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Stephen Johnson1
INTRODUÇÃO
E STE É O LIVRO QUE EU GOSTARIA de ler quando comecei a estudar a psicologia seriamente,
há mais de trinta anos. Como muitos jovens, entrei no campo com perguntas amplas, diretas,
significativas: O que faz as pessoas funcionar? Por que somos tão loucos? O que se pode fazer?
Oito anos mais tarde, com um doutorado nas mãos, eu sabia muito mais sobre projeto experimental,
estatística e aprendizagem de sílabas sem sentido do que quando comecei a minha busca. Não foi antes
de seis anos depois, com um cargo respeitável num departamento de psicologia e a liberdade de uma
licença, que finalmente voltei à essas perguntas mais fundamentais. Isto exigiu que eu abandonasse os
limites estreitos então estabelecidos pela principal corrente de psicologia acadêmica com relação às
formas válidas de conhecimento. O conhecimento deduzido empiricamente, adquirido aferrando-se às
regras sancionadas em qualquer época específica simplesmente não seria suficiente para responder a
perguntas como essas. Descobri que as respostas teriam que envolver um certo número de formas de
conhecimento e a integração de muitas contribuições, muitas vezes independentes. Completar este livro
fechou um ciclo - se é que não me trouxe o conhecimento global - de respostas às perguntas que me
levaram ao campo. Os elementos das respostas provêm da corrente principal, mas muitas outras estão
fora dela. O que você encontrará aqui é produto de intuição, teoria, experiência, deduções e, por que
não, de um bom número de pesquisas empíricas da corrente principal.
“O que faz as pessoas funcionar?” é uma pergunta muito semelhante à outra, igualmente ampla e
importante: “O que é a natureza humana?”. Me parece que a teoria e a pesquisa do desenvolvimento,
na sua essência, tentam responder a essa pergunta. A observação contínua de recém-nascidos, bebês e
crianças conduz à especulação sobre a natureza essencial deste ser a princípio tão indefeso e
potencialmente completo. Às vezes, é necessária uma observação cuidadosa e com freqüência
planejada para descobrir o quanto este pequeno ser realmente já é completo. As teorias são
especialmente proveitosas neste esforço de sugerir as perguntas certas.
O que a teoria e a pesquisa do desenvolvimento nos deram é uma descrição cada vez mais ampla,
embora cada vez mais precisa, da natureza humana. Isto inclui, particularmente, os tipos de
necessidades que os seres humanos precisam satisfazer e os tipos de ambiente que se deve prover para
atingir o potencial humano. De modo similar, as observações de crianças em desenvolvimento nos
dizem o que acontece quando essas necessidades são frustradas cronicamente ou quando não se oferece
os ambientes necessários. Novamente, as teorias sugerem o que procurar e postulam as relações
essenciais entre o ambiente precoce e o desenvolvimento resultante.
Eu sempre achei que a aplicação mais fascinante desse conhecimento básico consiste em responder
à segunda pergunta: “Por que somos tão loucos?” É óbvio que, se não fosse a nossa loucura, haveria
muito menos sofrimento e destruição no mundo. Os seres humanos resolvem problemas de longe
melhor que qualquer outra forma de vida, mas a nossa loucura interfere profundamente nesse processo
em todos os níveis. É na família, no local de trabalho e na política da espécie humana que vemos o
desperdício colossal e a dor, oriundos da nossa tendência para a disfuncionalidade destrutiva.
1
Essa apostila é uma tradução da primeira parte do livro: JOHNSON, S. Character Styles. NY: W.W.Norton Publisher, 2001.
Ao responder à segunda pergunta, achei muito proveitoso estudar os padrões mais comuns ou
síndromes em que se exprime a nossa loucura. Esses padrões são melhor descritos pelos clínicos que
tentaram tratar a patologia. Dentre esses, os que descreveram as estruturas, estilos ou distúrbios de
caráter foram, com freqüência, os mais sagazes. As conseqüentes síndromes de caráter responderam
bem às provas do tempo e da prática clínica e apresentaram resultados relativamente bons sob o
escrutínio de pesquisas mais sistemáticas. Nas suas formas mais extremas, esses distúrbios de caráter
ou personalidade são amplamente empregados para fins diagnósticos mundo afora.
Agora, eis a integração de duas formas de conhecimento que nos auxiliam a responder a estas
perguntas. Os estudos do desenvolvimento ou da natureza humana se assentam como uma luva às
descrições dos padrões da loucura humana. De mais a mais, esses padrões não ocorrem simplesmente
nas formas mais severas da doença mental. Tais padrões são claramente registrados em populações
normais e grupos com patologias menos graves. Acredito que há diversos contínuos da disfunção
humana, do mais grave ao menos grave, que refletem blocos construtivos da quintessência da natureza
humana. Acredito que encontrei sete desses blocos construtivos em torno dos quais a personalidade e
a psicopatologia se organizam. Talvez haja mais.
Crítica à adaptação de qualquer indivíduo em qualquer um destes contínuos é a interação. Essa
interação se dá entre o indivíduo, com necessidades mutantes porém básicas, e a habilidade mutante do
meio-ambiente para preenchê-las. Essa interação constrói a personalidade e produz a psicopatologia.
Numa era em que a nossa ciência mais básica, a Física Quântica, afirma que a matéria em si é feita de
interação, estamos maduros para entender e experienciar a nossa personalidade e a nossa patologia
pessoal como produto da interação.
A visão interativa na psiquiatria está longe de ser recente. Fairbairn (1974, publicado originalmente
em 1952) e Guntrip (1968, 1971) estão entre os primeiros, mais claros e seminais colaboradores. Essas
pessoas representam parte daquilo que veio a ser conhecido como a Escola Inglesa da Teoria das
Relações Objetais, que enfatiza o papel da relação provedor2- criança no desenvolvimento da
personalidade e da psicopatologia. A deles é uma variação da teoria Psicanalítica que enfatiza
dimensões do desenvolvimento e da psicopatologia da criança, deduzidas teoricamente, com base nas
primeiras interações.
O caráter não é habitualmente o foco central para esses teóricos, embora acabem se voltando para
ele, de fato. E as suas teorias não são, via de regra, informadas ou modificadas pela pesquisa do
desenvolvimento da criança. Portanto, para compreender mais profundamente essas perguntas
essenciais, é preciso integrar o processo de desenvolvimento, os determinantes interacionais e as
síndromes caracterológicas.
Embora todos os blocos construtivos tenham estado disponíveis para essa tarefa há certo tempo,
somente agora, aqui e ali, estão sendo agregados. Tentei fazer isso nos meus livros anteriores, escritos
para terapeutas que atuam e os que estão em formação (Johnson, 1985, 1987, 1991). Cada um destes
livros se dedica a um ou dois modelos caracterológicos, com ênfase no tratamento. Tentei escrever
cada um deles numa linguagem não técnica o suficiente para que qualquer leigo instruído pudesse lê-
los. No entanto, o grosso de cada livro não fala a não-terapêutas, e qualquer estudante sério teria que
juntar todos os meus livros e os de outros para completar o quadro. Este livro reune tudo isto, primeiro
para descrever o modelo teórico empírico global, que integra desenvolvimento, caráter e interação.
Depois, há uma descrição minuciosa de cada uma das estruturas de caráter, que reflete os sete temas
existenciais básicos.
Minha esperança é que esse trabalho seja acessível a qualquer segundanista pertencente ao grupo
maduro da universidade e que ele o ajude a responder às suas próprias perguntas a respeito da natureza
2
Nota de Tradução: O termo empregado é parent, uma referência ao pai ou à mãe, indistintamente. Para manter essa
conotação, optou-se por adotar o termo “provedor”.
humana e da loucura. Espero que ele o ajude a montar o cenário de sua descoberta do que pode fazer a
respeito da loucura, não apenas na psicoterapia, mas na sua vida e nos seus relacionamentos. Também
espero que você, assim como eu, se relacione a ele como um trabalho em andamento. Essas perguntas
são importantes demais e os problemas por demais intrincados para conduzir a quaisquer palavras
definitivas ou soluções finais. O saber teórico, empírico, intuitivo, dedutivo, vivencial e outros tipos de
saber continuarão informando e corrigindo o trabalho.
As respostas à terceira pergunta, sobre o que podemos fazer a respeito da loucura humana, é aquela
em que sinto o menor fechamento. Essas respostas continuarão certamente a evoluir e virão de campos
muito variados, desde a psicofarmacologia até a ecologia e outros com os quais sequer sonhamos.
Mantive, no entanto, a estratégia dos meus livros anteriores: conservar a parte sobre os objetivos
psicoterapeuticos de cada tipo de caráter. Aqui, tendo a me dirigir aos terapeutas, mas as análises podem
ser aplicadas ao próprio desenvolvimento pessoal ou ao dos outros.
Os primeiros quatro capítulos deste livro apresentam o modelo teórico empírico global. Foram
originalmente publicados em O Caráter Simbiótico (Johnson, 1991) e os Capítulos de 2 a 4 revisam o
modelo com relação a cada uma dos sete temas existenciais básicos e as suas manifestações
caracterológicas. O leitor novato pode querer pular os Capítulos de 2 a 4, pelo menos no começo,
porque são mais voltados para a pesquisa do que os capítulos seguintes.
Cada um dos capítulos subseqüentes descreve uma resolução existencial, a etiologia, expressão e os
objetivos do tratamento do caráter formado pelo seu manejo inadequado. Fazendo uma atualização e
uma editoração mínimas, usei então os capítulos descritivos dos meus livros anteriores. Os Capítulos
5 e 6 provêm de Transformação Caracterológica (Johnson, 1985), o Capítulo 7 de O Caráter
Simbiótico (Johnson, 1991) e o Capítulo 8 de Humanizando o Estilo Narcísico (Johnson, 1987). Os
Capítulos de 9 a 11 foram escritos especialmente para este livro, no sentido de completar a descrição
de todos os sete tipos de caráter.
Na maioria das vezes, cada capítulo é um assunto a parte e este livro poderia ser lido em qualquer
ordem. O primeiro capítulo apresenta, no entanto, a teoria global e seria, de modo geral, proveitoso
para compreender mais plenamente os demais. Para aqueles leitores familiarizados com os distúrbios
de personalidade, esse capítulo também mostrará como o meu tratamento se relaciona com as
categorias de distúrbios de personalidade empregadas correntemente.
Leitores sofisticados me perguntaram, vez ou outra, o que há de novo ou diferente na minha
abordagem. A resposta é que não há muita coisa aqui que seja nova. O que há de diferente é o seguinte:
não é psicanálise, não é relações objetais, não é psicologia do self nem psicologia do ego. Não é
comportamental, cognitivo ou afetivo. Não é caracterológico, desenvolvimentista, interativo,
fenomenológico. Não é teórico, empírico, vivencial, intuitivo ou dedutivo. É tudo isso e mais que isso,
numa mescla. Ele procura responder a perguntas importantes com as informações disponíveis. Quem
tem curiosidade a respeito deve fazer isto. Eis a minha resposta. Espero que ajude.
PARTE I
4
No original, merger.
5
No original, twinship.
6
No original, mirroring.
De acordo com a teoria que apresentarei aqui, a personalidade e a psicopatologia se desenvolvem
em constelações peculiares como uma conseqüência da interação entre uma ampla - porém finita -
gama de necessidades instintivas da pessoa e a capacidade ou incapacidade do meio ambiente para
responder a elas de modo adequado. Estas necessidades instintivas vão bem além daquelas pressões
internas oral, anal e fálica postuladas por Freud, e incluem a necessidade bem documentada que tem a
criança de apegar-se ou vincular com um provedor primário (p.ex., Bowlby, 1969); a necessidade de
individuação da criança através da exploração, da atividade auto-determinada e da construção de
limites psíquicos (p.ex., Mahler, 1968); a necessidade de expressão auto-determinada (p.ex., Kohut,
1971, 1977; Lowen, 1958, 1983) e a necessidade de uma relação harmonizada com o outro (p.ex.,
Kohut, 1971; Stern, 1985). Segundo essa construção teórica, a natureza da personalidade e da
psicopatologia será, então, consideravelmente determinada pelos tipos de frustrações interpessoais
encontradas pela pessoa em desenvolvimento à medida que tenta satisfazer estas muitas necessidades.
A personalidade e a psicopatologia serão mais adiante definidas pela sua resposta instintiva natural à
frustração em questão, e pelos métodos que escolher usar para lidar, ajustar-se ou reprimir essas
respostas naturais. A sua escolha das manobras de ajustamento será, além disso, determinada pelas
capacidades estruturais do seu nível de desenvolvimento quando da frustração, bem como pelas
possíveis manobras modeladas ou aceitas pelo meio ambiente interpessoal. É esta interação entre as
necessidades instintivas e o impacto do meio ambiente interpessoal que faz desta teoria uma teoria
verdadeiramente integrada.
Os teóricos caractero-analíticos (p.ex., Levy e Bleecker, 1975) delinearam o desenvolvimento do
caráter em cinco estágios: (1) A auto-afirmação é a expressão inicial da necessidade instintiva. (2) A
resposta negativa do meio ambiente é o bloqueio ou a frustração dessa necessidade pelo ambiente
social. (3) A reação organísmica é a resposta natural, presa no interior, à frustração pelo meio ambiente
- habitualmente a experiência e expressão de um afeto negativo intenso, principalmente a raiva, o terror
e a dor da perda.
Estes primeiros três estágios são relativamente contínuos. É nos estágios finais que se forma o
caráter. (4) O quarto estágio é chamado auto-negação. Esta forma mais abrangente de se voltar contra
si mesmo envolve a imitação que faz o indivíduo do meio ambiente social no bloqueio da expressão
do impulso instintivo original e no bloqueio à resposta instintiva à este bloqueio, igualmente. É esta
identificação com o meio ambiente que coloca a pessoa contra ela mesma, produz o bloqueio interno
da auto-expressão e cria a psicopatologia. Este é o começo de um conflito interno, que pode persistir
por toda a vida, entre a necessidade/reação instintiva irreprimível, de um lado, e o bloqueio
internalizado daquelas necessidades e reações, de outro.
