ser alcançada por
■ 49 ALEGRIA

meio do rigoroso asceticismo,* in- O NT é “o livro mais cheio de


cluindo a abstinência de refeições e ânimo, divertido e alegre do mun-
de sexo, e também pela condenação do” (J. Denney, Studies in Theology
da igreja medieval. Eles também [London, 1895], p. 171). É um livro
repudiavam o ensino ortodoxo a que contém razoável variedade de
respeito de Cristo porque não acre- palavras com o sentido de alegria,
ditavam que o Filho de Deus pu- palavras que nele ocorrem em um
desse se encarnar como homem. total de 325 vezes. Ali estão, por
Os albigensianos dividiam-se exemplo, a alegria exultante (agallia-
entre os “perfeitos” , que seguiam s is — e.g. At 2.46); o otimismo, que
de perto o ensinamento do grupo, e é o bom humor da fé (euthymein, ter
os “crentes”, que podiam continuar bom ânimo — At 27.22,25); Paulo
a levar um a vida normal até estar podendo exultar em Deus por cau-
à beira da morte, época em que sa da morte de Cristo (kauchasthai,
podiam assegurar a salvação se jactar-se — Rm 5.11); e, nas bem-
eles se arrependessem. De início, o aventuranças, Jesus declarando
papado tentou trazê-los de volta à felizes aqueles que demonstram de-
igreja por meios pacíficos, como o terminadas características (maka-
envio de pregadores especiais para rios, bem-aventurados, felizes —
o sul da França a fim de convertê- Mt 5.3-11; Lc 6.20-22). A raiz mais
los. Contudo, em 1208, o represen- comum para alegria no NT, contu-
tante papal foi morto em Toulouse, do, é aquela que expressa alegria
fazendo com que Inocente III (1160- interior (chara, alegria; chairein, re-
1216) recorresse a um a cruzada gozijar-se). Ela ocorre 146 vezes, do
que esmagou o movimento. total dos 326 casos mencionados.
Afinal, a mensagem predominante
Bibliografia em todo o NT é a de “boas-novas de
S. Runciman, The Medieval Mani- grande alegria, que são para todo o
chee (Cambridge, 1947). povo” (Lc 2.10).
R .G .C . Cada escritor do NT tem sem-
pre alguma coisa a dizer sobre a
ALEGORIA, ver H e r m e n ê u t ic a . alegria, em um a ou mais de suas
variedades. O evangelho de Lucas,
ALEGRIA. Componente essencial de por excelência, é o evangelho da
todo verdadeiro cristianismo, era alegria, enquanto a carta de Paulo
um aspecto m erecedor de destaque aos Filipenses, que tudo indica
na religião hebraica, na melhor das haver sido escrita na prisão, é a
hipóteses. A leitura da nova edição epístola do regozijo. Na literatura
da lei levou a um grande regozijo, de João, esse apóstolo enfatiza a
no tempo de Esdras, que resumiu plenitude do júbilo (ver, e.g., Jo
o sentimento geral, declarando: “A 17.13; lJ o 1.4). Pedro ensina a
alegria do Senhor é a nossa força respeito da alegria no sofrimento
[ou: os fortalecerá]” (Ne 8.10). O (lP e 3.14; 4.13,14), e a alegria da
livro de Salmos ressoa cheio de prática da religião é m ostrada por
alegria da adoração, especialmente Tiago {e.g., Tg 1.25). A alegria dos
a associada às grandes festas ju- redimidos é a que encontramos em
daicas no templo, em Jerusalém. Apocalipse {e.g., Ap. 22.14).
ALIAN ÇA 50 ■

A base da alegria cristã repousa estranho para os outros e para


nas principais doutrinas teológicas si mesmo. No NT, o verbo grego
da fé: a paternidade de Deus* e o apallotrioõ (estranhar, alienar) é en-
perdão de pecados, a encarnação*, contrado somente em Efésios 2.12;
a expiação*, a ressurreição de 4.18 e Colossenses 1.21 e sempre
Cristo* e a doutrina do Espírito na voz passiva (ver Stott, p. 90).
Santo*. Os cristãos regozijam-se Paulo se refere tanto à alienação
porque Deus é seu Pai celestial, da raça humana de Deus quanto à
que perdoa o pecador arrependido; sua de seus correligionários. Essa
porque Deus enviou seu Filho ao alienação básica é superada na
mundo para a salvação de todo cruz de Cristo (ver Expiação*).
aquele que tem fé (Jo 3.16); porque A alienação é também um tema
Jesus Cristo não somente morreu, das Escrituras, como um todo. A
mas ressurgiu dentre os mortos; e expulsão de Adão e Eva do Éden; a
porque a alegria é um dos nove fru- peregrinação de Caim como um fu-
tos do Espírito (G1 5.22). Tais são gitivo; a servidão de Israel no Egito
os firmes fundamentos teológicos e seu posterior exílio na Babilônia
da alegria cristã. simbolizam, todos, um a alienação
A alegria encontra expressão que faz parte da raça humana. Em
na nova atitude do crente para Lucas 15, a parábola do filho pró-
com a vida em sua totalidade e na digo, narrada por Jesus, oferece
adoração revitalizada. Esse último um a “anatomia m icrocósm ica da
aspecto tornou-se conhecido em alienação” (Jones, p. 176).
anos recentes, especialm ente por A palavra “alienação” por séculos
meio do movimento carismático. significou a transferência de posse
Para o crente em Cristo, cada de bens ou insanidade mental. Des-
domingo é um a celebração da res- de a década de 1940, no entanto, a
surreição e, como tal, deve sempre palavra passou a ser usada cada vez
trazer consigo a alegria da Páscoa. mais para descrever também a alie-
A alegria, no entanto, não se limita nação social e cultural. Influências
ao primeiro dia da semana, mas que contribuíram para isso foram,
afeta toda a vida diária e obra do entre outras, a vasta desorienta-
cristão. A vida cristã, em seu todo, ção causada pela Segunda Guerra
deve ser empregada no serviço ale- Mundial e os escritos de Weber*,
gre de Jesus. Kierkegaard* e de Tillich*.
Fonte importante constituiu
Bibliografia também a obra, na época recente-
J. Moltmann, Theology and Joy (Lon- mente publicada, dos Manuscritos
don, 1973); W. G. Morrice, W eJoy in econômicos e filosóficos de Marx.
God (London, 1977); idem, Joy in the Enquanto Hegel* e Feuerbach*
New Testament (Exeter, 1984). tinham visto a alienação como
W .G .M . parte do desenvolvimento da auto-
consciência do homem, Marx a via
ALIANÇA, ver P acto . como problema social e econômico
urgente. Para ele, o homem era
ALIENAÇAO. É a experiência de alienado na religião, sob o Estado,
ser um estranho, “fora de casa”, mas sobretudo em seu trabalho.
if 51 ALM A, ORIGEM

“Para Marx e Kierkegaard, o mundo desfrutaria de uma existência mais


em que Hegel se sentia ‘em casa’ se elevada antes de seu ingresso no
tornara alienado” (Lõwith, p. 173). corpo humano. Essa ideia coexistiu
Ao que parece, somos herdeiros frequentemente com a noção de uma
desse mundo. A alienação, impor- queda pré-cósmica e da transmigra-
tante conceito em psicologia social, ção da alma (ver Metempsicose*).
tem suas raízes em um a realidade Entre os gnósticos* e outros, a alma
teológica básica: a de que a raça era apresentada como um a emana-
humana está alienada de Deus, da ção da própria substância divina.
criação, de seus semelhantes e de Embora defendida por Orígenes*,
si mesma. essa ideia foi amplamente condena-
da nos séculos V e VI.
Bibliografia 2. Traducianismo (também conhe-
EB (ed. 1974), vol. 1, p. 574-576; cido como generacionísm o). Esta
G. V. Jones, The Art and Truth o f ideia preconiza que, tal como o
the Parables (London, 1964); K. corpo, a alm a procede de pais
Lõwith, From H egel to Nietzsche: para filhos mediante a procriação.
The Revolution in Nineteenth-Cen- Tal pensamento foi advogado por
tury Thought (London, 1965); B. Tertuliano*, que, sob influência
Oilman, Alienation: M a rx’s Con- estóica*, acreditava que a alma era
ception o f Man in Capitalist Society material. O traducianismo susten-
(Cambridge, 1976); J. R. W. Stott, tava, de modo mais consentâneo,
The Message o f Ephesians: G od’s a doutrina de nossa solidariedade
New Society (Leicester, 1979); R. no pecado original* “em Adão”
M. Vince, Alienated Man: The The- (consequentemente negada pelos
me o f Alienation in the Writings o f pelagianos*), que se tornou ensino
Karl Marx and S0 ren Kierkegaard do luteranismo*.
(dissertação não publicada de 3. Criacionismo. Esse ponto de
Mestrado em Teologia no King’s vista tem desfrutado do mais
College, Londres, 1980). amplo apoio, afirmando que Deus
R.M .V. cria a alma ex nihilo para cada ser
humano. (Isso conduz a um a ques-
ALMA, ver A n t r o p o l o g i a . tão adicional, a respeito de quando
Deus implanta a alma — se na
ALMA, ORIGEM. A origem da alma concepção ou em algum outro
nos descendentes de Adão é uma momento posterior na gestação.)
questão que por longo tempo resis- O criacionismo é a doutrina oficial
tiu a um a explicação concorde en- do catolicismo romano (reafirmado
tre os teólogos cristãos, em grande em 1950, na encíclica Humani
parte por terem as discussões Generis, contra o evolucionismo),
assumido um a antropologia* que mas tem geralmente recebido tam-
considerava a alma um a entidade bém apoio de teólogos reformados
diferente do corpo. (cf. H. Heppe, Reformed Dogmatics,
Para os pais primitivos, três 1861, reimp. London, 1950, p.
seriam as principais opções: 227-231). Mantém, de modo mais
1. Preexistência. O platonismo* determinado, a diferenciação entre
inspirou a crença de que a alma a alma (e.g., imortal*, !material e
ALTHAUS, PAUL 52 ■

indivisível) e o corpo, assim como SI 33.4; 139.13-16, etc.), mesmo em


a posse de Cristo da alma humana sua formação no ventre materno.
liberta do pecado. (O apolinarismo*
assumiu um a posição traducianis- Bibliografia
ta.) Os criacionistas encontram G. C. Berkouwer, Man: The Image
suporte bíblico em textos como o f God (Grand Rapids, MI, 1962).
Gênesis 2.7; Eclesiastes 12.7; Za- D .F.W .
carias 12.1 e Hebreus 12.9.
As opções quanto a essa questão ALTHAUS, PAUL (1888-1966). Urn
têm sido fortemente influenciadas dos mais relevantes teólogos lute-
pelos diferentes entendimentos a ranos do século XX, Althaus teve
respeito do pecado original e do seu um a longa carreira de magistério
impacto sobre a natureza humana. na Universidade de Erlangen, Ale-
Isso se mostra evidente nos constan- manha. A maior parte de sua obra é
tes conflitos de Agostinho no tocante caracterizada por um profundo en-
a esse tema. Ele permanece indeciso trosamento com o pensamento de
até o fim e somente a transmissão Lutero*. Juntamente com contem-
do pecado o resguarda de esposar porâneos seus, como Werner Elert
o ponto de vista criacionista. As (1885-1954), e sob a influência de
diferentes ideias dos reformados e seus mestres Holl* e Carl Stange
luteranos a respeito relacionam-se (1870-1959), Althaus representa
também a suas perspectivas dis- a mudança de um interesse pu-
tintas quanto à queda do homem ramente histórico em Lutero para
criado à imagem de Deus. o uso deste como fértil estímulo
Na era moderna, a rejeição em teológico. Seu restabelecimento de
larga escala pela teologia bíblica de Lutero como teólogo corrige ava-
todas as antropologias dicotomistas liações ritschilianas* prematuras,
parece favorecer o traducianismo, notadamente quanto à centralidade
mas, na verdade, subverte um a su- da doutrina da justificação de Lute-
posição comum a todas as tradições. ro e sua teologia da cruz*, embora
A “alma” (palavra escassamente Althaus faça crítica do que consi-
usada nas traduções modernas da dera o pessimismo excessivo de Lu-
Bíblia) não é um a parte da natureza tero sobre o pecado e sua teologia
humana, mas a caracteriza em sua eucarística. A própria dogmática de
totalidade, exatamente como o fa- Althaus, em Die christliche Wahrheit
zem “carne” e “espírito” (c f Estado [A verdade cristã), representa uma
Intermediário*). Uma origem à par- das principais alternativas ao en-
te ou diferente para a “alma” não tendimento cristocêntrico da reve-
entra mais em cogitação. Todavia, lação* por Barth. Entre seus outros
se devemos aos nossos pais a totali- escritos, estão um a escatologia,
dade do nosso ser, a fé bíblica nega estudos de ética e um comentário
também que Deus não esteja mais sobre a epístola para os Romanos
ativamente criando (como alegava o muito empregado.
traducianismo, citando Gn 2.2). A
totalidade da pessoa humana, tan- Bibliografia
to alma como corpo, é um a criação Obras em TI: The Ethics o f Martin
divina maravilhosa (c f Jó 10.8-12; Luther (Philadelphia, 1972), ver
• 53 AM BRÓSIO

Prefácio; The Theology o f Martin imperial. No reinado de Teodósio I,


Luther (Philadelphia, 1966). imperador que se tornou responsá-
H. Grass, in: TRE 2, p. 329-337; vel por indiscriminado massacre em
W. Lohff, in: L. Reinisch (ed.), Theo- Tessalônica, Ambrósio excomungou
logians o f Our Time (Notre Dame, esse governante até que viesse a as-
IN, 1964), p. 48-64. sumir penitência pública pela prá-
J.B.We. tica de tal crime. Teodósio aceitou
a disciplina eclesiástica. Em outras
AMBROSIASTER ver A m b r ó s io . oportunidades, porém, a asserção
de Ambrósio como autoridade ecle-
AMBRÓSIO (c. 339-397). De forma- siástica não foi tão feliz. O bispo de
ção cristã no seio de família aristo- Callinicum havia estimulado alguns
crática romana, Ambrósio abraçou a monges a queimar a sinagoga local.
carreira profissional da administra- Teodósio queria que a sinagoga
ção pública. Aos 30 anos, foi nome- fosse reconstruída pelo bispo, mas
ado governador da Ligúria-Emília, Ambrósio o impediu, alegando que
com residência em Milão. Em 374, um imperador cristão não devia se
essa cidade entrou em agitação por mostrar favorável a judeus incré-
causa da eleição episcopal. Ambró- dulos. Ambrósio assumiu tal posi-
sio foi, então, eleito novo bispo por ção por não distinguir entre seus
aclamação popular. deveres pessoais e os do seu cargo
No exercício do cargo, revelou-se público. Mas de um modo geral
decidido oponente do arianismo*. sua contribuição para a autoridade
Perito conhecedor da língua grega, eclesiástica no Ocidente foi boa.
pôde traduzir em latim claro o me- Estabeleceu que havia esferas sepa-
lhor da teologia oriental de Niceia. radas de autoridade para a Igreja e
Frutos desse trabalho foram suas para o Estado. Em algumas áreas,
obras Sobre a fé & Sobre o Espírito também, o imperador foi conduzido
Santo. Envolveu-se também politi- mediante orientação da igreja.
camente pelo fim do arianismo, to- Ambrósio preocupava-se gran-
mando providências para eliminá- demente com os deveres práticos
lo da Ilíria. No entanto, por volta de do episcopado, entre os quais deu
380, em Milão, foi pressionado pela destacado valor à instrução das
própria mãe do imperador infante Escrituras. Adquiriu considerável
Valentiniano II para ceder uma reputação como pregador (quali-
igreja aos adeptos do arianismo dade com que viria a contribuir
naquela cidade. Ambrósio, tendo significativamente para a conversão
sua vida ameaçada, obteve sucesso de Agostinho*), ao mesmo tempo
na resistência contra os arianos, em que seus escritos foram muito
graças ao apoio da população local, adequados como auxílio aos crentes
baseando sua firme posição na ale- em geral. Ele não deu origem a um
gação de que um templo de Deus pensamento teológico muito novo,
não poderia jam ais ser entregue embora tenha esboçado a doutrina
assim justam ente por um bispo. do pecado original*. Mas em teo-
Não foi essa a única ocasião logia eucarística* foi o primeiro no
em que Ambrósio afirmou a inde- Ocidente a falar em mudança na
pendência da igreja do controle natureza dos elementos, sendo ato
AM ES, WILLIAM 54 β

eucarístico, quase criativo, produ- nal das Igrejas Reformadas France-


zido, segundo ele, pelo sacerdote, sas. Desfrutou do favor especial de
agindo no lugar de Cristo, ao repetir Philippe Duplessis-M ornay (1549-
as palavras usadas pelo Senhor na 1623), governador de Saumur e
última ceia. Ambrósio foi também um dos líderes protestantes mais
destacado pioneiro no Ocidente destacados e influentes naquela
em exegese alegórica (ver Herme- virada de século. Tendo alcançado
nêutica*), neoplatonismo cristão e grande sucesso na França e nos
teologia ascética*. países estrangeiros pelo seu brilho
Entre os muitos manuscritos de como faculdade, atraiu considerá-
Ambrósio, encontra-se um a série vel número de estudantes, até vir
de comentários sobre as epístolas a ser extinta por ordem do rei Luís
paulinas. O verdadeiro autor des- XIV, com a revogação do Édito de
ses escritos, chamados por Erasmo Nantes, em 1685.
de Ambrosiaster, no entanto, foi A escola ficaria conhecida
um desconhecido contemporâneo também pelo seu encorajamento
de Ambrósio. Tais comentários a ideias progressistas e por sua
exerceram importante influência consideração especial aos nobres e
no desenvolvimento da doutrina abastados. Isso se tornou bastante
do pecado original, pela interpre- claro na filosofia, pela vigorosa
tação de Romanos 5.12 como do defesa dos ramistas (adeptos das
envolvimento da totalidade da raça ideias de Petrus Ramus, Pierre de
humana no pecado de Adão e con- la Ramée*) contra a lógica aristo-
sequente legado de corrupção para télica*, que perm anecia sendo o
todos os seus descendentes. padrão em instituições mais tradi-
cionais, como de Sedan, Genebra
Ver também E s t o ic is m o . ou Leiden. Na teologia, a influên-
cia de John Cameron (1579-1625)
Bibliografia foi ali um aspecto predominante,
F. H. Dudden, The Life and Times muito embora ele tenha lecionado
o f St Ambrose, 2 vols. (Oxford, em Saumur somente entre 1618
1935); H. von Campenhausen, The e 1621. Durante esse tempo, no
Fathers o f the Latin Church (Lon- entanto, pôde exercer grande in-
don, 1964). fluência sobre três de seus alunos:
G.A.K. Louis Cappel (1585-1658), Josué
de la Place (Placaeus, 1596-1655),
AM ES, WILLIAM, ver T e o l o g ia Pu- e o mencionado Moise Amyraut.
RITANA. Esses três estiveram envolvidos,
cada qual individualmente, em
AMIRALDISMO. Essa palavra é controvérsias a respeito de ensinos
derivada da form a latina do nome cuja tendência era a de am pliar a or-
de Moise Am yraut (1596-1664), todoxia reformada*, representada,
talvez o mais eminente e influente por exemplo, no Sínodo de Dort*.
professor da Academ ia Protestante Cappel tomou parte ativa em uma
Francesa de Saumur. discussão relacionada à presença
Essa instituição foi fundada em de sinais gráficos em vogais no
1598 por decisão do Sínodo Nacio- texto hebraico original, afirmando,
V- 55 AMIRALDISMO

em contenda com Johann Buxtorf, seres humanos para a salvação,


de Basiléia, que esses sinais eram contanto que se arrependessem e
um a adição posterior, feita pelos cressem. Para implem entar esse
massoretas (ver Crítica Bíblica*) propósito, Deus enviou seu Filho,
para facilitar a leitura das Escri- o Senhor Jesus Cristo, para morrer
turas por pessoas que tivessem pelos pecados de toda a humani-
pouco conhecimento do hebraico. dade. Todavia, visto que os seres
Os estudiosos, mais tarde, viriam humanos não iam se arrepender
a lhe dar razão, embora perm aneça nem creriam por sua própria ini-
como verdadeiro que o texto sem ciativa, Deus resolveu conceder seu
os referidos sinais constitua um Espírito, em medida especial, para
padrão indubitável de autenticida- alguns somente, os eleitos. A graça
de. Placaeus promoveu a teoria da é vista, assim, como universal na
imputação mediata, de acordo com provisão da salvação, mas como
a qual os descendentes de Adão* particular em sua aplicação. Con-
não eram considerados culpados siderando a questão desse modo,
do pecado original, mas já nasciam Am yraut pensava poder continuar
corruptos como resultado daquele adepto dos Cânones de Dort e, ao
pecado, incorrendo assim no de- mesmo tempo, oferecer um a mos-
sagrado de Deus por causa de sua tra da benevolência de Deus mais
corrupção. O Sínodo Nacional de fiel às Escrituras, na verdade à
Charenton (1645) expressou suas Calvino*, em vez de recorrer a um a
reservas quanto a essa afirmativa, abordagem totalmente partícula-
embora os teólogos de Saumur rista, que caracterizava a ortodoxia
insistissem em que isso não signi- reform ada no segundo quartel do
ficava que houvesse condenado as século XVII.
ideias de Placaeus. As ideias de Am yraut ganharam
Moise Am yraut foi, sem dúvida, o apoio de seus colegas de Saumur
o teólogo mais festejado dessa es- e dos pastores da influente Igreja
cola, onde atuou desde 1633 até a Reformada de Charenton, próxima
época de sua morte, em 1664. Es- a Paris. Ele recebeu forte oposição
teve envolvido em séria discussão de Pierre du Moulin, de Sedan
relativa ao alcance da graça divina, (1568-1658), André Rivet, da
à predestinação* e à extensão da Holanda (1572-1651), e Friedrich
expiação* de Cristo. Pretendia ele Spanheim, de Genebra e Leiden
suavizar o extremismo do ponto (1600-1649). No Sínodo Nacional
de vista reformado tradicional e de Alençon (1637), Am yraut foi ad-
ortodoxo a fim de superar dificul- moestado, mas não condenado por
dades nas controvérsias com os heresia. A controvérsia se inflamou
católicos e possibilitar um a união até 1661, com três períodos de
dos protestantes em que reforma- intensidade especial: 1634-1637,
dos e luteranos pudessem, juntos, 1641-1649 e 1655-1661. No último
cerrar fileiras. Em seu Traité de la período, Am yraut não participou
Prédestination [Tratado dapredesti- dos debates, levados a efeito por
nação] (1634), declarava que Deus, Jean Daillé (Dallaeus, 1594-1670)
movido por seu amor pela raça e por Samuel Desmarets (Maresius,
humana, havia designado todos os 1599-1673).
AM OR 56 »

Várias avaliações do impacto Bibliografia


da teologia de Saumur têm sido A mais completa abordagem a res-
realizadas. Parece evidente que ela peito de Saumur pode ainda ser en-
tendia a enfraquecer a unidade do contrada em P. Daniel Bourchenin,
pensamento reformado e a abrir Étude sur les Académies protestan-
a porta para crescentes desvios tes en France au XVIIe et au XVIIP
da ortodoxia reformada. Pode ter siècles (Paris, 1882). Pesquisas fei-
contribuído para levar Luís XIV e tas por Jean Paul Pittion no Trinity
seus conselheiros à ideia de não College, de Dublin, Eire, são muito
haver incompatibilidade intrínseca valiosas, mas de difícil acesso.
entre a fé reform ada e o catolicis- Brian Armstrong, Calvinism and
mo. Assim, foi o rei levado a crer, the Am yraut Heresy (Madison, WI,
erroneamente, que a revogação 1969); François Laplanche, Ortho-
do Édito de Nantes não causaria doxie et Prédication (Paris, 1965);
grande tumulto na França. J. Leith, Creeds o f the Churches
Os três professores de Saumur (Richmond, VA, 31982); Roger Ni-
produziram juntos a grande obra cole, Moyse Amyraut. A Bibliogra-
Theses Theologicae Salmurienses phy (New York & London, 1981); P.
[Teses teológicas salmurienses] (4 Schaff, Creeds o f Christendom, vol.
partes em 2 vols., 1664 e, nova- 1 (London, 1877), p. 477-489; B.
mente, 1665), que se tornou, com B. Warfield, The Plan o f Salvation
frequência, manual de estudo da (Grand Rapids, MI, 1942). Conside-
teologia. rem-se também as dissertações de
Um dos alunos e sucessores de doutorado feitas por J. Moltmann,
Amyraut em Saumur, Claude Pajon em Gottingen (1951), e L. Proctor,
(1625-1685), levou sua tendência em Leeds (1952).
ainda mais longe ao definir a obra R.N.
da regeneração* como apenas uma
iluminação da mente, que produzi- AMOR. Cristo sintetizou todo ο
ria, necessariamente, um a mudan- nosso dever de amar a Deus com
ça na direção da vontade humana a totalidade do nosso ser e ao
(congruísmo; ver Mérito*). Essa próximo como a nós mesmos (Mt
ideia, que recebeu forte oposição 22.34-40). Mas o que é amor?
de Pierre Jurieu (1637-1713), fez
aumentar as apreensões a respeito Os vários tipos de "amor"
da ortodoxia de Saumur. Em 1675, No AT, a palavra hebraica mais
J. H. Heidegger criaria, em conjun- comum para “am or” , ãhêb, tem
to com F. Turretin (1623-1687) e conotações tão amplas quanto a
L. Gernler, a Formula Consensus referida palavra em nosso idioma,
Helvetica [Regra de consenso hei- mas no grego diversas palavras são
vética], elaborada especificamente usadas para descrever os diferen-
como um documento anti-Saumur. tes tipos e facetas do amor. Storgè
Todavia, a influência de Saumur se significa “afeição natural” (como,
fez sentir em todos os países para por exemplo, entre mãe e filho);
os quais os protestantes franceses philia, a afeição de amigos ou de
fugiram após a revogação do Édito espíritos familiares (ou, ainda,
de Nantes. gosto por algum a coisa); e erõs, a
i§ 57 AM OR

atração do desejo, especialmente A. Nygren* (em A gape and Eros)


no amor sexual (embora empregado acusa Agostinho* e outros de con-
às vezes, também com um signifi- fundir agapè e erõs com o am or
cado filosófico mais elevado). Mas divino, especialm ente quanto ao
é agapé o substantivo grego, relati- am or humano por Deus, e de aca-
vãmente incomum, usado tanto na bar desem bocando em um híbrido
LXX quanto no NT para descrever o de ambos — caritas (“caridade”) — ,
amor autodoador de Deus*, revela- baseado mais em atração e desejo
do em Jesus Cristo* (ver Graça*), e do que no am or generoso e altru-
que constitui o poder motivador e o ísta de Deus, que desperta um a
padrão da vida cristã. Todos esses resposta semelhante no coração
quatro tipos de “am or” denotam, humano. Embora importante a
em comum e ao mesmo tempo, advertência de Nygren quanto a
um estado interior de sentimento essa confusão, é questionável se
ou disposição do coração, além de sua crítica é inteiram ente ju sta
uma atitude mental ou modo de para com Agostinho*. Com certeza,
pensar, bem como um a forma de que um tanto da linguagem dos
conduta, de ação ou reação, para Salmos, por exemplo, transmite
com 0 (s) objeto(s) do amor. alguma ideia de atração e desejo
espirituais conduzindo o coração
Agapè e erõs do crente a Deus; mas evidente-
Agapé, no sentido de amor seme- mente procurar fundam entar o
lhante ao de Deus, é, além disso, am or por Deus (como Agostinho
claramente distinto dos demais ti- algumas vezes pode parecer fazer)
pos de amor. Os três primeiros são, em típico am or de um a pessoa por
todos, naturais, mesmo no homem si m esm a ou pelo seu bem maior
decaído*, enquanto agapé, amor seria arriscar a cair em equívoco.
semelhante ao de Deus, não o é. Mais arriscado ainda é o uso abu-
Todos os quatro são essencialmente sivo de imagens físicas e sexuais,
dados por Deus, mas o pecado*, na conforme feito por alguns místi-
humanidade decaída, distorceu de cos* medievais, para descrever a
modo perverso os três primeiros e relação da alma crente para com
efetivamente afastou o agapè, até Cristo (amplamente fundamentado
a graça do Espírito Santo de Cristo no uso alegórico, excessivo e errô-
começar a recriá-lo com a regene- neo, de Cântico dos Cânticos).
ração* e renovar a pessoa humana, Torna-se necessário que o
gradativamente, à imagem de Deus*. agapé, o amor em homens e mu-
(O amor erõs tornou-se tão maldo- lheres que representa a graça
samente degradado em luxúria no divina, permeie, informe, dirija e
mundo greco-romano que o NT evita controle todos os outros tipos de
o seu uso de modo total). Além dis- “am or” e todos os relacionamentos
so, nas Escrituras, enquanto philia do cristão com as demais pessoas.
pode ser usado até com referência a Na verdade, as outras formas de
objetos impessoais, agapé é empre- amor só serão sanadas, para fun-
gado apenas no tocante a relaciona- cionar verdadeiramente, permane-
mentos inteiramente interpessoais cer e serem desfrutadas na devida
(humanos e/ou divinos). medida, quando o agapè estiver no
AM OR 58 Μ

controle. Isso pode ser visto, justa- doar de si mesmo, em ação prática
mente, na aplicação que Paulo faz e sacrifício (Jo 14.1,24; 15.12-14).
dos seus princípios de controle aos Por tal amor, como a mais essencial
diversos relacionamentos específi- e duradoura qualidade na vida hu-
cos da vida, em Efésios 5.21— 6.9 e mana, os cristãos devem ser conhe-
Colossenses 3.12— 4.1. A esse amor cidos (1C0 13; Jo 13.34,35).
não compete apenas controlar os
relacionamentos, por exemplo, na Amor e lei
família ou no local de trabalho, O amor específico relativo à lei*
mas também e especialmente os de Deus é um dos indicadores
dos membros da igreja entre si (1J0 mais puros de um a teologia e
4.7— 5.3), assim como para com os vida cristãs equilibradas (ver Lei
necessitados e até mesmo para com e Evangelho*). Dois riscos, iguais
os inimigos (Lc 10.25-37; 6.27-36). e contrários, têm de ser evitados:
o legalismo, que expulsa o amor
Um amor singular e distinto como dinâmica do evangelho e da
O agapê, por ser semelhante ao vida cristãs (banindo assim a ale-
amor de Deus, mantém-se em to- gria* da religião), pela redução à
tal contraste com todas as ideias obediência ou conformidade a uma
pagãs de amor em um mundo de- série de mandamentos ou regras
caído. Enquanto essas ideias estão externas, ã moda dos escribas e
sujeitas a manipulação, porque fariseus, como narram os Evange-
são amplamente autocentradas e lhos; e seu oposto, o antinomianis-
agem em interesse próprio, auto- mo, que interpreta erroneamente
-satisfação e autoproteção, o agapê tanto o ensino de Paulo a respeito
é completamente altruísta. Não tem de havermos “morrido para a lei”
por base nem a necessidade sentida quanto a famosa máxima de Agos-
pela pessoa amada nem um desejo tinho, frequentemente citada de
revelado por um aspecto atraente modo equívoco, que diz: “Ame [a
dela; não está sujeito a se tornar Deus] e faça o que quiser” . Dizem
vulnerável nem busca meios pró- os adeptos do antinomianismo que
prios de ocultar artifícios e “jogos” o cristão deve esquecer totalmen-
psicológicos. Mas procede de um co- te a lei, deixando para trás todo
ração amoroso, dirigindo-se a outra mandamento, exceto o do amor
pessoa para abençoá-la e buscar 0 — procedim ento que geralmente
seu mais elevado bem (cf. IC o 13.4- acaba degenerando, na prática, em
7). Sua fonte é Deus, e seu padrão licenciosidade moral, em lugar de
e inspiração são Jesus Cristo (1J0 prom over a verdadeira liberdade
4.7-19). Avalia as outras pessoas cristã* [i.e., libertação do pecado
tendo um fim digno em si mesmas para servir a Deus e ao próximo).
e não as usa meramente como um O evangelho da graça de Deus
meio para um fim. Seja em relação em Jesus Cristo liberta o cristão de
a Deus seja em relação ao homem, ambas essas tendências errôneas.
o princípio que nele predomina não Em primeiro lugar, ninguém pode
é simplesmente a emoção, mas a ganhar a salvação* mediante boas
devoção, demonstrada em com- obras da lei, mas somente recebê-
prometimento e determinada pelo la como livre dom do am or de Deus
m 59 AM OR DE DEUS

em Cristo (Rm 3.19-28; E f 2.8,9). (London, 1968); D. Guthrie, New


Em segundo lugar, o Espírito Testament Theology (Leicester,
Santo* vem habitar no interior do 1981); E. W. Hirst, Studies in
cristão e escreve a lei de Deus em Christian Love (London, 1944); C.
seu coração como verdadeira carta S. Lewis, The Four Loves (London,
de amor (Hb 10.16; 2C0 3.1-6). Em 1960); J. Moffat, Love in the New
terceiro lugar, o coração rebelde, Testament (London, 1929); L.
convencido do pecado pelos man- Morris, Testaments o f Love (Grand
damentos da lei é transformado Rapids, MI, 1981); A. Nygren, Aga-
pelo am or de Deus, passando a ver p e and Eros, 3 vols. (TI, London,
a lei como boa, expressão da von- 1932-1939); O. O ’Donovan, The
tade am orosa de Deus para com a Problem o f S e lf Love in St Augustine
vida humana, bênção e estrutura (New Haven & London, 1980); C.
para os relacionamentos de amor. Spicq, Agape in the New Testament
Por conseguinte, com eça a desfru- (TI, St Louis & London, 1963).
tar de prazer interior (Rm 7.7— 8.8; J.P.B.
13.8-10; Tg 2.8-13). Por fim, em-
bora não desprezando, mas, do AMOR DE DEUS. Já que Deus é luz
contrário, respeitando literalmente (1J0 1.5) e amor (lJ o 4.8), seu amor
os mandamentos da lei de Deus, não é apresentado nas Escrituras
o cristão é ensinado por Cristo a separadamente de sua santidade.
olhar além da letra, ou seja, para a
intenção e o espírito que se acham Deus é amor santo
por trás dos mandamentos, procu- A autorrevelação de Deus, culmi-
rando aplicar, qualquer que seja a nando em Jesus Cristo, m ostra
situação, os princípios que neles seu caráter interior com o um am or
se encontram subjacentes de amor essencialm ente santo (1J0 4.7,8).
total por Deus e pelos outros (Mt Am or e santidade com binam tão
22.34-40; 23.23,24). Mas a base perfeitam ente nele a ponto de
total da vida do cristão (sua segu- ser ao m esm o tempo bondoso e
rança, motivação, dinâmica e pa- paciente e, no entanto, firm e e
drão) não é a lei, mas, sim, a graça forte. Esse am or encontra expres-
— o agapé de Deus, derramado no são eterna em Deus, nas relações
coração por meio do Espírito Santo entre Pai, Filho e Espírito Santo
(Rm 5.5) — , que torna as pessoas (Jo 17.5,22-26), e, portanto, não
livres para cumprir sua vontade em depende de um relacionam ento
obediência de fé (Rm 5.5-8; 6.14; com as criaturas, em bora seja ex-
7.6; G1 5.1,13-25). tensivo a elas (SI 50.12ss). O AT e
o NT usam de diversas imagens de
Ver também A m or de D eus. relacionam ento hum ano para ilus-
trar o am or de Deus pela humani-
Bibliografia dade — pelos pecadores e pelo seu
J. N. D. Anderson, Law, Morality próprio povo ou seus filhos: ima-
and Grace (London, 1972); M. C. gens de am izade, de pais e filhos,
D ’Arcy, The Mind and Heart o f Love de nam oro e casam ento e de cui-
(London, 1945); D. Day Williams, dado com passivo pelos necessi-
The Spirit and the Form s o f Love tados (Jo 15.13-15; Lc 15.11-32;
A M OR DE DEUS 60 *

Ez 16; Lc 11.5-8). Na verdade, to- nascimento, em sua vida, em seu


dos esses tipos de relacionam ento ministério, em sua paixão e em seu
têm sua fonte no próprio Deus dom do Espírito Santo*. O esvazia-
(E f 3.14,15). O am or humano, mento de si mesmo do Criador para
no entanto, diferentem ente do de assumir a natureza humana em Be-
Deus, com frequência, é desfigu- lém; o ministério e a atenção especial
rado e distorcido pelo pecado, e, de Jesus com os desprezados, os
portanto, deve ser tom ado apenas proscritos e os negligenciados; suas
com o um a representação, nessas parábolas sobre o amor e os cuida-
imagens humanas. dos do Pai; a humilhação deliberada
de si mesmo, sofrendo a ignomínia,
Um amor singular a vergonha e a agonia de sua morte
O amor de Deus é tão singular e para levar sobre si o pecado, assim
distinto em um mundo decaído como sua paixão em favor daqueles
que a Bíblia, regularmente, usa de que o rejeitavam — tudo isso procla-
um a palavra grega incomum para ma a uma só voz o admirável amor
descrevê-lo (agapè; ver Amor*). O de Deus (Fp 2.5-8; Lc 5.27-32; 7.36‫־‬
amor de Deus é eterno, constante 50; 15; lP e 2.22-24). A atividade
e definitivamente invencível ante o característica desse amor é a doação
poder do ódio e do mal dos demô- comprometida de si mesmo, e seu
nios ou dos homens. É identificado padrão próprio é o do sacrifício de si
por seu relacionamento benevolente mesmo. Sua ressurreição mostrou a
para com a totalidade da criação (SI invencibilidade de tal amor santo, e
145.9), mas mais claramente ainda o dom da promessa do Espírito San-
por sua salvação dos pecadores e o to o transformou, a partir de uma
seu relacionamento com seu povo. demonstração exterior, em uma
O amor de Deus é soberano, livre e realidade interior de profunda segu-
gracioso, havendo por bem conferir rança e poder duradouro, pelo qual
sua graça e suas bênçãos com base faz retom ar os homens e mulheres,
em seu próprio caráter, desejo e de modo progressivo, à sua própria
propósito, e não em qualquer mé- imagem (Rm 8.9-30).
rito elevado por parte daqueles que
são amados (Dt 7.6-9; E f 2.8,9; Rm Motivação, dinâmica
3.20-28; 9.6-24). O amor de Deus e padrão da vida cristã
está constantemente se estendendo O amor de Deus revelado às pessoas
em direção à humanidade rebelde: em Cristo e recebido interiormente
perdoa o pecador e o aceita arrepen- mediante o Espírito é a segurança
dido em seu reino. Esse amor espe- definitiva e inabalável do cristão (Rm
ra, presume e infere uma resposta 8.31-39), constituindo a motivação,
de confiança e amor no coração a dinâmica e o padrão da vida do
humano (Jo 3.16-21). cristão e dos seus relacionamentos,
tanto com o próprio Deus quanto
Amor revelado de modo com o semelhante, homem ou mu-
supremo em Jesus Cristo lher. Os cristãos são chamados a
A extensão e a profundidade do amor tratar os outros com o mesmo amor,
divino podem ser observadas bem perdão e compaixão que eles mes-
nitidamente em Jesus* — em seu mos recebem de Deus em Cristo (Mt
■ 61 A N A LO G IA

5.43-48; 18.21-35; E f 4.32— 5.2; religiosa*) usada para descrever a


lJ o 4.7—-5.3; G1 6.10; lP e 2.19-25; Deus. A linguagem humana nasce
3.8,9). O aspecto mais distintivo da experiência de finito, criou coi-
do amor similar ao de Deus na sas; depois, sem dúvida, ela não
vida humana é sua capacidade e pode ser usada em seu sentido
desejo de amar não apenas aqueles natural para descrever um Criador
seres humanos por si só atraentes, infinito. Todavia, ela não pode ser
consentâneos do mesmo modo de usada de forma não natural e ain-
pensar ou amigáveis para conosco, da perm anecer relevante. A teoria
mas também os indesejados, os do tomismo* é de que há analogia
desprezados, aqueles a quem os entre o sentido das palavras apli-
outros geralmente não amam (Lc cadas ao mundo e o das mesmas
6.27-38; 14.12-14). Tal amor não palavras quando aplicadas a Deus;
representa um mero sentimento ou e isso é recíproco. Encontramos
desejo do coração, mas, sim, uma analogia de atribuição quando,
disposição interior e uma atitude por exemplo, um clima é chama-
mental constante, assim como uma do de “saudável”, pois torna seus
maneira de tratar as pessoas, por habitantes saudáveis (habitantes
palavras e ações, colocando os in- esses a quem a palavra “saudável”
teresses delas acima dos próprios é aplicada de forma apropriada).
(IC o 13.4-7; Mt 7.12; Fp 2.4). Por essa razão, Deus pode ser cha-
mado de “bom ” como a origem da
Bibliografia bondade criada. Mas essa forma
Ver as respectivas bibliografias de: de analogia, à m edida que tam-
Deus e Amor. bém poderia igualmente justificar
J.P.B. chamar a Deus de “lilás” , não tem
com parativamente importância.
ANALOGIA. O argumento por ana- A analogia de proporcionalidade
logia considera que se alguns prin- mantém-se entre qualidades cor-
cípios forem obtidos em uma área, respondentes de duas coisas de
eles também podem ser obtidos em tipos distintos. Por isso, a lealdade
alguma outra área análoga. Por isso, em um cachorro não é idêntica
se a complexidade e a regularidade à lealdade no ser humano nem é
em um relógio implica que ele foi totalmente diferente desta; há um a
conscientemente planejado, talvez analogia entre as duas.
a complexidade e a regularidade De form a semelhante, a justiça,
do universo também implique que a sabedoria, etc. perfeitas de Deus
ele foi planejado por Deus. Um uso não são idênticas nem totalmente
teológico celebrado desse tipo de diferentes da justiça, da sabedoria,
analogia foi o argumento de Joseph etc. que vemos ao nosso redor, mas
Buttler* de que há um a semelhança são análogas a elas: por isso, pala-
entre o curso da natureza e o siste- vras como “ju sto ” e “sábio” podem
ma descrito na revelação; por essa ser aplicadas de form a inteligível
razão, pode-se acreditar que ambos a Deus, embora a exata natureza
têm o mesmo autor. dele perm aneça um mistério.
A doutrina analógica é um a te- As objeções à doutrina aná-
oria da linguagem (veja Linguagem Ioga são as seguintes: 1. Ela não
AN AM N ESE 62 *

im possibilita o raciocínio a respeito Irlanda, sob influência da Reforma*


de Deus? Se a sabedoria de Deus é do século XVI, sendo depois trans-
misteriosamente distinta da sabe- posta também, por emigrantes e
doria humana, ele não pode agir de missionários, para as possessões
maneiras que, em linguagem clara, britânicas no exterior e para outros
não são sábias? Os analogistas po- lugares. Seu grande arquiteto foi
dem responder que as qualidades Thom as Cranm er (1489-1556), ar-
de Deus diferem das nossas por cebispo de Cantuária desde 1532,
serem melhores, não piores (e citar que muito deveu aos reformadores
IC o 1.25). 2. A teoria não está mui- europeus que o precederam (tan-
to intimamente ligada à teologia to- to luteranos* quanto suíços ou
m ista natural? Historicamente, as reform ados*), mas cuja própria
duas têm sido associadas, mas não erudição e independência de pen-
há necessariamente ligação entre samento deu à Reforma inglesa seu
elas. 3. Talvez ainda mais sério: a caráter distinto (ver Reformadores
analogia é realmente necessária? Ingleses*).
A Bíblia e o discurso cristão, em Do mesmo modo que Lutero,
geral, falam mais dos atos de Deus Cranmer agiu com base no princí-
no mundo criado que do ser inte- pio, um tanto cauteloso, de mudar
rior dele. Além disso, se a diferença o que (à luz da Bíblia) precisava
entre as qualidades de Deus e as mudar, mas sem com eçar de novo.
nossas, como alguns analogistas Garantiu os direitos de edição da
sustentam, é que ele está totalmen- tradução da Bíblia em inglês (obra
te livre das imperfeições que nós te- de W illiam Tyndale, c. 1494-1536,
mos, isso pode ser entendido sem a e Miles Coverdale, 1488-1568);
ajuda da analogia. Deus permanece criou a liturgia inglesa do Livro de
maior do que aquilo que as palavras oração comum (revisão de grande
podem expressar, mas, sempre que repercussão da liturgia Sarum
as palavras podem ser usadas, elas latina, no vernáculo); esboçou a
são usadas naturalmente. confissão de fé anglicana* (os cha-
mados 39 Artigos, vazados em sua
Bibliografia forma atual em 1571); deu apoio
Tom ás de Aquino. Summa contra ao rompimento com o papado*
Gentiles, 1:32-34; J. Butler, Ana- e a supressão dos monastérios
logy o f Religion (1736, reimp. com (embora a iniciativa se devesse
frequência) Introduction. A. Farrer, ao rei Henrique VIII e seus minis-
Reflective Faith (Londres, 1949); tros), mas perm itiu que a Igreja da
H. Palmer, Analogy (Londres, 1973); Inglaterra preservasse sua iden-
P. Sherry, “Analogy Reviewed” e tidade, com sua membresia, seus
“Analogy Today”, Philosophy 51, lugares de adoração e muitos de
1976, p. 337-345 e 431-446. seus padrões de vida prosseguindo
substancialmente sem mudança.
ANAM NESE, v e r E u c a r is t i a . A Igreja da Inglaterra permaneceu
litúrgica na adoração*, paroquial
ANGLICANISMO. Nome dado au m a na organização e episcopal na
forma de cristianismo, que teve supervisão, ministrando batismo
início na Inglaterra, País de Gales e infantil e sendo religião oficial em
§s 63 AN GLICAN ISM O

suas relações com o Estado*. A dianos, latitudinários*, evangeli-


descrição do anglicanismo como calistas*, tractarianos (anglo-cató-
“catolicismo reform ado” não é, por- licos*), liberais* — , representando
tanto, imprópria, se corretam ente maior ou menor lealdade ao pro-
entendida. O anglicanism o perma- testantismo anglicano* histórico.
neceu “católico”*, i.e., tradicional As três últimas ainda desfrutam de
em muitas de suas práticas, em- bastante destaque nos dias de hoje,
bora reform ado em sua teologia. tendo sua ênfase principal, res-
Isso, todavia, náo o torna singular pectivamente, nas Escrituras*, na
na cristandade, como a escola tradição e na razão (ver Hooker*),
anglo-católica afirm a e o Concilio com base na Reform a anglicana,
Vaticano II adm itiu (Decreto sobre mas guardando a suprem acia das
Ecum enism o, 13), pois o mesmo Escrituras.
poderia ser dito do luteranism o, O episcopado anglicano foi origi-
em bora as práticas “católicas”’ nalmente norm a local, sem excluir,
m antidas pelo luteranism o sejam todavia, o fato de os protestantes
de algum modo diferentes. vindos de fora, de ordenação pres-
Os 39 Artigos são principalmen- biteriana*, serem admitidos na
te baseados na Confissão de Augs- vida anglicana sem necessidade de
burgo, mas os artigos referentes a nova ordenação. Em 1662, como
sacramentos* são menos luteranos reação à abolição do episcopado por
e mais suíços, e os oito finais, sobre presbiterianos e congregacionais*
questões da ordem eclesiástica (ver na Comunidade Britânica, essa
Governo de igreja)* e das relações permissão foi retirada, decisão que
entre Igreja e Estado são, sob vários desde então colocou os anglicanos
aspectos, particularmente ingleses. sob a imputação de negarem a va-
Embora o clero anglicano tenha, lidade das ordens não episcopais,
historicamente, aceito todos os embora só a escola tractariana
artigos, e em muitos países ainda o realmente o faça.
faça, o documento não influenciou A Comunhão Anglicana é atual-
o pensamento teológico no mesmo m ente um a união m undial de igre-
grau com que outras confissões ja s autogovernadas (e centrada
dessa natureza* o fizeram. principalm ente no Reino Unido,
O Livro de oração comum de na Australásia, Á frica e Am érica
Cranmer, contudo, que inclui os do Norte), dando prim azia de
três credos cristãos* e expressa a honra, mas não de ju risd ição, ao
mesm a diretriz dos Artigos, em- arcebispo de Cantuãria. Somen-
bora de maneira devocional, tem te a Igreja da In glaterra é ainda
exercido maior influência do que oficial, ligada ao Estado. Assim ,
qualquer outra liturgia das igrejas só na Inglaterra, o arcebispo de
da Europa e, especialmente em sua Cantuária está subordinado ao
forma de 1662, foi até pouco tempo governante suprem o da igreja, o
a força unificadora mais poderosa rei (ou rainha) da Inglaterra, m uito
do anglicanismo. em bora durante o período colonial
Desde o século XVI, várias esco- todos os arcebispos anglicanos e
las de pensamento surgiram entre bispos do exterior tam bém o es-
os anglicanos — puritanos*, lau- tivessem . Hoje, o m onarca exerce
ANIMISMO ó4 fit

essa autoridade, principalm ente, países e até descartados em um


m ediante o prim eiro-m inistro. ou dois. Tais situações têm preju-
Exceto por essa ligação histó- dicado as ligações com Cantuária,
rica e afetiva com Cantuária, que sendo essencial, antes de tudo,
ganhou expressão na conferência enfatizar atualmente os fatores
de bispos de Lambeth, com dez que a maioria das igrejas anglica-
anos de duração, está se tornando nas ainda tem em comum se se
cada vez mais difícil m encionar pretende que sobreviva qualquer
fatores em comum que possam coesão ou qualquer característica
m anter unidas todas as igrejas an- distintiva anglicana.
glicanas. Em 1888, a Conferência
de Lam beth emitiu um a declaração Bibliografia
de quatro pontos, que listava esses C. S. Carter, The English Church
fatores naquela ocasião, e conhe- and the Reformation (London,
cidos, desde então, como Quadri- 1912); idem, The Anglican Via Me-
látero de Lambeth. Eram eles os dia (London, 1927); R. Hooker, O f
seguintes: 1. a suprem acia e sufi- the Laws o f Ecclesiatical Polity (ver
ciência das Escrituras; 2. o Credo Hooker*); S. C. Neill, Anglicanism
Apostólico* como símbolo batismal (Harmondsworth, 1960); S. W.
(não mais hoje) em muitos lugares, Sykes, The Integrity o f Anglicanism
e o Credo de Niceia como suficien- (London, 1978); W. H. Griffith
te profissão de fé cristã; 3. os dois Thomas, The Principles o f Theology
sacramentos dom inicais; 4. o epis- (London, 1930); A. T. P. Williams,
copado histórico. Isso já revelava The Anglican Tradition in the Life o f
o absurdo de não serem incluídos England (London, 1947).
fatores que não fossem absoluta- R.T.B.
mente universais, notadam ente
os 39 Artigos (superficialmente ANIMISMO. Termo introduzido na
revisados nos Estados Unidos), o discussão a respeito da origem e
Credo de Atanásio (descartado nos natureza da religião pelo antropó-
Estados Unidos) e o Livro de ora- logo E. B. Tylor (1832-1917). Ele
ção de 1662 (revisado em alguns o úsou como sinônimo de religião,
países). No entanto, a recente que definiu como “a crença em se-
adoção de liturgias revisadas, não res espirituais” . Essa crença teria
baseadas de form a algum a no Livro surgido, segundo Tylor, quando o
de oração e diferindo de país para homem primitivo, na tentativa de
país, tem enfraquecido muito mais explicar fenômenos como o sono,
seriamente o vínculo litúrgico an- a morte, os sonhos e as visões,
glicano. Além disso, a ordenação chegou à conclusão de que possuía
(ver Ministério*) de mulheres (ver uma alma espectral, ou espiritual,
Teologia Feminista*) para o pres- à parte. Sua imaginação o levou,
bitério em alguns países, mas não assim, a atribuir alma similar aos
em todos, tem colocado barreiras animais, às plantas e até mesmo
no reconhecim ento mútuo dos aos objetos inanimados.
ministros anglicanos em âmbito De acordo com Tylor, foi a partir
mundial. Os 39 Artigos são hoje desse raciocínio e mediante um a
considerados superados em vários influência cultural genérica, que
■ 65 A N JO S

todas as formas de religião se de- ANJOS. A palavra “anjo” significa,


senvolveram. Como positivista*, ele simplesmente, “m ensageiro” (heb.
acreditava também que o animis- maVãk; gr. angelos), sem referên-
mo, ou a “filosofia espiritualística” , cia alguma a esplendor visual.
tendo por base um falso processo Onde um mensageiro de Deus es-
de raciocínio, estava destinado a teja à vista, podem estar presentes
desaparecer diante da forte torren- credenciais da glória e majestade
te da “filosofia materialista” . divinas (Mt 24.31; Lc 2.9; Hb 1.7,
Apesar de sua grande influência etc.), embora nem sempre seja esse
no decorrer de meio século, sua o caso (cf. Hb 13.2). De modo geral,
teoria viria a ser superada, por o termo “Senhor dos exércitos”
se basear na falha pressuposição implica a existência de seres angé-
de que os chamados “primitivos licos (cf. o paralelismo de “anjos” e
contem porâneos” seriam “sobre- “hostes” em SI 148.2), podendo a
viventes” de um período primitivo expressão “santos” frequentemen-
verdadeiro na evolução humana. te ser lida também desse modo, em
Todavia, sua influência se torna particular, no AT.
evidente no sentido de que, e.g., as Que os anjos são considerados
teorias do monoteísmo* primitivo parte da criação, não há nenhuma
de Lang (1844-1912) e de Schmidt dúvida (SI 148.2,5; Cl 1.16), mas
(1868-1954), o pré-animism o de as Escrituras atribuem aos seres
Marett (1 8 6 6 -1 9 4 3 )ea teoria social angélicos um a posição incomum
de Durkheim* foram todas formu- de autoridade sobre a ordem criada
ladas como alternativas a ela. Além e histórica, incluindo responsa-
disso, a despeito do fato de a teoria bilidade por crianças (Mt 18.10),
haver sido suplantada, o termo proteção ao povo de Deus (SI 34.7),
“anim ism o” pode ser usado com envolvimento em questões interna-
proveito para descrever um a reli- cionais (Dn 10.13; 10.20— 11.10)
gião caracterizada pela crença em e participação nos juízos de Deus
um a multiplicidade de espíritos. (Ap 15— 16).
No exercício de tal atividade, ob-
Bibliografia serva-se um a hierarquia de poder
E. Durkheim, The Elementary Forms entre os anjos, sendo Miguel, por
o f the Religious Life (London, 1915); exemplo, descrito como príncipe e
E. E. Evans Pritchard, Theories o f arcanjo, com autoridade especial
Primitive Religion (Oxford, 1965); (Dn 10.13,21; 12.1; Jd 9; Ap 12.7).
A. Lang, The Making o f Religion Além disso, o NT descreve os anjos,
(London, 1898); R. R. Marett, The em termos tomados da LXX, como
Threshold o f Religion (London “potestades” (dynameis), “autorida-
21914); W. Schmidt, The Origin and des” (exousiai), “principados” (ar-
Growth o f Religion (London, 1931); chai) e “governadores” (archontes).
E. B. Tylor, Primitive Culture (Lon- Schleiermacher e muitos outros
don, 1871); idem, in: Mind 2 (1877), têm colocado a questão da necessi-
p. 141-156. dade dos anjos. Diversas respostas
D.A.Hu. têm sido oferecidas. A prim eira é
que na adoração angélica é dada
ANIPOSTASIA, ver H ip ó s ta s e . expressão concreta em número e
A N O M O EA N O S 66 m

poder absolutos à glória e majes- irracional contra qualquer coisa


tade de Deus (Is 6.3; Ap 5.11). Não que represente mistério, surge, na
porque Deus necessite de mais maioria das vezes, do problema de
realce do que já possui, mas para se ter de adequar esses seres a um
que o homem, como criatura ado- mundo, ao que tudo indica, expli-
radora elevada em Cristo aos luga- cável tão somente em termos de
res celestiais, possa desfrutar de questões sujeitas a exame científico.
um a nova participação no louvor Alguns teólogos diriam que os anjos
celestial (E f 1.3,20; Hb 12.22; Ap são suscetíveis a essa espécie de
5.6-14). A segunda é que os anjos verificação, mas outros relacionam
funcionam como portadores de o assunto ao mistério, similar, da
força e sustentação para a criatura providência* divina em geral.
humana, sendo eles sem pecado e, No cristianismo do século II, fo-
sob certo aspecto, livres das limi- ram feitas tentativas de descrever
tações da constituição hum ana (Mt tanto Cristo como o Espírito Santo
4.11; Mc 1.13; Hb 1.14). A terceira em termos angélicos, prevalecendo,
resposta, mais problemática, é porém, a imagem transm itida pelo
que, em virtude da distância infini- Novo Testamento de um Cristo
ta entre o Criador e a humanidade distinto dos anjos e infinitamente
criada, o conhecimento de Deus superior a todos os poderes e po-
deve sempre ser mediado para a testades (cf. E f 1.21,22; Cl 1.16;
humanidade. O problem a evidente Hb 1.4,5).
nessa visão é que os anjos também
são criaturas e, de todo modo, Bibliografia
qualquer sugestão de serem inter- K. Barth, CD, III. 3; G. B. Caírd,
mediários tem, tradicionalmente, Principalities and Pow ers (London,
levado a um desgaste da transcen- 1956); W. Carr, Angels and Princi-
dência divina. Contudo, os anjos palities (London, 1981).
exercem, na verdade, significativo R.K.
papel na mediação da revelação*
(Lc 1.30-33; G1 3.19; Hb 2.2). ANOM OEANOS, ver A r ia n is m o .

Em Judas 6, alguns anjos se re-


belam, e no NT, de modo geral, os ANSELM O (c. 1033-1109). Nascido
seres malignos, consentaneamen- em Aosta, Itália, com a idade de
te, recebem títulos próprios dos 26 anos Anselmo tornou-se mon-
anjos (E f 2.2; 6.12; provavelmente ge beneditino*, entrando para a
Cl 2.14). O principal desses espíri- Abadia de Bee, na Normandia. Em
tos rebeldes é o Diabo* ou Satanás 1063, foi feito prior, sucedendo a
(heb. “acusador”), cuja atividade Lanfranc (c. 1005-1089), e quinze
com eça com ações oponentes, con- anos depois, abade, cargo em que
sideradas próprias dele (Zc 3.1; Jd perm aneceu pelos quinze anos
9; Ap 12.10), mas logo se estende seguintes (1078-1093). Sucedeu,
a atos, mais amplos, de assédio e então, novamente a Lanfranc,
tentação (lP e 5.8). como arcebispo de Cantuâria, até
A objeção moderna a uma sua morte, em 1109. Anselmo
doutrina de anjos, embora não procurou sustentar a autoridade
raro proveniente de preconceito papal na Inglaterra e m anter a
fit 67 A N SELM O

independência da igreja inglesa em particulares (ver Nominalismo*).


relação à coroa real. Como resul- Assim, a ideia (platônica)* de bon-
tado, a maior parte de seu tempo dade é mais real do que sua mani-
como arcebispo foi tomada pelo festação particular na vida de um a
seu exílio no continente. pessoa. A apologética de Anselmo
Foi ele verdadeiram ente o pri- ganhou força, certamente, em um a
meiro grande teólogo da igreja época em que o realismo platônico
medieval ocidental, sendo consi- era am plamente aceito, mas, hoje,
derado por alguns o fundador do conduz a pouca convicção.
escolasticismo*. Permitiu à filoso- No ano seguinte, Anselm o abriu
fia exercer importante papel, ainda um a nova frente com a publicação
que lim itado, em sua teologia, de seu Proslogion, originalmente
seguindo o m étodo de Agostinho* intitulado Fé buscando entendi-
da “fé buscando entendim ento” . mento. Começando já como crente,
Muito em bora o conteúdo da fé procura entender o que ele crê. “Eu
cristã seja dado pela revelação*, e não procuro entender a fim de crer,
não pela filosofia, o teólogo crente mas eu creio a fim de entender.
pode buscar, pelo uso da razão, o Por isso, também, eu creio: se eu
entendim ento mais pleno daquilo não crer, nunca entenderei.” Nessa
em que crê. A razão pode, assim, obra, Anselmo apresenta o seu fa-
m ostrar a racionalidade e a coe- moso argumento ontológico para a
rência interior da fé cristã (cf. Fé existência de Deus. Deus é defini-
e Razão*). do como “aquele além do qual nada
Anselm o adotou esse método m aior pode ser concebido” ou, para
em suas principais três obras. No expressar de modo mais simples,
Monologion (1077), originalmente “o maior ser concebível” . Esse ser
intitulado Um exemplo de medita- deve existir. Se não existisse, se-
ção no campo da fé, oferece uma ria inferior a um ser idêntico que
“prova” da existência de Deus (ver exista e, assim, não seria “o maior
Teologia Natural*). O fato de poder- dos seres concebíveis” . Na verda-
mos discernir graus de bondade de, o “maior ser concebível” existe
significa que há um bem absoluto, tão certamente que não pode nem
pelo qual a medimos. Esse bem mesmo ser concebido não existir.
é único em si mesmo e é bom de Porque a mente pode conceber um
modo supremo. Ser bom de modo ser que não pode ser concebido
supremo é ser também grande de não existir; e tal ser é maior do que
modo supremo. Existe, portanto, um ser que pod e ser concebido não
um ser bom e grande de modo su- existir. Portanto, existe um “maior
premo, o mais elevado de todos os ser concebível”, que não pode nem
seres existentes — i.e., Deus. mesmo ser concebido como não
O argumento de Anselm o não existente. Anselm o identifica esse
era original; Agostinho já havia ser com o Deus cristão.
argumentado de modo semelhan- Anselm o tem sido acusado, com
te. O argumento apoia sua força alguma justeza, de tentar limitar
na suposição “realista” de que o Deus dentro da existência. Sua
universal é mais verdadeiro do abordagem representa a confiança
que suas próprias manifestações m áxim a do Ocidente do século XI
A N SELM O 68 m

no poder da razão. Anselm o achava são verdadeiras. Não exclui a fé em


que seu argum ento deveria ser su- si mesma, mas somente o apelo à
ficiente para persuadir até mesmo fé. Não quer dizer, também, que
o “néscio” que nega a existência de seja um fideísta, ou seja, fazendo
Deus (SI 14.1). Mas a validade de teologia simplesmente a partir de
seu argum ento foi im ediatam ente um a posição de crente e para os
questionada por um m onge cha- crentes. Dispõe-se a convencer o
m ado Gaunilo, que escreveu Em incrédulo, questionando a respeito
fa v o r do néscio. Assim, o debate a do remoto Christo, como se de Cris-
respeito da validade do argumento to nada conhecêssemos. Começa,
ontológico prosseguiu intensa- assim, não sem fazer pressuposi-
mente, sem dar sinal algum de ções, mas, sim, assumindo a exis-
arrefecim ento. tência de Deus como Trindade*,
O Proslogion foi obra de parti- juntam ente com o caráter de Deus,
cular importância para um teólogo a natureza do homem e seu pecado
moderno: Karl Barth*. Em seu contra Deus. Procura, a seguir,
trabalho Fides Quaerens Intellec- mostrar, por motivos indiscutíveis,
tum [Fé buscando entendimento, que, devido a essas pressuposições,
1931], Barth analisa o método de a encarnação e a cruz são absolu-
Anselm o com o mesmo título, nele tamente necessárias, o único cur-
encontrando precedente para sua so de ação possível e aberto para
própria abordagem à teologia no Deus. Busca mostrar, desse modo,
século XX. ao incrédulo que a encarnação e a
A obra mais am biciosa de An- cruz, longe de serem impróprias e
selmo foi Cur Deus Homo [Por que degradantes para Deus, são o úni-
Deus se tom ou homem], escrita na co processo de ação possível para
década de 1090. É apresentada na Deus, sob o ponto de vista cristão
form a de um diálogo entre Ansel- de Deus e do homem.
mo e Boso (um de seus monges Anselm o argumenta que o peca-
em Bec). Ali, Anselmo, tal como do, com preendido como um a falha
os apologistas* da igreja primitiva, em prestar a devida obediência a
enfrenta a acusação de que seria Deus, desonra-o. Como mantene-
impróprio e degradante para Deus dor da justiça (cf. Justiça*) e da
se humilhar a fim de se tornar lei*, Deus não pode simplesmente
homem e morrer para nos salvar. perdoar, mas deve restaurar a pró-
Anselm o expõe razões pelas quais pria honra. Isso só pode acontecer
a encarnação* e a cruz são de fato em um a de duas alternativas: ou
necessárias e justas (ver Expia- é oferecida a Deus um a devida sa-
ção*). Isso não significa, porém, tisfação* ou ele restaura sua honra
que esteja adotando um a teologia punindo o homem. Mas desse últi-
natural*, construindo teologia pu- mo recurso Deus abre mão quando
ramente com base na razão. Aqui, se torna necessário ao homem
como no Proslogion, seu método é substituir anjos caídos*. (Esse úl-
o da “fé buscando entendim ento” . timo ponto, tomado de Agostinho,
Crendo nas doutrinas da encarna- não desfruta de maior considera-
ção e da cruz, usa da razão para ção hoje em dia, embora haja ou-
entender por que essas doutrinas tros motivos pelos quais Deus não
Μ 69 ANTICRISTO

poderia simplesmente desamparar coisa). Aqui, mais um a vez, reflete


a humanidade.) O homem peca- a confiança do pensam ento do sé-
minoso deve, portanto, procurar culo XI no poder da razão. Mas o
restaurar a honra de Deus ofere- que seu argumento tem de atrativo
cendo um a satisfação adequada. é ser bastante flexível. Sua ideia
Mas, então, Deus se vê diante de principal, devidamente adaptada,
um dilema. É o homem que deve constitui poderoso argumento hoje
satisfação a Ele, mas somente em dia, em que a encarnação e
Deus será capaz de cumpri-la, ou a cruz são, de fato, elementos de
pagá-la (o que Anselm o argumenta doutrina pertinentes e razoáveis.
mostrando a gravidade do pecado). O alvo de Anselm o em seus
É tarefa para um Deus-homem — escritos, enfim, era mostrar quão
daí sua encarnação. Como homem, racional é a fé cristã, mais do que
Cristo deve a Deus a obediência de propriamente oferecer um a prova
um a vida perfeita. Todavia, sendo estrita dela. A beleza da harm onia
um homem perfeito, não precisa interior da fé cristã proporciona
morrer. Sua morte traz para ele alegria ao crente, que constata
mérito e constitui a satisfação cor- haver concordância entre fé e ra-
reta para os pecados do homem — zão. O incrédulo, por sua vez, tem
eis por que a cruz. devidamente respondidas por ele
As conjecturas de Anselmo são suas objeções (e.g., de que seria
notáveis, mas têm seus pontos degradante para Deus ter de se
fracos. Ele tem recebido muitas tornar humano), sendo efetiva-
críticas, entre as quais a de se mente conduzido assim à verdade
voltar para o próprio contexto em da mensagem cristã.
que vivia, em que, por exemplo,
honra e satisfação eram elementos Bibliografia
de conhecimento geral, por causa Obras: in: PL 158-159, Opera
do sistema penitencial da igreja Omnia, ed. F. S. Schmidt, 6 vols.
(ver Penitência*) e dos conceitos (Edinburgh, 1946-1961), TI J.
feudais vigentes. Tem sido cen- Hopkins & H. Richardson, 4 vols.
surado também, com certa razão, (London, 1974-1976).
por situar a obra salvífica de Cristo Estudos: G. R. Evans, Anselm
exclusivamente na cruz, negligen- and Talking about God (Oxford,
ciando sua vida, ressurreição* 1978); J. Hopkins, A Companion to
e ascensão*. Deve ser lembrado, the Study o f St Anselm (Minneapolis,
no entanto, que o alvo do teólogo MN, 1972); J. McIntyre, St Anselm
era exatamente o de oferecer as and his Critics. A Re-Interpretation
razões pelas quais a cruz, o grande o f the Cur Deus Hom o (Edinburgh
escândalo para os incrédulos, teria & London, 1954); R. W. Southern,
sido necessária. Anselmo, aliás, foi Saint Anselm and his Biographer
além da mera alegação cristã usual (Cambridge, 1963; 21982).
de que a cruz era simplesmente A.N.S.L
necessária (i.e., Deus tinha de fa-
zer alguma coisa) para afirmar que ANTICRISTO. O termo (gr. antichris-
era absolutamente necessária (i.e., tos) é usado na Bíblia somente em
Deus não poderia ter feito outra lJoão 2.18,22; 4.3; 2João.7. Como
ANTICRISTO 70

usado ali, indica provavelmente 13, as duas bestas representam,


um oponente de Cristo, mais do respectivamente, o anticristo poli-
que propriamente (como o gr. anti tico e o falso profeta (cf. Ap 16.13),
poderia também significar) alguém sendo usadas para destacar o
que reivindique falsamente ser o caráter antidivino e anticristão do
Cristo. Muitos intérpretes posterio- Império Romano da época (cf. Ap
res, no entanto, consideraram essa 17) e seu culto e adoração a César.
últim a possibilidade, vendo o anti- Nas epístolas de João, os hereges
cristo como um falso Cristo (cf. Mc que negam a realidade da encarna-
13.22), além de oponente deste. ção são “muitos anticristos” (1J0
Primeira João 2.18 indica que 2.18), i.e., falsos profetas, voltados
o conceito de anticristo, senão o para o engano. Outras passagens
termo, já era bem conhecido. A do NT advertem sobre o surgimen-
apocalíptica judaica* desenvolvera to de falsos mestres na igreja nos
a expectativa de um a personifica- últimos dias (At 20.30; lT m 4.1-3;
ção hum ana derradeira do mal, 2Pe 2.1; Jd 18).
um governante político que se No decurso da história cristã, as
apresentaria como divino e lidera- figuras do anticristo da profecia bí-
ria as nações pagãs em um ataque blica têm sido interpretadas, princi-
final ao povo de Deus. Essa figura palmente, de três modos diferentes.
foi m oldada especialmente sobre Nos períodos patrístico e me-
as descrições feitas por Daniel de dieval, era comum a ideia de um
Antíoco Epifânio, que estabeleceu anticristo individual futuro, tendo
a “abominação da desolação” (ou sido desenvolvida um a narrativa
“do assolam ento”) no templo (Dn detalhada de sua carreira. Essa
8.9-12,23-25; 11.21-45; cf. Mc ideia foi rejeitada pelos reforma-
13.14). A expectativa judaica, às dores protestantes, vindo a se
vezes, incluía também a ideia de tornar popular no protestantismo
um falso profeta nos últimos dias, somente no século XIX, quando foi
que realizaria milagres e enganaria revivida um a interpretação futuris-
as nações (cf. Mc 13.22). ta do Apocalipse. Indivíduos como
Os escritores do NT partilharam Napoleão III e Mussolini têm sido,
da expectativa judaica de um cres- por vezes, identificados como o an-
cendo do mal no período final da ticristo, algumas vezes por meio de
história humana, levando à sua interpretações do número da besta
derrota final e ao estabelecimento (Ap 13.18).
do reino universal de Deus. Toma- O segundo modo foi a ideia que
ram ambos os tipos da figura do os protestantes do século XVI de-
anticristo — do rei que reivindica senvolveram, de que as principais
para si adoração divina e do falso narrativas bíblicas do anticristo se
profeta enganador — , interpre- refeririam a uma entidade histórica
tando-os de modos diversos. Em específica, e não a um homem in-
2Ts 2.3-12, o “homem do pecado” dividual. Identificaram o anticristo,
é um a figura ainda futura, que se assim, com uma sucessão institu-
estabelecerá no lugar de Deus e cional de homens durante muitos
seduzirá o mundo, levando-o a crer séculos: o papado católico. Essa
em suas mentiras. Em Apocalipse visão permaneceu como a visão
■ 71 A N TRO PO LO G IA

protestante predominante a respei- já que nós mesmos, no caso, não


to do anticristo até o século XIX. somos apenas os inquiridores, mas
O terceiro modo em que o an- também o objeto real da inquirição,
ticristo tem sido entendido é mais deveríamos, então, estar qualifica-
o de um princípio de oposição a dos para formular um a antropo-
Cristo que continuamente aparece logia válida. Essa suposição, no
na história da humanidade sob a entanto, não é verdadeira. Tem
form a de indivíduos ou movimen- havido sempre um a considerável
tos que se colocam contra Deus e quantidade de antropologias rivais,
que perseguem ou enganam seu entre as quais podemos escolher à
povo. Essa ideia é compatível, na- vontade, cada qual desenvolvendo
turalmente, com a expectativa da um entendimento próprio, confor-
personificação final do princípio do me os dogmas da posição filosófica
anticristo no futuro. ou religiosa de seus proponentes.
Como em qualquer outra condição,
Bibliografia o que cremos a respeito da nature-
R. Bauckham, Tudor Apocalypse za humana é determ inado pelo que
(Appleford, 1978); W. Bousset, The acreditamos a respeito de questões
Antichrist Legend (London, 1896); mais fundamentais do que essa.
D. Brady, The Contribution o f British As referências bíblicas à natu-
Writers between 1560 and 1830 reza hum ana devem ser conside-
to the Interpretation o f Revelation radas como dentro do contexto
13.16-18 (Tübingen, 1983); R. K. geral de nosso lugar na criação e
Emmerson, Antichrist in the Middle nossa posição perante Deus. Bibli-
Ages (Manchester, 1981); D. Ford, camente, a questão antropológica
The Abom ination o f Desolation in não pode ser respondida sem refe-
Biblical Eschatology (Lanham, MD, rência a esse contexto teológico da
1979); C. Hill, Antichrist in Seven- criação*; os seres humanos são,
teenth-Century England (London, basicamente, criaturas de Deus.
1971). Não somos emanações emergentes
R.J.B. do próprio Ser de Deus, mas um a
parte da ordem criada total, intei-
ANTINOMIANISMO, ver L ei e ev a n - ramente distinta de Deus. Mas a
g e lh o . raça hum ana tam pouco evoluiu
como produto de um processo in-
ANTISSEMITISMO ver h o lo c a u s to ; dependente de seleção e desenvol-
JUDAÍSM O Ε CRISTIANISMO. vim ento “natural” ; é, ao contrário,
descrita na Bíblia como criação
ANTROPOLOGIA. A questão da na- especial e direta de Deus.
tureza do homem é assunto que se- Gênesis 2.7 se refere a Deus
ria de se esperar poder considerar formando Adão* “do pó da terra” e
independentemente, sem referên- soprando em suas narinas o fôlego
cia a quaisquer outros elementos da vida, de forma que o homem se
da doutrina cristã, nem mesmo à tom asse “um ser vivente”. A pala-
fé. Afinal de contas, sabemos o que vra “ser” é a tradução do hebraico
significa fazer parte da humanida- nepes, que, embora frequentemente
de, porque somos humanos; então, traduzido por “alma” , não deve ser
A N TRO PO LO G IA 72 «5

interpretado no sentido sugerido era “efetivamente im ortal” e, como


pelo pensamento helenista* (ver tal, existia em um relacionamento
Platonismo;* Alma, Origem da*); ininterrupto com Deus, no qual
deve, isso sim, ser entendido em sua vida era constantem ente man-
seu próprio contexto do AT, ou seja, tida pela vontade e pelo Espírito de
indicativo de homem e mulher como Deus. Em conseqüência da queda,
seres vivos ou pessoas em relacio- a morte foi pronunciada como juízo
namento com Deus e com outras de Deus sobre Adão, um a vez que
pessoas. A LXX traduz essa palavra se rompeu o relacionamento que
do hebraico com a palavra grega era a base dessa “imortalidade
psyché, o que explica o hábito de se efetiva” . Essa ruptura do relacio-
interpretar esse conceito do AT à luz namento espiritual constitui a
do uso grego de psychê. Todavia, é “morte espiritual” , que caracteriza
certamente mais apropriado enten- a totalidade da existência humana
der o uso de psychê (tanto na LXX sem Cristo (Rm 7.9; E f 2 .lss).
quanto no NT) à luz do uso que o AT Do mesmo modo, a esperança
faz de nepes. Em conformidade com bíblica para a vida além da morte é
Gênesis 2, qualquer concepção de expressa principalmente em termos
alma como um a parte separada (e de ressurreição* do corpo. Nem as
separável), ou divisão, de nosso ser referências à existência sombria
pareceria inválida. Assim também a do Sheol, nem as passagens que
conhecida questão sobre se a natu- poderiam ser interpretadas como
reza humana é de um ser bipartite sugerindo alguma form a de exis-
ou tripartite tem toda a indicação tência consciente contínua antes
de ser de um a irrelevância indevi- da ressurreição final (ver Estado
damente fundamentada e inútil. A Intermediário*) proporcionam base
pessoa humana é um a “alma” em suficiente para m anter o conceito
virtude de ser um “corpo” tornado grego de um a imortalidade inde-
vivo pelo “sopro” (ou “Espírito”) de pendente da alma. O testemunho
Deus. dos evangelhos sobre os apareci-
Além do mais, o fato de Adão ter- mentos da ressurreição de Jesus
se tornado vivo pelo sopro de Deus sugere que a ressurreição futura
implica que sua vida como “alm a” do corpo deverá existir como um
nunca foi independente da vontade fenômeno físico, com continuidade
de Deus e de seu Espírito (Gn 6.3; física. Paulo, todavia, se refere ao
Ec 12.7; Mt 10.28). A questão sobre corpo dessa ressurreição, em ICo-
se Adão foi criado mortal ou imortal ríntios 15.44ss, como um “corpo
antes da queda* pode desviar-se ao espiritual” (sõma pneum atikon) em
seguir o pressuposto de Platão de contraste com o “corpo natural”
que haja algum a forma de imorta- (sõma psychikon), sugerindo, por-
lidade* independente da vontade tanto, um grau de descontinuidade
de Deus. A vida humana nunca física tanto quanto de continuida-
pode ser concebida em termos de de. Uma decorrência prática dessa
um a imortalidade independente, referência à descontinuidade física,
um a vez que a vida jam ais é inde- e mais ainda o fato de que a res-
pendente da vontade e do Espírito surreição final deve ser considera-
de Deus. Antes da queda, Adão da um ato criador de Deus, e não
S 73 A N TR O PO LO G IA

mera “reconstituição”, é de que não todos os anim ais que se m ovem


há como existir algum argumento pela terra (Gn 1.28). Todavia, jus-
dogmático rígido a favor da prática tam ente porque não possuím os
de sepultamento em detrimento da vida algum a independentem ente
cremação. da vontade e do Espírito de Deus,
Tal como no caso das palavras tam bém não possuím os nenhu-
bíblicas tradicionalmente tradu- ma autoridade independente: a
zidas por “alm a” (nepes; psyche], autoridade do hom em na criação
as palavras hebraica e grega usa- é um a autoridade delegada de
das para expressar o ser físico, mordomia*; somos responsáveis
emocional e psicológico são um por nossos atos perante Deus.
campo minado para o intérprete. Nesse sentido, a queda de Adão
A dificuldade resulta do fato de, pode ser interpretada não somen-
frequentemente, poder ser usada te como desobediência e rebelião,
um a única palavra em nossos mas tam bém como a avidez de
idiomas para traduzir tanto uma autonom ia m oral e autoridade
palavra hebraica como um a grega independente. Nessa vindicação
com significados e referências enganosa por um a independência,
distintos [e.g., tanto o heb. bãsãr a raça hum ana caiu de seu desti-
quanto o gr. sarx são comumente no, divinam ente determ inado, na
traduzidos por “carne” , embora as criação. Por causa do pecado de
palavras pareçam ter conotações Adão, a terra é am aldiçoada, e ele
totalmente diferentes). No entanto, só poderá com er dela m ediante “o
o efeito combinado de tais palavras suor do seu rosto” (Gn 3.17-19),
é descrever a pessoa humana como estando a própria criação sujeita à
criatura de Deus, existindo perante vaidade, ou inutilidade (Rm 8.20).
Deus como sujeito pensante e de A determ inação de Deus para
decisão, com necessidades e dese- a humanidade governar é expres-
jos emocionais, físicos e sexuais. sa em Salmos 8 sob a forma de
Homens e mulheres são capazes de um a pergunta: “Que é o hom em ?”
autoexpressão por meio da criativi- (SI 8.4). A pergunta é repetida de
dade na arte e de relacionamento várias formas em outros lugares
humano, mas continuamente de- no AT (Jó 7.17; 15.14; SI 144.3),
pendentes da providência* de Deus mas só é respondida, finalmente,
para comer, vestir e o próprio sopro no NT, referindo-se a Cristo: é Ele
da vida. “aquele que por um pouco foi feito
D efinir teologicam ente a natu- menor que os anjos” e que agora é
reza do homem como criatura de “coroado de honra e de glória por
Deus seria totalm ente inadequado ter sofrido a m orte” (Hb 2.6-9). En-
em si mesmo se não se reconhe- fim, a resposta à pergunta antro-
cesse que ele ocupa um lugar pológica: “Que é o hom em ?” , pode
singular na criação. A determ ina- ser discernida somente em Cristo.
ção de Deus, na criação, para a Tal como não há nenhum conheci-
espécie hum ana é que deveríam os mento autêntico de Deus indepen-
reinar: encher a terra e subjugá- dentemente de sua autorrevelação
la, dom inar sobre os peixes do em Jesus Cristo, também não pode
mar, sobre as aves do céu e sobre haver conhecimento autêntico da
A N TRO PO LO G IA 74 ■

natureza humana independente- de Cristo não constituem apenas


mente dessa revelação. a revelação temporal da relação
Um a recente abordagem teo- interior de Pai, Filho e Espírito na
lógica com eça pela definição da eternidade, mas também a revela-
hum anidade de Jesus e continua ção e o cumprimento do propósito
com a definição de sua divindade eterno desse Deus triúno de eleger
(i.e., cristologia* de baixo para homens e mulheres para o relacio-
cima). Isso é assum ir enganosa- namento consigo mesmo por meio
mente a prem issa de que se pode de um pacto*, mediante a graça.
dispor de um a com preensão inde- A questão teológica da antro-
pendentem ente válida da natureza pologia não terá sido respondida
hum ana como ponto de partida adequadamente até que essa
cristológico. Som ente em Jesus a determinação divina do relaciona-
vontade e o propósito eternos do mento por um pacto tenha sido
Pai são ao m esm o tem po revelados reconhecida. Talvez a “imagem de
e cum pridos; os que nele são esco- Deus” não deva ser pensada em
lhidos o são “antes da fundação do termos estáticos ou individualis-
m undo” (E f 1.14ss). Além do mais, tas, mas em termos dinâmicos
som ente na cruz de Jesus estão re- dessa ligação; homens e mulheres
veladas a profundeza, a totalidade são chamados em Cristo para ser a
e as conseqüências da queda da “im agem ” da relação interior eterna
hum anidade segundo a vontade da Trindade* (Jo 17.21-23). Talvez
e o propósito eternos de Deus. É Barth esteja correto quando sugere
nesse sentido que Karl Barth* fala que, já que o homem foi criado à
de Jesus com o a revelação tanto imagem de Deus como “macho e
do hom em real que somos quanto fêm ea” (Gn 1.27), o relacionamen-
do verdadeiro hom em que não to por pacto entre marido e mulher
somos. A pessoa de Jesus Cristo pode ser também um reflexo dessa
é a única fonte determ inante de imagem divina (ver Sexualidade*).
um a antropologia teológica válida; Certamente, não pode haver dou-
a m eta e a natureza autênticas trina adequada da natureza huma-
da vida hum ana têm de ser dis- na sem o reconhecimento de que
cernidos prim ariam ente nele e só somos criados à imagem de Deus
secundariam ente em nós. como macho e fêmea; não em um a
O homem e a mulher foram falsa uniformidade em que essa
originalmente criados à “imagem distinção criada seja obscurecida,
de Deus” . A identidade exata nem sob pressão de oposição ou de-
dessa “im agem ” tem sido questão sigualdade, nem em um isolamento
constante de debate na história do individualista — mas em igualdade
pensamento e da doutrina cristãos. de condições e com plementaridade
Calvino* sustentava que a verda- e na unidade de relação (ver Teolo-
deira natureza dessa “im agem ” é gia Feminista*).
revelada somente em sua renova- Em outras palavras: não pode
ção mediante Cristo (cf. 2Co 4.4; haver nenhum a antropologia
Cl 1.15). Além do mais, se Deus é adequada sem referência a um a
em si mesmo quem ele é em sua doutrina adequada e inteiram ente
revelação, então a pessoa e a obra trinitariana da natureza de Deus.
■Μ 75 A PO CA LÍPTICO

Bibliografia crituras se utilizam de linguagem


Karl Barth, CD, III. 2; Louis antropomórfica, condescendendo
Berkhof, S ystem atic Theology à capacidade limitada dos homens
(London, 1958); G. C. Berkouwer, e mulheres para que entendam a
Man: The Image o f God (Grand natureza e os meios de Deus.
Rapids, MI, 1962); Calvino, Insti- O risco é quando os antropo-
tutes, I.xv; Il.i.v; W. Eichrodt, Man morfismos são tomados no sentido
in the Old Testament (TI, London, literal, em vez de metaforicamente,
1951); Bruce Milne, Know the Tru- atribuindo-se um corpo ao Criador
th: A Handbook o f Christian B elief invisível (e.g., os audianos dos
(Leicester, 1982); H. W. Wolff, The séculos IV e V). Por outro lado,
Anthropology o f the Old Testament a rejeição da linguagem antro-
(TI, Philadelphia, 1983). pom órfica leva ao ceticismo e ao
J.E.C. agnosticismo*, um a vez que Deus
não pode ser discutido de maneira
ANTROPOMORFISMO. Termo que diversa. Outras concepções equi-
se refere às descrições do Ser de vocadas têm origem na crença de
Deus*, ações e emoções (mais que os antropomorfism os seriam a
propriamente antropopatismo) em expressão de um a religião primiti-
termos humanos. Deus é invisí- va, ou que a religião bíblica con-
vel, infinito e sem um corpo, mas cebeu Deus à imagem do homem
características humanas são fre- (Feuerbach*).
quentemente atribuídas a ele a fim A Bíblia oferece justificativa divi-
de prestar informação a respeito de na para a linguagem antropomórfi-
sua natureza e ações. ca. É plena de tal tipo de linguagem,
As ilustrações nas Escrituras, mas reconhece as limitações dos
nesse particular, são abundantes. antropomorfismos (Is 40.18; 57.15;
Em bora Deus não tenha corpo, é Jo 1.8). A propriedade da língua-
dito que seus atos são o resultado gem antropomórfica, além disso, é
do poder de seu braço (Êx 15.16). apoiada no reconhecimento de que
Apesar de Deus não possuir pro- o homem (ver Antropologia*) é feito
priam ente gênero, m asculino nem à imagem* de Deus e que o próprio
feminino, é caracterizado no gê- Deus tomou a forma hum ana na
nero m asculino (Pai, pastor, rei), pessoa de Jesus Cristo.
em bora ocasionalm ente também
em termos femininos (mãe com- Ver também e inclusive a Biblio-
passiva). Além de braço, Deus é grafia. A c o m o d a ç ã o ; A n a l o g ia ; L i n -
descrito tendo um a face (SI 27.8), guagem R e l ig io s a .

mão (SI 10.12; 88.5), dedo (Dt T.L.


