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Não te armes em herói!

Uma contextualização para o que sentimos mas não percebemos

A equipa nobox
28 abril 2020
«Mayday! Mayday! Houston [World], we’ve had a problem!

A Andreia tinha acabado de ver uma reprodução da missão Apollo


13 antes de ir fazer noite nas urgências e essa frase não lhe saía da
cabeça. A caminho do serviço viu um agradecimento aos profissionais
de saúde, os heróis do momento, aqueles que estão na linha da frente e
dos quais tudo se espera e tudo se exige - compreensivelmente, porque
uma boa parte do sucesso do combate ao COVID-19 está dependente
deles, e de todas as abdicações e privações às quais são sujeitos. A
Andreia sentiu um arrepio, uma sensação de peso e responsabilidade e
pensou: “Isto é para mim? De repente tenho de ser uma heroína e
responder a tudo isto, sem tempo de preparação? Estarei à
altura?”. Quando entrou no seu serviço tinha a certeza de que se
viviam tempos diferentes: o medo e a incerteza estavam ali, entre
todos, disfarçado pela coragem que todos apresentavam. Entre
normativas para ler, indicações nem sempre claras para seguir, uma
sobrecarga mental superior à habitual, a Andreia, sem saber, vestiu a sua
capa de heroína e começou mais um turno de 12 horas.»
A Andreia pode ser enfermeira, assistente operacional, médica ou
farmacêutica, ou qualquer outro profissional de saúde - mas a história,
tal como os desafios, são os mesmos para todos os grupos profissionais. 

A sociedade tem manifestado o seu reconhecimento aos profissionais de


saúde de várias maneiras e já vimos vários momentos de elogio aos
heróis do momento. Se é verdade que este reconhecimento pode ser
importante, também é verdade que pode colocar uma pressão
excessiva sobre os profissionais, desenvolvendo neles um estado de
alerta superior ao habitual. Mas é verdade: vivemos em estado de
alerta. Enquanto profissionais de saúde, sabemos que esta pandemia está
a colocar desafios ao nosso sistema de saúde, às nossas equipas e a cada
um de nós. Compreendemos o papel da diferença que podemos fazer,
reforçado pelas responsabilidades acrescidas no contexto profissional e
pelo reconhecimento mediático que recebemos, da mesma forma que um
super-herói recebe altruisticamente os seus objetivos para mais uma
missão de salvamento.

Assim, mesmo sem sabermos, pode surgir em nós o herói!

Tudo o que atravessamos tem um impacto individual intenso. Muitas são


as emoções que sentimos, despoletadas pelo que estamos a viver, e
mesmo ao longo de um só dia podemos experienciar todo o espectro de
emoções: esperança, desânimo, energia, indiferença, cansaço, tristeza ou
alegria. As emoções podem otimizar a nossa resposta ou influenciar
negativamente a nossa performance. 

Uma pandemia, tal como a que estamos a viver, pode ser equiparada a
um desastre, e a reação emocional nestes casos foi categorizada em
fases, estudadas por Myers e Zunin, em eventos dos últimos 30 anos:
pré-desastre, impacto, heróica, lua de mel, desilusão e reconstrução.

No gráfico abaixo podemos ver a evolução do estado emocional, entre


dois extremos. Podemos ver que na fase do impacto observamos uma
diminuição no estado emocional (correspondendo a emoções como o
medo ou a tristeza). A comunidade reage ao evento com estados
emocionais capazes de lidar com os desafios (com optimismo, altruísmo
e espírito de entreajuda). Depois deste momento observa-se uma fase
onde predominam emoções como a tristeza, desilusão ou desesperança.
Gradualmente, e com o tempo, caminha-se para um restabelecimento,
um “novo normal”.
Fonte: Zunin & Myers
Vários profissionais de saúde encontram-se na fase três - heróica - que
se caracteriza por um elevado nível de atividade, motivação e altruísmo,
mas com potencial para baixa produtividade e com uma maior
probabilidade para desenvolver comportamentos de risco. Assim, alguns
comportamentos que podem surgir nesta altura, e que transmitimos com
o intuito de poderem ser mitigados, são:
 Diminuir os cuidados de proteção individual no contacto com
doentes;
 Não permitir descanso ou relaxamento a si próprio;
 Fazer mais, porque em dado momento alguém tem um rendimento
mais alto;
 Não assumir vulnerabilidades, com receio de juízos de valor;
 Investir esforços em atividades com pouco ou nenhum impacto;
 Tomar decisões precipitadas.
Assim, a nossa mensagem para ti, que temos a certeza que estás a dar o
teu melhor é: não te armes em “herói” -  cuida de ti, evita os riscos desta
fase, e não te esqueças que estamos numa  maratona que apenas
começou.
A gestão correta desta fase e a minimização dos riscos associados
facilitará a progressão pelas fases seguintes, em particular a fase de
desilusão, onde se começa a notar o desgaste acumulado. E permitirá
que tanto tu como a tua equipa aguentem não só o impacto inicial da
crise, mas a resposta sustentada no tempo que ela exigirá!
_____

Mais informações:
Se quiseres saber mais sobre o modelo, descrevemos abaixo uma
explicação resumida de cada uma das seis etapas:
1. Pré-desastre - perante a pandemia, os diferentes países reagiram
com diferentes estratégias. Emocionalmente, pode surgir o medo e a
incerteza sobre a forma como o fenómeno vai afetar o dia a dia e as
suas consequências
2. Impacto, - sente-se o silêncio, as primeiras conferências de
imprensa têm lugar, atenção mediática intensa. No caso da pandemia
podemos considerar o impacto como o Caso 0, o primeiro
identificado no país. Pode sentir-se confusão e descrença face às
primeiras medidas
3. Heróica, - elevado nível de atividade mas com potencial para
baixa produtividade, acompanhada de um sentimento de altruísmo e
com uma maior probabilidade de desenvolver comportamentos de
risco. Enquanto profissionais de saúde, é importante manter os
níveis de energia e atividade adequados, de forma a não
comprometer a disponibilidade para as fases seguintes,
nomeadamente a de desilusão e de reconstrução. É aqui que o
princípio de que tudo isto é uma maratona e não um sprint ganha
mais sentido. 
4. Lua de mel, - com os recursos totalmente focados na pandemia,
surge o optimismo e sensação de que vai ficar tudo bem. A
sociedade mobiliza-se com donativos e iniciativas de interajuda.
Embora algum deste espírito seja importante para a motivação
interna e externa, é importante que não se criem falsas expectativas,
que farão acentuar a fase da desilusão.
5. Desilusão, - em contraste com a fase da lua de mel, nota-se o
desgaste pois o nível de stress mantém-se e surgem reações
negativas como a exaustão física ou o consumo de substâncias.
Continuam a existir necessidades que não são satisfeitas e pode
haver sensação de abandono. Esta fase pode durar meses. Ainda que
esta fase seja difícil, é preciso encontrar fontes de motivação com
vista à próxima fase.
6. Reconstrução - gradualmente, as pessoas começam a ajustar-se ao
novo normal, utilizando os seus próprios recursos. Algumas pessoas
podem vir a desenvolver dificuldade em gerir emocionalmente a
experiência vivida. A lembrança das experiências do passado, como
o confinamento, vêm à consciência durante algum tempo.
Fonte:

DeWolfe, D. J., 2000. Training manual for mental health and human


service workers in major disasters (2nd ed., HHS Publication No.
ADM 90-538). Rockville, MD: U.S. Department of Health and
Human Services, Substance Abuse and Mental Health Services
Administration, Center for Mental Health Services.

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