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FACULDADE DE CIÊNCIAS DA BAHIA (FACIBA)

PSICOLOGIA HOSPITALAR

SHEYLA PEDRO DO NASCIMENTO

PRÁTICAS EDUCATIVAS EMPREGADAS POR PAIS OU RESPONSÁVEIS:


PERCEPÇÃO DE FILHOS ADOLESCENTES

GUARABIRA

2021
PRÁTICAS EDUCATIVAS EMPREGADAS POR PAIS OU RESPONSÁVEIS:
PERCEPÇÃO DE FILHOS ADOLESCENTES

Sheyla Pedro do Nascimento1,

Declaro que sou autor(a)¹ deste Trabalho de Conclusão de Curso. Declaro também que o mesmo foi
por mim elaborado e integralmente redigido, não tendo sido copiado ou extraído, seja parcial ou
integralmente, de forma ilícita de nenhuma fonte além daquelas públicas consultadas e corretamente
referenciadas ao longo do trabalho ou daqueles cujos dados resultaram de investigações empíricas por mim
realizadas para fins de produção deste trabalho.

Assim, declaro, demonstrando minha plena consciência dos seus efeitos civis, penais e administrativos, e
assumindo total responsabilidade caso se configure o crime de plágio ou violação aos direitos autorais.
(Consulte a 3ª Cláusula, § 4º, do Contrato de Prestação de Serviços).

Resumo: A família é um grupo social que exerce influência bastante significativa na vida das pessoas. Podendo-
se assim dizer que ela é a instituição responsável pelo processo de socialização primária das crianças e
adolescentes. Baseado nessa premissa o presente estudo tem como objetivo investigar a percepção que os
adolescentes têm acerca das práticas educativas de seus pais ou responsáveis. A amostra foi composta por 107
adolescentes estudantes de escolas da rede pública de ensino fundamental da cidade de João Pessoa-PB, com
idades entre 11 e 16 anos, dos sexos feminino e masculino. Para a coleta de dados utilizou-se o Inventário de
Estilos Parentais (IEP), de Gomide (2006), que avalia sete estilos parentais, sendo dois relacionados às práticas
positivas (monitoria positiva e comportamento moral) e cinco negativas (monitoria negativa). Os principais
resultados apontam para categorias regular/abaixo da média e risco, evidenciando clara prevalência de estilos
parentais negativos na amostra.

Palavras-chave: estilos parentais. Adolescentes. comportamentos antissociais. comportamentos pró-sociais.

1
sheylanascimento2@gmail.com
1. INTRODUÇÃO

O presente trabalho é uma pesquisa realizada com adolescentes da


cidade de João Pessoa – PB acerca de suas percepções sobre as práticas
educativas de seus pais/ responsáveis. Na presente pesquisa os adolescentes
puderam avaliar acerca das práticas educativas de seus pais através do
Inventário de Estilos Parentais (IEP), de Gomide (2006), que avalia sete estilos
parentais.

Acredita-se que os comportamentos parentais estão relacionados ao


desenvolvimento sadio ou não de seus filhos. E que cada estilo parental vai
influenciar no desenvolvimento e comportamentos dos mesmos.

O estudo é de bastante importância para a reflexão e tomada de


decisão acerca das práticas parentais e os comportamentos mal adaptativos
de seus filhos, assim como os comportamentos assertivos.

A pesquisa contou com a participação de 107 estudantes do ensino


fundamental, com idade média de 13,23 (variando de 11 a 16 anos). Em sua
maioria, os participantes foram do sexo feminino (52,3%). Quanto à serie
escolar, a maior parte dos adolescentes da amostra (51,4%) estudam no nono
ano, enquanto os demais distribuem-se de forma equilibrada no sexto e no
oitavo ano, com 23,4% e 25,2%, respectivamente.

