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APORIAS AUSTRO LIBERTÁRIAS

Uma investigação analítica sobre a fragilidade do discurso austro


libertário.

Douglas Santos de Souza


1/4/2021
MOTIVAÇÕES:

Antes de começar as objeções acho necessário esclarecer as minhas intenções


quanto ao debate, são elas:
Não tenho por interesse refutar o austrolibertarianismo, muito menos converter
seus seguidores ou os retirar de tal espectro. Enfatizo neste ponto que cito
austrolibertário, não anarco capitalismo, pois reconheço bem a diferença entre ambos,
ainda que o anarco capitalismo seja a única conclusão possível dentro do
austrolibertarianismo, ou seja, todo austrolibertário é anarco capitalista, sei que não
necessariamente todo anarco capitalista é austro libertário. Portanto este documento
diz mais respeito a levantar aporias e fragilidades do discurso austro libertário, não
necessariamente em Hoppe ou Rothbard, mas no meio entusiasta austro libertário ou
ancap no país, a fim de elevar o nível do discurso.
O autor deste texto é, inclusive, proto-libertário e considera o anarco capitalismo
como possível estágio de transição gradualista e dialética entre o estado moderno e um
estado pantárquico mutualista, considerando o modelo anarco capitalista um modelo
primo, desconsiderando a ética austro libertária por questões religiosas.
Peço encarecidamente que o caro leitor tenha paciência e que leia tudo até o
final, sem se prestar a ficar propondo antíteses as minhas objeções a medida que
avança a leitura, digo isto pois escrevi este documento de uma forma planejada, onde
um capítulo é escrito premeditando possíveis respostas, respostas estas que são
respondidas logo em capítulos posteriores, apesar de alguns capítulos terem um
formato mais analítico o corpo do texto é majoritariamente dialético, portanto, apenas
ao final de toda leitura é que deve-se propor respostas não previstas neste documento.
RESUMO:
Este documento irá analisar o sistema austro libertário de forma analítica,
procurando trazer a este cenário de debate algo do qual o mesmo carece que é
instrumento de análise ontológica e fenomenológica, desta forma, o texto apresenta uma
nova abordagem em ciência política sobre como definir entes políticos e econômicos
com ontologia aristotélica, é discutido a genealogia do estado, a ontologia do estado, a
definição de comunismo e capitalismo, a definição de propriedade e outros, este texto
é, portanto, em maior parte uma questão de fenomenologia da linguagem, desenvolvida
sobre formato dialético, ou seja, a medida que uma tese é apresentada se presume as
possíveis objeções a esta e, em seguida, são apresentadas suas antíteses. O desafio
ao anarco capitalista será, portanto, atribuir novas objeções que já não tenham sido
premeditadas no próprio texto e tentar desenvolver soluções para problemas que são
apresentados como antinômicos.
Agradecimentos:

Este documento recebeu apoio do Rafael Schier


Granado, que revisou os textos para ajudar com as
correções ortográficas, formato e estética geral. Além de ser
um amplo apoiador e co-diretor de nosso canal instituto
distributista mutualista e amigo pessoal.
Agradecimentos também ao Renzo Souza que, apesar
de não ter participado diretamente do escrito do texto é um
amigo pessoal do autor com o qual discutem teoria do
direito, ontologia, fenomenologia, teoria econômica e
histórica, portanto, sua participação neste documento faz-
se de forma espirituosa.
Agradecimentos ao Daniel Miorim, a quem é dedicado
este texto, que aceitou este debate e aguardou com
paciência a formulação deste documento e a quem não
deixou de ser também contribuinte indireto do texto através
de debates anteriores.
Sumário:

Capítulos
INTRODUÇÃO................................................................................. 7
1 DEFINIÇÕES .......................................................................................... 7
1.2 Capitalismo ...................................................................................... 7
1.3 Propriedade privada ............................................................ ....... 9
1.3.2 Direito a posse e a propriedade .......................................... ......... 10
1.4 O estado e o imposto ........................................................... ........ 13
1.4.2 Não usar historicismo........................................................... ........ 13
1.4.3 Não presumir valores nas definições ................................. ......... 14
1.4.4 O imposto é roubo – uma investigação ontológica do imposto? 16

1.4.5 O que é, então, o estado? Uma investigação 17


descritiva/ontológica do estado

2 APORIAS DA TESE AUSTRÍACA .............................................. 18


2.2 A teoria jurídica ............................................................................... 18
2.3 A legitimidade ou ilegitimidade do estado e do imposto............. 22

2.4 O estado e o condomínio – analogias............................................. 23

3 APORIAS ECONÕMICAS............................................................. 26
3.2 Introdução a teleologia aristotélica na praxeologia..................... 26
3.3 O monopólio Natural - Aporia I.............................................. 27
3.4 O efeito carona – Aporia II .................................................... 29
3.5 O problema do cálculo econômico – Aporia III .................. 32
4 CONTRADIÇÕES .................................................................... 33
4.2 “O IDH capitalista” – contradições I .................................... 33
4.3 Da meritocracia – contradição II.......................................... 35
4.4 A cidade privada e o imposto – contradição III .................. 37
4.5 A tragédia dos comuns – contradição IV ............................ 39
5 CONSIDERAÇÕES GERAIS E CONCLUSÃO ...................... 41
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Introdução:

Quando se debate quaisquer assuntos é preciso, primeiro, partir das definições dos
termos. O maior problema no debate nacional, não só austro libertário, mas geral, sobre
esquerda x direita, comunismo x capitalismo e afins é que cada ideologia ou sistema
constrói a própria cosmovisão como um sistema fechado, em que cada conclusão é
dependente de premissas anteriores e estas por sua vez são dependentes das formas
das quais seus objetos são significados. O ponto de partida da análise e solução de
TODO problema filosófico é, portanto, a fenomenologia da linguagem. Para qual, este
texto começara por discutir a própria forma como a qual se deve definir entes políticos,
queira que se acredite serem entes in-re ou entes de razão, sistematizar o processo de
definição e tentar propor definições que possam ser de comum acordo entre comunistas,
capitalistas, anarco-capitalistas, mutualistas etc, ou seja, definições puramente
descritivas e que não impliquem em conclusões valorativas sobre estas de forma qual
nenhum sistema seja maliciosamente prejudicado. Portanto, a forma como se definirá
capitalismo aqui não tem por interesse refutar capitalismo, pelo contrário, é possível ser
anarco capitalista ainda sob as definições aqui apresentadas, como também o é
possível ser comunista etc.

1. DEFINIÇÕES:

Este capítulo é dedicado a discutir as definições, afinal, todo debate deve, ou


deveria, começar a partir das definições dos termos, dedico este capítulo a levantar
objeções que tenho a tese austríaca a partir de suas próprias definições (ou ausência
destas).

1.2 Capitalismo:

É evidente que para falar sobre anarco capitalismo, discutir o que é capitalismo é
fundamental, vejo muitos ancaps falarem que capitalismo é livre – troca ou livre –
mercado, seguindo desta definição os vejo categorizar tudo o que não é uma livre-troca
“purista “ou “irrestrita” ou “desregulamentada” como socialismo.
Acho este debate muito infantil e contraria tudo o que se desenvolveu na filosofia
enquanto investigação lógica e definição de entes até então, perceba, quando os ancaps
fazem estas definições tão reduzidas nunca há apresentação formalizada da definição,
o que é substancial? Acidental? Essencial? Causa formal? etc.
Penso eu que, se aceitarmos por livre-mercado a definição substancial e/ou essencial
de capitalismo devemos fazer um processo maiêutico (socrático) com tal definição
para investigarmos se ela não se encontra em possível aporia com a lei da não
contradição ou do terceiro excluído (as três leis da lógica, desde Aristóteles).
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Por exemplo, homens da caverna deveriam ter algum tipo de escambo, o que não
deixa de ser uma troca livre, era, portanto, capitalismo? E até que ponto uma economia,
mesmo que planificada, não é consequência de uma livre troca? Por exemplo, uma
sociedade hipotética em que um Pajé planifique a economia, onde ele delega a homens
seus papéis, decidindo que X grupo de homens fiquem na caça, Y grupo fique na
colheita, Z grupo fique na proteção de fronteira, H grupo fique na coleta de madeira e J
grupo fique na mineração. Os grupos que coletam comodities e comida jogam tudo o
que coletaram no centro da Aldeia e o Pajé então redistribui igualmente tudo pela
sociedade. Acredito que, até aqui, qualquer ancap lendo esta hipótese conclua que é
comunismo, que não há nada de livre troca aí, será? E se, nesta sociedade hipotética
eu dizer que o Pajé não tem poder coercitivo algum? Que sua figura religiosa inspira
pura e simples confiança, respeito e admiração ao ponto de que os homens da tribo
delegam ele como solucionador de conflitos e dão a ele o direito de delegar essas
questões, não houve livre-troca no momento que o Pajé foi escalado a figura de solução
de conflitos? E não se deriva diretamente deste marco inicial de livre-troca o seu papel
como planificador da economia? Veja, ainda que não tenha um mercado agorista na
aldeia, onde cada membro troque o que caçou com o outro, não ocorre por coerção,
simplesmente não ocorre porque não querem, logo, a mesmo a inexistência de troca de
escambos ou de um comércio com qualquer tipo de moeda hipotética é também
fenômeno de livre-escolha, eles escolheram não comercializar porque querem uma
economia planificada.
Outro exemplo, se a livre troca é o que define Capitalismo, como discutir a distinção
entre gênero e grau, no sentido de que, anarco capitalistas chamam até liberais
clássicos ou sociedades capitalistas de estado mínimo de SOCIALISMO, porque, em
algum grau, a troca não é exatamente tão livre. Mas perceba, falar que a substância de
um ente deixa de ser-lo tal enquanto tal porque ele mudou em graus é absurdo, qualquer
um que estuda ontologia sabe que uma substância define-se em si em gênero , o grau
é uma mudança nos acidentes, enquanto CAPITALISMO é uma substância segunda,
ou seja, um universal tomado pela ABSTRAÇÃO que se refere a todo um grupo de
substâncias primeiras que compartilham da mesma forma e/ou essência, então há
CAPITALISMO’s, capitalismo’s que, enquanto entes particulares, tal e tal, se distinguem
uns dos outros embora sejam todos capitalismo justamente porque tem a mesma
Forma, mas que se distinguem na matéria, acidentalmente. Então há capitalismos que
em graus tem seu mercado mais ou menos desregulado, enquanto o Anarco capitalismo
se distingue do Capitalismo justamente porque é completamente desregulado. Perceba
que o Mercado pode assumir então um espectro de graus de regulamentação que nem
por isso deixa de ser capitalismo, apenas avança do eixo + X de ser anarco capitalismo
ao eixo – X de ser capitalismo weberiano, ou capitalismo corporativista etc.
Perceba outro problema, se o capitalismo é distinto em “capitalismos” quanto aos
graus do quão livre é seu mercado, em que GRAU de regulamentação o capitalismo
deixa de ser capitalismo e vira socialismo? O socialismo vira socialismo em um ponto
específico de grau radical de regulamentação do mercado? Mas isso retoma ao
problema de falar que um ente não vira outro por mudança em grau. Portanto, o que
distingue capitalismo de socialismo não pode ser um Grau de regulamentação de
mercado, portanto, a Substância capitalismo é uma e a substância socialismo é outra,
de tal forma que nenhuma das duas pode ser definida somente pelo fenômeno de
mercado.
Se capitalismo é só livre-mercado, o que distingue o anarco capitalismo de
Aninds por exemplo? Ou do mercantilismo?
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Enfim, creio que já tenham entendido até aqui, eu vou demonstrar a minha
solução:
Entes econômicos devem ser definidos pelo fenômeno de PRODUÇÃO, não de
mercado. Por exemplo, o anarco comunismo tem uma produção horizontal e planificada
de gestão coletiva e sem divisão hierárquica (não há patrão e proletário). O Socialismo
tem a produção Estatal e planificada, embora não tão horizontal, pois os cargos públicos
dentro de uma escala de produção podem ser verticalizados. Os Aninds têm uma
produção individual, onde cada pessoa com o próprio meio de produção exerce o próprio
trabalho, não há relação horizontal ou vertical porque a produção é completamente
individualizada e/ou atomizada. O capitalismo tem uma produção vertical, hierarquizada
com o trabalho assalariado. Percebe que com o fenômeno de produção é mais fácil
distinguir entes do que com o fenômeno de mercado? E perceba que, está correção
ontológica não diz respeito a querer destruir o anarco capitalismo pois ela é
simplesmente nominal e não valorativa, nada nela implica a dizer que capitalismo é,
portanto, ruim. Mesmo eu que sou Distributista tenho que assumir que o distributismo
se compreende dentro do capitalismo enquanto nele há a propriedade privada e,
portanto, necessariamente o serviço assalariado em algum grau.
Conclusão: Acho que ancaps não deveriam nem precisam fazer falácia de falso-
escocês tentando dizer que todo país capitalista é ruim porque, no fim, não é capitalista,
acho que podem muito bem falar que os capitalismo’s que até então existiram são
capitalismo’s ruins porque estão em algum grau de coerção e regulamentação do
mercado. Não é preciso falar que os países até então capitalistas não são
verdadeiramente capitalistas para poder “limpar o nome do capitalismo”, isso é tão
infantil quanto feministas que falam que as “más feministas não são feministas de
verdade, são femistas”.
Eu acho, portanto, que a substância, formada por causa formal + Material, aqui, dita
capitalismo, tem a causa FORMAL definida em: Produção vertical, divisão hierárquica
do trabalho e serviço assalariado (ao falar serviço assalariado, á implicitamente que
para capitalismo é necessário propriedade privada). E a causa Material é o mercado,
que pode assumir graus de maior ou menor regulamentação. Ou seja, Capitalismo
corporativista e Anarco capitalismo são ambos capitalismos porque tem a mesma causa
formal, mas são capitalismo’s diferentes enquanto substância primeira porque em sua
causa material recebem acidentes diferentes.

1.3 Propriedade privada.

Outra forma de definirem capitalismo é dizer que capitalismo existe enquanto existe
propriedade privada, pasme, não discordo desta definição, entretanto, acho que é
necessário rediscutir o que se entende por propriedade privada.
Problemas: O que distingue anarco capitalistas de aninds ou mutualistas se todos
defendem o direito à propriedade? Para compreender melhor a necessidade de discutir
isto, vemos o caso de cristãos que por silogismo direto acham que o cristianismo deve
ser necessariamente pró capitalismo, afinal, Jesus defendeu o direito a propriedade. Se
há direito a propriedade, há capitalismo, logo, o cristianismo é capitalista? Qualquer
sistema com direito a propriedade é capitalista? Vemos aqui uma contradição entre
ancaps, por um lado os ancaps cristãos que dizem que cristianismo é por necessidade
capitalista pois tem direito a propriedade, por outro, os ancaps de um modo geral que
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falam que capitalismo nunca existiu porque nunca houve livre mercado puro, sem
estado, e que qualquer grau de regulamentação no mercado que restrinja de algum
modo a propriedade é socialismo ( questão discutida no tópico anterior), ué, segundo
esta questão, então os países que existiram até então eram capitalistas porque tem
direito a propriedade mas não são capitalistas porque o mercado é regulamentado em
maior ou menor grau? E o cristianismo, o que é? Ele é necessariamente capitalista por
ter propriedade ou ele pode não ser capitalista no momento que pode assumir algum
grau de regulamentação do mercado? Acredito que eu já tenha solucionado o problema
de considerar o mercado como a essência do capitalismo, agora, vamos discutir a
questão da propriedade.
A literatura da filosofia jurídica aparentemente não é comum entre o meio ancap,
não encontrei ainda alguém que tenha levado para o debate interno deste grupo as
distinções jurídicas entre posse e propriedade, por exemplo, quem dirá entre
propriedade pessoal ou privada, pois é. Acredito que o Miorim, devido a conversas
anteriores conheça tais distinções, mas na possibilidade deste documento circular em
meios ancaps, pasmem: Direito a propriedade não é necessariamente o direito a
propriedade privada.

