Você está na página 1de 52

FACULDADE GAMALIEL

EMILLY FREITAS LIMA

A RESPONSABILIDADE CIVIL DO ADOTANTE NA DESISTÊNCIA DA


ADOÇÃO: DIREITO À INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS AO
ADOTANDO

Imperatriz
2016
EMILLY FREITAS LIMA

A RESPONSABILIDADE CIVIL DO ADOTANTE NA DESISTÊNCIA DA


ADOÇÃO: DIREITO À INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS AO
ADOTANDO
.

Monografia apresentada ao Curso de Direito da


Faculdade Gamaliel. como requisito para a
obtenção do grau de bacharel em direito.

Orientador: Prof. Pablo Melo

Imperatriz
2016
EMILLY FREITAS LIMA

A RESPONSABILIDADE CIVIL DO ADOTANTE NA DESISTÊNCIA DA


ADOÇÃO: DIREITO À INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS AO
ADOTANDO.

Monografia apresentada ao Curso de Direito da


Faculdade Gamaliel. como requisito para a
obtenção do grau de bacharel em direito.

Orientador: Prof. Pablo Melo

Aprovada em: ____ de _______________ de ________

BANCA EXAMINADORA

______________________________________________________________
Prof. (Orientador)
Mestre em Ambiente e Desenvolvimento
UNIVATES/RS

______________________________________________________________
Prof. (1º Examinador)

________________________________________________________________
Prof. (2º Examinador)
AGRADECIMENTOS
A menos que modifiquemos a nossa maneira de
pensar, não seremos capazes de resolver os
problemas causados pela forma como nos
acostumamos a ver o mundo.

Albert Einstein
RESUMO

A presente monografia tem como objetivo analisar a respeito dos casos de


responsabilidade civil do adotante na desistência da adoção: direito à indenização
por danos morais ao adotando. Desse modo, o adotado que por algum motivos ou
até mesmo vários motivos não se adaptou a nova família ou, este foi rejeitado pela
pretensa família, e com isso, sendo devolvido sem explicações ao acolhimento
institucional. Momento em que algumas famílias alegam não terem gerado vínculos
afetivos suficientes com a criança para que se caracterize o dano, no qual será
abordado casos negativos e positivos do ordenamento jurídico brasileiro. Será sobre
a adoção, os princípios do direito da criança e do adolescente, origem do Instituto e
finalidade social e humanitária e os requisitos formais do procedimento da adoção.
Assim como, os conceitos e função da responsabilidade civil, a responsabilidade civil
Subjetiva e a civil Objetiva, os pressupostos da Responsabilidade Civil e dano moral,
sua possiblidade, oriundo da desistência da adoção, os transtornos causados pela
desistência ao adotando e posicionamentos negativos e positivos dos Tribunais
acerca de dano moral na desistência da adoção. Por conseguinte, será pesquisado
nas jurisprudências dos Tribunais da Região Centro Oeste e Sul, por serem as
regiões que possuem mais julgados referente ao tema abordado, os casos que
abordaram a responsabilidade indenizatória com danos morais na devolução da
criança e do adolescente, sem qualquer justificativa, aos cuidados do Estado.

Palavras-chave: Adoção. Família. Processo de adoção. Dano moral.


ABSTRACT

The purpose of this monograph is to analyze the cases of civil liability of the adopter
in the abandonment of the adoption: right to compensation for moral damages when
adopting. Thus, the adoptee that for some reasons or even several reasons did not
adapt to the new family or, this was rejected by the so-called family, and with it being
returned without explanation to the institutional reception. Moment when some
families claim not to have generated sufficient affective bonds with the child to
characterize the harm, in which negative and positive cases of the Brazilian legal
system will be addressed. It will be about adoption, the principles of the law of the
child and the adolescent, the origin of the Institute and social and humanitarian
purpose and the formal requirements of the procedure of adoption. Likewise, the
concepts and function of civil liability, Subjective civil liability and civil liability, the
assumptions of Civil Liability and moral damage, its possibility, arising from the
abandonment of adoption, the disorders caused by withdrawal from adopting and
negative positions and Positive effects of the Courts regarding moral damages in the
abandonment of adoption. Therefore, it will be investigated in the jurisprudence of the
Courts of the Central West and South Region, as the regions that have the most
judged regarding the subject addressed, the cases that dealt with liability for moral
damages in the return of the child and the adolescent, without any justification , To
the care of the State.

Keywords: Adoption. Family. Adoption process. Moral damage.


LISTA DE SIGLAS E ABREVIATURAS

CC Código Civil
CF Constituição Federal
ECA Estatuto da Criança e do Adolescente
STJ Superior Tribunal de Justiça
STF Supremo Tribunal Federal
TJMG Tribunal de Justiça de Minas Gerais
TJMS Tribunal de Justiça do Mato Grosso do Sul
TJSC Tribunal de Justiça de Santa Catarina
SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO.....................................................................................................09
2 ADOÇÃO..............................................................................................................12
2.1 Princípios do Direito da Criança e do Adolescente........................................12
2.1.1 Princípio da Prioridade Absoluta.......................................................................12
2.1.2 Princípio do Melhor Interesse...........................................................................12
2.1.3 Princípio da Prioridade da Proteção Integral....................................................12
2.1.4 Princípio da Condição Peculiar de Pessoa em Desenvolvimento....................12
2.1.5 Princípio da Dignidade da Pessoa Humana.....................................................12
2.1.6 Princípio da Igualdade.......................................................................................12
2.1.7 Princípio da Privacidade....................................................................................12
2.2 Conceito de Adoção...........................................................................................18
2.3 Natureza Jurídica da Adoção e os Legitimados a adotar..............................21
2.4 Requisitos Formais do Procedimento da adoção..........................................21
2.5 Lei da Adoção 12.010/09....................................................................................21
3 RESPONSABILIDADE CIVIL.................................................................................33
3.1 Conceito e Função..............................................................................................33
3.2 Responsabilidade Civil Subjetiva e Objetiva...................................................43
3.3 Pressupostos da Responsabilidade Civil.........................................................46
3.3.1 Culpa.................................................................................................................12
3.3.2 Conduta.............................................................................................................12
3.3.3 Dano..................................................................................................................12
3.3.4 Nexo de Causalidade........................................................................................12
3.4 Dano Moral...........................................................................................................46
3.5 Responsabilidade Civil do Adotante.................................................................46
4 POSSIBILIDADE DE DANO MORAL ORIUNDO DA DESISTÊNCIA DA
ADOÇÃO....................................................................................................................00
4.1 Os Transtornos causados pela desistência do adotando..............................47
4.2 Posicionamentos negativos dos Tribunais acerca a existência de dano
moral na desistência da adoção..............................................................................47
4.3 Posicionamentos positivos dos Tribunais acerca a existência de dano
moral na desistência da adoção..............................................................................50
9 CONSIDERAÇÕES FINAIS..................................................................................57
REFERÊNCIAS
9

1 INTRODUÇÃO

Segundo o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), atualmente, para cada


criança na fila de adoção, há cinco famílias querendo adotar. Todavia, o perfil que
esses futuros pais sonham é limitado, pois definem sexo, idade e raça, dificultando,
consequentemente, a adoção.
Ao chegar a um abrigo, a criança não poderá ser adotada imediatamente,
devendo passar pela tentativa de reintegração na sua família biológica. Primeiro os
pais, não sendo possível, qualquer outro parente. Por lei esse procedimento deve
durar 02 anos, no máximo, tempo em que a criança viverá no abrigo do Município.
Depois, então, é que poderá ser a criança disponibilizada para adoção.
Do outro lado deste processo burocrático estão os pretendentes que,
primeiramente, farão a inscrição junto à Vara da Infância e Juventude do seu
Município, participarão de curso de preparação, da fase de análise de documentos e
da entrevista com o setor psicossocial, que também fará visita domiciliar para
avaliação da situação socioeconômica e psicoemocional dos futuros pais adotivos.
Após a aprovação neste procedimento de habilitação, serão incluídos no
Cadastro Nacional de Adoção e aguardarão na fila de adoção até que apareça uma
criança compatível com o perfil indicado. O histórico de vida da criança é exposto
aos adotantes, e se houver interesse, serão apresentados.
Começa então o estágio onde os pretendentes poderão visitar a criança no
abrigo, e ainda fazer breves passeios para criarem laços e se conhecerem. Se tudo
ocorrer bem, os pretendentes estarão liberados para ajuizarem ação de adoção,
onde receberão a guarda provisória, que terá validade até a conclusão do processo.
Nesse estágio de convivência será avaliada a adaptação do adotando ao novo lar,
onde o Poder Judiciário, juntamente com o apoio da equipe interprofissional, decidirá
pelo deferimento ou não da adoção.
Sabe-se que é possível, mas não plausível, a desistência por parte dos
pretendentes durante todo esse processo de adoção. E, por terem as famílias um
excesso de expectativa, idealizando requisitos físicos e até mesmo habituais no
adotado (como filho perfeito e tão sonhado), vem se tornando frequente no Brasil a
desistência da adoção já no estágio de convívio, tempo em que o adotante está com
a guarda da criança.
10

Todavia, não deve ser esquecido que antes da adoção essa criança ou o
adolescente passou pelo abandono de sua família originária. Tal desamparo,
sofrimento físico e psíquico acarretam medos, anseios e vulnerabilidade, gerando
uma expectativa de felicidade e segurança com o acolhimento pelos novos pais,
pelo novo lar, que podem trazer estabilidade física e emocional à criança, criando
uma conexão de confiança.
Se porventura ocorre a desistência, esta é tida como um alívio para os
adotantes, porém, essa ruptura é vivida pelos menores como um fracasso, uma
humilhação. Experimentam uma segunda rejeição, tendo seu desenvolvimento
comprometido e deformado.
A realidade é que esses adotantes se esquecem de que dificuldade de seguir
regras, problemas comportamentais e conflitos existem em qualquer relação entre
pais e filhos, sendo eles adotados ou não.
Imperioso se faz analisar a responsabilidade dos adotantes na desistência da
adoção, que devolvem os adotados, sem hesitar, descartando-os como objeto
qualquer que não possui mais utilidade, causando danos e traumas, muitas vezes
irreversíveis.
Pontua VENOSA (2010) que “os princípios da responsabilidade civil buscam
restaurar um equilíbrio patrimonial e moral violado”, e escreve ainda que “um
prejuízo ou dano não reparado é um fator de inquietação social”, por isso
tendencioso é expandir cada vez mais o dever de indenizar, para que ocorram cada
vez menos, danos passíveis de reparação.
A metodologia utilizada nesta pesquisa trata-se de método dedutivo. As
técnicas utilizadas para a pesquisa foram a bibliográfica e documental. Bibliográfica
em virtude da utilização de livros, revistas, e sites sobre o tema responsabilidade
civil do particular na desistência da adoção. Documental, pela utilização da base de
dados dos Tribunais Regionais e superiores assim como da Constituição Federal,
Código Civil, e do Estatuto da Criança e do Adolescente.
O presente trabalho fará uma análise pormenorizada da presente questão,
abordando se seria possível a responsabilidade civil do adotante na desistência da
adoção, e possível direito à indenização por danos morais ao adotando, sem uma
justificativa plausível provocando a este a sensação de abandono, que fora passada
anteriormente por seus pais biológicos. Tendo em vista, que o abandono pode gerar
11

problemas psicológicos aos adotandos ferindo sua dignidade, e dificultando ainda


mais para esses menores de serem inseridos em um novo seio familiar.
12

2 ADOÇÃO

Abordaremos os princípios norteadores do Estatuto da Criança e Adolescente


(ECA), os requisitos para o processo de adoção.

2.1 Princípios do Direito da Criança e do Adolescente

Por exatamente determinar a lógica e a racionalidade do sistema normativo,


no que lhe adjudica a tônica e lhe dá sentido harmônico, princípio é, “mandamento
nuclear de um sistema, alicerce dele, disposição fundamental que se irradia sobre
diferentes normas compondo lhes o espírito e servindo de critério para sua exata
compreensão e inteligência” (MELLO, 2000, p. 747). Princípios são fontes,
pressupostos fundamentais para as normas legislativas, são ainda, valores de uma
sociedade. Preenchem vazios, limitam regras e servem de parâmetro.