9.10) e costas (Êx 33.23). Deus
fala, anda, ri, chora; é ciumento, APARTHEID, ver T e o l o g ia R efo r m ad a

caprichoso, furioso e zeloso. H o land esa; R a ç a .


Os antropomorfismos são, as-
sim, símbolos poéticos ou, mais APOCALÍPTICO. Esse termo deriva
particularmente, metáforas para da palavra “apocalipse” e descreve
os atributos divinos que, de outra basicamente um corpo de literatu-
forma, seriam indescritíveis. As Es­ ra, os apocalipses. É comumente
APOCALÍPTICO 76 §!

usado tam bém em referência lações de m istérios celestiais, que


às ideias características dessa podem se relacionar à natureza do
literatura, especialm ente de deter- cosmo, ao conteúdo dos céus, ao
m inada form a de escatologia*. O reino dos mortos, ao problem a do
termo pode ainda se relacionar a sofrim ento e da teodicéia*, ao pia-
um tipo de movimento religioso no divino da história ou ao futuro
que produz literatura apocalíptica escatológico do mundo e dos indi-
e que é motivado por expectativas víduos. O recipiente da revelação
escatológicas, mas esse emprego da é geralm ente um a grande figura
palavra não é tão indicativo, já que bíblica do passado, como Enoque
a literatura apocalíptica tem sido ou Esdras, a quem o apocalipse é
escrita e usada por grupos religio- atribuído de m aneira fictícia. Esse
sos sociologicamente bem diversos instrum ento pseudoním ico pode
e em circu nstâncias bastante ser visto com o um a form a de se
diferentes. A única generalização vindicar autoridade para obras
válida, provavelmente, é que a lite- reveladoras escritas num período
ratura apocalíptica e a escatologia em que se acreditava houvesse
tendem a surgir espontaneamente cessado a revelação profética; mas
em períodos de crise. pode tam bém ser m elhor entendi-
Como gênero de literatura reli- da como um a convenção literária
giosa na tradição judaico-cristã, a mediante a qual o escritor se
literatura apocalíptica se origina apresenta como um intérprete au-
no final do período do AT e per- torizado de revelação bíblica dada
siste como uma tradição literária no passado. Os meios de revelação
relativamente contínua, tanto no nos apocalipses são, com umen-
judaísm o como no cristianismo, te, sonhos ou visões, nos quais
até o final da Idade Média. Muitos surgem frequentem ente imagens
eruditos identificam partes dos vividam ente simbólicas, interpre-
livros proféticos do AT como “pro- tadas por um anjo*. A revelação é,
toapocalípticos” , porque neles já por vezes, com unicada em longos
se encontram alguns aspectos dos discursos pelo anjo ou em diálogos
apocalipses posteriores, mas o úni- entre o anjo e o vidente. Algumas
co verdadeiro apocalipse no cânon vezes o vidente é arrebatado em
do AT é o livro de Daniel. Muitos um a viagem ao cosmo ou aos sete
outros apocalipses judaicos foram céus para contem plar seu conte-
escritos durante a grande era da údo. Um a visão da sala do trono
literatura apocalíptica, que vai do celestial é um aspecto proem inen-
século II a.C. ao século II d.C. te em muitos apocalipses.
Desses séculos, são os apocalipses Distinguem-se dois tipos prin-
de 1Enoque, 2Baruque, 4Esdras cipais de apocalipses judaicos:
(conhecido como 2Esdras nos apó- os apocalipses cosmológicos, que
crifos, 3Baruque, o Apocalipse de focalizam os segredos do cosmo
Abraão e, provavelmente, 2Enoque e dos céus, revelados em viagens
e Apocalipse de Sofonias. extraterrestres, e os apocalipses
Como está im plícito no termo histórico-escatológicos (incluindo
(gr. apokalypsis, “revelação”), os o de Daniel), voltados para os
apocalipses judaicos contêm reve­ propósitos de Deus na história da
m 77 A PO CA LÍPTICO

humanidade, abrangendo, quase Além das ideias da escatologia


sempre, retrospectos históricos, apocalíptica, algumas passagens do
dentro de um esquema de períodos NT refletem formas literárias apo-
divinamente ordenados, e mostran- calípticas, mas há somente um ver-
do a vinda do fim da história da dadeiro apocalipse no cânon do NT:
era atual, considerada geralmente o livro da Revelação (o Apocalipse),
como iminente, quando Deus há que pertence à tradição escatológi-
de derrotar os poderes malignos ca dos apocalipses judaicos. Entre
que oprimem seu povo, de eliminar os seus aspectos novos e cristãos,
todos os males e sofrimentos e de está o fato de que o profeta João o
estabelecer seu reino universal escreve em seu próprio nome, refle-
para sempre. A ressurreição dos tindo o ressurgimento da inspiração
mortos, o julgam ento eterno dos profética na igreja primitiva. Outro
ímpios e a bem-aventurança eter- antigo apocalipse cristão, O pastor,
na dos justos são os principais as- de Hermas (ver Pais Apostólicos*),
pectos da escatologia apocalíptica. é também escrito por um profeta
Esse gênero de apocalipse, por as- cristão em seu próprio nome, mas
segurar aos crentes que, a despeito daí em diante, os escritores dos
da evidente dominação do mal no apocalipses cristãos reverteram à
mundo, Deus está no controle da prática da pseudonímica, escreven-
história e a conduzirá a uma con- do sob os nomes de figuras do AT
clusão triunfante, tem contribuído ou de apóstolos do NT.
para sustentar a fé em tempos de Mas a influência da apocalíptica
crise e perseguição. judaica no cristianismo não foi, de
A apocalíptica ju daica era um modo algum, só canalizada através
aspecto im portante do contexto do do AT e do NT. Todos os apocalip-
qual os cristãos prim itivos emergi- ses judaicos mencionados ante-
ram. Os temas gerais da escatologia riormente, mesmo aqueles escritos
apocalíptica, incluindo a ressur- após o surgimento do cristianismo,
reição dos mortos e o julgam ento foram preservados por escribas
final, destacam -se nos escritos cristãos e tornaram-se influentes
do NT, em bora sejam observadas nas igrejas cristãs. Quarto Esdras
modificações significativas no pa- foi considerado quase canônico du-
noram a apocalíptico. Em prim eiro rante grande parte da Idade Média.
lugar, os cristãos prim itivos criam Muitos apocalipses cristãos foram
que, com os eventos da história de escritos na tradição de ambos os
Jesus, sua ressurreição e a vinda tipos de apocalipses judaicos. Os
do Espírito, já havia com eçado o de tipo cosmológico, com descri-
cum prim ento escatológico. Em ções visionárias dos tormentos do
segundo lugar, como esse cumpri- inferno e dos prazeres do paraíso,
mento aconteceria por interm édio foram especialmente populares
de Jesus Cristo, a apocalíptica nos períodos patrístico e medieval.
cristã passou a se concentrar na O mais influente desses foi o Apo-
figura do Salvador. A apocalíptica calipse de Paulo, e a culminância
no NT é, basicam ente, um meio de literária dessas obras foi a Divina
expressar a im portância de Jesus comédia, de Dante. Entre os do tipo
no destino futuro do mundo. históríco-escatolõgico, o Apocalipse
A PÓ CRIFO S 78 ‫«־‬

de Tomé foi o que exerceu a maior pretação apocalíptica do passado.


influência na Idade Média. Todavia, a tradição estava correta
Durante os períodos patrístico em detectar na apocalíptica bíblica
e m edieval, a tradição do pensa- a certeza dos propósitos de Deus
mento e especulação apocalípticos operando na história humana,
no cristianism o mudou, gradati- mesmo quando o mal pareça pre-
vãm ente, da produção de novos valecer, e a esperança na realização
apocalipses para com entários culminante de seus propósitos no
e reflexão sistem ática sobre as futuro, quando Jesus Cristo virá
partes apocalípticas da Escritura para julgar os vivos e os mortos.
canônica, sendo a m udança pra-
ticam ente com pletada no século Bibliografia
XVI. No final da Idade Média, as R. Bauckham, Tudor Apocalypse
interpretações escriturísticas de (Appleford, 1978); J. J. Collins, The
Joaquim * de Fiore foram a base Apocalyptic Imagination in Ancient
de am plas expectativas escato- Judaism (New York, 1984); D. Hel-
lógicas, e no período da Reforma, lholm (ed.), Apocalypticism in the
tanto protestantes como católicos Mediterranean World and the Near
procuraram interpretar em ter- East (Tübingen, 1983); B. McGinn,
mos apocalípticos a grande crise Visions o f the End (New York, 1979);
religiosa de seu tempo. Desde o idem (ed.) Apocaliptic Spirituality
século XVI até o presente, uma (London, 1979); C. Rowland, The
tradição protestante contínua tem Open Heaven (London, 1982).
encontrado no livro de Apocalipse R.J.B.
a chave para o significado de even-
tos do próprio tempo do intérprete APÓCRIFOS, ver E s c r it u r a .

e um a base para a expectativa do


fim da história em futuro próximo. APOLINARISMO. A heresia das
Na Inglaterra, acontecimentos nos naturezas misturadas em um só
meados do século XVII, o período da Cristo, chamada apolinarismo, de
Revolução Francesa e das guerras Apolinário, bispo de Laodicéia, na
napoleônicas foram pontos altos da Síria (361-390), foi menos infame
expectativa apocalíptica nessa tra- que outras. Apolinário, amigo de
dição. O milenarismo (ver Milênio*) Atanásio* e defensor do homoou-
tem sido um destacado aspecto sion (ver Trindade*), escreveu
dessa tradição apocalíptica protes- “inumeráveis volumes sobre as
tante. Essa form a de interpretar Escrituras” (Jerõnimo) e “encheu
o Apocalipse tem sido de certo o mundo com seus livros” (Basílio)
modo equivocada, como m ostra a sobre assuntos teológicos e apoio-
falha contínua de suas predições. géticos. Da maioria deles restou,
A consciência moderna a respeito no entanto, somente fragmentos e
das convenções literárias da antiga citações de outros escritores. Algu-
apocalíptica e da visão na qual o mas de suas obras apareceram sob
livro de Apocalipse precisa ser en- outras autorias, e.g., a Detalhada
tendido no contexto de sua própria confissão de fé, atribuída a Gregó-
época pode nos capacitar a evitar rio Taumaturgo; um sermão, Esse
algumas das armadilhas da inter- Cristo é um, sobre a encarnação do
m 79 APOLINARISM O

Verbo de Deus, e um credo endere- de sua pessoa, é “um a nova criação


çado ao im perador Joviano, atribu- e um a mistura maravilhosa, Deus
idos a Atanásio; Sobre a união do e homem tendo se constituído em
corpo com a divindade em Cristo, um a só carne” . Mas como o divino
Sobre fé e encarnação e uma carta e o humano poderiam se amalga-
a Dionísio de Roma, atribuídos ao mar em um a tal absoluta unidade?
papa Júlio I. Um meio poderoso para Apolinário
O contexto da crístologia* de foi o de exim ir Cristo da possibili-
Apolinário é o da Escola de Alexan- dade de pecar. Para a psicologia, a
dria*, de Atanásio e Cirilo, forte na mente humana foi concebida como
afirmação da divindade de Cristo e autodeterminante, sendo impelida
união das duas naturezas em sua por sua própria vontade e sendo,
pessoa encarnada. A partir dessas assim, lugar de origem das más
pressuposições, Apolinário atacou escolhas. Apolinário eliminou esse
a cristologia dualística da Escola elemento de sua estrutura da pes-
de Antioquia*. Sua visão era to- soa de Cristo. “Se com a divindade,
talmente soteriológica. Um Cristo que em si mesm a é mente, havia em
que fosse menos que inteiramente Cristo também um a mente huma-
divino não poderia salvar. A mor- na, o propósito primeiro da encar-
te de um mero homem não teria nação, que é a destruição do peca-
nenhuma eficácia redentora. Mas do, nele não se realiza” (Apodeixis,
sendo Cristo totalmente divino, fragmento, 74). A pessoa de Cristo
sua natureza humana deveria ser, é, portanto, uma “com istura” do
de alguma forma, “absorvida” por Logos com um a “natureza humana
sua divindade, tornando-se, assim, resum ida”: “um meio-termo entre
o objeto correto da adoração. A sal- Deus e o homem, nem totalmente
vação consistiria na participação homem nem totalmente Deus,
do homem na carne deificada na mas um a com binação de Deus e
eucaristia. Pela deificação do ele- hom em ” (Syllogysmoi, fragmento,
mento humano, mediante a união 113). O despojamento do humano
com o Logos divino, Cristo tornara- na encarnação é contrabalançado
se moralmente imutável. do fim divino por um a kenosis (ver
Apolinário, de modo negativo, Kenoticismo*). Porque o Logos que
rejeita assim qualquer mera jus- em sua ilimitação perm eia toda a
taposição das duas naturezas em existência deve ser submetido à
Cristo. Escreve a Joviano, afir- autolimitação na carne humana.
mando: “Não há duas naturezas Apolinário foi criticado por Gre-
(em Cristo), uma para ser adorada gório de Nissa* por repudiar as ex-
e outra, não. Há somente uma periências inteiram ente humanas
natureza (mia physis) no Verbo de de Cristo, de que os evangelhos e
Deus encarnado” . As Escrituras a epístola aos Hebreus dão ampla
apresentam Cristo como um ser, prova. A salvação plena do homem
como a encarnação de um único exige a identificação plena de Cris-
princípio ativo, o Logos divino. De to com ele em todos os elementos
modo positivo, no entanto, ele cre- de sua composição. O apolinaris-
ditou a Cristo um a “nova natureza” , mo foi sucessivamente condenado
resultando em que, na constituição pelos concílios de Roma (377),
A PO LO G ÉTIC A 80 *

Alexandria (378), Antioquia (379) e, que recorre a meios, razoáveis ou


por fim, de Constantinopla (381). não, para fazer as pessoas acei-
tarem seus pontos de vista. Tais
Bibliografia entendimentos errôneos da apoio-
J. N. D. Kelly, Early Christian gética são lamentáveis, tendo em
Doctrines (London, 51977); H. Liet- vista sua importância. Uma defesa
zmann, Apollinarius von Laodicea sadia da fé era tão importante nos
und seine Schule (Tubingen, 1904; tempos do Novo Testamento quan-
A. G. McGiffert, A History o f Chris- to o é hoje.
tian Thought (New York & London, O livro de Atos nos m ostra os
1932), vol. 1; Jaroslav Pelikan, apóstolos envolvidos com não cris-
The Christian Tradition, vol. 1: The tãos em debates e argumentações
Em ergence o f the Catholic Tradition a respeito da verdade do evangelho
(100-600) (Chicago, 1971); C. E. (At 17.2-4; 19.8-10), e não é exa-
Raven, Apollinarianism (Cambrid- gero dizer que os documentos do
ge, 1923). NT, em sua maioria, foram escritos
H.D.McD. por motivos apologéticos. Foram
escritos para recom endar a fé a
APOLOGÉTICA. A palavra “apolo- um grupo ou outro de pessoas ou
gética” deriva do grego apologia, visando esclarecer questões que
term o usado para definir a defesa haviam sido levantadas a respeito
que um a pessoa como Sócrates, do evangelho.
por exemplo, poderia fazer de As atividades de apologética
suas ideias e ações. O apóstolo foram intensam ente exercidas
Pedro diz que os cristãos devem durante o período da igreja primi-
estar preparados para responder tiva, mas, na verdade, o têm sido
a qualquer pessoa (apologia) que sempre na m aior parte da história
lhes pedir a razão da esperança da igreja. No começo, a apologética
que há neles (lP e 3.15). A apolo- era necessária tanto para definir
gética é, portanto, um a atividade aquilo em que a igreja cria, em face
da mente cristã que busca m ostrar das tendências heréticas, quanto
que a m ensagem do evangelho é para oferecer um a explicação de
verdadeira em suas afirmações. sua base em racionalidade aos
Apologista é aquele que está pre- inquiridores e críticos de diferen-
parado para defender a m ensagem tes espécies. Visto que muitos dos
evangélica contra críticas e distor- apologistas* haviam, eles mesmos,
ções e m ostrar evidências de sua passado por crucial conversão —
credibilidade. homens como Justino, Clemente*
Hoje, infelizmente, o termo “apo- e Agostinho* — sabiam perfeita-
logética” tem conotações desagra- m ente o que era necessário para
dáveis para muitos: em um nível recom endar a fé em Cristo aos que
superficial, soa como se estivessem ainda estavam de fora. Os crentes,
pedindo que nos desculpássemos por sua vez, precisavam também
por termos fé. Em nível mais ser fortalecidos ante o impacto
profundo, também, o termo “apo- de críticas hostis. Pode-se, em
logista” pode sugerir um a espécie verdade, afirm ar que a apologética
de pessoa agressiva ou oportunista firm ou-se orgulhosam ente ao lado
Μ 81 A PO LO G ÉTIC A

da dogm ática* como duas respos- além do domínio do fenomenológi-


tas indispensáveis aos desafios co. No futuro, disse ele, a teologia
da época. Não podia ser de outro teria de se contentar em funcionar
modo naquele período de expan- dentro dos limites da razão e redu-
são missionária. zir suas alegações ao conhecimen-
Os prim eiros apologistas eram, to. Uma barreira foi erguida no
geralm ente, políticos ou religiosos. caminho dos apologistas. A religião
As apologias políticas destinavam - poderia ser praticada no âmbito da
se a ganhar aceitação, assim como existência ou da moralidade, mas
certa tolerância e legitim idade, não poderia avançar, como o fizera
para 0 cristianism o na sociedade, anteriormente, em terrenos supos-
enquanto as apologias religiosas tamente racionais.
visavam a ganhar adeptos conver- O Iluminismo fez deflagrar um a
tidos tanto do judaísm o como do séria crise para o cristianismo. Em
paganismo. Tais escritos tinham seu rastro, o liberalismo* religioso
de ser necessariam ente flexíveis e procurou operar dentro dos limites
responder a questões específicas, que Kant havia indicado, aceitando
exatam ente como acontece hoje. as implicações que isso teria para
Dentre os praticantes da arte da o pensamento cristão. Essa atitude
apologética, podem os enum erar conduziu a uma espécie de revisio-
algum as das mais excelentes nismo, facilmente constatável nas
mentes e personalidades, como obras de Paul Tillich*, Rudolf Bult-
Agostinho, Anselm o*, Tom ás de mann* e John A. T. Robinson.
Aquino*, Pascal*, Butler*, New- Mesmo entre os cristãos clãs-
man* e C. S. Lewis*. A obra deles sicos, o efeito da crítica do Ilumi-
contém um a grande variedade de nismo repercutiu claramente com
abordagens e estilos de argumen- um a nova hesitação em relação à
to, mas o que caracteriza todos apologética. Em Kierkegaard* e
é a intrepidez e confiança na ve- Barth*, pode-se observar um a es-
racidade da m ensagem bíblica e pécie de ortodoxia que não repousa
sua relevância para a história e a sobre a argumentação apologética,
filosofia humanas. mas procura apoiar as alegações
No período moderno, todavia, do cristianismo unicamente no
a apologética tem sofrido severo compromisso da fé.
revés. Encontrou no Iluminismo Existem, porém, sinais de res-
europeu um espírito de ceticismo surgimento da atividade apologéti-
em relação à teologia e à metafísica ca. Os escritos de C. S. Lewis e de
e um ataque indiscriminado às Francis A. Schaeffer* têm ajudado
crenças cristãs. Os argumentos a estimular o interesse popular
apologéticos de séculos anteriores na defesa da fé. Outros têm con-
foram sujeitos, assim, a críticas tribuído para o reavivamento da
destruidoras, feitas por Hume* e apologética em nível mais técnico,
outros, e muitos vieram a achar como E J. Carnell*, Basil Mitchell
que a totalidade do cristianismo (η. 1917), A. Plantinga*, Richard
precisava ser revisada e reelabo- Swinburne (n. 1934), Keith Ward
rada. Kant* declarou que a mente (n. 1938) e C. Van Til*. A apologé-
humana era incapaz de conhecer tica contemporânea parece estar
APOLOGISTAS 82 *

se recobrando do choque causado dade da religião pagã e defendem a


pelo Iluminismo e começando a verdade da ressurreição* da carne.
aceitar o desafio de um a cultura Como diferem também em sua teo-
secular e pluralista. logia, abordaremos cada um deles
separadamente.
Bibliografia Aristides. Escreveu sua Apologia
Colin Brown, Philosophy and the em c. 125 ou c. 140. Problemas
Christian Faith (London, 1969); textuais tornam difícil a certeza
idem, Miracles and the Critical sobre detalhes de seu pensamento
Mind (Grand Rapids, MI & Exeter, (o texto menos confiável é o que
1984); E. J. Carnell, A n Introduction contém as afirmações teológicas
to Christian Apologetics (Grand mais explícitas). Deus é entendido
Rapids, MI, 1952); Avery Dulles, A como o “motor prim ário”, o que
History o f Apologetics (Philadelphia, criou todas as coisas por causa do
1971); Gordon R. Lewis, Testing homem. Jesus Cristo é visto como
Christianity’s Truth Claims, Approa- Filho de Deus e (talvez) como Deus
ches to Christian Apologetics (Chica- que encarnou mediante um a vir-
go, 1976); C. Van Til, The Defense o f gem, morreu, ressuscitou e foi pre-
the Faith (Philadelphia, 1955). gado pelos doze apóstolos em todo
C.H.P. o mundo. Os cristãos vivem uma
vida exemplar, com conhecimento
APOLOGISTAS. Pequeno grupo de de um juízo após a morte. Essas
autores gregos do século II, que doutrinas podem ser encontradas
apresentou um a defesa do cris- nas Escrituras dos cristãos.
tianismo em face de perseguições, Justino Mártir. O mais importan-
difamações e ataques de natureza te dos apologistas, escreveu uma
intelectu al (ver Apologética*). Apologia (I), algum tempo depois do
Procuravam tornar o cristianismo ano 151, à qual acrescentou de-
inteligível (e aceitável) para um pois um Apêndice (ou Apologia II).
público greco-romano ou judeu, Em seu Diálogo com Trífon, procura
a fim de estabelecer um a ponte convencer um judeu da verdade do
entre essa religião “bárbara” e a cristianismo. Diferentemente de
cultura de sua época. Todavia, outros apologistas, Justino concen-
seus escritos contêm, também, tra-se principalmente sobre a natu-
abordagens importantes para o reza e o significado de Cristo. Cristo
desenvolvimento da teologia cristã. era o Logos* que havia inspirado os
Em todos, encontramos um a visão filósofos gregos e que está presente
“elevada” da transcendência de em todos os homens como o Logos
Deus*. Deus é o “incriado, eterno, spermatikos (razão ou palavra se-
invisível, impassível, incompreen- minai; ver Estoicismo*). Por meio
sível e infinito que pode ser apenas dele, os melhores filósofos eram
detectado pela mente e pela razão, capazes de captar certas verdades
cercado de luz, beleza, espírito e cristãs [e.g., criação, Trindade,
poder indescritível e que criou, julgam ento final, etc.). Aqueles que
adornou e agora governa o univer- viveram de acordo com o Logos,
so” (Atenágoras, Súplica 10.1). Eles mesmo antes de Cristo, seriam
expõem a imoralidade e irracionalí- cristãos. Nas teofanias* do AT, era
IS 83 APOLOGISTAS

o Logos que se revelava porque de da verdade manifesto na filosofia


outra forma o Deus transcendente grega, assim como a culminância
não poderia falar aos homens. Em- da história de Israel. Ele próprio
bora Justino use a fórmula trinitá- é Israel e por causa dele a igreja
ria, o seu entendimento de Cristo é porta agora o nome de Israel.
subordinacionista (ver Trindade*). Taciano. Discípulo de Justino,
A relação do Filho com o Pai é com- escreveu Discurso aos gregos, c.
parada ã relação da luz do Sol com 160. Ele sustenta a divindade do
o próprio Sol, mas ele também fala Logos (entendido como “luz pro-
de um fogo aceso apartir de outro cedente da luz”). Especula sobre
fogo. Por vezes, o Logos e o Espírito a natureza do homem e sobre a
Santo aparentemente se confun- natureza e atividade dos demônios.
dem. Cristo encarnou para a nossa Enfatiza o livre-arbítrio e a neces-
salvação e cura, para nos ensinar sidade de obedecer a Deus.
e para triunfar sobre os demônios Atenágoras. Escreveu Súplica,
(ver Diabo*), mediante o mistério c. 177. O tratado Sobre a ressur-
da cruz. Os demônios eram res- reição, tradicionalmente atribuído
ponsáveis por escravizar e enganar a ele, pode ser obra de um autor
os homens. Ao verem o que fora posterior. Atenágoras diz que Pai,
predito no AT a respeito de Cristo, Filho e Espírito Santo são unidos
insinuaram aos poetas gregos dizer em poder, mas distintos em posi-
coisas semelhantes a respeito de ção. O Espírito é entendido como
seus deuses. Eles sempre instiga- um a efluência, como a luz de um
ram a perseguição dos justos. Para fogo. A bondade é tão integrante de
que os homens possam ser consi- Deus que sem ela ele não poderia
derados dignos de incorrupção e de existir. O mal* existe por causa da
comunhão com Deus, ê necessário queda de [alguns] anjos*, aos quais
que creiam nessas coisas e façam a fora confiada a administração do
vontade de Deus. mundo. O mal está associado à
A principal evidência do cristia- matéria. A vida exemplar dos cris-
nismo consiste no fato de que cada tãos é fortemente enfatizada. As
fato relacionado à vinda de Cristo instruções para a vida cristã, assim
foi predito pelos profetas hebreus. como todos os demais conhecimen-
A exegese do AT é importante na tos sobre Deus, encontram-se nos
Apologia e também no Diálogo, em escritos dos profetas.
que Justino argumenta que a lei de A obra Sobre a ressurreição ar-
Moisés foi ab-rogada, que o AT fala gumenta quanto à ressurreição de
de “um outro além de Deus” , o qual Cristo em bases quase puramente
foi manifesto nas teofanias do AT, racionais, mostrando que Deus
e que os cristãos são o verdadeiro é tão capaz quanto desejoso de
Israel. Justino busca mostrar a ressuscitar os mortos e que isso
continuidade entre a filosofia grega corresponde ao propósito da cria-
e o cristianismo (ver Filosofia e Te- ção do homem. A alm a é imortal*.
ologia*; Platonismo*), assim como a Tanto os justos quanto os ímpios
continuidade entre AT e NT. Cristo serão ressuscitados.
é a culminância e a complementa- Teófilo de Antioquia. Escreveu
ção de todo o conhecimento parcial três livros intitulados Para Autólico
APOSTASIA 84 «

(depois do ano de 180), em que fala (ed.), Justin Martyr: The Dialogue
de Deus, do Logos e de Sofia (sabe- with Trypho (London, 1930).
doria*) como um a “tríade” . O Logos T.G.D.
era primeiramente inato (endia-
thetos) em Deus e foi feito externo APOSTASIA. É o abandono geral da
(prophorikos) antes da criação. Por religião ou negação da fé por aque-
vezes, torna-se obscura a distinção les que antes a sustentavam. Paulo
entre Logos e Sofia (entendida como profetizou um a séria apostasia an-
o Espírito Santo). Deus pode ser tes do fim dos tempos (2Ts 2.3; ver
detectado por meio de suas obras também Anticristo*). Outrora, um
no universo, que ele criou do nada. crente nominal poderia, certamen-
O homem foi feito para conhecer te, deixar de se identificar como tal
a Deus, com a possibilidade tanto até mesmo para professar a fé*. Mas
de mortalidade quanto de imorta- um crente pode realmente conver-
lidade. Por meio da desobediência, tido deixar de crer e, por fim, per-
tom ou-se mortal. Usam-se termos der-se? É concordância geral que o
como fé, arrependimento, perdão e crente pode decair temporariamen-
regeneração, e de Deus é dito ser te da plenitude da fé, mas, depois,
aquele que cura. Todavia, o ho- deve se arrepender. Sustentam os
mem deve alcançar a imortalidade, calvinistas* que o chamamento de
principalmente, mediante a obe- Deus dos eleitos para a fé os impe-
diência a Deus. Todas essas dou- de de apostatar, citando textos que
trinas podem ser encontradas nos asseveram a segurança eterna dos
escritos dos profetas, que foram crentes: um Deus fiel não permitiria
inspirados pela sabedoria (Sofia) e que alguém de seu povo venha a ser
cuja autenticidade é garantida por vencido pela incredulidade e acabe
sua antiguidade e pelo fato de que se perdendo. Já outros indicam nu-
suas predições se cumpriram. merosas advertências no NT contra
o perigo da apostasia, assim como
Bibliografia referências específicas quanto aos
O texto grego dos apologistas pode apóstatas. Afirmam os calvinistas,
ser encontrado em: E. J. Goo- porém, que essas advertências são
dspeed, Die àltesten Apologeten hipotéticas: sua finalidade é evitar
(Gõtingen, 1914); J. R. Harris, The que as pessoas venham a cometer
Apology o f Aristides (Cambridge, apostasia (exatamente como se fos-
21893); J. C. Th. Otto, Corpus Apo- sem um aviso: “Perigo! Mantenha-
logetarum Christianorum Saeculi se afastado do precipício!”, para
Secundi (Jena, 1847-1872). Tradu- evitar que as pessoas caiam em um
ções em inglês podem ser encon- despenhadeiro). Aqueles que apos-
tradas em AN CL (repr. ANF); R. M. tatam seria porque nunca foram
Grant (ed.), Theophilus o f Antioch: verdadeiramente convertidos. O de-
A d Autolycum (Oxford, 1970); C. C. bate exegético continua. Enquanto
Richardson (ed.), The Early Chris- as Escrituras advertem ao pecador
tian Fathers (Philadelphia, 1953); deliberado que ele se encontra em
W. R. Schoedel (ed.), Athenagoras: perigo eterno, asseguram ao crente
Legatio and De Resurrectione (Ox- preocupado que nada pode arran-
ford, 1972); A. Lukyn W illiams cá-lo da mão do Senhor.
i! 85 A PÓ STO LO

Bibliografia reivindicavam (aos olhos de Paulo)


G. C. Berkouwer, Faith and Perse- ser apóstolos e trabalhavam como
verance (Grand Rapids, MI, 1958); missionários em rivalidade com ele
D. A. Carson, Divine Sovereignty (2Co 11.13).
and Human Responsibility (Lon- A palavra “apóstolo” pode ter
don, 1981); I. H. Marshall, Kept várias conotações. Se for um a tra-
by the Pow er o f God (Minneapolis, dução do hebraico sãlíah, significa
MN, 1975). um a pessoa que age como repre-
I.H .M a. sentante plenamente autorizado de
alguma organização. O sentido de
APÓSTOLO. Term o usado no NT, “m issionário” é também bastante
para qualificar os integrantes de freqüente. Para Paulo, seu sentido
determinados grupos de pessoas. de apostolado era de importância
São eles: 1. Os doze discípulos primordial em sua autocompreen-
chamados por Jesus para ajudá- são. Apóstolo, para ele, eqüivalia a
10 em sua missão (Mt 10.2). Esse ser um servo, ou escravo, de Jesus
número inevitavelmente lembra as (observe como Paulo se define no
doze tribos de Israel (cf. Mt 19.28; começo de todas as suas epístolas
Lc 22.29,30), sugerindo que os ao apresentar suas credenciais). O
Doze constituíam o núcleo de um apostolado está associado ã funda-
novo Israel, formado por aqueles ção de igrejas e com unica auto rida-
que aceitaram Jesus como Mes- de sobre elas em termos de impor
sias. O papel futuro atribuído aos disciplina e de receber e transmitir
apóstolos — julgar as tribos de revelação normativa*, de modo que
Israel — pode ser simplesmente os apóstolos, juntam ente com os
um modo de dizer que eles com- profetas*, formam o fundamento
partilharão do futuro reino de da igreja (Ef 2.20; cf. IC o 12.28,29;
Deus* enquanto o Israel incrédulo 2Pe 3.2). Paulo enfatiza também ser
será descartado. 2. Um grupo mais destino especial do apóstolo sofrer,
amplo, incluindo os Doze, que viu e até mesmo morrer, de tal forma
o Senhor ressuscitado e cujos in- que seus convertidos possam viver,
tegrantes receberam ordem de ser explorando o paradoxo da posição
m issionários (IC o 15.7; cf. 9.1). humilde do apóstolo a despeito de
Lucas tende a restringir esse título sua alta vocação (IC o 4.9; 2Co 4).
aos Doze (exceto em At 14.4,14), Tendo sido os apóstolos (exceto
como companheiros do Senhor e no sentido de representantes, ou
testemunhas de sua ressurreição em issários, das igrejas) testemu-
(At 1.21,22; 10.40-42), mas Paulo nhas da ressurreição e form ando
enfatiza o seu papel como pionei- o fundam ento da igreja, sua ativi-
ros plantadores de igrejas, cujas dade era um fenôm eno sui generis,
credenciais são justam ente as con- incapaz de repetição. Eles não ti-
gregações que fundaram (IC o 9.2). veram propriam ente sucessores e,
3. Em sentido mais amplo, obreiros em princípio, não pode haver su-
ou representantes de congrega- cessor algum. A igreja, no entanto,
ções, chamados, no original grego, pode e deve ser ainda apostólica,
“apóstolos das igrejas” (2Co 8.23; no mesmo sentido em que deve
Fp 2.25). 4. Pessoas que falsamente viver em con form id ad e com o
ARIANISMO 86 ft

ensino deles, enraizado nas Escri- mente Eusébio de Nicomédia (m. c.


turas do NT e seguir seu exemplo 342), primeiro bispo proeminente
de sofrim ento ju n to com o Senhor. da corte na era de Constantino. A
E studiosos há que, todavia, ar- controvérsia ariana não poderia,
gum entam que a igreja somente assim, ficar restrita a um a questão
será “apostólica” se seus dirigentes puramente egípcia.
(geralm ente bispos) forem consa- A doutrina de Ário partiu da sin-
grados pela im posição de mãos em gularidade absoluta e distintividade
um a cadeia de natureza física que de Deus* — “um Deus, unicamente
rem onta aos prim eiros apóstolos. não gerado, unicamente eterno,
João W esley* disse o que parece único sem começo, único verdadei‫־‬
ter sido a palavra definitiva sobre ro, único detentor de imortalidade,
o assunto, ao declarar que “a su- único sábio, único bom e único so-
cessão ininterrupta eu acredito ser berano” . Segundo Ário, esse Deus
um a fábula, que nenhum homem não poderia, muito provavelmente,
jam ais provou nem poderá provar” . comunicar sua essência a nenhum
Há grupos não episcopais em que outro, pois isso removeria o grande
os líderes se declaram a si mesmos abismo entre Criador e criatura,
apóstolos; os quais, no entanto, sendo, na verdade, um a reversão
tam bém se equivocam ao ju lgar ao politeísmo*. O ser supremo de
que o apostolado esteja associa- Ário era Deus Pai, e não Deus Tri-
do às testem unhas originais da úno (ver Trindade*). O Filho, para
ressurreição. ele, era um ser criado pela vontade
e poder do Pai. Consequentemente,
Bibliografia o Filho não era “sem com eço” . (Ário
C. K. Barrett, The Signs o fa n A p o s - abriu exceção, nesse particular,
tie (London, 1970); J. A. Kirk, Apos- à asserção do bispo Alexandre
tleship since Rengstorf: Towards a de que “um a vez o Pai, sempre o
Synthesis, NTS 21 (1974-1975), p. Filho” .) Naturalmente, Ário estava
249-264; Κ. H. Rengstorf, in: TDNT determinado a tratar o Filho como
I, p. 407-447; W. Schmithals, The criatura especial no sentido de que
Office o f Apostle in the Earlu Church o Pai o havia criado primeiro e pela
(London, 1971). função específica que lhe dera de
I.H .M a. tomar a seu encargo todo o restante
da criação*. Na verdade, segundo
ARIANISMO. Ário (c. 250-c. 336), ele, o Filho fora gerado exatamente
presbítero em um a paróquia ur- porque a ordem criada não poderia
bana de Alexandria*, tornou-se suportar a mão imediata de Deus.
suspeito, por volta de 318, de dou- Assim, o papel principal de Cristo,
trinação contrária ao ensino de seu para os arianistas, era o de servo
bispo, Alexandre (m. 328). Após o de Deus na obra da criação e (em
devido exame, a diferença foi julga- dimensão menor) na revelação*.
da fundamental e inaceitável. Ário No começo da controvérsia a
e seus adeptos foram excomunga- que seu pensamento deu origem,
dos. A essa altura, no entanto, ele alguns arianistas chegaram a
obtivera notável apoio por parte dos afirmar que, como criatura, Cristo
bispos de fora do Egito, particular­ estaria sujeito a mudar e a pecar,
.*? 87 ARIANISM O

mas que, por sua própria virtude O arianismo desfrutou de res-


pessoal, havia conseguido, de fato, surgimento na década de 350,
não pecar. Prevendo a resistência ganhando até patrocínio imperial
vitoriosa de Cristo à tentação, Deus de c. 353 a 378. Mas, em termos
teria concedido antecipadamente a teológicos, seu ímpeto mudou, do
Cristo um a honra especial. Toda- grupo arianista dominante, para
via, com o correr do tempo, preferi- um grupo mais radical, conhecido
ram os arianista adotar ideia mais como anomoeanos ou eunomia-
simples, passando a crer que Deus nos. Eles diferiam tanto em ênfase
havia feito de Cristo um a criatura doutrinária como em tática dos
inalterável. bispos arianizantes da corte, que
A fim de colocar seus oponentes frequentemente se satisfaziam em
em dificuldade, alguns arianistas esconder seus reais sentimentos.
destacaram uma série de passa- Os anomoeanos, centrados inicial-
gens dos Evangelhos ilustrando o mente em Aécio (m. c. 370), homem
desenvolvimento humano de Cristo que não foi além do diaconato, ao
e sua fraqueza. Questionavam de contrário, acreditavam, em um de-
que modo tais experiências pode- bate teológico aberto.
riam ser atribuídas a um a pessoa Na verdade, Aécio e seu sucessor,
divina. Adotaram esse ponto de Eunômio (m. c. 395), apresentavam
vista porque não achavam possível considerável agilidade lógica em de-
haver um a autêntica alma humana monstrar suas doutrinas. Partiam
em Cristo, mas poucos oponentes da ideia de que Deus era p e r se um a
do arianismo (exceto Eustátio de essência não gerada. Embora os pri-
Antioquia, c. 300-c. 377), foram meiros arianistas tivessem descrito
capazes, a princípio, de perceber o ser supremo como singularmente
essa contradição. não gerado, eles achavam que isso
O arianismo foi motivo de vio- não revelava a essência de Deus. Na
lenta controvérsia quando Cons- verdade, Ário tinha chocado seus
tantino assumiu o controle do oponentes ao asseverar que o Pai era
Império Romano do Oriente, em incompreensível até mesmo para o
324. Ele prontamente convocou Filho. Os eunomianos, no entanto,
um concilio* em Niceia, destinado, alteraram essa ideia. A essência
entre outras coisas, a assumir tal de Deus, afirmavam, poderia ser
debate. O concilio falhou no senti- conhecida por qualquer um que ra-
do de que o arianismo prosseguiu ciocinasse por meio de implicações
em atividade, clandestinamente, lógicas da não geração. Essa alega-
por um período de trinta anos. ção ousada baseava-se na crença,
Mas o Credo de Niceia permaneceu que eles derivavam das Escrituras,
em sua refutação ao arianismo. de que o nome correto de qualquer
Sua declaração principal — de que coisa revelava sua essência. Assim,
Cristo era de um a única substância a uma trivialidade coube a atribui-
(homoousios) com o Pai — permane- ção da não geração de Deus, fazen-
ceu rigorosamente oposta à crença do com que os eunomianos, ao se
arianista de que o Filho (ou qualquer sentirem à vontade em um terreno
outra criatura) fosse de natureza movediço, assumissem como o pró-
diferente da substância do Pai. prio nome de Deus. Os eunomianos
ARISTOTELISM O 88 *·

permaneceram firmes e distintivos do Espírito Santo. Esse grupo,


em sua dupla reivindicação de que chamado por seus adversários de
conheciam o nome de Deus e que “pneum atôm acos” (“combatentes
esse nome revelava sua essência. ao Espírito”), reclamava haver falta
A ênfase deles na não geração de evidência escriturai da deida-
de Deus tinha simplesmente o de do Espírito Santo. Não viam
objetivo de separar o ser supremo, motivo algum, na verdade, para
único não gerado, de seu Filho, existir outro relacionamento além
para eles gerado. Com base nisso, do Pai com o Filho na divindade. O
argumentavam que o Filho era di- Credo Niceno-Constantinopolitano
ferente (anomoios) do Pai em subs- rejeitou os argumentos dos pneu-
tância e, por isso (de anomoios), matômacos, assim como todos os
passaram a ser conhecidos como dos arianistas. Fez isso afirmando
“anom oeanos” . simplesmente os títulos divinos,
O arianismo declinou rapida- como “Senhor” , que são usados em
mente com a perda do patrocínio relação ao Espírito Santo nas Escri-
imperial do grupo dirigente aria- turas e lidou com a difícil questão
nista, em 378, e com o Concilio da origem do Espírito declarando
de Constantinopla, em 381, que que Ele “procede do Pai” .
tornou a ortodoxia de Niceia pre-
dominante. Na verdade, o credo* Bibliografia
afirmado provavelmente por esse R. C. Gregg & D. E. Groh, Early
concilio (o segundo ecumênico) Arianism : A View o f Salvation (Lon-
não era idêntico ao promulgado em don, 1981); J. N. D. Kelly, Early
Niceia, mas um a versão ampliada, Christian Creeds (London, 31972);
que acrescentou alguns pontos, idem, Early Christian Doctrines
sobretudo visando a salvaguardar (London, 51977); T. A. Kopecek,
a divindade do Espírito Santo*. A History o f Neo-Arianism, 2 vols.
No início da controvérsia aria- (Cambridge, MA, 1979); R. D. Wil-
nista, pouca atenção foi dada ao liams, Arius. Heresy and Tradition
Espírito Santo, mas isso mudaria (London, 1987).
a partir de c. 360. Esse novo as- G.A.K.
pecto pode ter surgido pelo fato
de os anomoeanos afirmarem, ARISTOTELISM O. Filosofia da-
claramente, encontrar-se o Espí- queles que apoiam em métodos
rito próximo à posição dos seres ou doutrinas de Aristóteles o seu
criados após o Filho, tendo sido próprio pensamento. Em sua ciên-
feito para propiciar iluminação e cia e filosofia, Aristóteles (384-322
santificação*. A corrente principal a.C.) desenvolveu e sistematizou
do partido niceno quis colocar o a am pla erudição grega anterior
Espírito Santo juntam ente com o a ele, sendo seus escritos, como
Pai e o Filho, um a vez que todos os resultado disso, fonte de inspira-
três eram mencionados juntos na ção nas mais diferentes épocas e
fórm ula batismal e na doxologia. lugares. Foi ele o mestre dos gre-
Mas alguns dos que eram contrário gos alexandrinos, sírios, árabes e
ao ensino arianista sobre o Filho judeus, dos séculos VII ao XII, e do
não concordaram com a divindade Ocidente cristão nos séculos XIII
5ε 89 ARISTOTELISM O

e seguintes. A influência da ciên- tem um a alma separada? Como


cia de Aristóteles terminou com o essa alma é unida ao corpo? O que
surgimento das ciências empíricas acontece a ela após a morte? Os se-
modernas. Na física e na astrono- guidores de Aristóteles respondem
mia, sua influência se desvaneceu a essas e a outras questões afins de
mais rapidamente do que na biolo- modo diverso.
gia, onde durou até o século XIX. A história do aristotelismo tem
A ética, a política e a metafísica de sido determ inada também pela
Aristóteles permanecem um a fonte disponibilidade dos seus escritos.
para a qual os filósofos ainda se Durante seu tempo de vida, Aristó-
voltam até hoje. teles ficou conhecido por diálogos
Enquanto Platão* desenvolveu populares, escritos em estilo pia-
uma filosofia orientada para o tônico, mas todos esses se perde-
mundo espiritual das ideias e do ram. Os escritos de que dispomos
divino, Aristóteles, partindo de seu eram todos, quase sempre, apenas
mestre, desenvolveu um sistema anotações feitas para sua escola, o
filosófico que focaliza o domínio Liceu. Foram editados e publicados
da natureza* e os métodos para por Andrônico de Rhodes por volta
estudá-la. Uma análise penetrante de 70 a.C. No século III, o neopla-
dos processos de pensamento en- tonista Porfírio (ver Platonismo*)
contra-se em suas obras de lógica. escreveu um comentário sobre a
Seus tratados sobre a filosofia obra Categorias, que foi traduzido
natural fornecem um a narrativa para o latim por Boécio* no século
extraordinariamente abrangente VI. Embora Boécio tenha planejado
do universo material. Seus escritos traduzir todas as obras de Arístóte-
éticos revelam a mesm a captação les para o latim, ele foi morto antes
introspectiva tanto da vida do de haver completado seu projeto.
indivíduo quanto da sociedade. É Como resultado, somente as obras
também o fundador da ciência da lógicas de Aristóteles vieram a ser
Metafísica*, embora nessa área um conhecidas na Europa Ocidental
bom número de questões permane- até o século XII, com as quais
ça ainda como não estudadas ou Abelardo* e seus contemporâne-
não resolvidas. Lacunas na meta- os puderam estudar e debater a
física de Aristóteles têm causado respeito dos universais, mas nada
também problemas básicos na área sabiam a respeito do restante do
da psicologia humana. Os mundos, pensamento de Aristóteles. En-
tanto o espiritual como o material, tretanto, os textos de Aristóteles
se encontram no homem; o corpo foram traduzidos para 0 siríaco,
humano pertence a um mundo árabe e hebraico e, assim, torna-
material em mutação, mas seu en- ram-se bem conhecidos no mundo
tendimento transcende o corpóreo islâmico e, posteriormente, no Oci-
e pertence ao eterno, incorruptível dente a partir de traduções árabes,
e divino. Ele estabeleceu um debate assim como, mais tarde, por meio
interminável a respeito da relação de traduções feitas diretamente
do entendimento com o individual. do grego. Acessíveis, assim, em
Existe um a alma intelectual para latim e grego desde o século XIII,
todos os homens ou cada pessoa os escritos de Aristóteles exercem
ARISTOTELISM O 90 a

influência mais na dependência do em muito qualquer coisa que já


interesse do que da acessibilidade. haviam conhecido; mas também
Aristóteles exerceu influência mostrou-se evidente que Aristóte-
relativamente limitada sobre os les sustentava algumas posições
pais da igreja. Seu foco científico que eram contrárias à fé cristã.
e empírico não era atraente para Sustentava, por exemplo, que o
a orientação predominantemente mundo era eterno e que havia so-
religiosa da época. Para alguém mente um a alma intelectual para
como Agostinho*, os platonistas* todos os homens — pelo menos
(neoplatonistas) haviam incorpora- foi assim que Averróis*, seu maior
do tudo o que era valioso de Aristó- comentarista, o interpretou. Além
teles em seu próprio pensamento. disso, achava Aristóteles ser a fi-
Em suas Confissões, Agostinho losofia ou a razão natural o único
registra haver lido Categorias de meio de se alcançar o maior bem
Aristóteles e a entendido, mas para do homem, a alegria. A despeito
ele fez muito pouco bem, porque das tentativas de se banir os seus
perm aneceu materialista. escritos, Aristóteles passou a ser
A influência de Aristóteles foi estudado nas universidades. Eram
sentida de modo mais significa- os agostinianos* que, de modo geral,
tivo no século XII. A discussão formavam a oposição conservadora
do problem a dos universais (ver que tentava limitar a influência de
Nominalismo*) tomou lugar entre Aristóteles. O outro extremo era
os teólogos, e os métodos lógicos encontrado em alguns mestres de
de Aristóteles foram, assim, na- artes, que simplesmente ensina-
turalmente aplicados às questões vam o pensamento de Aristóteles
teológicas, tais como Trindade*, sem procurar avaliá-lo à luz da
encarnação* e assim por diante. A fé. Ficaram conhecidos como aver-
contribuição mais influente foi a de roístas. Um meio-termo foi adotado
Abelardo*, com seu Sic et Non [Sim por Tomás de Aquino*, que abra-
e não}. Nessa obra, Abelardo reu- çou o pensamento de Aristóteles
niu opiniões dos pais da igreja que de todo o coração como filosofia,
pareciam contraditórias, mas que, mas o reviu naquilo que achou
quando devidamente entendidas, necessário. Essa filosofia se tornou
puderam ser, quase sempre, har- a ferramenta básica para sua teo-
monizadas. Seu método dialético logia. Conforme sua fam osa frase:
ganhou grande desenvolvimento “A filosofia é serva da teologia” . Em
nas questões controversas e sumas quase toda discussão teológica —
teológicas do século XIII. a natureza de Deus, a Trindade, a
A influência aristotélica alcan- alma humana, a graça, a fé, etc. —
çaria o apogeu nos séculos XIII e podemos encontrar Aquino usando
XIV. No começo dos anos 1300, a ideias desenvolvidas por filósofos,
filosofia natural, a psicologia e a especialmente por Aristóteles, para
metafísica de Aristóteles se torna- explicar o significado da fé.
ram disponíveis no Ocidente lati- Nos últimos anos do século XII,
no. Filósofos e teólogos da época todos os mestres das universidades
reconheceram nelas um a riqueza eram aristotelianos, no sentido de
filosófica e cientifica que excedia que estavam familiarizados com os
# 91 ARMINIANISMO

conceitos e métodos de Aristóteles e encontrar inspiração nos escritos


os empregavam. Havia, no entanto, de Aristóteles. Austin Farrer*,
um a variedade de interpretações Bernard Lonergan* e Karl Rah-
dos textos de Aristóteles, de modo ner*, entre outros, devem, tanto
que esse aristotelismo nunca che- direta como indiretamente, ao
gou a ser um movimento unificado. pensamento de Aristóteles. Com
Ao contrário, Tomás de Aquino*, estudos históricos e novas tradu-
Duns Scotus” e Guilherme de ções de Aristóteles continuando a
Occam*, para mencionar apenas aparecer, o aristotelismo parece ter
alguns, tiveram suas próprias e di- garantida um a vida longa.
ferentes interpretações, com um a
tradição daí resultante. Bibliografia
Os humanistas* da Renascen- J. Barnes, Aristotle (Oxford, 1982);
ça foram os primeiros a atacar E. Gilson, History o f Christian Phi-
o aristotelismo da Escolástica*, losophy in the Middle Ages (London,
mas a maior parte deles não foi, 1955); N. Kretzmann et al. (eds.),
nesse sentido, eficaz. Sua crítica The Cambridge History o f Later
do mau estilo dos escolásticos não Medieval Philosophy (Cambridge,
foi complementada pela apresenta- 1982); R. P. McKeon, Aristotelia-
ção de um a explicação alternativa nism in Western Christianity (Chi-
igualmente abrangente da realida- cago, 1939); W. D. Ross, Aristotle
de, não passando, assim, de uma (London, 41945).
crítica literária, bastante similar A.V.
às que são hoje publicadas nos
suplementos literários dos jornais. ARMINIANISMO. Jacobus Armi-
Mas à medida que os humanistas nius (1560-1609), ou simplesmente
desenvolveram seus estudos literá- Arminio, foi um teólogo holandês
rios, assim como um a consciência educado em Leiden, Basiléia e
histórica na interpretação de textos Genebra, tendo estudado nessa
antigos, eles foram além do que os última cidade sob a orientação
aristotelianos tinham a oferecer, e de Beza*. Retornando à Holanda,
isso veio a influenciar até o método serviu como pastor em Amsterdã,
de teologia, como se pode ver em antes de se tornar professor em
Calvino*, por exemplo. No escolas- Leiden, em 1603. Armínio questio-
ticismo protestante do século XVII, nou algumas suposições básicas
há um retorno ao método teológico da teologia reformada*, dando
que muito deve à influência de surgimento a um a controvérsia
Aristóteles (ver Ramus*). am arga e injuriosa.
Quando a ciência aristotélica O centro da teologia de Armí-
tornou-se superada, o aristote- nio residiu em sua visão radical
lismo como sistema explicativo da predestinação*. Atacou o su-
abrangente caiu em decadência. pralapsarianismo especulativo
Muitos concluíram que, tendo sido de Beza, no tocante à sua falta
a ciência aristotélica suplantada, de cristocentricidade, ou seja,
todas as outras coisas do seu pen- não ser Cristo o fundamento da
sarnento haviam saído de moda. eleição, mas tão somente a causa
Outros, no entanto, continuam a subordinada de um a salvação já
ARMINIANISMO 92 ‫יי‬

previamente ordenada, resultando um a pessoa é incapaz de crer e


em rompimento entre o decreto da precisa da graça de Deus; mas 4.
eleição e o concernente à salvação essa graça é resistível; 5. se todos
mediante o Cristo encarnado. Essa os convertidos perseverarão exige
visão cristocêntrica levou Armínio um a investigação posterior. A con-
a inverter a ordem de eleição e gra- trovérsia daí resultante assumiu
ça*. Para a ortodoxia reformada, a um a importância tal que agitou a
manifestação histórica da graça de nação, culminando no Sínodo de
Deus era dependente da eleição; Dort* (1618-1619), com a conde-
para Armínio, ao contrário, a elei- nação dos Artigos remonstrantes e
ção era subsequente à graça. Deus a demissão e o exílio dos ministros
decreta salvar todos os que se ar- que com eles concordavam. Para
rependem, creem e perseveram. A os adversários dos remonstrantes,
eleição é condicional à resposta do os seguidores de Armínio tinham
homem, dependente da presciência adotado um a visão semipelagiana
que Deus tem de sua fé e perseve- da graça*, destruído a doutrina da
rança*. Não há também que negar certeza na salvação ao questiona-
a possibilidade de um verdadeiro rem a perseverança do crente e,
crente cair totalmente ou finalmente por meio da sua inversão da ordem
da graça. Consequentemente, não da predestinação, introduzido um
pode haver nenhuma certeza* de evangelho condicional, que amea-
salvação definitiva. Além disso, çava as doutrinas da expiação* e
Deus dá graça suficiente, de modo da justificação*.
que o homem pode crer em Cristo se Alguns dos temores dos contrare-
assim quiser. Para isso, tem livre- monstrantes, ao que parece, logo
arbítrio*. Pode crer ou pode resistir vieram a se cumprir. Simon Epis-
à graça de Deus. A graça redentora copius (1583-1643), líder remons-
é universal, e não particular; sufi- trante em Dort, professor em Lei-
ciente, e não irresistível; e é de li- den, figura proeminente por detrás
vre-arbítrio a vontade do homem, e dos artigos de Armínio, procedeu
não constrangida, cooperando mais a desenvolvimentos posteriores
com a graça de Deus do que sendo que culminaram em um a teologia
por ela vivificada. Efetivamente, própria. Reiterando a doutrina da
Armínio estava dizendo que Deus predestinação condicional, sus-
não escolhe ninguém, mas, em vez tentou que somente o Pai detinha
disso, prevê que alguns o escolhe- divindade em si mesmo, sendo o
rão. Era um a posição com raízes Filho e o Espírito Santo a ele su-
pelagianas* e patrísticas gregas. balternos, não somente em termos
As ideias de Armínio foram de- de geração e expiração, mas tam-
senvolvidas por seus seguidores bém em essência (ver Trindade*).
nas cinco teses dos Artigos remons- Sua ênfase estava em Cristo como
trantes (1610): 1. A predestinação exemplo com a doutrina subordi-
está condicionada à resposta de nada à ética.
um a pessoa, tendo por base a pres- O compromisso com a expiação
ciência de Deus; 2. Cristo morreu universal (ver Expiação, Extensão*)
em favor de todas as pessoas, mas levou os seguidores de Armínio a
somente os crentes são salvos; 3. se oporem à visão da substituição
■ 93 ARMINIANISMO

penal pela expiação, sustentada “m elhorar” ou dela se apropriar.


pela teologia reformada, segundo A ênfase w esleyana recai, assim,
a qual Cristo realmente pagou a sobre a apropriação hum ana
pena de todos os pecados de todo da graça. A possibilidade de um
o seu povo com a expiação, que verdadeiro crente cair da graça,
foi, assim, eficaz. Para o arminia- porém, foi expressam ente aceita,
nismo, embora se sustentasse com a conclusão de que, conquan-
que Cristo havia sofrido em favor to alguém pudesse ter certeza da
de todos, ele não poderia ter pago presente salvação, não poderia
a pena por seus pecados, já que haver certeza algum a presente de
nem todos são salvos. Sua morte um a salvação definitiva. O mais
simplesmente permitiria, sim, que im portante teólogo wesleyano,
o Pai perdoasse a todos os que Richard W atson (1781-1833), em
se arrependessem e cressem. Ele sua Theological Institutes (1823),
tornara possível a salvação, mas nem m esm o incluiu a eleição em
não expiou, intrinsecamente, por seu índice de assuntos, conside-
qualquer pessoa em particular. Na rando-a um ato tem poral subse-
verdade, a morte vicária de Cristo quente à adm inistração dos meios
não seria essencial para a salvação de salvação.
em virtude da própria natureza de Nesses últimos anos, o arminia-
Deus, amoroso e justo, sendo, na nismo tem-se mesclado com ideias
verdade, o meio que Deus escolheu batistas* e dispensacionalistas*,
para nos salvar, por motivos admi- particularmente pelo seu contato
nistrativos de sua providência. O com o fundamentalismo* america-
arminianista Hugo Grotius* foi o no. Contudo, em termos estritos,
primeiro a expor claramente essa conviria ser desembaraçado de tais
teoria governamental da expiação. acréscimos estranhos no que diz
A despeito de sua supressão respeito ao enfoque de seus aspec-
inicial na Holanda, o arm inianis- tos intrínsecos próprios: a eleição
mo espalhou-se, infiltrando-se por baseada na presciência, a depra-
todo o mundo, vindo a perm ear vação parcial, a expiação universal
todas as igrejas protestantes. Seu ineficaz, a graça universal resisti-
crescim ento foi facilitado, particu- vel, um a visão voluntarista da fé,
larmente, pelo im pacto causado a cooperação (semipelagianismo)
por João Wesley*. O arm inianism o de um a pessoa com a graça de
wesleyano concordava que a depra- Deus e a possibilidade de o verda-
vação hum ana era total, afetando deiro crente cair da graça com o
cada aspecto do ser, realçando concomitante enfraquecimento da
assim a necessidade da graça. certeza da salvação.
Todavia, preservou o sinergismo
(ver Vontade*), m antendo estar a Bibliografia
obra de Cristo relacionada a todos J. Arminius, Works, 3 vols. (Lon-
os homens, libertando a todos da don, 1825, 1828, 1875).
culpa do primeiro pecado de Adão C. Bangs, A rm in iu s (G rand
e concedendo graça suficiente Rapids ,M I,21985);A.H.W. Harrison,
para arrependim ento e fé, fazen- Arm inianism (London, 1937); P. K.
do com que as pessoas possam Jewett, Election and Predestination
A RREPEN D IM EN TO 94 s

(Grand Rapids, MI, 1985); J. distorção das Escrituras separar


Owen, Works (repr. London, 1967), o arrependimento da fé, como se o
vol. 10; C. H. Pinnock (ed.), Grace primeiro fosse, em algum sentido,
Unlimited (Minneapolis, MN, 1975); um a condição para se ter a última.
P. Schaff, The Creeds o f Christen- Isso está claro no fato de que a
dom (New York, 1919 edit.); C. W. pregação dos apóstolos instava as
Williams, John W esley’s Theology pessoas, algumas vezes, a se arre-
Today (London, 1969). penderem (At 2.38; 17.30; 26.20),
R.W.A.L. mas, em outras ocasiões, a crer (At
13.38-41; 16.31). Do mesmo modo,
ARREPENDIMENTO. O AT frequen- o perdão dos pecados resulta do ar-
temente fala em arrependimento rependimento e da fé (At 2.38; 3.19;
para descrever a volta da Israel a 10.43). O arrependimento e a fé são
seu Deus (e.g., 2Cr 7.14), em res- assim, simplesmente, dois aspectos
posta a um a prom essa divina de de um a mesm a ação, muito embo-
restauração de felicidade para a ra, no caso da fé, é bem verdade,
nação. No NT, contudo, a pregação o NT enfatize um a conscientização
de arrependimento, grandemente de Cristo (At 20.21). Tal como a fé,
exaltada, assume conteúdo especí- o arrependimento é considerado,
fico para o indivíduo. Esse aspecto portanto, um dom de Deus (At 5.31;
com eça com a pregação de João 11.15-18; 2Tm 2.25).
Batista (Mt 3.5-12; Lc 3, 7.7-17). Pode-se observar a importância
As palavras gregas usadas por todo do arrependimento desde o começo
o NT são principalmente formas da pregação apostólica e de sua po-
relacionadas ao verbo metanoein, sição como o primeiro princípio da
“mudar a mente de alguém ” . Essa mensagem cristã (Hb 6.1). Embora
breve expressão quer significar haja na conversão uma decisiva
toda um a m udança radical na mudança de mente, a renovação
disposição do indivíduo, sendo a da mente humana relativamente a
m udança de mente referente ao Deus é um processo contínuo (Rm
seu julgam ento sobre si próprio 12.2; E f 4.23), exatamente à medi-
e seu pecado, juntam ente com da que a fé cresce. A mudança de
um a avaliação das exigências de mente e renovação da fé na vida do
Deus a respeito de sua pessoa. A cristão constituem o lado ativo do
transformação aí im plícita não é, processo chamado de santificação*,
portanto, um a simples questão de do qual regenerar-se* e resguardar-
julgam ento mental, mas, sim, de se do mal são os aspectos passivos.
um a nova atitude religiosa e moral Em virtude do aumento na
(a volta a Deus, lT s 1.19) e um a ênfase da penitência (a tristeza
nova conduta (At 26.20), como pelo pecado) associada ao arre-
a pregação de João fazia ver com pendimento, a ideia de confissão e
toda a clareza. penitência* acabou por se sobrepor
Sendo o arrependimento dirigido ao sentido de “mudança da mente
a Deus e afirmando novos princí- de alguém”. Mas foi, então, que
pios de vida, é inseparável da fé*, Lutero redescobriu a palavra no
pela qual, somente, vem o conhe- grego do NT para arrependimento,
cimento de Deus. É um a sensível metanoein. Substituiu, assim, a
W 95 A SC EN SÃ O E SESSÃ O CELESTIA L DE CRISTO

tradução predominante da Vulgata morte e ressurreição não poderiam


latina de “fazer penitência” e uniu o ter pleno efeito até haver Cristo
arrependimento intimamente à fé. subido à presença do Pai, a quem
Não cabe a ênfase dem asiada na apresentou sua obra consumada da
ideia de que o arrependimento seja expiação (Hb 4.1-15). A ascensão é
um ato moral, que implica o ato de o momento em que a humanidade
se voltar a totalidade da pessoa, de Jesus é levada a Deus e glorifi-
em espírito, mente e vontade, à cada, a certeza final e os primeiros
aquiescência e sujeição à vontade frutos de nossa salvação eterna.
de Deus. O arrependimento é mais, A ascensão é importante tam-
em sentido bem real, um milagre bém por nos lembrar que o corpo
moral, um dom da graça. Os termos de Cristo não mais está presente
que costumam ser confundidos na estrutura do tempo e espaço,
com ele, como penitência, remorso mas pertence ao Filho de Deus na
ou autopunição*, não fazem ju s ao eternidade. Isso oferece um a base
verdadeiro impacto da graça a que significativa para o uso da figura
chamamos arrependimento. do “corpo de Cristo” referindo-se
tanto à igreja* como à eucaristia*.
Bibliografia Agostinho e depois os reformadores
F. Lauback & J. Goetzmann, in frisaram que esse fato deveria ser
N IDNTT I, p. 353-362; J. Murray, entendido como realidade espiritual,
Redemption — Accom plished and e não física. Queriam os reformado-
Applied (Edinburgh, 1973); W. res, particularmente, com isso sig-
Telfer, The Forgiveness o f Sins nificar que as doutrinas medievais
(London, 1959). da transubstanciação e da igreja
R.K. visível como corpo e noiva de Cristo
poderiam não ser verdadeiras.
ARTE, ver E s t é t ic a . A ascensão tem sido interpreta-
da, ainda, em termos da glorificação
ASCENSÃO E SESSÃO CELESTIAL do homem, como conseqüência da
DE CRISTO. A doutrina cristã da ressurreição. Isso, por vezes, tem
ascensão e sessão celestial de sido levado a ponto de se negar o
Cristo, embora, sem dúvida, parte período de quarenta dias que per-
importante do testemunho no NT durou entre a ressurreição de Cristo
(Lc 24.51; At 1.9-11; E f 4.8), foi dentre os mortos e a sua subida ao
pouco desenvolvida antes da época céu, e cuja im portância reside no
de Agostinho*, em parte por ser ministério de ensino de Jesus jun-
tida até à época como integrante to aos discípulos nesse espaço de
da Cristologia*, conforme testemu- tempo. Alguns estudiosos têm até
nham os credos romano antigo e argumentado que o registro sobre
de Niceia. a transfiguração nos evangelhos foi
Vista, no entanto, separada- deslocado de um a suposta narra-
mente, com o doutrina, a ascensão tiva original referente à ascensão.
de Cristo é por diversas razões Na verdade, porém, embora possa
significativa. Antes de mais nada, haver similitudes superficiais entre
representa a culminância do as duas, a transfiguração lembra
ministério terreno de Jesus. Sua mais, nos detalhes, um a descida
A SCETICISM O E M ONASTICISM O 96 m

do céu (e.g., a presença de Moisés revee, The Ascension o f Christ in


e Elias) do que um a ascensão. the Works o f St Augustine (Ottawa,
Antes da Reforma, a sessão 1967); W. Milligan, The Ascension
celestial não era, geralm ente, dis- and Heavenly Priesthood o f Our
tinta da ascensão e continua sen- Lord (London, 1892); Η. B. Swe-
do um aspecto característico da te, The Ascended Christ (London,
teologia calvinista*. É importante 1922); P. Toon, The Ascension o f
por enfatizar o ingresso de Cristo Our Lord {New York, 1984).
em sua posição real* e se distingue G.L.B.
justam ente por essa razão nos an-
tigos credos. O reinado de Cristo ASCETISMO E MONASTICISMO. A
é um constante m em orial de que palavra “ascetism o” deriva do gr.
Sua obra em nosso favor continua askésis (exercício), referindo-se a
no presente. Seu triunfo vitorioso um sistema de disciplina espiritual
nos garante a eficácia de sua obra cuja principal preocupação é a re-
de mediação* e é particularmente núncia ao mundo e à carne como
im portante para a nossa compre- parte da luta contra o diabo. O as-
ensão da obra do Espírito Santo*. cetismo tem tomado diferentes for-
Sendo a doutrina da sessão mas, mas a tradição mais adotada
celestial encoberta, a obra do Es- caracteriza-se pelos princípios de
pírito pode vir a ser separada da pobreza, castidade e obediência. A
obra de Cristo, ou mediante um a pobreza é o abandono dos bens do
doutrina muito elevada de igreja mundo; a castidade é a recusa dos
visível, ou por um a espiritualidade prazeres da carne; e a obediência
que praticam ente ignore a obra de é a submissão espiritual à diretriz
Cristo em sua totalidade ou a con- ou à regra de vida, cujo propósito é
sidere somente como o começo da o de guiar a alma em sua jornada
vida da igreja. Nesse caso, a ênfase ascensional à presença de Deus.
muda, da expiação histórica de O ascetismo era bastante pra-
Cristo, para o poder de Deus em ticado nos tempos bíblicos, sendo
operação no mundo atual. Por isso determinados eventos, como a ten-
mesmo, disso, e como resultado tação de Jesus no deserto (Mt 4.1-
muitos cristãos hoje em dia creem 11), considerados, depois, como
ser possível alcançar esse poder modelo para os cristãos. O deserto
independentem ente da expiação, era o lugar primordialmente esco-
verdadeira base e conteúdo da lhido para a vida ascética. Por volta
m ediação de Cristo. A sessão ce- do ano 250, havia eremitas (erem i-
lestial, todavia, nos lem bra que a tae, moradores do deserto) vivendo
obra de Cristo é ao mesmo tempo em cavernas no deserto, no Médio
eficaz e completa, um a vez que Egito. Dali, o movimento se espa-
aquele que se assenta no trono é o lharia para o mundo mediterrâneo,
mesmo Cordeiro, morto na cruz do onde seria popularizado por Basí-
Calvário (Ap 22.1,3). lio* de Cesareia e Jerônimo*.
A despeito de considerável re-
Bibliografia sistência entre o laicato e alguns
J. G. Davies, He Ascended into membros do clero, as práticas as-
Heaven (London, 1958); W. J. Mar- céticas logo se tornaram como que
m 97 A SCETICISM O E M ONASTICISM O

um sinal padrão de santidade. O no surgimento de novas ordens


papa Gregório, o Grande*, passou monásticas, a maioria das quais
a determ inar sobre o clero e a igreja originadas na França ou na Itália.
de Roma um a disciplina ascética, Cistercienses, dominicanos*, pre-
cujo apogeu viria a ser atingido monstratensianos e franciscanos*
pelo decreto do Primeiro Concilio foram ordens que emergiram, to-
de Latrão (1123) que impunha o das, separadamente, nessa época.
celibato sobre todo o clero. O celi- As Cruzadas também tiveram
bato foi rejeitado pelos reformado- um efeito sobre a vida monástica,
res, mas permanece como norma produzindo ordens contemplativas,
obrigatória de disciplina na Igreja como a dos carmelitas, e ordens
Católica Romana. militares, como a dos templários e
Basílio de Cesareia foi parcial- a dos cavaleiros de São João. No
mente o responsável pelo desenvol- final da Idade Média, ocorreria um
vimento de um a forma de ascetismo reavivamento do individualismo na
dita “coenobítica” (de coenobium, tradição monástica, surgindo fra-
vida em comum), que se tornou o des itinerantes, alguns dos quais
que veio a se chamar monasticis- seguidores da Regra de Santo
mo. A palavra “m onge” (monachos) Agostinho. Houve também o cres-
significa “solitário” , mas passou cimento das ordens leigas, espe-
a ser usada quase que exclusi- cialmente na Holanda, que muitos
vãmente para aqueles que vivem eruditos creem ter influenciado os
reunidos em um a comunidade. O primeiros reformadores.
m onasticismo oriental permaneceu Ordens religiosas formadas
altamente individualista e contem- por mulheres exerceram também
plativo em sua ênfase, enquanto papel importante no monasticismo
a variante ocidental, ou latina, medieval, pelo menos, por forne-
rapidamente assumiu importante cerem a mulheres portadoras de
dimensão social e evangelística, dons a oportunidade de exercerem
mesmo no cristianismo celta, gran- autoridade e desfrutarem de li-
demente influenciado pelos ideais berdade que a sociedade leiga da
eremitas do Oriente. Idade Média não lhes permitia.
A regra de Basílio foi modificada Houve até instituições monásticas
por Benedito de Núrsia (ver Bene- em que homens e mulheres viviam
dito e a Tradição Beneditina*), que, lado a lado, mas essas tenderam a
juntam ente com seu contemporâ- despertar suspeita e foram poste-
neo Cassiodoro, lançou os funda- riormente extintas.
mentos do monasticismo medieval. Após a Peste Negra (1346-1349),
Até o século XII, quase todos os o despovoamento da Europa Oci-
monges do Ocidente eram benedi- dental tornou-se muito grande para
tinos, mas a institucionalização da poder dar suporte ao monasticis-
tradição monástica já havia levado, mo em grande escala, e as ordens
àquela altura, a um considerável monásticas começaram, então, a
relaxamento nos ideais primitivos declinar. Por ocasião da Reforma,
de pobreza, castidade e obediência. muitos mosteiros ficaram virtual-
Uma série de reformas começou mente vazios, e sua propriedade foi
a ser levada a efeito, resultando secularizada sem maior resistência.
A SCETICISM O E M ONASTICISM O 98 *

