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A apropriação desigual dos bens

naturais e a luta pela efetividade do


direito à água
Aloísio Ruscheinsky*
Elenise Felzke Schonardie**

Resumo
O presente paper tem por objetivo natural em crescente escassez, em
demonstrar de forma incipiente um face do processo acelerado de degrada-
debate sobre a apropriação da água ção tanto em nível local quanto global,
como bem natural, direito de todos, gerando conflitos de extensões impre-
de acordo com a Constituição Federal, visíveis. Considerando uma sociedade
porém com novos desafios no contex- alimentada pela lógica da mercantili-
to da globalização de interesses e da zação de todas as coisas ou dimensões
própria apropriação da natureza. Ini- relevantes da vida humana, analisa-
ciamos pela análise do risco ambien- mos os percalços decorrentes da possi-
tal que emerge no contexto de uma bilidade da sua mercantilização, bem
sociedade de consumo, bem como da como a privatização dos serviços de
expansão das informações; em outros abastecimento. Enfim, mesmo que o
termos, são as próprias atividades hu- debate não esteja colocado na ordem
manas que desencadeiam as consequ- do dia sobre a privatização dos ser-
ências que inauguram uma sociedade viços de abastecimento de água para
de risco do ponto de vista social e am- consumo humano, parece pertinente
biental. Realizamos uma breve carac- um alerta sobre a apropriação dos re-
terização sobre as condições para que cursos hídricos e a usurpação do bem
numa sociedade de consumo se possa ambiental para uso mercantil.
universalizar a demanda por novos di-
reitos, inclusive para prover a utopia Palavras-chave: Água. Apropriação
da água como um bem de uso comum de recursos naturais. Bem de uso co-
do povo. No Brasil, assim como tam- mum. Mercantilização.
bém na América Latina, existe um
longo, mas talvez pouco difundido,
sobre os processos sociais do acesso
aos recursos hídricos e a constatação
de perspectivas para novas desigual- *
Doutor em sociologia, docente do PPGCS da
dades. Por fim, voltamos o olhar para Unisinos. E-mail: aloisior@unisinos.br
**
a questão da água potável como bem Docente da UPF, doutoranda em Ciências So-
ciais na Unisinos. E-mail: elenisefs@upf.br

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Considerações iniciais atuais é acentuado pela degradação
progressiva dos recursos hídricos.
As ciências sociais e jurídicas A compreensão da crise ambien-
até o momento têm sido parcialmente tal engendra eventos internacionais
refratárias à interdisciplinaridade, e e atores ambientais locais em busca
nesse movimento as afirmativas dos de mecanismos alternativos. Nesse
problemas ambientais não obtiveram sentido, o texto aborda uma breve ca-
a devida relevância na interpretação racterização dos avanços da legisla-
dos conflitos em curso na sociedade. ção brasileira, enfocando os recursos
O objetivo do texto é apresentar uma hídricos a partir dos anos de 1990,
abordagem sociológica do nexo entre reiterando que essa é uma sociedade
as contradições das atividades huma- de consumo e de geração da poluição
nas e a sustentabilidade dos recursos ante os recursos naturais. Em espe-
naturais sobre os quais se assentam. cial, a abordagem faz suas considera-
O modelo de modernização na produ- ções com o olhar voltado para a ques-
ção, circulação, consumo e descarte tão da água potável, imprescindível
em curso suscita a sociedade de ris- como direito de cidadania e como bem
co, que apresentaremos de forma in- natural. Considerando os limites am-
cipiente, enfatizando, especialmente, bientais do desenvolvimento, enten-
que entre as suas consequências se demos que a concepção de escassez de
situa a crise ambiental. recursos enfatiza a dimensão econô-
Iniciamos pela análise que des- mica e, como tal, é insuficiente para
taca a emergente sociedade de risco a interpretação da complexidade das
na contemporaneidade, produzindo questões ambientais.
novas incertezas nas relações sociais, Por fim, diante de polêmicas que
juntamente com as mudanças cultu- ainda rondam o horizonte do debate
rais e econômicas. Novos mecanismos na política das relações bilaterais, o
de apropriação da água como bem na- texto apresenta algumas considera-
tural no horizonte da mercantilização ções sobre a possibilidade da mercan-
são fonte e contexto de conflitos so- tilização, bem como a privatização dos
ciais e ambientais. Ocupando o espaço serviços de abastecimento de água
territorial e multiplicando o uso dos para consumo humano. A crise da
recursos naturais, emerge o entendi- água é uma imagem suscitada no de-
mento do limite da capacidade de re- bate no início do século XXI, uma vez
novação do ecossistema, que nos dias que se identifica a redução da água po-

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tável em um momento de aumento da fenômeno, supostamente ultrapas-
demanda e da degradação dos rios e sado pelo processo civilizador, torna-
fontes. A expansão do perímetro urba- se onipresente nos contextos sociais
no, com a impermeabilização do solo, da atualidade, inclusive decorrente
a ocupação de banhados e margens de da aplicação da ciência e da tecnolo-
córregos, diminui a regular oferta de gia. Assim, a reflexão e a imaginação
água, além do uso de produtos quími- são expressões quase imprescindíveis
cos na indústria, cujos rejeitos aces- para traçar considerações perante al-
sam ao leito do rio, juntamente com o guns sintomas apresentados pelas so-
esgoto doméstico, aumentando a con- ciedades na contemporaneidade.
taminação da água. O processo de modernização, ao
mesmo tempo em que se regozija com
Processo de construção conquistas e superações, transformou-
se em problema, em razão das instabi-
de riscos na sociedade lidades e dos riscos que as novidades
O ser humano sempre se repre- tecnológicas e organizacionais desen-
sentou, em diferentes épocas, nos ris- cadearam. Esses novos riscos emer-
cos a que está sujeito. Recentemente, gem sem que se constituam em opção
de um lado, emerge a percepção que deliberada, pois se sucedem sem uma
por meio das atividades se situa en- reflexão sobre tais escolhas e seus
tre os maiores predadores da nature- avanços. Definir esse novo elemento,
za. De outro, têm sido modificadas as presente, invisível e constante, que
condições da especialidade e tempora- interfere diretamente nas relações so-
lidade dos riscos para agregar as di- ciais, econômicas e ambientais, é im-
mensões da artificialidade, da impre- portante.
visibilidade e da imperceptibilidade. A metamorfose dos efeitos colaterais
despercebidos da produção industrial na
A ciência e a tecnologia têm se perspectiva das crises ecológicas globais
apresentado como resolução de um não parece mais problema do mundo
conjunto de desafios que a sociedade que nos cerca – um chamado “problema
ambiental” – mas sim uma crise institu-
se coloca. Em consequência do avan- cional profunda da própria sociedade in-
ço científico e tecnológico e das ino- dustrial [...]. Suas conseqüências siste-
vações organizacionais e culturais máticas aparecem apenas nos conceitos
e na perspectiva da sociedade de risco,
desfrutados na sociedade contempo- e somente então elas nos tornam cons-
rânea, segundo Guivant (1998), surge cientes da necessidade de uma nova au-
todeterminação reflexiva. (BECK, 1997,
um elemento renovado: o risco. Esse
p. 19).

