Você está na página 1de 8

00

01
O papel da pesquisa no ensino médio
politécnico

Paulo José Menegasso

10.37885/210604899
RESUMO

Busca-se um novo enfoque ao Ensino Médio, que parece não cumprir o papel de pre-
paração do estudante para a graduação e nem mesmo para o exercício da cidadania.
Com objetivo de apresentar alternativas, este trabalho analisa o processo de ensino
politécnico numa escola pública. A fundamentação dessa proposta está apoiada no
educar pela pesquisa que tem como objetivo incentivar o questionamento dentro de um
processo de reconstrução de conhecimento. Segundo Moraes (2002) esse processo pode
ser entendido como a produção de um conhecimento inovador que inclui interpretação
própria, formulação pessoal, saber pensar e aprender a aprender. No Colégio Estadual
Dom João Becker existe, desde 2006, uma experiência com enfoque em competências
e habilidades integrando diversas áreas de conhecimentos e suas tecnologias, com os
eixos Cultura, Ciência, Tecnologia e Trabalho. Utilizando-se essa experiência, há atual-
mente um processo de construção de projetos de pesquisa em cinco turmas de primeiro
ano do Ensino Médio diurno envolvendo cerca de cento e sessenta alunos. A atividade
está centrada no aluno, onde de forma individual ou em duplas estão elaborando passo
a passo a construção de projetos em temas por eles definidos e constantes em quatro
eixos previstos do programa proposto pela Secretaria da Educação do RS. A orienta-
ção docente ocorre em turno inverso, e pela internet utilizando-se das novas mídias e
redes. Os docentes em ações multidisciplinares orientam diversos grupos de alunos
extrapolando os limites de aula, de assunto, e de atividade. Um grande movimento cul-
tural e uma quebra de paradigma das atividades do Ensino Médio parecem indicar como
uma importante atividade na construção de novos saberes elevando o nível cultural dos
alunos do primeiro ano do Ensino Médio no campo da ciência e tecnologia. Segundo
Demo (1997) a pesquisa assume importante papel nesta etapa da educação tornando-se
uma maneira própria de aprender. O aluno passa de objeto do ensino para parceiro de
trabalho, assumindo-se sujeito do processo de aprender, tornando-se um sujeito ativo e
autônomo para criar, construir e articular informações com os conhecimentos já adquiridos
na busca de soluções para suas inquietações. Finalmente, observa-se que na medida em
que os alunos realizam as atividades de pesquisa, tornam-se mais participativos, mais
presente nas aulas e se tornam mais dedicados à leitura e escrita elevando o seu nível
cultural onde o centro do processo está no aluno, a escola e os docentes são promotores
e orientadores do processo.

Palavras-chave: Ensino Politécnico, Educação, Pesquisa.


INTRODUÇÃO

O presente trabalho analisa o processo e as atividades desenvolvidas durante o pe-


ríodo letivo de 2012, no Colégio Estadual Dom João Becker acerca do modelo de ensino
politécnico. A fundamentação dessa proposta está apoiada no educar pela pesquisa que
tem como objetivo incentivar o questionamento dentro de um processo de reconstrução
de conhecimento.
Segundo Moraes (2002) esse processo pode ser entendido como a produção de um
conhecimento inovador que inclui interpretação própria, formulação pessoal, saber pensar
e aprender a aprender. Nesse colégio existe, desde 2006 uma experiência com enfoque em
competências e habilidades integrando diversas áreas de conhecimentos e suas tecnologias,
com os eixos Cultura, Ciência, Tecnologia e Trabalho. Utilizando-se essa experiência, rea-
lizou-se um processo de construção de projetos de pesquisa em cinco turmas de primeiro
ano do Ensino Médio diurno envolvendo cerca de cento e sessenta alunos, organizados em
65 grupos e cada grupo num único projeto de pesquisa. As atividades de orientação foram
em sala de aula, e em turno inverso com dois períodos semanais e pela utilização das mí-
dias sociais. Tem sido de grande aprendizado para ambos uma vez que esta atividade foi
planejada para ser desenvolvida durante o ano letivo de 2012.
Concordamos com Galiazzi (2004) ao afirmar que o desenvolvimento da pesquisa em
sala de aula em grupo com alunos sempre envolve questionamento, argumentação e vali-
dação. A sala de aula em grupos tem mostrado ser um espaço profícuo de enriquecimento
das teorias sobre os processos, sempre complexos, de ensino e aprendizagem presentes em
sala de aula e, dessa forma, contribui para a consolidação de um conhecimento profissional
mais enriquecido e fundamentado em cada um dos participantes.
A educação deve levar o jovem a ser um ser pensante, capaz de ponderar, observar va-
lores e agir com autonomia e responsabilidade. Enfim, deve libertar a pessoa (FREIRE, 1972).
O processo inicialmente, além do planejamento de todas as etapas, se constituiu de
um processo de formação e discussão pelos docentes autores desse artigo e que semanal-
mente se reuniram com os alunos para orientação e coordenação.
Para reflexão e suporte teórico dos docentes no processo oportunizou-se pelo coorde-
nador do processo de um resumo de cinco textos subsídios de fundamentação teórica do
processo contendo as perspectivas epistemológicas tradicionais, o empirismo e racionalismo,
o positivismo como doutrina científica, o círculo de Viena, observações epistemológicas de
Gaston Bachelard, síntese do pensamento de Feyerabend, o humanismo e o anarquismo
epistemológico, a estrutura das revoluções científicas de Tomas Khun, síntese de Karl Popper
e o racionalismo crítico.

