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Quando eu era pequena e meu pai queria reforçar algum comportamento de coragem e enfrentamento de situações difíceis,

costumava dizer: "Seja homem, minha filha!" Evidentemente, isso era dito em tom de brincadeira, acentuando a contradição entre o
masculino e o feminino. Mas, na verdade, ele queria dizer que o homem (enquanto ser humano em geral) deve ser capaz de enfrentar as
dificuldades apesar do medo; ou, ainda, que, embora na sociedade machista o papel da coragem seja reservado aos homens (sexo
masculino), eu também deveria ser forte, mesmo sendo mulher. Assim, ao mesmo tempo que meu pai se referia a um atributo louvável do
ser humano, criticava as concepções de feminilidade que de certa forma desculpam e reforçam a "fraqueza" da mulher.
Se observarem com atenção, irão constatar que várias vezes por dia colocamos questões como essas que, no
fundo, no fundo, partem da pergunta fundamental: o que é o homem? Embora não seja formulada de maneira tão
explícita, essa questão se encontra subjacente na conversa diária. Vejamos alguns exemplos:
• "Aquele lá? Não é gente, mais parece um bicho!" (Isso supõe que eu saiba qual é a diferença entre homem
e animal.)
• "Essas coisas acontecem desde que o homem é homem!" (A natureza humana é imutável.)
• "O que seria de mim sem a graça de Deus?" (O ser do homem é explicado pelo divino, e o homem não é
nada sem a fé.)
• "Eu uso a cabeça e não me deixo arrastar pelas paixões." (O homem é um ser racional, e as paixões são
fraquezas.)
• "De que adianta o trabalho se não houver futebol e carnaval?" (O homem é um ser de desejo, e o prazer é
fundamental no mundo humano.)
• "Não adianta lutar contra o destino. O que tem de ser, será." (O homem não é livre, mas predestinado.)
• "A ocasião faz o ladrão." (A natureza humana é má.)
A lista poderia não ter fim, pois há diversas situações de vida que exigem reflexão e retomada de valores.
Por exemplo, a perda de emprego, o rompimento de laços de amizade ou de amor, o enfrentamento de risco de vi-
da ou a morte de um conhecido, a comemoração de uma data especial (18 anos de vida, ou 40 anos...). Em todos
esses momentos é feito um balanço do já vivido que leva à reafirmação de alguns valores, ou, dependendo do caso,
a uma mudança radical na forma de pensar e agir.
Natureza e cultura
Os animais vivem em harmonia com sua própria natureza. Isso significa que todo animal age de acordo com
as características da sua espécie quando, por exemplo, se acasala, protege a cria, caça e se defende. Os instintos
animais são regidos por leis biológicas, de modo que podemos prever as reações típicas de cada espécie. A etologia se
ocupa do estudo comparado do comportamento dos animais, indicando a regularidade desse comportamento.
É evidente que existem grandes diferenças entre os animais conforme seu lugar na escala zoológica:
enquanto um inseto como a abelha constrói a colméia e prepara o mel segundo padrões rígidos típicos das ações
instintivas, um mamífero, que é um animal superior, age também por instinto mas desenvolve outros
comportamentos mais flexíveis, e portanto menos previsíveis.
Diante de situações problemáticas, os animais superiores são capazes de encontrar soluções criativas porque
fazem uso da inteligência. Se um macaco está mobilizado pelo instinto da fome, ao encontrar a fruta fora do alcance
enfrenta uma situação problemática, que só pode ser resolvida com a capacidade de se adaptar às novidades
mediante recursos de improvisação. Também o cachorro faz uso da inteligência quando aprende a obedecer ordens
do seu dono e enfrenta desafios para realizar certas tarefas, como, por exemplo, buscar a presa em uma caçada.
No entanto, a inteligência animal é concreta, porque, de certa maneira, acha-se presa à experiência vivida. Por
exemplo, se o macaco utilizar um bambu para alcançar a fruta, mesmo assim não existirá esforço de aperfeiçoamen-
to que se assemelhe ao processo cultural humano.