Wilhelm Reich, Alexander Lowen e outros terapeutas de orientação energética enfatizaram o modo
como os bloqueios da auto-expressão estão literalmente presentes no corpo, representados por uma
tensão muscular crônica que pode resultar em distorção da postura. Esse bloqueio ou auto-negação
serviu originalmente ao propósito de evitar a dor e a frustração de experienciar o bloqueio proveniente
do meio ambiente. Ele continua servindo esse propósito e, assim, é muito resistente à mudança. O
bloqueio no nível corporal é simplesmente o modo que tem o organismo de não experienciar a
necessidade original e a reação desconfortável à sua frustração. Os bloqueios corporais também evitam
as ansiedades inevitáveis de se estar novamente vulnerável e arriscar outra ferida antecipada.
A posição de Fairbairn (1974) parece completamente consistente com relação a este entendimento
e o fortalece. A visão de Fairbairn era de que essas auto-expressões organísmicas originais (isto é,
instintos, impulsos libidinais, etc.) eram uma busca do objeto. Quando os objetos (outros) eram
frustradores ou bloqueadores, o indivíduo os internalizava e depois os tornava inconscientes. Os
impulsos originais, bem como o que Fairbairn caracterizou como as respostas "agressivas" do indivíduo
à frustração, tornaram-se inconscientes. O que a visão de Fairbairn acrescenta, e que será revisto com
maior detalhamento no capítulo 9, é a ênfase nas conseqüentes relações objetais inconscientes e fixadas
internamente, que contribuem para a resultante psicopatologia estática e a resistência à novos
relacionamentos, aprendizagem e mudança. Resiste-se à mudança não somente porque pode ocasionar
a ressurreição dos "objetos maus" internalizados e os impulsos reprimidos em relação a eles - um estado
psíquico intolerável que motivou a repressão num primeiro momento - mas também por causa do apego
do indivíduo a estes objetos do modo como foram internalizados: "É acima de tudo a necessidade de
provedores7 pela criança, por piores que possam parecer, que a compele a internalizar objetos maus; e
é porque essa necessidade permanece vinculada aos pais no inconsciente que ela não pode tomar a
decisão de romper com eles." (Fairbairn, 1974,p.68).
Em outras palavras, o processo de auto-negação é relacional e personificado de modo singular em
cada caso. Os constructos que enfatizam as cisões no self e explicam a patologia e a resistência em
termos, por exemplo, de um objeto internalizado que reprime a expressão "libidinal" são muito úteis
clinicamente. Muito da gestalt terapia está baseada em processos que trazem essas cisões do self à
consciência, as atualizam e representam suas relações.
(5) O quinto e último estágio na seqüência, denominado processo de ajustamento, consiste
essencialmente em realizá-lo da melhor maneira possível. Isto envolve o estabelecimento de acordos
de qualquer espécie, numa tentativa de resolver o conflito irresolúvel. Ele é análogo ao conceito de
"operação segura" de Sullivan ou "falso self" de Winnicott. Segundo essa conceituação, o narcisista
em desenvolvimento, por exemplo, que não consegue obter uma estima bem harmonizada das figuras
que zelam por ele através da sua auto-expressão natural, se identificará com a imagem dele que esses
provedores solicitam para seus próprios propósitos, e fará qualquer coisa que estiver a seu alcance para
viver de acordo com isso. Assim fazendo, ele poderá alcançar alguma semelhança com a harmonização
espelhada de que necessita. Simultaneamente, poderá evitar a recorrência de feridas narcísicas
dolorosas, que aparecem como resultado da sua auto-expressão verdadeira. À medida que puder viver
acima ou abaixo das expectativas do meio ambiente, o acordo parecerá funcionar. Isto explica em parte
porque o narcisista bem-sucedido é notoriamente difícil de mudar.
O processo de auto-negação define aquilo que o indivíduo precisa negar ou reprimir. O processo de
ajustamento define aquilo que ele deve exagerar. As partes do self real que o indivíduo reprime e
aquelas que ele exagera definem sucintamente o seu caráter do modo como é discutido aqui. Percebe-
se a psicopatologia na repressão, no exagero ou, mais freqüentemente, na reação natural do indivíduo
a esse tipo de acomodação habitual, não natural, de evitar a dor enquanto ele permanece em contato.
A junção da teoria psicanalítica do desenvolvimento e da pesquisa do desenvolvimento (as duas
observacionais, à la Mahler, e experimentais, à la Stern) enriquece e atualiza continuamente o modelo
do desenvolvimento do caráter. Essas fontes fornecem dados sobre a natureza exata das auto-
expressões organísmicas originais (instintos) e registram o momento em que elas parecem surgir pela
primeira vez, por observação natural ou indução experimental. Mais ainda, essas fontes compilam
diretamente as frustrações do ambiente social e as respostas do bebê ou da criança a elas. Finalmente,
elas sugerem os tipos de habilidades ou inabilidades estruturais que ocorrem no decorrer da vida, que
instrumentalizam basicamente os processos de auto-negação e ajustamento. Embora todas essas fontes
contenham uma mescla de fatos obtidos empiricamente e teoria indutiva ou dedutiva, há um grau
notável de convergência quanto aos processos essenciais, a despeito de todas as discordâncias aparentes
sobre o momento em que eles ocorrem ou os debates sobre o que é inerente contra o que é aprendido.
Também existem fatos derivados dos dados empíricos que, sem grande interpretação, fornecem
elementos sólidos para a elaboração de uma teoria caracterológica do desenvolvimento.
A abordagem da psicologia do ego pode ser proveitosa neste contexto, ainda que somente no nível
da descrição, ajudando-nos a perceber um contínuo de psicopatologia. Neste campo, sugeri, em
conjunto com outros autores (p.ex., Masterson, 1976, 1981; Meissner, 1988), que podemos ver várias
7
No original, parents, que pode designar a figura paterna ou materna indistintamente.
formas básicas de psicopatologia ao longo de um espectro. Acredito que a dimensão subjacente central
de um espectro desse tipo envolve o funcionamento estrutural (com freqüência denominado ego) do
indivíduo. O presente modelo postula que o mesmo tema caracterológico básico subjacente pode se
expressar por todo este espectro.
Assim como outros autores discutiram a existência de limítrofes ou narcisistas de alta, média ou
baixa atuação, sugeri uma demarcação similar com relação a outras dimensões caracterológicas.
Considerando que entendo essas dimensões caracterológicas como um reflexo de temas da existência,
a categorização reflete a extensão de ruptura psíquica e comportamental com relação ao tema em
questão. Afirmo que as pessoas são melhor compreendidas em relação a estes temas existenciais,
reconhecendo que elas podem operar em diferentes níveis de integração estrutural, dependendo do
problema com o qual estiverem lidando. Por exemplo, um indivíduo que atua via de regra com um alto
nível de integração pode desintegrar-se ou regredir mais ou menos quando colocado frente a ameaças
à sua segurança, auto-estima, ameaça de outro abandono, etc. O presente modelo é similar ao de Gedo
e Goldberg (1973), que afirmaram que Modelos da Mente psicanalíticos diferenciados eram
apropriados para compreender os tipos diferenciados de funcionamento psicopatológico.
A Tabela 1 apresenta o mapa mais abrangente que eu conseguiria organizar numa tabela. Cada tema
caracterológico está incluído em um dos três períodos de desenvolvimento sugeridos pelas pesquisas e
pelas teorias do desenvolvimento: apego/vínculo, desenvolvimento do self com relação ao outro e o
self no seu desenvolvimento sistêmico. São apresentados brevemente os seis temas caracterológicos
básicos e as suas respectivas expressões no comportamento e nas atitudes. Do lado direito da tabela
encontra-se o contínuo do desenvolvimento estrutural contendo três marcos: o distúrbio de
personalidade, a neurose de caráter e o estilo de caráter. O contínuo reflete uma ruptura descendente
no funcionamento estrutural do ego, especialmente à medida que se vincula àquele tema
caracterológico específico.
Considerando o tema esquizóide (segurança), por exemplo, o distúrbio de personalidade esquizóide
plenamente desabrochado seria caracterizado por um nível de desenvolvimento estrutural muito lento
e uma alta dirupção na atuação, principalmente no trato de questões relativas ao envolvimento social,
à segurança e à regulação afetiva desembaraçada, com uma tendência para a utilização extrema da
dissociação e do retraimento como defesa contra o envolvimento ameaçador. O distúrbio da
personalidade esquizotímica e as psicoses funcionais também estariam classificadas na coluna do
distúrbio de caráter, evidenciando uma alta dirupção no funcionamento do ego, especialmente com
relação a essas dimensões.
Todos os distúrbios de personalidade são caracterizados por uma tolerância muito baixa e uma
dificuldade na contenção de qualquer aumento de um certo número de estados afetivos: ansiedade,
frustração, agressão, dor ou perda, amor ou intimidade, etc. Como resposta a essa dificuldade de conter
as emoções, as pessoas com distúrbios de personalidade tendem a se defender por intermédio da defesa
básica da cisão. No caso esquizóide, esta cisão pode se encontrar no nível mais global e primitivo, com
o indivíduo cindindo dissociativamente da experiência corrente e entrando num estado inteiramente
diferente. Ou, como no distúrbio de personalidade narcisista ou simbiótica, pode haver uma cisão de
ordem mais elevada, específica, com relação ao outro ou no self. Tal cisão envolve a manutenção de
uma só visão do outro, de si ou da própria vida, habitualmente extrema. Esta experiência de coisas
dissociadas protege contra o estresse de elaborar uma visão mais adulta, mesclada, ou um entendimento
e experiência integrados das coisas como elas são. Assim, uma pessoa com um distúrbio de
personalidade pode idealizar ou desvalorizar o outro, ou perceber-se quer onipotente, quer inútil. Estas
visões extremas podem mudar, regredindo ou avançando.
A projeção é outra defesa comum associada ao distúrbio de personalidade. Nesse caso, a dificuldade
de reter a emoção é lançada sobre os outros, de modo a não precisar ser experienciada internamente.
Outra defesa comum é a fusão ou consolidação 8 com o outro, de tal maneira que o indivíduo ganha
conforto na ilusão de uma união dessa ordem, enquanto puder manter a ilusão e enquanto não houver
coexistência de fusão e projeção. Nesse caso, os sentimentos projetados tornam-se até mais
ameaçadores e requerem uma defesa adicional, dado que a pessoa ainda se identifica com eles, a ponto
de experienciar a legitimidade de que sejam desejados pelo self. Isto é chamado identificação projetiva.
Quando isto ocorrer, o indivíduo assumirá comportamentos para se defender deste medo percebido,
tornando-se com freqüência muito controlador e provocando apenas a reação que ele tiver projetado.
Enquanto todos os distúrbios de personalidade partilham dessa mesma estrutura básica primitiva ou
imatura, que Kernberg (1967) denominou "organização da personalidade limítrofe", os diferentes
estilos de caráter predizem os temas específicos que serão mais provavelmente o foco da cisão,
projeção, consolidação, identificação projetiva, etc., bem como o modo como serão expressos.
Em conjunto com a estrutura de defesas, o distúrbio de personalidade está freqüentemente associado
a danos na internalização de valores ou no desenvolvimento da percepção. Dentre tais dificuldades
pode ser encontrada uma ausência ou pelo menos uma deterioração da culpa, de um lado, ou, de outro,
a presença de uma autopunição exagerada e sádica por ofensas ao outro, sejam elas imaginárias ou
reais.
Finalmente, o distúrbio de personalidade é freqüentemente associado a histórias interpessoais mais
perturbadas, da infância à velhice. Os relacionamentos, principalmente os íntimos, podem estar
ausentes, gravemente limitados ou apresentarem disfunções crônicas. Partindo de um ponto de vista
das relações objetais, todos os relacionamentos tornam-se reprises daqueles originais, que ocasionaram
a perturbação em primeiro lugar. Enquanto não houver uma reparação das representações
internalizadas e do self e enquanto não forem alcançados o término e pico da maturação das defesas, o
futuro será sempre uma reprise do passado.
Assim sendo, o objetivo da terapia ou de qualquer programa de crescimento para alguém com um
distúrbio de personalidade deve ser a maturação e a integração. A compreensão, catarse, ab-reação,
reestruturação cognitiva ou comportamental - não importa que nome possamos dar - será inadequada,
a menos que essa estrutura interna básica amadureça e que haja integração das polaridades que
determinam o estilo do caráter.
Nos níveis médios do desenvolvimento estrutural do tema esquizóide, encontraremos mais
provavelmente o comportamento mais característico do distúrbio da personalidade esquiva 9, nos termos
do DSM-IV (Manual Diagnóstico e Estatístico - IV). Aqui, há uma utilização exacerbada do
retraimento social como defesa, com alguma dissociação cognitiva e afetiva, principalmente sob
condições de estresse social, mas a ruptura estrutural está ausente, particularmente com relação a essa
área. O que define essa neurose de caráter intermediária é um conflito interno duradouro e de dirupção
da vida, que produz um comportamento que é "neurótico". Nas palavras de Shapiro, "A personalidade
ou caráter neurótico... é a que reage contra ela mesma; reage, por reflexo, contra algumas das suas
próprias tendências. É uma personalidade em conflito." (Shapiro, 1989). Assim, no DSM-IV, o que
distingue um esquizóide de um distúrbio de personalidade esquiva é que o esquivo quer estar com os
outros, mas fica ansioso. A tendência reflexa de aproximar-se faz emergir a ansiedade, mas a tendência
em esquivar-se produz insatisfação. Esta personalidade de "casa dividida contra ela mesma" pode então
produzir soluções de compromisso elaboradas para acomodar simultaneamente as tendências
competitivas que essa característica neurótica inconfundível carrega.
8
No original, fusion or merger.
9
Avoidant Personality Disorder.
Tabela 1
Problemas Caracterológicos e Desenvolvimento Estrutural
ALTO BAIXO
Afetivo Afetivo
Cognitivo Cognitivo
Interpessoal Interpessoal
T ENDO REVISTO a teoria básica, seguirei as divisões centrais da Tabela 1 para apresentar um
resumo dos temas caracterológicos nos capítulos restantes desta primeira parte. No presente
capítulo, apresentarei os temas caracterológicos que derivam do período mais primitivo - o
apego e o vínculo. Esses temas esquizóide e oral serão discutidos ilustrando as suas expressões ao
longo do contínuo estrutural - distúrbio de personalidade, neurose de caráter e estilo de caráter. Do
mesmo modo, apresentarei no capítulo 3 os temas de desenvolvimento do self - simbiose,
narcisismo e masoquismo - nesse mesmo contínuo. Finalmente, o capítulo 4 estará voltado para os
temas do período edípico, quando a negociação do self além da díade torna-se mais crucial.
