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Universidade Federal do Rio de Janeiro

A Confederação Abolicionista e o abolicionismo na Corte: projetos e

estratégias de inserção do negro na sociedade brasileira

Júlio Cesar de Souza Dória

2015
2

A Confederação Abolicionista e o abolicionismo na Corte: projetos e

estratégias de inserção do negro na sociedade brasileira

Júlio Cesar de Souza Dória

Dissertação de mestrado apresentada ao Programa de Pós-

graduação em História Social do Instituto de Filosofia e Ciências

Sociais da UFRJ como parte dos requisitos necessários à obtenção

do título de mestre em História Social.

Linha de pesquisa: Sociedade e Política

Orientador: Fernando Luiz Vale Castro

RIO DE JANEIRO

2015
3

FOLHA DE APROVAÇÃO

Dissertação de mestrado apresentada ao Programa de


Pós-graduação em História Social do Instituto de
Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ como parte dos
requisitos necessários à obtenção do título de mestre em
História Social.

Aprovada por:

____________________________________________________________

Prof. Dr. Fernando Vale Castro - Presidente

____________________________________________________________

Prof. Dr. José Murilo de Carvalho

____________________________________________________________

Profª. Drª Tânia Maria Tavares Bessone da Cruz Ferreira

____________________________________________________________
4

D532r DÓRIA, Júlio C de S.


Confederação Nagô-Macamba-Malunga dos abolicionistas: projetos
de nação e abolicionismo radical brasileiro (1883-1888) / Júlio Cesar de
Souza Dória, 2015.
Vi, 152 f.: il.; 30 cm.
Orientador: Fernando Vale Castro.
Dissertação (Mestrado) – Universidade Federal do Rio de Janeiro
Programa de Pós-Graduação em História Social, Instituto de
Filosofia e Ciências Sociais, Rio de Janeiro, 2015.
Referências: f. 206-210.

1. Confederação Abolicionista – política e sociedade (1883-1888). 2.


Abolicionismo (Brasil) – movimento social. 3. Partido Abolicionista –
dissertação. I. Castro, Fernando. II. Universidade Federal do Rio de
Confecção da Ficha Catalográfica: Elinei Carvalho Santana – CRB 5/1026
Janeiro, Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, Programa de Pós-
Graduação em História Social. III. D.
CDD: 320.8142
5

Agradecimentos

Ao final de uma jornada podemos avaliar o resultado de tudo que fizemos e


passamos, possibilitando a nós refletirmos sobre as escolhas, renúncias e hesitações que
fizemos. Por vezes esse exercício mental nos leva a imaginar que poderíamos ter feito
mais, ido mais além e esbarramos no imponderável da subjetividade.
A limitação humana anda de mãos dadas com a sua mania de grandeza, nesse
meio-termo estão as pessoas que nos auxiliam, seja para nos dizer que podemos mais ou
para nos alertar sobre os exageros cometidos. São faróis indispensáveis ao ser coletivo
que se beneficia da experiência alheia para construir a sua própria.
Com o fim dessa jornada acadêmica posso avaliar os benefícios conquistados
pela troca de experiência com as mais diferentes pessoas. Foram tantas que
contribuíram para a conclusão dessa etapa que ficaria difícil enumerá-las, mas,
primeiramente sinto a necessidade de reconhecer e agradecer a Deus pelo dom da vida e
de ter as condições físicas e intelectuais para cumprir mais essa jornada.
Já com as devidas justificações sobre as possíveis omissões agradeço ao meu
grande amigo e orientador Fernando Castro, por ter acreditado nesse trabalho em todos
os momentos. O melhor de tudo é que os laços de amizades só se fortaleceram com este
trabalho em conjunto. Agradeço também aos colegas de curso que ajudaram bastante
nas reflexões e mesmo nos desabafos, destaco aqui os nomes de Vitor Leandro, Tiago
Pancho, Pedro Teixeirense, Larissa JachetaRiberti, Angélica Ricci, Júlia Ribeiro e
Edmar Junior. Além deles tenho o privilégio de contar com historiador meticuloso na
família, meu irmão Renato Dória que muito contribuiu para algumas reflexões e
indicação de bibliografia.
Em especial tenho grande gratidão aos professores que me auxiliaram e
incentivaram ao longo das minhas reflexões sobre a pesquisa, principalmente apontando
os erros de metodologia e indicando leituras. Agradeço aos professores Carlos Fico,
Eduardo Silva, Marcos Veneu, José Murilo de Carvalho, Tânia Bessone, Monique
Siqueira e Mônica Lima.A jornada acadêmica do mestrado não seria possível sem os
funcionários do Programa de Pós-Graduação da UFRJ e de outras instituições de
pesquisa e como representantes destas instituições agradeço aos auxílios da Sandra
Helena do PPGHIS e da Luciane Simões da Biblioteca Nacional.
6

Por fim, tenho a certeza que esta pesquisa não teria como ser viabilizada sem os
recursos financeiros concedidos pela Capes, por seu programa de incentivo à pesquisa
científica através das bolsas de estudos.
7

Dedicatória

À Júlia, meus pais e toda


população afrodescendente.
8

Resumo

Este trabalho é o resultado da pesquisa sobre as ações e projetos defendidos pela


Confederação Abolicionista no contexto de desestruturação do sistema escravista no
Brasil na década de 1880. O objetivo principal deste trabalho é identificar a relevância e
o impacto social e político das diversas ações empregadas pela Confederação
Abolicionista, destinadas à contribuição para o fim da escravidão no Brasil. Mas,
sobretudo, buscou-se relacionar essas ações com as perspectivas e projetos para a
inserção dos libertos na sociedade brasileira. Em última análise, identificamos a
construção de uma rede de sociabilidade composta por indivíduos oriundos das mais
diversas províncias, profissões e classe econômica, congregados em uma instituição
com o propósito de acelerar o fim da escravidão, atrelando a isso a implantação de uma
série de reformas no país. As práticas abolicionistas adotadas pela Confederação
estiveram espraiadas em diferentes campos. Essa característica era tanto fruto da sua
tipologia formativa como objetivo estratégico, ou seja, enquanto uma rede de
sociabilidades atuando dentro de um amplo movimento social havia a contribuição de
seus membros nos mais variados campos em que atuavam, e por outro lado, essa
diversidade inerente a cada individuo possibilitava a materialização de suas ações em
diferentes locus. Na prática, essas ações dividiam-se numa tipologia correlata às
determinações jurídicas da época sendo assim definidas como legais ou ilegais. Nesse
sentido,as ações da Confederação materializaram um gradiente que tanto promovia a
fuga e o acoitamento de escravos como também se organizava politicamente nas
disputas eleitorais,apresentando candidatos com uma plataforma política abolicionista
voltada para a realização de reformas que viessem modernizar o país e contribuir para a
construção de uma realidade social e econômica capaz de garantir direitos e condições
de auto sustentabilidadeaos libertos.

Palavras-chave: Confederação Abolicionista – Abolicionismo – Partido Abolicionista


9

ABSTRACT

The Abolitionist Confederation and abolitionism in the Court: Project and black

insertion strategies in Brazilian society

Júlio Dória

Orientador: Prof. Dr. Fernando Castro

Abstract da Dissertação de Mestrado submetida ao Programa de Pós-Graduação em


História, Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, da Universidade Federal do Rio de
Janeiro – UFRJ, como parte dos requisitos à obtenção do título de Mestre em
História Social.

This work is the result of a research on the actions and projects upheld by the
Abolitionist Confederation in a deconstruction context of the slavery system in Brazil in
the 1880s The main objective of this dissertation is to identify the relevance and social
impact and also the various political actions employed by Abolitionist Confederation,
aimed at contributing to the end of slavery in Brazil. But, above all, we tried to relate
these actions with prospects and projects for the integration of freedom in the Brazilian
society. As a final analysis, we identified the construction of a sociability network of
individuals coming from different provinces, professions and economic social classes,
gathered in an institution in order to hasten the end of slavery, tying to it the
implementation of a series of reforms in the country. The abolitionists’ practices
adopted by the Confederation were sprawling in different fields. This feature was both
the result of their formative type as a strategic goal, that is, as a network of sociability
acting within a broad social movement had the contribution of its members in various
fields in which worked, and on the other hand, this diversity inherent every individual
enabled the realization of their actions on different locus. In practice, some actions they
are divided into a typology related to the legal determinations of the time thus defined
as legal or illegal. In this sense, the Confederation of actions materialized a gradient that
both promoted the escape and the whipping of slaves but also politically organized in
elections, with candidates with an abolitionist policy focused platform for the reforms to
come modernize the country and contribute to the construction of a social and economic
reality capable of securing rights and conditions of the freed self sustainability.

Keywords: Abolitionist Confederation - Abolitionism - Abolitionist Party


10

Sumário

Folha de Aprovação

Agradecimentos

Dedicatória

Resumo

Abstract

Lista de quadros e ilustração

Ficha Catalográfica

Introdução.......................................................................................................................11

Capítulo 1: Movimento Abolicionista e redes de sociabilidade:a Confederação


Abolicionista e o abolicionismo radical brasileiro.........................................................25

Capítulo 2: A Confederação Abolicionista e os embates entre abolicionistas e


escravistas na Corte em fins do século XIX: rede de sociabilidades, práticas e projetos
do abolicionismo radical e popular.................................................................................57

Capítulo 3: A Confederação Abolicionista e o Partido Abolicionista............................94

Considerações Finais....................................................................................................130

Fontes...........................................................................................................................133

Referências
Bibliográficas..............................................................................................................142
11

Lista de quadros e ilustração

Quadro 1: Composição socioprofissional das


Comissões Intermediadora, Executiva e Deliberativa em 1883......................................29

Ilustração de membros da Confederação Abolicionista................................................ 33

Quadro 2: Amostragem das profissões dos membros das


comissões Executiva, Deliberativa e Intermediaria da
Confederação Abolicionista em 1883..............................................................................34
12

I. Introdução

O trabalho aqui apresentado tem por objetivo analisar os discursos e


práticas abolicionistas de um determinado núcleo abolicionista criado no Rio de Janeiro,
entre os anos 1883 e 1888, denominado como Confederação Abolicionista.Como
desdobramento da pesquisa pude identificar a existência de um projeto político,
econômico e social – enfim, um projeto de nação –dos indivíduos congregados nesse
núcleo.
Por mais que a historiografia sobre a abolição apontasse para alguns
caminhos solidamente justificáveis e comprováveis havia um elemento que me chamava
bastante atenção. Era a participação das classes populares no movimento abolicionista
brasileiro. Essa percepção destacava a perspectiva de um intenso embate político e
social dentro do próprio abolicionismo brasileiro, o que por sua vez, refutava a tese
tanto de alienação política como de desinteresse popular diante da escravidão no país.
Em ultima instância, descaracterizava qualquer possibilidade de
homogeneização do movimento abolicionista brasileiro, incompatibilizando o resultado
final com as características do movimento em si. Em síntese, a forma e as
consequências da abolição da escravidão no Brasil representou o somatório das
operações políticas e econômicas em jogo no país no final do século XIX não podendo
ser creditada como obra de um único grupo, classe ou indivíduo.
O esforço para a identificação das práticas e projeto abolicionista da
Confederação estabeleceu a necessidade de mapeamento e compreensão da sua
formação. O que aparentemente se mostrava como uma agremiação de ocasião sem
organização e objetivos determinados foi dando lugar a uma formação extensa de uma
rede de sociabilidades1 tão articulada e organizada a ponto de formar uma instituição

1
SIRINELLI, Jean-Françoise. Os intelectuais In: Por uma história política. Rio de Janeiro, 2003.Pp.248-
250.Para Sirinelli as redes de sociabilidade são formadas por indivíduos com experiências pretéritas e
contemporâneas, objetivos e anseios em comum, que por meio de uma relação de trocas e
interdependências formam uma espécie de grupo, associação ou pequena comunidade de interesses
específicos. Podemos pensar a Confederação como um espaço no qual houve a formação de redes de
sociabilidade Essa perspectiva tem se mostrado bastante fecunda, tendo em vista que permite mapear um
espaço social objetivo, ou seja, organizacional, tais como:- Escolas, Universidades, Associações
Intelectuais, Jornais, Revistas, Editoras, etc, que possibilitam observar a produção e circulação de ideias,
esclarecendo as questões políticas e intelectuais surgidas em determinado período e lugar.
13

com diretrizes específicas, duas comissões permanentes responsáveis pelas decisões e


execuções das ideias e ações da rede, além de conter uma diretoria que pouco variou ao
longo do seu período de existência.
Efetivamente, a existência da Confederação Abolicionista enquanto uma
rede de sociabilidade 2 voltada para o fim da escravidão e a implantação de medidas
políticas, econômicas e sociais que permitissem um ambiente de igualdade de direitos e
oportunidades para todos os cidadãos brasileiros durou até 18893. Após essa data, as
ações da Confederação restringiram-se a comemorações das datas representativas do
fim da escravidão no país – leis emancipacionistas.
A última ação da Confederação Abolicionista foi providenciar o enterro
de José do Patrocínio, em 1905. Portanto, o nosso objetivo restringe-se para o campo de
ação da Confederação entre os anos 1883 e 1888, ora retroagindo ora avançando esse
marco para a melhor compreensão do objeto em questão. O principal espaço de análise
deste estudo seráa cidade do Rio de Janeiro, mas também destacaremos a relação e
ações dos membros da Confederação em outras províncias do Império.
O ponto de partida da nossa análise se encontra na origem do pensamento
e ações destinadas ao fim da escravidão no Brasil. Pretendemos assim identificar as
práticas, ideias, conceitos e projetos que estruturaram tanto a perspectiva antiescravista
como a escravista para entendermos os objetivos sociais, políticos e econômicos em
disputa.
Tal entendimento se torna fundamental para a compreensão de nuances
das argumentações discursivas e das práticas engendradas pelos antiescravistas
brasileiros, principalmente por intermédio da identificação de rupturas nas análises das
argumentações discursivas entre a perspectiva emancipacionista e a abolicionista, que
ao longo do século XIX foi responsável pela ampliação do gradiente contra a
escravidão. Perceber as divergências de pensamento e ação entre emancipacionistas e
abolicionistas é fundamental por dois motivos. Primeiro porque nos informa sobre a
diversidade ideológica dentro do movimento social e político brasileiro contra a

2
Op. cit.SIRINELLI, 1998. Pp. 271-275.
3
Esta perspectiva tinha principalmente os libertos como os principais beneficiados, pois, conseguida a
abolição tornava-se fundamental a adequação do país à nova realidade social. Extinguir a escravidão
desacompanhada de medidas que permitissem a autonomia econômica, a participação social e política,
bem como os direitos civis dos antigos escravos era fundamental para esses indivíduos iniciarem as suas
vidas pós-cativeiro e por outro lado, era base fundamental para o fortalecimento da nação. Em última
análise, esta perspectiva abolicionista coadunava-sea um compromisso moral e uma consequência lógica
necessária para a quebra das raízes coloniais do país cristalizada na escravidão enquanto instituição.
14

escravidão4. Segundo porque nos permite identificar a permanência e a reformulação da


perspectiva escravista dentro da concepção emancipacionista como um dos entraves do
movimento abolicionista radical5.
Estiveram em disputa diferentes projetos de emancipação escrava no país
desde a Independência6. Nas décadas finais do século XIX outros projetos e ações mais
radicais endossaram uma perspectiva abolicionista popular e radical que somente foi
possível pela transformação do abolicionismo em um movimento social organizado. O
fato da abolição da escravidão no Brasil não ter ocorrido por intermédio de uma
revolução escrava como em São Domingos ou de uma guerra civil como nos Estados
Unidos, não significa que tenha sido apenas fruto da vontade de uma elite ilustrada ou
de um Estado todo-poderoso, nem mesmo pela pressão ideológica ou militar
estrangeira7. O seu resultado foi uma junção de fatores internos e externos dos mais
variados matizes.

4
CONRAD, Robert. Os últimos anos da escravatura no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,
1975. Pp. 164-198. Robert Conrad apresenta um panorama amplo sobre o processo de abolição da
escravidão em todo o Império. O autor reconstrói o surgimento do abolicionismo brasileiro como
derivação do emancipacionismo dos anos 1850 e 1860. O autor faz ainda uma distinção entre indivíduos e
grupos ligados ao movimento abolicionista e os separa em duas vertentes: os abolicionistas “moderados”
- caracterizados por terem aderido à causa depois da mesma ter adquirido grande repercussão social e
política no país e no exterior - e “radicais” - que objetivavam além do fim da escravidão, a inserção social
do negro através da educação, trabalho assalariado e reforma agrária.
5
AZEVEDO, Celia M. Marinho de. Abolicionismo: Estados Unidos e Brasil, uma história comparada
(século XIX). São Paulo: Annablume, 2003. Pp. 41-48. Celia Azevedo destaca que a matriz ideológica e
discursiva tanto do abolicionismo norte-americano como o brasileiro tinham as suas origens na formação
ideológicas e discursivas do século XVIII. A norte-americana de origem religiosa protestante e a
brasileira racional iluminista, por isso, as bases argumentativas de ambos os movimentos não teriam
mudado significativamente ao longo do século, moldando-se e adaptando-se às circunstâncias e a
conjuntura.
E importante destacar que a mesma perspectiva adota José Murilo de Carvalho ao aprofundar a sua
análise a partir desta perspectiva destacando que as bases argumentativas e ideológicas dos abolicionismo
norte-americano eram morai, logo direcionada e conduzida essencialmente por uma ampla parcela da
sociedade civil que se voltava diretamente para as ações contra os senhores de escravos.
Já o abolicionismo brasileiro atrelava-se à uma tradição ibérica de racionalização das circunstâncias
materiais em que a sua base argumentativa e ideológica coadunava-se com a razão de estado, ou seja, a
necessidade material anterior em relação à escravidão daria espaço a necessidade material crescente de se
acabar com a escravidão. Em última instância, eram as necessidades coletivas cristalizadas no Estado que
nortearam a perspectiva abolicionista brasileira. Ver, CARVALHO, José Murilo de. Escravidão e razão
nacional. In: Pontos e bordados. Minas Gerais: UFMG, 1998.
6
Ver, PARRON, Tâmis. A política da escravidão no Império do Brasil, 1826-1865. Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 2011 Pp. 51-103.; e COSTA, Emília V da. .Da Senzala à Colônia.São
Paulo:Unesp,1998. Pp. 390-420.
7
PENA, Eduardo Spiller. Pajens da casa imperial: jurisconsultos, escravidão e a Lei de 1871. Campinas:
Unicamp, 2001. Pp. 25-55. Eduardo Penna destaca um conjunto de fatores como responsáveis pela
elaboração e promulgação da Lei do Ventre Livre, dentre eles: o medo de uma revolução escrava como
em São Domingos e outras revoltas no Brasil, como dos Malês na Bahia e Manuel Congo no Rio, a ação
de abolicionistas nas ruas, imprensa e nos tribunais de justiça, a influência das sociedades abolicionistas
europeias, o fim da escravidão nos Estados Unidos, a predisposição do imperador em encaminhar uma lei
emancipacionista e por fim, a necessidade da elite imperial em controlar um processo que se afigurava
perigoso e incerto.
15

A transformação das práticas e perspectivas antiescravistas no Brasil ao longo


do século XIX seguiu um percurso similar dos demais Estados nacionais e suas colônias
escravistas migrando do emancipacionismo8 para o abolicionismo, mesmo tendo em conta que
uma perspectiva não excluía a outra e ambas foram contemporâneas ajustando-se às demandas
locais9.No Brasil a mudança da perspectiva emancipacionista para a abolicionista foi a mais
longa e teve três eixos cronológicos fundamentais10. O primeiro se estendeu da Independência
até o ano de 1850. O segundo compreende o fim dos anos 1850 e se estende até os anos 1871. O
último engloba o final dos anos 1870 até a abolição da escravidão, em 1888.

O primeiro período introduziu as bases argumentativas dos discursos


antiescravistas e pró-escravistas no Brasil, tendo o racionalismo da ilustração como
11
embasador das ideias e projetos . Os pioneiros eram majoritariamente
emancipacionistas e identificados com a perspectiva de um fortalecimento econômico e
social do Estado brasileiro. Dentre as propostas e objetivos desejados pelos
antiescravistas desse período estavam o fim do tráfico como medida eficaz para o fim da
escravidão – deixando a cargo da iniciativa particular do senhor a emancipação de seus
escravos como forma de controlar tanto o processo emancipador como também se
tornando um mecanismo simbólico e prático de controle da própria escravaria tendo em
vista os receios de uma ampla revolta escrava como em São Domingos ou na Bahia -, a
modernização econômica do país por intermédio do trabalho livre e da entrada de
imigrantes europeus, alémdo fortalecimento político internacional mediante as potências
econômicas europeias12.
O segundo período é marcado pelo advento da pressão escrava e de
esparsas ações de alguns abolicionistas e sociedades emancipacionistas intervindo nas
relações entre senhor-escravo13. As ações destes indivíduos e grupos ainda estavam no

8
O emancipacionismo refere-se às práticas e ideias voltadas para uma extinção gradual da escravidão, em
sua totalidade amparada por leis. Ver, MOURA, Clóvis. Dicionário da Escravidão Negra no Brasil. São
Paulo: Edusp, 2013.; Ibidem, COSTA. Pp. 394-422.
9
Op. Cit. AZEVEDO, 2003.; DRESCHER, Seymour. Abolição: uma história da escravidão e do
antiescravismo. São Paulo: Unesp, 2011.; BLACKBURN, Robin. A queda do escravismo colonial (1776-
1848). Rio de Janeiro: Record, 2002.; e SCOTT, Rebecca. Emancipação escrava em Cuba: a transição
para o trabalho livre (1860-1889). Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1991.
10
O recorte cronológico que estabeleci tem como objetivo relacionar ideias, práticas e contexto nacional e
internacional com as decisões internas relacionadas ao fim da escravidão no Brasil.
11
Ibidem, AZEVEDO.; Op. Cit. COSTA, 1998.; e Op. Cit. PARRON, 2011. Pp. 64-84.
12
Idem. Este conjunto de medidas que vieram a culminar na Lei Anti-tráfico de 1831 insere-se na
perspectiva do liberalismo escravista apontado por TâmisParron. Outro ponto fundamental para a
construção das ideias, práticas e discursos neste período é a pressão exercida pela Inglaterra e o
internacionalismo do abolicionismo. Também segue na esteira destes argumentos as ideias antiescravistas
que viam na escravidão tanto o meio mais adequado e lucrativo para o cultivo de terras no Brasil, como
identificava no negro o único capaz de trabalhar, habitar e cultivar o país.
13
Op. Cit. PENA, 2001. Pp. 25-55.; e RIOS, Ana Lugão& MATTOS, Hebe. Memórias do cativeiro:
família, trabalho e cidadania no pós-abolição. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005. Pp.
49.Segundo as interpretações de Eduardo Penna e Hebe Matos, o Estado imperial tendeu a transformar os
16

âmbito emancipacionista identificados com a tradição argumentativa da ilustração que


preconizava a liberdade e o direto do ser humano14. A escravidão era vista como uma
aberração e um crime contra humanidade. Em contrário, os escravistas invocavam o
liberalismo e o seu direito de propriedade15.
Foi a partir desta querela, das consequências que esta e as leis de 1831 e
1850 concediam aos escravos para conseguir a sua liberdade em juízo, que Eduardo
Spiller Penna identificou a participação do IAB – Instituto dos Advogados do Brasil –
na construção de um amplo projeto emancipacionista a partir da libertação dos
nascituros16. O sempre presente receio de uma revolta escrava, as agressões de escravos
contra senhores e as transformações econômicas e culturais engendradas pela Revolução
Industrial – com as vertentes da modernização econômica e cultural que em síntese
plasmava o modelo econômico e social europeu como modelo civilizacional a ser
seguido e no Brasil encontrava os seus meios de cristalização por intermédio das
práticas e projetos de imigração europeia – são outros elementos constituintes deste
contexto17.
Do lado institucional, as convicções políticas de D. Pedro II e de parte
elite política imperial entendiam que a escravidão era incompatível com as necessidades
de um Estado moderno 18 .Por mais que as ações parlamentares destinadas ao fim da
escravidão tenham cessado logo após a promulgação da Lei de 1871, as ações dos
escravos voltadas para a obtenção de sua liberdade não cessaram;muito menos as
sociedades, clubes e associações emancipacionistas se extinguiram. O que se viu foi um

costumes e práticas do regime escravista favoráveis à liberdade escrava em leis a partir de um cenário de
luta escrava e da consequente tentativa de controle social por parte da elite imperial.Nesse sentido, a Lei
do Ventre Livre, a proibição da separação da família escrava e o direito de formar pecúlio objetivando a
compra da alforria são frutos deste contexto político e social.
14
Idem.
15
Op. Cit. PARRON, 2011. Pp. 64-103 e 287-303. Seria esta abase do liberalismo escravista da sociedade
brasileira. A operação intelectual para justificar a escravidão em uma sociedade defensora das ideias
liberais tanto na política como na Economia era a invocação do direito de propriedade que suprimia o
direito de liberdade e igualdade para o escravo. Assim, o liberalismo brasileiro colocava em primeiro
lugar e como ponto basilar a propriedade para manter o sistema escravista no país.
16
Ibidem. Pp. 145-295.
17
Idem. Pp. 25-55.;COSTA, EmiliaViotti. Da monarquia a república: momentos decisivos. São Paulo:
Unesp, 1999. Pp. 195-290.; e GRAHAM, Richard. Escravidão, reforma e imperialismo. São Paulo:
Perspectiva, 1979. Pp. 59-78 e 147-177.
18
O cosmopolitismo de D. Pedro II e internacionalismo do abolicionismo entrecruzaram-se nos anos 1860
quando o monarca brasileiro recebeu um ofício de uma Sociedade Abolicionista francesasobre as
perspectivas de extinção da escravidão no Brasil. O discurso pró-escravista identificou aí a motivação do
pedido do imperador em encaminhar um projeto que mais tarde veio a ser promulgado em 1871, como a
Lei do Ventre Livre, negando a mobilização que havia no país em prol da extinção da escravidão.
17

crescente aumento da participação da sociedade no sentido de contribuir para o fim da


escravidão19.
Nesse sentido, porvolta do fim dos anos 1870 e início de 1880, o
emancipacionismo passou a entrar em franco descrédito entre os segmentos urbanos da
sociedade imperial na Corte 20 . Indivíduos, grupos, associações, clubes e sociedades
engajadas em criticar a escravidão e a adotar ações que pudessem contribuir para o fim
desta instituição - surgidos nos anos 1860 e 1870 -identificavam o êxito de
escravocratas - no parlamento, no governo, na imprensa, enfim, nos diversos segmentos
sociais – em postergar o fim da escravidão, sobretudo, por intermédio de mecanismos
emancipacionistas. Por outro lado, a maioria das associações engajadas na luta contra a
escravidão ainda tinha esse perfil, ou seja, também eram emancipacionistas.

19
Ver, AZEVEDO, Elcine. Orfeu de Carapinha: a trajetória de Luiz Gama na imperial cidade de São
Paulo. Campinas, São Paulo: Unicamp, 1999. Pp. 188-285.; Op. Cit. CONRAD, 1975. Pp. 175-
198.;ALONSO, Angela A teatralização da política: a propaganda abolicionista. Seminário Temático
Sociologia, História e Política. Programa de Pós Graduação em Sociologia, USP, 2010.; SILVA, Tiago
Cesar & SILVA, Vanessa Faria. O outro lado da Abolição: o envolvimento dos maçons e dos negros no
processo de emancipação do trabalho escravo. Revista ESCRITOS. Rio de Janeiro, Casa de Rui Barbosa,
ANO 4, nº 4,2010; SILVA, Eduardo. Resistência Negra e formação do Underground Abolicionista: uma
investigação de História Cultural (Rio de Janeiro, década de 1880). Projeto de pesquisa CNPQ/Fundação
Casa de Rui Barbosa. Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 2010-2103. Acessado em
28/02/2015
www.casaruibarbosa.gov.br/dados/DOC/bolsistas/2010/FCRB/_Selecao_de_Bolsistas_2010_Resistencia_
Negra_e_Formacao_do_Underground_Abolicionista.pdf.; e ALONSO, Angela. O abolicionismo como
movimento social. Novos Estudos.Cebrap, nº 88 , novembro, 2014.
É consenso entre os autores citados a identificação da participação popular no movimento abolicionista.
As divergências restringem-se ao direcionamento do mesmo, ou seja, se as suas reivindicações
restringiam-se ao campo político, econômico ou social, mas, também objetivavam identificar se o
movimento era elitista ou não como critério de validação de suas análises sobre a conjuntura pós-abolição
e a consequente realidade imposta aos libertos.
Porém, relacionando as análises dos autores supracitados com a afirmação de Eduardo Spiller Penna
sobre a existência de ações e individuais e coletivas voltadas para a emancipação escrava desde os anos
1850, podemos supor que tanto o parlamento como o monarca não foram os responsáveis pelo mudança
de perspectiva emancipacionista para a abolicionista. A nossa hipótese é que tal perspectiva circulava fora
do parlamento, ou seja, nas ruas, nos clubes e associações, porém de forma desarticulada, logo, não
alcançavam visibilidade política e social. Esta visibilidade só materializou-se quando alguns deputados
colocaram a proposta de abolição imediata em pauta na Câmara.
20
Idem. CONRAD. Pp.165-174. ; Op. Cit. DESCHER, 2011. Pp. 505-518. ; Op. Cit. GRAHAM, 1979.
59-78 e 147-177.; e COSTA, Emília Viotti da. Brasil: A era da reforma (1870-1889). In: História da
América Latina: de 1870 a 1930 – volume V. (org.) BETHELL Leslie. São Paulo: Edusp, 2008. Pp. 741-
750. Seymour Drescher e Robert Conrad identificam o surgimento do abolicionismo brasileiro no
parlamento. Para ambos autores as desigualdades econômicas entre os fazendeiros do norte e nordeste em
relação aos fazendeiros do centro-sul foi determinante para que os primeiros encaminhassem a proposta
abolicionista tendo em vista a escassez de mão de obra em suas fazendas. Nesse sentido, identificam o
abolicionismo como um movimento de caráter eminentemente político e elitista.
Em oposição aos argumentos de Drescher e Conrad, Emília Viotti e Richard Graham identificam o
surgimento do abolicionismo nas demandas e transformações sócio econômicas. Ou seja, as
transformações econômicas em curso no país engendraram uma conjuntura de crise econômica
institucional em que as bases do Império estavam sendo questionadas como princípios de uma ampla
reforma necessária para a modernização do país e da satisfação das demandas sociais.
18

O marco da virada abolicionista se deu no campo político institucionalno


ano de 1878, quando os Liberais chegaram ao poder e lançaram uma agenda de
reformas em diversos setores do Império 21possibilitando o retorno no parlamento do
debate sobre o fim da escravidão. O debate parlamentar sobre o fim da escravidão que
havia sido suplantado pela promulgação da Lei Rio Branco de 1871 continha algumas
cláusulas que permitiam na prática a utilização do trabalho dos ingênuos até atingirem a
maior idade.Fatos como esse geravamuma insatisfação dos segmentos sociais engajados
na luta contra a escravidão e,alémdisso, os abolicionistas também acusavam a ineficácia
do Fundo de Emancipação na obtenção de alforrias22.
Neste contexto, as entidades emancipacionistas surgiram para fazer valer
a Lei de 1871, sobretudo, no tocante à compra de alforrias por intermédio da criação de
um Fundo de Emancipação23. A possibilidade da compra da liberdade sancionada pela
lei garantia ao escravo um direito que na prática já existia, e por outro lado, demarcou
como se daria o processo de abolição da escravidão no Brasil, ou seja, lento,
parcimonioso e indenizando os senhores de escravos24. Em última instância controlado
pela elite imperial e o Estado.
Os segmentos sociais descontentes com essas perspectivas se
mobilizaram no parlamento a partir da “brecha” liberal aberta em 1878. Já no ano
seguinte, o deputado baiano Jeronymo Sodré, destilara um discurso contundente contra
a escravidão abrindo uma nova perspectiva de luta parlamentar a favor da abolição25.
No âmbito social – nas ruas -, ressurge um movimento de caráter popular26, chamado de

21
Ver, Op. Cit. ALONSO, 2010. ; e Op. Cit. CONRAD, 1975. Pp. 166-167.
22
Ao longo dos anos 1870 e início dos anos 1880 surgiram diversas caixas emancipadoras que tinham o
fim de promover a alforria de escravos. Em geral, essas caixas eram formadas nas irmandades religiosas
em nas associações emancipacionistas. Ver, Op. Cit. SILVA, 2010-2013.
23
Op. Cit. COSTA, 1998. Pp. 462-463.
24
Op. Cit. PENNA, 2001. Pp. 311-319.
25
Op. Cit. ALONSO, 2010.; e OP. Cit. CONRAD, 1975. Pp. 166-174.
26
Op. Cit. PARRON, 2011. Pp. 90-103.; e Op. Cit. COSTA, 2008. Pp. 735-738. Parron destaca a
participação e organização de grupos populares na luta pela abolição da escravidão no Brasil durante os
anos 1830, além de demonstrar uma mobilização social, na imprensa e no parlamento ao longo dos anos
1840 até 1870 em prol do fim da escravidão no país.
Emília Viotti também destaca a existência de grupos e propostas emancipacionistas desde os anos 1850,
mas, não eram suficientes para influenciar a pauta política do Império. Para a autora o retorno do debate
emancipacionista nas instituições políticas brasileira teve a influência direta da guerra civil norte-
americana e a consequente derrota dos escravistas daquele país.
É importante ressaltar que mesmo reconhecendo diferentes perspectivas antiescravistas nesse contexto, os
autores identificam tanto a presença popular como a recorrência do tema nos diferentes campos sociais no
Brasil ao longo do século XIX. Logo, veremos a ressignificação de discursos e práticas, bem como
adaptações transformações dos mesmos na trajetória antiescravista no Brasil, impossibilitando creditar o
pioneirismo desta perspectiva aos abolicionistas de fins do anos 1870 e início dos anos 1880.
19

campanha abolicionista, marcado pelos debates nas ruas, meetings, conferências e


artigos em jornais entre outras práticas.
O desenvolvimento da Campanha Abolicionista no país no início do ano
de 1880, gerou uma série de debates em torno da escravidão e das formas de se abolir
tal instituição. Estes debates também eram uma disputa entre escravocratas,
emancipacionistas e abolicionistas na tentativa de direcionamento político sobre o
processo de abolição no país. Em geral, apresentavam seus argumentos a partir da
realidade local e das experiências estrangeiras 27. Neste sentido, a desestruturação do
sistema escravista no Brasil apresentou uma característica ao mesmo tempo singular e
comum em relação aos demais processos abolicionistas ocorridos no ocidente ao longo
do século XIX.
Isso porque, tendo sido o último país ocidental a acabar legalmente com a
escravidão, os legisladores, intelectuais envolvidos no debate abolicionista, líderes
políticos, administradores públicos e o próprio monarca, observaram e empregaram
algumas leis e práticas adotadas por Cuba e Estados Unidos destinadas a acabar com a
escravidão em seus territórios que tendiam a acomodar os modelos e práticas
estrangeiras às necessidades e limites da realidade nacional fazendo da experiência
brasileira um caso peculiar em comparação com os demais 28 . A ação escrava e a
mobilização popular também se apresentam como elementos fundamentais do
abolicionismo brasileiro, pois tiveram uma considerável influência na estruturação das
leis emancipacionistas sancionadas no país, que em última instância representaram o
resultado das disputas sociais e políticas como reflexo das tensões do cotidiano29.
A esse novo conjunto de ideias e práticas destinadas ao fim mais breve da
escravidão convencionou-se chamar de abolicionismo30. O abolicionismo, em seu sentido lato,
era toda e qualquer ação e proposta que visasse o fim imediato da escravidão, fosse através da
manumissão de escravos, da denúncia de maus tratos cometidos por senhores que deveriam
desse modo perder o direito sobre a sua propriedade, os discursos públicos destinados à
propaganda e formação de uma opinião pública favorável ao fim de tal sistema, as propostas

27
ALONSO, Angela. Associativismo avant lalettre – as sociedades pela abolição do Brasil oitocentista.
Sociologias, Porto Alegre, ano 13, set,/dez. 2011. Pp. 173.; e ALONSO, Angela. O abolicionista
cosmopolita: Joaquim Nabuco e a rede abolicionista transnacional. Novos Estudos, Cebrap, nº 88 ,
novembro, 2010.
28
Idem.
29
CHALHOUB, Sidney. Visões da liberdade: uma história das últimas décadas da escravidão na Corte.
São Paulo: Companhia das Letras. 1990. Pp. 108-122 e 161-174.; Op. Cit. PENA, 2001. Pp. 311-338.; e
Op. Cit. AZEVEDO, 1999. Pp. 188-285. Os autores destacam a influência das ações de escravos e
abolicionistas na dinâmica política, social ´do Império, mas sobretudo, nas decisões oficiais relacionadas
ao fim da escravidão.
30
Ver também, Op. Cit. MOURA, 2013. Pp. 15-16.
20

parlamentares na Câmara e Senado, e etc., enfim, uma plêiade de práticas muitas vezes distintas
e até antagônicas, que tinham como fim único a liquidação imediata do sistema escravista.

No Brasil, a participação de intelectuais no movimento abolicionista explica-se


pela profusão de perspectivas e propostas voltadas para o fim da escravidão como questão basal
para a modernização do país31. O combate à escravidão era um dos motes da chamada “Geração
de 1870”, por entender que tala instituição prejudicava a Economia brasileira de tal forma que
acabava por obstaro acesso desses intelectuais aos postos de destaque e comando político do
Império devido a escassez de recursos32.

O Império - e em específico a primeira metade do Segundo Reinado - foi


monopolizado politicamente pela teia de Penélope tecida pela direção saquarema do Partido
Conservador33 – desde a política do Regresso dos anos 1840 e tendo seu ápice na política da
Conciliação dos anos 1850 e 1860 –, que abria espaço no jogo político do Império apenas aos
líderes do Partido Liberal, conformando uma elite política à semelhança de um clube na qual
entravam apenas os selecionados34.

É neste contexto que os intelectuais da geração de 1870 procuram


estabelecer seus projetos e reivindicações tanto pessoais quanto políticas, em oposição
ao modelo político, cultural e econômico gestado pela elite imperial, adquirindo
contornos reformistas e inserindo ao mesmo tempo o país no modelo civilizacional
europeu e norte americano.
Contudo, outras análises sobre o abolicionismo apresentam outros
elementos além da insatisfação intelectual e da perspectiva elitista do abolicionismo no
Brasil. Célia Marinho Azevedo aponta para a mesma perspectiva reformista dos
abolicionistas norte-americanos 35 . Segundo Célia Azevedo, os projetos abolicionistas
brasileiros e norte-americanos, guardado as devidas proporções temporais de
surgimento e materialização comungavam a mesma perspectiva reformista36.

31
ALONSO, Angela . Ideias em Movimento: a geração de 1870 na crise do Brasil Império São Paulo:
Paz e Terra, 2002. Pp.250-252.
32
Idem.
33
MATTOS. Ilmar R. de. O Tempo Saquarema. São Paulo: Hucitec, 2004. Pp. 206-263. A perspectiva
apresentada por Ilmar Mattos reforça a formação de uma rede de poder entrelaçada entre as diferentes
instâncias de comando, organização e controle social, político e econômico, objetivando a consolidação e
manutenção da tradição conservadora – denominada pelo autor como a moeda colonial. Assim, a direção
do Partido Conservador controlava – direta e indiretamente - os postos chaves de manutenção e
propagação de seu projeto político e ideológico de nação.
34
CARVALHO, José Murilo de. A Construção da Ordem: A elite política imperial. Teatro de Sombras: A
política imperial. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,2003. Pp. 121-141. A imagem desta elite imperial
do Segundo Reinado como um clube demonstra o quanto era aberta e ao mesmo tempo limitada a entrada
nos círculos de poder e comando políticos do país.
Assim, Conservadores e Liberais poderiam estar – e muitas vezes estavam – defendendo as mesmas
ideias e perspectivas de organização social, política e econômica para o Império, pois, as suas
semelhanças de origem social e formação intelectual aproximava-os mais do que o possível afastamento
ideológico a cerca do direcionamento político institucional do país.
35
Op. Cit. AZEVEDO, 2003. Pp. 41-42.
36
Idem.
21

Esses estudos sobre o abolicionismo brasileiro ampliaram as temáticas


em torno do processo de desintegração do sistema escravista no país levando em
consideração as dimensões políticas, econômicas e socais deste movimento 37 .Robert
Conrad 38 realizou uma análise abrangente do abolicionismo brasileiro enfatizando a
dimensão política. Há que se destacar especialmente as suas conclusões sobre o
abolicionismo. O autor faz a distinção entre indivíduos e grupos ligados ao movimento e
os separa em duas vertentes: os abolicionistas “moderados” - caracterizados por terem
aderido à causa depois da mesma ter adquirido grande repercussão social e política no
país e no exterior - e os “radicais” - que objetivavam além do fim da escravidão, a
inserção social do negro através da educação, trabalho assalariado e reforma agrária.
Essa perspectiva também é ressaltada por José Murilo de Carvalho, Angela Alonso,
Hebe Mattos e Maria Helena Machado39.
Outra vertente importante da análise do abolicionismo brasileiro se
voltou paraos estudos dacomunhão das ações de resistência ao cativeiro e luta pela

37
Op. Cit. COSTA, 1999.; Op. Cit. COSTA,1998.; e COSTA, Emília Viotti da.A Abolição.São
Paulo:Global, 2001. Pp. 90-91. Partindo da perspectiva econômica como estruturante no processo de
supressão do cativeiro, Emília Viotti da Costa compreende que o processo de desestruturação do
escravismo no Império estava inserido em um processo de crescimento econômico e modernização
natural devido o advento do capitalismo – que estava se implantando no país. Logo, o abolicionismo –
enquanto corrente política defensora do fim da escravidão – era fruto da modernização econômica do
Império, que por sua vez também necessitava de igual modernização de sua força de trabalho. O
movimento abolicionista teria então, a função de conscientizar, organizar e tutelar as revoltas escravas e,
em última análise, o processo de abolição da escravidão. Nesse contexto de modernização
socioeconômica, Viotti destaca que a mentalidade progressista de alguns setores da Economia brasileira –
mormente paulistas - aliada à imigração, foi igualmente fundamental para a abolição da escravidão -
apresentada como “missão” fundamental à transformação do regime de trabalho escravo para o trabalho
livre -, e conclui afirmando que o fim da escravidão foi uma vitória do movimento abolicionista.
38 Op. cit. CONRAD, 1975.