Leitura de Prova 3
Esses textos foram importantes porque também os docentes se formam com um em-
basamento filosófico do processo ensino aprendizagem que o processo suscitou.

MATERIAIS E MÉTODOS

Os projetos foram planejados para atender a metodologia científica onde os alunos


desenvolvem durante o ano letivo os passos previstos.
Um docente orientou duas turmas e os demais cada um uma turma inclusive no turno
normal e no inverso.
Cada docente ao longo da semana pela internet, em e-mails, e nas redes sociais,
Facebook, Orkut, Twiter e em blogs, orientou seus alunos para a construção de cada pro-
jeto, escrita, reescrita, críticas, reflexões e busca de novas informações, em livros, site, e
entrevistas pessoais em alguns casos.
Todos os projetos foram desenvolvidos pelos alunos e na sua redação final, corrigida.
Apresentadas com abstract na forma de artigo com inglês, espanhol, e português, lidos nas
diversas línguas no dia da apresentação aos pais e comunidade escolar.
Cada projeto foi escrito segundo as normas contendo uma capa, o título, nome dos
autores, local e data do projeto (mês e ano), Introdução (contendo o problema da pesqui-
sa, hipóteses, objetivos e justificativa) (Obs – os objetivos e hipóteses de pesquisa podem
ser apresentados em um item à parte), Revisão da literatura (ou da produção científica já
acumulada sobre o tema), Materiais e métodos (ou Metodologia), Cronograma, Orçamento,
Referências bibliográficas.
A avaliação estava prevista por competências e habilidades, atendendo minimamente
a metodologia científica para projetos de pesquisa semelhantes ao processo na graduação.
No quadro 1, mostrado a seguir, constam as competências e habilidades esperadas
dos discentes após o desenvolvimento do trabalho.

4 Leitura de Prova
Quadro 1. Competências e habilidades pretendidas com a pesquisa

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Para Coll (1994), no ensino-aprendizagem escolar e construção do conhecimento o fio


condutor é a problemática da aprendizagem escolar, vista da perspectiva construtivista como
o resultado de uma interação entre três elementos: o aluno, construtor dos significados; os
conteúdos, objetos de aprendizagem; e o professor, mediador entre ambos.
Quando se questiona se a construção dos projetos de pesquisa como um processo
de iniciação cientifica realizada é um caminho correto para ser seguido e aprimorado na
construção do conhecimento, o registro de um aluno parece indicar nesse sentido:

Considero a de iniciação científica um marco no processo de aprendizagem


na escola onde somos submetidos a buscar algo até então desconhecido,
isso é pesquisa. É viajar no mundo do conhecimento, da leitura de artigos,
revistas, livros, sites, blogs, jornais.

Entende-se que isso não é o bastante, pois para que um aluno-pesquisador tenha êxito
em seus trabalhos é necessário que o mesmo tenha uma base de apoio. Lamenta-se que

Leitura de Prova 5
essa cultura de apoio, compromisso, participação efetiva não foi suficientemente compreen-
dida pela comunidade escolar, e nem se tem conseguido apoio financeiro.
Acredita-se que a proposição de utilizar a pesquisa como um processo de aprendi-
zagem se constitui como um fio condutor que move a curiosidade do aprendiz, para o pro-
cesso de construção do conhecimento, e que independe das disciplinas e dos conteúdos,
mas que se utiliza de informações de todas elas, tornando-se um processo motivador para
o aluno que retoma seus estudos regulares, porque além da descoberta ele se constrói
como cidadão, como ser pensante e proponente de alternativas científicas e tecnológicas
(MENEGASSO, 2011).
A maioria deles menciona que a pesquisa é uma busca de conhecimento, que os motiva
neste processo de fazer ciência, e que se torna mais claro no final de cada semestre quando
apresentam os resultados de seus projetos de pesquisa num seminário e tem se constituído
em um momento de divulgação de ciência na escola.
Numa escola pública, onde muitas vezes não há material para experimentação cien-
tífica, nem apoio para a realização de pesquisas, é uma ousadia dos alunos conseguirem
inovações partindo de seus questionamentos e conhecimento popular adquirido com suas
experiências de vida. Isto é uma demonstração clara de habilidades e competências cons-
truídas durante o processo de aprendizagem.
Aprimorar a iniciação científica através da superação das dificuldades apontadas pelos
alunos e docentes que vivenciaram o processo deve ser nossa meta. Precisamos envolver
os professores na construção de uma cultura de ciência de orientação aos alunos na cons-
trução de projetos de pesquisa.
Neste sentido, a educação pela pesquisa é, de acordo com o pensamento de Demo
(1997, p. 12) uma proposta de:

instrumentalização da cidadania, não dos fins da educação, que permanecem


os mesmos (cidadania, humanismo, afeto e auto-afirmação, visão global do ser
humano). Assim, em termos de instrumentação parece evidente que a cons-
trução do conhecimento é a arma primordial da equalização de oportunidades.

A cultura de ciência através de pesquisa mostrou-se um instrumento motivador que


deve ser aprimorado, pois os alunos se envolvem e adquirem habilidades que os programas
das disciplinas não contemplam. A qualificação de técnicos em química capazes de resol-
ver problemas utilizando os projetos tem sido muito maior que o ensino regular previsto no
programa escolar.

6 Leitura de Prova
CONCLUSÃO

Observou-se que na medida em que os alunos realizam as atividades de pesquisa,


que ocorreram durante todo o ano de 2012, tornaram-se mais participativos, mais presente
nas aulas e se tornaram mais dedicados à leitura e escrita elevando o seu nível cultural
onde o centro do processo está no aluno, a escola e os docentes são promotores e orien-
tadores do processo.
As apresentações dos seminários e as bancas na forma de feira de ciências oportu-
nizou aos alunos uma experiência rica de diálogo, determinação e de grande satisfação
pessoal ao explicar a cada visitante e aos ouvintes a pesquisa, seus resultados e o que tem
aprendido no processo.
Uma das orientadoras prof. Miriam, autora desse artigo diz que a satisfação e a gra-
tidão dos alunos tem sido no valor de dez mil reais por mês, mais que os microscópicos,
salários recebidos, e que nem todos os docentes aproveitaram o processo e o momento
histórico. Outros professores Nei e Vilson manifestam grande satisfação de ver que o pro-
cesso apesar das dificuldades e de que nem todos os alunos participaram ativamente foi
muito positivo. As professoras Rosaeli e Rosane, afirmam que foi um processo difícil mas
muito recompensador, pela dedicação e desempenho do grupo de alunos que levaram até
o final suas pesquisa e que apontaram dados importantes como a redução da reprovação
escolar analisada nos últimos cinco anos.
A supervisora escola Maria Limasil observou que no início do ano letivo quando o
processo foi apresentado aos pais dos alunos havia um certo receio de que os mesmos
não iriam estudar os conteúdos das disciplinas mas que no final o processo mostrou que a
pesquisa alargou os conhecimentos e ampliou a dedicação dos alunos aos estudos e que
os pais ficaram muito orgulhosos de ver seus filhos apresentando seminário e o resultado
das pesquisas à comunidade escolar. O coordenador do processo ponderou que a qualidade
de muitos dos trabalhos apresentados se equivale aos de graduação e que nós docentes
também aprendemos no processo.

REFERÊNCIAS
1. COLL, C. Aprendizagem escolar e construção do conhecimento. Porto Alegre: Artes Mé-
dicas, 1994.

2. DEMO, Pedro, Pesquisa e Construção de Conhecimento. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro


1997.

3. DEMO, Pedro. “Educar pela Pesquisa”. Campinas: Autores Associados, 1997.

Leitura de Prova 7
4. FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia. São Paulo: Paz e Terra, 1972.

5. GALIAZZI, Maria Carmo. A natureza pedagógica da experimentação. Química Nova, v. 27,


nº 2, p. 326-31, 2004.

6. MENEGASSO, Paulo José. Análise de uma proposta de ensino de compostos inorgânicos


e reações químicas, e da pesquisa de iniciação científica no ensino profissionalizante
pós-médio. Dissertação (Mestrado em Programa de Pós-graduação em Educação em Ciên-
cias). Porto Alegre: Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2011.

7. MORAES, Márcia Cristina. Do Ponto de Interrogação ao Ponto: a utilização dos recursos da


internet para o educar pela pesquisa. Porto Alegre: Ed. da Autora, 2002.

8 Leitura de Prova