O Tema Esquizóide
O grande número de pesquisas recentes sobre o desenvolvimento indica que o bebê humano está
aparentemente bem "tramado" para a interação social quando nasce. Os dados indicam, por
exemplo, que o neonato pode discriminar entre a voz de sua própria mãe e a de outra mulher lendo
o mesmo material (DeCasper & Fifer, 1980). Esses autores mostraram que, com uma semana, os
bebês podem reconhecer a diferença entre um trecho lido em voz alta quando eles estavam no útero
e um trecho de controle que nunca havia sido lido antes. Isso mostra a presença de um tipo de
interação social que cruza a barreira do momento do nascimento. Stern (1977, p.36) observa que,
mesmo com poucas semanas de vida, os olhos do bebê convergem até aproximadamente oito
polegadas do rosto, distância típica entre o rosto da mãe e o da criança durante a mamada. Na
verdade, os indícios comportamentais sugerem enfaticamente que, por volta do final da primeira
semana, o bebê tem familiaridade suficiente com o rosto da mãe para ficar visivelmente perturbado
se esse for velado por uma máscara ou emparelhado a outra voz que não a da mãe (Tronick &
Adamson, p.141).
No primeiro mês, o bebê começa a mostrar apreço por aspectos mais globais do rosto humano
(sem delineamento dos traços), tais como a animação, a complexidade e até a configuração
(Sherrod, 1981). Mesmo nos dois primeiros dias de vida, os bebês podem discriminar e até imitar
expressões felizes, tristes e de surpresa (Field e Al., 1982). Com cerca de três semanas, os bebês
são capazes de desempenhar a atividade seguramente complexa de cruzamento modal
10
audiovisual , emparelhando o nível absoluto da intensidade do estímulo (Lewcowicz & Turkewitz,
1980), o que indica que estão, até neste nível, prontos para o tipo de sintonia mútua com o outro
que Stern (1985) caracteriza como a essência das relações humanas primitivas. Os bebês novos
estão tão predeterminados à sociabilidade que reagem emocionalmente a sinais de aflição de outro
indivíduo (Sagi & Hoffman, 1976; Simner, 1971). Outros estudos mostraram que os bebês se
esforçarão para receber um contato humano ou a oportunidade de observar os outros. Lichtenberg
(1983, p.6) conclui que "a seqüência dos estudos demonstra o potencial pré-adaptado do neonato
para a interação direta".
Tudo isto indica que o bebê possui uma programação anterior e se adapta aos tipos de respostas
sociais que recebe. Portanto, muito cedo, um bebê detectará não só se está sendo manipulado de
10
No original, audiovisual crossmodal.
maneira rude ou se está sendo sujeito a uma estimulação dolorosa, como também será capaz de
detectar a qualidade do afeto com que é manipulado e o nível de adequação ou não às suas
necessidades, estados afetivos, etc. Tronick e al. (1978) provaram que bebês de três meses reagirão
com aflição e retraimento social moderados se os pais simplesmente assumirem uma "expressão
imóvel" durante uma interação com eles. O trabalho de Stern (1985) também mostra que, desde o
nascimento, a criança pode fazer coisas para afastar as interferências de uma estimulação excessiva.
Ao mesmo tempo que desafiam o entendimento anterior de Mahler quanto à existência de uma
"barreira de estímulo", essas descobertas demonstram mais ainda a habilidade da criança para
discernir e responder à estimulação aversiva de natureza mais social.
O tema esquizóide (vide Tabela 3) é o da segurança no mundo social. É evidente que o bebê tem
uma instrumentalização mais do que suficiente para discriminar a natureza provedora ou privadora
do ambiente social. Os bebês podem discriminar muito rapidamente se as pessoas que cuidam deles
são frias, distantes, sem sintonia ou mesmo indiretamente hostis. Essencialmente, os temas
esquizóide e oral surgem em primeiro lugar no desenvolvimento porque envolvem a frustração de
necessidades instintivas presentes no nascimento e que podem ser discriminadas nessa ocasião ou
pouquíssimo tempo depois.
Contudo, ao mesmo tempo que a habilidade do bebê na esfera discriminativa é impressionante,
existem limitações óbvias ao seu repertório de adaptação a frustrações graves. Desviar-se ou
dessintonizar-se da estimulação aversiva são os aspectos essenciais do repertório limitado de
respostas do bebê a esse tipo de estimulação. Embora estes mecanismos possam certamente ser
usados de maneira ampla para lidar com traumas posteriores, eles podem ser utilizados tão cedo
quanto no começo da vida. A teoria do desenvolvimento caracterológico afirma meramente que,
quanto mais estes mecanismos forem usados no período mais próximo do começo da vida para
esquivar-se e fugir das frustrações desfavoráveis deste período, mais tenderão a persistir pela vida
afora como resposta a situações percebidas como semelhantes (isto é, aspereza, medo, frio, etc.).
Além disso, à medida que o meio ambiente original tiver realmente causado desconforto ou dor, a
teoria simplesmente sustenta que o indivíduo tenderá a generalizar a sua experiência primitiva e
antecipar essa sensação nas situações sociais subseqüentes. Esta "aspereza" 11 ao mesmo tempo
primitiva e contemporânea pode envolver qualquer coisa, do abuso à falta de atenção, ou um baixo
nível de harmonização. A teoria prediz que os indivíduos com um tema esquizóide estarão
particularmente atentos aos meio ambientes sociais "ásperos", principalmente à "aspereza"
semelhante à que experienciaram na sua forma primitiva. Mais ainda, a teoria prediz uma tendência
ao isolamento social, ao retraimento e a formas de migração mental que ajudarão a evitar ou fugir
de qualquer estresse, particularmente o de natureza social.
Até agora, este processo é todo muito simples e fácil de compreender. No entanto, o que muitos
profissionais observaram nos indivíduos esquizóides é que: (a) eles tendem a ser "ásperos" consigo
mesmos, e (b) eles tendem freqüentemente a gravitar em torno de relacionamentos e meio ambientes
eles mesmos "ásperos". Esses fenômenos são explicados na teoria caracterológica pela hipótese da
auto-negação, consistente com as hipóteses de um certo número de teóricos do
relacionamento/interpessoalidade (p.ex., Fairbairn, 1974; Mitchell, 1988; Weiss & Sampson, 1986;
Winnicott, 1958, 1965). Pensa-se que o indivíduo imita as pessoas que cuidam dele e internaliza as
suas atitudes no self. Fairbairn (1974) sugere que essa internalização é especialmente importante
quando os objetos da criança são traumaticamente frustrantes ou "maus", porque ela tornará
inconscientes o objeto internalizado e a sua própria identificação com ele para escapar à dor. Assim,
um self internalizado e um modelo de relação self-outro tornam-se inconscientes, permeando desse
modo a experiência de self do indivíduo e as suas relações com os outros. Da mesma forma, ele
preenche as necessidades de relacionamento no contexto deste tipo de relacionamento negativo com
11
No original, harshness, áspero, ríspido. Como o termo não é empregado em português com referência ao meio ambiente
social, mas antes para designar uma sensação ou uma pessoa, optou-se por colocá-lo entre aspas quando o texto indicar
o primeiro caso.
o outro, e esboça os modos de auto-negação e soluções de compromisso surgidos no começo só
para este tipo de obstáculo interpessoal. Portanto, os padrões persistem nos dois planos, intra e
interpessoal.
É muito válido recorrer a uma experiência comum das expressões do caráter para comunicar algo
a seu respeito, por isso utilizo exemplos de filmes para ilustrar essas expressões sempre que
possível. No caso esquizóide, o personagem Conrad interpretado por Timothy Hutton em Ordinary
People é um exemplo de alguém na dimensão da neurose de caráter. O personagem de William
Hurt, Macon Leary, em Accidental Tourist, ilustra o retraimento social extremo de um distúrbio de
personalidade esquizóide bem adaptado, descontando-se a sua rápida recuperação ao apaixonar-se
por Muriel, interpretada por Geena Davis. A personalidade múltipla interpretada por Sally Field em
Sybil ilustra a dissociação que pode ser mobilizada para fugir da dor.
A psicoterapia de uma pessoa com um tema esquizóide gira em torno da projeção, assim como
da veracidade da "aspereza" do meio ambiente social, e em torno da aspereza consigo mesmo. As
pessoas com este tema tendem a ver aspereza onde não há, a ser persistentemente ásperas com elas
mesmas, e também a gravitar desnecessariamente em torno dos meio ambientes "ásperos" onde
preencheram as suas necessidades de relacionamento - ainda que de modo muito imperfeito - e onde
as suas defesas para enfrentar esta situação são apropriadas. Nos níveis inferiores do
desenvolvimento estrutural, há tipicamente uma história de trauma mais severo e prolongado. Há
uma extrema dificuldade para criar vínculo com o outro e a capacidade de dissociação e retraimento
é desenvolvida em alto grau. Nos níveis superiores do desenvolvimento, existe uma tendência para
um maior manejo e envolvimento social, e tendências concomitantes para a intelectualização e
espiritualização da vida. A ansiedade nas situações sociais, embora melhor compensada, está,
contudo, presente.
Na correlação verificada na clínica entre personalidade, constelação de sintomas e reconstituição
da história, os terapeutas enfatizaram com freqüência o papel do terror para explicar e dar
sustentação aos níveis muitas vezes extremos de dissociação e retraimento de tais indivíduos. O
exemplo mais dramático desses casos é o dos indivíduos que experienciaram o tipo de violência
física, abuso sexual e tortura sádica que conduz aos casos extremos de dissociação da personalidade
múltipla. Mas nós encontramos muitas vezes um terror dessa intensidade quando conseguimos
descobrir histórias bem mais benignas, se problemáticas. Não fica claro em muitos destes casos o
que aconteceu exatamente com o indivíduo, embora seja bastante concebível que a causa poderia
estar num incidente muito traumático reprimido e/ou num ambiente social cronicamente frio e árido.
De qualquer forma, os indivíduos esquizóides em todos os níveis do desenvolvimento estrutural
mostraram uma tendência quase que automática à dissociação - a não estarem atentos aos seus
sentimentos e desligados de pensamentos ou mesmo memórias visuais que possam perturbá-los.
Em algum grau significativo, esses indivíduos estão realmente desconectados de aspectos
significativos da sua experiência. Eles tendem, em especial, a isolar os seus sentimentos dos
pensamentos. Acredita-se que esta tendência de se separar da sua própria experiência os mantém a
salvo dos níveis de terror intenso que podem emergir à medida que abandonam essa estratégia
defensiva. Quando isto acontece, eles também têm acesso, via de regra, a uma boa quantidade de
raiva de retaliação, também mantida sob interdição através dessa habilidade para se separar da sua
própria experiência. Tipicamente, o tratamento de um indivíduo esquizóide envolverá não apenas a
descoberta e expressão desses sentimentos difíceis, como também alguma aprendizagem de
maneiras melhores para controlá-los. À medida que tudo isto acontece, o indivíduo se torna cada
vez mais capaz de ficar vulnerável com relação aos outros, ter acesso e estar em contato com
sentimentos verdadeiramente afetivos e provedores.
A terapia bem sucedida de uma pessoa esquizóide realmente envolve uma dessensibilização com
relação às pessoas, à intimidade, até a experiência de dependência do outro para a compreensão, a
harmonização, a compaixão e o amor. Ela também envolve atenuar o "companheiro evocado" hostil
(Stern, 1985) ou a internalização do outro áspero e do self hostil, retaliatório. Finalmente, um bom
resultado terapêutico com uma pessoa esquizóide envolve o desenvolvimento de necessidades
relacionais preenchidas num contexto de relação mais elevado, não no contexto do outro áspero,
indesejado.
Os erros terapêuticos com estes indivíduos giram, via de regra, em torno da temporização do
processo de dessensibilização com relação a sentimentos e pensamento dissociados, bem como com
relação a outras pessoas. Em um extremo, um terapeuta muito distante pode se misturar com o
esquizóide numa reconstrução muito intelectualizada ou numa terapia mecânica, comportamental,
abordando algum aspecto desse problema. No outro extremo do espectro, um terapeuta muito
orientado pelo sentimento pode apressar um cliente deste tipo, conduzindo-o a experiências afetivas
e sociais prematuras que o traumatizariam novamente, aprofundando desse modo a defesa da
dissociação. Com muita freqüência, esses clientes geram impaciência nos terapeutas, que falham na
avaliação da profundidade do nível de terror que está na origem da conduta refratária, inacessível.
A retaliação pelo progresso muito lento e inconstante destes indivíduos, se não for rapidamente
reparada, pode levar ao dobre de sinos da terapia. Para tratar o tema esquizóide, talvez mais do que
qualquer outro, o terapeuta precisa proporcionar no mínimo um ambiente de apoio potencial
enquanto, ao mesmo tempo, deve ser cuidadoso para não pressionar o cliente com mais
proximidade, intimidade ou compreensão que a sua estrutura vacilante consegue suportar. A
essência da psicoterapia necessária é a "experiência corretiva emocional", oferecida na terapia e
instrumentalizada fora dela.
Para cada tema ou estrutura de caráter, montei uma tabela resumindo algumas das características
centrais. Em cada resumo, fiz uso das seguintes categorias: (1) constelação etiológica, (2)
constelação sintomatológica, (3) estilo cognitivo, (4) defesas, (5) roteiro de decisões e crenças
patogênicas, (6) auto-representação, (7) representações e relações objetais e (8) características
afetivas. Embora essas afirmações resumidas estejam demasiadamente simplificadas e, em geral,
não discriminem a dimensão do desenvolvimento estrutural, achei-as muito proveitosas
heuristicamente. Elas são repetitivas em certos momentos, mas essa repetição é deliberada; em
parte, porque achei que a repetição era às vezes necessária para facilitar uma verdadeira
aprendizagem deste material, e também porque pontos de vista ligeiramente diferentes ou a escolha
especial das palavras podem ser bastante proveitosos clinicamente para acompanhar com maior
adequação um cliente específico.
Tabela 3
Caráter Esquizóide
3. Estilo cognitivo: Isolamento do pensamento com relação aos sentimentos, com um raciocínio
abstrato freqüentemente bem desenvolvido. As operações concretas dirigidas ao mundo físico
são muitas vezes desenvolvidas de modo precário. A inteligência "social" está freqüentemente
prejudicada.
