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Sumário

Sinopse

Glossário de Terminologia

Prólogo

Capítulo 1

Capítulo 2

Capítulo 3

Capítulo 4

Capítulo 5

Capítulo 6

Capítulo 7

Capítulo 8

Capítulo 9

Capítulo 10

Capítulo 11

Capítulo 12

Capítulo 13
Sinopse
Era uma vez...

Uma praga se espalha pelas colinas esmeraldas de Uí Néill, deixando o


pai de uma jovem parteira com meses de vida. Para salvar seu povo, Sorcha
faz um acordo com uma Fae perigosa. Ela deve viajar através do mar, por terras
de merrow e kelpie, para encontrar um rei esquecido em um trono em ruínas.

Nascido rei dos Seelie, Eamonn lutou incontáveis batalhas para defender
a honra, o dever e a liberdade... até que seu irmão gêmeo afundou uma lâmina
entre seus ombros. Cristais brotaram da ferida, abrindo pele e osso. Seu povo
o baniu para uma ilha amaldiçoada por sua desfiguração, agora o rei dos
criminosos e tolos.

Com a ajuda de brownies, pixies e fogos-fátuos, Sorcha luta para romper


sua concha cristalina e persuadi-lo a retomar seu trono roubado.

Esta bela determinada pode chegar perigosamente perto de roubar

seu coração bestial.


Glossário de Terminologia
Tuatha dé Danann — Considerados os “Faes Superiores”, eles são as
criaturas Faes mais poderosas e originais.
Seelie Fae — Também conhecido como os “Fae da Luz”, essas criaturas
vivem suas vidas de acordo com as regras de Honra, Bondade e Aderência à
lei.
Fae Unseelie — Considerados os “Fae das Trevas”, essas criaturas não
seguem nenhuma lei e não apreciam a beleza.
Danu — Mãe de todos os Tuatha dé Danann e considerada mãe “terra”.
Nuada — O primeiro Rei Seelie, frequentemente chamado de Nuada
Mão de Prata, porque ele tem um braço de metal após perder o seu em uma
batalha terrível.
Macha — Uma antiga Tuatha dé Danann que é conhecida como uma das
três irmãs que compõem a Morrighan. Seus símbolos são um cavalo e uma
espada.
Redcap — Um Fae problemático, frequentemente encontrado em jardins
assediando galinhas.
Máthair — “Mãe”.
Fogos-Fátuos — Pequenas bolas de luz que guiam os viajantes até os
pântanos, geralmente com a intenção de que os humanos se percam.
Brownies — criaturas amigáveis, semelhantes a ratos, que limpam e
cozinham para aqueles que são gentis com eles.
Pixie — Uma Fae alada cujo rosto se assemelha ao de uma folha.
Changeling — Faes velhas ou fracas trocadas por crianças humanas,
geralmente identificadas como crianças doentes.
Gnomo — Geralmente considerado feio, esses Faes pequenos e
atarracados cuidam de jardins e têm um polegar verde impressionante.
Dullahan — Um Fae aterrorizante e muitas vezes malvado que carrega a
cabeça no colo.
Bean Sidhe — Também conhecido como banshee, seus gritos ecoam
chamados que anunciam a morte de quem os ouve.
Hy-brasil — Uma ilha lendária que só pode ser vista uma vez a cada sete
anos.
Merrow — também conhecidas como sereias, os merrows têm cabelos
verdes e dedos palmados.
Merrow macho — os maridos de suas contrapartes femininas são
considerados horrivelmente feios, com narizes vermelhos brilhantes, guelras,
duas pernas e uma cauda.
Bicho - papão — um brownie que fica com raiva ou se perde e se
transforma em um bicho-papão. Geralmente são invisíveis e têm o hábito de
colocar as mãos frias no rosto das pessoas enquanto elas dormem.
Pooka — Um Fae que imita animais, principalmente cães e cavalos.
Kelpie — Uma criatura semelhante a um cavalo que vive à beira de um
pântano. Ele tentará convencê-lo a montá-lo e, nesse ponto, ele correrá sob a
água e afogará a pessoa nas costas.
Selkie — Um Fae que pode se transformar em uma foca, contanto que
ainda tenha sua pele de foca.
Prólogo

Era uma vez em uma terra escondida fora do alcance humano, vivia um
Rei e Rainha dos Faes Seelie. Eles desejavam desesperadamente um herdeiro
para o trono, mas não haviam sido abençoados com filhos. Em sua frustração,
o rei viajou através do mar para a casa amaldiçoada dos Unseelie.
Ele fez um trato com uma velha, metade aranha e metade mulher. Se ela
lhe desse um filho, ele traria paz às suas terras. A velha ficou satisfeita e
prometeu que quando ele voltasse para sua esposa, ela lhe daria um filho.
A Rainha carregava não um, mas dois filhos. Meninos gêmeos, ambos
herdeiros do trono.
Muitos anos se passaram. Suas vidas estavam cheias de luz e amor. Eles
haviam esquecido que os Unseelie não fazem negócios sem pagamento, e
impedir uma guerra pagaria por um menino.
Não dois.
Seu filho primogênito se tornou um guerreiro. Sua lâmina era imparável,
sua pontaria sempre certa, sua velocidade extremamente rápida. Seu segundo
filho cresceu e se tornou um estudioso. Ele conhecia cada sussurro do vento,
cada mentira e história, cada pedaço de conhecimento que fazia o reino
funcionar sem problemas. O Rei e a Rainha estavam certos de que governariam
os Seelie Fae juntos.
Eles não tinham visto o ciúme crescendo no coração do filho mais novo,
nem tinham visto a dúvida crescendo no mais velho.
Em um acesso de raiva, o filho mais novo enterrou uma lâmina nas costas
do irmão. A ferida era superficial e poderia ter cicatrizado se não tivesse
revelado um pesadelo.
Seu filho, seu primogênito perfeito, tinha falhas. Pedras preciosas e
cristais cresceram da ferida, estragando seu corpo forte e tornando-o incapaz
de governar seu reino. Envergonhados e horrorizados, eles fizeram a única
coisa que podiam.
Banimento.
O príncipe desgraçado foi mandado embora para uma ilha fantasma que
só podia ser vista uma vez a cada sete anos. Ele implorou a sua família que o
deixasse ficar, mas eles não tiveram pena do homem que havia escondido sua
verdadeira natureza.
O filho primogênito do Rei Seelie desvaneceu-se no mito, depois lenda.
Então, em absolutamente nada.
Capítulo 1

O Besouro

Sangue cobria suas mãos.


O cheiro metálico queimava suas narinas e oprimia seus
sentidos. Embora ela tivesse terminado a cirurgia uma hora atrás, ela ainda via
a ferida escancarada, a carne aberta e espalhada, e o brilho iridescente do
besouro de sangue banqueteando-se nos músculos sinuosos.
Sorcha estava sentada na varanda de trás com as mãos penduradas nos
joelhos. As galinhas bicaram seus sapatos de couro macio; os golpes ajudaram
a situá-la. Essa sensação de leveza sempre acontecia após uma tentativa longa
e cansativa de extrair um besouro.
— Xô. — Ela sussurrou. Uma galinha balançou a cabeça, as penas se
arrepiando de desgosto. Ela tinha certeza de que um Redcap nojento montou
uma deles. O Fae era misterioso em suas pegadinhas e provavelmente pensava
que ela não podia vê-lo, mas Sorcha sempre conseguia vislumbrar com o canto
do olho. — Existem coisas mais saborosas do que os meus pés.
Ela bateu o pé no chão. A galinha cacarejou alto e bateu as asas contra
suas pernas, correndo para o outro lado do curral. Embora Sorcha as
alimentasse todas as manhãs e noites, ela suportaria o peso de sua raiva.
As galinhas eram coisinhas vingativas.
— Sorcha! — Uma voz feminina gritou. — Volte aqui!
Ela se levantou, querendo desesperadamente tirar o pó das saias, mas
sabendo que isso só iria espalhar sangue nelas. Desperdiçar tecido novo seria
o pior tipo de pecado. Ela olhou para o sangue descascando de suas mãos, os
lábios pressionados em uma linha fina.
— Terá que servir. — Ela murmurou.
A casa de três andares ficava nos arredores da cidade, o único local
adequado para um bordel. As paredes de pedra eram robustas e limpas, e o
telhado de madeira sem podridão. Não era de forma alguma elegante, mas era
adequado para seu propósito. Para Sorcha, os degraus de paralelepípedos
pareciam escadas para a forca.
Sorcha mergulhou as mãos em um balde de água limpa perto da
porta. Suas irmãs queriam fazer a limpeza, mas se queriam que ela se
apressasse, precisavam fazer a caminhada até o rio novamente.
Ela esfregou as mãos, manchando a água com sangue. Ficou tão
vermelha quanto os músculos das costas de seu pai que foram revelados
quando ela pressionou sua lâmina mais profundamente...
— Sorcha!
Saindo de seu estupor, ela enxugou as mãos no lenço xadrez enrolado
em sua cintura. Uma brisa empurrou cachos vermelhos na frente de seu olhar,
obscurecendo sua visão. Ela bufou com raiva e os empurrou para trás.
Havia sangue endurecido sob suas unhas.
— Estou chegando! — Ela gritou, abrindo a porta.
O quarto estava silencioso. O quarto de papai estava sempre silencioso,
mas agora estava silencioso como uma tumba. Sorcha rezava todas as noites
para que não acontecesse.
Ela sabia como evitar que crianças fossem concebidas, como dar à luz
uma criança e todas as doenças que poderiam vir depois para a mãe e o
bebê. Ela havia guiado inúmeras mulheres durante as provações do parto e
tratado de muitas tosses crupes.
Mas ela queria ser uma verdadeira curandeira. Sua alma ansiava por fazer
mais, consertar ossos e encontrar curas para doenças. Prateleiras de livros
alinhavam-se em seu quarto, cada um contendo notas detalhadas para cada
erva, cada técnica para curar, até mesmo os Faes certos para implorar por
ajuda.
Era uma pena que os Faes tivessem parado de ouvir a muito tempo.
Troféus das viagens de papai decoravam as paredes de seu quarto. Uma
pele de urso cobria o chão de pedra, uma mesa de madeira escura continha
todas as suas notas e uma escala de equilíbrio para contar suas moedas. Seu
estrado de cama cobria quase toda a parede de trás, cortinas pesadas cobrindo-
o da vista de Sorcha.
— Sorcha, a febre dele voltou. — Disse a irmã.
Ela correu para o lado dele.
Rosaleen era a mais jovem do bordel e era inatamente boa. Quanto mais
tempo ela ficasse aqui, mais silenciosa ela ficaria. Pessoas boas nunca
permaneciam nesta profissão. Se elas tivessem sorte, algum nobre as tomava
como amantes, ou elas desapareciam para sempre.
O rosto em forma de coração de Rosaleen estava pálido de medo. Ela
havia amarrado seus cachos loiros com uma tira de couro, mas alguns
escaparam para saltar com seus movimentos.
Uma coisinha tão bonita certamente conquistaria o favor de um
nobre. Ou de um soldado, pelo menos. Que homem não gostaria de uma
amante como ela?
Sorcha pressionou a mão contra a testa do pai e fez um estalo. —
Completamos outro tratamento e achei que o repouso evitaria outra febre. Me
perdoe, eu estava errada. Você pode pegar água quente para ele, por favor,
Rosaleen?
— Vai ajudar?
— Vai. Um pouco de chá conserta muitas coisas — Sorcha mentiu. Ele
não se curaria esta noite, em quinze dias, nem mesmo em um ano. Ele não iria
se curar de jeito nenhum. Mas Rosaleen era uma criatura delicada e mentir
aliviava sua preocupação.
Sorcha observou sua irmã sair correndo do quarto com um olhar
preocupado.
— Boa viagem, — papai tossiu. — Elas me bajulam como se eu já
estivesse morto.
— Elas estão preocupadas — Sorcha respondeu com um sorriso. — E elas
têm o direito de estarem.
— Haverá outro homem para tomar meu lugar. Um negócio como este
não ficará vazio por muito tempo.
— Mas ele será tão gentil? Ele será tão compreensivo?
— Eu não sou nada disso, e as meninas não deveriam esperar que outro
homem fosse.
Sorcha o ajudou a sentar-se, a mão firme e forte atrás de suas costas. Ela
se lembrava dele como um homem alto, largo e capaz de enfrentar o
mundo. Ele tinha expulsado homens deste estabelecimento sem nem
soar. Agora, ele era esquelético. Cada inspiração sacudia e expiração
chiava. Suas mãos tremiam e seus olhos permaneciam desfocados.
Enquanto ele recuperava o fôlego, ela puxou as bandagens e o
cataplasma enrolado em suas costelas. — Como está?
— Dolorido, — ele resmungou. — Malditos besouros estão sempre se
movendo.
— Pelo menos nos livramos de outra mãe colmeia.
Papa bufa. — É algo, mas não vai me salvar.
Não, não iria.
Uma infecção por besouro sanguíneo era uma sentença de morte e
ninguém havia descoberto como curá-la. Eles vieram dos céus. Enxames de
gafanhotos verdes, tão bonitos que os aldeões usaram suas asas como joias no
primeiro ano. Então, eles colocaram seus ovos dentro das pessoas. Não houve
como alcançá-los depois disso.
Sorcha suspirou e colocou a mão sobre um dos muitos inchaços nas
costas do pai. Os besouros viviam sob a pele, comendo carne de dentro para
fora. Eles se multiplicavam enquanto festejavam lentamente com seus
anfitriões, mas pelo menos não se espalhavam até que esgotassem seu
suprimento de comida.
Sorcha descobriu uma maneira de extraí-los. Ela cortava pele, músculo e
tendão, puxando cuidadosamente os besouros por trás. Ela então os queimava
e enterrava suas cinzas. Era a única maneira de ter certeza de que eles não iriam
voar e infectar outra pessoa.
A protuberância embaixo de sua mão mudou.
— Eu senti esse — papai bufou. — Quanto tempo eu tenho menina?
— Mais alguns meses. Tenho tentado acompanhar suas reproduções,
mas seu corpo não suportará tanto trauma por muito tempo.
— Isso foi o que eu pensei.
A porta se abriu e Rosaleen enfiou a cabeça para dentro. — Posso voltar
agora?
Sorcha esfregou as costas do papai. — Sim, entre. Você pode colocar a
água em um copo para mim, por favor?
A cerâmica era escassa no bordel. Ninguém queria vender objetos
domésticos para prostitutas, então elas se contentavam com o que Sorcha
recebia em troca de seu trabalho como parteira. O copo de barro destroçado
estava torto, mas retinha água sem vazar.
Ela colocou milefólio no copo e misturou. — Aqui está, papai. Beba.
— É aquele chá amargo que você vive me fazendo beber?
— Ele mantém a febre baixa e ajuda a parar o sangramento.
— Eu não gosto disso. — Ele bebeu e fez uma careta. — Acho que você
está me envenenando.
— Eu acho que você está sendo uma criança. Beba tudo… — ela fez uma
pausa. — Tudo isso, papai. E depois volte a dormir.
Ele resmungou, mas deitou-se na cama sem muito barulho. Sorcha
fechou a cortina para que a luz não o perturbasse.
Rosaleen a encarou. O peso de seu olhar era como um toque
físico. Sorcha não tinha muito a dizer. Ela não queria arruinar sua felicidade e
renda, dando uma data para a morte de seu pai. Eles precisavam permanecer
fortes e, mais tarde, poderiam sofrer.
Ela colocou a irmã mais nova debaixo do braço e a guiou para fora da
sala. — Qual é o problema garotinha?
— Estou preocupada com o papai. Você não está?
— Você deixa que eu me preocupe com ele. Eu sou a curandeira, não sou?
— Parteira.
A palavra doeu.
— Estou fazendo mais do que os curandeiros fariam. Eles estariam o
sangrando quando os besouros já fazem isso. Ele não precisa de sanguessugas,
ele precisa dos besouros removidos.
— Eles ainda não estão ouvindo você?
As irmãs entraram na cozinha e na sala principal das mulheres. Quando
se mudaram para esta cidade, apenas a família vivia neste edifício. O pai delas
era um homem de negócios nato e pretendia expandir a clientela. Agora, havia
treze mulheres morando e trabalhando sob seu teto.
As gêmeas se aconchegaram perto do fogo, suas cabeças pressionadas
juntas enquanto elas compartilhavam segredos. As ervas de Sorcha pendiam
do teto para secar e usar mais tarde. Uma mesa gasta se estendia de ponta a
ponta, dois bancos servindo de assento. Elas guardaram um caldeirão na sala
dos fundos e o trouxeram para a ceia, para pendurar sobre o fogo.
Briana, a mais velha de suas irmãs, abriu a porta oposta. Risos e gritos
masculinos ecoaram em uma parede de som. — Rosaleen, você tem um cliente
na frente.
— Tudo bem — ela apertou a cintura de Sorcha. — Eu volto mais tarde,
você vai ficar bem sem mim?
— Você se preocupa demais — Sorcha respondeu. — Vá em frente
então. Faça algum dinheiro.
Quando a pequena loira passou por ela, Briana deu a Sorcha um olhar
medido. — Você está se mantendo ocupada hoje, espero? Há uma longa fila de
compromissos e não tenho tempo para cuidar de você hoje. Você vai se
defender sozinha se ficar por aqui.
Sorcha nunca foi como suas irmãs adotivas. Sua mãe bruxa lhe ensinou
muitas coisas e sua jovem mente absorveu a informação. Sorcha tinha mais
utilidades do que se prostituir, papai costumava dizer. As pessoas pagavam
mais pela cura do que pela cama. Além disso, ninguém queria correr o risco de
ficar com a cria do diabo. Papai nunca pensou que ela fosse uma bruxa ou
amaldiçoada, mas ela era muito esperta.
Ele tomou a decisão dela seguir o caminho de uma curandeira. Daquele
dia em diante, ela se dedicou a ajudar os outros e tentou evitar o mesmo
destino de sua mãe. O cheiro acre de carne queimada ficou gravado em sua
memória.
Sorcha abaixou a cabeça e assentiu. — Estarei na reunião da guilda a
maior parte do dia e depois preciso passar na casa da Dama Agatha.
— Essa pobre mulher está grávida de novo?
— Parece que sim.
Briana fez uma careta. — Aquele homem precisa dar um tempo a ela, ou
ela irá para a morte prematura. Falando nisso, vou precisar que você
reabasteça nossos próprios estoques. Não podemos ter crianças correndo por
aí.
— Claro. No caminho de volta, vou colher mais mealbhacán, mas a
cenoura selvagem tem um gosto horrível.
— Eu não me importo com o que você junta, ou quão ruim é o
gosto. Basta torná-lo útil.
Briana deve ter tido um cliente difícil, Sorcha meditou. Ou talvez fosse a
abundante massa de energia atrás dela. Os homens sempre ficavam
entusiasmados no Solstício.
Ela subiu correndo as escadas de madeira instáveis, tentando não fazer
contato visual com nenhum dos clientes homens abaixo. Elas moravam em
uma cidade grande e a maioria das pessoas a conhecia. Ela não estava no
mercado para entreter.
— Sorcha! Quando você vai nos deixar amá-la como amamos suas irmãs?
Só quando atingiu o topo do primeiro lance de escada, ela parou e se
inclinou sobre o corrimão. A longa massa emaranhada de seu cabelo pendia
sobre a borda. — Oh Fergus, algum dia você deixará sua esposa com ciúmes
com conversas como essa.
— Ela sabe que sou leal a ela!
Briana estava atrás do homem, acenando com as mãos freneticamente.
Certo. Sorcha não deveria insultar os clientes, ou eles iriam embora. Ela
soltou um suspiro que agitou os cachos vermelhos na frente de seu rosto,
cedendo. — Eu sou uma curandeira, Fergus. Eu não participo de suas
festividades, mas um homem certamente pode sonhar!
Ele soltou uma gargalhada, suas bochechas manchadas de vermelho. —
Ah, e sonho que sim, minha adorável moça!
Ela subiu correndo o resto da escada. Sua saia girando em um arco atrás
dela, o lenço xadrez azul esvoaçando com seus movimentos. A última coisa
que ela queria ouvir era que Fergus, de todos os homens, sonhava com ela.
Todas dormiam no último andar, longe dos quartos para onde traziam
os clientes. Um lugar que elas pudessem chamar de seu era importante. Porém,
quanto mais mulheres traziam para a família, menos espaço tinham.
Sorcha não trabalhava no bordel, então seu quarto era o menor. Ele já
tinha sido usado como um armário de armazenamento, mas agora continha
uma pequena cama e baús empilhadas. Livros, ervas e todos os tipos de objetos
mágicos estavam espalhados pelo quarto.
O primeiro baú rangeu quando ela o abriu. Ela alcançou as profundezas
escuras, seus dedos deslizando sobre objetos usados, até que ela fechou o
punho em torno de seu maior tesouro.
Sua mãe transmitiu seu conhecimento junto com objetos
sagrados. Muitos temiam o paganismo, consideravam obra do diabo e
chamavam de bruxos aqueles que o praticavam. Sorcha sabia melhor.
Ela puxou uma pedra entalhada com uma pomba branca. Pressionando-
o contra os lábios, ela sussurrou: — Bom dia, Máthair.
Não se passava um dia sem que ela sentisse falta do riso da mãe, de suas
mãos calejadas e do cheiro de canela em seus cabelos. Ela não tinha sido uma
bruxa, apenas uma curandeira que sabia como pedir favores aos Faes.
Sorcha colocou a pedra de volta no baú e pegou um pote de
cerâmica. Sua mãe pintou com amor pequenas flores em todas as bordas, cada
pincelada criada com cuidado e precisão. Ela mediu um pouco de açúcar e
colocou-o no parapeito da janela.
— Dividam um pouco de açúcar comigo, — disse Sorcha, — em
comemoração ao nosso trabalho zeloso.
Como sua mãe, Sorcha respeitava os velhos costumes e os Faes. Ela
acreditava neles onde outros não. Seu quarto estava sempre limpo e seus livros
sempre bem embalados, tudo sem Sorcha tocar em um único item. Os
brownies cuidavam dela, e ela também cuidava deles.
Ela recolheu suas notas médicas e as enfiou em uma bolsa que pendurou
no ombro. Afagando seu cabelo, ela desistiu de amarrá-lo para trás. O ninho
de cachos estaria livre antes que ela chegasse à guilda.
Puxando com força o corpete, ela pressionou a mão contra o peito. Uma
pedra bruxa, com buracos naturais feitos por água corrente, pendurada em seu
pescoço. Outro presente de sua mãe para que ela sempre pudesse ver através
da magia.
Ela se virou e desceu as escadas.
Rosaleen já estava saindo de seu quarto, fechando a porta suavemente
atrás dela. Seu cabelo estava espetado em todas as direções, como uma folha
de dente-de-leão. Ela olhou por cima do ombro e encolheu os ombros. — Eu
não esperava que aquele fosse tão rápido. Ele pagou por meia hora, então
suponho que ele pode dormir.
— Alguém novo?
— Ele não quis dizer quem ele era. Parece um nobre; suas roupas são
finas demais para serem da classe trabalhadora.
Sorcha puxou a manga da irmã, que estava perigosamente abaixada em
seu ombro. — Quer pegar este para sempre?
Rosaleen corou. — Oh, ele está muito bem procurando por mim.
— E você é uma beleza rara. Ele lhe daria uma vida boa, longe de
trabalhar tanto.
— Eu não poderia deixar todas vocês.
— Nenhuma de nós pensaria menos de você por isso. Você estaria
segura, bem alimentada e poderia visitar. Se ele for gentil, pense nisso.
— Ele certamente foi gentil, — Rosaleen colocou uma mecha de cabelo
atrás da orelha. — E posso apreciar um homem que não dá muito trabalho.
Sorcha riu e tocou o queixo de Rosaleen com o dedo. — Pense nisso,
garotinha. Vá se limpar.
— O chá está lá embaixo?
— Pergunte a Briana. Restam alguns tônicos e trarei mais.
Elas desceram as escadas juntas, rindo enquanto Rosaleen contava
histórias sobre os clientes que ela já havia tido naquele dia.
— Você vai ficar fora o dia todo? — Rosaleen perguntou quando
chegaram ao andar térreo.
— Briana pediu que eu ficasse fora. É um dia agitado e não preciso ficar
sob os pés.
— Podemos precisar de você se alguém ficar muito turbulento.
— Os homens não pagam pela cura de qualquer maneira. Prefiro
encontrar clientes que pelo menos negociem.
— Não é Dama Agatha? — Os olhos de Rosaleen brilharam com malícia.
— Você estava ouvindo!
— Só passando pela grade enquanto ele se arrumava! Não ouvi um único
boato sobre Agatha estar grávida de novo, então o que você realmente vai
fazer? Você está escondendo um homem?
— Nem tudo é sobre homens, Rosaleen. — Sorcha ergueu sua bolsa e
remexeu nela. — Estou apenas visitando o santuário, só isso.
— Eu pensei que você tivesse terminado com os Faes?
— Ninguém termina com Faes, Rosaleen. Eles sempre estarão lá, e
alguém tem que deixar ofertas.
Elas discutiam sobre isso desde que eram crianças. Papai e suas filhas
moravam na cidade onde as pessoas haviam esquecido seus laços com a
terra. Sorcha cresceu nas charnecas. Ela conhecia os fogos-fátuos pelo nome e
espionava os mercados de pixies. Ela deixava oferendas para brownies e
sussurrava segredos para Tuatha dé Danann.
Se ela nunca tivesse visto essas coisas, ela poderia ter questionado se os
Faes eram reais.
Balançando a cabeça, ela abriu caminho através da multidão de homens
na sala da frente. Briana não estava brincando. Elas estavam excepcionalmente
ocupadas, mesmo para esta época do ano. Talvez alguém tenha espalhado a
notícia do bordel misterioso cheio de mulheres douradas.
Rumores diziam que as filhas de papai vinham de uma linhagem de
deusas. Elas eram todas estranhamente bonitas, com pele pálida como leite e
rostos em formato de coração. Seus lábios carnudos eram sempre vermelhos e
não deixavam manchas de frutas vermelhas na pele dos homens. Cachos loiros
soltos nunca precisaram de ferro quente e eram graciosas como dançarinas.
Houve alguns que se perguntaram sobre sua estranha irmã. Em
comparação, Sorcha era uma rosa vermelha surpreendente entre os
narcisos. Ela era mais alta do que suas irmãs, com cabelos ruivos na altura da
cintura e cachos anelados que ondulavam ao redor dela como uma nuvem. As
sardas espanavam sua pele do topo da cabeça às pontas dos pés. E todos
achavam suas orelhas ligeiramente pontiagudas enervantes.
Os Faes tocados, os aldeões costumavam dizer. Sua mãe deve ter tido
uma filha changeling que ela se recusou a devolver. Ou talvez fosse apenas um
sinal de que ela foi tocada pelo diabo, como sua mãe bruxa.
Qualquer que seja o raciocínio, Sorcha era esquisita, estranha, incomum.
Ela passou pelo último homem e saiu para a rua. Um cavalo e uma
charrete esperavam na frente, o emblema de uma águia pintado em ouro na
lateral. Ela enfiou a mão no bolso do vestido e tirou uma pequena maçã
enrugada.
Lábios de veludo macio arrancaram a fruta de sua palma, e o cavalo
gemeu de felicidade.
— Você vai esperar um pouco, meu amigo — Sorcha disse com um
sorriso.
— Ei! Mulher! — Um chicote estalou sobre sua cabeça. — Ninguém
nunca te disse para não tocar no cavalo de um estranho? Saia daqui!
Ela se esquivou e desapareceu na multidão.
Era dia de mercado. A grande massa de pessoas parecia ter algo a
vender. Corpos sujos pressionavam contra ela, mas tudo o que ela podia sentir
era o cheiro de peixe, carnes e frutas frescas.
— Ovos à venda!
— Flores para sua senhora?
— Tecidos em todas as cores!
Sorcha manteve a bolsa perto do lado e tentou não fazer contato
visual. Ela não precisava de nenhum problema com os suspeitosos aldeões que
faziam o sinal da cruz quando ela passava. As tendas cobriam as ruas com
comida, tecidos ondulantes e até joias dos confins da terra. Alguns vendedores
ela reconheceu, outros não.
Um menestrel tocava sua flauta, enchendo a praça com uma melodia
alegre. Sorcha reconheceu a música e disfarçou o sorriso. As palavras eram
altamente inadequadas. Seu chapéu no chão transbordava de moedas, então
outros devem ter apreciado a brincadeira tanto quanto ela.
Ele piscou para ela quando ela colocou uma única moeda com as outras.
Uma mulher que vendia ervas secas segurou seu braço e colocou um
pequeno pote de mel na palma da mão de Sorcha. — Para Danu.
— Vou deixá-lo na floresta — Sorcha o enfiou na bolsa. — Para algo em
particular?
— Boa saúde.
Assentindo, ela continuou a empurrar a multidão de pessoas. Não era a
primeira vez que alguém pedia uma bênção. Eles não estavam dispostos a
seguir os velhos hábitos - isso era muito arriscado - então pediam a Sorcha para
deixá-los por ela. Se ela fosse pega, seria queimada na fogueira pelas mesmas
pessoas que entregaram seus presentes para levar aos Faes.
Alguns outros passavam seus pedaços para deixar como oferendas. Um
pequeno pacote de açúcar, um punhado de lavanda seca, um pequeno pote de
creme fresco. Pequenas coisas que os Faes apreciavam e que poderiam deixar
bênçãos em troca.
Esse era o trato com os Faes. Seus favores não podiam ser comprados ou
subornados. Era preciso continuar deixando presentes e algum dia, talvez, as
Faes os presenteariam com uma bênção.
Outra mulher agarrou o braço de Sorcha e puxou-a para longe da
multidão. Um lenço sujo cobria sua cabeça e um vestido marrom mordido por
traças pendia de seu corpo magro. — Minha filha não para de chorar. Ela está
gritando a noite toda, e meu marido planeja deixá-la na colina amanhã à noite,
dizendo que ela é uma changeling. Existe outra maneira? — Seus olhos
inchados encheram-se de lágrimas, as bochechas esfregadas em carne viva e o
nariz cheio.
Sorcha deu um tapinha na mão dela. — Leve-a para o rio e segure-a na
água. Não há necessidade de colocá-la por baixo, apenas as pernas bastam. Se
elas parecem iguais, então ela não é uma changeling. Se elas se parecem com
galhos de bétula, então você sabe que está abrigando uma Fae sob seu teto.
— O Rio?
— A magia dos Faes não funciona sob água corrente e o encanto vai
quebrar. Se ela não é Fae, traga-a para o bordel. Vou dar uma boa olhada nela
e ver se posso lhe dar algo para ajudá-la, e você, durma um pouco.
— Deus te abençoe, senhora. Não temos nada para lhe pagar.
— Eu não peço pagamento. Deixe uma oferta para Danu quando puder
e peça desculpas por culpar os filhos dela pela doença de sua filha.
A mulher torceu as mãos. — E se for uma changeling?
Sorcha franziu a testa. — Então você vai deixá-la na floresta e torcer para
que eles tragam sua filha de volta.
Ela se afastou e continuou sua jornada com a mente perturbada. Muitas
famílias pensavam que seu bebê doente era um changeling, mas raramente isso
era verdade. Não havia um changeling nesta área há anos.
No entanto, as ofertas aos Faes diminuíram nos últimos anos. Com a
praga do besouro do sangue, o surgimento de outras religiões e mais
forasteiros em suas terras, as histórias dos Faes transformaram-se em mito.
O povo esqueceu os santuários. O gado e a soda cáustica contaminaram
as águas sagradas. Muitas pessoas não deixavam creme e açúcar em suas
portas. Ninguém se lembrava dos velhos hábitos e eles estavam pagando por
isso.
Sorcha balançou a cabeça. Ela esperava que não fosse uma
changeling. Frequentemente, os Faes trocavam crianças por um motivo. Era
um bebê indesejado e feio, ou era um Fae antigo que precisava de um lugar
tranquilo para morrer. Nenhum desses era um comércio justo para uma
criança humana, e deixá-lo em uma colina não resultaria em reconquistar seu
filho. O Fae morreria sozinho na colina, frio e indesejado mais uma vez.
Mas era a única solução que ela conhecia.
Ela tentou não deixar que seus olhos se demorassem nas sombras nas
margens da rua. As famílias expulsam os infectados de suas casas, com medo
de espalhar os besouros sanguíneos dando lugar ao pânico. Ela não conseguia
evitar que seus olhos os procurassem nas bordas da multidão.
Seu olhar se fixou em um homem dolorosamente magro. Ele coçava uma
protuberância em sua bochecha que mudava cada vez que ele tocava.
Sorcha estremeceu e correu ao longo do caminho.
O prédio da Guilda surgiu no final da rua. Parecia quase tão
impressionante quanto a igreja. Imponentes e enormes, as paredes se
estendiam tão altas que ela tinha que proteger os olhos para ver seu pico. Um
dos clientes de maior prestígio pagava por vitrais completos. De um lado, um
curandeiro olhava para ela com olhos desaprovadores. Por outro lado, um
padre estendia as mãos solenemente diante dele.
Respirando fundo, ela levantou a bolsa em seu ombro. Nobres
trabalhavam aqui, suas roupas de veludo finas facilmente arruinadas por seu
toque sujo, suas joias cegando-a com sua opulência. Ela não era uma visita
bem-vinda.
Ela subiu os degraus, contando cada um conforme avançava. Quando ela
chegou aos trinta, ela estava nas portas da frente.
— Desta vez será diferente, — disse ela a si mesma. — Eles vão ouvir
você. Você os fará ouvir.
Sorcha abriu as portas e pisou no chão de mármore. Seus passos ecoaram,
aqueles mais próximos a ela olhando para o som intrusivo. Ela não se permitiu
encontrar seu olhar. Ela sabia por experiência própria que suas expressões se
transformariam em choque e depois raiva. Como ousa uma mulher pisar entre
os favorecidos?
Caminhando com confiança até o final do prédio, ela parou na frente de
um homem de óculos que olhava para livros. Ele não ergueu os olhos.
Sorcha pigarreou.
— O que é dessa vez, Sorcha?
— Eu vim falar com a guilda dos curandeiros sobre a questão dos
besouros de sangue.
Ele não discutiu. Eles travaram batalhas suficientes para que os
menestréis cantassem sobre sua guerra. Ele ergueu a mão, suspirando. —
Terceiro corredor à esquerda.
— Obrigada.
Ela disse a si mesma para ficar calma. Gritar com aqueles homens só os
fariam cravar mais fundo, e ela queria ajudar. Os besouros do sangue não
estavam indo embora, mas talvez, apenas talvez, ela pudesse ajudar os
infectados a sobreviverem por mais tempo.
Seu estômago revirou.
Não havia razão para ter medo. Eles não podiam prendê-la ou chamá-la
de bruxa. Isso significaria admitir que eles acreditavam em magia, e aqueles
eram homens da ciência. O pior que poderia acontecer é que eles ririam dela.
Isso não deveria incomodá-la tanto quanto incomodava. Seu orgulho
sempre foi uma fraqueza pessoal, e ela ainda não havia dominado. Sorcha
queria que eles dissessem que ela estava certa. Só uma vez.
Ela empurrou a porta e saiu para o corredor.
Um grupo de homens se reunia em torno de um corpo estendido em uma
longa mesa. Um cobertor estendia-se sobre as pernas do morto, mas essa
modéstia parecia desnecessária quando tinham sua caixa torácica aberta.
— Senhores, — ela gritou, — outra vítima do besouro de sangue?
O homem parado na cabeceira da mesa ergueu o olhar. — Sorcha. Achei
que tivéssemos te expulsado da última vez.
— Vocês expulsaram! E ainda, aqui estou eu novamente. Tenho
informações sobre como extrair os besouros sanguíneos que pensei que você
poderia achar útil.
— Duvido que qualquer coisa que uma mulher diga seja útil.
A sala estava tão fria quanto sua voz. Ela engoliu sua raiva e acalmou
seus arrepios. — Eu fiz anotações detalhadas, como você pediu da última vez,
incluindo desenhos de minhas descobertas. Como você tem um dos aflitos
antes de você, eu ficaria feliz em fazer uma demonstração ao vivo.
— Criança, agradeço sua dedicação, mas você nunca foi formalmente
treinada. Não precisamos das opiniões de uma parteira sobre o domínio do
homem.
— As mulheres também não sofrem?
— Não consigo ver como isso melhora o seu argumento.
— Você me dispensa porque eu não consigo entender o domínio dos
homens. No entanto, também afeta o domínio das mulheres. De acordo com
sua lógica, eu entenderia isso muito melhor do que você.
Ele suspirou, abaixou a cabeça e se apoiou na mesa, claramente
respirando com moderação. — Sorcha. Eu não deveria ter que explicar isso
para você.
— O que há para explicar? Tenho informações que podem ser
úteis. Vocês devem ouvir.
Os olhares coletivos queimavam. Ela sabia que eles não a queriam na
mesma sala enquanto estudavam. Isso ainda a frustrava infinitamente.
— Por que vocês não me escutam? — ela perguntou. — Não é uma coisa
difícil de fazer. Tenho certeza de que vocês podem me ouvir, pois nenhum de
vocês é tão avançado em idade que eu deva gritar.
Seus olhos se desviaram para o canto de uma sala onde um homem
bonito estava. Geralt. Seu cabelo escuro como tinta brilhava azul na luz forte
que escorria pelo teto de vidro. Seus lábios se curvaram para o lado em um
sorriso malicioso, e seus olhos cobalto brilhavam com humor. Calças flexíveis
abraçavam suas coxas bem torneadas, uma camisa de linho branca ondulava
em seus cotovelos e um colete de brocado verde abraçava seu peito largo.
Ele cambaleou para frente. — Posso, senhores?
Sorcha conteve seu bufo de desgosto. Ela tinha falado, mas ele não
dirigiu sua pergunta a ela.
O médico tirou os óculos e estalou o lenço no ar. Ele o pressionou contra
o nariz, como se Sorcha trouxesse consigo um fedor rançoso, e acenou com a
mão. — Por favor faça.
— Sorcha — Geralt disse enquanto avançava. — Não é que não
valorizemos sua opinião, certamente valorizamos. É que estamos muito
ocupados e à beira de uma grande descoberta.
— Que você pode remover os besouros? Eu disse isso a você assim que
entrei.
— Não, nós encontramos uma maneira de evitar que eles se reproduzam
dentro do corpo humano.
Ela apertou os dentes, com tanta força que sua mandíbula rangeu. — Isso
é impossível.
— Não é. Eu entendo o quanto você deseja nos ajudar e agradecemos
isso. Mas eu estou te implorando, — ele segurou as mãos cruzadas diante
dele. — Dê-nos mais tempo. Mais tempo ininterrupto.
— Não tenho tempo — rosnou Sorcha. — E nem o resto do nosso povo. A
praga do besouro do sangue piora a cada estação. Você e seus colegas 'médicos'
se enfurnam nesta sala dia após dia e nunca encontram qualquer tipo de
resolução. Você pega corpos como se fosse um dullahan! Tudo por nada!
Seus gritos ricochetearam no teto alto e atingiram os homens como
flechas caindo. Alguns tiveram a decência de recuar, outros permaneceram
estoicos. Os olhos de Geralt se estreitaram sobre ela e, pela primeira vez,
Sorcha pensou que finalmente o tinha irritado.
A faísca de fogo desapareceu.
— Estamos fazendo o melhor que podemos, — o tom bajulador voltou à
voz de Geralt. — Você é a garota mais corajosa e ousada que já
conheci. Agradeço sua tenacidade. — Sua mão pressionou contra sua coluna e
a tirou da sala.
— Ainda não vou embora, Geralt. Posso pelo menos assistir ao
exame. Talvez eu pudesse ter...
— Sorcha, — ele interrompeu. Ela podia sentir cada dedo queimando o
tecido de seu vestido. — Talvez você possa explicar por que não tem tempo
para esperar? Eu gostaria de oferecer minha ajuda.
— Eu não quero sua ajuda.
— Mas eu quero dar. Então, por favor, caminhe comigo.
Ela olhou por cima do ombro para o corpo. — Se eles apenas escutassem,
pela primeira vez em suas vidas teimosas, eu poderia ser capaz de lhes ensinar
algo!
— Hoje não, adorável. Hoje não.
Ele a empurrou para fora da sala com tanta facilidade que Sorcha se
perguntou se ele a tinha amaldiçoado. Mais provavelmente ele a estava
dominando. Geralt era uma cabeça mais alto e não se importava de usar seu
peso maior a seu favor.
Havia pouco mais que ela pudesse fazer. Sorcha queria ficar, mas só faria
uma cena maior se o fizesse. Talvez um dia eles a deixassem ficar, mesmo no
canto ou nas sombras.
Mas ela era apenas uma parteira e, portanto, um ser inferior.
Geralt se abaixou e roçou os lábios em sua orelha. — Agora, o que há de
errado com seu pai?
— Você sabe o que há de errado com ele. Ele está infectado.
— Eu sei que ele está infectado, mas você nunca o usou como desculpa
antes. O que mudou?
— Está progredindo.
Geralt acenou com a cabeça para outro nobre. O outro não retribuiu o
gesto. O sangue antigo raramente reconhecia novas riquezas. — Quão ruim?
Ela parou de andar. — Por que você está perguntando? Você não se
importa como ele se sente!
— Claro que me importo. — Ele apertou a mão contra o peito. — Eu
sempre me importei, Sorcha.
Tudo estava saindo de controle. Seu estômago apertou e seus dedos se
fecharam em punhos. — Não é por isso que estou aqui, Geralt. Não estou
tendo essa conversa com você no meio da Guilda.
— Então, vamos caminhar lá fora.
— Já falamos sobre isso tantas vezes! O suficiente! — Seu grito
exasperado ecoou. Os homens pararam de trabalhar e olharam para eles.
Seu rosto ficou vermelho, as sardas destacando-se em relevo contra sua
pele pálida. A última coisa que ela precisava era que esses homens pensassem
que ela estava histérica. Ela já gritou o suficiente.
Sorcha abaixou a cabeça e foi em direção à liberdade, lembrando-se de
ficar calma e composta.
— Sorcha! — Geralt a chamou.
Ela correu para a frente, irrompeu pela porta da frente e desceu correndo
os degraus. Ele a alcançou. O puxão severo de sua mão em seu braço deixaria
hematomas.
— Você poderia pelo menos me ouvir?
— Acho que já ouvi isso muitas vezes. — Ela se desvencilhou de seu
aperto e esfregou seu bíceps.
— Você teria tudo o que deseja, — disse ele enquanto ela se afastava. —
Você teria uma casa, um marido, filhos.
— É isso que eu devo querer?
— Um homem que te adora. Que sussurra poesia em seu ouvido todas
as noites e se dedica à sua felicidade.
Parecia tão bom que ela fez uma pausa. Ele falou de uma vida que toda
mulher desejava. Um relacionamento amoroso com um homem que apoiava
todos os seus caprichos e paixões. Mas ela conhecia Geralt bem. Ele queria
acreditar que era esse homem, mas seus olhos demoravam-se nas curvas de
outras mulheres. Ele bebia mais do que admitia e, acima de tudo, não era tão
bom quanto pensava.
— Desejo um homem útil. Alguém que pode nos ajudar em nossa hora
de necessidade. — Ela olhou por cima do ombro. Uma mecha encaracolada
vermelha roçou seu rosto na brisa forte. — As palavras são inúteis se ninguém
sobrar para ouvi-las.
—Você quer que eu seja o herói? Eu não posso salvar todos!
— Não, você não pode. Você não é um curador. Você paga para estar
naquela sala entre as mentes mais brilhantes para satisfazer sua curiosidade
mórbida, — ela atacou. —Por que você não acredita em mim quando digo que
posso ajudar?
— Você é uma mulher! Que ajuda você poderia fornecer?
Lá estava. Havia a raiva, a raiva vermelha que ela via tão raramente. Ele
enterrou seu temperamento bem fundo até que fervesse sobre suas bordas.
— Meu sexo não muda o quanto eu sei.
— Você é naturalmente fraca. Você não pode evitar isso, e todos nós
entendemos. Por que você não pode?
Ela se endireitou, endireitou os ombros e agarrou o lenço. — Não sou
fraca por causa da minha feminilidade. Não te desprezo por não saber como
dar à luz um filho ou a maneira certa de guiar uma mulher durante sua
primeira menstruação. Talvez você deva se perguntar por que sente a
necessidade de me desprezar.
Uma multidão se reuniu em torno de sua visão. Esta não foi a primeira
vez que ela gritou com um homem na rua, ou com uma mulher. Ela cerrou os
dentes.
— Você não pode mudar o mundo, Sorcha.
— Eu faria se eu pudesse. — Ela se afastou da cidade, dos aldeões que
escondiam sorrisos maliciosos, do confuso e bonito Geralt.

Um estrondo sacudiu toda a cozinha. Pratos de barro chacoalharam e


uma caneca caiu no chão, estilhaçando-se com um barulho ecoante. As
venezianas se chocaram contra os vitrais com estrondos estrondosos.
Os brownies estremeceram. Eles ergueram seus rostos pontudos e
peludos em direção ao teto. Risadas nervosas flutuavam no ar com as bolhas
de seus pratos.
Oona, a única pixie da cozinha, ergueu seu olhar violeta e suspirou. — O
mestre está com raiva esta noite.
— Ele estava com raiva na noite passada e na noite anterior! — O gnomo
entrando na cozinha poderia olhar uma ovelha nos olhos. Seu rosto era
assustadoramente semelhante a uma tigela de purê de batatas, com
sobrancelhas aladas sempre contraídas em uma carranca raivosa. Ele
cambaleou até Oona e jogou uma cesta de flores na mesa. — Para o jantar.
— Obrigado, Cian. Você vai levar o jantar para o mestre esta noite?
— Aquela coisa rabugenta lá em cima? Uivando como se ele planejasse
destruir todo o castelo? Eu não vou, em nenhuma circunstância. Ele está com
muita raiva ultimamente, o menino pode passar fome.
— Ele tem o direito de ficar com raiva.
— Ninguém tem o direito de ficar com raiva por tanto tempo.
Oona se virou, asas lilases tremulando no ar. As sobrancelhas arqueadas
se ergueram ainda mais altas. O leque em forma de folha em sua testa vibrou
de raiva. Ela agitou um dedo longo em Cian, o dedo extra dando seu peso de
debate. — Você sabe tão bem quanto eu por que aquele homem está
zangado. Seu próprio irmão o baniu aqui. Seu gêmeo! Depois de tentar matá-
lo, mais de uma vez, preciso lembrá-lo.
Cian cruzou seus braços curtos sobre seu peito largo. — Nunca me senti
mal por um rei e não pretendo começar agora.
— Não é um rei. — Ela balançou a cabeça. — É um homem que poderia
ter sido rei, se as circunstâncias fossem diferentes. Aqueles que ele amava o
traíram, o enforcaram e o enviaram para esta ilha conosco. O mínimo que
podemos fazer é levar o jantar para ele.
— Você leva para ele, então. Eu não preciso ser jogado do outro lado do
quarto como da última vez.
— Ele não ousaria.
— Poucos iriam, — Cian movimentou a cabeça. — Você é uma mulher
assustadora, pixie.
— E não se esqueça disso. — Ela estendeu a mão e bateu na cabeça dele
com uma colher de pau. — Agora, onde está o jantar do mestre?
Ele corou, a cor vermelha destacando-se nas pontas de sua pele
enrugada. — Não comprei um para ele.
— Cian!
— O que? Eu disse que não ia levar jantar para ele!
— Não há tempo suficiente para encontrar algo para ele comer! E o que
você acha que vou fazer? Levar pólen e mel para ele?
— Por que ele não pode comer o que nós comemos?
— Porque ele é um descendente direto dos Tuatha dé Danann! Você acha
que eles comem como nós?
Oona girou e procurou freneticamente na cozinha por qualquer coisa que
pudesse levar para seu mestre uivante. Ele não era um homem exigente. Ele
raramente comia, mas não conseguia comer flores e certamente não conseguia
beber apenas creme.
Ela acabou com as mãos cheias de pão, mel e leite. Foi o melhor que ela
pôde fazer, embora não fosse provável que acalmasse sua raiva.
Oona soltou um suspiro que mexeu com as pétalas do cabelo e saiu da
cozinha.
Os degraus de pedra para os aposentos do mestre sempre a deixavam
nervosa. Nenhuma grade a impedia de cair direto no centro. Olhando para as
escadas, ela engoliu em seco. A queda iria matá-la, então ela estava certa de
andar com cuidado enquanto caminhava para os aposentos do mestre.
O pico da torre se abria para uma passarela suspensa ao ar livre. O vento
assobiou passando por seus ouvidos. As trepadeiras em seu cabelo se
transformaram em chicotes contra suas bochechas e pescoço.
Ela atravessou a passarela enquanto prendia a respiração. Uma porta de
pedra bloqueava o lado do mestre do castelo de todos os outros, protegendo-
os de sua raiva.
Oona encostou o ombro na porta e grunhiu ao empurrar.
Sons de vidro quebrando e madeira estilhaçada encheram o quarto
além. Suas mãos tremiam enquanto ela percorria a paisagem quebrada de
móveis e vasos. O mestre tinha passado por sua área de estar e além em seu
quarto.
Ela parou por um momento e olhou para uma pintura torta. A Rainha
olhava para baixo da parede com um sorriso suave no rosto. Agora, faltavam
três tiras irregulares. A lona flácida deformava seu rosto ao longo das bordas
cortadas.
— O Mestre nunca te machucou antes, — ela sussurrou. — O que
aconteceu esta noite?
Os sons da ira do mestre silenciaram com suas palavras. Ele a ouviu.
Oona respirou fundo para se acalmar e caminhou em direção ao
quarto. Ela timidamente empurrou a porta de madeira com o dedo do pé,
prendendo a respiração.
— Mestre? — Ela perguntou.
— Vá embora.
Ela olhou para a luz fraca. As cortinas pendiam das janelas, cobertas de
poeira e amarradas na parte inferior para mantê-las firmes. Sombras se
formavam em torno de uma cama de dossel com uma das colunas quebrada
ao meio. Ela podia ver sua cômoda, o lustre balançando no teto, mesmo onde
seu tapete começava. Mas ela não conseguia encontrá-lo.
Um sino tocou em sua mente. Isso a alertou para ir embora e não deixá-
lo atraí-la para sua escuridão. Para preservar sua própria vida e deixá-lo passar
fome.
Seu coração disse o contrário.
Ela ergueu a mão, estalou os dedos e uma luz quente dos Faes dançou no
ar.
— Aí está você, — ela disse. — Eu podia ouvir você lá embaixo e fiquei
preocupada. Você fez um bom número no cômodo da frente.
— Vá embora, Oona.
Ele se encolheu além da cama, dobrado em sua grande altura até que ele
era pouco mais do que uma bola. Seu rosto se afastou da luz dela, como sempre
fazia quando a via.
Não pela primeira vez, ela desejou que ele olhasse para ela sem avisar.
— Mestre, — ela balançou a cabeça e marchou para a cômoda. — O que
você fez com a sua capa?
— Achei que não teria visitantes.
— Bem, nós compartilhamos um castelo. Há mais de nós do que de você.
O que você teria feito se os fogos-fátuos viessem aqui para limpar?
— Assustá-los.
Ela enfiou a mão na gaveta de cima e tirou um de seus muitos mantos
com capuz. — Assustá-los. Eles já tremem quando você passa. Você quer que
eles corram?
— Eles deviam.
— Eu não corro.
— Você não encontra valor em sua própria vida.
Oona fez uma careta. — Isso é cruel e diferente de você. O que aconteceu,
Eamonn?
O brilho de sua luz de Fae o alcançou. Ele ergueu uma mão para cobrir o
rosto e a outra para alcançar a capa. — Agora não.
— Sim agora. — Mas ela deu a ele o capuz, observando a seda pingar de
seus dedos como água negra. — Você não pode continuar quebrando móveis,
temos um estoque limitado. Naufrágios não acontecem todos os dias.
Ele puxou a capa sobre os ombros como se seus músculos tivessem se
enrijecido. Oona sabia melhor. Assim que ele levantou o capuz sobre o rosto,
ela se ajoelhou no chão.
— Não...
Ela não ouviu. Ela estendeu a mão e pressionou a mão contra a dele. —
O que aconteceu?
Eamonn girou a mão, deixando os dedos dela dançarem sobre a palma
da mão, que agora tinha uma ferida aberta. — Outro erro descuidado.
— Oh, mestre. É apenas um corte.
— Você sabe que é mais do que isso.
Ela olhou para baixo, tirando a mão da dele. Sua carne se separou do
músculo carnudo do polegar em diagonal até o dedo mínimo. Nenhum sangue
jorrava da ferida. Em vez disso, cristais cintilantes de violeta e azul cresceram
no brilho dourado.
A ferida nunca mais sararia.
Oona enrolou os dedos sobre a desfiguração. — Não é tão ruim quanto
as outras.
— Não, mas é um lembrete do que eu sou.
— Você é nosso rei.
— Eu sou uma abominação e uma desculpa patética para a realeza Seelie.
Ela entrelaçou os dedos nos dele. — Essas são as palavras do seu irmão,
não suas. Você não é feio, nem deformado. Em todos os aspectos que
importam, você é um Fae Seelie.
— Exceto perfeição física. Eu nunca poderei ser rei.
— Regras como essa deveriam ser mudadas. Não é certo que você esteja
aqui e ele esteja sentado no seu trono.
Eamonn se afastou. Ele se levantou com os joelhos rangendo até sua
altura enorme. Oona não era uma pequena pixie, mas os Tuatha dé Danann
eram gigantes entre os homens. O capuz cobria seu rosto e suas mãos
brilhavam na luz. Seu corpo inteiro era um geodo se abrindo em cada fatia de
sua carne.
— Saia. — Ele rosnou.
— Você vai ficar bem sozinho?
Ele deu as costas para ela. — Eu sempre fico.
Com o coração partido, Oona deixou o quarto solenemente. Ela foi
descuidada nas escadas e quase caiu para a morte antes de voltar para a
cozinha. Lágrimas escorriam por suas bochechas.
Cian espiou dentro pela porta do jardim. — O que ele fez agora?
— Nada. Ele não fez nada, mas escolheu ficar sozinho.
— Ah, boa viagem. Tudo o que ele faz é quebrar as coisas aqui. Gosto do
meu jardim do jeito que está.
Ele desapareceu e seu coração doeu como se ela tivesse engolido algo
amargo. Ela olhou para o teto e balançou a cabeça. — Ele não deveria estar
sozinho. Ele não merece ficar sozinho.
Capítulo 2

Os Gêmeos

Um ramo voltou e deu um tapa no rosto de Sorcha. Ela se encolheu, outro


galho puxando seu cabelo até que ela choramingou. Ela fez uma pausa e tentou
se desvencilhar, bufando.
As árvores seguraram firme, enrolando seus cachos em torno de seus
galhos finos e torcendo em seu couro cabeludo. Seu lenço prendeu nos galhos
mais baixos e seus braços ficaram presos por trepadeiras.
— Eu não quero deixar minha raiva ir, — ela rosnou. — É
saudável! Nenhum homem deve me dizer o que fazer.
A raiva cresceu novamente com as memórias. Mesmo sua caminhada
pela floresta não tinha limpado a névoa vermelha que obscurecia sua
visão. Como ele ousava sugerir que ela acalmasse a língua e, em seguida,
dissesse essas palavras com outra sugestão de casamento? Ele deve estar louco!
— Me deixe ir! — ela grunhiu. — Estou calma!
Outro puxão forte a fez estremecer.
Sorcha respirou fundo. Suas bochechas incharam enquanto ela
exagerava o movimento. — Vê? Não estou com raiva e não vou profanar este
lugar com a minha… — ela fez uma pausa e fez uma careta. — Com meus
problemas triviais.
Como ela esqueceu? Este era um lugar sagrado, um refúgio para todos
os que precisavam, e aqui estava ela valsando, usando a raiva como uma capa
sobre os ombros.
Ela baixou a cabeça de vergonha. — Minhas mais sinceras
desculpas. Não vou cometer o mesmo erro novamente.
As árvores gemeram em aprovação. Ela balançou a cabeça e seu cabelo
escorregou do confinamento de galhos e folhas. Os cachos saltaram contra suas
bochechas, desembaraçados e suaves. Seu vestido caiu pesado contra suas
pernas, seu lenço xadrez balançando com o movimento repentino.
Seus lábios se curvaram em um sorriso suave. — Aprendi sua lição,
Danu, e vou me lembrar disso.
Empurrando um galho para o lado, ela entrou na clareira. Musgo verde
acarpetava o solo até as pedras empilhadas no centro. Um artista havia
esculpido um triskele há muito tempo; os três redemoinhos unidos brilhavam
fracamente no granito. A água borbulhava entre os montes, transformando as
pedras em esferas perfeitas.
Ela sentia o calor dos Faes aqui. Os efeitos prolongados da magia e da
natureza faziam as pontas de suas orelhas pontudas esquentarem.
Ela tirou a bolsa do ombro e colocou suas oferendas nas pedras. —
Grande Mãe de outrora, trago-lhe presentes daqueles que procuram o seu
favor. Aileen, Eithne e Nola deixam mel, lavanda e hidromel doce.
— Enquanto falava, Sorcha colocou a mão sobre cada item. — Eu trouxe para
você o broche de minha mãe. Ele brilha ao sol e me lembra deste lugar. Eu
gostaria de deixá-lo se isso lhe agradar.
Uma brisa quente girou em torno dela. Isso levantou seu cabelo e brincou
com a ponta de seu nariz. Partículas de poeira dançaram e borboletas se
mexeram. Suas asas exibiam cores brilhantes enquanto a luz do sol brincava
sobre elas.
Danu ficou satisfeita. Sorcha inclinou a cabeça em direção ao sol e deixou
seu calor acalmar sua alma. Embora ela estivesse aqui, em seu lugar favorito,
pensamentos sombrios ainda estavam em sua mente.
Havia muitas coisas com que se preocupar. Os besouros de
sangue. Papai. Geralt. Suas irmãs. A lista continuava e continuava até que ela
estava se afogando.
— Danu, — ela sussurrou, — minha mente está preocupada. Não
procuro ajuda, pois sei que nem sempre você pode dar, mas se houver um
momento livre de seu tempo... escute meus medos.
O ar no vale parou como se algo ou alguém estivesse se inclinando para
frente em antecipação.
Encorajada, Sorcha ajoelhou-se e cravou as mãos no musgo. — A praga
do besouro do sangue está se espalhando cada vez mais rápido. Meu próprio
pai contraiu a infecção. Eu tenho o conhecimento para estender sua vida, mas
não posso impedi-lo de morrer. Temo estar apenas prolongando o inevitável.
— Minhas irmãs não durarão muito sem sua orientação. O homem que
tomar o seu lugar dificilmente as verá como pessoas. Não desejo que percam o
negócio ou a casa. Elas fizeram o que era preciso para sobreviver aqui na
cidade. Não há vergonha em sua profissão, mas haverá muitos que procurarão
tirar vantagem de nós na ausência de nosso pai.
— Os membros da Guilda se recusam a ouvir. Eles se sentam em sua
torre de marfim e cutucam cadáveres enquanto muitas pessoas
morrem. Chegaram a dizer que, por ser mulher, não tenho tanto conhecimento
quanto eles. Não tenho paciência, nem resistência, para continuar. Direi algo
tolo ou obstinado e eles nunca mais ouvirão.
— Por favor, grande mãe de todos e protetora dos Tuatha dé Danann,
ouça meu apelo por ajuda.
Sorcha se inclinou e pressionou a testa contra o musgo macio. Ela
prendeu a respiração enquanto esperava, mas não esperava resposta. Não
importava quantas vezes ela gritasse por ajuda, os Faes sempre a ignoravam.
Não era da natureza deles. Até a corte Seelie era inconstante, suas regras
os mantinham estritamente longe dos humanos. Os Tuatha dé Danann eram
separados dessas regras. Eles eram o começo e o fim, o começo de todos os
Fae. Mas isso não significava que gostassem de humanos mais do que de seus
irmãos.
Seu coração trovejou em seus ouvidos. Isso foi uma risadinha na
floresta? Improvável. Embora, se fosse, talvez os Faes estivessem ouvindo.
Ela esperou até que seus joelhos doessem e suas costas gritassem por
alívio. O musgo esfriou sob seus dedos, a água cintilando em gotas brilhantes
em suas unhas.
— Por favor, — ela sussurrou novamente. — Só desta vez, por favor, me
escute.
Um galho quebrou. Não foi uma risadinha, nem foi causada pelo
vento. A coluna de Sorcha ficou ainda mais tensa e ela apertou as mãos no
musgo. Isso poderia ser possível? Poderia ser este o momento em que Danu
finalmente responderia a ela?
Batidas altas ecoaram nas proximidades, as patas de uma grande criatura
que ela não podia ver. Sorcha se encolheu. A brisa aumentou. Seu calor
queimava ao longo de seus ombros e assobiava em seus ouvidos.
— Mulheres não pertencem de joelhos, criança.
A voz cortou sua consciência como uma lâmina bem afiada. Era o
farfalhar das folhas, o gongo da espada golpeando o escudo, o rangido de
dentes mordendo uma maçã. As mãos de Sorcha começaram a tremer
enquanto ela se apoiava nos cotovelos e erguia o olhar.
Seus olhos se fixaram em cascos que cintilavam e se transformavam em
pés humanos. Uma faixa de rico tecido verde caía sobre eles. A cauda de um
cinto dourado esticou-se e pousou nos quadris arredondados.
A mulher era alta. Tão alta que ela rivalizava com as árvores ao
redor. Sua juba de cabelo vermelho pesava até a cintura, a cor tão vívida que
os olhos de Sorcha queimaram. Os ângulos ásperos definiam um rosto não
delicado, mas forte. Olhos verdes brilharam enquanto ela olhava para Sorcha.
— Você está com problemas de audição, garota? Levante-se.
Sorcha se levantou, embora lentamente. — Você não é Danu.
— Astuta para uma mulher tão disposta a se curvar.
As peças se encaixaram. O som de cascos batendo, o cabelo ruivo, o
triskele esculpido nas pedras. As sobrancelhas de Sorcha se juntaram. — Você
é Macha, não é?
— E você está no meu santuário.
Todos os músculos de seu corpo se contraíram. Havia muitos mitos sobre
Macha e todos diziam que ela era perigosa. Irmã de Morrighan, Macha era
conhecida por sua força no campo de batalha. Ela pintaria isatis em sua pele e
cortaria qualquer homem que estivesse em seu caminho. Os contos fantasiosos
afirmavam que ela tinha um corcel feito de fogo e almas de homens mortos
presos dentro de sua lâmina.
— Não quis desrespeitar — disse Sorcha ao baixar o olhar. — Por favor,
aceite minhas sinceras desculpas. Eu vou sair.
A lâmina na cintura de Macha iluminou os olhos de Sorcha com a luz do
sol. Levantando a mão, ela prendeu a respiração e deu um passo para
trás. Cada passo a trouxe mais perto da liberdade e da promessa de vida. Esta
não era uma Fae gentil perante ela.
— Eu não te dei permissão para sair, humana.
Sorcha estremeceu. — O que você quer que eu faça?
— Você pediu ajuda. Estou interessada em fornecer.
— Eu… — Era má sorte não aceitar o favor de um Fae. Exceto que isso
não parecia um presente. Parecia uma oferta que exigiria um preço. — Eu não
faço acordos com Faes.
— Ainda assim, você veio para o que você pensava ser o santuário de
minha mãe? Você implorou por um favor há alguns momentos, mas nada é de
graça. Aqui estou, Sorcha de Ui Neill. Peça seu favor de mim, e talvez eu seja
gentil.
Sua mente corria pelos detalhes que ela lembrava dessa Tuatha dé
Danann. Macha era uma Fae de guerra, mas também era conhecida por sua
proteção. Ela já foi uma figura gentil e maternal antes que a humanidade
tentasse matá-la e a seu bebê.
Havia uma pequena chance de que Macha ajudasse. Sorcha era uma
mulher forte, capaz e frustrada pelas limitações que os homens impunhavam
a ela. Suas frustrações chamariam a atenção de uma Fae como esta.
Nada disso garantiria segurança. Na verdade, Sorcha poderia
argumentar que exatamente o oposto era mais provável de acontecer.
Faes não eram criaturas confiáveis.
— Eu desejo parar a praga do besouro do sangue, — disse ela. — Se existe
uma maneira de salvar meu pai, de prevenir outras mortes, eu gostaria de
saber.
— Você é uma menina inteligente. Sem promessas, sem perguntas,
apenas uma declaração que não posso interpretar de outra forma. — Uma das
sobrancelhas de Macha se ergueu. — Eu gosto de você.
— Eu não vim aqui para implorar pela ajuda dos Faes. Nada vem sem
um preço e eu tenho muito pouco para dar.
O olhar de Macha tornou-se tempestuoso e ela caminhou em direção a
Sorcha. Ela se aproximou cada vez mais, crescendo cada vez mais até ficarem
frente a frente. O pescoço de Sorcha doeu quando ela inclinou a cabeça. A Fae
tinha facilmente 2,10 metros de altura e seu cabelo a fazia parecer ainda
maior. A nuvem colorida faiscando com eletricidade estática.
— Você quer algo de que é incapaz sem ajuda. Você tem que pedir por
isso, Sorcha. Peça minha ajuda e eu darei a você tudo o que você deseja.
— Não sei o seu preço.
— E você não vai saber isso até que façamos um acordo.
Sorcha respirou fundo. Seus peitos roçaram, um zumbido de magia
viajando por ela e acendendo nas pontas de suas orelhas.
— Você fornecerá uma cura para os besouros do sangue?
O suspiro suave roçou o rosto de Sorcha e cheirou a grama esmagada. —
Sim, eu vou. E vou fazer ainda mais. Enquanto você estiver nesta jornada para
encontrar a cura, seu pai permanecerá vivo.
Sorcha pensou que fosse desmaiar. — Papai?
— É o mínimo que posso fazer. Estou enviando você em uma missão,
pequena humana. Longe de sua terra natal, de sua família, de tudo que você
conhece. Séculos se passaram desde que vi pela última vez a cura que você
procura. Até eu não tenho certeza de onde está, embora eu tenha minhas
suspeitas.
— Se você não sabe onde está, como vou encontrá-la?
— Há outros que sabem. — Macha segurou o queixo de Sorcha, sua mão
tão grande que tocou as duas pontas das orelhas. — Você vai começar
encontrando meus filhos. Seus nomes são Cormac e Concepta. Use seu
conhecimento com sabedoria.
— Você quer que eu encontre dois Faes? Aqui?
— Elas foram banidos do Outro Mundo e permanecem no seu.
— Encantados ou invisíveis? — Sorcha perguntou.
A mão de Macha cerrou-se, apertando a mandíbula de Sorcha até que
seus olhos lacrimejaram. — Encantados para parecer como você. Eles
aparecerão como nobres, mas devem ser os únicos gêmeos que vivem no
mesmo solar. Encontre-os e você começará sua jornada.
— O que eu digo a eles?
— Que eu pedi a você para encontrá-los, e que eles me devem um
favor. Diga a eles o que você procura. Eles irão guiá-la.
Sorcha não tinha tanta certeza de que era verdade. Dois Faes
desconhecidos que deviam um favor a uma Tuatha dé Danann? Seu desjejum
subiu perigosamente alto em sua garganta.
O ar encheu seus pulmões quando Macha se afastou. Os mitos não a
prepararam para o olhar frio de uma Fae. Ela queria fugir daquele olhar
zangado. O que ela fez? Ela tinha de alguma forma insultado esta Fae da
guerra antes mesmo de começar? — Obrigada — disse Sorcha. — por meu
pai. Ele sofreu por muito tempo.
— Eu me importo pouco com a vida humana, mas posso ver o quão
importante é para você. Como tal, é um prazer.
Embora a pergunta a fizesse suar, Sorcha engoliu em seco e murmurou:
— Qual é o seu preço?
Possibilidades infinitas se revelaram diante dela. A Fae pode pedir por
um filho, pela vida de Sorcha, ou algo tão simples como um favor sem nome.
Ela não tinha certeza de quanto estava disposta a pagar. Muitas pessoas
infectadas sem rosto poderiam não valer uma vida como escravas. Mas por seu
pai? Ele a salvou de mendigar, tirou-a das favelas e a levou para a cidade, deu-
lhe uma vida.
Como ela poderia dizer não?
Macha curvou-se e mergulhou os dedos na água benta do santuário. Ela
lambeu as gotas e sorriu. — Você suportará adversidades, dores e talvez até a
morte. Vou gostar de assistir suas lutas como pagamento.
— Que tipo de missão você está me enviando? — Sorcha ouviu sua
própria voz como se estivesse debaixo d'água. Distorcida e lenta, ecoava de
volta nela.
— Uma que beneficie a nós duas, — respondeu Macha. — Você consegue
sua cura. Eu recebo meus filhos de volta.
— O que a cura tem a ver com seus filhos?
— Nada mesmo. Mas, ao encontrar sua cura, acredito que você trará
meus filhos de volta a Tír na nÓg.
— A terra da juventude? — Sorcha tropeçou nas palavras. — O Outro
Mundo?
— Estou ficando cansada de explicar minhas decisões para você. Saia
agora ou eu irei expulsá-la deste santuário e rescindir minha oferta.
Sorcha pegou sua bolsa e girou nos calcanhares. Ela não podia arriscar
que a Fae mudasse de ideia. Esta era uma chance de salvar seu pai! Para salvar
a todos!
Na borda da clareira, ela fez uma pausa. Um pé cruzou a soleira do
santuário e entrou na floresta além. O outro permaneceu no vale encantado.
Ela olhou por cima do ombro para a Fae que a observava com olhos
calculistas. Macha reclinou-se no solo musgoso, seus dedos brincando na água
borbulhante de seu santuário.
— Por que você está fazendo isso? — Sorcha perguntou uma última vez.
— Eu também estive à mercê dos homens, mais vezes do que gostaria de
contar. Minha mãe diria que a melhor maneira de respondê-los é permanecer
firme, quieta e continuar fazendo a coisa certa. — Os olhos de Macha
brilharam em um verde brilhante. — Eu não sou uma mulher, mas espada e
escudo. Vou abrir meu próprio caminho ou forçarei outros a criá-lo para mim.
— O que isso tem a ver comigo?
Seus olhares se encontraram e Macha sorriu. — Você é igual, pequena
humana. Eles sempre dizem que você é uma piscina de água parada. No
entanto, ambas sabemos que, por baixo da superfície, uma tempestade
assola. Vou gostar de ver suas garras crescerem.
Perturbada, Sorcha mergulhou na floresta. Ramos puxaram sua roupa e
puxaram seus cabelos. Ela não os deixou segurá-la. Este não era mais um lugar
seguro, não era mais um refúgio.
Sua respiração saiu de seu corpo em suspiros irregulares. Ela tinha feito
um acordo com uma Fae. O que ela estava pensando? Esse contrato era
vinculativo.
E se ela não encontrasse a cura? Sorcha cambaleou para fora da floresta
e caiu de joelhos perto da estrada das carruagens. Ela concordou em ir em uma
caça ao ganso selvagem para o resto de sua vida? Ela passaria a eternidade
procurando por algo impossível?
Ela não conseguia respirar ar suficiente. Ele ficou preso na garganta e fez
seu peito doer. Suas costelas se expandiram, sua boca abrindo e fechando
enquanto ela tentava respirar.
Logicamente, ela sabia que era um ataque de pânico. Alguma parte de
sua mente reconheceu sua imaginação levando-a para longe da sanidade. Seu
corpo não reconheceu isso e o vômito subiu de seu estômago.
Ela tossiu enquanto expelia seu café da manhã violentamente. O muco
pendia em rios de seu nariz e se misturava com a baba escorrendo de seus
lábios.
O que ela fez?
— Inale, Sorcha, — ela murmurou. — Uma respiração. Duas respirações.
Dentro e fora, ela contou cada batimento cardíaco e movimento de seus
pulmões. Os pássaros cantaram nas árvores próximas. Vinte e sete chilreios
antes de pararem. As rodas de carruagens rangiam e as pedras rangiam sob
seu peso.
Seus dedos se enrolaram no solo. Ela ficaria bem. Há uma cura. Tinha
que haver uma cura porque os Faes não podiam mentir.
Agora cabia a ela, como sempre tinha sido, salvar seu povo. Sua
família. Ela poderia encontrar a única coisa que salvaria todos eles e mataria
os besouros de sangue. Sua vida voltou a ter sentido, além de ser apenas a
parteira que atendia a um bordel e a toda a cidade.
— É Sorcha? — O som da carruagem parou. Os cascos bateram no chão,
fazendo-a estremecer. — Sorcha, querida, o que você está fazendo? Não é
seguro estar na estrada na hora do crepúsculo!
A voz estridente a fez estremecer. — Dama Agatha. É tão bom ver você
de novo.
— Bem, eu espero que seja em melhores circunstâncias do que te
encontrar na beira da estrada! Levante-se criança.
As palavras eram muito semelhantes às da Fae. Sorcha ficou de cócoras,
enxugou as mãos no lenço xadrez e se levantou cambaleando. O pânico passou
para o fundo de sua mente, a resolução e o propósito ocupando seu lugar.
Uma carruagem vermelha parou na frente dela. As rodas brilhavam com
tinta dourada, junto com o emblema de uma rosa. Uma delicada cortina florida
se afastou da pequena janela e emoldurou o rosto envelhecido de Dama
Agatha.
— Como você está se sentindo? — Sorcha, cansada, perguntou a paciente
que menos gostava.
— Bem, eu estava prestes a visitar você, Sorcha. Tenho notícias
empolgantes!
— Você vai ser abençoada com um filho?
— Novamente!
— De novo — Sorcha repetiu com um suspiro. Afinal, sua mentira era
verdade. — Parabéns estão em ordem, então. Suponho que você irá parar no
bordel em breve?
— Oh, meu Deus, não, eu preciso que você venha até mim!
Dama Agatha nunca tinha ido ao bordel para nenhum de seus
tratamentos. Ela considerava sua casa um covil de malfeitores e ladrões, não
importando quantas vezes Sorcha assegurasse que era o lugar mais seguro em
Ui Neill.
Ela enxugou a boca com uma manga, tentando ao máximo ignorar o
gosto ácido do vômito em sua língua. — Esta não é sua carruagem normal,
Agatha.
— Oh Deus, não. Um querido amigo me emprestou isso. Vou visitá-
los! Certamente, você já ouviu falar dos gêmeos MacNara. Gente adorável.
Sorcha congelou. — Gêmeos?
— Oh, você não ouviu falar deles ainda? Eles são novos nesta área, mas
são a família mais legal que você conhecerá. Tão prestadores! Tão
progressivos!
Ela olhou para a floresta. — Obrigada, mais uma vez, por tornar isso fácil
para mim.
O movimento agitou galhos próximos. Sorcha pensou ter visto um
lampejo de um verde não natural e o brilho de um cabelo flamejante.
— Agatha? Será que seus amigos precisam de uma parteira?
— Bem, eu não vejo porque não! Você sabe que adoro que você conheça
meus amigos, Sorcha. Não suas irmãs, claro, tenho certeza de que você entende
por quê. Venha comigo! Será tão revigorante ter um novo rosto nessas reuniões
sociais chatas.
Sorcha olhou para seu vestido manchado de terra e a crosta seca de
vômito em sua manga. Suas irmãs estariam muito mais apresentáveis, mesmo
depois de um dia duro de trabalho. Era uma pena que Agatha nunca
percebesse isso.
— Seria uma honra, Agatha. — Sorcha subiu no apoio para os pés e abriu
a porta da carruagem. Almofadas pretas e madeira encerada cobriam o interior
da impressionante carruagem.
— Você pode me dizer o que acha dos nomes para este mais novo
pequenino.
— Ah, quantos são agora?
— Nove, criança. Você deve saber, você entregou todos eles! — Certo —
Sorcha disse enquanto se acomodava no assento em frente a Agatha. — Minhas
desculpas, perdi a conta aos sete.
— Sinceramente, eu também. O que você acha de Derval?
O passeio de carruagem foi terrivelmente enfadonho. Sorcha manteve
um sorriso estampado no rosto e mostrou mais dentes do que o
necessário. Agatha continuava a tagarelar sem se importar se alguém estava
ouvindo. Quando chegaram à mansão imponente dos gêmeos MacNara,
Sorcha tinha certeza de que haviam debatido cada nome sob o sol.
Ela estava pronta para sair deste espaço apertado. A paisagem passou
em um ritmo mais lento do que Sorcha poderia ter visto se estivesse
caminhando. A companhia acabou sendo menos do que agradável, e o destino
não poderia corresponder ao entretenimento prometido.
Mas ela seria uma tola se não aproveitasse esta oportunidade enquanto
durava.
Elas diminuíram a velocidade até parar e o cocheiro bateu com a mão no
teto. Sorcha abriu a porta da carruagem e olhou para a casa esplendorosa. O
mármore branco brilhava no rosa salpicado do sol poente. A casa tinha quatro
andares com raras janelas de vidro. Escadas gêmeas se erguiam do chão,
formando um semicírculo que levava à porta vermelha da frente.
— Meu Deus — sussurrou Sorcha.
— É uma visão e tanto, não é? — Agatha disse ao sair da carruagem. —
Eles são pessoas impressionantes com mais riqueza do que precisam. Se eles
continuarem gastando nessas coisas, eu digo para que eles continuem com
isso! Dê a nós, plebeus, mais paisagens como esta. É bom para o corpo ver a
beleza real.
Normalmente, ela não concordaria. Mas a majestosa mansão poderia
mudar suas opiniões se fosse tão bonita por dentro quanto por fora.
Agatha alisou a seda de seu vestido com a mão. Foi uma escolha
incomum para lidar com nobres que preferiam veludo e bordados.
A outra mulher sabia que os gêmeos não eram humanos?
Timidamente, Sorcha perguntou: — Agatha, por que você está se
encontrando com os gêmeos MacNara?
— Oh, — ela ergueu a mão e abanou o rosto. — Eles me convidaram para
sua mansão, então é claro que eu disse que sim. É bom conhecer os vizinhos.
— Eles dificilmente são nossos vizinhos, Agatha. Eles moram a meio dia
de distância de nós.
Sorcha notou a maneira como os olhos de Agatha se inclinaram para o
lado. A outra mulher pressionou a mão contra a garganta como se ainda
pudesse sentir o pulso pulsando ali. — Você pode guardar um segredo,
querida?
— Sim — Sorcha disse, mas ela já sabia o que Agatha diria.
— As fofocas nem sempre estão certas, mas dizem que os gêmeos
MacNara têm alguns... presentes. Sei que, em minha idade avançada, será
difícil ter um filho. Mas eu já amo este tanto quanto o resto, e quero que
sobreviva.
— Você quer fazer um acordo com eles.
— Não é um acordo com o diabo, meu Deus! Eles são abençoados.
— Eles são Faes, Agatha.
Um olhar medido preencheu o silêncio, acalmando a língua amarga de
Sorcha. — Eles não são Faes, Sorcha. Não existem Faes, mas existem pessoas
abençoadas.
Abençoadoas Sorcha queria colocar algum sentido na mulher. Os Faes
não eram criaturas abençoadas vindas dos céus. Eles eram espíritos de terra
fazendo negócios que exigiam pagamento. Por que Agatha não conseguia ver
a verdade nesses segredos velados?
Por mais que ela quisesse começar esta jornada, Sorcha não queria que a
vida de Agatha estivesse em jogo. Elas não deveriam ficar aqui. Certamente a
cura poderia esperar até que o novo bebê chegasse. O pensamento deixou um
gosto desagradável em sua língua.
— É uma má ideia fazer acordos com coisas que você não entende, —
disse Sorcha. — Talvez devêssemos ir.
— Absurdo. Chegamos até aqui e me recuso a voltar. — Agatha ergueu
a mão quando Sorcha abriu a boca. — Não vou ouvir mais nada, Sorcha. Eu
tomei minha decisão. Você pode vir comigo ou não, embora eu sofra
terrivelmente se você não vier comigo. Eu convidei você e aqui está você. Eu
nunca soube que você seria uma mulher que volta atrás em sua palavra.
Então, ela estava com medo de continuar sozinha. Com uma sobrancelha
levantada, Sorcha estendeu a mão e pegou o braço de Agatha. — Tudo
certo. Vamos lá.
O lacaio irreconhecível ficou com a carruagem. Quando as mulheres
subiram a escada, os pelos dos braços de Sorcha se arrepiaram. Ela olhou por
cima do ombro para o lacaio que estranhamente não se moveu nem um pouco.
— Sorcha? — Agatha perguntou.
— Tudo está bem. — No último segundo possível, Sorcha colocou a
pedra bruxa em volta do pescoço e segurou-a na mão. Ela a ergueu até o olho
e piscou.
Ele se sentava empoleirado na carruagem com graça natural, suas longas
pernas cobertas por um tecido preto fino e um casaco imponente pressionado
em dobras nítidas. Ela poderia ter pensado que ele era humano se ele não
tivesse perdido a cabeça.
— Dullahan? — Ela sussurrou.
Ela largou a pedra bruxa e correu atrás de Agatha, que já estava entrando
na propriedade MacNara. O interior do edifício era tão impressionante quanto
o exterior. Paredes brancas brilhavam com papel de parede filigranado de
ouro. Uma grande escadaria de mármore branco e redemoinhos cinza claro
espiralava do andar térreo e mais alto.
Um mordomo as cumprimentou e colocou a capa azul-clara de Agatha
sobre o braço em uma faixa colorida. Seu bigode se contraiu quando Sorcha
entrou pela porta, seus sapatos arrastando lama pelo chão imaculado.
— Sorcha, não é adorável? — A voz de Agatha ecoou na sala de
entrada. — Eles são anfitriões graciosos por nos permitirem a entrada em um
palácio tão grande.
— Dificilmente um palácio. — Ela respondeu. Embora a casa fosse
bonita, faltava um certo toque humano. Não havia retratos, obras de arte, nada
além de paredes em branco e espaço vazio. Na verdade, parecia que ninguém
morava ali.
O mordomo resmungou sua desaprovação.
— Agatha, por favor, não vá a lugar nenhum sem mim!
Os saltos da Dama batiam no chão de mármore. Os próprios pés de
Sorcha permaneceram em silêncio. Seus sapatos de couro mal tocavam o chão
enquanto ela corria para o outro lado da sala. Agarrando-se na manga de
Agatha, ela a conduziu de volta ao saguão.
— Querida, você está muito preocupada com meu bem-estar. Posso estar
nos delicados estágios da gravidez, mas garanto a você, já carreguei muitos
filhos até o nascimento.
— Eu me lembro, Agatha. Eu te ajudei em cada um.
Elas passaram pela escada no momento em que uma voz ressoou pelo
ar. — E quem, posso perguntar, é você?
O perfume irresistível de laranjas encheu o ar. Pegajoso e doce, revestiu
seus pulmões com frutas cítricas.
Sorcha olhou para o topo da escada. Uma mulher estava lá, muito bonita
para ser humana. Cachos dourados soltos caíam em ondas até sua cintura. Um
vestido de seda vermelha acariciava seu corpo enquanto ela se mexia, o V
profundo entre seus seios deixando pouco para a imaginação. Correntes de
ouro atadas em seu corpo, mergulhando em seu torso e emoldurando seus
ombros.
— Oh, que coisa. — Agatha murmurou.
Sorcha engoliu em seco. — Agatha, talvez você deva dizer a ela por que
estamos aqui.
— Eu sei por que a velha está aqui, — disse a gêmea MacNara. — O que
não sei é por que você está aqui.
— Eu a convidei! — Sorcha sentiu a dama tremer. — Achei que sua
hospitalidade iria além da minha presença.
— Você estava errada. — A mão de Concepta se enrolou no corrimão da
escada. — Mas você conseguiu, no entanto. Vou falar com seu amiga sozinha.
Agatha balbuciou: — Bem, nunca! Ela é minha companheira e você não
nos separará.
— Ivor, por favor, mostre a nosso convidado a sala azul.
— Eu absolutamente não vou embora sem Sorcha. — O mordomo se
aproximou e colocou a mão na coluna de Agatha. — Tire sua mão de mim,
senhor! Sorcha? Sorcha!
— Está tudo bem, Agatha — Sorcha respondeu. — Eu não me importo
de me encontrar com a senhora MacNara. Por favor, descanse seus pés na sala
azul, tenho certeza de que Ivor não se importará de lhe fornecer chá e biscoitos.
O olhar não impressionado que o mordomo deu a ela sugeria que ele não
tinha, de fato, planejado fornecer chá e biscoitos. Sorcha estreitou os olhos.
Ele suspirou. — Seria um prazer, Dama Agatha. Por favor siga-me.
Eles saíram da sala. Um lampejo de seda era a última gota de seu paciente
rebelde que ela poderia ver.
Sorcha suspirou novamente. Os Faes estavam provando ser ainda mais
difíceis do que as histórias afirmavam.
— Bem? — Concepta perguntou de cima. — Você está vindo ou não?
— Você está com pressa, Fae? — ela perguntou enquanto subia as
escadas. — Alguém poderia pensar que um imortal seria mais paciente.
A Fae mostrou os dentes. — E alguém poderia pensar que uma pequena
mortal fraca saberia como cuidar de sua língua.
Sorcha alcançou o topo da escada e encolheu os ombros. — Nunca fui
boa nisso.
— Você deveria aprender. — Concepta se lançou para frente, a raiva
transformando seus olhos de um azul cristalino em um âmbar puro. Sorcha
engasgou quando a mão da Fae envolveu sua garganta. Ela agarrou os pulsos
da outra mulher, mas não conseguiu se libertar. Concepta a empurrou para
trás até que a coluna de Sorcha bateu na parede com um estalo severo, seus
olhos perdendo o foco enquanto a dor florescia em seus olhos.
Ela piscou. Havia algo estranho no rosto da Fae. Ele se retorceu e se
contorceu de raiva, cintilando com uma luz cintilante em um momento e
revestido de raiva no momento seguinte.
O rosnado que saiu da boca de Concepta não era humano. Gutural e cru,
vibrou nos ouvidos de Sorcha.
— Você cheira a minha mãe, humana. — Os lábios de Concepta roçaram
a orelha de Sorcha. — Você é outra de seus animais de estimação? Que veneno
nojento você veio espalhar?
Pontos negros surgiram no limite de sua visão. Sua boca se abriu e um
chiado escapou de seus lábios.
— Se você não pode falar, temo que terei que dizer a minha mãe que você
morreu sem nunca entregar sua mensagem venenosa.
Sorcha enfiou os polegares no tecido sensível dos pulsos de Concepta. Os
pontos de pressão permitiam-lhe o mínimo de fôlego que ela costumava
sussurrar: — Seu favor.
Os olhos da Fae se arregalaram. — O que você disse?
O aperto na garganta de Sorcha diminuiu o suficiente para ela tossir e
suspirar: — Sua mãe disse que você deve um favor a ela.
— E ela está dando-o para uma pequena humana? — Concepta balançou
a cabeça. — Bom palpite, mas não muito crível.
— Ela disse que você sabia como curar a praga do besouro do sangue.
— Ela disse o quê?
— Os Faes não podem mentir — Sorcha murmurou. — Eu sei disso tão
bem quanto você. Diga-me como curá-la!
Concepta a soltou e recuou. A risada dela soou como martelos batendo
no metal. — Oh, isso é uma coisa prazerosa! Você simplesmente deve conhecer
meu irmão. Ele vai gostar de você.
Haveria hematomas em sua garganta. Delicadamente, Sorcha sondou os
músculos de seu pescoço. Eles latejavam como se um laço tivesse se apertado
em suas vias respiratórias. Os Faes eram fortes, ela notou, muito mais fortes do
que qualquer humano.
Ela tossiu. — Por favor.
— Sim. Sim. — Concepta acenou com a mão no ar. — Tudo bem
então. Primeiro venha conhecer meu irmão. Ele vai querer saber o que está
acontecendo.
Era isso? Ela finalmente seria capaz de salvar seu pai? Esperança
preenchia sua cabeça, enchendo seu peito até a borda com uma felicidade tão
frágil quanto uma semente de dente-de-leão. Não poderia ser tão fácil.
Poderia?
A imagem de seu pai, a pele se movendo com os besouros, a impeliu para
frente. Os corredores eram folhas de papel em branco. Paredes brancas, pisos
brancos, filigranas de ouro, mas nada que sugerisse que alguém morasse aqui.
— Esta é uma nova casa? — ela gritou.
— Não.
— Muitos Faes vivem aqui?
— Sim.
Estranho, mas Sorcha podia ver o sentido disso. Que Fae iria decorar
uma casa humana com imagens de sua família? Um retrato sem cabeça
pareceria deslocado, se não simplesmente mórbido.
Ela manteve a mão em volta do pescoço enquanto elas giravam em um
cômodo vazio após outro. Uma brisa passou. O contorno distinto de uma mão
puxou sua saia cinza, puxando-a para frente.
As portas gêmeas estavam abertas no final do corredor. Além disso, um
oásis aparecia. Vinhas emaranhadas de um teto que parecia uma gaiola
gigante. Hortênsias floresciam e enchiam o ar com seu doce perfume, embora
não estivessem na época. Uma fonte ornamentada expelia névoa no ar, lírios
brancos girando em sua base. Um tecido de cores vivas espalhava-se pelo chão
e estava salpicado de travesseiros.
As pessoas se esticavam nas almofadas. Elas seguravam taças de joias
nas mãos, vinho tinto escorrendo por suas bochechas e peitos. A música da
harpa flutuava suavemente na brisa de um músico no canto oposto.
Um homem esticado perto da fonte. Seu peito esculpido estava nu ao sol,
a pele manchada de óleo e bem bronzeada. Seda acumulada em torno dele,
calças ou saia que ela não conseguia discernir. Rubis vermelhos enrolados em
sua garganta e pendurados em sua testa por um capacete dourado. Uma
corrente se estendia de sua orelha até um piercing em seu nariz.
A sensação de formigamento da magia picou sua pele. Sorcha agarrou a
pedra de bruxa em seu pescoço.
— Eu não faria isso se fosse você. — Disse Concepta.
— Por que não?
— Você não sabe que tipo de Fae vive aqui, pequena humana. Se você
espiar o nosso mundo, sairá correndo desse lugar gritando.
— Como vocês são filhos de Macha, presumi que fossem da corte Seelie.
— Você sabe muito pouco de nossa espécie. Seelie ou Unseelie não somos
uma raça. — Concepta lançou um olhar para ela. — É uma escolha, se você
deseja seguir as regras ou não.
Ela observou enquanto a Fae abria caminho entre as pessoas
relaxadas. Ela se pendurou na fonte ao lado de seu irmão e balançou os dedos
na água. Sorcha achava que se parecia muito com a mãe. Não parecia uma
observação segura para expressar.
— Irmão, — disse Concepta. — Eu trouxe um presente para você.
— Você sabe que adoro presentes — murmurou Cormac. — Mas
brinquedos humanos quebram tão facilmente.
Seu olhar foi como um toque físico em sua pele, demorando-se nas
protuberâncias de seus seios e no ápice de suas coxas. Um sorriso lento se
espalhou por seu rosto, os dentes manchados de verde pela bebida viscosa que
ele bebeu.
— Não estou aqui para seu entretenimento — Sorcha respondeu. — Fui
enviada por sua mãe.
— E Concepta ainda não te matou? Você deve ser uma guerreira muito
impressionante.
— Eu não sou uma lutadora, senhor MacNara. Macha disse que você
deve um favor a ela e estou aqui para cobrar.
Ele fez uma careta. — Oh, irmã, isso é chato. Leve-a embora.
Como ele poderia dizer isso se nem mesmo tinha-a ouvido? A alegria nos
olhos não naturais de Concepta sugeria que ela sabia que isso iria acontecer.
Seu pai precisava dela. Suas irmãs precisavam dela. Deuses do céu, o
mundo inteiro precisava de ajuda e Sorcha teve a rara oportunidade de fazer
isso!
A mulher Fae se moveu para se levantar.
— Espere! — Sorcha gritou tão alto que até a música parou. — Disseram-
me que você sabe como curar a praga do besouro do sangue. Eu farei qualquer
coisa pelo seu conhecimento.
Cormac se inclinou para frente e apontou um dedo cravejado de joias
para ela. — Qualquer coisa?
Era uma pergunta afiada, capaz de cortar carne e osso. Ela estava
disposta a fazer alguma coisa?
— Sim, — disse ela com firmeza. — Qualquer coisa.
Concepta passou um dedo pelo braço do irmão. — Eu disse que ela não
era chata.
— Nós vamos ajudá-la?
— Sim.
— Mesmo contra nosso melhor julgamento?
— Temos um julgamento melhor?
Suas mãos se encontraram e dedos entrelaçados. — É contra as regras,
irmã.
— Gosto de quebrar regras.
— Isso vai causar problemas.
— Para nós?
— Sempre há ondulações.
Concepta ergueu as mãos e deu um beijo demorado nos nós dos
dedos. — Então vamos pegar as ondas que eles causam. Acho que valerá a
pena se ela for bem-sucedida.
— O que te faz pensar que ela pode? — Cormac lançou um olhar
incrédulo para Sorcha. — Ela é apenas uma garota escorregadia.
— Eu sou forte, — Sorcha interrompeu. — Eu trouxe inúmeras crianças
a este mundo. Eu conheço a crueldade do homem em primeira mão, e temo
muito pouco. Tenho muito a perder se você não me ajudar.
As palavras pareceram atrair o interesse de Cormac. Ele inclinou a cabeça
para o lado e perguntou: — Tipo o quê?
— Meu pai.
Ele bufou. — Meu pai era um rei entre os homens mortais e pouco fez
por mim. Tente novamente.
— Minhas irmãs. Elas moram com meu pai e, se ele morrer com a praga
do besouro do sangue, elas também ficarão doentes. Não vou vê-las morrer.
— Você ama suas irmãs?
— Mais do que eu posso dizer.
— Nisso, nós concordamos. — Ele soltou a mão de Concepta para
arrastar os dedos por seus cachos dourados, passando o polegar por seus
lábios. — Tudo bem, vamos ajudá-la.
— Você sabe como encontrar a cura?
— Nossa mãe não mente. Nós sabemos como curar a praga do besouro
do sangue.
Seu coração parou. O alívio surgindo em suas veias fez seus joelhos
fraquejarem. — Como? — ela sussurrou. — Por favor, me diga como e o que
eu preciso fazer.
— Oh, não é tão simples como apenas dizer a você. Não temos a cura. Só
sabemos onde está.
— É um objeto?
— De certa forma, — Cormac riu e sua irmã chutou seus pés no ar. — A
cura vem na forma de uma pessoa, pelo menos para você.
— Uma pessoa?
— Um ser simples que você vai devolver para nós.
Concepta rolou para o lado. — Você o trará de volta ao continente e então
terá sua cura. Eventualmente.
— Por que eu traria uma pessoa aqui? O que isso tem a ver com a praga
do besouro do sangue?
— Você não precisa saber as informações. Tudo que você precisa fazer é
viajar para Hy-brasil.
— A ilha amaldiçoada? — Sorcha piscou. — Só pode ser vista a cada sete
anos. Não tenho tempo para esperar sete anos!
— Então, é sua sorte que a hora de ver aquela ilha seja realmente… —
Concepta ergueu os olhos para o irmão. — Agora?
— Em poucas semanas.
— Em algumas semanas, — ela repetiu. — E então você pode ver a
ilha. Você pode obter nosso Fae, por qualquer meio necessário, é claro. Traga-
o de volta e você terá sua cura.
Sorcha balançou a cabeça em confusão. — Vocês não estão fazendo
nenhum sentido. Vocês têm a cura ou não?
— Nós temos.
— Então por que vocês não estão me dando agora? Sua mãe disse que
vocês devem um favor a ela!
Os olhos de Concepta brilharam amarelos novamente. Ela se agachou
sobre a borda de pedra da fonte. — Você está dizendo que eu sou uma
mentirosa?
— Nós duas sabemos que as Faes não podem mentir.
— O favor de minha mãe salvou sua vida. Você nos deve outro, o que
significa que trará de volta aquela desculpa patética de Príncipe! E se ele gritar
ou chorar quando me ver, vou arrancar sua língua com os dentes!
Uma corda de harpa estalou. Sorcha se assustou com o som e se virou
para ver que todos os habitantes da sala haviam fugido. O músico foi o último,
o tecido de sua roupa preso em seu próprio instrumento.
Os dentes de Sorcha bateram uns nos outros. — O que você vai fazer com
ele, se eu o trazer de volta?
— Isso não é da sua conta, — disse Cormac. — Nós temos um acordo?
Ela estava fazendo muitos negócios com Faes em um dia. Seu intestino
gritou que isso era uma má ideia. Macha era uma coisa, a reverenciada Tuatha
dé Danann valorizava a vida e a força feminina. Estes dois? Algum fio em suas
mentes se desfizera, deixando buracos onde a insanidade crescia.
Ela observou Concepta rastejar para o colo do irmão e acariciar o peito
dele.
— Ela vai dizer que sim. — Disse Concepta.
— Ela vai?
— Ela não pode abrir mão de um futuro onde ela é a 'heroína'. Muitas
pessoas disseram a ela 'Sorcha, você é apenas uma mulher. Você não pode
fazer o que pensa que pode fazer. '
— Humanos são idiotas.
— Os humanos são mais do que idiotas. Eles servem apenas para
alimentar a terra quando morrerem.
Sorcha engoliu em seco. — Eu não quero machucar ninguém.
A cabeça de Concepta girou bruscamente, brilhando por cima do ombro
com olhos de gato. — Você machucou pessoas a vida inteira. Uma criança
natimorta que você não pôde salvar, uma noite cheia de dor e gritos de uma
mulher que não desejava um bebê, um changeling que você deixou perto da
floresta!
— Eu fiz o que eu tinha que fazer. Eu nunca matei ninguém.
— Mas você irá. Algum dia, todo mundo vai. Quer por escolha ou não,
somos todos assassinos. Já passou da hora de você aceitar isso.
Sorcha endireitou a coluna. Ela não era uma assassina. Se esta mulher
queria provar algo com suas palavras cruéis, então tudo que ela conseguiu
fazer foi definir a resolução de Sorcha. Se ela tivesse que escolher entre um
homem desconhecido e sua família, Sorcha sempre escolheria sua família.
— Tudo certo. Vou trazê-lo de volta.
— Vivo. — Acrescentou Cormac.
—Vivo e bem. Vou convencê-lo a voltar e não vou forçá-lo.
Concepta deu uma risadinha. — Pode tentar. Eu não acho que ele vai
voltar. Mesmo assim, será divertido saber que alguém o está
incomodando. Você vai embora agora.
— Com licença?
— Agora.
Ivor, o mordomo, apareceu ao seu lado. Sorcha guinchou quando ele
agarrou seu braço. Ela olhou para a mão humana normal e não conseguiu
evitar a sensação de que havia apenas três dedos tocando seu bíceps.
— Espere! — Ela gritou. — Eu tenho que dizer adeus à minha família.
— Você está me entediando de novo, — resmungou Cormac. —
Dissemos que você vai embora agora.
— Eu preciso das minhas coisas.
— Que coisas? Você não vai precisar dessas coisas para onde está indo.
— Itens pessoais, roupas, promessas de que voltarei! Não posso sair sem
avisar para onde estou indo!
Ivor puxou seu braço.
— Pare! — Sorcha gritou e arranhou sua mão com as unhas ásperas. —
Solte-me seu bruto! Tenha um pouco de pena! Não quero que minhas irmãs
pensem que estou morta!
Cormac ergueu a mão. — Espere.
O mordomo congelou, e ela ouviu a tosse aguda de sua respiração.
— Diga isso de novo. — Ordenou Concepta.
— Não quero que minhas irmãs pensem que estou morta. — Lágrimas
queimaram os olhos de Sorcha. — Elas vão se preocupar comigo, e eu não
posso suportar isso.
Cormac arrastou a mão ao longo da mandíbula de sua irmã, acariciou
sua pele corada e seguiu o “v” de seu vestido de seda. Ela sorriu e fechou os
olhos selvagens. — Nós permitiremos que você diga adeus. Conhecemos a
raridade de um vínculo de sangue e prezamos o amor que floresce entre
irmãos.
O puxão em seu braço voltou, e Sorcha não olhou para trás para os
gêmeos retorcidos que a haviam libertado. Ela teve a chance de fazer algo certo
e ajudar os necessitados.
Enquanto ela descia cambaleando os degraus, Ivor a empurrou para
dentro da carruagem com Agatha, que estava pálida como a neve.
— Você está bem, minha querida? — Ela perguntou.
— Não — Sorcha respondeu. — Mas eu acho que vou ficar. Vamos para
casa.
Ela olhou pela janela e viu as colinas verdes ondulantes se tornarem um
borrão. A carruagem dos Faes acelerou em direção à cidade com uma
velocidade não natural.
Capítulo 3