39
Visão similar, cf. ALONSO, Angela. Apropriação de ideias no Segundo Reinado. In: GIRNBERG,
Keila e SALLES, Ricardo. O Brasil Imperial, vol.III (1870 – 1889). Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 2009. ; e Op. cit. ALONSO, Angela, 2002. Angela Alonso destaca a disputa pelo poder
político no Brasil em fins do século XIX, em seu aspecto ideológico. A abordagem gira em torno da
identificação e análise das ideias difundidas e defendidas pelos atores e grupos sociais no cenário político
do país. Desse modo, a autora enfatiza a existência de um jogo político caracterizado não somente pela
disputa da hegemonia dos poderes políticos e econômicos no país, mas também, uma constante tentativa
de subversão da ordem ou ao menos da dinâmica imperial.; MACHADO, Maria Helena T. “Teremos
grandes desastres, se não houver providências enérgicas e imediatas”: a rebeldia dos escravos e a abolição
da escravidão. In: GIRNBERG, Keila e SALLES, Ricardo. O Brasil Imperial, vol.III (1870 – 1889). Rio
de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009.;Op. Cit. CARVALHO, 2003.; e CARVALHO, José Murilo de.
Cidadania no Brasil: O longo caminho. Rio e Janeiro: Civilização Brasileira,2004. Apesar de José Murilo
destacar o encaminhamento político parlamentar do encaminhamento da abolição, segundo o autor, o
movimento abolicionista basicamente apresenta como sua ideologia à aplicação do liberalismo
democrático no Brasil. Contudo, o autor reconhece que após a abolição da escravidão o negro não teve de
fato as melhorias que o movimento abolicionista prometera anos antes. De qualquer forma, José Murilo
de Carvalho insere o abolicionismo dentro dos projetos de reformas defendidas por parte da elite política
do país variando apenas, no modo a ser feita essa transição do trabalho escravo para o livre.
22

obtenção da liberdade – alforrias, fugas, processos judiciais, etc. – por parte dos
escravos associadosa crescente e efetiva campanha abolicionista como fatores decisivos
na desagregação do sistema escravista no Império 40 . Dentre as principais obras
destacamos os estudos de Célia Maria Marinho de Azevedo41, Hebe Maria Mattos42 e
Maria Helena Machado43.

40
Reis, João José. Rebelião escrava no Brasil: a história do Levante dos Malês – 1835. São Paulo:
Brasiliense, 1986.; SILVA, Eduardo & REIS, João José. Negociação e Conflito. São Paulo: Companhia
das Letras, 1989.; e SILVA, Eduardo. Dom Oba II D’ África, o Príncipe do Povo: vida, tempo e
pensamento de um homem livre de cor. São Paulo: Companhia das Letras, 1997. Ao abordar a atuação
política e o imaginário de um ex-escravo na Corte, Eduardo Silva apresenta conceito diverso de anomia e
passividade creditada aos escravos e forros, salientando a pluralidade dos contatos mantidos com figuras
importantes no cenário político nacional – como o próprio Imperador – e destacando suas respectivas
participações no processo de abolição da escravidão no Brasil.
MACHADO, Humberto Fernandes. &NEVES, Lucia Maria B. O Império do Brasil. Rio de Janeiro: Nova
Fronteira,1999. Humberto Machado destaca o desenvolvimento do abolicionismo no Brasil em fins dos
anos 1870 e identifica as ações parlamentares e na imprensa, de indivíduos e sociedades abolicionistas
como elementos fundamentais no processo de extinção do cativeiro. O autor aponta diversos fatores que
possibilitaram o surgimento do movimento abolicionista a partir da década de 1850, identificando assim,
a decadência de elementos estruturais do Império ao longo do Segundo Reinado.
41
AZEVEDO, Célia M. Marinho de.Onda Negra, Medo Branco: o negro no imaginário das elites século
XIX. São Paulo: Annablume, 2004. Desse modo, a obra de Célia Azevedo Marinho sobre o imaginário
das elites dirigentes e econômica do país durante o século XIX, aponta para o receio vivido por esses
personagens diante das rebeliões e revoltas escravas – internas e externas – e da possível – e necessária -
libertação em massa dos cativos do país. A autora insere os projetos feitos nesse período voltados para a
libertação ou emancipação dos escravos como componentes do processo de transição e instalação do
capitalismo no Brasil. O abolicionismo então seria um movimento interessado em organizar e preparar a
mão de obra escrava para a nova realidade que se apresentava com vistas a inserir o Brasil no contexto
das nações civilizadas.

Já a obra Visões da Liberdade, de Sidney Chalhoub, apresenta a ressignificação do sentido da liberdade


para escravos, forros e libertos, através de práticas sociais, relações de compadrio, ações judiciais,
revoltas e crimes cometidos por estes indivíduos ou em grupos a partir de 1871 com a promulgação da lei
do ventre livre. Nesse sentido, o autor identifica uma oposição entre os anseios, necessidades e objetivos
dos escravos em relação aos modelos e padrões civilizatórios europeus adotados pela elite imperial, e de
grupos sociais urbanos ligados às esferas de poder político e econômico, que por vezes, eram
identificados como barbarismos ou afronta à tradição da sociedade imperial, estabelecendo assim, um
confronto entre visões de mundo e objetivos na sociedade fluminense – na Corte em específico, local em
que o autor concentra as suas análises. Tal análise, ao identificar as diversas formas de resistência
adotadas pelos cativos, aponta os mesmos e suas ações, como elementos importantes no processo de crise
do escravismo, no qual os escravos tiveram um decisivo e efetivo papel neste sentido. Ver, Op. Cit.
CHALHOUB, 1990.
42
CASTRO, Hebbe. Das cores do silêncio: os significados da liberdade no sudeste escravista – Brasil
século XIX. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 1995.
43
MACHADO, Maria Helena T.O. O plano e o pânico: os movimentos sociais na década da Abolição.
São Paulo: Edusp, 2010.
Maria Helena Machado e Hebe Mattos destacam as ações extraparlamentar na obtenção da liberdade dos
cativos e da Abolição. A noção de controle do processo de abolição - iniciado pelos escravos -
direcionada pelos abolicionistas é comum às duas autoras que, também destacam o interesse de
parlamentares, membros da casa real – como o próprio Imperador – e ministros em legitimar e organizar
as vitórias que na prática os escravos haviam conquistado através de suas práticas e negociações com seus
senhores ao longo dos 300 anos de escravidão – desde o período colonial até fins do Império.

As autoras afirmam que a abolição da escravidão no Império foi uma vitória conjunta tanto de escravos
quanto de abolicionistas e identificam uma heterogeneidade no movimento abolicionista, além da
formação de uma ampla rede de apoio social, ligando abolicionistas da Corte com santistas, paulistas e
23

Uma terceira vertente de estudos sobre o abolicionismo têm se debruçado sobre


as suas perspectivas sociais, seja em relação a projetos de nação desenvolvidos por intelectuais
ou mesmo nas mobilizações coletivas destacando a participação popular de forma organizada no
abolicionismo, visto assim como um movimento social44. Assim, o estudo de Andréa Santos da
Silva Pessanha45 sobre André Rebouças identifica nas ações e pensamentos do professor e
engenheiro, os seus projetos abolicionistas e de seus pares com ênfase nas propostas de
educação e reforma agrária, direcionadas para a inserção positiva do negro na sociedade liberal
que se engendrava no país46.

Em sentido contrário a boa parte dos estudos sobre o abolicionismo e seguindo


o viés da cultura política, Andrea Marzano47 identifica a participação e atuação de indivíduos
comuns e relativamente desconhecidos ou pouco citados pela historiografia na campanha
abolicionista. A autora destaca a importância destes “quase anônimos” no processo de crise do
escravismo, através de suas atividades profissionais, nas propagandas e debates de rua e nas
instituições voltadas para o combate da escravidão.

Sem olvidar os aspectos econômicos e políticos do movimento


abolicionista, - mas, também demonstrando o lado cultural desse - o historiador Eduardo
Silva 48 apresenta a Camélia como elemento simbólico do abolicionismo na Corte,
permitindo a identificação dos partidários dessa causa mediante a utilização da Camélia.
Através dessa identificação, o autor percebe uma vasta rede de apoio social que
objetivava a libertação do cativo – ora agindo dentro dos limites da leiora negligenciado
os aspectos legais. Em torno dessa rede de apoio aos escravos e ex- escravos, o autor
aponta a existência de uma vasta rede institucional, que viabilizava e até mesmo
organizava a libertação e (re) inserção social dos cativos49.

escravos dessas regiões – incluindo o sul de Minas Gerais. Nesse contexto, tal rede de apoio entre
abolicionistas adquire um sentido de radicalidade, pois, mobilizava um grande número de indivíduos que
passam a realizar ações e projetos abolicionistas em contraste à medidas de caráter emancipacionista -
característica da pluralidade de ideias e indivíduos que compuseram movimento abolicionista no Brasil
imperial.
44
Op. Cit. ALONSO, 2014.
45
PESSANHA, Andréa Santos. Da abolição da escravatura à abolição da miséria: a vida e as ideias de
André Rebouças. Rio de Janeiro: Quartet ,2005.
46
PINTO, Rebeca Natacha de O. & SCHUELER, Alessandra Frota M, de. Pensamento e projetos
educacionais do professor André Pinto Rebouças (1838-1898): progresso, civilização e reforma social. In:
Intelectuais e a nação: educação, saúde e construção de um Brasil moderno. (orgs.) CARULA, Karolina
& ENGEL, Magali G. & CORRÊA, Maria Letícia. Rio de Janeiro: Contra capa, 2013.; e SOUZA, Flávia
Fernandes de. & TORRES, Rosane, dos Santos. Liberdade e instrução: projetos e iniciativas
abolicionistas para educação popular (Rio de Janeiro, década de 1880). In: Intelectuais e a nação:
educação, saúde e construção de um Brasil moderno. (orgs.) CARULA, Karolina & ENGEL, Magali G.
& CORRÊA, Maria Letícia. Rio de Janeiro: Contra capa, 2013.
47
MARZANO, Andrea. Ascensão social, participação política e abolicionismo popular na segunda
metade do século XIX.In:ABREU, Martha. SOIHET, Rachel. GONTIJO, Rebeca (orgs.) . Cultura política
e leituras do passado: historiografia e ensino de história. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,2007.
48
Op. cit. SILVA, Eduardo, 2003.
49
Idem. O autor destaca a participação da Confederação Abolicionista e de outros grupos, associações e
instituições engajadas no processo da abolição sem ater-se aos possíveis projetos políticos, econômicos e/
24

Percebemos através deste breve inventário da historiografia sobre o


abolicionismo brasileiro que a sua perspectiva intelectual e política se enquadramnum projeto de
reforma social e econômica do país. Porém, ao analisarmos o seu víeis social percebemos uma
perspectiva radical e transformadora, que por diversos motivos foi obliterada pela elite imperial.
Apesar de nomes como Joaquim Nabuco, José do Patrocínio e André Rebouças, entre outros
terem sido por vezes apontados como lideranças no movimento abolicionista, entendemos que a
abolição da escravidão no Brasil foi fruto de diversas ações sociais e políticas – incluindo ai as
ações de resistência ao cativeiro dos próprios escravos – nas ruas, fazendas, senzalas, imprensa,
parlamento e na administração imperial.

Esta relação entre indivíduos de diversas origens sociais, econômicas e


profissionais foi o que possibilitou e engendrou o surgimento da Confederação Abolicionista,
configurando-se como uma ampla rede de sociabilidades50 interessada em dirigir o movimento
abolicionista.As diversas ações executadas por essa instituição através de uma rede de
sociabilidades nacional e transnacional proporcionou o seu destaque na campanha abolicionista
e na imprensa nacional a ponto de ser vista como uma liderança do movimento abolicionista no
Brasil.

Enquanto uma instituição formadora de uma ampla rede de sociabilidade, a


Confederação foi capaz de organizar um grande número de associações e clubes abolicionistas,
congregar em seu seio indivíduos das mais variadas origens sociais e políticas, incluindo
libertos e ex-escravos. A nossa hipótese é queessa participação popular em suas ações permitiu
uma ampla ação e repercussão social dentro do movimento abolicionista brasileiro.

As ações de bastidores – geralmente ocultadas nas fontes institucionais e nas


biografias – quando reveladas pelo entrecruzamento de diversas fontes nos apresentam novos
sujeitos, destaca a importância de outros relegados à citação de seus nomes como simpatizantes,
além de relativizar os grandes feitos de outros personagens históricos. O objetivo em estudar a
Confederação Abolicionista segue a perspectiva relacional e coletiva das ações humanas em
sociedade olvidando uma possível identificação de sua atuação na sociedade como um ato
maravilhoso e messiânico, mas, sim analisando a sua especificidade e singularidade objetivando
a sua significância social na conjuntura histórica em que esteve inserida.

No primeiro capítulo analisarei o surgimento, a formação, os objetivos e


métodos de ação da Confederação Abolicionista. No capítulo seguinte analisei as ações e
projetos da Confederação Abolicionista com o intuito de avaliar a sua influência e
representatividade no movimento abolicionista brasileiro, para enfim, no terceiro capítulo
compreender a dimensão e o alcance político das ações e ideias defendidas pela Confederação
Abolicionista. Tal procedimento me levou a identificar a possível formação de um Partido
Abolicionista em torno da Confederação.

ou sociais que tais instituições pudessem ter apresentado. O foco do autor são as ações de abolicionistas e
escravos no processo de desagregação da escravidão. Ver também, Op. Cit. SILVA, Eduardo & REIS,
1989.
50
Op. cit.SIRINELLI, 1998. Pp. 271-275.; e Op. Cit. SIRINELLI, 2003.Pp.248-250.
25

1. Movimento Abolicionistae redes de sociabilidade: a Confederação


Abolicionista e o abolicionismo radical brasileiro.

A campanha abolicionista foi um movimento social que inicialmente


agrupou a classe média urbana de algumas províncias do Império – e em especial a
Corte -, mas,gradativamente conseguiu penetrar nas demais classes sociais do país. A
participação de escravos e libertos neste movimento é outra característica do grau de
penetração e popularidade do abolicionismo51. Esta constatação é apontada também por
uma historiografia mais recente que destaca a participação de libertos no movimento
abolicionista, através de clubes abolicionistas, irmandades e na imprensa52.
A perspectiva metodológica aqui adotada comunga desta vertente
historiográfica. Entendemos que a Abolição da escravidão e o movimento abolicionista
tiveram uma forte participação popular, sobretudo negra e mestiça, além disso, contou
com a participação de libertos e escravos fugidos em seu seio53.
O protagonismo negro no processo de Abolição da escravidão –
mormente no movimento abolicionista – é recente na historiografia brasileira.
Entendemos que a disputa dentro do campo político 54 e simbólico na condução do

51
Op. Cit. COSTA, 1998. Pp. 464-474.; DUQUE-ESTRADA, Osório. A Abolição. Brasilia: Senado
Federal, 2005. Pp. 77-94.; MORAES, Evaristo de. A Campanha Abolicionista (1879-1889). Rio de
Janeiro: Editora Leite Ribeiro, 1924. Pp. 21-43 e 367-369.
52
ALONSO, Angela A teatralização da política: a propaganda abolicionista. Seminário Temático
Sociologia, História e Política. Programa de Pós Graduação em Sociologia, USP, 2010.; SILVA, Tiago
Cesar & SILVA, Vanessa Faria. O outro lado da Abolição: o envolvimento dos maçons e dos negros no
processo de emancipação do trabalho escravo. Revista ESCRITOS. Rio de Janeiro, Casa de Rui Barbosa,
ANO 4, nº 4,2010; e SILVA, Eduardo. Resistência Negra e formação do Underground Abolicionista: uma
investigação de História Cultural (Rio de Janeiro, década de 1880). Projeto de pesquisa CNPQ/Fundação
Casa de Rui Barbosa. Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 2010-2103. Acessado em
28/02/2015
www.casaruibarbosa.gov.br/dados/DOC/bolsistas/2010/FCRB/_Selecao_de_Bolsistas_2010_Resistencia_
Negra_e_Formacao_do_Underground_Abolicionista.pdf.
53
Idem, MORAES, 1924. Pp. 89 -90, 239,244, 249-262. e Op. Cit. AZEVEDO, 2004. Pp. 174-161.
Os autores destacam a relação entre escravos, libertos e abolicionistas nas ações voltadas para a fuga de
escravos das fazendas e na propagação das notícias relacionadas a escravidão que circulavam na Corte,
que por sua vez eram retransmitidas nas fazendas e senzalas.
Ibidem, DUQUE-ESTRADA, 2005. Pp. 89. Para ver a participação de famosos capoeiras que auxiliavam
os abolicionistas como uma espécie de “Guarda”.
Idem. SILVA, 2010-2103.
54
Para o conceito de campo, ver BOURDIEU. Pierre.Os usos sociais da ciência: por uma sociologia
clínica do campo científico. Tradução Denice Barbara Catani. São Paulo: Unesp, 2004. Pp. 20-25. O autor
identifica o campo como um locus específico dotado de uma dinâmica própria. As característica das
relações materiais e imateriais entre as pessoas que compõem este campo como o seu produto interno, ou
26

abolicionismo brasileiro redundou no enaltecimento de uns e o obscurecimento de


outros atores históricos. O enaltecimento do protagonismo de lideranças brancas e
oriundas da elite política e social do país plasmou na historiografia oficial a visão de um
controle e direcionamento do movimento abolicionista pela elite e pelo Estado, ficando
dele apartado o seu caráter popular, direcionado e moldado pelas ações populares de
negros, mestiços, brancos, libertos, escravos fugidos, jornalistas, advogados, médicos,
enfim, de uma gama extremamente complexa de indivíduos e grupos sociais55.
É este cenário de complexidade e, sobretudo, da participação popular no
movimento abolicionista que pretendemos situar o surgimento da Confederação
Abolicionista, bem como a sua composição, objetivos e ações.
Um argumento frequente acerca do elitismo do movimento abolicionista
é o fato de sua propaganda ser feita através da imprensa, sendo assim, vedada as
informações aos escravos devido ao analfabetismo da grande maioria. Porém, Marialva
Barbosa 56 nos chama a atenção para a existência de leitores de segunda e terceira
ordem, ou seja, as comunicações, conversas, leituras em público que levavam a
informação escrita para outros indivíduos que não dominavam a leitura, mas, estavam
inseridos num universo de leitores em que a circulação de informações era comum. E
era exatamente esta uma das funções e ações desempenhadas por libertos e forros no
contexto de desestruturação do escravismo de fins do século XIX no Império no
Brasil57.
Barbosa aponta também algumas evidências para o fato de muitos
escravos e libertos dominarem os códigos linguísticos da leitura e da escrita e
consequentemente possibilitava o repassedas informações lidas nas páginas de jornais
abolicionistas para seus companheiros de cativeiro. Acreditamos que este movimento
era recíproco, ou seja, havia um intercurso cultural e social entre abolicionistas,
escravos e libertos, pois, a própria dinâmica social da Corte em fins do século XIX

seja, a produção deste campo, caracterizam-no definido o seu perfil. Por isso, podemos falar em diversos
campos, como o científico, político, econômico e etc. Contudo, a especificidade destes campos não os
isolam em relação aos outros, eles se entrecruzam e relacionam. o campo político é o local em que
ocorrem as relações políticas de uma sociedade, geralmente exemplificado nas disputas entre as diferentes
classes sociais.
55
Op. Cit. ALONSO, 2014. Pp. 115-120. Compartilhamos da mesma tese da autora ao identificar a
produção historiográfica da abolição como um campo em disputa. A demarcação de espaços,
protagonistas e lideranças não foge ao sistema de escolhas e omissões, por vezes deixando de lado uma
interpretação global e mais complexa deste movimento social.
56
BARBOSA, Marialva. História Cultural da Imprensa: Brasil 1800-1900. Rio de Janeiro: Mauad, 2010.
Pág. 206.
57
Op. cit. SILVA, 2010-2013. Pp. 10-14. O autor destaca a participação efetiva de libertos e forros nas
ações de fugas e acoitamento de escravos ao longo dos anos 1880 durante a campanha abolicionista.
27

engendrava a circulação de informações e ideias contidas nos jornais que por sua vez
funcionavam como um espelho da sociedade, ao iniciar, reproduzir ou alimentar muitos
dos debates de rua.
Além disso, na década de 1880 havia um grande número de jornalistas
negros que articulavamsuas ações profissionais e sociais em torno da questão da
58
escravidão . Até mesmo as leis e as sessões parlamentares eram de amplo
conhecimento de grande parte do público leitor, já que era praxe nos jornais mais lidos a
reprodução das atas, deliberações e de alguns discursos. Da mesma forma que as
matérias dos jornais, estas informações sobre o cotidiano político do país chegavam ao
público analfabeto através do ouvir dizer e das leituras coletivas.
Logo, se torna questionável a tese de que o movimento abolicionista era
elitista por ser exclusivamente organizado por uma elite que tanto nos seus discursos
como nas suas propagandas em geral,direcionavam-se apenas para os seus pares.
Sidney Chalhoub 59 já destacara também o conhecimento que muitos
escravos tinham sobre as leis de seus interesses e por vezes acionavam os mecanismos
jurídicos para a resolução dos seus dilemas.Em São Paulo, Luiz Gama defendia a
liberdade de escravos baseado na Lei de 1831 levando ao conhecimento de muitos
cativos os seus direitos diante da alegada ilegalidade da escravidão para os africanos –
escravos - importados após àquela data60.Outros vieram a fazer o mesmo nas diversas
Províncias do Império corroborando a existência de outras possibilidades de
conhecimento das informações veiculadas apenas por códigos de comunicação escrita,
mas, que chegavam ao conhecimento de analfabetos e desprovidos de diretos civis e
sociais61.
Concomitante às ações parlamentares iniciadas entre o fim de 1879 e o
início de 1880, o movimento abolicionista de caráter popular que se estruturava no
Império ainda apresentava aspectos de conformidade e aceitação com um
direcionamento jurídico-parlamentar no processo de abolição da escravidão. A postura
emancipacionista que atendia aos interesses da grande lavoura e preocupava-se com um
possível abalo das finanças do país - já que o principal produto de exportação brasileiro
58
PINTO, Ana Flávia Magalhães. Imprensa Negra no Brasil do século XIX. São Paulo: Selo Negro, 2010.
Dentre os jornalistas e intelectuais negros que aturam na imprensa nacional podemos destacar José do
Patrocínio, Ferreira de Meneses, Luiz de Andrade, André Rebouças, José Agostinho dos Reis, Luiz
Gama, dentre outros.
59
Op. Cit. CHALHOUB, 1990. Pp. 161-174.
60
Op. Cit. AZEVEDO, 1999. Pp. 188-285.
61
Gazeta da Tarde, 10 de janeiro de 1885; Gazeta da Tarde, 20 de outubro de 1886; e Gazeta da Tarde, 9
de novembro de 1886.
28

dependia do braço escravo em sua maior parte da produção, o sudeste do país -, mas,
não se adequava aos projetos de nação de alguns abolicionistas, possibilitou a
emergência de uma situação de insatisfação destes últimos, que por sua vez,engajaram-
se para transformar as características deste movimento62.
Nesse contexto são criadas no ano de 1880 duas associações com o propósito de
acelerar o término da escravidão no país. Entre o fim de julho e início de agosto, Nicolau
Moreira, André Rebouças, Vicente de Souza e José do Patrocínio fundaram a Associação
Central Emancipadora (ACE)63, no mês seguinte, Joaquim Nabuco, André Rebouças e Vicente
de Souza a Sociedade Brasileira Contra a Escravidão (SBCE) que tinham o propósito de
organizar as associações engajadas em acelerar o término da escravidão no país64. Em comum,
ambas associações identificavam a morosidade e ineficácia da Lei de 1871 e a inaplicabilidade
da Lei de 1831 como mecanismos de supressão da escravidão.

Apesar de seus fundadores serem praticamente os mesmos, as ações e


características entre elas diferiam consideravelmente. A ACE contava com uma grande plêiade
de republicanos como Ubaldino do Amaral, Lopes Trovão, Cyro de Azevedo, dentre outros65,
oriundos principalmente das camadas médias e fortemente vinculados às manifestações
populares dos anos 1880, como a Revolta do Vintém66. A experiência na participação em
manifestações e discursos nas ruas por alguns desses republicanos dotava-os de umaretórica e
ação consideradas radicais em comparação aos demais abolicionistas, pois defendiam a abolição
imediata e sem indenização baseados na frase adota como lema de José do Patrocínio: “a
escravidão é um roubo”.

As propostas e projetos apresentados pela SBCE passaram a dar novas cores ao


movimento abolicionista brasileiro, principalmente pelo seu tom mais conciliatório em relação à
linguagem mais radical da ACE, mas também pelas lideranças políticas que compunham o seu
corpo diretor67. Logo, a SBCE, assume uma proeminência no cenário abolicionista da Corte por

62
Op. Cit. CONRAD, 1975. Pp. 191-199. Enfatiza que o movimento abolicionista deve ser dividido em
dois grupos: o 1º grupo eram os moderados, considerados emancipacionistas por terem aderido ao
movimento abolicionista em última hora por influência da propaganda ou mesmo pela sua indiferença em
relação a escravidão.Não é um grupo socialmente definido, mas se caracterizavam pela perspectiva de
abolição sem abalos para a Economia do Império e desta forma, se empenhavam em organizar o
movimento abolicionista para que o processo não se radicaliza-se, alémde defenderem o pagamento de
indenização aos senhores; em 2º, havia o grupo mais radical, que desejava o fim imediato da abolição,
sem indenização aos senhores, acompanhada reformas que viessem a acabar com os problemas sociais,
políticos e econômicos do país causados pela escravidão.
63
Op. cit. ALONSO, 2010. Pp.14; e Op. cit. MOARAES. Pp. 21-24
64
Idem, ALONSO. Pp.58-59; Op. cit. DUQUE-ESTRADA, 2005. Pp. 80; e Idem, MOARAES. Pp. 21-24.
65
Idem MORAES. Pp. 23.
66
JESUS, Ronaldo Pereira de. A Revolta do Vintém e a crise monárquica. Campinas: São Paulo, História
Social, nº 12, 2006. Pp. 81. A Revolta do Vintém ocorreu no Rio de Janeiro por ocasião do aumento do
preço das passagens dos bondes em um vintém. Segundo Ronaldo Pereira de Jesus esse episódio
engendrou uma série de distúrbios e manifestações violentas de caráter popular e tinha como liderança
nestas manifestações os republicanos Lopes Trovão e José do Patrocínio dentre outros.
67
Op. Cit. ALONSO, 2010. Pp. 58-60; Op. Cit. DUQUE-ESTRADA, 2005. Pp. 80-81; e Op. Cit.
MOARAES, 1924. Pp.24. Entendemos que a participação de membros da elite política e econômica nesta
associação permitiu que a mesma tivesse uma maior repercussão e influência social e política do que a
ACE. Figuras como o General e Visconde BeaupearieRohan e Joaquim Francisco Alves Branco Muniz
Barreto – membros da elite política do país – agregavam um capital simbólico mais representativo nos
círculos decisórios do país do que os jornalistas e profissionais liberais republicanos que atuavam na
ACE, sobretudo através da Gazeta da Tarde a partir do segundo semestre de 1880. Logo, para os
29

aglutinar os intelectuais dos mais diferentes matizes ideológicos da geração de 1870 em torno de
um objetivo, a abolição da escravidão.

A endêmica resistência escrava diante do cativeiro, aliado à insatisfação


gradativa da sociedade imperial com a condução do processo de extinção da escravidão no país
e a “brecha” política institucional proporcionada pela subida dos Liberais ao poder em 1878,
possibilitou a emergência de uma perspectiva de combate à escravidão mais contundente. A
formação da ACE e da SBCE nos parece confirmar esta perspectiva, bem como apresentado no
Manifesto da SBCE68.

Em seu Manifesto, a SBCE critica a escravidão enquanto instituição e destaca


aspectos negativos de moralidade engendrados pela violência, o autoritarismo e a exploração do
homem pelo homem por parte dos senhores. Joaquim Nabuco69 também discorre sobre a ação de
alguns brasileiros ilustres contra a escravidão e inicia assim a sua crítica a Lei de 1871, sobre
ela, diz Nabuco:

A lei de 28 de Setembro porém foi uma lei


conservadora,que respeitou o interesse dos
senhoressuperticiosamente que lhes garantiu
propriedade dos seus escravos até á completa

extinção do ultimo(...)dando assim à escravidão

um período legal de três quartos de século para


desaparecer no meio das mais terriveis
complicações. Nas condições em que se achava
o paiz quando foidesferido o golpe, este não
poderia talvez ser mais profundo. Não podia o
governo exigir dos representantes dos interesses
conservadores que elles se rendessem á
primeira investida. Entretanto era claro que
a'quella medida, toda de futuro, não podia ser o
fim, mas tãosómente o começo da emancipação
promettida; que nãoeranum tratado de paz com
escravidão, mas a declaraçãode guerra.
Annunciado entretanto como lei de
Emançipação, o Acto de 28de Setembro de
1871 fez crer fóra do paiz que o Brazil havia

propagandistas do abolicionismo ter ao seu lado no front de batalha personalidades de destaque da


política e da sociedade imperial endossava a validade de suas propostas sociais e políticas. Sobretudo em
uma sociedade de corte como a brasileira do século XIX, havia uma hierarquização simbólica e social
distinguindo o valor e repercussão das ações dos indivíduos a partir de sua classe social.
68
Manifesto da Sociedade Brasileira Contra a Escravidão. Disponível
em:<http://www2.senado.leg.br/bdsf/item/id/174443>. O manifesto demarcava a formação de uma rede
de intelectuais formada com o objetivo de contribuir para a aceleração do processo de abolição do país.
Em suas páginas denotam um ataque, sobretudo à morosidade da Lei Rio Branco no tocante a efetivação
do fim da escravidão, bem como, a falta de cumprimento de algumas cláusulas que acabavam por
postergar ainda mais o processo de abolição no país.
69
Joaquim Nabuco redigiu o Manifesto da Sociedade Brasileira Contra a Escravidão.
30

corajosamente libertado o milhão e meio de


escravos que ainda possuia70.

A insatisfação da SBCE era clara e a crítica à condução da abolição voltada para


a satisfação dos anseios dos fazendeiros escravocratas em muito desagradava os abolicionistas
radicais71. Nabuco demonstra certa indisposição dos dois partidos monarquistas em dar
celeridade ao processo de abolição. A insatisfação dos integrantes da SBCE em relação a esta
postura de ambos os partidos, deve-se a crença e opção em um movimento abolicionista
endossado pela criação e execução de leis que assegurassem as conquistas oriundas das lutas
sociais e das negociações políticas. Ou seja, um processo de abolição organizado e dirigido por
intelectuais e políticos capazes de transformar os aspectos sociais, econômicos e políticos
considerados retrógrados era a forma ideal de luta para os abolicionistas radicais do início dos
anos 1880.

Nesse sentido, a busca por novos adeptos à causa abolicionista torna-se


fundamental para o fortalecimento da SBCE e da causa abolicionista. Na tentativa de angariar
membros dos partidos Conservador e Liberal destaca:

(...)Aos nossos partidos constitucionaes


dizemos queelles não podem ser os caudatarios,
ou resignados ou entusiastas, de uma instituição
decrepita, banida do mundo inteiro; que o
partido conservador deve ver no Movimento
Abolicionista o resultado da sua obra a
repercussão da sua iniciativa, e que o
partidoliberal mente á sua propria razão de ser,
ao nomeque assumiu, á posição que occupa,
pondo-se ao serviço da escravidão.(...)72

e aos republicanos previne

(...)dizemos que a causa da republica é


prematura ao lado da causa da Emancipação;
que o cepticismoque levou muitos, dos mais
puros e como se provou dos mais verdadeiros
liberais, a abandonarem a organização
esterilizadora do seu partido, não seria
justificado emrelação á um movimento tão
convencido, tão fecundo, e tão sincero como o

70
Ibdem.
71
Dos abolicionistas radicais que participaram do início da Sociedade Brasileira Contra a Escravidão
destacamos Joaquim Nabuco, Vicente de Souza, André Rebouças e José do Patrocínio dentre outros.
72
Idem Manifesto SBCE.
31

da Abolição; que é tempo de todos, os que


aspiram á fundação de um país livre, unirem-se
em torno de uma bandeira comum, que é a da
libertação do solo.(...)73

conclama os jovens do país

(...)A mocidade dizemos: filhos de senhores de


escravos, habituai-vos a não contar com a
riqueza que tem o homem por objeto; desprezai
as possibilidades de uma propriedade que vos
obrigaria a comprar e a vender entes humanos;
repudiai a solidariedade com um passado que se
está arrastando além da sua duração natural;
não queirais associar-vos ás barricadas que os
escravistas levantam no caminho da
Emancipação.O homem não é livre nem quando
é escravo, nem quando _é senhor: vós deveis
ser homens livres.(...)74

e por fim adverte

(...) aos senhores de escravos por fim nós


dizemos,a lei pode proceder convosco de dois
modos:protegendo-vos ou responsabilizando-
vos. Podeisescolher. A escravidão, da qual sois
os últimosrepresentantes no mundo civilizado,
pode ser extinta de um dia para outro sem que o
Estado vos deva compensação alguma. Ele
pode porém não querer emancipar uma raça
inteira sem olhar para os vossos interesses
individuais.(...)75

Essa estratégia de dirigir-se diretamente a cada grupo social destacando as suas


relações com a escravidão e as consequências positivas ou negativas advindas a partir de
determinado posicionamento diante da abolição tinha um duplo objetivo: o primeiro é destacar a
característica de um grupo ou indivíduo a partir de sua relação com a escravidão enquanto
instituição. Pari-passu depreciava-se moralmente os defensores ou postergadores da escravidão
e ao mesmo tempo buscava-se apontar aspectos negativos no caráter e nas ações dos mesmos de

73
Idem.
74
Idem.
75
Idem.
32

forma a relaciona- los como uma postura comum de todos os indivíduos defensores de tal
sistema.

A segunda maneira – como consequência da primeira – voltava-se para o


proselitismo ao vislumbrar as benesses sociais, econômicas, políticas e morais para todo o país
com o fim da escravidão. Crítica e convencimento compunham a estrutura discursiva de
abolicionistas e escravistas na disputa pelo controle do processo de abolição da escravidão no
Império.

Porém, aos maiores interessados na abolição da escravidão o manifesto não se


reportou. O manifesto não se dirigiu aos escravos e talvez resida ai um indício da incapacidade
da SBCE em organizar e dirigir o movimento abolicionista no Império. O fato de Nabuco ter ido
para a Europa no início da sua criação e não ter ficado à frente fisicamente da sociedade que
ajudou a fundar pode também ter influenciado tal situação. Dirigir-se somente às esferas de
decisões políticas do Império representava uma estratégia pouco eficaz, já que a tônica
governamental na condução deste processo caracterizava-se pela postergação e morosidade na
resolução da abolição. A emergência do movimento abolicionista como um movimento social
popular era essencial para dar celeridade ao processo de abolição.Os parlamentares
abolicionistas necessitavam da pressão das ruas e da opinião pública a seu favor.

Nesse sentido, em abril de 1883, Joaquim Nabuco envia uma carta à Sociedade
Brasileira Contra a Escravidão versando sobre os seguintes tópicos:

1º A Sociedade Brasileira Contra a Escravidão deveria ser mantida, porém


transformando-se em um comitê abolicionista76.

2º Exigir do governo extinção da escravidão na Corte, ou ao menos garantir


meios legais para a sua ocorrência. Porém, não esquecer dos escravos do campo, pois, lá a
escravidão é bem mais brutal que na cidade e são os escravos rurais que mais precisam e mais
clamam o auxílio dos abolicionistas, e neste sentido, ocupar-se apenas de extinguir a escravidão
urbana seria uma decepção aos demais escravizados do Império77.

3º Enfatiza importância em expandir quantitativa e qualitativamente a campanha


abolicionista, sobretudo, através de uma propaganda deliberada neste sentido78. Acrescenta
endossando que as pequenas alforrias que são realizadas pela SBCE, associações
emancipadoras/abolicionistas e por particulares não deveriam ser o objetivo de uma Sociedade
Abolicionista. Esta deveria se ocupar na luta pela libertação de todos os escravos do país e a
propaganda seria o meio mais eficaz para alcança-lo. Neste sentido, destaca a boa recepção do
livro a Cabana do Pai Tomáz pelo público leitor do país, dizendo que o mesmo deu melhores
resultados do que a alforria de dois ou três escravos79.

As práticas de propaganda abolicionista a serem adotadas pelo movimento


abolicionista seriam: a publicação de livros, opúsculos, avulsos abolicionistas, conferências,
reuniões, meetings e processos de liberdade de pessoas ilegalmente escravizadas. Estas práticas
seriam financiadas por um fundo e doações em que os simpatizantes da causa fariam suas

76
Gazeta da Tarde, 12 de abril de 1883.
77
Op. Cit, Gazeta da Tarde, 12 de abril de 1883.
78
Idem
79
Idem.
33

contribuições. Por fim, Nabuco aponta que tais medidas tinham como objetivo dar coesão ao
movimento abolicionista e transformá-lo num Partido Abolicionista80.

Entendemos assim, que o contato dos abolicionistas brasileiros com


abolicionistas estrangeiros e suas respectivas experiências possibilitaram uma revisão nas
formas de estruturação do movimento abolicionista brasileiro81. Adequando as experiências e
modelos estrangeiros à realidade do país, os abolicionistas se reuniram no dia 02 de maio de
1883 na sede da redação do jornal Gazeta da Tarde, de propriedade de José do Patrocínio, com o
intuito de organizar o movimento abolicionista e alterar os estatutos emancipacionistas para
abolicionistas por parte das associações que da reunião participaram82.

Vinte dias após a publicação de parte da carta de Joaquim Nabuco à SBCE na


Gazeta da Tarde, seis sociedades abolicionistas se reuniram na redação do dito jornal.O seu
proprietário, redator e jornalista, José do Patrocínio assumira a organização do movimento. No
dia 04 de maio do mesmo ano a Gazeta da Tarde publicou um pequeno artigo sob o título Caixa
Abolicionista que havia sido criado na capital uma Caixa para angariar recursos destinados à
publicação de livros de propaganda abolicionista, panfletos, folhetos e todas as obras
necessárias à divulgação do abolicionismo83.

No dia 07 de maio de 1883 os representantes do Club Abolicionista Gutenberg84


convidaram seus sócios para resolverem como trabalhariam a partir daquele momento já que
mudaram seu nome e estatuto de Emancipadora para Abolicionista85. E no dia 09 do mesmo
mês, Lourenço José dos Reis se autodenominava sócio fundador e conselheiro da Associação
Operária Vicente de Souza, porém, solicitava o seu desligamento da mesma por defender ideias
abolicionistas enquanto a Associação defendia o emancipacionismo86.

Ao julgar por essas tácitas distinções entre emancipacionismo e abolicionismo


percebe-se uma disputa dentro do próprio movimento abolicionista concernente as formas de
ação e os objetivos do mesmo. A hipótese é que José do Patrocínio assumiu a liderança do
movimento social na Corte a partir da sua capacidade de tecer uma rede de sociabilidade87 mais
agressiva e atuante nas ruas, em oposição a Joaquim Nabuco que tinha uma característica mais
voltada para as ações institucionais88. O próprio Nabuco destacou – retrospectivamente – em sua

80
Idem.
81
Op. Cit. ALONSO, 2010. Pp. 62-69.; Op. Cit. ALONSO.2014. Pp. 122-125 e 131-132.; e Op. Cit.
SCOTT, 1991. Nabuco enviara a sua carta da Inglaterra e lá mantivera contato com os abolicionistas
ingleses e posteriormente de outros países europeus.
82
Gazeta da Tarde, 03 de abril de 1883. Participaram desta reunião os representantes da Emancipadora da
escola militar da Corte, Caixa Libertadora de Niterói, Centro Abolicionista Ferreira de Menezes,
Sociedade Abolicionista Cearense, Club Bittencourt Sampaio e a Libertadora Pernambucana da Escola
Militar, sendo a sessão presidida por José do Patrocínio.
83
Gazeta da Tarde, 04 de maio de 1883.
84
O Club Abolicionista Guttenberg reunia profissionais da imprensa da Corte que defendiam a abolição
da escravidão de forma imediata e sem indenização.
85
Gazeta da Tarde, 07 de maio de 1883.
86
Gazeta da Tarde, 09 de maio de 1883.
87
Op. cit.SIRINELLI, 1998. Pp. 271-275.; e Op. Cit. SIRINELLI, 2003.Pp.248-250.
88
Ver, Op. cit. DUQUE-ESTRADA, 2005, Pp. 84.Aqui trabalho com a hipótese de que essa liderança não
se figurava como algo imposto ou deliberadamente escolhido, mas, sim a partir da capacidade de
convencimento e persuasão, mas também, através da capacidade de articulação de uma rede
sociabilidades extensa e coesa – em seus objetivos.
34

obra,Minha Formação, que Patrocínio encarnava a própria revolução e somente por isso o
movimento abolicionista tornou-se popular e “revolucionário”89.

Porém, Nabuco enfatizava que se não fosse pelas ações parlamentares e


ministeriais a Abolição não teria ocorrido de forma rápida90. E por fim, o autor sinaliza que:

A Abolição teria sido uma obra de outro


alcancemoral, se tivesse sido feita do altar,
pregada dopúlpito, prosseguida de geração em
geraçãopelo clero e pelos educadores da
consciência. Infelizmente, o espírito
revolucionário teve que executar em poucos
anos uma tarefa que havia sido desprezada
durante um século91.

Levando-se em consideração as mudanças de comportamento social e político,


mas, sobretudo, de opiniões e posicionamentos intelectuais que um“homem público” – como
qualquer outro indivíduo – como Nabuco tenha passado, a sua análise enfatiza a sua preferência
pela orientação estatal na realização das reformas necessárias ao país92.

A nossa interpretação do movimento abolicionista coincide com a interpretação


de Angela Alonso identificando-o como um movimento social93. Portanto, a nossa análise não
pretende creditar àConfederação Abolicionista a primazia do movimento, mas objetivamos
destacar que o seu surgimento representa a difusão social do chamado abolicionismo radical, de
caráter popular e articulado em rede nacional.

89
NABUCO, Joaquim. Minha Formação. Brasília: Senado Federal: 2004. Pp. 200-201.
90
Idem. Pp. 200.
91
Idem. Pp.202.
92
SKINNER, Quentin. Visões da Política: sobre os métodos históricos. Algés: Difel, 2005. Pp. 60, 96-99
e 122-126. Seguindo a perspectiva apresentada por SKINNER , entendemos o texto como um discurso -
mormente o texto político -, como um ato de fala, pois o seu autor tem a consciência de que o seu texto
terá uma repercussão social. Além disso, um discurso, ou texto, é compreensível a partir da identificação do
vocabulário linguístico utilizado pelo seu autor. Tal procedimento possibilita a identificação da diversidade de
discursos e consequentemente de interesses e opiniões sobre um mesmo assunto. Enfim, os atos de fala
identificam nos discursos políticos uma ação, que encontra no contexto político e linguístico sua
interdependência e significado.
A própria utilização de uma obra memorialista como fonte requer uma metodologia específica destinada a
compreender as interpretações pessoais que um indivíduo faz sobre os acontecimentos particulares e
públicos de sua vida. As omissões e os destaques que se revelam quando decide escrever e publicar uma
autobiografia sinalizam os pressupostos intelectuais com os quais o indivíduo organiza a sua visão de
mundo e a forma como se relaciona com o mesmo. As incoerências entre as atitudes tomadas num
passado em oposição frontal com a análise retrospectiva de Joaquim Nabuco devem ser interpretada como
um ato de fala direcionado para demarcação histórica dos responsáveis por um fato histórico de suma
relevância para o país. Mas também, adquire um caráter pedagógico em consonância com a sua formação
sociocultural enquanto membro da elite imperial interessado em invalidar qualquer tipo de mudança
social ou política popular preferido assim, as soluções e orientações advindas do Estado.
Visão compartilhada também por Ricardo Salles. Cf. SALLES, Ricardo. Joaquim Nabuco: Um pensador
do Império. Rio de Janeiro: Topbooks,2002. Ao realizar a biografia de Joaquim Nabuco, Salles reconstrói
a trajetória política do deputado pernambucano e destaca a sua participação no movimento abolicionista
em nível nacional. O autor salienta que tanto as ideias quanto as práticas adotadas por Nabuco, em relação
à abolição da escravidão no Brasil, representavam a tentativa de controle de um processo irreversível pela
elite intelectual objetivando dirigi-lo de forma segura dentro dos princípios liberais.
93
Op. Cit. ALONSO, 2014.
35

Seguindo esta perspectiva, Osório Duque-Estrada destaca que a criação da


Confederação Abolicionista ocorreu após desentendimentos entre José do Patrocínio, Nicolau
Moreira, Joaquim Nabuco e Vicente de Souza, sendo os três últimos considerados por
Patrocínio emancipacionistas e não abolicionistas94. Teria surgido deste desentendimento a
iniciativa de Patrocínio em criar uma instituição efetivamente abolicionista. José do Patrocínio,
João Clapp, o Tenente Manoel Joaquim Pereira e João Serpa Júnior reuniram-se no Hotel
Bragança decidindo criar um centro forte e disciplinado de propaganda abolicionista,
constituído por todas as sociedades que quisessem aderir à ideia95.

