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Ministério Público do Estado de Mato Grosso

Procuradoria Geral de Justiça

EXCELENTÍSSIMO SENHOR DESEMBARGADOR PRESIDENTE DO EGRÉGIO TRIBUNAL


DE JUSTIÇA DO ESTADO DE MATO GROSSO.

O PROCURADOR-GERAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE MATO


GROSSO, no uso de suas atribuições legais e constitucionais, com fundamento nos
artigos 96, I, d, c/c 124, III, da Constituição Estadual, vem a presença de Vossa
Excelência propor a presente AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE em face
da Lei Estadual nº 11.550, de 03 de novembro de 2021, do Estado de Mato Grosso
em razão dos fatos e fundamentos a seguir expostos.

1. DOS FATOS E DO DIREITO

A Assembleia Legislativa do Estado de Mato Grosso aprovou e o


Governador do Estado sancionou a Lei Estadual nº 11.550, de 03 de novembro de 2021,
que dispõe sobre a criação do Programa Mato Grosso Série A, e dá outras providências,
veiculada na edição extra do Diário Oficial do Estado de Mato Grosso nº 28.116, do dia 03
de novembro de 2021.

A Lei Estadual nº 11.550, de 03 de novembro de 2021 possui a


seguinte redação:

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A ASSEMBLEIA LEGISLATIVA DO ESTADO DE MATO GROSSO,


tendo em vista o que dispõe o art. 42 da Constituição Estadual,
aprova e o Governador do Estado sanciona a seguinte Lei:
Art. 1º Fica instituído o Programa Mato Grosso Série A com o
objetivo de patrocinar as equipes de futebol profissional mato-
grossense que disputem as séries A e B do Campeonato
Brasileiro organizado pela Confederação Brasileira de Futebol -
CBF.
§ 1º O Programa Mato Grosso Série A tem por finalidade:
I - incentivar a maior profissionalização das equipes de futebol
mato-grossense;
II - oferecer melhores condições para o acesso às séries A e B do
Campeonato Brasileiro de Futebol, organizado pela CBF;
III - promover os meios para que as equipes se mantenham nas
séries A e B do Campeonato Brasileiro, organizado pela CBF;
IV - fortalecer o futebol profissional mato-grossense;
V - difundir as potencialidades do Estado de Mato Grosso, por
meio da imagem da entidade patrocinada, junto ao público e
aos canais de mídia.
§ 2º No caso em que não houver equipes de futebol profissional
mato-grossense que disputem as séries A ou B será observada a
regra estabelecida no parágrafo único do art. 4º desta Lei.
Art. 2º O Programa Mato Grosso Série A contemplará medidas
de apoio às equipes profissionais mato-grossenses que estejam
disputando ou que venham a disputar as Séries A e B do
Campeonato Brasileiro organizado pela Confederação Brasileira
de Futebol - CBF, mediante:

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I - estabelecimento de parcerias entre a Administração Estadual


e as equipes profissionais mato-grossenses, com a cessão
gratuita ou onerosa de bens móveis e imóveis;
II - concessão de incentivo financeiro, por meio de patrocínio, a
ser formalizado por contrato firmado diretamente com as
empresas e/ou associações que representem as equipes
profissionais que se enquadrem nas hipótese previstas no art.
1º desta Lei.
§ 1º O incentivo mencionado no inciso II deste artigo, será
fixado pela Secretaria de Estado de Cultura, Esporte e Lazer -
SECEL de acordo com a categoria do campeonato estabelecido
no art. 1º desta Lei, respeitando as previsões orçamentárias
anuais e será concedido para cada equipe que disputar o
respectivo campeonato, podendo ser renovado anualmente.
§ 2º Como condição para o recebimento do incentivo de que
trata o inciso II deste artigo, as equipes profissionais mato-
grossenses deverão, entre outras condições previstas em
contrato, divulgar, de forma associada à sua imagem, as
potencialidades turísticas, econômicas e ambientais do Estado
de Mato Grosso.
Art. 3º A SECEL será responsável pelo planejamento,
administração, direção e execução das atividades do Programa.
Art. 4º Fica a SECEL autorizada a firmar contrato de patrocínio,
de forma direta, com as pessoas jurídicas representantes das
equipes profissionais que estejam disputando as séries A e B do
Campeonato Brasileiro, organizado pela CBF, nos valores de R$

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3.500.000,00 (três milhões e quinhentos mil reais) e R$