Ao mesmo tempo, muitos dos refor- teológicos do próprio ascetismo,


madores mais destacados, especial- que podem ser agrupados em dois
mente Martinho Lutero*, eram mon- tópicos, de acordo com o tipo de
ges que haviam deixado o claustro. monasticismo praticado. Em ter-
Tendo abandonado as formas tradi- mos de espiritualidade individual,
cionais de piedade monástica, eles o ascetismo exige um program a de
procuraram, no entanto, recuperar rigorosa autodisciplina, particu-
os ideais espirituais subjacentes de larmente no que concerne à carne,
um modo não ascético. vista como o maior impedimento
O monasticismo jam ais ocupou para a comunhão com Deus. A
papel de destaque no protestantis- experiência mística* exerce papel
mo*, embora tenha havido entre os central nessa teologia, sendo seu
protestantes certo reavivamento da alvo definitivo a visão beatífica* de
vida disciplinada da comunidade Deus. A oração, em alguns casos
desde cerca de 1850, com singu- sem cessar, é a principal tarefa dos
lar sucesso. Nas igrejas Católica monges, juntam ente com práticas
Rom ana e Ortodoxa Oriental con- meditativas afins. Aos monges oci-
tinua, porém, como quase sempre dentais é geralmente requerido que
foi, embora as pressões da vida mo- participem de um padrão regula-
derna cobrem seu tributo, mesmo mentado de adoração com unitária
em instituições das mais antigas e e que recebam os sacramentos tão
famosas. Ocorre atualmente um a frequentemente quanto possível;
deficiência geral de novos vocacio- mas no monasticismo oriental há
nados, o que provavelmente poderá um a tendência em se considerar
vir a significar que a influência tra- essas regras como sinais exterio-
dicional que monges e freiras têm res, que a verdadeira contempla-
exercido decrescerá mais ainda em ção pode deixar para trás em sua
um futuro próximo. ascensão à presença divina.
Os ascetas são contados entre Ao padrão da espiritualidade
os escritores teológicos mais es- individual, o monasticismo oci-
piritualm ente fecundos de todos dental acresce a prática da espiri-
os tempos, e em alguns períodos, tualidade corporativa. O mosteiro
notadam ente durante a Idade Mé- é considerado uma janela para o
dia, a história da espiritualidade* reino do céu, um lugar em que a
m onástica praticam ente se iden- vida perfeita do povo redimido de
tifica com a da teologia em geral. Deus pode ser vivida como ante-
Nas igrejas ortodoxas orientais, os gozo da parúsia. O monasticismo
monges são até hoje considerados oriental possui também um aspec-
um a elite teológica privilegiada, to corporativo, mas é muito menos
sendo a experiência ascética con- desenvolvido que no ocidental, não
siderada a mais alta form a de teo- apresentando em sua teologia a
logia, muito acim a das realizações mesm a separação radical do mun-
da disciplina acadêmica, conheci- do como no Ocidente.
da por esse nome. Os temas fundamentais da es-
Essa tradição de produtividade, piritualidade monástica incluem o
no entanto, deve ser cuidadosa- conceito de batalha espiritual, que
mente dístinguida dos princípios o monge é chamado a travar contra
3 99 ATANÁSIO

os espíritos maus que o ameaçam do sua educação formal na escola


de todos os lados. De grande im- catequética de Alexandria (ver
portância também é a interpreta- Escola de Alexandria*), sua capa-
ção alegórica da Bíblia, com ênfase cidade e devoção cristã chamaram
especial no Cântico dos Cânticos a atenção do bispo Alexandre. Ata-
e na vida de Moisés, juntam ente násio, como diácono, acompanhou
com a narrativa do Gênesis sobre Alexandre a Niceia (ver Concilios*),
os antigos patriarcas. Isso acon- e, com a morte deste, foi sagrado
tece porque a tradição monástica bispo. Nesse cargo, serviu por qua-
considera a alma individual como a renta e seis anos (sendo 17 deles
noiva de Cristo, interpretando o An- em cinco exílios). Foi muito amado
tigo Testamento como uma poesia por seu povo, mas odiado e perse-
de amor nesse sentido. O período guido pelos adeptos do arianismo*.
patriarcal, por sua vez, é atraente, Seus escritos revelam amplitude
em parte, por causa de sua ênfase de caráter — rica devoção pelo
sobre a vida solitária, que corres- Verbo que se fez carne, inflexível e
ponde às origens do monasticismo, bem argumentada postura contra
e, em parte, porque a tipologia da os arianos, grande preocupação
lei mosaica parece corresponder pastoral, m anifestada em suas
à experiência espiritual do cristão Cartas festivas anuais, e profundo
individualmente, com base em que interesse pelo monasticism o (ver
a lei é de natureza espiritual. Ascetismo* e Monasticismo), evi-
Convém lem brar que a diversi- dente em sua obra Vida de Antônio.
dade do monasticism o tem produ- Para a fé e a teologia de Atanásio,
zido, naturalmente, muita variação o principal era a encarnação* do
sobre esses temas básicos, além Verbo de Deus, culminando com
do que muitos dos escritores tra- sua morte e ressurreição*. Consi-
dicionais têm feito pouco ou nada derava a encarnação e a expiação*
para desenvolvê-los, estando mais inseparáveis. A soteriologia (ver
voltados para outros aspectos da Salvação*) impregnava todo o seu
teologia ou para questões inteira- pensamento, juntam ente com uma
mente diversas. adoração viva e o reconhecimento
do Deus triúno (ver Trindade*).
Bibliografia Sua obra Sobre a Encarnação,
D. Chitty, The Desert a City (Lon- datada de 318 por alguns e bem
don, 1966); C. H. Lawrence, Medie- depois por outros, é um clássico.
vai M onasticism (London, 1984). Atanásio esboça ali a doutrina da
G.L.B. criação* e do lugar do homem nela.
O homem perdeu a vida em Deus,
ASTROLOGIA, ver O c u lto . passando, então, a entrar cada vez
mais em queda, corrupção e perda
ATANÁSIO (c. 297-373). Poucos da imagem* e do conhecimento de
pais da igreja são mais renomados Deus. Somente seu Criador o po-
do que Atanásio. Quando ele ainda deria restaurar, fazendo isso ao se
muito jovem , um a terrível perse- tom a r carne, revelando a si mesmo
guição sobreveio à igreja, no Egito e indo para a cruz, anteriormente
e em outros lugares. Tendo recebi­ um símbolo de vergonha, mas a
ATANÁSIO 100 B

partir de então troféu de vitória, com os arianistas levou Atanásio


proclam ada em sua ressurreição. a pensar a questão por meio das
Em sua obra Contra os arianos relações internas do Pai e do Ver-
e em outras obras antiarianistas, a bo, o Filho, assim como da relação
teologia e a epistemologia* cristãs deles com o mundo. Deus existe
deram um grandioso passo à frente. eternamente como Pai, Filho e
As questões, como Atanásio as via, Espírito Santo, total e independen-
diziam respeito à verdadeira vida temente da ordem criada, sendo as
ou morte da igreja. Assumindo po- Pessoas da Trindade um a só, tanto
sição inflexível contra o arianismo, na substância (homoousios) quanto
Atanásio reconhecia que o núcleo na ação. Qualquer dualismo* que
da fé cristã deveria estar sujeito a exclua Deus de agir em seu verda-
rigoroso questionamento. Sua pró- deiro ser e em seu próprio mundo,
pria posição teológica anterior teve tal como implícito no arianismo, é
de ser reavaliada, especialmente radicalmente rejeitado.
por causa de sua conscientização, Em sua obra Contra os aria-
então mais clara, moldada pela nos, Atanásio desenvolve, depois,
controvérsia ariana, do seguinte seu sentido de harm onia e ordem
princípio: “Deus em seu ser é dife- m aravilhosas, ou racionalidade
rente do m undo” . Em cada coisa, criada, no mundo, racionalidade
argum entava ele, deve-se pensar que não deve ser confundida com
em Deus de acordo com o que real- a racionalidade ou Verbo de Deus,
mente tenha feito e revelado. Deus em bora conectada a esta e dela
não pode estar sujeito às categorias indicativa. Deus é conhecido, con-
da criação ou limitado pelo enten- tudo, não apenas m ediante a cria-
dimento finito do homem. Em vez ção, mas basicam ente por meio
disso, deverá se desenvolver um a das Escrituras*, e Atanásio mos-
verdadeira teologia, centrada em tra um a profunda com preensão do
Deus, dirigida e relacionada a tudo texto bíblico e sua hermenêutica*.
o que ele tenha feito em criação, re- Diferenças consideráveis se re-
denção* e revelação*. As conexões velam entre o pensamento anterior
do pensamento deverão refletir e e posterior de Atanásio, em seu
fazer vir à tona as conexões inte- entendimento do Deus-homem.
riores da ação e do ser de Deus. Sua soteriologia foi inteiramente
A obra Sobre a encarnação apre- repensada e aprofundada. Proe-
senta forte sentido cosmológico, minente, tal como antes, é a ne-
tendo como principal ênfase a re- cessidade da encarnação do Verbo
lação do Verbo com o mundo. Seu de Deus por causa da salvação
entendimento do Verbo é o de per- do homem, e reforçada é a inse-
tencer plenamente à divindade, e da parabilidade da encarnação e da
criação, como existente pela graça, expiação. A reconciliação* ocorre,
mas a maneira pela qual o Verbo primeiramente, na intimidade com
é visto evoca um a perspectiva mais o próprio Cristo, entre Deus e o
do mundo do que propriamente do homem, constituindo a base para
ser interior do Deus triúno. Era a salvação do homem, seu conhe-
esse, simplesmente, o contexto da cimento e recebimento do Espírito,
teologia tradicional. A controvérsia para que o homem seja incorporado
» ‫ ו‬01 ATANÁSIO

em Cristo. O Deus e o homem em Espírito tendiam a ser mais for-


Cristo devem ser entendidos em mais, exceto em Contra os arianos
suas respectivas naturezas, nunca III, em que o seu entendimento
divorciadas, mas também não con- amadurecido da pessoa e obra do
fundidas ou misturadas um a com Espírito emerge claramente; mas,
a outra, sendo o Verbo, sempre, o então, nessas suas Cartas torna-
centro do Verbo-homem. A cons- se evidente um a rica compreensão
cientização real da diferença de ser de Deus como Pai, Filho e Espírito
entre Deus e o homem repousa, em Santo não somente quanto às rela-
últim a análise, na encarnação. ções intratrinitárias, mas também
Em recente estudo sobre Ata- na relação com o mundo.
násio é levantada a questão de se Muito da teologia de Atanásio
ele seria um apolinarista primitivo*. pode ser resumido na palavra ho-
Embora muitos teólogos eminentes moousion — o Filho constitui “uma
argumentem que ele o foi, há razões única substância” com o Pai. O
convincentes em contrário que po- Filho encarnado é a base de toda a
dem ser apresentadas. No que se re- revelação e expiação. Essa palavra,
fere ao conhecimento que o homem embora não ocorra nas Escrituras,
tem de Deus, em Contra os arianos era para ele um a “indicação” mara-
Atanásio assume, novamente, mais vilhosa, ou “uma declaração exata”,
um a perspectiva trinitária, com a possuindo um poder extraordina-
encarnação voltando a se tornar o riamente esclarecedor e explicativo,
ponto central. Todo conhecimento trazendo à luz a totalidade da obra e
de Deus como Pai e Criador ocorre do ser do Deus triúno. A defesa vigo-
somente no Filho e mediante Ele, rosa que Atanásio faz dessa palavra
quando o Filho é conhecido em apóia-se no fato de estar totalmente
conformidade com sua natureza. O convencido de sua verdade.
conhecimento que o homem tem de
Deus é sempre como criatura, mas Bibliografia
não é falso, porque Deus se acomo- J. A. Domer, History o f the Develop-
da* ao modo de o homem melhor o ment o f the Doctrine o f the Person o f
conhecer. As palavras usadas a res- Christ, vol. 1:2 (Edinburgh, 1862); G.
peito de Deus devem ser entendidas Florovsky, “The Concept o f Creation
à luz do seu ser e da sua natureza, in St. Athanasius”, in SP 6 (1962),
e determinados termos, como “Pai” p. 36-57; T. E. Pollard, Johannine
e “Filho” , se aplicam com proprieda- Christology and the Early Church
de unicamente dentro da Trindade (Cambridge, 1970); A. Robertson, “St
e apenas de modo secundário em Athanasius”, in NPHF 4 (1892); R.
relação à humanidade. V. Sellers, Two Ancient Christologies
Em suas Cartas concernentes (London, 1940); C. R. B. Shapland,
ao Espírito Santo, Atanásio, que The Letters o f Saint Athanasius
enfrentava agora um a negação da Concerning the Holy Spirit (London,
divindade do Espírito, desenvolveu 1951); T. F. Torrance, “Athanasius:
mais ainda seu pensamento trini- A Study in the Foundations of
tário, integrando o Espírito Santo i Classical Theology”, in Theology in
mais plenamente em sua teologia. Reconciliation (London, 1975).
Suas referências anteriores ao J.B.Wa.
ATEÍSMO 102 a

ATEÍSMO. É o ponto de vista que crença em Deus um elemento na


sustenta que Deus* não existe. O “falsa consciência” humana, cren-
termo é usado convencionalmente ça e percepção falsas que brotam
para indicar a ausência de fé no das circunstâncias sociais e econô-
Deus da tradição judaico-cristã. micas da classe oprimida. Mesmo
Vários argumentos têm sido de- que isso fosse verdade, como um a
senvolvidos pelo ateísmo, incluin- hipótese empírica, não seria sufi-
do os da falta de evidência para a ciente, no entanto, para mostrar
existência de Deus ou da manifesta que Deus não existe.
ocorrência de certos fenômenos Segundo Paulo, em Romanos
(e.g., dor e sofrimento*) suposta- 1.18-32, a criação dá testemunho
mente inconsistentes com a exis- da existência de Deus. Seu poder
tência de Deus. Alternativamente, e divindade são claramente perce-
o ateísmo tem sido argumentado bidos na criação. O que Paulo quer
em termos de simplicidade e eco- dizer exatamente ali não é para ser
nom ia lógica: segundo alega uma tomado como um a sustentação de
frase de Lessing que se tornou fa- que o ateísmo seja um a contradição
mosa, não há necessidade alguma em termos, mas, sim, que, em nível
da hipótese de que Deus existe, prático, todos os homens vivem de
um a vez que tudo o que existe pode tal modo que reconhecem um uni-
ser explicado em termos de leis verso objetivo físico e regras morais
científicas ou decisões humanas. objetivas às quais se submetem
Esse naturalismo é característico sem a desculpa de se recusar a
do ateísmo do humanismo* e do reconhecer Deus. Com isso, deixa
secularismo* modernos e ajudou aberta a dúvida de se as pessoas,
a provocar as discussões sobre a por vezes, não se rotulam de “ate-
“morte de Deus” e o “cristianismo ístas” para poder se distanciar de
sem religião” (ver Bonhoeffer*), na determinadas questões, para elas
década de 1960. muito complicadas.
Na verdade, tal ideia se baseia em A ênfase das Escrituras é, to-
um a compreensão errônea do con- davia, muito mais sobre o que é
ceito e da “função” bíblicos de Deus, chamado de “ateísmo prático”, a
que é declarado ser não a causa de negação efetiva de Deus na vida
tais e tais eventos (implicando haver humana. Assim, a parábola de
outros eventos dos quais Deus não Cristo sobre o homem que planeja-
seja a causa), mas, sim, o sustenta- va construir celeiros maiores sem
dor de todo o universo. considerar Deus (Lc 12.16-21), as-
O ateísmo, segundo o seu pró- sim como o conselho de Tiago para
prio ponto de vista, vê-se obrigado os cristãos dedicados a negócios (Tg
a explicar a persistência da crença 4.13-17) são típicas advertências
na existência de Deus. Tem feito contra o ateísmo prático, a recusa
isso alegando tanto característi- surgida do pecado de um a pessoa
cas humanas em geral, como a em reconhecer Deus em todos os
ingenuidade e o sentimentalismo, seus caminhos. As Escrituras en-
quanto mecanismos mais especí- fatizam tam bém a necessidade de
ficos. Assim, Marx*, repetindo em se evitar pensar a respeito de Deus
parte Feuerbach*, sustenta ser a à imagem do homem e de não se
m 103 AUTO RID ADE

idolatrar algum objeto, ou um as- técnicas de “pesquisa-m otivo” , das


pecto deste, do universo criado. quais Anders Nygren é o principal
expoente.
Bibliografia Foi tam bém autor de um a obra
John Hick (ed.), The Existence o f de teologia sistem ática, The Faith o f
God (London, 1964); Hans Küng, the Christian Church [A f é da Igreja
Does God Exist? (London, 1980). cristã] e de livros sobre eclesiologia
P.H. e teologia sacramental. Quase ao
final de sua vida, publicaria Jesus
A U LÉN , GUSTAV (1 8 7 9 -1 9 7 7 ). in Contem porary H istorical Rese-
Professor de Teologia Sistemática arch [Jesus na pesquisa histórica
em Lund e bispo em Strãngnãs da contem porânea], argum entando
Igreja Luterana sueca, Aulén foi vigorosam ente contra o ceticism o
(juntamente com Nygren* e Win- histórico aplicado aos Evangelhos.
gren*) um dos principais teólogos Foi ainda destacado m úsico e
escandinavos da era moderna. com positor.
Aluno de Nathan Sõderblom (1866-
1931) em Uppsala, foram muitas e Bibliografia
diversas as suas contribuições para Principais obras em TI: Christus
o ecumenismo e o reavivamento da Victor (London, 1931); The Drama
teologia luterana e da vida da igreja and the Symbols (London, 1970);
na Suécia. Eucharist and Sacrifice (Edinburgh,
Muitos de seus escritos teoló- 1958); The Faith o f the Christian
gicos são caracterizados por uma Church (London, 1954); Jesus in
elevada apreciação da dramática Contemporary Historical Research
apresentação que Lutero faz das (London, 1976); Reformation and
realidades do pecado, da graça e re- Catholicity (Edinburgh, 1961).
denção e por um a correspondente J.B.We.
visão m odesta do escolasticismo*,
medieval ou luterano. AUSCHWITZ, ver H o lo cau sto .

Aulén é conhecido, principal-


mente, por sua breve obra sobre a AUTORIDADE. É o “direito ou po-
expiação*, intitulada Christus Victor der de ordenar ação ou submissão,
[Cristo vencedor], que tenta restabe- ou determ inar crença ou costume,
lecer a chamada visão “clássica” da esperando obediência por parte
expiação. Essa interpretação, com daqueles que estão sob a autori-
base no NT e em Ireneu* e Lutero dade e, por sua vez, assumindo a
considera a cruz um poderoso ato responsabilidasde da vindicação
do triunfo de Deus sobre os pode- ao direito ou poder” (B. Ramm).
res do mal hostis à sua vontade, Autoridade é a questão mais
diferenciando-se das ideias latinas fundamental com que todo teólogo
de satisfação* e das avaliações tem de lidar. De acordo com R. Cly-
“subjetivas” e “exem plaristas” . Seu de Johnson, “essa é a questão bá-
trabalho abrange não apenas al- sica em teologia, a questão que tem
gumas das preocupações centrais de ser respondida antes de se ar-
das teologias da Reforma sobre a riscar dar um a resposta a qualquer
cruz e a graça, mas também as outra questão teológica” . A solução
AUTO RID ADE 104 «

do problem a constitui a base sobre como resultado da prioridade dada


a qual todo um sistema teológico a cada critério e a função a ele
é construído. Sua im portância não atribuída, nos diversos sistemas,
deve ser superestimada, mas re- contrastantes entre si. Tal como o
presenta, de fato, o meio pelo qual caleidoscópio que, mediante apenas
a adoração, a pregação, a prática, determinado número de diferentes
a disciplina e a organização são peças coloridas, produz um a vasta
m antidas sob o exame contínuo da e infinita variedade de figuras geo-
verdade. O papel crucial exercido métricas, assim também surgem os
pela autoridade em matéria teoló- mais diferentes sistemas teológicos
gica é expresso de modo bastante quando os diversos elementos do
apropriado na afirm ativa de P. T. espectro da autoridade são funções
Forsyth de que, “quando o proble- e situações contrastantes que estão
ma da autoridade realmente emer- sendo compartilhadas. Todas as
ge, todas as outras questões ficam diferentes peças ou elementos ge-
para trás [...], o princípio da auto- ralmente estão presentes em cada
ridade constitui, enfim, a questão quadro ou sistema; mas os quadros
religiosa total” . Diferentes formas ou sistemas são marcantemente
de autoridade produzem sistemas contrastantes entre si porque as
contrastantes de teologia e religião partes que os compõem são inter-
e, invariavelmente, formam a base -relacionadas, em cada conjunto,
da maioria das outras diferenças dos modos mais diversos.
teológicas. Isso acontece mesmo Um fator comum a todos os
que o assunto não seja adequada- pontos de vista teológicos clássicos
mente formulado ou avaliado. é que o próprio Deus* é o princi-
A questão da autoridade é com- pium essendi ou a causa primeira
plexa. Abarca um a multiplicidade da teologia como de qualquer outra
de critérios objetivos e subjetivos, coisa. É ele o fundamento ao qual
que devem ser inter-relacionados subjaz toda atividade teológica; é o
corretamente para que se possa seu início e seu fim. Ponto pacífico
estabelecer um equilíbrio teológico similar fica evidente na aceitação
e espiritual apropriado. Entre os do axioma de que a revelação* é a
diversos elementos envolvidos na única fonte cognitiva da teologia. As
discussão, estão o lugar e o papel diferenças surgem quando se busca
de Deus (Pai, Filho e Espírito San- determinar o principium cognoscen-
to), da Bíblia, da tradição, da igreja di — o lugar ou locus da revelação
(a de Cristo e a local), das estru- (ver também Epistemologia*). A ver-
turas e dos sistemas teológicos, da dade revelada, acessível em razão
razão, da consciência, da vontade, das fontes de revelação, constitui
da emoção ou sentimento e da fé. a autoridade suprema na teologia.
Qualquer posicionamento te- Discordâncias com respeito às fon-
ológico, se analisado, ocupa nor- tes tornam praticamente impossível
malmente de modo consciente ou uma conciliação a respeito do corpo
inconscientemente, um lugar e um de verdade e das formulações dou-
papel de acordo com o padrão de trinárias subsequentes.
critérios de autoridade de cada um Em um a ou outra etapa da his-
deles. Ocorrem, assim, diferenças, tória do cristianismo, um dos loci
105 AUTO RID ADE

anteriormente mencionados tem a palavra divina e à sua correta


sido considerado a fonte exclusiva interpretação. No processo de in-
ou principal de autoridade. Mas terpretação (ver Hermenêutica*), o
pouca atenção, comparativamente, lugar e a função de outros critérios,
tem sido dada ao relacionamento como a tradição e a razão, são de
existente entre a fonte suprema e vital importância. Mas, feitas to-
os outros loci envolvidos no padrão das as qualificações, as Escrituras
de autoridade. Entre as posições perm anecem, para o cristianism o
historicamente adotadas, encon- bíblico e evangélico, como a instru-
tram-se as seguintes: ção suprem a e o árbitro da fé e da
prática cristã. A Bíblia constitui o
Sola Scriptura árbitro de toda afirm ativa apresen-
Os principais aspectos dessa visão tada por qualquer outra suposta
foram afirmados de modo formal autoridade.
pela primeira vez durante a Refor-
ma*. Declara, basicamente, que Tradição
as Escrituras* são a única fonte Esse é um termo elástico. Pode se
de todo o conhecimento teológico referir a um conjunto de material
sobrenatural. O Criador não deixa extrabíblico que seja aceito como
suas criaturas entregues a con- apostólico e em igualdade de valor
jecturas quanto à verdade no que com as Escrituras ou pode estar
concerne à sua pessoa e vontade. vinculado à autoridade da igreja e a
Ele revelou dados a respeito de si seus pronunciamentos históricos,
mesmo. As Escrituras constituem embora, nesse contexto, o termo
o registro do que Deus falou a seu “igreja” venha a ser tão problemá-
povo. Nesse sentido, a Bíblia “é um tico quanto o próprio termo “tradi-
registro e um a explanação da reve- ção” . Qualquer que seja a conota-
lação divina, que tanto é completa ção, no entanto, todo empenho em
(suficiente) quanto abrangente querer estabelecer a autoridade da
(perspícua); o que significa que tradição no mesmo nível da Bíblia
contém tudo o que a igreja precisa reflete alguma incerteza a respeito
saber neste mundo para sua orien- da clareza e suficiência das Escri-
tação no caminho da salvação e do turas (ver Escrituras e Tradição*).
serviço [...]” (J. I. Packer). A Bíblia Desse modo, a tradição busca
é a palavra inspirada de Deus, um suplementar deficiências, lançan-
registro verdadeiro do que Deus do luz sobre material ausente ou
tem a dizer à humanidade. que, se presente, não é bastante
Essa posição é, por vezes, inter- claro. Sua autoridade repousa, as-
pretada como se a Bíblia se situas- sim, em última instância, em um
se esplendidamente isolada diante material extrabíblico que pode ser
de outros meios de discernimento. impossível de identificar e muito
Não é bem assim. O Espírito San- menos de sistematizar. A voz oficial
to*, o agente divino supervisor de da tradição, quando vista como
todo o registro e compilação das autoridade, é mencionada, geral-
Escrituras sagradas, é a causa ins- mente, como o magísterium (em
trumental que capacita os crentes latim, “oficio do ensino”) da igreja.
ao reconhecimento da Bíblia como No entendimento católico-romano,
AUTO RID ADE 106 •8

trata-se de um a ação exercida por bedecer” . Ao intérprete supremo,


meio de concílios* de bispos, ou cabe sempre a palavra final.
do papado*, ou, ainda, com menor Mesmo que um padrão de auto-
precisão, do consenso da igreja. O ridade seja apropriadamente estru-
protestantismo rejeita a alegação turado, existem diversos assuntos
de um magisterium infalível, consi- que podem anular a sua efetivida-
derando que todo ensino da igreja de. Entre eles, estão:
e toda tradição estão sujeitos a Ig n o râ n c ia . Qualquer que seja
confrontação com as Escrituras. o padrão que professarmos, a ta-
refa de acumular conhecimento e
Critérios subjetivos relacionar suas numerosas partes
Desde a Reforma, tem ocorrido deveria sempre nos manter humil-
am pla mudança de critérios ob- des, cônscios do apelo de Cromwell:
jetivos para subjetivos. A auto- “Eu lhe imploro, no mais íntimo da
ridade suprem a das Escrituras misericórdia: pense ser possível
é constantem ente enfraquecida, que você esteja errado”.
enquanto a razão, a consciência*, Ilo g ic id a d e . Muito da orienta-
o sentimento, a experiência e a fé* ção contida nas epístolas do NT foi
têm seguido o rastro da tradição na gerada pelos apóstolos em razão de
qualidade de oráculos que, como é um a falha deles em captar e apli-
variadamente alegado, estão aptos car as implicações da graça (e.g.,
a se pronunciar em caráter decisi- Rm 5.20— 6.23).
vo sobre o significado e o valor do In c o n s is tê n c ia . Muitos sis-
evangelho. Assim, com a tradição, temas teológicos supostamente
a intenção de suplem entar tem fre- subordinados ao ensino das Es-
quentemente resultado em um ato crituras assumem, na prática, au-
de substituição. A propósito disso, toridade superior à da palavra de
eis o que diz o ensaio Essays and Deus. Esse erro é observado tam-
Reviews, [Ensaios e revisões], de bém entre os evangélicos, quando,
Frederick Temple, de 1860. Escre- contrariamente ao princípio de
ve ele: “Quando a consciência e a sola Scriptura, a tradição teológica
Bíblia parecem diferir, o cristão determ ina suas convicções.
piedoso imediatamente conclui que In e fic iê n c ia . Muitos professam
realmente não entendeu a Bíblia obedecer ao ensino da palavra de
[...]. A form a [da Bíblia] é tão admi- Deus, mas, na verdade, se subme-
ravelmente adaptada à nossa ne- tem a outro padrão. As confron-
cessidade que deve ganhar de nós tações entre o apóstolo Pedro e
toda a reverência de um a autorida- Ananias e Safira (At 5.1-10) e entre
de suprema, e, mesmo assim, não Paulo e Pedro (G1 2.11-14) são
impõe sobre nós nenhum jugo de exemplos disso.
sujeição. Isso acontece em virtude
do princípio de julgâm ento privado, Bibliografia
que coloca a consciência entre nós P. T. Forsyth, The Principle o f Au-
e a Bíblia, tornando a consciência thority (London, 1952); C. F. H.
um intérprete supremo, a quem H em y (ed.), Revelation and the Bi-
pode ser um dever iluminar, mas ble (Grand Rapids, MI, 1967); idem,
jam ais poderá ser um dever deso­ God, Revelation and Authority, 6
107 AVERROÍSM O

vols. (Waco, TX, 1979-1983); R. C. Há três áreas em que o pensa-


Johnson, Authority in Protestant mento de Aristóteles representava
Theology (Philadelphia, 1959); D. um desafio direto ao cristianis-
M. Lloyd-Jones, Authority (London, mo. Aristóteles asseverava que o
1958); J. I. Packer, Fundamenta- mundo é eterno, o que contraria
lism and the Word o f God (London, a doutrina da criação*. Parece ter
1958); idem, Freedom, Authority sustentado tam bém que existe
and Scripture (Leicester, 1981); B. uma alm a im aterial para todos os
Ramm, The Pattern o f Religious Au- homens, colocando em questão o
thority (Grand Rapids, MI, 1959). ensino da im ortalidade* pessoal e
J.H.E. da possibilidade de recom pensa ou
punição individual após a morte.
AVERROÍSMO. Ramo da tradição Por fim, supunha Aristóteles que o
filosófica aristotélica*, inspirada homem pode alcançar a perfeição
pelo filósofo árabe Averróis (forma seguindo somente a razão, opon-
latina de Ibn-Rushd, 1126-1198), do-se assim ao ensino cristão de
o mais influente com entarista dos que a fé é necessária à salvação.
escritos de Aristóteles. Embora Por causa desses problemas, a
Averróis tenha sido o maior filóso- assimilação de Aristóteles pelo
fo islâmico, sua influência foi sen- Ocidente cristão foi difícil. Alguns
tida principalm ente no Ocidente desejavam rejeitar totalmente suas
latino (sendo procedente de Cór- ideias, já outros, como Tomás
doba, Espanha), na Universidade de Aquino*, fizeram uso de seu
de Paris, nos séculos XIII e XIV, pensamento, mas somente após
e nas Universidades de Bolonha havê-lo criticado e modificado. A
e Pádua, do século XIII à metade tendência dos averroistas foi a de
do XVII. Mais recentem ente, esse adotar Aristóteles sem reservas,
movim ento veio a ser chamado parecendo assim sustentar ensi-
de “aristotelism o radical” ou nos contrários à fé. O averroism o
“ortodoxo” . Essa denom inação é recebeu, por isso, a oposição de
imprópria, porque o alvo principal Aquino e de outros, sendo os aver-
de seus mestres era ensinar a roístas cristãos condenados pela
filosofia de Aristóteles; não seguir igreja na década de 1270.
o filósofo grego, mas simplesmen- Durante muito tempo, foi atri-
te apresentar seu pensamento. buída a Averróis a teoria da verdade
Os mais fam osos dentre esses dupla. De acordo com essa teoria,
mestres na Universidade de Paris uma tese pode ser verdadeira na
foram Siger de Brabant (c. 1235-c. filosofia, e a tese contrária ser ver-
1282) e Boécio de Dácia (fl. mea- dadeira pela fé (ver Duns Scotus*).
dos do século XIII). Entre os aver- Por exemplo, de acordo com a filo-
roístas italianos, tornou-se o mais sofia, o mundo existe eternamente,
conhecido Caesar Crem oninus (c. mas de acordo com a fé o mundo
1550-1631), que se supõe ter sido teve um começo. Na verdade, nem
o am igo de Galileu que se recusou Siger nem qualquer outro mestre
a olhar por um telescópio porque averroista alega que tais verdades
isso poderia com peli-lo a abando- contraditórias sejam compatíveis;
nar a astronom ia aristotélica. pelo contrário, sempre que a
BAILLIE, DON ALD M ACPHERSON 108 «

filosofia e a fé estejam em confii- e Heidelberg, ministrou em Bervie,


to, afirmam que a verdade está Cupar e Kilmacolm antes de se
do lado da fé. Ainda que aleguem tornar professor de Teologia Siste-
isso, no entanto, dão a impressão mática em St. Andrews em 1935.
de perm anecer presos à conclusão Ecumenista dedicado e brilhante
da filosofia. Parecem sustentar que erudito e escritor, viajou extensiva-
duas proposições contraditórias mente pela Europa e América. Sua
sejam verdadeiras. Seus oponentes reputação acadêmica e santidade
buscaram atribuir a Averróis a te- de vida atraíram muitos estudantes
oria da verdade dupla justam ente estrangeiros a St. Andrews. Suas
para mostrar a insustentabilidade obras mais conhecidas são God Was
dessa posição. in Christ [Deus estava em Cristo] e
Na preocupação dos averroístas Theology o f the Sacraments [Teologia
pela razão não há interesse algum dos sacramentos], sendo a primeira
pela liberdade de pensamento, aclamada, geralmente, como uma
como se poderia supor, mas, sim, das maiores contribuições para
um a consideração excessiva pela a literatura teológica nos últimos
tradição filosófica. Siger de Brabant tempos. Ali, ele escreveu: “Uma
afirm a que tratar matéria filosófica cristologia reduzida é um absurdo.
é se ocupar da determ inação do Ela deve ser tudo ou nada — tudo
pensam ento dos filósofos, mais do ou nada em ambos os lados, divino
que propriam ente descobrir a ver- e humano”. Baillie podia comunicar
dade. Essa m esm a posição para com candura, convicção e clareza.
com os filósofos, especialm ente Embora teologicamente possa ser
Aristóteles, parece haver também dito que ele ocupa um a posição
dom inado Cremoninus. O averro- reconciliadora entre o velho libera-
ísmo foi, em suma, a form a mais lismo e a neo-ortodoxia*, uma visão
conservadora e estéril de aristote- talvez confirmada pelo caloroso
lismo. apoio que deu ao Student Christian
Moviment [Movimento de Estudan-
Bibliografia tes Cristãos], sua própria formação
E. Gilson, History o f Christian profundamente evangélica e sua
Philosophy in the Middle Ages sensibilidade pessoal asseguraram
(London, 1955); F. van Steenber- que os estudantes mais conserva-
ghen, Thomas Aquinas and Radical dores também encontrassem nele
Aristotelianism (Washington, DC, um sábio conselheiro e um amigo.
1980).
A .V .B Bibliografia
God Was in Christ (London, 1948);
The Theology o f the Sacraments

B (London, 1957).
Ensaios biográficos em The Theo-
logy o f the Sacraments, por seu
BAILLIE, DONALD MACPHERSON. irmão, John Baillie*, e em To Whom
Teólogo escocês (1887-1954). Nas- Shall We Go? (Edinburgh, 1955),
cido em Gairloch, Ross-shire, e por J. Dow; J. P. Carter, The Chris-
educado em Edimburgo, Marburgo tology o f D. M. Baillie, dissertação
m 109 BAILLIE, JO H N

nao publicada (Edinburgh, 1969); 68). Seu liberalismo determinado


artigos sobre cristologia em SJT seguiu-se ao enfraquecimento do
11 (1958), p. 1-12 (J. H. Hick); p. calvinismo de seu pai. M erecedor
265-270 (J. Baillie); 17 (1964), p. de julgam ento crítico de Bonhoe-
303-308 (J. L. M. Haire). ffer*, em New York, isso se reflete
J.D.Do. em seus escritos, como The Roots
o f Religion in the Human Soul [As
BAILLIE, JOHN (1886-1960), clérigo raízes da religião na alma hu-
escocês e teólogo, irmão de Donald mana], 1926. Por volta de 1930,
Baillie*. Sua vida espelhou a união mudou sua posição para um a
presbiteriana na Escócia: filho de “neo-ortodoxia liberal”* {cf. And the
um presbítero da Free Church; Life Everlasting [E a vida etem a],
aluno no United Free Church’s New 1933; Our Know ledge o f God [Nos-
College, Edimburgo; moderador na so conhecimento de Deus], 1939),
Assembleia Geral da Igreja da Escó- mas subsequentemente se rea-
cia (1943), assim como refletia um firmou nele um a confiança maior
ecumenismo mais amplo: adminis- na razão, ao predizer um a forte
trador da Palestra de Edimburgo de reação ao barthianismo. The B e lie f
1910; presidente do WCC; signatá- in Progress [A crença no progresso]
rio do Bishops Report {Relatório dos (1950) foi seguida de The Idea o f Re-
Bispos) recomendando o episcopado velation in Recent Thought [A ideia
anglicano para a Igreja da Escócia da revelação no pensam ento atual]
(1957). Foi ele destacado condutor (1956), um influente estudo sobre
da Church’s Commission for the as posições antiproposicionais, e
Interpretation o f God’s Will in the de suas Palestras de Gifford (não
Present Crisis [Comissão da Igreja publicadas), sob o título The Sense
para Interpretação da Vontade de o f the Presence o f God [O sentido da
Deus na Crise Atual], 1940-1945 presença de Deus[ (1962). S u aob ra
(ver G od’s Will fo r Church and Nation mais conhecida é A Diary o f Private
[A vontade de Deus para a Igreja e Prayer [Diário de oração particular]
a nação], 1946; cf. também What (1936). Baillie com binava um a de-
is Christian Civilization? [O que é voção contemplativa com um libe-
civilização cristã?], 1945). ralismo cristão humano, que sabia
Baillie ensinou filosofia em discriminar entre as tendências
Edimburgo e, em seguida, teolo- teológicas em competição.
gia nos Estados Unidos e Canadá
(1919-1934), antes de se tornar Bibliografia
professor de teologia em Edim- Ensaios selecionados em Christian
burgo (1934-1956) e, por último, Devotion (London, 1962), contendo
também reitor da faculdade e di- tributo feito por I. M. Forrester, e
retor no New College (1950-1956). em A Reasoned Faith (1963). En-
Talvez tendo conhecido seu apogeu saios não publicados, Biblioteca do
na qualidade de apologista (cf. New College, Edimburgo.
Invitation to Pilgrimage [Convite ã Apreciações feitas por D. S.
peregrinação], 1942), foi chamado Klinefelter, SJT 22 (1969), p. 419-
também de “teólogo mediador” (W. 436; John Mackay, ibid. 9 (1956),
L. Power, USQR 24, 1968, p. 47- p. 225-235; T. F. Torrance, Religion
BALTHASAR, HANS URS VON 110 a

in Life 30 (1961), p. 329-333. P. V. pais da igreja, aqui, torna-se evi-


O ’Leary, Revelation and Faith in Our dente. A amplitude de sua visão
Knowledge according to the Theol- está intrinsecam ente relacionada,
ogy o f John Baillie (Roma, 1968). contudo, a um a firme adoção da
D .F.W . particularidade e singularidade de
Cristo, que é a forma de Deus, a
BALTHASAR, HANS URS VON. Nas- glória divina concentrada e focada
cido em 1905, destacou-se como um de modo insuperável.
dos principais teólogos e escritores A obra de Von Balthasar foi bas-
suíços católicos romanos. Após tante influenciada pela de Barth*,
estudos de filosofia e literatura, sobre quem escreveu com grande
tornou-se membro da Companhia percepção e a quem deve muito,
de Jesus, fundando em seguida particularmente por seu forte
um instituto secular (Johannesge- cristocentrismo (especialmente na
meinschaft) dedicado a amplas ati- construção da doutrina de Deus
vidades literárias e editoriais. Tem em base cristológica*), assim
publicado grande quantidade de como pelo entendimento da tarefa
livros, produzindo obras de teologia teológica como dirigida por uma
e filosofia e estudos interpretativos revelação* dada. O uso que ele faz
de história da cultura e de espiri- da categoria “beleza” , para des-
tualidade, assim como editando e crever a natureza de Deus em sua
traduzindo obras de outros. automanifestação para a criação, é
Sua magnum opus, destinada a um meio de recobrar o sentido de
se tornar um a das peças clássicas autoevidência, autoridade e neces-
dos escritos teológicos do século sidade da revelação, de maneira
XX, é um a obra de muitos volumes, bem sirmilar ao entendimento de
dividida em três partes, sintetizan- Barth sobre a automanifestação
do teologia, filosofia e literatura de Deus como irredutível e não ne-
em um estudo massivo do belo, do cessitando de autenticação alguma
bom e do verdadeiro. A primeira além de si mesma.
parte, Herrlichkeit (título traduzido O caráter gracioso da relação de
em inglês como The Glory o f the Deus com o homem é um a abor-
Lord [A glória do Senhor]), examina dagem central em sua teologia, e
a revelação sob o ponto de vista alguns de seus destaques, aqui,
superior da estética* teológica; a devem muito à obra de E. Przywa-
segunda, intitulada Theodramatik, ra, cuja parte voltada à analogia*
questiona a respeito da natureza deu ênfase maior à distinção entre
da ação divina e humana; e a ter- Deus e o mundo do que o “tomismo
ceira constitui um a abordagem de transcendental” , que se tornaria
“lógica teologal” . O alcance pratica- famoso com Karl Rahner*.
mente irrestrito do conhecimento e Talvez mais do que tudo, no
dos interesses de Von Balthasar entanto, a obra de Von Balthasar
testificam a catolicidade* de seu foi profundamente afetada por
pensamento, direcionado por uma seu relacionamento com a mística
visão da universalidade da auto- Adrienne von Speyr (1902-1967).
manifestação de Deus em Cristo: Com base em suas experiências,
sua dívida para com alguns dos ele d esen vo lveu u m a n otável
® 111 BAMPTON LECTURES

teologia, a do Sábado Santo, em BAMPTON LECTURES. Uma emi-


que a descida de Cristo ao inferno nente série de oito palestras profe-
se torna o principal aspecto da ridas em Oxford por John Bampton
cristologia, da soteriologia e da (1690-1751), cônego de Salisbury,
teologia trinítária. Como ato supre- inspirariam a criação, mais tarde,
mo de autoesvaziamento do Filho do evento conhecido como Bamp-
de Deus, o sábado santo fornece ton Lectures [Conferências de
um a teologia da reconciliação, Bampton], que teve início em 1780,
como a solidariedade de Cristo anualmente, mas se tom ou bienal a
com os condenados. Proporciona partir de 1895. John Bampton havia
também a base para um a teologia especificado os propósitos de suas
das relações trinitárias, centrada, conferências como os de “confirmar
tal como outras teorias trinitárias e estabelecer a fé cristã e refutar
contemporâneas, no Calvário. todos os hereges e cismáticos — a
Von Balthasar é cada vez mais respeito da autoridade divina das
reconhecido como um pensador sagradas Escrituras — a respeito
que tem produzido poderosa reafir- da autoridade dos escritos dos pais
mação de alguns dos temas cons- primitivos, quanto â fé e prática
tantes da teologia cristã clássica, da igreja primitiva — a respeito da
notadam ente na área da doutrina divindade de nosso Senhor e Sal-
da encarnação e trinitária. Seu vador Jesus Cristo — a respeito
entrelaçamento das referências da divindade do Espírito Santo —
teológicas e culturais, no entanto, a respeito dos Artigos da Fé Cristã,
juntam ente com o tom integrativo como incluídos nos Credos Apostó-
e especulativo de muitos de seus lico e Niceno”. As Bampton Lectures
escritos, pode não recomendá-lo ficaram restritas a anglicanos orde-
a alguns segmentos da teologia nados (e anteriormente somente aos
contemporânea, mais preocupados diplomados em Letras em Oxford e
com o embasamento crítico e a Cambridge), mas em 1952 foi criado,
avaliação das alegações verdadei- a partir do Fundo Bampton, o Sa-
ras cristãs e menos confiantes na rum Lectureship, evento constituído
objetividade da revelação. de uma série de preleções similares,
realizado em anos alternados com
Bibliografia as Bamptom Lectures e aberto aos
Elucidations (London, 1965); Enga- não anglicanos.
gement with God (London, 1975); Entre as conferências de maior
The Glory o f the Lord. A Theological repercussão, estão: de R. D. Ham-
Aesthetics (Edinburgh, 1983- ); Love pden, The Scholastic Philosophy
Alone. The Way o f Revelation (London, Considered in its Relation to Chris-
1968); Prayer (London, 1971); Theo- tian Theology [A filosofia escolás-
dramatik (Einsiedeln, 1973-1978). tica considerada em sua relação
M. Kehl & W. Loser (eds.), A com a teologia cristã] (1832); de Η.
Von Balthasar Reader (Edinburgh, L. Mansel, The Limits o f Religious
1983); J. K. Riches, “The Theology Thought [Os limites do pensam ento
o f Hans Urs von Balthasar’‫־‬, Th 75 religioso] (1858); de J. B. Mosley,
(1972), p. 562-570,647-655. Miracles [Milagres] (1865); de H.
J.B.We. P. Liddon, The Divinity o f Our Lord
BARCLAY, ROBERT 112 ‫יו‬

and Saviour Jesus Christ [A divin- industrial de Clydeside, sendo, em


dade de nosso Senhor e Salvador 1947, nomeado lente e, em 1964,
Jesus Cristo] (1866); de C. Bigg, designado professor titular de
The Christian Platonists o f Ale- Novo Testam ento na Universidade
xandria [Os cristãos platônicos de de Glasgow. Unia a erudição clãs-
Alexandria] (1886); de W. Sanday, sica à capacidade de se com unicar
Inspiration [Inspiração] (1893); de com todos os níveis sociais, fosse
N. P. Williams, The Ideas o f the Fall nos estaleiros, fosse nas salas de
and o f Original Sin [As ideias acer- aula, fosse com o grande público,
ca da queda e do pecado original] pela im prensa ou pela televisão.
(1924); de Κ. E. Kirk, The Vision o f Sua série Daily Study Bible [Bíblia
God [A visão de Deus], (1928); de de Estudo Diário] (NT) vendeu cer-
G. L. Prestige, Fathers and Heretics ca de 1,5 milhões de exemplares,
[Os pais e os hereges] (1940); de T. foi traduzida para muitos idiomas,
G. Jalland, The Church and the Pa- inclusive da Birm ânia [atual Mian-
pacy [A Igreja e o papado] (1942); mar] e da Estônia, e lhe propiciou,
de H. E. W. Turner, The Patterns p osteriorm ente, um m inistério
o f Christian Truth [Os padrões da m u ndial de correspondência.
verdade cristã] (1954). Teologicam ente, ele se autodeno-
Em 1968, foi criada um a socie- m inava um “liberal evangélico”*.
dade de confraternização Bampton. Afirm ava ser o único membro do
As Bampton Lectures tiveram início corpo docente de sua faculdade
nos Estados Unidos em 1950, des- de teologia que acreditava terem
tacando-se, entre elas, a de John sido Mateus, Lucas e João que
Baillie*, The Idea o f Revelation in escreveram os evangelhos a eles
Recent Thought [A ideia da revela- atribuídos. Não obstante, era um
ção no pensam ento atual]. universalista*, reticente quanto à
inspiração das Escrituras*, crítico
Bibliografia da doutrina da expiação substituti-
Lista até 1893, na obra de J. F. va* e com ideias próprias a respeito
Hurst, Literature o f Theology (New do nascim ento virginal* e de mila-
York, 1896); sumários, em J. gres*, que os conservadores consi-
Hunt, Religious Thought in England deravam heréticas ou imprecisas.
in the Nineteenth Century (London, Referiu-se a Bultmann*, certa vez,
1896), p. 292-332; palestrantes, como o pregador mais evangélico
na obra The Historical Register o f que já havia ouvido, pois todos os
the University o f Oxford (1900) e seus escritos visavam confrontar o
Supplements. indivíduo com Cristo. No contexto
D .F.W . do m arcante declínio da membre-
sia da Igreja da Escócia, Barclay
BARCLAY, ROBERT, ver T e o l o g ia deplorou o desaparecim ento vir-
Q uacre. tual da disciplina eclesiástica* e
sugeriu duas categorias de mem-
BARCLAY, WILLIAM (1907-1978). bresia: a daqueles “profundam ente
Erudito bíblico escocês. Nascido atraídos por Jesus Cristo” e a dos
em W ick e formado em Glasgow já preparados para assum ir um
e Marburgo, m inistrou na área com prom isso total.
9 113 BARTH, KARL

Bibliografia incluindo um volume, precoce, de


Testament o f Faith (London, 1975), preâmbulo à Dogmática. Mudan-
publicado também em inglês como do-se para Bonn, Barth começou
A Spiritual Autobiography (Grand então a escrever sua extensa obra
Rapids, MI, 1975). teológica, ao mesmo tempo que se
R. D. Kernohan (ed.), William envolvia cada vez mais na oposição
B arclay: the Plain Uncommon Man a Hitler, fornecendo substancial
(London, 1980); J. Martin, William m atéria teológica à sua Igreja Con-
Barclay (Edinburgh, 1984); C. L. fessante, notadamente no Sínodo
Rawlins, William Barclay (Grand de Barmen*, em 1934. Isso levou
Rapids, MI & Exeter, 1984). ã sua exoneração do ministério e
J.D.Do. designação para um a cátedra de
magistério em sua cidade natal de
Basiléia, onde perm aneceria pelo
BARTH, KARL (1886-1968). Conside- restante de sua carreira e aposen-
rado por muitos o mais importante tadoria e onde escreveu diversos
teólogo do século XX. Sua obra, em volumes de sua obra, deixada, ao
quatro volumes, Dogmática da igreja, falecer, inacabada.
é tida como uma das maiores, senão Para a compreensão de seu
a maior, contribuição à teologia pro- pensamento anterior, é necessário
testante desde Schleiermacher*. saber de sua rejeição à herança
liberal recebida de seus mentores
Vida teologais. Juntamente com Edward
Nascido em um a fam ília de teólo- Thurneysen (1888-1974), seu com-
gos suíços, Barth estudou em Ber- panheiro de pastorado, Barth se
na, Berlim, Tübingen e Marburgo, tom aria cada vez mais insatisfeito,
com alguns dos mais destacados com o método crítico-histórico como
professores da época, notadamen- meio de exame das Escrituras.
te Harnack* e Herrmann*. Após Insatisfação combinada com sua
breve período trabalhando para o leitura de Kierkegaard*, Nietzsche*,
jornal Die christliche Welt [O mundo Dostoievski* e Franz Overbeck
cristão] e como pastor auxiliar em (1837-1905), a rejeição de Barth
Genebra, foi nomeado pastor na do pensamento liberal da fé cristã
aldeia de Safenwil, em Aargau, de o conduziria a um a ênfase reno-
1911 a 1921. Durante o decurso vada no elemento escatológico e
de seu ministério ali, Barth foi-se sobrenatural do cristianismo. Sua
tornando cada vez mais insatisfeito recusa de qualquer síntese entre a
com sua própria formação teológica igreja e a cultura secular sofreria,
liberal*. A redescoberta gradual das depois, um a guinada decisiva, sob
Escrituras como revelação o levou, a influência do socialismo cristão
a seguir, a escrever um conhecido radical de Christoph Blumhardt
comentário explosivo sobre Roma- (1842-1919) e de pensadores como
nos. De 1921 a 1930, ensinou em Hermann Kütter (1863-1931) e
Gõttingen e Münster, exercendo Leonhard Ragaz (1868-1945). Os
importante papel no chamado frutos dessas mutações profundas
movimento da “teologia dialética”* no panoram a teológico seriam en-
e publicando diversos escritos, contrados nos sermões de Barth
BARTH, KARL 114 β

e em seus escritos ocasionais du- 1920, publicadas, mostram quão


rante a Primeira Guerra Mundial, radical era sua confrontação com
mas, acima de tudo, no comentário o que ele entendia ser uma teologia
A epístola aos Romanos. da subjetividade, assim como suas
conferências sobre Schleiermacher
Comentário de Romanos em Gõttingen, entre 1923 e 1924,
Primeiramente publicado em 1919 e as palestras sobre ética, reali-
e, depois, com pletamente reescri- zadas, pouco depois, em Münster
to para um a segunda edição em (1928-1929).
1922, o comentário de Romanos
de autoria de Barth não é tanto Dogmática
um a exegese quanto um a reflexão Quase ao final da década de 1920,
sustentada e intensa sobre o que Barth inicia intensa obra, publi-
o teólogo chamaria mais tarde de cando em 1927, sua Dogmática
“a bondade de Deus” . Nesse livro, cristã em esboço. Mais tarde, ele
Karl Barth despeja todo o seu des- consideraria esse trabalho como
contentamento com a síntese sobre meio caminho entre seus escritos
Deus e o homem que encontrara no do começo da década de 1920 e
ideal religioso liberal, salientando sua Dogmática definitiva. Muito
a disjunção radical entre Deus e o embora mais construtiva que os
homem, em que Deus se torna o escritos anteriores, ela retinha ela
inquiridor do homem, aquele que ainda vestígios do método teológi-
inicia um a crise na continuidade co protestante liberal, que Barth
da história humana. Tanto o con- finalmente corrigiu por meio de
teúdo como o estilo do livro são, intensivo estudo de Anselmo*. Foi
por vezes, apocalípticos*, tendo justam ente mediante sua leitura
recebido forte crítica por parte da de Anselmo, parcialmente aplicada
tradição acadêmica. no debate com o filósofo Heinrich
Não obstante, Barth, já então Scholz (1884-1956), que Barth dei-
professor, continuou seu ataque xou a “teologia dialética” de seu pe-
sobre o núcleo do liberalismo. De- ríodo anterior, podendo, então, ser
pois da obra sobre Romanos, pros- capaz de expandir um a base mais
seguiu com exposições referentes a sólida para a dogmática do que ha-
ICoríntios 15 (1924) e Filipenses via sido produzido tanto pelos teó-
(1927); e em famoso debate público logos da consciência religiosa como
com Harnack, em 1923, editado, por sua própria rejeição, escatoló-
criticou o método crítico-histórico gica e quase sempre agressiva, da
(que para Harnack era a expressão obra destes. O estudo de Barth, de
da pesquisa disciplinada para uma 1931, sobre o procedimento teo-
verdade objetiva), pelo seu equívoco lógico de Anselm o (procedimento
em tratar as Escrituras como uma que produziu frutos como Fides
revelação perturbadora. Em uma Quaerens Intelectum [Fé em busca
coleção anterior de ensaios, A pala- de entendimento]) o capacitaria a
vra de Deus e a palavra do homem, esclarecer o relacionamento entre
Barth desenvolvera sua hostilidade a fé e a inquirição racional de um
à religião humana*. Do mesmo modo melhor desenvolvido do que
modo, suas palestras da década de no debate anterior com Harnack,
» 115 BARTH, KARL

fornecendo os fundamentos para a outras, mas, sim, o ponto central


Dogm ática da igreja. Barth consi- do qual todas as outras doutrinas
deraria a teologia, particularmen- cristãs provêm. O procedimento te-
te, como um a pesquisa moldada ológico de Barth assume, por isso,
pelo próprio objeto que examina. uma forma distinta: a doutrina
A tarefa do teólogo não é tanto o cristã é construída por inferência
de estabelecer o objeto da pesquisa da pessoa de Jesus Cristo, que é o
(por exemplo, pela “prova” , dispo- locus de toda verdade a respeito de
nível naturalmente, de Deus), mas, Deus e do homem. Isso conduz não
sim, ser conduzido pela raciona- somente ao resoluto realismo de
lidade inerente do próprio objeto. Barth e sua hostilidade a todos os
A teologia pressupõe um a ordem fundamentos abstratos, metafísicos
objetiva de existência, apreendida e antropológicos supostos à teolo-
no Credo da igreja, que, por si só, gia, mas também ao seu manuseio
proporciona base para o discurso diferente da analogia*. Barth, na
racional sobre Deus. Associada à verdade, reverte a direção usual da
sua obra sobre o método teológico* analogia: em vez de se mover pela
estaria a rejeição polêm ica de Bar- analogia a partir das realidades
th da teologia natural*, em debate conhecidas da criação em direção
com um antigo com panheiro de ao conhecimento do divino, Barth
viagens, Emil Brunner*, e uma se movimenta a partir de Deus em
série de exposições suas sobre os Cristo como o dado fundamental
credos e as confissões da Reforma. em direção às afirmações concer-
Em Bonn e, depois, na Basiléia, nentes à criação e à humanidade.
em meio a preocupações contro- É a profundidade que Barth faz de
versas políticas e religiosas, Barth sua teocentricidade que torna a
começou a trabalhar na Dogmáti- Dogmática um a das obras mais im-
ca. Originalmente expressa sob a portantes da teologia protestante.
forma de palestras e, depois, revi- O estudo completo compreende
sada para publicação, a obra é, por quatro volumes, que discorrem so-
toda a sua consistência interior, o bre a doutrina da palavra de Deus,
registro de um processo de cresci- sobre a doutrina de Deus, sobre a
mento e m udança no decorrer de doutrina da criação e (volume ina-
trinta anos. Barth não está sim- cabado) sobre a doutrina da recon-
plesmente mapeando um sistema. ciliação. Um quinto volume sobre a
Talvez o aspecto mais notável do doutrina da redenção foi projetado,
seu trabalho seja a capacidade mas nunca chegou a ser iniciado.
incansável do autor para a admi- Cada volume é subdividido em
ração: a Dogmática é, em seu todo, tomos parciais, nos quais o autor
o registro da fascinação de Barth expõe e medita sobre um a série de
pelo valor, a beleza e a variedade teses, incluindo grande riqueza
total da verdade cristã. de discussão detalhada histórica e
O cerne dessa empreitada, tan- exegética, assim como um a abor-
to do modo metodológico quanto dagem das conseqüências éticas
substantivo, é a cristologia*. Para da discussão dogm ática principal.
Barth, a cristologia não é simples- O primeiro volume entrelaça
mente um a doutrina paralela a as doutrinas da revelação* e da
BARTH, KARL 116 »

Trindade, propondo que a teologia liberdade de ação por amor. Do


surge a partir do autoposiciona- mesmo modo, a doutrina da elei-
mento do sujeito divino. A revelação, ção é um a afirmação a respeito da
como a autorrepetição graciosa de escolha de Deus de ser ele próprio
Deus, cria na igreja a experiência em Jesus Cristo e, assim, escolher
da fé, constituindo o homem como a humanidade como sua parceira
recipiente da palavra de Deus, que pactuai, a quem é dada a tarefa de
é a sua autorrevelação. A tarefa obediência à ordem divina.
teológica é a do autoescrutínio da A realidade do homem como
igreja contra seu objetivo referente, parceiro de Deus é tratada em
do qual a teologia recebe seu status detalhes no terceiro volume. Barth
como ciência. recusa-se a trabalhar com a doutri-
Desde o princípio, 0 realismo na da criação* como uma verdade
teológico consistente de Barth é que esteja naturalmente disponí-
evidente: seu ponto de partida, to- vel. Em vez disso, vincula a criação
talmente diferente da herança libe- à aliança*: o fato de o homem ser
ral ou de seus pares existencialis- criatura deriva de sua adoção pelo
tas* contemporâneos, é a realidade pacto de Deus com a humanida-
dada do Deus que se autorrevela. de, tornada real em Jesus Cristo,
Isso vem à tona no segundo volu- que é tanto Deus, que elege, como
me, na discussão do conhecimento* homem, eleito. Assim, a história
de Deus, da capacidade que reside humana e o ser humano, como
não na prontidão do homem em tais, são o que são por causa da
relação a Deus, mas na prontidão própria assunção de Deus da sua
de Deus de com partilhar o conhe- existência histórica e como criatura
cimento que tem de si próprio com na encarnação. Barth expõe o tema
o homem: o autoconhecimento de em discussões particularmente sig-
Deus é graciosamente reduplicado nificativas sobre a temporalidade e
no recipiente da revelação. Barth o pecado humanos, desenvolvendo
apresenta, de fato, um a avaliação mais um a vez de forma rigorosa o
severamente negativa da teologia método de analogia a partir da cris-
natural e do que entendia serem as tologia, que passa a assumir, cada
doutrinas tradicionais da analogia. vez mais, importante papel em sua
A discussão sobre o ser de Deus, argum entação.
nesse segundo volume, é um dos Quando Barth se volta para a
tratamentos mais importantes do cristologia no quarto volume, seu
tem a desde Calvino*. O ser de Deus estilo e pensamento tornam-se
é descrito como o seu ser em ação, gradativamente mais concretos. Ao
isto é, Deus é em Si mesmo ou se tempo em que trabalhava nesse vo-
torna a si mesmo no ato de am or de lume, publicou importante ensaio
criar comunhão com o homem em sobre “a humanidade de Deus”, em
Jesus Cristo. Na verdade, Barth re- que corrigia algo de seu pensamen-
m odela radicalmente a doutrina de to “dialético” anterior, focando-o
Deus por tornar central a pessoa com concentração ainda maior
de Cristo para a própria teologia. sobre o homem Jesus como o co-
A condição de absoluto em Deus meço e o fim dos caminhos de Deus
é, portanto, nada mais do que sua para com o homem. Nessa última
% 117 BARTH, KARL

parte da Dogmática, seu registro se sado, em Protestant Theology in


torna gradualmente narrativo no the Nineteenth Century [Teologia
tratamento do tema cristológico da protestante no século XIX\.
humilhação e exaltação. A seção
ética do volume quatro, que nunca Interpretação
foi terminada — sendo partes dela A obra de Barth afetou substan-
publicadas como um último frag- cialmente o curso da teologia
mento, CD IV A , e outras, em edição protestante na Europa e além dela.
póstuma, como The Christian Life [A Muito embora ele tenha resistido
vida cristã}) — contém uma narrati- à pressão de se tornar o centro
va realista da ação ética humana. de um a corrente de pensamento,
Está exposta na apresentação que sua obra tem sido interpretada
Barth faz do batismo com água, cujo e estendida por muitos, notada-
status sacramental ele nega, a fim mente H. Gollwitzer (n. 1908), O.
de afirmar seu próprio caráter como W eber (1902-1966) e E. Jüngel*,
ato humano de resposta obediente. na Alemanha, e T. F. Torrance*, na
O quarto volume é a expressão mais Inglaterra. A avaliação crítica de
madura das convicções de Barth a Barth frequentemente focaliza sua
respeito de Jesus Cristo, o Deus- narrativa da relação de Deus com
homem, fornecendo uma descrição a criação, questionando se seu mé-
do caráter de Deus e a origem da todo e suas convicções teológicas
participação humana no pacto de fundamentais o levam a oferecer tão
Deus e na criação. Contém, ainda, somente um a afirmação am bígua
muitas sugestões para a revisão de do valor e da realidade da ordem
aspectos de sua teologia anterior, natural. Em termos de sua abor-
notadamente na narrativa interati- dagem do conhecimento de Deus,
va do relacionamento de Deus com Pannenberg*, por exemplo, argu-
a ordem natural. menta que a confiança de Barth na
Após a aposentadoria, Barth autoevidência do objeto da teologia
trabalhou um pouco mais em sua o conduz a um fideísm o que se re-
obra, ganhou um vivido interesse cusa a oferecer quaisquer espécies
pelo Concilio Vaticano II e publicou de pontes entre o conhecimento
alguns breves trabalhos, incluindo da revelação e o conhecimento do
suas palestras finais em Basiléia, mundo dos homens. Algo relativo a
sob o nome de Evangelical Theology esse mesmo conjunto de questões
[Teologia evangélica}. Uma avalia- emerge nas discussões da doutri-
ção plena de sua obra terá de levar na barthiana do homem. Críticos
em conta também seus sermões sugerem que, por fundam entar a
publicados enquanto em prisão realidade do homem tão comple-
política na Basiléia, Deliverance tamente na humanidade de Deus
to the Captives [Libertação para os em Cristo, Barth deixa de dar valor
cativos] e Call fo r God [Chamado a real à ordem natural. Consequen-
Deus]; suas coleções de ensaios, temente, em suas perspectivas da
como Against the Stream [Contra liberdade humana, do pecado e da
a corrente] e Theology and Church rejeição de Deus, alguns detectam
[Teologia e igreja]; e suas reflexões a ausência de um sentido real do
sobre teólogos e filósofos do pas- homem diante de Deus. Ou, mais
BARTH, KARL 118

um a vez, nas seções sobre ética da reavaliação incansável do próprio


Dogmática, particularmente antes pensamento, dando testemunho
ao quarto volume, Barth é interpre- de seu compromisso, crucialmente
tado como tendo se fundamentado interrogativo e constantem ente re-
de tal modo na ação delegada do novado, para com a teologia. Barth
homem em Cristo que o ímpeto da nunca sossegava, e suas leituras
obediência humana é removido e das Escrituras, assim como dos
a santificação não é reconhecível teólogos clássicos do passado —
como um processo humano. Os Calvino e Schleiermacher, acima
teólogos católicos, em especial, de tudo — foram constantemente
apontam um “realism o” ou “oca- submetidas à sua reavaliação e cri-
sionalism o” na antropologia* de tica. A obra de Barth não é apenas
Barth, em que não parece colocar um a reafirmação convincente das
ênfase suficiente sobre a continui- principais linhas da fé cristã; cons-
dade do homem como recipiente da titui também um a das principais
graça divina. O efeito da concentra- respostas críticas ao Iluminismo*,
ção de Barth na cristologia em sua com um lugar significativo na his-
doutrina da Trindade form a outra tória intelectual da Europa.
área de discussão. Por considerar
o Espírito como essencialmente Bibliografia
um a dimensão “aplicativa” ou Obras selecionadas: Gesamtaus-
“subjetiva” da obra de Cristo, Bar- gabe (Zurich, 1971- ). Escritos
th parece deixar de realizar uma acadêm icos: para um a bibliogra-
plena abordagem personalista do fia cronológica proveitosa, ver E.
Espírito Santo como agente divino Busch, K arl Barth (London, 1976).
distinto. Isso estaria vinculado Principais obras: The Christian
a questões mais genéricas sobre Life (Edinburgh, 1981); Church
um suposto “m odalism o” seu (ver Dogm atics, 1:1-IV:4\ Credo (Lon-
Monarquianismo*), sendo a sua don, 1936); Dogm atics in Outline
preferência pela expressão “modo (London, 1949); The Epistle to the
de existência” , em vez de “pessoa” , Rom ans (Oxford, 1935); Ethics
sugestiva de um a avaliação muito (Edinburgh, 1981); Evangelical
elevada da unidade divina à custa Theology (London, 1963); Fides
de um sentido próprio da plurali- Quaerens Intellectum (London,
dade em Deus. 1960); The H um anity o f God (Lon-
Muitas críticas a Barth são in- don, 1961); The Know ledge o f God
válidas, por tratarem sua teologia and the Service o f God (London,
demasiadamente em caráter siste- 1938); Prolegom ena zu r christli-
mático, sem perceberem os inves- chen D ogm atik (München, 1928);
timentos e o saldo no conjunto de Protestant Theology in the Nine-
sua obra. A grande força de Barth, teenth Century (London, 1972);
acima de tudo, talvez tenha sido The R esurrection o f the Dead (Lon-
sua capacidade de com eçar tudo don, 1933); Theology and Church
outra vez. As diversas mudanças (London, 1962); The Theology o f
de posição em sua obra estão Schleierm acher( Edinburgh, 1982);
longe em ser volúveis; muito mais The Word o f God and the Word o f
do que isso, fazem parte de sua M an (London, 1928).
‫־‬an 119 BASÍLIO DE CESA RÉIA

Ver bibliografia em M. Kwiran, do monasticismo coenobítico. Ele e


An Index o f Literature on Barth, Bon- Gregório de Nazianzo compilaram
hoeffer and Bultmann (Sonderheft to um a influente coleção dos escritos
Theologische Zeitschrift, 1977). Ver de Orígenes*, a Philocalia. Os dons
especialmente: H. U. von Balthasar, intelectuais e administrativos de
The Theology o f Karl Barth (New Basílio o levaram a ser eleito bispo
York, 1971); G. C. Berkouwer, metropolitano de Cesareia, capital
The Triumph o f Grace in the Theol- da Capadócia, em 372. Com a mor-
ogy o f Karl Barth (London & Grand te de Atanásio*, no ano seguinte,
Rapids, MI, 1956); G. W. Bromiley, tornou-se a principal coluna da
A n Introduction to the Theology o f ortodoxia no Oriente, defendendo
Karl Barth (Edinburgh, 1980); C. a divindade do Filho e do Espírito
Brown, Karl Barth and the Christian Santo contra os arianistas e os
Message (London, 1967); C. Gun- pneumatoquianos. Foi ele o princi-
ton, Becoming and Being (Oxford, pal arquiteto da doutrina capadócia
1978); E. Jüngel, Barth-Studien da Trindade*, que se tornaria defi-
(Gütersloh, 1982); idem, The Doc- nitiva para o Oriente e o Ocidente.
trine o f the Trinity (Edinburgh, Foi também notável liturgista.
1976); idem, Karl Barth: A Theologi- As duas obras mais importantes
cal Legacy (Edinburgh, 1987); H. de Basílio são: Contra Eunômio,
Küng, Justification (London, 1964); um a resposta ao arianismo ex-
K. Runia, Karl B arth ’s Doctrine o f tremado, e Sobre o Espírito Santo.
Holy Scripture (Grand Rapids, MI, Eunômio argum entava que, visto
1962); S. W. Sykes (ed.), Karl Barth que as criaturas eram geradas, o
(Oxford, 1979); J. Thompson, Christ Filho, sendo gerado, não poderia
in Perspective (Edinburgh, 1978); T. ser Deus. Basílio nega que “não
F. Torrance, Karl Barth (London, ser gerado” seja um a definição
1962); R. E. Willis, The Ethics o f adequada da essência de Deus,
Karl Barth (Leiden, 1971). ao mesmo tempo que defende a
J.B.We. doutrina (herdada de Orígenes e
Atanásio) da geração eterna do
BASÍLIO DE CESAREIA (c. 329 379), Filho. A geração das criaturas é fí-
também chamado Basílio, o Gran- sica e temporal; a geração do Filho
de, foi a principal figura do grupo é inefável e eterna.
dos três pais capadócios que defen- O segundo principal tratado
deram a ortodoxia de Niceia contra de Basílio, escrito para defender
os arianistas*, nos anos finais do a glorificação do Espírito em sua
século IV. Gregório de Nazianzo*, doxologia, deve ser visto no con-
o segundo do grupo, estabeleceu texto da emergência dos chamados
uma amizade fraternal com Basílio macedonianos e pneumatoquia-
quando eram estudantes em Ate- nos, que negavam a divindade do
nas. O terceiro membro do grupo Espírito. Basílio aceita claramente
era Gregório de Nissa*, o irmão a divindade do Espírito em suas
mais jovem de Basílio, educado em cartas, mas para repentinamente
seu lar. Retornando à Capadócia, de fazê-lo com esse tratado, que
Basílio dedicou-se a um a vida asce- declara, em muitas palavras, que
ta e devocional e se tornou pioneiro o Espírito é Deus e consubstanciai
BATISMO 120

(homoousion) com o Pai. Foi essa cetic, 2 vols. (Toronto, 1981); J. N.


