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Psicologia Social

Mayra Campos Frâncica dos Santos


© 2019 por Editora e Distribuidora Educacional S.A.
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Editorial
Renata Jéssica Galdino (Coordenadora)

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


Santos, Mayra Campos Frâncica dos
S237p Psicologia social / Mayra Campos Frâncica dos Santos. –
Londrina : Editora e Distribuidora Educacional S.A., 2019.
112 p.

ISBN 978-85-522-1482-3

1. Psicologia. 2. Social. 3. Identidade. I. Santos, Mayra


Campos Frâncica dos. II. Título.

CDD 150
Thamiris Mantovani CRB-8/9491

2019
Editora e Distribuidora Educacional S.A.
Avenida Paris, 675 – Parque Residencial João Piza
CEP: 86041-100 — Londrina — PR
e-mail: editora.educacional@kroton.com.br
Homepage: http://www.kroton.com.br/
Sumário

Unidade 1
Introdução à Psicologia enquanto área científica do saber���������������������� 7
Seção 1
Os filósofos e as raízes da Psicologia������������������������������������������������ 9
Seção 2
O surgimento da Psicologia como área científica������������������������16
Referências

Unidade 2
Principais matrizes teóricas e as relações entre: indivíduo,
grupo e sociedade���������������������������������������������������������������������������������������33
Seção 1
A estruturação da psicologia no século XX����������������������������������35
Seção 2
A estruturação da psicologia no século XX����������������������������������39
Seção 3
O psiquismo humano e sua relação com a Psicologia Social������46

Unidade 3
Categorias fundamentais da psicologia social:
identidade, personalidade, consciência e alienação��������������������������������55
Seção 1
A personalidade��������������������������������������������������������������������������������57
Seção 2
A identidade, os papéis sociais e as representações sociais���������63
Seção 3
Consciência, ideologia e alienação�������������������������������������������������69

Unidade 4
Relações sociais: processo grupal, instituições sociais,
liderança, inclusão e exclusão��������������������������������������������������������������������79
Seção 1
O processo grupal�����������������������������������������������������������������������������81
Seção 2
As instituições sociais����������������������������������������������������������������������88
Seção 3
Liderança�������������������������������������������������������������������������������������������94
Seção 4
Inclusão e exclusão social����������������������������������������������������������������99
Palavras do autor

P
rezado aluno, a psicologia é uma ciência e, como tal, perpassa por
todas as áreas do saber, inclusive o campo do Serviço Social, visto que
essa é uma área que exige uma visão abrangente acerca do ser humano,
além de suas questões sociais.
Diante disso, a psicologia social, como subárea da psicologia, vem para
auxiliar na compreensão do indivíduo em si, ou seja, vai abordar temas como
a personalidade, a identidade, a consciência, a alienação, entre outros. Mas
essa área também contribui para que se possa compreender o contexto social
em que o indivíduo se encontra inserido, isto é, suas relações sociais, os
grupos, as instituições.
Aliás, isso tudo é muito importante de ser estudado porque somos todos
seres sociais e, em decorrência disso, influenciamos e somos influenciados
por nossas ações, comportamentos e relações sociais. Assim, este livro
propõe-se a apresentar, em linhas gerais, os principais pressupostos teóricos
da psicologia social.
Abordaremos os mais variados temas, que estão divididos da seguinte
maneira: na Unidade 1 será trabalhada a origem da psicologia enquanto
área científica do saber, de onde surgiu, quem são seus representantes, entre
outros. Na Unidade 2, o tema central são as principais matrizes teóricas
em psicologia social, em que será trabalhada a diferenciação da psicologia
enquanto senso comum e enquanto área científica, serão demonstradas as
primeiras escolas psicológicas (que originaram as que temos hoje) e, por fim,
o psiquismo humano será abordado na sua relação com a psicologia social,
para tanto, serão trabalhados os temas da atividade humana e da formação
do psiquismo, além da construção da subjetividade.
Já na Unidade 3 são trabalhados temas mais específicos da psicologia
social, tais como: identidade, personalidade, consciência, alienação, de modo
a demonstrar de que maneira o indivíduo inserido na sociedade influencia
e é influenciado por esta. E na última unidade os temas fazem referência às
relações sociais, ou seja, o processo grupal, as instituições sociais e a liderança.
Assim, espera-se que, ao final da leitura deste livro, você possa conhecer
mais sobre a área de estudo da psicologia social, já que esse campo é de
extrema importância para você, futuro profissional do Serviço Social, pois
lhe ajudará a desenvolver uma visão crítica da realidade cotidiana, sempre
indo para além daquilo que está exposto, aparente, permitindo assim uma
compreensão geral sobre a realidade que nos cerca.
Unidade 1

Introdução à Psicologia enquanto área científica


do saber

Objetivos de aprendizagem
Ao longo desta unidade será possível compreender como a Psicologia
surgiu (na época da Grécia antiga), quem foram seus fundadores (os princi-
pais filósofos) e como foi evoluindo até que se tornasse uma área científica do
saber. Será realizada uma contextualização histórica da Psicologia de forma a
entendermos como essa área se estrutura atualmente enquanto ciência.

Seção 1
Nesta seção serão abordados os filósofos que deram início à Psicologia.
Assim, essa área será compreendida desde o seu surgimento, na Grécia
antiga, até o Renascimento.

Seção 2
Nesta seção será observada a evolução da Psicologia enquanto área cientí-
fica, qual o seu objeto de estudo e como ela se estrutura atualmente.

Introdução à unidade
Por que devemos estudar a história da psicologia? Essa é uma pergunta
que a grande maioria dos alunos faz quando está diante desta disciplina. Por
isso, torna-se importante destacar que é através da construção histórica da
psicologia que podemos compreender como se deu o desenvolvimento da
humanidade, ou seja, quais os desafios que fizeram o homem tentar compre-
ender a si mesmo, os demais e o mundo que o cerca. Para tanto, faremos aqui
um resgate da psicologia, desde quando ela foi pensada até quando se torna
uma área científica.
Nesse momento, surge outra questão: por onde devemos iniciar o estudo
da história da psicologia? As origens dessa área podem ser localizadas em
dois períodos distintos: os filósofos no século V a.C. já traçavam especu-
lações acerca do comportamento humano, mas, por outro lado, podemos
estudar a psicologia como uma ciência nova, que possui apenas cerca de 200
anos, momento no qual ela se emancipa da filosofia para seguir seu caminho
na área formal de estudo. O que distingue essas duas épocas da psicologia
tem relação com as abordagens e as técnicas empregadas.
Mas o que significa o termo psicologia? Etimologicamente, a palavra
psyché vem do grego e quer dizer alma. Logos, também do grego, significa
estudo, ciência. Assim, a psicologia refere-se ao estudo da alma (FREIRE,
2010, p. 20).
A palavra psicologia foi utilizada no século XVI por Filipe Melâncton nas
universidades alemãs. Por volta de 1600, Goclênio utilizou essa palavra na
imprensa para se referir a um “conjunto de conhecimentos filosóficos sobre
a alma e suas manifestações” (FREIRE, 2010, p. 20). Porém, outros autores
enfatizam que o termo foi utilizado pela primeira vez somente no século
XVIII, quando a psicologia se tornou uma disciplina do curso de filosofia que
se preocupava com a “natureza e as faculdades da alma” (FREIRE, 2010, p. 21).
Ao longo do tempo a palavra “psicologia” carregou diversos significados,
mas nos dias de hoje, há um consenso sobre sua definição como “a ciência
do comportamento”.

Questão para reflexão


Durante muito tempo a psicologia foi mistificada, sendo considerada
como “coisa de louco”. Da sua parte, o que você entende por psicologia?
Seção 1

Os filósofos e as raízes da Psicologia

A psicologia começou a ser sistematizada na Grécia antiga, há mais de


dois mil anos, com os filósofos que questionavam a origem da alma. A essa
fase dá-se o nome de Fase Filosófica ou Pré-Científica.

1.1 Fase Filosófica ou Pré-Científica


É a fase compreendida entre os séculos VI a.C. até 1879. Basicamente,
essa fase divide-se em outras duas etapas: a primeira vai da Idade Antiga até
a Idade Média (sendo essencialmente filosófica) e a segunda tem início com
a Idade Moderna e segue até a fase da psicologia científica. Foi na Grécia
antiga, berço da civilização ocidental, que a história do pensamento humano
surge (no período 700 a.C.), assim como o estudo da filosofia. Como já dito,
a psicologia surge ligada à filosofia.
Por volta do século VI a.C., na Ásia Menor (onde hoje é a Turquia), a
preocupação dos filósofos era sobre a origem do cosmos, ou seja, estavam
interessados em saber do que era feito o universo, buscar seu princípio e a
lei que o regia, pois, até então, o que se sabia sobre o cosmos tinha relação
com sua origem mitológica. A essa fase atribuímos o nome de período
cosmológico. Os principais representantes desse período foram: Tales de
Mileto (640-548 a.C.), Heráclito (540-475 a.C.), Pitágoras (570-496 a.C.),
Anaxágoras (499-428 a.C.) e Demócrito (460-370 a.C.).
Após o momento cosmológico surge o período antropocêntrico, com
os filósofos sofistas, que deslocaram suas preocupações do Cosmos para o
Homem, dando um novo direcionamento aos seus questionamentos. Nessa
fase a preocupação central era com o “como conhecemos”. Os filósofos
sofistas eram, na sua maioria, professores ambulantes que percorriam as
cidades visando ensinar ciências e artes aos jovens, ao invés de prepará-los
apenas para a guerra, como era feito até então. Isso culminou em uma certa
revolução, pois os jovens passaram a ter uma visão crítica dos fatos, não mais
aceitando tudo sem saber sua origem. Os representantes sofistas mais impor-
tantes foram Protágoras e Górgias.

Para saber mais


De acordo com o dicionário Houaiss, “sofista” significa “sábio”
(HOUAISS; VILLAR, 2009). Esses filósofos foram os primeiros a defender
uma educação voltada para o cidadão, visando ensinar arte, cultura,

9
política e retórica. Ressalta-se que “retórica” pode ser entendida como
a arte do debate e da argumentação.

Entre os filósofos clássicos desse período estão:


• Sócrates (436-336 a.C.): foi uma figura ilustre para a filosofia, tanto
que os pensamentos filosóficos são classificados antes de Sócrates
(filósofos pré-socráticos) e após Sócrates (pós-socráticos). Esse
pensador questionava as tradições, os usos e os costumes da época,
além de questionar o regime democrático, a religião, a ciência física,
influenciando assim todo o pensamento filosófico ocidental.

Ensinava que o conhecimento do meio que nos cerca é


imperfeito, porque nos vem através dos sentidos, via
imperfeita, sujeita a ilusões. Acreditava que um único
tipo de conhecimento podia ser obtido: o do próprio eu.
Esse conhecimento é o único necessário, pois permite
ao homem levar vida virtuosa. “Conhece-te a ti mesmo”
é o seu princípio e um método filosófico (introspecção).
(FREIRE, 2010, p. 33)

Figura 1.1 | Sócrates

Fonte: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Socrates_Louvre.jpg. Acesso em: 30 jan. 2019.

• Platão (427-347 a.C.): discípulo de Sócrates e adepto de suas teorias,


também acreditava que o conhecimento vinha do próprio sujeito.
Para chegar a essa conclusão, fazia uso da visão da imortalidade da
alma, ou seja, para Platão, era a alma que trazia o conhecimento para
a pessoa. Para esse filósofo, o homem possui a alma (que é imaterial)
e o corpo (que é material), o que tornava o homem um ser dualista
(mente versus corpo). Freire (2010, p. 34) afirma que “essa visão é

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considerada a raiz mestra da história da psicologia, pois será retomada
em todo o percurso da história e dela surgiram muitas outras raízes
ou questões”.
Porém, a partir dessa visão dualista, Platão causou certa reper-
cussão na sociedade, uma vez que houve uma tendência de valorizar
mais o aspecto intelectual e desvalorizar o lado material, não enxer-
gando o homem como um ser unificado, mas composto de duas
partes separadas: a mente e o corpo.
A partir da doutrina de Platão surgem as teorias inatistas, isto é,
aquelas que avaliam que o conhecimento nasce com as pessoas.

Para saber mais


Inatismo é uma doutrina que defende a posição de que as ideias
nascem naturalmente com as pessoas. O aprendizado, portanto, se
daria sempre de “dentro” para “fora” de cada um. As teorias inatistas
são aquelas que criam explicações e técnicas baseadas no pressuposto
de que as ideias nascem com as pessoas (HOUAISS; VILLAR, 2009).

Figura 1.2 | Platão

Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Escultura_Plat%C3%A3o.jpg. Acesso em: 30 jan. 2019.

• Aristóteles (384-322 a.C.): aluno de Platão, porém, seu opositor, pois era
contra a existência de teorias inatas e do mundo das ideias. Para ele, o
indivíduo nasce como uma folha em branco, uma “tábula rasa”, e é por
meio de suas experiências que vai adquirindo conhecimento, através dos
sentidos. Assim, entendia o corpo e a mente como sendo inseparáveis.
Aristóteles afirma que há alma em todos os seres vivos, inclusive
nas plantas. Para ele, a alma seria o elemento que permite a presença
de vida nos seres. Alma, nesse sentido, deriva do latim anima, que
seria o equivalente a ânimo. Como Aristóteles teve muito interesse

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por esse assunto, escreveu um tratado denominado De anima que, em
português, seria o equivalente a “Sobre a alma” ou “Sobre a mente”.
Esse tratado vai influenciar a cultura ocidental diretamente por mais
de um milênio, pois descreve quais são as “potências” da alma, além
de tratar de outros temas relevantes que hoje fazem parte das ideias
da psicologia, tais como os sentidos, as sensações, a memória, a
associação, o sono, entre outros.

Para saber mais


Platão deixou várias obras, muitas delas escritas em forma de diálogos,
exercendo grande influência sobre vários pensadores. No total, a
coleção de suas obras compreende 35 diálogos e 13 cartas. Algumas
dessas obras são: Sobre a natureza do homem, Apologia de Sócrates, O
banquete e A república.

Figura 1.3 | Aristóteles

Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Est%C3%A9tica. Acesso em: 30 jan. 2019.

Perceba que há 2300 anos, antes do surgimento da psicologia como área


científica, já era possível identificar duas teorias: a platônica (que defendia a ideia
da imortalidade da alma considerando-a como separada do corpo) e a aristoté-
lica (que compreendia a alma como sendo imortal e pertencente ao corpo).

Questão para reflexão


Agora que você conhece o início dos questionamentos na área da psico-
logia, que estão ligados à filosofia, a dúvida que surge é: qual foi a impor-
tância dos filósofos para o desdobramento da psicologia enquanto área
científica do saber?

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1.2 Idade Média e o Período Teocêntrico
Na Idade Média o homem deixa de ser o centro de tudo para que Deus e
o Cristianismo possam assumir esse lugar. Essa nova ordem marca o início
de uma nova era da história, o período cristão, cujo ápice foi a Idade Média.
A esse novo período damos o nome de período Teocêntrico ou Teocentrismo
(Théos, do grego, significa Deus, divindade), ou seja, Deus passa a ocupar o
centro de toda a vida.
Nessa fase, o clero (forma como era chamada a classe social dos repre-
sentantes religiosos) era quem controlava a educação, as leis, as decisões dos
reis, incluindo até decisões sobre guerras. Tudo era voltado para Deus e o
clero era quem decidia o que se fazer ou não. Essa fase é marcada por dois
importantes momentos:
• Patrística (século IV-V): é o pensamento dos primeiros padres da
Igreja. A preocupação central aqui era a luta contra a idolatria, o
contrassenso, o pecado e a defesa dos dogmas cristãos. Seu maior
representante foi Santo Agostinho, e, de acordo com ele, a criação
surgiu do nada, sendo Deus o criador de tudo.
Figura 1.4 | Santo Agostinho

Fonte: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Jesu%C3%ADno_do_Monte_Carmelo_(atrib.)_-_Santo_Agos�-
tinho.jpg. Acesso em: 4 fev. 2019.

Para saber mais


Santo Agostinho foi um dos mais admiráveis filósofos e teólogos do
Cristianismo. Foi bispo da cidade de Hipona e considerado o mais
importante dos padres da Igreja no Ocidente.

13
• Escolástica (a partir do século IX): estavam mais preocupados em
educar a população que já era cristã. Seu maior representante foi
São Tomás de Aquino, que seguia as ideias de Aristóteles e, portanto,
negava as ideias inatas, sobretudo aquelas acerca da criação. Além
disso, considerava que a educação visava transformar os dons poten-
ciais em realidades atuais, mas, para isso, tanto a figura do professor
quanto a do aluno eram imprescindíveis (FREIRE, 2010).
Figura 1.5 | São Tomás de Aquino

Fonte: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Santo_Tom%C3%A1s_de_Aquino_-_Antonio_del_Castillo_
Saavedra.jpg. Acesso em: 4 fev. 2019.

Assim, percebemos que a Idade Média não contribuiu muito para o


avanço da área da Psicologia. Temos a Escolástica como principal momento
dessa fase, entretanto, não estava preocupada em estudar a natureza e os
atributos da alma e, quando o fazia, utilizava deduções lógicas com verdades
previamente conhecidas, portanto, sem valor científico.

Para saber mais


Ficou interessado pela história dos filósofos? Sugerimos a leitura do
livro de Ranieri Carli intitulado Antropologia filosófica. Nesse livro, o
autor apresenta, de maneira bastante didática, a trajetória histórica, as
diferentes fases e filósofos representantes de cada período. Vale a leitura!

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CARLI, Ranieri. Antropologia filosófica. Curitiba: Editora Intersa-
beres, 2012.

Atividades de aprendizagem

1. Qual a diferença entre o pensamento dos três principais filósofos (Sócrates,


Platão e Aristóteles) que antecederam o início da psicologia enquanto área
científica do saber?

2. Durante a Idade Média, o homem deixa de ser o centro de tudo para que
Deus e o Cristianismo possam assumir esse lugar. Na fase do teocentrismo,
destacam-se dois momentos: a patrística e a escolástica. Qual a diferença
entre esses dois períodos?

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Seção 2

O surgimento da Psicologia como área científica

Após anos de questionamentos filosóficos, a psicologia começa a se


enveredar por outra área, seu interesse agora é trabalhar com questões que
possam ser comprovadas cientificamente. Diante disso, surge um novo objeto
de estudo para a psicologia, que deixa de ser o estudo da mente e passa a ser o
estudo do comportamento e dos processos mentais.

2.1 O Renascimento e a Psicologia


Quando a Idade Moderna se inicia (século XV), começa também uma
reação ao pensamento dogmático que estava sendo vivenciado até então. Deus
deixa de ser o centro de tudo (Teocentrismo) e revive-se o Antropocentrismo
(Homem no centro de tudo), porém com outros questionamentos. Deve ficar
bastante claro que a queda do Teocentrismo não quer dizer que o cristia-
nismo tenha acabado, pelo contrário, ele continua existindo, mas não ocupa
mais o centro de todos os questionamentos, como na Idade Média.
Essa é a fase do Renascimento, uma época de muita riqueza cultural,
intelectual, artística, religiosa e de muitos outros avanços para a humani-
dade. O homem renascentista é aquele que, oprimido durante mil anos, de
repente se vê livre para criar, dotado de grande capacidade racional e habili-
dade manual. Diante disso, na Idade Moderna há uma nova atitude frente
às formas de conhecimento, não mais aquela ordem inquestionável, deter-
minada pelo destino, como no Teocentrismo, mas, sim, mudanças gerais
em todas as áreas provocadas pelo Renascimento. Por exemplo: no plano
geográfico, devido às grandes descobertas, houve grande expansão; o corpo
deixou de ser sagrado e, agora, podia ser dissecado, avançando na área de
ciências; no sistema econômico muitas coisas mudaram com a afirmação do
mercantilismo; a psicologia, antes essencialmente filosófica, passa por um
processo de reestruturação que a levará, mais adiante, a atingir o status de
ciência (FREIRE, 2010).
Assim, o que se pode afirmar é que a ciência chegou à Idade Moderna em
um estágio primitivo de desenvolvimento: até então, seus estudos preocu-
pavam-se apenas em levantar questionamentos, sem querer mensurá-los ou
quantificá-los, ou seja, sem se importar com o “como” e o “porquê” das coisas,
isso em decorrência da dominação da Igreja. Entretanto, com a chegada do
Renascimento, outra visão começa a ser praticada, o interesse passa a ser
sobre “o que conhecer” (conteúdo) e “como conhecer” (método). Assim, a

16
observação, a experimentação e a quantificação são utilizadas como meio de
obter respostas. É o início do método científico.
Essa época ficou conhecida como científica porque trouxe o desenvolvi-
mento das ciências. Bock, Furtado e Teixeira (2008, p. 35) apontam que:

As ciências também conhecem um grande avanço. Em


1543, Copérnico causa uma revolução no conhecimento
humano mostrando que o nosso planeta não é o centro do
universo. Em 1610, Galileu estuda a queda dos corpos, reali-
zando as primeiras experiências da Física moderna. Esse
avanço na produção de conhecimentos propicia o início da
sistematização do conhecimento científico — começam a
se estabelecer métodos e regras básicas para a construção
do conhecimento científico.

Para saber mais


Nicolau Copérnico, astrônomo e matemático polonês, foi o respon-
sável por desenvolver a teoria heliocêntrica, ou seja, a Terra deixa de
ser o centro (como postulava a teoria Geocêntrica) e o Sol passa a ser
o centro do Sistema Solar. Essa teoria foi considerada uma das mais
importantes descobertas científicas de todos os tempos! Galileu Galilei
também contribuiu muito para a evolução do conhecimento científico
ao desvendar as leis da gravidade e melhorar significativamente o teles-
cópio refrator.

Dando continuidade aos avanços desse período devemos citar René


Descartes (1596-1650), que foi responsável por iniciar a psicologia na fase
pré-científica propriamente dita. O filósofo defende a ideia de que, antes de
aceitarmos qualquer verdade, precisamos questionar. Sendo assim, a dúvida
surge como o ponto principal de toda a sua argumentação e raciocínio – esse
ilustre filósofo duvidou inclusive da própria existência. Sua famosa frase
“penso, logo existo” demonstra que a existência se comprova através do pensa-
mento, visto que, para o filósofo, só há dúvida porque existe um ser pensante.
Descartes também retoma o questionamento do dualismo mente versus
corpo (iniciado por Platão). De acordo com o autor, existiam duas partes no
ser humano:
• O reino físico, material: a matéria apresenta características físicas –
massa, extensão no espaço e movimento.

