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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

SOB A LUZ DO SOL


PRÓLOGO

Foi rapidamente que decidi ser a minha hora. Eu estava cansada...


simplesmente cansada de tentar fugir daquilo que eu realmente era.
— Não me esconderei mais. – Foi o veredicto, tão logo pude me
dirigir a Rudolph.
— Não tens opção. – Rudolph disse, saboreando o líquido
avermelhado dentro de uma taça. – Ah, isso é quase tão bom quanto
deveria ser.
— Rudolph... – caminhei até ele, olhar aflito. – parece que não me
leva a sério. Mas falo sério. Vou embora...
— Embora para onde? Pretende sair ao sol, ir à terra, entre eles? O
que sabe deles, Beatrice? O que sabe deles que te faça acreditar que
poderá estar entre eles?
— Eu não sei nada, talvez seja essa minha inquietação.
Rudolph franziu o cenho, e deixou de lado a taça de odor nauseante.
Eu o encarava, tentando entender onde encontrei coragem suficiente
para desafiá-lo. Se aquele meu arrobo adolescente pudesse ser
considerado desafio.
— Beatrice... não há nada neles que precise conhecer ou saber; nada
deles é interessante. São mortais... eles envelhecem, engordam,
alimentam-se...
— Também nos alimentamos. – Corrigi.
— É diferente, muito. Eles produzem dejetos... têm cheiros muito,
mas muito confusos para nossas narinas sensíveis... eles são
desagradáveis.
— Vivemos sob a terra. Não seríamos também desagradáveis a eles?
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— E se eles desejarem matar-te? – Rudolph jogou-me uma isca.


— Podem matar-me? – Não me deixaria fisgar tão facilmente.
— Podem tentar. Podem descobrir fraquezas... mas pode ser pior... e
se desejar matar-lhes?
— Vou desejar... não vou? Afinal, nossa alimentação não é baseada
exclusivamente em...
— Sim, é. – Rudolph não me deixou falar a palavra. – Mas estás
mesmo pronta para... matar, Beatrice? Conseguiria conviver com a
morte de um humano em seus braços?
— Não desejo matar-lhes. Sei reprimir o instinto.
Rudolph soltou uma gargalhada. Pegou novamente a taça sobre a
mesa, e aproximou-a de mim. O odor era desagradável, sim. O líquido
viscoso não parecia saboroso, e ele sabia disso.
— Consegue bebê-lo? – Ele desafiou.
— Sim, se desejar. Alimento-me disso.
— Conseguiria resistir se ao invés deste cheiro fétido tivesse em sua
frente o mais refinado dos banquetes? Preferiria a taça morna de
sangue desconhecido à veia pulsante e viva de cheiro esfuziante?
Mantive-me muda, então. Rudolph riu novamente, e bebeu todo o
conteúdo da taça, deixando o salão. Ele era irritantemente sábio.
Sempre certo, sempre conhecedor demais de tudo que eu
desconhecia. Mas eu já havia tomado minha decisão. Eu iria para o
meio deles, mesmo que isso significasse algo ruim. Não passaria o
meu “para sempre” ali, solitária. Eu queria mais, mesmo que mais
significasse... menos.

CAPÍTULO 01 – VAGANDO

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Saí do covil sem que eles me vissem. Não queria que os meus me
condenassem sob minhas vistas. Não queria que eles me criticassem
durante minha incursão ao mundo deles. Ok, isso ficou confuso, não
acham? Eles, deles... bem, os meus raramente nomeavam aqueles que
viviam sob a luz do sol, e que tinham o sangue quente. Eles têm
nome, humanos. Mas os meus não os nomeiam... porque foram eles
que nos expulsaram de lá. Lá, a terra... o ar, a luz do sol. Fomos
confinados a viver sob a terra, porque eles, os humanos, não nos
queriam lá. Lá, na superfície.

Mas eu saí do covil, fugindo. Eu levava algumas roupas em uma


pequena maleta. Quase corri, arrastando o vestido. Ao me aproximar
da saída, a luz cegou meus olhos. A luz que eu nunca vi... bem, eu vi.
Mas não me lembrava de ter visto. Eu tinha poucas memórias de
quando era somente humana, e depois que me transformei e fui
abrigada por Rudolph, eu nunca mais saí do covil. Não via a luz do
sol, não me recordava dela, e tive medo que ela me fizesse mal.

Mas ela não fez. Meus olhos se retraíram ao primeiro contato com a
luz amarelada e pálida do astro solar, e minha pele pareceu arder um
pouco. Ardeu... olhei para cima, para frente, e eu estava em um local
totalmente claro, sem luz artificial, cercada de cores. Cores... eu
conhecia poucas cores. Sob a terra não se vê muitas cores, é tudo
basicamente marrom, vermelho, preto e branco. Algumas variações.
Eu mesma usava um vestido branco e vermelho. Era mais fácil
camuflar quando nos alimentávamos, o vermelho.

Então, o sol não me machucava. Interessante. Talvez eu tivesse


ouvido lendas demais, contadas por Felicia. Ela adorava contar

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lendas... e eu adorava ouvi-las. As mais interessantes eram sobre eles.


Os humanos. Como eram frágeis e ... Rudolph disse, não, ele
garantiu... que nada neles era interessante. Mas eu me recusava a
acreditar. A simples diferença nos fazia interessante.

Eu não tinha noção geográfica, e não sabia onde estava. Se é que isso
fazia alguma diferença; se eles tivessem divisões e demarcações. Eu
não sabia. Olhei em volta novamente, tentando situar-me. Havia
verde... eu não me recordava de um verde daquela cor. Sob a terra o
verde é tão diferente... é escuro e viscoso, como o sangue que
bebíamos. Mas aquele verde era... vivo.

A palavra me veio à cabeça muito rapidamente. Vivo. O lado de fora


era vivo... sob o sol, as coisas viviam. Sob a terra, eu imaginava que
tudo era semi morto. As coisas não possuíam vida... não a vida que eu
imaginava que eles tinham. Pus-me a caminhar, lentamente, por
entre o verde. A mistura da luz amarela com o verde me deixava
confusa. Não conhecia a luz amarela... ou não me lembrava. Esfreguei
os olhos várias vezes, tentando mantê-los límpidos. Eu não sabia
onde estava, mas havia verde... e relva. A relva era verde.
Caminhava, arrastando a maleta e o vestido enorme, vitoriano, os
sapatos de salto de madeira já meio apodrecidos.

Pensei se os meus viriam atrás de mim. Se eles se importariam, ou se


achariam que desgracei a raça. Deveríamos se considerados uma
raça. Imediatamente imaginei se eu era diferente deles. Se eles me
olhariam e me reconheceriam. Se saberiam o que eu era. Se nossos
corpos eram diferentes, se alguma coisa física poderia nos
diferenciar. Talvez sim, eu nunca tinha visto um deles. Ou não me

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lembrava. Era sempre assim... eu dizia nunca, mas na verdade, eu não


me lembrava. Seria eu diferente? Uma aberração? Eu parecia um
monstro?

Foi então que tive medo, pela primeira vez sob a luz do sol. Eu ainda
caminhava, e o sol já deixava minha pele avermelhada. Eu era
branca, porque assim eram todos os meus. Muito branca... e o sol não
me machucava, mas minha pele estava vermelha e eu sentia que
ela... coçava. Eu precisava parar, porque já caminhava por algum
tempo. Eu não tinha a noção temporal deles... não fazia noção de
como eles contavam o tempo, porque sob a terra era sempre tudo
igual. Na verdade, não contávamos o tempo. Ele não passava,
mesmo... parávamos de envelhecer tão logo nos transformávamos, e
por isso o tempo jamais passava. Era sempre o mesmo... não
importava se era dia ou noite, porque não havia qualquer luz além da
artificial. Eu sequer tinha noção de dia e noite, porque só os como
Rudolph eram autorizados a sair, vez em quando.

Vagando, achei uma sombra. Lugar onde não havia sol... sob o verde.
Parei ali, o peito arfando. Nunca sentira nada daquilo... estava me
sentindo estranha. Não conhecia palavras para aquele sentimento.
Era um sentimento interessante, porque eu sentia a minha
respiração... eu estava inspirando ar... ar puro. Nosso ar era
canalizado. Nosso ar vinha de dutos que foram colocados por eles,
para não nos matarem. Eu imaginava que eles, apesar de tudo, não
fossem tão cruéis como Rudolph dizia. Afinal, eles não nos mataram.
Talvez, matar-nos não fosse tão fácil... talvez, não precisássemos de...
ar.

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Foi quando parei de respirar. Fiquei sem respirar por alguns


segundos... e ainda sentia a sensação. O barulho ambiente me irritava
um pouco. À sombra, continuei sem respirar. Nada mudou... só o
barulho que, lentamente, foi se exaurindo. Fechei os olhos, mas
ainda estava tudo tão claro. E eu não respirava. Oras, eu não
precisava de ar? Inspirei e soltei o ar pela boca, deixando que o
oxigênio me refrescasse o sangue. Senti algo bom... uma sensação de
alívio, e logo o ruído voltou. Então era assim? O ar parecia mais um
prazer do que um dever. Oras, Felicia não havia me contado nada
sobre essa... lenda.

Voltei a caminhar, sentindo minha pele menos quente. Eu era


sempre fria, sob a terra. Lá era tudo frio, menos o sangue que
bebíamos. O sangue era morno e fétido. Fora isso, tudo era frio e
úmido. A luz do sol me deixou quente e arfante. Sensações que eu
não conhecia. Não sei bem por quanto tempo vaguei... nem em que
velocidade vaguei... eu só sei que o sol se esvaiu em determinado
momento, dando espaço a uma escuridão pouco familiar. O céu
estava cintilado de pontos luminosos, e uma grande bola acinzentada
pairava no ar como se estivesse suspensa. Fiquei fascinada, por
alguns instantes, sem saber o que era.

Algo aconteceu, enquanto eu me maravilhava com o mundo por


sobre a terra. Caminhava de costas, adentrando cada vez mais no
verde que já não era verde, até que a bola iluminada desapareceu e
todos os pingentes de luz também. Grandes pedaços de verde escuro
enegrecido estavam cobrindo o céu, e eu me vi realmente por entre...
árvores. Eram árvores, pelo que eu podia saber. As grandes raízes
penetravam sob a terra, e várias vezes questionei o que eram. Felicia

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me disse que eram a fonte de oxigênio deles. Oras, eles dependiam


delas... das árvores. Por isso, tantas. Olhei par frente, e só vi as
árvores. Para onde iria? Eu não sabia. Continuei andando, até que
visualizei um animal.

— Você está pronta para matar, Beatrice?

A voz de Rudolph assombrou-me os ouvidos. Saltei para trás, meus


olhos perderam-se no vazio buscando sua face redonda. Nada. Era
apenas minha mente a me pregar peças. Olhei novamente o animal, e
ele não parecia se dar conta de mim. Olhei para minha mão, e meus
braços tinham pelos eriçados. Passei os dedos pelos lábios e senti o
pontiagudo de meus caninos. Estava com sede? Precisaria de muito
sangue para sobreviver sob o sol? Aquele que eu havia bebido no
covil não me manteria saudável por muito tempo, como eu estava
acostumada?

Encarei o animal, mas a sede não passou. Ele parecia mesmo não me
ver... e eu não sabia o que fazer. Eu não estava pronta para matar. De
repente, um outro animal pulou por sobre aquele, e o atacou.
Ferozmente jogou o primeiro no solo, e dilacerou sua carne.

— Conseguiria resistir se ao invés deste cheiro fétido tivesse em sua frente o


mais refinado dos banquetes? Preferiria a taça morna de sangue
desconhecido à veia pulsante e viva de cheiro esfuziante?

As palavras de Rudolph, outra vez. Então, aquele era o cheiro do


sangue fresco... ele penetrou em minhas narinas, e os pelos se
eriçaram ainda mais. Senti um sabor doce em minha boca antes
mesmo de provar qualquer coisa. Fechei os olhos... o animal
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continuava por sobre o menor, dilacerando partes de sua carne e


expondo uma quantidade considerável de... sangue.

Meus olhos se abriram e minha reação foi assustadora. Pulei sobre o


predador, afugentando-o. Ele ainda imaginou me enfrentar, mas eu
parecia mais forte. Tomei-lhe a caça, e encarei o animal morto.
Joguei-me por sobre a carcaça, abocanhando-a com ferocidade. O
sangue me inundou a boca, e o sabor era indescritível. Não havia
cheiro ruim ou viscosidade... era limpo, claro, não coagulado. Suguei
o animal até não restar vestígio de seu cheiro mais. Olhei em volta,
estava lavada de um vermelho claro que não parecia se misturar em
meu vestido. Olhei para o animal, e dei conta do que eu havia
acabado de fazer. Eu havia tomado sangue fresco. Talvez eu não fosse
capaz de resistir, então.

Lancei-me em uma corrida frenética, assustada comigo mesma e com


minha reação patética perante o animal morto que jorrava sangue.
Eu não entendia aquele comportamento. Corri, sem saber para onde,
sem saber se isso importava para eles, sem saber. Parei quando senti-
me novamente cansada... precisava dormir um pouco.

CAPÍTULO 02 – OS OUTROS

— Não sei como você pode perder o cervo. – Jasper reclamou. – Se


fosse um animal feroz, ainda entenderia... mas um cervo?
— Não gosto de caçar com você, Jasper. – Edward protestou. – Você é
muito chato.. Emmet não fica colocando defeitos em minhas
preferências.

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Os dois rapazes andavam pela mata. Eu não os via, nem ouvia. Eles
vinham em minha direção, sem saber. Eles tinham presas expostas, e
perseguiam algo pelo cheiro.

— Tenho sede. – Jasper vacilou, ao encontrar outro animal. – Bebo


qualquer coisa, ou terei vontade de beber você...

Ouvi ruídos. Grunhidos. Meus olhos estavam cerrados, mas meus


ouvidos atentos como antenas. Sempre foram atentos... sempre ouvi
muito bem. Aquele grunhido parecia de um animal. Um animal
muito grande... e outros ruídos me preencheram os ouvidos e eu
acordei plenamente. Abri os olhos, levantei as pálpebras
rapidamente, e assustei-me. Finquei os dedos na terra, encarando o
predador que me observava. Presas significativamente robustas...
olhos acobreados... ele me encarava, e seu olhar me assustou. Franzi
o cenho, pisquei algumas vezes, pensei em me levantar mas ele se
aproximou. Tanto que seu nariz colou em minha roupa suja. Ah sim...
eu estava suja. Do dia anterior. Eu achava, já que a noção de tempo
me era confusa.

O predador cheirou-me, e empertigou-se. Colocou-se nas duas


pernas, endireitou o jeans. Passou os dedos pelos cabelos e ofereceu-
me a mão para levantar. Olhei diretamente em seus olhos,
completamente aterrorizada. A forma era tão... ele parecia comigo.
Seria um deles? Não... eles não tinham presas. Eles não caçavam com
os dentes.

— Ora vejam... uma viajante. – Ele me sorriu, e eu só conseguia


encará-lo com curiosidade. Não tinha medo dele, então... não sabia o

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que ele era. E não sentia nenhuma vontade de bebê-lo, como senti
com aquele animal. Ou ele não era um deles... ou eu estaria segura no
meio deles. Ou ainda, eu estava saciada. – Edward Cullen. – Fez uma
reverência.
— Be... Beatrice Caldwell.

Ele então sorriu outra vez. O outro que o acompanhava chegou, e


pude notar... minhas narinas puderam notar o sangue em seus lábios
avermelhados.
— Edward é a sua vez... – Ele parou de falar ao me ver. – Humana? –
Ele imediatamente alarmou-se.
— Não... uma viajante. – Edward sorriu. Ele parecia só saber sorrir...
— Sabe que não sou humana? – Foi minha vez de alarmar-me. Puxei
minha mão, que ainda estava entre as suas, repentinamente.
— Não teria como errar... teria? – Edward pareceu confuso. – Apesar
de que... por um momento, cheguei a confundir-me.
— Ela tem um cheiro... – o outro falou.
— Apresente-se, mal educado.
— Jasper Cullen. – Outra reverência. – Então, vaga sozinha? Ou tem
família e está somente caçando?
— Não estou caçando! – O termo me causou desconforto. Eu não
caçava...
— E esse sangue todo aí é seu, então? – Uma risada. Os dois rapazes se
entreolharam. Eu me senti ridícula. Olhei para minhas roupas, e
estava mesmo preenchida de sangue. Havia sangue por toda a
extensão do vestido. E em meus cabelos longos.
— Eu... – Não tive palavras.

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— Tudo bem... você me parece confusa. Talvez o sangue estivesse


contaminado... pertence a algum clã? Precisa de ajuda para chegar
em casa? Você.. está meio que em nosso território.
— Eu não tenho para onde ir. – Olhei diretamente nos olhos de
Edward. Ele era muito... bonito. Mais do que os meus. Se ele não era
um deles, o que ele era? Arfei, puxando uma grande quantidade de ar
para meus pulmões. Seu aroma era doce, quase nauseante. Muito
doce... senti repulsa e ao mesmo tempo, meu estômago pulsou. – Eu...
o que são vocês?

Uma risada. Alta, daquela vez. Os dois novamente se olharam. E


pareciam divertir-se com minha estupidez.
— O que é você? – Jasper me fitou. Ele estava mais próximo. – Somos
vampiros, oras... você deve mesmo ter tomado sangue contaminado.
— Eu não sou um vampiro. – Balbuciei, olhos arregalados a encarar
os dois. Vampiros! Eles não deviam existir... ou deviam estar
exilados, como nós. Os vampiros... eles eram puros. Os puros eram os
mais perigosos. Felicia não falava neles. Rudolph não falava neles.
Todos temiam os puros. Mas... o que eles faziam andando ao ar livre?

E os dois me fitaram, então com muita curiosidade.


— O que é você, então? – Edward parecei cheirar-me novamente. –
Você... não cheira como humana.
— Sou um híbrido.

Outra risada, mais alta ainda. Os dois gargalhavam de mim, porque


minha frase pareceu um absurdo completo.
— Híbridos não existem! – Edward ria.
— São uma lenda! – Jasper segurava o estômago.

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— Não são! – Protestei. Afastei-me dos dois, talvez com medo, talvez
com ansiedade. – Não somos lenda... eu sou um híbrido.
— Híbridos não existem. – Edward então aproximou-se, segurando
minha mão. – Você está muito confusa, acho que devemos levá-la
para nossa casa.
— Ficou doido? – Jasper pareceu não concordar com o outro.
— Carlisle não vai ligar... ele vai até gostar. Não recebemos muitas
visitas.. e ela é uma de nós, não temos que nos preocupar com a
exposição. Talvez ele possa tratar dela... e ela deve tomar um banho.
Daqui a pouco outros predadores com menos consciência vão atrás
dela.
— Se ela é um de nós, não precisamos nos preocupar.

Edward puxou minha mão, sorrindo para mim. Ele sorria


lindamente... cheguei a pensar que era mesmo um macho. E eu, uma
fêmea. Mas não, não éramos da mesma espécie. Vampiros.. não
conhecia nenhum. Jurava que eles não existiam. Que eles haviam
sido banidos. Deveria temê-los? Aqueles pareciam tão inofensivos...
decidi então segui-los, afinal eu não sabia para onde ir mesmo. Eu
não tinha para onde ir.

— Espere. – Edward parou, pouco depois de iniciarmos nossa


caminhada. – Ainda não me alimentei.
— Vá fazê-lo, então. – Jasper pareceu entediado. – E não demore.

Edward desapareceu, uma velocidade excruciante. Assustei-me, e


Jasper pareceu achar graça das minhas reações. Elas não deveriam
ser muito objetivas, claro. Eu vivenciava coisas que ignorava
existirem. E estava na companhia de dois puros. Sentia-me confusa,

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demasiadamente confusa. Jasper pareceu desconfortável comigo, eu


senti. Aquilo foi interessante... eu senti o desconforto dele próximo a
mim. Talvez ele não acreditasse que eu fosse híbrida, mas também
não sentisse que eu fosse inteiramente um vampiro.

Quando o vampiro de olhos dourados retornou, fui levada, guiada até


uma clareira. Um espaço grande, sem as árvores, e com uma...
estrutura interessante.
— Essa é nossa casa. – Jasper disse, apresentando a estrutura com
uma palavra que me era familiar. – É aqui que moram os Cullen... o
que acha?
— É... interessante. – Disse, olhando boquiaberta para a enormidade.
— Você parece assustada. – Edward disse. Ele também pode sentir?
— Eu estou... eu nunca vi... uma casa.
— Nunca viu uma casa? – Jasper gargalhou. Ele parecia sim.. divertir-
se com a minha ignorância. – De que planeta você é?
— Morava sob a terra. – Confessei.

Os dois novamente se entreolharam. Será que acreditariam em mim?


Ou teria que demonstrar? Edward abriu a porta, e conduziu-me para
dentro. Os dois sorriam em direção a uma mulher que chegava, e que
me encarava de forma nada sutil. Eu olhei em volta, e estava dentro
da casa. Casa... minha casa, o lar, era algo muito diferente. As paredes
não tinham cor, e os móveis não eram.. como aqueles. Os móveis ali
tinham o aspecto macio. Suave. Como o toque da seda. Eu estava
dentro de uma casa... seria parecida com a casa deles? Eu ainda tinha
a idéia fixa de me encontrar com eles.

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— Esme, bom dia. – Edward fez uma reverência. – Carlisle está em


casa?
— Por sorte sim... está no seu escritório. Vocês... trouxeram uma
amiga? – A mulher me observava ainda.
— Essa é ...
— Beatrice Caldwell. – Senti-me instigada a me apresentar. Também
fiz uma reverência.
— Gostaríamos de falar com Carlisle... Esme, você poderia ajudar
Beatrice a lavar-se? – Edward sorriu para mim. – Parece que ela teve
problemas com a comida.

Jasper novamente caiu na risada, e Esme também riu. Esme.. que


nome interessante. Aliás, os nomes eram interessantes. Edward me
agradava o som. Os rapazes sumiram em segundos, enquanto a
mulher me conduziu para um outro ambiente, branco. Tanto branco
que chegou a incomodar meu olhar.
— Você pode banhar-se aqui. – Ela abriu uma porta. Um lavatório...
muito diferente do nosso. – Vou buscar toalhas limpas e uma roupa
para vestir. Você... deve vestir o mesmo que Alice, tão pequena.

Eu era pequena? A mulher fechou a porta atrás de si, me deixando


sozinha no cubículo que não era nada pequeno. O banheiro dos meus
era antigo... muito antigo. Não tínhamos nos modernizado, porque a
tecnologia não importava lá embaixo. O banheiro sequer tinha água
quente... bem, água quente era um dos mitos de Felicia. Mas para que
água quente, se não sentíamos frio? Era tão desnecessário... então,
não tínhamos. Era tudo frio. Então despi-me, envergonhada sem
saber por que, e liguei o chuveiro. Meio confusa, afinal, de como usar
toda aquela parafernália.

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Batidas à porta, e a voz de Esme ecoou. Eu já reconhecia sua voz, era


muito boa para reconhecer vozes. Dos outros. Ela entrou, e eu me
senti mais envergonhada ainda. Sorridente, Esme deixou-me toalhas
e roupas. Ela disse qualquer coisa sobre alguém de nome Alice e
depois retirou-se. A água deles era mais gostosa do que a dos meus. E
parecia mais limpa. Senti-me revigorada. Limpa, sim. Mas não
ousaria demorar-me, afinal. Aquela não era minha água... finalizei o
banho imediatamente, e saí. Enxuguei-me e tentei caber nas roupas
que me foram ofertadas. Muito diferentes do meu vestido... Havia um
grande espelho na minha frente, e me fiz ver por ele. Calças... as
fêmeas não usavam calças entre os meus. Calças e uma blusa; senti-
me muito estranha.

Saí do banheiro, e Edward me aguardava do lado de fora. Recostado


na parede, ele me encarou assim que eu saí, e ele inspirou o ar
profundamente.
— Muito melhor... não parece mais um cervo. – Ele riu.
— Eu não parecia um cervo. – Protestei.
— Cheirava como um. Foi o que jantou ontem?

Envergonhei-me com a pergunta, e ele novamente pareceu divertir-


se com isso. Conduziu-me então a outro ambiente... subimos
escadas... e encontramo-nos com outra pessoa. Um homem mais
velho. Ele parecia mais velho, mas não tão velho como Rudolph.
Tinha cabelos muito bonitos, macios.
— Carlisle, essa é Beatrice. – Fui apresentada. Ele se virou para mim,
curioso.

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— Beatrice. Muito prazer... os rapazes me disseram algo intrigante a


seu respeito.
— Deve ser que cheirava a cervo. – Eu não sabia se tinha senso de
humor. Ou se eles tinham. Mas riam tanto... deveriam ter.
— Ela disse que é uma híbrida. – Jasper parecia excitado. – E eu disse
que híbridos não existem...
— Eu também pensei que não. – Carlisle me fitou. Eu me senti em um
observatório. Todos me olhava minuciosamente, como se eu fosse
um experimento. – Mas... eles me disseram que você não cheira
como um de nós.
— Eu não sei. – Falei, olhando para baixo. – Mas sei que sou híbrida.
— O que guarda de sua humanidade? Pode ferir-se?
— Sim, posso.
— Tá brincando! – Jasper alterou-se. – Você... sangra?
— Sim, eu sangro. Eu me machuco com certa facilidade, em verdade.
Sou muito... delicada. – Envergonhei-me novamente, porque levantei
os olhos e os três ainda me encaravam.
— O que acontecerá se eu te ferir, agora? – Edward perguntou,
sombrio.
— Eu me regenero. A parte vampira...
— Sim, claro. A regeneração. – Carlisle parecia entusiasmado. – E o
que mais? Você... adormece? Seu coração pulsa? Alimenta-se de algo
além de sangue?
— Eu... – fechei os olhos, respirei fundo. Aquela conversa me
aborrecia... mas eles me acolheram. Eu deveria ser grata e saciar-lhes
a curiosidade. – Eu adormeço, sempre. Tenho sono, e sonhos. Meu
coração pulsa lentamente... quase não posso senti-lo. Ele pulsa para
levar o oxigênio pelo meu corpo. Eu respiro... mas estranhamente
creio que não precise de ar. Já tentei.. quero dizer, já fiz o teste. E eu

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só me alimentei de sangue, até agora. Sob a terra... nada mais cresce,


só para baixo.

Acho que eles entenderam que aquele assunto me aborrecia.


Pararam o interrogatório e ficaram algum tempo em silêncio.
— Poderia... testá-la? – Carlisle aproximou-se. Elevei o olhar, e ele
tinha algo em suas mãos.
— Sim, poderia. – Eu o encarei, sem temor. Seja lá o que ele fosse
fazer, eu não imaginei nada ruim. – Se vai me golpear intentando me
ferir, poderia golpear-me em um lugar mortal para os humanos.
Assim, teria certeza.

Carlisle respirou fundo, como se adquirisse coragem para fazer o que


faria. Vacilante, ele desistiu. Mas Jasper lhe tomou das mãos o objeto
e veio em minha direção. Pensei em correr, era instintivo. Eu ali não
era predador, era caça. Mas novamente não temi. Jasper me golpeou
no meio do peito, atingindo em cheio meu coração. A dor dilacerante
dominou cada célula, viva ou morta, de meu corpo. Caí ao chão
desfalecida, sentindo-me partida em pedaços. Aos poucos, meu
coração recomeçou a pulsar, tão lentamente que parecia sem vida.
Quase o era. Respirei, e passei a mão no local da ferida. O objeto
estava caído ao chão, e eu totalmente regenerada.

— Isso é impressionante. – Carlisle parecia não acreditar. – Uma


híbrida!
— Eu disse o que era. – Falei, mais aborrecida ainda. – Poderiam ter
apenas acreditado.
— Desculpe-nos. – Edward ajudou-me a levantar. – É que... nunca
ouvimos falar de um híbrido.

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— Não vivemos sob o sol. – Recompus-me, com alguma dificuldade. –


Nós... fomos exilados, muitos anos atrás. Eu não sabia que os puros
podiam viver ao ar livre.
— Não podemos. – Jasper considerou. – Não sabem o que somos.
— Eles não sabem? Mas como... como se escondem? Somos parecidos
com eles? – Minha vez de perguntar.
— Sim, somos. Fisicamente, quero dizer... temos aparência
semelhante. – Edward sorriu. – Mas somos mais bonitos.

Risadas. Melhor do que golpes no coração, eu tinha que admitir.


— A que clã pertence, Beatrice?
— Aos Caldwell. Mas... eles não me seguiram. Saí sozinha de nossa
clausura...
— Vai viver onde?
— Não sei.
— Pode ficar conosco, se quiser.
— Mas Carlisle... era é... meio humana. – Jasper considerou.
— Ela é meio vampiro. – Ele sorriu. – Será bem vinda à nossa casa.

CAPÍTULO 03 – FAMÍLIA
*tema: Beethoven‖s Moonlight Sonata*

****** Enquanto isso, no covil dos Caldwell ******

— Alguém viu Bea? – A pergunta de Felicia.


— Não, ela não esteve em seu quarto hoje.
— Então ela desapareceu! – Felicia assombrou-se. – Bea não está em
lugar algum do covil.

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— Ela deve ter feito o que prometeu. – Rudolph aproximou-se.


— E o que seria isso?
— Ela foi até a superfície. Foi conhecer o mundo deles.
— Ela enlouqueceu!!! – Felicia desesperou-se. – E se ela se encontrar
com eles? Pior, com os outros?
— Bea sabe defender-se. Deixarei que ela fique mais algum tempo sob
o sol... depois vamos buscá-la. Eu e Ferdinand.

Os Cullen pareciam interessantes. Não eram eles... mas conviviam


com eles. Talvez isso me ajudasse. Porém eu era um objeto tão
curioso para os puros que me acolheram quanto eu era para eles.
Outros puros apareceram depois, de nomes Emmet, Rosalie e Alice.
Alice, a que me cedera forçadamente as roupas. Todos me
cheiraram... e todos riram com a simples menção da palavra híbrido.
Carlisle precisou deixar claro que eu fora testada, com sucesso. E que
aquela descoberta era muito fascinante. Descoberta... eu era um
achado científico, então. Eles, bebedores cruéis de sangue, e eu, um
experimento.

Mas eu também era um cruel bebedor de sangue. Depois de provar o


sangue fresco, senti-me saciada... como não me sentia há tanto
tempo. Talvez eu não fosse nada diferente deles, e o que restava de
minha humanidade fosse apenas uma fraqueza. Após o
interrogatório e a bateria de testes, decidiram acomodar-me em
algum lugar. Eu precisava de um lugar diferente do deles... os puros
não dormiam. E eu sim, tinha sono. Pouco, mas tinha. O adormecer
me era penoso, mas eu não conseguia livrar-me dele.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Seu mausoléu é assim? – Esme perguntou, enquanto terminava a


organização do meu espaço. Fora escolhido um quarto não utilizado
na casa e ela tentava arrumá-lo para mim. – Espero que a palavra
mausoléu não a incomode... é como visualizo um covil.
— Não, é úmido. – Disse, entrando. – E sim... pode nomear mausoléu.
Não há claridade lá, só artificial. Nem... – toquei meus dedos em uma
almofada, macia. – coisas como essas.
— Vai ficar bem aqui, Beatrice.
— Pode chamar-me de Bea... é como Felicia me chamava.
— Sua mãe?
— Minha tutora... não temos pais e mães... não sei, é confuso.
— Também não temos filhos aqui, Bea. – Esme foi gentil. – Eu tive
um, quando humana... mas perdi. Eles são meus filhos, os cinco. E
Carlisle..
— É seu companheiro?
— Sim, pode dizer. As famílias aqui são menores, creio eu. Quantos
vivem em seu covil?
— Muitos. – Tentei fazer a conta mentalmente. – Acho que somos uns
50... algo assim. Já perdi a conta. Não me relacionava com todos.
— Bastante gente. – Esme sorriu. – Bem, este será seu quarto. Fique à
vontade se quiser... dormir? E... sua pele... notei que está queimada.
— Foi o sol. Eu... nunca vi o sol.
— Ele nos é cruel, não? – Esme riu. – Bem, deveria usar sempre
mangas. Além de fazer frio aqui, as pessoas não vão estranhar.
— Vou conhecê-los? Quero dizer... eles... os humanos?
— Ah, claro que vai. Deve ir à escola... ou trabalhar. Quantos anos
têm?
— Tinha 20, quando fui transformada. – Disse, tentando me lembrar.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Boa idade. De certa forma, é interessante ser sempre jovem. Meus


meninos são todos mais jovens do que você...

Senti algo queimar em minhas bochechas, e instintivamente levei a


mão até elas. Calor. Havia algo quente ali. Olhei-me no espelho
correndo, e havia um rubor pálido e esfuziante em minha pele. Eu
estava... corada? Aquela reação de meu organismo à superfície era
quase assustadora.

Fiquei naquele ambiente chamado quarto por algum tempo,


considerando o que estava fazendo. Eu havia deixado o covil para
explorar a superfície... para conhecê-los. E fora encontrada por
puros, enquanto eu acreditava que eles não existissem. O mito
encontra o mito. A experiência de beber sangue fresco foi brutal
demais. Em pouco tempo do lado de fora eu já havia.. experimentado
muito.

Mas, o que exatamente eu estava fazendo? Havia encontrado para


mim uma... outra família? Uma família pequena, onde as pessoas se
relacionavam diretamente... sem tutores ou criadores, somente com
pais e irmãos? Aquele conceito familiar de humanos, que Felicia
também narrava como se fosse um mito, uma fábula para nos fazer
acreditar que nosso lado fraco era, também, um lado bonito. Então,
eu estava procurando uma... família?

Aqueles conceitos me eram pouco familiares, afinal. O emprego do


vocábulo era duplamente divagante. Estava absorta em pensamentos
simples e inadequados quando a porta se entreabriu, exibindo
timidamente a figura confusa de Edward. E seus olhos caramelados.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Vim ver se está bem acomodada. Sabe como é... Esme e Carlisle
desejam que sejamos bons anfitriões. – Ele sorriu. Parei então para
observá-lo. Foi como se o tempo realmente parasse, enquanto ele
estava ali, de pé, contrastando com a porta branca. Eu ainda não o
tinha observado, só mirado em seus olhos. Ele tinha cabelos de fogo.
Quando a luz lhe iluminava, o cabelo reluzia. De fogo. Os olhos
pareciam variar... eu os vira de várias cores, então. Caramelo,
pareciam naquele instante. Como... um doce. Eu sabia o que era um
doce. Eu só nunca tinha saboreado... mas eu sabia o que era. Ele tinha
olhos de doce. E sua pele era quase tão branca quanto a minha. Sua
pele era... lisa. A minha tinha bolhas, do sol. Ele não. Os puros não
tomavam sol, pensei. Se tomassem, não sofriam seus efeitos. Eram
puros... pensei que temiam o sol, mas caçavam à luz do dia. Ele vestia
roupas pouco convencionais para os machos da minha espécie.
Usava sapatos muito estranhos, com cadarços esgarçados. Jeans eu
conhecia, mas os machos mais velhos raramente os vestiam. E uma
blusa escura agradavelmente contrastando com todo o branco,
evidenciando contornos de seu corpo. Corpo... eu nunca vira o corpo
dos machos.

— Eu estou bem. – Disse, lembrando-me que ele me fizera uma


pergunta. Talvez.
— O que acabou de acontecer? Você... saiu do ar por alguns instantes.
— Não sou sempre alerta. – Brinquei. – Tenho fraquezas humanas...
envergonho-me delas.
— Não deveria. Elas te fazem mais interessante.
— Não sou interessante. – Balbuciei. Ele se moveu e sentou-se ao meu
lado.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Quer conhecer o lugar? Dar uma volta?

Encarei o vampiro, curiosa. Sim, ele parecia tão inofensivo. Eu havia


sido acolhida por sua família, não podia temê-lo. Até porque eu não
era tão frágil. Acabara de ser golpeada de uma forma bastante letal, e
estava bem. Mas eu era muito mais frágil que eles todos. Sentia-me
inferior. Mesmo assim, considerei que Edward era meu... parente,
então. Parente. Palavra estranha... entre os meus, a gente nem se
tratava por parente. Mas parente era família, e em família
poderíamos confiar. Eu queria acreditar quando aceitei “dar uma
volta” com um puro. Eu devia mesmo estar ficando doida e sem
nenhum amor à minha existência.

Colocamos o pé para fora do quarto e Emmet surgiu, enorme. Ele era


tão grande que me assustava. Edward era grande, mas o suficiente.
Emmet era quase... gigantesco. Ele jamais caberia onde os meus
residiam. O grande vampiro queria falar algo com Edward, e eu não
compreendi a comunicação entre eles. Era confusa. Eles falavam sem
se falar. Os meus precisavam usar a boca e a língua para se
comunicarem... aqueles puros pareciam usar outros métodos.

Depois da pequena conversa, dirigimo-nos para o quintal.

CAPÍTULO 04 – EDWARD
*tema: Yuko Ohigashi‖s “If You‖re Not Here” (Kimi ga inaito)

O vampiro caminhava ao meu lado, enquanto eu me deslumbrava


com tudo. O sol havia sumido, diversas nuvens o encobriam. Percebi

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

que o local era nebuloso... e gelado. Havia ar gelado soprando, mais


gelado ainda do que imaginava ser a pele dos puros. Ou a minha
própria. Ele caminhava sem dizer nada, apenas caminhava. Mãos nos
bolsos, pude notar que ele sorria. Seria possível que aquele vampiro
tivesse tanto senso de humor?

— Diga-me... prefere ser chamada Beatrice ou Bea? – O gelo foi


quebrado.
— Bea. – O apelido me era confortável. – Minha tutora me chamava
assim.
— Tutora?
— Sim, ela me cuidou quando cheguei ao covil. Recém transformada.
— O que recorda de sua vida humana?
— Nada. Rudolph diz que isso é característica dos híbridos, não se
recordar de nada. Porque... a vida humana não nos deixa.
— Ora vejam. – Ele pareceu ainda não saciado com os
questionamentos. – Então, Bea... quantos anos tem?
— Vinte.

Edward coçou o queixo. Um raio de luz escapou das nuvens e o


atingiu. Caminhávamos em direção ao amontoado de árvores que
ficava por trás da casa dos Cullen. Ele brilhou, imediatamente,
reluzente. Olhei um tanto aturdida para ele, tentando compreender
como alguém poderia brilhar mais do que o próprio sol.
— Sua pele... – Comentei, vendo o brilho lhe escapar pelas mangas da
camisa.
— É, esse sol irritante. Notei que ele não causa esse efeito em você.
— Não. Mas... tenho bolhas. – Puxei as mangas da blusa, visando
esconder as marcas que o sol me deixara.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Bolhas? – Edward parou instintivamente e agarrou meu braço,


com força. Seus dedos frios me comprimiram a pele enquanto ele
saciava sua curiosidade. – Você se queima, como os humanos. Aha, o
sol então te machuca mais do que a um vampiro...
— Talvez porque eu não seja um vampiro. – Balbuciei em protesto. Ele
me intimidava; não me sentia à vontade para falar em voz alta com
ele, em contestação. Puxei o braço de volta e o cobri com as mangas.
Não gostava, mesmo de expor minhas fraquezas.
— Bem, Bea... você precisa ter 17 anos agora. – Ele continuou seu
diálogo. Já estávamos por sob as árvores, e o sol havia novamente se
escondido. Daquela vez, permanentemente... pois pesadas nuvens
negras tomavam o céu de assalto.
— Preciso?
— Sim. Vamos estudar... e precisa ser mais jovem.
— Estudar? – A tola parecia apenas repetir as palavras do jovem
vampiro macho. Tola.

Edward riu. Seus dentes brilhavam por sob a claridade que ainda me
perturbava, e então percebi que ele era... que ele me exercia algum
tipo de atração. Claro, ele era um macho. O que eu deveria esperar?
Não conhecia outros machos da minha idade, ainda não estava
preparada para eles, dizia Rudolph. Super protetor, sempre. Olhando
para aquele, eu considerava se Rudolph não estaria certo. Talvez eu
não estivesse mesmo preparada para eles.

— Como vou explicar a você? Bem... vivemos aqui, na superfície,


porque nos misturamos aos humanos, Bea. Eles não sabem quem
somos... o que somos. Por isso, vivemos aqui. Então, fazemos tudo
que eles consideram normal fazer. Jovens estudam. Você poderia

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

manter sua idade, e trabalhar... ou ir para a Universidade. Mas não


existem Universidades em Forks. E também, você não me parece
muito habilitada a trabalhar... não conhece algumas coisas básicas
dos humanos, pode ser perigoso e constrangedor.

Se ele não sabia como explicar, imaginei quando soubesse.


— Isso é... confuso. – Baixei o olhar.
— É sempre tão evasiva? – Ele se colocou à minha frente. Estávamos
tão dentro das árvores que temi estarmos perdidos. Ou poderíamos
nos perder...
— Evasiva?
— Sim... fala baixo, olha para o outro lado...
— Não sei bem o que dizer. – Virei-me para ele. Talvez eu fosse,
então, evasiva. – Eu... acabo de deixar meu covil. Não estou com
muita noção de tempo, mas imagino que muito não tenha se passado.
Eu não sei muito daquilo que vocês sabem, aqui sob o sol. Eu sei
coisas que talvez vocês não saibam, mas que provavelmente não
precisarão saber. Eu... eu só queria deixar o covil, ver como seria
estar... do outro lado.
— E agora, o que pensa? Está aqui, do outro lado. – Ele falava e
caminhava de costas, sempre a me olhar.
— Eu ainda não sei.
— Vamos voltar. – Edward decidiu, e passou por mim como se eu
fosse feita de ar. Estremeci, e o segui. Ele podia saber como sair do
meio das árvores, eu não.
— Já vi o que tinha para ver? – Perguntei. Sarcasmo àquela hora
talvez não me fosse útil.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Ainda não viu nada. – Ele sorriu, outra vez. Senti então um
arrepio. – Mas eu terei muito tempo para mostrar... algo me diz que
sua estada em casa será longa.

Edward começou a andar novamente, e daquela vez mais rápido. O


dia parecia esvair-se aos poucos... o dia, o sol. Eu não sabia direito
como seria minha vida entre os Cullen. Ou se eu me demoraria entre
eles. Se eles se tornariam meu novo clã. Ou se voltaria para o covil.
Mas eu estava decidida a provar. Decidida a experimentar aquilo que
Edward disse, estudar. Talvez mais coisas. Eu queria viver entre eles.
Queria sentir a pele quente deles.

Chegamos à casa dos Cullen e Carlisle aguardava na varanda.


Sentado, ele parecia sereno. Um vampiro sereno. Eu que sempre os
imaginei com garras... imaginava vampiros como monstros. Porque
eles assim me foram apresentados... extintos monstros bebedores de
sangue humano. Eles pareciam bem pouco extintos em minha frente,
então.

— Beatrice. – Carlisle me cumprimentou. – Edward, preciso lhe falar.


Aquela deixa foi para que eu me retirasse. Edward franziu-se, e eu
entrei na casa. Não me sentia à vontade, mas Carlisle disse que
queria falar com Edward... de uma forma bastante sugestiva. Entrei,
fechei a porta e encostei-me na parede, já arfante. Aquela coisa de
respirar ar fresco também me era novidade. Talvez oxigênio demais,
o coração a pulsar mais do que devia.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Diga. – Edward falou, e eu ouvi. Então, poderia ouvir-lhes a


conversa. Seria errado, mas eu costumeiramente fazia isso, em nosso
covil. Não havia padrões éticos em questão.
— Edward... que impressão teve da híbrida?
— Que impressão.. ela é uma híbrida. Ela é estranha... porque às vezes
o vento muda e ela cheira como um humano. Um odor me que
confunde... desejei beber-lhe o sangue quando a vi pela primeira vez.
— Acha que pode controlar-se ao seu redor? – A voz de Carlisle
demonstrou preocupação. – Edward, ela é uma vampira também...
esse comportamento não é adequado.
— Posso me controlar. Aliás, o seu cheiro não mais me atrai tanto,
agora.
Oras, meu cheiro não o atraia! Aquilo me indignou, mesmo não
devendo indignar. Tola, novamente. Como poderia sentir-me
indignada porque um puro não desejava minha morte? Mas a
indignação passou pelo fato de que eu não o atraía. Como fêmea.
— Bom saber. Edward, quero que seja seu companheiro.
Silêncio. Silêncio cortante, como o gelo do exterior. Carlisle disse a
frase, e nada mais podia ser ouvido. Nem Edward, em resposta. Até
que...
— Mas Carlisle... pensei que deixaria esta escolha para mim.
— E a escolha é sua, Edward. Acalme-se... será companheiro dela
durante a estada. Como um... primo. Sim, pode ser seu primo. Ela,
minha sobrinha. O que acha? Boa a ideia? Quero apenas que não a
deixe meter-se em encrencas... a híbrida parece bastante ingênua.
— Sim.. ela é ingênua. A ideia é boa... podemos apresentá-la na escola
como uma prima. Poderá estudar algumas disciplinas. E... poderemos
testá-la para saber se comida humana lhe apetece. Sempre tive essa
curiosidade.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Edward, a híbrida não é uma cobaia. Não a teste. Sua função é estar
presente, não causar problemas.
— Está certo, Carlisle. Tentarei não permitir que ela se encrenque.

Devia ignorar o monte de insultos que me foram dirigidos. Ingênua,


cobaia... eu já me sentia horrível, e aquele diálogo não serviria para
me causar melhoras. Afastei-me da parede de caminhei
freneticamente para outro lugar que não denunciasse minha fraude.
Humana, sempre em um combate incansável com alguns valores
desnecessários.

O caminho para meu quarto já era conhecido, então foi para lá que
me dirigi. O coração estava mesmo pulsando mais vezes e fora do
ritmo natural. Talvez não fosse somente o oxigênio em excesso,
afinal. Talvez houvesse outra coisa que me fizesse sentir tudo aquilo.
Meu coração sequer deveria bater... eu não estava viva. Mas ele batia,
três, quatro vezes a cada vinte segundos... era tão lento que eu mal
poderia senti-lo. Acelerado, eu sentia uma agonia terrível. Joguei-me
na cama preparada por Esme, comprimindo minha cabeça com as
duas mãos. Malditos vampiros... maldito ar fresco, malditas reações
desconhecidas de meu corpo.

Sentindo menos dor, e a dor era dilacerante, deixei que meu cérebro
pensasse... que Edward seria meu companheiro. Primo, era a palavra
técnica. Secretamente gostei daquela idéia de pertencer a uma
família pequena, e mais ainda de ter Edward como companheiro. Não
adquiri por Jasper a mesma empatia que por Edward. Jasper parecia
ansioso em minha presença... seu olhar sempre tenso, como um
radar. Talvez a minha parte humana lhe incomodasse muito. Edward

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

parecia mais controlado... ainda mais depois de garantir que eu não


lhe atraía mais.

Batidas na porta, e alguém apareceu. A figura pálida de Alice me


sorriu, enquanto ela entrava no quarto.
— Olá Beatrice... sente algo? – Ela perguntou. Tentei recompor-me...
— Sim.. não... quero dizer...
— Sim não? – Ela riu. Eu devia ser muito engraçada, pois todos riam
muito perto de mim. Riam de mim.
— Eu estou bem. – Confirmei. – É que... estou ansiosa. São muitas
sensações novas.
— Talvez você devesse ser examinada por Carlisle.
— Examinada? – Arregalei os olhos, pois aquela palavra me era
estranha.
— Sim... Carlisle é médico dos humanos. Ele... os cura. Pelo menos
tenta, os humanos são tão frágeis! E bem... você tem parte deles,
não?
— Sim, tenho. – Confessei, mesmo diante da afirmação de minha
fraqueza. Frágil.
— Vou pedir a ele que te examine... para saber se alguma coisa
humana...
— Eu... – pensei em recusar, claro. Mas até eu não sabia a extensão da
minha humanidade. Talvez fosse... divertido. – Tudo bem, eu
agradeço.
— Vou falar com Carlisle então. – Alice virou-se para a porta,
intentando sair. – Ah, e Beatrice... mais uma coisa.
— Sim? – Levantei uma sobrancelha, encarando-a.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Não deixe Edward perturbar-te muito. – Ela sorriu. – Ele é o mais


velho de nós... o filho mais antigo da família... mas é ainda o mais
irritante.

Alice fechou a porta atrás de si e novamente a figura de Edward


Cullen me dominou o que restava dos sentidos. A palavra cobaia não
me saía da mente enquanto pensava em ser examinada por quem
quer que fosse. Melhor que fosse por alguém parecido comigo. Pior
era não saber se eu mais parecia um vampiro ou um humano. Eu
sequer sabia quem gostaria de parecer. Edward Cullen. Por que seria
que Alice me alertava sobre ele? Seria um alerta ou um comentário
de irmãos? Seria implicância simples ou... algo com o que me
preocupar? As perguntas começaram a surgir e eu não sabia se teria
respostas para todas.

CAPÍTULO 05 – COMPREENSÕES
*tema: Bach‖s Toccata and Fugue*

Eu havia decidido não deixar mais o meu ambiente. Não que


estivesse sentindo nada. É que eu estava acostumada a manter-me
em meu lugar. Aquele era meu lugar, havia sido destinado a mim.
Não me sentia confortável envolvendo-me na família mais do que
deveria. Eu era uma convidada, afinal. E eu não tinha sede, ou sentia
desejo de nada. O sangue fresco ainda me inebriava os sentidos.
Aquilo me causava certo pavor, por não saber até onde eu poderia
controlar aquela sensação.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

Deitada olhando a grande parede de vidro que me permitia observar


o lado de fora, pude perceber a luz do sol desaparecer e dar lugar
novamente à grande bola iluminada da noite. E todo o brilho
prateado que ela trazia. Uma sensação boa me fez relaxar. Eu me
sentia tensa. Havia muita vida dentro de mim... vida com a qual eu
não estava acostumada a lidar.

Batidas à porta novamente me fizeram alerta. A figura clara e


sorridente de Edward colocava-se para dentro do meu quarto escuro.
— Bea. – Ele pronunciou meu nome como música. – A família está
reunida, não deseja juntar-se a nós?
— Não desejo me intrometer, obrigada. – Tentei ser educada.
— Não vai se intrometer... é nossa convidada. Emmet tem algumas
curiosidades, Esme parece gostar de você, e todos desejam
compartilhar o conhecimento com você. Você... parece saber muito
pouco sobre como são as coisas por aqui.
— Passei toda a vida que me lembro dentro de um covil. Não, eu não
sei muito. Definitivamente.
— Parece embaraçada. – Ele riu. – Sentimento engraçado, este.
Vamos... acompanhe-me.

Edward ofereceu-me a mão para que eu me levantasse, e depois


conduziu-me para a grande sala. A família estava mesmo ali,
sentados. Pareciam animados e conversavam muito.
— Beatrice! – Esme recebeu-me animada. – Que bom que Edward
conseguiu trazê-la... preocupávamos com sua clausura.
— Edward é sempre indicado para esse trabalho. – Emmet deixou
escapulir o comentário, e eu não o compreendi. Não me sentia muito
esperta desde que deixara o covil. As novidades me confundiam.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Gostaríamos de conversar com você, Bea. – Carlisle disse, cruzando


as pernas e me encarando.
— Treinar-me para que eu não cause problemas? – Mais sarcasmo. E
eu nunca saberia a dosagem adequada.
— Sim, pode-se dizer que sim. – Edward caiu na risada. Esme o
repreendeu com o olhar.
— Não sejam rudes. – Ela protestou. – Bea... não ligue para eles. Você
tem mesmo muito a aprender, e gostaríamos apenas de conversar.
Tirar as dúvidas que você possa ter.. deixar-te à vontade para
perguntar.

Sentei-me. Havia uma oportunidade de me tornar a inquisidora,


enfim. Era uma boa idéia, pois eu tinha mesmo muitas dúvidas.
Tentando ficar à vontade, comecei a fazer perguntas. Queria saber
sobre o tempo... como eles contavam o tempo. Queria saber o que o
tempo significava para os humanos... e se para eles, os puros, o
tempo tinha significado. Como eles o contavam. Também quis saber
sobre alguns simples hábitos. Eu não queria parecer uma alienígena
das lendas de Felicia. Uma fábula ambulante. Gostaria de ter, ao
menos, hábitos mínimos que me fizessem encaixar entre eles.
Perguntei sobre relacionamentos. Como eu deveria me dirigir às
pessoas, como tratá-las, se eu deveria dirigir-me a elas. Não desejaria
ser rude, ou solícita demais. Não desejaria abusar do tratamento.

Havia dúvidas demais, mas o tempo dos Cullen parecia inacabável.


Afinal, eles não adormeciam. Mas eu sim. Enquanto ouvia as
explicações deles, enquanto absorvia todas as compreensões,
enquanto minha mente se enchia do novo e do inexplicado, meus

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

olhos pesaram e meu organismo começou a falhar. Meu corpo estava


enfraquecido, e tudo começou a ficar enegrecido.
— Ora vejam. – Rosalie pareceu divertir-se. – A híbrida tem sono.
— Como fomos insensíveis. – Esme considerou. – Já passa de 3h da
manhã... esquecemo-nos de que ela dorme.
— Dorme não. Ela simplesmente apaga. – Jasper considerou,
passando a mão à frente de meus olhos. Eu ainda mantinha um
estado de semi consciência, apesar do sono latente. Meu corpo
desejava dormir e minha mente desejava manter-se acordada. Era
uma luta insana, e a mente nunca vencia.
— Edward, você poderia levá-la a seu quarto? – Carlisle determinou.
– Devemos compreender muita coisa sobre ela, ainda. Mas por
favor... seja gentil. Lembre-se, ela é mais frágil que você.

Senti um toque frio em minha pele, e repentinamente eu não mais


tocava o sofá. Senti-me movendo, meu corpo indo e vindo como em
um galope lento e cadenciado. Meus braços amolecidos não
obedeciam à minha vontade de conduzir as mãos a tatearem o que
me carregava. Mas o nome dele ainda ecoava em meus ouvidos
quando finalmente fui depositada em algum lugar. A mão fria me
acariciou os cabelos, e eu pude sentir a luz de um sorriso, mesmo
estando praticamente adormecida, já.
— Tenha bons sonhos. – Foi o desejo. Ouvi o baque da porta, e nada
mais.
As noites de sono eram sempre inconvenientes, para mim. Não sabia
se por minha natureza híbrida ou se por algum distúrbio de minha
humanidade anterior, eu nunca conseguia apagar, como outros de
minha espécie faziam. Eles apagavam completamente, em estado de
total inconsciência. Eu não. Minha consciência ia e vinha, mesmo se

34
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

meu corpo não respondesse aos estímulos de meu cérebro. Mas eu


estava ali, como que presa àquele cárcere de carne e ossos. Porém o
que mais incomodava eram sempre os sonhos. Fragmentos de
fantasia que me povoavam o adormecer, e que pareciam agradar aos
humanos, segundo os contos de Felicia. Os humanos gostavam de
sonhar. Eu não.

Naquela noite, naquele adormecer, eu sonhei. Vagava ainda por


locais incertos, perambulava pela superfície como se nunca tivesse
sido encontrada pelos Cullen. Havia acabado e me alimentar... e a
carcaça que ainda exalava um falso cheiro era... semelhante à minha.
Aproxime-me do corpo inerte e sem vida e notei que a semelhança era
singular. Eu havia me alimentado de um humano. O cheiro de sangue
estava forte demais, mas eu sabia que ele era falso. Não poderia
haver sangue onde eu estava, e muito menos aquilo representava a
realidade. Mesmo assim, eu estava inaceitavelmente perturbada.
Meus olhos emitiam uma agonia dolorosa, e meu peito se enchia de
angústia. Ajoelhei-me ao lado do cadáver e o encarei. Soltei um grito
de desespero, pelo monstro que temia tornar-me.

Em um instante, eu estava de volta à consciência. Claridade entrou


pelos meus olhos, e a porta aberta do quarto evidenciou a figura
magra e desalinhada. Em um segundo, senti o toque frio em minha
pele, e os olhos que me encaravam.
— Beatrice! – As mãos de Edward seguravam meus braços
violentamente. – Acalme-se... o que houve? Você está bem?
Arregalei os olhos, assustada e confusa. Olhei em volta e notei que
estava em meus aposentos, e que tudo aquilo era mesmo um sonho.
Aquela sensação de oxigênio demais estava de volta. Edward me

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

encarava assombrado, os olhos cor de noite. Aos poucos, minha


respiração voltava ao normal, e o maldito coração pulsante diminuía
seu ritmo.
— Eu... – pouca voz saía de minha boca. Edward soltou-me, e olhou
suas próprias mãos.
— Está quente. – Ele considerou, talvez mais espantado ainda. – E...
você está suando, muito. Seu sangue... ele é quente?
— Eu sou fria. – Disse, sentindo o rubor incandescente como da
última vez. – Mas não sei, desde que subi à superfície... eu tenho
calor. Eu sinto...
— Deite-se novamente. – Edward usou suas mãos para me empurrar
suavemente contra o colchão. – Durma... você precisa disso. Estarei
ao lado, se precisar.

No dia seguinte, eu me levantei com a luz do sol. Oscilara períodos de


consciência e inconsciência durante todo o sono, o que o tornou
ainda mais inconveniente. Ao deixar meu quarto, encontrei Jasper e
Alice Cullen confabulando no salão. Eles sorriram ao me ver, mas
Jasper mantinha a mesma postura esquisita de antes. Eu teria coisas
interessantes a fazer... era, ao que sabia, um dia de semana. Pelo que
me haviam informado antes, pelas explicações dos Cullen, tratava-se
de hoje, amanhã e ontem... e semanas e finais de semana. Parecia até
complexa a divisão humana, mas era simples de armazenar. E nos
dias de semana, as pessoas trabalhavam.. por isso, Carlisle já havia
saído de casa e os filhos me aguardavam para a escola.

— Primeiro – Alice interrompeu a euforia aparente de Jasper e


Edward para me conduzir ao veículo – ela vai até Carlisle no hospital.
Ela precisa ser examinada.

36
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Assim vamos perder a aula. – Edward resmungou, em som quase


inaudível.
— Não precisa ir, Edward. Eu me encarrego de levá-la...
— Carlisle pediu que eu tomasse conta dela. – Edward resmungou
novamente, e daquela vez foi realmente inaudível. Alice o encarou
com olhos curiosos, e Jasper pareceu não se importar. Talvez Jasper
fosse mais desligado do que incomodado... eu ainda não tinha
descoberto.
— Vai levá-la, então? – Alice deu de ombros. – Posso fazê-lo, mas se
deseja ser o cão de guarda...
— Estou cumprindo ordens. – Ele posicionou-se a meu lado.
— Sei.

Aquelas conversas entre eles sempre me soaram enigmáticas. Eles


pareciam comunicar-se em dialeto próprio, o que me aborrecia,
também. Não que eu tivesse o direito de aborrecer-me, mas eu me
aborrecia facilmente com tudo. Era geniosa, como Rudolph dizia.
Razões que explicavam minha presença fora do covil dos Caldwell.
De qualquer forma, meu então revelado guardião levou-me até o
consultório de Carlisle. Bem, era um lugar tão grande que me
assustou. No caminho, eu vi muitos... deles. Eu imaginava que eram
humanos, pois os Cullen me garantiram que eram os únicos
vampiros da região. Então... éramos mesmo muito semelhantes.

Carlisle me examinaria, como eles determinaram que deveria ser. O


tal exame foi uma coisa bastante desconfortável. Ele realizou testes...
e me colocou dentro de aparelhos muito estranhos.
— Beatrice, gostaria de lhe fazer uma pergunta. Você sabe... se o
sangue que corre em suas veias é... vivo?

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

Eu não sabia.
— Não sei. – Confessei. – Pode testar... se quiser.
— Tentarei.
O médico se utilizou de um objeto estranho para tentar obter um
pouco do meu sangue. Mas ele não teve muita sorte... pois toda vez
que introduzia o objeto em minha carne, a regeneração o expulsava
de meu corpo. Eu regenerava muito rapidamente, e aquela pequena
abertura era imediatamente identificada como uma agressão, e se
fechava.
— É, parece que não terei sorte. – Carlisle sorriu. – Se um dia
machucar-se, talvez consigamos seu sangue... mas por agora, creio
que terei que me contentar com o que tenho.
— Posso machucar-me. – Elevei o olhar e encontrei um objeto
cortante. – Onde devo depositar o sangue?
— Beatrice... não deve...
— Pode ser aqui? – Peguei nas mãos um tubo de vidro que suspeitei
ser um compartimento para o sangue.
— O que ela pretende fazer? – Edward não entendeu, eu sei que não.
Mas antes que ele pudesse captar ou Carlisle pudesse me impedir, eu
tomei o objeto em minhas mãos e golpeei meu pulso. Eu sabia que ali
vertia muito sangue. Rapidamente, eu tomei o vidro nas mãos e
deixei escorrer o líquido avermelhado que jorrou, por alguns
segundos. Logo, a ferida estava totalmente cicatrizada.

Os olhares que Carlisle e Edward dirigiram a mim eram... frustrantes.


— Você está louca? – Edward pulou sobre mim, agarrando meu pulso
com força.
— Ontem me apunhalaram no peito e quase nada senti. Um pequeno
corte não me faria mal algum...

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Ela está certa, Edward. – Carlisle tentou acalmar o filho. – Apesar


de reprovar a sua atitude, agradeço pelo sangue... será de grande
valia para estudar a sua... condição. Obrigado.

Depois que deixamos o consultório de Carlisle, eu seria conduzida à


tal escola.

CAPÍTULO 06 – ELES
*tema: Beethoven‖s Pathétique*

A escola. Eu tinha 20 anos na minha idade humana, mas não havia


estudado em nenhuma ocasião. Eu sabia que não havia, pois aprendi
a ler e escrever no covil. Os meus tinham seus truques. Rudolph e os
outros líderes saíam vez ou outra... eles buscavam comida, eles
aprendiam as novidades, e eles encontravam humanos dispostos a
nos ajudarem. Desde que ficássemos longe, essa era a verdade. Então,
aprendi a ler... a escrever... aprendi várias coisas. Felicia era minha
tutora. Ela ensinava a mim e a outros do covil, os chamados jovens.
Jovem era quem fosse transformado jovem... enquanto os outros
eram os anciãos. Felicia estava no meio... ela tinha idade para ser
minha ama. Talvez minha mãe. E eu creio que, vendo os Cullen,
Felicia tenha sido minha mãe.

Mas aquilo era a escola. Eu ouvi os Cullen falar sobre ela durante
longas horas... mas ainda não sabia o que seria. Chegaria atrasada,
claro. Isso foi o que Edward disse... que estávamos atrasados por
causa das idéias de Alice. Que eu não precisava se examinada... não
precisava ser testada, ou nada. Afinal, eu não era uma cobaia, certo?
Naquele instante, eu previ que ele não desejava que eu fosse revelada.
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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

Afinal, eu era parte humana... e Edward poderia não estar


interessado nesta parte. Ele poderia não estar interessado no que
esta parte humana poderia representar. E então, ele não desejava
que ocorresse. Eu não queria que as fraquezas da minha humanidade
fossem expostas de uma maneira que o fizessem sentir ainda menos
interesse por mim. Mas estávamos na escola, e tão logo Edward
parou o carro – que eu logo descobri amar! – e tão logo nos dirigimos
ao prédio, eu entendi que estava próxima a eles.

— Esse... – eu disse, sorvendo o ar, olhos fechados.


— Sim, o cheiro. – Ele sussurrou. – Tentador, não?
O cheiro dos humanos era totalmente diferente do que eu estava
acostumada.
— Faz-me considerar meu verdadeiro desafio deste lado da terra. –
Fui verdadeira. Minha boca salivou no primeiro instante em que eu
inspirei o ar límpido do estacionamento.
— É uma questão de controle... e sede. Sente sede? – Ele continuava
sussurrando, enquanto me empurrava em direção aos lugares certos.
— Não. Estou bem.
— Então isso basta por enquanto.

Meu tutor vampiro cuidaria de mim até o final do dia. Ele teve o
cuidado de me colocar para realizar as mesmas atividades que ele,
mesmo que seus irmãos não estivessem em todas. Edward pareceu
muito afeito a todos naquele lugar. As pessoas com quem ele
conversou pareciam lhe abrir largos sorrisos de condescendências,
sempre. Aquilo era quase irritante, pensei. Na verdade, eu não sabia
o que faria ali, ao certo. Disseram-me que era um lugar de

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

aprendizagem... que entre eles eu não aprenderia em casa com os


tutores, mas naquele lugar. Com professores. E outros semelhantes.
— Como você... se mistura? – A curiosidade, assim que entramos no
que ele chamava sala de aula.
— Eu não me misturo. – Ele sorriu. Fazia tempo que não sorria. Fazia
tempo... fazia tão pouco tempo que estava entre os outros, como
poderia fazer muito tempo que eu não o via sorrir? O paradoxo do
tempo me perseguia, sempre. Mas o sorriso de Edward me havia
tomado conta da sanidade desde o primeiro momento. Era como se
houvesse uma ligação tênue e complicada entre seu sorriso e meu
autocontrole. Era mais fácil manter o controle sem o brilho cortante
de seus lábios à luz.

Edward levou-me até o professor e me apresentou. Beatrice Caldwell,


prima. Por sorte, aquela seria a única exposição que eu parecia ter
que enfrentar. Depois, ele me puxou até um par de cadeiras no canto
da sala, e ali ficamos durante toda a denominada aula.

A aula. Eles eram interessantes, afinal. O professor parecia deter


tanto conhecimento... e ele passava de forma simples e desinibida
para aqueles que chamava alunos. E eles tinham que responder...
acertadamente, sempre que inquiridos. Ora, não tão desinibido
assim, então. Observei em volta enquanto o professor falava algo que
eu já estava cansada de saber, sobre literatura antiga. A literatura
que eu vivi, e que me acompanhou nos momentos de solidão, no
covil. A literatura não me era mistério. Eu não tinha interesse no
tema, e divaguei. Os olhos os procuravam... eles. Tantos, e tão
diferentes. Sim, éramos parecidos e podíamos passar desapercebidos.
Mas... eles cheiravam mesmo muito diferente.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

Imediatamente, senti empatia por uma garota que trajava azul e


tinha olhos claros. Pensei se os olhos humanos também mudavam de
cor. Como se lesse minha mente, Edward me fez olhá-lo e, com uma
cara bastante amistosa, sinalizou que não. Ele não lia mentes, claro.
Vampiros não leem mentes... claro. Eu era óbvia, essa era a questão.
Talvez fácil demais de se ler... um problema. A garota parecia absorta
nas palavras do professor, e não percebeu que eu a observava.
Alguém ao seu lado sim. Um rapaz, loiro de olhos também claros. Era
bonito... eles eram bonitos, então! E sua beleza era ainda mais
interessante associada ao seu cheiro de sabor confuso. Talvez doce,
talvez amargo, eu praticamente pude sentir o sabor e o calor do...
sangue. Ele me fez ser vista pela garota que eu observava, e ela então
me olhou. Senti algum constrangimento, então decidi parar de
prestar atenção nos humanos.

Passaram-se outras aulas, e todas muito parecidas afinal. Somente os


conteúdos ensinados mudavam, e eu fiquei seriamente entediada.
Edward por algumas vezes segurou minha mão e apertou-a com
força, provavelmente para repreender-me por agir de maneira
estranha. Eu agia de maneira estranha inconscientemente, pelo
simples fato de não saber portar-me em público. Vivera toda a
eternidade em um covil, ele poderia ter paciência. Mas eu entendia
que ele tentava apenas proteger o disfarce.

— Tente ser menos indiscreta. – Ele disse, quando a quinta das aulas
acabou. Repreensão, então.
— Lamento. – Olhar baixo, sempre submissa.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Bea. – Ele disse, puxando-me o queixo. – Não precisa desculpar-se.


Eu... só quero manter-te na linha. Afinal, me fora designada esta
missão... quero cumpri-la a contento.
— O que fazemos agora? – Tentei não prestar muita atenção nele. A
claridade fazia seus olhos muito... atraentes.
— Almoço.
— O que é?
— Hora de comer.

Arregalei os olhos, surpresa. Não, assustada. Hora de comer...


alimentar-se?
— Calma, Bea... – ele riu novamente, e muito. – nós não nos
alimentamos agora. É que os humanos... eles comem várias vezes ao
dia. Comida humana.
— Vocês também comem com eles?
— Fingimos. – Ele sorriu. Chegamos ao local de alimentação, e o
restante dos Cullen já estava ali, sentados em uma mesa, com
bandejas a frente. – Sirva-se de algo, distraia a comida, e depois
estamos livres.

Demorei a entender, e preferi seguir Edward. Fiz exatamente tudo


que ele fez, mas...
— Ei!! – Uma mão me segurou enquanto passava pelas mesas. – Ei... –
era a garota que observei durante as primeiras aulas. – Novata na
escola... ninguém vai apresentá-la a nós?
Notei que os Cullen me olharam, um tanto apreensivos. Edward
parou, e intentou retornar para me socorrer.
— Sou Beatrice Caldwell... – tentei parecer gentil, e ensaiei um
sorriso. – Sobrinha do Dr. Carlisle Cullen.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Oh! – A garota pareceu bastante interessada, repentinamente. –


Sobrinha do doutor! Que divertido... é de onde?
Ótima pergunta, que não me havia sido ensaiada antes. Eu não
conhecia a superfície geograficamente, e não sabia responder “de
onde”. Foi quando precisei efetivamente de socorro. Não havia
treinado respostas, estava apenas arriscando. Eu não sabia que me
fariam perguntas... não imaginava que eles interagiriam comigo.
— Ela é europeia... e estudou até hoje em colégios internos. – Edward
aproximou-se. Notei que a sua aproximação causou uma reação
química nas presentes. Eu era notavelmente sensível à química, e
aquela exalou um odor bastante complexo. Elas pareciam...
satisfeitas com a presença dele, ali. Eu também estava, era fato.
Poderia o meu cheiro denunciar-me, como o delas o havia feito?
— Sente-se conosco. – A garota então pediu. – Meu nome é Sylvia...
Olhei para Edward, assustada. Eu não estava preparada para ser
abordada por eles... senti pânico. Um pavor terrível, muito pouco
familiar. Pensei que meu coração ainda pulsante – e bastante
perturbado desde minha fuga – fosse escapulir por entre os meus
dentes. Que estavam cerrados, travados.
— Amanhã, Sylvia. – Edward empurrou-me para frente. – Bea está
muito confusa hoje, o fuso horário a deixa alterada. Prefiro tomar
conta dela até que ela se sinta totalmente... bem.

Eu não olhei para trás, mas pude ouvir várias exclamações após a fala
do meu tutor. Elas pareciam, então, lamentar que eu não ficaria com
elas. Ou lamentar o afastamento de Edward.
— Obrigada. – Falei, enquanto me sentava com os Cullen. – Não
saberia como me sair dessa.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Por isso precisa ficar conosco no início. – Alice sorriu,


condescendente. – Mantenha-se por perto... Edward vai cuidar de
tudo.
— Eu... não sei por que são tão gentis comigo. Por que me acolhem...
e por que eles demonstraram interesse em mim.
— Você por vezes lembra muito um deles. – Jasper falou, e pude
notar hesitação em sua voz. – Você... chega a cheirar como um deles.
— Ela também é humana, Jasper. – Alice o cutucou. – Não seja
complexo demais, faz mal para sua adaptação.
— E... por que me acolhem? Vocês...
— Cuidamos uns dos outros. – Emmett era de poucas palavras com
estranhos, pensei. – Você... Carlisle é uma pessoa ótima, ele sempre
acolhe os que necessitam dele. Ele acolheu você, passou a ser parte
da família.
— Simples assim. – Edward sorriu, enquanto se divertia com um
alimento.
— Isso tem um aroma bom. – Eu disse, pegando o alimento de suas
mãos e levando até as narinas. – Come-se?
— Sim. Mas só para quem tem sistema digestivo que funcione. – O
comentário de Jasper desencadeou risos entre os Cullen; todos eles.
Não era tão divertido assim ser o centro das atenções quando se está
sendo ridicularizada. Mas parecia um passatempo divertido para
eles, ridicularizar-me. Sim, eu era bastante ingênua como
mencionara Esme. Talvez uma ingenuidade irritante, insatisfatória.
Eu não queria ser ingênua. Eu queria ser sábia como Esme, linda como
Rosalie, prosaica como Alice. Queria ser uma... mulher. E não
somente uma fêmea. Eu parecia um animal cativo ao lado deles...
uma tola sem conhecimento algum da vida.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

Meu primeiro dia entre eles não foi muito ruim. Foi apenas diferente,
como tudo que vinha acontecendo naquele lugar. Sob o sol as coisas
aconteciam, foi como pensei. Sob a terra era sempre o mesmo... nos
alimentávamos, ouvíamos Felicia e suas fábulas fantasiosas,
conversávamos, líamos, adormecíamos. Sob o sol as pessoas faziam
outras coisas... pude perceber. As conversas eram tão animadas e eles
pareciam envolver tantos semelhantes...

Ao final do dia, eu estava exausta. Eu não estava acostumada a sentir


exaustão, porque eu não dormia muitas horas por vez. E levava um
grande tempo até me sentir exausta novamente. Não era exaustão...
era apenas a necessidade do meu corpo em adormecer. Naquele dia
não, senti-me exausta. Principalmente porque Alice e Rosalie, após a
aula, me levaram para fazer algo completamente inusitado. Comprar
roupas.

— Não acredito que nunca fez isso! – Rosalie reclamava, enquanto


chegávamos a uma loja.
— As fêmeas mais velhas fazem as roupas de todos no covil. –
Comentei, sentindo ansiedade.
— Mulheres, Bea. – Alice corrigiu-me. – Os humanos usam o termo
mulher para definir a fêmea... e homem para definir o macho.
— Ah... então sou uma mulher. Edward é um homem.
— Sim, você entendeu. – Alice sorriu. – Venha... temos que lhe
escolher roupas. Você não pode continuar usando as minhas...
precisa de estilo próprio.
— E seu guarda roupas não aguenta. – Rosalie implicou.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

Comprar roupas era divertido, então. Eu fui obrigada a vestir diversas


diferentes, e as duas me ajudavam a escolher o que combinava.
Enquanto isso, me explicavam coisas de mulheres. Femininas, como
diziam. Eu não sabia quase nada daquilo... as mulheres no covil
limitavam sua vaidade aos cabelos. Os meus eram longos, muito
longos... não muito escuros, com cachos nas pontas. Eu tinha o
cuidado de mantê-lo preso a maioria do tempo, e os escovava
diariamente. Fora isso, nada mais. Usávamos o mesmo vestido até
que ele se acabasse e tornasse imprestável. Alice me disse que as
mulheres usavam vários vestidos até no mesmo dia... que
precisávamos de muitas roupas.

— Se você dorme, melhor comprarmos peças específicas. – Rosalie


considerou, aparecendo com mais roupas.
— Usamos roupas... para dormir? Quero dizer, roupas especiais?
— Claro, boba! – Riram as duas. – Bem, nós não dormimos... mas
sabemos das tendências da moda. As mulheres adoram modelos
ousados...
— Acalme-se Rosalie. – Alice tomou algo de suas mãos. – Bea terá que
passear na casa... gostaria que ela desfilasse para Emmett neste
visual? Afinal, mulheres são mulheres... homens são homens...
Rosalie me encarou, mesmo sem eu ter feito nada, aparentemente.
As duas falavam difícil demais. Um vocabulário moderno... e confuso
Eu demorei muito a entender que elas não desejariam me tornar
atraente para dentro da casa. Afinal, aquilo implicaria nos machos
delas. Homens... nos homens delas. Se eu estivesse certa, claro. Se
Emmet e Jasper fossem realmente tudo que eu pensava que fossem.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

O período entre eles parecia divertido, e os puros demonstravam


estar completamente integrados no mundo dos humanos. Se os meus
tivessem agido da mesma forma... talvez nunca tivéssemos sido
banidos. Mas não... os meus tinham que se mostrar. Queriam mostrar
que não eram perigosos... sempre foram! Sempre fomos perigosos. E
muito. Por isso, banidos. Tivéssemos ficado em silêncio... eu nunca
teria sido confinada à escuridão.

Ao retornar para a casa dos Cullen, eu logo me recolhi aos meus


aposentos e lá fiquei. Deixei as roupas em qualquer lugar, e joguei-
me na cama. Meu corpo ansiava por algum descanso, enquanto os
puros pareciam completamente renovados a cada instante que se
passava. A luz do exterior já havia se extinguido, até porque lá os
dias duravam muito pouco. A luz do sol era quase pálida e sem vida,
um pouco diferente daquela que vi quando saí à superfície. Ou não...
ou meus olhos, por estarem condenados a nunca ver o sol, não
conseguiram distinguir bem suas nuances.

Eu tinha os olhos fechados e tentava em vão perder a consciência em


um sono profundo, quando meus ouvidos se enganaram com uma
melodia. Música... ela penetrava em meus ouvidos, e me faziam
sentir algo estranho. Um arrepio talvez. Eu não sei se eu sabia o que
era um arrepio... era uma sensação tão humana. A minha consciência
retornou por completo, e eu me dei conta de que a noite já pairava. A
bola cinzenta – a lua – preenchia o céu com sua grandeza. As nuvens
encobriam grande parte das estrelas, dando ao céu um aspecto
aveludado. Senti conforto, a melodia me fazia sentir aquilo.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

Saí do meu quarto, vagante. Era como nas lendas de Felicia, a pessoa
que caminhava durante o sono. Movi-me lentamente, como em um
baile, deixando que meus ouvidos se guiassem pelo som abafado do
piano. Desci as escadas lentamente, para deparar-me com uma cena
que me causou... desconforto. Edward, sentado ao piano. Era de seus
dedos que a melodia surgia. Olhei em volta, não vi mais ninguém
além dele. A sala era muito grande, e parecia na penumbra. Apenas a
luz da lua e uma pequena luminária artificial traziam brilho às teclas
amadeiradas do instrumento. Preto, eu pude ver as cordas vibrando
suavemente a cada toque dos dedos longos e cadenciados de Edward.

— Beatrice. – Ele disse, sem desconcentrar-se da melodia. – Além de


tudo é uma espiã? – Ah, ele também tinha senso de humor.
— Eu... acordei com sua música.
— É Beethoven. – Ele parou de tocar, e levantou o olhar. Aproximei-
me um pouco, respirando bem lentamente. Eu sempre respirava
lentamente, mas daquela vez a sensação era de agonia. Talvez Alice
estivesse certa, e eu precisasse mesmo dos cuidados de Carlisle. Eu...
parecia outra pessoa, sob o sol. Edward trajava apenas jeans. Nada
cobria seus pés ou peito. Minha cabeça entortou e meus olhos se
acomodaram para visualizar melhor a sua figura. Ele me encarava, e
sua expressão me denotava dúvidas. – Aconteceu algo?
— Por que veste-se assim? – Eu tinha que perguntar. Eu sempre
perguntava demais, era a crítica de Rudolph. Aquela curiosidade
ainda iria me levar a lugares ruins, ele me dizia. Mas, se a curiosidade
me havia levado até os Cullen... e se aquele era um lugar ruim... que
eu padecesse no inferno eternamente.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

Então, ele demorou a responder. Talvez porque eu tenha ficado


vidrada em sua figura. Meus olhos não conseguiram facilmente
desprender-se... do seu corpo. Então eu ainda estava fascinada pelo
corpo dos machos? Homens!! Eu precisava aprender que Edward era
um homem! E sim... ele era muito mais lindo do que os meus... do que
todos eles juntos. O conceito de beleza me deixava confusa, pois tudo
que eu via sob a terra, no covil, era parecido, para mim. Talvez a luz
do sol tornasse as coisas mais apreciáveis aos olhos. Eu não sabia. Só
que desde que subira à superfície tudo realmente ficou mais belo. E
eu estava ali, realmente fascinada pelo corpo de um homem. Sem
imaginar que implicações aquilo poderia ter, eu desejava tocá-lo.
Oras, tocá-lo não deveria ser tão complicado.. mas era.
Primeiramente porque eu sentia um impedimento físico de fazê-lo,
como se meus músculos jamais fossem esticar-se para que eu
pudesse tocá-lo. Segundo porque parecia inadequado. Eu nunca
tocara os ... homens.

Mas eu desejava tocá-lo, e toda a forma definida de seu peito, a linha


que descia até seu abdômen e se perdia ao encontrar-se com a
vestimenta. Os músculos que subiam e desciam com a respiração
mais lenta que eu já presenciara. Os braços com finos traços de pelos
dourados que preenchiam toda a extensão do antebraço até as
mãos... e os longos dedos que dedilhavam o piano de forma madura,
clássica. Ele era quase... eu não conseguia descrevê-lo.

— Ah! – Ele riu, movendo-se na banqueta. – É mais confortável... não


acha?
— Pode ser. – Baixei o olhar novamente. Talvez fosse confortável,
mas não seria... insano?

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Sente-se ao meu lado, Bea. Aprecie a música comigo. – Sua mão


tocou o couro avermelhado da banqueta. Minha vontade então não
parecia muito sob meu controle. Fui conduzida por meus pés até ele,
sem que o cérebro emitisse qualquer comando. Simplesmente fui
levada... ele voltou a tocar, e a melodia era tão doce que eu me sentia
flutuando.

Não me recordo de mais nada, até que acordei em meu quarto.


Estava zonza. O dia já estava claro, e eu me lembrei subitamente da
escola. Sobressaltei-me, e senti um mal estar súbito quando me
coloquei de pé.
— Bom dia. – A voz ecoou por meus ouvidos, e o susto foi ainda
maior. Edward estava da forma como antes, sentado por entre
algumas almofadas.
— Você... o que faz aqui? – Senti mais uma vez aquele rubor quente
que me assombrava. O quente não era meu.
— Você tem um sono muito agitado. – Ele riu. – Sente-se bem? Eu
fiquei... preocupado. Aliás, ando preocupado. Você... costuma pegar
no sono muito rapidamente, e eu acabo sempre tendo que te
carregar.
— Escola? – Eu disse, constrangida.
— Sim, vou vestir-me. Não devo sair nessas condições de casa. – Mais
senso de humor. – Afinal, está frio lá fora.

O vampiro saiu de meu quarto, e eu fiquei me olhando no espelho.


Algo estava acontecendo comigo. Algo muito... assustador. Talvez
estar no meio deles fosse... perigoso, então. Mas o perigo não estaria
na minha sede, ou no meu desejo de beber o sangue fresco de algum
humano. Eu provavelmente me saciaria com os animais, eu sempre

51
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

me saciei. Mesmo que tivesse que bebê-los, mesmo que tivesse que
caçá-los... eu não conseguia acreditar que eu fosse perigosa para eles.
Mas... eles pareciam perigosos para mim. Era como se desde que subi
à superfície algo naquele lugar me influenciasse barbaramente. E eu
podia jurar que estava tudo relacionado a eles. E ao seu sol, àquela
luz que tanto me encantava.

CAPÍTULO 07 – OUTRAS COMPREENSÕES


*tema: Chopin‖s Nocturne Op. 9 N. 2*

A escola começava a fascinar-me, então. Naquele dia, tive a


oportunidade de sentar-me com eles. Os humanos. Aqueles que
desejavam minha companhia antes. Mais ciente do meu lugar no
espaço, menos atabalhoada e sentindo mais capacidade de controlar
alguns de meus instintos mais confusos, eu pude sentar-me com eles.
E foi divertido, devo confessar. Foi bem humorado estar na presença
deles, e ouvir todas as suas conversas e absorver todo o seu
conhecimento. Sem que eles me notassem. Aprendi a mentir muito
bem, e a inventar histórias que em muito se assemelhavam com as
fábulas de Felicia. Tão inverossímeis quanto eu parecia ser.