5. Roteiro de decisões e crenças patológicas: "Eu não tenho o direito de existir. O mundo é
perigoso. Há algo de errado comigo. Se eu realmente deixasse as coisas acontecerem, mataria
alguém. Eu vou resolver tudo. As verdadeiras respostas na vida são espirituais e estão postas em
outra dimensão".
O Tema "Oral"
Na prática clínica, os problemas que giram em torno dos temas da necessidade, da dependência
e da gratificação da dependência são muito comuns, reforçando a utilização de denominações tais
como caráter "oral", distúrbio da personalidade dependente e co-dependente (vide Tabela 4). A
exemplo dos outros padrões caracterológicos aqui delineados, este também deriva da experiência
clínica com adultos. A teorização sobre o seu desenvolvimento resultou da combinação entre a
experiência clínica com esses indivíduos, envolvendo a reconstrução de suas histórias, e os dados
de desenvolvimento disponíveis (ambos naturalísticos e experimentais). Na formulação desta teoria,
sempre foi óbvio que os bebês pedem para ser alimentados quase que imediatamente depois do
nascimento e que a sua relação com o "alimento" pode muito bem tornar-se isomórfica na sua
ligação com a gratificação da necessidade em geral. Na teorização psicanalítica recente, enfatizamos
mais as necessidades interpessoais de relacionamento e harmonização mãe-bebê. Toda a pesquisa
do desenvolvimento é consistente na ênfase a esses aspectos, tornando a denominação "oral" um
pouco desatualizada, até pela especificidade da região física que sugere, mas ainda é apropriada se
entendida metaforicamente.
De qualquer modo, o que os profissionais encontraram repetidamente nestes pacientes que
apresentam problemas na "constelação da necessidade" é uma história marcada pela privação ou
pela falta de confiança na capacidade dos pais de suprir as necessidades. O paciente gravemente
"oral" dá a impressão de que, na verdade, nunca foi cuidadosamente alimentado com aquelas
provisões nutricionais e emocionais que todos os seres humanos necessitam. A linguagem corporal,
bem como as queixas apresentadas e os dados históricos tendem todos a confirmar essa impressão
de privação. Tentando reconstruir a imagem etiológica desses indivíduos, verificamos que as suas
defesas, do ponto de vista psicodinâmico, são antes de natureza primitiva, e que os seus
relacionamentos tem um caráter peculiar de altos e baixos, girando em torno da gratificação da
necessidade.
Ao procurar as origens desses padrões no desenvolvimento, sempre soubemos que crianças
pequenas precisam desde cedo de uma grande quantidade de atenção e sintonia; agora, a pesquisa
por observação documenta esses fatos como nunca havia feito antes (p.ex., Mahler, Pine &
Bergman, 1975; Stern, 1985). Clinicamente, também verificamos que pessoas com esses problemas
muitas vezes têm pais que, mesmo nos primeiros meses de vida do bebê, eram incapazes de suportar
o final do seu relacionamento. Podemos ver uma história de depressão, alcoolismo ou
circunstâncias extremas, que tornaram difícil a parentagem normal (p.ex., famílias com um só
provedor, estresse de guerra ou circunstâncias econômicas terríveis). Esse bloqueio ou frustração
pelo meio ambiente da dependência natural é, quase sem exceção, replicada pelo indivíduo, que
nutre problemas de dependência não resolvidos. Até naqueles indivíduos com essa etiologia que
parecem mais dependentes, percebe-se tipicamente a auto-reprovação da necessidade,
diferenciando-se da dependência mais “auto-sintonizada” do caráter simbiótico.
Nos indivíduos que alcançaram um nível mais alto de ajustamento, a percepção do processo de
auto-negação é habitualmente mais clara. As necessidades do indivíduo são tipicamente negadas
e/ou expressas de forma mínima. Na verdade, esses indivíduos experienciam com freqüência as
suas necessidades como se fossem alheias e erradas, e exigem de si estar extraordinariamente
privados antes que consigam percebê-las como legítimas. O processo de ajustamento nesses
indivíduos com um nível de funcionamento mais alto envolve freqüentemente uma grande
quantidade de cuidados para com os outros, como foi observado muitas vezes em filhos adultos de
alcoólatras. Esses mesmos indivíduos tendem com freqüência a assumir muito mais cuidados do
que realmente podem dar, essencialmente desmontando e falhando no cumprimento do nível de
gratificação que prometeram. É nestes momentos de prostração que as suas necessidades se tornam
tão grandes que precisam ser reconhecidas e supridas, pelo menos em parte. Mas, uma vez permitida
esta indulgência conquistada a duras penas (e freqüentemente culpada), o indivíduo voltará
rapidamente ao padrão de negação das próprias necessidades e à tentativa de preencher as dos
outros. Neste processo de ajustamento, acredito que há uma tentativa de: (1) manter contato com o
meio ambiente, essencialmente não-gratificante, (2) experienciar a gratificação da necessidade
vicariamente e (3) "fixar" os outros, de modo a que possam finalmente gratificar o próprio self.
Os dados de desenvolvimento - observacionais e experimentais - e a teoria Psicanalítica ratificam
este auto-bloqueio da necessidade e essas tentativas de alimentar o provedor insatisfatório muito
cedo. A pesquisa do desenvolvimento mostra que crianças pequenas respondem empaticamente à
aflição demonstrada por outros (Sagi & Hoffman, 1976; Simner, 1971), que os bebês se
condicionam precoce e rapidamente a experiências de alimentação frustrantes (Gunther, 1961) e
que bebês de cerca de dez semanas mostram respostas diferenciais à alegria, raiva e tristeza quando
essas são apresentadas pela mãe ( Haviland & Lelwica, 1987). Com cerca de três meses, as crianças
respondem diferencialmente à depressão de outra pessoa manifestada pela expressão facial e pelas
sugestões vocais (Tronick e al., 1982), por volta dos nove meses as crianças podem notar
congruências entre o seu próprio estado afetivo e a expressão afetiva observada num outro rosto
(MacKain e al., 1985) e demonstrar adaptação ao estado de espírito da mãe através do
emparelhamento intermodal (Stern, 1985) ; por volta dos 10 meses, elas têm a capacidade de
emparelhar respostas alegres e coléricas (Haviland & Lelwica, 1987). Mais ainda, Stern (1985)
apresenta dados que demonstram que a qualidade do apego com um ano é um "preditor excelente
de vários outros tipos de relacionamento até os cinco anos".
A teoria Psicanalítica postula um certo número de vicissitudes instintivas e estratégias defensivas
desenvolvidas precocemente, considerando o tipo de auto-negação e gratificação da necessidade
voltada para o outro apresentados pelos orais. Essas estratégias são: identificação, deslocamento,
reversão e voltar-se contra o self. Blanck e Blanck (1974), resumindo a teoria psicanalítica da
psicologia do ego, indicam que todas essas operações cognitivas se desenvolvem cedo e logo depois
das defesas mais primitivas de negação e projeção. Mais que isso, as crianças começam a exibir
respostas primitivas de prover os outros bastante cedo.
A posição do desenvolvimento caracterológico é que, uma vez bloqueado o "impulso" da
necessidade e instalados os compromissos e internalizações subseqüentes, essas soluções serão
bastante cristalizadas e resistentes à mudança, a despeito de experiências que potencialmente
possam alterá-las. Isto se deve ao fato de que, entre outras coisas, as necessidades relacionais foram
preenchidas através desses bloqueios e ajustamentos, e que estas manobras foram forjadas no
cadinho de uma privação dolorosa. A "crença patogênica" (Weiss & Sampson, 1986) ou o "roteiro
de decisão" (Berne, 1964) que subjaz a tudo isto inclui, via de regra, a idéia de que liberar o bloqueio
e experienciar a necessidade conduzirá a uma repetição dolorosa do desapontamento e da privação.
Mais ainda, o indivíduo acredita muitas vezes, embora de modo inconsciente, que, se falhar no
preenchimento das necessidades dos outros, também será abandonado. Outras crenças subjacentes
comuns são: "Eu não preciso. Posso fazer tudo sozinho. Eu me realizo dando e amando. Minha
necessidade é grande demais e esmagará os outros".
Como resultado deste modo insustentável, subnutrido e inumano de viver a sua vida, o caráter
oral está propenso a cair em estados muito colapsados. Isto inclui com freqüência a doença física e
a depressão. A doença física é comum porque o indivíduo está cronicamente subnutrido sob muitos
aspectos e, portanto, mais suscetível a todo o tipo de doença. Ficar doente também é uma forma
sancionada culturalmente de se obter nutrição, tanto dos outros quanto do self, e pode bem ter sido
a única circunstância em que a pessoa oral compensada pôde ser cuidada pelos seus pais. A doença
grave, em especial, é uma espécie de desligamento honorável das responsabilidades da vida adulta,
com freqüência esmagadoras, e contra as quais o indivíduo alimenta um ressentimento
inconscientemente.
A "doença emocional" da depressão pode ocorrer pelas mesmas razões e ser mantida em função
dos mesmos ganhos ou gratificações secundárias. É claro, a depressão também serve à função de
reprimir defensivamente a agressão, a hostilidade do oral e a mágoa muito mais intensa, embora
real, que ele sente pela privação e a conseqüente perda do self. Em qualquer caráter oral que até
alcance marginalmente uma compensação efetiva, existe um estado compensado justaposto a este
estado de colapso, com freqüência mais positivo, mas que pode muitas vezes ter uma guinada para
a elação, a euforia e, em casos extremos, para episódios maníacos. Em estados como esses, o caráter
oral compensado tende a exibir a super nutrição que proporciona aos outros, a assumir maiores
responsabilidades e ações independentes do que pode dar conta e fazer planos otimistas e
grandiosos.
O caráter oral é, via de regra, bastante grandioso na sua crença subjacente onipotente de que pode
suprir as necessidades dos outros, e essa grandiosidade oral atende a uma função defensiva. É nesses
períodos de compensação que o indivíduo toma especialmente poucos cuidados consigo mesmo, na
verdade preparando o colapso que se seguirá inevitavelmente. Todas as estruturas de caráter podem
mostrar uma justaposição daquilo que eu chamei alternadamente de self colapsado ou sintomático
e self compensado ou falso self. As duas expressões caracterológicas são manobras defensivas da
estrutura do self subjacente real, que mantém as solicitações arcaicas, reais e vulneráveis da criança.
Este modelo alternado talvez seja somente mais óbvio nas personalidades orais, que tendem a
apresentar um padrão aparentemente ciclotímico.
O caráter oral tipicamente também não está em contato com a sua agressão natural e a sua
hostilidade, considerável. Mesmo quando consegue identificar as suas necessidades, não é capaz de
mobilizar agressão de forma a alcançar o que quer ou organizar a sua vida de modo a que ela
realmente funcione. Como função do desenvolvimento do seu caráter, a natureza do caráter oral é
passiva, e ele habitualmente se torna mais passivo quando está ansioso. Em outras palavras, a
ansiedade não serve como sinal para mobilizar a agressão, mas tem uma natureza mais traumática,
aumentando a passividade. Afinal de contas, a criança obstada dependente acredita que realmente
cabe à outra pessoa o trabalho de cuidar dela. Enquanto ela puder defensivamente tomar conta dos
outros ou colapsar, não poderá tomar conta dela mesma. A agressão e a hostilidade freqüentemente
aparecem de modo residual através de uma espécie de irritabilidade crônica, tipicamente auto-
distônica, mas que o oral é, no entanto, incapaz de controlar plenamente. A irritabilidade é o canal
de escoamento da raiva pelo desapontamento crônico e pelo profundo ressentimento por ter que
esforçar-se para enfrentar a auto-suficiência e cuidar dos outros prematuramente.
A representação que o oral faz de si também segue esta polaridade compensação-colapso.
Alternadamente, a pessoa se percebe toda doadora, toda provedora e até toda poderosa na sua
capacidade de curar o mundo quando está no estado compensado, e, no estado colapsado,
defeituosa, impotente, prejudicada e esvaziada. Essa mesma polaridade é útil na observação e
compreensão dos relacionamentos do caráter oral, que tendem a ser caracterizados pela
dependência. A descrição do caráter oral compensado e a do co-dependente são virtualmente
indistinguíveis, embora o comportamento co-dependente possa derivar de outras soluções
caracterológicas. Todavia, em todas as personalidades orais, com exceção das mais bem
compensadas, os outros recebem freqüentemente a mensagem de que este indivíduo está realmente
atrás da sua própria gratificação por se colocar numa posição dependente. Essa mensagem pode
aparecer no olhar desejoso, no sentimento de estar sendo manipulado quando o oral colapsa ou na
transparência com a qual o oral nutre, solicitando até mais nutrição em retorno.
De uma forma ou de outra, mais cedo ou mais tarde, sentimos muitas vezes que, para a
personalidade oral, nada é suficiente, nunca, e que esta pessoa é realmente um saco sem fundo. E
há verdade nisso. As necessidades muito reais e legítimas do bebê, da criança e do adolescente não
foram preenchidas de verdade. Num sentido muito real, ele nunca poderá voltar atrás. O que foi
perdido anteriormente está perdido para sempre. Resolver isso é uma parte importante da
recuperação do oral, tanto quanto o é a sua percepção de que as necessidades humanas são legítimas
e podem ser preenchidas dentro dos limites reais dos relacionamento adultos.
A teoria caracterológica do desenvolvimento postula que a liberação do bloqueio e o abandono
do ajustamento removerão também o bloqueio à reação organísmica natural de raiva do outro que
o priva. É verdade que estar preso pela necessidade e raiva esmagadoras pode bem afastar os outros
e eliciar o abandono e a retaliação.
A terapia bem-sucedida do caráter oral está voltada para tudo isto e repara essencialmente a
relação do indivíduo com a sua própria necessidade, recuperando o direito de precisar; aprendendo
a discriminar as suas próprias necessidades e expressá-las; dessensibilizando o medo do
desapontamento, do abandono ou da rejeição a essa expressão; e legitimando a raiva muito natural
da frustração por ser um ser humano normal, que tem necessidades. Quando as necessidades são
realmente infantis e, em certo sentido, não podem ser preenchidas de fato, no presente, e é
necessário perceber e lamentar o fato. Mas, ao mesmo tempo, o indivíduo pode ter as suas
necessidades preenchidas mais do que jamais o foram. Eu disse muitas vezes a clientes com este
problema: "Você não pode obter tudo aquilo que realmente quer, mas pode obter muito mais do que
jamais teve". Até aqueles que são muito necessitados podem preencher grande parte daquelas
necessidades se empreenderem a tarefa apropriadamente. Negar as próprias necessidades, supri-las
vicariamente, somente sob colapso ou, alternadamente, expressá-las de uma forma carente e
insistente não está entre as estratégias que funcionam muito bem.