17
• O reino imaterial, a mente: parte pensante; não apresenta massa e
nem localização. É através da mente, ou seja, através da emoção, do
instinto, da imaginação, que se influencia o corpo, alternando o rumo
mecânico das atividades.
Por fim, Descartes afirma que o corpo é apenas um mecanismo que recebe
ordens da mente (ou alma). Para ele, isso acontecia através de uma glândula
existente no cérebro, que ele denominou glândula pineal. Importante
destacar que essa visão mecânica do corpo foi um impulso para a retomada
de uma doutrina que irá compor o pensamento moderno: o mecanicismo.
Isso implica que o corpo, desprovido do espírito, é apenas uma máquina.
A partir desse seu posicionamento e da queda do Teocentrismo (quando
o corpo deixa de ser sagrado), torna-se possível estudar o corpo humano
morto, avançando, portanto, nas áreas da anatomia e fisiologia, que irão
contribuir, futuramente, para o avanço da psicologia.

Para saber mais


Perceba que Descartes não acaba com o problema do dualismo mente-
-corpo. Ele busca somente uma relação entre ambos, localizando-se
entre o grupo do materialismo científico porque considera o corpo do
homem como uma máquina, compreendida por um viés científico.

Em seguida, devemos citar Charles Darwin (1809-1882), que causou


grande revolução com sua teoria acerca da evolução das espécies (de acordo
com a qual sobrevivem, na natureza, os mais aptos, isto é, aqueles que melhor
se ajustam ao ambiente). Suas ideias são consideradas revolucionárias porque
destronam o conceito de criação do mundo e de homem como centro de tudo
(visão teocêntrica e antropocêntrica, respectivamente) e o homem passa a
ser fruto de uma evolução. A partir de então, desperta-se o interesse pelo
estudo da origem do homem e como este se desenvolve (evolução na área da
genética). Diante disso, a psicologia ultrapassa a dimensão do homem em si
e passa a considerar a ideia de um homem integral, que deve ser estudado em
relação à sua história e ao seu ambiente (FREIRE, 2010).
Ao longo dessa trajetória histórica percebemos que a psicologia foi sendo
pensada de acordo com o momento histórico que a sociedade estava viven-
ciando, além de ir ao encontro do desejo do homem em se conhecer cada
vez mais.

18
Questão para reflexão
Você deve estar se perguntando: tudo bem, já conhecemos a trajetória
histórica da Psicologia, mas a partir de que momento ela se torna efeti-
vamente científica? Vamos descobrir?

2.2 A Psicologia científica


A psicologia sempre foi uma preocupação da humanidade, desde quando
esteve ligada à filosofia até se tornar uma área científica, o que aconteceu no
final do século XIX graças ao processo histórico daquele momento (queda
do teocentrismo, sendo que o conhecimento passa a acontecer independen-
temente da fé; surgimento do capitalismo com seus aspectos econômicos
e industriais, entre outros), fazendo com que a ciência fosse cada dia mais
requerida para responder aos questionamentos que estavam surgindo.
Assim, a psicologia, que sempre esteve ligada aos filósofos e à filosofia,
passa a trilhar outros caminhos, englobando novas áreas de estudo, como a
fisiologia e a neurofisiologia, demonstrando que o pensamento, as percep-
ções e os sentimentos humanos eram produtos do sistema nervoso central.
Diante disso, Freire (2010, p. 52) ressalta:

O estudo do sistema nervoso ocupou boa parte do interesse


no séc. XIX. Investigou-se a sua estrutura e chegou-se ao
conhecimento dos neurônios, agrupados em sinapses,
dos axônios, das correntes elétricas, da massa cinzenta e
branca, da mielinização da fibra nervosa, etc.
A parte que mais chamou a atenção dos fisiologistas e anato-
mistas foi o cérebro. Surgiram várias correntes buscando
explicar as suas funções. Tentaram descobrir se cada função
mental está localizada em uma parte determinada do
cérebro ou depende da personalidade, como a amabilidade
e a benevolência, com a forma do tecido nervoso. Os freno-
logistas eram os mais interessados nesses estudos.

Podemos perceber que o grande avanço do capitalismo sobre a socie-


dade foi a criação das máquinas, que fez com que todo o universo passasse
a ser pensado como uma máquina. Dessa forma, se quiséssemos conhecer
o psiquismo humano seria importante conhecermos sua máquina de
pensar, ou seja, seu cérebro. E é a partir de então que a psicologia passa a

19
se enveredar pelos ramos da fisiologia, neurofisiologia e neuroanatomia
(BOCK, FURTADO, TEIXEIRA, 2008).
Assim, temos que as primeiras aplicações do método experimental à
mente, isto é, ao novo objeto de estudo da psicologia, são fruto do trabalho de
quatro cientistas: Hermann von Helmholtz, Ernst Weber, Gustav T. Fechner e
Wilhelm Wundt, todos fisiologistas alemães e ávidos por ciência.

Questão para reflexão


Mas se a ciência estava se desenvolvendo muito na Europa ocidental,
mais especificamente na Inglaterra, França e EUA, por que foi na
Alemanha que a psicologia experimental se desenvolveu?

Foi na Alemanha que os cientistas se preocuparam mais com os desdo-


bramentos da ciência em si. Enquanto os cientistas da França e Inglaterra
ainda estavam utilizando o estudo matemático dedutivo, os alemães já
coletavam os dados observáveis de forma minuciosa e completa, utilizando
a abordagem intuitiva. Além disso, foram os alemães que demonstraram
maior interesse em explorar e mensurar todas as facetas da atividade mental
(SCHULTZ; SCHULTZ, 2013).
Vamos conhecer agora os cientistas que deram início à psicologia
enquanto ciência:
• Hermann von Helmholtz (1821-1894): grande pesquisador nas áreas
de física e fisiologia. Estudou os órgãos sensoriais humanos e concluiu
que estes funcionavam como máquinas. Sua pesquisa englobou a
velocidade do impulso neural e os estudos sobre a visão e audição.
Para ele, o funcionamento do sistema nervoso se assemelhava ao de
um telégrafo, então suas pesquisas pretendiam investigar como se
dava essa transmissão. Importante destacar que seus estudos foram
os primeiros passos na experimentação e medição de um processo
psicofisiológico (SCHULTZ; SCHULTZ, 2013).

20
Figura 2.1 | Hermann von Helmholtz

Fonte: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Hermann_von_Helmholtz.jpg. Acesso em: 1 fev. 2019.

• Ernst Weber (1795-1878): também se interessou por pesquisar os


órgãos dos sentidos, mas não os superiores (como von Helmholtz),
mas, sim, as sensações cutâneas e musculares. Mais ou menos na
mesma época de von Helmholtz, Weber elaborou uma teoria que
chamou de diferença mínima perceptível, ou diferença mínima signi-
ficativa. Com esse estudo, criou um cálculo para saber o quanto é
necessário de estímulo para que a pessoa perceba se houve realmente
uma alteração. Por exemplo, se alguém está carregando 40 kg, quanto
é preciso colocar de peso a mais para que essa pessoa perceba uma
diferença? Weber também calculou o quanto de estímulo é necessário
para que haja uma sensação, chamada de sensação mínima percep-
tível (SCHULTZ; SCHULTZ, 2013).
Figura 2.2 | Ernst Weber

Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Ernst_Heinrich_Weber.jpg. Acesso em: 1 fev. 2019.

21
• Gustav Theodor Fechner (1801-1887): deu continuidade aos estudos
de Weber e queria calcular o ponto exato de união entre o físico e
o psíquico.

O ponto central de suas preocupações e de sua obra era


encontrar a relação existente entre mente x corpo, físico
x psíquico. Adota a ideia do paralelismo, considerando
mente x corpo como sendo duas faces da mesma moeda.
Fechner demonstra que existe uma ligação entre esses
dois mundos e é uma relação matemática, quantitativa.
Para chegar a essa conclusão, fez diversas experiências,
testando os processos psicológicos com os métodos das
ciências exatas. Achava que as sensações só poderiam ser
testadas através dos estímulos. Ao modificar um estímulo,
aumentando-o ou diminuindo-o, este iria modificar, mais
ou menos, as sensações (relação matemática). Aí estaria a
chave das relações e da unidade mente x corpo. (FREIRE,
2010, p. 91)

Os achados de Fechner foram sistematizados na obra Elementos


de psicofísica, publicada em 1860, que, juntamente com o laboratório
de Wundt, é considerada o início da ciência psicológica propria-
mente dita.
Fechner realizou diversos experimentos e, com isso, criou
métodos de pesquisa e experimentação em psicofísica que acabaram
por se tornar referência na área da psicologia psicométrica, ou seja, na
aplicação de testes quantitativos para medir as características psicoló-
gicas, tais como os testes de inteligência (também conhecidos como
testes de QI), por exemplo (FREIRE, 2010).

22
Figura 2.3 | Gustav Theodor Fechner

Fonte: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Gustav_Fechner.jpg. Acesso em: 1 fev. 2019.

Para saber mais


Psicofísica quer dizer o estudo da relação entre o mundo mental (psico)
e o material (físico).

Vale destacar que, no início do século XIX, Immanuel Kant, famoso


filósofo alemão, alegava que a psicologia jamais poderia ser considerada uma
ciência visto ser impossível mensurar os fenômenos psicológicos. Quando
Fechner surge com seus estudos sobre a medição do fenômeno mental, a
alegação de Kant deixa de ser levada a sério. Além disso, foi embasado nas
pesquisas de Fechner que Wundt desenvolve sua teoria com a psicologia
experimental (SCHULTZ; SCHULTZ, 2013).
• Wilhelm Wundt (1832-1920): “Wundt foi o fundador da psicologia
como disciplina acadêmica formal. Instalou o primeiro laboratório,
lançou a primeira revista especializada e deu início à psicologia
experimental como ciência” (SCHULTZ; SCHULTZ, 2013, p. 78).
Em seu livro Elementos de psicologia fisiológica (1864) Wundt traz as
raízes científicas e filosóficas da psicologia, ele

[...] não só reúne, mas classifica e agrupa os elementos da


vida mental, determina o seu objeto e objetivo, enuncia os
seus princípios e os seus problemas, estabelece os métodos
de estudo, enfim, estrutura e normatiza a psicologia. Com
isso, dá-lhe, também, uma nova definição. A psicologia
deixa de ser o estudo da vida mental e da alma e passa a
ser o estudo da consciência ou dos fatos conscientes. Assim
estruturada e sistematizada, a psicologia passa a ser uma

23
ciência autônoma, não mais um apêndice da filosofia ou da
fisiologia. (FREIRE, 2010, p. 92)

Em 1879, Wundt cria o primeiro laboratório para pesquisas psico-


lógicas, com o objetivo de estudar os processos mentais através da
experimentação e da quantificação, indo ao encontro do método
científico. Mas quais métodos foram utilizados em seu laboratório de
pesquisa experimental? Wundt utilizou a observação, a experimen-
tação (para os estudos de conteúdos experimentais básicos, como a
sensação e a associação), a quantificação, e também a introspecção
(aspectos subjetivos).
Seu objeto de estudo era a consciência. Wundt fazia uso dos
métodos experimentais das ciências naturais para estudá-la. Para
ele, os elementos da consciência não eram estáticos e não se uniam
passivamente quando havia algum processo de associação. Wundt
defendia a ideia de que a consciência era ativa ao organizar seu
próprio conteúdo, sendo que esta deveria ser estudada em seu todo,
e não simplesmente separando seus elementos, seu conteúdo ou sua
estrutura.
Outro ponto estudado por Wundt diz respeito à experiência
mediata e imediata: ele acreditava que os psicólogos deveriam focar
seus estudos na experiência imediata, que é caracterizada como sendo
aquela que “[...] não sofre nenhum tipo de influência e interpreta-
ções pessoais” (SCHULTZ; SCHULTZ, 2013, p. 84). Por outro lado,
a experiência mediata é aquela que nos fornece informações acerca
de qualquer coisa, a não ser sobre os elementos dessa experiência,
enquanto a experiência imediata é aquela em que damos a nossa inter-
pretação. Para Wundt, “[...] ao descrevermos a sensação de descon-
forto provocada por uma dor de dente, relatamos a nossa experi-
ência imediata. No entanto, se apenas dissermos: ‘Estou com dor de
dente’, referimo-nos somente à experiência mediata” (SCHULTZ;
SCHULTZ, 2013, p. 84).
Assim, podemos afirmar que Wundt entendia sua psicologia como
sendo a “ciência da experiência consciente” (SCULTZ; SCHULTZ,
2013, p. 85). Ele alegava que o método de observação da experiência
consciente deveria ser a introspecção, isto é, a autoanálise da mente
com a finalidade de examinar os pensamentos e sentimentos indivi-
duais, nada mais do que um autoexame do estado mental.

24
Com relação à questão mente versus corpo, Wundt encontrava-se
no paralelismo psicofísico, ou seja, afirmava que há uma mesma
causa que opera tanto na esfera dos fenômenos psíquicos como na
dos físicos. Para ele, tanto os processos mentais como os corporais e
fisiológicos acontecem paralelamente, sem interferência mútua.
Figura 2.4 | Wilhelm Wundt

Fonte: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Wilhelm_Wundt.jpg. Acesso em: 1 fev. 2019.

Questão para reflexão


A quem devemos atribuir os méritos pela fundação da psicologia
enquanto área científica? A Fechner (que escreveu a primeira obra siste-
matizando os conceitos da psicologia) ou a Wundt (que foi o fundador
do primeiro laboratório de psicologia experimental)?

Wundt é considerado o pai da psicologia científica, e não Fechner! Isso


porque Fechner, ao publicar sua obra Elementos de psicofísica, cerca de 15
anos antes de Wundt iniciar seus estudos no laboratório de psicologia experi-
mental, não estava preocupado em fundar uma nova ciência, na verdade, ele
queria apenas compreender a relação entre os universos mental e material
através da descrição científica dos fenômenos. Por outro lado, Wundt estava
disposto a fundar uma nova ciência independente. É importante destacar que
“[...] embora Wundt seja considerado o fundador da psicologia, ele não foi
seu criador. A psicologia é o resultado de uma longa sequência de esforços
criativos” (SCHULTZ; SCHULTZ, 2013, p. 79).

Questão para reflexão


Qual a importância trazida pelo primeiro laboratório de psicologia
experimental para a área da psicologia?

25
Quando Wundt cria o primeiro laboratório, ele estrutura e normatiza a
psicologia. Com isso, ele também lhe dá uma nova definição: a psicologia
deixa de ser o estudo da alma, da mente, e passa a ser o estudo da consciência
ou dos fatos conscientes. Ou seja, atribui-se à psicologia o status de ciência
autônoma, não sendo mais um complemento da filosofia ou da fisiologia
(FREIRE, 2010).
Quadro 1.1 | Raízes da psicologia – quadro sintético
Psicologia
Psicologia Filosófica ou Pré-Científica
Científica
Idade
Idade Antiga Idade Média Idade Moderna Contem-
-porânea
Período
Período Período
Cosmoló- Período Antropocêntrico
Antropocêntrico Teocêntrico
gico
Reação à
Busca Preocupação: Conhecer
Preocupação: tendência Nasce a Reestrutu-
entender e o homem – seus
submeter o saber à dogmática psicologia -ração da
explicar o processos mentais – sua
fé cristã do pensa- 1879 psicologia
cosmo integração social
mento
VI a.C. IV a.C. I V XVIII XVIII xx...

Fonte: Freire (2010, p. 21).

Atividades de aprendizagem

1. Com o início da Idade Moderna e do Renascimento, vivencia-se uma


época de muita riqueza cultural, intelectual, artística, religiosa e de muitos
avanços. Nessa época, surge a figura de René Descartes. Qual a explicação de
Descartes para o funcionamento e a interação mente versus corpo?

2. Após os avanços que surgiram a partir da criação da máquina, o mundo


passou a ser pensado de outra maneira. Assim, se quiséssemos conhecer o
homem, precisaríamos conhecer a sua máquina de pensar, ou seja, o seu
cérebro. A partir de então, a psicologia passa a se aliar aos ramos da fisio-
logia, neurofisiologia e neuroanatomia. Surgem quatro fisiologistas alemães
buscando aplicar o método experimental ao estudo da mente. Quem são
esses quatro cientistas?

26
Fique ligado
É importante que você conheça os principais filósofos (Sócrates, Platão
e Aristóteles), pois foram eles que iniciaram os primeiros questionamentos
acerca do estudo da alma. Após passarmos pela Idade Moderna e suas evolu-
ções, chegamos à era científica propriamente dita, em que Wundt surge com
o primeiro laboratório de psicologia experimental, incluindo, assim, a psico-
logia na área científica do saber.

Para concluir o estudo da unidade


Chegamos ao fim da nossa unidade. Esperamos que você tenha gostado e
que tenha aprendido sobre o início da psicologia, sua trajetória histórica e a
mudança em seu objeto de estudo. Caso queira aprofundar seus estudos nessa
área, sugerimos a leitura do livro Raízes da psicologia, da autora Izabel Freire
(editora Vozes), que trata desse processo histórico de maneira bem didática.

Atividades de aprendizagem da unidade

1. Leia o trecho a seguir:

É entre os filósofos gregos que surge a primeira tentativa


de sistematizar um pensamento sobre o espírito humano,
ou seja, a interioridade humana. O próprio termo psico-
logia vem do grego psyché, que significa alma, e de logos,
que significa razão. A alma ou espírito era concebida como
parte imaterial do ser humano e abarcaria o pensamento,
os sentimentos de amor, ódio, a irracionalidade, o desejo, a
sensação e a percepção. (BOCK; FURTADO; TEIXEIRA, 2008,
p. 33)

Assim, acerca da psicologia enquanto área ligada à filosofia, relacione as


colunas a seguir:
1. Sócrates.
2. Platão.
3. Aristóteles.

27
( ) Afirmava que há alma em todos os seres vivos, inclusive nas plantas. Para
ele, a alma seria o elemento que permite a presença de vida nos seres.
( ) Acreditava que o meio que nos cerca apresenta um conhecimento imper-
feito, isso porque chega até nós através dos órgãos dos sentidos e, portanto,
está sujeito a ilusões. Somente seria possível o conhecimento do próprio eu.
( ) Para ele, o homem apresenta uma parte imaterial (a mente) e uma parte
material (o corpo), por isso, é um ser dualista.
Assinale a alternativa que apresenta a sequência correta da associação entre
as colunas.
a. 1 - 2 - 3.
b. 1 - 3 - 2.
c. 2 - 1 - 3.
d. 2 - 3 - 1.
e. 3 - 1 - 2.

2. Leia o trecho a seguir:

A filosofia cristã, tendo Jesus Cristo como modelo e a


Sagrada Escritura como paradigma de todas as verdades,
espalhava-se e dominava, pouco a pouco, todos os impérios
da época. Ela se afirmou de tal forma que marcou (aliada
a outros fatores) o início de uma nova era da história, o
período cristão, cujo apogeu foi a Idade Média. Foi destro-
nada, assim, a filosofia antiga e o antropocentrismo. O
período passou a ser teocêntrico (do grego “théos”, que
quer dizer Deus, divindade). (FREIRE, 2010, p. 44)

O período teocêntrico passa por dois momentos: a patrística e a escolástica.


Sobre esses períodos, analise as alternativas a seguir e assinale a correta:
a. A patrística tem como seu maior representante a figura de São Tomás
de Aquino.
b. A patrística tem como preocupação central aliar os conceitos trazidos
por Aristóteles à religião, visando adaptá-los às leis cristãs.
c. A escolástica tem como seu maior representante a figura de Santo
Agostinho.

28
d. A escolástica visava educar a população que já era cristã.
e. A patrística preocupava-se em unir o saber à fé cristã.

3. Leia o trecho a seguir:

Após anos de questionamentos filosóficos, a psicologia


começa a se enveredar por outra área, seu interesse agora é
trabalhar com questões que possam ser comprovadas cienti-
ficamente. Diante disto, surge um novo objeto de estudo
para a área da psicologia, que deixa de ser o estudo da mente
e passa a ser o estudo do comportamento e dos processos
mentais. (JACÓ-VILELA; FERREIRA; PORTUGAL, 2018)

A quem devemos atribuir os méritos pela fundação da psicologia enquanto


área científica?
a. Descartes.
b. Von Helmholtz.
c. Weber.
d. Fechner.
e. Wundt.

4. Gustav Theodor Fechner (1801-1887) deu continuidade aos estudos de


Weber e queria calcular o ponto exato de união entre o físico e o psíquico.
Fechner realizou diversos experimentos e, com isso, criou métodos de pesquisa
e experimentação em psicofísica que acabaram por se tornar referência na área
da psicologia psicométrica. Os achados de Fechner foram sistematizados em
uma obra que é considerada o “pontapé” inicial da psicologia enquanto ciência.
Como é chamada essa obra? Assinale a alternativa correta:
a. Elementos de psicofísica.
b. Elementos de psicologia fisiológica.
c. Elementos de psicologia.
d. Psicologia e seus elementos.
e. Psicofísica aplicada.

29
5. Leia o trecho a seguir:

Wundt foi o fundador da psicologia como disciplina acadê-


mica formal. Instalou o primeiro laboratório, lançou a
primeira revista especializada e deu início à psicologia
experimental como ciência. (SCHULTZ; SCHULTZ, 2013, p. 78)

Em sua obra, denominada Elementos de psicologia fisiológica (1864), Wundt


traz as raízes científicas e filosóficas da psicologia. De acordo com as pesquisas
de Wundt, assinale (V) para as alternativas verdadeiras e (F) para as falsas:
( ) Em 1879, Wundt cria o primeiro laboratório para pesquisas psicológicas
com o objetivo de estudar os processos mentais através da experimentação e
da quantificação, indo ao encontro do método científico
( ) Como métodos de pesquisa experimental, Wundt utilizou a observação, a
experimentação, a quantificação, e também a introspecção (aspectos subjetivos).
( ) Wundt tinha, como objeto de estudo, a consciência. Para ele, os elementos
da consciência não eram estáticos e não se uniam passivamente quando havia
algum processo de associação.
Assinale a alternativa que traz a sequência correta:
a. V - V - V.
b. V - V - F.
c. V - F - V.
d. F - V - F.
e. F - F - V.