Eu tive a oportunidade de conhecer alguns deles. Não me recordaria


de tudo, eu tinha certeza. Sylvia, a mesma da vez passada, foi quem
me fisgou para a mesa dos humanos. Ao seu lado, estava uma outra
garota, cujo nome eu não sabia. E também à mesa estava um rapaz,
Geoffrey. Ele tinha uma cara engraçada. Como eu estava me
acostumando com os machos vampiros... homens vampiros... eu
achei os homens humanos somente... engraçados. Eu precisava

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

mesmo manter a palavra homem em minha boca, ela sempre me


fugia. Uma hora ela ainda me fugiria em momentos inadequados.
Sylvia era divertida, e aparentemente popular. Falava bastante, e
todos pareciam apreciar sua companhia. Geoffrey era calado, e
parecia tímido. Eu também era tímida, então empatávamos.
Conversamos bastante, trocando olhares. Era uma forma de
comunicação interessante.

Edward, o guardador de minha estada, observou-me de longe


durante todo o tempo. Creio que para impedir-me de falar tolices.
Tolices que eram minha marca registrada. Em poucos dias que estava
entre eles, já me sentia mais bem integrada. Mas ao final do dia,
quando a escola nos liberou, chegando à casa dos Cullen foi que tive
notícias curiosas, e talvez até mesmo perigosas. Carlisle tinha dados
dos meus exames... testes... ele tinha informações sobre mim.

Os Cullen estavam então reunidos no salão, e eu parecia o assunto


principal.
— Bea. – Carlisle me sorriu. – Seria bom conversarmos... estou com
alguns resultados. – Ele me apresentou papéis.
— Não seja embromador, Carlisle. – Alice parecia ansiosa. – Eu quero
saber o que descobriu sobre a híbrida.
— Que ela é híbrida. – Jasper implicou.
— Bem... Bea, você é uma pessoa bastante curiosa, sabia? Bem... não é
uma pessoa propriamente.. é um vampiro. Disso não duvido, até
porque você se assemelha a um... mas o sangue que você me
forneceu... ele é muito, muito diferente de tudo que já vi.
— Como diferente? – Esme, curiosa. Todos pareciam curiosos. Eu me
sentia novamente a cobaia.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Eu descobri células mutantes. Em você... por todo o seu corpo


físico.
— Mutantes? – Emmet franziu a sobrancelha. – Como... nos filmes?
— Como vocês são infantis! – Rosalie protestou. – Deixem Carlisle
falar... afinal, estamos curiosos.
— A situação é a seguinte... eu precisaria de mais testes, mas não
confio exatamente em ninguém para fazê-los. Afinal, Bea é uma
vampira. Não posso arriscar expô-la. Porém... já posso confirmar que
ela é uma híbrida, com certeza. Ela tem a presença de células
completamente mortas em todo o seu corpo. Seus órgãos internos
praticamente não funcionam... somente observei atividade no
coração e no pulmão. Mas seu coração bate 10, 12 vezes por minuto...
ou seja, ela está tecnicamente morta. – Todos ouviam o médico falar,
inclusive eu. – Mas ela não é uma vampira pura, pois se fosse não
teria nenhuma manifestação viva em seu corpo. Só que não foi isso
que me impressionou... apesar de eu estar bastante impressionado
com essa história de híbridos não serem lendas.
— O que te impressionou, Carlisle? – Edward teve que perguntar.
— O organismo de Bea parece estar reagindo a algo... parece estar
mudando, se adaptando.

As interjeições foram generalizadas. Todos disseram “ah” ao mesmo


tempo, demonstrando tanto surpresa quanto nenhuma compreensão
do que o médico falava. Ah, eu estava reagindo... bem, tão ignorante
eu não era. Desde que coloquei meus pés sobre a terra, eu senti que
reagia a alguma coisa. Eu não sabia o que eu havia, mas eu sabia que
eu estava diferente. Meus instintos não estavam tão errados, então.
— E isso é bom ou ruim? – Novamente, eu tinha que perguntar.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Isso é inusitado. – Ele sorriu. – Isso significa, Bea, que você precisa
de observação.
— Observação?
— Sim. Eu fico feliz que estejamos com você... e se você quiser estar
conosco por mais tempo, será muito bom... eu poderei avaliar a sua
evolução e acompanhar todas as mudanças que ocorrerem com seu
organismo. Ainda não sabemos o que a sua parte humana influencia,
além dos batimentos cardíacos e da respiração...
— Eu... não sei o que dizer.
— Fique permanentemente conosco. – Esme sorriu. – Quero dizer...
uma sobrinha pode morar com os tios, não pode? A não ser que você
deseje retornar para seu covil, claro.
— Não! – Detestei a possibilidade. – Eu... não pretendo retornar.
— Então está determinado. Você fica conosco... a sobrinha se muda
para a casa dos tios. Forks é um ótimo lugar, pois aqui o sol não te
incomodará. E uma família pequena tem vantagens. Edward tomará
conta de você.

Edward tomará conta de você.

Aquela frase soou tão bem aos meus ouvidos quanto não deveria.
Retirei-me para meus aposentos tão logo a conferência Cullen
terminou, deixando os integrantes da família. Eu tinha que
compreender estar me tornando o novo integrante da família Cullen,
o que não me era desagradável... mas eu ainda não conseguia parar
de enxergar o perigo. Tentando me enquadrar, banhei-me
lentamente e dolorosamente, pois eu sentia meus músculos
contraírem. Segundo Rudolph, eu não sentia dor exatamente... era
mais uma sensação que representava, para um morto-vivo, a dor. Ah,

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

mortos vivos. Aquele termo era inexplicavelmente sofrido, para


mim. Eu desejava ser apenas viva. Apenas um deles.

Os meus sentidos aguçados me fizeram ouvir outra conversa entre os


Cullen. Daquela vez, Jasper participava. Os homens estavam na sala
do piano, e eu parei no meio do enorme corredor para ouvi-los. Sim,
despida de alguns valores éticos que os humanos tanto
consideravam.
— Carlisle... é só uma ideia. – Edward ponderava.
— Uma ideia a qual não concordo! – Jasper protestava.
— Acalmem-se rapazes... temos que ser ponderados. Edward... não
consigo entender-lhe. Por que rejeita ser o tutor de Bea, agora?
Aceitou tão bem o encargo alguns dias antes.
— Eu sei, é que... – Edward parecia aborrecido em falar naquilo.
— O que está havendo, Edward? – Jasper pareceu sentir o mal estar
no pseudo irmão.
— É que ela me desperta sensações estranhas. – Edward confessou.
Apurei meus ouvidos. Sensações estranhas? Quais poderiam ser?
Repulsa, nojo, asco? Ou alguma coisa diferente? A palavra ―estranha‖
soava como algo ruim... e foi minha vez de sentir um mal estar típico
dos meus momentos sob o sol. Eu já estava achando tudo aquilo
muito inconveniente.
— Ora... mas disse que não sentia nada por ela.
— Enganei-me. Ela... uma parte de mim deseja que ela seja humana.
Outra parte, que seja vampira. Gosto de vê-la pulsar... ela me traz
recordações.
— Recordações de um lado humano que você esconde muito bem,
filho. – Carlisle compreendeu a hesitação de Edward. Eu não. Tudo
aquilo ainda soava irreal aos meus ouvidos.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Então, deve mesmo estar ao lado dela. – Jasper considerou,


satisfeito. – Ora Edward... ela combina com você. Seja agradável.

Novamente precisei tomar cuidado para que Jasper não me pegasse a


espionar os Cullen. Corri para meu quarto, e desejei ficar trancada
ali. Trancada, de forma a ninguém conseguir incomodar-me. Mas eu
nunca conseguia ficar trancada... no covil as portas eram sempre
abertas. Ali, pelo visto, também. Os Cullen sempre apareciam no meu
quarto.

Porém naquela noite ninguém apareceu. A noite estava alta, e a lua


cheia a clarear as árvores do lado de fora. A noite era tão linda... os
pontos luminosos que faiscavam no céu pareciam mudar de cor. E as
nuvens cinza chumbo permitiam nuances que eu desconhecia, a
colorir a ausência de cor do breu profundo. E a música novamente
me preencheu os ouvidos. Os acordes do piano eram suaves... mas
firmes. Edward. Senti um arrepio humano ao pensar na cena
anterior, no piano tocado na noite anterior. A imagem do vampiro a
contrastar com o ébano do instrumento... meus olhos então
novamente se fecharam, e uma nova sensação tomou conta de mim.
Uma sensação de calma... de tranquilidade. Deitada na cama,
tentando lutar com o sono que fazia meu corpo inerte e desejando
saltitar pela casa, senti-me confortavelmente amparada.

Havia algo naquele lugar que me fazia entender, então, o conceito de


casa.

CAPÍTULO 08 – O SOL
*tema: Beethoven‖s Romance in F*

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

Abri os olhos no dia seguinte enquanto a luz ainda não havia


chegado. Havia luz... mas a luz da noite ainda se misturava com a luz
que chegava. Eu dormia pouco, era fato. Bem, eu estava morta. Era
outro fato. Mortos não deviam dormir. Apesar de Carlisle achar que
havia vida em mim, eu dela pouco conhecia. A vida que poderia estar
dentro de mim era uma desconhecida intrusa que teimava em
aparecer, mas da qual eu não desejava separar-me. Ainda travestida
nas roupas para dormir que Rosalie e Alice me fizeram adquirir,
desci até a varanda traseira da casa, enquanto os primeiros raios do
sol penetravam por entre as nuvens de mármore. Era como se uma
força além do meu querer me guiasse. Eu talvez não estivesse
apropriada para perambular pela casa alheia. O quintal dos Cullen
era gramado.. e a grama estava coberta por uma relva gelada. O sol...
eu só o vira uma vez até então.

Meus pés descalços me guiaram até o quintal, e meus braços se


abriram instintivamente enquanto eu fechava os olhos e deixava o
sol tocar minha pele. Não temia que ele me queimasse novamente...
teríamos que chegar a um consenso. Eu tanto desejei o sol, ele não
podia me fazer um mal maior.

— Ela é fascinante. – Um som vocal foi captado por meus ouvidos.


Vozes... elas pareciam se dirigir a mim, mas meu corpo não se movia.
Estava de pé no meio do quintal, sorvendo o sol que aos poucos
encontrava passagem no céu. Finalmente eu tinha o sol para mim, e
não abriria mão dele facilmente.
— Ela é estranha. Demais. – Ah, Edward. Sim, eu era estranha. Eu
acabei por sempre ser a estranha do covil. Aquela que não se

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

satisfazia com nada, que não compartilhava das necessidades dos


outros. Aquela que, por uma eternidade, desejou fugir. Consumida
pelo medo, era apenas a estranha. Então ele tinha percebido aquilo.
Ou usava as palavras como forma de desdenhar de mim. Por que ele
pretendia desdenhar, eu não sabia.
— Não precisa ser sempre tão rude, Edward. – A voz feminina me
permitiu então conhecê-la. – Lembre-se, ela é nossa hóspede...
aprenda a ser gentil e deixe de ser tão... mal humorado.

Mal humorado! Eu jurava que aquele se tratava do puro de maior


senso de humor que eu já sonhei conhecer. Apesar de que eu nunca
havia sonhado conhecer um puro... eu os temia, verdadeiramente.
Mas, se os conhecesse, jamais seriam como Edward. Ele parecia bem
humorado, ao contrário do que previra Rosalie. Talvez fosse apenas
um mau momento. Meu corpo acabou por obedecer aos comandos
simples de meu cérebro e me virei novamente para a casa,
intentando retornar e preparar-me para a escola. Afinal, era para
aquilo que os dois me aguardavam, certo? Virei-me rapidamente,
então. Meu nariz atingiu algo, e meus olhos em um lampejo se
abriram para identificar o objeto que se havia colocado em meio ao
meu trajeto.

O sorriso de Edward.

Se eu desejava tocá-lo antes, aquele toque então fora involuntário.


Constrangedor, provavelmente. Nariz em seu peito, meu corpo
desequilibrado pendeu para sua direção. Eu havia simplesmente
girado sobre meu eixo, não havia muito equilíbrio naquele

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

movimento. Olhos fechados, eu estava vulnerável. Suas mãos firmes


me impediram de cair, se eu fosse fazê-lo.
— Adorando o sol? – Ele perguntou, sarcástico. O sarcasmo... eu sabia
que uma hora ele seria completamente inútil. Mas eu não entendia
porque ainda me sentia constrangida com algo. Na presença de
todos, eu soava como um absurdo. Na presença de Edward, eu era o
próprio absurdo.
— Só checando. – A frase mais tola que saiu de minha boca durante
toda a minha estada com os Cullen. Edward gargalhou novamente,
sem soltar-me. O sol nos iluminava e ele parecia reluzir... lembrei-me
de quando o sol o atingiu pela primeira vez.
— Vista-se. – Ele parecia mesmo mal humorado. – Vamos sair.
— Não vamos à escola? – Assombrei-me. – Pensei que era proibido
faltar aulas.
— Não posso ir à escola brilhando como um cristal, posso? – Mais
sarcasmo. Talvez eu merecesse... ou fosse tão simples ser sarcástico
comigo que ele havia decidido testar. Como eu, só checando. – Se eu,
ou qualquer um de nós, aparecer na escola imerso em glitter, todos
vão imediatamente notar que somos...
— Vampiros?
— Diferentes, Bea. Não acreditam em vampiros.
— Não gostaria de ser diferente?
— Já sou diferente. Não gostaria de dar explicações.

Edward finalmente soltou-me, e entrou. Levei alguns instantes para


recompor-me. Respirei fundo... o oxigênio me deixou embriagada.
Meus olhos capturaram Rosalie, que me observava. Talvez ela tivesse
observado tudo... ficaria ela intrigada? Os Cullen poderiam se
incomodar com todo aquele fascínio que Edward estava a exercer

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

sobre mim? Um fascínio que eu mesma não conseguia entender. E


com o qual eu passara a me preocupar.

Fingi que não estava totalmente embaraçada em estar ali, naquelas


condições, e entrei correndo na casa. Fui diretamente para meu
quarto, o que não me impediu de ouvir um comentário proveniente
da boca de Rosalie.
— Realmente Alice... ainda bem que não insisti naquelas roupas
mais... ousadas. Nem assim consegui livrar todos os machos da
família Cullen...

Se eu fosse um deles, humana, eu estaria vermelha. O embaraço que


eu sentia era tão grande que tudo dentro de mim ardia. Eram mesmo
sensações completamente novas para mim... completamente
inexplicáveis. Fechei a porta atrás de mim, o peito arfante, o cansaço
aparente. Busquei em minhas roupas algo que não provocasse
Edward... se eu soubesse exatamente o que o provocaria. Talvez...
talvez eu não devesse deixar a minha pele exposta, demais. Estava
quente, o sol cintilava no alto do céu, e eu previa cobrir tudo que
estivesse exposto. Sim, poderia ser aquilo. Quando eu o vi semi
vestido, eu senti coisas que não podia explicar. Talvez ele pudesse
sentir o mesmo.

Desci as escadas, para encontrar meu destino.


— Vão vocês. – Peguei o final da fala de Edward. – Eu... levarei Bea a
um lugar especial.
— Oh oh... – Emmet comprimia seus lábios em um bico. – Oh oh...
— Okay, isso agora foi... confuso. – Jasper, o mais diferente. – Que
lugar especial?

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Meninos. – Esme pareceu captar algo que eu ainda não tinha


captado. Eu era mesmo lenta o suficiente. – Deixem Edward em paz...
por favor. Vamos Carlisle... vamos levar os meninos.
A porta se fechou, ouvi o baque surdo da madeira batendo. Logo,
Edward estava de pé em minha frente, como se ele tivesse sentido a
minha chegada, mas só pudesse estar à vontade naquele momento,
depois que todos saíram.
— Está pronta? – Ele me encarou, e eu pude imaginar minha face ao
olhá-lo. Ele tinha olhos sombrios, inexpressivos, muito diferentes
dos que eu vira antes. Edward antes era suave, quase como uma
pintura aquarelada. Mas aquele Edward parecia um afresco severo...
suas linhas faciais se perdiam em um vazio inacabável. Oras, eu
estava prestando mais atenção naquele vampiro do que eu deveria.
— Estou...

Aquele seria definitivamente um dia de sol. E sem a escola. Iríamos


para o lugar especial de Edward, e ficaríamos ali o dia inteiro, previ.
Entendi que ele não desejava ser visto por humanos durante seus
momentos de brilho intenso, e imaginei que o passeio seria longo.
Edward me colocou em seu carro prata e guiou comigo por vários
caminhos que eu desconhecia, mas eu não estava prestando atenção.
Quando ele finalmente parou, eu ainda não prestava atenção. Ele
parecia então mal humorado... como Rosalie previu. Mas ele não
estava com aquele humor sombrio antes, e eu não sabia o que
poderia tê-lo alterado tanto. E não prestar atenção pareceu não
contribuir muito para meu estado inobservador.

O lugar era belo. Havia uma pequena construção de madeira com


varanda e móveis gastos cobertos por invólucros poeirentos; e muito

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

mais verde do que eu podia imaginar. O gramado era permeado de


flores coloridas, e elas pareciam sorrir com a luz radiante que lhes
alimentava. O sol era o alimento da superfície, eu sabia. Como o
sangue nos mantinha vivos, o sol mantinha toda aquela beleza.
— Onde é aqui? – Eu precisei dar o primeiro passo em direção a um
diálogo. Ele não parecia propenso às palavras.
— Meu esconderijo. – Ele sorriu, daquela vez um melhor sorriso. – A
família... eles já vieram muito aqui, agora preferem geralmente jogos
e ambientes mais radicais. Eu ainda gosto da tranquilidade que esse
lugar me passa.

Edward jogou-se no chão, sentando no meio da grama úmida. Chovia


demais em Forks, era fato. Forks... o nome do lugarejo no qual os
Cullen viviam, e que, por obra do destino, seria então o lugar no qual
eu viveria. Se viver fosse um termo adequado.
— E o que vamos fazer?
— Nada. – Ele disse, com a expressão mais branda. Senti certo alívio
instantâneo ao pensar nele mais...sereno. – Você quer fazer algo? Ou
deseja apenas curtir o sol?

Ah, a tentação do sol! Sentei-me ao seu lado, não tão próxima que me
pudesse fazer pensar em coisas ainda mais inadequadas do que meus
pensamentos sombrios e descoordenados, não tão longe que me
fizesse sentir agonia. Desde que eu chegara à casa dos Cullen sentia-
me mais e mais próxima a Edward, como se estivéssemos conectados
por uma linha invisível e muito curta. Eu desejava estar na presença
dele... desejava estar próxima, ouvir sua voz e ver sua face gélida. Era
como se a sua presença me causasse um bem ainda maior do que o
sol. Se aquilo fosse possível.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Você é... – pensei no que falar. – Como pode saber sempre o que
fazer?
Edward riu, uma gargalhada. Como as que o vi rir com Jasper,
quando nos encontramos pela primeira vez.
— Então é isso que pensa? Que sempre sei o que fazer?
— Sim.
— Sente-se bem? – Ele perguntou, deitando-se de lado. Sua pele
reluzente ainda ofuscava minha visão turva pelo excesso de
claridade. Ainda não estava muito afeita ao sol, apesar do desejo de
sorvê-lo por toda uma eternidade. – Quero dizer... sente-se satisfeita?
— Sim. – Baixei o olhar. – Se me pergunta se tenho sede, não tenho.
— Isso é bom. Só precisaremos nos alimentar no final de semana,
mas... como Carlisle disse que você está em adaptação... é bom ter
certeza.
— Você está fugindo da pergunta. – Balbuciei. Sempre temerosa de
enfrentá-lo em contestação. – Minha sede não o colocaria em risco, e
você saberia o que fazer.
— Eu não sei sempre o que fazer. – Ele decidiu se posicionar. Eu
olhava para frente, encarando o nada. Ele olhava para mim. – Eu... eu
consigo saber o que as pessoas pensam.

Arregalei os olhos e me virei para a figura albina do vampiro.


— Como assim, saber o que pensam as pessoas?
— Não só as pessoas... tecnicamente eu posso saber o que qualquer
um está pensando... qualquer um.
Pavor preencheu meus olhos. Sim, pavor. Ele disse claramente que
poderia ler a mente de qualquer um... e a minha mente não parecia
exatamente um local salubre para a leitura. Não naquele momento,

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

no qual os pensamentos me traíam de forma tão cruel. Meus


pensamentos eram tudo que eu desejava mais esconder, em mim.
Antes caminhar nua por entre os humanos, se aquilo fosse tão ruim
quanto eu supunha, do que deixar escapar uma centelha de meus
pensamentos. Eles estavam permeados de negações, de dúvidas, de
vontades que eu reprimia a todo custo.
— Edward... – Não tive coragem de olhá-lo. – Você...
— Sim. – Ele respondeu, sem que eu precisasse terminar a pergunta.
– Eu juro que não queria lê-la, Beatrice... é um tanto quanto
previsível demais, eu prefiro o mistério. Mas é inevitável.
— Você leu... você sabe tudo...
— Sim. – Ele disse, e pude notar seu sorriso envergonhado.
— Oh, mas isso é uma trapaça! – Elevei a voz pela primeira vez em
sua presença. Os olhos ardiam em fogo quando olhei para ele,
diretamente. Estava preenchida de cólera. – Como teve a audácia de
ler-me...
— Já disse, é inevitável.
— Trouxe-me aqui porque sabe que pretendo me entender com o sol!
— Sim.
— Trapaça! – Protestei. – Ah, gostaria de enfiar-me no covil e não sair
mais de lá por mil anos!
— Não precisa exagerar... eu só sei o que você estava pensando, não é
algo tão ruim. É?
— Diga-me você! – Eu estava irritada, embaraçada, assustada e
definitivamente envergonhada. Edward Cullen sabia de todos os
meus pensamentos. E não eram pensamentos puros de anjo, ou
pensamentos divagantes. Eram pensamentos certeiros, que miravam
um alvo. Que, por sinal, estava a me falar.
— Por vezes senti-me até lisonjeado.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

Então ele sabia! Sabia de todas as vezes que o admirei e sabia de


todas as vezes que desejei tocar sua pele. Sabia que eu o achava
lindo, lindo até demais para um puro. Sabia que eu o temia. Que eu
temia os puros. Sabia das minhas indecisões, das minhas dúvidas e
incertezas, sabia dos meus dilemas. Ele podia ler nos meus olhos a
hesitação. Ah, maldito fosse aquele vampiro!

— Pois não deveria. – Tentei retomar uma postura retórica. – Estou


apenas confusa... não deveria confiar em meus pensamentos.
— Não adianta ficar tão defensiva, Beatrice Caldwell. Afinal, para
quem tem a mania de escutar os outros por trás das portas...
— Oh!! – Franzi o cenho, irritada. Muito irritada. – Edward Cullen...
como ousa! Mente para mim, e agora acusa-me de espionagem!
— Diga-me que estou mentindo. – Ele desafiou, e seus olhos então
brilhavam mais do que a pele.
— É injusto. – Baixei o olhar novamente. – Eu... não pretendia. Eu...
— Sempre se perde nas palavras quando está embaraçada.
— Estou aborrecida! – Protesto, novamente. Eu aprendi rápido demais
a contestar Edward Cullen. Levantei-me, fincando os pés no gramado
e caminhando pesadamente em direção à área coberta pela
construção. Sol demais, sentia-me arder. Eu não sabia se a ardência
provinha do astro rei ou de minha irritação repentina porque aquele
vampiro me decifrara inteira. Eu não tinha como esconder dele nada,
e definitivamente aquilo era perigoso. Eu sabia, tinha certeza que
algo ainda atrapalharia toda a graciosidade de estar entre os Cullen.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Onde vai, Beatrice? – Edward pareceu seguir-me, sem desejo de


alcançar-me realmente. Ele poderia me alcançar em instantes, pois
eu não me preocupava em velocidade.
— Para longe de você! – Mais protestos.
— Pretende voltar à casa caminhando?
— Pretendo afastar-me... nem pense em ler-me novamente, Edward
Cullen!

Então sua vontade de alcançar-me voltou. Edward tinha a camisa


aberta, quase todos os botões. Os pequenos raios luminosos que sua
pele emitia causavam uma sensação dolorosa em meus olhos. Ele se
prostrou em frente a mim, impedindo minha passagem. Desejei
momentaneamente ser um fantasma, e ultrapassar-lhe o corpo físico
como se fosse feita de ar. Minha ira aumentou ao ver que ele ria...
como se algo ali fosse engraçado! Minha respiração estava
novamente ofegante, mas optei por parar. Em alguns segundos, seus
lábios sorridentes se cerraram em uma expressão confusa.
— Por que desejava tocar-me, Beatrice? – Eu gelei. Se pudesse tornar-
me ainda mais gelada. Ele definitivamente sabia de tudo.
— Que pergunta tola, você já sabe a resposta.
— Não, eu não sei. Poder lê-la não significa que posso entendê-la.
Você... já me tocou antes.
Ele estava terrivelmente certo. E inequivocamente errado. Eu nunca
o havia tocado... não da forma impura que eu imaginava tocá-lo
naquela noite. O simples toque de pele com pele não poderia servir
para interpretar todos os desejos incompreensíveis que me
passavam pela cabeça naquele instante. Então não, eu ainda não o
havia tocado.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Esqueça isso, Edward. – Tentei ignorar, seria melhor. Seria mais


condizente com a sanidade. A minha sanidade. Meu organismo não
estava ainda tão preparado para Edward Cullen como para o sol. Ou
para as sensações que ele me fazia sentir. Ou para o seu sorriso.
Definitivamente, nada preparado para toques. – Afinal, se vamos
passar o dia ao sol, seria melhor que... esquecesse isso.
— Acho que preciso deixar-te mais tempo com outras pessoas.
Estou... monopolizando você.
— Carlisle te ordenou cuidar-me.
— Foi conveniente.
— Garantiu a ele que eu não o atraía.
— Foi conveniente.
— Esqueça isso.

Voltei para meu lugar, ao sol. Dei as costas a Edward e joguei-me à


relva, como fizera antes. Estiquei meus ossos no sol, e permaneci ali.
Fechei os olhos, não queria vê-lo ou notá-lo. Eu estaria irritada com
sua postura de leitor de mentes. Deveria estar, afinal eu me sentia
invadida em minha privacidade. Toda a minha intimidade fora
deflagrada por aquele vampiro.

Involuntariamente, minha consciência se perdeu


momentaneamente. Eu não sei por quanto tempo, mas fiquei
temporariamente desacordada. Como se houvesse adormecido ali,
em meio ao odor adocicado das flores. Talvez eu tenha adormecido...
o adormecer era um momento muito sombrio para mim. Jamais
compreendia a reação de meu corpo, o relaxar dos músculos. Nada
daquilo me fazia demasiado sentido, então preferia ignorar. Quando
recobrei os sentidos, minhas mãos tatearam o ambiente ao redor. Os

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

dedos tocaram a grama fresca. Tomei ciência de onde estava,


recordando-me do meu momento ao sol. Abri os olhos, a claridade
me causando extremo desconforto, e elevei meu corpo. Sentei-me na
relva, e pude observar Edward ao longe, na varanda de madeira,
sentado em um sofá empoeirado.

Levantei-me por completo, intentando chegar até ele. Não sabia


quanto tempo havia se passado. Desequilibrei-me em direção à
varanda, as imagens borradas e escurecidas, algumas nuances
avermelhadas em tudo que via, uma sensação estranha de fraqueza.
Em um segundo, Edward estava ao meu lado, amparando-me.
— Beatrice. – Ele disse, voz quase inaudível. – Venha... sente-se à
sombra.
Conduziu-me literalmente até a pequena construção, sentando-me
onde ele estava antes. Depois, adentrou no casebre e retornou com
algo em suas mãos. Calmamente, Edward se sentou ao meu lado e
depositou algo em meu cenho. Franzi-me toda, confusa. Estava
completamente inebriada... sentindo como se meu corpo nada
tocasse.
— O que faz?
— Você está quente... notou? – Ele disse, pressionando algo molhado
contra minha pele. – É só um lenço e água fresca. Um remédio de
Carlisle... ele costuma utilizar nos humanos que têm febre.
— O que é febre? – Eu realmente não sabia.
— O sol não te faz tão bem, Beatrice. – Ele ignorou meus
questionamentos. – Alguém como você... não deveria estar quente.
Esse calor... sua parte humana... Carlisle disse para ter cuidado. Você
está em adaptação, não precisa deitar-se ao sol como se ele fosse
desaparecer em instantes.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Não precisa repreender-me. – Balbuciei.


— Não pretendo.

Meus olhos pareciam decididos a me desobedecerem. Eles se


recusavam a manter-se abertos. Mas meus sentidos não se haviam
perdido. Talvez estivessem descalibrados, talvez me pregassem
peças. Os dedos de Edward tocaram-me a face, descendo da têmpora
até o queixo, delineando cada contorno de minha simplória
anatomia. Eu não pude vê-lo, mas jurava que ele sorria. Ele sorria
bastante, e seu toque me transmitiu paz. Aos poucos, senti minha
respiração mais lenta, como deveria ser. Os dedos desceram a
contornar a linha de meu pescoço, deixando-se posicionar por entre
meus cabelos. Um tremor em meus músculos teria sido sentido por
ele. Foi impossível de controlar. Abri os olhos forçosamente, e o
percebi mordendo o lábio inferior, que imediatamente se contraiu.

— Vamos voltar para casa. – Ele intencionou segurar-me em seus


braços. – Você já teve muito do seu momento de sol, por um dia.

CAPÍTULO 09 – GAROTAS
*tema: O-town‖s Liquid Dreams*

**** Uma conversa dos Cullen ****

— Edward? – Esme Cullen franziu a sobrancelha ao encontrar o filho


em casa, sentado divagante no imenso salão. – Já voltou tão cedo?
— O que houve no seu ―lugar especial‖?? – Emmet implicou. Os Cullen
acabavam de chegar de uma tarde de jogos, em uma campina ao
longe. Estavam sujos e satisfeitos. O dia já findava no céu rosado.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Deixe de ser implicante, Emmet... – Rosalie protestou. – Vai ver


que a híbrida...
Rosalie interrompeu suas palavras pelo olhar cortante de Edward.
— Vocês, vão guardar as coisas. – Carlisle disse aos filhos, apontando-
lhes os fundos. – Aconteceu algo, filho? – Ele se aproximou,
cuidadoso.
— Poderíamos só ter querido voltar...
— Você adora sair nos dias de sol.
— Beatrice não está se sentindo bem.
— O que houve? – Esme demonstrou preocupação.
— O sol... ela insiste em ficar prostrada ao sol, mas ele não lhe faz tão
bem. Ela teve um mal estar, desmaiou...
— Onde ela está agora?
— Em seu quarto, descansando. Eu... eu a trouxe de volta, e ajudei a
normalizar sua temperatura.
O comentário soou cômico. Beatrice era uma morta viva, ela não
tinha exatamente uma temperatura.
— Muito bem, Edward... mas você me parece.. diferente. – Carlisle
observou. – Deseja falar sobre isso?
— Não é nada. Estou apenas entediado.
— Carlisle... por que não ajuda os garotos a guardarem os
equipamentos? – Esme sorriu, suavemente. O Dr. Cullen entendeu a
deixa de sua retirada e foi até os fundos, fingindo.
— Vocês deviam saber que não conseguem me embromar. – Edward
balbuciou, não muito lívido.
— Nem tentamos. – Esme riu. – Ora, a quem tento enganar... bem,
deixe-me ao menos acreditar que estou fazendo isso direito, Edward.
Eu... talvez você queria conversar sobre Beatrice.
— O que teria sobre ela para se falar?

71
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Diga-me você.

Edward levantou-se, e caminhou até a enorme parede de vidro.


Observou a noite chegar, por alguns instantes.
— Eu não sei... eu não consigo entender, - Edward preparou
cuidadosamente sua fala, sem olhar para a mãe. – Esme. Beatrice...
ela causa um efeito muito confuso sobre mim, sabia? Pior, eu sei tudo
que ela pensa... eu leio cada linha de seus pensamentos
desordenados, mas eu não a entendo. Ela é uma coisa muito
complexa... eu tenho muita dificuldade em decifrá-la.
— Sabe, Edward... eu tinha medo. – Esme confabulou, com a
tranquilidade de quem vinha selecionando as palavras há muito
tempo.
— Medo? – Ele se virou, ansioso.
— Sim, medo de que você perdesse totalmente o seu trejeito
humano. Você sempre foi o mais.. metódico de nós. Sempre foi tão
vampiro... tão frio e distante das emoções mundanas que ainda nos
inundam. As emoções são parte de nós, Edward. Somos aberrações da
natureza, mortos que andam e falam, e que precisam beber sangue
vivo para continuarmos nossa saga. Mas, bem no fundo, sabemos que
proviemos de seres humanos. Eu já fui um ser humano... você
também. Muitas dessas coisas não se perdem nunca. Sentimos medo,
pavor, ansiedade, desejo...
— Você acha que...
— Você sabe o que eu acho, já leu meus pensamentos há bastante
tempo. – Esme prosseguiu. – Seja lá o que for que esteja dentro de
você, foi desencadeado por Beatrice. Assim que ela chegou nesta
casa, você perdeu o controle de si mesmo. Existe muito do humano

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

Edward Cullen em você... que estava adormecido, escondido,


perdido. Beatrice parece ter encontrado, então, o caminho.

Edward ouviu a tudo sem se manifestar. Esme devia estar certa; era
ao menos uma explicação. Ele se sentia diferente desde que
conhecera a híbrida na floresta. Pelo menos Esme possuía uma
explicação para isso. Mesmo que ele não tivesse gostado do que
ouviu.
— Ela... ela também parece confusa. – Ele finalmente confessou.
— Talvez ela esteja. Você é muito bonito, atraente... não sabemos
como era a sua vida no covil, mas Beatrice parece ter sido muito
solitária. Ela se desapegou facilmente do que tinha lá.
— Eu preciso me afastar dela, um pouco. Você acha que seria
perigoso?
— Ah, Edward! – Esme sorriu, um largo sorriso. – Você não precisa
afastar-se de Beatrice! Apesar de ela ser uma híbrida e ter um
passado obscuro... ela é mais uma de nós do que um humano. Você
pode tê-la, se quiser... quando quiser...
— Não. – Ele disse, voltando-se novamente para a paisagem. – Eu
ainda não estou preparado, Esme...
— Poderia deixá-la passar mais tempo com os humanos, então. Disse
que ela se interessou por eles...
— E eles por ela. Ela parece... popular.
— Então! Faça essa tentativa... mantenha-se alerta, mas permita que
ela alce vôos mais longos. Dê a ela algum tempo, algum espaço.

Eu não estava ciente, mas muitas coisas me fugiam da compreensão.


Eu não detinha super poderes como alguns membros da família

73
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

Cullen, e eu definitivamente não me sentia esperta. Sempre fora


facilmente ludibriada no covil; a minha ingenuidade era lendária.
Felicia dizia que era excesso de bondade... que eu tinha confiança
demais no meu semelhante. Talvez eu tivesse confiança demais em
qualquer coisa. Mas eu não desconfiava de que Edward estivesse se
afastando propositadamente. Para todos os efeitos possíveis, ele só
poderia estar se afastando porque eu o repelia. Minha insolência,
minha ignorância.. eu era um ser patético e ele, ao contrário de mim,
tinha ciência disso.

De qualquer forma, eu passei a frequentar a escola sempre com os


Cullen, mas durante os almoços eu era largada para os humanos.
Inicialmente eu não entendi direito quando Edward empurrou-me
compulsivamente para o lado deles, para a cadeira em uma mesa
deles. Ele praticamente me fez desabar no móvel de fórmica fria.
Sorriu para mim como se quisesse me dizer algo, e voltou-se para a
mesa com os irmãos. Os humanos logo me cercaram, e ali permaneci.

Logo, eu nem mais sentia compulsão por sentar-me com os Cullen.


Os humanos se tornaram simpáticos, e a empatia por eles só crescia.
Eu não desejei, em nenhum momento, alimentar-me deles. Até
porque eu sempre caçava com os Cullen, regularmente. As caçadas
eram ainda intrigantes e me causavam enorme repulsa e
constrangimento. Eu nunca consegui matar um animal. A primeira
foi um fracasso tão grande que quase desejei voltar sem me
alimentar, e morrer de inanição. Se aquilo fosse possível. Edward
notou meu desespero frente o animal estático, que simplesmente
esperava pelo seu fim. Eu sentia angústia. Não foi uma cena
agradável, mas ele deu fim ao animal e depois o entregou a mim.

74
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

Tirar a vida do pequeno cervo lhe fora tão simples que me senti, em
mais uma das milhares de vezes, patética.

Os Cullen logo entenderam que matar não era para mim uma opção,
mas a falta completa delas. Mesmo sedenta, mesmo fraca, mesmo
necessitando desesperadamente do sangue, eu não conseguia atacar
outro ser vivo. E, apesar de todo o meu constrangimento e agonia,
eles passaram a caçar para mim. Por vezes Alice, ou Carlisle, até
mesmo Emmet... eles buscavam os animais e me jogavam à frente,
ainda jorrando o sangue de odor inebriante e irresistível. Alguns
ainda tinham o coração pulsante como o meu, já quase paralisados
pela morte iminente. Assim, o controle me fugia e eu me sentia apta
a alimentar-me. Só assim.

Mas os humanos.. eu não os desejei, nem uma só vez. Parecia


inacreditável que eles fossem tão mais saborosos que qualquer
animal nas florestas ao redor de Forks. E eles pareciam sempre
satisfeitos e felizes ao meu redor... sempre brincando, divertindo-se,
demonstrando bom humor... foi fácil criar laços com eles. Aos
poucos, tínhamos diálogos na sala de aula, nos intervalos, nos
almoços. Os momentos de solidão com Edward foram se esvaindo,
até se tornarem memória apenas. Nem mesmo na casa ele parecia me
perseguir. Eu não o via mais invadir meu quarto no meio da noite,
buscando minha reação desesperada quando um sonho desastrado
me fazia irromper na consciência aos gritos. Era como se eu não mais
precisasse dele... como se aquilo fosse possível, então.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Beatrice. – O professor de literatura me chamou o nome. Edward


cerrou os dedos, mas sorriu-me timidamente. Eu já sabia tudo o que
fazer, já estava integrada aos humanos. Levantei-me e caminhei até o
tutor, que me forneceu um formulário em branco. – Traga assinado
por seus tios, amanhã.
— O que é isso? – Perguntei, ao retornar para a minha cadeira, ao
lado de Edward. Apesar da distância estabelecida entre nós, aquele
sempre foi o seu lugar.
— Uma autorização. Vocês... farão uma viagem.
— Vocês? – Franzi o cenho. Não entendi por que ele não disse nós...
— As garotas. – Ele disse, o sorriso tímido novamente. – A professora
de literatura do último ano sempre leva as garotas para um tipo de...
evento. Uma viagem, outra cidade... é divertido.
— Alice e Rosalie vão?
— Quando a cidade permite, sim. O que está escrito no papel?
— Hum... não entendo.
Edward tomou o formulário de minhas mãos delicadamente, e o leu.
— Boston. – Ele comprimiu os lábios. – Vão para longe, dessa vez.
Acredito... que elas possam ir.
— Por que...
— Porque é quase tão gelado e sombrio quanto Forks. – Ele riu.

Comprimi meus lábios em um formato peculiar meu, formando um


―bico‖. Era como sempre ficava ao considerar opções. Pelo olhar de
Edward, eu não tinha opções, eu iria àquela viagem. Mas eu pude
sentir que ele desejava que as irmãs também fossem. Havia alívio em
sua voz quando ele pronunciou o nome da cidade. Fria, sombria. Eu
queria o sol.. mas já havia aceitado o fato de que ele não me era tão
bom, afinal.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

O formulário de autorização poderia ser assinado, mas havia algo que


eu ignorava, e que me fora colocado em jogo no almoço. Sylvia falava
sobre a distância, e dizia que seus pais reclamariam do custo da
viagem. Eu não podia ser tão estúpida e perguntar o significado
daquilo, mas foi a minha outra amiga, antes sem nome, Layla, quem
explicou, involuntariamente. Dinheiro, ela dizia. E eu, mais uma vez,
ignorei o que o dinheiro representava para os humanos, e que tipos
de problema ele me causaria. Mas os Cullen não pareceram
constrangidos com aquilo. Aliás, Alice parecia exultante com o fato
de poderem ir... pois a última viagem havia sido para uma cidade
ensolarada e elas haviam ficado de fora. Imaginei, então, que o
dinheiro não fosse problema para os Cullen, e que a viagem devia ser
mesmo muito boa.
— Bea, você vai adorar. – Alice disse, animada. – É tão bom, só
garotas... e conhecemos tantas coisas novas!
— Parece até que algo lhe é novo, Alice. – Rosalie desdenhou.
— Pode até ser. Faz muito tempo que estive em Boston pela última
vez.
Rosalie franziu-se, concordando. Carlisle assinou todos os
formulários, sem hesitação alguma. A viagem seria em alguns dias, e
as garotas ficariam fora por uma semana. Uma semana... eu ainda me
perdia na contagem de tempo, mas uma semana me parecia um
tempo razoável para se quantificar. Bom o suficiente para conhecer
coisas novas, pensei. E bom o suficiente para me ambientar melhor a
Alice e Rosalie. Elas eram divertidas, apesar da diferença óbvia entre
elas. Elas eram muito diferentes, mas igualmente excitantes. E eu
desejava compartilhar daquela excitação.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

Ao contrário do que pensei, Edward não pareceu tão feliz com a


viagem depois. Primeiro pensei que ele desejava que eu fosse. Depois,
parecia que ele se contorcia com a idéia. Ou fosse só a minha
vertigem de sempre, claro. Edward jamais se importaria àquele
ponto. Até porque eu andava livre... meu protetor havia me deixado
solta pelos campos sem qualquer amarra. Fora por sua própria
vontade, então ele não poderia estar incomodado em uma simples
ausência. Ainda porque eu estaria com suas irmãs. Mas eu continuei
com aquela impressão esquisita até o momento de entrar no ônibus
que nos guiaria a Seattle, e de onde pegaríamos o avião para Boston.
— Comporte-se. – Ele disse, sorrindo. Os Cullen todos foram nos levar
até a escola, de onde sairia o ônibus. Várias famílias humanas se
amontoavam lá, para despedirem-se de suas garotas. Muitas; era um
grande número de mulheres que iriam à viagem. Carlisle e Esme
pareciam igualmente satisfeitos. Emmett tinha os olhos de uma
criança, e pude imaginar que fosse pela distância cruel que lhe seria
imposta. Rosalie, sua parceira, estaria comigo. Conosco. Jasper
parecia menos incomodado com aquilo, mas segurou Alice entre os
braços antes do embarque.

Eu ganhei um sorriso.

O que eu poderia pretender, afinal. Aqueles pensamentos estavam


irritantes, ainda mais porque o vampiro errado poderia tomar
conhecimento deles. Precisei fugir do raio de ação de Edward
imediatamente, ao ver todo o carinho que envolvia os Cullen naquele
instante. Eu me comportaria, pensei comigo mesma. Até porque não
sabia viver de outra forma; eu tinha que me comportar ou nada fazia

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

sentido. Eu ignorava qualquer outro tipo de comportamento além do


estritamente correto e esperado.

A viagem até Boston foi... longa. Primeiro, ônibus até o aeroporto.


Muitas garotas falando, todas ao mesmo tempo. Até Alice e Rosalie.
Nunca as vira tão... agitadas. Elas haviam me levado para caçar na
noite anterior, e foi uma caçada longa. Segundo Alice, era muito mais
seguro que estivéssemos plenamente alimentadas, antes de
embarcar em uma longa viagem. Seria mais simples de superar
qualquer contato inadequado com humanos. E elas estavam
impossíveis. Tão animadas, tão cheias de... vida. A vida que Carlisle
via em mim, e que eu ignorava todo o potencial. Sylvia e Layla
tentaram contato comigo durante todo o tempo, mas eu estava
aérea. Conversava, mas meus pensamentos não estavam ali, mesmo.

Segunda parte da viagem, o avião.

Eu travei, e as minhas novas primas tiveram um trabalho terrível


para me fazer sair do lugar. Voar não me soou bem aos ouvidos, e o
aeroporto me causou mais vertigem do que tudo na casa dos Cullen
de uma só vez. A ideia de estar dentro daquele objeto metálico
enorme, e de imaginar que ele podia cruzar os céus me causou
náuseas e se eu tivesse conteúdo estomacal, ele teria sido derramado.
Alice segurava minha mão ternamente para me convencer a entrar
avião adentro, enquanto as meninas todas diziam que tudo daria
certo, que era um transporte seguro.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

Rosalie divertiu-se cruelmente com meu pavor, mas acabou por me


forçar a entrada no avião. Depois, amarrou-me ao assento como se as
frágeis tiras pudessem me prender ali.
— Não seja tola, Beatrice. Sei que nunca voou... mas é só um passeio,
como outro qualquer. Vai adorar, no final.
Claro, eu poderia adorar. Mas eu ainda não estava convencida disso..
eu estava apavorada.
— O que pode acontecer de ruim? – Alice brincou. – Já estamos
mortos mesmo...
Sim, mas não totalmente. Se aquela coisa desabasse, nos levaria ao
inferno em segundos. Se existisse inferno, se não nos restasse
apenas... o vazio completo. Eu nem sei o que preferiria. Seja lá como
fosse, o tal avião levantou voo, ao contrário do que eu previa, e me
levou para o alto, com todos dentro. Era mortificante, se eu
definitivamente já não estivesse morta.

Então, Boston nunca podia ser longe o bastante. Edward havia dito,
era longe. Mas não longe o bastante... foi um exagero. Eu não adorei,
como Rosalie previu. Senti náuseas durante toda a viagem. Senti a
vertigem. Pavor tomava conta de meus sentidos e as garotas tiveram
ainda mais trabalho para manter-me sossegada. Eu estava
insuportável e impossível, agindo como uma pequena mimada.
Talvez eu assim o fosse, no covil. Eu tinha certeza que Felicia me
mimava. Mas a viagem foi detestável, na parte do avião. Eu não
relaxei e não senti prazer algum. Meus dedos estavam ainda
grudados nos braços dos assentos quando o grande transporte
voador finalmente aterrissou em Boston.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

A diversão entre garotas era interessante, e comecei bem cedo a


entender por que Alice e Rosalie ficaram facilmente empolgadas com
a viagem. Mulheres falavam sem parar, e comentavam sobre tudo
que viam. Depois que saímos do hotel e fomos andar pela cidade, a
professora de literatura nos levou a diversos museus e galerias de
arte, todas com obras datadas da antiguidade. Datas que nos eram
familiares... de quando elas ainda eram humanas, de uma vida que
elas lembravam com facilidade. Era, definitivamente, empolgante.
Mesmo que eu me sentisse péssima por não me recordar da minha
vida humana, eu conseguia sentir nelas toda a sensação. Passamos
alguns dias nessa rotina, visitas a museus e galerias durante o dia,
sono durante a noite. Sono meu, porque Alice e Rosalie conversavam
e se agitavam durante toda a noite. Se eu não fosse definitivamente
uma pessoa de perder os sentidos, eu não conseguiria dormir com
elas por perto.

Era o entardecer, e o céu estava colorido de rosado. Apesar de não


ter havido um dia de sol em Boston, como previsto, ele estava ali,
escondido por sobre as nuvens, esperando uma abertura para se
mostrar. E sua despedida deixava o céu com a cor do sangue, com o
vermelho vivo da carne dilacerada. Que, em meio às nuvens
cinzentas, transformava o ocaso em um tom róseo intrigante. O
telefone celular de Rosalie tocou, outra vez. Ele sempre tocava, e eu
nunca acompanhava a conversa. Eu estava cambaleante, pois o dia
fora cansativo. E quanto menos eu me alimentava, mais sono eu
sentia. Fraqueza, que me causava uma reação diferente do que nas
meninas. Mas daquela vez, foi como se Rosalie fizesse questão que eu
soubesse quem era.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Edward Cullen. – Rosalie atendeu, voz grave e ríspida. – Isso não vai
funcionar se você continuar ligando de vinte em vinte minutos. – Era
um protesto. Edward ligava de vinte em vinte minutos? Aquele fato
me era totalmente desconhecido. – Claro... vai conseguir me
convencer que Emmett quer me falar. Se Emmett quisesse me falar
simplesmente, teria me ligado de seu telefone. Sim, ela está... okay,
pode falar com ela.
Rosalie franziu toda a sua expressão e, olhando para mim, atirou-me
o aparelho eletrônico. Sorri encabulada, e achei mais conveniente
dizer algo. Afinal, eu ainda não havia falado com Edward, e aquela
história de ligar constantemente ainda não estava esclarecida.
— Alô? – Arrisquei.
— Como está a sua viagem? – A voz de Edward preencheu meus
ouvidos, com suavidade. Era tão marcante que pude nitidamente
delinear seus traços em minha frente, enquanto ele falava.
— Muito divertida, suas irmãs são ótima companhia.
— Eu sei. Elas têm cuidado de você? Evitado encrencas?
— Sim... comportamento impecável.
— Fico satisfeito. Vejo você em alguns dias, Beatrice.
Ouvi o telefone desligar. Tive vontade de pedir que ele esperasse.
Senti falta de sua voz. Não tinha certeza disso até ouvi-la, então. Sua
voz me trouxe memórias recentes muito satisfatórias... que me
fizeram ter nostalgia de um tempo muito próximo. Emburrei
levemente após devolver o telefone a Rosalie, pois eu queria ter tido
um pouco mais de Edward. Tentaria não deixar que elas
percebessem, se isso fosse razoável. Alice era sensível demais, e
Rosalie estava sempre me observando. Elas certamente notariam
meu estado de humor alterado.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Gostaria mesmo de ter falado com Emmett. – Rosalie desabou


entre almofadas, também com aspecto emburrado. – Sinto sua falta.
— Ah... e sinto falta de Jasper. – Alice assentiu. – Mas não sejamos
piegas... vamos tê-los novamente em poucos dias. É bom nos
separarmos vez ou outra, faz com que o reencontro seja gratificante.
Eu me senti então um alienígena. Não fazia bem idéia do que elas
falavam, tão naturalmente.
— Eh... por que vocês sentem falta deles, especificamente? – A
pergunta saiu sem querer, e as duas vampiras me encararam,
atônitas. Era como se eu tivesse falado uma bobagem indesculpável.
Parecia tão óbvio para elas... – Quero dizer... não sentem falta de seus
pais? Edward?
Foi a vez das duas rirem. Aquele mesmo comportamento de Edward e
Jasper. Parecia uma constante entre eles... ouvir minhas tolices e rir
delas. Sem qualquer pudor.
— Bea, Bea... sinto falta de Jasper porque... como explico isso a uma
híbrida que aparentemente não sabe do que estou falando? – Alice
pareceu dirigir-se a Rosalie.
— Sendo direta. – Rosalie não pareceu muito interessada em me dar
explicações. – Afinal, ela precisa saber isso um dia, não?
— Okay... vejamos. Bea, farei uma pergunta. Seja sincera, por favor.
Em seu covil... como era seu relacionamento com os machos?

Alice pareceu escolher cuidadosamente a palavra, para que eu não


me perdesse. Sempre me referia aos homens como machos, e
apostaria que ela não conseguia enxergar homens me meu covil.
Apesar da minha aparência natural, eu acreditava que eles ainda
viam monstros em meu covil.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Eu não me relacionava com eles, exatamente. – Fui


definitivamente sincera. – Rudolph era o único macho que entrava
em contato comigo. Os demais... não tinham permissão.
— E esse Rudolph era como seu pai? – Rosalie inquiriu.
— Sim, como Carlisle é para vocês. Ao menos, é como sinto.
— Então... serei mais direta, e continue sendo sincera. – Alice piscou
várias vezes em minha direção, um sorriso doce nos lábios. – O que
sente quando está na presença de Edward?

Ah, que pergunta cruel e perversa! Haveria descrição para o que eu


sentia na presença daquele puro? Haveria forma de colocar as
palavras que fossem capazes de explicar o turbilhão incerto de
emoções desconhecidas que transbordavam em meu peito quando
ele olhava para mim, ou sorria para mim, ou simplesmente estava
presente? Talvez fosse impossível explicar tais sentimentos, porque
eu jamais os tivera sentido antes. A presença de Edward me era um
prazeroso mistério que eu pretendia não solucionar nunca.
— Eu... – vacilei, mas fui em frente. – eu me sinto zonza. É isso... sou
tomada por um torpor maquiavélico que me tira os sentidos mais
primitivos. Ajo tolamente, pareço uma completa idiota.
A sinceridade era cortante como navalha. Rosalie caiu na risada
outra vez, enquanto notei Alice tentando reprimir a gargalhada.
— Então, Bea... os relacionamentos entre as mulheres e os homens
nem sempre são fraternos como os dos irmãos.
— Eu sei disso. – Senti um ardor interno bastante inconveniente. –
Fui ensinada.
— É por isso que sinto falta de Emmett. – Os olhos de Rosalie
pareceram feixes de luz quando o nome do vampiro foi pronunciado.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

– Somos apresentados como irmãos, mas na verdade somos...


companheiros.
Novamente, a escolha cuidadosa de palavras.
— E... você é companheira de Jasper? – Questionei a Alice, que apenas
assentiu com a cabeça.
— Ah. – Não havia outra frase pronta ou questão formulada. Aquilo
era quase como uma revelação. A comparação do sentimento entre
elas e seus companheiros com o sentimento entre mim e Edward... a
facilidade excruciante com a qual respondi à pergunta de Alice... a
sensação de ausência quando Edward desligou o telefone... arregalei
os olhos, constrangida e ao mesmo tempo apavorada.
— Pode perguntar, Beatrice. – Rosalie ainda ria, e ela parecia
perceber que eu tinha dúvidas.
— O que faz vocês se tornarem companheiros? Quero dizer...
— Não precisa explicar-se. – Alice sorriu novamente. – Há um
sentimento, Beatrice.
— Sentimento... isso é totalmente humano.
— Claro. O que acha que éramos antes de sermos transformadas?
Éramos humanas, assim como você. Pensei que fosse mais simples
para você compreender a extensão dos sentimentos humanos...
afinal eles deveriam ser bem mais fortes em você. Mas vejo que
estava enganada, pois a sua ingenuidade é latente. Podemos não ter
um coração pulsando, Beatrice... mas ainda sentimos.
Meus olhos baixaram, e senti algo que não conseguia identificar.
— Os humanos nomeiam de várias formas. Atração, desejo, paixão,
amor... talvez tudo isso junto represente o seu companheiro. Você
precisa sentir tudo isso ao lado dele... quando ele toca você... quando
seus olhos se prendem aos dele...

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Rosalie, não quero saber os detalhes! – Alice atirou uma almofada


na irmã.
— Não se finja de inocente só por estar na presença de Bea... vai me
convencer que não desejaria Jasper aqui, agora, neste instante?
— Insolente! – Alice fez uma careta. Eu me assombrei novamente,
constrangida. Elas falavam de relacionamentos entre macho e fêmea
de uma forma natural, quase infantil. Meu olhar tentou se prender a
qualquer coisa que não fosse a imagem de Edward em minha frente.
Sua face pálida se formava em todo espaço vazio que havia naquele
quarto de hotel, mesmo que eu repelisse qualquer lembrança do
vampiro naquele instante.
— Assustamos Beatrice. – Rosalie fez também uma careta. – Acho
melhor irmos mais devagar com esse assunto... ela parece muito
confusa.
— Estou bem. – Menti, e eu pensei que mentisse muito mal. Deveria
mentir mal, eu nunca mentia. Rudolph sempre sabia quando eu não
falava a verdade. – Talvez eu deva descansar.
— E eu acho que devíamos sair desse quarto, por essa noite. – Rosalie
levantou-se, rapidamente. – Vamos, Alice... só temos mais dois dias
em Boston e ainda não visitamos nenhuma casa noturna.
— Ah, dançar um pouco seria ótimo! – Alice também se levantou,
parecendo entusiasmada. – Boa noite, Bea...
— Vão sair? – Pânico embargou minha voz. Ficar sozinha com
pensamentos complexos sobre a conversa recém encerrada não era
bem o que eu desejava.
— Sim, vamos sair. Levaríamos você, se não tivesse que dormir.
— Não tenho que dormir. – Menti novamente. – Posso acompanhá-
las... gostaria de acompanhá-las.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

As duas vampiras se entreolharam e fizeram uma expressão


indiferente, como se a minha companhia fosse interessante e o fato
de minhas necessidades humanas estarem sendo negligenciadas
pouco importasse. Talvez nem importassem, era fato. Eu parecia
adulta o suficiente para tomar decisões, apesar da minha tolice vir à
tona frequentemente.
— Edward não ficará satisfeito. – Alice fez um ―bico‖, já com a
sentença definida. Rosalie deu de ombros, dando a impressão de que
ela pouco se importava com aquele fato também.

As minhas duas novas irmãs me ajudaram a vestir e me levaram para


a rua. Escondido, por certo. Se a professora de literatura sonhasse
que três alunas haviam escapulido no meio da madrugada para
perambular pela ruidosa Boston, ela teria uma síncope nervosa. Era
melhor que permanecesse na ignorância, afinal. Pegamos um táxi até
algum lugar, que aparentemente só Rosalie conhecia. Havia
novamente bastante empolgação entre elas, e tudo aquilo parecia
bastante divertido. Eu não entendia direito o termo diversão, porque
todo o lazer no covil se resumia à leitura. O trabalho era cuidar do
covil, claro. E a leitura era nosso momento de diversão. Então, casa
noturna era um conceito muito vago, que nada significava em meu
obtuso vocabulário.

Pois fomos a uma casa noturna, e o ambiente era cheio e de odor


confuso. Eu estava já sentindo alguma sede, meu organismo não
estava tão forte e todo cheiro me causava confusão. Eu não
conseguia distinguir o que era o cheio adocicado que me intoxicava
os pulmões; se eram os humanos presentes, ou a fumaça colorida que
enevoava o lugar, ou a quantidade enorme de copos cheio de enfeites

87
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

que os humanos bebiam. Definitivamente era uma dessas coisas, ou


todas elas juntas. Mas era fato que o cheiro doce demais me causou
enjôo tão logo eu coloquei os pés na casa noturna, que eu ainda não
sabia o que era.

Rosalie parecia bem ambientada, e Alice parecia agitada. As duas


vampiras foram direto para o que chamaram pista de dança e
começaram a mover-se ao som da música. A música,
ensurdecedoramente alta, que confundia meus pensamentos. Eu não
era afeita àquele tipo de música, só ouvíamos os instrumentos
clássicos no covil. Como vivíamos exilados e raramente os casais se
formavam, os híbridos não se reproduziam. Nem se formavam. Não
havia híbridos jovens, criados na modernidade. A maioria era da
minha idade, ou mais velhos. Então, não havia jovem algum que
trouxesse algum insight de como eram os humanos mais
contemporâneos. A música que tocava naquele lugar era ruidosa,
bastante, e não me lembrava nada conhecido.

O que as garotas faziam era dançar... mas uma dança também


desconhecida para mim. Ao contrário do que eu pensava, eu adorei.
Dançar foi divertido, e fez meu coração bater um pouco mais do que
10 vezes por minuto. Meu organismo reagiu ao ritmo frenético e
pulsante da pista de dança com uma descarga de oxigênio e
batimentos cardíacos que quase me levaram ao êxtase completo.
Talvez Carlisle estivesse terrivelmente certo sobre meu
comportamento naquele lugar. Eu não me reconheceria nem em um
milhão de anos, porque eu nunca tivera nenhuma daquelas reações.
Sangue morno, coração pulsando, oxigênio, a adrenalina... aquilo era
pertencente aos humanos. Eu não podia ter nada daquilo. Talvez

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

adrenalina não tivesse nada a ver com aquilo; era óbvio demais que
não. Mas alguma coisa estava me tirando do prumo certo, me
fazendo ter reações nada naturais à minha espécie.

A noite foi longa, e ao contrário do que eu imaginava, não desmaiei


de exaustão. Foi muito difícil manter-me alerta no dia seguinte, para
suportar uma nova sessão de visitas a lugares que mostrariam tudo
que eu já conhecia, pessoalmente talvez. Museus e mais museus;
visitamos três em apenas um dia. Rosalie e Alice estavam
exultantemente lindas, e perfeitas, como se nunca fossem ter um fio
de cabelo fora do lugar. Eu já não parecia tão bela, pois enormes
olheiras arroxeadas se estendiam por toda parte baixa dos meus
olhos, dando a correta impressão da minha sede. E do meu cansaço.
— Não podemos levá-la assim para casa. – Alice determinou. –
Prezamos demais a vida...
— Ela se recupera, em uma noite de sono. Comportaremos-nos hoje,
prometemos.

A conversa era dirigida a mim, mas eu pouco a ouvia. Estava


sonolenta seguindo as duas musas até o hotel novamente. Os planos
de Edward, de que eu me envolvesse com os humanos naquela
viagem, foram meio frustrados. As suas irmãs, para ser mais exata as
minhas primas, eram muito divertidas e envolventes, e eu
praticamente não me desviei delas um minuto. Sylvia Green tentou
se aproximar várias vezes, e eu tentei dar-lhe atenção várias vezes,
mas nada fluiu naturalmente. Eu queria perseguir minhas primas até
onde pudesse, para sorver-lhes a sabedoria. Elas não eram mais
velhas do que eu na idade humana, mas o eram na idade real.

89
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

Viveram mais do que eu, e nunca foram exiladas para o submundo,


como eu.

Boston foi uma grande experiência. Eu mal conseguia pronunciar o


nome da cidade, apesar de sua simplicidade, antes. E saí dela com
conhecimentos além da minha expectativa, e com revelações mais
do que indesejadas. Eu não desejava ter toda aquela revelação sobre
Edward. Ainda ecoavam as palavras de Alice a perguntarem o que eu
sentia na presença de Edward. Eu mesma desconhecia minhas
reações, mas ela as usou como exemplo para a sua explicação.
Poderia ela conhecer-me melhor do que eu mesma? De qualquer
jeito, a experiência foi gratificante, e surpreendente. Mas eu acabei
ansiando pela volta mais do que deveria, e pelos motivos
completamente errados.

CAPÍTULO 10 – UMA REVELAÇÃO


*tema: Mozart‖s 5th Symphony 1st mov*

Os Cullen nos esperavam na escola, como todos os demais pais. Eles


não eram como os outros pais, eram mais lindos, mais jovens e mais
interessantes. Ao lado deles, estavam os três filhos homens, e eu
sabia que Emmett e Jasper ansiavam pela volta de suas
companheiras. Eu estava com aquela história a transpor-me os
pensamentos, imaginando sempre o relato de Alice e Rosalie a
respeito de seus companheiros. Eu não sabia o que sentir a respeito
de Edward, e mesmo que soubesse, imaginei que se tratava de uma
via de mão dupla. Ele também teria que sentir algo por mim, o que
estava fora de cogitação.
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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

Respirei profundamente ao deixar o ônibus, sentindo-me ainda


amarrotada. Eu acabei por adormecer durante a pequena viagem de
Seattle a Forks, porque eu estava esgotada por passar noites e mais
noites à companhia de quem não dormia. Era o pequeno preço pela
companhia de minhas novas primas. Meus olhos procuraram
aleatoriamente a face de Edward, serena. Eu não senti sua falta, ao
menos não como as garotas sentiram. Elas desejavam seus
companheiros de forma diferente. Mas eu não sabia a extensão do
dano que sua ausência causara em mim até encontrá-lo ali, de pé,
com as mãos para trás enquanto pacificamente aguardava a nossa
descida. Eu senti um alívio imediato e ao mesmo tempo uma agonia
crescente ao vê-lo. Intencionalmente, quis tocá-lo mais uma vez. Foi
caótico para meus sentimentos, um turbilhão descoordenado de
sensações. Eu lutei comigo mesma para controlar os impulsos
elétricos que iam e vinham de um lado a outro, e que mecanicamente
desejavam fazer meu corpo se mexer, ao mesmo tempo que me
impediam de avançar.

— Seja bem vinda de volta. – Edward sorriu, e se aproximou de mim


ao perceber minha hesitação. As garotas já haviam descido à minha
frente, e já se reconciliavam com seus pares. Ele liberou uma das
mãos e me entregou uma flor. Eu sabia que era uma flor, mas eu não
conhecia as flores. Não identificaria nenhuma, por mais que eu tenha
estudado. Eu conscientemente evitava conhecer as belezas do mundo
à superfície, visando diminuir a angústia por viver trancada sob a
terra. Ante a minha completa falta de reação, Edward sentiu
necessidade de prosseguir. – É uma tulipa vermelha.

91
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

Segurei a flor entre os dedos, e levei-a ao nariz. Seu aroma era suave,
não doce como tudo que eu presenciara em Boston. Eu não notei se
os Cullen ainda nos observavam, ou se aquilo faria alguma diferença.
Edward estendeu-me o braço, e entendi que eu deveria segurá-lo. A
frenética compulsão de tocá-lo seria então levada em consideração.
Ele me conduziu até seu carro prateado como a luz do luar, e fomos
até a sua casa. Nossa casa. A casa dos Cullen. A confusão de
pensamentos ainda não havia se dissolvido, porque a presença de
Edward havia baixado significativamente as minhas defesas e
compreensões. Era como se ele exercesse um poder estranho sobre
minha razão. Se eu ainda tivesse alguma.

Mas havia algo que eu ainda não sabia, e que talvez estivesse por trás
da súbita mudança de comportamento de Edward. Primeiramente,
ele seria meu tutor. Então, ele se afastou gradualmente, dando-me
um espaço nem tão desejado. Enturmei-me com os humanos, fiz
amigos, passei a freqüentar seu ambiente e a interagir de uma forma
até mesmo perigosa. Deixei de desejar seu contato permanente, e
satisfiz-me forçadamente com a rápida discussão em sala de aula e
com alguns momentos de descontração com os Cullen, no salão. Ele
mesmo deixou de caçar para mim, apesar de nunca ter assumido essa
tarefa plenamente. Então, ele se prostrava de pé a me esperar e a me
oferecer flores, seja que significado aquilo tivesse. Devia significar
algo, afinal. Era demasiadamente complexo para minha tão
mencionada ingenuidade, e eu demoraria muito a entender se não
tivesse presenciado, furtivamente, outra conversa entre os Cullen. Se
aquilo pudesse ser chamado conversa.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

Eu saía do banheiro, depois de um agradável momento retirando as


impurezas do meu corpo, quando meus ouvidos capturaram a voz de
Edward. Era um radar potente, meu corpo todo sentia a sua presença
mesmo que não tão perto.
— Obrigado por isso, Alice. – Ele interpelou a irmã.
— Edward, não há que me agradecer. Mas eu ainda vejo... ainda há
morte no futuro, e isso me deixa impotente. Eu achava que era por
causa desse suposto envolvimento entre vocês... mas não é. A não ser
que você tenha trapaceado! – Ela disse. Estiquei-me para observar
pela fresta da porta. Eles estavam no quarto de Alice, e Edward de
costas para mim. A pequena vampira o olhou curiosamente,
esperando por algo.
— Eu não trapaceei. Desisti sinceramente dela... afastei-me de plena
vontade.
— Você sabe, Edward... se você ainda tinha intenções de...
— Eu não tinha. – Ele parecia controlado demais. Talvez se
controlando demais.
— Então, é algo mais. Eu continuo vendo só a mesma coisa, mas está
tão confuso. Nunca é assim... isso me deixa frustrada.
— Ao menos, sei que posso parar de lutar contra isso.
— Ah, Edward meu irmão! – Alice afagou o rosto de Edward, com as
costas da mão. – Lamento se te fiz sofrer por minhas visões
imprecisas.
— Ainda não sei se tudo isso é boa ideia... e não saberia mesmo como
abordá-la.
— Talvez deva pensar em uma forma, e rapidamente.
Alice esticou-se e olhou por cima dos ombros de Edward, com
alguma dificuldade. Ela sorriu levemente quando ele acompanhou
seu olhar e pegou-me no flagra, a espiá-los. Mordi o lábio superior, já

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

sabendo que havia sido pega. Edward podia ler, podia saber que eu
estava ali. Apesar de eu não estar pensando muito e de ele estar
concentrado em Alice. Mas pareceu que ela sabia da minha presença,
o que era ainda mais curioso. Ela também lia mentes? Família
curiosa, aquela.

Edward caminhou em direção à porta. O súbito afã de fugir correndo


desapareceu ao considerar a inutilidade daquela medida. Eu não
tinha para onde ir, e Edward certamente me encontraria onde eu
estivesse. Quase irritante.
— Ora vejam... Beatrice Caldwell ainda não abandonou velhos
hábitos.
Alice deu uma gargalhada, e passou por nós dois. Deixou o quarto
comprimindo os lábios. Edward balançou a cabeça negativamente,
irritado.
— Lamento... foi uma compulsão mais forte do que minha vontade.
Eu acabara de sair...
— Eu sei. – Ele disse, olhos confrontando os meus. Seu semblante era
calmo, obviamente ele sabia que eu estava muito, muito confusa. – Eu
sei, eu sei, e eu sei também. Beatrice, venha comigo.
Edward carregou-me até o meu quarto, e empurrou-me à minha
cama. Eu ainda estava olhando para ele com perplexidade, porque eu
sequer tinha entendido o teor de sua conversa com Alice. Havia
morte no futuro, mas... futuro de quem?
— Eu... desculpe-me por...
— Beatrice, não me importa mesmo que estivesse ouvindo nossa
conversa. – Ele pareceu preparar-se para um discurso. – Veja bem...
Alice, nossa irmã... ela tem uma qualidade especial, assim como eu.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Ela também lê mentes? – Disparei. Ele se franziu, claramente


incomodado por minha postura de sempre interromper. Era
ansiedade, eu estava sempre ansiosa desde que deixara o covil. Era
muita coisa nova para se ver e aprender e eu me sentia sem tempo.
Mesmo imortal, mesmo sabendo que eu tinha a eternidade para
aprender o que fosse, algo dentro de mim insistia em me privar do
quesito tempo.
— Ela consegue ver. Ela vê o que vai acontecer, de uma forma
significativamente clara. E precisa.
— Oh. – Escapou de minha garganta uma interjeição de surpresa.
Então era isso... Alice viu o futuro. Ela viu as mortes... ou a morte... ou
o que significasse o fim de uma vida. Uma vida... humana? Era
possível dar fim a um imortal? O nome imortal deveria significar
algo. – E... ela viu a morte de quem?
— Ela viu... morte. – Ele tentou escolher as palavras novamente, e
aquilo me perturbou. – A questão é que a morte.. Alice considerava
que envolvia a mim e a você. Ela pensou que nossa proximidade
tivesse desencadeado tudo. Mas parece-me que fora uma observação
equivocada. Alice se sente muito mal por equivocar-se... e ela
raramente o faz. Parece-me que você anda confundindo a todos,
afinal.

A morte envolvia a mim e a ele. Oras, então era possível matar um


imortal. Quanta imprecisão terminológica, pensei.

— Edward, eu não sei o que dizer.


Ele se colocou à minha frente, e estava parado, mãos nos bolsos, me
observando curiosamente. Ele podia me ler inteira, por que a sua
expressão era sempre de curiosidade?

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Tecnicamente você não precisa dizer nada. – Ele sorriu,


levemente. – Mas também poderia ser... menos enfática com seus
pensamentos. Eles me causam algum constrangimento às vezes...
Meus olhos baixaram outra vez, e eu desejei por um instante
desaparecer. Maldito fosse aquele vampiro, com tanta habilidade
quanto a beleza que ele irradiava. Ele era a forma mais pura de beleza
que eu poderia idealizar, e estava sempre e cada dia mais perfeito.
Desde a primeira vez que o vira, ele conseguia se aperfeiçoar a cada
instante.
— O fato é que Alice decidiu que você pode ser a causa do problema...
mas não mais o fator eu versus você.
— Existe um fator eu versus você? – Pasma. Eu nem precisava falar,
mas as palavras pulavam de minha boca com certa facilidade. Eu
sempre agia como uma tola na presença de Edward.

Ele sorriu. Eu ainda o observava com olhos bastante arregalados,


assustada. Eu ainda pressentia nele todo o perigo, e talvez as
previsões de Alice apenas confirmassem. Havia perigo demais em
estar ali. Em me envolver com os Cullen. Eu não sabia que tipo de
perigo, mas ele era pulsante, latente. Eu não sabia quem estava se
arriscando. E mesmo assim, eu só conseguia pensar no que Edward
acabara de dizer. No fator eu versus você.
— Minha cara Beatrice. – Ele se aproximou mais, como se aquilo fosse
possível. Meu coração pulou diversas batidas, foi como se ele
significativamente parasse. Eu sequer sabia se teria algum problema
ele parar. Talvez não. Talvez ele batesse por puro capricho, assim
como era a minha respiração. Um capricho da natureza que me
transformara naquela aberração. – Sim, existe um fator eu versus
você. É uma matemática bastante complicada, preciso aceitar. Mas é

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

algo que aparentemente está fugindo do meu controle. Porque você


não parece colaborar nem um pouco.
— Eu... agora a culpa... é minha? – Senti desespero e indignação ao
mesmo tempo. Eu não colaborava com o que afinal, se eu nem sabia
da existência de uma análise matemática entre mim e ele. Eu nem
era muito afeita à matemática, eu gostava mais da literatura e das
artes. Edward deu uma risada alta, e passou as costas da mão por
minha face, como Alice fizera com ele.
— Sim, a culpa é sua. Afinal, por mais que eu tente dizer não a mim
mesmo, a toda hora você se coloca no caminho dizendo sim. Por mais
que eu tente me convencer de que você é apenas uma distração
momentânea, a todo momento você surge à minha frente para
desmascarar toda a minha mentira. É difícil mentir a mim mesmo
quando você grita a todo instante que eu estou certo.

Se eu pudesse morrer, meu coração já estava parado e não faltaria


mais nada. Eu olhava para Edward com tanto desespero que senti
vergonha de minha reação exagerada. Mas tudo me era exagerado
quando eu estava próxima a ele, e aquela viagem a Boston não
contribuiu em nada. Eu só pude sentir mais apego à sua presença, ao
contrário do que eu esperava. Por minha ciência, ao contrário do que
todos esperavam.
— Está tarde, Bea. – Edward continuou seu discurso. – Vá recolher-
se... podemos conversar mais amanhã.
— Nossa conversa mais parece um monólogo. – Protestei,
emburrada. Sem saber se por ele me dispensar ou se por ele sempre
falar muito mais do que eu. – É injusto quando você sabe o que eu
vou dizer antes mesmo das palavras serem ditas.

97
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Lamento. – Ele resignou-se. – Prometo que me controlarei.. e


deixarei que fale, mesmo que eu já saiba o que vai dizer. Melhor
assim?
— Quase.
— Boa noite, Beatrice.

Maldito vampiro. Eu cerrei os punhos e soquei a cama, tão logo ele se


esquivou pela porta. Maldito, maldito, maldito. Eu nem sabia por que
estava blasfemando daquela forma, mas eu desejava blasfemar. E
socar tudo que fosse. Não socaria nada muito rígido, pois poderia
quebrar-se. Estava irritada, com ele por esconder-me coisas, comigo
por pensar coisas, com Alice por não ter me contado da história da
morte... estava irritada demais para conseguir adormecer. E nem era
tão tarde. A desculpa que ele usara como subterfúgio para livrar-se
de minha companhia era infame. Eu havia passado noites em branco,
sabia que aquilo não faria muita diferença... dormir pouco seria uma
nova meta, para mim.

Eu decidi que obedecer a Edward era uma péssima ideia, pois ficar
naquele quarto depois de sua aparição e depois da revelação de que
Alice havia visto coisas ruins no futuro só me causaria mais agonia.
Vesti qualquer coisa que as garotas considerariam o suficiente e
desci as escadas, para encontrar os Cullen no salão, reunidos para a
tradicional conversa noturna. Desde que eu chegara, eles sempre se
reuniam e conversavam, como se aquilo fosse o momento familiar
deles. Realmente, muito diferente da minha vida no covil. Lá a
família era grande demais para momentos como aquele, e eu vivia de
forma mais reclusa, por ordens de Rudolph. Não sabia por que, ele se

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

recusava a dizer-me. Mas era fato que eu estava sempre reclusa, e


toda aquela efusão familiar me causava uma alegria inusitada.

— Seja bem vinda, Beatrice. – Esme sorriu ao me ver descendo.


— Obrigada. Alice... poderia falar-lhe? – Nem completei a
caminhada.
— Sim, eu sabia que viria chamar-me. – A pequena vampira levantou-
se, mas Edward interpôs-se em seu caminho.
— Deixe que cuido disso.
— Pretendo falar com Alice, Edward... se não se importa. – Fui
carrancuda e nada gentil. Ele havia me irritado levemente antes,
quando me fizera tão confusa com suas palavras sem sentido. Eu
podia fazer sentido a ele, ele me lia! Ele sabia dos meus pensamentos
mais imperfeitos, o que se mostrava plenamente injusto e
desequilibrado. Era impossível uma batalha justa contra ele.

Edward rosnou, e Alice franziu a sobrancelha. O que ela tenha


pensado, ele compreendeu bem. Não senti necessidade de esconder-
me com a vampira, pois eu sabia que onde estivesse Edward nos
ouviria. Então, que eu falasse ali mesmo. Os Cullen discretamente
decidiram continuar a conversa entre eles, enquanto eu interrogaria
Alice.
— Alice, conte-me tudo. Não posso ver o futuro ou ler mentes como
seu irmão... mas sinto que tenho o direito de saber se serei a
responsável pela morte de alguém. – Despejei sobre ela.
— Bea... eu ainda não sei tudo. É como se houvesse uma indecisão
quanto a isso... eu só posso me certificar quando as decisões são
certas. Quando há certeza. A visão é borrada e incompleta, como se
apenas uma ideia se formando em alguém. Mas...

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Alice, não. – Edward não resistiu em interferir. – Você não precisa


dizer isso a ela.
— Eu sei... mas não me parece justo deixá-la na ignorância. – Alice
olhou ternamente para o irmão, que resignou-se. Não
completamente, mas pelo menos não se jogou em nosso meio
visando impedi-la. – Bea, eu vi morte. Alguém morrerá no futuro... e
eu não estou bem certa de quem será. Mas você está envolvida.
— Eu matarei? – Senti um espasmo, coisa que não me lembrava ter
sentido antes. Adaptação ao sol, eu pensava. Adaptação, como
Carlisle dizia. Talvez ele devesse me testar novamente, pois havia
meses desde os testes iniciais. Aquele tempo poderia ser suficiente
para alguma adaptação... ou não. Eu definitivamente não era boa
contabilizando o tempo.
— Não. Mas...
— Alice, não! – Daquela vez Edward meteu-se entre mim e Alice,
olhos ferinos encarando a irmã tão pequena. Ela comprimiu os
lábios, visivelmente irritada. – Por favor, Alice... poupe-a desse
detalhe. – Ele sussurrou, e eu quase não pude escutá-lo. – Sei que
considera uma tolice mas.. eu não suportaria a agonia dela.
— Está bem, Edward. – Alice respirou, e olhou para mim. Edward
continuava em nosso caminho. – Bea, você não mata ninguém. Todo
o resto ainda é incerto, então é melhor deixar isso para lá. Quando eu
tiver uma idéia mais clara do que vai acontecer eu vou te contar... e
Edward não vai me impedir.

Alice encarou Edward mais uma vez, e saiu de perto. Eu fiquei um


tanto magoada, pois desejava saber tudo. E pensei que as garotas
estavam do meu lado, algo assim. Talvez não houvesse lados naquela
pequena batalha caseira. Edward baixou a cabeça, sem encarar-me.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Lamento, Bea. – Ele respondeu aos meus pensamentos. Ele


começava a ficar irritante fazendo aquilo, mas eu não sentia que
podia ficar irritada com ele por um longo tempo.
— Talvez seja mais difícil ainda lidar com a agonia da minha
ignorância, sabia? – Tentei jogar. Com ele não havia jogo, mas eu
tentaria.
— Não seria. – Ele deixou os dedos percorrem meus longos cabelos
que caíam por meu ombro. Os pseudo cachos de um castanho
dourado reluziam pela luz artificial. – Vamos dormir, Bea... eu levo
você a seu quarto.
— Não. – Emburrei-me novamente. – Ficarei com seus pais e irmãos,
se não se importa.

Os Cullen me acolheram na reunião familiar, e aquilo foi


reconfortante. Após tantas revelações fantásticas, eu precisei de um
pouco de distração para retomar meu controle. Edward lia mentes,
eu sabia. Alice via o futuro, e ela previu morte. A minha morte, seria?
Eu ainda duvidava da capacidade de se aniquilar um imortal; talvez
se eu tivesse algum conhecimento dessa possibilidade eu tivesse
colocado um fim em minha própria existência. Anos de sofrimento
teriam sido poupados. Morrer nem seria tão prejudicial, então.
Mesmo que nada houvesse ao final, era pelo menos o final. Mas, não
sendo a minha morte... a morte de quem eu causaria? Quem seria
importante o suficiente para Alice a fim de que ela visse esse fato? Eu
poderia suportar a morte de um dos Cullen, aqueles que me acolhiam
tão generosamente? Poderia aceitar o fim da existência de alguma
daquelas criaturas tão boas e gentis? Pior, eu poderia aceitar a morte
de Edward? O quanto conectada a ele eu estava, para que eu

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

agonizasse com aquele fato? Talvez ele soubesse melhor do que eu


mesma.

Então, eu estava apavorada. A noite seria um martírio, e eu não


desejava adormecer. Permaneci entre a família o quanto eu pude,
conversando e me divertindo com as peripécias fabulosas de
Emmett. Mas meu corpo meio humano meio vampiro não suportou a
exaustão e sucumbiu ao sono, fazendo-me perder parcialmente a
consciência, amparada pelas grandes almofadas vermelhas da sala.
Eu estaria satisfeita em adormecer ali, na presença de todos,
sentindo-lhes. Mas fui novamente carregada a meus aposentos, pelas
mãos rígidas de meu protetor. Parecia outra noite comum, mas
naquela eu sentia tensão. Meu cérebro trabalhava freneticamente,
processando informações e analisando fatos. A morte, era só no que
pensava. A morte que Alice vira, e que tanto assustava Edward. A
morte que não mais significava o eu versus você. Meus neurônios
processavam aquilo como se fosse sair alguma explicação de meu oco
craniano. Eu não me sentia inteligente, e competir com os Cullen era
também desonesto.

— Você está se sentindo bem? – Edward perguntou, colocando-me


cuidadosamente na cama. Uma brisa suave penetrava pela janela
aberta, fazendo meus cabelos esvoaçarem. – Pare de se torturar,
Beatrice. Não vai ajudar em nada.
Fingi que ele nada falava. Eu queria estar irritada com ele. Precisava
estar. Mas quando ele desistiu de me falar e caminhou até a porta,
uma sensação horrível me dominou. Era como se eu estivesse sendo
abandonada à deriva em um lugar qualquer. A agonia, que Edward
tanto tentava evitar.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Edward! – Eu chamei por seu nome, ele já no batente da porta.


