Você está na página 1de 12

PRISMA, Nº 01, Vol. 01, jan-jul. de 2014, pp.

01-12

A FACULDADE LEGISLATIVA COMO PRINCÍPIO DA MORAL


KANTIANA

Cícero Josinaldo da Silva Oliveira1

RESUMO: Na Crítica da razão prática Kant aborda o entendimento em sua


faculdade legislativa, para fazer desta capacidade do entendimento o fundamento
de sua filosofia moral. Para explicitar a operacionalidade da tese kantiana de que
todo homem pode agir moralmente, se agir segundo os princípios de sua
faculdade legislativa pura (portanto a confiança de que a lei moral, ou antes de
que o fundamento determinante e legítimo da apetição se funda no fato de que
todo homem é um legislador), considerarei três momentos que me parecem
inteiramente articulados no argumento fundamental de Kant. Primeiro: expor,
segundo o desdobramento da Crítica da razão prática, como a razão pura pode
ser admitida como razão prática pura. Segundo: explicitar como, de acordo Kant,
a lei, enquanto princípio de razão e fundamento determinante da vontade, está
formalmente contida na máxima que, por assim dizer, constitui o pano de fundo
de nossas ações. Terceiro: desenvolver a tese segundo a qual o conceito de bom,
tendo-se em conta o que Kant chama de lei fundamental da razão prática pura (o
imperativo categórico), só pode encontrar validade universal no domínio da razão.
Palavras-chave: vontade pura; moral; razão prática.

ABSTRACT: In the Critique of practical reason Kant approaches the


understanding in its legislative power so to make such capability of the
understanding the foundation of his moral philosophy. To clarify the effectiveness
of the Kantian thesis that every man can act morally as long as he acts according
to the principles of its pure legislative power (hence the confidence that the moral
law, or rather, that the decisive and legitimate foundation of the appetition is
grounded on the fact that every man is a lawmaker), I will consider three moments
that I believe to be entirely articulated in Kant’s fundamental argument. First,
exposing, according to the unfolding of the Critique of practical reason, how pure
reason can be accepted as pure practical reason. Second, explaining how,
according to Kant, the law as a principle of reason and determining ground of will
is formally contained in the maxim that, so to speak, is the backdrop of our
actions. Third, developing the argument according to which the concept of good,
taking into account what Kant calls the fundamental law of pure practical reason
(the categorical imperative), can only find universal validity within the realm of
reason.
Keywords: pure will; moral; practical reason.

1
Doutorando pelo Programa de Pós-graduação em Filosofia da Pontifícia Universidade Católica
do Rio de Janeiro - PUC Rio. E-mail: cicerojosinaldo@gmail.com

1
OLIVEIRA, C. J. S.

1. É possível uma razão prática pura?


A questão fundamental que deflagra as investigações morais de Kant na
Crítica da razão prática é saber se a razão pode por si mesma, sem a
intermediação de condicionamentos empíricos (portanto, se a razão enquanto
pura) pode determinar a vontade. Em outras palavras, trata-se de saber se é
possível uma razão prática pura. Prática porque determinante da vontade, pura
porque imediatamente determinada pela razão.
Essa questão é formulada por Kant no contexto de uma discussão com
concepções morais ou filosofias práticas que, no quadro geral de seu diagnóstico,
podem ser chamadas de solipsistas. Esta palavra, do mesmo modo que
Selbstsucht, sua correlata alemã, como pôde notar Valério Rohden, designa uma
espécie de relação patológica que um sujeito mantém consigo mesmo, porque é
afetada por uma mania de si que condiciona inteiramente as ações2. O solipsismo
prático ou moral, como Kant o compreende, constitui um sistema de inclinações
que respondem às exigências do princípio do amor de si ou da felicidade própria,
cuja hegemonia na determinação da vontade a questão central da Crítica da razão
prática pretende contestar, a saber, “a presunção da razão empiricamente
condicionada de querer, ela só e exclusivamente, fornecer o fundamento
determinante da vontade.” (KANT, 2008, p. 26)
Kant julga que o ponto nevrálgico das dificuldades de uma filosofia moral
utilitarista, e a razão porque ela tende necessariamente a legitimar o solipsismo
moral, reside no fato de tomar um dado conceito de bem, destituído de uma lei
prática a priori, e extrair dele as leis de determinação da vontade, carecendo, pois,
de um fundamento a priori (leia-se um fundamento não empírico, universal e
necessário)

A pedra de toque do bom ou do mal não poderia ser posta em


nenhuma outra coisa que na concordância do objeto como nosso
sentimento de prazer ou desprazer, e o uso da razão somente
poderia consistir, em parte, em determinar esse prazer ou
desprazer na inteira interconexão com todas as sensações de
minha existência e, em parte, em determinar os meios de
conseguir para mim o objeto das mesmas. (KANT, 2008, p.
101)