Recentemente, pesquisas realizadas no campo da etologia têm mostrado que alguns tipos de chimpanzés
conseguem fazer utensílios, e criam complexas organizações sociais baseadas em formas elaboradas de
comunicação. As conclusões dessas pesquisas tendem a atenuar a excessiva rigidez das antigas concepções sobre a
distinção entre instinto e inteligência e entre inteligência animal e humana. Mas essas habilidades não levam os
animais superiores a ultrapassar o mundo natural, caminho esse exclusivo da aventura humana. Só o homem é
transformador da natureza, e o resultado dessa transformação se chama cultura.
Eis aí a diferença fundamental entre o homem e os animais. Mas, para produzir cultura, o homem precisa da
linguagem simbólica. Os símbolos são invenções humanas por meio das quais o homem pode lidar abstratamente com
o mundo que o cerca. Depois de criados, entretanto, eles devem ser aceitos por todo o grupo e se tomam a conven-
ção que permite o diálogo e o entendimento do discurso do outro.
Os símbolos permitem o distanciamento do mundo concreto e a elaboração de idéias abstratas: com o signo
"casa", por exemplo, designamos não só determinada casa, mas qualquer casa. Além disso, com a linguagem simbólica
o homem não está apenas presente no mundo, mas é capaz de representá-lo: isto é, o homem torna presente aquilo que
está ausente. A linguagem introduz o homem no tempo, porque permite que ele relembre o passado e antecipe o fu-
turo pelo pensamento. Ao fazer uso da linguagem simbólica, o homem torna possível o desenvolvimento da técnica
e, portanto, do trabalho humano, enquanto forma sempre renovada de intervenção na natureza. Ao reproduzir as
técnicas já utilizadas pelos ancestrais e ao inventar outras novas — lembrando o passado e projetando o futuro -o
homem trabalha.
Chamamos trabalho humano a ação dirigida por finalidades conscientes e pela qual o homem se torna capaz
de transformar a realidade em que vive.
Tornar-se homem
O homem não nasce homem, pois precisa da educação para se humanizar. Muitos são os exemplos dados por
antropólogos e psicólogos a respeito de crianças que, ao crescerem longe do contato com seus semelhantes, perma-
neceram como se fossem animais.
Na Alemanha, no século passado, foi encontrado um rapaz que crescera absolutamente isolado de todos.
Kaspar Hauser, como ficou conhecido, permaneceu escondido por razões não esclarecidas. Como ninguém o
ensinara a falar, só se tornou propriamente humano quando sua educação teve início. Nessa ocasião ficou
constatado que possuía inteligência excepcional, até então obscurecida pelo abandono a que fora relegado.
O caso da americana Helen Keller é similar, embora as circunstâncias sejam diferentes. Nascida cega, surda
e muda, mesmo vivendo entre seus familiares a menina permaneceu afastada do mundo humano até os sete anos de
idade, quando a professora Anne Sullivan lhe tornou possível a compreensão dos símbolos, introduzindo-a no
mundo propriamente humano.
Esses casos extremos servem para ilustrar o processo comum pelo qual cada criança recebe a tradição
cultural, sempre mediada pelos outros homens, com os quais aprende os símbolos e torna-se capaz de agir e
compreender a própria experiência.
A linguagem simbólica e o trabalho constituem, assim, os parâmetros mais importantes para distinguir o
homem dos animais. Vamos, então, reforçar algumas características desse "estar no mundo" tão típico do ser
humano.
Não se pode dizer que o homem tem instintos como os dos animais, pois a consciência que tem de si
próprio o orienta, por exemplo, para o controle da sexualidade e da agressividade, submetidas de início a normas e
sanções da coletividade e posteriormente assumidas pelo próprio indivíduo. O homem foi "expulso do paraíso" a
partir do momento em que deixou de se instalar na natureza da mesma forma que os animais ou as coisas.
Assim, o comportamento humano passa a ser avaliado pela ética, pela estética, pela religião ou pelo mito.
Isso significa que os atos referentes à vida humana são avaliados como bons ou maus, belos ou não, pecaminosos
ou abençoados por Deus, e assim por diante.
Essa análise é válida para qualquer outra ação humana: andar, dormir, alimentar-se não são atividades
puramente naturais, pois estão marcadas pelas soluções dadas pela cultura e, posteriormente, pela crítica que o
homem faz à cultura.