2.1.1 Princípio da Prioridade Absoluta

De maneira vanguardista no ordenamento jurídico brasileiro, a Constituição


Federal (CF) de 1998 inseriu no artigo 227, o princípio da prioridade absoluta, que
determina ser dever da família, da sociedade e do Estado, certificar à criança e ao
adolescente. Com prioridade absoluta, o direito à vida, à saúde, à educação, à
alimentação. Ao lazer, a profissionalização, a cultura, a dignidade, ao respeito, a
liberdade e a convivência familiar e comunitária (MEDEIROS, 2008).
A Carta Magna foi a primeira na legislação brasileira a inserir um artigo que
aborda a prioridade absoluta, art. 227, e no ECA, o artigo 4ª:

Art. 4º. É dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do


Poder Público assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos
referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer,
à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, liberdade e à
convivência familiar e comunitária.
Parágrafo único. A garantia de prioridade compreende: a) primazia de
receber proteção e socorro em quaisquer circunstâncias; b) precedência do
atendimento nos serviços públicos ou de relevância pública; c) preferência
na formulação e na execução das políticas sociais públicas; d) destinação
privilegiada de recursos públicos nas áreas relacionadas com a proteção à
infância e à juventude (BRASIL, 1990).
13

O dispositivo deixa claro que a defesa/promoção dos direitos fundamentais


assegurados à criança e ao adolescente, deve ocorrer a partir de uma ação conjunta
e articulada entre a família, a sociedade/comunidade e o Poder Público. Necessário
se faz mencionar que, não por acaso, a família é relacionada como a primeira das
instituições convocadas a agir na defesa dos direitos de crianças e dos
adolescentes, pois todas as ações desenvolvidas em benefício destes deve ocorrer
preferencialmente no âmbito familiar. Esse princípio tem como finalidade facilitar a
efetivação dos direitos fundamentais do artigo 227 e leva em consideração a
condição de pessoa em desenvolvimento
Desta maneira, este princípio, de acordo com Vasconcelo (2009), vem
estabelecer que os direitos das crianças e adolescentes prioritariamente devem ser
protegidos em primeiro lugar em relação a qualquer outro grupo social, com a
possibilidade de tutelar judicialmente seus direitos fundamentais.
A disposição legal, também prevista no art. 227, da CF, encerra o princípio da
prioridade absoluta à criança e ao adolescente, com a atuação de todos, em
especial do Poder Público, para a defesa e a promoção dos direitos assegurados a
criança e adolescente, determina que crianças e adolescentes não somente
recebam atenção e tratamento prioritários por parte da família, da sociedade e do
Poder Público, mas que esta prioridade seja absoluta somada à regra básica de
hermenêutica, a lei não dá margem para qualquer dúvida acerca da área que deve
ser atendida em primeiro lugar pelas políticas públicas e ações de governo
(DIGIÀCOMO; DIGIÁCOMO, 2013).

2.1.2 Princípio do Melhor Interesse

Destaca-se ainda o princípio do melhor interesse da criança e do adolescente


que, pode ser compreendido como a forma adequada de permitir que a criança e o
adolescente possam se desenvolver com dignidade, concretizando, portanto, os
seus direitos fundamentais (BARROS, 2013).
O princípio do melhor interesse da criança está inserido tanto no Estatuto da
Criança e do Adolescente – Lei nº 8.069/90, artigos 5º e 6º, quanto na Constituição
Federal de 1988, no artigo 5º, §2º. Declara o artigo 5º da Lei nº 8.069/90:
14

Art. 5º. Nenhuma criança ou adolescente será objeto de qualquer forma de


negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão,
punido na forma da lei qualquer atentado, por ação ou omissão, aos seus
direitos fundamentais.
Art. 6º. Na interpretação desta Lei levar-se-ão em conta os fins sociais e a
que ela se dirige, as exigências do bem comum, os direitos e deveres
individuais e coletivos, e a condição peculiar da criança e do adolescente
como pessoas em desenvolvimento (BRASIL, 1990).

Impõem que todos têm o dever de velar pelos direitos a crianças e


adolescentes, auxiliando em prol de combater todas as formas de violência,
negligência ou opressão. O princípio do melhor interesse orienta todos aqueles que
se defrontam com as exigências naturais da criança e do adolescente. Materializá-lo
é dever de todos.
O princípio do melhor interesse da criança e do adolescente, absolutamente
festejado pelo ordenamento jurídico, representa um grande ganho ao tema da
adoção. A necessidade de se observarem as reais vantagens para o adotado impõe
um processo rigoroso para que se tenha efetivado o pedido (MATOS, 2012).
Atender ao melhor interesse das crianças e dos adolescentes é poupá-los de
condições que são consideradas adversas ao seu desenvolvimento saudável,
natural, o que, por sua vez, garantiria a sua adequação à sociedade (AMARAL,
2013).
O princípio do melhor interesse da criança é uma garantia ao agente privado
ou público de realização de atos sócio-institucionais amparados nos desejos e
necessidades das crianças e dos adolescentes, e a salvaguarda das próprias
crianças e dos adolescentes para a composição de espaço participativo onde suas
reivindicações sejam recepcionadas em igualdade de condições com as demais
(OLIVEIRA, 2014).

2.1.3 Princípio da Proteção Integral

A Constituição Federal de 1988, em seu artigo 227, diz respeito à doutrina da


proteção integral e integra-se com o princípio fundamental da dignidade da pessoa
humana:

Art. 227. É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança


e ao adolescente, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à
15

alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à


dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária,
além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação,
exploração, violência, crueldade e opressão (BRASIL, 1998).

O dispositivo em comento nos mostra que as crianças e os adolescentes são


sujeitos de direitos, sujeitos especiais por serem pessoas em desenvolvimento,
necessitam de proteção do Estado, da sociedade e da família com prioridade
absoluta, implica a compreensão que a expressão de todo o seu potencial quando
pessoa adulta tem como condição integral o atendimento de suas necessidades
enquanto pessoas em desenvolvimento. O artigo consagra a doutrina da proteção
integral, preconizando a tutela jurídica das necessidades do ser humano, de maneira
a propiciar-lhe o pleno desenvolvimento da personalidade.
O ECA vem em resposta à nova orientação constitucional e à normativa
internacional relativa à matéria, que deixa claro, seu objetivo fundamental: a
proteção integral de crianças e adolescentes (DIGIÀCOMO; DIGIÁCOMO, 2013).

2.1.4 Princípio da Condição Peculiar de Pessoa em Desenvolvimento

A Constituição Federal de 1998 delimita que uma das dimensões do direito a


proteção integral das crianças e adolescentes é, como preceitua o artigo 227, §3º,
inciso V, a “obediência aos princípios de brevidade, excepcionalidade e respeito à
condição peculiar de pessoa humana, quando da aplicação de qualquer medida
privativa de liberdade".
Nos termos do artigo 3º do Estatuto, deve-se assegurar à criança e ao
adolescente, por lei ou por outros dispositivos, todas as oportunidades e facilidades,

Art. 3º. A criança e o adolescente gozam de todos os direitos fundamentais


inerentes à pessoa humana, sem prejuízo da proteção integral de que trata
esta Lei, assegurando-se-lhes, por lei ou por outros, meios, todas as
oportunidades e facilidades, a fim de lhes facultar o desenvolvimento físico,
mental, moral, espiritual e social, em condições de liberdade e de dignidade
(BRASIL, 1990).

O dispositivo em comento que está afirmado na lei estatutária o princípio do


respeito à condição peculiar de pessoa em desenvolvimento. Porque sujeitos em
condição peculiar, as crianças e os adolescentes, além dos universais, possuem
necessidades adicionais.
16

2.1.5 Princípio da Dignidade da Pessoa Humana

O princípio da dignidade da pessoa humana trata-se de um direito


fundamental de todo cidadão, independente de quem ou como seja, tendo a
valorização da pessoa humana sempre. Está previsto no art. 1º da nossa Carta
Magna, e dele irradiam os demais princípios. O que se busca através desse princípio
são atitudes que garantam que as pessoas não sofram tratamento desumano,
ofensivo, e tenha do Estado auxílio para que possam viver de maneira digna. Neste
diapasão, o princípio da dignidade da pessoa humana afiança à criança e ao
adolescente o respeito aos seus direitos fundamentais (DIAS; SILVA, 2013).
Vejamos o artigo 1º, inciso III da Carta Magna:

Art. 1º A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel


dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado
Democrático de Direito e tem como fundamentos:
[...] III – a dignidade da pessoa humana (BRASIL, 1988).

O dispositivo constitui o princípio máximo do nosso ordenamento jurídico,


onde protege de forma inigualável a pessoa humana. Por ser a nossa Constituição
aberta e repleta de princípios, deve-se mensurar que o princípio norteador de todo
sistema é o princípio da dignidade humana.
Consta no art. 18 do Estatuto “é dever de todos velar pela dignidade da
criança e do adolescente, pondo-os a salvo de qualquer tratamento desumano,
violento, aterrorizante, vexatório ou constrangedor” (ECA, 1990).
O artigo 18 do ECA que disciplina sobre a dignidade da pessoa humana,
mostra que mais do que um princípio, é um postulado normativo que deve ser
respeitado em qualquer situação, um valor que deve ser perseguido pela sociedade,
base de construção de uma sociedade mais solidária e justa (BARROS, 2013).

2.1.6 Princípio da Igualdade

Já o princípio da igualdade jurídica de todos os filhos, consubstanciado no


artigo 227, § 6º, da Constituição Federal, estabelece absoluta igualdade entre todos
os filhos, não admitindo distinção entre filhos legítimos, naturais e adotivos, quanto
ao nome, poder familiar, alimentos e sucessão; permite o reconhecimento, a
17

qualquer tempo, de filhos havidos fora do casamento; proíbe que conste no assento
do nascimento qualquer referência à filiação ilegítima; e veda designações
discriminatórias relativas à filiação (GONÇALVES, 2014).
O inciso III, do artigo 100 do ECA determina que é responsabilidade do
Estado a execução e a garantia dos direitos inerentes a criança e ao adolescente,
conceituando assim, o princípio da responsabilidade primária e solidário do poder
público.

2.1.7 Princípio da Privacidade

Há ainda o princípio da privacidade, que vem preservar a imagem e a vida


privada da criança e do adolescente. Está prevista no artigo 17 do ECA que diz que
o direito ao respeito consiste na inviolabilidade da integridade física, psíquica e
moral da criança e do adolescente, abrangendo a preservação da imagem, da
identidade, da autonomia, dos valores, ideias e crenças, dos espaços e objetos
pessoais.

2.2 Conceito de Adoção

A adoção é um vínculo ocasionado por parentesco civil, que estabelece entre


o adotado e o adotante (ou adotantes) um liame legal de paternidade e filiação. A
adoção prevista no ECA, em seu art. 39 e seguintes, tem por objetivo fundamental,
agregar de maneira total o adotado à família do adotante e, o afastamento em
definitivo da família de sangue, de maneira irrevogável.

Art.39. A adoção de criança e de adolescente reger-se-á segundo o


disposto, nesta Lei
§ 1º.A adoção é medida excepcional e irrevogável, à qual se deve recorrer
apenas quando esgotados os recursos de manutenção da criança ou
adolescente na família natural ou extensa, na forma do parágrafo único do
art. 25 desta Lei (BRASIL, 1990)

A adoção é o instituto que se estabelece o vínculo de filiação por meio de


decisão judicial, em caráter irrevogável, não sendo possível a manutenção da
criança ou adolescente em sua família biológica.
18

A adoção configura-se por ser um processo no qual tem por objetivo garantir
proteção afetiva, social e moral de crianças que estão em situação de desamparo e
desprovidas de proteção digna de seus progenitores. Se consumada a adoção, os
pais adotivos automaticamente passam a ter os direitos e deveres recíprocos que se
estabelecem entre filhos e pais naturais (CHISSONDE, 2016).
Para todos os efeitos legais, a adoção será definitiva ou irrevogável, uma vez
que desliga o adotado de qualquer vínculo com os pais de sangue, salvo os
impedimentos para o casamento (CF, art. 227, §§ 5º e 6º), criando verdadeiros laços
de parentesco entre o adotado e a família do adotante.
Apesar da irrevogabilidade da adoção, é direito do adotado saber quais são
suas origens biológicas, a quem pertencem seus laços consanguíneos,
independente da relação na qual possui com os atuais pais. É o que demonstra o
julgado abaixo:

AGRAVO DE INSTRUMENTO. INVESTIGAÇÃO DE PATERNIDADE.


REALIZAÇÃO DE EXAME DE DNA. PATERNIDADE SOCIOAFETIVA.
DIREITO PERSONALÍSSIMO DE BUSCAR A ORIGEM GENÉTICA. É certo
que o reconhecimento da paternidade é ato irrevogável, mas essa
característica, por óbvio, atinge apenas quem efetuou o reconhecimento (o
pai registral), jamais a filha que não participou daquele ato. Não se pode
agora pretender levantar contra ela esse argumento para impedir a busca
de um direito de personalidade que lhe é inalienável, qual seja a busca da
verdade acerca de sua origem genética. NEGARAM PROVIMENTO
(Processo AI 70044262517 RS, Órgão Julgador Oitava Câmara Cível
Publicação Diário da Justiça do dia 05/12/2011, Julgamento1 de Dezembro
de 2011, Relator Luiz Felipe Brasil Santos).