1.000.000,00 (um milhão de reais), respectivamente.
Parágrafo único O benefício estabelecido no caput deste artigo
contemplará às equipes de futebol profissional mato-grossense
que disputem as séries subsequentes do Campeonato Brasileiro
organizado pela Confederação Brasileira de Futebol quando não
houver equipes de futebol profissional mato-grossense que
disputem as séries A ou B.
Art. 5º As despesas com o cumprimento desta Lei correrão à
conta do orçamento da SECEL, que poderá ser suplementado,
em caso de comprovada necessidade.
Art. 6º O Poder Executivo regulamentará a presente Lei.
Art. 7º Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação.
Palácio Paiaguás, em Cuiabá, 03 de novembro de 2021, 200º da
Independência e 133º da República.

OTAVIANO OLAVO PIVETTA


Governador do Estado em exercício

Sem delongas, constata-se que o ponto fulcral do denominado


Programa Mato Grosso Série A é o repasse pelo Estado de Mato Grosso, a título de
contrato de patrocínio, realizado de forma direta entre a Secretaria de Estado de Cultura,
Esporte e Lazer – SECEL e entidades representantes das equipes profissionais que estejam
disputando as séries A, B, C e D do Campeonato Brasileiro e tem como objetivo incentivar a
maior profissionalização das equipes de futebol mato-grossense; oferecer melhores
condições para o acesso às séries A e B do Campeonato Brasileiro de Futebol, organizado
pela CBF; promover os meios para que as equipes se mantenham nas séries A e B do

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Campeonato Brasileiro, organizado pela CBF; fortalecer o futebol profissional mato-


grossense; difundir as potencialidades do Estado de Mato Grosso, por meio da imagem da
entidade patrocinada, junto ao público e aos canais de mídia.

Em contrapartida, as entidades esportivas interessadas


deverão, entre outras condições previstas em contrato, divulgar, de forma associada à sua
imagem, as potencialidades turísticas, econômicas e ambientais do Estado de Mato Grosso.

A lei, na forma em que se encontra, ao prever o repasse de


valores diretamente a empresas privadas, antevendo tão somente uma contrapartida
propagandista; sem estudo prévio de que a forma eleita é a mais adequada para
promoção das potencialidades turísticas, econômicas e ambientais do Estado de Mato
Grosso; sem controle de gastos de que o valor repassado será utilizado exclusivamente
para a consecução do objetivo, ainda que de forma indireta, padece de grave vício de
inconstitucionalidade, por violação à moralidade, eficiência e dever geral de prestação de
contas, vetores que norteiam a atuação da Administração Pública, ofendendo
dispositivos da Constituição Federal e da Constituição Estadual de Mato Grosso.

No ponto, com o intuito de antecipar quaisquer argumentos no


sentido de que contratos de patrocínio não exigem contrapartida, tampouco demandam
prestação de contas, necessário salientar que a questão foi examinada pelo Tribunal de
Contas da União – TCU em mais de uma ocasião, sendo as decisões mais relevantes as
constantes do Acórdãos nº 2.914/2015 e 2.445/2016, ambos do Plenário do Tribunal.

O debate que desaguou no Acórdão nº 2.914/2015 – Plenário


adveio de um incidente de uniformização de jurisprudência suscitado pelo Corpo Técnico
do TCU. Muito embora a discussão tenha versado sobre a obrigatoriedade de prestação

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de contas em decorrência de contratos de patrocínio estatal ativo, tangenciou-se


também a questão da natureza – se contratos, se convênios – desses instrumentos. Pela
importância, transcreve-se explanação delineada pelo Ministro Relator em seu voto:

“De fato, o tema requer uma análise diferenciada em função


das circunstâncias particulares de cada caso. A dificuldade de
análise por parte do patrocinador, como também por parte
deste Tribunal para os eventos de patrocínios está, exatamente,
nos ‘pactos de diferentes naturezas, revelando as circunstâncias
particulares de cada caso concreto, acima da designação que
eventualmente se lhe tenha dado, se o acordo firmado cuida de
contrato ou de convênio’, como muito bem asseverou no
Representante do Parquet especializado.
No caso de contrato, não há que se falar em prestação de
contas quanto à destinação dos recursos, já que se deve
acompanhar, cobrar, certificar-se do adimplemento, por parte
da contratada, das obrigações assumidas. A alusão ao ‘preço’
feita no Parecer do Representante do MP/TCU é bastante
pertinente, quando analisa existir um ‘pagamento’ pela
contraprestação de um serviço, que geralmente é a exposição e
divulgação da marca do patrocinador.
No caso dos convênios, existe uma divisão de esforços ou uma
soma de interesses, mesmo que o desembolso seja feito pelo
patrocinador e a divulgação da marca, dos produtos, seja feita
pela outra parte. Nesse caso, há que se ter a prestação de
contas”. [grifo no original]

