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QUESTÃO SOCIAL,

DIREITOS HUMANOS
E DIVERSIDADE

Anderson Barbosa
Scheifler
Desigualdades sociorraciais
e políticas públicas
Objetivos de aprendizagem
Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados:

 Identificar as desigualdades sociorraciais presentes na história do Brasil.


 Apontar políticas públicas brasileiras para afrodescendentes, indígenas,
mulheres e minorias diversas.
 Discutir acerca do alcance das políticas públicas de enfrentamento
às desigualdades no Brasil.

Introdução
Neste capítulo, você vai ver como se constituem as desigualdades so-
ciorraciais e demais formas de violência e exploração das minorias sociais
existentes no Brasil. Para isso, você vai conhecer algumas das consequ-
ências da cultura patriarcal. Como você sabe, tal cultura caracteriza o
homem como detentor do poder político e moral e de privilégios sociais
sobre outros segmentos, em especial as mulheres.
A ideia é que você acompanhe alguns exemplos de políticas pú-
blicas e reflita sobre a situação das minorias na atualidade. Além disso,
você deve atentar aos desafios para o combate a todas as formas de
desigualdade em um cenário de violência estrutural e exploração
do capital.

Desigualdades históricas
Para entender as mazelas sociais e as diferentes expressões da desigualdade
que afligem o Brasil hoje, você precisa conhecer um pouco da história desses
processos. Tal história é complexa e começa há cerca de 500 anos. Por volta
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de 1530, o Brasil passava por um processo de organização econômica e


civil. Os portugueses, que já tinham experiências consolidadas em colônias
tropicais, como a Índia e a África, trataram de estabelecer por aqui um sis-
tema de exploração que seria considerado a experiência mais significativa já
praticada por eles até então. A agricultura como base fi nanceira, a estrutura
patriarcal da família, o trabalho escravo e a miscigenação do português com
as nativas (índias) criaram as condições necessárias para o estabelecimento
da cultura econômica e social do invasor (FREYRE, 2006).
A experiência trazida ao Brasil pelos portugueses que chegavam de outras
colônias levou à implantação de conhecimentos e técnicas que permitiram
o cultivo de plantas alimentares. Elas foram transplantadas com êxito para
o meio agrícola, adaptando-se ao clima tropical e permitindo o trabalho
do negro em larga escala. O cristianismo social, com foco na família mais
do que na Igreja, entre outros fatores, favoreceu o processo de colonização
da América Portuguesa. Tal colonização se estabeleceu sobre os pilares
da escravidão, da casa-grande e da família patriarcal. Outra característica
desse processo de formação social e cultural da sociedade brasileira eram
as famílias constituídas por muito membros, infladas por filhos bastardos
e dependentes dos patriarcas, que eram, nas palavras de Gilberto Freyre
(2006, p. 85), “[...] mais femeeiros na sua moral sexual [...]”.
Assim, a família colonial brasileira instaurou-se sobre as bases da riqueza
agrícola e do trabalho escravo. Tais elementos determinariam as funções
econômicas e sociais fundantes da cultura política que se formou. Ainda
hoje é possível visualizar essas características, moldadas pelos princípios
da oligarquia e do nepotismo. Os padres da época, em oposição à sociedade
colonial, defendiam a fundação de uma santa república de índios “domes-
ticados” para Jesus. Tinham por objetivo apropriar-se dos nativos para que
eles trabalhassem em suas propriedades, eliminando todas as formas de
autonomia familiar ou individual desses sujeitos. Eles eram trajados de
maneira uniforme, tal qual crianças em um orfanato ou internos de algum
estabelecimento similar característico do período. É importante destacar
aqui que o termo “orfanato” não faz parte da política atual de acolhimento
institucional executada no Brasil e regida pelos princípios do Estatuto da
Criança e do Adolescente (ECA).
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Os religiosos da época eram conhecidos como jesuítas. Os primeiros que vieram ao


Brasil chegaram com o primeiro governador-geral da colônia, Tomé de Sousa, em
1549. Eles eram liderados por Manuel da Nóbrega e tinham como principal missão
cristianizar os nativos e zelar pela Igreja instalada no Brasil colonial.
Os jesuítas construíram locais chamados “missões”, onde combinavam a catequese
dos nativos com a sua utilização como mão de obra para a produção de tudo o que
a missão precisasse. Para que exercessem seu trabalho na colônia, inicialmente, foi
necessário criar uma comunicação com os nativos, uma vez que eles falavam tupi e os
jesuítas falavam português. Assim, o padre José de Anchieta desenvolveu um manual
que auxiliava na comunicação dos jesuítas com os nativos. Nesse período da história
brasileira, o idioma mais comum aqui era a língua geral, que mesclava elementos do
português com idiomas nativos (SILVA, 2008).