Mesmo após o processo de adoção concluído, ou após o adotado atingir a


maioridade civil, é seu direito saber quais suas origens biológicas, portanto pode ser
pleiteado através de meios processuais alcançar seu desejo.
Para Gonçalves (2014) a adoção é negócio bilateral e solene, pelo qual
alguém estabelece irrevogável e independentemente de qualquer relação de
parentesco consanguíneo ou afim, um vínculo jurídico de filiação, trazendo para sua
família, na condição de filho, pessoa que geralmente lhe é estranha. Observa-se,
portanto, que a adoção é uma instituição de caráter humanitário, uma medida de
proteção, onde, ao mesmo tempo, que favorece os adotantes, dando-lhes o filho que
a natureza negou, também melhora a condição moral e material do adotado.
A partir da Constituição de 1988, todavia, a adoção passou a constituir-se por
ato complexo e a exigir sentença judicial, prevendo-a expressamente o art. 47 do
19

Estatuto da Criança e do Adolescente e o art. 1.619 do Código Civil de 2002, com a


redação dada pela Lei n. 12.010, de 3-8-2009. O art. 227, § 5º, da Carta Magna, ao
determinar que “a adoção será assistida pelo Poder Público, na forma da lei, que
estabelecerá casos e condições de sua efetivação por parte de estrangeiros”,
demonstra que a matéria refoge dos contornos de simples apreciação juscivilista,
passando a ser matéria de interesse geral, de ordem pública. (GONÇALVES, 2014,
p. 884).
O artigo 39, §1º do Estatuto da Criança e do Adolescente, conceitua adoção
como medida excepcional e irrevogável, sendo um ato que deve ocorrer quando não
há qualquer outro meio de manutenção da criança/adolescente na família natural ou
extensa (sanguínea), e, após realizado os devidos procedimentos, a adoção se orna
definitiva, não podendo o adotante voltar com sua escolha.
Nos termos do ECA através da lei 12.010/09 a adoção no Brasil se torna um
procedimento mais formal e de caráter excepcional, o objetivo da lei foi o de buscar
a manutenção da família biológica ou a de sua extensão. A adoção é dessa maneira,
um ato solene, com a atuação de advogado para realizar o pedido; do Ministério
Público, como fiscal da lei, acompanhado o caso por assistente social e psicólogo,
para avaliar e darem parecer sobre a situação do menor e dos possíveis pais, com
interesse de adotar, e por fim decidido por juiz competente (OLIVEIRA, 2014)

2.3 Natureza Jurídica da Adoção e os legitimados a adotar

No tocante à natureza jurídica do instituto da adoção, não há um consenso na


doutrina brasileira. Alguns autores acham que a ideia de contrato deve ser afastada,
pois as relações contratuais são fundamentalmente de conteúdo econômico, ao
passo que o vínculo, o afeto que a adoção estabelece é essencialmente moral e
espiritual (OST, 2009)
Em última hipótese, a adoção é de ordem pública, onde cada caso particular
dependerá unicamente e exclusivamente de um ato jurídico individual, onde
prevalecerá a vontade das partes, entre um acordo firmado entre as mesmas, em
uma situação jurídica permanente, do qual surgirão direitos e deveres para os
envolvidos (OST, 2009)
A adoção é um ato jurídico em sentido estrito, trata-se de um ato jurídico que
não pode ter seus efeitos modulados, não é negócio jurídico. O pai ou a mãe que
20

adota não pode negar a criança ou ao adolescente adotado direito ao sobrenome ou


direitos sucessórios. À luz do Código Civil de 1916, existia distinção entre adoção
simples e plena, porém com a o advento da CF fica proibida qualquer distinção entre
filhos, seja fruto de relação de casamento ou outra forma de relacionamento, sejam
por adoção, como consta no 227, § 62. A adoção é sempre plena, com efeitos
jurídicos expressamente previstos (BARROS, 2013).
A adoção exige de ambas partes um acordo de vontade, não se concretiza
somente por vontade unilateral. Em 1988, com a chegada da constituição cidadã, o
instituto passou a ser constituído por atos complexos, exigindo-se até mesmo
sentença judicial, como versa o art. 47 do ECA. O instituto da adoção passou a ser
de ordem pública, visando o interesse do adotado (OST, 2009).
A atual legislação afasta a ideia de contrato entre as partes, devido ao
interesse público que passa com a adoção: artigo 47, ECA, “o vínculo da adoção
constitui-se por sentença judicial, que será inscrita no registro civil mediante
mandado do qual não se fornecerá certidão”. Porém a adoção é mais que um acordo
de vontades, sendo que o mais importante nesse instituto será a relação socioafetiva
estabelecida entre adotante e adotado, para que os mesmos constituam uma família
(BARROS, 2013).
São legitimados a adotar os maiores de 18 anos civilmente capazes, de
qualquer estado civil, seja este solteiro, casado, divorciado, ex-companheiro, em
união estável, e atualmente os casais homossexuais. Não existe mais o
impedimento do antigo Código Civil, no qual um casal somente poderia adotar após
5 anos de casados (DIGIÁCOMO; DIGIÁCOMO, 2013).

Podem adotar todas as pessoas civilmente capazes, isto é, as que tenham


idade superior a 18 anos, de qualquer Estado civil. Não há mais a restrição
que havia no Código Civil de 1916, concernente ao impedimento temporário
(cinco anos) após o casamento. A exigência de idade mínima de 18 anos
(antes, era de 50, depois de 30, no Código Civil, e de 18, no Estatuto da
Criança e do Adolescente) ainda é maior que a exigida para o casamento,
para o qual basta a idade de 16 anos (LÔBO, 2011, p. 277).

Portanto, se o adotante não possuir idade suficiente para a realização da


adoção, está será considerada nula, pois a adoção depende da aprovação de um
juiz representante do Estado, por violação de um requisito essencial, podendo
posteriormente requerer novamente a adoção após completar 18 anos. Um dos
princípios essenciais da adoção que se encontra no art. 226, parágrafo 7º da
21

Constituição Federal, que protege a dignidade da pessoa humana e da paternidade


responsável. Já os que são incompatíveis, como anteriormente mencionados, são os
ascendentes, os descendentes e os irmãos do adotando (art. 42, § 1º, do ECA)
ficando a estes resguardados o direito a tutela ou detentor da guardo, é o que ocorre
com os avós.

2.4 Requisitos formais do procedimento da adoção

O ECA versa que a colocação em família substituta far-se-á mediante guarda,


tutela ou adoção, independente da situação jurídica do menor, e consta os requisitos
para um pretendente à adoção (ECA, 1990). Vejamos sobre os requisitos constantes
no ECA:

Art. 28, § 5º. A colocação da criança ou adolescente em família substituta


será precedida de sua preparação gradativa e acompanhamento posterior,
realizados pela equipe interprofissional a serviço da Justiça da Infância e da
Juventude, preferencialmente com o apoio dos técnicos responsáveis pela
execução da política municipal de garantia do direito à convivência familiar.
Art. 42. Podem adotar os maiores de 18 (dezoito) anos, independentemente
do estado civil.
§ 1º. Não podem adotar os ascendentes e os irmãos do adotando;
§ 2º Para adoção conjunta, é indispensável que os adotantes sejam
casados civilmente ou mantenham união estável, comprovada a
estabilidade da família.
§ 3º. O adotante há de ser, pelo menos, dezesseis anos mais velho do que
o adotando;
§ 4º. Os divorciados, os judicialmente separados e os ex-companheiros
podem adotar conjuntamente, contanto que acordem sobre a guarda e o
regime de visitas e desde que o estágio de convivência tenha sido iniciado
na constância do período de convivência e que seja comprovada a
existência de vínculos de afinidade e afetividade com aquele não detentor
da guarda, que justifiquem a excepcionalidade da concessão;
Art. 43. A adoção será deferida quando apresentar reais vantagens para o
adotando e fundar-se em motivos legítimos
Art. 45. A adoção depende do consentimento dos pais ou do representante
legal do adotando.
§ 1º. O consentimento será dispensado em relação à criança ou
adolescente cujos pais sejam desconhecidos ou tenham sido destituídos do
poder familiar.
§ 2º. Em se tratando de adotando maior de doze anos de idade, será
também necessário o seu consentimento;
Art. 46. A adoção será precedida de estágio de convivência com a criança
ou adolescente, pelo prazo que a autoridade judiciária fixar, observadas as
peculiaridades do caso;
§ 1º. O estágio de convivência poderá ser dispensado se o adotando já
estiver sob a tutela ou guarda legal do adotante durante tempo suficiente
para que seja possível avaliar a conveniência da constituição do vínculo
22

Um dos requisitos está previsto no art. 42, caput, e parágrafos do ECA, que é
o da idade mínima, onde temos a exigência de 18 anos para adotar, não importando
estado civil, salvo se a adoção for conjunta. O art. 42, § 3º do ECA traz outro
requisito, qual seja, a diferença de 16 anos entre o adotante e o adotado. Temos
também o consentimento ou destituição do poder familiar dos pais biológicos como
requisito para o processo da adoção, que se tratando de adotando maior de 12 anos
de idade, este também deverá manifestar o seu consentimento, conforme prevê o
art. 45, caput, §§ 1º e 2º, do ECA. Outro requisito é o do real benefício para o
adotando, conforme estipula o art. 43 do ECA.
A adoção terá que proporcionar à criança e ao adolescente vantagens para o
seu desenvolvimento físico, moral, educacional e espiritual. Assim, uma adoção só
será comprometida se houver algo que prejudique tais benefícios. “Ouvir o menor é
importante não só nos processos de adoção, mas em qualquer processo de
colocação em família substituta” (SILVA FILHO, 2009, p. 239).
Todos os atos devem ser praticados de formar a verificar se a colocação na
família substituta será vantajosa para ela. Estas vantagens devem ser aferidas no
âmbito do afeto, que deve ser tratado como um valor jurídico. O adotando vem de
uma situação de rejeição por parte de seus genitores, não devendo ser submetido a
novos momentos traumáticos. Logo, deve ser buscado pelas equipes
interprofissionais se os adotantes detêm as condições necessárias para dar ao
adotando um lar estável onde possa ser acolhido e amado (SILVA FILHO, 2009).
De acordo com o §3º, do artigo 46 do ECA, antes de concretizada a adoção,
esta será precedida pelo estágio de convivência, onde será feita uma avaliação da
adaptação e aceitação da criança pela família, pelo prazo que a autoridade judiciária
fixar, salvo nas adoções internacionais, que o prazo de estágio de convivência é de
30 dias. Segundo o § 1º, art. 46, do ECA, este período pode ser dispensado quando
o adotando já se encontra sob tutela ou guarda legal do adotante durante tempo
suficiente (BRASIL, 1990).

2.5 Lei da Adoção - nº 12.010/09

Em 03 de agosto de 2009 foi promulgada a Lei nº 12.010, conhecida como a


nova lei da adoção. A lei veio para alterar de maneira significativa o instituto da
adoção no Brasil. O ECA sofreu várias modificações, assim como a legislação que
23

passou a utilizar o termo “poder familiar” ao invés de “pátrio poder”. Introduziu


também a definição de família “extensa” ou ampliada (DIAS, 2013, p. 515).
A Lei 12.010/09 dissipou quaisquer dúvidas existentes sobre a
incompatibilidade das disposições entre o Código Civil de 2002 e o ECA, e revogou
as disposições específicas do Código Civil (CC) sobre adoção, mantendo nesse
diploma somente remissões genéricas e supletivas ao ECA. A lei da adoção tem por
objetivo, dentre outras questões, agilizar o processo de adoção, não permitindo que
as crianças e adolescentes fiquem em abrigos por mais de dois anos (DIAS; SILVA,
2013).
A Lei 12.010/09 dispõe não somente sobre a adoção, mas sim, como
comprovado já em seu art. 1º, visa aperfeiçoar a sistemática prevista na Lei nº
8.069/90 para assegurar o direito à convivência familiar, nas variadas formas, a
todas as crianças e aos adolescentes, sem perder de vista as normas e os princípios
por esta consagrados. Ficou evidenciado que o principal objetivo da nova lei da
adoção foi o de garantir o direito das crianças e dos adolescentes a uma convivência
familiar no menor prazo possível (OLIVEIRA, 2011).
Considerando que a maioridade civil e penal atualmente se dá aos 18 anos
completos, a Lei 12.010/09, para tanto, buscou adequar todos os dispositivos do
ECA neste sentido, uma vez que seu público alvo abrange as crianças (com até 12
anos incompletos) e adolescentes (com 12 a 18 anos incompletos). Um exemplo
significativo desta adequação é a idade mínima de 18 anos para adotar (LOPES;
FERREIRA, 2010).
Na nova lei da adoção, a criança e o adolescente não poderá ser mantida em
programa de acolhimento institucional por um prazo superior a 2 (dois) anos, salvo
comprovada necessidade, e devendo ser fundamentada pela autoridade judiciária.
Este dispositivo foi considerado uma grande conquista reafirmando o caráter
transitório do abrigamento devendo o sistema de proteção reavaliar
permanentemente a necessidade ou não dos menores permanecer na instituição
(OLIVEIRA, 2011).
Nos termos do Estatuto por meio da lei 12.010/09, a adoção no Brasil se torna
um procedimento mais formal e de caráter excepcional, a lei tem por objetivo buscar
a manutenção da família biológica ou a de sua extensão. A adoção é um ato solene,
com a atuação de advogado para realizar o pedido; do Ministério Público (MP),
como fiscal da lei, acompanhado o caso por assistente social e por psicólogo, para
24

avaliar e darem parecer sobre a situação da criança e do adolescente e dos


possíveis pais, com interesse de adotar, e por fim decidido por juiz competente
(OLIVEIRA, 2014).
Outras novidades, com a promulgação da lei 12.010/09, é a realização de
curso para os adotantes, o acompanhamento psicológico para as mães e para as
gestantes que queiram entregar seus filhos para a adoção, a elaboração de cadastro
nacional, para os menores e para os adotantes, e a diminuição do tempo de
permanência de menores em abrigos (OLIVEIRA, 2011).
A lei 12.010, em relação ao cumprimento do estágio de convivência elenca
que “em caso de adoção por pessoa ou casal residente ou domiciliado fora do País,
o estágio de convivência, cumprido no território nacional, será de no mínimo, 30
(trinta) dias” (art. 46, §3°, ECA). Com o novo dispositivo legal passa-se a ter apenas
um prazo fixado de estágio de convivência independentemente da idade da criança
e do adolescente adotado (BRAUNER; ALDROVANDI, 2010).
Assevera Dias e Silva, (2013, p. 824) sobre o acompanhamento posterior,
previsto no art. 28, § 5º, do ECA “a colocação em família substituta far-se-á
mediante guarda, tutela ou adoção, independentemente da situação jurídica da
criança ou adolescente, nos termos desta Lei” e será realizado pela equipe
Interprofissional a serviços da Justiça da Infância e da Juventude.
A nova lei, ou a reformulação do ECA/90, trouxe grandes avanços por
despertar a curiosidade e a atenção da sociedade e do meio político à matéria. A lei
busca impedir a famosa adoção direta, que é aquela em que a pessoa deseja adotar
o filho do vizinho, ou outros exemplos, visto que para adoção deverá ser obedecida
à ordem do cadastro. Já sobre à adoção internacional, esta será efetuada somente
em última hipótese, dando-se total preferência ao adotante nacional, posteriormente
de brasileiros residentes no exterior, não existindo brasileiros habilitados, os
estrangeiros poderão fazer a adoção, porém, será necessária uma convivência
familiar, ou estágio, no território brasileiro por 30 (trinta) dias, pretendendo-se evitar
o comércio e intermediação indevidas das crianças e adolescentes (OLIVEIRA,
2011).
25

3 RESPONSABILIDADE CIVIL

3.1 Conceito e Função

Diríamos que a responsabilidade civil deriva da agressão a um interesse


eminentemente particular, sujeitando, assim, o infrator, ao pagamento de uma
compensação pecuniária à vítima, caso não possa repor in natura o estado anterior
de coisas. Dessa forma assim conceituou Coelho (2012, p. 347), que diz “a
responsabilidade civil é a obrigação em que o sujeito ativo pode exigir o pagamento
de indenização do passivo por ter sofrido prejuízo imputado a este último.”
Assim também observamos no conceito de Gonçalves (2015, p. 19) “a palavra
responsabilidade tem sua origem na raiz latina spondeo, pela qual se vincula o
devedor, solenemente, nos contratos verbais do direito romano”.
Acrescentando ainda a respeito do conceito de responsabilidade civil:

De tudo o que se disse até aqui, conclui-se que a noção jurídica de


responsabilidade pressupõe a atividade danosa de alguém que, atuando a
priori ilicitamente, viola uma norma jurídica preexistente (legal ou
contratual), subordinando-se, dessa forma, às consequências do seu ato
(obrigação de reparar) (GAGLIANO; PAMPLONA FILHO, 2015,
53).