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No dispositivo, restou consignado o seguinte acórdão:

ACÓRDÃO Nº 2914/2015 – TCU – Plenário

9. Acórdão: VISTOS, relatados e discutidos os presentes autos


de Representação, constituída em cumprimento ao Acórdão nº
2575/2012-TCU-Plenário, tendo em vista supostas
irregularidades em procedimentos de patrocínio adotados pela
Petrobras. ACORDAM os Ministros do Tribunal de Contas da
União, reunidos em Sessão Plenária, ante as razões expostas
pelo Relator, em: 9.1. conhecer da presente Representação,
com fundamento nos arts. 235, caput, e 237, do Regimento
Interno deste Tribunal, para no mérito considerá-la
parcialmente procedente, em função da ausência de
comprovação do alcance integral dos objetivos dos contratos
de patrocínio ora analisados, sem, contudo, imputar débito ou
aplicar multa aos responsáveis, diante da inexigibilidade de
conduta diversa e devido ao longo lapso temporal entre os
fatos e a atuação do Controle Externo, o que poderia inviabilizar
o seu direito à ampla defesa; 9.2. determinar à Petrobras,
exceto nos contratos exclusivos de divulgação de marca, que:
9.2.1. vincule os recursos transferidos em seus patrocínios ao
objeto pactuado no Contrato ou Convênio a ser firmado com a
entidade interessada; 9.2.2. os recursos destinados aos
patrocínios, incentivados ou não incentivados, devem ser
depositados em contas específicas e devem ser utilizados
somente no objeto pactuado; 9.2.3. oriente aos patrocinados

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que mantenham sob sua guarda documentação que comprove


os gastos realizados, como extrato de conta vinculada, recibos,
notas fiscais, dentre outros, de modo a evidenciar essas
despesas ao objeto pactuado; 9.2.4. realize acompanhamento
e exame de contas de contratos de patrocínio selecionados,
com base em critérios de relevância, risco e materialidade,
informando ao TCU os resultados dessas fiscalizações, na
prestação de contas ordinária da Companhia; 9.2.5.
relativamente aos patrocínios incentivados, como no caso da
Lei Rouanet (Lei nº 8.313/1991), não deve haver exigência de
prestação de contas por parte da Petrobras, já que essas contas
são prestadas junto ao órgão ou entidade que autorizou a
captação de recursos, nos termos definidos pela legislação
específica; 9.3. enviar cópia deste Acórdão, à Secretaria
Executiva à Petrobras; 9.4. arquivar os presentes autos”.

Em outra ocasião, a Corte de Contas prolatou o Acórdão nº


2.445/2016 – Plenário, em que se analisou a necessidade de abertura de conta bancária
específica para a movimentação de recursos transferidos via contratos de patrocínios
celebrados por determinada sociedade de economia mista federal. Ao examinar a matéria,
o Relator reconheceu que os contratos de patrocínio não podem ser plenamente
equiparados a convênios ou contratos de repasse, tampouco consubstanciam-se em
meros contratos de publicidade. Todavia, reconheceu que, de qualquer forma, há a
exigência de prestação de contas. E, adentrando ainda mais na matéria, manifestou-se no
seguinte sentido:

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“15. No meu entender, a jurisprudência do Tribunal ainda