30
Referências
BOCK, A.M.B.; FURTADO, O.; TEIXEIRA, M.L.T. Psicologias: uma introdução ao estudo da
psicologia. 14. ed. São Paulo: Saraiva, 2008.

FREIRE, Izabel Ribeiro. Raízes da psicologia. 12. ed. Petrópolis: Vozes, 2010.

HOUAISS, A.; VILLAR, M. S. Dicionário Houaiss da língua portuguesa. Rio de Janeiro:


Objetiva, 2009.

JACÓ-VILELA, A. M.; FERREIRA, A. A. L.; PORTUGAL, F. T. História da psicologia: rumos e


percursos. Rio de Janeiro: Nau, 2018.

SCHULTZ, Duane P.; SCHULTZ, Sydney Ellen. História da psicologia moderna. São Paulo:
Cengage Learning, 2013.
Anotações
Unidade 2

Principais matrizes teóricas e as relações entre:


indivíduo, grupo e sociedade

Objetivos de aprendizagem
Nesta unidade iremos compreender a vertente científica da psicologia,
diferenciando-a do senso comum. Em seguida, entenderemos o desenvolvi-
mento das escolas psicológicas a partir da fase científica iniciada por Wundt.
Assim, estudaremos a primeira sistematização psicológica, o Estruturalismo,
e a escola iniciada nos Estados Unidos, o Funcionalismo, além de enten-
dermos acerca das áreas de interesse da Psicologia. Diante disso, compreen-
deremos a estruturação da Psicologia Social e seu objeto de estudo.

Seção 1
Ao longo dessa seção estudaremos a diferenciação entre a ciência psicológica
e a psicologia do senso comum, ou seja, aquela praticada no nosso dia a dia.

Seção 2
Nessa seção abordaremos a estruturação das primeiras escolas psicoló-
gicas: o Estruturalismo e o Funcionalismo.

Seção 3
Nessa seção o psiquismo humano será observado e realizaremos uma
aproximação com a psicologia social, isto é, com os indivíduos, os grupos e
a sociedade em si.

Introdução à unidade
Na Unidade 1 estudamos sobre o histórico da Psicologia: falamos sobre
os filósofos que deram o pontapé inicial para o estudo dessa nova área e, a
partir desse referencial histórico, foi possível compreender como aconteceu
o desenvolvimento da psicologia enquanto área científica.
Ao longo desta unidade o foco de estudo será o social e a ciência psico-
lógica. Entretanto, antes de entrarmos nesse tema específico, torna-se
necessário fazermos a distinção entre a psicologia que utilizamos no nosso
cotidiano e a psicologia enquanto ciência, que é aquela que pode ser compro-
vada, reproduzida.
Dando continuidade à perspectiva histórica da psicologia enquanto área
científica, estudaremos sobre as primeiras escolas psicológicas que surgiram,
o Estruturalismo e o Funcionalismo, e entenderemos que foi por intermédio
dessas duas principais escolas teóricas que a psicologia pôde ser desenvolvida
e que as diversas áreas de atuação foram surgindo.
Mais adiante falaremos especificamente sobre a psicologia social, apresen-
tando, em linhas gerais, os principais pressupostos teóricos dessa ciência.
Essa área de estudo irá contribuir para a compreensão do comportamento
dos indivíduos, suas interações e o processo grupal. Será abordado também
o tema da formação do psiquismo humano e de que maneira essa formação
está ligada aos grupos dos quais fazemos parte. Além disso, entenderemos a
necessidade de estudar o indivíduo no seu contexto social, e não somente de
maneira individualizada.

Questão para reflexão


A psicologia surgiu ligada à área da Filosofia, com questionamentos
específicos acerca de um tema, que se alterava conforme o período
histórico. Com o passar do tempo, se desenvolveu e se transformou em
uma área científica, e, nos dias de hoje, apresenta várias áreas de abran-
gência, sendo que a Psicologia Social é apenas uma delas. Diante disso,
o que você acha que a Psicologia Social estuda? Ou seja, qual é a sua
principal preocupação?
Seção 1

A estruturação da psicologia no século XX

Foi somente no início do século XX que surge a área científica da


Psicologia, entretanto, mesmo com caráter científico, ainda há confusão em
relação à psicologia do cotidiano, ou seja, até que ponto a psicologia que
estamos habituados a fazer uso não é científica? Faremos uma breve diferen-
ciação entre a área científica da psicologia e sua vertente do senso comum
para que essas duas áreas fiquem claras e para que possamos dar continui-
dade à nossa trajetória histórica.

1.1 A psicologia do senso comum versus a psicologia en-


quanto ciência
Ao longo do nosso dia fazemos uso da psicologia sem sequer nos darmos
conta. Quando ouvimos um rapaz tentando seduzir uma garota, percebemos
que ele faz uso de sua psicologia para poder chamar a atenção dela. Quando
um vendedor faz a sua propaganda para vender seus produtos, afirmamos que
ele faz uso de sua psicologia para poder atrair seus clientes. Quando estamos
com um problema e procuramos um amigo para nos ouvir, afirmamos que
ele usa de sua psicologia para nos entender e ajudar.

Questão para reflexão


Mas será dessa psicologia que os psicólogos fazem uso para desen-
volver seu trabalho?

Certamente não! A essa psicologia que utilizamos no nosso cotidiano


damos o nome de senso comum. A psicologia utilizada pelos psicólogos é a
psicologia científica.

1.2 A psicologia do senso comum


Psicologia do senso comum é aquela que utilizamos no nosso dia a
dia. Como assim? Quando falamos de cotidiano, estamos nos referindo à
nossa vida, aos fatos que nos acontecem diariamente, ou seja, nossa reali-
dade. Entretanto, temos ainda a ciência, que faz referência ao fato real,
abstraindo a realidade para poder compreendê-la da melhor forma possível.
“Para compreender isso melhor, pense na abstração (no distanciamento e no
trabalho mental) que Newton teve de fazer para, partindo da fruta que caía

35
da árvore (fato do cotidiano), formular a lei da gravidade (explicação cientí-
fica)” (BOCK; FURTADO; TEIXEIRA, 2008, p. 17).
O conhecimento que utilizamos na nossa vida diária faz uso de muitos
recursos (por vezes utilizamos a tradição de nossos ancestrais, outras vezes
agimos baseados em teorias científicas, etc.), entretanto, esse também é
um conhecimento improvisado, que demanda uma resposta imediata. Por
exemplo, um jovem sai para a “balada” e acorda, no dia seguinte, com muita
dor de cabeça e indisposição estomacal. A avó informa-lhe que deverá tomar
um chá de boldo, caso queira melhorar desse incômodo. Entretanto, ela não
conhece os princípios do boldo, não sabe qual o efeito deste sobre as doenças
hepáticas, apenas sabe, sem nunca ter estudado esse tema de maneira
aprofundada (somente de acordo com seus antepassados) que isso fará bem.
Esse é o conhecimento da nossa vida, que acontece de acordo com nossas
experiências, que vamos adquirindo ao longo do nosso cotidiano. Esse é o
senso comum.

Para saber mais


Podemos definir o conhecimento do senso comum como aquele que
nos chega através das nossas experiências de vida, do nosso dia a dia. É
um conhecimento intuitivo, baseado em tentativa e erro, espontâneo.

Assim, a fim de facilitar nossa vida, o senso comum oferece hipóteses


visando auxiliar o cotidiano: nossos pais nos ensinaram a atravessar a rua,
aprendemos, por exemplo, que se jogarmos algo, isto cairá, que um carro
conduzido de maneira veloz chegará rapidamente até nós.

1.3 A psicologia enquanto área científica


Entretanto, apenas a noção que temos do dia a dia, que é intuitiva, não
seria suficiente para podermos evoluir e dominar a natureza. Então, conforme
o tempo foi passando, verificamos uma especialização desse conhecimento
para que pudéssemos evoluir. Chamamos esse conhecimento de ciência.
Bock, Furtado e Teixeira (2008, p. 20) afirmam que:

A ciência compõe-se de um conjunto de conhecimentos


sobre fatos ou aspectos da realidade (que chamamos de
objeto de estudo), expresso por meio de uma linguagem
precisa e rigorosa. Esses conhecimentos devem ser obtidos
de maneira programada, sistemática e controlada, para que
se permita a verificação de sua validade. Assim, podemos

36
apontar o objeto dos diversos ramos da ciência e saber
exatamente como determinado conteúdo foi construído,
possibilitando a reprodução da experiência. Dessa forma,
o saber pode ser transmitido, verificado, utilizado e desen-
volvido.

O saber científico é um processo, pois é capaz de produzir conhecimentos


novos a partir de algo antes pensado, em que se nega algo, descobre-se algo
novo, reafirma-se algo, avançando com a ciência. Ou seja, esse saber científico
avança à medida que os problemas se apresentam na nossa vida diária. Além
disso, outra característica marcante da ciência é que ela visa à objetividade,
portanto, precisa ser provada, comprovada, validada, isenta de emoções.
Para que um conhecimento se torne científico, é necessário que haja
um “objeto específico, linguagem rigorosa, métodos e técnicas especí-
ficas, processo cumulativo do conhecimento e objetividade [...]” (BOCK;
FURTADO; TEIXEIRA, 2008, p. 20).

Questão para reflexão


Vimos que a psicologia é uma área científica, ou seja, pode ser compro-
vada. Mas e quanto ao seu objeto de estudo? Sobre o que ela trata?

A Psicologia tem como foco o homem, entretanto, esta é também a sua


grande dificuldade, visto que o homem é um ser histórico, mas que está em
constante mudança. Além disso, o ser estudado confunde-se com o ser em
estudo, isto é, o pesquisador (ser humano) confunde-se com seu objeto a
ser estudado (ser humano), diferentemente de uma área científica exata em
que um pesquisador da matemática (ser humano) está analisando cálculos
(objeto), por exemplo.
Envolvida no termo “ser humano”, a psicologia possui uma gama de
campos de estudo, pois cada ramo de estudo dá um enfoque diferente para
o homem (trabalho com o inconsciente, ou o comportamento, ou a consci-
ência, entre outros). Entretanto, independentemente dos ramos, a psico-
logia possui uma matéria-prima, a subjetividade, que é estudada para que
possamos compreender todo o contexto da vida.
Mas o que o termo subjetividade envolve? A subjetividade abrange o ser
humano em todas as suas facetas, as observáveis (o comportamento) e as
não observáveis (os sentimentos), as particulares (somos o que somos) e as
gerais (somos todos seres humanos), ou seja, a subjetividade é tudo aquilo
que somos e que vamos nos tornando a partir das experiências acumuladas

37
ao longo de nossas vidas, seja social ou culturalmente: por um lado ela nos
identifica porque somos únicos e, por outro, nos iguala porque somos seres
sociais, em constante interação. Iremos conversar mais sobre este tema na
Seção 3.

Atividades de aprendizagem

1. Qual a diferença entre a psicologia que utilizamos no nosso cotidiano e a


psicologia enquanto área científica?

2. Apenas o entendimento do nosso dia a dia, que é um conhecimento


intuitivo, não bastaria para podermos evoluir e dominar a natureza. Então,
com o passar do tempo, fomos “refinando” esse conhecimento para que
pudéssemos evoluir. A esse tipo de saber damos o nome de ciência. Como
podemos definir a ciência?

38
Seção 2

A estruturação da psicologia no século XX

O século XX traz em seu bojo o estudo, o reconhecimento, a análise e a


crítica da nova ciência que estava se estruturando: a psicologia. Com esse
tronco já iniciado por Wundt, novas escolas começam a surgir caracteri-
zando o que seria a psicologia dali em diante. Cada uma dessas novas escolas
organizava-se por seus conteúdos específicos e pelos métodos que empre-
gavam no desenvolvimento de suas atividades. Vamos conferir?

2.1 O Estruturalismo
O maior representante do Estruturalismo foi Edward Bradford Titchener
(1867-1927). Titchener nasceu na Inglaterra, realizou seu doutorado em
Leipzig (Alemanha) e desenvolveu seu trabalho nos EUA. Seu maior mestre
foi Wundt.
Figura 2.1 | Edward B. Titchener

Fonte: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Edward_Bradford_Titchener.jpg. Acesso em: 26 fev. 2019.

Assim como Wundt, Titchener define a psicologia como sendo a ciência


da consciência ou da mente. Ou seja, para ele, a psicologia estava preocupada
com a experiência consciente que depende do indivíduo que a está viven-
ciando. Schultz e Schultz (2013, p. 111) afirmam que:

Tanto a física como a psicologia podem estudar a luz e o


som. Enquanto os físicos examinam os fenômenos do ponto
de vista dos processos físicos envolvidos, os psicólogos

39
analisam a luz e o som com base na experiência e na obser-
vação humanas desses fenômenos.

Assim, para Titchener, a experiência consciente é o único enfoque


adequado para a pesquisa psicológica, além disso, o psicólogo admitia ainda
que a finalidade específica da psicologia seria descobrir os fatos estruturais
da mente.

Questão para reflexão


Titchener foi um seguidor de Wundt, seu foco de estudo aproxima-se do
de se seu mestre, porém, com as devidas alterações. Qual é o objeto de
estudo do Estruturalismo?

Para o Estruturalismo a psicologia seria a ciência da consciência ou da


mente, porém, Titchener fazia uma distinção entre mente e consciência:
afirmava que a mente seria a soma total dos processos mentais, enquanto
a consciência seria a soma das experiências conscientes em determinado
momento. Então, a consciência e a mente seriam semelhantes, sendo que a
consciência envolveria os processos mentais que acontecem em determinado
momento e a mente, o total desses processos.
Titchener afirma que, para descobrir quais são os elementos que consti-
tuem a mente, a ciência deveria recorrer a três questões referentes ao seu
objeto: “o que é?”, “como?” e “por quê?”, mas considera que toda a vida
psíquica é constituída através dos seguintes elementos: as sensações, as
imagens e os estados afetivos.

As sensações são elementos básicos da percepção e estão


presentes nos sons, nas visões, nos cheiros e nas outras
experiências provocadas pelos objetos físicos do ambiente.
As imagens são elementos das ideias e estão no processo
que reflete as experiências não realmente presentes no
momento, como a lembrança de uma experiência do
passado. Os estados afetivos, ou as afeições, são elementos
da emoção e encontram-se nas experiências como o amor,
o ódio e a tristeza. (SCHULTZ; SCHULTZ, 2013, p. 115)

Afirma ainda que, para chegar a esses elementos, deve-se empregar


o método da introspecção (FREIRE, 2010). Esse método já era defendido
por Wundt, entretanto, Titchener empregava a introspecção no sentido da

40
auto-observação em que observadores treinados de maneira rigorosa descre-
veriam os elementos em seu estado consciente, ao invés de relatar apenas o
estímulo observado ou percebido.
Sendo assim, podemos resumir o sistema criado por Titchener da
seguinte maneira: objeto de estudo – a consciência; método de estudo – a
introspecção; a finalidade – descobrir “o quê?”, “como?” e “por quê?” de
seus elementos.

Para saber mais


Titchener publicou várias obras, entre elas: An outline of psychology
(1896), Primer of psychology (1898) e, em quatro volumes, Experimental
psychology: a manual of laboratory practice (1901-1905). Estes últimos,
mais conhecidos como Manuals (Manuais), incentivaram o trabalho de
laboratório da psicologia nos Estados Unidos e influenciaram a geração
dos psicólogos experimentalistas.

2.2. O Funcionalismo
Foi o primeiro sistema de psicologia exclusivamente norte-americano.
Pode ser entendido como um protesto à psicologia experimental de Wundt e
à psicologia estrutural de Titchener, que eram consideradas limitadas demais.

Questão para reflexão


O funcionalismo surge em oposição às teorias de Wundt e Titchener,
pois acreditava que essas escolas de pensamento não poderiam
responder às questões específicas do funcionalismo. Aliás, qual era a
preocupação central do funcionalismo?

O funcionalismo não estava preocupado em estudar a composição da


mente, ou seja, seus elementos mentais ou sua estrutura, mas, sim, buscava
entender as funções e os processos que levam o indivíduo a ter determinadas
atitudes na vida real. Para tanto, fazia uso dos principais questionamentos: “o
que a mente faz?”, “como age?”, na verdade, os funcionalistas estavam interes-
sados em entender para que serve e qual a função da mente.
A psicologia desenvolvida pelos funcionalistas referia-se ao estudo da
vida psíquica, considerada como um instrumento de adaptação ao meio, isto
é, a consciência, para eles, é um instrumento destinado a resolver problemas,
ou seja, não estavam preocupados em conhecer sua estrutura, mas em
compreender como ela se adapta.

41
Os precursores do Funcionalismo foram as ideias de Charles Darwin
sobre a evolução das espécies, a psicologia do ato e a fenomenologia e o
naturalismo de Rousseau. Entretanto, quem lançou suas bases foi William
James. Este não foi o fundador da psicologia funcional, mas influenciou o
movimento funcionalista, inspirando os futuros psicólogos.
Figura 2.2 | William James

Fonte: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:William_James_b1842c.jpg. Acesso em: 2 mar. 2019.

No livro Os princípios da psicologia, James apresenta a ideia central


do Funcionalismo:

[...] a psicologia não tem como meta a descoberta dos


elementos da experiência, mas o estudo sobre a adaptação
dos seres humanos ao seu meio ambiente. A função da
nossa consciência é guiar-nos aos fins necessários para a
sobrevivência. A consciência é vital para as necessidades
dos seres complexos em um ambiente complexo; de
outra forma, a evolução humana não ocorreria. (SCHULTZ;
SCHULTZ, 2013, p. 161)

Importante destacar que James não considerava as pessoas totalmente


como seres racionais, ele também dava ênfase aos aspectos não racionais
da natureza humana, alegava que as pessoas eram compostas de emoção e
paixão, e também de pensamento e razão. Além disso, enfatizava o fato de
a condição física afetar o intelecto, dos fatores emocionais determinarem
as crenças e das necessidades e desejos humanos influenciarem a formação
da razão.

42
Após a estruturação dessas primeiras escolas psicológicas – o
Estruturalismo e o Funcionalismo – inicia-se um período de desenvolvi-
mento de outras teorias psicológicas que perduram até os dias de hoje, como
exemplo temos:
• Behaviorismo: também conhecido como a psicologia do compor-
tamento. Nasceu com Watson, nos Estados Unidos, e teve Skinner
como seu maior representante.
• Gestalt: também denominada psicologia da forma. Surgiu na
Alemanha em oposição ao Estruturalismo e ao Behaviorismo. Os
primeiros conceitos foram elaborados por Max Wertheimer e, poste-
riormente, foram ampliados por Koffka e Köhler.
• Psicanálise: ou psicologia do inconsciente. Desenvolvida por
Sigmund Freud visando se opor às ideias de Wundt e de Titchener. Foi
a escola que mais se distanciou das demais, pois preocupava-se com
as pessoas com perturbações mentais, de maneira especial aquelas
acometidas pela histeria, assunto que, até então, havia sido despre-
zado pelas outras escolas.

Para saber mais


Além das teorias citadas aqui, muitas outras existem, como a Psico-
logia Humanista, a Psicologia Cognitiva, entre outras. O importante é
destacar que o psicólogo, ao se formar, precisa escolher uma dessas
abordagens para seguir, ou seja, não existe teoria “melhor” ou “pior”,
existem diversas áreas de estudo em psicologia e cada um escolhe de
acordo com seus princípios e valores.

Assim, a partir do século XX temos o crescimento da psicologia com o


surgimento das novas metodologias de pesquisa, novos campos de atuação e
novas abordagens para estudo do comportamento e dos processos mentais.
Atualmente, a psicologia pode ser apresentada em diferentes áreas de atuação
profissional e campos de estudo. Entre estes, temos:
• Psicologia do desenvolvimento: área de estudo da psicologia interes-
sada no desenvolvimento e formação dos seres humanos, desde a
fecundação até a velhice.
• Psicologia da personalidade: o interesse aqui são as possíveis
diferenças em relação aos traços de personalidade, por exemplo,
ansiedade, sociabilidade, autoestima e agressividade. Os estudiosos
dessa área querem compreender quais os motivos que levam algumas

43
pessoas a serem mais explosivas, nervosas, enquanto outras são mais
tranquilas e alegres.
• Psicologia clínica: uma das possíveis áreas de atuação da psicologia.
Os terapeutas preocupam-se em entender de onde surgiu e qual o
tratamento de uma questão de ordem psicológica, visando a saúde
mental do paciente (cliente). Podem atuar em consultórios particu-
lares, hospitais, ambulatórios, centros de saúde, etc.
• Psicologia organizacional: é o campo de atuação da psicologia
voltado para o trabalho em empresas e organizações, visando melhorar
a produtividade e as condições de trabalho dos funcionários, além de
atuar nos processos de seleção e treinamento destes.
• Psicologia social: é uma das áreas de estudo da psicologia. Sua
preocupação central é a relação que os indivíduos mantêm com
o coletivo no qual estão inseridos, ou seja, os psicólogos sociais
estão preocupados em saber como as pessoas influenciam umas às
outras no contexto da sociedade. Essa ainda é uma área jovem, seus
primeiros experimentos foram relatados há pouco mais de um século
(1898), sendo que os primeiros textos da psicologia social datam de
1900. A psicologia social está situada na fronteira entre a psicologia
e a sociologia: quando a comparamos à sociologia (que é o estudo
das pessoas em grupos e sociedades), a psicologia social tem seu foco
nos indivíduos e usa mais a experimentação; quando comparada à
psicologia da personalidade, a psicologia social foca-se menos nas
diferenças individuais e mais em como os indivíduos veem e influen-
ciam uns aos outros.

Questão para reflexão


Quais são os principais temas de domínio da psicologia social? Quais
conceitos estão na lista de grandes ideias da psicologia social?

A psicologia social estuda nosso pensamento, nossa influência e nossos


relacionamentos. Então, podemos defini-la conforme a figura a seguir:

44
Figura 2.3 | Psicologia social é:
Psicologia social é
“o estudo científico” ...

Do pensamento social Da influência social Das relações sociais


• Como percebemos a nós • Cultura • Preconceito
mesmos e aos outros • Pressões para se • Agressão
• Em que acreditamos conformar • Atração e intimidade
• Julgamentos que • Persuasão
fazemos • Ajuda
• Grupo de pessoas
• Nossas atitudes

Fonte: Myers (2014, p. 28).