O modo tradicional com que a filosofia prática lidou com o fundamento


determinante da apetição, a saber, iniciando pela determinação do conceito de
bem para dele extrair as leis da vontade, mais do que legitimar a “presunção da
razão empiricamente condicionada”, legou uma tradição de pensamento moral
eminentemente heterônoma, de acordo com a compreensão de Kant. Isso porque a
lei moral foi tradicionalmente fundada sobre condições empíricas que, enquanto
tais, são condicionantes externos à razão. O erro elementar dessa tradição de
pensamento foi fazer a lei moral depender do conceito de bem, quando deveria se
propor a questão das condições de possibilidade de uma lei que constituísse o

2
Em sua Introdução à edição brasileira da Crítica da razão prática, Valério Rohden, que é
também tradutor dessa edição, justifica a opção em traduzir Selbstsucht por solipsismo nos
seguintes termos: “Esta é uma interpretação que proponho a partir da tradução do termo
Selbstsucht. Assim como o termo latino solipsismus compõe-se dos elementos solus + ipse, o
termo alemão Selbstscht compõe-se de selbst (si mesmo) + Sucht (mania), ou seja, expressa uma
relação patológica consigo mesmo.” (KANT, 2008, p. XXI)

2
PRISMA, Nº 01, Vol. 01, jan-jul. de 2014, pp. 01-12

fundamento a priori e imediato da apetição. Porque sem uma lei a priori os


conceitos de bom e mau só poderiam se constituir segundo conceitos empíricos;
com a mediação das coisas e, por conseguinte, fundadores de uma moral
heterônoma e/ou solipsista. Razão pela qual o conceito de bem não podia ser
ancorado senão no sentimento, notadamente, no prazer3.

Ora, eles [os filósofos] preferiram colocar este objeto do prazer,


que deveria fornecer o conceito supremo de bom, na felicidade,
na perfeição, no sentimento moral ou na vontade de Deus;
assim a sua proposição fundamental consistia sempre em
heteronomia e eles tinham que inevitavelmente encontrar
condições empíricas para uma lei moral: porque eles podiam
denominar bom ou mau seu objeto, enquanto fundamento
determinante e imediato da vontade, só segundo sua relação
imediata com o sentimento, o qual é sempre empírico4. (KANT,
2008, p. 103)

É neste contexto de confronto com uma tradição em filosofia prática que


Kant elabora a questão fundamental de sua Segunda crítica, a saber, se e como a
razão pura pode ser admitida como razão prática pura. Trata-se de examinar a
capacidade da razão na determinação da vontade, de saber se ela pode ser
fundamento da apetição, ou se ela basta em si mesma para determinar sua
causalidade. “Aqui, portanto, a primeira questão é se a razão pura basta por si só
para a determinação da vontade ou se somente enquanto razão empiricamente
condicionada ela pode ser um fundamento determinante da mesma”. (KANT,
2008, p. 25).
Se a vontade “é uma faculdade ou de produzir objetos correspondentes às
representações, ou de então determinar a si própria para a efetuação dos mesmos”
(KANT, 2008, p. 25), então a causalidade desta última possibilidade própria à
apetição é de natureza distinta da primeira, porque no segundo caso a questão
fundamental é a possibilidade da vontade não ser afetada por condicionamentos
empíricos. Nisso consiste a razão dessa causalidade somente ser possível
mediante o uso prático da razão pura, porque se trata de uma causalidade livre de
toda sorte de fatores estranhos à natureza do ente racional, o único ao qual é dada
a possibilidade de autodeterminação; autonomia. A esta causalidade livre, isto é,
não condicionada empiricamente, Kant chama liberdade da vontade ou liberdade
transcendental, cujos aspectos fundamentais são a “independência de toda forma
de dependência e o poder de legislar para si.” (CAYGILL, 2000, p. 216).
Assim, a questão sobre as condições de possibilidade da razão prática pura
é para Kant também, e ao mesmo tempo, uma questão acerca da realidade
objetivada liberdade, ou da causalidade de uma vontade imediatamente

3
Kant faz uma sutil distinção entre os conceitos de bem e bom. Abordo essa questão à entrada da
seção final do presente texto.
4
A busca por um fundamento a priori da vontade é, por assim dizer, a questão inaugural da
Fundamentação da metafísica dos costumes: “A metafísica dos costumes é a ciência dos
princípios morais a priori, que – em sentido figurativo – também são caracterizados pela
universalidade e necessidade. Que um princípio moral tem validade universal significa que ele é
válido não somente para um determinado grupo de pessoas, mas para todas as pessoas, e não
somente para seres humanos, mas para todos os seres racionais” (GREIMANN, 2009, p. 42). O
que Kant busca em um princípio a priori de determinação da vontade é a objetividade de que os
fundamentos empíricos carecem. Justamente por isso é que, se corroborado, a este princípio cabe o
nome de lei, dada sua validade universal, isto é, o fato de ser aplicável a todo ente racional.

3
OLIVEIRA, C. J. S.

determinada pela razão. Por esse motivo, as proposições fundamentais para uma
causalidade não condicionada empiricamente devem constituir o ponto de partida
da Crítica da razão prática. Em última análise é “A lei da causalidade a partir da
liberdade, isto é, qualquer proposição fundamental prática pura, [que] constitui
aqui inevitavelmente o começo e determina os objetos aos quais esta proposição
unicamente pode ser referida.”(KANT, 2008, p. 27).