O Navio

Briana bufou enquanto ela seguia Sorcha. — Você não pode sair!
— Eu preciso, e eu já te disse o porquê, então, por favor, pare de se
arrastar atrás de mim. Eu tenho que pegar minhas coisas.
— Você nem nos disse para onde está indo!
— Eu não sei para onde estou indo.
O cocheiro estúpido a levara direto para o bordel. Ele não falou, e ela não
estava prestes a levantar a pedra de bruxa até o olho novamente, mas ela
entendeu seus gestos rápidos. Ela não tinha muito tempo para se despedir.
Era mais fácil desse jeito. Suas irmãs tinham tendência à histeria,
especialmente quando não conseguiam o que queriam. Sorcha foi sua muleta
por muito tempo.
Embora fossem todas próximas, era ela que procuravam em tempos de
luta. Isso significava que ela ouvia todos os seus segredos, suas histórias, suas
queixas sobre as outras e a vida que viviam. Ela as manteve a salvo, sem filhos,
e se certificou de que todos os hematomas ou arranhões sarassem. Elas
provavelmente não admitiriam, mas Sorcha era parte integrante de suas vidas.
Ela sentiria muito a falta delas.
Briana arrancou uma camisola das mãos de Sorcha. — Absolutamente
não! Eu não sou cega. Você aparece em alguma carruagem chique com um
cocheiro, um cocheiro, e então pensa que vou acreditar que você vai curar os
besouros? Sorcha! Se você quisesse sair com algum nobre rico, sabe que
ficaríamos felizes por você! Por que você está mentindo?
— Eu não estou mentindo.
— Lá vai você de novo! É Geralt? É por isso que você não quer nos
contar?
Sorcha passou por Briana e colocou outra saia em bolsa grande que ela
poderia carregar no ombro. Era melhor do que dar um tapa na cara da irmã. —
Não acredito que você sugeriu que eu aceitaria a proposta de Geralt!
— Ele é rico! Ele tem muitas propriedades e está obviamente apaixonado
por você, embora eu não consiga entender por quê!
— Não vou casar com Geralt! — Sorcha agarrou uma braçada de seus
diários e os jogou na bolsa com suas roupas.
— Por que você está levando isso?
— Eu posso precisar deles.
— Você pode voltar para pegá-los! Certamente quem você vai ver vai
deixar você voltar para casa? Não nos importamos de deixar você ficar com
este quarto!
Ela queria ficar com o quarto também. Havia tantas memórias dentro
dessas paredes. Momentos doces e queridos em que suas irmãs
compartilharam segredos e pesadelos resistidos.
Sorcha devorou todos os detalhes que pôde encontrar. As marcas na
porta onde ela acompanhava o crescimento de Rosaleen. O vaso de flores no
parapeito da janela, agora vazio, porque Briana tinha insistido que a planta
voltaria a crescer. O tronco esculpido em que seu pai havia trabalhado por
tanto tempo, embora parecesse mais com marcas de arranhões do que a baleia
que ele disse que era.
A vida tinha uma maneira estranha de puxá-la para longe daqui. Cada
momento de sua vida, ela passou correndo para os vales dos Faes e deixando
ofertas. Agora havia uma chance de ver o Outro Mundo em pessoa, e ela estava
com tanto medo de partir.
— Briana, eu te amo. Não sei se já disse o suficiente, mas estou dizendo.
O rosto de sua irmã se enrugou de preocupação. — O que você está
fazendo? Que escolha você fez, Sorcha? Você pode confiar em mim.
— Eu já disse a você — Sorcha passou a mão na bochecha de Briana,
memorizando o formato dela. — Os Faes me ofereceram um acordo para curar
a praga do besouro. Não vou ver papai morrer.
Ela deixou a irmã no quarto e desceu as escadas pesadamente. A bolsa
era muito pesada para ela, mas ela se recusou a deixá-la ir. Os livros eram
importantes. Cada erva, cada cataplasma, cada pedacinho dos ensinamentos
de sua mãe estavam nesses livros. Para onde ela fosse, eles iram.
Três lances de escada pareciam uma caminhada de um dia
inteiro. Jogando a bolsa no chão, ela silenciosamente fez seu caminho para o
quarto de papai.
Batendo, ela gritou: — Você está acordado?
— Para você, sempre.
Sorcha sorriu, piscando para conter as lágrimas que brotavam de seus
olhos. Ela entrou no quarto do pai e fechou a porta atrás dela. As sombras
esconderam os rastros de sal em suas bochechas.
— Você está indo embora. — Disse ele.
— Você ouviu?
— Como eu não poderia? Sua irmã estava gritando como uma banshee.
Ela se acomodou na beira da cama. — Você sempre disse que pelo menos
uma de nós era uma criança changeling.
— Sim, mas sempre pensei que fosse você.
— Eu fiz um acordo. — Ela deixou escapar as palavras e as deixou pairar
no ar entre eles. — Não havia outro jeito. A Guilda não vai me ouvir, você está
piorando, os besouros estão se espalhando. Alguém tinha que fazer alguma
coisa, papai.
— E esse alguém tinha que ser você?
— Você está tão surpreso?
Ele se apoiou nos cotovelos, o cabelo com mechas grisalhas grudado em
sua pele com suor. Esta era a razão pela qual ela arriscaria sua vida. Este
homem, que desistiu de tanto para lhe dar uma chance.
Papai alisou o cabelo para trás, soltando um suspiro cansado. — Acordei
esta manhã e os besouros estavam piores do que nunca. Tossi sangue pela
primeira vez e sei o que isso significa. Não contei porque não queria que você
se preocupasse. Então, esta tarde, eles pararam de se mover. Não sei por
quê. Não sei como. Mas eles pararam e meu primeiro pensamento foi que você
tinha algo a ver com isso.
Uma lágrima escorreu por sua bochecha. — Papa...
Ele ergueu a mão. — Eu não terminei. Não te criei no começo de sua vida,
mas vi uma boa garota quando te conheci. Nunca conheci sua mãe, mas ela
obviamente criou você da maneira certa. As outras são mimadas, vaidosas,
cruéis umas com as outras. Você nunca foi como elas.
— Eu soube desde o momento em que você decidiu me curar, você
encontraria uma maneira de parar isso. Estou feliz que seja você. Estou triste
por você ter que me deixar fazer isso e espero que não tenha trocado sua alma
pela minha antiga vida. Mas ficarei ao seu lado se for isso que você quiser.
— Oh, papai. — Ela engasgou enquanto se jogava em seus braços.
Ela não fazia isso desde que era uma garotinha. Era muito mais difícil
caber em seu colo agora que ela estava crescida, mas ela tentou o seu
melhor. Ele esfregou as costas dela enquanto ela lutava contra as lágrimas.
— Não é uma coisa vergonhosa querer salvar sua família, Sorcha.
— Elas acham que estou fugindo para ficar com um homem. Como se eu
fosse deixar você? Elas? Amo muito todos vocês para partir sem um bom
motivo.
— E elas te amam. É por isso que elas estão tão chateadas.
— O que vou fazer sem você?
Ele deu uma risadinha. — Eu imagino que você vai se sair bem. Você
sabe para onde está indo?
— Você acredita em mim? — Ela ergueu a cabeça de seu ombro. — Você
não acha que estou louca ou mentindo?
— Você sempre viu Faes, Sorcha. Pensei que você era louca quando era
pequena, mas comecei a perceber as coisas também. Mãos minúsculas
costumavam puxar seu cabelo o tempo todo. Você passava a noite com
Rosaleen, mas seus vestidos estavam todos perfeitamente passados e dobrados
em sua cama. Coisas estranhas acontecem ao seu redor, criança.
— A maioria diria que sou uma bruxa. — Ela enxugou os olhos, pegando
as lágrimas salgadas nas pontas dos dedos.
Papai balançou a cabeça, os sulcos profundos em sua testa destacando-
se em total alívio. — Você não é uma bruxa mais do que sua mãe era. Os Faes
são exigentes para ajudar, então eu diria que você tem sorte. Não amaldiçoada.
Ela não queria deixá-lo ir. Ela queria ficar enrolada contra seu peito para
sempre, ou até que ele se levantasse como um homem forte novamente.
Seu peito arfava com soluços silenciosos. — Não sei o que estou fazendo,
papai. Esta é a coisa certa a fazer?
— Parece que é? — Ele bateu em seu peito. — Aqui?
— Sim.
— Então é a coisa certa a fazer, e a família dane-se. Você vai voltar para
nós algum dia, tenho certeza disso.
Ela não tinha. Sorcha teve uma sensação de mal estar no fundo de seu
estômago, porque esta era a última vez que o veria. Suas mãos tremiam
enquanto ela segurava suas bochechas.
— Adeus.
Ele pressionou a palma contra as costas da mão dela, segurando-a contra
o coração. — Adeus, doce menina.
Se ela ficasse por mais um momento, ela nunca iria embora. Ela se jogou
da cama em um turbilhão de movimentos e saiu correndo porta afora.
— Sorcha? — Rosaleen chamou. — Sorcha, você realmente está indo
embora?
— Diga as outras que as amo! — Ela gritou e pegou sua bolsa.
A porta da frente bateu atrás dela com tanta força que as venezianas
tremeram. O dullahan se assustou com uma expressão branda no rosto.
Ela jogou a bolsa na carruagem e se lançou atrás dela. Seu punho bateu
contra o telhado.
— Vá!
O chicote estalou, um som não natural de osso rangendo. Lágrimas
caíam livremente por seu rosto enquanto a carruagem fugia do bordel. Suas
irmãs saíram de casa, seus gritos ecoando em seus ouvidos por quilômetros
adiante.
O que ela fez? Dizer adeus a fez querer quebrar em mil pedaços. Mas um
acordo era um acordo.
Sorcha nunca tinha estado longe de casa. Ela só tinha estado sozinha uma
vez na vida, por três dias inteiros depois que o cadáver de sua mãe parou de
queimar. Essas eram memórias sombrias. Pensamentos que sua mente tinha
escondido para que ela não se demorasse no passado.
Agora, ela ficaria sozinha por um período indeterminado de tempo. Ela
lidaria bem com isso? Seu coração parecia que ia pular do peito. Respirações
curtas expandiram seus pulmões e redemoinhos de escuridão piscaram na
frente de seus olhos.
Ela se concentrou na paisagem que passava voando. Elas se dirigiam
para o mar, e ela não ia aos portos desde que era menina. Seu pai havia
especificamente evitado montar um bordel perto de marinheiros. Ele disse que
eles eram clientes frequentes que nunca pagavam suas dívidas. Era mais fácil
em uma cidade onde homens ricos podiam encontrar o caminho por um beco
escuro.
As colinas verdes ondulantes acalmaram sua mente. Paredes de pedra
dividiam os campos, construídas para lembrar a todos onde ficavam suas
terras. Cada pedra brilhava com musgo, gasto pelo tempo, tocado por centenas
de transeuntes. Pontos brancos de ovelhas salpicavam a terra.
De vez em quando, eles passavam por uma ponte de pedra. Riachos
corriam embaixo deles, abrigando trolls e goblins para passar a noite. Sorcha
quase podia senti-los, escondidos em seus casebres sob o solo.
Essas terras esmeraldas sempre a chamavam. Este não era apenas um
campo, não era apenas grama e ovelhas, esta era uma casa.
Ela pressionou a cabeça contra a lateral da carruagem. O movimento
sacudido batia seu crânio contra a madeira de vez em quando, mas mesmo isso
não embotava seu tormento. A terra a enraizou no agora, no momento, em
tudo que não fosse a perda de sua família.
Ela os veria novamente, Sorcha disse a si mesma. Mesmo que demorasse
anos para voltar.
Campos luxuriantes deram lugar a pequenas casas com jardins
cultivados. Em seguida, caminhos de paralelepípedos serpenteavam pelas
cidades, que ficavam cada vez maiores à medida que alcançavam o oceano. Ela
podia sentir o cheiro de sal e salmoura no ar.
A carruagem diminuiu a velocidade ao passar por uma multidão de
pessoas com roupas esfarrapadas. Mulheres com lenços sobre a cabeça
evitavam olhá-la nos olhos, e homens vestidos de lã comida pelas traças
olhavam para a carruagem. Marinheiros que haviam visto dias melhores
vagavam pelas docas, e fazendeiros com as bochechas manchadas de sujeira
vendiam seus produtos. As crianças enfiavam as mãos nos bolsos até mesmo
para a menor das moedas.
As rodas fizeram barulho ao passarem por outro bordel. Sorcha não
reconheceu nenhuma das mulheres penduradas nas janelas, mas havia algo em
seus olhos assombrados que a gelou até os ossos. Essas não eram prostitutas
cuidadas por um homem bom. Esgotadas, exaustas e usadas, seus corpos
contavam a triste história de suas vidas.
Uma parte dela, igualmente gelada, se perguntou se aquele poderia ser
seu futuro. Eventualmente, suas habilidades não seriam necessárias para o
bordel, ou eles encontrariam alguém que faria as mesmas coisas sem o fardo
de hospedagem e alimentação. Para onde ela iria? Não havia empregos para
mulheres, nem maridos para uma mulher favorecida pelos Fae.
Ela se recostou nas almofadas macias da carruagem e se recusou a olhar
para fora.
A brisa do oceano entrava furtivamente por sua janela, enredando-se nos
fios soltos de seu cabelo. Ela podia sentir o cheiro do peixe, das algas marinhas,
do sal do oceano e do suor dos homens. Ela podia ouvir as ondas quebrando
como se tivesse colocado uma concha no ouvido, mas esta era a coisa
real. Essas ondas estavam lá fora. Tudo o que ela precisava fazer era se inclinar
para frente mais uma vez. Olhos assombrados a encararam de volta, embora
seus olhos estivessem fechados.
— Eu não vou me tornar como eles. — Ela sussurrou.
As rodas da carruagem guincharam ao parar. O dullahan bateu no teto
da carruagem, exigindo silenciosamente que ela fosse embora.
Sorcha soltou um longo suspiro para se acalmar. — Você pode fazer isso
Sorcha. Você trabalhou mais duro antes. Tudo o que você precisa fazer é sair
desta carruagem.
Ela enrolou a mão em torno de sua bolsa. Seu punho cerrou-se com força
até que as tiras de couro se cravaram em suas palmas. Coragem nunca foi algo
fácil de encontrar, mesmo quando necessário para a sobrevivência.
A porta se abriu com estrondo e o dullahan olhou para ela com olhos
opacos.
— Sim, eu sei, — disse ela. — Dê-me um momento, por favor.
— É hora de você ir. — Seus lábios se moveram, mas sua voz saiu de suas
mãos.
Sorcha estremeceu. A última coisa que ela precisava era um lembrete de
que o homem que estava diante dela estava realmente sem cabeça, e que ele
estava segurando essa cabeça para falar com ela.
— Para onde devo ir?
— Encontre o navio com a barriga amarela. É marcado como Fae e irá
levá-la para Hy-brasil.
— E quando exatamente a ilha estará visível?
O dullahan estreitou os olhos falsos. — Você tem seis dias.
— Isso é viável em um navio?
— Não sou marinheiro, menina. Pergunte ao capitão.
Ele estendeu a mão para ela tomar. Sorcha não conseguiu se forçar a tocá-
la. O brilho de malevolência em seu olhar a deixava nervosa, e ela se perguntou
se ele a faria tocar sua cabeça.
Ela saltou da carruagem sozinha, carregando o peso de sua mochila com
um suspiro. — Obrigada pela boa viagem.
— Você me agradece por seguir as ordens do meu mestre?
— Bem, sim. — Ela colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha. —
Você pode ter seguido ordens, mas você não fez uma pausa muito longa e não
foi um passeio muito acidentado. Eu nem sequer fiquei com ânsia no
caminho. Por isso, tenho que agradecer. Não seus mestres.
Seu rosto se contorceu em confusão. — Você é uma humana estranha.
— Você não é o primeiro a dizer isso. Oh, — ela balançou a cabeça. — Eu
quase esqueci.
Sorcha enfiou a mão no bolso e tirou um pequeno pote de mel que havia
esquecido de deixar no santuário. Na pressa de sair de casa, ela não o colocou
de volta na cozinha, onde pertencia.
Agora, o líquido dourado parecia errado para manter. Ela o estendeu
para o dullahan com um sorriso suave. — Obrigada.
— O que devo fazer com isso? — Ele segurou o pote perto da cintura para
seus olhos verdadeiros olharem.
— Eu não sei. É um presente. Você gosta de mel?
— Eu não sou o tipo de Fae que gosta de mel.
— Então, presenteie outra pessoa ou saboreie no pão da manhã.
— Sorcha encolheu os ombros. — Isso pouco importa para mim.
Ela passou por ele, mas notou a expressão estranha em seu rosto. Se ela
não soubesse melhor, Sorcha teria pensado que ele estava inspecionando
melancolicamente seu presente. Os dullahan não eram conhecidos por sua
bondade. Eles anunciavam a morte a todos aqueles que cruzavam seus
caminhos e chicotes feitos de espinhas humanas.
Talvez ele nunca tenha recebido um presente, ela pensou enquanto
olhava por cima do ombro.
Sorcha ergueu a pedra bruxa até o olho enquanto ele virava a
carruagem. As velas ainda tremeluziam lá dentro, os crânios rindo na
decoração, a bela madeira se transformando em pele esticada. Rodas rangentes
revelavam ossos da coxa humanos girando. E o próprio estúpido, com a cabeça
apoiada em seu colo e os lábios se estendendo de orelha a orelha, estava
olhando para ela.
Ela ergueu a mão em despedida apenas para ter a satisfação de ver sua
confusão uma última vez.
A multidão cresceu em torno dela. Pessoas de todas as esferas da vida
vagavam pelas docas esta tarde. Eles vagavam pelas ondas de pessoas como
um barco surfando nas ondas.
Cores e sons agrediram seus sentidos. Mulheres de cores vibrantes a
chamavam, os homens gritavam ao longe para levantar as velas e içar as
âncoras. Um peixe caiu no chão onde uma mulher martelou sua cabeça até que
ele parou de se mover. Ela passou para a próxima enquanto outra cortava sua
barriga.
Seu estômago embrulhou. Afastando-se daquele lado da rua, Sorcha
lutou para chegar às docas. Era onde ela encontraria o capitão. Tinha que ser.
— Com licença senhor? — ela tocou o ombro de um homem. — Onde
posso encontrar um navio com a barriga amarela?
— Por que você está me perguntando? — ele a olhou de cima a baixo. —
Eu não faço caridade para gente como você.
— Caridade? — Sua boca se abriu enquanto ele se afastava dela.
Sorcha tentou muitas vezes encontrar alguém que pudesse apontar a
direção certa. As mulheres tentaram contratá-la para trabalhar, os homens a
ignoraram principalmente como se ela não existisse. Um homem até a fez ficar
na frente dele e gritar para chamar sua atenção.
Nenhum deles queria apontá-la para um navio marcado como o
dullahan havia reivindicado. Não existia? Ela queria ficar em uma grade e
gritar. Alguém nesta cidade portuária abandonada pelos deuses deveria saber
onde estava um navio de barriga amarela!
O sol se escondeu no horizonte e Sorcha desistiu.
Cansada e desanimada, ela se sentou no último cais e deixou as pernas
balançarem acima da água. Sua bolsa atingiu as pranchas de madeira com um
baque alto.
— Eu só quero encontrar um navio com uma barriga amarela, — ela
gemeu. Ela caiu para frente e segurou a cabeça entre as mãos. — Não pode ser
tão difícil de encontrar!
Mas era. Ninguém queria ajudá-la. Os olhos de todos estavam
desconfiados e pensavam o pior dela sem perguntar quem ela era, por que
estava aqui, que propósito tinha na vida. Por que as pessoas fariam isso?
Sua pequena cidade protegida parecia tão distante. Seu povo era
retrógrado e estúpido, mas era gentil. Ela já sentia falta, e ainda não tinha sido
um dia inteiro.
Sorcha suspirou e puxou o cabelo. — Você não pode desistir
Sorcha. Muitas pessoas confiam em você.
Ela não podia se forçar a se mover. Suas pernas doíam de tanto caminhar
nas docas o dia todo. As alfinetadas dançaram em seus ombros e espinha com
o peso de sua mochila. Bolhas queimaram a planta dos pés.
Ela poderia querer continuar, mas seu corpo estava lhe dizendo não. Não
havia maneira de ela se levantar e seguir em frente, e ela nem havia encontrado
um lugar para dormir.
— Uma coisa impressionante como você deve cobrar um belo centavo
por uma noite.
— Demais para você. — Ela respondeu sem pensar. Sorcha fez uma
careta e olhou para o marinheiro que a encarava.
Cabelo e olhos escuros se misturavam com o céu noturno. Uma barba
cheia mascarava a maior parte de sua expressão, embora o brilho dos dentes
sugerisse que ele poderia estar sorrindo. Os dreadlocks afastaram o resto do
cabelo do rosto.
Seus ombros largos e peito estavam nus, e ela imaginou que ele estava
com muito frio. Uma pelagem de pelo o cobria do pescoço às calças escuras. Ele
não estava usando sapatos.
Os lábios de Sorcha franziram. — Muito caro.
— Eu não julgaria um livro pela capa, querida. O quanto você quer um
lugar aquecido para dormir?
— Não tanto — Ela empurrou sua bolsa para o lado. — Na verdade, eu
mesmo irei encontrar um lugar. Obrigada por me lembrar que está
escurecendo.
— Parece que você não é daqui, então deixe-me dizer algumas coisas. As
docas não são seguras à noite. Mesmo para prostitutas.
— Eu não sou uma prostituta.
— Por que mais você estaria nas docas? Mulheres respeitáveis ficam lá
em cima, — apontou para a luz das velas da cidade. — O resto vem aqui para
brincar com gente como eu. Você parece cansada, com fome e suja pela
viagem. Ou você é uma prostituta ou será em breve.
Sorcha sentiu que precisava se defender, ou pelo menos o título de
prostituta. — Minhas irmãs administram um bordel de sucesso em Ui
Neill. Não aceito bem um homem que faz menos de sua profissão. E quanto ao
seu conhecimento, — ela lutou para se levantar, — eu estou procurando um
navio em particular. Eu preciso viajar para longe daqui.
— Uma cliente? — ele riu. — Querida, você tem que mentir melhor do
que isso.
— Não estou mentindo! Disseram-me para encontrar o capitão de um
navio pintado de amarelo e que ele me levaria para onde eu precisava ir.
— O que você quer com o Saorsa?
Ela sorriu, o nome era apropriado. — O navio se chama Liberdade?
— Quem é você? — O homem cruzou os braços sobre o peito e franziu a
testa para ela. — O Liberdade não leva passageiros.
— Eu acho que essa seria a decisão do capitão.
— Eu sou o capitão.
As palavras ecoaram na mente de Sorcha. Não pode ser. Ele? Ela o olhou
de cima a baixo. — Você não parece um capitão.
— Você já viu um capitão antes?
— Não.
— Então você é uma juíza bastante pobre, não é? — Seus pés bateram
contra a doca quando ele se afastou dela. — Ah, e a propósito, ser educada com
um capitão é um bom começo.
Sorcha olhou para as costas dele em choque. Esse era o capitão? Ele não
podia estar falando sério. Ela não tinha acabado de arruinar sua chance de
chegar ao Hy-brasil sem nem mesmo perguntar a ele se ele a levaria?
Ela lambeu os lábios e gritou: — Os gêmeos MacNara me enviaram!
O capitão congelou. — Com licença?
— Os gêmeos MacNara me enviaram para pedir uma passagem
segura. Eu preciso ir para Hy-brasil, e eles disseram que você é a única pessoa
que pode me levar lá.
A lua flutuou no ar atrás dele, delineando sua figura com prata. — Eles
estavam certos, mas eu não vou para a ilha fantasma.
— Você é minha única opção. Eu tenho que ir e preciso que você me
leve. Não posso me desculpar o suficiente por ter sido rude, mas é fundamental
que eu vá.
— Você nem consegue ver a ilha.
— Você pode em seis dias, — ela disse. — O dullahan me contou. Por
favor.
Ele se virou para ela e cruzou os braços. — O que você está pagando?
— Não tenho nada para dar.
— Alguma coisa nesse pacote? — Ele apontou para a bolsa dela.
— Itens pessoais, principalmente diários. Eu sou uma curandeira. Posso
ajudar de qualquer maneira a bordo.
A esperança floresceu. Ele a estava avaliando como se ela fosse uma
pessoa, não apenas um pedaço de carne. Isso tinha que significar alguma
coisa. Talvez ele a levasse.
Nesse ponto, Sorcha nadaria até a maldita ilha se isso significasse
progresso.
Um crocitar a assustou. Sorcha estremeceu e olhou para o
céu. Contornado na escuridão e nas estrelas, um corvo gritou novamente.
— Achei que só voassem durante o dia. — Ela sussurrou.
— Malditos Faes — resmungou o capitão. — Tudo certo. Bem. O navio
levará você, mas você ajudará em toda a viagem. E não se esqueça do que fiz
por você.
— Não prestarei serviço a seus homens na viagem. Devo ter meus
próprios aposentos.
— Você estará compartilhando o meu, — ele grunhiu enquanto se
afastava dela. — Ter uma mulher a bordo já dá azar. Vou ficar de olho em você.
Sorcha agarrou sua bolsa e jogou-a sobre o ombro. As bolhas que se
danassem, ela conseguiria chegar a este navio. — Meu nome é Sorcha. Qual é
o seu?
— Manus.
— O grande? — Ela sorriu. — É um nome adequado para um capitão.
— Agora você está me elogiando? — Ele olhou para ela assim que ela o
alcançou. — As mulheres são tão difíceis de entender. Em um minuto você está
me deixando com bolhas nos ouvidos, e no próximo você está me ligando a
alguma figura histórica.
— Você não sabia que o nome Manus significa ótimo?
— É um nome. Quem sabe o que seu nome significa além de si mesmo?
— Ele deve ter notado o beicinho nos lábios dela, porque acrescentou: — O que
Sorcha quer dizer?
— Radiante — Sorcha disse com um sorriso suave.
Manus rosnou novamente e apontou para um navio no mar. — Esse é o
meu.
— Como vamos chegar lá?
— De barco.
— Não vejo nenhum outro navio.
— Você já foi ao mar? — disse ele, levantando uma sobrancelha. — Você
pega um barco a remo até o navio e, em seguida, subiremos a bordo.
Mais uma coisa que ela tinha que fazer, e então ela poderia
descansar. Sorcha respirou fundo. Este homem poderia estar mentindo para
ela, ela certamente não podia ver o fundo do navio para determinar se ele
estava falando a verdade.
— Tudo bem, — disse ela. — Mostre-me o caminho.

Sorcha rolou para o lado, os olhos grudados de sono, a boca seca. Um


cobertor áspero cobria suas pernas e o cheiro avassalador de velas de sebo a
fez espirrar. Ela esfregou o nariz. O leve movimento fez seu estômago revirar.
— Oh certo, — ela murmurou. —Estou em um navio.
Ela não se incomodou na noite passada com o movimento constante das
ondas. Ela estava cansada demais para perceber que havia homens olhando
para ela quando o capitão a arrastou a bordo. Sua bolsa foi entregue com pouca
reclamação, e ela nem perguntou onde o capitão iria dormir. Ela plantou o
rosto na cama e o decoro que se dane.
Seu estômago se apertou com força e sua garganta travou.
— Ugh — Sorcha gemeu enquanto arrotava. O oceano estava fazendo
seu corpo inteiro se rebelar agora.
Foi preciso um esforço surpreendente para balançar as pernas para fora
da cama. O tempo todo ela segurou a boca como se o esforço fosse manter a
bile em seu estômago para baixo. Outro arroto balançou seu corpo para frente
e a bile queimou sua garganta.
Balançando a cabeça violentamente, ela pulou da cama e puxou a
porta. Os pequenos detalhes do quarto não importavam. As estátuas polidas e
suaves não foram notadas quando ela fugiu do quarto e bateu com o osso
pélvico no corrimão.
O vômito saiu de sua boca e desceu pela lateral do navio. Sorcha não
achou que tivesse sobrado nada em seu estômago, ela não se lembrava de ter
comido nada ontem, mas não conseguia parar o vômito.
— Ah, você nem teve a decência de entrar na água.
Ela reconheceu aquela voz. Suas bochechas ficaram vermelhas e ela
enxugou os lábios. — Eu nunca fiquei enjoada antes. Peço desculpas se eu
arruinei seu navio.
O homem que se aproximava dela não se parecia em nada com o capitão
de que ela se lembrava. Alto e magro, ele parecia mais um pirata em um livro.
Aros de ouro balançaram de suas orelhas. Seu cabelo e barba eram tão
escuros que brilhavam em azul à luz do sol. A pele ricamente bronzeada
brilhava de suor como bronze polido. Ele havia trocado suas calças gastas por
uma camisa de algodão fina enfiada em um cinto largo acima de calças pretas
justas. Botas de cano alto dobravam-se, cobrindo seus joelhos, e estalavam
contra o convés do navio enquanto ele caminhava em sua direção.
Sorcha estava com a língua presa.
— Manus?
— Não me reconhece, linda? — Suas mangas ondulavam quando ele
ergueu os braços. — Muito diferente de como nos conhecemos, sim?
— Muito, — ela concordou. — Eu mal posso acreditar que é você.
Ele sorriu, os dentes brilhando com um branco brilhante contra o
bronzeado escuro de sua pele. — Ah, esse é o maior elogio que você poderia
ter dado. Você me encontrou em uma posição bastante comprometedora na
noite passada.
— Uma do qual você não está orgulhoso?
— Eu nunca diria que não estava orgulhoso dela. — Ele piscou para ela
corar. — Ela é a outra metade do meu coração! Sequestrada na terra porque o
mar se recusa a ser sua amante. Eu entendo por que minhas damas brigam por
mim, mas, infelizmente, não posso escolher entre elas.
A dramática versão de sua vida dissolveu o enjoo remanescente de
Sorcha. Seu sorriso fraco reforçou sua força, e ela se afastou da grade. — Tenho
certeza de que as duas sentem sua falta quando você se vai.
— Nenhuma delas sente muito a minha falta, mas é gentileza sua. Se você
estiver se sentindo melhor, peço que se junte a mim no centro do navio.
As sobrancelhas de Sorcha franziram. — Por quê?
— O oceano não é um lugar seguro, querida. Estamos navegando nas
águas Fae e odiaria que você fosse pega por um murúch.
— Há merrows aqui? — Sorcha se encolheu para longe da grade.
— É por isso que o navio é pintado de amarelo, — disse Manus. Ele
caminhou em sua direção e deslizou um braço em volta dos ombros dela. —
Venha, deixe-me mostrar a você.
Ele enfiou a mão no bolso e colocou um único ramo de urze na grade. —
Um presente para as amáveis senhoras que guiam meu navio para águas
seguras.
Sorcha prendeu a respiração. Ela sempre soube que os Faes aceitavam
presentes que eram oferecidos, mas eles sempre estavam encantados. Seus
presentes haviam desaparecido. Água corrente apagava os efeitos da magia, e
ela não precisaria usar sua pedra de bruxa para ter um vislumbre dos Faes
aqui.
Uma mão se ergueu da borda do navio. Impossivelmente pálida, seus
longos dedos estavam unidos por uma teia iridescente. Arco-íris cintilavam na
mão da mulher merrow quando ela alcançou o raminho roxo. Ela foi gentil
enquanto beliscava a flor entre os dedos e a levava para a borda do navio com
ela.
A respiração de Sorcha foi liberada em uma grande rajada de ar. — Era
isso?
— Era.
— Mas o navio é tão alto!
— Colocamos ripas na borda para que elas possam escalá-la.
— Não é perigoso? — ela perguntou. — Elas não vão arrastar você para
o oceano?
— Mitos nem sempre são verdade, Sorcha. Nós lhes trazemos presentes,
elas nos dão uma passagem segura. Meus homens conhecem as regras. Novas
noivas estão dispostas apenas.
Ela piscou, surpresa que alguém honrava os Fae como ela. Ele leu bem a
expressão dela, o sorriso em seu rosto estava decididamente satisfeito
enquanto ele se afastava.
Livre de olhos vigilantes, Sorcha saltou de volta para a grade. Ela apertou
a mão na madeira polida e olhou para as ondas.
Uma mulher agarrando-se à lateral do navio, seus grandes olhos escuros
olhando para Sorcha em choque. Cabelo tão verde quanto algas marinhas
emaranhado em suas costas em fios molhados. Ela segurou o ramo de urze em
sua mão palmada. Elas piscaram uma para a outra até que o merrow deu a ela
um largo sorriso de dentes afiados e girou para fora do navio. O lampejo
brilhante de uma cauda verde ondulou à luz do sol, espirrando em uma onda
com uma torção final.
Os joelhos de Sorcha ficaram fracos. Uma
merrow. Uma verdadeira merrow esteve tão perto que ela poderia tê-la
tocado. Nenhuma pedra bruxa havia limitado sua visão, nenhum encanto
havia escondido sua verdadeira forma.
Sem fôlego, ela enredou as mãos nos cabelos e girou em direção a
Manus. — Aquela era uma verdadeira merrow!
— Eu sei. — Disse ele com uma risada.
— Não, Manus, aquela era uma verdadeira merrow!
— Eu também a vi, querida.
— Ela era uma Fae, sem encanto, e ela nem tinha medo de mim!
Ele inclinou a cabeça para trás e explodiu em gargalhadas. — Ah, eu
estava certo em trazê-la a bordo! Eu conheço um amante dos Faes quando vejo
um. Venha comigo, Sorcha. Tenho algo especial para te mostrar.
Manus passou um braço em volta dos ombros dela quando ela o
alcançou. O peso a estabilizou contra o balanço suave do navio. Era enorme
em seus olhos. O convés fervilhava de vinte homens, todos correndo de uma
ponta a outra. As velas brancas estalavam com o vento e se esticavam para
guiá-los através das águas.
Eles se aproximaram da proa e ficaram atrás do mastro. Sorcha encostou-
se na grade para olhar o rosto da mulher de madeira.
— Isto é uma Fae?
— É, — respondeu Manus. — Por isso, sempre nos lembramos de quem
nos deu esse presente e quem nos guia em segurança.
— Você é próximo dos Fae, então? — Poucas pessoas admitiriam seus
laços com a magia. Os Faes eram vistos como uma superstição e acreditar neles
como uma indulgência infantil.
— Ninguém é próximo dos Faes. Eu entrego itens para eles, e às vezes
pessoas. Como você.
— Pessoas? O que os Fae querem com as pessoas? — Sorcha não tinha
ouvido esse segredo em particular antes. Ela leu todos os livros que havia sobre
os Faes e conversou longamente com qualquer um que tivesse experiências
com eles. Ninguém jamais disse que os Faes pediam que as pessoas fossem
trazidas a eles.
— Há sempre algo aqui e ali. Um músico famoso, um artesão, — ele
lançou um olhar em sua direção, — uma parteira.
Ela ficou rígida. — Como você sabe disso?
— Eu carreguei você e suas coisas para o meu quarto na noite
passada. Eu merecia pelo menos uma olhada em seus pertences.
— Isso é uma coisa terrível de se fazer.
— Você poderia ter sido uma assassina, querida. Eu protejo meus
homens e meu navio.
Sorcha não podia culpá-lo por isso. Ela teria feito a mesma coisa se um
homem estranho entrasse em seu bordel. Ainda parecia uma violação de
privacidade.
Ela puxou a pedra bruxa em volta do pescoço. — O que você olhou?
— Apenas alguns dos diários. Assim que percebi que você era uma
curandeira, deixei o resto em paz.
—Você não pegou nada, não é?
— Claro que não. — Ele pareceu ofendido. — Não sou ladrão nem
pirata. O que eu teria roubado de você que o mar não pode dar?
Sorcha soltou a respiração que prendeu. O mar balançava, sacudindo o
navio com uma grande estocada. Sorcha segurou-se na grade e olhou para as
águas escuras onde uma sombra se movia. — O que é que foi isso?
— Era isso que eu queria mostrar a você, — disse Manus. — Você já
ouviu falar de um guardião antes?
— Como um pai substituto?
— Como a espécie.
Sorcha ergueu uma sobrancelha. — Não.
Ele se moveu para ficar atrás dela, levantando a mão acima de seu ombro
e apontando para o horizonte. — Quando os Faes marcam um navio, não são
guiados apenas por merrows. Um guardião é designado para o navio. Eles são
metade mulher, metade baleia. Seus traços distorcidos são assustadores. Eles
podem rasgar um homem ao meio apenas com as mãos.
— Você está brincando.
— Eu não estou. Eles guiam nossos navios em direção ao Outro Mundo
e garantem que nada mais venha conosco.
Ela queria estremecer, mas a mão dele estava em seu ombro. Ele saberia
que ela estava assustada. Isso era exatamente o que ele queria. Puxar a perna
dela assim foi cruel.
— Não aceito bem os homens que tentam me assustar, — disse ela. — Eu
não acredito em você.
— Você deve. Os guardiões são uma ameaça muito real, e é minha
sugestão que você fique longe da água até chegarmos ao seu destino.
Sorcha balançou a cabeça. — Qual é?
Sua mão se moveu ligeiramente para a esquerda. — Você vê isso?
Como ela poderia ter perdido isso? Névoa e nuvens de tempestade
criaram uma parede no meio do oceano. Um raio atingiu o céu e, embora
estivessem longe demais para ouvir o trovão, ela jurou que podia sentir.
— Nós vamos lá? Por quê?
— Porque esse é o único caminho para o Outro Mundo. — Ele disse
enquanto se afastava.
— Hy-brasil não está no Outro Mundo! — Sorcha gritou.
— É na fronteira, querida! E você tem que chegar perto o suficiente para
ver.
Ela queria estender a mão e socá-lo. Ou agarrar seus dreads e jogá-lo ao
mar. Guardião.
Sorcha bufou, mas se afastou da grade. A última coisa que ela precisava
era outra história assustadora em sua cabeça. Ela havia crescido com o
dullahan, faes em tropas, crianças changeling e todas as outras formas
assustadoras de Faes!
Resmungando, ela passou pelos marinheiros de joelhos, esfregando o
convés. Eles estavam estranhamente silenciosos em seu trabalho. Seus olhos a
seguiram todo o caminho de volta para a cabine do capitão, onde ela fechou e
trancou a porta.
Agora que o enjoo havia diminuído, ela deu uma boa olhada em seus
aposentos. E que aposentos impressionantes eles eram.
— Uma cama de dossel? — ela murmurou. — Que necessidade tem um
homem de uma cama de dossel no mar?
Não era muito grande, mal o suficiente para duas pessoas, mas ocupava
uma quantidade notável de espaço. Uma mesa de madeira vermelha foi
empurrada no canto. Não parecia que alguém a usava. Não havia papéis, nem
tinteiros, nada que sugerisse que Manus algum dia se sentou à mesa.
Sorcha olhou embaixo dela.
— Sem cadeira? — ela murmurou. — Claro que seria apenas para
decoração.
A pele marrom de ovelha cobria o chão, macia contra seus pés
descalços. Ela enrolou os dedos dos pés na lã grossa.
Alguém bateu na porta. Girando nos calcanhares, ela gritou: — Não vou
receber visitantes!
— Bom! — Manus gritou de volta. — Nós iremos direto para o olho da
tempestade. Ela está se afastando de nós, então vamos nos esforçar para pegá-
la. Fique na cabine! Eu não preciso que você caia no mar.
Seus lábios se curvaram enquanto ela o imitava. — Eu não preciso que
você caia no mar. É uma coisa boa que você está me ajudando, capitão, ou eu
não me importaria em levá-lo para o oceano!
Uma risada ecoou pela porta, ficando cada vez mais silenciosa até
desaparecer.
Sorcha bufou e cruzou os braços sobre o peito. Ela deveria se sentir
cansada, mas a longa noite de sono foi suficiente. Alguém poderia pensar que
um capitão do mar teria uma sala de entretenimento, mas havia pouco aqui.
Onde estava o tesouro? Os mapas de lugares maravilhosos? Pelo menos
troféus de todos os lugares por onde viajou! O homem tinha um navio com a
marca Fae!
Ela cerrou os dentes e remexeu na bolsa. Havia uma coisa que sempre
acalmava sua mente, não importava onde ela estivesse.
O pergaminho macio cobria a capa de couro gasto. O papel pergaminho
enrolado nas bordas, escurecido pelo tempo e quebradiço. Ela o levou ao nariz
e inalou.
Ainda tinha o cheiro dela. Não importava há quantos anos sua mãe
estava morta, seus livros ainda tinham o cheiro dela. Papel velho, óleo de
lavanda, sol e um leve toque de trevo.
Como sempre, as lágrimas picaram seus olhos.
— Sinto sua falta, — ela sussurrou contra a lombada do diário. — Deixei
o papai ontem e espero que tenha sido a decisão certa. Você sempre me disse
para ser corajosa e gentil. Acho que é para isso que serve esta jornada.
Ela virou a página e se perdeu na narrativa naturalista da cura. Ela leu
sobre chás que podiam parar sangramento, endurecer ossos, limpar feridas,
conduzir uma mulher em cada etapa da gravidez. A mãe de Sorcha tinha um
conhecimento inimaginável e anotava cada momento que podia.
Nunca seria o suficiente. Ela sempre desejaria devorar as palavras de sua
mãe e desejaria poder se lembrar de sua voz. Dez anos bastavam para esquecer
muitas coisas sobre uma pessoa.
Se Sorcha se esforçasse muito, ela poderia se lembrar de como a luz do
sol transformava os cabelos rosados de sua mãe em fogo. Como Sorcha passara
horas contando as sardas no braço da mãe quando adoeceu. Mas ela não
conseguia se lembrar do tom de sua voz, das histórias sussurradas ou de como
soava quando dizia à filha — Eu te amo.
Sorcha fungou e piscou para afastar as lágrimas.
Balançando a cabeça, ela deu um tapinha no diário e colocou-o de volta
em sua bolsa. — Você vai ficar aí, — ela sussurrou. — São e salvo.
As asas batendo bateram contra a vigia do navio. Sorcha se jogou contra
a cama e olhou para o corvo gigante enfiando a cabeça em seu quarto.
— Com licença? — ela engasgou. — Quem é você?
Grasnou para ela, inclinando a cabeça para o lado e olhando para ela com
um único olho amarelo.
— Não, — ela disse enquanto se levantava. — Absolutamente não. Eu
não preciso de um amigo emplumado neste quarto comigo.
O corvo não ouviu. Ele pulou da vigia para a mesa.
— Não! — Sorcha disse novamente.
Ela balançou as mãos para ele. Não havia nada com que enxotá-lo, e
agora poderia ser tarde demais. Os corvos eram inteligentes, mas ela não tinha
certeza de que poderia voar pela vigia. Se ela o espantasse no ar, talvez nunca
o baixasse de volta. Ela olhou suas asas.
— Você é poderoso e bem grande, — disse ela. — Eu acho que se você
estivesse voando, suas asas me machucariam.
Ele inclinou a cabeça para o outro lado e deu um salto na direção dela.
— Ah, — ela engasgou. — Por favor, não faça isso.
O corvo pulou para trás.
— Não — Sorcha balançou a cabeça. — Não faça isso também.
O corvo congelou e encontrou seu olhar.
— Você consegue me entender?
Gritou para ela.
Oprimida novamente, Sorcha tentou se afastar disso. Seu calcanhar ficou
preso na ponta de um tapete e ela caiu com força no chão. O estrondo de seu
cóccix batendo na madeira sólida a fez estremecer tanto quanto o súbito raio
de dor.
O corvo ergueu as asas como se pudesse voar no ar.
— Não! — Sorcha ergueu uma mão, a outra esfregando firmemente em
seu traseiro. — Estou bem. Por favor, não faça isso!
Pareceu hesitar, as asas ainda prontas para voar.
— De verdade eu estou bem. Só não esperava que você me
entendesse. Você é o capitão?
A reação do corvo foi imediata. Suas asas bateram em seus lados, sua
cabeça se ergueu de suas penas a uma altura impossível, e ele grasnou
furiosamente para ela.
— Eu te insultei? — ela perguntou. — Peço desculpas. Este é o quarto do
capitão, não é uma grande extensão.
Embora, falar com um pássaro e esperar ser compreendida fosse um
exagero. Eles eram estranhamente inteligentes, então não foi tão
surpreendente que reagiu às palavras dela.
Ela estreitou os olhos. — Estou inventando isso na minha cabeça porque
ontem eu estava segura no bordel da minha família e agora estou me lançando
em direção ao Outro Mundo? Ou você pode realmente me entender?
Ele bateu suas asas.
Sorcha rolou sobre os joelhos e dolorosamente se levantou. — Estou
enlouquecendo. Primeiro, faço um acordo com uma Fae. Então acho que os
corvos podem me entender. Qual é o próximo? Guardiões são realmente reais?
Ela bufou com o pensamento. O capitão estava tentando assustá-la para
que ficasse em sua cabine e longe de seus homens. Ela entendeu que ele
poderia querer que ela ficasse fora do caminho, mas ele poderia ter feito isso
de uma forma muito mais compreensiva.
O corvo coaxou novamente e saltou em direção à vigia. Bicou a madeira,
as batidas duras repetitivas e estranhamente intencionais. Entre cada golpe, ele
virava a cabeça para olhar para ela.
Estava tentando fazer com que ela fosse até a janela? Ela deu alguns
passos hesitantes para a frente. Se o pássaro pudesse entendê-la, ele queria que
ela olhasse para fora?
— Estou perdendo a cabeça. — Disse ela.
Sorcha se aproximou do corvo, mantendo um olho em seus movimentos
para que ele não investisse contra ela. O pássaro ficou muito quieto. Ela
enganchou os cotovelos na beirada da vigia e se inclinou para fora.
As ondas do mar não alcançaram a janela, mas o respingo de sal embaçou
suas bochechas. O sol se pôs enquanto ela lia. A lua espalhava seus raios pelas
ondas, tornando-as prateadas e brancas espumosas.
Era bonito. Indômito e selvagem, o oceano era a última porção do mundo
que permanecia um mistério. Uma onda atingiu o navio e a água espirrando
parecia música.
— É difícil acreditar que um lugar assim seja tão perigoso. — Ela
sussurrou.
Ela estendeu a mão para a próxima onda. A água do mar espirrou,
extremamente fria e estimulante. As bolhas ficaram presas entre seus dedos e
estouraram quando ela as ergueu em direção à boca. Ela lambeu o sal de sua
pele com uma risada suave.
— Viu? — Ela olhou por cima do ombro para o corvo. — Não é tão
perigoso.
Um baque suave contra a lateral do navio a assustou. Ela olhou para as
águas negras, mas não conseguiu ver nada em suas profundezas.
Sorcha estreitou os olhos e se inclinou mais para fora da vigia.
Algo na escuridão mudou. Ela não conseguia ver o que estava lá, ou de
onde vinha o movimento, mas a escuridão mudou.
Ela fugiu ainda mais para fora da vigia, as mãos apoiadas na lateral do
navio.
Na escuridão do oceano, ao alcance do braço, um olho piscou - maior do
que um prato e preto como a noite. Ela podia ver agora. Todo o comprimento
impossível do guardião se estendia além do navio.
A boca de Sorcha se abriu e seus dedos se transformaram em garras. Só
a cabeça do guardião era maior do que um cavalo! Tinha a forma ligeiramente
humana, mas sua pele era fantasmagoricamente pálida e salpicada. Sua boca
era um grande corte que se espalhava pelo rosto quase até os canais auditivos
na lateral da cabeça. O cabelo crescia como um moicano do topo de seu crânio
e se esticava tanto nas ondas que Sorcha não conseguia adivinhar seu
comprimento.
Ele piscou o olho novamente. Os lábios se esticaram no que ela esperava
ser um sorriso amigável, e Sorcha ouviu o baque novamente. O dedo comprido
e fino da criatura acariciava a lateral do navio. Ele parou no topo da tinta
amarela e então viajou por baixo do barco.
Um gemido suave escapou dos lábios de Sorcha.
— Ok, — ela sussurrou. — Vou voltar para dentro agora. Por favor, não
nos sacuda.
Ela não queria assustar o guardião, então ela se moveu centímetro a
centímetro até cair no chão da cabine. Só então ela se permitiu hiperventilar e
acenar com as mãos no ar. Quando ela perdeu a sensibilidade nas mãos? Seu
coração batia tão rápido que ela pensou que estava subindo para a garganta.
— É real, — ela sussurrou uma e outra vez. — É realmente real. Isso
existe nos oceanos. Nunca mais vou nadar.
O corvo balançou a cabeça e emitiu um som semelhante a uma risada.
— Você para com isso. Você não viu aquela coisa.
O corvo não parou de rir, mesmo quando Sorcha jogou um travesseiro
em sua cabeça.
Com todas as novas visões e o balanço do navio, Sorcha tinha certeza de
que não dormiria novamente. Pesadelos a manteriam acordada. A
possibilidade do futuro a manteria acordada. Não havia como ela escapar para
a noite sem fim. Mas ela fez, e sua mente não a atormentou com sonhos.
Capítulo 4

A Ilha Fantasma

Os fantasmas de seu passado caminhavam com Eamonn pelas muralhas


do castelo. Eles puxavam a capa enrolada em seus ombros, emaranhavam na
ponta alta de sua trança, agarravam seus pulsos e o puxavam de volta para a
escuridão.
Ele balançou a cabeça, tentando jogar de lado as memórias como água
sacudindo de sua pele. Ele não teve tanta sorte. Sua mente o mantinha cativo e
repetia velhas memórias de sua infância.
Seu pai o encarava com olhos frios e insensíveis. A lâmina em sua mão
brilhava na luz do sol forte que viajava pela ponta afiada até a ponta. Ela
desceu, cortando seu rosto e espirrando sangue nas ameias.
Sua mãe desviou o olhar. O sorriso de seu irmão queimou em sua
memória e marcou sua mente.
As memórias eram sua prisão. O tormento era sua penitência por anos
de apegos tolos e confiança familiar.
Nuvens de tempestade rolavam no alto. Cinza ardósia e pesadas com a
umidade, elas ameaçavam raios e trovões que durariam dias. O tempo ficou
bravo com ele e juntos eles iriam se enfurecer contra cada batimento cardíaco
- cada respiração - que o mantinha vivo.
Ele cravou os dedos na pedra rachada da parede que mal chegava à
cintura que era a única barreira entre ele e uma queda de trinta metros. Em sua
juventude, ele teria temido cortar sua pele. Agora, ele ouvia o raspar dos
cristais cortando o granito que se desintegrava sob seu punho cerrado.
Um estrondo baixo de trovão abalou a ilha de Hy-brasil. Muito abaixo
das paredes do castelo, pequenos pontos de ovelhas e Faes espalhados em
direção à segurança das cavernas. Eles esperariam a raiva do céu lá. Talvez
construíssem uma fogueira, bebessem hidromel e uísque e contassem histórias
de sua juventude.
O tempo todo seu mestre permaneceria na torre mais alta e rugiria para
o céu.
Eamonn ouviu uma voz igual à sua no vento. Profunda como o trovão,
mas ainda mais perigosa - a voz de seu irmão gêmeo.
— Isso foi obra sua, — disse Fionn. — Você é responsável por todo o
sofrimento deles e pelo sofrimento de centenas de outros. Você me fez fazer
isso, Eamonn, e agora todos nós pagamos o preço.
Ele balançou sua cabeça. — Eu não escolhi esta vida. Eu não forcei sua
mão.
O ferimento em sua garganta latejava e os geodos em seu pescoço
lançavam uma luz violeta sobre seus punhos. Ele ainda sentia a corda cortante,
desfiando nas pontas e balançando com a brisa.
Ele soltou o fecho de sua capa e a deixou cair nas pedras. Ela tremulou
ao vento, estendendo-se como se fossem asas de pano.
Calças de couro abraçavam suas coxas. As tiras costuradas mergulhavam
em crateras de geodos e ficavam tensas sobre picos de cristal
pontiagudo. Nenhuma camisa cobria seu peito nu, permitindo que o vento
assobiasse pelos vales da desfiguração. Cristas abdominais se erguiam acima
da linha de suas calças, as saliências de suas costelas cortadas por cortes de
feridas violetas. Seu ombro esquerdo era quase inteiramente de pedra
preciosa, o grande pedaço limitando seu movimento. Veias finas de opala
viajavam por seu peito, descendo por um bíceps grosso e se esticando para
seguir a linha de sua espinha.
A ferida mais profunda envolvia seu pescoço. O círculo perfeito tinha
dois dedos de largura e criava um vale oco de cristais denteados. Isso
aprofundou sua voz para uma rouquidão áspera.
Como seu ombro, veias de opala cortavam seu rosto. Duas linhas gêmeas
começavam acima de sua sobrancelha e no topo de sua têmpora. Elas cortavam
seu olho, saltavam apenas a abertura de sua boca e se encontravam em sua
garganta. O cristal em seus lábios limitava sua fala e o fazia falar de um lado
da boca, dando-lhe um sorriso de escárnio permanente.
Ele raspou a cabeça dos dois lados, deixando apenas a parte superior
crescer livremente. Ele o usava em uma trança, deixando-a balançar até o meio
das costas. O cabelo dourado era o último pedaço de beleza que ele tinha.
Eamonn já foi o homem Seelie mais desejado que qualquer mulher já
tinha visto. A força de seu corpo, as lendas de suas proezas em batalha e o azul
surpreendente de seus olhos atraíram muitas para sua cama.
As memórias de belas mulheres se virando quando viam sua verdadeira
forma e o pesadelo em que se tornou o atormentavam.
Ele caminhou até o fim da muralha e deixou os dedos dos pés
pendurados na borda. Seus olhos se fecharam enquanto o vento roçava suas
bochechas. Ele assobiou através dos cristais e cantou uma música que só ele
podia ouvir.
Ele poderia não estar morto ainda, mas a hora estava se
aproximando. Logo, logo ele poderia deixar ir.
— Mestre, — a voz de Cian cortou pela tempestade furiosa dentro da
cabeça de Eamonn. — Se você planejasse pular, já o teria feito há muito tempo.
— Saia.
O gnomo nunca ouviu. Eamonn podia ouvir seus passos enquanto descia
pelas muralhas.
Cian passou sem tocar sua garganta. — Agora me parece que você está
assustando as pixies nos jardins. Elas estão olhando para cima como se seu
corpo fosse desabar sobre elas a qualquer minuto, e eu preciso que elas colham
as abóboras antes que a tempestade comece.
— Faça-as se reunirem na chuva.
— Suas asas ficarão molhadas e nós dois sabemos como elas são difíceis
quando têm asas molhadas. Então por que você não dá alguns passos para trás
e para o tremor delas. — Cian pausou, e então adicionou, — Ou pule fora e nos
salve todos os problemas de preocupação.
O gnomo tinha jeito com as palavras. Eamonn balançou a cabeça e
estendeu a mão. Ele manteve suas costas voltadas para Cian, sabendo que a
maioria do dano a seu corpo estava refletido em seu peito e rosto.
— Minha capa. — Ele grunhiu.
— Eu já vi você antes, garoto. Não há necessidade de se esconder.
— Minha capa, Cian.
Ele sabia que todos o tinham visto. Eamonn acidentalmente se afastou de
sua torre muitas vezes. As pixies o pegaram se lavando nas cachoeiras. Os
brownies o encontraram no campo de treinamento. Eles estavam todos presos
na mesma ilha; não havia muitos lugares para ele se esconder.
Nada disso significava que ele se sentia confortável com eles. Sua
desfiguração era uma desgraça para a linha real. A verdade foi marcada em
sua mente depois que o enforcaram por sete dias. Velhas feridas como aquela
cortavam rapidamente e raramente cicatrizavam.
Tecido fresco encontrou sua mão estendida. Os olhos de Eamonn se
fecharam por um momento, agradecido pelo gnomo ter seguido as ordens. Ele
nunca diria isso. Não havia nenhum propósito em parabenizar alguém por
fazer o que ele mandou.
Ele girou a capa em um amplo arco e a colocou sobre os ombros. O calor
o envolveu com braços indesejáveis. Eamonn odiava a capa. Ele odiava se
esconder, mas isso havia se tornado sua existência. Ele não era mais o homem
bonito que fora antes.
— A tempestade está vindo, — Cian disse como ele subiu para o lado de
Eamonn. — E você ainda está de pé no topo de seu castelo inclinado sobre uma
borda que pode desmoronar a qualquer momento.
— Seria uma grande perda?
— Não. Nós nos daríamos muito bem sem você, mas eu teria que cavar
um novo buraco no jardim e não tinha planejado fazer isso até a próxima
primavera.
— Sempre tão gentil, Cian.
— Eu não tenho que ser gentil com você. O príncipe guerreiro dos Faes
Seelie deve ter uma pele mais grossa.
Eamonn torceu a ponta da capa sobre a mão recém-mutilada. — Isso foi
há muito tempo atrás.
— Dê um passo para trás e direi quem eu era antes de vir para cá.
— Eu sei quem você era, — seus dedos dos pés se curvaram sobre a
borda. — Os gnomos sempre foram bons ladrões. Você roubou da pessoa
errada e paga sua penitência aqui. Hy-brasil foi e sempre será uma
prisão. Nada mais.
Cian plantou uma mão firmemente contra a base da espinha de
Eamonn. O toque repentino o fez travar seus músculos, mantendo-se no lugar,
sem se contorcer ou revelar o choque repentino que correu por suas veias. O
gnomo não empurrou, nem puxou. Ele manteve a mão contra as costas de
Eamonn relaxada, mas ameaçadora.
— Eu não era um ladrão comum. Roubei para ganhar a vida e alimentar
minha família. Seu povo vê os gnomos como pouco mais do que
escravos. Trabalhamos em seus jardins, alimentamos seu povo enquanto o
resto de nós passa fome. Meus filhos foram para a cama com o estômago
doendo, e minha esposa definhou até o nada. Eu roubei um único pedaço de
pão da cozinha de um humilde senhor Seelie. Por isso, eles me baniram aqui -
para nunca mais ver minha família novamente.
Eamonn permaneceu em silêncio. Ele sabia que a corte Seelie era
corrupto. Tinha sido seu desejo mudar esses modos, mesmo enquanto lutava
nas guerras que os sustentaram. Ele não tinha sido o rei, entretanto, e tinha
pouco poder para mudar qualquer coisa. Agora, ele nunca faria.
Seu silêncio estimulou Cian. — Eu não gosto de você, Tuatha dé
Danann. Não pelo que você fez aqui, ou mesmo por quem você é, mas pelo que
você representa.
A mão contra a coluna de Eamonn flexionou-se. Suas próprias mãos se
enrolaram lentamente sob a capa. Se Cian o empurrasse, Eamonn poderia se
segurar na meia parede. Ele precisaria ter fé de que o castelo não desmoronaria
sob seu peso.
— Perdi tudo o que já tive porque seu povo se considera acima de todos
os outros. Era um maldito pedaço de pão e fui banido do Outro Mundo como
se tivesse assassinado alguém. Queria alimentar bocas famintas, receber pelo
trabalho que fiz. E olha o que aconteceu comigo!
Eamonn sentiu a menor cotovelada nas costas.
— Você não tem nada a dizer sobre isso? — Cian rosnou.
— Há pouco que eu poderia dizer que mudaria sua opinião.
— Você está certo. Não há.
A mão contra sua espinha se retirou e o gnomo recuou. Eamonn
endireitou-se e endireitou os ombros. Ele não se curvaria. Ele não
cederia. Embora fosse um príncipe desgraçado, ele poderia ter sido o rei desse
povo.
Ele não iria quebrar.
Os pés de Cian bateram no chão em ecos duros enquanto ele voltava para
a porta que levava ao resto do castelo. Tábuas do assoalho rangentes lutavam
com o trovão.
— Você sabe, — as palavras do gnomo atiradas na noite como lâminas
de assassino afiadas. — Se você não fosse um idiota, eu poderia respeitá-
lo. Você nem mesmo recua.
— Não tenho medo de nada e de ninguém. Saia, gnomo, antes que eu
jogue você da torre.
A porta se fechou. Um raio chiou no ar e atingiu o topo da torre. O trovão
caiu tão alto que as pixies nos jardins abaixo gritaram e fugiram de terror.
Durante tudo isso, Eamonn permaneceu em silêncio e imóvel.
Há muito tempo, ele tinha sido um pilar para seu povo. Eles chamavam
seu nome enquanto ele cavalgava pelas ruas. Eles jogavam pétalas de flores em
seus pés na esperança de que ele pudesse olhar para eles. Agora, eles corriam
de medo.
Ele inclinou a cabeça para trás e deixou sua raiva rugir com a tempestade
que se aproximava. Ele derramou todos os sentimentos de abandono, raiva,
medo e ódio de si mesmo no som. Isso purgou sua alma enegrecida.
Eamonn desviou-se da borda de seu castelo e caiu de joelhos. Olhando
para suas mãos arruinadas, ele decidiu viver. Ele começaria seu trabalho
novamente, voltaria sua mente e paixão para salvar seu povo de todas as
maneiras possíveis. Tempestades como essa sempre traziam cargas
naufragadas. Ele esperaria para ver o que seu povo encontraria na costa
rochosa.
A morte esperaria mais um pouco.