Atividades de aprendizagem

1. Wundt define a psicologia como sendo a ciência da consciência ou da


mente, mas, de acordo com o Estruturalismo, como a psicologia é definida?

2. O Funcionalismo foi o primeiro sistema de psicologia exclusivamente


norte-americano. Pode ser entendido como um protesto à psicologia experi-
mental de Wundt e à psicologia estrutural de Titchener, que eram conside-
radas limitadas demais. Qual a preocupação central do Funcionalismo?

45
Seção 3

O psiquismo humano e sua relação com a


Psicologia Social

Com o surgimento da psicologia social temos o estudo científico do


pensamento social, da influência social e das relações sociais. Diante disso,
vários questionamentos passam a ser elaborados, tais como: quem é o
indivíduo? Qual a sua ligação com os grupos e a sociedade? Aqui, compreen-
deremos o tema central da psicologia social, além de fazermos uma reflexão
sobre a formação do psiquismo humano e sua relação com o contexto social
em que o indivíduo se encontra inserido.

3.1 O que estuda a Psicologia Social?


Silvia Lane, estudiosa da psicologia social no Brasil, afirma que toda psico-
logia é social. Não no sentido de reduzirmos as áreas específicas da psicologia
à psicologia social, mas de destacarmos a importância da natureza histórico-
-social do ser humano em virtude da análise do seu comportamento. Assim,
podemos compreender que todo indivíduo é um ser social e histórico:

Ao declaramos que o homem é um ser histórico, estamos


afirmando que a sua relação com o meio ambiente se dá
de maneira permeada socialmente. No dizer de Engels,
o único fato histórico que existe é que o homem precisa
sobreviver. E o que muda não é que se produz num deter-
minado período histórico, são as relações de produção, são
as relações sociais que permeiam ou que significam stricto
sensu, a relação entre homens. (CODO, 1984, p. 140)

Diante disso, a psicologia social pode ser definida como a área da psico-
logia que busca compreender o encontro social, isto é, a interação dos indiví-
duos e suas relações. Assim, seu objeto de estudo pode ser entendido como a
interação social e suas dinâmicas interdependentes, que procura entender a
natureza social do fenômeno psíquico (BOCK; FURTADO; TEIXEIRA, 2008).
Quando duas ou mais pessoas iniciam uma comunicação, tem início
uma ação recíproca em que ideias, sentimentos ou atitudes provocarão
reações mútuas que poderão alterar o comportamento de todos. Assim, as

46
pessoas influenciam e sofrem influência dos outros: dizemos que há uma
interação social.
Além disso, as interações são a base de toda a organização e estrutura
social e podem acontecer de duas formas: com a proximidade física entre
duas ou mais pessoas ou pelos meios de comunicação, ou seja, pela televisão,
pelo rádio, pelos livros, etc., que são instrumentos para que essa comuni-
cação aconteça de maneira recíproca – quem produz a informação influencia
quem a recebe e vice-versa.

Questão para reflexão


E a internet? Também é um meio de comunicação que promove a interação?

A internet é um meio de comunicação, porém um tanto diferente, pois


permite a influência mútua entre dois ou mais indivíduos. As redes sociais,
por exemplo, são novas maneiras de interação e geram fenômenos sociais
significativos, capazes de provocar alterações no cotidiano da vida das
pessoas. Assim, damos o nome de relação social às diferentes maneiras que a
interação social pode assumir.

3.2 A atividade humana e a formação do psiquismo


Nesse sentido, o foco da psicologia social é a interação social e duas
dinâmicas interdependentes, a fim de poder entender a natureza social do
fenômeno psíquico. Bock, Furtado e Teixeira (2008, p. 22-23) vão afirmar
que a subjetividade humana surge do contato entre os homens e dos homens
com a natureza, ou seja, temos um mundo interno que se estrutura conforme
nossas relações sociais.
O estudo do psiquismo humano deve buscar compreender como se dá
a construção desse mundo interno a partir das relações sociais vividas pelo
homem. Assim, o mundo objetivo não é mais tido como um fator de influ-
ência, mas como um fator constitutivo para o desenvolvimento da subjeti-
vidade. Isto é, não nascemos homem ou mulher, mas, sim, nos tornamos
homem ou mulher pelo que aprendemos com as gerações passadas, com
nossa história, com nosso contexto social. Torna-se necessário esclarecer que
não somos seres estáticos, passivos, mas indivíduos que estão em constante
movimento, transformação, agentes ativos da própria história.
A atividade do homem, o que ele executa, tem relação com a formação
do seu psiquismo, ou seja, é através da atividade que o homem se apropria do
mundo, é a atividade a encarregada de proporcionar a transição do que está
fora do homem para dentro dele.

47
Segundo a Psicologia Social, a formação do mundo interno baseia-se no
que o indivíduo internaliza em suas atividades, seja explorando o ambiente
ao seu redor, seja conversando com as pessoas, seja trabalhando: tudo é trans-
formado em ideias, em imagens que passam a habitar seu mundo interno. Ao
transformar o mundo conforme nossas necessidades, estamos construindo a
nós mesmos, pois estamos atuando e alterando o mundo exterior.

3.3 A construção da subjetividade humana


Bock, Furtado e Teixeira (2008, p. 22-23) apontam que:

A subjetividade é a síntese singular e individual que cada um


de nós vai construindo conforme vamos nos desenvolvendo
e vivenciando as experiências de vida social e cultural; é
uma síntese que de um lado nos identifica, por ser única; e
de outro lado nos iguala, na medida em que os elementos
que a constituem são experienciados no campo comum
da objetividade social. Essa síntese – a subjetividade – é o
mundo das ideias, significados e emoções construído inter-
namente pelo sujeito a partir de suas relações sociais, de
suas vivências e de sua constituição biológica; é, também,
fonte de suas manifestações afetivas e comportamentais.

A subjetividade é a forma como as pessoas sentem, sonham, pensam, se


comportam – é algo individual, entretanto, ela não nasce com o indivíduo:
ele vai construindo sua subjetividade aos poucos, em consonância com suas
vivências do mundo. Assim, ao construir e transformar o mundo (externo),
o homem cria e altera a si próprio (BOCK; FURTADO; TEIXEIRA, 2008).
Temos então alguns elementos que são básicos para a formação da subje-
tividade: o movimento e a transformação, pois ter contato com a subjetivi-
dade é se sujeitar a compreender novas maneiras de ser, em que a produção
depende do social e, também, do processo histórico. Isso quer dizer que as
pessoas são diferentes ao longo de suas vidas, que ainda não foram termi-
nadas, o que acontece porque a subjetividade está sempre em modificação,
uma vez que o conhecimento sobre si sempre fornecerá novos elementos
para renová-la.
Como somos os próprios construtores de nossas transformações, por
vezes elas podem passar despercebidas aos nossos olhos, fazendo-nos pensar
que não mudamos, mas as transformações acontecem tanto no nosso corpo
físico quanto nas nossas vivências subjetivas, ou seja, na nossa subjetividade.

48
Para saber mais
Conforme o senso comum, subjetividade refere-se ao íntimo do
indivíduo, ou seja, ao jeito como ele vê, pensa, sente sobre algo e
que, por ser própria do indivíduo, não segue um padrão. Na verdade,
é a forma como as pessoas expressam seu lado pessoal (DICIONÁRIO
INFORMAL, [s.d.]).

Atividades de aprendizagem

1. Silvia Lane, estudiosa da Psicologia Social no Brasil, afirma que toda


psicologia é social. Diante disso, como é possível definir essa ciência? E
quanto ao seu foco?

2. O que você entende por subjetividade? Qual a sua ligação com a psicologia?

Fique ligado
O objeto de estudo da Psicologia Social são as interações sociais, assim,
a formação do psiquismo humano vai depender da convivência social.
Passamos a entender que toda psicologia é social porque todos somos seres
sociais e a formação do psiquismo humano está atrelada aos grupos dos quais
fazemos parte.

Para concluir o estudo da unidade


Nesta unidade pudemos aprofundar nossos estudos sobre a psicologia
enquanto área científica até o entendimento sobre a Psicologia Social, seu
objeto de estudo e sua área de conhecimento. Para aprofundar seus estudos
na área da Psicologia Social, leia o artigo A psicologia social contemporânea:
principais tendências e perspectivas nacionais e internacionais, de Maria
Cristina Ferreira.
FERREIRA, Maria Cristina. A Psicologia social contemporânea: princi-
pais tendências e perspectivas nacionais e internacionais. Psicologia: teoria e
pesquisa, [online], v. 26, n. especial, pp. 51-64, 2010.

49
Atividade de aprendizagem da unidade

1. Quando comparamos a ciência com nossas atividades do dia a dia, é


possível percebermos que a primeira faz parte de uma atividade reflexiva,
que procura esclarecer e alterar os fatos do cotidiano a partir de seu estudo
controlado. Em relação à área científica e ao senso comum na área da Psico-
logia, analise as afirmativas a seguir:
I. Por senso comum entende-se o acúmulo de conhecimento instintivo
do dia a dia.
II. O senso comum vem de geração, ou seja, dos antepassados. Isso quer
dizer que vai do hábito à tradição.
III. A ciência faz uso de um linguajar preciso e rigoroso, capaz de fazer
com que o estudo seja reproduzido.
IV. A ciência psicológica aspira à subjetividade, já que o foco da psico-
logia é o homem, em todas as suas facetas.
Está correto o que se afirma em:
a. Apenas I e II.
b. Apenas II e III.
c. Apenas III e IV.
d. Apenas I, II e III.
e. I, II, III e IV.

2. À medida que a psicologia se desvincula da filosofia, se torna uma área


científica. A partir de então, começa a ser estruturada como uma nova
ciência, uma ciência independente. Assim, sobre as primeiras escolas psico-
lógicas, faça a associação das colunas a seguir:
(1) Estruturalismo.
(2) Funcionalismo.

( ) Seu maior representante foi Titchener.


( ) Seu maior representante foi James.
( ) De acordo com essa teoria, a experiência consciente é o único enfoque
adequado para a pesquisa psicológica.

50
( ) Para essa teoria, a psicologia era o estudo da vida psíquica, considerada
como um instrumento de adaptação ao meio.
( ) Nessa teoria, a consciência é apenas um instrumento destinado a
resolver problemas.
Assinale a alternativa com a sequência correta da associação entre as colunas:
a. 1 - 2 - 2 - 1 - 1.
b. 1 - 2 - 1 - 2 - 1.
c. 1 - 2 - 1 - 2 - 2.
d. 2 - 1 - 2 - 1 - 1.
e. 2 - 1 - 1 - 2 - 2.

3. A partir do século XX temos o crescimento da psicologia com o surgimento


das novas metodologias de pesquisa, novos campos de atuação e novas aborda-
gens para estudar o comportamento e os processos mentais. Atualmente, a
psicologia pode ser apresentada em diferentes áreas de atuação profissional e
campos de estudo, sendo que a Psicologia Social é uma dessas áreas.
Acerca da Psicologia Social, analise as afirmativas a seguir e assinale (V) para
as verdadeiras e (F) para as falsas.
( ) Sua preocupação central é a relação que os indivíduos mantêm com o
coletivo no qual estão inseridos.
( ) Os psicólogos sociais estão preocupados em saber como as pessoas
influenciam umas às outras no contexto da sociedade.
( ) A psicologia social está situada na fronteira entre a psicologia e a sociologia.
Assinale a alternativa com a sequência correta:
a. V - V - V.
b. V - V - F.
c. V - F - F.
d. F - V - V.
e. F - F - V.

51
4. A Psicologia Social pode ser definida como a área da psicologia que
busca compreender o encontro social, isto é, a interação dos indivíduos e
suas relações. Acerca do tema interação social, analise as afirmativas a seguir:
I. Existe uma interação social quando duas ou mais pessoas iniciam uma
comunicação, quando tem início uma ação recíproca de ideias, senti-
mentos, atitudes.
II. Através da interação social as pessoas influenciam e sofrem influência
dos demais.
III. As interações são a base de toda organização e estrutura social. Entre-
tanto, a interação acontece somente através dos meios de comunicação.
Está correto o que se afirma em:
a. Apenas I.
b. Apenas II.
c. Apenas III.
d. Apenas I e II.
e. I, II e III.

5. É definida como a forma como as pessoas sentem, sonham, pensam, se


comportam. É algo individual, entretanto, não nasce com o indivíduo, a pessoa
a constrói aos poucos, em consonância com suas vivências. Assim, ao construir
e transformar o mundo (externo), o homem cria e altera a si próprio.
Sobre qual tema essa descrição faz referência?
a. Psicologia Social.
b. Interação social.
c. Subjetividade.
d. Senso comum.
e. Sensações.

52
Referências

BOCK, A. M. B.; FURTADO, O.; TEIXEIRA, M. L. T. Psicologias: uma introdução ao estudo da


psicologia. 14. ed. São Paulo: Saraiva, 2008.

CODO, Wanderley. Relações de trabalho e transformação social. Psicologia Social: o homem


em movimento, p. 136-51, 1984.

DICIONÁRIO INFORMAL. Subjetividade. [s.p.], [s.d.]. Disponível em: https://www.diciona-


rioinformal.com.br/subjetividade/. Acesso em: 6 mar. 2019.

FREIRE, Izabel Ribeiro. Raízes da psicologia. 12. ed. Petrópolis: Vozes, 2010.

MYERS, D.G. Psicologia social. 10. ed. Porto Alegre: Artmed, 2014.

SCHULTZ, Duane P.; SCHULTZ, Sydney Ellen. História da psicologia moderna. São Paulo:
Cengage Learning, 2013.
Anotações
Unidade 3

Categorias fundamentais da psicologia social:


identidade, personalidade, consciência
e alienação

Objetivos de aprendizagem
Nesta unidade conheceremos, mais especificamente, a área de estudo da
Psicologia Social e os principais pressupostos teóricos dessa área. A princípio,
iremos compreender como se dá o estudo da personalidade, quais suas
origens e como esta é influenciada. Após, entenderemos sobre a identidade,
como se desenvolve, como podemos identificá-la para, enfim, conhecermos
nossos papéis sociais e as representações sociais perante a sociedade. Em
seguida, trabalharemos com temas bem específicos, que são a consciência e a
alienação, e poderemos entender como se dá o processo de desenvolvimento
do ser social a partir desses conceitos.

Seção 1
Ao longo dessa seção estudaremos o desenvolvimento da personalidade,
como ela se origina, como se define e seus fatores determinantes.

Seção 2
Nessa seção abordaremos os principais temas da psicologia social, tais
como a identidade (como se forma, como a reconhecemos), os papéis sociais
que exercemos e nossas representações sociais.

Seção 3
Nessa seção os temas que compõem o processo de desenvolvimento do
ser social serão detalhados, de modo a ficar claro que não existe um homem
completamente desalienado, nem, tampouco, um homem completamente
alienado. Trataremos, então, dos temas consciência e alienação.
Introdução à unidade
Na Unidade 1 falamos sobre o histórico da Psicologia: os filósofos que
deram o pontapé inicial para o estudo dessa nova área para que pudéssemos
compreender como aconteceu o desenvolvimento da psicologia enquanto
área científica. Na Unidade 2 o tema central foi o social e a ciência psicoló-
gica, apresentamos a distinção entre psicologia do senso comum e psicologia
científica. Em seguida, trabalhamos alguns temas relevantes para a área da
psicologia social, tais como a formação do psiquismo humano, o indivíduo
e seu contexto social.
Nesta unidade, trabalharemos temas específicos da psicologia social. Para
iniciar, falaremos sobre a personalidade: o que é, como se define, do que é
constituída, quais os elementos que a influenciam, entre outras questões.
Em seguida, estudaremos sobre os papéis sociais e iremos compreender que,
quando o indivíduo nasce, já existe toda uma expectativa social de como ele
deve se comportar, pois os papéis sociais que as pessoas desempenham são
prescritos pelos grupos dos quais elas fazem parte. São esses papéis sociais
que desempenhamos que nos permitem nos adaptarmos às diferentes situa-
ções às quais estamos sujeitos e fazem com que consigamos nos comportar
de maneira diferente em cada uma delas.
Falaremos ainda sobre as representações sociais que, de uma maneira
bem simples, são a forma que utilizamos para interpretar o mundo social.
Importante saber que, enquanto comportamentos sociais, essas são criadas e
recriadas constantemente e, nesse processo, ocorre a influência no indivíduo
e na sociedade.
E, por fim, trabalharemos com os conceitos de consciência e alienação,
que são os processos ideológicos que permeiam toda a nossa sociedade.
Assim, será possível entender e discernir entre os dois conceitos de modo
a compreender que não há um homem completamente desalienado nem,
tampouco, completamente alienado.
Seção 1

A personalidade

No dia a dia as pessoas fazem uso do termo personalidade em suas


conversas e discussões com sentidos que, às vezes, não guardam nenhuma
semelhança com o conceito adotado na psicologia. É comum ouvirmos
expressões como: “mostre que você tem personalidade”; “Para este cargo eu
preciso de alguém que tenha personalidade forte”; “Fulano não tem perso-
nalidade”; entre tantas outras colocações. Entretanto, essa não é a acepção
adotada pelos estudiosos da psicologia ou de outras ciências humanas, pois
estão relacionados apenas ao sentido etimológico da palavra. Então, vamos
ao estudo da personalidade?

A psicologia e o estudo da personalidade


Ao longo da história a psicologia vem se preocupando com o fato de
caracterizar e entender as pessoas. Já na Grécia Antiga os filósofos queriam
entender a natureza humana. No período clássico, encontramos Platão e
Aristóteles ainda com a mesma preocupação, tanto que Aristóteles dedica
uma seção inteira de sua obra De anima ao estudo da natureza da alma, que
hoje chamaríamos de personalidade. E assim esse estudo perdurou ao longo
dos séculos.

Para saber mais


Vários outros filósofos também orientaram os seus estudos pelo
interesse em entender a natureza humana individual. Apenas para citar
alguns, temos: São Tomás de Aquino, Bentham e Hobbes que, séculos
anteriores ao nascimento da psicologia enquanto área científica, contri-
buíram para o avanço do estudo da personalidade.

Quando a psicologia se torna uma área científica (no final do século


XIX), passa a se basear nos princípios da praticidade, objetividade e quantifi-
cação, com isso, nota-se certo distanciamento entre a psicologia e o homem.
Esse movimento se fez necessário para que fosse possível estudar o homem a
partir de unidades menores: sua percepção, sua motivação, seu pensamento,
ou seja, suas funções e processos psíquicos.
Porém, quando surge a psicologia clínica, a personalidade volta a ser
estudada de maneira mais específica. Isso acontece no final do século XIX
e início do século XX, com a prática de estudiosos como Charcot, Stern e

57
Freud, que estavam interessados em entender e ajudar cada paciente em sua
totalidade: suas preocupações e ansiedades, sua criatividade e suas limita-
ções, seu aparato biológico, perceptual, intelectual, entre outros. Para eles,
era imprescindível conhecer o passado do paciente para poder compreender
seu presente e auxiliar em seu futuro, além disso, passaram a considerar seu
aparato biológico, cultural e social.
Assim, a psicologia novamente volta a se aproximar do homem, pois
havia a necessidade de ajudar cada paciente, cada pessoa, cada personali-
dade. A partir de então, passaram a surgir os primeiros sistemas teóricos
visando descrever a estrutura e o funcionamento da personalidade.

Questão para reflexão


Vimos que desde tempos antigos tem-se a preocupação em compre-
ender a personalidade humana. Mas o que vem a ser a personalidade?
Como podemos defini-la?

1.2 Definindo a personalidade


Etimologicamente, o termo personalidade tem origem em persona,
ou personare que, em latim, significa soar através. Este termo referia-se à
máscara que os atores do teatro grego utilizavam para categorizar as perso-
nagens que representavam. Então, no senso comum, ainda se tem a ideia de
que personalidade é aquilo que é refletido, aquilo que é apontado através dos
papéis sociais que as pessoas desempenham (BRAGHIROLLI; PEREIRA;
RIZZON, 2010).
Como visto anteriormente, muitos estudiosos empenharam-se na tarefa
de definir a personalidade. John Locke, filósofo empirista do século XVII,
afirma que a personalidade é um produto do meio que age sobre o indivíduo,
deixando marcas fundamentais nele, e que aquilo que é relevante e vai consti-
tuir a personalidade é aprendido nos primeiros anos da infância. Somente
podemos entender a personalidade a partir dos comportamentos observáveis
do indivíduo, ou seja, aquilo que a pessoa evidencia a partir de sua conduta.
Entretanto, após a psicologia se tornar uma área científica e outras
áreas passarem a ser abordadas, acredita-se que o homem é, na verdade, o
organizador e a fonte de todos os atos. Seguindo essa linha de pensamento,
chegamos à definição de personalidade aceita nos dias de hoje: conjunto dos
traços e características particulares, peculiares de uma pessoa que a fazem
diferente das demais (BRAGHIROLLI; PEREIRA; RIZZON, 2010).

58
A personalidade abrange tanto a constituição física (características
morfológicas e físico-químicas) como os modos de interação entre as pessoas
e o mundo (seus costumes, suas aspirações, seus modos de se expressar e
se comportar). Isso porque é esse conjunto de traços e características que
constitui o estilo de vida próprio de cada um. Diante disso, podemos entender
que a personalidade vai muito além da simples manifestação dos nossos
comportamentos, ela envolve a totalidade daquilo que somos, não somente
daquilo que somos hoje, mas do que fomos ontem e do que queremos ser
no futuro.

Questão para reflexão


Agora que já sabemos que a personalidade é tudo aquilo que somos e
que aspiramos ser, questiona-se: de onde vem a personalidade? Como
se processa sua formação?