Minha figura desorganizada iluminada pela fraca luz artificial, e ele
então olhou para mim. Seu semblante era de resignação, como se ele
não desejasse lutar contra algo. Como se ele estivesse muito
interessado em dizer sim a algo que devesse dizer não. O paradoxo
que eu lhe causava... a dificuldade em dizer não quando eu gritava
um sim.
— Tudo bem, Beatrice. – Ele retornou, fechando a porta atrás de si. –
Tudo bem.

O dia seguinte começou confuso. Suficientemente confuso para uma


híbrida em adaptação. Eu abri meus olhos lentamente, e a luz do sol
mal podia clarear o dia. Ainda era cedo, muito cedo. Não havia muita
luz para penetrar as pesadas nuvens negras que flutuavam pelo céu
de Forks. Eu pisquei algumas vezes, imaginando que estava
começando a melhorar no quesito dormir tarde, e tentei esticar
meus músculos. Era um impulso natural, totalmente natural. Era algo
que eu fazia normalmente durante os momentos de despertar, mas
daquela vez meus punhos bateram fortemente em algo que não
deveria estar ali. Um obstáculo não esperado na minha manhã.
Assustei-me repentinamente, virando-me para o lado como um
animal acuado, que eu tantas vezes presenciara.

Edward segurava o queixo, enquanto parecia suprimir uma risada.


Ele me olhava com admiração, apesar de meu involuntário golpe ter-
lhe rendido dores.
— Beatrice Caldwell... você não precisa matar-me durante a manhã,
basta pedir que deixo seu quarto.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

Olhei assustada para ele, e por um instante todas as indagações da


noite anterior desapareceram. Meus olhos esbugalhados se
prenderam na figura gentil do vampiro que se estendia pela minha
cama, e tentava recompor o queixo golpeado. Senti novamente o
espasmo inconveniente ao perceber-me praticamente saindo de seus
braços, atordoada com o fato de eu não me recordar daquela
pequena invasão.
— Sim. – Ele disse, ajeitando-se. – Magoa-me o fato de você não
lembrar que me chamou de volta. – Ele zombou. Sim, zombar das
tolices desmedidas de Beatrice era uma diversão, um passatempo
para Edward. Que ele adorava, por sinal. Novamente, ele respondia
meus pensamentos. – Desculpe... não farei mais isso. Pode perguntar-
me.
— Você dormiu aqui. – Não era uma questão.
— Isso não é uma pergunta. – Ah, ele percebera!
— Eu...
— E eu não dormi. Tecnicamente, eu não durmo. Não sou dado a
essas fraquezas humanas.. não tenho essa necessidade. Pode
considerar como ―passar a noite‖.
— Por quê? – Eu estava em branco. Edward me sorriu, e levantou-se.
— Recomponha-se, Bea. Temos aula hoje... e não pretendo atrasar-
me. Já mato aulas o suficiente durante os dias de sol... não quero
criar confusão para Carlisle. Além do que, tenho uma reputação a
zelar.

Edward deixou o quarto, e eu continuei na mesma posição por


muitos minutos. Eu estava completamente atordoada, como se o
golpe tivesse sido em mim mesma. Eu já estava me cansando de
sentir aquilo quando Edward estava por perto... aquela fraqueza,

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

aquela angústia, aquele desespero juvenil de quem está... a palavra


não me era conhecida. Não havia um termo lógico e racional para
explicar o que estava acontecendo comigo. Eu não conhecia nenhum.
Vesti-me para a aula e saí descoordenada de meu quarto, procurando
pelo que eu não sabia. Saber que eu causaria uma morte não parecia
doer tanto quanto o despertar ao lado de Edward. Meu interior
estava dilacerado, e eu nem sabia por que.

Pus-me em frente a seu quarto, levando a mão à porta e hesitando


um instante. O que eu faria ali, eu ignorava. Eu precisava de uma
resposta do motivo. Talvez ele soubesse, porque ele sempre sabia. Ele
penetrava em minha mente mais facilmente do que eu mesma.
— Minha espiã. – Sua voz ecoou do fundo do quarto. A porta estava
entreaberta, e mesmo se não estivesse eu poderia ouvi-lo. Era como
se eu pudesse ouvi-lo de qualquer forma, em qualquer lugar eu
estivesse. – O que deseja agora, Beatrice?
Coloquei-me na fresta da porta, Edward terminava de vestir sua
camisa. Ele se virava para mim, sorrindo. Sorrindo, então. Teria
acabado seu mau humor? A noite não teria sido para ele tão dolorosa
quanto para mim? Ele poderia saber algo que eu ignorava, sobre meu
próprio subconsciente?
— Edward... por que você... – eu caminhei em sua direção, ainda
entorpecida pela proximidade espontânea de seu corpo ao meu,
durante a manhã. Era como se o toque frio de sua pele me tivesse
queimado.
— Por que você pediu. – Ele foi simples. – Você não se recorda? Você
foi muito influenciada pelas profecias de Alice... aquela pequena
petulante não deveria ter te contado nada.
— Mas eu queria saber. Isso deveria importar.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Sim, por isso eu deixei que ela contasse. – Ele baixou o olhar. – Mas
eu desejaria que você deixasse isso... que você simplesmente
continuasse sua jornada. Afinal, o que for que Alice viu vai acontecer
daqui a um tempo indeterminado, e ainda está incerto. Tudo pode
mudar. – Ele se aproximou ainda mais, e eu podia ouvir sua
respiração. Desejei secretamente saber se ele precisava respirar. Era
óbvio que não, já que seu coração nem batia. Se eu não sentia
precisar, por que ele precisaria?
— Mas...
— Você pergunta demais, Beatrice. – Ele sorriu novamente. – Aliás,
você grita para mim. Já disse isso... seus pensamentos são tão altos e
claros que eu imagino que você esteja mesmo falando. Bem, eu acho
que é injusto deixar-me penetrar tanto em sua mente sem dar-lhe
nem um pouco da minha, certo?
— Sim, totalmente injusto. – Balbuciei. A proximidade ainda
queimava.
— O que deseja saber?
— O que está acontecendo. Quero dizer... o fator eu versus você.
— Claro. – Ele riu, mais espontaneamente. Seus dedos tocaram meus
cabelos, acompanhando a sua extensão. – Beatrice, escolher as
palavras certas para isso é inútil. Tentarei ser sincero, por favor não
me interrompa. – Ele limpou a garganta, e meus olhos ainda não
conseguiam encará-lo. – Alice viu você chegando. Ela julgou que
fosse um humano, porque ela ignorava a possibilidade da existência
dos híbridos. Alice me alertou... de que isso aconteceria. Mas seria
inevitável, então. Os céus são testemunhas de que, desde que
encontrei você vagando pela floresta, eu tentei evitar isso. Mas
parecia tão inútil enquanto você estivesse em todo lugar... Carlisle
não tornou nada simples a minha missão. Sim, eu pretendia evitar...

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

mas como me afastar de você, então? Seu perfume incoerente está


em todo lugar. Seus olhos ansiosos estão em todo lugar. Sua mente
está em todo lugar. Mas quando eu estava pronto para sucumbir,
Alice tem outra visão, aquela que ela tentou lhe descrever.
— E que você... – A interrupção. Ele franziu a sobrancelha e levou um
dedo aos meus lábios. Fechei os olhos instantaneamente, sentindo
meu corpo reagir violentamente àquele toque. “Shhhhhh...” foi só o
que pude ouvir, então. Ele prosseguiu.
— Aquela visão me deixou com problemas. Como eu poderia me
aproximar mais e arriscar você? Era muito caro o preço que eu teria
que pagar para dar azo aos meus impulsos. Então, eu decidi me
afastar. Eu decidi que aquela semana ao seu lado não podia significar
mais do que a segurança daqueles que me cercam. Então, entreguei
você a eles... aos humanos, aos meus irmãos. Novamente, os céus
testemunharam a minha tentativa. Mas Alice está terrivelmente
certa, o que me irrita ainda mais. Eu jurei que não, mas é inaceitável
mentir quando eu não quero fazê-lo. Eu trapaceei, porque eu deveria
me afastar voluntariamente. E eu, em momento algum, intencionei
manter minha proposta inicial. A todo momento eu pensei em voar
para Boston só para ter você comigo. Rosalie já estava impaciente
com tantas ligações... e eu descobri, covardemente, que minha força
de vontade não é tão grande assim. Eu me considero forte o
suficiente, Bea... mas existe algo em você que me desarmou a defesa
de uma forma insuportável.

Ouvi a tudo silente, olhar baixo, sentindo espasmos musculares. Meu


corpo convulsionava, novamente uma sensação inesperada para
mim. Eu sorvia as palavras de Edward como se me recusasse a
entender o que ele dizia, ou como se o que ele me dizia fosse tão

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

absurdo que não fosse possível entender. Fechei os olhos e recordei o


covil. Quando fora que eu decidi ir embora, quando fora que eu
decidi que sob o sol era o meu lugar para viver. As pessoas que me
cercavam, minha tutora, Rudolph. Todos eles juntos, tudo que eu
considerava ser certo e seguro, tudo que eu considerava importar.
Poderia nada daquilo realmente fazer sentido? Poderia a minha
existência inteira no covil ser superada por um único olhar, por um
único sorriso? Eu poderia trocar definitivamente a imortalidade se
fosse para ter o sorriso de Edward só uma vez? Eu poderia arriscar a
tudo e a todos só para tê-lo tocando meus lábios outra vez?
— Você pergunta demais, Bea. – Ele manteve os dedos em meus
lábios, apesar do meu silêncio. E não haveria voz possível de sair de
minha boca. Era providencial que ele pudesse ler-me, pois eu jurava
ser incapaz de falar novamente. – E posso garantir que é lisonjeiro
demais... eu não mereço seus elogios.
— Eu ainda estou confusa. Eu não consigo entender o sentimento.. a
agonia.
— Lamento por esconder isso de você, Bea. Eu quis gritar, deixar
minha voz contar exatamente como eu me sentia desde o início.
Deixar que você soubesse, para você poder escolher. Até porque você
parecia já ter escolhido... mas eu me acovardei ante a possibilidade
de arriscá-la. Agora vamos.. temos aula.

Edward passou por mim, mas eu não consegui me mover. A atração


que ele me exercia era quase como uma fórmula física complexa.
Forças estranhas que me puxavam contra a gravidade normal. Ele
me fazia flutuar, de uma maneira muito pouco metafórica. Era como
eu me sentia, flutuando. Eu não conseguia dar um passo à frente,
porque mover-me causava também dor.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Fica difícil deixar o quarto enquanto você está tão ansiosa, Bea. –
Edward voltou-se até mim, seus olhos demonstrando alguma
inquietação. – Não gosto de causar isso em você.
— Edward... – novamente balbuciei seu nome, porque eu queria algo
que ele ainda não havia feito, ou dito. Meu cérebro e todas as reações
químicas que ele produzia estavam agonizando por algo que eu mal
sabia o que era. Mas pelo que eu me renderia completamente, então.
— Sim, Beatrice. Eu estou apaixonado por você. – Ele sorriu, e
segurou meus braços. Eu continuava sem poder olhá-lo quando ele
displicentemente puxou-me para si e me acolheu entre seus braços
macios e receptivos. Seus lábios tocaram meus cabelos, e a sensação
foi elétrica. Havia impulsos por todos os lados, como uma
tempestade magnética. Foi desconfortável e ao mesmo tempo
magnânimo. Não parecia possível sentir nada como aquilo, não
parecia racional.

Aquele vampiro não tinha o direito de me fazer nada daquilo. Menos


ainda de se expor daquela forma. Era cruel, quase insuportável. Ele
me dera duas revelações com as quais eu não podia conviver, e
precisava apegar-me somente a uma delas. Uma, eu causaria a morte
de alguém. Talvez a minha. Duas, ele estava apaixonado por mim, se
eu pudesse realmente saber o que aquilo significava. Fosse o que
fosse, aquele sentimento era retribuído. Aquela era a palavra que eu
procurava, aquele era o sentimento. Ele estava apaixonado por mim,
e eu estava apaixonada por ele. O fator eu versus você. O que tornaria
aquilo um “nós” provavelmente muito inconveniente. Eu não sabia
se estava preparada para tratar de Edward no plural. Mas eram duas
situações aparentemente incompatíveis, haja vista excludentes. Eu
não podia conviver com o fato de que causaria a morte de algum dos

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

Cullen. Menos ainda se a morte fosse de Edward. Eu sequer cogitava


aquela possibilidade, porque o vazio que ela me causava era
inaceitável. A minha existência podia terminar a qualquer tempo,
pois eu sentia já ter passado todo o meu prazo naquele plano. Era
como se eu detestasse ter que acordar mais um dia. Mas até isso
parecia me causar incômodo, pois desde que eu me descobrira sob o
sol, desde que eu descobrira Edward, a minha existência passou a
ganhar um novo sentido. Uma nova cor, além do preto e do
vermelho vivo. Edward era uma nova cor para meu vocabulário
reduzido. Ele era um motivo bastante razoável para eu não desejar
nem mesmo a minha própria morte. Então, como eu poderia
conviver com essa incerteza em confronto ao fato de ele estar
apaixonado por mim? E como essas duas situações poderiam
coexistir sem se anularem, imediatamente? Eu parecia ser o bem e o
mal, o certo e o errado, o possível e o impossível, tudo reunido em
uma só capa de problemas ambulante.

CAPÍTULO 11 – A ESCOLHIDA
*tema: David Bryan‖s Endless Horizon*

Meus pensamentos estavam fora de ordem e bastante alterados,


então. Eu passara todo o dia na escola tentando entender as coisas
que me ocorriam. Tentando captar a essência das palavras de Edward
naquele quarto. Tentando entender os olhares curiosos e maliciosos
de Alice para mim, durante todo o tempo. E os olhares que a
repreendiam, simplesmente por pensar em alguma coisa. Eu estava
fora de mim, absorta em coisa alguma. Meus amigos humanos não
me entenderiam nunca, porque eles não sabiam o que se passava na

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

minha cabeça. Só uma pessoa podia saber como eu me sentia, e era


de quem eu mais desejava esconder os pensamentos.

Eu senti vertigem novamente toda vez que me sentei ao lado dele


nas aulas. Ele não falava nada comigo, apenas me olhava pelo canto
do olho e sorria, lindamente. Era assustador, porque eu sabia que ele
sabia. Era assustador porque ele me deixava constrangida demais.
Pensei em fugir dele, mas para onde iria? Eu tinha certeza que ele
sabia, que ele podia sentir o que eu sentia, e eu temia que fosse
demais. Que fosse complicado demais. Eu morria de medo que ele
soubesse o que ele já sabia, e por isso eu ficava ainda mais confusa. E
balbuciando palavras ininteligíveis, como se aquilo fosse distraí-lo do
óbvio.

— Alice... – Eu disse, alcançando minha ―prima‖ durante o almoço. –


Eu... onde está Rosalie?
— Ela não veio hoje. Ela... ela e Emmett vão ficar o dia fora. – Alice
riu, constrangida.
— Eu... gostaria de lhe falar.
— Sim, eu sei Beatrice!! – Ela sorriu. – E isso é tão divertido... ser
aquela com quem você vai confabular, contar seus segredos
profundos...
— Eu sinto como se não tivesse nenhum. – Desisti, porque lutar era
inútil. Com Edward o leitor de mentes e Alice a vidente era impossível
guardar segredos.
— Não seja tola... Edward lê segredos, eu só vejo o futuro. Diga-me, o
que te aflige?
— Você já sabe. – Desisti novamente.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Diga-me assim mesmo. Ele não vai se aproximar, ele sabe que você
quer conversar comigo, e muito provavelmente ele poderia te dar
todas as respostas. – Alice franziu o cenho. – Aliás, eu acho que ele
gostaria de te dar todas as respostas... mas eu sei que você prefere
perguntar isso a mim, certo? – Ela se abriu em um sorriso.
— Na verdade, gostaria de nem precisar perguntar. Sinto-me obtusa
demais, tola demais por desconhecer o básico do relacionamento
entre seres... mas eu preciso, ou vou agonizar em dúvida.
— Vamos logo, Bea! – Alice parecia urgente. – Sei que tenho todo
tempo do mundo, mas estou ansiosa!
— Edward... ele... ele disse que... ele disse que ele está... ele disse que
ele está apaixonado por mim.
Sim, eu falei daquele jeito. Eu simplesmente repeti cada pedaço da
frase, porque se eu decidisse simplesmente completá-la, eu talvez
não conseguisse. Patética, talvez fosse assim que eu me sentisse.
Literalmente patética.
— Ah, mas isso é tão... tão... fofo!
— Fofo? – Eu arregalei os olhos. Aquele conceito não parecia
combinar muito com minhas indagações.
— Sim!!! Meu irmão finalmente... ah, Bea... você sabe que gostamos
muito de você, desde o início. Mas foi meio que premeditado; Jasper e
Edward estavam caçando naquela região porque todos esperavam
por você, não é? Sei que Edward já te contou isso... então, você já era
esperada. Eu já a tinha visto, era verdade.. e os segredos não são
muito fáceis de se manter naquela casa. Você entende. Mas eu não
sabia o que aconteceria com a sua chegada, porque eu só vejo as
coisas quando elas se resolvem. E até você chegar, era tudo muito
confuso para mim... mas desde que você chegou eu vejo Edward mais
e mais apaixonado, e isso é tão enormemente fantástico que...

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Alice. – Eu precisei sacudi-la para interromper a profusão


assustadora de palavras que saía daquela boca tão delicada. Alice
parecia fora de controle, e se eu também não estivesse talvez nem
me importasse. Mas duas mulheres descontroladas parecia demais
para um refeitório de escola. Ainda mais se as duas mulheres não
fossem necessariamente humanas. – Alice, acalme-se. Sim, eu sei que
você me viu mas... eu não entendi direito essa parte.
— Que parte? Eu vejo o futuro... sei que é estranho mais...
— Não! A parte final.
— Sim, é muito fantástico porque..
— ALICE! – Eu disse, a voz mais alta. Todos pareciam olhar para mim.
Edward, sentado em outra mesa com Jasper, ria descontroladamente.
Rangi os dentes, completamente envergonhada por tamanho
exagero de minha voz, e tentei recompor-me. Edward comprimiu
seus lábios e suprimiu o riso, enquanto Jasper lhe desferia um tapa
na cabeça. – Desculpe.. – eu disse, constrangida demais. – é que eu
não entendi a parte do apaixonado. – Aquela parte eu sussurrei, de
forma bem suave, para que ele não conseguisse me ouvir. Tola.
— Ah! – A pequena vampira se surpreendeu. – Você... você não sabe o
que é estar apaixonada?
— Não. – Novamente, o constrangimento da ignorância maior. Eu me
sentia definitivamente um absurdo perto de tanta sabedoria dos
Cullen. Apesar de que, pelo entoar da voz de Alice, aquele
conhecimento não parecia muito empírico.
— Bea! Ora vejamos... como explicar isso? Bem... Bea, você entendeu
nossa parte sobre relacionamentos entre homem e mulher, certo? –
Assenti com a cabeça, não pretendendo interrompê-la então. – Pois
bem... paixão, amor, são conceitos que justificam esse
relacionamento. Eu sei que você entende amor... você ama seus

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amigos, sua família, várias coisas. Você pode amar... um homem.


Quando isso acontece... e quando você é correspondida...
— Eu e ele nos tornamos companheiros? – Nem era uma pergunta.
Mas Edward não estava ali para corrigir-me.
— Pode ser. É provável. – Ela riu baixo. – Ah, Bea... meu irmão é
muito pouco humano, sabia? Ele tem todo esse trejeito frio de
vampiro, ele se recusa a deixar fluir qualquer tipo de emoção
humana que esteja presente nele. A não ser mau humor, claro. –
Alice fez uma careta, e encarou Edward, duas mesas atrás. Ele se
franziu, cerrando os punhos. – Mas eu sei que ele é um homem
excelente, uma boa pessoa. Ele só precisa descobrir isso... e parece
que você é uma das chaves.
— Eu sou uma chave? – Assombrei-me. Aquela conversa em
metáforas me era demasiadamente complexa.
— Ah Bea! Não uma chave chave... uma chave no sentido figurado.
Ele tem algo trancado em seu peito, e você é a chave que vai abrir
espaço.

Eu ainda estava confusa com a explicação, e talvez não houvesse


mesmo nada melhor a se fazer a não ser esperar. Edward cansou-se
de ouvir à distância e aproximou-se da nossa mesa, segurando minha
mão. Eu ainda não tinha me acostumado com sua pele, então eu o
repeli. Puxei minha mão para baixo, assustada, como se o toque fosse
contrário a algum princípio desconhecido de uma moralidade
ultrapassada. Ele pacientemente levou a mão até a minha
novamente, segurando meus dedos com delicadeza, mas força.
Recusei-me a olhar para ele, enquanto Alice o encarava
furiosamente.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Basta com esse açúcar. – Mais metáforas, e eu certamente entraria


em colapso. – Alice, você não tem nada melhor a fazer?
— Você tem horas que está irreconhecível, irmãozinho. – Ela
debochou, atacando.
— Guarde seus pensamentos, irmãzinha. – Ele devolveu o ataque sem
quaisquer cerimônias. E quando olhou para mim novamente, ele
sorria. – Vamos, Bea? Não quer perder a aula.

Não, eu não queria. Mas então, tudo parecia completamente fora de


lugar, e eu não me sentia muito equilibrada. Senti um mal estar
súbito, e minha cabeça estava gritando, então. Edward pressionou
seus dedos contra os meus com mais firmeza, e sorriu suavemente,
quase como se não estivesse sorrindo. Claro, os meus pensamentos
embaralhados lhe deviam estar muito divertidos, como sempre.
Edward tomou o cuidado de não me falar mais nada durante as aulas,
e até depois delas. Ele se manteve em um silêncio cruel, e eu pensei
tê-lo visto agonizando, por alguns instantes. Em outros, eu pensei tê-
lo visto sorrindo. Mas ele nada disse, nada perguntou, nem
demonstrou estar me ouvindo. Eu sabia que ele estava... mas ele se
manteve impassível.

A noite na casa dos Cullen rapidamente caia, como se lá a luz do sol


desaparecesse mais cedo. Era estranho, eles não poderem sair ao sol
por entre os humanos. Eu podia. Meu organismo reagia mal ao sol...
mas não brilhava em esfuziantes faíscas de luz. De qualquer forma,
eu nunca saía ao sol entre os humanos, porque eu estava ao lado dos
Cullen o tempo todo. E como eu poderia ir às aulas se meus tios
estariam acampando em família, ou algo similar? Só se eu fosse uma
insana, segundo Rosalie disse que os humanos diriam. De qualquer

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

forma, a casa deles parecia sempre mais à sombra. E as pessoas não


iam até lá. O branco das paredes era sempre imaculado, e as
almofadas no chão pareciam sempre desamassadas. A cozinha nunca
era utilizada, porque ninguém ali se alimentava. Eu decidi que um
dia tentaria comer a comida dos humanos. Edward gentilmente se
ofereceu a me ajudar.. mas eu ainda estava em dúvida, até porque
Alice não havia conseguido ver nada sobre isso. E durante a noite
eles pareciam mais agitados, mais ativos. Era como se a luz do luar
lhes causasse o mesmo efeito que a luz do sol causava em mim.

Mas algumas reações naquela casa começavam a me deixar


atordoada. Edward, após a aula, me levou até a cidade vizinha, Port
Angeles, para assistir a um filme. Um filme... eu assistia televisão no
Covil, mas como não havia recepção, tudo que assistíamos eram
filmes. Eu já estava praticamente farta de filmes, porque eles eram
todos muito parecidos. Sempre a mesma donzela desprotegida em
uma fuga frenética, sendo perseguida por algum tipo de vilão; e um
mocinho a salvar-lhe ao final. Finais felizes invariavelmente. Nada
intelectual, nada desafiante, intrigante. Eu fui conhecer a televisão
de verdade, a que os humanos assistiam, na casa dos Cullen. Emmett,
meu primo mais divertido, adorava assistir jogos de futebol, baseball,
basketball, e outros estilos diferentes. Ele era quase um maníaco por
aqueles esportes... e Edward me garantira que eles sabiam jogar bem
quase todos os esportes. Que era divertido ter tanto tempo para
aprender. Foi então que eu me dei ao prazer de assistir televisão, em
companhia de Esme e Alice.

Mas Edward me levaria para assistir um filme, e eu esperava a


mesma coisa de antes, um romance de donzelas em perigo. Porém

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daquela vez eu teria uma companhia mais agradável do que as


senhoras híbridas que bordavam as vestes dos homens que saíam
para caçar. Edward e seu sorriso colossal, seu olhar lívido e seu
cheiro maravilhoso. Sim, eu havia aprendido a sentir o cheiro de
Edward. Enquanto todos os aromas me deixavam confusa e
desorientada, porque eram tantos e tão fortes, o cheiro de Edward
me causava um torpor que funcionava como calmante. Seu aroma
era uma mistura de todos os cheiros que eu já havia imaginado antes,
e de sua pele pareciam emanar cristais aromatizados. Eu saberia que
ele estaria para chegar mesmo que ele ainda estivesse muito
distante. E então, estávamos em Port Angeles durante o dia ainda, e
estaríamos na sessão das 16h. Ele não me contou que filme
assistiríamos, mas eu acreditava que ele faria uma boa escolha.
Talvez eu não estivesse preparada para o cinema, então. Talvez fosse
o ambiente que me causaria qualquer outro mal estar, e não o filme
em si.

— Muito escuro. – Ele disse, em meus ouvidos, o olhar apreensivo,


quando eu não consegui entrar no cinema. Claro que ele conseguiu
sentir todo pavor que inicialmente pairou sobre mim; o quanto
aquela ausência de luz me lembrou o covil.
— Sim, mas está tudo bem. – Eu tentei confortá-lo, apesar de que
fosse inútil. Edward sorriu levemente, deixando-se enganar.
Ao contrário do que eu imaginei, o ambiente era confortável e o
filme não tratava de nenhuma donzela em perigo ou vilões
maquiavélicos. Era um romance, certamente... um romance bastante
agradável. As imagens eram grandes, muito diferente da tela da
televisão, e o som me envolvia suavemente. Às vezes ruidoso demais,
mas confortável, sim. Edward sentou-se o mais atrás possível,

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

comigo ao seu lado. Aos poucos, durante o filme, ele deixou seu
braço repousar por sobre meu ombro, bem devagar. Era como se ele
tentasse não me assustar. E eu tentei, com toda a minha força, não
repelir o seu contato. Ao menor sinal da minha hesitação, ele
retrocedia e tinha que começar tudo de novo. Eu não sabia direito o
que ele estava fazendo, mas desejei não impedir.

Só fui compreender melhor suas reações durante o filme. Depois de


alguma meia hora de movimentação lenta, compreendi que os
personagens se estudavam, eram inteligentes, tomavam ciência do
mundo ao seu redor. Não eram tolas criações idealizadas de uma
mente fértil e imaginativa, que fazia tudo parecer estático e sem
graça. Eram pessoas, havia vida naquela tela. E as pessoas interagiam,
de uma forma menos convencional à que eu estava acostumada. Foi
então que o braço de Edward ao meu redor fez sentido. Eu não
poderia repeli-lo. Nem se eu quisesse, pois algo mais forte do que a
minha própria vontade me impedisse de pensar na hipótese. E ele se
aproveitou da minha repentina mudança de comportamento para se
instalar, então. Seus dedos me tocaram o ombro, macios,
comprimindo a minha pele suavemente. A palma de sua mão tocou a
minha omoplata suavemente, e eu senti a corrente elétrica
percorrendo meu corpo, e enrijeci todos os músculos. Percebi que ele
iria retroceder mais uma vez, e pude ouvir uma interjeição silenciosa
sair de seus lábios, então relaxei. Tudo que eu menos queria era
afastá-lo, naquele momento.

Eu estava envolvida no filme, a história me capturando a atenção


integralmente. Ao menos os meus olhos, que não conseguiam se
desprender da tela enorme. E meus ouvidos não conseguiam parar de

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

ouvir a história, que se estendia por mais de uma hora, e parecia


próxima de seu fim. Os personagens eram intrigantes, e a história era
bastante inaceitável, até para uma lenda sobrenatural com eu. Mas
eu me deixei divertir por todo aquele clima de romance e interação.
Meu organismo, no entanto, só processava o toque de Edward em
meu ombro. Era como se aquela condição fizesse parte do filme,
parte da história entrelaçada das personagens. Eu deveria ser tocada,
deveria sentir aquilo, para dar mais realismo à narrativa.
— Pisque algumas vezes, Beatrice. – Edward sussurrou em meus
ouvidos, e seu hálito penetrou em minhas narinas como perfume. Ele
estava muito cheiroso, era verdade. Como se todos os meus instintos
estivessem canalizados para ele, somente. E a maioria dos meus
sentidos também. Movi meus olhos intentando fazer o movimento
que ele pedira, tentando compreender que os humanos faziam aquilo
com naturalidade, e que eu precisava me manter ambientada.

Mas eu talvez não fosse a única com os sentidos canalizados a um


único propósito. Edward não retomou sua posição inicial, e eu temi
que ele tivesse ouvido algo que eu pensara sem querer. Prendi a
respiração – inútil, claro – e me mantive inerte, concentrada na
narrativa do filme. Senti delicadamente a ponta do nariz de Edward
tocar os contornos de minha orelha, e a eletricidade estava ali,
novamente. Como eu não repeli o toque, ele continuou a fazê-lo,
delineando todos os contornos que estavam ao seu alcance. Seus
dedos pressionaram meu ombro com mais força, como se ele me
puxasse para si. Sua respiração ritmada, por instinto ou por
comodidade, soprava o ar em minha pele. O contato não era
desconfortável, mas eu me senti completamente acuada. Eu não
sabia como reagir.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Sua fragrância é... deliciosa. – Ele disse, como que me


respondendo. Sim, eu ansiava por saber o que ele fazia, afinal. Por
que ele ainda tinha as narinas posicionadas em mim, como que
farejando algo muito intenso. Senti uma nova onda de eletricidade, e
aquilo já estava começando a me irritar, levemente. Edward afastou
a face de mim, aliviando a pressão em minha pele, permitindo-me
movimentar os músculos. Sim, eu o estava repelindo novamente.
Todos os meus pensamentos lhe davam pistas de como agir, e
provavelmente eles não estavam muito claros naquele momento. Ou
não seguiam qualquer ordem lógica plausível. Novamente, a
interjeição muda desprendeu-se de seus lábios.

O filme terminou em pouco tempo, aproximadamente duas horas de


sessão. Mas eu não consegui acompanhar o final. Desde que Edward
decidira tocar-me e cheirar-me daquela forma, os sentidos que ainda
estavam desapegados voltaram-se para ele imediatamente. Era como
se o seu gosto estivesse em minha boca, seu cheiro em minhas narinas,
sua voz em meus ouvidos, seu sorriso em meu olhar, sua pele sob meus
dedos. Eu o tinha todo em mim, de uma forma indescritivelmente
agonizante. Tive medo de meus próprios pensamentos, e tentei
esquecer tudo. Talvez fosse melhor deixar que meu corpo
simplesmente desfrutasse das sensações sem pensar muito nelas.
Afinal, eu não desejava que Edward me lesse tão bem a ponto de
sentir medo de estar ao meu lado.

A volta para casa foi silenciosa como toda a tarde. A música de fundo
era suave e agradável, mas eu ainda só conseguia ouvir a voz de
Edward. E ele não falava nada, apenas se limitava a reagir aos meus
pensamentos de forma cadenciada e premeditada. Um sorriso, um

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

olhar, seus dedos procurando minha mão sobre minha perna,


enquanto ele dirigia sem prestar muita atenção na estrada. Eu
parecia catatônica, ainda visualizando as imagens do filme e
combinando algumas com a figura de Edward.

— Boa noite, irmãzinha!! – Emmett Cullen estava jogado no tapete da


sala, divertindo-se com algum tipo de jogo que eu desconhecia. Esme
realizava alguma tarefa manual e eu não vi nenhum dos outros
Cullen quando entrei. Edward segurava minha mão, e olhou
furiosamente para Emmett quando o irmão maior soltou aquela
frase. Infeliz, certamente.
— Prima, Emmett. – Edward corrigiu. – Vai colocar todo o nosso
disfarce a perder.
— A escolhida de meu irmão é minha irmã. – Ele protestou,
praticamente ignorando qualquer perigo que aquilo pudesse
representar. – Aqui em casa eu a chamo de irmãzinha. Lá fora, que
seja o que vocês quiserem.
— Emmett... – Esme levantou o olhar em reprovação.
— O que foi? – Emmett encarou a mãe, e Edward segurava os meus
dedos com muita força, então. Logo a tensão em seus dedos
diminuiu, como se ele temesse machucar-me. – Ah, Edward anda
muito sensível esses dias... pensei que uma mulher fosse fazer
alguma diferença, afinal. Edward, - ele se voltou ao irmão – se quiser
eu empresto a você a chave da nossa...
— Basta, Emmett. – Edward rosnou. – Comporte-se perante
Beatrice... e guarde seus pensamentos para você, por favor!!
— Não tenho culpa se você é leitor. – Emmett protestou novamente,
e continuou seu jogo. Esme levantou-se e caminhou até nós,

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

sorrindo. Percebi que ela pretendia acalmar os ânimos entre os


irmãos.
— Eles foram caçar. – Ela disse, sorrindo. – Todos sedentos... só
Emmett decidiu ficar, e eu não tenho sede. Você está bem, Beatrice?
– Ela olhou em meus olhos, e eu senti apreensão.
— Sim, estou. Não tenho sede.
— Bom... Edward, eu poderia conversar com você um instante? –
Esme foi cuidadosa na escolha das palavras. – Beatrice pode fazer
companhia a Emmett... ele não parece estar se entendendo muito
com o jogo novo.
— Isso, mande minha nova irmãzinha para cá. – Emmett rosnou à
distância, e novamente os dedos de Edward comprimiram os meus.
— Vamos, Edward? – Esme tentou cortar o fio que nos conectava, e se
interpor entre a irritação crescente entre os dois irmãos.
Provavelmente aquilo não era grave, somente provocação barata. Eu
já presenciara os machos se desafiando no covil, e na maioria das
vezes a contenda terminava em risos e alguns ferimentos
rapidamente cicatrizados. Mas ela pareceu precisar mesmo
conversar com Edward, e eu deveria afastar-me. Era uma conversa
privada, entendi.

Coloquei-me rígida ao lado de Emmett, que parecia muito absorto em


seus jogos, então. Era algo aparentemente simples, imaginei... como
um quebra-cabeças. Mas ele estava concentrado. O grande vampiro
era bonito, pensei. Tinha traços brutos, não tão definidos como
Edward, não tão gentis. Ele parecia ter sido criado para aniquilar,
exterminar. Era como um grande urso. E o humor de Emmett
também parecia destinado ao mesmo propósito de seu corpo. Ele não
parecia incomodar-se em criar confusões, era como eu o via.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Não precisa ter medo, irmãzinha. – Ele virou-se para mim,


sorrindo então. – Eu não vou morder...
— Não tenho medo. – Não era mentira. Emmett não podia me ler, e
talvez fosse mais simples conversar com ele, então. Mas eu não sabia
até onde a sensibilidade de Edward poderia captar-nos. – Estou
tentando resolver a charada, como você.
— Seja minha convidada. – Ele fez um gesto, aparentemente
sugerindo que eu me sentasse ali, ao seu lado, no chão. Sentar era um
eufemismo para o termo. Emmett estava jogado ao chão, era
verdade. Mas pareceu divertido, então juntei-me a ele em seu
raciocínio, para desvendarmos o misterioso quebra-cabeças.
— Emmett... – eu decidi perguntar, alguns instantes depois. – Por que
me chama irmãzinha, agora? Quero dizer... Edward não pareceu
satisfeito, e Esme repreendeu...
— Você é irmã. – Ele sorriu. – Edward é meu irmão, disso não duvido.
Os nossos laços são fraternos demais... entraria em uma luta e
morreria por ele. – Daquilo eu não duvidaria, mesmo! – E ele
escolheu você. Então, você é agora oficialmente a minha irmãzinha
mais nova.
— Sou mais velha que você. – Impliquei. Era simples conversar
olhando Emmett nos olhos, pois ele era puro e transparente. Como se
sua existência estivesse envolvida em uma aura angelical de bondade
e ingenuidade.
— Isso não conta. Mas sim.. você é mais velha, mas eu sou maior.
Irmãzinha, então.
— Você disse que Edward me escolheu...
— Sim, você ainda não percebeu? – Emmett ergueu uma sobrancelha.
– Esse leitor estúpido tem que lembrar que as pessoas não têm a

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

mesma habilidade que ele! Bem, mas eu suspeitava que você


soubesse, porque entraram de mãos dadas e...
— Ele me contou. – Senti o calor percorrer meu corpo e meu coração
acelerar.
— Ah, então não entendi sua dúvida, ainda. – Emmett não era mesmo
tão sensitivo, e eu já estava ficando acostumada a não precisar
explicar-me.
— O termo escolhida, é minha dúvida. – Deixei sair. Eu não tinha me
saído bem com as palavras durante todo o dia, era fato.
— Ahh! – Emmett riu, jogando-se ao chão a fim de que suas costas
tocassem o felpudo carpete. – É só uma palavra, Bea... é que Edward
nunca... você sabe, ele nunca esteve com ninguém.
— Nenhuma fêmea? – Duvidei. E lá estava eu utilizando-me daquela
terminologia antiquada e rude, novamente.
— Nenhuma. Ele... é difícil sabia? Ele nunca gostou de ninguém,
nunca se interessou por ninguém. E bem... na nossa condição, é difícil
ficar trocando de parceiros, como ficam os humanos. Quando
encontramos alguém, ficamos com essa pessoa.
— É assim com você e Rosalie? – Emmett sorriu em concordância. –
Alice e Jasper? – Ele fez um bico, mas concordou. Talvez os
relacionamentos fossem diferentes, mas tivessem a mesma natureza.
– Esme e Carlisle? – Mais uma concordância muda. – Vocês todos
estão juntos...
— Desde que nos conhecemos. – Ele pareceu novamente absorto,
como se a conversa lhe gerasse memórias interessantes. Fez uma
pausa para divertir-se com as fantasias em sua mente. – Eu e Rose
estamos juntos a menos tempo do que nossos ―pais‖, claro... mas
sabemos que vamos ficar juntos, é quase como que...
— Eterno?

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Você é irritante, irmãzinha! – Ele se voltou para mim, e estremeci.


– Parece Edward... fica completando nossas frases! – A risada de
Emmett certamente poderia ser ouvida a quilômetros. Ele me
segurou pelos braços, e puxou-me para si, no que eu percebi ser um
abraço. Rolamos pelo chão, com o peso descompensado. – Você nem
pense em fugir de nós, agora faz parte dos Cullen!

Tudo aconteceu muito rápido, como sempre era entre os vampiros. A


porta da cozinha se abriu e os Cullen retornavam, enquanto Edward
descia as escadas já sacudindo a cabeça em desaprovação. Por mais
incrível que aquilo parecesse, eu não me assustei com o abraço de
Emmett. Senti-me estranhamente aquecida, e diverti-me com o fato
de ele brincar comigo, tentando segurar meu nariz entre seus dedos.
Os presentes nos encontraram rindo pela sala, o enorme vampiro
praticamente por sobre mim, as gargalhadas sonoras e
descontraídas.

A figura de Rosalie nos olhou interrogativamente. Ah, ciúmes! Eu


esperava que ela não sentisse aquilo em relação a mim e Emmett,
pois não havia maior incompatibilidade do que entre nós. Estávamos
apenas em uma contenda amigável, dois irmãos como ele preferia
dizer. O abraço de Emmett não me causou nenhum tremor na
espinha, ou fluxo elétrico circulando por meus ossos. Não havia
eletricidade entre nós, apenas calor. Foi como se o abraço dele,
mesmo à temperatura ambiente, mesmo frio, fosse caloroso. Uma
recepção, as boas vindas à família, pela segunda vez.
— Ahem. – Ela pigarreou, e Emmett tentou recompor-se. Ele a olhava
como se tivesse feito algo terrivelmente errado, mas não se

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

arrependesse. – Quando vai aprender a comportar-se, Emmett


Cullen? – A vampira loira disse, sem mover nada em seu corpo.
— Rose.. – Ele fez uma reverência para ela. Edward posicionou-se ao
meu lado, oferecendo sua mão para que eu me levantasse. Ele olhava
ferozmente para Emmett, e daquela vez eu senti eletricidade. Não
somente pelo toque, mas pelo fato de que eu podia jurar que Edward
desejava atacar o irmão.
— Você está bem? – Edward tocou meu braço, onde Emmett havia me
segurado, olhos atentos e assustados.
— Sim, estou ótima. Só estávamos... brincando.
— Você está machucada. – Ele segurou novamente meu braço em
suas mãos.
— Não estou, Edward. – Protestei. – Emmett... ele é maior, mas eu
dou conta. Ainda mais, se ele me causou um hematoma ou dois, em
10 segundos eles estarão curados. Talvez você nem mais consiga vê-
los, agora.

Os olhares entre Emmett e Edward não melhoraram até Emmett


resignar-se e baixar a guarda. Entendi aquilo como um pedido de
desculpas mental, que somente Edward poderia ter ouvido. Carlisle
assistia a tudo sem qualquer apreensão. Alice e Jasper riam baixo, em
um tipo de comunicação muito íntima deles. Edward me puxou para
o lado dele, como se me protegesse de algo.
— É a ela que deve pedir desculpas. – Ele disse, encarando Emmett.
— Não seja tolo! – Eu protestei, daquela forma mais veemente. Ora,
então não era tão difícil assim contestar Edward Cullen... eu tinha
aquela força, então. – Emmett, não se desculpe por nada. Você sabe
que estávamos só conversando, e tudo que ele fez foi dar-me um
abraço gentil.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Gentil? – Edward era sério. – Você estava cheia de hematomas


quando cheguei!
— E eles se curaram em 10 segundos, como eu disse.
— Esqueci-me que era mais frágil, Bea. – Emmett sorriu. – Desculpo-
me por isso.

Alice deixou então o anonimato e entrou na conversa, sorrindo com


apreciação.
— Sei que ainda não entende direito, Bea... mas seja oficialmente bem
vinda à família. – Alice abraçou-me, e daquela vez com toda gentileza
possível. Pude sentir novamente o calor em minha pele, e um beijo
suave em minhas bochechas.
— Não foi preciso, Carlisle. – Edward respondeu aos pensamentos do
pai, instintivamente. – Esme e eu já conversamos... ainda não.
— Ainda não o que? – Eu tinha que perguntar, claro. Já nem estava
mais me importando em ser tão tola, porque o dia inteiro eu tinha
agido de forma completamente desequilibrada. Eu estava fora do
meu balanço normal, então nada mais parecia ser estúpido o
suficiente para mim. Edward não me respondeu, apenas sorriu. Alice
caiu na risada, levando Jasper com ela. Os dois riam, e eu tive certeza
que ela sabia a que ele se referia. Alice e Edward pareciam
comunicar-se sem qualquer palavra, desde que eu os conhecera. Ela e
sua habilidade de previsão, ele e sua leitura de mentes. Os dois
sempre sabiam de tudo, e sempre antecipavam tudo. Era quase
insuportável... mas divertido.
— Vamos? – Edward disse, me fazendo desejar subir as escadas com
ele. – Alice, por tudo que é mais sagrado! – Ele explodiu, enquanto a
irmã ria sem parar. – Gostaria que vocês deixassem isso por minha
conta... seria muito bom poder lidar com isso sozinho!

127
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

Se eu tivesse entendido o que eles conversavam, Edward teria maus


momentos dentro de minha cabeça. Foi melhor que eu ficasse na
ignorância, daquela vez. Eu não suportaria deixar de me constranger,
e pensar naquilo pelo resto de meus dias. Que não deveriam ser
poucos. De qualquer forma, Edward tinha um estranho sorriso em
seus lábios, e eu podia senti-lo respirar mais aceleradamente.
— Emmett não machucou você, mesmo? – Ele perguntou, levando-
me até a porta do meu quarto.
— Eu me machuco mas me curo facilmente, Edward. Eu posso ser
mais frágil, mas é difícil me quebrar. – Eu sorri, tentando liberá-lo
daquele pensamento ruim. – Você deveria saber, porque eu não
estou me sentindo machucada.
— Poderia estar tentando me enganar. – Ele foi sério.
— Ah, como se eu soubesse fazer isso.
— No que está pensando?
— Ah, não! – Eu ri, e daquela vez fui eu a dar uma risada histérica que
poderia sacudir a casa dos Cullen. – Você não está me perguntando
isso!!
— Eu disse que te deixaria falar...
— Prefiro que me leia.
— Nunca vou entender você. – Ele sorriu novamente, intentando sair.
– Vai se lavar?
— Sim, estou cansada...
— Depois pode se encontrar comigo em meu quarto.

Uma tentação. Aquela oferta era uma tentação. O quarto de Edward


me seduzira desde a minha entrada na casa dos Cullen, mas por uma
simples razão. A presença dele. Quartos eram quartos, todos

128
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

lindamente decorados, brancos, claros, cheios de vidro. O bom gosto


de Esme era incontestável. Ela sabia mesmo o que estava fazendo,
decorando a sua casa. O banho não pareceu tão divertido quanto
antes, porque a água incomodou minha pele. E porque eu temi, só
por um instante, que o cheiro delicioso que Edward sentira no
cinema fosse lavado com as impurezas de minha pele. Eu queria ter
aquele cheiro para ele.. queria que ele apreciasse o meu aroma tanto
quanto eu apreciava o seu.

Eu não sabia por que me sentia como estava me sentindo. Na


verdade, eu imaginava que fosse o filme. Que a história romântica
totalmente diferente daquelas que estava acostumada tivesse me
causado tanta empatia com a história dos parceiros. Com a questão
do relacionamento homem e mulher... o fator eu versus você. Aquilo
nunca me pareceu tão óbvio, nem quando Edward me disse que
estava apaixonado. Era só uma palavra, eu não sabia o que fazer com
ela. Mas então eu vi... eu tive a chance de passar mais de uma hora
vendo o que a paixão poderia fazer com as pessoas... de forma tão
nítida, plausível, palatável. Eu tinha certeza... eu queria fazer tudo
aquilo com Edward. Eu queria tocá-lo, mas não simplesmente
segurar sua mão. E, enquanto eu me vestia, eu não sabia como fazer
para encará-lo sem pensar naquilo. Como eu esconderia que desejava
tanto... aquele contato físico. Não era para ele ficar sabendo. Não era
para ele ler, era para ele simplesmente ter a chance de adivinhar...
mas eu sabia que não tinha condições de esconder nada dele.

— Entre, Bea. – Ele disse, enquanto eu hesitava à porta. Maldito


vampiro, maldito vampiro!! Esgueirei-me pela fresta aberta, sorrindo
timidamente. Edward estava sentado em seu sofá preto de couro,

129
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

olhos fixados no luar ao lado de fora. Não havia outra luz que não ser
a do astro prateado.
— Er...
— Vamos, está com medo de mim? – Ele riu. – Não teve medo de
Emmett esmagar você, mas tem medo de se sentar ao meu lado?
— Emmett não me assusta. – Era muito verdade. Edward levantou-se,
aproximando-se de mim cuidadosamente. Ele não foi rápido como
sempre, porque a leitura meticulosa de minha hesitação lhe dava
uma perspectiva de como agir. Edward vestia uma camisa escura de
botões e calças cáqui. Ele estava sempre de cáqui, era clássico. Seus
irmãos pareciam tão tentados ao jeans, enquanto ele pouco se
importava com aquela vestimenta. Eu só o vira trajando jeans no
primeiro dia. Ele estava então em seu melhor estilo vampiro-de-100-
anos-de-idade. As estrelas iluminaram mais ainda o céu negro da
noite, quando um vento forte soprou as nuvens embora. A luz
prateada fez Edward ainda mais lindo; uma beleza que raramente
alguém poderia suportar.
— É isso que você quer? – Ele perguntou seriamente, mas eu senti
que ele segurava os lábios com força, para não sorrir. – Só isso?

Eu nem sabia se sabia o que eu queria. Na verdade, eu não podia


distinguir qual dos pensamentos horripilantes que passavam naquele
momento fora escolhido por Edward. Eu queria muita coisa, era
como me sentia. Eu queria coisas que nem me dava ao direito de
querer. Edward parou exatamente em minha frente, depois que eu
deixei a porta se fechar atrás de mim. Não que aquilo significasse
privacidade na casa dos Cullen. Seus dedos se dirigiam aos botões de
sua camisa, e ele abriu um por um, para minha total perplexidade.
Meus olhos se abriram mais, como se eu pudesse enxergá-lo mais

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

perfeitamente do que já enxergava. Senti a eletricidade daquela vez,


sem qualquer tipo de toque. Edward avançou um ou dois passos após
terminar com os botões, a camisa escura totalmente aberta,
deixando à mostra seu peito nu. Ele deu um sorriso maroto e segurou
minha mão, ciente de que eu não parecia apta a realizar nenhum
movimento físico naquele instante. Depois colocou-a tranquilamente
sobre seu peito, puxando-me para mais perto. Se aquilo fosse
possível.
— Estar apaixonado... isso permite que você me toque, Beatrice. – Ele
sussurrou, bem próximo aos meus ouvidos. – Você não precisa ficar
tão... ansiosa.
Seus braços circundaram meu corpo e me pressionaram contra o seu.
A palma da minha mão direita deslizou para as suas costas, por
dentro da camisa, e encontrou a outra palma, a esquerda, que já
havia encontrado o seu caminho. Fechei os olhos como se a imagem
daquele toque fosse demais para conjugar com as sensações que ele
me despertava. Meu corpo comprimido contra o dele, e tudo que eu
sentia era... calor. Mas não fazia calor, o frio deveria estar difícil e
aguentar, do lado de fora. Eu tinha certeza que sentia a alteração
climática muito mais do que os Cullen, já que eles não tinham
nenhuma temperatura corporal. Edward moveu-se um pouco, sem
me soltar, lentamente para não me acuar, e em instantes uma música
suave inundou o ambiente.

Eu havia dançado na casa noturna, com as meninas. Havíamos


pulado, jogado os braços para frente e para os lados, movimentado
nossos corpos com bastante liberdade. Aquilo foi chamado de dança,
tanto por Alice quanto por Rosalie. Mas a música que Edward tocava
era lenta, suave, uma peça clássica conhecida dos meus tempos de

131
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

covil. Eu já estava em seus braços, e ele se movia lentamente como se


estivesse realmente dançando comigo. Eu ainda tinha os olhos
fechados... e sentia suas mãos pressionando as minhas costas bem
devagar, quase como se ele temesse me causar algum mal. Sua
respiração era lenta...
— Seu coração. – Ele disse, interrompendo o transe, quando a peça
acabou. – Como pode... ele bate tão devagar.
— Ele bate em um corpo sem vida. – Eu tentei, com todas as forças
sobrenaturais que me restavam, não olhar para ele.
— Mas ele bate. - Seu hálito novamente me fez sentir ainda mais a
dimensão de seu cheiro. Eu não conseguiria me concentrar em
repelir os pensamentos que eu não queria que ele lesse se ele
continuasse a provocar. – Ele bate... você tem ideia de quanto você é
fascinante, Beatrice?

E então ele venceu a pequena batalha que se travara dentro de mim.


Meus olhos se abriram, e repletos de curiosidade, encararam os de
Edward. Alguns centímetros acima de mim. Fascinante era uma
característica que definitivamente não me pertencia.
— Eu sou tão comum. – Disse, já totalmente capturada pela
armadilha de seus olhos caramelo. Eu não conseguia olhar para mais
nada. Outra peça clássica começou, mais conhecida ainda por mim,
mas era como se os sentidos estivessem novamente canalizados
somente para um lugar. Edward. – Existem tantos como eu... você
nem sabe.
— Mas eu só tenho você em meus braços.

Ele não sorriu. Repelir os pensamentos, era em tudo que eu pensava.


Pensar em flores, frutos, cores, aromas. Nada daquilo ajudaria muito.

132
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

Pensar no sol... mas isso era impossível, enquanto Edward insistia em


brilhar mais do que qualquer coisa existente. Pensar em qualquer
coisa me direcionava novamente a ele; era uma fuga inútil. Edward
libertou uma de suas mãos e com o indicador delineou lentamente o
contorno de minha face, sem que nossos olhos se perdessem nenhum
instante.
— Tudo bem. – Edward sussurrou novamente, tão baixo que eu mal
pude ouvi-lo daquela vez. A música ainda tocava, e eu me sentia
flutuando pelo quarto. Lentamente, flutuando. – É isso que eu
também quero.
Como se eu não soubesse do que ele falava, meu corpo todo
estremeceu em seus braços quando ele se curvou sobre mim e
direcionou seus lábios para os meus. Como se eu não tivesse pensado
naquilo desde que estivera no cinema, vendo as personagens
trocarem carícias por mim desconhecidas. Como se não fosse
plenamente natural e esperado que, naquelas condições, ele fosse
fazê-lo. Como se eu não estivesse totalmente rendida em suas
amarras, pressionando a sua pele com tanta força que eu tive medo
de feri-lo. Como se aquilo fosse realmente possível, e como se fosse
aceitável que eu não desejasse tanto aquilo que meu truque para
esconder os pensamentos tivesse falhado tão convenientemente.

CAPÍTULO 12 – APAIXONADA
*tema: Westlife‖s To Be Loved*

With all the power of a symphony


That‖s how my heart beats when you‖re holding me
I can‖t conceal, this is how it feels
To be loved by you
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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

If everybody knows, it‖s only ―cause it shows


Because I take your love everywhere I go…

Por todo o poderoso Deus que os híbridos acreditavam existir, e por


todas as orações que Felicia nos fez rezar noite após noite; por todos
os milagres que ela contou acontecerem e por todos os nomes
sagrados que eu aprendi. Nada poderia existir de forma tão plena,
fantástica e entusiasmante. Eu não conseguia me conter dentro de
mim mesma, e meu corpo parecia desejar expandir-se como se fosse
feito de componentes moles. Havia música em todas as vozes. Havia
uma cor diferente em cada estrela que tingia o céu de prata. Havia
um aroma diferente em cada vez que eu respirava. E nunca, em
nenhuma hipótese, poderia haver alguém que guardasse dentro de si
algo tão grande e tão ansioso para se libertar.

Aquela era eu, exatamente no instante em que Edward me beijou. O


contato de seus lábios nos meus, a sensação das suas mãos me
puxando ainda mais para perto, do seu corpo cobrindo o meu. O
sabor... o sabor de sua língua delineando os contornos da minha. Eu
poderia me perder naquilo para sempre, e nunca mais me achar.
Meus dedos desceram até encontrar algo em que agarrar, cravando-
se com toda força possível na borda frágil da calça de Edward. Talvez
aquilo causasse algum estrago... porque eu era forte, apesar de tudo...
mais do que aquele tecido parecia suportar. Eu nunca havia sido
beijada, ou pensado em beijar alguém. Eu sequer havia visto um
beijo, que não nos filmes no covil. As donzelas em perigo eram
sempre salvas, e terminavam sendo beijadas pelo mocinho errante.

134
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

Mas eu não era uma donzela em perigo, não havia qualquer monstro
sobrenatural a me perseguir, e não havia mocinho a me salvar. E
definitivamente eu não estava dentro de um filme de produção
barata. Senti meu coração parar de bater por mais de um minuto, eu
pude ter certeza. E minha respiração já tinha parado há muito
tempo. Mas eu senti necessidade de engolir o ar, então. Como se toda
aquela preparação no meu primeiro dia de sol não tivesse passado de
mera especulação, e eu realmente precisasse do ar. Meus lábios
dolorosamente buscaram um espaço fora dos de Edward para que eu
pudesse puxar o ar com toda força, retomando o batimento
inconsistente de meu coração.
— Bea... – ele novamente sussurrou, com os lábios tocando minhas
bochechas, descendo para meu pescoço, e subindo novamente para
encontrar meus ouvidos. – Respire. Vamos, respire...
Eu inspirei e expirei várias vezes, sentindo meu corpo estremecer e
sacudir para cima e para baixo. Edward rosnou baixinho e levou seus
olhos aos meus, esperando que eu me recuperasse. Se aquilo
definitivamente fosse possível.
— Eu pensei que... – eu mal conseguia falar.
— Parece que pensou errado – Ele sorriu, e foi como se eu tivesse
visto a luz pela primeira vez. – Vamos, você não está se sentindo
bem. Vou levar você para seu quarto.
— Não! – Eu protestei antes que ele pudesse captar a negativa em
mim. – Edward, não... eu... eu quero ficar com você.
— Tudo bem. – Ele ainda sorria, e seus lábios tocaram os meus
rapidamente. O suficiente para que eu não entrasse novamente em
uma ânsia sem fôlego. – Eu posso ficar com você lá.
— Passar a noite? – Eu repeti suas palavras de algumas noites atrás.
— Sim, passar a noite.

135
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

Então, aquela era a sensação de estar apaixonada. Aquela era a


sensação de desejar alguém a ponto de esquecer-se de si mesmo e
pensar somente naquela pessoa. Era aquilo que Edward sentia por
mim, e que eu sentia por ele. Dormir aquela noite foi um martírio,
porque ele estava ao meu lado. Se ele se fosse, eu não conseguiria
parar de querê-lo ali. Se ele ficasse, eu não conseguiria parar de
desejar tocá-lo, beijá-lo outras vezes. Edward não dormia, mas ele se
deitou na cama e me puxou, fazendo-me repousar em si. Ele pensou
em abotoar a sua camisa novamente, mas eu não permiti. Ele disse
claramente que eu podia tocá-lo, e eu então o faria o quanto
quisesse. Se fosse possível deixar de querer, algum instante. Eu
queria olhar para ele sem parar. Edward deixou que seus dedos
passeassem por meus cabelos, acariciando-os com bastante cuidado.
Eu deixei que meus dedos desenhassem os contornos de seu peito até
meu corpo não resistir e sucumbir ao sono.

Eu tentei me lembrar se me sentira daquele jeito desde que


conhecera Edward. Desde aquele instante em que ele pensou em
mim como uma presa, eu o desejei daquela forma? Muito
provavelmente sim. Eu só não tinha percebido, ainda. Naquele
instante, seu cheiro me foi intrigante, irritante. Mas eu já sabia que
ele era perfeito em muitas maneiras de ser. Muito provavelmente, eu
o desejei desde sempre. Mas eu ainda não tinha entendido o que
havia iniciado aquilo tudo. Por que, de repente, eu havia perdido o
controle. Quando foi que eu decidi que poderia sentir tudo aquilo por
ele livremente, sem qualquer tipo de restrição.

Aquelas perguntas não foram respondidas por ele, porque eu as fiz


durante o meu sono frágil. A consciência ainda restante no meu

136
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

cérebro, a luta para manter-me acordada enquanto meu corpo


sucumbia violentamente ao cansaço. Na verdade, aquelas perguntas
talvez não tivessem qualquer resposta, porque elas faziam parte de
um complexo jogo de sentimentos. Eu estava apaixonada por
Edward, da mesma forma que ele estava apaixonado por mim. Aquilo
tudo era muito confuso para mim, porque eu não compreendia
aquele sentimento. Todas as minhas reações ao sentimento eram
físicas, como se amar Edward me desencadeasse uma reação química
potente. Eu reagia com desejo de beijá-lo, tocá-lo, segurá-lo com
força entre meus dedos. Eu não sabia se eu podia amar de outra
forma, se havia outra forma de demonstrar meu sentimento por ele.

Com uma nova perspectiva de sensações, eu era a pessoa mais


satisfeita que poderia existir. Pessoa não era um termo muito
aplicável a mim, mas eu era, afinal, uma pessoa. O que mais eu
poderia ser? A minha satisfação parecia impossível de ser superada,
porque Edward instantaneamente me fornecia tudo que eu
precisava. Ele se tornou o centro de tudo, e eu passei a gravitar ao
seu redor. Completamente apaixonada, um sentimento intangível e
indecifrável.

---

— Eu às vezes acho que estou estragando você. – Ele reclamou, um


dia, no almoço, dirigindo-se a mim.
— Eu tenho certeza. – Rosalie fez uma careta.
— Duas. – Alice concordou.
— Quietas. – Edward reclamou novamente. – Vocês dois, controlem
essas duas. – Ele se dirigiu a Emmett e Jasper.

137
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Edward, você melhor do que ninguém deveria saber que não se


argumenta facilmente com as mulheres. – Jasper riu. – Elas sempre
vencem qualquer discussão.
— Muito esperto, Jazz. – Alice sorriu, beijando-o na ponta do nariz.
Ela não se importou em fazer aquele carinho espontaneamente em
frente a todo o refeitório, porque simplesmente o refeitório não
enxergava os Cullen. Desde que eu me tornara oficialmente uma
deles; não mais a prima, mas a ―irmãzinha‖ de Emmett, a
companheira de Edward, eu também me tornei invisível aos
humanos. Até Sylvia não parecia mais me enxergar, e eu não podia
culpá-la. Edward me consumia todos os instantes do dia, não
deixando sobrar muito para quem fosse.
— Por que acha isso? – Eu disse, mesmo sabendo que ele já havia lido
essa pergunta. – Eu estou sendo estragada?
— Sim! – Edward segurou minha mão, e começou a brincar com meus
dedos. – Você saiu do covil para conhecer o mundo... para ver os
humanos... para viver uma nova vida. E logo você nos encontrou, eu
te levei para casa e desde então...
— Imagine se vocês... – Emmett iniciou a frase, mas parou
imediatamente sob o olhar ferino de Rosalie. E Edward. – Ok, ok...
esquece.
— Eu não estou reclamando. – Falei, sorrindo. Eu gostaria ignorar a
plateia e beijá-lo ali mesmo, no meio do refeitório. Mas não seria
adequado. – Aliás, eu estou muito feliz, você devia saber disso. Eu não
me importo em passar os dias com você, ao seu lado, exclusivamente.
— Mas eu ainda acho que estou tomando as experiências de você.
— Vocês deviam viajar. – Jasper disse, não imaginando que
prestariam atenção. Os olhares, no entanto, se voltaram para ele.
Todos ao mesmo tempo, até o meu.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Que boa ideia, meu amor! – Alice sorriu, agitada. – Viagens são tão
empolgantes... vocês poderiam ir até a Europa e...
— Estamos no meio do semestre, Alice. – Edward interrompeu o
discurso da irmã, já sabendo o que ela diria. – Apesar da idéia de
Jasper ser tentadora... ainda temos que esperar até chegarem férias
para podermos pensar nisso.
— Teremos férias em alguns meses, só. – Alice retomou a empolgação
de onde ela tinha parado. – Vocês precisam mesmo programar tudo...
então, não é cedo para começar a pensar. Jazz! – Ela parecia estar
apreciando o companheiro, ofertando-lhe um sorriso enorme. Jasper
pareceu encabulado, e se ele não fosse um vampiro ele teria corado.
— Eu não sei. – Falei, novamente por impulso. Eu falava muito por
impulso, talvez porque Edward sempre me lia, e eu desejava falar
antes.
— Eu disse. – Edward fez um bico. – Bea prefere terminar o semestre.
— Não há justiça se você sabe o que ela pensa. – Rosalie rebateu.
— Bem, todos vocês estão certos, afinal. – Edward desistiu. Virou-se
para mim, sorrindo. Desde que eu vira a luz, o seu sorriso me cegava
sempre. Invariavelmente, por mais preparada que eu estivesse. – Eu
estou mesmo estragando você. Então... talvez a viagem seja uma boa
ideia. O que acha, Beatrice? Gostaria de passar as férias de primavera
comigo, conhecendo lugares que você nem imagina que existem?

Aquilo não poderia ter vindo como uma pergunta. Era de uma
covardia extrema que ele cogitasse uma resposta diferente de um
sim. Era mais fácil que ele simplesmente impusesse a idéia, porque
eu não conseguia fazer nada além do que o desejo dele. Talvez ele
estivesse certo, e me estragasse. Eu não conseguia mais pensar por

139
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

mim mesma, eu só pensava o que eu gostaria que ele ouvisse, o que


poderia agradá-lo. Eu só conseguia pensar nele, e para ele.

A ideia me assustou um pouco, era verdade. Viajar... algo como


Boston, pensei. Encarar o avião novamente... apesar de que a
presença de Edward já faria o avião mais admissível. E ele cogitou
lugares que eu não imaginaria que existissem... irresistível. Foi como
uma coerção, ele fez a pergunta e a resposta saiu de mim
instantaneamente. Sem hesitação, como vinha sendo tudo que eu
fazia por ele.

Na casa dos Cullen, Edward pediu para conversar com os irmãos por
um instante. Eu deveria vestir-me... ele pretendia me levar ao
cinema novamente. Os filmes em Port Angeles eram divertidos,
ótimos momentos juntos. Eu não estava mais relegada aos romances,
tínhamos experimentado outros estilos. Alguns eram tão estúpidos
que me faziam rir, rir muito. Edward não ria sempre, ele era mais
sério, mais comedido. E naquele dia, iríamos novamente a Port
Angeles. Mas primeiro, ele pretendia conversar com os irmãos...
novamente, conversa privada que me excluía. Momento de diversão
com Alice, que estava sempre exultante e saltitante, como um cervo.

**** A conversa dos irmãos Cullen ****

— Vamos logo, Edward... o que é? – Emmett não era mesmo muito


paciente. Edward reunira os dois irmãos para conversar, em campo
neutro. Escolheram o quarto de Jasper e Alice porque Alice deveria
estar distraindo Beatrice. Que não poderia ouvir a conversa, claro.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Eu acho que preciso de ajuda. – Edward disse, não muito satisfeito


em ter aquele debate.
— Diga, Edward... está relacionado à viagem? – Jasper sentiu a
apreensão desde o momento da aceitação de Beatrice.
— Sim e não. Sim, porque eu imagino que essa viagem torne as coisas
mais difíceis, apenas. Não, porque o problema existe desde que eu
decidi assumir Beatrice...
— Enigmas, enigmas... – Emmett jogou-se sobre a cama.
— Emmett, por favor não desarrume essa cama... ou você terá que se
entender com Alice sozinho. – Jasper recomendou.
— Bla bla bla. – Emmet rosnou. – Vamos ao problema de Edward.
— Beatrice é meio humana. – Ele disse, divagando, olhos na parede
de vidro, observando a imensidão da floresta.
— Conte uma novidade.
— Sério, Emmett.. ela é meio humana. Eu... eu não sei o que pode
acontecer se...
— Se?
— Oh. – Jasper levantou uma sobrancelha, e caminhou até Edward,
colocando a mão em seu ombro, em sinal de conforto. – Então é por
isso que até então vocês...
— Sim e não. – Edward riu da repetição da resposta.
— Você está com ela há quanto tempo mesmo? – Emmett questionou,
divertindo-se com os enfeites de Alice. O olhar de Jasper controlava
tudo, mas o irmão maior não parecia nada preocupado em manter a
ordem.
— Alguns meses. – Edward confessou. – Desde que... bem, desde que
começamos a namorar. Acho que o termo está bom.
— Edward, você é muito devagar. – Emmett riu alto. – Com menos de
dois meses, eu e Rosalie...

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Não faço questão de saber, Emmett.. você não precisa me dar uma
imagem tão clara. – Edward se sacudiu, tentando livrar-se da visão.
— Okay, vamos nos concentrar aqui. Edward, seu problema é...
porque ela é meio humana? Qual seu medo real? Eu não consigo
captar, só sei que você está muito apreensivo.
— Bem, eu sei que mulheres vampiras são naturalmente... incapazes
de reprodução. Afinal, nenhuma delas enfrentou esse problema...
nenhuma das que conhecemos. Mas... Beatrice não é uma vampira.
Estão entendendo?
— Mais ou menos. – Emmett bufou.
— Você teme a possibilidade de ter um filho? – Jasper levantou a
sobrancelha novamente.
— Sim e não. – Nova risada de Edward. – Eu temo a possibilidade de
qualquer coisa inesperada acontecer. Ela é forte o suficiente, isso está
bem para mim. A sua regeneração é muito rápida, mesmo que eu a
machuque, ela talvez nem sinta. Mas... na primeira vez em que nos
beijamos, ela não respirou. Ela às vezes se perde na divisão entre
humanos e vampiros, quer lutar contra as suas necessidades
corporais. Até hoje eu preciso lembrá-la de que ela tem que respirar
quando nos beijamos. Eu não sei como seu corpo pode reagir ao
momento.
— Use alguma das técnicas dos humanos. – Emmett considerou.
— Acha que elas funcionariam em um vampiro? – Jasper censurou. –
Medicamentos definitivamente não serão eficientes. E...
preservativo? Não sei... Edward é forte demais para isso, o ato seria
muito intenso... seria muito possível que o invólucro não
sobrevivesse.
— Acho que você está ligando demais para isso. – Emmett deu de
ombros, intentando encerrar a conversa. – Você não vai machucá-

142
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

la... seja lá o que for que aconteça depois, lide com o problema
quando ele aparecer.
— Você está sendo muito útil. – Edward reclamou. – Como você é o
mais... empenhado nisso, achei que poderia me ajudar.
— E eu estou ajudando – Emmett bateu no ombro de Edward. – Você
deveria deixar essa preocupação para lá e deixar acontecer,
irmãozinho.
— E pensar que ele pode antecipar tudo que ela quer... – Jasper
suspirou, enquanto os três deixavam o quarto.

---

Naquela noite, depois do retorno de Port Angeles, Edward parecia


diferente. Ele estava totalmente absorto em seus próprios
pensamentos, como se estivesse planejando algo. Inicialmente,
pensei que fosse a questão da viagem a perturbar-lhe. Alice passou
muito tempo falando da mesma coisa, enquanto eu o esperava. Eu
tinha certeza que aquilo o incomodava, mas o leitor de mentes era
ele. Eu só poderia ter certeza do problema quando – e se! – ele me
contasse. Durante o filme ele se limitou a segurar minha mão nas
suas, completamente concentrado no filme. Eu gostaria de ter tido
mais atenção... eu demandava atenção dele, mas eu não podia ser tão
exigente. Ele já me dava tudo, era impossível querer mais.

Os Cullen já estavam todos recolhidos em casa, até mesmo os que


saíram para caçar ao mesmo tempo que nós saímos para o cinema,
em seus afazeres noturnos. Alice e Jasper estavam desaparecidos, e
Edward sequer ousou perguntar sobre eles. Levando em
consideração a apreciação de Alice pelo companheiro, durante o dia,

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

eu tinha alguma idéia do que estaria acontecendo. Afinal, depois de


tanto tempo entre os humanos e os Cullen, eu já tinha aprendido
muito. Eu já não precisava fazer perguntas básicas e agir como uma
tola, porque muitas das vezes eu conseguia entender. E Edward
sempre acabava me fazendo entender, quando ele percebia a minha
incompreensão.

Eu precisava de um banho, porque eu estava acostumada a banhos


diários. Meu organismo era muito mais propenso a acumular
impurezas, pela minha metade humana. A metade fraca, eu pensava.
E eu sabia que Edward gostava do meu cheiro após o banho; ele
gostava da fragrância do sabonete, que ficava em minha pele. Subi as
escadas e pretendi encontrar-me com ele em seu quarto, como ele
sempre fazia. Já havia se tornado rotina. Até eu não suportar mais a
exaustão e desabar em um sono inconclusivo, eu ficava no quarto
dele, ouvindo música, aprendendo, ouvindo-o contar-me as histórias
de seus pais, seus irmãos, a sua própria. Ele demonstrava gratidão
absoluta por Carlisle tê-lo salvo. Ele era tão inteligente que eu me
sentia diminuída próxima a ele, mas ele sempre tentava me fazer
parecer mais do que eu era. O mesmo acontecia noite após noite,
com algumas exceções. Algumas das vezes ele me levava para junto
da família, ou tocava piano para eu observar, maravilhada. Eu
dedilhava o piano, mas ele era impressionante.

E naquela noite, eu pretendia fazer o mesmo de sempre. Banhei-me,


vesti-me com uma das ―roupas especiais‖ para o sono, e caminhei
para o seu quarto. Bem lentamente e suavemente, eu pretendi. O
quarto de Alice e Jasper estava fechado e eu não pretendia fazer
nenhum ruído que lhes perturbasse. Não parecia haver música vindo

144
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

do quarto de Edward, o que era estranho. Talvez ele também não


pretendesse perturbar os irmãos. Sempre muito suavemente, dirigi-
me até a porta ao final do corredor, sendo surpreendida por algo
inesperado.

Edward não estava vestido como sempre, mas parado em frente ao


guarda roupas, sem camisa, sem as calças cáqui, como se escolhesse
algo diferente.

Meus olhos mais uma vez se arregalaram, como se pretendessem


uma visão mais ampla. Se fosse aceitável que eu tivesse uma visão
mais ampla... porque não deveria ser permitido ver mais do que
aquilo. Edward inteiro deveria ser proibido. Se eu não me julgasse
imortal, poderia ter uma parada cardíaca naquele instante. Era fácil
perceber porque meus sentimentos por ele sempre extravasavam o
lado físico; ele tinha beleza demais para conter em uma pessoa
apenas.
— Beatrice. – Ele disse, sabendo da minha chegada à porta. – Você...
poderia esperar-me no seu quarto, por favor?
Ah, meu quarto! Aquilo era definitivamente novo, então. Edward
raramente se dirigia a meu quarto se não fosse para me deixar na
cama, já adormecida. Sabendo que ele não precisava de resposta,
caminhei de volta pelo enorme corredor, o ar entrando seco pelas
minhas narinas, meu coração acelerado, a eletricidade de volta.

Eram semanas passadas desde que a eletricidade fora embora.

Eu já estava me acostumando ao toque de Edward, e as sensações se


aprimorando. Não havia mais uma corrente elétrica que repelia todo

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contato de sua pele na minha, mas uma atração magnética. Não


havia mais como repeli-lo, mas como puxá-lo para mais perto. Então,
aquela eletricidade toda fora um tanto quanto inesperada, também.
Mas eu alcancei o meu quarto antes dele, e fiquei sem saber o que
fazer. Observar o luar seria a minha melhor idéia. Como o sol não me
causava um bem tão grande, decidira apreciar a lua e seus raios
prateados. Era a luz da lua que tornava Edward ainda mais
insuportavelmente lindo.
Em alguns instantes, as mãos de Edward tocaram meus ombros
suavemente, e seus lábios beijaram meus cabelos.
— O que estamos fazendo aqui? – Eu perguntei, porque ele então me
deixava falar. Eu precisava me sentir proativa.
— Passando a noite. – Ele sorriu, mesmo que eu não estivesse
olhando.
— E...
— Eu queria algo mais confortável para vestir. – Ele respondeu antes,
daquela vez. Aliviada, ele me havia poupado da tortura de ter que
dizer aquilo em voz alta. – Algo mais... macio.
Virei-me para ele, instintivamente. Eu sempre via Edward com o
mesmo tipo de roupa, então eu precisava entender o que ele queria
dizer com algo mais confortável. Ele se afastou alguns centímetros,
me oferecendo a visão que eu queria. Em pé, moletom preto, meias,
sem camisa. Prendi a respiração novamente, olhando incrédula para
ele. Tentei banir a visão anterior de minha mente, mas foi
impossível. Tentei banir a idéia de que ele estava vestindo a menor
quantidade possível de roupa naquele momento, mas foi impossível.
Ele estava ali, de frente para mim, lábios retorcidos, como se
esperasse por minha silenciosa opinião.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

Então ele estava decidido a passar a noite comigo, mais uma vez. Mas
daquela vez ele estava diferente. Eu desejei lê-lo como ele me lia,
mas tudo que podia esperar era Edward me mostrando o que estava
havendo. Enquanto eu ainda estava em branco pela dúvida e pela
curiosidade, ele me puxou para a cama, me fazendo deitar. Eu nem
estava cansada, ainda. Acostumara-me a adormecer mais tarde,
sempre com ele, enquanto passávamos agradáveis horas juntos. Mas
ele parecia determinado, então aceitei. Deitei-me na cama, esticando
os músculos. Edward deitou-se ao meu lado, acariciando meus
cabelos ainda, as costas da mão delineando as linhas de minha face.
Fechei os olhos e deixei que ele me beijasse, sabendo que aquilo era
inevitável.

Porém Edward não me presenteou apenas com um beijo naquela


noite. Eu também já estava me acostumando a ser beijada por ele, a
sentir seus lábios pressionando firmemente os meus, fazendo-os
entreabrir; sua língua buscando espaço até encontrar a minha, seu
gosto floral na minha garganta. Aquelas sensações já estavam
marcadas em mim como que impressas. Mas naquela noite ele decidiu
me dar coisas que eu ainda não estava esperando sentir. Enquanto
ele me beijava, seu corpo moveu-se por sobre o meu, o seu peso
sustentado em seus cotovelos. Logo, parecíamos apenas um por
sobre aquela cama. Sua pele toda em contato com a minha, enquanto
o suave movimento de nossos corpos parecia estrategicamente
levantar as bordas da minha blusa. Eu tentei desesperadamente não
pensar, não olhar para ele, evitar que ele conseguisse ler o que eu
estava sentindo. Mas Edward me beijava, e pressionava levemente
seu corpo contra o meu; afundando nós dois no colchão macio. Suas

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

mãos acariciavam meus cabelos, meu pescoço, meus ombros, me


seguravam firme.

— O que foi isso? – Eu perguntei, sem conseguir distanciar-me dele


um milímetro, uma das pernas entrelaçadas nas dele, tentando
mantê-lo ali o máximo possível. Nossos lábios ainda se tocavam, mas
ele estava tentando dar uma pausa para que eu respirasse. Sim, ele
me tirava o fôlego de uma forma miserável. E eu desejava tirar
aquela preocupação dele, mas sempre me afastava, buscando o ar
desesperadamente. E então ele sempre – sempre! – se preocupava em
parar, quando percebia que eu estava sem fôlego.
— Estamos passando a noite juntos. – Ele disse, ainda muito
concentrado, beijando-me intermitentemente. – Até o limite do
possível, até onde puder ser seguramente premeditado. – Ele
completou.
— Não sabia que se podia premeditar isso. – Eu disse, capturando-o
entre meus lábios novamente.
— Você sabe onde isso pode nos levar, Bea. – Ele mal conseguia
respirar. Apesar de manter o ritmo para me ajudar, ele também se
sentia sem condições de respirar.
— Sim, eu sei. Mas eu não sei se...
— Sim, é claro que podemos nos controlar. – Ele me encarou, então.
Sobrancelha erguida, lábios afastados. Por um segundo, que pareceu
eterno. – Sempre podemos... e você vai mesmo dormir, daqui a
pouco.
— E se eu não quiser? – Fui infantil.
— Eu volto para meu quarto. Temos tanto tempo para passar juntos,
não precisa se sacrificar por isso.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

Eu estava, então, contrariada. Mas era verdade, tínhamos mesmo


tempo. E eu confiava em Edward... cada passo que ele deu, cada
movimento seu foi calculado e premeditado. E cada um me fez sentir
a pessoa mais completa. Então, se ele pretendia premeditar aquilo
também, se ele pretendia estar no controle, que fosse feita a sua
vontade. Eu gostava de tê-lo no controle, porque ele era sempre
muito bom no que fazia. Diante de minha resignação, Edward voltou
a beijar-me, ainda por sobre mim, silenciando qualquer protesto
sonoro que eu pudesse fazer.
— Vamos passar a noite assim mais vezes? – Eu tive que perguntar
novamente, em outra pausa. A pergunta poderia ser irritante, mas
Edward me sorriu.
— Quantas vezes você quiser, Bea. – Ele me beijou a ponta do nariz,
como eu vira Alice fazer com Jasper. Uma fisgada, a eletricidade. –
Mas não.
— Não o que? – Arregalei os olhos, surpresa. – Sua resposta ficou
contraditória, não acha?
— O não é referente a duas coisas. A primeira, você não pode
continuar a me espiar pela porta. E a segunda, você não vai me ter
aqui vestido daquela forma. Ainda não.
Daquela vez o pouco controle que me restava fugiu de minhas mãos
totalmente, e minhas bochechas coraram no maior rubor possível.
Todo o sangue que circulava em meu organismo se direcionou para
aquela parte do corpo, causando uma sensação totalmente
desagradável. Como, entre tantas coisas fora de contexto que eu
estava pensando, ele sempre conseguia se prender às mais ridículas e
embaraçantes! Edward era um radar para captar meus momentos
mais tolos. De tudo que eu estava pensando naquela hora, a imagem
dele posando somente em suas roupas íntimas era irresistível. Mas

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não era para ele ter se apegado àquele detalhe... e menos ainda para
ter tirado tantas conclusões.
— Assim você me deixa completamente envergonhada. – Eu disse,
afundando-me em seu peito nu. Já havíamos mudado de posição, e eu
estava então divagando em seus braços firmes, aguardando o sono
abater-me. – Mas não sei por que não.
— Por que você é uma droga, Beatrice. – Ele disse, sorrindo. – Quanto
mais eu tenho, mais eu quero. E seus pensamentos em nada ajudam o
meu controle.
— Você pode me ter o quanto quiser. – Eu já estava mesmo imersa
nele, um comentário absurdo a mais, um a menos, não faria
diferença.
— Eu sei. Você também poderá me ter o quanto quiser... mas por
favor, espere um pouco. Tenho algo a resolver... depois... depois eu
sucumbirei à sua vontade.

CAPÍTULO 13 – CONNOR

O meu conto de fadas estava prestes a se materializar de todas as


formas possíveis. Eu nunca fora romântica ou sonhara com o
príncipe, como muitas das híbridas que conviviam comigo. Não
poderia haver príncipes híbridos, e eu duvidava que os humanos que
nos exilaram apareceriam em um cavalo branco, portando uma
espada, para me salvar. Eu sequer imaginava que precisasse ser salva.
Aquelas histórias contada por Felícia nunca me afetaram muito, mas
eu cheguei a sonhar uma ou duas vezes se eu não teria um lugar me
esperando em um castelo, para viver o ―felizes para sempre‖.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

Não, era tolice demais. Mas Edward parecia determinado a fazer com
que aqueles sonhos se transformassem em algo concreto. Ele era meu
príncipe encantado, e eu estava tão apaixonada por ele que não sabia
como lidar com aquele sentimento. A sensação de flutuar ao seu
redor, a sensação de desejar sair de meu próprio corpo em êxtase só
aumentava a cada dia. A cada noite. Eu não imaginava nada mais que
eu poderia querer além de Edward Cullen.

E a família dele era perfeita demais para ser verdadeira. Alice era,
então, uma amiga. Rosalie também era simpática comigo, mas não
tão próxima. Ela parecia mais ríspida, e talvez fosse um trejeito de
suas características humanas. Emmett era o meu irmãozão, como eu
aprendera a chamá-lo, e o meu grande protetor. As caçadas com ele
eram perfeitas... ele nunca me deixava sujar as mãos com os animais,
e ele sempre caçava por mim, por ele e por mais alguém. De qualquer
forma, Edward insistia que eu tinha que aprender a caçar sozinha.
Para não morrer de fome, o que ele tinha razão completa.

Esme e Carlisle eram os pais que me davam muito mais do que eu


tinha no covil. O carinho e a atenção que eles dispensavam a mim me
faziam sentir realmente amada. Era uma sensação especial, e nada
poderia ser melhor do que aquilo.