uma estratégia política, para não D. Kelly, Early Christian Doctrines
dar a seus inimigos a oportunidade (Lon don ,51977); G. L. Prestige, God
de derrotá-lo, mas também diplo- in Patristic Thought (London, 1952);
mática. Sem ofender aqueles hesi- idem, St Basil the Great and Apolli-
tantes, obrigando-os a fazer uma naris ofLaodicea (London, 1956); I.
confissão pública da divindade do P. Sheldon-Williams, in CHLGEMP,
Espírito, Basílio argumenta que o p. 432-438; E. Venables, in DCBE
Espírito não pode ser um a criatura 1, p. 282-297; J. W. C. Wand, Doc-
(a única alternativa de ele ser Cria- tors and Councils (London, 1962).
dor) e que deve ser adorado. T.A .N .
Aqui, ele dá sua contribuição
distintiva à doutrina trinitariana. BATISMO. A fim de oferecer um a
Atanásio e os nicenos mais antigos abordagem consistente do batismo
tinham defendido a divindade do desde suas raízes bíblicas até o pre-
Filho, insistindo em que era con- sente, o assunto é discorrido aqui
substancial (homoousios) com o Pai em duas partes: teologia bíblica do
e da mesm a essência (ousia) dele. batismo e reflexão sobre o batismo
Basílio faz a distinção entre ousia na teologia histórica e sistemática.
e hipóstase* (que, confusamente,
poderia ser traduzida por “subs- 1. Teologia bíblica
tância”), termos até então usados N a tu re z a d o rito . O batismo,
indistintamente. Refere-se a um a como lavagem em água com signi-
só ousia de Deus, mas com três ficado espiritual, tem suas raízes
hipóstases: a do Pai, a do Filho e no judaísm o do AT e pré-cristão. A
a do Espírito Santo. Foi essa que lei prescrevia o banho de pessoas
se tornou a doutrina da Trindade consideradas “im undas” (ver, e.g.,
definitiva no Oriente. A doutrina Lv 14.8,9 e Lv 15). Arão e seus filhos
dos capadócios viria a influenciar foram lavados cerim onialmente em
grandemente o Ocidente por meio sua ordenação ao sacerdócio (Lv
de Ambrósio*, embora o Ocidente 8.5,6). No Dia da Expiação, Arão
tenha começado a partir da unici- tinha de se banhar antes de entrar
dade de Deus, mas falando de três no Lugar Santo e novamente ao
“pessoas” . deixá-lo (Lv 16.3,4); igualmente,
quem soltasse o bode expiatório no
Bibliografia deserto teria de se banhar, assim
Obras selecionadas em TI, em NPNF, como aquele que queimasse suas
2 - série, vol. 8, e na série FC. roupas (Lv 16.26-28). Esses rituais
H. von Campenhausen, The de lavagem levaram a um a aplica-
Fathers o f the Greek Church (Lon- ção simbólica de purificação espiri-
don, 1963); W. K. L. Clarke, Basil tual na oração (e.g., SI 1.1,2,7-10).
the Great: A Study in M onasticism Pouco antes do advento da era
(London, 1913); P. J. Fedwick, cristã, ocorreu uma espécie de mo-
The Church and the Charisma o f vimento batismal no vale do Jordão,
Leadership in Basil o f Caesarea sendo seu exemplo mais marcante o
(Toronto, 1979); idem (ed.), Basil o f da comunidade monástica de Cunrã
Caesarea: Christian, Humanist, A s ­ (cf. Manuscritos do Mar Morto*).
121 BATISMO

Originária de entre sacerdotes que ria dada pelo Senhor ressurreto


rejeitavam como corrupta a adora- incluísse a ordem de batizar (Mt
ção no templo, os membros dessa 28.18-20). A expressão (batizar)
comunidade enfatizavam a manu- “em nome de” , em um contexto
tenção do ritual de pureza com semítico, significa batismo “com o
banhos diários, acompanhados de devido respeito a”, mas aqui, es-
atitude interior de arrependimen- pecialmente, denota a base do ba-
to. É bem provável que o batismo tismo e seu propósito de ingresso
administrado por João Batista da pessoa em um relacionamento
fosse um a adaptação da prática de em que passa a pertencer a Deus.
Cunrã. João pregava “um batismo Os leitores gregos do evangelho
de arrependimento para o perdão certamente entendiam a frase de
dos pecados” (Mc 1.4), como prepa- modo muito semelhante, como que
ração para a vinda do Messias e o significando: “Apropriação pelo Pai,
seu batismo com o Espírito Santo Filho e Espírito Santo, mediante o
e com fogo (Mt 3.11-12). Por ser uso desse nome” (W. Heitmüller, Im
de conversão, esse batismo era Namen Jesu, [Em nome de Jesus[,
aplicado somente uma vez, diferen- Gôttingen, 1903, p. 121).
temente das lavagens repetidas da S ig n ific a d o d o rito . No ensino
comunidade de Cunrã. apostólico sobre o batismo, o rito
Não se sabe ao certo, no entanto, primariamente significa união com
se o batismo praticado em judeus Cristo*: “ [...] pois os que em Cristo
prosélitos surgiu, antes, a tempo foram batizados, de Cristo se re-
de influenciar o batismo cristão vestiram ” (G1 3.27). A linguagem
primitivo. Fazia parte do rito de reflete o ato de se despir para,
iniciação dos gentios no judaísm o, depois, vestir-se, no batismo (cf.
que abrangia circuncisão, batismo o uso da figura em Cl 3.9-14); “re-
e oferta de sacrifícios; e, como as vestir-se de” Cristo denota receber
mulheres tinham somente que ser Cristo, estar em Cristo e, assim,
batizadas e oferecer sacrifício, seu se tornar um com ele. No ensino
batismo certamente assumia, nes- de Paulo, um a vez que Cristo é o
se caso, importância maior. Senhor crucificado e ressuscita-
A submissão de Jesus ao batis- do, o batismo significa união com
mo de João, cuja intenção era a de Cristo em seus atos redentores*; o
preparar os pecadores para a vinda que inclui a ideia de jazer com ele
do Messias, é explicável como um em seu túmulo e ser com ele um
ato deliberado de solidariedade do só em sua ressurreição (Rm 6.1-5;
Senhor para com os homens e mu- Cl 2.11,12), participando assim da
lheres pecadores arrependidos. Era nova criação, iniciada com a sua
a iniciação no processo pelo qual a ressurreição (2C0 5.17), anteci-
soberania salvadora de Deus chega- padamente à ressurreição* para
va aos homens, para se manifestar o reino final (Cl 3.1-4). O batismo
em seu ministério da palavra e de significa, além disso, união com
atos do reino de Deus, sua morte Cristo em seu corpo, a igreja, pois
e ressurreição e envio do Espírito estar “em Cristo” significa ser um
Santo. Não é de surpreender, por com todos os que estão unidos a
isso, que a comissão missioná­ ele (G1 3.26-28; IC o 12.12,13).
BATISMO ‫ ן‬22 ^

Mais ainda, como é inconcebível a Contudo, no caso de muitos cris-


união com Cristo sem o “Espírito tãos batizados na infância, como
de Cristo” , o batismo significa re- pode o seu batismo se relacionar
novação pelo Espírito Santo (assim com a exposição apostólica a res-
já com Pedro na proclamação de peito desse sacramento? A crença
Pentecoste, At 2.38; e, depois, na tradicional de que tudo aqui se en-
teologia de Paulo sobre a igreja, caixa perfeitamente é questionada
IC o 12.12,13). O batismo signi- por teólogos sacramentais. Uma
fica também entrada no reino* de teologia do batismo infantil terá
Deus, pois a salvação de Cristo de enfatizar a função iniciatória
não é senão vida sob a soberania do rito na comunidade do Espírito,
salvadora de Deus (cf. Mt 12.28; Jo respeitando tanto a redenção con-
12.31,32; Rm 14.17; Cl 1.13,14). A sumada de Cristo quanto o alvo de
conexão dessa condição com o ba- apropriação dessa redenção pela fé
tismo é feita em João 3.5, em que e consagração ao serviço de Cristo.
“o nascer de novo” (v. 3) é explicado Qualquer que seja a idade do ba-
como o nascimento “da água e do tizando, o batismo significa graça
Espírito”. Isso é mais bem enten- e chamado para crescimento em
dido como uma alusão ao batismo Cristo por toda a vida com vistas à
de arrependimento, ao qual Nico- ressurreição no último dia.
demos certamente tinha deixado de
se submeter, e ao derramamento Bibliografia
do Espírito, que deveria vir com o Baptism, Eucarist and. Ministry (Ge-
reino de Deus. No evangelho, esses neva, 1982); M. Thurian (ed.), Ecu-
dois aspectos se unem mediante a menical Perspectives on Baptism,
redenção de Cristo. O batismo em Eucarist and Ministry (Geneva,
nome de Jesus, em arrependimento 1983); M. Thurian & G. Wainwright
e fé, e a ação recriadora do Espírito (eds.), Baptism and Eucarist, Ecu-
e entrada no reino de Deus se tor- menical Convergence in Celebration
nam, assim, um só fato encadeado. (Geneva, 1984).
Finalmente, o batismo significa vida K. Barth, Baptism as the Foun-
em obediência ao governo de Deus, dantionofthe Christian Life, CD, IV. 4;
como nos indica Rm 6.4, ao dizer: G. R. Beasley-Murray, Baptism in
“Portanto, fomos sepultados com the New Testament (London, 1963);
ele na morte por meio do batismo, a D. Bridge & D. Phypers, The Water
fim de que [...] também nós vivamos that Divides (Leicester, 1977); G. W.
um a vida nova” . Isso é ilustrado de Bromiley, Baptism and the Anglican
forma breve em Colossenses 3.1-17 Reformers (London, 1953); N. Clark,
e detalhamente explanado no ensi- An Approach to the Theology o f the
no catequético do NT. Sacraments (London, 1956); Oscar
Tudo isso pressupõe um a das Culmann, Baptism in the New Tes-
proposições fundamentais da tament (London, 1951); W. F. Flem-
proclamação apostólica, de que o ington, The New Testament Doctrine
batismo é um a corporificação tanto o f Baptism (1948); P. T. Forsyth,
do evangelho como da resposta do The Church and the Sacraments
homem a este (como é perfeitamen- (London, 21947); J. Jeremias, Infant
te ilustrado em lP e 3.21). Baptism in the First Four Centuries
m 123 BATISMO

(London, 1960); P. K. Jewett, Infant seus padrinhos. A visão de Tertu-


Baptism and the Covenant o f Grace liano, Cipriano* e outros de que o
(Grand Rapids, MI, 1978); G. W. H. batism o cism ático era inválido não
Lampe, The Seal o f the Spirit,21967); sobreviveu no Ocidente além do
E. Schlink, The Doctrine o f Baptism século III, exceto no donatism o*.
(St Louis, 1972); R. Schnakenburg, Agostinho* enfatizava o aspecto
Baptism in the Thought o f St. Paul objetivo do batismo e que, por ser
(Oxford, 1964); G. Wainwright, Cristo o ministro real do batismo,
Christian Initiation (London, 1969); a validade do sacramento não seria
R. E. O. White, The Biblical Doctrine afetada pelo seu agente humano.
o f Initiation (London, 1960). Ele tinha absoluta convicção de ser
G .R .B .-M . o batismo indispensável à salvação.
Em sua disputa com Pelágio, jus-
2. Teologia histórica e sistemática tificou o batismo infantil, desenvol-
As referências mais antigas pós- vendo a ligação entre o sacramento
NT vêm da Didaquê (c. 100; ver e o pecado original*. Não sugeriu
Pais Apostólicos*). Justino (ver que a criança tivesse fé, mas, sim,
Apologistas*) descreveu o batismo afirmou que a fé da igreja era bené-
como um renascimento na água e, fica a ela, sendo essa um a postura
depois, como um a “ilum inação” , clássica que tem permanecido como
termo técnico usado para o batis- justificativa do batismo infantil. A
mo por volta do século IV. criança, pelo batismo, seria incor-
Orígenes* via no batismo a porada à igreja, compartilhando
ligação tipológica entre o AT, cul- desse modo a fé da igreja, de que
minando no batismo de Jesus feito agora fazia parte. Os padrinhos,
por João, e o batismo escatológico ao se tornarem responsáveis pelo
inaugurador da nova era. O batis- batizando, não o faziam meramente
mo teria derivado seu significado em favor próprio nem simplesmen-
das realidades espirituais e, comu- te como menos representantes da
nicando a graça de Cristo, prefigu- criança, mas como agentes da to-
raria o estágio final de batismo, a talidade da igreja, da qual eram os
ressurreição dos mortos. instrumentos de apresentação da
Tertuliano* indicava a conexão criança para o batismo.
do Espírito Santo com a água do Para os catecúmenos adultos, no
batismo, preparando assim o entanto, havia a exigência de uma
terreno para a bênção da água necessária preparação cuidadosa
batismal. Em meio à perseguição para o batismo. Por volta do século
à igreja no século III, não seria de IV, as classes de preparação cate-
surpreender a descrição do mar- quética requeriam um a frequência
tírio* como o batismo de sangue, regular por parte dos discípulos,
que admitia o mártir diretamente com reuniões diárias durante a
na igreja triunfante. Advogava o Quaresma. Palestras doutrinárias
adiamento do batismo, até que os proferidas, nessa época, por ho-
então batizandos ainda crianças mens com o Am brósio* de Milão,
pudessem vir a tom ar sua própria Cirilo de Jerusalém (c. 315-386),
decisão, para não acontecer de João Crisóstom o (c. 344/354-407)
prejudicarem o futuro espiritual de e Teodoro de M opsuéstia (c. 350-
BATISMO 124 it

428) perm anecem disponíveis para a eficácia do batismo infantil, mas


nosso conhecimento. Antes dessas destacou a necessidade de o candi-
aulas, o exorcismo* era um a prá- dato adulto se achegar ao batismo
tica regular e elemento comum no com sinceridade. Reafirmou, ainda,
rito batismal. Registros destacam que a graça batismal poderia ser
que no batismo os batizandos com- perdida por causa de pecado grave.
partilhavam a redenção, a morte e Lutero*, embora adotando muita
a ressurreição de Cristo por uma coisa da teologia batismal católica-
real confissão de fé, colocando-se, -romana, assinalou que a água do
assim, em submissão ao Senhor batismo tornava-se graciosa água
crucificado e ressuscitado. Efetu- de vida, proporcionando um lavar
ava o batismo, desse modo, o re- regenerativo pelo poder divino in-
nascimento do batizando, que era trínseco da palavra de Deus. Inicial-
revestido da roupa nova da imor- mente, Lutero considerava o efeito
talidade e sobre quem se conferia do batismo dependente da fé, mas
um selo indissolúvel. O pecado depois, modificando sua opinião,
praticado pelo cristão batizado era passou a enfatizar a ordem de Deus
considerado extremamente grave, como justificação para o batismo.
fazendo assim muitos seguirem o A acessibilidade das Escrituras
exemplo de Constantino, adiando produzida pela Reforma levou gru-
seu batismo para o leito de morte pos de anabatistas*, em formação
(o chamado “batismo clínico”). Um na época, a se recusarem a permitir
pré-requisito para o batismo era a que seus filhos fossem batizados
renúncia a Satanás e a profissão ainda crianças e a reenfatizar o
de fé em Cristo, uso que permanece batismo somente de crentes, con-
em muitas confissões ainda hoje. siderando-o como o único batismo
Os teólogos escolásticos* defi- existente no NT. Contatos com
niam o batism o como um sacra- esse tipo de grupo em Amsterdã,
mento de fé, um sinal sagrado que em 1609, veio a confirmar a visão a
abrangia a totalidade da obra da respeito de batismo de John Smyth
redenção, representando a san- (1618-1652) e de Thomas Helwys
tificação do batizando por meio (c. 1550-c. 1616), os primeiros ba-
da paixão de Cristo, a graça do tistas britânicos*.
Senhor e a consum ação escatoló- A tradição da Igreja Reformada*
gica. Contudo, Cristo perm anecia deu destaque à ideia de que o ba-
Senhor de seus dons, podendo tismo seria o sinal do novo pacto* e
escolher salvar um a alm a sem o que, portanto, as crianças deveriam
sacram ento do batismo. Tomás ser admitidas à nova aliança tão
de Aquino* ensinava que, embora cedo possível, quanto os meninos
o batism o rem ovesse a culpa do judeus eram admitidos à antiga
pecado original, a qualquer mo- aliança mediante a circuncisão. O
mento o pecado poderia se mani- batismo fortaleceria a fé, daria aos
festar novamente. Já para Pedro pais a certeza de que seus filhos
Lom bardo*, o batism o enfraquecia estavam incorporados ao novo pac-
o desejo de pecar. to e, à criança o direito à aliança,
O Concilio de Trento cristalizou o mesmo sem ter ainda consciência
ensino pré-Reforma que enfatizava disso, tornando-se rica fonte de
# 125 BATISMO DE CRISTO

bênçãos e consolação à medida reição de Cristo, um a lavagem do


que a criança crescia. pecado, um novo nascimento, um a
Barth* introduziu a questão do iluminação feita por Cristo, um re-
batismo na esfera do debate ecumê- vestimento de Cristo, um a renova-
nico, advogando a extinção do ba- ção feita pelo Espírito, a experiência
tismo infantil em favor unicamente da salvação do dilúvio, um êxodo
do batismo dos crentes, mas sem da escravidão e um a libertação
nenhum rebatismo*. Assumindo para um a nova humanidade, em
a ideia de Cristo como o ministro que são ultrapassadas as barreiras
principal do batismo, enfatizou que divisórias”. Refere-se ainda ao ba-
o batizando seria “a segunda per- tismo como “sinal e selo de nosso
sonagem mais importante no ato”. discipulado em com um” e que,
Palavras e ações de Cristo no batis- desse modo, constitui um vínculo
mo tinham um propósito cognitivo, básico de unidade. O pensamento
assegurando ao crente sua salvação atual a respeito do batismo o tem
e recebendo seu penhor de serviço visto, não poucas vezes, como um a
obediente ao Senhor. Como a na- ordenança válida para todo o povo
tureza, o poder e o significado do de Deus. Uma vez que o ministério
batismo são dependentes de Cristo, do cristão está centrado na obra
ele não pode ser anulado pela im- reconciliadora de Cristo, o batismo
perfeição humana. Tanto a exegese torna-se a comissão de nos enga-
do NT quanto o ato sacramental re- jarm os nesse ministério.
quereriam do batizando um desejo
e uma disposição responsáveis de Bibliografia
receber a promessa da graça a ele K. Aland, Did the Early Church
conferida e a assumir a promessa Batptize Infants? (London, 1963);
de lealdade ao serviço a Deus por R. F. G. Burnish, The Meaning o f
gratidão, dele exigido. Baptism (London, 1985); J. D. C.
O Concilio Vaticano II (ver Con- Fisher, Christian Initiation: Bap-
cílios*; Teologia Católica Romana*) tism in the Medieval West (London,
ocupou tempo considerável na abor- 1965); J. Jeremias, Infant Baptism
dagem da questão do batismo e da in the First Four Centuries (London,
restauração do catecumenato, rea- 1959); M urphy Center for Liturgical
firmando que o batismo de adultos Research, Made, not B o m (Notre
deveria ser visto como rito definitivo Dame, IN, 1976); B. Neunheuser,
de iniciação e procurando restaurá- Baptism atid Confirmation (West-
10 em sua condição de Páscoa. Essa minster, MD, 1964); Η. M. Riley,
restauração tem sido bem recebida Christian Initiation (Washington,
em congregações missionárias, 1974); E. C. Whitaker, Documents
mas seus benefícios plenos ainda o f the Baptismal Liturgy (London,
não foram de todo considerados por 1960).
ordens tradicionais. R .F .G .B .
O documento de Lima do Con-
selho Mundial de Igrejas (Batismo, BATISMO DE CRIANÇAS, v e r B a t is m o .
eucaristia e ministério, Genebra,
1982) afirma que o batismo “é uma BATISMO DE CRISTO. O batismo de
participação na morte e ressur­ Jesus por João Batistano rio Jordão
BATISMO DE CRISTO 126

está registrado nos evangelhos si- ciona a Jesus o requisito essencial


nópticos (M t3 .13-17; Mc 1.9-11; Lc de capacitação espiritual, indis-
3.21,22) e aludido em João 1.31-33. pensável à tarefa m essiânica que
Nas narrativas dos três sinópticos, tinha diante de si (c f At 10.38).
o evento envolve o Espírito Santo Tal tarefa, os sinópticos mostram
descendo sobre Jesus em forma de como começando com a tentação
pomba, assim como um a voz do céu (Mt 4.1-11; Mc 1.12,13; Lc 4.1-13),
declarando a aprovação de Jesus entendida, no contexto mais amplo
como “meu Filho amado, em quem dos evangelhos sinópticos, como
me agrado” . Um entrelaçamento de abertura à luta culminante, esca-
pleno envolvimento trinitário (Pai, tológica, entre o reino de Deus* e o
Filho e Espírito Santo) parece aqui reino de Satanás.
inconfundível. Em todos os sinópticos, o registro
A importância desse evento no do batismo de Jesus segue-se a uma
evangelho reside em seu significa- descrição sumarizada do ministério
do público e messiânico. O batismo de João Batista, e cada uma dessas
de Jesus não se trata de simples narrativas tem seu auge na profecia
assunto de natureza particular ou de João Batista de futuro batismo,
pessoal. O batismo ministrado por pelo Messias, com o Espírito Santo
João era “de arrependim ento” (Mc e com fogo. Em Mateus 3.12 e Lucas
1.4; Lc 3.3), e pessoalmente Jesus 3.17, fica claro que esse batismo
não tinha necessidade alguma futuro envolveria julgamento, sob
de se arrepender. Ele era santo uma ordem judicial separando os
e sem pecado (e.g., Lc 1.35). Em arrependidos (o “trigo”) dos não arre-
vez disso, o batismo de Jesus é a pendidos (o “joio”). A conexão íntima
sua “coroação”, a ocasião de sua entre essa profecia e o batismo de
instalação pública e oficial como Jesus é que o batismo com o Espí-
Messias. A aprovação pronunciada rito e com fogo, que não aconteceria
pela voz celestial traduz benepláci- de imediato, deveria ser precedido
to e satisfação na designação mes- e mediado por um período baseado
siânica. Ao se submeter ao batismo no próprio batismo do Messias e em
de João, Jesus dá um a expressão sua própria recepção do Espírito.
pública inicial de sua identidade e Para que o batismo messiânico
de seu chamado messiânico e, ao profetizado viesse a ser uma bênção
fazê-lo, identifica-se também com salvadora, e não um julgamento
os pecadores arrependidos. Revela, destruidor para a comunidade mes-
com esse ato, especificamente, sua siânica, o próprio Messias deveria
solidariedade para com eles em primeiro ser capacitado (“batizado”)
seus pecados e que, como Messias, com o Espírito, a fim de poder su-
aqui estava, justam ente, para ser o portar a ira e a condenação que os
seu representante, o portador dos pecados do mundo mereciam (cf. Jo
seus pecados, “o Cordeiro de Deus, 1.33; Hb 9.14).
que tira o pecado do m undo” (Jo O batismo no Jordão aponta
1.29). Confirma o Pai, consistente- para o Messias o caminho que ele
mente, sua identidade messiânica, deveria seguir: caminho de sofri-
ao mesmo tempo que o unge com o mento, condenação e morte, termi-
Espírito Santo. Essa unção propor­ nando na cruz, e a cruz sendo sua
8 127 BATISMO NO ESPÍRITO

exposição culminante à ira violenta BATISMO NO ESPÍRITO. É aqui


de Deus sobre o pecado — este, abordado sob diversos aspectos:
o “batism o” supremo pelo qual
teria de passar (Lc 12.50; cf. Mc Bíblico
10.38,39; Lc 22.42). Na verdade, a O Novo Testamento proclama o
totalidade do ministério terreno de dom pessoal do Espírito Santo* de
Jesus, desde o Jordão até a cruz e estabelecer sua habitação no cren-
a ressurreição, pode ser vista como te (At 2.18; Rm 8.9; G1 3.2), como
um a espécie de “batism o” , um ba- selo, garantia, meio e primi cias
tismo de provação. (Rm 8.23; 2Co 1.22; E f 1.13,14) de
O batism o de Jesus não é, sua vida eterna em comunhão com
portanto, um evento de interesse o Pai e com o Filho (Jo 17.3; lJ o
meramente passageiro: marca uma 1.3). O Espírito, assim, revelado
conjuntura épica, não apenas do como agente distinto, que fala, in-
ministério de Jesus, mas de toda dica, testemunha, ajuda, intercede,
a história da salvação. Envolve entristece-se e a ele se pode até
considerações que estão no cerne mentir (Jo 16.13-15; Rm 816,26;
do evangelho. Isso não significa, no E f 4.30; At 5.3), é mediador da
entanto, que Jesus já não fosse o presença de Cristo (Jo 14.16-18; Ef
Messias antes de seu batismo por 3.16, 17); une-nos a ele (Ef 4.3,4);
João nem que somente a partir regenera (Jo 3.5,8; 2Co 3.6; Tt 3.5);
dali se tenha tornado cônscio, pela ilumina (IC o 2.13-16; E f 1.17); nos
prim eira vez, de o ser. Ensinam transforma (2C0 13.18; G1 5.22,23);
os evangelhos, claram ente, que testifica nossa adoção, alterando
ele tanto era o M essias desde seu assim o nosso autoconhecimento
nascim ento quanto estava, de (Rm 8.16); sustenta nossa oração
modo correspondente, perfeita- (G1 4.6; Ef 6.18; Jd 20) e nos con-
mente consciente de sua condi- fere todos os dons para o serviço
ção (cf., e.g., Mt 1.21; Lc 1.31ss; (IC o 12.4-11). Seu pleno ministério
2.21,25-38,49). Ao m esm o tempo, do novo pacto, que pressupunha o
porém, em virtude de sua real hu- retom o de Jesus à glória (Jo 7.39;
m anidade, tinha Jesus a legítim a cf. 17.5; 20.22, um a profecia em
necessidade de sua capacitação ação), teve início no Pentecoste (At
pelo E spírito Santo para sua 2), de acordo com a promessa pré-
nova fase de filiação e obediência ascensional de Jesus de batismo no
m essiânica, inau gurada pelo seu Espírito (At 1.5; 11.16), em cumpri-
batism o nas águas e tendo culm i- mento à predição de João de que,
nância na cruz. em sua vinda, o Senhor iria batizar
com o Espírito Santo (Mc 1.8; Mt
Bibliografia 3.11; Lc 3.16; Jo 1.33). O livro de
J. D. G. Dunn, Baptism in the Holy Atos corporifica as expectativas de
Spirit (London, 1970); W. L. Lane, que o dom do Espírito, sinalizado
The Gospel According to Mark visivelmente por manifestações ca-
(Grand Rapids, MI, 1974); G. Sme- rismáticas, acompanharia o batis-
aton, The Doctrine o f the Holy Spirit mo nas águas dos crentes adultos
(1882; London, 1958). (2.38, etc.), considerando o não
R .B.G . acompanhamento como anômalo
BATISMO NO ESPÍRITO 128 #

(8.14-17; 19.1-6). A imagem do berdade interior para falar de Cristo


batismo m ostra que o dom deve ser e florescimento de toda espécie de
visto como iniciatório, elemento in- dons para o ministério, inclusive
tegrado no processo total pelo qual (assim frequentemente alegado)
os pecadores, conscientemente, tor- dons de profecia e de cura. O falar
nam-se novas criaturas em Cristo, em línguas é geralmente considera-
aceitos e vivos como membros de do como uma espécie de pedra de
seu corpo (tal como Paulo usa essa toque do batismo no Espírito (ver
figura, em IC o 12.13). A narrativa Dons do Espírito*).
de Pentecoste revela o dom como
que animando, transformando, en- Teológico
corajando e trazendo capacidade e 1. Já que IC o 12, em bora afir-
utilidade ao ministério. m ando que todos foram batizados
no Espírito, presum e que nem
Histórico todos os assim batizados falam
A ideia de que a experiência apos- línguas estranhas (v. 30), é difícil
tólica de At 2 (cf. 4.31) fosse um fazer da glossolalia um a pedra de
modelo paradigm ático e um a ne- toque desse batism o.
cessidade pessoal para todos os 2. O m otivo pelo qual os após-
cristãos surgiu no protestantismo tolos tiveram um a experiência
pietista, de várias formas. cristã em dois estágios é que eles
1. John Fletcher (1729-1785), se tornaram crentes antes de ter
designado sucessor de Wesley*, início o pleno m inistério do novo
e alguns professores reformados pacto do E spírito neste m undo; e
posteriores referiam-se a batismos um a vez que esperavam que ou-
repetidos do Espírito, significando tros se unissem a esse m inistério
intensificação na certeza e melhor desde sua conversão (At 2.38;
capacitação de um a vida santifica- 5.32) é difícil fazer da experiên-
da e ministério poderoso. cia dos dois estágios um a norm a
2. Charles Finney*, D. L. Moody universal.
(1837-1899), R. A. Torrey (1856- 3. Visto que a essência de toda
1928), Andrew Murray*, A. B. denominada experiência de batis-
Simpson (1844-1919) e outros mo no Espírito parece ser a inten-
fizeram coro a essa ideia, mas sificação da certeza da salvação,
assimilando-a de modo diverso da enquanto o Espírito testemunha
abordagem do pensamento wes- o am or de Deus na adoção e a
leyano, ou seja, de experiência de segurança do crente nesse amor,
um a única “segunda bênção” , que é mais adequado explicá-la teolo-
elevaria a vida de um a pessoa a um gicamente, com precisão, nesses
novo nível, permanentemente. termos (Rm 5.5; 8.15-17,38,39, cf.
3. Pentecostais* e carismáti- Jo 14.16-23).
cos geralmente veem o batismo 4. Como a experiência de qualida-
no Espírito do modo wesleyano, de apostólica é rara e deve ser muito
relacionando-o à recepção plena almejada, sendo a igreja, hoje, fraca
ou liberação do Espírito no ser de em razão de sua carência, é justo
um a pessoa, com segurança, exu- pedir a Deus que nos conduza a ela,
berância emocional, glossolalia, li­ seja qual for o nome que usemos
* 129 BAVINCK, JO HAN HERMAN

para ela e seja qual for a teologia é Gereformeerde Dogmatiek [Dog-


que a expresse. Nesse sentido, lC o- mática reformada], 41928-1930).
ríntios 12.13; Atos 11.15-17 e João Uma característica de seu método é
1.33, com Atos 1.5; 2.4,33,38 como o seu firme fundamento de teologia
pano de fundo, oferecem, conjun- bíblica, sua completa percepção
tamente, a definição de batismo no da teologia histórica e sua abor-
Espírito como o ingresso, mediante dagem sintética. Buscava sempre
a comunhão e o compromisso que a incorporar ao seu sistema teológico
fé gera, à realidade experimentada os elementos da verdade que en-
da vida de ressurreição de Cristo: contrasse em outros sistemas. Na
ingresso que as águas do batismo própria teologia reformada, procu-
tanto representam quanto confir- rou reunir várias correntes de pen-
mam (Rm 6.2-11; Cl 2.11-13). sarnento em um a nova síntese (e.g.,
infra e supralapsarianismo — ver
Bibliografia Predestinação*; criacionismo e tra-
F. D. Bruner, A Theology o f the Holy ducianismo — ver Alma, Origem*).
Spirit (Grand Rapids, MI, 1970); Na Holanda, sua obra dogmática é
J. D. Dunn, Baptism in the Holy ainda considerada padrão.
Spirit (London, 1970); T. M. Smail,
Reflected Glory (London, 1976); J. I. Bibliografia
Packer, Keep in Step with the Spirit Obras em TI: The Doctrine o f God,
(Old Tappan, NJ & Leicester, 1984). vol. 2 da Gereformeerde Dogmatiek
J.I.P. (Grand Rapids, MI, 1955); Our
Reasonable Faith, versão populari-
BAUR, F. C., ver E scola de T u b in g e n . zada da Gereformeerde Dogmatiek
(Grand Rapids, MI, 1956); The
BAVINCK, HERMAN (1854-1921). Philosophy o f Revelation (Grand
Teólogo reformado*. Em 1882, foi Rapids, MI, 1953).
nomeado professor de Teologia E. P. Heideman, The Relation o f
Dogmática no Seminário Reforma- Revelation and Reason in E. Brun-
do de Kampen, Holanda. Em 1902, ner and H. Bavinck (Assen, 1959);
assumiu a mesma cátedra na Uni- C. Jaarsma, The Educational
versidade Livre de Amsterdã, como Philosophy o f H. Bavinck (Grand
sucessor do dr. Abraham Kuyper*, Rapids, MI, 1935); B. Kruithof, The
que se havia tornado primeiro-mi- Relation o f Christianity and Culture
nistro holandês. Bavinck foi um te- in the Teaching o f Herm an Bavinck
ólogo proeminente, profundamente (Edinburgh, 1955).
enraizado na tradição reformada. K.R.
Embora possuísse conhecimento
perfeito e um a profunda apreciação BAVINCK, JOHAN HERMAN (1895-
da teologia pós-calvinista, preferiu 1964), missiólogo* holandês.
voltar ao próprio Calvino. Ao mes- Sobrinho de Herman Bavinck*,
mo tempo, pretendia desenvolver estudou teologia em Am sterdã e
a teologia reformada em constante Erlangen. Sua tese de doutorado
interação com o pensamento teoló- (1919) tratou do místico medieval
gico e filosófico de sua época. Sua H eniy Suso (c. 1296-1366). Serviu
principal obra em quatro volumes como ministro nas índias Orientais
BAXTER, RICHARD 130

Holandesas e, depois, em Heems- superficiais quando investigadas


tede, Holanda, onde estudou e se tornam diferenças profundas.
escreveu sobre psicologia. Retor- Um de seus últimos livros, sobre
nando para Java, índias Orientais, religiões e visão mundial, de 1961,
seu conhecimento de psicologia enfatiza a singularidade do evange-
religiosa e misticismo* o capacitou lho contra as tentativas de se querer
a com unicar o evangelho efetiva- harmonizar as diversas religiões do
mente aos místicos javaneses. Em mundo em uma frente comum.
1934, publicou um livro sobre a
confrontação entre o evangelho e o Ver também C r is t ia n is m o e O utras

misticismo oriental. R e l ig iõ e s .

Serviu cerca de quinze anos


como missionário, ensinou até Bibliografia
mesmo, por alguns anos, Teologia Obras em TI: The Church between
em Jodja. Em 1939, se tornou o Temple and Mosque (Grand Rapids,
primeiro professor de Missiologia MI, 1966); Faith and its Difficulties
no seminário de Kampen das Igre- (Grand Rapids, MI, 1959); The
jas Reformadas da Holanda, tendo Impact o f Christianity on the Non-
sido também professor extraordi- Christian World (Grand Rapids, MI,
nário de Missiologia na Universida- 1948); The Riddle o f Life (Grand
de Livre de Amsterdã. Desde 1955, Rapids, MI, 1958).
passou a acumular essa última J. du Preez, “Johan Herman Ba-
posição com a de catedrático de vinck on the Relation between Di-
Homilética, Liturgia e Pastoral na vine Revelation and the Religions”,
m esm a universidade. Missionalia 13 (1985), p. 111-120;
Embora bastante versado em J. Verkuyl, Contemporary Missiolo-
misticismo, psicologia e religiões gy (Grand Rapids, MI, 1978).
não cristãs e sensível à demanda J.A .E .V .
do trabalho missionário, Bavinck
foi ardente opositor do sincretis- BAXTER, RICHARD (1615 1691).
mo* e do comprometimento do Importante clérigo puritano inglês.
evangelho. A salvação em Jesus Em 1641-1642 e 1647-1661 (tendo
Cristo era inteiramente diferente sido capelão do Exército do Parla-
da salvação oferecida pelas religi- mento, 1642-1647), Baxter exerceu
ões (místicas) — explica ele em um em Kidderminster, Worcestershire,
livro sobre a consciência religiosa o mais próspero pastorado puritano
e a fé cristã, publicado em 1949. jam ais registrado, convertendo qua-
Sua principal obra, traduzida para se a totalidade daquela cidade. Sob
o inglês como An Introduction to the a estrutura da igreja estabelecida
Science o f Missions [Introdução à por Cromwell (que propiciava inde-
ciência de missões] (Philadelphia, pendência), formou um a associação
1960), enfatiza tanto a vocação interdenominacional de pastores de
do missionário para compartilhar Worcestershire, comprometida com
a vida e a cultura da comunidade a prática da evangelização congre-
ao seu redor quanto o vasto abismo gacional, catequizando famílias in-
existente entre a fé em Cristo e as teiras e mantendo a disciplina ecle-
religiões não cristãs. Semelhanças siástica paroquial, tendo ministros
131 BAXTER, RICHARD

como membros na corte do con- significando “reformado”, no caso,


sistório informal. Na Restauração, propriamente, calvinista, mas, sim,
Baxter recebeu o bispado de He- “revivificado”), trabalho que o bispo
reford, mas declinou do cargo. Na Hensley Henson, da Broad Church
Conferência de Savoy, em 1661, (facção liberal da Igreja Anglicana),
advogou, sem sucesso, a forma não descreveu, em 1925, como “o me-
prelatícia e sinodal de episcopado, lhor manual dos deveres do clérigo
esboçada por seu falecido amigo em língua inglesa”; e o eletrizante
arcebispo Ussher (1581-1656), Call to the Unconverted [Chamado
bem como um a revisão puritana do ao não convertido] (1658), livro de
Livro de oração. Após as deposições bolso pioneiro em evangelização,
de 1662, Baxter passou a viver que vendeu dezenas de milhares de
nos arredores de Londres, como exemplares na época. A crônica bem
reconhecido líder dos depostos, e a elaborada que Baxter fez de sua
escrever muito, tornando-se o mais vida e época, Reliquiae Baxterianae
fecundo autor de obras dentre to- ]Relíquias baxterianas] (1696), é,
dos os teólogos britânicos. também, um a obra interessante,
Sua fértil produção inclui três fonte básica e confiável para a his-
livretes: A Christian Directory tória da igreja no século XVII.
[Orientador cristão] (1673), que su- Cham ado indevidam ente de
mariza, em muitas palavras, toda presbiteriano, Baxter foi um hesi-
a teologia “prática”, “experimental” tante não conformista que favorecia
e “casuística”* dos puritanos (i.e., a monarquia, as igrejas nacionais, a
ensino ético e devocional); Catholick liturgia e o episcopado. Ele poderia
Theology [Teologia católica] (1675), até aceitar a nada simpática revisão
obra, como indica o subtítulo, “cia- do Livro de oração de 1662; mas o
ra, pura e amena, para a pacifica- Ato de Uniformidade, daquele ano,
ção dos contendores de palavras”, exigia a renúncia do juram ento dos
abrangendo as visões sobre a graça* ideais puritanos de reforma como
segundo as perspectivas calvinista, condição de participação em cargos
arminiana, luterana e católica-ro- na Igreja da Inglaterra restaurada,
mana (dominicana e jesuíta), em um e Baxter simplesmente se recusou
esforço de acomodação ecumênica; a aceitar isso.
e Methodus Theologiae Christianae O evangelho de Baxter apre-
[Método de teologia cristã] (1681), senta a morte de Cristo como um
análise em estilo ramista da verda- ato de redenção universal, penal e
de cristã, em latim, tricotomizando- vicário, embora não estritamente
a, em vez de a dicotomizar, como o substitutivo, em virtude do qual
fizeram Ramus* e outros puritanos. Deus decretou um a nova lei,
Outros três livros referenciais seus oferecendo anistia aos transgres-
são: The Saints’ Everlasting Rest [Ο sores penitentes da antiga lei. O
descanso eterno dos santos] (1650), arrependimento e a fé, formas de
clássico de 800 páginas que esta- obediência à nova lei, constituem a
beleceu Baxter como o supremo justiça salvadora individual, a que
autor devocional do puritanismo; a vocação eficaz induz e a graça
o apaixonado Reformed Pastor preservadora sustém. Chamado de
[O pa stor reformado] (1656) (não “neonom ianism o” , esse esquema
BECK, JO H AN N TOBIAS 132 m

é substancialmente amiraldista*, fim de poder contrabalançar a for-


acrescido do ensino arminiano da ça da crítica de W ilhelm De Wette
“nova lei”. Sua evidente tendência (1780-1849).
legalista, não reconhecida por Bax- Beck exigia que fosse feita um a
ter, foi muito criticada na própria “exegese pneumática das Escritu-
época. Baxter abordou também a ras” . Para ele, sem fé é impossível
razoabilidade do cristianismo, com chegar a “um entendimento com o
base em sua coerência com a teolo- espírito do cristianism o” . A Bíblia é
gia natural*, método que se tornou um sistema unificado de ensino, “a
impraticável por produzir unitaris- imagem fiel (Abbilâ) da revelaçáo,
mo* entre seus seguidores presbite- da qual é a apresentação transmi-
rianos ingleses após a sua morte. tida” . Não deveríamos ser conduzi-
dos pelas confissões de igrejas nem
Bibliografia por pressuposições dogmáticas,
Practical Works, ed. W. Orme, 23 mas só pelas Escrituras.
vols. (London, 1830). O “plano divino para o m undo” é
C. F. Allison, The Rise o f Mora- expresso pelo reino de Deus, que já
lism (London, 1966); W. M. Lamont, está presente, mas ainda não visí-
Richard B axter and the Millennium vel. Somente Deus pode realizá-lo.
(London, 1979); Hugh Martin, Pu- Beck acreditava no reino milenar*
ritanism and Richard B axter (Lon- de Cristo: a profecia* é uma coluna
don, 1946); G. F. Nuttall, Richard fundamental da Bíblia.
B axter (London, 1965); F. J. Powi- Ele insiste na “separação moral”
eke, A Life o f the Reverend Richard do mundo, na “apropriação pessoal”
Baxter (London, 1924); idem, The da verdade e na “purificação moral” .
Reverend Richard Baxter Under the A santificação*, nesse caso, é a pre-
Cross (London, 1927). ocupação central do pietismo.
J.I.P.
Bibliografia
BECK, JOHANN TOBIAS (1804 Obra principal: Die Christliche Lehr-
1878). Teólogo bíblico alemão, Wissenschaft nach den Biblischen
professor em Basileia (1836-1843) Urkunden (Stuttgart, 1841); em
e Tübingen (1843-1878). Batalha- TI somente: Outlines o f Biblical
dor quase sempre solitário contra Psychology (Edinburgh, 1877); Ou-
o racionalismo e a critica histórica, tlines o f Christian Doctrine (Madras,
foi influenciado pelo pietismo* de 1879); Pastoral Theology o f the New
Württemberg, embora divergindo, Testament (Edinburgh, 1885).
às vezes, de alguns pietistas, indi- K. Barth, Protestant Theology in
vidualmente. Apesar de identifica- the Nineteenth Century (London,
do com o “biblicism o”, não pode ser 1972), cap. 25; vida alemã, em B.
enquadrado em determinado molde Riggenbach, Johann Tobias Beck
específico. Entre seus discípulos, (Basileia, 1888); Η. M. Wolf, in TRE
sobressaíram-se C. A. Auberlen 5, p. 393-394.
(1824-1864) e Martin Kâhler*. A G.M.
Sociedade para a Promoção do
Conhecimento Teológico e da Vida BELARM INO, ROBERTO (1542
Cristã levou Beck para Basileia a 1621). Roberto Francesco Romolo
• 133 BELARM INO, ROBERTO

Belarmino nasceu em Monte Pul- dras de Teologia em universidades


ciano, na Toscana, Itália. Sua mãe protestantes com o propósito pri-
era irmã do futuro papa Marcelo macial de refutá-lo. Suas palestras
II. Em 1560, uniu-se aos jesuítas*, no Collegium Romanum formaram
sendo enviado para Louvain, Bél- a base de sua maior obra, em três
gica, em 1569, para ajudar na luta volumes, intitulada Debate sobre
contra o protestantismo* militante. controvérsias a respeito da fé cris-
No ano seguinte, tornou-se o pri- tã contra os hereges da presente
meiro jesuíta professor de Teologia época (1586-1593). Essa obra é
na Universidade de Louvain. Ali geralmente considerada um a das
serviu por seis anos, após o que melhores afirmações da teologia
retornou a Roma para se tornar trinitária católica-romana.
professor de Teologia Polêmica no Belarm ino, contudo, deixou-se
Collegium Romanum. De 1576 a enredar seriam ente em algumas
1588, Belarmino ensinou inglês e dessas controvérsias. Suas ideias
alemão a estudantes missionários a respeito do papado* trouxeram -
em Roma. Viria a se tornar, depois, lhe problemas. Ele assum iu posi-
diretor espiritual (1588) e, a seguir, ção ao lado do papa em polêmica
reitor (1592) do colégio local da com líderes de Veneza sobre as
província napolitana dos jesuítas imunidades clericais (1606-1607).
(1594) e teólogo a serviço do papa Todavia, em 1610, refutando uma
Clemente VIII (1597). Em 1599, foi obra de W. Barclay, de Aberdeen
designado cardeal. Serviu durante (1546-1608), que negava que o
algum tempo como arcebispo de papa tivesse qualquer autoridade
Cápua (1602-1605), mas foi cha- temporal (em oposição à espiritu-
mado de volta a Roma para um al), Belarmino alegou que o papa
ministério mais amplo. não detinha nenhuma autoridade
Belarmino dedicou-se à con- temporal direta. Os governantes
trovérsia com o protestantismo. recebiam sua autoridade de Deus.
Nunca chegou a se defrontar Ao papa cabia somente uma juris-
pessoalmente com líderes do pro- dição temporal indireta. Mas, se um
testantismo e era cuidadoso em governante prejudicasse a salvação
apresentar suas posições com jus- eterna de seus súditos, o papa pode-
teza. Estava preparado para saber ria, sim, intervir, a ponto de depor o
reconhecer tanto a força quanto governante, para libertar os súditos
a fraqueza da teologia de seus da obrigação de obedecer-lhe. Isso
adversários. Seu objetivo era o de poderia até parecer um a concessão
responder ao protestantismo por de considerável poder para o papa;
meio de argumentação racional, mas para Sisto V não era o suficien-
em vez de usar de abuso ou de um te. Em 1590, esse papa colocou no
vulnerável apelo às autoridades. Index [catálogo de livros cuja leitura
Dedicou-se ao estudo da Bíblia, era proibida pela igreja] o primeiro
dos pais da igreja e da história volume do Debate sobre as contro-
eclesiástica, a fim de se tornar bem vérsias, de Belarmino, onde nega o
equipado para sua tarefa. Era um poder temporal direto do pontífice.
formidável oponente, tanto assim Belarmino esteve também en-
que passaram a ser criadas cáte­ volvido na fase inicial da questão
B EN G EL, JO H AN N ALBRECH T 134 ’

da igreja contra Galileu, condena- interpretação mais difícil deve ser


do por afirmar que a terra girava a preferida”. É principalmente lem-
em torno do sol. A Inquisição de- brado por sua obra Gnomon Novi
clarou solenemente, em 1616, que Testamenti [Guia do Novo Testamen-
era a terra, e não o sol, que estava ío] (1742), um comentário bastante
no centro do universo e que o sol apreciado, profundamente focado
é que se movia ao redor da terra. no contexto. João Wesley* escre-
A Belarmino foi confiada simples- veu: “Não conheço nenhum outro
mente a tarefa de com unicar essa comentador da Bíblia que se iguale
decisão a Galileu. a Bengel” , referindo-se ao Gnomon
Ele foi também muito atuante (que aqui significa algo como “aqui-
em outras áreas. Integrou a comis- lo que aponta para”) como a base
são que produziu a edição revisada, de suas Explanatory Notes upon the
chamada “Sisto-Clem entina”, da New Testament [Notas explicativas
Vulgata, em 1592. Escreveu uma sobre o Novo Testamento].
gramática hebraica e, no final de Bengel era um pietista da cor-
sua vida, diversas obras ascéticas. rente de W ürttemberg* “que em
Logo após sua morte, iniciou-se seu biblicismo se aproximava da
um movimento em favor de sua ca- atitude da ortodoxia e em seu mo-
nonização, mas a apreciação dessa ralismo, à do iluminismo cristão”
proposta foi adiada por séculos, (Barth). Herdeiro de Johannes
até 1930, por causa de suas ideias Cocceius (1603-1669) (ver Teologia
a respeito da autoridade papal. Pactuai*), assim como oponente à
“neologia” do Iluminismo*, expôs
V er também C ontrarreform a C ató - também um quiliasmo profético
l ic a ; T e o l o g ia C a t ó l ic a R o m a n a . (ver Milênio*) em estudo que fez
sobre o Apocalipse (TI, parcial,
Bibliografia London, 1757) e é autor de obras
Coleções de edições de suas obras, cronológicas que fixam o início do
publicadas em Colônia (1617- milênio em 1836.
1621), Nápoles (1856-1862) e Paris
(1870-1874). Bibliografia
J. Brodrick, The Life and Work M. Brecht, in TRE 5, p. 583-589
o f Blessed Robert Francis Cardinal (com bibliografia); J. C. F. Burk, A
Bellarmine, S.J. 1542-1621, 2 vols. Memoir o f the Life and Writings o f
(1928, London, New York & To- John Albert Bengel (London, 1837).
ronto, 1950). D.G.D.
A.N.S.L.
BENTO E A TRADIÇÃO BENEDITINA.
B EN G EL, JO H A N N A LB R E C H T O padrão de vida monástica estabe-
(1687-1752), luterano alemão que lecido por Bento de Núrsia (c. 480-c.
se distinguiu como erudito do 550), na regra que impôs à sua co-
Novo Testamento. Foi o pioneiro da munidade de Monte Cassino, Itália,
moderna crítica textual (ver Crítica iria se tom ar a principal norma
Bíblica*), tendo produzido um a edi- observada por todo o monasticismo
ção do NT grego (1734) e formulado ocidental, especialmente a partir
a regra sobre o cânon de que “a de c. 800. As reformas monásticas
‫ ־‬135 BENTO E A TRA DIÇÃO BENEDITINA

geralmente se centraram em um no que se refere à sutil ordenação


retorno à observância estrita da da vida asceta na comunidade. A
regra beneditina, como aconteceu teologia mostra-se de um a con-
no muitíssimo infuente movimento tinuidade deliberada da teologia
dos monges cluniacenses, ocorrido patrística*, derivando desta tanto
dos séculos X ao XII. Outras ordens, sua form a literária quanto seu
nessa mesma época, notadamente conteúdo, am plamente proceden-
a dos cartusianos e dos cistercien- te dos pais. (Os clássicos latinos,
ses, basearam-se na regra de Bento que eram também ensinados nas
de Núrsia apesar de sua exigência escolas monásticas beneditinas,
de disciplina da maior austeridade. de acordo com o program a educa-
Esse regulamento foi, assim, de ex- cional das Instituições de Cassio-
traordinária importância por todos doro [c. 485-c. 580], exerceram,
os “séculos monásticos” do cristia- igualmente, alguma influência no
nismo europeu. estilo.) Assim, era orientada para a
Bento não frequentou propria- tradição. Na teologia, tomando a
mente os bancos escolares. Como auctoritas da Bíblia e dos ais como
narra seu biógrafo Gregório, o sua base, representava a humilda-
Grande*, “deu as costas” para a de, tão fortemente inculcada pela
educação mais elevada, assumin- regra monástica. Como salientou
do a vida asceta “conscientemente um escritor, os monges benediti-
ignorante e sabiamente inculto*” nos tão somente respigavam a se-
(scienter nescius et sapienter indoc- ara, após grandes ceifeiros, como
tus). Não obstante, era dotado de Agostinho*, Jerônim o* e Gregório,
muita leitura dos grandes pais la- o Grande*, terem feito a colheita.
tinos, e seus monges empregavam Abordavam a Bíblia em espírito de
até quatro horas por dia em lectio m editação e frequentemente a in-
divina, leitura contemplativa espi- terpretavam de m aneira alegórica.
ritual das Escrituras e dos pais da Não é de admirar que pouca
igreja, especialmente de escritores originalidade apresentassem os
monásticos como Basílio* e João luminares do princípio da Idade
Cassiano (c. 360-435). A escola Média, tais como Beda (c. 673-735),
(destinada ao ensino dos mais jo- o primeiro e mais notável erudito
vens consagrados à vida monásti- bíblico, que se apoiava grandemen-
ca), a biblioteca e o escritório (onde te nos pais em seus comentários e
eram copiados manuscritos) se homílias. Os beneditinos consti-
tornaram aspectos característicos tuiam uma ordem destacada na
das comunidades beneditinas. Renascença carolíngia, mas sua
Nelas desenvolveu-se uma cultura contribuição em teologia residiu
monástica distinta, com seu estilo principalmente em colher a sabe-
próprio de teologia, brilhantemente doria bíblica e doutrinária dos pais
analisado pelo eminente erudito da igreja e aplicá-la às necessidades
cisterciense moderno Jean Leclercq de seu tempo. Escritores como Al-
(n. 1911), membro da abadia de cuin de York (c. 735-804), Rabanus
Claraval, Luxemburgo. Maurus de Fulda (c. 776-856) e Wa-
A teologia da regra beneditina lafrid Strabo de Reichenau (c. 808-
não é notável em si mesma exceto 849) eram muitíssimo prolíficos,
BEN TO E A TRA DIÇÃO BENEDITINA 136

enquanto outros, como Paschasius do humanismo, vieram a eclipsar


Radbertus* e Ratramnus*, ambos a tradição beneditina de teologia.
monges em Corbie, envolveram-se Mais tarde, a Reforma e os conflitos
em controvérsias sobre a euca- políticos reduziriam drasticamente
ristia e predestinação* em que o número de comunidades obe-
dependiam da interpretação sobre dientes à regra básica monástica.
o assunto dada pelos pais. Durante um século antes da
A teologia na tradição benediti- Revolução Francesa, os estabele-
na floresceu nos séculos XI e XII, cimentos da congregação de St.
sobretudo com Bernardo de Clara- Maur, perto de Cluny, especial-
vai*. A controvérsia com o escolasti- mente o de St. Germain-des-Prés,
cismo* emergente retrata em cores em Paris, realizaram feitos monu-
bem vivas suas características. A mentais em matéria de erudição,
teologia determ inada para os mon- incluindo um a imponente edição
ges visava ao objetivo da vida mo- de Agostinho (com um admirável
nástica — o conhecimento de Deus índice), expondo-se à acusação de
— e era estudada relativamente à jansenism o (ver Agostinianismo*).
experiência monástica, cujo cerne Jean Mabillon (1632-1707) editou
se contituía em adoração e oração. as obras de Bernardo, enquanto
Preservava respeito pelo mistério e Montfaucon (1655-1741) editou as
desconfiava muito da ênfase dada de Atanásio* e Crisóstomo. Nem to-
à técnica da dialética. dos os clérigos, porém, aprovavam
Por sua vez, os teólogos de tamanha dedicação à erudição por
formação monástica, como Ansel- parte dos monges.
mo*, Guilherme de St. Thierry (c. Com o ressurgimento da vida
1085-c. 1148) e Ailred de Rievaulx beneditina no século XIX, a tradi-
(1109-1167), o “Bernardo inglês” , ção maurista de erudição teológica
com binavam com eficiência um a foi também revivida. Importan-
diretriz de vida ascética com mé- tes abadias foram fundadas: na
todos especulativos. Discípulo de Bélgica, em Maredsous, abadia
Anselmo, Eadmer de Cantuária (c. publicadora da Revue Bénédictine,
1055-1124) foi expositor pioneiro e em Steenbrugge, abadia editora
da im aculada conceição de Maria*. das coleções patrística e medieval
Outros mestres importantes foram do Corpus Christianorum; na Ale-
o reform ador Pedro Damião (1007- manha, em Beuron e em Maria
1072), Pedro, o Venerável (c. 1092- Laach, e na França, em Solesmes,
1156), abade de Cluny, e Rupert essas três dedicadas ao estudo e
(c. 1070-1129), abade de Deutz, à renovação da liturgia, cerne do
próximo a Colônia. cristianismo beneditino e que em
No final da Idade Média, os mos- seu regulamento é chamado “obra
teiros perderam sua proeminência de Deus” (opus Dei).
como centros de reflexão teológica.
O surgimento das universidades, a Bibliografia
predom inância do escolasticismo, C. Butler, Benedictine Monachism
o sucesso de novos movimentos (London,21924); L. J. Daly, Benedic-
como os dos franciscanos* e do- tine Monasticism (New York, 1965);
minicanos*, assim como a atração D. H. Farmer (ed.), B enedict’s
is 137 BERKELEY, G EO R G E

Disciples (Leominster, 1980); D. sua obra em d efen d er a p rópria


Knowles, The Benedictines (Lon- con d u ta e d esen volver objeções
don, 1929); J. Leclercq, The Love lógicas à tran su bstan ciação.
o f Learning and the Desire fo r God
(New York, 1961). Bibliografia
D.F.W. Edição crítica de De Sacra Coena, in
W. H. Deekenkamp (ed.), Kerkhisto-
BERDYAEV, NICOLAI, ver T e o l o g ia risch Studien 2 (The Hague, 1941);
O rto do xa R ussa. N. Dimock, The “Ego Berengarius”
(London, 1895); A. J. Macdonald,
B EREN GÁ RIO (c. 999-1088). Teó- B erengar and the Reform o f Sacra-
logo, últim o opon en te im portante mental Doctrine (London, 1930).
da d ou trin a da tran su bstan cia- R.T.B.
ção antes de W yclif*. E ra reitor
das escolas de St. M artin, em BERKELEY, G EO RG E (1685-1753).
Tours, e arcediago de Angers. Em Filósofo irlandês, bispo e apologis-
1049, B erengário enviou um a ta. Nascido em Kilkenny e educado
carta a Lan fran c (c. 1005-1089), no Trinity College, Dublin, foi orde-
na época p rio r de Bec, firm e nado na Igreja Anglicana em 1707.
d efen sor do ensino eu carístico* De 1728 a 1731, empenhou-se em
de Pasch asius R adbertu s*, em fundar um colégio nas Bermudas
que se d eclarava discípu lo de para a obra m issionária anglicana.
João Escoto E rígena* (a quem Foi bispo de Cloyne desde 1734 até
ele pode tam bém ter atribu ído o sua morte.
tratado de R atram nus*), opositor Embora seus escritos sobre filo-
de Paschasius. Com o resu ltado sofia da ciência sejam de interesse,
d essa posição e sua p ersistên cia Berkeley é mais conhecido pelo
nela, foi con den ado em m ais de “im aterialism o” desenvolvido em
um sínodo e por algum tem po sua obras Principles o f Hum an Kno-
excom ungado. Foi obrigado tam- wledge [Princípios do conhecimento
bém a fazer diversas retratações, humano] e Three Dialogues between
in clu in do um fam oso “Ego Beren- Hylas and Philonous [Três diálogos
gário [...]” (1059), em que afirm a entre Hylas e Philonous]. As cores,
que o corpo de Cristo, com seu os sons e as sensações (“ideias” , na
sangue, é “p erceptivelm en te, e term inologia de Berkeley) de que
não apenas sim bolicam en te, mas somos diretamente conscientes são
verd ad eiram en te, tocado e parti- suficientemente reais; portanto, é a
do pelas m ãos dos sacerdotes e mente que as percebe. Mas não há
m astigado pelos dentes dos fié is ” . por que supor que haja qualquer
Sua prin cip al obra, De Sacra “substância m aterial” inerte sub-
Coena [S ob re a Santa Ceia[, es- jacente às ideias, de algum modo
crita, por volta de 1068-1070, em indefinível, mas incognoscível, a
resp osta ao tratado de Lanfranc não ser mediante as próprias ideias;
p erm an eceu perd id a até 1770. O na verdade, um tal conceito não
ensino positivo ali apresen tado é tem significado. Os objetos físicos
um a form a de sim bolism o*, em- consistem de “ideias” , e sua esse e
bora B erengário dediqu e m uito de percipi, ou seja, a existência delas
BERKHOF, HENDRIKUS 138

consiste em serem percebidas; é “A religião cristã”, disse ele em um


impossível um objeto totalmente sermão, “foi calculada para a maior
imperceptível. Desse modo, como parte da humanidade e, portanto,
ninguém duvida de que os objetos não pode consistir em noções sutis
existem quando nós mesmos não e agradáveis”. Seus mistérios deve-
os percebemos, deve haver outra riam ser aceitos com humildade e
mente que está sempre consciente fé, e não medidos pela razão. Mas a
deles todos, a mente infinita de razão poderia defendê-los contra os
Deus. Além do mais, um a vez que críticos ateístas* e deístas*, mos-
as “ideias” não são causa umas das trando a razoabilidade da religião
outras, e não há nenhum a “subs- em geral e dando suporte à ideia
tância m aterial” para causá-las, de revelação.
as fontes delas devem ser a mente
ou espírito. (As leis científicas ex- Bibliografia
pressam padrões de eventos entre Obras ed. por A. A. Luce & T. E.
as coisas, mas não explicam sua Jessup, 7 vols. (London, 1948-
existência.) Nós mesmos causamos 1956); textos selecionados, em
algumas “ideias” , as da m em ória e Principles o f Human Knowledge
imaginação, mas a maioria delas (London, 1962) e Philosophical
tem de ser atribuída a um outro Works (London, 1910).
espírito — Deus. A. A. Luce, Life o f George Berke-
Em Alciphron, sua única obra ley (London, 1949); E. A. Sillem,
puramente apologética, Berkeley George Berkeley and the Proofs
acrescentou um argumento, não fo r the Existence o f God (London,
ligado ao imaterialismo, ao tradicio- 1957); G. Warnock, Berkeley (Har-
nal argumento do desígnio (ver Teo- mondsworth, 1953).
logia Natural*). A melhor indicação R.L.S.
da pessoalidade é a linguagem, isto
é, sinais usados para comunicar BERKHOF, HENDRIKUS (n. 1914).
significados, mas sem nenhuma Professor de Teologia Sistem ática
conexão intrínseca com a coisa na Universidade de Leiden e um
significada. É esse exatamente o dos mais im portantes dogmaticis-
relacionamento que nossas expe- tas reform ados* do século XX. Sua
riências visuais têm com as coisas obra com bina a total fam iliaridade
sobre as quais elas nos informam: com as tradições dos dogm aticis-
assim, tamanho pequeno e tenui- tas reform ados clássicos e a apre-
dade indicam distância, embora ciação delas, com a sensibilidade
não a acarretem nem a represen- para com os desenvolvim entos
tem. As impressões visuais são, em teologia e filosofia contempo-
desse modo, análogas à linguagem râneas. Seu principal trabalho,
humana, “a linguagem universal do Christian Faith [Fé cristã], é um a
Autor da natureza”, pela qual ele das tentativas mais convincentes
nos instrui e nos guia e é prova de de elaboração de um a teologia
sua realidade e pessoalidade. sistem ática* nas últim as décadas,
Berkeley era filósofo e apologis- não menos por causa de seu uso
ta, e não teólogo, e, de certo modo, intenso de crítica bíblica* e mais
até duvidava do valor da teologia. por causa de seu relacionam ento
139 BERKHOF, LOUIS

não crítico com a ortodoxia clãs- Calvin Seminary, ocupando, desde


sica. B erkhof é autor também 1931, a presidência da instituição.
de escritos abordando a teologia Berkhof esteve sempre muito
histórica, como no caso de Christ vinculado à tradição reform ada ho-
the M eaning o f H istory [Cristo, ο landesa, seguindo especialmente
sentido da história], que contém a de H. Bavinck*. A força de sua
discussões valiosas quanto aos magnum opus reside, mais do que
tratam entos do tem a sob as visões propriamente em sua criatividade
existencialista* e da história da teológica, em sua apresentação,
salvação. Sua obra The Doctrine nessa tradição, com um a roupa-
o f the Holy Spirit ]A doutrina do gem de língua inglesa e em sua
Espírito Santo] é, por sua vez, um forma de compêndio inteligível,
dos melhores estudos do assunto com discussões atualizadas (e.g.,
já realizados por um teólogo pro- do primitivo Barth*).
testante da atualidade. B erkhof é, Bem menos conhecida é sua
além disso, bastante dedicado a obra anterior, que mostra conside-
assuntos ecumênicos. rável interesse no desenvolvimento
de um a cosmovisão reformada co-
Bibliografia erente (e.g., The Church and Social
Obras em TI: Christ and the Powers Problems [A Igreja e os problemas
(London, 1962); Christ and the sociais], Grand Rapids, MI, 1913;
Meaning o f History (London, 1966); The Christian Laborer in the Indus-
Christian Faith. An Introduction to trial Struggle [O trabalhador cristão
the Study o f the Faith (Grand Rapi- na luta pela vida na era industrial\,
ds, MI, 1979, 21986); The Doctrine Grand Rapids, MI, 1916). Em 1920-
o f the Holy Spirit (London, 1964); 1921, participou de conhecida série
Well-founded Hope (London, 1969). de conferências denominada Pales-
J.B.We. tras Stone, no seminário de Prin-
ceton, discorrendo sobre “O reino
BERKHOF, LOUIS (1873-1957). de Deus na vida e no pensamento
Teólogo reformado*, influente, modernos”, palestra publicada sob
sobretudo, pelo uso constante em esse mesmo título em 1951.
seminários, faculdades e igrejas, de Na ausência de um compêndio
sua obra, continuamente reimpres- recente mais adequado da teologia
sa, Sistematic Theology [Teologia reformada em inglês, sua obra de
Sistemática], publicada inicialmen- teologia sistemática continua a des-
te em 1932 sob o título de Reformed frutar da mais ampla aceitação.
Dogmatics [Dogmática reformada].
Nascido na Holanda, Berkhof foi Bibliografia
para os Estados Unidos em 1882. James D. Bratt, Dutch Calvinism
Graduou-se no Calvin College e no in M odem Am erica: A History o f a
Calvin Seminary, da Igreja Cristã Conservative Subculture (Grand
Reformada, tendo realizado estudos Rapids, MI, 1984); H. Zwaanstra,
posteriores no Princeton Seminary Louis Berkhof, in D. F. W ells (ed.),
(1902-1904), sob orientação de B. Reformed Theology in America
B. Warfield* e G. Vos*. De 1906 a (Grand Rapids, MI, 1985).
1944, atuou em vários cargos no S.B.F.
BERKOUW ER, GERRIT CO RN ELIS 140 S

BERKOUWER, GERRIT CORNELIS mais conciliatória. Em 1961, foi


(n. 1903), teólogo reformado*. Ten- convidado como observador oficial
do atuado no magistério da Uni- do Concilio Vaticano II. Desde essa
versidade Livre de Am sterdã desde época, publicou dois outros livros
1940, foi designado, em 1945, para sobre a teologia católica: The Se-
a cátedra de Dogmática* da insti- cond Vatican Council and the New
tuição, anteriorm ente ocupada por Theology [O Concilio Vaticano II e
A. Kuyper*, H. Bavinck* e V. Hepp a Nova Teologia} (Grand Rapids,
(1879-1950). Mostrou-se indubita- 1965) e Nabetrachting op het Conci-
velmente mais atraído pela abor- lie [Reflexão após o Concilio] (Kam-
dagem bíblico-histórica de Bavinck pen, 1968), em que ele oferece um a
do que pela mais especulativa de análise penetrante tanto do concí-
Kuyper ou pelo método fortemente lio quanto do pensamento teológico
escolástico de Hepp. Sua tese de católico em tempos recentes.
doutorado, de 1932, tratou do re- A principal realização de
lacionamento entre fé* e revelação* Berkouwer, no entanto, é a sua
na teologia alemã recente. Esse série Studies in Dogmatics [Estudos
relacionamento conquistou espe- em dogmática], em que trata de
cialmente a sua atenção por toda a diversas áreas do tema (edição ho-
sua carreira teológica. landesa em 18 volumes, a maioria
Em seus primeiros anos de dos quais disponíveis em TI, Grand
atividade, Berkouwer revelou dois Rapids, MI, 1952-1975).
principais focos de interesse, sen- Berkouwer nunca escreveu
do o primeiro deles a teologia de uma introdução formal à teologia
Karl Barth*. Em sua primeira obra (prolegômenos), mas deixa bastante
de destaque, K arl Barth (1936), evidente que o pensamento condu-
mostra-se muito crítico. Em sua tor de toda a sua teologização é a
segunda grande obra, The Triumph correlação entre a fé e a revelação
o f Grace in Theology o f Karl Barth [O (cf. os títulos de seus Studies in
triunfo da graça na teologia de Karl Dogmatics: Faith and Justification
Barth] (1954; TI, Grand Rapids, MI, [Fé e justificação], 1954; Faith and
& London, 1956), demonstra um Santification [Fé e santificação],
entendimento mais cordial quanto 1952; Faith and Perseverance [Fé
às intenções de Barth, embora não e perseverança], 1958). A revelação
lhe tenha poupado críticas incisi- de Deus não é uma comunicação
vas. O segundo foco de interesse de de verdades reveladas, mas, sim, a
Berkouwer foi a teologia católica- vinda de Deus ao pecador em Jesus
-romana*. Em seu primeiro estudo Cristo. Essa revelação somente pode
sobre o dogma católico-romano, ser aceita pela fé. Não há nenhuma
Barthianism e en Katholicisme [Bar- salvação sem fé. A fé, todavia, não
thianismo e catolicismo] (1940), a é um fator constitutivo no processo
crítica novamente prevalece. Isso da revelação, mas, sim, totalmente
prossegue no segundo trabalho dependente e dirigida ao seu obje-
sobre o tema, Conflict with Rome to: a salvação de Deus em Cristo.
[Conflito com Roma] (1948; ΤΙ, Essa correlação tom a a teologia de
Philadelphia, 1958), embora a Berkouwer fortemente antiespecula-
abordagem seja, de modo geral, tiva e antiescolástica. Toda a nossa
• 141 BERNARDO DE CLARAVAL

teologia tem de ser “passível de ser BERNARDO DE CLARAVAL (1090-


pregada”. Ele também se volta gra- 1153). Bernardo nasceu em Fon-
dativamente contra todos os modos taines, próximo a Dijon, França, de
causais-deterministas de pensa- pais nobres. Com 21 anos, ingres-
mento (cf. sua obra Divine Election sou na abadia então recém-fun-
[Eleição divina], 1960). O princípio dada de Citeaux, naquela ocasião
de sola Scriptura dos reformadores a única abadia da nova e rigorosa
o atraía profundamente e determi- ordem cisterciense. Três anos mais
nou sua própria teologia. A questão tarde, era designado abade de um
que tem sido levantada é se seu novo mosteiro, em Claraval (Clair-
método de correlação e de retomo vaux). Sob a direção de Bernardo,
à abordagem do sola Scriptura-sola o mosteiro cresceu rapidamente e
fid e dos reformadores (De Moor, p. ainda durante seu tempo de vida
46ss) não conduz a uma limitação deu origem a cerca de setenta aba-
das possibilidades da teologia e a dias cistercienses.
um afastamento demasiadamente Bernardo tinha ido para Cite-
fácil da ideia de “mistério”. aux a fim de fugir do mundo, mas
acabou se tom ando um dos líderes
Bibliografia mais ativos e viajados da igreja do
A H a lf Century o f Theoloau (Grand século XII. Na década de 1130,
Rapids, MI, 1977). empenhar-se-ia a favor do papa
Alvin Baker, A Critical Evalua- Inocêncio II, em um embate contra
tion o f G. C. Berkouw er’s Doctrine um papa rival, Anacleto. Conseguiu
o f Election (Dallas, 1976); Charles garantir a vitória de Inocêncio, que,
M illar Cameron, The Problem o f em troca, proporcionou privilégios
Polarization: An Approach Based aos cistercienses. Opôs-se, depois,
on the Writings o f G. C. Berkouw er ao ensino de Pedro Abelardo*,
(tese de doutorado, Universidade de conseguindo sua condenação pelo
Glasgow, 1983); P. D. Collord, The Sínodo de Sens, em 1140, e, con-
Problem o f Authority fo r Dogmatics sequentemente, pelo papa. Sua
in G. C. Berkouw er (tese de douto- autoridade foi ampliada mais ainda
rado, Universidade de Iowa, 1964); quando nada menos que um de
G. W. de Jong, De Theologie van Dr. seus próprios monges, Bernardo
G. C. Berkouwer. Een Structurele Paganelli, tornou-se, em 1145, o
Analyse (Kampen, 1971); J. C. de papa Eugênio III.
Moor, Towards a Biblically Theolo- Nos dois anos seguintes, atenden-
gical Method. A Structural Analysis do a pedido de Eugênio, Bernardo
and a Further Elaboration o f Dr. G. pregou pela Europa buscando apoio
C. B erkouw er’s Hermeneutic-dog- para a Segunda Cruzada, que foi
matic Method (Kampen, 1980); S. organizada em 1148, mas fracassou
Meijers, Objectiviteit en Existentia- terrivelmente, causando sério golpe
liteit (Kampen, 1979), p. 149-273; para ele. Sua reputação, no entanto,
L. B. Smedes, G. C. Berkouwer, in manteve-se elevada o suficiente para
P. E Hughes (ed.) Creative Minds sobreviver a esse revés, não tendo
in Contemporary Theology (Grand jamais perdido sua popularidade.
Rapids, MI, 1966), p. 63-97. Bernardo tem sido chamado “o
K.R. último dos pais” da igreja. Foi ele
BERN ARDO DE CLARAVAL 142

o último grande representante do são, ao mesmo tempo, totalmente


começo da tradição medieval da a obra da graça de Deus (não
teologia monástica*. Foi também deixando, assim, lugar para a
brilhante escritor, conquistando jactância) e também inteiramente
o título de “m elífluo” (“doce como obra do nosso livre-arbítrio; e que
o m el”). Pregava regularmente, e somos nós que temos de realizá-las
muitos de seus sermões sobrevi- (propiciando, assim, a base para o
veram. O texto de alguns deles não mérito* e a recompensa).
tem polimento, tendo-se mantido, Quase ao final de sua vida, Ber-
provavelmente, tal como foram nardo escreveu Consideração, para
originariamente pregados. Outros seu ex-discípulo, o papa Eugênio
apresentam um a forma literária III. Bernardo insta o pontífice a
altamente polida, destinada à lei- encontrar tempo para reflexão ou
tura. Os sermões baseiam-se mais meditação em sua vida ocupada.
nos diversos domingos e dias san- Ele vê a posição do papa como a do
tos do calendário eclesiástico. Sua “vigário ímpar de Cristo, que pre-
correspondência foi também das side não apenas sobre um único
mais vastas, tendo sido preservadas povo, mas sobre todos” , dotado de
mais de quinhentas de suas cartas, plenos poderes. Todavia, é igual-
indo das pessoais e devocionais às mente enfático em sua oposição à
de cunho oficial e político. Algumas tirania papal (ver Papado*).
delas constituem, praticamente, O monge ficou mais conhecido
verdadeiros tratados versando sobre como escritor de obras de cunho
o batismo*, o oficio de bispo e contra espiritual. Seu livro A m a r a Deus
os erros de Abelardo. tem sido elogiado como “um dos
Bernardo, todavia, escreveu real- mais notáveis de todos os livros
mente vários tratados. Três desses medievais de m isticism o*”. Outra
são sobre o monasticismo: Apologia, obra sua de destaque é Passos de
a favor dos cistercienses contra os humildade e orgulho, baseada nos
monges de Cluny; A regra e a dispen- doze passos de humildade da regra
sação, sobre a interpretação correta monástica de Bento. Sua obra de
do regulamento dos beneditinos*, e tema espiritual mais conhecida, no
Em honra à nova ordem de cavalei- entanto, é a que reúne 86 Sermões
ros, sobre a então nova ordem dos sobre os Cantares de Salomão, ale-
templários. Escreveu, ainda, uma gadamente destinada a comentar
biografia do arcebispo Malaquias de Cântico dos Cânticos 1.1— 3.1,
Armagh (1094-1148), que ajudou mas constituindo, na verdade, um
a alinhar a igreja irlandesa com as tratado em forma de sermões sobre
práticas da igreja romana. a vida espiritual dos monges.
Em seus primeiros anos de
ministério, Bernardo escreveu um Bibliografia
alentado tratado, Graça e livre- Obras em PL 182-185. Edição
arbítrio, no qual aborda a obra da crítica: J. Leclercq, H. Rochais, et
graça* de Deus ante o livre-arbítrio al. (eds.), Sancti B em ardi Opera,
humano* em conformidade com 8 vols. (Roma, 1957-1977). TI de
o pensamento agostiniano*. Ar- obras da série dos pais cistercien-
gum enta que nossas boas obras ses (Kalamazoo, MI, 1970ss).
® 143 BEZA, TEO D O R O