Quanto à cultura alimentar da sociedade brasileira desse período, cabe


destacar o registro de Gilberto Freyre no clássico Casa-Grande & Senzala:

Mais bem alimentados [...] eram na sociedade escravocrata os extremos: os


brancos das casas-grandes e os negros das senzalas. Natural que dos escravos
descendam elementos dos mais fortes e sadios da população. Os atletas, os ca-
poeiras, os cabras, os marujos. E que da população média, livre mas miserável,
provenham muitos dos piores elementos; dos mais débeis e incapazes. É que
sobre eles principalmente é que têm agido, aproveitando-se da sua fraqueza
de gente mal alimentada, a anemia palúdica, o beribéri, as verminoses, a
sífilis, a bouba. [...] Do que pouco ou nenhum caso tem feito essa sociologia,
mais alarmada com as manchas da mestiçagem do que com as da sífilis, mais
preocupada com os efeitos do clima do que com os de causas sociais suscetíveis
de controle ou retificação, e da influência que sobre as populações mestiças,
principalmente as livres, terão exercido não só a escassez de alimentação,
devido à monocultura e ao regime do trabalho escravo, como a pobreza quí-
mica dos alimentos tradicionais que elas, ou antes, que todos os brasileiros,
com uma ou outra exceção regional, há mais de três séculos consomem, é da
irregularidade no suprimento e da má higiene na conservação e na distribuição
de grandes partes desses gêneros alimentícios. São populações ainda hoje,
ou melhor, hoje mais do que nos tempos coloniais, pessimamente nutridas
(FREYRE, 2006, p. 96–97).
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Os senhores de escravos aprenderam desde cedo que, para melhorar o


rendimento e a eficiência do trabalho do negro em suas propriedades, a alimen-
tação seria um fator fundamental. Ela era necessária para conservar o negro
e manter sua eficiência nas tarefas. O negro, enquanto seu capital e máquina
de trabalho, obtinha alimentação farta e reparadora. Embora ainda não fosse
nenhum primor da culinária, a alimentação dos escravos era, em grande parte,
abundante em milho, toucinho, feijão e outros alimentos necessários para
mantê-los produtivos nas tarefas que lhes fossem designadas. Esses gastos
com alimentação nada mais eram do que investimentos para obter melhoria
na produção. Os negros continuavam sendo tratados de forma desumana e
sofriam os mais diversos abusos por parte de seus senhores.

A escravidão no Brasil se consolidou como uma experiência de longa duração que


marcou diversos aspectos da cultura e da sociedade brasileira. Mais do que uma
simples relação de trabalho, a existência da mão de obra escrava africana fixou um
conjunto de valores na sociedade brasileira em relação ao trabalho, aos homens e
às instituições.
Nessa trajetória, é possível identificar a persistência do preconceito racial e social.
Durante o governo de Dom Pedro II, várias leis de caráter abolicionista foram aplicadas.
A gradação da política abolicionista traduzia o temor que certos setores da elite tinham
de um processo de abolição brusco, capaz de promover uma revolta social. A Lei
Eusébio de Queiroz, de 1850, foi a primeira a proibir o tráfico de escravos para o Brasil.
Somente quase 40 anos depois, em 1888, a Lei Áurea deu fim ao regime escravista
brasileiro (SOUSA, 2008).

Nesse processo de gestação de uma nova sociedade, inúmeros fatores seriam


determinantes para a formação de um povo e uma nação com características,
cultura e mazelas próprias. A sífilis, depois da má nutrição, talvez tenha sido
uma das grandes influências sociais do período, trazendo como consequências
tanto deformações físicas quanto pauperização econômica do mestiço brasileiro.
A doença trazida pelos primeiros europeus espalhou-se rapidamente pelas praias
da colônia por meio das relações entre índias e colonizadores. Veja:

Costuma-se dizer que a civilização e a sifilização andam juntas: o Brasil,


entretanto, parece ter se sifilizado antes de se haver civilizado. Os primeiros
europeus aqui chegados desapareceram na massa indígena quase sem deixar
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sobre ela outro traço europeizante além das manchas de mestiçagem e de


sífilis. Não civilizaram: há, entretanto, indícios de terem sifilizado a população
aborígine que os absorveu (FREYRE, 2006, p. 110).