2. A lei moral
Kant parte de uma argumentação com vistas a demonstrar que dirigimos e
justificamos nossas ações mediante proposições fundamentais práticas, cuja
peculiaridade é constituir uma determinação universal da vontade. Estas
proposições são de duas ordens: subjetivas e objetivas. As primeiras são chamadas
por ele de máximas e as segundas recebem o nome de leis. A máxima constitui
uma proposição fundamental da razão prática sempre que uma condição
estipulada para a determinação da vontade for considerada pelo sujeito válida
somente para si, sendo, portanto, de validade subjetiva. Nesta proposição
fundamental da razão prática, a razão determina a vontade em vista de algo que
está no mundo. Por sua vez, a lei se justifica como outro tipo de proposição
fundamental da razão prática, isto é, uma proposição de validade objetiva, na
medida em que a condição de determinação seja válida necessariamente para a
vontade de todo ente racional, independentemente de condições contingentes e/ou
subjetivas.
Naturalmente a questão fundamental da Crítica da razão prática (de se é
possível uma razão prática pura) não é deixada de lado na abordagem da lei moral,
e sim posta adequadamente com ela5. Desde a Fundamentação da metafísica dos
costumes o problema elementar da moral para Kant é “Como, afinal, deduzir do
conceito universal de um ser racional em geral um princípio prático, isto é, um
princípio moral com força de lei para seres racionais cuja vontade é
imediatamente afetada por inclinações sensíveis?” (DEJEANNE, 2009, p. 60)
Respondendo a essa questão na segunda Crítica, Kant observa que o modo
com que inferimos as leis naturais segundo o exame dos objetos a que elas se
aplicam, não pode simplesmente ser transladado para o trato com o fundamento
determinante da vontade, ou para o conhecimento prático, porque aí as
proposições fundamentais não constituem imediatamente leis.
Isso justamente porque, de acordo com as constatações de Kant, como dito
acima, as proposições fundamentais da razão prática são de duas ordens:
subjetivas e objetivas; máximas e leis. O que significa que, embora essas regras
práticas sejam sempre um produto da razão com vistas a determinação da vontade
para a consecução de um certo efeito6,esta relação entre razão e vontade (cuja
determinação não é necessária, posto que constitui uma máxima subjetiva –
admitida por um sujeito, por exemplo, à maneira de uma regra de prudência),

5
Na medida em que são endereçadas à faculdade de apetição de um sujeito “com cuja natureza
peculiar a regra pode conformar-se de múltiplos modos” (KANT, 2008, p. 34).
6
“Se se admite que a razão pura possa conter um fundamento praticamente suficiente para a
determinação da vontade, então existem leis práticas, do contrário todas as proposições
fundamentais práticas tornam-se simples máximas.” (KANT, 2008, p. 33)

4
PRISMA, Nº 01, Vol. 01, jan-jul. de 2014, pp. 01-12

recebe o nome de preceito prático ou imperativo hipotético, porque destituído de


qualquer tipo de objetividade e necessitação prática7.
Ao passo que a regra da proposição fundamental da razão prática pura (da
razão que determina a vontade sem passar pela sensibilidade, isto é, sem ter em
conta determinantes empíricos) se provada sua realidade objetiva, enquanto razão
pura que constitui o fundamento objetivamente determinante da vontade de todo
ente racional, deve ser categoricamente imperativa, pois está fundada na
normatividade do dever-ser. O plano normativo em que esta determinação da
vontade se inscreve expressa a necessitação objetiva da ação e “significa que, se a
razão determinasse totalmente a vontade, a ação ocorreria inevitavelmente
segundo essa regra” (KANT, 2008, p. 34), donde a denominação inequívoca dessa
regra objetiva como lei, porque ela é endereçada universalmente a todo ente
racional. Dela, portanto, a máxima difere primeiramente enquanto proposição
fundamental subjetiva.
Mas há para Kant outra diferença substancial entre máximas e leis. As
primeiras determinam as condições de causalidade do ente racional de uma
perspectiva fundamentalmente instrumental, isto é, determinam a vontade apenas
com vistas a um interesse e somente na medida em que é suficiente para ele. Já
para a lei, importa se a razão pura pode determinar a vontade sem ter em conta até
mesmo as condições físicas para sua consecução.