O caráter oral, quer seja compensado ou não, precisa aprender que as suas necessidades são
corretas. Se são exageradas, ele aceita isto honestamente, e deve perceber que elas não podem ser
preenchidas vicariamente, que podem existir relações pessoais fora da sua experiência histórica,
que as necessidades podem ser preenchidas de maneira recíproca, etc. Além do mais, ele precisa
experienciar, compreender e avançar nas suas próprias reações naturais à privação e cuidados não
confiáveis. Ele aceita a sua "raiva oral" honestamente, e o mesmo vale para a mágoa que experiência
a respeito daquela insuficiência e do medo, conseqüência natural de provedores sobre os quais não
pôde contar quando, literalmente, a sua vida dependia disso. O tratamento extensivo do caráter
esquizóide e do caráter oral foi tema do meu primeiro livro nesta série, Characterological
Transformation: The Hard Work Miracle (Johnson, 1985).
Tabela 4
Caráter Oral
1. Constelação etiológica: Os pais não são confiáveis ou não dão conta das necessidades da criança.
Com freqüência precisam de ajuda eles mesmos. A criança abandona a posição dependente antes
de ser satisfeita, permanecendo dessa forma cronicamente necessitada e dependente. Ela tenta
negar sistematicamente a dependência, que pode ser aparente ou compensada, mas sempre
condenada pelo self.
5. Roteiro de decisões e crenças patogênicas: "Eu não preciso; Posso fazer tudo sozinho. Eu me
realizo no amor e na doação. A minha necessidade é grande demais e vai esmagar os outros. Se
eu expressar as minhas necessidades, ficarei desapontado, abandonado ou rejeitado".
7. Representações objetais e relacionamentos: Cisão, com os outros vistos como figuras com mais
recursos, que podem suprir as necessidades, ou como fracas e incapazes de cuidar deles mesmos
e necessitados de gratificação. Esses indivíduos tendem a se relacionar como dependentes ou co-
dependentes. Quando a dependência do indivíduo é aparente, os outros sentem que nunca farão
o suficiente - que a pessoa nunca ficará satisfeita.
O Tema Simbiótico
Esse tema caracterológico gira em torno da separação da matriz de vida interpessoal, que cerca
a criança desde os primeiros dias. Stern (1985), cujo trabalho talvez seja melhor conhecido por
contestar o conceito de simbiose precoce de Mahler como uma ilusão universal nos primeiros meses
de vida, escreve da criança de um ano que “a maioria das coisas que o bebê faz, sente e percebe
ocorre em diferentes tipos de relacionamento... O bebê se engaja parte do tempo com parceiros
verdadeiros, externos, e com companheiros evocados quase o tempo todo. O desenvolvimento
requer um diálogo constante, habitualmente silencioso, entre os dois... Este sentido subjetivo de
“estar com” (intra e extrapsiquicamente) é sempre, no entanto, uma ação ativa de construção mental,
não um medo passivo de diferenciação.” (Stern, 1985, p. 118-119).
Toda a pesquisa de desenvolvimento revista anteriormente atesta o sentido social apurado da
criança pequena, sua sintonia e sensibilidade às contingências sociais. É por volta de um ano de
idade que a criança começa a desenvolver a habilidade de ficar de pé e andar. Essa última habilidade
lhe confere a capacidade de dar início à separação e se engajar na atividade autônoma, num nível
de longe mais elevado do que em qualquer circunstância anterior. O desenvolvimento da fala, que
também ocorre por volta desse período, introduz uma outra função individual muito poderosa,
autorizando a diferenciação no nível simbólico.
Mahler chamou o período entre os 10 e 15 meses de sub-fase de prática da individuação, e a
caracteriza como um período durante o qual a criança tem um caso de amor com o mundo e com as
suas próprias habilidades emergentes. É durante esse período que se observa a criança
perambulando bem mais longe dos pais, com uma apreensão muito menor do que antes e
relativamente impermeável a quedas e outras frustrações. É chamada prática porque a criança está
praticando essas habilidades novas, excitantes, que abrem novas oportunidades para experienciar o
mundo. A teoria do desenvolvimento caracterológico que adotei e desenvolvo aqui sustenta que
este é um período especialmente importante para o desenvolvimento da autonomia, principalmente
à medida que está relacionado com a aventura autônoma, a iniciativa e o desenvolvimento de um
sentido de atuação e eficácia pessoais.
A pesquisa experimental do desenvolvimento indica que, tão cedo como aos 12 meses, uma
criança olhará o provedor para detectar sinais que indiquem se os seus movimentos aventureiros
são perigosos ou seguros (Emde & Sorce, 1983). Incidentes precoces e, acredito, críticos, que
desencorajam a separação, a iniciativa e a aventura, ocorrem quando esses sinais parentais falham
quanto à direção do perigo, nas situações em que o provedor fica ameaçado por esta “prática” das
funções autônomas e esse exercício precoce do self, ou quando estes movimentos são punidos
ativamente porque são experienciados como controversos ou inconvenientes. Tais incidentes podem
ser até mais significativos durante o período de “reaproximação” subsequente, dos 15 aos 24 meses,
período este em que a pesquisa observacional mostra que a criança avalia particularmente as
implicações da sua separação, a vulnerabilidade e a dependência dos pais. É nesse período que
outros pesquisadores testemunharam um aumento na imitação de comportamentos sociais
convencionais (Kuczynski, Zahn-Waxler & Radke-Yarrow, 1987).
Se a criança nessa circunstância tem ou não a ilusão de simbiose ou fusão, quer por uma tendência
natural para fazer esse erro, à la Mahler, quer com base na sua habilidade para construir a realidade,
à la Stern, sua experiência é de envolvimento intenso, até mesmo de enrredamento com o outro.
Mas, com cerca de 12 meses, existe uma maior habilidade e um impulso para se mover de vez em
quando para fora dessa órbita simbiótica e se tornar ela mesma andando, falando, explorando, etc.
Quando esse impulso é bloqueado, a criança aprende que deve se restringir a si mesma nesses
aspectos e desenvolve um falso self comprometido, que mantém o contato com os pais através de
uma dependência e enrredamento contínuos. Isso conduz a um tipo de falso self em que, a exemplo
de todos os ajustamentos como esse, a identidade é encontrada na relação com o outro, às custas da
identidade estabelecida através do exercício das funções autônomas.
Levy e Bleeker (1975) delinearam os cinco passos do desenvolvimento do caráter para cada um
dos cinco caráteres clássicos descritos por Alexander Lowen. Reproduzi-os em Characterological
Transformation ( Transformação Caracterológica, 1985) com leves modificações e acrescentei um
perfil similar, que atribuí ao caráter simbiótico. Reproduzo esse último perfil aqui para melhorar a
compreensão do processo em geral e dessa estrutura em particular. Esse perfil (Vide Tabela 5) é
um resumo rápido daquilo que será discutido com maiores detalhes posteriormente neste livro.
A descrição e o esquema etiológico do caráter se aplicam a estruturas que vão desde o paciente
limítrofe de nível inferior, que experiencia estados de fusão extrema, pânico ou acting-out diante
de situações de abandono ou engolfamento, passam pelos neuróticos de caráter simbiótico, que são
extraordinariamente conflituados e atormentados quanto à sua responsabilidade exagerada e
obrigações para com os outros, e chegam naqueles cujo estilo de caráter é menos sujeito ao conflito
neurótico, mas que têm alguma dificuldade para encontrar ou se apoderar de sua identidade
autônoma, e que se definem excessivamente a partir das pessoas com as quais estão, em vez de se
definirem por aquilo que são verdadeiramente. Até nesse tipo de caráter mencionado por último,
que opera bem no mundo, encontra-se com freqüência um sentido limitado de self e atuação própria,
que pode se expressar na falta de preferências, gostos e habilidades verdadeiramente pessoais.
Embora possa haver um nível muito alto de competência e auto-expressão aparente, essas, com
freqüência, não são plenamente integradas num conceito de si mesmo unificado. Usando uma
linguagem mais técnica, o self é mais provavelmente formado através da incorporação dos outros
ou através da idealização ou identificação com os outros do que através de um processo mais
plenamente desenvolvido de internalização. Os conceitos de culpa de separação e culpa de
sobrevivência (Modell, 1965, 1971; Niederland, 1961; Weiss & Sampson, 1986) são muitas vezes
proveitosos no processo de libertação do caráter simbiótico.
Dentre os temas mais comuns da psicoterapia do caráter simbiótico está a permissão para a
expressão da agressão natural, que é uma parte central do processo de separação, assim como a
expressão da hostilidade natural que esses indivíduos alimentam, como resultado do bloqueio de
muitas formas de auto-expressão. Concomitantemente, a terapia habitualmente tem de lidar com o
medo natural, que será provocado à medida que o indivíduo começar a se separar da relação e da
identidade fundidas. Um tema de interpretação comum dessa estrutura envolve as muitas e
intrincadas formas através das quais a pessoa preserva a relação subjacente, original, com todas as
suas limitações.
Os afetos, comportamentos, cognições e sintomas desses indivíduos podem, freqüentemente, ser
melhor compreendidos pela sua função de preservação. Compromissos neuróticos, que autorizam
alguma expressão de autonomia mas, simultaneamente, a invalidam ou negam, são comuns.
A terapia bem-sucedida do caráter simbiótico envolve a quebra dos limites restritivos que fundem
o indivíduo e a sua identidade aos outros. É bem possível que seja necessário suportar a agressão e
a hostilidade na transferência e, nos casos de funcionamento estrutural mais alto, isso envolverá,
via de regra, simplesmente torcer pela manifestação dessa agressão e hostilidade, elaborando seu
repúdio a elas. Uma terapia bem-sucedida também envolverá a erosão do repúdio a qualquer sentido
verdadeiro de self autônomo que tenha se desenvolvido. Finalmente, à medida que um self
verdadeiro deve ainda encontrar a sua expressão verdadeira e receber um apoio harmonizado, esta
construção do self deverá ocorrer e, à medida que a internalização verdadeira de habilidades
relevantes, tais como a auto-satisfação, a imposição responsável de limites, etc., não tiverem sido
adquiridos, esse processo de internalização também deverá ser iniciado e apoiado. Em geral, nos
níveis mais baixos do desenvolvimento do ego, haverá um período mais longo de terapia voltado
para esse auto-desenvolvimento. Em níveis mais altos de desenvolvimento, haverá mais self
verdadeiro disponível para ser apropriado, e uma proporção maior das tarefas terapêuticas se
centrará em realizar essa apropriação, dispersando crenças inconscientes, patogênicas, que têm a
ver com obrigações e responsabilidades excessivas, e erodindo compromissos neuróticos que
expressam ainda a negação do verdadeiro self.
Tabela 5
A Etiologia Simbiótica
O Tema Narcísico
Caráter Narcisista
1. Constelação etiológica: Os pais exercem uma catexia narcísica sobre a criança e desautorizam
a catexia narcísica legítima da criança dirigida a eles. A criança é usada para espelhar,
engrandecer ou preencher as ambições e ideais de um dos pais. O esplendor e a
vulnerabilidade verdadeiros da criança não são suportados simultaneamente. Ao invés disso,
os pais precisam que a criança seja mais do que ela é para a sua auto-satisfação e a idealizam,
ou precisam dela para ser menos do que é e a humilham - ou as duas coisas. Isto resulta numa
ferida profunda à experiência do verdadeiro self, e um conseqüente déficit na regulação da
auto-estima. O sistema natural de feed-back e correção, que afeta o equilíbrio das ambições,
ideais e habilidades, não consegue amadurecer, de modo que as ambições e os ideais
permanecem grandiosos, enquanto o feedback corretivo negativo sobre as habilidades precisa
permanecer rigidamente repudiado.
2. Constelação sintomatológica: O indivíduo abriga um falso self grandioso, caracterizado por
onipotência, orgulho, auto-envolvimento, empáfia, perfeccionismo e dependência excessiva
do sucesso para manter a auto-estima, com manipulação, objetificação e desvalorização dos
outros. Quando esse falso self compulsivo se esfacela, o indivíduo mostra uma grande
vulnerabilidade à vergonha ou humilhação, sentimentos de nulidade, dificuldade para agir e
inibição no trabalho. Esta depressão, dominada pela baixa auto-estima, pode se fazer
acompanhar de preocupações hipocondríacas, doenças psicossomáticas, ansiedade e solidão.
Uma crise até mais profunda do verdadeiro self abrange o enfraquecimento e a fragmentação,
o vazio, o retraimento e o pânico frente a realidade de um desenvolvimento interrompido; e a
supressão, por longos períodos, de afetos verdadeiros, relacionada às feridas narcísicas
originais.
3. 4. Estilo cognitivo e defesas: No estado grandioso, de falso self, o narcisista exibe erros
cognitivos que manterão a grandiosidade, como por exemplo a externalização da
responsabilidade (isto é, criticando os outros), a negação de um input negativo, o repúdio dos
seus próprios atributos negativos, a desvalorização das contribuições positivas dos outros, a
identificação irrealista com pessoas idealizadas, etc. No estado sintomático ou em crise, há
preocupação com os sintomas, uma avaliação do próprio valor, sintomas físicos, repúdio ou
outras preocupações que mantém à margem as exigências e afeições do verdadeiro self
subjacente. A cisão mantém esses dois estados separados e não integrados. Ao sentir o seu
verdadeiro self, o narcisista sempre experiencia pelo menos alguma desorganização,
vulnerabilidade e afetos não familiares, porém vitais. Nesse momento, o indivíduo pode sentir
que está perdendo a cabeça, mas, se este estado for manejado corretamente, é nesse momento
que ele começa a se encontrar.
4. Roteiro de decisões e crenças patogênicas: “Devo ser onipotente, perfeito, especial. Devo
saber sem aprender, conquistar sem trabalhar, ser Todo-Poderoso e admirado universalmente.