Dessa maneira, entendemos que uma ação ou omissão de um fato pode


gerar uma responsabilidade na qual pode ser esta civil ou penal, dependendo do ato
praticado pelo agente.
Vejamos o artigo 932 do Código Civil:

Art. 932. São também responsáveis pela reparação civil:


I - os pais, pelos filhos menores que estiverem sob sua autoridade e em sua
companhia;
II - o tutor e o curador, pelos pupilos e curatelados, que se acharem nas
mesmas condições;
III - o empregador ou comitente, por seus empregados, serviçais e
prepostos, no exercício do trabalho que lhes competir, ou em razão dele;
IV - os donos de hotéis, hospedarias, casas ou estabelecimentos onde se
albergue por dinheiro, mesmo para fins de educação, pelos seus hóspedes,
moradores e educandos;
V - os que gratuitamente houverem participado nos produtos do crime, até a
concorrente quantia.
26

O código civil deixa claro que os pais, curadores e tutores, os comitentes e


empregadores serão responsáveis pelos atos de seus filhos, empregados ainda que
não exista sua responsabilidade pelos atos cometidos, ou seja, sua responsabilidade
é objetiva, mesmo não cometendo o ato danoso, irá responder por aqueles aos
quais possui responsabilidade de cuidar.
O artigo 927 e o artigo 186 do Código Civil estabelecem a responsabilidade
pelo dano causado contra outrem, define o que é o ato ilícito, cometido contra
outrem e consequentemente gera indenização, senão vejamos:

Art. 927. Aquele que, por ato ilícito (arts. 186 e 187), causar dano a outrem,
fica obrigado a repará-lo.
Parágrafo único. Haverá obrigação de reparar o dano, independentemente
de culpa, nos casos especificados em lei, ou quando a atividade
normalmente desenvolvida pelo autor do dano implicar, por sua natureza,
risco para os direitos de outrem.
Art. 186. Aquele que, por ação ou omissão voluntária, negligência ou
imprudência, violar direito e causar dano a outrem, ainda que
exclusivamente moral, comete ato ilícito. Art. 187. Também comete ato
ilícito o titular de um direito que, ao exercê-lo, excede manifestamente os
limites impostos pelo seu fim econômico ou social, pela boa-fé ou pelos
bons costumes.

Aquele que causa dano a outro fica obrigado e repará-lo independente de


culpa nos casos que a lei dispuser. Encontramos no artigo 186, do Código civil a
qualificação para a ação ou omissão causadora da responsabilidade civil. Sendo
importante ressaltar que somente o homem pode ser civilmente responsabilizado. O
ato ilícito é um pressuposto necessário para a configuração da responsabilidade
civil, ou seja, uma conduta humana sendo esta positiva ou negativa, uma ação ou
omissão realizada pela vontade do agente tendo como fim, o dano ou prejuízo.
A voluntariedade do indivíduo é o primeiro elemento da responsabilidade civil,
relacionando-se com a definição de imputabilidade, já que “a voluntariedade
desaparece ou se torna ineficaz quando o agente é juridicamente irresponsável”. O
ato ilegítimo praticado é “um comportamento voluntário que transgride um dever”
(VENOSA, 2011, p. 25).
O dano para Venosa consiste “no prejuízo sofrido pelo agente”, podendo ser
individual ou coletivo, moral ou material, não econômico e econômico, e a culpa, “é a
inobservância de um dever que o agente devia conhecer e observar” (VENOSA,
2011, p. 25). Portanto, verifica-se que a responsabilidade civil está ligada a forma de
reparação ao dano causado por um ato ilícito à outrem.
27

3.2 Responsabilidade Civil Subjetiva e Objetiva

Ainda na responsabilidade civil, analisaremos as teorias, objetiva e subjetiva


da responsabilidade civil. Dessa forma, encontramos no parágrafo único do art. 927
do Código Civil, “que o autor do dano causado está obrigado a repará-lo
independentemente de culpa”. O artigo discorre que independente da vontade de
causar o dano, a culpa será ou não considerada um elemento da obrigação de
indenizar pelo dano ocorrido.
Caracteriza-se a responsabilidade civil objetiva com a demonstração de três
requisitos: a conduta (ação ou omissão), o dano, e o nexo de causalidade, não
sendo exigido, a demonstração da culpa do agente. Compõe uma questão de
socialização dos riscos, já que, o dano decorrente da atividade de risco recairá, ou
no seu causador, ou na vítima, sendo forçoso reconhecer ser injusto que a
prejudicada seja quem não teve como evita-lo (CALIXTO, 2012).
Ainda dispõe o autor que o dispositivo em questão pode ser compreendido
melhor com a separação dos elementos: a) a responsabilidade “independentemente
de culpa”; b) “nos casos especificados em lei”; c) “a atividade desenvolvida
normalmente pelo autor do dano”; d) “por sua natureza”; e) “geradora de riscos para
direito de outrem.
Assim, também podemos analisar a teoria objetiva, ou teoria do risco e sua
responsabilidade civil. Por essa se entende que todo dano é indenizável, devendo
ser reparado por aquele que o nexo de causalidade se liga independente de culpa.

A lei impõe, entretanto a certas pessoas, em determinadas situações, a


reparação de um dano independentemente de culpa. Quando isto acontece,
diz-se que a responsabilidade é legal ou “objetiva”, porque prescinde da
culpa e se satisfaz apenas com o dano e o nexo de causalidade
(GAGLIANO; PAMPLONA FILHO, 2015, p. 48).

Tendo em vista que um indivíduo deva ser responsabilizado por sua omissão
ou ação, na forma culposa ou danosa, não excluindo os negócios jurídicos que
levam em conta a responsabilidade objetiva.
A teoria subjetiva também chamada de teoria da culpa, tem a culpa como um
fundamento da responsabilidade civil, caso não ocorra a culpa, não se pode dizer
que houve responsabilidade. Caracterizando-se quando o autor do dano atua com
negligência, imprudência ou imperícia (CALIXTO, 2012).
28

Diz-se por ser subjetiva a responsabilidade quando se esteia na ideia de


culpa. A prova da culpa do agente passa a ser pressuposto necessário do
dano indenizável. Nessa concepção, a responsabilidade do causador do
dano somente se configura se agiu com dolo ou culpa (GAGLIANO,
PAMPLONA FILHO, 2015, p. 48).

Desse modo, a teoria subjetiva determina que a responsabilidade pelo ato


praticado deva ser aplicada aquele que o fato culposo poderia ter sido evitado.
Assim, também podemos analisar a teoria objetiva, ou teoria do risco e sua
responsabilidade civil. Por essa se entende que todo dano é indenizável devendo
ser reparado por aquele que o nexo de causalidade se liga independente de culpa.
Por fim, temos as excludentes de responsabilidade, componentes utilizados
na forma de defesa pelo réu nas ações indenizatórias. Tais como, Estado de
necessidade, legitima defesa, exercício regular de direito e estrito cumprimento do
dever legal, caso fortuito e força maior, culpa exclusiva da vítima e fato de terceiro
(GAGLIANO; PAMPLONA FILHO, 2015).
Podemos encontrar o Estado de necessidade no artigo 188 do Código Civil.
Vejamos o referido artigo:

Art. 188. Não constituem atos ilícitos:


I - os praticados em legítima defesa ou no exercício regular de um direito
reconhecido;
II - a deterioração ou destruição da coisa alheia, ou a lesão a pessoa, a fim
de remover perigo iminente.
Parágrafo único. No caso do inciso II, o ato será legítimo somente quando
as circunstâncias o tornarem absolutamente necessário, não excedendo os
limites do indispensável para a remoção do perigo (BRASIL, 2002)

Esse ato somente será legítimo quando uma agressão a direito alheio, com
um valor jurídico maior ou menor do direito afetado, o qual se pretende proteger,
removendo-lhe de perigo iminente, não sendo possível tomar outra atitude que não a
de proteger o direito ameaçado, sendo, porém, responsabilizado por qualquer
excesso que venha a cometer.
Dessa forma, segundo Gagliano e Pamplona Filho (2015, p. 158) podemos
entender o estado de necessidade. “Com isso, quis dizer que o agente atuando em
estado de necessidade, não está isento de atuar nos estritos limites de sua
necessidade, para a remoção da situação de perigo. Será responsabilizado, pois por
qualquer excesso que venha a cometer.”
29

Outra excludente é a legitima defesa, também disposta no artigo 188 do


Código civil, inciso I, primeira parte. Podemos diferenciar do estado de necessidade,
pois nesse caso o indivíduo se encontra em situação atual ou iminente de injusta
agressão a si ou a terceiro (GAGLIANO; PAMPLONA FILHO, 2015).
Já o exercício regular de direito é aquele em que se recebe uma autorização
do poder público para realizar um ato, temos como exemplo as atividades
desportivas que violam a integridade física de terceiros, que são admitidas pelo
poder público caso não ocorra excessos na sua pratica. Como podemos observar
no Código Civil em seu artigo 187 que retrato o abuso de direito (GAGLIANO;
PAMPLONA FILHO, 2015).
A culpa exclusiva da vítima, por sua vez, é aquela em que a própria vítima
deu causa para fato danoso. Neste sentindo Gagliano e Pamplona Filho (2015, p.
171) exemplifica a referida excludente:

Imagine a hipótese do sujeito que, guiando o seu veículo segundo as regras


de trânsito, depara-se com alguém que, visando suicidar-se, arremessa-se
sob as suas rodas. Nesse caso, o evento fatídico, obviamente, não poderá
ser atribuído ao motorista (agente), mas sim, e tão somente, ao suicida
(vítima).

Por fim, o fato de terceiro nada mais é do que uma pessoa diversa da do
agente do ato e da vítima que tenha concorrido para a configuração do dano. A
excludente de fato de terceiro se encontra prevista nos artigos 932, 937 e 938 do
CC. E nesse mesmo sentido, assim expõe Gagliano e Pamplona Filho (2015, p. 173)
sobre o tema: “nessa mesma linha de raciocínio, interessa saber se o
comportamento de um terceiro - que não seja o agente do dano e a vítima - rompe o
nexo causal, excluindo a responsabilidade civil.” Portanto, é somente através destas
excludentes de responsabilidade que o autor de um fato danoso encontra-se isento
de arcar com o ressarcimento dos prejuízos que causou à vítima.

3.3 Pressupostos da Responsabilidade Civil

Conforme disposto nos artigos 186 e 187 do Código Civil, o ato ilícito decorre
de um ato praticado com a intenção de violar um dever ou de um ato involuntário
que viola um dever, ou seja, prescreve que este ocorre quando alguém, por ação ou
omissão voluntária (dolo), negligência ou imprudência (culpa), viola direito ou causa
30

dano, ainda que exclusivamente moral, a outrem, em face do que será


responsabilizado pela reparação dos prejuízos (DINIZ, 2012, p. 56).
A ideia de indenização foi introduzida através da lei Aquilia, mas proveniente
de um “dano injusto”, não dependia somente da ocorrência de um dano, devendo
este ser injusto. Se o dano, a contrario sensu, fosse justo, não havia necessidade de
reparar (MOLTOCARO; TAMAOK, 2014).
Esse dano injusto foi devidamente traduzido, posteriormente para “culpa”.
Desse modo, só haverá reparação se ficar demonstrada a culpa. Por muito tempo,
foi esse entendimento que predominou: o elemento fundamental da
responsabilidade sempre foi a culpa. A responsabilidade possui quatro elementos
fundamentais, quais sejam, conduta, nexo causal, dano e a culpa. É da época da
chamada responsabilidade subjetiva, ou seja, a responsabilidade baseada na culpa
(MOLTOCARO; TAMAOK, 2014).