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Podemos dizer que um risco cons- senvolvidas, ou em processo de desen-
titui-se na base de uma expectativa e volvimento. Concomitantemente aos
da possibilidade que esta se realize. riscos e aos perigos, emerge a preo-
Beck (1997), ao identificar e descrever cupação com as possibilidades de se-
a modernização reflexiva, explica que gurança pela negociação dos conflitos
é uma fase da sociedade na qual se e processos menos nocivos ao meio am-
tornou tema para si mesmo, deixando biente. Assim, está estabelecido um
de ser exclusivamente uma socieda- contexto contraditório e contrafactual.
de baseada no princípio da escassez e Nesse contexto se desenrola a crise
tornando-se uma sociedade cada vez ecológica, que tem sua base fundante
mais saturada de bens de consumo, (BECK, 1997) nos efeitos colaterais
ao mesmo tempo recheada de impon- da produção, da circulação, do consu-
deráveis efeitos não previsíveis. Os mo e do descarte, que por vezes pas-
riscos são inerentes ao sistema de pro- sam despercebidos, mas que, se con-
dução e de consumo, bem como ambos siderados em nível macroambiental,
geram um conjunto de resíduos que são altamente nocivos ao ambiente. A
atentam contra a qualidade de vida. crescente noção da interdependência
A modernidade caracteriza-se por ser permite uma referência à consciência
orientada para o futuro, pelos riscos e planetária,1 exemplificada pelos direi-
inseguranças oriundas do progresso e tos humanos e pelas questões ambien-
pelas incertezas advindas da inovação tais. (ALTVATER, 1999).
tecnológica. Entendemos por sociedade de
O risco se refere a infortúnios ativa- risco a circunstância na qual o próprio
mente avaliados em relação a possibili- desempenho das atividades numa so-
dades futuras. A palavra só passa a ser
amplamente utilizada em sociedades
ciedade coloca-a em perigo, entre as
orientadas para o futuro. O conceito de quais se situa a crise ambiental. Os
risco pressupõe uma sociedade que ten- indivíduos ficam expostos às forças
ta ativamente romper com seu passado.
(GIDDENS, 2005b, p. 33). descontroladas do mercado e às con-
sequências do excesso de dejetos gera-
Não obstante as riquezas sejam
dos no processo de consumo. Esse pro-
concentradas por algumas nações, ao
cesso leva a que surja um sentimento
invés de partilhadas de forma igual, os
de insegurança até então não experi-
seus riscos fabricados e as consequên-
mentado, especialmente na medida
cias negativas são suportados de forma
em que está em tensão com as reso-
mais ou menos democrática, mas espe-
luções prometidas pela ciência. Dian-
cialmente pelas sociedades menos de-
te das incertezas e das inseguranças

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surge um novo isolamento dos indiví- a confiança na tecnologia. (GUIVANT,
duos, que não encontram mais agen- 1998). Sucedem-se problemas ecoló-
tes coletivos que os possam represen- gicos intrínsecos de proximidade e de
tar. Assistimos ao surgimento de uma densidade num ambiente construído;
sociedade que produz e distribui de o impulso à devastação do meio natu-
forma desigual os riscos ambientais e ral ampliou de forma considerável os
sociais. problemas com saúde e saneamento,
Num cenário de amplas possibi- com segurança e poluição (não apenas
lidades futuras surge o fantasma: a urbana). As reações aparecem como
degradação ambiental e outros efei- um processo de reflexividade.
tos perversos das atividades huma- O risco possui dois aspectos,
nas. Giddens (1991) faz sua análise um positivo e um negativo. Visto na
a partir do que denominou de “meio positividade, é a dinâmica mobiliza-
ambiente criado”, ou seja, o meio na- dora de uma sociedade propensa à
tural que, pela atividade humana, so- mudança, que deseja determinar seu
fre transformações, de tal forma que próprio futuro ao invés de confiá-lo à
uma natureza intocada não existe religião, à tradição ou ao capricho da
mais. Nesse sentido, exemplifica com natureza. (GIDDENS, 2005b, p. 34).
a questão da biotecnologia, que afeta Do ponto de vista negativo, refere-se
a própria constituição física dos seres ao risco fabricado, no qual pode haver
humanos, bem como o meio ambiente algo invisível ou imperceptível que
natural. A preocupação com os danos ainda não conhecemos. Da mesma
ao meio ambiente está difundida como forma que se trata do risco fabricado,
um foco para os governos e é expressa esta abordagem entende que precede
por meio dos movimentos ecológicos. a esse fenômeno a emergência de uma
Para o autor, o confronto entre a natureza criada, com inovações tecno-
lógica do desenvolvimento científico e lógicas, com transgenia, entre outras
tecnológico sem amarras e o meio am- inovações com frágil ênfase preserva-
biente criado é extremamente neces- cionista.
sário para que sejam evitados danos Poucos aspectos do ambiente da
ambientais sérios e irreversíveis. A vida cotidiana deixam de ser afetados
degradação ambiental no meio am- pela possibilidade de risco; assim, Gi-
biente criado alcança proporções sem ddens (2005b) apresenta a distinção
precedentes e no limite do irreversí- do que passou a chamar de “risco ex-
vel. Para a resolução de tais questões terno” e de “risco fabricado”. Por risco
já não cabe ou não bastam a ciência e externo entende o risco experimenta-

