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A comunicação no espaço público e o overtourism: relatos de incipientes manifestações anti

turistas nas ruas da Cidade do Porto – Portugal

Pedro Mascarenhas de Souza Pinheiro

Resumo

O espaço público é o local de manifestações, discussões, opiniões posicionamentos da cidade. É o


espaço público que constrói o mundo. A partir das noções de espaço público, comunicação e sociedade
de Hannah Arendt e Jürgen Habermas se discute as formas de apropriação destes espaços e o atual
fenômeno do overtourism (o excesso de turistas em uma localidade). Através de observação de
manifestações visuais nas ruas da cidade do Porto observa-se já um descontentamento de locais com a
atividade turística e os problemas alegadamente trazidos por ela.

Espaço público, comunicação e sociedade

Para se comentar sobre o pensamento do filósofo Jürgen Habermas torna-se


fundamental definir dois momentos cruciais de sua trajetória acadêmica. Entre os anos
1960 e 1980, o autor foi influenciado pelo pensamento da Escola de Frankfurt, sendo
considerado um dos herdeiros desta corrente. Trabalhou com Theodor Adorno e seus
escritos, assim como os filósofos da Teoria Crítica, apontavam para uma decadência no
projeto de emancipação propagado pelos iluministas. Via no Esclarecimento não uma
libertação, mas a criação de novas formas de domínio pela racionalidade técnica.

Nos anos de 1980, Habermas revê teses e provoca certa ruptura com o pensamento
frankfurtiano. Neste período formula a teoria da ação comunicativa, publicada em
1981. Passa a ter uma postura otimista sobre a modernidade e a trabalhar com o
paradigma da comunicação, que compreende a sociedade como uma permanente
tensão entre o mundo sistêmico e o mundo da vida.

Publica, neste momento, obras onde se discute a relação espaço público, política,
democracia e direito, nomeadamente Consciência moral e agir comunicativo (1983),
Direito e democracia: entre a facticidade e validade (1997) e A constelação pós-
nacional (2001). Tais trabalhos têm como ponto comum o novo olhar que o autor lança
a partir da concepção de que os sujeitos interagem no espaço público e podem
interferir na realidade social.

Para Habermas a esfera pública, entendida como espaço de disputas discursivas e


argumentativas, cedeu espaço ao modelo determinado pelo mercado, ou seja, um
modelo imposto pela esfera privada. A ideia que permeava a esfera pública, como a
instância de participação, argumentação e deliberação, perdeu-se numa esfera de
controle por parte de grupos privados.

Habermas (1997) afirma que a esfera pública pode ser definida como uma rede que
propicia a comunicação de conteúdos, tomadas de posição e opiniões; é nesta esfera
que os fluxos comunicacionais são filtrados e sintetizados e se condensam em opiniões
públicas enfeixadas em temas específicos. É pela fluidez e dispersão do fluxo
comunicativo que a esfera pública absorve os fluxos que são mais tematizados.

A esfera pública é vista como um espaço importante de discussões e debates das


questões sociais. É na esfera pública que as minorias tentam defender-se da cultura
majoritária, contestando a validade do auto-entendimento coletivo, e se esforçando
para convencer públicos da pertinência de suas reivindicações. É nesse espaço,
possibilitado pela comunicação, que sujeitos vão colocar seus pontos de vista, suas
experiências e perspectivas e tentar convencer os outros da validade de seus
propósitos. “É a arena discursiva, livre, aberta à participação e ao reconhecimento do
outro como igual no direito de uso da palavra, lugar onde as interpretações serão
negociadas comparativamente” (HABERMAS, 1997).

A sociedade civil, conforme Habermas (1997) institucionaliza as questões de interesse


geral, funciona como uma antena sensível aos temas que percorrem a família, o
trabalho, a vida cotidiana dos sujeitos. Ela busca converter as experiências privadas em
apelos políticos válidos e discutíveis na esfera pública. A sociedade civil ocupa um lugar
fundamental para a expansão da democracia, mostra onde há uma resistência à lógica
do mercado e do Estado.