3.3.1 Culpa

A culpa compõe um dos pressuposto da responsabilidade civil, de grande


importância no tocante à responsabilidade subjetiva, está prevista no artigo 186 do
Código Civil, que trata da culpa lato sensu, o seu sentido amplo, abrangendo o dolo
e a culpa stricto sensu. O ordenamento jurídico brasileiro, traz a responsabilidade
subjetiva como regra, havendo a necessidade de demonstração de culpa do agente
ofensor para a verificação da obrigação de reparar o dano (MOLTOCARO;
TAMAOK, 2014, p. 23).
Assevera Diniz (2011) sobre a culpa:

A culpa em sentido amplo, como violação de um dever jurídico, imputável a


alguém, em decorrência de fato intencional ou de omissão de diligência ou
cautela, compreende: o dolo, que é a violação intencional do dever jurídico,
e a culpa em sentido estrito, caracterizada pela imperícia, imprudência ou
negligência, sem qualquer deliberação de violar um dever (DINIZ, 2011, p.
58).

Sob o prisma do dolo, é imperativo a intenção, a vontade livre e consciente do


sujeito ao praticar o evento danoso. A culpa em sentido estrito decorre do ato
involuntário, pelo qual não existe o intuito de provocar o resultado final, porém ele
acontece.
31

A culpa é a falta de diligência na observância da norma de conduta, isto é, o


desprezo, por parte do agente, do esforço necessário para observá-la, com
resultado não objetivado, mas previsível, desde que o agente se detivesse na
consideração das consequências eventuais de sua atitude (VENOSA, 2012).
Há duas concepções de culpa, uma em sentido amplo e outra em sentido
estrito. A culpa em sentido amplo, como violação de um dever jurídico, imputável à
alguém, em decorrência de fato intencional ou de omissão de diligência ou cautela,
compreende: o dolo, que é a violação intencional do dever jurídico, e a culpa em
sentido estrito, caracterizada pela imperícia, imprudência ou negligência, sem
qualquer deliberação de violar um dever (DINIZ, 2012, p. 58).
Dentre as modalidades de culpa em sentido estrito, tais quais imperícia,
imprudência ou negligência, estas são qualificadas como: age com negligência
quem não toma o devido cuidado ao praticar o ato. [...] O dano é causado por uma
desatenção, uma falta de zelo do sujeito. Age com imprudência quem, embora
esteja habilitado a praticar o ato, excede os limites do razoável. [...] O dano, aqui, é
causado por um erro na manobra audaciosa do sujeito. Age com imperícia, por sua
vez, quem pratica ato para o qual não se encontra devidamente habilitado. [...] O
dano, nesse caso, é o resultado do desempenho imperfeito do ato devido ao
desconhecimento técnico de quem o praticou (DONIZETTE; QUINTELA, 2013, p.
403).

3.3.2 Conduta

A responsabilidade civil está ligada intimamente à ação ou omissão do sujeito


que provoca um dano a outrem. Cavalieri Filho (2010, p. 24) conceitua “a conduta
como sendo o comportamento humano voluntário que se exterioriza por meio de
uma ação ou de uma omissão, produzindo consequências jurídicas”.
O artigo 186 do Código Civil determina que o sujeito responda por aquilo que
ele faz, chamada de responsabilidade por ato próprio. Ou seja, as pessoas são
responsáveis por seus próprios atos. Poderá haver responsabilidade por uma
conduta positiva (ação) ou negativa (omissão) (MOLTOCARO; TAMAOK, 2014, p.
14).
Conforme a nobre doutrinadora Diniz (2011, p. 56):
32

A ação, fato gerador da responsabilidade, poderá ser ilícita ou lícita. A


responsabilidade decorrente de ato ilícito baseia-se na ideia de culpa, e a
responsabilidade sem culpa funda-se no risco, que se vem impondo na
atualidade, principalmente ante a insuficiência da culpa para solucionar
todos os danos. O comportamento do agente poderá ser uma comissão ou
uma omissão. A comissão vem a ser a prática de um ato que não se deveria
efetivar, e a omissão, a não observância de um dever de agir ou da prática
de certo ato que deveria realizar-se.

A ação é mais simples ao ser vislumbrada, visto que ela se exterioriza no


mundo real, sendo possível constatar efetivamente a prática de determinada
conduta.

3.3.3 Dano

Desde a Lei Aquilia, o elemento principal da responsabilidade civil era a culpa.


Todavia, em meados do século XX em diante, começou-se a esboçar as primeiras
ideias de responsabilidade objetiva, a culpa deixando de ser o elemento principal.
Ocorreu um deslocamento do foco da responsabilidade voltada para o dano, e não
mais para a culpa. Atualmente, o principal pressuposto da responsabilidade civil é o
dano, visto que não há que se falar em obrigação de reparar se não existir o dano,
tamanha sua importância (MOLTOCARO; TAMAOK, 2014, p. 14).
Como aduz o autor Cavalieri Filho sobre o dano temos a seguinte definição de
dano:

Conceitua-se, então, o dano como sendo a subtração ou diminuição de um


bem jurídico, qualquer que seja a sua natureza, que se trate de um bem
patrimonial, quer se trate de um bem integrante da própria personalidade da
vítima, como a sua honra, a imagem, a liberdade etc. Em suma, dano é
lesão de um bem jurídico, tanto patrimonial como moral, vindo daí a
conhecida divisão do dano em patrimonial e moral (CAVALIERI FILHO.
2010, p. 73).

O dano, deste modo, é um prejuízo sofrido pela vítima, que pode atingir tanto
a esfera de interesses patrimoniais quanto os interesses extrapatrimoniais, ou seja,
dano material e o dano moral, respectivamente.

3.3.4 Nexo de causalidade


33

O nexo da causalidade trata-se de pressuposto baseado no vínculo


estabelecido entre a conduta, seja mediante ação, ou mediante omissão, e o dano
causado, de modo que seja causa ou consequência daquela. Vale destacar os
ensinamentos de Diniz (2011) no que tange o nexo causal:

O vínculo entre o prejuízo e a ação designa-se “nexo causal”, de modo que


o fato lesivo deverá ser oriundo da ação, diretamente ou como sua
consequência previsível. Tal nexo representa, portanto, uma relação
necessária entre o evento danoso e a ação que o produziu, de tal sorte que
esta é considerada como sua causa. Todavia, não será necessário que o
dano resulte apenas imediatamente do fato que o produziu. Bastará que se
verifique que o dano não ocorreria se o fato não tivesse acontecido. Este
poderá não ser a causa imediata, mas, se for condição para a produção do
dano, o agente responderá pela consequência (DINIZ, 2011, p. 127).

O nexo de causalidade, nada mais é do que o liame de causa e efeito entre a


conduta e o resultado danoso, a ação ou omissão seja causa da qual deriva o efeito
dano.

3.4 Dano Moral

A doutrina se mostra unânime ao definir dano moral como dano que lesiona
os sentimentos pessoais da vítima. Nesse sentido, dano moral, “seria aquele que
não tem caráter patrimonial, ou seja, todo dano não material”, assim, o dano moral
trata de “dor, vexame, sofrimento, desconforto, humilhação – enfim, dor da alma”.
(CAVALIERI FILHO, 2005, p. 100).
O dano moral sobrepõe-se no campo dos princípios constitucionais, uma vez
que a nossa CF , sendo ela hierarquicamente superior, limita a interpretação e a
aplicação de toda legislação infraconstitucional, começando pelo inciso III, do artigo
1°, da Carta Magna que inaugurou a dignidade da pessoa humana como um dos
fundamentos do Estado Democrático de Direito, que “deu ao dano moral uma nova
feição e maior dimensão, porque a dignidade humana nada mais é do que a base de
todos os valores morais, a essência de todos os direitos
personalíssimos”(CAVALIERI FILHO, 2005, p. 105).
Para Gonçalves (2009, p. 259) “dano moral é o que atinge o ofendido como
pessoa, não lesando seu patrimônio. É lesão de bem que integra os direitos da
personalidade, como a honra, a dignidade, intimidade, a imagem, o bom nome, etc”
34

Como infere os art. 1º, III, e 5º, V e X, da CF, e que acarreta ao lesado dor, tristeza,
tristeza, vexame e humilhação (GONCALVES, 2009, p.359).
O dano para Venosa (2011, p. 25) consiste no “prejuízo sofrido pelo agente”,
podendo ser individual ou coletivo, e moral ou material, isto é, não econômico. E a
culpa, de modo abrangente, “é a inobservância de um dever que o agente devia
conhecer e observar”. Considera-se então que dano moral origina-se em uma lesão
que atinge a essência do ser humano, lhe causando sofrimento, angústia, dor,
tristeza, e, portanto, torna-se difícil definir seu valor pecuniário.
O dano moral não lesa o patrimônio de quem foi ofendido, porém o atinge
como pessoa. É uma ofensa aos direitos de personalidade, como a dignidade, a
honra, a intimidade, etc., como se vislumbra os artigos 1º, III, e 5º, V e X, da CF, e
que provocam ao lesado sofrimento, dor, vexame, humilhação e tristeza
(GONÇALVES, 2008).
As crianças e adolescentes como sujeitos de direitos, em situação peculiar de
desenvolvimento, fazem jus a devida proteção de seus direitos fundamentais,
legalmente assegurados. Indiscutivelmente, se de alguma maneira a criança ou
adolescente for afetado como pessoa, ainda que lhe careça discernimento para tal
constatação, inafastável mostra-se o direito à indenização (MATIAS, 2013)

3.5 Responsabilidade Civil do Adotante

Inexiste vedação ou uma previsão da antijuridicidade da conduta de devolver


um menor ou mesmo de desistir da adoção (antes da ultimação, obviamente, já que
o ato é irrevogável, como versa o §1º, do art. 39, do ECA), tratando-se de autêntico
direito potestativo do requerente (VENOSA, 2014).
Contudo, a conduta culposa, que gera prejuízo a terceiro, é notória, frente a
violência psicológica que sofre os menores devolvidos. A desistência será
responsável por uma ideia de abandono, constituindo uma forma de violência
psicológica contra a criança (MESSIAS, 2015).
O Ministério da Saúde por meio do seu caderno de atenção básica nº 8 cita
sobre essa modalidade de violência, abordando que:

Existem casos de violência psicológica, difíceis de serem percebidos e


diagnosticados, tanto no nível institucional quanto pelo agressor ou pela
própria vítima. A constante desmoralização do outro, por exemplo, é uma
35

dessas formas. Os efeitos morais da desqualificação sistemática de uma


pessoa, principalmente nas relações familiares, representa uma forma
perversa e cotidiana de abuso cujo efeito é tão ou mais pernicioso que
qualquer outro, já que pode promover distúrbios graves de conduta na
vítima. Não encontrando recursos para se proteger, a vítima estará exposta
a respostas cada vez mais violentas por parte do agressor (BRASIL, 2002,
p. 13)

A proposta inicial é provocar uma reflexão sobre a seriedade do ato de


adoção, notadamente porque se trata de seres humanos, e mais, sendo pessoas em
peculiar desenvolvimento.
A reparação do dano moral provocado por essa atitude do abandono é
medida que se faz necessária, como medida de rigor, com o consequente
desfazimento da adoção, a indenização mostra-se o norte para desestimular práticas
desta natureza, e ainda será reafirmado o direito à dignidade, ao respeito, e à
integridade moral dos adotandos (MESSIAS, 2015).
A devolução dos menores pode ser correlacionada ao abandono afetivo. A
possibilidade de indenização por meio de danos morais em razão de abandono
afetivo tem sido objeto de acentuadas discussões. É evidente a indenização por
danos morais pela ofensa à dignidade da pessoa humana. Dessa forma, para
afirmar a possibilidade de indenização por danos morais em razão do abandono
afetivo é preciso estabelecer o paralelo entre o abandono afetivo e o principio da
dignidade da pessoa humana (MATIAS, 2013).
Para Angeluci, (2012) em seu trabalho sobre abandono afetivo, descreve
sobre a relevância do respeito à infância para a transformação do estado infantil,
para o estado adulto. Sendo componente essencial para o processo de formação
humana, e conquista da dignidade plena da pessoa.
O próprio texto legal harmoniza-se nesta concepção. O artigo 227, da CF,
determina ser dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança, ao
adolescente e ao jovem, com total prioridade, o direito à vida, direito à saúde, à
alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao
respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, e colocá-los em defesa
de toda forma de negligência, exploração, discriminação, violência, crueldade e
opressão (BRASIL, 1998).
Elenca-se que o dever de cuidado é igualmente determinado pela adoção, já
que esta equipara-se à família legítima. Entretanto a adoção de que ora se trata é
aquela que ainda não transitou em julgado, pois não há que se falar em devolução
36

após o trânsito em julgado, em razão da irrevogabilidade da medida. Não sendo o


processo finalizado, não se pode dizer em não existência de um dever de cuidado,
visto que esta é, inclusive uma pretensão inicial do procedimento (MATIAS, 2013).
O autor citado anteriormente aduz que ante a importância do afeto para a
formação pessoal e social, ainda, leva-se em consideração a necessidade do dever
de cuidado desde o momento em que se pretende uma adoção, a devolução pode
constituir ofensa ao princípio da dignidade humana para o menor, violação que,
indiscutivelmente, permite a responsabilidade civil.
Ademais a CF, em seu art. 5º, X, ratifica expressamente o direito a danos
morais decorrentes da ofensa a direitos da personalidade. Sendo a personalidade
afirmada pelo princípio da dignidade da pessoa humana, situações em que
comprometam o desenvolvimento da pessoa em suas relações comunitárias são
dignas de proteção (PORTUGAL, 2012).
Nesse diapasão, apresentam todos os pressupostos necessários da
responsabilidade civil, caracterizando a obrigação de indenizar. Onde a conduta está
presente quando os interessados acolhem os menores em seu lar e, posteriormente,
desistem injustificadamente. Trata-se aqui da desistência imotivada, hipótese injusta
ao adotando (MATIAS, 2013).
A justificativa para desistência trata-se de um critério subjetivo. Motivos
banais, como uma pequena dificuldade de convivência, não podem ser tidos como
fundamentos justos para a devolução. Por vezes os adotantes lutam pela conquista
afetiva, pela solução de obstáculos vivenciados e restabelecimento da boa
convivência. Apenas optam pela devolução, sendo a alternativa mais confortável,
descomplicada e que exigirá uma menor despesa. Frente a isso, inexistem
consequências jurídicas aos adotantes pela devolução, restando apenas
consequências lesivas aos menores abandonados. Por este motivo, não se pode
admitir que diante de devolução injustificada dos menores, os adotantes se
esquivem de assumir as consequências decorrentes de suas pretensões (MATIAS,
2013).
O dano moral como compensação, deve ser arbitrada pelo juiz, em
conformidade com as especificidades de cada caso. Pode-se dizer que a
responsabilidade civil no Direito de Família é subjetiva, razão em que além da
conduta, do dano, do nexo causal, a culpa também é pressuposto necessário, e
desse modo, é necessário que os adotantes se furtem à convivência com o adotado
37

