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HIPNOSE

A pesquisa mais recente que temos coloca o marco inicial da história da


hipnose na Região da Mesopotâmia a 3500 anos A.C, onde na Caldéia, já
existem relatos de curas pela fixação do olhar. Uma outra aparição remota da
hipnose é no Egito, onde existiam os templos do sono e foram identificadas
utilizações dos estados de transe para anestesia. Nesses templos, as doenças
eram tratadas após o paciente ser submetido à hipnose. Teoria comprovada
por obras arqueológicas como vasos de cerâmica, onde aparecem figuras de
médicos fazendo intervenções cirúrgicas. Na antiga Grécia, os enfermos
também eram postos a dormir e despertavam curados. Lá, a população em
geral participava de cultos religiosos onde iam aos templos do sono e, após
entrarem em transe, ouviam os sermões dos sacerdotes do respectivo deus
desse templo. Após o procedimento, os enfermos retornavam às suas
atividades gozando de plena saúde e alegria. As impressões da utilização de
técnicas hipnóticas aparecem nos estudos das vastas documentações
históricas sobre a China, Índia e Pérsia, onde também não restam dúvidas
sobre o fato daqueles povos manipularem empiricamente técnicas hipnóticas.
Os seguidores do Mesmerismo
O médico alemão Franz Mesmer pavimentou o caminho da hipnose ao
submeter seus pacientes a sessões experimentais exaustivas. O “magnetismo”,
sua teoria sobre um suposto fluido universal capaz de influenciar a saúde, fez
médicos europeus do século 19 olharem com atenção para os transes
curativos. Esse homem, tão amado e tão odiado, fez escola e teve seguidores.
Um novo caminho estava aberto na história: o magnetismo prosseguiu nas
mãos de nomes com Puysegur, Petetin, Du Potet, Deleuze, Bertrano, Cloquet e
Abade Faria. Este último, desempenhou um papel importantíssimo pelo fato de
ser um dos primeiros e voltar a sua atenção para a importância do pensamento
e da imaginação do paciente. Ele foi o precursor da utilização da sugestão
verbal, enquanto todos os demais defendiam a hipótese do fluido, negando a
intervenção do pensamento. A figura do Abade Faria causou tamanha
impressão de que Egas Moniz, professor da Universidade de Lisboa,
neurocirurgião, prêmio Nobel de Medicina, escreveu um livro sobre ele com
finalidade de fazer justiça a um genial investigador ignorado por uns e
esquecido por outros. Um outro personagem importante para a evolução da
hipnose foi o grande magnetizador Charles Lafontaine que fazia
demonstrações públicas, causando grande impacto e publicou um artigo
chamado “Art de Magnétiser”, onde condensava suas teorias, seus princípios e
ensinava suas técnicas. Ele ficou conhecido por esta revista e hoje em dia é
considerado o precursor das técnicas de apresentação de palco. Mas se
engana quem pensa que a importância dele se deve a esse fato. O seu
episódio com James Baid, o defensor da sugestão e por muitos considerado o
pai da Hipnose, talvez seja um pouco mais relevante para nós atualmente.
De um ponto de vista epistemológico, Puysegur (1784/1785) assumia uma
postura distinta da racionalidade científica moderna, na qual o homem se opõe
e tenta controlar a natureza, ele a concebia como sábia e como parte
integrante do espírito humano, embora nem sempre fosse acessível a seus
conhecimentos e atenções ordinárias. Ele preconizava, à moda dos
renascentistas, que o terapeuta não deveria se opor à natureza, mas aliar-se a
ela através de uma rígida postura moral e do cultivo dos bons sentimentos. A
relação magnética seria uma forma de promover o acesso a tal natureza
intrínseca ao ser humano de maneira que os sonâmbulos artificiais seriam, na
sua perspectiva, uma forma patente pela qual essa natureza se revelava e
demonstrava seu poderio, principalmente em termos terapêuticos. No estado
de transe sonambúlico, induzidos por meio de passes magnéticos, o sujeito
apresentava conhecimentos e percepções muito além de suas habilidades
comuns que eram habilmente utilizados a favor do processo de cura dos
sujeitos como de outras pessoas. Assim, o contexto voltado para a cura de
doenças orgânicas era marcado por algumas noções chave, a começar pela
postura do terapeuta que deveria possuir forte vontade de fazer o bem, ser
acolhedor, humanitário e ético para que a natureza se lhe tornasse uma aliada.