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do como vindo de fora, das fixidades Vivemos em uma “Sociedade de Riscos”,
onde a poluição ambiental não respeita
da tradição ou da natureza. Já o risco
fronteiras e onde os riscos submetem a
fabricado designa o criado pelo impac- todos. Contudo, se isto serve enquanto
to do crescente conhecimento sobre o paradigma conceitual para refletirmos
sobre as mudanças globais, o conceito
mundo. “O risco fabricado diz respeito obscurece o fato de que as hierarquias
a situações em cujo confronto temos continuam e se acentuam e de que, pelo
pouca experiência histórica.” (GID- menos por enquanto, os riscos ambien-
tais têm limites e são sofridos pelos po-
DENS, 2005b, p. 36). Como ironia, o bres, pelas classes subalternas. E, justa-
autor afirma que passamos a nos in- mente porque são empurrados para os
quietar menos com o que a natureza mais vulneráveis, tornam-se insolúveis,
invisíveis, mas crescentes. (HERCULA-
pode fazer conosco e mais com o que NO, 2002).
nós fizemos com a natureza. Esse ris-
Essa sociedade de risco encontra-
co fabricado não está ligado apenas à
se inserida na lógica da degradação e
natureza ou ao que antes era conside-
do uso intensivo dos recursos, entre os
rado natureza, penetra direta e indi-
quais se situa a água potável como um
retamente em todas as outras áreas
direito humano elementar e requisito
da vida e da relação entre os indiví-
fundamental da biodiversidade.
duos, uma vez que se torna constituti-
vo das relações sociais.
À medida que o risco fabricado O abalo ante a certeza
se expande, passa a haver algo de da água potável
mais arriscado no risco, eis que não
sabemos qual é o nível de risco e, em A sociedade no alvorecer deste
muitos casos, não saberemos ao certo século 21 defronta-se com a incerte-
antes que seja tarde demais. (GID- za do acesso da água potável como
DENS, 2005b, p. 38). Essa situação de um direito universal. A descoberta de
incertezas e de descontrole pode nos que a geração de resíduos a partir do
remeter a uma total desilusão para consumo ampliado é uma caracterís-
com o mundo. A exclusão social rein- tica do presente introduz uma nova
ventada expôs os indivíduos ao risco perspectiva histórica; a possibilidade
social sem qualquer espécie de defesa, ampliada de degradação dos recursos
tudo graças à vitória da sociedade de hídricos abala o modo de ser, pensar
consumo. Nessa sociedade, contudo, e fabular o mundo. (IANNI, 1997a).
os riscos e seus efeitos relacionados A forma do uso intensivo da água e a
à exclusão social e à degradação am- sua contaminação inserem uma real
biental atingem a todos. diferença diante das outras etapas

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anteriores do desenvolvimento social. quantitativas e qualitativas, pois não
Assim, a crise ambiental, e nela a pe- há fronteiras, tampouco limites espa-
culiar crise da água, constitui uma ex- ciais, podendo a degradação atingir
pressão do ciclo atual da expansão do qualquer lugar do mundo.
capitalismo como modo de produção, A referência à metáfora significa
de circulação, de consumo e de descar- a vigência de uma encruzilhada, dian-
te dos dejetos. Podemos, mesmo, afir- te da qual a grande questão posta é a
mar que essa crise se constitui, segun- viabilidade política e cultural das so-
do Ianni (1997b, p. 7), num “processo luções apontadas por ambientalistas.
de amplas proporções, envolvendo Diante do conforto afundado em bens
nações e nacionalidades, regimes po- supérfluos ou descartáveis e do impe-
líticos e regimes nacionais, grupos e rativo de manter a circulação de mer-
classes sociais, economias e socieda- cadorias, os governos ficam sem sa-
des, culturas e civilizações”. ber o que fazer, ou que direção tomar.
O fenômeno da degradação am- Mais ainda, diante das incertezas e
biental, com consequências econômi- riscos não há direção certa, definida,
cas e culturais, suscita significados ou que se possa afirmar não insegu-
e expressões diversos sobre os quais ra em algum dos sentidos. Ou ainda,
têm se desdobrado as abordagens da diante dos limites do ecossistema há
comunidade científica. Expressões processos em curso que podem causar
como “aldeia de consumo” e “merca- uma catástrofe e, por isso, Altvater
do global de distribuição dos efeitos (1999, p. 114) argumenta que “a na-
da degradação” são figuras apropria- tureza não é do planeta não é uma
das para descrever como metáforas os mercadoria livre. Está sujeita a uma
efeitos perversos da globalização da restrição: quanto mais é consumida,
questão ambiental. mas sua qualidade se deteriora para
Por aldeia de consumo entende- todos”.
se a formação de nichos concentrados A degradação dos recursos hídri-
de apropriação dos bens de consumo cos integra uma totalidade complexa,
em detrimento da carência de outros contraditória, aberta e em movimen-
largos espaços sociais, cujas disjun- to, sobre a qual incide uma fragilidade
ções não são vencidas nem mesmo com de controle. Giddens (2005b), corrobo-
os acelerados sistemas eletrônicos de rando com tal posição, afirma que o
comunicação. A expressão “mercado mundo está em descontrole, num rit-
de distribuição das sequelas” evo- mo perverso sustentado pela raciona-
ca uma referência a transformações lidade instrumental. A crise em ques-