Na coleta de dados foram utilizados os seguintes instrumentos:

- Questionário sócio-demográfico: elaborado para o uso no presente estudo,


com a finalidade de coletar informações sobre aspectos da vida escolar, nível
socioeconômico e social ;

- Inventário de Estilos Parentais (IEP): Inventário de Gomide (2006) composto


por 42 questões que correspondem às sete práticas educativas, sendo duas
positivas (monitoria positiva e comportamento moral) e cinco práticas educativas
negativas (punição inconsistente, negligência, disciplina relaxada, monitoria negativa
e abuso físico), cada uma delas com 6 itens em escala do tipo Likert. O adolescente
avalia com que frequência seu pai, mãe ou cuidador utiliza a prática descrita no item.
O índice de estilo parental é obtido da soma de pontos das escalas de práticas
positivas, os quais são subtraídos do somatório dos pontos das cinco escalas de
práticas negativas. O índice aponta para a prevalência de práticas positivas ou
negativas no processo educacional. O inventário não é apresentado em anexo por
ser comercializado.

2. DESENVOLVIMENTO
Desde os tempos mais antigos, a família corresponde a um grupo social que
exerce influência bastante significativa na vida das pessoas, sendo encarada como
um grupo de organização complexa, no qual está inserida num contexto social mais
amplo onde está em constante interação (BIASOLI-ALVES, 2004). Pode-se assim
dizer que a família é a instituição responsável pelo processo de socialização primária
das crianças e adolescentes (SCHENKER e MINAYO, 2003).
Ao longo do século XX, a atenção ao cuidado com a criança tem sido uma
constante no mundo ocidental. Porém, as formas de lidar e educar, assim como os
responsáveis por esse processo de educação (pais ou responsáveis), se
modificaram com o decorrer do tempo (CASSONI, 2013).
No início do século XX, as formas de educar os filhos eram baseadas na
religião e na forma de como as mães foram educadas. Os pais mantinham o controle
e a obediência dos filhos por meio da punição severa. Elogios e agrados eram
escassos, e não se davam explicação do porquê de suas ordens e proibições
(BIASOLI-ALVES, 2002).
Nas décadas de 50 e 60 houveram mudanças nos comportamentos
educativos dos pais. Eles achavam importante controlar o comportamento dos filhos,
porém de forma menos severa e punitiva, com a psicologia e a psicanálise
influenciando as crenças e atitudes sobre a infância, destacando o objetivo de
proporcionar às crianças uma infância feliz e despreocupada (BIASOLI-ALVES,
2002).
A entrada da mulher no mercado de trabalho, a partir da metade do século
XX, e sua participação no sistema financeiro familiar, acabaram imprimindo um novo
perfil à família (LAGO e col., 2009).
Diante das influências acerca do desenvolvimento dos adolescentes destaca-
se nesse estudo os estilos parentais, que segundo GOMIDE (2006) é definido “como
o conjunto de práticas educativas parentais ou atitudes parentais utilizadas pelos
cuidadores com o objetivo de educar, socializar e controlar o comportamento de
seus filhos” (p. 07).
Vários estudos têm sido desenvolvidos voltados para a avaliação dos estilos
parentais e práticas educativas empregadas na família, focando principalmente nos
efeitos resultantes no desenvolvimento dos filhos, como apontam autores como
CASSONI (2013) GOMIDE (2001) e WEBER e cols. (2006).
Todos recebem uma educação, que de alguma forma, determina o seu
desenvolvimento, e os elementos presentes no modelo de educação recebido
determina comportamentos ou práticas educativas na interação com seus filhos. Dito
de outra forma, estilos parentais mais autoritários ou permissivos, estão
relacionados a diferentes padrões de comportamento adequados ou inadequados
nos filhos (WEBER e cols., 2006).

O estudo dos estilos parentais trata da educação dos filhos de forma bastante
objetiva, investigando os comportamentos dos pais que repercutem num clima
emocional em que se expressam as relações de pais e filhos, tendo como base a
influência dos pais nos comportamentos emocionais e intelectuais dos filhos
(WEBER e cols., 2006).

