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O PRINCÍPIO DA RAZOABILIDADE E OS DIREITOS FUNDAMENTAIS

O princípio da razoabilidade é fruto da evolução da jurisprudência


constitucional norte-americana sobre a cláusula do devido processo legal, no seu
aspecto material. Passou-se a exigir do Poder Público que os seus atos estivessem
embasados na razão, bom senso, equilíbrio e justiça (LUCON, 2005).

Assim, o princípio da razoabilidade, embora não esteja expressamente


previsto na Constituição de 1988, pode ser aferido da compreensão do sistema
constitucional pátrio, principalmente do espírito que conduziu os trabalhos
legislativos da Assembléia Constituinte, bem como da conjugação dos princípios da
igualdade e do devido processo legal.

Assim como todos os princípios, os quais têm a função de organizar e


harmonizar o sistema jurídico, o princípio da razoabilidade traça diretrizes a serem
seguidas pelo Estado Democrático de Direito.

A definição do princípio é bastante complexa. Primeiro, há a discussão


sobre a similitude ou não entre os princípios da razoabilidade e proporcionalidade.
Depois, o campo de abrangência do princípio é bastante extensa.

Segundo Guilherme Pena de Moraes (2003), “o princípio da


razoabilidade indica que a validade dos atos emanados do Poder Público é aferida à
luz de três máximas: adequação, necessidade ou exigibilidade e proporcionalidade”.

Consoante a lição de Luís Roberto Barroso (1999), “o princípio da


razoabilidade é um parâmetro de valoração dos atos do Poder Público para aferir se
eles estão informados pelo valor superior inerente a todo ordenamento jurídico: a
justiça”.

O mestre Paulo Bonavides (2003), por sua vez, leciona que a


razoabilidade é axioma do direito constitucional moderno, funcionando como regra
que limita a ação do poder estatal na esfera da juridicidade.

Assim, o princípio da razoabilidade não poderia deixar de estar


relacionado com o tema direitos fundamentais. Em sede de jurisdição constitucional,
o princípio ganha relevância na proteção das liberdades asseguradas pelo
constituinte, principalmente na hipótese de colisão entre direitos fundamentais.

Konrad Hesse (1998) ensina que:

[...] a limitação de direitos fundamentais, deve, por conseguinte, ser


adequada para produzir a proteção do bem jurídico, por cujo motivo
ela é efetuada. Ela deve ser necessária para isso, o que não é o
caso, quando um meio mais ameno bastaria. Ela deve, finalmente,
ser proporcional no sentido estrito, vale dizer, guardar relação
adequada com o peso e o significado do direito fundamental.

Em suma, o princípio da razoabilidade demonstra-se como importante


instrumento para proteção do núcleo fundamental dos direitos humanos positivados.

Referências

• BARROSO, Luís Roberto. Interpretação e aplicação da constituição:


fundamentos de uma dogmática constitucional transformadora. 3.ed. São
Paulo: Saraiva, 1999;

• BONAVIDES, Paulo. Curso de direito constitucional. 13 ed. São Paulo:


Malheiros, 2006;

• HESSE, Konrad. Elementos de direito constitucional da República


Federal da Alemanha. 1 ed. Porto Alegre: Sérgio Antônio Fabris, 1998;

• LUCON, Paulo Henrique dos Santos. Devido processo legal substancial.


In: ______. Leituras Complementares de Processo Civil. Salvador:
Juspodivm, 2005;

• MORAES, Guilherme Pena de. Direito constitucional: teoria da constituição.


Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2003.
OS DESTINATÁRIOS DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS

Os direitos fundamentais são os direitos humanos positivados pelo


ordenamento jurídico pátrio. Em sua essência, são decorrentes da natureza humana
e estão intrinsecamente ligados à pessoa humana.

Independentemente da nação, os direitos fundamentais são dirigidos a


todos os seres humanos. Como ensina Paulo Bonavides (2006):

A nova universalidade dos direitos fundamentais os coloca assim,


desde o princípio, num grau mais alto de juridicidade, concretude,
positividade e eficácia. É universalidade que não exclui os direitos da
liberdade, mas primeiro os fortalece com as expectativas e os
pressupostos de melhor concretizá-los mediante a efetiva adoção
dos direitos da igualdade e fraternidade.

[...]

A nova universalidade procura, enfim, subjetivar de forma concreta e


positiva os direitos da tríplice geração na titularidade de um
indivíduo que antes de ser o homem deste ou daquele país, de
uma sociedade desenvolvida ou subdesenvolvida, é pela sua
condição de pessoa um ente qualificado por sua pertinência ao
gênero humano, objeto daquela universalidade (grifo nosso).