Menos de uma semana no mar e Sorcha estava pronta para se matar. Ela
se segurou no corrimão e respirou pelo nariz. Dentro e fora. Inalações lentas e
intencionais, ou ela vomitaria novamente.
Manus tentou fazê-la comer, mas ela não conseguia segurar nada. Até a
cerveja tinha gosto de bile. Saiu de seu corpo tão rápido quanto ela poderia
beber.
O navio passou por cima de uma onda muito grande e caiu do outro
lado. Tornando-se verde, Sorcha gemeu e se inclinou sobre a grade
novamente. Ver as ondas não ajudou, mas o que mais havia? Ondas sobre
ondas, era isso.
Sua visão ficou turva. Os músculos de seu estômago se contraíram,
tentando forçar o que não estava lá. Ela esvaziou seu estômago de tudo, exceto
bile horas atrás. Agora, vômitos secos ameaçavam matá-la.
A parte de seu cérebro que era uma curandeira gritou que ela precisava
de água. Não cerveja. Não uísque. Água. Água fresca e limpa que hidrataria
seu corpo. Havia muita água em volta deles e nenhuma era segura para
beber. Ela lambeu os lábios secos e desejou a morte.
— Sorcha! Eu preciso de você longe da grade!
Ela ergueu a cabeça e tentou não tremer. — Não posso fazer isso, capitão.
— Agora!
— Eu não posso, — ela sussurrou. — Não consigo nem me mover.
Uma parede de pele escura e cabelos frisados veio em sua direção. —
Quando eu te der uma ordem, garota, é melhor você seguir. Levante-se.
— Não.
— Levante-se!
Sorcha inclinou-se sobre a borda da grade e orou a todos os deuses que
estavam ouvindo. Levem-na agora. Façam isso acabar, ela não se importava
como. Se ela pudesse parar de vomitar por apenas alguns momentos, ela se
consideraria abençoada.
Manus agarrou a parte de trás de sua saia e puxou-a para cima. Seus
joelhos tremeram, os músculos tremeram, o corpo se curvou enquanto ela
vomitava.
— O suficiente! — ele gritou. — Estamos navegando diretamente para a
tempestade que mostrei a você e não vou deixar você enrolada na grade! Os
Faes queriam você em Hy-brasil, e é para lá que você está indo. Agora volte
para meus aposentos!
Ele a soltou e ela caiu de joelhos. — Se eu pudesse ficar naquele quarto
com aquele corvo horrível, eu estaria lá!
— Corvo? — Manus balançou a cabeça. — A maldita coisa não pode sair
bem o suficiente. Eu não me importo com quem está compartilhando o quarto
com você. Você ficará fora de vista até que tenhamos passado pela tempestade.
— Por que não posso ficar no convés? — Ela olhou para ele, olhos
arregalados e pele pálida. — Vou ficar fora do caminho. O ar fresco ajuda.
— Tenho certeza que sim, linda. Mas essa tempestade vai nos atingir com
força. As ondas baterão direto no convés e, pelo menos na cabine, você poderá
se segurar na cama. Certifique-se de segurar os postes com força. Não me solte
até eu ir para você.
Ele estendeu a mão para ela pegar. Sorcha olhou para ele como se fosse
uma cobra que pudesse morder. Voltar para aquela cabine a faria vomitar
ainda mais violentamente do que antes.
Mas ela também não queria acabar no oceano durante uma
tempestade. Suspirando, ela bateu com a mão na dele. — Eu odeio o oceano.
Manus deu uma risadinha. — Muitas pessoas odeiam. Ele é um amante
cruel e um sedutor quando quer.
— Uma tempestade, você quer dizer? — ela perguntou enquanto
tropeçava para a cabine.
— Bem, isso também, mas é improvável que veremos uma tempestade
enquanto estiver aqui.
— Como você chama essa tempestade, então?
Ele abriu a porta e a empurrou. — Eu chamo isso de criadora de
viúvas. Fique segura.
Manus bateu a porta com tanta força que o chão tremeu. O corvo bateu
suas asas, batendo-as contra a mesa com raiva.
— Sim, — ela murmurou. — Concordo. O homem é charmoso, mas
também rude.
O navio se inclinou em um ângulo drástico. Todo o quadro tremeu com
o impacto da proa batendo na água. Amaldiçoando, Sorcha tropeçou e caiu de
joelhos novamente.
— Aparentemente, ele não estava brincando. — Ela murmurou.
Ficar de pé provou ser impossível enquanto o navio balançava para
frente e para trás. Gemendo de enjoo e medo, ela rastejou para a cama. Suas
mãos agarraram-se aos cobertores escuros que deslizaram para fora da
moldura, em vez de puxá-la para cima.
Sorcha enrolou os dedos em um poste e se ergueu. Seu estômago revirou
novamente. Não havia nada para vomitar, mas ela ainda se inclinou sobre a
beira da cama.
Outra grande onda jogou o navio contra as paredes duras do oceano. A
bolsa de Sorcha bateu com força na parede e um peso de pedra sobre a mesa
do capitão caiu no chão com um estalo pesado.
Ela fechou os olhos com força e abraçou um travesseiro contra o
peito. Não havia nada que ela pudesse fazer a não ser esperar a tempestade
passar. Ela não podia sair no convés e ajudar, ela não sabia como. Não havia
nenhum homem que precisasse de cura, ainda não. Tudo o que ela podia fazer
era seguir as ordens e ficar fora do caminho.
Era contra cada fibra de seu ser não ajudar, mas ela poderia ficar onde
estava.
Ela ouviu os gritos antes que o navio subisse, direto como uma
árvore. Ela se agarrou aos pilares da cama e sussurrou orações.
— Por favor, — ela gritou. — Não quero morrer tão longe da minha
pátria, da minha família, da terra. Faes da água e do céu, ajudem-nos.
O corvo levantou voo, grasnando sua agitação e raiva. O navio moveu
de novo e pousou com força nas ondas que pareciam se transformar em
pedra. Sorcha gritou.
Um dos postes quebrou com um estalo forte. A peça de madeira saiu
voando pelo ar, jogada pelas ondas e seus pulos descontrolados. Alguém bateu
com força na porta da cabine, a moldura vibrando com o peso do homem.
Sorcha estendeu os braços. — Se vamos morrer juntos, posso muito bem
nomear você. Bran!
A cabeça do corvo virou-se para ela, como se reconhecesse o nome.
— Venha aqui!
O navio girou novamente, e o homem encostado na porta gritou quando
a água estrondosa o arrancou. Sorcha observou a maçaneta chacoalhar e
sussurrou uma prece para o homem permanecer no navio. Qualquer coisa para
mantê-los todos seguros.
Bran disparou em sua direção quando o navio atingiu outra onda. Sorcha
fechou os braços ao redor dele e o segurou perto do peito. Uma mão acariciou
suavemente as penas do peito, a outra agarrou o poste mais próximo e segurou
para salvar sua vida.
— Eu não pensei que morreria assim, — ela sussurrou, tratando o corvo
como seu confessor. — Sempre pensei que estaria em jogo. Rumores
chamavam minha mãe de bruxa. Ela falava com os Faes e manteve as velhas
histórias vivas. Por causa disso, eles a queimaram viva. Ainda me lembro de
cada momento disso.
Ela pressionou o rosto contra as costas dele. Bran inclinou a cabeça e
enfiou o bico contra a garganta dela.
— Eu não sou uma bruxa. Não sou estranha, nem assustadora, e não
tenho nenhum conhecimento que não possa ser aprendido. Nada jamais me
impedirá de acreditar em Faes ou de deixar presentes para eles porque eles
chegaram primeiro. Precisamos cuidar deles porque eles também cuidam de
nós. Não para pagamento, mas porque eles são gentis e bons e tudo o que os
humanos perderam.
O navio estremeceu e congelou. Sorcha ouviu o barulho da madeira, os
rios de água espirrando nas laterais e a chuva forte batendo no convés. Eles
haviam parado de se mover.
Um grande grito ensurdecedor vibrou todo o navio. Os gritos agudos
dos homens se juntaram a ele e Sorcha percebeu com horror que o guardião
agarrou o navio em suas mãos poderosas. Ela podia imaginar a boca aberta em
seu grito aterrorizante, as mãos finas e pálidas segurando o Saorsa como se
fosse um brinquedo de criança.
Eles iam morrer.
Ela fechou os olhos e respirou lenta e profundamente. Ela havia falhado
na primeira etapa de sua jornada. Mas, novamente, esta tinha sido uma tarefa
impossível desde o início. Os Faes não queria que ela encontrasse a cura para
a praga dos besouros. Eles queriam assistir a uma tentativa teatral de uma
garota humana tola que confiava neles com muita facilidade.
Mãos bateram contra a lateral do navio. Pequenos sons de arranhões que
eram pequenos demais para serem os dedos enormes do guardião.
Sorcha abriu um olho, agarrou o corvo com força contra o peito e olhou
para a vigia.
Cabelo verde serpenteava pela abertura e olhos escuros a encaravam de
volta. Arco-íris dançavam nos dedos do merrow quando ela a
alcançou. Quando seus olhares se encontraram, a merrow fez uma pausa e
inclinou a cabeça para o lado.
O corvo lutou, grasnando com raiva até se libertar. Ele agarrou o ar com
o bico e voou em direção a merrow.
— O que? — Sorcha murmurou.
Eles não iam morrer? Bran resmungou para a merrow que inclinou a
cabeça para o outro lado. Ela estendeu a mão e passou um dedo comprido pelo
bico do corvo e, em seguida, soltou a borda da vigia. Sua cauda verde cintilou
enquanto ela subia no navio.
— Estamos salvos? — Ela mal podia acreditar que pronunciou as
palavras.
O olhar zangado que Bran lançou para ela foi resposta suficiente. Eles
estavam sendo salvos pela própria criatura que ela tanto temia. Agora, ela
entendia porque era tão importante ter um guardião nas águas dos Faes.
Sorcha colocou a mão contra um poste e se levantou com as pernas de
borracha. Ela mal conseguia andar no navio antes da tempestade, agora ela não
confiava em seu equilíbrio. Suas mãos tremiam e ela temia que o guardião as
deixasse cair. Ela não queria voltar para a água depois dessa experiência.
Com cuidado, ela caminhou em direção à porta. A voz de Manus ecoou
em sua cabeça. Não vá lá fora. Não abra a porta. Fique dentro da cabine onde
for seguro.
No entanto, ela também ouviu os gritos de seus homens. Ela ouviu o
estrondo de corpos caindo contra a madeira sólida e as ondas de água batendo
no convés. Havia pessoas que precisavam de cura.
Não importava que ela estivesse com medo. O medo era uma besta que
ela poderia conquistar, contanto que pudesse salvar apenas uma vida. Foi para
isso que ela nasceu.
Sorcha puxou com força a porta que resistiu a seus movimentos. Ela
jogou seu peso para trás e a abriu, pouco a pouco.
Homens estavam caídos por todo o convés. Alguns se empilhavam,
gemendo e esfregando as feridas. O sangue escorria em sua porta, uma marca
de mão vermelha chamando sua atenção.
Merrows arrastavam-se pelas laterais do navio e pelo convés. Algumas
se enrolaram em torno de marinheiros e acariciaram gentilmente suas
bochechas. Elas não falaram, em vez disso, cantarolaram sua
preocupação. Suas vozes eram profundas e calmantes.
Sorcha tropeçou em direção ao marinheiro mais próximo e caiu de
joelhos. — Aonde dói?
— Em toda parte. — Ele gemeu.
— Onde está o pior?
Ele gesticulou em direção ao seu peito. Sorcha avançou sem hesitação e
rasgou sua camisa. Um hematoma brilhante já se formou, roxo e raivoso.
Ela dançou os dedos sobre suas costelas e observou suas reações. Ele se
encolheu com a ternura, mas não respondeu muito ao toque dela nos
ossos. Houve o menor dos gemidos quando ela apalpou seu estômago. Sorcha
hesitou e fez isso mais uma vez. Ela não sentiu nenhum inchaço de hemorragia
interna, mas o número de hematomas era preocupante.
— Você está tendo problemas para respirar?
— Me deixe, garota.
— Responda a pergunta, marinheiro. Você consegue respirar?
Outra mão tocou a dela. Dedos com membranas espalharam-se pelo
machucado no peito do homem e gentilmente puxaram as mãos de Sorcha.
Sorcha olhou fascinada enquanto a merrow se enrolava no marinheiro. A
longa cauda verde se enroscou em suas pernas e desceu até as
panturrilhas. Seu peito pressionou contra a coluna do homem e suas teias
iridescentes brilharam enquanto alisavam sua pele. Ela colocou o queixo em
seu ombro, cantarolando a base profunda da música merrow.
— Sorcha, — disse Manus. —Venha comigo.
Ela olhou para a mão que ele estendeu para ela. — O que está
acontecendo?
— Eu disse a você que os Fae cuidam de nós. Agora, vamos.
A mão de Manus estava tão fria quanto a dela. Ele a puxou para cima e
segurou seu cotovelo quando ela balançou. — Você se machucou?
— Não.
— Bom.
Ele a puxou para a proa do navio. Ela olhou por cima do ombro,
observando mais merrows enxamear sobre as grades. Duas arrastaram um
homem do oceano. Elas o jogaram no convés com tanta força que Sorcha
estremeceu, mas o golpe forte o fez tossir a água do mar para os pulmões.
Elas não estavam apenas salvando os sobreviventes, ela percebeu. Mais
três merrows puxaram outro homem e o colocaram suavemente sobre a
mesa. Elas balançaram para frente e para trás sobre seu corpo, lamentando sua
dor.
— Elas choram pelos mortos? — Ela perguntou.
— Claro, elas choram. Trabalhamos com elas e choraremos por elas antes
de zarparmos novamente.
— Elas tiveram baixas? — Sorcha olhou ao redor, tentando encontrar os
corpos das merrow.
— Você não as verá no navio. Merrows se transformam em espuma do
mar quando morrem. É uma morte cruel, mas é melhor do que deixar tubarões
comê-las.
Sorcha engoliu em seco. — Lamento saber que perderam entes queridos.
— Bem, eu perdi bons homens também. Sinta pena de nós.
Ela piscou e olhou para ele. Suas bochechas estavam vermelhas e
manchadas, seus olhos lançando olhares em sua direção enquanto ele a impelia
com força para o fim de seu navio.
— Você está bravo comigo? — Ela perguntou.
— Eu nunca deveria ter assumido esta missão tola. A jornada para Hy-
brasil é perigosa e eu estava totalmente ciente disso.
— E isso é minha culpa?
— Você pediu para vir aqui, sardas.
Sorcha puxou o braço que ele segurava. — Como você ousa me culpar
por isso? Eu não fiz nada errado!
— Você fez um acordo com os Faes errados! — Ele a empurrou para a
proa do navio e para o Fae de madeira olhando para o horizonte. — Perdi
homens bons por sua causa. Não vou culpá-la por suas mortes, mas estou
muito bem tirando você deste navio!
Ela tropeçou, agarrando-se com força contra a grade. A tempestade
estava diminuindo, embora as ondas ainda se agitassem com uma raiva
descontrolada. Ela não conseguia ver nada naquelas ondas secretas, a água
escura e agourenta.
A ilha estava à vista. Penhascos altos emolduravam um lado e desciam
para uma costa rochosa. Um castelo assomava sobre a pequena ilha, torres em
ruínas e estruturas de madeira em decomposição dando à terra uma sensação
sinistra e abandonada. Parecia uma morada melhor para fantasmas do que
para pessoas. Certamente não Faes.
— Hy-brasil? — Ela perguntou.
— Você queria ir para a ilha. Aí está. — Seus pés bateram com força no
convés enquanto ele se afastava.
— Espere! — Sorcha girou. — Como vou chegar lá?
— Isso não fazia parte do nosso acordo. Como você pode ver, tenho o
suficiente com que me preocupar aqui.
— Posso pegar um barco a remo emprestado, pelo menos? — Ela correu
atrás dele e segurou a ponta de sua manga.
— Pedir emprestado? Como você vai trazê-lo de volta? Nade até a ilha
se precisar tanto chegar lá, sardas, ou fique no navio e volte conosco. Eu não
me importo.
— Você quer que eu nade até aquela ilha? — Sorcha apontou o dedo para
Hy-brasil. — Você ao menos sabe o que está na água aqui? Você disse que este
era o portal entre o Outro Mundo e o nosso, então quantos Faes mais
existem? Nós dois podemos ter certeza de que não vou encontrar apenas
sereias!
— Então fique no navio e eu a levarei para casa!
Ele girou sobre ela. Seu peito subia e descia de raiva exagerada enquanto
suas mãos abriam e fechavam. Sorcha estreitou os olhos. Ele não estava apenas
com raiva dela, ele estava com medo. A tempestade tinha custado muito a ele,
e ele estava duvidando de que viria aqui.
Eles tinham que voltar pela tempestade, ela percebeu. Não se tratava do
perigo inicial, mas de que eles tinham que se virar e fazer de novo. Talvez fosse
mais fácil retornar ao mundo humano, mas ela duvidava.
Ele perderia mais homens. Mais merrows morreriam. E ela o estava
importunando com o transporte dela para a ilha que causou todos aqueles
problemas em primeiro lugar.
Sorcha liberou sua raiva com um suspiro suave. — Eu entendo,
Manus. Eu entendo. Mas preciso trazer minhas coisas comigo, e elas não
podem ficar molhadas.
— Eu nunca disse que garantiria a segurança de itens pessoais.
— Eles são os livros da minha mãe, — ela gritou quando ele se afastou
dela novamente. — Eles são a única coisa que me resta dela e não vou deixá-
los ir.
Ele hesitou. Ela observou os ombros dele se erguerem com raiva e então
se curvarem em derrota. — Você está pronta para ir, então?
— Eu não tenho outra escolha, você sabe disso tão bem quanto eu. A
punição das Faes por desistir de um acordo é pior do que uma morte rápida
no mar.
— Eu tenho um amuleto que ajudará suas coisas a ficarem secas. Foi um
presente de uma selkie, e espero recebê-lo de volta algum dia.
Sorcha torceu os dedos. — Farei o meu melhor para devolvê-lo quando
tudo isso acabar.
— Não tenha pressa.
Manus acenou para um de seus marinheiros, o mais móvel do grupo
espalhado pelo convés como folhas de outono. O corvo irrompeu dos
aposentos do capitão, seu grito ecoando ao se lançar no ar. Ela o viu esticar as
asas e voar em direção à ilha.
Aparentemente, o corvo estava viajando para o mesmo lugar que
Sorcha. Ela voltou seu olhar para a massa de terra e suprimiu um
arrepio. Havia algo naquele lugar que parecia errado.
O ar estava muito parado. O oceano não batia contra as rochas, mas
vagarosamente evitava tocar a terra. Até mesmo os elementos haviam
abandonado Hy-brasil. Havia mais na ilha fantasma do que as lendas
cantavam, e Sorcha teve medo de descobrir o quê.
Ela preparou os pés enquanto o guardião os colocava suavemente na
água. O navio permaneceu estável, balançando como se nunca tivesse ocorrido
uma tempestade. Sorcha desejou poder esquecer tão facilmente quanto o
Saorsa.
Passos marcaram o retorno do marinheiro que segurava sua bolsa com o
braço estendido. Ele segurou bem na frente dele, a bolsa pendurada em seus
dedos como se ele não quisesse tocá-la.
Sorcha reconheceu essa expressão. Era o mesmo olhar que sua mãe
recebera meses antes de ser queimada. Eles a culpavam por todo azar. A vaca
de um vizinho morreu, uma criança pegou um resfriado, o poço secou, tudo
eram marcas de uma bruxa que amaldiçoou a cidade. A mãe de Sorcha foi
quem eles escolheram para queimar.
Ela arrancou sua bolsa das mãos do homem com uma maldição
murmurada. — Eu não chamei a tempestade, seu idiota. Me dê isso.
O marinheiro se esquivou dela.
Boa viagem. Ele poderia ficar com medo dela se isso o ajudasse a
entender a tempestade, mas ela não iria deixá-lo tratá-la como uma
bruxa. Sorcha era uma boa pessoa. Ela teria curado todos eles se as merrows
não estivessem aqui.
Ela pendurou a bolsa no ombro e estendeu a mão para Manus. — O
amuleto?
Ele puxou um pequeno saco do bolso. O pano estava completamente
seco. Nem mesmo uma única gota d'água grudava em seu padrão
quadriculado.
— Isso vai servir. Coloque-o na sua bolsa e nade o mais rápido que
puder.
— O encanto vai acabar? — Ela enfiou o pequeno saquinho em sua bolsa
entre seus livros mais preciosos.
— É improvável que desapareça. E sardas? Uma palavra de advertência:
onde há merrows, há merrows-men. Eles gostariam que uma coisa bonita
como você ficasse com eles, e a maioria de suas esposas está aqui
conosco. Ninguém vai impedi-los se eles pegarem você.
— Obrigada. — Ela rangeu os dentes cerrados.
Ele não ficou para assistir. Manus saiu para cuidar de seus homens e ela
estava à beira de outra decisão. A água era outra parte perigosa de sua
jornada. O oceano ainda não tinha sido bom e seus habitantes provavelmente
eram ainda piores.
Seus olhos se desviaram para a ilha assombrada que havia gerado
diretamente de seus pesadelos. Hy-brasil, a ilha fantasma da qual falam lendas
e mitos há séculos. Muitos acreditavam que era uma utopia, um lugar para
onde eram enviados homens da mais alta inteligência e estudiosos de renome
mundial.
Parecia uma ruína.
Ela cuidadosamente se içou para cima no corrimão e se equilibrou com
uma corda de vela na mão. Era isso. Não havia como voltar depois que ela
saltou do navio e pousou nas águas abaixo.
Os olhos de Papa nadaram na frente dela. Seu corpo dolorosamente
magro, a tosse áspera que mantinha os outros acordados à noite, os perigos do
que poderia acontecer se ela falhasse e ele morresse. Os besouros infectariam
suas irmãs em seguida; elas eram a fonte de alimento mais próxima. As
famílias próximas também poderiam cair. E ela não estaria lá para ajudar a
prolongar suas vidas.
Sorcha ergueu o pé para ficar suspenso no ar salgado por um momento
antes de respirar fundo e saltar da beirada.
Ela bateu na água com um tapa forte. As saias dela subiram em seu rosto
e se enredaram nas longas mechas de seu cabelo. A bolsa pesou sobre ela,
puxando-a para o fundo do oceano com uma facilidade surpreendente.
Bolhas estouraram de sua boca enquanto ela bombeava seus
braços. Tecido emaranhado em torno de seus pés a prendia. Ela não conseguia
chutar. Ela não conseguia respirar.
Franzindo a testa em concentração, ela quase não percebeu o movimento
nas profundezas. Acalme-se, ela pensou. A calma era a única maneira de lidar
com os Fae e isso a ajudaria agora. O pânico só levaria a decisões erradas.
Ela deixou seu corpo relaxar, embora seus pulmões queimassem. Água
salgada picou seus olhos quando ela os abriu. Sorcha olhou para baixo e
prendeu a respiração quando viu olhos vermelhos olhando para ela.
Bem no fundo do oceano, os merrow-men esperavam. Eles não tinham
as caudas necessários para acompanhar suas noivas. Em vez disso, eles tinham
pernas como as de um homem. Escamas verdes cobriam seus corpos duros de
músculos. Guelras e barbatanas surgiam com pouca rima ou razão, dando-lhes
uma aparência grotesca. Mas eram seus rostos que a perturbavam mais.
Grandes bocas parecidas com peixes se abriam enquanto eles inalavam
seu perfume na água. Dentes irregulares revestiam suas gengivas. Seus olhos
se arregalaram quando perceberam que era uma mulher humana em seu
reino. Barbatanas com babados se amontoavam ao redor de seus rostos e
sorrisos malignos se espalharam.
Um fechou o punho em torno de um tridente e se jogou no fundo do
oceano. Ele estava nadando em sua direção, ela percebeu. Seus pés palmados
faziam dele um nadador muito mais eficiente, e sua própria bolsa a arrastava
continuamente para o fundo.
Sorcha não deixaria isso acontecer. Determinada, ela se abaixou e rasgou
a barra da saia. Duas grandes puxadas pesadas dividiram o tecido de cada
lado. Não era muito, mas era o suficiente.
Suas pernas agora livres, ela nadou com todas as suas forças. Os
músculos queimavam, os pulmões gritavam, os olhos lacrimejavam, mas ela
finalmente conseguiu entrar no ar doce.
Ela engasgou em respirações que chocaram seus pulmões. Não havia ar
suficiente no mundo para satisfazer seus desejos, e cada inalação tinha um
gosto metálico. Ela rolou de costas, ainda respirando fundo, e chutou em
direção à ilha.
O homem merrow ainda estava vindo, ela se lembrou. Ela não podia
descansar só porque podia respirar. Era hora de nadar. Depois de chegar à ilha,
ela poderia descansar.
Somente depois.
Quando ela finalmente recuperou o fôlego, ela rolou sobre o estômago e
ergueu os braços acima da cabeça. Um braço de cada vez, um chute de cada
vez, contando baixinho cada golpe que a atraiu para mais perto de Hy-brasil.
Ela não conseguia parar nem por um momento, ou o bando a arrastaria
para baixo da água. Seu estômago se agitou por causa de muitas quedas sob as
ondas. Uma barriga cheia de sal a deixava mais enjoada, mas não havia nem
bile para vomitar.
Ela não tinha visto tubarões, mas as histórias diziam que ela não iria até
que fosse tarde demais.
Acima de sua cabeça, o corvo circulou. Seu crocitar fez com que seus
olhos se abrissem quando ela parou por um momento para respirar.
— Bran? — Ela sussurrou.
Novamente, o grito do corvo sacudiu seu corpo.
— Certo. Eu tenho que nadar.
A ilha ficava cada vez mais perto, mesmo quando o sol começou a se pôr
e o oceano ficou vermelho. Ela poderia fazer isso se ela nadasse um pouco...
um pouco... mais.
Seus pés tocaram a terra.
Um soluço balançou seu corpo para frente. Ela escorregou por baixo de
uma onda, mas não importava que ela não pudesse ver. Tudo o que ela podia
sentir era o sal, mas havia pedras sob seus pés. Ela não precisava mais nadar e
não precisava perder os diários de sua mãe.
— Obrigada, — ela sussurrou enquanto se puxava para a costa
irregular. — Muito obrigada.
Ela enrolou os dedos na areia e na lama. A areia cavando em suas unhas
fez ainda mais lágrimas escorrerem por suas bochechas. Ela tinha feito isso. Ela
havia chegado à ilha fantasma em meio a tempestades, baleias gigantes e
homens-merrow.
Sorcha realmente tinha conseguido.
Ela riu em meio às lágrimas e rolou de costas. As estrelas cintilavam no
céu noturno. Elas eram tão bonitas. A terra era tão bonita.
Já não importava que houvesse um castelo misterioso assomando no
alto. Não importava que os fantasmas provavelmente a atravessassem com pés
silenciosos ao redor dela. Ela não estava mais nadando, e o chão não se movia
aqui.
Soltando um suspiro irregular, seus olhos se fecharam. Só por um
momento, ela disse a si mesma. Ela poderia descansar um momento antes que
ela tivesse que voltar e encontrar o Fae que os gêmeos MacNara queriam.
Estrelas dançaram sob suas pálpebras enquanto ela se acomodava na
areia.
Capítulo 5

A fera

Ar frio roçava sua pele.


Sorcha rolou para o lado, murmurando em seu sono. A areia tocava seu
rosto e entrava em seus pulmões enquanto ela roncava.
Ela disparou para cima, coçando o nariz com as mãos frenéticas. Ela
tossiu areia e limpou o sal seco do rosto. Sua pele queimava, crua e seca. Seus
lábios racharam quando ela inalou, sangue vazando em sua boca e picando sua
língua inchada com o gosto de ferro.
Onde ela estava? Seu olhar dançou sobre pedras gastas e pedaços de
madeira flutuante.
— Certo, — ela sussurrou. — O barco, a tempestade, a natação.
Sorcha dobrou os joelhos contra o peito e os abraçou com força. Não
haveria mais lágrimas. Ela não podia se dar ao luxo de perder sua
sanidade; havia muito a fazer.
Sua mente se acalmou e ela olhou ao redor. O que a acordou?
Algo bufou à sua esquerda. Os músculos de suas costas se contraíram e
ela lentamente virou a cabeça.
Um rosto liso e bigodudo soprou para ela novamente. Os olhos da foca
eram grandes e escuros, surpreendentemente amigáveis. O ar quente cheirava
a peixe e algas podres misturado com o cheiro almiscarado de sua amiga
recém-descoberta.
Com o movimento dela, a foca bateu com uma nadadeira contra sua
barriga e gargalhou.
— Oh, — ela disse surpresa. — Olá.
Ela se aproximou e bufou para ela novamente. Quando ela recuou, ele
soltou outra risada tossida e rolou de costas. Cada golpe contra seu lado fazia
com que a gordura se mexesse.
— Você não é uma coisinha engraçada? — Sorcha não tinha certeza se
era tão “pequenina”. A foca já era maior do que ela, e ela tinha certeza de que
não estava totalmente crescida. Seus longos bigodes se ergueram com suas
palavras.
Ela bufou para ela mais uma vez, então se virou para sair. Seu corpo
vibrou enquanto balançava pela terra, escorregando na água com mais graça
do que exibia em terra.
Um pensamento surgiu. — Você é uma selkie?
A única resposta foi uma risada silenciosa enquanto a foca afundava na
água.
Seus músculos gritaram em protesto quando ela se levantou. Os longos
músculos de suas coxas se contraíram e os dedos dos pés apontaram enquanto
o arco de seu pé se apertava.
Sorcha choramingou. A dor era insuportável, mas ela não conseguia ficar
na areia. Queimaduras de sol pungentes já cobriam suas bochechas e braços. Se
ela ficasse mais tempo fora, ela empolaria.
Água. Ela precisava de água. Seus lábios racharam quando ela os abriu e
respirou com dificuldade.
Ela continuou fazendo sons suaves de desconforto enquanto se
endireitava. Ela acenou com os braços para se equilibrar e se
acomodou. Tossindo, Sorcha acenou com a cabeça.
— Passo um, de pé. Realizado.
Seus pés pareciam tão distantes. Ela franziu as sobrancelhas e olhou para
os dedos dos pés. Quando ela perdeu o sapato esquerdo?
Exatamente no momento em que um homem merrow apontou seu
tridente para ela com um brilho perigoso nos olhos. Ela gemeu e levou a mão
à cabeça. A dor de cabeça latejando atrás de seus olhos quase a fez cair de
joelhos.
— Quem é aquela? — Uma voz feminina perguntou.
— Eu não sei. Ela deve ter saído de um naufrágio.
— Isso nunca acontece.
— Como é que eu vou saber então? Banimento é a única maneira de
chegar aqui, mas Faes não podem banir humanos!
A segunda voz era muito mais masculina. Nasal e áspera, fez a dor atrás
de seus olhos aumentar ainda mais.
— Por favor — sussurrou Sorcha. — Vocês têm água?
— Ela pode nos ouvir, Cian?
— Os humanos não podem nos ouvir quando estamos encantados. Ela
está alucinando.
Sorcha avançou em direção ao som, procurando pelos donos das
vozes. — Eu posso ouvir vocês. Vim a Hy-brasil para falar com uma Fae que
mora aqui.
Um escárnio ecoou pelas pedras. — Há muitas Faes por aqui, criança
humana. Mas não há muitos que vão falar com você.
— Com licença? — Ela piscou. — Eu preciso falar com um Tuatha dé
Danann que mora aqui. Os gêmeos MacNara me enviaram.
— Bem, isso muda as coisas, — disse a voz feminina. — Podemos ajudá-
la com isso.
— Nós absolutamente não vamos! — A outra voz, Cian, era o macho. —
O mestre terá nossas cabeças, e eu já estive cara a cara com ele muitas vezes. Eu
não vou fazer parte disso.
— Por favor — Sorcha deu um passo à frente e tropeçou em uma
pedra. Ela caiu de joelhos com força, gritando quando as rochas denteadas
rasgaram sua carne tenra.
— Olhe para ela, Cian! Não podemos simplesmente deixá-la aqui.
— Não diga meu nome! Deixá-la aqui é exatamente o que faremos. Não
estamos ajudando uma humana. Não toque! Mulher, você vai ser a minha
morte. Ela pode estar doente!
— Mas...
— Sem desculpas! Pare de ajudar tanto as pessoas e pense em sua própria
pele! Os humanos não pertencem aqui. Deixe isso escorregar de volta para a
água e esqueça isso.
Sorcha tocou a ferida aberta em seu joelho. O sangue gotejava da carne
rasgada, já cicatrizando e incrustada de sal e areia. — Ela, — ela sussurrou. —
Eu sou uma mulher, não isto.
— Poderia ter me enganado, — Cian grunhiu. — Você parece algo que
eu arrancaria do oceano e jogaria para o lado. Boa sorte para chegar ao castelo.
Passos tamborilaram nas pedras de granito. Eles estavam indo
embora. Ela engasgou e tropeçou em seus pés, apoiando bem as pernas para
se equilibrar. Eles não podiam partir, ainda não.
— Esperem! — Ela gritou. — Por favor, esperem!
Uma rajada de ar anunciou a aproximação de uma Fae. Lábios quentes
pressionados contra sua orelha e a voz feminina sussurrou: — Eu cuidarei de
você se você puder vir para casa. Um pé na frente do outro, querida.
Sorcha levantou uma perna e a colocou diante da outra. Ela estava
instável, fraca e esgotada, mas determinada. Cada movimento estilhaçou seu
corpo em agulhas de dor gelada.
— Meu corpo não vai me parar. — Ela sussurrou.
Quanto mais ela se movia, mais seus músculos relaxavam. A dor se
transformou em aflição, a aflição se transformou em exaustão. Ela relaxou e a
névoa se dissipou de sua mente.
A ilha assombrada revelou minúsculos detalhes de beleza que ela não
tinha visto do navio. A costa rochosa era perigosa, é verdade, mas também
havia pequenas cracas cintilantes presas às pedras. Um caminho aberto na
lateral dos penhascos conduzia a campos de esmeraldas semelhantes a sua
casa.
E por que não seria semelhante? Ainda era Ui Neill, ela se lembrou. Um
reflexo espelhado, mas ainda a mesma estrutura de solo e terra. O Outro
Mundo não era tão diferente do dela.
Ela se ergueu na primeira pedra e prendeu a respiração. Pequenas flores
roxas despontavam entre seus dedos. O sol atingindo o seu auge, o calor
fazendo com que a névoa subisse dos campos circundantes. Não era natural
ver nuvens a esta hora do dia, mas lá estavam elas.
Sorcha se ergueu nas pedras salientes e no caminho marcado até chegar
ao topo da colina.
Verde encheu sua visão perto de estourar. Era impressionante ver uma
paisagem tão bonita. Seu coração se apertou e seus dedos se curvaram. Colinas
onduladas cobertas pela grama mais vibrante que ela já vira estendida até onde
a vista alcançava. Pontos brancos de ovelhas levantavam a cabeça de vez em
quando, pedaços menores de lã saltando em redemoinhos de névoa branca.
Acima de tudo, o castelo assomava. Os altos picos das torres pareciam
espadas golpeando os deuses.
Os corvos se aglomeravam no alto. Seus gritos a lembraram por que ela
estava aqui e o quão longe ela tinha vindo. Ela fez uma pausa, com as mãos na
cintura e os pulmões arfando.
— Não falta muito agora, Sorcha — disse ela para si mesma. — Então
começa o verdadeiro trabalho.
O cascalho rangeu sob seus pés e ela marchou em direção ao castelo. Sua
pele coçava como se houvesse centenas de olhos observando sua jornada. Ela
supôs que poderia haver. Faes eram invisíveis para os humanos e havia muitos
nesta ilha.
Ela não podia imaginar isso como uma prisão. Era muito bonita, muito
abundante, muito... humana.
Sons de pés correndo passando por ela. Sorcha balançou para frente com
força, suas saias ficando rígidas com areia e sal. Seu cabelo emaranhado
grudou em seu rosto enquanto ela se virava.
Ninguém. Não havia uma única pessoa ao seu redor, mas ela podia sentir
a multidão. Mãos puxavam sua roupa e roçavam seus braços e mochila.
Ela engoliu em seco. — Obrigada por sua hospitalidade. Eu preciso
chegar ao castelo. Vocês poderiam me ajudar?
Foi um tiro no escuro. Os Faes parados ao redor dela poderiam não
querer que ela fosse lá. Eles poderiam querer jogá-la da beira do penhasco e
limpar todos os vestígios de humanidade. Sorcha não os culparia. Os humanos
raramente eram gentis com os Fae.
Em vez disso, mãos gentis seguraram seus cotovelos e a encorajaram a se
inclinar contra eles. As feridas em seus pés doíam tanto que ela não hesitou em
aceitar o suporte invisível. Lágrimas picaram seus olhos com sua bondade.
— Obrigada, — ela sussurrou. — Eu não posso agradecer o suficiente.
Eles a ajudaram a voar. Seus pés deslizavam no chão enquanto a
carregavam em direção ao castelo. A porta da frente costumava ser
vermelha. A tinta descascava do topo, rebites dourados manchados pelo
tempo, um leão de bronze segurava a aldrava em sua boca.
A luz filtrava pela porta rachada. Ela se abaixou e olhou através da
madeira quebrada. Uma sala vazia estava além. Lençóis brancos cobriam os
móveis e teias de aranha se estendiam do teto ao chão.
Sorcha esticou o pé e empurrou a porta para abri-la. Seu gemido ecoou
pela sala e saltou pela grande escadaria que levava ao segundo andar. Uma
teia de aranha flutuava no ar, onde ela a havia arrancado de seu lugar na porta.
— Este é o castelo de Hy-brasil, — ela sussurrou. Sorcha estendeu a mão
e pegou a teia de aranha, transferindo-a e a aranha para a parede. — Desculpe.
Torcendo a saia para o lado, Sorcha entrou no castelo com os olhos
arregalados. A luz fraca se refletia em partículas de poeira, transformando a
sala à luz das estrelas.
— Ela fez isso. — Uma voz familiar resmungou.
— Sim — Sorcha respondeu. — Você é Cian, não é?
— Os humanos não devem saber nossos nomes. Eu não te dei isso,
desgraçada ingrata.
— Mas agora estou com ele e cheguei ao castelo.
— Com ajuda.
Ela encolheu os ombros. — Isso importa? Estou aqui mesmo assim, e
agora gostaria de falar com o Tuatha dé Danann.
— O mestre não está recebendo visitantes.
Havia um contorno tênue de uma figura baixa nas sombras da escada. A
poeira havia se acomodado em seus ombros, muito redondo para ser humano
e estremecendo de raiva. Sorcha estreitou os olhos sobre ele e guardou os
pequenos detalhes na memória.
— Receio não poder dar a ele essa escolha. Leve-me até ele.
— Eu não sou seu garoto de recados.
— Então me diga o caminho. — Sorcha colocou aço em sua voz. Ela
desejou bordas afiadas nas palavras para que ele não tivesse escolha a não ser
obedecer.
O homem Fae resmungou. — Se você acha que isso vai me assustar...
— Deveria, — ela interrompeu. — Você não me conhece, gnomo. Você
corre um grande risco ao me subestimar.
Ela pronunciou as palavras na esperança de que sua memória fosse
verdadeira. Os gnomos eram criaturas baixas e atarracadas com corpos
redondos e rolos de gordura. A poeira assentada revelou um tipo de corpo
muito semelhante a esse.
Cian estremeceu e jogou a poeira de volta no ar. — Bom palpite.
— Diga-me o caminho para o seu mestre.
— O que você vai me dar em troca?
— Não farei mais acordos com os Faes! — Seu grito machucou seus
ouvidos. — Agora!
— Suba a escada então, garota. Continue indo direto para a sala do
trono. Você não pode perder.
— Sala do trono? — Ela tossiu de surpresa.
— O que, você achou que o mestre estaria em sua sala de recepção? A
sala do trono, garota. Você quer tanto ver o mestre? Talvez você deva se
preparar para o que vai encontrar.
Ela se recusou a olhar para ele. Com as roupas rígidas, o corpo doendo,
o rosto queimando de sol e sal, ela subiu as escadas com a cabeça erguida. Ela
não iria quebrar nem ceder.
Sorcha resolveu ser mais forte do que nunca. Mais forte do que quando
ela ajudou o filho de sua primeira paciente a vir ao mundo. Mais capaz do que
quando seu pai adoeceu e suas irmãs precisavam que ela fosse estável. Mais
corajosa do que da primeira vez, ela cortou o corpo de um estranho e puxou
besouros esperando que eles não se virassem e a atacassem.
O Fae não a olharia com pena. Era ainda menos provável que o mestre
lhe desse qualquer tipo de clemência. Ela precisaria de seu juízo sobre
ela. Sorcha sabia que convencer um Fae a deixar esta ilha seria quase
impossível.
Mas ela tinha que experimentar.
A escada conduzia a pedras mais antigas. Uma parede havia se
transformado em pó, revelando uma sala cheia até a borda com pinturas
esfarrapadas. Ela não parou, embora sua curiosidade tenha despertado.
No final do castelo, outra escada descia. Lustres cobertos de teias de
aranha gotejavam aranhas em vez de joias. O piso de mármore branco já fora
uma visão notável. Agora, as rachaduras corriam como rios em um
desfiladeiro, estragando a superfície outrora opulenta.
As escadas levavam a um estrado coberto por um tecido cinza comido
pelas traças. O trono assomava na escuridão, delineado por chifres projetando-
se em todas as direções. Sorcha só podia ver botas pesadas levando a pernas
grossas e musculosas. As sombras cobriram o resto dele.
O Tuatha dé Danann era um homem.
— Eu viajei através do mar, através de adversidades e tempestades, para
fazer um acordo com você, meu senhor. — Ela hesitou diante do trono, sem
saber se deveria continuar.
Suas botas moveram-se. Um calcanhar cutucado o suficiente para revelar
uma pegada perfeita na poeira. Há quanto tempo ele ficou sentado lá? Ele
estava esperando por ela?
— Eu não faço mais acordos com humanos.
Havia algo errado com sua voz. Era a ponta da rocha contra os ossos da
terra. Arranhava sua espinha e fazia suas palmas formigarem. Ela engasgou.
— Os gêmeos MacNara me enviaram e disseram que você...
— Os gêmeos MacNara?
— Sim, meu senhor. Eles disseram que você iria ajudar.
— Eles disseram? Talvez eles me confundiram com outra pessoa.
— Eu... — ela gaguejou sobre suas palavras. — V-você está conectado
com o mundo humano? Você sabe o que está acontecendo lá fora?
— Não me preocupo com conflitos humanos.
Ela juntou cachos de sua saia rígida em seus punhos. — Estamos
sofrendo de uma praga de besouros sanguíneos. Não podemos sobreviver se
não tivermos a cura, e os gêmeos MacNara disseram que ajudariam se eu
trouxesse você de volta para eles. Eu imploro...
— Eu vejo pouca imploração. — Ele rosnou.
A mente de Sorcha girou. Ele não a deixaria terminar! Como ela poderia
implorar se ele não lhe desse a chance de falar?
— Os besouros sanguíneos comem os humanos de dentro para fora. Não
podemos detê-los sozinhos e preciso que você...
— Precisa?
— Sim! — ela exclamou. — Preciso. Não há outra maneira de encontrar
uma cura! Os gêmeos me prometeram que tudo que eu tenho que fazer é levar
você de volta...
— Eles mentiram. — As sombras se agruparam e se enrolaram.
— Faes não podem mentir.
— Então eles distorceram a verdade. Posso te dizer agora, garota, os
gêmeos MacNara não têm a cura para os besouros do sangue. Agora vá.
Seu peito se apertou de horror. Eles tinham a cura! Ela não tinha viajado
todo esse caminho apenas para descobrir que as Faes a haviam enganado.
— Ir? — ela repetiu. — Para onde irei? Esta é uma ilha!
— Eu não me importo para onde você vai. Hy-brasil não é lugar para
alguém como você.
Ela falhou? Ele permaneceu nas sombras, mal se movendo, exceto seu
maldito pé que criava mais mistérios do que resolvia. Sorcha só sabia que sua
voz irritava seus nervos, sua natureza imperiosa fazia suas palmas coçarem
para bater nele, e sua recusa em ajudar sugeria que ele era uma criatura sem
coração e sem se importar com os outros.
Como ele ousa?
— Minha família morrerá se eu não encontrar essa cura.
— Você está tão preocupada com a morte que me pergunto se tem algum
outro pensamento em sua cabeça.
A boca de Sorcha se abriu antes de suas bochechas ficarem vermelhas de
raiva. — Você tem alguma preocupação com o bem-estar dos outros?
— Pouco para aqueles que ameaçam minha equipe.
— O gnomo na porta? — Ela balançou um braço freneticamente na
direção de onde ela veio. — Ele é uma das criaturas mais rudes e nojentas que
já conheci! Não vou pedir desculpas pelo meu tom nem pelas minhas palavras.
— Os humanos raramente têm qualquer simpatia pelos Faes. No entanto,
você parece pensar que lhe devo uma bênção por... o quê? Existir?
— Você é tão cruel que não consegue sentir nem a mínima simpatia por
meu povo?
A maldita bota que ela estava olhando moveu novamente. Uma onda de
triunfo endireitou sua espinha.
— Eu sou conhecido por minha crueldade. E, ao que parece, você
também é. — Ele rosnou.
— Seu julgamento é lançado rapidamente para um homem que nem
mesmo mostra o rosto!
— A visão do meu rosto não é para quem tem coração fraco.
— Então você admite de bom grado ser um covarde e um rude?
— Um covarde? — Sua voz se aprofundou, cortando a escuridão e
quebrando contra a pedra. Isso sacudiu suas costelas e vibrou por seu corpo. —
Você se atreve a me acusar assim?
— Ouso muito pelo bem-estar da minha família! — A voz de Sorcha
tremeu com justa indignação, mas ela estremeceu de medo.
As sombras tremeram e as cortinas ao redor do trono ondularam
enquanto ele se levantava... e para cima... e para cima.
Sua sobrancelha se enrugou de preocupação enquanto ela olhava para
sua grande altura. Meu Deus, quão grande ele era?
Uma capa escondia muito de sua figura. Como grandes asas de couro, o
tecido escuro ondulou quando ele desceu as escadas em sua direção. Cada
passo medido bateu forte e o mármore rachado rangeu.
Ele não tinha que correr em sua direção para intimidar. O tamanho dele
a fez estremecer de apreensão. Ombros largos, cintura fina e um capuz
cobrindo a cabeça eram tudo o que ela conseguia distinguir, mesmo tão
perto. Sorcha prendeu a respiração e se manteve firme.
Ela não demonstraria medo.
Ele parou apenas quando seus dedos dos pés estavam a um fio de cabelo
dos dela. Sorcha olhou para a escuridão de seu capuz, sua cabeça mal
alcançando seus bíceps. Ela apertou a mandíbula e endireitou os ombros. O
que quer que ele dissesse não poderia ser pior do que suas palavras anteriores.
—Você sabe muito pouco de mim, humana. — A respiração dele roçou o
cabelo dela, trazendo o cheiro de hortelã e frutas cítricas.
— Posso dizer com segurança que considero sua moral e, portanto, seu
caráter, abomináveis!
— Em que você está baseando essas acusações?
— Você forçou seus servos a chamá-lo de mestre. Você esconde seu rosto
e intimida uma visitante em busca de ajuda. E então você chega a se recusar a
fornecer ajuda a quem precisa. Esses, senhor, são os fatos sobre os quais eu o
julgo.
— Você não se preocupa nem se discrimina com sua própria
sobrevivência? Você repreende uma criatura de força superior!
— Superior? Senhor, acho que falta em você em todos os sentidos do
termo.
Sua maneira agressiva de argumentar a fez pensar que tinha passado por
sua pele grossa, mas ela estava errada.
Sua coluna se endireitou e seus ombros se endireitaram. A capa apertou
seu peito e ele se afastou dela. Ele levou o ar com ele, roubando-o de seus
pulmões, quando uma rajada de ar frio a empurrou para trás, tamanha era sua
raiva.
— Vá. — Disse ele.
— Não tenho para onde ir — Sorcha repetiu. — Se você parasse de ser
tão teimoso...
Ela não pensou. Ela estendeu a mão, agarrou a capa que ele usava e
puxou.
O tecido escorregou de seus ombros e revelou seu rosto horrível.
A luz atravessou a forma disforme. Várias marcas arrancaram a pele de
suas bochechas, testa e queixo. Ela poderia ter perdoado uma cicatriz, pois
sugeriam feitos heroicos. Mesmo uma marca de nascença ou desfiguração da
infância poderia ter sido facilmente esquecida. Mas isso?
As feridas abertas se transformaram em fissuras de pedra no seu
rosto. Cristais cresceram a partir delas, alguns violetas, algumas pedras
preciosas e um toque de opala que mudava de cor, todos rastejando de sua
carne e contaminando qualquer humanidade que ele possa ter segurado. Elas
se estendiam pelos lados de sua cabeça, raspadas além de uma mecha de cabelo
no topo.
Ele poderia ter sido um homem bonito uma vez. Sua mandíbula era
quadrada, seus lábios carnudos, seus olhos de um azul penetrante que olhava
diretamente para sua alma.
Sorcha engasgou ao encontrar seu olhar. O gelo congelou suas veias e o
medo fez seus dentes baterem. E ainda assim, o calor floresceu profundamente
em sua barriga. Seus olhos eram lindos, expressivos e cheios de dor.
— O que aconteceu com você? — Ela sussurrou.
Ele se lançou em direção a ela. Com um suspiro, ela jogou as mãos para
cobrir o rosto. Ela conhecia aquele olhar. Sorcha cresceu em um bordel. O
desejo de golpear uma mulher era fácil de reconhecer na expressão de um
homem.
Ele não bateu nela. Em vez disso, a mão dele envolveu seu pulso com um
aperto de punição. Pedra mordeu a carne sensível e ela choramingou.
— É isso que você queria ver? — Ele rosnou, tão perto de seu rosto que
seus narizes se tocaram.
— Eu não quis desrespeitar!
Ele não deu a ela nem mesmo um momento de descanso. Ele a arrastou
da sala do trono tão rapidamente que ela deslizou pelo chão até se orientar. Só
então ela correu para acompanhá-lo.
Sorcha puxou seu braço. — Me deixe ir!
— Não.
— Me solte, eu disse!
— Eu te ouvi. — Sua voz retumbou pelo corredor e fez passos
deslizarem.
— Para onde você está me levando?
— Você argumenta que não pode deixar esta ilha amaldiçoada, então me
insulta no próximo suspiro. Então, princesa, estou levando você para o seu
quarto.
— Quarto? — Ela cravou os calcanhares, forçando-o a arrastá-la. —
Existe um quarto decente disponível nesta ruína cheia de aranhas?
Seus dedos apertaram os ossos delicados de seu pulso, fazendo-a ofegar
de dor. — Você tem medo de aranhas?
— Tenho medo de muito pouco.
— Bom.
Sorcha estremeceu quando seu ombro atingiu a porta quebrada. Não
admira que tenha rachado quase ao meio. O homem se tratava mais como um
aríete do que como uma pessoa.
As pedras cravaram em seus calcanhares enquanto ele a puxava para
fora, mas ela se recusou a gritar. Ele não teve a satisfação de saber que a jornada
era tão dolorosa quanto seu aperto de pedra.
— Eu posso andar sem você me arrastar! — Ela gritou.
— Eu posso ouvir sem você gritar.
Ele ganhou velocidade e ela não conseguia mais falar. Sua respiração
tinha gosto de sangue enquanto seus pulmões trabalhavam intensamente para
acompanhá-lo. As alças de sua bolsa cravaram em seus ombros e braços. Seus
pés ficaram dormentes conforme a pele raspou, e ainda assim ele a arrastou
para a extremidade oposta da ilha.
No momento em que alcançaram seu destino, ela estava pronta para
cair. A desidratação e a fome enfraqueceram sua mente e corpo.
Ele apontou para uma pequena cabana no que parecia ser uma charneca
pendurada na beira do oceano. A névoa rodava pelo pântano e musgo.
— Sua nova morada. — Ele rosnou.
Sorcha forçou os olhos a se estreitarem, para assimilar os detalhes que
sua mente queria ignorar. A cabana pairava sobre a água sobre palafitas e se
estendia para a baía. Urzes cresciam para a água salgada, desintegrando-se e
morrendo nas bordas.
A imagem da cabana oscilou, como se ela estivesse olhando através do
ar quente. Runas apareceram gravadas nas paredes de madeira e ao longo da
rampa que conduzia a ela. De repente, ela entendeu as luzes piscando
pairando no ar perto dele.
— É uma cabana de bruxa. — Disse ela.
— Astuta.
— Elas são incrivelmente perigosas para quem não pratica magia. Eu não
posso ficar aí.
— Você pode, e você vai.
Ele agarrou seu braço novamente, girando-a sobre a rampa e
empurrando seus ombros para uma boa medida. Ele acenou com a mão no
ar. Uma luz cintilante subiu do solo para o céu.
Sorcha deu um salto para a frente e atingiu uma parede invisível.
— O que você fez? — Ela resmungou enquanto batia com os punhos no
ar. — O que você fez!
— Estou mantendo você aqui. Sobreviva, humana. Eventualmente,
poderei ouvir sua pergunta.
Ele se virou e foi embora.
Sorcha quase engasgou com a própria língua. Ele foi embora? Ele a
deixou com a mais perigosa das magias malignas atrás dela e então
simplesmente foi embora?
— Como você ousa? — Ela gritou. — Não me deixe aqui! Você não pode!
Ele podia, e ele fez.
Ela pressionou as mãos e a testa contra o escudo que ele colocou na beira
do cais e suspirou. Não havia como ela tentar ficar naquela cabana.
Sorcha se virou e olhou para as runas que ficavam piscando dentro e fora
de vista.
— Pense. Quais são suas outras opções, Sorcha? Como você pode
consertar isso?
Ela esquadrinhou a área circundante, caminhando em direção à borda da
rampa para espiar na água. Olhos brancos brilhantes piscaram de volta para
ela.
— Não a água então, — ela murmurou. — Então... hum...
As runas na porta brilharam em um vermelho brilhante, então se
tornaram opacas para sangue enferrujado de galinha envelhecida,
respingando na madeira em padrões que ela reconheceu vagamente.
— Do jeito mais difícil será.
Ela colocou a bolsa nos ombros e subiu a rampa. A pedra bruxa entre
seus seios deslizou livre. Ela a pressionou contra os lábios, então a segurou
contra o olho e observou os feitiços se dissiparem.
Era uma maldição de proteção relativamente simples. Havia partes dos
livros de sua mãe que falavam de rituais pagãos. Este feitiço ela reconheceu
das páginas de um livro preto que ela nunca deveria ter lido.
Seus dedos coçaram para experimentar o que ela havia aprendido, para
desmontar os círculos desenhados pelas bruxas de antigamente. No entanto,
essas maldições antigas eram úteis. Agora ela podia ter certeza de que havia
pelo menos um lugar na ilha onde ela estava segura.
Sorcha estendeu a mão e arrastou o dedo diretamente para baixo na
primeira runa. Na segunda, ela traçou os círculos e linhas sem hesitar. E por
último, ela girou a mão no ar como se tivesse girado a maçaneta da porta.
Um estalo forte ecoou no ar e a porta se abriu.
Sem a pedra bruxa, o interior a apavorava. Galinhas evisceradas
pendiam do teto em vários estados de decomposição, o sangue cobrindo o chão
até brilhar como se polido, e aqui e ali, penas surpreendentemente brancas
formavam ilhas felpudas no sangue. Crânios humanos decoravam as paredes
com velas dentro delas, fazendo com que as órbitas dos olhos
brilhassem. Facas, machadinhas e foices penduradas em suportes de parede
enquanto correntes balançavam acima delas.
Através da pedra bruxa, a casa era totalmente diferente. Embora fosse
uma pequena cabana de um único cômodo, era uma casa, embora
empoeirada. A mesa da sala de jantar com um único lugar estava em um
canto. Frutos secos equilibrados no centro, mumificados com a idade. Havia
uma mesa em outro canto com uma pilha alta de papéis e adornada com
tinteiros. Uma cama pequena, mas pitoresca, estava contra a parede mais
distante, abaixo de uma janela que brilhava ao luar.
Sorcha engoliu em seco e endureceu os nervos.
— Faes desta casa, não quero dizer desrespeito. Sou uma viajante
cansada que procura um lugar para descansar a cabeça. Esta casa é segura, é
quente e juro que não tocarei em nada que não seja meu. Se sua hospitalidade
se estender a ponto de oferecer comida e bebida, vou ajudar na limpeza desta
casa.
Por um momento, ela não ouviu nada. O silêncio soou tão alto quanto
suas palavras. Ela só podia torcer para não ter ofendido os brownies ou
redcaps restantes.
Ela torceu os dedos e ouviu. Sua paciência foi recompensada. O som de
chilrear suave anunciava movimento dos Faes. Passos tamborilando
começaram em sua direção e ela sentiu o mais leve toque contra sua coxa.
Olhando para baixo, ela viu que uma linha no chão estava manchada.
— Sal? — Ela sussurrou. Ou pelo menos algo semelhante. O pó branco
agora continha uma impressão digital, estragando a linha lisa.
Quando ela olhou para cima, o quarto não era mais assustador nem
assombrado. Era apenas uma sala a olho nu.
— Obrigada, — disse ela. — Sua gentileza não conhece limites. Vou
honrar as palavras que falei antes de entrar.
Ela foi até a cama e jogou a bolsa no chão. Suas costas gemeram com o
movimento, o equilíbrio mudando com uma tontura repentina. Ela ainda não
tinha terminado.
Suas mãos sabiam onde estava o pequeno pote de açúcar, mesmo que
sua mente não estivesse funcionando inteiramente. Sorcha vasculhou sua bolsa
e encontrou o pequeno pote de barro. Sempre valia a pena ter algum tipo de
presente para os Faes. Ela aprendeu essa lição uma e outra vez até que seus
bolsos estivessem sempre cheios.
Para garantir, ela também roubou uma pequena moeda. A fraca luz da
lua brilhava nas bordas, pois ela a havia polido muitas vezes. Sorcha chamava
de sua moeda da sorte, e parecia apropriado dar agora.
— Vou compartilhar o pouco que tenho com vocês, — ela murmurou. —
São poucos, mas acredito que poderei encontrar mais amanhã. Não como
pagamento, eu conheço seus métodos.
As cadeiras guincharam quando ela se virou, balançando ao cair no
chão. Sorcha piscou para a mesa agora limpa de toda a poeira e removida dos
pratos sujos.
— Bem, vocês não precisavam passar por todos esses problemas.
Uma xícara apareceu do nada e caiu sobre a mesa.
Sorcha ficou pasma. Ela queria segurar a pedra de bruxa em seu olho
apenas para dar uma olhada nos Faes escondidos. Eles não poderiam ser mais
aterrorizantes do que seu mestre.
— Vocês são muito gentis, — ela murmurou. — Vou deixar minhas
coisas em cima da lareira. Por favor, aproveitem-nas e sinto muito por não
haver mais.
Quase cinco passos a levaram para o outro lado da cabana. Ela se
inclinou, soprou a poeira da lareira e colocou seus itens no chão. O brownie em
seu pequeno quarto no bordel gostava de subir. Ela sempre escondia pequenos
presentes nas vigas apenas para dar um motivo para a aventura.
Eles eram criaturas naturalmente curiosas, algo que ela sempre respeitou
neles. Brownies, embora às vezes fossem um incômodo, eram úteis. Eles
queriam fazer tudo o que podiam e, quando não podiam, perdiam a cabeça.
Sua testa franziu. Ela esperava que não fosse com isso que ela estava
lidando aqui. Brownies caseiros facilmente se transformavam em monstros se
não se mantivessem ocupados. E a sala estava empoeirada...
Ela virou. — Vocês são brownies?
Não houve resposta.
— Não vai me fazer pensar mal de vocês. Para mim é apenas mais fácil
saber o que vocês podem gostar nos armários. O brownie da minha casa
gostava de mel, mas conheci um demônio uma vez e ele gostava muito mais
de pão fresco.
A xícara na mesa se inclinou.
Sorcha sorriu. — Um demônio então. Vou fazer o meu melhor para
roubar algo daquela cozinha nojenta de Tuatha dé Danann. Vamos deixar este
lugar brilhando e depois vou assar pão fresco, desde que vocês não tirem as
cobertas de mim.
Ela observou a xícara dançar para frente e para trás. Aparentemente, essa
foi a coisa certa a se dizer.
O som suave de suas saias embalou seus sentidos em um estupor. Sorcha
tropeçou na cama e caiu de bruços. Não importava que teias de aranha se
enredassem em seu cabelo ou que a camada de poeira fosse tão espessa que
saltasse com ela e voltasse para o colchão. Ela estava tão exausta que podia até
dormir com o bicho papão colocando as mãos úmidas em seu rosto enquanto
verificava se ela estava viva.
Ela dormiu o resto da tarde, a noite toda e boa parte da manhã. No
entanto, demorou apenas alguns segundos até que ela começou a piscar os
olhos para a luz do sol refletida pela janela da cabana.
Piscando, ela percebeu grogue que um som suave a acordou. Batendo,
como uma colher contra a cerâmica, embora isso não pudesse estar certo. Ela
se lembrava muito claramente de que estava em uma cabana de bruxa que já
tinha visto dias melhores. Mesmo o demônio não poderia ter conseguido um
jogo de chá em tão pouco tempo.
Sorcha se endireitou na cama, o emaranhado de cabelos ruivos se
projetando em ângulos estranhos. O quarto mudou completamente durante a
noite. A poeira e a sujeira estavam empilhadas em um canto, o chão revelando
ser de madeira rica e quente. Os móveis brilhavam e a lareira estava limpa de
toda a sujeira e manchas de fumaça.
Algo tilintou novamente chamando sua atenção para a mesa da cozinha
perto de outra janela. Duas cadeiras emolduravam, uma delas atualmente
ocupada por uma mulher baixa com um tufo de cabelos brancos. Um velho
kirtle, embora limpo, tocava o chão. Minúsculas flores rosa decoravam o tecido
claro e devem ter sido pintadas à mão. Seu cabelo branco alisado em um coque
grande, mas os fios de cachos crespos se soltaram.
A estranha pousou a colher no pires e deu um gole no chá.
Sorcha piscou. — Ainda estou em Hy-brasil?
— Eu acredito que sim. Se estou em Hy-brasil, você também deve estar
aqui. — A estranha mulher tinha uma bela voz. Reconfortante, como o de um
cobertor quente em um dia frio de outono. Era familiar, embora Sorcha não
soubesse por quê.
Olhos grandes e castanhos observavam cada movimento dela enquanto
Sorcha brincava com o cobertor que cobria suas pernas. — Não me lembro de
me enfiar na cama.
— Oh, presumo que seja o bicho papão, querida. Embora, eu diria que
ela está voltando para o brownie agora, graças a você.
— Graças a mim?
— Você deu a ele algo para fazer, e isso é tudo que os brownies querem.
A mente de Sorcha disparou e a compreensão caiu sobre ela como um
martelo. — Você é a voz que ouvi na costa. Você estava com aquele gnomo!
— É uma boa memória que você tem aí. — A mulher pousou a xícara de
chá e sorriu. — Você pode me chamar de Pixie.
— É isso que você é?
— Sim. Você está surpresa?
— Nunca conheci uma pixie antes — Sorcha disse enquanto juntava os
cobertores contra o peito. — É uma honra, senhora.
Pixie gargalhou, a risada explodindo em seu peito e sacudindo a mesa. —
Oh, mas você é uma coisinha doce! Tão educada. Boggart, acho que você
estava certa. Ela é um tratamento justo neste lugar horrível.
— Boggart? Ela está aqui?
— Claro, querida. Ela não quer que você a veja ainda. Ela foi até o castelo,
uma raridade, devo acrescentar, para nos dizer como você foi agradável. Você
a fez feliz dando a ela algo para fazer e um lugar para limpar. Perder a bruxa
foi um golpe terrível.
— Eu — sua cabeça estava girando. Sorcha não conseguia acompanhar o
que Pixie estava dizendo, muito menos o rumo estranho que essa aventura
tinha tomado. — Peço desculpas se isso parece rude, Pixie, mas o que você está
fazendo aqui?
Pixie se sentou ereta, colocando sua xícara na mesa com tanta força que
o pires lascou. — Como sou presunçosa! Querida, se eu a assustei de alguma
forma, permita-me pedir desculpas. Eu vim para levá-la ao castelo, pegar um
pouco de chá e então... —Seu nariz franziu. — Talvez um banho, se você for
amável?
— Posso dizer honestamente que agradeço.
Sorcha puxou as cobertas e esticou a coluna dolorida. A dor da jornada
havia diminuído para uma rigidez persistente, mas estava significativamente
melhor do que antes. Sua pele ainda parecia estar coberta por uma fina camada
de sujeira, e seu cabelo não se movia quando ela se mexia. Sorcha estremeceu,
ela precisava de um banho o mais rápido que fosse humanamente possível.
Ela olhou para baixo e franziu a testa. — Quem me colocou em roupa
íntima?
— Boggart, querida. Tive bastante tempo para isso também. Você é
muito maior do que ela.
— Mais uma coisa que preciso agradecer a você, Boggart. Vou com
certeza cozinhar dois pães frescos para nós esta noite.
Um leve guincho no canto irradiou deleite.
Sorcha mancou em direção a sua bolsa. Os músculos gritaram quando
ela se abaixou para encontrar roupas, tanto que um gemido suave escapou de
seus lábios.
— Oh, já chega disso, — Pixie resmungou. — Vamos jogar uma capa
sobre você e você estará coberta para a decência. Não temos as mesmas
restrições ridículas que os humanos. Um corpo é um corpo.
— E um corpo fica gelado — Sorcha apontou. A ideia de ir embora sem
ter que amarrar as costas do vestido parecia adorável. Normalmente, suas
irmãs ajudavam e ela tinha poucos motivos para trocar de roupa em um navio
cheio de homens. Aqui, ela precisaria de ajuda.
— Um corpo vai durar até ficar preso na banheira.
— Suponho que você esteja certa, — ela se levantou apenas para gemer
novamente. — Mas ainda preciso encontrar algo para vestir.
— Temos muito, querida. — Pixie se levantou e pulou em sua direção,
surpreendentemente ágil para uma mulher que parecia tão velha. — Deixe-me
ajudá-la a colocar sua capa. Ela aperta sua garganta agora, não é? Pronto. É
adorável. Vamos aquecê-la e alimentá-la em um momento!
Pixie plantou as mãos nas omoplatas de Sorcha e empurrou. Para um ser
encantado, sua força era impressionante. Antes que Sorcha pudesse piscar, elas
já estavam do lado de fora e descendo a rampa.
Por que as Faes a arrastavam tanto? Os olhos de Sorcha lacrimejaram ao
sol forte. — Que horas são?
— Meio-dia, querida. Você está dormindo há algum tempo.
— Foi uma longa jornada. — Disse ela.
— Eu imagino que seria! Vindo do mundo humano até aqui, você é uma
coisinha corajosa e educada.
— Não mais corajosa do que qualquer pessoa. — Sorcha tentou se
concentrar nas palavras, olhando ao redor para todas as novas visões. Havia
pessoas em todos os lugares. Homens e mulheres, vestidos com estilos de
roupas de cem anos atrás ou mais, mas ainda assim pessoas. Elas cuidavam
dos campos, expulsavam rebanhos de ovelhas de seus currais, deitavam na
grama e apontavam as nuvens uns para os outros. — Esses são todos Faes?
— De fato, eles são!
— Por que não os vi ontem? — Um homem passou por elas e tirou o
chapéu de pastor. Sorcha acenou com a cabeça educadamente e puxou a capa
com mais força em volta da cintura.
— Temos a tendência de ser tímidos com os humanos. Nunca se sabe
como eles vão reagir. Boggart estava inflexível de que você era gentil, então os
outros hesitaram menos em serem vistos.
— A notícia corre rápido por aqui. — Sorcha meditou.
— Certamente que sim.
Outro homem passou por elas, seus olhos demorando muito na abertura
na parte inferior da capa que revelava as linhas delicadas de seus ossos do
tornozelo. Sorcha corou, e Pixie bateu na nuca do homem quando ele passou.
— Cretino, — Pixie murmurou. — Nenhum respeito pelas
mulheres. Esses homens selkie precisam ser levados à tarefa.
— Aquele era um selkie? — Sorcha se virou para olhar para as costas
dele. Ele olhou por cima do ombro e piscou para ela.
— Não estamos em turnê. Atenção de volta ao castelo, por favor.
— Mas...
— Sem desculpas! Você não vai encontrar um selkie hoje, ou nunca, se
eu posso dizer.
Sorcha franziu as sobrancelhas. — Eles são perigosos?
— Para a sanidade de uma pessoa.
— Ele não parecia tão ruim.
— Nenhum deles parece! — Pixie a guiou pelos fundos do castelo,
empurrando-a de um lado para o outro até que ela abriu um pequeno portão
de madeira. — Os Fae são notoriamente interessados em humanos. Muito mais
do que deveríamos, devo acrescentar. Fique longe dos homens Faes e você será
muito mais feliz.
Sorcha entrou no jardim além do portão e inalou o doce aroma de ervas
crescendo. Era muito cedo para qualquer planta dar frutos, mas os tomates
pendiam inchados e vermelhos. O manjericão temperava o ar com um sabor
inebriante enquanto os topos da cenoura faziam cócegas nos dedos dos pés.
— Este jardim é lindo. — Ela sussurrou.
— Tenho certeza que Cian ficará satisfeito em ouvir isso.
— O gnomo? — Sorcha contornou um canteiro de nabos. — Cian é um
jardineiro?
— A maioria dos gnomos é. Eles também são bons nisso. A terra os
escuta, você vê, e isso torna tudo muito mais fácil. Vamos!
Sorcha ergueu os olhos e percebeu que havia ficado para trás. Pixie
estava segurando uma porta marrom lisa emoldurada por pedra cinza. O
vapor subia em ondas quentes e ondulantes.
— Aonde isso leva?
— Para as cozinhas, querida.
— Eu não vi as cozinhas antes.
O chão de paralelepípedos estava frio contra as solas de seus pés
descalços. Ela enrolou os dedos dos pés e segurou a moldura da porta. O cheiro
de doces, ensopado borbulhante e chá forte fez sua cabeça girar. Seu estômago
se apertou de fome.
Três mulheres circulavam pela cozinha. Uma se inclinava sobre um
grande caldeirão, saboreando a sopa lá dentro. Outra amassava massa em uma
forma familiar enquanto a última se abaixou atrás de uma cortina. Água
gotejante atingindo uma bacia choveu em seus sentidos.
— Vamos, querida, — Pixie disse. — Vamos limpar você e encher essa
sua barriga.
Sorcha contornou a cortina na ponta dos pés e ficou boquiaberta com a
grande banheira de metal além dela. — Isso é bom demais para gente como eu.
— Absurdo! Nada melhor do que tomar banho de água quente. Entre
logo.
— Eu ficaria bem em um riacho...
— Dentro.
A ordem de aço fez com que Sorcha soltasse sua capa. O tecido caiu no
chão com um baque pesado, seguido por sua roupa interior branca.
— Eu deveria estar aqui? — Ela perguntou. A água quente ardeu nos
arranhões em seus joelhos, mas fez seus músculos afrouxarem os nós. Ela
sibilou de prazer quando o vapor cobriu seu rosto.
— Por que você não deveria estar? Incline-se para frente e eu irei lavar
suas costas.
Já fazia muito tempo que alguém ajudava Sorcha a tomar banho. Ela se
lembrou de sua mãe esfregando vigorosamente sua pele manchada de
sujeira. Ela sempre ficava vermelha por dias após o banho. Em contraste, as
irmãs de Sorcha eram muito menos vigorosas quando ela foi morar com elas.
— Seu mestre não parecia interessado em me deixar ficar. — Ela disse
enquanto a esponja deslizava sobre sua pele.
— Sim, ouvi dizer que ele foi bastante... duro com você.
Ela bufou. — Dureza é uma maneira de descrever isso.
— Ele é um bom homem, mas tem um temperamento.
— Era esse o seu temperamento? Eu pensei que ele era apenas um bruto,
deixando pouco para causar uma boa impressão.
Pixie pegou outro balde de água. — O mestre pode ser difícil, mas não
deixe que as primeiras impressões influenciem você. Se você o julgar com
severidade, ele fará o mesmo por você. Prenda a respiração.
Água caiu em cascata sobre sua cabeça e ombros. Sorcha olhou para a
água lamacenta enquanto pedaços de terra giravam com seu movimento. As
bolhas estouraram, liberando o cheiro de limão no ar.
— Você o conhece há muito tempo? — Sorcha perguntou. A visão
assustadora de seu rosto desfigurado e olhos azuis elétricos surgiu na água.
— Desde que ele está vivo. O mestre era uma criança bonita. — Pixie fez
uma pausa. — E ainda é um homem bonito.
Ela queria discordar. As palavras estavam na ponta da língua para dizer
que ele não era bonito, que seu exterior combinava com seu interior, mas ela
fez uma pausa. Sorcha sempre foi rápida em julgar os outros. Talvez agora seja
um bom momento para praticar a paciência.
— Não sei dizer, — disse ela. — Ele não parecia interessado em me
ajudar. Isso não aumentou seu apelo.
— Ajudar você? Em que o mestre poderia ajudá-la, querida?
Pixie foi para trás da banheira e puxou Sorcha para trás. Sua coluna bateu
no metal quente e um suspiro suave escapou de seus lábios. O peso de seu
cabelo escorregou para fora da água e caiu no chão. Um leve puxão sugeriu
que Pixie planejava trabalhando em todos os cachos suaves.
— Meu povo está morrendo, — disse Sorcha. — Uma praga está
varrendo nossas terras e não posso curá-la. Ninguém pode. Nossos médicos
estão perplexos, nossos herbalistas estão perplexos e até os místicos dão de
ombros e dizem que os deuses estão zangados. Não há nada a ser feito.
— E nosso mestre?
— Fui enviada aqui por outro Tuatha dé Danann. Disseram que se eu o
levasse de volta, me dariam a cura. Meu pai está morrendo e minhas irmãs
provavelmente ficarão doentes depois disso. Eu tive que fazer algo.
O barulho da escova acalmou seus sentidos. Seus olhos se fecharam
enquanto o ritmo reconfortante lembrava a seu corpo que ela havia suportado
uma jornada significativa.
— Tenho certeza que se você dissesse ao mestre tudo que ele ajudaria.
— Ele já disse não, mas não sabe o quanto estou determinada.
— É uma boa característica de se ter.
— É isso? — Sorcha riu. — Talvez eu pudesse levar você para casa
comigo, e você poderia dizer isso aos meus vizinhos. Eles só me toleram
porque sou uma curandeira.
— Uma curandeira? — A voz da Pixie brilhou. — Não temos um desses.
Ela queria responder, mas seus músculos estavam tão relaxados que tudo
que ela conseguiu foi um murmúrio baixo. O banho era exatamente o que ela
precisava, embora ela não soubesse disso antes. Cada dor desapareceu, cada
preocupação dissolvida. Ela se concentrou no movimento repetitivo da escova
e deixou sua mente se acalmar.
Todas as coisas boas chegaram ao fim. A água esfriou e Pixie chegou ao
topo da cabeça de Sorcha.
— Venha agora, vamos vestir você. — Pixie passou a mão gentilmente
sobre a cabeça de Sorcha.
Lágrimas picaram e a água turvou os limites da visão de Sorcha. Ela não
esperava encontrar pessoas com um coração tão genuinamente bom. Era quase
sua ruína.
— Obrigada. — Ela sussurrou e se levantou. A água jorrou de seu corpo,
derramando-se em cascatas de seus seios, demorando-se nos vales de seus
quadris.
Pixie fez uma careta. — Você precisa ganhar peso, querida. Você está
positivamente magra!
— Eu não sou da realeza. Eu sou da classe trabalhadora!
— Isso não faz diferença para mim. Venha aqui.
A toalha nas mãos de Pixie estalou quando ela a estendeu. Outro
momento estranho. Ninguém secava Sorcha depois do banho, exceto ela
mesma. Até sua mãe deixava Sorcha se enrolar em uma toalha antes de
esfregar o cabelo.
A toalha macia se arrastou sobre cada centímetro do corpo de Sorcha com
precisão de especialista. Pixie não hesitou como se tivesse feito isso a vida
inteira.
— Pixie? — Sorcha perguntou. — O que você fazia antes de vir para o
Hy-brasil
A outra mulher hesitou por um momento. — Eu era a empregada
doméstica da mais bela das mulheres Seelie.
— Quem?
— A Rainha Neve, é claro.
— Rainha? — Sorcha soltou um longo suspiro por entre os dentes. —
Essa é uma posição de alto nível.
— Rainhas geralmente são.
— Não, quero dizer a empregada da Rainha. Deve ter sido uma
experiência incrível, tenho inveja de você.
Pixie olhou para ela com choque em seus olhos e caiu na gargalhada. —
Querida, você é uma delícia! Nunca na minha vida alguém teve inveja de mim
por ser uma empregada doméstica! — Ela riu tanto que entregou a toalha a
Sorcha. — Alta posição por ser empregada doméstica da Rainha. Que
pensamento!
Com um sorriso suave no rosto, Sorcha terminou de se secar com a
toalha. — É uma posição bastante notável, você deve admitir.
Sombras retorcidas dançavam atrás das cortinas e entre as criadas que
vagavam pelo cômodo. Sorcha inclinou a cabeça para o lado e observou as
asas, penas e formas deformadas reveladas por suas sombras. Elas
provavelmente não sabiam que ela podia ver suas verdadeiras formas.
Ela esperava que, algum dia, elas pudessem andar sem o encanto no
lugar. Seu medo era justificado. Os humanos não reagem bem a criaturas
estranhas. Sorcha se recusou a acreditar que ela iria recuar diante de suas
aparências.
Isso exigiria que ela ficasse. Ela se sacudiu. Ficar nesta ilha não fazia
parte do plano, e ela tinha que acreditar que o Tuatha dé Danann pelo menos
ouviria. Sua jornada era de grande importância. Ele tinha que ver a razão.
— Pixie? — ela gritou. — Onde está seu mestre hoje?
— Treinando no pátio, eu suspeito. É onde ele geralmente está.
— Treinamento?
— Oh sim, — Pixie disse quando ela voltou. Ela segurava um vestido
verde claro em suas mãos, a faixa de tecido quase tocando o chão. — Ele é um
guerreiro muito impressionante, embora eu o deixe contar a você essas
histórias. Eu acredito que isso vai ficar lindo com esse seu cabelo.
Ela estendeu a mão e traçou um dedo pelo vestido. Veludo, o material da
nobreza.
— Eu não posso usar isso, — disse Sorcha. — Vou estragar tudo.
— Ninguém mais está usando. Você pode muito bem arruiná-lo ou as
mariposas irão.
O desejo a inundou, cintilando nas pontas dos dedos e ela agarrou o
vestido. Ela nunca tinha usado um tecido tão fino antes. Embora o bordel se
orgulhasse de mulheres de alta classe, os veludos foram guardados para suas
irmãs quando clientes importantes vinham visitá-la. Sorcha sempre usou lã e
algodão.
Seus dedos percorreram o tecido, puxando-o para seus braços. —
Obrigada.
— Eu gosto de decorar coisas bonitas, querida. Agora coloque isso e
vamos pegar um pouco de comida para você.
Sorcha puxou o vestido pela cabeça e amarrou a toalha ao longo de seu
cabelo molhado. Alguém preparou um banquete na mesa. Frutas frescas,
vegetais, alface e pão transbordavam de suas tigelas. Uma jarra de água fria
estava ao seu alcance.
Ela caiu em seu assento e olhou em descrença. — Isto é para mim?
— Bem, não é muito, — Pixie fungou. — Mas deve servir por agora.
— Isso é mais do que eu jamais teria pedido! Você deveria ter me
mandado embora com uma maçã.
— Temos melhor hospitalidade do que isso. Coma.
Sorcha enfiou comida na boca e engoliu copo após copo de água. Seu
estômago poderia se rebelar mais tarde, não importava. Era mais comida do
que ela tinha visto em semanas e a água tinha gosto de neve.
Quando sua barriga doeu e sua garganta fechou com o pensamento de
mais, ela empurrou o prato para trás e suspirou.
— Eu odeio ser um incômodo, — ela começou, — mas você tem farinha
e manteiga extras? Eu gostaria de fazer pão para Boggart, mas não tenho
suprimentos.
— Para o bicho papão? — Pixie repetiu. — Brownies preferem mel,
querida.
— Ela não é mais um brownie e parecia muito animada com o pão.
— Bem, aquela cabana tem uma cozinha... Tudo bem. Nós lhe daremos
o suficiente para abastecer sua cozinha e então você não será um incômodo
aqui.
Os Faes encheram seus braços com tudo que ela poderia precisar. Tanta
comida que Sorcha precisava de um pacote que fosse rapidamente produzido
e enchido até a borda.
Eles foram gentis e corteses quase ao ponto de suspeitar. As sobrancelhas
de Sorcha se juntaram quando ela saiu da cozinha com a cabeça
balançando. Não fazia sentido para eles mudarem de ideia tão
rapidamente. Um dia eles estavam invisíveis e no outro, eles estavam fazendo
amigos? Tudo parecia bastante estranho.
— O que você está fazendo aqui? — A voz mal-humorada era familiar.
Sorcha girou e encontrou o olhar de Cian, o gnomo. Não o humano
glamouroso, não a voz invisível, mas o gnomo baixo e atarracado. Rolos de
gordura formavam o vago formato de um rosto. Dois olhos, um nariz e uma
boca larga e dividida em uma pele pálida e pastosa, tudo sob a aba larga de
um chapéu marrom. Ele se enfiou dentro das roupas, os botões ameaçando
estourar com o estresse. Ele não usava sapatos porque as unhas dos pés eram
tão longas que se enrolavam no chão.
— Cian. — Ela disse com um aceno de cabeça hesitante.
— Você nem mesmo tem o bom senso de sair correndo gritando?
— Eu sei o seu nome, por que eu iria gritar?
— Gnomos são criaturas assustadoras. Costumávamos comer humanos.
— 'Costumava' é a frase operativa aqui, eu imagino, — ela disse
enquanto cutucava o portão da cerca com o quadril. — Obrigada por me
lembrar que nem todo mundo aqui é tão gentil quanto as Faes da cozinha.
— Brownies. Elas sempre querem cuidar de alguma coisa. Elas vão
sufocar você até a morte se você permitir!
Ela havia chegado à mesma conclusão. O portão se fechou atrás dela e
ela desviou pela alameda em direção à cabana da bruxa.
Os Faes eram gentis, mas quase gentis demais. Ela não se lembrava das
histórias sobre brownies, mas pretendia fazer um bom uso do bicho
papão. Oferecer pão para alguém para obter informações era fácil, embora
talvez tortuoso.
Isso funcionaria melhor para as duas no longo prazo. Ela precisava de
mais informações, e Boggart era a pessoa perfeita para perguntar.
Capítulo 6

O Jantar

— Ela pediu o quê?