A interpretação de Osório Duque-Estrada conflita com a carta que Nabuco


enviara à SBCE e que fora transcrita na Gazeta da Tarde. Duque-Estrada não precisou a data do
desentendimento – sinaliza apenas que o mesmo ocorreu em 1883, ano em que Nabuco estava
na Europa – mas, em seguida o autor declara que Nabuco logo depois aderiu à plataforma
abolicionista defendida por Patrocínio96. De qualquer forma, foi notória a diferença – não menos
importante – de ações adotadas por Nabuco e Patrocínio em relação à abolição e ao movimento
abolicionista. E entre eles – ou melhor, junto à eles – encontrava-se como grande articulador
André Rebouças, que esteve presente na formação tanto da ACE quanto da SBCE.Como destaca
Angela Alonso, Rebouças articulava a campanha abolicionista mesmo antes desta ter alcançado
o status de comoção nacional nos anos 188097.

Portanto, entendemos o abolicionismo como uma ideia concernente à um


determinado tempo histórico e não nos cabe aqui identificar precursores, mas sim o momento
em que o mesmo tornou-se amplamente difundido na sociedade brasileira, bem comoas
estratégias adotadas para direcioná-lo ao seu objetivo maior, o fim da escravidão no Brasil.

Assim,na segunda reunião, ocorrida no dia 09 de maio de 1883 foi criada a


ConfederaçãoAbolicionista, com 12 associações – o dobro da primeira reunião. O objetivo era
organizar um centro abolicionista que pudesse coordenar as práticas voltadas para o fim da
escravidão adotadas pelas associações e clubes abolicionistas98.

Pudemos identificar a existência da Confederação Abolicionista até o ano de


1905, principalmente por ocasião da morte de José do Patrocínio, momento em que foram
organizadas três comissões para os assuntos referentes ao enterro de José do Patrocínio. Dentre
os Confederados históricos estavam João Fernandes Serpa Junior, Luiz de Andrade, Capitão
Senna, Von Doellinger, Ernesto Senna e Cardoso de Menezes99.

De fato, as ações da Confederação Abolicionista no tocante ao projeto


100
abolicionista encerram-se entre os anos de 1889 e 1900, por ocasião das disputas em torno
dos projetos de ocupação do solo e imigrantistas que ocupavam a imprensa e o

94
Op. Cit. DUQUE-ESTRADA, 2005. Pp. 84.
95
Idem.Pp. 27.
96
Endossamos aqui a impossibilidade de reconhecer a primazia ou a liderança a qualquer indivíduo a
cerca do abolicionismo brasileiro.
97
Op. Cit. AlONSO, 2014. Pp. 130-133. Sobre Rebouças, ver CARVALHO, Maria Alice Rezende de.O
quinto século: André Rebouças e a construção do Brasil. Rio de Janeiro: Revan-iuperj, 1998.; e Op. Cit.
PESSANHA, 2005.
98
Gazeta da Tarde, 10 de maio de 1883.
99
O Paiz, 31 de janeiro de 1905.
100
A propósito do projeto abolicionista da Confederação trabalharei com mais detalhes no capítulo 3.
36

parlamento101.Após 1900, as ações da CA resumiam-se a comemorações do dia 13 de maio e


festas em homenagens à abolicionistas ilustres102. Sendo assim, privilegiaremos o período que
compreende a sua fundação – em maio de 1883 – até o ano de 1888, por entendermos que foram
estes os anos essenciais de ação da Confederação dentro da disputa do campo político e social103
do Império.

Entendendo a escravidão como uma instituição basilar da estrutura


socioeconômica brasileira, a sua extinção deveria ser acompanhada de uma série de reformas
capazes de efetivamente acabar com a herança prejudicial da escravidão no país104. De fato,
entendemos que até 1889 foi possível para a Confederação intervir e atuar neste cenário de
disputa política que apresentava no país, mas, com o advento da República essas possibilidades
foram escasseando.

Enfim,no início de 1883, em menos de um mês após o envio da carta de


Joaquim Nabuco à SBCE sugerindo um maior engajamento das associações abolicionistas
através de uma propaganda mais eficaz e contundente, os abolicionistas da Corte executaram o
projeto exposto e expandiram-no criando um centro de convergências para a organização do
movimento.

Da reunião que consolidou a criação da Confederação Abolicionista estiveram


presente: A SBCE, a ACE, a Emancipadora da Escola Militar, Libertadora Pernambucana,
Clube dos Libertos de Niterói, Centro Abolicionista Ferreira de Menezes, Clube Bittencourt
Sampaio, Sociedade Abolicionista Cearense, Clube Abolicionista Guttenberg, Caixa
Libertadora José do Patrocínio, Caixa Libertadora Joaquim Nabuco e o Grande Oriente
Brasileiro. A reunião foi presidida pelo advogado Siqueira Dias e teve como secretários os
jornalistas Julio de Lemos e [Joaquim Manoel] Campos Porto105.

Nesta primeira reunião foi criadauma Comissão que tinha como objetivo
intermediar as demandas entre as associações e clubes confederados com a diretoria da
Confederação106. A esta comissão – vamos chama-la de Comissão Intermediadora – era formada
por Aristides Lobo,[João Paulo] Gomes de Mattos, José do Patrocínio e João Clapp107.

No dia 11 de maio realizou-se a primeira reunião entre os Confederados,


presidida por Aristides Lobo, nela foram eleitasoutras duas comissões que formaram

101
Jornal Cidade do Rio, 12 de novembro de 1888; Cidade do Rio, 09 de setembro de 1890; e Gazeta da
Tarde, 10 de janeiro de 1889.
102
Jornal Cidade do Rio, 12 de março de 1900; Cidade do Rio, 12 de maio de 1900.; e Cidade do Rio, 19
de junho de 1900.
103
BOURDIEU, Pierre. A economia das trocas simbólicas. (org.) Sergio Miceli. 7ª ed. São Paulo:
Perspectiva, 2011. Pp. 186-191. O conceito de campo segundo Bourdieu refere-se à existência de um
espaço quase autônomo entre o mundo social – esfera pública onde ocorrem as relações sociais - e o
mundo privado – as relações particulares entre a família e agregados -, aonde se desenvolve uma estrutura
e dinâmicas próprias relacionadas às diferentes formas do conhecimento e profissão. No caso em
específico, os campos de atuação da Confederação Abolicionista são: o campo social e o campo político.
104
No próximo capítulo apresentarei quais eram as propostas de reforma defendida pela Confederação
Abolicionista.
105
Op. Cit. Gazeta da Tarde, 10 de maio de 1883.
106
Idem. A partir do cruzamento das fontes com a bibliografia entendemos que esta comissão tinha
também a função de receber e/ou captar novos adeptos à Confederação orientando as ações dentro do
movimento abolicionista. Provavelmente este era o início de uma possível homogenização das ações e
discursos abolicionistas a partir de uma direção organizada e articulada neste sentido.
107
Idem.
37

respectivamente a comissão executiva e deliberativa da Confederação Abolicionista (CA)108. Na


primeira estavam João Clapp, André Rebouças, Bittencourt Sampaio, João Paulo Gomes de
Mattos, Julio de Lemos, Alberto Victor, Tenente Manoel Joaquim Pereira, Eduardo Nogueira,
PáuBrazil, José dos Santos Oliveira, Domingos Gomes dos Santos e Jarbas F. das Chagas109.
Ato contínuo à eleição da comissão executiva, a mesma elegeu outra comissão responsável pela
redação do Manifesto Abolicionista composta por André Rebouças, José do Patrocínio e
Aristides Lobo110.

Na comissão deliberativa estiveram presentes: Aristides Lobo, João Augusto de


Pinho, Frederico Junior, Pedro Pinto Baptista, Evaristo Rodrigues da Costa, Luiz Pires, João
Ferreira Serpa Junior, Procópio Russel, Leonel Jaguaribe, Adolpho Herbster Junior, Capitão
[Emiliano] Rosa de Senna, Abel da Trindade, Tenente Nabuco de Araújo, José de Arimatéia e
Silva, Luiz Rodrigues da Silva, Eugenio Bittencourt, Antonio S. do Brazil, José Maria
Barreiros, José Maria da Costa, J. Campos Porto, José do Patrocínio, José Américo dos Santos e
Miguel Dias111.

Abaixo segue um quadro com a composição sócio profissional das três


comissões da Confederação Abolicionista.A partir desta identificaçãopretendemos
compreenderos objetivos das ações e posicionamentos da CA dentro do movimento
abolicionista.

Quadro 1: Composição socioprofissional das Comissões Intermediadora, Executiva e


Deliberativa em 1883.

MEMBROS DA CONFEDERAÇÃO PROFISSÃO


ABOLICIONISTA

Vice-presidente da Caixa Emancipadora


Abel da Trindade112 José do Patrocínio
Adolpho Herbster113 Estudante da faculdade de Engenharia.
Tipógrafo e Vereador da cidade de
Alberto Victor114 Niterói.
Engenheiro, professor, empresário e
André Rebouças115 escritor.
Antonio S. do Brazil Não identificado
Aristides Lobo116 Advogado e jornalista
Bittencourt Sampaio117 Escritor e poeta

108
Gazeta da Tarde, 14 de maio de 1883.
109
Idem.
110
Idem.
111
Idem.
112
AlmanackLaemert, 1883. Pp. 1180.
113
Gazeta da Tarde, 08 de março de 1883.
114
Idem, 13 de novembro de 1882; e 07 de abril de 1883.
115
Op. Cit. CARVALHO, 1998.; e Op. Cit. PESSANHA, 2005.
116
Op. Cit. LAEMMERT, 1883. Pp. 393; Gazeta da Tarde, 24 de dezembro de 1880 e 12 de junho de
1884.
38

Domingos Gomes dos Santos118 Solicitador e jornalista


Eduardo Nogueira Não identificado
Emiliano Rosa de Senna119 Militar
Estudante de Engenharia da Escola
Eugenio Bittencourt120 Militar
Evaristo Rodrigues da Costa121 Jornalista e Tipógrafo
Frederico Junior122 Músico
Jarbas F. das Chagas Não identificado
J. Campos Porto123 Bacharel em Direito e literato.
Guarda livros da Alfândega do Rio de
João Augusto de Pinho124 Janeiro
João Fernandes Clapp125 Capitalista (Banqueiro e securitário)
Jornalista e gerente da Gazeta da Tarde.
João Ferreira Serpa Junior126
João Paulo Gomes de Mattos127 Advogado
José Américo dos Santos128 Engenheiro e professor
José Maria Barreiros Não identificado
José Maria da Costa129 Comerciante
José de Arimateiae Silva Não identificado
Jornalista e proprietário do Jornal Gazeta
José do Patrocínio130 da Tarde.
José dos Santos Oliveira131 Militar
Julio de Lemos132 Jornalista
Leonel Jaguaribe133 Estudante de Medicina
Luiz Pires134 Jornalista
Luiz Rodrigues da Silva Não identificado
Miguel Antônio Dias135 Provavelmente jornalista

117
Gazeta da Tarde, 25 de setembro de 1883.
118
Op. Cit. MOURA, 2013. Pp. 373. Clóvis Moura destaca que Domingos Gomes dos Santos, o Radical,
atuava como um solicitador das causas de liberdade nos casos de escravidão indevida. Ao contrário do
que se convencionou na historiografia ao identifica-lo como advogado. Em síntese as sua atuação
assemelhava-se à de Luis Gama em São Paulo.
119
Op. Cit. MOARES, 1924. Pp. 37.
120
Gazeta da Tarde, 28 de julho de 1882 e 20 de abril de 1883.
121
Ibidem Pp. 37.
122
Gazeta da Tarde, 24 DE MARÇO DE 1885.
123
Op. Cit. LAMMERT, 1883. Pp. 665.
124
Idem. Pp. 573.
125
Idem. Pp. 1304-1305.
126
AlmanackLaemert, 1884. Pp. 721.
127
Ibidem. Pp. 399.
128
Idem. Pp. 531 e 1959.
129
Idem. Pp. 458.
130
Op. Cit. MORAES, 1924. Pp. 355-382.
131
Gazeta da Tarde, 21 de dezembro de 1886. A única informação que encontramos sobre José dos
Santos Oliveira foi esta. Entendemos que pode tratar-se de um homônimo , mas, dada a configuração
socioprofissional da CA, acreditamos tratar-se da mesma pessoa.
132
Gazeta da Tarde, 13 de novembro de 1883.
133
Gazeta da Tarde, 28 de novembro de 1883.
134
Op. Cit. LAEMMERT, 1884. Pp. 1391.
135
Miguel Dias participou das primeiras reuniões como membro da SBCE. A sua participação na
Confederação Abolicionista foi constante, mas, não conseguimos identificar a sua ocupação profissional.
Acreditamos estar relacionada ao campo da imprensa devido à sua relação com estes profissionais além
de sido o responsável pela encomenda da edição de um livro de Joaquim Nabuco. Foi escolhido por
Antônio Bento em 27 de janeiro de 1885 para representar os abolicionistas paulistas em uma festividade
39

Manoel Joaquim Pereira136 Militar


Nabuco de Araújo137 Militar
Pedro Pinto Baptista Não Identificado
Procópio Russel138 Tipógrafo e jornalista
Rodolpho Pau Brasil139 Militar e escritor
Fontes: AlmanckLaemert; Op. Cit. CARVALHO, 1998.;Op. Cit. PESSANHA, 2005; Op. Cit.
MOURA, 2013; Op. Cit. MOARES, 1924 e o Jornal Gazeta da Tarde.

Os anos de 1885 à 1887 foram extremamente ingratos para os abolicionistas em


comparação aos quatro anos iniciais da década de 1880 devido às ações repressoras do Estado e
dos Clubes da Lavoura em relação ao abolicionismo140.As ações da CA tiveram que ser
“suspensas”141 em parte desse período voltando aos trabalhos efetivamente no início do ano de
1888, como apresenta o jornal Cidade do Rio.

Domingo 19 do corrente, ao meio-dia no


salão da Sociedade Francesa de Ginástica, à
travessa da Barreira, reúne-se em assembleia
geral a Confederação Abolicionista. A reunião
tem por principal fim discutir e assentar as
bases da libertação dos escravizados existentes
no Município Neutro. Provocada pelo Governo
que pretendeu sufocar pelo assassinato e
incêndio a Sagrada Propaganda em favor da
mais santa das causas, a Confederação
Abolicionista entendeu que, para não ser
forçada a abandonar o seu programa de paz e
concórdia, devia concentrar-se por algum
tempo, a fim de perfeitamente organizada,
oferecer a resistência da dignidade calma e
do heroísmo tranquiloà reação insensata que
se esforça para empenha-la numa luta braço a
braço e ensanguentada(...)142.

da Confederação Abolicionista na Corte. Outro fato interessante é que Miguel Dias era sogro de Luiz de
Andrade, o abolicionista redator da Gazeta da Tarde e posteriormente da Revista Ilustrada. Ver, Gazeta da
Tarde, 03 de outubro de 1883; Gazeta da Tarde, 27 de janeiro de 1885; e Gazeta da tarde, 28 de outubro
de 1886.
136
Op. Cit. Gazeta da Tarde, 14 de maio de 1883.
137
Idem.
138
Op. cit. MORAES, 1924. Pp. 39.
139
Gazeta da Tarde, 21 de novembro de 1882.
140
Ver, NABUCO, Joaquim. O eclipse do abolicionismo. Rio de Janeiro: Tipografia G. Leuzinger&
filhos, 1886.; Op. Cit. MORAES, 1924. Pp. 90-170.; Op. cit. DUQUE-ESTRADA, 2005. Pp. 137-153 e
165-177.; e Op. Cit. CONRAD, 1975. Pp. 263-290. Neste período ocorreram diversos atentados à
abolicionistas e empastelamento de jornais vinculados à campanha abolicionista.
141
Acreditamos que a Confederação continuou com as suas ações ilegais e portanto as mesmas não
podiam ser divulgadas para o público, principalmente pela imprensa. Sob ameaça de sanções penais e
uma maior repressão de escravocratas.
142
Jornal Cidade do Rio, 17 de fevereiro de 1888.
40

Na volta às atividades a Confederação deixava claro que apesar da luta


ensanguentada que se obrigou a participar por conta das circunstâncias, preferia as ações legais
e pacíficas, pois, via naquele momento – início de 1888 – a possibilidade de voltar a atuar no
movimento abolicionista sem sofrer as represálias de que fora alvo. A mudança de perspectiva
de escravocratas históricos em relação à abolição da escravidão como os ministros Rodrigo
Silva, Martinho Campos e outros143, além da própria ação dos escravos nos abandonos em
massa das fazendas144, a postura do Exército e ascensão do gabinete João Alfredo145
contribuíram para um ambiente favorável e seguro para o retorno da Confederação.

Confederação Abolicionista. De pé: José do patrocínio, Luís de Andrade, Inácio Von Doellinger,
Praxedes Medella e Luiz Pereira; sentados: André Rebouças, João Clapp e José Magalhães.
Fotografia: anônimo, s. d. Fonte: <http://www.camaracampos.rj.gov.br/tp-cultura/exposicao-
escravidao-no-brasil/>

Neste primeiro momento pretendemos identificar a partir da composição


profissional da diretoria da CA as classes sociais envolvidas no movimento abolicionista radical
do país e principalmente na Confederação. Posteriormente relacionarei as ocupações
profissionais com a cor da pele tanto da diretoria como daqueles que atuavam no movimento em
nome da CA146. Entendemos que ao relacionarmos estes dados com a orientação político

143
Op. cit. MORAES, 1924. Pp. 300-350; e Op. cit. DUQUE-ESTRADA, 2005. Pp. 155-164.
144
Op. Cit. CONRAD, Robert. 1975. Pp. 180-197. 293-301
145
Ibidem. MORAES, 1924. Pp. 300-350; e Ibidem. DUQUE-ESTRADA, 2005. Pp. 155-164.
146
A nossa hipótese é que a maior parte da direção da CA era negra ou mestiça, e nesse sentido, tinha um
entendimento divergente da elite imperial em relação à política de abolição da escravidão adotada pelo
41

partidária dos mesmos teremos um amplo panoramadas diretrizes e objetivos declarados pela
CA, enquanto representantes das demandas dos negros brasileiros e africanos saídos da
escravidão.

O nosso objetivo é entender a representatividade da CA dentro do movimento


abolicionista, avaliar a sua capacidade de conquistar os objetivos propostos, mas também
verificar se as suas ações e projetos se coadunavam com uma perspectiva de ruptura da estrutura
social. Ou seja, nos interessa saber se os interesses da CA convergiam com os interesses estatais
e da elite imperial ou sinalizavam um projeto alternativo de sociedade em que o negro
assumisse um papel de protagonista de sua própria história.

À primeira vista nos deparamos com a formaçãode uma redede sociabilidades


essencialmente urbana. Dos trinta e cinco membros que formaram as três primeiras comissões
representativas da Confederação pudemos identificar 28 (vinte oito). Desses, identificamos
100% de profissionais e ocupações147 vinculados a profissões liberais no meio urbano da Corte.
À época da composição dessas comissões esses indivíduos obtinham o sustento de suas
atividades na capital do Império, o locus urbano do Império por excelência. Temos portanto, a
seguinte formação.

Quadro 2: Amostragem das profissões dos membros das comissões Executiva, Deliberativa e
Intermediaria da Confederação Abolicionista em 1883148.

Profissão Quantidade Porcentagem


Tipógrafo/Jornalista 06 18
Militares 05 16
Advogado/ Bacharel em Direito/Solicitador 03 09
Estudantes 03 09
Comerciante/Proprietário de instituição 02 07
financeira
Professor (Engenheiro) 02 07
Guarda-livros 01 03
Músico 01 03
Escritor 01 03
Administrador 01 03
Não identificado 07 20
Total 32 98%

governo imperial, principalmente pelo fato de alguns desses indivíduos terem sido escravos ou convivido
de perto com essa realidade por meio de parentes diretos. Dessa forma, a CA teria surgido como uma
alternativa ao modelo de abolição que se delineava.
147
Me refiro às ocupações no caso dos estudantes que não exerciam formalmente alguma profissão, mas,
estavam matriculados em cursos que lhes proporcionariam exercer profissões liberais no ambiente urbano
da Corte.
148
Privilegiou-se a ocupação em que mais se destacava o indivíduo levando-se em conta que muitos
exerciam mais de uma função profissional. No caso do liberto Abel da Trindade que ocupava o cargo de
presidente da Caixa Emancipadora José do Patrocínio foi atribuída ao mesmo a profissão de
administrador, mas enfim, não foi possível encontrar a sua profissão mas sim a ocupação profissional.
André Rebouças e José Américo foram alocados como professores de Engenharia devido ao capital
simbólico que exerciam dentro da instituição que lecionavam, a Escola Politécnica. Por ser uma
amostragem não contabilizamos os décimos respectivos a porcentagem de que cada profissão ocupa no
conjunto geral, por isso no somatório total das porcentagens acha-se a diferença de 2%.
42

Militares e jornalistas detinham um maior número de participantes no círculo


decisório da Confederação em seu início, ocupando juntos aproximadamente 34% dos cargos. A
insatisfação do Exército com a estrutura social e política do Império nos anos 1880 já foi
destacada pela historiografia149. A imprensa esteve por vezes vinculada aos interesses tanto da
Coroa como dos grandes proprietários deterras e escravos do país150. É a partir da conjuntura de
crise dos anos 1870151, mas, sobretudo com a radicalização dos anos 1880 que os profissionais
do jornalismo e a imprensa de forma geral passam a tratar de questões centrais referentes à
representação e participação política do povo e a abolição da escravidão152.

A força do Exército e imprensa não é desprezível na formação de uma rede de


sociabilidades como a Confederação Abolicionista. Abolição e República praticamente se
fundem no primeiro momento.

A questão que precipuamente a SBCE propôs a equacionar fora assumida pelo


novo centro, que por sua vez, buscou dirigir o movimento abolicionista na Corte. A partir de
maio de 1883, todo evento, reunião entre sócios dos clubes, associações e sociedades
abolicionistas era organizado pela Confederação ou ao menos tinha a participação de um de seus
representantes153. No dia 26 de novembro de 1883 a CA definiu que a Comissão Executiva seria
responsável pela condução de todo evento abolicionista na Corte realizado pelas associações e
clubes confederados, com isso buscava-se organizar e orientar o movimento abolicionista154.

A formação inicial da Confederação estabeleceu as “Comissões” como


responsáveis pelas ações desenvolvidas no movimento abolicionista. Uma diretoria formalmente
estabelecida formou-se no final do mês de novembro de 1883155.

Em maio de 1884, João Clapp apresentou um relatório anual para os membros


da Confederação Abolicionista. No mesmo, continha um breve histórico das ações realizadas
pela Confederação desde a sua fundação até aquela data, a repercussão social e política das
ações da Confederação e a suas fontes de captação de recursos156. Na parte final do documento

149
CARVALHO, José Murilo de. Os bestializados: o Rio de Janeiro e a República que não foi. São Paulo:
Companhia das Letras, 1987. Pp. 50-51.; LEMOS, Renato. A alternativa republicana e o fim da
monarquia.In: GIRNBERG, Keila e SALLES, Ricardo. O Brasil Imperial, vol.III (1870 – 1889). Rio de
Janeiro: Civilização Brasileira, 2009.; eLEMOS, Renato. Benjamin Constant e o positivismo na periferia
do capitalismo. (org.) ALMEIDA, Marta & VERGARA, Moema de Rezende. Ciência, história e
historiografia. São Paulo: Via Lettera, 2008.
150
Op. cit.BARBOSA, 2010. Pp. 144-145. A autora destaca o vínculo familiar entre os proprietários de
jornais com as famílias abastadas e tradicionais da grande lavoura do país.
151
Op. Cit. ALONSO, 2002. Pp. 323-330.
152
Ibidem. Pp. 120-121.
153
Op. Cit.MORAES, 1924. Pp. 21-25, 33-39, 364-369.; Gazeta da Tarde, 18 de janeiro de 1884;Gazeta
da Tarde, 07 de fevereiro de 1884; Gazeta da Tarde, 07 de janeiro de 1884; Gazeta da Tarde, 06 de março
de 1884; Gazeta da Tarde, 16 de maio de 1885.
154
Gazeta da Tarde, 26 de novembro de 1883.
155
Idem, 30 de novembro de 1883. O jornal noticiava a convocação de eleições internas na Confederação
Abolicionista para a escolha de sua diretoria.
156
CLAPP, João Fernandes. Relatório dos estados e das operações da Confederação Abolicionista
apresentado à Assembleia Geral Anual de seus membros em 12 de maio de 1884.Tipografia Central,
1884. Extraído de
<http://www2.senado.leg.br/bdsf/handle/id/4/browse?order=ASC&rpp=20&sort_by=1&etal=-
1&offset=962&type=title> acessado em 11/12/2014.
43

ainda constava um balancete com os ativos e passivosda CA157. Tudo minuciosamente


registrado por André Rebouças e auditado por uma comissão formada pelos membros da CA158,
José Agostinho dos Reis159, Jeronymo Simões160 e Ignacio Von Doelinger161. Através desta
documentação João Clapp é indicado como o presidente da CA, Alberto Victor o secretário e
André Rebouças o tesoureiro162.Nos anos subsequentes, a diretoria foi composta da seguinte
forma:

Quadro 3: Composição da diretoria da Confederação Abolicionista anos 1884-1888. Fonte:


AlmanackLaemert163.

ANO ANO ANO ANO ANO


1884 1885 1886 1887 1888
Presidente: Presidente: Presidente: Presidente: Presidente: JoaãoClapp
JoaãoClapp JoaãoClapp JoaãoClapp JoaãoClapp
Vice- Vice- Vice- Vice-presidente: Luiz
presidente: presidente: presidente: de Andrade
Luiz de Luiz de Luiz de
Andrade Andrade Andrade
1º Secretário: 1º Secretário: 1º Secretário: 1º Secretário: 1º Secretário: Vago
Alberto Victor Alberto Victor Alberto Victor Alberto Victor
2º Secretário: 2º Secretário: 2º Secretário: 2º Secretário:
Jeronymo Jeronymo Jeronymo IgnacioVonDoelinger
Simões Simões Simões
Tesoureiro: Tesoureiro: Tesoureiro: Tesoureiro: Tesoureiro: André
André André André André Rebouças
Rebouças Rebouças Rebouças Rebouças
Orador: Julio Orador: Vários Orador: Orador: José do Orador: Vários
de Lemos Vários Patrocínio

Relacionando a formação da diretoria da CA com os dados contidos no relatório


anual apresentado pelo presidente João Fernandes Clapp, podemos identificar a sua estrutura

157
Idem. Apêndice: Balanço da Confederação Abolicionista de 12 de maio do ano próximo passado até
12 de maio do corrente ano.
158
Idem. Pp. 13-16.
159
COSTA, Ana Luiza Jesus da. As escolas noturnas da Corte e a formação do trabalhador: educação e
controle social na sociedade oitocentista. Revista Teias v. 14, nº 28, maio/ago. 2012. Pp. 22. A autora
apresenta José Agostinho dos Reis como engenheiro professor na Escola Politécnica.
160
Op.Cit. LAEMERT, 1883. Jeronymo Simões era Guarda Livros e secretário da Sociedade Promotora
de Belas Artes.
161
Idem, 1884. Pp. 1024. Ignacio Von Doelinger fazia parte do setor financeiro na Administração Central
da Estrada de Ferro D. Pedro II como 1º escriturário.
162
Idem.
163
No ano de 1883 o nome de Julio de Lemos aparece constantemente nas páginas da Gazeta da Tarde
como orador oficial. Nos demais anos, essa função é revezada entre diversas personalidades abolicionista,
com exceção do ano de 1886 em que José do Patrocínio se torna o orador oficial.
44

como uma instituição e não como uma congregação de ocasião. A manutenção de uma conta na
Caixa Econômicada Perseverança Brasileira164, a formação de comissões deliberativas e
executivas e a existência de uma diretoria atestam a existência de uma organizaçãosólida.
Aliado a estes fatores de organização interna a Confederação Abolicionista deliberava diretrizes
aos clubes e indivíduos confederados, além de apresentar publicamente – através dos meetings e
da imprensa – os seus objetivos e missão, funcionando como uma instituição.

A sua sede funcionou entre maio de 1883 e junho de 1887 na redação do Jornal
Gazeta da Tarde165, após a venda do Jornal Gazeta da Tarde para Luiz Ferreira de Moura Brito
em agosto de 1887166, Patrocínio fundou o Jornal Cidade do Rio e para lá transferiu as reuniões
da CA. Acreditamos que pelo fato de ambos os jornais pertencerem a José do Patrocínio – um
dos mentores da CA - a sede da Confederação instalou-se nestes locais167.

No dia 18 de maio de 1883 o jornal Gazeta da Tarde publicou a seguinte


matéria sob o título Confederação Abolicionista.

De um dos nossos mais ilustres publicistas,


campeão da propaganda abolicionista,
recebemos as seguintes observações sobre
a auspiciosa Confederação, realizada pelas
mais importantes associações
emancipacionistas
e abolicionistas desta capital.
“A conversão das sociedades emancipadoras
em Clubes Abolicionistas Confederados é um
grande passo (...) para chegarmos ao fim da
propaganda.
Convém agitar a questão de um modo temeroso
para os escravocratas e acabar com esse
de dinheiro das bolsas dos seculares
exploradores da raça africana. Passou o
período sentimental: cumpre entrar no período
executivo.(...)O crime da escravidão é um crime
nacional. A penitência e a reparação deve ser
feita por todos, tendo a sua frente esta
coletividade chamada o Estado (...) Outra
medida essencial é dirigir-se a Comissão
Executiva da Confederação Abolicionista, por
meio de mensagens, representação no
parlamento português urgindo para que seja

164
Op. Cit. CLLAP, 1884. Pp. 11.
165
Idem. Pp. 10-11.
166
Gazeta da Tarde, 01 de setembro de 1887.
167
A nossa hipótese é que havia outras três razões para a Confederação funcionar na redação dos jornais
de Patrocínio. A primeira é o fato de seus funcionários da imprensa estarem na linha de frente da
propaganda abolicionista e naturalmente do movimento social na Corte, assim, estariam num mesmo
lugar reunidos um núcleo forte do abolicionismo radical. Outro motivo importante é o fato da própria
natureza do local, ou seja, o jornal era um mecanismo fundamental na luta dos abolicionistas, dessa
forma, toda ação e propaganda teriam uma visibilidade quase que instantânea exposta nas matérias,
editoriais e reportagens do jornal. A última razão, não menos importante, era a localização dessas
redações, que ficavam no centro da Corte, especificamente na Rua Uruguaiana e posteriormente na Rua
do Ouvidor.
45

decretada a impossibilidade de ter escravos os


portugueses residentes neste Império (...)168.

Pelos indícios expostos no artigo, o publicista citado é Joaquim Nabuco, que


naquela ocasião estava na Europa e fora nomeado representante da Confederação Abolicionista
naquele continente169. Recomendar que os clubes associados deixassem de lado a postura
emancipacionista para aderirem efetivamente ao abolicionismo significava um rompimento com
a política de Estado, que desde 1831 procurou adotarmedidas graduais como método de
extinção da escravidão no Brasil. De fato, a abolição imediata e sem indenização soava como
radicalismo para os ouvidos conservadores da elite imperial.

Ao elencar uma série de ações necessárias para levar o temor aos


escravocratas,os abolicionistas da Confederação passaram a optar pela ação radical, de ruptura
com o status quomesmo que publicamente mencionassem apenas a adoção de mecanismos
legais para tal fim. De fato, as ações da CA destinadas ao enfraquecimento da escravidão e a
pronta abolição ocorreram paralelamente nas esferas legais e ilegais conforme a legislação
brasileira do Império170.

Nesse sentido, sob o título Movimento da Lavoura – Ata: Da reunião dos


lavradores e comerciantes do município de Cataguazes, o jornal Diário do Brazil171
reproduziu as deliberações feitas por fazendeiros da cidade de Cataguazes na criação de um
Clube da Lavoura local para combater a influência do abolicionismo da Confederação
Abolicionista e do jornal Gazeta da Tarde naquela localidade. E destaca que

(...)mostrando que a propaganda abolicionista


que dechofre tenta abolir oelemento servil
com oaniquilamento do país, tem encontrado
enérgicoprotesto por parte da Lavoura de
diversos municípiosdesta e da Província do
Rio; que o termo de Cataguazesnão se podia
mostrar indiferente a essa lutaque alavoura
abriu contra a propaganda abolicionista que
naquela capitalaplaude os atos atrabiliários de
umaintitulada confederação abolicionista
que,qual um Estadono Estado, invade casas,
intima seus donos a paraconferir liberdade a
seus escravos, alicia-os, apanha-leso pecúlio e
que assim...intenta concluir apregoandoo
assassinato dos fazendeiros e o estupro
das suas filhas172.

168
Gazeta da Tarde, 18 de maio de 1883.
169
Op. Cit. Gazeta da Tarde, 14 de maio de 1883.
170
Ver, Op. Cit. DUQUE-ESTRADA, 2005. Pp. 86-89.; e Op.Cit. MORAES, 1924. Pp. 36-38. Ambos os
autores descrevem as promoções de fugas, o envio de escravos para o Ceará – após 25 de março de 1883
era proibida a escravidão no Ceará, tornando-se a primeira Província do país a acabar coma escravidão -,
o acoitamento dos mesmos nas casas de abolicionistas e quilombos na Corte, além do roubo de escravos
das fazendas restituindo-lhes a liberdade.
171
Diário do Brazil, 18 de junho de 1884.
172
Idem.
46

O Diário do Brazil, jornal de propriedade de António Alves de Souza


Carvalho – o principal redator -, ex- presidente de três províncias do nordeste e parlamentar
173

por diversas vezes, defendia abertamente os interesses escravocratas e dos clubes da lavoura do
país. Reconhecia este periódico escravista a amplitude das ações da Confederação Abolicionista
para além da Corte174.

Portanto, na matéria apresentada pelo Diário do Brazilficava patenteada uma


das formas mais radicais e subversivas de combate à escravidão, a incitação do escravo contra o
seu senhor. Para realizar essas ações era necessária a participação de indivíduos acima de
qualquer suspeita, como caixeiros viajantes e libertos. A presença de ambos era comum à todas
as regiões do Império - fosse ela urbana ou rural – e o controle sobre as suas ações era
precário175.

Percebemos a capilaridade do abolicionismo enquanto movimento social e,


sobretudo, o protagonismo de libertos e escravos no processo que culminou com o fim da
escravidão no Brasil. Os casos de Abel e Elpídio da Trindade, Israel Soares176, José de
Magalhães177, Izaias F. das Chagas, João J. Vieira, Abel G. da Fonseca, Miguel F. Bessa,
Vicente Gomes, Guilherme J. Ferreira e Jorge A. de A. Fontoura evidenciam a ação e a
participação de escravos e libertos como sujeitos atuantes no movimento abolicionista178.
Acreditamos que a ação desses indivíduos junto aos cativos – principalmente nas fazendas e no
auxílio aos recém libertos, forros, resgatados e os que fugiam e assim eram recém chegados no
ambiente da Corte – foi fundamental para a entropia abolicionista179. Dessa forma, o
abolicionismo deve ser entendido como um movimento social em que a participação do negro –
principalmente o escravizado e o liberto – influenciou e contribuiu tanto para a sua manutenção
como a sua dinâmica.

Negar a influência de escravos e libertos na dinâmica do abolicionismo é


continuar a vê-los como coisa e não como sujeitos de sua história. O abolicionismo enquanto
movimento social foi construído pelas diversas experiências e demandas sociais dos indivíduos

173
BLAKE, Sacramento. Dicionário Bibliográfico Brazileiro.vol. 1. Conselho Federal de Cultura, 1970.
Pp. 109
174
Em específico no caso paulista, em 16 de janeiro de 1884, Antonio Bento reconhece a importância das
ações da CA e 5 de fevereiro do mesmo ano adere formalmente à instituição. Ver Gazeta da Tarde, 16 de
janeiro de 1884; e Gazeta da Tarde, 05 de fevereiro de 1884.
175
Sobre a presença de vendeiros, tropeiros e caixeiros nas fazendas ver, FRANCO, Maria Sylvia de
Carvalho. Homens livres na ordem escravocrata. São Paulo: Unesp, 1997. Pp. 64-84.; e Op. Cit.
MACHADO, 2010. Pp. 161-187. E sobre a ação de terceiros na relação senhor-escravo ver, Op. Cit.
AZEVEDO, Celia. 2004. Pp. 161-167.; Idem, MACHADO. Pp. 133-160.
176
Ver, Op. cit. Gazeta da Tarde, 14 de maio de 1883; Gazeta da Tarde, 26 de junho de 1883. Os três
foram escravos e atuavam como lideranças abolicionistas ocupando cargos de direção na Caixa
Libertadora José do Patrocínio e na Confederação Abolicionista.
177
Gazeta da Tarde, 25 de junho de 1885.
178
Formaram um Clube Abolicionista chamado, Clube Abolicionista Escolar:Izaias F. das Chagas, João J.
Vieira, Abel G. da Fonseca, Miguel F. Bessa, Vicente Gomes, Guilherme J. Ferreira e Jorge A. de A.
Fontoura, dentre esses indivíduos haviam alunos da escola Noturna do Club dos Libertos contra a
Escravidão. De imediato o Clube Abolicionista escola aderiu aos quadros da Confederação Abolicionista.
179
Concordamos com a perspectiva defendida por Eduardo Silva sobre o protagonismo e importância de
libertos, irmandades e associações de libertos e escravos na desestruturação do sistema escravista por
intermédio das suas diversas ações. Ver, Op. cit. SILVA, 2010-2103.
47

que o compuseram, mesmo que o resultado final não tenha sido aquele almejado pela
coletividade que o compôs.

Falar em nome do negro e do escravo e criar projetos de inserção social para os


mesmos não se enquadravam na perspectiva relacional e dialógica da Confederação. A
instituição trazia em seus quadros militantes negros amplamente conhecidos no movimento
abolicionista da Corte, dentre eles André Rebouças, Domingos Gomes dos Santos – o radical180
-, Luiz de Andrade – o redator da Gazeta da Tarde e posteriormente da revista Ilustrada -, Dr.
José Agostinho dos Reis – professor da escola Politécnica -, Capitão Senna e José do Patrocínio
dentre outros, que ocupavam posição de destaque tanto na Confederação como no
abolicionismo e no campo intelectual da Corte.

A sociedade imperial brasileira estruturada num sistema liberal escravocrata181


permitia a ascensão econômica de seus membros, mas, não concedia a igualdade de direitos. Os
intelectuais negros que formaram a linha de frente do movimento abolicionista na Corte nas
demais províncias dividiram espaço com as ações e perspectivas de negros e mulatos alijados
das chances de poder que a maioria desses intelectuais tiveram. Apesar da influência dos
abolicionismosde outros países182 figurar nos discursos parlamentares e na imprensa por parte
desses abolicionistas radicais que estiveram inclusive na CA, o caso brasileiro torna-se peculiar
diante da ocupação de postos de comando e na organização de associações voltadas para o fim
da escravidão terem a influência direta de escravos e libertos.

Para a sociedade escravista da Corte e das províncias era temerária a


participação de escravos no processo de construção da abolição da escravidão. A perspectiva
inclusiva cede espaço ao colaboracionismo identificando a necessidade do trabalho, esforço e
ações conjuntas entre todos os indivíduos identificados com a proposta abolicionista radical.

Essas ações da CA despertavam a ojeriza da elite imperial e escravocrata em


relação aos abolicionistas radicais de forma generalizada. Como exemplo desse ódio, Affonso
Celso Junior183ao encontrar José do Patrocínio em um espetáculo no teatro D. Pedro II agrediu-o
verbal e fisicamente após troca de insultos motivados pelas matérias veiculadas no jornal Gazeta
da Tarde, de propriedade do agredido184.

Enfim, a organização que a CA passou a fornecer ao movimento abolicionista


era espantosa. A Confederação passou a dispor de representantes em quase todas as províncias
do Império185 e a gradualmente estabelecer um padrão de ação para os seus sócios. Em 26 de
maio de1883 ficava destacado que a CA adotaria os princípios da American
AntiSlaverySociety, baseados na Declaração de Princípios de William LoydGarrison186. Dentre

180
Domingos Gomes dos Santos era citado como o Radical nos jornais da época.
181
Op. Cit. PARRON, 2011. Pp. 64-103 e 287-303.
182
Op. Cit. ALONSO, 2011. Pp. 173.; e Op. Cit. ALONSO, 2010.
183
Deputado pela Província do Rio de Janeiro. Ver, Op. Cit. BLAKE, 1970. Vol1. Pp. 12-13.
184
Gazeta da Tarde, 21 de junho de 1883.
185
No próximo capítulo me deterei com mais detalhes sobre as características dessas redes nacionais e
internacionais formada pela CA.
186
Gazeta da Tarde, 26 de maio de 1883. As relações estabelecidas entre os abolicionistas brasileiros e
estrangeiros têm sido alvo de estudos bastante fecundos como os de José Murilo de Carvalho e Angela
Alonso. No próximo capítulo tentarei identificar se houve uma adoção das práticas e discursos de
abolicionistas estrangeiros pela Confederação Abolicionista e a dimensão que a possível adoção desses
princípios alcançava dentro da instituição.
48

os 4 (quatro) Princípios elencados destaca-se o 4ª, que era assegurar à população de cor
nascida livre ou escrava todos direitos e privilégios que lhe pertencem como homens e como
brasileiros187.

Além da proposta inicial e elementar em abolir a escravidão de forma imediata


e sem indenização, começa a ser desenvolvida uma perspectiva de autonomia e igualdade de
direitos entre todos os súditos da Coroa brasileira. Ao fim da escravidão deveria acompanhar
igualmente o fim dos privilégios de classes.

Como a redação Gazeta da Tarde – e, posteriormente, a setembro de 1887 a


redação do Cidade do Rio – funcionava como a sede da Confederação Abolicionista, servindo
de púlpito e para a difusão das ações, projetos e deliberações internas, além de receber as
reuniões das comissões e diretorias188. Logo,decidimos adotar as suas matérias, reportagens e
editoriais abolicionistas – entre maio de 1883 e agosto de 1887– como representativo das ações
e projetos adotados pela Confederação, pois, desde a criação da CA até agosto de 1887189, fica
difícil dissociar a linha editorial do jornal Gazeta da Tarde dos objetivos e missão institucional
da Confederação. Quase toda a equipe dos jornalistas fazia parte da CA ou da diretoria de
alguma sociedade, associação ou clube abolicionista190.