e se esquivem de assumir o papel de maternidade ou paternidade a que se


propuseram quando receberam o infante em seu lar (PORTUGAL, 2012).
A autora acima assevera que pelo exame da doutrina e da legislação
nacional, a indenização no caso de devolução mostra-se possível. O esmero,
entretanto, é imprescindível para que não ocorra uma caracterização inadequada e o
Direito de Família não torne o Judiciário uma indústria indenizatória.
Fundamental, que os operadores do Direito intervenham em situações,
pontecialmente, motivadoras de abalos na área psicológica que influenciem na
formação, a fim de assegurar e preservar o bom desenvolvimento psicológico do
menor, de forma a afirmar seus direitos. Constatada a conduta dos adotantes, o
dano ao adotando, o nexo causal de causa e efeito, a culpa dos adotantes, devem
os operadores do Direito tomar as medidas para que o infante seja indenizado,
através, inclusive de pagamento de tratamento psicológico (MATIAS, 2013).
38

4 POSSIBILIDADE DE DANO MORAL ORIUNDO DA DESISTÊNCIA DA ADOÇÃO

4.1 Os transtornos causados pela desistência ao adotando

Preceitua o artigo 39, parágrafo 1º do ECA, sobre a adoção ter o efeito da


irrevogabilidade, na prática este preceito no tocante a convivência familiar é violado
muitas vezes. A devolução de menores após a sentença com trânsito em julgado da
adoção, além da devolução de menores sob guarda ou estágio de convivência às
casas de acolhimento é um problema existente no Brasil (KIRCH; COPATTI, 2014).
O Estatuto da Criança e do Adolescente prevê no processo de adoção um
estágio de convivência necessário entre o adotando e adotado estabelecido pelo juiz
podendo ser curto ou de longo prazo a depender da situação do menor. É nesse
espaço de tempo que o menor e os futuros pais passam a se conhecer melhor e a
desenvolver afeto uns entre os outros (DIGIÁCOMO; DIGIÀCOMO, 2013).
Assim, como identificamos no art. 46 do ECA, no processo de adoção deve-
se respeitar o estágio de convivência. Pois é nesse período de tempo que será feita
a adaptação do menor e a sua aceitação na família (OLIVEIRA, 2011).
Após uma devolução, a condição da criança ou do adolescente torna-se muito
ruim, como: baixa auto-estima, problemas emocionais de revolta e agressividade de
grau alta, desacreditação, afeta o psicológico, possuem dificuldades de estabelecer
vínculos, entrando em um processo de auto-proteção e não querem mais ter
vínculos, por medo de que a situação ocorra novamente (KIRCH; COPATTI, 2014).
Souza (2012) relata o caso de um jovem que desenvolveu “cegueira
emocional” após ter sido devolvido, onde seus olhos clinicamente perfeitos se
negavam a ver o mundo, ocorreu um trauma, tornou-se um cego devido ao trauma
por que passou.
A devolução de crianças e de adolescentes na maioria dos casos, gera
consequências negativas para estes. Mas, ressalta-se que a devolução pode ter um
resultado com um mínimo de benefícios quando a convivência com a criança tornou-
se uma obrigação, ou quando a criança permanece em uma situação de rejeição de
risco, sendo melhor que retorne à casa de acolhimento e busque, quando se
recuperar uma nova família que tenha em si a compreensão e o carinho necessários
para adotar (KIRCH; COPATTI, 2014).
39

Os danos sofridos pelos menores são classificados como danos morais, pois,
se encontra a presença do dano moral tanto pela ofensa aos direitos do menor de
idade como pela sensação de abandono, que, segundo Gonçalves, (2015, p. 388):
“dano moral é o que atinge o ofendido como pessoa, não lesando seu patrimônio”.

4.2 Posicionamentos negativos dos Tribunais acerca de dano moral na


desistência da adoção

Para avaliar o desempenho do adotante e do adotado durante o processo de


adoção, conforme evidenciado anteriormente, é estabelecido pelo juiz um estágio de
convivência conforme o art. 46 do ECA, neste momento é avaliado a convivência
entre as partes e a adaptação (OLIVEIRA, 2011).
Conforme o julgado do Tribunal de Justiça de Minas Gerais é possível que a
devolução seja realizada, pois não viola norma nacional, não dando direito ao menor
de indenização por abandono e pelo possível transtorno psicológico gerado.

APELAÇÃO CÍVEL - AÇÃO CIVIL PÚBLICA - INDENIZAÇÃO - DANO


MATERIAL E MORAL - ADOÇÃO - DESISTÊNCIA PELOS PAIS
ADOTIVOS - PRESTAÇÃO DE OBRIGAÇÃO ALIMENTAR -
INEXISTÊNCIA - DANO MORAL NÃO CONFIGURADO - RECURSO
NÃO PROVIDO. - Inexiste vedação legal para que os futuros pais
desistam da adoção quando estiverem com a guarda da criança. - O ato
de adoção somente se realiza e produz efeitos a partir da sentença
judicial, conforme previsão dos arts. 47 e 199-A, do Estatuto da Criança
e do Adolescente. Antes da sentença, não há lei que imponha obrigação
alimentar aos apelados, que não concluíram o processo de adoção da
criança. - A própria lei prevê a possibilidade de desistência, no decorrer
do processo de adoção, ao criar a figura do estágio de convivência. -
Inexistindo prejuízo à integridade psicológica do indivíduo, que interfira
intensamente no seu comportamento psicológico causando aflição e
desequilíbrio em seu bem estar, indefere-se o pedido de indenização por
danos morais. (TJ-MG - AC: 10481120002896002 MG, Relator:
Hilda Teixeira da Costa, Data de Julgamento: 12/08/2014,
Câmaras Cíveis / 2ª CÂMARA CÍVEL, Data de Publicação:
25/08/2014)

No citado julgado, caracteriza-se a não indenização por danos morais devido


a inexistência de vedação legal para que os pretendentes a adotar desinteressem do
processo de adoção, levando em consideração que a adoção apenas produz seus
efeitos com o transito em julgado.
No julgado do Tribunal de Justiça de Santa Catarina, este reafirma a não
configuração dos danos morais por não existir o vinculo afetivo, conforme se vê:
40

PROCESSUAL CIVIL. AÇÃO DE INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS.


AUTOR ENTREGUE À ADOÇÃO APÓS NASCIMENTO PELA GENITORA
BIOLÓGICA. ALEGAÇÃO DE ABANDONO AFETIVO. INSUBSISTÊNCIA.
INSTITUTO DA ADOÇÃO PREVISTO EM LEI. FACULDADE DOS
GENITORES. DANOS MORAIS NÃO CONFIGURADOS. REQUISITOS
DOS ARTS. 186 E 927 DO CÓDIGO CIVIL AUSENTES.
RESPONSABILIDADE CIVIL AFASTADA. PRECEDENTES DO STJ.
SENTENÇA MANTIDA. RECURSO DESPROVIDO. [...] De mais a mais,
sem comprovação dos requisitos insculpidos no art. 186 do Código Civil,
incumbência não desempenhada pelo autor, não há que se cogitar de
responsabilidade civil subjetiva por ato ilícito.(TJ-SC - AC: 268737 SC
2010.026873-7, Relator: Marcus Tulio Sartorato, Data de Julgamento:
15/06/2010, Terceira Câmara de Direito Civil, Data de Publicação: Apelação
Cível n. , de Criciúma) (SANTA CATARINA, 2014).

É de se observar que somente leva-se em consideração a indenização pelo


dano moral, com relação a desistência da adoção quando o processo de adoção
passa-se pelo trânsito e julgado. Somente é cabível o dever de indenizar quando
após a finalização do processo os adotantes venham a desistir da criança adotada. .
Dessa maneira, os argumentos que indeferem a fixação de alimentos no
modo indenizatório alegando a não geração de vínculo afetivo.

AGRAVO DE INSTRUMENTO - AÇÃO DE INDENIZAÇÃO C/C


ALIMENTOS - SUPOSTA ADOÇÃO DE FATO - PROBLEMAS
PSICOLÓGICOS ADVINDOS DA REJEIÇÃO DESDE O NASCIMENTO -
MENOR DEVOLVIDO - CUSTÓDIA ESTATAL - ALEGADO VÍNCULO
POR SOCIOAFETIVIDADE - INEXISTÊNCIA DE PROVAS A ENSEJAR
A OBRIGAÇÃO DE PRESTAR ALIMENTOS. RECURSO NÃO
PROVIDO - [...] A relação entre as partes prescindiu da formalização
necessária, inexistente, portanto, a comprovação do vínculo sanguíneo
ou afetivo entre as partes que enseja a obrigação alimentar. Nesse
sentido, pondera o douto Procurador-Geral de Justiça: "a pretensão do
ora agravante não se firma em nenhuma das hipóteses legais posto que
não há parentesco de sangue entre as partes e a situação jurídica por
ele invocada para respaldar seu pretenso direito a alimentos- família
socioafetiva- é matéria de fato que exige prévia comprovação e, no caso
entendemos até prévia sentença declaratória deste alegado vínculo
jurídico" (MINAS GERAIS (estado) “b”, online)

No presente caso não foi observado o vinculo sanguíneo nem mesmo o


socioafetivo, por este motivo em decisão não foi concedido o direito de alimentos
pretendido pelo requerente.
No artigo 227 da nossa Carta Magna identificamos que o Estado tem o dever
de assegurar os direitos inerentes a dignidade da pessoa humana do menor.
Conforme o artigo, é dever do Estado assegurar os direitos essenciais da pessoa
humana, e não repassar a terceiros tal responsabilidade.
41

A criança ou o adolescente não fica desamparada, é acolhida novamente pelo


Estado pelas casas de apoio que prestam assistência através de equipe
multidisciplinar. Cita-se a sustentação dos adotantes que tiveram seu recurso
improvido:

AGRAVO DE INSTRUMENTO - AÇAO CIVIL PÚBLICA - TUTELA


ANTECIPADA - DETERMINAÇAO PARA PROMOÇAO DE
TRATAMENTO PSICOLÓGICO AO MENOR SUBMETIDO A
SUCESSIVAS TENTATIVAS DE ADOÇAO PELO MESMO CASAL, COM
POSTERIOR DESISTÊNCIA - PRESENÇA DOS REQUISITOS PARA A
ANTECIPAÇAO DA TUTELA - RECURSO IMPROVIDO. -
[...] Sustentam, em síntese, que após a guarda provisória, durante o
estágio de convivência, resolveram desistir do pleito de adoção do
infante e, mesmo após outras tentativas, observaram a impossibilidade
da adoção e que se há responsabilidade por eventual problema
psicológico do menor, deve ser atribuída aos pais biológicos que o
abandonaram, devendo o Estado prestar toda a assistência necessária
ao acolhimento da criança.(TJ-MS - AGV: 37794 MS 2011.037794-3,
Relator: Des. Ruy Celso Barbosa Florence, Data de Julgamento:
06/03/2012, 4ª Câmara Cível, Data de Publicação: 13/03/2012)

Desse modo os danos psicológicos não devem ser referentes aos adotantes,
e sim aos pais biológicos responsáveis pelo primeiro abandono da criança e do
adolescente as casas de apoio.
.
4.3 Posicionamentos positivos dos Tribunais acerca de dano moral na
desistência da adoção

Passamos a analisar os posicionamentos positivos dos Tribunais Brasileiros,


onde o entendimento pacificado, evidenciam o dano moral concedido ao menor
devolvido sem justificativas plausíveis ao Estado.
Atualmente, quando o processo de adoção é interrompido no estágio de
convivência, com a devolução da criança ou adolescente aos cuidados do Estado, o
Ministério Público tem postulação para intervir nas causas de direitos inerentes ao
menor preservando o interesse do incapaz. Como assim dispõe o art. 178, II novo
Código de Processo Civil:

Art. 178   O Ministério Público será intimado para, no prazo de 30 (trinta)


dias, intervir como fiscal da ordem jurídica nas hipóteses previstas em lei ou
na Constituição Federal e nos processos que envolvam: [...]
II – interesse de incapaz (BRASIL, 2015)
42

Nas relações jurídicas em que envolvam menores, o Ministério Publico deve


ser notificado, e deve intervir sempre procurando o melhor interesse dos incapazes.
Quando ocorre a devolução do menor ao Estado, o MP é notificado, e em
manifestação escrita deve opinar pelo dever de indenizar por parte dos adotantes.
Frente a devolução injustificada, o Ministério Público passa a intervir nos
processos ajuizados contra os adotantes que devolvem os menores, qualificando o
dano moral. Segue o julgado que admitiu a indenização por danos morais do
Tribunal de Justiça de Santa Catarina:

APELAÇÃO CÍVEL. PODER FAMILIAR. DESTITUIÇÃO. PAIS ADOTIVOS.