G. R. Evans, The Mind o f St Ber- Heylyn (1600-1662), na Inglaterra,


nard o f Clairvaux (Oxford, 1983); e Amyraut*, na França, conside-
E. Gilson, The Mystical Theology o f raram Beza responsável pelo en-
Saint Bernard (London, 1940); J. rijecimento da teologia de Calvino.
Leclercq, Bernard o f Clairvaux and Esses protestos foram basicamen-
Cistercian Spirit (Kalamazoo, MI, te ignorados até que, já no século
1976); E. Vacandard, Vie de Saint XIX, Heinrich Heppe (1820-1879)
Bernard, 2 vols. (Paris, 1895). rearticulou essa tese em estudo
A.N.S.L. sobre o papel de Beza no desen-
volvimento do elemento racional
BEZA, TEO D O R O (1 519-1605). no calvinismo. Essa denúncia, no
Como sucessor de Calvino, Beza entanto, contribuiu para muitas
foi o reconhecido defensor da or- conversões ao calvinismo do sécu-
todoxia de Genebra e o principal Ιο XIX, que, muito ao contrário de
porta-voz do protestantism o refor- Heppe, apreciava a real coerência
mado*. Em Genebra, serviu como racional do sistema calvinista, que
m oderador do clero (1564-1580), esse autor deplorava.
reitor da Academ ia (1559-1563) Na metade do século XX, a nova
e professor de Teologia (1559- onda era a da historiografia. A essa
1599). Além disso, durante muitas altura, a teologia revolucionária de
gerações de estudantes, pastores, Barth havia criado clima favorável
homens e m ulheres de Estado a uma nova interpretação de Cal-
e de negócios, que o conhece- vino, que celebrava o centro dinâ-
ram pessoalm ente ou m ediante mico, cristológico e bíblico de sua
correspondência, a influência teologia contrastando com a estru-
de Beza se fez sentir na França, tura mais metafísica* e sistemática
Grã-Bretanha, Holanda, Polônia e do calvinismo atribuído a Beza.
Alemanha. Foi principalm ente por É possível certamente encontrar
meio de seus escritos, no entanto, nos escritos de Beza um a abertura
que se firmou como polem ista e maior para a metafísica* e a dia-
homem de letras capaz, realmente lética aristotélicas, mais confiança
o guia com petente de definição da na autoridade patrística* e maior
integridade doutrinária da fé re- ênfase na coerência sistemática.
formada. Escreveu cerca de uma Tudo isso serviu para rem odelar a
centena de tratados, a m aioria dos teologia de Calvino em um corpo
quais escritos polêm icos sobre eu- de verdades mais firmemente argu-
caristia*, cristologia* e igreja*. Sua mentado e incontestável do ponto
obra-prima, Novum Testamentum de vista lógico.
[Novo Testamento], foi dedicada à Isso não significa, porém, que
rainha Elizabeth, em 1565. Beza tenha produzido uma síntese
A interpretação do pensamento racional baseada numa metafísica
de Beza e de seu papel no desen- da lei de Deus nem que haja um a
volvimento do calvinismo* tem linha direta ligando Beza ao es-
causado considerável controvérsia. colasticismo reformado do século
Sua fidelidade a Calvino foi aceita XVII, como tem insistido a escola
por seus contemporâneos, mas, alemã de interpretação. Evidências
nos meados do século XVII, Pedro de estudos recentes exigem um a
BIEL, GABRIEL 144 m

revisão dessa tese. A educação de Colônia (Teologia), durante a qual


Beza no humanismo francês re- foi exposto tanto à via antiqua (ao
sultou em um impacto duradouro método antigo) de Tomás de Aqui-
tanto no estilo quanto no conteúdo no* e Alberto Magno*, em Colônia,
de sua teologia. Usando modelos quanto à via moderna (ao método
das literaturas grega e romana, o moderno) de Duns Scotus* e Gui-
humanismo viu-se atraído para um lherme de Occam*, em Erfurt, tor-
estilo retórico e ético, voltado para nou-se, em sua meia-idade, pastor
os clássicos. Além do mais, a lógica e pregador. Passou a pregar na
e a filosofia que Beza absorveu em catedral de Mogúncia, tornando-
Paris era mais propriamente um se, da década de 1460 em diante,
aristotelismo amplamente emba- figura importante na ordem dos
sado do que um escolasticismo* Irmãos da Vida Comum, especial-
medieval de natureza técnica, mente como primeiro dirigente
impessoal e gradativamente obs- do seu novo estabelecimento em
curo. É essa cultura literária do Urach, Württemberg, acumulando
humanismo francês que separa essas funções com as do magistério
Beza de qualquer identificação fácil de Teologia na nova universidade
com o escolasticismo e que o liga de Wittenberg, de 1484 a c. 1490.
intimamente ao centro religioso e Era um autêntico seguidor do
bíblico da teologia de seu mentor, nominalismo* de Occam, mas
Calvino. também crítico de todas as escolas
de pensamento. Preservador fiel da
Bibliografia estrutura admiravelmente coerente
Muitos tratados teológicos, em do sistema occam ista (Oberman),
Tractationes Theologicae, 3 vols. seu ensino, no entanto, era mais
(1570-82). Correspondência, em explicitam ente teológico do que
Correspondance de Théodore de Bèze o de Occam, demonstrando um
(Genebra, 1960-1983), vols. 1-11. potencial do nominalismo para a
Estudos: P. F. Geisendorf, Thé- aplicação pastoral, tal como fez seu
odore de Bèze (Genebra, 1949); W. amigo e seguidor, o famoso prega-
Kickel, Vem unft und Offenbarung dor de Estrasburgo, João Geiler
bei Theodor Beza (Neukirchen- de Kaysersberg (1445-1510) (ver
Vluyn, 1967); R. Letham, Thedore o estudo feito por E. J. Dempsey
Beza: A Reassessment, SJT 40 Douglass, Justification in Late Me-
(1987), p. 25-40; T. Maruyama, dieval Preaching [A justificação na
The Ecclesiology o f Thedore Beza pregação medieval tardia], Leiden,
(Genebra, 1978); J. Raitt, The Eu- 1966). O pensamento de Biel tem
charistic Theology o f Theodore Beza sido cada vez mais apreciado tanto
(Chambersburg, PA, 1972) por seu completo embasamento
I.M cP. na primitiva tradição medieval
como por sua influência sobre as
B IEL, G A B R IEL (c. 1 415-1495). respostas católicas à Reforma. Ele
Um dos últimos grandes teólogos se destaca entre os escritores no-
escolásticos*. Após longa carreira minalistas com os quais a teologia
universitária na Alemanha, em inicial de Lutero se envolveu de
Heidelberg (Artes) e em Erfurt e modo crítico.
* 145 BIOÉTICA

Bibliografia inteiram ente estranha ou contrá-


H. A. Oberman, Forerunners o f the ria ao ensino da Bíblia.
Reformation: The Shape o f Late Na teologia moral* da Igreja Ca-
Medieval Thought, (London, 1967); tólica Romana, esse conceito está
idem, The Harvest o f M edieval Theo- firmemente ancorado na doutrina
logy: Gabriel Biel and Late Medie- da lei natural*. O natural para a
val Nominalism (Grand Rapids, MI, ocorrência da gravidez é a prática
21967). de relação sexual, diz o argumen-
D.F.W. to, sendo, portanto, contrário à
natureza* (e, consequentemente,
BIOÉTICA. Conjunto de princípios errado) tanto evitar a gravidez por
e questões colocados entre a ética meios contraceptivos como aumen-
e a moderna tecnologia médica no tar a fertilidade por inseminação
que diz respeito ao controle da vida artificial ou fertilização in vitro.
humana. Refletindo recentes avan- Os que se opõem a tais prin-
ços tecnológicos, seu interesse tem cípios apoiam sua argumentação
sido mais focado, particularmente, no conceito bíblico da mordomia*.
nos procedimentos para controle Deus deu ao homem e à mulher a
ou indução da fertilização e para responsabilidade de governar todo
a inibição ou retardamento do pro- o restante da criação e administrar
cesso natural de morte. Diversas seus recursos (Gn 1.28). Disse-
questões teológicas e éticas surgem, lhes também, no contexto de um
assim, relacionadas, sobretudo, mundo ainda sem população, que
à soberania de Deus, ao valor do fossem férteis e se multiplicassem.
homem, à mordomia dos recursos Daí se tiram duas ilações, con-
da criação, à vontade de Deus para forme é sugerido. Primeiramente,
o casamento e a paternidade e à sendo da vontade de Deus que o
natureza da vida humana. homem e a mulher casados pro-
Alguns cristãos creem que a criem, torna-se totalmente certo
tecnologia aplicada à indução e o uso de tecnologia médica para
controle da procriação, na verda- ajudar os casais com dificuldades
de, tenta usurpar o papel soberano de fertilização a ter filhos. Em
de Deus ao decidir quem deverá segundo lugar, é igualmente certo
nascer ou não e quando. O texto considerar a tecnologia dos meios
das Escrituras é claro sobre Deus contraceptivos um dom de Deus
estar envolvido na paternidade (Gn para ajudar homens e mulheres a
4.1,25; SI 100.3), bem como sobre lim itar o número de suas gestações
as más conseqüências que podem em um mundo que se torna cada
advir quando casais sem filhos se vez mais superpopuloso.
tornam por demais impacientes O ensino sobre a criação contido
quanto à fecundidade (cf. Abrão e na Bíblia estabelece também funda-
Sara, Gn 16). Desse modo, os que mentos para um a apreciação cristã
se dedicam à criação de novas vi- do valor e da dignidade humanos.
das em laboratório e tratam bebês De modo particular, a criação do
como meros produtos humanos homem e da mulher à imagem de
sujeitos a controle técnico de qua- Deus* tem levado, desde há muito,
lidade assumem um a posição ética os estudiosos de ética cristã a
BIOÉTICA 146

considerarem ser errado usar as in vitro à luz do ensino cristão sobre


pessoas como sim ples meios ou sexo*, casam ento e paternidade.
para experiências. Esse princípio O catolicism o romano tradicional
se relaciona claram ente às práticas se opõe a essas práticas porque,
de substituição paterna ou mater- sem elhantem ente à contracepção,
na e a experim entos com embrião. constituem um a ilegitim idade em
O desejo de ser pai ou mãe está relação aos principais propósitos
correto, mas nem todos os meios da relaçào sexual no casamento. A
possíveis podem ser considerados encíclica Hum anae Vitae [As vidas
corretos para se chegar a esse fim. humanas] (1968) resume essa ob-
Em pregar um doador de sêmen ou jeção ao cham ar a atenção para “a
um a mãe de aluguel para a repro- conexão inseparável, desejada por
dução desejada é degradar essa Deus e que não pode ser rom pida
terceira pessoa a um estado su- pelo homem por iniciativa própria,
bum ano de simples fornecedor de entre os dois significados do ato
esperm a ou de locadora de ventre. conjugal: o significado de união e
Por outro lado, buscar benefícios o de procriação” (12).
duradouros para a hum anidade A m aioria dos especialistas
por meio de experiências com em ética protestante, conquanto
embriões é usar indevidam ente concordem que os dois fins do
alguns seres hum anos indefesos sexo no casam ento (o relacionai
com o meio, de produzir satisfação e o procriador) nunca devem ser
m aterial para outros. divorciados, aplica o princípio ao
Do lado oposto ao da concep- casam ento tomado com o um todo,
ção, encontra-se a eutanásia, que e não a cada ato de relação sexual
é inaceitável por corresponder, na nele praticado. Alguns deles, no
verdade, ao equivalente humano entanto, argum entam que a inse-
de se dar um tiro de m isericórdia m inação artificial e a fertilização
em um anim al em sofrimento (por doador) conduzem a um a
quando considerado incurável. situação difícil e fora do comum
Mais controverso, no entanto, é por separar de m aneira não ética
o contrário: o uso extensivo de a paternidade biológica da social.
técnicas cirúrgicas e sistemas de M oralmente, o doador do óvulo ou
auxílio ventilatório para retardar do sêmen não poderia, simples-
o processo natural da morte, mente, ser afastado da criança de
altam ente questionável do ponto cuja procriação participou.
de vista ético, em especial, se o O pai e a mãe substitutos, na
paciente estiver sendo mantido qualidade de um terceiro grupo,
vivo só para propósitos utilitários. podem tam bém representar um a
O vitalism o (crença de que a vida ameaça, em bora não intencional,
física deve ser preservada a todo para a condição natural de “um a
custo) é fundam entalm ente idóla- só carne” do próprio relaciona-
tra do ponto de vista da teologia mento matrimonial. Em bora não
cristã. se possa considerar como um a
Sérias questões são também situação de adultério, pois não
levantadas quanto às práticas de existe, no caso, nenhum ato de
insem inação artificial e fertilização relação sexual, nenhum desejo
147 BLASFÊM IA

sexual, nenhum a intenção de do falar de potencialidade do ser


infidelidade, o esperm a e o óvulo desde os primeiros estágios da vida
mantêm, de todo modo, ligações intrauterina. Concordam todos,
intim am ente pessoais com seus no entanto, que é inteiram ente
respectivos doadores e de uma inaceitável a tendência da cultura
m aneira que nem o sangue nem tecnológica de determ inar o valor
os rins conseguem manter. do indivíduo por sua função (o
O mais crucial de tudo isso é que pode vir a fazer, em vez de o
que a bioética, como um todo, le- que é), seja quanto ao com eço ou
vanta a questão da natureza e do quanto ao fim da vida. Nas pala-
significado da vida. A sofisticação vras de Richard McCorm ick, “esse
dos sistemas que dão suporte à é um racism o do mundo adulto
vida e dos procedimentos de res- profundam ente em disparidade
suscitação têm levado a um a rede- com o evangelho” .
finição da morte como ausência de
atividade cerebral. Por outro lado, Bibliografia
prossegue sério debate a respeito D. G. Jones, Brave New People
do começo da pessoa humana. A (Leicester, 1984); idem, Manufac-
vida (com seu pleno valor humano) turing Humans: The challenge o f
tem início na fertilização? Se assim the new reproductive technologies
for, toda a experimentação com (Leicester, 1987); R. A. McCormick,
embriões deverá ser impedida, com How Brave a New World? (London,
base ética. Mas se, por exemplo, o 1981); Ο. M. D. O ’Donovan, Be-
surgimento do “elemento primiti- gotten or M ade? (Oxford, 1984); P.
vo” (aos quinze dias de fecundação Ramsey, Ethics at the Edges o f Life
do óvulo) for considerado como o (New Haven, 1979).
momento mais adiantado possível D.H.F.
em que se pode dizer já existir uma
pessoa, toda experiência anterior BLASFÊMIA. Palavra ou ato que
a esse ponto se torna aceitável, traduz insolência direta para com o
assim como a eventual perda de caráter de Deus, ou com a verdade
embriões “estocados” , destinados à cristã, ou com as coisas sagradas.
fertilização in vitro. Em sua forma mais simples, a
Muitos cristãos acreditam que blasfêmia constitui “um ataque de-
as referências bíblicas à vida antes liberado e direto à honra de Deus
do nascimento (ver Aborto*) os leva com a intenção de insultá-lo” (NCE
ao compromisso e à responsabili- 2, p. 606). Transgressão do terceiro
dade de proteger o embrião desde m andamento da lei (Êx 20.7; Dt
o seu começo como pessoa, com 5.11), a blasfêm ia nega a Deus sua
plenos direitos humanos. O valor suprema majestade e santidade,
da vida humana, argumentam sendo assim considerada pelas Es-
eles, é conferido por Deus desde crituras como abominável pecado.
o momento da concepção e não A maior incidência de blasfê-
depende do desenvolvimento, mias nas Escrituras é a daquelas
por exemplo, do sistema nervoso. contra o próprio Deus (Lv 24.11-
Outros acham que essa evidência 23; Is 52.5; Ez 20.27; Ap 13.6;
bíblica esteja equivocada, preferin­ 16.9,11,21). Outras ali registradas
BOAS OBRAS 148 9

são as blasfêmias contra Cristo em Paris, ingressou na ordem dos


(At 26.11) e o Espírito Santo (Mt franciscanos (1243), passando a
12.24-32; Mc 3.22-30; Lc 12.10). estudar, como discípulo, com al-
A chamada “blasfêmia contra o guns dos mais renomados eruditos
Espírito” , m encionada nos textos da ordem, entre os quais Alexandre
referidos, não é um pecado especí- de Hales (c. 1170-1245). Em 1248,
fico, como, por exemplo, a negação começou a lecionar sobre Escritu-
da divindade do Espírito, mas, ras e Teologia. Somente em 1257,
sim, manifesta-se na disposição de porém, foi formalmente recebido
hostilidade deliberada ao poder de no grêmio corporativo dos mestres,
Deus, por meio da terceira pessoa por causa de um a disputa entre
da Trindade, que visa à contrição e frades e professores seculares. A
ao arrependimento do pecador (cf. essa altura, no entanto, não estava
lJ o 5.16). Podem também sofrer mais ensinando, porque fora eleito
blasfêmia, como deixa claro o texto ministro-geral dos franciscanos
grego: a palavra de Deus (SI 107-11; (1257) e havia deixado o magistério
Is 5.24); os anjos (Jd 8, 10); o ensi- para se dedicar a seus deveres ad-
no cristão (lT m 6.1), e os próprios ministrativos. Todavia, apesar de
cristãos (At 13.45; 18.6; 1C0 4.13). muitas outras responsabilidades,
A blasfêmia pode ser cometida continuou a estimular o envolvi-
não somente por meio de palavras mento franciscano na vida acadê-
caluniosas (Lv 24.11,15,16), mas mica. Além disso, embora estivesse
também na negação de Cristo frequentemente ausente, entregue
(lT m 1.13), na prática da idolatria às atividades da ordem e da igreja,
(Ne 9.18,26), na falsa doutrina sempre que possível pregava na
(lT m 1.20), na opressão dos san- universidade sobre assuntos de
tos (Is 52.5), no insulto ao pobre importância filosófica e teológica
(Tg 2.6,7), e em professar a fé sem para o corpo docente e o discente.
praticá-la, ou não professá-la (Rm Declinando de sua nomeação para
2.24; 2Tm 3.2). arcebispo de York (1265), foi per-
suadido a se tornar bispo de Alba-
Bibliografia no (1273), sendo, depois, nomeado
H. W. Beyer, in T D N T I, p. 621-615; cardeal. Participou do Concilio de
G. D. Nokes, A History o f the Crime Lião (1274), contribuindo para um
o f Blasphemy (London, 1928); H. acordo visando reunir as igrejas do
W ãhrisch et al., in N IDNTT III, p. Ocidente e do Oriente.
340-347. Boaventura foi um escolástico
B.D. místico tão diferente de outros fran-
ciscanos, que eram escolásticos da
BOAS OBRAS, ver S a n t i f ic a ç ã o . ciência, quanto dos dominicanos*,
como Tomás de Aquino*, escolás-
BOAVENTURA (1221-1274). Teólo- ticos racionais. Sua liderança dos
go escolástico* nascido na Tosca- franciscanos livrou temporaria-
na, Itália, e que se tornaria o maior mente a ordem de um a dissensão
místico* franciscano* depois do por conseguir obter um compro-
próprio Francisco de Assis. Tendo metimento entre as duas facções
se formado em Filosofia e Letras, contrárias. Seu pensamento mais
#1 149 BO EH M E, JA C O B

original, expresso, entre outros, experiência da alegria inefável da


em seus livros As sete jornadas da presença divina.
eternidade e A jornada do pensa- Boaventura influenciou e prefi-
mento para Deus, está centrado no gurou o grande período do misti-
misticismo, o que o levaria a ser cismo durante os séculos X IV e XV,
cognominado de “Doutor Seráfico” . que produziu homens como Meis-
Suas obras foram profundamente ter Eckhart, John Tauler e Thomas
influenciadas por Agostinho*, a à Kempis. O agostinianismo* e a
quem Boaventura considerava como devoção individual que enfatizava
o equilíbrio ante a ênfase dada a ajudaram a preparar o caminho
Aristóteles* e os comentários dos para a Reforma Protestante.
árabes tão populares na época.
O conhecimento de Deus, de Bibliografia
acordo com ele, não vem mediante E. Bettoni, Saint Bonaventure (No-
a formulação de proposições, mas, tre Dame, IN, 1964); J. G. Bougerol,
sim, por experiência com Deus na Introduction to the Works o f Bona-
alma. O conhecimento racional de venture (New York, 1964); L. Cos-
Deus é impossível porque Ele difere tello, Saint Bonaventure (New York,
dos humanos em sentido qualitati- London, etc., 1911); E. Gilson, The
v o . A informação a respeito do divino Philosophy o f St Bonaventure (New
é na verdade obscura, equivocada e York, 1965).
análoga. O entendimento de Deus R.G.C.
é obtido mais por intermédio de
um a luta longa e árdua do espírito BOEHME, JACOB (1575-1624). Sa-
do que por meio de um a série de pateiro e místico alemão, de Gõrlitz,
progressões lógicas. A preparação que associou interesse pela expe-
para um encontro com Deus exige riência* religiosa pessoal, como
o afastamento das preocupações reação ao escolasticismo luterano,
materiais. A pessoa deverá, assim, à especulação a respeito da natu-
perceber Deus mediante a sombra reza de Deus e sua relação com a
ou o reflexo do divino nas coisas do criação.
mundo. Tendo alguém percebido A maioria dos escritos de Bo-
a presença de Deus no mundo, ehme, datados de 1612 a 1622,
poderá, então, ver Deus através induzidos por suas experiências
do seu próprio ser. Por exemplo, místicas* entre 1600 e 1619, usou
a vontade humana dem onstra sua da mesma linguagem e ideias de
bondade, e o intelecto, sua verda- longo estudo seu a respeito de
de. Isso leva à apreciação da graça neoplatonismo (ver Platonismo*),
e da transcendência de Deus, mas cabalismo judaico e alquimia. Seus
torna-se necessário um salto de fé escritos posteriores, incluindo tra-
para aceitar o mistério da Trinda- tados reunidos na obra O caminho
de. Nesse estágio da busca mística, para Cristo (1624), foram expres-
adverte Boaventura, tem início sos mais nitidamente em temas e
um período de prova, monotonia imagens tradicionalmente cristãos,
e fadiga espiritual; mas, a seguir, mas seu pensamento permaneceu
qual a luz da aurora, surge o dom complexo e especulativo. Os textos
do Espírito, consistindo em uma de Boehme foram proibidos durante
B O ÉCIO 150

sua vida e, por conseguinte, foram, Teologia*). Mais importante ainda,


em geral, ignorados. M esmo assim, grande foi sua influência na acei-
viriam a influenciar fortem ente tação praticamente universal pelo
The Spirit o f Love [O espírito de cristianismo ocidental* de união da
amor] (1752, 1754) e outros escri- teologia cristã com o melhor da filo-
tos posteriores de W illiam Law*, sofia grega, a bem dizer Aristóteles*
causando rom pim ento entre Law e os neoplatonistas. A tradução e o
e João W esley*, que considerava comentário que Boécio fez da obra
os escritos de Boehm e “o mais de Porfirio, Introdução, mostrou-se
sublim e absurdo” . particularmente influente no perí-
Conquanto as ideias de Boeh- odo medieval.
me não possam ser enquadradas Escreveu também sobre dou-
em sistema algum, sua influência trina cristã, notadamente sobre a
pode ser detectada no pietismo* Trindade e a pessoa de Cristo. Mas
e no idealismo*. O “deslumbrante sua obra mais famosa é A consola-
caos” (Boutroux) de seu pensamen- ção da Filosofia, escrita na prisão
to atraiu também a imaginação de e atribuída à ajuda da providência
artistas e poetas, como John Milton divina*, após a dolorosa falência
(1608-1674), William Blake (1757- de sua carreira política. Essa obra
1827) e S. T. Coleridge*. foi criticada pela falta de referência
explícita às Escrituras e por se
Bibliografia apoiar no raciocínio lógico. Boécio
P. Erb (tr.), Jacob Boehme: The identifica, na verdade, o “bem mais
Way to Christ (London & New York, elevado” dos filósofos com o Deus
1978); J. J. Stoudt, Jacob Boehme: cristão; mas, juntam ente com isso,
His Life and Thought (New York, podem ser reconhecidos na obra
1968). paralelos deliberados com a litera-
P.N.H. tura de sabedoria do AT, particu-
larmente ao Eclesiastes.
BOÉCIO (c. 480-524), estadista e
filósofo cristão. A despeito de seu Bibliografia
nobre nascimento romano e de sua H. Chadwick, Boethius: The Con-
posição senatorial, ele conquistou solations o f Music, Logic, Theology
poder político, de fato, na corte do and Philosophy (Oxford, 1981); M.
governante gótico de Roma, Teo- Gibson (ed.), Boethius: His Life,
dorico. Essa sua proeminência, no Writings and Influence (Oxford,
entanto, não teve muita duração. 1981); H. Liebschütz, in CHLGEMP,
Acusado de mancomunação traiço- p. 538-555.
eira com o im perador de Constan- G.A.K.
tinopla, foi aprisionado em Pavia e
depois ali executado. B O N H O EFFER, DIETRICH (1906
Boécio foi um a figura de transi- 1945). Teólogo e líder da Igreja
ção entre o mundo clássico e o me- Confessante na Alem anha até seu
dieval. Lançou os fundamentos do martírio* pelos nazistas, Bonhoeffer
quadrivium (“os quatro cam inhos”), permanece como um a das vozes
introdução-padrão ao estudo sério mais avivadoras do cristianismo
da Filosofia (ver também Filosofia e con tem p orân eo, a d esp eito do
151 BO N H O EFFER , DIETRICH

caráter fragmentário e ocasional e O p reço do discipulado. Até


de grande parte de seus escritos. sua prisão, em 1943, B onhoeffer
Nascido em família de posição esteve trabalhando em sua obra
social destacada e educado em Ética, publicada postum am ente.
Berlim, Tübingen e Roma, a pri- Suas criações no cárcere, reu-
meira obra teológica de Bonhoeffer, nidas sob o título de Cartas e
Sanctorum Communio [Comunhão escritos da prisão, tornar-se-iam
dos santos], buscou estender uma docum entos teológicos dos mais
ponte entre a teologia da revelação* influentes de nossa época, nota-
e a sociologia filosófica ao descrever dam ente por levantar questões a
o modo pelo qual o transcendente respeito do relacionam ento entre
é encontrado na vida corporativa. o cristianism o e o aparato da reli-
A obra contém muitas das semen- gião humana.
tes de seus escritos posteriores Adeptos da proposta da chama-
famosos como acontece com outro da “teologia da secularidade” bus-
estudo sobre o lugar da ontologia caram um pioneiro em Bonhoeffer,
na teologia sistemática, Act and mas deixaram escapar, de modo
Being [Agir e ser]. geral, as nuanças de sua obra. Por
Um período no Union Theologi- trás das Cartas e escritos, não há
cal Seminary, em New York, levou tanta confiança a respeito do poder
Bonhoeffer a assumir forte reação humano quanto no abandono pos-
contra a teologia liberal* e con- terior de Bonhoeffer da perspectiva
firmou sua nascente atração por de Barth quanto à relação da reve-
Barth*, naquela época começando lação para com a história humana.
sua vasta obra Dogm ática da igreja. Assim é mais do que a negação da
Ao retornar à Alemanha, Bonho- possibilidade de toda linguagem
effer foi ensinar em Berlim. Suas objetiva a respeito de Deus que
palestras, depois publicadas, Cria- deveria proporcionar o ponto de
ção e queda, um a interpretação de partida para a avaliação das asser-
Gênesis 1— 3 altamente carregada ções fragmentárias de Bonhoeffer
de acusação, e Cristologia mostram sobre “cristianismo sem religião”
muita influência de Barth. ou a “iminente era” do homem. Na
Ao mesmo tempo, Bonhoeffer verdade, Bonhoeffer procura corri-
envolve-se cada vez mais no mo- gir Barth ao voltar a introduzir a
vimento ecumênico jovem e na ênfase na relativa autonomia da
oposição a Hitler. Na metade da ordem natural como esfera da pre-
década de 1930, emerge como líder sença e ação de Deus. Desse modo,
da Igreja Confessante, que recusa Bonhoeffer move em direção a um a
qualquer aliança entre cristia- visão teológica da responsabilida-
nismo e nazismo. Até seu trágico de humana, tema que ocuparia o
fim, passa a administrar um se- próprio Barth em seus anos finais.
minário da Igreja Confessante, em A própria biografia de Bonhoeffer,
Finkenwalde. da qual sua teologia é inseparável,
Desse período de sua obra mostra seu crescimento paralelo
são alguns de seus escritos mais da consciência de responsabilidade
conhecidos sobre espiritualidade, para com a história. Ele viveu em
notadam ente Vida em com unhão um período altamente crucial da
BO STO N, THOM AS 152 3

história política e intelectual da [A natureza humana em seu estado


Europa e boa parte das tragédias quádruplo], que chegou a disputar
da época ele condensou em sua em popularidade com Pilgrim ’s
própria vida. Progress [O peregrin o], de Bunyan,
entre os cristãos da Escócia. Os
Bibliografia tratados de Boston sobre os pactos
Obras: Gesammelte Schriften, 6 da lei e da graça rivalizam até mes-
vols. (Munique, 1958-74); Sancto- mo com os trabalhos congêneres
rum Communio (London, 1963); Act de Herman Witsius (1636-1708) e
and Being (London, 1962); Chris- Johannes Cocceius (1603-69), por
tology (London, 1978); The Cost sua apresentação convincente da
o f Discipleship (London, 1959); teologia do pacto*.
Creation and Fall (London, 1959); Foi também ilustre hebraísta,
Ethics (London, 1978); Letters and tendo seu Tractatus Stigmologicus
Papers from Prison (Lon don ,21971); Hebraicus [Tratado estigmológico
Life Together (London, 1954); No hebraico], apontando a inspiração
Rusty S w ord s(London, 1965); True divina nos acentos do idioma hebrai-
P a triotism (London, 1973); The Way co (publicado postumamente, em
to Freedom (London, 1966). latim, em 1738), conquistado para
Estudos: E. Bethge, Dietrich ele elevada apreciação dos eruditos
Bonhoeffer (London 1970); A. Du- da língua hebraica de todo o mundo,
mas, Dietrich Bonhoeffer, Theolo- muito embora estudos posteriores
gian o f Reality (London, 1971); J. hajam demonstrado que sua tese
D. Godsey, The Theology o f Dietrich central era insustentável.
B o n h oe ffer(London, 1960); H. Ott, O nome de Thomas Boston ficou
Reality and Faith (London, 1971); mais conhecido por seu envolvi-
J. A. Phillips, The Form o f Christ mento na chamada “controvérsia
in the World (London, 1967); R. sobre a essência” .
Gregor Smith (ed.), World Come o f No começo do século XVIII,
Age (London, 1967). ocorreu um a tendência legalista na
J.B.We. teologia escocesa. Isso veio à tona
em um a disputa entre o presbitério
BOSTON, THOMAS (1676-1732). de Auchterarder e um estudante,
Ministro da Igreja da Escócia e a quem foi recusado se graduar
consumado teólogo. Nascido em por causa do seu entendimento
Duns, Berwickshire, obteve o grau da doutrina do arrependimento*.
de bacharel em Filosofia e Letras O presbitério requisitou ao estu-
na Universidade de Edimburgo e dante que subscrevesse a seguinte
estudou por algum tempo Teologia declaração: “Creio não ser correto
na mesm a instituição, curso que e ortodoxo ensinar que deixamos
viria a com pletar mais tarde sob o pecado a fim de chegarmos a
supervisão pastoral. Foi ministro, Cristo” . O estudante recusou-se
sucessivamente, em Simprin e Et- a fazê-lo e a Assem bleia Geral de
trick, na fronteira escocesa. 1717 deu apoio a ele, censurando
Boston publicou diversos livros o presbitério.
durante a vida, sendo o mais famoso Boston concordou com a inten-
Hum an Nature in its Fourfold State ção do que ficou sendo chamado
153 BRADW ARDINE, THOM AS

de “Credo de Auchterarder”, embora oposição à Confissão de Westmins-


tivesse alguma reserva quanto à exa- ter é significativo o fato de que a
tidão de sua formulação. No contexto edição de 1645 do citado livro
dessa disputa, passou a recomendar trouxesse prefácio de Joseph Caryl
a obra de Edward Fisher, The Mar- (1602-1673), que fora especifica-
row o f Modem Divinity [A essência mente designado pela Assem bleia
da divindade atualmente] (1645). de W estm inster justam ente para
Era uma compilação de escritos “revisar e aprovar obras teológicas
reformados, incluindo passagens para im pressão” (Beaton). Boston
de Lutero*, Calvino* e dos teólogos o reeditou, mais tarde, contendo
puritanos* ingleses, disposta em suas próprias notas (em Works
forma de debate. Boston ressaltou [Obras], vol. 7). Essa edição é a
que essa obra lhe havia ajudado a mais importante para o entendi-
entender e pregar a doutrina da gra- mento do referido debate.
ça. (James Hog de Cam ock viria a
republicar esse livro em 1718.) Bibliografia
As duas principais correntes de M em oirs, ed. G. H. M orrison
pensamento da Igreja da Escócia se (Edinburgh, 1899); Works, ed. S.
tornaram, então, evidentes. James McMillan, 12 vols. (Edinburgh,
Hadow (c. 1670-1747), diretor do 1853). D. Beaton, “The Marrow
St. M ary’s College, de St. Andrews, o f Modern Divinity and the Mar-
opôs-se ao livro, que foi defini- row Controversy”, Records o f the
tivamente proibido pela Assem- Scottish Church History Society 1
bleia Geral. Boston e onze outros (1926), p. 112-134.
(chamados “homens da essência”) A .T .B .M cG .
apelaram, sem sucesso, pela sus-
pensão dessa proibição. Ambos BRADWARDINE, THOMAS (c. 1290-
os lados alegavam representar a 1349). Chamado, algumas vezes,
posição correta do regulamento- de “Doctor profu n d us’’ [“Doutor
padrão da igreja, a Confissão de Fé profundo”], Bradwardine era mem-
de Westminster. bro do Merton College, de Oxford, e
Hoje, em retrospectiva, pode-se um estudioso de Matemática e Te-
afirmar perfeitamente que Hadow ologia. Foi designado arcebispo de
e os que o apoiavam sustentavam Cantuária poucas semanas antes
um a distorção legalista da teologia de morrer vítim a da peste negra.
do pacto. Eles tinham feito do ar- A principal obra de Bradwardi-
rependimento um a condição para ne, De Causa D ei Contra Pelagium
a salvação e restringido a oferta do [Sobre a causa de Deus contra
evangelho, na errônea crença de Pelágio], é um a polêm ica am pla
que a oferta universal exigia como e profunda em oposição tanto às
base necessária uma redenção doutrinas características do pe-
universal. Boston e os outros apre- lagianism o* quanto ao com porta-
sentavam a teologia do pacto como mento pelagiano. A obra foi editada
uma teologia da graça*. Quanto à em 1618 por sir Henry Savile, com
ideia equivocada de Hadow de que a ajuda de W illiam Twisse (1575-
a obra da “essência” e os “homens 1646), mais tarde presidente da
da essência” se encontravam em Assem bleia de W estm inster. Nessa
BRUNNER, EMIL 154 f

obra, os temas agostinianos* (e outros com o parte do m ovim ento


bíblicos) de servidão da vontade*, n eo-ortodoxo, cuja teologia, ex-
predestinação* e necessidade da pressa em term os d ialéticos*, foi
graça preveniente* são desenvolvi- in flu en ciad a por K ierk egaard* e
dos com sutileza e precisão inigua- Buber*.
láveis por alguém que certamente Brunner considera que a reve-
havia provado a doçura da graça lação* sobre a qual o cristianismo
divina em si mesmo. Esses termos está baseado consiste em um
são desenvolvidos a partir de um encontro de pessoa a pessoa. As-
ponto de vista predominantemente sim, a revelação de Deus, tendo
teocêntrico: de um Deus que, em ocorrido singularmente na vida,
um a eternidade atemporal, dispõe e morte e ressurreição de Jesus, só
controla imutavelmente tudo o que é com pletada quando o indivíduo
acontece sem ser o autor do pecado. reconhece que Jesus é o Senhor.
Até onde isso pode representar um As Escrituras*, em si mesmas,
enrijecimento da posição de Agosti- não constituem a revelação porque
nho é assunto de contínuo debate. não são verbalm ente inspiradas e
Considera-se que Bradwardine infalíveis, mas podem ser a ponte
(juntamente com Wyclif*, por exem- usada pelo Espírito para levar a
pio) exerceu relevante influência na pessoa à fé. Admite haver incer-
preparação do caminho da Refor- teza histórica quanto aos eventos
ma*, sendo assim elemento impor- do evangelho, mas afirma que as
tante na continuidade entre a igreja naturezas divina e humana esta-
medieval e a Reforma luterana* e vam unidas em Jesus Cristo, que,
seus efeitos. desse modo, corporifica e realiza a
mediação entre Deus e o homem.
Bibliografia Daí a cristologia* de Brunner ser
H. A. Oberman, Archbishop Tho- intitulada The M ediator [O Media-
mas Bradw ardine (Utrecht, 1965); dor] (London, 1934).
G. Leff, Bradw ardine and the Pela- Era convicção de Brunner que
gians (Cambridge, 1957). a crença em Cristo necessitava
P.H. da revelação universal de Deus
na criação, na história e na cons-
BRUNNER, EM IL (1889-1966). ciência humana. Isso o fez entrar
Teólogo reformado suíço, que foi em conflito direto, em 1934, com
pastor antes de se tornar professor Barth, que rejeitava inteiramente
de Teologia Sistemática e Prática qualquer ideia a respeito de um a
em Zurique, de 1924 a 1955. Viajou revelação geral (ver o texto Nature
muito, demonstrando por toda a and Grace [Natureza e graça], de
sua vida interesse no ecumenismo Brunner, que Barth rejeitou com
e em missões, e passou os dois últi- um “não!”, ambos em Natural The-
mos anos de sua carreira de ensino ology [Teologia natural], introdução
no Japão. de John Baillie*, London, 1946).
R eagin do con tra a teologia Brunner, contudo, não estava
de S ch leierm ach er e a da escola sugerindo que a revelação geral
p rotestan te liberal, B ru n ner tem oferecesse o primeiro passo confi-
sido id en tificad o com B arth* e ável para o conhecimento de Deus,
155 BUBER, MARTIN

conhecimento esse a revelação o anticristo. Em conseqüência,


específica completaria. Ao contrá- ambas as obras foram banidas na
rio, sugeria que o homem decaído Alem anha nazista.
retém algum a coisa da imagem de Deu Brunner um a contribuição
Deus*, que o capacita a perceber positiva à reconstrução do mundo
a verdade distorcida a respeito de pós-guerra com seu livro Justice
Deus. A revelação específica coloca and the Social Order [Justiça e
essa verdade em realce, confirman- ordem social] (London, 1945),
do o que é certo e reformulando o que discutia tanto os princípios
que é errado. quanto a prática da justiça nos
A principal exposição doutriná- diferentes níveis da sociedade.
ria de Brunner pode ser encontrada Esse teólogo dogmático também se
em sua Dogmatics [Dogmática], em preocupou com questões práticas,
três volumes (London: vol. 1, 1949; em decorrência de sua convicção
vol. 2, 1952; vol. 3, 1962). de que a dogmática e a ética estão
Emil Brunner herdou de sua inseparavelmente ligadas no Novo
família o interesse por questões so- Testamento e na proclamação e
ciais que se manteve vivo mediante experiência cristãs.
as questões surgidas nas duas
guerras mundiais e o avanço do Bibliografia
comunismo. Embora a revolta do C. W. Kegley (ed.), The Theology o f
homem contra Deus haja condu- Emil B runner (New York, 1962).
zido ao desespero e ao sentimento C.A.B.
de culpa, o incrédulo ainda se
encontra relacionado com Deus BUBER, MARTIN (1878-1965). Neto
e é responsável perante ele. Esse do famoso erudito do Midrash
tema, desenvolvido em Man in Re- Solomon Buber, filósofo, teólogo,
volt [O homem em revolta] (London, sionista e adepto do movimento
1939), acha-se por trás de sua ética pietista e messiânico Hasidim, é
apresentada em The Divine Impera- imensa a influência exercida por
tive [O imperativo divino] (London, Martin Buber sobre o judaísm o e o
1937). Deus dá ao ser humano a cristianismo.
oportunidade de obedecer a seu Os judeus consideram Buber,
m andamento e de amar a ele e ao sobretudo, em três áreas:
homem. O amor pela humanidade 1. Hasidim. Esse movimento do
é apropriadamente expresso quan- judaísmo ultraortodoxo e místico foi
do alguém reconhece as diferentes fundado no século XVIII, tendo sua
ordens da sociedade: a família; a base na Europa Oriental. O contato
comunidade, entendida econômica, de Buber, quando jovem, com co-
legal (o Estado) e culturalmente; e munidades hasidímicas o levaria,
a igreja. Ambos esses seus livros se já adulto, a editar sua obra Tales o f
opunham aos totalitarismos mani- the Hasidim [Histórias do Hasidim] e
festos pelo nacional-socialismo de outras, abordando lendas e crenças
Hitler e pelo comunismo por pro- ligadas ao movimento. Seu amor
moverem a desumanização ateísta pelas comunidades hasidímicas o
da sociedade, devendo, segundo levariam a captar a importância do
Brunner, ser identificados com testemunho comunitário, pelo qual
BUCER (BUTZER), MARTIN 156 m

a vida de Israel deveria permear quanto à necessidade de um a re-


o mundo gentílico. Ele observou lação Eu-Tu de amor e apreciativo
a influência judaica na formação entendimento, em vez da proselitis-
do cristianismo, do islamismo e do ta confrontação do Eu-Coisa, que
marxismo. Considerou Israel como usa de abordagem bem diversa. Na
“porta das nações”, fundindo os es- obra Escritos sobre o princípio do
píritos do Oriente e do Ocidente em diálogo, sustenta, também, que “o
frutífera reciprocidade. diálogo não significa um a relativi-
2. Sionismo. Buber tornou-se zação mútua de convicções, mas,
sionista na universidade e, mais sim, a aceitação do outro como
tarde, publicou o ensaio D ie Welt pessoa”.
[O mundo}. No decorrer de ambas A influência do pensamento
as guerras mundiais, trabalhou Eu-Tu de Buber se espalhou, por
incansavelmente pelos judeus nos intermédio de Emil Brunner*, para
países sob ocupação alemã. Tendo os pensadores da “presença cristã” ,
apoiado as colônias judaicas na como Max Warren (1904-1977) e
Palestina durante toda a sua vida, John V. Taylor (n. 1914). Buber tem
migrou para lá em 1938, tornando- contribuído também na formação
se professor de Filosofia Social em do desenvolvimento do pensamen-
Jerusalém. Como sionista, advoga- to cristão sobre diálogo e proseli-
va “paz e fraternidade com o povo tismo. Todavia, deve-se observar
árabe” . que, nesse contexto, Buber defende
3. Bíblia. Buber dedicou-se à firmemente o chamado de Israel de
tradução das Escrituras hebraicas levar a salvação às nações.
para o alemão, visando os judeus de
fala alemã. Sua tradução tem sido Bibliografia
usada, no entanto, principalmente, I and Thou (New York, 1970); On
por cristãos gentílicos, enquanto a Judaism (New York, 1967); Tales o f
comunidade judaica para a qual the Hasidim (New York, 1947).
ela fora projetada foi praticamente M. L. Diamond, Martin Buber,
exterm inada nos anos da Segunda Jewish Existentialist (New York,
Guerra Mundial. Seus estudos 1968); M. Friedman, Martin Buber:
bíblicos o levaram também à sig- The Life o f Dialogue (Chicago, 1955).
nificativa obra A realeza de Deus, M.F.G.
assim como aos livros Moisés e A
fé profética. BUCER (BUTZER), MARTIN (1491-
Os cristãos conheceriam Buber 1551). Reformador de Estrasburgo
melhor por seu livro Eu e tu e por e importante fonte da tradiçào
sua obra sobre o diálogo. Ambos reformada*. Natural de Sélestat,
surgiram da influência do exis- Alsácia, Bucer entrou para a ordem
tencialismo*, na década de 1920. dos dominicanos* (1506); mas ο
Apoiado pela doutrina do Hasidim humanismo* da Alsácia o conduziu
de que o bem se encontra em todas primeiramente a Erasmo* e depois a
as coisas, Buber enfatiza a necessi- Lutero*, que o cativou nas disputas
dade da educação, que revela o que de Heidelberg, em 1518. Deixou, a
está no homem, em lugar da propa- seguir, a clausura, casou-se em 1522
ganda ideológica. Ensina também e foi excomungado; refugiando-se
m 157 BUCER (BUTZER), MARTIN

em Estrasburgo, (1523), tomou-se o ordenada de um a comunidade


líder, ali, da Reforma. renovada, em conformidade com o
Bucer envolveu-se destacada- padrão bíblico, m arcada pelo am or
mente na grande contenda pro- mútuo e serviço no Espírito. As
testante quanto à ceia do Senhor autoridades civis, sob o seu ponto
(ver Eucaristia*). Após apoiar a de vista, tinham importante papel
abordagem de Zuínglio* e Oeco- na reforma religiosa. Seu interesse
lampadius*, adotou, a partir de c. na disciplina* da igreja refletia par-
1528, no sul da Alemanha, uma te de sua sensibilidade a algumas
posição mediana, afirmando que exigências dos numerosos reforma-
Lutero e Zuínglio estavam brigan- dores radicais de Estrasburgo (ver
do meramente por uma questão Reforma Radical*). A respeito dessa
de palavras. À primeira vista, a e de outras questões (e.g., as quatro
liderança de Estrasburgo não ordens do ministério, a ordem do
subscreveu a Confissão de Augs- culto, o cântico congregacional, a
burgo (1530), submetendo-se, ao educação), Calvino aprendeu mui-
contrário, no interesse da concór- to em Estrasburgo (1538-1541), e
dia protestante, à Confissão Tetra- a visão de Bucer quanto à igreja
politana. Posteriormente, Bucer e reform ada e à sociedade cristã
Melâncton* chegaram a um acordo encontrou um a realização mais
sobre a eucaristia na Concórdia plena em Genebra e em outras co-
de W ittenberg (1536). Embora não munidades reformadas do que foi
satisfeito quanto a algumas fórmu- possível em Estrasburgo.
las luteranas, Bucer frisava que Tão forte era a ênfase de Bucer
mesmo os crentes indignos (mas na renovação espiritual que ele
não os incrédulos) participam pela chegaria a identificar um a dupla
fé da verdadeira presença do corpo justificação*. A verdadeira fé, que
e do sangue de Cristo, apresenta- definia como uma convicção segura,
dos e comunicados (exhibere) pelos estava sempre “operando por amor”
elementos em um a “união sacra- (G1 5.6). Mostrava-se também mais
m ental”. Nem todos, porém, apoia- apto que Lutero e Calvino para falar
vam a facilidade quase escolástica ■ a respeito do livre-arbítrio* do ho-
de Bucer em formular afirmações mem não regenerado.
de concordância. Isso se aplica Seus últimos anos de vida
também a seus esforços junto a (1548-1551), Bucer passou no exí-
Melâncton para negociar um acor- lio, principalmente como professor
do doutrinário com os católicos na regius em Cambridge. Exerceu ali
Alemanha, em c. 1540. Um acordo influência na elaboração do Livro
provisório sobre a justificação foi de oração comum (1552) e sobre
alcançado em Regensburg, em reformadores ingleses* como John
1541. Em sua busca do consenso, : Bradford (c. 1510-1555), Matthew
Bucer muito fez em favor da pura Parker (1504-1575) e John W hitgift
unidade da igreja primitiva. (c. 1530-1604). Concebeu para o rei
A força da teologia de Bucer Eduardo VI um notável projeto de
repousa em sua eclesiologia. Ele um a Inglaterra cristã, em sua obra
era mais profundamente compro- The Kingdom o f Christ [O reino de
metido do que Lutero com a vida Cristo} e, por ser um dos melhores
BUDISMO E CRISTIANISMO 158

expositores reformados da Palavra, esvaziada tanto de autoflagelação


contribuiu para a formação da tra- quanto de permissividade física.
dição exegética britânica. Enquanto meditava sob um a ár-
vore, alcançou iluminação interior
Bibliografia e se tornou Buda, “o Ilum inado” .
Edição antológica de obras em Nessa experiência, aprendeu qua-
andamento: em TI, textos selecio- tro importantes verdades:
nados em D. F. Wright, Common 1. A vida é cheia de tristeza.
Places o f Martin B ucer (Appleford, Toda pessoa nasce, a maioria
1972), e em Kingdom o f Christ, in envelhece, e todos morrem. Mas
W. Pauck, M elanchthon and Bucer, o sofrimento m arca um ciclo inter-
LC C 19 (London, 1970). minável de vidas. A reencarnação
H. Eells, Martin B ucer (New (ver Metempsicose*) é, portanto,
Haven, 1931); W. P. Stephens, The um a maldição.
Holy Spirit in the Theology o f Martin 2. A origem do sofrimento é a ig-
Bucer (London, 1970); W. Pauck, norância. As pessoas desconhecem
The Heritage o f the Reformation quem são elas e o que a vida é. Da
(Oxford, 21968). ignorância provém o desejo de coi-
D.F.W. sas materiais e imateriais. Todavia,
não existe juventude eterna, nem
BUDISMO E CRISTIANISMO. Si- poder supremo, nem alegria abso-
darta Gautama nasceu príncipe, luta. E todos sofrem por causa da
na índia, no século VI a.C., e seu ignorância.
pai o cobriu de toda proteção, 3. Uma pessoa pode romper o
evitando que ele viesse a assistir ciclo de renascimentos se compre-
ao sofrimento humano. Quando ender que a essência de todas as
Sidarta chegou à idade adulta, no coisas, inclusive da alma, é o vazio.
entanto, viu-se, pela primeira vez, A grande doutrina do budismo é
face a face com o povo, envelhecido anatta, “não alm a” , que difere do
e cheio de enfermidades, assim entendimento hindu de alma. No
como deparou-se com cadáveres hinduísmo*, é buscada a união
humanos. Após sério encontro entre a alma universal (Brahman)
que teve com um monge, Sidarta e a alma individual (Atm an), a fim
convenceu-se de que a vida é real- de resultar em uma só unidade, tal
mente cheia de dor. Desiludido, como um a gota de chuva se torna
voltou-se para a busca da verdade um a só unidade com o oceano. No
suprema, abandonando todo luxo budismo, não hã alma. Ao contrá-
e conforto e se tornando monge rio, a consciência é renascida e deve
peregrino. Praticava a austeridade ser extinta, tal como é apagada a
para alcançar a iluminação. chama de um a vela. A consciência
Veio a entender, contudo, que não é um a alma (como o hindu ou
nem a severidade atual nem a an- o cristão definiria a alma), mas,
tecipação de prazeres futuros po- sim, resultado da ignorância, sen-
deriam lhe proporcionar paz inte- do extinta quando alguém percebe
rior. Decidiu enveredar, então, pelo o vazio de sua existência.
que ficou conhecido no budismo 4. O caminho conduz à cessação
como Caminho Médio — um a vida do sofrimento. O caminho tem oito
159 BUDISM O E CRISTIANISMO

passos: ideías corretas, aspirações afastamento de muitas das escolas


corretas, falar correto, conduta Mahayana, que exaltam os budis-
correta, modo de vida correto (i.e., tas que tenham alcançado o papel
libertação da luxúria), esforço de salvadores (bodhisattvas).
correto, consciência correta e con- Algumas correntes budistas do
centração correta. Andando nesse ramo Mahayana, no decorrer dos
caminho de oito passos, a pessoa séculos, mudaram o foco da dou-
poderá (após muitas reencarna- trina do vazio (sunyata), preferindo
ções sucessivas) receber ilumina- se concentrar no chamado paraíso
ção. Embora a doutrina budista da Ocidental, lugar ideal de bem-
extinção possa parecer niilista ao aventurança onde, segundo sua
cristão, para o budista viver uma doutrina, os budistas fiéis perma-
vida pura até o final de um ciclo de necem até alcançar o parinirvana
vidas cheio de sofrimento é enten- — ou seja, a extinção. Isso não
dido como algo mais idealista do significa que a doutrina sunyata
que propriamente fatalista. haja sido retirada de sua filosofia,
As escolas budistas subsequen- mas, sim, que o parinirvana foi
tes responderam aos ensinos de deslocado mais para a frente, em
Buda e os interpretaram de modo sua odisséia espiritual, em favor
diferente. Duas principais filoso- de um lugar precedente, que esses
fias logo emergiram no budismo: o budistas visualizam com a ideia de
budismo Theravada e o Mahayana. conforto e esperança — o paraíso
Os adeptos do Mahayana, ou o Ocidental.
Grande Veículo, referiam-se aos M uitos budistas jap o n eses
outros budistas, que se mantinham e am ericanos creem em Am ida
estritamente fiéis ao documento Buda, acatando ensinamentos de
básico da doutrina budista, como Shinran, fundador do culto Jodo-
seguidores do budismo Hinayana, Shinshu, que fom enta a crença no
ou seja, Veículo Pequeno ou Me- paraíso Ocidental. Apesar de diver-
nor. Os seguidores do Hinayana sas correntes budistas importantes,
ressentiram-se desse termo, que como zen e budismo tibetano, não
denotava um método de budismo aceitarem a doutrina ligada a Ami-
inferior, passando, então, a chamar da Buda, muitos são os asiáticos
sua doutrina de budismo Therava- que acreditam que a fé na compai-
da, doutrina dos anciãos. xão de Am ida Buda lhes assegurará
O budismo Theravada contém um lugar no referido paraíso.
pontos importantes de doutrina Os budistas asiáticos da crença
que diferem das crenças da maio- em Am ida têm ocidentalizado sua
ria das escolas Mahayana. Muito religiáo na Am érica do Norte e na
significativo é que seus adeptos re- Europa. Enquanto os budistas
verenciam Buda como um grande na Ásia podem com parecer a um
mestre ético, e não como um deus, templo ou santuário seu em qual-
como muitos dos Mahayanistas. quer dia da semana, no Ocidente,
Além do mais, seus ensinos são eles se reúnem de preferência aos
reservados aos chamados santos domingos, mantêm escolas domi-
budistas (arhats), e não ofereci- nicais e chamam seus lugares de
dos ao povo comum. É esse outro adoração de “igreja” . Além do mais,
BUDISMO E CRISTIANISMO 160 ’

a arquitetura de seus templos no os que, principalmente, são de as-


Ocidente é bastante semelhante a cendência européia e têm adotado
edifícios ocidentais modernos. um a religião que enfatiza a técnica
Já o budismo zen e o tibetano espiritual da meditação. Não obs-
não somente retêm aspectos cul- tante, o cristão pode perfeitamente
turais do Japão e do Tibete, como ter um diálogo com um budista em
também enfatizam técnicas espiri- áreas que são comuns a ambos.
tuais em relação ã simples fé. Os contrastes entre a doutrina
Ocidentais que rejeitam o que cristã e a budista se ressaltam,
consideram doutrina e cultura pelo menos, em três áreas:
cristãs tendem a gravitar em tor- 1. O budismo nega a existência
no dessas escolas de m editação da alma. Na doutrina bíblica, ao
budista por causa dessas caracte- contrário, é fundamental que o
rísticas. Entre os cristãos, são os homem seja alma, ou “ser vivente”
católicos, principalm ente, os que (Gn 2.7; ver Antropologia*). Sua vida
têm adotado ou advogado um “zen deve ser definida em termos de sua
cristão” ou “catolicism o zen ” — criação por Deus, sua dependência
resultado de aspectos do zen-bu- de Deus e seu relacionamento com
dismo enxertados no cristianismo. Deus. Isso não é destruído pela mor-
A teoria e prática da m editação te, como assinala Jesus (Mt 20.28).
zen têm sido particularm ente 2. O NT nega a doutrina da
atraentes para os católicos ten- reencarnação. Os homens morrem
dentes a prom over um a renovação apenas uma vez e, depois disso,
na contem plação m ística (cf. W. são julgados com base em apenas
Johnston, Christian Zen, [Cristão um a vida (Hb 9.27). A esperança do
zen], New York, 1971; A. Graham, cristão não é o rompimento do ciclo
Zen C atholicism , [C a tolicism o de renascimentos, mas, sim, a vida
zen], London, 1964). Outros têm eterna com Cristo (lT s 5.9,10).
identificado pontos de conexão 3. No ensino bíblico, a origem do
entre o Zen satori (iluminação) e sofrimento* não é a ignorância do
a conversão cristã, e entre o koan homem, mas sua pecaminosidade.
(instrum ento heurístico, geral- Embora as Escrituras advirtam
m ente sob a form a de perguntas contra relacionar todo sofrimen-
e respostas) e o estudo bíblico (J. to individual ao pecado, fecham
K. Kadowaki, Zen and the Bible, questão quanto à entrada do mal
[Zen e a Bíblia], London, 1980). e do pecado no mundo por causa
Até m esm o a econom ia budista da queda do homem. Em contraste
tem atraído a em ulação cristã oci- com a doutrina budista, o evange-
dental (E. F. Schumacher, Small lho conclama os discípulos a par-
is Beautiful, [Pequeno ê bonito], tilharem dos sofrimentos de Cristo
London, 1973). (Rm 8.16,17), e não a virem a ser
O evangelismo cristão tem separados de todo sofrimento.
de considerar os dois tipos de A igreja ocidental tem ministra-
budistas existentes no Ocidente: do cursos sobre autoajuda, semi-
os que, principalmente, são de nários sobre autoaperfeiçoamento
ascendência asiática e herdaram e sucesso, assim como dado certo
fé na compaixão de Am ida Buda; e foco na alegria e riqueza, que têm
II 161 BULLINGER, JO H ANN HEINRICH

confundido a mensagem do evange- (London, 1973); I. Yam am oto,


lho para muitos asiáticos, os quais B eyon d B udd hism : A B a sic In tro-
passam a ver pouca diferença entre duction to the B u d d h ist Tradition
a felicidade material da igreja oci- (D owners G rove, IL, 1982).
dental e a própria separação, que J.I.Y .
eles almejam fazer, do sofrimento.
Se os cristãos querem compartilhar BULGAKOV, SERGEI, ver T e o l o g ia

a boa-nova de Jesus Cristo, devem O rto do xa R u s s a.


assumir aquilo que ele assumiu, ou
seja, não propriamente o sofrimento BULLINGER, JOHANN HEINRICH
pelo sofrimento, mas, sim, o sofri- (1504-1575). Nascido em Brem-
mento em nome da justiça e da ver- garten, Suíça, filho de um pároco,
dade e em favor dos outros. Jesus Bullinger foi educado na Alemanha,
colocou-se ao lado dos oprimidos, p rim eiram en te em E m m erich ,
dos rejeitados socialmente, e foi, depois em Colônia, onde estudou
em conseqüência disso, rejeitado. o pensam ento dos pais da igreja,
O que Jesus fez, ao morrer na cruz recebeu forte influência de Eras-
e sofrer pelos outros, é sem igual, mo*, Lutero* e M elâncton*, e deu
mas o materialismo e o egocentris- início a um exame direto do NT.
mo dos cristãos constantemente De volta à Suíça, em 1522, viveu
mascaram essa incomparabilidade. em Brem garten, lecionou em Ka-
Ao compartilharmos Jesus Cristo ppel e fez cursos em Zurique, onde
com os budistas, seu sacrifício e sua deu apoio a Zuínglio* e foi eleito
ressurreição devem ser enfatizados delegado na Disputa de Berna.
e contrastados com os ensinos bu- Ordenado em 1528, m inistrou em
distas sobre separação e vazio. As sua cidade natal, casando-se com
pessoas precisam compreender que um a ex-freira, em 1529.
os cristãos têm em vista sofrer a A derrota em Kappel (1531)
favor dos outros, exatamente como forçou-o a refugiar-se em Zurique,
Jesus sofreu. Tal testemunho para e ali, rejeitando ofertas de Berna e
os budistas culturais e ocidentais Basiléia, sucedeu a Zuínglio como
seria singular e poderoso. líder virtual da vida eclesiástica,
tanto na cidade como no cantão.
Bibliografia Permaneceu nesse posto até a
Edward Conze (ed.), Buddhist morte, exercendo um ministério
Texts Through the Ages (New York, pastoral tranquilamente eficaz, for-
1954); H. Creel, Chinese Thought talecendo a comunhão com outras
from Confucius to Mao Tse-Tung igrejas e protegendo refugiados,
(New York, 1960); P. O. Ingram & especialmente os exilados anglica-
F. J. Streng (eds.), Buddhist-Chris- nos marianistas, e.g., John Jewel
tian Dialogue (Honolulu, HI, 1986); (1522-1571).
David J. Kalupahana, Buddhist Além de suas atividades mi-
Philosophy: A Historical Analysis nisteriais regulares, Bullinger
(Honolulu, 1976); W alpola Rahula, desenvolveu amplo oficio literário.
W hattheB uddha Taught{NewYork, Ele mesmo reuniu seus principais
1974); Edward J. Thomas, The Life escritos em dez volum es, mas sem
o f Buddha as Legend and History publicar um a edição com pleta
BULLINGER, JO H AN N HEINRICH 162

deles. D estacam -se, entre suas Dignas de nota entre as ênfases


obras, com en tários, tratados de Bullinger, tanto em seus escri-
polêmicos contra anabatistas* e tos como nas confissões, são o seu
luteranos, escritos doutrinários comprometimento com os credos*,
sobre a eucaristia* e as Escrituras, sua consideração pelos pais e sua
sermões sobre o sacrifício cristão convicção de que a Reforma era
e a ceia do Senhor, diário e uma uma restauração, e não uma inova-
história da Reforma. De interesse ção, do cristianismo. Na tradição de
especial para os anglicanos são as Zuínglio, os credos e os escritos dos
Decades [Décadas], cinco livros pais permanecem subordinados à
contendo dez sermões, cada um palavra de Deus, na tríplice forma
deles sobre tópicos da doutrina desta como palavra encarnada, es-
cristã que, por ordem do arcebispo crita e falada. O papel do Espírito,
Whitgift, em 1586, tornaram-se tanto na interpretação como na
leitura obrigatória ao clero inglês, inspiração das Escrituras, recebe
em um empenho de satisfazer os a devida atenção, embora não à
protestos puritanos contra a insu- expensa de um a exegese erudita, se
ficiência de erudição. acompanhada de oração. Bullinger
Mais importantes, no entanto, sustenta a posição de Zuínglio sobre
do que os labores acadêmicos de o pacto batismal* e acrescenta um
Bullinger foram provavelmente enfoque positivo ao ensino eucarís-
suas contribuições confessionais, tico mais negativo. Sua abordagem
a partir de 1536, quando, jun- sobre a eleição tem um interessante
tamente com Bucer* e Leo Jud foco cristológico. Ele partilha das
(1482-1542), esboçou a Primeira ideias comuns da Reforma sobre
Confissão Helvética (ver Confissões questões como justificação*, expia-
de Fé*), em um a tentativa, fracas- ção*, igreja* e papado. Sua posição
sada, de obter um acordo com os sobre a adiáfora* e as relações entre
luteranos. Propenso à pacificação, igrejas lhe angariou simpatia entre
Bullinger alcançou sucesso ecu- os líderes da igreja elizabetana pri-
mênico maior em 1549. Naquele mitiva contra os críticos puritanos.
ano, após discussões com Calvino,
o Consensus Tigurinus (Consenso Bibliografia
de Zurique), constituído de 26 ar- J. Wayne Baker, Heinrich Bullinger
tigos sobre os sacramentos, uniu a and the Covenant (Athens, OH,
igreja em Zurique e outras igrejas 1981); G. W. Bromiley, Historical
suíças de fala alemã com a de Theology (Grand Rapids, MI, 1978);
Genebra e Neuchâtel. A realização idem (ed.), Zwingli and Bullinger
confessional gloriosa de Bullinger (London, 1953); T. Harding (ed.),
aconteceria, em 1566, quando, a The Decades o f Henry Bullinger, 5
pedido do eleitor do Palatinado, vols. (Cambridge, 1849-1852); D. J.
emitiu a declaração de crença co- Keep, Henry Bullinger and the Eliza-
mumente conhecida como Segunda bethan Church, dissertação não
Confissão Helvética, que encontrou publicada, University o f Sheffield,
am pla aceitação na Suíça, França, 1970); P. Schaff, Creeds o f Christen-
Escócia, Hungria, Polônia e Holan- dom, vol. Ill (New York, 1919).
da, tanto quanto na Alemanha. G.W.B.
163 BULTMANN, RUDOLF

BULTMANN, RUDOLF (1884-1976). consistente, em termos do entendi-


Erudito e influente teólogo do NT, mento da existência humana que
especialmente por meio de sua obra ela enuncia. Assim, por exemplo,
sobre uma interpretação existen- demitizar as narrativas da criação
cialista* da fé cristã. Após estudar não é repudiá-las como inveros-
em Tübingen, Berlim e Marburgo, símeis, mas, sim, interpretá-las
Bultmann ensinou em Breslau e, como expressões objetificadas do
de 1921 a 1951, foi professor de NT entendimento que o homem tem de
em Marburgo. Seu pensamento está si mesmo como casual*.
exposto em sua obra Theology o f the Até certo ponto, dem itizar é um
New Testament [ Teologia do Novo exercício apologético*, procurando
Testamento], assim como em uma distinguir a fé cristã de um a cos-
variedade de estudos do NT e de m ovisão sobrenatural obsoleta, na
questões teológicas em suas várias qual a fé encontra expressão e que
coleções de ensaios e em seu amplo não está mais disponível para nós.
comentário do evangelho de João. Mas mais determ inantes no pen-
Bultmann concebeu suas pro- sarnento de Bultm ann do que tais
posições básicas sobre um a inter- considerações são os fatores filo-
pretação existencialista no início de sóficos e teológicos. Ele absorveu
seu desenvolvimento teológico, em- muito da obra de M artin Heideg-
bora a terminologia de “querigma” ger (1899-1976) (ver Existência-
e “mito” não tenha emergido senão lismo*), seu colega de Marburgo,
no final da década de 1930. Para cujo livro B eing and Time [O ser e
Bultmann, a interpretação do NT o tem po] (1927) é um dos textos
implica “demitização” , i.e., um a in- fundam entais do existencialism o
terpretação adequada da linguagem alemão. A análise que Heidegger
mitológica na qual é expressa seu faz da existência hum ana nesse
querigma ou mensagem a respeito livro o influenciou, principalm en-
da existência humana. “Mito” é um te, quanto à questão do homem
termo flexível no uso de Bultmann, como sujeito da história* e cuja
mas muito comumente denota uma identidade não é a expressão de
linguagem de “objetificação”. Tal um a natureza dada antecipada-
linguagem projeta a realidade “lá mente, mas, sim, criada em atos
fora”, falando desta como um obje- históricos de decisão e escolha.
to essencialmente não relacionado Esse sentido do homem mais
com o autoentendimento e a exis- como “história” do que como “na-
tência humana. “Demitizar” os es- tureza” , que emerge no tratam ento
critos bíblicos não significa eliminar que Bultm ann dá à antropologia*
sua mitologia, embora retenham teológica em sua obra Theology
material não mitológico: Bultmann o f the New Testament, [Teologia
criticou tal seletividade nas tenta- do Novo Testam ento], estaria em
tivas de alguns teólogos liberais do ligação estreita com a posterior
século XIX em querer desemaranhar influência da filosofia neokantiana
os ensinos morais de Jesus de sua de M arburgo de Hermann Cohen
escatologia, por exemplo. Trata-se, (1842-1918) e Paul Natorp (1854-
mais propriamente, de um processo 1924), com seu dualism o radical
de interpretar a mitologia de modo de “fato” e “valor” .
BULTMANN, RUDOLF 164 m

Essas influências filosóficas the Synoptic Tradition [História da


são, no entanto, absorvidas no tradição sinóptica] (1921), que os
que é essencialmente um projeto evangelhos não contêm quase nada
teológico. Por trás da demitização, de informação histórica autêntica
acha-se um a tradição do luteranis- a respeito de Jesus, mas, sim, ma-
mo do século XIX, de acordo com terial moldado e geralmente criado
a qual o conhecim ento dos fatos pelas comunidades cristãs primiti-
objetivos constitui a “obra” huma- vas. A teologia de Bultmann pode
na, isto é, a tentativa de garantir o se perm itir tal ceticismo, no en-
“eu” contra o encontro com Deus, tanto, exatamente porque os fatos
m ediante um a descrição codifica- históricos objetivos simplesmente
da do ser e dos atos divinos. Na constituem “conhecimento decor-
verdade, a dem itização é, para rente da carne” . O conhecimento
Bultmann, o equivalente episte- verdadeiro de Cristo é um encontro
mológico* da justificação* pela fé: com ele, na palavra do querigma,
tanto as obras meritórias quanto o como alguém que chama o homem
conhecim ento objetificado de Deus para um a existência significativa.
são tentativas de garantir o eu con- Assim, Bultmann elimina da cris-
tra Deus. Nesse ponto, Bultmann tologia* o “Jesus da história” (ver
tem muito que ver com o teólogo Jesus histórico*); o interesse his-
luterano da virada do século Wi- tórico pela personalidade e pelos
lhelm Herrmann*, que colocou atos de Jesus não pode nem deve
ênfase na fé como um encontro ser satisfeito, um a vez que sim-
com Deus no presente, mais do plesmente fornece ocasião para a
que um mero assentimento a rea- evasão do homem da conclamação
lidades objetivas doutrinariamente feita por Deus, a fim de se voltar
descritas. Sob essa perspectiva, a realidades objetivas. Do mesmo
deve-se acrescentar que a atração modo que Martin Kahler*, cujo
primeira de Bultmann pela teologia livro The So-Called Historical Jesus
dialética* dos iniciantes Barth* e and the Historie, Biblical Christ [Ο
Friedrich Gogarten (1887-1967) chamado Jesus histórico e o Cristo
é prontamente compreensível, na histórico e bíblico] o influenciou
medida em que ele, tal como Barth profundamente, Bultmann consi-
em The Epistle to the Romans [A dera ser objetivo da cristologia o
epístola aos Romanos[ (1919), rejei- “Cristo da fé” , o Cristo que pode ser
ta qualquer base para a segurança encontrado mais na existência do
humana contra a interrupção da crente (ou, como protestantes mais
parte de Deus. antigos afirmariam, nos benefícios
Essa abordagem da demitização auferidos pelo crente) do que na
ou “desobjetificação” ajuda a con- observação histórica abstrata.
tribuir para o ceticismo radical de Conquanto a influência de Bult-
Bultmann quanto à historicidade mann sobre o curso da teologia do
dos registros do NT. Juntamente século XX e sobre a interpretação
com outros primeiros críticos da bíblica tenha sido imensa, a erudi-
form a (ver Crítica Bíblica*), como ção bíblica subsequente modificou
Martin Dibelius (1883-1947), Bult- muito de seu ceticismo histórico.
mann deduz, em The History o f Muitos de seus seguidores, asso­
m 165 BULTMANN, RUDOLF

ciados à chamada “nova busca Deus, mesm o que só de form a pa-


do Jesus histórico” (tais como E. radoxal. “O fato de Deus não poder
Kásemann*, E. Fuchs, 1903-1983, ser visto ou apreendido fora da fé
e G. Ebeling*), encontraram uma não significa que ele não exista fora
âncora histórica mais forte para o da fé” (Jesus Christ and Mythology
querigma na história de Jesus do [Jesus Cristo e mitologia], p. 72).
que Bultmann se permitiu; outros Juntamente com seu contem-
têm criticado radicalmente sua lei- porâneo mais chegado, Karl Barth,
tura do NT por refletir influências Bultmann decisivam ente reformou
do gnosticismo* e helenismo* sobre o cenário da teologia protestante, e
o cristianismo primitivo. sua obra continua a estabelecer os
Em teologia sistemática e em termos de referência para algumas
filosofia, B u ltm ann recolocou tradições teológicas.
acentuadamente algumas questões
fundamentais concernentes à rela- Bibliografia
ção da fé para com a história e a Obras: Essays (London, 1955);
natureza da presença e ação divi- Existence and Faith (London,
nas de modo que seu pensamento 1964); Faith and Understanding
permanece fundamentalmente de- (London, 1969); The Gospel o f
terminante para algumas reflexões John (Oxford, 1971); History and
teológicas contemporâneas. Ele Eschatology (Edinburgh, 1957);
buscou, consistentemente, cons- The History o f the Synoptic Tradi-
truir um a teologia em que a questão tion (London, 1963); Jesus and the
de Deus e a questão da existência Word (London, 21958); Jesus Christ
humana fossem inseparáveis. Mas, and Mythology (London, 1960); Pri-
em razão de suas raízes históricas mitive Christianity (London, 1960);
no luteranismo e da influência tan- Theology o f the New Testament, 2
to da filosofia dualista* quanto da vols. (London, 1952, 1955).
existencialista*, encontrou muita Estudos: H. R. Bartsch (ed.),
dificuldade em falar da transcen- Kerygma and Myth, 2 vols. (London,
dência de Deus e sua ação na 1962, 1964); G. Ebeling, Theology
história humana, um a vez que and Proclamation (London, 1966);
sempre suspeitou que tal discurso R. A. Johnson, The Origins o f De-
fosse objetificante. Sua teologia mythologizing (Leiden, 1974); C. W.
é considerada por muitos como Kegley (ed.), The Theology o f R u d olf
carente de qualquer referência Bultmann (London, 1966); J. Mac-
ontológica na interpretação da fé quarrie, An Existentialist Theology
cristã, sendo desse modo radical- (London, 1955); idem, The Scope o f
mente subjetiva, transformando Dem ythologizing (London, 1960); S.
afirmações a respeito de Deus em M. Ogden, Christ without Myth (Lon-
afirmações a respeito do homem. don, 1962); H. P. Owen, Revelation
Conquanto isso possa ser verda- and Existence (Cardiff, 1957); R. C.
deiro em alguns dos seguidores Roberts, R u d olf Bultm ann’s Theolo-
de Bultmann, como H. Braun (n. gy (London, 1977); J. M. Robinson,
1903) e F. Buri (n. 1907), o próprio A New Quest o f the Historical Jesus
Bultmann, no entanto, sempre (London, 1963); W. Schmithals,
lutou pela necessidade de falar de A n Introduction to the Theology o f
BUNYAN, JOHN 166

R u d olf Bultmann (London, 1968); am plam ente publicados e distri-


A. C. Thiselton, The Two Horizons buídos em edições populares, de
(Exeter, 1980). baixo custo, poucos exem plares
J.B.We. dos quais restaram , porque suas
obras eram lidas por todos até se
BUNYAN, JOHN (1628-1688). Pas- desfazerem . O estilo m uito huma-
tor em Bedford e escritor, Bunyan no de Bunyan e seu estilo alegóri-
foi bem possivelm ente a figura co contribuíram para a populari-
religiosa inglesa mais influente dade de seus livros. Os de m aior
do seu tempo. Cerca de doze anos sucesso foram Grace A bou n din g to
e meio na úm ida cadeia do con- the C h ie f o f Sinners [ Graça abun-
dado de Bedford lhe propiciaram dante pa ra o m aior dos p eca d ores]
o galardão de mártir. Sua recusa (1666), que narra sua própria
corajosa em aceitar a liberdade conversão, e P ilg rim ’s Progress [Ο
em troca do silêncio o colocou na peregrino} (1682), famoso livro que
linhagem dos apóstolos. A oportu- descreve a batalha espiritual do
nidade de provar a si mesmo lhe crente. Não foi apenas a inigualável
veio após sua conversão e cha- capacidade de expressão alegórica
mado para o m inistério, quando de Bunyan que assegurou sua po-
passou a fazer parte de um a igreja pularidade, mas também sua nítida
não conform ista, congregacional visão da condição desesperada da
na sua form a de governo e batista raça humana e da graça soberana
em suas ordenanças. e redentora de Deus. Para ele, jus-
Bunyan era consumado calvi- tificação, regeneração, mortificação
nista* em sua teologia, sendo o e santificação não são coisas que
exemplo por excelência do casa- devam ficar arquivadas, mas são a
mento puritano* da doutrina com a própria substância da experiência
vida. Preocupava-se em apresentar cristã.
a verdade de maneira experimental Bunyan, o pregador, pastor,
(i.e., mediante a experiência) em evangelista e autor nos cativa e
suas pregações e em seus escritos. impressiona; somos, no entanto,
Teólogo guiado pelo Espírito Santo, muito mais tocados por Bunyan,
tinha o dom de interpretar a verda- o peregrino, o homem talhado por
de evangélica para multidões, apli- Deus que tornou seu caminho um a
cando, em seus muitos e variados porta para o céu.
textos e sermões, intencionalmen-
te, as Escrituras à vida diária. Sua Bibliografia
pregação era, assim, ao mesmo George Offor (ed.), The Whole
tempo bíblica e, quase sempre, de Works o f John Bunyan, 3. vols.
natureza terrena e, sendo centrada (London, 1862); Roger Sharrock
em Cristo, poderosa, prática e cau- (ed.), The M iscellaneous Works o f
sadora de mudança de vida. John Bunyan (Oxford, 1976- , a
S u rpreen dente o talen to de ser com pletada em 17 vols.); idem
Bunyan com a pena: em bora não (ed.), Pilgrim ’s Progress (Harmon-
tendo recebido um a educação dsworth, 1965).
form al, produziu nada m enos que Jam es F. Forrest e Richard L.
66 obras. Seus escritos foram Greaves, John Bunyan: A Reference
£ 167 BUSHNELL, H O RACE