As últimas têm que determinar a vontade enquanto vontade,


ainda antes que eu pergunte se realmente tenho a faculdade
requerida para um efeito apetecido ou que coisa me importa
fazer para produzi-lo; por conseguinte elas têm de ser
categóricas, do contrário não são leis; porque lhes falta a
necessidade que, se deve ser prática, tem que ser independente
de condições patológicas, por conseguinte, de condições
contingentemente aderentes à vontade.(KANT, 2008, p. 34-5)

A verificação das condições físicas para a realização do que a lei


determina é um momento posterior à determinação, o que não significa que essas
condições tenham a importância minimizada. Mas, a rigor, elas não importam
para a relação entre razão e vontade que está em questão, porque neste caso a
primeira tem de determinar imediatamente a segunda, isto é, sem qualquer espécie
de mediação. A lei prática refere-se apenas à vontade. Abster-se até mesmo das
condições de sua própria realização é uma condição indispensável para ser pura.
Mesmo porque, no tocante à moral, importa que a razão se ocupe apenas com o
fundamento legítimo da vontade, “quer a faculdade física seja suficiente ou não”
(KANT, 2008, p. 37). Em todo caso, a razão confere necessidade mesmo às
proposições fundamentais a que chamamos máximas (porque de outro modo elas
não poderiam constituir imperativos hipotéticos), mas neste casso trata-se de uma
necessidade condicionada subjetivamente, e não de uma necessidade
7
Veja-se o exemplo oferecido por Kant para ilustrar um imperativo hipotético: “Se, por exemplo,
dizeis a alguém que ele tem de trabalhar e economizar na juventude para não sofrer privações na
velhice, então este é um preceito prático correto, e ao mesmo tempo importante, da vontade. Mas
se vê facilmente que aqui a vontade é remetida a algo diverso, do qual se pressupõe que ela o
apeteça, e esta apetição tem de ser deixada aos cuidados do próprio agente, quer ele preveja ainda
outros recursos além dos bens adquiridos por ele mesmo, quer ele não espere tornar-se velho, quer
ele pense de algum dia, em caso de necessidade, mal poder socorrer-se. [...] Esta é uma
necessidade apenas subjetivamente condicionada e não se pode pressupô-la em todos os sujeitos
no mesmo grau.” (KANT, 2008, p. 35)

5
OLIVEIRA, C. J. S.

absolutamente incondicionada, isto é, uma necessitação válida independentemente


de condições e dirigida para todo ente racional.
Contudo, a despeito da orientação empírica das máximas, do fato de que
“Todos os princípios práticos materiais [que elas encerram] são, enquanto tais, no
seu conjunto de uma e mesma espécie e incluem-se no princípio geral do amor de
si e da felicidade própria” (KANT, 2008, p. 37), Kant sustenta que elas contêm
formalmente a lei prática. Isso porque, apesar de todas as regras práticas materiais
situarem o fundamento determinante da vontade no que ele chama de faculdade da
apetição inferior (mediante a qual a regra da vontade estaria submetida a uma
condição empírica em que a determinação é mediada pelo prazer ou desprazer), se
abstrairmos da máxima seu princípio prático-subjetivo ou seu condicionante
empírico, isto é, o objeto mediador que constitui o fundamento determinante da
vontade em sua relação com a razão, “dela não resta senão a simples forma de
uma legislação universal” (KANT, 2008, p. 45), que Kant também chama de
forma legislativa da máxima. Neste caso, ter-se-ia de admitir que as máximas ou
os princípios práticos materiais, se tomados em sua simples forma, “a qual
convém à legislação universal, os torna por si só uma lei prática” (KANT, 2008,
p. 45). A razão pela qual isso importa para as reflexões morais de Kant já nos é
suficientemente conhecida, pois somente a forma legislativa da máxima, por ser a
priori, pode constituir o fundamento determinante da vontade autônoma e moral.
Kant, naturalmente, está consciente do papel indispensável que cabe às
máximas ou aos princípios práticos materiais, que ele também chama de
imperativos hipotéticos. Porquanto, reconhece que:

O homem, enquanto pertence ao mundo sensorial, é um ente


carente e nesta medida sua razão tem certamente uma não
desprezível incumbência, de parte da sensibilidade, de cuidar do
interesse da mesma e de propor-se máximas práticas também
em vista da felicidade desta vida e, se possível, também da vida
futura.(KANT, 2008, p. 98-9)

Contudo, embora a vontade seguindo nossa natureza sensível primeiro se


incline em direção às coisas do mundo, – razão pela qual formulamos máximas –,
existe, como argumenta Kant, uma instância superior de julgamento; um tribunal
ao qual, não raramente, mesmo o mais comum dos homens submete suas máximas
a uma avaliação eminentemente normativa, em que a categoria de dever-ser se
apresenta como um fato da razão pura8. Para Kant, a consciência imediata da lei
moral, em si condição e testemunho do julgamento que fazemos de nossas
máximas, é este “factum da razão pura, que deste modo se proclama originalmente

8
A acessibilidade universal da lei moral como algo que se manifesta imediatamente em nossa
consciência é sublinhada por Kant nos seguintes termos: “Se a voz da razão em relação à vontade
não fosse clara, tão intransferível, tão perceptível, mesmo ao homem mais comum ele arruinaria
completamente a moralidade” (KANT, 2008, p. 58). Veja-se o exemplo de Kant: “Perguntai-lhe [a
um homem], porém, se, no caso em que seu governante sob ameaça da mesma inadiada pena de
morte lhe exigisse prestar um falso testemunho contra um homem honrado, que ele sob pretextos
especiosos gostaria de arruinar, se ele então, por maior que possa ser seu amor à vida, considera
possível vencê-lo. Se ele o faria ou não, talvez ele não se atreva a assegurá-lo; mas que isso lhe
seja possível, tem que admiti-lo sem hesitação. Portanto ele julga que pode algo pelo fato de ter a
consciência de que o deve, reconhece em si a liberdade, que do contrário, sem a lei moral, ter-se-ia
permanecido desconhecido” (KANT, 2008, p. 51). Aqui merece nota a compreensão de Kant de
que, somente por meio das investigações acerca da razão prática podemos supor justificadamente a
liberdade na ciência, ou seja, sabemos da liberdade apenas por meio da lei moral.