— Bea, vamos caçar. – Edward disse, segurando minha mão. Estava


escurecendo, e fazia muito frio. O frio estava aumentando, e Edward
dizia que era o inverno. A estação gelada, que fazia cair gelo do céu.
Eu queria tanto ver o gelo cair do céu que chegava a ansiar por estar
do lado de fora. Mas Alice me garantiu que a neve não cairia por

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

aqueles dias, me fazendo frustrar um pouco. – Mas dessa vez você vai
pegar a presa.

Senti meus ossos estalarem.


— Eu? – Olhos arregalados, assustada.
— Sim, está na hora. Emmett anda te mimando demais... você precisa
aprender a comer sozinha.
— Ei! – Emmett, o grande urso vampiro, protestou da sala. Ele estava
assistindo a liga de baseball. – Eu mimo a sua namorada e você
reclama? Quem deveria estar fazendo isso era você, Edward Cullen.
— Ela precisa aprender. Você sabe disso.
— Sim, mas não vou forçá-la. Ela é sua, divirta-se.
— Não quer nos fazer companhia? Pensei em irmos atrás de uns
ursinhos...

Emmett deu um salto do sofá, e logo colocou-se ao nosso lado,


sorridente.
— Ursinhos! Ah ah ah Edward!! Você sabe como me provocar, hem?
— Eu me esforço. – Edward sorriu, iluminando toda a sala
novamente. Respirei devagar, absorvendo toda a maravilha que eu
sentia quando ele sorria descontraidamente. Senti que ele abaixou o
olhar e diminuiu o sorriso, olhando para mim. – Bea, você me deixa
definitivamente constrangido.
Foi a minha vez de corar. Eu, pelo menos, conseguia fazer minhas
bochechas corarem. E aquilo denunciava meus pensamentos mais
ainda do que eles próprios. Antes que o momento se tornasse
constrangedor demais, saímos para caçar. Edward me segurava a
mão, e me guiou até onde supostamente encontraríamos os ursos
que Emmett tanto queria e alguns animais menores para mim.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

Porque, como eu já sabia, eu era pequena. Ao menos era como eu


sempre me sentia, principalmente ao lado de Edward e Emmett.

Nossa viagem foi para mais ao norte, e fazia definitivamente frio


demais. Eu não sentia a temperatura tão violentamente, mas sabia
que estava frio. Até porque a mão de Edward nunca esteve tão
gelada. A sua mão segurando a minha parecia uma pedra de gelo, e
eu tive que notar a diferença de temperatura entre nós dois.
Chegamos a algum lugar esperado, e meus instintos logo captaram
um odor muito forte, ácido, que me inflamou as narinas
imediatamente.
— Eles estão por perto. – Emmett agitou-se, arreganhando as presas e
farejando a presa. – Vamos à diversão, Edward?
— Não, Em. – Edward disse, também farejando algo – Vim aqui para
ensinar Beatrice... não a quero lidando com ursos enlouquecidos.
— Você não sabe o que está perdendo. – O comentário foi para mim.
Mas eu sabia que Edward não me deixaria enfrentar animais
perigosos, principalmente porque eu ainda não sabia matá-los, era
verdade. Emmett nos deixou, indo para oeste. Edward continuou
farejando, principalmente porque eu estava fazendo o mesmo. Mas
meus sentidos ainda captavam a presa de Emmett, não a que eu
deveria pegar.
— Os ursos? – Ele disse, assombrado. – Você quer mesmo os ursos?
— Eles... o cheiro é delicioso. Forte... muito forte.
— Mas Beatrice, eles são tão... você pode se machucar. – Sim, eu
sabia. Edward não me deixaria enfrentá-los. Mas o desejo de correr
atrás de Emmett e atacar um urso estava irresistível dentro de mim,
e eu não conseguia pensar em outra coisa. O cheiro não saía de
minhas narinas. – Bem, ursos então?

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

Edward me olhou, vencido. Fui surpreendida por sua aceitação, pois


eu tinha certeza que ele não permitiria. Claro que Edward não era
meu proprietário, e que eu poderia caçar o que quisesse. Mas eu
andava muito condescendente ao lado dele. Deixava que ele fizesse
comigo o que queria, e raramente encontrava forças para contestá-
lo, para dizer ―não‖. Ele tinha razão quanto à minha personalidade...
eu dizia ―sim‖ facilmente demais. Mas daquela vez falávamos de
caça... e eu não sabia caçar... mas meus instintos me levavam em
direção a um animal feroz, tão feroz que excitava a máquina de
matar chamada Emmett. Era como eu imaginava, o urso.

De qualquer forma, Edward resignou-se à minha vontade. Ele fez um


gesto que significou a minha permissão para correr a oeste, e atacar.
Se eu conseguisse atacar.
— Beatrice! – Sua voz me alcançou, quando eu ainda perseguia o
cheiro. – Siga seu instinto apenas... ataque. Feche os olhos se não
quiser ver... eu confio em você.

Ah, ele confiava em mim! Aquilo poderia não ser o suficiente, mas
reforçou meu ímpeto de caçar o urso. Havia um animal enorme, de
pelo escuro e bocarra escancarada. Emmett estava lá, provocando-o.
Era como se ele não estivesse simplesmente se alimentando, mas
procurando diversão. Irritar o urso lhe parecia prazeroso.
Aproximei-me, sabendo que não poderíamos dividir a presa, mas
desejando-a mesmo assim.
— Edward, sua garota está de olho no meu urso! – Emmett conseguiu
dizer, entre as presas cerradas e as provocações.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Deixe-a divertir-se, Em... você pode conseguir outro mais


facilmente do que ela.
Certamente Emmett não ficou satisfeito. Mas ele continuou a
provocar o urso sem intenções de ataque, daquela vez. Como que
preparando o terreno para o meu ataque. Coloquei-me em posição e,
quando já estava totalmente dominada pelo aroma da presa e pelo
desejo de sangue, atirei-me por sobre o urso, atacando-o fortemente
no pescoço.

Mas... o urso era mesmo mais forte. E sim, eu poderia me machucar.


Edward estava sempre certo, então. O grande animal estava muito
provocado, e mesmo após o meu ataque e mesmo após a dentada
fatal em seu pescoço, ele ainda teve forças o suficiente para lançar
suas garras sobre mim e cravá-la, então, no meu corpo. Eu já sugava
o sangue fresco, saciando a minha sede, quando senti o golpe, que
me fez cair ao chão. Se eu fosse uma vampira, se eu fosse tão
resistente quanto Edward ou Emmett, eu nem sentiria o ataque. Mas
meu corpo se feria, meu corpo não resistiria ao choque. Eu seria
arremessada longe, antes de conseguir me recompor novamente.

Foi o que aconteceu. Desfaleci ao chão, deixando o urso para a morte.


Emmett jogou-se por sobre ele, terminando o serviço mal feito que
iniciei. Edward correu para meu lado, ansioso, pressionando o
ferimento que havia dilacerado meu ombro direito.
— Beatrice... – ele sussurrou, enquanto meus olhos ardiam em
agonia. – Vai ficar tudo bem... só respire.
— Como ela está? – Emmett disse, sem deixar a sua presa.
— Ela vai se regenerar... o ferimento foi grande, mais alguns minutos.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

Ainda bem que ele sabia que eu me regeneraria, e logo. Mas ele
também sabia que doía, e doía muito. A dor era horrível, não
desejável para nada. Meus olhos se fecharam, e tentei respirar bem
devagar enquanto a ferida se recompunha. Aos poucos, senti a pele
cobrir os ossos, e o sangue parar de correr para fora de meu corpo.

Emmett ainda bebia o urso insolente quando eu consegui me


levantar. Edward segurando minha mão, eu tinha certeza que ele
estava nervoso.
— Humpf. – Reclamei, passando a mão pela blusa totalmente
arruinada e encarando a presa já praticamente drenada, nas mãos de
Emmett.
— Vamos aos cervos agora? – Edward me segurou entre os braços. –
Animais herbívoros e sem presas... mansos. Por favor? – O seu abraço
era tão apertado que senti meus ossos estalarem. Eu senti remorso
por tê-lo feito sofrer... eu deveria me lembrar que o meu sofrimento
era também o seu sofrimento. Mas pelo menos uma coisa me deixou
feliz, realizada. Eu podia caçar. Eu tinha forças para atacar o animal e
sugá-lo até o limite, era como me sentia. E, morrendo de sede, que só
estava mais provocada depois da tentativa frustrada com o urso, eu
atacaria qualquer coisa que se movesse... até mesmo um humano.

Edward me levou então para buscar os cervos, e tivemos sorte em


achar vários. Foi bem mais fácil com os cervos, devo confessar... não
foi tão divertido quanto com o urso terrivelmente irritado, mas
daquela vez não houve qualquer ataque, ou garras que pudessem me
abater. Eu era a predadora, a predadora que colocaria fim à vida do
animal. Não foi nada divertido. Tentei encarar como se estivesse
realizando uma proeza extremamente necessária para minha

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

singular sobrevivência. Edward observou-me caçar, mas me deixou


sozinha por alguns instantes, buscando algo para si. Entendi que os
cervos podiam ser ideais para mim, mas para ele eram apenas
brinquedos. A verdadeira presa deveria ser outra...

Terminei com minha presa e senti-me péssima. Saciada em minha


sede, mas péssima por ter passado por tudo aquilo. Não gostei de
matar, afinal. Não gostei de atacar ou ser atacada, nem de ser a
responsável por tudo. Mas sim, sobrevivência. Aguardei Edward
voltar, observando minha roupa bastante rasgada onde o urso me
atacara, quando ouvi ruídos na floresta. O cheiro não era de um urso,
ou de um cervo. Era um cheiro novo, bastante diferente. Não parecia
um vampiro, nem um humano. Os humanos tinham outro cheiro,
mais irresistível ainda. Aquele cheiro era confuso. Um novo tipo de
animal, pensei. Apurei as narinas e inalei uma grande quantidade de
ar, quando me dei conta de um fato inexplicável. Aquele... era o meu
cheiro! Antes que pudesse reabrir os olhos, Edward já estava ao meu
lado, os braços ao meu redor, olhando para determinada direção.
— O que está acontecendo? – Perguntei, assustada.
— Tem alguém na mata... – Ele disse, presas expostas, esperando.
Emmett logo se juntou a nós, também em posição de ataque.
— É um humano? – Perguntei, temendo ter me enganado.
— Não. – Edward tinha certeza, então. – O cheiro é inteiramente
seu... exatamente como o seu.

Minha boca se abriu, assustada. Olhei incrédula para Edward, que me


apertava contra seu peito com força. Eu mal conseguia respirar
então, a face voltada para seu peito, completamente imersa em sua
pele doce. Meus braços o envolveram, e eu desejei esconder-me. Um

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

híbrido! Em poucos minutos, uma figura loira e pálida cruzou nossos


olhares. Um homem alto, olhos da cor dos meus, pele branca como a
minha, lábios vermelhos e fartos, trajando roupas do século passado,
manchado de sangue fresco. Edward rosnou, Emmett o seguiu, e
ambos encararam o híbrido com voracidade. Meu olhar perplexo
talvez não dissesse tanto quanto meus pensamentos. Escondi-me
imediatamente atrás de Edward, o coração pulsando muito forte, a
respiração ofegante. Connor.

— Olá, viajantes. – Ele levantou a mão e cumprimentou os rapazes. –


Devo ter-me afastado muito de minha trilha... poderiam ajudar-me a
retornar?
Edward rosnou novamente, daquela vez bastante alto. Expôs as
presas novamente, e sua irritação já havia começado a me assustar.
— Não somos o que você está pensando! – Edward disse. Emmett
parecia esperar apenas um alerta para atacar. – Vocês híbridos são
tão estúpidos que não reconhecem um vampiro nem olhando para
dois!!
Aquilo me doeu, bastante. Eu era estúpida, aos olhos de Edward? Eu
era estúpida... uma tola idiota que fazia as perguntas mais ridículas
possíveis. Como ele poderia estar apaixonado por uma idiota, então?
O que ele teria visto em mim para atraí-lo? Ou seria apenas uma
armadilha daquele vampiro, a fim de prender-me em outro tipo de
amarras? Senti tanta vontade de explodir com ele naquele instante,
mas a presença de Connor me causava ainda mais pavor. Preferi
tentar discutir aquilo posteriormente, até porque meus pensamentos
foram tão cruéis que eu sabia que Edward tinha identificado um por
um.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

Connor encarou Emmett e Edward por algum instante. Ele não podia
me reconhecer, porque eu estava definitivamente por baixo da
camisa de Edward. Já havia me colocado ali desde que percebera a
imagem conhecida. Meu corpo todo tremia, e Edward tinha um
péssimo momento tentando me manter sob controle. Suas mãos
acariciavam minhas costas, tentando me passar algum conforto.
Inutilmente.
— Vampiros? – Ele disse, em desdém. – Oras... não sabia que existiam
vampiros por essa região.
— Não moramos aqui. Estamos de passagem.
— Edward, nós vamos...
— Não, Em. Ela o conhece...
— Bem, peço desculpas por meu comportamento. – Connor resignou-
se. – Estava caçando alguns humanos, mas perdi a trilha. Imaginei
que fossem vocês...

A perplexidade me fez ainda mais estúpida. A frase de Connor me


causou tanto pavor que desprendi-me de Edward e coloquei-me à
frente, encarando o antigo irmão com dúvida e descrença
— Beatrice! – Ele disse, também perplexo.
— Connor! Você... o que você está fazendo aqui? O que você.. você
está caçando humanos?
Silêncio. Connor avaliou a situação. Saberia ele que eu tinha fugido?
Ele teria como saber, Rudolph teria contado a alguém sobre minha
fuga? Ou ele temia uma debandada dos híbridos? Connor era um dos
caçadores, ele tinha permissão para sair e caçar para nos alimentar.
Ele parecia tanto um humano... se não fosse seu cheiro
inconfundível, ele poderia se passar por um. Mas lá estava ele,
confessando que... eu não queria acreditar.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Bea, por favor, volte aqui. – Edward aproximou-se, segurando-me.


Eu não estava pensando claramente, então.
— Ele caça humanos? – Eu me virei para Edward, horrorizada. – Você
viu... ele caça? Diga-me, ele me fazia alimentar com sangue...
humano?
— Beatrice, o que você está fazendo com esses puros? Aliás, o que
você está fazendo fora do covil... Rudolph sabe que você...
— Cale-se! – Eu gritei. – Edward... diga-me.
— Sim. – Edward abraçou-me novamente, tentando me afastar de
Connor. Ele me puxou, bem lentamente, e me recolocou atrás de si,
ajeitando sua envergadura. Mesmo que ele não me tivesse dado
resposta alguma, eu já sabia. Connor caçava humanos. Ele levava
sangue humano para o covil. Não era sangue de animal; era sangue
de pessoas, seres humanos. Ele era um assassino.
— Como pode... – Eu disse, entre uma respiração e outra. – Connor,
Rudolph sabe que você caça seres humanos?
— Aah! – Connor riu, e eu desejei atacá-lo ali mesmo, como fizera
com o urso. – Claro que ele sabe, Beatrice... na verdade, Rudolph
adora sangue humano. Mas não se preocupe, você nunca bebeu.
Sangue humano é só para os chefes, os anciãos.
— Desprezível. – Meu tom de voz era baixo, o ódio lentamente se
acalmando em mim. Como podia... ouvir aquilo me causou um
repulsa imediata, e um pavor terrível. Era como se eu tivesse vivido
uma mentira desde sempre. Eu considerava os híbridos sofisticados,
bondosos. Os humanos eram cruéis e nos haviam exilado, banido
para as profundezas. Os humanos eram cruéis. Eles nos perseguiram
sem motivo algum, porque os híbridos não queriam fazer-lhes mal.
Mentira! Vã mentira, eu então sabia. Se Connor caçava humanos e se
Rudolph adorava seu sangue, é porque os híbridos sempre se

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

alimentaram de humanos! Por que aquela mentira fora construída,


por que tanta máscara ao redor de um fato como aquele, era o que eu
ainda não entendia.
— Vamos embora. – Edward decidiu, em meio ao meu desespero. –
Ele não está em nossa região... e caçar humanos não é contra as leis
dos vampiros. É uma opção detestável, mas legal. Vamos embora.

Emmett não pareceu satisfeito em deixar a briga, mas não faria


nenhum mal a outro ser, eu pensei. Emmett era uma pessoa ótima,
apesar de ser sempre tão irritável. Edward colocou-me à frente e deu
as costas para Connor, intentando deixar o local.
— Não posso deixar que se vá, Beatrice. – Connor disse, rosnando
também. – Agora você sabe mais do que deveria...
— Eu não vou voltar para aquele maldito covil, então faça bom
proveito de suas opções. – Eu disse, sem virar-me.
— Mesmo assim, pretendo levá-la ou terei que aniquilá-la.

Em um movimento muito rápido, Connor segurou meu braço e


puxou-me para si com alguma violência. Eu fui arrastada para o lado
do híbrido, e aquilo foi o suficiente para Edward e Emmett se
voltarem novamente para ele, presas expostas, o ataque iminente.
Apavorei-me, horrorizada com tudo aquilo. Eu nem conseguia
respirar, porque havia um peso enorme sobre meu peito que me
empurrava para baixo.
— Connor, você é louco? Vai desafiar dois vampiros muito mais fortes
do que você, e ainda a mim? São três contra um, esqueça isso!
— Lamento, mas não posso. – Connor sorriu, presas também
expostas. – Você sabe coisas que não deveria. Preciso tomar
providências quanto a isso.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Connor... – Edward chamou o híbrido pelo nome, bastante


concentrado. – Por favor, deixe-a ir. Eu não quero tomar nenhuma
atitude insensata...
Connor sorriu mais uma vez e virou-se, arrastando-me consigo por
alguns metros. Eu olhei para Edward, meio apavorada, pensando em
lutar contra o híbrido que me prendia. Mas Connor devia ser bem
mais forte do que eu, tudo que conseguiria seriam ferimentos.
— Emmett, temos que resolver isso. Se o deixarmos ir, ele já sabe
exatamente o que vai fazer. Não há outra solução.

O sinal de ataque vindo de Edward foi o suficiente para que Emmett


pulasse por sobre Connor, liberando-me e arrancando-lhe um
pedaço com os dentes. Connor tentou reagir, mas Edward logo se
posicionou ao lado do irmão e também lhe retirou um pedaço. Eu fui
empurrada para o lado, e caí no chão. Os dois começaram a
desmembrar Connor, e tão logo os pedaços estavam jogados ao chão,
Emmett arrumou alguns gravetos ao redor e ateou-lhes fogo, com
um isqueiro metálico.

Eu estava aterrorizada ao limite máximo. Meu coração batia tão


rapidamente que eu pensei que ele entraria em falência. Minha boca
estava aberta, a imagem de Connor totalmente desmembrado e
queimando naquela fogueira improvisada. Edward me olhou de
longe, enquanto Emmett garantia que o fogo consumiria tudo. Eu
caminhei para trás, tentando me afastar daquilo, me afastar de tudo.
Minha cabeça começou a rodar, a minha visão tornava-se turva, e o
pavor não cessava. Senti como se o mundo estivesse em uma
velocidade que eu não conhecia, enquanto Edward e Emmett e a

162
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

fogueira de Connor se afastavam de mim. Até que meu corpo bateu


em algo, que imediatamente me segurou pelos braços.
— Beatrice. – Carlisle me amparou, enquanto eu imaginava que fosse
desabar ao chão. – Você está se sentindo bem?

Nenhuma resposta. Junto com Calisle estavam Alice e Jasper. Eu sabia


que Alice provavelmente tinha visto tudo que aconteceria, e eles
seguiram para nos encontrar. Minha condição catatônica não me
permitiu observar muito. Alice parecia bastante abalada, e tentou se
aproximar.
— Carlisle, deixe que eu cuido dela.. vá ajudar Edward e Emmett. Vá
também, Jasper!
— Alice. – Eu disse, olhos apreensivos, medo. – Você me leva para
casa?
— Vamos esperar os...
— Agora, Alice... por favor.
Ela sorriu, e fez um gesto para Jasper indicando o que iria fazer. Alice
segurou-me pelos braços e andou comigo para casa. A nossa
velocidade era impressionante, e percorríamos longas distâncias sem
perceber, quando queríamos. Em pouco tempo estávamos em casa, e
eu corri para trancar-me no banheiro. Não sabia se precisava de um
banho, mas tinha uma sensação de enjôo como se tivesse, naquele
instante, bebido o sangue contaminado das brincadeiras de Jasper.

Depois de um banho morno, tentando normalizar a minha


temperatura corporal conforme Edward me ensinara, fui direto para
meu quarto e fechei a porta. Alice não entrou, apenas ficou do lado
de fora, como que zelando por mim. Eu me sentia ainda muito
imunda, e as imagens de Connor sendo despedaçado eram

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

abomináveis. Pior, as imagens de Edward desmembrando Connor. E o


fogo escuro e de cheiro terrível que continuava em minhas narinas.
Eu me sentia tão mal que o mundo ainda estava rodando. Sentei-me
no sofá que estava colocado próximo à parede de vidro e me encolhi,
como que em uma posição de defesa.

— Alice, deixe-me passar! – A voz de Edward pode ser ouvida. Fechei


os olhos e apurei meus ouvidos, ainda sentindo tudo tremer. Ouvir a
voz dele sempre me causou conforto, mas não naquele instante.
Talvez alívio, por ele estar em casa, em segurança.
— Edward, ela está sofrendo... dê algum tempo a ela, Bea precisa ficar
sozinha.
— Você não sabe, não está ouvindo a agonia dela! – A voz de Edward
era transtornada, e eu ainda não o tinha ouvido daquela forma. –
Deixe-me falar com ela, por favor...
— Eu não estou te impedindo. – Alice pareceu sucumbir. – Mas ela
fechou a porta... é o suficiente para pedir privacidade.
— Edward meu filho... – Era a voz de Esme. – Seja lá o que tenha
acontecido, ela vai superar.
— Eu matei um híbrido... mas vocês já sabem disso, ou não teriam
mandado um destacamento atrás de nós. Era a única chance.. eu
preciso explicar a ela o que ouvi, o que ele planejava.
— Talvez mais tarde, ou amanhã...

De todos os sentimentos possíveis naquele dia, o mais estranho ainda


poderia ser o remorso. Ouvir Edward totalmente transtornado no
corredor, implorando para passar pela irmã e pela mãe, desejando
falar-me, foi dilacerante. Mais ainda do que qualquer outra sensação.

164
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

A agonia imediatamente mudou de foco, e eu só conseguia imaginar


Edward sofrendo por minha causa.
— Não, vou falar com ela agora. – A mão de Edward abriu a porta, e
ele entrou quarto adentro. Pude ver Alice frustrada no corredor, por
não impedi-lo, e Esme conduzindo-a para mais longe. Seus olhos
capturaram os meus, e eu pude ver a agonia que antes imaginara. –
Bea, meu amor... – ele caminhou em minha direção, enquanto eu me
mantinha encolhida e assustada. – eu sinto muito, Beatrice. Mas eu
não vi outra saída, ele... aquele caçador pretendia levá-la de volta...
mas não viva. Eu pude ver, eu pude sentir e...
Edward colocou a face entre as mãos, interrompendo-se. Desejei
secretamente ler seus pensamentos, então. Eu gostaria de saber o
que ele sentia, para poder confortá-lo. Porque ele parecia precisar de
conforto.
— Edward. – Eu soltei minhas pernas e tomei suas mãos entre as
minhas. Ele me olhou, os olhos claramente desesperados. – Edward,
diga. Diga que Connor era um monstro, diga que ele matava
humanos e era um assassino. Diga que ele mereceu tudo que teve, e
que essa foi a morte que Alice viu. Diga-me... se for mentira, minta.
— Não é mentira. – Ele hesitou em puxar-me para si, mas o fez.
Imergi em seu peito mais uma vez, deixando que seu aroma
adocicado me fizesse esquecer o cheiro que estava impregnado em
mim. – Não é mentira, ele era um caçador de humanos. Ele caçava
humanos e se alimentava deles, o que muitos vampiros fazem. Mas
eu fiz o que fiz por você, Beatrice! Foi por você... eu vi o que ele
pretendia fazer com você. Eu vi... ele era um monstro, mais pelo que
ele pensou em fazer com você. Eu só pensei em te manter em
segurança, desculpe-me!

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

De onde ele tirou que precisava pedir-me desculpas, era uma boa
questão. Mas ali estava o meu Edward, sentado ao meu lado,
abraçando-me com toda força possível, desculpando-se por matar
aquele que pretendia agredir-me. Connor.. um dos meus. Um
daqueles que eu aprendi a respeitar e venerar, um caçador. Como eu
os respeitava... como eu desejei ser entregue como companheira de
um caçador, quando Rudolph decidisse que chegara a hora. E então
Connor, um deles, era um assassino cruel e vil. Ele mentia... todos
eles mentiam para os híbridos, dizendo que somente nos
alimentávamos de sangue animal. Eles criaram fábulas ainda piores
do que as que contavam como lendas. E Edward estava ali,
desculpando-se por ter-me salvo a vida.

Eu não queria que ele se sentisse mal pelo que fez, apesar de todo o
meu pavor. Eu só precisava de um tempo para absorver a idéia, para
compreender tudo. Só um tempo. Mas Edward invadiu meu espaço,
sofrendo, pedindo perdão por um erro que ele não cometeu,
implorando por uma frase que lhe fizesse sentir bem.
— Edward... – Eu disse, elevando o olhar e me perdendo em seus
olhos. Não consegui completar a frase, porque em segundos eu já
tinha me atirado em seus lábios e o estava beijando. Ele se moveu por
sobre mim, empurrando meu corpo contra o couro perolado do sofá,
como estava se acostumando a fazer. Talvez não fosse preciso dizer
nada, então. Um simples gesto demonstraria tudo... até eu me
lembrar que ele podia ler meus pensamentos.
— Eu tive tanto medo de algo te acontecer. – Ele disse, as mãos em
meus cabelos, olhos nos olhos. – Eu acho que perdi um pouco o
controle... eu o teria matado só por ele cogitar qualquer coisa contra

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

você. Se ele não tivesse realmente te ameaçado, eu mesmo assim o


teria matado.

Eu o fiz calar, e beijei-o novamente. Edward me levou até a cama,


intentando me oferecer um melhor espaço para me acomodar. Eu só
queria beijá-lo, deixar que seus lábios me fizessem esquecer qualquer
coisa antes. Eu só queria ter seu gosto em minha boca mais uma vez,
só queria o peso de seu corpo sobre o meu. Eu não podia imaginar
muito mais que pudesse me confortar. Ele se deitou ao meu lado,
sempre os lábios nos meus, vez ou outra se desprendendo para o
pescoço, para meus ouvidos, para meus cabelos... sempre que ele
pretendia me dar espaço para respirar. Sem me deixar um segundo,
Edward desabotoou sua camisa e deixou-a cair pelo chão, me
permitindo o tão desejado contato com sua pele.
— Eu daria qualquer coisa para você se sentir melhor, Bea. – Ele
disse, entre os dentes, entre os lábios, entre a respiração ritmada. Ele
não deveria mesmo ter dito aquilo... ele não deveria permitir que
minha mente pudesse... divagar. Qualquer coisa era coisa demais, e
talvez eu quisesse tantas que ele precisaria de muito tempo para
satisfazer-me. Mas naquele instante, poucas imagens se formaram
tão nitidamente em mim quanto aquela. Era tudo que eu precisava
para esquecer qualquer barbaridade anterior, qualquer perigo. –
Tem certeza? – Ele sussurrou, enquanto eu não sabia mais se tinha
espaço para constrangimento. – Tem mesmo certeza? E se eu... eu já
perdi o controle hoje, Bea.
— Eu não me importo. – Foi o veredito final. – Eu não me importo.

Qualquer coisa. Edward moveu-se para o lado, e soltou meus cabelos


por um instante. Logo, seus dedos alcançaram o botão de suas calças

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

e elas se abriram, lentamente sendo empurradas para baixo.


Juntamente com as calças, as suas meias desapareceram. Ele então se
voltou para mim, sem interromper o beijo nem um segundo. Eu
gostaria muito de vê-lo... eu queria muito vê-lo, olhar para ele vestido
exatamente como eu desejava. Mas resisti à tentação
momentaneamente, enquanto deixava que ele me beijasse
lentamente e me causasse ainda mais amnésia do que eu pretendia.
Naquele instante, decidi que faria apenas o que ele me permitira
algum tempo antes; eu iria tocar.

CAPÍTULO 14 – NORMALIDADE
*tema: O-town‖s Craving*

As coisas estavam normais. Eu estava com aquela palavra em mim,


tentando encontrar um significado razoável para ela. Normalidade. O
que era normal, o que não era. Claro, tratava-se de um conceito
humano. Talvez eu não fosse normal, se considerada pelo aspecto dos
humanos. Deles. Eu não poderia ser considerada normal, porque eu
era exatamente o conceito de aberração. Mas e a minha normalidade?
O que poderia ser considerado normal para mim, uma híbrida já
praticamente adaptada ao sol, vivendo com puros e totalmente
apaixonada por um?

A morte de Connor causou algumas alterações na minha rotina. Eu


estava certa que aquela tinha sido a morte presenciada por Alice, e
não queria mais me preocupar com o futuro. Para mim, o futuro era
incerto e isso era uma coisa boa. Eu não sabia o que esperar, então
esperava só coisas que não se relacionassem a morte ou perda. E eu

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

estava certa, a morte era mesmo causada por mim. Alice tentara me
poupar daquele fato, e talvez Edward estivesse certo também. Eu não
suportaria conviver por tanto tempo com a certeza de causar a
morte de alguém próximo. Mesmo se Connor não fosse tão próximo
assim.

Isso poderia ser considerado normal, então.

Edward, no entanto, não parecia compartilhar da minha certeza, e


passou a proteger-me de maneira absurda. Eu não conseguia dar dois
passos sem ele ao lado, o que não poderia ser considerado
exatamente ruim. Eu gostava de tê-lo ao lado. Mas eu temia por sua
sanidade. Ele não podia ser tão exagerado, eu não desejava que ele
parasse de viver para tomar conta de mim. Eu era forte o suficiente
para me cuidar, e eu tinha certeza plena de que nada mais
aconteceria. Eu tentava de todas as formas mostrar a Edward que ele
não precisava me dar tanta atenção, mas era um tanto inútil.

Isso não poderia ser considerado tão normal, segundo nenhuma das
acepções do termo. Mas Edward não parecia importar-se. E comecei
a ficar tentada a deixá-lo se preocupar somente por um fato: ele
passou a me dar tudo, tudo mesmo, que eu queria. Antes mesmo que
eu pensasse em algo, ele já trazia para mim. As noites passaram a ser
espetaculares, pois Edward sempre estava presente e eu podia
adormecer em seus braços. ―Passar a noite‖ era uma regra nossa, o
que me deixava muito satisfeita. Ao seu lado, eu tinha prazer em
dormir. E, para minha gratidão eterna, ele não mais se preocupava
com as roupas confortáveis. Sempre Edward dispensava calças e

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

camisas, estando comigo somente em suas roupas íntimas. A exata


pintura em minha cabeça.

Eu gostaria de saber qual era a pintura na cabeça de Edward, afinal.

Talvez os conceitos de normalidade não me interessassem mais,


porque aquilo era minha nova vida e para mim ela estava
perfeitamente normal. Para mim, nada seria mais normal do que
conviver com os Cullen dia após dia, me divertindo com as
brincadeiras de Emmett, ouvindo as conversas interessantes de
Rosalie, confidenciando segredos – os que eu considerava ter – a
Alice, interagindo com a sabedoria de Jasper, absorvendo a paciência
e empenho de Carlisle, e aprendendo a ser tão dedicada quanto
Esme. Nada poderia ser mais normal do que os dias na escola, entre
os amigos humanos, as aulas e o horário de almoço, os estudos que
eu precisava fazer com a ajuda de Edward. Nada poderia ser mais
normal do que amar Edward da forma como eu amava. Era natural,
era como se não pudesse ser esperado de mim outro
comportamento. Nada poderia ser mais natural do que estar com ele,
do que sair para caçar com ele, do que olhar dentro de seus olhos e
ser iluminada por seu sorriso.

Aquele era meu conceito de normalidade. E nenhum outro me


interessava.

Mas havia uma coisa que fugia ao conceito de normalidade, então. A


mentira de Connor e o seu desaparecimento, sem que eu voltasse a
ter notícias dos meus. Rudolph jamais deixaria Connor desaparecer
sem qualquer investigação. Não ver mais nenhum híbrido na região

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

era fora do normal. Eu sabia, pelo que conhecia Rudolph, que ele
mandaria uma expedição atrás de Connor. Ele não queria saber de
mim porque eu fugi, e ele sabia. Mas Connor não havia fugido, e ele
também sabia. Connor era seu fornecedor de sangue humano. Aquele
pensamento deveria ser apagado de mim definitivamente.

Viver na normalidade poderia ser considerado tedioso, por alguns.


Mas eu vivi tanto tempo fazendo nada que a minha normalidade
estava excitante e cheia de situações inesperadas. Por mais normal
que eu me sentisse, eu sabia que diversas experiências inusitadas
ainda estavam por vir, mas me completar ainda mais. Algumas delas
ocasionadas pelo meu relacionamento físico com Edward, que sofria
uma evolução constante e, segundo ele entendia, perigosa.

Eu sonhava com o verão que se aproximava. Período de mais


claridade e mais sol, o que significava faltas às aulas. Mas Edward
tranqüilizou-me garantindo que teríamos férias, ou seja, períodos
sem precisar comparecer às aulas. E ele garantiu também que
naquelas férias de primavera procuraríamos um lugar para
estarmos... juntos. Para mim já estávamos juntos e em qualquer lugar
estar junto dele seria perfeito. O lugar era apenas o cenário, porque o
personagem principal de minha peça era sempre Edward.

Acordei no meio de uma noite, agitada. Suava, e respirava com


dificuldade. Reações bastante humanizadas que eu já tinha deixado
de lado há muito tempo. Mas logo compreendi o motivo da minha
agitação, Edward não estava ali. Era praticamente impossível
imaginar que Edward não estaria ao meu lado, mas ele não estava.
Talvez fosse mesmo normal que as pessoas fizessem outras coisas

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

além de estarem juntas o dia inteiro. Eu dormia. Ele precisava de


uma distração, além de me assistir dormir. Mas ele não estar ali
causou aquela sensação de vazio novamente, e por isso sonhei.

Tateei no escuro até a porta do quarto, e notei que os Cullen


conversavam no salão, escada abaixo. Quase todos os Cullen. Carlisle
estava em seu escritório, e com ele também estava Edward. Vesti
minha capa invisível de espiã, e, descumprindo minhas promessas a
Edward, tentei captar a conversa deles.

— Eu já cedi a todos os caprichos de Beatrice. Quase todos. – Edward


falava, tom baixo e concentrado. – O mais interessante é que eu
sempre estou à beira da perda de controle, sempre esperando o
momento em que eu vá jogar tudo para o alto e... só que ela parece
tão satisfeita com a forma como as coisas estão... isso acaba me
acalmando e fazendo repensar minhas atitudes.
— É perfeitamente normal sentir-se assim, Edward. – Carlisle já tinha
um tom de voz mais lívido. – Seus irmãos parecem tê-lo instruído
bem... e nada do que eles falaram eu poderia falar diferente. Sobre o
pequeno problema da concepção... eu poderia examinar Beatrice,
mas ela desconfiaria. E eu não detenho tantos conhecimentos a esse
respeito... seria mais adequado um especialista.
— Sim, e eu não gostaria que ela tivesse as mesmas preocupações que
eu. Apesar de que... meu segredo já não me pertence mais.

Provavelmente Carlisle também não entendeu a frase de Edward. Eu


levei dois segundos para compreendê-lo, e ele levou um para abrir a
porta e me pegar em situação comprometedora. E não era a primeira

172
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

vez. O médico riu quando viu minha figura surgir na luz brilhante do
corredor.
— Entre, Beatrice. – Carlisle disse, fazendo uma reverência. –
Falávamos mesmo sobre você.
— Ela sabe. - O olhar de Edward era de repreensão. – Interessante é
que alguém me havia prometido privacidade...
— Desculpe-me. – Meu olhar era distante, e para o chão. – Acordei e...
— Tudo bem. – Edward abraçou-me e me beijou os cabelos. – Eu devia
ter imaginado que você acordaria assustada e que viria atrás de mim.
Isso não muda nada, claro. Você quebrou sua promessa assim
mesmo.
— Edward, acha que poderíamos conversar com ela um instante? –
Carlisle pareceu ter uma idéia.
— Sim, claro. – Ele se preparou para deixar o escritório.
— Não precisa ir. – Eu segurei sua mão. – Nada que Carlisle me disser
será privado, mesmo. – Era a lógica.
— Faz sentido... ela é mais esperta do que nós. – Carlisle sorriu. – Bea,
estávamos conversando... você teria problemas em ser examinada
novamente?
— Examinada por quê? Por quem??
— Por mim, inicialmente. Se for conveniente, posso sugerir um
especialista.
— Especialista em híbridos? – Eu parecia chocada, mas Carlisle
sorriu.
— Não... um médico humano. Mas somente se for necessário.
— Carlisle... – Edward parecia não concordar com a idéia. – Isso não
prece muito arriscado?
— Se não formos cuidadosos. Pelo que sei, o corpo de Beatrice é mais
próximo ao corpo humano. Ele tem batimentos cardíacos, atividade

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

plena nos órgãos... ela pode muito bem passar-se por uma humana
em um exame clínico pouco elaborado.
— Ainda acho muito arriscado.
— Sobre o que é isso tudo, afinal? – Eu estava confusa.
— Eu gostaria de saber, - Edward tomou a palavra – se você... eu
gostaria de saber se você pode, como os humanos, conceber filhos.
Talvez a pergunta me chocasse, mas eu não dei muita importância
naquele instante. O meu foco estava mais na resposta do que na
intenção por trás das palavras de Edward.
— Eu não sei... mas não sou um exemplo de informação, nem sobre
minha própria espécie. Apesar de que, segundo as lendas de Felícia,
mulheres híbridas podem gerar filhos de homens comuns, humanos.
— Muito interessante. – Carlisle sorriu. – Edward, tem razão. É
arriscado levá-la a um especialista humano. Mas eu gostaria de testá-
la assim mesmo, se você não se importa.

Aquela conversa fugia ao meu conceito de normalidade.

Edward cumprimentou o pai e deixou o escritório, levando-me de


volta para o quarto. Ele exigiu que eu adormecesse, deitando-se ao
meu lado e me garantindo que não sairia mais dali a noite inteira.
Mas eu sabia que ele ficaria pensando em alguma coisa implícita
naquela conversa, e que aquele assunto aparentemente ainda não
teria acabado. E eu não conseguiria dormir com tanta coisa que o
perturbava. Eu não podia ler seus pensamentos, mas quanto mais
próxima a ele eu estava, quanto mais tempo eu passava com ele, mais
eu podia senti-lo.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

Tentei adormecer novamente, e fazê-lo acreditar que eu estava bem.


Mas não deu certo, o que era de se esperar. Eu nunca consegui
esconder meus pensamentos quando estava confusa, nem para
proteger Edward. Precisava de mais treinamento, eu considerava.
— Você não sabe mesmo do que eu estava falando, não é? – Edward
disse, mas eu tentei ficar em silêncio. Seus dedos delinearam meu
corpo, desde meu queixo até a linha da cintura. Senti um arrepio
horrível, acompanhado de uma sensação muito boa, quase
absurdamente boa demais para ser real. Às vezes eu considerava que
Edward me fazia sentir coisas que não eram reais. Em um movimento
muito rápido, ele se moveu para cima de mim, beijando-me o
pescoço, o colo, afagando meus cabelos.
— Você disse que eu pareço satisfeita. – A palavra saiu quase em tom
de sarcasmo, como se ela tivesse sido antes empregada por Edward
em sentido pejorativo. – Isso deveria ser ruim?
— Isso não é ruim. – Ele continuava a me beijar, e eu sem entender
aquele humor repentino. – É porque eu não me sinto satisfeito.
— Mas eu deveria não me sentir? – Ainda, o interrogatório. Edward
deveria saber que ele não se livraria de mim tão facilmente. Eu era
muito insistente quando se tratava de satisfazer a minha
curiosidade; naquele quesito eu nunca ficava satisfeita. – Quero
dizer... ah, você já sabe o que quero dizer. Existe ainda algo mais que
eu possa esperar, que você ainda não tenha me dado, Edward Cullen?

Ele sorriu, e eu vi o seu sorriso. Estava escuro, e ele tinha a face


totalmente imersa em meu pescoço, que ele beijava sem parar. Era
difícil ter uma conversa com ele naquelas condições, mas eu tentaria,
afinal. O ruído de sua voz suave em meus ouvidos me deixava
completamente tomada por uma onda de alegria. Edward

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

repentinamente tomou meus lábios nos seus, beijando-me com


alguma urgência, buscando espaço na boca entreaberta. Eu sempre
recebia de bom grado seus beijos mais intensos, apesar do aparente
desconforto que eles me causavam. Seus joelhos forçaram os meus,
obrigando-os a abrirem. Eu estava tão concentrada em seus beijos,
minhas mãos cravadas em suas costas, que eu não notei exatamente
com quanta facilidade ele conseguiu o que queria. Em poucos
instantes, Edward estava na posição que ele pretendia, e minhas
pernas estavam entrelaçadas nas dele, puxando-o involuntariamente
para mais perto.
— Okay, isso é... – Eu tentei dizer algo, enquanto ele segurava minhas
mãos e as colocava imóveis por sobre a minha cabeça.
— Você não sente que falta alguma coisa, Bea? – Ele sussurrava, e eu
mal conseguia sentir meu corpo. – Você não sente que falta um
encaixe?

Ah! Meu cérebro dopado pelo perfume de Edward levou algum tempo
para processar como os nossos corpos poderiam encaixar melhor um
no outro. Já estávamos como se fizéssemos parte de um só ser.
Edward soltou minhas mãos, e elas imediatamente procuraram a
estrutura da cama, segurando-a com força. Edward me beijava bem
lentamente, e eu não precisaria responder quando achasse a
resposta. A sensação que eu sentia, com seu corpo naquela posição,
se tornou insuportável. A vontade de expandir-me era incontrolável,
então.

Assustei-me com um barulho de “crack” por trás de mim, e uma dor


terrível que me fez imediatamente soltar os dedos da cama. Edward

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

olhou para mim aterrorizado. Imediatamente ele estava sentado ao


meu lado, com minhas mãos entre as suas.
— Bea! – Ele me puxou o queixo e me fez olhar para ele, tirando o
olhar dos dedos que começavam a inchar. – Bea, olhe para mim...
Carlisle!! Carlisle!! – Edward começou a chamar pelo pai, e logo três
vampiros estavam de pé ao meu lado na cama. Carlisle, Esme e Alice
pareciam consternados, porque Edward estava muito assustado.
— O que houve, filho? – Carlisle disse, olhando nosso pavor.
— Ela quebrou a mão. – Edward tinha tanta agonia em seus olhos que
eu mal podia suportar olhar para ele. A dor não estava tão forte, mas
eu podia senti-la.
— Deixe-me ver. – Carlisle sentou-se na cama ao meu lado, e Edward
entregou-lhe as minhas duas mãos, que não se moviam. –
Interessante... aparentemente ela quebrou todos os dedos da mão,
em várias partes. Eu acho que isso vai demorar um pouco a
regenerar, Bea. Esme, por favor, traga-me um pouco de gelo.
— Você poderia dar-lhe morfina, Carlisle... ela está sentindo dor, eu
sei...
— Edward. – Eu olhei para ele, com bastante tranquilidade. Eu
precisava respirar fundo e apagar da minha mente qualquer menção
à dor e ao susto que me acometeu quando eu senti o estalo dos ossos.
– Edward olhe para mim você, agora. Eu estou bem. Eu estou bem... a
dor é pequena, logo ela vai passar.. você sabe que eu me regenero
rapidamente.
— Talvez em algumas horas os ossos estejam calcificados. Mas a sua
mão precisa estar na posição certa... para não haver má-formação. –
Carlisle ainda observava minhas mãos, enquanto Esme chegava com
o gelo em uma bolsa, e ele a depositava por sobre meus dedos.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— O que vocês estavam fazendo? – Alice ergueu uma sobrancelha,


prestando atenção então em nossas... roupas. Eu tinha roupas,
aquelas roupas de dormir que Rosalie me comprou e que não eram
muito virtuosas, eu devo confessar. E Edward não usava roupa
alguma, todo o seu corpo estava coberto apenas pelas roupas
íntimas. Ele ficou tão apavorado com o que aconteceu que sequer se
lembrou de vestir-se. – Você fez isso com ela, Edward?
— Não! – Eu disse, antes que ele pudesse responder. Carlisle já estava
providenciando um suporte para apoiar minhas mãos, enquanto
conversávamos. Ele pretendia que eu não me movesse, a fim de
facilitar a cicatrização. – Ele não fez nada, Edward... mal me tocou –
Era mentira, e eu pude notar o sorriso torto que ele deu, naquele
instante. – Eu que... fui eu que apertei demais... – E meus olhos se
voltaram para o encosto da cama, que estava tão quebrado quanto os
meus dedos.
— Oh. – Esme arregalou os olhos e Alice riu. Carlisle ainda estava
preocupado com as fraturas, e Edward olhava para baixo.
— Desculpe-me pelo estrago, Esme... prometo consertar quando
minhas mãos estiverem recuperadas.
— Não se desculpe, Bea. – Carlisle sorriu. – Isso é muito interessante,
você... é mais forte do que seu próprio corpo parece aguentar. Por
isso, ao pressionar a estrutura de madeira, seus dedos se quebraram
por não suportarem a força.

Ah, muito simples a explicação. Aquilo definitivamente fugia de


qualquer conceito de normalidade que eu poderia esperar. Estava
tudo tão bem, tão natural... Edward e eu, e mais uma noite ao seu
lado, uma noite melhor do que a outra. Mas eu tinha que perder o

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

controle e o balanço humano-vampiro... eu tinha que estragar tudo


como uma aberração sabe fazer.

Aqueles pensamentos irritaram Edward. Ele puxou as cobertas por


sobre nós, talvez para evitar que os demais nos observassem, e me
puxou para si, recostando-me em seu peito novamente. Minhas mãos
estavam sobre uma plataforma de madeira, que Carlisle improvisara.
Ele me acomodou, sem dizer uma palavra.
— Obrigado. – Ele disse a Carlisle. – Está tudo bem agora...
— Você quer alguma droga, Bea? – Carlisle perguntou. – Se estiver
doendo, posso providenciar...
— Não, está tudo bem. – Eu disse, sem mentir. – Eu já quase não sinto
dor...

Carlisle levou Esme consigo para fora do quarto, enquanto Alice


ainda precisou encarar Edward mais um pouco antes de ir. Aquela
conversa silenciosa ainda me deixaria louca... porque sempre que
Alice queria falar com Edward algo privado, ela simplesmente
pensava. E ele a olhava com ferocidade.

A noite que seria tão mais divertida acabou de forma dolorosa.


Adormeci involuntariamente nos braços de Edward, sentindo seus
lábios tocarem meus cabelos, minha testa, meus ouvidos. Ele me
beijava e cantarolava uma canção suave, como que desejando me
fazer dormir. E o efeito foi esperado. Quando acordei no dia seguinte,
eu estava totalmente acomodada por sobre Edward, e minhas mãos
repousavam sobre o suporte de madeira. Estiquei meus dedos,
estalando um por um, sentindo o movimento novamente. Nenhum
inchaço, nada. Sorri satisfeita com minha regeneração tão funcional,

179
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

mas senti remorso ao olhar para o lado e encontrar os olhos de


Edward me observando, com tanta agonia em seu olhar.

— Bom dia, meu amor. – Ele disse, me beijando suavemente. – Como


você está?
— Eu estou bem. – Estiquei-me, bocejando. – Edward, por favor não
fique assim. – Eu o segurei com as duas mãos em sua face, beijando
seus lábios bem devagar. – Veja, eu estou ótima! Não há mais
nenhum rastro das fraturas em mim... por favor, não fique assim.
— Eu não imaginei que você fosse querer matar a cama por causa de
uma ―brincadeira‖. – Edward implicou. Senti o humor dele melhor, e
aquilo foi um alívio.
— Brincadeira? – Eu ri. – Bem, pelo menos você conseguiu me
mostrar seu ponto. Encaixe... agora eu entendo. Vamos nos arrumar
para a escola?
— Hoje é sábado. – Ele me beijou os lábios. – Podemos nem sair da
cama, se não quiser...

Aquilo também deveria se encaixar em todos os conceitos de


normalidade, afinal. Passar o sábado na cama com o homem... com o
vampiro que eu amava não podia ser considerado anormal.
— Eu não quero, então. – Provoquei, beijando-o com mais
intensidade, afundando minhas mãos em seus cabelos.

Mais normal do que passar o dia na cama com o namorado era aturar
a família do namorado, curiosa para saber o que se estaria fazendo.
Principalmente se na noite anterior você quebrou os dedos
destruindo o encosto de uma cama. E como eu estava vivendo o meu
período de normalidade, antes mesmo que Edward pudesse pensar

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

em virar-se por sobre mim novamente, a porta se abriu e Emmett


entrou quarto adentro, falante.

— Ew, não quero nem ver! – Ele fingiu que cobriu os olhos. Rosalie
vinha logo atrás, rindo.
— Se não queria ver, por que entrou? – Eu desafiei. Edward
recompôs-se, sentando-se na cama. Ainda estávamos por sob os
cobertores, apesar daquilo não fazer diferença em nossas
temperaturas. Era apenas divertido, a textura macia do tecido em
contato com nossas peles.
— O que vocês querem, Em? Rose? – Edward perguntou.
— Carlisle disse que Bea se machucou ontem...
— Eu já estou curada, totalmente recuperada. – Mexi as mãos,
estalando os dedos novamente para que eles vissem.
— Vamos jogar? – Emmett parecia animado. – Temos tanta coisa para
fazer em um sábado sem sol...
— Inclusive ficar em casa. – Edward disse, sorrindo.
— Sério? – Rosalie parecia curiosa com a decisão de Edward.
— Sério... se vocês pararem de interromper será mais divertido
ainda. Deu para perceber que estou me divertindo com Beatrice,
aqui, mesmo trancado no quarto?
— Trancados! – Emmett soltou uma risada sonora. – Vocês talvez
devessem mesmo ficar trancados... bem, vamos sair para jogar.
— Todos? – Edward confirmou.
— TODOS. – Rosalie riu, empurrando Emmett para fora do quarto. –
Use seu tempo com sabedoria.

Talvez aquilo fosse menos normal do que o esperado. Eu duvidava


que entre os humanos os pais saíssem de casa para que os namorados

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

passassem tempo juntos. Edward sempre passava a noite... mas


daquela vez ele parecia interessado em passar o dia, também. Não
havia luz do sol, apenas uma claridade nublada de um dia frio de
inverno. Edward recostou-se na cama, e me puxou consigo. Sua
respiração tinha um ritmo lento, musical. Eu tentei acompanhá-lo,
respirando na mesma intensidade. Eu tinha certeza que ele sempre
fazia aquilo para me ajudar a respirar.

Barulhos de porta foram ouvidos, e motores ligando. Uma voz


feminina bastante delicada foi ouvida, desejando bom dia para nós.
Eu pude notar a ênfase sarcástica na palavra “bom”, mas não me
incomodei muito. Alice ainda era a minha confidente, e depois eu
poderia entender-me com ela sozinha. Os Cullen saiam para jogar,
em um dia sem sol, enquanto eu e Edward ficaríamos em casa,
trancados, como sugeriu Emmett. Nada mais normal e ao mesmo
tempo mais esquisito. Namorados não costumavam desfrutar
daquele tempo solitário na casa dos pais, eu tive certeza. Meu pouco
conhecimento da vida humana me permitia saber daqueles pequenos
detalhes, principalmente porque eu tinha amigas humanas e assistia
muitos filmes.

Alguns segundos se passaram depois do último ruído ouvido por nós.


Eu me virei, colocando-me por sobre Edward, para observar o lado de
fora e confirmar que nenhum carro estava mais ali. O perigo de seus
olhos repentinamente imergiu nos meus, me fazendo sentir o
arrepio velho de sempre. Eu pensei que aquela eletricidade já estava
ficando ultrapassada, mas não. Lá estava ela, a me fazer sentir uma
fisgada inconveniente. Edward puxou-me para si com a mesma
urgência da noite anterior, fazendo-me sucumbir a outro beijo

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

intenso, profundo. Seu corpo escorregou suavemente por sobre o


meu, prendendo-me entre ele e os cobertores.
— Você vai se machucar de novo? – Ele perguntou, sem soltar-se de
mim. Eu não sabia se era uma metáfora ou se ele falava sério.
— Não sei... o que você pretende agora? – Entrei no jogo. Emmett
queria nos convidar para jogar, e pude perceber que Edward já
estava jogando. – Pretende me mostrar algo mais que demonstre sua
insatisfação?
— Não. – Ele disse, colocando minhas mãos por sobre si, meus dedos
procurando freneticamente seus cabelos. – Eu pretendo dar um fim a
ela.

Deveria ser muito normal perder-me daquela forma. Eu já não ouvia


mais nada quando Edward terminou sua frase e desceu as suas
carícias para regiões ainda não exploradas. Seus lábios percorreram
a extensão de meu colo, e seus dedos se posicionaram a fim de
retirar-me a tão comentada roupa de dormir. Senti a eletricidade
percorrendo todo o meu corpo, e a ânsia de expandir-me. Eu não
podia me machucar, pensei. Não podia apertar nada com força, fazer
nada perigoso. Mas eu podia usar as mãos em Edward, porque ele era
macio o suficiente para evitar qualquer lesão em meus ossos. E
porque eu temia machucá-lo, por mais impossível que aquilo fosse.
Enquanto meu cérebro não raciocinasse que eu não podia feri-lo, eu
jamais conseguiria apertá-lo como fiz com o encosto da cama.

O toque dos cobertores foi mais divertido quando eu não estava


usando roupa alguma. E definitivamente a pele de Edward parecia
mais perfeita nessa mesma situação. Daquela vez, deixei meus
pensamentos flutuarem e me levarem a qualquer lugar. Edward

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

poderia saber tudo que eu pensava, pois tudo era relacionado a ele e
ao que ele me fazia sentir. Seu toque em minha pele, as suas digitais;
o hálito fresco que saía de sua boca quando ele sussurrava algo em
meus ouvidos; o peso de seu corpo sobre o meu; o movimento
delicado que ele fazia quando buscava seu espaço em mim; o cheiro
doce, quase nauseante, que ele exalava; o sabor de seu beijo e o toque
de sua língua em meus lábios. E a eletricidade que só ele conseguia
fazer correr em mim.

Quando me percebi novamente, não havia roupa em nossos corpos e


eles dançavam uma música lenta por sobre os cobertores. Edward e
eu estávamos entrelaçados, como se fosse impossível separar-nos.
Havia música, sim, mas eu pouco a percebia. O som de sua respiração
era tudo que me guiava naquele momento. Eu olhava em seus olhos,
mas eles eram fortes demais para que eu os suportasse. Deixei-me
perder mais uma vez na escuridão, olhos fechados, mãos que
seguravam Edward pelas costas e o mantinham quase imóvel por
sobre mim. Senti que meu coração batia rápido demais, e acelerava
enquanto Edward também parecia seguir seu ritmo.

Então eu entendi o que Edward tentava me dizer antes. A ânsia, a


satisfação, o encaixe. Era perfeito demais, e a sincronia parecia
inabalável. Dançávamos embalados mais por nossos próprios
instintos do que pela suave melodia que emanava do equipamento de
som. Eu desejei que aquilo durasse para sempre, e enquanto eu
desejasse aquilo, eu teria. Era normal, que Edward me desse tudo que
eu quisesse.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

Não poderia haver nenhum outro estado de normalidade mais


satisfatório do que aquele. Se não fosse normal estar tão apaixonada
por Edward, eu desejaria ser um show de horrores para sempre.

— Os Cullen. – Ele disse, entre os meus lábios, bastante tempo depois.


Respirei fundo, depois de estar muito tempo prendendo o fôlego, e
olhei para outro lugar que não seus olhos. Já havia escurecido. Não
havia nenhum feixe de luz escorrendo pelas nuvens espessas, e não
havia nenhum sinal de dia restando do lado de fora. Tão logo Edward
falou, ouvi ruídos no andar de baixo.
— Eles chegaram? – A pergunta foi tola.
— Faz algum tempo. – Edward sorriu, maroto. – Mas eu não consegui
me interromper para dizer-lhe.
— Devemos nos juntar a eles? – A segunda pergunta foi
definitivamente estúpida. Mesmo que devêssemos, eu gostaria de
saber se queríamos.
— Sim, devemos. – Ele respondeu, esforçando-se para retomar o
controle sobre si mesmo. Eu não era tão forte. Foi difícil permitir que
ele se afastasse qualquer milímetro de mim. Edward tomou meus
lábios novamente, e eu senti que ele pretendia confortar-me. –
Vamos, Bea... nós não devemos continuar assim com todos em casa,
seria inadequado.
— Você tem razão. – Eu assenti, sem desejar concordar com ele. Não
daquela vez. – Mas eu não sei se consigo...
— Consegue. – Ele me beijou outra vez. – Só prepare-se... Emmett
chegou bastante agitado.
— O que ele pode fazer? – Mais perguntas tolas.
— O que ele vai fazer, é a pergunta. Bem, digamos que minha família
tem tendências a ser indiscreta sobre a vida sexual dos seus.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

Ouch. Indiscrição e vida sexual eram termos que não combinavam


juntos. Mas o que eu podia fazer? Afinal, eu tinha sucumbido a
Edward como ele sucumbira a mim, e ambos passamos o dia inteiro
fazendo a mesma coisa, sem nos darmos ao trabalho de nos
preocuparmos com tempo, com qualquer outra coisa. Encarar os
Cullen depois de estar tão plenamente satisfeita – e então eu
entendia o conceito de satisfação para Edward – não poderia ser tão
ruim. Seria normal, eu tinha certeza.

— Ew!! – Emmett bradou, tão logo Edward apareceu na escada,


puxando-me pela mão. Os olhos imediatamente se viraram para nós,
e pude ver em suas faces bastante vivacidade. Estavam tão animados,
eu pude sentir aquilo. – Ew, mil vezes ew!!
— Posso saber o que te incomoda, Emmett Cullen? – Edward
reclamou.
— Vocês estão se sentindo bem? – Rosalie implicou. – Não há mais
nenhum osso quebrado? Beatrice ainda está inteira?
— Calem-se, vocês. – Edward reclamou mais. – Vocês poderiam ser
mais respeitosos com ela, por favor?
— Deixem Edward em paz! – Esme chamou a atenção de Emmett e
Rosalie. – Até parece que vocês são delicados quanto a isso!
— Vocês costumam quebrar tudo. – Alice riu. – Eles pelo menos
parecem ter mantido a casa inteira...
— E o quarto também. – E a estupidez era minha melhor
companheira. Como se eles não estivessem definitivamente sendo
irônicos e sarcásticos, como se eles não estivessem tripudiando sobre
mim, eu ainda respondia os comentários com total ingenuidade. Os
Cullen caíram na risada, e até mesmo Edward acabou rindo.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Você me desaponta. – Jasper implicou, direcionando o comentário


a Edward.
— Até parece que você é tão bruto, Jazz. – Edward franziu o cenho. –
Vocês dois conseguem ser tão discretos que a casa sequer os ouve!
— Ao contrário de vocês dois, né? – Alice caiu na risada. – Chegamos
aqui e pensamos que precisaríamos intervir, ou Beatrice iria ter um
longo caminho para se regenerar...

O constrangimento acabou por me dominar, e eu precisei afundar-


me novamente em Edward para esconder-me dos olhares risonhos.
Indiscretos era um eufemismo pobre para a reação dos Cullen quanto
à nossa incursão naquela tarde. Edward encarou Alice como sempre
fazia, e logo a implicância deixou de ser divertida. Os Cullen estavam
reunidos no salão, cada um fazendo a sua coisa preferida, e Edward
decidiu tocar seu piano. Caminhou até o instrumento e sentou-se na
banqueta, dedilhando rapidamente as teclas de marfim.

A melodia que saía de seus dedos era a mais linda de todas que eu já
ouvira. Ele já havia me contado que compunha suas próprias
músicas, e aquilo era ainda mais surpreendente. Encostei-me ao
piano e o observei tocar, música após música, deixando-me levar por
cada uma delas. Quanto mais eu apreciava, mais Edward parecia
tentado a tocar, me propiciando uma sinfonia impressionante.

CAPÍTULO 15 – A VISÃO

— Edward! – Alice entrou quarto adentro, olhos arregalados. Eu


estava dormindo, desfalecida nos braços de Edward. Já estava

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

amanhecendo, era mais uma manhã de aula que chegava. Alice


tentou falar baixo, mas seu movimento me fez despertar assustada.
— Alice... – Edward sacudiu a cabeça. – Por favor, precisava acordá-la
assim? – Você está bem, Bea?
— Sim, o que houve? Alice... o que houve?
— Edward... Bea... os híbridos. – Alice ainda parecia em transe.
— O que há com eles? – Tentei recompor-me, garantindo que eu
estava bem escondida sob os cobertores. Já bastava os Cullen
entrarem no meu quarto... no quarto de Edward... no nosso quarto! Já
não bastava os Cullen entrarem toda hora no nosso quarto, só faltava
que eles me vissem sem as vestes. O constrangimento seria
incalculável.

Edward olhou para Alice com um aspecto sombrio. Senti um arrepio


me percorrer a espinha, e afundei-me ainda mais em seus braços,
que me comprimiram com força.
— Você tem certeza, Alice? – Edward perguntou, assombrado.
— Sim, mas eu ainda estou em dúvida quanto ao tempo.
— O que está havendo? – A conversa silenciosa deles era ainda mais
irritante quando eles falavam deixando lacunas. – Digam-me, o que
há com os híbridos? Por que esse pavor todo, Alice?
— Deixe que falo com ela. – Edward respirou, resignado.
— Não seja tolo, deixe Alice falar! A visão foi dela...
— Bea... – Alice sentou-se à beira da cama. – Eu os vi. O covil... vários
homens reunidos... um deles era mais velho, tinha cabelos
descoloridos pelo tempo. Ele determinou que todos saíssem em sua
busca. Eles... estão tentando rastrear você.
— Rudolph. – Eu abri os olhos, muito confusa. – Mas... por que eles
vêm em minha busca? Eu avisei a Rudolph que iria embora... eu

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

deixei claro que sairia em busca do sol. Em busca da vida com os


humanos. Ele não me proibiu.
— Eles sabem de Connor. – Edward disse, entre os dentes. Suas mãos
me seguravam firme, mas não o suficiente. – Eles sabem que o
caçador morreu, e decidiram sair atrás de você.
— Isso é ridículo! Eles ainda acham que podem me rastrear? Você
tem razão, Edward, os híbridos são estúpidos! Eles não sabem em que
estão se metendo...
— Bea, eles virão por você. E...
— Alice, deixe isso.
— Edward, você não pode protegê-la da verdade! – Alice insistiu.
— Eu quero saber. – Fui enfática.
— Eles vêm te buscar porque você foi prometida a alguém. Connor é
só um pretexto para saírem todos do covil de uma só vez.. todos os
caçadores.
— Quantos eles são? – Edward perguntou.
— Quinze. – Eu respondi, ansiosa. – O conselho é formado por quinze
caçadores... incluindo Rudolph. Mas isso ainda é ridículo, eu fui
prometida? Eu não vou voltar com eles, não importa o que digam ou
acham. Eu estou com Edward!

Ele me beijou os cabelos, e eu pude sentir apreensão. Tanto nele


quanto em Alice.
— Eles não pretendem desistir, Bea. – Alice disse, olhar baixo.
— Vamos para a Europa. – Edward disse. – Vamos fazer a viagem que
estamos planejando... eu sei que o semestre ainda não acabou, mas...
não vou arriscar ficando aqui. Eles demoram a rastrear, certo?
— Sim... eles precisam estar sintonizados em mim. Como eu deixei o
covil há muito tempo, e meus rastros próximos já devem ter sido

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

apagados... eles vão demorar a me achar. – Falei, tentando imaginar


como Rudolph faria para me encontrar tanto tempo depois.
— Então, vamos! – Edward me olhava quase que como implorando. –
Alice, dê-nos licença, sim? Precisamos nos vestir.

Eu ainda estava zonza. Ser acordada daquela forma não era um


hábito. Eu desistira de batalhar contra meu sono, como fazia antes, e
passei a aceitar de bom grado a exaustão que me consumia à noite.
Até porque Edward vinha me mantendo cansada. Meu corpo se
cansava, ao contrário do corpo dele, de puro. Eu não tinha toda a
força dele. Eu era fraca como os humanos, era um fato. Apesar de que
Carlisle sempre dizia que eu era cem por cento cada um. Que eu era
cem por cento humana em tudo e cem por cento vampira. Que cada
lado balanceava o outro, de forma inusitada.

Desde que decidimos passar efetivamente as noites juntos – para não


dizer ativamente, a minha cama se mudou para o quarto de Edward.
O quarto que fora destinado a mim era um quarto de sobra, como se
os Cullen um dia pudessem receber uma visita que dele precisasse.
Mas não fazia sentido, segundo Esme, que eu continuasse ali. Fui
literalmente transferida para o quarto de Edward e seus diários, seus
CDs, seus equipamentos, seus livros, suas roupas, seu cheiro; tudo
ficou mais próximo de mim. Mas os Cullen continuavam a não
respeitar nossa privacidade, entrando sempre que desejavam. Eu
imaginei que eles podiam saber quando estávamos apenas
conversando, ou quando eu dormia, porque nunca entraram em um
momento realmente inoportuno. Mas eu detestava ser pega daquela
forma, sem estar vestida, totalmente indefesa.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

Edward estava ansioso, demais. Ele vestiu-se com velocidade muito


superior à que eu poderia esperar, e desceu as escadas, deixando-me
para trás. Escolher roupas para a escola não me era uma tarefa
prazerosa, então deixei que Alice separasse sempre as peças que
combinavam, para que eu não tivesse trabalho. Peguei alguma coisa
da pilha “escola” que ela tinha organizado e desci para me encontrar
com a família.

— Edward, você não precisa se apressar tanto, filho. – Carlisle falava


com ele. – Vai dar tudo certo, eles não ousarão tirar Beatrice de
nossa casa. É uma afronta.
— Confie em Carlisle, Edward. – Esme tentava tranquilizar o filho. –
Ninguém vai levar Bea para lugar algum.
— Se precisar, arrancamos as cabeças deles como fizemos com aquele
outro! – Emmett estraçalhou qualquer coisa em suas mãos,
desintegrando o objeto.
— Eu sei, eu sei... mas mesmo assim, quero ir. Podemos?
— Claro que vocês podem! – Esme riu, e abraçou o filho. – Vocês não
precisam mesmo da escola... e creio que perder o final das aulas não
vai causar nenhum problema. Conversem com seus professores, e
peçam para fazer alguns trabalhos. Assim, não perdem as provas
finais.

Edward sorriu, retribuindo o abraço da mãe. Eu tinha certeza que ele


não precisava pedir a permissão dos Cullen para ir onde quer que
fosse, porque ele era livre. Maduro o suficiente para suas decisões.
Mas eles realmente viviam como uma família. Realmente, eles eram
uma família como eu nunca tinha visto antes. E aquele sentimento
era uma das coisas que mais me fazia feliz, entre os Cullen.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

O dia na escola foi normal. Edward praticamente não assistiu às


aulas, perambulando de professor em professor, indo até a secretaria
e resolvendo coisas sobre nossa viagem. Ele pretendia deixar tudo
programado na escola, para que ninguém suspeitasse de nada e para
que pudéssemos não perder provas importantes. Os Cullen
respeitavam demais todos os rituais humanos, era outro dos pontos
interessantes que eles tinham. Eu não estava habituada a muitos dos
rituais humanos, mas me divertia vendo como eles os
desempenhavam com tanta exatidão e perfeição.

Nem mesmo no almoço Edward ficou comigo. Fui relegada aos


humanos, empurrada literalmente para a mesa deles. Vez ou outra
meu namorado vampiro protetor me fazia sentar com os humanos, e
interagir com eles. Apesar de serem sempre os mesmos... Sylvia,
Layla, Geoffrey e outros que considerava menos. Eu gostava dos
humanos; eles tinham um cheiro delicioso e a salivação ainda era
incontrolável perto deles, mas eu sempre estava satisfeita e sabia que
era errado atacá-los. Aquela idéia de certo e errado, de bem e mal que
eu carregava desde o covil e que se repetia no comportamento dos
Cullen. E os humanos eram divertidos, eles me faziam rir, eles
gostavam de mim.

— Bea, você vai ao meu aniversário, certo? – Sylvia disse, entre


tantas conversas que tivemos na hora da refeição. Que eu não comia.
— Aniversário? – Ergui uma sobrancelha, tentando me recordar.
— Sim!! Tome, pegue um convite – Sylvia me entregou um envelope
cor de rosa. – A festa será semana que vem... ah, você tem que vir!

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

Todos na escola vão... você pode levar... seu primo. Aliás, você vai me
contar o que há entre vocês, hem?
A indiscrição não era exclusiva da casa dos Cullen, era verdade. Os
humanos também o eram, pude perceber cedo demais.
— Credo Syl... eles são primos! – Geoffrey fez uma careta.
— Somos primos distantes... bem distantes. – Eu já estava ficando
uma artista em mentir. Aprendi facilmente a ludibriar meus amigos
humanos.
— Então!!! Geoffrey Miller, não tem nada demais namorar primos, tá?
E convenhamos, Edward Cullen!!! Se ele fosse meu primo, eu já teria
atacado.
Pressionei os lábios, irritada. Olhei para Edward e ele ria,
descontroladamente, da situação. Senti ainda mais raiva, porque ele
estava se divertindo à custa da minha indignação. Excelente
comportamento para um namorado! Eu sabia que ele estava ouvindo
tudo que falávamos, e eu senti sua expressão mais suave. Ele não
estava mais tão nervoso como de manhã, e aquilo me fez sentir
alívio.
— Syl, se eu fosse a Bea eu te batia agora! – Layla me defendeu. –
Diga, Bea... vocês estão namorando?
— Sim. – Falei, segurando a maçã entre os dedos. A fruta vermelha de
aroma ácido sempre me tentara. Segundo as histórias de Felícia, os
humanos foram expulsos de um paraíso por causa de uma maçã. Eu
sempre tive curiosidade de saber o que aquele fruto tinha de tão
proibido assim. – Estamos namorando.. mas gostamos de ser
discretos.
— Aaaaaaah! – As duas amigas gritaram juntas. – Que máximo!!
Edward é tão lindo... pena que nunca dá muita bola para nós, é

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

verdade. Aliás, você é a única Cullen que conversa com a gente,


mesmo.
— Não sou Cullen, sou Caldwell. – Corrigi.
— Vai ver que é por isso. – Geoffrey caiu na risada.

Se os humanos já não estivessem se divertindo demais com minha


situação, ela não iria melhorar porque uma invasão de vampiros não
se materializou ali, naquele instante. Edward e Jasper se levantaram
de sua mesa e caminharam até a mesa dos humanos; Jasper
carregando nas mãos uma lata de refrigerantes. Os dois pararam
atrás de mim, que estava distraída conversando com Layla, causando
certo espanto em Geoffrey, Sylvia e outra garota. Edward tinha um
sorriso insuportável nos lábios, e eu sabia que ele seria perverso.
Certamente ele tinha ouvido toda a conversa, e certamente ele e
Jasper decidiram colocar um fim ao mito “os Cullen não falam com a
gente”.

— Boa tarde. – Jasper disse, jogando-se em uma cadeira e apoiando o


refrigerante na mesa. – Tem lugar para mais um nessa mesa? A nossa
está muito silenciosa.
— Bea. – Edward se sentou ao meu lado, puxando minha face para si
e beijando-me os lábios suavemente. As meninas – todas! – deixaram
os queixos desabarem ao chão, em um misto de perplexidade e
inveja. Ah, a inveja. Eu nem sabia como funcionava a inveja. Mas eu
senti, senti as meninas totalmente invejosas do beijo que eu acabara
de receber do meu namorado. Usar o pronome possessivo na
primeira pessoa era definitivamente divertido. E aquele
comportamento era tão contrário a Edward... ele me confundia todas
as vezes possíveis.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Vocês demoraram. – Impliquei. – Pensei que ficariam decidindo


juntar-se a nós por muito tempo.
— Bem, já que os Cullen estão aqui... – Sylvia fez uma careta. – Vocês
vão à minha festa de aniversário, certo?
Jasper e Edward se entreolharam.
— Sim, não perderíamos por nada. – Foi Jasper que respondeu.
— Sério? – Layla parecia surpresa, até demais. – Os Cullen?
— E por que não? Fomos convidados, não? – Edward olhou para
Sylvia, e eu o cutuquei por baixo da mesa. Era cruel demais fazer
aquilo, olhar para as pessoas daquela forma. Ele tinha que perceber
que ele exercia uma atração insuportável em todos ao redor.
— Sim, claro! Bea já tem o convite... – Sylvia estava então empolgada
como nunca. Jasper e Edward passaram o resto do almoço ali,
interagindo com os meus amigos humanos. Eu parecia a amiga deles,
dos humanos. Os Cullen eram mesmo muito mais reservados quanto
à postura deles com os humanos. Eu me sentia naturalmente
tendente a estar com eles, talvez por afinidade. Cor da pele, coração
batendo, essas coisas.

— O que foi aquilo? – Perguntei, já em casa. A casa dos Cullen.


Edward havia me abduzido para o piano novamente, e tocava seus
acordes melodiosos.
— Eu não quero ser aquele que não conversa com ninguém. – Ele
respondeu sem se desconcentrar da música. – Eu não me misturo,
mas também não precisa tanto radicalismo. E eu considerei que você
precisava de uma ajuda com o convite para a festa. Jasper também
queria interagir, ele precisa.
— Não sei por que confirmou a presença... não vamos à Europa?

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Porque pretendo ir à festa também. – Edward me sorriu, ainda


tocando.
— Mas... a viagem? A visão de Alice...
— Alice viu os híbridos vindo, mas ainda não precisou o tempo. Por
suas contas, eles devem conseguir chegar aqui em não menos do que
dois meses. Temos tempo sobrando para irmos à festa de Sylvia e
programarmos a viagem com alguma calma.
— Seu humor me assusta. – E não era mentira! – Como você pode
mudar de ideia tão rapidamente sobre as coisas! Até agora mesmo
você estavam desesperado para fugirmos para a Europa.
— Bea. – Edward parou de tocar, e me segurou em seus braços. – Eu
não consigo raciocinar com lógica ao seu lado. A simples ideia de
você em perigo me deixa louco. Eu não achei que um vampiro
pudesse estar em perigo facilmente, mas você é diferente. Então...
perdoe-me esses momentos de fraqueza, mas eu perco o controle
quando imagino você correndo qualquer risco. – Ele me beijou,
suavemente. – Vamos fazer nossa viagem o mais rapidamente
possível, eu garanto. Mas vai ser divertida essa festa de aniversário.
Agora quero ir, e eu prometi que não mais te estragaria, lembra?
— Meio tarde para isso. – Eu sorri, mergulhando em seu beijo. – Eu já
estou totalmente estragada, só quero ficar ao seu lado.
— Por isso vamos com você. – Edward riu.
— Nós? – Ergui o olhar, curiosa.
— Eu, Jasper, Alice... todos vamos. Será divertido, espero.

Os conceitos de diversão dos Cullen pareciam não muito condizentes


com os dos humanos. Eles se divertiam com esportes radicais mortais
e com ursos violentos. Os humanos pareciam mais interessados em
música, dança, cinema... coisas que representassem menos perigo a

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

suas carcaças frágeis. Mas então iríamos à festa de aniversário de


Sylvia e faríamos nossa viagem depois. A visão de Alice não podia ser
tão perigosa assim, porque Edward estava mais calmo. A sua
tranqüilidade me passava conforto, e eu poderia suportar qualquer
coisa ao lado dele.

CAPÍTULO 16 – EXPERIÊNCIAS

— Adoro quando os Cullen saem para caçar. – Falei, cravada nos


cabelos de Edward, puxando-o para meus lábios. Fazia bastante
tempo que estávamos ali no quarto, desde que todos decidiram sair
para caçar. Jasper implicava que eu e Edward precisávamos de muito
mais tempo sozinhos do que eles... o que talvez fosse verdade. Mas
eles precisavam compreender que eu e Edward não estávamos juntos
por décadas, como eles. A necessidade de estarmos juntos o tempo
todo ainda era tão insuportável que chegava a causar dor.
— Eu também. – Edward se movia lentamente por sobre mim,
infringindo-me uma tortura já tão conhecida. – Mas não podemos
nos perder por muito tempo... também precisamos caçar. Temos
uma festa para ir amanhã, esqueceu?
— Eu não estou com sede, só me deixe ficar aqui com você. – Eu o
prendi entre minhas pernas, mas logo me dei conta que eu não o
queria imóvel.
— Sim, você está com sede. – Ele me beijou mais profundamente, e se
sentou na cama. Bati os braços no colchão, em protesto, mas ele me
ignoraria como sempre. Edward costumava ser quem conseguia
encontrar forças para parar... porque eu sempre queria mais e mais.
Principalmente se passássemos alguns dias sem nos tocarmos

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

daquela forma, como tinha acontecido. – Estou vendo em seus


olhos... está interessada em perseguir alguns cervos?

Eu sorri para ele, pressionando os lábios.


— Ursos, Beatrice? – Edward balançou a cabeça, negativamente. –
Ursos mais uma vez? A experiência anterior já não foi frustrante o
suficiente?
— Eu não me alimentei deles. – Falei, considerando. – Na verdade, eu
tenho uma pequena vingança para cumprir.

Edward balançou a cabeça negativamente mais uma vez, e levantou-


se. Caminhou até o guarda roupas, escolheu cuidadosamente o que
vestiria para a caçada. Os Cullen eram mesmo interessantes... Edward
iria se vestir para sair de casa e abater animais para beber-lhes o
sangue. Eu fazia uma bagunça terrível durante as caçadas, mas eles,
os Cullen, estavam sempre impecáveis. Sequer desarrumavam os
cabelos. Eu precisava de prática... continuei onde estava, sentada,
estática. Ele terminou de se vestir e se colocou à minha frente,
impaciente.
— Beatrice... – Foi o suficiente para que eu me levantasse. Claro que
ele tinha lido tudo, aquela mesma história de sempre. Mas como, era
de se questionar, que ele pretendia que eu saísse daquela cama se ele
insistia em ser tão perfeitamente lindo perambulando sem roupas
pelo quarto? Eu ainda precisava de muito tempo com ele, tanto que
nem caçar era mais interessante. Eu poderia insistir em ficar com
sede só para ficar ali, com ele.

De qualquer forma, eu estava com sede. Caçar foi prazeroso, ainda


mais porque Edward cedeu e me levou até os ursos. Daquela vez eu

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

não seria pega desprevenida, e daquela vez eu não seria abatida por
eles. Eu realmente precisava de uma segunda chance com os ursos,
ou Emmett não me respeitaria nunca. Eu precisava ser respeitada
por mim mesma, era como pensava. Abater alguns ursos não poderia
ser tão difícil, eu tinha que tentar mais uma vez.

Apesar das visões de Alice, estávamos realizando tudo dentro de um


tempo razoável, tentando manter os planos o máximo possível. Ela
se concentrava em mim o quanto podia, para tentar ver coisas que
antes talvez fossem mais difíceis. Mas ela costumava dizer que os
híbridos não lhe eram muito simples. Uma pena, pois as visões de
Alice me seriam extremamente úteis. Eu precisava saber tudo que ela
via antes dela contar a Edward, mas isso era quase impossível. Eu
queria poupá-lo da angústia em me contar, e queria poupá-lo de
precisar sofrer por mim.

O dia seguinte chegou com a festa de Sylvia na agenda principal. Era


sexta feira, e a festa era à noite, em sua casa. Eu nunca havia entrado
na casa dos humanos, e aquela experiência era empolgante. Edward
notou minha agitação com o dia, e eu pude perceber que ele estava
feliz. Ver Edward feliz me causava ainda mais satisfação do que
qualquer coisa, porque eu desejava a sua felicidade mais do que a
minha própria. E talvez ele tenha sentido, por isso me ajudou com a
idéia de ir à festa.

Depois da aula teríamos que comprar um presente para Sylvia, e


Rosalie foi incumbida de me ajudar. Eu gostaria de Alice fosse, mas
ela estava com Jasper... e os dois estavam em um momento de paixão
que eu não ousaria interromper. Alice parecia muito mais reservada

199
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

do que eu, ou Rosalie. Mas tendo à sua disposição uma sensação tão
boa como aquela, por que resistir muito tempo? E como ela era a
mais discreta... era fácil para ela perder-se no companheiro sem
muitas explicações. Então, Rosalie. Edward decidiu não nos
acompanhar, porque ele sabia que se tratava de um programa de
garotas. Como a ida a Boston.

Eu não entendia a coisa dos presentes, apesar de saber algo sobre


aniversários. Eu nunca vi ninguém fazer aniversário no covil... então
a festa me era um mistério. Rosalie me explicou que o presente era
um símbolo muito expressivo para a celebração da passagem de mais
um ano, e que se eu me sentia amiga de Sylvia, deveria dar-lhe algo
bastante significativo. Reviramos toda Port Angeles em busca de
algo, passando por lojas de roupas, calçados, acessórios... paramos
em uma loja que vendia jóias, e eu me encantei por um anel. A pedra
era amarelada, e me lembrava os olhos de Edward. Claro que ele
tinha olhos mais opacos e por vezes mais escuros... mas aquela pedra
era o que mais me lembrava seus olhos. Eu não daria a Sylvia uma
pedra com os olhos de Edward, mas era fascinante. Para minha
amiga humana acabei por escolher um colar com um pingente
vermelho. Vermelho, cor do sangue, uma representação minha.
Rosalie me garantiu que era um rubi, mas não me fez incomodar com
o preço. Eu não tinha noção de dinheiro, e os Cullen não contribuíam
muito neste aspecto pedagógico. Eles simplesmente me deixavam
gastar o quanto eu quisesse, apesar de eu nunca gastar nada. Eu só
andava no rastro da família, o que reduzia muito as minhas opções.

Em casa, Alice estava me aguardando para a produção. Ela pretendia


me ajudar a arrumar-me para o aniversário... me deixar mais bonita.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

Obviamente, não tanto quanto ela e Rosalie... mas seria bom ficar
bonita. Seria bom estar à altura da minha companhia, o homem mais
lindo que existia em toda a história da existência terrena. Entre
todas as espécies já existentes. Ou não. Mesmo eu dizendo que não
queria exageros, tudo para Alice era um exagero. E ela também
pretendia preparar-se, pois não deixaria que invadíssemos a festa
sozinha. Ela pretendia participar de tudo.