Guide (Boston, 1982); Richard L. uso de im agens, analogia* e con-


Greaves, A n Annotated Bibliogra- trastes. Com tal entendim ento do
phy o f John Bunyan Studies (Pitts- uso da linguagem, ele afirm a um a
burgh, PA, 1972). visão instrum ental da Trindade* e
W.N.K. um conceito moral da expiação*,
contra os unitaristas*, que, por
BUSHNELL, HORACE (1802-1876). um lado, acreditavam serem essas
Após graduar-se na Universidade doutrinas antiquadas e, por outro
de Yale, Bushnell tornou-se jor- lado, sustentavam um a teoria
nalista e passou a estudar Direito, substitutiva da crucificação de
ingressando depois na Escola de Cristo. Em Nature and the Supem a-
Teologia de Yale. Em 1833, foi or- tural [A natureza e o sobrenatural]
denado m inistro congregacional da (1858), ele declara que esses dois
North Church, em Hartford, Con- elementos constituíam o único sis-
necticut, onde serviu até sua saú- tem a de Deus, conclamando a um
de abalada o levar a se aposentar, “liberalism o cristocêntrico” , tendo
em 1859. Achegando-se aos pen- Jesus Cristo como centro e meta
sarnentos do idealism o* alemão e da história. Em The Vicarious Sa-
da tradição puritana* am ericana, crifice [O sacrifício vicário] (2 vols.,
tornou-se conhecido como pai da 1866), Bushnell expressa um a
teologia liberal am ericana* e do visão desenvolvida da expiação:
movim ento do evangelho social*. há um a cruz em Deus, antes de o
Durante seu m inistério, teve de madeiro ser erguido no Calvário,
batalhar contra am arga oposição oculta na própria virtude de Deus,
às suas ideias e à am eaça de jul- empenhada em sério embate, com
gam ento por heresia. um sentim ento carregado de peso,
Em seus escritos, Bushnell durante todas as eras anteriores,
tentou desenvolver um modo de e que prossegue lutando, tão
fazer teologia que tornasse o dog- pesadam ente quanto antes, agora
m a servo do espírito. Em C hris- mesmo, no trono do mundo.
tian N urture [Educação cristã]
(21861), expressa a crença de que Bibliografia
filhos de pais cristãos devem ser Selected Writings, ed. D. L. Smith
educados de tal form a que nun- (Chico, CA, 1984); Selections, ed.
ca conheçam um tem po em que H. S. Smith (New York, 1965).
não tenham sido cristãos. Isso W. A. Johnson, Nature and the
representava um a crítica à ênfase Supernatural in the Theology o f
dada à experiência da conversão* Horace Bushnell (Lund, 1963); H.
pelo popular reavivalism o*. Em D. McDonald, The Atonem ent o f the
God in Christ [Deus em Cristo] Death o f Christ (Grand Rapids, MI,
(1849), que se m ostrou altam ente 1985); D. L. Smith, Symbolism and
controverso, ele argum enta, com Growth: The Religious Thought o f
base em sua própria experiência, Horace Bushnell (Chico, CA, 1981);
que a linguagem hum ana não Claude Welch, Protestant Thought
teria com o expressar a verdade in the Nineteenth Century (New Ha-
absoluta, mas poderia com unicar ven & London, 1972).
verdades espirituais m ediante o L.D.B.
BUTLER, JO SEPH 168 >‫י‬

BUTLER, JOSEPH (1692-1752). Bibliografia


O bispo Butler, “filósofo do an- J. H. Bernard (ed.), The Works o f
glicanism o”, destacou-se em sua Bishop Butler, 2 vols. (London,
época como apologista* religioso e 1900); A. Duncan-Jones, B utler’s
filósofo moral. Sua obra Analogy Moral Philosophy (Harmondsworth,
o f Religion [Analogia da religião] 1952); A. Jeffner, Butler and
constituiu a mais vitoriosa publi- Hume on Religion: a Comparative
cação de refutação ao deísmo*. Analysis (Stockholm, 1966); D.
Nela, B utler argum entava que, M. Mackinnon, A Study in Ethical
um a vez aceitando-se que Deus é Theory (London, 1957), cap. 5; E.
o autor da natureza, a veracidade C. Mossner, Bishop Butler and the
da religião cristã revelada alcança Age o f Reason (New York, 1936); T.
uma probabilidade significativa. Penelhum, Butler (London, 1985).
Isso acontece porque há aspectos S .N .W .
nela contidos que são análogos aos
encontrados na religião natural,
como vemos quando interpretamos
m ilagre*, profecia* e a m editação
messiânica corretamente. A proba-
c
CALCEDÔNIA, DEFINIÇÃO DE CAL-
bilidade racional proporciona uma
base adequada para a aceitação do CEDÔNIA, v e r C o n c i l i o s ; C r e d o s ;
cristianismo na prática. C r is t o l o g ia .
A filosofia m oral de Butler
(ver Teologia Moral*), contida CALENDÁRIO LITÚRGICO. O juda-
principalm ente em seus sermões, ismo, do qual surgiu o cristianismo,
analisa as realidades em píricas da tinha um elaborado calendário de
natureza hum ana e da psicologia. dias santos: um semanal (sábado*),
Contém elementos de intuição um mensal (lua nova), mas a maio-
(quando algum a coisa é apresen- ria anual. O sábado e os principais
tada na experiência moral como dias santos anuais (mas não a lua
a u toevid en tem en te correta ou nova) estão listados em Levítico 23
verdadeira), utilitarism o (em que a como “santas convocações” , ou
obrigação moral é dirigida ou re- “reuniões sagradas” , dias em que
lacionada àquilo que produza ale- a congregação era chamada a se
gria) e naturalism o (em que, nesse reunir para adorar a Deus, e não
caso, é m oralm ente advogada uma dias comuns, em que somente os
conduta de acordo com a natureza sacerdotes tinham essa obrigação.
de alguém). Teologicam ente, Bu- Todos os dias santos eram festas,
tier atribuía im portância ao papel exceto o Dia da Expiação, dia de
da consciência* na esfera moral. contrição e jejum . Mais tarde,
Embora o clima contemporâneo seriam acrescentadas, para os ju-
da discussão nas áreas relevantes deus, no AT a festa do Purim, no
seja basicamente incompatível com período intertestam entário a festa
a abordagem de Butler, o respeito de da Dedicação [c f Jo 10.22), além
Hume e a grande aclamação do sé- de outras festas e jejuns.
culo seguinte sinalizam algo de sua O cristianism o judaico conti-
estatura como pensador religioso. nuou a praticar, durante algum
‫יי‬ 169 CA LEN D ÁRIO LITÚRGICO

tempo e de certo modo, as antigas século II) e o Pentecoste (surgido


observâncias, juntam ente com as no Ocidente no final do mesmo
novas, cristãs. Contudo, desde o século), que encerrava com um a
começo, os cristãos gentílicos es- conclusão adequada as sete sema-
tavam livres de obediência literal à nas de celebração após a Páscoa.
lei, e no concilio de Jerusalém (At Os dias da Ascensão, da Epifania
15), até mesmo o sábado, conside- e do Natal surgiriam som ente no
rado o principal dos dias santos, século IV, sendo esses dois últi-
ou feriados, viria a ser excluído mos originalm ente as festas do
da lista das observâncias restan- Natal respectivas no Oriente e no
tes, que ainda se poderia esperar Ocidente (em bora as datas festivas
fossem praticadas pelos gentios. da Natividade que com em oravam
Com a destruição do templo, no na época rem ontem ao ano 200
ano 70, e a crescente desavença ou pouco depois). O dom ingo da
entre judeus cristãos e não cris- Trindade é peculiar do Ocidente,
tãos no século I, os judeus cristãos datando do século X.
parecem ter se adaptado, em sua Durante a Idade Média, o ano
m aioria, cada vez mais ao cristia- cristão foi se tomando cada vez mais
nismo gentílico, continuando a complexo, com o preenchimento de
observância literal da lei somente cada dia do calendário com festas
em grupos sectários (ebionitas, ou comemorações dos santos*, al-
nazarenos). Daí em diante, mesmo gumas vezes lendários e com mais
na Palestina, o calendário sagrado de um santo para determinado dia.
passou a consistir som ente em Outro desenvolvimento medieval foi
dias santos cristãos. o das comemorações referentes a
O mais antigo dia santo cristão doutrinas surgidas na época, como
estabelecido foi o Dia do Senhor, Todos os Santos (concernente às al-
domingo, o que é atestado no NT mas no purgatório*) e Corpus Christi
e nos pais apostólicos*, o qual (comemorativo da transubstancia-
foi ajustado à semana judaica, ção; ver Eucaristia*). Os reformado-
correspondendo ao sábado. Os res, em conseqüência disso, tiveram
dias santos posteriores de que se de expurgar o ano cristão de forma
veio a tom ar conhecim ento eram drástica, chegando a ser na Escócia
também semanais: os jejuns, na quase que inteiramente abolido,
quarta e sexta-feiras, prescritos sendo mantido nele apenas o Dia do
em Didaquê 8 (c. ano 100), deli- Senhor. No entanto, até a Escócia
beradam ente fixados nesses dias viria a considerar que a existência
da sem ana em oposição aos jejuns dos dias santos é um modo de re-
judaicos, na segunda e quinta- conhecer que todo o nosso tempo
feiras (cf. Lc 18.12). As prim eiras pertence ao Senhor. O ano cristão,
festas anuais são, significativa- na verdade, celebra o curso da vida,
mente, as que seguiam modelos a morte e a exaltação de Cristo.
judaicos, celebrando eventos de
conotação cristã ocorridos em Bibliografia
duas das principais festas judai- Ver as Bibliografias dos verbetes:
cas: a Páscoa* (que provavelm ente Páscoa; Santo.
surgiu no Oriente no com eço do R.T.B.
CALVINISMO 170 ã

CALVINISMO, ver T e o l o g ia R efor- entrando em uma segunda fase


m ada. importante de seu desenvolvimen-
to. Sob Lutero* e outros, a palavra
CA LV IN O , JO Ã O (1 5 0 9 -1 5 6 4 ). de Deus havia rompido poderosa-
Teólogo da Reforma. Nascido em mente com as antigas formas que
Noyon, Picardia, França, Calvi- durante muitos séculos tinham
no passou grande parte de sua restringido o Espírito e obscurecido
idade jovem estudando em Paris, a verdade. O movimento inspirara
preparando-se para o sacerdócio inumeráveis sermões, escritos,
católico. Após estudos que fez de conferências e controvérsias, pro-
teologia escolástica medieval, se- duzindo significativas mudanças
guiu-se um período em sua vida de na vida social e política da Europa.
preparo para exercer a advocacia, As pessoas haviam sido levadas
o que o colocou em contato com a novas experiências, ideais e es-
o humanismo cristão* vigente na peranças. A remoção das antigas
França, por intermédio de mestres restrições, contudo, fizeram surgir
como Lefèvre d ’Etaples (1455-1529) especulações precipitadas, que
e Guillaume Dudé (1468-1540). ameaçavam a dissolução dos pa-
Grandemente influenciado por seus drões morais e da ordem social.
ensinamentos, ele escreveria, como Em meio ã confusão, Calvino
sua primeira obra, um comentário assume a liderança da definição
sobre a obra De Clementia [Sobre a de novas formas de vida e de tra-
clemência], de Sêneca. balho cristão, da igreja e da vida
Veio a experimentar, porém, comunitária, que, sob o ensino re-
“repentina conversão” , cuja data cém-descoberto da Bíblia e o poder
não se sabe ao certo, disso resul- do Espírito, tornam-se relevantes
tando desconectar sua mente dos para as condições da Europa de
estudos para advogado que vinha sua época. Além do mais, mostra-se
realizando e se voltar com toda a capaz de ajudar seus contemporâ-
dedicação ao estudo das Escritu- neos a conseguir clareza de visão
ras e do ensino da Reforma*. Em e ordenação no pensamento e na
1536, publicava em Basiléia a expressão teológicos, fornecendo-
prim eira edição de suas Institutas lhes um a compreensão mais firme
da religião cristã. Daí em diante, do evangelho em sua plenitude. Ao
após curto e fracassado ministério mesmo tempo, pelo poder de sua
em Genebra, viveria um a experi- pregação, pela clareza e simplici-
ência enriquecedora de ensino e dade convincentes de seu ensino
obra pastoral em Estrasburgo, de e por sua capacidade prática e
1538 a 1541. Aceitando, então, um integridade moral, que lhe deram
chamado para voltar a Genebra, ali indiscutível e definitiva liderança
perm aneceu trabalhando paciente- em sua comunidade, é visivelmen-
mente e lutando por muitos anos, te bem-sucedido em alcançar seus
procurando colocar em prática alvos em sua própria cidade-pa-
suas crenças a respeito do evange- róquia. Sua obra em Genebra faz
lho, da igreja e da sociedade. crescer muitíssimo a fam a ampla-
Quando Calvino com eçou sua mente espalhada, que seus escri-
obra teológica, a Reforma estava tos já lhe haviam granjeado. Sua
171 CALVINO, JO Ã O

vida e obra passam a ser, assim, próprio Verbo de Deus, a segunda


ilustração bem importante e desa- pessoa da Trindade. Ainda que re-
fiadora de como nossa teologia, se cipientes de verdades e doutrinas,
saudável, deve estar relacionada à no entanto, as testemunhas bíbli-
nossa situação de vida. cas também se reconheciam como
A teologia de Calvino é um a simples seres humanos diante do
teologia da palavra de Deus. Ele próprio Deus, presente em amor
sustentava que a revelação* dada pessoal e majestade. Calvino estava
a nós por meio das Escrituras* é convicto de que o teólogo, em sua
a única fonte confiável de nosso abordagem às Escrituras, deveria
conhecimento de Deus. Embora a procurar se encontrar e se conside-
natureza também revele Deus, e to- rar nessa mesma posição. Deveria
dos os homens e mulheres tenham buscar assim, mediante as Escri-
um instinto natural para a religião, turas, colocar-se em comunhão e
a perversidade humana nos im- confrontação com o próprio Senhor
pede de sermos capazes de saber e, ao dar forma à sua teologia, levar
aproveitar sadiamente aquilo que em conta todos os eventos origi-
a natureza nos apresenta. Desse nais, nos quais e pelos quais Deus
modo, devemos nos voltar para o se revelou ao seu povo.
testemunho da revelação dada por Calvino usa, por vezes, a lingua-
Deus a seus profetas e servos no gem do misticismo para descrever
AT e para o testemunho apostólico como a fé nos capacita, por meio
de Cristo no NT. As próprias Escri- da palavra e do Espírito, compreen-
turas são inspiradas e, até mesmo, der em visão muito mais do que
“ditadas” por Deus. Suas afirmati- poderia ser compreendido imedia-
vas, narrativas e verdades devem tamente pelo nosso entendimento.
ser consideradas como dotadas de Em sua abordagem às Escrituras e
autoridade infalível. em sua tarefa teológica, portanto,
Calvino acreditava em um a uni- foi parte importante a busca em
dade básica no ensino das Escri- oração por um entendimento mais
turas, cabendo ao teólogo procurar pleno daquilo que já tivesse de
esclarecer e dar expressão a essa algum modo compreendido e por
unidade na composição ordenada um a comunhão mais próxim a com
de suas doutrinas. Como teólogo, o Deus vivo.
procurava, assim, atender a todo Calvino não tentou, desse modo,
o conteúdo da palavra escrita de criar um a teologia sistemática*
Deus. Reconhecia, contudo, que sujeitando as verdades das Escri-
as Escrituras nos foram dadas por turas a qualquer princípio contro-
Deus não só e simplesmente para lador do pensamento ou da lógica
nos presentear na atualidade com humanos. Permitiu, ao contrário,
verdades e doutrinas, mas também que seu próprio pensamento fosse
para nos introduzir na revelação controlado por toda a palavra que
viva, da qual a palavra escrita dã Deus havia falado em Cristo. A
testemunho. No âmago dessa re- ordem com que era capaz de dis-
velação, sobre a qual os apóstolos por seu pensamento era a mesma
e profetas escreveram, ocorrera que detectava na revelação que se
o encontro pessoal deles com o registrava em sua mente.
CALVINO, JO Ã O 172 %

Calvino escreveu comentários so- de Deus (o que Deus é), restrin-


bre quase todos os livros da Bíblia. gindo-se ao ensino bíblico sobre a
Esses comentários tiveram ampla natureza de Deus (de que espécie
aceitação e são ainda de grande Ele é). O próprio Deus proclama
uso nos estudos. Aplicou métodos sua “eternidade e autoexistência”
da erudição humanista à Bíblia a ao pronunciar seu nome: “Eu Sou
fim de encontrar o significado exato o que Sou” . A ênfase de Calvino é
das palavras no texto, bem como as sempre sobre os atributos morais
circunstâncias históricas particu- ou “poderes” de Deus. Ele vê tais
larmente envolvidas na narrativa qualidades devidamente listadas
(ver Hermenêutica*). Sua crença na em dois textos específicos: Êxodo
autoridade e integridade da palavra 34.6,7 e Jeremias 9.24, que se
tornava impossível, no entanto, referem, principalmente, à sua
uma abordagem crítica ao texto. misericórdia e justiça. Também em
Embora concordasse em que um suas atividades na igreja e na ad-
texto pudesse ter vários sentidos, ministração civil, Calvino sempre
escasso foi seu uso do método ale- procurou mostrar que Deus era
górico de interpretação. Acreditava tanto “um Deus justo quanto sal-
que Cristo esteve presente junto vador” , sem que um aspecto de sua
ao povo de Deus no AT, embora bondade excluísse o outro. Discu-
sua revelação manifesta na época tindo a doutrina de Deus, não faz
tomasse formas diversas da do NT. menção à “soberania* de Deus”,
Foi dos primeiros a reconhecer o que não foi sempre (como alguns
uso da tipologia como chave para o pensam) um princípio predomi-
entendimento da unidade existente nante de sua teologia. Para ele, a
entre os dois testamentos. Sua glória* era um atributo especial
crença nessa unidade o capacitou de Deus, revelado por toda parte
a interpretar como um só texto a no mundo, brilhando em todas as
totalidade das Escrituras. suas obras redentoras, mas mais
Em sua exegese e obra teológi- plenamente exibida na humilhação
ca, Calvino sempre se colocou em e no amor revelados na cruz. Calvi-
débito com outros eruditos. Foi no coloca a Trindade* no centro de
especialm ente influenciado por sua discussão sobre a natureza de
Agostinho* e dedicado estudioso Deus, um a vez que a revelação nos
dos pais gregos e latinos. Ele daria faz ingressar no cerne do mistério
expressão final à sua teologia na do próprio ser divino. Freqüente-
última edição das Institutas, em mente, em sua teologia, Calvino
1559 (a francesa, em 1560). A obra nos lembra que Deus se revela
é constituída de quatro partes, plenamente em Cristo e que não
seguindo até certo ponto a ordem devemos nos voltar para nenhuma
sugerida pelo Credo Apostólico: outra fonte além do evangelho para
Livro I, Deus, o Criador; Livro II, o nosso conhecimento dele.
Deus, o Redentor; Livro III, O modo Ao discutir sobre como Deus age
de recebermos a graça de Cristo; com sua providência*, é freqüente
Livro IV, a igreja. discorrer de um modo pastoral
Na doutrina de Deus, Calvino (característica de grande parte da
evita a discussão da essência oculta teologia de Calvino). Garante ele
m 173 CALVINO, JO Ã O

que Deus está sempre atuante, uma virgem, para vir à terra e ser
sustentando e guiando a totalida- pendurado em um a cruz; todavia,
de de sua criação e dirigindo todo preencheu continuamente o mun-
o curso da história humana, com do, exatamente do mesmo jeito
preocupação paternal e graciosa. A que havia feito desde o com eço”.
igreja e o cristão, não obstante, es- Contudo, algumas vezes enfatiza
tão sob cuidado especial nas mãos serem tantas as limitações e a
de Deus, tal como Cristo estava. fraqueza da humanidade de Jesus
Jamais nos encontramos nas mãos que alguns chegaram a suspeitar
do “destino” ou do acaso. dele, não crendo em sua divindade.
A discussão que Calvino faz da Ele compreendeu que temos de
providência apresenta, no entanto, procurar compreender a pessoa de
uma dificuldade quando sugere Jesus mais em termos das funções
que, por um decreto de Deus desde que exerceu do que em termos da
a eternidade mais remota, os pia- essência que ocultava. Foi Calvino
nos e a vontade das pessoas são o primeiro teólogo a interpretar sis-
tão governados que se movem exa- tematicamente a obra de Cristo em
tamente no curso que ele já des- termos do tríplice ofício* de profeta,
tinou. Desse modo, ao discutir a sacerdote e rei. Destacou o elemen-
predestinação*, remonta à rejeição to penal nos sofrimentos de Cristo
desse decreto de Deus pelos não sobre a cruz, enfatizando também,
eleitos, o que define com a palavra todavia, o valor colocado por Deus
latina horribile, ou seja, “horrível, sobre sua obediência constante,
terrível, apavorante, aterrador”. tanto obediência ativa como passi-
Nesse ponto, muitos hoje levan- va, e sua autoidentificação empáti-
tariam questão, indagando se o ca para conosco em nossa humani-
próprio Calvino estaria sendo fiel dade. A encarnação, Calvino, criou
ao impulso central de seu próprio um a “santa irm andade’” entre ele e
ensino sobre Deus e se estaria nós, de tal modo que ele pudesse
fazendo justiça ou não à liberdade “tragar a morte e substituí-la pela
com que, na Bíblia, Deus parece vida, vencer o pecado e substituí-lo
agir e reagir em situações em de- pela justiça”.
senvolvimento. Convém lembrar Discutindo a respeito de como
que Calvino revisou por diversas a queda* afetou a humanidade,
vezes suas Institutas enquanto re- originalmente feita à imagem de
digia seus comentários e não con- Deus*, Calvino permite-se, quanto
siderava sua teologia como tendo a nós, usar a expressão “deprava-
alcançado finalidade definitiva. ção total” , mas no sentido de que
Em sua discussão sobre a pessoa nenhum aspecto do ser ou da ati-
e a obra de Cristo, Calvino repetiu, vidade original do homem deixou
concisa e acuradamente, o ensino de ser afetado pelo seu pecado.
dos pais e concílios da igreja (ver Em todas as nossas relações com
Cristologia*). Enfatizou o mistério os outros, diz ele, deveríamos con-
oculto na pessoa do Mediador, afir- siderar cada pessoa como estando
mando que “o Filho de Deus desceu ainda dotada da imagem divina,
do céu de tal forma que, sem deixar não im porta quão baixo ela possa
o céu, quis nascer do ventre de ter caído. Há duas esferas em que
CALVINO, JO Ã O 174

a vida humana é estabelecida por por seus predecessores a Roma por


Deus — a espiritual e a temporal. negar ao homem comum qualquer
A respeito dos assuntos espiritu- condição de segurança pessoal
ais ou celestiais, a humanidade perante um Deus tão gracioso.
foi destituída de todo verdadeiro Nove capítulos de suas Institutas
conhecim ento e capacidade. No foram dedicados somente à doutri-
tocante às atividades tem porais na da justificação* pela graça e à
ou terrenas, o hom em natural liberdade cristã que ela implicava.
ainda detém qualidades e habi- Todavia, influenciado pela situação
lidades adm iráveis, pelas quais prevalecente ao seu redor, passou
conduz seus m últiplos afazeres a insistir mais fortemente do que
humanos. Calvino admirava, por já fizera antes sobre a importância
exemplo, a luz divina que havia da santificação* ou do arrependi-
brilhado nos antigos legisladores mento*, definindo mais claramente
pagãos na concepção dos seus para sua época um novo padrão de
códigos legislativos, reconhecendo vida cristã, que por si só pudesse
que o hom em foi capacitado por formular um a resposta adequada
Deus, m esm o em seu estado de e digna à graça de Deus e ao cha-
decaído, com brilhantes dons, que mado em Cristo. Assim, na edição
adornariam sua existência, permi- final (de 1559) de suas Institutas,
tindo seu conforto e um tanto de precedeu os nove capítulos sobre
contentam ento e autoexpressão justificação com outros nove sobre
artística em sua vida na terra. santificação e arrependimento.
Ele lem bra a seus leitores que, na Enfatiza o fato de que não pode
criação, Deus proveu para o nosso haver perdão sem arrependim en-
uso não som ente as coisas que são to, pois ambas essas graças fluem
necessárias para sustentar nossa de nossa união* com Cristo, e ne-
vida, mas tam bém m uitas outras nhum a das duas pode ser anterior
coisas, proveitosas e belas, desti- à outra. Insiste em que nada do
nadas a nos proporcionar prazer e que Cristo sofreu ou fez por nós
alegria. Um a das realizações finais em sua obra redentora terá valor
de Calvino foi fundar em Genebra se não estiverm os unidos a ele
um a academ ia onde as “artes libe- pela fé a fim de receberm os pesso-
rais e a ciência” eram ensinadas alm ente dele a graça que nos quer
por m estres versados em estudos propiciar. Ensina, enfim, que essa
hum anísticos. Calvino, contudo, “união m ística” entre nós e Cristo
preocupava-se com que o desen- é obra do Espírito Santo.
volvim ento e o uso dessas artes Para Calvino, o cristão deve não
e ciências estivessem de acordo só estar unido, a Cristo, mas viver
com a lei de Deus e que fossem em conformidade com ele, em sua
especialm ente usadas no serviço morte e ressurreição. Tem de ouvir
da palavra de Deus e na promoção a ordem imperativa de Deus: “Se-
de um a comunidade cristã estável. jam santos, porque eu sou santo” ,
Ele buscou dar continuidade e assim como o chamado do Senhor
com pletar a obra com eçada por Lu- para negar-se a si mesmo, tomar
tero e outros reformadores. Repetia sua cruz e segui-Lo. Calvino ataca
frequentemente as críticas feitas a raiz do pecado humano, que reside
175 CALVINO, JO Ã O

no amor a si mesmo, mostrando a Deus e a procurar a resposta


que somente a autonegação pode para as orações que fazemos.
ser a base de um eminente amor Uma grande seção das Institutas
a todas as pessoas. Insta quanto à trata da igreja* e seu ministério*.
aceitação triunfal de toda form a de Calvino alm ejava que a form a de
sofrimento para nos conformarmos ministério na igreja, especialmente
à imagem de Cristo. Cada um de o do pastor, refletisse o próprio
nós dará expressão obediente à fé ministério de Cristo, de com pleta
cristã ao buscar nosso chamado* humildade, interesse voltado a
neste mundo. É verdade que pre- cada indivíduo e fidelidade à verda-
tendemos desfrutar dos benefícios de, exercido no poder do Espírito.
terrenos que Deus frequentemente Preocupava-o a instrução, a disci-
faz chover sobre nós, e usá-los plina* e a assistência aos pobres.
ao buscarmos nosso caminho na Por isso, cria que, juntam ente
vida; todavia, até mesmo desse com o pastor, no ministério, Deus
prazer devemos procurar nos man- colocava mestres ou “doutores”
ter afastados, aspirando sempre à (especialistas nas Escrituras e em
vida vindoura, da qual mesmo aqui teologia), presbíteros e diáconos.
e agora podemos desfrutar algum Ele encontrara, naturalmente, es-
tipo de antegozo. ses ofícios indicados nas Escritu-
Foi o desejo de Calvino de aju- ras, mas não insistia em que cada
dar o crente a viver a vida cristã detalhe da vida ordenada da igreja
em plena segurança que o levou a exigisse uma autorização bíblica ex-
dar destaque à doutrina da predes- plícita. Admirava o desenvolvimento
tinação* em sua teologia. Era seu da doutrina e liturgia durante os
pensamento que nenhum cristão primeiros seis séculos de vida da
poderia ser finalmente vitorioso e igreja e não teve nenhuma hesita-
se sentir confiante a menos que ção em reproduzir aspectos desse
tivesse algum senso de sua eleição desenvolvimento. Era de opinião
para a salvação. Acreditava que as que o “bispo” do NT e da igreja pri-
Escrituras realmente ensinam essa mitiva correspondia ao então pas-
doutrina e que assinalam, também tor de um a congregação, em uma
que aqueles que se recusassem a igreja verdadeiramente reformada.
crer devem estar predestinados à Todas as cerimônias eclesiásticas
condenação. Os ataques aos seus deveriam ser simples, claramente
escritos sobre esse assunto o for- inteligíveis e justificáveis à luz da
çaram a defender-se em diversos Bíblia. Estava convencido de que o
tratados sobre a matéria. Não se segundo mandamento proibia não
deve supor, no entanto, que essa só o uso de imagens* na adoração,
fosse a doutrina central de sua teo- mas também a invenção de cerimô-
logia. É bastante significativo que, nias para simplesmente estimular a
junto aos seus capítulos sobre a emoção religiosa. Encorajava o cân-
predestinação nas Institutas, Cal- tico congregacional, embora achan-
vino tenha posto seu magnificente do que os instrumentos musicais
capítulo sobre a oração*, em que tinham um som muito incerto para
somos instados a exercer nosso con stituir um acom panham ento
livre-arbítrio em intercessões junto adequado da adoração racional.
CALVINO, JO Ã O 176 ?;

Calvino seguiu Agostinho com O relacionam ento entre a igre-


respeito ao sacramento*, como sinal ja e o Estado* era um a questão
visível de uma graça invisível. Só crucial no tempo de Calvino. Seus
o batismo* e a ceia do Senhor (ver em bates em Genebra o colocaram
Eucaristia*) eram sacramentos com em um a posição firme contra as
autoridade dominical. Denunciou a tentativas da autoridade civil de
doutrina da transubstanciaçáo e a interferir nas questões relativas
ideia de que um sacramento fosse à disciplina eclesiástica, que ele
eficaz em virtude de ser meramente achava que devia estar inteiram en-
apresentado como ritual. Mas rejei- te sob o controle de um a corte es-
tou também a ideia de que o pão e o pecificam ente eclesiástica. Tinha o
vinho fossem dados por Cristo como Estado em alta conta, salientando
m eros sím bolos, representando o dever dos cidadãos de obedecer
seu corpo e sangue, apenas para à lei e honrar seus governantes.
estimular nossa memória, devoção Enfatizava também, no entanto, o
e fé. Os sacramentos oferecem o dever dos governantes de, seme-
que representam, insistia ele. Não lhantem ente aos pastores, cuidar
somos ordenados simplesmente a de cada um e de todos os seus
olhar os elementos, mas, sim, a co- súditos. Aconselhava a obediência
m er e a beber. Esse é um sinal de dos cidadãos até mesmo aos tira-
que, entre ele e nós há um a união nos e a aceitação do sofrimento
de doação de vida (em relação ao injusto como opção preferível a
que Calvino chega mesmo a usar a ter de recorrer à conspiração re-
palavra “substancial”). Essa união volucionária*. Acreditava, no en-
é dada e criada quando a palavra tanto, que um tirano poderia vir a
é pregada e respondida em fé; é, ser afastado pela ação deliberada
também, aumentada e fortalecida de um a autoridade inferior, devi-
quando o sacramento é recebido dam ente constituída, do mesmo
pela fé. Calvino rejeitou, ainda, Estado ou por interm édio de um
explicações luteranas, vigentes na agente “vingador” procedente de
época, sobre o mistério da eficácia outro lugar, tendo sido para isso
do sacramento. Ele afirmava, com levantado e eleito por Deus.
frequência, que o corpo de Cristo do
qual nos alimentamos permanece Bibliografia
no céu e que nossa alma é elevada Institutes, tr. F. L. Battles, ed. J.
até lá pelo poder maravilhoso do T. McNeill, 2 vols., London, 1961;
Espírito para nos alimentarmos Commentaries on the NT, tr. e ed.
dele. Calvino insistia em que um D. W. Torrance & T . F. Torrance, 12
sacramento era ineficaz indepen- volumes (Edinburgh, 1959-1972).
dentemente da fé do recipiente. F. L. Battles (ed.), The Piety o f
Justificava o batismo infantil por John Calvin (Grand Rapids, MI,
sua visão de unidade da antiga com 1978); J. T. McNeill, The History and
a nova aliança*, realçando ainda Character o f Calvinism (New York,
que a eficácia de um sacram ento 1954); W. Niesel, TheTheologyofCal-
não precisa estar necessariam ente vin (London, 1956); T. H. L. Parker,
ligada ao m om ento m esm o de sua John Calvin (London, 1975); H.
adm inistração. Quistorp, Calvin’s Doctrine o f the
177 CAM PBELL, JOHN M CLEO D

Last Things (London, 1955); Η. Y. essência da fé salvadora. Ambas


Reyburn, John Calvin: His Life, Let- doutrinas contradiziam o ensino
ters and Work (London, 1914); R. da Confissão de Fé de Westminster,
S. Wallace, Calvin’s Doctrine o f the principal “Padrão Subordinado de
Word and Sacrament (Edinburgh, Fé” , assim chamado, da Igreja da
1953); idem, C alvin’s Doctrine o f the Escócia. Em 1831, a Assem bleia
Christian Life (Edinburgh, 1957); Geral decidiu, por 119 a 6 votos,
F. Wendel, Calvin: The Origins exonerar Campbell do ministério,
and Development o f His Religious decisão que ele aceitou sem rancor.
Thought (London, 1963); E. D. Wil- Usou do restante de seu ministério
lis, Calvin’s Catholic Christology servindo em um a congregação in-
(Leiden, 1966). dependente em Glasgow.
R.S.W. Campbell é mais lembrado por
sua obra The Nature o f the Atone-
CAMPBELL, JOHN McLEOD (1800 ment [A natureza da expiação],
1872). Um historiador, recente- mencionado por R. S. Franks como
mente, sugeriu ser Campbell o sendo “o livro mais sistemático e
nome mais proeminente da teolo- magistral sobre a obra de Cristo
gia escocesa do século XIX (B. M. produzido por um teólogo britânico
G. Reardon, From Coleridge to Gore no século X IX” (The Work o f Christ
[De Coleridge a Gore], London, [A obra de Cristo], London, 1962, p.
1971, p. 404). A importância de 665). A aclamação à obra de Camp-
Campbell deriva do fato de que ele bell levou o ex-herege a ser exaltado
se afastou significativam ente da como teólogo de renome a ponto de,
ortodoxia então vigente, lançando em 1868, vir a ser laureado com o
a ideia mais inovadora na época a título de doutor honoris causa pela
respeito da expiação*. Universidade de Glasgow.
John McLeod Campbell nasceu A teoria inovadora de Campbell
em Kilninver, perto de Oban, filho resultou de sua intensa insatisfa-
de um ministro da Igreja da Escó- ção com as premissas da teologia
cia. Após estudos na Universidade calvinista e representava sua de-
de Glasgow e no Divinity Hall da finitiva rejeição a estas. Partindo
Universidade de Edimburgo, foi da convicção de que a premissa
designado, em 1825, para a paró- calvinista da natureza penal e
quia de Row (Rhu). Segundo todos substitutiva da expiação de Cristo
os testemunhos a seu respeito, era levaria à conclusão de Cristo só
pastor fiel e mui amado. haver morrido pelos eleitos (ver
Contudo, não tardou para que Expiação, Extensão*), Campbell
deixasse sua relativa obscuridade sustentava que essa visão “destrói
e fosse levado à notoriedade ecle- a afirmação de ser a obra de Cristo
siástica. Em 1830, era denunciado o que plenamente revela e ilustra o
por heresia, primeiramente por seu grande fundamento de toda a reli-
presbitério e depois pela Assem- gião, que ensina que Deus é am or”
bleia Geral, acusado de ensinar (The Nature o f the Atonement, [A
que Jesus morreu para salvar a natureza da expiação], p. 65). En-
totalidade da humanidade, e que tre os aspectos mais importantes
a certeza* da salvação pertencia à do novo modelo de expiação, de
CANON 178

Campbell, estão: 1. A encarnação* 1920, p. 218). Críticos de todas as


de Cristo, e não a cruz, ser conside- escolas têm sugerido que a teoria
rada o “fato principal e mais elevado de Campbell, em lugar de superar
na história da relação de Deus com a visão tradicional da expiação, a
o homem”; 2. o modelo penal-subs- substituiu, como disse Bruce, por
titutivo, com suas categorias legais, “algo muito semelhante ao dispara-
ser substituído por um modelo filial, te. A ideia de um a confissão de pe-
construído sobre categorias pes- cados feita por um ser perfeitamen-
soais; 3. a expiação ser vista como te santo, com todos os elementos de
tendo um elemento prospectivo, um perfeito arrependimento exceto
assim como um retrospectivo; 4. a consciência pessoal de pecado, é
ser a expiação feita não com Cristo certamente bastante absurda” (A.
sofrendo vicariamente a ira de Deus B. Bruce, The Humiliation o f Christ
pelos pecadores, mas, sim, pela per- [A humilhação de Cristo], Edinbur-
feita confissão e arrependimento* de gh, 1881, p. 318).
Cristo por causa do pecado — ideia
que Campbell atribuiu a Jonathan Bibliografia
Edwards*, que sustentava que a ex- The Nature o f the Atonem ent (Lon-
piação pelo pecado exigia ser “uma don, 41959).
punição equivalente ou um a tristeza T. J. Crawford, The Doctrine o f
e um arrependimento equivalentes” Scripture Respecting the Atonem ent
(The Nature o f the Atonement, [A na- (Edinburgh, 1871); J. Macquarrie,
tureza da expiação], p. 137). John McLeod Campbell, 1800-
A teoria de Campbell mereceu 1872, E xpT 83 (1972), p. 263-268;
destaque em passado recente, so- G. M. Tuttle, So Rich a Soil: John
bretudo da parte de Karl Barth*, McLeod Campbell on Christian Ato-
T. F. Torrance* e J. B. Torrance (n. nement (Edinburgh, 1986).
1923). A consideração que tiveram I.Ha.
de seu modelo de expiação muito
contribuiu para seu ressurgimento CANON, ver E s c r it u r a s .

como teólogo importante. A despeito


disso, no entanto, a teoria de Cam- CANONIZAÇÃO, v e r S anto .
pbell está cercada de dificuldades.
Em primeiro lugar, é na cruz, e não CARNELL, EDWARD JOHN (1919
na encarnação de Cristo, que está 1967). Apologista evangélico e
o cerne da visão bíblica da expia- teólogo americano, presidente do
ção. Em segundo lugar, Campbell Fuller Theological Seminary (1954-
não explica de modo algum como o 1959), Carnell foi um a figura
arrependimento de Cristo beneficia importante no desenvolvimento,
os outros, ao rejeitar toda ideia nos meados do século XX, de uma
de substituição* como indigna. exposição articulada e inteligente
Robert Mackintosh* observou que, do evangelicalismo nos Estados
“quanto à conexão entre Cristo e a Unidos. Foi autor de livros sobre
humanidade, as ideias de Campbell Kierkegaard* (The Burden o f So-
parecem peculiarmente obscuras” ren Kierkegaard [O ônus de Sõren
(Historie Theories o f Atonement [ Teo- Kierkegaard], Grand Rapids, MI,
rias históricas da expiação], London, 1965) e sobre Reinhold Niebuhr*
179 CA STIGO

(The Theology o f Reinhold Niebuhr autoaceitação m oral” ou conheci-


[A teologia de Reinhold Nieburh], mento da verdade como retidão,
Grand Rapids, MI, 1951) e de três que está intimamente envolvido
apologias* influentes. com o conhecer as pessoas, inclu-
Na prim eira de suas apologias, sive a própria pessoa de Deus. Mas
A n Introduction to Christian A po- ninguém pode ter essa espécie de
logetics [Introdução à apologética conhecimento sem ser “moralmen-
cristã} (Grand Rapids, MI, 1948), te transformado pelas realidades
Carnell propõe co m o prova da que já sustentam um a pessoa”.
verdade um a “con sistên cia sis- Essa terceira apologia de Carnell
tem ática” (a saber, “obediência constitui não só um argumento
à lei da não con tradição” e con- procedente do “sentimento judi-
form idade com “a totalidade de ciai” para com Deus, que é a sua
nossas exp eriên cias”). M ostra que fonte, mas também um chamado
a cosm ovisão cristã passa nesse para que nos humilhemos, a fim de
teste, enquanto outras religiões e conhecermos a pessoa de Deus.
cosm ovisões não o conseguiriam .
Sua obra A Philosophy o f the Bibliografia
Christian Religion [Filosofia da M. Erickson, The New Evangelical
religião cristã] (Grand Rapids, MI, Theology (Westwood, NJ, 1968); G.
1952) acrescenta à anterior uma Marsden, Reforming Fundamen-
apologética baseada em valores talism (Grand Rapids, 1988); R.
(axiologias). Carnell examina, aqui, Nelson, The Making and Unmaking
“um conjunto de opções típicas de o f an Evangelical Mind: Case o f
valor” pelas quais um indivíduo Edward C am ell (New York, 1988).
poderia viver e morrer. Em cada D.W.C.
caso, m ostra o motivo pelo qual
“alguém é capaz de se mover do CASAMENTO, v e r S e x u a l id a d e .
nível mais baixo ao mais alto” . As
“posições mais baixas” dos bens e CASTIGO. Considera-se geralmente
prazeres materiais, as “mais eleva- que a definição de um castigo, ou
das” da busca do conhecimento, e um a punição legal, deve conter três
as “opções lim iares” de devoção ao elementos: 1. a penalidade, cons-
homem e a deuses subcristãos são, tituída de determ inado sofrimento
todas, incapazes de proporcionar sobre o transgressor, ou ofensor, 2.
um a satisfação definitiva, que só com base na transgressão específi-
pode ser encontrada por meio da fé ca e 3. administrada por autorida-
na pessoa de Cristo. de legítima. O castigo distingue-se,
O argumento que apresenta portanto, de qualquer form a de re-
em Christian Commitment [Ο abilitação do transgressor, em que
compromisso cristão] (New York, o sofrimento é incidental, assim
1957) é mais de ordem moral do como de outras formas legítimas
que axiológico ou racional. Carnell de causar a supressão de alguma
propõe “um a terceira maneira de liberdade ou o sofrimento, tais
conhecer”, além do conhecimento como a taxação de tributos ou a ci-
por familiaridade e por inferência. rurgia e da vingança pessoal. Todo
Trata-se do “conhecimento pela castigo é um a paga, ou retribuição,
CA STIG O 180 »

no sentido estrito de que atinge o pensamento cristão (mais tarde con-


transgressor por causa da trans- siderada heterodoxa) interpretava o
gressão. Mas nem todas as teorias fogo do castigo eterno nesses termos
de castigo são “retributivas” , no (ver Orígenes*; Gregório de Nissa*).
sentido mais amplo de não consi- A falha dessa teoria está em sua su-
derar a prática da paga, ou retri- posição de que o castigo justo, por si
buição, autojustificável e suficiente mesmo, tom a justo o sofredor.
para a manutenção da instituição A segunda teoria está associada
do castigo a que deu origem. ao surgimento do moderno pen-
Tem sido com umente susten- sarnento político contratualista,
tado que um a avaliação teórica no século XVII. De acordo com
do castigo deve mostrar como essa visão, o propósito do castigo
a punição retribuidora cumpre deve ser a segurança dos demais
as exigências gerais de justiça. membros da sociedade mediante o
Opcionalmente, deverá também constrangimento do transgressor
procurar mostrar quais os modos e a intimidação de outros pratica-
ou aplicações específicos de casti- mente transgressores. Pelo pensa-
go que melhor venham a cumprir mento contratualista, os indivídu-
essas exigências. Não é de se espe- os cedem algumas liberdades ao
rar, geralmente, que tal avaliação Estado em troca da proteção de
mostre, também, aquilo que outros seus direitos, de modo que a racio-
interesses possam legitimamente nalidade do castigo reside em sua
determ inar quanto ao tratamento função de salvaguardar as vítimas
a ser dado ao transgressor (tal em potencial dos transgressores.
como o desejo de vê-lo professar A deficiência dessa teoria é que a
a fé cristã ou o desejo de mitigar intimidação e o constrangimento
os males sociais e psicológicos que do transgressor não parecem pro-
possam resultar da punição), essa porcionar justificação suficiente
preocupação pertence a um a teoria para o limitado alcance da punição
social mais ampla. Tam pouco a retributiva (como é indicado nos
avaliação é obrigada a considerar itens 1. e 2., acima); nem a teoria
se o castigo é justificável em cada oferece motivo convincente para a
caso particular, que é matéria de intuição de que o castigo justo deva
inquérito judicial comum. ser proporcional à transgressão.
Das três teorias formais de cas- A terceira teoria, associada,
tigo tradicionalmente reconhecidas na atualidade, ao pensamento de
no Ocidente, duas partem da su- Kant*, Hegel* e Schleiermacher*,
posição de que o castigo retribuidor e elaborada sobre um a concepção
não é autojustificável. A teoria mais aristotélica*, trata a prática da
antiga tentava justificar a punição retribuição como inerentemente
como um beneficio moral para autojustificável. É, por isso, quase
o transgressor. Platão* (Górgias, sempre designada como teoria
476-477) argumenta que, sendo o “retributivista” , embora possa ser
castigo justo “um bem”, faz bem a melhor cham ada de teoria da “sa-
quem o recebe: fica liberto da injus- tisfação” ou “anulação” penal. Sua
tiça da alma. A teoria foi influente ideia básica é que o dano resul-
na Antiguidade, e uma corrente do tante da transgressão é cancelado
« 181 CA STIGO

ou anulado pela aplicação de um a nal ao seu delito, o ju iz transforma


injúria a ela comparável. A teoria o ato de vingança, originalmente
trata mais efetivamente do que cego e arrebatado, em ocasião de
outras da questão da existência afirmação pública da verdade. A
de um a base lógica para o caráter proporcionalidade, nesse caso, não
proporcional do castigo justo. Fa- significa necessariamente acarretar
lha caracteristicamente, porém, um a arbitrária lex talionis, nem ne-
sob outros aspectos, deixando de cessariamente implicaria um equi-
afirmar a dignidade do transgressor líbrio supostamente preciso entre
como portador de responsabilidade responsabilidade e penalidade. Em
moral. No entanto, enfatiza, por vez disso, a prática da retribuição,
vezes, a ideia de retribuição igual a aqui, é conformada em um a tal
tal ponto que parece insistir sobre a linguagem simbólica de resposta
lex talionis, ou o principio do “olho proporcional que permite um eleva-
por olho”; além do mais, sua ênfase do grau de flexibilidade quanto aos
sobre justiça absoluta de retribui- métodos e aos graus de castigo.
ção proporcional dá pouco espaço O fato de a retribuição derivar da
para a misericórdia e o perdão. ira pessoal da parte ofendida ajuda a
As limitações das teorias tradi- explicar a ambivalência persistente
cionais do castigo resultam da sua com que é vista. A ira, porém, não
falha em tratar a punição por meio pode ser dispensada nem absoluti-
de um a visão mais ampla da justi- zada porque constitui um aspecto
ça na sociedade. As Escrituras têm do julgam ento humano que existe
pouco a dizer a respeito de castigo sob as condições sociais e cósmicas
como tal, mas muito sobre “ju ízo”* rompidas com a queda* do homem.
(esse substantivo concreto é mais As Escrituras usam naturalmente,
característico do que “ju stiça”, abs- também, os conceitos retributivos
trato; ver Justiça*). O juízo, o u ju l- referentes ao juízo final* de Deus,
gamento, nas Escrituras, faz uma admitindo assim a concepção geral
afirmação pública dos valores nos de que uma penalidade apropriada
quais repousa a vida em comum à transgressão deve fazer parte da
da sociedade. A forma retributiva justiça. Todavia, ao caracterizar o
que o juízo usa, no AT, é derivada julgam ento divino, por outro lado,
do fenômeno natural da vingança como a livre justificação* dos pe-
de sangue (e.g., Gn 4.10,11; 9.6). cadores, evita a aplicação indevida
O papel do ju iz humano (como de normas da retribuição humana
aparece, especialmente, no caso à retribuição divina. Explorar a
paradigm a das cidades de refúgio, interação desses dois conceitos na
Nm 35; Dt 19; Js 20) é presumir esfera escatológica requer uma
a responsabilidade comunal de discussão sobre a morte expiatória
vindicar a queixa da vítima, trans- de Cristo — o castigo definitivo pelo
ferindo assim o direito e dever de pecado que, ao mesmo tempo, é o
vingança da esfera pessoal para ato decisivo de perdão.
a esfera pública. Ao julgar, dis-
criminando, desse modo, entre Bibliografia
inocência e culpa* e retribuindo o Históricos: Tomás de Aquino, Sum-
transgressor com pena proporcio­ ma Theologica 11:1:87; H. Grotius,
CASUÍSTICA 182

The Right o f War and Peace (London moral. Isso deve ser visto positi-
& New York, 1964), livro 2, caps. 20, vãmente, como meio de tornar a
21; G. W. F. Hegel, The Philosophy o f lei mais adequada, eliminando a
Right (TI, Oxford, 1967), seções 88- obscuridade e a dúvida quanto ã
103; T. Hobbes, Leviathan (London, sua aplicação. No puritanismo*, a
1914), cap. 28; I. Kant, The Meta- casuística acompanhava o julga-
physical Elements o f Justice, seção mento escrupuloso de “casos de
49E, parte 1 de The Metaphysics o f consciência”*. Infelizmente, porém,
Morals (TI, Indianapolis, IN, 1965); na história cristã, a casuística tem
W. Perkins, Epieikeia: or a Treatise sido vista negativamente, propor-
o f Christian Equitie and Moderation cionando desculpas e permitindo
(London, 1604); H. Rashdall, The exceções onde não deveriam acon-
Theory o f Good and Evil (Oxford, tecer, como, particularmente, entre
1907), livro 1, cap. 9; F. de Suarez, os jesuítas* no século XVII. Seu
De legibus ac Deo legislatore (Lon- uso frequentemente sugere uma
don, 1679), livro 5, caps. 1-12. defesa capaz de justificar até o que
Contemporâneos: W. Berns, For é errado mediante um processo de
Capital Punishment. Crime and raciocínio baseado em exceções.
the Morality o f the Death Penalty Assemelha-se, assim, de certa
(New York, 1981); Lord Longford, forma, à ética “situacional”*. Teo-
The Idea o f Punishm ent (London, logicamente, porém, a casuística
1961); W. Moberly, Responsibility leva em consideração a natureza
(London, 1951); O. O ’Donovan, decaída do mundo e da humanida-
M easure fo r Measure: Justice in de e reconhece a complexidade das
Punishm ent and the Sentence o f decisões morais. Para poder lidar
Death (Bramcote, Nottingham, com a am bigüidade e a finitude da
1977); Punishment, Relatório do existência humana, as pessoas ne-
Grupo de Trabalho da Junta de cessitam de um a orientação moral
Responsabilidade Social da Igreja dada de modo detalhado.
da Inglaterra (London, 1963); J. H.
Yoder, The Christian and Capital Bibliografia
Punishm ent (Newton, KS, 1961). J. C. Ford & G. Kelly, Contemporary
O .M .T .O ’D. e R .J.S. Moral Theology, 2 vols. (Westmins-
ter, MD, 1958-1963); K. E. Kirk,
CASUÍSTICA. Aplicação de prin- Conscience and its Problems: An
cípios morais e determ inação do Introduction to Casuistry (London,
certo e do errado em casos parti- 1927); P. Lehmann, Ethics in a
culares à luz de circunstâncias e Christian Context (London, 1963).
de situação peculiares. A casuisti- E.D .C.
ca se torna necessária por não ser
possível estruturar ou expressar CATECISMOS. “Eu ainda tenho de
as regras morais gerais mais im- ler e estudar o catecismo diaria-
portantes para cada situação e em m ente”, declara Martinho Lutero*
cada caso sem exceção. Busca a no prefácio do seu próprio Breve
casuística, assim, aplicar a regra Catecismo (1529), acrescentando
geral mais específica e direta- que, “todavia, não posso me com-
mente relacionada à real situação portar como mestre, como gostaria,
‫ י‬183 CATECISM OS

mas, sim, tenho de permanecer cam, o catecismo não deveria ser


criança e aluno do catecismo e o só para crianças, mas foi feito para
faço alegrem ente” . Os memoráveis formar o entendimento doutrinário
catecismos longo e breve, de Lute- básico de todo cristão.
ro foram escritos para fazer face à Os catecismos de Lutero não
ignorância espiritual que ele cons- foram os primeiros nem os últimos
tatou existir na Saxônia. Para ele, dos luteranos. Imensa multiplica-
o catecismo era um a explanação ção desses livretes de ensino ocor-
clara, em forma de perguntas e reu na Alem anha e em outros países
respostas, das coisas essenciais da da Europa à medida que pastores
fé cristã, especialmente o Decálogo, produziam os seus próprios, quase
o Credo dos Apóstolos*, a Oração sempre impressos e distribuídos
do Senhor e os sacramentos*. Esse em grande quantidade.
tornou-se o principal significado da Na Igreja Católica, os catecis-
palavra que também pode ser usa- mos, como, por exemplo, o de 1555,
da para designar meios auxiliares feito pelo jesuíta* Pedro Canisius
de ensino religioso de diferentes (1521-1597), foram usados ampla-
tipos, como, por exem plo, carta- mente pelo laicato, o que aconte-
zes ou livros, e contendo os mais ceu também com o catecismo do
diversos assuntos. Concilio de Trento (1566), feito
Enquanto Lutero, por um lado, para os sacerdotes. Catecismos
iniciou um movimento de cateque- têm continuado a ser publicados
se que durou até o presente século, sempre entre os católicos.
por outro lado, sua obra tornou-se Dos milhares de catecismos pro-
parte de tradição bem mais ampla. testantes compostos nos séculos XVI
Desde seus primeiros dias, tem e XVII, contudo, alguns merecem
estado a igreja preocupada em atenção especial. O Breve Catecismo
instruir os recém-convertidos e os de Lutero é uma obra-prima em seu
seus membros. O foco e os méto- gênero. Suas respostas incisivas
dos de instrução têm, por vezes, objetivavam ser ouvidas, sobretudo,
mudado. A iniciação cuidadosa no pelo coração; mas Lutero estava
catecumenato, característica dos cônscio dos perigos do aprendi-
primeiros séculos, por exemplo, zado mecânico, por isso, insistia
deu lugar a métodos muito menos em sua com preensão. Ao adotar
estruturados na Idade Média, basi- a ordem de assuntos “lei, credo,
camente como resultado da prática oração, sacram en tos” , Lutero
difundida do batismo infantil. Per- estava intencionalmente expondo
maneceu, no entanto, a preocupa- o evangelho tal como o ensinava:
ção de que o cristão comum deveria primeiramente, a lei*, para revelar
aprender as verdades básicas da o pecado, em seguida a fé*, para
religião e da piedade. Os reforma- propiciar a cura espiritual, enfim,
dores protestantes, ao iniciar sua a oração do Senhor, para pedir sua
obra educacional, foram capazes graça. Não obstante, ele pretendia,
de projetar um bom padrão para clara m en te, que a lei tam bém
a instrução de crianças, mas que guiasse a vida dos cristãos. Sua
jã tinha sido executado. Contudo, divisão do Credo Apostólico em
como as palavras de Lutero indi- três partes, correspondendo à obra
CATECISM OS 184

da Trindade* na criação*, reden- eu, em corpo e alma, tanto na vida


ção* e santificação*, proporcionou quanto na morte, não me pertenço,
ao seu trabalho um a orientação mas pertenço ao meu fiel Salvador
evangélica* poderosa. Jesus Cristo Sua tríplice forma
Os calvinistas, ou reformados, de desenvolvimento — “A miséria do
foram também rápidos na elabo- homem”; “A redenção do homem” e
ração de catecismos. O Catecismo “A gratidão do homem” — contribui,
da igreja de Genebra, de autoria igualmente, para cativar a atenção
do próprio João Calvino (1541), do leitor.
exerceria forte influência entre as O Livro de oração comum contém
igrejas de seu segmento cristão. um breve catecismo inglês, mas o
Calvino com eça com a fé, em vez uso mais intenso dos catecismos
da lei, que ele via mais como uma britânicos se daria entre os purita-
regra de vida para os cristãos. As nos*, como é o caso do catecismo
notas que distinguem seu cate- de William Perkins (1558-1602), in-
cismo podem ser encontradas nas titulado The Foundation o f Christian
abordagens da descida de Cristo Religion [O fundam ento da religião
ao inferno* e da ceia do Senhor cristã}. Ele é interessante, sobre-
(c f Eucaristia*), assim como em tudo, por oferecer um exemplo de
um a ênfase persuasiva na união como o ensino da experiência e de
do crente com Cristo*. O diácono assuntos teológicos pode modificar
Alexander Nowell (c. 1507-1602), a forma e o conteúdo do catecismo.
cujo longo catecismo inglês, de Esse catecismo foi projetado para
1563, baseou-se muito em Calvino, ser usado antes do catecismo con-
abrandou o ensino sobre a união vencional, numa tentativa de tornar
com Cristo, assim como reverteu real para o aluno a experiência da fé
a ordem de Calvino, tratando em cristã, a fim de que pudesse ser “de
primeiro lugar da lei. algum modo sentida no coração” .
Contudo, o mais importante dos Talvez o mais famoso de todos os
primeiros catecismos calvinistas foi catecismos reformados, contudo,
o de Heidelberg (1563), composto seja o Catecismo Breve produzido
por Zacharias Ursinus (1534-1583) pela Assem bleia de Westminster,
e Caspar Olivianus (1536-1587) em 1648. Sua influência, especial-
para ser usado na região do Pala- mente na Escócia, tem sido ímpar.
tinado. Sua teologia sacramental T. F. Torrance* chama-o de “um
é nitidamente reformada, mas em dos mais importantes e notáveis
seu todo procura mediar entre os documentos de toda a história da
ensinos de Calvino e Lutero. Está teologia cristã” . Esse catecismo
ainda em uso nas igrejas refor- aborda a lei, os sacramentos e a
madas de tradição holandesa (cf. oração do Senhor, mas abre mão
Teologia Reformada Holandesa*), do credo em favor de um a seção
em razão de sua clareza, brevidade prelim inar que trata da pessoa de
e fervor piedoso. A pergunta ini- Deus, de seus pactos e decretos,
ciai, brilhantemente concebida — expondo a história da redenção
“Qual o seu único conforto na vida consumada e posta em prática.
e na morte?” — tem uma resposta Sua eficácia reside na progressão
profunda que começa assim: “Que teológica de seu pensamento e nas
185 CATOLICIDADE

respostas, breves, mas excelentes, Janz, Three Reformation Catechis-


às perguntas feitas. ms: Catholic, Anabaptist, Lutheran
A intenção para a instrução dos (New York, 1982); G. Strauss,
catecismos era de que esta se reali- Lu th er’s House o f Learning (Balti-
zasse nos lares e nas escolas, além more, MD, 1978); T. F. Torrance,
de nas igrejas. A congregação, devi- The School o f Faith (London, 1959);
damente instruída, estaria, assim, J. H. W esterhoff III & O. C. Edwar-
pronta a receber o benefício dos ds Jr., A Faithful Church (Wilton,
sermões, já tendo o catecismo pro- CT, 1981).
porcionado a estrutura doutrinária P.F.J.
básica adequada à compreensão
da exposição de passagens das Es- CATOLICIDADE. É um dos “sinais”
crituras. O método dialogai busca- (ou marcas) característicos da
va oferecer respostas perceptíveis igreja* de Cristo, juntam ente com
da verdade divina, os catecismos sua unidade, santidade e aposto-
tentaram estruturar essa verdade licidade. No período patrístico*, a
de um modo ordenadamente cor- catolicidade indicava o fato de ser
respondente ao progresso da vida a igreja um a sociedade universal,
cristã. Todavia, como forma de confessando um a só fé, com um só
ensino, os catecismos parecem ter batismo e envolvida na missão de
perdido basicamente a atenção das Deus neste mundo por estar unida
igrejas, apesar de um novo catecis- a Cristo, o Senhor.
mo ainda ser ocasionalm ente pu- Contudo, os cismas*, as divi-
blicado e até a prática da catequese sões e as heresias* levaram à ne-
vir experimentando ultimamente cessidade de haver critérios para
certo reavivamento. É salutar, no se estabelecer a catolicidade. O
entanto, observar a avaliação de texto a respeito desse tema mais
G. Strauss de que os resultados de famoso e am plamente usado é o
todos os esforços das primeiras ge- de Vincent de Lérins (m. antes de
rações de luteranos foram escassos 450), que, no começo do século
e contraproducentes. A questão, V, apresentou o seguinte critério
agora, é se é possível ou desejável tríplice, conhecido como Cânon
organizar o crescimento espiritual Vicentino: Quod ubique, quod sem-
dos crentes ou se a abstração do per, quod ab omnibus creditum est
credo, do Decálogo e da ceia do Se- — “aquilo que tem sido crido em
nhor do corpo da verdade cristã é toda parte, sempre e por todos” . Os
teologicamente justificável. Apesar que aceitam esse critério, o vêem
de quaisquer que sejam seus pon- como apontando para as sagradas
tos fracos, porém, os catecismos Escrituras, os credos antigos*, os
buscam ensinar a doutrina cristã dois sacramentos* e o triplo mi-
básica e foi para o empobrecimento nistério na condição de serem as
da igreja que nada parece ter podi- regras necessárias à existência de
do substituí-los. catolicidade; outros acrescentam
ainda o papado*, como o meio pelo
Bibliografia qual as regras seriam mantidas.
H. Bonar, Catechisms o f the Scot- Considerado assim, no entanto, o
tishReform ation (London, 1866); D. cânon vicentino exclui grande parte
CEIA DO SENHOR 186 Ά

do ramo protestante* ortodoxo da (London, 1950); A. Harnack, History


igreja. Portanto, para que a palavra o f Dogma, vol. 2 (London, 21896); D.
“catolicidade” possa ser aplicável, T. Jenkins, The Nature o f Catholic-
deve ter outro significado. ity (London, 1942); J. H. Maude, in
Um a possibilidade é que seja ERE 3, p. 258-261; J. Pearson, An
usada com um significado mínimo Exposition o f the Creed (1659), ed.
que indique m eram ente um fato E. Walford (London, 1850).
histórico e existencial, pois como P.T.
Cristo ordenou que o evangelho
fosse pregado por toda a ordem CEIA DO SENHOR, v e r E u c a r is t i a .
criada, a igreja se tornou um a
sociedade universal. Outra abor- CELIBATO, v e r S e x u a l id a d e .
dagem, mais adequada, lem bra
que o termo “católico” indica CERTEZA DA SALVAÇÃO His-
‫״‬totalidade” (gr. ka th ’holou, “no toricamente, a questão de se a
todo”), devendo-se ver, desse certeza (ou segurança) da salvação
modo, a catolicidade como aquilo definitiva é possível ou não nesta
que Deus cham a de sua igreja, vida ganhou destaque por oca-
pois ele proveu a totalidade de sião da Reforma*. Anteriormente,
seu povo no Senhor Jesus. Essa embora alguns, e.g. Agostinho* e
totalidade inclui tudo aquilo que Duns Scotus*, tivessem aceitado
Cristo, em seu Espírito, e por in- essa possibilidade, o consenso
term édio dele, quer com partilhar geral perm itia cada vez mais só o
com o seu corpo e nele derram ar conhecimento conjectural da graça
em termos do fruto e dos dons do com base nas boas obras, pois a
Espírito, santificante e libertador. doutrina medieval da penitência*
Nesse entendim ento, portanto, a havia ligado o perdão à autoridade
catolicidade é experim entada de eclesiástica. O Concilio de Trento
form a m aior ou m enor no presente (ver Contrareforma Católica*), por
e é para ela que o povo de Deus se sua vez, anatematizou tudo aquilo
m ove em esperança, como peregri- que ensinasse que tal certeza era
no. Deve-se acrescentar que essa possível, mas só por um a revelação
abordagem está de pleno acordo especial. A asserção dos reforma-
com o prim eiro uso registrado dores sobre a suprem acia das
do term o “católico” na literatura Escrituras anulou o papel interme-
eclesiástica. Por volta do ano diário da hierarquia eclesiástica.
112, Inácio de Antioquia escrevia Para Lutero*, Calvino*, Zuínglio* e
à igreja de Esmirna: “Onde quer Bucer*, a certeza da salvação era
que Cristo esteja, existe a igreja um componente normal da fé*.
católica” . Calvino considerava a fé salvadora
como certeza da salvação (Insti-
Bibliografia tutas, II.ii.7), pois baseava essa
TI do Commonitorium, de Vincent, certeza em Cristo (e.g., ibid., III.
in: G. E. McCraken, Early Medieval xxiv.5). O calvinismo* posterior ba-
Theology (LCC IX; London, 1957). seou a certeza de salvação cada vez
R. N. Flew & R. E. Davies (eds.), mais na santificação*, tornando-a,
The Catholicity o f Protestantism assim, dependente da condição
187 C ER TEZA DA SALVAÇÃO

de piedade da pessoa. Não era sumação na era atual. Assim, o NT


mais tida, portanto, como elemento enfatiza o caráter de normalidade
indispensavelmente constituinte da certeza da salvação, descreven-
da fé salvadora. Do mesmo modo, do a fé cristã como um a confiança
a Confissão de Fé de Westminster* alegre em Jesus Cristo. O mais
(1647) separou a fé salvadora e a próximo de uma definição de fé está
certeza da salvação em dois capítu- em Hebreus 11.1, em que é descrita
los não contíguos. Tem-se procura- como “a certeza daquilo que espe-
do a explicação para essa mudança ramos e a prova das coisas que não
em fatores tais como a extensão da vemos”, indicando o contexto um a
expiação* e a teologia do pacto*. resposta obediente à promessa de
Têm ocorrido debates sobre se Deus com certa expectativa de sua
Calvino veio a permitir que a santi- realização futura. Os leitores de
ficação fosse uma base para a cer- 1 Pedro, mesmo que em sofrimento,
teza da salvação. Alguns (e.g., Nie- são direcionados para o recebimen-
sei, Kendall) negam isso, enquanto to de sua herança garantida para a
outros [e.g., Barth*, Berkouwer*) qual eles mesmos são preservados
sustentam que ele permitiu, sim, por Deus (lP e 1.3-5). Paulo, por
mas em sentido estritamente secun- sua vez, baseia a certeza da salva-
dário. No rastro do Iluminismo*, a ção no propósito de Deus, na obra
absolutização do tempo*, ocasiona- salvadora de Cristo e no ministério
da pelo dualismo* pós-kantiano*, do Espírito, contra o que nada pode
tornou problemáticas as questões prevalecer (Rm 8.12-39); enquanto
da eternidade. Não obstante, o U o ã o insiste, repetidamente, em
pensamento criativo voltou-se com que “sabemos”.
extensas implicações para a certeza Teologicam ente, a certeza da
da salvação, notadamente em Karl salvação está baseada no caráter
Barth e Jürgen Moltmann*. de Deus e na finalidade de sua re-
A maneira como o AT se concen- velação em Jesus Cristo. Uma vez
tra sobre os atos de Javé não ofere- que Cristo é consubstanciai com o
ce uma anatomia detalhada da fé e Pai desde a eternidade, sua palavra
da certeza da salvação. Embora a fé para nós é a verdadeira expressão
paradigmática de Abraão fosse sua da eterna vontade de Deus. Sua
confiança em Javé e na promessa do encarnação é “garantia de nossa fi-
pacto (Gn 15.6), ela é descrita por liação” (Calvino, Institutas, II.xii.3),
Paulo, no entanto, como certeza da pois tomou a nossa natureza e a
salvação plena (Rm 4.13-25). Mui- colocou em união com Deus. Sua
tos salmos, por sua vez e a despeito morte constitui expiação eficaz
de lutas preponderantes, mostram pelos nossos pecados. Sua ressur-
essa mesma confiança {e.g., SI 22, reição estabelece nossa própria
40— 44, 46, 102, 130), embora, às exaltação ju n to com ele. Em união
vezes, haja neles até uma tristeza com Cristo, é-nos dado partilhar
inconsolável (SI 38, 88, 109). da vida de Deus na com unhão
No NT, a esperança da redenção (Jo 6.56,57; 17.21,23; 2Pe 1.4).
se cumpre na morte e ressurreição Além de tudo, o propósito eterno
de Cristo, enquanto Pentecoste de Deus perm anece firme. Ele
m arca a presença da futura con­ com prom eteu-se consigo mesmo
CÉU 188 «1
em nos preservar (Jo 6. 37-40; Chalm ers foi fam oso como pre-
10.28,29; 17.12). A promessa cen- gador, m inistro paroquial e líder
trai do pacto — “serei o seu Deus, e do partido evangélico* na Igreja
vocês serão o meu povo” (Lv 26.12; da Escócia, bem como dirigente
Jr 32.38; Ez 37.27; Ap 21.3) — é a da Igreja Livre da Escócia após a
afirmação que Deus faz de nossa Ruptura de 1843. Em bora resida
futura salvação em Cristo. Mostra nisso sua m aior reputação e seu
também a natureza corporativa do desprezo pelos sistemas teológicos
evangelho, pois só na igreja a cer- fosse bem conhecido, se não bem
teza da salvação é dada, o Espírito lem brado, sua influência sobre
Santo batiza-nos no corpo de Cristo gerações de estudantes de teologia
e capacita-nos a nos alimentarmos foi profunda. Preservou muitos
nele na eucaristia. dos valores mais im portantes da
A santificação é a base da cer- tradição moderada, que havia
teza da salvação? Com certeza, abraçado antes de sua conversão,
a obra do Espírito Santo em nós em 1811, e que viria a representar
atesta a obra de Cristo na expiação a tradição evangélica de preocu-
e a obra do Pai na eleição. Todavia, pação principal na proclam ação
a introspecção pode nos conduzir e aplicação do evangelho mais do
ao desespero ou à autojustiça. que em um a form ulação excessi-
Embora a certeza possa ser encon- vãm ente precisa de seu conteúdo.
trada somente quando Deus nos Para Chalmers, a expiação* era o
confere santificação, o fundamento ponto central da missão da igreja
de um a e outra é a obra consu- na transform ação pessoal e social,
m ada de Cristo. Com o crescente mas aconselhava os estudantes a
questionam ento do individualismo não pregar sobre predestinação*,
da pós-Renascença, teremos a di- que era assunto de Deus, e não
mensão corporativa da certeza da deles. A liberação da adesão pres-
salvação provavelmente revelada biteriana aos aspectos mais rígidos
em um foco mais nítido. da Confissão de Fé de W estm ins-
ter, que se deu cerca de trinta
Bibliografia anos após sua morte, reflete mui-
Karl Barth, CD, II.2, p. 334-340; tos dos valores teológicos de sua
G. C. Berkouwer, Divine Election pregação e de suas preleções. Seu
(Grand Rapids, MI, 1960); Calvino, sermão The fu lln ess and freeness
Institutas, Il.xii-xvii; III.ii. 1-43; III. o f the gospel offer [A plenitud e e a
xxiv.5; R. T. Kendall, Calvin and liberdade da oferta do evangelho}
English Calvinism to 1649 (London, resume, no título e no conteúdo, o
1979); Jürgen Moltmann, Theology entendim ento básico de Chalmers
o f Hope (London, 1967). da m ensagem cristã. Suas Theolo-
R .W .A .L. gical Institutes [Instituições teológi-
cas], que constituem os volumes
CÉU, ver E s c a t o l o g ia . 7 e 8 de suas Posthum ous Works
[Obras póstum as], 1847-1849, e
CHALMERS, THOMAS (1780-1847). outros escritos relevantes podem
Professor de Teologia em Edim- ser encontrados em sua coletânea
burgo, de 1828 até sua morte, de obras (W orks), 1836-1842.
a 189 CHAM ADO

Bibliografia leológica, estando associada no NT


S. J. Brown, Thomas Chalmers and aos propósitos suprem os de Deus
the Godly Commonwealth (Oxford, para o seu povo de com unhão com
1982); A. C. Cheyne (ed.), The Jesus Cristo (IC o 1.9), de bênção
Practical and the Pious: Essays (lP e 3.9), de liberdade (G1 5.13), de
on Thomas Chalmers (1780-1847) paz (IC o 7.15), de santidade (lT s
(Edinburgh, 1985); S. Piggin & J. 4.17), de vida eterna (lT m 6.12) e
Roxborogh, The St Andrew s Seven de participação em seu reino e em
(Edinburgh, 1985). sua glória (lT s 2.12).
W .J.R . Contudo, o cham ado geral e
o cham ado eficaz não devem ser
CHAMADO. Teólogos, especial- entendidos como dois fenôm enos
mente da tradição reformada*, cos- separados, mas, sim, como um
tumam distinguir entre chamado só cham ado visto de diferentes
geral e chamado eficaz. Chamado perspectivas. O cham ado eficaz
geral é o termo aplicado à oferta baseia-se no chamado geral fei-
universal de salvação, do evange- to no evangelho, pois o atrativo
lho, feito a todos, sem distinção, apelo que Deus faz à mente e à
mediante a pregação da palavra de consciência humanas m ediante a
Deus. Como tal, encontra ampla pregação da palavra é a ocasião
variedade de respostas. Já o cha- normal, mais comum, do seu
mado eficaz é o evento ou processo chamado de cada pecador para si
pelo qual cada pessoa é conduzida (1.C0 1.18— 2.5; lT s 1.4-10; 2.13;
a um estado de salvação em Cristo. At 16.13,14). Muito em bora no NT
Consequentemente, esse chamado o peso e a força dos argumentos
é restrito em seu fim. Constitui um sejam quase que totalm ente colo-
ato da graça e do poder de Deus, cados na atração eficaz do homem
pelo qual ele soberanamente nos para Cristo, deve-se tam bém levar
une a Cristo (IC o 1.9; 2Tm 1.8,9). em conta a ênfase igualm ente
Deus Pai é seu agente específico forte sobre a responsabilidade e
(Rm 8.28-30; G1 1.15; E f 1.17,18; o privilégio de proclam ar Cristo
IC o 1.9; 2Tm 1.8,9), não só nos ao mundo, em conexão com que é
convidando, mas nos introduzindo realizada a aplicação soberana da
de forma poderosa e graciosamente redenção de Deus.
em seu reino, em conformidade com Na igreja primitiva e, depois,
seu eterno propósito em Cristo que novamente nos períodos da Refor-
nunca falha (Rm 8.28-30; 11.29). ma e de pós-Reforma, o chamado
Dessa maneira, sendo o cha- eficaz era comumente identificado
mado eficaz um ato soberano de com a própria regeneração*.Toda-
Deus, de nenhum modo poderá ser via, o chamado eficaz se relaciona
definido em termos de resposta de mais com a vida consciente do ser
um a pessoa. É o passo inicial para humano, enquanto a regeneração,
a aplicação da redenção de que são em seu sentido estrito, ocorre mais
dependentes a fé*, a justificação*, no íntimo do ser. O chamado tem,
a adoção (ver Filiação*), a santifi- além disso, uma orientação teleoló-
cação* e a glorificação (ver Ordo gica que a regeneração, no sentido
Salutis*). Tem um a orientação te- acima, não possui.
CHEMINITZ, MARTIN 190

Bibliografia na democrática. Teologicamente,


H. Bavinck, Our Reasonable Faith isso im plicava rejeitar um a reve-
(Grand Rapids, MI, 1977); L. Berkhof, lação especial* como base para a
Systematic Theology (London, 1958); autoridade teológica, em favor da
L. Coenan, in: NIDNTT, p. 271ss; J. experiência como critério da ver-
Murray, Redemption Accomplished dade em matéria de religião. Sua
and Applied (London, 1961). ênfase na experiência, no entanto,
R.W.A.L. não estava ligada ã tradição de
Schleiermacher* do uso da expe-
CHEMINITZ, MARTIN, ver L utera riência religiosa pessoal*, mas,
NISMO. sim, consistia em um a abordagem
mais radical, visando a assegurar
CHICAGO, ESCO LA DE TEOLOGIA. legitimidade científica à religião,
Principal proponente do moder- apelando, para tanto, à vivência de
nismo teológico e reduto da ala domínio público — ou seja, àquilo
radical do movim ento liberal* no que fosse acessível e verificável por
protestantism o norte-am ericano, todos os pesquisadores. Promovia,
a escola de teologia de Chicago es- desse modo, um método sócio-his-
teve am plam ente associada à Es- tórico para estudo dos fenômenos
cola de Teologia da Universidade religiosos como conduta humana e
de Chicago durante meio século, não divina, supondo que todas as
de 1890 a 1940. Atingiu seu auge tradições teológicas deveriam evo-
durante o período em que Shailer luir com o passar do tempo. Eram,
M athews (1863-1941) era o dire- assim, características de realce nas
tor (1908-1933); contando, como posições da escola a abertura ao
destacados m em bros de seu corpo questionam ento radical das formas
docente, entre outros, com George teológicas, a vontade manifesta de
Burman Foster (1858-1918), Shir- experimentar novas concepções de
ley Jackson Case (1872-1947), Deus e um a afirmação dos ideais e
Gerald Birney Smith (1868-1929), valores humanos, com uma visível
Edward Scribner Ames (1870- tendência para o humanismo.
1958) e H enry Nelson W iem an Sob o ponto de vista sociocul-
(1884-1975). Incorporando am pla tural, os modernistas de Chicago
variedade de perspectivas, os foram, de fato, também apóstolos
m odernistas de Chicago defen- de uma “religião de democracia”.
diam um a abordagem em pírica* Transpirando otimismo a respeito da
e pragm ática à religião cristã, en- natureza humana altruísta e quanto
fatizando seus valores funcionais, a uma ascensão evolucionária que
evidenciando, em suas posições, apontava para o futuro do homem,
débito para com as filosofias, so- seus teólogos combinavam e con-
bretudo, de W illiam Jam es (1842- fundiam cristianismo com democra-
1910), John Dewey (1859-1952), cia. Tal crença liberal numa deidade
George H erbert Mead (1863-1931) imanente e democrática foi extrema-
e Charles Peirce (1839-1914). mente afetada, no entanto, por um
O modernismo de Chicago ceie- novo espírito geral, de pessimismo
brava 0 “espírito da época”, tanto e cinismo emergentes, quando da
na dimensão científica quanto deflagração da Primeira Guerra
m 191 CIÊN CIA E TEO LO G IA