O modelo teórico de Estilo Parental de GOMIDE (2006) é composto por sete


variáveis, ou seja, práticas educativas, duas delas estão vinculadas ao
desenvolvimento do comportamento pró-social: monitoria positiva e comportamento
moral. Outras cinco práticas são relacionadas ao desenvolvimento do
comportamento anti-social: negligência, abuso físico, disciplina relaxada, punição
inconsistente e monitoria negativa.

As práticas educativas positivas estão subdivididas em: monitoria positiva e


comportamento moral. Já as práticas educativas negativas envolvem o abuso físico,
disciplina relaxada, monitoria negativa, negligência e punição inconsistente.

Práticas Educativas Positivas

Monitoria positiva: segundo DISHION e MCMAHON (1998, citado por


GOMIDE, 2006), a monitoria parental é um conjunto de comportamentos parentais
que envolvem atenção para a localização de seus filhos, para suas atividades e
formas de adaptação.
Comportamento moral: Esta prática educativa está relacionada a inibição do
comportamento anti-social pelo efeito da transmissão de valores ou virtudes, como a
honestidade, generosidade, justiça, compaixão, entre outros (GOMIDE, 2006).

Práticas Educativas Negativas

Abuso físico: GERSHOFF (2002, citado por GOMIDE, 2006) faz uma a
distinção de punição corporal e abuso físico, sendo punição corporal o uso de uma
força física, mas não com o intuito de machucar, mas com o propósito de corrigir ou
controlar o comportamento da criança. Já o abuso físico como sendo o resultado
potencial da punição corporal, caracterizada pelo chutar, espancar, morder, ou seja,
machucar a criança.
Segundo GOMIDE (2004), pesquisas mostram que 95% dos adolescentes
infratores foram espancados na infância. Crianças que apanham com muita
freqüência, podem se tornar apáticas, medrosas e desinteressadas.
Disciplina relaxada: esta prática educativa tem como característica o não
cumprimento de regras estabelecidas. Os pais estabelecem as regras, ameaçam e
quando se deparam com comportamentos opositores por parte dos filhos, abrem
mão de seu papel educativo (GOMIDE, 2004; 2006).
Monitoria negativa: também chamada de supervisão estressante, a monitoria
negativa caracteriza-se por fiscalização e ordens excessivas dadas aos filhos, como
por exemplo, telefonar várias vezes seguidas para filho, para verificar se ele está
mesmo na casa do amigo, ir até o quarto escutar a conversa do mesmo com seus
amigos, escutar telefonemas, dizer todos os dias que não estudou e que não irá
passar de ano, entre outros (GOMIDE 2004; 2006). Em comparação com a monitoria
positiva, a monitoria negativa refere-se às tentativas de controle que inibem ou
atrapalham o desenvolvimento da autonomia e autodirecionamento da criança pelo
fato de manter uma dependência emocional dos pais (GOMIDE, 2006).
Negligência: a negligência é caracterizada pela falta de atenção, pela
ausência, pelo descaso, pela omissão, ou simplesmente pela falta de amor. A
negligência é considerada uma das principais, senão a principal causa do
desencadeamento de comportamentos anti-sociais nas crianças, e está intimamente
associado à história de vida do usuário de álcool e outras drogas, e de
comportamento infrator em adolescentes (GOMIDE, 2004).
Punição inconsistente: também denominada de humor instável, a punição
inconsistente é caracterizada quando a criança é punida ou não em função do
estado de humor dos pais e não em função de um mau comportamento. Neste caso,
os pais ensinam seus filhos a discriminarem seu humor e não a reconhecer o mau
comportamento executado (GOMIDE, 2004).
No mundo ocidental, cabe a família dimensionar as práticas educativas da
prole, planejar a compor o ambiente familiar em que a criança vai viver, e
estabelecer modos e limites nas interações entre pais, filhos e netos. É sua a tarefa
de proporcionar condições para a formação da identidade dos filhos e manter a
convivência e as trocas afetiva entre seus membros, incluindo o cuidado na
transmissão de valores entre pais e filhos (BIASOLI-ALVES, 2002).
Com o intuito de investigar a percepção que os adolescentes têm acerca das
práticas educativas empregadas pelos seus pais ou responsáveis, foi desenvolvido o
presente trabalho, tendo como instrumento principal o Inventário de Estilos Parentais
(IEP).
As práticas educativas parentais são analisadas a partir das médias obtidas
pelos genitores ou outros responsáveis no Inventário de Estilos Parentais nas
categorias de práticas positivas e negativas, conforme avaliação do adolescente.
As médias dos escores das práticas educativas utilizadas pelas mães e pais
ou responsáveis dos adolescentes conforme avaliação desses últimos, são
apresentados nas tabelas 2, 3 e 4. Vale lembrar que a pontuação máxima em cada
prática educativa é de 12 pontos, tendo uma valência positiva no caso das práticas
positivas (monitoria positiva e comportamento moral) e negativa no caso das
práticas negativas (punição inconsistente, negligência, disciplina relaxada, monitoria
negativa e abuso físico), e que a apresentação destes resultados tem apenas a
finalidade de demonstrar os escores brutos, que farão mais sentido quando
analisados a partir de sua interpretação, o que será apresentado na sequência.
Nos resultados obtidos as médias nas práticas parentais positivas – monitoria
positiva e comportamento moral favorecem as mães ou outras responsáveis (M =
18,32; DP = 4,44), como se pode observar na tabela 2, uma vez que são um pouco
superiores às médias dos pais ou responsáveis. Vale observar, contudo, que nos
dois fatores as médias encontradas caracterizam-se como regular/abaixo da média,
conforme tabelas de dados normativos apresentados por Gomide (2006, p. 58 e 59)
e tabela de interpretação (p. 57), o que aplica a todos (pais, mães ou outros
responsáveis).