José do Patrocínio, Luiz de Andrade, João Ferreira Serpa Junior, Gonzaga


Duque-Estrada, Julio de Lemos, Manoel Ernesto Campos Porto, Leite Ribeiro, Dias da Cruz,
Cardoso de Menezes e F. C. Vasques formavam o corpo jornalístico da Gazeta da Tarde191.
Outros abolicionistas da CA também publicavam regularmente diversos artigos na Gazeta da
Tarde combatendo a escravidão, dentre eles Ennes de Souza, André Rebouças e ocasionalmente
Domingos Gomes dos Santos – o Radical192.

No final do ano de 1883 começa a se evidenciar o modus operandi da


Confederação.O editorial da Gazeta da Tarde do dia 26 de dezembro é literalmente um libelo
abolicionista em nome da CA. Motivado pelas perseguições e dificuldades de ações encontradas
pelos abolicionistas e a própria CA em São Paulo, a instituição apresenta o seu modo de agir

Para a relação entre abolicionistas brasileiros e estrangeiros ver, BETHEL, Leslie & CARVALHO, José
Murilo de. Joaquim Nabuco e os abolicionistas britânicos: 1880-1905. Estudos Avançados, ano 23, vol.
65, 2009. Pp. 219 e 224-226.; e Op. cit. ALONSO, 2014. Pp. 121-125 e 131.
187
Idem, Gazeta da Tarde.
188
SILVA, Eduardo. As camélias do Leblon e a Abolição da Escravatura: Uma investigação de história
cultural. São Paulo. Companhia das Letras, 2003. Pp. 13-18.
189
A partir desta data José do Patrocínio vende o jornal e funda o Cidade do Rio, na Rua do Ouvidor, 144
passando a funcionar como a nova sede da Confederação Abolicionista.
190
Gazeta da Tarde, 08 de novembro de 1883. ; Gazeta da Tarde, 10 de novembro de 1883. ; Gazeta da
Tarde, 05 de janeiro de 1884.; Gazeta da Tarde, 24 e 25 de março de 1884; Gazeta da Tarde, 26 de março
de 1884.Op. cit. LAEMERT, 1884. Pp. 1151.;Op. Cit. LAEMERT, 1885. Pp. 1152.; Op. Cit. MOARES,
1924. Pp. 33-39. Destaca-se a participação de todos os funcionários da Gazeta da Tarde no movimento
abolicionista em nome da Confederação – incluindo os colaboradores André Rebouças e Ennes de Souza
-, seja na organização de eventos, através de artigos e reportagens e nas ações de promoção de fuga e
acoitamento de escravos.
191
Gazeta da Tarde, 13 de novembro de 1883. Patrocínio era o proprietário e redator do jornal; Luiz de
Andrade o redator-chefe; João Serpa Junior o gerente; Julio de Lemos e Duque Estrada eram responsáveis
pela elaboração de artigos e matérias; as reportagens eram feitas por Campos Porto, Dias da Cruz e Leite
Ribeiro; as colunas voltadas para a literatura e as artes era de responsabilidade de Cardoso de Menezes e
Vasques.
192
Idem.; e Gazeta da Tarde, 21 de junho de 1883
49

destacando a impossibilidade de realizá-los devido ao descumprimento da lei em dois


municípios da Província.

A Confederação tem por todos modos


promovido a liberdade dos escravos, até
agora dentro da orbita legal, mas fora dela
quando os nossos adversários nos chamarem
para a ilegalidade(...) Pleitear a liberdade de
africanos no fôro, ou de escravos que se possa
manumitir é dever nosso, estipulação dos
estatutos que nos regem como associação
Abolicionista. Nesse sentido, temos mandado
comissões e advogados a todos os auditórios,
onde haja um cativeiro a redimir(...)193.

A matéria segue criticando a não aplicação da lei e a impunidade em relação aos


crimes cometidos pelos escravocratas de Jacareí e Araraquara, mas por fim, concitando às
autoridades locais a tomar providências, pois, tal fato causava insegurança para escravos,
libertos e abolicionistas daquela região194. Neste momento nos interessa identificar a
organização e a definição dos objetivos e a missão da CA enquanto instituição, ou seja, se
existia um regimento interno ou alguma orientação direcionada para a sua organização e
funcionamento relacionando-o com as ações voltadas para a abolição da escravidão.

Segundo o editorial, a CA atuava dentro da órbita legal para levar a cabo a sua
missão abolicionista, mas também não se furtaria a agir fora dela quando os (...)adversários
chamarem para a ilegalidade195. Nas entrelinhas e relacionando as fontes fica claro que desde o
seu primeiro ano de criação, as ações da CA voltadas para a manumissão de escravos ocorria
dentro e fora da órbita legal. É nesse sentido, que identificamos a radicalidade do abolicionismo
encampado pela Confederação e seus componentes.

No início de 1884 – menos de um mês após o editorial sobre a Província de São


Paulo – a Gazeta publicou novamente em seu editorial o funcionamento interno da CA.
Destacando principalmente a participação dos diversos clubes abolicionistas – através de seus
representantes -, a matéria sinaliza para o coletivismo e a organização do movimento social para
o êxito na campanha abolicionista. E assim destacaminuciosamente o seu funcionamento
interno.

(...)Cada sociedade delega três membros da sua


diretoria, os quais formam uma nova associação
com dois corpos, um consultivo e um
executivo.Este, composto de presidentes da
associações confederadas, reúne-se todas as

193
Gazeta da Tarde, 26 de dezembro de 1883.
194
Idem.
195
Op. Cit. Gazeta da Tarde, 26 de dezembro de 1883.
50

semanas, emsessão ordinária e sempre que se


torna preciso, em sessão extraordinária.(...)
Hoje a Confederação é formada por 17
sociedades Abolicionistas e em véspera de
elevar esse número a 20, com adesão das 3 que
mencionamos. Constituindo assim esse grupo
de eleição, entre si escolhe uma nova diretoria,
que tem a direção suprema do movimento e não
tem poupado esforços para o acelerar. Tal é a
organização das nossas forças secundada por
um órgão diário na imprensa –Gazeta da Tarde.
Uma comissão permanente de socorros aos
escravosvai ser nomeada, reunindo-se todos os
dias, a horas determinadas, para tomar conta
das reclamações, queixas, processos e outros
interesses dos infelizes escravos. Todas as
semanas, ao domingo, uma das Sociedades
confederadas reúne o povo em um comício, e
ai, o presidente da Confederação historia os
principais fatos do abolicionismo, nos oito
dias que decorreram. Em seguida, o orador
oficial da Sociedade entretem o público
durante uma hora, com qualquer das faces do
pavoroso problema. Quase sempre, a música, a
poesia, o concurso de artistas termina o comício
(...) À tribuna abolicionista tem vindosenadores,
deputados e representantes de todas
as classes(...)196.

Como aparece nas páginas da Gazeta da Tarde, a organização interna e


atribuições dos confederados era extremamente organizada. Formada a partir de comissões, a
perspectiva coletiva nas ações da Confederação Abolicionista engendravam uma formação em
rede. Nos anos subsequentesà sua criação, a Confederação realizou eventos de comemoração de
seu aniversário e neles imprimiu a mesma dinâmica descrita pela Gazeta da Tarde do dia 23 de
janeiro de 1884197 não havendo mudanças das diretrizes internas formuladas em seu primeiro
ano de existência.

Variavam os personagens e associações executoras das ações planejadas pela


Confederação, mas, estas não variavam muito conforme será visto nos dois próximos capítulos.
Ao longo dos seus anos de existência a CA teve como seus principais oradores o jornalista Julio
de Lemos, o igualmente jornalista Quintino Bocaiúva, o advogado e Conselheiro Rui Barbosa,
os professores da Escola Politécnica Agostinho dos Reis e Ennes de Souza,Joaquim Nabuco,
além do próprio José do Patrocínio. Em outras ocasiões, José Mariano198, Álvaro de Oliveira199 e
o jurista Busch Varella200 também realizaram conferências em nome da Confederação
Abolicionista, mas, o primeiro grupo foi mais atuante neste seguimento de ação do
abolicionismo adotado pela CA.

196
Gazeta da Tarde, 23 de janeiro de 1884.
197
Op. Cit. Gazeta da Tarde, 10 de maio de 1884; e Op. Cit. Gazeta da Tarde, 12 de maio de 1885.
198
Deputado abolicionista pela Província de Pernambuco.
199
Professor da Escola Politécnica.
200
Gazeta da Tarde, 10 de março de 1884.
51

O objetivo deste primeiro capítulo era identificar os representantes da


Confederação Abolicionista no período em que atuou dentro do movimento abolicionista
brasileiro, bem como as suas origens socioprofissionais a fim de traçarmos um perfil social da
instituição. Igualmente buscamos compreender a sua dinâmica interna objetivando a
identificação de suas características. Em última instância, era o mapeamento da CA que
tínhamos como meta para este capítulo, para então, podermos partir para as análises de suas
ações e projetos.

No próximo capítulo tentarei relacionar as características e dinâmicas internas


da Confederação com as suas ações, entendendo que esta relação foi possível através de um
maior engajamento de abolicionistas negros e libertos como fator de radicalização do
movimento e dos projetos abolicionistas propostos por ela.
52

2. A Confederação Abolicionista e os embates entre abolicionistas e escravistas na Corte


em fins do século XIX: rede de sociabilidades, práticas e projetos do abolicionismo radical
e popular.

As ações da Confederação Abolicionista materializavam-se em quatro espaços


intercambiáveis: a rua, a imprensa, os núcleos abolicionistas – associações abolicionistas
confederadas – e o parlamento. Com isso as disputas e embates ocorriam majoritariamente
dentro dos campos político, social e intelectual201. A partir dessa perspectiva emerge a
radicalidade do abolicionismo da Confederação, pois, enquanto movimento social ele foi capaz
de traduzir e ampliar os debates políticos institucionais e intelectuais para o campo político e
social da pequena política202.

Como um movimento entrópico, as pautas, agendas e demandas políticas e


sociais populares entravam nas discussões políticas e intelectuais dos espaços de saber e poder
institucionais do Estado Imperial. E de forma inversa, essas mesmas demandas de natureza
institucional e elitista adentravam no cotidiano das classes populares203. O que se dava de fato
era uma disputa pelas chances de poder, projetos de nação e direcionamento das características
dos campos em questão, objetivando a implantação de um determinado modelo político e
socioeconômico para o Brasil.

Três casos são emblemáticos desta perspectiva, dois deles foram destacados
pelos jornais Gazeta da Tarde, Diário do Brazil e o Cidade do Rio, o terceiro foi apresentado
como um parecer da Confederação Abolicionista à um discurso proferido pelo Senador
Cristiano Ottoni em 1884.

Um dos pontos cruciais do abolicionismo popular e radicalda Confederação


Abolicionista era a defesa imediata do fim da escravidão sem indenização aos proprietários de
escravos. Entendendo que aguardar a decisão legal para ver extinta a escravidão no país seria
obstáculo ao projeto político abolicionista, a Confederação Abolicionista empreendeu diversos
métodos destinados à aceleração deste processo. Dentre esses métodos destacaremos as ações

201
Op. Cit. BOURDIEU, 2004. Pp. 20-25.
202
GRAMSCI, António. Cadernos do cárcere, vol.3. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002. Pp. 21-
23. Termo utilizado por Gramsci para designar as relações e a dinâmica política fora dos círculos oficiais.
Para o autor o termo pequena política não é de forma alguma depreciativo, mas apenas tipifica e
caracteriza os níveis de atuação política, que podemos identifica-los separados em dois aspectos
interligados: o primeiro se refere aos níveis de ação política institucionais do Estado e em entre nações,
ou seja, as suas relações políticas internacionais. Seria esse, portanto o espectro de análise da grande
política. Já os assuntos cotidianos de um Estado, veiculados e materializados através das ações do
governo, além das temáticas que interessam e envolvem toda a sociedade, são caracterizados como o
objeto da pequena política. No próximo capítulo me deterei mais especificamente nesta questão.
203
Percepção esta que encontra referência no conceito de cultura política de Patto Sá Motta e Andrea
Marzano. Ver, MOTTA, Rodrigo Pato Sá. A história política e o conceito de cultura política. LPH:
Revista de História, nº, 1996. Pp. 95.; e Op. Cit. MARZANO, 2007. Pp. 375.
53

jurídicas de escravos contra seus senhores tendo como motivo a ilegalidade do cativeiro
baseados nas leis de 1831 e 1871204.

A “intromissão” de terceiros – leia-se abolicionistas – nos assuntos privados, na


propriedade alheia, era o ponto nodal dos embates mais recorrentes entre escravistas e
abolicionistas radicais. A exemplo de Luiz Gama, a Confederação engendrou uma rede de
abolicionistas e estratégias diversas de solicitações de alforria de escravos baseados em artigos e
brechas das Leis de 1831 e 1871. De forma geral, as argumentações giravam em torno da idade
dos escravizados - incompatível com a Lei de 1831 e por vezes com o próprio fim do tráfico em
1850, portanto, trazidos ilegalmente para o Brasil - e os maus tratos – que possibilitava o
depósito de um pecúlio junto ao proprietário para aquisição da alforria205.

A Gazeta da Tarde do dia 27 de dezembro de 1886 publicou um artigo


intitulado Campinas na Corte, nele segue informando que o “procurador do mato” Pedro
Castro, acompanhado por um capanga viajaram de Campinas para a Corte no intuito de resgatar
um escravo, chamado Godofredo, de propriedade do dr. Ricardo Dantas. A Confederação
Abolicionista investigou o caso e descobriu que o escravo fora preso - enquadro no crime de
vagabundagem – por Coelho Bastos206. Após a descoberta da prisão, a Confederação
Abolicionista pagou a fiança de Godofredo e entrou com uma ação judicial obtendo a custódia
do mesmo.

Esse episódio – dentre tantos outros já descritos por outros historiadores207 –


demonstra dois pontos cruciais do projeto abolicionista da CA e do Partido Abolicionista208. O
primeiro era acelerar o fim da escravidão no país e o segundo, talvez mais importante, pois,
representava a disputa no campo político em torno da forma de abolição a se concretizar no
país. De um lado estava o modelo elitista e senhorial, do outro o modelo radical e popular
adotadopela Confederação que incluía inclusive a participação de escravos e libertos na sua
organização.

Para os escravistas essas práticas eram tão afrontadoras como nocivas ao


liberalismo escravista209. Nesse sentido, as queixas e a mobilização dos proprietários de

204
Ambas as leis foram acionadas de forma ambígua por abolicionistas ao longo da campanha
abolicionista. Asperamente criticadas num primeiro momento, sendo vistas como medidas postergadoras
do fim da escravidão, com o passar do tempo essas leis tornaram-se um mecanismo de validação e brecha
no processo de desestruturação da escravidão, pois, permitia que escravos pudessem obter a sua liberdade
mediante a comprovação da aplicabilidade destas leis em seus casos específicos. Ver, MENDONÇA,
Joseli Maria Nunes. Entre as mãos e os anéis: a Lei dos Sexagenários e os caminhos da abolição no
Brasil. Campinas: Editora Unicamp, 2008. Pp. 145-158 e 273-298.; Op. Cit. CHALHOUB, 1990. Pp.
108-122 e 161-174.; Op. Cit. PENA, 2001. Pp. 311-338.; e Op. Cit. AZEVEDO, 1999. Pp. 188-285.
205
Idem, AZEVEDO.; Op. Cit. DUQUE-ESTRADA, 2005. Pp. 86-89.; e Op. Cit. MORAES, 1924. Pp.
36-38.
206
Coelho Bastos era o chefe de polícia da Corte nos anos 1880 e identificado com os interesses dos
escravistas.
207
KARASCH, Mary. C. A vida dos escravos no Rio de Janeiro (1808-1850). São Paulo: Companhia das
Letras, 2000. Pp. 441-451.; FERREIRA, Roberto Guedes. Autonomia escrava e (des)governo senhorial
na cidade do Rio de Janeiro da primeira metade do século XIX. In: Tráfico, cativeiro e liberdade (Rio de
Janeiro – séculos XVII-XIX). FLORENTINO, Manolo(org.). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. Pp.
247-373; Op. Cit. CHALHOUB, 2000. Pp. 151-174.; e Op. Cit. AZEVEDO, 1999. Pp. 188-285.
208
Também destaca-se nestas ações o confederado Domingos Gomes dos Santos, conhecido como o
radical. Negro e de origem pobre, Gomes dos Santos resgatou muitos negros do cativeiro através de ações
judiciais. Ver, Gazeta da Tarde, 10 de janeiro de 1889 e Op. Cit. MOURA, 2013. Pp. 373.
209
Para definição de liberalismo escravista ver, Op. Cit. PARRON, 2011. Pp. 64-71.
54

escravos foi intensa e se materializou desde a publicação de artigos em jornais até a formação
dos chamados clubes da lavoura com o intuito de defender-se – inclusive belicamente – das
investidas dos abolicionistas210.

O segundo episódio se refere à introdução de discussões políticas e sociais


cotidianascomo pauta a ser debatida no Senado do Império. O editorial, Semana Política do
jornal Cidade do Rio, noticiava em novembro de 1888 uma proposta oriunda do Senado descrita
como impopular e destinada a organizar um projeto de colonização chinesa para substituição da
mão de obra escrava recém liberta211. Em defesa da proposta senatorial de Cotegipe e Laffayete
saiu o jornal Novidades, destacando o estado de pobreza que passava a grande propriedade rural
no Brasil, a falta de braços na lavoura, além de criticar a abolição da escravidão, o governo e os
abolicionistas, via nos chineses a salvação da lavoura212.

No terceiro episódio, João Clapp critica o discurso do senador Christiano Ottoni


pela tentativa de criação de uma lei voltada para a criminalização de ações de indivíduos e
associações voltadas para a libertação de escravos213. É importante destacar a influência, força e
poder de mobilização social e política do movimento social abolicionista organizado pela
Confederação sendo alvo de análise e da criação de uma lei pelas esferas políticas institucionais.

O parecer do presidente da Confederação Abolicionista alegava que as ações da


instituição ocorriam dentro das leis do Império e que todas as ações, bem como a sua
estruturação material e ideológica eram do conhecimento público. Por isso, não haveria motivos
para perseguições ou punições para os abolicionistas da Confederação214.

Estes três exemplos demonstram como o debate político e social extrapolou as


esferas institucionais e as demandas populares passaram a compor ou ao menos influenciar a
dinâmica do campo político do Império. Entendemos que as ações sociais e políticas
engendradas coletivamente pela CA dentro destes campos atingiu um nível de
representatividade social que acabou por contribuir decisivamente tanto na forma que se
concretizou o fim da escravidão como nos seus desdobramentos.

O primeiro episódio por nós descrito demonstra como as ações da Confederação


influenciavam e repercutiam socialmente no Império. O segundo destaca a ação da
Confederação em ampliar o locusdiscursivo do tema debatido no parlamento, levando-o para a
reflexão e o debate popular através da imprensa. E o terceiro indica a influencia das ações
populares nas decisões políticas do Estado.

A nossa hipótese é que as argumentações discursivas dos campos políticos e


intelectuais em torno do abolicionismo radical provinham das demandas sociais. A organização
da Confederação paralelamenteà um Partido Abolicionista215engendrou uma inter-relação entre
seus membros, que em última instância formavam o núcleo radical com estratégias e locais de
ação diferentes, porém com a mesma perspectiva. Esta dinâmica das práticas do abolicionismo

210
Diário do Brazil 3 de maio e 23 de setembro de 1883.; e Diário do Brazil 18 de junho de 1884.
211
Jornal Cidade do Rio, 12 de novembro de 1888.
212
Jornal Novidades, 12 de novembro de 1888. O responsável e editor do jornal era Alcindo Guanabara.
Ver, SODRÉ, Nelson Werneck. História da Literatura Brasileira. Rio de Janeiro: Mauad, 1999. Pp. 255.
213
Discurso pronunciado em sessão no Senado em 09 de junho de 1884 pelo senador Christiano Benedicto
Ottoni, acompanhado de uma declaração da Confederação Abolicionista.
214
Op. Cit. Discurso pronunciado em sessão....
215
No próximo capítulo analisarei a formação do Partido Abolicionista bem como suas ações e objetivos.
55

radical possibilitou a construção de estratégias e projetos específicos, levando em conta a


perspectiva popular da abolição da escravidão.

Já foi destacada no primeiro capítulo a participação de ao menos dois libertos na


organização do movimento abolicionista encampado pela Confederação216. A esses se somam
muitos outros que participavam dos meetings e comícios organizados pela Confederação na
Corte e em diversas províncias. Efetivamente, a participação popular no movimento
abolicionista brasileiro fortalecia as ações dentro dos campos político e intelectual onde se
davam as disputas sobre o projeto de nação a se implantar no Brasil.

No ano de 1887, a Confederação acabou lançando a candidatura do Marechal


Deodoro para o Senado. A vitória eleitoral do Marechal foi uma demonstração de força da
Confederação Abolicionista, já que a candidatura do veterano da Guerra do Paraguai não esteve
vinculada a nenhum dos partidos oficiais do Império. No dia seguinte após o resultado da sua
eleição houve uma grande manifestação popular organizada pela CA em homenagem ao
Marechal217.

Sem convite, sem comissão organizadora, só


por um simples aviso publicado em nosso
número de ontem, o povo reuniu-se em
grande massa diante do nosso escritório e
no Largo de S. Francisco, e daí seguiu em
imponente préstito, para a residência do
Marechal Deodoro, à Praça Onze de Junho
(...) Cerca de 2.000 pessoas tomaram parte
neste ato cívico.(...) Abria o préstito uma
banda musical, seguida pela diretoria da
Confederação Abolicionista.(...) As palavras
do Marechal foram constantemente cobertas de
ruidosas aclamações.(...) Depois de muitos
vivas e aclamações o sr. Clapp declarou
encerrada a solenidade, pedindo ao povo que
se dispersasse. A multidão, na Praça Onze de
Junho era tão compacta, que por mais de meia
hora ficou interrompido o serviço dos bondes,
por não ser possível romper a massa imensa de
povo que estacionava em frente à casa do
Marechal Deodoro218.

216
Israel Soares foi durante anos presidente da Caixa Emancipadora José do Patrocínio. Devido a esta
atribuição e levando em conta a filiação deste núcleo abolicionista à Confederação, Israel Soares ocupava
cargo na Comissão Executiva da CA. Abel da Trindade também compunha a diretoria do mesmo núcleo
que Israel Soares, por isso foi indicado a compor a Comissão Deliberativa da CA. Ver, Op. Cit. Gazeta da
Tarde, 10 de maio de 1883.; e Op. Cit. Gazeta da Tarde, 16 de janeiro de 1884.
217
Gazeta da Tarde, 19 de julho de 1887.
218
Idem.
56

No dia 06 de agosto do mesmo ano a Confederação organizou um meeting219 na


Lapa. A participação popular mais uma vez foi maciça e os organizadores contabilizaram
aproximadamente 6.000 participantes220. O motivo do meeting era a manifestação contra o
resultado do julgamento do Ministro da Agricultura – Rodrigo Silva221 - pelo Presidente do
Conselho de Ministros222. O Ministro havia decretado um aviso para o município de Campos
dos Goytacazes – no norte da Província do Rio de Janeiro -, que segundo a Confederação seria
responsável pela reescravização de aproximadamente 13.000 a 14.000 mil libertos, incluindo
sexagenários e também beneficiados pela Lei de 1871.A acusação de inconstitucionalidade foi
acompanhada de uma série de leis e artigos demonstrando que o aviso se tratava de uma
manobra política para indenizar de alguma forma os proprietários de escravos do município de
Campos223.

A partir daí as repressões aumentaram significativamente ao movimento social


popular organizado pela Confederação Abolicionista224. Nos dias 08, 11 e 26 de agosto, a
Gazeta da Tarde noticiou atentados contra abolicionistas, repressões comandadas pelo
Secretário de Polícia Coelho Bastos e agressões que levou ao cancelamento de reuniões da
Confederação, temendo que as violências cometidas pelos escravistas e o Estado tivessem um
fim trágico.

Usando de um direito constitucional, a


Confederação Abolicionista havia convocado
um meeting no qual pretendia votar e discutir a
seguinte moção:“O povo do Rio de Janeiro,
reunido em assembleia, manifesta, por essa
moção, o seu desgosto pela permanência de um
ministroconvicto de haver com desprezo e
abuso deautoridade tentado reduzir à escravidão
pessoaslivres ex-vidas disposições da própria
lei de 28 desetembro de 1885.(...) O meeting de
ante ontemera o segundo de uma série, que o
ministro,mandou interromper, hoje, por um
edital da polícia.(...)225

A matéria continua destacando que no momento em que Quintino Bocaiúva


discursava em nome da Confederação Abolicionista começou a explodir bombas no local
havendo confrontos entre policiais e capoeiras, liderados por um tal de Benjamin, a mando do

219
Os meetings eram uma espécie de reuniões abertas, muito semelhantes aos comícios de hoje. A
expressão é inglesa e significa encontro.
220
Gazeta da Tarde, 06 de agosto de 1887.
221
Gazeta da Tarde, 03 de agosto de 1887.
222
Idem. Ver também, Gazeta da Tarde, 01 de agosto de 1887.
223
Op. Cit. Gazeta da Tarde, 03 de agosto de 1887.
224
Idem. O jornal destacara que circulava entre o povo muitos secretas “conhecidos”, ou seja, agentes da
polícia disfarçados.
225
Gazeta da Tarde, 08 de agosto de 1887.
57

governo contra os abolicionistas226. O jornal denunciava a omissão e mesmo intenção dos


policiais em impedir a realização do meeting e acusavam o 2º delegado de polícia, o dr. Heitor e
o secretário de polícia, João Coelho Rodrigues de acobertarem os criminosos227. Mesmo o
meeting tendo sido interrompido o povo que estava presente continuou com a manifestação nas
ruas do Ouvidor e Lavradio, transformado a reunião em um protesto de rua228.

No dia 11 de agosto estava marcado mais um meeting abolicionista da


Confederação que acabou sendo cancelado devido às ameaças de incêndio ao local do evento229.
Os ânimos estavam acirrados a ponto de ser cogitada a luta armada pelos abolicionistas230.
Contudo, o que percebemos foi um freio nas ações da Confederação Abolicionista e no
movimento social organizado.Os jornais opositores ao abolicionismo comemoram o interregno
abolicionista popular e passaram a caçoar da Confederação Abolicionista231. Meses depois, o
movimento é reestruturado e a Confederação volta aos trabalhos no início do ano seguinte232.

Nesse sentido entendemos que a dinâmica social, as demandas populares e dos


indivíduos que compuseram o movimento abolicionista influenciaram - e foram influenciados -
diretamente no radicalismo defendido pela Confederação e seus componentes.

Sempre se faz necessário a relativização das afirmações oriundas das


argumentações discursivas. Como recurso metodológico é imprescindível contextualizarmos
esses discursos na conjuntura específica em que se insere e não somente no universo do
vocabulário linguístico e social em que se estrutura e igualmente se refere – de certa forma,
inserido na estrutura de uma sociedade. Pois, na interação entre discurso e ação social existem
elementos que dificilmente identificamos como motivadores tanto dos discursos como de ações
às quais os discursos se referem ou tenha engendrado.

Nesse sentido, nas entrelinhas do discurso e subsidiados pela análise conjuntural


podemos compreender a estratégia adotada pela CA dentro do movimento abolicionista. Ao
constituir-se institucionalmente em uma rede de sociabilidades caracterizada pelo ecletismo
social, intelectual e político, torna-se compreensível a capacidade de mobilização alcançada pela
Confederação.

Sem convite, sem comissão organizadora, só por um simples aviso publicado


em nosso número de ontem, o povo reuniu-se em grande massa diante do nosso escritório e no
Largo de S. Francisco em préstito233. Sabemos que qualquer evento ou uma simples reunião
prescinde da comunicação entre as pessoas para ocorrer. Já havia decorrido 4 anos que a CA
agia intensamente na mobilização e ações dentro do movimento abolicionista. A dinâmica social
de fins do século XIX nos permite supor que os participantes dos meetings, reuniões e
manifestações organizados pela Confederação Abolicionista obtinham a informação sobre as
suas realizações de maneiras diversas como o ouvir dizer nas ruas, os convites e as mobilizações
pessoais – o boca a boca -, para ficarmos apenas nessas duas possibilidades.

226
Idem.
227
Op. Cit. Gazeta da Tarde, 08 de agosto de 1887.
228
Idem.
229
Gazeta da Tarde, 11 de agosto de 1887.
230
Gazeta da Tarde, 26 de agosto de 1887.
231
Jornal Novidades, 26 de dezembro de 1887.
232
Jornal Cidade do Rio, 17 de fevereiro de 1888.
233
Op. Cit. Gazeta da Tarde, 19 de julho de 1887.
58

Porém, reunir 2.000 (duas mil) pessoas234 e depois 6.000235 - por mais que
relativizemos esses números – eles nos permitem supor que representavam diversos segmentos
sociais da população da Corte,tendo em vista que o censo de 1900 registrava para o distrito
federal236, o total de 811.443 habitantes237. Se pensarmos que 1872238 a população da Corte –
município neutro - era de aproximadamente de 274.972 pessoas, podemos supor que a CA
chegou a mobilizar de 1 a 2% da população da Corte em suas manifestações políticas nas ruas
da cidade no ano de 1887.

De qualquer forma, a nossa análise tem como objetivo corroborar a participação


popular nas ações da Confederação demonstrando a interdependência entre ações sociais e
políticas engendradas pela rede que a CA construiu. A inclusão de diversas classes sociais e
profissionais nos debates políticos do Império relacionados ao projeto de nação abolicionista
subvertia a ordem imperial239, hierarquizada estruturalmente nas bases do liberalismo escravista.

A participação do povo do Rio de Janeiro não permitiu mais que o


abolicionismo fosse tema de gabinete ou de uma elite política, econômica ou mesmo intelectual.
A ação da Confederação direcionada para a mobilização popular sugerindoa elaboração de
umamoção solicitando ao chefe do Gabinete ministerial a pronta demissão de um ministro do
Império240 demonstra não apenas a radicalidade, mas, sobretudo, a participação das camadas
populares no campo político, articuladas em diversos núcleos sob a organização da
Confederação.

Os discursos de Clapp, Patrocínio e Quintino inflamou os participantes das


manifestações que se recusavam em regressar imediatamente para as suas casas após os atos
políticos organizados pela CA. Continuavam ocupando as ruas e logradouros públicos entoando
cânticos e palavras de ordem241. Nestes momentos, outros membros da Confederação entravam
em ação e agitavam a massa, como fazia o Radical – Domingos Gomes dos Santos -, agindo
junto ao povo242.

Dessa forma temos indícios consideráveis da relação entre as diversas classes


sociais que participavam do abolicionismo radical. De caráter popular, foi capaz de influenciar a
dinâmica social da Corte e do Império como um todo243. Por isso, a participação de diversas
pessoas na rede abolicionista responsável pela subtração dos escravos das fazendas, seu

234
Idem.
235
Op. Cit. Gazeta da Tarde, 06 de agosto de 1887.
236
Com o advento da República o município do Rio de Janeiro continua como a capital do país, tornando-
se o Distrito Federal.
237
IBGE: Memória. Extraído de :<http://memoria.ibge.gov.br/sinteses-historicas/historicos-dos-
censos/censos-demograficos>. Acessado em 21/03/2015.
238
Data do último censo do Império. Ver, Idem.; e GODOY, Marcelo Magalhães & PAIVA, Clotilde A. &
RODARTE, Mario Marcos S. & SANTOS, Douglas. Publicação crítica do Recenseamento Geral do
Império do Brasil de 1872 Minas Gerais, UFMG, Núcleo de pesquisa em História Econômica e
Demográfica, Relatório provisório, 2012. Pp. 77.
239
Op. Cit. ALOSNO, 2011. Pp.185-189. Alonso endossa esta perspectiva radical do abolicionismo
enquanto movimento social. Ampliação do debate politico englobando novos espaços e atores –
essencialmente popular – e a participação de libertos seriam os principais sinalizadores do radicalismo do
abolicionismo brasileiro.
240
Op. Cit. Gazeta da Tarde, 08 de agosto de 1887.
241
Op. Cit. Gazeta da Tarde, 19 de julho e 96 de agosto de 1887.
242
Gazeta da Tarde, 10 de janeiro de 1889.
243
Op. Cit. ALONSO, 2011. Pp. 184. A autora destaca a ação da Confederação Abolicionista alcançou 15
das 20 províncias do Império.
59

direcionamento e recepção em outra província, o consequente acoitamento e a posterior


recondução do mesmo à liberdade engendrava como estratégias de desestruturação do sistema
escravista foi possível, com participação de diversas classes sociais para a sua consecução244.

A estratégia discursiva da CA era negar as ações consideradas ilegais245, mas, os


opositores sempre que podiam acusavam a ação dos abolicionistas na incitação de fugas e
violência de escravos contra os seus senhores246. De fato, as ações dos abolicionistas
confederados eram extremamente radicais e levavam à mobilização de escravistas contra a CA
de diversas formas, seja através de atentados, agressões nas ruas e até empastelamento de
jornais abolicionistas a ela vinculados247.

No campo intelectual os jornais reproduziam os embates e discursos ocorridos


em locais públicos ou no próprio parlamento. Nesses locais – no campo intelectual e político-
institucional -, a ação da Confederação se baseava numa estratégia retórica - no tocante às
argumentações discursivas - embasada em concepções cientificistas, que, por sua vez, eram
introduzidas e resignificadas nas ações e embates de rua, compartilhados com a classe média
urbana, libertos e escravos.

A nossa hipótese é que a argumentação discursiva dos intelectuais da


Confederação organizava-se a partir da prévia identificação do público. A partir daí ocorria a
escolha de um orador e o tema a ser apresentado – sobretudo nas Conferências. Nosso
entendimento é que esta estratégia se mostrava como atos de fala248 dos intelectuais da
Confederação Abolicionista. Isso porque estes discursos endossavam e programavam as ações e
práticas abolicionistas dos confederados.

Essa estratégia de seleção de oradores, debatedores ou escritores de artigos em


jornais, adotada pela Confederação Abolicionista permitia por vezes que alguns intelectuais
falassem em seu nome ou defendesse algum posicionamento da instituição, reforçando o sentido
da formação de uma rede de sociabilidades. Os discursos representativos da Confederação que
foram selecionados foram extraídos dos periódicos Gazeta da Tarde e Cidade do Rio, pelo fato
de terem sido os meios de divulgação das ideias e ações da instituição.

A historiografia sobre a abolição da escravidão no Brasil apresentou em


diversos momentos as discussões, acusações e questionamentos entre abolicionistas e
escravistas veiculadas nos periódicos do país249. Contudo, essas fontes eram vistas e analisadas

244
Ver, Op. Cit. DUQUE-ESTRADA, 2005.Pp. 87-89.; Op. Cit. MORAES, 1924. Pp. 33-39. ; SILVA,
2003. Pp. 13-34, 52-56 e 58-64.
245
Op. Cit. CLAPP, 1884.
246
Diário do Brazil, 18 de junho de 1884.
247
MACHADO, Humberto Fernandes. Imprensa abolicionista e censura no Império do Brasil. In: Entre a
monarquia e a república: imprensa, pensamento político e historiografia (1882-1889). (orgs.) FONSECA,
Silvia Carla P. de B. & LESSA, Mônica Leite. Rio de Janeiro: EDUERJ, 2008. Pp. 251-257.
248
Op. Cit. SKINNER, 2005. Pp. 60, 96-99 e 122-126. Os atos de fala identificam nos discursos políticos
uma ação, que encontra no contexto político e linguístico sua interdependência e significado. As
formações discursivas encontram no vocabulário político os conceitos, termos e ideias que dotam os
mesmos com significados intelectual e linguisticamente aceitos, mas, em última instância tendem a
legitimar e propor ações no campo político, social ou econômico.
249
Op. Cit. CONRAD,1975.; Op. cit.COSTA, 2001.; MACHADO, Humberto F. & NEVES, Lucia Maria
B. O Império do Brasil. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999.; e SCHWARCZ, Lilia Moritz. Retrato em
branco e negro: jornais, escravos e cidadãos em São Paulo no final do século XIX. São Paulo: Companhia
das Letras, 1987.
60

como a expressão de uma inconsistência de argumentos lógicos por parte dos interlocutores –
intelectuais -, que por sua vez apelavam para os insultos, críticas morais e ao sentimentalismo.

Além disso, no tocante ao campo intelectual a historiografia brasileira –


principalmente até os anos 1980 voltada para o estudo dos intelectuais, de suas obras, ações e
ideias políticas no Brasil ao longo do século XIX - creditava aos intelectuais brasileiros uma
análise superficial, atrasada ou equivocada em relação as suas compreensões e aplicações sobre
as teorias e estudos difundidos na Europa250 - consequentemente assimilados no país.

Estas análises não levaram em conta as necessidades, limites e interesses locais


como critérios de seleção e adaptação de teorias estrangeiras – europeias - no país, nem
identificaram a transformação destas como fruto de uma iniciativa local. Enfim, transformava-se
o que era possível e pertinente à realidade local, objetivando uma utilidade tanto funcional
quanto filosófica, sobretudo nos espaços destinados à reflexão e produção de conhecimento251.

De qualquer forma, tais análises identificavam um ambiente intelectual


matizado por “um bando de ideias novas” – parodiando a célebre frase do escritor e jornalista
brasileiro Silvio Romero -, que por sua vez compunham a tessitura intelectual formativa das
concepções sociais, políticas, econômicas e culturais em que estavam imersos os intelectuais
brasileiros do Segundo Reinado. Essas ideias compunham o contexto político, linguístico252 e
cultural que os intelectuais brasileiros acionavam quando pretendiam tornar público uma
determinada ideia ou proposta política.

Como destacou Angela Alonso, a intelectualidade brasileira de meados do


século XIX notabilizava-se pela busca de intervenção nos assuntos políticos do Estado Imperial,
sobretudo, atuando como comentadores das decisões e ações oriundas das esferas de poder do
Estado brasileiro253. Segundo Alonso o fator de comunhão entre estes intelectuais pode ser
definido a partir da participação na vida pública da sociedade do Império, e logo, participante do
jogo político e nele interessado254.

Porém, as ações políticas e sociais dos intelectuais que compunham a


Confederação nos permitem ampliar a análise de Alonso e afirmar que além de atuarem como
comentadores das decisões e ações do Estado, esses intelectuais também interferiam nas ações e

250
Op. Cit. SODRÉ, 1999.; BOSI, Alfredo. Dialética da Colonização. São Paulo: Companhia das Letras,
1992.; SEVCENKO, Nicolau. Literatura como Missão: tensões sociais e criação cultural na Primeira
República. São Paulo: Brasiliense, 1992; SKIDMORE, Thomas E. Preto no branco: raça e nacionalidade
no pensamento brasileiro (1870-1930). São Paulo: Companhia das Letras, 2012; e Op. cit. COSTA, 1998.
Para ver uma análise mais detalhada, CORÊA, Mariza. A Escola Nina Rodrigues e a antropologia no
Brasil. Universidade de São Francisco: Centro de Documentação e Apoio à Pesquisa em História da
Educação, 2001. Pp. 21-30.
251
Ver DANTES, Maria Amélia(org.).Espaços de ciência no Brasil:1800-1930. Rio de Janeiro: Fiocruz,
2001. Diversos espaços de saber e produção científica foram criados no Brasil ao longo do século XIX,
tendo inclusive em seus quadros intelectuais com titulação de doutor alcançada em instituições de ensino
europeias.
252
A concepção de contexto linguístico é aqui adota a partir da perspectiva estabelecida por John Pocock,
como o vocabulário político e intelectual de uma determinada sociedade em um período e espaço
específicos. Por sua vez, esse contexto definirá os significados e sentidos de palavras, termos e conceitos
utilizados principalmente nos discursos. Ver, POCOCK, John. G. A. Linguagens do ideário político. São
Paulo: Edusp, 2003. Pp. 30-49 e 63-71.
253
Op. cit. ALONSO, 2002. Pp. 159-163.
254
Idem.
61

decisões do Estado. Propomos aqui uma perspectiva dialógica entre o Estado e esses intelectuais
caracterizando os conflitos intra-elite e entre classes.

Deste modo, os discursos e textos políticos tornam-se fundamentais para a


compreensão dos interesses em disputa no campo político do país no fim do Segundo Reinado.
Escolhemos, contudo, os textos da política cotidiana – aqueles veiculados na imprensa ou
proferidos nos espaços públicos - por entendermos que eles refletem a dinâmica social. Nesse
momento, estes discursos são responsáveis por iniciar, manter e prolongar debates de diversos
matizes.

Na concepção desenvolvida por Skinner255, os discursos políticos funcionam


como atos de fala256, pois, ao debaterem com outros intelectuais através da imprensa e do
parlamento as questões de interesse geral que estavam em voga no país, esses debates – por
serem políticos – tinham como objetivo a realização de ações que viessem corporificar as ideias
apresentadas e defendidas na imprensa, na tribuna e nas ruas. E em alguns casos, estes discursos
eram as respostas às ações efetivas de seus debatedores e, por isso, representavam igualmente
uma ação contrária à ação inicial, ou seja, uma reação.

Nesse sentido, a participação da Confederação Abolicionista em locais como as


Conferências da Glória se inseria numa estratégia discursiva voltada para a construção de um
ambiente favorável ao abolicionismo na Corte entre os indivíduos e instituições inerentes ao
campo intelectual. Tendo em vista que a representação simbólica deste espaço era caracterizada
pelo debate cientificista, formativo do campo intelectual brasileiro de fins do século XIX257.

Observando a perspectiva de disputa no campo político e intelectual, bem como


a promoção das suas ideias e propaganda, a Confederação apresentou a Conferência do lente da
Politécnica, o sr. Álvaro Joaquim de Oliveira258 em capítulos na Gazeta da Tarde entre os dias
20 de novembro de 1883 e 07 de janeiro de 1884, para contrapor os argumentos do então jurista,
dr. Antonio Coelho Rodrigues259, que havia conferenciado na Escola da Glória no dia 04 de

255
SKINNER, Quentin. Significado y comprénsion em La historia de lasideas, 2000.pp. 180-189.
Segundo Skinner, um discurso, ou texto, é compreensível a partir da identificação do vocabulário
linguístico utilizado pelo seu autor, e deve ser comparado com outros textos concernentes ao mesmo
assunto, porém com vocabulários diferentes e divergentes. Tal procedimento possibilita a identificação da
diversidade de discursos e consequentemente de interesses e opiniões sobre um mesmo assunto. Finda
esta etapa procede-se à identificação dos meios de comunicação utilizados e de outros disponíveis, porém
desprezados pelo autor, ou vedados a ele.
256
Op, Cit. SKINNER, 2005. Pp. 60-122.
257
FONSECA, Maria Rachel Fróes da. As Conferências Populares da Glória: a divulgação do saber
científico. História, Ciências, Saúde – Manguinhos, vol.2, nº3, Rio de Janeiro, nov./fev., 1996.;CARULA,
Karoline. As Conferências Populares da Glória e as discussões do darwinismo na imprensa carioca (1873-
1880). Dissertação de mestrado Unicamp, Campinas, São Paulo, 2007. As Conferências da Glória
ocorriam em algumas escolas localizadas na região onde atualmente se localizam os bairros de
Laranjeiras, Catete e Glória. Nelas ocorriam conferências voltadas para a divulgação, comentários ou
críticas de estudos científicos nacionais ou estrangeiros. Também eram proferidas palestras e discursos
sobre assuntos em pauta no cenário político do país.
258
Gazeta da Tarde, 20 de novembro de 1883. O jornal é apresenta o sr. Álvaro Joaquim de Oliveira como
professor da Escola Politécnica, e, portanto, apto para responder em nome da Confederação Abolicionista
o discurso do jurista Coelho Rodrigues sobre a preciosidade do abolicionismo e a inadequação do projeto
de abolição defendido pela Confederação.
259
Antonio Coelho Rodrigues foi professor de Direito da Faculdade de Recife e por duas vezes fora eleito
deputado pela província do Piauí. Há época de sua Conferência na Escola da Glória, estava na Corte
participando de uma comissão código civil. Op. Cit. BLAKE, vol. 1, 1970. Pp. 138. O Gazeta da Tarde
62

novembro de 1883 – a Conferência de Coelho Rodrigues foi publicada do Jornal do Comércio


no dia 10 do mesmo mês260.