Assim, os direitos fundamentais se dirigem ao ser humano em razão da


sua essência. Também destinam-se aos seres abstratos que são titulares de
direitos, como as pessoas jurídicas.

Em regra, os direitos fundamentais são assegurados a todos, inclusive


aos estrangeiros. As exceções legítimas são apenas aquelas previstas
expressamente na Constituição, como por exemplo, os direitos fundamentais de
natureza política. Como muito bem explica André Ramos Tavares (2007):

[...] os direitos humanos de natureza política não são


necessariamente conferidos a todos desde logo, porque implicam
opções conscientes e complexas que não podem ser, por exemplo,
deferidas a uma criança. Por isso que o direito ao voto não é
conferido senão aos que possuem o mínimo de desenvolvimento
intelectual que confira a faculdade de discernir entre as diversas
opções que se apresentam e optar por uma delas.
Nas relações privadas, nada obstante terem os direitos fundamentais
surgido como instrumento de proteção em face do Estado, verifica-se a sua
incidência direta e imediata, uma vez que além do Poder Público, as pessoas físicas
e jurídicas encontram-se submetidas à Constituição, principalmente no tocante ao
respeito aos direitos e garantias fundamentais. Daniel Sarmento enfatiza:

[...] apesar da elasticidade e da tendência expansiva que os direitos


fundamentais assumem no campo das relações privadas, parece-nos
que, afora algumas exceções pontuais que não infirmam a regra, a
vinculação dos particulares a tais direitos não abrange o dever de
proteção dos mesmos, em relação a lesões e ameaças provenientes
de terceiros. Em outras palavras, cada pessoa ou entidade privada
tem a obrigação jurídica de respeitar, comissiva e omissivamente, os
direitos fundamentais alheios, mas não tem o dever de proteger
estes mesmos direitos diante de agressões de terceiros.

Referências

• BONAVIDES, Paulo. Curso de direito constitucional. 13 ed. São Paulo:


Malheiros, 2006;

• SARMENTO, Daniel. A vinculação dos particulares aos direitos


fundamentais no Direito Comparado e no Brasil. In: ______. Leituras
Complementares de Processo Civil. Salvador: Juspodivm, 2005;

• TAVARES, André Ramos. Curso de direito constitucional. 5 ed. São Paulo:


Saraiva, 2007.
SEGUNDA GERAÇÃO DE DIREITOS FUNDAMENTAIS

Os direitos fundamentais de segunda geração surgiram em face de


uma grande lacuna na sociedade decorrente da simples limitação do Poder Público,
com a proteção apenas dos direitos e garantias individuais clássicas. Inegavelmente,
a proteção das liberdades individuais e políticas significou um grande avanço na
história:

Os direitos de primeira geração são os direitos da liberdade, os


primeiros a constarem do instrumento normativo constitucional, a
saber, os direitos civis e políticos, que em grande parte
correspondem, por um prisa histórico, àquela fase inaugural do
constitucionalismo do Ocidente (BONAVIDES, 2006).

Mas era preciso mais: a atuação do Estado em prol da sociedade. Não


bastavam apenas as prestações negativas para assegurar o direito à vida, à
liberdade, à igualdade. O Estado Liberal não atendia mais aos novos interesses do
século XX:

Os direitos da segunda geração merecem um exame mais amplo.


Dominam o século XX do mesmo modo como os direitos da primeira
geração dominaram o século passado. São os direitos sociais,
culturais e econômicos bem como os direitos coletivos ou de
coletividades, introduzidos no constitucionalismo das distintas formas
de Estado social (BONAVIDES, 2006).

Assim, os direitos invocados na segunda dimensão ou geração de


direitos fundamentais “são os direitos sociais, que visam a oferecer os meios
materiais imprescindíveis à efetivação dos direitos individuais. Também pertencem a
essa categoria os denominados direitos econômicos, que pretendem propiciar os
direitos sociais” (TAVARES, 2007).

A mudança do Estado Liberal para o Estado do Bem-Estar Social


(Welfare State) e a conseqüente constitucionalização dos direitos de segunda
dimensão originou-se da necessidade de mudanças do sistema capitalista, com
diretrizes mais igualitárias e justas.
No entanto, logo surgiram conseqüências negativas. O aumento
progressivo do Estado com o objetivo de assegurar os direitos da segunda dimensão
tornou-se muito oneroso para a sociedade, somada à notória incompetência do
Estado para gerir tantos setores.