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tão integra um cenário mais amplo do nidade científica e pelas declarações
desenvolvimento desigual, combinado sobre meio ambiente da ONU. Toda-
e contraditório, tendo portanto o seu via, o sistema que produz um montan-
encaminhamento atrelado a um pro- te de dejetos e de poluição de forma
jeto com essas dimensões. A dinâmica inerente às suas atividades também
da busca por qualidade de vida apre- se mantém ativo na incorporação des-
senta-se ambígua e não se distribui ses novos conceitos à sua dinâmica, de
similarmente entre os setores sociais. tal modo a diluir a perspectiva crítica
A produção de ambiente desequilibra- emergente.
do funda-se num desenvolvimento de Essa velocidade de degradação e
produção e consumo desigual, combi- esgotamento dos recursos hídricos re-
nado e contraditório. (IANNI, 1997a). vela-se de forma acentuada nas gran-
Assim, as ações estratégicas visando des cidades e regiões metropolitanas,
à preservação da água potável expres- pois nessas há um acentuado cruza-
sam diversidades e singularidades, mento de relações, processos ambien-
conflitos e ambiguidades, avanços e tais e estruturas dos mais diversos
recuos. tipos, direções e graduações. Os pro-
À medida que a degradação e os cessos que envolvem o uso de recur-
riscos se expandem e se aprofundam, sos naturais com a crise ambiental
tanto novas noções vão povoando as auferem novos contingenciamentos
ciências sociais e outras recebem re- e, a partir das referências de Giddens
novadas elaborações quanto novos (2005b), envolvem as dimensões da
mecanismos de gestão ambiental política, tecnológica, cultural e simbó-
emergem, por vezes cindidos de ou- lica, tanto quanto econômica.
tras formas de articulação do poder Por fim, há que se considerar
vigente na sociedade. À medida que ainda, no que se refere à sociedade de
se forma e se desenvolve a sociedade risco, seja dos efeitos locais, seja dos
de risco, com sua economia política, enredos globais, as possibilidades da
sua dinâmica sociocultural, a história dialética que superem a afirmativa de
do uso dos recursos hídricos passa a pensar global e agir local. A perspec-
ser influenciada e fica subsumida pela tiva dialética, seja por meio da repre-
retórica universal de que o bem-estar sentação dos fenômenos ambientais,
se resume à expansão do consumo. seja equacionando a racionalidade
Essa vertente de interpretação vem instrumental, seja ainda diagnosti-
sendo contestada pelas organizações cando as contradições, sugere repen-
ambientalistas, por parcela da comu- sar a história por conta da abrangên-

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cia e da complexidade. Entretanto, em des humanas e, mais ainda, da biodi-
face da abrangência e da intensidade versidade, pois, como elemento vital,
da cultura do consumo, temos de lem- sem ela não há vida. Para a existência
brar que a dilapidação dos recursos da sociedade faz-se importante recor-
naturais ocorre por conta da atividade dar os fundamentos, seja da garantia
econômica, tecnológica, social e cultu- da presença dos elementos ar, água,
ral. terra e fogo, seja da construção da cul-
Existem alguns fenômenos inter- tura sobre essa mesma base garan-
ligados, ou cuja emergência é coinci- tidora. Nesse contexto fundamenta-
dente: são os fenômenos da cultura de se na modernidade um conjunto de
consumo e da globalização, que, por direitos que, progressivamente, em
sua vez, estão associados ou conec- razão da escassez ou da restrição ao
tados com a emergência da crise am- acesso, incorporaram o direito à água,
biental como processos que possuem energia, a um chão sob seus pés, ao
profundos liames. ambiente sadio, o que é, em última
instância, a concretização do direito
Água potável na à vida. Na compreensão de Altvater
(1999), a crise ecológica introduz no-
crise ambiental e a vidades na agenda e nos desafios da
apropriação de um democracia e dos direitos humanos.
bem de uso coletivo Em virtude de sua relevância, a
água sempre foi um dos reguladores
No contexto de recursos (não)re- sociais ou culturais importantes e, in-
nováveis e de processos (ir)reversíveis clusive, segundo Petrella (2002), fator
em que se envolvem as dimensões do determinante das estruturas sociais
social, cultural, tecnológico e econô- ao longo dos tempos. O seu domínio
mico, vários problemas são detecta- tornou-se fonte de poder e desigualda-
dos, dentre os quais a crise ambiental des, quando não objeto de duelos entre
ocasionada pela escassez de recursos comunidades, regionais ou internacio-
naturais não renováveis, de declínio nais. No “Manifesto da água” o autor
da disponibilidade de água potável ao propõe a busca de igualdade, justiça
consumo humano, em cuja crise se co- e solidariedade por meio de uma re-
loca em questão a água de acesso uni- volução da água contra os figurantes
versal. do novo apocalipse por ele denomina-
A água constitui elemento intrín- dos “senhores da água”. Na verdade,
seco à existência de todas as ativida- os senhores da água, como gerencia-