O discurso do professor Álvaro Joaquim de Oliveira se concentrava na crítica e


desconstrução dos argumentos de Coelho Rodrigues. Álvaro Joaquim de Oliveira não
apresentava projetos específicos e claros para o fim da escravidão e nem mesmo reformas
sociais a serem implementadas no país. A tônica do discurso girava em torno da necessidade de
se extinguir a escravidão e a validade do movimento abolicionista.

Com um discurso embasado em argumentos cientificistas tenta justificar a


necessidade da abolição da escravidão e do abolicionismo em bases positivistas. Adotando tal
perspectiva em suas interpretações sobre a sociedade, a economia e a política do país, prescreve
a aplicação prática de suas teorias e análises nas decisões políticas a serem tomadas pelo
Estado261.

Como se tratava de um debate com um afamado jurista da Corte, num local de


grande destaque e visibilidade dos grandes discursos de bases cientificistas do Império, em que
o público embora não fosse selecionado, - a entrada nas conferências da Escola da Glória eram
abertas a qualquer pessoa - era em sua grande maioria formado por intelectuais e políticos –
dentre eles, o próprio Imperador se encontrava entre os frequentadores destas conferências, a
versatilidade nas ideias e argumentos do orador eram fundamentais para se lograr êxito no
debate. Talvez resida aía escolha de um respeitável professor de engenharia para representar a
Confederação na defesa do abolicionismo.

Ainda na perspectiva cientificista positivista, Álvaro Joaquim Oliveira compara


o abolicionismo – o movimento abolicionista – com a religião da humanidade262. Tal motivação
surgiu da necessidade da contra argumentação da afirmativa do Dr. Coelho Rodrigues de que o
abolicionismo era formado por elementos totalmente díspares e, portanto, ao findar a escravidão
não se importariam com a incorporação do liberto na sociedade. A isso, respondeu o professor
Álvaro Joaquim de Oliveira.

Todos os três partidos (Conservador, Liberal e

Republicano) consigna em outro lugar, baseiam

as suas aspirações políticas sobre um estágio

social cujo nivelamento não os afeta; o

abolicionismo, pelo contrário, começa pelo

não reproduziu o seu discurso, mas, informou que o mesmo havia sido reproduzido pelo Jornal do
Comércio. Ver, Op. Cit. Gazeta da Tarde, 20 de novembro de 1883.
260
Idem.
261
Idem.
262
A vertente positivista responsável pela fundação da Igreja Positivista e seguidora dos princípios
comtiano em oposição à vertente litreísta, foi fundamental na introdução desta doutrina na perspectiva
abolicionista adotada pela Confederação Abolicionista. O radicalismo positivista de Teixeira Mendes e
Miguel Lemos – líderes da Igreja Positivista e membros atuantes da Confederação Abolicionista – foram
responsáveis inclusive pelo rompimento destes com o seu mentor francês, Pierre Laffite. Ver, Op. Cit.
BOSI, 1992. Pp. 233- 249266-280.
63

primeiro, e, antes de discutir qual é o melhor


mundo para um povo livre governar-se a si
mesmo – é essa questão que divide os
outros -, trata de tornar esse povo livre – livre
aterrando o imenso abismo separando as duas
castas sociais em que ele se extrema. Daqui
surge imediatamente o caráter essencialmente
transitório do movimentoabolicionista: obtida a
abolição, isto é, o decreto que incorpore a raça
negra como elemento permanente da população
e como parte homogênea da sociedade – para
isso tal decreto será precedido e acompanhado
das medidas que apresentadas pelo
abolicionismo,o legislador aceite como próprias
para preparar e efetuar aquela incorporação –
ipso facto toda a solidariedade necessária entre
os que têm como missão despertar o país(... ) É
por isso que os representantes das religiões
maisdiversas – e emprego a palavra religião no
sentido de exprimir um sistema qualquer de
opiniões – podem ser abolicionistas(...)semque
daí resultem compromissos ulteriores sobre o
modo de compreender a série de reformas que
ela exige(...) e só então podendo fazer parte da
comunhão universal263.

Mas, como era visto o negro por esse grupo de abolicionistas radicais que
formavam a Confederação Abolicionista? A forma como era abordado o paradigma spenceriano
para as análises sociais necessitava de ajustamentos para o discurso intelectual dos
abolicionistas se tornar aceito e hegemônico264. Ainda aqui, o positivismo sustenta os
argumentos do professor, mas também, é utilizado um recurso argumentativo de matriz
econômica, baseado em um liberalismo defendido por Joaquim Nabuco265.

(...) Este movimento tem o caráter de uma


reforma fundamental; isto é, necessária para
nos constituirmos como Pátria, pela
incorporação do proletariado escravo.(...) A
raça negra não é tão pouco, para nós, uma raça
inferior, alheia a comunhão ou isolada desta
(...) Para nós, a raça negra é um elemento de

263
Gazeta da Tarde, 22 de novembro de 1883.
264
Ver,Op. Cit. SCHWARCZ, 1987.; SCHWARCZ, Lilia Moritz. O espetáculo das raças: cientistas,
instituições e questão racial no Brasil – 1870-1930. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.; Op. cit.
MONTEIRO & SANSONE, 2004.; Op. Cit. SKIDMORE, 2012. Pp. 49-72. ; e Op. Cit. CORRÊA, 2001.
O paradigma spenceriano separava a humanidade em raças e estabelecia uma hierarquização entre elas.
Os avanços matérias e tecnológicos eram os parâmetros para estabelecer as hierarquizações de forma
valorativa entre as então descobertas raças humanas.
265
Ao afirmar que o argumento econômico apresentado estruturava-se no liberalismo defendido por
Nabuco, entendemos o direcionamento desta doutrina atrelada à um projeto de reforma social estruturado
a partir da abolição da escravidão no país.
64

considerável importância nacional,


estreitamente ligada por infinitas ligações
orgânicas à nossa constituição, parte
integrante do povo brasileiro.(...)266

O discurso do professor Álvaro de Oliveira deixa claro a concepção que a


Confederação Abolicionista tinha sobre o negro era totalmente diversa daquelas identificadas
com a incapacidade do negro em compor a sociedade brasileira como um elemento positivo,
autônomo e produtivo. Para os confederados não havia diferença qualitativa entre negros e
brancos267.

Esta base ideológica estava presente nos projetos econômicos e sociais


defendidos pela Confederação Abolicionista. Nas argumentações dos confederados a diferença
intelectual era oriunda das condições históricas e matérias de cada indivíduo, ou no caso dos
escravos, toda a sua classe. Mas, os debates que a Confederação participou não se limitavam a
incapacidade intelectiva do negro ou do escravo, estes eram das mais variadas temáticas
relacionadas ao fim da escravidão. Logo, nos debates intelectuais em que a Confederação se
lançou foram escolhidos diferentes e diversos oradores. Ratificando a nossa hipótese, de acordo
com o local, o público e o tema a ser exposto ou debatido, escolhia-se o intelectualmais
adequado para efetuar o discurso. A escolha de um professor da Escola Politécnica para
discursar sobre os benefícios diversos que o país alcançaria com a abolição da escravidão,
destacando a importância do movimento abolicionista para a consecução de tal propósito se
enquadra em tal perspectiva. Pois, fora escolhido um “teórico” do abolicionismo e não um
“político ou defensor passional” para debater com um renomado jurista do Império - num local
caracterizado pelo debate intelectual.

Contudo, um dos pontos mais importantes demorados da análise de Álvaro de


Oliveira foi sobre a abolição da escravidão no Ceará. Cearense e profundo conhecedor das
características sociais, políticas, econômicas e históricas, Oliveira era o intelectual “perfeito”
para poder contradizer com propriedade os argumentos do dr. Coelho Rodrigues – este uma
piauiense268 que estava a analisar as consequências do abolicionismo para o Ceará. Esse fato, no
jogo da retórica coloca o abolicionista num degrau acima de seu opositor, pois, por ser cearense,
em tese teria mais conhecimento sobre a sua província do que Coelho Rodrigues - que não era
natural do Ceará – e assim, teria os seus argumentos uma maior autenticidade em comparação
com seu opositor.

266
Op. Cit. Gazeta da Tarde, 22 de novembro de 1883.
267
É importante destacar a influencia da CA enquanto uma rede de sociabilidades articulada de forma
coletiva. Por vezes, alguns dos intelectuais que a compuseram emitiram opinião diversa a respeito da
equidade entre brancos e negros. Contudo o fizeram de forma individual, ou seja, não declararam tal
opinião em nome da CA e, além disso, frequentemente essas opiniões foram emitidas antes ou após o
período de ação da Confederação dentro do movimento abolicionista. Por exemplo, Nabuco destacou em
diversas passagens no Abolicionismo que havia diferença entre negros e brancos, mas o seu livro foi
escrito em 1882, ou seja, antes da formação da CA. Em 1885 em um grande discurso proferido em nome
da Confederação no teatro Polytheama, Nabuco abandona tal perspectiva. Ver, Gazeta da Tarde, 22 de
junho de 1884.
268
Op. Cit. BLAKE, vol. 1, 1970. Pp. 163.
65

Era ponto importante dentro das disputas sociais e políticas em que os


intelectuais da Confederação Abolicionista estavam a tornar o seu discurso hegemônico dentro
do campo intelectual do Império. Para compreendermos como esses intelectuais agiram no
sentido de viabilizar a hegemonia de seus discursos torna-se importante a constatação do
paradigma cientificista no contexto linguístico do campo intelectual do Segundo Reinado,
acompanhado da identificação das linguagens utilizadas nos discursos para a compreensão das
dinâmicas discursivas269.

Como destacado por José Murilo de Carvalho270, os aparentes insultos, ofensas


e citações equivocadas acerca da associação de ideias e autores, compunham o universo
linguístico do Império do Brasil no século XIX, em que a retórica – através de seus elementos e
técnicas – era utilizada como forma, prática e método para se comunicar com seus
pares.Introduzida na tradição intelectual e política do país através das instituições de ensino
portuguesas e mesmo de uma tradição latina, a retórica era a forma em que estruturava o
contexto linguístico e político brasileiro e ao mesmo tempo a estratégia válida no cenário
discursivo construído pelos intelectuais do país271. A retórica, portanto, era adotada de forma
sistemática pelos intelectuaisem seus discursos, tanto orais como escritos.

Por outro lado, essa manutenção de valores e práticas advindas do período


colonial e a influência lusitana nas instituições políticas e sociais do Império272 eram vistas pela
maioria dos intelectuais da geração de 1870 como sinais de arcaísmo por parte do Estado e,
portanto deveriam ser modificados ou suplantados273. Ao lado das influências inglesa e francesa
no meio intelectual do Segundo Reinado, surgia uma crescente valorização dos modelos
políticos e/ou econômico norte americano - pós Guerra de Secessão e abolição da escravidão - e
alemão - pós-unificação -, destacando um cosmopolitismo acentuado desta geração274.

Era este o universo formativo do campo intelectual em que se estruturavam os


debates políticos em torno do abolicionismo no Brasil, principalmente na imprensa e nos
espaços públicos. A observação e mesmo a experiência das ideias e práticas do exterior era um
importante elemento na composição intelectual brasileira.

Nesse sentido, as ideias do filósofo positivista português Teófilo Braga por


vezes foram citadas pelos intelectuais da Confederação Abolicionista. Demonstrando a
influência portuguesa no meio intelectual brasileiro de fins do Império, bem como a
capilaridade do positivismo275. Mas, também é importante destacar que a troca de ideias e
experiências adquiridas por esses intelectuais não se restringiam ao exterior.

269
CARVALHO, José Murilo de. História intelectual no Brasil: a retórica como chave de leitura. Topoi,
Rio de Janeiro, nª 1, 1999. pp. 123-127. José Murilo de Carvalho salienta a necessidade de se identificar
as linguagens adotadas nos discursos orais e escritos no Império do Brasil como forma de entendimento
da dinâmica discursiva e dos elementos constituintes do jogo político.
270
Idem. Pp. 139-147.
271
Idem. Pp. 125-135.
272
Op. Cit. SALLES, 2002. Pp. 40-52 e 101-108.Ricardo Salles destaca a permanência de uma tradição
ibérica no tocante à política e a sociedade brasileira do período Imperial.
273
Op. Cit. ALONSO, 2002. Pp. 245-252.
274
Op. Cit. CARVALHO, 1998. Pp. 157-162 e 189-200.
275
Esse aspecto em específico corresponde a assimilação do positivismo por republicanos e
abolicionistas. Ver Alonso, 2002. Pp.205-237. ; ESTEVES, José Pereira. Positivismo e República.
Revista de Estudos Filosóficos, nº3, São João del-Rei, 2009.; RODRIGUES, Ricardo Vèlez. O
66

A perspectiva política e ideológica da geração de 1870 esteve difundidapelas


elites intelectuais do país – Minas Gerais, Pernambuco, São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia –
permeando as diferentes especializações profissionais – Engenharia, Mineralogia, Botânica,
Medicina e Direito -, possibilitando assim uma crescente circulação de ideias e pessoas em
torno que em síntese convergiam contra as estruturas políticas e econômicas do Império. Ao
contrário das gerações intelectuais anteriores à 1870 que tinham uma formação política e
profissional mais homogênea, como destacou José Murilo de Carvalho276, a geração de 1870 era
mais heterogênea social e profissionalmente.

Em última instância, essa circularidade de ideias e pessoas engendrou


sociabilidades que desembocaram em formações de associações, grêmios estudantis, empresas e
etc., que por sua vez criaram uma atmosfera de modernidade nas grandes cidades do país, mas,
sobretudo na Corte. Esse contexto que se formou a partir dos anos 1870 gradativamente diluiu a
herança lusitana na cultura brasileira, sobretudo àquela responsável pela construção da nação
nos anos 1850 através do romantismo indianista277.

Assim, a tríplice origem do cosmopolitismo intelectual brasileiro de fins do


século XIX - as influências de correntes de pensamento político, econômico, social e científico
europeus; as experiências políticas, econômicas e sociais europeias e norte- americanas; e a
circulação destas ideias e pessoas nos meios intelectuais do país, sobretudo, na Corte – foi
basilar na estruturação dos discursos e propostas tanto de abolicionistas quanto de escravistas.
Eram adotadas as mesmas concepções e teorias estrangeiras, mas, a compreensão e aplicação
destas diferiam conforme as experiências sociais e profissionais, assim como os interesses de
classe, indivíduo ou grupo.

Percebemos que independente da filiação a determinadas doutrinas – filosóficas


políticas ou econômicas -, existiam concepções, termos e noções gerais comuns aos intelectuais
brasileiros deste período que se caracterizavam por estabelecer um contexto cientificista. Os
campos político e intelectual eram igualmente impregnados por concepções, conceitos e termos
cientificistas em voga na Europa e nos Estados Unidos278. Consequentemente qualquer
intelectual ou associação política engajada na construção de um projeto de reforma política,
social ou econômica estruturava o seu discurso embasado em argumentos cientificistas279.

No Brasil de fins do século XIX havia um crescente espaço de difusão e


discussão cientifica relacionada a determinadas áreas do conhecimento. A existência de
periódicos especializados em medicina, os debates nos jornais sobre técnicas de engenharia e as

pensamento de Teófilo Braga no contexto do Positivismo Luso-Brasileiro, Centro de Pesquisas


Estratégicas Paulino Soares de Sousa, UFJF, 2001.
276
Op. Cit. CARVALHO, 2003. Pp. 121-141.
277
Op. Cit. CARVALHO, 1998. Pp. 135-155. Sobretudo a própria origem socioeconômica e a hegemonia
do Direito da Universidade de Coimbra como destino formativo intelectual e profissional.
278
SEYFERTH, Giralda. Construindo a nação: hierarquias raciais e o papel do racismo na política de
imigração e colonização - In: Raça, ciência e sociedade. Rio de Janeiro: Fiocruz/CCBB, 2006.pp 41-60.;
SANTOS, Ricardo Ventura. Mestiçagem, degeneração e a viabilidade de uma Nação: debates em
antropologia física no Brasil (1870) – In: Raça como questão: história, ciência e identidades no Brasil.
Rio de Janeiro: Fiocruz, 2004.Op. Cit. SCHWARCZ, 1987.;Op. Cit. SCHWARCZ, 1993.; Op. Cit.
MONTEIRO & SANSONE, 2004.; Op. Cit. SKIDMORE, 2012. ; e Op. Cit. CORRÊA, 2001.
279
Adoto aqui o termo cientificista de forma ampla objetivando a identificação de conceitos, termos,
noções e ideias das mais diversas áreas do conhecimento humano, adotadas como condutoras na
argumentação dos discursos. Estes poderiam ser oriundos da botânica, da mineralogia, da antropologia, da
engenharia, enfim, de toda e qualquer área do conhecimento validada cientificamente.
67

pesquisas sobre a botânica no Jardim Botânico do Rio de Janeiro, apontam para a existência e
construção de espaços de ciência e saberes no Império. Voltados apenas para as suas respectivas
áreas de conhecimento, apartando-se assim, da utilização destes conhecimentos como
argumentos de autoridade nas discussões e debates políticos280.

A partir destas constatações tornam-se frágil as afirmações sobre a falta de


incoerência intelectual e incapacidade de compreensão de determinados conceitos e ideias
difundidas na Europa pelos intelectuais brasileiros. O nosso entendimento é de que tal
perspectiva representava mais uma lógica de encadeamento dos argumentos retóricos que
estruturavam os seus discursos do que uma incoerência ou inconsistência intelectual. Eram
aceitas por fazerem parte do jogo linguístico.

A capilaridade da ciência e do paradigma cientificista como o portador da razão


na sociedade brasileira de fins do século XIX - mas, sobretudo entre intelectuais -potencializava
a alocação e direcionamento desses saberes para a consecução de interesses de grupos e classes,
mesmo essa não sendo a sua única aplicação. Logo, o mito historiográfico acerca da utilização
inadequada de saberes, atraso intelectual e mera reprodução de conhecimento, não se aplica à
intelectualidade brasileira in loco. Pois, a existência de comunidades e práticas científicas e
locais de saber inviabiliza a tese de que as ideias advindas da Europa eram copiadas
grosseiramente no Brasil e aqui tinha apenas a função de se adequar às justificativas dos
discursos, projetos e interesses políticos dos diversos grupos de poder do Império.

Tal fato se torna importante num contexto intelectual notadamente marcado pela
adoção dos saberes científicos na sustentação dos argumentos, discursos e projetos políticos por
destacar uma familiaridade dos intelectuais brasileiros diante de termos, conceitos noções
cientificistas europeias. Escolhendo – ou sendo obrigado a escolher - em última análise aqueles
termos e noções mais pertinentes à corroboração de suas ideias e perspectivas.

Porém, nos discursos e debates políticos e sociais de fins do Império, as


concepções cientificistas do século XIX eram utilizadas como argumentos de autoridade pelos
intelectuais dentro do campo discursivo281. As noções de progresso, formação da nação,
civilização e raça eram recorrentes nos discursos desses intelectuais, mas, entendidas e inseridas
de formas diferentes em seus discursos e argumentos políticos. No tocante a escravidão e a sua
abolição, as concepções de raça, progresso, civilização e nação eram empregadas tanto nos
discursos abolicionistas como nos escravistas. É interessante perceber que no decorrer dos anos
1880 a retórica escravista é obrigada a se adequar à opinião pública – se não do país, ao menos
da Corte – e as concepções de ambas as vertentes parecem comungar as mesmas ideias e
perspectivas282.

280
DOMINGUES, Heloísa Maria Bertol. O Jardim Botânico do Rio de Janeiro.: In- Espaços da ciência no
Brasil. (org.) DANTES, Maria Amélia M. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2001. Pp. 27-51; ELDER, Flávio
Coelho. & FERREIRA, Luiz Otávio. & FONSECA, Maria Rachel Fróes da. A faculdade de medicina do
Rio de Janeiro no século XIX: a organização institucional e os modelos de ensino. : In- Espaços da
ciência no Brasil. (org.) DANTES, Maria Amélia M. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2001. Pp. 59-75.;
FIGUERÔA, Silvia Fernanda de Mendonça. O cientificismo e a ampliação dos espaços institucionais
(1870-1905).: In - As ciências geológicas no Brasil: uma história social e institucional, 1875-1934. São
Paulo: Hucitec, 1997. Pp. 103-171.
281
Op. Cit, CARVALHO, 999. Pp.127-137.
282
Jornal Novidades, 26 de fevereiro de 1887. No editorial é apresentado um caso em que o fazendeiro
concede a liberdade aos seus escravos. Em seguida o redator enfatiza que era este o método correto para
68

No momento histórico em que se encontra o


Brasil em relação a organização do trabalho, a
sua passagem de servil para assalariado,
convêm enfrentar o assunto e tentar dirigi-lo,
para evitar que grandes perturbações de
ordem econômica não façam estacionar o país
durante alguns anos. Querer pôr um dique à
talvez, única aspiração nacional assaz
pronunciada, qual a de fazer desaparecer o
elemento escravo da comunhão brasileira, seria
além de gravíssima injustiça imoralidade, um
trabalho improfícuo e ao mesmo tempo
perigoso. O dever, pois, dos poderes
legislativos e executivos, e o da imprensa. É
procurar satisfazer as intenções nacionais e a
civilização atual, sem contudo arruinar a
fortuna particular, sem lançar o país, no caos
econômicos e quiçá políticos. Nenhum homem
de bom senso pode estar convicto de que é
justo o cativeiro de qualquer homem não
criminoso. Tudo hoje se reduz a conservar
temporariamente o elemento servil. Isso por
dois motivos: O primeiro, a necessidade que a
lavoura ainda tem desse pessoal visto que, ou
não há suficiente número de braços livres para
o arroteio do solo nas grandes propriedades,
ou porque o pessoal dirigente agrícola não
sabe utilizar os progressos da mecânica e da
economia agrícola e rural, ou enfim, por ambas
conjuntamente. O segundo, o perigo que
adviria para a sociedade em geral, e para os
próprios libertos, se simultaneamente, e sem
período de transição, passassem todos os
escravos a cidadãos....283

Quando analisamos os debates entre intelectuaisatravés dos jornais, percebemos


uma clara tentativa de postergação da abolição da escravidão por parte dos escravistas, mesmo
estes se auto intitulando contrários à escravidão e reconhecendo a necessidade da supressão do
cativeiro. Em geral, eram acusados de serem escravistas ou emancipacionistas pelos
abolicionistas, e o seus discursos eram marcados pela identificação do escravo como incapaz de
socializar-se e de adequar-se aos valores civilizacionais284, além disso, desejavam “preparar” a
lavoura e os fazendeiros para a mudança do regime de trabalho escravista para o assalariado,
priorizando os interesses dos proprietários rurais.

A citação acima extraída do editorial do Jornal Folha Nova demonstra o início


da inflexão no movimento abolicionista. O editor deste periódico era o jornalista, professor e
parlamentar Joaquim Serra, abolicionista que compôs os quadros da Confederação. E nos chama
a atenção a postura conciliatória e parcimoniosa adotada pelo periódico, que após a criação da

se acabar coma escravidão no país, ou seja, a partir do momento que o senhor entender que é oportuno e
já esta preparado.
283
Jornal Folha Nova, 16 de fevereiro de 1883.
284
Op, Cit. SCHWARCZ, 1987. Pp. 175-197; e SCHWARCZ, 1993. Pp.15-29.
69

Confederação Abolicionista carregará mais cores nas suas tintas contra a escravidão e divulgará
por vezes os muitos eventos e conferências da instituição.

Enfim, fosse nas ruas, na imprensa ou nos espaços de saber, as ações da


Confederação se espraiou pelos diversos campos sociais do Império. Em última instância, a
pluralidade de perspectivas abolicionistas e a falta de uma organização e direcionamento do
movimento antes de 1883 nos permitem perceber que a partir da criação e efetiva estruturação
da Confederação a campanha abolicionista se popularizou e tornou-se mais radical, obrigando
aos abolicionistas convictos a converterem as sociedades

(...) Emancipadoras em Clubes Abolicionistas,


Confederados... Convém agitar a questão de
um modo temeroso para os escravocratas e
acabar com esse esvaziar de dinheiro nas
bolsas dos seculares exploradores da raça
africana. Passou o período sentimental:
cumpre entrar no período executivo(...)285

Algumas diretrizes de ação da Confederação foram lançadas ao longo deste


artigo, intitulado Confederação Abolicionista I, que dentre outras recomendações objetivava
forçar o Estado Imperial a tomar medidas que findassem com a escravidão o mais rápido
possível. Porém, ao destacar que era chegado o período executivo e que convinha agitar a
questão de um modo temeroso para os escravocratas, percebemos a radicalização do
movimento declarada e incitada desde então pela Confederação.

Contudo, na tentativa de controlar o processo da abolição e não deixar a cargo


dos abolicionistas radicais, anos mais tarde, já em 26 de fevereiro de 1887, o jornal Novidades
publicava em suas páginas – no seu editorial sobre política -, sob o título Chronica Politica, o
comentário sobre um acontecimento na cidade de Campos – província do Rio de Janeiro -, em
que exaltava a liberdade concedida espontaneamente aos escravos daquela região pelos
fazendeiros locais. E prosseguia enfatizando que não foi dada a mínima atenção a este evento
porque não foi executado por abolicionistas – que só querem aparecer – e neste sentido,
afirmavam que a abolição deveria ser feita de forma prática e não sentimental, para que não
causasse prejuízos financeiros ao país.

Utilizando termos como progresso e civilização, os discursos emancipacionistas


e escravistas – revestidos de uma perspectiva gradual da escravidão que muito se assemelhava
ao emancipacionismo -, destacavam como ponto em comum, a necessidade de se atender aos
interesses dos grandes proprietários de terras e a eles creditarem as ações necessárias – em geral
particulares – para se extinguir a escravidão. A intenção destes intelectuais que defendiam esta
perspectiva era que tal processo fosse organizado e conduzido pelos fazendeiros, e como
argumentos de retórica, destacavam-se a preparação tanto econômica – do sistema de trabalho –
quanto social – dos valores civilizacionais que os escravos deveriam adquirir progressivamente.

285
Gazeta da Tarde, 18 de maio de 1883.
70

Dentre os principais debatedores na imprensa contrários às ideias, projetos e


práticas defendidas pela Confederação Abolicionista estão os jornais O Cruzeiro, o Diário do
Brazil e o Novidades – jornais oriundos da Corte -, porém, muitos outros eram também citados
favoravelmente ou criticados em suas matérias, artigos e notícias referentes à escravidão e a
abolição, dentre eles destacamos, A Província de S. Paulo – Província de São Paulo -, Jornal de
Notícias e Gazeta Bahia – ambos da Província da Bahia -, Jornal do Comércio – Corte –, Gazeta
de Notícias – Corte -, O Globo – Corte -, Folha Nova – Corte -, O Paiz – Corte -, Gazeta de
Campinas – Campinas -, Le MessagerduBrèsil, dentre outros.

No âmbito político institucional, no Conselho de Ministros e no parlamento, os


principais opositores da Confederação e de suas ações eram o Barão de Cotegipe, o Conselheiro
Saraiva, os deputados Andrade Figueira, Martinho Campos, Lacerda Werneck e Paulino de
Sousa.

Assim, nos jornais que davam visibilidade às ações e aos projetos abolicionistas
da Confederação Abolicionista, como o Jornal Lincoln, a Gazeta de Notícias, a Gazeta da Tarde
e o Cidade do Rio – todos eles redigidos e impressos na Corte –, podemos identificar os atos de
fala contido nos discursos proferidos pelos intelectuais que a representavam e em nome dela se
pronunciavamem debate ou comentando as práticas e ideias opostas às suas.

Estas perspectivas alimentavam os debates políticos – na imprensa, nas ruas e


no parlamento – entre escravocratas, emancipacionistas e abolicionistas. Mais uma vez o Diário
do Brazil defendia abertamente os interesses escravocratas e dos clubes da lavoura do país. Ao
debater os aspectos sociais, econômicos e políticos envolvidos no processo de abolição da
escravidão, Souza Carvalho se apresentava como um intelectual políticoque tenta convencer ao
seu público leitor, mas também toda a sociedade imperial, que os seus argumentos e de seus
pares são os mais pertinentes.

No dia 14 de março de 1884, o editorial intitulado O trabalho dos libertos,


apresenta argumentos contra a abolição da escravidão e os projetos abolicionistas, dizendo:

Afim de que a emancipação não seja


prejudicial ao país e aos próprios escravos, é
indispensável que estes, depois de libertos, se
dediquem assiduamente ao trabalho. Se não o
quiserem fazer espontaneamente, é preciso que
haja uma legislação que a isso os obrigue,
porque a ociosidade conduzirá forçosamente
ao crime. Infelizmente as informações
que temos sobre o procedimento dos libertos
pouco abona a obra emancipadora nas
condições em que ela até agora tem se
realizado286.

286
Diário do Brazil, 14 de março de 1884.
71

Enfim, o autor do discurso287 tenta demonstrar que o fim da escravidão não


redundará numa melhora da produção agrícola principalmente pela falta de comprometimento
liberto com seu antigo senhor, e por isso, qualquer projeto destinado ao fim da escravidão
deveria levar em conta as necessidades da produção do setor agroexportador nem que fosse
obrigando o liberto a permanecer como trabalhador assalariado nas fazendas que viveram e
trabalharam como escravos.

Para justificar a argumentação é relatada a queda na produção de café em uma


fazenda da Província do Rio de Janeiro, em que após a libertação dos escravos que lá
trabalhavam, permaneceram como libertos trabalhando para o mesmo fazendeiro. Dentre os
argumentos que justificam a queda da produção estão o fato destes libertos terem outras
profissões – e por isso não se dedicarem integralmente à lavoura, realizando trabalhos para
outras pessoas -, trabalharem em cultivos próprios e a ociosidade – morosidade – no momento
de trabalhar na plantação de seu ex-senhor288.

Tais argumentos destacam a crescente independência e autonomia econômica


dos libertos em relação ao seu senhor, que é mal vista pelo editor do Diário, sobretudo, pelo fato
de entender que a grande lavoura era a responsável pela manutenção das finanças do Império e a
agricultura de subsistência em nada fornecia benefícios financeiros para os cofres públicos.

A contra argumentação da Confederação contra ao discurso do Diário do Brazil


e as ideias dos intelectuaisescravistas – difundidas na imprensa, parlamento e em conferências
de fazendeiros dos Clubes da lavoura -, veio na Conferência do dia 22 de junho no Teatro
Polytheama, proferida por Joaquim Nabuco. Um dos principais pontos do discurso de Nabuco
era a desconstrução das ideias e argumentos escravocratas e emancipadores contra o
abolicionismo, e nesse ponto, destaca.

(...)Logo à minha chegada eu lia em certos


jornais que a corrente emancipadora havia
sido efetivamente represada pelo anti-mural
do sr. Souza Carvalho(...)Hoje parece ter
mudado tudo de repente com a subida do
ministério Dantas.(...) temos em muito pouco
tempo três fases do movimento abolicionista
que podem ser caracterizadas nos termos em
que um célebre publicista distinguiu em três
diferentes épocas de nossa história
constitucional como: Ação, Reação e
Transação.(...) A Reação acentuada pelo
jornal do sr. Souza Carvalho e pela
organização dos Clubes da Lavoura289.

287
Pois, enquanto ato de fala, o discurso do editorial do Diário do Brazil estava inserido numa rede de
debates, ou seja, num contexto linguístico em que havia diversos debatedores. Assim, ao lançar
publicamente o seu texto, o autor o insere como um discurso direcionado ao debate com outros discursos
existente, o convencimento de seus pares e opositores sobre a plausibilidade de seus argumentos e por
fim, busca a adoção de usas propostas pelo governo imperial.
288
Op. Cit. Diário do Brazil, 14 de março de 1884.
289
Op, Cit. Gazeta da Tarde, 22 de junho de 1884. O jornal Gazeta da Tarde publicou a Conferência ao
longo dos meses de junho e julho do mesmo ano, dividida em 5 partes.
72

Após ter identificado os seus debatedores, Nabuco começa a elencar os


argumentos contrários á escravidão e da incapacidade do liberto em trabalhar adequadamente.

(...) Mas a esses lucros cessantes devemos


juntar os prejuízos que a escravidão nos
causa.(...)Vede por exemplo, o capital em
mãos estrangeiras e prontos sempre a serem
retirados do país à mínima desconfiança...
Vede o papel moeda auxiliar constante das
finanças da escravidão... e vede o
funcionalismo. O sr. Martinho Campos
sempre que quer rebaixar os abolicionistas
chama-lhes: empregados públicos290.

e prossegue comentando sobre a integridade do funcionalismo público e ao mesmo tempo a


capilaridade dos problemas causados pela escravidão, para afirmar que

(...) no Brasil, onde a escravidão possui o


monopólio da terra, impede as indústrias, e
torna o comércio dependente da sua proteção,
o funcionalismo é quase que a carreira única
aberta aos homens de independência. Mas
isso mesmo é um efeito da escravidão, e esse
excesso de funcionalismo é um prejuízo em
dois sentidos: afasta de outras profissões os
homens de talento e dignidade, e obriga o
Estado a absorver o saldo da produção
nacional.(...)Desse regime(...) resulta o
orçamento a que chegamos e que
sobrecarrega o país.(...) Dizem-nos que os
libertos não trabalham e que não se deve
derramar na sociedade um milhão de
escravos sem primeiro educa-los. Senhores
eu compreenderia que os libertos não
trabalhassem(... ) Que há de extraordinário
em que no dia em que depois de uma vida
inteira de sofrimento, de dor, de ansiedade,
de silêncio, e de terror, ele se sente... livre
como os outros homens, ele pense que já
completou a sua missão nesta vida. (...) Mas a
verdade é que o liberto não se abandona na
ociosidade à satisfação de ter deixado de ser
escravo.(...) Essa afirmação dogmática,
senhores, é um falso testemunho levantado
contra os resultados da emancipação no mundo,

290
Idem.
73

(...) Ninguém pretende que o escravo liberto


continue a trabalhar como escravo no próprio
lugar a que estão associadas todas as suas
recordações de escravidão. Nem é a nossa
tese que o trabalho voluntário do liberto seja
possível durante a escravidão. O que dizemos
que uma vez extinta a escravidão...os libertos
hão de trabalhar por um salário melhor do
que trabalhavam como escravos. Para isso
porém, é necessário acabar com a escravidão e
tornar necessário o mercado de trabalho com
as flutuações necessárias da oferta e procura291.

O discurso de Nabuco sinaliza os pontos principais em que se baseava o projeto


de nação da Confederação Abolicionista, sem identificar e explicar como se dariam, mas, os
elementos estão presentes no seu discurso como: a reforma agrária, a reforma político-
administrativa e a instrução/educação pública para toda a população.

Os intelectuaisdo Diário não cessaram a sua luta e identificavam na


Confederação Abolicionista a liderança do movimento abolicionista, o adversário a ser
combatido no jogo político através dos embates discursivos. Assim, os ataques do Diário do
Brazil e de representantes dos clubes da Lavoura, passaram a ser feitos diretamente contra a
Confederação e o jornal Gazeta da Tarde – o órgão responsável pela difusão de suas ideias e
projetos -, deixando de criticar o abolicionismo de forma genérica e impessoal.

Sob o título Movimento da Lavoura – Ata: Da reunião dos lavradores e


comerciantes do município de Cataguazes292, o Diário reproduziu as deliberações feitas por
fazendeiros da cidade de Cataguazes na criação de um Clube da Lavoura local para combater a
influência do abolicionismo, da Confederação Abolicionista e do jornal Gazeta da Tarde
naquela localidade. E destaca que

(...)mostrando que a propaganda abolicionista


que de chofre tenta abolir o elemento servil
com o aniquilamento do país, tem encontrado
enérgico protesto por parte da Lavoura de
diversos municípios desta e da Província do
Rio; que o termo de Cataguazes não se podia
mostrar indiferente a essa luta que a lavoura
abriu contra a propaganda abolicionista que
naquela capital aplaude os atos atrabiliários
aplaude os atos atrabiliários de uma intitulada
confederação abolicionista que, qual um
Estado no Estado, invade casas, intima seus
donos a para conferir liberdade a seus
escravos, alicia-os, apanha-les o pecúlio e que
assim...intenta concluir apregoando o

291
Idem.
292
Diário do Brazil, 18 de junho de 1884.
74

assassinato dos fazendeiros e o estupro das suas


filhas293.

Como no discurso abolicionista, o apelo à sensibilidade da gravidade do


momento e das ações de seus opositores são estratégias utilizadas pelos intelectuais escravistas.
Ao identificar os confederados como atrabiliários e apregoadores do assassinato dos
fazendeiros e estupro das suas filhas, os abolicionistas radicais são apresentados moralmente de
forma negativa. As suas ações são reprováveis e incitam o ódio entre escravo e senhor. As
páginas da Gazeta da Tarde tentam mostrar justamente o contrário, mas, o que se percebe é um
embate discursivo – e propagandístico – voltado para a persuasão popular sobre qual a melhor
forma de se abolir a escravidão no país.

A eficácia da propaganda escravista-emancipacionista e a sua força política não


podem ser negadas. Dois anos após a Conferência de Nabuco no Polytheama, versando
eloquentemente sobre a necessidade do abolicionismo e da abolição, o mesmo, escreve o
opúsculo Eclipse do Abolicionismo, em que destaca o arrefecimento da participação popular na
campanha abolicionista e culpa o imperador e os Conservadores pela situação da campanha
abolicionista naquele momento294.

O objetivo do Diário, escravocratas e dos clubes da lavoura era postergar ao


máximo o fim da escravidão, e nesse sentido, diziam:

(...)Entende que a imigração é ineficiente e


não temos trabalho livre nacionalporque este
não se acha regulado por uma lei de locação de
serviços...a lavoura brasileira não pode
atualmente aceitar outra solução à questão do
elemento servil senão a que decorre da
execução da lei de 28 de setembrode 1871295.

Mais, uma vez fica claro o projeto de atrelamento do trabalhador rural – o


liberto – ao seu antigo senhor como forma de se evitar possíveis prejuízos pelos fazendeiros,
obrigando assim, o liberto permanecer na terra em que trabalhava e vivia como escravo. Mas, tal
ponto era debatido pelos Confederados que deixavam claro.

(...)Ninguém pretende que o escravo liberto


continue a trabalhar como escravo no próprio
lugar a que estão associadas todas as suas
recordações de escravidão. Nem é a nossa
tese que o trabalho voluntário do liberto seja

293
Op. Cit. Diário do Brazil, 18 de junho de 1884.
294
Op. Cit. NABUCO, 1886. Pp. 36-39
295
Idem.
75

possível durante a escravidão. O que dizemos


é que uma vez extinta a escravidão...os libertos
hão de trabalhar por um salário melhor do que
trabalhavam como escravos. Para isso porém, é
necessário acabar com a escravidão e tornar
necessário o mercado de trabalho com as
flutuações necessárias da oferta e procura(...)296

Não se acreditava numa possibilidade de bom relacionamento entre ex-senhor e


ex-escravo. Por isso, a reforma agrária, a transformação dos libertos em pequenos proprietários
era um dos projetos de reorganização social brasileira, que, por sua vez, plasmariam uma nova
nação.

Por outro lado, estes discursos guardam também informações sobre as ações de
ambos os lados. Pois, com o objetivo de angariar adeptos às suas respectivas causas, intelectuais
abolicionistas e escravistas, apresentavam ao público apenas as suas ideias e práticassociais e
moralmente aceitas, mas, quando os embates discursivos se concretizam, ambos os lados
denunciam as ideias e ações ocultas ou não declaradas à sociedade.

Deste modo, a denúncia de escravistas sobre o assédio coercitivo de


abolicionistas junto à senhores de escravos e a incitação do ódio dos segundos em relação aos
primeiros, por mais que fosse exagerada, destaca o contato constante entre abolicionistas e
escravos, ou seja, uma relação de troca de informações sobre os acontecimentos políticos e
sociais pelos quais passava o país, inclusive destacando a participação do escravo ou mesmo
liberto no próprio movimento abolicionista297.

A defesa da abolição imediata da escravidão pelos chamados abolicionistas


populares ou radicais destacava que o escravo tinha a completa capacidade de se adaptar a nova
realidade, dispensando assim, um período de adaptação298 para a liberdade definitiva. E nessa
linha de ação e pensamento, podemos identificar que um dos motivos da criação da
Confederação Abolicionista - formada por intelectuais de origem social, profissional e de
filiações políticas diversas e tendo em comum ideia da abolição imediata da escravidão - era a
inserção do Brasil em um modelo de Estado civilizado e moderno, coadunado com o paradigma
do progresso.

Para estes intelectuais, a escravidão era responsável pela degradação física e


moral da nação, além de ser um obstáculo ao desenvolvimento e progresso econômico do país.
Aliado a estes questionamentos, os intelectuais da Confederação Abolicionista utilizavam como
recurso de retórica, argumentos alicerçados na crítica moral, racional e jurídico contra a

296
Op, Cit. Gazeta da Tarde, 22 de junho de 1884.
297
Op. cit. ALONSO, 2010. Pp. 26. A autora destaca a participação do liberto Abel na diretoria do Clube
dos Libertos de Niterói e engajado no movimento abolicionista. O Clube dos Libertos era um dos
principais clubes da Confederação Abolicionista, tendo em vista a sua ampla participação no
abolicionismo na Corte, além de ter sido fundado peloo presidente da Confederação, João Clapp.
A hipótese levanta por Marialva Barbosa e outros historiadores é endossada pela perspectiva aqui
apresentada por Angela Alonso. A nosso ver também, o abolicionismo defendido pela Confederação
Abolicionista era amplamente popular e dialogava com algumas reivindicações dos escravos e libertos.
Por outro lado, permite-nos identificar a influência dos libertos no movimento abolicionista encampado
pela Confederação.
298
Gazeta da Tarde, de 17, 19 (principalmente o discurso de Ennes de Sousa) e 31 de janeiro de 1884 .
76

escravidão – tentando demonstrar a ilegalidade da escravidão frente às leis de 1831, 1850 e para
alguns escravos a lei de 1871.

Entendemos que a pluralidade dos segmentos sociais agrupados em torno da


Confederação foi decisiva através de três instituições/segmento sociocultural. O primeiro era o
grupo oriundo da Escola Politécnica de Engenharia, ligado a André Rebouças. Deste grupo
provinham às ideias relativas à reforma agrária e o imposto territorial, como explanados no livro
de Rebouças299 e em vários artigos do professor e engenheiro Ennes de Souza. O segundo grupo
- segundo a nossa interpretação - não tinha uma origem sócio profissional característica, mas,
definia a educação como princípio fundamental para inserção do liberto, social e
economicamente. Esta premissa nos permite pensar sua origem na concepção positivista de
republicanos e no liberalismo de Nabuco. Já o terceiro grupo, defensor de uma reforma político
administrativa, estava vinculado às fileiras do republicanismo – porém, os liberais da
Confederação, como Nabuco, também criticavam o controle político exercido pelo Imperador e
o Partido Conservador300.