1.3 Os determinantes da personalidade


Essa questão é bastante polêmica, pois envolve dois lados antagônicos: a
hereditariedade versus o meio. A grande maioria dos pesquisadores do tema
admite a importância desses dois fatores como determinantes da personali-
dade, porém, a divergência diz respeito à importância de cada um deles.
1.3.1 Argumentos a favor da hereditariedade
Vários estudiosos partem do princípio de que a hereditariedade deter-
mina a personalidade. Entre eles, merecem destaque os estudos realizados
por Eugen Bleuler (1857-1939), que procurou demonstrar, basicamente, que
a personalidade é determinada pelos fatores hereditários. Para embasar seus
estudos, o pesquisador trabalhou com casos de psicose em gêmeos univi-
telinos, especialmente aqueles que apresentavam esquizofrenia. A partir de
suas pesquisas, observou semelhança significativa quanto ao momento do
aparecimento da psicose, além das características do quadro clínico. Para ele,
tal semelhança somente poderia ser explicada a partir da herança genética,
que é praticamente idêntica em gêmeos univitelinos. Em seguida, Francis
Galton, cientista inglês, investigou árvores genealógicas de pessoas de
destaque, como militares e artistas, e concluiu que a genialidade tinha origem
nas características genéticas transmitidas através das gerações.
Assim, esses e os demais estudos acerca da hereditariedade vieram
para fortalecer a ideia de que a herança genética tem peso na formação
da personalidade.

59
1.3.2 Argumentos a favor das influências ambientais
Outros estudiosos procuraram demonstrar que o meio ambiente tem
mais influência na determinação da personalidade que a herança genética.
Para chegar a essa conclusão, os estudiosos pesquisaram casos de pessoas que
foram privadas do convívio social por longos períodos.
Talvez o exemplo mais clássico seja o do menino Victor de Aveyron, um garoto
de, aproximadamente, 11 anos de idade que foi encontrado pelo psiquiatra inglês
Jean Itard, no século XVIII, nos arredores da cidade de Aveyron.

Vivendo como um animal selvagem, o garoto não sabia


andar, falar ou expressar-se compreensivelmente, o que
denotava o seu ínfimo contato com a raça humana, fato
este que, posteriormente, reforçaria a tese de que o
menino teria sido abandonado por seus progenitores com
idade entre 4 ou 5 anos, tendo sido capaz de sobreviver e,
ao mesmo tempo, sublimar quaisquer influências sociais
que, porventura, houvesse recebido. (PEREIRA; GALUCH,
2012, p. 555)

Victor de Aveyron foi então “cuidado” por Jean Itard e sua governanta.
Itard percebeu que o menino possuía capacidades intelectuais e biológicas
passíveis de desenvolvimento e, conforme era estimulado, percebia-se
avanços também em sua socialização. Victor morreu em 1828, com aproxi-
madamente 40 anos.
Outro caso bastante estudado para explicar a importância do ambiente
no desenvolvimento da personalidade foi o das irmãs Amala e Kamala, as
“meninas-lobo”. Elas foram encontradas por um missionário, em 1921, nos
arredores de uma aldeia indiana. Amala aparentava ter por volta de dois anos
de idade e Kamala por volta de sete. De acordo com os registros, as meninas
viviam juntamente com os lobos em uma caverna: andavam sobre quatro
apoios (posição quadrúpede), dormiam “aninhadas” durante o dia e, à noite,
ficavam andando de um lado para o outro, uivavam, rosnavam quando algo
ou alguém se aproximava.
Após serem “resgatadas”, a educação de Amala, que era mais jovem,
foi visivelmente mais fácil, entretanto, ela faleceu um ano após sair da
floresta. Kamala sobreviveu até, aproximadamente, os quinze anos, porém,
mostrou-se mais resistente às influências ambientais: demorou cerca de seis
anos para conseguir colocar-se na posição ereta e caminhar, seu vocabulário
era bastante restrito, com cerca de apenas 45 palavras.

60
Diante disso, os pesquisadores apontam para o fato de que o ambiente
pode, sim, ser determinante no desenvolvimento da personalidade e as
pessoas podem aprender com o convívio social.
1.3.3 Estudos mais recentes acerca da personalidade
Os atuais estudos na área da psicologia demonstram que a personalidade
é uma totalidade global que resulta dos fatores genéticos e ambientais. Então,
é a partir dessa composição que irá acontecer a interação com o meio para
a se tornar uma única personalidade. É importante destacar que a herança
genética não pode ser modificada, inclusive, há aspectos que são próprios
da espécie humana, como é o caso do processo de maturação: o ser humano
apresenta um ritmo e um tempo médio que lhe são característicos para o
amadurecimento de determinadas funções.

Para saber mais


Quando nos referimos ao processo de maturação do ser humano,
podemos pegar como exemplo o tempo que o bebê leva para sentar,
engatinhar, andar em posição ereta, o tempo que leva para conseguir
articular as funções da fala, do controle de esfíncteres, etc. Não adianta
tentarmos “apressar” esse desenvolvimento, pois ele depende de um
ritmo e um tempo de maturação.

Entretanto, mesmo esse processo de maturação, que é determinado pelas


características próprias da espécie humana, pode sofrer influências impor-
tantes do ambiente, tanto favoráveis quanto desfavoráveis, que resultam em
apressar ou retardar o processo. Por exemplo: o processo de maturação pode
ser influenciado negativamente por uma alimentação inadequada, pobre em
nutrientes, seja durante o período gestacional ou após o nascimento.
Destaca-se também o fato de que as influências ambientais não podem ir
muito além das possibilidades estabelecidas pela herança genética, isto é, o
meio pode ser o mais favorável possível, entretanto, uma pessoa não conse-
guirá se tornar um gênio caso sua herança genética tenha lhe reservado um
déficit intelectual significativo. Assim, tanto a hereditariedade quanto o meio
são decisivos para a formação da personalidade: esta só se constituirá a partir
das interações que acontecerem entre a criança e o seu meio.

61
Atividade de aprendizagem

1. Ao longo da história, a psicologia vem se preocupando em caracterizar


e entender as pessoas. Na Grécia Antiga, os filósofos queriam entender a
natureza humana, que hoje chamaríamos de estudo da personalidade. Como
a personalidade pode ser definida?

2. Sobre os determinantes da personalidade, temos que essa questão é


bastante polêmica, pois envolve dois lados antagônicos: a hereditariedade
versus o meio. Descreva a importância desses dois fatores na determinação
da personalidade.

62
Seção 2

A identidade, os papéis sociais e as


representações sociais

2.1 A identidade
Para que possamos compreender o sentido da palavra identidade, Bock,
Furtado e Teixeira (2008, p. 187) nos apontam que:

Identidade é a denominação dada às representações (ideias


e sentimentos) que o indivíduo desenvolve a respeito de si
próprio, a partir do conjunto de suas vivências. A identi-
dade é a síntese pessoal sobre si-mesmo, incluindo dados
pessoais (cor, sexo, idade), biografia (trajetória pessoal),
atributos que os outros lhe conferem, permitindo uma
representação a respeito de si próprio.

Para que seja possível entender esse processo de conhecer a si próprio e se


reconhecer como alguém único, a Psicologia desenvolveu o termo identidade.
Mas de onde vem este termo, “identidade”? Na famosa tragédia de Édipo,
escrita por Sófocles, Édipo está em dúvida quanto à sua identidade e procura
o oráculo do deus Apolo para saber quem ele realmente é. Este lhe responde
que ele é aquele que desposaria sua mãe e mataria seu pai. Porém, Édipo,
sem saber que era filho adotivo, resolve não mais voltar para a cidade em
que morava para fugir da maldição. Diante disso, acaba chegando a Tebas,
onde residiam seus verdadeiros pais. Édipo enfrenta um homem arrogante e
acaba matando este homem, que era seu pai, Laio. Na cidade, acha-se diante
da esfinge e é obrigado a decifrar seu enigma. Ao conseguir, acaba sendo
coroado rei e, como reconhecimento, recebe a viúva Jocasta, mulher de
Laio (sua mãe), em casamento. Assim, ao tentar fugir de seu destino, Édipo
encontra a si mesmo.
Diante desse mito, podemos afirmar que é em relação ao outro, que é
diferente de nós, que nos constituímos e nos reconhecemos como sujeito
único. Ciampa (2007) afirma que a identidade não está pronta, acabada, mas
está em constante processo de construção, ou seja, em contínua transfor-
mação: ao longo desse processo de mudança, o novo (que é quem eu sou
agora) mistura-se com quem eu fui ontem (quando era adolescente, quando
era criança). Isso é a identidade de cada um, é o “o que eu sou” de cada um.

63
Questão para reflexão
Se a identidade está em constante transformação, como é possível
alguém mudar e continuar sendo a mesma pessoa?

É assim mesmo que acontece: as pessoas passam por várias mudanças ao


longo de suas vidas, deixam de ser filho único, em determinado momento
percebem que pensam diferente de seus pais, seu corpo já não é mais o
mesmo, sua voz mudou (no caso dos homens); quanto à sua profissão, você
sempre sonhou em ser professor, mas agora está considerando a possibili-
dade de ser um administrador, entre tantas outras mudanças que ocorreram
e ainda ocorrerão.
Ciampa (2007), como dito anteriormente, afirma que a identidade é
metamorfose, isto é, está em constante transformação, tanto em relação às
mudanças que são inevitáveis (como a passagem da infância para a adoles-
cência e desta para a vida adulta) como às mudanças que dependem do
contexto social e cultural (como o fato de ter a oportunidade de estudar, de
poder viajar e conhecer outras culturas, entre tantas outras experiências).
É a atividade que constrói a identidade, pois é nesse processo que a pessoa se
transforma, fazendo com que a identidade esteja em permanente transformação.

2.2 Papéis sociais


Ao nascer, existe uma expectativa social de como a criança deverá
se comportar, isso acontece porque os papéis sociais já foram prescritos
anteriormente pelos grupos dos quais os indivíduos fazem parte.
Os diferentes papéis sociais que desempenhamos e a grande plasticidade
dos seres humanos fazem com que possamos nos adaptar às diferentes situa-
ções sociais e que consigamos nos comportar de maneira diferente em cada
uma delas. Assim, quando aprendemos os nossos papéis, estamos apren-
dendo o conjunto de rituais que nossa sociedade criou (BRAGHIROLLI;
PEREIRA; RIZZON, 2010).
Podemos afirmar que o papel designa o modelo de comportamento que
caracteriza o lugar do indivíduo no grupo ou organização. Ou seja, enten-
de-se por papel social o comportamento que se espera de quem ocupa deter-
minada posição com determinado status.

Para saber mais


Um diretor de empresa, por exemplo, tem seu papel mais ou menos
definido, de maneira geral. Esperam-se dele determinados comporta-

64
mentos em função de sua posição e status, em relação aos seus empre-
gados, chefes de departamento, clientes, fornecedores, etc.

Para que possamos compreender os papéis sociais, é necessário compre-


endermos dois outros conceitos muito importantes relacionados, que são:
posição e status social.
2.2.1 Posição
De acordo com Braghirolli, Pereira e Rizzon (2010), a posição é a locali-
zação de uma pessoa no grupo ou organização. Quando nos referimos
à localização, estamos falando dos direitos e obrigações que regulam a
interação do indivíduo que a ocupa com os demais, de outras posições. Por
exemplo, em uma família há diversas posições: de mãe, pai, filho, avô, avó,
tio, entre tantas outras.
Na nossa sociedade, a posição de pai implica algumas obrigações em
relação aos filhos, tais como dar-lhes o sustento, moradia, proteção, entre
outras; por outro lado, essa posição também traz alguns direitos, como o de
ser obedecido e respeitado. Já a posição de filho implica em outras obriga-
ções, como obedecer e respeitar o pai, e também confere o direito de ser
protegido, alimentado, etc.
Diante disso, temos que as posições são delimitadas pelas obrigações
e pelos direitos que lhe são atribuídos e as diferenças existentes entre as
posições são reconhecidas e aceitas pela sociedade, pois fazem parte da
cultura, não estando registradas ou explicitadas em qualquer documento.
É importante ressaltar que todos nós ocupamos, simultaneamente, muitas
posições: uma mulher, por exemplo, pode ser ao mesmo tempo mãe, dona
de casa, funcionária de uma empresa, representante da associação de pais da
escola de seus filhos, entre outras.
2.2.2 Status
Status e posição são dois termos bastante próximos, tanto que alguns
autores empregam ambos sem distinção, mas outros afirmam que há uma
diferença entre esses termos.
Status faz referência à importância das diferentes pessoas e posições para
determinado grupo ou organização. Esse valor diferenciado tem impacto
também sobre os direitos e deveres das pessoas, ou seja, atribui-se maior
status ao diretor de uma empresa do que ao chefe do departamento desta,
pois acredita-se que o primeiro conheça mais sobre o funcionamento da
empresa e assumirá maior responsabilidade sobre ela. Por outro lado, esse

65
mesmo diretor poderá gozar de horários de trabalho mais flexíveis, receber
um salário maior, ter um escritório mais espaçoso, etc. (BRAGHIROLLI;
PEREIRA; RIZZON, 2010).
O status divide-se em formal e não formal. O primeiro está ligado a posições
que são estabelecidas de maneira hierárquica, ou seja, existem independen-
temente das pessoas que ocupam tal posição. Já o status não formal faz a
distinção entre as pessoas que ocupam a mesma posição, mas há uma diferença
que não pode ser enunciada de maneira explícita (como no caso de um empre-
gado mais experiente, que tem mais benefícios que os demais companheiros de
trabalho). (BRAGHIROLLI; PEREIRA; RIZZON, 2010).
Apesar de posição e status serem conceitos bem próximos, podemos
distingui-los lembrando que a posição é a localização de um elemento no
grupo em relação aos demais e que status se refere à importância de uma
posição em relação às outras.

Questão para reflexão


Quais são os papéis que você desempenha hoje em sua vida? Como você
os desempenha? Será que existem conflitos entre os papéis desempe-
nhados por você?

2.3 Conflito de papéis


Cada um de nós ocupa várias posições ao longo da vida em decorrência
dos diversos papéis que assumimos, e cada um desses papéis exige de nós
certos comportamentos. Diante disso, é possível que, em alguns casos,
exista incompatibilidade entre as exigências desses diferentes papéis, é o que
chamamos de conflito de papéis. Essa incompatibilidade pode acontecer por
diversos motivos.
• Dispêndio de algo: por exemplo, de tempo, dinheiro e/ou energia,
quando não existe quantidade suficiente para os dois. Podemos
pensar no caso de um médico cirurgião, que precisa estar o tempo
todo em estado de alerta, assumindo uma carreira política – com
certeza haverá um conflito entre esses dois papéis.
• Conflito de valores: acontece bastante na área da pesquisa, por
exemplo, em que um cientista pode perceber que seus valores
religiosos não estão de acordo com a experiência de laboratório que
precisa desenvolver.
• Conflito entre papéis: diz respeito à lealdade ou compromisso que
a pessoa tem com grupos ou associações distintas. Tomemos por

66
exemplo um funcionário da administração de uma universidade que
também é aluno desta – perante uma manifestação contra a adminis-
tração da universidade, ele pode se sentir em conflito.
• Posturas opostas: pense no caso de uma esposa que vivencia a pressão
social e do marido para ser submissa e obediente, mas deve ser autori-
tária e empreendedora na gerência de sua empresa.
Devemos ressaltar que, dependendo da intensidade do conflito, este pode
causar perturbações emocionais em uma pessoa.

2.4 Representações sociais


As representações sociais podem ser compreendidas como formas de
conhecimento prático, o saber do senso comum, que é socialmente construído
para dar sentido à realidade da vida cotidiana. Em outras palavras, represen-
tação social é uma forma de interpretar o mundo social.
De acordo com Spink (1993, p. 300), as representações sociais são

modalidades de conhecimento prático orientadas para a


comunicação e para a compreensão do contexto social,
material e ideativo em que vivemos. São, consequente-
mente, formas de conhecimento que se manifestam como
elementos cognitivos — imagens, conceitos, categorias,
teorias —, mas que não se reduzem jamais aos compo-
nentes cognitivos. Sendo socialmente elaboradas e
compartilhadas, contribuem para a construção de uma
realidade comum, que possibilita a comunicação. Deste
modo, as representações são, essencialmente, fenômenos
sociais que, mesmo acessados a partir do seu conteúdo
cognitivo, têm de ser entendidos a partir do seu contexto
de produção. Ou seja, a partir das funções simbólicas e
ideológicas a que servem e das formas de comunicação
onde circulam.

Podemos afirmar que as representações sociais são um conhecimento


prático que leva à construção social da realidade. E, nesse sentido, é um
conhecimento socialmente elaborado e partilhado. Por ser um conheci-
mento social, podemos entender que são fruto de um diálogo constante
entre indivíduos e grupos, portanto, a função principal das representações é
a comunicação e a ação, que são processos pelos quais elas são geradas.

67
Mas de que forma o social transforma um conhecimento em represen-
tação, e como essa representação, por sua vez, transforma o social? Por meio
de dois processos: a ancoragem e a objetivação.
Ancoragem “refere-se à inserção orgânica do que é estranho no pensa-
mento já construído, ancoramos, portanto, o desconhecido em represen-
tações já existentes” (SPINK apud CODO, 1995, p. 2). Percebe-se, assim, a
necessidade das pessoas de tornar familiar aquilo que é estranho. Nesse caso,
a integração da novidade é uma função básica da representação social.
O segundo processo é a objetivação. Esta refere-se à cristalização de uma
representação social. De acordo com Spink (apud CODO, 1995, p. 51), “a
objetivação é essencialmente uma operação formadora de imagens [...]”.
Então, nesse processo, ainda que as relações sociais se cristalizem, isso não
quer dizer que elas são imutáveis, pois também sofrem modificações.
Por isso, torna-se muito importante compreender que as representações
sociais não são um conceito fechado, uma teoria acabada, mas, sim, algo em
constante construção. Além disso, o conteúdo, as construções e as modifica-
ções das representações sociais estão sempre localizadas no contexto social
em que estão inseridas.

Atividade de aprendizagem

1. Para que seja possível entender o processo de conhecer a si próprio e se


reconhecer como alguém único, a psicologia desenvolveu o termo identi-
dade. Como podemos definir esse termo?

2. Podemos afirmar que o papel social designa o modelo de comportamento


que caracteriza o lugar do indivíduo no grupo ou organização, ou seja, enten-
de-se por papel social o comportamento que se espera de quem ocupa determi-
nada posição, com determinado status. Qual a diferença entre posição e status?

68
Seção 3

Consciência, ideologia e alienação

É sabido que a aranha constrói sua teia e reage às vibrações nela produ-
zidas quando algum inseto fica preso ali. Mas e o homem? Como ele se
relaciona com seu mundo externo, com seu mundo objetivo? O ser humano
também tem seu modo próprio de reagir ao mundo objetivo, ele faz isso
quando transforma ideias e imagens e estabelece relações entre essas infor-
mações, visando compreender o que se produz na realidade. A consciência é
uma forma de saber, ou seja, o homem reage ao mundo de modo a compre-
endê-lo. Vamos investigar mais sobre a consciência?

3.1 A consciência
A consciência é uma forma de saber. Entretanto, esta não faz referência
apenas ao saber lógico, ela inclui também o saber das emoções, os senti-
mentos do ser humano, seus desejos. Por esse motivo, também afirmamos
que a consciência está em movimento constante.

A consciência não é manifestação de alguma capaci-


dade mística no cérebro humano. A consciência humana
é produto das relações sociais que os seres humanos
estabelecem. Sem dúvida, foi necessário um aperfeiçoa-
mento do cérebro humano para que se tornasse capaz de
pensar o mundo por meio de imagens, símbolos e estabe-
lecer relações entre objetos desse mundo, tornando-se
mesmo capaz de antecipar a realidade. Mas acredita-se
que somente o aperfeiçoamento do cérebro não seria
suficiente para propiciar o surgimento da consciência
humana, ou melhor, que esse aperfeiçoamento não teria
lugar se não houvesse condições externas ao homem que
o estimulassem. (BOCK; FURTADO; TEIXEIRA, 2008, p. 187)

Mas quais seriam essas condições externas ao homem? Podemos defini-


-las como sendo o trabalho, a vida social e a linguagem, porque a consci-
ência, como um produto subjetivo do homem que foi incorporado através de
seu mundo objetivo, é produzida a partir de um processo ativo do homem
sobre o mundo, a linguagem e as relações sociais.

69
É através dessas relações sociais que o homem se apropria de seu mundo
cultural e pode desenvolver seu sentido pessoal, isto é, pode produzir sua
compreensão sobre o mundo, sobre si mesmo e sobre os outros. Essa compre-
ensão da realidade objetiva e social que o indivíduo criou é própria dele,
porque resulta de seu trabalho pessoal.
E a linguagem? A linguagem do ser humano nada mais é do que um
produto histórico, que traz representações, valores, códigos e significados
dos grupos sociais em que os indivíduos estão inseridos. Enquanto produto
histórico, a linguagem traz representações, significados e valores que estão
presentes no grupo social. Além disso, para o indivíduo, a linguagem é
condição necessária para desenvolver seu pensamento (LANE, 1983 apud
LANE; CODO, 1992).
Assim, o homem, como ser ativo e inteligente, insere-se historicamente
em um grupo social através da linguagem, que é uma condição básica para
a comunicação e para o desenvolvimento de suas relações sociais, e, conse-
quentemente, de sua própria individualidade.

Para saber mais


Para Roudinesco (1998), a consciência é um termo utilizado tanto na
psicologia quanto na filosofia para se referir ao pensamento em si e à
intuição que a mente tem de seus atos e de seus estados; e, por outro
lado, refere-se ao conhecimento que o sujeito tem de seu estado, de
sua relação consigo mesmo e com o mundo. Além disso, afirma que a
consciência também faz referência à capacidade que o ser humano tem
de emitir juízos espontâneos.

Mas como é possível estudar a consciência dos indivíduos se ela é invisível,


pois faz parte do mundo interno do homem?
Estuda-se a consciência através de suas medições, das representações
sociais veiculadas pela linguagem, que são as expressões da consciência.
Assim, quando alguém está falando, discursando, está fazendo referência ao
mundo real, então está expressando sua consciência por meio das represen-
tações sociais, que vimos na Seção 2.