Produzida como nunca, em um vestido preto bastante sombrio,


usando sapatos nos quais eu mal me equilibrava, os cabelos presos e
repletos de brilho, eu estava pronta para ir à festa de Sylvia. Aos
olhos de Alice, perfeita. Mas quando Edward surgiu pela porta do
quarto, em um pulôver carmim e calças jeans escuras, tão
contrastantes com a sua pele pálida e sem vida, eu me senti
desprezível. Seus olhos estavam tão claros que ele parecia tê-los
desanuviado só para mim. Como eu era petulante, imaginar que
Edward orbitava ao meu redor como eu fazia com ele. Seus cabelos
acobreados estavam meticulosamente organizados, o que não era
muito comum.

— Você está linda. – Ele sussurrou em meus ouvidos, beijando-me


exatamente naquele lugar. Senti a eletricidade e pensei ainda que ele
arruinaria minha produção.
— Até parece. – Eu tinha que fazer alguma pirraça. Era um charme
escondido, eu podia jurar.
— Nem ouse duvidar de mim. Você se subestima demais.
Sim, eu me subestimava. Mas perto dos Cullen e seus super poderes,
eu era simplesmente uma híbrida sem graça.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

Os filhos de Carlisle e Esme Cullen saíram de casa, no gigante jeep de


Emmett e no Volvo prata de Edward, em direção à casa de Stewart
Green. Era minha primeira festa humana; minha primeira noite
oficial como namorada de Edward entre os humanos; minha primeira
experiência totalmente mundana. Eu estava, sim, excitada. Até seria
tolerável não passar a noite exclusivamente com Edward, porque eu
estaria fazendo algo pelo qual esperei muito.

A tal festa, como um todo, se assemelhava à casa noturna de Boston.


Muita gente reunida em um espaço pequeno, pouca luz, música alta,
e muitos copos cheios de líquidos coloridos. A casa estava com as
luzes apagadas, e alguma iluminação avermelhada deixava todos
muito parecidos. Eu podia jurar que a casa de Sylvia não era daquele
jeito, mas que ela havia feito modificações para o evento. O aroma
que me fazia eriçar os pelos, de tão enjoativo. E o cheiro delicioso dos
humanos. Todos reunidos, o calor de seus corpos... era uma sensação
dolorosa, porque ao mesmo tempo que eu desejava obter o que me
propiciaria saciar a vontade que o cheiro me causava, eu sabia que
era errado. Edward me conduziu porta adentro segurando
firmemente em minhas mãos, demonstrando claramente de quem eu
era propriedade. Eu tinha certeza que Edward me considerava dele. E
eu não tinha dúvidas quanto ao fato de que eu era, realmente, dele.

— Vamos nos misturar. – Jasper disse, esfregando as mãos.


— Pensei que não se misturassem. – Falei, confusa.
— Geralmente não. Mas essa experiência também é relativamente
nova para nós... não costumamos frequentar esse tipo de ambiente. –
Ele disse, sorridente. Por um momento, cheguei a imaginar que a
sensação ruim que eu causava em Jasper tinha acabado, ou que fora

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

imaginação minha. Ele parecia muito mais à vontade em minha


presença há algum tempo, e eu gostava de sua companhia.

Então, misturar-se. Não era difícil perder-se naquele monte de


pessoas. Encontrei Sylvia e lhe entreguei o presente, em nome de
todos os irmãos Cullen. Ela abriu a caixa maravilhada com o
conteúdo, soltando uma interjeição de surpresa. Talvez ela não
esperasse nada como aquilo... mas o que eu poderia fazer? Era minha
primeira experiência com presentes. Depois de receber um longo
abraço da aniversariante, que me colocou perigosamente em contato
com a sua pele e com todo o calor do sangue que circulava ali, Sylvia
me entregou uma taça enorme.

— Martini. – Ela disse, piscando os olhos. – Não que pudéssemos


consumir álcool... mas eu estou fazendo 18 anos, por favor!

Martini? Olhei para o líquido descolorido e o cheiro era


insuportavelmente doce. Estava entendido por que tudo ali cheirava
daquela forma. Olhei para Edward assustada, e ele estava de pé atrás
de mim, me segurando pela cintura, olhos perdidos na multidão.
— É uma bebida. – Ele respondeu, sem me olhar. – Os humanos
apreciam bastante... é um entorpecente, na verdade.
— Droga? – Eu disse, mais assustada ainda.
— Sim e não. Pode ser, se você abusar.
— O que faço com isso?
— Disfarce e deixe em algum lugar. Ou... beba.

Beber? Eu era um vampiro, a única coisa que bebia era sangue.


Edward deveria estar brincando.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Não precisa ficar tão confusa. – Ele se sentou no que estava atrás
de si, e eu visualizei como uma mesa de bilhar. Puxou-me para entre
suas pernas, e me abraçou. Por pouco a taça não desabou de minhas
mãos. – Você também é humana... você pode muito bem ingerir
alimentos. Nunca experimentou, eu sei... mas você pode tentar
quando quiser. Eu só nunca quis te pressionar...

Afastei-me repentinamente de Edward, sobrancelha erguida, um


pouco confusa. Muito confusa, na verdade. A ideia de ingerir
alimentos humanos estava fora de cogitação, sempre. Eu sequer
entendia totalmente por que recusava tanto aquela experiência, mas
eu suspeitava que o verdadeiro motivo fosse o medo que minhas
fraquezas superassem todo o resto. A parte humana era a parte fraca
em mim. Uma parte deliciosa da qual eu não pretendia abrir mão,
mas ainda assim uma fraqueza. Se eu começasse a agir muito como
os humanos, se eu começasse a me alimentar como eles, o que eu me
tornaria? Uma aberração ainda mais esquisita.

Edward não gostou de meus pensamentos; eu pude ouvi-lo rosnar.


Ele tomou a taça de minhas mãos e puxou meus lábios para si,
beijando-me. Não poderia haver outro entorpecente mais forte do
que aquele, o beijo de Edward. Eu só não sabia se beijá-lo ali seria
saudável.
— Quer dançar? – Ele perguntou, dando-me algum espaço para
respirar. – Já aviso que não sou tão bom nessas danças adolescentes
como sou em outras danças... mas podemos enganá-los juntos. O que
acha?

204
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Sim, podemos! – Sorri, beijando-o rapidamente, e puxando-o para


a pista de dança. Como eu suspeitava, Rosalie já estava ali, o mesmo
espetáculo que ela proporcionara em Boston.

Eu comecei a sentir um pequeno cansaço depois de muito tempo que


dançávamos. Edward me conduziu para fora da pista, mesmo contra
minha vontade, porque eu não parecia muito bem. Meus olhos
pousaram sobre a taça que Sylvia me entregara, ainda intacta sobre a
mesa de bilhar. Ninguém jogaria bilhar naquela festa, suspeitei. O
líquido, de cor duvidosa e cheiro detestável, me encarou. Um líquido
não poderia me encarar, mas aquele o fez.
— Beba. – Ele disse, segurando a taça em suas mãos. – Ou beberei eu.
— Você não pode! – Tomei-lhe a taça. – Você... é um vampiro –
Sussurrei bem baixo em seus ouvidos.
— Eu posso... poderia ingerir alimentos esporadicamente, se
quisesse. Mas eles me são inúteis... não me farão nenhum bem, talvez
até mal. Mas você, ainda não sabemos. Vamos, beba.

Imediatamente lembrei-me de vários meses atrás, quando da minha


chegada à casa dos Cullen. Quando Carlisle pediu que Edward fosse
meu tutor, meu companheiro. Quando Edward decidiu que me faria
experimentar comida humana. Ele havia temporariamente desistido
de me fazer cobaia, mas aparentemente a sua curiosidade não havia
adormecido. Talvez eu estivesse curiosa também, porque eu estava
ali para viver momentos novos. Eu só não sabia se tinha mais
curiosidade do que medo, ou mais medo do que curiosidade. Hesitei
olhando a oliva que jazia no fundo da taça, como que esperando que
o líquido entrasse em mim por osmose.

205
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

Edward tomou a taça de minhas mãos e levou aos lábios, sorvendo


pequena parte do líquido. Olhei para ele mortificada, e tomei-lhe
novamente o Martini.
— Edward!!! – Passei os dedos por seus lábios, tentando tirar o
líquido que estava ali. – Você ficou louco, o que está tentando provar?
— Que eu não sou medroso como você. – Ele provocou.
— Que gosto tem? – Perguntei, a curiosidade aguçada. Ainda com
raiva de Edward, mas muito curiosa.
— Não sei direito. Gosto ácido... acho que meu paladar não está apto
a capturar o sabor dos alimentos humanos direito...
Sem muita explicação, Edward levou os lábios aos meus novamente,
abrindo espaço em minha boca. Meu corpo todo se arqueou para
trás, e eu me contorcia em seus braços. Entendi o que ele fazia no
instante em que sua língua tocou a minha. Ácido, muito ácido... ele
estava me fazendo sentir o gosto, ao invés de me contar como era.

Separei-me dele, empurrando seu peito com força. Como ele era
abusado, aquele puro infernal! Ele sorriu, recompondo-se. Peguei a
taça novamente e levei-a a boca, sorvendo uma parte considerável
do líquido. O choque foi imediato. Sucumbi parcialmente nos braços
de Edward, enquanto o líquido me escorria pela garganta,
queimando o que encontrava em seu caminho. Em poucos segundos,
Alice estava ao meu lado, ajudando-me a manter-me em pé.
— Edward, você está louco! – Alice repreendeu o irmão, repetindo-me
segundos antes. – Como pode deixá-la fazer isso?
— Acalme-se, Alice. Sabe que jamais colocaria Bea em perigo. Ela é
parcialmente humana, Carlisle já disse que ela tem estrutura para
alimentar-se com a comida deles. E ela estava morrendo de vontade
de provar esse Martini... eu só lhe dei incentivo.

206
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Bea, como se sente?

Eu ainda não sabia. Reergui meu corpo, recostando-me em Edward.


Respirei algumas vezes, e deixei minha língua passear por minha
boca. O sabor não era ácido, somente. Era também doce, e suave.
Olhei para a taça, e levei-a aos lábios outra vez. Daquela vez, bebi
com cuidado, bem devagar. Olhei para Edward, um sorriso querendo
se abrir em meus lábios. Ele sorriu primeiro, e a luz me cegou outra
vez.
— É delicioso. – Eu disse, para Alice. Edward já sabia. – É delicioso!!
— E problemático. – Ela disse, olhando a taça. – Por favor, não passe
dessa... sim?
— Pode deixar, eu a mantenho no controle. – Edward confortou a
irmã. Mas Alice não pareceu muito satisfeita nem conformada, e
ficou por perto. O Martini estava em mim ainda, e o sabor era tão
entusiasmante que eu fiquei muito tempo parada, só deixando minha
língua passear pela boca.
— Não posso beber mais? – Eu disse, olhando para Edward com os
olhos brilhando. Eu sabia que eles brilhavam, porque eu os sentia
assim.
— Calma, Bea. – Ele sorriu. – Lembra-se de que eu disse que é um
entorpecente?
— Sim. – Emburrei. Edward deu uma risada alta, e me abraçou com
força.
— Ah, como eu gostaria de compartilhar esse sabor com você, agora...
mas é fantástico te ver tão absorvida por uma experiência humana!
— Você vê graça em cada coisa! – Protestei. – Eu só ingeri um líquido
doce, isso nem é grande coisa.

207
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Mas você está agindo como se fosse. – Ele ainda me apertava entre
os braços.
— Porque é novo para mim, oras. Tem certeza que não posso beber
mais?
— Bem... – Edward ponderou, segurando-me pelo queixo e levando
meus olhos até os seus. – Acho que duas taças não devem ser
problema. Mas só duas, Bea. Não podemos subestimar a força do
álcool.

Só duas, porque o Martini era um entorpecente. Entendi, foi o que


disse para mim mesma. Edward levantou-se da mesa de bilhar,
caminhou até o balcão que fazia as vezes de um bar, e voltou com
outro Martini nas mãos. Eu sorri, empolgada. Seria muita tolice agir
tão desproporcionalmente por causa de uma experiência tão
singular? Afinal, como eu mesma dissera, eu só havia ingerido uma
pequena porção de líquido! Aquilo não poderia ser tão importante a
ponto de me pegar tomando a taça das mãos de Edward e
entornando o seu conteúdo em minha boca, avidamente.
— Beatrice! – Edward me tomou a taça. – Como você é difícil! Não
disse para ir devagar? Ainda não sabemos como você vai reagir...
— Eu estou bem! – Reclamei do meu namorado super protetor. – Nem
Alice veio reclamar, ainda. Ela está te policiando desde o início.
— Eu sei, mas mesmo assim... acabaram os Martinis por hoje.

Eu não queria desistir, mas dentro de mim eu sabia que Edward


tinha, mais uma vez, razão. Os efeitos daquele líquido apreciado
pelos humanos eram desconhecidos em mim, então eu não devia
confiar nas aparências. Eu parecia estar bem, mas estaria? A resposta
não demorou a vir. Voltamos à pista de dança, porque eu queria

208
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

dançar. Rosalie não havia parado nem um instante, e Emmett já


parecia entediado. Meus amigos humanos se juntaram a nós, e Sylvia
parecia bastante diferente. Alterada, por assim dizer. Ela dançava
freneticamente, e girava como se fosse um brinquedo. Geoffrey
estava acompanhado de uma garota que eu mal conhecia, e os dois
estavam se beijando no meio da pista. Talvez os humanos não
tivessem os mesmos problemas que eu... beijar os companheiros para
eles talvez fosse menos problemático do que para mim.

Edward passou a me olhar com alguma incerteza, e eu senti seus


dedos mais firmes em meus braços. Seu corpo aproximou-se, e se ele
se aproximasse muito mais poderia estar em perigo. Eu estava com
uma sensação de liberdade extrema, como se tudo ali pertencesse a
mim e nada, ou ninguém, pudesse me dizer o que fazer ou não fazer.
A ausência do certo e errado. Joguei meus braços em seu pescoço,
levando meus lábios até seus ouvidos, com alguma dificuldade. Eu
queria dizer-lhe algo, mas eu não consegui. Alice aproximou-se
daquela vez, eu pude ver. Edward amparou-me em seus braços,
sustentando completamente o peso de meu corpo.
— O que está havendo? – Alice perguntou, com Jasper ao seu redor.
— Ela está borrada. – Edward disse, lábios retorcidos e sobrancelha
erguida. – Eu... é como se eu não conseguisse lê-la.
— Edward, Bea está bêbada! – Alice sentenciou. Jasper riu, sem
conseguir controlar-se. – Você a deixou beber muito??
— Não! Ela terminou aquela taça e bebeu outra, apenas. Os humanos
aqui estão bebendo desde que chegamos... alguns já devem ter
consumido uma garrafa sozinhos. E todos parecem melhores do que
ela, em seus pensamentos.
— Talvez ela esteja reagindo diferente. – Jasper considerou.

209
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Acho que devemos levá-la para casa. – Alice disse.


— Não, preciso sair com ela daqui... mas não para casa. Vou para
outro lugar. Vamos nos despedir de Sylvia.
— Vamos todos com você. – Emmett disse, ouvindo a conversa. – Já
cansei dessa festa, mesmo.

Edward me levou até Sylvia, sustentando meu corpo praticamente


sozinho. Eu caminhava sem qualquer noção de direção, mas ele me
mantinha na rota. Chegamos até Sylvia, e Edward informou da nossa
ida. Disse que eu não me sentia bem, e que precisávamos nos retirar.
O cheiro de Sylvia estava impressionantemente bom. Enquanto os
Cullen falavam, eu sorvia o aroma que exalava de seu corpo suado.
Era um convite a um banquete. E com a ideia de certo e errado
totalmente misturada em meu consciente, Sylvia era mesmo um
prato a ser servido. Instintivamente, virei-me para ela e rosnei, bem
baixo. Edward puxou-me para si novamente, pressionando minha
face em seu peito e disfarçando. Fui arrastada para fora da festa,
enquanto os Cullen faziam parecer que nada estava acontecendo.

— Vamos levá-la para casa. – Rosalie disse, enquanto Emmett ligava o


jeep.
— Vocês vão para casa, preciso levá-la a outro lugar. Ela está
consideravelmente fora de controle...
— E pretende ir aonde com ela, Edward? – Alice protestou. – Em casa
ela ficará segura... exatamente por estar fora de controle, ela pode
decidir atacar humanos...
— Alice, não tenho muitas opções. Vou com ela para a cabana na
campina.
— Acha mesmo a melhor opção? – Jasper interferiu.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Vocês têm duas escolhas. Eu levo Bea para a cabana ou vocês nos
ouvem fazer amor a noite toda. O que preferem? Já disse, ela está
fora de controle. Como vou conseguir fazê-la comportar-se? Por ela,
já estaríamos fazendo qualquer coisa que passe em sua cabeça agora,
aqui mesmo.
— Eeeeew!! – Emmett gritou, de dentro do jeep. – Deixem-no levá-la..
eu nem vou conseguir comer depois!
— Ainda assim, estou preocupada. – Alice parecia irredutível.
— Confie em mim, Alice... ela volta ao normal logo, eu a levo para
casa. Avisem Carlisle e Esme... vamos estar na cabana na campina,
você sempre vai poder observar-nos.

Edward me carregou até o Volvo. Ouvi o jeep arrancar, e em poucos


instantes Edward também colocava o Volvo em movimento. Eu fora
amarrada com o cinto de segurança, mas aquilo talvez nem me
fizesse diferença. Aquilo era estranho... Alice disse que eu estava
bêbada! O que seria aquilo, fiquei me perguntando. Era como se meu
cérebro se tivesse dividido em dois, e desprendido do meu cérebro. A
parte consciente, que me fazia pensar e lembrar-me de tudo, mas
que estava definitivamente fora do comando das ações; a parte
inconsciente, que estava aparentemente no controle, e que não tinha
nenhum tipo de moral; e o meu corpo físico. O corpo físico estava
descoordenado, não respondia aos estímulos da parte consciente. E a
parte inconsciente parecia tentada a não comandá-lo, deixando que
o corpo fizesse o que quisesse.

O Volvo parou em meio à escuridão da noite, e senti as mãos de


Edward me segurando e me retirando do carro. Depois, ele me
carregou até a campina, pelo meio das árvores, até a cabana. Fazia

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

frio, mas aquela noite estava bem melhor. O verão estava quase
chegando, e o período da neve e do gelo já tinha cessado. Uma brisa
não tão gelada soprava, anunciando que as temperaturas ficariam
amenas. Estava muito escuro, eu não podia ver quase nada. O céu
estava parcialmente encoberto, e as estrelas não reluziam seu brilho
no tapete negro da noite. A lua pálida parecia sem luz, enquanto se
escondia tímida na presença de Edward. Eu me livrei de suas mãos,
colocando-me de pé ao chão tão logo me senti em um local
conhecido. Edward parou, olhando para mim, braços cruzados.

— O que pretende, Bea? – Ele perguntou, apreensivo.


— Que noite liiiinda. – Eu disse. Minha voz estava irreconhecível. O
lado inconsciente do meu cérebro não parecia muito inteligente,
então. – Vamos ficar aqui fora.
— Não. – Edward se aproximou, e eu o empurrei para longe. Ele era
mais forte, mas talvez estivesse apenas tentando me proteger. – Eu já
cedi a tudo que você quis essa noite, e as coisas não saíram muito
bem. Vamos entrar na cabana, você precisa dormir.
— Não quero dormir, quero você. – Joguei-me para seu lado, em um
movimento completamente contraditório. Se Edward não fosse
rápido e se ele não soubesse exatamente o que eu pensava, eu teria
caído ao chão como fruto maduro. Ele me sustentou em seus braços,
respirando fundo.
— Você pode me ter lá dentro, vamos...
— Não! – Foi a minha vez de protestar, e afastei-me novamente. –
Quero ficar aqui fora, sob a lua. – E com alguns movimentos rápidos,
retirei os sapatos e os atirei para o lado da cabana. Edward
continuava a me observar, daquela vez com as mãos nos bolsos. Ele
parecia pronto para me impedir de fazer uma besteira, mas tentado a

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

ver até onde eu chegaria com aquilo. Depois, meus dedos alcançaram
o zíper do vestido e o abriram, fazendo com que a vestimenta
deslizasse por meu corpo abaixo. Eu não sentia frio exatamente...
sentia mais frio do que os puros, mas a temperatura estava bem mais
satisfatória.
— Beatrice, você perdeu o juízo. – Edward rosnou, caminhando
lentamente para mim. – Vamos, deixe-me levá-la para dentro, lá
podemos...
— Venha, Edward. – Eu estiquei meus braços para ele, desejando que
ele me tomasse entre os seus. – Não tem problema nenhum...
ninguém vai nos ouvir, estamos no meio do nada.

Edward respirou fundo novamente. Ele tinha o semblante contraído,


e me observava com bastante concentração. Eu estava parada em sua
frente, braços estendidos, clamando por ele, desejando que ele me
alcançasse na mesma intensidade que eu desejava fugir dele.
— Que se dane. – Ele disse, volume quase inaudível, e caminhou para
mim, tomando meus lábios de assalto. O lado inconsciente sucumbiu
a Edward da mesma forma que o consciente, e eu perdi totalmente o
controle de mim mesma. Nada respondia a estímulo racional algum,
só ao toque de Edward em mim. Em poucos instantes, estávamos
afundados na relva da noite. Quanto mais ele me dava o que eu
queria, mais exigente eu me tornava. Eu era além de uma aberração,
era um monstro. Mas Edward ignorou a confusão mental que o
Martini me causara e me amou ali mesmo, da forma como eu
imaginei.

Os sonhos vieram de forma confusa. Eu não sonhava havia muitas


noites; tudo parecia um buraco escuro quando eu dormia. Mas

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

naquela noite eu sonhei, e aquilo significava que eu havia


adormecido. Talvez a única coisa normal que eu tivesse feito a noite
toda. Sonhei com o covil, com Rudolph e Felicia, com Connor, com
aquele conceito de casa. Eu não me sentia em casa, ali. Eu estava tão
bem entre os Cullen... era como se eu sempre tivesse pertencido
àquela família. Acordei sobressaltada, encolhendo-me no canto da
cama, quando o Rudolph de meu sonho colocou as mãos em mim,
frias como pedra de gelo. Meus olhos se abriram e a claridade da luz
me fez fechá-los novamente. Olhei em volta, minhas mãos
procuraram por Edward mas ele não estava ao meu lado. Consegui
encontrá-lo na porta de entrada, quase invisível pela luz solar que
iluminava sua pele. Ele estava parado observando a imensidão
exterior. Sentei-me na cama, esfregando os olhos para ter certeza de
que aquilo não era uma visão.

Edward era lindo, quase irreal. Meus olhos não cansavam de olhá-lo, e
meu coração sempre batia mais rapidamente quando ele estava por
perto. Eu já não sabia se meu coração parecia como antes; eu quase
podia senti-lo bater com intensidade demais para uma pessoa morta.
Nada naquele vampiro estava fora do lugar, se aquilo fosse possível.
Pisquei algumas vezes, treinando meu hábito humano, e pensei em
levantar-me para me aproximar dele. Mas em instantes Edward
estava ao meu lado, sentado na cama, sorrindo.
— Bom dia, meu amor. – Ele me beijou a testa. – Como está se
sentindo?
— Onde estamos? – Eu perguntei, deitando em seu peito nu.
— Na cabana... lembra-se dela, seu primeiro passeio ao sol?
— Acho que sim. – Eu estava então sentindo as coisas girarem.
Edward recostou-se no encosto da cama e me fez aconchegar em

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

seus braços. Minha cabeça girava, e tudo parecia sair do lugar. – Mas
o que fazemos aqui?
— Viemos para cá depois da festa. Você não se lembra de nada... e eu
nem posso saber direito o que você pensava, porque você estava
totalmente borrada, para mim.
— Ai... – Eu reclamei, sentindo-me muito mal. – O que houve comigo,
Edward?
— Vou levar você para casa. – Ele me beijou a testa novamente. –
Você está com dores... Carlisle vai ajudar isso a passar.
— Primeiro me diga... o que houve.
— Você bebeu. – Ele riu.
— O Martini...
— Sim. Lembra-se, eu disse que aquilo era uma droga. Você bebeu e o
Martini reagiu de uma forma meio inesperada no seu organismo...
você ficou bêbada, e totalmente fora de controle. Por isso eu te
trouxe para cá...
— Ouch. – Eu me escondi em Edward, como fazia sempre que
embaraçada. – Nem quero imaginar o que eu fiz.
— Nada demais. – Ele me beijou novamente. – Vamos para casa...
Alice já ligou querendo saber de você, ela viu que você acordaria
logo.

A luz do sol estava fraca, mas presente. Edward me conduziu para


fora da cabana, sempre me amparando. Eu estava me sentindo muito
mal, mesmo. Meus olhos se fecharam; o sol parecia ferir minhas
retinas. Edward me tomou em seus braços e me carregou até o carro,
com todo cuidado. A casa dos Cullen nunca pareceu tão longe, mas
eu acabei me sentindo melhor durante o trajeto. Edward segurava

215
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

minhas mãos com a sua, e aquilo já era conforto o suficiente para que
eu melhorasse.

— Bea! – Alice me recebeu na porta de entrada. Ela parecia mesmo


aflita... eu não gostaria de tê-la feito sofrer. Os Cullen todos me
esperavam, e eu me senti o show principal no circo dos horrores. –
Bea, como você está? Vejam essas olheiras... parece que você não se
alimenta há dias!! Mas você caçou quinta feira, então...
— Acalme-se Alice. – Eu disse, tentando sorrir. – Só estou com dor de
cabeça... nunca senti isso antes.
— Efeito do álcool. – Carlisle sorriu, sentado com um jornal nas mãos.
– O álcool tem essa característica, de causar dor de cabeça no dia
seguinte. Chamam de “ressaca”.
— Ah, adorei. – Eu fui sarcástica. Pensei que estava perdendo aquela
característica, mas felizmente não.
— Edward, você é um irresponsável. – Alice ainda protestava. Jasper
aproximou-se dela, abraçando-a. – Como você deixou isso acontecer!!
— Menos, Alice. – Edward reclamou, mas eu pude sentir em seu olhar
que ele se sentia exatamente como ela o descrevia.
— Alice está certa, você anda exagerando. – Rosalie franziu os lábios.
— Meninos, essa discussão não vai levar a nada. – Esme decidiu
interferir. – Bea, você quer alguma coisa? Tomar um banho, deitar-
se...
— Não, estou bem. – Tentei manter-me erguida, e abracei Edward
pela cintura. Senti seu corpo estremecer, e seus dedos delicadamente
tocarem os meus cabelos. – Não culpem Edward, ele não sabia que eu
poderia reagir dessa forma. E no mais, eu decidi beber as duas taças
sozinha.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Você é muito fraca, irmãzinha. Não é à toa que se apaixonou pela


parte fraca da família...
— Emmett!! – Esme o repreendeu imediatamente. – Vocês andam
impossíveis!
— Vou levá-la para o quarto. – Edward disse, já preparado para me
conduzir escadas acima.
— Deixe-a descansar, Edward! – Emmett implicou, e Jasper deu uma
risada. – Por isso minha irmãzinha está mal... dá um tempo!

Eu pensei que ele fosse fazê-lo, e já me preparava para segurar


Edward quando ele voltasse alguns degraus da escada e agarrasse
Emmett pelo colarinho. Ele era sempre educado demais, mas eu pude
sentir que Emmett tinha passado dos limites. Afinal, Edward se
sentia culpado pelo que me acontecera comigo, e o irmão não estava
colaborando em nada. Mas Edward cerrou os punhos e concentrou-
se, desistindo de fazer qualquer coisa de que fosse arrepender-se
depois. Eu coloquei as duas palmas das minhas mãos em seu peito,
aproveitando que a escada me fazia ficar de sua altura, e olhei em
seus olhos. Sorri levemente, e beijei seus lábios bem devagar.
— Eu estou bem; vamos ficar aqui com sua família. – Eu disse, em
volume muito baixo.
— Preciso que você esteja mesmo recuperada, Bea. Não quero ser...
— Você sabe que estou bem. Pode ler... pode ver. E por favor, não se
sinta culpado. Eu te amo.

Meus dedos involuntariamente se colocaram na frente da minha


boca, e eu olhei para Edward bastante apavorada. Ele sorriu,
iluminando a sala, as mãos bem posicionadas em minha cintura.
Olhei ao redor, e os Cullen definitivamente nos observavam. Eu me

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

senti constrangida, e achei melhor não comentar nada. Edward ainda


sorria, e seu sorriso era tão sincero que me fazia constranger ainda
mais. Eu tinha acabado de dizer ―eu te amo‖, e eu já estava entre eles
tempo o suficiente para saber o significado daquilo. Amor era o
sentimento maior, e amor entre um homem e uma mulher...
— Eu te amo. – Ele disse, beijando-me rapidamente. Rapidamente,
porque senão aquilo poderia dar razão a Emmett e seus comentários
fora de propósito.

Passamos o dia em família, e aquilo significou diversão. A televisão


ligada e os jogos do final de semana divertiam Emmett e às vezes
Carlisle. Esme preferia realizar trabalhos manuais, enquanto Alice
jogava com Edward e Jasper. Ela conseguia acabar com qualquer jogo
muito rapidamente, então aquilo se tornava muito extraordinário.
Rosalie era mais de acompanhar o movimento, como eu fazia. Eu
acompanhava o movimento, deitada por sobre Edward, brincando
com as suas peças de vestuário como se elas fossem algo divertido.
Na verdade, eu não me cansava facilmente. Ficar deitada, recostada,
sentada; tudo era um hábito e uma conveniência. Era conveniente – e
muito! – ficar por sobre Edward o dia inteiro.

O mais estranho de tudo foi que a experiência com o Martini me fez


interessada na alimentação humana. Apesar da frustração absoluta
na minha primeira vez, eu passei mal porque, segundo Edward, o
álcool era uma droga. E se eu não experimentasse coisas perigosas,
mas sim aquelas que todo humano sempre comeu? E se eu tentasse
apenas o simples... teria problemas? Mas a minha aversão pela minha
parte fraca logo deu lugar à indecisão, e preferi continuar ali, com os
Cullen, deixando o tempo passar. Eu queria e não queria, e toda

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

aquela dúvida me irritava profundamente. Se eu me alimentasse de


comida humana, eu poderia ter problemas. Eu tinha certeza que algo
aconteceria. Até que meu namorado decidiu tomar a frente.

— Carlisle... – Edward perguntou, sem tirar os olhos do quebra


cabeças de Jasper. – Você lembra que disse que Bea está em
adaptação?
— Sim, ela estava. – Carlisle deixou o jogo de futebol de lado e
encarou o filho.
— Estava? – Perguntei, sem ter certeza de onde Edward queria
chegar.
— Você já está completamente adaptada, pela minha análise. –
Carlisle sorriu. – As células que estão comigo no hospital já não
realizam mudanças há várias semanas.
— Então, não é possível que seu organismo sofra mais mudanças? Se
ela mudar de hábitos...
— Enquanto ela estiver aqui, sob o sol, não. – Carlisle olhou para a
televisão quando Emmett gritou alguma coisa, protestando por um
provável erro de arbitragem. - Por que pergunta isso, Edward? O que
tem em mente?
— Nada específico. – Seus dedos passearam por meus cabelos, na
intenção de me confortar. – E se Bea quiser mais experiências
humanas, acha que isso poderia afetá-la? Como comer comida
humana?

Ah! Edward, maldito vampiro!! Ele não tinha o direito de saber de


tudo; eu desejei desmembrá-lo com minhas próprias mãos, naquele
instante. Apesar de eu ter só acabado de dizer que o amava, eu

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

retiraria cada palavra só porque ele me provocava daquele jeito.


Irritante, petulante!
— Não... – Carlisle riu, uma risada bastante divertida. – Seria como
dizer que se humanos bebessem sangue, tornar-se-iam vampiros. –
Daquela vez a risadaria foi geral. Eu estava emburrada nos braços de
Edward, pronta para atacá-lo com os dentes. Ele me pressionava com
força contra si, sabendo de minhas intenções maquiavélicas. – Bea é
o que é. Metade vampiro, metade humana. Ela tem características
das duas espécies, e nada poderá alterar isso nela. Um hábito pode
substituir outro, mas nunca alterar a essência de seu ser.

Sábio Carlisle, mas eu ainda pretendia meu acerto de contas com


Edward. Mais tarde, em qualquer momento. De qualquer forma, foi
interessante ouvir que eu já estava adaptada, e que nada mais
poderia me mudar, enquanto ali estivesse. Eu estava suficientemente
adaptada ao sol, e aquilo deveria render uma celebração. Sorri
timidamente para Carlisle, como que agradecendo por sua
intervenção e por seu tempo dedicado a mim. Eu deveria ser uma
incógnita divertida, mas ainda assim eu deveria agradecer porque ele
não precisava dispor de seu tempo estudando meu organismo. Era
bondade, e eu sabia que Carlisle era uma pessoa boa.
— Eu te amo, Beatrice. – Edward sussurrou em meus ouvidos, e eu
entendi que ele pretendia redimir-se pela pequena invasão de
privacidade que acabara de acontecer. – Eu te amo... tudo que faço é
por você. Talvez você nem entenda, mas eu só quero ver você feliz.
— Eu estou feliz. – Emburrei um pouco mais. – Se você não insistir
em ser o sabe-tudo, eu serei ainda mais feliz.
Edward beijou meus cabelos, e levantou o olhar para Esme, que se
divertia com revistas de decoração.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Esme... – E lá ia ele novamente. – Temos suprimentos humanos em


casa?
— Sempre, Edward. – Esme sequer elevou o olhar. – Por que
pergunta?
— Pretendo fazer algo.

Edward levantou-se apressado, e foi até a cozinha. Rosalie estava


curiosa o suficiente para segui-lo, bem como Jasper desistiu do
quebra cabeças e também foi descobrir o que acontecia. Edward
começou a remexer os armários e abrir a geladeira, uma coisa
completamente assustadora. Vampiros brincando na cozinha! Era
algo de se esperar, vindo da família Cullen. Eles eram
definitivamente atípicos. Mas eu não entendia o motivo dele fazer
aquilo, visto que ele não comia. A cozinha não deveria lhe ser de
nenhuma utilidade.

— Você não sabe fazer isso direito! – Rosalie tomou algo das mãos de
Edward. – Se vai bancar o chef para sua namorada, então aprenda
com o mestre.
— Quanta arrogância, Rosalie. – Edward riu. – Mas tudo bem...
ensine-me.

Cheguei até a cozinha e encontrei os irmãos Cullen fazendo algo


inusitado. Em poucos minutos, Carlisle e Esme também estavam
presentes. Alice chegou logo depois. Havia um pó branco espalhado
por vários lugares, inclusive pelos cabelos de Edward. De seus olhos
emanava um brilho especial, e ele sorria abertamente. Rosalie
parecia divertir-se também, enquanto Jasper mais observava do que
ajudava.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Panquecas? – Esme se aproximou, curiosa. – Mas isso é café da


manhã!
— Eu avisei!! – Rosalie jogou algo em Edward, fazendo com que o ar
ficasse turvo de pó. Eu observava a tudo atônita, olhos vidrados. –
Agora vai cozinhar o jantar no café da manhã!
— Espera que eu recorde a cronologia da alimentação humana, Rose?
– Ele tentou defender-se.
— Deveria ter me deixado intervir!! – Ela implicou. – Agora é tarde,
vamos às panquecas.
— Esperem. – Eu decidi deixar de ser mera expectadora e entrei
cozinha adentro, um tanto chocada com toda a informação que
estava me sendo oferecida. – Vocês estão cozinhando?
— Edward está. – Rosalie caiu na risada, acompanhada de Jasper. Até
Alice riu. – Mas ele não parece muito bom com isso...
— Por quê? Vocês não comem!!
— Você é muito devagar, irmãzinha. – Emmett bradou da sala, sem
deixar a televisão. – Até eu já sei que Edward está cozinhando para
você! Comida humana para satisfazer sua vontade.
Meus olhos arregalados encararam Edward, que estava na beira do
fogão, com algo de cheiro estupidamente nauseante sendo cozido
pelo fogo. Ele sorria, eu pude ver; um sorriso completamente
delicioso. Ele estava mesmo se divertindo. Como eu poderia
repreendê-lo? Eu não queria comer comida humana, ou eu resistia à
tentação de querer, mas ele estava definitivamente tendo um bom
momento com aquilo. A vontade de desmembrá-lo e queimá-lo
passou, dando lugar à vontade de fazê-lo pagar por aquilo de uma
forma menos destrutiva.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

Rosalie tomou de suas mãos a frigideira, rosnando. Jasper caiu na


risada, e eu querendo entender o que se passava. Edward deu de
ombros, e caminhou até mim, ainda sorrindo. Segurou-me pela
cintura, elevando-me o suficiente para me fazer sentar na bancada
escura de pedra.
— Você não vai desistir, eh? – Eu disse, enquanto ele se posicionava
por entre minhas pernas, ajeitando meu cabelo com as mãos.
— Nem um pouco. – Ele disse, observando o que Rosalie fazia por
cima de meu ombro.
— E o que é isso? – Eu apontei o pó branco que estava em seus
cabelos, por sua face, em suas roupas.
— Farinha. – Ele riu mais, enquanto Alice e Jasper mal se aguentavam
de pé. – Ingrediente para a comida... os humanos não são simples em
sua alimentação, eles precisam misturar ingredientes, selecionar
nutrientes... somos muito mais simples! Basta uma boa dose de
sangue fresco e...
— Mas os humanos não matam para comer, matam? – Perguntei.
— Sim, matam. – Carlisle ponderou. – Os humanos se alimentam de
carne, não de sangue... eles comem carne de animais. O que eles não
fazem é comer outros humanos. Mas, considerando a dieta normal
de um humano adulto, ela é tão cruel para os animais quanto a nossa.
— Isso me faz sentir melhor. – Jasper riu.
— Pronto, Edward. – Rosalie se aproximou com um prato nas mãos, e
vários discos flexíveis, fofos e com cheiro doce. Franzi o nariz, não
muito afeita àquele aroma. – Quer geléia? Melado?
— O que temos?
— Manteiga. – Esme sugeriu. – Acredito que manteiga seja uma ótima
idéia.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

Alice se aproximou com algo nas mãos, e Edward pegou um


instrumento metálico. Passou a tal manteiga nas panquecas e voltou
para mim, retomando a posição anterior. O cheiro havia melhorado
bastante... não estava mais tão doce, mas era incoerente com tudo
que eu conhecia. Era como se aquele fosse realmente um novo cheiro
para minha lista. Edward tinha algo em suas mãos.
— Abra a boca. – Ele disse, sem muita hesitação. Os presentes
estavam todos muito ansiosos, como se algo fantástico fosse
acontecer. Eu, no entanto, hesitei. Olhei para o pedaço de alimento
em suas mãos, um creme amarelado escorrendo pela massa fofa e
aromatizada da panqueca, e hesitei. – Vamos Bea... seja boazinha,
abra a boca.
Fechei os olhos e obedeci Edward. Tentei parar de respirar, mas meu
coração estava acelerado. Era mais difícil brincar de não respirar
quando eu estava normal, não alterada daquela forma. Boca aberta,
senti o pedaço de panqueca ser depositado em minha língua. Era
quente! Muito mais quente do que qualquer experiência; só era
menos quente do que o sol.
— Agora feche. – Ele riu, e ouvi todos rirem. – Você precisa mastigar,
Bea...
— Maxtigar? – Falei, boca cheia da massa com manteiga.
— Sim, mova seu maxilar para cima e para baixo... movimente-o.
Você viu os humanos fazendo isso, imite-os. Pressione a massa
contra os dentes até dissolvê-la.

Bastante pedagógico, era meu Edward. Ele talvez não precisasse me


ensinar cada movimento da alimentação, mas ele estava mesmo
tendo prazer naquilo. Eu mastiguei o alimento, sem abrir os olhos,
deixando a massa amolecida passear por minha língua, saboreando

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

como fiz com o Martini. Demorei mais do que deveria para engolir,
porque minha garganta não se abriu corretamente para aquilo. Foi
difícil, como se impossível empurrar aquela pasta uniforme para
dentro do meu corpo. Mas eu consegui, e o alimento desceu por
minha garganta, queimando. Ardendo, como fogo. Respirei
lentamente... esperei a sensação passar, e abri meus olhos.

Edward me olhava apreensivo, mas deliciado. Ele certamente sentiu


tudo, como eu havia sentido. A conveniente máscara que o afastava
de meus pensamentos quando eu desejava não estava no lugar,
porque minha concentração se prendia a outros pontos importantes.

— Mais? – Ele me ofereceu o prato com o talher, e eu segurei


imediatamente. Cortei mais pedaços de massa e coloquei na boca,
mastigando com mais facilidade. Em poucos minutos, eu havia
comido todo o prato de panquecas, com a plateia ansiosa por minha
reação.
— Isso estava bom. – Eu respondi às perguntas não feitas. Percebi
alívio nos Cullen, e uma expressão de êxtase em Carlisle. O show de
horrores estava mais terrível ainda. Agora a híbrida se alimentava de
sangue e comida humana. Talvez eles estivessem curiosos para saber
de qual eu gostava mais. Se aquela escolha fosse razoável.
— Se você gostou da gororoba de Edward, precisa provar comida de
verdade. – Alice riu, se aproximando. – Você está tão linda, Bea...
— Sim, está. – Foi a vez de Esme concordar. – Existe cor em sua pele,
não existe?
— Sim! – Carlisle considerou. – Como se ela estivesse... oh, essa
humanidade é tão imprevisível!

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

Eu não os entendia naquele instante, mas sabia que logo


compreenderia. Eu já havia desistido de ver algum sentido no que os
Cullen falavam, e aceitava de bom grado as metáforas e os
comentários implícitos. Eles me confundiam, mas eu podia jurar que
também os confundia.
— Vou cozinhar para você todos os dias. – Edward empolgou-se,
como que ignorando os comentários dos pais. Como se ele já
soubesse daquilo.
— Não preciso comer todos os dias...
— Humanos comem várias vezes ao dia!
— Não sou humana, Edward Cullen! – Protestei, descendo da
bancada. Eu não queria ser humana, e pretendia que ele entendesse
aquilo. Eu era parte humana, e aquela parte era suficiente. Eu estava
feliz como era, mas antes me transformasse em uma vampira
completa do que em uma humana. Novamente, aquele pensamento o
deixou desconfortável, e ele cerrou os punhos em represália. – Eu
nem sei como deveria comer comida humana... eu tenho sede, então
preciso caçar com vocês. E comida humana?
— A sensação é a mesma. – Carlisle ponderou, mas eu imaginava que
todos eles sabiam a sensação. Menos eu, porque eu não me lembrava
de ter sido uma humana, um dia. – Você sente uma ânsia... uma
queimação interior... é o que os humanos chamam de fome. É algo
simples... se o que você ingere é líquido, você tem sede, como nós. Se
o que você ingere é sólido, você tem fome, como os humanos.
— Então eles também têm sede? – Considerei, lembrando-me do
Martini.
— Sim, mas é uma sede diferente. – Jasper considerou. – Bem, eu
acredito que você precisa tentar comer a comida humana, quando
sentir sede. E ver o que acontece... ver se a comida satisfaz você.

226
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

Eu não quero, pensei imediatamente. Eu não desejava trocar a minha


sede pela comida humana. Por mais deliciosa que tenha sido a
experiência com as panquecas de Edward, e por mais tentadora que
tenha sido a proposta oferecida – eu adoraria que ele cozinhasse para
mim todo dia; ainda mais que ele me alimentasse, eu não queria
trocar uma experiência por outra. Eu não queria deixar de ser
vampira, em sua essência. Eu nunca desejei matar humanos, nunca
desejei ceifar-lhes a vida para alimentar-me. Mas os Cullen me
ensinaram uma forma mais aprazível de alimentação; uma forma até
divertida. Eu também não me sentia satisfeita em matar animais,
mas considerei que, se os Cullen o faziam, era porque estava
autorizado. Aquela conversa na cozinha ainda fora mais
esclarecedora; os humanos também matavam para se alimentar.
Então, eu estaria perdoada pelo derramamento de sangue alheio.
Daquela forma, era inaceitável que eu trocasse as minhas
necessidades vampiras pelas humanas.

Edward colocou fim à festa na cozinha dos Cullen quando decidiu


tomar o prato vazio das minhas mãos e lavar a louça. Esme não
deixou o filho realizar aquela tarefa, empurrando-o para o meu lado.
Eu sabia que ele estava ligeiramente irritado com o meu
comportamento, porque ele provavelmente não compreendia as
minhas razões. Talvez eu mesma não compreendesse as minhas
razões, mas mesmo assim elas eram as convicções que eu tinha.
Algumas convicções eram exclusivamente minhas, e a grande
maioria eu tinha adquirido com os Cullen. Com Edward. Ele deveria
se sentir feliz em ter sido decisivo em tantas coisas importantes em
minha existência. Uma das minhas mais importantes decisões fora

227
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

ele próprio. Decidir ficar com ele, estar ao seu lado, não importasse
nada. Ele era tudo que eu pedi para acontecer, e tê-lo materializado
em minha frente sem qualquer restrição era quase como se eu
vivesse um sonho. Mas não, eu não abriria mão de ser plenamente
uma vampira, nem das caçadas com ele. Apesar de ter aceitado todas
aquelas experiências humanas.

CAPÍTULO 17 – EUROPA
*tema: Il Divo‖s Everytime I Look at You*

***** Enquanto isso, no covil *****

Richard encontrou-se com Rudolph no grande salão. O ancião chefe


dos híbridos saboreava o sangue morno em uma taça de metal.
— Rudolph. – Richard fez uma reverência. – Tenho notícias.
Ferdinand está pronto.
— Totalmente maduro? – Rudolph elevou o olhar.
— Sim, totalmente na fase adulta.
— Finalmente. – Rudolph levantou-se, terminando de beber todo o
sangue. – Pensei que esse dia nunca iria chegar... agora só
precisamos encontrar Beatrice.
— Você não a deveria tê-la deixado ir. – Richard contestou. – Ela era
importante demais...
— Ela é importante, meu caro Richard. E como eu poderia prendê-la
aqui? De que valeria termos empenhado tanto esforço para lhe
tomar as memórias, se ela depois acabaria desconfiando de tudo por
causa de um desejo tolo de conhecer os humanos? Beatrice é muito
inteligente, não é à toa que tem a minha linhagem.

228
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Mas você acha que pode encontrá-la agora? E se ela foi muito
longe?
— Posso rastreá-la, você sabe. – Rudolph considerou. – Vai levar
algum tempo, mas vou rastreá-la. Afinal, em Beatrice e Ferdinand
está a esperança da nossa geração. Eles são os filhos mais fortes dos
híbridos... precisamos de décadas para conseguir gerar Ferdinand, e
a união dos dois manterá nossa linhagem no poder.

— Espere-me aqui. – Eu disse a Edward, em nosso quarto. Nosso


quarto... o pronome possessivo sempre em primeira pessoa, mesmo
que no plural. Aliás, o plural era mesmo mais divertido do que o
singular. Era outra noite de inverno, mas estava bem menos frio.
Afinal, a primavera já tinha chegado. Logo faríamos nossa viagem à
Europa, como planejado. – Eu já volto.
— Onde pensa que vai? – Ele me segurou pelos braços e me puxou de
volta para a cama.
— Edward Cullen... – Como se ele não soubesse o que eu queria. – Eu
já volto. Não ouse me seguir. Tenho algo a fazer.

Depois da experiência humana da alimentação, tudo estava muito


mais simples em relação àquilo mas eu e Edward vivíamos em
conflito. Não desejava provar álcool novamente, mas eu passei a me
alimentar de ambas as formas. Eu continuei caçando com Edward,
esporadicamente. Algumas vezes, ele praticamente me proibia de ir
com ele. Eu protestava, mas ele pedia com tanta ênfase que eu não
conseguia dizer-lhe não. Acabava sucumbindo à sua vontade, e
quando ele chegava das caçadas, plenamente satisfeito, ele

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

invariavelmente me preparava algo para comer. O aroma dos


alimentos não me incomodava mais tanto, e eu já estava começando
a identificá-los. Como fazia com os animais. Eu tinha o meu
preferido, a baunilha. Tinha que tomar cuidado para não pensar
muito em baunilha, ou Edward só preparava pratos com aquele
sabor. Ele não era mesmo o melhor cozinheiro da casa; quando
Rosalie ou Esme preparavam algo era como se eu estivesse comendo
um pedaço do Paraíso. Elas eram realmente talentosas.

Eu acabava me satisfazendo com a alimentação humana. Mas quando


sentia novamente a sede, eu tinha que argumentar com meu
namorado vampiro e pedir que fosse caçar. Estávamos em um
combate permanente. Ele reclamava por um simples fator: Edward
não desejava ser um vampiro, e definitivamente preferia não
precisar ceifar vidas para se alimentar. Ele deixou-me saber que tudo
que ele mais desejava era voltar a ser humano, poder envelhecer e
morrer. Obviamente eu tive vontade novamente de desmembrá-lo,
queimá-lo e realizar outras manobras cruéis e sádicas, só por ele
pensar em morrer. Edward tinha que viver para sempre, ao meu lado,
enquanto aquilo fosse possível. Enquanto ele me desejasse ao seu
lado. Toda aquela compulsão por uma humanidade perdida o fazia
apostar em mim. Ele queria que eu não desejasse ser vampira
também, e que aproveitasse todo o meu potencial humano para
existir plenamente. E eu o frustrava tanto que aquele sentimento me
era muito doloroso.

Vesti a roupa de dormir favorita de Edward – e uma das poucas que


ele conseguia manter intacta – e caminhei até o quarto de Alice e
Jasper. Alice adorava invadir o meu quarto, então estava chegando a

230
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

hora de pagar-lhe com a mesma moeda. Levei a mão à maçaneta e


abri a porta, entrando no quarto escuro sem anunciar-me.
— Beatrice Caldwell! – Jasper rosnou, em protesto. – É educado bater
à porta.
— Como se vocês soubessem disso. – Minha vez de ser sarcástica. –
Alice, posso falar-lhe?
— Agora? – Era certo que a hora era inconveniente. Sim, seria
divertido causar a eles o mesmo constrangimento que causavam a
mim.
— Sim, aproveitando que Edward aceitou não me seguir.
— Tudo bem. Jazz, pare com isso! – Eu sequer vi o que Jasper fazia,
mas preferi manter-me na ignorância. – O que você precisa, Bea?
— A viagem. – Eu disse, sem saber exatamente como abordar o
assunto. – A viagem que faremos agora... eu queria saber se vocês vão
conosco.
— Absolutamente não. – Alice riu, e daquela vez eu a vi bater de leve
nas mãos de Jasper. – Jazz! Bem, Edward nos enviaria aos Volturi, se
decidíssemos ir.
— Eu gostaria que fossem. – Falei, voz baixa, ignorando o que seriam
os Volturi.
— Ahm? – Alice levantou uma sobrancelha.
— Você nos quer presentes na sua viagem particular com Edward? O
que foi que eu perdi? – Jasper ficou curioso.
— Você não perdeu nada, é que eu... estive pensando. Eu...
— Você sempre fala assim quando está constrangida. – Alice
observou.
— Eu estou. É que eu... fico imaginando como seria, passar tanto
tempo sozinha com Edward em qualquer lugar. Talvez seja uma

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

perda de tempo gastar tanto e viajar para tão longe para ficarmos o
tempo todo trancados sob alguma estrutura de concreto.

Os dois Cullen riram, e bastante. Edward já deveria estar ali, nos


ouvindo, eu pensei.
— Bea, você está preocupada em não conseguir deixar o Edward em
paz? – Jasper quase engasgava de tanto rir. – Garanto que essa
preocupação não se aplica a ele!
— Sossegue, Jazz. Bea... isso é normal, quero dizer... vocês estão
juntos há pouco tempo. E você vem se comportando muito bem,
aqui.
— Essa é a questão! – Eu finalmente tinha um argumento. – Aqui,
com todos vocês, eu me sinto tentada a parar... eu me sinto na
obrigação de agir pautada em uma determinada conduta moral.
Mas... nós dois sozinhos?

Mais risos. Até eu acharia graça, imaginando a cena. Realmente,


minha preocupação era tola e esdrúxula. Eu não deveria me
preocupar com aquilo, porque afinal... éramos um casal, e aquela era
nossa viagem particular, como bem observou Alice. Mas se Edward
estava fazendo aquilo para me dar mais experiências humanas, e se
ele pretendia me mostrar a Europa... não seria interessante que eu o
quisesse na cama, comigo, 24 horas por dia, 7 dias por semana. E
éramos capazes de só parar para nos alimentarmos.

— Edward ainda assim não vai gostar nada. – Alice considerou.


— Eu falo com ele. Se vocês aceitarem ir conosco.
— Hmmm. – Alice olhou para Jasper, e ele tinha um sorriso brilhante.
Como eram lindos, todos os Cullen! – É tentadora a proposta, Bea. Faz

232
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

tempo que eu e Jazz não temos... esse tipo de momento. Mas


continuo achando que...
— Não se preocupe, Alice. Será divertido... vou gostar de ter vocês
por perto.

Definitivamente, Edward detestaria aquela idéia. Ele vinha planejando


a viagem à Europa com uma meticulosidade ímpar. Eu não tinha
conhecimento de seus planos, apenas o lugar para onde iríamos e a
data da viagem. Pegaríamos um avião no primeiro dia das férias, em
dois dias, em Seattle. O resto era mantido em segredo por ele e por
Esme, que também colaborava nos preparativos. Era péssimo que
Edward fosse o único naquela casa capaz de manter segredos...
alguns deles, pelo menos. A viagem era algo que ele vinha desejando
desde a idéia no refeitório da escola, e em todas as imagens que ele
pintava dos momentos que passaríamos juntos, estávamos sempre
sozinhos.

Mas eu não estava preparada para aquilo tudo. Talvez eu ansiasse


estar sozinha com ele antes, quando estávamos ainda nos
explorando, nos conhecendo, e eu precisava de muito tempo para
agir. Mas naquele momento eu só conseguia pensar na total falta de
controle. Eu perdia a noção integral de todo senso e razão que
controlavam meu cérebro quando na presença de Edward. Era como
se eu tivesse um botão, e aquele botão se desligasse
automaticamente quando ele me tomava nos braços e me beijava.
Como eu seria capaz de resistir a ele e dizer “hoje vamos conhecer
pontos turísticos”? Levar os Cullen comigo era a idéia mais aprazível
no momento, e algo que eu vinha ruminando por dias. Sempre que
Edward estava presente eu precisava esconder a idéia no fundo

233
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

mágico do meu cérebro; o local inacessível para Edward. Só quando


eu tomava o meu banho diário estava livre para pensar naquilo. Isso
porque Edward ainda não sabia que ele podia tomar banho comigo.

Voltei para o quarto como se nada tivesse acontecido, um humor


razoavelmente diferente. Edward não era tolo, e muito menos surdo.
Ele estava sentado na cama, olhos concentrados na leitura de um
romance de época.
— Shakespeare? – Eu disse, me aproximando. – Não é trágico demais?
— Gosto de tragédias. – Ele fechou o livro e me encarou. – Vai tentar
esconder para sempre o que foi fazer ou vai preferir me contar com
suas próprias palavras?
— Eu... – E lá estava eu novamente, constrangida e sem perceber que
deixava Edward invadir-me novamente. O local secreto sempre
falhava... e parecia mesmo conveniente. – Eu sei que você vai ficar
chateado.
— Vou mesmo. – Ele disse, encarando-me. – Vou ficar chateado por
você pensar que não pode confiar em mim. Acha mesmo que eu a
impediria de convidar meus irmãos para a viagem?
— Sim. – Falei, cobrindo a face com as mãos. – Sou terrível, não?
Desculpe Edward é que...
— Shhh. – Ele tirou minhas mãos de onde estavam e cobriu meus
lábios com o dedo indicador direito. – Você é terrível. Mas eu te amo
tanto que isso nem importa. – O dedo deu lugar aos lábios, e Edward
me beijou por um longo tempo. Eu já ia perdendo o fôlego
novamente quando ele decidiu continuar a conversa. – Eu nunca te
criticaria por querer convidar meus irmãos. Posso dizer que estou
um tanto frustrado... afinal, eu pretendia ter você com exclusividade
total nessa viagem. Mas você está certa quanto à possibilidade de

234
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

passarmos o tempo todo trancados em um lugar qualquer e não


aproveitarmos a viagem. Essa viagem é para você, Bea... você deve
curti-la; as experiências são para você. Já fui diversas vezes à Europa,
já conheço todo o mundo. Eu quero que você tenha agora todas essas
memórias, que viva todos esses momentos. Se os Cullen vão estar em
bando, que seja.

Oras, então era mais fácil do que eu pensava. Edward me beijou


novamente, e empurrou-me contra os cobertores. Sempre
mantínhamos os cobertores, eles eram deliciosamente macios.
Definitivamente, estávamos ficando melhores naquilo a cada dia.
Seja como fosse a Europa, era um risco muito grande ficarmos
completamente sozinhos.
— Edward... – eu disse, entre uma respiração e outra. Pretendia pedir
a ele que não destruísse aquela roupa de dormir também, ou Alice
logo teria que me levar para fazer compras. Ele começou a rir,
involuntariamente. Seu corpo tremia sobre o meu, com suas risadas.
– O que foi?
— Você é mesmo terrível. – Ele me beijou o pescoço, repetidas vezes,
mas ainda ria. – Vamos, livre-se logo da sua roupa favorita, ou eu
posso não respeitá-la por muito tempo.

Eu estava apavorada em ter que enfrentar o avião mais uma vez.


Mesmo com tanto tempo vivendo entre os humanos – os meses
passavam por mim com certa urgência, eu ainda não tinha me
acostumado com detalhes simples. Iríamos à Europa, todos os Cullen
menos o casal principal, Carlisle e Esme. Os ―pais‖ ficariam em casa,

235
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

porque Carlisle foi enfático em não poder deixar o seu trabalho. E, de


qualquer forma, seria bom ter a casa só para eles... eu tinha certeza
que eles aproveitariam. Rosalie e Emmett, Alice e Jasper, Edward e
eu. Os irmãos Cullen e a intrusa híbrida em viagem para algum lugar
maravilhoso, escolhido por Edward.

Mas o avião me deixou apavorada, era verdade, pela segunda vez. Eu


estava agarrada a Edward, no aeroporto, meus dedos cravados em
sua pele com toda força. Eu imaginei que o machucaria ou me
quebraria novamente, porque cheguei a sentir dor. Eu sentia um
pequeno mal estar, porque na noite anterior eles não haviam me
deixado caçar. Edward não havia deixado. Ele insistiu que eu deveria
deixar o sangue para outro momento, e comer comida humana. Mas
a comida humana não me sustentava adequadamente, e eu precisava
comer com freqüência. Aquilo significava um monte de coisas
desagradáveis, que eu geralmente detestava. Até aprender a usar o
banheiro para outros fins que não o banho eu precisei. Mas meu
vampiro não parecia se incomodar... porque ele adorava a minha
faceta humana muito mais do que qualquer um.

— Bea, você precisa de algo? – Alice disse, vendo-me totalmente


absorta.
— Ela está aterrorizada. – Edward disse, me abraçando com força. –
Como fizeram com ela, na viagem para Boston?
— Eu a arrastei para dentro do avião. – Rosalie soltou uma risada.
Todos olharam para ela com reprovação. – O que pretendiam que eu
fizesse? Deixasse a híbrida para trás porque ela é medrosa?
Edward balançou a cabeça e se sentou comigo, para aguardar nosso
voo. Ele gostava de se sentar porque naquela posição podíamos ficar

236
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

mais próximos; havia mais contato corporal. Ele me fez recostar em


seu peito e acariciou meus cabelos até que eu começasse a respirar
bem tranquilamente. Meu coração batia mais devagar quando senti
seus lábios tocarem minha testa. Fechei os olhos e deixei que meus
pensamentos dissessem a ele que eu me sentia muito melhor.
— Quanto tempo? – Perguntei, sonolenta. Era noite, os Cullen
definitivamente tinham preferido sair à noite para viajar.
— Muitas horas, com escala em Nova Iorque. – Edward me apertou
em seus braços. – Fique tranquila, Bea... eu estou aqui.

Sim, ele estava. E aquilo era conforto suficiente para nenhum medo
resistir dentro de mim. Sim, ele estava ali, ao meu lado, comigo, tão
meu. Estávamos prontos para nossa viagem, a que ele idealizou
tanto. E ela seria perfeita, nenhum medo tolo me tiraria a
concentração. O avião podia ser assustador, mas Edward estava ali e
era só aquilo que importava.

A viagem foi mesmo longa, e eu pensei que os Cullen não fossem


suportar tantas horas trancados em um avião, em meio à tentação
dos humanos. Eu sentia o sangue deles muito mais aromatizado do
que antes, por causa da minha dieta forçada. Eu sentia sede, e
Edward insistia em me alimentar com coisas coloridas e perfumadas.
Era um martírio suportar a agonia que o cheiro humano trazia. Mas
eles pareciam encarar a provação com bom humor. Talvez já
estivessem acostumados àquilo, porque eu tinha certeza que os
Cullen viajavam muito. E o avião parecia ser o meio de transporte
recomendado... era rápido.

237
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

Durante o voo, a sede piorou. Significativamente. Edward me olhou


nos olhos e não ficou satisfeito com o que viu. Obviamente, eu tinha
sede e meu organismo pedia nutrientes. Ele se levantou, caminhou
até o meio do avião, e retornou instantes depois. Não demorou para
que uma aeromoça aparecesse com comida para mim. Comida
humana, claro. O cheiro de sua pele ao me servir parecia muito mais
apetitoso do que qualquer alimento que estivesse ali, mas eu não
poderia bebê-la, então. Edward abriu as embalagens para mim,
sempre sério e sem muitas palavras.
— Eu disse que você estava se sentindo mal... – ele explicava,
enquanto preparava tudo para que eu comesse. – e ela entendeu.
Pedi que servisse carne bem mal passada... você pode deixá-la
dissolver na boca, o sabor do sangue deve estar presente com
intensidade.
Ele disse tudo aquilo muito tranquilamente, quase sussurrando em
meus ouvidos. Calmamente, ele pegou o talher, cortou um pedaço da
carne que fora servida e levou até minha boca. Aceitei de bom grado,
obedecendo-lhe mais uma vez. Era verdade, o sabor era intenso.
Havia muita coisa misturada ao sangue, mas ainda assim era sangue.
Deixei a carne dissolver em minha boca, mastigando bem devagar,
como Edward ensinou. Ele pareceu deliciar-se com a cena, como se
ele mesmo estivesse se alimentando.
— Péssima hora para brincar de cientista. – Eu disse, aceitando outro
pedaço de carne. – Se eu tiver um ataque aqui no avião...
— Você não vai. – Ele beijou meu nariz. – O alimento humano te
satisfaz, Bea. Vai ficar tudo bem.
Ele tinha razão novamente. Mas não era o que eu queria, eu queria
sangue. Edward me serviu a comida na boca, até que ela acabasse. Ele
era tão meticuloso... Edward era perfeito de muitas maneiras. O

238
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

termo perfeição não devia lhe fazer jus. Ele tinha uma aura ao seu
redor que lhe permitia estar sempre além da perfeição.

Quando o avião finalmente pousou em nosso destino, eu estava


adormecida em seus braços. Ele fingia dormir, para poder misturar-
se mais facilmente. Mas eu sentia, na minha inconsciência
consciente, que ele me acariciava o braço, os cabelos, o corpo inteiro,
enquanto eu dormia. Ele era meu alento; os sonhos não me
incomodavam ao seu lado. Mas era o final da viagem, e os Cullen
estavam ansiosos por aquilo. Eu também. O medo havia sido
superado, mas o avião não podia ser considerado meu melhor amigo.
Apesar da viagem ter transcorrido de forma natural e esperada, eu
ainda tinha minhas restrições quanto àquele enorme pedaço de
metal com asas.

— Onde estamos? – Eu tinha que perguntar, porque eu sabia que o


termo Europa era amplo demais.
— Estamos em Oslo, na Noruega. – Alice disse, sóbria. Os Cullen
estavam todos sérios e comedidos, desde que descemos do avião. Era
dia, e o dia na primavera podia significar sol. A exposição não lhes
interessava. – Vamos pegar um transporte até Grong, agora.
— Grong? – Eu quis rir, porque o nome me soava como uma
onomatopeia.
— Uma das menores cidades da Noruega, Bea. – Jasper explicou. –
Um tanto exótica... reservamos um hotel, lá.
— Cidades geladas, menos exposição, mais privacidade... – Edward
sussurrou. – E sim, nós reservamos o hotel todo. Mas não se
preocupe, é um lugar pequeno. Não queremos hóspedes
intrometidos nos bisbilhotando.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

Noruega, Grong. Aquela deveria ser a primeira parada, eu imaginava.


Talvez viajássemos mais, já que Edward havia me prometido lugares
que eu nem imaginava. Lugares, no plural. Não tivemos a chance de
conhecer Oslo, porque no aeroporto mesmo os Cullen receberam os
carros que haviam alugado, para o caminho até Grong. Eu não devia
me surpreender por eles terem decidido alugar carros; eu duvidava
que aquela família realmente usasse transportes muito públicos,
como eu via os humanos fazerem. Ônibus me parecia fora de
cogitação, então. E também não devia me surpreender por serem
carros impressionantemente lindos, velozes. Eles reservaram três
carros, um para cada casal. Alice garantiu que seria muito melhor se
pudéssemos ter cada um o seu carro, para eventuais necessidades.
Aquela viagem já estava soando como o evento que os humanos
tinham após casarem-se!

Casamento, aquilo então surgiu em meus pensamentos de forma


subliminar. Eu tive meu primeiro contato com a idéia de casamento
em um filme no covil, porque o mocinho pediu a mão da donzela em
casamento. Eu tive que perguntar a Felícia por que ele desejava
somente a sua mão, e não ela por completo. Foi então a explicação
que eu tive sobre o relacionamento entre macho e fêmea. Eles
costumeiramente se casavam antes de procriar. E então procriavam.
Aquilo me parecia tão animalesco quanto era. Casar para procriar... e
se eu não quisesse me casar? E se eu não quisesse procriar? Eu não
sabia que casamento e procriação estavam necessariamente ligados
ao sexo. Pior, que estavam necessariamente ligados ao amor. Felícia
não deixou claro que o amor conectava o macho e a fêmea, por isso
eles se casavam. Nos filmes dos humanos eu pude entender que

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

sentido era dado ao casamento, e ele finalmente pareceu


compreensível para mim.

Mas eu havia entendido. Humanos casam-se, e procriam. Híbridos


são híbridos, e não humanos.

— De onde saiu isso? – Edward perguntou, enquanto dirigia.


— A viagem me lembra uma lua de mel. – Eu comentei, rindo.
— Sério? – Ele perguntou, cenho franzido.
— Sim... todos parecem definitivamente propensos ao acasalamento.
– Sarcasmo com ironia; eu estava começando a me aprimorar.
Edward não se conteve e me acompanhou no riso. Levantei o olhar e
observei a estrada, maravilhada.
— Isso é um lago, Beatrice. – Ele me apontou a mancha azul no
horizonte. – Vamos ficar próximos a ele, você vai gostar. Mas...
acasalamento?
— Foi uma brincadeira. Estou treinando para implicar com Emmett.
— Ah, claro. Bem, eu não posso discordar... meus irmãos estão
bastante afoitos, é verdade. E eu... você sabe como me sinto, ou não
teria inventado a história de trazer a família Cullen na bagagem.
— Desculpe-me. – Baixei o olhar, recostando-me novamente em seu
ombro.
— Não se desculpe, Bea. Não fez nada errado, não seja tola.
— O que faremos hoje? – Perguntei, já que o dia estava alto n céu.
Edward nada respondeu. O seu silêncio deveria ser bastante
significativo. Também o seu sorriso de canto de boca. A pressão de
seus dedos nos meus. Todos os sinais de seu corpo respondiam à
minha pergunta, menos seus lábios. – Você deve mesmo acreditar
que posso ler sua mente...

241
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Não precisa de muito esforço para saber o que pretendo, Bea. Pelo
menos hoje.

Senti a eletricidade me percorrer a espinha, e fiquei imóvel. Ela tinha


que passar... a sensação elétrica precisava desaparecer, porque eu
precisava terminar aquela viagem. Edward não me olhava, ele
simplesmente dirigia e me dava aquelas pistas indecentes sobre suas
idéias para quando chegássemos ao hotel. Eu imaginava o que
deveria estar acontecendo nos carros dos outros Cullen. Eu podia
supor que nem mesmo Alice estaria se comportando.

Grong era uma cidade fria, era fato. Estávamos no verão, e as


temperaturas só pareciam mais amenas. Se eu sentisse frio, estaria
em apuros. O hotel reservado pelos Cullen ficava em um local
isolado, apesar de que tudo na cidade parecia isolado. Eu vi algumas
pessoas nas ruas quando chegamos, mas a cidade era praticamente
vazia. Pequena, como Jasper descrevera. Havia montanhas de um
lado, e o lago de outro. A imensidão azul que Edward me mostrara na
estrada, transformando o horizonte em uma profunda linha sem fim.
As construções eram antigas, e remontavam à minha época, eu podia
ter certeza. Familiar, então.

Um humano nos recebeu, e ajudou a levar as malas para dentro do


hotel. Não precisávamos de ajuda; as malas eram bastante leves em
relação à nossa força. Mas sempre precisávamos fingir sermos
humanos, e aquilo presumia não ter nenhum super poder. O humano
tinha a sua função, então. Fomos conduzidos por corredores não
muito longos, até nossos quartos. Que eram próximos demais,
pensei. Cada um ficava em um andar diferente. Ainda assim, eu me

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

via sendo indiscreta. Por que fazíamos tantos ruídos, eu nunca


entenderia. Edward riu das minhas idéias, e eu quis machucá-lo.
Sempre que ele fazia aquilo comigo eu tinha vontade de ser forte o
suficiente para quebrar-lhe um osso. Se aquilo fosse possível, já que
seus ossos não se quebravam facilmente.

O quarto era totalmente diferente do que estava acostumada. Quarto


de humano, pensei. Muito mais mobiliado do que o quarto de
Edward, com uma televisão, uma geladeira de tamanho reduzido,
telefones e outros apetrechos um tanto inúteis para vampiros. Abri a
porta que dava para uma pequena sacada, e dela se podia ver o lago.
A paisagem era indescritível. Montanhas geladas – mesmo na
primavera – e árvores que recobriam as partes menos frias. A água
parecia convidar a um mergulho, mas aquilo não seria possível no
frio. Se aquele lugar um dia fosse quente, talvez a água pudesse ser
habitável para os humanos. O céu estava encoberto por nuvens finas,
e a luz do sol podia-se ver deslizar por alguns espaços deixados.
Estávamos no alto; eu pude ver muito solo abaixo de nós. Demorei-
me admirando a imagem frente meus olhos, certa de que poucas
coisas poderiam ser tão lindas.

Até voltar meus olhos para o quarto novamente e deixá-los pousar


na figura serena de Edward.

— Um dólar por seus pensamentos. – Ele implicou.


— Estou chocada. A beleza é estonteante.
Edward caminhou em minha direção, e se pôs a observar a natureza,
comigo.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Amanhã podemos ir ali – ele apontou na direção das montanhas


geladas – e eu te ensino a esquiar. – Eu não sabia do que se tratava,
mas se fora planejado por Edward eu tinha certeza que me agradaria.
– Você está com fome?
— Definitivamente. – Eu disse, já sabendo que caçadas não
aconteceriam naquele dia. E eu não queria argumentar com Edward,
porque eu queria que aquela viagem fosse exatamente como ele
desejava; eu queria que ele estivesse plenamente satisfeito. Mesmo
com a sua insistência de que a viagem era minha. – Posso comer, por
aqui?
— Claro. Achou que eu a deixaria morrer de fome? – Ele pegou o
telefone e discou alguns números.
— Eu vou caçar quando vocês forem. – Sussurrei aquelas palavras
para ele, enquanto ele falava algo com alguém.
— Fiz um pedido. – Ele disse, praticamente me ignorando. Que ele me
ignorasse, então. Pelo menos por aquele momento. – Logo trarão
comida... para dois, então se prepare.
— Você definitivamente preferia ter um humano ao seu lado. –
Emburrei, jogando-me na cama. Comportamento típico. Edward
jogou-se ao meu lado, tirando uma mecha de cabelo da frente de
meus olhos.
— Beatrice, não seja tola! – Ele franziu o cenho, e seu olhar era sério.
– Eu não queria ter nada além de você ao meu lado. Você já se olhou
no espelho? – E então ele surgia com conversas totalmente fora de
contexto.
— Claro que não, por que me olharia no espelho?
— Seus olhos são verdes. – Ele sorriu, e me apontou a direção do
espelho. Atônita, ergui-me um pouco para visualizar algo ainda mais
chocante do que toda a paisagem. Meus olhos, uma mistura de

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

caramelo com verde, um tom vibrante e cheio de vida. Olhei para


Edward, e então para o espelho novamente. Meus olhos eram
escurecidos, sempre. Um marrom sem cor, como tudo no covil.
Desde que eu chegara à casa dos Cullen, ele clareou, tornando-se um
marrom claro e transparente. Não era opaco como o dos Cullen, era
quase translúcido. Sem graça, era como eu os via. Mas naquele
instante, eu via olhos completamente coloridos. Como os olhos dos
humanos. – Provavelmente, a dieta com pouco sangue nesses dias fez
com que seus olhos adquirissem sua cor normal.
— Cor normal? – Levantei-me, aproximando-me do espelho.
— Seus olhos deviam ser verdes quando você era humana...
— Cor normal, Edward Cullen?? – Olhei para ele, um tanto
apavorada. – Você me disse que eu não mudaria nada! Veja isso... eu
pareço não estar mudando? Meus olhos têm cor! Eu cada dia pareço
mais um humano!!

Surto – e eu estava começando a me familiarizar com as gírias e


expressões do vocabulário moderno. Beatrice Caldwell entrou em
colapso por causa da possibilidade remota de se tornar mais humana
do que vampiro. Aquela era eu, patética como sempre, a discursar
sobre o meu não desejo de me tornar humana. Como se fosse
possível abdicar da minha imortalidade e me tornar um humano.
Como se fosse possível me transformar em algo frágil e delicado
como uma mulher. Como se fosse possível ser algo que eu era, mas
que nunca poderia ser completamente. O pavor de me tornar
completamente humana não se justificaria até a minha saída do covil.
Eu tinha tanta curiosidade em relação a eles que eu poderia
facilmente desejar tornar-me uma deles. Mas Edward me fez desejar

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

não mudar nada, nunca. Ele me fez desejar estar como sempre,
imortal, para poder permanecer ao seu lado para sempre.

— Bea, acalme-se... – Ele levantou-se e me abraçou. Meu corpo todo


tremia. – Isso é só uma característica normal... se eu me alimentasse
de sangue humano sabe que cor meus olhos teriam? – Eu olhei para
ele, esperando a resposta. – Eles seriam vermelhos, Bea. Como eu me
alimento de animais, eles são assim, amarelos. É como se o vermelho
se diluísse. É só uma cor, acontece com todos... você não está se
tornando um humano, isso é geneticamente impossível.

A apreensão logo deu lugar ao constrangimento. Eu havia agido


como uma tola mais uma vez. Edward costumava dizer que ele perdia
o controle facilmente, mas a descontrolada da família acabava
sempre sendo eu mesma. Antes que eu pudesse me desculpar,
Edward me deixou para ir até a porta. Um humano trouxe a comida
que ele havia pedido, mas daquela vez ele não parecia tão excitado
com a ideia. Voltou-se para mim empurrando um carrinho com
alguns vasilhames cobertos por metais, e imediatamente pegou o
controle remoto da televisão. Eu o havia magoado, claro. Abri os
vasilhames e observei a carne, mal passada como no avião.
Realmente, um sabor agradável. Os humanos também comiam
sangue, pensei imediatamente.

— Desculpe-me, Edward. – Eu disse, sem conseguir tocar nos


alimentos. – Eu não quis fazer disso algo muito grande.
— Está tudo bem. Você está certa, eu exagero. De certa forma, tenho
certo fascínio pela sua humanidade... e quando vi seus olhos fiquei

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

muito empolgado. Mas se você quer caçar, vamos caçar. Aliás, se


quiser deixar a comida e sair comigo agora...
Sorri, e sentei-me à frente dos vasilhames. Segurei o garfo entre os
dedos e preparei-me para comer. Os alimentos não eram
desagradáveis, era apenas um pavor ridículo de que eu pudesse me
humanizar. Como se aquilo fosse tolerável. Não deixaria a viagem se
estragar por aquilo. Depois de comer, abri a janela do quarto,
deixando o máximo de luz – e vento gelado – penetrar no ambiente.
Edward definitivamente não entendeu, mas ele não estava prestando
muita atenção em mim.
— Edward. – Eu sentei-me ao seu lado, fazendo-o olhar para mim. –
Edward Cullen... pode ser que eu perca esse charme logo... vai deixar
meus olhos verdes por um programa de televisão? – Ele então me
olhou, esperando para ver até onde eu iria. – Eu não pretendo agir
dessa forma novamente. Mesmo que eu me tornasse uma humana, o
importante seria sempre você me querer. Se você me quer humana,
vampira, híbrida, seja como for, eu não me importo em mudar. Se
você gosta de meus olhos verdes, não beberei sangue nunca mais,
somente para que você olhe para eles. Se você gosta do meu corpo
reagindo às experiências, pode me fazer de cobaia diariamente. Seja
como for, só importa que você me ame.

As palavras se atropelaram para sair de minha boca, pois eu


pretendia dizê-las, e não permitir que ele as lesse. Eu precisava falar
em velocidade compatível com meus pensamentos, e aquela tarefa
era árdua. Edward me ouviu, e levou alguns segundos para desligar a
televisão, afastar o controle remoto e tomar-me nos braços em um
beijo urgente.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

De todas as vezes que sempre estivemos juntos, a cada dia eu me


sentia mais completa. Era como se fosse impossível ter mais do que
eu já tinha; como se fosse impossível sentir-me mais completa. E a
cada dia Edward me fazia ver que eu estava errada. Ele tinha planos
para aquele dia – manter-me ali com ele o quanto pudesse. Seus
irmãos pareciam estar no mesmo humor, pois nenhum dos Cullen
invadiu o recinto com comentários e brincadeiras. A cama dos
humanos era muito mais frágil do que o esperado, e foi mais
conveniente que nos acomodássemos em outro lugar. Edward
determinou que a sacada fosse um bom lugar, então. Conveniente
sim era o fato de não haver humanos por perto, e de estarmos muito
distantes do solo. Ninguém poderia nos observar ali, mas eu apostava
que os Cullen poderiam nos ouvir.

O dia seguinte foi totalmente diferente, então. Primeiro porque Alice


e Jasper apareceram logo cedo, acordando-me com o raiar do sol.
Edward não gostava quando eles me acordavam, e sempre se
mostrava bastante aborrecido. Mas eu não me importava, pois
dormir me fazia perder bastante tempo. Era o dia de irmos até o topo
da montanha, como prometera Edward. Rosalie e Emmett não saíram
do quarto, e Alice decidiu que não deveríamos contar com eles nos
primeiros dias. E eu que estava treinando palavras e comentários,
teria que esperar. Principalmente porque o passeio até a mencionada
―estação de esqui‖ me estava empolgando o suficiente para não
pensar nas intromissões do meu irmãozão.

— Seus olhos novos estão lindos, Bea. – Alice me abraçou, e eu tive a


ligeira impressão de que ela já sabia daquele fato. As conversas
mentais entre ela e Edward, as que me irritavam tanto. Não

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

conseguia entender como Jasper não enlouquecia com aquela


comunicação excludente. Fingi que nem prestei atenção a Alice, que
se mostrou um pouco emburrada. Eu já tinha decidido deixar aquela
discussão para trás, mas não queria reanimá-la com argumentos.
Fizemos o trajeto até a montanha no carro alugado por Edward, e
chegamos rapidamente ao destino. Os vampiros dirigiam muito
rapidamente, eu pude notar quando da comparação com carros de
humanos que nos cruzaram. Edward me disse que eles tentavam
disfarçar... mas havia uma discrepância significativa quando
visualizávamos um humano dirigindo. E eles sempre me garantiram
que não gostavam de atrair a atenção... O local escolhido era cheio
de neve, e entendi imediatamente a escolha de casacos e outros
apetrechos para frio. Edward estacionou ao lado de outros carros, e
foi com Jasper até a construção que ficava ao lado. Fiquei com Alice
aguardando, sem saber o que eles pretendiam.

— Você está zangada porque seus olhos mudaram. – Ela constatou.


Era mais óbvio do que eu pensava.
— Já superei isso. O verde é bonito, afinal.
— Ele se magoa facilmente, Bea. – Alice fez um gesto que indicou o
local para onde Edward havia se dirigido. – E ele está tão empolgado
com essa história de você poder realizar tantas experiências
humanas... eu sei que ele é difícil, mas ele realmente te ama.
— Eu sei. – Mais constrangimento. Senti-me detestável pelo simples
fato de que todos percebiam o quão infantil eu estava sendo. – Eu
nunca tive essa intenção. É que... eu tenho certo pavor em imaginar
tornar-me um humano. Ou ser mais humano do que vampiro.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

Alice riu, o suficiente para deixar curiosos os rapazes que estavam


chegando. Edward riu timidamente, sorriso de canto de boca, e
beijou-me os cabelos. Jasper teria que esperar Alice contar-lhe o
motivo pelo qual eu era tão ridícula. Medo de me tornar humana. E
eu que estava tentando esquecer-me daquilo... Antes que eu tivesse a
chance de continuar pensando em tolices, fomos esquiar. Eu não
sabia do que se tratava, até ver os humanos esquiando. Os Cullen
pareciam agitados, o que era óbvio. Eles eram todos apaixonados por
ultrapassar os limites... considerando que aqueles eram limites
humanos. Para os vampiros não havia limites. Atirar-se de uma
montanha gelada sobre duas plataformas não era nada, para um
vampiro. Enquanto para os humanos poderia significar as suas vidas.
Eu não sabia em que me encaixava; eu não sabia se aquela atividade
me seria arriscada. Mas eu sabia que Edward jamais me colocaria em
perigo, então se ele dizia que eu podia fazer, era porque podia.

E foi muito divertido, não pude negar. O vento gelado que batia em
meu corpo, na direção oposta ao movimento físico que ele exercia; a
sensação de liberdade, de estar voando. Eu caí algumas vezes dos
esquis, mas logo aprendi a equilibrar-me e consegui cumprir a tarefa
de descer a montanha. Uma, duas, cinco vezes. Os humanos já
tinham praticamente desistido do esporte, e a luz do dia não parecia
mais tão forte como antes, quando Jasper decidiu encerrar a
brincadeira.
— Devemos nos alimentar. – Ele considerou. – Podemos aproveitar a
floresta gelada logo abaixo...
— Sim, seria ótima ideia. Uma dieta diferente, provavelmente. – Alice
bateu palmas. Edward olhou para mim, sorrindo.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Estou mesmo com sede. – Eu disse, franzindo os lábios. A


alimentação humana não me sustentava como o sangue, então eu
nunca estava saciada por muito tempo. – O que teremos para o
jantar?
— Linces. – Edward respirou fundo, tentando sorver todo o ar
ambiente. – Um banquete.