A voz de Eamonn ecoou em sua câmara.
— Os ingredientes para o pão, mestre.
— Ela não pediu o pão em si?
— Não. Ela disse que queria assar o pão para Bronagh sozinha.
Ele se recostou na cadeira alta de sua mesa. Juntando os dedos, ele os
pressionou contra os lábios. — Por que ela iria querer fazer isso? O bicho papão
dificilmente é algo com que perder tempo.
— Talvez ela considere Bronagh digna de seu tempo, mestre.
Ele não tinha pensado nisso. Os bichos-papões e os Fae menores estavam
tradicionalmente abaixo dos Tuatha dé Danann. Seus trabalhos eram
claros. Escravos, lacaios, às vezes empregadas domésticas, se fossem
bonitas. Nunca em sua vida ele tinha visto alguém se dar ao trabalho de tratá-
los com respeito.
A sugestão de que a humana se importava era ridícula. Ela tinha ficado
tão furiosa, entrando na sala do trono como se fosse a dona do lugar. Seus olhos
cuspiam fogo enquanto suas palavras queimaram seu orgulho. Ele se recusou
a acreditar nela tão gentil quanto Oona pensava.
Havia uma guerreira nela.
Oona se movimentava atrás dele, limpando cada centímetro de seus
aposentos. Ela era boa nisso. Ele nunca tinha visto outra pixie tão disposta a
fazer o trabalho de uma empregada doméstica. Ela era a melhor e a única
criada aceitável para trazer com ele para este lugar amaldiçoado.
Ele preferia muito a pixie sem seu encanto. O disfarce da velha o
irritava. Pixies eram criaturas ágeis, com uma tampa de pétalas de flores em
vez de cabelos. A dela era de um tom lilás escuro e claro, combinando com as
asas cintilantes que ela usava ao redor dos ombros.
— Onde ela está agora? — Ele perguntou.
— O mesmo lugar da noite passada, a cabana da bruxa.
— Ela voltou?
— Sem reclamar, devo acrescentar.
Eamonn se inclinou para a frente e pressionou os cotovelos contra a
mesa. — Por quê?
— Para cozinhar pão para Bronagh.
— Sim, mas por que mais? Tem que haver um motivo.
Oona suspirou. Ela foi até a frente de sua mesa e se ajoelhou diante
dele. — Você vai se machucar tentando entender a humana. Você sabe muito
bem que é impossível.
— Não posso aceitar isso como verdade.
— Então você ficará louco. Deixa pra lá, mestre. Algumas coisas você
nunca vai entender.
Ele não podia esquecer. Ele fechou os olhos e viu seus olhos verdes
brilhantes. Esmeraldas e florestas tropicais se escondiam em seu olhar,
igualmente perigosas e cortantes. Era estranho que ele se lembrasse dos olhos
dela, já que o resto dela era inexpressivo.
Nenhum Seelie que se preze iria entreter a realeza enquanto parecia que
eles rolavam em um chiqueiro. A mulher era nojenta. Algas marinhas presas
em seu cabelo, roupas enrugadas e manchadas de sujeira. Um pé descalço, o
outro coberto por um sapato puído.
No entanto, ela se segurava com a graça de uma rainha.
Talvez isso explicasse como ela o enfeitiçou. Ela era um enigma, uma
raridade, uma criatura estranha que fazia pouco sentido. Ela não deveria
existir, e ainda, aqui estava ela.
— Nenhum humano jamais veio a Hy-brasil, não é? — Ele perguntou.
— Não que eu saiba, mestre.
— Então, como ela chegou aqui?
— Eu não saberia. Não é minha função questionar como as pessoas
chegam, apenas cuidar delas quando chegam.
Ele bufou. — Cian deixou uma boa impressão.
— A culpa foi minha, — Oona estremeceu. — Eu disse o nome dele na
frente da garota. Não achei que ela pudesse nos ouvir enquanto segurávamos
nosso encanto, mas de alguma forma ela conseguiu.
— Ele está com raiva de você?
— Quando ele não está? — Ela se levantou do chão e fez uma careta para
ele. — Você está protelando. O que você vai fazer com ela?
— Quem? — Eamonn ergueu uma sobrancelha e recostou-se na
cadeira. Para garantir, ele ergueu os pés calçados com botas sobre a mesa.
— Pare de me provocar! É ruim para minha saúde. Você sabe muito bem
de quem estou falando! Ela é uma coisinha simpática, e não estou nada bem
comigo que você foi tão rude.
— Eu pedi uma opinião?
— Não, mas estou dando uma. Ela é a coisinha mais doce que apareceu
na costa em quase duzentos anos! Você precisa se desculpar com ela… — Oona
levantou a mão quando ele abriu a boca. — Desculpe-se e a convide para ficar
aqui. Não é seguro morar naquela cabana.
Eamonn teve vontade de voar sobre a mesa e estrangulá-la. Pedir
desculpas? Para aquela patife que não deveria estar nesta ilha para
começar? Ele tinha mais coisas com que se preocupar do que os sentimentos
de uma garotinha tola.
Memórias de seu irmão passaram por sua mente. Sua garganta se
contraiu como quando o laço se apertou com força em seu pomo de adão. As
joias em seu pescoço lançavam um brilho fraco em seus dedos entrelaçados.
Oona fez um som suave de angústia e desviou o olhar. — Eu não quis
desrespeitar, mestre.
— Tenho certeza de que não. Você sempre foi uma das minhas servas
favoritas, e por isso eu a mimo. Não me faça lamentar isso.
Ela se curvou e se virou para sair. Ele encontrou seu olhar quando ela
hesitou na porta. — Mestre, se posso ser tão ousada, talvez não desejemos mais
que você nos veja como servos. Nós o vemos como família, meu querido, e
algum dia esperamos que você nos veja da mesma forma.
Suas saias giravam enquanto ela saia correndo do quarto.
Ele franziu a testa. Era assim que seu povo o via? Como uma figura
misteriosa que pouco se importava com eles?
Há muito tempo, quando era jovem e bêbado com a ideia de poder, ele
pensava assim. Eamonn se levantou, cruzando as mãos atrás das costas
enquanto vagava para o retrato de sua mãe. Seu cabelo dourado caia liso sem
uma única mecha fora do lugar.
Ele se lembrava dela assim. Sempre perfeita, não importa a
situação. Mesmo quando o enforcaram.
— O que você faria, Mathair? — ele murmurou. — A menina é um
problema. Uma distração.
Ela era a última coisa que ele precisava. Havia apenas mais alguns meses
para se preparar, mesmo assim ele não tinha certeza se conseguiria. Eamonn
percorreu um caminho que conduzia apenas à morte.
Mas uma bela moça ruiva assombrava seus passos. Ela só estava aqui há
uma noite, e ele já não tinha dormido. O que mais ela faria?
— Talvez ela seja uma bruxa, — ele disse. — Uma tentadora enviada por
meu irmão para garantir que eu nunca mais volte para casa.
O pensamento era provável. Fionn faria qualquer coisa para manter o
trono Seelie.
Rosnando, Eamonn girou nos calcanhares. Pernas longas o levaram até
uma parede entalhada com a imagem de um grande pássaro. Ele pressionou a
palma da mão contra uma pedra solta, empurrando com força até que a parede
cedeu e revelou um cristal embutido na estrutura. A pedra tocou a gema e a
parede mudou.
Além, uma sala cheia até a borda com artefatos Fae brilhava. A magia
girava no ar. Ela dançava sobre sua pele, deslizando pelos cristais de seu rosto
e pescoço. Ele não foi amaldiçoado; Eamonn testou isso imediatamente, assim
que a doença se manifestou. Mas a magia gostava de tocá-lo do mesmo jeito.
Afastando as partículas de poeira, ele pegou um pequeno espelho de
mão. Rosas entalhadas se enroscavam no cabo e floresciam no topo. Ele achou
isso um tanto frívolo. Objetos mágicos sempre foram.
— Mostre-me a garota ruiva. — Ele se inclinou para frente e respirou no
vidro. O espelho rodou com névoa e clareou. Não refletindo mais o quarto,
revelou-lhe o interior da cabana da bruxa.
— O que? — ele rosnou. — Deve haver truques aqui.
Essa não era a garota que marchou para a sala do trono com a raiva
queimando suas bochechas. A beleza girando em círculos parecia mais com
uma dama Fae.
Seu cabelo, que ele lembrava como emaranhado e oleado, girava em
torno dela em um amplo arco. Os cachos saltavam com seus movimentos
enquanto ela pulava de um lado para o outro, os braços mantidos como se um
parceiro a girasse. O vestido de veludo verde abraçando suas curvas girando
em um círculo perfeito enquanto ela girava e girava.
Ele reconheceu aquela dança. Os humanos praticavam em Beltane. As
mulheres se curvavam e balançavam com música animada.
Ela dançava sozinha. Suas mãos batiam palmas no ritmo de uma música
que não tocava, e o sorriso que se estendeu em seu rosto falava de pura alegria.
Os lábios de Eamonn se curvaram para o lado. Ela era uma dançarina
horrível. Muito saltitante, sem controle sobre seus membros ou expressões
faciais e obviamente destreinada. No entanto, ainda havia algo convincente
sobre sua alegria.
— Esta não é a criatura lamacenta com a personalidade de uma megera,
— ele murmurou. — Que outros segredos você guarda, pequena humana?
O espelho ouviu seu pedido, e a imagem se aproximou quando a mulher
parou de dançar. Suas orelhas eram ligeiramente pontudas, ele percebeu.
— Curioso e curioso.
A necessidade ardente em seu estômago se expandiu, desabrochando em
uma névoa vermelha de desejo e luxúria. Ele precisava descobrir mais sobre
ela. De onde ela veio, por que ela estava aqui, quais eram seus planos.
Eamonn deixou de lado a admiração de como ela foi criada, quem lhe
ensinou os segredos dos Fae e por que suas orelhas eram pontudas de
Fae. Eram coisas frívolas que pesavam pouco. Elas não eram importantes.
Ela não era importante.
E ainda... Ele ergueu a cabeça e gritou: — Oona!
A pixie não tinha ido muito longe. Ele ouviu a porta se abrir e sua voz
gritar: — Sim, mestre?
— Convide-a para jantar.
— Mestre, ela solicitou privacidade esta noite.
— O que? — Ele deixou cair o espelho e caminhou para sua sala. — Ela
disse o quê?
— Ela pediu que Bronagh e ela tivessem uma noite tranquila para se
conhecerem.
— Por quê?
Oona encolheu os ombros. — Imagino que ela deseje descansar após sua
longa jornada.
— Não, ela é muito inteligente para isso. — Eamonn não conseguia
imaginar que ela não tivesse algum tipo de plano. Ela era muito dedicada à sua
causa. Talvez ele estivesse pensando muito como um guerreiro, e não o
suficiente como um homem. — Quanto Bronagh sabe sobre o castelo?
— Tanto quanto qualquer um, eu imagino. Ela morava aqui.
— Ela se lembraria de muitos de seus segredos?
— Talvez? — Oona piscou e torceu as mãos. — Você não acha que a
garota tem segundas intenções? Mestre, ela tem sido muito gentil.
— Até as pessoas mais amáveis podem ser tímidas. Gostaria de ter
certeza de que ela não está tramando nada sinistro.
Oona jogou as mãos para o ar. — Ela é a pessoa menos sinistra que já
conheci!
— E isso a tornaria uma espiã incrível, não é?
Ele ergueu uma sobrancelha e pegou sua capa. Ele iria descobrir o quão
perigosa esta mulher poderia ser. Embora seu povo pudesse pensar que ele era
indiferente, eles eram tudo o que ele tinha.
Com um redemoinho embelezado, a capa caiu sobre seus ombros e ele
caminhou pelas ameias.

— Veja, Boggart, é bastante fácil fazer pão! — Sorcha disse enquanto


amassava a massa em uma forma áspera.
O guincho em resposta a fez sorrir. Não foi um grito de apoio, nem soou
como se a Fae acreditasse nela. Não importa, o pão teria um gosto maravilhoso.
A saudade de casa a dominou quando o cheiro de farinha e pão assando
encheu a pequena cabana. Suas irmãs adoravam pão fresco, e Sorcha sempre
se certificou de que estivesse pronto para elas no final da noite. Elas nunca
desperdiçaram um pedaço. O cheiro fazia com que o bordel parecesse mais
uma casa do que um local de trabalho, e as risadas elevavam seus ânimos por
horas todas as noites.
Ela sentia falta delas mais do que qualquer outra coisa. Seus olhos se
voltaram para a lua que espreitava pela janela, e ela mandou um silencioso
boa-noite para suas irmãs.
Todas as suas esperanças e desejos se ergueram no ar e foram levados
para o mar. Ela rezou para que fossem saudáveis e felizes. Ela esperava que
Rosaleen tivesse escolhido aquele nobre amável e agora vivesse na riqueza, e
Briana se lembrasse de relaxar. Sorcha fez o sinal da cruz sobre o peito e soprou
sua preocupação ao luar.
— Por favor, mantenha papai vivo.
Ela não podia forçar essas coisas a acontecerem, não daqui. Sorcha
recorreu a desejos e sonhos. Talvez os Tuatha dé Danann a ouvissem e
fizessem com que sua família pensasse bem sobre suas escolhas.
Um guincho interrompeu seus pensamentos.
— Oh? — Sorcha se virou e colocou a mão no quadril. — E o que isso
quer dizer?
Boggart ainda se recusava a falar, embora Sorcha tivesse certeza de que
poderia. Chilreares suaves era sua única forma de comunicação, e ela
permanecia encantada.
Sorcha examinou a cabana, tentando encontrar o que quer que tenha feito
Boggart falar. O pão estava no fogo, mas não estava queimando. Nenhum
inseto entrou pela janela aberta. O fogo estava rugindo na taxa correta e não
esquentava muito.
Nada estava errado. Sorcha deu de ombros e balançou a cabeça. — Sinto
muito, não sei o que você está tentando me dizer. Seria mais fácil se você
falasse.
Outro guincho, muito mais alto do que o primeiro, ecoou na sala.
— Eu não sei o que você quer, Boggart!
Vários guinchos vieram da criatura que tremeluziu à vista. Boggart
abandonou seu encanto e revelou sua verdadeira forma. Magra, enrugada e
levemente salpicada de pelo branco que alisava os seios nus, ela parecia um
rato albino. Sua cabeça mal alcançava o topo da cama.
Ela apontou a mão nodosa para a porta. Sorcha notou que as pontas dos
dedos do Boggart eram bulbosos antes de olhar para onde ela apontou.
— A porta?
Um estrondo balançou a estrutura de madeira, dobrando a madeira para
dentro. Sorcha se encolheu. Seu quadril bateu na panela de barro contendo
toda a sua farinha que explodiu no chão. Pufes brancos flutuaram no ar e
cobriram o chão em uma explosão impressionante.
Ela praguejou e se abaixou. Sua mente agitada disse: coloque a farinha
nas mãos e coloque-a de volta na panela. Sorcha caiu de joelhos e puxou tudo
em sua direção, em suas tentativas infrutíferas de limpar.
As batidas na porta não pararam.
— Quem é? — Ela gritou.
Talvez a vassoura fosse a maneira mais adequada de limpar isso. Ela
olhou em dúvida para a palha coberta de teias de aranha. Ela estragaria a
farinha se usasse isso. Devia haver algo mais limpo.
Boggart gritou, saltando para cima e para baixo enquanto apontava para
a porta. Impossivelmente, as batidas ficaram estrondosas.
Sorcha se recostou, colocou as mãos cobertas de farinha nas coxas e olhou
para o teto. Quando sua vida se transformou em momentos de babá e
terríveis? Ela se recusava a ter medo de alguém que não pudesse entrar na
cabana da bruxa, protegida pelo feitiço espalhado no sangue da galinha.
— Boggart, pare de gritar.
Ela não deu ouvidos a Sorcha. Em vez disso, Boggart gritou ainda mais
alto. Seu lamento agudo cavou nos ouvidos de Sorcha, uma dor de cabeça
floresceu dentro de seu crânio.
— Por favor, pare de bater! — ela gritou. — Estou chegando! Eu só
preciso cuidar disso antes de...
As batidas pararam.
Sorcha deixou escapar um suspiro de alívio. Ela cuidou do baixo
profundo, agora ela tinha que fazer Boggart ficar quieta.
Deixando a farinha para depois, ela avançou em direção a Fae em
pânico. Sorcha sabia como acalmar as crianças, na verdade, era um de seus
melhores talentos. Boggart não poderia ser diferente disso. Ela era do mesmo
tamanho de uma.
Sorcha deslizou as mãos por baixo das axilas da Fae e a levantou. Como
uma criança, Boggart envolveu as pernas em volta da cintura de Sorcha
imediatamente. Respirações ofegantes roçavam seu ouvido, mas pelo menos
Boggart parou de gritar.
— Shh — sussurrou Sorcha enquanto se balançava para frente e para
trás. — Está tudo bem. Está tudo bem, você pode parar de gritar agora,
amorzinho.
Embora sua pele parecesse dura, Boggart era tão macia quanto um coelho
por todo o corpo. Diferente de Cian, Boggart não estava vestindo nenhuma
roupa. Um de seus pés movia-se inquieto contra o estômago de Sorcha.
Ela só tinha três dedos, Sorcha percebeu com prazer. Três dedos grossos
e bulbosos que terminavam em unhas negras e cegas.
As batidas começaram novamente. Boggart guinchou e aninhou seu
nariz pontudo no pescoço de Sorcha.
— Shh, está tudo bem — Sorcha repetiu enquanto as conduzia em
direção à porta. — Nada vai acontecer com você, provavelmente é Pixie com
mais comida.
Ela esperava.
Com a Fae enrolada em torno dela como uma segunda pele, Sorcha
passou por cima do massacre de farinha e agarrou a argola da porta. Ela enviou
uma oração silenciosa para quaisquer deuses que estivessem ouvindo. Se isso
fosse um fogo-fátuo ou algo igualmente assustador, Sorcha desmaiaria.
— Melhor estar seguro. — Ela sussurrou.
Ela abriu a porta apenas uma fresta, o suficiente para ver quem estava
por trás, mas não o deixasse entrar.
O crepúsculo escuro tornava difícil para ela ver qualquer coisa. Era
apenas um espaço em branco do outro lado da porta. Sem passarela, sem lua,
nada além de preto.
Sorcha arqueou uma sobrancelha. Bem, isso era incomum.
Algo mudou na escuridão, trazendo seu foco muito mais perto. Não era
escuridão, mas um pano preto tão escuro que parecia ser noite.
Havia apenas uma pessoa na ilha que usaria isso.
Sorcha empurrou a porta para abrir todo o caminho e olhou para
cima. Contornado pela lua, o mestre da ilha olhava para ela. Sua capa tornava
impossível para ela adivinhar para onde ele estava olhando, mas ela podia
sentir o calor de seu olhar como se fosse um toque físico.
— Boa noite. — Disse ela. Suas palavras foram mordazes e rápidas. Ele
era a última pessoa que ela queria ver esta noite.
— O que é isso?
Sorcha piscou. — Você deve ser mais específico.
— Nos seus braços.
— Oh, — ela olhou para o Boggart, que apertou seu aperto no pescoço
de Sorcha. — Esta é a Boggart.
— Eu sei quem é, mas por que ela não está encantada?
— Você a assustou.
— Eu a assustei? — Ele rosnou.
— Essas batidas incessantes assustariam até mesmo o mais bravo dos
animais.
O fogo estalou, uma brasa disparando pela sala. A luz lançou um breve
brilho em suas feições, revelando um brilho em seus olhos que fez Sorcha
estremecer.
— Mas não você. — Sua voz era uma carícia física, dançando por sua
espinha até dobrar os dedos dos pés.
— Eu não sou nem homem nem besta, senhor. Você descobrirá que as
mulheres são muito mais difíceis de assustar.
Ela se afastou dele. Ele estava arruinando todos os planos dela! Agora
Boggart estava com muito medo de suborno, e Macha sabia quanto tempo
levaria até que Sorcha pudesse obter suas informações. A pequena criatura era
frágil.
A raiva correu por suas veias até que um rubor queimou suas
bochechas. Ela queria voar para ele, arranhar os cristais feios que marcavam
seu rosto e gritar que ele não tinha o direito. O burro ridículo, pomposo e
autoritário que ele era.
Apesar de todas as suas emoções furiosas, suas mãos permaneceram
gentis com Boggart. Ela acalmou a criatura com suaves movimentos circulares
e deitou-a na cama.
— Calma, calma, — ela murmurou. — Você fica aqui e eu o farei ir
embora. Isso vai ajudar?
Boggart assentiu.
— Bom. Esconda-se sob as cobertas e eu irei buscá-la quando ele for
embora.
Isso seria fácil. Era exatamente o que Sorcha queria, e agora ela tinha uma
desculpa para conduzi-lo embora. Com sorte, Boggart se acalmaria, e Sorcha
poderia falar docemente com ela para obter informações sobre o mesmo
homem que ela estava forçando a deixar.
Ela enxugou as mãos na saia e marchou em direção à porta com um
propósito renovado.
— Temo que devo pedir que você vá embora. — Ela disse.
— Não.
Ele disse a palavra como se encerrasse a discussão. Como se apenas
inserindo-se imperiosamente em sua vida, ele poderia ditar o que quisesse,
como quisesse.
Ela piscou para ele. — Com licença?
— Não.
— Posso perguntar por que você se recusa a sair da minha porta, embora
eu tenha solicitado que sua presença não a escurecesse mais?
— Esta ilha, e tudo que há nela, está sob meu comando. Eu faço o que eu
quiser.
Ele se moveu para cruzar a soleira. Sorcha cerrou os dentes, os músculos
da mandíbula flexionando de raiva. — Se você der mais um passo, vou ativar
todos os feitiços de proteção nesta cabana amaldiçoada e expulsar você desta
cabana.
Seu pé pairou um pouco acima do interior de sua casa. — Você não
ousaria.
— Eu ousaria muito, senhor, contra um homem que aparentemente não
entende limites. Você deve perguntar a uma mulher se pode entrar em sua
residência e, quando receber a aprovação, poderá fazê-lo. Se elas solicitarem
que você saia, você se retira. Quanto a dominar todos os que permanecem
nesta ilha, devo perguntar quem o nomeou rei. Eles devem ser terrivelmente
sem inteligência!
Se ele continuasse, ela descobriria como ativar esses feitiços. Ela não era
uma bruxa, mas ele não tinha como saber que ela estava blefando.
Ele inclinou a cabeça. — Você está certa. Minhas desculpas, dama, eu
estava fora da linha.
Sorcha se viu incapaz de falar. Este homem nunca parava de surpreendê-
la. Ele era um idiota, disso ela tinha certeza, mas ela não esperava um pedido
de desculpas. Muito menos uma admissão de culpa. Ele era capaz de auto-
reflexão?
Ela inclinou a cabeça para o lado, olhando-o de cima a baixo. — O que
você disse?
— Há muitos anos que não vou a corte. Minhas maneiras não são mais
o que costumavam ser. — Ele puxou a capa para o lado, cruzou o braço sobre
a cintura e fez uma reverência. — Eu humildemente solicito sua presença no
jantar esta noite.
— Estou comendo aqui.
— O castelo pode oferecer refeições muito melhores.
— Seja como for, — Sorcha gesticulou em direção ao fogo, — o jantar já
está cozinhando.
— Então, por mais que seja, eu peço que me permita ficar. Você não
precisa fornecer comida, apenas companhia.
Sorcha entrou em pânico. Ela não queria que ele ficasse! Como ela faria
Boggart falar? Gaguejando, ela apontou para a cama. — Eu temo que Boggart
está com muito medo de você. Não seria educado permitir que você ficasse
quando...
— Boggart não tem medo de mim. — A cabeça de sua capa tremeu. —
Ela tem medo de que eu planeje tirar você dela, como fiz com a bruxa. Posso
entrar?
— Eu... Por que você removeu a bruxa?
— Ela era perigosa. Seus feitiços estavam alcançando o castelo e
causando estragos entre meu povo.
— Você estava protegendo os Faes?
— Esse é o meu trabalho. Eles cuidam de mim e eu os protejo.
Sorcha respirou fundo, soltando o ar com um bufo. Não havia mais
discussões, não havia mais paredes que ela pudesse erguer. Ele estava sendo
educado. Seria rude recusar a entrada dele agora, e ele já pensava que ela era
pouco mais que uma camponesa.
Não funcionaria.
Ela gesticulou em direção à mesa. — Tudo bem então. Entre e sente-
se. Deve haver o suficiente para nós três.
Ele se abaixou, entrando na cabana como uma tempestade. Ele era muito
grande. Sorcha ficou boquiaberta com sua cabeça, que quase tocava o teto, e a
ampla extensão de seus ombros que ele tinha que inclinar para entrar pela
porta.
Não era de se admirar que as duas portas do castelo fossem largas. O
homem não conseguiria passar por nada menos!
— Receio não ter um grande palácio para oferecer, ou mesmo serviços de
jantar completos, — disse ela enquanto caminhava em direção à cama. — Mas
dois assentos terão que servir.
— Eu comi em condições piores.
— Você já? Eu tinha a impressão de que 'mestres' raramente comiam fora
de seus esplendorosos castelos. — Ela se inclinou sobre a cama e puxou os
cobertores do rosto do Boggart. — Ele está comendo com a gente, mas
prometeu que posso ficar.
— Não sou nenhum rei, nem sempre vivi aqui.
Sorcha ergueu Boggart nos braços e encaminhou-se para a mesa. A Fae
agarrou seu vestido, pequenas garras cavando através do tecido e em sua
pele. — Uma curiosidade que não desejo satisfazer. Não terei pena de você,
senhor, se esse for o seu objetivo.
— Eu não peço piedade, mas paciência. Sou eu que estou fora da
linha. Lembro-me de boas maneiras, mas elas não são mais uma segunda
natureza. Receio tê-las perdido muito antes de vir para esta ilha. — Ele se
sentou na cadeira dela, a madeira rangendo ameaçadoramente por alguns
momentos antes de silenciar.
Ela enganchou o pé em um banquinho e arrastou-o em direção à
mesa. Ela deve ter sido uma visão assustadora, mancando em direção a ele com
os guinchos da madeira, carregando o bicho-papão que parecia mais monstro
do que besta. Ele não vacilou nem um pouco, Sorcha notou com decepção.
Boggart se deixou cair no banquinho e largou o vestido de Sorcha com
relutância. Ela soltou um pequeno bufo quando Sorcha saiu do seu lado,
observando seu mestre com olhos redondos.
— Não vou chamá-lo de 'mestre' — Sorcha disse enquanto tirava o pão
do fogo. — Você tem outro nome?
— Alguns me chamam de Cloch Rí.
— O Rei de Pedra? — Sorcha ergueu uma sobrancelha.
Ele estendeu a mão, colocando-a totalmente à vista sobre a mesa. Os
cristais revelados em cada ponta da junta eram tão surpreendentes quanto da
primeira vez. Com tons de violeta e bordas irregulares, eles transformavam
sua mão em mais pedra do que punho.
— Ah, — ela murmurou. — Apropriado então.
Ela pousou o pão com um pano por baixo. O vapor subia no ar, o cheiro
quente e reconfortante aliviando a tensão em seu pescoço. Ela acrescentou
queijo e morangos frescos à mistura.
— Cian mantém um jardim impressionante. — Ela disse quando se
sentou. A cabana ficou pequena demais, o ar muito fechado.
A capa ainda cobria seu rosto, mas ela podia sentir seu olhar. Permanecia
em seus cabelos, seguindo as espirais de seus cachos sobre os ombros e
braços. Altamente inapropriado. Ele havia dito que não era um cavalheiro, e
ela acreditou nele.
— Ele não gostaria que você usasse o nome dele tão livremente.
— Não, suponho que não. Talvez seja por isso que eu o uso. — Ela
estendeu a mão e partiu um pedaço de pão, o vapor subiu no ar em pequenos
redemoinhos.
— Você faz isso porque pode irritá-lo?
— Irritá-lo. Eu nunca usaria seu nome contra ele.
— Muitos humanos disseram a mesma coisa e sempre usam o nome.
— Você acha que eu sou como a maioria dos humanos?
— Eu ainda não conheci alguém que destrua minha percepção de sua
espécie.
Sorcha enfiou o pão na boca, mastigando para ter tempo para pensar. —
Você pensa muito mal da humanidade.
— Tenho poucos motivos para pensar o contrário.
— Eu poderia dizer o mesmo sobre o seu povo.
Boggart pegou um pão e enfiou-o debaixo do braço. Ela deu a ambos um
olhar desconfiado antes de pular da cadeira e voltar para a cama. Seus
pequenos grunhidos chilreios sugeriam que ela não apreciava uma conversa
tão tensa quando planejava desfrutar de seu jantar.
Sorcha concordou com ela. A hora das refeições deveria ser pacífica, um
momento para a família desfrutar da companhia um do outro após um longo
dia de trabalho. Mas havia algo sobre este homem que pressionava todos os
seus botões, e ela não pôde deixar de argumentar.
— Que queixas contra os Faes você poderia ter?
— Abandono, para começar. Vocês entraram neste mundo com total
intenção de moldá-lo à sua vontade e então desapareceram.
— Desaparecer? — Sua mão cerrou-se na mesa. — Seu povo nos
expulsou de nossas terras!
— Acho isso difícil de acreditar quando você mesmo afirmou que os Faes
são muito superiores à humanidade.
Ela viu seu punho apertar até que ela ouviu o rangido de pedra e
cristal. Lentamente, ele soltou seu aperto em pequenos movimentos. Quando
a palma da mão pousou sobre a mesa mais uma vez, o capuz de sua capa se
inclinou para o lado.
— Você é perspicaz para uma humana. É... intrigante.
— Isso soa como um elogio. — Ela estendeu a mão para pegar um
morango e deu uma grande mordida. Ela contaria isso como uma batalha bem-
sucedida em sua guerra em curso. Ele poderia ter vencido a primeira jogando-
a em uma cabana de pesadelo, mas ela se recuperou muito bem.
O morango explodiu em sua boca. O sabor doce revestiu sua língua,
enchendo seus sentidos com o sabor do sol e verões passados caçando nos
campos. Por centenas de anos, a família de Sorcha procurou a terra para
sobreviver. Sua mãe tinha sussurrado as histórias em seu ouvido enquanto elas
sugavam o suco dessas frutas vermelhas.
Um pouco do icor dentro do morango transbordou de seus lábios,
pingando xarope em seu queixo.
Sorcha não o viu se mover, mas sentiu o toque de sua mão como se ele a
marcasse. Seu polegar calejado traçou a linha de líquido do queixo à
boca. Raspou seu lábio sensível, pegando até a última gota de suco pegajoso.
Um dos cristais em sua palma arranhou seu queixo. Frio ao toque, foi um
raio de sensação contra o calor repentino e flamejante de suas bochechas.
Ela separou os lábios em um suspiro silencioso. A textura suave de sua
unha tocou seu lábio superior, mergulhando no hálito quente que ela expeliu
antes de retirar.
Ela estava desfeita, destruída, renascida como algo totalmente
diferente. Suas mãos se apertaram em seu colo enquanto olhava em choque ao
Fae que se atreveu a tocá-la sem pedir, para cortar sua firme resolução e
costurar o início da atração na fibra de seu ser.
Eles se encararam, congelados no tempo. O luar atravessou sua janela e
perfurou o forro de sombra que cobria seu rosto. Ele dançava ao longo dos
cortes profundos de cristal, como uma pedra que ela uma vez abriu para
revelar o geodo de dentro.
Seus olhos tinham uma intenção perversa que roubou o fôlego de seus
pulmões. Azul vívido, como um céu cristalino, como as ondas azuis do oceano,
eles viram através dela.
Ele a queria, ela percebeu. Ele não estava jogando; sua emoção era muito
crua e faminta. Ela tinha visto a expressão nos homens no bordel antes, mesmo
às vezes lançada em sua direção, mas nunca sentiu as emoções refletidas em si
mesma.
Seu estômago se apertou. Ela cravou as unhas nas palmas das mãos e se
forçou a engolir o morango restante.
Os olhos de Sorcha seguiram sua mão enquanto ele a erguia em direção
à boca.
A cadeira rangeu quando ela se levantou. — Boggart, você terminou?
Um guincho no canto sugeriu que a pequena Fae ainda tinha um longo
caminho a percorrer, mas Sorcha estava completamente farta desta noite. Ela
olhou para trás em direção à sombra enorme sentada em sua mesa.
— Receio ter de lhe pedir para sair, senhor. Como você pode imaginar,
minha jornada tem sido difícil e estou desmaiando.
— De sua jornada. — Ele repetiu enquanto se levantava.
Ela foi mais uma vez oprimida pelo tamanho dele. A cabeça dela mal
alcançava o centro de seu peito. Ela sabia que as mãos dele eram enormes e
que ela poderia envolver os braços em volta dos ombros dele se tentasse muito.
Sorcha soltou um suspiro. — De fato. Foi uma viagem exaustiva de uma
semana e depois nadei o resto do caminho até aqui. Os homens Merrow não
são gentis enquanto perseguem suas presas, então, por favor... — Ela apontou
para a porta, incapaz de terminar a frase quando o peso do olhar dele
pressionou seus ombros.
— Fui repreendido uma vez esta noite por respeitar os desejos de uma
mulher, não gostaria de revivê-los novamente. — Ele fez uma reverência baixa,
sua capa espalhando-se sobre os ombros como asas.
— Sim, uma megera provavelmente não manterá a boca fechada.
Ele deu uma risadinha. — A única megera nesta casa é a bicho papão.
Sorcha ouviu o grito furioso, mas Boggart não tinha nada a dizer sobre o
comentário. Talvez ela tenha concordado.
Ainda assim, fez suas bochechas arderem ainda mais. Ela correu para a
porta e a manteve aberta. — Obrigada pela conversa interessante.
Ele se movia como uma sombra, silencioso e suave, hesitando apenas
brevemente na frente dela. Ela inalou o cheiro de hortelã e cera de abelha.
— Foi uma noite esclarecedora, embora curta. — Ele disse antes de sair
da cabana.
Sorcha cedeu contra o batente da porta. Toda a energia que ele carregava
saiu com ele e esvaziou seu corpo da adrenalina que ela montava. Foi uma
conversa breve, mas suas pernas tremiam e suas mãos tremiam.
Uma onda de consciência sacudiu sua espinha. Girando, ela se inclinou
para fora da porta e gritou: — Pedra!
Ele fez uma pausa, um pé no cais para a cabana dela e o outro em sua
ilha amaldiçoada. — Perdão?
— Você disse que alguns o chamam de Cloch Rí. Vou chamá-lo de Pedra
até que você me dê seu nome verdadeiro.
— Você acha que algum dia vou te dar esse tipo de poder sobre mim?
— Sua voz vacilou com humor.
— Eu apostaria minha vida nisso, Pedra.
— Estou ansioso por suas tentativas, Raio de Sol.
Ela esperava que ele sorrisse, embora parecesse improvável que um
homem como ele soubesse torcer os lábios de felicidade. Havia um certo prazer
em fazer um homem sorrir. Ela tinha esquecido como era isso. O namoro, as
risadas, as provocações, tudo o que fazia borboletas voarem em sua barriga.
Ele começou a subir a colina que levava ao seu castelo. A lua surgiu atrás
da estrutura imperiosa, destacando as torres denteadas e os picos em
ruínas. Era uma ruína, uma relíquia de muito tempo atrás, quando esta ilha
poderia ser um espetáculo para ser visto.
Havia algo assustadoramente belo neste lugar. As colinas esmeralda
brilhavam com orvalho sob o luar prateado. Vaga-lumes dançavam acima dos
campos de trigo parecendo magia beijando a terra. E seu rei, o monstro
desfigurado de um homem, delineado como uma sombra caminhando em seus
domínios.
— Você está fantasiando, — disse ela. — Pare com isso, Sorcha. Vá para
a cama.
Ela não conseguiu. Ela ficou onde estava, pressionada contra o batente
da porta, observando-o se afastar dela.
Uma pequena mão puxou sua saia. Sorcha olhou para o rosto estranho e
alongado do Boggart. O pão enchia suas bochechas, deixando-as salientes para
o lado e impedindo-a de chiar.
Boggart puxou novamente e apontou para a cama.
— Sim, é hora de dormir. Onde você está dormindo, pequena?
A Fae apontou para um pequeno amontoado de cobertores comidos por
traças no canto.
— É aí que você quer dormir? A cama é grande o suficiente para nós
duas.
Boggart disparou para o canto dela e se escondeu debaixo dos
cobertores. Seu nariz comprido e bigodudo projetou-se para fora do monte,
farejando por um momento antes de desaparecer novamente. Sorcha podia
ouvir o leve som de mastigação.
Ela deve ter levado o resto do pão com ela, Sorcha pensou com um
sorriso. Balançando a cabeça, ela se despiu e pendurou o vestido de veludo na
janela. Era bom demais para deixar no chão ou dobrar no peito no canto.
Amanhã, ela prometeu a si mesma ao se deitar, amanhã ela exploraria a
ilha e falaria com seus habitantes. Ela não seria distraída pelo belo rei. Ela
precisava convencê-lo a voltar para o continente com ela e dane-se se ela
falharia.
O ar vibrou com o som de asas, o vento soprando em seu rosto enquanto
ela se aconchegava nos travesseiros. Um corvo coaxou ao pousar no peitoril da
janela.
— Aí está você, Bran, — ela murmurou baixinho, para não perturbar
Boggart. — Eu me perguntei para onde você tinha voado.
Ele resmungou.
— Claro que me preocupei. Sobrevivemos juntos a uma experiência de
quase morte. E não, não consigo dormir.
O corvo inclinou a cabeça, olhando para ela com um olho escuro e
redondo.
— Não tem nada a ver com ele!
Ele bateu as asas, acomodou-se no parapeito da janela para passar a noite
e deu as costas para ela.
— Isso é muito rude, — ela resmungou. — Eu não estou mentindo para
você. Dormi um dia inteiro quando cheguei aqui. Não estou nem um pouco
cansada!
Talvez tenha algo a ver com o mestre da ilha. Seu olhar era como gelo,
com calor derretido em suas profundezas.
Ela estremeceu e puxou os cobertores até os ombros. Soltando um
suspiro, ela se resignou a uma noite difícil com pouco sono.
Capítulo 7

A Curandeira

Sorcha atingiu o topo de uma colina.


Sua respiração estava irregular e o suor pingando grudava em seus
longos fios de cabelo na testa. Ela enrolou um lençol em seu corpo como uma
bolsa improvisada. A dela era muito grande para trazer uma aventura pela
pequena ilha.
O lençol branco era um contraste gritante com o vestido antigo que ela
usava. Ela o encontrou em um baú deixado pela bruxa. Mariposas o haviam
atingido, fazendo buracos no tecido e deixando as bordas irregulares, mas não
havia nada funcionalmente errado com isso. Ela não iria estragar mais nada, e
quem precisava de roupas finas todos os dias? O veludo era lindo, mas não
prático.
Ela se orgulhava de ser uma mulher prática.
Caminhando o lençol mais alto em seu ombro, ela soltou um suspiro. Um
cacho quicou em seu laço.
Sorcha gemeu. Nesse ritmo, quando ela chegasse ao topo da pequena
montanha, não haveria mais nenhum fio de cabelo no laço! Os cachos rebeldes
exigiam liberdade.
O cascalho rangia sob suas botas emprestadas. Costumava haver um
caminho aqui, o solo desgastado por séculos de pés. A terra havia crescido
novamente ao longo dos anos, alisando o solo estragado e cobrindo o caminho
até o pico.
Ela subiu nas mãos e joelhos até a crista. O ar escapou de seus pulmões e
seus joelhos vacilaram, mas ela conseguiu. Afundando perto de um monte de
pedras, ela puxou os cachos rebeldes de volta para a laço.
Bran grasnou no alto, sua voz gritando no ar.
— Sim, sim, — ela murmurou enquanto puxava com força. — Você
poderia ter feito isso na metade do tempo. Preciso lembrar que penas são muito
mais rápidas do que carne?
Ele circulava acima dela, mergulhando e mergulhando como se para
zombar de sua exaustão.
— Deve ser fácil ser um corvo. Aqueles de nós aqui embaixo temos que
lutar para subir a montanha. Você pode voar muito além.
Ela soltou o nó sobre o peito com um suspiro de alívio. A comida pesava
apenas um pouco, mas ela ainda estava dolorida. Seus músculos precisavam
se mover, para liberar a tensão e rigidez que atrapalhava seus movimentos.
Talvez uma montanha fosse um pouco mais do que ela poderia suportar.
Esfregando o ombro, Sorcha puxou a pequena jarra de água e um pedaço
de queijo. Não era muito, mas serviria.
Ela manteve uma sgian dubh, uma adaga, amarrada ao tornozelo para
momentos como este. Cortando o queijo macio em cubos, ela o levou à boca e
olhou montanha abaixo.
Tudo parecia tão pequeno daqui de cima. A terra se estendia diante dela,
pontilhada com estrelas semelhantes a ovelhas no céu noturno. Pessoas
minúsculas trabalhavam diligentemente em suas terras. Daqui, ela podia ver
que eles haviam deixado de lado seu encanto. Asas cintilavam à luz do sol,
formas tortas curvadas sobre os campos. Ela sabia que se andasse a poucos
metros deles, eles colocariam seus encantos tão rápido que ela nunca daria uma
olhada em como eles eram.
Era a única montanha da ilha e estava nivelada com o topo do
castelo. Quieta e solitária, deu a ela momentos para pensar enquanto
permanecia longe de todas as pessoas aqui.
Ninguém queria falar com ela sobre seu mestre. Eles eram tão evasivos
quanto o próprio homem, respondendo suas perguntas com respostas vagas
que não eram exatamente mentiras. Talvez ele os tivesse alertado para não
falarem com ela. Talvez eles fossem leais ao homem misterioso.
Sorcha fez uma careta para as figuras minúsculas. Eles ficaram
igualmente calados sobre suas próprias informações. Todos eram educados,
gentis e generosos, mas não confiavam nela.
Encantos ainda estavam no lugar. Eles a rejeitavam quando ela sugeria
que poderia ajudar. Eles sussurravam atrás dela quando ela saía, embora
provavelmente pensassem que ela não podia ouvi-los.
O mestre, Pedra, permaneceu indescritível. Ela o via passando de vez em
quando, mas não sentia o peso de seu olhar. Ele não repetiu a experiência
acalorada que a deixara com a boca seca por dias.
Sua adaga escorregou em sua mão e cortou seu polegar. Sibilando uma
respiração raivosa, ela afundou a lâmina no chão.
— Sorcha, tire sua cabeça das nuvens — ela repreendeu. — Aquele
homem dificilmente vale seu tempo ou esforço. Basta tirá-lo da ilha e levá-lo
ao continente. E pare de se machucar enquanto sonha acordada.
Ela arrancou um pedaço de tecido da barra do vestido, resmungando
sobre garotas tolas coletoras de lã. Amarrando ao redor de seu polegar, ela
apertou mais forte do que o normal como punição.
Sorcha planejou passar o dia inteiro no cume. Ela não estava chegando a
lugar nenhum com os habitantes locais. Eles não lhe deram nenhuma
informação sobre seu mestre, o que significava que ela tinha que ir diretamente
à fonte.
A fonte era perigosa. A fonte queimava como fogo, com olhos gelados
que fizeram sua mente congelar no rastro de seu aperto. Ela teria que vigiá-lo
constantemente. Não haveria mais incidentes com morango, ou qualquer coisa
do gênero.
Uma voz sussurrou no fundo de sua mente que ela queria outra
experiência. Ela queria mais do que isso. Para um dedo calejado se tornar uma
mão, para sentir a sensação daqueles cristais contra sua pele.
— Garota tola. — Ela murmurou.
Era impossível que tais pensamentos se concretizassem. Ela se meteria
em problemas, perderia o foco ou, pior, se perderia.
Pedras deslizaram atrás dela, rachando juntas e rolando montanha
abaixo em uma grande avalanche de som. Ela rolou para o lado, olhando em
direção ao barulho.
Cabelo branco como a neve soprava na brisa fraca. Saias pesadas
emaranhadas entre as pernas de Pixie, pegando-a enquanto ela lutava para
chegar ao topo. Seu rosto normalmente calmo estava vermelho brilhante pelo
esforço.
— Pixie! — Sorcha gritou. Ela ficou de pé de um salto e correu para a
Fae. — O que você está fazendo aqui?
— Oh, querida, por que você tem que escolher um lugar assim para ficar
longe de todos nós? É muito longe e meus ossos velhos não aguentam!
— De alguma forma, duvido que você seja tão velha quanto se retrata. —
Sorcha respondeu com um sorriso.
— Você não saberia — Pixie disse com uma careta. — Querida, odeio
pedir um favor a você, mas algo terrível aconteceu.
O sorriso de Sorcha desapareceu com a preocupação e angústia na voz
de Pixie. — O que aconteceu?
— É o pequeno Doo... quero dizer... — Pixie se conteve e balançou a
cabeça. — Pooka! É o pequeno Pooka, ele caiu de uma árvore e quebrou o
braço. Uma coisa terrível, fratura desagradável, e ele é o único filho da
ilha. Está quebrado na pele, querida, e não sabemos como corrigi-lo. Ele está
sangrando algo horrível.
— Você colocou uma compressa na ferida? — Sorcha pegou suas coisas
e as colocou sobre o ombro. — Quão ruim é o intervalo? A que distância a mão
está apontando para longe de sua posição normal?
— Eu... eu não sei! Não olhei de perto, na verdade. A pausa foi tão
terrível e o menino estava com muitas dores...
— Venha, então. — Um arrepio de excitação correu por suas
veias. Embora Sorcha soubesse que provavelmente era uma coisa terrível, ela
sempre se sentia assim antes de qualquer tipo de cirurgia. Suas mãos
formigavam ao tocar a carne ferida. Sua mente disparava com ideias sobre
como resolver o problema da dor.
A mente estranha de Sorcha era uma bênção e uma maldição. Ela sabia
que havia inúmeras maneiras de curar um osso quebrado, mas apenas algumas
que funcionavam. Se o osso tivesse rompido a pele, ela teria de endurecê-lo e
envolvê-lo para estimular a cura de dentro para fora.
Ela seguiu Pixie montanha abaixo em uma velocidade muito mais rápida
do que ela havia subido. Ambas as mulheres cavalgavam um vento de
ansiedade e preocupação. Se o menino sangrasse muito, talvez não estivesse
vivo quando Sorcha chegasse até ele.
Ela esperava que não fosse o caso.
Elas alcançaram as colinas e correram. Pixie não parecia mais uma
mulher envelhecida, pois voava sobre a grama.
— Eu tenho uma coisa a perguntar, — Pixie disse quando chegaram ao
castelo. — O menino é jovem e impressionável. Você não pode curá-lo sem ver
sua verdadeira forma.
— Então que seja — Sorcha respondeu, sem fôlego. — Abra a porta, Pixie.
— Nenhum jovem deseja sentir desprezo por uma mulher bonita. Eu
imploro que você esconda qualquer reação que você possa ter a sua aparência.
— Eu já vi Cian e Boggart, Pixie. Não há motivo para se preocupar,
apenas deixe-me ver o menino.
Pixie suspirou e abriu a porta da cozinha.
O cômodo além havia mergulhado no caos. A mesa central estava limpa
de alimentos e utensílios. Os corpos dos Faes corríam em círculos largos, de e
para um pequeno corpo colocado na madeira. Sorcha viu a leve impressão de
pelos, asas e escamas antes que todos erguessem seus encantos.
Todos menos o menino.
Ele se agachou na mesa e gemeu, seu rosto se transformando em lebre,
cachorro e cavalo. Pookas imitavam animais, mas ela nunca tinha ouvido falar
de um trocando de pele tantas vezes.
Sorcha manteve o rosto rígido enquanto caminhava para o lado dele. Ele
abriu a boca com um rosnado, dentes com presas brilhando à luz das velas. Ela
tinha visto animais fazerem isso antes, quando estavam com dor.
Ela estendeu a mão. — Shh, pequeno mestre. Não vou te machucar.
Ele rosnou novamente, mas seus lábios se fecharam. Novamente, suas
características mudaram. Seu nariz afundou, suas pupilas se transformaram
em fendas e bigodes cresceram em suas bochechas.
— Você pode controlar isso? — ela perguntou. — Vou precisar que você
escolha uma forma antes que eu possa curar seu braço.
Ele desviou o rosto dela, indo de bunda para o outro lado da mesa.
Tinha pouco tempo. O sangue manchava sua frente e alisava a
mesa. Vermelho como o dela. Vermelho como um humano.
Ela se lançou para frente e envolveu a mão em seu tornozelo. O outro Fae
sibilou com seus movimentos, lembrando Sorcha de quão perigosa era a
situação. Essas pessoas gostavam dela, mas não confiavam nela. Este era o
filho que eles tinham. Eles não tolerariam erros.
— Calma aí, — ela sussurrou. — Deixe-me ver seu braço. Eu posso
ajudar.
O menino a encarou com olhos desconfiados. Ele tinha uma razão para
isso, ela supôs. Sorcha teve muito poucas oportunidades de ganhar sua
confiança.
— Eu sei que sou uma estranha, — ela murmurou, transformando sua
voz em um arrulho. — Você está certo em estar com medo. É bom que você
desconfie daqueles que não conhece. Posso fazer seu braço se sentir melhor se
você deixar.
Ele avançou na direção dela. O movimento foi leve, mas estava lá.
Sorcha soltou um suspiro de alívio. — Isso mesmo, venha até mim. Que
menino corajoso você deve ser! Para quebrar seu braço assim, você deve ter
feito algo terrivelmente heroico.
— Não, — ele grunhiu com os dentes cegos. — Eu estava subindo em
uma árvore.
— Bem, isso é muito heroico! Há muitos heróis que escalaram árvores,
você conhece algum deles?
Pooka balançou a cabeça e moveu o resto do caminho. Ela gentilmente o
posicionou de modo que suas pernas ficassem penduradas na borda da
mesa. Ele tirou a mão do braço quebrado, totalmente branco destacando-se em
meio a todo o sangue.
— Está doendo muito. — Ele choramingou.
— Sim. Sim é isso. Mas vou ajudar. Enquanto estou trabalhando, vou lhe
contar uma história. — Ela gesticulou por cima do ombro, e Pixie se inclinou.
— Milefólio, tanto tecido quanto você puder, e talvez um pouco de coragem
líquida. Existe algo diferente sobre os corpos Faes que eu deva saber?
— Não que eu consiga pensar, ele vai sobreviver?
— Claro que vai — Sorcha se recostou em choque. — Eu estou aqui
agora.
O suspiro coletivo abalou Sorcha. Por que eles pensariam que o menino
morreria? Um membro decepado, ou talvez empalado, mas um braço
quebrado? Ele não tinha sangrado, agora ela poderia consertá-lo.
Ela hesitou e perguntou: — O que você fez antes?
— Bem, — Pixie olhou para o menino e baixou a voz. — Normalmente,
deixávamos e esperávamos que sarasse por conta própria. Uma ferida como
essa geralmente infeccionava. Faríamos o que pudéssemos com compressas de
mel, mas na maioria das vezes os perderíamos.
— Você não precisa mais se preocupar com isso. Estou aqui.
Sorcha não deveria ter dito as palavras, mas disse. Essas pessoas
precisavam de sua força, sua coragem, sua compreensão. Eles não precisavam
saber que ela planejava partir o mais rápido possível. Ou que ela estava indo
embora.
Ela se virou para o menino e colocou um sorriso no rosto. — Você já
ouviu a história de Macha?
— Sim. — Disse ele com uma fungada. Duas grandes lágrimas rolaram
por seu rosto e pingaram em suas calças ensanguentadas.
— Você ouviu como ela amaldiçoou a linhagem do Ulster?
— Não.
—Bom. Ouça minha voz e nada mais, certo? Isso vai doer, mas quero que
você ouça a história e não se concentre na dor.
Eles esperaram muito tempo para buscá-la. Os músculos de seu braço
envolveram a nova posição do osso e não queriam se soltar. Felizmente, foi
uma ruptura limpa. Ela era gentil com os ossos sensíveis e as bordas
irregulares da carne.
Sorcha viu todo o ferimento antes de decidir que precisaria esticar os
músculos antes que eles permitissem que o osso voltasse ao
lugar. Teoricamente, seria fácil. Para ela.
O garoto era com quem ela se preocupava.
Ela começou a cuidar da melhor maneira que pôde. O tempo todo ela
contou a história de Macha. Como ela se casou com um homem mortal e deu à
luz seu filho. Como o homem tolo se gabou de sua esposa para um rei rival
que a forçou a uma corrida a pé. Quando ela o venceu e estava quase morrendo
na linha de chegada, ela amaldiçoou nove gerações de sua família a sentir a
dor do parto.
Embora a dor deva ser grande, ele ouviu. O menino repetiu frases da
história enquanto ela fazia três movimentos de alongamento do músculo. Ele
fez perguntas enquanto ela colocava o osso de volta no lugar com um ruído
audível. Ele conteve as lágrimas enquanto ela fechava o ferimento com
milefólio e o envolvia firmemente com um pano.
Ambos estavam cobertos de sangue e exaustos quando ela terminou. Ela
puxou o nó da tipoia e assentiu. — Isso vai resolver. Você foi corajoso o
suficiente para reivindicar o título de herói, jovem Pooka. Foi uma honra.
Ele fungou forte, mas endireitou a coluna. — Não doeu nem um pouco,
senhora.
Num impulso, ela se inclinou para frente e passou o braço em volta dos
ombros dele. — Eu não poderia ter pedido um paciente melhor, doce
menino. Agora peça a sua mãe para colocá-lo na cama com um pote cheio de
mel.
— Eu não posso ter tanto!
— Acho que, dadas as circunstâncias, você mereceu.
Sua mãe deu um passo à frente, uma mulher muito alta e magra como
uma bétula. Sorcha recuou para dar espaço e fez contato visual.
O encanto da mulher cintilou e caiu. Uma Pooka adulta parecia muito
diferente de seu filho. Ela era um amálgama de todos os mamíferos. Manchas
de pelos claros e escuros se misturaram até que ela parecia mais uma colcha de
retalhos do que uma pessoa. Seu nariz alongado e rosto eram ligeiramente
parecidos com os de um cavalo.
— Obrigada, — ela disse em sua voz profunda. — Eu não posso
agradecer o suficiente.
— Você teria feito o mesmo por mim, se fosse necessário.
— Mesmo assim, você é bem-vinda em minha casa.
Sorcha acenou com a cabeça. Ela esperou até que a cozinha se esvaziasse
e então afundou contra a mesa. A exaustão tornava até mesmo respirar difícil,
seus pulmões trabalhando intensamente para se manter inflados. Suas mãos
doíam de tanto uso.
Ela as estendeu, flexionando os dedos para dentro e para fora.
— Você fez bem. — Disse Pixie.
— Devo vê-lo todas as semanas durante pelo menos a lua cheia. Essa
ferida ainda pode infeccionar.
— Tenho certeza de que a mãe dele apreciaria.
Um pedaço de pão com carne fatiada apareceu na linha de visão de
Sorcha. Assustada, ela olhou para cima.
— Obrigada. — Ela ergueu as mãos ensanguentadas. — Talvez uma
bacia de água primeiro?
— Venha comigo.
Sorcha ficou com as pernas bambas e seguiu Pixie pelos jardins. Cian
estava ausente de seu posto habitual, uma bênção pela qual ela estava
agradecida. Seria difícil brincar com o gnomo quando ela mal conseguia ver
direito.
Elas cruzaram uma pequena ponte de madeira no jardim e entraram em
outra parte do terreno do castelo que Sorcha ainda não tinha visto.
Estava tranquilo aqui. Água borbulhava de uma fonte antiga. A mulher
de pedra dentro dela derramava água de uma ferida em seu peito. Ela agarrava
a espada que havia mergulhado entre suas costelas e erguia a espada para
continuar lutando. As flores cresciam selvagens nesta seção dos jardins. Elas
se enredavam, criando paredes de rosas e espinhos.
— Eu não sabia que rosas cresciam nesta época do ano. — Ela murmurou.
— Esta ilha é diferente do que você está acostumada. As terras dos Faes
tocados dão frutos mesmo nos tempos mais estranhos. Por que mais teríamos
morangos neste final do ano?
— Ponto justo.
— Você pode se lavar nesta fonte.
— Esta? — Sorcha fez um gesto. — Isso parece muito bom para ser uma
fonte de lavagem.
— Há muito tempo, era um lugar de adoração. — A expressão de Pixie
caiu. — Não mais.
Sorcha percebeu que era um lugar sagrado. Flores de todas as cores se
estendiam até onde ela podia ver. As rosas cresciam com abandono selvagem,
vinhas se estendendo ao redor delas. E a própria mulher parecia
estranhamente familiar.
Ela se inclinou para frente para olhar o rosto. — É Macha?
— É sim. Achei adequado você se lavar nas águas dela.
— Não vou profanar solo sagrado.
— Você está lavando sangue inocente de suas mãos. Você o salvou
enquanto contava suas histórias, Macha vai gostar disso.
Sorcha supôs que ela estava certa. A mulher ruiva era feroz. Talvez ela
apreciasse um pouco de sangue em suas águas mais do que vinho ou moedas
de ouro.
Ela se inclinou e mergulhou as mãos no riacho frio. Ele correu sobre suas
mãos com um som suave e gotejante, aliviando as dores de seus ossos. Ela viu
outro rosto nas ondas. Um rosto pontudo com cabelos rebeldes, olhos
brilhando em um verde não natural.
Macha estava olhando para ela. A Tuatha dé Danann piscou para ela,
desaparecendo quando Sorcha soltou a água que segurava nas mãos em
concha.
Seu propósito brilhou em sua mente. Essas pessoas podiam ser gentis,
mas não deveriam distraí-la. Papa precisava dela. Rosaleen, Briana e todas as
suas irmãs precisavam dela para manter o foco. Um garotinho com um braço
quebrado não deveria balançá-la tão facilmente.
Mas ele fez. Todos eles fizeram. Com seus presentes atenciosos, seu jeito
fácil e a maneira mágica como esta ilha a cativou. Sorcha sempre foi uma
estranha entre sua família. A filha da bruxa que sabia demais. Aqui? Ela era
apenas outra garota humana que possivelmente não poderia entender todas as
coisas maravilhosas ao seu redor.
Se tivesse escolha, ela escolheria esta vida em vez da anterior. Não era
uma opção, mas pelo menos era divertido refletir sobre isso. Ela suspirou e se
voltou para Pixie.
— Estou exausta e minha cama parece um descanso que ganhei. Se você
não se importar, aceitarei sua graciosa oferta de comida.
— Claro, querida. — Pixie entregou o sanduíche para ela embrulhado em
um pano.
Quando ela conseguiu um pano? Sorcha olhou para o pacote em suas
mãos. Ela estava perdendo detalhes tão grandes como este?
Ela balançou a cabeça para clareá-la. — Talvez um bom sono limpe
minha mente.
— Improvável, é um lugar bastante confuso para uma humana como
você. Estou impressionada que você durou tanto tempo sem perder a cabeça.
— Teve outros?
— Você é a primeira humana que apareceu em nossa costa, — Pixie disse
com um sorriso. — Você é nova para nós, embora alguns tenham experiências
com humanos. Todos nós estamos passando por algum aprendizado.
— Eu agradeço sua paciência. — Irônico, as palavras que escaparam de
sua língua. Um certo rei não havia pedido que ela fizesse o mesmo por ele? E
ela zombou dele.
— Você pode querer caminhar ao redor do castelo para chegar à cabana.
Sorcha arqueou uma sobrancelha. — Por quê? É mais rápido voltar pelo
jardim de Cian.
— Uma caminhada faz bem à saúde.
— Já escalei uma montanha hoje.
— Sim, mas as vistas que se veem do outro lado do castelo são bastante
raras. Você não o verá em cima daquele munro. Coma sua comida durante a
caminhada, eu prometo que você se sentirá melhor se for pelo caminho mais
longo.
O sorriso estranho no rosto de Pixie deixou Sorcha nervosa. A Fae tinha
sido gentil até agora, mas ainda havia muito tempo para truques. Estreitando
os olhos, ela assentiu. — Tudo certo. Não há jogos em andamento?
— A Caçada Selvagem só começa daqui a um mês, querida. Você está
segura.
Sorcha comeu o pão e a carne enquanto contornava o castelo. O roseiral
não se estendia muito. Seus dedos coçaram para puxar as ervas daninhas, para
enfrentar o desafio de domar uma fera tão selvagem. No entanto, ela também
sabia que cansaço e rosas não combinavam bem. Era mais provável que ela
sangrasse do que tivesse sucesso.
Uma vez livre da confusão emaranhada de flores e espinhos, as colinas
esmeralda se estenderam na frente dela mais uma vez. O castelo havia crescido
na paisagem. O musgo cobria a maioria das pedras do fundo, engrenando com
a grama verde até que era quase impossível distingui-las.
Ela valsou passando por uma ovelha que ergueu a cabeça e balançou.
— Olá — Sorcha assentiu. — É sempre um prazer, mestra lã!
Ela deu um olhar bastante impressionado e mastigou. Ela sempre gostou
de ovelhas. Suas pupilas estranhas e laterais e tudo. Elas gostavam de ter suas
bochechas arranhadas, e Sorcha poderia apreciar isso tão bem quanto qualquer
outra mulher.
O pão desapareceu quando ela deu meia volta no castelo. Pixie estava
certa. O ar fresco estava fazendo maravilhas com a exaustão que percorreu seu
corpo. Cada passo fazia recuar as pálpebras caídas e os dedos trêmulos.
Um som de estalo ecoou. Muito longe para fazê-la pular - perto o
suficiente para despertar sua curiosidade.
— O que? — ela murmurou enquanto aumentava o ritmo.
O som era estranhamente familiar. Não era algo que ela ouvia com
frequência, mas o ping de metal batendo em metal não era fácil de esquecer.
Certa vez, dois homens travaram um duelo fora do bordel. Briana estava
no meio disso, revirando os olhos e ignorando os dois homens lutando por
uma prostituta. Ela chamou os dois de tolos, bateu a porta e disse às meninas
para não ligarem para eles.
Sorcha nunca foi boa nisso. Ela correu escada acima, colocou a cabeça
para fora da janela e viu os dois homens lutarem. Eles estavam embriagados e
incapazes de ficar em pé. Dois golpes de espada contra espada, e ambos
desistiram.
Isso não parecia esse tipo de luta.
Quanto mais perto ela chegava, mais ouvia as batidas de metal. Cada
clangor soava no ar com o som retumbante de um gongo. Ela contou quinze
quando chegou ao topo de uma colina e olhou com a boca aberta.
Esta era uma nova parte do castelo. Cercas de madeira robustas
marcavam uma seção do campo, compactadas por pés de batida. Bonecos de
palha pendurados em postes, suas entranhas penduradas para fora de tantos
golpes. Alvos alinhados em uma das extremidades das cercas, pintados de
vermelho em círculos para guiar as flechas.
Foram os homens que chamaram sua atenção. Um homem estranho e
escuro estava no centro do campo. Metade de sua cabeça estava raspada, o
cabelo escuro caindo quase até a cintura do outro lado. Havia uma mancha
preta na metade raspada de seu rosto. Ele usava pouco mais do que
calças. Longo e magro, sua pele bronzeada estava coberta de suor
brilhante. Uma longa e perversa lança brilhava à luz do sol, segurada com
facilidade em sua mão forte.
O outro era assustadoramente familiar. Sorcha engasgou e caiu na grama
alta para que ele não a visse.
Então, este era o mestre da ilha.
Pedra, como ela agora o chamava, era ainda mais impressionante sem
sua capa. Ele era enorme, facilmente alcançando 2,10 metros de altura, embora
ela pudesse apostar sua vida que ele era mais alto do que isso. Estranhamente,
isso não o deixava pesado. Seu corpo era tão magro quanto o do outro
homem. Ombros largos afilados para uma cintura fina e pernas longas e
musculosas. Ele não estava usando sua capa. Ele não estava usando nada além
de um par de calças marrons.
Ela podia contar os músculos ondulantes de seu abdômen, mesmo de sua
grande distância. Peitorais salientes e bíceps flexionados chamaram sua
atenção quando sua boca ficou seca. Ele também estava coberto de suor. Eles
obviamente estavam lutando há algum tempo.
Seu olhar se fixou na espada em sua mão.
— Agora isso é uma espada. — Ela sussurrou.
O cabo de ouro brilhava com pedras vermelhas. A lâmina em si era
claramente bem feita, uma linha no centro oca para permitir que o sangue
fluísse livremente. Era enorme, uma espada larga em vez de um florete.
Ele a ergueu como se pesasse menos que uma pena.
A respiração de Sorcha parou e sua mente ficou em branco. Então foi isso
que Pixie quis dizer quando disse que ele era um homem bonito. À sua
maneira, ele realmente era.
O dano em seu corpo foi muito mais extenso do que seu rosto ou
mãos. Um ferimento em forma de estrela cortava seu ombro direito e se
espalhava em teias. Parecia que alguém havia rachado uma pedra. Havia
centenas de pequenas fissuras que percorriam seus ombros, seu peito e
desciam até seu estômago. Pequenas cicatrizes revelavam mais carne partida e
pedra em crescimento.
Seus lábios se moveram embora ela não pudesse ouvi-los de onde ela se
escondeu. Pedra ergueu sua lâmina e assumiu uma postura de combate.
O homem moreno correu em sua direção, as orelhas encostadas no
crânio. Ele saltou no ar com a espada erguida acima da cabeça. Pedra se moveu
no último segundo, girando para manter o ritmo.
Eles não lutavam de nenhuma maneira que ela já tinha visto antes. Seus
lábios se separaram enquanto ela observava.
Era como se ela assistisse dançarinos. Embora Pedra fosse claramente o
maior dos dois, ele girava no ar e bloqueava cada defesa facilmente. As pedras
não pareciam atrapalhar seus movimentos. Na verdade, ele as usava a seu
favor.
O outro girou para fora de um alvo e se lançou bem alto no ar. Seria um
golpe mortal se ele pousasse onde desejasse. Pedra manteve sua espada ao seu
lado e agarrou a lâmina que descia com um punho de cristal. Ele usou o
impulso para socar o rosto do outro homem.
Sorcha estremeceu com o som de estalo e se forçou a permanecer no lugar
quando o homem escuro caiu no chão. Ele rolou no ombro, ficando de pé e
balançando a cabeça.
O sangue escorria de seu nariz, mas ele parecia estar rindo.
— Então foi daí que você tirou os cristais dos nós dos dedos. — Ela
sussurrou.
Pedra tinha socado tantas pessoas, ou coisas, que ele tinha usado a carne
dos cristais por baixo. Essa foi a coisa mais próxima que ela pôde pensar, pois
certamente uma maldição era a causa de sua aflição. Pedra era claramente
Seelie. Ninguém mais seria tão bonito, mesmo com tal desfiguração.
O que significava tudo?
Ela balançou a cabeça e afundou mais na grama enquanto os dois homens
se batiam nos ombros. Ela já podia ouvir o tom de repreensão que ele usaria
quando percebesse que ela o tinha espionado. Ou talvez ele não
repreendesse. Talvez ele a puxasse para aqueles braços fortes, aqueles
músculos duros como pedra. Qual seria o cheiro dele? Como almíscar e
homem? Ou como palha e grama?
O homem desconhecido colocou as mãos em concha em volta da boca e
gritou: — Vossa Alteza, eu acredito que estamos sendo vigiados!
As bochechas de Sorcha ficaram vermelhas. Ela se abaixou até que seu
queixo tocou o chão. Certamente, eles não podiam vê-la? A grama era alta o
suficiente para cobri-la duas vezes se ela se deitasse assim.
Houve uma resposta resmungona que ela não conseguiu
entender. Espiando por cima da grama, ela travou os olhos com o estranho
recém-chegado. Ela podia ver seu sorriso de onde estava.
Ele balançou os dedos. — Olá, garota ruiva! Você está muito longe de
casa.
Sorcha supôs que poderia ficar deitada na grama até que desistissem,
mas ele ainda saberia. Ela estava espionando como uma garotinha que não
conhecia nada melhor. Ela poderia muito bem cerrar os dentes e ser adulta.
De pé ela sentiu como se aceitasse sua punição. Ela poderia se Pedra
decidisse que queria ser o ditador hoje. A última coisa que ela precisava era
outra repetição da primeira noite.
Ela não olhou para cima enquanto caminhava em direção ao campo de
treino. De cabeça baixa, ela contou cada passo e fechou os punhos. Ela poderia
fazer isso sem se envergonhar. Ela estava procurando mais milefólio. Pooka
iria precisar, e o estoque estava baixo.
Por que Pixie a mandaria de tão longe se ela só ia ficar
envergonhada? Certamente a Fae sabia que seu mestre estava praticando.
Sorcha quase parou em seu lugar. Foi exatamente por isso que Pixie a
enviou aqui. O que ela estava fazendo?
No momento em que ela alcançou a cerca, ela estava vermelha como um
tomate. Sorcha temeu que suas bochechas pudessem estar fumegando.
Ela olhou diretamente para um peito cor de caramelo. Seu olhar viajou
mais para cima, pegando a “mancha” escura em seu rosto que não era nada de
sujeira. Pequenas penas escuras cobriam um lado de seu rosto, seus olhos eram
de um corvo, não de um homem.
Ela reconheceu aquele olho amarelo. Cheio de inteligência, muito
humano, e olhando para ela com desgosto. O corvo tinha sido muito mais do
que apenas uma besta, afinal.
— Bran?
Ele fez uma reverência e olhou para cima através da cortina de cabelo,
sorrindo. — Senhorita. É uma raridade ver uma beleza tão fascinante no Hy-
brasil.
— Se alguém saberia, seria você. — Ela fez uma reverência de volta. —
Minhas desculpas, eu estava procurando milefólio.
— Ah, então você não teve sorte?
— Receio que não.
— Eu acredito que há alguns diretamente atrás de você, bela senhora.
Ela olhou por cima do ombro e praguejou. — Certamente há.
Lá se foi sua mentira. Os Fae podiam farejar de qualquer maneira, eles
eram incapazes de mentir. Ela lançou um olhar para Pedra, que estava tão
imóvel quanto seu homônimo, de costas para ela.
— Eu não tinha ideia de que você estaria praticando, — ela começou. —
Disseram-me que uma caminhada limparia minha cabeça depois de lidar com
o Pooka. Você ouviu sobre o menino, não é?
Uma gota de suor desceu pelo vale da coluna vertebral de Pedra. Os
músculos se contraíam de cada lado, bloqueados apenas pela protrusão dos
cristais. — Eu não ouvi.
— Ele quebrou o braço enquanto subia em uma árvore. Eu preparei o
osso e cobri o ferimento com milefólio, mas eles precisarão ficar atentos para a
infecção.
— E por que você está me dizendo isso?
Bran pigarreou. — Fico feliz em saber que o menino está bem. Peço
desculpas por mentir todo esse tempo para você, coisa linda que você é.
— Você me segue desde os gêmeos MacNara. — Ela murmurou
enquanto lançava um olhar curioso para Pedra, que ainda não tinha se movido.
— Eu raramente confio nos gêmeos MacNara, e quando eu vi alguém
como você entrando em sua casa? Eu tive que seguir você. Minha honra
simplesmente não permitiria nada mais.
Ela não estava certa de que ele tinha tanta honra. Um homem que se
escondia de uma mulher na forma de um corvo dificilmente será um
cavalheiro. Do alto de sua cabeça raspada até a sola de seus pés com garras,
este era um homem em quem ela teria dificuldade em confiar.
— Você, senhor, é certamente um libertino.
— Eu? — Ele bateu com a mão no peito. — Nunca fui chamado assim!
— Bran, — a voz de Pedra interrompeu a brincadeira. — O suficiente.
Ele olhou por cima do ombro, revelando o lado ileso de seu rosto. Sorcha
notou como ele angulou seu corpo para longe dela. Como se ele estivesse
tentando se esconder. Não havia capa para ele cobrir os ferimentos, pelo menos
não que ela pudesse ver.
O homem era estranho. Quando ela não conseguia vê-lo, era facilmente
desafiado, mas agora ele parecia quase assustado. Envergonhado, talvez? Ela
o colocou em uma situação embaraçosa. Era provável que ele não quisesse que
ela visse sua desfiguração.
Ela não gostaria que ninguém soubesse. Sorcha não conseguia imaginar
como ele se sentia sabendo que sua pele estava tão severamente danificada.
Ela engoliu em seco e assentiu. — Obrigado, Bran, por apontar o
milefólio. Vou me despedir, senhores.
Mergulhando em uma reverência para uma boa medida, ela se
amaldiçoou por ouvir Pixie. Com as bochechas vermelhas em chamas, ela
agarrou o milefólio e saiu correndo do castelo. Se demorasse o resto do dia
para chegar à cabana, que fosse. Ela se recusava a ficar mais tempo na presença
de um homem que claramente não a queria ali.

Eamonn bateu a porta do castelo, as mãos tremendo de raiva. Como ela


ousa? Essa mulher não tinha o direito de andar pelo terreno como se fosse a
dona do lugar. Todos os outros Fae sabiam deixá-lo quando ele estava com
raiva. Ele se esgotaria com espada e escudo, mas eles não tinham permissão
para vê-lo.
Rosnando, ele tirou um vaso de seu suporte. O estrondo só aliviou uma
pequena fração de sua raiva, mas era alguma coisa. A vergonha o dominou.
Ela o tinha visto.
Quando Bran disse que eles estavam sendo observados, Eamonn se virou
com a expectativa de que Pixie estava vindo para anunciar alguma outra tarefa
que ele precisava fazer. Mas não tinha sido nenhum dos Faes que ele teria
adivinhado.
Ela ficou no meio do campo com a haste de ouro escovando as pontas
dos dedos. Ele a tinha nomeado apropriadamente. A luz do sol acariciava seu
cabelo e ombros como um amante. Seu cabelo girava em torno dela como um
redemoinho de poeira feito de fogo. Suas sardas salpicavam seu nariz e testa
como se o sol não pudesse deixar de beijar seu rosto.
Ela era tão linda. E ele?
Eamonn passou por um espelho quebrado e rosnou. Ele era pouco mais
que um monstro.
— Ela é ainda mais bonita quando em forma humana, — a voz de Bran
ecoou pelo corredor. — Estou surpreso que você a deixou ficar, considerando
as circunstâncias.
— Saia, Unseelie. Você ultrapassou as suas boas-vindas.
— Eu sempre faço. E, no entanto, aqui estou.
O bater de asas bateu em seus ouvidos e Bran se materializou no corredor
diante dele.
Eamonn cerrou os punhos. — Como ela sabe o seu nome?
— Com ciúmes? — Bran cutucou suas unhas. — Ou ansioso?
— Nenhum humano deve saber o verdadeiro nome de um Fae.
— Faz você se sentir melhor saber que ela adivinhou?
— Não, — ele bufou. — Mas diz sobre a inteligência de sua mãe. Nomear
seu filho de forma tão previsível será sua ruína.
— Minha mãe é muito inteligente. Ela criou você, não foi?
Eamonn mostrou os dentes.
O outro Fae dificilmente parecia intimidado. — Calma aí, Rei de
Pedra. Eu não tenho nenhuma disputa com você.
— Você já fez o suficiente. — Ele passou pelo corvo e bateu a porta de
outro quarto abandonado. Havia centenas neste castelo, cheio de relíquias de
muito tempo atrás. Eles tinham pouco significado para ele. O que significava
que eram muito mais interessantes de quebrar.
— Venha agora, como posso compensar você? — Bran foi atrás dele. —
Eu odeio quando você está com raiva de mim.
— A única razão pela qual você está aqui é para treinar com os melhores.
— E você é o melhor. Mas não podemos treinar juntos se você está apenas
tentando me matar.
Eamonn esmagou uma cabeça de pedra entre os punhos. — Na minha
experiência, essa é a melhor maneira de aprender.
Era completamente satisfatório ver os olhos do Príncipe Unseelie saltar
fora de sua cabeça. Bran era rápido e forte, impossível de derrotar à
distância. Mas Eamonn era forte, ainda mais forte pelos cristais que decoravam
sua pele como uma armadura.
— O que você irritou?
— Ela me viu. — Ele quebrou outro pedaço de um estatuto, a mão
restante de um de seus outros discursos.
— Assim?
— Ela me viu. Eu não tinha planejado deixá-la me ver.
— Isso seria impossível de qualquer maneira. Ela mora na ilha agora.
— Ela mora em uma cabana fora da ilha, especificamente para não ter o
potencial de me ver.
Bran não conseguia entender. Na verdade não. Para um Unseelie, ele era
altamente atraente. A maioria de suas feições não foram alteradas. Claro, o
olho negro na cabeça do homem era perturbador, e ele nunca teria se passado
por um Fae Seelie, mas ele era agradável o suficiente para olhar. Bonito para
seu próprio povo.
Eamonn nunca mais seria considerado bonito. Além disso, ele era tão
imperfeito que o trono que ele cobiçara por tanto tempo havia escorregado de
suas mãos. Ele nunca seria rei e seu gêmeo, aquele traiçoeiro, traidor, idiota, se
sentaria para sempre no trono de Eamonn.
— E se eu negociar um segredo com você? — A voz de Bran dançou no
ar.
— Eu não faço negócios.
— Não é um. De alguma forma, fui injusto com você, embora não consiga
entender por quê. Eu de bom grado lhe darei este segredo com uma condição
muito pequena de que você tire aquela pobre garota da cabana da bruxa.
Eamonn fez uma pausa. — Porque eu faria isso?
— Porque ela merece estar no castelo. Ela viveu uma vida difícil, pelo
que posso dizer. Eu gostaria de vê-la mimada.
— Ela não quer estar aqui. Ofereci a ela jantar todas as noites na sala de
jantar, e ela insiste em comer com aquele demônio em sua casa.
O homem corvo subiu em um armário, agachando-se em uma altura
muito maior. — Brownie.
— Com licença?
— O bicho papão não existe mais. Ela voltou a ser uma brownie.
— Isso é impossível. — Ele balançou sua cabeça. — Isso raramente é feito,
e uma garota humana não vai trazer um Fae de volta da beira da loucura.
— Mostra o quão pouco você sabe. — Bran encolheu os ombros. — É um
bom segredo também. É uma pena que você não queira trocar por isso.
Eamonn balançou a cabeça e bateu com o cotovelo em um soldado de
pedra jogado no chão. O estalo satisfatório ecoou tão alto em seu próprio
crânio que ele viu estrelas. Mas ajudou. Oh, isso ajudou.
Ele queria quebrar mais. Para chafurdar na autopiedade que ela, de todas
as pessoas, Raio de Sol tinha visto sua verdadeira forma. Ele não foi capaz de se
virar, por medo do que veria em seu olhar.
Horror? Mais do que provável. Quando ele foi expulso de Seelie, era
assim que suas expressões eram. Horror que o rei não fosse um homem.
Fera.
Traidor.
Segredo? Sua mente vagou para a tentadora informação que Bran tinha
sobre ela. Eamonn, como o resto de sua raça das Faes, nunca foi capaz de
resistir ao conhecimento oculto.
Respirando com dificuldade, ele olhou por cima do ombro. — Que tipo
de segredo é esse?
O olhar calculista nos olhos negros de Bran fez Eamonn estremecer.
Bran se inclinou para frente, as mãos balançando sobre os joelhos
dobrados. — Eu sei o nome verdadeiro dela.
Só o mero pensamento do nome da Raio de Sol o fez cambalear. Qual
seria o gosto em sua língua? Provavelmente tão perturbador quanto o resto
dela. Mas Eamonn estava certo de que a menor dica seria uma gota de mel
puro cobrindo sua boca.
Que negócio era esse. Tirá-la da cabana da bruxa custava pouco. Havia
muitos quartos disponíveis, muito longe, nas profundezas do castelo. Ele teria
alguém colocado do lado de fora de sua porta, para se certificar de que ela não
vagasse onde não era bem-vinda.
Era uma loucura. Fazer acordos com os Fae Unseelie nunca terminou
bem para sua família. Veja onde ele estava agora! E este era o filho da própria
Unseelie que tinha amaldiçoado sua família para sempre.
Ainda assim... era o nome dela.
Ele coçou os cristais em sua mandíbula, ponderando o pensamento. Ele
poderia fazer muito com um nome. Ele poderia obrigá-la a deixar a ilha
Não. Ele nunca faria isso. Nunca poderia fazer isso. Ela era muito
intrigante, muito interessante, uma humana muito estranha para sair. Ele não
permitiria que ela vagasse longe de seu lado, não até que ele descobrisse.
— Tudo o que tenho que fazer é movê-la da cabana para o castelo?
Bran se inclinou para frente com um sorriso irônico. — Bem, coloque-a
em um bom quarto, pelo menos. Quero que a garota seja cuidada, não colocada
em uma prateleira para juntar poeira como o resto de suas coisas bonitas.
— Não posso prometer cuidar dela.
— Eu não pedi isso, ela é capaz de se proteger. Ela atravessou o mar a
nado para chegar até você.
— Para chegar à ilha, — corrigiu Eamonn. — Ela não sabia que eu existia.
— E é aí que você está errado, Cloch Rí. Ela está procurando por você o
tempo todo, e você tem sido um espinho para ela.
— Ela quer que eu acabe com uma praga.
— Por enquanto. Mas quem sabe. Se você deixá-la mais perto, ela pode
querer mais.
— Desde quando você joga de casamenteiro?
Bran saltou do armário, caminhando em direção a Eamonn com um
estalo de pés em garras. — Nós temos um acordo?
Eamonn baixou os olhos para a mão oferecida. Bran tinha uma mão
humana e uma besta. Ele estendeu a mão em forma de garra, com três dedos
em garras como a pata de um corvo.
Embora sua mente gritasse que ele poderia descobrir essa informação por
conta própria, Eamonn avançou e agarrou a garra. Para garantir, ele cravou os
cristais da palma da mão na carne dura. — Nós temos um acordo. Agora, qual
é o nome dela?
O sorriso selvagem voltou ao rosto do homem corvo.
— Sorcha.