A miscigenação foi importantíssima para o plano de povoamento da colônia


brasileira. Por meio dos primeiros colonizadores é que foi preparado o campo
para o único processo de colonização possível no Brasil, o da formação de uma
sociedade híbrida por meio da poligamia. Do contato dos primeiros europeus
com os nativos, resultaram as primeiras camadas de mestiçagem. Isso facilitou
a penetração da segunda leva de povoadores que aqui vieram se instalar. O
intercurso sexual entre colonizador e mulher índia se mostraria bem mais
perverso do que a perturbação por doenças venéreas, o que se deve também
à relação de submissão e sadismo imposta pelos estrangeiros.
A dominação do homem sobre a mulher não se fixou apenas no meio
sexual, mas também se estendeu para as relações sociais que se davam entre
homem europeu e mulheres de raças submetidas ao seu domínio. Toda essa
cultura de submissão e sadismo do senhor/colonizador/homem sobre escravo/
colonizado/mulher está intimamente ligada à formação econômica e patriarcal
do Brasil. Isso se relaciona com os inúmeros casos de domínio e abuso sexual
de mulheres que ocorrem ainda hoje. Nesse contexto, a mulher é reprimida
social e sexualmente pelo homem e pela sociedade em geral. Ainda com rela-
ção ao período colonial, cabe destaque ao sadismo praticado pelas mulheres,
esposas dos senhores, sobre seus escravos, especialmente sobre as mulatas,
muitas vezes por simples ciúme ou inveja sexual (FREYRE, 2006).
Sobre a miscigenação do povo brasileiro, muito se estudou ao longo dos
séculos. Entre esses estudos, se destaca o relato do viajante suíço Louis Agassiz,
que esteve no Brasil em 1865 e concluiu seu relato da seguinte forma:

[...] que qualquer um que duvide dos males da mistura de raças, e inclua por
mal-entendida filantropia e botar abaixo todas as barreiras que a separam,
venha ao Brasil. Não poderá negar a deterioração decorrente da amálgama
das raças, mais geral aqui do que em qualquer outro país do mundo, e que
vai apagando rapidamente as melhores qualidades do branco, do negro e do
índio, deixando um tipo indefinido, híbrido, deficiente em energia física e
mental (AGASSIZ, 1896, p. 71).

Essa visão eurocêntrica sintetizada por Agassiz (1896) se estendeu por


séculos e ainda faz parte do imaginário estrangeiro sobre o Brasil. A imagem
de paraíso sexual, de país do futebol, das praias e do carnaval, bem como a
crescente desmoralização das instituições políticas, são reflexo em parte das
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atitudes dos brasileiros, porém demonstram também uma visão preconceituosa


e superficial sobre a sociedade e a cultura nacionais.
Sobre o preconceito, Crochík (1995) destaca que os fatores que levam um
indivíduo a ser ou não preconceituoso perpassam seu processo de socializa-
ção e de formação, em consonância com as transformações sociais vividas
por ele. Em outras palavras, o ambiente que constitui o sujeito é responsável
pelo desenvolvimento ou não de determinada atitude preconceituosa. Esta se
manifesta de forma individual, mas é resultado do processo de socialização
como resposta aos conflitos gerados. Tal socialização é fruto da cultura,
relacionada com a história vivenciada pelo sujeito. Assim, esses processos
podem variar historicamente e de acordo com as diferentes culturas. Veja:

[...] os conteúdos do preconceito em relação aos diversos objetos não são


semelhantes entre si. Aquilo que o preconceituoso imaginariamente percebe
como sendo o deficiente físico não é o mesmo que imagina ser o deficiente
mental; o estereótipo sobre o negro de que se utiliza é distinto do estereótipo
sobre o judeu. Ou seja, cada objeto suscita no preconceituoso afetos diversos
relacionados a conteúdos psíquicos distintos (CROCHÍK, 1995, p. 12).