Não devo cometer um erro ou não terei valor, serei um nada, um ser repugnante. Devo ser um
deus ou não serei nada. Se for vulnerável, serei usado, humilhado ou envergonhado. Não posso
deixar ninguém ser realmente importante para mim. Tudo o que possuo, incluindo meus
amigos e família, deve refletir e confirmar a minha perfeição e superioridade. Nunca serei
humilhado novamente. Os outros são superiores a mim. Os outros são inferiores a mim.”
5. Auto-representação: Cisão - grandioso ou nulo, como foi descrito acima.
6. Representações e relações objetais: As representações objetais são melhor entendidas usando
as quatro transferências básicas sugeridas por Kohut: (1) Consolidação, em que o indivíduo
ganha um sentido de segurança e valor através da fusão. Aqui, o indivíduo usará o outro
livremente, sem reconhecer o verdadeiro limite entre ele e o outro; (2) Acoplamento, em que
o indivíduo melhora seu sentido de identidade e valor pessoal assumindo uma similaridade
exagerada entre o eu e o outro; (3) Espelhamento, em que o indivíduo se relaciona com o outro
apenas como aquele que melhora a sua auto-estima, servindo como um “objeto parcial” que
o preza, compreende, reconhece; e (4) Idealização, em que o outro melhora a coesão e a
estima internas sendo perfeito em um os mais aspectos e servindo como uma fonte de
emulação. A idealização também pode servir para criar a percepção do objeto perfeito de
consolidação, acoplamento ou espelhamento. Os outros se sentem tipicamente usados pelo
narcisista mas, se ele for eficaz no seu falso self, serão atraídos pelo seu carisma e talento. O
uso dos outros para descobrir o verdadeiro self, em vez de engrandecer o falso self, é essencial
no amadurecimento dos relacionamentos do narcisista.
7. Características afetivas: Os narcisistas são freqüentemente notados pela qualidade de “como
se” ou artificial dos sentimentos, a falta de habilidade para sentir pelos outros, e o seu orgulho,
ferido com extrema facilidade. Nos níveis mais baixos do desenvolvimento do ego, há uma
grande intolerância pela maioria dos sentimentos, embora mantenha sob controle um alto nível
de capacidade de resposta afetiva. São comuns a vergonha e a humilhação geradas no silêncio.
O Tema Masoquista
O masoquismo envolve o tema do controle (vide tabela 8). Como sugeriu Lowen (1958), pode-
se obter uma compreensão dessa estrutura simplesmente imaginando o que um animal como um
cachorro ou um gato fariam se fossem forçados nos processos naturais de assimilação e eliminação
de alimento. Por mais dócil que o animal possa ser, a intrusão nessas respostas organísmicas naturais
elicitaria indubitavelmente respostas agressivas fortes e, se essa intervenção altamente intrusiva
continuasse e houvesse eventualmente uma eliminação das respostas agressivas, pode-se imaginar
as conseqüências altamente patológicas para o animal. Este é, muitas vezes, o caso do masoquista
humano, cuja história é freqüentemente repleta de intrusão, controle e subjugação humilhante da
vontade.
Lowen (1958) relata as seguintes lembranças históricas de um dos seus clientes masoquistas:
“Na minha cabeça, quando olho para trás, não é que eu não comesse muito, mas não comia o
suficiente. Minha mãe forçava quantidades enormes de comida dentro de mim... Lembro-me de
mim com três ou quatro anos correndo ao redor da mesa da cozinha, minha mãe correndo atrás de
mim com uma colher de alguma coisa que eu não queria numa mão e um cinto na outra, ameaçando
bater em mim, o que ela fez com freqüência. .. Uma das piores coisas que minha mãe fez foi ameaçar
me abandonar ou subir no telhado e pular e se matar se eu não terminasse meu prato. Ela realmente
costumava subir do apartamento para o corredor, e eu caia no chão chorando histericamente.”
Com relação aos “temas da higiene”, recordava o mesmo cliente, “Minha mãe me forçava, sob
pena de me bater, a sentar na privada por uma ou duas horas e tentar “fazer alguma coisa”, mas eu
não podia. Esse mesmo cliente relembra que, depois dos dois anos de idade, ele estava constipado
e sua mãe inseriu um dedo no seu ânus, estimulando-o. Ele recebeu enemas freqüentes até os sete
anos e foi atormentado por laxativos de gosto horrível (Lowen, 1958, pp. 196-197).
A necessidade ou disposição inata do indivíduo para exercer algum controle sobre essas funções
corporais parece óbvia, assim como a natureza da resposta inata à sua frustração excessiva. De
acordo com Reich, Lowen e os analistas contemporâneos, o caráter masoquista é o resultado desse
tipo de intrusão e controle implacáveis, que se expressa muita naturalmente mais amiúde nas
tentativas dos pais de socializar a criança, mas nem sempre só nos processos muito básicos de
assimilação e eliminação de comida. Em casos tão sérios quanto o que acabei de citar, podemos
assumir que essas tendências parentais intrusivas se expressaram bem cedo e continuaram pela
infância afora e depois dela. O que é muitas vezes crítico na compreensão do masoquismo é o
momento em que a criança capitulou - o momento em que a vontade foi quebrada. É nesse ponto,
quando a auto-negação se expressa como um bloqueio auto-imposto contra as reações organísmicas,
que ela se impõe mais plenamente. Penso que isso se deve ao fato de que muitas análises do caráter
encobriram essas lembranças de intensas batalhas pais-criança antes dessa capitulação. Assim, a
formação dessa estrutura é percebida muitas vezes como situada no segundo ano de vida ou depois.
O quadro clínico invocado para resumir e explicar esse rótulo de caráter é representado por
indivíduos vistos como gente que sofre o tempo todo, auto-depreciativa, auto-fracassada e com
freqüência auto-torturada, que parece ter necessidade de sofrer e, no seu sofrimento, torturar os
outros. Há, nessas pessoas infortunadas, um forte tendência para se lamentar, uma ausência crônica
de alegria e o tipo de estase crônica no comportamento e na atitude, intitulada por Reich como “o
pântano ou atoleiro masoquista”. Essa imobilidade desesperançada é altamente frustrante para
qualquer pessoa que tente ajudar. Os outros experienciam habitualmente o sentimento de fracasso
diante dessa pessoa sem esperança, desamparada, que não pode ser ajudada, e sentem a sua agressão
passiva subjacente.
É como se a raiva intensa contra a intrusão se voltasse contra o self, conduzindo a uma restrição
da expressão. Nesses indivíduos, há uma falta notável de confiança nos outros, e essa falta de
confiança se expressa por uma falta de esperança em si mesmo e, nesse sentido, no mundo.
Relacionada a essa dinâmica está a “reação terapêutica negativa” freqüentemente observada nesses
indivíduos tal que, à qualquer melhora segue-se rapidamente uma recaída. Esse retorno ao
sofrimento pode ser entendido tanto como uma expressão da descrença subjacente, um modo de
justificá-la e uma retaliação rancorosa contra a pessoa que o ajuda, pessoa essa que, por estar no
papel mais poderoso, é associada do provedor que fere.
O negativismo limitador do masoquista é extremamente virulento. Soltar esses vínculos,
realmente pedir a ajuda do outro, aceitar essa ajuda e até gostar dela é algo que ameaça seriamente
uma estrutura agregada por uma grande quantidade de energia conflitante. Se abrir para a confiança
e a esperança abre a possibilidade de ser logrado, humilhado e esmagado novamente. A resistência
a tudo isso é enorme e é reforçada pela fixação do indivíduo ao self e ao “mau objeto”, forjados no
cadinho de toda essa dor. Assim, o cliente masoquista volta com freqüência à posição
enlouquecedora de carregar seu sofrimento, onde as queixas e a auto-depreciação são dirigidas a
quem quer que o ajude ou ofereça um suporte verdadeiro para sua saída do inferno desse “sistema
fechado de realidade interna” particular (Fairbairn, 1958, p.381).
É nesse sentido que as pessoas sentem, de modo geral, que o masoquista guarda ressentimento
ou despeito, o que não está muito longe da superfície de sua natureza auto-apagada e agradável. De
fato, pensa-se que esse padrão - representado na terapia pela reação terapêutica negativa - serve para
provocar a retaliação e a hostilidade do outro, justificando a descrença e, quando essa retaliação é
suficiente, servindo para aliviar a expressão da agressão e da hostilidade contidas da pessoa
masoquista. Como uma surra no contexto sexual, não é a surra em si que se deseja, mas a
intensificação da carga física, provocando um alívio sexual que, esse sim, é realmente satisfatório.
E é alívio que a pessoa masoquista mais deseja - uma alívio não só da hostilidade enclausurada
como também dos impulsos de expressão de amor e carinho controlados excessivamente. Ainda
assim, é o alívio que abre a estrutura masoquista e tira o desencorajamento e desesperança da
posição original. A compreensão reciclada e progressiva desse padrão se constitui no tema principal
do tratamento do masoquista. O prazer é um pecado, a crença deve ser desacreditada, a esperança
conduz ao desapontamento. Se você esperar pelo pior, não será desapontado ou, pior ainda,
enganado.
Parece que essa estrutura pode ser relativamente menos prevalecente atualmente do que já o foi,
com certeza no Oeste dos Estados Unidos. Este tipo de parentagem muito intrusiva, dominante e
punitiva, pode bem ter sido mais comum em gerações anteriores, em que o treinamento da higiene
era mais valorizado, as mulheres tinham menos formas de auto-expressão, etc. As pessoas que
trabalham com mulheres maltratadas e que passaram por incesto relatam terem visto muitos dessas
atuações, mas há motivos para acreditar que essa estrutura, na sua forma predominante e severa,
pode estar minguando na população, em geral.
Seja qual for a validade desta especulação, eu certamente vi relativamente poucos casos de
patologia masoquista bem delineada, severa. Vi antes um certo número de casos em que o tema
central parecia ser simbiótico, mas a identidade adotada replicava o ajustamento mais masoquista
de um dos pais - principalmente da mãe. Penso que a compreensão do tema masoquista é importante
não apenas por si só, mas também para o tratamento de muitos indivíduos simbióticos, porque é
com esse tipo de provedor que o fenômeno da culpa da separação e da culpa da sobrevivência pode
ser bastante preeminente. É muito difícil usufruir a vida quando a matriz é um provedor masoquista.
Embora esse provedor possa ter a consciência de não exercer na prole o mesmo tipo de maltrato
que sofreu, a auto-tortura masoquista é torturante para os outros - principalmente para a prole, que
tem uma tendência em assumir a responsabilidade pelo sofrimento de seus pais. Em vista disso, é
importante, no processo diagnóstico, distinguir entre o processo de ajustamento caracterológico,
que é essencialmente simbiótico na sua natureza (acredito que mais prevalecente nos nossos
tempos), e os distúrbios realmente masoquistas, que provêm tipicamente de uma etiologia invasiva
mais severa.
Uma terapia bem-sucedida com um cliente masoquista deve envolver um terapeuta que não seja
irrevogavelmente pego na teia do fracasso e desencorajamento reiterados que motivam geralmente
qualquer retaliação de quem está procurando ajudar. Um terapeuta que possui uma compreensão
abrangente do tema masoquista e espera esse curso de eventos provavelmente ficará longe de levar
essa reação para o plano pessoal e reagir do modo habitual. Essa mesma compreensão analítica
também ajudará o cliente, é claro. As duas partes podem ser bastante auxiliadas revendo as muitas
circunstâncias similares em que houve ajudantes derrotados no passado. Essas análises históricas e
contemporâneas serão muito proveitosas quando elicitarem a hostilidade e descrença subjacentes
do masoquista com relação ao ajudante. Como assinalou Fairbairn (1974), é com esses clientes, que
mais exemplificam a “reação terapêutica negativa” e que conduziram Freud a formular a hipótese
do “instinto de morte”, que a teoria dos maus objetos internalizados, inconscientes, pode ser
constatada mais facilmente.
Nesses casos, o terapeuta é necessário para ajudar a aliviar aquelas forças internas negativas da
repressão, enquanto as interpreta como conseqüências naturais da intrusão, invasão e repressão das
inclinações saudáveis do indivíduo. Ao mesmo tempo, o terapeuta deve oferecer um relacionamento
verdadeiro e bom para substituir a realidade interna fechada do cliente, que contamina todas as suas
interações com os outros. Para citar Fairbairn (1974, p.74), “o apelo do objeto bom é um fator
indispensável na promoção da dissolução da catexia dos maus objetos internalizados, e ... o
significado da situação transferencial deriva parcialmente desse fato.”
Os desafios terapêuticos (Weiss & Sampson, 1986) do masoquista podem ser árduos, porque ele
torce eloqüentemente para que o percebam desesperançado, inferior e merecedor de retaliação. O
terapeuta descobrirá que vencer os desafios , e pode haver muitos, se torna muito mais fácil quando
ele entende o eu interno e as estruturas objetais do masoquista e, consistentemente, suportivamente,
se recusa a se tornar uma de suas partes integrantes.
Tabela 8
Caráter Masoquista
1. Constelação etiológica: Pais voltados para o controle, dominadores, são intrusivos e invasivos
dos limites apropriados. Essa experiência de ser subjugado, que acontece freqüentemente em torno
da absorção e eliminação do alimento pela criança é finalmente recapitulada pela subjugação dos
próprios impulsos agressivos, hostis e retaliatórios do indivíduo. Para manter o contato e receber
o apoio necessário, o indivíduo em geral uma personalidade queixosa e servil, que pode apresentar
com freqüência desempenhos passivo-agressivos fora de sua percepção.
2. Constelação sintomatológica: O sofrimento permanente, a auto-tortura, a auto-depreciação e a
auto-derrota sugerem com freqüência uma “necessidade de sofrer”. A depressão crônica imóvel,
que foi denominada de “pântano ou atoleiro masoquista”, é comum. A limitação da auto-
expressão é acompanhada de desesperança, descrença e comportamento passivo-agressivo. Na
terapia, a resistência de natureza passiva e a “reação negativa terapêutica” são mais comuns e
óbvias do que em muitas outras estruturas. Os resíduos da considerável energia vital do
masoquista com freqüência parecem existir apenas à sua revelia, já que é firmemente limitado. As
dificuldades interpessoais descritas anteriormente são comuns.
3. Estilo cognitivo: Cognição perseverante, sem imaginação, carregada. A depressão crônica, de
baixo grau, embota o funcionamento cognitivo. Há uma expectativa do pior e uma descrença do
positivo na vida.
4. Defesas: Negação, projeção e rejeição, particularmente da agressão e da hostilidade, identificação
com o agressor, formação reativa e contenção crônica na musculatura de impulsos inaceitáveis ou
desacreditados.