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dores das desigualdades persistentes, legitimação do poder desses senhores,
podem ser classificados pelas catego- quando, por exemplo, se sucedem os
rias de “senhores da guerra”, “do ter- conflitos entre etnias ou nações, os
ritório”, “do dinheiro”, “da tecnologia conflitos gerados internamente às na-
ou da informação”. ções com fonte deficiente desse recur-
A obtenção de poder pelos senho- so natural, os conflitos na determina-
res da água, em quaisquer de suas ção dos usos entre os diversos setores
categorias, dá-se por meio da proprie- e os processos de desregulamentação
dade e do controle sobre a água. “A le- que enfraquecem os mecanismos de
gitimidade de seu poder depende, na controle societal.
maioria das vezes, de sua capacidade O autor identifica, ainda, os “se-
de prover acesso [...] às provisões de nhores do dinheiro”, identificados pela
água para a comunidade sobre a qual sobreposição da economia à política e
exercem sua autoridade, por meio de pela ênfase mercadológica em oposi-
sistemas de captação, bombeamento, ção aos direitos humanos. Enfim, são
canalização, conservação e manuten- “aqueles cujo poder e sobrevivência
ção.” (PETRELLA, 2002, p. 60). Exis- dependem do acesso à água e daque-
tem outros mecanismos de legitima- la rejeição à solidariedade que está
ção do poder dos senhores da água, implícita na distribuição desigual dos
que consistem em somar esforços para bens e serviços gerados pela água”.
o controle das principais fontes de (PETRELLA, 2002, p. 63). Hoje, es-
água. Esses setores torcem para que ses senhores do dinheiro são as forças
a escassez da água prossiga a largos que pressionam pela privatização dos
passos, pois isso alarga a ênfase eco- sistemas reguladores da água mundo
nômica e a mercantilização do consu- afora e articulam mecanismos de pri-
mo humano. vatização lenta e gradual dos mais di-
Os senhores da guerra possuem ferentes usos da água, desde energia,
na concorrência ou na disputa pelos agricultura, setor urbano.
recursos hídricos o seu pilar de ação: E por “senhores da tecnologia”
“São aqueles cujo poder e sobrevivên- entende-se “aqueles cujo poder e so-
cia depende continuamente de confli- brevivência dependem da fé no impe-
tos violentos ou até mesmo de guer- rativo tecnológico [...] e da noção de
ras entre rivais, entre estados ou, que o progresso humano se origina no
no mesmo estado, sobre usos concor- progresso social, que depende do eco-
rentes de água.” (PETRELLA, 2002, nômico”. (PETRELLA, 2002, p. 63).
p. 62). Existem outros mecanismos de Todos esses aspectos são condiciona-

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dos pelo progresso tecnológico, cuja Os mecanismos de
perspectiva está direcionada sempre
garantias políticas
para a evolução, na direção do melhor
para a vida humana. Ainda, diante da Em que pese à gênese e à ma-
degradação dos recursos hídricos e da nutenção de conflitos proporcionados
biodiversidade, afiançam que a tecno- pelos senhores da guerra em torno
logia dará conta de todas as formas dos recursos hídricos como forma de
de degradação impostas aos recursos poder, precisamos pensar que o obje-
hídricos. tivo de toda e qualquer legislação que
As atividades desses senhores regulamente o direito à água deve ser
encontram-se em movimento diame- garantir a obtenção de um equilíbrio
tralmente oposto ao da promulgação, entre o desenvolvimento do indivíduo
promoção, garantia e efetivação dos ou da sociedade e a totalidade dos re-
direitos de cidadania. Se há uma am- cursos ambientais, bem como a sua
pliação para o seu espaço de atuação, preservação ao longo das gerações. O
com incremento das desigualdades, debate sobre a legislação ambiental
isso se deve ao fenômeno da desre- aprofunda-se em complexidade em
gulamentação no campo político, da razão da propriedade, da produção e
racionalidade instrumental e da de- circulação que incide sobre a quali-
bilidade do exercício da democracia. dade da água potável, especialmente
Nesse sentido, embora abundante em como forma de controle sobre os usos
nosso território, no aspecto jurídico le- da água. Em todas as metrópoles bra-
gal e na ótica da cidadania, a água po- sileiras estão presentes “os senhores”
tável constitui-se em bem ambiental nomeados por Petrella (2002), espe-
de valor inestimável e limitado. Por cialmente no aprofundamento do con-
“bem ambiental” entendemos “o va- flito entre a produção de resíduos na
lor difuso, imaterial ou material que produção, circulação, consumo e de-
serve de objeto a relações jurídicas gradação da água potável, o que tem
de natureza ambiental”. (PIVA, 2000, levado a situação a ultrapassar o li-
p. 114). Por “valor difuso” compreen- mite dos padrões adequados de acordo
dem-se os interesses transindividuais com organismos sanitários.
de natureza indivisível de que sejam A gestão da crise da água, segun-
titulares pessoas indeterminadas e li- do Tucci (2002), passa pelo desenvol-
gadas por circunstâncias de fato. vimento científico e tecnológico com
capacidade de inovar e entender o am-

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biente a partir das relações com o de- A gênese da questão ambiental
senvolvimento socioeconômico. Esse e os ensaios da legislação situam-se
encaminhamento se encontra envolto na década de 1980. Todavia, a década
numa ambiguidade, pois é com o de- de 1990 registra a difusão do conceito
senvolvimento científico e econômico, de desenvolvimento sustentável e da
via aumento da produção e circulação Agenda 21, na qual emerge a legisla-
de mercadorias, que se assevera a de- ção sobre os recursos hídricos. No que
gradação ambiental, ou seja, convoca- diz respeito aos aspectos institucio-
se para salvar o ambiente quem está nais, a década de 1990 foi promissora,
na origem da degradação. Ao mesmo pois foi criada a Secretaria Nacional
tempo, há de se convir que uma so- de Recursos Hídricos dentro do Minis-
lução fora do campo científico possui tério do Meio Ambiente; na sequência,
baixa condição de viabilidade. houve um avanço com a promulgação
A crise ambiental conduz a pres- da Lei de recursos Hídricos ao englo-
sões sobre a esfera estatal para a re- bar os princípios ambientais da Agen-
gulamentação do direito de uso e aces- da 21. A temática da água é tratada
so à água, bem como à elaboração de no cap. 18 da Agenda 21, cujos prin-
programas de gestão sustentável dos cípios são apropriados pela legislação,
recursos hídricos. Dito de outra for- a fim de atentar para a efetivação da
ma, aliado à ação dos cidadãos por geração dos direitos humanos ligados
meio de instrumentos e mecanismos ao meio ambiente saudável. Todavia,
próprios, a regulamentação do direito a legislação não gerou um movimento
de uso e acesso à água pretende con- de controle eficaz do ciclo da contami-
tribuir substantivamente para man- nação advindo do setor urbano.
ter programas de gestão sustentável A maioria dos Estados brasilei-
dos recursos hídricos. Na realidade, ros também aprovou legislação simi-
há um confronto de imperativos. lar, num processo em que se vem pro-
[...] significa que a água deve servir movendo o intuito de gerenciamen-
principalmente para satisfazer as neces- to dos recursos hídricos por meio de
sidades essenciais da coletividade e que
o direito de usar a água está diretamen-
comitês de bacias e outros órgãos de
te ligado ao dever de manter os recursos gestão. Com atribuições de implemen-
hídricos. Em teoria, esse princípio tam- tação dos instrumentos de gestão, foi
bém está começando a ser aceito ao re-
dor do mundo e a ser considerado funda- criada em 2000 a Agência Nacional
mental para o gerenciamento integrado de Águas. O debate extenso introduz
e sustentável dos recursos naturais: não uma visão integrada dos recursos hí-
deve haver uso sem conservação. (PE-
TRELLA, 2002, p. 65). dricos, pela qual se destacam as possi-