A sociedade brasileira é fortemente marcada pela exclusão, pelo preconceito


e pela discriminação. As questões de gênero, sociais, étnicas e raciais são
perpetuadas por meio de processos sutis e complexos. Isso se expressa nas
relações sociais historicamente enraizadas. Nesse sentido, os processos de
exclusão sempre vitimaram grupos sociais marginalizados por motivos socio-
econômicos. Candau (2003) afirma que exclusão social e discriminação racial
relacionam-se. Porém, têm diferentes níveis de especificidade e de autonomia.
Candau (2003) afirma que os afrodescendentes vivem uma situação de
desvantagem com relação a outras formas de discriminação, pois sofrem com
disparidades variadas de que são vítimas e também com o encobrimento e a
dissimulação. Assim, eles mesmos acabam, por vezes, reproduzindo de forma
inconsciente as discriminações sofridas e carecendo de percepção do processo
sócio-histórico em que estão inseridos. A apologia à mestiçagem, segundo a
autora, é uma das formas de dissimulação usadas para amenizar as situações
de desigualdade, utilizando a justificativa de que o cruzamento de diferentes
raças possibilitou a ascensão social do negro mestiço, mulato. Dessa percepção,
segundo a autora, surge o mito da democracia racial:

[...] a democracia racial é uma corrente ideológica que pretende eliminar


as distinções e desigualdades entre as três raças formadoras da sociedade
brasileira (a negra, a indígena e a branca), afirmando que existe igualdade
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entre elas. Elimina-se, assim, o conflito, continuando-se a perpetuar estere-


ótipos e preconceitos, pois, se seguirmos a lógica de que as diferentes raças,
desde o início do processo colonizador, foram se integrando cordialmente,
poderemos pensar que as diferentes posições hierárquicas entre elas devem-
-se à capacidade e ao empenho dos indivíduos. Esta ideia disseminou-se no
imaginário social, contribuindo para que o corpo social não se reconhecesse
como uma sociedade hierarquizadora e discriminadora (GOMES, 1994, p.
45 apud CANDAU, 2003, p. 20).

Conforme Santos (1997), a questão afrodescendente merece atenção es-


pecial. É necessária a união dos movimentos de representação dos negros.
Eles devem articular um novo discurso, ampliando o debate sobre as causas
dos movimentos e respeitando a pluralidade dos indivíduos. Essa pluralidade,
segundo o autor, enriquece e fortalece a atuação desses grupos. A trança ou
o cabelo espichado não devem ser fatores de separação. Deve-se, portanto,
respeitar as individualidades de cada um, primando pela tolerância para o
avanço da causa. Esse processo também necessita ir ao encontro de estratégias
elaboradas com bases científicas e de forma organizada. Todos os envolvidos
devem ser multiplicadores da luta.

Só assim será possível rever injustiças seculares, estruturais e cumulativas,


mediante políticas compensatórias, que devem ser urgentemente implantadas
neste país, inclusive as medidas de discriminação positiva. Pedir aos negros
que aceitem o discurso oficial e esperem tranquilos a evolução normal da so-
ciedade é condená-los a esperar outro século. O país necessita, com urgência,
de medidas positivamente discriminatórias, que são a única forma de refazer
um balanço mais digno, revendo o balanço histórico (SANTOS, 1997, p. 141).

Outro segmento que merece especial atenção quando se trata de processos


históricos de discriminação racial no Brasil é o indígena. Desde a época do
Brasil colônia, com o choque das culturas europeia e ameríndias, ocorre um
drástico processo de dissolvição da cultura tradicional indígena. As populações
nativas da América sofreram destruição cultural e moral quase completa por
meio da ação do colonizador ou do missionário. Isso se deu como um efeito
colateral do choque entre civilizações em estados distintos de desenvolvimento,
efeito este comum na história da humanidade.
Conforme Freyre (2006, p. 177), “[...] sob a pressão moral e técnica da cultura
adiantada, esparrama-se a do povo atrasado [...]”. Os nativos são os mais prejudi-
cados nesse processo de fricção interétnica. Eles são alienados da possibilidade
de desenvolverem-se de forma autônoma, já que foram induzidos a adotar, de
forma natural ou pela força, os padrões impostos pelo imperialismo colonizador.
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Esse processo desenvolveu-se ao longo dos anos. Uma das maneiras de


contorná-lo é implantar políticas públicas voltadas à preservação da cultura
das comunidades afetadas, bem como à inclusão desses indivíduos em meio
urbano e rural. Na próxima seção, você vai ver como as políticas públicas
podem alterar o cenário de discriminação e desigualdade.