— Sorcha. — A voz sussurrada com os ventos formigando em sua


mente. Ele varreu sua janela e através de seu cabelo, emaranhado nos fios
vermelhos.
Ela reconheceu a voz. Pertencia a uma mulher assustadora. Cabelo ruivo
alto, imponente e selvagem combinando com o dela.
Sorcha inclinou-se para fora da janela do quarto e espiou através das
charnecas. Coisas obscuras dançavam alegremente sobre o pântano. O cheiro
de turfa encheu o ar, terra e mofo. Ela torceu o nariz.
Talvez ela só quisesse ouvir seu nome. Depois de ver o rosto de Macha
na fonte, ela se preocupou que Tuatha dé Danann tivesse mais a dizer. Sua
família estava bem? Ela só tinha feito um acordo por seu pai, não por suas
irmãs. O pior aconteceu, e a Fae veio contar a ela as más notícias?
Os pensamentos a atormentaram ao longo da noite. A saudade de casa
era um gosto amargo em sua boca, deixando a bile rolando em seu estômago e
um buraco vazio em seu peito. Ela sentia falta deles. Briana saberia o que fazer
com um homem que não queria ouvir. Rosaleen o encantaria com seus cachos
inocentes e seu riso infantil. Papai lhe dava um cachimbo e o colocava no chão
para falar sobre aventuras e viagens.
Sorcha? Ela ficava parada em um canto, esperando até que alguém
pedisse algo. Ela se sentia muito mais confortável cuidando dos outros do que
sendo o centro das atenções.
— Sorcha. — O vento sussurrou em sua janela. — Sorcha, venha até mim.
Algo puxou profundamente em sua barriga. A compulsão para se mover
não era uma escolha, mas uma ordem. Seus pés deslizaram pelo chão, mesmo
enquanto sua mente lamentava que ela não queria se mover. Ela não sabia
quem a chamou.
Ela observou como se outra pessoa movesse sua mão, girasse a maçaneta
da porta e a abrisse.
Macha estava no meio de luzes brancas rodopiantes. Elas cintilavam em
seus ombros e lançavam um brilho frio em seus olhos. Ela perdeu toda a cor,
de pé ao luar com sombras entrelaçadas em seu cabelo.
— Dama Fae — disse Sorcha. Seus pés pararam na beira do cais. — Eu
não pensei em ver você aqui.
— Não, imagino que não. Por que mais você teria lavado sua sujeira em
minha fonte?
— Era o sangue de uma criança. Um de seus filhos.
— Eu não chamo todos os Faes de meus filhos, nem reivindico um Pooka.
— Ela cuspiu a última palavra como se fosse uma maldição. — Os Unseelie
podem ter seus animais, os meus estão entre os Seelie.
— É assim que você é conhecida? Como uma mãe que rejeitou sua prole?
— Você se tornou ousada, isso é bom. Você precisará ser forte para esta
tarefa.
— O que mais você poderia me pedir para fazer? — O queixo de Sorcha
caiu. — Já estou tentando convencê-lo a vir para o continente.
— Onde está o seu sucesso? Eu vejo você fazendo amigos, não
convencendo o senhor desta ilha a ir embora.
Sorcha não poderia argumentar contra isso. Ela não tinha feito muito. —
Estou tentando fazer amizade com ele para poder convencer Pedra de que...
—Pedra? — Macha ergueu as sobrancelhas. — Você o nomeou?
— Bem, sim. De que outra forma devemos conversar?
As águas ondularam quando Macha deu um passo à frente. Os fogos-
fátuos se espalharam, disparando sobre os nenúfares em segurança. Roupas
esfarrapadas revelavam armas brilhantes amarradas aos braços e coxas.
Sorcha engoliu em seco. Ela aceitaria sua morte se viesse agora. Não
havia nenhuma honra em forçar um homem a deixar sua casa, e ela se recusava
a desistir dessa parte de si mesma. Pedra merecia fazer a escolha.
— Você é uma covarde, — sussurrou Macha. Ela estendeu a mão e
passou as pontas dos dedos pela garganta de Sorcha. — Você hesita porque
deseja que ele tome essa decisão por você. Se você falhar, não é sua culpa. É
dele.
— Isso não é verdade, — sua garganta convulsionou. — Não quero forçá-
lo a tomar uma decisão para a qual não está preparado.
— Enquanto você espera, seu povo está morrendo.
— Minha família?
— Seu pai, como prometido, está vivo. A praga do besouro do sangue
está se espalhando, e você está esquecendo seu propósito.
— Eu não poderia esquecer isso.
— Não importa para mim se você cumpre seu acordo. Mas o negócio
ainda está de pé. Se você não trouxer o mestre desta ilha de volta ao continente,
eu liberarei meu controle sobre a saúde de seu pai. Não preciso lembrar como
ele estava mal quando você saiu.
O corpo inteiro de Sorcha tremeu. — Faz apenas algumas semanas.
— Você pode não estar inteiramente no Outro Mundo, mas está na
fronteira. O tempo passa de forma diferente aqui.
— O que?
Macha se afastou dela com um sorriso cansado e astuto no rosto. — Tome
cuidado, pequena humana. Vou fazer o meu melhor para ajudá-la, mas o
tempo não está do seu lado.
Ela tropeçou para trás, mal conseguindo se segurar na beira do cais. O
que ela estava dizendo? Sua mente girou.
— Há quanto tempo estou fora? — Sorcha gritou. — Quanto tempo,
Macha?
— Não cabe a mim dizer. Depressa, criança.
— Macha! Responda a minha pergunta!
A água ondulou ligeiramente quando a magia roçou sua superfície e a
Tuatha dé Danann desapareceu.
Lágrimas queimaram os olhos de Sorcha, escorrendo por suas bochechas
enquanto ela entrava em pânico. Ela tinha partido há meses? Anos? Como ela
poderia ter esquecido que o tempo era diferente aqui?
Mas ela não estava na casa de Faerie, não realmente. Hy-brasil cruzava a
linha entre o Outro Mundo e o mundo dela. Ela não pode ter partido por mais
de alguns meses, não é?
— O que eles devem pensar de mim? — ela sussurrou. — Eu não os
abandonei! Eu nunca faria isso.
Mas ela tinha. Sorcha deixou que as memórias de sua família
substituíssem a coisa real. Ao fazer isso, ela esqueceu o calor de seu toque, o
som de sua voz, o apoio prolongado de seu abraço.
— Eu sinto muito. Eu nunca deveria ter me perdido na magia deste lugar.
Capítulo 8

A Tempestade

Sorcha parou na frente da porta da cozinha. Ela passou os dois dias


inteiros refletindo sobre as palavras de Macha, repetindo o que ela poderia
dizer e como ele poderia reagir. O problema era que ela não sabia. Pedra era
uma pessoa bastante imprevisível. Primeiro ele era horrível, depois era gentil,
então ele nem olhava para ela.
A última coisa que ela precisava era voltar para a rota de - jogá-la para
fora do castelo - com a qual eles começaram seu relacionamento. Ele havia
demonstrado a habilidade de ser um cavalheiro. Agora ela precisava usar isso
a seu favor.
Seu primeiro pensamento foi se vestir bem. Ela colocou o vestido de
veludo verde de volta e girou na frente de Boggart perguntando como ela
parecia. Manchas marrons estavam aparecendo por todo o corpo do Boggart,
e ela acariciou uma em seu antebraço antes de bater palmas.
Mas isso não estava certo. Sorcha não estava tentando impressioná-lo
com sua beleza. Ela precisava que ele a levasse a sério. A praga do besouro do
sangue era uma aflição terrível, e ele precisava entender como as circunstâncias
eram terríveis.
Ela trocou para a roupa que normalmente usava para trabalhar de
parteira. Manchas decoravam a frente do avental branco e rasgos esfiapavam
as pontas. Ela achou que combinava bastante com a conversa.
Boggart odiou.
A pequena Fae então encontrou o vestido perfeito ou pelo menos era o
que seus gorjeios soavam. Era da mãe de Sorcha. Amarelo claro, com pequenas
margaridas brancas bordadas à mão ao longo da bainha, ele se ajustava bem à
cintura enquanto varria o chão. Sorcha raramente usava o vestido por medo de
danificar o tecido delicado.
Ainda assim, ela experimentou. Algodão gasto balançava contra suas
coxas, rendas delicadas escovando o topo de seus pés. O decote quadrado
permitia que o vento roçasse sua pele, as mangas justas complementavam seus
braços fortes.
Sorcha não hesitou em adivinhar sua escolha até ficar do lado de fora da
cozinha. Agora, ela andava de um lado para outro se perguntando qual era seu
plano. Ela acha que ele diria sim só porque ela usava um vestido amarelo?
Claro que ele não iria. Ele era um homem que se autodenominava
mestre. Uma camponesa com um vestido bonito não mudaria de ideia tão
facilmente.
Uma voz resmungando se levantou. — Você vai entrar ou não, garota?
— Estou pensando.
— O que você poderia ter para pensar que faria você pisar nas minhas
plantas?
— Silêncio, Cian.
O estalo de sua mandíbula estalando a fez estremecer. Ela deveria saber
melhor do que emitir uma ordem usando um nome Fae.
Sorcha estremeceu, — Eu sinto muito Cian. Eu rescindo essa ordem.
A boca dele se abriu tão rápido que ela pensou que ele poderia quebrar
a mandíbula. — Como você ousa! É precisamente por isso que os humanos não
deveriam ter nossos nomes!
— Eu concordo, — ela interrompeu, parando-o no meio de um discurso
retórico. — Eu nunca deveria ter usado, isso foi descuido da minha parte.
Cian resmungou, mas voltou a enxugar o remendo de alface que ela
jurou que apareceu durante a noite. O homem era mágico com o jardim. Sorcha
gostaria que ele morasse perto de suas irmãs, talvez elas não tivessem dado
tanto dinheiro para o mercado.
Endireitando os ombros, ela marchou para a cozinha movimentada.
A maioria das Faes ainda mantinha seu encanto ao redor dela. Eles
temiam a reação dela à sua forma verdadeira, ou temiam que pudessem
assustá-la. Seja qual for a causa, isso irritava Sorcha infinitamente.
Já irritada, ela procurou através das ondas de vapor e calor para
encontrar Pixie. A velha era uma das Fae que permaneceu encantada. E com
ela, Sorcha gostava muito menos
— Pixie! — Ela gritou.
Todos pararam por um breve segundo. Sorcha sabia o que estava
passando por suas mentes. A humana estava aqui. Sejam mais cuidadosos do
que antes. Mesmo que gostassem dela, embora ela tivesse salvado um dos
seus, a tensão apareceu onde não havia antes.
Pixie correu em sua direção, enxugando as mãos em uma toalha
enquanto caminhava. — O que posso fazer por você, querida?
— Onde está o seu mestre?
— Na sala do trono, eu imagino.
Sorcha rosnou. — Por que ele está sempre naquela maldita sala do trono
quando eu preciso dele?
— Ele está esperando companhia.
— Companhia? — Sorcha olhou ao redor da sala com surpresa. — Você
está preparando um banquete?
— Sim. É uma raridade termos visitantes.
— Quem está visitando?
— Eu não acho que devo dizer, — Pixie olhou por cima do ombro para
os brownies cozinhando freneticamente. — Você deveria permanecer em sua
casa esta noite. Seria mais seguro.
— Quem está vindo? — Sorcha repetiu.
Pixie não respondeu. Em vez disso, ela girou nos calcanhares e se
apressou em direção à mesa onde estava decorando pequenos doces.
A frustração cresceu através dela e se juntou em seus punhos
cerrados. Sorcha não gostava de ficar no escuro. Quem estava vindo? Esta era
uma ilha amaldiçoada impossível de se ver por mais sete anos, então quem
teria o poder de encontrá-la?
Havia tantas perguntas que ninguém responderia. Ninguém nesta
cozinha, pelo menos.
Mais uma razão para ir incomodar o mestre da ilha.
A resolução pousou sobre seus ombros como uma capa bem usada. Ela
não se deixaria intimidar por visitantes que pudessem assustá-la. Ela conheceu
a terrível Macha - uma mulher que cavalgava pela batalha e dividia os homens
em dois. Poucos eram piores do que isso.
Seus passos ecoaram pelo corredor enquanto ela marchava em direção à
sala do trono. Ela vagamente se lembrou de onde estava, embora ela se pegou
entrando em cômodos vazios.
Um segurava estátuas de pedra despedaçadas. Seu pé preso em uma
cabeça, os olhos vazios olhando para ela e esculpidos tão realisticamente que
ela esperava que ele piscasse. Incomodada, Sorcha saiu do cômodo como se as
estátuas pudessem clamar por ajuda.
Contornando um canto coberto de teia de aranha, ela finalmente viu a
grande entrada. Desta vez, ela parou para realmente olhar para ela.
Mármore branco esculpido arqueado sobre a porta dupla. Flores
minúsculas, hera escorregadia, até mesmo besouros rastejavam do chão e se
arqueavam no teto. Esta não era apenas uma entrada intimidante, era uma
obra de arte.
As portas duplas verdes estavam abertas, rebites e folhas douradas
delineavam cada prancha individual. Era a única coisa no castelo que não
desabou.
Ela passou a mão pela madeira gasta ao passar. Estava limpa, ela
percebeu em choque. Cada pedacinho do grande salão de baile brilhava tanto
quanto o sol.
Embora ainda houvesse rachaduras no chão, aquele era agora um lugar
de rara beleza. Os lustres pingavam rubis e esmeraldas, a luz atingindo as joias
e lançando sombras coloridas no chão.
Sorcha engasgou. Ela não percebeu que a tinta cobria as paredes. A
Caçada Selvagem se estendia de cada lado dela. Faes em carruagens, blindadas
e aterrorizantes, perseguiam humanos e animais. Maior que a vida, eles
pareciam se mover por conta própria enquanto ela olhava.
Tudo isso se estendia em direção ao trono que permanecia na
sombra. Novas cortinas penduradas no teto, vermelho sangue e tão sedosas
que pingavam no chão. A escada para chegar até ele era feita de ouro puro.
— Você chegou cedo. — Sua voz resmungante desceu por sua espinha
em calafrios e tremores.
— Eu não sabia que era esperada.
— Você é?
Ele estava ali. A grande altura dele ao mesmo tempo avassaladora,
embora ela ainda estivesse longe dele.
Sorcha estava intensamente ciente de sua aparência simples. Ela deveria
ter escolhido o vestido esmeralda - ela poderia não parecer tão fora do lugar. O
vestido de sua mãe parecia mais uma flor silvestre colocada de maneira
incongruente em um vaso de porcelana.
Cada batida de seus passos a fez corar mais quente. O que ela estava
pensando? Claro que ele iria entreter os convidados de uma maneira melhor
do que vivia! Ela era uma idiota.
O constrangimento não combinava com ela. Sorcha se lembrou de que
era parteira, não princesa. Este era seu melhor vestido antes da Pixie dar a ela
outra coisa para vestir. Não havia nada do que se envergonhar.
Ela ergueu o olhar e sua boca ficou seca.
Um guerreiro estava diante dela. Comandante, chefe, senhor. Ela engoliu
em seco enquanto ele caminhava pela vasta extensão de mármore.
Ele usava armadura élfica. Cada placa de prata escura meticulosamente
martelada para se ajustar ao movimento de seus braços. O símbolo de um
veado embelezava a larga peça de couro no peito. A cota de malha balançava
contra suas coxas, botas de cano alto batendo no chão com determinação.
Fios metálicos entrelaçados em sua longa trança amarrada com fechos
dourados. A espada que ela tanto admirava estava amarrada ao lado dele.
— Você não deveria estar aqui. — Ele rosnou.
— Eu vejo isso agora.
— Estou esperando visitantes.
— Sim, sim, parece que sim. — Sorcha estava com a língua presa.
Ele era tão bonito, tão avassalador, tão sobrenatural que ela era incapaz
de encontrar seus próprios pensamentos. Ela se virou para sair, mas parou
quando ele estendeu a mão e agarrou seu braço. Cristais perfuraram o tecido
delicado.
— Tudo está bem?
Ela estremeceu. — Isso depende da sua definição de bem.
— Como posso ajudar?
— Você tem que voltar para o continente comigo, — ela sussurrou
enquanto olhava para a porta. — Não posso ficar mais aqui.
— Você sabe minha resposta.
— Então eu terei que forçá-lo! — Sorcha se virou, seus olhos verdes
brilhando de raiva. — Você não me disse que o tempo passa diferente
aqui! Minha família pode estar morta em alguns dias, você não se importa com
isso?
— Quem te contou?
Seu coração parou. Suas palavras caíram repetidamente em sua mente. A
garganta de Sorcha fechou quando ela perguntou: — Por que você não fez isso?
— Não houve uma oportunidade apropriada.
— No primeiro momento em que entrei nesta sala do trono e disse a você
meu propósito, você deveria ter me avisado que minhas chances eram
limitadas. Eu não posso desistir! Minha família precisa de mim.
— Família é quem você escolhe, não quem está em seu sangue.
Sorcha puxou o braço dele. — Então eu os escolho! Mil vezes eu os
escolho!
— Você recebeu uma boa casa aqui! Com o tempo, eu mudaria você para
o castelo...
— Com o tempo? — Ela pressionou a mão contra a boca e voltou para a
porta. — Como se fosse algum tipo de recompensa por bom comportamento?
— Eu tinha que ter certeza de que você era confiável.
— Confiável? Você tem algum tipo de iniciação pela qual as pessoas
devem passar antes de se rebaixar para chamá-los de amigos?
— Não, não é bem assim.
— Então como é, mestre? O que devo fazer antes de considerar minha
família digna de suas atenções?
Ela estava mesmo com ele agora, quatro degraus escada acima. Ele
levantou um pé e colocou-o no degrau seguinte, hesitando diante da raiva dela.
— Eu não posso deixar esta ilha. Eu não posso ajudar sua família, mesmo
se eu quisesse...
Um som sufocado escapou de seus lábios. — Mesmo se você quisesse?
— Não foi isso que eu quis dizer.
— Eu entendo perfeitamente o que você quis dizer. Obrigada por deixar
as coisas tão claras.
— Espere...
Ela girou e saiu correndo da sala do trono. Sorcha dobrou uma esquina,
abrindo caminho pelos quartos dos fundos até reconhecer onde estava. Ela
tinha que evitar quaisquer convidados horríveis que ele pudesse receber. Ela
não queria saber que bestas se relacionavam com um homem tão horrível.
Ele não se importava com sua família. E se ele não se importava com eles,
então ele não se importava com o que acontecesse com ela.
Não deveria doer tanto quanto doeu. Ela mal conhecia o homem, embora
ele tivesse se tornado uma figura regular em seus pensamentos. Ela até lhe deu
um nome.
Tola, ela se repreendeu. Infantil. A amizade com ele era uma ilusão.
Ela desceu correndo os degraus, se empurrando nas cozinhas sem
parar. Pixie gritou atrás dela. Parar só resultaria em mais raiva, e Sorcha não
conseguia lidar com mais nada.
Uma nuvem de tempestade se formou na orla da ilha. Ela disparou em
sua direção enquanto ela corria diretamente para a energia
elétrica. Tempestades não a incomodavam, não quando ela sabia que o abrigo
estava tão perto.
O doce aroma de turfa encheu seus pulmões. Ovelhas balindo se
espalharam enquanto ela avançava pelo meio delas. O lenço em seu cabelo se
afrouxou com a brisa, voando livre para deixar seu cabelo cair em uma faixa
vermelha brilhante.
Seus pulmões doíam, mas ela não diminuiu a velocidade. Ela não pararia
até que pudesse bater a porta da cabana atrás dela. A queda poderia parar seus
pensamentos girando.
Uma lágrima escorreu por sua bochecha. Como se atreve? Ela a afastou
com um tapa furioso, deixando uma marca vermelha em seu queixo
sardento. Em seguida, outra deslizou, desta vez atingindo seu rosto com tanta
dor que ela percebeu que não eram lágrimas.
Estava chovendo.
As nuvens desencadeavam sua fúria. A chuva batia no chão e ecoava em
seus ouvidos. O trovão retumbou ao longe. Um relâmpago estalou longe no
oceano, um raio ziguezagueando do céu para a água.
Ela apertou os olhos e continuou correndo. O vestido de sua mãe ficaria
arruinado, e outra coisa que ela poderia culpar ele. Mais uma coisa arruinada
que ela amava que ele tirou de seus braços.
Como ela estava faminta por confiar em tal monstro?
A furiosa tempestade ecoava as emoções tumultuosas que batiam em seu
peito. Ele não tinha o direito. Ele não tinha o direito!
Ela se perdeu na chuva. A cabana da bruxa mal era visível abaixo do
pequeno penhasco em que ela estava, mas ela não permitiria que isso a
detivesse. As rochas eram escorregadias e perigosas. Ela escorregou para
baixo, deslizando as mãos em rachaduras e fendas, agarrando com dedos
fortes. Uma pequena parte romântica dela sussurrou que essa poderia ser a
sensação de tocar os geodos de sua pele.
Ela grunhiu e arrancou uma pedra do chão. Ela caiu do lado do pequeno
penhasco e espirrou nas ondas espumantes. Boa viagem. Ela não deveria estar
se perguntando como ele poderia se sentir. Ela não deveria estar se
perguntando nada sobre ele!
Sorcha deixaria esta ilha de mãos vazias e encontraria outra maneira de
salvar sua família. Devia haver mais coisas que ela pudesse negociar. Ela
poderia prometer sua vida a Macha apenas para fugir daquele lugar.
Dele.
O relâmpago estalou e atingiu o solo acima de sua cabeça. Sorcha se
encolheu, erguendo os olhos para ver o ferrolho atingir uma árvore pendurada
na beira do pequeno penhasco. Cega, ela se abraçou perto da rocha e sussurrou
uma oração silenciosa.
A árvore gemeu. Eletricidade crepitante correu por ela, deixando seu
cabelo úmido em pé até que passou. Então ela ouviu. O rangido rangente, as
rachaduras das raízes sendo arrancadas da terra e o estrondo da pedra.
Ela olhou para cima, embora já soubesse o que veria. A árvore
envelhecida soltou seu precário domínio sobre o penhasco e mergulhou em
sua direção.
Sorcha aproximou o corpo das pedras, cravando-se no penhasco e
rasgando a pele delicada de seu estômago. As raízes deslizaram, o tronco bateu
nas pedras, mas não a tocou.
Ela deu um suspiro de alívio, e então um galho rebelde passou por seu
abrigo improvisado. Ela ergueu a cabeça no momento errado e gritou quando
uma mecha de cabelo vermelho-fogo envolveu a madeira lisa.
Isso a puxou para trás, jogando-a no lodo profundo onde o oceano
encontrava o pântano. Sorcha atingiu a água com um tapa forte. Suas costas
queimavam e sua mente gritava que ela não tinha respirado fundo. Ela não
tinha inalado antes de atingir a água.
Bolhas obscureceram sua visão. O ar torceu, deixando a árvore que a
arrastava cada vez mais para baixo. Ela estendeu as mãos para a superfície, as
águas escuras a engolindo por inteiro.
A árvore atingiu a lama com um baque abafado. A lama ondulante
flutuava como fumaça e Sorcha observou com horror como sua visão limitada
da superfície desapareceu. Ela se contorceu, com o peito doendo, e agarrou o
pedaço de cabelo emaranhado.
Ela puxou, mas havia muito para ela puxar livre. Seus dedos tatearam o
fio até que ela tocou o galho da árvore. Algo deslizou por entre suas mãos.
Sorcha se encolheu para trás de medo, interrompida por um puxão
contra a parte de trás do crânio que a fez girar. A neblina da água estava muito
escura para ela distinguir mais do que formas vagas.
Mas qual caminho era para cima?
Seu coração bateu dolorosamente. Ela não se lembrava de qual caminho
era para cima. O galho estava preso a ela com tanta certeza diretamente acima
dele? Mas a árvore estava inclinada para baixo... Não é?
Ela puxou o cabelo novamente, colocando os pés freneticamente contra
o galho e puxando com força. Ela sentiu mais do que ouviu o rasgo, mas não
foi o suficiente.
Não era assim que ela queria morrer. As pessoas não costumavam nadar
em Ui Neill; elas estavam muito longe dos selkies para ter aquela linhagem em
seu meio.
Ela queria morrer nas colinas verdes ou no meio de um campo de
urze. Por que tinha que terminar assim?
Eu te amo, ela pensou. Eu te amo muito, papai e todas as minhas
irmãs. Eu gostaria que pudesse ter sido diferente.
Pontos negros turvaram as bordas de sua visão. Em algum momento, ela
teria que respirar fundo. Ela iria respirar e isso seria o fim.
Sorcha sempre foi uma lutadora. Ela não iria sugar a água salgada até o
último segundo ou até desmaiar. Seu corpo convulsionou, argumentando com
sua mente que ela precisava respirar. Suas pálpebras se fecharam para que ela
pudesse esquecer por um segundo que estava debaixo d'água.
Só mais um momento, ela pensou. Só mais um momento para aproveitar
a vida. Sentir a água fria na ponta dos dedos e lembrar que ela viveu.
Uma mão quente envolveu seu braço. Seus olhos se abriram. Estava
muito escuro para saber se a figura sombria era um homem, mas ela não se
importava mais. Ela só queria respirar.
O calor se espalhou com o toque gentil quando ele deslizou por seu
antebraço e encontrou onde ela ainda agarrava seu cabelo. Um arranhão
estranho de escama arranhou sua pele, cortando a mecha de cabelo facilmente.
Não, não escama, ela percebeu. Cristal.
Ela agarrou seus ombros com as mãos em garras e chutou
desesperadamente. Se ela pudesse apenas chegar à superfície. Se ela pudesse
apenas inalar.
A mão dele envolveu sua mandíbula, forçando sua cabeça para baixo. Ela
não queria olhar para baixo naquela escuridão. Por que ele não estava se
movendo? Ele não entendia que ela estava a momentos de inalar água e...
Lábios quentes envolveram os dela. Ele apertou sua mandíbula e sua
boca se abriu por um momento. Ele exalou. Ela respirou o ar dele
desesperadamente. A dor em seus pulmões diminuiu.
Não era o suficiente, mas serviria. Sorcha fechou os olhos com força e
passou uma perna em volta da cintura dele, se ancorando nele. Ela tentou não
respirar muito, ele precisaria para levá-los de volta à superfície. Mas era
viciante.
O cristal escorrendo por seu lábio superior cortou a pele encharcada de
sua bochecha. Ela estremeceu de dor e recuou. O sal picou a ferida.
Com ela seguramente segura em seus braços, Pedra empurrou o fundo
do oceano. Eles dispararam na água como uma flecha de um arco. Ela segurou
com força seus ombros largos, ondulações de músculos movendo-se sob as
pontas dos dedos.
Eles chegaram à superfície e ela engasgou com o ar. Era demais, ela
engasgou violentamente e se agarrou a ele para salvar sua vida. Ele nem estava
respirando com dificuldade. Ele simplesmente esperou até que ela parasse de
tossir e então rolou de costas.
Quando ela lutou, ele afastou os fios de cabelo molhados de seu rosto. —
Calma, relaxe. Deixe o oceano levá-la de volta à costa.
Sorcha tossiu novamente. — Eu posso nadar sozinha.
— Deixe-me fazer o trabalho, Sorcha. Pare de lutar comigo.
Ela se sentiu como se um raio a tivesse atingido. Isso era exatamente o
que ela vinha fazendo desde o momento em que chegou a esta ilha. Lutando
com ele, em cada conversa, em cada regra que ele fazia. E, no entanto, ele ainda
a salvou.
As ondas os balançaram, calotas brancas crescendo perigosamente altas
enquanto a tempestade se abatia sobre eles.
— Eu confio em você. — Ela sussurrou e deixou seu corpo ficar mole.
Ele passou um braço forte e nu sobre os ombros dela e puxou-a de volta
contra seu peito. Cristais perfuraram sua espinha por causa do ferimento no
ombro, mas ela se recusou a reclamar. Ele nadou de volta à costa com a graça
de um selkie. As ondas balançavam para frente, algas marinhas roçavam suas
pernas e a ferida em sua bochecha sangrava livremente.
— O que você estava pensando? — ele rosnou.
— Eu não estava.
Um raio estalou no alto, projetando seu rosto em uma luz
sombria. Sorcha afastou a expressão desapontada. Ela já havia se
decepcionado, ela não precisava que ele também.
— Obviamente.
O vento soprava acima, secando seu cabelo em mechas duras. Ela
estremeceu violentamente.
Ele praguejou. — Estamos quase lá. Só mais alguns momentos.
Como ela foi carregada tão longe? Sorcha não percebeu a árvore se
movendo, mas deve ter deslizado no fundo do oceano.
Seus pés tocaram a terra, e Pedra a puxou para frente em seus braços. As
faixas de aço a envolveram como se ela não pesasse nada. Talvez ela não o
fizesse.
Os músculos salientes de seu peito eram uma distração. Nem um único
fio de pelo cobria sua pele, nem mesmo em seus braços. De perto, os cristais
estavam muito mais raivosos. As feridas esculpidas em sua pele e além de seus
ossos. Era um milagre que ele pudesse se mover.
— Eu posso andar. — Ela murmurou.
— O suficiente.
— Não sou tão fraca para...
— Eu disse o suficiente, Sorcha.
Ela olhou para seu rosto severo, incapaz de resistir a traçar a linha suave
de sua mandíbula. — É a segunda vez que você me chama pelo nome. Não me
lembro de ter dado ele a você.
Os músculos sob as pontas dos dedos se contraíram. — Eu tenho meus
meios.
— Obviamente.
Arrepios balançaram seu corpo, e ela não escapou de notar que ele a
apertou com mais força contra ele. Sorcha se mexeu até que sua cabeça
estivesse sob o queixo dele. Ele era tão grande que ela poderia dobrar os joelhos
em suas axilas e ainda estar confortável.
— Por que você é tão maior do que eu? — Ela perguntou, os dentes
batendo com calafrios.
— Que tipo de pergunta é essa?
— Eu só quero saber. Todas os outros Tuatha dé Danann são iguais. V-
você é maior do que a vida.
— Eu não sou maior.
— Você é um verdadeiro gigante comparado a mim.
— Nós não somos humanos, — ele resmungou. — Essa é a única resposta
que tenho.
Sorcha olhou por cima do ombro, franzindo as sobrancelhas em
confusão. — Por que não vamos para a cabana da bruxa?
— Estou levando você para o castelo.
— Disseram-me para ficar longe do castelo, seus convidados são
perigosos.
— Eles são.
— Eu acho que já tive perigo o suficiente por uma noite.
Pedra a empurrou, jogando-a mais alto contra seu peito. Ele era como
uma fornalha e ela não conseguia entender como. A água gelou sua pele e fez
seus ossos doerem. Por que não o afetou da mesma maneira?
— Eu não estou colocando você em qualquer lugar que eles possam te
encontrar.
— Quem são eles?
— Isso não é para você saber.
Sorcha balançou a cabeça. — Eu posso estar congelando, mas isso não
mudou minha curiosidade. Achei que esta ilha só fosse visível a cada sete anos.
— E é.
— Então quem são essas pessoas que chegaram de repente? Elas são
náufragas, como eu?
— Não.
— Elas moram em uma parte diferente da ilha?
— Não.
— Elas são selkies ou merrows que vêm visitar?
— Pare de fazer perguntas. — Disse ele.
— Não, — ela disse, repetindo sua palavra favorita. — Por que você está
sem camisa?
— Não sou tolo o suficiente para tentar nadar com uma
armadura. Silêncio. Esses visitantes podem ouvir muito bem e estariam muito
interessados em uma garota humana. Mantenha sua boca fechada e confie em
mim para cuidar de você.
Estranhamente, ela fez.
Sorcha colocou as mãos embaixo do queixo para conservar o pouco calor
que lhe restava. Ela sobreviveu a muitos invernos, mas nunca sentiu tanto
frio. A chuva cortante lavou a água salgada de sua pele, alisando seu corpo
com gotas congelantes. O vento uivava e empurrava seus corpos, embora seus
passos fossem seguros e constantes.
Ela devia a vida a este homem. Sorcha não tinha certeza de como se sentia
sobre isso. Enganá-lo para que voltasse ao continente parecia errado. Ele não
merecia esse maltrato.
Se ela estivesse sendo sincera consigo mesma, era improvável que algum
dia o tivesse enganado. Pedra era um homem inteligente por trás de toda
aquela força. Um Fae nobre que assumiu o trono neste lugar esquecido.
Eles não perturbaram nenhum outro Fae em sua jornada para o castelo. A
maioria procurou abrigo da tempestade violenta, outros permaneceram no
castelo para esperar a chuva passar. Tempestades sempre pareciam impedir
todos de seu trabalho, até mesmo os Faes.
Ele contornou as paredes de pedra do castelo até o lugar onde ela o viu
treinando com Bran.
Com os dentes batendo, ela perguntou: — Bran é realmente o corvo que
tem me seguido?
— É o que parece.
— Por que ele perderia seu tempo seguindo uma humana?
— Eu fiz a ele a mesma pergunta.
A porta se fechou atrás deles, silêncio repentino e escuridão fazendo seu
coração bater novamente. — E qual foi a resposta dele?
— Eu não controlo os Fae Unseelie. Ninguém pode.
A escuridão parecia quase como se ela estivesse debaixo d'água
novamente. As sombras tornavam as formas vagamente familiares, mas
difíceis de juntar. Ela reconheceu um cômodo quando um raio atingiu
novamente, lançando luz através dele.
Estátuas quebradas espalhadas pelo chão. Os rostos assombrados
olhavam para ela com olhos vazios.
Sorcha estremeceu e escondeu o rosto contra os cristais do pescoço
dele. Suas bordas irregulares cravaram em sua bochecha, mas ela não se
importou. A dor a ancorou, afastando o medo com pontas afiadas e planícies
frias e lisas.
Suas mãos se apertaram em seus ombros e pernas. — Não muito longe
agora.
— Para onde você está me levando?
— Para algum lugar seguro.
— Não há nenhum lugar seguro nesta ilha, — ela sussurrou, sua
respiração assobiando através da ferida circular em sua garganta. — Tudo é
perigoso e é preciso decidir se devo viver com medo ou com coragem.
— Todos nós sabemos que você escolheu coragem, pequena
humana. Tolamente.
— Eu não sou tão frágil quanto você pensa.
Ele não respondeu, sugerindo que discordava dela. Sorcha estava grata
por ele não argumentar. Ela não podia debater com ele agora, não quando seu
corpo estava tremendo tão violentamente que ela se preocupava em pular para
fora de seus braços.
Eles dobraram uma última esquina sombreada e chegaram a um beco
sem saída. Uma escultura na parede chamou sua atenção. Uma guerreira
erguia sua espada, afastando as criaturas da noite que Sorcha só podia
imaginar que fossem os Unseelie. Suas formas retorcidas e empenadas
desapareceram no mármore liso.
Seu rosto era lindo e duro. Sua armadura era entalhada tão
meticulosamente que Sorcha podia ver os elos individuais da cota de malha. A
própria espada parecia tão realista que ela poderia arrancá-la da mão da
mulher e brandi-la sozinha.
— É lindo, — ela sussurrou. — Mas eu não vejo uma porta. Você pegou
o caminho errado?
— Humanos. Vocês veem as coisas tão superficialmente.
Pedra empurrou-a para frente, forçando-a a agarrar seu pescoço com um
suspiro. Seus olhares se encontraram por um momento enquanto seus narizes
se tocavam. Ela sentiu o hálito quente dele roçando sua boca. Olhos azuis
elétricos queimaram sua carne e a queimaram até os ossos.
— Veja. — Um cristal roçou sua boca. — Você precisa se lembrar disso.
Ela não tinha certeza se esqueceria o frio deslizante de pedra aquecido
pelo calor de seu corpo.
Sorcha se desvencilhou de seu olhar cativante e olhou por cima do
ombro. Ele pressionou o polegar no punho sulcado da espada. Ela ouviu um
estalo suave, o ruído de pedra deslizando, e então ele empurrou.
Não era apenas uma escultura; era uma porta.
Ele passou o braço em volta dela novamente, e ela manteve um braço em
volta do pescoço dele. Ela queria estar de pé por causa desse segredo
oculto. Ela queria se lembrar.
A escuridão estava dentro do cômodo, não com tentáculos de medo, mas
um silêncio suave que aliviava a alma. O leve borbulhar de água atingiu seus
ouvidos, gotejando de algum riacho desconhecido. O calor roçou sua pele em
um toque quase físico.
Sorcha respirou lentamente. — Não consigo ver nada.
— Vou colocá-la no chão, — disse Pedra ao mesmo tempo. Ela ouviu o
rangido de cristais. — Paciência, pequena humana.
Ele a colocou em um banco liso. Sorcha não conseguia ver a cor, mas
podia sentir a textura macia como veludo. Ela correu as palmas das mãos sobre
as bordas, saliências de entalhes, mergulhando em buracos e vales.
Impulsivamente, ela tirou os sapatos encharcados. O musgo macio
amorteceu os arcos de seus pés quando ela os colocou de volta no chão. Não
estava molhado de chuva como ela esperava.
Sorcha inclinou a cabeça, ouvindo o som de tamborilar. Estava lá, mas
longe, como se ela estivesse bem no interior do castelo. Ela não podia acreditar
que eles estavam em uma masmorra. Nenhuma masmorra tinha uma porta tão
fina, nem musgo tão macio.
Onde eles estavam?
A luz amarela brilhou, turvando sua visão em faíscas brilhantes de cor. O
belo cômodo diante dela não poderia ser no castelo! Musgo exuberante
acarpetava a sala circular e hera cobria as paredes, fazendo com que parecesse
mais floresta do que um cômodo. Um dossel de rosas vermelhas pendia em
gavinhas sobre uma cama com uma pilha alta de peles. No centro, uma mulher
esculpida se estendia em direção ao teto em cima de uma piscina parada
cravejada de flores brancas. Suas asas se abriam amplamente para o voo e eram
tão detalhadas que Sorcha podia ver as veias esticadas através delas.
— Este lugar é bom demais para mim. — Disse ela.
— Esse lugar não existe.
Seu queixo caiu. O que ele quis dizer com isso? Ele não poderia estar
dizendo que ela era digna de tal quarto? Isso era adequado para a realeza ou
um Fae nascido nobre dotado nas artes.
Sorcha olhou para as palmas das mãos calejadas e unhas raspadas,
sentindo-se bem e verdadeiramente fora do lugar.
— Eu não posso — ele fez uma pausa e olhou para ela, em seguida, para
seu peito. — Eu tenho que me preparar para essas pragas. Eu acredito que você
pode se aquecer?
— Existe um lugar para um fogo?
Ele gesticulou em direção a uma das paredes cobertas de hera. — Tudo
que você precisa deve estar no cômodo além.
— Oh. — Ela não sabia mais o que dizer. Ele a salvou, a trouxe para este
paraíso e então... estava indo embora? Quem faz isso? — É muito difícil
entender você.
— Não sei se isso é um elogio.
— Nem eu.
Ele estava cercado por vegetação e ela não podia deixar de se perguntar
quem este homem realmente era. Ela teve alguns vislumbres dele, mas nunca
o retrato completo.
Ele mantinha as mãos flácidas ao lado do corpo. Gotas de água pingavam
de seus fios de cabelo, escorrendo pelas laterais raspadas e desaparecendo nas
fendas cheias de joias. Ele não conseguia encontrar seu olhar e, enquanto ela
observava, suas mãos se apertaram e relaxaram.
— Você não se sente confortável comigo olhando para você, — disse
ela. — É por isso que você não quis falar quando eu vi você treinando.
— Eu sei como eu sou.
— A que você se compara?
— Um monstro. Estes, — ele gesticulou em direção ao ferimento no
ombro e sua garganta, — não são naturais. Marcas de desfiguração que me
tornam menos Fae, menos homem.
— Não vejo como algo assim poderia torná-lo menos que qualquer
coisa. Eles são surpreendentes no início, mas o choque diminui e eu quase não
os noto agora.
— É uma bela mentira. — Ele fez uma reverência. — Eu tinha esquecido
como é revigorante ouvir essas palavras. Obrigado por não me dizer a
verdade.
— O que?
Ele saiu do cômodo tão rapidamente que ela sentiu apenas a brisa de sua
passagem.
Sorcha ficou com a água escorrendo, o movimento suave das rosas e o
silêncio completo. Ela se sentou no banco e olhou para o teto, para o esplendor
circundante. Ela estava totalmente sozinha pela primeira vez desde que
chegou.
Puxando os joelhos contra o peito, ela soltou um suspiro
silencioso. Quando ela esteve sozinha pela última vez? Certamente deve ter
acontecido, mas ela não conseguia pensar em um momento. Suas irmãs sempre
estiveram em casa. Ela viajou para os MacNara com Agatha, partiu com o
dullahan, passou dias no navio... Até mesmo no oceano haviam homens
merrow e o Guardiões.
Ela se recusou a deixar seus pensamentos escurecerem. O calor devia ser
sua primeira tarefa. Ela precisava tirar essas roupas molhadas ou pegaria um
resfriado.
Os pensamentos de cura ajudaram. Ela poderia se diagnosticar como um
paciente, os pensamentos segmentados fáceis de seguir.
Sorcha tropeçou e afastou a hera para o lado. Ela nunca tinha visto um
banheiro como este. Mais trepadeiras cobriam as paredes, flores azuis abrindo
suas pétalas e enchendo o ar com um perfume floral inebriante. Um grande
círculo cortado no chão, água quente constantemente vertendo de um pequeno
buraco na parede.
— Uma fonte termal. — Ela murmurou.
Havia um pequeno penico no canto, junto com uma penteadeira cheia
até a borda com escovas de cabelo e pastas que ela não reconheceu.
Nada disso era para ela, ela se lembrou. Ela devia aquecer seu corpo
trêmulo e depois pular na cama. Não havia necessidade de mimos, nem tinha
ideia do que aquelas guloseimas de Faes fariam com ela.
Ela tirou o tecido encharcado, parando por um momento para olhar para
o vestido de sua mãe. A água do mar provavelmente o mancharia, mas ela
poderia pelo menos tentar salvá-lo. Lágrimas picaram nos cantos de seus
olhos.
— Eu sinto sua falta. — Ela sussurrou. Era a mesma sensação todas as
vezes. Ela sentia falta de seus rituais pagãos, Beltane, das histórias de Faes
sussurradas que sua mãe era tão boa em contar.
O vapor subia no ar em pequenos tentáculos, implorando a Sorcha para
se aquecer. Ela se virou e mergulhou o dedo do pé na água. O calor chocante a
fez suspirar, então gemer quando ela afundou na água até os ombros.
Seus calafrios cessaram imediatamente, persuadidos à imobilidade pelas
ondas suaves de água. Ela podia ficar nessa água e só chegaria aos
seios. Aquilo era água potável.
Curiosa, Sorcha pegou um punhado e tocou na língua. Água fresca. Nem
uma pitada de sal manchava o gosto, nem era sulfúrica como muitas fontes
termais poderiam ser.
— Este lugar continua a ficar mais estranho a cada hora. — Ela sussurrou.
Inclinando a cabeça para trás contra a borda de pedra, ela deixou sua
mente se aquietar até que sua pele podasse. Mesmo assim, demorou um pouco
para sair do conforto do banho. Era como se ela fosse a última pessoa na
terra. O silêncio acalmou seus pensamentos ansiosos, o vapor levou embora
velhas dores e sofrimentos, e a água a prendeu em um abraço gentil.
Ela poderia passar o resto de sua vida assim.
Quando suas pálpebras se fechavam mais do que permaneciam abertas,
Sorcha se arrastou para fora do banho quente. Olhando ao redor do banheiro
com os olhos turvos, ela percebeu que não havia pano disponível para secar.
Ela suspirou. Com sorte, Eamonn não voltaria valsando enquanto ela
permanecia nua no centro do banheiro. Ela mergulhou o vestido da mãe na
água e torceu-o algumas vezes.
Deixando o tecido amarelo na borda da banheira, ela espiou através da
hera para se certificar de que ninguém estava no quarto. Claro, Faes podem se
encantar. Ela estreitou os olhos.
— Olá?
Ninguém respondeu.
— Se houver algum criado aqui, vou sair e não tenho mais nada para
vestir. Por favor, não... olhe.
Ela se repreendeu enquanto corria pelo musgo. Quem iria olhar para
ela? Eles provavelmente pensavam que ela parecia tão feia quanto os
encontrou.
As peles eram macias contra sua pele. Elas absorveram a água e
prenderam o calor até que ela estivesse em um casulo de calor e conforto.
Ela suspirou feliz, mas avaliou seu corpo para o caso. Os arrepios haviam
passado, mas ela já podia sentir o nariz entupindo. Ela teria um leve resfriado,
mas com sorte nada se instalaria em seu peito.
Se ela tivesse sorte, ela escaparia ilesa de toda essa provação. Do
contrário, precisaria fazer compressas e beber o máximo de chá que pudesse.
Sorcha poderia esperar que seu corpo não tivesse nenhuma reação
adversa. Não havia tempo para ela ficar doente.

Eamonn sentou-se nas sombras de seu quarto, repreendendo-se por ter


voltado aqui. Ele não tinha planejado isso. Principalmente nesta noite.
Os emissários da corte Seelie raramente vinham visitar. Ele achou
curioso que eles escolhessem agora, de todos os tempos, mostrar seus
rostos. Havia um espião em sua corte de tolos? Ele não conseguia pensar em
ninguém que iria passar segredos para seu irmão, mas não seria a primeira
vez. Ele precisaria interrogar alguns para garantir sua segurança. Para o bem
de todos, seu irmão não poderia saber o que acontecia nesta ilha.
Eles sempre o deixavam com raiva. Esses gigantes cintilantes, mulheres
e homens, vestidos com armaduras completas sob o pretexto de que queriam
visitar um velho amigo. Nenhum deles se importava como ele vivia antes de
seu banimento, e eles não se importavam agora.
Ele achava a coisa toda suspeita, sempre achou, mas não estava em seu
poder negá-los. Se seu irmão queria ficar de olho nele, então ele poderia. Mas
Eamonn não facilitaria para ele.
Blindado e silencioso, ele os encarou. A sala do trono mudou para salão
de baile, um tapa na cara do irmão que não era rei. Eles trouxeram seus
próprios músicos, seu próprio pessoal, tudo o que achavam que ele não
tinha. A única coisa que Eamonn fez foi limpar o cômodo.
Deixe-os pensar que ele vivia em esplendor e aproveitava sua vida aqui
em Hy-brasil. Eamonn gostava da ideia da raiva de seu irmão.
E quando tudo estivesse feito, ele pretendia voltar para seu quarto. Para
quebrar tudo o que pudesse, na tentativa de acalmar sua raiva e
constrangimento.
Mas ele se encontrava aqui.
Olhando para ela.
Seu cabelo se espalhava ao redor de sua cabeça como as pétalas de uma
rosa vermelha. Raios de pele beijada pelo sol empalideciam em um branco
leitoso, lindo e único como o resto dela. Ela dormia suavemente. Mais suave
do que ele já a tinha visto.
Sempre havia uma ponta dura em seus ombros. Linhas se formando
entre suas sobrancelhas, expressivas com todas as suas emoções. Ela era um
livro aberto.
Seus lábios se curvaram. Ela não gostaria da facilidade com que ele a lia.
Uma mão enfiada sob sua bochecha, cílios pálidos se espalharam e
lançando sombras. Ele se sentou na escuridão e contou cada sarda no rosto
dela. Foi a primeira vez em anos que ele se acalmou sem esmagar o mármore,
quebrar a cerâmica ou quebrar molduras de madeira.
Ele não sabia como ela fazia isso. Mesmo dormindo, havia algo
infinitamente calmante sobre sua mera existência.
Isso deveria assustá-lo? Ele sentiu que deveria.
Ela se mexeu durante o sono, bocejando e abrindo lentamente os olhos.
Ele esperou a vacilada, o salto, o grito aterrorizado que faria seus ouvidos
zumbirem por dias. Muitas mulheres Fae reagiam de maneira semelhante.
Ela não fez nada disso. Raio de Sol, Sorcha, não fez nenhuma dessas
coisas. Ela piscou algumas vezes, focando em sua forma nas sombras, e então
um sorriso suave se espalhou por seu rosto.
Naquele momento, ela o estripou. Ninguém o olhava como uma pessoa
há tanto tempo, sem piedade ou medo. Ela apenas abriu os olhos e sorriu para
ele. Como se ele finalmente estivesse onde pertencia.
— Tive a sensação de que você poderia voltar esta noite. — Sua voz
estava rouca como se água enchesse seus pulmões. Bem na hora, ela tossiu em
seu punho.
— Não é incomum ficar doente depois de tentar tirar sua vida. — Por
que ele disse aquilo? Eamonn cravou os dedos nos cristais do pulso
oposto. Sempre arrumando briga, especialmente quando preocupado.
— Oh, quieto, você sabe que não era isso. Preciso das minhas coisas, —
disse ela quando parou de tossir. — Eu tenho um chá para isso.
Eamonn gesticulou em direção à pequena mesa que havia colocado ao
lado de sua pilha de peles. — Anis, mel e vinho quente.
Ela olhou para o vapor subindo da xícara de porcelana e de volta para
ele. — Sim. Obrigada, isso é exatamente o que eu precisava.
— Não fique tão surpresa. Curar humanos não é tão diferente dos Fae.
— Acho que não é. — Ela se levantou, agarrando as peles contra o peito
e empurrando a pesada massa de cabelo para trás. — Você conhece as artes de
cura?
— Uma pequena quantidade. Observei minha babá quando criança.
— Esperto.
— Eu nunca afirmei o contrário. — Ele a observou bebericar o chá, seu
rosto se contraindo. — Amargo?
— Eu só não gosto do sabor do anis. Nunca gostei.
— Isso vai ajudar.
Essa expressão suave voltou para seu rosto, olhos semicerrados e lábios
curvados para o lado. — Sim, vai.
Ele não sabia o que dizer quando ela o encarou como se ele trouxesse
todas as estrelas do céu para ela. Era um chá. Nada mais nada menos.
Eles se encararam até que seu coração disparou. Eamonn não conseguia
entender por que estava tão afetado. Então seus olhos traçaram a linha de seus
ombros. Nua e pálida como a lua. Minúsculas sardas pontilhavam sua pele,
mais do que ele contara em seu rosto. Ele não tinha visto aquelas.
O quanto ele queria conectar aqueles pontos? O suficiente para cerrar os
punhos e travar os músculos das pernas, contendo-se para não se inclinar para
a frente e puxar as peles. Ele tinha se esquecido de trazer algo para vestir.
Abençoe seu esquecimento.
— Seus visitantes foram embora? — Ela perguntou.
— Com licença? — Sua mente estava em outro lugar. Havia sardas
pontilhando seus braços, então faria sentido se elas se espalhassem para suas
pernas também. Ela tinha sardas em todos os lugares?
— Seus convidados, os perigosos. Eles foram embora?
— Sim.
— É seguro para eu vagar pelos seus corredores de novo?
— Eu — ele balançou a cabeça para clareá-la. — Não, nunca é seguro
vagar pelos corredores do castelo. Existem muitos segredos escondidos e
espíritos que os guardam.
— Eu não conheci um espírito ainda, apenas Faes.
— Então você tem sorte.
— Este lugar é um dos mais estranhos que já vi. Espíritos vagando pelo
castelo à noite. Faes na cozinha. Você tem uma companhia estranha, Pedra.
Seu nome pairou na ponta da língua. Apenas uma vez, ele queria ouvi-
la dizer seu nome. Seu nome de batismo. Mas ele sabia como seria perigoso
contar a ela. Um humano de posse do nome de um Fae era obrigado a usá-lo.
Mesmo esse perigo valeria a pena ouvir sua voz cadenciada acariciar as
sílabas de seu nome de nascença.
Se ele fosse qualquer outro homem, ele poderia ter dito a ela, mas
enterrou o desejo pela segurança de seu povo. Eamonn era uma criatura criada
para a guerra e a destruição. Ele não podia correr o risco.
Ela se inclinou para frente e tossiu novamente. Seus punhos cerrados,
lembrando sua mente de que ela poderia cuidar de si mesma. Ela era humana
e não merecia sua reação instantânea.
A voz de seu pai ecoou em sua mente. Ela estava abaixo dele. Uma
criatura básica no mesmo nível de Fae menor. Ignore suas lutas, mas use-a
como uma serva ou escrava quando chegar a hora certa.
Ele nunca acreditou nessas palavras.
Eamonn se levantou e se acomodou ao lado dela na cama. Suas costas
nuas tremeram, as costelas se expandindo até que ele pudesse ver as linhas
colidindo antes de cortar o ar no próximo segundo.
Sua mão era tão grande contra sua pele. Ele abrangia todas as suas costas,
esfregando suavemente para frente e para trás. Ele não batia, isso não ajudava,
apenas tentava confortar como sua babá costumava fazer.
— Obrigada, — ela disse com um suspiro. — Desculpe, não esperava que
um simples mergulho no mar me afetasse tanto.
— Isso foi mais do que um mergulho.
— Um risco?
— Um erro. — Ele se conteve novamente. Por que ele era tão cruel com
ela? Ele não conseguia entender por que tentava argumentar toda vez que ela
falava. Além dos picos vermelhos nas maçãs do rosto que ele tanto apreciava.
Eamonn não cerrou os punhos desta vez. Ele estendeu a mão e correu
um dedo sobre as altas arcadas de suas bochechas, traçando os espaços entre
as sardas.
— O que você está fazendo? — Ela sussurrou.
— Eu não tenho a menor ideia.
Ele poderia se perder naqueles olhos. Verdes como folhas de hera, como
musgo quando o sol bate pela primeira vez depois de dias de chuva. Como ela
o estava mantendo cativo? Ela havia lançado um feitiço sobre ele?
Ou talvez ele estivesse simplesmente tão faminto por atenção que não
conseguia se conter. Ela foi a primeira pessoa a vê-lo como um homem, não
um monstro.
Como ele poderia parar?
Eamonn se inclinou, os olhos disparando entre o olhar largo e os lábios
fazendo beicinho. Ele nunca tinha notado seus lábios antes. Vermelhos, mais
fino do que a maioria, mas ainda agradável. Ela teria gosto da cor de framboesa
manchando sua boca?
— Mestre? — A voz de Cian cortou o silêncio, sacudindo ele para seus
pés e de volta à realidade. — Lamento interromper, mas houve uma
complicação inesperada.
— Como assim?
— São os visitantes Unseelie, senhor. Eles estão solicitando uma
audiência, exigindo muito, e dizem que não aceitarão um não como resposta.
— Cian esfregou o lado de sua cabeça. — Ele quase arrancou minha orelha ao
puxá-la.
— Bran. — Resmungou Eamonn. Ele olhou de volta para Sorcha, que
agarrou as peles contra o peito. Seus olhos estavam muito arregalados, seu
peito arfando.
Esse era o medo que ele esperava. Ele deveria saber que, embora um dia
ela pudesse confiar nele, era improvável que ela o quisesse. Que idiota ele era.
Eamonn acenou com a cabeça e saiu do quarto. Ele tinha feito cena o
suficiente para querer se esconder dela pelo resto de sua existência. Bran tinha
feito a coisa certa ao causar uma bagunça que só Eamonn poderia consertar.
Os malditos Unseelie geralmente acabavam tendo razão.
Capítulo 9

A Corte Incondicional

Sorcha mudou-se completamente para o quarto verde após seu incidente


no penhasco. Boggart entrou em pânico, correndo ao redor da cabana e
quebrando pratos até que Sorcha a pegou e explicou que a Fae estava vindo
com ela. Isso acalmou sua mente perturbada, embora ela não largasse a perna
de Sorcha por algumas horas.
Os Faes ajudaram a levar todas as suas coisas para seu novo quarto. Ela
insistiu que tudo fosse para o banheiro; as roupas ficaram no quarto mais
seco. Ela não queria estragar a imagem primitiva enchendo-a de guarda-
roupas.
Felizmente, os Faes concordaram.
Sorcha passou horas no quarto, curtindo a solidão silenciosa. Boggart
ficou principalmente com os outros brownies na cozinha, tendo encontrado
uma nova apreciação em um grande espaço para trabalhar. Ela levava todas as
refeições para Sorcha e passava um tempo ouvindo sua conversa. Ela ainda
não falava.
O aviso que Macha emitia soou nos ouvidos de Sorcha com mais
frequência do que não. Ela tentou encontrar Pedra por vários dias, mas ele
desapareceu. Ela suspeitava que ele estava em uma das torres do castelo. Pixie
tinha sussurrado a sugestão algumas vezes, mas ninguém disse a ela qual torre.
O tempo estava passando. Cada dia que passava parecia um prego no
caixão do pai. Ela tinha que fazer alguma coisa! Mas não havia nada a fazer -
desde que o mestre da ilha se escondesse de tudo e de todos.
Ela se sentou na beira da fonte dos Faes, observando os peixinhos se
lançarem uns aos outros. Cada movimento minúsculo relampejava suas
barrigas de prata enquanto eles zuniam divertidamente para longe de seus
dedos.
Já era tarde e ela deveria estar dormindo. Quanto mais tempo ela ficava
nesta ilha, menos sentia necessidade de descanso. Energia faiscava no ar. Isso
fazia os pelos de seus braços se arrepiarem e seu corpo ansiar por se mover,
dançar, fazer qualquer outra coisa que não fosse adormecer. Novamente.
Havia muito mais que ela poderia estar fazendo.
— Mas eles não vão deixar — Sorcha respirou com um suspiro. — Eles
pensam que sou uma senhora próspera que não precisa ficar no jardim.
Ela bufou. Ela sujou as baias, arrancou ervas daninhas e colocou as mãos
onde não deveriam. As cicatrizes em seus braços e pernas eram prova
suficiente!
Eles tinham ouvido tudo. Cada vez que ela discutia com eles, os Faes
balançavam suas cabeças encantadas e a moviam de volta para seu quarto, ou
para uma caminhada ao ar livre, ou Deuses à livrassem sugerir que ela poderia
precisar de outra coisa para comer.
Sorcha passou a mão pela barriga macia. Ela tinha comido o suficiente no
mês anterior para alimentar três pessoas, e ainda assim diziam que ela estava
muito magra!
Um peixinho nadou em direção a seu dedo giratório, batendo nele antes
de sair correndo.
Sorcha sorriu. Pelo menos os animais eram acolhedores. Até mesmo
algumas ovelhas tinham gostado dela e não se importaram quando ela
caminhava pelos campos com a bainha suja. Os Faes não a tornariam uma
dama. Ela não gostava de ser uma dama.
Tudo que ela precisava era que seu mestre concordasse em retornar ao
continente.
— Sorcha, — uma voz sussurrou no vento. — Sooorchaaa.
Exalou seu nome, alongando as sílabas até que soou como um longo
gemido prolongado. Franzindo a testa, Sorcha olhou para as
sombras. Nenhum olho piscou de volta para ela, nenhum Fae parou em suas
portas.
— Olá? — ela gritou. — Tem alguém aí?
— Sorcha.
— Sim?
Uma brisa suave roçou seu rosto e agitou os cabelos que caíam ao redor
de suas bochechas. Este cômodo era fechado nas profundezas dos castelos, sem
janelas ou fendas por onde o vento pudesse passar. Uma brisa era impossível.
E ainda assim, havia.
Ela estendeu a mão, esperando encontrar um corpo sólido invisível. Não
era uma besta sólida, nem era um Fae escondido à vista de todos. Este era
realmente o ar emaranhado ao redor dela.
Mais uma vez, o nome dela sussurrou pelo cômodo. Desta vez, foi
acompanhado por um movimento na parede mais distante dela. Hera se mexia
em uma cachoeira de movimento, como se uma mão roçasse o outro lado.
Sorcha levantou-se da fonte e caminhou cautelosamente até a parede. Ela
tinha certeza de que não havia nada por trás daquela parede. Ela checou
centenas de vezes, passando as mãos sobre a pedra lisa enquanto verificava os
segredos que os Faes pudessem ter escondido.
A hera se moveu novamente.
Ela prendeu a respiração e avançou. As folhas eram frias ao toque, muito
mais frias do que antes.
— Sorcha — sussurrou a voz. — Venha até mim.
A magia rodava. A hera farfalhou e, de repente, afastou a folhagem de
sua superfície. Uma luz branca e ardente ficou tão forte que Sorcha passou o
braço sobre os olhos. O som de sinos tocando encheu seus ouvidos.
Então tudo ficou em silêncio.
Sorcha deixou cair os braços, piscando para a parede rodopiante de
escuridão diante dela. A parede havia se transformado em água. Água escura,
como o fundo do oceano que quase a matou.
Ela estremeceu. Que tipo de magia era essa?
— Sorcha, — a voz distorceu ao passar pelo portal líquido. — Sorcha,
venha até mim.
Seu estômago embrulhou, mas ela não conseguia reprimir sua própria
curiosidade. Alguém estava chamando por ela. Eles estavam feridos? Era
alguém que ela conhecia?
Ela estendeu a mão e tocou a parede. Ela estremeceu e estremeceu. Um
pequeno pedaço se quebrou, flutuou sobre seu ombro e apareceu no centro de
seu quarto.
— Estranho. — Ela sussurrou.
Tudo aqui era estranho, e ela descobriu que não a chocava mais. Portais
aquáticos, Faes nas cozinhas, meninos compostos por um zoológico de
bestas. O que mais poderia acontecer neste lugar estranho e incomum?
— Sorcha, não há muito tempo.
Ela olhou por cima do ombro. Nenhum Fae estava em sua porta, nenhum
sussurro sugeriu que eles estavam ouvindo. Alguém saberia se ela
desaparecesse?
Alguém teria uma opinião sobre isso. O furioso senhor do castelo notaria
que ela havia desaparecido sem que ele o dissesse. Uma parte rebelde dela
queria mergulhar pelo portal apenas para irritá-lo.
— Por que isso é considerado rebelde, Sorcha? — ela se perguntou. Sua
voz saltou de volta através do portal, ecoando suas palavras. — Você está
curiosa. Vá até o portal.
— Sim, — o sussurro repetiu. — Vá até o portal.
— Pode ser perigoso.
— É perigoso.
— Mas isso nunca me parou antes.
— Você é corajosa.
— E se este for um Unseelie? — ela espiou através das águas, tentando
ver se alguém estava além.
— É definitivamente Unseelie.
— Eles são imprevisíveis.
— Eles são tudo o que você sempre desejou.
— Como assim?
Aparentemente, a voz não queria responder às perguntas, pois não
respondia. Ela esperou para ver se ela falaria novamente.
Não falou.
Sorcha entendeu o que estava acontecendo. A voz, ou dona da voz,
queria que ela passasse pelo portal e queria convencê-la a fazê-lo. Isso não
poderia acabar bem. Ela tinha lido incontáveis contos onde Faes atraíam
humanos para seus mundos. Os Unseelie não eram bons para os humanos.
— Esta é uma ideia terrível, — ela sussurrou. — Você vai acabar me
machucando ou me prendendo no outro mundo para sempre.
— Nós não faríamos tal coisa.
— Vocês querem me fazer mal.
— Queremos fornecer conhecimento.
— O que vocês poderiam saber que eu não sei?
O vento enrolou em torno de seus tornozelos e pulsos. — Nós sabemos
muito, pequena humana. Sua besta não é o que ele diz que é.
— Minha besta?
— Pedra. — A voz gemeu a palavra, arrastando as sílabas como tinham
seu nome. — Ele não é quem parece ser.
— Então quem é ele?
— Venha para mim, Sorcha. Vou explicar tudo que você deseja saber.
Seu couro cabeludo formigou.
Esta era uma armadilha. Este era um Unseelie que queria atraí-la para o
Outro mundo e brincar com ela.
Como as histórias sempre terminam? Os humanos perderiam suas
mentes nas profundezas do reino Unseelie. Eles se tornariam escravos,
deixados à mercê das horríveis criaturas rastejando pela lama.
Mas muitas dessas criaturas eram diferentes das histórias. Os Seelies não
eram o que ela pensava. Será que os Unseelie também não eram como os mitos
retratados?
Respirando fundo, ela mergulhou no portal.
O líquido se agarrou a seu corpo, grudando em seus cabelos e
roupas. Isso a puxou. Ele queria afogá-la? O fluido pegajoso arranhou seus
lábios e olhos, mas nunca afundou em sua boca.
O frio afundou em seu corpo até que ela teve certeza de que iria congelá-
la. Ela morreria aqui e os Unseelie ganhariam. Seus dedos do pé se enrolaram,
seus dedos ficaram dormentes e as espirais de seus cachos se solidificaram.
Que idiota ela era.
A bolha do portal estourou e a jogou para fora. Ela engasgou, caindo no
chão de pedra. O ar escapou de seus pulmões enquanto ela golpeava com tanta
força que suas costelas rangeram.
Deitada no chão, ela tentou se orientar. A luz fraca e cinza revelava
sombras, mas nenhuma forma sólida. O chão era de pedra sólida, então ela não
estava do lado de fora. O ar estava viciado. Tinha gosto de poeira e algo que
ela não conseguia nomear. Podre, mas doce. Ela podia ouvir um som suave
acima. Um shush surdo, um arranhar de algo pesado roçando na pedra.
Isso era impossível. Não poderia haver nada acima dela, não algo que
pesasse o suficiente para fazer aquele som.
Enrolando as mãos em punhos, ela fechou os olhos com força e contou
até dez. Ela era corajosa. Ela era forte. O medo não a forçaria a se enrolar em
uma bola e chorar.
Os dedos de Sorcha começaram a tremer.
— Sorcha — a voz a chamou novamente. Desta vez não foi pelo portal,
mas ecoando de cima. — Olhe para mim.
— Eu não desejo.
— Olhe para mim! — A voz cresceu tão alto que Sorcha se achatou contra
o chão de medo.
O frio gotejava pela frente de seu vestido. Ela soltou um suspiro e se
perguntou o que Macha faria. Ela desembainharia sua espada e ameaçaria a
vida do Unseelie?
Provavelmente, mas Sorcha não era Macha. Ela não podia condenar
ninguém quando não tinha falado com eles, julgado seu caráter, ouvido sua
história. Não havia razão para ela ter medo dessa criatura que comandava seu
olhar. Ela colocou a mão espalmada no chão e se deitou de costas.
Um monstro se ancorava no teto acima de Sorcha. A princípio, ela não
conseguiu distinguir a forma pairando no ar. Era muito grande, muito como
uma bolha feita de sombra.
Então ela distinguiu o estômago bulboso, inchado e maior do que três
cavalos juntos. Oito pernas projetadas para fora da barriga larga. Elas se
moviam enquanto ela observava, alisando o teto de pedra e criando o som que
ela tinha ouvido.
Preso ao corpo estava o torso de uma mulher. Fortemente musculoso, tão
pálido que estava quase azul, com cabelos longos e finos que caíam na direção
de Sorcha. O sorriso se espalhou pelo rosto da criatura dividido de orelha a
orelha.
— Olá, Sorcha de Ui Neill, — o monstro murmurou. — Bem-vinda a
Caisleán dorcha.
Não apenas Unseelie então, Sorcha percebeu. Este era seu castelo, o lar
da família real das feras Unseelie. A família que era reis e rainhas dos
monstros.
Ela engoliu o grito que subia em sua garganta e, em vez disso, olhou com
horror para a mulher presa em um cobertor branco de teia. — Prazer em
conhecê-la.
— É isso? — A mulher inclinou a cabeça para o lado. — Você parece
positivamente apavorada.
— Eu estou.
— Então por que você não grita?
— Eu não quero ofender.
— Um grito é um presente. — Pernas finas arranharam o teto enquanto
ela se desembaraçava. Batidas abafadas ecoaram, uma perna batendo no chão
perto das pernas de Sorcha. Outras seguiram, batendo de novo e de novo até
que a criatura estava pairando sobre ela. — É um acordo de que sou uma
criatura terrível a quem você respeita e teme.
Sorcha engoliu em seco.
A mulher se inclinou até quase tocar o rosto de Sorcha com o seu. Uma
perna peluda equilibrou-se ao lado da orelha de Sorcha. — Eu gostaria de
ouvir você gritar.
Ela não conseguiu conter. Sorcha fechou os olhos com força e gritou seu
medo e terror. Esta besta não iria apenas assustá-la, ela iria devorá-la inteira.
Nenhuma história sussurrava o nome desta criatura. Nada havia
sugerido à pequena parteira de Ui Neill que algo assim jamais existiu. Os Faes
eram estranhas, sim, mas nunca foram tão deformadas assim.
Uma perna acariciou seu estômago. Ela empurrou para trás, mas bateu a
cabeça contra uma perna grossa. As minúsculas fibras de cabelo roçaram sua
nuca. Presa, ela estava presa. Não havia nada que ela pudesse fazer a não ser
gritar e gritar.
— O suficiente! — O grito estrondoso estilhaçou seu crânio em pequenos
pontos de dor. — Você me deu uma grande honra com tanto terror.
Ela atravessou Sorcha, a barriga pesada roçando a lateral do
corpo. Sorcha engoliu a bile que subiu em sua garganta. O estômago era liso,
não peludo como as pernas. Uma mancha vermelha parecia uma ampulheta
em sua barriga, mas Sorcha nunca tinha visto os aracnídeos em Ui Neill.
A criatura pressionou as mãos contra o peito de Sorcha, forçando-a a
olhar para o teto. O choque amarrou sua língua em nós. A criatura só queria
ouvir seu grito? Que outro propósito ela tinha para arrastar Sorcha aqui?
Claro, podeira não haver nenhum propósito. A Unseelie poderia ter se
encontrado entediada e apenas queria um brinquedo. Mas como ela sabia onde
Sorcha estava?
As teias de aranha no teto se moveram.
— Por favor, não deixe haver outro. — Ela sussurrou.
— Não há. — A voz da criatura se elevou divertida. — É o meu jantar.
Sorcha estreitou os olhos e gritou. Havia um homem emaranhado nas
teias. Pelo menos, ela pensou que era um homem. A mulher-aranha o tinha
enrolado com tanta força que ela só conseguia ver os contornos dos músculos
peitorais e os protuberantes músculos da coxa que pressionavam contra suas
teias.
— Ele vai se acalmar eventualmente.
As teias cobriam seu rosto, impedindo-o de respirar. — Ele vai sufocar.
— Sim, ele vai. Esse é o ponto.
— Que maneira cruel de morrer.
— É melhor do que o veneno que viaja lentamente pelo sangue. Pelo
menos agora ele vai se acalmar e depois cair no sono.
— Por que não apenas quebrar seu pescoço e acabar com isso?
O movimento da mulher parou e Sorcha sentiu o peso de seu olhar como
um toque físico. — Seria essa a sua preferência?
— Se você planeja me comer, eu gostaria de não estar viva.
— Eu não planejo comer você. Garotinhas como você fazem refeições
terríveis. Não há carne suficiente em seus ossos. Além disso, os humanos são
sempre tão amargos.
Sorcha ergueu a mão e apontou. — Isso não é humano?
— Não, isso é Seelie. Eu prefiro uma dieta mais leve enquanto observo
minha figura.
— Você está de olho no seu peso?
— Não está toda mulher?
Sorcha não conseguia imaginar de que figura a criatura estava
falando. Era difícil forçar uma bola em curvas sensuais.
— Por que você me trouxe aqui? — ela perguntou.
— Tudo em bom tempo. Levante-se, garota.
Ela olhou de volta para o homem que estava emaranhado na teia da
criatura. Sua luta estava diminuindo, algumas contrações aqui e ali eram a
única maneira que ela sabia que ele ainda estava vivo.
— Acho que vou ficar aqui.
— Você quer vê-lo morrer?
— Não.
— Então levante-se.
Sorcha não conseguiu encontrar um argumento. Suspirando, ela rolou de
joelhos e disse a si mesma para esquecer o homem no teto. Ele estava além de
sua ajuda, não importava o quanto ela queria cortá-lo e respirar o ar de volta
em seus pulmões. Ela também estava à mercê da mulher monstruosa.
— Como devo chamá-la? — Sorcha perguntou.
— Você pode me chamar de Sua Rainha.
— Rainha? — Sorcha engasgou. — Você é...
— Sim.
A rainha dos Faes Unseelie estava diante dela, e Sorcha estava agindo
como se fosse uma besta que precisava esmagar sob seu calcanhar. Ela tinha
sorte de ainda estar viva.
Caindo de joelhos, ela pressionou os polegares na testa. — Perdoe-me,
Sua Majestade. Eu sou uma besta humilde por não reconhecer a realeza.
— Eu pedi para você se levantar. Não me faça pedir de novo.
Sorcha ficou de pé novamente. O que essa criatura queria dela? A
escuridão se agitou, lançando uma névoa em grandes ondas que giravam em
torno das pernas da Rainha.
Suas pernas se moveram em sincronia, Sorcha percebeu. Não era como
uma aranha real, que às vezes pode parecer espasmódica em seus
movimentos. Essa mulher se movia com uma graça natural. Cada perna era
levantada e colocada tão suavemente que o som que faziam era baixo e
abafado.
— Terminou de olhar?
— O que? — Sorcha ergueu os olhos para ver que a rainha estava
olhando de volta. Ela era imensamente alta. Facilmente dois da grande altura
de Pedra. — Me desculpe.
— Pare de se desculpar.
— Eu — ela limpou a garganta. — Compreendo.
— Bom. Agora, siga-me.
Ela não queria seguir esta criatura mais profundamente na
escuridão. Quem sabia o que a esperava lá?
A Rainha a viu hesitar. — Eu não vou te matar, criança.
— Você ainda não respondeu por que estou aqui.
— Porque eu pedi que você viesse.
— Isso não é uma resposta.
A Rainha suspirou. — Há muito em jogo aqui. Você entrou em um
mundo onde tomará uma decisão que afetará todos os jogadores do
tabuleiro. Não deixarei o destino dos Fae nas mãos de uma humana sem
instrução. Me siga.
— O que eu tenho a ver com isso?
— Tudo será revelado com o tempo. A teia é grande e há muito o que
explicar.
Sorcha observou a mulher-aranha desaparecer na escuridão com o
queixo aberto. Havia muito a explicar? Ela era apenas uma parteira, o que ela
tinha a ver com o destino dos Faes?
Ela não iria com a Rainha. Eles obviamente persuadiram a pessoa errada
através do portal.
Risos ecoaram atrás dela, chegando cada vez mais perto através da névoa
e escuridão. Arrepios dançaram por sua espinha. Que tipo de Unseelie estava
atrás dela? Era o vento na nuca ou era a respiração de outro monstro?
Ela correu atrás da Rainha, passos altos e descontrolados.
Todo o castelo estava escuro. Algumas pequenas arandelas decoravam
as paredes, iluminadas com fogo verde que pouco fazia para lançar luz em
qualquer direção. Ela não podia ver, mas podia ouvir a rainha.
Thump. Thump. Shhh. Thump. Thump. Shhh.
Era um som horrível. O arrastar de um corpo grosso por pernas muito
finas e peludas. Sorcha estremeceu de novo, sabendo que pesadelos a
atormentariam por muitos anos.
A risada da Rainha saltou do teto ao chão. — Bom, você é inteligente o
suficiente para seguir.
— Eu sou inteligente o suficiente para não ficar para trás.
— Ah sim. Meus filhos são curiosos demais para o seu próprio bem.
— Seus filhos? — Sorcha olhou para as sombras. — Quantos você tem?
— Dezessete crianças Tuatha dé Danann e centenas de Fae menores.
Isso por si só era intrigante e ia contra tudo que Sorcha sabia. — Você
tem filhos que são Tuatha dé Danann e não?
— Nós não somos os Faes Seelie. Há valor em vidas que não são humanas
na aparência.
— Os Faes Seelie não concordam?
— Não.
Ela já havia suspeitado disso. As lendas sempre falavam de criaturas que
pareciam humanas como reis e rainhas. Tão poucas pessoas viram qualquer
tipo de Fae que não se parecesse com um humano.
Uma escada apareceu diante delas, as pedras limpas e brilhantes na luz
verde. Sorcha piscou, tentando colocar tudo em foco. Era difícil aqui, onde a
magia era tão densa que ela podia ver como uma névoa.
— Você não usa encanto? — Sorcha perguntou. — Todas as Faes que
conheci até agora usavam um encanto.
— Seelie, eu presumo?
— A maioria.
— Todos. Um Unseelie nunca esconderia sua verdadeira forma. Os
Seelie se escondem para proteger as delicadas sensibilidades dos humanos
quando a realidade é que todos nós somos seres lindos e poderosos. Os
humanos deveriam correr com medo.
— Você iria dar-lhes pesadelos para o resto de suas vidas.
— Seus sonhos serão perturbados?
— Sem dúvida — Sorcha estremeceu. — Eu nunca vou dormir de novo,
com medo de que você paire acima da minha cama.
— Você me lisonjeia.
Essa não era sua intenção, embora ela estivesse aliviada por suas palavras
terem elogiado a rainha. Sorcha apenas disse a verdade.
Uma piscina de vidência em um grande altar ficava no centro do cômodo
em que elas entraram. Cacos de vidro preto formavam o chão. Sorcha olhou
para ela e jurou que viu fogo escuro refletido embaixo. O vento roçou seus
ouvidos trazendo com ele os gritos de almas torturadas.
A Rainha saltou em direção a ela, curvando-se sobre a tigela e
balançando para frente e para trás. Sorcha não tinha certeza se já tinha visto
uma aranha se mover assim. A rainha era parte aranha? Ela estava apenas
vestindo a pele de uma?
A Balada de Tam Lin explodiu em sua mente. A rainha daquela história
havia transformado seu amante em uma aranha. Ela segurou seu grande
abdômen, suas pernas, seus grandes olhos. Por dias, ele resistiu enquanto ela
se transformava em dezenas de criaturas.
Sorcha não pôde deixar de se perguntar se essa forma escolhida era
simbólica.
— Venha, — disse a Rainha. — Olhe para a minha piscina e mostrarei
tudo o que você deseja.
— Desejo muito pouco.
— Os humanos mentem todos os dias. Você deseja tantas coisas que nem
consegue respirar pelo desejo.
— Quero saúde e felicidade para minha família. Isso é tudo.
— Oh, pequena humana. Você deseja muito mais do que isso. É saudável
querer.
— Eu me importo com os outros.
— Você se preocupa com você mesma. O desejo de curar aumenta sua
confiança, solidifica sua razão de ser. Você ainda não descobriu quem você
é. Venha.
Sorcha olhou para as mãos fortes da Rainha segurando a borda da tigela
de pedra. — Tenho medo de saber o que quero.
— Todo mundo tem.
Ela estava à beira de algo grande, mas não sabia o que iria encontrar. A
Rainha ofereceu algo sem custo.
— O que eu tenho que fazer? — Sorcha perguntou.
— Ouça e aprenda.
Pequenos pontos pretos apareceram na testa da rainha, das sobrancelhas
às têmporas. Ao mesmo tempo, cada ponto piscou.
Um gemido escapou de sua boca quando ela percebeu que os pontos
eram olhos. A Rainha, como muitas aranhas, tinha múltiplos olhos que
encaravam com expectativa o humano nas escadas.
O que ela tinha a perder? Completamente desconfortável, Sorcha deu um
passo em direção à piscina de vidência.
— O que você quer que eu aprenda?
— Tudo.
A Rainha se inclinou para frente e mergulhou um dedo na água
limpa. Ela rodou, magia negra caindo como tinta e se espalhando
rapidamente. Preto engoliu a tigela de água e fios de fumaça branca subiram
no ar.
— Você está enredada no enredo mais importante deste milênio, e há
muito que precisa ver.
— Por quê?
— Os Fae são muito complicados. Nossas lendas falam de tantas belas
histórias. De heróis que balançam lâminas que dividem gigantes em dois. De
heroínas que seduzem um homem com um olhar e o arrastam para o fundo do
oceano. Mas não somos um grupo de pessoas que gosta de morte e
destruição. Existem tantas espécies de Fae quantas estrelas no céu.
Sussurros ecoaram suas palavras, três vozes sobrepondo-se às da Rainha.
— Quem são elas? — Sorcha perguntou.
— Minhas crianças.
— Onde?
A rainha olhou por cima do ombro e acenou com a cabeça. Três mulheres
avançaram, amarradas ao teto por finos fios de teia. Elas tinham anéis
perfurados em seus braços onde os fios passavam. Pálidas como a neve, seus
olhos estavam cegos. Nenhuma cor vivia em seus corpos. Cabelo branco, olhos
brancos, pele branca tão pálida que era azul.
— Três filhas — Sorcha assentiu. — Você é abençoada.
Um sorriso se espalhou pelo rosto da Rainha. — Abençoada? Você não
tem filhos, tem?
— Não, sua alteza.
— As crianças sugam a vida de suas mães. Elas a drenam até que se
tornem pouco mais do que cascas. Mas elas são boas para a alma.
Uma das mulheres semelhantes a fantasmas deu um passo à frente. A
Rainha acariciou sua cabeça e a empurrou para a tigela de vidência. — Que
segredos você tem para compartilhar com a pequena humana?
A mulher pálida inclinou a cabeça para o lado, olhos cegos piscando
lentamente. — Eu compartilho o estado dos Faes Seelie.
— Por quê? — a Rainha perguntou.
— É importante que ela conheça a situação em Tír na nÓg. Ela deve saber
o que as pessoas fazem e como sofrem.
A filha deu um passo à frente e estendeu o braço. A Rainha olhou para
ela sem emoção, envolveu-a com força em torno do membro e partiu-o ao meio.
Sorcha gritou quando o sangue jorrou na piscina de vidência. Ossos
brancos espetaram a carne rasgada e fragmentos de músculos pendurados
mergulharam na água. Em meio a tudo isso, a filha não vacilou nem gritou.
— O que você está fazendo? — Sorcha gritou. — Pare!
— Você não entende nossos costumes. Assista e aprenda. Isso foi o que
você me prometeu. — A rainha deu um tapinha na cabeça da filha
novamente. — Obrigada. Volte para suas irmãs para a cura.
Ela recuou para a dobra. As outras duas alcançaram os fios grossos da
teia e puxaram com força. Elas ergueram a mulher ferida no ar pelos anéis em
seus braços. Ela ficou pendurada por um momento, suspensa acima do teto
antes que uma longa perna de aranha se estendesse e a puxasse através do teto
alado.
— O que é que foi isso? — Sorcha sussurrou.
— Meu marido.
— Há mais de vocês?
— É preciso dois para fazer filhos.
— Que tipo de Fae você é?
— Não desperdice o sangue dos meus filhos. Olhe para a piscina de
vidência e veja a verdade sobre os Faes Seelie.
Sorcha queria seguir a mulher ferida para insistir que ela poderia
ajudar. De todas as pessoas, ela poderia consertar um osso quebrado,
embrulhar o ferimento, embalá-lo com ervas para que não infeccionasse. Mas
estes eram Faes Unseelie. Eles não iriam querer sua ajuda.
Engolindo em seco, ela assentiu.
Água negra rodou com sangue. Ela colocou as mãos na lateral e se
inclinou até que pudesse olhar nas profundezas.
— O que estou procurando? — lEa perguntou.
— Existem imagens mesmo nos lugares mais escuros. — A rainha
colocou suas mãos grandes em cima das de Sorcha. Sua carne estava gelada. —
Veja a verdade.
Um anão apareceu na água. Sua barba emaranhada em torno de seus
tornozelos e ele caiu no chão. Ele estendeu a mão para se conter, mas um
chicote estalou no ar antes que ele tocasse o chão. Seu rosto se contorceu de dor
e ele ficou imóvel.
Outro homem caminhou em sua direção, cabelos dourados balançando
na cintura. O recém-chegado dourado era perfeito em todos os sentidos. Sua
pele brilhava ao sol, seus olhos eram incrivelmente verdes. Ele segurava o
chicote enrolado em seu pulso e cutucou o anão caído com um olhar de
desgosto.
— O que ele está fazendo? — ela perguntou.
— Eles usam os anões para extrair cobre e ouro. Quando alguém tenta
sair, eles chicoteiam até que eles retornem ou morram.
— Por quê?
— Eles querem o ouro, mas não estão dispostos a trabalhar por conta
própria.
A imagem estremeceu, mudando para revelar uma linda pixie. Sua testa
se arqueava em pontas, parecendo muito com uma folha de outono. Cores
coradas pintavam sua pele, promovendo seu visual outonal. Olhos negros
engoliam qualquer branco que poderia ter existido em um humano, mas ainda
pareciam gentis.
A pixie estremeceu e esfregou a mão no pulso oposto. A pele ficou
vermelha ao redor de uma marca na marca de um nó da trindade.
— O que é isso? — Sorcha perguntou.
— Os Faes são marcadas dependendo de quem eles chamam de
mestre. Cada um dos Faes menores nasce com esta marca, mas ela pode se
esticar e distorcer conforme crescem. Será queimada novamente em seus
corpos se for difícil dizer de quem é a marca.
— Por que marcá-los? Por que não simplesmente saber quem trabalha
para você?
— Então, os Faes não podem escapar na calada da noite e desaparecer.
A mente de Sorcha disparou. Ela sabia o que isso significava, que
escuridão os Unseelie sugeriam fermentar nas terras Seelie. — Eles são
escravos?
— Eles certamente são. Seu rei os transformou em pouco mais do que
bestas para o comércio. Eles nascem, são comprados e trabalham até a morte
muito antes de verem suas famílias crescerem.
— Não faz nenhum sentido, — ela murmurou. — Por que forçar seu
povo a não ser saudável? Não é a marca de um bom rei se ele não pode
proporcionar uma vida boa para todo o seu povo.
— Você estava com a impressão de que o Rei Sábio é um bom rei?
— Rei Sábio?
A Rainha bufou, recuando do altar com grandes passos surdos. — É o
nome que ele se deu. Sábio, pois seu conhecimento é vasto.
— Conhecimento não significa inteligência.
— Astuta para uma criança humana.
— Você não é a primeira a dizer isso.
— Uma última visão especialmente para você, Sorcha de Ui Neill.
Com as sobrancelhas franzidas, Sorcha se inclinou sobre a piscina e olhou
para as águas escuras.
Uma mulher apareceu, dolorosamente linda e segurando a mão sobre a
barriga. Seu cabelo loiro na altura da cintura estava quase no chão. Tecido de
seda prateado escorria de seus ombros para varrer o piso de cristal.
— Quem é ela? — Sorcha perguntou.
— Elva, a concubina mais apreciada do rei. A mãe dela foi uma das
minhas seguidoras mais preciosas. — A Rainha bateu na água com a unha. —
Ela acaba de perceber que pode estar grávida.
— Isso não é uma coisa boa?
— Não cabe a mim decidir. Você precisará saber o nome dela. Você diz
que é uma boa pessoa, parteira. Esta é aquela que você poderia salvar.
Sorcha ergueu os olhos. — Por que você quer que eu salve qualquer um
dos Seelie?
— Eu não sou uma criatura sem coração. Existem alguns que merecem
viver e outros que eu adoraria esmagar seus crânios sob minhas mãos. Elva é
aquela cujo nome verdadeiro eu lhe dou com total confiança de que você o
usará bem.
Outra das filhas da rainha deu um passo à frente e Sorcha estremeceu em
preparação para o próximo feito sombrio. Ela não aguentaria muito mais
disso. Sempre houve rumores de que os Unseelie eram distorcidos e
depravados, mas quão longe essa insanidade viajava?
Eles se banqueteavam com isso em vez de comida?
— Paz, — a Rainha sussurrou. — Você já viu derramamento de sangue
suficiente.
A princesa estendeu a mão e segurou um espelho em direção à
mãe. Vinhas emaranhadas em torno do cabo. Era tão grande quanto Sorcha era
alta, e a rainha o segurou como se fosse nada mais do que um espelho de mão.
— Você conhece nossa história? — a Rainha perguntou. — Você sabe a
diferença entre Seelie e Unseelie?
— Sua espécie desistiu da honra e da lei para viverem livres e selvagens.
— Sim. E você acha que fizemos a escolha errada?
Sorcha não sabia. Ela encolheu os ombros, franzindo a testa em
concentração enquanto refletia sobre a questão em sua mente. — Quem sou eu
para julgar os outros pelas escolhas que fazem? Se uma alma nasce para ser
selvagem, ela só fica zangada com uma guia enrolada em seu pescoço. Se a
alma preferir ordem, ela murchará com tantas opções. Nenhum deles está
errado.
— Você não vê a escuridão como má?
— Nada possui malvadeza. A própria ideia foi criada por aqueles que
venceram guerras e desejavam pintar suas escolhas erradas como a coisa
certa. Ninguém vai para a guerra ou batalha pensando que é mal.
— Você fala a língua de um filósofo.
— Eu sou apenas uma parteira.
O rosto da Rainha se abriu naquele sorriso irregular novamente. —
Aproxime-se, Sorcha. Este espelho mostrará o futuro.
— Eu não desejo ver meu futuro.
— Eu gostaria de ver.
Sorcha franziu a testa e permaneceu onde estava. — Você quer ver meu
futuro? Por que sou tão importante para a Rainha da Corte Unseelie?
— Veja.
Ela queria. Cada fibra de seu ser gritava para Sorcha olhar para o futuro
e ver o que aconteceria. Quem não queria saber como seria o seu fim? Quanto
tempo ela ainda tinha?
Mas o que ela encontraria? Se ela ficasse em Hy-brasil, sua família
morreria e ela não teria feito nada para evitá-lo. Se ela voltasse para casa sem
Pedra, era provável que morresse da praga do besouro. Havia apenas um final
adequado, e ele estava lentamente saindo de seu alcance.
Sorcha balançou a cabeça. — Não desejo ver o meu futuro. Vou ficar
diante do espelho se você precisar ver, mas não vou olhar.
— Você não deseja ver o fim de sua vida?
— Claro que sim, — disse ela. — Eu quero isso mais do que tudo, mas
também tenho medo disso. Eu faço minhas próprias escolhas e prefiro
acreditar que elas ainda não foram destinadas.
A expressão da Rainha se suavizou, um olhar estranho em um ser tão
monstruoso. Ela ergueu a mão e acenou para que Sorcha avançasse. — Então
irei procurar por você, criança.
Seus passos ecoaram na sala do altar. Cada som constante batia em
sintonia com as batidas de seu coração. Ela fechou os olhos quando o espelho
começou a se mover e a virou de costas.
Até o ar parecia prender a respiração. A Rainha ficou em silêncio
enquanto observava as imagens lançando luz no chão. Elas giravam e se
moviam aos pés de Sorcha e ela as observava com atenção extasiada, mas não
conseguia entender o que significavam.
Uma das filhas engasgou e um corpo grosso se moveu acima
delas. Sorcha ficou parada até que o frio afundou em seus ossos. Seus dedos
do pé doíam, seus dedos tremiam e sua respiração embaçava o ar.
— Então a escolha é sua, — disse a Rainha. — Você é uma mulher
interessante, Sorcha de Ui Neill.
— É uma escolha agradável? — Ela queria perguntar por que estava
fazendo uma escolha. Milhares de razões dançaram em sua mente, mas
nenhuma parecia importante o suficiente para tentar uma Rainha. Claro, até o
bater das asas de uma borboleta pode mudar o tempo.
— É agradável para mim.
— E para mim?
— Eu não te conheço, criança humana, como posso saber o que você
achará agradável?
Sorcha lambeu os lábios. — Posso me virar?
— Você deseja?
— Não.
— Então por que você está perguntando?
— Eu nunca me esquivei de algo que eu temia.
Bater no teto fez as teias de aranha vibrarem. Elas vibraram quando o
grande rei da Corte Unseelie desceu de seu trono. Ele falava muito mais alto
do que sua esposa. Ela rezou para que fosse porque ele não se importava em
ficar quieto ou delicado. Ela tinha a sensação de que estava errada.
Sorcha se virou lentamente, prendendo a respiração com tanta força que
seus pulmões doíam. Ela não iria gritar novamente. Essas criaturas poderiam
tentar assustá-la uma e outra vez, mas ela não gritaria.
Ele deu um passo do teto, as longas pernas estalando ao bater no
chão. Uma armadura cobria os apêndices peludos que se esfregavam com um
som áspero. Como sua esposa, o rei era musculoso demais para ser
atraente. Seu corpo inchado, inchado de carne e força.
— Essa é a garota? — ele resmungou. Sua oitava perna tocou o chão e ele
cambaleou em direção à esposa, esfregando uma perna contra a dela. — Você
descobriu o que precisa saber?
— Eu descobri o suficiente.
— Se me permite — perguntou Sorcha. Sua voz vacilou. — Você vai me
dizer agora porque você me chamou aqui?
— Você vai descobrir em breve. Você é bem-vinda para sair agora, garota
humana.
Sorcha não tinha certeza se deveria. Toda a situação era assustadora, mas
havia algo estranho sobre os Faes.
— Vocês não estão me contando tudo, — ela murmurou. — Por que
vocês estão se intrometendo na minha vida?
— O mestre de sua ilha não sabe que há Unseelie vivendo em sua
casa. Você deve ter cuidado, pois você se importa com eles.
— Quem?
— Oona é seu nome de batismo, e como ela pertence à minha corte, eu
apresento seu nome a você.
— Quem é ela?
— Sua Pixie.
Então, seu nome era Oona. Era um lindo nome para uma bela criatura, e
Sorcha ficou honrada que a Rainha a considerasse confiável o suficiente para
presentear.
— Isso ainda não responde à minha pergunta.
— Não tenho intenção de responder.
— É justo — murmurou Sorcha. — Vou ter que perguntar a Bran se ele
tem alguma ideia.
A rainha congelou e o rei enrijeceu. Ele inclinou a cabeça para o lado e
ergueu um longo dedo para apontar para ela. — Como é esse Bran?
Sorcha apontou para o rosto dela. — Meio corvo, meio homem. Ele tem
penas, um olho de corvo e a perna de um pássaro.
Ecos de risadas vieram de todas as direções do lugar. Eles quicaram no
teto e sacudiram as teias.
A Rainha balançou a cabeça, ainda rindo. — Ah, você conheceu meu filho
mais feio então.
Feio? A realeza na frente dela não era nada bonita. Como Bran poderia
ser considerado o feio?
O rei balançou a cabeça. — Os Unseelie não valorizam a beleza da mesma
forma que os Seelie. Ele é muito humano, muito fraco e só pode mudar sua
forma em um corvo. Desculpa patética para uma criança, mas ele é o mais
novo. Não temos que nos preocupar com ele assumir o trono tão cedo. Vá
embora, humana. Diga ao meu filho para voltar para casa logo. Suas irmãs
sentem falta dele.
Uma das filhas albinas ergueu as mãos como se estivesse
implorando. Essas criaturas eram mesmo capazes de tais emoções? Elas
sentiam falta de sua família ou da maneira como poderiam torturá-los?
Sorcha não planejava ficar e descobrir. Curvando-se tão baixo que sua
testa quase tocou o chão, ela sussurrou: — Foi uma honra, Vossas Majestades.
— Uma honra? — A Rainha fez uma careta. — Oh querida, os Unseelie
não gostam de mentiras. Você pode querer correr, porque meus filhos estão
com fome e seu medo é mais doce do que o vinho.
Sorcha não precisou ouvir duas vezes. Ela contou cada passo enquanto
seguia a Rainha ao caminho de volta para o portal.
Girando, ela desceu as escadas correndo, dois degraus de cada vez. Não
importava que ela pudesse tropeçar e cair. Quebrar seu pescoço seria uma
bênção se isso significasse a liberdade deste castelo infernal.
A respiração entrava e saía de seus pulmões até que ela sentiu o gosto de
sangue. Uma risada estridente a perseguiu, goblins e trolls gritando e gritando
enquanto a rastreavam. Ela voou pelos corredores até não poder mais ouvi-los.
Ela diminuiu o passo, segurando as costelas, pois doíam de tanto uso. Por
que ela sempre usava os vestidos que Pixie deu a ela? Eles estavam muito
apertados!
Oona, ela se corrigiu. O nome de Pixie era Oona.
Ela sorriu com o pensamento. Oona poderia não ficar satisfeita, mas era
um nome lindo e Sorcha nunca o usaria sem permissão. Era o terceiro nome
Fae que ela segurava. Quão sortuda ela era?
A sala do portal permaneceu intacta. O nevoeiro formava redemoinhos
no solo, levantando-se em tentáculos que pareciam mãos procurando
ajuda. Sorcha passou por eles. Ela teve que lembrar que estas eram Terras
Unseelie e não viviam pelas mesmas leis.
Ela não poderia ajudar aqueles que estavam sofrendo sem se condenar
ao mesmo destino.
Sorcha puxou a capa ao redor dela quando o ar frio passou por baixo de
suas dobras. Ela estremeceu e perscrutou a escuridão para encontrar o portal
aquoso, ou até mesmo o menor indício de folhas.
Lá. Nas sombras mais profundas entre folhas e galhos, ela reconheceu
uma parede de pedra familiar.
Afastando a hera e o musgo, ela colocou as mãos contra a superfície de
pedra fria.
— Aí está você, — ela disse. — É hora de ir para casa.
Nada aconteceu. Ela raspou as mãos em todas as bordas, mas não
conseguiu abrir o portal. Nada parecia funcionar, nenhuma pedra preciosa em
uma espada que ela pudesse empurrar, nenhuma palavra sussurrada.
— Oh, o que você fez? — ela sussurrou na noite. — Como vou voltar para
casa agora?
— Portais são mágicos, você sabe — Uma voz familiar ecoou. Profundo
e barítono, ela só tinha ouvido isso uma vez antes.
Sorcha girou nos calcanhares, girando para fitar o Fae Unseelie que
estava atrás dela. — Bran.
— Sorcha.
— O que você está fazendo aqui?
— Eu deveria te fazer a mesma pergunta. Você não sabe que o Outro
Mundo é perigoso para os humanos?
— Eu poderia dizer o mesmo para Unseelie. É pior aqui, pelo que ouvi.
— Ah, há tantas histórias ruins sobre minha espécie. — Ele sorriu, seus
olhos negros dançando para frente e para trás enquanto o olho humano
permanecia preso nela. — Nem todas as histórias são verdadeiras, pequena
humana.
— Você tem sido gentil até agora. — Ela pressionou sua coluna contra a
parede. — Eu pediria que você continuasse a fazer o mesmo.
— Ouvi dizer que você conheceu meus pais.
— E alguns de seus irmãos também. Eu nunca teria imaginado que você
vinha dessa linhagem.
— De onde você acha que eu vim? Um pássaro?
— Certamente, algo que sugere a mesma espécie, — ela rangeu os dentes
cerrados. — Você mentiu para mim. Você não me disse que era um príncipe
Unseelie!
— Eu não sabia que você estava a par de tal conhecimento.
Sorcha piscou em choque, sua mandíbula aberta. — Como você ousa
dizer uma coisa dessas? Você viajou pelo mar comigo! Você me seguiu dos
MacNara e me provocou na frente do Pedra. Eu iria tão longe a ponto de
pensar que você estava atrás dele me movendo para o castelo!
— Você acha que estou cuidando de você, eu me pergunto?
— Por que mais você estaria me seguindo?
— Porque os gêmeos MacNara me pagaram? Talvez eu desejasse me
infiltrar em seu castelo de 'Pedra'. Ou talvez eu quisesse arrastar você aqui para
ser minha escrava. — Ele inclinou a cabeça para o lado. — Existem muitos
motivos e nenhum deles gentil.
— E nenhum em que eu acredite.
— É assim mesmo?
— Você é um homem inteligente demais para ser comprado, mesmo
pelos gêmeos MacNara que parecem ser pessoas inteligentes e
manipuladoras. Você não quer prejudicar Pedra; você praticou com ele como
um velho amigo e o provocou sem piedade. E se você queria me arrastar de
volta para Unseelie com você, por que não o fez? Por que esperar até que sua
mãe me chamasse? — Ela ergueu o queixo, recusando-se a ser intimidada por
este homem sombrio.
— Sempre tão corajosa, — ele sussurrou. — Você é uma pequena
humana notável. Você sabia disso? Poucos ousariam me enfrentar dessa
maneira, mas você nem se mexeu. Você é páreo para ele.
— Para quem?
— Ninguém.
Ela arqueou uma sobrancelha. — Mesmo? É isso que você tem a dizer?
— Ninguém, todo mundo, alguém. — Ele encolheu os ombros. — Há
muitas pessoas de quem eu poderia estar falando. Resumindo, você precisa
voltar para casa antes que ele descubra para onde você foi.
— Pedra?
— Sim.
— Você — ela mordeu o lábio. — Você o conhece?
— Ninguém o conhece.
— Mas você o conhece mais do que a maioria.
— Sim.
— Talvez você possa responder algumas perguntas para mim.
O olho negro de Bran se estreitou. Ele cruzou os braços sobre o peito e o
olho do pássaro a olhou de cima a baixo. Ele a estava medindo ou tentando ver
uma maneira de superar suas mentiras. Finalmente, ele acenou com a mão para
ela continuar.
— Sua mãe me fez olhar na piscina de adivinhação. Havia Faes que os
Seelies usavam como escravos. Marcados, maltratados, vivendo suas vidas
como se não valessem a menor das coisas. Isso é verdade, ou foi algum tipo de
truque Unseelie?
Ele bufou. — Os Seelie gostam de fazer seu povo trabalhar até
quebrar. Eles acreditam em linhagens e poder mais do que respeito. Não os
deixe enganar você. Eles pregam a honra e depois se apunhalam pelas costas.
— Pedra está tratando os Faes da ilha como escravos?
— Você acha que ele está?
Ela ponderou a questão antes de balançar a cabeça. — Acho que não. Não
vi nenhum comportamento que pudesse apoiar tal acusação. Mas eu não o vejo
com frequência, e segredos se escondem nas sombras.
— Eu conheço Pedra bem o suficiente para dizer que ele não os está
tratando como nada. Ele é uma criatura solitária. Raro para um Fae.
— É isso?
— Somos criaturas que gostam da companhia de outras pessoas. Até os
Unseelie gostam da companhia um do outro. Pedra nunca foi assim. Dizem
que ele costumava acampar longe de seus homens no campo de batalha. Ele
foi o primeiro a alcançar as linhas inimigas, e o primeiro que o inimigo
encontraria se viesse procurar durante a noite.
— E agora?
Bran inclinou a cabeça para o lado. — Faça uma pergunta mais direta.
— Ele é o mesmo homem agora que era naquela época?
— Não, mas não da maneira que você pensa. Ele se tornou mais duro e
mais suave com o tempo.
— Como isso é possível? — Ela queria saber a resposta tanto que
queimou em sua barriga.
Ele balançou sua cabeça. — Essa é uma história que não posso lhe
contar. Você deve perguntar a ele se deseja tanto saber disso.
— Como posso perguntar a ele? Eu raramente o vejo!
— Isso pode mudar em breve. — Malícia e conhecimento oculto
brilharam em seus olhos.
— Você sabe algo que eu não sei.
— Eu sempre sei algo que os humanos não sabem. Você é uma coisinha
de sorte por estar vivendo em uma época de mudanças tão florescentes.
A mente de Sorcha correu para acompanhar os Faes Unseelie. Suas
palavras faziam pouco sentido, mas ela sabia que ele falava principalmente em
enigmas. Havia algo que ele não queria dizer a ela. Algo que ela precisava
descobrir por si mesma.
— Você está mentindo?
— Eu não posso mentir.
— Você está escondendo a verdade?
O rosto de Bran se dividiu em um sorriso irregular. Seu olho negro
travou em seu olhar enquanto o outro desviou o olhar. — Os Faes sempre
escondem a verdade. É muito fácil se não o fizermos.
— Eu diria que é muito melhor se você não esconder a verdade. Você
pode obter os resultados que deseja.
— Onde está a diversão nisso? É melhor se o final for escolhido por livre
arbítrio ao invés de nosso próprio projeto.
— Por que se envolver se você não tem um final específico que deseja
ver? — Sorcha balançou a cabeça, sabendo que ele não responderia sua
pergunta. — Você pode abrir o portal, Bran? Eu gostaria de ir para casa.
— Casa? — Ele inclinou a cabeça para o lado novamente. — Curiosa
escolha de palavras.
— Um deslize da língua. Minha casa é com minhas irmãs.
— Talvez agora, mas não por muito tempo. — Ele acenou com a cabeça
para o portal. — Tudo o que você precisa fazer é ver através do encanto, e você
pode ir para casa.
— Como é que eu vou... ah. — Ela puxou a pedra de bruxa de entre os
seios e a colocou contra o olho.
A pedra se transformou em um portal aquoso através de um pequeno
buraco na pedra bruxa. A luz brilhou em sua superfície. A hera além não havia
sido puxada para trás, deixando o quarto obscuro e difícil de ver, mas estava
lá.
Ela sabia que estava.
— Obrigada. — Ela disse enquanto se virava.
Bran havia desaparecido. Não houve tempo para descobrir o que ele
estava escondendo. Ela respirou fundo, acalmou a tristeza inquietante em seu
coração, e deixou as terras Unseelie para trás.
Capítulo 10