Tabela 2. Médias nas práticas parentais positivas por responsável

Gênero Monitori Comportamento Total


a moral práticas
positiva positivas
Média 7,86 8,39 16,25
PAI Mediana 8,00 9,00 17,00
(ou Desvio 3,32 2,80 5,73
outro) padrão
n=107 Escore 0 0 0
mínimo
Escore 12 12 24
máximo
Média 9,19 9,13 18,32
MÃE/ Mediana 10,00 10,00 20,00
(Outras) Desvio 2,60 2,27 4,44
padrão
(n=107) Escore 0 3 3
mínimo
Escore 12 12 24
máximo
* Conforme estilos descritos no Inventário de Estilos Parentais (Gomide, 2006)

Como apresentado na tabela 3, os pais ou responsáveis, e da mesma forma,


as mães ou responsáveis, apresentam médias que permitem situá-los nas
categorias regular/abaixo da média (M: 18,67; DP: 9,01; M: 20,99; DP: 8,01) nas
práticas negativas: punição inconsistente, disciplina relaxada e monitoria negativa, e
na categoria de risco nas práticas abuso físico e negligência, de acordo com tabelas
de dados normativos e de interpretação apresentados por GOMIDE (2006).

Tabela 3: Médias nas práticas parentais negativas por responsável

Responsá Punição Negligên Disciplin Monitori Abus Práticas


vel inconsistent cia a a o negativa
e relaxad negativa físico s
a
Média 3,84 4,09** 3,45 5,21 2,07* 18,67
*
PAI Mediana 3,00 3,67 3,00 5,21 1,00 18,00
(ou outro) D. 2,65 3,20 2,53 2,43 2,23 9,01
padrão
n=107 E. 0 0 0 0 0 0
mínimo
E. 12 12 12 12 10 58
máximo
Média 4,94 3,47** 3,62 6,73 2,22* 20,99
*
MÃE/ Mediana 5,00 3,00 3,00 7,00 2,00 20,00
(Outras) D. 2,32 2,87 2,32 2,22 2,14 8,01
padrão
(n=107) E. 0 0 0 2 0 5
mínimo
E. 12 12 12 12 12 58
máximo
* Conforme estilos descritos no Inventário de Estilos Parentais (GOMIDE, 2006)
** A média nessas práticas parentais colocam os pais/responsáveis na categoria
de risco.