1.3.2 Do direito a Posse e do direito a propriedade.


Definições Jurídicas
Posse: É o simples possuir, uso e/ou ocupação de um bem.
Propriedade: É quando a relação do sujeito com o bem se estende além da posse e
que, inclusive, também o detém. Dizemos que alguém é proprietário de algo, ou
seja, quando ele realiza os três poderes sobre algo:
posse
usufruto: proprietário de tudo que é fruto da coisa
alienação: poder de emprestar, vender, alugar
reaver: caso o tenha emprestado ou alugado, poder de reaver
é o direito de exigir-lo de volta.

Austrolibertários em sua argumentação de PNA alegam que o anarco capitalismo é


axiomático e/ou tautológico no momento que se percebe que temos auto-propriedade
sobre o corpo. Será?
Será que posso emprestar, vender ou alugar meu corpo? E veja, não no sentido de
me prostituir, mas no sentido de literalmente permitir que outra consciência e/ou alma
e/ou ego tome controle do meu corpo? Isso abre o debate para muito além, algumas
concepções poderiam crer que sim, outras que não, enfim, quando se percebe que a
resposta para tal é limitada antinomias, a especulações filosóficas, então percebemos
que se temos ou não direito a alienação é uma questão a ser debatida.
Automaticamente, não temos direito de reaver o corpo caso sobre pressuposto de não
termos direito a alienação.
Alguns podem estar pensando que esta distinção de posse e propriedade não quer
dizer muita coisa, mas, na verdade, são a raiz para compreender a confusão que a
escola austríaca gerou ao ignorar essas distinções que, em ciência jurídica, são
indiscutíveis. A distinção surgiu no direito como forma de solucionar conflitos entre O
dono de um condomínio e um condômino, ou seja, é uma distinção que surgiu de uma
necessidade de surgiu no direito como forma de solucionar conflitos entre O dono de
um condomínio e um condômino, ou seja, é uma distinção que surgiu de uma
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necessidade de praxe de solucionar conflitos. Compreender que estar sob posse de


algo não predica necessariamente ser proprietário privado de algo é o que distingue o
direito a propriedade pessoal e o direito a propriedade privada. Alguns já os citam como
direito a posse e direito a propriedade, a questão é que observar que alguém está em
posse ou em propriedade de algo é uma descrição, afirmar que alguém deve ter o direito
da posse ou propriedade é uma prescrição, achar que se pode derivar um do outro é
um salto lógico que se chama falácia de derivação dever-ser, em dialética erística de
Schopenhauer também chamada de falácia naturalista, argumento que começou com o
empirismo crítico Humeano em tratado da natureza humana.

O que isso diz respeito, portanto, ao debate de definição de capitalismo? Tudo.


Quando estamos sob direito a posse de algo, mas não necessariamente sob o direito a
propriedade, não podemos alugar ou emprestar, é aqui que se distingue uma economia
capitalista e uma economia anind ou mutualista. E não, não vamos reduzir a
mesquinharia de falar: “Então tu não podes emprestar a casa pro teu amigo?”, não é
essa a questão, a questão é mais complexa a medida que se percebe que uma
economia baseada em Rentismo, Aluguéis e serviço assalariado é o que irá distinguir
mais evidentemente uma sociedade capitalista de uma individualista. A medida em que
um serviço assalariado é análogo ao aluguel, por exemplo, se eu tenho uma máquina
de costura e eu a alugo para você, você, que não detém o próprio meio de produção
precisa abrir mão de parte do que produz para alugar o meio, é análogo ao serviço
assalariado, se em vez de eu emprestar a máquina para você eu contrato você para
trabalhar para mim como costureiro na minha máquina por 8h , perceba que parte do
que você produz é perdido para mim, sob justificação de que a máquina é minha, não
sua.
Não quero com isso fazer nenhuma valoração, criticar mais-valia nem nada do
gênero, não há aqui nenhuma crítica ao aluguel, ao rentismo ou ao serviço assalariado,
apenas trazer uma distinção nova ao debate. Então, teríamos aqui o seguinte, uma
economia onde pessoas sob posse de seus meios de produção, de terra etc., e que a
ocupam e a utilizam com o próprio trabalho para produzir seus bens e os comercializar
é uma economia de livre -mercado e de POSSE individual, enquanto uma economia
onde pessoas que detém a propriedade dos meios de produção e que, não o ocupam
nem o utilizam sob próprio trabalho mas que empregam pessoas assalariadamente, ou
alugam ou especulam em mercado de ações, compram para revenda etc. é uma
economia baseada em PROPRIEVADE PRIVADA, a primeira é uma economia
individualista enquanto a segunda é uma economia capitalista.
A distinção pode ficar ainda mais profunda, ao perceber que a distinção de uma
para outra não é necessariamente ontológica, mas, talvez, fenomenológica. Por
exemplo, ainda que sobre direito de propriedade privada (ou seja, com direito de
alienação da coisa), não significa que eu vá me alienar da coisa (alugar ou qualquer
coisa análoga). Assim, uma sociedade em que todos são proprietários privados, mas
que todos apenas gozam do usufruto de sua propriedade, empregando o próprio
trabalho e não querem assalariar, alugar ou especular, é uma economia de propriedade
privada mas que se manifesta no tempo-espaço (fenomênicamente) como uma
economia de agorismo individualista, não uma economia capitalista.
Portanto, uma sociedade poderia PROIBIR de forma coercitiva a propriedade
privada e ceder o direito somente a posse e usu-fruto, sendo uma economia
individualista ou mutualista e, necessariamente anticapitalista, como também pode ser
uma sociedade não-coercitiva e de livre-mercado e direito a propriedade privada, muito
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embora não tenha serviço assalariado por um fenômeno espontâneo da própria


sociedade, assim, seria uma sociedade ainda individualista ou mutualista mas que só
se distingue do capitalismo de forma fenomênica e não ontológica, não sendo, portanto,
necessariamente anticapitalista mas que não manifestou capitalismo por uma
contingência.
Conclusão: No primeiro tópico defini substancialmente o capitalismo em Causa
formal + causa material, uma vez que na causa formal está o serviço assalariado, há
por necessidade que exista o direito a propriedade privada. O direito a propriedade
privada é, portanto, necessário enquanto causa formal da substância do capitalismo,
muito embora, ainda possa haver propriedade privada que não se manifeste como
capitalismo enquanto não há serviço assalariado. Por isso, é o SERVIÇO
ASSALARIADO a ESSÊNCIA do capitalismo.

Portanto:
1) Capitalismo - fenômeno de produção vertical assalariado, propriedade privada.
(causa formal). Causas materiais diversas que se distinguem entre si, compondo
capitalismos particulares pelo seu fenômeno de mercado, que irá variar em maior
ou menor grau com intervenção do estado. Logo:

1.1) Capitalismo de laissez-faire (Produção capitalista em um mercado e uma


produção completamente desregulamentado, mas com um estado como
monopolizador dos 3 poderes, enquanto solucionador de conflitos ou como
prestador de serviços dos quais o mercado não teve interesse de prestar por não
serem lucrativos).

1.2) Capitalismo Webberiano/burocrático (produção capitalista com o estado


regulamentando a produção e/ou o mercado)

1.3) Anarco capitalismo (produção capitalista com completa ausência de estado,


governo auto-gestionário com descentralização de tribunais privados como
solucionadores de conflito, sobre uma única norma - a lei da propriedade,
principio de não agressão etc.).

1.N) .... (várias outras formas de capitalismo, como capitalismo social-democrata,


capitalismo reformado neoclássico etc.)

2) Comunismo - Fim da propriedade privada e defesa da propriedade comum.


(causa formal). Causas materiais diversas que se distinguem entre si, compondo
comunismos particulares.

2.1) Comunismo de estado e/ou socialismo - A produção é toda do estado,


compreendendo a propriedade estatal como uma propriedade comum porque o
estado é propriedade comum ao povo.

2.2) Anarco comunismo - A propriedade não é do estado, a propriedade é


literalmente comum, direta a auto-gestão do proletariado.
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2.N) .... ( várias outras formas de comunismo, como comunismo de conselhos etc).

3) Mutualismo - Fim da propriedade privada e defesa da propriedade pessoal,


produção autônoma (causa formal).

O mutualismo é um fenômeno de mercado - livre e agorista, onde as pessoas dispostas


das proprias terras e meio de produção são produtoras autônomas ou prestadoras de
serviço autônoma, sem precisarem se assalariar.

3.1) Mutualismo proto-anarquista - um estado ainda existe, mas minarquista e


completamente descentralizado em micro-federações, é somente um
solucionador de conflitos, pode regular mais ou menos a produção, mas não
precisa, em hipótese, prestar serviços dos quais o mercado não atenderia
por não ter lucros porque se deduz um mercado manifesto de ações mutuas,
ou seja, as pessoas aqui não agem pelo lucro, mas dispõem sua própria
produção para ajudar mutuamente as necessidades do povo.

3.2) Mutualismo libertário - não há estado, as micro-federações são


pantarquicas, auto-gestionarias e representativas. (Mario Ferreira dos
santos está aqui).

3. n ..... (outras formas de mutualismo) ...

1.4 O estado e o imposto.

Definir estado ou governo, ou os discernir, é uma tarefa difícil, se fosse fácil não
seria um tema aberto a discussões até hoje entre a ciência política, aqui, assumo que
talvez eu mesmo não consiga concluir este subtópico com uma definição suficiente,
entretanto, ainda que seja difícil os definir é relativamente fácil saber que algumas
definições são erradas, portanto, recebam este sub capítulo mais como um manual de
“ como não definir “ do que “ qual é a definição” correta, as tentativas de definição
levantadas aqui são as que percebo como comuns no meio austro libertário.
1.4.2 Não usar historicismo
Alguns austros libertários tentam insistir que o estado deve ser definido de
maneira tal e justificar a definição dando exemplos históricos, por exemplo, a afirmação
de que o estado é por definição um agressor e dar por exemplo colonizações, ou definir
a gênese do estado como um bandido estacionário etc. Estando certa ou errada tal
definição não se pode tentar a reforçar buscando quaisquer exemplos, porque a forma
como algo se manifesta no tempo- espaço é enevoada por contingências, supor que o
que conheço materialmente é por ele mesmo a definição da coisa-em-si é confundir o
universal com o particular, é supor que se pode ir do particular ao universal por inferência
direta, quem faz isso demonstra que não conheceu o problema mais básico da filosofia
como a caverna de Platão. Para exemplificar:
Suponha que eu jamais tenha visto um ser humano sem um dos membros, eu
poderia cometer o erro de dizer que ser humano se define como ser bípede, mamífero,
de dois braços e duas pernas etc. O problema é que, quando definimos algo na
pretensão de que esta definição é formal, ou seja, universaliza o ente em essência,
estou dizendo que qualquer coisa que contradiga tal definição não faz parte do grupo
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que delimita este ente enquanto tal e tal. Significaria então que um ser humano de
apenas um braço não é um ser humano. O problema poderia ser o contrário, supunha
que um déspota alcançou o governo mundial e que por algum motivo obtuso qualquer
ele tenha decidido que todos os bebês tenham o braço esquerdo amputado ao nascer,
de forma tal que, ao nascer nessa comunidade e não saber dessas amputações,
crescendo e vendo todos os seres humanos com apenas um braço essa pessoa irá
supor que ser humano se define como mamífero, bípede, de apenas um braço.
Quando alguém diz que um estado por definição te mata ou te rouba precisamos
trabalhar com hipostasia e imaginar todo tipo de cenário possível, ou seja, expandir o
ente a todo universo de possibilidade lógica em experiências mentais e imaginar se, se
em cada hipótese, ele continua sendo o que é enquanto tal e tal ou deixa de ser-lo. Por
exemplo, será mesmo que imposto é necessário a substância do estado? Não é possível
que um estado hipotético mantenha o custeio de sua manutenção por uma taxa não
obrigatória e que conte exclusivamente com a vontade deliberada daqueles que querem
pagar para o manter? Será mesmo que um estado só pode surgir como arbitrário e
exterior a um povo por meio de colonização parasitária? É logicamente impossível que
um povo emane dele mesmo uma instituição jurídica que venha a se formalizar como
estado?

1.4.3 Não presumir valorações nas definições


É na tentativa de responder a essa objeção que alguns austro libertários irão
tentar alegar que podem definir um termo como quiser e que se por definição dizem que
o estado é um bandido estacionário então qualquer entidade que surja hipoteticamente
que não o seja como bandido estacionário não é um estado por definição, e ai dirão que,
uma entidade com poder executivo, legislativo e judiciário , que delimita um espaço
geográfico , tem prestações de serviços e taxas mas que surge de forma 100%
deliberativa é um condomínio. Então, austro libertários irão distinguir o estado do
condomínio, onde, o que surge de forma arbitrária é estado e o que surge
contratualmente é condomínio.
O problema desta definição é que o que distingue condomínio do estado, como
se fossem entes diferentes, não é uma qualidade in-re do ente, ou seja, não é algo
substancial, é algo puramente valorativo. Não se pode distinguir entes por valoração,
por exemplo, seria como dizer que Ser humano é o indivíduo humano que é ético e que
ASSASSINO é o ser humano que matou alguém, e supor que assassino ou ser humano
são substâncias distintas, isso é absurdo, a distinção de um ser humano não assassino
para um ser humano assassino é uma distinção fenomênica, ou seja, fenomenológica e
não ontológica, isso significa que, portanto, não há distinção ontológica então de um
condomínio para um estado? Eles não se distinguem em gênero, mas em valoração,
um condomínio é em potência um estado, se o condomínio violar a PNA virá estado? O
dono de um restaurante se ficar maluco e te forçar a pagar algo mesmo que tu não
consumas virou um estado? E então vocês poderão alegar: “a diferença é que o dono
do restaurante é dono privado do seu restaurante”, sim, exatamente, ou seja, há uma
relação material que distingue ele ontologicamente do estado, um condomínio é um
condomínio e um estado é um estado porque deve haver alguma relação destes com o
território que delimitam que os distingue, mas que este algo não seja uma valoração.
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Obs. E talvez, em uma revira volta, se possa concluir que estado e condomínio de
fato são quase indistintos, diferenciando-se em graus, não em gênero, um condomínio
pode ser talvez um micro estado ou um estado um macro condomínio, e ambos têm
potência para serem agressores. Isso, aliás, aponta mais uma contradição no discurso
ancap, quando realizamos analogias a fim de demonstrar que qualquer condomínio pode
ser análogo a um estado os ancaps ridicularizam a ideia e debocham, mas, quando
convém, acabam por assumir que um estado e um condomínio são tão próximos que se
distinguem em uma valoração, onde algo completamente análogo a um estado, mas que
é consensual é um condomínio. Ancaps então precisam se decidir, a aproximação de um
estado para um condomínio é motivo de piada ou é algo relevante que deva ser discutido
com seriedade?