A sociedade é coordenada através da comunicação, da linguagem, com sujeitos em


interação. Essa linguagem tem estruturas consensuais, um substrato comum, e
permite que os sujeitos possam convencer os outros com argumentos plausíveis e
buscar um consenso. No mundo da vida predomina o agir comunicativo orientado para
o entendimento mútuo, em que a comunicação leva a uma busca de acordos. É nela
que surgem as demandas dos sujeitos por um mundo melhor, por alternativas de vida,
por formas mais concretas de atendimento às necessidades, tanto materiais quanto
morais. A partir das experiências, construídas pela comunicação, os indivíduos
associam-se, passam a apresentar numa esfera pública mais ampla aquilo que
consideram como justo e lutam para modificar o panorama social.

A comunicação cria condições para mudar os pontos de vista, as ações, pode criar
também um padrão de aceitação e entendimento entre os sujeitos. Essas mudanças
voltam-se para a interação comunicativa e provocam outras mudanças na linguagem.
O mundo da vida tem essa riqueza comunicativa expansiva questionadora, que
alimenta não apenas seus participantes mais diretos, mas impulsiona a sociedade
democrática, afinal, a pluralidade e a diversificação de modos de vida estão presentes
no mundo da vida.

Em seus últimos trabalhos, Habermas discute a existência de uma multiplicidade de


esferas públicas, em que os sujeitos estão permanentemente reestruturando suas
relações e não apenas de uma esfera única totalizante. Há um grau de complexidade
na sociedade que nos impede de vê-la de forma total. O fim do ideal da esfera pública
única e singular faz com que passemos a observar a existência de arenas sobrepostas e
conectadas, supranacionais, nacionais, regionais e locais.
Ao traçar um panorama histórico de como a esfera pública e a esfera privada foram se
estruturando até chegar a uma mistura entre as duas instâncias na modernidade,
Habermas chega a uma visão crítica que aponta a decadência da vida pública. Na
concepção do autor, ao longo dos séculos, mais especificamente com a tomada de
poder pela burguesia e a emergência do capitalismo, a esfera pública passou a ser
progressivamente esvaziada pela expansão de um Estado intervencionista, que tem
um caráter semi-público. Para Habermas, é o capitalismo, sob o domínio das grandes
empresas, que força o Estado a intervir no setor privado, a favor da economia de
mercado.

Segundo Habermas, na Grécia Antiga, nas cidades-estado, a esfera da polis, espaço que
era compartilhado por todos os cidadãos livres, era bem distanciada da esfera privada
– oikos. Mas, para participar da vida pública na polis, o cidadão tinha que ter
autonomia na sua vida privada. Por isso, estavam excluídos os homens que não tinham
bens, as mulheres e os escravos. No entanto, a vida pública era centrada em debates
de interesse coletivo, em que as questões privadas não apareciam. Prevaleciam a
participação, a argumentação e a deliberação, pontos cruciais para a compreensão da
democracia.

Hannah Arendt, citada por Habermas (1984), afirma que ocorreu também o processo
de formação do social, em que a economia moderna não se orientava mais pela
economia doméstica (oikos) como na Grécia Antiga, mas, no lugar da casa, inseriu-se o
mercado, transformando-se em economia comercial. A nova esfera privada, então,
ficou subordinada ao poder público.

É com Arendt que segue esta discussão sobre o espaço público, a autora dissolveu a
noção de liberdade pública, enquanto forma de sociabilidade política soldada no
reconhecimento do direito do outro à opinião e à ação. Para Hannah Arendt (1979) a
fragilidade dos negócios humanos expõe uma sociedade que fez sua entrada na
modernidade, onde é preciso a encarar os problemas da convivência humana sem as
garantias que a religião e a tradição ofereciam. No mundo moderno, os homens terão
que se confrontar com os problemas elementares da convivência humana “sem a
confiança religiosa em um começo sagrado e sem a proteção de padrões de conduta
tradicionais e, portanto, auto-videntes” (1979. P. 187).