Ao definir o trabalho humano, assinalamos um binômio inseparável: o pensar e o agir. Toda ação humana
procede do pensamento, e todo pensamento é construído a partir da ação. A capacidade de alterar a natureza por
meio da ação consciente torna a situação humana muito específica, por estar marcada pela ambigüidade e

antigas e ultrapassadas para instalar novas normas, mais adequadas às necessidades humanas diante dos problemas
colocados pelo existir. A capacidade inventiva do homem tende a desalojá-lo do "já feito", em busca daquilo que
"ainda não é". Portanto, o homem é um ser da ambigüidade em constante busca de si mesmo.
E é por isso que o homem é também um ser histórico, capaz de compreender o passado e projetar o futuro.
Saber aliar tradição e mudança, continuidade e ruptura, interdição e transgressão é um desafio constante na
construção de uma sociedade sadia.
Concepções de homem
A questão antropológica — o que é o homem? — é a primeira que se coloca em qualquer situação vivida pelo
homem. Quando dizemos que se trata de uma questão primeira, não nos referimos à prioridade histórica, pois nem
sempre esse questionamento ocorre de fato. Por exemplo, nas sociedades tradicionalistas, como a China e o Egito
da Antigüidade, ou ainda nas tribos primitivas, a indagação sobre o que é o homem não chega a ser problemática, já
que a tradição define os modelos de idéias e condutas que serão transmitidos pelos depositários do saber, tais como
o sacerdote, o escriba e o mandarim.
Consideramos a prioridade da questão antropológica no sentido filosófico de princípio, fundamento, ou seja, ao
examinar a fundo qualquer teoria ou atividade humana, sempre podemos descobrir a idéia de homem a ela subjacente.
Assim, na longa caminhada da humanidade, o homem fez de si próprio as mais diversas representações, de-
pendendo das situações e dificuldades enfrentadas na luta pela sobrevivência e na tentativa de explicar o mundo que
o cerca. Mesmo que não esteja claramente explícito, há um conceito de homem subjacente em cada comporta-
mento. Certamente, o conceito do que é ser homem varia em cada cultura, conforme seja considerado o cidadão da
pólis grega, ou o nobre medieval, ou o índio, ou o indivíduo das megalópoles modernas.
Antropologia (gr. anthropos: homem, e logos: teoria, ciência): a) antropologia científica: ciência humana que
estuda as diferentes culturas quanto aos mais diversos aspectos (relações familiares, estruturas de poder, costumes,
tradições, linguagem etc.); engloba a etnografia e a etnologia, b) Antropologia filosófica: questionamento filosófico a
respeito do que é o homem; investigação a propósito do conceito que o homem faz de si próprio.
Mas, quando a cultura sofre crises, como a ruptura de antigas certezas, surge o questionamento, e o homem
busca novas representações de si mesmo. Foi o que aconteceu, por exemplo, na Grécia, onde o desenvolvimento da
reflexão filosófica se deu após uma série de transformações as mais diversas, tais como a formação das cidades e o
desenvolvimento do comércio. A busca, resultante da incerteza, se expressa bem nas máximas de Sócrates "Só sei
que nada sei" e "Conhece-te a ti mesmo", que, em última análise, representam o projeto da razão nascente de
estabelecer critérios não-religiosos para a compreensão do homem.
As transformações das técnicas e das ciências também contribuem para modificar as representações que o
homem faz de si mesmo. Basta citar o que significou o advento da escrita, da imprensa ou, no nosso século, o
desenvolvimento dos meios de comunicação de massa. Não constitui exagero, por exemplo, refletir sobre o
impacto causado pela teoria heliocêntrica de Copérnico, que, no século XVI, rompeu com a crença de que a Terra
ocupava o lugar privilegiado de centro do Universo.
Assim como podemos compreender as diversas concepções de homem a partir das mudanças ocorridas nas
formas do existir humano, também é importante entender como, por sua vez, as concepções de homem
influenciam outras teorias. A ação política, a ação pedagógica, a ação moral, entre outras, assumem características
diferentes conforme tenham por pressuposto uma ou outra concepção de homem.