No que se refere ao IEP Total, isto é, a média resultante da soma das práticas
educativas positivas empregadas pelos responsáveis (pais, mães ou outros) e
subtração das negativas, como mostra na tabela 4, as médias resultantes situam-se
na categoria de risco, apontando para uma condição que merece atenção (M: -2,42;
DP: 10,26; M: -2,67; DP: 10,12).

Tabela 4: Índice de Estilos Parentais (IEP) total média


Responsável Pai (n=107) Mãe (n=107)
Média -2,42 -2,67
Mediana -2,00 -,86
Desvio Padrão 10,26 10,12
Escore mínimo -34 -34
Escore máximo 16 14

Resultados do IEP por categorias.


Tendo como parâmetro as tabelas de dados normativos e interpretação para
os escores do IEP, de GOMIDE (2006), os dados relativos às práticas educativas
positivas e negativas, bem como do IEP total, foram distribuídos em categorias,
como mostra as tabelas (risco, regular/abaixo da média, regular/acima da média e
ótima).

Práticas Positivas

Tabela 5: Dados percentuais por categorias em monitoria positiva (n=107)


Pai Mãe
Estilo parental Fr % Fr %
Risco
Ótimo 32
30 29,9
28 38
23 35,5
21,5
Regular/abaixo da 34 31,8 26 24,3
média
Regular/acima da média 11 10,3 20 18,7

Conforme se pôde observar na tabela 05, destacaram-se nas práticas


parentais positivas os estilos parentais de risco e regular/abaixo da média, que
aplica-se a quase dois terços da amostra, tanto no caso dos pais quanto das mães
(ou outros responsáveis), quando considerados as duas categorias de classificação
menos favoráveis quando se trata de práticas parentais educativas no caso do
primeiro fator analisado – monitoria positiva. Particularmente chama a atenção o fato
de que 35,5% das mães e 29,9% dos pais apresentam, conforme informação dos
adolescentes, práticas parentais de risco quando se trata da prática monitoria
positiva.
Segundo as pesquisas mais importantes da área da educação infantil, pais
que acompanham de forma positiva as atividades das crianças e adolescentes não
são encontradas usuários de drogas e indivíduos com comportamentos antissociais.
Os pesquisadores estão apontando para este tipo de educação como sendo o mais
eficaz para diversos problemas que surgem na adolescência, como o uso de drogas,
baixo desempenho escolar, abandono da escola ou comportamento agressivo, em
geral (GOMIDE, 2004).
Esse índice de risco sugere uma urgente necessidade de aprimoramento na
forma de monitorar, fiscalizar e acompanhar os filhos. Aconselha-se a participação
dos pais em programas de intervenção terapêutica.
Tabela 6: Dados percentuais por categorias em comportamento moral (n=107)
Pai Mãe
Estilo parental Fr % Fr %
Risco 25 23,4 23 21,5
Regular/abaixo da 36 33,6 28 26,2
média
Regular/acima da média 20 18,7 40 37,4
Ótimo 26 24,3 16 15