Mundial e da depressão econômica, interação de ambas por muitos


principalm ente norte-am ericana, séculos.
que se seguiu ao conflito. Em seguida, vem o modelo de
conflito entre ciência e teologia,
Bibliografia constantem ente desenvolvido, a
C. H. Arnold, N ear the Edge o f partir de Darwin, por aqueles, por
Battle: A Short History o f the Divi- exemplo, que ansiavam que a ci-
nity School and the Chicago School ência tivesse suprem acia cultural
o f Theology 1866-1966 (Chicago, sobre a igreja na Inglaterra no final
1966); W. J. Hynes, Shirley Jack- da era vitoriana. Com base em
son Case and the Chicago School: episódios em que a evidência cien-
the Socio-Historical Method (Chico, tífica chegou realmente a solapar
CA, 1981). tradições aparentemente baseadas
S.R.P. na Bíblia (e.g., Galileu e Darwin),
um a imagem triunfalista genera-
CIÊNCIA CRISTÃ, v e r S e it a s . lizada passou a ser cultivada em
relação à ciência, muito disso se
CIÊNCIA E TEOLOGIA. No presente devendo ao pensamento da filoso-
artigo, a palavra “ciência” significa fia positivista* de que somente o
o estudo sistemático do mundo na- conhecimento científico era signi-
tural, atividade ao mesmo tempo ficativo. A despeito da constatação
intelectual, prática e social. Deve muito evidente das grosseiras dis-
ser diferenciada, desse modo, do torções históricas introduzidas por
vasto corpo de “fatos” empíricos essa preconceituosa generalização,
acumulados por essa atividade, sua manutenção e sobrevivência
chamado comumente de “ciência” na literatura e no conhecimento
em linguagem popular. de âmbito popular, que prossegue
O caráter exato da empreitada nos dias de hoje, testifica sua forte
científica e sua metodologia têm influência na mentalidade pública.
variado com o tempo. Considera-se Um terceiro modelo é o da com-
que a “ciência m oderna” tenha tido plem entandade, que (embora não
origem na Europa Ocidental, na com esse nome) pode ser datado
época da Renascença e da Reforma. do século XVII, desde Francis Ba-
Desde então, seu relacionamento con (1561-1626). Bacon referia-se
com a teologia tem sido concebido à existência de “dois livros” , o
em um a variedade de modos. livro da natureza e o livro das
Escrituras, cada um dos quais
1. Modelos de relacionamento deveria ser lido e entendido. Como
entre ciência e teologia ambos provinham do mesmo Au-
Alguns imaginam um modelo de tor, dizia ele, não poderiam estar
independência total entre ciência em conflito. Mas, como cada um
e teologia, eliminando assim qual- deles tinha um propósito diferen-
quer das possibilidades e questões te, seria inútil misturar “filosofia”
discutidas abaixo. Tal modelo de (ciência) com teologia e procurar
interação zero é irreconciliável com dados científicos nas pãginas das
a evidência histórica, que aponta Escrituras. Os problemas surgiam,
para um a série contínua de forte contudo, quando as evidências
CIÊN CIA E TEO LO G IA 192

bíblica e científica pareciam se simplesmente reconhece que, na


chocar e, nessas circunstâncias, interpretação desses dados, as
era necessário reconhecer a com- ideias teológicas e científicas são
plementaridade de seus modos de frequentemente mescladas no cé-
explicação. Calvino*, valendo-se do rebro, como, de fato, o são em uma
conceito de “acomodação” de Agos- sociedade. Daí, poder-se esperar
tinho*, afirmava que o Espírito algum grau de influência mútua,
Santo acomodava sua linguagem à sendo esse, justam ente, o caso.
do homem comum a fim de poder
ensinar princípios espirituais. Daí, 2. Influência da ciência
permanecerem ainda as narrativas sobre a teologia
bíblicas dos dias da criação*, da Muitas têm sido as respostas da te-
estrutura do cosmo, do sol em opo- ologia face à ciência. Uma das mais
sição à terra e a de um dilúvio li- antigas foi a da teologia natural*.
teralmente universal ser suscetível Desde Robert Boyle (1627-1691)
de interpretação não literal. Em ou- até Paley*, a literatura inglesa está
tras palavras, as narrativas bíblica cheia de tentativas de descobertas
e científica dos fenômenos naturais científicas com base na apologética
têm propósitos complementares, e cristã. Tem-se argumentado, de
não contraditórios, sendo as preo- certa forma dubiamente, que por
cupações da Bíblia não materiais, trás de tais empenhos estaria um a
mas espirituais e eternas. Essa busca por estabilidade social, que
perspectiva continua vigente ainda poderia ser escorada por um a forte
hoje, podendo ser proveitosamente Igreja Anglicana. Suas fórmulas,
aplicada a problemas diversos nes- in alteráveis seriam con firm adas
sa área, a começar pelo debate a por leis inalteráveis da ciência. Seja
respeito da criação do universo. como for, no entanto, o argumento
Apesar de todos os seus méritos, do “desígnio” acabou por sobrevi-
no entanto, esse modelo falha em ver, embora de forma enfraquecida,
um a série de aspectos, particular- até mesmo aos ataques violentos do
mente por ignorar a considerável darwinismo. Com o conhecimento
rede de relacionamentos entre a maior que se tem hoje da complexi-
ciência e a teologia revelada pela dade do mundo natural, tentativas
recente erudição histórica. Um têm sido feitas para revivê-lo, mas
quarto modelo, todavia, leva em sem grande sucesso.
conta esses dois últimos, poden- Foi, na verdade, a regularidade
do ser chamado de simbiose. Ele impressionante do universo mecâ-
reconhece que, historicamente, os nico, enfatizado por Isaac Newton*,
pensamentos científico e teológico que levantou questões urgentes
devem muito um ao outro e que sobre a intervenção divina. Deus
seu crescimento tem sido promo- intervinha no movimento da máqui-
vido mutuamente. Concorda com na que havia criado ou não? O di-
a constatação de que muita coisa lema foi cristalizado na observação
do conhecimento é dependente atribuída a Laplace (1749-1827)
da própria cultura, mas não fere (e provavelmente apócrifa) de que
a independência dos dados, quer “não necessitava dessa hipótese
da Bíblia quer do mundo natural; (Deus)” em sua cosmologia. Surgia,
Si 193 CIÊN CIA E TEO LO G IA

assim, um estímulo poderoso para área onde a resposta teológica


o crescimento do deísmo* e seus à ciência tem sido argum entada
derivados, como, por exemplo, o com muito menos justificação é
unitarismo*. Ao final do século na “ dem itização” (ver Mito*), pre-
XVIII, já existia um reconhecimen- conizada por Bultm ann* e outros.
to de que todos os eventos naturais A asserção de que não é possível
(e não apenas aqueles explicáveis se crer no cham ado “m ilagre”* em
pelas leis científicas conhecidas) um a era científica é tão não filosó-
deveriam ser vistos como ativi- fico quanto não histórico. Ignora
dade de Deus. Uma teologia de o fato de que a ciência está, por
Deus-nas-lacunas comprovou ser, definição, preocupada com o que é
surpreendentemente, duradoura, natural, não devendo, assim, pro-
representando mais um equívoco nunciar-se a respeito de rupturas
popular a respeito do relaciona- ou anorm alidades. Além disso,
mento entre ciência e religião. deixa de observar que, na época
Uma outra resposta da teologia em que a dem itização entrou em
à ciência surgiu na área da inter- voga, o dogm atism o científico
pretação bíblica. Remonta, pelo positivista e fora de m oda estava
menos, ao famoso gracejo de Gali- em pleno declínio, podendo, para
leu, em 1615, de que, nas Escritu- isso, ser citada um a variedade de
ras, “a intenção do Espírito Santo é causas, entre as quais, notada-
nos ensinar como alguém vai para mente, o fim do mundo determ i-
o céu, e não como o céu funciona” nista* da m ecânica de Newton em
— resposta gerada, certamente, em face dos desafios sucessivos a ele
parte, por suas próprias descober- apresentados pelas novas leis da
tas telescópicas e em defesa das de term odinâm ica, da relatividade e
Copérnico. Desde aquele tempo, da teoria quântica.
as descobertas e teorias da ciência Finalmente, deve-se observar
têm, não raramente, conduzido que a teologia do processo*, de
a um a revisão das interpretações Whitehead, Hartshorne e outros,
tradicionais das Escrituras. Isso surgiu, pelo menos assim parecen-
inclui antigas ideias sobre a idade do ostensivamente, da preocupação
da Terra, a estrutura do universo, em entender o relacionamento de
a extensão do dilúvio de Noé e as Deus com o mundo natural confor-
origens das espécies biológicas, me é estudado pela ciência.
inclusive do ser humano. Poucos
comentadores bíblicos discordam 3. Influência da teologia
quando tal revisão acontece em sobre a ciência
relação à cosmologia, mas a aplica- As origens e o crescimento da ciência
ção de semelhante metodologia à podem ser considerados de forma
questão da origem humana é ainda útil em termos de um a resposta à
controversa. visão bíblica liberada na Reforma e
É importante não tornar implí- a partir desta (Hooykaas, Russell).
cito que exista um a função ímpar Essa resposta pode ser vista nos
para a ciência de reinterpretação escritos de muitos homens da ci-
das Escrituras, mas esta também ência e na similaridade morfológica
não pode ser negligenciada. Uma entre teorias científicas e religiosas.
CIÊN CIA E TEO LO G IA 194

Cinco aspectos podem ser, no caso, divino; mas isso floresceria mais
identificados: fortemente no século XVII. Assim,
1. A eliminação do mito* na natu- Kepler (1571-1630), ao estudar
reza: uma natureza dotada de ânimo os céus, que declaram a glória de
próprio ou, assim, “divina” não é Deus (SI 8, 19, 50), declarou estar
suscetível à pesquisa científica nem “pensando os pensamentos de Deus
compatível com as injunções bíblicas de acordo com ele” . Isso foi, por si
que, ao contrário, tratam a natureza mesmo, motivo poderoso para a
como criação dependente de Deus exploração científica da natureza.
(SI 29, 89, 104, 137, etc.), o único Como a ciência pode ser vista,
que deve ser adorado (Dt 26.11; Is sem exagero, como historicamente
44.24; Jr 7.18, etc.). A substituição dependente, dado seu surgimento
de um universo orgâmico por um da teologia cristã, então, em uma
mecânico (“demitização” da pró- época em que isso parece ter sido
pria natureza) coincidiu com uma basicamente esquecido, a teologia
consciência de reserva renovada em bíblica tem contribuição até mais
relação tal ensino. importante a fazer. É na área de
2. As leis da natureza: sua emer- direção ética. Para tal impacto, é
gência, no século XVII, foi conside- crucial haver uma renovação no
rada por Zilsel (Physical Review [Re- conceito bíblico de mordomia*, que
visão deflsica[ 51, 1942, p. 245-279) deve ser visto como uma saída para
como um derivativo das doutrinas os dilemas presentes em questões
bíblicas, citando, entre outras pas- preocupantes que vão desde a po-
sagens, Jó 28.26 e Provérbios '8.29. luição da biosfera até um possível
Escritores posteriores (Whitehead, holocausto nuclear. Pois tudo isso
Oakley, etc.) fortaleceram essa tese. resulta de tecnologia disponibilizada
3. O m étodo experimental: tanto pela ciência. Além disso, muitos dos
no puritanism o* inglês quanto no aspectos da ciência moderna têm
calvinism o* europeu, o questiona- sido vistos como meios de erodir a
mento da natureza foi fortemente dignidade e o valor humanos, desde
encorajado como alternativa ao extrapolações da ciência biológica
raciocínio abstrato das culturas até a chamada “sociobiologia”, ou
pagãs antigas. Foi visto, então, em um reducionismo ingênuo, que,
com o plenam ente com patível com à maneira dos atomistas gregos,
a ordenança bíblica de se “testar” considera todos os fenômenos em
todas as coisas (lT s 5.21; Rm termos puramente materiais. Para
12.2; SI 34.8; etc.). uma cosmovisão que se intitula
4. O controle da terra: Bacon e “científica”, tão esvaziada de con-
seus seguidores viam presente nas forto e esperança, a teologia certa-
Escrituras (Gn 1.26; SI 8.6-8, etc.) mente muito tem a dizer.
um nítido mandamento para que o Ver também M a c k a y , D o n a l d M .;
mundo natural fosse alterado em P o l a n i, M ic h a e l ; T e o l o g ia d a N ature-
beneficio do homem. za; T orrance, T hom as F.
5. Para a glória de Deus: até
os escritores patrísticos já acre- Bibliografia
ditavam que a pesquisa científica G. Barbour, Issues in Science
pudesse adicionar brilho ao nome and R e lig io n (London, 1966); J.
195 CIPRIANO

Dillenberger, Protestant Thought que tinham vindo à tona durante a


and Natural Science (London, controvérsia sobre o assunto.
1961); R. Bube, The Human Quest Seus escritos são menos vo-
(Waco, TX, 1971); R. Hooykaas, lumosos que os de Agostinho* e
Christian Faith and the Freedom o f menos variados que os de Tertúlia-
Science (London, 1957); idem, Reli- no*, mas constituem fonte impor-
gion and the Rise o f M odem Science tante para melhor conhecimento
(Edinburgh, 21973); M. A. Jeeves daquele período e de seus proble-
(ed.), The Scientific Enterprise and mas. A im portância duradoura
Christian Faith (London, 1969); D. de Cipriano para a teologia reside
M. MacKay, The Clock-work Image: em sua visão “elevada” da igreja*,
A Christian Perspective on Science que desenvolveu para se opor às
(London, 1974); idem, Human tendências cismáticas latentes no
Science and Human Dignity (Lon- norte da África. Ele sustentava
don, 1979); H. Montefiore (ed.), um a teoria avançada da sucessão
Man and Nature (London, 1975); apostólica e insistia na exigência
A. R. Peacocke, Creation and the de respeito aos seus direitos como
World o f Science (Oxford, 1979); A. bispo, não cedendo sua autoridade
Richardson, The Bible in the Age nem mesmo ao bispo de Roma (ver
o f Science (London, 1964); C. A. Governo da igreja*; Ministério*).
Russell, Crosscurrents: Interactions Mostrou determinação também
between Science and Faith (Leices- em insistir que fora da igreja não
ter, 1985). há salvação (extra ecclesiam nulla
C.A.R . salus), tendo presidido o Concilio
de Cartago (256), que decretou
CIENTOLOGIA. ver S e it a s . expressamente serem inválidos os
batismos* cismáticos e heréticos
CIPRIANO (c. 200-258). Pai da (ver Rebatismo*). Essa decisão foi
igreja latina, bispo de Cartago de repudiada pela sé de Roma, e não
cerca de 249 até sua morte, Cipria- é sustentada hoje, mas foi típica
no foi um pagão que se converteu da perspectiva rigorosa da igreja
ao cristianismo na meia-idade e do norte da África. Cipriano foi
rapidamente ascendeu à posição destacado defensor do batismo in-
episcopal. Teve uma boa formação fantil, cuja necessidade ele ligava
educacional e era ótimo orador, ca- ao pecado original, assim como à
paz de unir e inspirar a igreja, que aplicação dos termos “sacerdotal” e
passava, naquela época, por severa “sacrificial” em relação ao ministé-
perseguição. No ano de 250, ele rio e aos sacramentos da igreja‫״‬.
mesmo teve de se refugiar em local Ironicamente, ele poderia ter
seguro por causa de perseguição. sido levado ao cisma com Roma não
Isso o deixou mal preparado, então, fora pela deflagração de nova per-
para lidar com o rigorismo na igreja, seguição à igreja, que visava aca-
que passou a exigir que nenhuma bar com sua vida e provavelmente
concessão fosse feita aos apósta- com a do bispo de Roma também.
tas. Cipriano discordou, passando Após a morte, Cipriano se tornou
a se voltar então para questões o santo católico padroeiro da igreja
subjacentes de ordem da igreja, do norte da África e a autoridade
CIRILO DE ALEXANDRIA 196 *

a quem os posteriores rigoristas e tanciais: Tese sobre a Santíssima e


cismáticos, notadamente os dona- Consubstanciai Trindade, Diálogos
tistas*, viriam a apelar. sobre a Santíssima e Consubstanciai
Trindade e Cinco livros de negação
Bibliografia contra as blasfêmias de Nestório.
P. Hinchliff, Cyprian o f Carthage Nesta última, ele argumenta a favor
(London, 1974); G. S. M. Walker, da existência de união verdadeira e
The Churchmanship o f St Cyprian pessoal (kath’hypostasin) do divino
(London, 1968). Logos/ Filho com a carne nascida de
G.L.B. Maria em oposição à cristologia de
Nestório, que se baseava na conjun-
CIRILO DE ALEXANDRIA (375- ção entre o Logos divino e o homem
444). Nascido e criado em Alexan- nascido de Maria. Cirilo também ar-
dria, Cirilo sucedeu, em 412, seu gumenta a favor de dois nascimen-
tio Teófilo (385-412) como bispo tos de um único e mesmo Filho: um
daquela cidade. O início de sua nascimento divino, na eternidade, e
atividade nesse cargo, até 428, um humano, temporal, enquanto o
foi voltado mais à exposição das argumento de Nestório implica dois
Escrituras e refutação dos hereges filhos, um divino e um humano, que
e incrédulos. O segundo período se conjugam em Cristo.
do seu episcopado, até 433, foi o Cirilo escreveu muitas homílias,
mais intenso e frutífero, marcado e cerca de setenta de suas cartas
por sua oposição a Nestório*. Sua ainda existem. Algumas dessas
posição, fortalecida pela aliança exerceram papel central no conflito
com a Igreja de Roma, levou à con- com Nestório (ver T. H. Bindley, rev.
vocação do Concilio de Éfeso (431), de F. W. Green, The Oecumenical
que condenou Nestório. O último Documents o f the Faith [Os docu-
período da vida de Cirilo, 433-444, mentos ecumênicos da fé], London,
foi razoavelmente pacífico, embora 1950, e L. R. Wickham, Cyril o f
tivesse de defender sua doutrina Alexandria: Select Letters [Cirilo de
junto aos críticos, tanto da Escola Alexandria: cartas selecionadas],
de Alexandria* quanto da Escola Oxford, 1983).
de Antioquia*. Cirilo foi um dos mais destacados
Foi um autor prolífico, escreven- teólogos da igreja primitiva, reco-
do em grego ático, e possuía grande nhecido por seus contemporâneos
conhecimento dos clássicos, das e sucessores, tanto no Oriente (mo-
Escrituras e dos pais, especialmente nofisistas ortodoxos calcedônios e
de Atanásio* e dos capadócios. Seus anticalcedônios*) como no Ocidente
muitos comentários demonstram (católicos-romanos e protestantes).
sua instrução bíblica. Empregou os Foi o primeiro pai da igreja a esta-
métodos tipológico e histórico de in- belecer firmemente o argumento
terpretação, que são os que mais cia- patrístico*, baseado nos primeiros
ramente se revelam em seus escritos pais da igreja, para o entendimento
Adoração em espírito e em verdade correto da pregação apostólica e do
e Glafira sobre o Pentateuco. Suas evangelho de Cristo.
obras dogmáticas anti-heréticas são Seguindo Atanásio e os capadó-
numerosas, sendo as mais subs- cios, Cirilo aceitou o homoousios
m 197 CIRILO DE ALEXAN D RIA

de Niceia, as três hypostaseis*, do (procedente de) duas naturezas” .


Pai, do Filho e do Espírito Santo, Não é certo, portanto, afirmar-se
assim como a unidade da divina que haja mudado o seu pensamen-
ousia (ver Substância*) das três to em cristologia do ponto de vista
hypostaseis, expressa em sua monofisista para diofisista. Ele tem
vontade e atividade comum. Se sido acusado injustamente de apo-
não é tão original no conteúdo de linarismo*, tanto quanto o foi por
sua triadologia, Cirilo o é em sua seus oponentes nestorianos, pelos
apresentação, não estando tanto atuais estudiosos da patrística, de-
interessado na Trindade “essencial” sejosos de enfatizar a humanidade
quanto na “econôm ica” , por causa (ou, especificamente, a psicologia)
do interesse soteriológico que her- de Cristo quase que independen-
dou de Atanásio. No que concerne temente do Logos/ Filho de Deus.
à Trindade essencial, enfatiza tan- Igualmente injusta, no entanto,
to a coerência das três hypostaseis é a acusação moderna de que a
ou pessoas quanto a primazia do cristologia de Cirilo seja somente
Pai, de quem o Filho é nascido e de uma cristologia dita de “procedên-
quem o Espírito procede. Mas fala cia do alto”. A doutrina dos dois
a respeito da processão do Espírito nascimentos de Cristo não significa
tanto do Pai quanto do Filho; não, também uma opção excludente
todavia, com referência à hypos- entre um esquema de “procedência
tasis do Espírito, mas, sim, com de baixo” e um de “procedência do
referência à essência comum do alto”, mas, sim, coloca-os conjunta-
Espírito Santo com o Pai e o Filho. mente no mistério de Emanuel, em
A cristologia* é chave da teologia sua kenosis*, sua economia, sua
de Cirilo, sendo o tópico para o qual união hipostática de duas nature-
sua contribuição se tom ou mais zas, sua comunicação de atributos
decisiva para a igreja primitiva e as (propriedades) e, acima de tudo, em
gerações subsequentes. Sua termi- sua mãe virgem, verdadeiramente
nologia inicialmente apresentava theotokos (ver Maria*).
certos problemas por ser flexível Cirilo entende a salvação* em
e parecer um tanto equívoca, mas termos tanto de participação como
seu pensamento era bastante ní- de imitação da natureza humana em
tido, tendo ajudado a esclarecer relação à natureza divina, objetiva-
e, depois, a solucionar problemas mente em Cristo e subjetivamente
relativos a formulações lingüísticas. apropriada pelos seres humanos
Ele seguiu o princípio de Atanásio por meio do Espírito Santo, que age
de que as disputas teológicas não nos sacramentos e por meio deles
eram a respeito de termos, mas a (no que se refere à sua doutrina
respeito do significado neles conti- eucarística, ver Ezra Gebreme-
do. Esse é o motivo pelo qual Cirilo dhin, Life-Giving Blessing [Benção
pode usar o termo physis (natureza) doadora de vida], Uppsala, 1977).
como referente tanto a hypostasis, O aspecto objetivo da salvação em
ou pessoa, quanto a ousia e, assim, Cristo é particularmente enfatizado
falar tanto de uma “natureza de em sua doutrina da justificação
Deus o Verbo encarnado” quanto de pela graça, desenvolvida de modo
um a “pessoa de Deus o Verbo em m agistral em sua interpretação
CISMA 198

evangélica da lei em Adoração em na igreja. Nos prim eiros séculos,


espírito e em verdade. não havia distinção clara entre o
O legado teológico de Cirilo tem cisma, a ofensa contra a unidade
influenciado todos os contextos e o amor, e a heresia*, ou o erro
cristãos, seja no Oriente seja no em doutrina. Acreditava-se que
Ocidente. Uma reavaliação positiva os hereges estivessem fora da
contemporânea de seu legado se igreja, na realidade, ou tendentes
mostraria especialmente benéfica a sair (i.e., cism ãticos) e vice-
para o presente diálogo ecumênico, versa. Um esclarecim ento m elhor
um a vez que afirma as percepções resultou da reação a m ovim entos
básicas dogmáticas do cristianismo divisionista com o novacianism o*
clássico. e donatism o*, reconhecidos como
ortodoxos na fé e dissidentes so-
Bibliografia mente em questões de disciplina
Obras, listadas em CPGIII, n—5200- ou ordem. Enquanto Cipriano*
5438, e, com literatura secundária, considerava a separação da igreja
em J. Quasten, Patrology, vol. 3 institu cional com o m orte espiritu-
(Utrecht, 1960), p. 116-142. al, e, os sacram entos* m inistrados
Estudos recentes selecionados: no cism a com o inválidos, a teolo-
A. M. Bermejo, The Indwelling o f the gia posterior — especialm ente na
Holy Spirit according to St Cyril o f Ale- con trovérsia de Agostinho* com o
xandria (Ona, Spain, 1963); ensaios donatism o — aceitou a realidade,
sobre a cristologia de Cirilo por J. se não o próprio benefício, dos
N. Karmiris, J. S. Romanides, V. C. sacram entos cism ãticos. A teolo-
Samuel, em Does Chalcedon Divide gia católica-rom ana tradicional,
or Unite? (Geneva, 1981); C. Drat- até recentem ente, tratava alguns
sellas, “Questions of the Soteriolo- dos segm entos separados da
gical Teaching o f the Greek Fathers com unhão com o papado (e.g., a
with Special Reference to St Cyril of igreja oriental, a partir de 1054, e
Alexandria” (dissertação, Edinbur- as igrejas da Reform a, incluindo
gh, 1967), in Theologia 38 (1967), a anglicana*) com o estando fora
p. 579-608, 39 (1968), p. 192-230, da igreja de Cristo; mas a m aior
394-424, 621-643; A. Grillmeier, parte da teologia protestante e
Christ in Christian Tradition, vol. ecum ênica vê a “igreja u n a” , a
1 (London, 21975); F. J. Houdek, dos credos, com o internam ente
Contemplation in the Life and Works em cisma. A reunião, assim, não
o f St Cyril o f Alexandria (dissertação exigiria a reintegração à igreja
não publicada, University o f Califor- dos cism as ditos não eclesiásti-
nia, Los Angeles, 1979); A. Kerrigan, cos, mas, sim, a reconciliação das
Cyril o f Alexandria, Interpreter o f the igrejas um as com as outras.
Old Testament (Rome, 1952); T. F.
Torrance, Theology in Reconciliation Bibliografia
(London, 1975). G. C. Berkouwer, The Church
G.D.D. (Grand Rapids, MI, 1976); S. L.
Greenslade, Schism in the Early
CISMA. Do grego schisma, divi- Church (London, 21964).
são (cf. IC o 1.10), ou ruptura, D.F.W.
199 CLEM EN TE DE ALEXANDRIA

CLEMENTE DE ALEXANDRIA (c. distinção entre Pai, Filho (Logos*) e


150-c. 215). Filósofo cristão, pro- Espírito Santo e afirmando a eter-
vavelmente nascido em Atenas, nidade da existência do Filho, sem
Clemente sucedeu seu mestre, Pan- chegar, contudo, a um a clara defi-
teno, como dirigente de um a escola nição da natureza da Trindade*.
cristã (catequética?) em Alexandria, Afirm a que antes da encarnação
algum tempo após 180. Por volta de 0 conhecimento de Deus fora dado
202, ele deixava essa cidade. aos judeus mediante a lei, e aos
Além de fragmentos de seus gregos, por meio da filosofia, inspi-
escritos, preservados por vários rada pelo Logos, i.e., por Cristo. O
autores, suas obras conhecidas Logos encarnou para nos transmi-
existentes consistem em: Protrep- tir conhecimento e servir de nosso
ticus [Exortação aos gregos[, uma modelo. Clemente usa a linguagem
obra culta de apologética cristã; da expiação* e do triunfo sobre o
Paedagogus [O tutor], guia detalha- mal* com respeito a Cristo, mas
do para a vida e a conduta cristãs; sua ênfase principal reside no
Stromateis ]Miscelânea], rica varie- Cristo como mestre. Embora a fé,
dade de notas e esboços sobre uma entendida como aceitação do ensi-
ampla diversidade de tópicos, e no de Cristo, seja suficiente para
Quis Dives Salvetur? [Que rico pode a salvação, o crente “verdadeiro
ser salvo?], extenso sermão sobre gnóstico” caminha, além da fé,
o episódio do jovem rico registrado para o conhecimento, ou seja, o
em Marcos 10.17-31. entendimento pleno do ensino de
Seu pensamento se mantém, Cristo, combinado com um modo
sob muitos aspectos, na mesma de vida exemplar (correspondente,
linha dos apologistas* gregos, con- bem próximo, dos ideais platôni-
trastando, no entanto, com o dos cos* e estóicos*). Esse conheci-
escritores ocidentais contemporâ- mento conduz ao amor perfeito e
neos quanto à avaliação positiva da a um relacionamento místico* com
filosofia grega, sua tendência é pela Deus, plenamente consumado só
especulação e deliberada ausência após a morte, quando o crente se
de um sistema. Tendo sido Alexan- torna (como) Deus.
dria reduto da alegoria filônica* (ver A obtenção da salvação se rela-
Hermenêutica*) e de vários tipos de ciona com a igreja, da qual alguém
gnosticismo*, torna-se significativo se torna membro mediante o batis-
observar o uso que faz Clemente mo. Em seus argumentos contra
da alegoria (embora não de forma os hereges, Clemente enfatiza a
sistematizada, como Orígenes*) em antiguidade e a unidade da igreja
sua definição do cristão perfeito como católica, a tradição transmi-
como “verdadeiro gnóstico” . tida oralmente na igreja desde os
Muito embora opondo-se vigoro- apóstolos e a importância de se
samente ao gnosticismo, Clemente interpretar as Escrituras (o que
reteve elementos docéticos* em para ele incluía mais do que o atu-
sua cristologia* ao negar emoções al cânon) de acordo com a “regra
e funções corpóreas ao homem da igreja” .
Jesus. Usa; com frequência, a Clemente afirma fortemente a
fórmula trinitariana, enfatizando a e x istên cia do liv re-a rb ítrio * e a
CO CCEIU S 200 »

n ecessidade de o hom em cooperar determinante para a compreensão


com Deus aceitando a salvação; da natureza da igreja*, que não a
e concebe e expressa a possibili- que se encontra no NT. Seu uso
dade de arrependim ento m esm o constante, com um significado
após a morte. um tanto fluido, com prova a pre-
valência da noção de igreja como
Bibliografia “m istério” sobre abordagens mais
Obras em TI, em ANCL e ANF; institucionais ou sociais dela. Um
seleções em: G. W. Butterworth conceito de alguma forma com-
(ed.), Clement o f Alexandria (LCL, parável à coinonia, na ortodoxia
London, 1919) e H. Chadwick 86 oriental, é o de sobomost*.
J. E. L. Oulton (eds.), Alexandrian
Christianity (LCC, London, 1954); Bibliografia
H. Chadwick, Early Christian B. C. Butler, The Church and Unity
Thought and the Classical Tradi- (London, 1979); A. Dulles, Models
tion (Oxford, 1966); S. R. C. Lilia, o f the Church (Garden City, NY,
Clement o f Alexandria: A Study o f 1974).
Christian Platonism and Gnosticism D .F.W .
(Oxford, 1971); E. F. Osborn, The
Philosophy o f Clement o f Alexandria CO LEG IA LID A D E E CONCILIARI-
(Cambridge, 1975). DADE. Esses dois conceitos dizem
T.G .D . respeito, principalmente, ao gover-
no* ou ministério* da igreja.
COCCEIUS, v e r Pacto . A Constituição do Concilio Vati-
cano II sobre a igreja (Lumen Gen-
COINONIA. Essa transliteração do tium) refere-se ao colégio de bispos
termo grego do NT frequentemente como sucessor do colégio de após-
traduzido por “comunhão”* é de tolos (11:22-23). Trata-se de uma
uso comum na teologia ecumênica*, tentativa de reparar o desequilí-
particularmente em debates envoi- brio resultante da concentração
vendo católicos-romanos e anglica- exclusiva da primazia do bispo de
nos. É apresentada como conceito Roma desde o Concilio Vaticano I.
chave nas Declarações do Acordo da A aplicação do conceito de colegia-
Comissão Internacional Anglicana- lidade não resolve o problema, da
Católica-Romana sobre eucaristia, Igreja de Roma, da relação entre o
ministério e ordenação e autoridade papado* e o episcopado no governo
na igreja (The Final Report [O relato- eclesiástico, mas tem encorajado
rio final], London, 1982). Seu signi- a realização de conferências epis-
ficado é próximo ao de “comunhão”, copais regionais (praticamente,
ou seja, uma relação entre cristãos sínodos) e promovido mais, de
individualmente ou entre comuni- modo geral, um estilo e um espírito
dades cristãs resultante de sua par- cooperativo e colegiado na vida da
ticipação comum em uma mesma e Igreja Católica-Romana.
única realidade. “A coinonia de um O relatório de Fé e Ordem,
com o outro está vinculada à nos- Batismo, Eucaristia e Ministério
sa coinonia com Deus em Cristo.” (Genebra, 1982), estabelece o ideal
Tem-se tornando, assim, o padrão de um a dimensão de ministério
B 201 C O LER ID G E, SAM UEL TAYLOR

colegiado, bem como individual e com paração com os conceitos de


comunal, em todo nível geográfico. sobom ost* e coinonia.
Esse padrão encontra expressão
clara, no presbiterianismo*, no Bibliografia
corpo de presbíteros (incluindo Faith and Order: Louvain 1971 (Ge-
quaisquer presbíteros ordenados) neva, 1971); L. Vischer, “After the
em nível congregacional e em ní- Debate on Collegiality” , Ecumenical
veis mais amplos no presbitério, no Review 37 (1985), p. 306-319.
sínodo e na assembleia geral. D .F.W .
Nas tradições rom ana e orto-
doxa, os concílios se com põem só COLERIDGE, SAM UEL TAYLOR
de bispos, de form a que a colegia- (1772-1834), um dos mais impor-
lidade e a conciliaridade inevita- tantes pioneiros a surgir no cenário
velm ente se sobrepõem. Mas na teológico inglês durante o século
m edida em que a conciliaridade XIX. É muito provável que seja o
seja aplicável a outras igrejas, a criador do termo “existencialism o” ,
tom ada de decisão nos sínodos, além de também ter conquistado
nas assem bleias ou nas conferên- o título de “prim eiro” teólogo de
cias envolve norm alm ente o laicato percepção sensorial aguçada” . O
e ministros ordenados, talvez de impacto de sua obra permeou todo
diferentes ordens. A “com unhão o espectro religioso inglês durante
conciliar” tem -se destacado nos o último século. Entre os que foram
círculos do Concilio M undial de influenciados por ele estão figuras
Igrejas, especialm ente desde a importantes como J. S. Mill (1806-
Assem bleia de Nairobi (1975), 73), Thomas Carlyle (1795-1881),
como modo de descrever o alvo de J. C. Hare (1795-1855), J. H. New-
unidade de toda a igreja. Refere- man*, Thomas Arnold (1795-1842),
se a um a unidade entre as igrejas James Martineau (1805-1900),
que seja publicam ente m anifesta Rowland Williams (1817-70), F. D.
quando seus representantes se Maurice (1805-72; veja socialismo
reúnem para um concilio cujas cristão*) e F. A. Hort (1828-92).
decisões sejam norm ativas para Em 1795, Coleridge casou-se
todas as igrejas participantes. Tal com Sara Fricker, mas eles logo
conciliaridade perm itiria a manu- sentiram que eram incompatíveis.
tenção de certa diversidade entre No fim, eles concordaram em se
as igrejas. A palavra “conciliar” separar. Ele, enquanto sofria o
é usada também para ressaltar tormento da tensão doméstica, tor-
um a qualidade de vida nas igrejas nou-se dependente do ópio. Por vol-
locais — a de integrar e coorde- ta da mesm a época, ele fez amizade
nar, em vez de excluir, os dons de com os Wordsworths e emergiu de
m embros individuais. seu fascínio pelo determinismo*,
A conciliaridade constitui, as- que o cativara na Universidade de
sim, um ideal mais abrangente do Cambridge.
que o da colegialidade, em bora as O ópio introduziu Coleridge em
aplicações mais genéricas de am- um amplo domínio espiritual desco-
bas estejam bem próxim as um as nhecido. A atração da experiência de
das outras. Am bas levam a um a uma nova dim ensão de existência
COM PACTUANTES 202

foi intensificada pela sensação tivas da com preensão de enunciar


de libertação das limitações de as verdades da realidade sejam
tempo e espaço. Às vezes, a razão incom pletas e errôneas. A histó-
conseguia desfrutar livremente da ria, a teologia, a ciência natural e
com preensão de seu potencial em a hum ana pertencem ao campo da
perceber a verdade espiritual. Ele compreensão.
considerava que essas descobertas Ele defendia que a Bíblia, como
eram revolucionárias. “Precisamos documento histórico expressando
nos perguntar” , inquiriu ele, “as “ideias” ou verdades em termos
opiniões de Platão concernentes do homem, contém muito material
ao corpo, pelo menos, precisamos ineficaz e errôneo. Os que apoiam a
que o homem se pergunte a quem “doutrina da inspiração (com isso,
um a coisa perniciosa torna capaz ele quer dizer ditado) da Escritura*
de conceber e expressar pensa- são rotulados de mentirosos orto-
mentos, antes, escondidos em seu doxos por Deus” . Discernimos a
interior [...] isso não quer dizer verdade contida na Escritura em
que, por um momento ilusório, o virtude do fato de que “todo aquele
temível veneno tornou o corpo [...] que me encontra testemunha por
um instrumento mais apropriado si mesmo que ela procede do Espí-
para todo o poder da alm a?” rito Santo”.
A natureza de sua experiência Coleridge, de diferentes manei-
religiosa*, levou-o a insistir: “Toda ras, apelou para teólogos e influen-
revelação é ab intra [do interior]” . ciou teólogos partidários de todos
A teologia intelectualmente árida os pontos de vista. Muitas das
e judicial dos apologistas do sé- questões que ele levantou continu-
culo XVIII foi um desserviço para am a inquietar até hoje.
a verdadeira religião. “Evidências
de cristianism o” , objeta ele, “es- Bibliografia
tou cansado do mundo. Faça um Obras: ed. W. G. Shedd, 7 vols.
homem sentir seu trabalho e você Nova York, 1953, em especial:
pode seguramente confiar nisso A id s to Reflection, 1825; On the
para suas próprias evidências.” C onstitution o f Church and State,
Coleridge, para proteger a reli- 1820; Confessions o f a Inquiring
gião do ataque de céticos, adota a Spirit, 1840.
diferenciação de Kant entre razão Estudos: J. R. Barth. Coleridge
e com preensão e adapta esses and Christian Doctrine. (Cambrid-
conceitos para que se ajustem aos ge, MA, 1969); T. McFarland, Co-
seus próprios propósitos. Ele in- leridge and the Pantheist Tradition.
siste, em particular, que a razão se (Oxford, 1969); B. Willey, Samuel
esforça em “contem plar” a verdade Taylor Coleridge. (Londres, 1972).
e “é a fonte e a substância de ver- J. Η. E.
dades que ultrapassam o sentido” .
A com preensão não tem jurisdição COMPACTUANTES. Assim ficaram
sobre o conhecim ento acim a do vi- conhecidos (em inglês, “covenan-
sível. Ela não pode com preender a ters”) os presbiterianos escoceses
essência da verdadeira religião. É que a partir de 1638 resistiram
inevitável que as hesitantes tenta­ às tentativas dos monarcas da
|1 203 COM PACTUANTES

fam ília Stuart de im por e m anter um a vez, como único cabeça da


um sistem a episcopal de governo* igreja. Os bispos escoceses foram
na Igreja da Escócia. Já anterior- depostos, a legislação eclesiástica
mente intranquilo com o epis- ofensiva foi condenada e a Corte de
copado modificado, estabelecido Alta Comissão, abolida. O rei, que
sob Jaim e VI (m. 1625), o país se envolvera na m esm a disputa
ficou cada vez mais preocupado com o Parlamento inglês, perdeu
quando Carlos I não só fez amis- a batalha de Newburn contra as
tosas concordâncias com Roma, forças dos compactuantes, sendo
mas tam bém impôs sobre a Igreja forçado a fazer concessão às exi-
da Escócia um Livro de Cânones gências escocesas. A Assem bleia
(1636) e um a liturgia (1637) sem de Glasgow recebeu validade legal,
o endosso da Assem bleia Geral e a Igreja da Escócia, por via das
da Igreja ou do Parlamento. Esses dúvidas, pediu ao Conselho de
docum entos exigiam o reconhe- Estado que requeresse a todos os
cim ento explícito da suprem acia escoceses que assinassem o pacto.
real, transferiam plenos poderes Desse modo, os líderes compactu-
aos bispos e am eaçavam de exco- antes tomaram para si mesmos o
munhão aqueles que rejeitassem o poder que haviam negado à coroa.
episcopado. Todavia, mais culpa coube ao rei,
Tendo o rei ignorado seus pro- que obtusamente acabara trans-
testos, os líderes presbiterianos formando um protesto contra o
escoceses elaboraram uma união episcopado em um a rebelião contra
associativa conhecida como Pacto si mesmo.
Nacional (1638). Além de reiterar a Essencial para o posicionamen-
confissão de 1581, condenando os to desse pacto foi, sem dúvida, a
erros católicos-romanos, inclusive firme oposição da Igreja Reformada
“leis tirânicas, feitas [...] contra da Escócia a dois princípios: a au-
nossa liberdade cristã” , o pacto toridade do poder civil em assun-
detalhava os atos do Parlamento tos espirituais e a superioridade
que tinham estabelecido a fé re- de prelazia de um ministro sobre
formada e o governo eclesial, com- os outros. Entre os primeiros subs-
prometendo-se os “com patuantes” , critores do pacto, que guiaram a
ou seja, os subscritores do pacto, Igreja da Escócia em seu retorno ao
a defender a fé presbiteriana e “a presbiterianismo, encontravam-se
majestade do rei [...] na preserva- Alexander Henderson (1583-1646),
ção da verdadeira religião, acima George Gillespie (1613-1649) e
m encionada” . Samuel Rutherford*, todos com
O rei usou de evasivas e sub- destacada participação na Assem-
terfúgios, mas o arcebispo Laud bleia de Westminster. Henderson,
(1573-1645) mostrou-se irredutí- além disso, foi o principal for-
vel. Assim, uma Assem bleia Geral mulador da Liga e Pacto Solenes,
da Igreja da Escócia se reuniu em aliança de cunho religioso entre os
Glasgow, acabando por rejeitar escoceses e o partido parlamentar
essas tendências estatistas (ver inglês, embora os primeiros hajam
Estado*) e as pretensões da re- forçado especialmente o último por
aleza, proclamando Cristo, mais interesse político.
COMMUNICATIO IDIOMATUM 204 S

Logo após a Restauração de substantivo, de adjetivo ou de ver-


1660, o então rei Carlos II faria com bo), tal como é o caso das diversas
que dois importantes subscritores palavras traduzidas nas diferentes
do pacto fossem executados: o mar- versões do NT por “comunhão”, “con-
quês de Argyle e Jam es Guthrie, fratemização”, “comunicação”, “con-
ministro de Stirling. O episcopado tribuição”, contêm sempre a ideia de
foi imposto novamente sobre o país “compartilhar em”, ou “participar
e o governo da igreja assumido de”, ou de “conceder a participação
pela coroa real. Os ministros subs- ou o compartilhamento em”.
critores do pacto foram exonerados Toda uma série de usos de pa-
de suas paróquias, sendo seu pro- lavras adjetivadas, em contextos
cesso apoiado por um a corte disso- diferentes do NT (Mt 23.30; Lc 5.10:
luta, um conselho governamental Rm 1.5; 11.17; 1C09.23; 10.18;2Co
escocês de nobres libertinos e um 1.7; Fp 1.7; E f 3.2,8; lP e 5.1; 2Pe
comando militar que desenvolvia 1.4; Ap 1.9) comprova a acepção de
um a política de repressão selva- “compartilhar em ”. Isso serve para
gem. Conhecido, mais tarde, como dissipar qualquer dúvida quanto à
“tempo de m atar” , a perseguição interpretação da palavra koinonia,
aos compactuantes continuou até da qual seriam possíveis traduções
a fuga de Jaim e VII, em 1688, e significados alternativos, como,
tendo então a declaração revolu- por exemplo, em ICorintios 1.9, em
cionária restaurado os rebeldes e que a frase: “Os chamou à comu-
restabelecido o presbiterianismo. nhão com seu Filho Jesus Cristo,
As igrejas reformadas presbi- nosso Senhor” poderia ser entendi-
terianas mantêm até hoje um a da como se referindo à vocação dos
sucessão de compactuantes, em coríntios para integrar a família de
ambos os lados do Atlântico. Deus, mas que, na verdade, signifi-
ca o chamado deles por Deus para
Bibliografia compartilhar da comunhão com seu
J. D. Douglas, Light in the North: Filho Jesus. Esse é o mesmo signifi-
The Story o f the Scottish Covenan- cado que se encontra em passagens
ters (Exeter, 1964); J. K. Hewison, como ICorintios 10.16; 2Coríntios
The Covenanters, 2 vols. (Glasgow, 8.4; 13.14; Filipenses 2.1; 3.10, es-
21913); A. Smillie, Men o f the Cove- tendendo-se às citações em U o ã o
nant (1908; reimp. London, 1975); 1.3,6,7, nas quais, diz Brooke, em
E. Whitley, The Two Kingdoms seu ICC Commentary [ Comentário
(Edinburgh, 1977). ICC\, a palavra “é sempre usada
J.D.Do. com respeito a um a participação
ativa em que o resultado depende
COMMUNICATIO IDIOMATUM , ver não só da cooperação do recebedor
C r is t o l o g ia . mas também da ação do doador” .
Fora do NT, koinonia [coinonia] é
COMUNHÃO. Pesquisa lingüística usada, igualmente, para significar
feita por H. Seesemann, A. Raymond amizade, parceria ou até casa-
George e outros confirma que o sig- mento, ou ainda, para os gregos,
nificado das palavras derivadas da compartilhar com os deuses uma
raiz grega koin (seja sob a forma de refeição em comum.
ü 205 CO M UN HÃO DOS SANTOS

O segundo significado da pala- Ver t a m b é m C o in o n ia .


vra, o de “conceder a participação
ou o compartilhamento em”, se Bibliografia
encontra em Romanos 12.13; 2Co- A. R. George, Communion with God
ríntios 9.13; Gálatas 6.6; Filipenses in the New Testament (London,
4.14,15; ITim óteo 6.18; Filemon 6. 1953); R. P. Martin, “Communion” ,
Esse significado é uma necessá- in NBD; H. Sessemann, D er Begri-
ria implicação lógica do anterior. f f Koinonia im Neuen Testament
Compartilhar ou participar das (Giessen, 1933).
bênçãos da graça inevitavelmente J .P .
conduz ao desejo e à determinação
de “con tin u a r” com partilh an do COMUNHÃO DOS SANTOS. Termo
essas bênçãos com outros (cf. a teológico, significando a “confra-
conexão lógica entre SI 68.18, “ re- ternidade dos crentes” , conforme é
cebeste homens como dádivas”, e encontrado nos credos* clássicos.
o uso paulino dessa passagem em O termo foi ali inserido para ex-
E f 4.8, “deu dons aos hom ens’). pressar a crença de que os vivos e
Isso expressa-se de modos diver- os mortos acham-se unidos no cor-
sos, como as referências acima po de um a única igreja*; mas logo
mostram, podendo koinonia tomar recebeu vários outros significados,
“um a forma concreta, como a de de acordo com as definições de
uma generosidade que se reveste “com unhão” e “santo” .
de ação prática, aplicando-se assim Na teologia medieval, tanto do
à coleta de ajuda para os crentes Oriente como do Ocidente, santo*
da igreja de Jerusalém, acometidos era cham ado aquele cujo nome
por inesperada condição de pobre- estivesse registrado na Bíblia
za” (R. P. Martin). como crente em Cristo, um m ártir
À luz do que foi dito acima, não ou um cristão cuja vida terrena
há dúvida de que o uso da palavra revelasse notável grau de san-
“comunhão” para significar “compa- tidade. Assim, a com unhão dos
nhia dos crentes” é um equívoco do santos significava sua confissão
uso que o NT faz de koinonia. A in- com um em Cristo, a qual a igreja
terpretação de C. A. Anderson Scott form ulava nos credos e em outros
de que koinonia é um a tradução do docum entos confessionais. Na te-
hebraico habúrã, significando uma ologia m edieval tardia, estendeu-
sociedade ou associação religiosa, se o entendim ento à crença de que
tem sido questionada pela maioria a expressão significava também
dos estudiosos. Contudo, a ideia a participação em coisas santas,
contida na expressão “ a comunhão” especialm ente nos sacram entos*,
pode ser mantida como implícita na sendo esse significado substan-
palavra, visto que a participação ciado, basicam ente, na fórm ula
mútua envolve um a associação em latim communio sanctorum.
mútua. A ideia da igreja como uma Essa acepção, que alguns alegam
comunhão, no entanto, só pode ter ser a original, tem reaparecido de
validade em termos daquilo em que tempos em tempos, mas nunca
ela participa, i.e., a vida de Deus, em substituiu o significado principal
Cristo, mediante o Espírito Santo. de “com unhão” que tem ganho
CO NCILIARIDADE 206

nova im portância à luz de discus- que a igreja triunfante já entrou no


sões ecum ênicas modernas. descanso eterno.
Era crença na Idade Média que No que se refere ao espaço, a
um cristão poderia desfrutar a co- doutrina da comunhão dos santos
munhão dos santos somente por significa, atualmente, que todos os
permanecer membro da Igreja de verdadeiros crentes estão unidos
Roma ou de um a das igrejas orien- em com unhão, independentem en-
tais. Essa visão é ainda a posição te de nacionalidade, língua ou
oficial dessas igrejas, mas é rejeita- cultura. Os ortodoxos orientais,
da pelos reformadores protestantes, os católicos-rom anos e alguns
que seguiram o NT e definiram “san- protestantes continuam a levar
to” como qualquer crente verdadeiro em conta a harm onia e a comu-
em Cristo. Isso, no entanto, levou à nhão confessional na igreja visível
ideia de que nem todos os membros como parte necessária à comunhão
da igreja visível sejam santos e, dos santos, embora na prática esses
embora as principais correntes do grupos se vejam obrigados a reco-
protestantismo se acomodem a essa nhecer a existência de verdadeiros
discrepância, tem havido sempre crentes fora de suas respectivas igre-
grupos sectários que se separam jas. No atual clima de ecumenismo,
das principais denominações na essa concessão pode chegar a ser
esperança de fundar um a igreja totalmente generosa, como quando,
pura, constituída exclusivamente por exemplo, os católicos-romanos
de “santos”. já se referem a outros cristãos como
No momento, a doutrina da co- “irmãos separados” e não mais como
munhão dos santos é geralmente “cismãticos” ou “hereges”; embora
interpretada segundo a dimensão deva ser lembrado que não tem
tanto do tempo quanto do espaço. havido ainda mudança alguma no
Quanto ao tempo, significa a princípio fundamental católico de
comunhão de cristãos de todas as que a comunhão com a sé de Roma
épocas, do passado, presente e fu- é parte essencial da plenitude da
turo. Em termos práticos, significa comunhão dos santos.
que a igreja, hoje, tem o dever de
preservar a fé herdada do passado Bibliografia
e transmiti-la intacta às gerações P. D. Avis, The Church in the Theolo-
futuras. Os católicos-romanos sus- gy o f the Reformers (London, 1981);
tentam haver nisso também uma re- G. C. Berkouwer, The Church (Lon-
lação direta com a igreja triunfante don, 1976); O. C. Quick, Doctrines
no céu e usam dessa doutrina como o f the Creed (Welwyn, 1960).
justificativa para orar pelos mortos
e, especialmente, aos “santos” ofi- CONCILIARIDADE, V e r C0LEGIALIDADE.
cialmente canonizados. Os protes-
tantes rejeitam vigorosamente tal CONCILIO DE ORANGE, v e r S e m ip e -
interpretação, argumentando que: LAGIANISMO.
a oração só pode ser feita devida-
mente a Deus; que Jesus Cristo, e CONCILIO DE TRENTO, ver Con
nenhum santo, é o único mediador CÍLIOS; C0NTRARREF0RMA CATÓLICA;
entre Deus e o homem (lT m 2.5) e T e o l o g ia C a t ó l ic a - R o m a n a .
‫ ־י‬207 CO N CÍLIO S

CONCÍLIOS. Concilio de um a igreja A autoridade* dos concílios


é a reunião de todos os seus mem- é também assunto de debate. A
bros responsáveis pela guarda do igreja oriental crê que os concílios
depósito da fé apostólica. são infalíveis por serem inspirados
pelo Espírito Santo, que fala não só
1. Na teologia cristã pela voz unânime dos bispos, mas
Os concílios são convocados para também pela resposta que ecoa da
decidir disputas de interpretação igreja, a qual deve receber e dar
ou promover o julgam ento de aplicação própria para as decisões
assuntos não encontrados nas Es- tomadas. O problema aqui, na
crituras*. Suas decisões são consi- prática, é que os bispos dissidentes
deradas obrigatórias se “recebidas” têm sido quase sempre silencia-
pela igreja que os promove como dos ou excomungados a fim de se
estando de acordo com as Escritu- poder alcançar unanimidade; por
ras e sua interpretação tradicional. outro lado, tem havido exemplos
Um concilio geral, ecumênico ou destacáveis de decisões conciliares
universal é aquele do qual se es- rejeitadas pela igreja, muitas vezes,
pera uma “recepção” universal pela em área não teológica.
igreja de Cristo. A posição romana é a de que o
Essa teoria, no entanto, contém papa é o árbitro supremo e executor
pontos fracos, sendo, na verdade, das decisões conciliares. Nenhum
entendida de modos diferentes. concilio católico é considerado vá-
Para começar, existe discordância lido enquanto o papa não aprovar
sobre quem tem o direito de con- suas decisões. Todavia, ressalte-se,
vocar um concilio. De acordo com os grandes concílios da igreja primi-
a tradição bizantina, seguida, por tiva, pelo menos em alguns casos,
exemplo, pela Igreja da Inglaterra foram convocados sem a aprovação
(Artigo VIII), somente a autoridade ou participação de Roma, embora
secular tem esse poder. Já a Igreja Roma os tenha sempre aceito como
Católica acredita ser um a prerro- devidam ente com petentes. Essa
gativa do papa*. Outras igrejas não posição cria tensão entre a monar-
têm esse direito definido, mas, na quia papal e a oligarquia episcopal,
prática, é geralmente conferido aos mas esse é um aspecto padrão da
sínodos representativos ou oficiais, vida da igreja romana e que perma-
eleitos por meios mais ou menos nece sem solução.
democráticos. Após o cism a de 1378, que che-
Não há unanim idade sobre gou a levar à existência de mais
quem tem o direito de participar dois papas rivais do de Roma, a
e votar em um concilio. As igrejas teoria da m onarquia papal, que
orientais restringem a participação havia ganhado força na Idade
e votação somente aos bispos. Média, passou a ser questionada
Roma permite participação mais por m uitos clérigos. Eles prefe-
ampla, mas restringe a votação riam ver a igreja governada por
também aos bispos. Já as igrejas concílios, que se reuniriam a cada
protestantes*, em geral, creem que cinco anos. A m em bresia desses
os representantes da totalidade da concílios seria escolhida em base
igreja devem tomar parte e votar. nacional, e sua autoridade seria,
CO N CÍLIO S 208 ‫יי‬

pelo menos, igual à do papa, que, aos participantes. Nesses últimos


no entanto, ainda reteria sua anos, a palavra “concilio” tem sido
antiga prim azia. O m ovim ento mais usada, principalmente, para
conciliar, como essa corrente descrever organizações interecle-
veio a ser cham ada, alcançou siásticas, como, por exemplo, o
seu ponto mais alto no Concilio Conselho (= Concilio) Mundial de
de Constança (1414-1418), onde Igrejas (ver também Movimento
foi acordado que se estabelecesse Ecumênico*), cuja constituição, to-
um sistem a adequado visando a davia, não permite, explicitamente,
esse fim. Um concilio desse tipo qualquer interferência na vida
chegou a se reunir em Basiléia em interna e na doutrina das igrejas
1431, mas a essa altura o papa- membros.
do já havia reconquistado muito
do seu prestígio anterior e, aos Ver também C o l e g ia l id a d e e C o n c i-
poucos, sufocou o m ovimento, LIARIDADE.
interrom pendo prim eiram ente as
atividades em Basiléia e, depois, Bibliografia
transferindo o concilio para Fer- B. Lambert, Ecumenism: Theology
rara, onde poderia ser mais facil- and History (London, 1967); P.
mente m anipulado. Ao encerrar-se Sherrard, Church, Papacy and
aquele encontro, o papado havia Schism (London, 1978); G. Tavard,
reconquistado o controle com ple- Holy Writ or Holy Church: The
to, tendo o m ovim ento conciliar Crisis o f the Protestant Reforma-
m orrido efetivam ente. Sobreviveu tion (New York, 1959); B. Tierney,
a m em ória do m ovim ento, no en- Foundations o f the Conciliar Theory
tanto, sendo de certa influência (Cambridge, 1955).
por ocasião da Reforma, quando G.L.B.
vários teólogos católicos propu-
seram seu reavivam ento como 2. Panorama dos concilios
resposta ao rom pim ento causado O que é cham ado de o prim eiro
pelo protestantism o. concilio dos dirigentes da igreja foi
Os protestantes não atribuem o que se reuniu em Jerusalém , no
nenhum a autoridade infalível aos ano 48 ou 49 de nossa era, a fim
concílios, reconhecendo suas deci- de decidir a questão do ingresso
sões somente à medida que possam de gentios convertidos na comu-
estar de acordo com as Escrituras. nidade do pacto (At 15). Depois
Na verdade, para a maioria dos disso, um a série de sínodos locais
protestantes, os concílios dos tipos se reuniu em Antioquia, Cartago
descritos anteriormente não mais e Alexandria, assim com o em Ser-
exercem nenhum papel significa- dica (Sofia), Lião e outros lugares
tivo na vida da igreja cristã. Não para decidir sobre questões dou-
há um a estrutura de concordância trinárias e procurar sanar cismas
suficiente, no entanto, para ser de diferentes espécies. Algum as
convocado um concilio interdeno- de suas decisões foram preserva-
minacional ou para que, se este das na tradição da igreja, sendo
for supostamente realizado, possa aceitas em um âm bito mais amplo
tornar suas decisões obrigatórias no m undo cristão. A mais fam osa
* 209 CO N CÍLIO S

série desses sínodos foi a de To- levantadas por Nestório*, que viria
ledo, entre 400 e 694, os quais a a ser condenado em circunstâncias
tradição registra em núm eros de que pouco fizeram ju s à igreja.
dezoito ao todo. Seus cânones tor- Foi seguido, vinte anos depois,
naram -se fonte inestim ável para pelo quarto concilio, reunido em
a história e a teologia da igreja Calcedônia, em 451, que condenou
espanhola no decorrer daqueles a cristologia de Eutíquio (c. 378-
séculos. 454), monge que antes defendera
Não há praticamente dúvida e, depois, contradisse a tradição
alguma de que os concílios mais de Alexandria. A fam osa definição
importantes da igreja têm sido os desse concilio, talvez a afirm ação
chamados ecumênicos ou univer- cristológica mais significativa na
sais. A Igreja Católica-Romana re- história da igreja, decretou ser
conhece 21 deles. As outras igrejas Jesus Cristo um a Pessoa divina
reconhecem número muito menor. em duas naturezas, um a hum ana
Diferentemente de Roma, essas e outra divina. Isso levaria pos-
igrejas nunca conferiram o título teriorm ente as igrejas do Egito e
de ecumênico ou universal a uma da Síria a um cism a por apoiarem
assembleia constituída exclusiva- um a doutrina m onofisista*, ou
mente de membros de sua própria seja, de que Cristo teria um a só
igreja ou comunhão. natureza, a divina.
Os concílios ecumênicos podem O quinto concilio foi o Segundo
ser apropriadamete agrupados por de Constantinopla (553), que tentou
períodos históricos, dos quais os solucionar a ruptura dos monofisi-
realizados em tempos antigos são tas. Decretou que a natureza huma-
os que contam com maior probabi- na de Cristo não era independente,
lidade de um verdadeiro reconheci- mas que recebera sua identidade
mento universal. Destes, o Primeiro por ser unida à Pessoa divina do Fi-
Concilio de Niceia (325) e o Pri- lho de Deus. Essa tentativa, no en-
meiro Concilio de Constantinopla tanto, falhou, e a ruptura se tornou
(381) detacaram-se por estabelecer permanente após o sexto concilio,
a divindade de Cristo e do Espírito o Terceiro Concilio de Constantino-
Santo. Estão tradicionalmente liga- pia (680), que declarou que Cristo
dos pelo chamado Credo de Niceia, tinha duas vontades, um a humana
ou niceno-constantinopolitano e outra divina, o que os monofisitas
(ver Credos*), supostamente com- e alguns de seus adeptos ortodoxos
posto em 381 com base em credo tinham negado.
promulgado em 325. Estudiosos Em 691-692, reuniu-se um
modernos têm dúvidas quanto a sínodo no palácio de Trullum, em
essa tradição, mas não há como Constantinopla, que se empenhou
deixar de constatar que esse credo, por com pletar a obra do quinto e
os referidos concílios e sua teologia sexto concílios, sendo, por isso
têm sido aceitos por quase todos os mesmo, conhecido como o Quini-
principais ramos da igreja cristã. sexto (Quinto-Sexto) Concilio em
O terceiro concilio ecumênico Trullum. Estabeleceu a lei canô-
se reuniu em Éfeso, em 431. De- nica* da igreja oriental, mas não
dicou-se a questões cristológicas* foi aceito pela Igreja de Roma, de
CO N CÍLIO S 210

tradições diferentes, especialmente oriental fora condenada na pessoa


na prática litúrgica. Como resul- de Fócio. Já no clima ecumênico
tado, não foi incluído na lista dos atual, pesquisa feita por estudiosos
concílios ecumênicos. católicos alterou o entendimento
O sétimo concilio ecumênico daqueles dois eventos, levando à
foi o Segundo Concilio de Niceia possibilidade de que tanto Roma
(787), convocado para resolver a como as igrejas orientais venham a
controvérsia iconoclasta*. Auto- ser capazes, um dia, de declarar o
rizou a veneração de ícones com concilio de 880 como o verdadeiro
base no fato de que era possível oitavo concilio ecumênico.
retratar a pessoa divina de Cristo A série de concílios seguintes
após a encarnação. Essa decisão constitui a dos dez concílios convo-
foi rejeitada no Concilio de Frank- cados pela igreja ocidental durante
furt (794) e nunca afetou a prática a Idade Média. Nenhum deles é re-
da Igreja Ocidental, embora tenha conhecido atualmente pelo Oriente,
sido, mais tarde, aceita por Roma. sendo indeterminada sua posição
Os reformadores protestantes o entre as igrejas protestantes.
rejeitaram, mas na igreja oriental Os primeiros quatro se reuni-
o Segundo Concilio de Niceia viria ram no palácio de Latrão, residên-
a ocupar lugar importante como o cia oficial do papa em Roma. Sua
último dos concílios ecumênicos importância está, basicamente, em
ali oficialmente reconhecidos. que marcaram os sucessivos está-
O oitavo concilio ecumênico, gios no surgimento do poder papal*
reconhecido como tal somente na igreja medieval. No primeiro de-
pelo Ocidente, tem sido assunto les, em 1123, a igreja condenou a
de disputa até hoje. Os canonis- investidura leiga, ou seja, a prática
tas romanos tradicionalmente de os governantes seculares desig-
reivindicam haver sido o concilio narem os titulares do clero mais
reunido em Constantinopla em alto em seus respectivos territó-
870. Ele condenou e depôs o pa- rios. Determinou também a prática
triarca de Constantinopla, Fócio monástica do celibato para todo o
(c. 820-c. 895), que havia rompido clero. O segundo desses concílios
com Rom a quanto à questão da invectivou os falsos papas (1139),
processão dupla do Espírito Santo e o terceiro, os hereges albigenses*,
(cláusula filioqu e do Credo de Ni- que fomentavam rebelião contra a
ceia) e a respeito da evangelização igreja no sul da França (1179). O
da Bulgária. Contudo, Fócio foi Quarto Concilio de Latrão (1215)
reabilitado em outro concilio, o de afirmou a primazia singular da sé
Constantinopla, reunido em 880, e de Roma sobre toda a cristandade,
Rom a aprovou tal decisão na época. sendo geralmente considerado
Os estudiosos de hoje creem que representante do ponto alto do po-
os canonistas do século XI preferi- der papal na Idade Média. Definiu
ram considerar o concilio anterior também oficialmente o dogma da
ecumênico porque nessa época as transubstanciação.
duas igrejas estavam em cisma e Os concílios medievais poste-
era conveniente para os canonistas riores buscaram abordar temas
de Roma argumentar que a igreja similares, mas as circunstâncias e
211 CO N CÍLIO S

os locais em que vieram a se reunir dos a acabar com esse m ovimento


indicam um desvanecimento do conciliar, e a oportunidade para
poder papal. fazê-lo veio em 1438, quando o im-
O Primeiro Concilio de Lião perador bizantino João VIII (1425-
(1245) atacou o monarca titular 1448) ofereceu a união com o Oci-
do Sacro Império Romano, impera- dente em troca de apoio con tra os
dor Frederico II (1194-1250), mas turcos. O papa convocou por conta
este não deu muita atenção a tal própria um concilio, que se reuniu
atitude, e o papa se viu obrigado a em Ferrara, sendo mudado para
voltar à França para obter apoio às Florença poucos meses depois por
suas pretensões. causa da irrupção de um a praga.
O Segundo Concilio de Lião Mais tarde, foi transferido para
(1274) tentou solucionar a ruptura Roma, onde recebeu o golpe final
com a igreja oriental. O imperador em 1445. O Concilio de Florença,
bizantino Miguel VIII (1259-1282) como é geralmente mais conhecido,
concordou em ter sua autoridade promulgou a união com as diferen-
papal de algum modo limitada em tes igrejas orientais, incluindo a
troca de ajuda contra os turcos e os dos nestorianos e monofisitas; mas
normandos (na Sicilia), mas, como era um a ligação forçada, depen-
a ajuda não veio, seus próprios dendo de ajuda contra os turcos,
súditos o repudiaram, e a união ajuda que se materializou, mas
falhou após sua morte. não obteve sucesso. Seu interesse,
O seguinte, Concilio de Viena na verdade, era especialmente o
(1311-1312), foi convocado com de endossar as acusações papais
o fim de dissolver a Ordem dos contra o Concilio de Basiléia, que
Cavaleiros Templários, oriunda gradualmente ia se enfraquecen-
das Cruzadas, com base no fato de do à medida que os participantes
estarem seus membros transigindo retiravam dele apoio e se voltavam
em práticas de magia. para Roma. No Oriente, a união da
O Concilio de Constança (1414- igreja não foi nem mesmo procla-
1418), que se seguiu, teve por ob- mada abertamente até 1452, sendo
jetivo resolver o problem a do cism a imediatamente rejeitada quando,
papal, que, irrom pido em 1378, no ano seguinte, 1453, Constan-
resultara na existência de três pa- tinopla caiu nas mãos dos turcos.
pas. O concilio solucionou o cisma, Não obstante, os decretos do Con-
assim como, por outro lado, con- cílio permanecem ainda como base
denou João Hus* a ser queim ado nas chamadas Igrejas Católicas de
na fogueira por heresia. Decidiu, Rito Oriental (“Uniatas”), que são
com o vim os, enfraquecer o poder orientais no ritual, mas prestam
papal, ao decretar que a igreja, dali lealdade a Roma.
por diante, seria governada por O último concilio medieval foi o
sínodos que se reuniriam a inter- Quinto Concilio de Latrão (1512-
valos de cinco anos, esquem a que 1517), que tentou introduzir algu-
não foi aplicado até 1429, quando mas modestas reformas na igreja,
um concilio se reuniu em Basiléia mas foi alcançado pelos aconteci-
sem apoio ou participação papal. mentos na Alem anha que levaram
Mas os papas estavam determ ina­ à Reforma Protestante.
CO N CÍLIO S 212 €

Desde a Reforma*, a Igreja O Concilio Vaticano II adotou, sim,


Católica convocou três concílios a alguns dos princípios dos reforma-
que deu o nome de “ecumênicos”, dores, tais como, por exemplo, o
ainda que nenhuma outra igreja os uso do idiom a local, em lugar do
reconheça. O primeiro e o mais im- latim, no culto. Muitos católicos
portante deles foi o de Trento, que radicais têm desde essa época ape-
se reuniu em três estágios distintos lado para isso como justificativa
entre 1545 e 1563. Após tentativas para suas ideias de vanguarda e
iniciais frustradas de incluir, pelo ocasionalmente heterodoxas. Não
menos, alguns protestantes no há dúvida de que a Igreja de Roma
encontro, a posição do Concilio en- tornou-se mais aberta a influên-
dureceu e se tornou extremamente cias externas do que era antes do
hostil à Reforma. Trento teve seu Concilio Vaticano II, embora não
tempo todo tomado na definição e estejam ainda muito bem definidos
regulamentação das doutrinas e os efeitos dessa abertura a longo
práticas católicas que os reforma- prazo. Roma acha-se no momen-
dores haviam atacado, e o fez de to com prometida com o diálogo
tal modo que conseguiu polarizar ecumênico como nunca antes e
a Igreja de Roma, levando-a a uma não é admirar que o papa não ve-
Contrarreforma, que a caracterizou nha mais a convocar um concilio
até o século XX (ver Reforma*, ecumênico sem a participação de
Contrarreforma Católica*). Produ- outras igrejas. Por outro lado, não
ziu um catecismo* muito influente é possível ainda saber se as igrejas
e a Missa Tridentina, autorizada ortodoxas e protestantes estariam
como cânon romano oficial desde preparadas para participar de um
1570 até 1970, missa que conser- concilio sob a presidência papal,
vou, como que em um relicário, as coisa que jam ais aconteceu, nem
doutrinas da transubstanciação e mesmo na igreja ainda não dividida
o sacrifício eucarístico de maneira dos primeiros séculos.
tal que vieram a ser considerados
caracteristicamente católicos. O Bibliografia
desinteresse por essa missa após The Seven Ecumenical Councils
1970 causou até a acusação de (textos), in: NPNF, série 2, vol. 14;
alguns católicos conservadores de W. H. Abbott (ed.), The Documents
haver a igreja romana se vendido o f Vatican II (New York, 1966); C.
ao protestantismo. J. Hefele, A History o f the Christian
O Concilio Vaticano I (1869- Councils, 5 vols. (Edinburgh, 1883-
1870) completou a obra do de 1896); P. Hughes, The Church in
Trento, ao definir a infalibilidade Crisis: A History o f the Twenty Great
do papa quando este formulasse Councils (London, 1961); H. Jedin,
afirmativas oficiais (excathedra) em Ecumenical Councils o f the Catholic
matéria de fé e moral. O Concilio Church (Freiburg, 1960); H. J. Mar-
Vaticano II (1962-1965) tem sido gull (ed.), The Councils o f the Church:
amplamente interpretado como re- History and Analysis (Philadelphia,
ação ao espírito da Contrarreform a 1966); R. V. Sellers, The Council o f
de Trento e do Vaticano II, embora Chalcedon (London, 1961).
não haja rejeitado suas decisões. G.L.B.
m 213 CO N FIRM A ÇÃ O (CRISMA)

III, de uma parte secundária do


Lista dos Concílios Ecumênicos rito atual do batismo*, (água), ga-
nhando no século V seu título la-
Concílios antigos tino de confirmatio. Embora possa
1. Niceia 325 parecer haver-se originado no ato
2. Constantinopla I 381 apostólico da imposição* de mãos
3. Éfeso 431 pós-batismal (At 8.14-17; 19.1-7),
4. Calcedônia 451 na verdade, nenhum a continuida-
5. Constantinopla II 553 de direta daquele ato lhe pode ser
6. Constantinopla III 680 atribuída. Mesmo que a crism a ou
5-6. em Trullum** 692 confirmação atual tivesse algum
7. Niceia II 787 precedente, é duvidoso que esse
8. Constantinopla IV* 870 pudesse ser considerado um ato
Constantinopla IV** 880 regular para a iniciação cristã da
maneira em que era o batismo.
Concílios medievais Os evangelhos não dão indica-
9. Latrão I* 1123 ção alguma para esse rito. Atos dos
10. Latrão II* 1139 Apóstolos tem muitos exemplos
11. Latrão III* 1179 de batismo sem a subsequente
12. Latrão IV* 1215 imposição de mãos, de modo que
13. Lião I* 1245 os exemplos anteriorm ente citados
14. Lião II* 1274 aparecem como exceções. Além
15. Viena * 1311-1312 disso, os dois exemplos citados
16. Constança 1413-1418 têm pouco em comum entre si: a
17. Florença* 1438-1445 passagem de Atos 8 m ostra um a
18. Latrão V 1512-1517 imposição de mãos bem distante
do batismo da época, enquanto em
Concílios modernos Atos 19 a seqüência é imediata. O
19. Trento* 1545-1563 corpus paulinus (entendido estrita
20. Vaticano I* 1869-1870 ou amplamente) não faz menção
21. Vaticano II* 1962-1965 alguma a esse rito, embora tenha
muita coisa concernente ao batis-
* Não reconhecido pelas igrejas mo. A única evidência bíblica pos-
orientais terior possível seria um a referência
** Não reconhecidos pelas igrejas obscura em Hebreus 6.2 — em que
ocidentais o original grego baptismõn não se
refere necessariamente a batismo
e, aliás, nem sempre é traduzido
CONCUPISCÊNCIA, ver A g o s t in h o ;
por “batism os” .
P ecado. Em geral, há silêncio sobre o
assunto. Não se conhece teologia
CONFIRMAÇÃO (CRISMA) O rito de iniciação alguma, de natureza
conhecido como crisma ou confir- externa e sacramental ou interna
mação tornou-se “um rito em bus- e regeneradora, que venha a cor-
ca de um a teologia” . A confirmação responder a essa cerimônia. Há
desenvolveu-se na igreja ocidental referências ao batismo em alguns
a partir da separação, no século dos escritos pós-apostólicos mais
CO N FIRM A ÇÃ O (CRISMA) 214

antigos, notadamente em Inácio de atendendo à exigência de que so-


Antioquia, na obra Didaquê, em O mente um bispo poderia fazê-lo.
p a stor de Hermas (ver Pais Apos- A idade ideal para a confirmação
tólicos*) e em Justino Mártir (ver ou crisma da criança batizada
Apologistas*); contudo, nada dizem passou a oscilar, daí por diante,
a respeito de imposição de mãos de modo nada planejado, adaptan-
ou unção* pós-batismal. A prática do-se às reais circunstâncias de
primitiva mais constatável, seja no que um bispo estivesse presente
Ocidente seja no Oriente, parece para exercê-la. Desde o século V,
ter sido a do simples batismo com essa imposição de mãos episcopal,
água para adultos e possivelmente separada, começou também a re-
também para crianças, o que leva- ceber o título latino de confirmatio.
va diretamente à participação na O rito, em processo temporal, veio
comunhão. a ser interpretado, assim, não mais
A imposição de mãos pós-batis- como de iniciação, mas, sim, como
mal na iniciação se revela primei- seu próprio uso agora declarava,
ramente no Ocidente, no final do de “confirm ação” da conversão.
século II, em Tertuliano* e, logo Tomás de Aquino* considerava o
após, em Hipólito*. O Oriente não ato de confirmação tão separado
a seguiu até a segunda metade do da iniciação batismal que chega
século IV, quando passou a usar a afirmar que se poderia levar a
a unção, ou “selo” , e continuou a efeito a ordenação para o serviço
usar tal prática até o presente, mi- ministerial sem necessidade de ha-
nistrando tanto o batismo quanto o ver sido o candidato confirmado!
“selo”, mesmo em crianças, em um Os reformadores herdaram,
único rito de iniciação que conduz desse modo, um padrão em que
o batizando à comunhão. No Oci- a confirmação era dada por meio
dente, o completo ritual do batismo da unção, sendo considerada um
(com ou sem unção), imposição de sacramento de fortalecimento, ou
mãos, ósculo da paz e participação crescimento, na fé cristã, ministra-
na comunhão foi mantido como do a candidatos de qualquer idade,
um só até cerca do século VI, após desde a infância (embora raro no
o que passou a ser praticado, na século XVI) até a maturidade, ape-
m aioria dos lugares, como atos sar de variar a média da idade dos
separados. A doutrina do pecado candidatos, usualmente, entre os
original, de Agostinho (ver Adão*), 3 e os 9 anos. Afirmaram os refor-
e a necessidade de batismo ime- madores, no entanto, ser o batismo
diato subsequente ao nascimento, com água a única iniciação sacra-
em face da probabilidade da morte mental, recusando-se a acrescentar
do nascituro, levou ao chamado a crisma ao rito do batismo, o qual,
“batismo clínico” infantil na idade de um modo geral, continuaram a
das trevas, baixa Idade Média. A administrar a crianças. Em vez dis-
confirmação (como ficou sendo so, conduziram o padrão medieval
chamada a imposição de mãos à sua conclusão lógica, elevando a
desde o século V) não poderia ser idade básica da confirmação para
praticada ao mesmo tempo — como entre 13 e 16 anos, exigindo massi-
ainda acontece em muitos casos, va catequização* para proceder a ela
‫ ־י‬215 CO N FIRM A ÇÃ O (CRISMA)

e usando-a como rito na admissão drão de Calvino. Já òs anglicanos,


de adultos à comunhão. Quanto a por exemplo, sentiram-se atraídos,
isso, devem ter-se apoiado inteira- primeiramente, pela ideia de que
mente em equívoco cometido por o batismo mais a imposição de
Calvino na história da igreja primi- mãos eqüivaleria ã iniciação cristã
tiva por ele promulgada, crendo em plena e passaram a tentar “rein-
sua autoridade. Na verdade, esse tegrar” as partes “separadas” que
novo uso não tinha qualquer pre- compunham o rito primitivo (i.e.,
cedente. O que aconteceu foi que o segundo Hipólito). Mais recente-
sinal visível tornou-se a imposição mente, no entanto, sua tendência é
de mãos, substituindo “a bajulação a de considerar o simples batismo
do bispo de Rom a” . uma iniciação sacramental plena,
O Livro de oração comum da passando, então, à etapa de co-
Igreja da Inglaterra adotou exata- munhão, do adulto ou mesmo da
mente essa disciplina a partir de criança. Os católicos, por sua vez,
Calvino e está em funcionam ento têm ampliado em muito o uso da
até o presente. Por outro lado, o crism a ou confirmação presbiteral,
Artigo X XV de 1563 (ver Confis- de longa história na igreja romana,
sões*) acrescentou um parágrafo e procurado, em alguns lugares,
ao texto da época do rei Eduardo, associá-la à primeira comunhão.
dizendo que a confirm ação não Todavia, a escassez de fundamen-
deveria ser considerada um sacra- tos teológicos, tanto nas Escrituras
mento procedente do evangelho, quanto na história e na teologia
por haver surgido dos seguidores sistemática, deixam ainda a cris-
corruptos dos apóstolos, sem sinal ma ou confirmação, geralmente,
visível ou cerim ônia ordenada da na situação de um rito em busca
parte de Deus. O Livro de oração de um a teologia.
comum referia-se a isso no sentido
de que a oração com a im posição Bibliografia
de mãos (tal como: “Defende, ó Se- R. J. Bastian, The Effects o f Con-
nhor, este teu servo com tua graça firm ation in Recent Catholic Thou-
celestial”) não possuía nenhum ght (Rome, 1962); C. Buchanan,
caráter ou conteúdo sacramental. Anglican Confirmation (Bramcote,
Uma seção acrescida ao catecismo Nottingham, 1986); G. Dix, The
anglicano, em 1604, embora rela- Theology o f Confirmation in Relation
tiva ao serviço de confirmação e to Baptism (London, 1946); J. D.
visando a preparar os candidatos a G. Dunn, Baptism in the Holy Spirit
esse ato, asseverava haver apenas (London, 1970); J. D. C. Fisher,
dois sacramentos do evangelho na Confirmation Then and Now (Lon-
igreja, sem mencionar de forma don, 1978); G. W. H. Lampe, The
alguma a crisma. Seal o f the Spirit (London, 1951);
O século XX tem visto diferen- B. Neunhauser, Baptism and Con-
tes tentativas de se produzir uma firm ation (Freiburg, 1964); E. C.
teologia satisfatória, bem como Whitaker, Sacramental Initiation
um a prática pastoral e litúrgica de Complete in Baptism (Bramcote,
acordo com ela. Algumas igrejas Nottingham, 1975).
não episcopais têm seguido o pa­ C.O.B.
CO N FISSÃ O DE A U G SBU RGO 216 f!