6
PRISMA, Nº 01, Vol. 01, jan-jul. de 2014, pp. 01-12

como legislativa” (KANT, 2008, p. 53). Essa instância normativa que nos é dada
como fato da razão pura, porque correspondente à sua dinâmica própria de buscar
princípios puros (portanto subsistentes em si de modo absolutamente a priori –
fato este que marca a singularidade da lei frente às proposições fundamentais da
razão prática), não é reconhecida nem tampouco constatável através de
fundamentos verificáveis, mas somente porque dela somos “conscientes a priori”.

A realidade objetiva da lei moral não pode ser provada por


nenhuma dedução, por nenhum esforço da razão teórica,
especulativa ou empiricamente apoiada, e, pois, ainda que se
quisesse renunciar à certeza apodíctica,<nem> ser confirmada
pela experiência e deste modo ser provada a posteriori e,
contudo, é por si mesma certa. (KANT, 2008, p. 76)

O fato da razão, para Kant testemunho imediato de que somos conscientes


da lei moral, é a única demonstração possível, embora apodítica, de que a razão
pura pode ser prática. Este fato é a corroboração positiva da questão fundamental
da Crítica da razão prática. Ele ao mesmo tempo corresponde à regra a priori de
determinação objetiva da vontade, a partir da qual Kant julga extrair a lei
fundamental da razão prática pura ou imperativo categórico elementar de toda
moralidade. A proposição fundamental da razão prática pura ou da lei moral,
“Age de tal modo que a máxima de tua vontade possa sempre valer ao mesmo
tempo como princípio de uma legislação universal”9 (KANT, 2008, p. 51), é a
formulação de uma determinação normativa da razão pura que, para todos os
efeitos, de algum modo sempre operou enquanto domínio puro de julgamento das
máximas.

Aqui a regra diz: deve-se simplesmente proceder de certa


maneira. Logo a regra prática é incondicionada, por conseguinte
representada a priori como proposição categoricamente prática,
pela qual a vontade é absolutamente e imediatamente
determinada (pela própria regra prática, que, portanto, aqui é
lei). Pois uma <razão> pura, em si razão prática, é aqui
imediatamente legislativa. A vontade é pensada como
independente de condições empíricas, por conseguinte, como
vontade pura, determinada pela simples forma da lei, e este
fundamento determinante é considerado a condição suprema de
todas as máximas. (KANT, 2008, p. 52)

Numa seção da Crítica da razão prática intitulada “Da típica da faculdade


de julgar prática pura”, Kant explicita a operacionalidade da lei fundamental da
razão prática pura; a lei moral. A lei, que em sua dimensão natural é a expressão
mesma da validade ubíqua de uma regra, na sua universalidade serve como
parâmetro da regra para o ajuizamento de minha ação. Com o imperativo
categórico, mediante o uso da “faculdade de julgar prática” (KANT, 2008, p.
110), trata-se de saber se a ação que vou realizar pode ser convertida em lei nos
parâmetros de validade de uma lei natural, que desconhece exceção para o que
quer que seja. O critério formal de universalidade ou a típica para o julgamento da
minha ação é dado pela ubiquidade da lei natural. Assim:

9
Isso “significa que, se a razão determinasse totalmente a vontade, a ação ocorreria
inevitavelmente segundo essa regra”. (KANT, 2008, p. 34)

7
OLIVEIRA, C. J. S.

Se cada um se permitisse enganar onde crê alcançar o seu


proveito, ou se considerasse autorizado a abreviar sua vida tão
logo o acometesse um completo tédio dela, ou se olhasse com
inteira indiferença para a necessidade de outros, e, se tu também
pertencesses a uma tal ordem de coisas [funcionando segundo a
típica da lei natural], como irias estar de bom grado nela com o
assentimento de tua vontade? Ora, cada um sabe bem que, se
ele permite secretamente a fraude justamente porque nem todos
também a praticam ou se ele sem ser notado é desumano, nem
por isso todos também o seriam imediatamente contra ele; por
isso esta comparação da máxima de suas ações com uma lei
natural universal não é tampouco o fundamento determinante de
sua vontade. Mas esta lei é, contudo, um tipo do ajuizamento
daquela máxima segundo princípios morais. Se a máxima da
ação não é constituída de modo tal que resista à prova na forma
de uma lei natural em geral, ela é moralmente impossível.
(KANT, 2008, p. 111)

O ajuizamento da máxima aqui é parte fundamental da autonomia


afirmada na lei moral, porque disso depende autolegislação sem a qual a moral
kantiana em hipótese alguma é possível. Toda a moral kantiana se sustenta na
autonomia, no fato de que o homem é legislador e juiz de suas proposições
práticas fundamentais.