Políticas públicas brasileiras


Nos últimos anos, vêm ganhando espaço políticas públicas voltadas à inclusão
social de indígenas em cursos de ensino superior do Brasil — em instituições
públicas, privadas e comunitárias. Isso se dá por meio de programas de acesso
e permanência, como a política de cotas e outros projetos similares.
Você pode tomar como parâmetro o caso da Universidade Federal do Rio
Grande do Sul (UFRGS). Ela é uma das instituições pioneiras nesse segmento.
Em 2007, instituiu o Programa de Ações Afirmativas, criado por decisão do
Conselho Universitário. Esse conselho determinou que, a partir de 2008, 30%
de todas as vagas dos cursos de graduação seriam destinadas a estudantes
oriundos de escolas públicas, considerando 50% destas reservadas para alunos
autodeclarados negros ou pardos.
Entre as medidas tomadas por esse programa, também está a criação de 10
vagas anuais para indígenas. Essa conquista foi assegurada em grande parte
por mérito da mobilização dos grupos indígenas que tinham por objetivo
assegurar, em especial no Rio Grande do Sul, o acesso ao ensino a estudantes
originários ou descendentes dos povos Kaingang e Guarani. O processo seletivo
desses estudantes ocorreria de forma diferenciada dos demais candidatos, por
meio de critérios próprios regulados pela Comissão de Acesso e Permanência
do Estudante Indígena.
Em 2012, foi instituída a Lei nº. 12.711, chamada Lei das Cotas. Ela pa-
dronizou todas essas políticas institucionais que vinham sendo desenvolvidas
pelas instituições federais de educação superior no País. A lei garantiu a reserva
de 50% das vagas em estabelecimentos de educação federal para estudantes
oriundos de escolas públicas, considerando critérios socioeconômicos, étnico-
-raciais e pessoas com deficiência. Quanto à divisão das vagas, veja o que
afirma o artigo 3º da Lei das Cotas:

Art. 3º. Em cada instituição federal de ensino superior, as vagas de que trata
o art. 1º desta Lei serão preenchidas, por curso e turno, por autodeclarados
pretos, pardos e indígenas, em proporção no mínimo igual à de pretos, par-
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dos e indígenas na população da unidade da Federação onde está instalada


a instituição, segundo o último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística (IBGE) (BRASIL, 2012, documento on-line).

Essa é apenas uma das inúmeras políticas públicas voltadas para o suporte
e a inclusão da população indígena. A política de demarcação de terras in-
dígenas, por exemplo, está em constante debate, especialmente em período
eleitoral. Porém, esse segmento populacional, como muitos outros no País,
ainda carece de programas mais efetivos que sejam desenvolvidos com maior
participação dos sujeitos. O ideial é respeitar os diferentes níveis de interação
com a sociedade urbana em que as populações indígenas se encontram e,
especialmente, atentar àqueles que ainda preservam os costumes e valores
tradicionais desses povos.

Para obter dados sobre as terras indígenas no Brasil, acesse o link a seguir.

https://goo.gl/vJp14Z

O alcance das políticas públicas


Na discussão acerca dos processos sócio-históricos de reprodução e combate
às desigualdades vivenciadas pelas minorias sociais, vale ressaltar o con-
ceito de minoria social. Uma minoria social é um grupo de pessoas que, por
motivos econômicos, culturais, raciais ou religiosos, são marginalizadas na
prática do convívio em sociedade. Minorias sociais não são necessariamente
grupos formados por minorias quantitativas, mas se caracterizam por estar em
situação de vulnerabilidade, sendo afetados de forma qualitativa na garantia
dos seus direitos sociais.
No Brasil, negros e mulheres são minorias que possuem um histórico de
discriminação e permanecem na luta pelo reconhecimento de seus direitos
e pelo exercício de sua cidadania. Candau (2003) aponta que as relações de
gênero no Brasil sofrem com um processo histórico de hierarquização pautado
na diferença entre os sexos. Nesse sentido, o homem heterossexual encontra
respaldo em uma superioridade enraizada na cultura e nas práticas sociais,
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em detrimento da mulher e dos grupos de lésbicas, gays, bissexuais, travestis,