5. Roteiro de decisões e crenças patogênicas: “Eu desisto. Serei bom. Nunca me darei por vencido.
Mostrarei a você. Posso punir você refreando nós dois. A privação vai te machucar mais do que
me machuca.”
6. Auto-representação: O indivíduo experiencia a si mesmo como sendo obrigado a servir e
tentando sobreviver a essa obrigação. O paciente masoquista é habitualmente consciente de sua
falta de espontaneidade, da dificuldade de seu movimento agressivo e seu estilo de vida,
comparativamente empatado e não inspirador. Com freqüência, ele deseja mais aventura,
libertação, etc., mas não parece dispor de energia para conquistar isso, ou argumentará que
simplesmente não sabe como. No entanto, ele percebe a sua habilidade para suportar a dor e a
privação como uma qualidade admirável.
7. Representação e relações objetais: O masoquista busca fazer contato com os outros servindo-os
e se queixando. Mas o serviço que presta é contaminado pela sua qualidade de sofrimento, pela
ausência de alegria, que induz à culpa, e o lamento, que traz atenção e sugestões, nunca cessa.
“Por que você não..., sim, mas...” é um jogo masoquista típico. Através dessas ações e outras
manobras passivo-agressivas, o masoquista provoca retaliação e pode então obter ocasionalmente
algum alívio do rancor confinado como resposta. Em particular, o masoquista pode ser visto como
o indivíduo que se priva de prazer para punir os outros, privando-os de prazer. Já que o masoquista
está acostumado a essa forma de privação (isto é, do prazer), ele tolera isto melhor que a maioria,
e não parece estar se punindo tanto quanto pune o outro. Intrapsiquicamente, os outros são vistos
como aqueles que devem ser servidos às suas custas. Inconscientemente, os outros são o objeto
de uma grande quantidade de hostilidade confinada, que pode se exprimir apenas passivamente,
a não ser que seja extremamente justificada.
8. Características afetivas: afeto restrito, abafado, tingido de depressão. A culpa diante de fracassos
no cumprimento das obrigações é comum. O indivíduo está sem contato com os sentimentos
agressivos ou hostis, mas os outros podem bem se dar conta deles. O masoquista sente com
freqüência que ele é vítima dos outros ou da própria vida.
CAPÍTULO 4
Temas Caracterológicos do Self no Sistema
A maioria das histórias de mulheres histriônicas na literatura está cheia de mães rígidas, frias e
rejeitadoras e pais sedutores, emocionalmente infantis. O seguinte caso (Horowitz, 1989) é
arquetípico:
“A mãe da Srta. Smith era rígida e moralista. A sua família achava que ela era triste e apresentava
muitas vezes depressão. Devotada à Igreja Católica, ela trabalhava no comitê de pornografia e se
preocupou toda a vida com o decoro social... O senhor Smith era incomum... uma das suas maiores
excentricidades era o nudismo. Ele insistia em praticar nudismo pela casa, inclusive tomava seu
café da manhã pelado. Ele assumia a função de despertar cada filha e deitava-se despido nas suas
camas em cima das cobertas até que elas levantassem. No começo de sua adolescência, isto
embaraçou e transtornou tanto a paciente que ela suplicou à mãe que o fizesse parar. Sua mãe teria
chorado e alegado que era impotente... Embora o pai repreendesse abertamente a filha mais velha
pelo seu comportamento sexual, se interessava veladamente e implicava com detalhes. Mais tarde,
quando a Srta. Smith estava na faculdade, ele queria visitá-la para flertar com a sua arrumadeira.”
(Horowitz, 1989, pg. 202-204)
Paul Chodoff (1978) relata outro caso típico de personalidade histriônica:
“Produto de um meio familiar de riqueza e elevada posição social dos dois lados, O. viveu com
a sua mãe - que percebia fria, distante e não doadora - depois que os seus pais se divorciaram,
quando tinha cinco anos. Seu pai agradável, “perfeito”, tornou-se o foco de seus desejos e fantasias,
os verões passados com ele o ponto alto de sua vida. Durante essas visitas, ela relatou episódios em
que acordava encontrando o seu pai ao lado da cama roçando suas costas por baixo da camisola.
Em sua vida, por duas vezes O. esteve em vias de alcançar alguma autonomia - como estudante
universitária de dezenove anos e, mais tarde, cuidando dela e dos filhos depois do fracasso do
primeiro casamento. O primeiro período foi encerrado por uma convocação do pai para voltar para
casa e terminar a faculdade morando com ele; e o segundo, pela promessa do atual marido de que a
socorreria e cuidaria dela totalmente.”
Nesses casos, o isolamento com relação à mãe e a relação especial com o pai, sexualmente
carregada, persistem freqüentemente por um bom tempo na vida adulta, com uma dependência
prolongada da filha com relação ao pai, avanços sexuais inadequados ou uma interação tinta de
sexualidade ocorrendo entre eles. Esses pais fazem coisas como estas enquanto compartilham de
suas vidas íntimas com as filhas, contam piadas apimentadas, sedutoras, ou mantêm símbolos
românticos de um relacionamento especial, mais apropriados a namorados do que a uma relação
pai-filha.
Semelhante às famílias em que o abuso sexual da criança vai muito além, a família do histriônico
é caracterizada pela negação e pela racionalização. Claro que a criança modela estas estratégias,
que protegem cada membro da família de se defrontar com a desconfortável realidade de suas
existências juntos. A criança, pêga no meio desse drama incestuoso, deve muitas vezes ir mais além
para se distanciar de todas as emoções e pensamentos esmagadores. Isto, então, pode conduzir
àquilo que Shapiro (1965) denominou de “estilo cognitivo impressionista do histriônico”, em que
há uma “incapacidade para a concentração intelectual persistente ou intensa”, uma “distraibilidade
ou impressionabilidade que se segue a ela” e um “mundo não factual em que vive a pessoa histérica”
(Shapiro, 1965, p. 113). Essa orientação cognitiva mais global se faz acompanhar por uma
superatividade emocional, que pode ter o papel de uma defesa afetiva e que, freqüentemente, serve
para coagir o ambiente a assumir a responsabilidade por ela e perpetuar a dependência.
As pessoas histriônicas freqüentemente vêem a elas mesmas como crianças e entram em relações
nas quais brincam de “bonequinha” do “papaizão”. As mulheres histriônicas muitas vezes gravitam
em torno de homens mais velhos que possam tomar conta delas, replicando a relação pai-filha, em
que o tomar conta é trocado por uma espécie de fator sexual. A conversão histérica foi identificada
primeiro por Breuer e Freud pelas suas reações de conversão, que eles relacionaram tipicamente
com a “belle indifférence”, ilustrando o seu estilo cognitivo e ressaltando o propósito defensivo
subjacente do sintoma. Episódios dissociativos também podem ocorrer quando o estresse é forte
demais para ser manejado com mecanismos de defesa mais adaptativos.
Os relacionamentos dos histriônicos, como o seu pensamento, são freqüentemente superficiais e
têm uma qualidade de “como se”, em que parece que a pessoa está representando um personagem.
Também há uma forte hostilidade inconsciente subjacente contra o sexo oposto que, na superfície,
é tão valorizado. Os seus relacionamentos são marcados por uma característica repetitiva, como um
jogo, em que à sedução sexual segue-se ora uma submissão sexual a uma força maior, ora a raiva,
o insulto ou uma rejeição vigorosa. Um outro sintoma dos relacionamentos é a cisão entre os
parceiros que estimulam o incitamento sexual e aqueles que estimulam uma afeição mais sincera.
Essa cisão, em que as necessidades sexuais e afetivas podem ser satisfeitas, porém somente se forem
isoladas umas das outras, protege o indivíduo de entrar na situação original vulnerável em que foi
ferido.
O tratamento bem-sucedido da personalidade histriônica demanda uma relação humana genuína,
em que todas as manobras afetivas, comportamentais e cognitivas usadas para evitar pensamentos
e sentimentos proibidos e a intimidade temida sejam lentamente dissipados. A pessoa histriônica
precisa conhecer seus impulsos sexuais e competitivos, sua história de ter sido explorada e privada
de amor e sua hostilidade, resultante dessa exploração e dessa privação. Ela precisa reaprender como
abrir seu coração, ser real e vulnerável e amadurecer sexualmente e nos relacionamentos. Mais do
que isso, ela precisa abandonar a informação falsa do falso self histriônico e o investimento no seu
gosto particular pelo perfeccionismo, e reinvistir essa energia em reivindicar o seu direito inato ao
amor profundamente sentido e sexual. Finalmente, ela precisa amadurecer nos seus relacionamentos
com outras mulheres, de modo a que a competição não seja dominante nem negada na sua
experiência, mas se torne simplesmente uma inclinação humana evoluída.
Como em qualquer outra estrutura, a histriônica trará “desafios” que encorajam o terapeuta a se
tornar uma figura participante no “sistema fechado de realidade interna”. Quando esse gambito
acontece, os terapeutas são seduzidos quer sexualmente, quer num “cuidar” inadequado e
antiterapeutico e em papéis de autoridade, que perpetuam o ajustamento existente. O caráter
histriônico derivado de uma situação edípica foi resumido na Tabela 9.
Tabela 9
Caráter Edípico
Histriônico
1. Constelação Etiológica: Pelo menos um dos provedores explora a sexualidade natural e usa a
criança como objeto sexual. O outro provedor é muitas vezes frio, distante ou diretamente
punitivo, particularmente no que diz respeito à sexualidade e/ou a competição, ou é visto assim
em função da culpa e projeções associadas da criança.
2. Constelação sintomatológica: Reatividade demasiadamente emocional, comportamento
exibicionista e dramático, relacionamentos sexualizados com negação da sexualidade, experiência
emocional superficial, processos de pensamento globais e imprecisos, atenção excessiva dirigida ao
sexo oposto, reações de conversão, episódios dissociativos, alta propensão ao acting-out , altamente
distraído, com dificuldade para sustentar a concentração, dificuldades sexuais - incluindo dificuldade
para se excitar, síndrome pré-orgástica, dismenorréia, ejaculação retardada ou prematura, orgasmos
insatisfatórios (superficiais), etc.
3. Estilo cognitivo: Processos de pensamento globais, não lineares e predominantemente emocionais,
que servem para manter os afetos e pensamentos “perigosos” fora da percepção. O pensamento é
com freqüência mais visual e impressionista, resultando em julgamentos rápidos e superficiais a
respeito do significado de eventos, idéias e sentimentos e numa ausência de detalhes fatuais e
discriminação baseada na realidade.
4. Roteiro de decisões e crenças patogênicas: “O sexo é ruim. A competição e a rivalidade são
ruins. Meu valor depende da minha sexualidade e do meu poder de sedução. Toda a gratificação
provém do sexo oposto. Não posso amar, ser sexual, ser competitivo, preciso ser mais atraente.
Se eu sentir amor plenamente: 1) serei explorado ou rejeitado, 2) ferirei meus pais, ou 3) sentirei
vergonha.”
5. Defesas: Negação, repressão, acting-out, conversão, dissociação, externalização, pensamento
global e impressionista.
6. Auto-representação: Imprecisa e fluída, com o auto-conceito tendendo a se apoiar mais na
aparência, na aceitação social e nas experiências imediatas do que em realizações e outras bases
mais estáveis.
7. Representações e relações objetais: Relacionamentos freqüentemente sexualizados, impulsivos
e caracterizados por comportamento superficial de “troca de papéis”. Os indivíduos do sexo
oposto são extraordinariamente importantes conscientemente, mas inconscientemente são alvo
de uma hostilidade considerável, expressa muitas vezes depois de ter sido criada alguma desculpa
estereotipada. Há, via de regra, uma competição inconsciente com relação aos membros do
mesmo sexo. Temas de vitimização e relações provedor-criança desamparada são comuns em
relacionamentos muitas vezes repetitivos, “semelhantes a um jogo”12.
8. Características afetivas: Afetos superficiais, “como se”, demasiadamente dramáticos. Um alto
nível de titilação sexual com uma ausência de sentimentos sexuais profundos e maduros. O
indivíduo pode facilmente ser esmagado por estados afetivos, com pensamentos bloqueados ou
muito controlados por experiências impressionistas e afetivas. Há uma tendência para o acting-
out como resposta a sentimentos. Sentimentos hostis e competitivos não são conscientes, mas
são expressos em interações repetitivas, “como se fosse um jogo”.
O obsessivo-compulsivo
12
No original, “gamelike”.
David Shapiro (1965) me ajudou a entender esse distúrbio enfatizando o papel de uma volição
ou vontade distorcida, dirigida ao controle e a prescrição do que não pode ser prescrito ou
controlado, como os instintos, os interesses espontâneos e os afetos, por exemplo. Nas palavras de
Shapiro, “a orientação intencional foi distorcida do seu significado mais subjetivo enquanto
extensão e, por assim dizer, representação do próprio querer, para assumir uma posição de
precedência sobre as vontades, até para dirigi-las. O impulso, nessa ordem de coisas, não é o fator
desencadeante do momento pleno de orientação intencional e do esforço, mas o seu inimigo.” (p.37)
Shapiro também assinala a intensidade com que o obsessivo-compulsivo experiencia “seu
próprio inspetor, emitindo comandos, diretrizes, advertências, avisos e admoestações” (p. 34) como
algo exterior a ele. Os valores e diretrizes do inspetor são aceitos, mas não são resultado de uma
escolha livre. Particularmente, à medida que as obsessões ou compulsões parecem mais neuróticas
ou absurdas, o indivíduo sente-se confundido, incomodado, perturbado por elas e as experiencia
como realmente alheias a ele. Essa característica externa ou alheia do “inspetor sentado atrás
emitindo comandos” tem todos os sinais inequívocos de um outro inassimilável introjetado. Mais
do que isso, conduz à projeção fora do self dessa introjeção, como Meissner (1988) assinalou de
modo tão convincente. Isto explica porque o obsessivo-compulsivo justifica seu comportamento
alegando que se comporta do modo como faz para satisfazer uma necessidade objetiva ou um
imperativo social que nós não experienciamos de modo tão absoluto.