carece de maior amadurecimento acerca da temática que
envolve os chamados ‘contratos de patrocínio’.
16. Se é certo que esse tipo de contrato não pode ser
plenamente equiparado a um convênio ou um contrato de
repasse, tampouco se iguala a mero contrato de publicidade,
porquanto se busca direcionar os recursos à promoção de
determinado objetivo. A partir desse raciocínio, o Tribunal tem,
na maior parte das vezes, exigido prestação de contas em
contratos de patrocínio (Acórdãos 2.914/2015, 3.440/2014,
2.594/2013, 922/2009, todos do Plenário).
[...]
20. Todavia, o Tribunal já se deparou com casos concretos cujas
circunstâncias levaram-no a concluir que ‘os recursos
repassados mediante patrocínio não estão vinculados às
despesas a serem realizadas, mas ao retorno publicitário dele
advindo’ (Acórdão 1.785/2003-TCU-Plenário) e que a
‘contrapartida para o patrocínio seria a exposição da imagem
do patrocinador, não havendo que se falar em aplicação
indevida de recursos, salvo se houvesse negociação entre as
partes vinculando a aplicação dos recursos em finalidades
específicas’ (Acórdão 1.973/2012-TCU-Plenário).
21. Diante desse contexto, estou de acordo com as conclusões
do Tribunal quando, por ocasião do Acórdão 2.914/2015-TCU-
Plenário.
[...]

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22. Dessa forma, ao menos enquanto não houver consolidação


numa ou noutra direção, entendo adequado que cada decisão
se atenha às circunstâncias que pautam aquele caso concreto,
adotando uma postura de maior cautela, desprovida da
pretensão de extrapolar conclusões a contextos ainda não
analisados com maior profundidade.
[...]
33. Registro que não estou antecipando meu posicionamento
acerca da matéria. Nada impede que, no âmbito de outro
processo, apreciando elementos distintos e diante de um
contexto mais abrangente, o Tribunal detenha-se sobre o
conjunto de normas que regem as atividades da Eletrobras e
entenda ser cabível a exigência de conta bancária específica
para contratos de patrocínio.
34. Meu posicionamento nesta decisão baseia-se
exclusivamente no fato de que os elementos da auditoria
permitiam exclusivamente uma análise sobre os fatos
ocorridos. Não havia qualquer pretensão de reger casos
futuros, como fica patente na proposta de encaminhamento da
equipe, que consistia apenas em cientificar a Eletrobras das
ocorrências.
35. Vale frisar: com a decisão que ora submeto ao Plenário,
ainda que se abstenha de proferir determinação para casos
futuros, não está o TCU deliberando sobre a possibilidade de
que os recursos transferidos via contrato de patrocínio sejam
movimentados por contas diversas”.

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Embora não seja objeto da presente ação, é de se ressaltar que


a Corte de Contas tende a rechaçar uma equiparação plena entre os contratos de
patrocínio e os convênios administrativos, embora algumas cláusulas inerentes a esses
ajustes, tal como a prestação de contas e a movimentação de recursos em conta vinculada,
possam ser integradas àqueles contratos, sem desnaturar sua essência.

Em deliberação também do final de 2016, o Tribunal de Contas


do Distrito Federal – TC-DF, considerando a necessidade de estabelecer orientação apta a
regular as questões relativas à concessão de patrocínio por órgãos e entidades públicas
distritais, emanou a Decisão nº 6.056/2016, na qual restou determinado, a todos os
jurisdicionados, que os contratos de patrocínio devem ser informados por cláusulas
como: prestação de contas; comprovação de aplicação dos recursos repassados ao objeto
patrocinado; abertura de conta específica; necessidade de informar se outros
patrocinadores públicos ou provados concorrem ativamente para o patrocínio;
necessidade de prestação de contas conjunta quando houver mais de um ente ou órgão
distrital na condição de patrocinador.

Até mesmo no âmbito do Poder Judiciário o debate tem


espaço. A título de exemplo, alude-se ao voto condutor do Acórdão proferido no bojo da
Apelação Cível nº 5000830-55.2013.404.7216/SC, interposta perante o Tribunal Regional
Federal da 4ª Região. O Desembargador Relator também explicitou a controvérsia, e
pontuou, em voto acompanhado à unanimidade pela 3ª Turma, que a prestação de contas
é sempre devida, sendo irrelevante tratar-se de convênio de patrocínio ou de contrato de
patrocínio:

“De início, impõe-se identificar se o contrato questionado nos


autos trata-se de contrato de patrocínio ou convênio, bem

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como se há ou não necessidade de prestação de contas quanto