No seu entendimento das normas éticas, ele [Kant] compartilha


[...] a visão construtivista conforme a qual pessoas morais são
os autores das leis às quais elas se submetem. Esta concepção
baseia-se no princípio de autonomia segundo o qual as normas
morais são constituídas pela autolegislação de sujeitos que
agem autonomamente. Por isso, do ponto de vista kantiano,
normas morais devem ser entendidas como leis da liberdade, ou
seja, como normas positivas cuja posição é realizada por atos de
autolegislação. O conceito de dever moral que corresponde a
esta concepção é o conceito de dever categórico
autodeterminado, ou seja, o da auto-obrigação. Ele é o oposto
ao conceito de um dever não autodeterminado, para o qual,
devido às suas conotações heterônomas, segundo Kant, não há
lugar na ética propriamente dita. Quem apenas recebe ordens,
sem ser, ao mesmo tempo, legislador, mas continua submetido
passivamente a uma ordem platônica de valores ou ao poder
legislativo de um potentado absoluto, não seria sujeito moral,
em sentido kantiano, devido à falta de autonomia.
(GREIMANN, 2009, p. 46-7)

Justamente por contrariar a autonomia, Hannah Arendt compreendeu que o


zelo burocrático com que com Adolf Eichmann organizou e operou toda a
logística para os assassinatos em massa nos campos nazistas de extermínio, sob o
pretexto de mera obediência às leis, constitui na verdade uma inversão da lei
moral de Kant. Não fosse por sua irreflexão (na tese de Arendt) ou mesmo por seu
fingimento à procura de um álibi na corte de Jerusalém em 1961, em alguma
medida o próprio Eichmann esteve próximo de admitir isso no reconhecimento de
que só agia mediante as diretivas inspiradas na “lei do Terceiro Reich”. Um

8
PRISMA, Nº 01, Vol. 01, jan-jul. de 2014, pp. 01-12

procedimento que, diante de uma corte que certamente o condenaria ao


enforcamento (como de fato ocorreu), ele sustentava ser também uma virtude.
Em plena corte cuja sentença o levaria à morte, Kant é evocado por
Eichmann como aquele cujo imperativo categórico teve de abandonar na
obediência às leis e às normas nazistas. Em todo caso, para o réu da corte de
Jerusalém, “Era assim que as coisas eram, essa era a nova lei da terra, baseada nas
ordens do Führer; tanto quanto podia ver; seus atos eram os de um bom cidadão
respeitador das leis”(ARENDT, 2008, p. 152). Ele cumpria o seu dever, como
repetiu insistentemente à polícia e à corte; ele não só obedecia ordens, ele também
obedecia à lei. Daí porque, como notou Arendt, na verdade Eichmann não apenas
“abandonou o imperativo categórico” kantiano, como o inverteu para: “aja como
se o princípio de suas ações fosse o mesmo do legislador ou da legislação local”,
ou mais precisamente na formulação de Hans Frank para o imperativo de terceiro
Reich: “Aja de tal modo que o Führer, se souber de sua atitude, a aprove”
(ARENDT, 2008, p. 153). Este era de fato o “imperativo categórico” da
heteronomia que virou a moral kantiana pelo avesso, porque impunha a
obediência cega e doutrinária como dever e virtude por excelência no Terceiro
Reich alemão10.
Não obstante, Kant sustenta que “A autonomia da vontade é o único
princípio de todas as leis morais e dos deveres conforme a elas”, e que, portanto,
“toda a heteronomia do arbítrio não só não funda obrigação alguma, mas, antes,
contraria o princípio da mesma e da moralidade da vontade”. A autonomia como
único princípio da moral supõe, por sua vez, independência, a saber, a liberdade
em sentido negativo: “independência de toda forma de dependência” (KANT,
2008, p. 55/49), ou ainda, como prefere Kant, “independência do mecanismo de
toda a natureza”, mas também uma autolegislação ou uma legislação própria da
razão pura, que dirigida à vontade se traduz em liberdade positiva.
Daí porque, a autonomia da razão prática pura ou a liberdade da vontade
seja manifestada na lei moral. Esta, conclui Kant, enquanto expressão da
autonomia da razão prática pura é também, e, ao mesmo tempo, a própria lei da
liberdade. Kant chama essa liberdade de transcendental, porque ela corresponde à
condição formal (condição de possibilidade) das máximas da vontade se
manifestarem segundo a pura forma legislativa e, por isso mesmo, como causa
incondicionada. A liberdade transcendental ou a liberdade da vontade, em seus
sentidos negativo e positivo, é a causa incondicionada e instância objetiva
mediante as quais a moral nos é possível. “Portanto liberdade e lei prática
incondicionada referem-se reciprocamente.” (KANT, 2008, p. 141)