Isso se torna um problema pois os homens encontram-se sem critérios seguros para a
compreensão da sociedade, termo que Arendt entende como “capacidade de tornar o
mundo familiar”. Ficam inseguros para realizar julgamentos, entendido pela autora
como “discernimento entre qualidades”. Isto significa dizer que os homens encontram-
se sem garantias para “se orientar no mundo”. “Todas as coisas, a qualquer momento,
podem se tornar praticamente qualquer coisa” (1979, 131).

Torna-se necessário construir, na, e através da convivência, critérios e referências que


possam gerar um senso comum. Mas é precisamente este senso comum que Arendt
põe em questão. Para a autora entre os elementos que definem a capacidade de
orientação no mundo está a faculdade de discernimento entre a verdade e a mentira
e, também, entre o bem e o mal. Isto significa dizer que estas não são categorias que
se possa derivar do conhecimento teórico e especulativo. São construídos sim na
experiência intersubjetiva que os homens fazem da realidade do mundo.

Hannah Arendt desenha o retrato de uma época em que todos os valores foram
subvertidos. E a idéia de uma ruptura com a tradição é um dos fios articuladores do
seu pensamento. Onde as fronteiras que separam a civilização da barbárie mostram-se
frágeis, incertas e sem garantias. Arendt tematiza questões específicas, que se
articulam em torno de uma noção de espaço público enquanto espaço significativo no
qual a ação e o discurso de cada um podem ganhar sentido na construção de um
mundo comum.

Em primeiro lugar, o espaço público é o espaço do aparecimento e da visibilidade


“tudo o que vem a público pode ser visto e ouvido por todos” e é isto que constrói a
realidade. “A aparência constitui a realidade. Em comparação com a realidade que
decorre do fato de que algo é visto e ouvido, até mesmo as maiores forças íntimas.
Estas vivem uma espécie de vida incerta e obscura, a não ser que sejam
transformadas, desprivatizadas e desindividualizadas, de modo a tornarem-se
adequadas à aparição pública. (1981, p. 59-60)

Essa realidade é que construi o mundo comum, onde interagem os indivíduos, em


torno daquilo que consideram interesses sociais. Este mundo comum só pode existir
no espaço público. Sociabilidade que é regida pela pluralidade humana, e dessa
pluralidade depende a existência da própria realidade. É a pluralidade dos pontos de
vista que garante as diferenças. É apenas na experiência da pluralidade que o mundo
pode se constituir, na medida em que transcende a vida pessoal. E é nessa interação
comunicativa entre os homens que um mundo plenamente humano pode se
constituir.

Se o espaço público constrói um mundo comum entre os homens, este mundo tem
que ser pensado não só como aquilo que é comum, mas como aquilo que é
comunicável e que, portanto, se distingue das experiências estritamente subjetivas e
pessoais que podem ter validade na dimensão privada da vida social. Para Hannah
Arendt a esfera pública só tolera o que é tido como relevante, como digno de ser visto
ou ouvido, de sorte que o “irrelevante” torna-se automaticamente assunto privado.

Se a perda do espaço público significa a dissolução do senso comum, tem também


conseqüências radicais do ponto de vista da experiência que as pessoas fazem da vida
em sociedade. Isolamento é o termo que explicita essa perda de um espaço que
articula os homens num mundo compartilhado de significados.

Enquanto lugar em que a ação se torna reconhecível na sua capacidade de iniciar um


“novo começo” e enquanto lugar que “preserva a ação do esquecimento” e que funda
uma tradição, é que o espaço público deixa revelar sua dimensão propriamente
política. O espaço público é o espaço de efetivação do poder e só pode existir
enquanto potencialidade, pois depende da ação e do discurso para poder existir.

Overtourism
O termo overtourism descreve destinos onde anfitriões ou hóspedes, autóctones ou
visitantes percebem uma quantidade elevada de turistas e consideram que isto afeta a
qualidade de vida no local ou, até mesmo, a qualidade da experiência turística. É o
contrário do turismo responsável, que busca utilizar o turismo para criar lugares
melhores para se viver e se visitar.