Estado não é uma ação, estado não é um fenômeno, estado precisa ser definido
como um ente, ainda que abstrato, ou seja, com qualidades substanciais e não em
função de ser um potencial fenômeno de qualquer outra coisa. O estado do Brasil caso
se tornasse ético de uma hora para outra não se tornaria um condomínio gigante, seria
um estado ético.
Não quero com isso defender estado, estou alegando que, a tese ancap de que
estado é por definição antiético é problemática, o estado não é per-si antiético, aliás,
nada pode ser definido ontologicamente presumindo uma valoração, as coisas são em
definição enquanto tal e tal, o que pode recebe juízo valorativo não são coisas e sim
ações, uma arma não é imoral, a ação de atirar em alguém com ela que o é. Sexo pode
se distinguir de estupro, onde sexo é a cópula deliberada enquanto o estupro é a cópula
forçada, estes se distinguem valorativamente mas porque ambos, sexo e estupro não
são uma “coisa” “objeto” “ser” ou “ente”, são ações.
O que podemos alegar é que, pelo o que estado é em definição é muito possível
que qualquer pessoa na atividade ou exercício de estar sob posse do estado estará
cometendo ações antiéticas, o estado é, definitivamente, um ente que dá muitas
possibilidades ao roubo ou a agressão, mas não é per-si agressor, podemos dizer que
uma possível manifestação de um estado que não se manifeste em ações antiéticas é
um estado que só existe em ideia e que provavelmente nunca veremos na realidade,
por isso seria melhor que fôssemos anarquistas, porque é prudente perceber que o
estado é uma ferramenta que tende a dar muito poder a pessoas e que pessoas sob
posse de muito poder se corrompem, mas não ficar falando que “ Estado é antiético”,
porque soa tão absurdo quanto falar que eu milito contra motos porque motos são
antiéticas. É como o esquerdista que, definindo capitalismo, alega que capitalismo é
imoral, é antiético etc. Veja, nem mesmo o COMUNISMO pode ser definido como
antiético, porque o comunismo enquanto ENTE não pode ser definido como algo que
NEGA o direito a propriedade, o comunismo é um modo de organização de sociedade
de produção horizontal e de propriedade comum, nesta definição não há nenhuma
predicação analítica de que essa propriedade comum é dada por imperação, sob a
negação do direito a propriedade particular. No caso, quem nega o direito da
propriedade particular não é o comunismo enquanto ente político, é o Marxismo. Isto
que confundem, o Marxismo é uma ideologia que realiza valorações, o materialismo
histórico dialético é um método, uma ferramenta pela qual se entende a sociedade por
uma perspectiva e o Comunismo é o modelo que o marxismo quer alcançar. Por
exemplo, se as pessoas deliberadamente quiserem entregar suas propriedades ao bem
comum e tornar tudo horizontal e comunal alcançaram o comunismo sem violação ética
alguma, percebe? Não se pode definir NADA ontologicamente presumindo uma
valoração. Pode dar uma Louca no Bolsonaro e ele decidir abolir os impostos, porque
16

crê que no Brasil há ufanistas, nacionalistas e patriotas o suficiente que vão sustentar
os custos do estado por deliberação.
1.4.4 O imposto é roubo – uma investigação ontológica do imposto?

Há um argumento austrolibertário, supostamente Hoppeano que se presume


como analítico que alega que imposto é apriori ou apoditicamente roubo, pois a palavra
“imposto”, que significa por si mesma imposição traria o predicado implícito do sujeito
de violação de PNA, logo, imposto é roubo por juízo analítico.
Isto está errado em vários sentidos, primeiro, no próprio entendimento do termo
imposto ou de imposição.
Imposto – algo que foi dado por imposição.
Imposição:
1. Ordem de autoridade superior, estipulação, determinação.
2. Ação de obrigar a aceitas, aplicação de meios compulsórios.

É verdade que o significado 2 de imposição se aproxima do que pode-se supor


por anti – ético, mas o significado 1 aponta em direção de que algo pode ter sido
legitimado a aplicação da imposição por meio de autoridade. Ou seja, algo não
necessariamente é imposto meramente porque quem impõem o faz a força
arbitrariamente, mas porque este alguém possui autoridade legitimada para tal. Um pai
de família tem autoridade legítima para impor as regras e as penitências que quiser em
sua casa, o dono de uma empresa tem autoridade para impor o uso de EPI’s ou para
impor a proibição do uso de alargadores ou piercings. Abstraiam por enquanto o juízo
de vocês de que o estado não tem legitimidade e suponham uma hipótese de um estado
legítimo, este estado legítimo, detendo poder de autoridade legitima pode impor normas
como bem entender. Portanto, o termo imposto não representa analiticamente roubo ou
agressão ilegítima. É preciso primeiro discutir se o Estado tem ou não legitimidade, para
só depois deste conclusão poder alegar que o seu imposto é roubo ou não, significa,
portanto, que a o juízo de que o imposto é roubo é de segunda ordem e não imediato e
precisa primeiro que se conheça um estado, e veja, não o Estado-em-si, mas um estado-
ai, ou seja, é preciso avaliar cada estado em particular enquanto substancia primeira tal
e tal, para concluir se este estado é ilegítimo , isso já implica em juízo sintético posteriori,
para a partir desta inferência poder seguir para segundos juízos.
O segundo erro é que não se pode se quer supor que o nome de algo
necessariamente representa bem este algo, um nome pode ser um flatus-vocis, é
preciso investigar este algo em-si mesmo, em todo seu conceito, e não somente o signo
que o representa. Eu não poderia tentar supor que no nome “Maçã “há algo apodítico
que traz um juízo analítico da fruta em específico que aqui é significada como maçã,
porque em outro lugar é chamada de “Apple” e lá talvez o signo linguístico traga outro
juízo analítico. Por exemplo, “imposto” em um termo nosso para significar este
fenômeno do que é cobrado pelo estado, mas em outros países é chamado de “public.
taxes” ou “public. fee”, que aqui seria taxa pública, como o valor que é cobrado por uma
prestação de serviço particular é uma taxa privada. Suponha então que nunca tivessem
inventado por um acaso a expressão “imposto” e que nós só a conhecemos como “taxa
pública” e todo o argumento de juízo analítico sobre imposto é roubo morre. Algo não é
apodítico se só faz sentido em uma língua e não em outra.
17

A conclusão deste subcapítulo necessita de concluir, primeiro, questões sobre a


legitimidade do estado e, consequentemente, sobre a definição própria do estado.

1.4.5 O que é, então, o estado? Uma investigação descritiva/ontológica do


estado

O estado é uma entidade com poder soberano de governo sobre um território


do qual delimita geograficamente. Sobre governo se entende por exercício jurídico,
legislativo e judiciário.
Um condomínio também é uma entidade que tem poder de governo sobre sua
própria delimitação geográfica, mas não é soberano. O termo Soberano existe em
filosofia política ou do direito justamente para conseguir distinguir em graus a ordem
hierárquica das entidades governamentais. Um condomínio é uma entidade de domínio
governamental, mas ele está DENTRO do estado, sendo o estado uma entidade
hierárquica superior e que, portanto, sua ordem sobrepõe a do condomínio. No mesmo
sentido, temos cidade, bairro, município, federação ou qualquer outro nome que se pode
dar na divisão hierárquica de entidades governamentais. Cada uma soberana sobre a
outra. Portanto, não se espante. Diferente do que já vi alguns alegarem em espanto,
direito soberano não significa que o estado pode arbitrar com poder absoluto (ser
soberano não é ser absoluto), ou seja, não significa que estamos dando ao estado o
poder de matar, torturar ou qualquer coisa do gênero, apenas que, entre as hierarquias
de poder a dele é a superior, o estado tem poder para contradizer a ordenança de uma
federação ou de um prefeito etc.
Um debate interessante sobre essas hierarquias é a discussão internacional, por
exemplo, deve existir uma entidade ainda mais soberana e que seja universal ou
transcendental entre os estados como a ONU? Esse é o debate entre os internacionalistas
kantianos e os tradicionalistas hegelianos, um poder como a ONU pode arbitrar contra um
estado para impedir, justamente, que estados tenham pena de morte, torturas ou
ditaduras, porém, é dar a esta entidade poder de mais a ponto de que ela possa arbitrar
até contra a cultura de povos, se ela arbitrar que um rito litúrgico vai contra os direitos
humanos ela restringiria liberdade religiosa, então tradicionalistas românticos, ufanistas
de toda espécie, Hegelianos etc irão dizer que não deve haver tal entidade e que a maior
ordem de soberania seja o estado mesmo.

Perceba que com esta definição de estado não há sua defesa ou reprovação, mas um
juízo descritivo. O estado tem potência, de fato, para violar direitos transcendentais, para ser
agressor etc, entretanto, não é uma qualidade implícita nele mesmo, ou seja, substancial, a forma
como surgiu, sua legitimidade ou ilegitimidade. Indo além, para aproveitar esse arquivo dedicado
ao miorim como uma extensão de minhas lições de ontologia, sabendo que meus alunos irão ler
tal arquivo, podemos demonstrar como nesta definição de estado há as 4 causas da substância
pela ontologia clássica. Ser detentor do direito soberano a governança é a causa formal que
define o estado enquanto tal, o governo é a causa material em que o estado se manifesta no
tempo-espaço e através do qual pode-se distinguir estado’s em vários tipos de estados. Há
estado monárquico, republicano, federalista, democrático, a monarquia pode ser representativa,
parlamentar, absolutista, descentralizada e municipalista, centralizada, a republica ou a
democracia podem ser diretas, indireta e representativa e assim sucessivamente. Ou seja, a
causa material distingue categorias de estado’s em seus acidentes. Assim como a causa formal
de Ser humano é ter a alma humana, mas há seres humanos afrodescentes, indígenas, arianos
etc, ou seja, o ser humano poderia ser discernido em menores categorias através de suas várias
causas materiais distintas.
18

2. APORIAS DA TESE AUSTRÍACA

No capitulo anterior delimitamos a definição de Capitalismo, propriedade e posse,


estado e imposto, o capitulo foi uma investigação ontológica, ou seja, limitou-se a juízo
descritivo ou analítico das coisas. Neste capítulo discutiremos aporias da tese austríaca,
partindo do que foi definido anteriormente iremos começar, portanto, para uma
investigação valorativa, ou prescritiva ou deontológica das formas quais os entes
definidos ontologicamente podem se manifestar fenomenologicamente.

2.2 A teoria jurídica

Uma possibilidade de justificar a taxa pública, é que o estado teria, em hipótese,


direito de impor sobre você, na sua propriedade, porque toda a terra que o estado
delimita é primeiramente dele, ou seja, o estado não invade o direito que você tem sobre
sua propriedade porque é implícito que sua propriedade só é de seu direito enquanto
resguardada sob concessão do estado. O estado primeiro é dono de toda terra, e pelo
cartório ele emite título de propriedade, concedendo direitos. E veja, o estado pode
conceder um direito irrestrito a propriedade, ou seja, direito ao usufruto, gozo, alienação
reaver e posse ou poderia dar, se quiser, só o direito a posse. E, em qualquer instância,
o próprio pode desapropriar você porque é a reivindicação dele mesmo de seu direito e
reaver. Sob a premissa que o Estado é uma entidade que tem o direito legítimo das
terras que delimita, ele pode prestar o serviço que quiser, cobrar o que quiser e impor
suas normas. O que deve ser discutido, portanto, é SE o estado pode ter esta
legitimidade, um austro libertário só poderá, portanto, alegar que o estado é por
necessidade manifesto sempre em todo universo de possibilidade como antiético se ele
for incapaz de ter proprietário legítimo de terras, e aqui repito, não podemos reduzir o
universo de possibilidade ao que conhecemos na prática, é EVIDENTE que todo estado
moderno, fruto de colonização, não tem direito legítimo a terra que delimita porque
estavam aqui primeiro os índios, este estado específico no brasil, enquanto substancia
primeira tal e tal, surgiu arbitrário e exterior ao povo que aqui habitava e o desapropriou
e se instaurou como parasita estacionário, então sim, é evidente que se pode alegar
que ESSE ou AQUELE estado é ilegítimo, mas isso nada diz respeito sobre O ESTADO
em si, ou a “ forma pura da ideia de estado” ou “ a causa formal do estado” ou “ essência
do estado” ou “ estado absoluto”, enfim, qualquer linguagem de sistema filosófico
destinado a distinção do universal e do particular.
Portanto, para discutir se um estado PODE, ou seja, tem potência de ser
proprietário legítimo de terras é necessário discutir teoria do direito à propriedade.
19

Vou tentar ser sucinto, porque acredito que todos que estão acompanhando essa
leitura sabem o básico de jusnaturalismo, jusracionalismo ou juspositivismo, ou pelo
menos deveriam saber rs.
Embora o jusnaturalismo tenha sido reduzido hoje ao entendimento do direito
divino, ele é na verdade dividido em alguns grupos, entre eles o jusnaturalismo
naturalista, ou seja, a tese de que o direito é derivado da própria relação natural, positiva.
( Rothbard está neste grupo, defende que o direito é derivado dá própria natureza da
ação humana) ; e os jusnaturalistas da vontade de Deus, isto pois, parte-se do
pressuposto que Deus criou tudo segundo um principio teleológico, ou seja, com um
propósito ou um fim ( causa final). As coisas que seguem a reta causa final de Deus são
as coisas naturais, o que não implica em derivação direta da natureza porque, com a
corrupção do mundo físico (gnósticos), ou o afastamento do plano físico do unos ou do
logos (Platão) ou com a corrupção do mundo natural pelo pecado original, então a
natureza é corrupta. Ou seja, jusnaturalismo teológico implica em estar direcionado a
natureza metafísica pelas quais as coisas se regem, enquanto o jusnaturalismo
naturalista diz respeito a natureza própria do plano material mesmo; O jusRacionalismo,
como no caso de Hoppe, diz respeito a dedução transcendental das normas universais
da ética a partir do que é racionalmente justificado, posição mais comuns de agnósticos
ou Deístas, posição que, supostamente, alegam ter surgido com o sistema Kantiano
com a crítica da razão prática, embora seja verdade que essa posição surge pós kant,
cuidado com quem alega que teria sido o próprio Kant um deísta ou agnóstico. O
juspositivismo é a tese do direito mais arbitrária, que não tenta justificar o direito sobre
nenhum resguardo exterior que o predique, mas unicamente no contrato , no que é
delimitado formalmente por autoridades locais, isto pois, uma vez que não se crê em
Deus não há direito jusnatural teológico, uma vez que se crê que a razão humana é
limitada e incapaz de alcançar juízos transcendentais ou universais, então não pode
haver ética transcendental jusRacional e uma vez que não se pode confundir descrição
com prescrição o jusnaturalismo naturalista é uma falácia de derivação dever-ser, não
restaria, portanto, nenhuma base segura para resguardar o direito, logo, ele é arbitrário
mesmo ou ao menos consensual, socio-cultural etc.
Após a introdução breve de teoria do direito, iremos discutir o direito a
propriedade.
1. Juspositivistas alegam que o direito a propriedade só é válido em cartório, e
que, portanto, só é possível direito a propriedade pressupondo uma
autoridade legal que resguarde o direito formalmente, se não há uma
autoridade legal que possa provar um direito por papel em cartório resta o
juízo comum da comunidade, que é contingente mesmo e depende da
cultura, ou seja, em uma anarquia como não há centralização da delegação
de direitos a única forma de saber se uma terra é sua ou não, ou se sua
posse é legitima ou não é se houver consenso da comunidade ao redor.