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bilidades ou urgência de preservação público, pois não é passível de alie-
e os condicionantes econômicos e cul- nação. O art. 18 da lei nº 9.433/1997
turais da contaminação da água. determina que “a outorga não implica
Em obediência aos preceitos a alienação parcial das águas que são
constitucionais, a legislação brasi- inalienáveis, mas simples direito de
leira instituiu a Política Nacional de seu uso”.
Recursos Hídricos (lei nº 9.433/1997), Quanto aos objetivos da Política
que considera a água como um bem Nacional de Recursos Hídricos, en-
de domínio público, limitado e dotado contramos uma alusão ao relatório da
de valor econômico. Por força de lei, a ONU Nosso futuro comum, por meio
água integra o direito (nos termos do do enunciado do conceito de desenvol-
caput do art. 225 da Constituição Fe- vimento sustentável, bem como ecoam
deral) que “todos têm ao meio ambien- as deliberações da Rio-92. Nesse sen-
te ecologicamente equilibrado, bem de tido, há recomendações construídas,
uso comum do povo, essencial à sadia entre outros, nos termos do art. 2º da
qualidade de vida das presentes e fu- lei: a) assegurar à atual e às futuras
turas gerações”. Assim, está posta a gerações a necessária disponibilida-
subserviência dos usos da água aos de de água em padrões e qualidade
mecanismos de preservação do bem adequados aos usos e b) a utilização
coletivo, bem como se evidencia a per- racional e integrada dos recursos hí-
cepção de que, se a saúde humana dricos, com vistas ao desenvolvimento
está diretamente relacionada ao aces- sustentável. A utilização racional e in-
so básico e seguro da água, está con- tegrada dar-se-á por meio dos planos
dicionada a um meio ambiente sadio. de gestão dos recursos hídricos, que se
Por “domínio público” entende- darão por meio das bacias hidrográfi-
se a parcela dos bens nacionais que cas, sendo sua gestão descentralizada,
é afetada imediatamente pelo gozo e com a participação do poder público,
serviço comum dos cidadãos. O domí- dos usuários e das comunidades. Até o
nio público da água, afirmado pela Lei momento os comitês instituídos para
de Política Nacional de Recursos Hí- a gestão constituem um ganho político
dricos, não transforma o poder públi- formal, uma vez que se tem demons-
co federal e estadual em proprietários trado tênues na viabilização de suas
da água, mas torna-os gestores desse deliberações.
bem no interesse coletivo. A água, No aspecto formal, a legislação
para a legislação brasileira, não faz brasileira vai ao encontro do “Mani-
parte do patrimônio privado do poder festo da água”, eis que visa à igualda-

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de, à justiça e à solidariedade desse Privatização dos serviços
recurso natural essencial à biodiver-
sidade e, como tal, a todas as formas
de abastecimento:
de vida. O acesso à água é um direito um alerta sobre a
fundamental vinculado ao direito à apropriação dos recursos
vida; como tal, a regulamentação pos- hídricos e a usurpação
sui as peculiaridades próprias.
Ter acesso à água, no entanto, não é
do bem ambiental
uma questão de escolha. Todos preci-
sam dela. O próprio fato de que ela não Nesse contexto do uso intensivo,
pode ser substituída por mais nada, faz da degradação superficial e subter-
da água um bem básico que não pode
rânea e de escassez dos recursos hí-
ser subordinado a um único princípio
setorial de regulamentação, legitima- dricos, a água torna-se mercadoria e
ção e valorização; ela se enquadra nos a privatização de seu gerenciamento
princípios do funcionamento da socieda-
de como um todo. Isso é precisamente
aparece como prioridade na pauta de
aquilo que se chama de um bem social, discussão. Isso ocorre em razão do au-
um bem comum, básico a qualquer co- mento da escassez da água potável e,
munidade humana. (PETRELLA, 2002,
p. 84). em consequência, da franca expansão
da indústria da água, com a apropria-
Considerando as particularida-
ção para o interesse mercantil. Esse
des da esfera pública, o Estado am-
debate é também uma ressonância
pliado como permeado de conflitos de
do declínio do Estado de direito e de
interesse, não sabemos afirmar até
uma cultura democrática que ratifica
que ponto ou momento os preceitos
o empenho no sentido inverso às desi-
legais do Estado brasileiro irão resis-
gualdades.
tir às pressões do mercado interna-
Petrella denuncia em seu mani-
cional dos senhores da água, dentre
festo que o controle sobre a explora-
esses, principalmente, os senhores
ção, uso e distribuição da água con-
do dinheiro. Segundo Petrella (2002),
centra-se nas mãos de praticamente
sendo a água compreendida como um
quatro empresas.2 Alguns países lati-
patrimônio cultural coletivo, cabe aos
no-americanos experimentam as con-
cidadãos, dentro do seu espaço de
sequências da privatização dos servi-
ação, descobrir, criar e implementar
ços de água e a posterior contestação
soluções sustentáveis para seu geren-
da pressão popular, uma vez que o dis-
ciamento, desde o nível local, nacional
curso outrora não se transformou em
e nas relações internacionais.
realidade.