às verbas repassadas pela sociedade de economia mista.
Ambos os apelantes defendem a natureza jurídica do contrato
de patrocínio, argumentando que nesta espécie o contratado
pode dispor livremente dos recursos investidos, não podendo
haver vinculação ao custeio de determinadas despesas ou
imposição da obrigação de prestação de contas. Afirmam que o
patrocínio conceitua-se, de acordo com a SECOM - Secretaria
de Comunicação do Governo Federal, como 'o apoio financeiro
ou não, concedido a ações de terceiros para agregar valor à
marca e ou divulgar produtos, serviços, programas, projetos,
políticas e ações do patrocinador junto a seus públicos de
interesse'. Recentemente o TCU analisou os contratos de
patrocínio no âmbito da Petrobrás, proferindo o acórdão n.º
2594/2013 [...] Portanto, ainda que se trate de contrato de
patrocínio, sendo o patrocinador integrante da administração
indireta, não há como dispensar-se a exigência de prestação de
contas, sob pena de ofensa ao interesse geral de cautela, a teor
do que prevê o art. 70 da CF, em especial seu § único [...]”.

Em resumo, o Tribunal de Contas da União, o Tribunal de


Contas do Distrito Federal e, em sede judicial, o Tribunal Regional Federal da 4ª Região,
todos chegaram à mesma conclusão: contrato de patrocínio realizado pela Administração
Pública deve ter como norte a prestação de contas pela entidade recebedora das verbas
públicas.

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Nem haveria de se chegar em outra conclusão, dado que o


contrato de patrocínio ativo pela Administração Pública é, assim como outras formas de
repasse de verbas a entidades privadas, informado por princípios basilares do Direito
Administrativo, tal como a moralidade, eficiência e o dever geral de prestação de contas,
previstos respectivamente, no art. 37, caput e art. 70, parágrafo único, da Constituição
Federal e no art. 129, caput e art. 46, parágrafo único, da Constituição Estadual de Mato
Grosso:

Constituição Federal
Art. 37. A administração pública direta e indireta de qualquer
dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos
Municípios obedecerá aos princípios de legalidade,
impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência e,
também, ao seguinte:

Art. 70. A fiscalização contábil, financeira, orçamentária,


operacional e patrimonial da União e das entidades da
administração direta e indireta, quanto à legalidade,
legitimidade, economicidade, aplicação das subvenções e
renúncia de receitas, será exercida pelo Congresso Nacional,
mediante controle externo, e pelo sistema de controle interno
de cada Poder.
Parágrafo único. Prestará contas qualquer pessoa física ou
jurídica, pública ou privada, que utilize, arrecade, guarde,
gerencie ou administre dinheiros, bens e valores públicos ou
pelos quais a União responda, ou que, em nome desta, assuma
obrigações de natureza pecuniária.

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Art. 46 A fiscalização contábil, financeira, orçamentária,
operacional e patrimonial do Estado e das entidades da
Administração Pública direta e indireta, quanto aos aspectos de
legalidade, legitimidade e economicidade, aplicação das
subvenções e renúncia de receitas, será exercida pela
Assembleia Legislativa, mediante controle externo, e pelo
sistema de controle interno de cada Poder.
Parágrafo único Prestará contas qualquer pessoa física ou
entidade pública que utilize, arrecade, guarde, gerencie, ou, por
qualquer forma, administre dinheiros, bens e valores públicos
ou pelos quais o Estado responda, ou que, em nome deste,
assuma obrigações de natureza pecuniária.

Art. 129 A Administração Pública direta e indireta, de qualquer


dos Poderes do Estado, obedecerá aos princípios de legalidade,
impessoalidade, moralidade, publicidade e, também, ao
seguinte:

A Lei Estadual nº 11.550, de 03 de novembro de 2021, ora


hostilizada, na forma em que se encontra, ao prever o repasse de valores diretamente a
empresas privadas, antevendo tão somente uma contrapartida propagandista; sem
estudo prévio de que a forma eleita é a mais adequada para promoção das
potencialidades turísticas, econômicas e ambientais do Estado de Mato Grosso; sem
controle de gastos de que o valor repassado será utilizado exclusivamente para a
consecução do objetivo difusor dos predicados de Mato Grosso, padece de grave vício de

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inconstitucionalidade, por violação à moralidade, eficiência e dever geral de prestação de


contas e ofensa ao art. 46, parágrafo único e art. 129, caput da Constituição Estadual de
Mato Grosso.

2. DO PEDIDO LIMINAR

Conforme demonstrado, flagrante é a inconstitucionalidade da


Lei Estadual nº 11.550, de 03 de novembro de 2021, por violação à moralidade, eficiência e
dever geral de prestação de contas e ofensa ao art. 46, parágrafo único e art. 129, caput da
Constituição Estadual de Mato Grosso.