Fizemos essa separação para melhor identificar e relacionar grupos a ideias301.


Entendemos que a fluidez das ideias e assimilação de novas perspectivas possibilitava a defesa
de um projeto hegemônico por todos os confederados quando discursavam ou escreviam em
nome da Confederação. Assim, por vezes, identificamos no discurso dos oradores ideias que não
tiveram necessariamente origem no seu locus de ambiência política, profissional e social. Neste
sentido, o discurso do professor Ennes de Souza – escolhido como orador da Confederação
Abolicionista em um Festival Abolicionista ocorrido no início de janeiro de 1884 -
destacavaprojeto de reforma agrária da Confederação, publicado na Gazeta da Tarde, entre no
início de 1884.

Ennes de Souza afirma que a responsabilidade dos clubes abolicionistas era


grande e a da Confederação Abolicionista é maior; chamada a dar unidade a essas diversas
associações cumpre-lhe afastar o que fosse prejudicial ao movimento abolicionista e dirigi-lo302.
Assim, após incumbir à Confederação a responsabilidade de defender e guiar o movimento
abolicionista, Ennes de Souza apresenta o projeto de reforma agrária, e organização do
trabalho303.

(...)Entre as ideias para esse fim apresentadas


pela associação da escola politécnica figura a
do imposto territorial, necessidade de primeira
ordem, providencia dispensada no regime dos
latifúndios, mas somente com a qual será
possível a divisão das terras do Brasil, essa base

299
PINTO & SCHUELER, 2013.
300
Op. Cit. ALONSO, 2002. Pp. 245-252. A autora destaca a comunhão de pensamento da chamada
Geração de 1870 em busca de uma maior participação política e nos postos de comando administrativos –
controlados pelo Partido Conservador aliado a uma política de transformação do regime de trabalho.
301
Trata-se de um recurso esquemático para facilitar a interpretação, não havendo tal distinção na prática.
302
Gazeta da Tarde, 18 de janeiro de 1884.
303
Também são apresentados rudimentos sobre a educação e o seu objetivo dentro de um contexto de
organização do trabalho.
77

material indispensável e primordial para a


fixação do imigrante livre no nosso território304.

O orador da Confederação aponta que a ausência do pagamento de um imposto


sobre a posse da terra permite que quem a possua não se sinta na obrigatoriedade de cultivá-la,
pois, nada paga pela propriedade podendo deixá-la ociosa até que surja uma oportunidade de
vendê-la por um preço exorbitante. E continua, não existe um cadastro, o que é um grande
obstáculo à acomodação do emigrante ou de colonos nacionais em convenientes zonas305.

De forma sintética, Ennes de Souza apresenta uma proposta para ocupação e


reorganização da posse da terra no Brasil. Mas, o seu principal objetivo é a organização do
trabalho a partir do fim da escravidão, e nesse sentido, prossegue a conclusão do projeto gestado
nos círculos intelectuais da Politécnica e incorporado pela Confederação Abolicionista, (...) Já
falou do imposto territorial, essa primordial necessidade para a agricultura intensiva e para a
colonização nacional e estrangeira, porque é ele que traz a divisão das terras, em lotes para
libertos e imigrantes306.

Depois destaca que a vadiagem seria um dos pontos contemplados pelo projeto,
com o intuito de elevar a produção agrícola e industrial do país. Como terceiro ponto do projeto
de reforma agrária e reorganização do trabalho exclama que urge possuirmos estabelecimentos
agrícolas para ingênuos e sua educação profissional. Não acredita, porém, em umas tantas
proteções à infância desamparada, que vem de pessoas reconhecidamente ambiciosas307.

E continua.

(...)Em quarta ordem ele coloca a organização


das colônias nacionais.(...) Sobre todas elas se
apresenta-se a necessidade do estabelecimento
da democracia rural, da divisão de terras e do
estabelecimento do liberto e do imigrante como
colonos livres e proprietários representando o
papel depequenos lavradores, levando aos
engenhos centrais o seu produto a
beneficiar(...)308

As ideias apresentadas por Ennes de Souza, apresentada pelo Clube


Abolicionista da Escola Politécnica, já estavam presentes na obra de Rebouças, mas, neste caso,
vemo-la representando o projeto de um grupo bem maior, o conjunto das sociedades,
associações e clubes abolicionistas confederados.

304
Op. Cit. Gazeta da Tarde, 18 de maio de 1884.
305
Idem.
306
Idem.
307
Idem.
308
Op. Cit. Gazeta da Tarde, 18 de maio de 1884.
78

A imigração e a incorporação do liberto como pequenos proprietários rurais


criariam uma dinamização da produção agrícola e industrial do país – através da relação entre
pequena propriedade e Engenhos Centrais -, sem, contudo, priorizar o elemento estrangeiro em
oposição ao nacional sendo ambos complementares para a ocupação e produção das terras do
país309.

A preocupação com o ambiente rural, a sua dinâmica e estrutura de organização


social, do trabalho e a ocupação do solo direcionaram no discurso do engenheiro, estabelecendo
uma relação entre trabalho e educação. Entendemos que desta forma, coube ao grupo dos
intelectuais vinculados aos saberes matemáticos a organização e construção deste ponto do
projeto, bem como da difusão do seu discurso.

Por isso, entendemos as razões que levaram os oradores da Confederação a


mudarem em virtude do assunto, do local e do público em questão. Neste sentido, Nabuco,
Patrocínio, o deputado pernambucano José Mariano, o jornalista e escritor Joaquim Serra, o
também jornalista Gusmão Lobo, Aristides Lobo, Luiz de Andrade, Miguel Dias e Júlio de
Lemos, entre outros discursavam – escrita ou oralmente – sobre os aspectos do projeto da
Confederação concernentes à educação popular e a reforma politico-administrativa.

A importância da educação310 e o seu papel, sobretudo, civilizador, era


extremamente valorizado pelo grupo liberal e positivista da Confederação.

“Visitamos no sábado último, a escola


noturna gratuita mantida pelo Club dos
Libertos de Niterói. Fomos recebidos pelo seu
diretor e nosso amigo João Clapp. Percebemos
o estabelecimento todo e nos admiramos do
asseio extraordinário e boa ordem que nele
se observam. Os alunos deram-nos brilhantes
provas do seu adiantamento o que mostra o
quanto tem sido bem dirigidas aquelas
inteligências pelos srs. Pinho, Rosa e Clapp.
(...) É nobre e digno o procedimento do Club
dos Libertos, que dá o grande exemplo de
educar aqueles que, pelo seu esforço são
restituídos a liberdade. Educar um espírito por
tantos anos mergulhado nas noites trevosas
de cativeiro, e de ganância é uma causa
extraordinariamente nobre. Felizmente João
Clapp, o grande lutador da abolição,
estabelecendo o ensino no Club dos Libertos,
tem dois grandes companheiros: a escola
noturna da Cancella e a do Club do
Guttemberg. Reúnam-se as associações
abolicionistas, fundem escolas e a regeneração
da pátria tanto mais rápida quanto maior for

309
Op. Cit. PESSANHA, 2005. Pp. 101-118.
310
Op. Cit. PINTO & SCHUELER, 2013.; e Op. Cit. SOUZA, & TORRES, 2013.
79

a educação do povo. A preferência de alunos


nestas escolas é a grande prova de [de que o],
escravo restituído à sociedade, não saiu do
abismo do cativeiro para atirar-se em outro –
a ignorância”311.

O objetivo desses indivíduos que viriam um mês depois a formar a cúpula da


Confederação Abolicionista apresenta uma visão peculiar a respeito do futuro dos libertos
procurando de forma prática possibilitar a esses indivíduos o acesso a instrumentos e
mecanismos capazes de lhes integrar na sociedade urbana da Corte. Mas, sobretudo, esse projeto
é incorporado às determinações da Confederação em relação às funções e estrutura dos Clubes e
Associações Abolicionistas. Pois, como destacado no artigo da Gazeta da Tarde, a escola
noturna do clube Gutenberg312 e a escola da Cancella313 eram outras existentes com as mesmas
características e propósitos da sua congênere de Niterói.

A inclusão e participação social do liberto no movimento abolicionista surge


com maior evidência quando percebemos a existência de mais escolas noturnas gratuitas, como
a da Irmandade de Nossa Senhora das Dores em Vila Isabel e a do Largo de São Francisco. A
iniciação ou mesmo aperfeiçoamento da compreensão dos códigos escritos possibilitava ao
liberto o conhecimento e a participação nos embates políticos e sociais travados em torno do
abolicionismo. Da mesma forma, estas informações poderiam facilmente circular entre os
escravos de ganho que andavam pelas ruas das cidades e mesmo os escravos das fazendas que
se dirigiam ao centro da Corte para vender os produtos das fazendas do sertão carioca314.

O jornal Gazeta da Tarde por diversas vezes anunciava eventos de clubes e


caixas abolicionistas – uma espécie de poupança – destinados ao suprimento de bens materiais
para as escolas. Eram da mesma forma anunciadas doações de livros, papéis, lápis, enfim, de
material escolar para algumas dessas escolas.

O fato destas serem gratuitas e funcionarem no período noturno nos destacam o


objetivo de seu funcionamento. Como eram escolas de clubes abolicionistas o seu público alvo
eram os libertos, mas, também a população pobre e marginalizada da Corte. Dentro da
perspectiva civilizacional e de progresso, a educação tinha um papel fundamental para formar os
hábitos e valores essenciais e desejáveis pelos intelectuais, e por outro lado, preparava estes
mesmos indivíduos para o mercado de trabalho que se transformava lentamente no país.

A perspectiva de transformar o país em uma potência industrial como França,


Inglaterra e mesmo os Estados Unidos, evidenciava-se no ponto do projeto da Confederação
sobre a reorganização do trabalho. Ali estava proposto a divisão da terra e a reorganização do

311
Op. Cit. Gazeta da Tarde, 17 de abril de 1883.
312
A escola noturna e gratuita do Clube Gutemberg localizava-se na rua das Flores, 97.
313
A escola da Cancella, fundada por José do Patrocínio, localizava-se na Rua Imperial da Quinta, 17 e
30 –São Cristóvão.
314
Acreditamos que o mesmo acontecia nas demais capitais do país, vide as reclamações dos clubes da
lavoura acerca da relação entre abolicionistas e escravos, incitando os últimos a se rebelarem contra os
seus senhores.
80

trabalho rural, mas, também interligava a pequena propriedade com um núcleo industrial – os
Engenhos Centrais -, ou seja, tanto no campo quanto na cidade planejava-se a adequação
econômica do país aos novos modelos econômicos da civilização ocidental – baseados na
produção industrial, seja no campo ou na cidade – mesmo tal premissa se enquadrando numa
perspectiva de autonomia social do liberto.

De fato, não podemos perder de vista que as transformações econômicas no país


anunciavam a crescente entrada do paradigma econômico europeu do século XIX: indústria e
progresso315. A perspectiva econômica liberal destes intelectuais também acabava por facilitar a
plena instauração do capitalismo tardio no Brasil316, contudo, permitia-se que o liberto fosse
proprietário de sua moradia e tivesse o seu sustento garantido. Nesse sentido, as escolas
noturnas e gratuitas dos clubes abolicionistas, se propunham a preparar a mão- de obra
disponível no país para uma nova forma de trabalho, mas, possibilitava também partilhar com
libertos e pobres as chances de independência econômica e financeira de cada um através do
conhecimento adquirido nestes estabelecimentos de ensino.

Por fim, a reforma político administrativa defendida principalmente pela ala


republicana da Confederação, solicitava o fim do Senado Vitalício e do Conselho de Estado,
identificado como instituições arcaicas e conservadoras responsáveis pelo emperramento das
reformas sociais e econômicas necessárias para o país.

Segundo os intelectuaisda Confederação, o Senado e o conselho de Estado eram


dominados pelos grandes fazendeiros do país ligados ao Partido Conservador, e por isso,
impediam a consecução dos projetos e reformas apresentadas tanto por liberais, quanto por
republicanos.

Neste sentido, no dia 03 de junho de 1887 a crítica foi direcionada ao Senador


Saraiva, através, de um artigo de título Máscaras Abaixo317. O senador foi acusado de emperrar
as leis abolicionistas no parlamento propondo um projeto de lei destinado a colonização do
interior do país e desconsiderando a emergência da resolução da questão escravista.

A Confederação declarava no dia 12 de novembro de 1888, no editorial do


Cidade do Rio, sob o título Semana Política, um suposto acordo entre os senadores Cotegipe e
Laffayete, a respeito de um financiamento governamental favorecendo a imigração chinesa para
substituição dos antigos escravos, levou a Confederação a criticar a existência do Senado
Vitalício e a tal proposta de imigração. Por fim, exigiu a extinção de ambos, tanto do Senado
Vitalício – e de outras medidas direcionadas para uma reforma política – quanto da proposta de
imigração chinesa.

Em anotações em seu diário particular, André Rebouças318 - um dos fundadores


e tesoureiro da Confederação Abolicionista - nos esclarece sobre as relações de antagonismo e
disputas em torno da abolição da escravidão, apontando os chamados inimigos do abolicionismo
– e certamente da Confederação Abolicionista -, o engenheiro elenca nas suas anotações no dia
28 de abril de 1888 afirma que Andrade Figueira e Paulino de Souza eram os defensores do
escravismo na Câmara dos Deputados; e no dia 17 de julho afirma que o jornal Novidades era
defensor dos escravocratas na Corte.

315
Op. Cit. COSTA, 1999. Pp. 233-269.
316
Op. Cit. GRAHAM, 1979. Pp. 59-78 e 147-177.
317
Gazeta da Tarde, 03 de junho de 1887.
318
Diário de André Rebouças. Biblioteca Nacional, Obras Gerais, localização VI 222, 5, 40.
81

Em oposição à Confederação, o jornal Novidades, efetivamente opunha-se


frontalmente às práticas e ideias difundidas pelos abolicionistas. No artigo de título Notas
Políticas319, Nestor320 critica a forma de abolicionismo praticado e defendido pela Confederação
Abolicionista. Na sessão Casos e Coisas321a crítica se estende ao movimento abolicionista como
um todo, incluindo Proudhomme – pseudônimo de José do Patrocínio -, João Clapp e a
Confederação Abolicionista.

No dia 26 de dezembro de 1887, o Novidades publicou a seguinte notícia:

Os senhores não me podem dar notícias certas


de uma senhora empavazoada e tola que por ai
andava intitulando-se a Confederação
Abolicionista. Desconfederou-se a
federadíssima Confederação? Quem introduziu
o pomo da discórdia naquele seio de Abraão?
Onde está ela? Fugiu? Por nós, cá estamos
protestando com todo rigor da leicontra quem a
tiver acoutado322.

Quatro meses após decreto da Princesa abolindo a escravidão no Brasil, o


Novidades questionava a existência da Confederação, já que não havia mais escravos no
Brasil323. A resposta veio dois meses depois, num evento organizado pela Sociedade Central da
Imigração, com o apoio da ConfederaçãoAbolicionista, em que João Clapp – presidente da
Confederação – destaca em seu discurso que a presença da Confederação naquele evento era a
melhor resposta aos que reclamavam contra a existência dela, julgada sem razão de ser depois
do 13 de maio, e continua... Bem queriam os abolicionistas convencer-se de que extinto o
cativeiro estava extinta a escravidão, mas não podiam fechar os olhos aos fatos...324

Identificamos diversos fatores que inviabilizaram a execução e concretização


política do projeto de nação construído pelos abolicionistas da Confederação Abolicionista. A
reação escravista, o enfraquecimento das pautas abolicionistas em virtude da disputa política
entre republicanos e republicanos abolicionistas e a existência de vários abolicionismos dentro
do movimento abolicionistas são os fenômenos mais evidentes.

Ao projeto de reforma agrária defendida pelo Partido Abolicionista seguiu-se


outro que privilegiava o imigrante europeu em oposição ao africano e seus descendentes
libertos. Como apresentado em seus estudos sobre uma perspectiva econômica e política
ruralista no Brasil, Sonia Regina de Mendonça destacaque a perspectiva de valorização da
pequena propriedade oriunda de uma elite de segunda categoria não conseguiu implantar de

319
Jornal Novidades, 27 de março de 1887.
320
Pseudônimo do jornalista Alcindo Guanabara.
321
Jornal Novidades, 30 e 31 de dezembro de 1887.
322
Op. Cit. Jornal Novidades, 26 de dezembro de 1887.
323
Jornal Novidades, 01 de setembro de 1888.
324
Jornal Cidade do Rio, 12 de novembro de 1888.
82

forma ampla e generalizada a difusão da pequena propriedade como forma de modernizar a


economia agrícola nacional325.

Por outro lado, a autora não identifica nos discursos e projetos das instituições
representativas destes ruralistas – Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional e posteriormente
o Ministério da Indústria e Agricultura – a perspectiva de favorecimento ou inserção dos libertos
como pequenos proprietários rurais326.

Em última análise entendemos que a falta de políticas públicas voltadas ao


favorecimento, reparação ou inserção dos libertos na sociedade brasileira tem origem na disputa
social no campo político entre os abolicionistas radicais, emancipacionistas, republicanos
escravocratas, monarquistas escravocratas e os republicanos doutrinários327.

325
MENDONÇA, Sonia Regina de. O ruralismo brasileiro (188-1931). São Paulo: Hucitec, 1997.; e
MENDONÇA. Sônia Regina de. Mundo rural, intelectuais e organização da cultura no Brasil: o caso da
Sociedade Nacional de Agricultura. Mundo Agrario, La Plata, Argentina, v. 1, n. 1-2, 2000.
326
Idem. Ver também, WELTMAN, Wanda, A educação do jeca: ciência, divulgação científica e
agropecuária na Revista Chácaras e Quintais (1909-1948). Tese (Doutorado emHistória das Ciências e da
Saúde) – Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz, Rio de Janeiro, 2008.
327
Esta designações bem como os desdobramentos políticos do abolicionismo serão tratados no próximo
capítulo.
83

3.A Confederação Abolicionista e o Partido Abolicionista

A participação social no campo político328do Brasil na segunda metade do


século XIX é marcada por uma perspectiva de embate ideológico, sobretudo, em torno de dois
pontos fundamentais: a abolição da escravidão e a advento do regime republicano. Como
consequência, essas duas perspectivas implicariam numa maior participação social na dinâmica
política do país.

É consenso na historiografia sobre o Segundo Reinado a implantação de um


regime político conservador baseado na estrutura colonial.Sociedade estamental, latifúndio e
escravidãoalicerçaram as bases estruturais do Império do Brasil entre os anos 1840 e 1853329.
Porém, a partir dos anos 1860 a harmonia política da Conciliação na qual estava assentada a
política imperial passa a sofrer novas investidas de segmentos políticos insatisfeitos com o
status quo330.

Na década seguinte, a crise institucional do império possibilitou a ampliaçãodo


debate político para outros campos e com isso a mobilização social e intelectual emerge no
contexto de transformações e reformas pleiteados socialmente331.O ambiente cultural brasileiro
de fins do século XIX era amplo o suficiente para a participação social na vida política do país.
A difusão da imprensa e as transformações sociais engendradas pela diversificação da Economia
foram outros fatores integrantes deste contexto que em última análise propiciou a formação de
uma cultura política332 combativa por parte das classes sociais alijadas das instituições
responsáveis pelas decisões políticas oficiais333.

328
Op. Cit. BOURDIEU, 2004. Pp. 20-25.
329
Sobre a política e partidos políticos do Segundo Reinado, ver. Op. Cit. CARVALHO, 2003. Pp. 201-
226.; MATTOS, 2004. Pp. 130-201.; e HOLANDA, Sérgio Buarque de. Capítulos de história do
Império. São Paulo: Companhia das Letras. 2010. Este período é comumente designado como o período
da Conciliação, pois foi marcado por uma política de fortalecimento do Estado e de uma elite política e
econômica que o compunha. Esta Conciliaçãopre-estabelecia a convergência de interesses da elite
imperial representada politicamente nos partidos Conservador e Liberal, liderada por uma ala do Partido
Conservador conhecida como Saquaremas. A adoção desta política de estado teve como principal motivo
as revoltas liberais do período regencial que puseram em cheque a ordem social e econômica implantada
– restaurada, para utilizar o termo adotado por Ilmar Mattos - no país após a Independência.
330
CARVALHO, José Murilo de. As conferências radicais do Rio de Janeiro: novo espaço de debate. In:
Nação e cidadania no Império: novos horizontes. (org.) CARVALHO, José Murilo de. Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 2007. Pp. 17-36.; “Panfletos vendidos como canela”: anotações em torno do debate
político nos anos 1860. In: Nação e cidadania no Império: novos horizontes. (org.) CARVALHO, José
Murilo de. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007. Pp. 153-178.
331
LEMOS, Renato. A alternativa republicana e o fim da monarquia.In:O Brasil Imperial, vol.III (1870 –
1889) (org.)GIRNBERG, Keila & SALLES, Ricardo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009. Pp.
403-420.; Op. Cit. ALONSO, 2009. Pp. 85-113.; SALLES, Ricardo. As águas do Niágara. 1870: crise da
escravidão e o ocaso saquarema.In:O Brasil Imperial, vol.III (1870 – 1889) (org.)GIRNBERG, Keila &
SALLES, Ricardo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009. Pp. 45-48 e 68-69.
332
Para o conceito de cultura política, ver. Op. Cit. MOTTA, 1996. Pp. 95.; e Op. Cit. MARZANO, 2007.
Pp. 375. Como destaca Rodrigo Pato Sá, o conceito de cultura política “pode ser caracterizado como o
conjunto de normas, valores, atitudes, crenças, linguagens e imaginário, partilhados por determinado
84

Nesse cenário de crise social e política caracterizado pela disputa do campo


político compartilhamos a perspectiva de Andrea Marzano acerca da crescente participação
popular nos assuntos políticos do país334. A nossa hipótese é de que o radicalismo da pauta
política dos anos 1870 e 1880 – mormente à abolição da escravidão – foi principalmente
influenciado pelas demandas populares e pela experiência compartilhada em rede pelos sujeitos
históricos que participaram do movimento social denominado abolicionismo335.

Nesse sentido, à proeminência no movimento social abolicionista alcançado


pela Confederação Abolicionista – enquanto uma rede de sociabilidades336 – soma-se também
uma gradativa representatividade política que nos indicaa hipótese da mesma ter participado
daorganização política do movimento abolicionista.

O aspecto político do movimento abolicionista engendrou interpretações da


historiografia – e mesmo de contemporâneos e partícipes do movimento338 – sobre a Abolição
337

voltada apenas para este campoem detrimento do seu caráter social – e popular. Entendemos
que ao realizar o movimento inverso, ou seja, identificar o abolicionismo como um movimento
social em que também se efetuou as suas disputas, conflitos e demandas no campo político,
podemos compreender a construção de um projeto político abolicionista construído pela
coletividade organizada dentro da Confederação Abolicionista.

A perspectiva social do abolicionismo da Confederação engendrou a formação


de uma associação política com um objetivo claro – o fim imediato da escravidão acompanhado
de uma série de outras transformações capazes de desfazer os efeitos sociais negativos da
escravidão - e definido,que tambémmaterializou-se no campo de decisões políticas do Império.

A formação de um grupo de intelectuais insatisfeitos com os programas


políticos dos partidos oficiais339 - sintoma e consequência de uma crise estrutural desde fins dos

grupo, e tendo como objeto fenômenos políticos”. Segundo Marzano, a utilização do conceito de cultura
política permite inserir na análise política a ação de pessoas comuns no cenário cotidiano.
Dessa forma, compreendemos que um contexto de generalização e ampliação do debate político no Brasil
desde meados dos anos 1860 engendrou a participação de pessoas até então alijadas do debate político no
Império.
333
Sobre o aumento da circulação de periódicos e a influência da imprensa na vida social no Brasil na
segunda metade do século XIX, ver Op. cit. BARBOSA, 2010. Pp. 49-116.; e Op. Cit. SODRÉ, 1999. Pp.
181-249. Sobre as transformações econômicas neste período, Op. Cit. COSTA, 1998. Pp. 202-248 e Op.
Cit. COSTA, 1999. Pp. 233-270.
334
Ibidem, MARZANO, 2007. Pp. 375-391.
335
Adoto aqui a noção de experiência consonante com a perspectiva de experiência e repertório em
Angela Alonso, no sentido representativo da adoção e ressignificação de fatos particulares e coletivos por
diversos sujeitos como norteador de ações e projetos futuros. Para ver a noção de repertório em Angela
Alonso, Op. cit. ALONSO, 2002. Pp. 42-44.
336
Op. Cit.SIRINELLI, 1998. Pp. 271-275.
337
Op. Cit. SALLES, 2002. Pp. 115-130.; eOp. Cit. CARVALHO, 1999. Guardada as especificidades de
cada obra, em comum, as análises desses autores destacaram o movimento abolicionista como
essencialmente um movimento político. Tendo em vista as ações parlamentares e o direcionamento dos
abolicionistas às instituições políticas oficiais do Império, esses autores entenderam o abolicionismo
como um movimento de ocasião, sem uma coordenação e organização, objetivando a concretização de
seus projetos unicamente pela esfera e decisões legais.
338
NABUCO, Joaquim. O Abolicionismo. Rio de Janeiro: Vozes, 2012.; Op. Cit. NABUCO, 2004.
339
Ver, Op. cit. NABUCO, Joaquim. 2012. Pp. 15-16. Nabuco destaca que a formação de um Partido
Abolicionista se tornara necessária pelo fato de tanto o Partido Conservador como o Liberal e o
Republicano não atenderem ao princípio necessário para todo projeto de nação efetivamente eficaz, a
abolição da escravidão. Para Nabuco, trava-se antes de se decidir sobre direitos políticos, decidir-se sobre
os direitos civis a todos.
85

anos 1860 e início dos anos 1870 -, alimentado pela ideia de progresso340 com a introdução de
máquinas e tecnologias em alguns setores produtivos341, alémda crescente circulação de ideias,
através da imprensa, possibilitou a formação de uma conjuntura política favorável à formação
de um grupo social caracterizado pelo interesse político em comum342. Esse interesse político
caracterizou-se pela reivindicação de reformas estruturais que tinham no combate à escravidão e
na estrutura político-administrativa seus principais objetivos.

Esse interesse em comum materializava-se nos discursos políticos como


necessidades prementes para o país alcançar o progresso necessário para a sua modernização
social, econômica ideias e política. As ideias de processo e progresso permitiram dilatar para o
futuro o tempo humano renovando o telos teleológico343 de um fim único a todos os povos,
nações, sociedades e civilizações, a partir da perspectiva do progresso – econômico e
tecnológico (cientificismo)344. Como um processo, essa perspectiva esteve tão arraigada – a
ideia de progresso - no século XIX que possibilitou o desenvolvimento de teorias destinadas ao
fim perfeito das sociedades, as quais deveriam passar por determinadas etapas até alcançar tais
objetivos – que estavam sempre num tempo futuro345. O século XIX teve então no progresso e

340
KOSELLECK, Reinhart. Futuro Passado. Rio de Janeiro: Contraponto/PUC-Rio, 2006. Pp. 58-60.; e
HARTOG, François. Regime de Historicidade: presentismo e experiências do tempo. Belo Horizonte:
Autêntica, 2013. Pp. 140-142. As transformações científicas e sociais que estavam em curso na Europa
desde o século XV, proporcionaram a inserção da ideia de processo nos acontecimentos humanos e da
natureza. A noção de processo passou então a engendrar a ideia de progresso, que por sua vez, esteve
vinculado diretamente ao desenvolvimento científico e tecnológico. Esta transformação da percepção e na
concepção do tempo foi descrita por François Hartog como Regime Moderno de Historicidade, que por
sua vez, estabeleceu uma nova ordem do tempo.A inversão de paradigmas entre os séculos XVIII e XIX,
sendo caracterizados por uma crescente percepção de aceleração do tempo.
341
Em nível econômico esta crise representava a disputa na superestrutura pela orientação das bases
econômicas em que deveria se estruturar o Império. A organização do trabalho e a modernização da
produção nacional a partir de uma relativa industrialização chocavam-se com a estrutura da plantation
defendida pela elite dirigente. Assim, a escravidão e o latifúndio agroexportador eram sistematicamente
atacados por serem identificados como responsáveis pelo atraso social, moral e econômico do país. Ver,
Op. Cit. COSTA, 1999.
342
Antònio Gramsci e Serge Berstein apontam estes aspectos como fundamentais para a formação de
partidos políticos. Ver, Op. Cit. GRAMSCI, 2002. Pp. 61-62, 95-96 e 315-316.; BERSTEIN, Serge. Os
partidos. In: (org.) RÉMOND, René. Por uma história política. Rio de Janeiro: FGV, 2003. Pp. 62-68.
343
Op. Cit. HARTOG, 2013. Pp. 139-140. Os “ensinamentos” da História serviram para desacreditar o
mundo material e direcionar o pensamento e as preocupações humanas para um tempo futuro, o da
salvação. Apesar de manter o conceito histórico da antiguidade ocidental intacto voltou-se à antiga
preocupação dos filósofos gregos – a transcendência e o pensamento num tempo futuro. A partir de uma
teleologia do Juízo Final e da ideia de salvação - individual -, foi invertida a imortalidade, que passou da
natureza para o homem, ou seja, a partir da concepção cristã, o tempo humano se estenderia em
comparação ao tempo da Terra – da natureza -, o tempo cíclico da vida – tanto da natureza quanto do
homem – cessaria no dia do Juízo Final e a partir de lá se iniciaria a eternidade para os escolhidos por
Deus – um tempo eterno e de permanências – para os homens que permaneceriam vivos ao contrário da
natureza que seria destruída com a Terra e os seus pecadores.
Uma história transcendental, que tinha no nascimento e morte de cristo - e na sua doutrina -, a inversão
dos valores terrenos para os valores espirituaiscom um conteúdo pedagógico, através, dos exemplos de
fracassos e da miséria da humanidade, antes e sem o cristianismo. De qualquer forma, a teleologia cristã
possibilitou uma unificação do conhecimento histórico, a partir do momento que abandonou a ideia de
histórias dos povos para enfatizar a história da salvação da humanidade, uma espécie de história
universal, de todos os que aceitassem e seguissem a doutrina cristã e mesmo àqueles que dela se
afastavam.
344
Idem. Pp. 170-182.; Op. Cit. KOSELLECK, 2006. Pp. 50-60.
345
Op. Cit. HARTOG, 2013. Pp. 131. Dentre elas o Positivismo, o Marxismo e o Evolucionismo.
86

na nação – a partir das histórias nacionais346 - os elementos que endossaram a valorização do


tempo futuro.

O passado, então acionado como explicaçãodas origens da nação e das


formações nacionais justificavam os projetos futuros em nome desta mesma nação. Esta
perspectiva perpassou pelos diversos projetos de nação em disputa no campo político do
Império do Brasil em fins do século XIX e o abolicionismo estava inserido nesse contexto347.

As abordagens sobre o abolicionismo brasileiro por vezes endossam as


assertivas de época como registros autênticos do passado. Alonso já ressaltou a escassez de
obras sínteses sobre o fim da escravidão no país como sinalizador da incompletude das análises
sobre esse processo histórico348. Discordamos de Alonso em parte, pois entendemos que não
seria necessário escrever uma obra sintética349 sobre determinado tema para inserir na análise os
elementos diversos que compõem a tessitura histórica do objeto de estudo, mas, concordamos
com a autora ao destacar que grande parte dos estudos sobre o abolicionismo se tornam
incompletos por enfatizar apenas um fator como o responsável pelo fim da escravidão no país
colocando os demais elementos históricos como situações circunstanciais ou inerentes a um
“motivo maior”350.

Recentemente alguns autores têm destacado os aspectos sociais do movimento


abolicionista como elementos independentes e constitutivos do campo de disputas políticas no
Segundo Reinado. Dentre essas obras podemos destacar os trabalhos de Maria Helena
Machado351, Eduardo Silva352, Alessandra Schueler& Rebeca Pinto353, Flavia de Souza &
Rosane Torres354 e a própria Angela Alonso355.

346
Idem. Pp. 170-182.
347
Em geral esses projetos de nação compuseram o que alguns historiadores brasileiros chamaram de
reformismo. Ver, Op. COSTA, 2008.; Op. Cit. AZEVEDO, 2003. Pp. 41-42.; e Op. Cit. ALONSO, 2002.
Pp. 75-96.
348
Op. Cit. ALONSO, 2014. Pp. 119
349
No sentido de síntese, ou seja, englobando todos os aspectos de um determinado objeto.
350
Idem.
351
Op. Cit. MACHADO, 2010. Invertendo a lógica apresentada por Maria Helena Machado, a autora
destaca em sua análise sobre o abolicionismo a diversidade de movimentos sociais existentes ao longo da
década de 1880. É sintomático que os movimentos sociais destacados pela autora refiram-se em sua
totalidade à desagregação do sistema escravista, sem contudo haver uma coordenação deliberada entre si.
352
Op. Cit. SILVA, 2003. e Op. Cit. SILVA, 2010-2103. Em As Camélias do Leblon, Eduardo Silva
ressalta principalmente a relação entre diversos segmentos sociais do Império articulados entre si
objetivando o fim da escravidão. Os mecanismos adotados por uma rede de sociabilidades [grifo meu]
sediada na Corte organizava ações destinadas ao resgate de escravos e seu redirecionamento para locais
ou regiões em que poderiam viver e trabalhar como homens livres.
No estudo sobre o Underground Abolicionista, o autor destaca principalmente as ações e participações de
escravos e libertos no movimento abolicionista.
353
Op. Cit. PINTO & SCHUELER, 2013. As autoras destacam as ações e ideias de André Rebouças
relativas ao movimento abolicionista como um aspecto necessário para um conjunto de reformas pelas
quais o país deveria passar para alcançar um nível desejável de progresso, mas tenho em vista uma
concepção inclusiva de negros e libertos nessa sociedade.
354
SOUZA, Flavia Fernandes de. & TORRES, Rosane dos Santos. Liberdade e instrução: projetos e
iniciativas para a educação popular (Rio de Janeiro, década de 1880). In: Os intelectuais e a nação:
educação, saúde e construção de um Brasil moderno. (orgs.) CARULA, Karoline. & CORRÊA, Maria
Letícia. & ENGEL, Magali Gouveia. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2013. As autoras sinalizam para a
realização de ações sociais por um movimento abolicionista popular sediado no Rio de Janeiro. É
importante destacar que nesta análise evidencia-se a existência de abolicionismos ao invés de um único e
uniforme modelo de movimento social ou político destinado ao fim da escravidão. Além disso, as autoras
87

Essa perspectiva historiográfica sobre a abolição da escravidão no Brasil


alargou o espectro da análise ao destacar diferentes dimensões do movimento abolicionista. A
soma desses estudos enriqueceu consideravelmente a compreensão sobre os anos finais da
escravidão no Brasil desvendando principalmente novos sujeitos e projetos abolicionistas,
alterando sensivelmente a imagem que se tinha sobre o abolicionismo brasileiro, considerado
elitista.

Nesse momento se faz necessário uma crítica ao suposto elitismo


creditado ao movimento abolicionista brasileiro. Ao longo de nossa abordagem sobre a
Confederação Abolicionista pudemos apresentar fontes e destacar outros estudos que
demonstram a participação popular e inclusive escrava no movimento abolicionista.
Sendo assim, defini-lo como um movimento elitista é ao mesmo tempo negar a
participação destes agentes sociais e ao mesmo temposuperdimensionar a ação de
outros.
Por outro lado, entendemos que alguns autores também identificam no
abolicionismo um elitismo devido à inexistência de ações voltadas para resolver ou ao
menos diminuir as consequências devastadoras dos anos de escravidão na vida dos
recém libertos, a partir da Lei Áurea.Apresentamosnesse estudo a existência de diversos
projetos e ações destinados à inclusão destes libertos de forma positiva na sociedade
imperial, mas, o seu prosseguimento dependia de diversos fatores. Estes fatores que
impediram o prosseguimento das ações e projetos abolicionistas da Confederação
representaramas disputas no campo político que acabaram por definir o modelo de
abolição que deveria se implementar no país e eram frontalmente conflitantes com os
projetos abolicionistas – ao menos em relação ao da Confederação.
Propomos uma análise que privilegie a interação entre movimento social e
partido políticobuscandoempreender uma análise mais geral e ampla do abolicionismo
encampado pela Confederação Abolicionista. Entendendo que o mesmo estava inserindo num
contexto cultural - intelectual – e econômico – nacional ou internacional – específico. Assim,
entendemos que os elementos que emergem na luta política e social pelo fim da escravidão
surgem como construções sociais por vezes voluntárias e por outras involuntárias oriundas da
dinâmica das relações sociais.

apresentam medidas reais e efetivas criadas por esses abolicionistas populares a partir das demandas
sociais e econômicas dos escravos e libertos do Rio de Janeiro.
355
Op. Cit. ALONSO, 2014. Alonso destaca sobretudo a relação entre o abolicionismo popular e o
político-parlamentar. Para a autora a concepção do abolicionismo em si como um movimento social mais
amplo permite entender as suas facetas como fruto de um mesmo movimento e paralelamente entender a
sua pluralidade. Este segundo ponto torna-se fundamental para o reconhecimento do radicalismo e
popularidade do abolicionismo, sendo analisado não como um movimento elitista mas, também um
movimento social e político extremamente popular.
88

A proposta não é identificar o campo político356 como secundário ao social, mas


sim, estabelecer uma relação entre esses campos357.Em geral, as análises sobre as ações e
projetos políticos dos abolicionistas brasileiros fixaram-se em dois elementos: os projetos de
nação de alguns intelectuais de destaque no movimento, como Nabuco e Rebouças e as
agitações populares da década de 1880, como um movimento aleatório e influenciado por uma
propaganda elitista358.

A esta perspectiva historiográfica voltada para a análise da relação entre os


aspectos sociais e políticos do abolicionismo que relegavao caráter social do movimento ao
radicalismo das ruas dos anos finais da escravidão, caracterizado, sobretudo, como um período
de agitação popular de segmentos urbanos, somou-se uma nova vertente que via na produção
intelectual de alguns abolicionistas a construção de projetos de nação atrelados à ideia de
progresso ou a uma razão de Estado359.

Esta nova abordagem política sobre o abolicionismo possibilitou entrever a


complexidade do movimento. Se nas abordagens do primeiro grupo os projetos políticos
abolicionistas funcionam como catalizadores dos anseios da elite imperial e, portanto, atrelados
à conformação social e econômica que se estruturava no país desde os anos 1860 e 1870 -tendo
como objetivos fundamentais o controle do processo de desestruturação do sistema escravista
pela marcha acelerada do progresso material e tecnológico da Segunda Revolução Industrial
capitalista europeia -,a segunda vertente dela se afastava na medida em que identificava no
abolicionismo brasileiro uma lógica de ação e uma composição ideológica específica, mesmo
que esta orientação estivesse por vezes vinculada aos projetos do Estado Imperial.

Contudo, o abolicionismo é apresentado por esses autores como um movimento


politicamente defendido por uma elite360 e, portanto encampado necessariamente nos espaços de

356
Op. Cit. BOURDIEU, 2011.
357
Op. Cit. BOURDIEU, 2004. Pp. 20-22. Reforçando este conceito de Pierre Bourdieu, o autor destaca a
existência de diferentes campos, sendo estes universos autônomos, ou seja, “um mundo social como os
outros, mas que obedece a leis sociais mais ou menos específicas”. E assim, o autor salienta que os
campos literário, artístico, jurídico, científico, etc. compõem individualidades mais ou menos
homogêneas e que se representam socialmente a partir das convenções internas e leis próprias inerentes a
cada campo.
358
Ver, Op. Cit. CONRAD, 1975.; Op. Cit. COSTA, 2001; e Op. Cit. AZEVEDO, 2004. Pp. 174-161.; e
Op. Cit. GRAHAM, 1979.
Exceção feita a Richard Graham que identificou nas fugas em massa dos escravos como o principal fator
do fim da escravidão em seus anos finais. Mas ainda assim, a análise do autor apresenta enormes
contradições, ora destacando as transformações econômicas como fator decisivo para o surgimento do
abolicionismo e consequentemente o fim da escravidão, ora destaca a ação política parlamentar – mas ai,
coloca esta como consequência das transformações econômicas mundiais e a pressão da Inglaterra – e por
fim, minimiza a influência do abolicionismo para depois dizer que o mesmo foi fundamental para a
desarticulação do cativeiro, através da propaganda empreendida pela imprensa. Parece que o autor tenta
um encontrar um fator-chave para explicar, mas, não encontra e acaba por vacilar em sua escolha.
359
Nesta vertente podemos destacar, Op. Cit.CARVALHO, 1999.; CARVALHO, José Murilo de. As
Batalhas do abolicionismo. Estudos Afro-Asiáticos, n° 15, 1988. Pp. 14-23. Op. Cit. ALONSO, 2002. Op.
cit.SALLES, 2002.;Op. Cit.. CARVALHO, 1998.; e Op. Cit. PESSANHA, 2005.
360
Por elite entende-se um grupo social que se destaca pelo capital simbólico de seus integrantes. Este
capital simbólico pode ser oriundo de um prestígio intelectual ou derivado de um poder político ou
econômico que possibilite diferenciar estes indivíduos dos demais cidadãos/súditos. Em última instância,
é necessário o reconhecimento de sua distinção seja intelectual, social – econômica – e política por seus
pares na sociedade, logo, o capital simbólico é o bem imaterial que dota o seu possuidor de conhecimento
e reconhecimento social pelos seus atos, permitindo assim, que o mesmo tenha credibilidade no seu meio
social em que vive. Sobre capital simbólico ver, Op. cit. BOURDIEU, 2004. Pp. 24-26.
89

experiências em que circulavam361 – principalmente no parlamento, na imprensa e na


literatura.Em última análise, as conclusões destes autores diferem essencialmente nos objetivos
finais defendidos pelos abolicionistas que podemos dividir em duas correntes.

A primeira, apresentada por José Murilo de Carvalho, Maria Alice Carvalho e


Angela Alonso, identificam os objetivos do abolicionismo como projetos de nação direcionados
para um fortalecimento do Estado, tendo em vista a sua modernização, acompanhado da
perspectiva de civilização e progresso362. A segunda corrente também enfatiza a criação de um
projeto de nação abolicionista coadunado com a perspectiva da modernização do país, mas,
destacam a inserção de uma concepção moral na constituição destes projetos,que deste modo,
estavam preocupados com as dinâmicas sociais, econômicas e políticas que viriam após a
escravidão. Em síntese, incluíam os libertos em suas projeções para o futuro do país363.