CONFISSÃO DE AUGSBURGO , ver Geralmente, no entanto, a ex-


C o n f is s õ e s de Fé. presão “confissão de fé” tem servido
para designar as demonstrações
CONFISSÃO BELGA, ver C o n f is s õ e s formais de crença, produzidas prin-
de FÉ. cipalmente por cristãos protestan-
tes em suas respectivas divisões
C O N FISSÃ O DE W ESTM IN STER, da igreja decorrentes da Reforma.
ver C o n f is s õ e s de Fé. Nisso se incluem também, todavia,
textos que não se intitulam “con-
CONFISSÃO ESCOCESA, ver C on- fissões’” , tais como os decretos e
f is s õ e s d e Fé. o credo do Concilio de Trento, o
Catecismo de Heidelberg, os 39 Ar-
CONFISSÃO SUÍÇA, CONFISSÕES tigos e os Cânones de Dort*. Mui-
HELVÉTICAS, Ver C o n f is s õ e s d e Fé. tas dessas confissões permanecem
como o padrão doutrinário de um a
CONFISSÕES DE FÉ. A confissão dada tradição eclesiástica — daí a
tem sido constitutiva do cristia- palavra “confissão” ser também,
nismo desde o seu começo. O não raro, usada como referente a
movimento de Jesus distinguiu-se determ inada comunhão.
do restante do judaísm o pela con- O texto, a seguir, restringe-se
vicção declarada de que Jesus era a confissões de ram os da Reform a
o Messias. Em contextos diversos, e pós-Reform a, sendo, necessa-
no decorrer do desenvolvimento da riam ente, seletivo. Outras confis-
vida da igreja, crenças cristãs dis- sões além dessas, porém , foram
tintas têm sido sintetizadas em fór- form uladas, tais com o os Artigos
mulas de maior ou menor firmeza M etodistas* de Religião (revisão
em estrutura e linguagem (cf. lT m de W esley dos 39 Artigos, adotada
3.16; O. Cullmann, The Earliest pelos m etodistas am ericanos em
Christian Confessions [As prim ei- 1784) e o Q uadrilateral Lam beth
ras confissões cristãs], London, (de 1888, estipulando o essencial
1949). Os mártires*, em particular, anglicano* para a unidade dessa
fizeram sua confissão de fé perante igreja). Im portantes exem plos no
o mundo enquanto enfrentavam a século XX são: a D eclaração de
morte (cf. lT m 6.12-13); o chama- Barm en* (1934); a base confessio-
do mártir era um cristão confesso. nal, am pliada, mas ainda breve,
Para atender à necessidade das do Conselho M undial de Igrejas,
igrejas, desenvolveu-se, no século aprovada em Nova Déli em 1961;
II, a “regra de fé” e, mais tarde, os o Pacto de Lausanne* (1974),
credos*, manifestações essas que e a Confissão de 1967 da Igreja
podem ser definidas, todas, como Presbiteriana Unida dos Estados
confissões de fé. Do mesmo modo, Unidos. Essa ú ltim a foi inclu ída
são outras afirmações de fé, como no Livro de confissões da igreja
a Definição de Calcedônia (ver presbiterian a (1967), ju n tam en te
Cristologia*) que tecnicamente não com o Credo dos Apóstolos e o
é um credo e que começa dizendo: Credo Niceno; a Confissão Esco-
Todos, a um a só voz, confessamos cesa e Segunda Confissão Helvé-
nosso Senhor Jesus Cristo [...]” . tica; o Catecism o de Heidelberg;
m217 CO N FISSÕ ES DE FÉ

a Confissão de Fé e o Breve divididas, como aconteceu quando


Catecism o de W estm inster; e a da Definição de Calcedônia. Tanto
D eclaração de Barm en (cf. E. A. as confissões quanto os credos
D ow ey Jr., A Com m entary on the foram elaborados para excluir ou
Confession o f 1967 e an Introduc- contradizer crenças errôneas, sendo
tion to the B ook o f Confessions, historicamente condicionados pelas
Philadelphia, 1968). O m ovim ento heresias que refutavam. As limita-
ecum ênico tem tam bém produzido ções dos credos (e.g., nenhum deles
m uitas form ulações doutrinárias, menciona a santa ceia, e todos eles
incluindo a am plam ente funda- pouco abordam a expiação*) e suas
m entada Batism o, eucaristia e obscuridades (cf. “desceu ao infer-
m inistério, de 1982. no” no Credo dos Apóstolos*, sem
A confusão pluralista contem- falar dos termos técnicos contidos
porânea em teologia não tem sido nos de Niceia e Calcedônia) são
muito favorável à emissão de novas muito mais evidentes do que as das
confissões. O Livro de confissões confissões, estas geralmente mais
representa, na verdade, um a bus- equilibradas e completas. As confis-
ca de solução para problemas das sões podem ser mais controversas,
igrejas advindos de seus documen- mas os credos, por seu turno, são
tos confessionais dos séculos XVI mais resumidos, tendo, talvez por
e XVII, que frequentemente falam isso, na prática, perdido mais in-
afrontosamente contra o papa ou teiramente que as confissões a sua
inapropriadamente da relação entre função básica original de pedra de
a igreja e o poder civil ou que são toque da ortodoxia, o que só não é
ofensivos ao liberalismo teológico. verdadeiro com respeito ao Credo
Outra solução tem sido o de relevar dos Apóstolos.
termos com os quais os detentores Por outro lado, também, cristãos
de cargos não são obrigados a protestantes conservadores cos-
concordar. A Igreja da Escócia, por tumam colocar-se em defesa das
exemplo, exige o reconhecimento confissões indiscriminadamente,
somente das doutrinas fundamen- esquecendo-se de que para os evan-
tais [inespecificadas] da Confissão gélicos elas só podem, tal como os
de Westminster, com liberdade de credos, encontrar-se subalternas às
opinião sobre as questões que não Escrituras, sujeitas a julgam ento e
façam parte da substância [indefi- revisão sob a palavra, como muitas
nida] da fé. Ou, ainda, há igrejas delas, aliás, explicitamente afirmam.
que têm relegado suas confissões Em algumas tradições mais impor-
à simples condição de afirmações tantes, e.g., a batista, os membros
“históricas” de sua fé. das igrejas têm frequentemente se
Nesse contexto, as confissões recusado a aceitar qualquer credo
são frequentemente comparadas ou confissão, alegando serem cren-
com desvantagem em relação aos tes “em conformidade somente com
credos, mas tal contraste é comu- a Bíblia”; assim como há igrejas que
mente exagerado. A maioria das ignoram a força quase confessional
confissões é certamente produto de de documentos como a constituição
igrejas que se encontravam em pro- eclesiástica, as regras de adoração e
ceso de divisão, se já não estavam prática, os hinários e os esquemas
CO N FISSÕ ES DE FÉ 218 ‫י‬

tradicionais de interpretação bíblica. aliviando, em particular, sua as-


Tanto quanto a maioria das igrejas serção da presença real de Cristo
protestantes tem percebido, elas não na ceia, resultou em forte contro-
podem prescindir, de todo modo, vérsia. Foi a original, inalterada
das confissões, pois a melhor defesa (Invariata), que foi reafirmada como
das confissões da Reforma repousa o documento básico do luteranismo
em seu amplo uso nas atividades de no Livro de Concórdia (ver abaixo).
ensino das congregações. Ela começa falando a respeito da
Trindade, condena antigos hereges
Panorama das confissões e anabatistas e nada diz sobre
As referências, aqui, são feitas às predestinação (Schaff; Leith; T. G.
seguintes obras: P. Schaff, The Tappert, The Book o f Concord [Ο
Creeds o f Christendom [Os ere- livro de concórdia], 1959).
dos da cristandade], 3 vols. (New Confissão Tetrapolitana (1530).
York, 1877ss, best ed. 1919); J. Foi submetida à mesm a Dieta de
H. Leith, Creeds o f the Churches Augsburgo por “quatro cidades” do
[Credos das igrejas] (Richmond, sul da Alemanha, tendo à frente
VA, 31982); A. C. Cochrane, Refor- Estrasburgo (basicamente, portan-
med Confessions o f the Sixteenth to, um a obra de Bucer*). Mostra-se
Century [Confissões reformadas incapaz de aceitação da Confissão
do século XVI[ (London, 1966). de Augusburgo na questão da ceia
Confissão de Schleitheim (1527). do Senhor, sobre a qual, inter alia,
São sete artigos elaborados por Mi- procurava mediar junto a luteranos
chael Sattler (c. 1490-1527) e ado- e zuinglianos (Schaff; Cochrane).
tados pelos Irmãos Suíços, “igreja Primeira Confissão Helvética (ou
livre da Reforma zuingliana” , con- Suíça) (1536). Confissão comum
tendo um a afirmação clara das das cidades suíças reformadas,
visões distintivas das principais elaborada por Bullinger* e outros,
correntes de anabatistas* sobre: com a ajuda de Bucer* e Capito
batismo, disciplina (“o banimen- (1478-1541), feita na expectativa
to”), ceia do Senhor, separação do de conciliar reformados suíços com
mundo, pastores, “a espada” (“or- luteranos. Começa abordando as
denada por Deus exteriormente à Escrituras, dá destaque ao minis-
perfeição de Cristo”), e juram entos tério da igreja e abrange o governo
(Leith). temporal (cuja tarefa suprema é
Confissão de Augsburgo. É a promover a verdadeira religião) e
primeira grande confissão protes- o casamento (Schaff; Cochrane). É
tante, uma descrição moderada dos também conhecida como Segunda
ensinos luteranos, compilada por Confissão de Basiléia, onde foi
Melãncton* e apresentada à Dieta promulgada. A Primeira Confissão
Imperial (ao Parlamento) de Augs- de Basiléia (1534) caracterizava-se
burgo. Detém um a posição ímpar pela afirmação mais antiga dos
em todo o luteranismo*. Em 1531, reformados suíços no sentido de
Melãncton escreveu para essa con- que deveria haver somente uma
fissão uma Apologia, em resposta autoridade local.
a um a Confutação católica. Sua Confissão Genebrina (1536).
conseqüente revisão da Confissão, Produzida por Calvino* e Farei*
a 219 C O N FISSÕ ES DE FÉ

como parte da constituição da primeiramente na criação e, “em


igreja recentemente reform ada da segundo lugar, e mais claramen-
cidade de Genebra. Foi a única te” , em sua palavra, o que o esboço
entre as confissões da Reforma a genebrino colocava tão somente no
exigir a subscrição de todos os ci- Artigo 1. Reconhece os três credos,
dadãos e residentes locais — um a sem as reservas de Calvino. O
impossibilidade, como os fatos sínodo em La Rochelle em 1571 a
demonstraram. Seus 22 breves reafirmou, após mínimas revisões
artigos começam pelas Escrituras, (Schaff; Cochrane).
como a palavra de Deus, e incluem Confissão Escocesa (1560). É
a excomunhão e a “vocação cristã” a primeira confissão da Igreja Re-
dos magistrados, mas não a pre- formada da Escócia (substituída
destinação (Schaff; Cochrane). pela Confissão de Westminster, em
Segunda Confissão Helvética 1647), elaborada por João Knox*
(ou Suíça) (1566). Uma revisão da e cinco outros autores, todos com
confissão pessoal de Bullinger, o nome de João — Douglas, Row,
aprovada em Zurique pelas cidades Spottiswoode, W illock e Winram.
suíças reformadas, agora incluindo Ecoa com um vigor espontâneo
Genebra (mas não Basileia). Embora e até desordenado, refletindo a
sendo um pequeno texto, tem sido pressa em sua produção. Vale-se
amplamente traduzida e influente de amplo espectro de fontes da Re-
como a mais madura das confis- forma, abrangendo as experiências
sões reformadas. É inteiramente de Knox na Inglaterra e no conti-
marcada por um interesse na con- nente europeu. Deus e a criação
tinuidade da ortodoxia católica da vêm em primeiro lugar, mas entre
igreja primitiva e por um a perspec- a encarnação e a cruz jã aparece a
tiva prática e pastoral. O Artigo l 2, eleição. “Fora dessa igreja não há
versando sobre as Escrituras, de- vida nem felicidade eterna” — mas
clara que “a pregação da Palavra de “essa igreja é invisível, conhecida
Deus é a Palavra de Deus” (Schaff; somente de Deus”. Os princípios da
Leith; Cochrane). A integração de verdadeira igreja incluem a discipli-
Genebra foi realizada com o Con- na, a palavra e os sacramentos. É
senso de Zurique (Consensus Tigu- condenada a ideia de que os sacra-
rinus, 1549) sobre a ceia do Senhor, mentos sejam meramente “sinais
entre Calvino e Farei por Genebra nus e expostos” . Essa combativa e
e Bullinger pela maioria das igrejas vivida confissão tem desfrutado de
suíças zuinglianas. O ponto de vista considerável apreciação nos dias
de Bullinger provavelmente predo- de hoje (Schaff, Cochrane, G. D.
minou no Consenso. Henderson, J. Bulloch (eds.), The
Confissão Gaulesa (ou Francesa) Scots Confession [As confissoões
(1559). Adotada no primeiro sínodo escocesas] (versão moderna ingle-
nacional das igrejas reformadas em sa), Edinburgh, 1960; K. Barth, The
Paris. Foi um a reformulação em Knowledge o f God and the Service
quarenta artigos de texto original o f God [O conhecimento de Deus e o
enviado de Genebra, com algumas serviço de Deus), London, 1938).
mofidicações importantes. O Ar- Confissão BeIga (1561). Esboça-
tigo 2 declara que Deus se revela da por Guido de Brès (1522-1567)
CO N FISSÕ ES DE FÉ 220 85

como um a apologia dos cristãos 1590), que dela também escreveu


reformados perseguidos nos Países um Epitome, e Martin Chemnitz
Baixos, tornando-se finalmente, (1522-1586), sua exposição cui-
em Dort*, 1619, em um dos pa- dadosamente equilibrada teve o
drões doutrinários da Igreja Refor- efeito de excluir a conciliação com
m ada Holandesa, juntam ente com os calvinistas, como os melanc-
o Catecismo de Heidelberg e os tonistas esperavam. Foi incluída
Cânones de Dort. Segue de perto no Livro de Concórdia (1580) dos
a Confissão Gaulesa, e.g., em sua luteranos juntam ente com os três
dissociação apologética dos anaba- credos, a Confissão de Augsburgo
tistas, embora sua afirmação sobre e sua Apologia, os Artigos pouco
a revelação natural seja mais cui- escaldados, de Lutero e o Tratado
dadosa (Schaff & Cochrane). sobre o p od er e a prim azia do papa,
39 Artigos (1563). É a confissão de Melâncton, ambos de 1537, e
básica da Igreja da Inglaterra re- os Catecismos, maior e menor, de
formada e, consequentemente, da Lutero. Essa coleção compreende
maioria das outras igrejas angli- todos os padrões doutrinários ge-
canas. Foram extraídos, sob Eliza- ralmente aceitos no luteranismo,
beth I, dos 42 Artigos de Cranmer, sendo adotada pela maioria do
de 1553, recebendo um a mudança clero desse ramo quando de sua
final em 1571. Propostos como ordenação (Tappert, Livro de Con-
instrum ento de unidade religiosa córdia; E. Schlink, The Theology
nacional, meio caminho entre o f the Lutheran Confessions, [A
Rom a e os anabatistas (não entre teologia das confissões luteranas],
Roma e Genebra), refletem influ- Philadelphia, 1961).
ências européias diversas — mais Uma resposta conciliadora com
luteranas quanto à predestinação a Fórmula de Concórdia é a obra
e em perm itir crenças e práticas Harmony o f the Confessions o f
não contrárias à Escritura e mais Fatih o f the Orthodox and Reformed
reformadas quanto aos sacramen- Churches, ]Harmonia das confis-
tos. A interpretação dos artigos tem sões de fé das igrejas reformadas e
sido seriamente questionada (cf. ortodoxas], publicada em Genebra
Newm an’s* Tract 90) (Schaff, Leith, em 1581. Produzida por Jean Sal-
W. H. Griffith Thomas, Principles vart (m. 1585), Beza* e outros, essa
o f Theology [Princípios de teologia], coletânea harm oniosa de quinze
London, 1956; O. O ’Donovan, On confissões protestantes, incluindo
the Thirty Nine Articles [Sobre os 39 a de Augsburgo, argumentava que
artigos[, Exeter, 1986). não se devia perder a esperança
Fórmula de Concórdia (1577). quanto à unidade protestante,
Longo documento que resolveu as mas que pouco interesse ela deve-
controvérsias luteranas entre os ria despertar além dos círculos da
chamados “filipistas” , que seguiam Reforma (Peter Hall, The Harmony
a acomodação de Melâncton, e os o f Protestant Confessions o f Faith
ditos “gnesioluteranos” , discípu- [A harmonia das confissões de fé
los considerados “autênticos” do protestantes], London, 1842).
próprio Lutero. Compilada basica- Confissão de Westminster( 1646).
mente por James Andreae (1528- Uma exposição altamente siste-
■ 221 CO N FISSÕ ES DE FÉ

m ática da ortodoxia calvinista, de Plataforma de Cambridge (1648)


notável abrangência, equilíbrio e Declaração de Savoy (1658). Do-
e precisão. Adotada pela Igreja cumentos fundamentais dos congre-
da Escócia em 1647, tornou-se gacionalismos americano e inglês,
subsequentemente a confissão da respectivamente. Em matéria de
maioria das igrejas presbiterianas doutrina, reproduzem essencial-
e, com mudanças devidas, de igre- mente a Confissão de Westmins-
jas congregacionais (e mesmo ba- ter, com as mudanças necessárias
tistas) da Inglaterra e dos Estados para proporcionar um a forma de
Unidos. Foi obra de teólogos su- governo adequada às congregações
mamente puritanos da Assem bleia independentes (Schaff; Leith; W.
de Westminster, comissionados Walker, The Creeds and Platforms
para produzir um a confissão que o f Congregationalism [Os credos
unisse, em termos religiosos, a e plataform as do congregocionalis-
Escócia à Inglaterra. Atende a um mo], New York, 1893).
calvinismo desenvolvido e de ten- Confissão Batista de Londres
dências “escolásticas” refletindo a (1677). Conhecida também como
teologia do pacto*, puritana, e os Confissão de Filadélfia, que tam-
Artigos Irlandeses de 1615 (adota- bém adaptou as proposições calvi-
dos por breve período pela Igreja nistas da Confissão de Westmins-
[Episcopal] da Irlanda, a despeito ter, nesse caso para as formas de
de nada se referirem à necessidade batismo e de governo eclesial dos
de ordenação episcopal e de três batistas. Foi a mais amplamente
ordens de ministério, tendo sido aceita das confissões batistas de
escritos principalmente por James cunho calvinista. Outra confissão,
Ussher, 1581-1656). Os aspectos a de New Hampshire (1833), por
mais controversos dessa confissão sua vez, constituiu um a afirmação
são: a dupla predestinação (jun- mais leve da fé batista calvinista.
tamente com o livre-arbítrio* e as Confissão de Dositeu (1672).
“causas secundárias” contingen- Considerada a mais im portante
tes); o pacto das obras com Adão; confissão ortodoxa dos tempos
um a doutrina puritana da certeza m odernos, definindo a teologia
da salvação, e um a visão sabatina ortodoxa contra o protestantism o.
a respeito do domingo. Mesmo seus Dositeu (1641-1707) foi patriarca
críticos, todavia, reconhecem sua de Jerusalém , tendo presidido o
solidez e majestade (Schaff, Leith, sínodo ortodoxo que canonizou
S. W. Carruthers [eds.], The West- essa confissão (Leith). Seu alvo
minster Confession o f Faith... with “calvinista” específico foi Cirilo
Notes ]Confissão defé... com notas], Lucáris (1572-1638), patriarca
Manchester, 1937; B. B. Warfield, de Constantinopla, fortem ente
The W estminster Assembly and Its atraído pelo protestantism o, cuja
Work [A assembleia de Westmins- própria confissão de fé (Genebra,
ter e sua obra], New York, 1931; A. 1629; Schaff; G. A. Hadjiiantoniu,
I. C. Heron [ed.], The W estminster Protestant Patriarch ]Patriarca
Confession in the Church Today ]A protestante], Richmond, VA, 1961)
confissão de W estminster na igreja é um a interpretação totalm ente
de hoje], Edinburgh, 1982). calvinista da doutrina ortodoxa.
CO N FU CIO N ISM O E CRISTIANISMO 222

Bibliografia tranqüilidade na sociedade são, nos


W. A. Curtis, A History o f the Creeds dois, radicalmente diferentes.
and Confessions o f Faith (Edinbur- 1. Para Confúcio (551-479 a.C.),
gh, 1911); E. Routley, Creeds and a “regra de ouro” da existência e a
Confessions (London, 1962); C. perfeição moral do indivíduo têm
Plantinga Jr., A Place to Stand: A sua base na harmonia em cinco re-
Reformed Study o f Creeds and Con- lacionamentos humanos essenciais,
fessions (Grand Rapids, MI, 1979). entre: governante e súditos; marido
D.F.W. e mulher; pais e filhos; irmão e
irmã, e irmão /irmã e amigos.
CONFUCIONISMO E CRISTIANISMO. No confucionismo, o homem
O confucionismo tem sido, por ideal é chamado “cavalheiro” (Jün
séculos, o sistema filosófico mais Tze). Não é necessariamente um
significativo entre chineses, japo- aristocrata, mas, sim, alguém que
neses e coreanos na propiciação cultiva as características morais
de princípios éticos e contribuição de Jen (benevolência, am or pelos
para a estabilidade da sociedade outros), Shiao (piedade filial) e Li
entre esses povos. Apesar de Mao (senso de propriedade) e que guarda
Tsé-tung e outros líderes da China as cinco virtudes, a saber, cortesia,
com unista terem tentado abafar magnanimidade, boa-fé, diligência
ou eliminar o confucionismo na e amabilidade. O homem ideal
sociedade chinesa, alegando que sabe como cultivar a si próprio,
impedia a causa da revolução co- como governar sua família e como
munista, o pensamento religioso- governar sua nação devidamente.
filosófico de Confúcio tem sido, ao O principal objetivo a que se
contrário, fortemente revitalizado propõe o confucionismo é o de
nos anos mais recentes na Ásia, estabelecer a paz e a ordem na so-
com o apoio até mesmo de gover- ciedade por meio de um a forte base
nos como o de Taiwan e Cingapura, moral e com a ajuda de rituais e
em um a linha de ressurgimento de música.
valores tradicionais. No cristianismo, o sermão do
O confucionismo é visto pelos monte de Jesus (Mt 5— 7), no
chineses mais como uma filosofia Novo Testamento, e os Dez Man-
do que propriamente um a religião. damentos, no Antigo Testamento,
Todavia, o sentido de “filosofia” , enfatizam, do mesmo modo, uma
para eles, não é o mesmo do uso sociedade moral e pacífica. Isso po-
geral dessa palavra no Ocidente. O deria vir a constituir um dos prin-
confucionismo, na verdade, pode cipais pontos de apoio para um a
ser considerado até mais que uma comunicação entre confucionismo
filosofia, pois com bina filosofia com e cristianismo.
a própria vida. 2. No confucionismo, a principal
Há similaridades entre o confu- preocupação do homem deve ser a
cionismo e o cristianismo no ensino de suas obrigações na vida presen-
ético* de ambos e em seu interesse, te, mais do que o que acontecerá
por exemplo, pela paz em família, depois da morte. Há, portanto,
na sociedade e na nação. Contu- uma ênfase no “agora” deste mundo.
do, os meios de alcançar a paz e a Quando perguntaram a Confúcio
223 CO N G R EG A CIO N A LISM O

sobre como o homem deveria ser- natureza humana, que o homem


vir aos espíritos dos mortos, ele poderia cultivar para o aperfeiçoa-
replicou: “Como é que você, ainda mento da humanidade. Para Con-
não sendo capaz de servir aos vivos, fúcio, o homem pode chegar a um a
pode vir a servir ao espírito dos mor- sociedade pacífica por meio de sua
tos?” (Analect XI. 11). Consultado a própria benignidade.
respeito da morte, disse: “Se você A Bíblia, porém, ensina que o
nada ainda conhece sobre a vida, homem não pode fazer nada sem
como pode conhecer alguma coisa Deus e sua graça*, sendo total-
sobre a morte?” (ibid). A morte e a mente dependente de Deus em
vida devem ser aceitas com resigna- sua vida moral e espiritual (Jo
ção, como resultado da lei natural, 15.5). É justam ente essa questão,
sendo determinadas por um a “von- de que o homem precisa de Deus
tade do céu” (Ming), em vez de por para sua vida moral e espiritual,
um destino ou predestinação*. que distingue o cristianismo do
Contrastando com o ensino confucionismo. Algumas pessoas,
bíblico a respeito do pecado*, o no Ocidente, por negarem a pre-
confucionismo, embora considere o sença de elementos sobrenaturais
mal como impróprio, inconveniente no cristianismo, são atraídas pelo
e antissocial, não faz nenhuma re- confucionismo, enquanto outras,
ferência à responsabilidade direta no Oriente, vendo finitude e falha
do homem perante um ser mais no humanismo do confucionismo,
elevado ou Deus. O mais importan- sentem-se tendentes a aceitar o
te é a reforma humana. cristianismo.
Já as Escrituras apresentam
uma doutrina de salvação*, arrepen- Bibliografia
dimento* e perdão dos pecados por Ching Feng, periódico trimestral
Deus (ver Culpa e Perdão*). A Bíblia, produzido por Tao Fong Shen Ecu-
além disso, dá o verdadeiro peso menical Centre, New Territories,
tanto ã existência presente como à Hong Kong; Julia Ching, Confu-
eterna, enfatizando que a vida ter- cionism and Christianity (Tokyo,
rena do homem possui significado 1977); Paul E. Kauffman, Confu.-
para ele e para Deus. justamente cius, Mao and Christ (Hong Kong,
à luz de sua futura existência (ver 1978); Bong Rin Ro (ed.), Christian
Escatologia*; Juízo de Deus*). Alternatives to Ancestor Practices
Há também um a diferença (Taichung, Taiwan, 1985).
radical entre o confucionismo e o B.R.R.
cristianismo na área da epistemo-
logia* e dos meios para alcançar os CONGREGACIONALISMO. As ori
objetivos humanos. O confucionis- gens do congregacionalismo se
mo começa a partir do homem e da acham na Inglaterra de Elizabeth
natureza (humanismo), o cristia- I (1558-1603). O objetivo da rainha
nismo pela autorrevelação de Deus para a Igreja da Inglaterra era um a
(em um a perspectiva sobrenatural, reforçada uniformidade; havia,
teocêntrica e cristocêntrica da porém, quem almejasse ver a igreja
vida). Confúcio era um agnóstico, nacional reorganizada com base
ensinando a bondade básica da no presbiterianismo* (ver também
CO N G R EG A CIO N A LISM O 224

Governo Eclesiástico*), em vez de tornariam um a de suas mais fortes


na linha episcopal. Outros, ainda, influências formadoras, ou seja, o
repudiavam totalmente o conceito Novo Mundo. Foi da igreja de John
total de igreja estatal, favorecendo Robinson (c. 1575-1625), em Lei-
o princípio de “igreja congregada” . den, que partiram os “pais peregri-
Esses últimos se tornaram conhe- nos” , embarcando no Mayflouwer.
cidos como “independentes” , tendo O congregacionalismo se tornaria
sido os precursores do congrega- um ramo eclesiástico reconhecido
cionalismo. Afirmavam que a igre- em Connecticut e Massachusetts
ja* deveria se constituir somente e assim continuou a ser até o pri-
daqueles que houvessem respon- meiro quarto do século XIX.
dido pessoalmente ao chamado de Enquanto isso, na Inglaterra, o
Cristo e feito pacto com ele, assim padrão de vida eclesiástica ensina-
como de um crente com o outro do por Robert Browne se difundiria
para viver junto como discípulos por todo o país, com a formação de
do Senhor. igrejas congregacionais e batistas*,
Figura destacada entre os pri- particularmente no final do século
meiros independentes foi Robert XVII. Após o Ato de Uniformidade
Browne (1553-1633), formado em (1662), cerca de 2 mil clérigos op-
Cambridge, chamado “o pai do sepa- taram pela não conformidade ao
ratismo inglês” . Em 1582, Browne Livro de oração comum e à ordem
publicou na Holanda o seu famoso episcopal. A fé e as crenças dos
Treatise o f Reformation without Tar- congregacionalistas foram expres-
rying fo r Ante [Tratado de Reforma sas na Declaração de Savoy, em
sem aguardar ninguém] , em que ex- 1658, exatamente como a Confis-
punha princípios congregacionais. são de Westminster, poucos anos
Afirmava que “a igreja organizada antes, tinha expresso o ponto de
ou reunida é uma companhia ou vista presbiteriano*.
um grupo de cristãos, ou crentes, Durante o século XVIII, houve
que, mediante pacto voluntário feito menor crescimento na não confor-
com seu Deus, estão sob o governo midade, mas dois grandes inde-
de Deus e de Cristo e guardam suas pendentes desse período merecem
leis em santa comunhão”. Uma menção — o autor de hinos Isaac
tal igreja, argumentava, não está Watts (1674-1748) e Philip Dod-
sujeita a bispos ou magistrados. A dridge (1702-1751). Igrejas inde-
ordenação ao ministério não cabe pendentes e presbiterianas, nessa
aos presbíteros, mas, sim, está nas época, se tornaram virtualmente
mãos de toda a congregação. unitaristas* na doutrina, perdendo
Grupos de homens e mulheres, os dissidentes, assim, muito de seu
em várias localidades, puseram entusiasmo inicial.
em prática o ensino de Browne. Contudo, o Reavivamento Evan-
Muitos ingleses, em vez de se sub- gélico trouxe nova vida às igrejas,
meterem ao regimento eclesiástico, como um todo. Em 1831, formava-
buscaram liberdade religiosa na se a União Congregacional, com o
Holanda. Alguns deles cruzaram o objetivo primacial de “promover a
Atlântico, indo para onde as igre- religião evangélica em conexão com
jas de padrão congregacional se a denominação congregacional” . A
m 225 CO N G R EG A CIO N A LISM O

ênfase na independência da comu- e presbiterianos m ostraram -se


nidade cristã local nunca foi con- dem asiadam ente tendentes a
siderada impedimento para uma absorver os ensinos dos teólogos
comunhão livre de igrejas locais “liberais” . “Os congregacionalistas
independentes com o propósito de absorveram muito mais profun-
consulta mútua e edificação. damente [dos liberais] do que o
Um dos grandes nomes do con- fizeram quaisquer outros ramos.
gregacionalismo durante a segunda O congregacionalism o, livre da
metade do século XIX foi R. W. Dale escravidão do paroquialism o por
(1829-1895). Foi ele um dos pasto- sua nova organização, e livre
res de um a longa série de ilustres tradicionalm ente, por seu caráter
ministros da Igreja Congregacional intelectual, de qualquer risco de
de Carr’s Lane, em Birmingham. se tornar m entalm ente estagnado,
Dale unia ao fervor moral o poder ofereceu entusiástica hospitalida-
intelectual e intensa convicção de aos novos ensinos críticos sobre
religiosa. Era a personificação da a Bíblia que chegavam da Alem a-
visão não conformista no tocante nha. Sem pre houve um movim ento
a reformas sociais e educacionais. ‘m odernista’, incisivo e energético,
Sustentava que as convicções cris- no congregacionalism o” (Rutley,
tãs deveriam ser manifestas em The Story o f Congregationalism [A
ações de cunho social ou político, história do congregacionalismo}).
ou se evaporariam em sentimen- O congregacionalismo deu um
talismo pietista. Tornou-se figura passo decisivo na Grã-Bretanha,
nacional britânica de destaque, em 1966, quando suas igrejas Ιο-
estabelecendo na Inglaterra a Co- cais foram chamadas a firm ar um
missão Real de Educação. Aliado pacto a fim de formarem, juntas,
e amigo dos líderes do Partido uma igreja congregacional. Esse
Liberal, dizia-se que na cidade de passo teve continuidade mais tarde
Birmingham nenhuma decisão com a união da igreja congregacio-
municipal importante poderia ser nal com a Igreja Presbiteriana da
tomada sem que a opinião de Dale Inglaterra, levando à formação da
fosse consultada. Encontrou tem- Igreja Reformada Unida. Com esse
po, ainda, para escrever History o f novo desenvolvimento, o congrega-
Congregacionalism }História do con- cionalismo, como tradicionalmente
gregacionalismo}. Foi participante entendido, veio basicamente a de-
ativo na fundação do Mansfield saparecer do cenário da Inglaterra;
College, em Oxford (1886), estabele- mas não da Irlanda, da Escócia e
cimento do qual o primeiro diretor, do País de Gales, embora a base de
A. M. Fairbaim (1838-1912), viria sua ordem eclesiástica haja perma-
a ser significativo representante da necido nas igrejas batistas, assim
erudição teológica crítica alemã na como em um número crescente de
Grã-Bretanha. igrejas evangélicas independentes.
No final do século XIX, a influ- Foi formada, então, um a asso-
ência da crítica bíblica germ ânica ciação do tipo federativo por um
se fez sentir de modo gradativa- grupo de congregacionalistas, para
mente intenso na Inglaterra. Em resguardar a independência histó-
muitos casos, congregacionalistas rica: a Federação Congregacional.
CO N G RUÍSM O 226 *

Sua disputa com o esquema de é de surpreender, por isso mesmo,


união não se relacionaria a dife- que muitas igrejas congregacionais
renças teológicas, senão somente tenham relativamente pequena
à questão da liberdade da igreja membresia — em um a grande
local de poder gerir suas próprias congregação parece haver sempre
atividades, sob a direção do Espíri- maior dificuldade em se trabalhar
to Santo. A Federação colocou sua sob o princípio da “cristocracia” em
crença básica fortemente no valor uma assembleia. Em um a igreja
da unidade na diversidade, deplo- congregacional, o que ocorre so-
rando qualquer tendência para a mente é que à membresia é delega-
submissão a qualquer regimento. do o poder coletivo de escolher seu
Um bom número de igrejas for- próprio ministro. A membresia tem
temente congregacionais também por base a profissão de fé pessoal
não quis participar do esquema da em Cristo de cada componente seu,
união, sob a alegação fundamental sendo os novos membros recebidos
de que isso não passava de um com boas-vindas e a destra da
exemplo a mais de comprometimen- comunhão em um culto com a ceie-
to ecumênico. Criticaram aquele bração da ceia do Senhor.
esquema, sobretudo, por sua am-
biguidade teológica, assim como Bibliografia
pelo seu abandono do princípio da R. W. Dale, Manual o f Congrega-
independência. Essas igrejas estão tional Principles (London, 1884);
hoje ligadas fraternalmene em uma D. Jenkins, Congregationalism: A
Comunhão Evangélica de Igrejas Restatement (London, 1954); A.
Congregacionais. Peel, A B rie f History o f English Con-
Em âmbito mundial, todavia, gregationalism (London, 1931); E.
o congregacionalismo tem estado Routley, The Story o f Congregatio-
intimamente ligado ao movimento nalism (London, 1961); W. Walker,
ecumênico. Esse fato poderia expli- The Creeds and Platforms o f Con-
car, certamente, e de algum modo, gregationalism (New York, 1893).
os motivos subjacentes das diver- G.W.K.
sas uniões que têm ocorrido, em
diferentes partes do mundo, entre CONGRUÍSMO, ver M é r it o .

congregacionais e presbiterianos e,
em alguns casos, congregacionais CONHECIM ENTO DE DEUS. As
e metodistas. A tendência geral no questões sobre se Deus pode ser
congregacionalismo mundial tem conhecido e em que grau têm sido
sido a de renunciar à sua total intensamente debatidas tanto na
independência. filosofia quanto na teologia. Os filó-
O sistema congregacional de go- sofos chegam quase sempre a um a
verno eclesiástico tem sido frequen- posição agnóstica* (Kant*, Fichte,
temente descrito, de modo equívo- Comte, Spencer e outros), se não
co, como francamente democrático. a um a posição ateísta* assumida
Idealisticamente, porém, a igreja é (Feuerbach*, Marx*, Freud, etc.).
vista como sob o governo de Cristo e Na teologia, a possibilidade de o
buscando discernir sua vontade em homem conhecer Deus raramente
suas assembleias e atividades. Não tem sido questionada ou negada.
227 CO N H ECIM EN TO DE DEUS

Ao contrário, as indagações que de algo pertencente à criação. Todo


preocupam os teólogos têm sido, o nosso conhecimento de Deus é,
basicamente, sobre em que grau enfim, “um reflexo obscuro, como
Deus pode ser conhecido e como o que em espelho” (IC o 13.12). É,
homem pode chegar a um verda- portanto, tão somente um a aparên-
deiro conhecimento de Deus. cia do perfeito conhecimento que
No tocante à extensão do conhe- Deus tem de si mesmo; mas por ser
cimento de Deus, a visão geralmen- semelhança desse perfeito conheci-
te sustentada é a de que Deus, em- mento, é real, seguro e verdadeiro.
bora possa ser conhecido, perma- Quanto ao modo pelo qual o
nece incompreensível não somente homem chega ao conhecimento
quanto ao seu ser mais interior de Deus, hã primeiramente a
mas também na revelação* de si questão de se saber se há ou não
mesmo. Essa incompreensibilidade um conhecimento inato de Deus.
de Deus deve-se, por um lado, às Embora alguns teólogos tenham
nossas limitações humanas e, por chegado muito perto dessa ideia
outro, à natureza da revelação. A sob influência do pensamento pia-
posição ortodoxa é bem estabeleci- tônico*, a teologia cristã em geral
da por H. Bavinck*: “A revelação de a tem rejeitado, ainda que fale
Deus na criação e na redenção não com certa frequência em cognitio
o revela adequadamente. Deus não Dei insita (conhecimento inato de
pode comunicar-se plenamente às Deus). H. Bavinck descreve esse
criaturas, pois, nesse caso, estas conhecinento da seguinte maneira:
precisariam também ser Deus. Por- “Isso indica que o homem possui
tanto, um conhecimento adequado tanto ‘capacidade, aptidão, poder,
de Deus não existe. Não existe um habilidade’ quanto ‘inclinação,
nome que torne seu ser conhecido tendência, disposição’ para obter
de nós. Nenhum conceito pode algum conhecimento definido,
abarcá-lo plenamente. Nenhuma certo e indubitável de Deus; um
descrição faz jus a Ele. O que se conhecimento obtido no curso nor-
encontra oculto por trás da cortina mal de seu desenvolvimento e no
da revelação é totalmente incog- ambiente no qual Deus o fez ver a
noscível [A doutrina de Deus], (The luz e ao qual fez chegar de modo
Doctrine o f God. p. 21; cf. Jó 11.7; natural; i.e., ‘sem argumentação e
Is 40.28; Rm 11.33-34). raciocínio erudito’ ” (op. cit., p. 58).
A impossibilidade de um total Aqui. é ainda um termo um tanto
conhecimento de Deus não signifi- confuso, pois sugere que o homem
ca, no entanto, que nosso conheci- nasce com tal conhecimento.
mento dele não seja verdadeiro ou Calvino* também não é totalmen-
digno de confiança; a teologia cristã te claro nesse ponto. Em suas Insti-
tem sustentado sempre que a re- tutas. ele fala do “sentido de divin-
velação de Deus nos comunica um dade” que Deus imprimiu na mente
conhecimento tão confiável quanto humana (I.iii.l) e da “semente de
verdadeiro. É. na verdade, um religião'’ plantada divinamente em
conhecimento analógico*, por sua todos os homens (I.iv.l); para falar,
natureza: Deus revela-se sempre em seguida, sobre a revelação no
“indiretamente”, ou seja, por meio restante da ordem criada (I.v.lss).
CO N H ECIM EN TO DE DEUS 228 *

É aceito de modo geral na teo- da razão humana pode vir a ser


logia cristã que todo conhecimento conhecida por toda pessoa “com
de Deus é fruto da própria autor- facilidade, firme certeza e sem risco
-revelação de Deus. Se Deus não de erro” . Não é de admirar que as
se houvesse revelado, ninguém chamadas provas da existência de
conheceria coisa alguma a seu Deus foram sempre destacadas na
respeito. Nesse sentido, todo co- teologia católica-romana.
nhecimento humano de Deus é um Em nosso tempo, Karl Barth*
conhecimento adquirido (cognitio opôs-se fortemente a qualquer
Dei acquisita). Esse conhecimento, ideia de teologia natural, não
porém, é de duas espécies, pois a somente em suas formas católica-
autorrevelação de Deus ocorre de -romana e liberal, mas também na
dois modos. Há um a autorrevela- maneira em que foi advogada por
ção geral de Deus, na criação, na Emil Brunner*. Para Barth, não
história e no próprio homem; e há há revelação alguma de Deus além
um a autorrevelação especial de de sua autorrevelação em Jesus
Deus na história da salvação, que Cristo. É simplesmente impossí-
com eça imediatamente após a que- vel para o homem vir a conhecer
da, continua na história dos pa- Deus, o mundo e ele mesmo como
triarcas e de Israel e encontra seu realmente sáo, sem Cristo.
ápice na história de Jesus Cristo e Barth rejeitava, desse modo,
do Espírito na igreja primitiva. Essa não somente a teologia natural,
revelação especial chega a nós nas mas também a ideia de uma
Escrituras e por meio delas. revelação geral na natureza e
Na história da teologia cristã, na história. Mais tarde, em sua
essa distinção em um a dupla Dogmática IV.3, ele modificou li-
revelação tem conduzido à ideia geiramente sua posição sobre isso
de um duplo conhecimento de na estrutura da doutrina do oficio
Deus: teologia natural e teologia profético de Cristo, admitindo que
revelada. Na teologia medieval, es- na história do mundo poderia ha-
pecialmente e, por conseguinte, na ver “luzes” menores que, de um a
católica-romana, a ideia da teologia maneira secular, refletissem a “Luz
natural* tem exercido papel impor- do m undo”.
tante. Segundo Tomás de Aquino*, A teologia protestante, em suas
é possível obter um conhecimento formas tanto luterana* como re-
estritamente científico de Deus, formada*, tem aceito comumente
no tocante, por exemplo, à sua a realidade de um a autorrevelação
existência e alguns de seus atri- geral de Deus, mas rejeitado, ao
butos. Esse pensamento tornou-se mesmo tempo, a ideia de um a teo-
dogma oficial da Igreja Católica, logia natural. Para os protestantes,
ao afirm ar o Concilio Vaticano I muito embora a revelação geral seja
(1870) que Deus “pode certamente um fato, não constitui uma fonte de
ser conhecido pela luz natural da teologia à parte. O único ponto de
razão humana, por meio das coisas partida para a teologia cristã são
criadas” (note-se a palavra “certa- as Escrituras, que revelam quem
m ente”). A verdade sobre as coisas é Deus em Jesus Cristo e o que
divinas que não se encontram além Deus tem revelado de si mesmo na
m2 29 CO N SCIÊN C IA

natureza, na história do homem propriamente dita, que é a capaci-


e no próprio homem. Usando “os dade de relacionar regras gerais a
óculos” das Escrituras (Calvino), situações específicas. A consciên-
o teólogo crente reconhece, então, cia, tal como a entendemos, inclui
essa autorrevelação de Deus e Pai ambos esses elementos.
de Jesus Cristo no mundo em re- A consciência é um a capacida-
dor. Mas nunca se torna para ele de universal propiciada ao homem
um a fonte à parte para o conhe- por criação divina. Alguns a vêem
cimento de Deus. As Escrituras como parte da im agem de Deus*.
permanecem sendo a única fonte Paulo afirm a que toda pessoa tem
para toda a nossa teo-logia. um a consciência m oral e que até
mesmo os gentios “m ostram que
Bibliografia as exigências da lei estão gravadas
K. Barth, CD, p a ssim ‫׳‬ , H. Bavin- em seu coração” e que “disso dão
ck, The Doctrine o f God (Grand testem unho tam bém a sua cons-
Rapids, MI, 1955); L. Berkhof, ciência e os seus pensam entos”
Systematic Theology (Grand Ra- (Rm 2.15). A hum anidade, enfim,
pids, MI, 1953); G. C. Berkouwer, diferentem ente dos animais, tem
General Revelation (Grand Rapids, a capacidade de distinguir o certo
MI, 1955); E. Brunner & K. Barth, do errado. Isso envolve a mente,
Natural Theology (London, 1946); as emoções e a vontade, agindo a
G. H. Clark, Religion, Reason and consciência tanto como ju iz quan-
Revelation (Nutley, NJ, 1961); E. to guia.
A. Dowey, The Knowledge o f God A consciência é retrospectiva,
in Calvin’s Theology (New York, assim como prospectiva. Julga
1952); H. Küng, Does God Exist? ações praticadas ou om itidas, traz
(London, 1980); T. H. L. Parker, sentim ento de culpa e adverte
C alvin’s Doctrine o f the Knowledge sobre a necessidade de arrependi-
o f God (Grand Rapids, MI, 1959); mento. Ela nos orienta e dirige an-
B. Ramm, Special Revelation and tes de agirmos, a fim de podermos
the Word o f God (Grand Rapids, MI, atuar adequadam ente, em “boa
1961). consciência” .
K.R. Conquanto o AT não contenha
referências específicas à consciên-
CONSCIÊNCIA. Termo que tem sido cia, sua noção está subjacente à
entendido de várias maneiras: um lei e aos profetas, apontando para
sentido moral interior do certo e do um discernim ento do que seja cer-
errado; a voz interior de Deus; a to ou errado. No NT, no entanto,
mente dos seres humanos fazendo a consciência é apresentada como
constante julgam ento moral. parte integral da personalidade
Tradicionalmente, consideram- humana. É a interiorização do
se dois elementos ligados à consci- julgam ento e da orientação sobre
ência: a sindérese (termo alterado o que vem de fora.
do gr. syneidesis), que significa a
consciência geral humana das re- Problemas com a consciência
gras e princípios de conduta univer- A noção de consciência tem sido
salmente usuais; e a consciência, abordada em diversos níveis. Freud
CO N SCIÊN C IA NEGRA 230

e os behavioristas (ver Psicologia um todo e renovada pelo Espírito


da Religião*) têm descrito a cons- Santo. A consciência poderá, en-
ciência como simplesmente a inte- tão, operar com base na graça de
riorização de normas ditadas pelos Deus, resultando em amor pelos
pais e pela sociedade e que quase outros.
sempre age de modo repressivo,
com ênfase exagerada e prejudicial Ver também C a s u í s t ic a ; T e o l o g ia
quanto à culpa. A consciência nada P u r it a n a .
mais seria, então, do que um con-
dicionamento social ou psicológico. Bibliografia
Essa análise deixa de entender o J. C. Ford & G. Kelly, Contempo-
escopo da consciência sob o ponto rary Moral Theology (Westminster,
de vista cristão, firmando-se em MD, 1960); H. C. Hahn & C. Bro-
um a visão restrita apenas à sua wn, N ID N TTl, p. 348ss.; K. E. Kirk,
origem. Comete, assim, uma “falá- Conscience and its Problems (Lon-
cia genética” — explicar a origem don, 1927); P. Lehmann, Ethics in
não explica a realidade total. a Christian Context (London, 1963);
Todavia, a consciência está su- C. A. Pierce, Conscience in the New
jeita à queda*, não sendo um guia Testament (London, 1955).
infalível. Pode variar em suas de- E.D.C.
cisões, perm itir exceções a regras
gerais e nem sempre ser clara em CONSCIÊNCIA NEGRA. Surgida na
relação ao que é certo em situações África do Sul, no final da década
complexas. Historicamente, tem de 1960 e começo da de 1970,
ocorrido casos de consciências entre os universitários negros, a
supersensíveis que se têm revelado “consciência negra” rapidamente
obsessivas e paralisado até a ação se espalhou para outros setores
moral. da população africana do país e do
Hoje em dia, acontece o extremo continente, tornando-se a filosofia
oposto. O NT m ostra que a cons- mais influente ali entre os negros,
ciência dos indivíduos pode estar especialm ente os jovens. Foi basi-
enfraquecida ou am ortecida (lT m camente, embora não exclusiva-
4.1-5; E f 4.19; Tt 1.5), cabendo ao mente, um a criação do brilhante
cristão a responsabilidade moral estudante e líder Steve Biko (1946-
de educar e desenvolver sua pró- 1977), cuja morte enquanto se
pria consciência (Hb 5.14; 9.9; encontrava sob detenção da polícia
9.14; 10.2; 10.22; 2C0 1.12). Isso sul-africana causou um a onda de
inclui direcionar a consciência a choque que se irradiou por todo o
fim de colocá-la em harm onia com mundo.
as norm as morais externas. Muito Analisando a situação socioeco-
em bora não seja conveniente que a :! nôm ica do povo negro sul-africano
consciência venha a ser desobede- sob o apartheid (ver Raça‫)״‬, Biko
cida, ela não é por si só o guia da percebeu que esse povo sofria de
vida moral; é necessário que seja opressão dupla. Externamente,
avaliada e provada em relação ao os negros eram vítim as de um
caráter de D eus, revelado em Cristo, sistem a político e econôm ico que
orientada pelas Escrituras como os excluía do poder e lhes negava
‫י‬. 231 CO N SCIÊN C IA N EGRA

ju stiça social e financeira. Inter- A consciência negra não é, de


namente, estavam condicionados modo algum , um a versão sul-
a se sentir inferiores em relação africana, adaptada, do Black Pow er
aos brancos e a ter medo destes. [Poder Negro] norte-americano.
Articulada por Biko, a consciência Biko considerava-a, isso sim, “um a
negra sustentava que o caminho ação contínua para o alcance da
para a liberdade política residia na independência por muitos Estados
vitória sobre a alienação interior africanos em um espaço de tempo
que escravizava os negros. Biko bem curto” . E, embora tendo im-
argum entava que seria necessário portantes pontos de contato com
alcançar prim eiram ente “a eman- a teologia negra, não deve também
cipação mental, como precondição ser confundida com esta*. Biko via
para a em ancipação política” . Isso, a teologia negra como “um a inter-
no entanto, não resultaria de um pretação situacional do cristianis-
simples esforço individual de auto- mo que procura relacionar com
melhora, mas, sim, a consciência Deus o homem negro do presente
negra deveria ser “essencialm ente em um determinado contexto de
a percepção por parte do homem seu sofrimento e de suas tentativas
negro da necessidade de se unir de sair dele” .
com seus irmãos em torno da cau- A consciência negra, na verdade,
sa de sua opressão — a cor negra é uma ideologia de mudança psico-
de sua pele — para operar como lógica e política que, em princípio,
um grupo a fim de se libertarem não exige crença em Deus, embora
das algemas que os prendem a muitos de seus defensores sejam
um a servidão perpétua” . cristãos professos. Vista teologica-
A consciência negra rejeitaria mente, a consciência negra pode
deliberadamente as metas do li- ser perfeitamente considerada uma
beralismo político dos brancos de afirmação da dignidade do homem
“integração” dos negros à socieda- negro, que, não menos do que o
de por eles dominada, porque os branco, porta a imagem de Deus.
brancos estabeleceriam certamente Contudo, devido à sua ênfase na
um esquema de proteção aos seus separação temporal entre negros e
próprios interesses. Numa socie- brancos, poderia parecer negar, na
dade em que o racismo branco era prática, a unidade e a catolicidade
tão defendido, “somente poderia da igreja de Cristo, em quem negros
haver um a antítese válida, e.g., e brancos são um (G1 3.28) — não
um a sólida união dos negros, para em uma sociedade futura mais jus-
contrabalançar a balança. Para ta, mas, sim, aqui e agora, mesmo
que a África do Sul venha a ser em um pais tão tristemente dividi-
um a terra onde negros e brancos do racialmente como era ainda há
possam conviver juntos e em har- pouco a África do Sul.
monia sem temer a exploração de
um grupo pelo outro, isso só será Bibliografia
possível quando esses dois oposito- | Steve Biko, I Write What I Like, um a
res tiverem interagido e produzido seleção de seus escritos editados
um a síntese viável de ideias e um por Aelred Stubbs (London, 1979).
modus vivendi ” . D.P.Κ.
CO N SELH O MUNDIAL DE IGREJAS 232 m

CONSELHO MUNDIAL DE IGREJAS, e os do Areópago, em Atenas (At


ver M o v im e n t o E c u m ê n ic o . 17.22-31), é simplesmente uma
notável ilustração da inevitabi-
CONSERVADORISM O EM TEOLO- lidade sociológica e teológica da
GIA, v e r L ib e r a l is m o . contextualização.
Na história do dogma, as afirma-
CO N TEXTU A LIZAÇÃO . Processo ções das verdades da revelação de
dinâmico de reflexão da igreja, em Deus nas Escrituras têm sempre
obediência a Cristo e sua missão envolvido um a seleção de temas e
no mundo, sobre a interação de de linguagem contextualizada em
um texto da palavra de Deus e o resposta a questões específicas de
contexto de determ inada situação teologia e ética que confrontavam
hum ana específica. É, essencial- a igreja naquele momento histó-
mente, um conceito missiológico*. rico. Os credos*, as confissões* e
O intérprete ou outro indivíduo en- as declarações de fé refletem esse
gajado nesse processo pode fazer processo.
parte do próprio contexto ou, na Com a rápida expansão do mo-
condição de com unicador trans- vimento missionário ocidental nos
cultural, representar um segundo séculos XVIII e XIX, os estratégicos
contexto, num processo tripartite. missionários Henry Venn (1725-
A contextualização não é moda 1797), Rufus Anderson (1796-
passageira nem um a opção discuti- 1880) e outros desenvolveram ο
vel. É elemento fundamental para o conceito de “indigenização”, pelo
nosso entendimento da autorreve- qual o evangelho, imutável, era
lação de Deus. O paradigma* ideal transplantado às culturas estáticas
de tradução do texto no contexto e geralmente consideradas “primi-
está na encarnação* de Cristo. O tivas” de povos não cristãos. Esse
Verbo de Deus encarnado como movimento estava basicamente
homem judeu identificou-se perfei- interessado na indigenização das
tamente com determ inda cultura formas de culto, dos costumes
hum ana em particular, em deter- sociais, da arquitetura de igrejas e
minado momento histórico, muito dos métodos de evangelização.
embora os transcendesse. Por sua Essa ênfase é ainda válida, como
vida e ensino, é ele o modelo* su- o indicam o atual interesse em an-
premo da contextualização. Cada tropologia cultural e o movimento
mandamento seu, seja para amar Crescimento da Igreja*. A falha na
o próximo seja para discipular as indigenização, ou aculturação, tem
nações, constitui, na realidade, um resultado na perpetuação do colo-
mandamento de contextualização. nialismo e no desenvolvimento de
A implicação desse processo pode uma mentalidade de ghetto entre
ser vista depois, no testemunho as comunidades cristãs. Contudo,
apostólico e na vida da igreja do em anos recentes, a adequação
Novo Testam ento. A diferença, do princípio da indigenização tem
tanto na ênfase teológica quanto sido seriamente questionada. Des-
no método de pregação de Paulo, de a Segunda Guerra Mundial, o
entre seus ouvintes da sinagoga de surgimento de nacionalismos, a
Antioquia, da Pisídia (At 13.16-41), derrota do colonialismo ocidental
86 233 CO N TEXTU A LIZA ÇÃ O

e o espraiar de revoluções políticas A contextualização tornou-se um


conduzindo a ditaduras militares modo de fazer teologia politizada
ou a governos socialistas tem atin- (ver Teologia Política*).
gido um número cada vez maior
de nações. A explosão do conhe- Interpretações radicais
cimento humano, da ciência e da Estudiosos modernos e teólogos
tecnologia, assim como o espírito da libertação*, em particular, têm
de materialismo e humanismo se- feito extenso uso do conceito de
cular que permeiam toda a socie- contextualização como parte de
dade moderna têm resultado em um debate teológico mais amplo.
um a crise de fé e um a busca pela Começam por rejeitar a visão tra-
verdade que ultrapassam a ques- dicional a respeito da revelação
tão da identidade indígena. divina registrada na Bíblia, um a
A necessidade de mudança de vez que a palavra de Deus não
indigenização para contextualíza- pode ser igualada a qualquer forma
ção tem sido também acelerada por particular, seja Escritura seja sis-
questões levantadas por teólogos tema teológico. Negam que a Bíblia
modernos e pelo ministério global contenha verdades proposicionais,
dos movimentos conciliares ecu- argumentando que, sendo toda
mênicos*. Essas questões incluem: Escritura condicionada histórica
a hermenêutica situacional*, de e culturalmente, sua mensagem é
R. Bultmann*; chamado à igreja, relativa e situacional. Sustentam,
em meio à rápida transformação além disso, que não há nenhuma
social, para que se lance mais na verdade fora da ocorrência de acon-
ação, como foi feito na Conferência tecimentos históricos concretos de
Mundial sobre Igreja e Sociedade, embate humano. Não pode haver
de Genebra (1966); o questiona- nenhuma separação epistemoló-
mento de distinção entre história gica entre o pensamento e a ação,
da salvação* e a história do mun- entre a verdade e a prática. Assim,
do, como levantado na Assem bleia para eles, toda teologia autêntica
do Conselho Mundial de Igrejas, deve ser participativa. O conheci-
em Uppsala (1968); a aceitação do mento teológico vem somente da
princípio de humanização e uni- participação em ação e da reflexão
versalismo* da salvação pela Co- sobre a práxis*. Assim, advogam
missão WCC do Conselho Mundial esses teólogos radicais que, por
de Igrejas sobre Missão Mundial e conseguinte, o processo hermenêu-
Evangelização, em Bangcoc (1972); tico não deve com eçar a partir da
e a busca pela união da humani- exegese das Escrituras, mas, sim,
dade, na Assem bleia do Conselho de um a “leitura profética dos tem-
M undial de Igrejas, em Nairobi pos”, discernindo os atos de Deus
(1975). O enfoque em questões de de humanização e libertação, seja
reconciliação social, humanização no processo histórico geral seja em
e libertação tem levado a uma situações particulares. Gustavo
m udança de prioridade na inter- Gutiérrez argum enta que a teolo-
pretação do texto bíblico para um a gia é a reflexão sobre a práxis à luz
reflexão sobre o sofrimento e a da fé. Trata-se de um movimento
opressão em contextos específicos. dialético entre a ação e a reflexão.
CO N TEXTU A LIZA ÇÃ O 234 β

A herm enêutica das Escrituras dá Contudo, a tarefa da contextuali-


lugar à herm enêutica da história. zação exige um entendimento mais
Outros teólogos evangélicos latino- profundo da tradução do evangelho
americanos, como René Padilla, em seu relacionamento com a si-
Emilio Antonio Núnez e alguns tuação histórica contemporânea.
mais, conquanto reconheçam a O método gramático-histórico de
validade das preocupações pro- exegese bíblica, consagrado pelo
fundas levantadas pelos teólogos tempo, continua a ser aceito como
da libertação, argumentam que fundamental para uma contextuali-
esse modo de fazer teologia conduz zação autêntica, fornecendo clareza
a um evangelho truncado, uma e comprensão do que os escritores
teologia política secularizada e bíblicos dizem e querem dizer em
finalmente à falência da igreja ins- seu próprio contexto. Todavia, a
titucionalizada e da centralidade contextualização somente acontece
da evangelização. quando a exegese fiel do texto entra
em um encontro dialógico com as
Interpretações conservadoras questões da situação humana. Esse
Estudiosos evangélicos, missioná- encontro será tão teológico quan-
rios, igrejas e líderes leigos têm le- to ético, com a fé e a ação sendo
vado a sério a validade da mudança interdependentes. Deve acontecer
da indigenização para um a agenda na dependência do Espírito Santo,
mais am pla de contextualização. chave hermenêutica para relacio-
Um começo ocorreu no Congresso nar o texto com o contexto.
sobre Evangelização Mundial de A reflexão crítica do intérprete
Lausanne* (1974), e o assunto sobre seu próprio pré-entendimento
foi levado adiante na consulta cultural é um a parte essencial desse
sobre Evangelho e Cultura, nas processo tripartite. Muito embora
Bermudas (1978). Não obstante, atraídos pela visão do círculo her-
para muitos evangélicos, a tarefa menêutico de Bultmann, estudiosos
de contextualização está restrita como Orlando Costas encontram
à com unicação fiel e relevante da um símbolo alternativo em uma
mensagem imutável para a lingua- espiral dialógica, que aponta para
gem e as formas do pensamento um alvo escatológico. Esse processo
cultural daqueles a quem é comu- dinâmico de reflexão crítica e inter-
nicada. Essa preocupação destaca pretação identifica-se com o texto da
as questões de condicionamento Escritura pela fé, ao mesmo tempo
cultural da mensagem bíblica, do em que dele se distancia em estudo
autoentendimento do com unicador e reflexão. Simultaneamente, o in-
e do recebimento da mensagem e térprete identifica-se e se distancia
resposta a ela pela comunidade. também do contexto. A contextua-
A contextualização é entendida, lização autêntica acontece quando
assim, em termos de “equivalência esses horizontes se encontram. No
dinâm ica” , pela qual a mensagem diálogo entre texto e contexto, as
bíblica é vista como produzindo no questões levantadas pelo contexto
receptor um a resposta equivalente são trazidas ao texto para resposta,
à que produziu naqueles a quem enquanto o texto, por sua vez, levan-
foi primeiramente transmitida. ta novas questões que confrontam o
235 CO N TEXTU A LIZA ÇÃ O

contexto. Por exemplo, o contexto Além do mais, a verdadeira


pode focar questões específicas de contextualização exige um com-
violência, enquanto o texto levanta prometimento da igreja* como
questões a respeito do pecado e do povo de Deus. A igreja voltada para
poder demoníaco. Já que o texto Deus em adoração e comunhão é
é determinante e afirmativo, e o chamada também à obediência em
contexto, relativo e mutante, o mo- serviço humilde, especialmente
vimento dialógico será sempre do para com o pobre, e a proclamar
texto para o contexto. Desse modo, a todas as pessoas que a salvação
o processo de reflexão difere extre- está unicamente em Jesus Cristo.
mamente daquele dos de pontos A contextualização acontece pri-
de vista mais radicais. No entanto, mordialmente dentro da esfera da
embora reconheça não haver ne- igreja e só em segundo lugar no
nhum sistema absoluto e final de mundo. A reflexão e interpretação
teologia, o intérprete trabalha sem- da palavra são obra da igreja. O
pre confiante em que o Espírito de sacerdócio de todos os crentes e a
Deus dará crescente clareza e na obra do Espírito Santo iluminando
certeza da natureza do evangelho a Escritura enfatizam que a igreja é
e sua relevância em cada situação a esfera em que a contextualização
humana. acontece. Não é, assim, prerroga-
Os evangélicos, em geral, ponde- tiva exclusiva de um a elite teoló-
ram que a contextualização válida gica profissional, mas se encontra
acontece somente onde haja um aberta a todo o povo de Deus. A
comprometimento sem reservas igreja, como corpo de Cristo, com
com o caminho do discipulado. Em a diversidade de dons para seu mi-
primeiro lugar e o mais importan- nistério, dada pelo Espírito Santo,
te, isso exige lealdade e compro- pode garantir que esse processo
metimento com Jesus Cristo como dinâmico de teologia contextuali-
Salvador e Senhor de toda a vida, zadora e sua prática aconteçam.
pessoal e social, e ao seu evange- A verdadeira contextualização
lho. Os evangélicos compartilham está atenta aos perigos do sin-
com os teólogos da libertação seu cretismo* em crenças teológicas,
comprometimento com o Jesus práticas religiosas e estilos éticos
histórico em sua humildade e de vida, mas sem ser levada à
sofrimento e sua repreensão pro- inércia ou à manutenção do status
fética da hipocrisia e injustiça. quo só por tem or desses perigos. A
Mas se acham principalmente voluntariedade em assumir riscos
comprometidos com o Cristo da e com prometim ento com os alvos
fé — o Filho de Deus encarnado, missiológicos capacita o comunica-
crucificado, ressuscitado dentre os dor da palavra a vencer esse temor.
mortos e que há de vir de novo no O Espírito Santo, como o grande
final dos tempos para consumar o com unicador divino, é o pioneiro
seu reino. Esse comprometimento e o capacitador no cumprimento
com Jesus Cristo está de acordo dessa tarefa.
com a estrutura trinitária de que Nesse relacionamento de diálogo
fazem parte igualmente Deus Pai e entre o texto bíblico e o contexto
Deus Espírito Santo. humano, todas as formas de crenças
CO N TIN G ÊN CIA 236 II

e práticas idolátricas, religiosas ou (Exeter, 1979); Bong Rin Ro & R.


seculares são julgadas e conde- Eshenaur, The Bible and Theology
nadas. A igreja está, na verdade, in Asian Context (Taichung, 1984);
com prom etida com sua destruição. V. K. Samuel & C. Sugden (eds.),
Mas mesmo que toda um a cultura Sharing Jesus in the Two-Thirds
esteja corrom pida pelo pecado, ela World (Bangalore, 1983); J. Stott
pode ainda refletir as verdades e a & R. R. Coote, Gospel and Culture
beleza da revelação geral de Deus. (Pasadena, CA, 1979); J. Sobrino,
Desse modo, o que for compatível Christology at the Crossroads: A
com a lei de Deus pode e deve ser Latin Am erican Approach (M aiyk-
purificado, transformado e coloca- noil, NY, 1978); TEF staff, Ministry
do sob o senhorio de Cristo. in Context (London, 1972); A. C.
A contextualização culmina com Thiselton, The Two Horizons (Exe-
as boas-novas irrompendo, em cada ter, 1980).
situação, com a novidade da reden- B.J.N.
ção humana do pecado, da culpa e
do poder demoníaco, da libertação CONTINGÊNCIA. Todas as proposi-
do desespero e da injustiça social e ções são logicamente contingentes
da efetividade da fé, da esperança e ou necessárias. São logicamente
do amor. A contextualização é tare- contingentes se sua negação for con-
fa central da igreja em sua missão sistente. Os estados das ocorrências
no mundo. são contingentes ou necessários de
modo causai. São contingentes de
Ver também C u ltu ra. modo causai se sua existência de-
pender da existência de outra coisa,
Bibliografia causalmente necessária ou não.
J. Miguez Bonino, Doing Theology A existência de Deus pode ser
in a Revolutionary Situation (Phi- crida como de modo causai ne-
ladelphia, 1975); Ο. E. Costas, The cessária (não sendo ele causado)
Church and its Mission (Wheaton, e mesmo logicamente necessária
IL, 1974); J. D. Douglas (ed.), Let (por ser sua não existência incon-
the Earth H ear His Voice (Minnea- cebível). Pode-se considerar essas
polis, MN, 1975); B. C. E. Fleming, posições como tendo base bíblica
Contextualization o f Theology (Pasa- (SI 90.2). Já o universo, ao contrá-
dena, CA, 1980); D. J. Hesselgrave, rio, pode ser visto como causai e
Theology and Mission (Grand Rapi- logicamente contingente, como ex-
ds, MI, 1978); J. A. Kirk, Theology pressão da bondade livre (i.e., não
and the Third World Church (Exe- constrangida) de Deus (Gn 1).
ter, 1983); C. H. Kraft, Christianity A contingência do universo pode
in Culture (Maryknoll, NY, 1979); parecer requerer um a explicação.
L. J. Lutzbetak, The Church and Esse pensam ento tem sido a base
Cultures (Pasadena, CA, 1976); I. de num erosos argum entos cosmo-
H. Marshall (ed.), New Testament lógicos para a existência de Deus,
Interpretation: Essays on Princi- a m aioria dos quais de validade
p ies and Methods (Exeter, 1977); dúbia (ver Teologia Natural*). O
B. J. Nicholls, Contextualization: argum ento ontológico de Anselm o,
A Theology o f Gospel and Culture se irrefutável, seria um a demons-
η 237 CO N TRA RREFO RM A CATÓLICA

tração da necessidade lógica de tólica dos fortes ataques da crítica


Deus. Filósofos desde Hume* e protestante à penúria teológica
Kant* têm alegado que todas as e espiritual, secularização e cor-
verdades logicam ente necessárias rupção que ela havia atingido. Os
não são inform ativas e que, por verdadeiros reformadores católicos
conseguinte, a afirm ativa “Deus foram, assim, silenciados, e os re-
existe” é, na m elhor das hipóteses, formadores evangélicos, excluídos.
um a verdade contingente. Os primeiros nada conseguiram
Pensadores da corrente exis- efetuar, e os segundos nos deram o
tencialista têm dado proem inên- que, depois, ficou conhecido como
cia ao m istério da contingência protestantismo*. A Contrarreform a
hum ana como elemento que, sob pode ser descrita, portanto, como
o seu ponto de vista, representa a tendo surgido com os eruditos
inexpressibilidade da vida do ho- católicos que se envolveram em
mem. A Bíblia, ao contrário, dá ao debate com Lutero desde a década
reconhecim ento de tal contingên- de 1520, culminando com os jesu-
cia motivo para temor, reverência, ítas*, a Inquisição e o Concilio* de
hum ildade e ação de graças a Trento, alcançando seu declínio e
Deus (SI 90.12; 100). conclusão na Guerra dos Trinta
Anos e no Tratado de Vestefália
Bibliografia (Westfalen), em 1648. A Contrar-
D. R. Burrhill (ed.), The Cosmolo- reforma é, corretamente falando,
gical Argum ents (Garden City, NY, a ideia católica de um a reforma: a
1967); A. Plantinga, The Nature o f Reforma, propriamente dita, é que
Necessity (Oxford, 1974). caminhou contra esse movimento.
P.H. No final do século XV, todos os
grupos da sociedade, exceto ape-
CONTRACEPÇÃO, v e r B io é t ic a . nas aqueles que tinham interesse
em m anter a cúria romana, con-
CONTRARREFORMA, ver C0NTRARRE- sideravam o papado* um a chaga
form a C a t ó l ic a ; T e o l o g ia C a t ó l ic a - aberta existente na Europa. As
-R om ana. queixas, em geral, baseavam -se,
principalm ente na secularização e
CONTRARREFORMA CATÓLICA. O corrupção da igreja, que a tinham
nome “Contrarreform a” , embora feito perder sua razão de ser, a
agora geralmente aceito, é indevi- saber, a pregação do evangelho e
do. O que chamamos de Reforma* a cura das almas, para se tornar
foi um movimento iniciado por Lu- um a sórdida instituição em busca
tero*, que buscou re-formar uma tão som ente de riqueza e poder.
cristandade de-formada; efetuando Mais do que isso: a sociedade
isso segundo uma linha de conhe- estava arrasada com trem endos
cimento bíblico, tradição idônea escândalos que vinham à tona so-
e razão esclarecida. O movimento bre favorecim entos para o clero; o
chamado Contrarreform a não sur- direito de santuário; o dom ínio da
giu propriamente para combater lei civil pela lei canônica; o absen-
diretamente a Reforma, mas, sim, teísmo clerical... a lista era longa.
para tentar recuperar a Igreja Ca­ Havia os hum anistas*, também,
CO N TRA RREFO RM A CATÓLICA 238

que desenvolveriam um a ideia agostiniana* e traços de erudição


diferente de reforma, a saber, re- erasmiana. Nos primeiros estágios,
púdio ao escolasticism o* e retorno lia-se Erasmo* e até mesmo se aco-
à filosofia simples do cristianism o lhiam os ataques iniciais de Lutero
dos prim eiros séculos cristãos. Os aos escândalos da época, embora
verdadeiros reform adores, mestres evitando sua poderosa e perturba-
teologais, buscavam restabelecer dora teologia evangélica. Foi essa
o puro evangelho e a autoridade ideia espanhola de reforma que o
das Escrituras, sabendo que a imperador Carlos V (1500-1558)
falsa tradição, a corrupção, os buscou e o papa Adriano VI (pontí-
escândalos, as superstições, tudo fice de 1522 a l5 2 3 ) admitiu.
isso o homem com um havia expe- Três forças se defrontaram,
rim entado quando o cristianism o assim, em Worms em 1521 — a
sofrerá sua derrocada e se tornara reform a teológica, representada
tal qual escória. por Lutero; o tipo de reform a ca-
A perspectiva mais clara da tólica espanhola, representada por
natureza da reform a católica pode Carlos V; e a impassível recusa da
ser vista na Espanha. Ali, os re- cúria papal de tolerar qualquer es-
formadores católicos medievais pécie de reform a representada pelo
conceberam um a reforma na linha enviado papal Girolamo Aleander
de algumas medidas de controle (1480-1542). A ideia da Reforma de
secular da igreja, reforço da lei Lutero era a de despertar a Igreja
canônica* para poder efetuar a mediante um a consciência renova-
reform a moral clerical, um a certa da da obra de Deus em Cristo e que
dose de erudição humanista, ma- o sacerdócio* universal dos crentes
nutenção da teologia escolástica*, permanecesse sobre seus próprios
preservação da hierarquia e dos pés por meio de um a teologia bí-
ritos e usos da igreja medieval, blica e um a experiência espiritual,
juntam ente com supressão violen- mesmo a custo da separação do
ta da heresia ou mesmo da crítica. papado. A ideia espanhola era um
O rei Fernando V (1452-1516) e a reavivamento da vida da igreja,
rainha Isabel (1451-1504) prati- mas deixando sem mudança o
camente efetuaram essa espécie m inistério sacerdotal, o poder do
de reform a com o apoio de Pedro papa e a tradição católica, tendo a
González de Mendoza (1428-95), autoridade do braço secular para
Hernando de Talavera (1428-1507) purgar, perseguir e punir qualquer
e Francisco Ximenes de Cisneros um que se desviasse.
(1436-1517) em particular. O pio A Itália proporcionaria uma visão
Ximenes, após purificar a moral do a mais na natureza da Contrarrefor-
clero espanhol, iniciou a educação ma católica. Os camponeses eram
c