O termo surge no ano de 2012 no Twitter através da hashtag #overtourism, e se torna


popular nos anos seguintes. A Organização Mundial do Turismo, no ano de 2017,
organiza um evento dedicado para este tema, o que é bastante ambíguo para um setor
que comemora uma rápida, e aparentemente infindável, ascensão no número de
viagens (e viajantes).

O turismo é compreendido como um setor de consumo e os padrões de vida atuais


têm favorecido esta prática. No ano de 2017 11% do consumo global foi realizado por
turistas. A propensão para que pessoas com tempo e condições financeiras viagem é
alta, principalmente em uma sociedade que tem transformado suas preferências de
compras, alternando dos bens, para as experiências e os serviços.

O overtourism cresceu rapidamente como conceito. O termo facilita um


reconhecimento imediato, um rótulo que habilita as pessoas, locais ou turistas, a
manifestarem suas preocupações acerca do excesso de turismo. Uma grande
variedade de destinos, sobretudo europeus, tem identificado o overtourism. E, em
alguns lugares, tem havido demonstrações contra isso, desde manifestações visuais na
rua até casos de violência contra turistas.

As causas para o overtourism são específicas para cada destino, mas, normalmente,
não se encontram sozinhas. Entre estas causas estão:

1. A queda no custo das viagens – o surgimento de companhias areas de baixo custo e


de outras formas baratas de viajar tornou fácil para que as pessoas pagassem o preço
das viagens. Mais pessoas fazem viagens de curta duração em pequenos feriados.

2. A desintermediação e plataformas de venda de pessoa para pessoa criam problemas


no mercado imobiliário, forçam o aumento dos aluguéis, retiram de suas casas aqueles
que não recebem o suficiente para pagar e causam distúrbios em bairros residenciais.
O Airbnb e outros portais similares tornaram fácil a busca por acomodações de baixo
custo. Esta desintermediação habilita os moradores locais ou proprietários de
segundas residências a maximizar suas receitas.
3. O domínio public é gratuito. Turistas não pagam por suas fotos em Trafalgar Square
ou na Praça de São Marcos. Os custos de manutenção e reparos nestes espaços ficam
a cargo dos habitants locais, através de seus impostos.

4. Estratégias de distribuição. Esforços para espalhar os turistas por bairros menos


visitados, normalmente residenciais, aumentam o impacto do turismo nos lares dos
locais. Barulhos, aglomerações e congestionamentos são, normalmente, os incômodos
mais causados.

5. A atividade turística gera empregos, mas são normalmente mal remunerados e


vistos como temporaries, casuais, inseguros ou sem perspectivas de crescimento.

6. Lugares de atração. São os mercados bem sucedidos, os destinos já estabilizados,


que atraem mais turistas. São destinos mais baratos para se comercializar e seu
sucesso é assegurado.

7. Transportes em larga escala. Aeronaves, carros, comboios, autocarros, navios de


cruzeiro desembarcam mais passageiros a cada chegada. E as chegadas são cada vez
mais frequentes. É muito difícil para um destino impeder este fluxo.

Em muitas das destinações mais procuradas e que experienciam o overtourism as


principais atrações estão nas ruas e por iso não podem ser cobradas. O espaço public
está lã. Locais como La Rambla, em Barcelona, a Praça de São Marcos, em Veneza e
Gullfoss na Islândia, são os locais mais visitados por turistas. A princípio o consume de
espaços públicos pode ser feito em simultâneo, mas se tem a noção de que a
experiência não tem a mesma qualidade como vivida com milhares de turistas. O
quadro 1 demonstra locais que já manifestaram problemas com o overtourism ou que
este assunto entrou na pauta.

Protestos públicos Ações governamentais Discussões sobre overtourism


Barcelona Islândia Escócia
Veneza Seul Itália
San Sebastian Cinque Terre Irlanda
Berlin Dubrovnik Baleares
Palma de Mallorca Amsterdão Inglaterra
Islândia Brasil
Peru
Portugal
Estados Unidos
Cuba
China
República Tcheca
Everest
Croácia
Creta
Fonte – Goodwin, 2018.
Neste primeiro quadro pode-se perceber que a discussão acerca do overtourism tem
ocorrido em diferentes locais do mundo, mas, por ora, manifestações populares contra
o turismo de massa somente ocorreram em países da Europa. Algumas ações
começam a ser tomadas para tentar diminuir este impacto que um grande número de
turistas causa nas comunidades locais. O quadro 02 apresenta algumas destas
tentativas.