Estadivergência é questão nodal para entendermos o movimento abolicionista


brasileiro. Entendemos que a análise do primeiro grupo vincula o abolicionismo aos interesses e
decisões institucionais, fato que pode ser questionado a partir das leituras dos periódicos

361
Me refiro aos seus locus de ação. Este circular representaria as tanto as ações como espaços que
frequentavam como meios de alcançar os seus objetivos materiais.
362
Apesar da concordância entre estes autores a respeito das ações politicas dos abolicionistas brasileiros é
importante destacar a especificidade de cada obra. José Murilo de Carvalho destaca principalmente em
suas análises que o abolicionismo brasileiro esteve diretamente vinculado ao projeto de nação como razão
de Estado, e por isso, a sua agenda não estabelecia uma ruptura com a ordem estabelecida. Apud.
LUSTOSA, Isabel. Um novo clássico na História do Brasil, com humor, ironia e sentimento. História,
ciência e saúde. Rio de Janeiro. Manguinhos, vol. 6, nº 2, jul./out., 1999. Pp. 2-6.
Em outro momento o autor destaca em um artigo sobre o abolicionismo brasileiro o protagonismo do
negro e do escravo no contexto de desestruturação da escravidão no país, além de apontar para a
participação destes no abolicionismo popular. Porém, a participação destes indivíduos no movimento
abolicionista foi menos intensa em comparação com a participação de negros, libertos e escravos no
movimento abolicionista norte-americano. Op. cit. CARAVALHO, 1988. Pp. 19-22.
Maria Alice Carvalho destaca em sua análise o abolicionismo por intermédio da trajetória social e política
de André Rebouças. A autora ressalta o cosmopolitismo de Rebouças, a influência paterna, a sua
formação profissional, as suas relações com Nabuco e Taunay e os eventos de discriminação racial pelos
quais passou como os elementos formadores de sua perspectiva sobre a forma pela qual deveria ser
abolida a escravidão no Brasil. Levando em conta a organização social de países europeus e dos Estados
Unidos, Rebouças passa a defender uma democracia rural capaz de possibilitar aos libertos a provisão
necessária para sua sobrevivência. Op. Cit.. CARVALHO, 1998.
Antes de destacar a abordagem sobre o abolicionismo apresentada por Angela Alonso cabe mencionar
que existem artigos mais recentes da autora que dão uma interpretação um pouco diversa de sua análise
inicial e que estão destacadas ao longo deste estudo nos servindo como valioso material para
compreensão do movimento abolicionista. Porém, o seu estudo pioneiro sobre a crise institucional do
Segundo Reinado a partir de questões estruturais levantadas pela geração de 1870 contêm dois pontos
importantes para não olvidarmos a sua análise. O primeiro refere-se a forma bem ampla que a autora
apresenta um panorama das ideias políticas no último quarto de século XIX no Brasil. E em segundo – e
como consequência do primeiro ponto exposto -, a autora apresenta o abolicionismo – em seus diversos
matizes – como um movimento político atrelado à diferentes orientações ideológicas contribuindo assim
para diferentes posicionamentos e soluções políticas de seus defensores.
363
Tanto Ricardo Salles como Andrea Pessanha – o primeiro a partir de estudo sobre Joaquim Nabuco e
Pessanha sobre André Rebouças – destacam as ações dos ilustres abolicionistas como a aplicação de seus
projetos de nação baseados na perspectiva inclusiva do liberto na sociedade imperial. Em oposição à
argumentação de José Murilo de Carvalho que não vê na base teórica abolicionista brasileira aspectos de
embasamentos morais como a sua congênere anglo-saxônica, Salles e Pessanha identificam um discurso
baseado na moral humanista identificando o escravo e o liberto como seres-humanos como quaisquer
outros e por isso detentores dos mesmos direitos dos demais cidadãos. Op. cit.SALLES, 2002. Pp. 115-
144.
90

abolicionistas da Corte que destacam os constantes conflitos entre abolicionistas, parlamento e a


Coroa.

A existência de diferentes ações e projetos políticos destaca uma característica


plural do movimento abolicionista. Nesse sentido,a nossa análise se aproxima da segunda
vertente,mas dela também se afasta, pois, entendemos que a política abolicionista também se
exercia de forma paralela aos meios oficiais e institucionais da política imperial principalmente
com a participação de indivíduos das classes populares.

Na nossa interpretação, o movimento abolicionista brasileiro entre o final dos


anos 1870 e ao longo dos anos 1880 pode ser inserido naquilo queAntònio Gramsci definiu
como a pequena política – não menos importante ou contendo uma semântica pejorativa -, ou
seja, a política do dia adia que se envolve com as questões do cotidiano das nações, são aquelas
em que todos podem opinar, todos podem participar364.

A sua característica refere-se a capacidade de levar à esfera pública, comum, os


assuntos internos relacionados às demandas internas de um país ou nação, capazes de mobilizar
as forças políticas desta sociedade por afastarem-se dos assuntos vinculados à esfera das
relações internacionais do país, que por vez, são vedados ao mais pobre ou ignorante dos
cidadãos, que por sua vez, estavam apenas destinados ao controle de uma elite política e
econômica responsável pelo direcionamento da política internacional365.

Em última instância, segundo Gramsci, a capacidade de transformar a pequena


políticaem alta política torna-se possível – e necessário – quando a força política de
determinados atores sociais – classe média e a classe trabalhadora de um país – transforma-se
em vontade coletiva que por sua vez engendra a formação dos organismos políticos, mais
especificamente os partidos políticos366.

No caso específico do abolicionismo brasileiro entendemos que esta


mobilização política congregou tanto elementos da elite como das classes populares. Nesse
sentido,a Confederação Abolicionista congregou uma variedade de indivíduos oriundos das
maisdiversas origens sociais, profissões e filiações políticas – nela encontramos: engenheiros,
militares, libertos, escravos, advogados, médicos, jornalistas, parlamentares, comerciantes,
professores, conservadores, republicanos e liberais.A formação de uma rede de sociabilidade367
formava-se com um fim específico – em outras palavras, essa rede de sociabilidades
materializou uma vontade coletiva -, ou seja,viabilizar a abolição da escravidão como o início
de um projeto amplo de reforma social.

364
GRAMSCI, 2002. Pp. 21-23. É importante destacar que esta análise de Gramsci possibilita
entendermos que a transformação das pautas políticas de uma nação orientadas pela classe média e
trabalhadora reconhecida como as demandas do cotidiano, do dia a dia também inverte as relações
internacionais desta nação. Isto porque, as estruturas e dinâmicas internas estariam em consonância com
os interesses e necessidades de uma determinada classe social. Em última análise, esta perspectiva
possibilita compreender os embates e disputas existentes no campo político a partir da identificação dos
grupos sociais que lutam para a entrada das demandas cotidianas na pauta política nacional em oposição
àqueles que relegam tais assuntos tanto para as esferas privadas, jurídicas e sazonais.
365
Idem.
366
Op. Cit. GRAMSCI, 2002. Pp. 13-62. É importante destacar que Gramsci está se referindo a formação
de um partido político popular como instituição representativamente legítima para as disputas políticas
entre as classes. Para a nossa análise, a relevância de tal perspectiva se insere na possibilidade de
estabelecermos uma relação entre política e movimento social, sendo este – no presente estudo - , oriundo
das camadas médias e trabalhadoras principalmente urbana.
367
Op. cit.SIRINELLI, 1998. Pp. 271-275.
91

Portanto, tanto a composição social como as práticas e diversas ações


abolicionistas da Confederação engendrou uma perspectiva popular do abolicionismo brasileiro.
Mesmo contendo em seus quadros membros da elite imperial, a participação – inclusive de
libertos – e os métodos de combate à escravidão executados por indivíduos da classe média e
trabalhadora do país se opõem frontalmente a uma perspectiva elitista do abolicionismo.A
formação em rede possibilitou a relação entre membros da elite, libertos e trabalhadores como
agentes da mesma causa. Refletindo e agindo dentro do movimento abolicionista, esta rede
caracterizava-se por um ecletismo social invalidando qualquer definição socioeconômica como
critério de identificação.

As relações sociais e politicas estabelecidas entre a Confederação Abolicionista


- enquanto instituição – e abolicionistas que não estavam vinculados à ela oficialmente
aproximava-os em formato de redes. Primeiramente porque os diversos núcleos abolicionistas –
associações, clubes e irmandades –engendravam uma rede de relações interpessoais
internamente368. Num segundo momento, os indivíduos destes núcleos e os próprios núcleos de
forma confederada articulavam as demandas abolicionistas entre si, num diálogo de grupos e
pessoas de todo o Império369.

Ainda assim, havia diversas formas de atuar no movimento abolicionista por


intermédio da Confederação. Como diretor ou presidente de algum núcleo abolicionista filiado à
Confederação Abolicionista o indivíduo ingressava em uma das comissões da instituição370. A
segunda opção era a adesão como membro através do núcleo abolicionista confederado ao qual
pertencia. A outra opção era a doação de bens, capital ou acoitamento de escravos371. Assim,
entendemos que a troca de ideias e experiências que circulavam em torno da
Confederaçãopossibilitou o surgimento de projetos sociais e políticos dentro da instituição372.

A homogeneidade deste grupo não advinha da sua formação intelectual, nem de


uma origem geográfica e social comum, mas sim, a perspectiva reformista tendo como eixo
central a escravidão e suas consequências sociais, políticas e econômicas. Esta heterogeneidade
permitiu a congregação de quadros políticos dos três partidos brasileiros do Segundo Reinado
pós- 1871 nas fileiras do abolicionismo da Confederação, mas, não foi capaz de formar um
Partido Abolicionista oficialmente reconhecido e legitimado que pudesse participar
autonomamente do processo eleitoral e político do país373.

368
Nas festas, encontros, meetings e por ocasião da morte de algum dos integrantes desta rede ou de um
familiar de primeiro grau – mãe, filho ou cônjuge – havia uma ampla reunião e comunhão entre eles. Ver,
Gazeta da Tarde, 24 e 25 de março de 1884.; Gazeta da Tarde, 09 de fevereiro de 1885.; Gazeta da Tarde,
30 de outubro de 1886; e Gazeta da Tarde, 14 dezembro de 1886.
369
Por exemplo, Antônio Bento, reconhecia a liderança da Confederação Abolicionista na organização do
abolicionismo no Brasil. A Confederação organizava a criação de clubes abolicionistas e as suas festas,
eventos e meetings. Além disso, a CA tinha delegados e “comissionados” em diversas províncias do país,
como Amazonas, Pará, Maranhão, Pernambuco, Rio Grande do Sul, São Paulo, entre outros. Ver
respectivamente, Op. cit. Gazeta da Tarde, 16 de janeiro de 1884.; Gazeta da Tarde, 28 de novembro de
1883.; Gazeta da Tarde, 25 de janeiro de 1884
370
Op. Cit. Gazeta da Tarde, 16 de janeiro de 1884.
371
Gazeta da Tarde, 30 de novembro de 1883.; Gazeta da Tarde, 14, 19 e 26 de março de 1884.; Op. Cit.
CLAPP, 1884.; e Op. Cit. MORAES, 1924. Pp. 36-39.
372
A análise destes projetos e será realizada no próximo capítulo. No presente momento nos interessa
compreender a orientação política da Confederação Abolicionista e a formação do Partido Abolicionista.
373
Ver, O Paiz, 11 de julho de 1887. Apesar do Marechal Deodoro ter se candidatado no pleito de 1887
com o apoio da Confederação e desvinculado aos partidos políticos oficiais, a sua candidatura foi
apresentada como apartidária. Ou seja, a Confederação Abolicionista não viabilizou a formação oficial de
92

Entendemos que a participação popular na política do Império após 1870 se


exercia enquanto mecanismo de pressão e opinião pública, não redundando numa participação
política-eleitoral efetiva374, engendrado por uma cultura política contestatória. O abolicionismo
defendido pela Confederação era direcionado para um conjunto de reformas que interessavam
muito mais aos segmentos urbanos – populares – do que os senhores de terra375. E como a
maioria parlamentar até meados dos anos 1880 era oriunda da classe de proprietários rurais e
comprometida com os respectivos interesses de sua classe, a movimentação políticaradical e
popular limitava-se às ruas e alguns órgãos da imprensa.

O sistema político partidário era de tal forma dominado pelos setores


tradicionais a ponto de barrar a reeleição de Joaquim Nabuco376 – defensor do abolicionismo na
Câmara dos deputados – em 1881, sendo ele mesmo oriundo de famílias tradicionais do
Império, filho de um ex-Conselheiro do imperador e chefe do Partido Liberal.Dessa forma, a
nossa hipótese é que a perspectiva de formação de um partido político oficial, criado
exclusivamentepara pleitear as demandas abolicionistas, não redundaria em êxito nos pleitos,
pois, os eleitores e o sistema eleitoral brasileiro durante o Segundo Reinado era controlado pela
elite dirigente saquarema377.

Soma-se a este bloqueio na política parlamentar os diferentes espectros de


abolicionismo no país já anteriormente destacado. Poderíamos inclusive falar de vários partidos
abolicionistas se fosse este o desejo dos defensores da causa, dado as divergências a respeito da
questão, ou teríamos um partido esvaziado numericamente e consequentemente sem força
parlamentar. Enfim, seria uma divisão a mais dentro do abolicionismo brasileiro.

Restava, ou melhor, formava-se com os abolicionistas radicais a pequena


política. A articulação política deveria então ocorrer dentro das dissidências dos partidos, nas
ruas e nos núcleos abolicionistas. Nabuco deixa claro esta perspectiva ao referir-se à formação
de um Partido Abolicionista no Brasil.

O sentido em que é geralmente empregada a


expressão Partido Abolicionista não
corresponde ao que, de ordinário, se entende
pela palavra partido.
Não há dúvida de que já existe um núcleo de
pessoas identificadas com o movimento

uma partido politico que permitisse a sua entrada na disputa política eleitoral de forma autônoma em
relação aos demais partidos do Império.
374
Op. Cit. CARVALHO, 2004. Pp. 37-40. O autor destaca que após a reforma eleitoral de 1881 acabou
por restringir a participação popular das eleições do país. Por mais que houvesse sido eliminado o caráter
censitário e as eleições tornaram-se diretas, dela só podiam participar os homens maiores de 21 anos de
idade excetuando-se os estrangeiros e analfabetos.
375
Um partido de oposição à estrutura econômica e social gestada pela elite dirigente do país não tinha
condições de se estruturar enquanto tal durante o Segundo Reinado. A elite dirigente composta por
quadros dos partidos Liberal e Conservador manipulava o sistema eleitoral impedindo a entrada de grupos
e forças políticas contrárias à manutenção da ordem estabelecida. O próprio Partido Republicano não se
colocava de fato contra a estrutura socioeconômica gestada pela elite saquarema, a sua disputa girava em
torno de uma transformação política e não socioeconômica.
376
Op. Cit. SALLES, 2002. Pp. 115.
377
MOTTA, Rodrigo Patto Sá. Introdução à história dos partidos políticos do Império. Minas Gerais:
UFMG, 2008. Pp. 31-37.
93

abolicionista, que sentem dificuldade em


continuar filiadas no partidos existentes, por
causa de suas ideias. Sob a bandeira da abolição
combatem hoje liberais, conservadores,
republicanos(...)378

Publicado em 1883 e escrito ao longo de 1882379 a obra o Abolicionismo de


Joaquim Nabuco teve dentre outros, o mérito de informar o panorama do movimento
abolicionista brasileiro entre o final dos anos 1870 e início de 1880. Neste momento o autor
identifica ainda em gérmen a formação de um partido abolicionista através de dissidentes dos
três partidos oficiais do Império. O motivo alegado seria a incompatibilidade ideológica em
relação à manutenção da escravidão no Brasil, tema relegado pelos partidos citados.

Identificados num primeiro momento os partidários do abolicionismo como


futuros membros de um Partido Abolicionista, o autor identifica apenas a classe política
parlamentar como os possíveis integrantes do pretenso partido. E prossegue a sua argumentação
sobre o tema.

Entende-se por partido não uma opinião


somente,mas uma opinião organizada para
chegar aosseus fins: o abolicionismo é, por ora,
uma agitação, e é cedo ainda para se dizer se
será algum dia um partido.(...) Neste livro,
entretanto, a expressão Partido Abolicionista
significará, tão somente, o movimento
abolicionista, a corrente de opinião que está
desenvolvendo do Norte ao Sul380.

Para Joaquim Nabuco a formação de um partido político dependeria da


organização de pessoas em torno de uma ideia, um objetivo. A desorganização do movimento
abolicionista que Nabuco vislumbrava impedia a formação deste partido, mas, entendia que a
ideia era forte a tal ponto de desestruturar os partidos oficiais e a partir daí se tornar capaz de
congregar um núcleo de abolicionistas nas esferas da política parlamentar do país.Por fim,
Nabuco conclui a sua percepção sobre o movimento abolicionista e o pretenso partido da
seguinte forma.

É claro que há no grupo de pessoas que têm


manifestado vontade de aderir àquele
movimento mais do que o embrião de um
partido. Caso amanhã, por qualquer
circunstância, se organizasse um gabinete
abolicionista, se o que constitui um partido são

378
Op. Cit. NABUCO, 2012. Pp. 15.
379
Op. Cit. SALLES, 2002. Pp. 115.
380
Op. Cit. NABUCO, 2012. Pp. 19.
94

pretendentes a posições e honras políticas,


aspirantes a lugares remunerados, clientes de
ministros, caudatários do governo – aquele
núcleo sólidoteria uma cauda adventícia tão
grande pelo menos como a dos partidos
oficiais381.

Enfim, na concepção de partido político de Joaquim Nabuco no início dos anos


1880 eram necessários dois pressupostos – a defesa de uma ideia central e a organização de
políticos em torno desta ideia382 - e uma consequente dinâmica entre as esferas de poder,
caracterizada pelas honrarias dos cargos parlamentares, das desejadas remunerações e da relação
de clientela entre o cargo político e o governo.

Para compormos a análise política do movimento abolicionista radical e popular


organizado pela Confederação Abolicionista identificando-a como representante do Partido
Abolicionista no Brasil imperial torna-se fundamental identificarmos a noção de partido político
– ao menos a sua referência relacionada com o Partido Abolicionista.

Podemos identificar, portanto, três concepções de partido abolicionista. A


primeira refere-se à noção de Partido Abolicionista como o conjunto dos parlamentares que
defendiam a causa do abolicionismo nas assembleias provinciais, na câmara dos deputados, no
senado, no ministério ou no Conselho de Estado, ou seja, eram aqueles políticos que defendiam
de alguma forma o fim da escravidão – independente da forma e das consequências planejadas
para este fim.

Esta primeira concepção esteve atrelada principalmente ao nome de Joaquim


Nabuco e o Partido Liberal383.Por ter sido a primeira concepção do termo acreditamos que seja
esse um dos motivos do reconhecimento social e político de chefe do Partido Abolicionista
creditado às diversas lideranças abolicionistas deste partido – principalmente Joaquim Nabuco.

A segunda noção de Partido Abolicionista que surgiu ao longo do movimento


abolicionista era a identificação dos indivíduos que comungavam com a perspectiva
abolicionista. Este grupo era naturalmente mais extenso e cresceu vertiginosamente ao longo
dos anos 1880, pois, congregava em seu espectro todos os gradientes de abolicionistas que em
comum tinham na defesa do abolicionismo como uma ideia destinada a materializar-se.

381
Idem.
382
Nabuco não detalha como ocorreria a associação e as relações entre os defensores de uma ideia
específica – neste caso o abolicionismo -, mas parte do princípio que os parlamentares - políticos - já
existentes aderissem à nova ideia.
383
Pela ocasião da morte de José Bonifácio, o moço, o jornal Gazeta da Tarde publicou algumas matéria e
os discursos fúnebres de alguns políticos e personalidades da vida pública brasileira. Por esta ocasião, era
reconhecido senador José Bonifácio, juntamente com Joaquim Nabuco como um dos líderes do Partido
Abolicionista – ambos do eram lideranças do Partido Liberal. Ver, Gazeta da Tarde, 30 de outubro de
1886. Mesmo havendo exceções como Severino Ribeiro e Bezerra de Menezes que eram declaradamente
abolicionistas do Partido Conservador. Ver, Gazeta da Tarde, 24 de julho de 1884.
Até mesmo a oposição reconhecia que havia uma ala independente dentro do Partido Liberal que
funcionava como um autêntico e independente Partido Abolicionista. Ver, Diário do Brazil, 08 de agosto
de 1884.
95

Neste grupo poderia ser incluído qualquer indivíduo que no mínimo consentisse
com a necessidade do fim da escravidão, o que por vezes proporcionou interpretações díspares
da historiografia sobre a abolição no Brasil, pois, acreditava-se que de uma forma geral o
abolicionismo brasileiro não passou do entusiasmo e modismo da classe média urbana desejosa
de ver extinta a escravidão como etapa inicial da modernização econômica e social do Brasil
rumo ao estágio civilizatório das potências industriais da Europa.

A terceira noção refere-se ao movimento abolicionista organizado e articulado


objetivando a desestruturação do sistema escravista e o seu fim imediato. A identificação deste
grupo está diretamente vinculada com as estratégias e projetos abolicionistas adotados. Desde a
promoção de fugas à orientação do voto em candidatos abolicionistas – inclusive, mediante a
apresentação das propostas e projetos políticos dos candidatos em questão -, essa terceira
concepção de partido abolicionista destaca a existência de uma organização social e política do
abolicionismo brasileiro.

Preferimos trabalhar com a própria noção de partido político que os sujeitos


históricos construíram sobre si para relacionarmos com as mesmas noções de seus antagonistas
sociais e políticos. O objetivo deste procedimento é identificar uma possível supervalorização
das próprias ações que viessem a proporcionar um erro hermenêutico de nossa parte. Desta
forma, o cotejamento entre fontes oriundas de diferentes sujeitos – inclusive antagonistas – nos
permite identificar a validade da noção adotada sobre o nosso objeto em questão.

Outro motivo importante – e já destacado anteriormente – se refere ao fato de


identificarmos concepções análogas de partido político no mesmo período, porém, em um local
e contexto diferente. Assim, compreendemos que para fins do século XIX algumas noções de
partido político eram comuns em diferentes contextos sociais, políticos e culturais384.

Desta verificação podemos perceber que a primeira concepção esteve


diretamente vinculada ao aspecto político institucional do abolicionismo. Enquanto que a
segunda esteve disseminada por diferentes classes sociais e de diferentes formas. Já a terceira
restringiu o abolicionismo a um ativismo político e social de um grupo articulado de pessoas.

De qualquer forma, essas concepções se intercambiavam, a ponto de um dos


articuladores e formadores da terceira noção de partido abolicionista tê-lo identificado de forma
diferente, mesmo após anos de luta política e social no movimento abolicionista. Assim, no
início de 1888, em artigo no jornal Cidade do Rio, José do Patrocínio enfatizou a perspectiva de
Joaquim Nabuco a respeito da composição do Partido Abolicionista brasileiro385.

Patrocínio entende que o partido abolicionista brasileiro era o próprio


abolicionismo que minava as bases ideológicas dos partidos imperiais referentes à escravidão
favorecendo a defesa da abolição nas campanhas eleitorais e no parlamento através de políticos
partidários do abolicionismo, independente de sua filiação386.

384
Partilhamos a concepção de conceito de ReinhartKoselleck e igualmente adota por João Feres Junior no
que diz respeito ao caráter polissêmico e mutável que um conceito tem. Neste sentido, o termo partido
político é identificado como um conceito que traduz diversos significados para os seus criadores e
componentes. Ver, Op. Cit. KOSELLECK, 2006. Pp. 97-118.; e JUNIOR, João Feres(org.). Léxico da
História dos conceitos políticos no Brasil. Minas Gerais: Editora UFMG, 2009. Pp. 11-22.
385
PATROCÍNIO, José do. A campanha abolicionista: com o coração nos lábios. Brasília: Biblioteca
Nacional, 1998. Pp. 132-134.
386
Idem.
96

Congratulemo-nos, pois, todos os abolicionistas


pela transformação que o abolicionismo operou
no caráter nacional. O preconceitos de partidos
e de posições extinguiram-se. Não se olha mais
a homens, porém a ideias. A pátria vale mais do
que os partidos387.

Por outro lado, podemos fazer outra leitura desta afirmação de Patrocínio e
identificá-la como uma estratégia de convencimento e fortalecimento do movimento
abolicionista e ao mesmo tempo uma crítica aos escravocratas dos partidos imperais. O ano de
1888 iniciou de forma bastante promissora para os abolicionistas, que aproveitaram para
acelerar a perspectiva de extinção da escravidão legalmente.

Enfim, no presente estudo identificamos a Confederação Abolicionista como a


responsável pela representação da terceira concepção de partido abolicionista por nós
apresentada. Sendo assim, como seria possível um direcionamento abolicionista no parlamento
com a alegada desorganização do movimento abolicionista que Nabuco mencionara em sua
obra? Será possível afirmar a existência de uma organização política através da Confederação
Abolicionista capaz de estabelecer uma rede de sociabilidades entre abolicionistas que vieram a
atuar como um partido político – supra e infra partidário em relação aos partidos imperiais?

A nossa primeira hipótese identifica a participaçãono processo eleitoral através


das legendas oficiais eestratégias direcionadas para o êxito nas eleições, principalmente quando
estavam vinculadas aos dois partidos monarquistas388. Isto porque, um partido exclusivamente
abolicionista estava fadado a derrota por não conseguir angariar um número suficiente de
eleitores, já que a maior parte destes estava vinculado de alguma forma aos partidos
monarquistas389.

Outro aspecto importante a se destacar que invalidava a formação oficial de um


Partido Abolicionista era o caráter excludente da participação política durante o Império,
sobretudo com a reforma eleitoral de 1881390. Entende-se desta forma o direcionamento da

387
Idem.
388
Joaquim Nabuco, José Mariano, Rui Barbosa, José do Patrocínio, Bezerra de Menezes, Joaquim Serra,
Alberto Victor, Luiz de Andrade, entre outros, representam alguns dos abolicionistas da Confederação
que exerceram cargo parlamentar durante o Segundo Reinado, tendo sido eleitos como candidatos dos
partidos oficiais do Império.
389
Sobre a política e partidos políticos do Segundo Reinado, ver. Op. Cit. CARVALHO, 2003.; Op. Cit.
MATTOS, 2004.; Op. Cit. HOLANDA, 2010. A manipulação dos votos era outro problema crônico do
sistema eleitoral brasileiro com qual os abolicionistas contaram em se deparar. Caso emblemático foi a
eleição de 1884 em que Nabuco teve o seu diploma de deputado cassado pela contagem dos votos, mas
depois foi empossado. Este episódio demonstra a dificuldade e os obstáculos impostos aos abolicionistas
radicais nas esferas oficiais.
390
Até 1881, a participação política popular era expressiva, mas, o controle do processo eleitoral estava
nas mãos da elite dirigente. Após 1881, há uma mudança no direito ao voto e grande parcela da população
fica excluída da participação política eleitoral. Coincidentemente é este o período de agitação popular e
grande manifestações políticas no país, principalmente na Corte. Assim, a base eleitoral dos abolicionistas
não era suficiente para eleger mais de um candidato e consequentemente inviabilizava uma possível
chegada ao poder dos abolicionistas. O caráter nacional da Confederação, formada por diversos clubes e
97

propaganda à classe média urbana e principalmente ao Imperador391, entrevendo nestes os meios


mais diretos de fortalecimento do movimento abolicionista no campo político.

Portanto, a organização político-partidária seria inviável pela via autônoma e


oficial. O caminho alternativo à esses impeditivos foi traçado a partir de 1880, coincidentemente
após a formação da Sociedade Brasileira Contra a Escravidão.A imprensa abolicionista da Corte
começou a falar em jovem partido abolicionista392, destacando parlamentares e outros
abolicionistas como seus componentes393. A mobilização política e da imprensa para a formação
de um partido abolicionista ficam evidenciadas nos editoriais e artigos do Gazeta da Tarde como
uma tentativa de organização política do movimento social que já se formara no país394.

Em discursos parlamentares transcritos de forma parcial no mesmo jornal


destaca-se a observação de Joaquim Serra a respeito da formação do Partido Abolicionista pelos
parlamentares e conselheiros abolicionistas brasileiros395. Essa formação embrionária do Partido
Abolicionista encaixava-se na primeira concepção por nós apresentada e podemos então definir
que ela inaugurou a perspectiva de mobilização e organização política do movimento
abolicionista, ou seja, a ideia de se organizar politicamente para o combate à escravidão surgiu
no bojo do movimento abolicionista396.

A organização político-parlamentar destacada por Nabuco como imprescindível


para a materialização de um Partido Abolicionista brasileiro não se concretizou enquanto esteve
no país durante a sua primeira legislatura. Como havia destacado, a ideia e a agitação política é
que caracterizavam o partido, carecendo de organização. Porém, entendemos que a organização
política do movimento abolicionista ocorreu da forma inversa a que Nabuco prescrevera em
1882.

Como destacado por ErricoMalatesta, a organização política realizada por


pessoas ligadas a movimentos sociais tendo como objetivo um fim político em comum, define a
existência de um partido político. Este é caracterizado pela mobilização coletiva em torno de um
ou mais objetivos específicos. Para Malatesta, a inexistência de uma autoridade partidária ou

associações de províncias de quase todo o Império representava uma plêiade de forças políticas
aglutinadas em torno de um projeto de nação. A individualização desta força política transformada em um
partido político diminuiria as possibilidades de entrada de seus candidatos no parlamento.
Sobre a participação política e as eleições durante o Segundo Reinado, ver, CARVALHO, 2003. Pp. 32-
39.
391
Por vezes, o imperador foi identificado como o chefe do Partido Abolicionista. Gazeta da Tarde, 21 de
junho de 1886.
392
Gazeta da Tarde, 16 e 21 de setembro de 1880; Gazeta da Tarde, 06 de outubro de 1880; Gazeta da
Tarde, 22 de novembro de 1880.
393
Idem.; e O Abolicionista, 01 de abril de 1881. Os nomes relacionados com o Partido Abolicionista
eram Marcolino de Moura, Joaquim Nabuco, João Clapp, André Rebouças, Adolpho de Barros, José
Américo dos Santos, Ubaldino do Amaral, Antonio Pedro de Alencastro, Joaquim Serra, Vicente de
Souza, Domingos Jaguaribe, Luiz Gama, Candido Mendes, Saldanha Marinho, Ferreira de Menezes e
José do Patrocínio.
394
Em 07 de outubro o jornal lançou em seu editorial a sugestão para os abolicionistas brasileiros em
seguir os passos do abolicionista inglês Granville Sharp para o fortalecimento do jovem partido
abolicionista. Ver, Gazeta da Tarde, 07 de outubro de 1880. E em 1881 o jornal escravista Diário do
Brazil reconhecia a existência de um Partido Abolicionista no parlamento brasileiro. Ver, Diário do
Brazil, 4 de dezembro de 1881.
395
Idem, Gazeta da Tarde, 22 de novembro de 1880.
396
É inegável que houve ações políticas anteriores ao movimento abolicionista no que diz respeito a
desagregação do sistema escravista no Brasil, mas, estas não chegaram a um nível de organização
alcançado nos anos 1880.
98

liderança não invalida a sua existência sendo necessária a coesão coletiva de seus membros em
torno dos objetivos, além de promover uma dinâmica de participação coletiva nas decisões
almejadas e necessárias destinadas à viabilização do projeto político e social construído
coletivamente397.Com a formação da Confederação Abolicionista, no ano de 1883, a
organização do movimento social abolicionista também passou para o campo político.

Assim, no dia 24 de novembro de 1884 realizou-se na redação do jornal Gazeta


da Tarde uma assembleia geral com os representantes das seguintes sociedades confederadas:
Clube dos Libertos de Niterói, Caixa Libertadora José do Patrocínio, Sociedade Brasileira
Contra a Escravidão, Clube Abolicionista 7 de novembro, Clube Abolicionista Gutenberg,Clube
Abolicionista 21 de abril, Clube Abolicionista 7 de abril, Centro Abolicionista Pernambucano,
Centro Abolicionista Abrahão Lincoln, Centro Abolicionista Ferreira de Menezes, Sociedade
Libertadora da escola Militar, Centro Abolicionista Gomes dos Santos, Clube Libertador do 2º
distrito de Santa Rita e o Centro Abolicionista João Clapp398. O motivo da reunião era a
apresentação de José do Patrocínio como candidato da Confederação Abolicionista para a
Câmara dos Vereadores do município neutro no ano de 1884399.

Na assembleia participaram ativamente João Clapp, Gomes dos Santos, Julio de


Lemos, o tenente Manoel Joaquim Pereira, o dr. Aquino Fonseca, Ingnácio Von Doelinger e o
próprio José do Patrocínio. Patrocínio apresentou para os confederados a sua circular – ou seja,
a sua plataforma política – que em nada diferia dos projetos abolicionistas defendidos por
Rebouças e Nabuco400. Além de pleitear a abolição sem indenização em um período de 5 anos,
também defendia a formação de pequenas propriedades agrícolas para os libertos nas margens
das ferrovias e dos rios navegáveis.

397
MALATESTA, Errico. Escritos revolucionários. São Paulo: Hedra, 2008. Pp. 105-111. É importante
destacar que ErricoMalatesta concebe a partir desta perspectiva a organização de um partido anarquista.
Por isso optamos pela concepção de partido político enquanto organização social com interesses políticos
em comum. Esta perspectiva é a mesma que orientou a ideia de um partido abolicionista tanto de Nabuco
como de Patrocínio. Não estou com isso afirmando que a perspectiva de formação de um partido
abolicionista brasileiro se encaixava na doutrina social libertária de fins do século XIX, porém, fica
evidente que ambas as noções de partido político eram bem similares. Talvez essa semelhança tenha
haver com o caráter marginal – dos círculos de decisão política – tanto do abolicionismo brasileiro em
seus anos iniciais como do movimento anarquista. Neste sentido, ambos tiveram mais força política fora
do parlamento e ao menos o abolicionismo pode influencia-lo por meio de ações extraparlamentares que
provocavam de forma indireta e as vezes direta reação parlamentar. Ver também, Op. cit. BERSTEIN,
2003. Serge Berstein realiza um estudo evolutivo dos partidos políticos desde o século XVIII ao XX.
Aqui cabe ressaltar que o autor identifica o sufrágio universal como marco de dois momentos
fundamentais na existência dos partidos políticos em que antes do voto universal os partidos tinham uma
dinâmica voltada apenas para os interesses de um pequeno grupo, sendo por isso, oriundos do próprio
sistema político institucional. No segundo momento, em que o direito ao voto torna-se universal, os
partidos políticos passam a receber e refletir às influências e pressões populares. O autor destaca que essa
transição ocorreu entre o século XIX e o meados do XX dando origem aos partidos políticos modernos.
Contudo, Berstein ressalta que tal esquema se refere à Europa e Estados Unidos. Nesse sentido, e diante
da especificidade do sistema político e da sociedade brasileira de fins do século XIX, entendemos que a
concepção da formação de um Partido Abolicionista por um grupo de abolicionistas brasileiros enquadra-
se no limiar entre os dois modelos de partido político apresentados por Berstein, e em última instância,
representava as disputas e dinâmicas próprias do campo político do Brasil imperial.
398
Gazeta da Tarde, 25 de novembro de 1884.
399
Idem.
400
Para ver mais detalhadamente os projetos de Nabuco e Rebouças, respectivamente. Op. Cit. SALLES,
2002.; Op. Cit. CARVALHO, 1998; e Op. Cit. PESSANHA, 2004.
99

A partir das eleições de 1884, as ações, determinações e posicionamentos da


Confederação Abolicionista tiveram um caráter institucional que nos permite entender que ela
era o próprio Partido Abolicionista, desejado por Nabuco, Joaquim Serra e Patrocínio401.
Escrevendo de forma retrospectiva Nabuco alargou o seu próprio conceito de partido
Abolicionista reconhecendo na sua composição a participação de pessoas que se caracterizaram
pelas ações extraparlamentares voltadas para o fim da escravidão402. Esta perspectiva apontada
por Joaquim Nabuco reconhece a dinâmica relacional entre movimento social e organização
política do abolicionismo radical brasileiro.

Neste momento vemos convergir as três noções de partido abolicionista em


torno da Confederação. Ao mesmo tempo em que a Confederação Abolicionista convergia todas
as noções de Partido Abolicionista em torno de si, construindo o conceito, as ações e estratégias
adotadas levaram por diversas vezes os seus representantes a se intitularemcomo o Partido
Abolicionista brasileiro materializado403.

Os anúncios indicavam os candidatos abolicionistas queestavam concorrendo


nas eleições e, portanto, deveriam ter o voto dos eleitores abolicionistas do país. Os candidatos
indicados eram filiados a Confederação Abolicionista ou eram abolicionistas que simpatizavam
ou até mesmo compartilhavam da mesma linha de pensamento e ação da Confederação. A
presença de republicanos dentro da Confederação também era enorme404, fato este que levava a
uma maior radicalização política e crítica ao status quo.

401
Em Minha Formação , Joaquim Nabuco identificou uma ampla rede de sociabilidade como formadora
do Partido Abolicionista. Segundo Nabuco eram os agentes que atuavam no parlamento, nos meetings, na
imprensa, no ensino superior, na tribuna e aqueles que atuavam de forma coerciva para destruir
materialmenteo formidável aparelho da escravidão arrebatando os escravos ao poder dos senhores. Op.
cit. NABUCO, 2004. Pp. 190.
402
Idem.
403
A partir do dia 20 de junho de 1884, a Confederação passa a lançar na última página do jornal,
destinada a anúncios diversos, uma orientação para os eleitores da corte que simpatizassem com as ideias
abolicionistas a aguardarem a decisão do Partido Abolicionista na decisão de quais seriam os candidatos
abolicionistas a serem indicados. Deste modo, vemos uma espécie de materialização reflexiva da
representação partidária que os membros da Confederação faziam e tinham de si. Essa materialização
reflexiva continha o paradoxo de se reconhecer, ser reconhecido e agir como partido abolicionista sem sê-
lo oficialmente – legalmente -, mas sendo-o reconhecidamente. Em outros termos, esta materialização
reflexiva é um dos elementos constitutivos do capital simbólico da Confederação Abolicionista.
Por outro lado, a relação de proximidade entre a Confederação e Partido Liberal também permitiu o
alargamento das ações do Partido Abolicionista, viabilizando materialmente a sua existência. Ver, Cidade
do Rio, 12 de abril de 1888.
Quando Nabuco destacou que o Partido Abolicionista não existia e era apenas a expressão do
abolicionismo, a Confederação Abolicionista inexistia. A partir da sua criação a mesma foi reconhecida e
chamada por seus componentes e opositores de “o Partido Abolicionista”. A partir da formação do
Partido Abolicionista organizado nos moldes de uma rede de sociabilidades, podemos identificar nos
intelectuais que a compuseram a formação de uma força política. Segundo Berstein, as forças políticas
têm uma ação efetiva no contexto político de uma nação, os seus discursos conseguem ter ampla
repercussão social, mas, não conseguem transformar-se em partidos políticos por determinados fatores
impeditivos. Ver, Op. Cit. BERSTEIN, 2008. Pp. 60-62.
Mas, como os próprios sujeitos históricos compreendiam na prática que as suas ações constituíam a
formação de um Partido Político, defendemos a tese de que a organização do movimento social alcançado
pelas forças políticas que compunham a Confederação Abolicionistas formou o Partido Abolicionista.
404
Dentre os republicanos que compunham a Confederação ou a ela s vincularam estavam: Aristides
Lobo, Quintino Bocaiuva, Ennes de Souza, Gomes dos Santos, José do Patrocínio, João Clapp, Álvaro de
Oliveira, Rui Barbosa, Carlos de Lacerda e Antônio Bento. Os três primeiros ocuparam cargos políticos e
administrativos importantes nos primeiros anos da República.
100

A organização política do em torno do Partido Abolicionista teve início na sede


da Confederação Abolicionista, - sala da redação do jornal Gazeta da Tarde – no início do mês
de agosto. Entre os dias 08 e 17 de agosto de 1884, a Gazeta passou a publicar sistematicamente
algumas notas recomendando aos eleitores orientarem-se em alguns centros abolicionistas para
saber quais os candidatos indicados pela instituição. Essa organização na orientação política
indicando os candidatos abolicionistas, aliado ao fato de que alguns dos candidatos escolhidos
pertenciam à Confederação Abolicionista, torna evidente a formação de um partido político
abolicionista405.

Dentre os candidatos apoiados nas eleições pela Confederação Abolicionista


estiveram: Ferreira Viana, Joaquim Nabuco, José Mariano, Marechal Deodoro da Fonseca, José
do Patrocínio, Luiz de Andrade, General BeaureparieRohan, Andrade Pinto, Bezerra de
Menezes406.

Dentre os políticos citados merece destaque o caso do então Marechal Deodoro


da Fonseca. No dia 11 de julho de 1887 a Confederação Abolicionista organizou uma
assembleia abolicionista no teatro Recreio Dramático com o intuito de estabelecer um acordo
entre os seus componentes sobre o candidato a se escolher nas eleições que ocorreriam dali a 6
(seis) dias407.

(...) O presidente o sr. João Clapp abriu a sessão


e, logo após, José do Patrocínio (como orador).
A assembleia era para que todos ali presentes e
simpatizantes da causa abolicionista tivessem
um único voto: no Marechal do exército
Manoel Deodoro da Fonseca para que este
pudesse vencer e defender a causa abolicionista.
Todos concordaram408.

No dia 18 do mesmo mês o Paiz divulgou uma nota informando que o Marechal
Deodoro fora eleito para o Senado da Câmarado município neutro com uma ideologia
abolicionista e contra a política vigente409. A eleição do Marechal Deodoro da Fonseca
endossada e apoiada pela Confederação Abolicionista destaca uma relação entre o
abolicionismo radical popular e o republicanismo.

Com uma atitude inusitada, Deodoro fora eleito exclusivamente pelos votos
abolicionistas, tendo em vista que não concorrera às eleições por nenhum partido político
oficial, além disso, foi o quarto candidato que mais recebeu votos para a câmara dos
vereadores410. Diante deste quadro informativo seguiremos as pistas deixadas por Nabuco e
relacionando-as com o caráter marginal do partido abolicionista, compreendemos que a

405
Gazeta da Tarde, 08, 09, 12, 13 e 17 de agosto de 1884.
406
Op. Cit. O Paiz, 11 de julho de 1887.
407
Op. Cit. O Paiz, 11 de julho de 1887.
408
Idem.
409
Idem; e Gazeta de Notícias, 18 de julho de 1887.
410
Op. Cit. SODRÉ, 1999. Pp. 237-238; e Idem, Gazeta de Notícias.
101

estratégia da Confederaçãocontinha então um duplo sentido: primeiro, enquadrava-se no campo


político imbricando-se no seio dos partidos políticos oficiais – Conservador, Liberal e
Republicano – aumentando a sua probabilidade de êxito nas eleições por “atacar” em três
frentes. A outra era a difusão do projeto abolicionista em outros locussocais e políticos
buscando o direcionamento do movimento abolicionista dentro do campo político411.

Como apresentado por Joaquim Nabuco412 e José do Patrocínio413, em


momentos e de formas diferentes, nos informaram respectivamente o que se entendia como
Partido Abolicionista – nos anos 1880 no Brasil – e quem o representava no
Império,compreendemos que as ações políticas nas ruas, nas conferências, meetings e reuniões
da Confederação construíram uma cultura política formativa do Partido Abolicionista.

A força política eo capital simbólico da Confederação advinham principalmente


das ações extraparlamentares. A formação em rede de âmbito nacional possibilitava as
chamadas ações ilegais, como a construção de uma rota de fuga clandestina semelhanteà norte-
americana.O radicalismo desta rede de sociabilidade encontra-se também na capacidade de
conciliar a luta das ruas com a luta parlamentar. A nossa percepção é que a soma dessas práticas
que dotava a Confederação Abolicionista legitimavam a proeminência na organização do
movimento social junto às diferentes classes sociais do Império.

A Confederação Abolicionista também estruturou as suas ações dentro da órbita


do debate intelectual - inclusive no parlamento -, sobre a abolição. Estes estavam articulados
para acabar com a escravidão no país e iniciar uma série de reformas objetivando a
modernização do Brasil sem olvidar os aspectos de inclusão social de libertos e negros
criticando ferozmente os aspectos degradantes do cativeiro414.

Entendemos que a Confederação Abolicionista organizou politicamente os


abolicionistas da Corte - dos mais variados matizes e origem social – para construir um projeto
político de nação que passava necessariamente pela incorporação do negro na sociedade a partir
de uma ótica que comungava quatro perspectivas: a positivista – cientificista -, a liberal, a moral
e libertária do próprio escravo ou liberto415.