Especificamente no que diz respeito ao segundo fator – Comportamento


moral (tabela 06 ) os pais apresentam uma situação mais desfavorável, com quase
mais da metade dos sujeitos nas categorias de risco ou regular/abaixo da média (33,
6%). Vale observar que quase um quarto dos pais apresentam estilo parental ótimo
nesse fator (24 3%), conforme avaliação dos adolescentes. As mães apresentam
uma situação um pouco mais favorável com pouco menos da metade nas categorias
de risco (21,5%) e abaixo da média (26, 2%) para este fato, e correspondentemente,
mais de um terço delas nas categorias acima da média (37,4%). Considerando-se as
duas categorias mais favoráveis – acima da média e ótimo, mais da metade das
mães estão nessas categorias para o fator comportamento moral.
Tais resultados indicam que os pais transmitem de forma errônea os valores e
virtudes morais para seus filhos. Não explicam de forma correta a diferenciar o certo
do errado, e dão poucas oportunidades para que os filhos expressem situações em
que o comportamento moral possa ser aprendido (GOMIDE, 2004).
A literatura aponta claramente que o comportamento moral é um fator de
proteção para comportamentos antissociais e o uso de drogas em adolescentes
(GOMIDE, 2004).
Segundo HUGHES e DUNN (2000), ao focalizarem as questões de moral nas
relações entre Estilos Parentais e comportamento sociomoral, argumentam que a
deliquência na idade adulta parece estar relacionada à criança não receber e não
presenciar modelos de valores morais dentro de sua própria família (GOMIDE,
2006).
Em suma, no que diz respeito às práticas parentais positivas, destacam-se os
elevados percentuais, tanto dos pais como das mães, que, de acordo com a
avaliação dos adolescentes, apresentam estilos de risco e regular/abaixo da média.

Práticas parentais negativas

Tabela 7: Dados percentuais por categorias em punição inconsistente


(n=107)
Pai Mãe
Estilo parental Fr % Fr %
Risco 33 30,8 62 57,9
Regular/abaixo da 39 36,4 17 15,9
média
Regular/acima da média 14 13,1 20 18,7
Ótimo 21 19,6 8 7,5

No que diz respeito à punição inconsistente (tabela 7), tanto pais quanto mães
(ou outros responsáveis), tendem a apresentar práticas que são avaliadas
predominantemente pelos adolescentes como regular/abaixo da média ou mesmo
de risco, evidenciando uma situação mais crítica das mães nesse fator.
As mães obtiveram médias muito maiores que os pais na categoria de risco.
Ou seja, as mães utilizam mais práticas negativas de punição inconsistentes do que
os pais. Dito de outra maneira, as mães utilizam com bastante frequência o humor
como estratégia educativa.
Segundo FELDMAN (1977), a baixa autoestima causada por prática educativa
de punição inconsistente, deixa a criança mais vulnerável a cometer atos criminosos
por estar fragilizada.
A variação de humor durante as interações educativas têm prejuízos
relevantes para a educação das crianças e adolescentes (GOMIDE, 2004).

Tabela 8: Dados percentuais por categorias em negligência (n=107)


Pai Mãe
Estilo parental Fr % Fr %
Risco 38 35,5 47 43,9
Regular/abaixo da 31 29 12 11,2
média
Regular/acima da média 12 11,2 32 29,9
Ótimo 26 24,3 16 15
Na dimensão negligência, os pais e mães ou responsáveis apresentam uma
situação de atenção, com mais da metade dos sujeitos estão nas categorias de risco
ou regular/abaixo da média. Ressalta-se que a mãe com um maior índice na
categoria de risco com 43,9%.

Segundo FELDMAN (1977), há uma ligação entre carência afetiva e o crime,


baseado na proposição de que a carência prejudica fortemente a capacidade de
construir relações com os outros, o que leva ao desenvolvimento do comportamento
infrator futuro. Em outras palavras, o jovem que viveu em ambiente familiar carente
ou ausente de relações afetivas consistentes poderá prejudicar o outro sem
remorsos.