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O fato determinante e propulsor Estados entregarão às grandes corpo-
da próspera indústria da água, com rações mundiais o controle sobre a ex-
certeza, é a propagação do imaginário ploração dos recursos hídricos. Onde
da escassez do recurso natural, ocul- há escassez de recursos naturais in-
tando a perspectiva de que o acesso à teresses empresariais transformam a
água de consumo no cotidiano tende a crise ecológica e a proposta de desen-
ficar mais dispendiosa para o usuário. volvimento sustentável num mercado
Prova disso é que os setores de classe de recursos escassos e altamente ren-
média já se convenceram de comprar táveis.
água em pequenas proporções e, as- Outro fato importante a ser le-
sim, a indústria da água engarrafada vantado para o debate em curso é a
continuará se expandindo vertigino- dupla abordagem das parcerias pú-
samente. blico-privado, visando à gestão dos
Nesse contexto, Shiva (2006) cri- recursos hídricos em situação de pre-
tica, com toda a razão, o papel do Ban- visível calamidade pública.
co Mundial e da Organização Mundial 1) Em uma ótica, as parcerias
do Comércio no controle corporativo reverberam a perversa lógica do mer-
da água. Interessados somente na cado financeiro porque os arranjos
lucratividade e no poder advindos do das parcerias público-privadas, em
controle da água, organismos interna- geral, vinculam a utilização de fun-
cionais, como o Banco Mundial, têm dos públicos na privatização de bens
financiado de forma obscura, por meio públicos. Essas parcerias ocorrem fre-
de legitimações provocadas pela força quentemente no setor de construção
e poder coercitivos não emanados dos ou gerenciamento de infraestruturas
Estados nacionais, os projetos de in- de serviços básicos à população, en-
fraestrutura e saneamento básico dos tre outras a telefonia, abastecimento
países em desenvolvimento. de água e saneamento, energia, rodo-
A transformação da água em vias, coleta de lixo.
mercadoria subverteu o controle co- Parcerias público-privado proliferaram
munitário das reservas desse recurso. sob o pretexto de atrair capital privado
e refrear o emprego no setor público. O
Tornaram-se cada vez mais frequen- Banco Mundial estima que serão ne-
tes as políticas impostas pelo Banco cessários seiscentos bilhões de dólares
Mundial e por regras de liberaliza- de investimentos em projetos de infra-
estrutura. No entanto, a privatização da
ção do comércio desenvolvidas pela água, é um resultado possível das polí-
OMC, no sentido de criarem a cultura ticas, não um desfecho inevitável. (SHI-
VA, 2006, p. 110).
de Estados-corporações, com o que os

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100
Num primeiro momento, o mer- transnacionais, que objetivam ape-
cado cria uma onda (na maioria das nas alcançar suas metas econômicas,
vezes fictícia) de desmoralização dos deixando seus bilhões de usuários li-
serviços públicos, divulgando que a gados a sistemas de autoatendimento
empresa pública não possui compe- que não satisfazem às necessidades
tência para prestar um serviço de reclamadas.
qualidade à população. Considerando Infelizmente, a erosão dos direi-
a crise fiscal do Estado, a burocracia tos à água é agora um fenômeno glo-
e a diversidade dos serviços públicos bal. (SHIVA, 2006). A privatização,
existentes, a avaliação das parcerias como também a degradação progressi-
não é uniforme, pois em algumas cida- va e de diversas formas da água potá-
des brasileiras houve a concessão dos vel disponível para os usos cotidianos,
serviços de abastecimento da água não afeta apenas o direito democrático
sem, no entanto, serem verificadas as com relação ao recurso natural, mas
mazelas apontadas a propósito da pri- afeta, inclusive, direitos trabalhistas,
vatização. Uma particularidade que é a proposição de políticas públicas,
possível apontar diz respeito à ampli- bem como os sistemas locais de água e
tude do empreendimento e à relativa o saneamento. Na medida em que há
possibilidade de acesso da comunida- a privatização, a regra básica de qual-
de sobre o controle da qualidade dos quer empresa é maior lucratividade
serviços prestados. no menor período possível. O conjunto
Não existe, contudo, certeza al- de problemas apontados não pode ser
guma de que as empresas privadas, visto apenas como externalidades ao
que têm como prioridade a geração processo em destaque. A lucratividade
de lucro, sejam mais responsáveis do em primeiro plano é nada mais do que
que as públicas e de que irão prestar a usurpação do recurso natural indis-
um serviço à população de forma mais pensável à vida.
eficiente e com a possibilidade de um 2) Em outra ótica de interpreta-
custo menor. Pelo contrário, especial- ção situa-se a perspectiva de gestão
mente se pensarmos na questão da te- partilhada dos recursos hídricos, com
lefonia, nosso sonho por serviços mais o estabelecimento de responsabilida-
eficientes, ágeis e a um custo reduzido des dos usuários, como o tratamento
foi por terra há tempo. Fomos jogados de efluentes e a cobrança pelo uso das
de forma totalmente desprotegida nas águas dos rios e lagos. Nessa ótica se
mãos (ou braços, como se queira) das situam, de modo particular, os espe-
operadoras formadas por corporações cialistas na área da gestão ambiental