2. Jusnaturalistas naturalistas alegam que a percepção do direito a propriedade


é observável até no reino animal, por exemplo, quando animais urinam para
demarcar território e, enquanto o ocupam e o protegem há a clara percepção
de respeito a esta delimitação, sobrevoando as planícies africanas por
exemplo é fácil perceber que zebras ficam agrupadas em um local, leões em
outro, rinocerontes e outro etc, e que não há uma guerra desordenada por
conquista de território, pelo contrário, territórios só são invadidos quando há
percepção clara de escassez de recursos ou necessidade fisiológica, leões
20

podem ficar horas inteiras deitados ao lado de um agrupamento de zebras


sem disputar com estas território e só quando sentirem fome que irão invadir
para caçar. Percebe-se também que quando um animal migra para outro
lugar, o lugar anterior é reocupado por outros animais e não há a tentativa
de reivindicar direito de reaver o local, se eles retornam dias depois ao
mesmo local e este está ocupado por outro grupo eles seguem buscando
outro. É claro que jusRacionalistas vão alegar que isso só é assim no reino
animal porque não são racionais e logo não podem reivindicar direitos em
discurso, ou talvez, nem tenham capacidade de memória e simplesmente
não lembram que tal lugar outrora foi ocupado por eles, mas enfim, a
percepção jusnaturalista parte assim e, portanto, conclui o mesmo para o ser
humano: O direito a propriedade existe quando há ocupação, sinalização,
proteção e uso do espaço ou da coisa.

3. Não parece existir muito conflito entre jusnaturalistas naturalistas e


jusRacionalistas quanto ao começo da apropriação original, ou seja, a
apropriação original para jusRacionalistas como Hoppe se dá na ocupação,
sinalização, proteção e uso. Porém, uma vez que a terra é originalmente
apropriada, este direito é transcendental e não mero fruto de percepção
social, portanto, o sujeito poderia viajar, migrar, investir em apropriar-se de
outras terras e, ao retornar, poderia reivindicar seu direito de reaver a coisa.

Para o interesse deste artigo, não é necessário falar do direito jusnatural


teológico, porque apesar de ele apenas justificar o direito sobre resguardo da vontade
de Deus, ou seja, que o direito a propriedade é um direito que existe porque Deus assim
o quer, isso pouco diz respeito sobre como ocorre a apropriação original. Portanto,
mesmo no jusnatutalismo teológico, pode-se argumentar por qualquer outra via.
Ironicamente, pode-se alegar que um direito é cartório é absoluto porque o Estado é a
representação da vontade de Deus na terra, logo, o que o estado arbitra é vontade
jusnatural teológica, e então cria-se um absolutismo onde juspositivismo e
jusnaturalismo teológico parecem se confundir. Um jusnaturalista teológico também
pode argumentar como no ponto três, porque a razão humana é fruto da graça de Deus,
pois Deus criou o homem com alma racional, logo, o que é racionalmente alcançado é,
portanto, pertencente a logos de Deus. Para o interesse do artigo, eu vou agora
demonstrar o problema do ponto 3, afinal, o interesse aqui é objetar as afirmações mais
comuns no meio austro libertário e não falar sobre todas as teses possíveis.
O ponto 3 de direito a propriedade gera problemas de praxe e é isso que alguns
austros libertários não entendem, ainda que partíssemos do ponto comum de que uma
vez que há a apropriação original esta torna-se transcendental, irrevogável, inviolável e
atemporalmente com direito de reaver etc este direito é um direito formal, a questão é,
como comprovar este direito formal em causas materiais? Lembrem-se, conhecemos as
coisas através de suas causas materiais, as causas formais são dadas em definição,
mas só podem ser conhecidas após conhecermos pelas causas materiais, o que isso
quer dizer? Veja, suponha que você chegou num lugar, construiu muros, piscina etc.
mas não havia ninguém como testemunha, você se retira por anos e eu chego lá, vejo
esta casa abandonada, ainda que eu tivesse a melhor das intenções em respeitar a
propriedade alheia, supondo que eu fico morando ao lado do lugar por 3 anos e não tive
indício algum de que o dono daquela casa está vivo, então a ocupo. Somente depois de
mais 3 anos você retorna, reivindicando o direito de reaver a coisa, alegando que a casa
21

é a sua. Uma coisa é concordarmos aqui que, de fato, o “direito metafísico” da


propriedade é seu, mas como você prova isso pra mim? Como eu vou saber que você
não é uma outra pessoa aleatória que viu a casa de longe e veio mentindo para tentar
conseguir a casa para você? Se você vai para a escola e perde sua borracha na sala
de aula, como você poderia no outro dia alegar que a borracha é sua? A menos que
coloque seu nome na borracha, mas mesmo isso precisaria ser percebido socialmente,
as pessoas precisam ter outras provas materiais prévias que aquele é seu nome, e que
aquela caligrafia é sua e não de outra pessoa com o mesmo nome. Talvez uma forma
melhor seria a escola catalogar cada item de cada aluno num banco de dado, com um
código, e carimbar cada item com o respectivo código, uma trabalheira? Sim,
solucionaria de vez o conflito? Sim. Então perceba que à medida que se tem uma única
entidade centralizadora do poder de resguardar títulos de propriedade, mais fácil provar
que as coisas suas o são de fato. Ou seja, a argumentação jusnaturalismta teológica
ou jusRacionalista por si só apenas alcança a definição dos direitos em causa formal,
mas é incapaz de dar prova material, logo, juridicamente são flatus vocis. De nada
adianta a gente concordar que um direito é jusnaturalmente ou jusRacionalmente
inviolável se você não tem causas materiais para PROVAR socialmente que aquela
coisa é sua. É claro, isso é um problema de praxe e pode-se entender como
contingente, talvez com o avanço da tecnologia com um banco de dado universal em
criptografias a prova de adulteração uma anarquia consiga resguardar direitos sem
precisar de uma entidade como o estado, até lá, isso é um problema de praxe. Ideias
rothbardianas ou de terceiros como tribunais privados dispersos, descentralizados, são,
desculpe a expressão forte, uma piada. É impossível solucionar conflitos se você tiver
competição entre as próprias entidades solucionadoras de conflito, pois elas estão em
conflito rs, um cartório privado pode ser subornado para forjar um titulo de propriedade,
e várias pessoas podem buscar cartórios diferentes para declarar direito sobre uma terra
etc. Se duas pessoas disputam o direito a uma terra e sujeito A leva sujeito B a um
tribunal privado que tem um juízo, pessoa B tem direito a levar pessoa A à outro tribunal
privado que tem outro juízo e a coisa é insolucionável.
Quando alegamos necessidade ou, melhor, a contingência fenomenológica e
utilitária do estado , como resguardador de título de propriedade não estamos sendo
necessariamente juspositivistas, porque o juspositivismo implica em valorizar apenas a
causa material e supor a formal como flatus vocis em si mesma, o que está sendo
alegado aqui é que a causa formal EXISTE in re, mas que ela não significa nada para o
sujeito cognosciente se ele não tiver causas materiais pelas quais as possa conhecer,
o que há aqui é uma união consubstancial entre o direito formal , metafísico ou racional
transcendental e o direito positivo materializado, isso significa que um estado não
poderia arbitrar títulos de propriedade somente com suas causas materiais porque elas
sem a causa formal não tem resguardo transcendental, o que temos aqui, portanto, é
que o título de cartório não é válido em si-mesmo, mas instrumento material pelo qual
se valida direitos transcendentais, ou seja, um hilemorfismo ou dualismo consubstancial
no direito a propriedade.

Está aqui a primeira aporia de qualquer anarquia, a impossibilidade de resguardar


direitos em causa material. Ou pelo menos enquanto não houver uma tecnologia
para tal, isso reduz austro libertários a espectros gradualistas no mínimo
22

2.3 A legitimidade ou ilegitimidade do estado e do imposto

Não há necessidade de separar capítulos para investigar a possibilidade de


legitimidade do estado e do imposto, uma vez que, a legitimidade do imposto depende
da legitimidade do estado, se o estado pode ser legítimo, logo, o imposto é legitimo.
Ignoramos por aqui essa discussão se a anarquia pode solucionar conflitos de teoria
de propriedade, mas vamos partir da tese comum de que o direito a propriedade se
origina na ocupação, sinalização, proteção e uso. E que este direito pode ser transferido
por venda ou doação. Faz parte do universo das possibilidades lógicas ao estado
qualquer uma dessas coisas?
É fato, como alegam os austros libertários, que o indivíduo existe antes do
estado, ou seja, não existe genealogicamente a precedência possível da apropriação
original do estado ao indivíduo, na história da humanidade certamente que a
apropriação original se deu por indivíduos. Supondo uma comunidade hipotética,
anarquista, em que 200 pessoas , por quaisquer motivo subjetivo, tenha decidido
unanimemente criar um estado, talvez porque estava enfrentando conflitos jurídicos
sobre temas diversos e sobre a propriedade então supôs que uma entidade soberana
governamental que pudesse centralizar o direito de conceder e resguardar título de
propriedade fosse solucionar os conflitos, para tal, tal entidade para poder ser
solucionadora soberana de conflitos sobre direito a propriedade precisa ter monopólio
do direito a concessão de título de propriedade, consequentemente, precisa ser ela
mesma proprietária, afinal, só se pode delegar concessão de propriedade se for
proprietário, logo, essa comunidade de 200 pessoas cria essa estrutura jurídica e define
que toda terra que esta terra delimita é dela. Ou seja, esse Estado hipotético adquiriu
direito a propriedade por DOAÇÃO, isso é possível?
Sendo isso possível, este estado pode a partir de então colonizar terras virgens?
Ou seja, ser apropriador original de outras terras? Este mesmo estado também pode
oferecer capital para comprar terras de terceiros que estão fora de seu território, para
assim, estender seus limites geográficos? Se sim, então um estado pode possuir
legitimidade sobre o território que delimita, tanto por apropriação original, compra ou
doação.
Uma vez que este estado hipotético é legítimo proprietário de suas terras, pode
prestar serviços e cobrar o valor que bem quiser, as taxas que cobra por prestação de
serviço são taxas públicas.
Portanto, é legítimo o estado hipotético que possa surgir como descrito aqui, é
ilegítimo qualquer estado que tenha surgido de forma arbitrária, sem consenso etc.
Entretanto, um estado que tenha surgido de forma legítima pode se corromper e perder
sua legitimidade segundo alguns critérios, entre eles, o direito de ir e vir.
A única coisa que poderia tornar este estado um violador de direitos é se ele
restringir o direito a liberdade de ir e vir, poque a partir daqui, as pessoas mesmo após
terem dado suas terras ao estado e a ele a autoridade de imposição normativa deve ter o
direito de escolher a qualquer momento rompimento de “contrato”, e sair de lá quando
bem entender.
23

2.4 O estado e o condomínio - analogias

O Estado tem um Domo que o impede de sair de dentro dele? Ele o acorrenta
pelos pés? Não? Então você tem direito de deliberar se quer adquirir cidadania em
qualquer outro estado e se mudar? Se sim, é implícito que você possui direito e ir e vir
e de deliberar se quer estar dentro do estado ou fora dele, logo, que concorda ou não
com suas normas ou taxas.
Possíveis objeções:
1. “não há o direito de ir e vir, por exemplo, se você tiver o nome sujo você
não tem passaporte ou direito de sair do estado”
Se você está em dívida com uma entidade que tem direito legal de cobrança por
seus serviços então você é quem primeiro infringiu direitos, além do mais, o seu nome
pode ser sujo não por ter sonegado as taxas da instituição, mas por ter roubado outras
pessoas, assassinado ou estuprado, por qual motivo racional você deveria ter de fato o
direito de sair de um lugar no qual aplicou golpes, matou, assaltou ou estuprou? Será
que devo supor que vocês defendem uma sociedade anarco capitalista em que pessoas
podem aplicar golpes ou matar e sair impunes e fugir? Parta, portanto, primeiro do
pressuposto que o sujeito não está em dívida com a entidade, seja ela privada, seja um
condomínio, uma empresa ou um estado e que, portanto, não estando em dívida deve
ter o direito de ir e vir. Quando o estado impede que pessoas em dívida com a sociedade
fujam dela, ele está justamente garantindo a toda pessoa física ou jurídica que estas
serão amparadas ou que terão vingança contra seus agressores. Ou seja, impedir a
fuga de criminosos é um pressuposto necessário para garantir a manutenção de justiça
aos lesionados.
2. “Não tenho direito de ir e vir, por exemplo, não posso escolher ir aos
EUA por não ter cidadania Americana”

Ser proibido pelos EUA de entrar nele é diferente de ser proibido do Brasil de
sair dele, nenhuma entidade jurídica ou particular deve ser obrigada a permitir a entrada
de todo mundo, quando é do direito de qualquer entidade de arbitrar sobre quem pode
entrar, então você não pode usar isso como argumento para supor uma culpa do
Estado-em-si sua dificuldade contingente de mudar de um país.
3. “Eu não escolhi nascer neste país”

Isso é contingente, a natureza própria da realidade da existência humana não é


algo de qualidade da substância mesma do estado, eu não escolhi nascer no
condomínio do qual mora minha mãe, se minha mãe falecer eu é quem vou ter que
pagar as contas e eu não uso a piscina do condomínio e estarei tendo de pagar um
condomínio caro porque nele está implícito o custo da manutenção da piscina, logo, eu
posso ficar dentro do condomínio sem pagar a taxa do condomínio alegando que eu não
escolhi nascer nele?
24

4. “Se eu não pagar a taxa do estado eu vou preso”