AÇÃO AJUIZADA PELO MINISTÉRIO PÚBLICO. ADOÇÃO DE CASAL DE
IRMÃOS BIOLÓGICOS. IRRENUNCIABLIDADE E IRREVOGABILIDADE
DA ADOÇÃO. IMPOSSIBILIDADE JURÍDICA. RENÚNCIA DO PODER
FAMILIAR. ADMISSIBILIDADE, SEM PREJUÍZO DA INCIDÊNCIA DE
SANÇÕES CIVIS. APLICAÇÃO ANALÓGICA DO ART. 166 DO ESTATUTO
DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE. PERDA DO PODER FAMILIAR EM
RELAÇÃO AO CASAL DE IRMÃOS ADOTADOS. DESCONSTITUIÇÃO EM
FACE DA PRÁTICA DE MAUS TRATOS FÍSICOS, MORAIS. CASTIGOS
IMODERADOS, ABUSO DE AUTORIDADE REITERADA E CONFERIÇÃO
DE TRATAMENTO DESIGUAL E DISCRIMINATÓRIO ENTRE OS FILHOS
ADOTIVOS E ENTRE ESTES E O FILHO BIOLÓGICO DOS ADOTANTES.
EXEGESE DO ART. 227, § 6º DA CONSTITUIÇÃO FEDERAL C/C ART. 3º,
5º, 15, 22, 39, §§ 1º, 2º E ART. 47, TODOS DO ESTATUTO DA CRIANÇA
E DO ADOLESCENTE C/C ART. 1.626, 1634, 1.637 E 1.638, INCISOS I, II
E IV, TODOS DO CÓDIGO CIVIL. MANUTENÇÃO DOS EFEITOS CIVIS
DA ADOÇÃO. AVERBAÇÃO DO JULGADO À MARGEM DO REGISTRO
CIVIL DE NASCIMENTO DOS MENORES. PROIBIÇÃO DE QUALQUER
ESPÉCIE DE OBSERVAÇÃO. EXEGESE DO ART. 163, § ÚNICO DO
ESTATUTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE C/C ART. 227, § 6º DA
CONSTITUIÇÃO FEDERAL. DANO MORAL CAUSADO AOS MENORES.
ILÍCITO CIVIL EVIDENCIADO. OBRIGAÇÃO DE COMPENSAR
PECUNIARIAMENTE OS INFANTES. APLICAÇÃO DO ART. 186 C/C ART.
944, AMBOS DO CÓDIGO CIVIL. JUROS MORATÓRIOS. MARÇO
INICIAL. DATA EM QUE A SEQUÊNCIA DE ILICITUDES ATINGE O SEU
ÁPICE, MATIZADA, NO CASO, PELO ABANDONO DO FILHO ADOTADO
EM JUÍZO E SUBSCRIÇÃO DE TERMO DE RENÚNCIA DO PODER
FAMILIAR. EXEGESE DO ART. 398 DO CÓDIGO CIVIL EM
INTERPRETAÇÃO SISTEMÁTICA COM O ART. 407 DO MESMO
DIPLOMA LEGAL. PRINCÍPIO DA CONGRUÊNCIA. PERTINÊNCIA
ENTRE O PEDIDO E O PRONUNCIADO. NECESSIDADE DE
FLEXIBILIZAÇÃO E RELATIVIZAÇÃO DAS REGRAS PROCESSUAIS
CLÁSSICAS EM SEDE DE DIREITO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE.
MITIGAÇÃO DA DISPOSIÇÃO CONTIDA NO ART. 460 DO CÓDIGO DE
PROCESSO CIVIL. VÍTIMAS QUE, NA QUALIDADE DE IRMÃOS
BIOLÓGICOS E FILHOS ADOTIVOS DOS RÉUS MERECEM RECEBER,
EQUITATIVAMENTE, A COMPENSAÇÃO PECUNIÁRIA PELOS DANOS
IMATERIAIS SOFRIDOS. HIPOTECA JUDICIÁRIA. EFEITO SECUNDÁRIO
DA SENTENÇA CONDENATÓRIA. APLICAÇÃO DO ART. 466 DO
CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL. (...) (TJ-SC - AC: 208057 SC
2011.020805-7, Relator: Joel Figueira Júnior, Data de Julgamento:
20/09/2011, 1° Câmara de Direito Civil).
43

Com a aplicação do artigo 166 do Estatuto os atos que dão origem a


desconstituição do poder familiar são determinados por uma ação ou omissão tendo
como resultado o dano moral por constrangimento, e pode até mesmo sofrer danos
físicos derivados das decepções e frustrações por não se adequarem ao novo lar,
que deveria lhe acolher com afeto, amor, segurança, felicidade e paz.
Dessa forma, os danos morais servem para suprir os danos sofridos pelos
menores como medida punitiva, além de compensar na forma pecuniária aqueles
que cometeram o abuso psicológico. Assim, o valor arbitrado deve levar sempre em
consideração a extensão do dano sofrido levando os princípios da proporcionalidade
e razoabilidade.
Na desistência durante o processo de adoção o Ministério Público tem
ingressado com ações civis públicas com pedido de indenização aos menores
devolvidos, levando em consideração que o abandono durante o processo de
adoção gera danos psicológicos.

AÇÃO CIVIL PÚBLICA - I. ADOÇÃO - GUARDA PROVISÓRIA


DESISTÊNCIA DA ADOÇÃO DE FORMA IMPRUDENTE
DESCUMPRIMENTO DAS DISPOSIÇÕES DO ART. 33 DO ECA
REVITIMIZAÇÃO DA CRIANÇA - REJEIÇÃO - SEGREGAÇÃO - DANOS
MORAIS CONSTATADOS - ART. 186 C/C ART. 927 DO CÓDIGO CIVIL
REPARAÇÃO DEVIDA - AÇÃO PROCEDENTE - II. QUANTUM
INDENIZATÓRIO - RECURSOS PARCOS DOS REQUERIDOS
CONDENAÇÃO INEXEQUÍVEL - MINORAÇÃO - SENTENÇA
PARCIALMENTE REFORMADA. A inovadora pretensão do Ministério
Público, de buscar o ressarcimento civil com a condenação por danos
morais daqueles que desistiram do processo de adoção, que estava em
fase de guarda, de forma abrupta e causando sérios prejuízos à criança,
encontra guarida em nosso direito pátrio, precisamente nos art. 186 c/c arts.
187 e 927 do Código Civil.- O ilícito que gerou a reparação não foi o ato em
si de desistir da adoção da criança, mas o modus operandi, a forma
irresponsável que os requeridos realizaram o ato, em clara afronta aos
direitos fundamentais da criança, bem como ao que está disposto no art. 33
do Estatuto da Criança e do Adolescente. Assim, pode haver outra situação
em que a desistência da adoção não gere danos morais à criança, no
entanto, não é este o caso dos autos. (Processo AC 10702095678497002
MG, Órgão Julgador Câmaras Cíveis / 1ª CÂMARA CÍVEL, Publicação
23/04/2014, Julgamento15 de Abril de 2014 Relator Vanessa Verdolim
Hudson Andrade)

O segundo abandono da criança, pode gerar um abalo psicológico


irreversível, logo após ser abandonado por seus pais biológicos, a única coisa que o
menor aguarda e um lar onde possa encontrar carinho e segurança, e após o
período de adaptação a criança já começa a considerar o meio no qual esta
convivendo como seu, sendo insuportável ver esse meio desaparecer de sua vida.
44

A devolução ocorrida nesse estágio de convivência pode ser considerada


como um segundo abandono afetivo, o primeiro gerado pelos pais biológicos e o
segundo por ser abandonado novamente por aqueles que um dia o procurou com a
intenção de lhe promover um lar, afeto e reestruturar seu ambiente familiar tão
necessário ao seu desenvolvimento.
Em outro julgado do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, dispõe novamente
sobre a indenização por desistência da adoção de menor durante o estágio
probatório de forma injustificada:

AÇÃO CIVIL PÚBLICA - I. ADOÇÃO - GUARDA PROVISÓRIA


DESISTÊNCIA DA ADOÇÃO DE FORMA IMPRUDENTE
DESCUMPRIMENTO DAS DISPOSIÇÕES DO ART. 33 DO ECA
REVITIMIZAÇÃO DA CRIANÇA - REJEIÇÃO - SEGREGAÇÃO - DANOS
MORAIS CONSTATADOS - ART. 186 C/C ART. 927 DO CÓDIGO CIVIL
REPARAÇÃO DEVIDA - AÇÃO PROCEDENTE - II. QUANTU
INDENIZATÓRIO - RECURSOS PARCOS DOS REQUERIDOS
CONDENAÇÃO INEXEQUÍVEL - MINORAÇÃO - SENTENÇA
PARCIALMENTE REFORMADA. - A inovadora pretensão do Ministério
Público, de buscar o ressarcimento civil com a condenação por danos
morais daqueles que desistiram do processo de adoção, que estava em
fase de guarda, de forma abrupta e causando sérios prejuízos à criança,
encontra guarida em nosso direito pátrio, precisamente nos art. 186 c/c arts.
187 e 927 do Código Civil. - O ilícito que gerou a reparação não foi o ato em
si de desistir da adoção da criança, mas o modus operandi, a forma
irresponsável que os requeridos realizaram o ato, em clara afronta aos
direitos fundamentais da criança, bem como ao que está disposto no art. 33
do Estatuto da Criança e do Adolescente. Assim, pode haver outra situação
em que a desistência da adoção não gere danos morais à criança, no
entanto, não é este o caso dos autos. (TJ-MG - AC: 10702095678497002
MG, Relator: Vanessa Verdolim Hudson Andrade, Data de Julgamento:
15/04/2014, Câmaras Cíveis / 1ª CÂMARA CÍVEL, Data de Publicação:
23/04/2014).

Nota-se a condenação ao pagamento de danos morais inerentes a


desistência do processo de adoção. Na busca do ressarcimento civil com a
condenação por danos morais do menor que estava na fase de guarda e que
abruptamente foi devolvido aos cuidados do Estado. O dano se gera pelo modus
operandi, ou seja, a forma irresponsável com que o menor foi devolvido.
Um posicionamento importante sobre o tema abordado encontra-se na
doutrina (MACIEL, 2016, p. 370):

Quando o período de convivência é longo e a devolução do adotando se dá


sem motivo ou por algum motivo fútil – como exemplo podemos dar situação
de casal em que a mulher ficou com ciúmes do carinho que o homem tinha
para com a criança – ou por situação de violência para com o adotando –
sendo que a violência pode se dar por diversas formas -, teremos a pratica
45

de ato ilícito por parte dos adotantes, na forma do disposto no art. 187 do
CC, eis excederam aos limites do direito a que tenham, devendo ser
civilmente responsabilizados.

O período de convivência como anteriormente mencionando, tem a função de


estabelecer laços entre o adotante e o adotado. Entretanto, em certos casos é
possível, conforme citado acima, que um dos adotantes venha e desenvolver ciúmes
do adotado, quando os vínculos afetivos começam a aparecer. Todavia, este não
pode ser um motivo para a devolução do menor as casas de apoio.
O autor segue o mesmo posicionamento ao discorrer sobre a indenização por
danos morais ao menor devolvido (MACIEL, 2016, p. 371):

A devolução do adotando no curso do estágio de convivência, por si só, já é


uma violência para com este. Ficando demonstrado que os adotantes
agiram com abuso de direito, está caracterizada a pratica de ato ilícito,
podendo e devendo haver a responsabilização civil destes. Contra eles
deverá ser proposta ação de indenização pela pratica de dano moral, na
qual deveram ser condenados a indenizar o adotando, custear os
tratamentos psicológicos e médicos que caso venha a necessitar, além da
obrigação de pagar alimentos. No que concerne aos alimentos, com base
no superior interesse da criança e do adolescente, seu pedido deve ser
formulado em ação própria, segundo o rito da Lei n. 5.4768.