411
Op. Cit. GRAMSCI, 2003. Pp. 324-326.; e Op. Cit. MALATESTA, 2008. Pp. 105-111. As análises de
ErricoMalatesta e de Gramsci se aproximam no sentido de que ambos destacam que um partido político
nem sempre tem este nome, mas, nem por isso deixa de sê-lo. A dinâmica e a ação de uma organização
elaborada por um grupo social com clara ação política é um exemplo de uma formação partidária.
412
Op. Cit. NABUCO, 2012. Pp. 15-20.; e Op. Cit. NABUCO, 2004. Pp. 190.
413
Em artigo publicado no jornal A Cidade do Rio, Patrocínio declara que a Confederação Abolicionista
era o partido abolicionista, por ter congregado grande parte dos abolicionistas do país – principalmente os
parlamentares que lutavam por essa causa -, que, a despeito de suas filiações partidárias e concepções
políticas, desejavam e entendiam a abolição da escravidão como passo inicial para o desenvolvimento
político, econômico e social do país. Jornal Cidade do Rio, 18 de abril de 1902; Gazeta da Tarde, 09 de
maio de 1883; e 10 de maio de 1883.
414
Como exemplo desta perspectiva destacamos sumariamente os discursos feitos respectivamente por
Álvaro de Oliveira e Joaquim Nabuco, em nome da Confederação Abolicionista. Ver, Op. Cit. Gazeta da
Tarde, 22 de novembro de 1883. ; e Op. Cit. Gazeta da Tarde, 22 de junho de 1884.
415
A inexistência oficial do Partido Abolicionista permite identificarmos nos intelectuais que defendiam o
abolicionismo a formação de uma rede sociabilidade paritária a uma força política. Segundo Berstein, as
forças políticas têm uma ação efetiva no contexto político de uma nação, os seus discursos conseguem ter
ampla repercussão social, mas, não conseguem transformar-se em partidos políticos por determinados
fatores impeditivos. Quando Nabuco destacou que o Partido Abolicionista não existia e era apenas a
expressão do abolicionismo, a Confederação Abolicionista inexistia, ou seja, o abolicionismo era uma
102

Cada intelectual que compunha a Confederação Abolicionista trazia a sua


concepção de escravidão e mesmo de abolição. Primeiro, é importante que se destaque a
participação desses intelectuais enquanto membros da Confederação, pois, se analisarmos as
suas ideias, práticas e posturas de forma individualizada ou em outros contextos – como nos
outros espaços de ambiência nos quais estavam inseridos -, veremos por vezes, uma diferença
de posicionamentos em relação à abolição. Porém, quando esses intelectuais se organizavam e
agiam em torno da Confederação416, o seu abolicionismo pressupunha uma série de reformas
voltadas para a construção de uma nova nação.

A diversidade de ideias era de certa forma limitada a estratégia adotada pela


Confederação. A partir do momento em que a mesma passou a ser reconhecida e auto intitulou-
se como o Partido Abolicionista, o discurso e a prática desses intelectuais passou a convergir em
três pontos centrais: a reforma político-administrativa, a reforma agrária e a reforma do
ensino417. Além disso, a escravidão era entendida por esses intelectuais como uma instituição.

Um dos principais pontos de radicalidade no projeto de nação abolicionista da


Confederação é que ele englobava os negros e libertos como cidadãos ativos e proprietários no
futuro país. Em oposição aos demais projetos de nação existentes no Brasil em fins do século
XIX, este não era socialmente excludente.

Ao entender a escravidão como instituição, a Confederação – através dos


intelectuais que a compunham -, passou a difundir um discurso destacando a diferença entre o
cativeiro e a escravidão418. O cativeiro seria a condição de estar recluso em algum lugar ou
condição, dai não podendo sair, e por isso, estava sujeito ao arbítrio de um Senhor419. O termo
cativeiro, já carregava – e carrega – em si mesmo uma carga semântica depreciativa que
identificava o Senhor como um usurpador de uma liberdade legalmente contestada.

Já o termo escravidão englobava a própria instituição e seu legado em toda a


sociedade. Degeneradora da moral e do trabalho, cultivadora do ócio, do patriarcalismo, da
imoralidade, do atraso econômico e do mandonismo politico, enfim, a escravidão era analisada
de forma global pela Confederação, o que significava não ser necessário apenas o fim da
escravidão, mas também, a transformação de todas as instituições corrompidas por esta
instituição420. Logo, o Império deveria passar por reformas direcionadas para sanar os
problemas nacionais impeditivos da ascensão do Brasil ao patamar das nações civilizadas e
evoluídas do ocidente.

força política. A partir da sua criação a mesma foi reconhecida e chamada por seus componentes e
opositores de “o Partido Abolicionista”. Desta forma, a noção de força política cede espaço para a
concepção partidária, mesmo que não oficial. Ver, Op. cit. BERSTEIN, 2003. Pp. 60-62.
416
A partir deste ponto, apenas me referirei à Confederação e não mais às posturas dos intelectuais que a
formavam de forma individualizada. Pois, por entender que, quando cada membro escrevia algum texto
ou proferia algum discurso em nome da Confederação, ou, a partir de um local caracterizado por ser o
meio de divulgação de ideias e projetos pelo qual a Confederação se expressava – em específico os
jornais Gazeta da Tarde e Cidade do Rio -, estava expressando a opinião de todo o grupo.
417
A reforma política será analisada de forma esquemática por entendermos ser ela um dos pontos centrais
do projeto de nação da Confederação, porém, a análise se concentrará na reforma agrária e a organização
do trabalho e no ensino primário, por entendermos que estas propostas eram mais direcionadas
efetivamente à inserção de libertos na sociedade brasileira.
418
Op. cit. Gazeta da Tarde de 18 e 26 de maio de 1883; Gazeta da Tarde de 17 de dezembro de 1883; e
Jornal Cidade do Rio, 12 de novembro de 1888.
419
RIOS, & MATTOS, 2005. Pp. 50.
420
Op, Cit. Gazeta da Tarde, 22 de junho de 1884.
103

Como apresentado por Nabuco ao entender que o excesso do funcionalismo


público e o consequente gasto excessivo do erário com os seus funcionários administrativos era
uma consequência direta da escravidão, pois, não deixava outra alternativa para as gerações de
intelectuais desde os anos 1870 a não ser ingressar na vida pública421.

Enfim, o sistema político e social seletivo que obstava a entrada nos círculos
decisórios da Corte e igualmente dificultava a capacidade de manter um padrão de vida
economicamente aceitável para a grande parte da intelectualidade brasileira funcionaram como
sinalizadores da crise institucional imperial, que por sua vez, só seria solucionada com o fim da
escravidão e outras reformas políticas e administrativas422.

A oposição escravista denunciava a estratégia dos intelectuais confederados


acusando-os de planejar os seus projetos e executar as suas ações de forma oculta, sem a
divulgação para o público em geral423. Dessa forma, incitava a sociedade a desconfiar dos
candidatos escolhidos bem como dos propósitos dos mesmos, até porque, o Diário do Brazil
apresentava a Confederação Abolicionista como a liderança do movimento abolicionista424.

Logo, os debates entre intelectuaissobre os projetos de nação para o Império do


Brasil, ou seja, àqueles que estavam embasados em argumentos ou noções cientificistas,
tornaram-se recorrentes ao longo dos anos 1880. Em específico, aqueles difundidos pela Gazeta
da Tarde - enquanto interlocutora dos princípios e projetos da Confederação Abolicionista entre
1883 e setembro de 1887 -, acerca da abolição da escravidão, encontraram de tempos em
tempos ferrenhos opositores, como o francês Le MessagerduBrèsil.

Os intelectuais – e políticos - da Confederação, reunidos na Gazeta da Tarde


fazem do periódico o seu púlpito para discursar à nação e sempre que possível criticavam as
ideias e projetos escravistas ou emancipacionistas. Esse método de ação deixava claro que a
associação política entre estes abolicionistas estava de tal modoorganizado que permitia a ação
política partidária sem ser um partido político oficial425.A açãodiscursiva dos intelectuais
através do jornal fazia parte da estratégia para dar visibilidadeao projeto político da
Confederação e do Partido.Consequentemente, os projetos rivais e antagônicos plasmavam na
esfera intelectual os embates das ruas e do parlamento contra eles.

Caso exemplara ocorreu quando oeditorial da Gazeta da Tarde do dia 10 de


dezembro de 1883, denominadoOs Prudentes, voltou-se contra um editorial do jornal
MessagerduBrèsil. De forma irônica, o autor do artigo – o redator chefe da folha era Luiz de
Andrade, mas, também exerciam a função de redatores Júlio de Lemos e Gonzaga Duque
Estrada, fato este que não nos permite identificar se a autoria do mesmo foi coletiva ou de um
dos três possíveis intelectuais426 - inicia o seu discurso dizendo que (...) Ainda desta vez os

421
Para tal perspectiva, ver Op. Cit. ALONSO, 2002. Pp. 76-95.
422
Idem.
423
Op. Cit. Diário do Brazil, 08 de agosto de 1884.
424
Idem.; e Diário do Brazil, 18 de junho de 1884.
425
Op. Cit. MALATESTA, 2012. Malatesta destaca que a luta política se faz também e principalmente
fora dos órgãos e instituições oficiais,ou seja, não seria apenas o parlamento responsável pelas ações e
decisões referentes ao futuro político do país.
426
Gazeta da Tarde, 14 de maio de 1883.
104

amigos do MessagerduBrésil não se dignam responder aos nossos argumentos sobre a


conveniência da emancipação imediata(...)427.

E prossegue elencando contradições nos argumentos e posicionamentos do


jornal franco-brasileiro em sua defesa de um processo lento e planejado de abolição. Diante
desta perspectiva, a argumentação é contundente.

(...)Quanto a julgar a emancipação uma


consequência de outras medidas e não o
princípio da reforma de que carece o país,
ainda o Messager dá emfalso, porque lhe
perguntaremos se se não recorda do que
escrevemos:“nãoserão um preparativo os 12
anos e tanto da Lei Rio Branco, a propaganda
abolicionista tão forte nos últimos 4 anos e
ainda outros fatos que nos vêm à memória?”A
nossa ideia é que depois de tantas leis
temperadas, que têm preparado o terreno, venha
afinal a decisiva resoluçãodo problema...428

As bases do discurso dos intelectuais da Confederação visavam minar a


argumentação de que a abolição imediata seria uma posição abrupta e radical, demonstrando a
incoerência de tal análise ao mostrar que ao menos já havia mais de 12 anos que tal processo
havia se iniciado. Mas, a retórica do discurso questionava os apontamentos do Messager que
aparentemente não são escravistas, mas sim emancipacionistas. A cultura política permitia que
as disputas do campo político ocorressem principalmente nos espaços públicos, fosse ele o
jornal ou a rua429.

E assim seguia.

(...) Já vê o Messager que deu em falso na sua


resposta, abandonando o essenciais da
argumentação e trazendo coisas novas e
infelizespara a discussão. O lugar comum de
“ser reacionário de alguém”,tão citado no
Figaro, ainda nos vem provar mais quanto
oMessager está mudado e prudente. No Brasil
é muito triste ter esse lugar, porque,
infelizmente, asideias correntes em outros
países nem tem órgãos de publicidade, nem

427
Gazeta da Tarde, 10 de dezembro de 1883.
428
Idem.
429
Op. Cit. MARZANO, 2007. Pp. 381-382. Marzano destaca as ações de rua e na imprensa do ator,
teatrólogo e abolicionista confederado, Vasques. É importante identificar como no caso de tantos outros
abolicionistas – intelectuais - radicais da Confederação que as suas ações discursivas refletiam e vice-
versa as suas ações nas ruas concernentes ao movimento abolicionista. Ver, Op. Cit. DUQUE-
ESTRADA, 2005.; e Op. Cit. MORAES, 1924.
105

aparecem senão a medo. Na questão política


não é glória pra ninguém – principalmente se
aspira ser adiantado -, considerar-se nosso
reacionário.(...)Em vez de nos ajudar com as
grandesinspirações da sua pátria, nós, tê-lo-
emos como um retrógrado, e tentaremos de
inutilizar a sua perniciosa propaganda430.

Reacionário, atrasado, incoerente, perniciosa propaganda, além de tergiversar o


assunto, foram as críticas feitas para desqualificar os argumentos do seu opositor. Alinhada com
o cosmopolitismo e cientificismo europeu – principalmente francês431 -, os intelectuais da
Gazeta da Tarde – em sua grande maioria liberais democráticos e republicanos cientificistas432 –
procuravam desqualificar qualquer ameaça ao seu projeto político.

Por sua vez, o periódico francês respondeu às criticas no seu editorial do dia 13
do mesmo mês. Mas, antes, veremos o início deste debate, o motivo que levou os editores da
Gazeta da Tarde a publicarem o artigo OsPrudentes433. No Messager do dia 09 de dezembro de
1883, o seu editorial estampava o título L’ emancipationbrusque. Nele, o autor do discurso diz
entre outras coisas queNous n'avonspaspeur de larévollutionenellememê;434

Porém, explicava que as revoltas liberais ocorridas durante o período regencial e


início do Segundo Reinado fortaleceram o país. E pondera,
430
Ibidem.
431
Esta perspectiva é apresentada por, CARELLI, Mario. Culturas cruzadas: intercâmbios culturais entre
França e Brasil. Campinas- SP: Papirus, 1994. Pp. 125-159; e Op. Cit. BOSI, 1992. Pp. 273-305. Apesar
de Bosi identificar a relevância de uma nova abordagem liberal no Brasil no processo de crise do Segundo
Reinado por intermédio dos discursos e ações de Joaquim Nabuco, o autor entende que a capilaridade do
positivismo como matriz cientificista voltada para a intervenção social e política teve uma abrangência
maior no movimento intelectual brasileiro de fins do Império.
432
Adoto aqui a perspectiva ideológica destes intelectuais para melhor defini-los em relação às suas bases
argumentativas, tendo como referência a tipologia apresentada por Angela Alonso. Ver, Op. Cit,
ALONSO, 2002. Pp. 104-119 e 127-133. Para ver outra análise sobre cientificismo relacionado às
transformações socioeconômicas no Império, DOMINGUES, Heloísa Maria Bertol. O Jardim Botânico
do Rio de Janeiro.: In- Espaços da ciência no Brasil. (org.) DANTES, Maria Amélia M. Rio de Janeiro:
Fiocruz, 2001. Pp. 27-51; ELDER, Flávio Coelho. & FERREIRA, Luiz Otávio. & FONSECA, Maria
Rachel Fróes da. A faculdade de medicina do Rio de Janeiro no século XIX: a organização institucional e
os modelos de ensino. : In- Espaços da ciência no Brasil. (org.) DANTES, Maria Amélia M. Rio de
Janeiro: Fiocruz, 2001. Pp. 59-75.; FIGUERÔA, Silvia Fernanda de Mendonça. O cientificismo e a
ampliação dos espaços institucionais (1870-1905).: In - As ciências geológicas no Brasil: uma história
social e institucional, 1875-1934. São Paulo: Hucitec, 1997. Pp. 103-171. O cientificismo seria o conjunto
de práticas e teorias científicas adotadas em uma perspectiva cada vez mais expansiva no meio intelectual
brasileiro proporcionando igualmente a criação de espaços voltados para a consecução dessas práticas.
Além disso, o cientificismo caracterizou-se pelo crescente rigor e especialização profissional no país e
adquiriu uma centralidade na explicação e diagnóstico dos problemas sociais, bem como a resolução dos
mesmos.
FERREIRA, Luiz Otávio. Os politécnicos: ciência e reorganização social segundo o pensamento
positivista da Escola Politécnica do Rio de Janeiro (1862-1922). Dissertação de mestrado. Rio de Janeiro:
UFRJ, maio de 1989. Pp. 2-52.; e FERREIRA, Luiz Otávio. O ethos positivista e a institucionalização da
ciência no Brasil no início do século XIX. Fênix - Revista de História e Estudos Culturais, vol. 4, ano IV,
nº 3, julho/agosto/setembro.2007. Para Luiz Otávio Ferreira, o positivismo cristalizou os diferentes
espectros do cientificismo no Brasil no século XIX.
433
Op. Cit. Gazeta da Tarde, 10 de dezembro de 1883.
434
Le MessagerduBrésil, 09 de dezembro de 1883. Não temos medo da revolução em si mesmo;
106

(...)Nouscroyons que cegrandpays si plein de


ressources et d'avenirauraitgagné, et
beaucoupgagné, à avoir, danslaprémierepartie
de sonexistencenationale une série de
revolutions(...) nousavonslacertitude que
cesrevolutionsauraient fait
depuislongtempslasupression de l'esclavage,
lasuppression da religiond'etat , et lesgrand
mesures de peuplementquisont encore
nécessaires435.

prosseguindo com seu elogio ao passado marcado pelas disputas e revoluções políticas do país,
que foram, contudo, resolvidas com acordos graças ao espírito conciliador de progresso do povo
brasileiro que pouco a pouco formou a sua nação. Mas, por fim, destaca que a revolução atual
que os abolicionistas estão pondo em curso no país não é oportuna, pois, (...)nousamènent à
considerér une rvolutionactuelle une catástrofe. Considerar as revoluções passadas positivas e
as atuais uma catástrofe era o ponto principal que os intelectuais da Confederação Abolicionista
apontavam como incoerente no discurso do Messager,e, portanto, o considerava reacionário.

Mas, o artigo prossegue com a citação das revoluções sociais e políticas pelas
quais passou a França de 1789 até a Comuna de 1870, destacando por fim, que as mesmas não
promoveram a igualdade de fato e a redistribuição da riqueza da nação. Ou seja, segundo o
jornal franco-brasileiro, as revoluções não seriam garantias de melhorias de vida para as classes
populares.

Encontramos aí a propaganda perniciosa referida pela Gazeta da Tarde do dia


10 de dezembro. O Messager, por sua vez, passou a reproduzir vários artigos se colocando
diretamente em oposição ao abolicionismo defendido pelos intelectuais da Gazeta,
consequentemente, contra o projeto de abolição da Confederação Abolicionista.

Assim, nos dia 13 e 16 de dezembro, o Messager apresentou em seu editorial


artigos sobre imigração e emancipação gradual da escravidão, bendizendo as iniciativas,
práticas e projetos dos clubes da lavoura do sudeste436. Porém, o embate entre as duas vertentes
de intelectuaisparece ter chegado a um termo no início de janeiro de 1884.

No editorial da Gazeta da Tarde do dia 10 de janeiro intitulado Os interesses do


Paiz437, foi transcrito um trecho do editorial do Messager em que agradece a alcunha de “aliados
naturais”. O artigo segue com destaque de pontos de concordância sobre a necessidade da
imigração para o Brasil, porém, continua a afirmar que a abolição deve ser feita imediatamente.
Dessa forma, é encerrado parcialmente o embate entre duas vertentes da abolição da escravidão

435
Idem. Acreditamos que seu imenso país é pleno de recursos para o futuro porque ganhou, e ganhou
muito, por ter, na primeira parte de sua existência nacional uma série de revoluções ... estamos confiantes
de que estas revoluções teria feito há muito tempo a supressão da escravidão, a abolição da de religião do
Estado, e as grandes medidas de população que ainda são necessários.
436
Le MessagerduBrésil, 13 e 16 de dezembro de 1883 .
437
Gazeta da Tarde, 10 de janeiro de 1884.
107

em que a última palavra converge para uma possível aliança, a partir, de um convencimento das
necessidades urgentes do país.

O Diário do Brazil – enquanto defensor da grande propriedade e do escravismo


– representou um dos maiores algozes da Confederação Abolicionista e do abolicionismo
radical, principalmente pela capacidade de mobilização políticaexercida pela Confederação
Abolicionista junto ao movimento abolicionista. O Diário reconheciaa liderança e coordenação
no movimento social e político do abolicionismo, através das ações políticas da Confederação, e
se colocava diversas vezes como locus de defesa e argumentação dos clubes da lavoura e
fazendeiros favoráveis à escravidão.

Se o Messager representou por um determinado momento um obstáculo ao


projeto radical da Confederação por defender a abolição gradual – o emancipacionismo -,o
Diário do Brazil e o Novidades representaram a ala escravista radical na Corte, frequentemente
publicando artigos, manifestos e discursos parlamentares defendendo a escravidão e criticando o
abolicionismo.

Representavam assim, um dos maiores adversários políticos por serem


frontalmente opositores das ideias e práticas abolicionistas adotadas pela Confederação. É nesse
contexto que édestacado com extrema insatisfação pelos editoriais do Diário do Brazil de 08 e
27 de agosto de 1884 as ações desenvolvidas pela CA.

Compreendendo os abolicionistas a
inconveniência de apresentar publicamente os
nomes de seus candidatos na próxima eleição
de senador, entenderam ser mais acertado
organizar uma chapa secreta...A confederação
abolicionista veio denunciar a existência dos
seus candidatos secretos, e o país ver-se-á em
frente de mascarados no dia da eleição. (...) Ai
vai o manifesto negro: Aos senhores eleitores!
A ConfederaçãoAbolicionista reunida ontem
em sessão especialtomou a deliberação de
aconselhar por aviso(secreto) que dirigiu a
todas as diretorias (diretórios) das sociedades
confederadas, o modo (capcioso e clappínico)
de proceder de todos os senhores eleitores
abolicionistas, filiados às referidas sociedades,
na próxima eleiçãosenatorial. O srs. eleitores,
que não fazem parte (por certa decência) da
confederação (nagô-macamba- malunga) dos
abolicionistas, e que desejarem acompanha-la...
podem procurar os cartões em casa do seu
presidente (quem é?), nasbaiucas dos seguintes
cateretês....438

438
Op. Cit. Diário do Brazil, 08 de agosto de 1884.
108

eelenca de forma pejorativa os clubes abolicionistas da Corte, associados à Confederação


Abolicionista, como Club dos libertos contra a escravidão (Morro do Nheco), Club
Abolicionista 7 de novembro (Ladeira do Escorrega), Sociedade Brazileira Contra a
Escravidão (Beco da Preguiça), entre outros.

Dias depois, no dia 27 do mesmo mês, estampava o editorial do Diário:

Já se conhece o resultado da eleição de 17


corrente. (...) Não se pode ocultar que essa
eleição exprime sobretudo a nulidade do grupo
abolicionista;(...) O candidato, puro e genuíno,
dos abolicionistas...foi o honrado e venerando
sr. General Rohan...Além dele, a Confederação
Abolicionista incluiu na sua chapa os srs.
Andrade Pinto e Bezerra de Menezes439.

Os adversários políticos da Confederação reconheciam a sua força e


importância dentro do campo político. A retórica irônica votada para o descrédito e o ataque
moralà CA, tendo em vista as suas práticas políticas, endossam o contexto conflituoso do campo
político e intelectual dos anos 1880 em relação à escravidão. Por outro lado, percebemos a rede
de sociabilidades articuladado abolicionismo radical desmentindo a sua fama de acéfalo e
desordenado440.

Tanto nas ruas quanto no parlamento a política abolicionista passou a ser


coordenada, organizada e liderada pela Confederação Abolicionista. Esta constatação era feita
pelos seus opositores e mesmo nas páginas da Gazeta da Tarde, em que aconselhava aos
abolicionistas a nãocomprometerem seu voto até que o partido publique os nomes de seus
candidatos na próxima eleição de senadores e deputados441.

Por outro lado, podemos perceber também a relação entre republicanismo e


abolicionismo. A historiografia sobre o que se convencionou chamar de crise do Império ou
Segundo Reinado e o republicanismo no Brasilenfatiza a omissão dos republicanos em relação à
abolição da escravidão442. Apontamos para a estreita relação entre republicanos e o Partido

439
Diário do Brazil, 27 de agosto de 1884.
440
Outro caso emblemático foi a indicação da Confederação Abolicionista aos eleitores do município
neutro a votarem no advogado da instituição o dr. Sizenando Nabuco para o cargo de vereador.
Assinaram este documento João Clapp, Luiz de Andrade, André Rebouças, Alberto Victor, José do
Patrocínio e Jernymo Simões. Ver, Gazeta da Tarde, 26 de janeiro de 1887.
Fica evidente a pretensão de direcionamento do campo político pela CA endossando uma perspectiva
social e política nacional consonante com o seu projeto abolicionista, caracterizado por uma reforma
social e política.
441
Gazeta da Tarde, 20 de junho de 1884. Ao longo do próximo capítulo destacaremos as ações de ruas,
embates políticos nas ruas e práticas adotadas pela CA.
442
Esta abordagem baseia-se na resolução do Partido Republicano em que a escravidão era uma instituição
imperial e portanto, era assunto dos partidos imperiais, deixando a cargo de cada um dos seus
componentes uma postura autônoma em relação a escravidão. Ver, Op. cit. COSTA, 1999. Pp. 479-480; e
Op. Cit. SCHWARCZ, 1987. Pp. 72-84.
109

Abolicionista – Confederação Abolicionista443 -, porém, é importante destacar que havia


diferentes vertentes e projetos de República, que por sua vez, findada a escravidão se apartaram
dos projetos e ideais abolicionistas444.

O desgaste entre o partido republicano e o partido abolicionista se dá desde o


início dos anos 1880, mas encontra o seu ápice entre o fim de 1887 e início de 1888445. A partir
daí, entendemos que se forma uma disputa no campo político entre republicanos. De um lado os
republicanos abolicionistas apoiados por monarquistas – liberais e conservadores que estiveram
nas fileiras do Partido Abolicionista – e do outro os republicanos doutrinários446.

Essa disputa do campo cindiu o projeto de nação dos republicanos da Corte, já


que a ênfase republicana dos confederados recaia sobre as transformações advindas a partir da
abolição da escravidão como pré-condição para a instauração de um regime político
republicano, ao passo que o projeto republicano doutrinário não incorporava a abolição e as
reformas sociais necessárias com o fim da escravidão como pontos importantes447.

José do Patrocínio e João Clapp representaram as ideias da Confederação e das


resoluções do Partido Abolicionista, do lado republicano doutrinário, as críticas e defesas
vinham de nomes como Saldanha Marinho, Quintino Bocaiúva e Martinho Prado Junior - e do
jornal A Província de São Paulo448. Veremos com mais vagar essa querela.

Em setembro de 1884 a Gazeta da Tarde publicou em seu editorial o título A


República e a Abolição449. O editorial criticava a postura dos republicanos de não se
comprometerem com o movimento abolicionista. No jornal foi reproduzida uma carta de
Saldanha Marinho endereçada à Aristides Lobo – um dos republicanos articuladores e diretor da
Confederação Abolicionista –, reproduzida pelo jornal A Província de S. Paulo, e um artigo
escrito por Martinho Prado Junior, no mesmo jornal. Ambos esclareciam que o compromisso do
Partido Republicano era com a transformação do regime político e não com o fim da abolição,

443
Além da participação de republicanos na CA como Aristides Lobo, Rui Barbosa e Quintino Bocaiuva,
dentre tantos outros, destacamos também o fato simbólico de ser reproduzida a marselhesa em algumas
festividades organizadas pela CA. Ver por exemplo, Gazeta da Tarde, 07 de fevereiro de 1887.
444
CARVALHO, José Murilo de. A Formação das almas: o imaginário da República no Brasil. São
Paulo: Companhia das Letras, 1990. Pp. 18-54.José Murilo de Carvalho aponta para três grandes projetos
republicanos em disputa no final do século XIX, eram eles: o positivista, o americanista e o jacobinista.
Op. cit. ALONSO, 2002. Pp. 105-158. Angela Alonso destaca a existência de uma ampla gama de
republicanos e identifica-os como liberais republicanos – Patrocínio e Lopes Trovão -, positivistas
abolicionistas – Teixeira Mendes e Miguel Lemos -, federalistas científicos paulistas e federalistas
científicos gaúchos. Fica evidente a profusão de ideias e concepções cambiantes no campo político, social
e intelectual brasileiro de fins do século XIX. Até aqui temos nos deparado uma polissemia em relação a
abolição da escravidão, partido abolicionista e república. Entendemos que esta polivalência semântica
estava relacionada com as disputas dos específicos campos em que estes sujeitos se encontravam. Ao
resignificar fatos, noções, ideias e conceitos estavam demarcando os seus projetos e aspirações em
detrimento de outros.
445
Dentre os casos mais emblemáticos destacam-se a querela entre Nabuco e Quintino e Patrocínio com o
Partido Republicano. Ver respectivamente, O Paiz, 19 de julho de 1888; Cidade do Rio, 23 e 30 de
setembro de 1888.
446
Adoto este termo por entender que este grupo privilegiou o programa político republicano atendo-se a
suas doutrina partidária lançada em 1870 com o Manifesto do Partido Republicano.
447
Gazeta da Tarde, 5 de setembro de 1884.; e Cidade do Rio, 5 de maio de 1888. Op. cit. SCHWARCZ,
1987. Pp. 72-84.
448
Idem.
449
Op. cit. Gazeta da Tarde, 5 de setembro de 1884.
110

mesmo considerando-se abolicionista entendiam que tal incumbência cabia aos monarquistas e
ao imperador450.

Vemos desta forma que as disputas travadas no campo político pela


Confederação enquanto partido abolicionista englobavam inclusive os prováveis aliados. A
Confederação que tinha em seus quadros ilustres republicanos também recebia críticas de uma
das alas do Partido Republicano do Brasil.

Quando saiu o resultado das eleições para a câmara dos deputados em abril de
1888 Patrocínio redigiu no editorial do Cidade do Rio um dos textos mais emblemáticos tanto
das ações políticas engendradas pelo movimento abolicionista liderado pela Confederação como
a situação conflituosa entre os republicanos abolicionistas e os republicanos doutrinários.
Escrevendo sob o pseudônimo Proudhomme, regozijava-se da vitória alcançada por Ferreira
Viana – ministro da justiça pelo Partido Conservador – que obtivera apoio da Confederação
Abolicionista por ter se comprometido com o fim imediato da escravidão451.

Patrocínio explicava que apesar da participação de Quintino Bocaiúva no pleito


ser um sinal favorável da presença de abolicionistas na disputa, não poderia ter apoiado a
candidatura do ilustre republicano abolicionista que por diversas vezes representou a
Confederação, pois, a proposta que Quintino representava naquele momento não atendia aos
princípios do Partido Abolicionista452.

Desta forma, Patrocínio não somente explica o motivo da cisão com o Partido
Republicano, mas também clarifica os diversos momentos em que a Confederação Abolicionista
declarou apoio a outras candidaturas pelo simples fato de estarem alinhadas com a perspectiva
do Partido453.

A resposta dos republicanos não tardou.Desta vez, por intermédio da Gazeta de


Campinas e reproduzido pela Gazeta Nacional, limitou-se a rebater as criticas de Patrocínio
transferindo para ele a incoerência de ter se filiado ao Partido Republicano após a resolução do
partido sobre o elemento servil. Dessa forma alegavam que o próprio Patrocínio estava em
contradição já que ingressara no partido republicano num momento em que o mesmo não se
posicionara oficialmente a respeito da abolição, e no período em questão – 1888 –, os
republicanos estavam engajados no movimento abolicionista454.

Em outras palavras, os republicanos paulistas – da Corte também, pois, o jornal


Gazeta de Nacional também ficou contra a postura de Patrocínio – alegavam que a crítica estava
desprovida de sentido e a incoerência seria de Patrocínio que ao invés de apoiar um republicano
abolicionista – já que ele era republicano – preferiu apoiar um monarquista abolicionista.

As críticas ao apoio político de Patrocínio e da Confederação à Ferreira Viana


em oposição a Quintino Bocaiúva se prolongaram com a sua saída do Partido Republicano.

450
Idem.; e Ibidem, SCHWARCZ. Pp. 81-82.
451
Cidade do Rio, 23 de abril de 1888.
452
Idem.
453
Ver também o editorial da Cidade do Rio, 16 de junho de 1888, sob o título Republiquistas.
454
Apud. Gazeta Nacional, 11 de maio de 1888.
111

Patrocínio passou a ser descrito por seus antigos correligionários como instável e interessado
apenas na causa da abolição, além de ser pouco engajado no movimento republicano455.

Mas, o que nos chama atenção é justamente o motivo que Patrocínio alegara
para a sua saída do Partido Republicano, ou seja, a falta de interesse do partido em efetuar
reformas necessárias para a inclusão dos libertos na sociedade brasileira ou se possível a
transformação da estrutura socioeconômica com o fim de reorganizar a nação de forma a incluir
os negros libertos com os mesmos direitos que qualquer cidadão.

(...)o seu esforço de lutador nunca teve outro


campo de ação a não ser a questão dos escravos.
Agora, que a questão está vencida, esperamos
que pusesse o seu talento, a sua tenacidade, as
suas notáveis qualidades de agitador ao serviço
da ideia republicana456.

A ideia de que com o fim da escravidão estaria resolvido o problema social


brasileiro era justamente o ponto central da crítica da Confederação Abolicionista. No texto
editorial do periódico republicano da Corte fica evidenciado que o problema da escravidão fora
resolvido com a abolição e nada mais havia o que fazer neste âmbito, por isso, não entendiam
porque Patrocínio e outros confederados457 romperam com o partido alegando inclusive
incompatibilidade com os recém filiados ao partido – escravocratas que passavam a fazer
oposição a monarquia após o fim da escravidão458.

João Clapp – presidente da Confederação Abolicionista – manteve a mesma


conduta de Patrocínio e solicitou o seu desligamento do Partido Republicano Gaúcho alegando
os mesmo motivos que do ilustre confederado por ocasião de seu desligamento do PR459.

A defesa da abolição imediata da escravidão pelos chamados abolicionistas


populares ou radicais destacava que o escravo tinha a completa capacidade de se adaptar a nova
realidade, dispensando assim, um período de adaptação para a liberdade definitiva460. E nessa
linha de ação e pensamento, podemos identificar que um dos motivos da criação da
Confederação Abolicionista - formada por intelectuais de origem social, profissional e de
filiações políticas diversas e tendo em comum a ideia da abolição imediata da escravidão - era a
inserção do Brasil em um modelo de Estado civilizado e moderno, coadunado com o paradigma
do progresso.

Para esses intelectuais, a escravidão era responsável pela degradação física e


moral da nação, além de ser um obstáculo ao desenvolvimento e progresso econômico do país.

455
Gazeta Nacional, 4 de junho de 1888.
456
Op. Cit. Gazeta Nacional, 4 de junho de 1888.
457
Idem. O autor destaca que a Confederação Abolicionista continha um grande número de republicanos
em seus quadros e por isso, estranhava a decisão em apoiar a candidatura de um monarquista ao invés do
abolicionista Quintino Bocaiuva.
458
Idem.
459
Cidade do Rio, 5 de maio de 1888.
460
Gazeta da Tarde, de 17, 19 e 31 de janeiro de 1884 . Sobre as ações da CA, principalmente no tocante
a participação do processo político-eleitoral apresentarei as análises no próximo capítulo.
112

Aliado a estes questionamentos, os intelectuais da Confederação Abolicionista utilizavam como


recurso de retórica argumentos alicerçados na crítica moral à escravidão tentando demonstrar a
ilegalidade da escravidão frente às leis de 1831, 1850 e para alguns escravos a lei de 1871.

Por fim, identificamos que a dinâmica interna da Confederação engendrou uma


constante fluidez no seu corpo formativo. A nossa hipótese é que essa fluidez originava-se da
sua caraterística em forma de rede de sociabilidade, pois, permitia que diversos indivíduos,
imbuídos da perspectiva abolicionista adentrassem em sua composição social. Como
consequência, as dissidências e conflitos foram constantes, inviabilizando principalmente a
continuação de suas ações e projetos com o advento da República.

Se por um lado esta formação em rede permitiu a ação em diversos campos


sociais do Império, essa mesma característica impossibilitou o entendimento a longo prazo entre
os seus componentes. Somando-se a isso, a participação popular e mesmo de libertos em seu
movimento, contribuiu consideravelmente para o esvaziamento de suas pautas, pois, a elite rural
e escravocrata brasileira atuou de diversas formas para anulara as suas ações, fosse através da
imprensa, do parlamento e suas leis e diversos ataques e atentados à vida de abolicionistas e
seus jornais.
113

4. Considerações Finais

Se entre os anos 1830 e 1850 a temática antiescravista no Brasil girou


essencialmente em torno da abolição do tráfico como medida fundamental para o fim da
escravidão, após a promulgação da Lei Eusébio de Queiroz461 as reivindicações voltaram-se
para a emancipação gradual dos escravos e à imigração europeia como fatores essenciais para a
necessária modernização da sociedade e da Economia brasileira.

As propostas emancipacionistas tinham um duplo sentido que representou tanto


a luta escrava pela sua liberdade como um projeto elitista de controle deste processo, além
disso, voltava-se para a adequação do Brasil aos modelos civilizacionais europeu.Esse contexto
engendrou um amplo e crescente debate político e intelectual sobre o processo ideal de abolição
da escravidão para o Brasil e igualmente em que bases econômicas e sociais essa nação se
projetaria. Enfim, uma perspectiva reformista endossou diversos projetos de nação para o Brasil
desde os anos 1860.

Os antiescravistas abandonaram uma postura passiva para outra essencialmente


ativa. Organizaram-se em sociedades emancipacionistas, escreveram libelos e artigos contra
escravidão e por vezes, intervinham na relação senhor-escravo reivindicando a liberdade dos
últimos diante de casos de extrema violência, imoralidade ou de descumprimento de leis.Porém,
a inversão abolicionista alterou o panorama de considerável tranquilidade sobre a questão
escravista no Brasil ao romper com a perspectiva de uma abolição gradual do sistema escravista.
Contudo, dentro do próprio abolicionismo brasileiro havia divergências de ações e pensamentos
se destacando grosso modo duas vertentes: o abolicionismo moderado e o abolicionismo radical.

Os abolicionistas moderados desejavam a imediata abolição da escravidão, mas,


entendiam que esta deveria ser conduzida por uma elite política e intelectual através das
instituições políticas oficiais. Os abolicionistas radicais também defendiam a abolição da
escravidão de forma imediata, porém, não viam apenas nas instituições políticas oficiais a única
forma de se alcançar o fim da escravidão. Era principalmente na imprensa e nas “ações de
rua”462 que estes abolicionistas se destacavam.

A Confederação Abolicionista se enquadra na perspectiva radical em relação a


abolição da escravidão justamente por adotar as “ações de rua” como prática recorrente na sua
luta contra sistema escravista. Porém, houve outras ações da Confederação que nos permite
ampliar o grau de radicalidade desta rede de sociabilidade.

Além da necessidade de extinção imediata da escravidão, os abolicionistas


pleiteavam o acompanhamento de medidas governamentais para que os libertos tivessem
condições e recursos similares aos imigrantes europeus que também deveriam ser trazidos para
o Brasil. Essa perspectiva não excluía o negro da sociedade – nação – brasileira que se projetava
formar como ocorria nos discursos antiescravistas anteriores. A implantação de um amplo

461
Lei responsável pela efetiva extinção do tráfico de escravos intercontinental.
462
Me refiro às manifestações, reuniões, meetings e na promoção de fugas de escravos.
114

projeto de reforma agrária como fator de desenvolvimento econômico e social para os libertos e
o país era único dentro as demais propostas de abolição da escravidão no Brasil.

Dentre as lideranças mais atuantes da CA identificamos José do Patrocínio, Luiz


de Andrade, Domingos Gomes dos Santos, Agostinho dos Reis, Joaquim Nabuco, Ignácio Von
Doelinger, João Clapp, Alberto Victor, Capitão Senna, Tenente Manoel Joaquim Pereira,
Quintino Bocaiúva e Ruy Barbosa, além dos libertos Abel da Trindade e Israel Soares. Desses,
a metade eram negros, fato que sinaliza a importância dada pela Confederação à incorporação
pelo Estado de medidas políticas, sociais e econômicas que favorecessem a autonomia
socioeconômica dos libertos após a abolição.

A participação de libertos na organização do movimento abolicionista


construído pela Confederação é outro elemento importante na identificação tanto do radicalismo
das ações como nos discursos – que plasmaram os projetos dos abolicionistas da CA – da CA
em relação aos seus congêneres antiescravistas. Mas também, nos abre a perspectiva de
ampliação da participação popular em um movimento originado na elite brasileira.

A entrada de libertos no círculo social e político com diversos membros da elite


brasileira – seja intelectual, política ou econômica – é fator determinante na estruturação das
ações das argumentações discursivas do abolicionismo radical.

O ecletismo social que compôs a Confederação permitiu que a nossa atuação se


espraiasse para os diversos campos sociais no Império. A sua participação na política oficial
representou uma interpelação com segmentos antiescravistas dos três diversos partidos políticos
existentes. E por fim, acabou por contribuir para a organização de um partido dentro dos
partidos que tinham a proposta da abolição como ponto em comum, sendo chamado de Partido
Abolicionista.

Contudo, a materialização do Partido Abolicionista não foi suficiente para


mobilizar os seus componentes em torno dos projetos essenciais defendidos pela CA – reforma
agrária, universalização do ensino e reforma político-administrativa -, e tão logo foi extinta
escravidão, a sua coesão se desfez.

Entendemos que essa desmobilização não foi responsável pela ausência de


medidas e projetos que possibilitasse aos libertos terem uma vida melhor com o fim da
escravidão por três motivos. O primeiro se refere ao pequeno número de parlamentares
vinculados ao Partido Abolicionista. A sua força dentro do parlamento não era suficiente para
fazer passar seus projetos de lei. O segundo se refere a exiguidade na renovação e ampliação
dos parlamentares alinhados com o Partido Abolicionista. Como exemplo, a morte do senador
José Bonifácio, o moço, em 1886 foi lamentada por toda CA e o Partido Abolicionista, e em seu
lugar, não sucedeu outro parlamentar alinhado ao abolicionismo da CA. Ou seja, a base
abolicionista que sustentava a CA não tinha a sua entrada facilitada nos órgãos e instituições
políticas oficiais do Império.

Por fim, a cisão entre republicanos da Confederação e seus correligionários a


ela desvinculados foi outro fator que obstou a adoção dos projetos abolicionistas no pós-
abolição, sobretudo, com o advento da República, pouco mais de um ano após a Abolição.

Como instituição formada por uma rede de sociabilidade nacional e com


relações internacionais, a Confederação Abolicionista congregou uma plêiade de políticos,
115

intelectuais, operários, libertos, escravos, comerciantes e militares, entre outros, que exerceram
uma relevante ação no processo de desintegração da escravidão no Brasil. Principalmente por
terem enfatizado em seus discursos e ações a necessidade da realização de medidas estruturais
no país que convergissem para uma democratização de oportunidades e direitos para todas as
classes.

4. Fontes

IBGE: Memória. Extraído de <http://memoria.ibge.gov.br/sinteses-historicas/historicos-dos-


censos/censos-demograficos>. Acessado em 21/03/2015.

GODOY, Marcelo Magalhães & PAIVA, Clotilde A. & RODARTE, Mario Marcos S. &
SANTOS, Douglas. Publicação crítica do Recenseamento Geral do Império do Brasil de 1872
Minas Gerais, UFMG, Núcleo de pesquisa em História Econômica e Demográfica, Relatório
provisório, 2012. Pp. 77.

NABUCO, Joaquim. O eclipse do abolicionismo. Rio de Janeiro: Tipografia G. Leuzinger&


filhos, 1886.

________________. Minha Formação. Brasília: Senado Federal: 2004.

________________.O Abolicionismo. 4ª ed.Petrópolis, Vozes, 2012.

Biblioteca do Senado Federal:

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