Não é verdade, não é qualidade pressuposta na definição substancial do estado


que você será preso se não pagar suas taxas, prisão é só uma pena da qual o estado
tem a potência de aplicar, ele pode só penhorar seus bens, sujar seu nome para você
não poder realizar transições ou sair do seu território ou pegar empréstimo ou pode te
exilar, ou pode, pasme, não fazer nada. Punir você por não pagar é uma potência do
estado, ele pode não fazer. Aliás, se você não pagar o condomínio o condomínio pode
despejar você (análogo ao exílio), pode por você na justiça e conseguir que penhorem
seus bens para liquidar sua dívida com o condomínio e, em última instância, você pode
ser preso.
5. “Eu tenho um contrato com o condomínio, não com o estado”
Há um contrato implícito com o estado, ao menos em ideia, o que não há, de
fato, é um contrato material com o estado, o que dificulta a percepção do mesmo. Mas
veja, em um relacionamento de um homem e uma mulher, onde a mulher diz “faça
comigo o que quer”, mas que é implícito que isto não implica em poder a esfaquear,
escalpelar ou esfolar, não se pode dizer que há um contrato formal entre os dois? E não
seria cinismo se esta mulher, ao ser levemente estapeada, alegasse outrora na
delegacia da mulher que foi agredida, por motivos de vingança porque, após a noite de
núpcias, foi traída? É claro que você alegaria a autoridade legal que você a estapeou
porque ela mesma incitou uma brincadeira indecente de BDSM, mas a autoridade irá
procurar por provas materiais e, já que não há em contrato assinado a punho um termo
de BDSM entre ambas as partes, então a marca de sua mão vermelha no par de coxas
dela é prova material de que você a agrediu e você é indiciado.
É verdade, não há um contrato material explicito entre o individuo e o estado,
mas isso me parece uma alegação cínica. Os termos do estado são de domínio público,
posso estudar a jurisdição de cada país, sua carta constituinte, as taxas que eles cobram
e decidir que quero tirar titulo de cidadania no Canadá porque lá é melhor do que aqui,
não é implícito, portanto, que á um contrato formal meu com o Canadá e que eu
concordei com seus termos e taxas quando deliberadamente mudei-me para lá?
Se é da falta de prova material que alegam, isso é contingente, será que a fala
de um contrato é qualidade substancial do estado em- si? Ou será que é possível um
estado hipotético que dê em contrato um termo de adesão? Eu poderia estudar todas
as taxas e a constituição e jurisdição e processo legislativo governamental de um país,
decididamente ir para lá na embaixada, ver como posso conseguir título de cidadania,
tirar o título de cidadania e este país me dar um termo de responsabilidade onde assino
assumindo der deliberado morar naquele estado, tornar-me cidadão e que com isto
estou de acordo com seu processo eleitoral, de que estou ciente que suas leis podem
mudar de tantos em tantos anos sob processo eleitoral, que suas taxas são X mas que
podem mudar, sob condição de que determinado estado me garante direito de rescisão
de contrato a qualquer momento que eu quiser, sendo garantido a mim o direito de ir e
vir SOB CONDIÇÃO de não estar em dívida com o estado ou com qualquer entidade
civil ou jurídica daquele estado”.
Perceba que, portanto, basta definirmos como direito universal e inviolável o direito de ir e vir
e de rescisão de contrato
25

Não me parece, portanto, ser possível realizar quaisquer uma dessas


afirmações:
1) O imposto é roubo
2) O estado é uma quadrilha
3) O estado é roubo estacionário
4) O estado é anti ético per-si

Mas é claro, se você alegar que o estado é uma entidade com poder de mais e
que você prefere não arriscar dar esse poder a qualquer pessoa e que prefere viver em
anarquia porque acredita que estados tendem a se corromperem com muita facilidade,
mas que sabe que a ausência de estado traz dificuldade de praxe na forma de solução
de conflitos jurídicos, mas que, ainda assim, você quer arriscar uma anarquia, então não
tenho objeções.
26

3. APORIAS ECONÕMICAS

3.2 Introdução a teleologia aristotélica na praxeologia.

Este capítulo é dedicado a realizar uma breve introdução a teleologia aristotélica


para criarmos um ponto comum do discurso de proximidade com as teses austríacas
para, a partir do ponto comum, mostrarmos possíveis aporias que já estavam
premeditadas entre liberais clássicos e neoclássicos, portanto, não é se quer preciso
encarar essas críticas como sendo de esquerda ou de teses mutualistas contra a EA,
pelo contrário, é possível encontrar as mesmas objeções dentro do próprio liberalismo.
Acredito que o Miorim tenha conhecimento da introdução que será feita aqui, mas na
possibilidade de que este documento gire entre mãos leigas realizo esta introdução para
que o debate seja dado pela compreensão de todos com maior acessibilidade.
É do conhecimento de alguns, e o ideal é que fosse de todos, que a praxeologia
austríaca de Mises tem algumas raízes na teleologia aristotélica. Teleologia vem do
estudo das causas finais, onde por causa final, na ontologia aristotélica, entende-se por
FINALIDADE de algo. No caso, a teleologia aplicada a ação humana é o estudo da
finalidade das ações humanas, ou seja, que de forma a ação humana é propositada.
Deste estudo, Aristóteles constrói a estrutura básica do entendimento de economia que
será esqueleto sobre o qual se constrói boa parte das teses econômicas na escolástica
medieval e que desembocam em teóricos como Adam smith em teorias como “mão
invisível” e, como já dito, na praxeologia austríaca.
Uma vez que Aristóteles parte do pressuposto que o ser humano se distingue das
demais criaturas por ter alma racional, e que, por ser racional entende-se que ele age
racionalmente, significa que, diferente de animais irracionais que agem imperativamente
o ser humano DELIBERA suas ações e as premedita racionalmente, isto é, escolhe
como agir de acordo com suas intenções. Daqui se segue a seguinte estrutura:

1) O ser humano tende a agir na intenção de maximizar seus resultados


(que pode ser entendido como lucro)
2) O ser humano para garantir suas vendas irá manter seus preços
competitivos o quanto possível, para não perder vendas para outro
comerciante
3) O ser humano para garantir a melhor qualidade de serviço irá
aumentar a oferta de remuneração para conseguir garantir os
melhores profissionais, afinal, os professionais escolherão prestar
serviço a quem paga mais.

Assim, sem interferência alguma do estado podemos confiar que o mercado


garantirá baixos preços e altos salários quanto possível (quando se fala em salário aqui,
na época de Aristóteles, diz mais a respeito da remuneração a prestação de serviço
autônomo do que salário de fato, já que o paradigma da mão de obra assalariada ainda
não era comum, afinal, havia escravidão e a mão assalariada sendo escrava não era
remunerada).
27

Perceba o quão é evidente que argumentos como mão invisível saem da raiz
Aristotélica, assim como teorema dos jogos (ou teorema de Nash). Também sai a
tragédia dos comuns, que supõem que a propriedade particular será melhor
administrada que a comum. Mas afinal, qual o problema com a EA então?
O problema é que a EA se louva como a herdeira da teleologia Aristotélica ou
“Salamanquense” da escolástica para ter para si os créditos ou até mesmo para criar
simpatia com religiosos e fazer eles suporem que, portanto, devem seguir a EA uma vez
que ela é herdeira da herança da escolástica e da escola de Salamanca de tradição
católica. O problema é que, para tal, ela ignora uma série de construções teóricas que,
partindo da mesma teleologia Aristotélica justificaram o Estado.
Por exemplo, pelo mesmo pressuposto que o homem age visando o lucro, que pode
sim garantir bons salários e baixos preços em empreendimentos onde haja lucratividade
para o mercado, se afasta também a esperança que o mesmo mercado vá atuar em
áreas não lucrativas, pelo mesmo pressuposto, que incentivo teria o homem de prestar
serviços benéficos a sociedade sem ter lucros? Isso tira a acessibilidade de toda parte
da população que não poderia pagar pelo o que é ofertado pelo mercado ou até mesmo
extinguir algumas prestações de serviços que, por sua natureza mesma, é não lucrativa.
E aqui, em prestações não lucrativas, desenvolve-se entre os clássicos a tese do
monopólio natural e do efeito carona.
Ainda mais importante, é necessário enfatizar que, muito embora as especulações
sobre a ação humana na praxeologia austríaca sejam de fato teleologicamente
aristotélicas, abstraem do Aristotelismo uma coisa fundamental que é sua ética. Em
Aristóteles, a ética da virtude, fundamentada nos transcendentais que se poderia
compreender de Deus, em Tomas de Aquino, por exemplo, demonstrados através de
métodos de abstrações e analogias na tese do máximo grau de perfeição, é
fundamentado a caridade e o serviço ao bem comum. Em Aristóteles, muito embora se
deduza que o direito a propriedade seja particular o mesmo alega que seu uso deva ser
em detrimento do benefício comum. Ou seja, o direito é particular, mas hipotecado ou
resguardado em função do bem comum. É por isso mesmo que, em Aristóteles, uma
economia só seria 100% funcional se seus indivíduos forem caridosos, desta forma,
apesar de Aristóteles estar demonstrando que algumas poderiam se assegurar
APESAR da natureza humana tender ao egoísmo, tantas outras coisas igualmente
essenciais só irão se assegurar em uma sociedade que, primeiramente, for devidamente
moral.

3.3 O monopólio Natural - Aporia I

A tese do monopólio natural era muito comum entre clássicos, pressuposto pelo qual
os primeiros liberais eram no mínimo minarquistas, mas que nunca conseguiram
conceber a possibilidade da extinção do estado. O porque os adeptos da escola
austríaca, ao menos no Brasil, parecem não ter compreendido este problema me é um
mistério, já vi vídeos de Paulo Kogos ou Hilde reduzindo o argumento a um “sofisma de
esquerda” ou “mentira inventada pelo estado”. Alguns confundiram o argumento e
supõem que monopólios “naturais” são monopólios artificiais que só existem por culpa
do estado, isso demonstra que nunca compreenderam de fato o problema.
Um monopólio natural é, geralmente, uma fonte de recurso (comodities, matéria
prima, fonte de energia) que por sua própria natureza contingente impossibilita uma livre
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concorrência, porque para conseguir o explorar é necessário o monopolizar, caso


contrário, a exploração de tal recurso ou prestação de tal serviço seria impossível.
Exemplos:
1) Uma cachoeira: Para conseguir gerar energia hidroelétrica por transformação de
energia cinética da queda d’agua em energia elétrica nas turbinas de uma central
geradora é necessário construir uma represa que acaba com a cachoeira, é
impossível que mais de uma empresa consiga gerar energia com a mesma queda
d’água pois não tem como construir mais de uma represa para distribuir o
aproveitamento. Perceba. Não é como uma mineração, onde cada pessoa pode
pegar suma picareta e entrar na mesma caverna para quebrar pedra e competir
para minerar, ou como um garimpo, onde todos podem ficar a margem do mesmo
rio garimpando e competirem, não é necessário monopolizar toda a caverna ou
todo um rio para garimpo ou mineração, mas é preciso monopolizar toda uma
cachoeira para conseguir gerar energia elétrica. A única forma de uma empresa
monopolizar uma cachoeira seria se o dono da hidrelétrica fosse também dono da
cachoeira, e qual o critério para ser dono de uma cachoeira? Precisaria ser dono
privado do rio? De quantos km de rio antes e depois da cachoeira? Isso gera um
debate jurídico bem complicado, e se alguém é proprietário particular de um rio
inteiro ou de uma cachoeira, pode atrapalhar toda uma economia local de pessoas
que desde sempre sobrevivem de pescar neste rio. É claro que ancaps poderão
alegar que o dono particular de um rio poderia cobrar para que pessoas pesquem
nos rios, assim, a economia de pesca continuaria, mas mais uma vez isso causa a
exclusão daqueles que não poderiam pagar, ou no mínimo faria aumentar o preço
final do peixe na feira, já que agora os pescadores precisam, além do lucro líquido,
pagar o custo da taxa de venda. Se a cachoeira ou rio é o único perto de um espaço
gigantesco de terra e é monopolizado por uma única pessoa, esta pessoa poderia
cobrar quanto quisesse, afinal, não tem concorrência que possa garantir, como no
argumento da mão invisível ou da teleologia aristotélica, a baixa de preços.

2) Distribuição de energia elétrica: Não é possível que empresas consigam competir


no mesmo espaço geográfico a distribuição de energia elétrica, se 30 empresas
construírem postes pelas caçadas e passarem arbitrariamente seus fios seria um
caos, uma empresa atrapalharia a outra, já que cada cabo condutor percorrido por
corrente gera campos eletromagnéticos que causam indução de tensão e
harmônico que distorce o sinal do outro, o consumidor final receberia uma energia
de má qualidade e correria risco de acidente por culpa desta competição. É por
isso que o Estado precisa separar o espaço geográfico em blocos e dar a cada
bloco uma concessão, permitindo a uma única concessionária a fornecer energia
ali.

3) Canais de rádio: Se uma pessoa criar um canal de rádio na mesma frequência que
outro, irá atrapalhar a transmissão daquele. Uma frequência de onda de rádio é um
monopólio natural pois apenas uma pessoa pode conseguir prestar um serviço de
rádio na mesma faixa de frequência. Sem um órgão regulamentador que garanta
uma concessão a uma rádio frequência a livre competição poderia gerar um caos
na transmissão de rádio. É por isso que é preciso pagar pelo direito de ter a
concessão de explorar uma rádio frequência e em determinado horário. Podemos
dizer que há competição do livre mercado entre os canais de rádio para entreter o
público, mas não há uma competição dentro de uma rádio frequência, de qualquer
forma, se não fosse uma entidade que possa conceder o direito a monopólio de
uma faixa de frequência todas seriam um caos.

4) Rede de Esgoto: O mesmo problema da distribuição de energia elétrica, imagina


que você contrata uma empresa de saneamento para que ela leve esgoto a sua
casa, essa empresa X tem uma central de tratamento de água e quebra todas as
29

ruas por vários bairros, km e km até chegar na sua casa. O seu vizinho contrata
outra empresa, essa outra empresa, quebra mais km e km de ruas atravessando
bairros da central de tratamento de esgoto particular dela até a casa dele, e assim
sucessivamente, você tem 30 empresas de esgoto quebrando as ruas
sistematicamente, e uma empresa pode não saber o mapeamento da outra, uma
acaba estourando os canos da outra, os canos disputam espaço debaixo da terra
e é retirada tanta terra que pode comprometer toda estrutura e afundar um
quarteirão inteiro, sempre que uma empresa quiser fazer uma manutenção ela
precisaria interromper os serviços da outra, seria um caos, então é preciso uma
entidade com poder de conceder monopólios para permitir a uma única empresa
a concessão de construir rede de esgoto de forma planejada por região geográfica.

Como já perceberam, tento ser o mais analítico possível e honesto, portanto, cabe
sinalizar que estes problemas são de ordem CONTINGENTE, não necessária, isto é,
eles não tornam o ancapismo impossível per-si, porque não dizem respeito ao universo
de possibilidade lógica, dizem respeito a limitações de praxe, talvez no futuro existam
mini-turbinas que otimizem tanto a transformação de energia cinética da água em
elétrica que várias empresas poderão colocar suas turbinas no mesmo rio ou na mesma
quadra d’agua, ou seja, esses monopólios naturais são problemas fenomênicos,
contingentes, que talvez sejam solucionados com o desenvolvimento tecno científico.
Isso pode, ao menos, dar possibilidade para a defesa de um anarco capitalismo
gradualista e aceleracionista, mas impõem limites de praxe a “românticos” que
anseiam pela queda imediata do estado, e ainda assim, não há garantia alguma que
todos os monopólios naturais serão extintos, talvez sempre existam alguns, logo,
sociedades anarco capitalistas sempre terão conflitos intermináveis para solucionar a
respeito de quem terá direito de explorar tal recurso em determinado lugar.