Daí o terapeuta desenvolvia uma relação magnética com seu paciente por meio
do qual ele poderia romper parcialmente com os limites da alteridade (isto é,
penetrar na subjetividade do outro) e desencadear os processos terapêuticos
oferecidos pela natureza. Tal relação promoveria um vínculo profundo no qual
a figura do terapeuta era revestida de grande admiração e afetividade e sua
palavra ganhava um impacto mais profundo e intenso do que o de outras
pessoas. Contudo, curiosamente, era essa mesma relação que produzia a
autonomia dos sujeitos na qual acabavam acessando em si mesmos os
recursos disponíveis pela natureza que, em condições normais, seriam
inacessíveis e até desconhecidos. A experiência sonambúlica acima
mencionada seria uma expressão radical desse processo de encontro consigo
mesmo, isto é, com a natureza. Não raro, porém, o gênio de Puysegur se
utilizava dos sonâmbulos para intervir no processo terapêutico de outros
pacientes, como se aqueles que estivessem em condições de se conectar com
essa natureza pudessem também facilitar o mesmo processo em outras
pessoas. Portanto, o tratamento eficaz das doenças dependia de um fluido que
possuía um status pretensamente físico, mas era mobilizado por processos
subjetivos, como a qualidade emocional de relação, a firme vontade e os
valores morais do terapeuta. Nesse processo, o tratamento da dor por meio do
magnetismo animal acabou ganhando destaque não só pela nova visão que
promovia, como pela espantosa eficiência que apresentava.
O Nascimento da Hipnose Karlsplatz Cathedral in Vienna, Austria. Em
novembro de 1841, 70 anos depois da apresentação de Mesmer em Viena, o
médico-cirurgião James Braid foi a uma sessão de Lafontaine, para
desmascará-lo. Contudo, ficou impressionado, porque não havia nada que
identificasse a fenomenologia do Mesmerismo como falsa. Concluindo então
que haveria a possibilidade de só a teoria ser enganosa. A partir daí, Braid
começou a desenvolver sua própria técnica. Assim, em 1842, publicou um
trabalho mostrando os erros de Mesmer e iniciando um novo período. Segundo
James Braid, não existia fluido algum e qualquer manobra que cansasse o
sistema nervoso (ele usava a fixação do olhar) produziria um estado que traz
uma perturbação, pela fixidez de atenção que requiriria muita energia do
sistema nervoso associada com o repouso físico. O resto das reações
dependeria da impressionabilidade do paciente. Essa teoria, passava então a
defender que os fenômenos do Mesmerismo eram reais; só que a causa deles
que não era, de modo algum, magnética ou vinda das estrelas. Para provar
isso, fez experiências com diferentes pessoas, onde conseguiu obter os
mesmos fenômenos, sem os procedimentos magnéticos habituais.
O Neuro-hipnotismo
Após a apresentação, Braid abole o vocábulo proveniente do magnetismo. E
substitui-o por neuro-hipnotismo, passando depois para apenas hipnotismo. Já
quase no fim de sua carreira, ele descarta parte do método do cansaço visual e
da fascinação, pois descobre que pode hipnotizar cegos ou pessoas em
lugares de baixa visibilidade. Situação que deu importância à sugestão verbal.
Logo após essa descoberta, ele também não tardou em descobrir que o sono
não era necessário para produzir os fenômenos hipnóticos como a anestesia, a
amnésia, a catalepsia e alucinações sensoriais. Mas quando Braid identificou
que hipnose não era sono, a palavra hipnotismo já estava disseminada. Certo
ou errado, esse é o nome que vigora até os nossos dias. Depois desse trabalho
de James Braid, o assunto se difunde por toda a Europa, tendo os seus polos
na França e Inglaterra. O pai da Hipnose faleceu subitamente no dia 25 de
março de 1858 deixando uma profunda modificação no que diz respeito à
produção e interpretação dos fenômenos hipnóticos.
Durante muitos anos, a hipnose foi esquecida e mal interpretada por não se
compreender na época a natureza e dinâmica dos seus fenômenos. Ela foi
resgatada na França por duas importantes escolas de pensamento que
possuíam visões muito distintas sob o fenômeno da hipnose: a escola de
Salpêtrière, liderada por Jean-Martin Charcot e a escola de Nancy, comandada
por Auguste A. Liébault e Hippolyte Bernheim. A escola de Salpêtrière tinha
como líder Charcot, o neurologista mais importante e conceituado da época,
ele estava estudando os estados hipnóticos para tratamento de pacientes
histéricos. Em um trabalho apresentado em 1882, na Academia Francesa de
Ciências, Charcot considerou a hipnose como um estado patológico de
dissociação, comparando o transe ao processo histérico e a anormalidades no
sistema nervoso.
A relação entre hipnose e doença obteve grande aceitação no meio científico,
vindo a influenciar, segundo este ponto de vista, teóricos como Freud.
No século XX, surgiria um novo método para analisar a mente humana: a
Psicanálise. O seu criador Sigmund Freud, que inicialmente usava a hipnose
em suas teorias, abandonou-a nos últimos anos do século XIX para dedicar-se
somente à Psicanálise e este acontecimento tem gerado um mal-entendido até
os dias de hoje. Muita gente tem a impressão de que, após a Psicanálise, a
Hipnose tenha ficado obsoleta, ou seja irrelevante, tendo em vista que o próprio
“deus” Freud desistiu dela, mas, na verdade, ele utilizou a hipnose como base
apenas para provar que conteúdos podem ser armazenados em um local da
mente, o inconsciente, e que este inconsciente pode ser manipulado.