Os rapazes devolveram os equipamentos de esqui para a estação e


dirigimo-nos para uma trilha próxima à floresta, a fim de caçarmos
algo. Alice disse que Emmett e Rosalie estavam bem, que caçariam
quando decidissem deixar a clausura. Eu imaginava que para os dois
fosse mais difícil... Emmett várias vezes disse que eles eram
barulhentos. Então, como ficar em casa, com toda a família presente,
e seus ouvidos supersensíveis? Por mais pervertido que meu irmão
Emmett parecesse, eu tive a impressão de que ele e Rosalie eram o
casal que menos praticava sexo em casa. Então, aquele isolamento só
poderia significar uma coisa para eles. E que eles aproveitassem bem
o tempo que tinham.

O tempo em Grong não seria longo. Edward previu nossa estada por
quatro dias, aproximadamente. Ele não queria me contar todos os
detalhes, mas confessou alguns fatos que ele não conseguiria me
esconder totalmente. Depois da Noruega, iríamos a outro lugar
supostamente secreto. Ao menos para mim. Entre os Cullen era como
se nunca houvesse um segredo, todos sabiam de tudo. Menos eu. Só
tivemos contato com o casal desgarrado no último dia. Eles
perderam os melhores eventos. O esqui, a pescaria no lago, trilhas
em meio à floresta, um jantar à luz de velas com direito a comida
humana e um participante que efetivamente se alimentaria, sessão

251
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

de cinema no salão principal do hotel... atividades das quais Emmett


e Rosalie não participaram, mas não sei se eles se importaram.

Eu desejava que não precisássemos mais do avião, e Edward estava


realmente tentado a viajar de carro comigo pela Europa inteira. Mas
como estávamos decididos a cumprir alguns prazos, seria preciso
que usássemos o avião. Edward pretendia retornar comigo para casa
antes das férias acabarem, para que pudéssemos curtir a escola,
como ele gostava de dizer. Então, tínhamos prazos a cumprir. Mas os
dias em Grong foram tão dignos de apreciação que eu nem me
importei muito com a idéia de voar. Era como se eu estivesse tão
completa, tão satisfeita, tão insuportavelmente feliz que eu não me
importaria muito.

Mas a felicidade para um monstro como eu poderia ser plena?

— Alice, eu não quero incomodá-la com essa história mais uma vez! –
Edward protestou, dentro do avião. Ele estava sentado em um
assento próximo ao corredor, e Alice exatamente em sua direção, do
outro lado do corredor. Eu dormia, mas a conversa deles fez meu
cérebro consciente mais alerta. Eu não sabia o quanto Edward podia
captar da minha consciência enquanto eu dormia, mas eu esperava
que fosse pouco. – Chega de visões, híbridos, mortes. Eu quero saber,
mas ela não precisa se preocupar com isso.
— Você é muito teimoso, Edward! – Alice reclamou. – Quer esconder
dela que aquela aberração está vindo buscá-la? Como pretende, já
que estamos voltando para casa?
— Você disse que ele não sabe como encontrá-la!

252
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Mas ele vai acabar descobrindo, é a lógica!! Ele vai ter alguma
idéia, e eu vou vê-la, e como pretende que Bea não fique sabendo que
ela corre perigo?
— Ela não corre perigo. – Edward parecia no limite de perder a razão,
mas sua voz ainda era de baixo tom e resignação. – Ela nunca correrá
perigo, eu não permitirei.
— Edward!! – Alice protestou, novamente. – Você é irritante, como
pode...
— Se algo fosse acontecer você teria visto. – Ele pretendeu encerrar a
conversa. – Não pense que eu não estou péssimo com tudo isso,
Alice... eu estou agonizando, mas eu preciso manter uma aparência
de normalidade. Eu não a quero sofrendo por algo ainda incerto.

E sim, ele encerrou a conversa. Por durante toda a viagem até o


segundo lugar secreto, eles não mais se falaram. Não que precisasse,
pois entre Edward e Alice as palavras pareciam sempre
desnecessárias. Mas ela pareceu aborrecida com ele, e ele com ela.
Por minha sorte ele não podia me perceber quando eu estava
dormindo, apenas via a parte inconsciente de meu cérebro; a parte
que sonhava. Se eu não sonhava, para ele eu era um branco total. Ou
preto, eu ainda não sabia que cor ele via quando nada via. Mas eu
tinha certeza que seria branco ou preto, porque todas as outras cores
eram coloridas demais para que significassem o vazio. Nunca vi o
vazio rosa, ou roxo, ou amarelo.

O avião pousou à noite, e eu entendi que os Cullen haviam


determinado que fosse daquela forma. Afinal, eu pude ver o dia bem
mais ensolarado do que na Noruega... e suspeitei que estávamos nos
dirigindo a locais mais quentes. Ainda seria Europa, eu tinha

253
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

certeza... porque a viagem deveria se resumir à Europa. Mas mais


quente, era fato. Como se o calor me importasse... mas o sol fazia os
Cullen um tanto quanto indiscretos para exibições públicas. Apesar
do horário, o aeroporto estava cheio e havia humanos por todos os
lados. Obviamente não éramos os únicos estudantes em idade escolar
de férias. Eu sequer conseguia imaginar como poderíamos viajar tão
facilmente se nossas idades humanas eram jovens... mas eu não
queria saber, era fato. Interessava-me somente realizar alguns atos,
nem sempre compreendê-los.

— Teremos carros à nossa disposição? – Perguntei, enquanto


caminhávamos pelo enorme aeroporto.
— Não, agora não. – Edward me mantinha junto a ele. – Vamos pegar
outro vôo para Cagliari, agora.
— Onde? – Perguntei, como se a resposta dele fosse me fazer
compreender o mapa político da Europa em segundos. – Onde
estamos, afinal? Precisamos de outro vôo?
— Sim, vamos para a Sardenha. – Emmett sussurrou, como se não
pudéssemos falar alto nem mesmo as coisas mais banais. – É uma
ilha, precisamos de privacidade para lidar com todo esse sol.
— Reservando um hotel novamente? – Impliquei.
— Definitivamente.

O nome do lugar escolhido era tão curioso quanto o anterior.


Carbonia, Sardenha. Era na Itália, uma ilha no meio do Mar
Mediterrâneo. Uma ilha antiga, cheia de mistérios e histórias
fantásticas. A aula me era dada por Alice, que parecia visualizar cada
frase que me dizia. Eu teria a chance de conhecer coisas de muito
antes da minha época, então. Apesar de que elas não me fariam tanto

254
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

sentido, porque Felicia tentava sempre nos manter atualizados,


raramente estudando história. Estávamos em Roma, capital da Itália,
e seguiríamos para Carbonia o mais rapidamente possível. Segundo
Alice, pousaríamos em Cagliari, uma cidade grande, e nos
dirigiríamos para o local escolhido, Carbonia, com alguns 30 mil
habitantes. Era muita gente, eu pensei comigo mesma... muito mais
gente do que em Grong. Como os Cullen pretendiam andar pelas
ruas, se o sol brilharia? Talvez eles não pretendessem caminhar
durante o sol... e então trocaríamos noite por dia? Aquilo seria
definitivamente novo, para mim.

Passei toda a viagem de Roma até Cagliari acordada, apesar de ser


noite. Eu estava com o que Alice chamava de ―relógio biológico‖
completamente fora de ordem. A viagem estava me tirando da
rotina, por mais que Edward se esforçasse para evitar isso. E algumas
horas dentro do avião já eram o suficiente para me estressar ao
limite. Muitos limites sendo testados, então. Meu organismo reagia
violentamente. Suor escorria por minhas têmporas, mesmo que não
estivesse tão quente. Meu corpo tremia, e meus olhos não estavam
de cor nenhuma conhecida. A mistura de sangue e alimento humano
os fazia oscilar entre o marrom e o verde escuro. Mas Edward
gostava, então eu nem me importava com aquele ponto. Só uma
coisa me fazia confortar, a presença de Edward. Quando ele me
sentia tensa demais, ele levava seus lábios até os meus, fazendo-me
relaxar imediatamente. Eu queria mesmo que ele me beijasse, mas eu
sabia os riscos que aquilo implicaria. Eu era decididamente aquela
que perdia o controle.

255
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

A Carbonia era bonita. A Sardenha era, na verdade. Desde Cagliari,


todo o caminho até nosso destino era repleto de lindas imagens.
Nenhuma mais linda do que aquela ao meu lado, mas todas lindas.
Não tínhamos três carros daquela vez, porque foi considerado que
não havia necessidade. Se Emmett e Rosalie repetissem o
comportamento exagerado de Grong, teríamos menos necessidade
ainda. Mas eles prometeram comportar-se; garantiram que o desejo
estava sob controle. O meu não. Mas eu parecia mais apta a reprimir
os instintos do que Emmett Cullen.

— Vamos ficar ali. – Edward apontou uma pequena construção,


diferente da de Grong. Foi difícil vê-la, porque ao contrário da
experiência na Noruega, essa construção ficava abaixo da estrada. –
Tem uma praia particular... você vai adorar nadar.
— Nadar? – Considerei, olhando para o céu. O clima propiciaria... o
contato com a água?
— Sim... você não deve se importar se a água estiver fria, afinal... sua
temperatura corporal é bem parecida com a minha. E não se
preocupe, os humanos não vão nos incomodar. Não haverá humanos
nesse ―hotel‖... seremos só nós.

Ah! Só nós... seis. Estaria eu me arrependendo de ter convidado os


Cullen, ou toda aquela beleza natural compensava algumas horas
desprendida do corpo de Edward?
— Tudo bem, meu amor. – Edward riu, e então eu me dei conta de
que estava gritando, para ele. Eu não havia escondido aqueles
pensamentos no meu canto sombrio. – Podemos mandá-los para casa
hoje, se quiser.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

Baixei o olhar, totalmente constrangida. Ele riu mais, e aquilo me fez


desejar machucá-lo mais uma vez. Mas não, eu não queria mandar os
Cullen para casa, porque eu gostava da companhia deles e porque
seria mesmo mais divertido se pudéssemos curtir as maravilhas da
natureza.

CAPÍTULO 18 – VERTIGEM
*tema: David Bryan‖s Hear Our Prayers*

Edward não mentiu quando ele me prometeu lugares que eu jamais


imaginaria existirem. Infelizmente, depois de Carbonia, tivemos que
retornar para casa. Passamos uma semana na ilha italiana,
aproveitando o clima mediterrâneo. Nadar foi extremamente
excitante, principalmente porque eu pude ver toda a vida que habita
sob a água. Além de a vida ser muito mais linda sob o sol, ela também
o era sob a água! Quanto tempo de minha existência eu perdi sob a
terra, em um covil miserável, trabalhando de costureira, lavadeira,
passadeira, para os caçadores. E eles eram monstros, como eu já sabia.
Connor não podia ser o único, e ele foi claro ao afirmar que Rudolph
consumia sangue humano. Deprimente, detestável. Não era ilegal,
como Edward me garantira diversas vezes... mas afinal, de que lei ele
estaria falando?

Estar ali, com minha nova família, nos braços do vampiro que eu
amava e escolhera para mim, aproveitando ao máximo o que a vida
terrestre me proporcionava, era impagável. Eu podia compreender
um novo estado de amnésia, daquela vez voluntária. Eu não queria
lembrar-me de nada do meu passado, eu não queria lembrar que um

257
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

dia fora Beatrice Caldwell. Gostaria de mudar de nome, de me tornar


outra. Eu simplesmente queria tornar-me Cullen.

Caçar naquele lugar foi mais complexo, e todas as vezes precisamos


pegar os carros e nos dirigirmos a outras regiões. Mas foi
pedagógico, também. Conheci outro animal interessante, o porco
selvagem. Ele não me pareceu tão saboroso quanto os ursos, ou
quanto o Lince. Mas toda a diversão e a reação do meu organismo a
tudo me fazia muito sedenta, sempre. Sem contar o controle absurdo
para nunca desejar os humanos. A semana passada em Carbonia
poderia ser considerada uma das melhores de toda a minha
existência, até melhor do que as primeiras que vivi com Edward.

Durante a volta para casa, senti uma vertigem estranha, no avião. Eu


não costumava sentir aquilo, foi novo, inesperado e um tanto
assustador. Era como se o chão e o teto se invertessem, e eu estivesse
flutuando no meio vazio. A sensação foi tão anormal que nem
Edward conseguiu compreendê-la. Ele sabia que tinha algo errado,
mas não sabia o que. A viagem era longa, eu estava cansada; o avião
me estressava, e eu provavelmente estava reagindo ao sangue do
porco selvagem. Era uma vertigem, e eu tinha tantas desde que saíra
do covil que aquela sequer deveria me causar estranheza. Na
verdade, o que me causou estranheza foi a impaciência de Alice, que
parecia muito incomodada com alguma coisa. Alguma coisa que nem
ela sabia, pois Edward não conseguiu captá-la. A vertigem passou, e
Alice pareceu mais confortada. Imaginar que haveria alguma
conexão entre meu mal estar e o humor de Alice era ridículo, mas foi
como me senti.

258
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

A escola ainda demoraria alguns dias para recomeçar, então teríamos


tempo para nos recuperarmos da viagem. Só eu precisava de
recuperação, era verdade. Os Cullen não sofriam com as adaptações
como eu. Talvez eles simplesmente não sentissem muita coisa
humana, e eu sempre tinha a impressão errada. Carlisle e Esme nos
receberam com bastante euforia, como se o tempo sozinho lhes
tivesse sido também penoso. Eles estavam acostumados com a casa
cheia, foi o que considerei. E era bom voltar para casa, apesar dos
momentos fantásticos vividos na Europa. Eu me sentia tão segura e
protegida na casa dos Cullen que retornar para aquele lugar familiar
me fez sentir paz. Subi até meu quarto para colocar todas as minhas
coisas de volta ao armário, tentando ao máximo manter as pilhas
organizadas, porque eu jamais saberia combinar as roupas tão bem
quanto Alice, e deixei Edward na sala, confraternizando com os pais.

— Ooops. – Foi o som de minha voz, ao sentir-me desequilibrada


descendo as escadas. Eu pretendia juntar-me aos demais, mas a
experiência foi quase frustrante. Em instantes, Edward me amparava
nos braços, confuso. – Está tudo bem... foi uma vertigem.
— Igual a que sentiu no avião?
— Sim... parecida.
— Você não está bem. – Edward disse, ajudando-me a descer as
escadas como se eu realmente estivesse debilitada. – Carlisle...
Beatrice não está bem.
— O que houve? – O médico se aproximou. Eu me sentia melhor, a
vertigem tinha acabado.
— Ela não está bem... eu sei. Ela passou mal no avião, e agora
também... e Alice anda inquieta com ela por perto. – Edward falou,

259
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

procurando a irmã pela sala. Mas Alice estava fora de seu alcance de
visão.
— Não tenho nada. – Disse, soltando-me dos braços de Edward. –
Veja, nada demais...

E foi só me soltar de Edward para meu corpo desequilibrar-se e eu


quase desfalecer no assoalho límpido de Esme.

Edward me impediu, fazendo-me sentar imediatamente. Seu


semblante assustado me causou agonia, e minha agonia o assustava
ainda mais. Carlisle ajoelhou-se à minha frente, observando-me.
Senti-me a cobaia novamente.
— O que você sente, Bea?
— Eu não sei direito... chão e teto se invertem, é isso. Eu perco o
equilíbrio...
— Hmmmmm... sente algum enjoo?
— Enjoo? – Palavras novas.
— Quando comeu comida humana... sentiu algo logo após?
— Não, faz dias que só me alimento de sangue. Se bem que...
— Os muffins? – Edward se lembrou da minha incursão a uma
cafeteria, na cidade de Cagliari, quando eu decidi que estava
apaixonada por um bolinho com pedaços de algo estranho.
Chocolate, era o nome do meu novo veneno. Baunilha e chocolate, a
tentação maior que a comida humana poderia me oferecer. Eu
devorei três, como se fosse um animal faminto. Logicamente, depois
dos muffins eu me senti mal, como se minha barriga pesasse. Mas
deveria ser uma reação normal ao meu exagero, como fora a reação
ao Martini.

260
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Hmmmm... – Carlisle continua a me observar, confuso. – Tem algo


aqui que não estou captando...
— Nem eu estou. – Edward estava aflito. – Onde está Alice, pelos
céus?
— Foi até seu quarto. – Esme respondeu. – Acha que ela pode ter
visto algo?
— Ela deve ter... mas está escondendo de mim!
— Façamos assim, vocês vão para seu quarto. – Carlisle ponderou. –
Amanhã Bea vai até o hospital e eu realizo alguns testes, para saber o
que está havendo.
Edward concordou, e me levantou intentando retornar-me para o
quarto. Sempre zeloso em exagero comigo; uma preocupação que eu
não merecia.
— Seja gentil, Edward. – Emmett bradou, da sala. Se eu estivesse
completamente saudável, eu mesma o teria aniquilado. Edward era
mesmo gentil, apenas ignorou o irmão. A sua preocupação comigo
era infinitamente superior a qualquer perturbação vinda de Emmett.

Como meu vampiro era o mais exagerado da família, ele não me


permitiu caminhar até o quarto. Carregou-me em seus braços, e fez-
me deitar imediatamente. Ele não me deixaria tocá-lo aquela noite,
eu já suspeitava. As boas vindas à nossa cama teriam que ficar para
data futura, quando minha vertigem passasse. Com bastante
suavidade, ele retirou meus sapatos, cobriu-me com os cobertores e
deitou-se comigo, mantendo-me bem próxima. Tentei manter meus
pensamentos longe de qualquer coisa que pudesse irritar ou
aborrecer Edward, porque ele já parecia ansioso demais com o fato
de eu estar reagindo daquela forma. O dia seguinte nos daria uma
perspectiva do que estava acontecendo, era o que eu pensava.

261
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

Mas a perspectiva parecia tão borrada quanto a minha vertigem.

Eu praticamente não consegui me levantar da cama durante a


manhã, e meus olhos estavam de uma cor púrpura inaceitável. Eu
nunca sequer vira aquela cor na natureza, e minha paleta de cores já
parecia bastante preenchida. Edward teve que ajudar-me a levantar-
me, e mesmo assim foi difícil manter-me de pé. Peguei a primeira
peça de roupas que estava na primeira pilha ao alcance, e iniciei meu
ritual para troca de roupas.
— Edward. – Eu o chamei. Ele estava observando a paisagem, já
completamente vestido, algo em suas mãos, proporcionando-me
uma privacidade desnecessária. Mas eu adorava como ele podia ser
tão respeitador, ao não deliberadamente se aproveitar do momento
para observar-me. – Edward... você não notou nada estranho em mim
durante o passeio na Europa?
— Deveria? – Ele se aproximou, olhando para mim curioso. Os
pensamentos começaram a fluir, e eu não consegui segurá-los. – Seu
corpo parecia modificado sim... mas deveria ser uma reação natural
aos alimentos humanos.
— Mas Edward... eu senti algo.
— A vertigem? – Ele se aproximou, mesmo eu estando ainda nua.
— Não. Eu estou bem.. eu senti algo aqui. – E levei minha mão
esquerda até minha região do ventre, apontando para a área que
estava, definitivamente, maior do que sempre fora. Reação aos
alimentos humanos, era a explicação...

A reação de Edward àquele fato foi muito pior do que a minha aos
olhos verdes. Ele deixou cair das mãos o livro que segurava, e me

262
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

olhou totalmente atônito. Eu vi Edward sem nenhuma reação pela


primeira vez, e devo confessar que ele me apavorou. Ele me
apavorou por estar sem reação e pelo que aquilo podia representar.
Coloquei a mão totalmente sobre meu ventre, tentando entender o
que poderia causar aquele inchaço. De todas as reações absurdas que
meu corpo já sofrera, aquela era definitivamente a mais estranha.
Algo se mexendo era praticamente ridículo. Tomei a mão de Edward
e coloquei-a no lugar da minha, tentando fazê-lo compreender o que
eu queria dizer. E ele continuava a me olhar daquela forma
apavorante.
— Edward, assim eu vou ficar com medo. – Eu nem conseguia me
vestir.
— Precisamos mesmo ver Carlisle. – Ele disse, finalmente. Respirei
aliviada, e iniciei minha tarefa de vestir-me.
— Espero que ele tenha uma boa ideia do que seja isso, não estou
gostando nada. Imagine, eu agora sinto coisas.
— Bea... – Edward voltou-se para mim, depois de recolher o livro no
chão, e me segurou as duas mãos. – Bea, você não tem mesmo ideia? –
Balancei a cabeça negativamente, olhando em seus olhos. – Você
sabe qual era meu maior medo em relação a você? O que eu não
podia prever... o que nenhum de nós podia prever? Você sabe o risco
que corremos quando decidi... sucumbir a você?
— Risco? Do que você está falando, Edward?
— Eu acho que você está grávida, Beatrice.

Oh. E a reação dos olhos verdes ficaria realmente em terceiro lugar.


Eu sempre conseguia me superar em esquisitices, e aquela era a
esquisitice maior entre todas elas reunidas. O show estava completo,
e não haveria lugar para tantas anormalidades em minha vida. Onde

263
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

estaria o meu conceito de normalidade frente uma situação


daquelas? Eu puxei as minhas mãos de volta, e comecei a andar em
círculos. Nada daquilo era possível, nada daquilo era razoável. E tudo
veio à minha cabeça de uma só vez. Híbridos não geram filhos de
vampiros. Híbridos não se casam, não procriam. Híbridos não vivem
sob o sol. Híbridos são monstros, e você nada mais é do que uma
aberração, um erro da natureza. Híbridos não amam, eles não se
apaixonam e não se submetem aos desejos humanos. Híbridos não se
alimentam de comida. Híbridos não se envolvem com vampiros, de
forma alguma.

Onde estava o meu conceito de normalidade, então?

Uma mulher podia gerar filhos. Um ser humano. Eu era um corpo


morto ambulante. Não podia gerar vida dentro de mim. Edward era
um morto, também. Nunca, de nenhuma forma aceitável, nós dois
poderíamos conceber uma vida.
— O que diabos é isso? – A familiaridade com a linguagem mundana.
— Bea, venha aqui. – Edward segurou-me entre os braços, mas eu
ainda sentia meu corpo se mover. Eu tremia... e o movimento dentro
de mim retornou. – Acalme-se, você pode ter um colapso. Vamos ver
Carlisle... eu estou só supondo.
— Edward, eu não posso ter filhos. – Olhei para ele, mais irritada do
que assustada. Eu estava definitivamente irritada. – Eu sou um
monstro, você sabe disso?
— Você não é. – Ele me beijou os cabelos. – Você é aquela que eu
amo... tudo que fizemos até agora foi arriscado... havia a
possibilidade, porque ninguém conseguiu descartá-la. Você

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

provavelmente pode gerar filhos, e você provavelmente está grávida,


agora.

Antes que eu pudesse livrar-me de seus braços para protestar mais


uma vez, o quarto foi invadido por Alice. Secretamente, agradeci por
ter conseguido forças para vestir-me.
— Eu estou chocada. – Alice disse, voz visivelmente perturbada. –
Edward, diga-me que você não chegou à mesma conclusão que eu?
— Sim, eu cheguei. – Ele me mantinha presa a ele. – Parece meio
lógica... desde quando?
— Eu vi ontem à noite. Mas eu me recusei a acreditar... porém agora
a visão veio mais precisa.
— Desde quando?
— Não sei... mas a gestação não será longa.
— Isso é mesmo verdade? – Eu me desprendi dos braços de Edward e
voltei-me para Alice, que não sabia se sorria ou gritava de medo. Eu
estava apavorada, imaginava como se sentiam os vampiros. – Eu
estou mesmo gerando um filho?
— Sim. – Alice confirmou, balbuciando.
— Eu preciso sair. – Caminhei para a porta. – Edward, eu preciso
sair... sozinha. – Eu já o sentia próximo a mim, mas eu precisava de
um tempo. – Nada vai me acontecer, não vou me afastar muito. Por
favor, deixe-me.

Eu vi quando Alice entrou na frente do irmão, assentindo com a


cabeça. Edward resignou-se, e me deixou sair pela porta dos fundos,
rumo à trilha na floresta. Alice devia saber que nada me aconteceria,
ela só precisava que Edward aceitasse aquilo. Eu tinha que ficar
sozinha, mesmo que a vertigem me acometesse novamente. Eu

265
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

precisava raciocinar sobre tudo aquilo. Um fato tão simples se


tornou tão enormemente grande que eu não sabia como lidar com
ele. Antes, uma vertigem. Depois, uma gestação. Pus-me a caminhar
por entre as árvores, mãos na cabeça, sem muita noção de para onde
ir. Eu não podia afastar-me, prometera a Edward. Mas como me
controlar?

Eu carregava ali, dentro de mim, uma vida. Aquilo não fazia sentido
algum. Eu estava morta. Era como eu considerava, era o que eu sabia.
Eu fora transformada em um ser imortal quando tinha 20 anos, e
desde então a minha vida se resumiu à clausura total. Eu estava
morta. Edward também. Mas ambos geramos um filho. Não, nada
fazia sentido. Dois organismos mortos não podiam dar vida a outro,
podiam? O quanto aquilo desafiava as leis da ciência? O quanto
aquela concepção poderia desafiar o lógico, o racional, o óbvio?

E então eu me dei conta de que tudo na minha existência era contrário às


leis da ciência.

Mortos não andam, comem ou falam. Seres míticos são lendas que os
humanos contam aos seus filhos, para amedrontá-los. Eu era uma
fábula, um conto de terror. Se eu mesma não devia existir, que
diferença faria a existência de meu filho? Se eu era uma aberração,
conceber uma criança não poderia ser nada tão mais errado... era só
outro item anormal na minha existência surreal. Além de me
alimentar de sangue e ser imortal. O quanto um filho poderia causar
de estranheza? Eu mesma era contra as leis da ciência. Eu era contra
qualquer tipo de lei existente. E assim o era Edward. Até que ponto
nós dois concebermos uma criança poderia ser considerado mais
estranho do que toda a nossa existência já era?
266
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

E foi quando meu ventre mexeu-se mais uma vez que eu raciocinei a
única coisa que realmente importava. Se eu estava grávida – e
daquilo eu não poderia duvidar uma vez que a confirmação viera de
Alice, eu carregava em meu ventre um pedaço de Edward. Seus
genes. Eu tinha dentro de mim um pedaço do vampiro que eu amava;
o vampiro que me havia dado sentido à ―vida‖. Ali, dentro de mim.
Edward. Era só isso que importava.

Voltei para a casa para encontrar Edward no jardim, ansioso,


visivelmente nervoso. Eu nunca o vira daquela forma.
— Beatrice. – Ele me abraçou de uma forma também desconhecida.
Não havia desejo, apenas preocupação. Ele me abraçou exatamente
como se aquela fosse a última vez que ele fosse me abraçar, como se
toda a certeza que residia dentro dele se tivesse esvaído. – Você
demorou...
— Não tanto assim, Edward. – Meus braços envolveram sua cintura
bem devagar. – Eu precisava de espaço para pensar.
— Carlisle quer te examinar. – Ele disse. – Ligamos para ele; ele
considera que precisa fazer vários testes em você. Ele quer ter
certeza... quer garantir que está tudo bem. Se você quiser, nós
podemos...
— Você não pode nem pensar no que eu acho que você está
pensando. – Falei, respirando fundo. Eu tinha certeza que sabia
exatamente o que se passava na cabeça de Edward, porque a mesma
coisa já tinha se passado na minha, durante a caminhada na floresta.
Todas as coisas, possíveis e impossíveis, passaram por minha cabeça,
era fato. Eu pensei em todas as possibilidades, existentes ou não,

267
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

para o que estava acontecendo comigo. Uma forma de eliminar


aquilo, uma forma de me livrar, uma forma de fazer dar certo...
— Agora você é quem lê as mentes? – Ele riu, tentando me distrair.
— Edward, eu não estou brincando. – Falei seriamente, e ele me
olhou. Tentativa frustrada, então. Pobre Edward, lidando com uma
híbrida alucinada. – Não pense em nada que não seja alegre e feliz.
Eu estou me sentindo em um mundo mágico e irreal, e só estou
esperando para acordar. Nada faz menos sentido do que eu
carregando uma criança no ventre, mas eis que isso aconteceu. Eu
não podia estar me sentindo mais completa e assustada do que estou
agora.
— Você... você está bem quanto a isso? Quanto a... ter um filho meu?
— Claro que sim! – E eu estava aborrecida novamente. – Edward
Cullen, eu te amo! Como poderia não estar bem em relação a isso?
Sim, eu estou aterrorizada. Eu estou apavorada, e uma fragilidade
que eu desconhecia se abateu sobre mim. Mas ao mesmo tempo é
como se eu fosse o ser mais abençoado que existe na Terra.

Edward manteve-me pressionada contra seu corpo por algum tempo,


mais do que eu poderia suportar sem respirar. Mas ele não pretendia
me prejudicar, ele só estava tentando restabelecer a certeza. Ele
estava tentando restabelecer o sentimento correto dentro de si, e
não o pavor inicial da descoberta. Com um cuidado exagerado, ele
me levou até o hospital de Carlisle, dirigindo o seu Volvo em uma
velocidade inimaginável. Tão devagar que carros humanos passaram
por ele. Mas eu não reclamaria, nem tinha do que reclamar. Ele
estava simplesmente sendo cuidadoso comigo, e eu não sabia nada
sobre aquela condição em que me encontrava.

268
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

No hospital, Carlisle parecia tão perdido quanto todos. Ele não sabia
por onde começar os testes, e nem que tipo de testes meu organismo
poderia permitir. Ele sabia que eu rejeitava agulhas, e que a simples
entrada de um objeto externo potencialmente nocivo faria com que
meu corpo o expelisse, sem sobreavisos. O primeiro exame, então, foi
físico. Carlisle pediu que eu me deitasse em sua mesa e que elevasse
minha blusa, a fim de que ele pudesse observar o meu ventre. Eu
tinha certeza que aquela manifestação – o inchaço em minha barriga
– não estava ali dois ou três dias atrás. O médico, delicadamente,
pressionou os dedos contra minha pele, fazendo o inchaço aumentar
e diminuir. Senti algo mexer novamente, e aquilo me incomodou.

— Ora vejam. – Carlisle sorriu, aquele sorriso que não identificava se


ele estava triste ou feliz. – Realmente, tem algo aqui.
— Eu... – Edward aproximou-se, sempre ansioso demais. Eu tentava
de todas as formas agir como Jasper, acalmando a situação, mas
nunca conseguia. Por mais tranquila que eu tentasse aparentar, mais
ansioso ele se mostrava. – Posso?

Carlisle deu espaço para que Edward se aproximasse mais, e passou


os dedos suavemente por sobre meu ventre.
— Ele se mexe bastante. – O médico então riu, e eu senti um alívio
redundante. Carlisle segurou uma das mãos de Edward e a colocou
exatamente por sobre o local que estava se mexendo há segundos
atrás. O toque frio de Edward demonstrava apreensão, mas aos
poucos ele relaxou e deixou seus dedos acariciarem minha pele,
enquanto sua outra mão livre segurava a minha. Novamente, eu
senti algo mexer dentro de mim. Daquela vez, um desconforto
aparente que logo passou.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Oh. – Edward puxou a mão, instintivamente. Seus olhos não me


faziam compreender suas emoções, e novamente eu estava
apreensiva. – Isso é... uma confirmação, certo?
— Sim, não preciso de muitos exames para constatar uma gravidez
quando o bebê se mexe.

Bebê. Meu cérebro não absorveria aquela palavra muito facilmente.


Bebê. Senti uma onda de calor me invadir, calor que eu não sentia,
calor que era humano demais, e imediatamente minha consciência
pretendeu deixar-me. Tudo ficou escuro, a imagem de Edward
desapareceu e meus dedos afrouxaram os seus. O mundo girava
freneticamente, e eu não imaginava como fazê-lo parar. A vertigem.
Retomei os sentidos alguns instantes depois, e me peguei nos braços
de Edward, os dois vampiros me olhando com total apreensão.
— Você vai fazer muito isso? – Edward respirava lentamente. –
Avise-me, Bea... para que eu me prepare.
— Acalme-se Edward... mulheres grávidas, nesse estágio, geralmente
sofrem desmaios e enjoos frequentes.
— Que estágio? – Eu perguntei, ainda tentando absorver tudo.
— Bem, o que Alice falou sobre a gravidez? – A pergunta era para
Edward.
— Que a gestação não seria longa.
— Então... eu considero que não será mesmo longa. Beatrice está
grávida demais... e como não observamos essas mudanças em seu
corpo antes, é provável que ela tenha acumulado vários meses de
gravidez em apenas semanas. Se eu estiver correto, ela está
demonstrando uma gravidez de umas 16 semanas...
— Tudo isso?

270
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Pode ser uma semana por mês, da gestação humana. É uma


possibilidade, mas não existem muitos casos como o seu para
podermos pesquisar, Bea. Eu teria que fazer diversos testes,
infelizmente alguns que seu organismo não permite.

Carlisle era mesmo muito sábio. Desde que Edward o avisara sobre a
gravidez, durante o meu afastamento repentino pela manhã, ele
havia feito pesquisas. Ele precisava saber tudo sobre meu caso, mas
aparentemente os humanos – e os vampiros – não tinham muitas
situações semelhantes para retratar. E não era por menos, os
híbridos foram banidos do território humano por séculos. E ainda o
eram. Como poderia haver relatos de híbridos engravidando, seja de
vampiros ou humanos? Sequer os vampiros eram autorizados a
vagar sob o sol, então realmente, os relatos não seriam muitos.

— Carlisle... – Edward ajudou-me a levantar, e se aproximou do pai. –


Como poderemos contabilizar os riscos?
— Eu também não sei. – O médico considerou, franzindo as
sobrancelhas. – Como não sei nada sobre essa gravidez, não posso
considerar os riscos. Existem diversos relatos demoníacos que
tratam da morte, da geração de monstros. Até mesmo do anticristo.
Mas todos esses relatos dão conta de humanos... e Bea é muito mais
forte do que qualquer humano. A sua capacidade extraordinária de
regeneração também torna a coisa muito mais intrigante.
— Eu não me preocupo com isso. – Falei, segurando firme a mão de
Edward. – Creio que o único risco que corremos agora é o fato de
aumentarmos a família Cullen em um indivíduo.

271
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

Minha brincadeira, sarcástica o suficiente para o momento, fez com


que Carlisle desse uma gargalhada. Edward não sorriu, apenas olhou
para mim daquela forma que só ele sabia.

E meu vampiro não falou mais comigo, nem depois que chegamos em
casa. Nem depois que a vertigem me acometeu mais uma vez, e eu
precisei sentar no sofá branco enorme da sala. Ele ficou apenas ao
meu lado, como se me velasse.
— Isso não pode ser verdade! – A voz de Rosalie foi ouvida pela porta.
— Calma, Rose... digamos que Alice viu, Carlisle confirmou, e agora
eu estou doido para checar. – Emmett vinha logo atrás.
— Cale a boca, Em! – Rosalie parecia irritada. – Eu não acredito que
essa híbrida está... grávida!!!
Sempre que Rosalie desejava despejar sua animosidade sobre mim,
ela recordava a minha origem. Híbrida era uma palavra de baixo
calão, para ela. Eu não sabia os motivos da irritação de Rosalie, mas
ela simplesmente passou por mim bastante insatisfeita, e me olhou
com ferocidade. Edward cerrou os punhos e encarou a irmã de volta,
em uma daquelas conversas silenciosas que eu só o via ter com Alice.
Emmett deu de ombros, como que pedindo desculpas pelo
comportamento exagerado da companheira. Em poucos segundos,
Alice e Jasper chegaram, com um humor completamente diferente.

— Beaaaa! – Alice jogou-se para o meu lado, abraçando-me com


força. Edward novamente cerrou os punhos, mas Alice só mostrou-
lhe a língua. – Como você está se sentindo? E o bebê? O que Carlisle
disse? Vamos, eu não leio mentes...
— Eu estou bem. – Disse, desvencilhando-me do abraço. – E o... bebê...

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Difícil aceitar, hem? – Ela compreendeu. Jasper deu uma risadinha,


e Edward manteve-se impassível. – Não se preocupe... vai ficar tudo
bem, eu sei.
Alice era um grande alívio. Quando ela afirmava que tudo ia ficar
bem eu me sentia como se ela fosse a profeta do apocalipse, sem
prever o apocalipse, claro.
— Jasper, podemos nos falar? – Edward finalmente disse alguma
coisa, e saiu com o irmão para a cozinha. A principal função da
cozinha podia ser aquela. O refúgio de Edward para falar algo
privado, escondido de mim. Alice percebeu que eu me senti
aborrecida com algo, e sentou-se ao meu lado tão logo os rapazes
deixaram a sala.
— Não se incomode, Bea. Ele... vai superar. Assim como você.
— Alice... Rosalie também não parece satisfeita com o que aconteceu.
– Sim, eu estava aborrecida.
— Rosalie... era de se esperar.
— Por quê?
— Porque Rosalie sempre sonhou em ter filhos, quando humana.
Agora ela é vampira, e não pode mais. Vampiros não geram filhos...
pelo menos, não as fêmeas. Agora, você... você não é um vampiro.
Por mais que você seja parecida com um, você tem uma grande parte
humana. Se corpo é muito humano. Você nem reluz ao sol. Então,
você pode abrigar um bebê durante uma gestação.
— E ela então me culpa porque eu estou grávida.
— Ela também vai superar, Bea. Todos vão... o que está acontecendo
aqui é chocante. É algo totalmente inesperado... mas é bom.
— Você acha que... eu corro algum risco? – Eu tinha que perguntar,
até mesmo para forçar Alice a pensar naquilo e Edward acalmar-se.
— Se corresse, eu teria visto.

273
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— E... você já sabe como isso vai acabar?


— Sim!
— Sabe se meu bebê será...
— Menino ou menina? – As palavras que me faltavam sempre
sobravam em Alice. Ela era vivaz demais, ela era fenomenal. Se eu
não soubesse que ela era uma vampira, eu juraria que Alice era uma
humana. – Sim, eu sei! – Ela se levantou, e riu. – Mas nem pense que
eu vou te contar, Beatrice Caldwell! Nem você nem Edward ficarão
sabendo... será uma surpresa!!

Alice saiu cantarolando pela casa, a fim de resgatar Jasper das garras
cruéis de Edward. Eu me recostei no sofá, respirando lentamente.
Meu ventre estava agitado, eu sentia o... bebê se mexer
constantemente. Talvez o meu estado de espírito o afetasse. Era um
talvez, porque eu nada entendia de proles. Mas eu estava tão agitada
e tudo estava acontecendo tão caoticamente que era de se esperar
que o... bebê... estivesse sentindo o ambiente. Edward deixou a
cozinha, subiu as escadas, demorou-se por alguns minutos e depois
retornou para o meu lado. Eu estava definitivamente aborrecida, mas
tentando me manter calma. Minha mão direita repousava sobre meu
ventre, como que embalando o que estivesse ali dentro. Ele me
observou, por alguns instantes, e se ajoelhou à minha frente.
— Bea... – ele deitou a cabeça em minhas pernas, visivelmente
chateado. – Desculpe-me por deixar-te assim. – Suas mãos enlaçaram
minha cintura, e eu senti novamente o alívio bom que ele me
causava. Não era o mesmo alívio de Alice, o alívio ―tudo-vai-ficar-
bem‖. Era o alívio ―mesmo-que-nada-fique-bem-estarei-com-você‖. Eu
nem sabia qual deles preferia. – Eu só... desculpe-me, eu só precisava
do meu tempo para colocar algumas coisas no lugar.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Tudo bem. – Eu acariciei seus cabelos de fogo. – Muita coisa de


uma só vez, certo?
— Sim, muita coisa. – Ele elevou seu olhar, e concentrou-se em meus
olhos púrpura por um instante. – Eu nem tive tempo de dizer... bem,
eu acho que não tive tempo de processar o quanto tudo isso é...
importante para mim. Eu te amo e pretendo amar por toda a minha
existência. Agora, você está me proporcionando algo que eu nunca
imaginei ser possível... eu não tive tempo de processar como eu sou
feliz.

Os lábios de Edward alcançaram os meus no mesmo instante em que


eu me curvei para ele. Aquela era a sensação que eu desejava sentir
por toda a eternidade, os lábios de Edward nos meus.

CAPÍTULO 19 – MATERNAL
*tema: Bryan Adam‖s When You Love Someone*

Estar grávida não era divertido. Eu jamais considerei que fosse,


principalmente porque eu jamais considerei a possibilidade. Eu
ignorava que as híbridas pudessem gerar filhos indistintamente,
ainda mais considerando um vampiro como pai. Todas as décadas de
ignorância caíram por terra com o meu pouco tempo entre os Cullen.
Eu estava com eles há mais de ano, então. Minha chegada, a escola, o
inverno, as férias de primavera, e mais acontecimentos... e eu estava
ali, há meses. Nada significativo se comparado à minha experiência
secular. Eu tinha tantos anos de vida quanto podia recordar-me, e
praticamente não tinha visto ou vivido nada. Aqueles poucos meses
entre os humanos, sob a luz do sol fraco e pálido de Forks, me
fizeram outro ser. Eu gostaria de dizer, e por que não, outra pessoa.
275
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

Mas eu considerava estar no meu melhor momento ao lado do


vampiro que eu amava quando me descobri gerando um filho. Mais
aberrações, mas eu estava decidida a não me importar com detalhes
insignificantes quando tudo que eu mais queria estava exatamente ao
meu lado.

Eu estava inchando, a cada dia. Carlisle estava assombrado com a


rapidez com o que o meu filho se desenvolvia. Ele fez alguns cálculos
e considerou que a minha gravidez era equacionada de forma
simples, ou seja, cada mês de gestação para os humanos
representava uma semana para mim. E em pouquíssimo tempo e já
estava inchada o suficiente para não caber em roupa nenhuma,
dando a Alice a sua tão esperada chance de sair comigo para
comprar-me roupas. Eu não podia passar os dias vestindo as camisas
de Edward, segundo ela. Não que eu me importasse, pois Edward
tinha um aroma delicioso. Eu sinceramente me sentia extasiada em
poder passar o dia inteiro vestindo algo dele, sentindo o cheiro dele
como se ele estivesse comigo o tempo todo. Mas Alice insistia que eu
precisava de roupas. Algumas poucas, só para as próximas semanas,
era a sua ideia.

Eu não podia mais ir à escola, pois os humanos não concebiam a ideia


de que uma gravidez pudesse durar nove semanas, e não nove meses.
Não seria possível manter o disfarce dos Cullen se eu aparecesse tão
grávida na escola, e menos ainda se tivesse meu bebê em pouco
tempo. Carlisle achou mais prudente que Edward contasse a todos
que eu adoecera nas férias, e quando o bebê nascesse outras
providências poderiam ser tomadas. Ao menos, em pouco tempo eu
estaria com meu corpo completamente recuperado e aquilo

276
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

significava retorno às atividades normais. Edward insistiu em ficar


comigo, durante aquelas semanas, mas eu recusei veementemente.
Ele não podia deixar de cumprir as suas atividades porque eu estava
impossibilitada de fazer as minhas. Era novo para mim, mas
passávamos grande parte do dia separados. E não podíamos fazer
programas em Port Angeles como sempre, pois meus amigos
humanos podiam encontrar-me ocasionalmente. E eu
definitivamente não estava apta a esconder minha gravidez quando
ela chegou à sexta semana, ou sexto mês, para os humanos.

A minha companhia diária era Esme. A mãe da família Cullen, quem


poderia me ensinar um pouco a me tornar uma. Eu idealizava ser
uma mãe como Esme. Ela não teve a experiência de cuidar de um
bebê, mas ela era mãe de Edward e dos demais. E esposa de Carlisle.
Uma mulher ideal, eu pensava. Um exemplo que eu gostaria de
seguir, então.
— Não se preocupe, Bea. – Esme disse, enquanto organizávamos
algumas roupas para a lavanderia. Era outra tarde normal, sem
qualquer interferente que me fizesse ansiosa demais. – Ser mãe é
instintivo. Você vai se sair bem, todas nós vamos.
— Todas serão mães do meu... bebê, certo? – Não havia muito como
fugir daquela realidade.
— Acredito que sim. Você está realizando um sonho particular de
Rosalie, e apesar de todo o rancor que ela tem demonstrado, eu
imagino que quando ela vir o bebê vai se tornar a mais zelosa tia que
já se teve idéia. Alice é menos empolgada com crianças, mas ela
também é mulher. E eu... eu me tornei vampira exatamente porque
não suportei perder meu filho. O quanto você acha que anseio por
um bebê em meus braços?

277
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

Muito, eu realizei. Quase de forma assustadora, pensei. Tantas mães


para uma só criança. Talvez aquilo tornasse mais simples o meu
fardo, o fardo de assumir toda a responsabilidade pelo ocorrido.
Edward se culpava pela gravidez, constantemente. Se eu não
estivesse reagindo tão bem, ele certamente teria um colapso
nervoso. Se a vertigem não tivesse parado dias depois, e se meu
organismo não estivesse respondendo satisfatoriamente a todas as
mudanças da gravidez, Edward seria um problema para se
considerar. Ele se culpava, acreditando que deveria ter feito algo
para impedir. Aquele pensamento dele me aborrecia
consideravelmente, porque eu estava feliz com a gravidez. Não era
divertido, mas eu me sentia plena, sabendo que gerava em meu
ventre um filho de Edward. E a responsabilidade de fazer tudo aquilo
dar certo, principalmente para manter Edward calmo e satisfeito, era
imensa. Saber que podia dividi-la com Esme, Rosalie e Alice era
reconfortante.

— Edward, você não vai monopolizar a Bea hoje! – Alice protestou


com o irmão, em outra tarde chuvosa. O tempo mais quente trazia
chuva, e a chuva era sempre gloriosa. Água do céu para amainar o
calor intenso do sol. Água para alimentar a sede da terra, para nutrir
as plantas e os animais. Água da qual eu não precisava, mas que
mantinha toda aquela beleza ainda mais linda.
— Alice, eu passo metade do dia sem ela. Agora você pretende
roubar-me Beatrice nos fins de tarde?
— Só hoje, Edward. – Alice sorriu, já se sentindo vitoriosa. – Vamos
comprar roupas para ela.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Alice... – Eu cogitei protestar. Alice fez um gesto com as mãos


significando que aquele argumento já estava antigo.
Definitivamente, argumentar com a pequena Cullen era quase inútil.
— Pode deixar, Edward... vamos a Seattle, já que Port Angeles é
complicado.

Alice me segurou pela mão e me puxou pela porta. Olhei para


Edward enquanto era levada pela varanda, em direção ao carro de
Alice – que não era mais discreto do que o carro de Edward. Senti
algum pavor, então... uma sensação de pânico que pensei não
pertencer a mim. Eu não queria sair de casa, eu não queria deixar
aquele lugar confortável. Talvez aquela fosse outra característica da
gravidez, o apego exagerado a detalhes que antes não me prendiam.
— Alice. – Edward falou, vindo atrás de nós. – Deixe-me ao menos ir
com vocês... – Meus braços procuraram a cintura de Edward no
mesmo instante em que ele se aproximou, e eu afundei minha face
em seu peito, como fazia quando tinha medo, ansiedade, agonia. Ele
me afagou os cabelos e beijou a testa, encarando a irmã. – Ela quer.

Alice deu de ombros, e jogou as chaves para Edward. Ele as devolveu


para a irmã, sorrindo. Ela entendeu que ele iria comigo daquela vez.
Ele iria ao meu lado, me amparando durante a viagem. Aquela talvez
fosse a reação mais irritante da gravidez, a total ausência de
racionalidade em tudo que eu fazia. Era como se meu cérebro
estivesse nublado, e eu não conseguisse ver nada com objetividade.
Edward inclusive chegou a implicar, afirmando que eu estava mais
confusa do que de costume. Era deveras irritante, eu precisava
admitir. Eu sentia a falta de Edward como se ele fosse o responsável
por saciar a minha sede. Minha dependência estava tão absurda que

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

eu sofria todos os instantes em que ele estava na escola e, quando ele


retornava, eu só desejava manter-me presa a ele.

Talvez por isso ele tenha estado comigo durante todos os instantes
em que eu ansiava por ele. Talvez por isso seu simples olhar fizesse
com que Alice compreendesse que não era ele quem precisava de
mim desesperadamente, mas o inverso.

Seattle ficava bem mais longe do que Port Angeles, mas com Alice ao
volante chegamos em muito pouco tempo. Ela dirigia ainda mais
enlouquecidamente do que Edward... era quase como se ela voasse. E
a estrada estava vazia, o que a permitiu explorar todas as suas
habilidades. Como a cidade era grande o suficiente para que eu não
fosse notada, seria seguro transitar pelas ruas ao lado de dois
vampiros. Mãos segurando as de Edward, Alice falando como se
estivesse ligada em uma bateria, a tarde seria muito prazerosa.
— Você quer comer alguma coisa? – Edward sussurrou em meus
ouvidos, enquanto carregava diversas sacolas. As pequenas compras
de Alice renderam uma visita a cinco lojas diferentes, e despenderam
o absurdo de mais de mil dólares americanos. Somente com algumas
roupas para eu usar por menos de três semanas! Se eu tivesse
sucesso em completar a gravidez, porque Carlisle não conseguiu
esconder a possibilidade de que o parto pudesse se antecipar.
— Comida humana? – Fiz uma careta. – Não... faz algum tempo que
não tenho a menor vontade de comer alimentos humanos.
— Deve ser o bebê. – Alice intrometeu-se. – Mulheres grávidas
sempre têm desejos esquisitos.
— Ah, beber sangue é esquisito para mim... – O sarcasmo nunca tinha
me abandonado.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Preferia que você não precisasse sair para caçar nessas condições.
– Edward mostrou-se aborrecido com o fato de eu preferir sangue
durante a gravidez. Na verdade, eu tinha verdadeira aversão à
comida humana desde os momentos de vertigem. Eu sequer
arriscava comer algo, pois meu organismo rejeitava a simples ideia
de alimentar-me com todos aqueles aromas e cores. Eu queria
sangue, e mataria um humano se fosse preciso.
— Sinto muito, Edward, mas eu não consigo. Eu deixo você pegar as
presas para mim, se acha mais conveniente.

Ele me beijou a testa, mas nada aliviado. Sua preocupação era


sustentável, mas eu não podia impedir meu corpo de querer o
sangue, apenas. Voltamos para casa depois que a luz do dia já se
havia findado, e eu estava definitivamente cansada. O bebê me
esgotava, mesmo quando eu não fazia nada espetacular. Ele era
grande, pesado, desenvolvia-se rapidamente e sugava toda energia
que eu podia ter. Ainda, ele era muito forte. Mais forte do que eu, e
aquela era a preocupação de Carlisle. Eu não me preocupava muito a
esse respeito, porque ele não me machucaria. Ele era meu filho!
Quando ele exagerava e me causava alguma dor, mesmo que
houvesse uma ruptura de membrana ou algum edema, a lesão
superficial imediatamente se curava. Mas a regeneração cobrava o
alto preço da sede eterna. Eu tinha duas vezes mais sede do que
antes, e parecia insaciável. Além do cansaço inevitável.

***** Enquanto isso, no covil dos Caldwell *****

— Jasmine! – Felicia chamou a híbrida jovem, aos gritos. – Jasmine!!

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Sim, senhora. – A moça, vestindo longas saias brancas, se


apresentou. Seus cabelos eram infinitamente loiros, e seus olhos
ainda brilhavam como a noite.
— Jasmine, eu vou me ausentar por alguns dias. Se Rudolph
perguntar, você terá que mentir.
— Mentir, senhora?
— Sim. A quem deve mais lealdade, Jasmine?
— À senhora. – A híbrida baixou o olhar, resignada.
— Então, minta. Você dirá a Rudolph que eu estou doente, e fui
levada à quarentena. Diga que o sangue me fez mal... que fui
contaminada.
— Aonde a senhora vai? – Jasmine perguntou, curiosa.
— Vou avisar minha filha sobre o destino que a aguarda.

Felicia Caldwell deixou o covil às pressas, durante o dia, ciente de


que Rudolph não estaria caçando. Era providencial que os machos
não se misturassem com as fêmeas, assim ela teria tempo. Tempo era
o seu maior inimigo naquele instante, e Felícia precisava ser veloz.
Segurando entre as mãos o tecido florido de seu vestido do século
retrasado, a híbrida embrenhou-se na floresta em busca de seu
aliado. Ela poucas vezes havia deixado o covil, mas ela tinha um
aliado que lhe devia favores. Estava na hora de cobrá-los.

A híbrida não se demorou em encontrar a cabana aparentemente


abandonada, que se escondia por entre samambaias e cipós, já aos
pés da grande colina. Respirou fundo, adquiriu coragem, e bateu à
porta. Uma vez, duas vezes, três vezes. A figura sombria e morena,
duas vezes maior do que ela, abriu a porta empenada de madeira. O
cheiro de mofo era angustiante.

282
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— O que você quer, híbrida? – O homem alto perguntou, voz rouca


como trovão.
— Preciso de um favor. – Felicia entregou um pedaço de tecido ao
homem. – Preciso que encontre essa pessoa.
— Não faço mais alianças com os híbridos, Felicia.
— Você me deve, lobo. – A híbrida cerrou os dentes, adquirindo
coragem. – Você me deve e sabe disso. Não quero aliança, quero que
encontre essa pessoa. Depois não precisaremos nunca mais nos falar.

O homem franziu o cenho e saiu da frente da porta, para que Felicia


entrasse. A híbrida não se sentou, ficou apenas observando o homem
que cheirava o pedaço de tecido, comprimido entre seus dedos. Seus
olhos já estavam fechados, e ele parecia concentrado.
— O rastro dela já se foi. – O homem constatou. – Faz muito tempo,
certo?
— Sim... mais de um ano. – Felicia desanimou-se.
— Como você é tola, híbrida! Acha que posso rastrear alguém depois
que as chuvas lavaram toda a floresta? O que pensa que somos?
— Cães farejadores! Animais, estou errada?
— E a aberração da natureza considera que tem moral para me
adjetivar-me com palavras cruéis? – O homem riu, a voz novamente
grave e poderosa. – Você é uma morta viva, híbrida. Vamos, não
tenho mais tempo a perder. Volte para seu covil. Não posso
encontrar a pessoa.
— Mas eu preciso. – Felicia insistiu, um tanto insatisfeita em ter que
implorar a ajuda do lobo. – William, eu preciso encontrar Beatrice.
Ajude-me.
— Ela é assim tão importante? – O homem franziu-se novamente. –
Importante a ponto de você precisar... se sujeitar a me pedir?

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Sim, ela é. – Felicia respirou fundo. – Preciso encontrá-la, diga-me


o que fazer.
— Bem, podemos ser lógicos. – Ele ponderou. – Se ela deixou o covil e
você não sabe para onde foi, é provável que não esteja na região. Ou
seus caçadores já a teriam encontrado. Podemos visitar os Cullen, a
dois dias de viagem.
— Quem são os Cullen?
— São vampiros. – O homem fez uma careta, enojado pela lembrança
que lhe veio à mente. – Eles dominam uma região próxima, e são
muito sociáveis. Talvez tenham ao menos ouvido falar de Beatrice.

Depois de um cochilo, condição outra que a gravidez passara a me


proporcionar, decidi que precisava de um banho. Eu era aquela que
costumava me banhar, e por isso o banheiro do andar de cima era
praticamente exclusividade minha. Era interessante como os
vampiros acumulavam poucas impurezas em seus corpos. Aquela
minha faceta humana poderia ser irritante, mas eu costumava gostar
do banho. Ele era relaxante, e naquelas condições eu precisava
mesmo relaxar, manter o organismo trabalhando em velocidade
normal. Regulei o chuveiro para uma temperatura morna – como se
aquilo fizesse diferença em minha pele gélida – e entrei sob a água,
deixando-a lavar meus cabelos e remover as marcas do dia.
Concentrei-me a observar meu corpo, naquele instante. Eu sempre
tive o mesmo corpo, desde sempre. Desde que me recordava. Como
eu poderia estar tão inchada, tão crescida. Como meu ventre podia
ser tão elástico a ponto de expandir daquela forma tão irreal?

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

Eu estava imersa na água e nos pensamentos quando ouvi um ruído


por trás de mim, e virei-me instintivamente, ansiosa. O acontecido
remeteu-me há tempos atrás, quando eu tentava sorver o sol no
jardim dos Cullen. Meu nariz imediatamente se chocou com algo que
estava logo atrás de mim, e mãos muito firmes me ampararam pelos
braços, para que eu não caísse. Elevei o olhar e me deparei com o
sorriso suave de Edward, e seus olhos amarelados como se
estivessem mais uma vez diluídos só para mim.
— Calma, meu amor. – Ele disse, me abraçando. – Eu não queria te
assustar, mas você estava tão concentrada...
— Edward o que você...
— Eu queria ficar com você. – Ele disse, acariciando meus cabelos
molhados. – Achei que fosse uma boa ideia te ajudar a lavar os
cabelos... você não precisa de ajuda? Eles são tão longos... – Respirei
fundo, enquanto ele passava os dedos cheios de shampoo por meus
cabelos e deixava a água enxaguá-los. Senti eletricidade percorrendo
meu corpo, e uma vontade insuportável de sucumbir nos braços de
Edward. – Faz algum tempo...

Ele não precisaria completar a frase, e eu não precisaria ler mentes


para saber o que ele pensava. Fazia mesmo algum tempo que não nos
tocávamos de nenhuma forma íntima. Eu estava frágil, e
extremamente mal humorada. Meu organismo estava em pane e eu
mal podia suportar a mim mesma. Minha carência era difícil de lidar,
até mesmo para mim. E meu corpo parecia detestavelmente
inadequado. Tudo parecia inadequado, era verdade. Eu era a própria
inadequação.
— Eu pensei que você não tomasse banho todo dia. – Sarcasmo, como
de costume. Não podia perder meu eloquente charme.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— E eu não tomo. – Ele terminou de lavar-me os cabelos, e seus dedos


tatearam pelo box em busca de algo. O sabonete líquido tocou minha
pele causando ansiedade, e minha respiração se acelerou. Em
contrapartida, meu coração praticamente parou de bater. Edward
interrompeu seu ato e se afastou alguns centímetros, mordendo o
lábio inferior. – Talvez isso não tenha sido uma boa ideia.
— Não. – Eu meneei a cabeça para os lados, ainda tentando recuperar
os batimentos cardíacos. – Não... foi uma boa ideia.
— Você me parece muito contraditória. – Ele sorriu, e eu não me
importei com mais nada. Aproximei-me o máximo permitido de
Edward e o beijei, sob a água delicada que caía do chuveiro. Ele me
abraçou pela cintura, com todo cuidado possível, acariciando
suavemente minhas costas. Era uma sensação boa demais para que
eu ficasse tanto tempo sem. Mas eu não estava sendo lógica, e por
isso afastei-me repentinamente de Edward, colocando-me de costas
para ele. Respirei algumas vezes, esperando que ele fizesse algo ou
me deixasse falar.
— Edward, você não deveria estar me vendo assim. – Levei as duas
mãos à face, como que me escondendo do óbvio, embaraçada.
— Eu acho que já te vi assim o suficiente para você se importar, agora.
– Ele parecia genuinamente confuso.
— Mas eu estou... eu estou anormal. – Eu não pretendia encará-lo
novamente. – Eu sei que nunca fui afeita às vaidades mundanas; e
que isso é coisa da Alice, mas... eu me sinto horrível. Não sou a
Beatrice que você teve em seus braços pela primeira vez.

Edward se aproximou, e me envolveu com seu corpo, sem forçar-me


para si. Ele embalou meu ventre por entre seus braços longos,
posicionando suas mãos exatamente onde eu sentia o desconforto do

286
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

peso do bebê. Era como se ele soubesse que ele estava ali... seus lábios
tocaram meus cabelos, e eu senti o ventre mexer, rapidamente.
— Bea, você está diferente. Era de se esperar que estivesse; você está
se transformando para poder abrigar nosso filho até o seu
nascimento. Mas isso não te faz horrível. Eu te amo como sempre te
amei, eu quero você como sempre quis, e eu só não perco o controle
mais facilmente porque eu sei que ele não gosta muito dessa
intimidade.
Ou Edward era inacreditavelmente bom com as palavras ou eu era
inacreditavelmente fácil de convencer. Ou ambos. Ele nunca
precisava de muito esforço para me fazer mudar de idéia, para me
dominar totalmente. Eu sentia, uma impressão muito firme, que ele
exercia uma atração insuportável sobre mim. Como um tipo de
magia, de intervenção. Como se ele me dopasse, sempre. Quando me
dei conta de mim, eu já estava plenamente rendida em seus beijos.
Felicia poderia considerar aquilo como um feitiço, porque nem nas
fábulas eu me lembrava de existir mocinha indefesa tão...
verdadeiramente indefesa. Sem muito esforço, e sem deixar meus
lábios, Edward desligou a água e nos envolveu nas toalhas brancas,
macias, que Esme havia deixado ali mais cedo. Ele pareceu muito
maior, naquele instante.

— Onde estão os Cullen? – Perguntei, percebendo o que ele


pretendia.
— Eles não vão aparecer aqui agora. – Edward me segurou nos
braços, enrolada na toalha, e me conduziu porta afora, carregando-
me para o quarto. Por mais pesada que eu pudesse me sentir, eu
ainda devia ser leve como pluma para os braços fortes de Edward. Ele
era um vampiro, sua força não podia ser medida facilmente. Os Cullen

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

não iriam aparecer, e eu imaginei o que aquele vampiro teria dito a


eles. Edward definitivamente me deixava desarmada, pois caso
contrário eu já o teria eliminado da face da Terra, tamanha era a sua
petulância. Com todo cuidado que lhe era peculiar, Edward me
deitou na cama, as luzes totalmente apagadas, jogando as toalhas no
chão. As duas, minha e dele. Eu já não tinha muita consciência de
mim mesma nem noção do espaço que ocupava quando ele me
beijou, e me tocou da mesma forma de sempre, independentemente
de eu me sentir diferente, horrível, fora de proporções.

A gravidez causou outro efeito complexo em mim; ela maximizou


meus sentidos. Carlisle sempre disse que os vampiros tinham
sentidos muito, mas muito mais aguçados que os humanos. Que
nosso olfato era privilegiado, que nosso tato era muito mais preciso;
que o paladar era elaborado, apesar de somente desejarmos nos
alimentar de sangue; que nossa visão era infinitamente superior. Eu
não tinha memórias dos sentidos humanos e eu não era uma
pesquisadora, como Carlisle. Mas a gravidez me deu uma pequena
perspectiva do que ele considerava. Tudo em mim parecia
maximizado, aumentado. Literalmente. Foi quase impossível
perceber a mim mesma naquela noite, enquanto Edward estava ali
comigo. Com as sensações muito mais perceptíveis, estar com ele foi
fantástico. E me controlar para parar era impossível.

— Tudo bem. – Edward disse, rosnando, jogando-se de costas sobre


os cobertores. Voltei-me para ele, tentando entender o que eu havia
pensado que causara aquela reação. Meus olhos se fixaram no seu
perfil por alguns instantes; seus punhos cerrados cravados no
colchão.

288
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— O que houve, Edward? – Não, eu não consegui encontrar um


pensamento que o tivesse aborrecido. Eu estava tão bem que era
difícil pensar em coisas desagradáveis.
— Receio que teremos que manter nossos... limites... até o final da
gravidez. – Ele disse, escolhendo palavras. Eu sabia que Edward
conversava comigo com o mesmo cuidado com o que ele me tratava.
As palavras eram escolhidas sempre com sabedoria, delicadeza. Ele
nunca me dirigira uma palavra que não fosse polida, gentil, elegante.
Seu tom era quase reverencial.
— Não entendi.
— Ele... o bebê... não gosta muito do que acabamos de fazer. – Edward
disse, entre os dentes. Eu podia acreditar que ele estava irritado, mas
ao mesmo tempo parecia que ele segurava um sorriso, tentando
parecer sério.
— Como você pode saber? Ele ficou quieto o tempo todo...
Interrompi-me, olhando incrédula para Edward. Ele então deixou o
sorriso lhe iluminar os lábios, virando-se para mim com os olhos
amarelados que eu tanto apreciava. Suas mãos procuraram meu
ventre e acariciaram minha pele, bem devagar.
— Nem sempre é fácil lê-lo. – Edward disse, confirmando minhas
suspeitas. – Só há poucos dias consegui visualizar com alguma
clareza o que ele pensa. Na maioria das vezes, não faz sentido
nenhum.
— Mas ele deixou claro que... – Eu não sabia se minha maior surpresa
era por Edward ler o bebê ou pelo fato do bebê ter convicções tão
específicas quanto à nossa atividade recente. Eu não poderia me
chocar, Edward sempre lia tudo ao seu redor. Por que não nosso
filho? Afinal, era um ser vivo que estava dentro de mim. Um ser

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

vivo... morto vivo... eu nem sabia o que viria, era uma verdade. – Ele
não quer que façamos isso de novo?
— Ele não tem vontade muito bem definida, eu acho. – Edward
continuava acariciando meu ventre, e eu pude sentir que o bebê
parecia se acalmar. Mesmo ele estando quieto, eu podia senti-lo
agitado, calmo, nervoso, tranquilo. Naquele momento, ele parecia
somente apreciar o carinho que lhe era destinado. – Ele me deixa
perceber o que gosta... e o que não gosta. Por exemplo, ele gosta
disso. – Edward considerou as carícias suaves que a palma de sua mão
desenvolvia em meu ventre. – Ele também gosta de ouvir... ele gosta
de nos ouvir conversar.
— Ele pode nos ouvir? – Então eu estava surpresa verdadeiramente.
Minha experiência com bebês era inexistente, e eu sequer tinha
ouvido falar de algo parecido. Edward insistiu para que eu lesse
livros de bebês, mas eles todos se referiam a bebês humanos. Como
eu poderia considerar que o meu bebê fosse como um bebê humano?
— Sim, mas ele não entende tudo que falamos. Quase nada, para ser
exato. Ou sou eu que o entendo menos do que imagino. – Edward riu
daquela vez. Seus lábios capturaram os meus, porque meus olhos
estavam cheios de questionamentos, dúvidas e êxtase. – Ele gosta do
que você sente quando eu te beijo. Mas o resto... acho que o deixa
desconfortável.

Enrubesci, imediatamente. Por mais satisfeita que eu estivesse me


sentindo, era sem dúvida que Edward tinha razão. Obviamente o
bebê se sentiria desconfortável, porque tudo parecia apelar para o
desconforto, dentro de um ventre e imerso em líquidos
desconhecidos. Respirei fundo, e puxei os cobertores para cima de

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

mim e de Edward, ajeitando-me entre seus braços, recostada em seu


peito. Sua pele estava na temperatura da brisa morna, deliciosa.
— Então, teremos que fazer a vontade dele por mais um pouco. –
Disse, pretendendo adormecer.
— Boa noite, meu amor. – Ele beijou minha testa, e acariciou meus
cabelos até que meus olhos cerrassem por completo, iniciando o
sono que tanto me incomodava.

— O que você quer, lobo? – A voz ecoava do andar de baixo, mas eu


supus que fosse um sonho. Meu sono estava muito inconsistente
depois da gravidez.
— Saudações, Emmett. Preciso falar com seu pai, ele está?
— Estou aqui, William. – Era a voz de Carlisle. Sonho estranho,
considerei. Senti a temperatura do meu lado direito do corpo se
alterar, mas tudo devia fazer parte do sonho. – Seja bem vindo, o que
deseja?
— Saudações, Carlisle. Eu gostaria de lhe falar rapidamente. É uma
informação importante...
— Então é por isso que não consegui visualizar nada. – A voz de Alice
interrompeu o diálogo masculino. – Mas consigo farejar esse lobo de
longe.
— Alice... – Jasper, então. O que os Cullen todos faziam em meu
sonho? E por que havia um lobo falante no meu sonho? Eu não me
recordava de conhecer nenhum lobo, menos ainda aqueles que
falavam.
— Deseja entrar, William?

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Só gostaria de saber se vocês não tiveram notícias de uma híbrida


vagante.
Eu! Eu era uma híbrida vagante, e os Cullen certamente tiveram
notícias de mim. Eu ainda não entendia os motivos pelos quais um
lobo – e falante! – queria notícias minhas. Aos poucos, meu estado de
inconsciência começou a perder-se, e eu lentamente comecei a
acordar. Eu ainda não havia percebido que estava acordando, porque
as vozes não paravam, e eu não tinha certeza de estar sonhando ou
não.
— Por que quer saber isso, William? – Carlisle interrogou. – O que os
lobos querem com os híbridos?
— Nada, por certo. Na verdade, é uma... eu tenho uma dívida com
uma... híbrida. Ela me pediu para rastrear alguém, mas o rastro se
perdeu... e eu decidi perguntar a vocês, já que são os únicos vampiros
da região.
Meus olhos repentinamente se abriram. Apoiei-me nos cotovelos, e
ergui a cabeça. Edward não estava ao meu lado, e por isso a
temperatura havia mudado. O seu corpo se distanciara do meu,
fazendo-me sentir as alterações. Meu ventre deu um salto, causando-
me enorme desconforto. Senti uma fisgada nas costas, e sentei-me
lentamente. Respirando com dificuldades, pisquei várias vezes.
Sonho estranho, pensei. Mas as vozes continuaram, no andar de
baixo. Coloquei-me de pé, e me arrastei até o armário. Aquela era a
penúltima semana de gravidez, pensei. A penúltima... logo, tudo
voltaria ao normal comigo. Vesti uma das roupas para dormir
escolhidas por Alice, tentando não parecer muito ridícula, e enrolei-
me em um roupão flanelado. Eu precisava saber o que acontecia no
andar de baixo, e para isso teria que descer. Não que fosse fácil subir
ou descer escadas na minha condição, mas eu estava curiosa demais.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

Surgi à porta e atravessei o corredor, escorando-me no corrimão. A


figura séria de Edward estava me observando na parte mais baixa.
Ele estava com as calças de pijama que eu adorava, e o seu roupão.
Alice nos comprara os roupões flanelados porque ela dizia que não
aguentava mais Edward perambulando sem camisas pela casa. E que
ele usasse, foi a ameaça da irmã menor. O semblante de Edward era
tenso.
— Bea... o que faz de pé? – Ele caminhou em minha direção.
— Tem alguém aqui, não tem?
— Sim, mas você já sabe... ou não teria levantado. Vamos, volte para
a cama...
— Quem é? – Perguntei, desejando descer. Edward me segurou,
impedindo minha progressão. – Vamos, Edward...
— Um lobo. William. Antigo conhecido da família.
— Um lobo? – Repeti Edward. – Mas lobos não falam.
— Falam quando estão na forma humana.
— Ahm? – Parei de tentar descer e olhei incrédula para Edward.
Lobos na forma humana? O que eu tinha perdido, então? Novas
fábulas se tornando reais? Eu já começava a acreditar que o mundo
real era a fábula, de tão fantástico que era o meu universo de
aberrações reunidas.
— William é um lobisomem. Bem, quase isso. Ele pode se transformar
em lobo. Mas ele veio... ele está procurando por você.
— Eu não conheço nenhum lobo.
— Eu sei, ele... bem, eu não posso esconder-te muito. Alice garantiu
que ela não é perigosa, pois não faz parte da visão que teve. E ela veio
sozinha...

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Ela? – Eu ainda tentava imaginar que outra híbrida seria louca o


suficiente para deixar o covil. Desafiar Rudolph não era para
qualquer um. Edward saiu da minha frente, ajudando-me a descer as
escadas. Minha curiosidade estava em grau máximo. Minha aparição
no hall de entrada dos Cullen causou algum choque em todos, pois
eles não esperavam que Edward me permitisse descer. Meus olhos
atentos buscaram os desconhecidos entre minha família, e o choque
da descoberta foi mortificante. Os desconhecidos não eram, então,
desconhecidos.

Eu conhecia outras híbridas, mas nenhuma delas ousaria sair do


covil. Aquilo era como assinar a própria sentença. A condenação
absoluta. Se não já estivéssemos condenados... se já não fôssemos
mortos vivos que não tinham nenhuma perspectiva. Éramos a real
concepção da danação eterna. Os perigos que o mundo sob o sol
representava eram inaceitáveis, para as híbridas. Os caçadores,
aqueles considerados os bravos, eram os únicos que se aventuravam
a sair. Que híbrido do sexo feminino teria a audácia de encarar o
mesmo que eu tive? Eu já sabia que o destino sob o sol era muito
melhor do que enterrada no covil, mas elas, minhas irmãs de covil,
não. Só algo muito importante faria qualquer uma delas deixar o covil,
e eu poderia ser considerada algo significante demais para ser
deixada para trás. Eu só não sabia disso, ainda.

— Felicia? – Eu balbuciei, depois de encará-la por algum tempo.


Edward me mantinha amparada pelos braços, mas aquilo não me
segurou. Ao mesmo tempo em que eu lhe chamei o nome, atirei-me
em sua direção, abraçando-a. Não tive tempo de notar a sua reação a
mim, mas a minha reação foi exagerada, como tudo vinha sendo.

294
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Bea, minha filha... – Ela acariciou meus cabelos, abraçando-me


com força. Imediatamente recordei-me da minha condição e me
afastei, olhando para Felicia mais uma vez. Ela parecia genuinamente
satisfeita em ver-me, como eu o estava em vê-la. Todos nos
observavam, como que desejando intervir e sem saber como. – Eu
precisava tanto achar-te!
— Creio ter cumprido minha missão, aqui. – O lobo disse,
pretendendo ir embora. – Obrigado por receber-me, Carlisle... espero
não precisar retornar aqui tão cedo.
— Igualmente, William. Vá em paz.
— William! – Felicia o chamou, antes que ele saísse completamente. –
Agora estamos quites.
O lobo deixou a casa dos Cullen, mas eu só me interessava na figura
de Felicia. Ela se voltou para mim novamente, e me encarou.
Finalmente, ela percebeu que alguma coisa estava mudada em mim.
Felicia afastou-se, sob os olhares atentos dos Cullen, e me olhou por
longos instantes. Eu respirei fundo, e nem precisava ler as mentes
para compreender o que a estava causando admiração.
— Beatrice, o que houve com você?
— Pensei que fosse óbvio o suficiente. – Foi a minha resposta.
— Felicia, agora que Beatrice desceu e que todos nós precisamos
conversar, que tal entrarmos e nos sentarmos? – Edward se
aproximou, me sustentando pelos cotovelos. – Ela não deve ficar
muito tempo de pé.

Os Cullen se transferiram para a sala enorme de Esme. Eu e Felicia os


acompanhamos, Edward vindo logo atrás. Ele não me deixava
sozinha durante aqueles períodos, porque Carlisle havia deixado bem
claro que o final da gravidez poderia ser muito perturbado. Eu sentia

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

mesmo muitas dores, e dificuldade para respirar e dormir. Ele


pretendia interromper a gravidez e retirar o bebê, mas a minha
regeneração não permitia. A regeneração estava ainda mais precisa
porque, segundo os estudos de Carlisle, o bebê também se
regenerava. Edward me fez sentar, e todos acabaram se sentando.
Era mais cômodo para conversarmos.

— Bem, agora podemos conversar mais calmamente. – Esme sorriu,


tentando iniciar o diálogo.
— Eu estou confusa, Beatrice. – Felicia insistia em me olhar, um tanto
incrédula. – O que aconteceu??
— Eu estou grávida. – Falei, diretamente. Esconder o óbvio? Qualquer
tolo podia ver-me grávida. Eu estava definitivamente enorme. Mas a
expressão de Felícia foi de choque imediato. Ela deixou o queixo cair
superficialmente, enquanto me olhava mais apavorada ainda.
Exatamente uma aberração. Edward me puxou para perto de si,
abraçando-me e acariciando meu ventre. Eu percebi que o bebê
estava agitado, e provavelmente insatisfeito com o ambiente
externo. – Como você pode ver... e bem, este é Edward Cullen. – Eu
recostei minha cabeça no ombro de Edward. – Ele é meu... meu
namorado. E o pai do bebê.
— Como você pode estar grávida, Bea? – A pergunta de Felícia causou
risos instantâneos entre os presentes. Eu mesma ri, o suficiente para
parecer uma gargalhada. Todos ríamos, porque a pergunta era
simplesmente tola demais. Poderia ter sido minha pergunta, meses
atrás. Eu era assim tola. Mas eu pensava que Felicia fosse mais
esperta do que eu. Ela era minha tutora. Ela deveria ser mais esperta
do que eu.
— Eu amo Edward. – Eu disse, bastante imersa em seus braços.

296
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Você deve contar a ela. – Edward disse, encarando Felicia com


seriedade.
— Contar o que? Como você...
— Edward tem um talento especial. – Esme sorriu, apesar de saber
que o momento era tenso. Esme sempre interferia quando pressentia
tensão, principalmente se um de seus filhos estivesse envolvido. –
Ele consegue saber o que todos pensam e sentem. Ele... lê.
— O que eu preciso saber? – Perguntei a Felicia, pois Edward foi
claro. Ela precisava contar-me.
— Beatrice, você não podia... isso não podia ter acontecido!!
— Você está me deixando agoniada. – Protestei, e meu ventre se
mexeu. Levei a mão ao mesmo lugar que as de Edward estavam. Ele
continuava tenso, sério. – Conte-me logo, não acha que é meio tarde
demais para mentir-me?
— Bea, Rudolph está vindo te buscar. Ele está usando o rastreador...
ele pretende buscar você, e não virá sozinho. Você... isso não está
certo. Ele quer você de volta ao covil, porque você deve estar lá e
unir-se a Ferdinand.
— Ferdinand?? – Falei, assustada. – Ferdinand, o garotinho que eu
cuidava?
Felicia não disse nenhuma palavra. Seus olhos baixaram, e Edward
cerrou os punhos, com ira. Aquilo tudo me deixava extremamente
agoniada, e aquele sentimento era péssimo. Tanto para mim quanto
para o bebê.
— Bea, Ferdinand não é mais um garotinho. – Foi Edward quem
respondeu a meus questionamentos. – Ele... cresceu. Ferdinand é
filho de híbridos com... vampiros. Assim como... você.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

Choque. Olhei assombrada para Edward, olhos arregalados, boca


entreaberta, queixo caído.
— Ele cresceu?
— Sim, ele nasceu no covil, e hoje ele é um híbrido adulto. – Edward
continuou a contar-me. – Ele foi tirado de você para que você não
percebesse que ele crescia. Não era para você saber.
— Felicia. – Eu me virei a ela. – Você sempre soube isso? Então
Ferdinand era meu prometido?
— Você era a prometida dele. – Felicia não tinha como esconder-me
mais nada, afinal. Edward se contraía plenamente ao meu lado; eu
podia sentir toda a angústia de seu corpo. – Na verdade, Ferdinand
foi um milagre. As híbridas não conseguiam gerar um macho... todas
as gestações resultavam em fêmeas. Mesmo você estando por anos
madura e preparada para a concepção, não conseguíamos gerar um
macho.
— Por quê? – Eu não lia mentes, e precisava saber. Aquela conversa
parecia desagradável, mas eu precisava saber!
— Porque Rudolph pretende que vocês deem continuidade à sua
hegemonia.

Outro choque. Aquele ainda mais apavorante. Respirei fundo, fechei


os olhos. Edward me abraçou, acariciando minha face com a ponta
dos dedos.
— Calma, Bea... você não deve se irritar. Respire bem devagar, meu
amor...
— Edward, diga-me. – Perguntei, olhos ainda fechados, os punhos
cerrados, a irritação me subindo pelas entranhas como um veneno.
Eu já sabia a resposta, mas eu precisava da confirmação. Eu precisava

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

confirmar que tudo aquilo era ainda mais repugnante do que eu


imaginava.
— Sim, Bea. – Edward assentiu em meus ouvidos. Então, era aquilo.
Eu poderia me recusar a crer na verdade, mas ela estava
insistentemente batendo à porta da minha consciência. Negá-la
podia ser possível, não enxergá-la, não.
— Eu...
— Você não vai sair agora, Beatrice. – Edward travou seus braços ao
meu redor, não intencionando soltar-me enquanto meus
pensamentos não se acalmassem. – Você não deve nem ficar
andando pela casa, quanto mais passeando pela floresta.
— Vocês poderiam nos deixar a par do que está havendo? – Rosalie
encerrou o silêncio dos Cullen. Mãos nos quadris, ela parecia
bastante irritada com as conversas mentais.
— Eu sou filha de Rudolph e Felicia. – Falei, assumindo a realidade
que me foi colocada naquele momento. – Filha biologicamente
concebida, como o meu filho com Edward.
— Não exatamente. – Felicia esfregava as mãos. – Você era filha de um
híbrido com um vampiro. Sua genética é bastante depurada, se
comparada com a genética de um híbrido, Bea. Se você analisar, que
híbrido têm a regeneração como a sua?
— Todos! – Disse, querendo levantar-me. Edward manteve-me firme.
— Bea, se eu for golpeada no coração, posso morrer. – Felicia disse,
tom baixo de voz, olhando diretamente em meus olhos. – Eu levo
horas me regenerando, e essas horas, dependendo da lesão, podem
me matar. Você... a sua regeneração é impressionante. Você é um ser
muito mais aperfeiçoado do que todos os outros híbridos. Rudolph
chama você de geração dois.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Isso é ridículo! – Reclamei, voltando-me para o peito de Edward. O


cheiro suave de sua pele me acalmava, invariavelmente. Afundei-me
em seu roupão, desejando permanecer ali durante aquele momento
de instabilidade.

— Então eu devo considerar que... o bebê de Beatrice e Edward é


ainda mais depurado do que ela. – Carlisle, o pesquisador. Aquela
conclusão não me havia recorrido ainda. Mas ele, cientista,
visualizou tudo imediatamente. O meu bebê era de um padrão
genético muito superior a qualquer outro híbrido.
— Sim, Sr. Cullen. – Felicia baixou o olhar. – Diga-me, Bea... ele
machuca você? Porque ele deve ser muito forte, muito mais do que
você foi. E você machucava o suficiente.
— Sim. – Edward foi quem respondeu. – Ela tenta me esconder, como
se conseguisse. Mas ela se regenera muito rapidamente, então nunca
é nada com o que se preocupar.
— Não seja intrometido, Edward Cullen. – Eu ainda estava afundada
em seu peito. – Meu filho não me machuca.
— Nosso filho.
— Que seja.
— Ai, que fofo, vocês dois discutindo! – Alice bateu palminhas. Ela era
sempre empolgada demais. Mesmo em um momento daqueles, ela
conseguia encontrar motivos para... celebrar.
— Ew, Alice. Menos... – Emmett reclamou. E os Cullen voltavam ao
normal, depois do choque de receber minha mãe – e eu então sabia
que Felicia era minha mãe e não minha tutora – na casa. E depois do
choque de tantas novidades, não tão novas assim, a meu respeito. Se
eles me expulsassem de suas vidas naquele instante, eu não ficaria
surpresa. Eu carregava comigo muita esquisitice.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Bem, Felicia... você ficará conosco? – Esme levantou-se, e Carlisle a


seguiu.
— Preciso retornar ao covil antes que deem pela minha falta.
— Não seja tola. – Reclamei. – Se já não deram por sua falta, seu
retorno vai fazer com que saibam que saiu. E Rudolph vem me buscar
de qualquer jeito, eu já havia sido alertada por Alice. Estaremos
preparados. Você pode passar a noite.
— Bea, ele não pretende mudar de ideia. – Felicia parecia apreensiva.
– Eu vim te avisar porque ele não quis ser razoável comigo... e você é
minha filha, eu precisava.
— Estaremos preparados. – Edward confirmou minha frase.
— Eu queria saber... por que você o desafiou para vir atrás de mim. –
Eu perguntei, no pé da escada, antes de ser abduzida por meu
namorado vampiro que não descuidava de mim um instante sequer.
— Porque você é minha filha, Bea. – Felicia me olhou com suavidade.
– Eu faria qualquer coisa para ver-te a salvo.
— Eu entendo. Não precisa se preocupar. Eu também farei qualquer
coisa para colocar aqueles que amo a salvo.