3.2 A alienação
Vimos que a consciência é tudo aquilo que faz com que nós estejamos
presentes, representando determinado papel naquele momento, que
nós estejamos cientes daquilo que acontece. Então, é tudo aquilo que nos

70
diferencia da nossa natureza, do ambiente que nos cerca. Mas e a alienação?
Quanto mais consciente o indivíduo está, menos alienado ele é, e vice-versa.
Assim, qual é a relação existente entre consciência e alienação?
Quando uma pessoa não se interessa por questões de política, de
economia, costumamos dizer que essa pessoa é “alienada”, ou seja, desinte-
ressada por alguns assuntos. Quando falamos de alienação do ponto de vista
jurídico, significa a perda da posse de um bem ou do direito de venda. Mas
será que é dessa alienação que estamos falando aqui, em Psicologia Social?
Etimologicamente, a palavra alienação vem do latim alienare, alienus,
que quer dizer “que pertence ao outro”. Alius significa “o outro”. Mas para
que possamos compreender o conceito de alienação, é necessário compreen-
dermos primeiro como o homem se construiu para, somente depois, enten-
dermos como ele se nega.
As relações de trabalho determinam o comportamento das pessoas,
ou seja, sua postura, suas expectativas, seu afeto, suas emoções. Assim, é
por meio do trabalho que o homem se constrói, pois o trabalho o iguala e
o diferencia de si mesmo e do outro (por exemplo, sou uma dona de casa,
assim como outras mulheres são – isso me iguala – mas também é o que me
diferencia do outro, porque como dona de casa eu faço uma ótima comida e
isso é diferente para cada um), transforma o outro e é por ele transformado,
porque eu vou me construindo e construindo o mundo à minha volta.
Diante disso, Codo (1982, p. 20) afirma que “[...] o homem se hominiza
pelo que faz”, isso quer dizer que o indivíduo se torna homem por inter-
médio do trabalho que faz, se torna responsável pelo trabalho que está execu-
tando, assim, o trabalho é o seu modo de ser. Porém, Codo também afirma
que, atualmente, o trabalho é considerado alienado, desligado do homem:
na sociedade capitalista em que vivemos “[...] ocorre uma ruptura entre o
produto e o produtor, o trabalho produz o que não consome, consome o que
não produz” (CODO, 1985, p. 48).
Quando enfatiza a sociedade capitalista, significa que esse meu trabalho
é oferecido em troca de determinado valor (eu recebo pelo que trabalhei),
mas eu não sei se esse meu trabalho será aproveitado por outros ou não, se
vai gerar uma consequência para o outro ou não, então eu me torno alienado
porque meu trabalho se torna desligado do homem.
Dizer que há “uma ruptura entre produto e produtor” significa que
eu não tenho dimensão de onde irá chegar aquilo que faço. Por exemplo,
um professor está dando aula para uma turma com, aproximadamente, 50
alunos. Ele explica vários assuntos e, mais tarde, os alunos irão juntar todas
essas informações com os conhecimentos que foram adquirindo ao longo

71
de sua trajetória para tomar determinado rumo. Um aluno pode querer
escrever um livro sobre um determinado assunto que esse professor tratou há
muito tempo, assim, o professor se torna alienado do seu trabalho, pois não
consegue mensurar o impacto que sua aula teve sobre a vida de seus alunos.
Quando afirma que “o trabalho produz o que não consome e consome o
que não produz”, é sabido que isso ocorre até mesmo no nível mais básico de
produção. Perceba, um professor, por exemplo, não sabe plantar, mas existem
pessoas que sabem, então ele compra a produção dessas pessoas que plantam.
Isso acontece porque o professor produz conhecimento, mas não consome o
que ele mesmo produz, e, sim, o que o outro produz. Assim é a alienação: eu
produzo o que eu não consumo e consumo o que o outro produz.

Questão para reflexão


Qual seria, então, a relação existente entre consciência e alienação?

A relação é a seguinte: a alienação gera consciência que, por sua vez, gera
alienação! O que isso quer dizer? Que estamos em um ciclo vicioso: temos um
processo de alienação, nós trabalhamos, temos a nossa vida em sociedade e
isso é o que nos torna conscientes. Mas, por outro lado, o próprio trabalho nos
deixa alienados de nossa sociedade, então, temos aqui um ciclo que não é inter-
rompido, pois a alienação gera a consciência que, por sua vez, gera a alienação.
E será que é possível combater essa alienação? A resposta é sim! A luta
contra a alienação deve se dar por intermédio de um processo grupal, e
não individual.

3.3 Formas de alienação


Podemos afirmar que a alienação social é o desconhecimento das condições
histórico-sociais concretas em que vivemos, produzidas pela ação humana,
também sob o peso de outras condições históricas anteriores e determinadas.
Chauí (1982) aponta que existem três formas de alienação social nas
sociedades modernas ou capitalistas.
1. Alienação social: os indivíduos não se reconhecem como produ-
tores das instituições sociopolíticas e oscilam entre aceitar passiva-
mente tudo o que existe, por ser considerado como natural, divino
ou racional, ou se rebelar individualmente, acreditando que, por sua
vontade e inteligência, podem mais do que a realidade os condiciona.
Nas duas situações, a sociedade é o outro (alienus), algo externo a nós,
separado de nós, diferente e com poder total ou nenhum sobre nós.

72
2. Alienação econômica: os produtores não se reconhecem como produ-
tores nem se reconhecem nos objetos produzidos por seu trabalho.
Nas sociedades modernas, a alienação econômica é dupla: primei-
ramente os trabalhadores, como classe social, comercializam sua
força de trabalho aos proprietários do capital, donos das fábricas,
indústrias, etc. Ao comercializar sua força de trabalho no mercado,
os trabalhadores são mercadoria e, como toda mercadoria, recebem
um preço, no caso, um salário. No entanto, os trabalhadores não
percebem que foram reduzidos à condição de coisas que produzem
coisas; não percebem que foram desumanizados e “coisificados’.
3. Alienação intelectual: resulta na separação social entre o trabalho
material, a mercadoria, e o trabalho intelectual, as ideias. Acredita-se
que o trabalho material é uma atividade que não exige conhecimentos,
mas apenas habilidades manuais, enquanto o trabalho intelectual é
responsabilidade restrita dos conhecimentos. É claro que, inseridos
numa sociedade alienada, os intelectuais também se alienam. E,
segundo Chauí (1982) sua alienação é tripla:

1º. Esquecem ou ignoram que as ideias estão ligadas às


opiniões e pontos de vista da classe a que pertencem, isto
é, classe dominante, e imaginam, ao contrário, que são
ideias universais, válidas para todos, em todos os tempos
e lugares.
2º. Esquecem ou ignoram que as ideias são produzidas
por eles para explicar a realidade e passam a acreditar
que elas se encontram gravadas na própria realidade
enquanto eles apenas as descobrem e descrevem sob a
forma de teorias gerais.

3º. Creem que as ideias existem em si e por si mesmas,


criam a realidade e a controlam. Aos poucos, passam a
acreditar que elas se produzem umas às outras, são causas
e efeitos umas das outras e que somos apenas receptá-
culos ou instrumentos delas. As ideias se tornam separadas
de seus autores, externas a eles, transcendentes a eles;
tornam-se um outro.

Percebe-se assim que a alienação pode ser considerada como um dos


elementos que surgem no processo de desenvolvimento do ser social e,
portanto, é passível de ser superada historicamente. Vale destacar ainda que

73
não existe uma pessoa que seja completamente alienada e nem uma que
seja completamente desalienada, isso porque o simples fato de estarmos
estudando agora, refletindo sobre os mais diversos temas, mostra-nos que
estamos buscando uma compreensão desse processo, de modo a ficarmos
menos alienados e, portanto, mais conscientes.

Atividades de aprendizagem

1. Temos que a consciência é uma forma de saber, entretanto, esta não faz
referência apenas ao saber lógico, ela inclui também o saber das emoções,
os sentimentos do ser humano, seus desejos. Por esse motivo, também
afirmamos que a consciência está em movimento constante. O que significa
dizer que a consciência está em movimento constante?

2. Sendo a consciência tudo aquilo que faz com que nós estejamos presentes,
representando determinado papel naquele momento, que nós estejamos
cientes daquilo que acontece, esta pode ser compreendida como sendo tudo
aquilo que nos diferencia da nossa natureza, do ambiente que nos cerca. Qual
a relação existente entre consciência e alienação?

Fique ligado
Concluímos mais uma unidade de ensino. Nesta, pudemos conhecer
vários aspectos teóricos da psicologia social, tais como personalidade, identi-
dade, representação social, consciência e alienação. Diante disso, você teve
a oportunidade de entender que compreender o homem significa compre-
ender a sociedade, pois o homem é um ser de relações e necessita delas
para sobreviver.

Para concluir o estudo da unidade


Nesta unidade conseguimos compreender alguns conceitos da área de
conhecimento da psicologia social. Destacamos o quanto essa área de conhe-
cimento é importante para o campo profissional do serviço social. Além disso,
foi possível fazer uma reflexão ssaobre a importância de estudar o indivíduo
inserido em sua sociedade, em seu contexto social. Para aprofundar seus
estudos na área da identidade e dos papéis sociais, leia o artigo Os papéis sociais
na formação do cenário social e da identidade, de Eduardo Simões Martins.

74
MARTINS, Eduardo Simões. Os papéis sociais na formação do cenário
social e da identidade. Kínesis, v. 2, n. 4, dezembro, 2010, p. 40-52.

Atividades de aprendizagem da unidade

1. Quando se trata dos determinantes da personalidade, vários autores


discordam sobre esse tema. O que se considera como determinante da perso-
nalidade? Assinale a alternativa correta:
a. Hereditariedade.
b. Meio.
c. Ambiente social.
d. Hereditariedade e meio.
e. Hereditariedade e ambiente cultural.

2. Quando se trata dos papéis sociais, consideramos que um diretor de


empresa, por exemplo, tem seu papel mais ou menos definido, de maneira
geral. Esperam-se dele determinados comportamentos em relação aos seus
empregados, chefes de departamento, clientes, fornecedores, etc. Assim,
quando fazemos referência à localização de uma pessoa em um grupo ou
organização, que estabelece seus direitos e obrigações visando regular
a interação desta com as demais pessoas, estamos nos referindo à qual
conceito? Assinale a alternativa correta:
a. Personalidade.
b. Posição.
c. Status.
d. Conflito de papéis.
e. Representação social.

3. Podemos afirmar que as representações sociais são um conhecimento


prático que leva à construção social da realidade. E, nesse sentido, é um conhe-
cimento socialmente ___________ e ___________. Por ser um conheci-
mento ___________, podemos entender que é fruto de um diálogo constante
entre indivíduos e grupos, portanto, a função principal das representações é
___________ e a ação, que são processos pelos quais elas são geradas.

75
a. criado; partilhado; pronto; a comunicação.
b. criado; dividido; social; o convívio.
c. elaborado; partilhado; social; a comunicação.
d. elaborado; partilhado; pronto; o convívio.
e. desenvolvido; dividido; pronto; a comunicação.

4. Durante nossas vidas, ao longo dos nossos dias, assumimos diversos


papéis sociais e cada um exige de nós determinados comportamentos que,
em certo momento, podem causar incompatibilidade entre suas diferentes
exigências. Diante disso, o conflito entre papéis pode acontecer por diversos
motivos. Relacione as colunas a seguir:
( 1 ) Dispêndio de algo.
( 2 ) Conflito de valores.
( 3 ) Conflito entre papéis.
( 4 ) Posturas opostas.
( ) Acontece bastante na área da pesquisa, por exemplo, em que um cientista
pode perceber que seus valores religiosos não estão de acordo com a experi-
ência de laboratório que precisa desenvolver.
( ) Diz respeito ao consumo de tempo, de dinheiro, de energia, quando não
existe quantidade suficiente para os dois.
( ) Considere o caso de uma esposa que vivencia a pressão social e do
marido para submissão e obediência, mas deve ser autoritária e empreende-
dora na gerência de sua empresa.
( ) Diz respeito à lealdade ou compromisso que a pessoa tem com grupos
ou associações distintas.
Assinale a alternativa com a sequência correta:
a. 2 - 1 - 3 - 4.
b. 2 - 1 - 4 - 3.
c. 3 - 1 - 4 - 2.
d. 3 - 2 - 4 - 1.
e. 4 - 2 - 3 - 1.

76
5. O homem, como ser ativo e inteligente, insere-se historicamente em um
grupo social através da linguagem. Acerca da linguagem, analise as afirma-
tivas a seguir marcando com (V) as que forem verdadeiras e (F) as falsas.
( ) A linguagem é uma condição básica para a comunicação e o desenvolvi-
mento de suas relações sociais.
( ) A linguagem é uma condição básica para o desenvolvimento da indivi-
dualidade de cada um.
( ) Enquanto produto histórico, a linguagem traz representações, signifi-
cados e valores que estão presentes no grupo social.
( ) A linguagem não é condição necessária para desenvolver o pensamento
do indivíduo, pois existem outros fatores que devem ser levados em consi-
deração.
Assinale a alternativa com a sequência correta:
a. V - V - V - V.
b. V - V - V - F.
c. V - V - F - F.
d. F - V - F - V.
e. F - F - V - F.

77
Referências

BOCK, A. M. B.; FURTADO, O.; TEIXEIRA, M. L. T. Psicologias: uma introdução ao estudo da


psicologia. 14. ed. São Paulo: Saraiva, 2008.

BRAGHIROLLI, E. M.; PEREIRA, S.; RIZZON, L. A. Temas de psicologia social. 10. ed.
Petrópolis, RJ: Vozes, 2010.

CHAUÍ, M. O que é ideologia?. São Paulo: Brasiliense, 1982.

CIAMPA, Antônio da Costa. A estória do Severino e a história de Severina. 9. reimpr. São


Paulo: Brasiliense, 2007.

CODO, Wanderley. Sofrimento psíquico nas organizações: saúde mental e trabalho. Petrópolis:
Vozes, 1995.

LANE, S. T. M.; CODO, W. Psicologia social: o homem em movimento. 10. ed. São Paulo:
Brasiliense, 1992.

PEREIRA, T. M. A.; GALUCH, M. T. B. O garoto selvagem: a importância das relações sociais


e da educação no processo de desenvolvimento humano. Perspectiva, Florianópolis, v. 30, n. 2,
553-571, maio/ago. 2012.

ROUDINESCO, E. Dicionário de psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.

SPINK, M. J. P. O conceito de representação social na abordagem psicossocial. Cad. Saúde


Públ., Rio de Janeiro, 9 (3): 300-308, jul./set., 1993. Disponível em: https://www.scielosp.org/
pdf/csp/1993.v9n3/300-308/pt. Acesso em: 20 mar. 2019.
Unidade 4

Relações sociais: processo grupal, instituições


sociais, liderança, inclusão e exclusão

Convite ao estudo
Nesta unidade iremos compreender a área de estudo dos grupos, conhe-
ceremos de que maneira o grupo influencia as pessoas e vice-versa. Após,
faremos a ligação entre os grupos e as instituições sociais, ou seja, de que
maneira nossa formação influencia e é influenciada pelas instituições
sociais nas quais estamos inseridos. Por fim, falaremos sobre a dinâmica da
liderança, isto é, até que ponto determinado tipo de líder pode influenciar os
membros de um grupo e as instituições em si.

Seção 1
Ao longo desta seção teremos contato com os grupos e falaremos sobre a
forma como se originam. Além disso, veremos como seus membros atuam e
quais os papéis desempenham.

Seção 2
Nesta seção, vamos abordar a temática das instituições e buscar responder
ao seguinte questionamento sobre elas: qual a sua importância em nossa
formação e até que ponto nos influenciam? Além disso, vamos tentar compre-
ender a principal instituição social, que é a família.

Seção 3
Nesta seção conversaremos sobre a liderança. Até que ponto um líder
pode influenciar um membro ou todos os membros do grupo? De que forma
ele faz isso? Será que o líder tem relação com a “produção” realizada por seu
grupo, entre outras questões pertinentes.

Seção 4
Nesta seção o tema abordado será o da inclusão e exclusão social.
Entenderemos de onde surgiram esses conceitos e como eles podem ser
percebidos no nosso dia a dia.
Introdução à unidade
Ao longo do nosso livro conhecemos o histórico da psicologia enquanto
área científica do saber, que inaugurou a cientificidade nos estudos psico-
lógicos. Abordamos temas centrais da Psicologia Social, como a formação
do psiquismo humano, o indivíduo e seu contexto social. Falamos também
sobre a personalidade, os papéis e as representações sociais; além da forma
como ocorre a influência do indivíduo na sociedade. Trabalhamos, ainda,
com os temas da consciência e da alienação.
Nesta última unidade, trabalharemos com a temática dos grupos, ou
seja, compreenderemos de que maneira o indivíduo influencia e é influen-
ciado pela dinâmica grupal. Além disso, entenderemos qual a definição dos
grupos, seus tipos e o que os diferencia das chamadas agregação e categoria.
Dando continuidade a essa temática, trabalharemos com o conceito de
instituições sociais e veremos como elas se originam; o que são; quais os seus
tipos e características e até que ponto influenciam as pessoas.
Abordaremos, ainda, a questão da liderança. Vamos observar quem são
os líderes, como eles se comportam, quais seus tipos e estilos de liderança.
Dessa forma, compreenderemos quais grupos lideram e como podem
influenciá-los. Além disso, veremos como podem atuar para melhorar ou
não a eficiência de seus subordinados.
Por fim, trataremos da inclusão/exclusão social de modo a compreen-
dermos os processos de segregação pelos quais as pessoas passam. Trataremos
do histórico desse conceito, visando fazer referência à maneira como o utili-
zamos nos dias atuais, além de entendermos o seu conceito, os tipos de
exclusão social e a importância de conhecermos esse tema para nossa vida.
Bons estudos!
Seção 1

O processo grupal

Até este momento estudamos como o comportamento humano acontece


em um ambiente social, ou seja, analisamos o indivíduo inserido em uma
sociedade em que o ambiente social é decorrência de um comportamento
ao mesmo tempo que o determina. A partir de agora, passaremos a estudar
o grupo em si em vez do indivíduo. Para iniciar, temos que toda e qualquer
sociedade, da mais primitiva à mais moderna e desenvolvida, consiste em
diferentes grupos e organizações; sendo que o indivíduo faz parte, ao mesmo
tempo, de muitos deles.

1.1 Conceitos e fenômenos básicos sobre grupos


Ao abordarmos o tema grupos, estamos fazendo referência a um dos
principais temas da Psicologia Social. O que se sabe é que o estudo sobre
os grupos teve início no fim do século XIX, com a chamada Psicologia das
Massas ou Psicologia das Multidões, com o estudioso Gustave Le Bon, autor
da obra intitulada Psicologia das Massas.
Le Bon queria compreender o que leva as pessoas a se organizar em
grupos e a seguirem as orientações de um líder. Para tanto, foi influenciado
pelas ideias da Revolução Francesa, que acontecera no século XVIII (BOCK;
FURTADO; TEIXEIRA, 2008).

Para saber mais


A Revolução Francesa foi um movimento social e político para derrubar
um regime e abrir caminho para uma sociedade mais moderna, mais
democrática. Aliás, o próprio lema da Revolução Francesa indicava:
Liberdade, Igualdade e Fraternidade, visando uma sociedade melhor.

Os pesquisadores queriam saber o que teria sido capaz de mobilizar


tamanho contingente humano como aquele que foi movimentado durante
a Revolução Francesa. Essa mobilização (hoje um fato bastante comum nas
sociedades) era novidade na época, então a Revolução Francesa despertou
todo o interesse da Europa para essa onda revolucionária. A exemplo,
temos o que aconteceu na própria Alemanha na década de 30, em que uma
multidão de pessoas se organizou respeitando um líder desconhecido (no
caso, Hitler), colocando, muitas vezes, suas próprias vidas em risco. Esse
fenômeno culminou na Segunda Guerra Mundial (1939-1945), apenas para

81
exemplificar o poder da manipulação das massas, das multidões (BOCK;
FURTADO; TEIXEIRA, 2008).
Assim, a temática sobre os grupos começa a ser estudada com Le Bon,
mas vai sendo aperfeiçoada com outros estudiosos, como é o caso de Freud, o
pai da Psicanálise. Freud era judeu e levantou um foco diferente para o estudo
sobre os grupos. Ele estava mais preocupado em entender a maneira como
se constroem as instâncias da personalidade humana na vida social, mais
especificamente, queria entender de que forma a personalidade se formava
perante a vida social e a vida em família. Para tanto, percebe a divisão das
fases do desenvolvimento psicossexual, ou seja, as fases de desenvolvimento
pelas quais todos nós passamos e o quanto cada uma delas influencia o
desenvolvimento de nossa personalidade.
Entretanto, no campo da Psicologia Social, o que se questionava era o
que levaria uma multidão a seguir a orientação de um líder mesmo que, para
isso, fosse preciso arriscar a própria vida. Qual seria o fenômeno psicoló-
gico que possibilitaria a coesão das massas? Como dito anteriormente, esse
tema passa a ser mais estudado após a Segunda Guerra Mundial, quando se
começa a questionar o que fazia com que as pessoas se reunissem em grupos
autônomos, com objetivos claros, seguidos por um líder.
Temos então que, embora o estudo dos grupos tenha sido iniciado dentro
da Psicologia Social com pesquisas sobre as massas e as multidões, foi com
o foco nos grupos menores que esta área vem se desenvolvendo. Diante
disso, passam a ser estudados aqueles grupos que apresentam objetivos
bem definidos, como é o caso da família, dos grupos religiosos, dos grupos
políticos, entre tantos outros.
Esse estudo se inicia na década de 1930, com Kurt Lewin, um psicólogo
alemão refugiado nos EUA. Lewin desenvolve a primeira teoria consistente
sobre os grupos afirmando que, além de terem características próprias, eles
influenciam fortemente os indivíduos. Na verdade, ele começa seu estudo
a partir de sua própria história: Lewin foi para os EUA fugido do nazismo,
que foi um período de massacre em que um líder, com tamanha persuasão,
conseguiu convencer e coagir pessoas com sua tirania, colocando em risco a
vida de muitos, além do fato de manipular multidões. A partir disso, Lewin
inicia seus estudos acerca dos processos cognitivos que aconteciam dentro
de um grupo. Para tanto, utiliza o cognitivismo, que é uma teoria que utiliza
uma visão bastante sociológica para tentar compreender a cognição, os
processos mentais superiores (tais como a atenção e a memória) (BOCK;
FURTADO; TEIXEIRA, 2008).

82
Quando começa a se aprofundar em seus estudos, Lewin vai afirmar que é
preciso fortalecer o indivíduo para que ele perceba os processos que ocorrem
na sociedade.