O beijo

Deixar o castelo Unseelie era mais difícil do que entrar. O toque frio do
portal causou arrepios na pele de Sorcha. Magias como essa nunca deveriam
tocar um humano. Deslizou ao longo de seu corpo como o toque estranho de
uma pessoa invisível.
Sorcha estremeceu, enervada com a sensação fria e úmida. Acabaria logo,
ou estaria assim que seu pé esquerdo se soltasse. Hera roçou seu rosto até que
ela soltou um suspiro que mexeu com a vegetação.
Ela agitou a mão na frente do rosto, abrindo a cortina de hera e entrando
no quarto encantador.
Nada mudou. Todas as suas coisas estavam exatamente onde ela as havia
colocado. As flores azuis brilhavam com uma luz suave emanando de suas
pétalas na parede oposta. A fonte dos Faes olhava placidamente para longe,
dificilmente comparável à coisa real.
Como ela poderia olhar para este lugar com os mesmos olhos? Esta ilha
era linda, mas as sombras agora se moviam, e a cama parecia uma prisão.
Ela suspirou e soltou o fecho de sua capa. Ela caiu no chão com um baque
molhado, embora ela não se lembrasse de tê-la molhado.
A exaustão a oprimiu. Ela não conseguia se lembrar de uma época em
que não estivesse pairando nos cantos de sua mente como um hóspede
indesejado. Ela nunca se lembrava de ter convidado a sensação de mordida nos
ossos, mas parecia nunca ir embora.
Um som suave interrompeu seus pensamentos. Sorcha não conseguia
identificar de onde veio no quarto. Tudo estava como ela deixou, até as folhas
de esmeralda cobrindo as paredes.
Mais uma vez, o barulho silenciador ecoou em seus ouvidos. Era o som
distinto de tecido deslizando contra tecido. O movimento de um corpo
humano.
Ou talvez de um Fae.
Ela prendeu a respiração e congelou, se mexendo até que o portal não
estava mais em suas costas. O ar estava muito parado, misturado com violência
e agressão. Ela nunca sentiu perigo tão poderosamente.
Seu coração batia. Ela respirou tão baixinho que quase não inalou. Olhos
atentos procuraram a causa do som enquanto ela se perguntava o que a seguiu
até a ilha.
Uma sombra se separou da parede, correndo em sua direção tão rápido
que Sorcha não teve tempo de reagir. Um pilar de escuridão a rodeou. Ela
bateu de volta na parede de pedra, emaranhada de hera em seus cabelos e
ombros.
Sorcha virou a cabeça para o lado e fechou os olhos com força. Ela não
podia, não iria, olhar a morte nos olhos. Respirando fundo uma última vez, ela
sentiu o cheiro de limão, hortelã e uísque.
Pedra?
Sua mão trêmula afastou um cacho vermelho enrolado de seu rosto,
colocando-o suavemente atrás da orelha.
— Onde você estava?
A pergunta reverberou em sua mente, mas ela não conseguia encontrar
as palavras para responder. Suas próprias perguntas dominaram sua
língua. Como ele percebeu que ela foi embora? Por que ele estava aqui? O que
aconteceu enquanto ela atravessava o Outro Mundo?
Ele estava bêbado?
Ele tropeçou, balançando para o lado antes de se segurar com um
antebraço contra a parede acima dela. — Onde você estava?
Novamente, ele fez a mesma pergunta. A raiva tornou suas palavras
duras, mas ela captou os tons distintos de preocupação sob o rosnado. Por que
ele se preocuparia com ela? Ela acrescentou a pergunta a todas as outras que
ela nunca daria voz.
— Terras Unseelie. — Ela sussurrou.
— E por que você não me disse?
— Para quê?
— Orientação. Proteção. Uma resposta para saber se era ou não muito
perigoso para uma mulher humana desarmada e fraca no Outro Mundo?
Sorcha engoliu em seco. — Eu não sabia que poderia precisar de
qualquer proteção. Não havia nenhum ponto em que eu me sentisse em
perigo. Até agora.
— Você acha que está em perigo comigo? — Sua cabeça se inclinou e uma
lança de luz cortou seus olhos. Linhas gêmeas enrugadas entre seus olhos, um
azul vibrante quase brilhando de raiva.
Ela não conseguiu responder. Seu medo atingiu o ar com eletricidade
estática, fazendo os pelos de seus braços se arrepiarem. Claro, ela estava com
medo de Pedra. Ele pairava sobre ela até que tudo que ela podia respirar era
seu cheiro e tudo que ela podia ver era o conjunto poderoso de seu peito em
forma de barril.
— Sorcha. — Ele disse o nome dela como se fosse uma oração. — Você
nunca precisa ter medo de mim.
Ele ergueu a mão e traçou o contorno de seu rosto. Os cristais rasparam
sua testa, passando pela pele sensível de sua têmpora, descendo pelas curvas
suaves de suas bochechas. Ela não conseguia respirar enquanto ele acariciava
seus lábios carnudos.
Ele balançou novamente, os olhos semicerrados em concentração. —
Você é tão falha. Tão diferente do meu povo, que teria esfregado essas marcas
de sua pele há muito tempo.
— Marcas?
— Estas. — Ele tocou as pontas de suas bochechas, sua testa, e o
mergulho de seu lábio superior.
— Sardas, — ela sussurrou. — Nós as chamamos de sardas.
— Eu nunca as vi antes. Os Fae têm pele lisa, como porcelana, como se
um artista os tivesse pintado com um tom. Mas você... você tem tantas cores.
— Cores?
— Seu cabelo, sua pele, até mesmo seus olhos têm manchas verdes, azuis,
amarelas.
— Você notou tudo isso? — Ela não conseguia parar de fazer
perguntas. O choque torceu sua língua, fazendo perguntas que ela não queria
expressar.
— Eu noto tudo que você faz. Você assombra meus passos e meus
sonhos. Você me enfeitiçou, Sorcha, e quero minha alma de volta.
— Eu não sei como devolver para você.
Ele se inclinou mais perto, sua respiração soprando em seus lábios. — Eu
me pergunto se você tem gosto de sol.
— Você está bêbado.
— Sim, eu estou.
Ela não se moveu quando ele se inclinou e a devorou.
Ele tinha gosto de uísque e hortelã-pimenta. Seus olhos se fecharam
enquanto as texturas de sua boca deslizavam contra a dela. Lábios macios,
como veludo, mordiscaram os dela. Ela não conseguia respirar, não queria,
mesmo quando os braços dele deslizaram pela parede e deslizaram ao redor
de seus ombros.
Os dentes mordiscaram seu lábio inferior carnudo. Não, ela percebeu,
não os dentes. A dura ponta do cristal mordendo sua carne inchada enquanto
ele pressionava com mais força.
Ela respirou fundo, surpresa, e ele aproveitou a oportunidade. Sua
língua quente varreu em sua boca, trazendo com ela uma explosão de
sabor. Especiarias, estranhas a seus sentidos, a deixavam bêbada enquanto
suas línguas se enredavam.
Estranho, ela não tinha pensado que seria assim. E então ela não pensou
nada.
Ele a provou, desfez, sussurrou palavras carinhosas que ela não entendia
contra sua boca. Os cristais cortaram sua pele, abrindo seu lábio e derramando
o gosto metálico de sangue em sua boca.
Ele não parou. Ela não queria que ele fizesse isso.
O calor se derramou sobre ela como uma onda. Ela não conseguia
pensar. Ele era tudo e nada, amarrando-a ao chão pelo calor elétrico de sua
boca. Suas mãos deslizaram sobre seus ombros e massagearam seus músculos
até que ela relaxou contra a parede.
— Eu sabia que você teria gosto de luz do sol, — ele sussurrou contra
seus lábios. — Eu soube desde o momento em que coloquei os olhos em você
pela primeira vez.
— Outra falha?
— Inteiramente.
Ele dedicou sua atenção a bebericar de seus lábios. Para lamber, chupar
e saborear cada centímetro que ela permitiria. A respiração quente deslizou
por suas bochechas, cristais frios e ásperos, um nítido contraste com a carne
macia de sua pele.
Dentes preocupararm-se com as pontas sensíveis de suas orelhas. Seus
joelhos ficaram fracos, a boca aberta de prazer, mesmo quando seus olhos se
abriram. Suas terminações nervosas ganharam vida. O calor a percorreu desde
os pontos até a barriga.
— O que... — Ela engasgou.
Um grunhido masculino satisfeito retumbou em seu ouvido.
Suas mãos desceram por seus braços, alisando a pele que ele achava tão
imperfeita. De alguma forma, ela não achou que ele quisesse ser um
insulto. Ela tinha visto os Faes por si mesma, tão perfeitos que pareciam
pedra. Talvez ele tenha visto algo vivo nela. Algo real.
Ela arqueou as costas quando uma das mãos dele percorreu sua
clavícula. Ele mordiscou sua orelha, raspando os dentes e o cristal contra a
carne sensível. As mãos dele viajaram mais longe, os dedos percorrendo o
decote enorme e aberto de seu vestido. Ela pensou que certamente sua mente
iria se quebrar de prazer enquanto as mãos dele passeavam sobre as suaves
protuberâncias de seus seios.
Até que o ar esfriou.
Sua respiração mudou. As rajadas de ar quente se acalmaram para
acalmar as inalações medidas. Ele puxou um longo fio de teia de seu ombro,
os filamentos pegajosos se estendendo por entre seus dedos.
— O que é isso? — ele rosnou. — E você diz que não precisava de
proteção?
— Não é o que você pensa.
— Você mente. — Seus olhos se estreitaram ainda mais, uma besta
totalmente diferente olhando para ela através das janelas de sua alma.
— Eu não falei com ninguém, — ela sussurrou, encolhendo-se contra a
hera. — Pare de me olhar assim.
— Como o quê?
— Como se você quisesse me machucar.
— Eu prometi que não iria machucar você, e vou me manter fiel a esse
voto. Sem mais mentiras, pequena humana. Por que você estava nas terras dos
Unseelie?
Ela engoliu em seco e pensou em mentir. Quanto ela deveria dizer a
ele? A Rainha não iria querer que ela falasse, e a informação que ela guardava
era um segredo. Sorcha ainda não sabia quem havia aberto o portal por este
lado ou se era inteiramente obra da Rainha.
Mas ele saberia se ela mentisse. Ela não estava certa de como os Faes
sabiam, se eles provavam no ar ou podiam ler a linguagem corporal. Se ele
soubesse, continuaria a empurrar até que ela contasse a verdade.
Sorcha nunca foi uma boa mentirosa. — Eu não sei por que eu estava
lá. O portal se abriu deste lado, e havia informações que a Rainha Unseelie
desejava compartilhar comigo.
— Esse portal não pode ser aberto por conta própria.
— Eu não acho que haja algum Unseelie aqui.
Seus olhos escureceram, nuvens de tempestade se formando no azul
vívido. — Oona.
— O que?
Ele não respondeu. O calor de seu corpo desapareceu, deixando-a
tremendo e sozinha.
— Provavelmente é melhor você ir embora. — Ela disse com um suspiro
trêmulo. Mas ela não acreditou nas palavras. Como ela poderia quando seu
corpo tremia de prazer insatisfeito?
Era assim que suas irmãs se sentiam? Certamente não poderiam; elas não
tinham apego aos homens que iam ao bordel.
A memória veio à tona de um homem loiro com os braços em volta de
Briana. Sorcha os pegou em uma alcova fora do bordel, sussurrando palavras
carinhosas, como nunca tinha ouvido antes. A pressão suave dos lábios na
pele, o som de suspiros.
Talvez elas soubessem como era isso, Sorcha pensou. Talvez elas o
tivessem arrancado tantas vezes que se esqueceram de contar a ela.
Ou elas não queriam compartilhar. O momento parecia tão infinitamente
privado que Sorcha não tinha certeza se conseguiria dizer uma palavra a
respeito. Ela guardou a memória em uma parte oculta de sua alma por um
momento em que se sentiu perdida ou desanimada.
Por um único momento no tempo, ela sentiu o que significava ser amada.
Sua mente ganhou vida quando o calor de seu corpo desapareceu.
— Oona! — Ela engasgou.
Ele deixou este quarto com uma intenção clara em seus olhos. A raiva
irradiava de sua pele como um ser físico, seus cristais brilhando de raiva. Pedra
havia prometido que nunca a machucaria, mas Sorcha não tinha como saber se
ele prometia o mesmo aos Faes sob sua proteção.
Ela entrou em movimento, correndo para fora do quarto, balançando-se
sobre o corrimão e descendo as escadas. Não havia tempo para exaustão, sem
hesitação ou segundos pensamentos. Sorcha tinha que avisar Oona, para
expulsá-la do castelo até que ela pudesse descobrir uma maneira de acalmá-lo,
se possível.
Por mais que Pedra conhecesse as famílias de seu povo, ele não as
conhecia bem o suficiente para adivinhar onde elas estavam. A maioria dos
pixies da ilha dormia uns com os outros no jardim de Macha. Eles disseram
que isso os mantinha seguros e protegidos.
Oona não era como as outras. Ela dormia nas cozinhas com os brownies,
para se certificar de que seu domínio estava limpo todas as noites.
Se Sorcha tivesse observado Pedra corretamente, ele iria primeiro para a
gruta das pixies. Então ele iria para a cozinha.
Ela correu de ombro para uma porta, estourando por ela para que ela
pudesse encurtar seu caminho para as cozinhas. As pernas de Pedra eram mais
longas. Ele seria muito mais rápido, mas estava operando através da raiva e
nada mais. Sorcha ainda estava pensando com clareza.
Cômodos cheios de móveis cobertos e madeira estilhaçada cintilavam em
sua visão enquanto ela corria por cada quarto longo morto. Teias de aranha
emaranhadas em seu cabelo e poeira cobriam seus ombros quando ela deu o
último salto e abriu a porta para o calor brilhante das cozinhas.
— Oona, — ela chamou freneticamente. — Oona! Acorde!
Um pequeno monte no canto mudou e a pixie se sentou. Ela não vestiu
seu encanto imediatamente. O rosto redondo não combinava com a pessoa que
Oona escolhera para si mesma. Os cumes altos de sua testa se assemelhavam a
uma folha de carvalho, tons violáceos corando nas pontas altas e descendo
pelos ombros até as asas.
— O que? Quem é?
— Levante-se, Oona! Ele está vindo!
— O que? — A pixie começou a se mover, jogando cobertores no ar e
correndo na direção de Sorcha. — De onde ele está vindo?
— Achei que ele iria para a gruta primeiro.
Um rugido sacudiu a porta, vindo da fonte de Macha.
Oona olhou por cima do ombro. — Você está certa. E agora você sabe que
sou Unseelie.
— Sim.
— Eu não queria mentir, mas há tantos segredos em nosso mundo. A
Rainha queria ver você, e eu não podia recusar.
— Oona, ele está quase aqui! — Sorcha envolveu o antebraço de Oona
com a mão e puxou. — Você está vindo comigo. Eu sei onde colocá-la até que
ele se acalme.
— Não vou colocá-la em perigo.
— Eu sou a única pessoa neste castelo que não tem nada a temer dele, ele
me deu sua palavra. Venha comigo!
Oona olhou para ela em choque. — Ele prometeu o quê?
— Se você não vier comigo agora, eu a carregarei. Mexa-se!
— O mestre nunca fez promessa de proteção a ninguém. Explique-se,
querida.
Sorcha soprou no cabelo. — Oona, eu ordeno que você me siga agora.
Usar o nome da Fae foi duro, mas Sorcha podia ouvir seus passos
batendo em direção à cozinha. Seu tempo era curto.
A coluna de Oona se endireitou e o fogo brilhou em seus olhos. Mas ela
seguiu Sorcha quando ela se virou e correu de volta por onde veio.
Sorcha tentou tornar seu rastro difícil de seguir. Ela as levou por
diferentes seções do castelo, na esperança de que uma longa perseguição
acalmasse parte de sua cabeça. Elas passaram por estátuas quebradas, aranhas
correndo e pinturas rasgadas de Faes que ela nunca conheceria.
— Estamos quase lá, — seu sussurro áspero quase inaudível sobre o bater
de seus pés. — Tão perto, Oona. Mantenha-se.
A Fae correu mais rápido.
Sorcha deslizou em uma esquina, derrapando até que sua coluna bateu
na parede com um baque duro. O ar escapou de seus pulmões, mas ela se
obrigou a continuar. Ela não sabia o que Pedra planejava fazer. O medo nos
olhos de Oona falava alto, e foi o suficiente para ela roubar a Fae.
Seu instinto dizia que Pedra se arrependeria de qualquer julgamento que
fizesse com raiva. Esses Faes dedicaram suas vidas a ele. Eles não eram
escravos, eles não eram criados, e ele não tinha o direito de prejudicá-
los. Mesmo que cometessem erros.
Ela bateu na parede esculpida e pressionou a pedra no punho da
espada. O rangido rangente ecoou. O grito enfurecido de Pedra estava muito
mais perto do que ela esperava.
Sorcha agarrou os ombros de Oona e a sacudiu. — Você me ouça. Há um
banheiro no canto traseiro com uma fonte termal. Entre nas fontes e não saia
até que eu vá buscá-la. Você me ouviu?
— Você está se colocando em perigo sem motivo, querida. Não se
preocupe comigo. Eu vivi uma vida plena.
— E eu gostaria que você vivesse mais. Oona, ordeno que você se
esconda nas fontes termais.
A coluna da Fae endureceu e ela desapareceu no quarto de Sorcha.
— Agora está resolvido. — Ela deu um passo para longe da escultura e a
pedra gemendo deslizou de volta ao lugar. — Vamos lidar com a última parte.
Ela deslizou os dedos ao redor do punho da espada, balançando e
agarrando até que sentiu que cedia. O minúsculo nó de pedra deslizou para
sua mão com pouca reclamação.
— E você vem comigo. — Sorcha a enfiou entre os seios para mantê-la
segura.
Então ela se virou, pressionou a coluna contra a escultura e esperou.
Ela não teve que esperar muito. Ele veio correndo pela esquina como um
touro, as laterais arfando e os cristais lançando luz violeta no chão e nas
paredes.
Ele apontou um dedo e gritou: — Você me desafia?
— Eu desafio.
Pedra caminhou em sua direção, cada passo um movimento deliberado
cheio de agressão e poder. Ela comparou o movimento à primeira noite em que
o viu. Intimidação era o seu propósito, e na primeira noite ela se assustou.
Ela se recusou a se assustar desta vez. Sorcha inclinou a cabeça para trás
e encontrou seu olhar com o queixo tenso. — Eu não vou deixar você chegar
até ela.
— Ela é minha para punir. Uma Unseelie vivendo sob meu teto não tem
o direito de viver.
— Ela não é ninguém além dela mesma. Você não tem o direito de puni-
la por implorar minha ajuda. Se você quer punir alguém, então me puna.
Ele hesitou. — Você?
— Eu entrei naquele portal sem ninguém me mandar. Se você precisa de
alguém para gritar e gritar com sua raiva, então deveria ser eu!
— Você não sabia o que estava fazendo.
— Eu sabia exatamente o que estava fazendo! Fui criada com histórias de
Faes. Deixei ofertas e sacrifícios para seu povo desde que era criança. As terras
dos Unseelie são lendas, e asseguro-lhe que conheço todos os seus perigos. Eu
não comi nem bebi. Falei com o mínimo de pessoas possível...
— Você falou com Faes desconhecidos? — Interrompeu ele.
— Falei com aqueles que eram necessários e Bran me ajudou a voltar. O
que mais você quer, Pedra?
Respirações de raiva expelidas de seu corpo em bufadas curtas. — Você
deveria ter pedido minha ajuda.
— Que você não poderia ter fornecido! Você está preso aqui com o resto
deles.
— Eu teria lhe dado uma arma para levar com você! — Ele gritou
Sorcha correspondeu ao seu tom e gritou de volta: — Eu não teria
usado! Eu curo as pessoas, não as ataco, Pedra!
— Meu nome não é Pedra!
As paredes rangeram quando seu grito estrondoso atingiu as pedras. As
esculturas atrás dela tremeram e o chão tremeu com a força de sua raiva. Ele
se virou, seus ombros tremendo de raiva.
E medo, ela percebeu quando a luz de seus cristais diminuiu. Ele ficou
com medo por ela e esperar que ela voltasse só fez o medo piorar.
A própria raiva de Sorcha diminuiu.
— Então, como você gostaria que eu o chamasse? — ela sussurrou
baixinho enquanto avançava. — Mestre? Rei? Senhor? Não há mais nada para
eu dizer.
— Eu gostaria que você me chamasse pelo nome, se fosse possível.
— E por que não é possível? — Ousando avançar, ela colocou a mão
contra as costas dele. Embora o tecido cobrisse sua pele, os cortes de cristal
eram fáceis de encontrar. Ela deslizou os dedos no vale ferido para mantê-lo
no lugar. — Você já sabe meu nome de batismo.
— Um humano em posse de um nome de Tuatha dé Danann é muito
poderoso.
— Por quê? Você tem medo que eu possa mandar você matar alguém por
mim? Roubar?
— Temo que você me peça para colocar o mundo a seus pés. — Ele olhou
por cima do ombro, olhos azuis queimando através de sua resolução calma. —
E seria muito fácil de fazer.
Ele se afastou dela, cada passo medido como se estivesse tentando não
correr. A mão dela deslizou de suas costas, para fora das ranhuras de cristais
que mordiam seus dedos.
Ela não o impediu, nem tinha certeza de que poderia. A pura força de
seu poder a assustou. Mas foi o terror absoluto de suas palavras que a manteve
no lugar.
Ela pediria pelo mundo?
Sorcha não sabia.
Demorou algum tempo antes que ela voltasse para o quarto. A mente de
Sorcha girava com as possibilidades do que ele quis dizer, o que isso
significava para o relacionamento deles. Isso foi uma declaração de intenções?
Ele sentia algo por ela? Ela sentia algo por ele?
Ela não tinha certeza. Ela sabia que os olhos dele assombravam seus
sonhos, que seu corpo torturado era mais intrigante do que temível. Ela o
queria? A reação violenta de seu corpo ao dele sugeria que sim.
Como isso funcionaria? Ele era muito maior do que ela, com certeza a
esmagaria se ela tentasse ter relações com ele. E uma parte dela questionou se
ela o queria ou a proteção que ele poderia fornecer.
Isso a tornaria uma prostituta como suas irmãs? O pagamento era o
requisito que dividia mulheres fáceis e mulheres de negócios?
Sorcha temia nunca saber. E isso importava? Suas irmãs davam prazer e
garantia para aqueles que não poderiam ter de outra maneira. Se elas
obtivessem prazer em seu trabalho, deveriam continuar. Ela não as julgaria.
Ela puxou a pequena pedra de entre os seios, olhando para a pedra de
mármore esculpida. Sua mente se acalmou, os pensamentos se reduzindo a
uma questão que pairava acima de todas as outras.
Ele teria machucado Oona?
A pedra deslizou facilmente de volta ao lugar, e a porta pesada recuou
na parede. Sorcha ansiava pelo dia em que cessaria o atrito de pedra contra
pedra. Quando tivesse sido usada tanto que a passagem seria suave e
silenciosa.
Ela tirou os sapatos, musgo macio contra seus pés doloridos. Ela não
corria tanto há anos, entre seus passos disparados no castelo escuro e então a
corrida através do portal. Seu corpo não tinha certeza de como lidar com a
descarga de adrenalina seguida por uma exaustão profunda.
No caminho para o banheiro, ela tirou cada peça de roupa. O kirtle
externo caiu no chão, as saias pesadas e cintos segurando cada peça no lugar. A
roupa de baixo grudou em sua pele onde sangue e fluido vazaram por cada
camada de tecido.
Suspirando, ela afastou a hera e encontrou Oona esperando na porta com
uma escova na mão.
— Relaxe, — disse Sorcha. — Sou só eu.
— Oh, graças a Deus, — a pixie deixou cair a escada no chão. — Eu não
teria batido nele, querida. Eu só... eu só...
Sorcha ergueu a mão. — Se a intenção dele era machucar você, então você
tem todo o direito de se proteger. Agora, se você não se importa, estou muito
cansada.
— É claro, querida.
Oona estendeu a mão para as últimas amarras da roupa de baixo de
Sorcha, desembaraçando rapidamente as cordas e retirando o peso do corpo
de Sorcha. Ela entrou na fonte termal, suspirando enquanto seus músculos
relaxavam.
— Você trouxe a água daqui? — ela perguntou enquanto Oona se virava
para guardar as roupas íntimas. — No primeiro dia?
— Não. Não, este é um quarto real. Estes quartos estão fora dos limites
para os Fae inferiores. Não sem permissão ou companhia.
— Mas eu não sou uma Fae superior.
— Talvez você seja — Oona olhou para ela com atenção. — Você tem as
orelhas pontudas, embora muito menores do que qualquer outra que eu já
vi. Tem certeza de que não é uma changeling?
— Minha mãe teria me contado. Ela era uma amiga dos Fae e teria criado
seu filho com orgulho. — Por mais que quisesse ser Fae, Sorcha duvidava que
houvesse o menor indício disso em sua linhagem.
— E você não tem ancestrais que vieram da Colina?
— Não que eu saiba, e nunca tive qualquer influência com os
elementos. A terra é apenas terra, o ar é apenas ar.
— Então você não deve ser Fae. — Oona balançou a cabeça. — Eu não sei
o que você é criança, mas você não é inteiramente humana. Este quarto não foi
feito para criaturas como eu. Diz-se que todas as coisas vivas adoeceriam e
murchariam se não fossem feitas para tal quarto.
— Você tem certeza de que não é apenas um mito?
— A maioria das coisas são mitos, mas há um pouco de verdade em cada
história. A magia aqui considerou você digna de permanecer dentro de suas
paredes. Como, ou por que, não tenho como saber.
Nem Sorcha. Não parecia certo ela ficar em um quarto como este. Era
muito bom, muito bonito, e ela nunca tinha vivido em uma beleza como esta
antes. Por que ela deveria começar agora?
Oona saiu apressada do quarto, murmurando sobre mestres e Faes, e
Sorcha podia ouvi-la abrindo baús para roupas de dormir.
Ela não tinha muito tempo então. Os dedos de Sorcha deslizaram sobre
as pontas de suas orelhas, perguntando-se se talvez ela tivesse um pouco de
Fae nela, afinal. Mas eles não saberiam?
Talvez fosse algo que ela nunca saberia ou entenderia. Sorcha esfregou a
pele com uma escova, as cerdas grossas deixando sua pele vermelha brilhante
e cavando toda a crosta sob as unhas. A água quase não mudou de cor, ela saiu
muito rapidamente pela fenda no fundo.
Oona afastou a hera com uma leve camisola de seda nas mãos. — Venha,
então. Você teve um dia agitado.
— Eu sinto muito. — Sorcha olhou para ela, o cabelo molhado
emaranhado em seus ombros e espalhado na água como um leque. — Eu sinto
muito por ter usado seu nome sem permissão. Eu não queria que você se
machucasse, mas não é desculpa para tratá-la assim. Eu continuo usando
nomes de Faes mesmo quando sei o quão poderosos eles podem ser.
— Não há mal nenhum, criança. — Os lábios de Oona se curvaram para
o lado. — Você salvou minha vida.
— Ainda assim, eu gostaria de dar meu nome em um pedido de
desculpas. Eu confio em você para usá-lo bem.
Os olhos de Oona quase saltaram das órbitas. A camisola caiu de suas
mãos e pousou no chão como uma borboleta morrendo. — Por que você faria
isso? Querida, isso é uma coisa perigosa de se fazer. Você não deve dar seu
nome a nenhum Fae! Nunca!
Sorcha se levantou da água, enrolou um pano em volta do corpo e
estendeu a mão. — Prazer em conhecê-la, Oona. Meu nome é Sorcha de Ui
Neill. E me agradaria muito se você se referisse a mim pelo nome de agora em
diante.
Lágrimas escorreram pelo rosto de Oona. — Eu não poderia. Não está
certo.
— Por favor. Estou tão longe da família e dos amigos, e considero você
tão próxima de mim quanto qualquer outro. Gostaria de ouvir você me chamar
de Sorcha, pois é meu nome de batismo e deve ser falado com frequência.
— Sorcha, — A Fae sussurrou. — Você é o primeiro humano a me dar o
nome.
— Use-o com sabedoria.
— E apenas com amor, — disse Oona. Ela deu um passo à frente e
enrolou outro pano em volta dos ombros de Sorcha, esfregando
rapidamente. — Agora vamos secar você e colocá-la na cama.
— Você quer falar sobre a Rainha?
— Deixe-me cuidar de você. Não desejo pesadelos, minha querida.
Sorcha quase podia sentir a dor da perda. Oona foi banida para cá e
provavelmente nunca mais veria sua família. A determinação definida dentro
de Sorcha ficou ainda mais forte. Ela encontraria uma maneira de mandar
Oona de volta para casa. Para mandar todos para casa.
Eles mereciam ver suas famílias. Eles mereciam ser livres.
Eamonn invadiu a torre mais alta do castelo, a raiva fervendo sob sua
pele. Como ela ousa? Como ela ousava desafiá-lo, em seu próprio castelo, sem
nem mesmo uma pitada de medo em seus olhos?
Ela deveria se preocupar que ele pudesse quebrar seu pescoço lindo. E
ele poderia!
Ele estendeu as mãos, olhando para as palmas que tiraram tantas vidas
em sua longa vida. Ele podia sentir o movimento da carne, o estalo que ecoava
por seus dedos quando uma espinha cedia. Não havia um osso delicado em
seu corpo.
Pelo menos, era isso que ele acreditava.
Mas mesmo com as várias garrafas de uísque nublando sua mente e
julgamento, ele foi gentil com ela. Os cristais em suas mãos não haviam
rompido sua pele salpicada.
Ele balançou a cabeça, balançando a longa trança em sua
espinha. Salpicado não era a palavra certa. Falha, como ele disse a ela, não era
a palavra também. Essas sardas eram estrelinhas cativantes decorando sua
pele como o respingo do pincel de um pintor. Ela era a criatura mais incomum
que ele conheceu.
A voz de seu irmão gêmeo, Fionn, ecoou em sua mente.
— Mas você sempre amou os humanos, irmão.
Eamonn rosnou. — Você não tem lugar aqui.
— Você vai machucá-la, como o resto deles. Essas mãos não eram
capazes de preservar corpos tão delicados antes mesmo de você
quebrar. Arruinado, mutilado, besta que você é.
A velha dúvida filtrou-se em sua consciência. Ele queria ser o tipo de
homem capaz de tocar uma mulher e não se preocupar que ela pudesse
quebrar. Ele queria acariciar a pele macia, apertar e acariciar, mas ele sabia os
perigos que havia naquele caminho.
E isso o enfureceu.
Rugindo frustrado, ele balançou um punho pesado para a cadeira mais
nova em seus aposentos. A madeira estilhaçou-se com o peso do cristal e do
osso. Pequenos fragmentos explodiram no ar, cortando seus antebraços.
A dor agora familiar o forçou a fazer uma pausa e inclinar a mão. A carne
carnuda se abriu mais e os cristais cresceram através dos músculos e da
pele. Eles cintilaram, refletindo a luz como se zombassem dele. Eles eram
lindos, sim, mas eram feios ao mesmo tempo.
Ele baixou a mão com desgosto.
— Esse temperamento tende a te causar problemas.
A mandíbula de Eamonn apertou com a voz familiar.
— Por que você estava em Terras Unseelie, Bran?
— Eu não deveria estar cuidando de sua mais nova conquista feminina?
— Por quê? — Eamonn acrescentou aço a sua voz, não permitindo ao
outro Fae a chance de discutir mais. Bran falava sobre um assunto até ficar com
o rosto roxo.
— Eu tinha negócios lá.
— Você não deveria segui-la.
— Por que não? — Bran saiu das sombras, um sorriso malicioso no
rosto. — Eu faço o que eu quero, Príncipe. Assim como você.
— Você deveria tê-la protegido se estivesse lá.
— Ela estava bem. Gerenciado bem se você me perguntar. A única coisa
que a alcançou foi o portal. — O olho negro de Bran piscou. — E se estamos
sendo honestos, abrir isso sozinha era uma tarefa impossível. Ela não teria
aberto sem nenhum sangue Fae.
— Você não acha que ela tem algum? — Eamonn não tinha tanta certeza.
— Seca como um osso, aquela. Achei que talvez pudesse, mas qualquer
poder teria surgido naquele navio em que viemos aqui. Ela não é Fae.
— Então, qual é a sua explicação para as orelhas?
Bran encolheu os ombros. — Deformação física. Ela é estranha, vou
admitir. Ela sabe como administrar os Fae e sempre diz 'obrigada'. Eu não tive
um agradecimento humano no que parecem séculos.
— Eles se esqueceram de nós. É por isso que saímos.
— Todos menos ela. — Bran acenou com a cabeça em direção aos móveis
agora quebrados. — Eu arriscaria supor que você fez algo de que está se
arrependendo?
— Vá embora, Bran.
— Eu estou aqui agora. Acho que não quero ir embora até o final desta
história. O que você planeja fazer com ela? — Bran caminhou em direção a
uma das espreguiçadeiras, espalhando seu corpo sobre ela sem se importar
com o mundo. Ele apontou para o assento confortável. — Este está fora dos
limites. Quebre os outros.
Eamonn suspirou, a tensão e a raiva dando lugar ao aborrecimento. —
Eu terminei.
— Você diz isso, mas sempre acaba virando a cadeira em que estou
sentado.
— Isso é porque você me irrita muito.
— Eu não sigo suas regras, Seelie. É apenas a maneira como vivo minha
vida.
— E você perde seu tempo me irritando?
Bran chutou os pés no ar, estendendo a mão para uma bebida que sabia
que Eamonn iria compartilhar. — Não é como se houvesse muita coisa
acontecendo na minha corte. E aqui está você, prestes a dar o próximo passo
em direção ao seu futuro.
Eamonn ergueu um copo e o uísque de sua mesa, despejando uma boa
quantidade no cristal. — Você acha que estou à beira de algo? Que outro futuro
eu tenho do que apodrecer nesta ilha?
— Bem, você não tem que ficar aqui. — Bran se inclinou e pegou a
bebida. — Você está apenas escolhendo.
— Isso não é verdade.
O olho do corvo rolou em sua órbita. — Se você não montou essa peça
do quebra-cabeça, não posso fazer muito para ajudá-lo, irmão.
Eamonn estreitou os olhos, olhando para o Fae reclinado. — Você sabe
de alguma coisa?
— Eu sei muitas coisas. — Bran deu um gole no uísque. — Isso é muito
bom.
— E você não vai compartilhar?
— Você já sabe disso, Eamonn, apenas se recusa a admitir que sabe. Use
esse seu cérebro. Se os cristais não afetaram sua cabeça ainda.
Eamonn o olhou por um momento, sua mente girando com
possibilidades até que se fixou na informação que Bran estava usando. Ele
balançou sua cabeça. — Isso foi há muito tempo e não sou mais rei.
— Ah, mas você é o filho mais velho.
— E impróprio para o trono Seelie. — Eamonn estendeu os braços, os
cristais cintilando à luz fraca das velas. — Eu pareço um Fae Seelie? Você
realmente acha que eles iriam me seguir?
— Eu acho que todas as coisas que você costumava dizer eram atraentes
para os Faes que só conheciam a escravidão. Se você continuar sussurrando em
seus ouvidos sobre a liberdade, eles podem apenas seguir você em vez de seu
irmão, que trata seus súditos como gado, em vez de pessoas.
— Ainda há a questão dos Tuatha dé Danann.
Bran esvaziou o resto do copo. — Você acha que isso é um
problema? Eles sempre escolheram você, Eamonn. Você foi o filho favorito
desde o primeiro dia. Ou você acha que seu irmão odiava você simplesmente
porque nasceu com as trevas em seu coração? O ódio é aprendido, Eamonn, e
infeccionou dentro de Fionn por anos antes que ele apunhalasse você pelas
costas.
— Eu teria sido um bom rei, — disse Eamonn. — Mas eu nunca teria sido
um grande rei.
— Os tempos mudam. — Bran pôs-se de pé, circulando o quarto e
olhando as garrafas de cristal na mesa de Eamonn com um olho de corvo
calculista. — O que você vai fazer com a garota?
Eamonn desabou na cadeira restante. — Eu não tenho a menor ideia.
— Mandar ela para casa?
O vidro na mão de Eamonn se estilhaçou.
Bran inclinou a cabeça para o lado. — Improvável então. Bem, se você
não vai mandá-la para casa, então o que você planeja fazer com ela?
— Eu ainda não decidi.
— Eu tenho uma ideia.
— Você? — A cabeça de Eamonn bateu nas costas da cadeira e ele olhou
para o teto. — Por favor, me aconselhe Príncipe Unseelie.
— Lembre-se de como é quando uma mulher quer você. Pode ser muito
bom para você.
— Ela não me quer. Ela está com medo de mim, sim. Mas qualquer outra
emoção nunca passou por ela ao me ver.
— Curioso. Não parecia assim quando você tentou consumi-la.
— Eu o quê? — O rosto de Eamonn ficou vermelho de vergonha e
raiva. — Você estava assistindo.
— Estou sempre observando, — Bran bateu nas penas pretas em volta de
seu olho. — Mas o mais importante, eu pude ver o que você não viu. O álcool
pode turvar sua mente, mas não a minha. Ela quer você, meu amigo. Quase
tanto quanto você a deseja.
— E o que eu faço com isso? Você me pede para planejar a guerra e
depois me distrair com uma mulher! — Eamonn jogou os cacos de vidro
restantes no chão. — Um homem não pode fazer muito, Bran.
— Eu posso ajudar se você quiser. Embora eu prefira muito mais a tarefa
de distrair sua senhora.
Eamonn rosnou.
— Acalme-se. — Bran ergueu as mãos em sinal de rendição. — Eu
juro. Você precisa esperar que seu irmão dê o primeiro passo e, confie em mim,
ele o fará. Por que você acha que eu estava em Unseelie?
Eamonn queria jogar algo nele. — Essa conversa toda foi uma maneira
de você girar em torno do que descobriu em Unseelie? Fale, Fae!
— Ainda não. Quero saber o que você está fazendo com Sorcha primeiro.
— Eu não gosto de você usar o nome dela tão livremente.
— Eu acho que ela é mais resistente do que você acredita. Nenhum
sangue de Fae corre em suas veias, mas há algo mais lá que lhe dá uma espinha
de aço. O que você vai fazer com ela?
— Não sei — gemeu Eamonn. — Dê-me paz e talvez eu descubra!
— Você deu a ela o quarto da rainha, mas não sabe para que a quer.
— Bran fez uma careta. — Você é um homem confuso, meu amigo. Uma
mulher flexível, não querendo menos, a apenas alguns andares de você e você
se esconde em uma torre.
— Você já acabou de comentar sobre a minha vida amorosa?
— Isso nunca vai parar.
Eamonn olhou para o retrato rasgado de sua mãe e rezou por
paciência. Ele nunca foi bom em esperar. O campo de batalha não era um bom
campo de treinamento para paciência. — Bran.
— Bem. Seu irmão está acompanhando você, sabe, e essa garota o
preocupa. Ele acha que uma vida feliz pode forçá-lo a retornar.
— Ele é um idiota.
Bran bufou. — Um tolo que está correto.
— Ela não tem controle sobre minhas ações ou decisões.
— Você deixou esta torre mais vezes desde que ela chegou do que em
todo o seu tempo aqui em Hy-brasil, e está pensando em ir à guerra com seu
irmão.
— Eu considerei isso antes de ela aparecer.
— E agora você tem um significado por trás da ação. Ela ficaria bonita
com uma coroa no topo da cabeça. — Bran fingiu colocar uma coroa no topo
de sua cabeça raspada pela metade.
— Ela é humana.
— O que isso tem a ver com alguma coisa? Pela primeira vez na vida,
desista dessa honra forte e do senso tolo de certo e errado! A guerra está
chegando, quer você escolha ou não. Aproveite seus últimos dias de
liberdade. O derramamento de sangue começará em breve.
As penas do rosto de Bran se arrepiaram e se espalharam por sua
pele. Sua forma mudou, mudando de homem para besta. Ele soltou um grito
estridente antes de se levantar no ar e voar para fora da janela.
Boa viagem, pensou Eamonn. Ele não podia aguentar mais um minuto da
sugestão constante do Unseelie de que ele voltasse para casa.
O que sobrou para ele? Um trono roubado, um gêmeo que o odiava, um
reino que presumia que ele os tivesse abandonado! Pelo menos aqui havia
pessoas para cuidar.
Ele cerrou os punhos enquanto a boca do estômago se contraía. Ele sentia
saudades de casa. Era estranho sentir falta de um lugar tão profundamente que
seu coração doía. Mas aquele lugar não tinha nada da beleza que Tír na nÓg
poderia oferecer.
De pé, ele caminhou na frente do retrato de sua mãe. — Mesmo você não
me quereria em casa. Você, que não fez nada quando Fionn me enforcou na
praça. Nosso próprio povo comemorou por dias enquanto eu pendia, incapaz
de morrer porque os cristais em minha garganta me protegeram. — Ele
apontou um dedo em sua direção. — Você nem mesmo me cortou.
A memória era uma coisa irregular, dura e cortante mesmo depois de
cem anos. Ela tinha lágrimas nos olhos quando seus olhares se encontraram,
mas ela não ajudou seu filho. Seu primeiro filho. Seu amado príncipe guerreiro
que cortou o mundo por ela.
Sua mãe havia mostrado suas verdadeiras cores. Assim como seu pai,
que nem mesmo parecia ver seu filho pendurado em uma corda
desgastada. Três dias. Três dias ele balançou na brisa e suportou as bicadas
intermináveis dos corvos, os gritos dos abutres esperando para festejar.
Ele havia desafiado todos eles.
A morte não viria para ele. Ele não se submeteria àqueles que o
traíram. Eamonn sobreviveria. Ele sempre foi bom nisso.
Fionn o odiava, disso ele tinha certeza. Algo infeccionou nas entranhas
de seu gêmeo e não havia nada que Eamonn pudesse fazer para mudar
isso. Que amor fraternal poderia ter existido, há muito se foi.
Eamonn apoiou os braços na parede ao lado da mãe e deixou que a testa
tocasse a pedra fria. Que escolha ele teve?
Os rostos dos Fae da ilha dançaram atrás de suas pálpebras. Eles foram
banidos por muitas coisas. Roubando de um Tuatha dé Danann. Adorando um
ancestral diferente de seu mestre. Indo para casa para visitar a família quando
deveriam estar trabalhando.
Nada tão sério quanto um assassinato. Eles teriam balançado ao lado
dele na forca se tivessem feito tal coisa.
Não havia propósito para este lugar, a não ser um castigo pior que a
morte. A voz de Fionn ecoou em sua mente.
— Deixe-o apodrecer.
E era exatamente isso que ele estava fazendo. Ele poderia muito bem
cultivar cracas em vez de cristais. Eamonn não estava fazendo nada além de
sentar e esperar que o tempo passasse.
Ele olhou por cima e encontrou o olhar frio de sua mãe. — Estou
voltando para casa, Máthair.

Sorcha serpenteou pelos corredores, torcendo a braçada de lavanda que


carregava em uma coroa roxa. Os brownies estavam ocupados cozinhando e
tinham pouco tempo para entretê-la. Ela tentou falar com um dos selkies, mas
ele teve que ir pescar para reabastecer seus estoques.
Cada dia que passava trazia novas frustrações e novo tédio. Soltando um
suspiro, ela mostrou a língua enquanto terminava o final. Lavanda fazia uma
bela coroa de flores, mas os pequenos botões às vezes caíam antes que ela
pudesse terminar.
Ela cheirou o arranjo antes de vê-lo. Rosaleen sempre procurara mais
alfazema para pendurar em seu quarto. Ela disse que tirava alguns dos cheiros
mais desagradáveis.
Sorcha não teve coragem de dizer que nem mesmo a lavanda poderia
tirar o cheiro da morte. Não era sobre o que Rosaleen estava falando, mas as
lutas de Sorcha eram muito diferentes.
Terminada a coroa, ela a colocou no topo da cabeça e deixou seus cachos
ruivos enrolarem-se nela.
Os sapatos macios em seus pés silenciaram seus passos. Se ela
encontrasse alguém, Sorcha planejava contar a eles que havia se perdido. Na
verdade, ela estava procurando pelo mestre desta ilha. Ele havia desaparecido
depois de uma noite de embriaguez e raiva.
Novamente.
Ela estava ficando cansada de ter que encontrá-lo. Pedra deveria ser
acessível a todo o seu povo, incluindo ela própria. Ela tinha que convencê-lo a
voltar para o continente com ela.
Cada vez que ela o via, sua língua se fechava em um nó. Ela nem havia
feito a pergunta de novo!
Uma parte do castelo estava fora dos limites. Os Faes disseram que ela
fora proibida de entrar na torre oeste. Era o mestre e só o mestre.
Mas ela tinha visto Oona deslizar para as sombras. Ela carregava comida
nos braços, para o próprio mestre, mas ela ainda tinha ido para a torre
oeste. Isso significava que não estava fora dos limites para eles.
Apenas fora dos limites para ela.
Ela colocou a palma da mão na porta de madeira rachada e olhou ao
redor. Ela não podia ver nenhum Fae, e ninguém gritou para ela parar.
— Olá? — Sorcha disse.
Ninguém respondeu.
— Bom o suficiente. — Ela sussurrou enquanto abria a porta.
Uma rajada de ar frio a empurrou para trás. Pétalas roxas se enredaram
em seu cabelo até a cintura e caíram no chão. O cobertor de teias de aranha no
teto se mexeu. Elas quicavam com o peso do ar bolorento e as sombras
dançavam nas paredes enquanto as aranhas fugiam da luz.
Sorcha soltou um suspiro. — Não há nada a temer. As sombras são
apenas isso. Sombras.
Sua própria voz ecoou, distorcida e estranha. Ela estremeceu, mas
continuou.
Ela vagou por um tempo. A torre oeste era muito maior do que ela
esperava. Havia muitas portas no longo corredor na escuridão. Nenhuma
delas abria, não importa o quão forte ela empurrasse.
Eventualmente, ela desistiu de tentar. Ela ficou perto da parede e apertou
os olhos na escuridão para ver para onde poderia ir em seguida.
Lá, à frente, havia uma luz. Obscura e sem fonte que ela pudesse
distinguir.
Sorcha endireitou os ombros e se esgueirou pelo corredor até que
pudesse pressionar a palma da mão contra a porta. A luz estava amarela. Luz
de velas?
Um sorriso se espalhou por seu rosto.
— Peguei você, — ela sussurrou. — Vamos ver o que você tem feito.
Ela testou a porta, uma mão na maçaneta e a outra firmemente contra a
fibra da madeira. Ao contrário das outras, esta porta estava bem
oleada. Silenciosa, escondeu sua presença quando ela o abriu centímetro a
centímetro.
Sorcha espiou pela pequena fenda. Um candelabro brilhava com a luz de
uma dúzia de velas colocadas no topo de uma arandela na parede mais
próxima dela. Havia um bom cobertor de sombras atrás de um pilar. Se ela
pudesse se esgueirar até lá, ele não seria capaz de vê-la...
Bravura, bravura tola talvez, era seu nome do meio. Prendendo a
respiração, ela disparou pela porta e se escondeu nas sombras.
Seu coração batia tão forte que ela tinha certeza de que ele ouviria. Ele
ficaria com tanta raiva se a encontrasse esgueirando-se. Até mesmo seus
criados a repreenderiam por horas se descobrissem que ela havia se infiltrado
naquele lugar proibido.
Sorcha franziu as sobrancelhas. Ela ouviu algum tipo de som. O
movimento do tecido, a exalação de uma respiração, o murmúrio de vozes.
Ele estava aqui?
Ela se inclinou ao redor do pilar. O cômodo era pequeno, até
pitoresco. Flores azuis brilhantes cresciam do chão, estendendo-se até o
teto. Folhas maiores que seu corpo inteiro dobravam-se sobre as gavinhas
grossas e varriam o chão.
No final do cômodo, uma grande pedra apareceu nas sombras. Ela tinha
visto seu tipo antes. Uma pedra sagrada, o triskele esculpido em sua superfície
marcando-o como um objeto sagrado.
Ele se ajoelhava diante dela vestindo apenas uma pequena tanga. Suas
costas eram largas, tantas vezes cortadas que ela brilhava na luz azul fraca. Até
os pés dele estavam quebrados, ela percebeu. A sola de um se abriu e um vale
de cristais violetas dançava abaixo.
Suas bochechas queimaram. Ele segurava as mãos cruzadas diante de si,
a longa trança caindo em suas costas e completamente imóvel.
Ela deveria ir embora. Este era um lugar sagrado e sua intrusão não era
bem-vinda.
A vergonha fez suas palmas suarem. Ela sempre foi uma criatura curiosa,
mas nunca valsou em uma igreja apenas para assistir. Isso era um sacrilégio.
— Avô, — ele murmurou. Sua voz era profunda, como o movimento da
terra no meio da noite. — Nuada Airgetlám, imploro sua ajuda.
Avô? Ela se escondeu atrás do travesseiro novamente e pressionou as
mãos contra o peito. Ele era neto de Nuada Mão de Prata? Não era possível!
— Eu estou perdido. Segui seus caminhos, escutei sua sabedoria e ainda
estou aqui.
A dor em sua voz a fez doer. Sorcha nunca o tinha ouvido falar assim. Ele
era uma pessoa reservada, e ela não ficou surpresa que ele mantivesse seus
segredos por perto.
Seus olhos se fixaram na porta rachada. Ele ficou em silêncio e sua
oportunidade de fazer a coisa certa era agora. Ela poderia escapar, esquecer
que havia se intrometido e dizer a si mesma que havia aliviado a curiosidade
que a consumia.
Mas agora, aqui, ela poderia satisfazer essa curiosidade. Queimava tão
intensamente que seus pensamentos explodiram em chamas.
Ela cerrou os dentes e torceu os dedos. Ela iria se arrepender disso.
Mais alguns momentos, ela disse a si mesma. Ele teria que sair
eventualmente. Sorcha se inclinou ao redor do pilar novamente, observando
enquanto Pedra se inclinava para frente e pressionava a testa contra o chão.
Os músculos fortes de suas coxas se contraíram. Suas costas flexionaram,
apertando em um vale seguindo a crista de sua espinha.
— Eles sabem onde estou. Sempre disse que se eles encontrarem coragem
para lutar comigo, que venham. Meu irmão deve encontrar o homem dentro
dele se quiser me varrer do Outro Mundo. E eu fiquei sozinho.
Ela pressionou o peito contra o pilar. Seus dedos estavam congelando,
mas ela não conseguia se afastar das sombras. Seus olhos permaneceram fixos
em sua figura prostrada.
— Você me criou para ser uma arma. Eu era intocável com sua espada ao
meu lado, e então você me permitiu ser morto pelo meu próprio sangue. Por
tudo isso, eu aguentei. Eu existia. Mas agora, não sei que caminho você deseja
que eu siga.
— Há outra aqui. Uma mulher que sobreviveu à jornada de Ui Neill para
Hy-brasil. Achei tal coisa impossível para alguém tão frágil, e certamente a
marca de seus filhos está sobre ela.
Sorcha prendeu a respiração. Ela queria saber quais segredos ele
guardava sobre sua presença.
— Ela é uma distração de que não preciso. Se desejo estar preparado para
o ataque de meu irmão, devo ignorá-la. Ou talvez mandá-la embora.
— Ele enviou mais homens. Eu os entretive por um tempo na sala do
trono, mas seus olhos vagaram. Eles procuraram o melhor lugar para atacar. A
maneira mais fácil de tirar sangue e atingir meu coração. Tenho certeza de que
eles não encontraram nada.
Ele hesitou, e ela se inclinou para ouvir suas palavras calmas.
— Não tenho medo da dor. Minhas mãos estão manchadas com o sangue
de reis e as cinzas de deuses antigos. Mas temo o que meu irmão possa fazer
com ela, caso descubra sobre sua existência.
— Ela é estranha. Ao contrário das criaturas com as quais estou
acostumado, ou lembro dos Seelie. Frágil e ainda forte. Defeituosa, mas de
alguma forma perfeita e incomumente gentil. Não sei o que você me diria para
fazer, avô.
Sorcha sabia o que queria que Nuada dissesse a ele. Experimente o que
quiser, pois nosso tempo é passageiro.
Seu coração disparou enquanto sua mente brincava com as
possibilidades. Ele não era um homem feio. Os cristais eram incomuns e
perigosos, mas não diminuíam os ângulos severos de seu rosto. Suas irmãs
fugiriam dele com medo.
Sua altura por si só seria um problema. E se ele fosse tão alto, poderia
haver problemas para se encaixar...
Ela inclinou a cabeça para o lado e olhou para ele de cima a baixo. Valia
a pena arriscar. Ele era um homem lindo.
Pedra se sentou de volta, suas costas e ombros flexionados. Sombras
dançavam através dos músculos imponentes, ganhando vida apenas para
desaparecer enquanto ele se mexia.
— Tenho medo de tocá-la com as mãos. Sou um homem inflexível, criado
para fazer coisas violentas. Deitar com uma mulher, ser gentil com uma
mulher, não é da minha natureza.
Seu coração se partiu novamente. Ele realmente acreditava que era
incapaz de ser gentil?
A luz verde gotejava da parte superior do triskele para a parte
inferior. Grandes gotas de fluido esmeralda vazavam das bordas da pedra e
deslizaram para o chão.
— Paz, neto. — A voz era um vinho de mel suave, a reconfortante voz do
vento depois de uma longa jornada para casa. — O caminho do amor não é um
caminho fácil de trilhar. O céu pode tremer e o vento uivar, mas a única pessoa
que pode influenciar suas decisões é você mesmo. O que você sente quando
olha para essa garota?
— É como nada que eu já senti antes.
— Você gosta da sensação?
— Isso me faz sentir fraco, — Pedra rosnou. — Um olhar dela e tenho
vergonha de mim mesmo, das minhas decisões, do caminho que caminho.
— E que caminho é esse?
— Eu caminho para a minha morte. Meu direito de primogenitura foi
tomado, e não permitirei que outro leve o que deveria ser meu.
A luz verde brilhou tão forte que Sorcha teve que se abaixar atrás do
pilar.
A voz de Nuada aumentou: — E de quem é essa escolha, neto?
— Minha própria.
— Você deseja morrer?
— Não.
— Então minha sugestão é que você viva. O quanto você
conseguir. Experimente a vida, experimente coragem e honra de maneiras que
você nunca recebeu quando era jovem. Você ainda é um ser capaz de
brutalidade, mas isso não o define. Os Faes são criaturas infinitas, caprichosas
e voláteis. Já passou da hora de você descobrir outros propósitos para si
mesmo.
— Você aprova?
A risada de Nuada ecoou e a luz verde se apagou. Ela observou o pilar
mais próximo até que a luz desapareceu completamente de sua pedra cinza. Só
então Sorcha espiou além de seu próprio esconderijo e olhou para Pedra.
Ele permaneceu ajoelhado no mesmo lugar, a cabeça pesada. Suas mãos
flexionaram sobre as coxas, mas ele não se moveu. Ele não falou.
Ele não sabia que ela estava ali.
Sorcha se virou e saiu da sala do altar. Ela não tinha certeza se respirou
uma única vez enquanto corria pelo corredor e saindo da torre oeste.
O que ela ouviu?
Ela pressionou a coluna contra a parede e inclinou a cabeça para trás até
que seu cabelo ficou preso nas rachaduras da pedra. O que é que foi isso? O
que ela faria com isso?
Suas palavras ecoaram em seu crânio uma e outra vez. Ela o deixava
fraco.
Isso era uma coisa boa?
Capítulo 11