Croácia Controle da quantidade de turistas em alguns pontos;


Diminuição do número de chegadas de navios de cruzeiro;
Imposição de limites no número de operadores de turismo;
Planos para multar turistas bêbados, rudes ou em atos libidinosos.
Dinamarca Proibição de compra de casas por estrangeiros em zonas costeiras.
Islândia Registro oficial de casas para compartilhamento e licença para as pessoas que
vão alugar suas casas por mais de 90 dias.
France Limitação do tempo de visita na torre Eifel
Holanda Banimento das beer bikes;
Mudança de nome de Zandvoort para Amsterdam Beach, na tentativa de atrair
turistas;
Introdução de uma linha 24 horas para reclamações de propriedades Airbnb
Itália Fechamento de áreas públicas;
Limitação do número de turistas;
Acessos preferenciais a locais;
Banimento de novos espaços de acomodação;
Tentativa de banir navios de cruzeiro.
Peru Limitação no tempo de visita a Machu Pichu
Espanha Governança baseada em compartilhamento de dados e em inteligência;
Uso de ferramentas de marketing para atrair segmentos específicos de turistas;
Moratória para novas licenças de acomodações;
Inseparabilidade entre competitividade e sustentabilidade;
Monitoramento dos níveis de barulho e poluição.
República Tcheca Banimento de segways no centro histórico de Praga
Fonte – Goodwin, 2018

Em semelhança ao quadro 02, vemos neste segundo quadro que a grande maioria das
ações para limitação do fluxo turístico ocorre em países europeus, com a única
exceção do sítio histórico de Machu Pichu no Peru que há anos também sofre com um
número excessivo de turistas, que compromete suas construções. A seguir veremos
algumas manifestações anti-turismo nas ruas da cidade do Porto.

Resultados e Discussões
Portugal e a cidade do Porto entraram mais fortemente no mercado turístico nos
últimos anos, se por um lado este processo é positivo pela visibilidade e as receitas que
o turismo traz, por outros, um grande fluxo de pessoas em uma localidade tendem a
mudar a rotina dos moradores locais e a aumentar os preços de produtos e serviços
existentes na cidade.

Como já visto na primeira parte deste trabalho, o espaço público é o local de


discussões, da sociabilidade e da manifestação de opiniões. É neste espaço que a
cidadania acontece e onde o privado se torna coletivo. A partir desta compreensão
buscou-se nas ruas da cidade do Porto manifestações acerca do turismo local, que
representam parte importante da opinião pública.

Ao todo foram encontradas sete manifestações visuais contrárias ao turismo, ou que


pelo menos chamem a atenção para a discussão do mesmo. Todas as manifestações
estão situadas no centro histórico da cidade, em locais de alta concentração de turistas
e visitantes que serão apresentadas na sequência.

Figura 01 – Preocupação com a valorização do trabalhador do turismo

Fonte – Arquivo do autor

Na figura um percebe-se a preocupação com o funcionário do setor do turismo. Ao


questionar o turista sobre a valorização do profissional deste setor chama-se a atenção
para os preços praticados pelo turismo e aquilo que os empregados do setor ganham.
Esta desvalorização dos funcionários do setor é recorrente em diferentes países do
mundo. A figura 02 segue a mesma linha, de inquirir ao turista sobre os motivos do
aparecimento de tantos espaços de hospedagem em uma zona residencial.

Figura 02 – Exclusão de moradores do centro histórico

Fonte – Arquivo do autor


Nesta figura observa-se uma crítica clara à gestão do turismo na cidade do Porto,
colocando inclusive o desenho oficial do órgão de turismo da cidade acompanhada da
hashtag #visitporto. Coloca-se os espaços de hospedagem de curta duração como
responsáveis pelo afastamento dos residentes do centro histórico do município.