1.1.1 Definindo Grupos


Olmsted (1970, p.12) entende grupo como sendo “uma pluralidade de
indivíduos que estão em contato uns com os outros, que se consideram
mutuamente e que estão conscientes de que tem algo significativamente
importante em comum”.
Outra definição bem próxima a essa, trazida por Bock, Furtado e Teixeira
(2008, p. 228) aponta que o grupo é:

(...) um todo dinâmico (o que significa dizer que ele é mais


que a simples soma de seus membros), e que a mudança no
estado de qualquer subparte modifica o grupo como um
todo. O grupo se caracteriza pela reunião de um número de
pessoas (que pode variar bastante) com um determinado
objetivo, compartilhado por todos os seus membros, que
podem desempenhar diferentes papéis para a execução
desse objetivo.

Perceba que as pessoas têm papéis diferentes dentro do grupo, cada um


tem a sua função. Vamos pensar em uma empresa em que há uma linha de
produção em que o produto final seja uma televisão. Nesse caso, eu preciso
que cada funcionário desempenhe seu papel: um funcionário é respon-
sável por uma placa específica, o outro parafusa essa placa na estrutura da
televisão, há mais um que embala este produto e assim sucessivamente, cada
um exercendo sua função. Se, de repente, um funcionário vai ao banheiro e
demora muito a voltar ou se um deles começa a atrasar a realização de suas
funções, toda essa linha fica prejudicada, atrapalhando o funcionamento
do grupo. Por esse motivo é que dizemos que a mudança no estado de um
membro do grupo irá influenciar a mudança de todo o grupo. Ou seja, todos
precisam trabalhar juntos para alcançar o objetivo comum.
Além disso, o grupo precisa desempenhar diferentes papéis na execução de
seus objetivos. Portanto, é preciso haver regras, normas, formas de pressionar
seus integrantes para a boa execução do grupo. É possível afirmamos, então,
que dentro dos grupos existem vários fenômenos que, muitas vezes, nem
sequer percebemos, mas que estão ali. Por exemplo, há uma pressão para que

83
o indivíduo não abandone o grupo, existe um padrão de comportamento,
uma expectativa em torno de sua função. Assim, dizemos que são vários os
fenômenos que fazem parte desse processo grupal.

1.1.2 O processo grupal


Quando um grupo se forma, alguns fenômenos passam a atuar sobre ele
e sobre as pessoas que dele fazem parte. Esse é o processo grupal. Quando
nos referimos a ele, há um fenômeno bastante característico chamado coesão
grupal, ou seja, é o grau de fidelidade dos membros de um grupo, mais
especificamente, é a forma que encontraram para que seus membros sigam
as regras estabelecidas.
Diante disso, os grupos podem ter maior ou menor coesão grupal.
Pensemos no caso de uma torcida organizada de futebol, é necessário que
seus membros tenham um forte grau de fidelidade, já que necessita de um
alto grau de coesão grupal para que o grupo se mantenha.
Porém, quando falamos de um grupo de pais em escolas, por exemplo,
percebemos que é um grupo que facilmente tende a se dissolver, pois são
poucos os pais que participam, as reuniões são eventuais, caracterizando,
assim, um grupo com baixa coesão grupal.
Além da coesão, existem outros fatores envolvidos nesse processo,
denominados fenômenos grupais, que são:
• As pressões e os padrões do grupo - existe uma pressão para que
os membros do grupo se mantenham lá e para que permaneçam,
portanto, há um padrão de funcionamento para a sua manutenção.
• Os motivos individuais e os objetivos do grupo - são muito impor-
tantes para a adesão ao grupo. Vamos imaginar que você entrou para
um grupo gótico, você está se dispondo a mudar seu jeito de ser, mas,
por outro lado, temos também os objetivos do grupo, que sempre irão
prevalecer sobre os seus motivos individuais, isso porque, quanto
mais o grupo precisar manter a coesão, mais ele impedirá as manifes-
tações individuais que não estão de acordo com os seus objetivos.
• Liderança e realização do grupo - esta área de estudo foi iniciada
com Lewin, que desenvolveu uma teoria para avaliar o clima grupal
e a influência das lideranças dentro dos grupos (BOCK; FURTADO;
TEIXEIRA, 2008).

84
Assim, chegamos à conclusão de que a característica básica dentro dos
grupos é que haja a interação, o vínculo, a afetividade. Então, para que um
grupo aconteça de fato, é necessário que se tenha a interação social.

1.1.3 Grupos, agregações e categorias


No senso comum, a palavra grupo é carregada de múltiplos sentidos,
podendo, por exemplo, fazer referência a um conjunto de pessoas que estão
reunidas por determinado período, pode se referir a pessoas que estão no
mesmo lugar ao mesmo tempo, pode fazer referência a indivíduos que estão
juntos por compartilharem alguma característica.
Assim sendo, Dias (2005, p.131) define grupos sociais como:

[...] um conjunto de pessoas que partilham algumas carac-


terísticas semelhantes – normas, valores e expectativas -,
que regular e conscientemente interagem e apresentam
algum sentimento de unidade. (...) seus membros tem
condutas mais ou menos semelhantes, objetivos comuns,
apresentando normas, símbolos e valores que tornam
cada membro um agente social diferenciado dos outros
indivíduos que compõem o mesmo grupo. São grupos
sociais uma família, um time de futebol, a nação brasileira,
os funcionários de um banco, os bancários associados ao
sindicato [...].

Por outro lado, Dias (2005) caracteriza uma agregação (ou coletividade)
como um conjunto de pessoas que estão ao mesmo tempo no mesmo lugar,
porém, interagem pouco ou nada entre si, não existindo, portanto, o vínculo,
a afetividade entre elas. Como exemplo, temos os passageiros de um ônibus,
os clientes em uma fila no banco, pessoas assistindo a um filme no cinema.
Ou seja, são pessoas que estão ao mesmo tempo, no mesmo lugar, por um
objetivo em comum, mas não se conhecem, não há vínculos entre elas.
Já quando falamos de categoria, referimo-nos a um grupo de pessoas que
partilham de características comuns, mas que não interagem entre si. Por
exemplo, uma mulher faz parte da categoria de pessoas do sexo feminino. Se
esta mesma mulher for uma médica, ela também faz parte da categoria dos
médicos, entre inúmeras outras categorias as quais pertencemos ao longo de
nossas vidas.

85
1.1.4 Classificação dos grupos
Os grupos normalmente são classificados das mais distintas maneiras,
porém, a primeira e mais frequente classificação divide-os em grupo
primário, secundário e intermediário.
• Grupo primário: são aqueles em que há o predomínio dos contatos
pessoais diretos, tais como a família e os vizinhos. Isso porque, nesses
grupos há um sentimento de pertencimento, em geral, os grupos
primários surgem acompanhados de sentimentos de posse (“minha
família”, “meus amigos”). São grupos pequenos caracterizados por
motivações afetivas. Além disso, são grupos resistentes às modifica-
ções provocadas pelas mudanças sociais. A família é o grupo primário
por excelência. Nela, o objetivo comum em geral não está explicitado,
e pode ser simplesmente a convivência.
• Grupo secundário: são aqueles grupos caracterizados pelos contatos
sociais não permanentes, em que os membros são facilmente substi-
tuídos. Não se constitui em um fim, mas sim, em um meio para
que seus componentes atinjam as finalidades externas ao grupo. O
tamanho deste grupo não é fixo e as condutas predominantes aqui
são aquelas mais formais. Exemplos: igreja, Estado, grupo de estudo.
Um exemplo clássico é o da associação de bairro, pois os integrantes
pouco se veem, mas a associação está lá, entretanto, eles possuem um
objetivo em comum (que é o bem-estar da população do bairro).
• Grupo intermediário: Apresenta as duas formas de contato: tanto
a primária quanto a secundária. O melhor exemplo deste grupo é a
escola. Lá existem tanto relações mais íntimas, como as que os alunos
estabelecem com seus colegas de classe, com os professores, quanto
relações mais distantes, que é o tipo de relacionamento que esses
alunos têm com o diretor da escola, com o zelador. Entretanto, todos
estão ali por um objetivo em comum, que é a educação. Por isso, este
é um grupo classificado como intermediário, em que predominam os
dois tipos de relação.

Questão para reflexão


Agora que você já sabe o que são os grupos, sua classificação, como
se caracterizam, pense em qual é a importância dos grupos sociais nas
nossas vidas?

86
Atividades de aprendizagem

1. Ao longo de nossa existência pertencemos a diferentes grupos de pessoas, por


escolha ou por circunstância. Diante disso, como podemos definir um grupo?

2. No nosso dia a dia utilizamos a palavra grupo com diferentes conotações.


Entretanto, para a psicologia social, essa diferenciação é necessária, pois cada
definição refere-se a um conceito diferente. Assim sendo, como podemos
diferenciar grupo, agregação e categoria?

87
Seção 2

As instituições sociais

Sabemos que a nossa vida cotidiana é permeada pela vida em grupo, mas,
para que a vida flua normalmente nesses grupos, é necessário que existam
algumas regras. Quando uma dessas regras é normatizada pela vida em
grupo, dizemos que ela foi institucionalizada. Ao nos referirmos ao termo
instituição, no sentido da Psicologia Social, temos que ele se define como o
campo de valores e regras, sendo a maneira como as regras se materializam
por meio da produção social. Entretanto, é necessário desfazermos alguns
conceitos já formulados acerca desses temas, como veremos a seguir.

2.1 Grupos e instituições


Todos nós precisamos de regras para podermos viver juntos, em socie-
dade. Por exemplo, todo os dias, várias pessoas acordam cedo e vão ao ponto
de ônibus para poder ir trabalhar. Existe, portanto, uma regra de que o ônibus
passará por ali para que elas fiquem no local esperando. Da mesma forma,
alguém precisa abrir o portão da fábrica para que os funcionários entrem,
comecem a trabalhar e a produzir. Esses são alguns dos muitos exemplos
cotidianos que temos para demonstrar a regularidade normatizada pela vida
em grupo, chamada institucionalização.

2.1.1 Como a sociedade se institucionalizou?


De acordo com Berger e Luckmann (apud BOCK, FURTADO, TEIXEIRA,
2008), o processo de institucionalização começa a partir do momento em
que são estabelecidas algumas regularidades comportamentais. Imaginemos
o homem primitivo. Conforme o tempo foi passando, ele foi se adaptando
à sua vida e descobrindo maneiras mais práticas de realizar seu “trabalho”,
os seja, um grupo que vivia fundamentalmente da pesca, foi conseguindo
criar formas mais eficientes de realizar essa tarefa. Com isso, as pessoas vão
descobrindo maneiras mais rápidas, simples e econômicas de desempenhar
suas tarefas do dia a dia.
Quando uma dessas formas se repete muitas vezes, dizemos que um
hábito foi estabelecido. Entretanto, com o passar dos tempos, esse hábito
se transforma em tradição. A partir disso, as bases concretas não são mais
questionadas, e a tradição se impõe. E, quando muitas gerações se passam
e a regra estabelecida perde a referência de onde se originou (no caso, os
antepassados), afirmamos que essa regra social foi institucionalizada.

88
2.1.2 Relação entre instituições, organizações e grupos
Para começar, como podemos definir instituição? Ela significa algo que
tem seus próprios valores, normas e regras. Regula o funcionamento daquele
grupo de pessoas que pertencem a ela. Imagine uma instituição religiosa e
suponha que você frequenta um culto ou uma missa, ou, ainda, os ritos de
determinada igreja, então, podemos afirmar que você segue os dogmas dessa
instituição religiosa. Qual seria o seu papel dentro dessa instituição? Vale
destacar que, assim como temos diversos papéis sociais, também fazemos
parte de muitas instituições ao longo de nossas vidas, sendo que são essas
instituições que regulam o nosso funcionamento dentro da sociedade.
Tendo a instituição como as regras e os valores, então a base concreta da
sociedade é a organização, entendida como o aparato que reproduz a insti-
tuição perante a sociedade, ou seja, as instituições sociais serão mantidas
e reproduzidas nas organizações. Por exemplo, podem ser um complexo
organizacional, como um Ministério (como o Ministério da Saúde), pode
ser uma empresa (como a Católica, a Evangélica), mas também pode ser um
pequeno estabelecimento, como uma creche filantrópica. Assim, a organi-
zação é o campo prático da instituição.
O que vem para completar essa dinâmica é o grupo, que é o local em que
a instituição se realiza. É tudo aquilo que reproduz e, em certas ocasiões,
reformula tais regras.
Enfim, temos o seguinte: a instituição é o campo de valores e de regras
(é abstrato); a organização é a maneira como se materializa essas regras por
meio da produção social; o grupo, por sua vez, realiza e promove os valores.

2.2 Instituição
Definimos instituição como sendo tudo aquilo que mais se reproduz – no
sentido de que lidamos com instituições a todo momento – e que menos se
percebe nas relações sociais. José Bleger (1991) diz que a instituição é uma confi-
guração de conduta duradoura, completa, integrada e organizada, mediante a
qual se exerce o controle social e por meio da qual se satisfazem os desejos e
necessidades sociais fundamentais. Isso quer dizer que a instituição é um guia
de regras, de normas, que estabelece parâmetros para vivermos em sociedade.
Diante disso, temos que a instituição requer normas, padrões, que devem
ser seguidos, ou seja, são essas instituições que nos dão os parâmetros a
seguir. Além disso, sempre há relações de poder nas instituições, isto é, um
manda e o(s) outro(s) obedece(m), o que pode gerar contradições. O que

89
significa que a instituição é um valor ou uma regra social que deve ser repro-
duzida no nosso cotidiano com status de verdade.
As instituições servem como guia básico de comportamento e de padrão
ético para as pessoas em geral. Elas acabam assumindo a função de realizar
a mediação das estruturas sociais, definindo papéis para a reprodução das
relações sociais, de acordo com o que está previsto pelo contexto social em
que a instituição está inserida.

2.2.1 Características das instituições


São seis as principais características das instituições, de acordo com Dias
(2005, p. 204-205):
1. Cada instituição tem como objetivo principal a satisfação das neces-
sidades sociais específicas e, para atingir seus objetivos, desem-
penha múltiplas funções – por exemplo, as instituições educacionais
preparam as pessoas tanto para desempenhar papéis ocupacionais
quanto certos papéis esperados, servindo como veículo para trans-
mitir a herança cultural.
2. As instituições sociais incorporam valores fundamentais adotados
pela maioria da sociedade – na educação, por exemplo, o governo é
obrigado a proporcionar o ensino a todos os brasileiros, até determi-
nada faixa etária.
3. Os ideais de uma instituição são, em geral, aceitos pela grande maioria
dos membros de uma sociedade, mesmo que não participem dela –
como aqueles indivíduos que não constituem família, permanecendo
solteiros, reconhecem e aceitam a importante função dessa instituição.
4. Mesmo havendo uma profunda interdependência entre as diversas
instituições dentro de uma sociedade, cada uma delas está perfeita-
mente estruturada e organizada segundo um conjunto estabelecido
de normas, valores e padrões de comportamento – por exemplo, as
instituições políticas (governamentais), que são altamente estrutu-
radas e tornam-se burocráticas ao extremo: os cargos são preenchidos
por concursos públicos, os ocupantes desfrutam de estabilidade,
respeita-se profundamente a hierarquia e os símbolos hierárquicos.
5. As instituições exercem tantas influências que suas atividades
ocupam um lugar central dentro da sociedade; uma mudança drástica
em uma instituição provavelmente provocará mudança em outras –
por exemplo, as mudanças econômicas, de um modo geral, afetam
as outras instituições: elas influenciarão a estabilidade da família,

90
a capacidade de o governo atender às demandas por seus serviços,
podendo afetar até a qualidade da educação.
6. As instituições são relativamente duradouras, e os padrões de compor-
tamento estabelecidos dentro delas se tornam parte da tradição de
uma determinada sociedade – por exemplo, no Brasil, a tradição é
monogâmica para regulamentar os casamentos, isso porque, tradicio-
nalmente, o marido, a mulher e os filhos ocupam um papel social e
um status baseado na idade, no sexo.

Questão para reflexão


E você, faz parte de quantas instituições? Consegue mensurar quais são
as principais instituições a que pertence?

2.3 A instituição familiar


A família é um grupo aparentado, responsável principalmente pela socia-
lização de suas crianças e pela satisfação de necessidades básicas. Ela consiste
em um aglomerado de pessoas relacionadas entre si por sangue, casamento,
aliança ou adoção, vivendo juntas, em geral, em uma mesma casa, por um
período de tempo indefinido (DIAS, 2005).
Mas, como a família chegou ao status de instituição? Temos que, ao longo
dos tempos, a família passou por várias transformações, de cunho social,
cultural e, também, político. No Brasil não foi diferente. Durante o período
do Brasil Colônia, os casamentos aconteciam por razões ou interesses
familiares, isso porque o casamento, nessa época, estava ligado à transmissão
do patrimônio.
A partir da terceira década do século XVIII, começa-se a perceber os
velhos hábitos das colônias, o que causava alta mortalidade infantil por conta
das precárias condições de higiene. Nesse contexto, surge o sanitarismo e,
com isso, o governo brasileiro passa a intervir nas famílias brasileiras, de
modo a transformar os costumes e os hábitos familiares (COSTA, 1989).
Diante do surgimento do sanitarismo, os casamentos passam a acontecer
em decorrência do compromisso com os filhos, e não mais visando à trans-
missão do patrimônio. Surge então a questão do amor como ponto neces-
sário para que houvesse uma ligação conjugal. Conforme Costa (1989, p.
232) “o amor tornou-se o substituto da ética-patrimonial. Criou-se o novo
código coercitivo das relações entre homens e mulheres”.

91
Começaram a surgir as obrigações entre os cônjuges permeadas pelo
contrato conjugal: agora o indivíduo tinha culpa por eventuais fracassos da
relação conjugal, isto porque, se o amor agora era livre das interferências
referentes ao patrimônio, às relações familiares, cabia ao indivíduo toda a
responsabilidade pelo fim da família. Assim, estabeleceu-se uma ligação
entre amor e sexo, sendo que o sexo precisaria do amor para permanecer nos
limites do lar.
Costa (1989) afirma que, para compensar a perda do poder social (sobre
os escravos, sobre as crianças e sobre as mulheres), a higiene oferece ao
homem o poder sexual sobre as mulheres. Diante das normas sexuais, a
independência da mulher não podia passar dos limites da casa e do consumo
dos bens, além de se manter a imagem de mulher-mãe.
Mas, e o pai? Para que ele pudesse manter seu dever de pai, foi-lhe dada
a autorização para ser macho, ou seja, o machismo surge para compensar a
perda de seu tradicional poder.
Chegando ao século XIX, temos a vida nas grandes cidades. E, com a
higiene, a vida do cidadão passa a girar em torno dos filhos. Com isso, nas
sociedades urbanas ocidentais, inclusive no Brasil, as mulheres começam
a demonstrar suas capacidades para o trabalho fora do âmbito doméstico,
visando às necessidades de sobrevivência do momento. A partir de então,
tem início uma revolução nas expectativas sociais, familiares e pessoais,
principalmente em relação ao sexo, que até então deveria acontecer resguar-
dado, no ambiente doméstico e com funções reprodutivas.
Com todas essas mudanças, a submissão da mulher ante o homem
começa a diminuir, já que ela passa a conseguir sua emancipação, então,
novos valores começam a orientar as relações na família e, também, as
relações afetivas. Aquelas normas vigentes até então, como “até que a morte
os separe” e “felizes para sempre”, que legitimavam os casamentos e a família
conjugal a partir do século XIV, tornam-se instáveis e frágeis. A partir da
década de 1980, passa-se a perceber a heterogeneidade nos padrões de
família e casamento, que ganha legitimidade social e cultural. As diferenças
existentes entre os papéis de homem e mulher tendem a desaparecer, confun-
dindo-se ou multiplicando-se.
Entretanto, mesmo em meio a tantas modificações sociais e culturais,
a desigualdade entre homens e mulheres na sociedade contemporânea
continua a existir, sendo possível de ser percebida nas relações de poder
que se estabelecem entre os indivíduos. Isso porque toda essa velocidade
das mudanças sociais acelera a alteração dos padrões de comportamento,
aumentando a distância entre o que o homem vive e o que foi aprendido e
internalizado na infância.

92
Assim,

Homens e mulheres devem acompanhar o curso


das mudanças sociais, sem perder o seu referencial
interno. Devem ser assertivos em suas relações a
ponto de se expressar para sentir-se bem, construindo
um referencial externo a partir disso. Só assim conse-
guirão viver e lidar com as situações externas e a
adversidade das mudanças. (CALDAS, 1997, p. 118)

A família é a nossa primeira instituição. É a instituição na qual somos


inseridos sem que possamos escolher, pois ali ocupamos um lugar pré-es-
tabelecido (por exemplo, alguém que é o primeiro filho de um casal não
escolheu isso). Dizemos então que a própria família determina, antes mesmo
de nascermos, qual será o nosso papel naquela instituição. Ela nos coloca
alguns valores simbólicos, antes de nascermos, sem que tenhamos direito de
escolha. Assim, é ali na família que teremos todo o nosso referencial e que
aprenderemos a viver em grupo.

Para saber mais


Para aprofundar seus conhecimentos acerca do tema família, leia o livro
O que é família, de Danda Prado.
PRADO, D. O que é família. São Paulo: Editora Brasiliense, 2017.

Atividades de aprendizagem

1. Como acontece o processo de institucionalização?


2. Como é possível definir o termo “instituição”?

93
Seção 3

Liderança

Todo grupo tem um líder? Todo chefe é um líder? Se não, como podemos
fazer a distinção entre chefia e liderança? Essas são questões que sempre
nos fazemos quando estamos frente a um grupo que possui uma pessoa que
o “representa”. Mas será que esse “representante” é escolhido pelo próprio
grupo? Se não, quem o escolhe? Aliás, quais as funções de cada um dos líderes
em nossa sociedade? A partir de agora, estudaremos o tema da liderança e
iremos responder a essas e outras questões. Vamos lá?

1.1 Liderança
Um fato interessante de se notar é que todos os grupos têm um líder. O
que vale tanto para grupos humanos quanto animais. Entretanto, por ser um
fato tão comum no dia a dia das pessoas, muitas vezes, passa despercebido.