CAPÍTULO 20 – REALIDADE

— Beatrice, acalme-se! – Edward estava sentado na cama, tentando


fazer-me sentar também. Eu estava de pé, a girar pelo quarto em
uma velocidade incompatível com minha condição física. Eu não
conseguia adormecer, o cansaço havia desaparecido, e os
acontecimentos da noite eram demais para mim. Tudo de uma só
vez, uma realidade cruel e desagradável. – Amanhã... quero dizer,

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

mais cedo você conversará mais com sua mãe. Por favor, venha para
a cama.
— Edward! – Disse seu nome, voz mais elevada do que de costume. –
Não seja irritante. Você não percebe como me sinto?
Edward respirou fundo, aquele cacoete demonstrando que ele já
havia ultrapassado os limites da irritação. Mas ele precisava
controlar-se, sempre... por mais irritante que eu fosse; por mais
insuportavelmente irritante que eu fosse, Edward era sempre um
cavalheiro. Gentil, educado, polido como nunca nenhum dos híbridos
fora. Ele me olhou, com total desalento, como se meu
questionamento fosse um grande absurdo.
— Claro que eu percebo, Beatrice! – Ele passava os dedos pelos
cabelos, desarrumando-os. – Bea, eu percebo tudo. Como você se
sente, como ele se sente; eu sofro com tudo isso em dose tripla, agora.
Por favor, acalme-se e deite-se aqui comigo...
— Eu acabo de descobrir que sou filha de um vampiro.
— Você ama um vampiro. – Ele sorriu, apesar da minha atitude. – E
está grávida dele.
— Eu sou filha de alguém, Edward! Fui gerada! Concebida! Como não
me lembro de nada disso?
— Você terá tempo de perguntar a Felicia...
— Eu fui prometida ao garoto que ajudei a criar!
— Ele agora é um homem; ele iria crescer uma hora ou outra.
— Você quer fazer o favor de não rebater minhas considerações? –
Parei-me em frente a Edward, mãos nos quadris, sentindo dores
horríveis na região do ventre. O bebê se mexia demais, e cada chute
significava uma pequena hemorragia interna. Que rapidamente se
curava, mas que causava dor o suficiente para me incomodar. – Eu
estou muito inquieta, eu não consigo pensar com clareza.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Bea, meu amor... – Edward levantou-se, quase a ponto de desistir


de mim. Eu já teria desistido de mim, se estivesse razoável o
suficiente para ponderar qualquer coisa. Abraçou-me com bastante
delicadeza, puxou minha face para si. Seu roupão estava aberto, o
que me permitiu contato o suficiente com sua pele, para que eu me
sentisse mais tranquila. Ele invariavelmente fazia comigo tudo que
queria. Repentinamente, sentindo-me vulnerável, Edward me tomou
em seus braços, suspendendo-me do chão. Sentou-se comigo em seu
colo, arrastando-nos para o meio da cama. Eu não desejei lutar
contra aquilo. – Olhe para mim... – seus dedos elevaram meu queixo
e meus olhos foram capturados pelos dele. – eu estou aqui. Não
importa o que houve, depois você poderá perguntar a alguém. Não
importa quem prometeu você a quem. Você é minha... vocês dois. A
única realidade que me importa é essa. Desde que você chegou à
minha vida, você ocupou todos os espaços vazios. Até então eu nem
sabia qual era minha função nesse mundo, por que eu não tinha
morrido junto de minha mãe. Hoje eu sei, eu deveria estar aqui por
você. Por vocês dois.

Eu tinha os olhos fechados, então. Minha respiração estava lenta, e


meu corpo parecia feito de alguma substância solúvel. Deixei-me
amolecer nos braços de Edward, enquanto ele me embalava como se
estivesse fazendo aquilo ao bebê. Talvez estivesse. Eu estava sendo
tola, mais uma vez. Mas era mais forte do que minha vontade, aquele
comportamento. Muita informação nova para processar de uma vez.
Eu era só uma híbrida tola, que mal sabia da própria existência.
Desde que eu me descobrira grávida, tudo acontecia rápido demais. E
era assustador. Eu me sentia acuada como um animal na caça
esperando por um predador tão cruel quanto Emmett. Emmett não

303
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

era cruel, mas um caçador eficiente demais. E o caçador chegava


mais perto a cada dia, e eu tendo que lidar com tantas adversidades e
tantas novidades.
— Desculpe-me, Edward. – Minha voz estava lenta e baixa.
— Você deveria dormir.
— Não quero.
— Anda muito teimosa, sabia? – Ele riu. – Alice... Alice, poderia parar
de ouvir e vir aqui, por favor?
Abri os olhos e ergui uma sobrancelha, confusa. Alice? Obviamente
Edward a tinha ouvido, mas era curioso que ele a tivesse mandado
entrar, e não desaparecer. Os Cullen normalmente eram
suficientemente curiosos a nosso respeito, mas Edward usualmente
lhes proferia alguma blasfêmia. Pedir-lhes para entrar era novidade,
mais uma. A porta do quarto se abriu e a pequena Cullen entrou,
sorrindo, entusiasmada. Aquele humor de Alice era contagiante,
apesar de tudo. Edward ainda nos embalava, mas eu estava mais
calma.
— Pensei que me deixaria de fora!! – Alice batia palminhas
novamente. – Posso pegar?
— Sim, por favor.
— Pegar o que? – A confusão se transformou em pânico,
momentaneamente. Edward ajeitou-se na cama, e colocou-me
devidamente sentada, por entre suas pernas. Retirou uma mecha de
cabelo de minha face, delineou meus lábios com o polegar, beijou-me
suavemente. Aquilo era quase um feitiço; todo aquele ritual.
— Bea, eu tive uma ideia tola... há alguns dias... semanas... desde que
soube de sua gravidez. Por algum motivo, sua condição me remeteu a
uma conversa que tivemos na Europa. – Edward me olhou, sorrindo.
Alice já havia pegado algo dentro do armário, a parte de Edward. Eu

304
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

olhava apreensiva; um olho em cada Cullen. Aqueles dois reunidos


nunca preparavam nada saudável. Ao menos para mim. – Lembra-se?
De quando você pensou que a viagem parecia... uma lua de mel?

Minhas bochechas arderam. Eu deveria estar vermelha como fogo.


Senti calor, repentino. Olhei assustada para Edward, e novamente
para Alice, que parecia extasiada.
— Sim... – Resposta errada?
— Pois bem. Eu esperaria o bebê nascer... não queria abusar da sua
inconsistência hormonal para forçar-lhe uma resposta.
— Inconsistência hormonal? – Protestos.
— Bea... – ele selou meus lábios com os dedos. – Eu decidi tomar essa
atitude agora, porque vi como você teve dificuldade em me
categorizar, quando foi me apresentar a Felícia.
— Eu... eu disse direito, não? Meu... namorado? – Resposta errada,
mais uma vez.
— Você hesitou bastante. – Alice riu. Edward a encarou. – Ok, sem
interferências...
— É que... às vezes eu me sinto confusa. Eu nem sempre sei se você é
meu namorado, meu primo, meu companheiro... são tantos disfarces,
tantas categorias... eu gostaria de dizer apenas que você é meu
Edward. Só isso.
Edward sorriu. Eu ainda estava apreensiva, mas ele sentia prazer
naquela tortura.
— Eu não sei quais as suas convicções quanto a isso porque você
nunca pensou nisso. Mas eu gostaria de colocá-las à prova.

Edward estendeu o braço longo para Alice, que lhe entregou uma
pequena caixa. Ele segurou entre os dedos o objeto, e o abriu. Virou a

305
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

caixa para mim, e meus olhos se perderam no brilho amarelo da


pedra mais linda que eu já vira. A mesma que estava em Port
Angeles, quando eu fora comprar o presente de Sylvia, e que
representava seus olhos. Os olhos de Edward. Olhei para Alice
primeiro, daquela vez, ainda em branco.
— Pela tradição, isso deveria ser um diamante. Mas Rosalie disse que
você ficou fascinada nessa pedra, então...
— Pare de enrolar, Edward! – Alice deixou escapar, e foi novamente
repreendida, sem palavras.
— Eu estou tentando fazer isso, Alice... dê-me algum crédito.
— Eu estou começando a ficar ansiosa. – Foi a minha interferência.
— Desculpem-me, vocês duas. – Edward fez uma reverência, muito
provavelmente desistindo de argumentar com duas mulheres. –
Beatrice... você gostaria de se tornar a minha esposa?

Se aquela já não estivesse sendo a noite mais surreal de todas as


noites surreais possíveis em minha pacata existência, eu talvez
estivesse chocada ao extremo com as palavras de Edward. Elas talvez
me fizessem cair o queixo, ou ter uma crise de ansiedade. Mas eu
simplesmente me peguei olhando para Edward sem conseguir
exprimir nenhuma emoção. As palavras não me vinham à boca, e eu
não emitia ruído algum. Ele estava ali, sentado, a caixa em suas mãos,
o anel na caixa, olhando para mim, esperando uma definição. E eu
não conseguia nem ao menos me mover. Fui congelada. A noite mais
absurda de todas as noites absurdas. Edward estava me pedindo em
casamento. Como se aquilo fosse possível!

Humanos casam e procriam. Humanos! Eu era uma híbrida... e tudo


fazia menos sentido, a cada dia.

306
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Tudo bem, foi uma ideia tola, mesmo. – Edward entendeu a minha
total ausência de tudo como um não. Seus dedos cerraram a caixa
preta aveludada, enquanto Alice ainda esperava algo acontecer. Ela
já sabia. – Por que você iria pretender aceitar isso, afinal eu sou um
vampiro e...
— Eu aceito. – As palavras atropelaram o pensamento, e saíram de
meus lábios de forma descoordenada. Alice abriu um largo sorriso, e
Edward olhou-me com alegria, sem rastro da decepção momentânea
que o abatera. – Eu aceito me tornar a sua esposa, Edward Cullen...
seja lá o que isso signifique.
Edward então sorriu verdadeiramente, aquele sorriso que costumava
iluminar todo o ambiente, em alívio. Abriu novamente a caixa e
retirou o anel, colocando-o em meu dedo. Coube... caberia melhor
depois que desaparecesse o inchaço da gravidez. A medida era
perfeita.
— Posso contar para todos os Cullens? – Alice já estava agitada,
novamente. Eu ainda olhava para o anel, não muito certa se em
transe pela beleza irreal da pedra, se pela semelhança com os olhos
de Edward, se pela situação em que me colocara. A situação de noiva.
— Depois, Alice... preciso que Beatrice durma. – Edward me beijou a
testa.
— Estraga prazeres! – E a pequena Cullen jogou-se para meu lado,
abraçando-me com muita força. Quase força demais. Edward
suspirou, provavelmente repreendendo Alice mentalmente, mais
uma vez. – Bea, eu estou muito feliz. Eu sei que você já era parte da
família desde quando chegou, mas... essas tradições humanas que
nós, vampiros, abandonamos... são perfeitas! Será o primeiro
casamento entre os Cullen... ah, melhor eu ir para meu quarto antes

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

que Jazz possa ter as mesmas ideias de Edward... não que eu esteja
repreendendo você, Edward, mas é que um casamento por século é o
ideal, não?

Alice saiu do quarto, saltitando. Apesar dos recentes acontecimentos


não parecerem muito felizes ou despreocupados, Alice estava
radiante. Provavelmente ela sabia de algo que eu não sabia, e que
ninguém me contaria. Edward deveria saber, e ele definitivamente
não me contaria. Talvez fosse uma boa surpresa, era sempre como
pensava.
— Este foi provavelmente o pior pedido de casamento de toda a
história. – Edward considerou, deitando-se na cama e puxando-me
para com ele. – Mas eu precisava fazer algo para distrair seu foco...
— Trapaceiro, é o que você é. – Balbuciei, sentindo finalmente o
cansaço me abater. O céu já estava cinzento, lentamente
preenchendo-se com tonalidades rosadas.

O dia seguinte me reservava respostas, era o que eu esperava. Felicia


não me negaria as respostas que eu pretendia obter, e eu não lhe
deixaria opções. A noite fora tensa; mesmo depois de adormecer meu
corpo continuou cansado. Eu despertei muito mais cedo do que seria
esperado, em razão do meu sono tardio. Mas eu simplesmente tinha
perturbações demais, e o lado consciente do cérebro esteve no
comando por quase todo o tempo. Meu Edward não ficou muito
satisfeito, eu o ouvia rosnar e sentia seu corpo rígido ao meu lado,
sabendo que seus movimentos poderiam me acordar, e sua ausência
também. Ele também decidiu protestar porque eu me levantei e me
preparei pra vestir-me, na intenção de descer. Aquele cuidado todo
comigo já estava quase beirando ao descontrole. Precisei convencê-

308
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

lo de que eu estava perfeitamente bem antes de convencê-lo a soltar-


me, e permitir que eu saísse do quarto em busca da satisfação da
minha curiosidade.

Desci as escadas com Edward me seguindo, ainda terminando de


vestir-se, tentando segurar-me para manter-me apoiada. Ele dizia
que eu o deixava louco. Ele também, então era recíproco. Morreria
louca, se fosse para estar ao lado de Edward. Se a hipótese de morrer
fosse razoável, morreria por ele. Sim, beirava à loucura, qualquer
daqueles pensamentos. Encontrei Felicia, minha recém descoberta
mãe, com Esme, minha então escolhida mãe. Eu antes não tinha
nenhum pai, nenhuma mãe; apenas uma família de aluguel em um
covil malcheiroso. E então eu me encontrava com duas mães, um pai
cruel e um filho por vir. Meu conceito de família estava quase tão
confuso quanto o dos humanos.

Aproximei-me das duas, na sala, com meu protetor sempre ao meu


lado, e sentei-me. Ele tinha razão quando afirmava que eu não tinha
condições de me esforçar... meu corpo estava muito mais fraco do
que de costume. Eu respirava com dificuldade, porque o bebê me
pressionava todos os órgãos internos. Eu nem sabia que eles
funcionavam direito... os meus não deveriam funcionar, mas
imaginava que funcionassem bem melhor do que os de Edward.
Provavelmente eu era tão imortal quanto ele por causa da
regeneração, mas depois de tudo que me aconteceu, eu já suspeitava
que meu organismo fosse mais vivo do que eu poderia supor.
— Bea, você quer que faça algo para você comer? – Edward acariciou
meus cabelos. – Você está fraca, e não vai querer sair para caçar
agora, vai?

309
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Comer? – Felicia olhou-nos com surpresa.


— Sim... tudo bem, Edward. Eu estou mesmo me sentindo mal, talvez
seja melhor comer alguma coisa..
— Panquecas? – Ele sorriu, e eu daria uma eternidade por aquele
sorriso todos os dias.
— Com tudo que tiver direito. – Eu beijei seus lábios, e voltei-me para
Felicia, que parecia curiosa. Ela não estava tão curiosa quanto eu,
podia apostar. Mas eu seria uma boa pessoa e satisfaria seus
questionamentos, a fim de obter algo em troca. – Eu me alimento de
comida humana, também. Fizemos uma... experiência. E foi
produtiva.
— Isso é muito interessante, Rudolph adoraria...
— Rudolph. – Eu a interrompi. – Felicia, precisamos conversar. E você
vai me responder tudo que eu perguntar.
— Vou ajudar Edward com a comida... – Esme levantou-se.
— Pode ficar, Esme. Eu não tenho segredos para os Cullen, mesmo. E
Edward já está bem expert em cozinhar-me panquecas... pelo menos
isso ele aprendeu bem.
Minha mãe adotiva sorriu, e sentou-se novamente. Eu sabia que
Esme não interromperia nossa conversa até o momento em que ela
fosse solicitada. E eu precisava mesmo de apoio moral para
prosseguir com minha investida.
— O que você deseja saber, Bea? – Felicia estaria rendida, então.
— Rudolph. Ele é meu pai... o que exatamente eu sou? Por que eu
existo?
— Você é apenas uma das filhas de Rudolph. Ele emprenhou diversas
fêmeas, todas em busca da genética perfeita. Você é a escolhida
dele... a menina de seus olhos. Desde sempre Rudolph quis você; ele
preteriu todas as outras. Você foi gerada para dar continuidade à sua

310
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

hegemonia, na liderança do covil. Você, o híbrido a quem você seria


entregue como esposa, e sua prole.
— Eu? – Aquela conversa definitivamente me causaria mal estar, mas
eu precisava. – E Ferdinand? Ele é filho de quem?
— Também de Rudolph. Foi muito difícil gerar um macho, como eu te
disse antes. Várias híbridas ficaram prenhes, e nenhuma delas
conseguiu gerar um macho. Quantos machos você tinha sob seus
cuidados?
— Somente Ferdinand... – tentei recordar-me. – Então quer dizer que
Rudolph brincou de Deus para criar uma genética perfeita a fim de
dar continuidade a si mesmo? Isso não faz sentido, se Rudolph é
imortal...
— Ele também se cansa, Bea. Ele está cansado de governar... ele
pretende deixar o covil tão logo você e Ferdinand tenham se unido e
Ferdinand possa assumir o conselho.
— Ferdinand é uma criança. – Eu disse, mais para mim mesma. – E eu
não vou me unir a ele, eu já estou definitivamente unida a alguém.

Com um sorriso nos lábios, nada condizente com minha atual


condição psicológica, elevei a mão direita e exibi a bela pedra
amarela que estava em meu dedo anular. Esme aproximou-se para
vê-la, também sorridente. Era de se supor que ela soubesse das
intenções de Edward, mas ela provavelmente não havia visto a
pedra, ainda. Se eu conhecia Edward como eu considerava conhecer,
somente Rosalie havia visto aquela pedra.
— Edward! – Esme chamou o filho, que já adentrava a sala com o
prato de panquecas. O cheiro doce imediatamente me fez sentir um
arrepio e um mal estar abdominal. – Isso não é um diamante...

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Eu sei, Esme. – Ele parou à minha frente, examinando à luz do sol


como havia ficado o anel em meu dedo. O contraste do amarelo com
a minha pele tão branca quanto a dele. – Mas Rosalie me garantiu
que Beatrice se encantou por esta pedra, muito mais do que por
qualquer diamante. E o anel é para ela; sua vontade vale mais do que
qualquer convenção humana.
— O que é isso? – Felicia definitivamente não parecia muito esperta.
Não tanto quanto ela parecia no covil. Os híbridos deviam mesmo ser
estúpidos, como Edward garantira.
— Edward me pediu em casamento. – Ele sorriu, eu senti sem nem
olhá-lo. – E eu aceitei. Estamos noivos... e vamos nos unir em
casamento, como fazem os humanos. Sob a benção do Deus no qual
você me ensinou a crer, Felicia.

Edward sentou-se ao meu lado, e cortou as panquecas em pedaços


para mim. Se eu o permitisse, ele me alimentaria, como gostava de
fazer. Mas eu estava concentrada demais no que fazer e
desconcentrada demais em todo o resto. Peguei o prato de suas mãos
e coloquei um pedaço de alimento na boca. O sabor também era
nauseante, mas logo me acostumei. Mastiguei bem devagar e engoli,
sentindo o alimento me arranhar a garganta. Edward riu, tentando
evitar aquela reação. Olhei para ele, curiosa.
— O bebê. – Ele disse, sem conseguir segurar o riso. – Ele não está
muito satisfeito com as minhas panquecas.
— Ah! – Eu também ri. – Explique a ele que, por causa dele, eu não
posso sair para caçar. O que ele pretende, que morramos ambos de
fome?
Edward colocou suas mãos sobre meu ventre, acariciando-o
lentamente. Depois, em um movimento rápido e inesperado, ajeitou-

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

se no sofá e deitou-se sobre minhas pernas, a face comprimida em


meu ventre, as mãos circundando minha cintura. Apoiei o prato
sobre minha barriga completamente dilatada – e aquilo era
perfeitamente possível – e liberei uma das mãos para poder acariciar
seus cabelos. O conforto que eu precisava, então.

— Tudo isso é muito estranho para mim. – Felicia baixou o olhar, e eu


sabia que ela estava confusa e constrangida.
— Imagine para mim. – Eu precisava sempre me manter no ataque. –
Imagine como é para mim descobrir que eu sou filha de um vampiro,
especialmente designada para gerar um exército de aberrações.
Preferia que eu fosse qualquer outra coisa, e que Rudolph tivesse
escolhido qualquer outra.
— Ele ama você, Beatrice. – Felicia olhou-me novamente. – Apesar de
tudo, você foi a única que ele amou. Você acredita mesmo que ele
permitiria a qualquer outra deixar o covil?
— Mas agora ele virá clamar-me de volta. Era melhor que me tivesse
mantido prisioneira; eu não quero voltar para o covil. Eu tenho uma
razão para existir aqui, Felicia... muito melhor do que a razão que eu
teria para estar lá. Se Rudolph quer o comando do covil, que ele
passe a eternidade lá. Mas... há algo que eu preciso saber, ainda. – O
silêncio era absoluto, eu só conseguia ouvir o ruído de dois corações
que pulsavam o mais lentamente possível. – Por que eu não me
lembro de nada. Por que eu não tenho memórias de ter sido... jovem.
— Eu não deveria lhe contar isso.
— Você não parece ter muita opção. – Meus olhos pousaram sobre o
perfil delicado de Edward, que mantinha os olhos completamente
fechados enquanto absorvia nossa conversa. Seus lábios se esticaram
em um sorriso de canto de boca, delicioso. Aquele era o sinal que eu

313
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

esperava, para ter certeza que Edward sabia a resposta que eu queria.
– Você conta, ou ele conta. – Felicia franziu o cenho. – É irritante,
não? Estar com alguém que sabe tudo a seu respeito, sem você ter
como esconder nada dele...
— Ouch. – Edward resmungou, em protesto. Ele não tinha o direito de
me repreender, depois da quantidade de adjetivos com os quais eu
estava acostumada. Cobaia, ingênua, estúpida...
— Eu te amo. – Falei bem baixo, sussurrando só para ele.
— Que conversa mais enjoada! – Emmett entrou sala adentro em um
repente, chegando do jardim. – Dá para ouvir essa melação de vocês
lá de fora, pelos céus!! Vamos, eu também quero saber a resposta!
Por que minha irmãzinha acha que foi transformada...
— Rudolph apagou sua memória. – Felicia baixou o olhar novamente.
– Ele... tem vários conhecimentos e vários conhecidos. Ele o fez, eu
não sei como... mas ele apagou sua memória da infância. Por isso
você não se lembra de nada, nem de ter sido transformada, nem de
ter sido jovem.
— Isso foi cruel. – Emmett não era tão polido quanto a mãe e o irmão.
Intrometer-se era da sua natureza. Mas eu não me importava mais;
como havia dito eu não tinha segredos para os Cullen.
— Bem, pelo menos agora eu tenho as respostas. – Terminei de
comer as panquecas, e descartei o prato para o meu lado. Antes que
eu pudesse pensar no que fazer, Esme recolheu a louça e levou para a
cozinha. Por vezes eu me sentia constrangida quando eles cuidavam
tão bem de mim. – Mesmo que eu não goste, saber a verdade é
melhor do que viver na ignorância.

Levantei-me, sentindo algumas dores. Eu não queria que ninguém


soubesse das minhas dores, mas era impossível escondê-las. O bebê

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

se mexia demais, eu estava muito inchada, e meu corpo parecia


incrivelmente frágil. Eu tentava me alimentar de sangue, pois era só
o que eu queria, mas eu precisava de muito mais sangue do que eu
conseguia ter. Ou os Cullen iriam à loucura caçando para mim ou eu
teria que lidar com o enfraquecimento de meu organismo. A cada
chute e a cada hemorragia, eu consumia uma quantidade
impressionante de reservas para me regenerar. Edward não me
deixava sozinha exatamente por aquela razão; porque ele sabia que
eu estava fraca e debilitada. Demais, para um imortal. Mais do que eu
desejava.

Apesar da minha irritação com os híbridos, com Rudolph e com


qualquer outra memória do covil, Felicia era a minha mãe biológica e
eu não podia manter um sentimento negativo quanto a ela.
Principalmente porque ela não era culpada pelo que acontecera.
Talvez nem Rudolph fosse culpado, ele fosse simplesmente egoísta
demais para pensar em alguém que não ele mesmo. Os híbridos
pareciam nutrir uma noção de comunidade e fraternidade que não
era condizente com aquele perfil de Rudolph. Logicamente, ele era
um vampiro. E um vampiro que se alimentava de sangue humano.
Porém eu também não conseguiria manter sentimentos ruins quanto
a Rudolph. Felicia foi categórica ao afirmar que ele me amava. Que eu
fora a única que ele amou. Ele sempre me tratou de forma especial.
Poderia Rudolph nutrir um sentimento paterno para comigo? Como
Edward e o nosso filho?

Não, nada em Rudolph poderia se comparar a Edward. Nada naquela


minha família biológica real poderia se comparar à minha família
por afinidade, os Cullen. Aquela era a minha realidade, a que eu

315
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

havia escolhido para mim. Não importava o que fora ou o que seria,
eu sabia que a minha família, a que eu chamaria de família, seria
sempre a família dos Cullen. E eu não estava preparada para abrir
mão da vida que eu havia escolhido para mim.

Mas eu precisava encarar alguns fantasmas do passado antes de me


conciliar com o futuro. Duas noites após a chegada de Felicia, Alice
teve a visão que todos aguardavam. Os híbridos estavam deixando o
covil, e eles sabiam onde procurar. A notícia foi dada durante uma
das convenções dos Cullen, no salão principal.
— Vamos ter que brigar? – Emmett, punhos cerrados, socando a
própria mão.
— Ninguém vai brigar, Em... – Carlisle sacudiu a cabeça, reprovando a
atitude do filho. – Alice, quantos virão?
— Quatro. – A pequena vampira parecia em transe, os olhos
arregalados e olhar distante. – São quatro... Um deles é jovem.
— Deve ser Ferdinand. – Eu disse, sentindo fisgadas por todo o corpo.
– Rudolph provavelmente o traria para buscar sua prometida.
— Ele é muito inconsequente. – Felicia reprovou. – Ferdinand é um
híbrido muito jovem para sair em uma missão dessas.
— Os outros são híbridos?
— Vampiros como Rudolph. Só o jovem é híbrido.
— Richard e Brandon. – Felicia considerou. – São os que Rudolph
confia mais...
— Eles trazem o rastreador? – Eu tinha que perguntar.
— O animal? – Alice perguntou, ainda em transe.
— Sim...
— Eles trazem um animal, como um lobo... mas não é um
lobisomem...

316
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— O rastreador é um mutante. – Eu sabia aquelas respostas. – Ele é


um animal, um lobo... mas vampírico. Ele tem presas afiadas e se
alimenta de sangue. É só mais um integrante do show de horrores do
covil.
— O que faremos? – Esme perguntou, olhos pousados na imagem
pensante de Carlisle. O patriarca da família Cullen estava
concentrado nas respostas de Alice.
— Não faremos nada. – Eu me manifestei. Os olhos de Edward
imediatamente assumiram uma coloração escurecida, e ele me
encarou com perplexidade extrema. Eu pude sentir sua agonia, todos
puderam. – Eles vêm por minha causa, quem precisa resolver isso
sou eu.
— Não. – Edward cerrou os punhos e se colocou ao meu lado,
olhando-me de cima. Eu tinha o semblante decidido, e a reação de
Edward fez com que os Cullen compreendessem algumas de minhas
intenções. – De jeito algum, nem pense...
— Edward... – Eu sorri para ele, e levei meus dedos até sua face,
acariciando-a. – Meus problemas, minha solução.
— Bea, você é parte da família. Não vamos deixá-la enfrentar isso
sozinha. – Jasper manifestou-se.
— Eu não pretendo enfrentar sozinha. Eu preciso do apoio de vocês,
ou não conseguirei fazer isso.
— Não! – Edward me segurou firme pelos dois braços, os dedos
comprimindo minha pele com muita força. Baixei o olhar
novamente, não conseguindo olhar diretamente em seus olhos. Os
Cullen estavam todos apreensivos, ninguém exatamente entendendo
o que havia; o que eu decidira. De fato, eu também podia desenvolver
conversas mentais... talvez fosse
— Eu já me decidi, Edward. Em quanto tempo eles chegam, Alice?

317
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Amanhã. – A vampira disse, dispersando-se de seu transe.

Eu me afastei do grupo, caminhando e direção ao jardim dos Cullen.


Aquele jardim me trazia boas memórias. Eu não me esqueceria das
vezes em que me entendi com o sol... a relva macia e as flores que
exalavam um perfume tão familiar. Mas eu não podia ter aqueles
pensamentos nostálgicos. A minha decisão estava tomada, mas ela
significava exatamente ficar ali, entre os Cullen, por toda a
eternidade. Eu não pretendia deixá-los, deixar Edward. Eu precisava
resolver uma pendência, um problema que eu sequer sabia existir.
Tão logo ele se resolvesse, eu retornaria para eles. Para ele, para o
meu noivo. Edward precisava entender aquilo, ele precisava
compreender que aquela situação fora causada por mim, e somente
eu poderia resolvê-la. Não cabia a qualquer dos Cullen. E eu não
pretendia imputar-lhes a responsabilidade por isso.

Eu precisava enfrentar a realidade. Felicia era minha mãe, Rudolph


era meu pai, e ele pretendia ter-me de volta no covil. Ele pretendia
unir-me com Ferdinand e dar continuidade a seus planos
completamente descabidos. Cabia a mim fazê-lo compreender o
quanto tudo aquilo era insano. O quanto ele feria os sentimentos
alheios. Cabia a mim fazê-lo enxergar. Ele era meu pai, e ele me
amava. Ele teria que me ouvir. Ele também precisava enfrentar a
realidade. Para Rudolph, a realidade era simples. Eu amava Edward, e
ficaria com ele. Eu amava os Cullen, e ficaria com eles. Não
importava saber que eu tinha uma família biológica; aqueles laços
nunca me fizeram sentido algum. Eram duas realidades conflitantes
que precisavam se encaixar. Como eu e Edward. Era somente uma
questão de enquadramento.

318
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

Não era da minha natureza ser prática, menos ainda lógica. Eu era
um ser muito pouco racional. E grávida eu poderia me considerar
completamente irracional. Toda aquela ponderação ia de encontro a
todas as expectativas. Rosalie foi quem decidiu buscar-me no jardim,
alguns minutos depois. Estavam todos preocupados comigo, e eu
preocupada com todos. Eu era forte o suficiente, eles não precisavam
se preocupar. Tudo sempre se ajeitaria, comigo.
— Bea, venha para dentro... logo vai escurecer e Edward...
— Seu irmão agora manda recados? – Eu a interrompi e impliquei,
um tanto quanto amarga. Talvez fosse uma defesa natural, repelir as
pessoas amadas para não fazê-las sofrer.
— Ele ia dizer que está lá dentro, parado, da mesma forma que você o
deixou. – Rosalie confessou. Virei-me para ela, um tanto surpresa
com a constatação. – Pensei que talvez você conseguisse fazê-lo
mover-se...
— Ele não deve estar muito satisfeito comigo, no momento.
— Você decidiu ir embora? – Então ele não havia contado a minha
decisão. Nem Alice. Talvez esperassem que eu mudasse de idéia.
— Eu decidi resolver a questão sem envolver vocês mais do que já se
envolveram. – Falei, tentando ser mais educada.
— É um pouco tarde agora, Bea. – Rosalie moveu os ombros,
intentando deixar-me. – Todos já estão envolvidos, e o sofrimento é
inevitável.

Eu não estava mesmo muito feliz com aquilo tudo. O mundo


particular que construí para mim, sob o sol, parecia prestes a ruir.
Como um castelo de areia, frágil e inconsistente. Eu não sabia que as
coisas da vida pudessem desaparecer como areia no mar, e eu não

319
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

pretendia permitir aquilo. Mas era inevitável que a infelicidade me


abatesse naquele instante. Eu simplesmente não queria fazer o que
eu estava decidida a fazer. Mas era inevitável, também, que eu o
fizesse. Acompanhei Rosalie para dentro da casa, para encontrar a
cena que ela descrevera. Apesar dos muitos minutos que eu ficara no
jardim, pensando, Edward não havia se movido. Esme estava ao seu
lado, mão em seu ombro, enquanto Edward se mantinha inerte,
como uma estátua. Aproximei-me dele, envolvendo-o com meus
braços e afundando-me em seu peito, como de costume. Senti seus
dedos relaxarem e se dirigirem para meus cabelos, enquanto eu
respirava lentamente. Talvez eu também soubesse como acalmá-lo.
— Espere que o amanhã chegue, Edward. – Sussurrei, só para ele. –
Ainda não sabemos o que virá.
— Mas você já tomou a sua decisão. – Ele me apertou com muita
força para si.

CAPÍTULO 21 – REDENÇÃO
*tema: Tchaikovsky‖s Piano Concerto 1 – B flat minor*

Nunca imaginei que a noite pudesse ser mais torturante do que já


vinha sendo. Noites sem tocar Edward, sem ser tocada por ele. Um
acordo entre nós, satisfazendo o gosto de nosso ainda não nascido
filho. Noites inquietas, de sono perturbado... noites as quais estava
acostumada, no covil. Noites que eu havia esquecido, sob o sol.
Noites que a vida sob o sol havia varrido de minha existência. E que
retornavam impiedosamente com o estado da gravidez. O estado de
consciência litigando com o estado de inconsciência; a batalha

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

incansável do corpo com a mente. O desejo de manter-me acordada


enquanto o organismo apagava e deixava de responder aos estímulos
de meu cérebro.

Nenhuma noite poderia ser pior do que uma noite sem Edward.

Ele não estava ali, e ele não chegaria. Ele não estava ali, e eu não
sabia o que fazer. Meus olhos se encheram de líquido, e a visão ficou
turva. Passei os dedos pelos olhos úmidos, assustada com a reação de
meu corpo. Eu estava chorando. Lágrimas vertiam violentamente de
meus olhos, e eu não conseguia fazê-las parar.

***** No dia anterior... Edward POV *****

Beatrice estava fora de seu juízo normal. Sim, ela estava grávida e
aquilo já era suficiente para deixá-la desajuizada. Mas decidir ir com
os híbridos era descabido e irresponsável. Na última semana de
gravidez, tão frágil e desamparada. Ela não podia submeter-se àquilo.
Ela não podia submeter-me àquilo. Mas eu desisti de colocar-lhe
algum juízo na cabeça quando Alice a viu no covil. As visões de Alice
não mentiam, a não ser que Bea mudasse de idéia completamente.
Ela não me parecia disposta a reconsiderar sua decisão.

Eu não tinha muito tempo com ela até que os híbridos chegassem.
Um turbilhão de pensamentos passou ao mesmo tempo por minha
cabeça, misturando-se com as vozes da minha família, da mãe de Bea,
dela mesma. Do meu filho. Todos tão perturbados, e eu querendo
colocar as duas mãos nos ouvidos e ficar completamente surdo.
Gritar pela floresta, correr em disparada sem rumo algum. Mas eu

321
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

precisava ser estável, ou ninguém mais o seria. Eu precisava fazer


algo para impedir Beatrice, mas não havia mesmo nada que pudesse
ser feito.

Pensei em tomá-la nos braços e fugir. Ela estava tão suscetível que
não seria tão difícil arrastá-la até a garagem e desaparecer com ela.
Pensei em ir para bem longe, um lugar no qual os híbridos jamais nos
encontrariam. Mas... ela estava para ter um bebê. Eu ignorava
qualquer procedimento que fosse referente ao parto, porque aquele
parto nunca fora realizado por nenhum de nós. Em verdade, somente
a sua mãe, Felicia, poderia ajudá-la naquele momento. Eu sabia que
Felicia sabia o que fazer. Ela já passara por aquilo; e tantas híbridas
sob seus cuidados. Eu não podia arriscar a vida de Bea, ou do meu
filho, em uma fuga ensandecida. Se ao menos Felicia visualizasse o
que deveria ser feito; se eu pudesse roubar-lhe a informação nos
pensamentos. Mas ela inconscientemente mantinha seu segredo
escondido o suficiente de mim.

Pensei em lutar. Tão logo Rudolph aparecesse, eu o impediria de


chegar perto dela. Eu o mataria, se fosse preciso. Eu duvidava que
aquele vampiro falsificado fosse mais forte do que eu; que ele
pudesse desafiar-me à altura. E meus irmãos estariam ao meu lado.
Emmett, a máquina de ataque mais potente que eu conhecia. Jasper,
o melhor estrategista. O que era Rudolph além de um vampiro
solitário que passava a existência controlando híbridos? Mas
Beatrice jamais me perdoaria se eu ferisse seu pai. Ou qualquer outro
híbrido. Eu vi em seu olhar o pavor quando eu eliminei Connor, o
caçador. E ele era apenas um conhecido, mas Bea mal suportou o que

322
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

houve. Ela jamais me perdoaria se eu sujasse as mãos com o sangue


de seu pai.

E eu não conseguia ver alternativa, além de implorar para que ela


não me deixasse. Jogar para os cães qualquer orgulho que eu pudesse
ter, e ajoelhar-me a seus pés para implorar que ela não fosse. Eu o
faria, se aquilo fosse de alguma utilidade. Eu faria qualquer coisa, se
houvesse algo que pudesse demover aquela híbrida teimosa de sua
decisão tola. Tola, irresponsável, estúpida. A decisão mais ridícula de
todas as decisões possíveis. Mas ainda assim era a decisão dela, e eu
deveria respeitar. Por mais que aquilo fosse me matar. E eu já estava
morto, mesmo.

Enquanto ela adormecia em meus braços, aquele sono inconsistente


que eu aprendi a observar dia após dia, a vontade de fugir era nítida
demais à minha frente. Meus dedos delineavam a sua face serena, e
acariciavam seus cabelos, enquanto ela sussurrava palavras
ininteligíveis. O que eu faria sem ela? Eu não sabia. Pela primeira vez
em toda a minha existência eu encarava um fato novo com o qual eu
não podia lidar.

Quando o céu clareou por completo e o sol começou a escavar


lentamente um espaço entre as nuvens claras, levantei-me e fui para
a cozinha. Ao menos o prazer de preparar-lhe o café da manhã eu
teria. Esme encarou-me em desalento. Eu provavelmente estava
horrível, e sem vontade alguma de me sentir melhor. Arrastando-me
pela casa como eu nunca estive, organizei os ingredientes para
preparar-lhe as panquecas, uma receita nova que Rosalie me
ensinara. Meus movimentos eram lentos e não tão coordenados

323
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

como antes. Talvez eu também estivesse na oportunidade de


vivenciar experiências humanas demais, então. O desespero da perda
de Beatrice extrapolava os limites psicológicos e refletia no corpo
físico. O meu imutável corpo de vampiro.

— Deixe-me ajudar, Edward. – Alice se aproximou, enquanto eu


parecia incapaz de finalizar a tarefa.
— Eu preciso fazer isso, Alice. – Disse, olhos fixos no nada.
— Ela jamais saberá que ajudei – Minha irmã piscou um olho para
mim, aquele gesto humano de companheirismo. – Quem lê mentes é
você.
— Sou o único em agonia, nessa casa? – Protestei, deixando a
frigideira bater no fogão. Alice tomou o utensílio de minhas mãos e
franziu o cenho, irritada.
— Você não me parece muito objetivo, Edward. Afinal, ninguém
melhor para saber como estamos sofrendo. Porém... – Alice terminou
a tarefa de cozinhar as panquecas em instantes. – você sabe que nada
mudará. Eu vi, você sabe. Deveria dar algum crédito a Beatrice, ela
está tentando.
— Ele pretende martirizar-se... eu não pedi nada a ela.
— Talvez isso não seja por você, vampiro egoísta. – Alice entregou-me
o prato com as panquecas e me olhou furiosamente. Aquela era
minha irmã, sempre tão instável. Uma hora feliz e saltitante, outra
hora infernalmente irritada. Respirei fundo, organizei os alimentos
em uma bandeja e deixei a cozinha, pretendo acordar Bea... que já
estava descendo as escadas. Talvez não fosse por mim. Eu era egoísta,
tão egoísta que eu sequer poderia ser considerado uma boa pessoa.
Vampiros maximizavam suas características humanas, e os humanos
são essencialmente egoístas. Bea também o era. Se ela não fazia

324
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

aquilo por mim, fazia por egoísmo. E desejar que ela não fizesse
aquilo por mim era egoísmo meu.

Ela era adoravelmente teimosa demais para eu suportar. Mordi o


lábio inferior em uma demonstração de irritação, desejando que ela
entendesse o que fazia comigo. Mas ela me sorriu, e tão logo nada
mais era importante. Eu desejava tanto tomá-la em meus braços... eu
desejava tanto algo que estava tão instável em mim mesmo. Algo tão
impossível naquele momento.
— Panquecas! – Ela disse, se aproximando lentamente. – Senti o
cheiro lá de cima.
— Olfato apurado. – Beijei seu nariz, um gesto despretensioso de
carinho. – Está com fome?
— Sede, fome, qualquer coisa. Preciso me alimentar. – Ela caminhou
comigo até o salão, e se sentou novamente. Apoiei a bandeja sobre o
sofá e liguei a televisão; um hábito tão pertencente a Emmett.
Beatrice imediatamente começou a comer, e pude notar como ela
estava enfraquecida. Ela precisava de sangue... eu temia que ela
pudesse ter complicações no parto em razão da dieta forçada
somente com alimentos humanos. Nos últimos dias ela não
conseguia sair para caçar, estava muito debilitada. Seu corpo era
fraco demais e ela mesma temia pela saúde do bebê. Seus olhos
estavam púrpura, como eu só vira uma vez durante a gravidez. E as
olheiras fundas denunciavam que ela tinha, mesmo, sede.

Deixei-a se alimentando para encontrar meu irmão em seu quarto.


Meu corpo resistia em mover-se sempre que eu pretendia deixá-la
em algum lugar, mas a mente precisava dominar a matéria. Eu
precisava estar no controle de mim mesmo, ou nada do que eu

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

construí por tantos anos teria valido à pena. O tão barulhento


Emmett estava acalentando sua Rosalie de forma suave e gentil. Nem
parecia a mesma pessoa. Vampiros apaixonados eram mesmo
estúpidos.
— Em, você poderia me fazer um favor? Na verdade, um favor para
Bea? – Disse, entrando porta adentro como eles invariavelmente
faziam comigo.
— O que houve? – Ele pulou da cama, ansioso. Sempre.
— Ela tem sede, mas não deve sair para caçar. Ela está muito frágil,
não a quero se arriscando com nenhuma presa... nem mesmo com
coelhos. Você... poderia sair e pegar alguma coisa? Para ela?
— E por que não vai você mesmo, Edward Cullen? – Rosalie
resmungou.
— Eu não quero deixá-la. – Era verdade, então. – Por favor, Emmett.
— Está brincando? – Meu irmão colocou a mão sobre eu ombro,
sorrindo. – Você sabe que adoro sair e arrumar confusão. O que eu
devo trazer? Ursos?
— Não... – eu tive então vontade de rir, mas minha face não se
moveu. – Em, deve ser algo rápido. Cervos, coelhos, esquilos... o que
estiver mais perto.
Emmett sorriu novamente, e se preparou para deixar a casa, pela
janela de seu quarto. Antes, porém, virou-se para mim com uma
sobrancelha franzida, os pensamentos tão nítidos que eu poderia
desenhá-los. Emmett era sempre nítido como uma imagem de
televisão. Eu nunca me enganava quanto a ele.
— Ed... – Ele iniciou meu nome, já sabendo que eu sabia.
— Eu só penso nisso, Em. Mas não seria certo.

326
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

Não seria certo. Nada do que eu pensava seria certo, e eu não podia
tomar atitudes que desagradassem Beatrice. Ao lado de todo
egoísmo, do desejo de mantê-la ao meu lado, estava a vontade de
fazê-la feliz. De fazê-la sorrir todo dia, de vê-la radiante como o sol
no verão. Só ela sabia ser assim. Só Bea podia dar-me a sensação de
estar com um ser humano, vibrante, ao mesmo tempo de estar com
um vampiro, durável e inquebrável. Eu não podia magoar Beatrice;
de todas as feridas que ela pudesse ter, nenhuma delas poderia ser
proporcionada por mim. Eu a amava demais para aceitar a hipótese
de feri-la.

Mas o que fazer quando tudo que você ama está prestes a
desaparecer? O que fazer quando, depois de um século de existência,
depois de ter vivido acima do bem e do mal, e depois de finalmente
ter-se encontrado, tudo que mais importa, e tudo que importará por
uma eternidade, está prestes a ir embora, deixando nada no lugar?

O sol de meio dia raiava cintilante no céu quando Alice chegou à sala,
olhar distante e fixo. Eu poderia ouvi-la à distância, mas ela tinha
razão ao afirmar que eu perdera minha objetividade. Minha
concentração estava fixada no semblante de Bea, que se recostava
por sobre mim enquanto assistíamos à televisão. Não havia agonia
maior do que aquela espera. Por um lado, foi bom que tivesse
acabado.
— Edward. – Alice disse, olhar divagando. – Eles chegaram.
Em poucos instantes, todos os Cullen estavam reunidos novamente.
Bea não moveu um músculo; manteve sua serenidade como se não
tivesse realmente ouvido Alice. Se eu não soubesse que sim, eu podia
crer que ela estava muito distraída com a programação diurna. O

327
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

tormento parecia ter chegado ao fim, mas eu nem imaginava que


aquele seria o começo. Não haveria fim no buraco ao qual eu me
atiraria, no instante em que Beatrice decidisse levar adiante a sua
decisão.
— Deixe que os recebo. – Jasper movimentou-se, pressentindo toda a
apreensão. Era muito cansativo para ele manter um clima ameno na
casa desde a chegada de Felicia. Eu podia ver meu irmão esgotado,
mas era quase impossível evitar meu desespero. O desespero de
todos. A agonia, principalmente do dia anterior. – Fiquem todos na
casa.
Jasper olhou para Alice, esperando uma confirmação sua. Alice
continuava em transe, como acontecia sempre com suas visões. Ela
assentiu, fechando os olhos calmamente, e ele caminhou até a porta,
intencionando receber nossos não convidados na varanda. Havia em
Jasper a esperança de que ele conseguisse ludibriar os híbridos,
enganando-os para que pensassem que Bea não estivesse ali. Eu não
queria admitir, mas eu apostava todas as minhas fichas em Jasper.

Eu não podia levantar-me do lado de Bea. Não podia e não queria. Ela
continuava recostada em meu peito, respirando calmamente,
cantarolando uma canção. Mentalmente. De novo, se eu não
soubesse, eu poderia dizer que ela estava alheia aos acontecimentos
recentes. Aprisionada em seu próprio mundo. Concentrei-me então
no diálogo que acontecia, enquanto a porta da casa estava apenas
entreaberta.

— Saudações. – A voz grave cumprimentou meu irmão. – Sou


Rudolph Caldwell, estou em busca de duas mulheres. O rastro de uma
delas termina aqui, nesta casa.

328
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Saudações, Jasper Cullen. – Eu podia visualizar Jasper oferecendo a


mão para Rudolph, em cumprimento, enquanto mantinha o
ambiente calmo e pacífico. – Lamento, mas não compreendo suas
intenções.
— Felicia Caldwell. Ela está aqui, com vocês?
Felicia contorceu-se, levantando-se imediatamente. Ela se culpava
pelo fato de Rudolph tê-las encontrado, e a culpa era mesmo dela. Se
Felicia não tivesse vindo por Bea, o patriarca dos Caldwell não a teria
encontrado. Mas encontrar culpados não ajudaria em nada naquele
momento.
— Devo ir falar com ele... talvez ele me leve de volta e esqueça
Beatrice.
— Esperemos. – Esme confortou Felicia. Eu tinha os braços ao redor
de Bea, como a minha prisão privativa para ela.
— O que deseja com a Sra. Caldwell? – Jasper finalmente respondeu
Rudolph, depois de ter pensando em diversas formas diferentes de
abordar o vampiro. Jasper pensou até mesmo em eliminá-lo, e se
aquela possibilidade passou por sua cabeça era porque não havia
grande risco a se considerar. Poderíamos eliminá-los, então. Mas
novamente a razão dominou a tentação, e o controle prevaleceu à
insanidade.
— Vim buscá-la. Ela me pertence, assim como a híbrida por quem ela
veio.
— Vou até ele. – Felicia foi até a porta, e ninguém a interrompeu. Era
mentir ou deixar que ela fosse. Mentir – e lutar – ou permitir. A
híbrida saiu porta afora, deixando-a aberta, e saiu do meu campo de
visão. – Rudolph... não esperava que desse pela minha falta tão
rapidamente.

329
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Felicia, você me desaponta inacreditavelmente. Onde está


Beatrice? Ela não virá falar comigo?
— Bea não quer falar com você. – Felicia o desafiava, mas com total
subserviência. Era impressionante como seu tom de voz era
contraditório à sua atitude. – Vamos embora, o covil não pode ficar
sem três caçadores desnecessariamente.
— Assim que Beatrice juntar-se a nós, iremos.

Bea então decidiu reagir aos estímulos externos. Seu corpo contraiu-
se todo, e ela levou uma das mãos ao ventre, fechando os olhos.
Cerrei os punhos... mas eu precisava estar calmo. Eu gostaria de
poder conversar com meu filho e fazê-lo compreender que ele
precisava respeitar os limites de sua mãe. Eu sabia que ele estava
desconfortável, crescendo de forma acelerada e ficando
gradualmente sem espaço dentro do ventre de Bea. Eu sabia que ele
desejava deixar aquele lugar. Mas ele ainda não sabia como fazê-lo...
e eu não podia ajudá-lo. Eu queria poder falar com meu filho, e dizer
a ele que convencesse sua mãe a ficar. Para que ele pudesse ficar
comigo. Eu não conseguia resistir à sensação de perda que a decisão
de Bea me causava.

— Rudolph, deixe Beatrice em paz... – Felicia tentava dissuadir o


vampiro de suas intenções. – Ela está feliz, ela está bem... você a
permitiu sair, por que isso agora? Você pode usar outra... você tem
tantas como ela...
— Nenhuma como ela. – Rudolph corrigiu, interrompendo Felicia. –
Bea é única, você sabe. Ferdinand... gostaria de conhecer sua
prometida?

330
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Saudações. – Carlisle, que já estava fora do meu campo de visão,


surgiu na varanda. Bea continuava a contorcer-se em dor, porque o
bebê estava muito agitado. Ansioso, como a mãe. Como eu. – Sou
Carlisle Cullen, patriarca da família.
— Carlisle! – Uma outra voz, com bastante surpresa.
— Richard!! Richard McKellen... – Eu não pude ver, mas imaginei que
Carlisle estava realmente satisfeito em ver um antigo companheiro. –
Quantas décadas...
— Desde os Volturi! Mas diga... você é o patriarca do covil...
— Pai. – Carlisle e seu vocabulário humano. – Sou o pai, Jasper é meu
filho... bem como os outros aqui. Essa é nossa casa. Vocês são bem
vindos... entremos. Mas por favor, o... cachorro poderia ficar do lado
de fora?
— Certamente.
— Jasper... você poderia levar Ferdinand à garagem e mostrar o
presente de aniversário de Alice? – Carlisle disse, antes que os
vampiros entrassem.
— Mas o que...
— Richard, confie em mim. Eu gostaria que Ferdinand fosse com
Jasper. Será melhor assim.
— Venha comigo, Ferdinand... – Jasper moveu-se, porque sua voz
começou a desaparecer. – Você conhece algum carro?
Minha atenção foi imediatamente distraída pelos visitantes que
entraram porta adentro, seguindo Carlisle. Além de meu pai, três
outros vampiros trajando roupas antigas e botas, e Felicia. Beatrice
respirou fundo, afundou o nariz em meu peito, pressionou suas mãos
em minha cintura e ajeitou-se no sofá. Ela parecia buscando a força
que precisava para tomar as atitudes que teria que tomar. Esme
colocou-se ao lado de Carlisle, e ele começou a apresentar a família.

331
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

Em poucos segundos, o olhar atento de Rudolph capturou a imagem


de Beatrice, sentada quase em meu colo. Ele caminhou lentamente
em nossa direção, independentemente da tentativa de Carlisle em
chamar a sua atenção, comentando sobre a família.

Naquele momento, controlar-me foi muito difícil. Ter acesso aos


pensamentos de Rudolph e ter acesso à sua figura, saber o que ele
pensava e pretendia, era cruel demais. A cada passo que ele dava, eu
sentia um monstro crescer dentro de mim. Um monstro que se
alimentava de ira, que se alimentava do meu desespero. Meu peito se
inflou; um rosnado feroz se soltou de minha garganta. Baixo, mas
feroz. Meus músculos se contraíram todos, eu sentia o corpo tremer.
Eu estava à beira de um ataque, fosse de nervos, fosse de fúria. O ódio
crescia dentro de mim como se a simples imagem de Rudolph
pudesse desencadear o Armagedom.
— Beatrice! – Sua voz chamou a atenção de minha noiva, que
finalmente abriu os olhos e encarou a luz do dia.
— Olá, Rudolph. – Ela sorriu, e ela realmente queria sorrir. Como se
ela estivesse feliz em poder vê-lo outra vez. – Como vai você?
— Levante-se, vamos para casa. – O vampiro derramou as palavras,
sem mal olhá-la.
— Já estou em casa. – Ela sorriu mais, tentando desprender-se de
meus braços. Eu os mantive na mesma posição, sem conseguir
mover-me. – E muito feliz.
— Rudolph, por que não se senta para conversarmos? – Carlisle se
aproximou do vampiro, seguido pelos demais, pretendendo por
algum senso naquela confusão toda. Mas eu sabia que aquilo não
aconteceria. O meu rosnado se tornou mais alto, e Beatrice me
encarou com irritação.

332
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Não tenho tempo para cordialidades, infelizmente. Vamos,


Beatrice.
— Edward, solte-me. – Ela disse para mim, olhos nos olhos. Como ela
poderia me pedir para soltá-la, se eu sabia que ela não retornaria
para meus braços depois? Alice se aproximou, talvez intencionando
prestar algum apoio moral a quem fosse preciso, mas eu tentaria a
todo custo controlar-me. Com alguma dificuldade, relaxei meus
braços e Beatrice pode levantar-se, para encarar seu pai. – Você se
atreve a vir à casa dos que me acolheram e me dar ordens? Acha
mesmo que pode chegar aqui e me arrastar com você como se tudo
estivesse como antes? Acha mesmo que eu não sei de todas as suas
mentiras? Seja ao menos educado com os Cullen, eles são a minha
família, agora.
— O que contou a ela? – Rudolph olhou para Felícia, com alguma
fúria nos olhos. Eu não conseguia mais controlar o rosnado que saia
de minha garganta, eu estava a um fio de perder completamente o
controle. Alice colocou as duas mãos em meus ombros, e Emmett
aproximou-se. Todos percebiam a minha irritação crescente, e o que
aquilo poderia significar. – E... o que aconteceu aqui???
— Você vai me dizer agora que nunca viu uma fêmea prenhe? – E Bea
conversava com ele em seu próprio vocabulário. Bastante rude, mas
palavras que ele poderia compreender, então. – Eu não estou nada
satisfeita com você, Rudolph. Eu sei de todas as suas mentiras, e não
estou nada satisfeita. Não gostei de você ter vindo buscar-me agora,
também. Eu não quero voltar, você me permitiu sair. Eu não quero
voltar.
— Por isso você não quis que Ferdinand entrasse... – Aquele que
tinha a voz do nome Richard falou com Carlisle, que apenas assentiu
com a cabeça, um tímido sorriso. – Ela foi violada por outro.

333
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Violada? Que grosseiro... eu estou grávida, Richard. Eu não fui


violada, tudo aconteceu por minha vontade e de acordo com ela. –
Bea dirigiu-se a Richard com a mesma ferocidade que a Rudolph. –
Aliás, como sou mal educada. Deixe-me apresentar vocês a meu
noivo.

Beatrice moveu-se para o lado, e me puxou pela mão, colocando-me


à sua frente. Contive os impulsos animalescos e ergui a mão para
cumprimentar os vampiros.
— Saudações. – A voz saiu de dentro de mim sem qualquer
motivação. Era como o eco dentro de um corpo vazio. – Edward
Cullen.
— Essa brincadeira é de péssimo gosto, Beatrice. – Rudolph sequer
teve a decência de cumprimentar-me. Minha mão ficou estendida no
ar, e eu a recolhi assim que percebi a animosidade presente. – Você é
a prometida de Ferdinand, e ele está lá fora. Como pretende mostrar-
se a ele dessa forma, prenhe de outro? É uma desgraça, uma
desonra... tudo pelo que trabalhei todo esse tempo... é mesmo uma
ingrata.
— Eu sou ingrata? – Bea parecia finalmente irritada com seu pai
vampiro. Talvez aquela irritação fosse a meu favor, então. – E se eu
me recusar? – Ela jogou, mas eu sabia que era apenas um jogo. Ela
não pretendia recusar definitivamente. Segurei-a por um dos pulsos,
como que aquela amarra pudesse mantê-la comigo para sempre. – E
se eu não quiser ir, e se não pretender unir-me a Ferdinand nunca?
— Você pretende arrumar problemas?
— Não, eu só pretendia saber se teria que lidar com problemas.
Rudolph, eu não pertenço mais àquele lugar, não pretendo viver lá.
Agora tenho minha família, meu noivo e meu filho.

334
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Você volta comigo, não há argumentação cabível. Vamos.


Em um movimento rápido, Rudolph segurou Beatrice pelo outro
pulso e a puxou consigo. Foi tudo muito rápido. Ele a puxou, e eu
perdi definitivamente o pouco controle que me restava. Ele a tocou,
e eu deixei a razão perder-se completamente por um instante.
Coloquei-me entre Beatrice e Rudolph, rosnando da forma mais feroz
que eu podia. Emmett movimentou-se para impedir-me de cometer
uma besteira, mas era tarde. Foi realmente rápido. Em segundos,
Rudolph estava com uma das mãos em meu pescoço, segurando-o
com uma força praticamente incompatível com qualquer força; eu
suspenso alguns centímetros do chão, Carlisle em posição de ataque,
Emmett em posição de ataque, Richard e Brandon em posição de
ataque. Talvez sim, aquele fosse o Armagedom. Meu Armagedom
particular, o fim dos tempos criado por Edward Cullen.

— Parem com isso agora!!! – Beatrice disse. Não, Beatrice exigiu. Seu
tom era ameaçador; ela acabara de emitir uma ordem. Para mim, era
uma ordem. – Rudolph, solte Edward imediatamente. Em, Carlisle,
por favor... e vocês dois, saiam daqui! Vão lá para fora com
Ferdinand. Eu não vou pedir novamente. – Eu poderia soltar-me e
matar Rudolph. Rudolph poderia matar-me. Tudo poderia acabar tão
rapidamente como começou. Mas todos nós obedecemos Beatrice, de
uma forma inexplicável. Ela havia definitivamente emitido uma
ordem. Seu olhar era mais feroz ainda do que o meu, e seus olhos
púrpura eram assombrosos. Rudolph soltou-me, e Beatrice colocou-
se entre nós dois. Meu pai e meu irmão acalmaram-se, enquanto
Brandon e Richard simplesmente deixaram a casa, indo para a
varanda. Provavelmente estariam à procura de Ferdinand, como ela
exigira. – Vocês me irritam! – Ela retomou o discurso. – Eu não posso

335
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

me submeter a esse desgaste, sabiam? Eu... tudo bem, Rudolph.


Façamos um trato.
— Não temos trato nenhum a fazer, Beatrice.
— Eu não estou pedindo, eu estou determinando. – Beatrice então
estava assustadora, de verdade. Todos a olhavam com real assombro,
até mesmo admiração. Eu ouvia seu coração bater tão rapidamente
que nem parecia o mesmo coração. – Eu retornarei ao covil com
vocês, temporariamente. Falarei ao conselho, e depois irei embora.
Eu não pertenço mais àquele lugar.
— Beatrice... – Eu precisava insistir, mais um pouco.
— Edward, não torne isso mais difícil do que já é para mim. – Ela não
me encarou. Seu olhar era dirigido a Rudolph, como se ela não o
pudesse perder de vista.
— Vamos então. – Rudolph deu-nos as costas. Eu olhava para baixo,
mas não via nada. O vazio, apenas.
— Em alguns minutos. – Ela finalizou. – Vocês... preciso conversar
com Edward. A sós.

Todos obedeceram, mais uma vez. Eu não sabia o que sentir ao ver
Beatrice reagir daquela forma ao pequeno caos que se formara na
sala, naquele instante. A híbrida tola e assustada que chegou meses
atrás à minha casa deu lugar a uma mulher de fibra impressionante.
Em um instante, em apenas uma fração de segundo, Beatrice
transformou-se. Eu sabia que aquela era uma reação ao ocorrido. Por
um minuto Beatrice ficou em branco. Eu não pude lê-la, era como se
nada passasse por sua cabeça. E então era retornou com todo aquele
potencial destrutivo. Dando ordens, falando com segurança,
controlando a situação. Os Cullen, Rudolph e Felicia deixaram a sala,

336
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

indo para outros lugares. Eles realmente nos deixaram a sós, como
ela tão decididamente exigiu.

— Beatrice, você precisa tirar da cabeça essa ideia absurda! – Eu


disse, tão logo me peguei sozinho com ela. – Você não vai a esse
covil, você está prestes a ter um bebê!
— Eu sei. – Sua fisionomia era frágil e suave, novamente. – Edward,
meu amor... você tem ideia do que eu sofri, nesses segundos em que
Rudolph o tinha em suas mãos? – Eu franzi o lábio, negando. Eu não
tinha, pois ela estava em branco. A primeira – e eu esperava a única!
– vez em que eu não conseguira lê-la. – Então você não vai entender
o porquê da minha partida. Eu não posso colocar ninguém que eu
amo em risco.
— Não estamos correndo risco algum. – Protestei, mais parecendo
uma criança contrariada. O garoto de dezessete anos em mim estava
de volta.
— Se você estivesse pensando com objetividade, saberia quais as
minhas intenções. Eu vou voltar, Edward. Mas eu preciso colocar um
fim nessa história. Eu já deveria ter retornado ao covil e enfrentado o
problema, mas eu fui covarde. Você vai esperar-me?

Como Beatrice era tola! Estava de volta a minha Beatrice, tão


ingênua e tola. Aquela pergunta não podia ser mais ridícula do que
toda a situação já o era.
— Essa pergunta é ridícula. – Eu repeti meus pensamentos. Afinal, ela
não podia lê-los. – Você tem ideia do que eu sofri, nos segundos em
que Rudolph a segurou e pretendeu arrastá-la consigo?
— Estamos empatados, então. – Ela curvou seu corpo frágil para mim
e me beijou. Seus lábios tocaram os meus com tanta suavidade que

337
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

ela parecia temer machucar-me. E ela efetivamente estava temendo


por minha segurança. Por minha incolumidade física. Eu desistiria de
argumentar. Beatrice não estava sendo lógica há semanas, e nada do
que eu falasse para tentar dissuadi-la daqueles pensamentos seria
útil. Eu apenas a deixaria irritada. Deixei que seus lábios fizessem
com os meus o que ela queria, tentei correspondê-la da forma como
ela esperava. – Eu te amo. Prometa-me que ficará bem.
— Não posso prometer-lhe algo que sei que não cumprirei.
— Tente, ao menos. Eu retornarei logo... talvez com nosso filho nos
braços, mas retornarei.
— Vai privar-me até disso...
— Edward! – Beatrice assustadora, novamente. – Entenda, é a
primeira vez que tenho a chance de fazer a coisa certa e a coisa certa
não é o que eu quero. Deixe-me ter a minha redenção, Edward...
deixe-me fazer a coisa certa. Deixe-me mostrar a Rudolph que ele
está errado, deixe-me mostrar a Ferdinand que não sou adequada
para ele, deixe-me mostrar a Felicia que minha vida é aqui agora,
deixe-me sair da minha vida anterior com dignidade. Eu preciso
fazer isso, por todos vocês. Pela felicidade de todos, não pela minha.
É a primeira vez em que não desejo ser egoísta e colocar-me em
primeiro lugar.

Eu não podia mesmo argumentar com ela. Talvez ninguém ali


pudesse. Beatrice caminhou até a porta, abrindo-a e demonstrando
sua intenção de acompanhar os vampiros. Alice desceu as escadas
com duas malas, uma bem pequena. Eu pude sentir a tristeza. Minha
irmã estava experimentando uma dor a qual não estava acostumada.
Jasper juntou-se à nós, pois de nada adiantava esconder o menino,

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

então. Menino... por mais maduro que o híbrido pudesse ser


considerado, ele aparentava ser um menino.
— Bea... você prometa não abrir antes do bebê nascer! – Alice
entregou as malas aos vampiros. – A mala com roupas para o bebê...
com coisas que ele pode precisar. Não abra! São surpresas... minhas,
de Rosalie, de Esme.

Eu não queria ver aquela cena. Saí pela porta, caminhei


apressadamente para o meio do pátio. Eu me recusava a ver Beatrice
despedir-se de minha família. Eu não queria ouvir, não queria ver,
não queria estar presente. Não importava, ela dizer que voltaria logo.
Não importava, ela dizer que voltaria, apenas. Coloquei as duas mãos
nos ouvidos, e tentei abstrair qualquer coisa que pudesse ser um
pensamento. Até dos animais próximos; eu não queria ouvir nada.
Lutei contra mim mesmo por alguns minutos, até que tudo ficou em
silêncio. As mãos mornas de Beatrice me tocaram a cintura, e eu
desejei repeli-la. Poderia ser uma boa defesa, afinal. Senti o abraço, o
beijo em minhas costas, o carinho das suas mãos espalmadas em meu
estômago. Ela compreendia meus sentimentos; ela tinha que
compreender. Ela estava me deixando, como queria que eu me
sentisse? Então eles passaram por mim, e eu vi Beatrice fazer um
gesto para Emmett, sorrindo. Meu irmão se aproximou e segurou
minhas mãos atadas em minhas costas. Posição padrão de defesa de
um vampiro. Era completamente desnecessário pedir que Emmett
me mantivesse sobre controle. Eu não tinha forças nem mesmo para
sair do lugar.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Esperem. – Carlisle disse, alcançando os vampiros. – Por favor,


deixem-nos levarem vocês de carro. Beatrice está muito debilitada
para caminhar até o covil.
— É uma boa ideia, Rudolph... – Felicia interveio sem ter muita
certeza.
— Meus filhos Alice e Jasper conduzem vocês... aceitem como um
gesto de boa vontade.

Eu não vi mais nada. Eu estava em total silêncio, e a paz finalmente


se abateu sobre mim. Como um meteoro caindo do céu, a paz
desabou sobre minha cabeça e me fez sentir dormente. Anestesiado,
talvez. Meu pai disse qualquer coisa sobre Alice e Jasper conduzirem
os híbridos até o covil, e eu ouvi o barulho dos motores ligando, mas
nenhum pensamento. Nenhum pensamento... nada além do barulho
dos motores. Quando tudo ficou escuro demais para que os olhos
enxergassem e frio demais para que o corpo suportasse, eu me senti
desmoronar no chão. Meus braços puxaram meus joelhos para meu
peito, e eu me fechei como se aquilo fosse proteger-me da solidão.

Não importaria se eu conseguiria viver aqueles dias sem Beatrice. Eu


não queria nem tentar.

CAPÍTULO 22 – RECONSTRUÇÃO
*tema: Westlife‖s Butterfly Kisses*

Era a terceira noite que eu passava no covil, desde o meu retorno ao


―lar‖. As coisas não estavam saindo como eu esperava, e talvez a
dignidade que eu pretendia não me fosse garantida. Blasfemei contra

340
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

Rudolph por me tirar o direito a uma das poucas coisas que eu


parecia ter condições de fazer. Agir corretamente. Entrar no covil me
deu uma sensação de claustrofobia. Eu já havia me adaptado
plenamente ao sol, e meus olhos quase não conseguiram enxergar
nada até chegar à iluminação artificial. A temperatura úmida me
causou asco, e tudo ali me causava irritação. Eu estava sensível além
das possibilidades, e ninguém percebia aquilo. Estar na presença de
pessoas que não me compreendiam, que não podiam simplesmente
ler-me...

Eu estava plenamente adaptada a Edward e aos Cullen. Qualquer


mudança me consumiria muito esforço e tempo.

A primeira noite foi de agonia. A segunda também. A terceira seria


inútil, pois eu parecia não ter a menor intenção de adormecer. O
bebê chutava, e com toda força que ele tinha. Ele se mexia sem parar,
e deixava claro que ele também estava insatisfeito. Eu sentia tantas
dores a cada vez que ele me acertava um órgão; mais de uma vez eu
expeli sangue por minha boca. Ele estava me causando mal, então.
Por um lado era vantajoso que Edward não me pudesse ver naquele
estado... ele ficaria aborrecido. Eu não contava a ninguém sobre as
dores, eu simplesmente não falava com ninguém desde a minha
chegada. Rudolph me isolou em alguma área privada, que eu supus
ser a quarentena, e somente Felicia tinha acesso a mim. Além dela,
dois outros híbridos... Jasmine e Ferdinand. Ora, ele seria meu futuro
companheiro. Rudolph ainda idealizava que aquilo pudesse
acontecer.

341
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

Sentada na cama que me era destinada, eu tentava me concentrar na


leitura mórbida de Shakespeare. Todos sempre morriam...
principalmente os amantes. Por que Shakespeare tinha tanta
predileção em matar os amantes de forma tão trágica! Virava as
páginas de Otelo com desalento e sem o menor interesse na leitura
da mesma coisa que já lera tantas vezes atrás. Eu sabia que a noite
passava e eu não conseguia adormecer. Os híbridos não
contabilizavam noites e dias; era tudo sempre escuro demais.
— Bea... – Felicia entrou nos meus aposentos e eu acuei-me no canto
da cama. Eu estava irritadiça e não me sentia segura na presença de
ninguém. – Ainda acordada? Precisa de alguma coisa?
— Tenho fome. – Eu disse, pretendendo relaxar. Felicia se aproximou
querendo examinar-me. Ela me examinava constantemente para
saber a hora certa do nascimento do bebê, pois segundo ela seria em
breve. Felicia cuidava das híbridas prenhes, praticamente de todas
elas. Ela sabia o que estava fazendo, eu devia confiar.
— Quer que eu busque um copo de sangue? Você...
— Estou com fome, Felicia. – Emburrei. Teimosia era uma qualidade
tão interessante... Edward sempre me dizia que eu era teimosa. Eu
não sabia direito, não entendia a característica. Precisei aprender o
que era ser teimosa. E ele tinha razão, eu o era. – Quero comida,
alimento humano. Aprendi a me satisfazer com isso... e o bebê me
consome muitas energias. O sangue daqui é desagradável demais
para me abrir o apetite.
— Seu vocabulário está incompreensível. – Felicia ponderou, tocando
meu ventre. Qualquer toque que não fosse o de Edward me deixava
ainda mais aborrecida. – E não temos comida aqui.
— Eu sei. E meu vocabulário não está incompreensível, é que vocês
são obtusos demais. – Puxei a vestimenta a fim de cobrir meu corpo,

342
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

deixando claro que não queria mais ser tocada. – Então não preciso
de nada, obrigada.
— Seu bebê é para logo. – Ela sorriu, mas eu não parecia feliz. Ela
nem tinha entendido que eu a estava ofendendo. Tentando, ao
menos. – Talvez amanhã...
— Quanto antes ele nascer, antes eu desapareço.
— Vai mesmo desafiar Rudolph? – Felicia se sentou, e eu pude notar
que ela não estava zangada pela minha insolência. Ela estava curiosa,
talvez muito curiosa sobre como eu teria conseguido encontrar tanta
coragem dentro de mim. Eu detestava desapontá-la, mas nem mesmo
eu sabia como.
— Não vou desafiá-lo. Felicia, você sabe o que é estar apaixonada?
Você já sentiu isso? Você sabe como o organismo responde a esse
sentimento? – Ela nada respondeu. Eu imaginei que a resposta fosse
positiva, porque ela pareceu demonstrar empatia ao meu discurso. –
Eu estou cansada de afirmar a mesma coisa uma vez atrás da outra,
sem parar. Sinceramente? Estou cansada. – Fechei o livro, fazendo
um ruído abafado. – Eu não quero mais conversar.

Felicia não pareceu tentada a deixar-me, mas ela percebeu que eu


não me demoveria da minha decisão quando deitei de lado e virei-
me de costas para ela. Respirando com muita dificuldade, permaneci
naquela posição até que ela levantou-se e caminhou até a porta. Mas
a sorte não estava exatamente do meu lado, e uma música sonora e
bastante estridente preencheu o quarto antes que Felicia saísse. E
então ela não mais sairia, até saber de onde vinha a música. Sentei-
me na cama, contrariada, lábios retorcidos, blasfemando entre os
dentes. Remexi a bolsa que estava ao chão, próxima da cama, e

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

retirei um pequeno artefato eletrônico. A música ficou mais alta até


que eu a fiz cessar.
— Alice. – Eu suspirei entre os dentes, imaginando o que levaria a
minha irmã vampira a ligar-me.
— Bea, como você está? Diga que está bem, eu estou vendo tudo tão
confuso...
— Eu estou bem, Alice... por que ligou-me? O combinado não era que
eu ligaria todo dia?
— Mas Bea, eu vi... o bebê, ele nasce amanhã. Cedo.
— Felicia examinou-me e disse a mesma coisa – E quando Alice falava
tudo se tornava verdade. Real, palpável. E eu estava então mais
ansiosa do que era permitido estar. – Mas ligou-me só para dizer-me
que meu filho está para nascer?
— Sim... quero dizer, não. Estão todos irritados comigo, mas eu
preciso falar! Edward... ele deixou a casa.
— O que? – Meus dedos comprimiram o pequeno aparelho quase a
ponto de quebrá-lo. Se eu não ouvisse um estalo em minha mão, o
equipamento teria se tornado pó. – O que quer dizer com ele deixou a
casa?
— Ele saiu... na verdade, ele nos reuniu hoje à tarde para
compartilhar sua ideia. Afinal...
— Não existem segredos entre os Cullen. – Eu completei a frase.
— Isso! – Alice parecia vivaz, e eu podia vê-la batendo palmas em
euforia com nossa conversa. Como sempre, ela deveria estar
radiante. – Então, ele nos contou... que pretendia encontrar-se com
você. No covil.
— Edward está vindo para o covil? – Falei aquilo alto demais, e Felicia
arregalou os olhos em surpresa. Ela fechou imediatamente a porta

344
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

atrás de si, e se aproximou de mim para ouvir melhor a conversa. –


Ele só pode ter perdido o juízo.
— Também acho, porque eu disse a ele tudo que vai acontecer... mas
ele passou um dia deitado do lado de fora... depois decidiu levantar-
se e trancou-se em seu quarto... hoje, que pensamos que ele sairia
para caçar, trouxe essa idéia absurda. Ele nem saiu para caçar, espero
que encontre algum animal pelo caminho. Bea, você precisa recebê-
lo aí... você sabe como Edward é rápido... e ele está de carro.
— Agora, Alice? – Desespero fez meus dedos pressionarem ainda
mais fortemente o aparelho.
— Não, com o amanhecer. Bea, você vai ficar bem, viu? Felicia sabe o
que fazer... confie nela. Vou desligar agora, tente dormir.

Alice desligou o telefone, e eu encarei Felicia com alguma culpa nos


olhos. Claro que eu me sentia ligeiramente culpada, afinal eu
também estava trapaceando. Quando Alice nos trouxe para o covil,
ela sorrateiramente entregou-me um telefone. “Fique com ele.
Nossos números estão na agenda. Ligue, ligue todo dia. Por favor,
mantenha contato.” foram as palavras da pequena Cullen, antes de
desaparecer com o Volvo prateado de Edward. Eu guardei o artefato
metálico eletrônico comigo, e fiz uso dele por duas vezes. Meus
dedos quiseram ligar para Edward, mas eu acabei por ligar para
Alice. Eu não tinha coragem de falar com Edward, porque ouvir a sua
voz poderia colocar em risco todos os meus planos. Eu não queria
arriscar-me a me deixar seduzir por sua voz, e pedir que ele me
viesse buscar. E aquilo fatalmente ocorreria, então decidi ser mais
preservativa.

345
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— O que houve? – Felicia me encarou, a porta aberta. – Edward... ele


está vindo buscar-te?
— Não. – Era verdade. Eu achava que sim, eu esperava que ele
estivesse apenas fora de si, não louco por completo. – Ele vem me ver.
— Beatrice...
— Felicia, por favor. Você não vai contar isso a ninguém...
— Não pretendo. Só causaria mais confusão, e o bebê está para
nascer. Tenho outras prioridades. – Ela virou-se novamente para a
porta, e saiu do quarto apagando a luz. Escuridão total, então. –
Durma, Bea.

Meus olhos não estavam mais acostumados à escuridão total. Eu


nunca apagava as luzes, mas eu não queria levantar-me para acendê-
las novamente. Edward... eu só pensava no que Alice dizia. Ele viria
para o covil, ele estava mais perto a cada instante. Eu me senti
agoniada, como se o ar me faltasse. Como eu faria para sair dali e
encontrá-lo? O que ele faria ao chegar ao covil? Poderia ele ser
insano o suficiente para desafiar Rudolph contra a minha vontade?
Eram tantas perguntas sem resposta... pensar em Edward me fez
relaxar, e meu organismo lentamente foi sucumbindo ao cansaço de
duas noites sem dormir. Fechei os olhos – apesar de aquilo ser
completamente inútil – e deixei que o lado inconsciente dominasse o
restante.

Os sonhos eram violentos. Eu sonhava com sangue, e o cheiro me


nauseava. Sonhava com Rudolph suspendendo Edward do solo,
sonhava com o sorriso angelical de Ferdinand, com Emmett
desmembrando Connor, com os Cullen, com Felicia. Eu sonhava com
tudo de bom e ruim na minha existência, ao mesmo tempo. E todos os

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

acontecimentos tinham menos de um ano de vida. Era como se eu


não tivesse existido por tantas décadas; como se tudo que eu fora se
tivesse apagado pela luz do que eu era naquele momento. A nova
Beatrice era alguém; a antiga Beatrice era uma sombra. Uma sombra
fria e escura em um passado que eu queria apagar. Tornar sem efeito,
nulificar. A minha existência não significava nada antes da minha
chegada à superfície, e a minha vida só fazia sentido desde que eu
conhecera o sol.

E então tudo ficou colorido novamente. O breu do covil desapareceu,


instantaneamente, sob o toque das mãos firmes de Edward. Seus
longos dedos acariciaram minha face lentamente, e tudo voltou a
florir. O sol brilhava forte no céu, mesmo encoberto por nuvens,
mesmo pálido, de um amarelo fosco. Havia cores e aromas, e eu me
sentia viva. Pela primeira vez, o lado inconsciente do cérebro parecia
me trazer sensações melhores do que as do lado consciente. Eu
sorri... e deixei-me deleitar naquele toque aveludado da palma de sua
mão, até sentir seus braços me acolherem. A cabeça recostada em
seu peito, o seu cheiro suave e floral. Meus lábios procuraram
contato com a sua pele, um beijo de reconhecimento.
— Durma bem, meu amor. – A sua voz ainda era a mesma, como se
ele estivesse sussurrando em meus ouvidos. Como se não fizesse três
dias que eu não o via. Como se três dias significassem uma
eternidade suficiente para me matar de desespero, mas nem um
instante para me apagar a sua memória. Eu estava sonhando, e
daquele sonho eu não queria acordar nunca. Se precisasse morrer
para estar em seus braços, eu morreria feliz. Se aquilo fosse possível.

347
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

Senti uma forte pontada no ventre, e a dor agonizante me fez


contorcer. Levei a mão instintivamente até onde meu filho chutava,
ansioso para livrar-se daquele espaço pequeno e desconfortável, e
senti algo que já estava lá. Uma sensação de assombro me dominou, e
recolhi-me ao canto superior da cama, fugindo do que estivesse ali
me tocando. Abri os olhos assustada, e minha visão me pregou uma
peça cruel.
— Bea, sou eu... – Meus olhos me enganavam, mais ainda meus
ouvidos. A figura de Edward, camisa aberta, calças jeans, meias,
cabelos pouco arrumados, ficava cada vez mais nítida. E sua voz... era
a mesma do sonho. – Sou eu, meu amor... desculpe, não queria
assustar-te.
— Eu ainda estou sonhando? – A pergunta era tola o suficiente para
ter sido feita por mim.
— Não... – Ele sorriu, e eu tive certeza que era ele. – Eu estou aqui...
cheguei ontem à noite, você estava adormecida. Desculpe, não
pretendia causar essa reação em você.
— Edward... – Estendi a mão para tocá-lo na face. – Como você... o
que você...
— Eu sei que Alice ligou... mas eu cheguei antes do previsto por ela.
Eu peguei um atalho que ela não esperava...
— Como entrou aqui? – Eu me arrastei lentamente para ele,
deixando-me repousar em seu peito mais uma vez, abraçando-o com
toda força que ainda me restava, meus braços envolvendo sua
cintura sem a menor pretensão de soltá-la. – São tantas dificuldades
que...
— Eu tive ajuda. – Ele sorriu, eu podia sentir. Seus lábios me beijaram
os cabelos, e eu senti tanto conforto que poderia adormecer

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

novamente. – Tem uma pessoa aqui dentro que tem algum senso...
por incrível que isso possa parecer.
— Quem? – Eu levantei uma sobrancelha, curiosa. Ansiosa, talvez,
porque a hora que Alice e Felicia previam se aproximava... e Edward
estava ali, tão proibido.
— Ferdinand. Ele... nós tivemos uma conversa, e ele compreendeu.
Ele me ajudou a entrar, me trouxe até seu quarto... e está montando
guarda na porta. Ele é puro, Bea... você lhe fez um bom trabalho.
— Cuidei dele por dois anos, apenas. – Eu ainda digeria o que Edward
me dizia. – Sempre soube que era bom... e bem... ele é meu irmão,
certo? Biologicamente...
— Sim, ele é. Ele compreende isso, e deseja o seu bem. Isso me
colocou em vantagem. Aparentemente, ele compreende que o seu
bem se resume a mim.
— Ele é perceptivo, então. – Escalei Edward, alcançando seus lábios. –
Eu senti tanto a sua falta...
— Não tanto quanto eu senti a sua.

E então o que eu esperava por semanas estava por acontecer. O beijo


pelo qual eu ansiei por alguns dias foi interrompido por uma onda
insuportável de dor, e a constatação de que algo estava muito errado.
Convulsionei nos braços de Edward, e ele assustou-se. Seus olhos
assombrados me seguravam enquanto eu tentava me ajeitar na
cama, sentindo uma dor não antes experimentada. Meu ventre se
tingia de manchas roxas, e o sangue vertia em meus lábios. Tentei
respirar, mas o sangue me fazia engasgar. Os ruídos fizeram a porta
do quarto se abrir, e Ferdinand entrou, assustado como Edward. A
cena que ocorria não era para ser vista. Eu me retorcia na cama, os
lençóis já bastante encharcados em sangue; meu sangue, o sangue

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

que circulava em mim; e meu ventre se movia de um lado para o


outro. A dor era tanta que eu sentia que a qualquer momento
perderia os sentidos. Por mais que meu organismo tentasse, ele não
conseguia se regenerar imediatamente de tantas agressões.