3.4 O efeito carona – Aporia II

O efeito carona é o maior problema ao que diz respeito o que foi sinalizado no tópico
2, das prestações de serviço não lucrativa. Imagine que um amigo seu chama um uber,
ele paga o uber e te oferece carona, e é isso mesmo, você pega CARONA num serviço
pelo qual não pagou. O efeito carona é um efeito que ocorre em prestações de serviço
que, pela própria natureza destes, ocorre em um espaço geográfico em que as pessoas
dentro daquela área são automaticamente beneficiadas pelo mesmo serviço, sejam elas
contratantes do serviço ou não.
Um exemplo claro, vamos supor que não existisse uma solução tecnológica para
criar senhas de acesso a uma rede Wifi. Vamos voltar no tempo e supor que acabaram
de inventar a transmissão de sinal por Wifi, mas que não desenvolveram ainda uma
forma de restringir o acesso apenas aos contratantes. Você é o primeiro da rua a
contratar um serviço de internet, mas como o sinal que chega na sua casa pode ser
captado por aparelhos de terceiros num raio de X metros, todas as pessoas podem
pegar o seu sinal, por que elas pagariam? O sinal fica prejudicado a ponto que o serviço
não vale a pena para você, então há duas opções, ou você cancela o serviço ou você
cobra da empresa que ela aumente o servidor dela para ter um sinal melhor, capaz de
suportar todas as pessoas que pegam o mesmo sinal. A empresa teria que investir muito
para ter um sinal de alta qualidade e teria que aumentar o preço final para você, no final,
não valeria apena. O serviço de WIFI só foi possível porque houve a tecnologia que
torna capaz a criptografia de sinal que permite que só com acesso a senha se possa
30

pegar o seu sinal. Porém, são vários os serviços que tem efeito carona que não podem
ser “criptografados”, por exemplo, iluminação. E se você existe uma rua sem luz e você
contrata uma concessionária para construir um poste e levar luz até a frente da sua
casa, de forma que torne a frente da sua casa mais segura, o seu vizinho, que não paga
a luz, é beneficiado, pois a luz do poste também ilumina a frente da casa dele, por que
ele contrataria o mesmo serviço então? Para ter de iluminar a rua inteira, como a rua
solucionaria este conflito? Pois várias pessoas espertinhas vão alegar que não
concordam com o serviço e, portanto, não vão pagar, afinal, sabem que vão gozar do
serviço mesmo que não pagarem. As poucas pessoas que se uniram para pagar a
iluminação da rua, com o tempo, ficam ressentidas, afinal, elas pagam sozinha uma
conta altíssima para iluminar toda uma rua em que todas as pessoas se beneficiam e
não querem pagar. O exemplo é ridicularizado por alguns, mas é um problema comum
que quem mora em condomínio, paga as contas e participa de assembleias
condominiais enfrenta mensalmente. Neste exato momento as pessoas do meu
condomínio brigam sobre se custear a iluminação da área comum ou não, que não está
iluminada em um ponto. Alguns não querem ajudar a pagar porque acham
desnecessário, mas caso uma minoria queira pagar, estes que não querem pagar
gozaram do serviço mesmo assim. Como soluciona?
Uma das teses da possível genealogia do estado consiste ai, pois a proteção de
fronteira é um efeito carona, se em uma sociedade até então anarquista,
constantemente assaltada por saqueadores decide que é preciso de proteção de
fronteira, então meia dúzia de homens dispostos se unem para proteger as fronteiras,
porém, só algumas pessoas querem pagar o serviço, isso gera um sentimento de
ressentimento, afinal, todos ali são beneficiados pela proteção mas só alguns ajudam a
pagar. O acúmulo sucessivo de várias prestações de serviço sobre efeito carona faz
com que, cedo ou tarde, seja inevitável que para solucionar conflitos internos da
comunidade decidam que todos deverão pagar e, quem não quiser pagar, que se mude.
Os que insistem em não pagar são exilados e a partir de então surge o germe do estado
naquela sociedade, porque ou todos pagam ou os serviços essenciais que tem efeito
carona não geram incentivo para quem presta determinado serviço, isso faz o serviço
se extinguir, ou seja, é preciso um órgão com poder de arbitrar taxas públicas para que
haja incentivo de prestações destes serviços.
As vezes o efeito carona e o monopólio natural ocorrem juntos, por exemplo, uma
estação de Rádio. Porque eu investiria milhões na construção de uma torre de rádio
para emitir sinais em uma rádio frequência se eu não teria como cobrar o direito de uso
dele? No momento que eu disponibilizo a radio frequência, qualquer pessoa poderia
“surfar” ou “pegar carona” e emitir sinais na minha frequência, então porque pagariam
para tal? Eu só me incentivo a construir uma estação e a emitir um sinal de uma
frequência se eu tiver resguardo de uma entidade que obrigue terceiros a me pagarem
pelo direito de usar minha radio frequência sob coação.
Por que eu investiria bilhões construindo Torres de transmissão de energia, sub
estações de transformação de energia todo o cabeamento para levar energia elétrica
para um bairro se eu não tenho a garantia que as pessoas vão me pagar por esta
disponibilidade? E se as pessoas todas colocarem placa fotovoltaica para serem
autônomas, eu iria falir, então as concessionárias de energia só prestam esse serviço
porque o estado garante a elas o direito de cobrar uma taxa de disponibilidade
PS. Eu só dei poucos exemplos para o pdf ficar sucinto, acreditem, eu poderia
ocupar 40 páginas com exemplos de monopólios naturais e efeito carona, como o
tradicional “ quem faria as estradas”, e quando ancaps debocham e alegam que as
31

sociedades medievais eram “proto libertárias” e construíam suas estradas, eu devo


lembrar que essas sociedades eram organizadas em modelo de guildas, guildas eram
associações de produtores que faziam medidas de proteção, arbitrando preços etc e
coagindo prestadores de serviço que estavam fora da guilda que queriam competir.
Foram essas guildas que faziam estradas e outras construções de “espaço público”, ou
seja, será que era “anarco capitalismo”? Pelo contrário, é um modelo de sociedade
corporativa e mutualista, como é defendido por distrubutistas católicos ou mutualistas
como Carson ou Proudhon. As associações que construíam uma praça mercantil e
estradas para facilitar o comércio na mesma também tinham direito, concedido pelo
juízo popular, de arbitrar se quisesse quem poderia comercializar por aquelas rotas ou
naquelas praças. Haviam casos em que, comerciantes que vendiam produtos a um
preço que as associações consideravam “injusto” eram expulsos das praças por meio
de agressão física. É irônico, porque o próprio Paulo Kogos odeia o modelo de guilda
medieval e diz que a Guilda era o proto-sindicalismo, mas o próprio fala que a economia
medieval era “proto ancap”, contradição em pessoa.
Que incentivo pessoas teriam para construir km e km de estradas se todos são
beneficiados por elas mesmo que não paguem e , logo, não irão querer pagar. E depois
de construída, como fica a manutenção da estrada? Da iluminação de espaços
públicos? Por vários pontos, muitos, muitos mesmo, é que surge a necessidade do
Estado como entidade com poder de monopólio, não para que ele próprio seja um
monopolizador, mas que ele possa GARANTIR monopólio por concessão porque só
assim a própria iniciativa privada tem INCENTIVO para prestar determinado serviço, o
estado GARANTE a ela o direito de cobrar taxa de todos por um serviço que tem efeito
carona e garante a ela o MONOPOLIO de um recurso natural que é naturalmente um
monopólio para solucionar conflitos. A taxa pública seria, portanto, não uma imposição
de um estado arbitrário que surgiu como um ladrão estacionário como diz Rothbard,
pelo contrário, ele teria surgido pantarquicamente, emanado pela própria população
como meio de SOLUCIONAR CONFLITOS que o livre mercado por ele mesmo não
consegue solucionar.
No capítulo 4, em contradições, discutiremos as CIDADES PRIVADAS como
possível solução disto e uma auto-contradição para esta solução.
Acredito que, a esta altura da leitura, alguns ancaps tenham assumido a dificuldade
de resolver estes problemas de praxe no anarco-capitalismo, mas certamente que se
asseguram no austrolibertarianismo sob alegações de que, afinal, se trata de ética e
não de utilidade, e que, portanto, defendem o anarco capitalismo porque é o único
sistema ético, independente se ele terá problemas ou não. É verdade que minhas
objeções não irão afetar em nada o austro libertário que esclarecidamente assume-se
somente enquanto ético, e que percebe o problema prático do sistema, considere,
portanto, que estas objeções são para ancaps que insistentemente alegam certezas
sobre o como que o anarco capitalismo seria mais desenvolvido ou como teria menos
problemas sociais que no atual estado.
32

3.5 O problema do cálculo econômico

A escola austríaca supõe a impossibilidade do comunismo porque, com uma


economia planificada, não é possível calcular preços e sem calcular preços não há
economia.
Isto é falso, sem preços o que é impossível é uma economia de mercado, é fato que
não há mercado em uma economia comunista, mas o comunismo não se supõe mesmo
dentro de uma economia de mercado. A planificação econômica pode ser entendida
em analogia a uma economia tribal. Uma tribo indígena pode, sob orientação do líder
religioso que é a figura de autoridade, ser divida em grupos de trabalho, o líder religioso
arbitra que as mulheres cuidem dos partos, dos feridos e da cozinha, separe um grupo
de homens para plantar e colher mandiocas, batatas e trigo, separe outro grupo de
homens para caçar animais silvestres e separe outro grupo de homens proteção de
fronteira. Não é necessário calculo econômico porque não há o salário remunerado do
trabalho nem há internamente a venda de mercadorias, os grãos e frutos colhidos e as
carnes caçadas são cozinhadas coletivamente e distribuídas pelas pessoas segundo
suas necessidades, quando há grãos , frutos e carnes suficiente em estoque o plano de
divisão do trabalho muda e o grupo de homens antes destinado a caça é destinado a
lenhar madeira para construção imediata ou futura de novas estruturas civis e assim
sucessivamente. Percebe? A impossibilidade de precificação em nada impossibilita a
existência deste modelo, modelo que, inclusive, apesar de não ter troca interna poderia
ter troca externa em escambo, uma tribo indígena pode viver em um lugar que tenha
escassez de um recurso em específico enquanto outra tribo tenha escassez de outro
recurso, e é interessante a estas trocar entre si uma com a outra os recursos que, para
cada uma delas está em abundância mas que para outra está escasso, é pouco importa
a dificuldade de entendermos formalmente como essas sociedades iriam realizar essas
trocas, como quanto X de produto A é justo ser trocado por quanto Y e um produto B, a
dificuldade de precificação não impossibilita a troca na prática destes produtos, embora
possa fazer com que por um acaso uma tribo saia em benefício sobre a outra, a maior
dificuldade dessas economias seria em como lastrear uma possível moeda, para que
se possa otimizar o acumulo de capital, portanto, sim, econômicas capitalistas por terem
maior facilidade de precificação tem maior facilidade em lastrear moedas e, com uma
economia monetária, acumular capital. Mas essa dificuldade ou vantagem de uma
economia sobre a outra é só isso mesmo, não implica em impossibilidade lógica do
comunismo. Seria como alegar que as sociedades humanas só teriam sido capazes de
sobreviver depois da criação da moeda, do lastro e da troca, ou que o desenvolvimento
destas só teria sido possível assim. Astecas, Incas , Maias , Egípcios, eram todas
economias planificadas, não eram economias de mercado, e todas de desenvolveram
com expansão de seu território em construção civil, de estrada e fronteira justamente
porque tinham como acumular recurso, ou seja, acumular capital. O acúmulo de capital
portanto não é o que define capitalismo ou o distingue de outras economias em gênero,
o acúmulo de capital apenas distancia muito o capitalismo de outras economias em
grau.
33

4. Contradições

Aqui não são contradições em si do sistema austro libertário, mas


contradições comuns do discurso anarco capitalista nas redes sociais desse
brazilsão. Gostaria de levantar alguns que seria interessante de se comentar
com Miorim.

4.2 “O IDH capitalista” – contradições I

Alguns anarco capitalistas quando querem declarar a superioridade do capitalismo


apontam para o IDH ou vitória geral em todos os âmbitos de países como Inglaterra,
Austrália, Canadá ou EUA, porém, quando os anticapitalistas apontam, ao mesmo
tempo, o processo de favelização e disparidade da desigualdade de outros países
também capitalistas os mesmos sujeitos partem por alegar que esses países não são
capitalistas, afinal, eles têm estado e tem regulamentação, logo, são socialistas. Veja,
é muita cara de pau tentar evidenciar que a parte boa de X é capitalismo e jogar a parte
ruim de X para de baixo do tapete como se não o fosse, afinal, ou é capitalismo ou não
é.
Um debate comum entre liberais e desenvolvimentistas ou social-democratas de
toda espécie, que nestas definições também são capitalistas, embora capitalismo-
assistencialista, é que os sociais-democratas alegam que países Europeus de melhor
IDH o são graças as políticas públicas de assistência social, ou a políticas públicas de
desenvolvimento nacional, enquanto os liberais alegam que estes países são melhores
em IDH graças a liberdade econômica, como os bancos da suíça, ou tantos outros
paraísos fiscais e facilidade geral de empreender ou menor direito trabalhista, e que os
países de terceiro mundo não seriam pior por não terem igual desenvolvimentismo , mas
que, seriam pior por terem mais impostos, regulamentação e protecionismo.
Esse debate é muito complexo que supor mais ou menos imposto, por exemplo, em
todo estudo de possibilidade de reforma tributária percebe-se que a questão no Brasil
não é supostamente altos impostos mas sim que tais impostos são mal alocados, os
países europeus tem impostos menores sobre produto ou transição, logo, o impacto
direto no mercado é menor, porém, tem impostos sobre a renda ou herança maiores
que os daqui. A escola austríaca não parece ter um estudo ou se quer se comprometer
a realizar tal estudo, de ver quais impostos X, Y ou N impostos específicos causam
maior ou menor distorção no mercado, também parece ignorar outros fatores históricos
que contribuem para toda a questão, por exemplo, ignorar que esses países Europeus
foram desde sempre colônias de ocupação, onde as famílias ricas iam para viver e que
portanto os países colonos aplicaram capital para os desenvolver, enquanto países
como o Brasil foram colônias de exploração, aqui, foram jogados escravos recém
libertos que criaram o caos da favelização enquanto alguns países Europeus de primeiro
mundo jamais passaram por favelização porque não passaram pelo mesmo processo
de exploração. Alguns austro libertários nesta altura do texto podem estar supondo em
evidenciar que isso só reforça que a culpa da pobreza nestes países é do estado já que
ele mesmo colonizou em exploração, escravizou e o favelizou, mas isso ignora o lado
contrário, que foi também graças a esses estado que os países de primeiro mundo que
foram desenvolvidos para moradia. Alguns austro libertários ou liberais mesmo alegam
que a crise no Brasil é o imposto e a regulamentação, não a falta de assistência, afinal,
34

há políticas de assistencialismo aqui como há políticas de assistencialismo na Noruega,


Finlândia, Escandinávia ou Canadá. Ou seja, se assumirmos S como assistencialismo
e países de terceiro mundo como P e países de primeiro mundo como Q, temos que:
1. P tem S e é super desenvolvido
2. Q tem S e é pouco desenvolvido

Logo, não se poderia supor que S é causa do super desenvolvimento e sim que ela
é contingente. O problema dessa abordagem analítica é que ela ignora N fatores que
giram em torno destes países, como os já citados, a escravidão e favelização histórica.
Ou seja, assumindo contingentes históricos como N, então S pode sim ter mérito do
super desenvolvimento de P porque P não tem N, pois N atrapalha S.

