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Pelo senso comum, muitos entendem a palavra teoria como sinônimo de opinião

ou do conjunto delas (Rodrigues, 2019). Entretanto, esse é o primeiro dos 7 erros


comumente cometidos por leigos ao falar sobre o assunto. Partindo do princípio de que
testar uma teoria é tentar refutá-la, definirei o que ela não é - ou o que não a compõe -
antes de partir para seu real significado. Entende-se que os outros 6 erros acerca desse
conceito são: julgar teorias científicas como imutáveis; acreditar que buscam a
explicação de dados observados naturalmente; não aceitar a idealização; negar
proposições teóricas acerca de fatos supra sensoriais; confundir o objeto de pesquisa
com o modelo formal do objeto interno à teoria e julgar sua produtividade tomando por
base a aplicabilidade. A partir das negações, resta apresentar as concepções até o
momento não refutadas sobre que é uma teoria.
O biólogo Kenneth R. Miller, em entrevista ao New York Times, afirmou que a
teoria científica é um sistema de explicações que ata um conjunto de fatos não apenas
explicando-os, mas também prevendo futuras descobertas a partir de novas observações.
Quando complementado por Karl Popper (1985: 60-61), fica claro que a função de uma
teoria linguística é racionalizar, explicar e dominar o que denominamos mundo. Dessa
forma, elucida-se que a ciência é uma questionadora do conhecimento por ela
descoberto, sendo mutável. Ainda para Popper (1982), uma teoria científica é válida
apenas se atender à demanda da falseabilidade. Ou seja, uma teoria só pode ser
científica se for passível de contestação e deverá ser averiguada não a partir de
tentativas de prová-la correta, mas de prová-la errada, como citado anteriormente. É
cabível acrescentar a ideia de Lakatos (1970, 1971, 1978) no tangente à composição da
teoria: ela deve conter um núcleo – o próprio objeto de investigação – e a heurística
(positiva ou negativa) – que dita como deverá ou não ser realizada a investigação. Os
demais componentes seriam “auxiliares, flexíveis e sujeitos à constante testagem”
(Rodrigues, 2019).
Acerca de seus objetivos e ferramentas, foi colocado por Rodrigues (2019) que a
teoria não busca explicar os dados, sujeitos às variáveis externas, mas o fenômeno. Este,
por sua vez, nem sempre é observado sensorialmente. Dessa forma, poderá ser tratado
como uma idealização a partir dos fatos observáveis. Por fim, é importante ressaltar que
a relação entre o dado empírico e a teoria não é direta, obedecendo a hierarquia
retroalimentar a seguir: observação empírica – generalização/fenômeno – hipótese –
teoria. Rodrigues (2019) também coloca que quanto maior o escopo empírico dos
fenômenos, maior o poder explicativo e, proporcionalmente, o risco de refutação de
uma teoria.
Voltando-nos para as teorias linguísticas, especialmente a Gerativa, é
interessante compreender o porquê de sua caracterização enquanto teoria científica. No
fim dos anos 50, Noam Chomsky propôs um novo objeto de estudo para os linguistas:
os sistemas formais. Considerou avaliá-los em sua validez enquanto gramáticas naturais
e, para tal, determinou seu método: o hipotético-dedutivo (definir um conjunto possível
de gramáticas e verificar sua adequação em relação aos fenômenos observados em
determinada língua). Assim, o linguista nega a perspectiva estruturalista de que uma
teoria deve descobrir ou validar uma gramática a partir da observação de dados, mas
sim compreender o procedimento gerativo que gera os fenômenos observados a partir de
dados empíricos. Conclui-se que uma teoria acerca do comportamento verbal que
desconsidere os processos mentais relativos é limitada, consagrando a Gramática
Gerativa como uma virada paradigmática na Linguística (Rodrigues, 2019). Ademais, o
Gerativismo manteve as mesmas pressuposições nucleares e mesma a heurística (desde
seu princípio, ainda que seus demais componentes tenham sofrido adaptações. Dessa
forma, sua condição de teoria científica se faz clara.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1. RODRIGUES, C. . Ciência e Gramática Gerativa & Ciência da Gramática Gerativa.


In: Gabriel Ávila Othero & Eduardo Knedy. (Org.). Chomsky: A reinvenção da
Linguagem. 1ed.São Paulo: Contexto, 2019, v. , p. 11-26.

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