Essa fenomenologia do inspetor exigente é consistente com a experiência clínica reiterada dos
clínicos, que trazem o relato de pacientes lembrando e muitas vezes percebendo seus pais como
pessoas severas, exigentes, rígidas e presas a regras, de modo geral. Descobre-se com freqüência
que os pais desses indivíduos ficaram particularmente ameaçados ou desagradados pela a natureza
viva, animal da criança, e estavam interessados em produzir um pequeno cavalheiro ou uma
pequena dama perfeitos. Não raro, a reconstrução ou até a experiência corrente dos pais é a de
ficarem ameaçados pela competição ou pelo sucesso, que os diminuiria, caso fossem comparados.
Semelhante às outras constelações etiológicas gerais, nem todas essas descrições se aplicam a
todos os casos. Aqui e nas tabelas de resumo - incluindo a Tabela 10 para esse caráter - eu usei
deliberadamente certo número de palavras relacionadas (mas diferentes) para descrever os fatores
etiológicos em função de sua utilidade clínica. Em certo caso, as palavras “severo” e “exigente”
podem fornecer uma descrição exata do cliente e, portanto, serem bastante úteis. Em outro caso, as
frases “ameaçado pelo sucesso” e “desagradado com a própria natureza animal” podem apresentar
uma descrição mais precisa e proveitosa.
Assim, a teoria caracterológica do desenvolvimento para o obsessivo-compulsivo é
simplesmente a seguinte: a criança introjeta e se identifica com o provedor e as normas ou valores
do provedor; no curso do desenvolvimento estrutural, procura usar o poder de sua vontade para
satisfazer essas normas introjetadas e viver de acordo com esses valores extraordinariamente
rígidos, negadores da vida e alheios ao corpo. A vontade é usada para bloquear as expressões
organísmicas originais, bem como para promulgar um falso self, que consiste na atitude e
comportamento corretos necessários para alcançar alguma semelhança de contato positivo com um
provedor muito incerto e nem sempre muito positivo. Esse é um exemplo claro de uma reprodução
caracterológica, isto é, a parentagem obsessivo-compulsiva produzindo uma criança obsessivo-
compulsiva.
É crucial assinalar que uma pessoa com traços obsessivo-compulsivos nem sempre é melhor
compreendida pela sua etiologia mais “anal” e “edípica”, como expressou a linguagem psicanalítica
tradicional. Até Lowen (1958), que fornece o argumento mais claro da etiologia edípica dessa
síndrome, reconhece que esses traços serão vistos com freqüência nos caracteres oral e masoquista,
principalmente (p. 157). Eu acrescentaria que se pode perceber muitas vezes uma extrema rigidez
apresentada por indivíduos de baixo funcionamento, que têm um sentido precário de self. Nesses
casos, o comportamento obsessivo-compulsivo não é defensivo no sentido clássico, mas protege
literalmente a pessoa do vazio e da fragmentação de um self fragilizado. Em outras palavras, o
indivíduo realmente se encontra na sua sistematicidade ou na sua moral rígida, nas suas crenças
políticas ou religiosas, e organiza a vida para viver de acordo com elas. Assim, a rigidez não serve
de defesa contra impulsos inaceitáveis, mas antes como uma estratégia para organizar uma estrutura
desorganizada. O que ofereço aqui trecho é o desenvolvimento de uma compreensão do
comportamento obsessivo-compulsivo com base numa etiologia de cunho mais edípico e servindo
como função defensiva no seu sentido mais clássico.
Quando é esse o caso, as compulsões comportamentais, obsessões cognitivas e atividades menos
sintomáticas consistentes com essa personalidade podem ser melhor entendidas como tentativas do
organismo para se precaver ou manter sob controle estes impulsos inaceitáveis, que tendem a ser
sexuais, agressivos, competitivos e afetivamente espontâneos. Tais “atividades” incluem a
tendência obsessivo-compulsiva de viver “sob a mira” de uma tensão e uma pressão constantes,
difusas, para que ele faça, sinta e pense a coisa certa. Essa pressão constante o mantém ocupado nos
níveis da cognição e do comportamento e sob controle, no sentido de inibir qualquer expressão
espontânea potencialmente errada ou perigosa. De maneira similar, a sua atenção intensa e
estreitamente focada particularmente nos detalhes, assim como seu modo característico de isolar o
pensar do sentir o mantêm ocupado e distante de comportamentos, pensamentos e sentimentos
verdadeiramente desencadeados pelo self, que possam ameaçar, gerar raiva ou desagradar o outro.
Do mesmo modo, a sua dúvida, indecisão e protelação evidentes o impedem de se comprometer
com um curso de ação que, em última análise, reflete um compromisso e uma escolha pessoais.
Além do mais, o comportamento social do obsessivo-compulsivo, notado pela sua empolação,
pela ênfase na atuação correta do papel social e pelo seu modo de se apresentar pedante, dono de si
e inafetivo, o mantém distante de seus próprios impulsos repudiados e de quaisquer sentimentos
perigosos com relação aos outros. Finalmente, a tendência do obsessivo-compulsivo para estar
muito atento e responsivo aos outros na dimensão da submissão-subjugação também pode ser
entendida como uma derivação da organização global da sua personalidade: os outros são vistos
como a personificação dos imperativos externos, das regras sociais e necessidades objetivas que o
indivíduo deve cumprir, ou como subordinados, que devem ser corrigidos por essas regras. Os
outros também podem ser percebidos como ameaçados ou feridos pela natureza competitiva do
indivíduo ou pelos seus sucessos, como o era o provedor na luta edípica. De novo, a preocupação
com as regras corretas, o comportamento adequado, as atitudes apropriadas e os efeitos
possivelmente adversos das ações interpessoais mantém o indivíduo ocupado e os impulsos
perigosos fora da percepção.
Sintomáticamente, a repressão, a auto-regulação e a contenção negadora da vida criam a
depressão. Quando o indivíduo é realmente pressionado por eventos estressantes e/ou pela pressão
crescente de impulsos não resolvidos, não expressos, as obsessões e/ou compulsões podem se
apoderar dele de tal maneira que o levam a níveis absurdos nas suas preocupações obsessivas e
comportamentos compulsivos. Não raro, o fracasso das defesas em administrar tudo isto conduz
com freqüência a pensamentos intrusivos de natureza sexualmente sádica, senão hostil. Esses
pensamentos são extraordinariamente ego-distônicos, claro, porque estão muito longe daquela boa
pessoa que o indivíduo está tentando ser.
O obsessivo-compulsivo também é muitas vezes perfeccionista. Embora possa haver alguma
semelhança com o perfeccionismo do narcisista, este é um bom exemplo de como a teoria
caracterológica pode ser útil na produção de uma compreensão mais acurada e empática das
pessoas. O perfeccionismo do obsessivo-compulsivo é antes conduzido por uma determinação de
fazer voluntariamente a coisa certa e evitar a coisa errada. É como se ele tentasse agradar ou
apaziguar aquela autoridade externa e evitar a sua punição. O perfeccionismo é motivado para evitar
a censura, controlar o que é ruim no self e manter sob controle o que ameaçaria ou desagradaria o
outro.
No caso da etiologia e orientação narcísicas, o perfeccionismo é melhor conceituado como uma
interrupção do desenvolvimento na grandiosidade. Tentar ser perfeito sustenta a ilusão do falso self
grandioso e protege o indivíduo de mergulhar na nulidade ou no vazio. Nesse caso, um desempenho
perfeito, uma conquista ou uma auto-afirmação melhoram a auto-estima. Por outro lado, no caso do
obsessivo-compulsivo, o perfeccionismo é antes dirigido às tentativas do indivíduo de controlar
seus próprios sentimentos e motivações, para que ele seja o tipo certo de pessoa e não agrida. Essa
posição é de longe mais passiva e defensiva do ponto de vista interpessoal do que a do narcisista,
melhor reconhecido pela sua capacidade de mobilizar a agressão e impressionar os outros com um
comportamento que ele mesmo experiencia muitas vezes como superficial, insincero e falso.
A teoria caracterológica do desenvolvimento é importante no trabalho clínico porque, entre
outras coisas, auxilia o profissional sugerindo o que procurar na história, na estrutura de crenças, na
atitude, na auto-representação e na sintomatologia, ajudando-o na compreensão do que subjaz à
expressão observada e no auxílio ao cliente para que ele próprio compreenda isto. Depois, a teoria
do desenvolvimento possui algumas prescrições quanto ao modo como os problemas podem ser
resolvidos. No caso do perfeccionismo, o indivíduo precisa aprender que seus impulsos sexuais,
agressivos e competitivos são normais, humanos e corretos e que não podem ser subjugados à
vontade? Ou precisa aprender que o seu perfeccionismo é expressão de uma grandiosidade não
resolvida no desenvolvimento pregresso, que requer que ele aprenda a ter uma auto-estima mais
realista, melhor harmonizada, “constante”, baseada na integração daquilo que é maravilhoso e
daquilo que é limitado dentro dele?
Voltando agora ao problema do obsessivo-compulsivo, poderíamos perguntar: quando é que tudo
isso se desenvolve? Não é possível responder a essa pergunta completamente, como gostaríamos.
Entretanto, sabemos que as crianças de fato começam a operar com base em normas com cerca de
dois anos de idade (Gopnick & Meltzoff, 1984). A pesquisa experimental do desenvolvimento
indica que um certo número de fatores operativos dessa adaptação específica não se desenvolve até
um pouco mais tarde do que vimos nos temas caracterológicos revisados até agora.
Por exemplo, as crianças não podem distinguir entre eventos físicos e mentais (Wellman & Estes,
1986) até cerca de três anos de idade. É também por volta desse período que começam a ser capazes
de distinguir entre resultados intencionais e acidentais nos seus julgamentos de histórias e o que
acontece aos personagens (Yuill & Perner, 1988). Esta pesquisa é relevante porque documenta o
longo período da existência na infância durante o qual há confusão acerca das relações realistas
entre causas e efeitos. De mais a mais, não é antes dos seis anos de idade que as crianças começam
a usar estratégias puramente mentais para regular seus sentimentos (Bengtsson & Johnson, 1987) e
para levar a sério regras morais e convencionais (Tisak & Turiel, 1988). Essas descobertas
indicariam que a estratégia para viver sob essas regras e a estratégia puramente mental de tentar
regular instintos pela vontade se desenvolverão relativamente tarde. Mais ainda, a observação
naturalística tende a confirmar a posição original de Freud, de que o interesse sexual, a sedução e o
comportamento competitivo que as crianças podem apresentar também não surgem até
aproximadamente três anos de idade. Portanto, quando o comportamento obsessivo-compulsivo é
o resultado desses eventos edípicos, todas as informações disponíveis tendem a indicar que esse
tipo de adaptação começa a se desenvolver relativamente tarde e continua se desenvolvendo por
algum tempo.
Dito entre parênteses, também é provável que as estratégias a serviço de outras funções (como,
por exemplo, sustentar um self fragilizado) também sejam dominadas relativamente tarde, embora
possam ser motivadas por um dano no desenvolvimento ocorrido consideravelmente mais cedo.
Esse fenômeno de uma cobertura posterior de estratégias mais sofisticadas para lidar com um
complexo mais primitivo é bastante consistente com o tipo de teoria caracterológica do
desenvolvimento que estou tentando integrar aqui.
A peça final da teoria que precisa ser enfatizada é a extensão em que a solução obsessivo-
compulsiva sujeita o indivíduo ao provedor que é, nesse caso em especial, supremamente incerto
na sua resposta à criança. Quando a criança é muito boa, ela pode obter elogios ou, pelo menos,
ausência de críticas. Quando o provedor é muito exigente, no entanto, a criança receberá um elogio
qualificado, com uma observação sobre como ela poderia ter feito um pouco melhor. Essa última
resposta promove, é claro, o perfeccionismo da criança, que pode alimentar a ilusão de que se ela
fosse apenas um pouco melhor, poderia ter um contato positivo menos qualificado com o provedor.
Sendo assim, o ponto mais crítico a ser compreendido aqui é que a adoção das normas dos pais pela
criança e suas tentativas para cumpri-las estabelecem a relação social e a identidade dentro dessa
relação que todos nós queremos. Esse cumprimento das normas familiares e ser o tipo de criança
que se espera que você seja definem o self e mantêm o contato necessário. A rigidez do modelo
pode ser explicada pela combinação, nesse caso tão óbvia, entre o evitamento da punição, a
manutenção do contato e a identidade, através do contato e da emulação. Então, é o medo de uma
repetição da punição, assim como o medo do isolamento - tanto do self do modo como foi definido
pela família como da própria família - que mantêm o modelo patológico, que em outro contexto
poderia parecer tão absurdo até para o próprio indivíduo.
Os temas terapêuticos são, é claro, a contestação gradual dessas defesas severas e a gradual
aceitação e expressão dos instintos, afetos e pensamentos repudiados. O insight sobre a base dessas
defesas rígidas, que requerem tanta segurança, é habitualmente muito proveitoso. A construção da
história completa que motiva esta necessidade extrema de controle e funcionamento adequados em
todas as dimensões pode produzir o tipo de compreensão simpática do self que esses indivíduos
absolutamente necessitam. O indivíduo precisa aprender lentamente que essas garantias extremas
de segurança não são mais necessárias e que padrões de pensamento e comportamento novelescos,
além de provocar ansiedade, não conduzem a lugar nenhum próximo ao perigo, antecipado
afetivamente. Ao longo desse processo, o indivíduo precisa aprender a tolerar a ansiedade que o
abandono das defesas e o alívio dos conteúdos subjacentes provocarão, e uma boa aliança
terapêutica, que não seja exclusivamente sóbria, facilitará isso muitas vezes.
Em certo sentido, o obsessivo-compulsivo precisa ser dessensibilizado de seus próprios
sentimentos, e um processo gradual de desvendamento e frustração ideal é necessário para que isto
ocorra. Quase todos os especialistas nessa síndrome concordam que é importante manter o cliente
no aqui-agora desse processo e encorajar uma maior atenção aos sentimentos do que aos
pensamentos. Neste sentido, a relação terapêutica - transferencial, contratransferencial e real - é
uma escolha particularmente boa para o foco terapêutico, por causa de sua proximidade e sua
realidade potencial. O erro terapêutico mais comum nesse caso é o próprio terapeuta, sendo ele
mesmo um obsessivo-compulsivo, entrar em conluio com um modo de se relacionar aos eventos e
aos outros intelectualizado, distante, inafetivo, ou usar métodos que possam facilmente desviar-se
nessa direção (isto é, terapias cognitiva e comportamental e psicanálise pedagógica).
Tabela 10