1. P não tem N, aplicou S e se super desenvolveu.


2. Q tem N, aplicou S e não se super desenvolveu.

Ou seja, assistencialismo só não funciona no terceiro mundo com a mesma eficácia


que no primeiro mundo porque há N fatores contingentes aqui que atrapalham o
processo, entre mais fatores, a dívida externa, a falta de indústria nacional ou
independência econômica por não termos a própria tecnologia etc, N fatores estes que
podem ser adquiridos por outro signo, assumindo que desenvolvimentismo é D.
Não confundam assistencialismo com desenvolvimentismo, assistencialismo é
pegar parte da arrecadação líquida e redistribuir, enquanto desenvolvimentismo é
aplicar arrecadação em financiamento de pesquisa para criação tecno-científica, se
industrializar e ser independente do mercado externo.
Percebam, aqui já há a denúncia de outra carência no debate nacional, muitos
debatem sem conseguir distinguir desenvolvimentismo de assistencialismo, assim como
protecionismo é outro fenômeno, assim como arrecadação é outro. Ou seja, não é
possível jogar tudo em uma caixinha que simboliza “interferência estatal” e reduzir a
discussão em mais ou menos interferência, não, uma análise lógica, analítica, é
investigar fenômeno por fenômeno enquanto tal e tal, há países que podem ter somente
um, dois, ou mais fenômenos de interferência.
Tendo D como desenvolvimentismo, se N em Q impede que S tenha efeito, e se eu
supor que D soluciona N, então.

1. Q tem N, logo precisa de D e S, portanto, Q tendo N só não se desenvolveu com


a aplicação de S pois não tem D.
2. P historicamente teve D, logo não tem N, logo aplicação de S teve excelente
resultado.

O que estou dizendo é: Países de primeiro mundo primeiro tiveram estados


desenvolvendo a própria burguesia nacional, os industrializando e investindo em
desenvolvimento tecno científico ( D), uma vez tendo D, e jamais passado por problemas
de favelização ou exploração colonial ( N), sempre tiveram boa produção per capta,
35

logo, a arrecadação desta produção pode proporcionar uma boa redistribuição


assistencialista ( S) , o que mantém estes países desenvolvidos e sem desigualdade.
Não é mais justo simplesmente dizer que, por serem capitalismo, APESAR de
regulamentados, já são melhores que o socialismo e que, não tendo regulamentação,
seriam ainda melhores?
Por outro lado, vejo que é quase há uma impossibilidade de alegar o crescimento
econômico destes países como algo que ocorreu APESAR do seu lado ruim, que é a
formação da corporação, da coligação público privada etc, e é aqui que entra o próximo
tema de debate.
A conclusão deste capítulo fica a de que a Escola austríaca parece ter reduzido o
debate a mais ou menos estado, como se fosse possível que todo fenômeno de
interferência de estado levasse a necessariamente os mesmos impactos e, portanto,
pudessem ser ajuizados como se fossem de mesma natureza, isto é falso. É claro que,
esta forma de pensar a economia pela EA, ao menos miseniana, se dá justamente pela
Praxeologia, onde se supõem que pode-se a partir do que se infere como thelos da ação
humana, conseguir concluir por dedução impactos da economia a partir das ações de
mercado, o problema disto é que, filosoficamente, não se pode supor que da observação
da ação humana é possível inferir sua thelos, é uma discussão Kantiana sobre a
possibilidade ou não de conhecer a coisa-em-si, ou a causa-formal das substâncias a
partir do que se infere de seus fenômenos, ou de seus acidentes apresentados aos
sentidos no tempo-espaço pelas causas materiais. Pode ser que tudo o que se entende
por thelos da ação humana de Aristóteles a Mises seja falso, logo, não há segurança
alguma neste método de deduções.
Outras escolas podem, portanto, alegar o que aleguei: É preciso estudar fenômeno
por fenômeno econômico e ver, laboratorialmente, os impactos que causam para
retificar as próprias inferências a fim de que, com um espaço cada vez maior de espaço
amostral, aproximar o que se infere do que é universal de fato a fim de poder credibilizar
cada vez mais as deduções, como é descrito pelo racionalismo crítico de Karl Popper.
Entretanto, a inferência direta, sem cautela, do que seria causa e efeito da ação do
estado na economia e os impactos nesta também pode causar falsos juízos, exemplo,
ainda que adeptos da EA ditos Misenianos tanto gostem da praxeologia os próprios
argumentam fora dela sem perceber, quando alguém diz universaliza, por exemplo, o
fenômeno da crise de 29 dizendo que sempre que o estado emitir moeda para o banco
central para este fazer empréstimo a juros baixo a crise de 29 vai se repetir isto não é
praxeologia, isto é estar tomando inferências por juízo sintético posteriori do então
abstraindo o que se conhece das inferências para universalizar um juízo para fazer
supostas deduções. Quando alguém usa como exemplo um país por N característica
dele para supostamente provar uma causa > efeito, universalizando o fenômeno, este
alguém não está usando praxeologia. Ambos erram, tanto o que alega com certeza
supostamente apriori de que, “se aumentar imposto X o investidor vai sair do país”
porque pode deduzir as ações humanas a partir do conhecimento de sua thelos, por
praxeologia, tanto o que alega com certeza que sabe que isso vai acontecer porque isso
já ocorreu em país Y e foi assim.
Não estou com isso querendo negar todo mérito ou utilidade da praxeologia, apenas
apontando que ela tem limitações e pode errar, e que, apesar dela ser um método
possível, não implica em negação de quaisquer outros métodos mais empiristas.
Acredito eu que um cientista econômico, como qualquer cientista, pode ter vários
instrumentos de medição, quantos mais souber usar, melhor, e reconhecendo sempre
36

que todos os métodos são limitados e nenhum pode garantir afirmações


pretensiosamente irrefutáveis ou infalíveis.

4.3 “Da meritocracia” – contradições II

Um discurso comum entre liberais e libertários é o de que aqueles que são ricos
o são por “ mérito”, entre várias possíveis justificações do que seria o mérito, a mais
comum entre austríacos é o mérito da “ poupança”, que alegam que uma classe teria
poupado dinheiro para conseguir empreender enquanto a outra não poupou, e isto
seria o motivo pela desigualdade entre os que possuem o meio de produção e os
que não possuem, e é claro, o faturamento dos que possuem o meio de produção
sobre o trabalho dos que não o possuem é justificável pela preferência temporal,
onde é merecido que aquele que se sacrificou por anos para poupar dinheiro tenha
uma recompensa, até porque, se a poupança não fosse recompensada ninguém
pouparia, logo, não existiria mais empreendedores e logo não existiria, quiçá, nem
o desenvolvimento industrial.
Pois bem, não quero discutir a preferência temporal em si ou se é merecido ou
não ser recompensado pelos anos de poupança, essa discussão não será
valorativa, será uma discussão de fato histórico. Quero questionar se houve de fato
essa suposta poupança ou não. Será que o Vale do Silício, os tigres asiáticos ou as
revoluções industriais aconteceram porque famílias pouparam moedinha em
moedinha por séculos a ponto de terem um capital de entrada para investir em
desenvolvimento tecno científico? Isso é falso. Entidade privada alguma teria sido
capaz de centralizar capital para conseguir tamanho investimento, foi o estado, com
o poder monumental de centralizar capital pelo imposto que conseguiu fazer
florescer estes empreendimentos, por empréstimo , financiamento direto ou
licitações fez acordos público-privados em que deu a algumas entidades o
monopólio de uma prestação de serviço, resumidamente, o ESTADO desenvolveu
a própria burguesia local, então as grandes empresas , sobretudo, de pesquisa e
desenvolvimento tecno científico, como ocorreu na china, EUA, tigres asiáticos e
afins, foram alavancadas com subsídio governamental. E então pergunto, quando
se percebe que o “grande capital privado” existe e existiu sob proteção e incentivo
público, será que a “meritocracia” continua tendo sentido?
Sei que essa discussão não é nova no meio libertário e que alguns já
reconhecem que a revolução industrial ocorreu sob a edge do estado, e que,
portanto, as mazelas da má distribuição de renda e do capital e o monopólio que
desde sempre existe no que a esquerda chama de capitalismo teria sido, desde
sempre, culpa do estado justamente por isso, pois foi o Estado que, por leis,
desabrigou os pequenos produtores rurais, deu suas propriedades a própria
burguesia local, investiu nelas e com leis de proteção a monopólio manteve o
incentivo delas de desenvolver sua indústria, e então forçou os desapropriados a se
assalariarem. Entretanto, isso aponta nosso segundo tópico de CONTRADIÇÕES.
Alguns libertários iram insistir que essas mazelas nunca foram fruto do capitalismo
e sim do ESTADO, já que o capitalismo seria só “livre mercado”, e se todas essas
mazelas ocorreram por intervenção do estado, através do qual a burguesia utiliza
de seu poder para proteger seu monopólio, então isso não poderia ser capitalismo.
Veja a contradição, hora os capitalistas alegam a superioridade do capitalismo
porque ele desenvolveu indústria, faz revolução tecno-científica etc., outrora, alegam
37

que o monopólio e a má distribuição do capital não é capitalismo, mas culpa do


estado corporativista. O problema aqui é que essas revoluções e esses
desenvolvimento técnico científicos e o estado corporativista não são dois
fenômenos distintos, de forma que a um fenômeno possa se dar o mérito do
capitalismo e o outro ser dado ao demérito do estado, isso é um único fenômeno,
porque pode-se alegar que tal desenvolvimento técnico científico SÓ ocorreu graças
ao estado corporativista, justamente porque um livre mercado jamais conseguiria
centralizar capital suficiente para alavancar tal empreendimento, e mesmo que
alguma família conseguisse poupar por gerações capital suficiente para dar entrada
em tal empreendimento talvez nem o fizesse. Veja, investir milhões ou bilhões em
PESQUISA para uma possível nova tecnologia é um investimento de altíssimo risco,
afinal, não há certeza que tal tecnologia funcionará, e nem há certeza se, caso
funcione, que existirá demanda interessada, e caso tenha, demoraria tempo demais
para conseguir o retorno desse empreendimento inicial, pode levar mais de 100 anos
após o custo de empreendimento para que este custo seja pago e comece a ter
liquidez. Quem investiria em algo que só daria retorno depois de 100 anos, depois
de já estar morto? E o roubo de patente? Imagina investir milhões ou bilhões em 30
anos de pesquisa para desenvolver uma tecnologia para, quando vender o primeiro
produto algum chinês pegar o produto, fazer engenharia reversa e com 1/10 do custo
e em um ano conseguir roubar sua tecnologia, e ele será altamente competitivo,
afinal, você precisa cobrar um alto preço pelo produto para conseguir pagar o
investimento inicial o mais cedo possível, como ele não teve gasto com investimento
inicial, apenas roubou tecnologia, ele pode cobrar metade do seu preço final do
produto. O que ocorre com o estado é que o estado por leis de proteção GARANTE
o lucro do empreendimento e o protege de falência, por exemplo, no Brasil, há uma
lei do estado que garante as concessionárias de energia elétrica a cobrarem uma
taxa de disponibilidade de serviço. Só pela energia elétrica ser disponível a você,
você é obrigado a pagar uma taxa, mesmo que não consuma energia elétrica
nenhuma. Isso ocorre porque, historicamente, o estado em licitação criou leis que
protegeriam as concessionárias de falência para que se incentivassem a investir no
setor. A própria concessão é, por si só, uma medida protetiva que garante a
manutenção do monopólio da empresa concessionária, como o estado só permite
uma prestação de serviço por concessão e o dá, por região, a uma única empresa,
há um incentivo desta empresa para prestar esse serviço pois é garantia de que não
terá concorrência. Ou seja, ou você é pró livre-mercado ou “capitalismo de laissez-
faire” e assume de fato que as mazelas são culpa do estado mas que, ao mesmo
tempo, o desenvolvimento tecno científico também o é, e que não há garantia
alguma de que no anarco capitalismo iria existir desenvolvimento como existiu com
o estado, ou assume de vez que o estado corporativista é sim uma forma de
capitalismo, que, apesar do lado ruim, foi este capitalismo mesmo que garantiu o
grande desenvolvimento tecno científico, mas que ocorreu sobre tudo graças ao
modelo corporativista de coligação público-privado e não pelo livre mercado.
Possível objeção: Os anarco capitalistas podem objetar que este tópico comete
o mesmo erro que o texto outrora denúncia que é o historicismo, ou seja, que se não
se poderia supor que só porque em toda a história os saltos de desenvolvimento
ocorreram graças ao estado ou que, até então, não se viu outra forma de alto
potêncial de centralização de capital que não o fosse pelo estado, é possível supor
hipostasias onde o livre mercado acumule capital suficiente para os saltos de
desenvolvimento, ou seja, o desenvolvimento ter se dado pelo estado é uma
contingência não uma necessidade. Entretanto, é de se salientar que cabo aos
38

anarco capitalistas, no caso, o Miorim em resposta a este documento, possíveis


hipóteses para tal, como um livre mercado descentralizado e altamente competitivo
conseguiria centralizar capital suficiente ou, inclusive, como os indivíduos humanos
poderiam ser INCENTIVADOS a tal empreitada em as proteções e garantias das
licitações estaduais, e como centralizariam tanto capital quanto o estado é capaz de
centralizar com a arrecadação compulsória, vale lembrar, inclusive, que além do
imposto, houveram as colonizações com a exploração sistemática de recursos
naturais de terras de outros povos e, intensificando este fenômeno, a escravidão, ou
seja, 5 séculos de trabalho humano não remunerado, me parece completamente
irreal supor um mercado descentralizado e altamente competitivo uma forma de
conseguir centralizar recurso como foi feito na história pelos estados modernos a fim
de alcançar os mesmos saltos de desenvolvimentismo.