O Kelpie e o Rei

Sorcha esfregava os olhos, bocejando enquanto Oona a arrastava pelo


corredor.
— Onde estamos indo?
— O mestre pediu por você, querida.
— O mestre? — Sorcha perguntou. — Por que ele estaria perguntando
por mim tão cedo?
— Não cabe a mim dizer.
— Você sabe?
— Não tenho a menor ideia! É simplesmente uma coisa adorável que ele
tenha pedido por você. Ele não pede por ninguém.
— E aqui eu pensei que isso poderia ser um pouco assustador.
Sorcha não sabia o que pensar enquanto caminhava pelos corredores com
nada além de sua camisola de algodão desbotada. Seu cabelo estava preso em
todas as direções, cachos criando um ninho de cabelo que dificilmente saltava
enquanto ela se movia. Dormir sempre significava que ela tinha que escovar a
massa na altura da cintura pelo menos cem vezes.
Ela passou mais horas do que podia contar domesticando a fera de seus
cachos. Era ainda pior quando era curto, ou ela teria cortado o crânio.
— Espere, espere — resmungou Sorcha enquanto torcia o braço. — Estou
mal vestida para me encontrar com Pedra.
— Pedra, não é? Você deu a ele um apelido?
O brilho nos olhos de Oona a deixou inquieta. — Eu não vou chamá-lo
de mestre. Mas não é apropriado encontrá-lo em minhas roupas de dormir!
— Oh, Faeries não têm as mesmas sensibilidades delicadas que os
humanos. Você está bem como está.
— Eu certamente não estou!
— Não importa, se voltarmos agora, vamos nos atrasar. E posso
prometer a você, o mestre não vai gostar de nós atrasadas!
Sorcha soltou um suspiro para agitar o cacho na frente de seus olhos. —
Por que eu deveria me importar com o que perturba o mestre?
— Ele tem sido tão bom com você ultimamente, querida! Você deve ser
gentil em troca!
— Ele tem sido gentil? — Ela vasculhou seu cérebro, tentando se lembrar
até mesmo do menor sinal de bondade que ele tinha mostrado a ela
ultimamente. Mas por mais que tentasse, ela não conseguia se lembrar de tê-lo
visto. — Eu não tinha percebido.
— Você não percebeu as margaridas ao lado da sua cama?
— Essas eram da Boggart.
— Nem os doces que são muito melhores do que a cozinha já fez antes?
— Você estava experimentando novas receitas. Eu vi você assá-las!
— Havia muito mais vestidos em seus baús de roupas do que eu me
lembrava!
Sorcha encolheu os ombros. — Eu encontrei outro baú na cabana da
bruxa que era do meu tamanho. Não consigo ver como o mestre tem sido
gentil. Você não está ajudando, Oona.
— Se você apenas olhasse, poderia ver que ele teve uma participação em
tudo isso.
— Estou vendo muito bem — ela se abaixou para passar por baixo de
uma viga suspensa baixa em que Oona caberia facilmente. — Mas ele está se
escondendo de novo.
— Oh querida, ele nunca está se escondendo. Ele está apenas se
certificando de que você está confortável de todas as maneiras que pode.
— De alguma forma, eu duvido disso. — Ela resmungou.
Oona empurrou-a em um canto, através de um cômodo que ela não
reconheceu, e saiu por uma porta lateral do castelo. Sorcha se virou, as mãos
nos quadris.
— Eu nem sabia que aquela porta existia! — Como ela poderia? Depois
de fechada, ela se misturava à pedra gasta. — Estranho.
— É isso? — A voz profunda de Pedra viajou como um toque físico por
sua espinha.
— Oh! — Sorcha girou, pressionando a coluna contra a parede fria do
castelo. — Eu não sabia que você estava aqui.
— Obviamente, — ele disse enquanto saía das sombras. Calças pretas
cobriam suas pernas, seu manto escuro sempre presente cobrindo sua forma e
se misturando às sombras. — Embora alguém implore para entender por que
você não estaria procurando por mim? Oona deve ter dito que eu pedi sua
presença.
— Ela disse que você me chamou. — Sorcha ergueu o queixo para o
alto. — Não gosto de ser convocada e arrastada para fora da cama.
Seu olhar baixou. O toque ardente de um olhar tão brilhante fez seus
joelhos fraquejarem e suas mãos se agarraram à parede para se apoiar. Ele
parecia poder ver através da camisola de algodão grosso. Mostrava seus
tornozelos, o que era mais do que suficiente, mas de alguma forma parecia que
ele podia vê-la inteira.
Sorcha a puxou mais para cima no pescoço. — Por que você queria me
ver?
— Achei que talvez pudéssemos compartilhar o café da manhã.
— Café da manhã? E eu não consegui me vestir para fazer isso? — Ela
estremeceu. — Está quase na hora da primeira queda de neve.
— Eu ficaria feliz em assumir a culpa por seus arrepios, se fosse minha
decisão de não permitir que você vestisse mais roupas. — Sorcha observou
com olhos arregalados enquanto ele tirava a capa dos ombros e a estendia para
ela. — Se me é permitido.
— Tão cavalheiresco. — Ela comentou.
Os cristais que marcavam seu rosto haviam perdido muito de sua
estranheza. Ela agora o via, o homem sob as cicatrizes e maldição cruel. Ainda
assim, ela quis estremecer quando viu o novo corte ao longo de sua mandíbula.
Ela varreu a capa sobre os ombros, seu calor persistente envolvendo-
a. Ela inalou e sem pensar deixou escapar: — Por que você sempre cheira a
hortelã?
Sua risada assustada foi um bálsamo para sua alma com saudades de
casa. — Por que você pergunta?
— Não achei que fosse um traço de Tuatha dé Danann. Bran não cheira
a hortelã, embora eu acredite que ele seja da mesma espécie que você.
— Você acha que Bran e eu somos iguais? — A sobrancelha não mantida
imóvel por cristais arqueados.
— Bem, sim. Embora ele tenha mais deformidades físicas, parece que
você é semelhante em estrutura e constituição. Você não é um Fae menor.
— Astuta. Você percebe coisas que a maioria dos humanos não notaria.
— Por que você cheira a hortelã?
Ele riu novamente. — Você não está deixando isso passar, não é?
— Devo ter minha curiosidade satisfeita.
Ela viu quando ele estendeu o braço para ela segurar. Estranho, ela
pensou, que ele pudesse balançar tão rapidamente de um touro furioso a um
cavalheiro bem criado. Ele teria que trabalhar pelo perdão, e um simples gesto
de gentileza não seria suficiente. Sorcha arqueou a própria sobrancelha.
— Eu darei a você sua resposta, — ele concordou, — se você caminhar
comigo.
— O que aconteceu com o café da manhã? — ela perguntou enquanto
deslizava a mão sobre seu antebraço. Cristais batiam sob o tecido de sua camisa
branca esvoaçante.
— Você parece menos inclinada a comer.
— Raramente perco uma refeição. Eu não diria não à boa comida, mesmo
que a companhia ainda possa azedar meu apetite.
Uma gargalhada ecoou em seus ouvidos enquanto ele a guiava para fora
do castelo. — Você pensa muito pouco de mim, não é?
— Pelo contrário. Tenho muito apreço por você e fico desapontada
quando você não vive de acordo com meus padrões.
— Ah, e quais são esses padrões?
Eles pisaram em um caminho de terra que os conduzia em direção ao
oceano. O ar frio do outono atingiu suas bochechas e fez seu nariz ficar
vermelho. Esta sempre foi sua temporada favorita em Ui Neill. A grama
acabaria ficando marrom, as folhas flamejantes da mesma cor de seu
cabelo. Embora ela sentisse falta do verão, o outono sempre teve um lugar
especial em seu coração.
Há quanto tempo ela se foi agora?
Ela piscou as lágrimas repentinas em seus olhos e forçou um sorriso. —
Se eu te contasse meus padrões, você certamente tentaria ao máximo alcançá-
los. E então, como eu encontraria o verdadeiro você?
— O verdadeiro eu?
— Você não é o homem aterrorizante que se retrata como.
Os músculos sob sua mão se contraíram. — Por que você diz isso?
— Oona disse que você tem me deixado presentes. — Foi a única
desculpa que ela conseguiu pensar em dizer. Sorcha não acreditava que fosse
ele quem os havia deixado em primeiro lugar. Boggart e os outros brownies
eram muito amáveis. Eles gostavam de qualquer desculpa para vê-la feliz.
— Sim, as margaridas são difíceis de obter nesta época do ano.
Ela parou, tão assustada que seus pés se esqueceram de como se
mover. Sorcha olhou para ele boquiaberta. Ele fez uma pausa quando a mão
dela escorregou de seu braço, olhando para ela com uma expressão
questionadora.
— Isso foi você? — ela sussurrou.
Ele enrubesceu. — Vamos. Se chegarmos atrasados, você vai perder.
— O quê?
— Sua surpresa.
— Achei que fosse apenas café da manhã!
— É um pouco mais do que isso. — Ele balançou a cabeça e estendeu o
braço novamente. Obviamente impaciente, ele esperou que ela decidisse.
— Eu... — ela olhou para o braço dele e de volta para o rosto dele. — Por
que você está fazendo isso?
— Achei que isso seria bastante óbvio. — Seu olhar mergulhou em
direção à boca dela, os olhos azuis brilhando com uma emoção que ela não
podia - não queria - nomear.
Sorcha não conseguiu responder. Em vez disso, ela estendeu a mão e
segurou o braço dele novamente. Seus dedos deslizaram sobre as saliências e
vales escarpados, calosidades farfalhando sobre o tecido de seda. Ambos
estremeceram com o contato. Se ele perguntasse, ela diria que era o frio.
Ele não perguntou.
Eles vagaram pelos campos enquanto o sol ficava rosa no horizonte. Os
pássaros acordaram, cantando suas canções matinais uns para os
outros. Embora frio, era uma manhã clara, sem uma única nuvem no céu.
— Depressa. — Ele murmurou.
Eles ganharam velocidade, escalando rochas e algas marinhas. Ele a
segurou firme em cada pedacinho de sua jornada, nunca a deixando escorregar
ou cair na areia.
Suas impressões de mãos queimavam em seus lados, mesmo quando ele
não a estava tocando. Sorcha ficou maravilhada com a força dele. Ele poderia
levantá-la sem parecer cansado ou mostrar qualquer tensão. Ambas as mãos
poderiam cobrir sua cintura.
Como ele pode ser tão forte? Como era possível que tal criatura existisse
e ainda assim tantos humanos não soubessem que eles estavam lá?
Ela balançou a cabeça e puxou-se para uma inclinação
rochosa. Recuperando o fôlego, ela se virou para olhá-lo enquanto ele erguia
seu corpo sobre a pedra para se juntar a ela.
— Onde agora?
Ele apontou para trás dela. Inclinando a cabeça, Sorcha se virou e
engasgou.
Uma cachoeira caía de um penhasco rochoso em uma vasta piscina de
água. O encanto a escondeu de sua vista até que ela quase caiu na borda. Ela
nem tinha ouvido o estrondo da água batendo no chão. A espuma branca
borbulhava onde a cachoeira se juntava à lagoa.
Grandes pedras se projetavam para o céu, musgo crescendo em suas
superfícies de granito. Ele se estendia até onde seus olhos podiam ver. E na
base, cavalos brancos batiam os pés nas ondas da água e balançavam a cabeça.
Ela nunca tinha visto nada parecido antes.
— É lindo. — Ela sussurrou.
— Achei que você gostaria.
— Eu gosto. É uma joia rara em um mundo que poderia usar muito mais
beleza.
— Fica melhor, — ele murmurou em seu ouvido. — Quanto você confia
em mim, Sorcha?
— Muito pouco.
Sua risada dançou através de sua pele em bolhas de sensações. — Ah,
você deve fazer melhor do que isso, moça. Quanto você confia em mim?
— O suficiente.
— Feche seus olhos.
Ela enrijeceu, mas obedeceu. A curiosidade sempre a colocara em apuros
e ela não iria recuar agora. Além disso, parecia que ele era muito mais
interessante do que aparentava.
Estranho, mas ela não tinha pensado que um Fae pudesse capturar sua
atenção tão completamente. Havia muitos homens em sua cidade, mas
nenhum deles era tão intrigante. Tão estranho. Tão incomum.
As palavras soaram em seus ouvidos. Claro que a filha da bruxa
estranha, a parteira que pensava que era mais, se apaixonou por um homem
impossível.
Seus braços a envolveram, o peito pressionado contra sua coluna. Ela se
moveu para frente e para trás com cada grande inspiração, balançando nas
ondas que ele mesmo criou.
Ela engasgou quando os dedos dele traçaram o contorno de seu
queixo. Delicadamente, oh tão delicadamente ele a tocava. Como se ela
pudesse quebrar com apenas a respiração de seus lábios.
Os dedos dele demoraram-se no impulso teimoso de seu queixo, unindo-
se para espalhar em seu lábio inferior carnudo. O toque da borboleta percorreu
suas bochechas, seus polegares ancorados em sua mandíbula.
O menor toque farfalhou sobre suas pálpebras.
— Seus cílios parecem penas, — ele sussurrou em seu ouvido. — Tenho
muito pouca poesia para mulheres como você. Não posso jamais comparar seu
corpo a uma obra de arte, ou cantar canções de amantes em um bosque
escondido. Minhas experiências limitam minhas palavras e talentos.
— Eu nunca quis poesia, — ela disse com um suspiro suave. — Eu só
queria um homem que pudesse me ver como eu sou.
— Então abra os olhos, Sorcha de Ui Neill. E veja o mundo como ele
realmente é.
Ela piscou, abrindo os olhos como se nunca tivesse visto o sol. E ela já
tinha visto?
O véu do mundo se estilhaçou através da pomada que ele pressionou
contra suas pálpebras fechadas. As cores eram de repente muito mais. Os
cavalos brancos desenvolveram crinas compridas e água pingava de seus
focinhos espumantes. Os dedos dos pés alados batiam no chão, suas caudas
balançavam para frente e para trás.
O braço dele em volta da cintura dela ficou mais sólido de repente. Mais
real. Os cristais eram mais do que apenas pedra, eles estavam imbuídos de
magia que ela podia ver como uma luz cintilante dançando sobre sua pele.
— Oh, — ela sussurrou. — O que você fez?
— Eu abri seus olhos. — Ele a empurrou para trás, segurando-a contra
seu peito e deixando-a olhar sem se preocupar com o equilíbrio ou medo de
cair. Ele abriu os olhos dela para o mundo que ela nunca tinha visto.
— Eu não tinha ideia de que tudo isso estava aqui.
— Encantos são uma coisa estranha. Os Faes o colocam em objetos do
dia-a-dia, mesmo sem perceber o que fazem.
Um dos cavalos balançou a cabeça, olhando para eles com olhos verdes
escuros.
— Kelpies? — Ela perguntou.
— Sim.
— Eles não são perigosos?
— Não para mim.
— E para mim? — Ela inclinou a cabeça para trás, erguendo os olhos para
captar sua expressão.
Ele olhou para ela. Suas sobrancelhas se suavizaram e seus lábios se
curvaram em um sorriso suave. Os cristais estragando seus olhos, lábios e
crânio ficaram mais bonitos com sua nova visão.
— Nunca para você. Não enquanto eu estiver ao seu lado.
Ela sentiu seu zumbido baixo contra sua espinha. Não era bem uma
música, nem ela achava que ele tinha voz para sustentar tal melodia, mas um
estrondo que vinha do fundo de seu estômago. O kelpie mais próximo deles
ergueu a cabeça.
Ele se aproximou, sacudindo a cabeça molhada e pingando. Algas
marinhas emaranhadas em sua crina e espuma saía de suas narinas toda vez
que ele bufava.
— Você já quis tocar em um kelpie? — Ele perguntou.
— É perigoso. Eles vão arrastar humanos para o fundo do oceano e afogá-
los.
— Mas você já quis tocar em um?
— Sim, — ela respondeu. — Sem dúvida, sempre me perguntei como eles
se pareciam.
Ele deu um passo à frente, deslizando os pés sob os dela até caminhar
para os dois. O braço dele em volta da cintura dela era reconfortante e forte. —
Então, vamos cumprir esse desejo.
O kelpie sacudiu a cabeça enquanto se moviam, observando cada
contração, cada passo, cada respiração que Sorcha dava. Ignorou Eamonn,
talvez a única criatura existente capaz de ignorar os cristais e as bordas
denteadas. Sua cabeça balançou quando ela se aproximou, um estranho brilho
translúcido se espalhando por seu corpo.
— O que é que foi isso?
— Isso é o que um encanto parece para um Fae.
— Que? — Parecia uma bolha esticada na pele do kelpie. A luz refletida
na superfície em arco-íris. — Mas é tão lindo.
— Você achou que não seria? — A mão dele deslizou sob o braço dela,
guiando-o no ar. — As coisas enganosas nem sempre são feias.
— Não deveriam ser?
— Não necessariamente. Às vezes, escondemos nosso verdadeiro eu
para poupar os humanos do terrível dano de nossa aparência.
Sorcha olhou para o kelpie, vendo os estranhos pés palmados, a pele
escamada, os pelos de algas marinhas e não se encolheu. Ela podia entender
como alguns humanos poderiam ter medo disso. As lendas diziam que era
perigoso, e provavelmente era. Era diferente, desconfortável mesmo estar por
perto.
Mas era isso que o tornava tão adorável. Sorcha era uma esquisitice em
sua cidade e sabia como as aparências enganavam.
Ela saiu do calor reconfortante de Pedra. Sua camisola grudou em sua
pele enquanto a névoa se agarrava ao tecido encharcado. A capa pesava sobre
seus ombros, mas não diminuiu seu ritmo determinado.
Sua palma encontrou o focinho frio e úmido do kelpie. Ele bufou, bolhas
espumando entre seus dedos.
— Olá. — Ela sussurrou.
Ele inclinou a cabeça para olhar para ela. Um fio de alga marinha caiu
em sua testa. Sorcha não hesitou, ela o afastou e passou a mão nas escamas
úmidas.
—Pronto. Agora você pode me ver.
A voz de Pedra retumbou: — Eu nunca vi um humano tratar as Faes tão
gentilmente.
— Eu nunca vi um humano tratar os Faes como qualquer coisa. — Seu
coração se apertou. — Esquecemos o que significa estar conectados à terra, às
ondas, às criaturas que cuidam de todas essas coisas.
— É por isso que desaparecemos de seu mundo.
— E eu espero que você saiba que sua espécie faz muita falta. — A pele
dos kelpies era levemente parecida com a de uma cobra, embora fosse fria e
úmida. Sorcha não conseguia parar de acariciar a criatura nem parecia querer
que ela parasse. Cada vez que ela puxava a mão, ele balançava a cabeça.
— É assim mesmo? — A areia colou em seus pés enquanto ele se
afastava. Sorcha rastreou os sons de sucção nas rochas onde ele se
estabeleceu. — Não vejo sinais de que os humanos se lembrem de nós.
— Mitos e lendas nos ensinam lições. Contos de sua espécie assustam
crianças, e não posso dizer quantas pessoas pensaram que seu bebê era um
changeling. Eles se lembram de vocês e culpam os Faes por muitas coisas que
são sua própria culpa.
Sorcha não conseguia mudar a opinião das pessoas tão obstinadas em
seus caminhos. Ela queria, mas também queria permanecer livre de fogo.
— E você se manteve fiel aos velhos hábitos?
O kelpie bufou em sua mão e se virou para dar as costas. Ela sabia o que
queria e balançou a cabeça. — Não, meu amigo. Não tenho desejo de visitar a
terra sob as ondas. Volte com os outros.
Sorcha deu um tapinha nas costas largas e caminhou em direção às
rochas planas em que Pedra estava sentado. A água ainda não os espirrou,
embora não tivesse importância. A água já pesava em seu vestido.
Tremendo, ela enfiou as pontas de sua capa sob as pernas. — Minha mãe
seguia os velhos hábitos. Ela me ensinou como é importante deixar leite no
parapeito da janela, oferendas nos santuários escondidos da floresta e sempre
respeitar o caminho dos Fae.
— Mulher inteligente, — disse Pedra. Seus olhos permaneceram
treinados nos kelpies fuçando nas águas paradas da lagoa. — Quem dera que
os outros ouvissem sua sabedoria.
— Eles pensaram que ela era uma bruxa porque coisas estranhas
aconteciam ao seu redor. Os Faes ajudavam quando podiam. Eu não acho que
eles pretendiam fazê-la parecer suspeita ou estranha, eles só queriam ajudar.
— O que aconteceu com ela?
Sorcha estremeceu de novo, apoiou o queixo nos joelhos e suspirou. —
Eles a queimaram na fogueira por adorar demônios. Ela levou quase uma hora
para queimar porque estava tão nublado que eles tiveram que acender a pira
indefinidamente. Eu tive sorte que eles não sentiram vontade de queimar uma
criança naquele dia.
Seus olhos brilhantes fixos nos dela. — Eles queimaram uma favorita dos
Fae?
— Eu não acho que ela foi favorecida. Apenas era aquela que reconhecia
que nosso mundo nunca seria o mesmo se ela desistisse de suas crenças.
— E por isso, eles a queimaram. — Pedra balançou a cabeça. — Seu povo
é bárbaro.
— Existe bondade até mesmo nos lugares mais sombrios. Meu pai me
arrancou da minha aldeia e me trouxe para casa. Ele me tomou como filha,
disse às filhas que eu era igual a elas. Pessoas como ele existem, mas é tão fácil
focar nas coisas ruins.
Pedra grunhiu. — Você tem uma maneira única de ver o mundo.
— Como assim?
— Você transforma até coisas negativas em coisas positivas. Você se
recusa a pensar mal de qualquer pessoa, mesmo daqueles que a
prejudicaram. Eu nunca vi tal criatura.
Sorcha se mexeu, a névoa passando por seu rosto em pequenas picadas
geladas. — E você? Como você teria lidado com uma mãe morta e um povo
que o traiu?
Ele reagiu como se tivesse sido atingido. Seu olhar se desviou do dela, os
punhos cerrados de raiva repentina. Os músculos de sua mandíbula
trabalharam. — Vingança.
— Vingança? — Sorcha balançou a cabeça. — Que bem isso faria?
— Acho que eliminar aqueles que o prejudicaram tende a acalmar a alma.
— Não pode acalmar a alma em nada e até mesmo sugerir isso é cruel. As
implicações da vingança são que nenhuma misericórdia será mostrada.
— Você teria misericórdia de quem matou sua mãe?
— Você tem experiência com isso, — disse ela. Seus olhos procuraram os
dele em busca da verdade e encontraram uma dor persistente que ela
reconheceu. — O que aconteceu com você?
— Os Fae não são criaturas amáveis. Não permitimos que a fraqueza
apareça entre nosso povo.
— Os brownies aceitaram Boggart de volta à família de braços
abertos. Mesmo depois que ela caiu de suas fileiras e voltou com o rabo,
literalmente, entre as pernas. Diga-me novamente, Pedra, que seu povo não
permite fraqueza.
O suspiro áspero que balançou seus ombros puxou as cordas de seu
coração. — Os Tuatha dé Danann não permitem fraqueza. Os Fae menores são
muito mais... — ele fez uma pausa, parecendo lutar pelas palavras.
— Mais...
— Gentis, — ele repetiu com um aceno de cabeça. — Sim, eles são
capazes de perdoar, o que é mais do que posso dizer do meu povo.
— Eles podem realmente não perdoar? Ou eles optam por não fazer?
Sua mão tocou a ferida furiosa de cristais que se enrolavam em seu
pescoço. — Eu não tenho uma resposta para essa pergunta, Sorcha.
Ela não conseguia parar de olhar para sua garganta. As marcas eram
muito familiares, mas ela não conseguia identificar o que poderia ter causado
tal ferimento. Ela tinha visto um homem quase decapitado uma vez, sua
família o trouxe até ela na esperança de que ela pudesse ajudar. Não havia
nenhuma maneira possível para ela trazê-lo de volta. Mas essas marcas não
eram isso.
A memória veio à tona de pele vermelha brilhante, hematomas
espalhados em gavinhas e os olhos vazios de um ladrão que estava no lugar
errado na hora errada.
Sorcha era muito jovem para entender que o enforcado estava morto. Ela
correu pela multidão e tentou ajudá-lo a se levantar. Os suspiros da multidão
sempre a assombrariam, ainda mais do que os olhos mortos do homem.
Ela ficou de joelhos, virando-se para Pedra com o olhar fixo em seu
pescoço. Ela deu-lhe tempo para recuar, para afastar a mão, para dizer-lhe para
parar.
Ele não fez isso.
Seus dedos pousaram na superfície fria dos cristais. Aquelas eram mais
lisas do que as outras, como as gemas polidas de uma coroa. Ela mergulhou os
dedos na fenda. Magia, tão fria que queimava, formigava sob suas unhas
enquanto ela seguia a linha raivosa até a nuca dele.
— Esta foi uma das primeiras. — Ela sussurrou.
— Como você sabia?
— As pedras parecem velhas.
— Desgastada pelo tempo e pelos elementos.
— Eles o enforcaram, — observou ela. — Eu reconheço essas marcas,
embora eu não tenha juntado as peças até agora. Como você sobreviveu?
Sua enorme mão tocou logo abaixo da dela, tocando onde a pele
encontrava a rocha. — Eu não pensei que eu iria. Os cristais impedem que
qualquer coisa me mate. Fiquei pendurado lá por três dias antes que eles
finalmente me cortassem.
— O que você fez?
— Eu existia.
Sorcha balançou a cabeça. — Certamente era mais do que isso? Viver não
é razão para matar alguém.
— Era por minha família.
— Família? — O choque sacudiu seu corpo até que ela bateu de volta nos
calcanhares. — Sua família fez isso?
— Eu te disse, os Tuatha dé Danann não perdoam fraqueza.
— Fraqueza? Como isso é uma fraqueza?
Enfurecida de repente, ela avançou novamente. Seus dedos traçaram as
bordas irregulares de cristal que dividiam o rosto dele. Ela tocou a linha
superior na borda de seu crânio raspado. — Esta é a marca de um homem
valente que suportou muitas dificuldades.
Seu dedo desceu para descansar um pouco acima de sua testa, — E esta
é o início de uma jornada. — Ela rastreou seu olho e hesitou na elevação de sua
maçã do rosto. — A marca da autodescoberta. — Para seu lábio, onde o cristal
tornava difícil para ele sorrir ou falar. — De bravura. — O polegar dela tocou
seu queixo, — De orgulho teimoso.
Ele riu, — Teimoso?
— Eu reconheço falhas familiares.
— Sim, você certamente é teimosa, pequena humana.
— Tanto que me recuso a desistir de levar você de volta comigo. Eu tenho
que salvar minha família, Pedra.
Ele rosnou, e ela gritou quando seus braços a envolveram e a ergueram
em seu colo. Rodeando-a com cristal e o aroma de hortelã, ele olhou
fixamente. — Você se recusa a desistir desta maldita aventura?
— Não é maldita. Macha me enviou ela mesma! Eu fiz um acordo,
Pedra. E eu não acho que ela vai me deixar desistir tão cedo.
— Macha, — ele resmungou. — Ela é sempre intrometida. Muito
interessada na humanidade, se você me perguntar.
— Eu não perguntei.
— Você não deveria ter feito um acordo com Macha.
— Foi a única maneira de salvar minha família. — Ela estendeu a mão e
segurou o lado bom de seu rosto, deixando as bordas cruas livres para seu
olhar. — Não vou me arrepender de fazer esse acordo, porque me levou a
conhecer as pessoas mais mágicas, uma terra maravilhosa, um lugar encantado
repleto de todas as delícias que eu nunca teria visto de outra forma.
Ele inclinou o rosto na palma da mão dela. A luz brilhou nas bordas dos
cristais e quase a cegou. — Estou feliz que você se lembrará deste lugar com
carinho.
— E ela me trouxe até você.
Pedra endureceu em seus braços, seus olhos se abrindo, queimando em
sua alma. — Por que você diria isso?
— Você é o homem mais intrigante que já conheci.
— Monstro.
— Homem. — Ela o puxou para mais perto, pressionando a testa contra
a dele e sentindo o gosto de menta no ar. Ele tinha sofrido tanto, tinha
sobrevivido, e tudo o que ela conseguia pensar era que finalmente encontrou
alguém que poderia entendê-la.
Este era um homem que tinha visto o que as diferenças percebidas
podiam fazer, nos termos mais drásticos. Sua própria família o condenou por
sua aparência e desconsiderou seu sofrimento.
Ela queria tanto consertá-lo que seu coração doía.
— Lamento que a vida tenha sido tão cruel. Você nunca deveria ter
sofrido, mas você é forte e gentil sob todas essas camadas de pedra e gema.
— Isso me fez forte. — Ele rosnou, sua respiração soprando sobre seus
lábios.
— Oh sim, você é muito forte.
Ela ouviu o rangido de seus dentes rangendo um contra o outro. — Você
deveria fugir desta ilha e se enfiar na cama.
— Por quê?
— Não sou o tipo de homem por quem você quer se apaixonar, Sorcha.
— Quem falou em amor? — Ela se ergueu, pressionando o nariz contra
o dele e seu peito rente ao ombro de cristal. — Meu tempo aqui é finito, ao
contrário de sua espécie longeva. Tudo o que posso pedir é por memórias que
encherão meus pensamentos de magia. Você já fez isso por mim, Pedra.
Ele rosnou. — Meu nome não é Pedra.
— Então você pode me dizer qual é?
Seu coração parou quando sua mão larga pressionou contra suas
costas. Ele segurou sua cabeça e deslizou seus lábios nos dela, puxando o
fôlego de seus pulmões enquanto sua língua se enredava na dela. O calor se
espalhou por sua pele como um poderoso vento do deserto.
Ela envolveu as pernas em volta da cintura dele, os joelhos dobrados
contra suas costelas. Não importava que os cristais se cravassem em suas coxas
ou que seus pulmões gritassem por ar. O gosto de hortelã, limão e homem
revestiu sua língua e fez seus lábios formigarem com novos desejos.
Ele gemeu, cerrando o punho na nuca dela. Seu cabelo puxou, pequenas
agulhas de cristal mordendo a parte de trás de seu crânio. Ela deveria dizer a
ele que doía, mas o calor de seu beijo era esmagador. Ele não apenas beijava
ou provava.
Ele alegava.
Sorcha agarrou seus ombros de cristal e deixou sua mente livre. Ela se
concentrou nos toques leves como uma pena acariciando sua espinha. A
passagem prolongada de cristal afiado e lábios macios aveludados. O ritmo
hipnótico de sua língua agitada.
Ele se afastou e os dois engasgaram com o ar. Suas mãos se fecharam em
punhos no material de sua capa enrolada em torno dela, mas ele não puxou ou
rasgou. Ela achou que sim, considerando como suas mãos estavam tremendo.
— Eu pensei que tinha imaginado aquele primeiro beijo. — Ele
sussurrou.
— Você fez?
— Eu estava bêbado.
— Você cheirava a uísque.
— Eu não estava totalmente em meu juízo perfeito.
— Eu percebi, — ela sorriu. Era impossível não tocar seu rosto, agora que
ela sabia que ele não iria recuar. Os cristais eram uma textura tentadora contra
o calor de sua pele. — Você teria machucado Oona?
— Eu não tenho nenhuma maneira de saber. Os Fae são... precipitados
na melhor das hipóteses.
— Irritam-se facilmente?
— As emoções não vêm naturalmente para nós e, quando sentimos, é mil
vezes mais forte do que qualquer outra espécie.
— Ah, — ela sussurrou enquanto ele pressionava seus lábios contra seus
dedos. — É por isso que Boggart mudou tanto quando perdeu a bruxa.
— E quando ela conheceu você.
— Eu não sou uma modelo nem uma criadora de milagres.
— Não, mas você é infinitamente gentil e sempre se lembra de nos
agradecer por nossos serviços. Você sabe o quanto isso significa para um Fae?
— É o que eu gostaria que eles fizessem por mim, — ela respondeu. —
Eles não me deram razão para não ser gentil. Seus corações são bons e suas
intenções puras, não importa a causa. Este tem sido o meu sonho desde que eu
era criança, sentar aqui na beira de uma lagoa com kelpies e Faes ao meu redor.
— Então estou feliz por ter feito seus sonhos se tornarem realidade. — Ele
disse as palavras como se ela tivesse lhe dado um presente.
Ela rolou de cima dele, plantando sua bunda nas pedras frias com um
pequeno sorriso no rosto. — Você disse algo sobre o café da manhã?
— Na verdade, eu esqueci no castelo.
— Você esqueceu? — Sorcha explodiu em gargalhadas. — Pedra, esse foi
o objetivo desta viagem!
— O objetivo era apresentar você aos kelpies. — Ele resmungou. Mas ele
sorriu aquele sorriso de lado que ela reconheceu.
Ela apertou a mão contra o estômago. — Foi uma experiência mágica que
provavelmente não vou esquecer. Posso voltar e vê-los novamente?
— Contanto que você esteja com um dos Fae.
— Por quê?
— Os kelpies servem ao seu propósito. Eles não são bons em resistir à
tentação. — Ele se levantou e estendeu a mão para ela segurar. — E você
certamente é tentadora.
Ela agarrou sua mão e fez o possível para não estremecer quando os
cristais em sua palma se cravaram em sua pele. — Mas eles não são perigosos
para os Fae?
— De modo nenhum. Eles nos reconhecem como um dos seus. Você, no
entanto, é humana.
Sorcha prendeu uma mecha de cabelo atrás das orelhas pontudas. —
Meu pai costumava brincar que eu tinha sangue de Fae, por causa disso.
— Se você tivesse sangue de Fae, o kelpie saberia disso. Ele tentou fazer
você subir nas costas dele.
— Não parecia que ele estava tentando me matar. — Ela olhou para o
kelpie macho que balançou a cauda de alga na direção deles. — Parecia
diferente disso.
— Eles têm um propósito e o conhecem bem. Ele teria puxado você para
baixo das ondas se você deixasse.
Sorcha não respondeu, mas colocou a mão em cima do antebraço de
Pedra e o deixou tirá-la do lugar mágico. Sua mente ficou com os kelpies,
perguntando-se se ele a teria machucado afinal. Não parecia que essa era a
intenção.
Aqueles olhos verdes escuros pareciam quase tristes. Sorcha não podia
acreditar que queria machucá-la. Mais que simplesmente queria mostrar a ela
algo notável.

A farinha explodiu no ar em grandes nuvens brancas. A brownie que foi


atingida olhou com horror para a bagunça que cobria seu avental, então
estreitou os olhos de rato e contraiu o focinho alongado.
— Dama!
Sorcha cobriu a boca com uma risadinha e deixou o resto da farinha cair
de volta no saco. — Desculpe!
— Você não está arrependida! Eu vi você pegá-la e jogá-la bem em mim!
— Você disse que precisava de farinha.
— Eu disse que precisava de ajuda para cozinhar! Você está fazendo uma
bagunça! — A brownie estalou. — O que vamos fazer com você, criança?
— Talvez me dê algo para fazer em vez de incomodá-la.
— Esse é o seu jogo? — A brownie fungou. — Trabalhar na cozinha não
é lugar para uma senhora.
— Eu não sou uma senhora. Sou um rato de rua que virou parteira que
mora em cima de um bordel! Quantas vezes tenho que te dizer? Dê-me algo
para fazer com as minhas mãos!
— Eu certamente não vou.
— Você precisa de ajuda — Sorcha arrastou a brownie pela mesa,
batendo na cabeça macia enquanto o fazia. — Eu sei fazer pão, sei descascar
batatas, até fazia sopa para toda a família. Acho que poderia descobrir como
fazer ainda mais do que isso.
— Eu não vou fazer isso.
— Por que você é tão teimosa?
A brownie girou e brandiu uma colher de pau. — Por que você é tão
persistente? Vá ser útil em outro lugar, criança!
— Onde? Nos jardins? Cian já me perseguiu três vezes hoje!
— Ele usou o forcado?
Sorcha esfregou seu traseiro. — Sim.
— Bom. Essa é a única maneira de fazer com que pequenas coisas
desagradáveis como você fiquem onde são mandadas.
Sorcha gemeu e se deixou cair em uma cadeira. — O que eu devo fazer
então? Esperar até que alguém se machuque? Isso é perigoso, você sabe, vou
começar a causar acidentes para aliviar meu próprio tédio.
— Você não ousaria, — disse o brownie enquanto tirava o avental e batia
com a colher. — Você é muito gentil para isso.
— Sim, eu sou. Mas eu pensei muito sobre isso!
— Pensamentos não são ações, amor. Agora você poderia sair da minha
cozinha? Eu tenho que fazer as refeições de um dia para todos os Faes e você
não está ajudando.
— Mas eu quero ajudar!
O vapor subiu no ar da grande panela de sopa em que a brownie estava
trabalhando. Ela acenou com a mão e as facas cortaram os vegetais, copos
medidores pegaram leite e sal, até mesmo os panos de prato que Sorcha havia
rasgado voltaram ao seu lugar.
A magia tornava tudo muito mais fácil. Parecia quase uma trapaça.
Sorcha suspirou e bateu com a testa na mesa de centro.
— Você está sujando minha mesa.
— Estou descansando, — ela murmurou contra a corrente. — Não é isso
que todos vocês sempre me dizem para fazer?
A voz de Oona se juntou a elas, completamente divertida. — Descansar
é o que você deve fazer regularmente. De alguma forma, você se esquece disso.
— Descansei tanto que nem quero dormir à noite!
— Bem, querida, essa é a vida de uma dama.
— Então, a vida de uma dama é entediante e eu quero a minha antiga de
volta.
Oona esfregou suas costas ao passar, inclinando-se para sussurrar em seu
ouvido: — Precisamos voltar para o seu quarto. Agora. Mas você não pode
parecer suspeita, ninguém pode saber.
Agora era exatamente o que Sorcha precisava para apimentar o dia. Ela
se endireitou e colocou um sorriso falso no rosto. — Oona, acho que tenho uma
ideia nova para decorar meu quarto. Você poderia vir comigo e sugerir plantas
que podem crescer?
— Você quer plantar coisas?
— Claro, mas vou precisar de suas opiniões. Não consigo entender o que
cresceria aqui e o que não.
A brownie se virou e deu a ambos um olhar desconfiado. — O que está
rolando?
— Nada, — disse Sorcha. — Eu só quero redecorar.
— Oona, você tenha cuidado com aquela pequena humana. Ela é uma
ameaça!
Oona sorriu: — Oh, ela é uma coisinha querida, apenas entediada. Vou
tirá-la do seu cabelo, se isso lhe agradar.
— Sim, — a brownie resmungou. — E certifique-se de que ela não volte
tão cedo!
Como se ela fosse voltar para aquela cozinha dirigida por um rato
metido.
Oona a empurrou para fora da cozinha com a mão nas costas. Sorcha
deveria ter ficado alarmada com a velocidade com que correram em direção ao
portal, mas a excitação corria por suas veias.
— Você não dirige as cozinhas?
— Não mais. O mestre disse que isso é apenas para pessoas em quem ele
pode confiar para não colocar veneno em suas refeições.
— Grosseiro! — Sorcha deixou escapar. — Ele sabe que você é leal.
— Ele quer, mas eu o traí, querida. Era a coisa certa a se fazer. Agora,
abra esta parede para que possamos entrar. É de extrema importância.
O medo na voz de Oona abalou Sorcha. Esta não era uma viagem
emocionante, ou mesmo algo que terminaria em um bebê. Suas sobrancelhas
franziram e ela pressionou o punho de pedra com força.
— Está tudo bem? — ela perguntou enquanto corriam para seu
quarto. — Aconteceu alguma coisa com um dos Faes?
— Eles estão bem. É com você que estou preocupada. Você foi
convocada.
— Convocada? — Sorcha bufou. — Por quem? O mestre de novo?
— Pelo rei.
Seus ouvidos pararam de funcionar. Tudo o que ela podia ouvir era um
som de toque doloroso. O bater de sinos e canções fúnebres.
— O rei? — ela repetiu. — Como o rei sabe que eu existo?
— Eu não sei, minha querida. Mas ele sabe e você não pode recusá-lo.
— Quem é o rei dos Seelie agora?
— Sua Alteza, o Sábio. — Oona cuspiu no chão. — E que ele apodreça
para sempre em seu castelo. Ele não respeita os Faes menores, e eu não
confiaria nele tanto quanto poderia fazê-lo. Desculpa patética para um homem
e perigoso. Você deve ter cuidado com suas palavras.
— Eu não vou. — Sorcha balançou a cabeça. — Não é meu rei; Eu não
tenho que responder.
— Ele é o rei de todos. Se você não for, ele enviará alguém para caçá-la. A
Caçada Selvagem não é nada comparada às criaturas que o rei pode invocar
sobre você.
Então ela tinha que ir. Não havia outras opções, mas Sorcha ainda
atormentava sua mente tentando descobrir uma maneira de escapar.
— O rei? — ela repetiu. — O que ele quer de mim?
— As parteiras são raras, e dizem que sua concubina favorita está
grávida.
— Por que ele não tem uma rainha?
— Não este rei, — murmurou Oona. — Ele escolheu governar sozinho.
— Não é uma má ideia?
— É uma ideia terrível! A rainha Seelie sempre temperou o rei. Ela é a
bondade para com a sua justiça, o coração do povo. Ela está dando e é
justa. Sempre foi assim até que Sua Alteza, o Sábio, assumiu o trono.
Oona colocou uma capa sobre os ombros de Sorcha, alisando o tecido até
que ficasse bem. A preocupação franziu a testa como uma folha.
— Você está me deixando preocupada — Sorcha disse com um sorriso
suave. Ela tocou a testa de Oona suavemente. — Eu não vou fazer nada
precipitado. E, como você se lembra, sou uma parteira experiente.
— Não diga nada sobre morar em Hy-brasil, — aconselhou Oona. — Ele
não vai gostar muito dessa informação. Tudo o que podemos fazer é esperar
que seus informantes não digam a ele como encontraram você.
— Por que eu não deveria contar a ele sobre Hy-brasil?
Oona guiou-a até o portal esculpido e ergueu as mãos no ar. Dedos
delicados de galho balançaram no ar enquanto ela chamava a magia para a
vida. — Não importa o que você faça, não mencione o mestre.
— Por que não posso mencionar Pedra? Ou Hy-brasil? — Sorcha recuou
em direção ao portal e olhou para Oona. — Preciso saber antes de cometer um
erro!
O toque frio do portal deslizou por seu tornozelo e panturrilha antes que
Oona baixasse a cabeça. — Você vai descobrir quando chegar lá,
querida. Apenas mantenha todos nós, e você, segura.
A pixie avançou e empurrou o ombro de Sorcha. Ela caiu no chão de
mármore frio, a preocupação girando em sua cabeça.
Ela saberia quando chegasse lá? O que diabos isso significa?
— Ah, — a voz fria a fez congelar. — Você deve ser a parteira.
Era tão desumano que ela não teve dificuldade em identificar a quem a
voz pertencia. O próprio rei esperava do outro lado do portal, e Oona nem
havia mencionado isso. Sorcha ainda tinha farinha em suas saias!
Ela colocou as mãos firmemente no chão, seguindo as linhas de ouro na
pedra polida até o trono mais extravagante que ela já tinha visto. Era tão alto
que tocava o teto, penas e asas de Fae transformando-o em um testamento
Fae. Cortinas vermelhas esvoaçantes se estendiam do topo até o chão como
cortinas de teatro.
Um homem reclinado em seu centro. Isso tudo era demais para uma
parteira, mas a capa prateada que ele usava caía do comprimento de três
homens no chão. Seu cabelo loiro branco alcançava sua cintura, apenas
tocando o colete bordado que ele usava. Nem um único ponto estava fora do
lugar.
Os guardas estavam em posição de sentido ao redor, suas armaduras
douradas brilhando à luz do sol que se derramava do teto aberto, quase
cegando-a. Eles empunhavam espadas da mesma altura que Sorcha em suas
mãos.
— Sua alteza, — ela disse e abaixou a cabeça novamente. — Eu sou a
parteira.
— Bom. Eu tenho uso para suas habilidades. Venha comigo, humana.
— Sua voz estava tão fria quanto as fortes nevascas no auge do inverno.
Ela estremeceu e se levantou. — É sempre um prazer prestar serviços a
quem os necessita.
— Vou manter isso em mente quando precisar de uma nova concubina.
— Seus pés entraram em sua linha de visão. Dedos claros de concha
perfeitamente tratados emoldurados por suas sandálias douradas. — Quem
pode dizer não a um rei?
Ele ergueu a mão e o olhar dela travou na ponta dos dedos. Tingido de
preto como a noite, suas unhas eram pontudas. Ela tinha visto a causa antes
em um paciente anterior. Quando ela chegou, a mulher já estava em coma.
O vício do ópio era um animal perigoso de domar.
Os dedos manchados deslizaram sob seu queixo e inclinaram seu rosto
para a luz. Ela hesitou em olhá-lo nos olhos - reis podem ser bem estranhos -
mas Sorcha nunca se intimidou antes.
Ela olhou para cima e seu mundo acabou.
Pedra olhava para ela. Ou não Pedra, mas o que ele poderia ter sido se os
cristais não tivessem rachado seu crânio.
Maçãs do rosto perfeitas, pele perfeita, lábios carnudos que ela tinha
visto peculiares para o lado tantas vezes que conhecia cada linha e dobra. Seus
olhos a assustaram mais. Azul vívido, como o céu depois de uma violenta
tempestade com relâmpagos e tão familiar que seu coração doeu. Agora, ela
via crueldade refletida naqueles olhos. Ela perdeu as fissuras imperfeitas e
linhas de expressão ao redor deles.
— Você servirá, — ele disse como se ela não fosse desmaiar. — Venha
comigo.
Seus pés grudaram no chão. Ele se afastou dela com um floreio de sua
capa, e ela ainda não se mexeu.
O rei? Como ele se parecia exatamente com Pedra?
O Rei Seelie olhou por cima do ombro e arqueou uma sobrancelha
perfeita. — Você é tão tola que não entende uma ordem quando ouve uma?
Seu Pedra. Seu gentil e desfigurado Pedra não se refletia nessa estranha
aparição diante dela. De repente, ela entendeu por que Pedra reagiu tão
violentamente quando ela mencionou família.
Este homem não tinha apenas roubado o direito de primogenitura de
Pedra. Ele tinha tomado um reino, um trono, mãe, pai, irmão.
Até seu rosto.
A voz de Oona ecoou em sua mente. Não deixe o rei saber de onde você
veio. Não mencione o mestre. Não admira que a pixie estivesse apavorada.
Lágrimas picaram seus olhos. Ela havia julgado Pedra mal como um
homem cruel que não via outra solução senão vingança para aqueles que o
ajustiçaram. Esta não era apenas uma briga de família. Seu irmão gêmeo havia
arrancado sua vida e se inserido na que era legitimamente de Pedra.
Ela queria bater no rosto perfeito do rei. Ela queria passar as unhas em
sua bochecha para que ele também pudesse sentir a dor e a angústia que ele
causou.
Mas ela não conseguiria. Sorcha precisava manter a mente fria para
sobreviver. Sob nenhuma circunstância ela arriscaria a vida de Pedra.
— Minhas desculpas, Vossa Majestade. — Ela fez uma reverência,
escondendo suas lágrimas de raiva e rubor vermelho. — Por favor, leve-me até
a senhora que posso ajudar.
— Você é muito presunçosa. — Ele estendeu a mão e tocou uma mecha
de seu cabelo. — Eu me pergunto como os Fae não te chamam de escrava?
Estava muito perto. — Ninguém, sua alteza. Eu vim do reino humano.
— E quem deixou você entrar no meu reino?
— Eu sempre estive perto dos Faes. Minha mãe deixava suas ofertas
todas as semanas e transmitia o respeito de sua linhagem.
— Respeito. — Ele deixou o cabelo dela cair enquanto seus lábios se
curvaram em desgosto. — Sua espécie tem pouco entendimento da palavra.
O rei se virou, ergueu uma mão imperiosa e foi embora.
O ar retiniu com o metal retinindo enquanto os guardas batiam suas
espadas contra as placas do peito e seguiam seu rei. Sorcha colocou os braços
ao lado do corpo e tentou não tropeçar. Os guardas estavam tão perto dela que
ela podia sentir o ar frio irradiando de suas armaduras.
Tudo parecia ser muito mais alarde do que o necessário. Eles eram todos
cerca de sessenta centímetros mais altos do que Sorcha. Por que eles
precisavam de tantos guardas só para ela? Ela provavelmente não seria capaz
de lutar contra um deles, muito menos contra quinze.
Ela teve um vislumbre do castelo Seelie entre os soldados. Era como se
todo o palácio fosse feito de luz. Pisos brancos, tetos dourados, raios de sol que
saltavam até doer em seus olhos.
Como eles viviam assim? Tudo era perfeito demais, puro demais. Seus
dedos coçaram para deixar uma impressão borrada no chão
brilhante. Qualquer coisa para provar que este lugar era real e habitável.
Sorcha olhou por cima do ombro e avistou os Faes seguindo atrás
deles. Brownies e hobgoblins, vestidos com pouco mais do que sacos de
estopa. Eles seguravam vassouras e latas de lixo, varrendo qualquer sujeira
que pudesse ter caído de seus pés. Outros os seguiam com trapos de mão e
água. Seus rostos magros estavam preocupados e famintos.
O Rei Sábio, de fato.
Cerrando os punhos, Sorcha se lembrou de onde estava. Esta era sua
terra, seu palácio, seu reino. Embora ela quisesse libertar cada Fae que
encontrasse, ela só iria se matar. Ou pior, revelar onde Pedra se escondia.
Ela nem sabia se ele estava se escondendo. Pedra havia falado em
vingança. Ele tinha um plano que ela não conhecia? Os outros Faes estavam a
par de tais informações?
As perguntas rodopiavam por sua mente até que ela mal conseguia
pensar ou respirar.
Não havia respostas nas paredes imaculadas e cômodos inundados de
sol. Ela teria que esperar até voltar para casa. Então ela encurralaria Pedra e o
forçaria a responder todas as coisas que ele não havia compartilhado.
Eles marcharam através de um pavilhão, arcos de pedra gigantes
delineando a praça. As flores desabrochavam, maiores que a vida e com cores
vibrantes, enchendo o ar com um aroma doce e pegajoso.
— Gostaria de uma bebida? — perguntou o rei. — O mel dessas flores é
considerado o deleite mais raro e exótico.
— Não, obrigada, não estou com sede. — Ela não se arriscaria.
— Comida? Temos muitas coisas com as quais você talvez nunca tenha
sonhado.
— Não. Eu comi antes de chegar.
Um sorriso se espalhou por seus lábios esculpidos. — Tão inteligente
quanto você é corajosa. Você é uma pequena humana intrigante.
— Eu conheço os costumes dos Faes, — ela disse. — É uma honra servir
quando posso, mas não desejo ficar aqui.
— Você tem alguém para ir para casa?
— Não.
— Você está mentindo. — Ele lambeu os lábios como se ela tivesse
fornecido uma deliciosa iguaria.
— Eu raramente minto.
— Eu posso sentir o gosto no ar. Os humanos são tão fáceis de ler. Seus
olhos se dilatam, seu peito arfa com sua respiração culpada. Você é um livro
que posso abrir e ler cada palavra.
Ela o odiava. Ela odiava cada palavra sombria que escorria de sua língua,
porque ela sabia que ele estava certo. Ele não era nada parecido com seu irmão
e isso a assustava mais do que qualquer outra coisa.
Eles caminharam pelo pavilhão e ele bateu os nós dos dedos contra uma
porta de mármore.
— Meu amor, — ele gritou. — Eu trouxe um presente para você.
— Eu não desejo um presente!
— Você vai querer este.
— Por favor, meu rei. Não me sinto bem hoje.
— Precisamente. — Ele empurrou a porta e acenou para Sorcha. — Entre.
— Ela não parece desejar visitantes.
— Não é sua escolha. Minhas concubinas obedecem a todos os meus
caprichos e realizam todos os meus desejos. Desejo que ela seja vista e você
garantirá que ela esteja saudável.
Sorcha fez uma reverência. — Então seu desejo é uma ordem.
Quando ela passou, ele estendeu a mão e agarrou seu queixo. — Se ela
ficar doente depois que você tocá-la, ninguém será capaz de escondê-la da
minha ira. Vou arrancar sua pele centímetro a centímetro e vou mantê-la viva
durante tudo isso.
— Eu não ousaria prejudicar alguém que precisasse da minha ajuda.
Sorcha o encarou, encontrando seu olhar sem vacilar. Este homem
poderia ameaçá-la tudo o que ele desejasse. Ela se recusava a se curvar a um
homem que tratava seus entes queridos como escravos.
O rei largou a mão, rindo. — Vou deixar três guardas na porta. Se eles
ouvirem algo incomum, mesmo o mais leve dos sons, eles vão trazer sua cabeça
para mim em uma bandeja.
— Tenho dúvidas de que minha cabeça satisfaria sua paleta, — ela
rosnou. — Posso sugerir um órgão mais elegante?
O sorriso em seu rosto era tão selvagem quanto suas palavras. Fionn se
virou, estalou os dedos e saiu com metade de seus guardas. Mais de três
permaneceram em posição de sentido.
Bom. Talvez o rei tenha percebido o quão perigosa uma pequena parteira
humana poderia ser.
— À vontade, senhores, — ela murmurou para os guardas. — Eu não
gostaria que vocês desmaiassem com toda essa armadura quente.
Sorcha não esperou para ver que tipo de expressões assustadas eles
lançaram em seu caminho. Ela entrou no quarto de Elva e bateu a porta atrás
dela. Deixe-os apodrecer enquanto esperavam para ver o que ela poderia
fazer. Sorcha não se importou. Se eles serviam a um rei tão horrível, então eles
mereciam o mesmo destino.
A fumaça enrolou-se em sua cintura como tentáculos de
dedos. Franzindo a testa, Sorcha se virou e olhou para o quarto iluminado pelo
sol.
Ela nunca tinha estado dentro de um antro de ópio e nunca desejou fazê-
lo. Agora, ela sabia como eles eram.
Veludo vermelho pendurado em grandes lençóis de seu teto,
emaranhado com arame dourado torcido em folhas. Pedras preciosas
penduradas em gavinhas cintilantes de cima. Do chão ao teto, a fumaça
envolvia toda a opulência.
Os narguilés se espalhavam pelo chão, caindo sobre montanhas de
travesseiros e derramando líquido no chão. Três atendentes Faes estavam
estendidas no chão. A pele da casca fazendo com que se misturassem ao solo,
seus lábios e dedos manchados de preto pelo chá de ópio.
— Elva? — Sorcha sussurrou, usando o nome verdadeiro da Fae por
capricho. — Eu sou uma parteira.
— Parteira? — A cama farfalhou. A mulher Fae puxou as cortinas de
lado. — O que você está fazendo aqui?
— Seu rei me convocou.
Elva arrancou as cortinas até o chão. Sua graça desaparecia sob a névoa
das drogas. — Você está em grave perigo.
— Estou aqui para te ajudar.
— Se ele te convidou aqui, então ele sabe exatamente quem você é. E ele
sabe de onde você vem.
As palavras fizeram Sorcha congelar. A Fae tinha tantas drogas em seu
sistema, que certamente ela não estava revelando que sabia sobre Hy-
brasil. Ou ela sabia?
— Eu venho do reino humano, — disse Sorcha. — Estou aqui para ter
certeza de que você está saudável. É o que seu rei deseja.
A Fae caiu contra Sorcha. — Você não entende. Você não o conhece. Ele
quer me machucar, então ele trouxe você aqui. Você precisa ir.
— O que está errado? Elva, você precisa falar comigo. Se houver algo que
eu possa fazer para ajudá-la...
Dedos com pontas negras pressionaram a boca de Sorcha. Os olhos da
Fae estavam selvagens. — Não. Não, não há nada que você possa fazer para
me salvar.
— Salvar você? — Sorcha repetiu. —Você precisa ser salva?
— O que poderia ser feito por mim foi perdido há muito tempo, pequena
humana.
O pânico deixou Sorcha nervosa. Ela segurou a mulher muito maior nos
braços e pressionou a cabeça de Elva em seus ombros. Lágrimas encharcaram
o tecido em seu ombro.
Fechando os olhos com força, Sorcha se aproximou mais até que suas
barrigas se tocaram. Já fazia quase um mês desde que ela vira Elva.
O estômago liso encontrou o estômago liso.
— Você não está grávida? — Sorcha sussurrou.
— Ele me envolveu em seda e veludo. Ele me chamou de seu amor e me
separou de tudo que eu amava.
— Onde está seu filho, Elva?
— Se foi. Com tudo o mais.
— O que aconteceu?
— Vida. — A mulher Fae se afastou, enxugando as lágrimas de raiva. —
Vida para um Tuatha dé Danann da realeza. Não há nada que você possa fazer
para me ajudar, parteira. Fiz um trato com um demônio e levo uma cobra para
a cama todas as noites.
— Elva...
—Posso te ajudar.
— O que? — Sorcha balançou a cabeça. — Eu não preciso de ajuda. Eu
preciso ter certeza de que você está saudável, e talvez seja por isso que seu rei
me trouxe aqui.
— Ele não trouxe você aqui para mim. Ele a trouxe aqui para uma lição
a ser aprendida. Ele não acredita que eu perdi a criança meramente porque foi
a minha primeira e porque Faes não carregam bem crianças. Você é seu bode
expiatório. Seu raciocínio por trás da perda de seu filho.
— Eu não vou te dar nada para prevenir o parto. — O medo se torceu na
língua de Sorcha, tornando suas palavras mais lentas.
— Nós duas sabemos que essa é a verdade. Mas ele nunca se importou
com a verdade.
Que existência triste essa mulher viveu. Sorcha colocou o braço em volta
do corpo de Elva e a empurrou de volta para a cama. Não ficou claro se a
mulher estava falando com o coração ou por pânico induzido por drogas.
De qualquer maneira, o trabalho de Sorcha era curar. Ela não podia
consertar a cisão entre Elva e seu rei. Ela não conseguia nem tocar a dor que
manchava a alma da mulher. Tudo o que ela podia fazer era acomodá-la na
cama e aquietar sua mente.
Ela colocou a Fae na cama e alisou o cabelo da testa molhada de suor. —
De onde você é, Elva?
— Cathair an Tsolas.
— A cidade da luz? — Sorcha sorriu. — Já ouvi falar das lendas. É um
lugar constantemente cheio de sol.
— Ele brilha quando você olha para ele.
— Fale-me da sua cidade, Elva. Eu adoro histórias.
Elva sussurrou contos de uma cidade mágica cheia de Tuatha dé Danann
e temas de Faes. Ela misturou lendas que Sorcha reconheceu com verdades que
falavam de ruas imaculadas e pessoas usando os trajes mais estranhos.
O tempo todo Sorcha limpava. Ela ergueu as dríades de seu estupor e as
entregou aos guardas. Os homens pareciam surpresos que ela ousasse colocar
a mão em qualquer Fae.
— Nem uma palavra, — ela rosnou para eles. — Levem essas senhoras
de volta para seus aposentos, ou onde quer que você as coloquem.
— Elas ficam com a concubina.
— E eu digo que elas vão. Se vocês desejam discutir, por favor, digam ao
seu rei para me encontrar aqui. Caso contrário, coloquem essas mulheres onde
elas possam dormir sem o ópio.
Os guardas se entreolharam, encolheram os ombros e dois saíram com as
Faes debaixo dos braços.
Sorcha fechou a porta mais uma vez. A privacidade de Elva poderia ser
mantida dentro dessas paredes. Nenhum guarda precisava fofocar mais do
que já estava fazendo. O rei e sua concubina favorita dependiam do ópio. O
suficiente para que seus dedos estivessem manchados com seu veneno.
A história de uma bela cidade enchia o ar. Ela se retorcia na fumaça e saía
pelas janelas quando Sorcha as abriu. O ar fresco faria muito bem a este quarto.
Ela empilhou os travesseiros contra a parede oposta e colocou os punhos
nos quadris. Não havia muito mais que ela pudesse fazer em um quarto tão
bom. Este não foi construído para ser um lugar confortável, mas um banquete
para os sentidos.
— Você não mora em um quarto muito prático, — ela murmurou. —
Pode ser bonito, mas não é útil.
Elva não parava de resmungar a sua história. As palavras pareciam
ampará-la. Os opiáceos estavam filtrando lentamente para fora de seu sistema
enquanto Sorcha tagarelava.
Ela enfiou o dedo em uma pequena fenda na parede. Uma porta se abriu,
revelando o que parecia ser todos os itens que ela precisaria limpar.
— Conveniente. — Disse Sorcha. Um balde d'água esperava por ela,
junto com um esfregão que parecia nunca ter sido usado antes. Por que manter
algo em um armário se não seria usado?
Faes. Eles nunca fariam sentido para ela.
Ela derramou a água no chão e esfregou manchas e cheiros. —
Elva! Chega de histórias, minha querida, acho que sei o suficiente para
acreditar que morei lá.
— Os humanos não podem viver lá.
— Não? Isso é uma vergonha. Não somos tão ruins.
— Estou começando a ver isso. — A névoa havia se dissipado da voz de
Elva. Agora, ela parecia mais envergonhada do que balbuciando. — O que
você está fazendo?
— Limpeza.
— Sim, mas por quê?
— Porque há óleo de narguilé manchado no chão e todo o lugar cheira a
ópio. — Sorcha fez uma pausa para soprar um cacho vermelho da testa. —
Você nunca tem ninguém esfregando o chão?
— Ninguém menos que você.
— Hmph. Se você não vai fazer isso sozinha, deve mandar alguém
limpar pelo menos de vez em quando.
— Porque não você?
— Não sou contratada. — Nem ela jamais seria. Quanto mais tempo ela
ficava neste lugar, menos Sorcha gostava. Como Pedra cresceu neste lugar?
O pensamento encheu sua mente até que fosse tudo em que ela pudesse
pensar. Pedra viveu aqui. Ele cresceu aqui. O rei era seu irmão. E a concubina
do rei estava sentada a apenas alguns metros dela.
Movendo o esfregão mais uma vez, Sorcha olhou para seu trabalho. —
Elva?
— Sim?
— Você sabia que o rei tem um irmão gêmeo?
— É blasfêmia até mesmo mencionar que o rei tem um irmão.
— Isso significa que você não vai me contar sobre ele?
Elva rolou de lado para ver Sorcha trabalhar. — Eu o conhecia.
— O rei?
— Seu gêmeo.
— Como ele era? — Pela primeira vez, ela poderia falar sobre Pedra com
alguém que não esconderia a verdade dela. Havia opiáceos suficientes no
sistema de Elva para soltar sua língua. Este poderia ser o momento em que ela
finalmente descobriria sua história.
— Ele era um homem impressionante. O rei e a rainha seguiram
caminhos diferentes para criar seus filhos. O filho mais velho tendia para aos
Faes selvagens e livres. Eles temiam que ele pudesse se tornar um Unseelie,
então o convenceram a treinar sua mente e corpo como um guerreiro. Ele foi a
criatura mais temível que já existiu.
— Você fala como se ele não existisse mais. — Sorcha não conseguia
limpar e ouvir ao mesmo tempo. Ela encostou o esfregão na parede e se sentou
em um banquinho. — Ele está morto?
— Se foi. E se você está perdido neste mundo, você está praticamente
morto.
— Onde?
— Banido. Alguns dizem que ele ainda mora em Hy-brasil, mas tenho
muitos contatos lá. Se ele vivesse, eu saberia.
— Você acha que ele foi assassinado?
— Eu não consideraria que o rei fizesse tudo ao seu alcance para manter
o trono. Seu irmão gêmeo era o filho favorito. Ele era perfeito até que seu irmão
o destruiu.
— Já ouvi falar — murmurou Sorcha. — Você disse que o conhecia?
— O melhor que alguém poderia. Ele era mais velho do que eu e sempre
lutava contra os Unseelie. Havia algo selvagem nele que não podia ser
domado. Ele me assustava. Ele assustava a maioria das mulheres Faes, mas
todas nós o queríamos. Você sabe que costumávamos chamá-lo de veado
vermelho?
— O veado vermelho? Por quê?
— Havia algo nele que não era de forma alguma Fae. Algo que falava de
feras na floresta, sussurros ao vento, magia em seu sangue que não vinha dos
Tuatha dé Danann. Ele era perigoso, e acho que seu irmão viu isso nele.
Sorcha prestou atenção em cada palavra. Ela se inclinou para frente até
que se sentou na beirada do banquinho. — O que o rei pensou que seu irmão
faria?
— Ele mudaria tudo, — sussurrou Elva. — Ele não via os Faes menores
como criaturas feitas para trabalhar. Ele os via como pessoas, os valorizava
como soldados e amigos. Esse não é o jeito Seelie.
— Mudar é uma coisa tão ruim?
— Eu não saberia.
O coração de Sorcha se partiu por esta concha de mulher. Seus pés a
levaram para o lado da outra mulher. Com tanta gentileza quanto ela pôde
reunir, Sorcha enfiou as costas debaixo das cobertas.
— Tente dormir. — Ela murmurou.
— Vai ajudar?
— Não sei se alguma coisa vai ajudar. Mas acho que uma boa noite de
sono e sonhos tranquilos sempre parecem aliviar a alma.
— Meus sonhos são todos pesadelos. — Elva se virou de lado, longe das
mãos gentis de Sorcha. — Mas pelo menos eu sei que pesadelos não estão
acontecendo, não importa o quão trágico eles sejam para serem vivenciados.
Sorcha ficou até que a respiração de Elva diminuiu para o ritmo constante
do sono.
O que esta mulher suportou? O que todos eles sofreram?
Ela se levantou devagar, tomando cuidado para não sacudir a
cama. Todos eles tiveram histórias trágicas, vidas comoventes, onde as
dificuldades não terminavam.
Os humanos lutaram durante toda a sua existência. Pobreza, morte,
doença, eram todas as coisas que os humanos entendiam que vinham com sua
humanidade. Sorcha nunca pensou que os Faes também lutavam. Eles eram
espíritos da natureza, certamente eles viveriam uma vida melhor?
Ela estava errada.
— Você a fez dormir? — A voz do rei estava baixa quando ele entrou. —
Não me lembro da última vez que ela se deitou sem lutar.
— Ela precisava de conforto.
— E você acha que eu sou incapaz de fornecer isso. — Ele murmurou
enquanto se sentava na beira da cama.
— Não é minha função julgar, Sua Majestade. — Mas os dois ouviram as
palavras ocultas sob seu tom tranquilo. Sim, ela o culpava. Ela o culpava por
muito mais do que apenas a infelicidade de Elva.
Ele olhou para a bela Fae que ele chamava de concubina. Havia algo em
sua expressão que fez Sorcha se sentir como se estivesse se intrometendo. Ele
não olhou ferozmente, ou agarrou sua carne. Ele simplesmente a encarou com
uma expressão suave e seguiu a linha de sua bochecha com o olhar.
— Eu a amo, — disse ele. — Eu a amo tanto que custa respirar. Mas essa
é uma das coisas mais difíceis de ser rei. Se eu me casar com ela, vou colocá-la
em perigo. Se eu a deixar como concubina, ela fica segura, mas ela me odeia.
A língua de Sorcha ficou à frente de sua mente, as palavras escapando de
seus lábios sem permissão. — Não acho que seja o título que a ofende.
— Não, — ele riu. — Não, é tudo. Eu não sou meu irmão. Não vejo os
Faes menores como criaturas capazes de ter posições de poder. Não acredito
que dar a eles livre arbítrio beneficie nosso povo. Os métodos antigos
funcionam há muito tempo. Mudar as coisas leva a finais imprevistos, e não
vou arriscar o futuro de nosso povo com os sonhos de outros.
— Eu perguntei a ela se a mudança era uma coisa ruim, e ela disse que
não sabia. Agora eu pergunto o mesmo, Rei dos Faes Seelie. Você acredita que
a mudança é ruim?
Ele olhou para ela com uma expressão preocupada franzindo a testa. —
Os Fae não estão acostumados a mudar. Talvez você seja mais adequada para
responder a essa pergunta.
— Acho que controlar o futuro com garras de ferro apenas limita as
possibilidades de tolerância e mudanças positivas.
— Você é sábia demais para ser humana.
— Eu não sou Fae. — Ela disse.
— Você é algo totalmente diferente. — Ele olhou de volta para Elva,
tocando a ponta de seu cobertor antes de se levantar. — Eu devo uma bênção
a você.
— Uma benção? Do Rei Seelie? Isso não parece uma escolha sábia para
oferecer.
— E ainda assim eu a ofereço gratuitamente. Aliviar sua alma atribulada
vale mais do que apenas uma dádiva, mas não acredito que você vá usar esse
dom de uma forma com a qual concordo.
Ele estendeu a mão para ela tomar. Sorcha ergueu uma sobrancelha e,
hesitante, agarrou a mão dele.
Ela queria confiar nele apenas porque ele se parecia com Eamonn. Sua
palma era lisa contra seus dedos calejados. Nenhum cristal penetrou em sua
pele. Nenhuma cicatriz arranhou a carne sensível de seu pulso. Ele era
perfeito. Tudo que Pedra não era.
Sorcha estremeceu. — Então eu aceito sua bênção com o entendimento
de que não concordo com suas escolhas, Rei.
— Você não é a primeira a discordar de mim e não será a última. Saiba
que sou grato por sua ajuda e não me esquecerei.
— Espero que algum dia isso seja útil. — Ela se afastou dele e pegou sua
capa.
— Eu também, pequena parteira, — disse ele. — Porque temo que você
e eu nos enfrentaremos em lados diferentes de um campo de batalha algum
dia.
Sorcha olhou por cima do ombro, a mão na porta de sua liberdade. —
Você consultou alguém para ver seu futuro?
— Eu conheço meu futuro sem ter que perguntar a nenhum dos Unseelie
suas opiniões. Ambos os meus finais resultam em me matar. Ou esta carne, ou
a do meu espelho.
Algo dentro dela estalou como uma chave girando em uma fechadura.
Ele sabia.
Ele sabia que ela vivia com Pedra. Ele sabia de onde ela vinha, e ainda
assim a ordenou aqui.
E agora ele a estava deixando ir.
— Por quê? — ela sussurrou.
— O fim chegará, quer você esteja envolvida nesta história ou não,
parteira. Acredito que será muito mais interessante com a sua intervenção.
— Por que todos os Fae parecem pensar que seu próprio futuro é uma
história? — Sorcha disse. — Não há história aqui! Ninguém vai cantar sobre
dois irmãos que se destruíram!
— Como você pode ter certeza disso? — O rei acenou com a mão
enfeitada com joias. — Há histórias estranhas contadas até hoje. Mantenha a
cabeça erguida, pequena parteira. Sua jornada apenas começou.
— Não quero participar dessa história.
— Você já está nela. Guerra está vindo. Diga a meu irmão para aproveitar
seus últimos dias de vida.
Capítulo 12

A Lua do Caçador

— Para onde nós vamos?