Poucos sabem que os efeitos causados pela negligência são tão severos
quanto os causados pelo espancamento. Crianças negligenciadas e espancadas
tornam-se adultos infratores, usuários de drogas, agressivos, enfim, geram uma
série de condutas antissociais que inviabilizam à sua adaptação na sociedade. A
negligência afeta o desenvolvimento da autoestima, que é o principal antídoto contra
os comportamentos antissociais. A criança negligenciada é insegura, frágil.
Pesquisadores encontram crianças negligenciadas comportando-se de forma
apática ou agressiva, mas nunca de forma equilibrada (GOMIDE, 2004).

Tabela 9: Dados percentuais por categorias em disciplina relaxada (n=107)


Pai Mãe
Estilo parental Fr % Fr %
Risco 33 30,8 34 31,8
Regular/abaixo da 32 29,9 34 31,8
média
Regular/acima da média 18 16,8 18 16,8
Ótimo 24 22,4 21 19,6
Os pais e as mães ou responsáveis apresentam uma situação semelhante,
ambos com mais da metade dos sujeitos nas categorias de risco ou regular/abaixo
da média. A mãe apresente uma situação ainda pior, com maior frequência no
comportamento de risco ou regular/abaixo da média em disciplina relaxada.

Os resultados mostram o quanto os pais quebram as regras estabelecidas


com os filhos. Esta forma de interação ensina o desrespeito às normas
estabelecidas, desrespeito à autoridade e manipulação emocional. Falhas por parte
dos pais em estabelecer práticas de disciplina e monitoria podem levar ao
comportamento antissocial. Os autores concluíram haver correlação entre pais que
forneciam precária monitoria aos filhos e comportamento de risco em adolescentes:
baixa freqüência no uso de preservativos ou contraceptivos em relações sexuais,
multiplicidade em parceiros sexuais, uso de maconha e álcool, experiência de ter
sido preso, maior incidência de doenças sexualmente transmissíveis (CAVELL, 2000
apud GOMIDE, 2006).

Tabela 10: Dados percentuais por categoria em monitoria negativa (n=107)


Pai Mãe
Fr % Fr %
Estilo parental
Risco 33 30,8 41 38,3
Regular/abaixo da 32 29,9 36 33,6
média
Regular/acima da média 28 26,2 22 2,6 Na
Ótimo 14 13,1 8 7,5
dimensão monitoria negativa (tabela 10) os pais e as mães (ou responsáveis)
apresentaram uma situação negativa, com mais da metade dos sujeitos nas
categorias de risco ou regular/abaixo da média. Um terço dos pais estariam na
categoria regular/acima da média e ótimo (26,2%). Já entre as mães menos de um
terço encontram-se nestas duas categorias (38, 3%; 33, 6%, respectivamente) .
Pais que utilizam a monitoria negativa com frequência pensam que são
dedicados e que estão fazendo o melhor possível, que se sacrificam pelos filhos e
que merecem retribuição. Infelizmente, na opinião destes pais, os filhos não
valorizam seus esforços. Porém, os filhos não sentem que estão sendo amados e
bem cuidados. Sentem que os pais não confiam neles, que os fiscalizam
constantemente, e que precisam fazer de tudo para garantir sua independência,
tornando-se agressivos (GOMIDE, 2004).
A maioria dos modelos de monitoria “estressante” acarreta efeitos para os
adolescentes, como tendências a se unirem a pares antissociais, o que por sua vez
aumenta o risco para a deliquência (GOMIDE, 2006).

Tabela 11: Dados percentuais por categorias em abuso físico (n=107)

Pai Mãe
Estilo parental Fr % Fr %
Risco 51 47,7 59 55,1
Regular/abaixo da 25 23,4 21 19,6
média
Ótimo 31 29,0 27 25,2

Os dados da categoria abuso físico (tabela 11) mostram que os pais/mães ou


responsáveis apresentaram uma situação crítica, com mais da metade dos sujeitos
nas categorias de risco ou regular/abaixo da média. Pouco menos de um terço dos
pais e das mães estariam na categoria ótimo.