Entre os dois extremos, Estado Liberal e Estado Social, buscou um


modelo intermediário: o Estado Democrático Social de Direito ou o Estado de Direito
Social Democrático.

Nesse contexto, diante da complexidade das relações sociais a partir


do Século XX, também percebeu-se que:

[...] alguns bens e valores são titulados pelo conjunto da coletividade


sem que se possa dizer que seja titulado por qualquer pessoa em
exclusão das demais ou por qualquer grupo especificamente. Trata-
se de interesses transindividuais, difusos ou coletivos. Esses direitos
protegem interesses que são titulados não por apenas um indivíduo,
mas por um conjunto de pessoas que estão ligadas por uma relação
jurídica, os direitos coletivos, ou por um conjunto de pessoas
indeterminadas, os direitos difuso (JORGE NETO, 2008).

Surge, assim, a terceira dimensão dos direitos fundamentais.

São direitos de terceira dimensão aqueles que se caracterizam pela


sua titularidade coletiva ou difusa, como o direito do consumidor e o
direito ambiental. Também costumam ser denominados como direitos
da solidariedade ou fraternidade (TAVARES, 2007).

Citem-se, como exemplo, dessa nova dimensão, o direito ambiental e o


direito do consumidor.

Referências

• BONAVIDES, Paulo. Curso de direito constitucional. 13 ed. São Paulo:


Malheiros, 2006;

• JORGE NETO, Nagibe de Melo. O controle jurisdicional das políticas


públicas: concretizando a democracia e os direitos sociais fundamentais.
Salvador: Juspodivm, 2008;
• TAVARES, André Ramos. Curso de direito constitucional. 5 ed. São Paulo:
Saraiva, 2007.
GARANTIAS CONSTITUCIONAIS E INSTITUCIONAIS

Em sentido amplo, as garantias constitucionais “tanto podem ser


garantias da própria Constituição [...] como garantias dos direitos subjetivos
expressos ou outorgados na Carta Magna, portanto remédios jurisdicionais eficazes
para a salvaguarda desses direitos [...]” (BONAVIDES, 2006).

As garantias constitucionais dirigem-se aos direitos subjetivos, servem


para assegurá-los. As garantias institucionais, por sua vez, desempenham a função
de proteção de bens jurídicos indispensáveis à preservação de instituições
essenciais da Constituição.

A propósito, os ensinamentos do mestre Canotilho (2005):

A defesa da constituição pressupõe a existência de garantias da


constituição, isto é, meios e institutos destinados a assegurar a
observância, aplicação, estabilidade e conservação da lei
fundamental. Como se trata de garantias de existência da própria
constituição (cfr. a fórmula alemã: Verfassungsbestandsgarantien),
costuma dizer-se que elas são a ‘constituição da própria
constituição’.

As garantias da constituição não devem confundir-se com as


garantias constitucionais. Estas, como já foi assinalado, têm um
alcance substancialmente subjectivo, pois reconduzem-se ao direito
de os cidadãos exigirem dos poderes públicos a proteção dos seus
direitos e o reconhecimento e consagração dos meios processuais
adequados a essa finalidade.

Sobre tema, importante destacar também a lição de Paulo Bonavides


(2006):

Na primeira acepção as garantias são concebidas para manter a


eficácia e a permanência da ordem constitucional contra fatores
desestabilizantes, sendo em geral a reforma da Constituição, nesse
caso, um mecanismo primordial e poderoso de segurança e
conservação do Estado de Direito, o mesmo se dizendo também do
estado de sítio e de outros remédios excepcionais, fadados a manter
de pé, em ocasiões de crise e instabilidade, as bases do regime e o
sistema das instituições.

Na segunda acepção já não se trata de obter uma garantia para a


Constituição e o direito objetivo na sua totalidade, mas de
estabelecer uma proteção direta e imediata aos direitos
fundamentais, por meio de remédios jurisdicionais próprios e
eficazes, providos pela ordem constitucional mesma.

Em suma, as garantias institucionais, umas das maiores inovações


constitucionais do Século XX, visam tutelar instituições imprescindíveis do Estado.
As constitucionais têm por objetivo a proteção dos direitos fundamentais e
caracterizam-se como imposições ao Poder Público, para assegurar a observância
dos direitos fundamentais.

Referências

• BONAVIDES, Paulo. Curso de direito constitucional. 13 ed. São Paulo:


Malheiros, 2006;

• CANOTILHO, J. J. Gomes. Direito Constitucional. 6 ed. Coimbra: Almedina,


2003.