Começando a se dedicar a maneiras de tornar conscientes os conteúdos
inconscientes que causavam os sintomas. Nos primeiros anos do novo século,
Freud tornou-se o centro das discussões. É que a Psicanálise, rompendo
aquele aglomerado de teorias organicistas, surgia como uma nova esperança
na solução de problemas atribuídos às doenças cerebrais. O Hipnotismo
despertava medo e desconfiança, ao contrário da Psicanálise, onde o cliente só
precisaria deitar-se num divã e associar ideias, contar coisas, lembrar de
acontecimentos passados e dos sonhos que teve durante a semana. Ao lado
disso, o professor vienense não criara apenas um método psicoterápico, mas
algo muito mais amplo, de caráter doutrinário e revolucionário para a época. O
método terapêutico era apenas uma faceta da nova doutrina. Hoje, 70 anos
após a morte de Freud, uma visão retrospectiva dos diferentes acontecimentos
políticos, religiosos, científicos, artísticos e culturais nos mostra claramente a
influência às vezes direta, às vezes sutil da Psicanálise.
Na primeira Guerra Mundial, a hipnose é reativada prestando serviços
inestimáveis à Psiquiatria de Guerra pela maior objetividade no tratamento de
neuróticos que, necessitando de um resultado mais rápido que os oferecidos
pela psicanálise, conduziam seus tratamentos através de sugestões. Esse fato
é demonstrado na autobiografia de Freud, quando ele diz que, no exército
alemão, a hipnose foi utilizada com êxito satisfatório para a produção de um
processo catártico abreviado. Ligado a essa linha, temos o Locutor de Rádio
Dave Elman. Um dos aspectos mais importantes do seu legado foi o método de
indução, que originalmente foi construído para realizar a hipnose de um modo
rápido e depois adaptada para o uso de profissionais médicos. Os seus
discípulos rotineiramente obtinham estados hipnóticos adequados para
procedimentos médicos ou cirúrgicos em menos de três minutos. Há
novamente um período de retração da hipnose científica, que ressurge na
segunda Guerra Mundial. Nos fins da década de 30 e começo da década de
40, as atividades hipnologias se mostram em pleno vigor. O número de
publicações é imenso; o número de conclaves científicos, também. Nas
principais partes do mundo, há interesse crescente pelo assunto, e nomes
como o de Erickson surgem.
Milton Erickson psiquiatra norte-americano, especializado em terapia familiar e
hipnose. Fundou a American Society of Clinical Hypnosis e foi um dos
hipnoterapeutas mais influentes no pós-guerra. Ele publicou vários livros e
artigos científicos na área. Erickson e a hipnose naturalista, a proposta de
hipnose de Milton H. Erickson trouxe contribuições de grande relevância para o
tratamento psicoterápico da dor, apesar de suas perspectivas resultarem em
numerosas rupturas com o projeto moderno de ciência. Nesse sentido, ao invés
de ceder à tendência comum de sua época, Erickson concebeu uma forma de
tratamento a-teórica, posto que nunca demonstrou interesse ou preocupação
em desenvolver uma teoria para explicar a psique humana. Sua perspectiva
era a de valorização da singularidade dos sujeitos que, devido a suas
complexidades e processos únicos, não poderiam ser restritos a uma estrutura
geral de pensamento, como as teorias. Portanto, diante de um paciente que
apresentasse demandas ligadas a dores físicas, Erickson colocava-se atento a
seus aspectos singulares como também trazia importantes noções que
deveriam perpassar de forma pragmática a relação terapêutica, o que o
aproximou do pensamento de William James (1987). Em síntese, é possível
considerar que Erickson manteve uma continuidade com relação a seus
antecessores do magnetismo e da hipnose, mas também implementou uma
série de inovações de grande relevância para o estudo da dor. Mesmo sem
desenvolver uma teoria, seu trabalho reconheceu uma série de processos
subjetivos ligados à experiência de dor, até então pouco explorados na
hipnose, que se relacionavam à construção de sentido, a emoções e história de
vida do sujeito, suas tramas e acontecimentos sociais. Nesse sentido, o papel
do terapeuta não se restringiu a uma visão reducionista sugestão-cérebro, mas
à construção de uma linguagem que integrasse tais processos e, ao mesmo
tempo, oferecesse aos sujeitos possibilidades de mudança.
Na década de 50, muitas sociedades de hipnologia foram fundadas na Europa,
em diversos países da América e no Japão. Participaram das mesmas somente
médicos, dentistas, psicólogos e, em alguns países, pessoas da área de
Filosofia. A oficialização da hipnologia dentro das ciências médicas nas
Américas, se deu com a criação da Seção de Hipnose Clínica em 1960

REFERÊNCIAS
https://hipnoseinstitute.org/a-historia-completa-da-hipnose/
https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-
294X2009000200003&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt

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