Então, fica evidente o abuso de direito caracterizando o dano moral podendo


o adotante ser responsabilizado pela devolução do menor novamente aos cuidados
do Estado. Nessa indenização devem ser custeados os tratamentos psicológicos e
médicos caso o menor venha a necessitar.
Portanto, todos os fatos apresentados acima com seus argumentos, é visível
a ocorrência de abalo psicológico à criança ou adolescente que teve a sua dignidade
mais uma vez abalada, por ser inserida no processo de adoção, criando
expectativas de ganharem um novo lar, com afeto e carinho. Mas na verdade, se
frustram com a desistência da adoção, sendo devolvidas sem justificativas plausíveis
aos cuidados do Estado, nas casas de apoio.
46

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

No art. 226 da Constituição Federal é consagrado o papel fundamental que é


exercido pelo instituto da Família, que se refere a ele como base da sociedade, e em
seu art. 227 os direitos da criança, como educação, lazer, e principalmente, à uma
convivência familiar. Partindo destes pressupostos constitucionais, a nova lei da
adoção buscou priorizar mais a própria criança e menos os pais adotantes
A família é a entidade responsável pelo desenvolvimento das crianças e dos
adolescentes, que devem zelar pelo seu bem estar, lhes proporcionando afeto,
carinho, alimentação, convivência familiar, respeito e acima de tudo amor, assim
como os princípios que a Constituição Federal lhes assegura. Esses menores estão
em processo de desenvolvimento, por isso é atribuída à responsabilidade para a
família, a sociedade e ao Estado.
O direito de família passou por modificações e passou-se a identificar quem
seria o responsável e legitimado para discorrer sobre os acontecimentos do seio
familiar, se caberia ou não ao Estado se manifestar, ficando estabelecido de que
cada família resolve sobre a criação dos seus filhos, sempre preservando os direitos
contidos em nossa Carta Magna, prevalecendo o bem estar dos menores.
O ECA assegurou garantias aos menores como o processo de adoção. Este
tem a intenção de inserir o menor que não possui uma família em uma nova família,
onde esta, tenha condições de receber essas crianças e adolescentes e prover sua
criação. A adoção possui uma grande importância para o ordenamento jurídico
brasileiro, devendo sempre ser analisado o bem estar do adotando, resguardando
todos os seus direitos, por se tratar de menores que ainda não se desenvolveram na
forma física e mental.
A pesquisa verificou a responsabilidade civil a respeito dos casos de
responsabilidade civil do adotante na desistência da adoção, no que diz respeito ao
direito à indenização por danos morais ao adotando, através de julgamentos nos
Tribunais das regiões Centro-Oeste e Sul do país, por estas serem as regiões com
mais julgados sobre o tema em questão.
Com o presente trabalho identificou-se os sentimentos negativos e trauma
sofridos pelos menores que são devolvidos ao Estado retornando para as casas de
apoio, o que pode gerar dano psicológico, pois foram mesmo que por um breve
47

período, acolhidas em uma nova entidade familiar, em ambientes aconchegantes,


que de certa maneira lhe proporcionou carinho, afeto e um lar.
Foi demonstrado, o lado da legitimidade, já que não há na forma da lei
impedimentos para a devolução da criança e do adolescente durante o estágio de
convivência, dessa forma, não seria possível o ressarcimento por um ato que não é
considerado ilegal. Tendo em vista, que o estágio de convivência é apenas um dos
requisitos para que se concretize a adoção. Já que sem a adoção efetiva não se
gera seus efeitos.
Porém discordo com a exposição a respeito da legitimidade em devolver a
criança e adolescente aos cuidados do Estado durante o estágio probatório, tendo
em vista que em alguns casos abordados, esse período de convivência já era
considerável com a nova família.
Dessa forma, quando os menores chegam ao estágio probatório criam
expectativas de ser acolhido por uma nova família, e receber atenção, carinho e
afeto. Ressalta-se, que em alguns casos os menores têm seu nome alterado, o que
mexe ainda mais com o seu psicológico. Quando retornam as casas de apoio por
motivos que muitas vezes nem entendem, sentem a sensação de abandono,
desprezo, rejeição e insegurança, causadores de prejuízos ao seu intelecto no
desenvolvimento físico e mental, podendo dificultar uma nova adoção.
Felizmente alguns Tribunais tem o entendimento a favor do menor, e já
reconhecem o dano moral aos menores abandonados. Todavia esse é uma assunto
novo e com um grande caminho pela frente para o ordenamento jurídico brasileiro,
passível ainda de diversas discussões, pois existe embate entre a legislação e os
julgados procedentes.
48

REFERÊNCIAS

AMARAL, Silvia Helena Santos do. No melhor interesse da criança e do adolescente:entre o


cuidado, o controle, a proteção e a tutela – relatórios psicológicos em varas de família. Tese,
(Doutorado em Psicossociologia de Comunidades e Ecologia Social). Universidade Federal
do Rio de Janeiro-UFRJ. Rio de Janeiro, 2013, 155 f. Disponível em:
<httppos.eicos.psicologia.ufrj.brwp-contentuploadssilviaamaral.pdf>. Acesso em: 15 jan.
2017.

ANGELUCI, Cleber Affonso. Abandono afetivo: constituinte da dignidade da pessoa


humana. CEJ, Brasília, v.10, n. 33, p. 1-11, jun. 2006. 126 BRASIL. Constituição
(1988) Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, 1988. Disponível
em: . Acesso em: 15 out. 2012. Art. 227

BARROS, Guilherme Freire de Melo. Estatuto da Criança e do Adolescente. Atualizada de


acordo com a Lei 12.010/2009. 7edição, Editra Jus Podivm, 2013

BRASIL . Constituição da República Federativa do Brasil (1988). Promulgada em 05


de outubro de 1988. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/
constituicao/constituicaocompilado.htm>. Acesso em: 01 out. 2016.

______ . Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940. Código penal. Disponível


em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/Del2848compilado. htm>.
Acesso em: 01 out. 2016.

______. Lei n. 10.406, de 10/01/02. Institui o Código Civil. Disponível em:


<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/L10406.htm>. Acesso em: 01 out.
2016.

______. Lei n. 8.069, de 13/07/90. Dispõe sobre Estatuto da Criança e do


Adolescente e dá outras providências. Disponível em: <https://www.planalto.gov.br
/ccivil_03/leis/L8069.htm>. Acesso em: 01 out. 2016, 10:46:12

______. Lei nº 13.105, de 16 de março de 2015. Código de Processo Civil.


Disponível em: <https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-
2018/2015/lei/l13105.htm>. Acesso em: 05 out. 2016, 09:28,45

______. Ministério da Saúde. Violência intrafamiliar: orientações para prática em


serviço. Caderno de atenção básica n. 8. 2002. Disponível em: <
http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/cd05_19.pdf>. Acesso em: 10 jan. 2017.
49

BRAUNER, Maria Cláudia Crespo; ALDROVANDI, Andréia. Adoção no Brasil: Aspectos


evolutivos do Instituto no Direito de Família. JURIS, Rio Grande, 15: 7-35, 2010. Disponível
em: <https://www.seer.furg.brjurisarticleviewFile32141872>. Acesso em: 15 jan. 2017.

CALIXTO. Marcela Furtado. A Responsabilidade civil objetiva no Código Civil


Brasileiro: Teoria do risco criado, prevista no parágrafo único do artigo 927. 2012.
Disponível em: < httpblog.newtonpaiva.brdireitowp-contentuploads201208PDF-D11-
13.pdf>. Acesso em: 21 jam. 2017.

CHISSONDE, José de Queirós. Adoção de Menores: No Ordenamento Jurídico


Angolano.Dissertação (Mestre em Direito). Faculdade em ciências Jurídicas. Lisboa, 2016.
101 f. Disponível em: < httprepositorio.ual.ptbitstream1114425621disserta%c3%87ao
%20(ado%C3%87%C3%83o%20de%20menores%20no%20ordenamento%20jur
%c3%8ddico%20angolano)%202016.pdf>.Acesso em: 12 jan. 2017.

COELHO, Fábio Ulhoa. Curso de direito civil, volume 2: obrigações:


responsabilidade civil. 5. ed. São Paulo: Saraiva, 2012.

DIAS, Maria Berenice. Manual de Direito das Famílias. 9ª ed. rev., atual. eampl. De
acordo com: Lei 12.344/2010 (regime obrigatório de bens) e Lei 12.398/2011 (direito
de visita dos avós). São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2013.

DIAS, Francine; SILVA, Carlos Roberto da. Adoção internacional e a problemática do tráfico
internacional de crianças e adolescentes. Revista Eletrônica de Iniciação Científica. Itajaí,
Centro de Ciências Sociais e Jurídicas da UNIVALI. v. 4, n.1, p. 815-829, 1º Trimestre de
2013.

DIGIÁCOMO, Murillo José. DIGIÁCOMO, Ildera Amorim. Estatuto da criança e do


adolescente anotado e interpretado. Ministério Público do Estado do Paraná. Centro de
Apoio Operacional das Promotorias da Criança e do Adolescente, Curitiba, 2013. 6ª Edição.

GAGLIANO, Pablo Stolze; PAMPLONA FILHO, Rodolfo. Novo curso de direito civil,
volume 3: responsabilidade civil. 13ª ed. rev. e atual. São Paulo: Saraiva, 2015.

GONÇALVES, Carlos Roberto. Direito civil brasileiro: responsabilidade civil. 3. ed.


São Paulo: Saraiva, 2008. v. 4. p. 359.

GONÇALVES, Carlos Roberto. Direito civil brasileiro: responsabilidade civil, v. 4. 10ª


ed. São Paulo: Saraiva, 2015.
50

KIRCH, Aline Taiane; COPATTI, Lívia Copelli. riança e adolescente: a problemática da adoção e
posterior devolução às casas de acolhimento. Prisma Jur., São Paulo, v. 13, n. 1, p. 13-36, jan./jun.
2014.

LÔBO, Paulo. Direito civil: famílias. 4ª ed. São Paulo: Saraiva, 2011.

LOPES, Jacqueline Paulino; FERREIRA, Larissa Monforte. A Lei 12010/2009 e as


inovações no estatuto da criança e do adolescente. 2010. Disponível em:
<https://portal.metodista.br/gestaodecidades/publicacoes/artigos/sippi-2010-2/A%20Lei
%2012010.pdf>. Acesso em: 12 jan. 2017.

MACIEL, Katia Regina Ferreira Lobo Andrade (coordenação). Curso de Direito da


Criança e do Adolescente: aspectos teóricos e práticos. 9ª ed. ver. e atual. São
Paulo: Saraiva, 2016.

MATIAS, Priscila barros. Possibilidade Juridica de Responsabilidade Civil dos


Adotantes pela Devolução das crianças acolhidas por intermédio da adoção.
Monografia (Bacharelado em Direito) UniCEUB - Centro Universitário de Brasília.
p.48, 2013. Disponível em:
<http://repositorio.uniceub.br/bitstream/235/5245/1/RA20877669.pdf>;. Acesso em
20 jan. 2017.

MATOS, Ana Carla Harmatiuk. O princípio do melhor interesse da criança nos processos de
adoção. Revista de Direitos Fundamentais e Democracia, Curitiba, v. 12, n. 12, p. 285-301,
julho/dezembro de 2012.

MATO GROSSO DO SUL (estado). Tribunal de Justiça do Mato Grosso do Sul.


Agravo de Instrumento AGV 37794 MS 2011.037794-3. Relator: Des. Ruy Celso
Barbosa Florence. Pesquisa de Jurisprudência. Publicação: 23 de março de 2012.
Disponível em: <http://tj-ms.jusbrasil.com.br/jurisprudencia/21394601/agravo-agv-
37794-ms-2011037794-3-tjms?ref=juris-tabs>. Acesso em: 10 nov. 2016, 10:26:30

MEDEIROS, Diego Vale de. A Instrumentação do Princípio da Prioridade Absoluta das


crianças e adolescentes nas ações institucionais da DefensoriaPública.VII Congresso
Nacional de Defensores Públicos, out. 2008. Disponível em: <
https://www.anadep.org.brwtksitecmsconteudo20621Diego_Vale_de_Medeiros_-_DPSP_-
_A_instrumentaliza__o_do_Princ_pio_da_Pri....pdf>. Acesso em: 20 ago 2016.

MESSIAS, Werlisa de Sousa. A Responsabilidade Civil do Adotante decorrente do


arrependimento na adoção. Monografia (bacharelado em Direito) Centro
Universitário de Brasília – UniCEUB, p.45, 2015. Disponível em: <
http://www.repositorio.uniceub.br/bitstream/235/8387/1/20964130.pdf>. Aceso em:
20 jan; 2017
51

MINAS GERAIS (estado) “a”. Tribunal de Justiça de Minas Gerais. Ação Civil
Pública AC 10702095678497002 MG. Relator: Vanessa Verdolim Hudson Andrade.
Pesquisa de Jurisprudência. Publicação: 23 de abril de 2014. Disponível em:
<http://tj-mg.jusbrasil.com.br/jurisprudencia/121112072/apelacao-civel-ac-
10702095678497002-mg>. Acesso em: 10 nov. 2016, 09:24:06.

MINAS GERAIS (estado) “b”. Jurisprudência mineira - Agravo de instrumento - Ação


de indenização c/c alimentos - Suposta adoção de fato. Disponível em:
<http://www.recivil.com.br/noticias/noticias/imprimir/jurisprudencia-mineira-agravo-
de-instrumento-acao-de-indenizacao-c-c-alimentos-suposta-adocao-de-fat.html>.
Acesso em 10 nov. 2016, 09:09:05

OLIVEIRA, Kerly Cristina. Nova lei da Adoção - Lei 12.010/2009: uma revisão de
literatura. Monografia (Bacharelado em Direito), Universidade Presidente Antônio Carlos
– UNIPAC, Barbacena, p. 27, 2011. Disponível em: <
http://www.unipac.br/site/bb/tcc/tcc-b44d326ed8ef32512e829a59447eb556.pdf>.
Acesso em: 19 de já. 2017.

OLIVEIRA, Assis da Costa. Princípio da pessoa em desenvolvimento: fundamentos,


aplicações e tradução intercultural. Revista Direito e Práxis, vol. 5, n. 9, p. 60‐83, 2014.

OST, Stelamaris. Adoção no contexto social brasileiro. In: Âmbito Jurídico, Rio Grande, XII,
n. 61, fev 2009. Disponível em: < http://www.ambitojuridico.com.br/site/index.php?
n_link=revista_artigos_leitura&artigo_id=5881 >. Acesso em : 12 set. 2016

PORTUGAL, Manuela Botelho. Responsabilidade civil por abandono afetivo. 2012.


27 f. Artigo científico (Pós-Graduação), Pós-Graduação Lato Sensu, Escola de
Magistratura do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2012.

SOUZA, Hália Pauliv de Souza. Adoção Tardia devolução ou desistência de um


filho? A necessária preparação para adoção. Curitiba, Juruá. 2012, p. 36 e 37.

VENOSA, Silvio de Salvo. Direito Civil: direito de família.14. ed., São Paulo: Atlas,
2014. p. 1-2

Você também pode gostar