Edward disse qualquer coisa, e Ferdinand deixou o quarto,


retornando em segundos com Felicia. Ela olhou para Edward com
total reprovação, e chamou outra híbrida, pelo nome. Eu não estava
ouvindo tudo, nem meus olhos conseguiam se concentrar em
imagem alguma. O olhar aterrorizado de Edward foi a última coisa
que tive consciência plena.
— Ferdinand, leve Edward daqui. Vão! – Felicia dizia, enquanto
colocava compressas em minha testa e começava a despir-me.
— Eu não vou deixá-la! – Edward protestava, o tom de voz
completamente alterado.
— Edward, o que vai acontecer aqui, agora, não é para ser visto. Se
você é tão perceptivo quanto ela diz, você sabe que não pode ficar
aqui. Vá com Ferdinand, vocês não devem ficar aqui. Os machos não
acompanham os nascimentos, vocês só atrapalham. Vá, eu preciso
concentrar-me somente em Beatrice.

Tolos, brigando por uma imbecilidade enquanto eu me esvaía em


sangue e meu bebê agonizava querendo sair de mim. Bati os punhos
no colchão, irritada, e Edward finalmente se deixou arrastar por
Ferdinand. A porta se fechou, e eu já não estava muito consciente do
mundo exterior. A dor me dominou por completo quando mais
sangue jorrou por minha boca, e tudo ficou completamente escuro.
Mais do que a noite, mais do que a ausência de luz do covil.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

***** Edward POV *****

Ferdinand, meu novo aliado, me arrastou para fora do quarto de


Beatrice e me carregou para fora do covil. Em poucos instantes,
estávamos na área externa do covil, o sol brilhando timidamente por
sobre as árvores espessas da floresta. Eu não desejava ter saído, mas
a confiança que depositava em Ferdinand me fez segui-lo. Sim, eu
confiava nele, então. A minha excursão até o covil foi uma ideia
súbita, mas da qual eu não desistiria. Depois de passar outro dia
lamentando e me sentir um ser desprezível, eu cheguei à conclusão
que era o momento de ir buscar minha noiva e meu filho. Ou o
momento de ficar com eles por lá, o que fosse mais simples.

Reuni os Cullen porque não era possível tomar nenhuma decisão sem
que Alice estragasse a surpresa. Eu não podia sair sem que ela
soubesse, e fazê-lo com ela sabendo era inútil. Eu não os queria me
seguindo, então a melhor política era a honestidade. Informei a
todos da minha decisão, deixando claro que haveria duas
alternativas. Ou eu traria Beatrice comigo ou eu ficaria com ela. Eu
não a deixaria, e se ficar com ela significava ficar recluso no covil,
então eu o faria. Logicamente Esme achou a ideia ridícula, e tentou
convencer-me a não ir. Mas ela sabia que eu era particularmente
teimoso demais para mudar de ideia. Ela sabia que eu raramente me
demovia de minhas decisões. De qualquer forma, havia sempre duas
possibilidades. Alice lhes informaria quando a decisão fosse tomada,
no covil.

Mesmo de carro, com uma pequena mala no bagageiro, eu não sabia


para onde ir. Eu consegui as coordenadas de Jasper, enquanto ele

351
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

tentava não pensar nisso. Meu irmão não era muito bom em
esconder seus pensamentos, e acabou entregando-me tudo que eu
queria. Achar o covil não era fácil, mesmo com as indicações de
Jasper. E, após a minha chegada, entrar nele seria definitivamente
mais difícil. Por minha sorte – se eu acreditasse em sorte – Ferdinand
estava com alguns vampiros na porta do covil, a mesma imagem que
eu vi em Jasper. E porque todos os deuses estavam a meu lado, Em
poucos minutos os vampiros se foram floresta adentro e deixaram o
jovem híbrido sozinho.

Excelente momento para o bote. Como se faz com uma presa, tive
diversas ideias de como raptar Ferdinand e trocá-lo por Beatrice. Ele
parecia frágil e inexperiente, uma presa bastante fácil. Nenhum
desafio para mim, mesmo estando sozinho. Um contra um era justo
somente se as habilidades fossem equivalentes. E Ferdinand era
definitivamente um híbrido jovem e sem qualquer experiência em
combate. Fácil demais, eu pensei comigo mesmo por diversas vezes.
Até que a consciência novamente dominou o instinto e eu me
apresentei a ele, como um cavalheiro faz. Nada de presas ou
predadores, nada de rapto ou resgate. Eu me apresentaria a
Ferdinand e pediria a sua compreensão.

Apesar da minha eloquência, eu jamais imaginei que Ferdinand me


compreendesse tão rapidamente. Eu não precisei gastar argumentos
demais, ou descrever meus sentimentos por Beatrice com muitos
detalhes. Ele pareceu bastante simpático aos meus sentimentos, era
verdade. Como se ele os pudesse entender facilmente. Poderia
Ferdinand estar apaixonado? Ou ele era apenas um bom homem?
Seus pensamentos confusos de jovem me deixaram em dúvida

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

algumas vezes, mas eu vi que podia confiar nele, e conseguir meu


passe livre para o covil.

— Você pode confiar em Felicia. – Ferdinand disse, sem me olhar,


enquanto caminhávamos pela floresta. Distrai-me de meus
pensamentos por um instante, visualizando o jovem híbrido de
cabelos loiros e olhos marrons. – Ela sabe o que está fazendo.
— Sim, eu sei. – Mas eu não queria tê-la deixado, mesmo assim. – É
que... não consigo ver Beatrice sofrendo.
— Você pretende levá-la para sua... casa? – Ferdinand parou, e
encarou-me. E eu não resisti, um sorriso enorme brotou em meus
lábios quando olhei dentro de seus olhos brilhantes. Todo o peso que
estava sobre meus ombros imediatamente me deixou livre. Liberto.
— Sim, eu pretendo. – O sorriso não se desfazia, e eu me senti
constrangido.
— Você já sabe o que eu estou pensando, certo? Bea me contou que
você lê mentes... isso é incrível.
— Um pouco perturbador, também. – Confessei. – E sim, eu sei. Mas
eu ainda não consegui compreender ou acreditar. Você faria mesmo
isso?
— Sim, não vejo grandes dificuldades. Eu não me sinto no direito de
ficar com Beatrice... ela não me pertence. Ela teve sua escolha, e a
fez. Preciso fazer a minha, agora. Eu não posso ficar com ela, não é a
coisa certa a se fazer.
— Custa-me acreditar que você possa ser tão altruísta, depois da
demonstração de posse de seu pai...
— Somos diferentes. – Ferdinand olhou as árvores, seu semblante de
menino um pouco tenso. – Eu sou um híbrido, apesar de tudo. Talvez
seja uma dessas fraquezas humanas.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

O mesmo discurso de Beatrice, ele tinha. Eram mesmo, irmãos... de


uma genética bem próxima. Os cabelos claros, os olhos da mesma
cor... provavelmente ele também teria olhos verdes, se parasse de
alimentar-se de sangue. A sua mãe não era Felicia, mas Beatrice se
parecia muito com Rudolph. Era curioso como ela jamais se enxergou
nele... como ela jamais sentiu que seu coração não batia, no peito.
Rudolph estava em um pedestal tão elevado que sua prole não o
reconhecia. E Beatrice, mesmo tão curiosa, não conseguiu descobrir
que seu pai era um vampiro. Mas eles tinham o mesmo discurso
sobre as fraquezas humanas, as mesmas que me encantavam. E
Ferdinand estava disposto a enfrentar a rigorosa lei de Rudolph para
desistir de Beatrice, e dar a ela uma chance de estar comigo. Por
aquilo eu não esperava.

— Acha que eu devo levar sangue para o covil? – Uma súbita ideia me
ocorreu.
— Temos sangue lá... e os caçadores saíram, logo voltam com mais.
— Sim, mas sangue fresco... para Beatrice. Ela estava... havia tanto
sangue saindo dela, provavelmente ela precisará repor suas
reservas...
— Talvez seja uma boa idéia. Pretende caçar?
— Venha comigo. Depois... você me leva de volta até ela?
Ferdinand riu, e me seguiu pela floresta. Ele estava acostumado com
aqueles caçadores híbridos sem nenhuma classe. Ele precisava ver
como um vampiro caçava, de verdade.

**********

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

Em alguns instantes, a luz parecia voltar aos meus olhos lentamente.


Após a dor dilacerante da carne se rasgando, eu perdi os sentidos.
Não foi como o sono, eu não deixei-me dominar por um lado do
cérebro para perder-me em outro. Eu simplesmente não tinha
nenhum lado consciente capaz de me retirar daquele transe, então. A
dor ainda me consumia, mas eu podia respirar. Havia um gosto ácido
de sangue em meus lábios. Meu corpo não se movia. Eu tentei mover-
me, mexer a mão, levantar-me. Mas nada se moveu. Senti agonia
novamente, e pisquei os olhos desejando que aquele cacoete humano
me clareasse a visão.

— Deixe-me vê-la, Felicia... – A voz de Edward pode ser percebida por


meus ouvidos dormentes. Eu não ouvia nada desde que o bebê
decidiu nascer, e ouvi-lo foi reconfortante. Ele ainda estava ali,
apesar de tudo.
— Ela está se regenerando... não foi um parto fácil. – Felicia parecia
apreensiva. O que ela pretendia dizer com ―não foi fácil‖? –
Precisamos ajudar... o bebê teve dificuldades de sair porque a
regeneração dela é muito rápida. Só quando ela se enfraqueceu
totalmente conseguimos tirá-lo... eu temi que ele se afogasse dentro
dela.
Ouch, aquele comentário me incomodou. Regeneração estúpida,
pensei. Eu não podia ser uma híbrida comum, então? Precisava ser
aquela aberração mais vampírica do que humana, que colocava a
vida do meu filho em risco? Vida... eu sequer sabia se o que tinha
nascido de mim tinha vida.
— Já escolheram um nome para ele? – Ferdinand... eu esperava que
ele estivesse se comportando.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Não... na verdade, ele é uma surpresa. Somente Alice sabia, e ela foi
brilhante em esconder de mim. Felicia...
— Alimente-o primeiro, Edward. Depois você pode vê-la.

Eles conversavam longe de mim, e imaginei que não estivessem no


quarto. Era bom, que Edward não me visse em pedaços sobre a cama.
Eu sabia que estava em pedaços, eu podia sentir-me dilacerada. Eu
não queria que ele me visse daquela forma, era verdade. Por mais
que eu quisesse vê-lo, era melhor que ele tomasse conta de nosso
filho. E... Ferdinand claramente disse ―ele‖. Cogitou se havíamos
escolhido um nome para ―ele‖... meu filho então era um... menino?
Resisti à palavra macho com todas as minhas forças, porque eu não
era mais uma híbrida pertencente àquele covil. Eu pertencia à
superfície, e meu vocabulário também. Comecei a ficar ansiosa, e
senti mais dor. A luz retornou à minha visão com mais intensidade, e
eu ouvi a porta bater. Sensível, eu estava sensível.

Felicia sentou-se ao meu lado, eu sabia que era ela, e segurou-me


pela nuca. Suas mãos me fizeram erguer o corpo alguns centímetros,
e ela despejou sangue em meus lábios. Imediatamente pretendi
repelir o que fosse, mas aquele sangue tinha um sabor diferente.
Apurei meu olfato, e o sangue era... fresco. O covil não tinha sangue
fresco, então entendi que os caçadores tinham voltado. Mais agonia,
porque Edward estava ali... e eu não queria que Rudolph o visse. Eu
não queria Rudolph a menos de uma milha de distância de meu
Edward. Minha inquietação finalmente projetou-se no corpo, e meus
braços moveram-se, derrubando um pouco do sangue que Felicia
tentava inutilmente me dar.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Bea, você está sendo muito difícil. – Ela reclamou. – Edward ficará
magoado ao saber que você está recusando o sangue que ele trouxe.
— Edward... – eu disse, segurando firmemente a taça com os dedos
trêmulos. Meus olhos abertos focalizaram Felicia, e sua fisionomia
era tensa e inconclusiva.
— Não pense que aprovo tudo isso... mas ele demonstra real
preocupação com você. Ele e Ferdinand trouxeram um cervo inteiro
para você... vamos, beba. Quanto mais sangue beber, mais facilmente
vai se regenerar.
Deixei que o sangue escorresse por minha garganta, engolindo toda
gota que pudesse estar naquela taça. Não eram os caçadores, era meu
Edward. A dor ainda era nauseante, e minha visão ainda não era
clara. Mas eu podia sentir que melhorava, aos poucos. Mais devagar
do que eu estava acostumada, talvez.
— Felicia... como estou?
— Horrível. – Ela limpou-me o sangue da face e do pescoço. – Como
toda híbrida que acabou de parir.
— Cubra-me. – Pedi, exigente. – Não me deixe... não quero que
ninguém veja...
— Cobrir-te para que, Bea? Seu ventre ainda está em pedaços... ainda
verte sangue de suas entranhas... de que adianta cobrir-te com um
lençol que em segundos estará embebido em sangue?
— Como vocês resistem ao nosso sangue? Não é... humano demais?
— O cheiro é diferente. – Felicia levantou-se, e pude vê-la pegar algo.
– Bem diferente... os humanos tem um aroma completamente
diferente. E fomos bem treinados... não sei quanto ao seu vampiro lá
fora. – Gentilmente, Felicia depositou sobre mim um lençol. Aquela
era a mesma Felicia de sempre... repreendia-me mas sempre fazia

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

tudo que eu desejava. Repreendia-me mas me permitia tudo que eu


quisesse. – Vou chamá-lo... tente não ficar muito ansiosa.

Era impossível atendê-la, então. Eu estava ansiosa, mas não era por
Edward. Eu sabia como era Edward, quem era Edward, o que esperar
de Edward. Ele estava lá, e eu o amava tanto quanto ele me amava.
Ele não era um enigma para mim, era o vampiro que eu amava. Mas
ele tinha consigo algo que me era totalmente desconhecido, e o
desconhecido assustava. O desconhecido me causava a ansiedade que
Felicia desejava que eu repelisse. Edward tinha consigo, em seus
braços, o meu filho. Por mais que eu amasse meu filho – e eu amava,
considerando todas as formas de amor que aprendi – eu não podia
deixar de imaginar o que ele era, afinal. Um menino, sim. Um macho.
Mas... ele era um híbrido? Era um vampiro? Havia calor em sua pele?
Seu coração batia? Ele precisava respirar? Depois de tanta mutação
genética, o que era o meu filho? Eu não sabia o que esperar, até
porque eu nunca havia visto um bebê, então. Livros e filmes não
contavam; eu nunca tivera um bebê em meus braços.

Meu corpo tremia, nervoso, quando Edward caminhou para dentro


do quarto. Eu não conseguia mover-me para ajeitar-me, e só pensava
que ele me veria horrível daquela forma. Seus olhos caramelo me
encararam, e eu pude ver que ele também havia se alimentado. Os
olhos da manhã eram turvos e as olheiras muito perceptíveis.
Aqueles olhos eram olhos serenos... talvez ele também temesse que
meu sangue derramado daquela forma lhe despertasse desejos não
conhecidos. Edward se aproximou, o semblante rígido como se ele
fosse feito de matéria inanimada. Havia algo consigo, enrolado em
tecido flanelado. Meus olhos estavam agitados, urgentes. Eu queria

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

ver tudo, eu queria ver o que ele trazia para mim. Mas Edward livrou
uma das mãos e passou por minha face, causando um choque
estranho. Minha temperatura estava alta, então. Ele sorriu, um
sorriso de canto de boca, e pegou a compressa de Felicia, colocando
sobre minha testa. Retirou cabelo de minha face, delineou os
contornos de meu queixo, acariciou meu pescoço... eu estava muito
quente.
— Você tem febre. – Ele disse, quase incrédulo. – Humana demais,
não? – Eu apenas pisquei, assentindo. Meus olhos novamente
pousaram no que ele carregava. – Você quer vê-lo? – Edward sentou-
se, ainda ao meu lado. Com a mão livre, ele elevou meu corpo,
colocando-o por cima de si, apoiado em sua perna. Eu estava então
recostada em seu corpo, e a dor já não era mais tão angustiante.
— O que faz? – Perguntei.
— Tento te deixar confortável. – Ele sorriu, descobrindo-me um
pouco. O lençol estava realmente embebido em sangue, como Felicia
previa. – Pode mover os braços, meu amor?
Assenti novamente, retirando os braços de baixo dos lençóis e
posicionando-os por sobre mim. Eu podia mover-me, mas estava
insuportavelmente fraca. Mal sustentava o peso de meu próprio
corpo. A regeneração trabalhando em velocidade máxima, e
consumindo todas as minhas poucas reservas de energia. Talvez eu
precisasse de mais sangue... mas escondi aquele desejo para que
Edward não fizesse nada antes de me mostrar o meu filho. E ele não
me faria esperar mais. Com uma gentileza que lhe era peculiar,
Edward entregou-me o pequeno ser que estava com ele, descobrindo
sua pequena face para que eu pudesse enxergá-lo. Colocou-o em
meus braços trêmulos, ajudando-me a sustentar o peso insignificante
do que eu segurava. Meus olhos se perderam na imagem mais linda

359
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

que eu já vira em toda a minha existência – tanto no covil quanto


fora dele. Nenhuma cor poderia se comparar à cor de sua pele...
nenhum aroma poderia se comparar ao aroma que ele exalava... nada
poderia comparar-se à sua beleza.
— Ele é exatamente como você. – Edward sorriu novamente,
beijando-me os cabelos. – Seu coração bate tão forte...
— Então ele... é um híbrido? – Perguntei, ainda vidrada na pequena
criatura que eu segurava, recusando-me a acreditar que aquele ser
havia simplesmente cavado seu caminho para fora de mim, e que
havia sido gerado por semanas dentro de meu ventre inóspito.
— Sim, Bea. – A voz de Edward continha humor; ele parecia desejar
rir do meu comentário. – Claro que ele é um híbrido... afinal, ele é
seu filho. Como eu disse, ele é exatamente como você.
Fechei meus olhos instintivamente, sentindo que eles se tornavam
úmidos e turvos. Lágrimas... eu não podia chorar!! Que humanidade
era aquela, que me dominou totalmente durante aquela gravidez!
Que humanidade era aquela que o pequeno ser dentro de mim
despertava! Mas as lágrimas rolaram por minha face, todas
morrendo nos dedos frios de Edward.
— Você está chorando... – Ele parecia surpreso e ao mesmo tempo
preocupado.
— Não é nada... – Tentei pensar em alguma coisa que o distraísse,
algo que o fizesse concentrar em outro fato que não minhas
lágrimas. A sede... o desejo por sangue, por minha reconstrução
total. O desejo por estar inteira novamente e poder sair daquele
estado catatônico pós parto. O meu pensamento ficou vermelho, tanto
quanto o lençol que me cobria. Edward me beijou os cabelos
novamente, e, sustentando-me com extrema facilidade, apoiou meu
corpo em travesseiros para poder levantar-se.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Vou buscar sangue para você. – Ele disse, com toda suavidade
possível. – Acha que pode ficar sozinha com ele?
Assenti sem palavras mais uma vez, enquanto meu vampiro deixava
o quarto. Eu não tive tempo de sentir a sua falta, nem de ficar um
momento sozinha. Edward retornou em alguns segundos, agitado,
apressado. Eu devia parecer péssima, para ele estar tão cuidadoso
comigo. Ele era cuidadoso, mas eu era geralmente bastante durável.
Ele não precisava preocupar-se tanto... talvez a reação fosse normal à
minha sombria imagem. Eu ainda observava o pequeno híbrido em
meus braços, enquanto ele parecia observar-me. Não, eu não
entendia nada de bebês. Eu nunca tivera um em meus braços. E
nunca, nada pareceu tão natural quanto segurá-lo comigo, naquele
momento. Ele tinha poucas horas de vida. E esticou uma de suas
mãozinhas em minha direção. Mãozinha tão pequena que não
parecia pertencer a um... imortal.

Edward aproximou-se, com o sangue em uma taça. Ele retorcia o


nariz, claramente nauseado pela aparência desagradável do
alimento... sim, era terrivelmente desagradável, mas eu me alimentei
daquilo por um século. Eu me alimentava exclusivamente de sangue
morto, guardado em garrafas de metal, com um sabor
completamente diferente do sangue fresco. E aquilo me faria forte de
qualquer jeito, então fosse o sangue que fosse, eu desejava bebê-lo.
Cuidadosamente mais uma vez, ele pegou o bebê de meus braços e
me entregou a taça. Apesar do protesto por ele ter-me tomado o
bebê, eu desejava demais o sangue para argumentar qualquer coisa.
Sentia sede como nunca, e bebi tudo que me foi ofertado sem muito
raciocinar.

361
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Mais? – Ele pareceu surpreso, uma vez que minha sede ainda não
estava saciada.
— Gostaria do cervo inteiro, se possível.
— Ferdinand? – Edward chamou, tom de voz tão baixo que eu duvidei
que o híbrido lhe tivesse ouvido. Mas Ferdinand estava espreitando
na porta tão logo meu vampiro o chamou.
— Sim, Edward?
— Você poderia pegar mais sangue para Beatrice? – Edward
estendeu-lhe a taça, gentilmente, com um sorriso. – Ela está
sedenta... – O híbrido deixou o quarto com urgência, sem esperar por
Edward terminar a frase, aparentando uma animação nada
condizente com a situação real. Fechou a porta e desapareceu.
Edward sorriu, e sentou-se novamente ao meu lado. Depois,
depositou meu filho novamente em meus braços, olhando para ele
com as sobrancelhas franzidas. Depois olhou para mim, também os
olhos confusos. – Muitas perguntas ao mesmo tempo. – Ele riu. –
Ferdinand desenvolveu uma admiração não muito natural por mim.
Devo confessar que estou me aproveitando da situação. – Edward
baixou o olhar, encarando o pequeno híbrido nos meus braços. – E
ele parece bastante ansioso por estar com você... então, melhor
deixá-lo em seus braços.
— Ele pensou isso? – Eu estava maravilhada, olhando para Edward, e
para o bebê, e para Edward novamente.
— Ele ainda é inconclusivo. Mas sim, ele queria voltar para perto de
você. Ele... ele é seu filho, é normal que ele deseje estar com a mãe.
Aliás... você precisa escolher um nome para ele.

Edward tinha o cenho franzido, e olhava para mim e para o bebê com
total adoração. Eu podia sentir adoração em seu semblante rígido,

362
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

mas suave. Ele respirou algumas vezes, e levou as mãos até o lençol
embebido em sangue. O sangue coagulado já exalava um aroma
ultrajante, mas eu não queria que ele me visse. Mesmo assim, ele se
moveu para descobrir-me; um movimento muito rápido. Eu não
poderia impedi-lo, porque o bebê em meus braços não me permitia
fazê-lo. Edward puxou os lençóis no mesmo instante em que a
música estridente do aparelho celular se fez ouvir. Ele torceu os
lábios, mas terminou a sua tarefa. Seus dedos tocaram toda a minha
região do ventre; eu pude senti-lo, mas não via nada. A minha
posição não era privilegiada. O telefone continuava tocando, mas
Edward não parecia preocupado em atendê-lo.
— Não se incomode, é Alice. – Ele disse, respondendo-me. – E ela não
vai desistir. Isso está... está muito bom. – Seus dedos pressionavam
minha pele, e eu sentia um pequeno incômodo. Sem dor, só um
pequeno desconforto. – Você já pode pensar em vestir alguma coisa...
posso?
— Atenda sua irmã primeiro. – Eu disse, já irritada com a música
vibrante do telefone. Tentei retomar o controle de meu corpo, sem
temor de ferir-me mais do que já estava, sentindo que meus órgãos
internos já estavam recompostos o suficiente. Ajeitei-me na cama,
recostando-me mais comodamente na cabeceira da cama, tomando
maior consciência do espaço necessário para acomodar o bebê em
meus braços. Edward pegou o telefone para atender Alice, enquanto
eu considerava sua última frase. Nosso filho precisava de um nome.

— Charles. – Eu disse, não prestando a menor atenção na conversa


entre Edward e Alice. Meus olhos vidrados na pequena figura
perfeita do meu filho, que continuava com as mãozinhas estendidas
em minha direção. Encolhi as pernas e apoiei-o em meus joelhos,

363
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

fazendo-o ficar de frente para mim. Ele tinha cabelos fartos, e eram
loiros... Edward tinha cabelos de fogo, como que fossem ruivos; eu
tinha cabelos claros, mas não conseguia vê-los de cor definida. Mas
nosso bebê tinha cabelos loiros pálidos, como os de tantos outros
híbridos que eu conhecia. Talvez ser loiro fosse uma característica
dos híbridos... principalmente dos geneticamente modificados. –
Charles Henry. – Falei, passando os dedos pela pele lisa e quase
transparente do bebê.
— Alice, estamos todos bem... eu sei, eu lidarei com isso no momento
certo. Avise a Esme que ela é... avó? Avó de um menino. Isso tudo é
tão estranho... totalmente anormal. – Edward conversava com a
irmã, e apesar das palavras duras seu tom de voz era suave e
zombeteiro. Como se os comentários sobre a surrealidade da situação
fossem um divertimento. – Vou dar atenção à minha nova família
agora, se me permite. Voltaremos logo. – Edward desligou o telefone
e me encarou, o semblante concentrado, cenho franzido, lábios
levemente contraídos. – Charles Henry Cullen?
— Sim... – Eu sorri. Ele estava prestando atenção, então. – Mas você
não parece ter gostado... – minha empolgação durou frações de
segundos.
— Eu gostei. Considero apenas que você precisa conhecer a família
real britânica...
— Família real? – Como uma híbrida tola que eu era, as perguntas
estúpidas nunca acabavam.
— Sim. – Edward sentou-se ao nosso lado, abraçando-me e puxando-
me para mais perto. Seus dedos acariciaram os cabelos descoloridos
de nosso filho, enquanto ele concluía seus pensamentos. – Charles é
o nome de um príncipe...

364
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Oh. – Eu me surpreendi com a coincidência. – Mas que seja... meu


filho é um príncipe. O príncipe do meu conto de fadas fora do
normal.
— Nosso filho, Bea. – Edward beijou meus cabelos.

CAPÍTULO 23 – DECISÃO
*tema: Roxette‖s Almost Unreal*

— Onde está Beatrice? – A voz de Rudolph ecoou pelo salão dos


híbridos. Se eu não pudesse ouvi-lo perfeitamente, eu saberia que ele
havia retornado pela simples reação de Edward ao meu lado. O dia
havia transcorrido sem maiores alterações, e os caçadores se
demoraram a voltar. Edward ajudou-me a vestir algo, e eu
finalmente pude abrir a mala surpresa de Alice, Rosalie e Esme.
Dentro da pequena bolsa colorida havia roupas de bebê e utensílios
que provavelmente seriam bastante úteis para alimentá-lo. Sorri ao
ver o quão cuidadosas elas foram com meu filho... o quanto ele seria
amado por sua família. Foi difícil escolher algo para vestir em
Charles; eu não conseguia vestir nem a mim mesma sem ajuda. Mas
Felicia divertiu-se ajudando-me a escolher algo para apresentá-lo aos
híbridos. Nós sabíamos que logo os caçadores chegariam, e que a tão
esperada decisão estava prestes a ser tomada.

Edward esteve ao meu lado, como um soldado. E Ferdinand era nosso


homem de guarda. Realmente, Edward estava usando o pobre
híbrido, manipulando-o cruelmente. Mas era visível a admiração que
Ferdinand dirigia a ele, e a mim também. Como se ele nos adorasse,
da mesma forma que eu via Edward adorando Charles. Mas o que

365
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

deveria ser não poderia adiar-se por muito tempo, e quando o sol
começou a desaparecer no horizonte, os caçadores estavam de volta.
Eu senti a presença de Rudolph pela contração dos músculos de
Edward; seus punhos cerrados ao redor de minha cintura. Sua pele
ainda mais fria do que o esperado.

— Rudolph, nem pense em entrar no quarto dela. – Felicia bradou,


desafiadora. – Ela é uma fêmea que acabou de parir, não existe
ofensa maior.
— Mas ela está com um macho lá dentro. Posso sentir o cheiro
daquele vampiro insolente desde a entrada do covil.
— Edward está com ela. – A voz de Ferdinand se fez ouvir. – Mas ele
tem o direito, afinal é o pai do menino. Como foi a caçada, Rudolph?
— Como disse? – O tom de voz de Rudolph mudou da fúria iminente
para a curiosidade. – Pai do menino?
— Sim... Beatrice pariu um macho, Rudolph. – Felicia decidiu
explicar. – E ela ainda está fraca, apesar de completamente
regenerada. Vocês precisam conversar, mas este não é o momento.
— Chame o vampiro. – Rudolph mantinha o tom de voz curioso. –
Quero conversar com ele... Edward Cullen.
— Convocará o conselho, Rudolph? – Ferdinand parecia
suficientemente insolente, também. – Quero dizer... para decidir se
Beatrice deve ter o direito de deixar o covil?
— Beatrice não deixará o covil. Menos ainda com um macho tão...
apurado como o que ela pariu.
— O menino não te pertence, Rudolph. – Felicia protestou. – Mesmo
que ela fique, o pai terá direitos sobre ele.

366
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Vou até lá. – Edward levantou-se, ainda bastante contraído,


respiração ritmada, olhar concentrado. – Você me permite pegá-lo,
Bea?
— Charles? – Pressionei o bebê contra meu peito. – Pretende levá-lo a
Rudolph?
— Eu jamais o colocaria em perigo. – Edward sorriu, para me
incentivar. – Eu o amo como amo você... só precisamos resolver isso,
Bea. Você disse, dar um fim a essa história. Foi por que vim até o
covil.

Cedi, e permiti que Edward tomasse Charles em seus braços. O bebê


estava sereno, sem emitir muitos ruídos. Os bebês que vi em filmes
eram barulhentos, mas o meu por vezes parecia um brinquedo. Se eu
não o tivesse visto mover-se, poderia jurar que ele não era real.
Edward endireitou-se e saiu do quarto, deixando a porta entreaberta
para me permitir participar.
— Fique aqui, Bea... por favor. – E ele saiu do meu campo de visão,
imergindo na discussão que se travava no salão. – Saudações.
Houve um silêncio. Pude ouvir a respiração dos híbridos, os seus
corações. Fechei os olhos, tentando me convencer de que tudo ficaria
bem independentemente da minha intervenção, naquele momento.
— Este é o macho? – Rudolph não tinha ira em sua voz. Aquilo era
bom, afinal.
— Sim, Rudolph. Primeiramente, gostaria de desculpar-me por
entrar no covil sem a sua presença, mas Ferdinand me concedeu a
sua permissão. Então, considerei que não seria uma afronta. E trouxe
a você meu filho, Charles Henry Cullen. Gostaria que você o
conhecesse.

367
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

Mais silêncio, e eu já estava preparando-me para levantar. Estava


ansiosa e apreensiva demais; aqueles machos tolos brincavam com
meu filho como se ele fosse a bandeira branca da paz. Um pequeno e
indefeso ser recém nascido; onde eles estavam com a cabeça! Mas o
diálogo recomeçou e refreei meus instintos.
— Ele se parece com Beatrice. – Foi o veredito de Rudolph.
— Mas ele tem muito de Edward. – Felicia implicou. Ela estava se
saindo bastante desafiadora, para quem temia tanto o patriarca dos
Caldwell. – Veja o formato dos olhos, o nariz...
— Ainda é pequeno demais para parecer-se com alguém. – Rudolph
retomou sua postura rude, contradizendo-se. – Ferdinand, é verdade
que deu sua permissão para este vampiro adentrar em nosso covil?
— Sim, Rudolph. Permiti sua entrada no covil, sua permanência com
Beatrice, sua estada conosco.
— E você poderia explicar-me esta atitude?
— Sim, claro. – Ferdinand fez uma pausa, e eu pude imaginá-lo
serenamente enfrentando Rudolph. – Eu permiti que Edward viesse
buscar sua noiva. Eu pretendo desistir de Beatrice, e diante do
conselho, se for preciso.

Eu prendi a respiração quando ouvi aquela frase de Ferdinand. Então


era por aquele motivo que Edward disse que estava abusando dele. E
por aquele motivo que eles andavam tão próximos. Ferdinand havia
decidido desistir de mim! Talvez Edward não entendesse as
implicações daquela decisão, mas eu entendia. Não haveria nada que
Rudolph pudesse fazer, se aquela era a sua decisão. Senti uma
angústia tão grande que não resisti, levantei-me cambaleante,
ajeitando o roupão com o que estava vestida, vacilante em direção à
luz que vinha do salão. Surgi na conversa antes mesmo que alguma

368
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

reação à decisão de Ferdinand pudesse ser proferida. Minha aparição


causou certo frenesi nos presentes. Edward caminhou para meu lado,
em uma clara atitude de proteção, enquanto Rudolph encarou-me
com alguma ferocidade. Ferdinand colocou-se entre ele e Edward,
sem mover um músculo em sua face serena.

— O que foi que você disse? – Eu perguntei, ofegante, a Ferdinand. –


Você...
— Bea... – Edward parou em minha frente, cobrindo-me com seu
corpo. Estendi meus braços para receber Charles de volta, segurando
meu filho com força.
— Está tudo bem, Edward. – Eu sorri. – Ferdinand... você vai mesmo
fazer isso?
— Sim, Bea. – Ele me sorriu. Seus olhos castanhos nunca estiveram
tão límpidos e tão sinceros. Eu conhecia aquele menino, eu sabia.
Aquele jovem híbrido era meu irmão. Ele não poderia me
decepcionar. – Eu vou desistir de você. Eu... não posso fazer nada
além disso, não é?
Não, ele não podia. Mas eu não tinha certeza se ele sabia disso. Eu não
tinha certeza se Ferdinand seria maduro o suficiente para tomar a
decisão certa sozinho. Eu não tinha certeza do quanto Rudolph o
havia influenciado. Eu não lia mentes, como Edward.
— Você não está falando sério. – Rudolph finalmente saiu de seu
silêncio. Ferdinand tinha o semblante mais sereno possível, e
encarou o vampiro enquanto ajeitava os cabelos loiros como os de
Charles. Realmente, aquela deveria ser uma característica dos
híbridos geneticamente modificados... só eu que deveria ser
considerada uma aberração, porque meus cabelos, apesar de claros,
não eram loiros.

369
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Estou sim, Rudolph. Pode convocar o Conselho, se desejar.


— Rudolph... – decidi apelar para o bom senso, se meu pai vampiro
fosse capaz de ter algum. – você não precisa convocar nada. Basta
desistir... você não percebe? Eu desejo outra vida, eu tenho outra
vida. Ferdinand deseja outra vida... ele tem o direito de conhecer
alguém e apaixonar-se, como eu o fiz. Felicia deseja o mesmo que
nós... ela também não está satisfeita com o rumo das negociações.
Edward... ele deseja nossa saída daqui mais do que qualquer outro. Só
você parece não enxergar que não há esperanças para mim e
Ferdinand. Somos irmãos, temos ciência disso. Não podemos
simplesmente ignorar esse sentimento e dar a você o que deseja. É
aviltante!

Rudolph franziu o cenho e encarou todos os presentes. Eu e Charles


em meus braços; o bebê tão alerta que parecia já ter bem mais tempo
de vida; Edward me abraçando com força, em uma atitude
completamente protetiva; Ferdinand e seu sorriso angelical nos
lábios, Felicia ansiosa e esfregando as mãos.
— Você tem ideia de que está me pedindo para desistir de séculos de
planos? – Ele disse, expressão imutável. Estávamos todos tensos. – Eu
tenho mais de quinhentos anos, Beatrice. Por séculos eu realizei
experiências até conseguir realizar você. Você... a híbrida que me
sucederia no comando do covil. E Ferdinand foi ainda mais difícil de
produzir. Por algum motivo, eu não conseguia produzir um macho...
e agora você pretende que eu simplesmente desista de tudo porque
você se emprenhou de um vampiro?
— Porque eu me apaixonei por um vampiro, Rudolph! – Caminhei até
ele, pés vacilantes, as mãos de Edward me segurando, eu me
esforçando para afastar-me. – Olhe para mim... olhe para meu filho...

370
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

eu amo Edward! Não se trata de machos, fêmeas, genética... estou


falando de sentimentos, e eu sei que você os tem guardados. – Virei-
me para Edward, respirando fundo, com alguma confiança em
minhas palavras. Era o momento, e se eu não tomasse aquela decisão,
ninguém mais a tomaria por mim. – Meu amor, pegue as coisas de
Charles. Tudo que sua família preparou... vamos partir.

Eu não precisava falar, para Edward saber o que ele deveria fazer.
Mas eu quis falar; eu queria que todos estivessem prestando atenção
em minhas palavras. Ferdinand moveu-se para o lado de Edward, e
desapareceu no quarto escuro com ele. Definitivamente, Ferdinand
estava possuído por algum tipo bizarro de entidade que o fazia
admirar Edward como a um deus. Ficamos nós quatro, uma família
nada convencional, e uma decisão sobre outra, para tomar.
— Adeus, Rudolph. – Eu disse, ainda sentindo aquele arrobo
instantâneo de coragem.
— Beatrice... – Ele comprimiu os lábios, olhando para mim e para o
bebê em meus braços. – Você sabe que só você considerei como
minha filha. Você sabe que... sempre foi somente você, não sabe?
— Sim, por isso eu sei que você vai me deixar partir. Eu sempre
soube, por isso retornei ao covil. Só pretendia que você
compreendesse isso, e não que eu precisasse impor a minha decisão.
Meus olhos se perderam por um segundo no semblante de Charles, e
tão logo dedos gélidos me tocaram o ombro. Edward já tinha tudo
preparado, e segurava as duas malas que Alice me havia preparado.
Ferdinand estava logo ao lado, os olhos faiscando.
— Vamos vê-la novamente? – Felicia perguntou, ainda ansiosa.
— Vocês sabem onde vou ficar. – Eu sorri, sinceramente, pela
primeira vez. Parecia fácil demais, e talvez o fosse. O amor, aquele

371
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

sentimento humano tão descabido, poderia ser a chave para tudo,


afinal. – Podem ver-me quando quiserem.
— Será sempre bem vindo, Ferdinand. – Edward dirigiu a frase ao
jovem híbrido que lhe observava ansioso. Provavelmente, em
resposta a seus pensamentos. – Todos vocês. Nosso lar sempre estará
aberto à família de Bea. – Edward beijou meus cabelos, e dirigiu-se
para a saída do covil. Ferdinand pegou uma mala de suas mãos, e ele
passou o braço por meu ombro, envolvendo-me em um abraço de
alívio. – Vamos levar nosso filho para casa, meu amor.

A saída do covil não me trouxe o alívio imediato esperado. A imagem


do Volvo prateado, que reluzia ao luar, não me trouxe o alívio
esperado. A porta do veículo se abrindo, a despedida de Ferdinand, o
ruído silencioso do motor, a arrancada. Nada daquilo parecia me
trazer alívio algum, porque eu ainda parecia não acreditar que aquilo
havia acabado. Ou pelo menos, que a minha decisão não causaria
mais problemas. Edward a salvo, os Cullen a salvo, Charles a salvo, os
híbridos a salvo. Nenhum caos formado por uma decisão repentina
de uma híbrida em deixar seu covil. Nenhuma perda, nenhuma baixa
numérica. Minha alma estaria em paz, e aquela paz não me
pertencia. Não me parecia pertencer, porque por minha causa houve
sofrimento. E eu não desejava sofrimento para nenhum ser
existente.

Meu organismo ainda estava fraco, porque aquele sangue do covil


era desagradável e não suficiente. Eu tinha marcas brilhantes sob
meus olhos, que ficavam mais evidentes porque inchadas. Meu corpo
estava regenerado o bastante, ao menos. Edward tinha o olhar
disperso na estrada, uma das mãos sobre minha perna; eu podia

372
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

sentir tensão nele também. Talvez porque eu não conseguia relaxar.


Olhei para Charles, e ele tinha os olhos fechados e o corpo mole em
meus braços. Sorri involuntariamente. Meu filho dormia.
— Exatamente, você. – Edward respondeu a nenhuma pergunta. Pude
ver um sorriso em seus lábios, também. Deixei que meu corpo
pendesse para o seu lado, e recostei-me em seu ombro. Ele ajeitou o
braço ao meu redor, abraçando-me. Edward dirigia bem demais, eu
não precisava preocupar-me em ocupar uma de suas mãos. Meu
corpo fatigado acabou por também adormecer, apesar do lado
consciente manter-se alerta ao pequeno ser que estava comigo.

Eu não vi chegarmos aos Cullen, mas sei que a viagem não foi tão
longa quanto eu esperava. Edward dirigiu mais depressa do que
usualmente, ele também desejava chegar em casa tanto quanto eu.
Ou mais. Eu tinha certeza que tolerava o covil um tanto mais do que
ele. Talvez ele me amasse de uma forma doentia, pois ele havia
aceitado abrir mão de sua liberdade, de sua vida sob o sol, para
acompanhar-me naquele covil insalubre. Talvez ele amasse Charles
de uma forma doentia, e não a mim. Ou talvez ele nos amasse, ambos
da mesma forma. Eu não sabia, e não importava. Edward me amar,
era o fator relevante. Talvez ele nunca me amasse como eu o amava.
Mas qualquer coisa seria suficiente.

A imagem da residência dos Cullen fez com que meus olhos


sorrissem. Meu organismo estava relaxado, eu havia dormido por
todo o trajeto. Meus olhos se abriram tão logo o carro parou,
suavemente, no pátio de entrada dos Cullen. Edward beijou minha
testa, e eu me sentei para permitir que ele saísse do carro. Minha
respiração estava ritmada, mas ainda ansiosa demais. Olhei pelo para

373
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

brisa e pude visualizar as faces da família de Edward; minha nova


família, todos esperando no patamar da casa. A porta do carro abriu-
se, e Edward estendeu as mãos para me ajudar a sair do carro. Eu me
sentia bem melhor, apesar de sedenta. Meus olhos deviam estar
muito escuros, e minha aparência não muito agradável. Eu precisava
me alimentar de sangue fresco, ao qual já havia me acostumado.

— Bem vindos de volta. – Esme foi a primeira a descer os quatro


degraus para nos receber. Ela parecia bem mais ansiosa do que eu, e
sua reação foi um tanto inesperada para mim. Ela se lançou a
Edward, abraçando-o como uma mãe humana abraça a um filho.
Talvez eu fosse a única aberração mítica a recusar as emoções
humanas. Os Cullen pareciam tão bem acostumados a elas... como se
elas nunca lhes tivessem sido negadas. Eu desejava repelir aquelas
emoções, mas elas me tornavam mais... satisfeita. Talvez repelir as
emoções ruins, e manter as boas. Mas era impossível ficar somente
com a parte boa da vida. Da existência. O que fosse.

A claridade do dia reluziu em Edward, e ele parecia tão brilhante


quanto deveria. Ah, como ele ousaria esconder-se no covil e privar o
mundo daquela beleza toda! O sol não seria tão contente sem a pele
transparente de Edward para refletir seus raios, dia após dia. Eu não
seria tão contente se não mais pudesse ver aquilo. Em poucos
instantes, todos os Cullen nos cercavam, enquanto Esme encarava
com total ansiedade o pequeno híbrido em meus braços. Charles
estava coberto pelo tecido flanelado ainda, e todos pareciam curiosos
para vê-lo. Edward sorriu, e estendeu-me os braços. Franzi os lábios e
entreguei a ele nosso filho. O bebê moveu-se subitamente ao trocar
de braços, retomando seu sono logo em seguida.

374
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Ele está... dormindo. – Edward disse, um tom de voz maravilhado. –


Gostaria que vocês conhecessem nosso filho, Charles Henry Cullen.
— Edward, ele é lindo! – Alice sorriu, dando saltinhos. Rosalie tinha o
olhar fixo no bebê, os olhos contraídos. Edward lhe lançou um olhar
de solidariedade, muito mais terno do que eu estava acostumada a
vê-lo. Talvez ele estivesse apto a compreender os sentimentos
conflitantes da irmã, então.
— Ele é um híbrido... dorme, o coração bate...
— Esses cabelos completamente loiros! – Esme passou os dedos pelos
fios finos dos cabelos de Charles. – Ele nem parece real... é realmente
um milagre.
— Os híbridos modificados costumam ser loiros. – Aquela frase me
saiu com alguma indignação. Eu não era loira.
— Você é especial, meu amor. – Edward dobrou-se para beijar-me a
testa, em resposta aos meus lamentos. – Podemos entrar? Eu e Bea
precisamos sair para caçar... logo.

Os Cullen ainda tinham mais surpresas reservadas para nós.


Entramos na casa e ela nunca pareceu tão linda para mim. As paredes
claras, os móveis sóbrios e os adornos coloridos iluminados pelo sol
que já brilhava no céu. Esme nos fez subir as escadas e nos
apresentou o quarto de Charles. O quarto de hóspedes, o que tinha
me servido tão convenientemente por algum tempo, estava
completamente modificado. Prateleiras brancas, paredes em tons de
azul, enfeites com temas infantis, e um pequeno leito no meio do
quarto. As cortinas brancas de tule cobriam as enormes paredes de
vidro que davam para o sul. Meus olhos pareciam não acreditar no
que eles prepararam, em tão pouco tempo.

375
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Rosalie decorou. – Esme confessou, enquanto a irmã loira e linda


de Edward parecia constrangida com o fato. – Ela também escolheu
os móveis... espero que esteja a seu gosto, Bea.
— Eu nem sei o que dizer. – Era verdade. Edward caminhou com
Charles até o leito, o berço, e o deitou entre as almofadas macias que
ali estavam. O bebê moveu-se um pouco, mas continuou dormindo.
Edward o observou por alguns instantes, sob os olhos atentos dos
Cullen, novamente com aquele semblante de adoração. Seus dedos
correram levemente pela pele lisa de Charles, e ele sorriu.
— Acho que podemos deixá-lo aqui... certo? – Edward voltou para
meu lado.
— Tomaremos conta dele. – Rosalie aproximou-se, finalmente, do
berço. – Vocês podem ir caçar, sem preocupação.
— Não teremos nenhuma... de fato, precisamos trazer...
suprimentos? – Edward riu do emprego da palavra.
— Suprimentos? – Carlisle não entendeu.
— O bebê se alimenta de sangue. – Eu entendi. – E ele ainda não caça,
então...
— Vocês devem ir. – Esme abraçou Edward novamente, e depois a
mim. – Vejam essas olheiras... que alimento vocês tinham naquele
covil!

Na verdade, eu ansiava por mais do que sangue. Eu tinha sede, e


muita. Eu precisava de sangue fresco, porque eu estava
consideravelmente enfraquecida. E aquele sangue engarrafado do
covil não parecia conter todos os nutrientes necessários para nossa
sobrevivência. Então, sangue era uma necessidade naquele
momento. Eu sentia a garganta arder, o desejo pelo sangue era
implacável. Novamente, até um humano seria alimento. Mesmo

376
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

sabendo que Edward me impediria de uma besteira. Porém eu queria


mais além de me alimentar. Eu queria Edward. Um exagero de
sentimentos me havia incendiado desde que eu deixara aquele covil,
voltando para o lugar onde pertencia. Eu sentia tudo ao mesmo
tempo, e era extremamente difícil conciliar a razão com a emoção.
Era extremamente difícil raciocinar o suficiente para compreender
que eu precisava cuidar de algumas necessidades básicas antes de
assaltar Edward onde ele estivesse. E que aquilo não poderia ser feito
em qualquer lugar.

Fazia tempo que eu não me preocupava em esconder pensamentos


do meu vampiro, e daquela vez todos eles saíram de mim como se
estivessem gritando. Eu também pensava tudo ao mesmo tempo, e
minha mente parecia um ambiente inóspito. Edward riu, canto de
boca, enquanto procurava comigo uma presa que me satisfizesse a
sede. Foi quando percebi-me pensando em tudo aquilo, de forma
nada polida. Em minha mente, as coisas que eu pretendia não eram
gentis ou delicadas. Talvez eu desse a Emmett motivos para falar,
então. Derrubar uma casa poderia fazer sentido naquele momento.
Acostumara-me a ter Edward noite após noite, e aquele hiato que a
gravidez me obrigou não foi suficientemente absorvido.
— Podemos caçar qualquer coisa, se você preferir... – Edward parou,
olhando para mim, olhos nos olhos. Ele não deveria ser tão
insuportavelmente desejável quando meu humor estava daquele
jeito. – Podemos voltar logo para casa...
— Estamos longe da cabana? – A pergunta atropelou o raciocínio. Eu
não estava apta a retornar para casa. Apesar de tudo, eu não queria
dar a Emmett motivos para falar.

377
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Não. – Edward continuava a me olhar nos olhos. Ele piscou uma


vez, passou os dedos em minha face e sorriu. – Mas precisamos nos
alimentar e voltar, Bea... não sabemos quando Charles vai acordar, e
ele terá sede logo.

Ah sim, claro. Havia algo a se fazer, mais importante do que


sucumbir aos desejos mundanos. Sacudi a cabeça tentando livrar-me
do que não estava ali, tentando afastar-me daquela onda de calor que
havia dominado meu corpo frio. Minhas narinas imediatamente
sentiram a aproximação de animais, e eram animais grandes o
suficiente para mim. Lançar-me à caçada era uma boa forma de
suplantar um desejo por outro. Deixei Edward buscar o seu alimento
e fui atrás do meu, tentando balancear minhas necessidades.

Em menos tempo do que esperado, estávamos de volta à casa.


Charles ainda dormia, mas as mulheres da família Cullen pareciam
bastante desapontadas com o fato. Foi divertido vê-las cercando o
berço onde estava Charles, enquanto os homens não pareciam
compreender tanta adoração por um ser tão pequeno. O instinto
maternal do qual Esme me havia falado, e o qual eu havia
experimentado desde que descobrira estar grávida. Talvez porque as
coisas deveriam ser como estavam, eu não senti nada estranho em
ver toda aquela atenção exagerada sobre meu filho. Todas seriam
mães de Charles, era como deveria ser. Eu era a mãe biológica.
Aquela que o suportou no ventre e que o permitiu... existir. Elas
seriam simplesmente mães, como Esme era de Edward.
— Irmãzinha, você parece que foi a uma guerra. – Emmett
mencionou as marcas de sangue espirradas em minhas vestes.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Eu tive que trazer alimento para meu filho... – Protestei. – Houve


um pequeno incidente. – Sim, uma híbrida desastrada e um cervo em
fuga. Um ataque que não significaria o mesmo dos anteriores... eu
não iria sugar aquele cervo, e sim drená-lo para levar o sangue a
Charles. Somatório que nos levava ao meu estado físico deplorável.
— Armazenamos o sangue em temperatura adequada, Bea. – Carlisle
chegou, noticiando que havia terminado a tarefa que lhe fora
incumbida. Estávamos então no salão... apenas os homens e eu,
porque as mulheres definitivamente esperariam Charles acordar. –
Não conhecemos a sua sede, mas creio que ele tenha alimento
suficiente para algum tempo... ele é muito pequeno.
— Você quer ir, agora? – Edward colou os lábios em meus ouvidos e
proferiu aquela frase desconexa, como se falasse sobre algo que
havia sido dito muito tempo atrás. Ou sobre algo que ainda não havia
sido dito. Só depois percebi que ele falava sobre meus pensamentos.
Sobre o que eu queria, naquele momento. Olhei para ele, olhos
arregalados, e balancei a cabeça assentindo. – Carlisle... você poderia
pedir a Esme... Rose e Alice que cuidem de Charles por algumas
horas? Caso ele acorde...
— Claro que sim, filho. Decerto elas terão o maior prazer em fazê-lo,
considerando o fato que ainda não saíram do quarto do bebê.
Aconteceu algo?
— Preciso sair com Bea um instante.
— Arght! – Emmett atirou uma das almofadas de Esme sobre nós. –
Você ainda diz algumas horas? Não pretende afastar-se por dias?
Semanas?
— Cale-se, Em... – Edward repreendeu o irmão, olhar ferino. – Temos
um filho para cuidar, agora. Responsabilidades...

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

Brincando, Edward segurou em minhas mãos e me conduziu até o


Volvo prata, que ainda estava parado no pátio. Emmett ficou na casa,
rindo como uma criança humana, enquanto meu vampiro me
colocava no carro, um tanto apressado. Talvez ele tivesse finalmente
se encontrado no mesmo humor que eu, ou talvez antes ele estivesse
apenas sendo responsável antes. Eu ainda era muito inexperiente para
ser responsável. Era mais velha do que Edward, em vários aspectos,
mas muito menos experiente do que ele.
— Eu estou novamente coberta de sangue. – Protestei, olhando para
minhas roupas. – Aonde vamos?
— Você está linda. – Edward disse, sem olhar-me. – Nunca esteve tão
linda, Bea. Acredite e mim. – Sua mão direita segurou a minha,
enquanto ele apenas se concentrava em chegar logo. Em instantes,
reconheci o caminho que já havíamos feito tantas vezes. Ele não
precisou responder a segunda pergunta.

A urgência em que nos encontrávamos era quase patética. Não era


razoável aceitar que Edward me fizesse tanta falta, e que aquela
necessidade física fosse tão importante para se suprir. Tão logo
Charles estava seguro em casa e com alimento o suficiente, tudo que
nos tornava conscientes se apagou e deu lugar a um monstro.
Aqueles monstros que nos assombravam, e que têm nome. Luxúria,
desejo, fome. Os humanos chamavam aquilo de várias formas, mas o
fato era que chegava a ser patético. Não tivemos tempo exatamente
de entrarmos na cabana até que fôssemos consumidos. Edward
tomou meus lábios tão logo seus braços me alcançaram fora do carro,
e beijou-me com tanta violência que eu poderia machucar-me. Mas
não. Eu estava forte o suficiente. Eu também estava violenta, não
podia questionar. Foi difícil resistir à tentação de eliminar cada peça

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

de roupa que ele vestia antes mesmo de sairmos do meio da clareira.


Foi quase impossível permitir que ele me arrastasse – literalmente –
até a cabana, e me atirasse por sobre a cama. Até que o lugar vinha se
mantendo organizado o suficiente. Eu cheguei a considerar se
Edward não estava mantendo aquela cabana limpa e organizada
exatamente para situações como aquela.

Em pouco tempo eu já havia completado a tarefa de livrá-lo das


vestimentas, a parte que eu consideraria divertida. As mãos cravadas
em suas costas não demonstravam qualquer delicadeza; havia eu
superado o medo de machucá-lo? A parte do meu cérebro que me
comandava não poderia ser chamada de consciente, então. Talvez a
parte consciente completamente entorpecida pelo desejo que eu
sentia de ter Edward em mim? Ele me causava um efeito ainda mais
assustador do que o Martini. Algumas horas, ele prometeu. Algumas
semanas, Emmett cogitou. Eu só o queria por um instante, mas que
fosse por completo.

— Podemos ficar até a noite? – Eu disse, percebendo o sol alto no céu


e considerando que horas seriam.
— Podemos fazer o que você quiser... – Ele me beijou, os lábios
percorrendo toda a linha de minha face até o pescoço, e subindo
novamente. – Mas podemos continuar isso em casa, agora. Creio que
já estamos aptos a retornar...
— Eu não sei se estou. – Impliquei, levando os meus lábios aos dele. –
Mas sim... Charles deve estar acordado, eu suponho.
— Estou longe demais para saber. – Edward olhou pela janela que
ficava pouco acima de nossas cabeças, o corpo esticado para olhar o
lado de fora. – Mas é provável. Quer que eu ligue, para perguntar?

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Tudo bem. – Segurei suas mãos, que já se moviam para buscar o


aparelho telefônico. – Ele está em boas mãos.
— Bea... – Edward beijou meu nariz, e quando ele fazia aquilo eu
sabia que ele pretendia contar-me algo. Algo que eu deveria saber, e
que ainda não sabia. – Há uma coisa... eu sei que você se preocupa
com isso, então eu... procurei saber... na verdade eu ouvi, de suas
irmãs híbridas.
— O que foi, Edward? – Meu humor subitamente se voltou para a
curiosidade. – Esses enigmas me deixam profundamente aborrecida!
– Ele riu, olhando-me nos olhos.
— Nenhuma híbrida teve mais de um filho, até hoje. – Foi a notícia.
Abri os olhos com alguma surpresa, porque... ele não deveria saber
que eu tinha essa preocupação. Até porque eu não pensei
exatamente nessa possibilidade... eu temi, sinceramente, que tudo
aquilo se repetisse com frequência, e que em pouco tempo houvesse
uma superpopulação de Cullens. Afinal...
— E isso significa que... – Eu queria que ele dissesse, que ele colocasse
com todas as sílabas de todas as palavras. Eu queria que Edward me
confirmasse... ainda mais porque eu posteriormente confirmaria com
Alice.
— Significa que nossa família será sempre eu, você e Charles. E os
Cullen, claro. – Edward me beijou os lábios; eu ansiando por aquilo
cada vez mais e mais. – Você não precisa preocupar-se.

Eu estava feliz que Charles tinha tantas mães à sua disposição, e que
ele era apenas uma pequena criatura que provavelmente não
causaria nenhum problema aos Cullen. Porque bastou Edward
terminar a sua frase para que eu me rendesse a ele novamente,

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

fazendo-me crer que não chegaríamos à casa dos Cullen antes do por
do sol.

— Por sorte não lemos mentes. – Jasper estava no alpendre, quando


chegamos. – Ou eu teria que desaparecer até que vocês retomassem o
controle. – Ele franziu a sobrancelha.
— Estamos bem, Jazz. – Edward resmungou.
— Charles? – Eu perguntei, olhando para o céu já praticamente
escurecido, algumas estrelas cuidadosamente colocadas no vazio
horizonte rosado.
— Rosalie acabou de alimentá-lo. – Jasper entrou conosco na casa,
meus olhos buscando meu filho. Após finalmente sentir-me satisfeita
de Edward – se aquilo fosse consideravelmente possível, eu queria
meu filho. Desde que entrara no Volvo, rumo aos Cullen, meu
instinto maternal decidiu sobrepor-se ao desejo.
— Ah, aí estão vocês! – Esme nos recebeu com mais abraços. Aquele
comportamento era natural? Eu não me recordava de ver Esme tão...
humana. – Vejo que caçaram e estão...
— Satisfeitos. – Edward franziu a sobrancelha, olhando para os
presentes com alguma inquietação. – Bea quer ver o bebê... ela está
um pouco ansiosa. Onde está Rosalie?
A pergunta não precisou ser respondida, pois a vampira loira
apareceu na sala, sorrindo, seguida por Emmett. Charles estava em
seu colo, e eu pude ver suas mãozinhas pelo invólucro flanelado.
— Sua mãe finalmente chegou. – Rosalie disse, para meu filho, de
uma forma quase imperceptível, como se ele fosse o único capaz de
compreender suas palavras. – Pensei que ficariam mais tempo fora...
Emmett disse. – Ela implicou. Edward cerrou os punhos, e estendeu

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

os braços, tomando o bebê para si. Lábios franzidos, ele observou


Charles por alguns instantes e sua face subitamente se transformou
em um sorriso expressivo. Eu não havia visto Edward sorrir
espontaneamente daquele jeito, ainda. Ele parecia... admirado.
Ansiosa, eu estava. E ele me entregou Charles quando sentiu que eu
estava prestes a pegá-lo de qualquer jeito.
— Alice? – Edward olhou para Jasper, que apontou o andar de cima.
Edward me olhou, sorrindo ainda, e caminhou para a escada. – Ele
sentiu saudades. – Os dedos longos apontaram para Charles, o bebê
com a mãozinha estendida para mim. Meus olhos se encheram de
júbilo, enquanto eu entendia o olhar de admiração de Edward. Ele
era simplesmente perfeito demais para ser descrito por palavras.

***** Alice e Edward: a festa *****

— Entre Edward! – A pequena Cullen disse, antes mesmo de o irmão


bater à porta. A conversa mental que sempre tinham e tanto irritava
Beatrice.
— Alice, precisamos conversar. – Ele disse, coçando o queixo,
semblante concentrado. – Sobre meu casamento...
— Claro! – A vampira caminhou até o irmão, dando saltinhos em
celebração. – Definitivamente, está na hora do casamento...
— Eu pedi Beatrice em casamento da pior forma possível... eu a
presenteei com um topázio ao invés de um diamante... eu preciso
fazer alguma coisa direito, nesse casamento. Algo que se assemelhe a
um casamento entre humanos... tudo, de preferência.
— Sabe que é só deixar comigo, certo? – Alice sorriu, empolgada.
— Sim, por isso queria lhe falar. Veja bem, não se trata de um
segredo... Beatrice tem direito de participar de tudo. Ela é o

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

personagem principal do evento. Ela precisa estar feliz... é tudo por


ela.
— Eu sei, Edward! – Alice lhe deu um tapinha gentil no ombro. – Você
sabe que eu sou a Cullen que organiza eventos. Prepararei tudo...
para quando?
— Breve. O mais rapidamente possível... para podermos convidar os
amigos humanos, dela.
— Os humanos! Claro... mas precisa ser rápido?
— Alice, pensei que você fosse mais esperta. – Ele zombou, e Alice
emburrou. – Vamos... não seja infantil. Os humanos não viram
Beatrice grávida. Eles podem até aceitar a desculpa de um
nascimento prematuro... significativamente forçado. Mas o que
diriam se Charles aparentar... meses de idade? Da forma que ele
cresceu no útero ele crescerá externamente... eu sei. O híbrido
Ferdinand levou aproximadamente dez anos para chegar à
maturidade física. Em semanas, Charles parecerá ter meses. Não
pretendo fazer uma festa sem convidados, não pretendo arriscar
expor a família, e não pretendo esconder Charles de todos. Não
agora... Bea ficaria muito insatisfeita. Precisamos de um casamento...
para ontem.

Alice franziu o cenho e encarou o irmão. Abriu bem os olhos, Edward


parecia apreensivo. Porque ela estava apreensivo, e ele podia saber
seu humor sem nenhuma dificuldade. Alice então sorriu, imaginando
todas as formas possíveis de conseguir um casamento em poucos
dias. Um casamento que pudesse representar tudo que Edward
desejava... agradar Beatrice... satisfazer seus desejos consumistas e
ainda apresentar Charles aos humanos. Edward baixou a cabeça,
assentindo, e deixou o quarto.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

CAPÍTULO 24 – HUMANIDADE
*tema: O-town‖s Baby I Would*

Eu não fazia idéia do que meu vampiro estava tramando. Aquela


noite ele estava muito esquisito, com um sorriso diferente nos lábios.
A cada vez que ele me olhava eu podia notar algo que não estava ali,
antes. A cada toque de seus dedos em minha pele dura e fria, como
coisa morta deveria ser, eu sabia que ele estava diferente. E não era
por Charles. Não era por estarmos em casa, de volta, sãos e salvos.
Não era porque não houve derramamento de sangue, até porque
jamais haveria sangue sendo derramado em um extermínio entre
vampiros. Edward estava diferente porque ele estava me escondendo
algo, e era algo que ele tinha certeza que eu iria gostar.

Os Cullen não deixaram Charles sozinho por nenhum minuto. Eu


sabia que aquele pequeno híbrido seria o ser mais mimado que já
pudera existir. E ele já estava reconhecendo a família, os olhares
dispersos entre os tios e tias, entre os avós. Edward não sabia
exatamente como ele se desenvolveria fora de meu ventre, nem
mesmo Carlisle. O vampiro médico passou várias horas no seu
escritório tentando achar alguma informação sobre o tema, mas
Charles era único, diferente. Talvez somente minha família do covil
pudesse ter alguma coisa mais precisa a respeito da evolução de
Charles. Não sabíamos como ele se desenvolveria, e o quão
rapidamente.

386
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

De certa forma, foi divertido ver a frustração de Rosalie quando


Charles Henry adormeceu em seus braços. Estávamos no salão,
Emmett assistindo jogos como sempre, eu nos braços de Edward
como sempre, Esme realizando trabalhos manuais como sempre.
Tudo como de costume desde antes da minha partida da casa. Mas
meu filho era como eu e ele teve sono e adormeceu nos braços da tia,
que pretendia passar mais tempo mimando o sobrinho.
— Quer que eu o leve para o quarto? – Edward perguntou, já aos
risos, sabendo exatamente o que se passava com Rosalie.
— Não. – Ela disse, caminhando até a enorme janela de vidro. –
Deixe-o comigo... você se importa, Bea? – O olhar suplicante me foi
dirigido, e Edward pressionou minha pele com força. Ele ria, achava
graça do ocorrido, e com aquele sorriso estranho, que me deixava
confusa. Eu queria ler sua mente; eu queria muito.
— Claro que você pode ficar com ele, Rosalie... eu vou adormecer
mesmo. Fico feliz que Charles seja tão querido por vocês.
— Imagine se seria diferente! – Esme interrompeu suas atividades
para repreender-me os pensamentos. – Ele é filho de Edward!
Beatrice, ele é um Cullen, ele é parte de nossa família.

Aquilo era uma família, eu considerava. Uma família nos moldes das
famílias humanas... completamente diferente do que eu vivia no
covil. A família pela qual eu lutei, pela qual eu desafiei, pela qual eu
arrisquei tudo que eu considerava de valor. Minha família. Eu
considerava que nunca mais precisaria de nada, e que toda felicidade
do mundo já estava em minhas mãos. Mas eu sabia que meu vampiro
estava aprontando algo. Principalmente após ele ter se levantado,
segurado minha mão e me puxado com ele para o andar de cima,

387
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

ignorando os comentários maldosos de Emmett a respeito de termos


acabado de passar muito tempo sozinhos.

— Você está feliz. – Aquela não foi uma pergunta, até porque Edward
não tinha o direito de fazer uma pergunta como aquela se ele podia
ler minha mente. Seus dedos seguravam minha mão e brincavam
com o anel brilhante que estava em meu dedo anular direito. O
topázio, a pedra da cor de seus olhos. Era a cor dos olhos de todos os
Cullen, mas eu só enxergava Edward naquela pedra.
— Claro que eu estou feliz... – franzi a sobrancelha e olhei para ele,
que ainda tinha aquele sorriso insuportável no canto dos lábios e
fazia um bico irresistível. Edward era lindo demais, resistir a ele por
si só era uma tortura inadmissível. – Você faz cada comentário...
como eu poderia não estar feliz?
— Acho que me preocupo demais com você, e acabo por me frustrar
nas expectativas. – Ele fechou a porta de nosso quarto e começou a
abrir os botões do punho da camisa, passando rapidamente para o
colarinho.
— Edward, falar por enigmas não é uma boa idéia agora. – Eu parei
exatamente em sua frente, assumindo a tarefa de abrir-lhe a camisa.
– Eu não consigo ler você. E não estou muito objetiva, ainda.
— Eu sempre julgo que você quer mais do que você aparenta querer.
– Ele disse quase no mesmo instante em que tomou meus lábios para
si. Se ele fosse começar aquilo, não poderia me mandar parar, depois.
Edward sempre me provocava ao limite máximo e depois me
mandava parar, alegando que precisávamos de equilíbrio. Mas eu
definitivamente ainda não estava apta a tanto autocontrole.
— Isso não faz sentido algum. – Meu corpo já estava por sobre o
colchão de nossa cama, e eu falava o mais baixo que conseguia. Não

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

desejava mais derrubar uma casa, como algumas horas atrás, mas
isso não me tornava menos assustadora. – Você continua falando
através de enigmas!
— Bea, eu pedi você em casamento. – Ele se ajeitou ao meu lado, seus
olhos atentos capturando os movimentos da minha face, seus dedos
acariciando meus cabelos. – Você aceitou, e logo depois tudo se
tornou um caos. Os vampiros apareceram; você foi para o covil, eu
fui atrás de você, Charles nasceu, seu irmão enfrentou Rudolph...
tudo isso deveria ter feito você perder o juízo. Eu perdi o meu, por
alguns instantes. Foi difícil me encontrar, eu garanto. Mas você...
onde foi que você escondeu a Beatrice assustada e submissa que
chegou a esta casa? – Ele sorria, apesar do tom sério de sua voz. –
Você está linda... está tão feliz... sequer parece incomodar-se com o
fato de que ainda nem pensamos em marcar a data do nosso
casamento.

Franzi os lábios e encarei Edward. Seu semblante sereno estava


imutável, aquela aparência estática que ele assumia quando estava
concentrado. Sentei-me na cama, ajeitei meus cabelos, encarei-o
novamente. Aquele assunto altamente técnico definitivamente não
era um bom companheiro dos meus desejos mundanos. Em poucos
instantes tudo que eu pensava em fazer estava guardado em um
canto do cérebro enquanto eu tentava absorver as preocupações do
meu vampiro. Então era aquilo que ele estava me escondendo desde
que tivera uma conversa com Alice. Então era aquilo que ele tentava
manter oculto, e que eu aparentemente estava frustrando. Ele
pretendia marcar a data do casamento! Mas... eu nem sabia o que era
exatamente um casamento. Eu só conhecia casamentos dos filmes. E

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

eles eram para os humanos. Como poderia ser o casamento entre


dois seres míticos?

Talvez eu devesse estar infeliz, incomodada pelo fato de usar um


anel de noivado e não ter ainda um esposo. Pelo fato de Edward
ainda ser meu noivo, mesmo depois de termos um filho. Talvez eu
devesse ter mais humanidade dentro de mim, pois eu era,
definitivamente, parte humana. Mas eu não sabia ser humana. Eu
desejei, com todas as minhas forças, conhecer os humanos. E desejei
sê-los, por anos da minha vida. Poder crescer, envelhecer, morrer. Eu
estava cansada daquela vida no covil, cansada daquela existência
medíocre e cruel. Mas então eu vi a luz... meus olhos foram cegados
pela luz, pela luz de Edward. Não era o sol que me fazia enxergar a
luz, era Edward. Não foi o sol que me guiou por todos os dias na
superfície, não foi o sol que me manteve alerta e corada. Foi Edward.
Ele era meu sol, ele era meu astro rei. E então eu não queria mais ser
humana, eu queria estar com ele para sempre, para tudo que o
sempre significasse. Edward, o ser mais importante de toda a minha
existência. Por ele eu quis ser um vampiro, ser eterna. Imortal. Por
ele eu quis ser plena. E ele me fez plena.

Mas ainda faltava em mim a humanidade que havia nele. Edward, e


todos os Cullen, já haviam sido humanos. Eles já haviam existido
como seres humanos, naturais, mortais. Eles haviam nascido e se
desenvolvido no tempo normal de duração de um humano. Eles
conviveram com eles como se eles fossem; eles aprenderam com
eles. Com os humanos. Eu não. Eu era uma criação de laboratório, um
protótipo. Mesmo que eu tivesse parte de mim de carne e osso,
mesmo que metade de mim fosse humana e essa metade me fizesse

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

fantástica, aos olhos do vampiro que eu amava, eu não sabia ser


humana. Eu não entendia os sentimentos, as angústias, as
realizações. Ser humana para mim era um objetivo inatingível que
nem a maternidade conseguiu tornar próximo.

Então, eu deveria estar insatisfeita. Mas eu não sabia se conseguiria


agradar Edward sendo natural.
— Eu quero me casar com você. – Eu disse, puxando Edward para
mim. – Eu quero você para sempre, e você sabe que o nosso sempre é
significativo. Mas você me faz sentir tão completa que eu não
consigo me sentir insatisfeita por ainda não ter isso.
— Saiu-se muito bem. – Ele sorriu, e eu tive certeza que nenhum dos
meus pensamentos conseguiu sair ileso. Edward certamente tinha
lido tudo, e minha tentativa de mantê-lo na ignorância foi, mais uma
vez, frustrada. – Mas você não precisa fazer isso para me agradar.
— Não faço. – Beijei-o novamente. – Faço porque quero. Você sabe
que eu quero; você disse que aquela Beatrice desapareceu...
— Sim, e eu não sei ainda o quanto isso me assusta. – Ele rolou por
sobre mim, pressionando meu corpo contra os cobertores. Aquilo era
natural demais, e era difícil imaginar que nossa força poderia
facilmente quebrar a mobília. Não havia parâmetros de comparação,
ambos éramos fortes e por isso não machucávamos um ao outro.
Apesar de que minha pele era significativamente mais sensível do
que a de Edward, pois a minha podia se ferir. – A Bea de antes...
precisava de mim.
— A Bea sempre vai precisar de você. – Foi muito fácil livrar-me das
considerações sérias de Edward e mergulhar no desejo novamente. –
Agora que tal deixar esse assunto para a próxima década?

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Não vai dar. – Edward interrompeu o beijo, e aquilo me aborreceu.


– Alice já foi acionada para tomar todas as providências...
— Alice? – Franzi a sobrancelha, pensando no quanto minha irmã
vampira já estaria envolvida na história.
— Prepare-se... ela vem com tudo, quer arrasar o quarteirão.

Havia poucas coisas mais ―sexy‖ do que Edward, e uma delas era
Edward falando gírias. Quando ele deixava de lado seu vocabulário
mais erudito para proferir palavras profanas ou de pouca cultura,
definitivamente não havia nada mais sexy. E como eu já estava muito
no seu ritmo, foi fácil deixar-me seduzir por mais uma noite inteira.
Principalmente sabendo que Charles estava em tão boas mãos; foi
muito fácil esquecer-me de tudo por algum tempo. Por mais algum
tempo. Felizmente, nada que justificasse ruídos insuportáveis e
móveis destruídos.

Mas meu vampiro estava correto, como lhe era de costume. Alice
estava totalmente engajada no projeto casamento, e considerando
que ele havia pedido pressa... ela começou o dia bastante agitada. Eu
duvidava que os humanos estivessem disponíveis para qualquer
coisa naquele horário, mas Alice entrou por nosso quarto adentro
dando saltinhos e rodopiando, como lhe era de costume. Durante as
três noites que passei no covil eu acabei por sentir falta da ausência
absoluta de privacidade na casa dos Cullen... era muito melhor ser
surpreendida sem as vestes, em momentos íntimos, o que fosse
possível de se surpreender, mas que eu estivesse com Edward. Por
sorte, Edward já sabia que Alice chegaria antes mesmo de ela pensar
em abrir a porta do quarto, o que foi providencial para que ela não
presenciasse nada inadequado.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Vou ver Charles. – Edward beijou meus cabelos e levantou-se. Ele


estava vestido, e para minha surpresa completa eu também! Apenas
eu dormia naquela casa; eu e meu filho. Éramos as aberrações dos
Cullen. – Vocês duas, comportem-se.
Sentei-me na cama, recém acordada, completamente desconcertada,
enquanto Alice me encarava com olhos brilhantes e translúcidos. Ela
certamente também tinha caçado, pois a cor caramelo estava
completamente diluída em sua íris. A face da minha irmã vampira
era assustadora, e eu podia ler seus pensamentos sem ser capaz
daquela façanha. Ela estava pensando alto demais, foi o que constatei.
— Bea. – Alice sentou-se à beira da cama com os lábios franzidos e o
olhar concentrado. – Vou pular a parte das apresentações, porque
Edward é um linguarudo e já te contou tudo. Certo? – Balancei a
cabeça assentindo, mas Alice não estava esperando por uma
confirmação. – Pois bem... você precisa me ajudar com a lista de
convidados. Seus amigos humanos... todos eles.
— Os humanos? – Arregalei os olhos. – Mas... como vamos fazer isso
dar certo?
— Você não tem que se preocupar com a parte do “dar certo”, isso é
função minha. Preocupe-se apenas em me dizer quem você quer
convidar... e em me dar carta branca para a decoração!! Deixe por
minha conta e eu organizo tudo. Tudinho!
Meu olhar era de susto e confusão mental. Eu não era muito
funcional quando acordava, e aquela história de casamento me era
certo mistério. Eu não sabia mesmo o que fazer.
— Alice Cullen. – A voz de Edward ecoou pelos corredores, e em
poucos instantes ele abriu a porta do quarto e entrou, sobrancelhas
franzidas, Charles em seu colo. Por alguns instantes meus olhos se

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

perderam na imagem mais linda que eu já havia visto, e eu tinha


certeza que aquela era a imagem mais linda que existia. Charles não
estava mais enrolado naquele pano flanelado, e eu podia vê-lo
inteiramente. Seu pequeno corpo de bebê, coberto apenas por uma
fralda, era ainda mais pálido do que o meu e estava totalmente em
contato com o peito nu de Edward, que trajava apenas calças de
malha e meias. Edward franziu também os lábios e me olhou, aquela
aparência de reprovação por meus pensamentos. Mas não havia nada
que eu pudesse fazer, a imagem do vampiro que eu amava segurando
nosso filho em seus braços era tão linda que poderia ser considerada
um pesadelo. – Bea, fique com ele... Rosalie está preparando a
mamadeira. – Edward me entregou o bebê, que imediatamente olhou
para mim. – Alice, o que foi que combinamos?
— Edward... – Alice fez um bico. – Se eu tiver carta branca de Bea,
será a vontade dela que eu faça tudo. Exatamente como você quer.
— Não. – Edward ainda tinha a expressão rígida. – O casamento é
dela, ela participa de todas as decisões. Isso não é negociável.
— Você é bem estraga prazeres, sabia? – Alice fez uma careta. Rosalie
apareceu na porta do quarto com a mamadeira de Charles, que tinha
olhos escuros e olheiras profundas. A mesma reação de nossos
organismos quando tínhamos sede. Ele me olhava, ansioso. Edward
caminhou até Rosalie e pegou a mamadeira com ela, tentando ser
gentil. Imaginei que ele estava mais cuidadoso com Rosalie do que de
costume, e eu gostaria mesmo de compreender os motivos que o
levavam àquilo. Eu duvidava que ele me contasse, mas mesmo assim
eu desejava saber.
— Ela deve fazer isso... você sabe, Rose. – Edward disse, antes de
trazer o alimento de nosso filho até mim. – Ele é muito ansioso por

394
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

você, Bea. – Edward sorriu. – Fique com ele o máximo de tempo que
puder...
— Não é sacrifício algum. – Sorri para Edward, em um daqueles
momentos típicos dos filmes do covil. Os momentos felizes, nos quais
tudo dava certo e todos os desejos se realizavam. Os momentos de
conto de fadas.
— Como pretende que ela saia comigo para organizar o evento se ela
precisa ficar com Charles? – Alice resmungou, ainda com um enorme
bico nos lábios.

Edward encarou Alice e ele estava bufando. Ele perdia a paciência


com certa facilidade, mas nunca o controle. Eu imaginava que só vira
Edward sem controle duas vezes. Todas as duas vezes quando eu fui
ameaçada por minha família do covil. De qualquer forma, eu
suspeitava que se Alice continuasse a provocá-lo com aquela idéia de
tomar todas as decisões do casamento ele iria destituí-la do posto de
organizadora. Se ele pudesse fazer aquilo, levando em consideração a
minha total incapacidade de organizar o casamento, sozinha.
— Alice Cullen, você é mesmo uma pequena insuportável. Ainda
preciso descobrir como Jasper te aguenta. Eu sei que você pretende
ir às compras em Seattle, então Bea pode ir com você. E levar Charles
Henry, claro. Afinal, será bom para ele sair... eu acho. Ele ainda não é
claro o suficiente para mim, mas vocês podem muito bem ir até
Seattle, onde as pessoas não notarão vocês, com meu filho. Não há
escusas que lhe permitam convencer-me que você deva organizar
tudo sozinha.

Alice emburrou, mas percebi que daquela vez era definitivo. Ela não
tentaria novamente persuadir Edward a deixar por sua conta toda a

395
SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

festa, e teria que aceitar as regras dele. Isso significava,


definitivamente, incluir-me. Eu não estava tão ansiosa assim para
fazer aquilo, mas eu não pretendia desapontar Edward. E eu queria
sim, casar-me. Aquilo parecia tão correto e tão natural entre duas
pessoas que se amavam... mesmo que eu e Edward não fôssemos
pessoas, exatamente. Existíamos como pessoas, então aquele fato nos
daria o direito de agirmos como tal.
— Não pense em facilitar as coisas para ela, Bea. – Edward beijou-me
os lábios, rapidamente. Seus dedos brincaram com os cabelos quase
brancos de Charles, passando por toda a extensão de seu corpinho
ainda não desenvolvido. Um sorriso nasceu em seus lábios, mas ele
logo o reprimiu, ciente de que as três mulheres presentes – eu, Alice
e Rosalie – o observávamos curiosas. – Vou arrumar-me para a
escola, vocês duas desapareçam daqui.

Eu ainda não tinha percebido, mas o sentimento estranho que estava


comigo desde a saída do covil tinha nome. Eu estava me sentindo
como nunca, eu estava me sentindo humana. Terminei de alimentar
Charles enquanto o pai dele vestia-se para mais um dia de escola e
me proporcionava uma vista mais do que maravilhosa. Eu sabia que
ele costumava envergonhar-se dos meus pensamentos impuros a seu
respeito, mas imaginei que ele estivesse se acostumando. Daquela
vez ele nem interrompeu o que fazia, simplesmente terminou a
tarefa e me sorriu. Eu estava naquele momento de não falar, e esses
momentos eram raros em mim. Mas tantas coisas aconteceram em
apenas um início de manhã que me senti acuada.
— Às vezes você torna as coisas tão mais difíceis! – Ele me beijou os
cabelos, e havia humor em sua voz. – Vejo você à tarde... não deixe
Alice escapar de seus compromissos.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

— Edward... – Eu o chamei, enquanto ele deixava o quarto. – Não


quero ir a Seattle.
— Vai deixar Alice vencer essa? – Ele suspirou, sem olhar para mim.
— Não... é que... eu não quero ir sozinha, com Charles.

Edward virou-se para mim, e novamente as palavras me haviam


atropelado os pensamentos. Ele não havia captado nada daquilo em
mim, sua surpresa era genuína.
— Pensei que esse apego tinha sido por causa da gravidez... que você
voltaria ao normal após o nascimento dele. – Edward apontou para
Charles.
— Normal para mim é estar com você. – Fiz drama, como me era de
costume. Eu sempre era tão dramática, Felicia dizia. – Precisa
mesmo... ir à escola?
— Preciso sim. – Ele acariciou minha face. – Mas matarei algumas
aulas, e voltarei a tempo de ir com vocês, tudo bem? Alice também
vai à escola... voltaremos juntos para casa.
Assenti com a cabeça, e ele deixou o quarto. Pude notar a hesitação
em seus gestos, e o meneio de cabeça informando que aquela era
uma atitude difícil. Retomar uma vida considerada normal depois de
tudo que ocorreu, depois de tudo pelo que passamos. Eu não gostei
de ficar nem uma hora longe de Edward, e passar três dias sem saber
quando o veria novamente foi uma tortura inadmissível. Era
contraditório demais, para quem tem mais de cem anos de idade,
sentir-se tão infeliz em um lapso temporal tão insignificante. Mas eu
me senti; havia um pedaço de mim com Edward e eu só pude sentir-
me perfeita novamente quando eu o tive em meus braços outra vez.

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SOB A LUZ DO SOL - TATIANA MARETO SILVA

Mas o perigo havia acabado; as coisas ruins não existiam mais.


Rudolph não nos seria um problema, nem nenhum dos híbridos. Não
havia nada mais que pudesse colocar em risco a nossa aparente
felicidade. Não havia por que temer. Mesmo assim, eu não conseguia
me sentir bem. A i