Figura 03 – Not a hostel yet

Fonte – arquivo do autor

A figura 03 está colocada em uma casa abandonada na Rua de Miguel Bombarda, rua
que está praticamente toda revitalizada, conhecida como um espaço de galerias de
arte na cidade. O autor da manifestação quis chamar a atenção para que os poucos
espaços que não se tornaram alojamento estão em ruínas, impróprios até mesmo para
moradia.

Figura 04 – To be or to airbnb

Fonte – Arquivo do autor


A figura 04 questiona também os alojamentos de curta duração, na figura proeminente
do site airbnb. Cogita o ser na cidade ou o se “vender” para a atividade turística. A
figura 05, talvez a mais direta de todas, pede o fim do turismo na cidade.

Figura 05 – Stop “turism”

Fonte – Arquivo do autor

Chama a atenção de que todas estas primeiras mensagens estão escritas em inglês,
buscando a compreensão de um maior número de turistas. É um recado claro para
quem faz o turismo na cidade. As figuras 06 e 07 são escritas em português. A figura 06
chama atenção para os despejos causados pelos alojamentos de curta duração.

Figura 06 – Fim dos despejos

Fonte – arquivo do autor

A última figura (07) traz um trecho da música “Grândola, vila morena” de Zeca Afonso.
Música que traz forte sentimento de revolução para os portugueses, associada à
Revolução dos Cravos em 25 de abril de 1974.
Figura 07 – O povo “era” quem mais ordena

Fonte – Arquivo do autor

Ao trocar o tempo da música de “o povo é quem mais ordena” para “o povo éra (sic)
quem mais ordena” o autor busca chamar a atenção para a perda de espaço da
população local no centro histórico da cidade.

Conclusão
Com o aumento da atividade turística na cidade do Porto começam a aparecer
também manifestações contrárias. E o local para que estas manifestações ocorram,
como visto nas teses de Arendt e Habermas é o espaço público. É lá onde a vida e o
mundo acontecem. É saudável ver que a rua segue democrática e livre para diferentes
opiniões.

No entanto é preocupante observar este crescimento do discurso de ódio ao turista, se


o começo do processo turístico é interessante para a cidade, e, normalmente, saudado
por grande parte dos moradores, o aumento excessivo desta atividade passa a causar
problemas para os locais, que acabam colocando a culpa de todas as mudanças no
turismo.

Arendt (1974) já dizia que o espaço público é o espaço de efetivação do poder e só


pode existir enquanto potencialidade, pois depende da ação e do discurso para poder
existir. Observa-se já a ação, e não mais só a potencialidade, na crítica ao turista.
Observa-se em outros destinos, nomeadamente Barcelona e Veneza, este mesmo
processo, e que culminou com agressões a turistas em ambas as cidades.

Espera-se que estas manifestações sirvam para criar discussões acerca dos problemas
causados pela atividade turística, mas sem culpar a área por todos os males.
Importante é observar as causas do overtourism e compreender quais ações podem
ser tomadas para combater e gerir o turismo com a preocupação necessário aos
impactos que causa.
Bibliografia

Arendt, Hannah, Entre o passado e o futuro. São Paulo, Perspectiva. 1979

Arendt, Hannah, A condição Humana. Rio de Janeiro, Forense. 1981

GOODWIN, Harold, The Challenge of Overtourism. Responsible Tourism Partnership


Working Paper. N. 4. 2018.

HABERMAS, Jürgen. O conceito de poder em Hannah Arendt. In FREITAG, B. e


ROUANET, S. P. orgs. Habermas. São Paulo. Ática, 1980

OLIVEIRA, Luiz Ademir; Fernandes, Adélia Barroso. Espaço público, política e ação
comunicativa a partir da concepção habermasiana. Revistas Estudos Filosóficos. N. 6.
2011.

TELLES, Vera, Espaço público e privado na constituição social: notas sobre o


pensamento de Hannah Arendt. Revista Tempo Social. V. 2 N. 1. USP. São Paulo. 1990

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