Utilizar-se de disciplina corporal para corrigir pode trazer sérios problemas


para a autoestima da criança ou adolescente (GOMIDE, 2009).

Para HAAPASOTOA e POKELAA (1999), práticas parentais violentas têm


sido consideradas como fatores etiológicos de problemas sociais e psicológicos,
como comportamentos criminosos e distúrbios psiquiátricos em adultos (GOMIDE,
2006).

A humilhação ou agressão por parte dos pais geram nos filhos, sem eles se
darem conta, baixa autoestima. Por conseqüência, esses procuram as drogas e
grupos deliquentes, onde por meios de comportamento antissociais, infratores,
proibidos conseguem melhorar sua autoestima. Isso porque de alguma forma eles
precisam estar encorajados para seu desempenho (GOMIDE, 2004).

A maioria das pessoas reconhecem que crianças que são espancadas se


tornarão adultos problemáticos. Pesquisas mostram que 95% dos adolescentes
infratores foram espancados na infância (GOMIDE, 2004).
Tabela 12: Dados percentuais por categorias no IEP TOTAL (n=107)
Pai Mãe
Estilo parental Fr % Fr %
Risco 46 43 51 47,7
Regular/abaixo da 30 28 25 23,4
média
Regula/acima da média 21 19,6 27 25,2 Com
Ótimo 10 9,3 4 3,7

relação aos estilos parentais avaliados, os mesmo estão organizados na tabela 12 e


figura 1 e indicam que mostra a análise indicando que os pais/mães ou
responsáveis, apresentam que pouco menos da metade estão na categoria de risco.
Pouco menos de um terço estão na categoria regular/abaixo da média e
regular/acima da média. Já na categoria ótima os pais estão com 9,3% um pouco
melhor que as mães com apenas 3,7%. Prevalecem, como se pode observar, as
práticas educativas negativas, de acordo com a avaliação dos adolescentes. Assim,
os maiores scores estão relacionados a categorias de riscos e regular/abaixo da
média, o que remete à necessidade de indicações de possíveis intervenções
psicológicas para acompanhamento destes pais.

Os pais/mães ou responsáveis utilizam mais as práticas negativas que as


positivas, o que vem a ser preocupante, tendo em vista o fato de que práticas
parentais negativas são fortes preditores de comportamentos antissociais em
adolescentes, como já foi abordado.

Aconselha-se a esses tipos de estilos parentais a participação em programas


de intervenção terapêutica, em grupo ou casal ou individualmente, especialmente
desenvolvidos para pais com dificuldades em práticas educativas nas quais possam
ser enfocadas as conseqüências do uso de práticas negativas em detrimento das
positivas (GOMIDE, 2006).

Considerações Finais

O presente estudo obteve resultados considerados preocupantes e que


chamam atenção devido ao fato dos adolescentes perceberem os pais ou
responsáveis de forma negativa no que diz respeito às práticas empregadas na
educação de seus filhos, em especial a mãe, que apresentou maiores médias nas
categorias de risco e/ou regular/abaixo da média, em praticamente todas as
categorias. É importante lembrar que o modelo de família tem sofrido modificações
no decorrer dos tempos. O cenário atual vigente do mercado de trabalho faz com
que os pais se ocupem de forma exacerbada, o que pode ser um dos fatores que
provocam certos impactos negativos na educação dos filhos.

Diante do exposto e no que se refere a percepção dos adolescentes em


relação ao comportamento dos pais, destaca-se a importância de novas pesquisas
sobre a temática apresentada, visando o levantamento de práticas educativas dos
pais ou responsáveis e a consequente busca urgente de estratégias que venham a
intervir nas práticas educativa dos parentais, favorecendo o emprego de práticas
positivas, sabidamente relacionadas com melhor desenvolvimento dos filhos, e a
redução das práticas negativas, promotoras de comportamentos de risco.

Referências

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