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como mecanismo de superação da cri- Considerações finais
se instaurada. Entende-se que os co-
mitês gestores atuam como parcerias A contemporaneidade caracte-
e podem estimular usos sustentáveis, riza-se pela existência do risco cons-
desembocando na proposta de cobran- truído, que se tornou elemento cons-
ça pelo uso da água para, dessa forma, titutivo na vida da sociedade, a qual
obter expedientes para a preservação passa a desfrutar de uma infinidade
e recuperação. Há processos em an- de possibilidades ao mesmo tempo em
damento para a cobrança pelo uso da que se coloca diante de mecanismos
água no rio Paraíba do Sul (São Paulo de destruição. O medo e a inseguran-
e Rio de Janeiro) e no estado do Ceará. ça se localizam entre as certezas que
Os usuários mais resistentes de maneira constante expõem os indi-
à cobrança pelo uso da água e à res- víduos a um conjunto amplo de pro-
ponsabilidade pelo tratamento das dutos e de situações de risco. Existe
formas de poluição têm sido do setor um maior volume de informações dis-
agrícola, ao contrário do setor indus- poníveis e consumidas, inclusive para
trial, que, de alguma forma, incorpo- compreender as circunstâncias cada
rou a legislação ambiental. (TUCCI, vez mais de incerteza e arriscadas,
2002). As companhias de abasteci- tanto quanto desconhecidas ou imper-
mento também entram nessa pers- ceptíveis.
pectiva, podendo ser cobradas na sua O fenômeno intensificado e am-
responsabilidade de dar conta dos pliado da crise ambiental mexeu com
dejetos líquidos. O maior risco para o nossa forma de ver, pensar, confabu-
sucesso da proposta é a capacidade de lar e reiterar as relações sociais e o
articulação entre os atores para diri- lugar dos recursos naturais da econo-
mir conflitos (sem a concordância dos mia à cultura. Se o mundo se apresen-
atores, ações judiciais podem borrar ta literalmente em descontrole, isso se
o processo) e no sistema de gerencia- deve ao fato de estar regido pela ló-
mento dos recursos coletados (como gica do desenvolvimento econômico a
ter certeza de que serão destinados qualquer custo, do mito da segurança
em benefício da bacia). alicerçado na persistência das desi-
gualdades, das incertezas fabricadas
pela inevitabilidade da tecnologia e
da subversão das dimensões simbóli-
cas ao consumo. A própria crise eco-
lógica, ocasionada pela escassez de

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recursos naturais, como a água, é vis- água potável é elemento indispensável
ta como uma oportunidade não ape- à vida, devendo seu acesso, portanto,
nas de domínio dos mais fortes, mas ser declarado e considerado como um
de lucratividade, de poder. Ao mesmo direito fundamental, não passível de
tempo, a degradação ou uso excessivo apropriação ou de alienação privada.
de um recurso com seu ritmo próprio Pelos subterfúgios utilizados no
de reposição apresenta-se com irracio- contexto da globalização econômica e
nalidade dentro da predominância da cultural, muitas vezes as aparências,
racionalidade instrumental. Ocorre maquiladas, dadas pelo mercado po-
neste particular outra ambiguidade, dem seduzir a maioria da população,
pois, com o sentido inverso, ou para que não consegue observar o que está
acalmar a “chacina humana” pela bar- por detrás daquela bela e sedutora
bárie difusa, estão os tratados, pactos maquilagem. No entanto, o papel do
e declarações de boas intenções, como Estado de direito consiste em evitar
os direitos humanos. que o cidadão seja mentirosamente
Diante da abundância de água persuadido, trazendo-o, assim, para
doce no território brasileiro, conclui- a luta pela não privatização da água.
se que a escassez é relativa de acor- A contestação de atores sociais reve-
do com o grau de degradação ou em la que não encararam a proposta de
virtude da variação temporal e espa- privatização dos serviços de água e
cial. Existem regiões mais vulnerá- saneamento como sendo algo inevitá-
veis, como o Nordeste e as metrópoles, vel. Embora a privatização faça par-
onde a população sofre de uma mode- te dos interesses dos financiamentos
rada a grave falta de água potável, re- internacionais, é uma possibilidade e,
sultante da escassez quantitativa ou como tal, pode vir a não se realizar em
qualitativa. decorrência de outras opções. Nesse
Embora existam pressões em sentido, as circunstâncias ao final da
todos os sentidos, oriundas especial- primeira década do século 21 revelam
mente das agências internacionais e algumas mudanças em relação ao pe-
do setor financeiro especulativo, para ríodo anterior, pois diversas formas de
a defesa do direito a ter direitos, os gestão em nível local estão em busca
Estados nacionais não podem se en- de recursos para minorar a situação
tregar passivamente aos anseios des- trágica de bacias que percorrem re-
sas e promover a privatização de bens giões metropolitanas.
e serviços essenciais à população. A

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Unequal appropriation natural good in increasing scarcity re-
of natural good and the lated to the accelerated process of de-
gradation, in a local and global way,
fight for effectiveness of
generating conlficts of unpredictable
the right for the water
extensions. Considering a society fed
by the logic of commodification of all
things and relevant dimensions of the
Abstract human life, it was analyzed problems
The following study has as a main caused because of that possible com-
goal to demonstrate, in an incipient modification, as well as the privatiza-
way a discuss between the appropria- tion of the services of provision, even
tion of the water as a natural good , the discussion about the privatization
a right of all people according to the of water services of provision have
federal constitution, however, with not been been put into discussion it
the context of the globalization of in- seems relevant an alert about the ap-
terests and of the nature itself. This propriations of water resources and
study begins with the analysis of am- the usurpation of the environmental
biental risk that emerges in a society good as a commercial use.
of consumption, as well as the expan-
sion of information, in other words are
Key words: Water. Appropriation of
the human activities themselves that
natural resources. Good of common
initiate the consequences of a society
usage. Commodification.
of risk, in a social and environmental
point of view. A brief characterization
of the conditions were made so that
Notas
ina a society of consumption can be
1
possible to make universal a request Há uma crescente interdependência mun-
dial, com o advento de uma consciência
to new rights, including to promote planetária, exemplificada pelos direitos hu-
the utopia of water as a natural good manos e pelas questões ambientais e que se
gesta de forma concomitante com os avanços
for the population. In Brazil, as well as dos meios de comunicação e da rede virtual,
in the Latin America, there is a long, bem como a cultura e economia transnacio-
nais.
but not much known knowledge social 2
Dentre as quais duas francesas, que são con-
process of access of water resources sideradas as gigantes do mercado mundial.
Para demonstrar o preocupante quadro, traz
and the finding of perspectives to new o caso da francesa La Lyonnaise, a qual de-
inequalities. Finally, it was observed tém em alguns países o percentual de 100%
do capital da água. Isso ocorreu em razão
the issue of the drinking water as a da privatização dos sistemas de captação,

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104
tratamento e distribuição de águas, como IANNI, Octávio. Teorias da globalização. 4.
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