10
Na corte de Jerusalém, portanto num cenário não totalitário, Adolf Eichmann ainda insistia na
virtude da obediência doutrinária, no fato de “ser um cidadão respeitador das leis”, ainda que essas
leis coincidissem com as ordens de assassinatos em massa emitidas diretamente pelo Führer. No
final de seu livro Eichmann em Jerusalém – um relato sobre a banalidade do mal, Hannah Arendt
dirige as seguintes palavras contra as escusas do acusado e de sua defesa: “Suponhamos,
hipoteticamente, que foi simplesmente a má sorte que fez de você um instrumento da organização
do assassinato em massa; mesmo assim resta o fato de você ter executado, e, portanto, apoiado
ativamente, uma política de assassinato em massa. Pois política não é um jardim-de-infância; em
política, obediência e apoio são a mesma coisa. E, assim como você apoiou e executou uma
política de não partilhar a Terra com o povo judeu e com o povo de diversas outras nações – como
se você e seus superiores tivessem o direito de determinar quem devia e quem não devia habitar o
mundo –, consideramos que ninguém, isto é, nenhum membro da raça humana, haverá de querer
partilhar a Terra com você. Esta é a razão, e a única razão, pela qual você deve morrer na forca.”
(ARENDT, 2008, p. 301-2)

9
OLIVEIRA, C. J. S.

3. O conceito de bom
A despeito de um não raro descuido no emprego da terminologia que
estabelece, podemos verificar que Kant usa o conceito de bom em manifesta
oposição ao emprego tradicional, em filosofia moral, conferido ao conceito de
bem. O problema observado por Kant não decorre tanto da inadequação semântica
dessa palavra em si mesma, quanto de um erro elementar em que ela foi envolvida
pela tradição de pensamento em filosofia prática.
Já foi dito acima que o quadro do diagnóstico kantiano acerca das
concepções morais precedentes aponta para um solipsismo moral, cuja
característica fundamental é legitimar a pretensão da razão empiricamente
condicionada de ser ela, única e exclusivamente, o fundamento determinante da
apetição. Desse modo, onde se acreditava instituir o fundamento legítimo da
moralidade, resultava-se em promover a heteronomia, a própria antípoda da
moral. Daí porque Kant, ao identificar nessas teorias o ponto irradiador do
princípio heterônomo (precisamente no fato de que partem de um conceito de
“bom” previamente estipulado para daí fazerem do sentimento de prazer o
elemento mediador na determinação da vontade), adotou outro método de
investigação segundo o qual o conceito de bom precisa e deriva de uma lei prática
pura ou a priori, consoante à natureza do ente racional, se quer promover a
autonomia.
Desde que o conceito de bom não seja inferido de uma regra prática pura
precedente, conforme sustenta Kant, “então ele só pode ser o conceito de algo cuja
existência promete prazer e deste modo determina a causalidade do sujeito à
realização do mesmo, isto é, determina a faculdade da apetição”
heteronomamente, e não a causalidade da liberdade, peculiar à lei da moral
(KANT, 2008, p. 93). Na medida em que o bom aqui é identificado com a noção
de agradabilidade, trata-se antes do bem no sentido de um bem-estar ou de bom
para, vale dizer, instrumental, mas não do bom incondicionado, do bom por si e
em si, isto é, absoluto (objeto da moral), que justamente com seu corresponde
negativo, o mau, deve constituir o único conceito de um da razão prática pura.
Com efeito, Kant afirma que: “Os únicos objetos de uma razão prática
pura são os de bom e mau. Pois pelo primeiro entende-se um objeto necessário da
faculdade de apetição; pelo segundo, da faculdade de aversão, ambos, porém, de
acordo com um princípio da razão” (KANT, 2008, p. 93). Isso porque (e teria sido
este o erro primeiro da tradição) somente a razão, e não os sentimentos de prazer e
desprazer, pode julgar o que é bom e o que é mau. Kant sublinha essa distinção
conceitual em análise, no contexto da língua alemã:

O Wonl ou Übel <bem-estar ou mal-estar> sempre significa


somente uma referência a nosso estado de agrado ou desagrado,
de prazer e dor, e se por isso apetecemos ou detestamos um
objeto, isto ocorre somente na medida em que ele é referido à
nossa sensibilidade e ao sentimento de prazer e desprazer que
ele produz. Mas o Guteou Böse <bom ou mal> significa sempre
uma referência à vontade, na medida em que esta é determinada
pela lei da razão a fazer de algo seu objeto; aliás, a vontade
jamais é determinada imediatamente pelo objeto e sua
representação, mas é uma faculdade de fazer de uma regra da
razão a causa motora de uma ação (pela qual um objeto pode
tornar-se efetivo). Portanto o bom e o mau são propriamente

10
PRISMA, Nº 01, Vol. 01, jan-jul. de 2014, pp. 01-12

referidos a ações, não ao estado de sensação da pessoa, e se algo


devesse ser simplesmente (em todo sentido, sem ulterior
condição) bom ou mau ou tido por tal, então seria somente o
modo de ação, a máxima da vontade e, por conseguinte, a
própria pessoa agente como homem bom ou mau, não porém
uma coisa, que poderia ser chamada assim. (KANT, 2008, p.
96-7)