transexuais ou transgêneros (LGBTs). As práticas de discriminação se legi-
timam por intermédio da predominância, ainda hoje, do sistema patriarcal.
Tal sistema se instaura nas relações sociais e continua a ser reproduzido nas
famílias e instituições, que contribuem para a perpetuação das mais variadas
formas de preconceito, discriminação e abuso contra a mulher.
Candau (2003) ainda relata que ocorreram alguns avanços sociais e jurídicos
relacionados à luta feminista e aos movimentos organizados de mulheres,
que tiveram substancial crescimento após a década de 1960. Contudo, essas
conquistas têm sofrido constantes ataques por parte de setores conservadores
e fascistas, que têm se fortalecido na política brasileira. Estes, utilizando
discursos discriminatórios em nome de determinadas organizações religiosas
e a serviço da burguesia empresarial, possuem entre seus representantes
indivíduos que defendem, entre outras propostas, a remuneração diferenciada
para homens e mulheres. Muitos deles consideram que mulheres deveriam
obter remuneração menor do que homens em cargos idênticos porque elas
possuem o “risco” de engravidar.
Esse tipo de percepção contribui muito para o aumento da discriminação da
mulher no âmbito do trabalho e da política. Também leva a casos de violência
que se multiplicam por todo o País, resultando no crescimento dos casos de
feminicídio, entendido como o assassinato de mulheres cometido em razão de
gênero. A sociedade machista brasileira, que determina um padrão cultural,
social e dominante a ser seguido, é responsável pela criação de estereótipos
de gênero que atingem em grande parte as mulheres e acentuam-se no caso
das mulheres negras. Assim:

O preconceito contra as mulheres é persistente e a luta para sua superação


apresenta grandes desafios. Este preconceito não só permitiu justificar a di-
ferença sexual como argumento de hierarquia que inferiorizava as mulheres,
como também tende a tornar invisível a presença da mulher na sociedade,
particularmente na esfera pública (CANDAU, 2003, p. 24).

Como você pode notar, a história do Brasil foi construída sobre pilares
concretados com sangue e abuso das minorias sociorraciais. Tais minorias
ainda carregam o peso das práticas discriminatórias que seguem ocorrendo
na contemporaneidade. As instituições e a cultura brasileiras se alimentam
desses processos para seguir reproduzindo as práticas de exploração sobre as
minorias, com vistas à perpetuação do poder — familiar, político, e outros — e
Desigualdades sociorraciais e políticas públicas 11

da acumulação do capital, concretizada por meio do parasitismo do sistema


sobre determinados grupos sociais.
Cabe a você, como profissional de Serviço Social, ficar atento a essas
práticas, que por muitas vezes se confundem e se entrelaçam com a ontologia
da profissão. O ideal é que você desenvolva um olhar técnico e um pensa-
mento crítico sobre essas situações, evitando e combatendo a naturalização
da práxis discriminatória.

AGASSIZ, L. A journey in Brazil. Boston: S.E, 1896.


BRASIL. Lei nº. 12.711, de 29 de agosto de 2012. Dispõe sobre o ingresso nas universida-
des federais e nas instituições federais de ensino técnico de nível médio e dá outras
providências. 2012. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-
2014/2012/lei/l12711.htm>. Acesso em: 16 out. 2018.
CROCHÍK, J. L. Preconceito, indivíduo e cultura. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1995.
CANDAU, V. M. Somos tod@s iguais? Escola, discriminação e educação em direitos
humanos. Rio de Janeiro: DP&A, 2003.
FREYRE, G. Casa-grande & senzala: formação da família brasileira sob o regime da
economia patriarcal. 51. ed. São Paulo: Global, 2006.
SANTOS, M. As cidadanias mutiladas. In: CARDOSO, R. et al. O preconceito. São Paulo.
Imesp, 1997.

Leituras recomendadas
BRASIL. Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. Secretaria Nacional
de Assistência Social. Norma Operacional Básica NOB/SUAS: construindo as bases para
a implantação do sistema único de assistência social. 2005. Disponível em: <http://
www.assistenciasocial.al.gov.br/sala-de-imprensa/arquivos/NOB-SUAS.pdf>. Acesso
em: 16 out. 2018.
CONSELHO FEDERAL DE SERVIÇO SOCIAL. Código de ética do/a Assistentes Sociais: Lei
8662/93. Brasília: CFESS, 1993.
SILVA, D. N. O que eram os Jesuítas? 2008. Disponível em: <https://brasilescola.uol.com.
br/o-que-e/historia/o-que-eram-os-jesuitas.htm>. Acesso em: 29 ago. 2018.
SOUSA, R. G. Escravidão no Brasil. 2008. Disponível em: <https://brasilescola.uol.com.
br/historiab/escravidao-no-brasil.htm>. Acesso em: 29 ago. 2018.
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