Nesse contexto, evidente o fumus boni iuris exigido para a


concessão da liminar e suspensão do repasse de valores milionários a entidades privadas.

O periculum in mora é permanente, uma vez que o repasse de


valores milionários, sem prestação de contas, sem estabelecimento de vetores aptos a
aferir o real retorno ao Estado de Mato Grosso do valor enviado a título de patrocínio e,
mais gritante, sem estudo prévio de que a forma eleita é a mais adequada para promoção
das potencialidades turísticas, econômicas e ambientais do Estado de Mato Grosso, causa
substancial prejuízo ao erário.
Dessa forma, com vistas às razões retromencionadas, fica claro
o fumus boni iuris e o periculum in mora, requisitos essenciais para a concessão de medida
cautelar apta a suspender qualquer repasse com base na Lei hostilizada, enquanto não for
realizado estudo científico de que a forma eleita é a mais adequada para promoção das
potencialidades turísticas, econômicas e ambientais do Estado de Mato Grosso,
analogicamente aos artigos 10 a 12 da Lei Federal nº 9.868/1999.

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3. DOS REQUERIMENTOS

Em face do exposto, requer-se:

a) o recebimento da presente Ação Direta de


Inconstitucionalidade, visto que preenchidos os requisitos dispostos no artigo 3º da Lei nº.
9.868/1999;

b) o deferimento da medida liminar, na forma acima registrada;

c) a requisição de informações ao Excelentíssimo Governador


do Estado de Mato Grosso e ao Presidente da Assembleia Legislativa do Estado de Mato
Grosso, nos termos do artigo 172, caput, do Regimento Interno do Tribunal de Justiça do
Estado de Mato Grosso;

d) a notificação do Procurador-Geral do Estado de Mato Grosso,


para a defesa do texto impugnado, conforme determinado no artigo 125, §2º, da
Constituição Estadual; e

e) a abertura de vista dos autos ao Procurador-Geral de Justiça,


a teor do previsto no artigo 173 do Regimento Interno do Tribunal de Justiça do Estado de
Mato Grosso.

f) a PROCEDÊNCIA da ação, com a declaração de


INCONSTITUCIONALIDADE da Lei Estadual nº 11.550, de 03 de novembro de 2021, por
violação à moralidade, eficiência e dever geral de prestação de contas e ofensa ao art. 46,
parágrafo único e art. 129, caput da Constituição Estadual de Mato Grosso;

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g) alternativamente ao pedido “f”, a PROCEDÊNCIA da ação,


valendo-se este E. Tribunal de Justiça da técnica da declaração de inconstitucionalidade
sem redução de texto, mediante interpretação conforme a Constituição, com a declaração
de INCONSTITUCIONALIDADE da Lei Estadual nº 11.550, de 03 de novembro de 2021, por
violação à moralidade, eficiência e dever geral de prestação de contas e ofensa ao art. 46,
parágrafo único e art. 129, caput da Constituição Estadual de Mato Grosso, quando não
houver a observância dos seguintes requisitos: f.1) comprovação do alcance integral dos
objetivos dos contratos de patrocínio; f.2) vinculação dos recursos transferidos nos
patrocínios oriundos da Lei ora questionada ao objeto pactuado no Contrato a ser
firmado com a entidade interessada; f.3) determinação de que os recursos destinados
aos patrocínios, incentivados ou não incentivados, devem ser depositados em contas
específicas e devem ser utilizados somente no objeto pactuado; f.4) acompanhamento e
exame de contas de contratos de patrocínio selecionados, com base em critérios de
relevância, risco e materialidade, encaminhamento ao Tribunal de Contas do Estado de
Mato Grosso para prestação de contas, consoante orientação do Plenário do Tribunal de
Contas da União, no julgamento do Acórdão nº 2914/2015

Documentos Anexos:
– Cópia da Lei Estadual nº 11.550, de 03 de novembro de 2021, veiculada na edição extra
do Diário Oficial do Estado de Mato Grosso nº 28.116, do dia 03 de novembro de 2021.

Cuiabá/MT, 09 de novembro de 2021.

JOSE ANTONIO Assinado de forma digital por


JOSE ANTONIO BORGES
BORGES PEREIRA:35373652172
PEREIRA:35373652172 Dados: 2021.11.09 14:30:58 -04'00'

JOSÉ ANTÔNIO BORGES PEREIRA


Procurador-Geral de Justiça

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