Desse modo, o bom (assim como o mau) não pode estar fora do sujeito.
Antes, se encontra nele enquanto conceito de um objeto da faculdade da razão
prática pura, cuja efetividade é dada apenas como possibilidade à faculdade da
apetição. Seu caráter condicional corresponde ao fato que: se, e somente se, a
regra a priori da razão ou a lei moral determinar suficientemente a apetição – de
maneira a mobilizar a razão prática pura –, o bom é efetivado. Essa determinação,
que passa pelo ajuizamento da máxima, supõe, conforme dito antes, a autonomia
como princípio da moral.
Em todo caso, como argumenta Kant, embora a razão também seja
demandada para consideração de nosso bem-estar ou mal-estar – justamente
porque “a vontade jamais é determinada imediatamente pelo objeto e sua
representação, mas é uma faculdade de fazer de uma regra da razão a causa
motora de uma ação” (KANT, 2008, p. 78) –, resta o fato de que nos é dada a
possibilidade de um ajuizamento não sensível, mediante o qual o bom
incondicionado, a autonomia e a própria liberdade, e não simplesmente o bem, são
possíveis para seres racionais.
Desse modo, de acordo com Kant, o bom incondicionado se prende ao
fundamento a priori de determinação da vontade. Para todos os efeitos, à forma
legal da máxima, porque esta, na medida em que resiste à exigência
universalizadora da ação, ordenada pela lei, conforma a vontade à regra áurea da
moralidade: “Uma vontade, cuja máxima é sempre conforme a essa lei, é
absolutamente e em todos os sentidos boa e condição suprema de todo o bem”
(KANT, 2008, p. 100). Neste caso, como o conceito de bom é dado formalmente
na lei fundamental da razão prática pura: “Age de tal modo que a máxima de tua
vontade possa valer sempre ao mesmo tempo como princípio de uma legislação
universal”, convém lembrar que o princípio da universalidade que aí opera é
sublinhado por Kant na analogia com da lei natural, cuja validade ubíqua deve ser
o parâmetro de julgamento da ação que pretendo realizar.
Que a vontade boa em si seja aquela cuja máxima está de acordo com a lei,
faz do bom para Kant o bom incondicionado e bom em si ou absoluto, isso
respectivamente porque, assim como a necessitação da ação determinada pela lei,
ele é independente de referências subjetivo-condicionais e é ordenado pela lei não
em vista de algo mais que possa eventualmente resultar de sua consecução11.

11
Na Genealogia da Moral, Nietzsche, referindo-se criticamente a Kant, diz o seguinte : “logo
chegou à grande generalização: ‘cada coisa tem seu preço; tudo pode ser pago’ – o mais velho e
ingênuo cânon moral da justiça, o começo de toda ‘bondade, toda ‘equidade’, toda ‘boa vontade’,
toda ‘objetividade que existe na terra. Nesse primeiro estágio, justiça é a boa vontade, entre
homens de poder aproximadamente igual, de acomodar-se entre si, de ‘entender-se’ mediante um
compromisso – e, com relação aos de menor poder, forçá-los a um compromisso entre si’
(NIETZSCHE, 2009, p. 55). Essa compreensão nietzscheana de que não podemos falar de um
bom senãodaquele que historicamente se constituiu « banhado em sangue », é expressa no
contexto em que o autor desenvolve a ideia segundo a qual a relação de comércio
(credor/devedores), a primeira a se instituir entre os homens, foi a base sobre a qual os homens

11
OLIVEIRA, C. J. S.

REFERÊNCIAS

ALISSON, E. Henry. Kant’s theory of freedom. New York: Cambridge University


Press, 1995.
ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém – um relato sobre a banalidade do
mal. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
CAYGILL, Howard. Dicionário Kant. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2000.
DEJEANNE, Solange. Sobre a interpretação semântica do facto da razão, Studia
Kantiana 9 (2009): 61-77.
GREIMANN, Dirk. “A derivação kantiana da fórmula do imperativo categórico
do seu mero conceito”, Studia Kantiana 9 (2009): 41-59.
KANT, Immanuel. Crítica da razão prática.2ª. ed. São Paulo: Martins Fontes,
2008.
_____. Groundwork of the metaphysics of morals. New York: Cambridge
University Press, 1997
NIETZSCHE, Friedrich. Genealogia da moral. São Paulo: Companhia das Letras,
2009.
SCHÖNECKER, Dieter. “O amor ao ser humano como disposição moral do
ânimo no pensamento de Kant”, Studia Kantiana 8 (2009): 54-69.
WILLIMS, Howard. Kant’s political philosophy. Oxford: 1995.

Recebido em: 19/03/2013.


Aceito em: 27/07/2013.

puderam adquirir certos princípios rudimentares da relações, para daí transferi-los para a vida
social como um todo.

12

Você também pode gostar