Questão para reflexão


Será que é necessária a existência de um líder para que exista um
grupo? A liderança é algo inato? Ou será que ela pode ser aprendida?
Como alguém se torna líder?

3.1.1 O que é Liderança?


Não é algo tão simples assim conceituar a palavra liderança, isso porque
esse termo passou por várias mudanças ao longo dos tempos, em decorrência
do contexto histórico, social, cultural e econômico, o que continua ocorrendo
até os dias atuais.
Líder vem do inglês “leader”. Entre as definições contidas nos dicionários,
temos a seguinte distinção dos termos:

Líder. [Do ing. Leader] S.m. 1. Indivíduo que chefia,


comanda e/ou orienta, em qualquer tipo de ação, empresa
ou linha de ideias. 2. Guia, chefe ou condutor que repre-
senta um grupo, uma corrente de opinião etc. (FERREIRA,
1986). S.m. 1. Chefe ou guia representativo de um grupo ou
de um partido; cabeça (LÍDER, 1997a).

94
Liderança. S.f. 1. Função de líder. 2. Capacidade de liderar;
espírito de chefia. 3. Forma de dominação baseada no
prestígio pessoal e aceita pelos dirigidos (FERREIRA, 1986).
S.f. 1. Função de líder. 2. Primeira posição (LIDERANÇA,
1997b).

Mas será que líder e chefe são a mesma coisa? Para ficar mais claro,
precisamos, primeiramente, compreender que nem todo chefe é líder, assim
como nem todo líder está em uma posição de chefia. Portanto, liderança é
diferente de chefia. Para entendermos melhor isso, vamos fazer uma diferen-
ciação entre os termos poder e autoridade: o poder é a capacidade de forçar
ou coagir alguém a fazer o que você quer em decorrência de sua posição ou
força, mesmo a pessoa se negando a fazê-lo. Já na autoridade, na liderança,
as pessoas o fazem de boa vontade, por conta da influência pessoal que seu
superior representa (CUNHA; SILVA, 2010).
Assim sendo, podemos compreender que líder não é aquele que desem-
penha a função de chefia. O líder é aquela pessoa escolhida pelas demais
pessoas para liderá-las, isso porque as pessoas o admiram, concordam com
o que ele diz e com o que ele faz. Já o chefe não é escolhido pelos demais
membros, ele foi colocado na posição de chefia, não foi eleito democratica-
mente por todos. Geralmente, as pessoas não concordam com o que ele faz
e com a maneira que ele faz, mas como estão subordinadas a ele, precisam
obedecer ao que ele diz.
Perceba que o líder está no mesmo nível de seus liderados, enquanto o
chefe trata as pessoas como se fossem seus subordinados, como se ele fosse
superior a todos.
Diante disso, Hunter (2004, p. 25) define liderança como sendo “[...]
a habilidade de influenciar pessoas para trabalharem entusiasticamente
visando atingir aos objetivos identificados como sendo para o bem comum”.
De acordo com Cunha e Silva (2010, p. 72), vários autores comparti-
lham de pontos comuns com relação à definição de liderança, sendo que
esses pontos convergem para duas características principais: “a habilidade de
influenciar ou conduzir pessoas e a capacidade de realizar”.
Temos, então, que a liderança corresponde a um processo de influência
pelo qual os indivíduos, com suas ações, facilitam o movimento de um grupo
de pessoas rumo a uma meta comum ou compartilhada.

95
3.1.2 Tipos de liderança
Os tipos de liderança foram inicialmente propostos por Lippitt e White,
em 1943, ao realizarem um estudo clássico com meninos de 10 a 11 anos de
idade que participavam de um acampamento de verão. Na ocasião, o interesse
dos pesquisadores era verificar o impacto causado por três diferentes tipos de
liderança quando orientados para a execução de tarefas. Os meninos foram
orientados, alternadamente, de seis em seis semanas, por líderes que utili-
zavam três diferentes tipos de liderança: a autocrática, a democrática e a
laissez-faire (BOTELHO; KROM, [s.d.]).
Os líderes denominados pelos estudiosos como líderes autocráticos
estabelecem sozinho as regras de seus grupos, determinam suas atividades.
Ou seja, são aqueles que tomam todas as decisões do grupo sozinhos e, geral-
mente, costumam oprimir seus subordinados, pois enxergam neles seus
concorrentes e não seus colaboradores. Normalmente, são líderes que não se
envolvem ativamente nas atividades do grupo, permanecendo no “pedestal”
de sua função (BRAGHIROLLI; PEREIRA; RIZZON, 2010).
Os chamados líderes democráticos são diferentes, pois optam junto
do grupo quais decisões serão tomadas, de modo que todos saibam o que
está por acontecer. Os colaboradores têm autonomia para escolher seus
companheiros de tarefa. Aqui, os líderes elogiam ou criticam de acordo com
objetivos que são conhecidos por todos e, além disso, o líder se comporta
como membro do grupo (BRAGHIROLLI; PEREIRA; RIZZON, 2010).
Já os líderes laissez-faire são aqueles que não atuam como coordena-
dores, deixando toda e qualquer liberdade de ação para os membros do
grupo, ou seja, “façam o que acharem melhor” (BRAGHIROLLI; PEREIRA;
RIZZON, 2010).
As conclusões do estudo de Lippitt e White trouxeram muitas inova-
ções. Por exemplo, de maneira geral, aqueles grupos liderados por líderes
autocráticos rendiam mais, porém, por outro lado, apresentavam relações
interpessoais hostis, maior agressividade e queda brusca na produtividade na
ausência do líder. Já nos grupos sobre liderança democrática, a motivação e o
envolvimento com a tarefa eram maiores que nos demais grupos, a qualidade
das relações interpessoais era melhor e também havia maior satisfação dos
membros por participar do grupo e da tarefa. Quando o líder estava ausente,
o grupo não sofria alteração de quantidade ou qualidade. Nos grupos sob
liderança laissez-faire, houve grande atrito, desorganização e insatisfação,
além de baixa produtividade (BRAGHIROLLI; PEREIRA; RIZZON, 2010).
Ante os resultados das pesquisas de Lippitt e White, pode-se perceber
que o modelo de liderança “ideal” é o democrático. Entretanto, pesquisas

96
recentes demonstram que isso vai depender do tipo do grupo. Por exemplo,
quando existe um grupo de artistas plásticos envolvidos na tarefa de pintar
um painel, é mais interessante que sejam liderados por um líder laissez-faire,
já que a liberdade deve ser um requisito essencial na criação. Já um grupo
que precisa obter resultados com urgência, ou que execute tarefas rotineiras,
manuais, pode estar necessitando de um líder autocrático.
Diante disso, temos, então, que o tipo de liderança “ideal” vai depender
de uma série de variáveis relativas ao grupo, à situação e às características
pessoais do líder.

Questão para reflexão


E você, qual tipo de líder acredita ser?

3.1.3 Estilos de liderança


Para muitos autores, as diferenças no comportamento do líder autocrá-
tico e do líder democrático se baseiam nas convicções do líder a respeito da
fonte de seu poder e a respeito da própria natureza humana. Assim, temos
alguns estilos de liderança, que são:
• Liderança orientada para a tarefa: refere-se às ações de como enfatizar
a realização das metas do grupo, definir e estruturar atribuições de
trabalho dos membros do grupo e enfatizar o cumprimento de prazos
finais. É basicamente focado nas metas.
• Liderança orientada para as pessoas: abrange ações de como desen-
volver boas relações interpessoais, ser amistoso e acessível e estar
preocupado com problemas pessoais dos indivíduos. Geralmente,
esse é o líder que conhece cada um de seus funcionários, que
tendem a render mais por se sentirem valorizados. Além disso, este
estilo de liderança requer líderes que tenham o contato interpessoal
bem desenvolvido.
• Liderança orientada para o desenvolvimento: estilo caracterizado
por experimentação, criação de novas abordagens para os problemas,
incentivo a novas maneiras de fazer as coisas e estímulo à mudança.
O líder aqui experimenta, incentiva as pessoas a mudarem, a fazer
algo diferente, criarem coisas novas, visando o desenvolvimento do
seu grupo.
Diferentes teorias foram sendo criadas para explicar os estilos de
liderança. Basicamente, elas apontam que o líder autocrático entende que
seu poder emana da posição que ocupa e que as pessoas são, por natureza,

97
preguiçosas e pouco merecedoras de confiança, portanto, ele precisa usar a
coerção para se fazer obedecer e decidir sozinho os rumos do grupo. Assim,
o estilo de liderança autocrática seria aquela orientada para a tarefa.
Por outro lado, o líder democrático está convencido que o poder que
detém lhe foi conferido pelo grupo e que, se estiverem motivadas, as pessoas
não precisam ser coagidas, porque elas se dedicarão por si próprias ao
trabalho e serão criativas ao desempenhá-lo. Portanto, o estilo de liderança
democrático seria aquele orientado para as pessoas (BRAGHIROLLI;
PEREIRA; RIZZON, 2010).

Para saber mais

Liderança é uma temática que tem sido considerada


essencial para a era atual. O processo da globalização
e a revolução tecnológica impõem novas exigências ao
mercado e os líderes são as pessoas que se destacam
frente a esse cenário de mudanças. (CUNHA; SILVA,
2010, p. 67)

Para aprofundar seus estudos na área da liderança, o artigo de Cunha


e Silva traz um referencial histórico bastante interessante sobre como
tudo se iniciou. Para saber mais sobre o tema, consulte:
CUNHA, V. M., SILVA, M. J. M. C. A. Os desafios da liderança no
mundo corporativo. Anuário de produção acadêmica docente, v.4,
n. 7, 2010, 67-88.

Atividades de aprendizagem

1. Um fato interessante de se notar é que todos os grupos têm um líder. E


isso vale tanto para grupos humanos quanto animais. Diante dessa afirmação,
como se define o termo liderança?

2. Qual a diferença entre liderança e chefia?

98
Seção 4

Inclusão e exclusão social

Quando nos referimos aos grupos, à liderança, ao processo grupal,


passamos a entender a importância das relações humanas para a vida em
sociedade. Diante disso, temos a questão da exclusão social que surge como
um fenômeno importante para explicar os processos de segregação, os quais
a sociedade passa em determinadas áreas. Vamos conhecer esse processo?

4.1 A exclusão social


O tema da exclusão social é antigo. Faz referência a processos de segre-
gação justificados sob diferentes motivações. São vários os tipos de exclusão
existentes, por exemplo, quando nos referimos à área da saúde, temos a
exclusão dos leprosos na antiguidade e, nos dias atuais, dos soropositivos.
Quanto às questões étnicas, percebemos a segregação dos judeus perante
os alemães. Com relação às questões econômicas, temos a segregação dos
desempregados, entre tantos outros que nos explicitam sobre o processo
de exclusão.
Historicamente falando, o conceito de exclusão parece ter surgido na
França, por volta das décadas de 1950/1960, fazendo referência às pessoas
que se encontravam fora do ambiente de trabalho, tornando visível uma
parcela da população que enriquecia em contraste com uma parcela que se
tornava cada vez mais pobre. Entretanto, quando nos referimos ao Brasil,
já na década de 1970, surge a denúncia sobre a exclusão decorrente tanto
do modelo econômico quanto em relação à etnia, com a discriminação dos
pobres e determinadas raças. Além disso, destaca-se, também, a pobreza
resultante do desemprego e subemprego, com todas as suas consequências,
sendo, portanto, o fenômeno central dentro da exclusão (OLIVEIRA, 1997).
Quando o tema trata da exclusão social, logo nos vem à mente as análises
que tem como foco a questão econômica (que vão abordar a exclusão social
como sinônimo de pobreza) e, também, a questão social (que vai entender
a exclusão social como sinônimo de discriminação). Isso acontece porque a
categoria exclusão ganhou força com a realidade da pobreza produzida pelo
desemprego, porém, quando pensamos assim, deixamos de lado um aspecto
muito importante relacionado à exclusão, que é o da injustiça social.
Por exclusão social entendemos um processo sócio histórico que é confi-
gurado pelo fato de reprimir aspirações em todas as esferas da vida social, ou

99
seja, abrange a dimensão objetiva da desigualdade social, a dimensão ética da
injustiça, a dimensão subjetiva do sofrimento, entre outras (SAWAIA, 2002).
Assim, a sociedade exclui para incluir e essa mudança é fruto da ordem
social desigual, que traz o caráter ilusório da inclusão, isso porque todos nós
estamos inseridos de algum modo. Diante disso, em vez de tratarmos apenas
o tema da exclusão social, temos que trabalhar com a relação exclusão/
inclusão.
4.1.1 Relação exclusão/inclusão social
A relação exclusão/inclusão traz particularidades específicas que
vão desde o sentir-se incluído até o sentir-se discriminado ou revoltado.
Entretanto, isso não se refere apenas às questões econômicas, mas deter-
minam e são determinadas por diferentes justificativas, sejam essas sociais
ou individuais.
Diante disso, Sawaia (2002, p. 7) relata que:

Em síntese, a exclusão é processo complexo e multiface-


tado, uma configuração de dimensões materiais, políticas,
relacionais e subjetivas. É processo sutil e dialético, pois só
existe em relação à inclusão como parte constitutiva dela.
Não é uma coisa ou um estado, é processo que envolve o
homem por inteiro e suas relações com os outros. Não tem
uma única forma e não é uma falha do sistema, devendo
ser combatida como algo que perturba a ordem social, ao
contrário, ele é produto do funcionamento do sistema.

Quando nos referimos ao tema da exclusão de maneira concreta, torna-se


necessário delimitarmos qual o espaço de referência que provoca tal rejeição,
ou seja, qualquer estudo que façamos sobre a exclusão deve ser contextuali-
zado no tempo e no espaço ao qual se refere.
Por exemplo, se considerarmos o espaço de análise da exclusão como os
países de primeiro mundo na década de 1980 e as transformações as quais as
relações de trabalho passaram nesse período, teremos aqui um novo conceito
de precariedade e de pobreza, uma nova pobreza que vem para designar os
desempregados de longa duração que estão sendo expulsos do mercado produ-
tivo e os jovens que não conseguem entrar nele, impedidos de ter acesso ao
primeiro emprego. Nesse caso, são pessoas que estão aptas ao trabalho, mas
que não são vítimas da conjuntura econômica e da crise de emprego.

100
No campo internacional, a passagem do predomínio do termo pobreza
para exclusão significou, em grande parte, o fim da ilusão de que as desigual-
dades sociais eram temporárias... A exclusão emerge, assim, no campo inter-
nacional, como um sinal de que as tendências do desenvolvimento econô-
mico se converteram. (NASCIMENTO, 1995, p. 25).

Questão para reflexão


Mas, e no Brasil, como se dá esse processo de exclusão social?

No Brasil, essa situação da exclusão apresenta-se com um caráter estru-


tural, isto é, “a desigualdade social, econômica e política na sociedade brasi-
leira chegou a tal grau que se torna incompatível com a democratização da
sociedade” (SPOSATTI, 1996, [s.p.])
Temos então que, no Brasil, a exclusão é econômica, cultural, política e
étnica, o que significa uma impossibilidade de poder partilhar o que leva à
vivência da privação, da recusa, do abandono, até mesmo com violência, o
que leva a uma exclusão social (e não pessoal). Não é pessoal porque está
presente nas mais diferentes formas de relações, sejam elas econômicas,
sociais, culturais e políticas da sociedade brasileira. Portanto, entendemos
aqui a exclusão social como essa situação de privação coletiva, que inclui
pobreza, discriminação, subalternidade, não equidade, não acessibilidade.
Assim, não há dúvidas de que a exclusão pode ser entendida, nas nossas
sociedades contemporâneas, como uma nova manifestação da questão
social. Essa exclusão social é diferente das antigas formas de discriminação,
de segregação, pois tende a criar, de maneira intencional, indivíduos desne-
cessários ao universo produtivo, para os quais parece não haver mais possibi-
lidades de inserção, tornando os seres “descartáveis”.

Atividades de aprendizagem

1. É sabido que o tema da exclusão social é antigo. Ele faz referência a


processos de segregação justificados sob diferentes motivações. Ademais, são
vários os tipos de exclusão existentes. Diante disso, de onde surgiu o conceito
de exclusão social?

2. Quando se faz referência à relação exclusão/inclusão, percebe-se as parti-


cularidades específicas que vão desde o sentir-se incluído até o sentir-se
discriminado ou revoltado. Assim sendo, como é possível definir o termo
exclusão social?

101
Fique ligado
Chegamos ao fim de mais uma unidade de ensino. Aqui pudemos ter
contato com o tema das relações sociais, que envolvem os grupos, as insti-
tuições sociais e a liderança. Foi possível aprender sobre como os grupos se
organizam, porque é importante que as pessoas se organizem em grupos,
qual a relação entre os grupos e as instituições sociais e, por fim, qual a
relação entre os tipos de liderança e os comportamentos apresentados pelos
membros de um grupo. Assim, finalizamos nossa unidade de ensino compre-
endendo a importância do homem em se socializar e ter uma vida ligada às
demais pessoas.

Para concluir o estudo da unidade


Chegamos ao fim da nossa unidade. Espero que você tenha gostado e que
tenha aprendido sobre a temática dos grupos, das instituições e da liderança.
Caso queira aprofundar mais seus estudos nessa área, faça leitura do artigo A
família como instituição moderna, de Danielle Marques dos Ramos e Virgílio
Gomes do Nascimento.
RAMOS, D. M. dos; NASCIMENTO, V. G. do. A família como instituição
moderna. Fractal: revista de psicologia, v. 20. n. 2, 2008.

Atividades de aprendizagem da unidade

1. Bock, Furtado e Teixeira (2008, p .228) caracterizam grupo como “um


todo dinâmico (o que significa dizer que ele é mais que a simples soma de
seus membros), e que a mudança no estado de qualquer subparte modifica
o grupo como um todo”. No entanto, quando falamos de um conjunto de
pessoas que estão ao mesmo tempo, no mesmo luar, porém, interagem pouco
ou nada entre si, não existindo vínculo entre elas, estamos nos referindo a
quê? Assinale a alternativa correta.
a. Grupo.
b. Agregação.
c. Categoria.
d. Coesão grupal.
e. Fenômeno grupal.

102
2. Os grupos normalmente são classificados das mais distintas maneiras,
porém, a primeira e mais frequente classificação divide-os em grupo primário,
secundário e intermediário. Diante disso, relacione as colunas a seguir.
( 1 )Grupo primário.
( 2 )Grupo secundário.
( 3 )Grupo intermediário.
( ) Todos estão ali por um objetivo em comum, mas há mais de um tipo
de relação prevalecendo ali. O melhor exemplo para definir esse grupo é a
escola.
( ) Há o predomínio dos contatos pessoais diretos. Há também um senti-
mento de pertencimento entre as pessoas. São grupos pequenos caracteri-
zados por motivações afetivas.
( ) São caracterizados pelos contatos socais não permanentes em que seus
membros são facilmente substituídos. O tamanho do grupo não é fixo e as
condutas predominantes aqui são as mais formais.
Assinale a alternativa com a sequência correta.
a. 1, 2, 3.
b. 1, 3, 2.
c. 2, 1, 3.
d. 3, 1, 2.
e. 3, 2, 1.

3. José Bleger (1991) vai dizer que a instituição é uma configuração de conduta
duradoura, completa, integrada e organizada mediante a qual se exerce o
controle social e por meio da qual se satisfazem os desejos e necessidades
sociais fundamentais. Isso quer dizer que a instituição é um guia de regras, de
normas, que vai estabelecer parâmetros para vivermos em sociedade.
Sobre o tema da instituição, analise as afirmativas a seguir.
I. A instituição requer normas, padrões, que devem ser seguidos, ou
seja, são essas instituições que nos dão parâmetros a seguir.
II. A instituição é um valor ou regra social que deve ser reproduzida
no cotidiano com status de verdade, ou seja, são o guia básico de
comportamento e padrão ético para as pessoas em geral.

103
III. As instituições são responsáveis por realizar a mediação das estru-
turas sociais, definindo papéis para a reprodução das relações sociais,
conforme o que está previsto no contexto social em que a instituição
se encontra inserida.
Está correto o que se afirma em:
a. Apenas I.
b. Apenas I e II.
c. Apenas II e III.
d. Apenas I e III.
e. I, II e III.

4. Temos que, ao longo dos tempos, a família passou por várias trans-
formações, de cunho social, cultural e, também, político. No Brasil não
foi diferente. Foram décadas de transformações para que chegássemos ao
modelo de família que que temos nos dias de hoje. Sobre o tema da família
como instituição, analise as afirmações a seguir, assinalando (V) para as que
forem verdadeiras e (F), para as falsas.
( ) A família é a instituição na qual somos inseridos sem que possamos
escolher, pois ali ocupamos um lugar pré-estabelecido.
( ) A família nos coloca alguns valores simbólicos, antes mesmo de
nascermos, sem que tenhamos direito de escolha.
( ) É na família que as pessoas tem todo o seu referencial e que aprendem
a viver em grupo.
Assinale a alternativa com a sequência correta.
a. V, V, V.
b. V, V, F.
c. V, F, F.
d. F, V, V.
e. F, F, V.

5. Hunter (2004, p. 25) define liderança como sendo “(...) a habilidade de


influenciar pessoas para trabalharem entusiasticamente visando atingir aos
objetivos identificados como sendo para o bem comum”. Quando falamos
em estilos de liderança, temos um estilo caracterizado por experimentação,
criação de novas abordagens para os problemas, incentivo a novas maneiras

104
de fazer as coisas e estímulo à mudança. O líder aqui experimenta, incentiva
as pessoas a mudarem, a fazer algo diferente, criarem coisas novas, visando
o desenvolvimento do seu grupo. Que estilo de liderança é esse? Assinale a
alternativa correta.
a. Orientada para a prática.
b. Orientada para a tarefa.
c. Orientada para o grupo.
d. Orientada para as pessoas.
e. Orientada para o desenvolvimento

105
Referências

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instituições: estudos psicanalíticos. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1991.

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PÓS-GRADUAÇÃO, 10., 2010, Vale do Paraíba. Anais [...]. Vale do Paraíba: Universidade
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SPOSATTI, A. Mapa da Exclusão/inclusão na cidade de São Paulo. São Paulo: Educ, 1996.
Anotações

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