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As diferenças mais evidentes entre as variantes de uma língua são de ordem fonética embora

isto não queira dizer que não se encontrem diferenças sintácticas, morfológicas ou de uso da
língua. Sentimos que um falante é desta ou daquela região, é português ou é brasileiro pela
forma como pronuncia certos sons. Tendo em atenção esta constatação, e dado que temos
como objectivo tratar a pronúncia da norma-padrão do Português Europeu, vale a pena
chamar a atenção para alguns aspectos que caracterizam o Português Europeu em relação a
uma outra variedade da língua – o Português Brasileiro.

Uma característica do Português Europeu que constitui, talvez, a mais notória diferença em
relação ao Português do Brasil diz respeito às vogais não-acentuadas que são muito mais
audíveis no Português Brasileiro do que no Europeu, sendo, nesta variedade, muito reduzidas,
o que leva, por vezes, à sua supressão. Esta característica do Português Europeu tem como
consequência que os estrangeiros compreendem melhor a pronúncia de um brasileiro do que
de um português, sentindo, neste último caso, que a língua parece ter só consoantes.

Um outra característica diz respeito à pronúncia da consoante fricativa que termina sílaba,
quer no interior da palavra (antes de outra consoante como em lista, mesmo) ou no final da
palavra. Normalmente, a consoante representa-se com a letra <s> (sapos) mas pode também
grafar-se com <z> (rapaz). Em Português Europeu, a consoante é uma palatal, ou , conforme
estiver antes de uma consoante vozeada ou não-vozeada (mesmo , lista ). Dado que esta
consoante é muito frequente por ser o sufixo do plural e por terminar vários radicais, provoca
nos ouvintes a sensação de que o Português Europeu, além de ter poucas vogais (muitas
vogais átonas são reduzidas ou suprimidas), tem numerosas consoantes palatais. No Português
do Brasil só um pequeno número de dialectos apresenta esta consoante palatal, ocorrendo no
mesmo contexto, com mais frequência, a fricativa dental [s].

As duas variedades nacionais do Português (europeia e brasileira) diferem ainda em mais


alguns aspectos:

• Nas sílabas e nas palavras terminadas em /l/, esta consoante soa como velarizada no
Português Europeu (representada foneticamente por ) e pronuncia-se como semivogal na
maioria dos dialectos brasileiros, acrescentando assim mais ocorrências de ditongos aos
muitos já existentes em Português (por exemplo, papel ] em Português Europeu e em
Português do Brasil).

• No PB, quando as consoantes /t/ e /d/ estão seguidas de /i/ (ou de /e/ com o som de [i])
palatalizam e tornam-se africadas, isto é, pronunciam-se como e (por exemplo, as palavras
tia, dia, bate, pode com as seguintes pronúncias: Português Europeu ; Português Brasileiro ).
• A grafia <ou> representa, na norma-padrão do Português Europeu, a vogal média [o].
Historicamente, trata-se de uma monotongação do ditongo [ow] que persiste como tal em
dialectos do norte de Portugal e na maioria dos dialectos brasileiros.

• Certas sequências de consoantes que, por diferentes motivos, ocorrem em palavras do


Português Europeu (como [bs] em absurdo ou [dm] em admirar) são separadas pela vogal [i]
em Português do Brasil ( ou )

Podemos fazer agora, a partir da representação fonética da mesma frase, uma comparação
entre as variedades portuguesa (PE) e brasileira (PB), com distinção de registos: formal
(pausado) ou coloquial (rápido):

A menina faltou ao teste de psicologia

1)

2)

3)

4)

Estas quatro transcrições da mesma frase distinguem-se por representarem, de forma


simplificada, as seguintes pronúncias:

(1) pausada (e silabada) em PE;

(2) coloquial em PE;

(3) pausada (e silabada) em PB;

(4) coloquial em PB.

Analisemos em pormenor as diferenças na pronúncia das vogais tónicas e átonas e das


consoantes:
• A vogal átona só ocorre no registo pausado e silabado de PE (cf. (1)); a mesma vogal é
suprimida no registo coloquial (cf. (2)) e ocorre como [i] no PB (cf. (3) e (4));

• A vogal correspondente à grafia <o>, quando átona, manifesta-se como [u] em PE (cf. (1) e
(2)) e como [o] no PB (cf. (3) e (4)); a vogal ortografada <a> quando átona apresenta-se como
em PE e como [a] em PB, excepto em posição final; o ditongo [ow] reduz-se à vogal [o] em PE e
no registo coloquial de PB (cf. (1), (2) e (4)), e apenas se manifesta na pronúncia pausada de PB
(cf. (3));

• � grafia <l>na palavra faltou corresponde a consoante velarizada, , em PE (cf. (1) e (2)), e a
semivogal [w] em PB (cf. (3) e (4));

• As consoantes [t] e [d] seguidas de [i] tornam-se respectivamente e em PB (cf. (4));

• O grupo de consoantes [ps] que não constitui em português um 'grupo próprio'


(denominação tradicional atribuída a outros grupos como [bR], [kl], ou seja, consoante oclusiva
seguida de líquida), manifesta, no registo coloquial do PB, a inserção de um [i], designado
vogal ‘epentética’ (cf. (4))

• O <s> gráfico ocorre como antes de uma consoante não-vozeada (e em final de palavra) em
PE e PB (cf. (1) - (4)).

A verificação das diferenças não impede que se relacionem as duas variantes.

Assim, as vogais átonas mostram uma elevação em relação às acentuadas. Em PE /a/ -» , /o/ -»
[u] e /e/ -» ; em PB /e/ -» [i] mas o não existe. Portanto o Português Europeu distingue-se por
uma maior elevação (e consequente redução) das vogais não-acentuadas.

No que respeita às consoantes, a pronúncia, em PE, do /l/ como velarizado, , está relacionada
foneticamente com a pronúncia, em PB, de uma semivogal recuada, [w], porque nos dois casos
é necessário um recuo do dorso da língua em direcção ao véu palatino. E a palatalização de /t/
e /d/, e em PB, antes da vogal palatal, é resultado da assimilação do traço palatal da vogal [i],
mesmo quando esta vogal resulta de um /e/ fonológico, como em bate e pode .

Por fim, a supressão em PE das vogais átonas muito reduzidas (veja-se menina , teste de ) e a
inserção da vogal [i] em PB entre duas consoantes (cf. psicologia ) decorrem da diferença entre
a estrutura da sílaba manifestada nestas duas variedades, diferença que, a par de outros
factores prosódicos, tem consequências na apreensão do ritmo da língua.