Por exemplo, se partirmos da concepção de que as paixões são distúrbios, perturbações da alma, exigiremos
normas de comportamento diferentes daquelas estabelecidas a partir de teorias que concebem as paixões como
forças vitais a serviço da humanização. Por isso são tão opostas as concepções estóico-cristãs de ética — que se
identificam com o primeiro exemplo — e a filosofia de Nietzsche, que justamente critica essa forma de pensar e a
prática dela decorrente.
Existe uma natureza humana universal?
É possível admitir que existe uma natureza humana universal, idêntica na sua essência em todos os tempos e
lugares, explicando-se as diferenças como simples acidentes ou desvios a serem corrigidos?
Se respondemos pela afirmativa — e é isso o que ocorre em grande parte das teorias filosóficas desde a
Antigüidade até nossos dias — estamos diante da concepção metafísica da natureza humana.
A tradição ocidental
Para Platão, a verdadeira realidade se encontra no mundo das Idéias, lugar da essência imutável de todas as
coisas, dos verdadeiros modelos ou arquétipos. Todos os seres, inclusive o homem, são apenas cópias imperfeitas de
tais realidades eternas e se aperfeiçoam à medida que se aproximam do modelo ideal.
Para Aristóteles, o ser é constituído de matéria e forma, e as transformações são explicadas pelo argumento
de que todo ser tende a tornar atual a forma que tem em potência. Por exemplo, a semente quando enterrada tende a
se transformar no carvalho que era em potência. Transposta essa idéia para o homem, conclui-se que também os
seres humanos têm formas em potência a serem atualizadas, ou seja, têm uma natureza essencial que se realiza aos
poucos, em direção ao pleno desenvolvimento. E, tanto para Platão como para Aristóteles, a plenitude humana
coincide com o aperfeiçoamento da razão. Até hoje seguem essa tendência os que definem a educação como sendo
o desenvolvimento das "potencialidades do indivíduo", o que supõe a aceitação da existência de um modelo
abstrato de homem a ser alcançado. Chamamos essencialista ao tipo de pedagogia que coloca como função da
educação realizar o que o homem deve vir-a-ser.
Critica às concepções essencialistas
A concepção essencialista da natureza humana percorre toda a tradição filosófica do mundo ocidental, com
algumas tentativas esparsas de crítica à concepção abstrata de modelo.
No século XIX, Marx rejeita explicitamente a concepção de uma natureza humana universal. Para ele, os
homens são seres práticos e se definem pela produção e pelo trabalho coletivo, o que significa que não há, de um
lado, a essência e, de outro, a existência humana, nem homens isolados e dotados de uma essência comum a todos
os outros. Os homens, reunidos na esfera das relações sociais, criam valores e definem objetivos de vida a partir dos
desafios encontrados na atividade produtora da sua existência. Portanto, são as condições econômicas que definem
os modelos sociais em determinadas circunstâncias. É nesse sentido que Marx critica o caráter a-histórico e abstrato
das concepções metafísicas, recusando-se a definir o que o homem é "em si" abstratamente, a fim de compreendê-
lo como homem real em determinado contexto histórico-social.
Mais vozes, ainda no século XIX, se ergueram contra a concepção tradicional. Kierkegaard, Stirner,
Nietzsche propõem reflexões sobre a concretude da vida humana na realidade cotidiana. Tem igual propósito a
fenomenologia, corrente filosófica fundada por Husserl e cujos principais seguidores, no século XX, são Max
Scheler, Heidegger, Sartre, Merleau-Ponty, entre outros.
Para Sartre, principal representante do existencialismo francês, só as coisas e os animais são "em si". O
homem, sendo consciente, é um "ser-para-si", aberto à possibilidade de construir ele próprio sua existência. Por
isso, é possível falar da essência de uma mesa (aquilo que faz com que uma mesa seja mesa) ou da essência do
animal (afinal, todos os leões têm as características próprias de sua espécie), mas não se pode falar de uma natureza
humana encontrada igualmente em todos os homens, pois "o homem não é mais que o que ele faz".
Os textos de leitura complementar ilustram alguns aspectos abordados no capítulo. Sugerimos consultá-los.

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