Sorcha perguntou. Uma venda cobria seu rosto, o veludo macio contra
sua pele.
Pedra entrou em seu quarto com ela nas mãos, um sorriso tímido no
rosto. Ele se recusou a dizer aonde estavam indo, mas ela também se recusou
a parar de perguntar.
— Sorcha, deixe ser uma surpresa.
— Eu não posso fazer isso. Eu quero saber.
— Você descobrirá! — Ele disse com uma risada.
— Mas não é o suficiente!
Ela não achava que ele sabia sobre sua recente escapada para Seelie. Ele
certamente não tinha mencionado isso.
Sorcha esfregou a pele por uma hora antes de vê-lo. Água limpa e
verbena de limão lavaram o cheiro dos Faes e qualquer outra coisa que ele
pudesse ter reconhecido de casa.
Semanas se passaram. Sorcha começou a implorar a ele todas as noites
para voltar ao continente com ela. Às vezes, ela pensava que ele poderia se
curvar. Outras vezes, tudo que ela fazia era irritá-lo.
Ele ficava com raiva tão facilmente.
Mas esta noite, ele estava feliz. Satisfeito, quase. A surpresa que ele
planejou obviamente significava algo para ele.
— Pedra, — ela implorou, — Eu quero saber!
— E você vai, pequena humana. Ainda não.
Sorcha tentou descobrir para onde eles estavam indo. Ela sabia cada
curva do castelo de cor, mas se perdeu quando ele a girou em círculos.
— O que você está fazendo? — Ela perguntou com uma risada. — Você
vai me deixar tonta!
— Não quero que você adivinhe em que direção estamos indo.
— Eu não estava rastreando nossos passos.
— Você certamente estava. Eu podia ouvir você resmungando baixinho.
— Ele se aproximou, a respiração fazendo cócegas em sua orelha e enviando
arrepios por sua espinha. — Eu me recuso a deixar você estragar essa surpresa.
— Eu não gosto de surpresas.
— Você vai gostar desta.
Ele colocou as mãos nos ombros dela e a guiou pelos corredores. Cada
passo parecia cada vez mais estranho, até que ele finalmente a fez parar.
Suas mãos eram tão grandes. Elas cobriam seus ombros e mergulhavam
nas cavidades de sua clavícula. Ela estava intensamente ciente dos círculos
suaves que ele desenhava logo abaixo dos ossos alados. Ele parecia acariciar
sua pele sem pensar.
— Você tem sido tão boa com meu povo. E você deixou uma impressão
duradoura em todos nós. Eu queria fazer algo por você.
— Obrigada, — disse ela. — Mas eu não mereço nada de especial. Espero
que você não tenha saído do seu caminho.
— Passamos apenas algumas noites nele.
— Algumas noites? Pedra!
— Meu nome não é Pedra.
— Eu me recuso a chamá-lo de mestre.
Ele riu, as mãos deslizando pelos ombros dela e se enredando no peso de
seu cabelo. — Algum dia, eu gostaria de ouvir a palavra cruzar seus lábios só
para ver como isso soa anormal.
— Você não vai gostar se eu alguma vez o chamar de mestre.
— Não, eu não gostaria. Espero que você me surpreenda, Sorcha. Seria
uma pena para você se alinhar como os outros.
O nó na nuca se desfez e o veludo se soltou.
Ela engasgou de alegria. A sala do trono brilhava com luz. O teto, livre
de teias de aranha e poeira, tinha um acabamento espelhado que refletia a luz
das velas. Mármore liso e grandes faixas de tecido vermelho faziam a sala
parecer adequada para a realeza.
Sorcha não poderia se importar menos com a aparência grandiosa da
sala. Foram as pessoas nas quais seus olhos se fixaram e a visão delas que
fizeram seus joelhos fraquejarem.
Cada Fae da ilha tinha se vestido com suas melhores roupas. Eles não se
enfeitaram com seda ou veludo, mas com roupas limpas e mantos de lã. Com
os rostos limpos, eles amarraram os cabelos em tranças intrincadas.
Eles não eram um povo da realeza. Eles não eram reis e rainhas, mas
homens e mulheres que viviam na terra.
— Eles parecem fora do lugar, — disse ela com uma risada. — E são as
coisas mais bonitas que já vi.
— Bom. Você verá muitos deles esta noite.
— Não para mim — Sorcha se virou com uma expressão preocupada. —
Você não reuniu todos eles para mim, não é Pedra?
Ele piscou. — Você perdeu a memória vindo aqui, não é Sorcha? Por
mais que eu adorasse forçar meu povo a se ajoelhar diante de sua beleza, não
é por isso que eles estão aqui. É o Samhain.
— Já?
Ela saiu de casa na primavera, e já era Samhain? Sorcha se sentiu como
se tivesse acabado de chegar à praia e agora o outono batia na porta do mundo
humano.
A massa emaranhada de pessoas se separou e Oona marchou em sua
direção. Suas asas estavam em plena exibição, marcas vermelhas pintadas do
lábio ao queixo.
— Filha do mundo humano, você faria as honras?
— As honras? — Sorcha inclinou a cabeça. — Vocês comemoram da
mesma forma que meu povo?
— Seu povo? Ou o pessoal da sua mãe?
Ela sorriu. — O povo da minha mãe. Meu pai e minhas irmãs nunca
celebraram os velhos tempos.
— Então acenda o fogo para nós, criança, e honre os mortos.
Sorcha enredou os dedos nos de Pedra por um momento, apertando a
mão dele. Ela olhou por cima do ombro enquanto descia as escadas. Seu olhar
encontrou o dela, orgulho e honra refletidos em suas profundezas.
— Obrigada. — Disse Sorcha.
— Eu sabia que seria importante para você.
— Como?
Ele encolheu os ombros. — Eu simplesmente sabia.
Seus dedos deslizaram dos dele, arrastando-se ao longo dos cristais de
sua palma e passando através de seus calos gêmeos. Ela desceu as escadas de
costas com um sorriso suave no rosto. — E você vai participar das festividades,
meu rei?
O queixo de Pedra caiu e Sorcha se deleitou com sua surpresa. Ele parecia
incapaz de falar. Um estado que ela achou surpreendentemente adequado a
seus gostos. Com um sorriso malicioso no rosto, ela se virou para Oona e a
seguiu até o altar.
— A caça selvagem é hoje à noite? — Sorcha perguntou. — Estamos
seguros aqui?
— Este não é o Outro Mundo, mas também não é o mundo humano. A
Caçada Selvagem não atinge essas praias, — respondeu Oona. — Mas ainda
honramos a viagem e sonhamos em ver seu poder mais uma vez.
— Não vamos nem ver eles? — Sorcha esperava dar uma olhada. Agora
que a pomada havia tirado o encanto de seus olhos, seria um prazer ver o que
as Faes viam. A Caçada Selvagem, liderada por seu grande rei com chifres,
sempre foi fascinante.
Sua decepção era grande, mas também uma bênção. Ela não sabia o que
Cernunnos faria se visse um humano na prisão dos Faes.
Galhos grossos com folhas verdes ainda penduradas em seus galhos
criaram um altar onde o trono de Eamonn geralmente ficava. As raízes da
árvore enroladas em um círculo no chão, criando uma base forte e
estável. Ofertas empilhadas quase transbordando ao seu redor. Leite, mel e
mais comida do que qualquer Tuatha dé Danann poderia devorar.
— É uma boa oferta. — Disse ela.
— Este ano foi melhor do que a maioria. Temos muito a agradecer.
— Assim como eu. — Ela pegou uma taça cheia até a borda com vinho e
derramou nas raízes. — Por muitos anos com a família e amigos, que todos
possamos passar a noite sem pesadelos e o próximo ano sem dor ou
contenda. Agradeço meus ancestrais, os deuses acima e os deuses
abaixo. Viemos a este lugar para celebrar o Samhain e buscar abrigo da Caçada
Selvagem.
Algo se mexeu em seu peito. Uma memória ou um conhecimento antigo
passado de geração em geração. Ela se lembrou das palavras como se sua mãe
as sussurrasse em seu ouvido.
Sorcha ergueu um dedo e traçou runas no ar. — Espíritos do Oriente e
do Ar, dou as boas-vindas a vocês em nosso círculo e lhes dou boas-
novas. Nesta noite sagrada de Samhain, venham dançar conosco.
Faes se agitaram atrás dela, pixies erguendo-se no ar e golpeando sua
espinha com sua brisa. Seus cachos voaram sobre seus ombros. A luz azul saiu
das runas que ela desenhou. Ela engasgou. Nunca antes ela tinha visto um
ritual Samhain como este antes.
Inclinando-se para frente, ela golpeou pederneira e aço para acender a
vela na base do altar. — Espíritos do Sul e do Fogo, dou as boas-vindas a vocês
para festejar conosco nesta noite sagrada.
A vela acendeu e o ar ficou quente. Ela disse a si mesma para não enxugar
o suor da testa, pois isso iria insultar os Faes que gostavam do calor.
Ela mergulhou os dedos na taça à sua esquerda e sacudiu as gotas de
água. — Espíritos do Oeste e da Água, dou as boas-vindas a vocês para
beberem e se alegrarem conosco esta noite. Juntem-se às nossas festanças nesta
sagrada véspera de Samhain.
O ar ficou abafado. Seu vestido estava preso nas costas e seu cabelo
estava pesado com o peso da água no ar. Um kelpie bufou, embora ela não
tivesse visto nenhum na multidão.
Um pequeno pote de terra era a última e última peça de seu ritual. Ela
esfregou a sujeira entre os dedos, sentindo o conhecimento antigo que
continha.
— Espíritos do Norte e da Terra, dou-lhes as boas-vindas a este salão e
peço que nos contem histórias de eras passadas. Falem com calma e soltem a
língua nesta noite sagrada.
Ela sentiu a poderosa alegria dos Faes antes que fizesse suas orelhas
doerem. Sorcha sorriu, incapaz de impedir que sua própria felicidade
borbulhasse. Esta era uma boa noite. Uma noite abençoada. Uma noite
tranquila.
Seu peito apertou com força e seus olhos perderam o foco. Havia mais
uma vela que deveria estar neste altar.
Ela estendeu a mão, traçou o contorno das folhas que morreram e
murcharam enquanto ela observava. Ela atingiu a pederneira e o aço mais uma
vez, incendiando a árvore morta.
Os Faes ficaram em silêncio.
— Eu te dou as boas-vindas Morrighan e suas irmãs ao nosso
rebanho. Senhora do Destino, da Guerra e do Medo, você é bem-vinda dentro
destas paredes. — Sorcha ergueu uma taça de vinho, inclinou a cabeça para
trás e fechou os olhos. — Morrighan - salve e seja bem-vinda!
Uma alegria ensurdecedora seguiu suas palavras, mas ela não ouviu. Em
vez disso, Sorcha ouviu uma risada satisfeita e sentiu o cheiro de grama de
trigo dos cavalos.
— Muito bem, — murmurou Macha. — Festejem e fiquem a salvo da
Caçada Selvagem.
Oona passou um braço pelos ombros de Sorcha e deu-lhe uma
sacudida. — Bem feito! É quase como se você tivesse nascido uma sacerdotisa
druida!
— Uma o quê? — Sorcha abriu os olhos em choque. — Do que você me
chamou?
— Oh, querida, você tem druida em você! Eu sabia que havia algo
estranho em você! Somente uma sacerdotisa conheceria esse ritual. E um dia
vou perguntar quem te ensinou, mas por enquanto beba!
Outra taça de vinho pressionada em sua mão. Segurando duas, ela
assistiu Oona dançar uma dança alegre para Cian que assistia com uma
expressão azeda. Quando a pixie o alcançou, ele suspirou e ergueu os
braços. Eles giraram em círculos selvagens ao redor de outros Fae até que todos
no salão estavam dançando.
Sorcha ficou parada com as mãos ocupadas, observando a alegria em
choque. Uma bolha de riso escapou de seus lábios, efervescendo até que ela
não pôde mais se conter.
Uma mão de cristal arrancou uma das taças de sua mão. — Muito bem,
sacerdotisa.
— Eu não sou uma sacerdotisa, — ela balançou a cabeça. — Minha mãe
pode ter sido, estou percebendo agora. Foi a partir do livro dela que obtive esse
conhecimento.
— Esse tipo de precisão vem de anos de prática.
— Posso dizer honestamente que nunca realizei um ritual Samhain como
esse. Você acha que é porque estamos mais perto do Outro Mundo? — Ela
engoliu um gole de vinho como se isso pudesse ajudar a clarear sua cabeça.
— Não. Acho que é porque os druidas transmitem conhecimento através
de linhagens maternas. E porque você nasceu uma sacerdotisa.
— Minha mãe disse que eu era uma changeling.
— Sua mãe estava errada. Já confirmamos que você não é Fae. Talvez
haja algumas coisas que possamos considerar.
— Nós? — Sorcha ergueu os olhos.
Seus olhos de oceano olharam fixamente para ela, curiosidade e bondade
refletidas em suas profundezas. — Se você está tão inclinada a descobrir quem
você é, eu ofereço meus serviços.
— Que ajuda você pode fornecer?
— Há uma biblioteca.
— Aqui?
— Sim.
Sorcha colocou as mãos nos quadris. — Quando você ia me dizer?
— Quando você perguntasse.
— E se eu nunca perguntasse?
Os lábios de Pedra se curvaram para o lado. — Então você nunca saberia.
— Você é um homem cruel, — ela disse enquanto entregava sua taça para
uma Fae que passava. — Você dança?
— Eu danço.
— Parece que você não dança mais.
— Não sou mais gracioso, — ele deu um tapinha no quadril. — Os
cristais impedem muito movimento. Lutar é uma coisa, a graça é inata quando
você está lutando por sua vida. Dançar não vem naturalmente.
— Bem, — ela disse. Sorcha ergueu a saia o suficiente para mostrar os
pés e apontou. — Eu tenho dois pés esquerdos. Não consigo dançar bem de
jeito nenhum, e é muito provável que você fique grato pelos cristais, porque,
do contrário, eu poderia esmagar seus dedos.
— Não tenho cristais nos dedos dos pés.
— Então você vai ter quando eu terminar com você. — Ela piscou. —
Talvez você se importe de olhar seu cartão de dança para um espaço livre onde
eu possa escrever meu nome?
Ele arqueou uma sobrancelha. — Você pode escrever seu nome?
— Nem todos os humanos são analfabetos. — Ela balançou a cabeça. —
Você sabe que eu consigo ler, Pedra.
O rosnado que retumbou de sua garganta causou arrepios em sua
espinha.
Sorcha engasgou quando mãos largas deslizaram ao redor de sua cintura
e a puxaram contra seu peito. Ela espalmou os dedos contra seu calor. Suas
pernas emolduraram as dela, a parte interna das coxas pressionadas contra
seus quadris. Seu estômago estava colado ao dele - cristais cortando o tecido
fino.
— Isso dificilmente é apropriado. — Ela sussurrou.
— Os humanos não dançam como os Fae.
— É assim que você dança?
— Bem, não particularmente.
Ela olhou para cima e pegou a risada brilhante que dançou em seus
olhos. Ele inclinou a cabeça para o lado, ergueu a mão e gentilmente colocou
uma mecha de cabelo atrás da orelha dela. As pontas dos dedos dele eram
leves como uma pena contra sua pele. Ele traçou um círculo contra seu
pescoço, percorreu a encosta de seu ombro e braço, ergueu sua mão até que
descansou contra seu bíceps.
Ela não conseguia respirar, não conseguia nem pensar enquanto ele
seguia o mesmo caminho do outro lado de seu corpo e enrolava os dedos em
torno de sua mão. Sua outra palma flexionou contra sua coluna.
— Esta é a maneira correta de dançar com uma mulher. — Disse ele.
— Assim? — Sorcha ouviu a qualidade ofegante em sua voz, as notas
abafadas que escorriam de sua língua.
O calor brilhou em seu olhar, um rubor espalhando-se por suas
bochechas. — Talvez você nunca tenha dançado com um homem.
— Meninos, sim. Um homem? — Os olhos de Sorcha seguiram a borda
irregular de cristais, a trança bárbara balançando do topo de sua cabeça até a
cintura, a túnica de linho com cinto de pele de ovelha. — Nunca um homem
como você.
Ele pressionou suavemente contra sua espinha, e eles giraram na
multidão. Faes valsavam ao redor deles enquanto uma banda tocava uma
melodia.
Sorcha não se lembraria de nenhuma das cores vibrantes e da magia que
faiscava no ar. Como ela poderia? Ele a encarava como se ela fosse o
mundo. Como se ela arrancasse as estrelas do céu e as entrelaçasse com os fios
de cabelo.
Pedra usava seu corpo como uma arma. Ele a girou em círculos até que
ela não soubesse qual caminho era para cima e qual era para baixo. Ele só
parou quando ela tropeçou, caindo em seus braços.
Ela gostava muito de ser pressionada contra seu peito. Ele era seguro e
amplo, e muito mais do que qualquer homem que ela já conheceu antes.
Ela disse alguma coisa, pode ter sido qualquer coisa, ela não sabia o
quê. Mas ele inclinou a cabeça para trás e riu tanto que os músculos tensos de
seu pescoço se destacaram em total alívio. Os cristais ficaram boquiabertos
com o ferimento causado pelo enforcamento, e ela não conseguia mais ver a
desfiguração.
Ele era lindo. Um instrumento de poder e símbolo de força.
Pedra a girou em seus braços, pressionando sua bochecha contra o topo
de sua cabeça antes de desvendá-la. Ele pressionou sua coluna contra seu
peito, mergulhando até que ele pudesse sussurrar em seu ouvido: — Como
você sabia que eu era para ser rei?
— Você se comporta como se fosse para governar.
— E Oona disse a você.
Ele provaria a mentira, então ela não disse nada e olhou por cima do
ombro. — Será que realmente importa como eu sei, Pedra?
Sua expressão ficou tão feroz que ela pensou que ele poderia esmagá-
la. Em vez disso, ele traçou o dedo pela bochecha dela e pressionou a testa na
dela. — Eamonn.
— O que? — Ela engasgou.
— Meu nome é Eamonn.
Antes que ela pudesse comentar sobre tal presente, ele os girou em
círculos largos ao redor do salão até que ela jogou a cabeça para trás e riu. Isso
era perfeito. Cada momento era perfeito e doce.
E ele era perfeito. Cada pedaço quebrado dele era perfeito para ela.
Ele reuniu todas as pessoas que significavam algo para ela. Cada Fae que
lhe deu presentes, gentileza, riso, paz. Eles estavam todos aqui em seus
melhores trajes e não importava que eles não tivessem seda ou veludo para
compartilhar.
Seus corações batiam como um só. Samhain nunca foi celebrado por uma
família tão forte.
Eles passaram o dia nos braços um do outro. De vez em quando, eles
paravam para comer e beber. Os pés de Sorcha doíam, mas ela não queria parar
de dançar. Então ela enchia o rosto, provocava os Faes que via ao longo do
caminho, mas nunca se afastando muito dele.
Havia uma sensação iminente de desgraça, algo que ela não conseguia
explicar ou entender. Embora esta noite parecesse que eles se encontravam
pela primeira vez, o amanhã era incerto.
As vozes de suas irmãs sussurraram em sua mente. Era assim que uma
mulher se tornava amante. Apaixone-se pelo homem errado e o desastre
certamente virá. Ele deveria ser um rei! E Sorcha? Ela era parteira de tão longe
que ele nem sabia o nome de sua cidade.
Sorcha afastou as vozes, não querendo se preocupar com o futuro esta
noite.
Outra voz se juntou a suas irmãs. — Diga a meu irmão para aproveitar
seus últimos dias. — Ela não podia dizer a Pedra - Eamonn, ela se lembrou -
que ela conheceu seu irmão gêmeo. Ela se recusava a emitir um aviso que não
tinha certeza de ter algum peso.
Ela teve uma bênção do rei dos Faes Seelie. Se ele queria matar seu irmão,
ela usaria sua bênção contra isso. Eamonn viveria. Eles poderiam ficar nesta
ilha até o fim dos tempos.
E então os besouros de sangue devorariam sua família.
Era tão fácil esquecer a realidade aqui. Ela entendeu as muitas histórias
de homens e mulheres que passaram séculos no Outro Mundo apenas para
voltar e descobrir que tudo se foi. A vida era tão fácil aqui. Não havia
responsabilidades, nem pessoas para cuidar, apenas ela mesma e seus próprios
caprichos.
Talvez um dia ela esquecesse os ecos de sua família. Hoje à noite, ela
certamente o faria. Mas amanhã de manhã, Sorcha sabia que se lembraria de
cada pedaço da culpa que costurava em seus ossos.
A música se acalmou quando o sol mergulhou no horizonte. Seu vestido
grudava em sua pele e seu cabelo ondulava ao redor dela como uma nuvem
vermelha. Ela se encostou ao lado de Eamonn e ficou na janela olhando para
as listras brilhantes de nuvens coloridas.
— Você gostou do seu Samhain, minha dama? — Ele perguntou.
— Acredito que esta foi a celebração mais divertida que tive o prazer de
participar.
— Qual foi sua parte favorita?
— A companhia.
— Ah, — ele riu e coçou a nuca. — Excluída a companhia atual, espero.
— Espera? Por que você esperaria ser excluído desse grupo?
Eamonn abriu bem as mãos. A luz rosa do pôr do sol iluminava os
cristais. — Eu dificilmente estou apto para enfeitar os salões de senhores e
senhoras. Os cães podem entrar, mas os lobos devem ficar além da porta.
Ela odiava ouvi-lo falar de si mesmo assim. Muitos anos de tormento e
desaprovação da família e dos amigos levaram ao ódio de si mesmo. Ela tinha
visto isso em si mesma.
Era muito mais fácil dizer que ele estava errado e ignorar as emoções
refletidas em si mesma.
Sorcha estendeu a mão e entrelaçou os dedos com os dele. — Até os lobos
podem ser tenros, leais e corajosos. Prefiro correr com eles na selva a pintar
meu rosto e tentar me misturar às paredes.
Ele apertou os dedos dela. — Eu esqueci com quem eu falo.
— Uma parteira?
— Uma sacerdotisa druida com muito mais poder do que ela admite.
— Ele pressionou os lábios contra as costas dos nós dos dedos dela. — Eu
gostaria de te mostrar uma coisa.
— Outra surpresa? Eamonn, posso desmaiar se continuar com
isso. Estou convencida de que alguém roubou seu corpo e se fez passar por um
cavalheiro em sua carne.
Seus olhos brilharam. — Eu gosto demais do som do meu nome em seus
lábios.
Um arrepio percorreu sua espinha. — Então, tentarei usá-lo em todas as
ocasiões.
— Venha comigo.
Ela o seguiu até as profundezas do castelo. Passou por cantos com teias
de aranha, vitrais escurecidos pelo sol e nichos escondidos onde a névoa se
acumulava. Subindo uma escada, ela não reconheceu que se curvava
perigosamente sem corrimão. Em uma passarela tão alta que as nuvens se
enredaram em suas saias.
— Onde estamos? — Ela gritou contra o vento.
— Você está com medo?
— Não! Isso é lindo!
Seu sorriso brilhou quando as estrelas piscaram atrás dele. — Que louca
você é, o medo não tem nome para você, não é?
— O medo é um inimigo da batalha! Eu a conheço bem.
— Não caia.
— Você vai me pegar se eu fizer isso?
— Vou voar sobre as asas da Caçada Selvagem, se necessário.
Ela caiu na gargalhada. — Eu pensei que os Faes não podiam mentir?
Ele a puxou para fora da passarela e a puxou para um canto escondido. O
calor de seu peito queimando o tecido de seu vestido. — Eu não minto. Se eu
tivesse que chamar a Caçada Selvagem para salvá-la, eu o faria.
— Acho que cairia para a morte antes que você conseguisse.
— Eu encontraria outra maneira.
Sorcha sorriu e balançou a cabeça. — O que você quer me mostrar?
Eamonn pressionou as costas contra a parede e empurrou. O brilho em
seus olhos chamou sua atenção antes que ela percebesse que a parede se
transformou em uma porta. Um brilho quente iluminou a moldura com luz
laranja.
Ele empurrou com mais força para revelar os tapetes de pele e as paredes
revestidas de livros.
— Oh, — ela sussurrou. — Esta é a biblioteca?
— Não. Estes são os meus aposentos.
— Seus? — Sorcha arqueou uma sobrancelha. — Que tipo de mulher
você pensa que eu sou, Eamonn?
Ela sabia que ele rosnaria quando ela usasse seu nome. Ela queria ouvir
de novo e de novo.
O som de barítono profundo retumbou de dentro de seu peito. Era a
chamada de um leão para sua companheira, o bufo silencioso de um veado na
floresta, o gorgolejar da água sob o gelo.
Ele estendeu a mão para ela, puxando-a contra seu peito até que suas
mãos se espalharam contra ele. — Diga isso de novo.
— Não preciso chamá-lo pelo nome.
— Diga.
— Você me trouxe aqui por um motivo, Eamonn. — Sorcha sorriu com o
terremoto que sentiu nas palmas das mãos. — Porque estamos aqui?
O hálito desapontado que soprou em seu rosto cheirava a hortelã. —
Você é a tentação, pequena sacerdotisa.
— Dificilmente. Eu não fui criada como uma druida.
— Você não precisa ser. O druida está em seu sangue e estou curioso para
ver o que você acha desta surpresa.
Ele não a largou totalmente. Eamonn deslizou as mãos pelos braços dela
e enredou os dedos nos dela. Silencioso, ele a guiou até uma estante de livros
e a soltou.
O livro que ele tirou da prateleira brilhou na luz. Sua capa verde
profunda e palavras com fios de ouro vacilaram sob seu olhar.
— Tem encanto? — Ela perguntou.
— Não que eu saiba.
Estava mudando na frente de seus olhos. O verde salpicava como se a
luz do sol o atingisse através das folhas. As letras mudaram e se moveram até
que ela não conseguiu ler o título, muito menos quem o havia escrito.
Eamonn estendeu para ela pegar.
Ela acariciou a espinha, algo dentro dela clamando para tratá-la como
um animal de estimação amado. Ele rangeu quando ela abriu as
páginas. Manchas de tinta mancharam a maioria deles, desenhos feitos à mão
de ervas e instruções enchendo o papel pergaminho.
— Quem escreveu isso?
— Eu não sei. Não há nada nas páginas.
— O que? — Sorcha ergueu os olhos. — Há muito nas páginas,
simplesmente não há assinatura.
— Não consigo ver nada escrito nesse livro. Eu tentei por anos, mas não
importa o quanto eu tente, as páginas permanecem em branco.
— Interessante. — Com o nariz enterrado, ela vagueou em direção às
cadeiras. — Há muito aqui que eu nunca considerei. Artemísia, por exemplo,
raramente é usada para curar pesadelos. É curioso que sugira usá-lo enquanto
canta... alguma coisa. Não consigo ler essa parte.
— Você ainda não está pronta para isso, eu imagino.
— Por quê? — Sorcha torceu o nariz. — Por que eu não estaria pronta
para o conhecimento?
— Pela mesma razão, eu não estava pronto para ser rei. — Ele arrancou
o livro de suas mãos e colocou-o sobre uma pequena mesa. — Todos nós
devemos crescer antes de assumirmos a responsabilidade.
— Você seria um bom rei.
— É o que você diz, mas eu não estava pronto quando jovem.
Ele a rodeou. Sorcha conhecia a expressão em seus olhos. As bordas
escurecidas, a atenção aos detalhes, a fome que ela só tinha visto em um
lobo. Ela estava sendo caçada e não sabia se queria fugir ou abraçar o perigo.
— Vejo muitas qualidades em você que dariam um bom rei. Não sei se
alguém está pronto para assumir uma tarefa tão assustadora.
— Como você sabia que eu deveria ser rei?
— Esse é o meu segredinho.
Ela sentiu a respiração dele espalhar-se pela nuca. — Eu não gosto de
segredos.
— Você prefere que eu minta?
— Eu nunca prefiro mentiras.
— Então, temo que você deva decidir-se a ficar desapontado, Eamonn.
Sorcha ficou perfeitamente imóvel, o medo travando seus joelhos e a
curiosidade acalmando sua respiração. Ao som de seu nome, um único dedo
tocou sua garganta. Sua respiração ficou presa.
A unha dele arranhou apenas o suficiente para deixar uma marca
enquanto ele a arrastava pelo pescoço e ombro. Ele hesitou por um breve
momento antes de prendê-lo por baixo do tecido amarelo de seu vestido.
Ele estava dando tempo para ela dizer para ele parar, ela percebeu. Uma
voz em sua cabeça gritou para sair, para correr, que uma Fae não era
confiável. Mas seu coração sabia o que ela queria.
Ele.
Sorcha suspirou quando o tecido do vestido escorregou pelo ombro,
deixando à mostra a pele branca leitosa pontilhada de sardas. Ele gemeu e
traçou padrões entre as belas marcas.
— Você sabe como eles me chamavam, Sorcha?
— Não. — Ela não conseguia pensar, muito menos decifrar o que suas
palavras significavam. Não quando ele estava acariciando a pele nua de seu
ombro e a brisa fria roçou seus braços sensíveis.
— O Veado Vermelho. Usei minha lâmina como os chifres da besta,
deixando feridas pontilhando a carne dos meus inimigos. Eu esculpi meu
homônimo na pele mais vezes do que posso contar.
— Isso é para me assustar?
— É um aviso.
— Que você é perigoso? — Ela olhou por cima do ombro, o tecido de seu
vestido escorregando ainda mais. — Eu sei disso, Eamonn. Você é a espada, a
arma, o soldado dos Faes Seelie.
Ele traçou círculos em seu pescoço. — E a espada é muito mais poderosa
do que a caneta por um tempo. Mas, eventualmente, uma espada perde seu
peso, torna-se um símbolo mais do que uma arma. Todos os guerreiros se
voltam para a caneta depois de vencerem suas guerras.
— Precisamente por isso que acredito que você seria um bom rei.
A respiração dele acariciou seu braço. Cristais pressionados em carne
macia, rodeados pelo calor aveludado de sua boca. Um leve movimento de sua
língua acariciou entre as sardas.
— Por que todo o seu corpo tem gosto de luz do sol? — ele perguntou. —
É inebriante.
— Todo o meu corpo? Eu não sabia que você tinha experimentado cada
centímetro.
— Não há como voltar desta Sorcha. Se você fizer essa escolha, não posso
parar.
— Você é um homem grande, Eamonn, mas não é o meu primeiro.
Sorcha se lembrou de respirar enquanto as mãos dele se enrolavam em
sua cintura. Ele a puxou contra ele, pressionou sua coluna contra seu
estômago. — Quem ousou tocar o que é meu?
— Eu sou minha antes de ser de qualquer outro. Mas se você quer saber,
eu cresci em um bordel. Uma garota fica curiosa.
— Uma garota estabelece a linha entre o certo e o errado.
— Existe uma coisa dessas? — Ela girou em seus braços, os olhos
brilhando de raiva. — Certo e errado sugere que existe apenas preto e
branco. Eu refuto essa crença e, em vez disso, substituo-a pela minha. Se desejo
um homem, tomarei um.
Uma resposta de raiva acendeu em seus próprios olhos. Cristais
iluminados com o fogo de sua paixão. — E o que você deseja?
Cada fibra dela ansiava que ele a tocasse. Ela queria seus dedos em seu
cabelo, seu corpo pressionado contra o dela - no dela - até que ela não soubesse
onde ele começava e onde ela terminava.
Sorcha o queria. Não importava que ele fosse maior que ela, ou que fosse
Fae. Ela poderia se arrepender pela manhã, mas agora ela iria aproveitar cada
segundo dessa má decisão.
Ela deslizou as mãos pelo amplo plano de seu peito, enredou os dedos
em torno de sua trança e puxou-o para baixo. Suas testas pressionadas
juntas. Ela inalou seu ar e soprou nele uma nova vida.
— Eu desejo um rei.
— Então você terá um rei.
Ele a ergueu em seus braços como se ela não pesasse nada. Sorcha o tinha
visto brandir uma espada mais alta do que ela, talvez ela se parecesse como
uma pena para ele. Ela poderia ter ponderado tais pensamentos se ele não
tivesse se precipitado e devorado seus lábios.
Seu corpo brilhava com paixão e desejo tão grandes que ela temia que
nunca fosse satisfeito. Algo, ou alguém, desenrolou-se profundamente em sua
alma. Uma mulher que ela mal reconhecia, que sabia pegar o que queria e
pedia pelo mundo.
A luz das velas desapareceu em ondas de fumaça quando ele a deitou
em uma cama de penas. A escuridão como tinta o obscureceu de sua visão.
Suas mãos percorreram seus lados, seguindo as marcas de sua cintura e
o alargamento de seus quadris. Cristal frio pressionado contra a coluna lisa de
seu pescoço. Os pontos mais altos se cravaram em sua pele, não muito
doloridos e causando arrepios a cada toque.
O corpete apertado de seu vestido afrouxou. Seus pulmões se
expandiram e suas costas arquearam, empurrando o peito nas mãos dele. Ele
deslizou os dedos pelo tecido aberto, passando os dedos pela cintura dela e
puxando-a para o peito.
Pedras pressionadas contra a carne nua. Ela suspirou, o som quase alto
demais quando ele se ergueu e capturou seus lábios novamente. O raspar
erótico do cristal se mesclando com seu gemido gutural enviou
estremecimentos por seu corpo. Ele alisou a mão sobre sua espinha nua, a mão
tremendo enquanto ele se mantinha sob controle.
— Eamonn, — ela sussurrou. — Eu quero te ver.
— Ninguém quer ver esse rosto.
— Eu não desejo ver nada além de você!
Velas ganharam vida ao redor do quarto dizimado. Móveis
despedaçados, cacos de estátuas de pedra e espelhos quebrados criaram um
campo de batalha. A cama foi tudo o que sobreviveu incólume.
Eamonn não olhou para ela. Ele virou a metade cicatrizada de seu rosto
para longe dela, como se ela pudesse se sentir insultada pela simples visão
dele.
Sorcha estendeu a mão e afundou os dedos nas cavidades de sua
bochecha. Ela sussurrou feroz e rouca: — Como você ousa se esconder de mim,
meu rei?
— Seu rei?
— Você não se esconde de ninguém.
As palavras atingiram um fogo profundo em sua barriga. Ela destruiria
qualquer um que ousasse dizer que este homem não era um rei. Ela conheceu
o impostor que usava uma coroa roubada. Nenhum homem poderia viver de
acordo com o gigante que pairava sobre ela e diminuía as luzes, temendo que
seu rosto diminuísse sua paixão.
Seu coração batia como um tambor. Ela suavizou o aperto em seu rosto,
deslizando para baixo na conhecida depressão da garganta e clavícula. Seus
dedos se curvaram ao redor da barra de sua camisa e a ergueu.
O tempo todo, os olhos de Eamonn observavam seus
movimentos. Tantas emoções passaram por seu
rosto. Vergonha. Embaraço. Maravilha.
— Que tipo de criatura você é? — ele perguntou. — Destemida em sua
capacidade de ver além desta figura horrível, e tão altruísta que você permitiria
que uma besta colocasse as mãos sobre você.
— Você não é uma besta. — Ela disse enquanto jogava a camisa dele no
chão.
As cavernas de geodos seguiam as linhas de suas costelas. Ela traçou suas
bordas, ousando mergulhar nas fendas até que os cristais mordessem seus
dedos. Sorcha delineou cada ferimento, cada ferimento grave até ter certeza de
que havia marcado cada um com seu cheiro e seu toque.
Ela se sentou, pressionando o peito contra o dele e a boca contra o ombro
dele. Ela traçou a carne mutilada e a pedra com lábios e língua.
— Eu reclamo você como meu, legítimo rei dos Faes Seelie. — Sorcha
cravou os dentes em sua pele, mordendo a carne até que a ponta áspera da
pedra rachou seus lábios.
O sangue manchou seu ombro. Marcando-o por toda a eternidade.
Ele rugiu de raiva, ou talvez algo muito mais perigoso. Sua mão
flexionou sob o tecido de seu vestido e rasgou. Cristais e pele quente traçaram
a linha delicada de sua coluna em um pedido de desculpas.
— Você brinca com fogo, — ele rosnou. — Uma vez ferido, eu nunca
curo.
— Bom. Talvez qualquer outra mulher que ouse tocar em você pense
duas vezes.
O sorriso feroz em seu rosto chamou a criatura dentro dela, a mulher que
queria festejar com o Fae. — E você diz que não é uma druida.
— Eu gosto mais de você de boca fechada.
— Devo encontrar algo para mantê-la ocupada então?
Sorcha não conseguiu responder. Um fogo queimou em seu sangue, e a
necessidade cresceu até que caiu sobre sua mente. Ela montou em sua cintura
e arqueou sua coluna, oferecendo seu corpo como um banquete no qual ele
poderia se banquetear.
A luz das velas fazia sua pele brilhar. Ele ergueu as mãos trêmulas,
deslizando sobre as protuberâncias de suas costelas até que pudesse tomá-la
nas mãos. Ela inclinou a cabeça para trás, incapaz de manter contato visual
quando os cristais ganharam vida. Violeta brilhava por trás de seus olhos
fechados.
Ela engasgou quando os cristais deslizaram sobre as pontas de seus seios,
frios e estranhamente duros. Sua coluna se curvou ainda mais, e ela apertou
sua mão. Um longo suspiro cavou sua barriga enquanto ele brincava com a
ponta de seda entre os dedos.
Ele seguiu a linha de sua garganta com o nariz. Os dentes se fecharam ao
redor de sua orelha, seu hálito quente vibrando em seu ouvido. Ela apertou as
pernas contra os lados do corpo dele enquanto o calor úmido a percorria.
— Deite-se. — Ele falou lentamente.
— Não.
— Sorcha.
— Eu disse não.
— Agora não é hora de discutir comigo.
— O que eu disse sobre manter sua boca fechada? — Ela perguntou.
Sorcha travou os tornozelos e torceu o corpo. Suas sobrancelhas se
curvaram em surpresa, mas ele atendeu ao pedido dela. Eamonn rolou.
Ele esticou o corpo na cama e colocou os quadris dela sobre os
dele. Inclinando a cabeça para o lado, ele perguntou — E agora?
Um sorriso perverso se espalhou em seus lábios. Sorcha alisou os ombros
dele com as mãos, afastando os braços dele e colocando-os na cama. Ela
acariciou as protuberâncias de seus bíceps, sobre os cristais em seus antebraços
e entrelaçou seus dedos com os dele.
Seus quadris balançaram, jogando para frente e para trás em sua
dureza. Ele era incrivelmente grande, muito mais do que um homem jamais
poderia sonhar ser. Um pequeno momento de preocupação a fez se perguntar
se ele caberia.
Ela teria que obrigá-lo.
Sorcha sussurrou os lábios sobre a bagunça mutilada de seu ombro. Os
cristais arranharam a superfície de seu peito beliscando em sua boca. Ela
dançou os dedos em suas costelas, sorrindo em seu suspiro enquanto arrastava
os dedos em seu estômago.
Ela demorou-se na faixa de músculos arqueando sobre o osso do
quadril. Pequenas mordidinhas enviaram arrepios diante de seus olhos.
— Sorcha, — ele gemeu. — Tenha pena de um homem.
Dificilmente. Ela olhou para ele, sacudindo uma sobrancelha antes de
morder com força.
Ele cerrou os punhos nos lençóis e jogou a cabeça para o lado.
— A pena é para os fracos, — ela sussurrou, — e você subestimou a
mulher que trouxe para a cama.
Ela deslizou os dedos por baixo das calças dele, roçando a bochecha sobre
o calor palpitante. Os lençóis farfalhavam enquanto ele se arqueava contra o
toque dela. Ele se ergueu para que ela pudesse libertá-lo dos limites das
roupas.
Ele era glorioso. Sorcha ficou completamente satisfeita em ver que os
Faes foram construídos de forma inteiramente semelhante aos homens.
Ela deu um beijo contra seu eixo e fez seu caminho de volta por seu
corpo. Ela montou em sua cintura e segurou suas mãos.
— Você está nesta ilha há muito tempo. Seria um descuido se eu não
perguntasse há quanto tempo.
Os olhos azuis encheram de bolhas de calor quando ela enfiou os dedos
sob o longo comprimento de sua saia. — Demasiado longo.
— Quanto tempo é isso?
— Tempo suficiente para que eu não esteja colocando nada nisso.
— Então eu serei gentil desta vez. — Ela sussurrou.
Na verdade, ela não tinha certeza se poderia esperar. Seu calor úmido já
se espalhava por ele, e ela não conseguia parar o movimento rítmico de seus
quadris. Seus braços flexionaram e ele puxou o vestido sobre os ombros.
Mãos percorreram seus ombros, demorando-se nas curvas de seus seios
e deslizando por suas coxas.
— Gentil? — Ele perguntou. — Quando eu pedi gentil?
Ela nunca havia se sentido assim antes. Ele de boa vontade deu a ela
controle total sobre a situação, e ela queria devorá-lo. Ela queria marcá-lo por
toda a eternidade. Triturá-lo até que tudo o que pudesse fazer fosse sussurrar
o nome dela.
A recém-descoberta parte dela mesma, o animal, a besta, queria vê-lo de
joelhos. Ela entendeu como os homens se sentiam quando vinham para o
bordel. Ela poderia ordenar que ele fizesse o que ela quisesse.
Sorcha se inclinou para frente, afundou os dentes no lóbulo da orelha
dele e acalmou a dor com a língua. — O que você quer, Eamonn?
Ele rosnou e ergueu os quadris.
— Oh, — ela sussurrou. — Isso é tudo?
Ela alcançou entre eles e envolveu sua mão ao redor de seu comprimento
duro. Ele pulsava entre seus dedos, ansioso e desejoso. Como recompensa, ela
deslizou a mão para cima e para baixo até que ele estivesse respirando tão
rápido que balançava a cama.
Mas ainda não. Ela não tinha terminado com ele ainda. Ela fez uma
pausa, esperou que ele recuperasse o fôlego, então o marcou em sua
abertura. Ele era largo, muito grande, muito grosso e muito atraente.
Ela queria vê-lo quando ele entrasse nela. Ela queria observar seus olhos
e marcar-se em sua alma.
— Eamonn. — Ela sussurrou, sabendo o quanto ele gostava de ouvir seu
nome em seus lábios.
— Agora, Sorcha.
Uma onda de calor enrijeceu sua barriga e ela gemeu. Jogando-se, ela o
acomodou até seu centro.
Ambos ofegaram, arquearam-se, doeram um pelo outro quando dois se
tornaram um. As velas se apagaram quando uma rajada de magia percorreu o
quarto.
Ele a encheu até a beira da dor. Ela picou, mas as agulhas da sensação
eram agradáveis. Arrepios eróticos dançaram por sua espinha, multiplicando-
se enquanto ele gemia em apreciação.
Sorcha se inclinou para frente. A respiração dele acariciou seus lábios e
ela não conseguia se mover. Ainda não. Ela queria saborear cada momento que
passava. Cada aperto de músculo o arrastava ainda mais fundo.
Uma gota de suor escorreu por sua têmpora.
— Você parece como um lar. — Ele sussurrou. As palavras eram doces
contra seus lábios.
Ela sabia há quanto tempo ele não sentia que tinha um lar. Ele tinha sido
o pária por séculos. E agora, ele admitia que deslizar em seu calor enchia
aquele pedaço de si mesmo.
A terra poderia ter se aberto e Sorcha não seria capaz de parar. Ela se
levantou e desceu. Ela engasgou, apertando forte quando ela estabeleceu um
ritmo que o fez agarrar os lençóis novamente.
Ele não a tocou até que ela levantou suas mãos de volta. Ele deu a ela
todo o poder, toda a liberdade para usar seu corpo como ela quisesse. Ela
pressionou as palmas das mãos contra os seios, arrastou as mãos até o monte
e o encorajou a tocar, a aprender seu corpo como ela conhecia o dele.
Movimentos lentos se tornaram frustrantes. Ela apoiou as mãos no peito
dele e acelerou, mas suas coxas estavam tremendo e sua mente fraturada.
Ele rosnou e a afastou. Ela se espalhou na cama, seu cabelo um fogo
selvagem de cachos, enquanto ele mergulhava de volta nela.
O tempo para ternura havia passado. Os animais dentro deles
agarraram-se à frente. Eles lutaram sob os lençóis, torcendo-se por poder e
controle. Ela afundou os dentes em seu ombro novamente, encaixando-os nas
marcas que já havia deixado. O uivo em sua alma ficou mais alto quando ele
alcançou entre eles e deslizou o polegar em seu calor fundido.
— Eamonn! — Ela gritou.
Ela ficou tensa, seu corpo inteiro buscando as estrelas. Mais e mais alto
ele a levou, forçando-a mais longe do que ela já tinha ido até que ela arqueou
as costas e gritou em liberação.
Seus olhos se arregalaram para ver quando ele jogou a cabeça para trás e
gemeu. Os cristais que envolviam sua garganta pulsaram, seus braços
tremeram e seus quadris pararam.
Eles lutaram, tiraram sangue e, no final, eles se ergueram em direção às
estrelas e saíram vitoriosos. Ambos vivos e desfeitos.
Eamonn caiu sobre o pescoço dela, o peito arfando.
Ele a apertou contra ele, uma larga mão espalhada por sua
espinha. Sorcha escondeu o sorriso que floresceu em seus lábios. Era estranho
como ele perdia facilmente a maneira autoconsciente com que se
portava. Primeiro, ele parou de usar a capa com capuz, então ele ficou
confortável com ela vendo suas cicatrizes, e agora ele não vacilou quando elas
foram pressionadas contra sua pele.
Uma mulher pode se acostumar com isso. Mesmo as pedras em suas
mãos não a incomodavam, elas haviam esquentado suas paixões e aquecido
suas costas. Ela estava encasulada - segura em seus braços.
Os lençóis farfalharam quando ele moveu suas pernas para mais perto
das dela. Seus lábios pressionaram contra sua testa, gentilmente para que ele
não rompesse sua pele com os cristais. — Fique comigo.
Sorcha estremeceu. — Há muitos significados para eu adivinhar o que
você quer dizer.
— Fique comigo aqui em Hy-brasil, enquanto você viver.
— É uma pergunta ousada para um Fae. Sua espécie despreza os
humanos.
— Você não é humana. Você é uma druida e, além disso, é minha. Eles
vão te amar, ou eu vou colocá-los de joelhos.
Ela suspirou e pressionou os lábios contra sua clavícula. — Você não
pode forçar as pessoas a aceitar a mudança. E por mais que eu ame este lugar,
os Faes, este mundo que você me mostrou, eu tenho que voltar.
— Por quê? Para salvar a pequena quantidade de pessoas que cuidam de
você?
— Não se trata apenas da minha família, mas de todos. A praga do
besouro do sangue é horrível e não vou permitir que se espalhe mais.
— E eles prometeram dar a você uma cura, se você me levasse de volta,
— ele grunhiu. — Eles distorceram a verdade, Sorcha. Eles a enviarão em outra
missão impossível assim que retornarmos à sua terra. E outra depois
disso. Faes, especialmente os gêmeos MacNara, não são confiáveis.
Ela se apoiou em um cotovelo, procurando em seu olhar a verdade de
suas palavras. — Você não acha que eles têm a cura.
— Eu acho que eles sabem da cura, mas eles estão tentando se encontrar
comigo há séculos. Eles brincam com seus fantoches, os forçam a dançar e eles
não se importam se quebram as cordas.
— Vou quebrar essas cordas — rosnou Sorcha. — Como vou salvar meu
povo?
— Eu não sei. — Ele ergueu a mão e colocou seu cabelo rebelde atrás da
orelha. — Eu não sei se é mesmo possível para você salvá-los. As pragas vêm
e vão, mas a humanidade sempre sobrevive a elas.
— As pessoas estão sofrendo. Não posso ficar sabendo que elas estão
sofrendo e posso ajudar.
— Você tem um coração muito grande para o seu corpo. — Ele
murmurou.
Ela pegou a mão que ele pressionou contra seu peito, segurando-a com
força o suficiente para que os cristais espetassem sua pele. — Não posso,
Eamonn. Eles são minha família, meu povo, não posso deixá-los viver uma
vida que não merecem.
— Cada vez que você abre a boca, é como se estivesse arrancando
palavras da minha alma. Prometa ficar aqui e voltarei ao seu mundo com
você. Vou ajudá-la em sua jornada para encontrar a cura para seu povo.
— Você irá? — Sorcha não tinha pensado que ele concordaria tão
prontamente. — Ficar aqui é a escolha mais fácil que já tive que fazer. Eu ficarei
ao seu lado com prazer.
— É doloroso eu ter que subornar você para permanecer aqui.
Ela tinha ouvido essas palavras antes. Os homens diziam isso a suas
irmãs todos os dias da semana. Eles pagavam favores às mulheres e esperavam
que elas também as amassem. Sorcha sabia que nenhuma de suas irmãs amava
aqueles homens, mas a maneira como seu coração doeu quando viu Eamonn
disse que esta era uma situação diferente.
Deitando-se, Sorcha enfiou a cabeça no oco de sua garganta e respirou
seu perfume terreno. — Eu fico porque eu escolhi, não porque você concordou
em salvar meu povo comigo. Você me poupou da dificuldade de decidir entre
você e meu povo. Por isso, eu agradeço.
Ele hesitantemente colocou os braços de volta ao redor dela. Ele a puxou
para mais perto dele até que ela não pudesse dizer onde ele começava e onde
terminava. — Ninguém deveria ter que escolher entre seu povo e aqueles que
ama.
— Falando por experiência própria? — Ela sabia que ele estava. Ela tinha
visto o lugar onde ele crescera, as paredes brilhantes do palácio e as cortinas
de seda. Seu povo precisava dele, sentia falta dele, desejava ter um rei digno
de seu afeto. Até a realeza, Elva veio à mente, queria que ele voltasse.
— Sim.
Algum dia ela o convenceria a voltar para Seelie. Ela iria convencê-lo a
tomar seu trono roubado, colocar uma coroa em sua cabeça e se tornar o
homem que ela via dentro dele. Seu povo se regozijaria e saudaria seu nome.
Mas não até que ela salvasse seu povo. Só então ela convenceria o
príncipe Seelie a retornar. Talvez fosse egoísmo e provavelmente a escolha
errada, mas Sorcha não aguentava mais. Seu povo precisava dela. A culpa
rasgou sua alma e seus gritos imaginários de dor devoraram sua mente. Este
lugar, embora bonito, não era dela. Ela desistiria de boa vontade de sua antiga
vida se soubesse que sua família e seu povo estavam felizes.
Fechando os olhos, ela se aconchegou mais perto de seu calor e resolveu
dormir. Ele deu um beijo em sua cabeça. Ela ficou acordada até que sua
respiração se estabilizou no ritmo constante dos sonhos.

Sorcha rolou para o lado e estendeu a mão para Eamonn. Ela não tinha
dormido bem - uma cama nova sempre era difícil na primeira noite. Ela
continuou rolando para encontrá-lo, preocupada que ele pudesse desaparecer
na noite.
A Caçada Selvagem estava acontecendo e ela temia que ele fosse levado
por Cernunnos e sua noiva.
Os dedos dela alisaram a cama vazia, os lençóis frios pela ausência do
corpo dele. O pico de medo fez sua respiração ficar presa na garganta. Onde
ele estava?
Não poderia ser a Caçada Selvagem. O luar se filtrou pelas janelas,
zombando de seus pensamentos. Certamente nenhum outro Tuatha dé
Danann o tiraria desta prisão?
Com a mente se recuperando do medo, Sorcha se sentou e arrastou os
dedos pela massa emaranhada de cabelo. Ela estava pensando
irracionalmente. Este era o lugar onde baniam pessoas. Ninguém iria removê-
las.
Ela respirou fundo e forçou os músculos a relaxarem. Ela se concentrou
nas pontas dos dedos dos pés, desejando que o relaxamento viajasse das pontas
dos pés por todo o corpo. Assim que seus músculos liberaram a tensão, ela se
sentiu significativamente melhor.
Ainda não havia resposta para o que acontecera a Eamonn. Onde ele
estava, ela se lembrou, era a verdadeira questão. Talvez ele tenha ido se limpar.
Ela não conseguia imaginar por quê. Um sorriso se espalhou por suas
feições no crepúsculo. Ele provou ser um homem muito digno.
Seu corpo doía em lugares que ela não percebeu que tinha. Cada
pulsação de músculo e tremor de membro a lembrava de que ela tinha sido
bem e verdadeiramente reivindicada, e que ela havia reivindicado a ele
também.
Sorcha mordeu o lábio e puxou os cobertores até o peito. Os cachos
caíram sobre seu corpo nu, escorregando nos lençóis de seda.
— Onde ele está? — Ela murmurou. — Eu gostaria de repetir a noite
passada.
O barulho ecoou do lado de fora da porta. Nas escadas? Ela não
conseguia imaginar por que Oona traria comida ou chá. Era tarde demais e, se
Eamonn lhe pedisse para subir as escadas no meio da noite, Sorcha teria
palavras para ele. O homem não descobria nada sobre seu povo.
Oona era uma velha! Não importava que seu corpo parecesse jovem, ela
tinha anos suficientes para merecer um pouco mais de respeito.
Ela deslizou as pernas pela beirada da cama e sibilou quando os dedos
dos pés tocaram a pedra fria.
— Eamonn, — ela rosnou. — Todos os outros lugares do castelo têm pele
de carneiro, então não congelamos os dedos dos pés pela manhã. No entanto,
você insiste em se punir ainda tão cedo.
A luz fraca tornava difícil encontrar seu vestido. O tecido amarelo estava
estragado, ele tinha arrancado todos os botões das costas. Mas teria que servir
por enquanto. Oona não se importaria se um pouco de sua pele estivesse
aparecendo.
A Fae já tinha visto cada pedacinho de Sorcha de qualquer maneira.
Ela bufou. Que estranho não se preocupar mais com quem ou o que via
sua nudez. Ela estava com medo de revelar até mesmo o menor pedaço de
tornozelo quando ela chegou. Agora, ela não estava preocupada em valsar com
as costas totalmente nuas.
A mente era uma coisa estranha e maravilhosa, ela meditou. Ela deslizou
o tecido para cima e sobre os ombros, pressionando-o contra o peito e
manobrando um nó improvisado em volta da cintura. Contanto que ficasse no
ar quando deveria, ela diria que foi uma vitória.
O barulho tornou-se clangor, ficando cada vez mais alto à medida que
alcançava a porta dos aposentos de Eamonn. A sobrancelha de Sorcha
franziu. Ela conhecia aquele som, mas ela não conhecia.
Não era o som de cerâmica ou pratos.
A porta do quarto se abriu, bateu contra a parede com um estrondo
estrondoso e caiu da dobradiça superior. Ela gritou e ergueu o braço. Ela se
recusou a recuar, a se esconder, a cair para trás.
— Sorcha! — O grito de Eamonn foi um som bem-vindo, embora
preocupante.
— Eamonn!
— Onde você está, mulher?
Ele não podia vê-la na escuridão. Ela correu em direção a ele, envolvendo
os braços em torno da moldura delineada pelo brilho de uma vela.
— Estou aqui, — ela sussurrou. — Estou aqui, o que há de errado?
O metal cravou em suas costelas. Seus bíceps encontraram uma
armadura fria e o punho de sua espada pressionado contra sua barriga. Ele
estava vestido para a guerra.
Eamonn a envolveu com os braços, pressionando os lábios contra seu
cabelo. — Graças aos deuses. Você está segura.
— Estou bem, o que está acontecendo?
— Quando você viu meu irmão?
A pergunta a gelou até os ossos. — O que?
— Você viu meu irmão gêmeo e não me contou. Quando foi isso?
— Eamonn, sinto muito, deveria ter contado a você. Ele me chamou e eu
sabia que iria causar problemas se eu não fosse. Eu não queria...
Ele a segurou a um braço de distância e apertou um dedo contra seus
lábios. — Eu não estou bravo com você. Eu só preciso saber o que foi dito entre
vocês dois.
— Nada que eu achasse que você precisava saber ou eu teria te contado
imediatamente.
— Ele tentou te convencer de que seria um bom rei.
— Sim, — ela concordou. — Ele tentou muito.
— E ele não teve sucesso.
— Não. Ainda acredito que você seria o melhor rei, e me doeu ver um
impostor sentado em seu trono, vestindo seu rosto.
Ele inclinou o rosto, estremecendo com as palavras dela. — Você pode se
arrepender de dizer isso.
— Ele me ofereceu uma bênção. Ele não ousaria me machucar, não
quando eu posso comandá-lo.
— É perigoso para um rei oferecer tal coisa.
— Isso é exatamente o que eu disse.
Eamonn bateu em seu queixo com um dedo blindado. — Exatamente por
que eu acho você tão interessante, Sorcha. Você pensa como um soldado.
— Eu penso como quem quer sobreviver. Por que você vestiu sua
armadura?
Ela o observou cuidadosamente enquanto ele se afastava. A armadura
rangia com seus movimentos, gemendo e estalando placas arranhando umas
contra as outras. Sua coluna endureceu e ele respirou fundo, controlando-se.
— Eu sempre soube que chegaria a esse ponto. Meu irmão me quer morto
há séculos. Eu ameacei seu direito de sentar naquele trono, embora eu tenha
sido desgraçado e banido. Enquanto eu estiver vivo, o povo sempre chamará
o Grande Rei de Seelie para se sentar no trono dourado.
— Como deveriam.
— Não é minha escolha, Sorcha, — disse ele. — O mundo tomou essa
decisão por mim. Estou arruinado, portanto, não sou apto para ser rei.
— Você não acredita que vale a pena considerar a mudança? Talvez as
pessoas que escolhem ser Fae Seelie não desejem mais ter um rei perfeito!
— Você diz palavras blasfemas que não esperava entender.
— Eu entendo mais do que você imagina. — Ela alcançou seu rosto,
emoldurando suas bochechas com as mãos. — Seu povo está morrendo sob o
controle de um tirano que mostra pouca bondade. Eles querem que você volte
para casa. Até mesmo os Tuatha dé Danann.
— O que você sabe dessas coisas? — Uma lança de luz de vela se
espalhou por seu rosto.
Não, não à luz de velas, ela percebeu. Fogo de fora da janela da torre mais
alta do castelo. Algo estava queimando lá fora. Ela podia sentir o cheiro da
fumaça agora, acre e queimando o nariz até que ela quis espirrar. Ela não iria
olhar.
— Elva era a Fae que Oona queria que eu ajudasse. Ela disse que foi
criada com você e seu irmão. Ela falou muito bem de você e das coisas boas
que você poderia ter feito se se tornasse rei.
— Elva, — ele sussurrou. — Esse é um nome que não ouço há muito
tempo.
— O rei fez dela sua concubina.
— Ele não tinha o direito. — A raiva repentina na voz de Eamonn
assustou Sorcha.
— Ela era sua?
— Não. Ela era de outro, mas ele não teria direito sobre uma mulher
Seelie se o rei Seelie a quisesse. — Ele praguejou. — Como ele ousa se
intrometer nessas coisas? Não admira que ele seja tão odiado.
Sorcha engoliu em seco. — Eamonn, por que você está de armadura?
— O rei está aqui.
Claro. Ela deveria ter adivinhado, mas ela não queria pensar que o pior
havia acontecido.
— Por quê?
— Você sabe porquê.
E ela sabia. O rei queria matar seu irmão de uma vez por todas. Sorcha
abaixou a cabeça, acariciou com a mão as placas lisas da armadura dele e
assentiu.
— O que você precisa que eu faça?
— Fique segura e fora do caminho.
— Como? — Ela olhou para ele em busca de orientação. —Eu nunca
estive em uma batalha antes.
— Me siga. Vou levá-la a algum lugar onde eu sei que você não será
prejudicada.
— E se você cair? — Ela não queria fazer a pergunta. O pensamento dele
sangrando no campo de batalha sem sua ajuda fez um grito subir no fundo de
sua garganta. — Eu posso ajudar os feridos.
— Eu preciso que você fique fora do caminho. Siga-me o mais de perto
que puder, e se encontrarmos algum dos homens de Fionn, não interfira.
Sorcha assentiu e o seguiu enquanto ele saía correndo do quarto. O peso
de sua armadura deve ter sido grande, mas ele se movia como se não usasse
nada. Era diferente da armadura de metal que ela vira antes. As peças
entrelaçadas deslizavam facilmente umas contra as outras e não atrapalhavam
seus movimentos. Nenhum adorno tornava a armadura - bonita. Era
funcional. Prática. Como ele.
Ela ergueu as saias enquanto eles corriam pelos aposentos dele e saíam
para o parapeito perigoso pendurado acima do solo. Foi então que ela viu o
exército.
Espalhados pela ilha que ela tanto amava, homens e mulheres em
armaduras douradas ergueram suas espadas e lanças. Os Fae que viviam no
castelo e serviam a seu verdadeiro mestre estavam ao redor do castelo em uma
linha fraca.
Havia tão poucos deles.
Sorcha parou de correr, cerrando os punhos no tecido da saia enquanto
as lágrimas escorriam pelo rosto. Eles morreriam. Sob nenhuma circunstância
uma quantidade tão pequena de Feéricos Menores teria uma chance contra um
exército em equipamento de batalha completo.
Os Faes que ela conhecia e amava seguravam cerâmica de cozinha em
suas mãos. Potes, frigideiras, enxadas de jardim.
Um soluço sufocado a balançou para frente. — Eles nem mesmo têm
armas, — ela sussurrou. — Por favor, tenha misericórdia deles, eles nem
mesmo têm armas.
— Sorcha!
Ela se encolheu ao grito de Eamonn, balançando-se para frente
perigosamente perto da borda.
— Sorcha, desça!
Um homem escalou a borda do parapeito. As lâminas gêmeas brilhavam
ao luar. Ele as usava como apoio para as mãos, perfurando feridas na lateral
do castelo. Eles sabiam onde Eamonn estava.
A borda dourada de sua armadura era afiada como uma lâmina. Ele se
virou para ela, não para Eamonn, e sorriu ao ver seu olhar de medo.
— Você está atrapalhando, — o Fae grunhiu. — Pode ir.
Ele se lançou e ela se afastou. As mãos dele prenderam o tecido do
vestido dela e ela caiu sobre as mãos e os joelhos. Pedra mordeu suas
palmas. Cabelo caiu na frente de seu rosto, obscurecendo sua visão. As mãos
dele agarraram seus tornozelos e ela gritou.
Então ele desapareceu. Arrancado de suas pernas com um grito de
pânico próprio. Ela olhou por cima do ombro para ver Eamonn erguer o Fae
sobre sua cabeça. Muito fácil. Tão simples. Sua expressão era fria e sem coração
quando ele jogou o homem sobre a borda.
O grito ecoante soou como o uivo de uma sidhe de feijão.
— Venha. — Eamonn estendeu a mão para ela tomar. — Temos que ir.
— Aquele homem...
— Um do meu irmão e não vale a pena sua culpa. Levante-se.
Ela queria vomitar. Sorcha tinha visto a morte muitas vezes, mas nunca
tão descuidadamente tratada. Essa foi uma vida que foi jogada fora,
literalmente, e ele nem se incomodou com isso.
Pela primeira vez desde que o conheceu, ela olhou para Eamonn com
novos olhos. De alguma forma, ela tinha fantasiado sobre ele como o herói de
um conto de Faes, mas ele era um guerreiro de carne e osso cujas mãos e corpo
estavam manchados de morte e guerra.
Ela encaixou a mão na dele, sabendo muito bem o que significava. Ela
não podia suportar a morte. Mas ela também não se afastaria dele.
Ele a puxou e assentiu. — Esse não é o último deles, Sorcha. Vai ter mais.
— Eu sei.
— Você não sabia disso.
— Eu sei agora.
Ele deu a ela um último olhar demorado antes de correr em direção à
porta da parte principal do castelo. Sorcha o seguiu, o coração batendo forte
nos ouvidos.
O barulho de sua armadura ecoando na escada sinuosa. Ele quicou na
torre circular, ficando cada vez mais alto. O toque dos sinos da igreja. Sinos
fúnebres.
Um corpo caiu silenciosamente no meio. Ela não teria notado, pois o Fae
nem mesmo gritou de medo, mas o ar assobiou através de sua armadura e o
peso forte carregou o ar com eletricidade.
— Eles estão nos seguindo. — Disse ela. Suas palavras pareciam muito
altas, desrespeitosas com as mortes que ela acabara de ver.
— Claro que eles estão. Fique perto.
Ao se aproximarem do fundo, Eamonn desembainhou sua espada
larga. Os rubis no cabo de repente fizeram mais sentido. A lâmina se
banqueteava com o sangue de seus inimigos, e milhares de almas eram presas
lá.
Embora o pensamento fosse fantasioso, Sorcha ainda se afastou de sua
espada.
— Você está com medo de mim? — ele perguntou. Ele não olhou para
ela, em vez disso, olhou para o corredor e esperou por sua resposta.
— Não de você, mas de sua arma.
— Você deveria ter medo de Ocras.
— O nome da espada é Fome?
— Ela devora meus inimigos e corta carne e ossos. Ela não deseja você.
— Ela?
Eamonn deu um sorriso selvagem. — Claro. As mulheres são capazes de
beleza e dor.
— Há muitas que discutiriam com você sobre isso.
— Elas teriam que discutir com Ocras.
— Estamos correndo?
— Ainda não.
— Por que estamos esperando? — Ela não olhou para o corredor, não
querendo ver para onde eles corriam até o último segundo.
— Só mais um pouco, — ele murmurou. — Apenas o tempo suficiente
para lhes dar tempo.
— Para quê?
— Agora.
Ele contornou a parede e avançou pelo corredor com um grito
agudo. Seu rugido fez as paredes tremerem e o chão tremer com a força de sua
raiva. Como prometido, Sorcha o seguiu de perto, mas deu a ele espaço
suficiente para brandir a espada.
E ele balançou.
Quatro soldados esperavam por eles. Dois homens, duas mulheres,
armaduras douradas moldadas aos seus corpos. Elmos com penas brilhantes
escondiam suas espécies e os faziam parecer ainda mais sobrenaturais.
Eles atacaram todos de uma vez, e foi como se tivessem atingido um
touro. Eamonn mergulhou no primeiro, batendo com o ombro no estômago do
homem. O metal se partiu quando ele ergueu um braço para bloquear uma
espada que cortava em sua direção. Atingiu seu antebraço e se partiu ao meio
quando cortou sua armadura e encontrou o cristal por baixo.
Ocras cantou enquanto ela balançava no ar e cortava o pescoço de u
homem Fae. Parou no meio do caminho, o sangue escorrendo por sua
armadura quando Eamonn colocou o pé em seu peito e o empurrou.
Ele não hesitou. Ele se virou e atacou, mergulhando a espada na cavidade
torácica da mulher Fae. Ela gritou e caiu no chão enquanto segurava o
estômago.
Eamonn arrancou a espada de seu punho moribundo e pegou o próximo
ataque com a lâmina. As armas guinchavam sua fúria no ar. Os músculos do
pescoço de Eamonn incharam, as veias pulsando quando ele empurrou a outra
para trás. Passo a passo.
Desbloqueando suas espadas, balançando a sua para o lado, Eamonn
afundou a lâmina na fenda onde a coxa encontra a pélvis. O homem caiu com
um grito, segurando sua perna.
A última mulher correu. Ela correu pelo corredor como se pudesse conter
uma nova fuga. Eamonn rosnou e puxou a espada Fae roubada da perna do
homem, abaixou a cabeça e caminhou calmamente pelo corredor.
Sorcha não sabia se devia estar apavorada ou com raiva. Havia maneiras
melhores de terminar uma luta do que com sangue.
O cheiro metálico queimou suas narinas. O sangue jorrando no ar até que
ela pensou que podia vê-lo pairando acima dela como uma cortina de culpa.
Ela não podia ficar parada e assistir isso acontecer.
Eamonn não estava olhando, então não podia impedi-la. Ela correu para
frente e colocou as mãos nos ombros do homem Fae.
— Fácil, — ela sussurrou. — Eu vou arrastar você de volta para a
parede. Não faça nenhum som, ou ele vai se virar.
O homem grunhiu e pressionou as mãos com mais força contra o
ferimento.
Sorcha, embora pequena, tinha ficado forte ao manipular o corpo
humano e caminhar por toda a ilha. Ele era maior que ela, mas pequeno para
um Fae. Ela enfiou as mãos sob as axilas dele e o arrastou alguns metros até
que ele pudesse se apoiar na pedra.
Ela caiu de joelhos ao lado dele e afastou as mãos dele.
— Não. — Ele resmungou.
— Deixe-me. Eu sou uma curandeira.
A ferida era profunda e cortava músculos. Se tivesse sorte, viveria, mas
nunca mais voltaria a andar.
Sorcha não seria quem lhe diria isso. Talvez os curandeiros Faes
soubessem mais do que ela sobre seus corpos. A única coisa que ela podia fazer
era impedir que ele sangrasse.
O som de rasgo de seu vestido fez Eamonn parar. Ela podia sentir o calor
de seu olhar, sua raiva queimando sua carne.
Rapidamente, ela enrolou o pano embaixo de sua coxa e apertou o mais
possível. Ela deu um nó no tecido, ignorou seu gemido de dor e se virou para
as adagas Faes em suas ações.
— Eu não vou deixá-lo morrer.
— Por quê? Alguma afeição estranha por meu irmão gêmeo?
— Porque ele está apenas fazendo um trabalho. Não vou ficar parada
quando puder ajudar, não importa o lado pelo qual ele lute.
— Coração mole.
Eamonn se virou e lançou a espada em sua mão. Ela assobiou no ar e se
cravou nas costas da mulher Fae que arranhou a porta, então ficou inerte.
— Vamos embora. — Disse Eamonn. Ele se virou e puxou Ocras para
fora da outra mulher, estendendo a mão ensanguentada para ela pegar.
Sorcha se levantou lentamente, medindo-o com um olhar pesado. —
Você está com raiva de mim.
— Eu estou.
— Por quê?
— Ele não merece sua ajuda.
— Ele está vivo. Isso significa que ele merece minha ajuda. Nunca vou
deixar de querer curar as pessoas, e se você quiser, podemos acabar com isso
agora. Eu ajudo outros. Isto é o que eu faço.
Ela viu um músculo saltar em sua mandíbula. Seus olhos se desviaram
dos dela, olhando para a parede até que ele finalmente assentiu. — Que assim
seja. Venha comigo.
Ele não estendeu a mão e ela não segurou seu braço. Eles ficaram parados
no corredor cheio de sangue, olhando para longe um do outro. Uma fenda
entre eles cresceu, se fragmentando e se dividindo, um desfiladeiro destruiu
sua tênue aliança.
Sorcha deveria estar com o coração partido. Ela deveria estar triste, mas
estava com raiva. Como ele ousava ficar com raiva dela por tentar salvar outra
vida?
Seu coração sussurrou para ser gentil. Que o homem diante dela
precisava de tanta cura quanto o homem atrás dela. Seu irmão estava aqui para
matá-lo. Eamonn provavelmente não estaria procurando aqueles que estavam
apenas fazendo um trabalho em comparação com aqueles que o queriam
morto.
Talvez todos eles o quisessem morto. Ela não tinha como saber.
Ele olhou para ela e ela encontrou seu olhar enquanto seus olhos se
arregalaram de medo.
— Sorcha!
Ela ouviu o som de armadura se movendo antes de se virar. O Fae que
ela salvou estava atrás dela. Ela não viu nada além de determinação fria em
seu olhar e uma espada que parecia brilhar em suas mãos.
O tempo diminuiu. Ela ouviu sua própria exalação e a mão dele começou
a descer. Sorcha se abaixou, as palmas das mãos se arrastando pelas placas de
sua armadura. Seus dedos deslizaram pelo metal e agarraram uma peça afiada.
Ela engasgou quando ele caiu contra ela, cambaleando de dor. Ela fechou
os olhos com força enquanto o sangue quente derramava sobre suas mãos. A
ponta irregular da armadura mordeu seus dedos, mas cortou seu peito ainda
mais quando ela tentou se mover.
Suas mãos tremiam, mas ela não conseguia movê-las. Ele ofegou em seu
ouvido, o chiado de uma respiração agonizante. Ela sabia muito bem. Sorcha
já tinha ouvido isso muitas vezes, mas nunca tão perto.
Eamonn pode ter matado os outros, mas ela matou este.
— Sorcha. — As mãos blindadas de Eamonn puxaram-na para longe do
corpo. Ele caiu no chão com um baque úmido. — Sorcha, sinto muito que você
tenha feito isso.
— Eu não queria matá-lo.
— Você tinha que se proteger, mo chroí.
— Eu não sabia o que fazer.
— O primeiro é sempre o mais difícil. Mas não temos tempo para isso.
— Eu deveria verificar o batimento cardíaco. — Disse ela. Ela tentou se
virar, mas ele nem mesmo a deixou olhar para o corpo.
— Não. Não, partimos agora Sorcha. Eu preciso esconder você dele.
— De quem? — Sua mente estava nebulosa. Tudo o que ela podia sentir
era sangue em suas mãos e ela deveria estar confortável com a
sensação. Quantas vezes ela sentiu sangue em suas mãos? Saindo de entre as
pernas de uma mulher. Era a vida.
Mas isso era a morte.
— Sorcha.
— Eu pensei que você e Bran pareciam estar dançando. Foi lindo ver você
treinar. Fiquei tão impressionada. Achei que uma batalha real seria assim, mas
não é.
— Praticar é uma coisa. É fácil fazer com que os movimentos pareçam
graciosos quando nenhuma lâmina atinge sua garganta. A batalha real é
corajosa, confusa, brutal. Sinto muito que você teve que ver isso.
— Mo chroí, — ela sussurrou. — Você me chamou de seu coração.
Ele agarrou a mão dela e não respondeu. Eles correram pelos corredores,
esquivando-se dos soldados. O castelo vibrava com os gritos de Fae que não
tinham ido à frente para lutar contra o exército do rei.
Sorcha não aguentava mais morte. Ela fechou os olhos com força e deixou
Eamonn guiá-la pelo chão. Talvez ele soubesse que ela não iria
olhar. Eventualmente, ele a balançou em seus braços e avançou através das
portas infinitas e cômodos escondidos.
Ele irrompeu por uma porta lateral. Ela se enrolou contra seu peito e
choramingou, querendo nada mais do que o fim desta batalha. Para que sua
vida voltasse ao normal. Para acordar em sua própria cama e que isso não fosse
nada mais do que um conto maravilhoso para suas irmãs.
O vento roçou seu cabelo em seu rosto, frio e calmante.
Na brisa, ela ouviu uma canção assustadora. Um grito que estremeceu
dos lábios de uma mulher, falando de um amor perdido e de uma morte que
veio cedo demais.
Eamonn ficou parado.
— Bean sidhe, — ele disse. — Eu não tenho nenhuma disputa com os
Unseelie.
— Onde está meu irmão?
— Eu presumi que ele voltou para você.
— Sem verdades distorcidas, rei Seelie. Quero que meu irmão volte em
segurança.
Sorcha sentiu seu aceno de cabeça contra o topo de sua cabeça. — Eu
ainda tenho um uso para ele.
— Ele não vai lutar por você. Não precisamos de outra guerra com os Fae
Seelie além de tudo o que aconteceu. Bran não quer uma guerra. Ele não fala
pelo conselho Unseelie.
— Eu nunca pensei que ele quisesse. Ele desistiu dessa vida há muito
tempo.
— Bem. — A banshee uivou e o vento aumentou novamente. —
Providencie para que meu irmão volte para casa em segurança.
— Depois que ele me ajudar.
— O negócio foi fechado.
O toque frio do vento parecia a mão de uma mulher. Deslizou pela
sobrancelha e pelos braços. Sorcha ouviu um sussurro baixo na brisa.
— Olá, sacerdotisa.
O que a mulher Unseelie sabia que Sorcha não? As palavras não eram
meramente uma observação. Como se ela a tivesse visto antes, ou talvez sua
semelhança.
Eamonn tocou seu queixo. — Você deve caminhar a partir daqui, mo
chroí.
Ela tocou os dedos dos pés no chão e se equilibrou em seu braço. — O
que você vai fazer?
— O que eu deveria ter feito há muito tempo.
— Você vai lutar com ele? — Sorcha balançou a cabeça. — Eamonn, mais
derramamento de sangue não vai consertar isso. Você precisa falar com seu
irmão.
— Você acha que ele quer dividir o trono? Não é possível para os Faes
Seelie terem dois reis.
— Certamente seus pais pensaram nisso? Vocês são gêmeos,
Eamonn! Eles deviam saber que haveria dois reis, ou você se sentaria no trono.
Uma sombra passou por seu rosto. — Eles sempre quiseram que
compartilhássemos o reino. Fionn fez sua escolha.
Lá estava. Outro nome de Fae que ela poderia adicionar à sua coleção,
embora este ela não quisesse. O nome do rei dançava em sua língua e tinha
gosto de leite azedo.
Ela não queria essa responsabilidade. Ela não queria este nome que
marcasse em sua mente porque ela sabia que este era o primeiro nome de Fae
que ela queria usar.
Este era o único poder que um humano tinha sobre um Fae. Ela sabia o
nome dele e agora podia ordenar que ele fizesse o que bem entendesse. Sorcha
poderia entrar nos campos de batalha e gritar para ele parar e ele o faria.
Mas tal responsabilidade significava que ela escolhia um
lado. Significava que ela confiava que Eamonn seria um rei melhor, e agora
que o vira na batalha, não tinha mais certeza disso. Ele mudou muito. Tudo o
que ela sabia com certeza era que ele não era seu irmão.
Ela não conseguia decidir se isso o tornava digno de um trono.
Eamonn olhou para ela. — Você escolheu?
— Eu não vou escolher. Vim aqui para salvar meu povo, minha
família. Não se envolver nas cortes dos Faes e em suas guerras.
— Não acho que você tenha escolha, — disse ele. Ele traçou uma linha de
sua testa, seu nariz e através de seus lábios. — Você está aqui, Sorcha. Isso
significa que você está envolvida.
— Eu não desejo estar.
— Desejos não significam nada para os Fae.
— Eu sei. — As palavras ficaram presas no nó grosso de um soluço.
— Eu nunca quis te machucar.
— Eamonn, diga-me o que está acontecendo. Para onde você está me
levando?
— Eu não vou te levar a lugar nenhum, mo chroí.
Ele se inclinou e pegou seus lábios em um beijo ardente. Ele se derramou
nela, afundando a língua e saboreando até que ela sentiu a essência dele
rastejando sob sua pele. Suas memórias pulsavam em seu coração, e ela sabia
que isso era um adeus.
Sorcha enredou os dedos na longa cauda de sua trança e puxou-o para
si. Ela cravou as unhas em seu crânio, marcando-o como seu ainda mais longe
do que já tinha feito. Seus dentes bateram juntos, o sangue jorrou de seus
lábios, mas ela não queria parar. Se ela parasse, seu coração se partiria e seu
ser se despedaçaria em mil pedaços.
Ele se afastou.
— Não, — ela sussurrou e fechou os olhos com força. — Não, Eamonn,
não faça isso. Você prometeu voltar comigo.
— Se você ficasse. — Seu polegar traçou uma linha sobre seu lábio
inferior. — E você não vai ficar.
Pés com garras agarraram sua cintura. Seus olhos se abriram e o chão
caiu.
— Não! — Ela gritou. — Não! Por favor não!
Sua alma se estilhaçou, gritando que ela não queria deixá-lo. Ele não
deveria estar sozinho quando enfrentasse o campo de batalha.
Grandes asas lançaram o ar contra sua cabeça. Ela lutou, sem sucesso. O
pássaro bestial não soltou sua cintura e logo eles estavam altos demais para ela
escapar.
O pico mais alto do castelo estava quase ao seu alcance. Tudo parecia tão
pequeno, até mesmo os Faes com armaduras que atacavam a porta da frente e
rechaçavam aqueles que ela amava. Ela ainda podia ouvir os gritos.
Eamonn olhou para ela. Uma vez que ela estava muito alto e inerte nas
garras do pássaro, ele se virou e entrou no campo de batalha.
Os Faes da ilha se separaram como um mar à sua frente. Sua armadura
manchada e envelhecida parecia pedra enquanto ele se movia no meio da
multidão. O exército dourado estava na frente dele, uma parede de poder e
intenção clara.
Sorcha se perguntou qual era Oona. De tão alto, ela não conseguia
distinguir rostos ou traços que pudesse reconhecer.
O pessoal de Eamonn era baixo e atarracado. Suas formas deformadas e
esticadas com características de animais, pele estranha, corpos de formatos
estranhos. Eles pareciam tão diferentes em comparação com a perfeição que
Fionn trouxe com ele. Esses eram os Tuatha dé Danann, os grandes Faes que
escravizaram aqueles que não mereciam.
Os gêmeos se espelhavam, ficando na vanguarda de seus
exércitos. Fionn estava montado em um grande corcel branco. A longa cauda
de seu cabelo balançava com a brisa. Eamonn estava parado com as pernas
enraizadas na terra, a trança fina e imóvel. Eles olhavam para um mar de
sangue e não se moveram.
— Bran? — Ela sussurrou contra o vento.
Um crocitar retumbante ecoou ao seu redor. Ela olhou para as garras
enroladas em sua cintura. Cada garra era tão grande quanto seu antebraço. A
pele áspera e cinza os cobria. Ela não tinha percebido que ele poderia se
transformar em uma fera tão grande. Outro segredo revelado, outra coisa para
guardar em sua memória.
— Eles vão se matar?
O vento assobiava passando por seus ouvidos, e ela não sabia se o
grasnar era para ela ou simplesmente um resmungo.
— Será que algum dia vou vê-lo de novo?
O príncipe Unseelie não respondeu. Ele afastou os dois do campo de
batalha e voou sobre o oceano.
Muito longe para que alguém pudesse ouvir seus soluços.
Capítulo 13

Casa

Eles viajaram através do mar com grande velocidade. Bran os levou bem
alto sobre a borda da tempestade, o luar dando lugar ao nascer do sol.
Sorcha queria absorver a beleza. Ela queria apreciar o mundo porque ela
nunca o veria dessa forma novamente. Merrows saltavam das ondas e
gritavam por eles. O Guardião nadava pelas profundezas como uma sombra
vagando sem rumo.
Ela absorveu tudo, mas seu coração parecia vazio. Drenado. Ela não
tinha certeza se ainda estava lá.
Seu príncipe dos Faes provavelmente estava morto. Se ele não estava
morto, então ele matou a imagem refletida de si mesmo. Quem poderia ser o
mesmo depois disso?
Matar um gêmeo era como matar a si mesmo?
As garras de Bran cravaram em sua pele, rasgando o ombro de seu
vestido. A dor era maçante em comparação com a dor de seu coração. Ela
sempre pensou que sofreria como Rosaleen quando perdesse um amante de
quem gostava.
A menina desamparada loira chorava e gritava. Suas bochechas
queimariam com o sal de suas lágrimas. A casa tocaria com a raiva de seus
gritos, a decepção consigo mesma e com o homem que partiu.
Sorcha estava entorpecida. Não havia absolutamente nada dentro
dela. Apenas uma pulsação surda onde seu coração costumava estar.
Os dedos dos pés de Bran se mexeram. — Estou levando você para casa.
Ela assentiu, embora ele não pudesse ver sua resposta.
Ele a empurrou. — Você me ouviu, parteira? Estou te levando para
casa. Não era isso que você queria esse tempo todo? Para ir para casa?
Sorcha não respondeu. Em vez disso, ela olhou para as ondas e se
perguntou o quanto doeria se ele a deixasse ir. Ela tinha ouvido que quanto
mais alto estava, mais sólida a superfície da água se tornava. Se ele a deixasse
ir, ela poderia golpear com força suficiente para nem mesmo sentir.
Seus dedos dos pés se apertaram com força, tirando o fôlego dela. —Não
é o fim do mundo, sua idiota. Você tem um propósito, lembra?
— Com licença?
— Eu posso dizer que você está deprimida!
— Eu acho que tenho o direito.
— Você nem se apaixonou por ele. Você perdeu um bom amigo, isso não
significa nada.
— Ele se tornou uma parte de mim.
O esboço tênue de casas apareceu no horizonte. Uma cidade
familiar. Parecia há muito tempo que ela olhou para os humanos do outro lado
da mesa. Há quanto tempo?
O tempo mudava de forma diferente no Outro Mundo, e Macha disse
que era o mesmo em Hy-brasil. Quanto seu mundo mudou?
Sorcha não tinha certeza de que sobreviveria.
Bran voou por cima dos edifícios, passando por navios e
marinheiros. Ninguém olhou para o grande pássaro alado carregando sua
carga humana. Ele os levou para uma pequena cabana. Abandonada e caindo,
que poderia ter sido um lar.
Já não. Sorcha ouviu o som suave de penas quando ele os derrubou no
chão. Ele a colocou suavemente no telhado da cabana e pulou para a terra onde
mudou de forma.
Penas derreteram em pele caramelo. Roupas pretas se formaram sobre
seu corpo. Garras encolheram em unhas até que apenas pequenas pontas
permaneceram. Uma poeira de minúsculas penas pretas ainda decorava seu
rosto, e o único olho de corvo olhava para ela.
Bran estendeu os braços. — Hora de descer.
— Eu não posso sentir meu corpo, — ela sussurrou. — É a sensação mais
estranha. Nunca pensei que perder alguém que eu amava pudesse realmente
machucar minha forma física.
— Venha Sorcha. Vou te contar uma história.
Ela não queria ouvir uma história. Ela queria que ele a levasse de volta
para Hy-brasil para que ela pudesse cuidar dos sobreviventes da guerra de
Fionn. O olhar duro sugeria que ele não aceitaria um não como resposta.
Talvez tenha sido melhor no longo prazo. Ela fugiu para a beira do
telhado de palha e caiu em seus braços.
Ele a colocou no chão com cuidado, colocou a mão em suas costas e a
empurrou em direção a dois troncos caídos. Ela se sentou com força. Suas mãos
não pareciam certas. Elas não pareciam ser colocadas nas pontas dos braços de
uma forma que ela pudesse controlar. Elas quase pareciam para trás, mas isso
não estava certo. Ela havia usado essas mãos milhares de vezes.
Bran estendeu a mão e segurou as costas de seus dedos trêmulos.
— Eu perdi alguém muito querida para mim. Passei minha existência
inteira cortejando ela. Espetando galhos no cabelo até que ela teve que cortá-lo
para tirá-los. Colocando sapos na cama e ratos nos sapatos. Eu a provoquei
sem parar e ela ainda me amava.
— E então, uma noite, alguém a levou embora. Não havia nada que eu
pudesse fazer e me prometeram que ela seria feliz, mas eu nunca a veria
novamente.
— Eu pensei que me recompor seria impossível. Certamente me senti
assim nos primeiros meses. Mas descobri um propósito diferente como alguém
diferente do homem que a amava. Encontrei minha liberdade, respeito por
mim mesmo, e percebi que mesmo sem ela ainda era um bom homem. Eu
ainda poderia fazer grandes coisas, e que ela era apenas uma recompensa por
trabalhar duro.
Ele ergueu as mãos dela e pressionou os lábios nas palmas. — Você se
encontrará novamente, Sorcha. E eu acredito que será curando seu povo com
estas mãos.
— Como vou curá-los? — Seus olhos estavam tão secos que ela não
conseguia nem piscar. — Ele era a resposta para encontrar uma cura, e agora
ele se foi.
— Tenho certeza de que você encontrará um jeito. Você sempre
encontrou.
— Ele realmente se foi? Eu nunca vou voltar para aquela ilha
maravilhosa cheia de Faes que eu amo muito?
— Você acha que eles ainda estarão lá?
— Eu quero que eles estejam. Não quero que haja uma guerra e todas
essas mortes. Bran, como posso impedir isso?
As mãos segurando as dela desapareceram. O ar frio correu ao redor de
seu corpo, roubando o fôlego de seus pulmões. Ela olhou para cima e
descobriu que estava sozinha.
O sol se erguia no céu muito acima dela quando ela encontrou coragem
para se levantar. Seus joelhos tremiam. Seu corpo tremia. Seus pulmões
ofegavam por ar e ela ainda não se sentia uma pessoa.
A dor devia aterrar seu corpo. Isso deveria lembrá-la de que ela estava
viva.
— Casa, — ela respirou. — Eu quero ir para casa.
Ela não sabia mais onde era sua casa.
A paisagem se tornava mais reconhecível quanto mais ela olhava. Esses
campos eram os que ela conhecia como a palma da sua mão. Sorcha tropeçou
enquanto se movia, mas pelo menos ela estava se movendo.
Cada passo a levou mais e mais perto do refúgio que ela lembrava em
sua mente. Uma casa pequena, pitoresca, três andares de pedra e madeira e
risos.
Deuses, como ela precisava do riso.
Pedras esmagadas sob seus pés, cavando na carne calejada até que ela
sangrou. Ela se lembrava vividamente de outra ocasião em que seus pés
doíam. Sorcha havia se arrastado pelo mundo conhecido, apenas para retornar
a este lugar.
Galinhas cacarejavam. O ar tinha um cheiro doce, como pão fresco e mel
pegajoso. Sorcha estava na subida da colina além do bordel.
Ela inalou novamente e tremeu. O cheiro de pão ficou rançoso, o mel
tornou-se doentiamente doce e o cheiro de morte fez sua visão embaçar.
Havia tábuas nas janelas do bordel. Pregadas grosseiramente do lado de
fora, trancando sua família dentro. A porta lateral que leva ao galinheiro
também foi fechada com tábuas e as galinhas estavam vivendo na selva.
— Não, — ela gemeu em um chiado trêmulo. — Não, por favor, não
mais.
As lágrimas vieram como uma onda quebrando em sua cabeça. Ela caiu
de joelhos e rastejou para a casa de sua família, incapaz de ficar de pé, mas
precisando ajudá-los.
Ela conhecia os marcadores pintados nas janelas. Um besouro vermelho,
pintado ao acaso, como se o artista quisesse fugir da área o mais rápido que
pudesse. Homem inteligente. A praga do besouro do sangue estava propensa
a se espalhar se eles voassem.
Sorcha não se importou. Ela não queria que sua família morresse
sozinha, e ela não permitiria que eles morressem se ela pudesse.
Como uma velha, ela subiu na cerca e olhou para as paredes de
pedra. Lampejos de raiva, antigos e profundamente enterrados, a
alimentaram.
Ela deu um passo à frente. Cada movimento simples era tão difícil que
ela parecia ter esquecido de como andar. Passo a passo, turno a turno, ela
ergueu o pé e flexionou a coxa até pressionar as mãos contra as tábuas que
cobriam a porta.
A madeira atingiu sua testa quando ela se apoiou nela, mas ela não sentiu
a dor. Eles estavam lá. A batida de seus corações clamava por ela.
— Rosaleen, — ela sussurrou. — Briana, Papa... Qualquer um.
Ela não sabia quanto tempo ela ficou lá, pairando entre a vida e a morte,
a escolha e o silêncio. O calor se espalhou por seu corpo, envolvendo sua
cintura. Quase parecia que braços a seguravam contra um peito sólido e
respiravam vida em seu corpo.
A cura levaria tempo. Mas coragem, força, honra, essas eram coisas que
sempre estiveram profundamente arraigadas em sua alma.
Sorcha ergueu a cabeça e puxou com força para as tábuas.
— Briana! — Ela gritou. — Me deixem entrar!
Ela jogou seu peso para liberar as unhas. Cada empurrão forte torcia seus
ombros, mas a primeira prancha se soltou. Ela continuou a guinchar e gritar,
batendo contra a barreira que a mantinha longe de sua família.
Finalmente, uma voz veio do outro lado. Fraca, mas maravilhosa de
ouvir. — Sorcha?
— Sim, sim, Rosaleen sou eu! Estou entrando.
— Não entre! — Sua irmã tossiu. — Não é seguro.
— Estou entrando quer você queira ou não. O que aconteceu?
— Ficamos doentes.
— Papai está vivo?
— Mal.
— Alguém está morto?
— Não.
Sorcha soluçou de alívio. — Bom. Isso é muito bom, agora vou puxar esta
última placa e depois vou entrar.
— Você não pode. Você também vai ficar doente.
— Os besouros ainda estão voando?
— Não.
— Então eu não vou ficar doente. Eu não vou deixar você ou qualquer
outra pessoa morrer.
Ela puxou a última tábua e agarrou a maçaneta da porta. Não girou.
— Rosaleen, — ela gemeu. — Destranque a porta.
— Não vou deixar você morrer por mim.
— Eu não morrerei por ninguém.
— Você nos deixou.
— Eu não tive escolha. Eu estava tentando encontrar uma cura e não
consegui. — A garganta de Sorcha se fechou e sua voz ficou rouca. — Deixe-
me ajudá-la. Por favor, me dê um propósito novamente. Eu prometo que não
farei nada além de curar você.
O silêncio soou mais alto do que gritos. Sorcha prendeu a respiração e
contou os segundos que se passaram até ouvir o estalo de uma fechadura.
Rosaleen abriu a porta e espiou pela fresta. — Não está bonito aqui.
— Eu sei.
— Não somos mais bonitas.
— Você sempre será linda. Mesmo quando você estiver velha, grisalha e
enrugada.
A porta se abriu completamente. Feridas abertas se espalhavam pelo
corpo de Rosaleen, de onde eles tentaram extrair os besouros. Marcas de
queimadura marcavam suas bochechas e marcas circulares viajavam por seus
braços como correntes.
Sorcha passou os dedos como um fantasma sobre um deles. — O que é
isso?
—Os curandeiros disseram que sabiam como deter os besouros para
sempre. Não funcionou.
A resolução endireitou a espinha de Sorcha. Um besouro se moveu por
baixo da pele de sua irmã, viajando pela parte alta de sua clavícula. Ela poderia
parar com isso. Ela poderia ajudar, e Bran estava certo.
Ela havia encontrado seu propósito e se recusou a desistir.
Sorcha puxou a irmã para os braços, abraçando-a com força. —Estou
aqui, irmãzinha. Vou mantê-la viva.
—Onde você estava?
—O Outro Mundo.
—Com os Faes?
—Sim.
—Sempre pensamos que você era uma changeling.
Sorcha sorriu. —Eu não sou. Eu sou uma druida.
—Você vai voltar?
Sorcha olhou para a escuridão do bordel. As sombras se moveram,
agarraram-se aos corpos e suas irmãs entraram na sala. Seu pai saiu do quarto
arrastando os pés e encostou-se no batente da porta.
Suas roupas estavam penduradas em seus esqueletos. Bochechas vazias
e olhares assombrados a encaravam como se ela fosse sua salvação. Sorcha
sabia que ela era. Ela gastaria cada pedaço de sua energia curando-os.
Ela beijou o topo da cabeça de Rosaleen.
—Sim. Sim, estou voltando.

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