4.4 “A cidade privada e o imposto” – contradição III

Eis que surge no meio ancap uma resposta a muitas das objeções anteriores, por
exemplo, ao efeito carona e ao monopólio natural, é a cidade privada.
Alegando que cidades inteiras poderiam ser privadas, então o dono particular desta
cidade teria legitimidade, diferente do estado, de dar direito de concessões, desta forma,
o dono da cidade privada concederia o direito a geração de energia, transmissão ou
distribuição, estações de rádio, saneamento, construção de estradas e tudo o que foi
levantado até aqui, solucionando todos os possíveis conflitos infindáveis em uma
anarquia de livre mercado de jurisdição descentralizada, a cidade privada proposta por
Hoppe seria uma resposta centralizada do poder jurídico que soluciona as aporias do
sistema rothbardiano.
Não há uma objeção em si a esta proposta, pelo contrário, acho de fato que ela se
assemelharia a um sistema neo-feudal muito interessante, quiçá, um sistema primo do
ideal de monarquia federalista descentralizada de alguns distributistas, visto que, por
analogia, o próprio Hoppe sinalizou que uma monarquia ou um feudo é o mais próximo
entre os sistemas de estado de uma legitimidade particular. Apesar do sistema não ser
uma aporia em si ele torna os motivos pelos quais se reivindicaria anarco capitalismo
serem redundantes. Alguns ancaps reclamam do estado justamente por ser através do
estado que se cria monopólios, então como a cidade privada concedendo título de
monopólio seria melhor? Alguns ancaps reclamam dos impostos, porque pagam taxas
de serviço das quais não gozam, então como uma cidade privada seria melhor? O dono
de uma cidade privada pode cobrar taxas tanto quanto um estado cobra, o caráter de
legitimidade ou ilegitimidade se torna uma distinção meramente formal, mas que na
prática dói no bolso da mesma forma. O dono da cidade privada pode prescrever por
contrato que, ao tornar-se morador da cidade e contratante de seus serviços, o
consumidor deve pagar N taxas referente a saneamento, iluminação do espaço público,
manutenção de ruas, manutenção da iluminação, taxa mínima por acessibilidade a
energia elétrica (consumindo ou não), taxa por transição (compra ou venda), exportação
e importação.
O austro libertário poderá alegar que, a diferença fundamental é que, na cidade
privada, você é livre para escolher em qual cidade privada quer morar, com facilidade
burocrática para migrar de uma para outra o que faria existir uma concorrência entre
elas, voltando a questão teleológica, as cidades privadas iriam tentar manter suas taxas
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o mais baixa possível para serem competitivas e garantir que você queira morar neste
e não em outra. Mas eu pergunto, e já não é assim com o estado?
Muito embora eu more no Brasil, eu posso deliberar se quero adquirir título de
cidadania nos EUA, em Portugal ou na China, eu tenho acesso ao código penal destes
países, ao valor de seus impostos, a suas prestações de serviço, portanto, não é
implícito um caráter deliberativo na minha decisão de ir para os EUA e não para a China?
Porque os EUA têm menor imposto e maior liberdade de empreender que no Brasil? E
se eu saio para os EUA, não é implícito que, se escolhi ir para os EUA, logo, concordo
com as taxas e leis dos EUA? As taxas dos países já não são competitivas? Países
podem reduzir impostos para chamarem investidores e incentivarem abertura de
empresas neles e não nos outros, países podem ter menor burocracia para lavar
dinheiro de outros países, como os bancos da Suíça. Portanto, parece-me que, em
qualquer âmbito da discussão, a distinção entre Estado, cidade privada ou condomínio
parece uma distinção meramente formal, mas que na prática irão se distinguir muito
mais em grau do que em gênero.
Alguns Ancaps irão reclamar: O Estado age sob coação, se não pagar as taxas dele
você será preso!
Isso é contingente, não é causa formal do estado ou, “juízo analítico”, ou seja,
predicado já contido no objeto, que prisão é necessário a substância do estado. Um
estado hipotético pode Exilar em vez de prender, sujar o nome e restringir direitos ao
invés de prender e por ai vai. Aliás, por que entidades particulares não o fazem? O único
motivo pelo qual o dono de um restaurante não o prende num porão nem o espanque
caso você consuma lá e não pague é porque o estado o proíbe, justamente porque o
estado arbitrariamente tomou para si o monopólio da punição. E, aliás, graças a isso o
dono de um estabelecimento não precisa punir um ladrão ou caloteiro justamente
porque isso foi “terceirizado” ao estado, e se não fosse? Me pergunto, como uma
sociedade anarquista lidaria então com seus ladrões ou caloteiros? Deixariam todos
soltos? O que ocorria na antiguidade, em um estado tribal era o exílio. Estados pararam
de exilar por um motivo contingente, a fronteira de um estado é delimitada pela fronteira
de outro, o Brasil não pode exilar ninguém porque isso implica em despejar pessoas em
outro estado, isso fere o direito deste outro estado que não quer receber foragidos ou
exilados, se o Brasil exilar pessoas ele pode entrar em guerra com o outro estado que
está insatisfeito em ter que abrigar os dissidentes. Como o exílio não é uma
possibilidade fenomênica, como lidar com pessoas dentro de um espaço geográfico que
não pagam suas taxas? Em anarquia, se uma pessoa que assinou contrato com uma
cidade privada ficar dentro de sua casa e não pagar as taxas que lhe são devidas em
contrato o que a cidade privada poderia fazer? E se fizer parte do termo da cidade
privada que a pena para não pagar suas taxas é prisão? E se essa cidade privada for
delimitada em sua fronteira por outra cidade privada, de forma qual que ela não possa
exilar seus caloteiros, como ela resolveria?

4.5 A tragédia dos comuns – contradição IV

A tragédia dos comuns parte do mesmo pressuposto teleológico da ação humana


propositada, a ideia de que pessoas tendendo a agir pelo próprio benefício realizam
melhor a manutenção de suas terras privadas, porque não realizar essa manutenção
faria com que perdessem o próprio lucro. Em uma terra comum, as pessoas egoístas
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iriam querer explorar o máximo possível a terra porque competem os recursos dessa
terra com outras, e também não se preocupariam em cuidar das terras, afinal, a terra
não é delas, então é justamente pelas pessoas serem egoístas ou se preocuparem só
com o próprio benefício que terras seriam melhor cuidadas se forem propriedade
particular do que pública. A aporia não está nessa tese em si, mas em outra possível
resposta que ancaps dão aos problemas anteriormente levantados no capítulo 2.
Alguns ancaps falam que a ação humana é subjetiva e imprevisível, que nada se pode
especular e que, portanto, pessoas caridosas ou motivadas por qualquer outro fator
poderiam construir estradas, poderiam prestar serviços não lucrativos, poderiam prestar
serviço público de graça por caridade etc., porque ressignificam a ideia do “lucro” como
um termo subjetivo, onde pode-se entender como lucro o próprio bem estar ou
satisfação subjetiva pessoal ao se realizar uma caridade. Assim, a teleologia aristotélica
ou a praxeologia mantem-se de pé com a mesma estrutura lógica, porém, redefinindo o
significado de lucro e o tornando um latu sensu. Isso é realizado por Ayin Rand com a
ressignificação de egoísmo, onde mantem-se a estrutura pressuposicionalista de que o
homem age pelo próprio interesse, ou que o homem é egoísta, mas que o ego humano
é subjetivo e que não se pode inferir que o interesse propositado do ego é o lucro
material, dessa forma, mesmo o sujeito que age em caridade é egoísta, porque praticar
caridade lhe causa bem estar e ele age a fim de alcançar bem estar, logo age pelo seu
ego. Isso resolveria todo problema proposto no capítulo 2, de que o pressuposto de que
o homem só age pelo lucro faria o estado ser necessário para garantir serviços não
lucrativos, agora, o austro libertário pode falar que no anarco capitalismo as coisas não
lucrativas podem ser feitas por ongs, por caridade.
Qual a contradição? A contradição é porque agora o argumento da tragédia dos
comuns é redundante e não pode ser usada para refutar o comunismo, nem para supor
que o capitalismo ou a propriedade privada será necessariamente melhor que a
propriedade comum. Uma vez que o anarco capitalismo passa a depender da suposição
de que as pessoas agirão de forma caritativa, então nada mais posso alegar que a
propriedade comum seria destruída. Pois a mesma comunidade que precisa partir do
pressuposto de ser caritativa agora pode se organizar em propriedade comum, uma vez
que é caritativa ela não agiria por egoísmo para explorar a terra sem cuidar da mesma.
Portanto, ou se pressupõem um estricto sensu de egoísmo onde a ação humana é
egoísta e, por isso mesmo, a propriedade comum é impossível , mas ai você precisa de
estado ou cidade privada para resolver conflitos do livre mercado em serviços não
lucrativos ou que só são lucrativos sobre proteção de título de concessão, ou você parte
do pressuposto de que a ação humana pode ser caritativa o suficiente para não precisar
de estado ou cidade privada para garantir prestações de serviço não lucrativas, mas ai
o comunismo é possível porque a propriedade comum não cai mais em tragédia
inevitável.
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5. Considerações gerais e conclusões:

A fim de honestidade, há uma resposta possível para as investigações sobre o estado e sua
legitimidade. Uma vez que o estado é um ente de razão, e não um ente que existe in re, podemos
apelar a um debate sobre os abstratos que levará a uma discussão entre o realismo, o
conceptualismo e o nominalista. Seja o sujeito austro libertário conceptualista ou nominalista,
este pode alegar que o estado sendo uma abstração meramente formal, conceptual mental, ele
não tem direitos, logo, os pontos em que ele poderia receber propriedade por doação e a seguir
com apropriação ou compra são refutados. Entretanto, a mesma posição coloca em aporia o
sistema porque empresas, sociedades empresariais, ongs e condomínios também são entes de
razão e tão abstrativos quanto.

É possível dizer, que sob este pressuposto, portanto, estado é ilegítimo per-si, porque não
pode ser proprietário, logo não pode impor taxas. Isso faz o sistema o austro – libertário ser
perfeito dentro de sua cosmovisão, ou seja, enquanto sistema fechado. Mas não o torna apodítico
ou o único sistema perfeito possível, isso nos remete a uma discussão sobre antinomias da
razão, o problema do pressuposicionalismo e a incompletude de Goddel, austro libertarianismo
é perfeito, mas não é auto justificável, pois em um ponto ele é redutível a um pressuposto que é
petição de princípio, ou seja, a petição de escolher partir do nominalismo ou conceptualismo e
não do realismo.

Qualquer outro pressuposto é possível também sob petição, um religioso ou esotérico,


idealista alemão etc pode alegar que o Estado não é um ente de razão, mas REAL, que é o
absoluto hegeliano, manifestação do espírito de Deus na história, sendo a forma pelo qual o
Espírito exerce sua vontade sobre as sociedades humanas. Um religioso pode alegar que o
estado é um ente de razão mesmo, mas não um flatus vocis, que ele é um instrumento que
apesar de conceptual é resguardado pela palavra de Deus, que legitima o estado nas sociedades
humanas. Aqui, o estado não é a manifestação do próprio espírito, mas ao menos legitimado por
Deus.

Perceba que, em algum momento, todo sistema filosófico é redutível a um pressuposto de


petitio principle.

A mesma percepção de que , ao menos estados particulares podem ser definidos como anti-
éticos, como o Brasil ou talvez todo estado moderno desde as colonizações, gera um problema
grande a todos os que militam pelo anarco capitalismo, o problema de que ninguém atualmente
é detentor legítimo de suas próprias propriedades, se tudo o que conquistamos por nós ou
recebemos de herança e a busca retroativa pela genealogia dessa herança ira levar a algum
ponto em que houve arbitragem do estado contra algum povo nativo, alguma desapropriação e
a concessão de titulo de propriedade a alguém que não é proprietária original, então ao cair dos
estados ninguém seria proprietário legítimo de nada, isso levaria a conclusão que devemos
devolver tudo a indígenas ou recomeçar do zero e sistematicamente reocuparmos terras de
forma originária, mas isso poderia representar o colapso total da economia mundial ou um caos
jurídico com problemas, como demonstrados, praticamente insolucionáveis sem um estado.

Não há nenhuma garantia que em haverá desenvolvimento científico ou econômica em um


anarco capitalismo que seja melhor que como o é em estados modernos.

Não há nenhuma garantia que não irá surgir dessas anarquias novos estados ou cidades
privadas tão déspotas ou com taxas tão abusivas quanto as das quais reclamamos atualmente.

No fim, o anarco capitalismo tanto não parece útil na prática quanto não parece ser
necessário em idéia, nem é filosoficamente a única verdade apodítica ou o único sistema ético
possível. Por fim, é um sistema interessante de se estudar e do qual qualquer pessoa pode ser
entusiasta, mas creio que não com a afobação quanto temos visto nas redes sociais.
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Se por um acaso me refutarem e conseguirem resolver tudo o que foi exposto aqui, que pelo
menos minhas objeções possam ter ajudado os próprios austro libertários a superarem suas
aporias e a ter, pelo menos, a formalização de seu sistema com uma teoria ontológica e
fenomenológica mais robusta pois, por hora, creio eu que a escola austríaca no geral, apesar de
ser inegavelmente interessante quanto a teoria econômica é, filosoficamente, frágil no que diz
respeito a delimitação de seus próprios termos, a forma como a qual define esquerda e direita,
propriedade ou capitalismo etc. Não atoa seus entusiastas são em maior parte estudantes de
economia, mas raramente ela recebe apreço no meio de estudantes de filosofia.

Enquanto escrevia este documento soube que Alexandre Porto, anarco capitalista nos
debates nacionais havia acabado de abandonar o anarco capitalismo e desenvolveu uma nova
tese do “capitalismo sem hífem” e não pude deixar de o alfinetar,este supõem, sem
demonstração ontológica alguma que capitalismo se define como acumulação de capital e, a
seguir, idealiza uma sociedade transumanista e futurista completamente automatizada onde
computadores quânticos de IA lidariam com transações econômicas e tratariam elas mesmas
por acumular capital.

Este não percebe que essa completa automação do trabalho extingue o trabalho humano e
que, sob mesmo pressuposto de IA, essa inteligência poderia conseguir planificar a economia.
Advinha? Uma economia planificada e sem mão de obra assalariada é o que? Um comunismo
futurista, não atoa comunistas aceleracionistas e transumanistas deduzem uma sociedade
parecida. Acumulação de capital não pode definir capitalismo por si só, porque qualquer
sociedade que se desenvolva acumula capital, a união socialista soviética acumulava capital
para se desenvolver industrialmente, uma economia comunista pode não ter acumulo de capital
privado, mas as próprias comunas poupam capital para se desenvolver industrialmente e se
expandir, como é demonstrado no capítulo de aporias no tema “o problema do cálculo
econômico”. É por estas e outras que acho necessário este tipo de discussão, e ele poderia até
estar correto, mas não me dá material algum para concordar com ele, afinal, não demonstrou os
motivos pelos quais supõem que o acumulo de capital seja por ele mesmo, sem nenhuma outra
condição, definição de capitalismo.

Conclusão:

1. Não vejo seriedade ou validez em qualquer um que, discutindo contra a esquerda,


alegue que o capitalismo de laissez-faire irá garantir maior desenvolvimento ou
maior IDH, acho mais justo alegar, simplesmente, que é prudente temermos o
potencial que o estado tem para os seus feitos ruins e que, portanto, podemos
optar por viver sem estado e abrir mão de seus possíveis lados bons para evitar
lados ruins que são muito piores.

2. Não vejo possibilidade de afirmar o austro libertarianismo como apodítico ou


como a única certeza possível, embora possa alegar que ele é, dentro de seu
próprio sistema, irrefutável. Contanto que se evite argumentos contraditórios
como eu sinalizei no tópico de contradições

3. Embora se possa alegar que cada sistema defina seus termos como quiser, não
vejo seriedade em quem define seus termos arbitrariamente, pior ainda, quem os
define imprimindo em suas definições valorações in quia

4. Não acho possível a afirmação com absoluta certeza que tal medida
assistencialista ou desenvolvimentista gerará por necessidade impactos
negativos, universalizando causa e efeito. Isso é refutado em Hume no básico de
epistemologia no tratado da natureza humana.

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