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UNIVERSIDADE FRANCISCANA

CURSO DE PSICOLOGIA
Psicologia Social
Luiza Vitória Argenta Bortolotto

Este trabalho tem como objetivo, mostrar os diferentes grupos que estão em
situação de vulnerabilidade social e o papel que desempenha o psicólogo com essas
pessoas. Em ênfase os grupos de imigrantes, pessoas LGBTQIA+, mulheres e
pessoas com deficiência.
Sabemos que embora não exista um conceito pleno sobre o que é a
normalidade, tendo em vista variações culturais,de tempo e principalmente, de
pessoa para pessoa, sabemos que historicamente, determinados grupos não se
encaixam no critério de normalidade para determinadas pessoas, ou em
determinadas culturas. Se pegarmos principalmente, dois desses grupos que
citamos acima, podemos ter uma ideia melhor do que está sendo dito aqui, em
relação à cultura.
Antigamente, ou seja em outro tempo, em outra cultura, crianças e soldados
espartanos que nasciam com alguma deficiência, ou que adquiriram alguma
deficiência durante as guerras, eram lançadas ao mar, na verdade, existia até
mesmo um tribunal que avaliava a criança quando nascia para julgar se ela se
encaixava no padrão de normalidade da época ou não. Na idade média essas
pessoas eram levadas para centros onde ficavam amarradas e também, existia um
misticismo em volta dessa deficiência, que podia ser uma vingança divina, uma
possessão por espírito maligno.
Relações homossexuais são relatadas desde os primórdios, não somente
entre seres humanos mas também em outras espécies. Se essa é uma prática
antiga, quando se tornou “inaceitável”? Em um lado a igreja, que impôs um caráter
satânico, do lado da sociedade, a ideia de promiscuidade. Uma das maiores
instituições sociais é a família, e se perpetua a ideia de que a família é composta por
um homem, uma mulher e filhos. Embora novas configurações familiares tenham
surgido ao longo dos tempos, esse preconceito segue incrustado em grande parte
da sociedade, ele se perpetua, ele ganha força principalmente quando esse assunto
é discutido em voz passiva e baixa.
Pensando pelas mulheres, também há, como tudo, um contexto histórico por
trás da forma como a mulher é tratada e vista pela sociedade. Para entender onde
estamos hoje, precisamos entender de onde e como viemos.
Começou muito antes de Jacques Sprenguer, mas partiremos daí. Jacques
era um homem, inquisidor na idade média que criou o “manual de caça às bruxas”
para fazer referência aos textos sagrados que explicavam a criação da mulher a
partir de uma costela defeituosa de adão, sendo assim, ela surgiu de uma parte do
corpo de um homem, o que já denota a ideia de inferioridade, mas como se não
bastasse ter surgido da costela de Adão, Eva surgiu através de uma costela
defeituosa, ou seja, além de inferior, a mulher é também, um ser defeituoso,
imperfeito, em relação ao homem. Vale ressaltar que as “bruxas” eram mulheres que
questionavam o sistema “tradicional” vigente na época.
Quando o assunto é imigração, não é diferente. Apesar da amplitude étnica
no Brasil, com a população descendente de índios, brancos europeus, africanos,
muçulmanos, judeus e orientais, a xenofobia vem crescendo em nosso país, e por
incrível que pareça, ela se acentua em relação a determinadas descendências e
nacionalidades, a xenofobia acontece inclusive, com brasileiros das regiões do eixo
norte. No Brasil, há uma tradição de orgulho e festejo dos imigrantes europeus e
muitos brasileiros, em contrapartida, migrantes africanos, haitianos, venezuelanos
por exemplo, são recebidos de maneira oposta.
As pessoas migram em busca de melhores oportunidades, de melhores
condições de vida e a realidade no Brasil é que muitas dessas pessoas se deparam
com uma situação extremamente diferente. Fragilizados, saindo da pobreza para
tentar a vida em um novo lugar que promete ser parte da solução para o problema.
Por que somos xenófobos? As causas são várias, o orgulho extremo sobre a
identidade nacional, o complexo de vira-lata que resume o sentimento de aceitação
do Brasil em relação aos países mais ricos, então, se aceita pessoas que chegam da
Europa e da América do Norte, mas, recrimina pessoas vindas de países iguais ou
inferiores. Aliás, a interseccionalidade entre racismo e xenofobia no Brasil, torna
ainda mais difícil a vida para os imigrantes não-brancos que residem no país.
Trazendo esses temas para o nosso tempo. Ainda é difícil ser uma pessoa
com deficiência, apesar de sabermos a necessidade de que esses indivíduos
precisam se desenvolver da forma mais plena possível, para que tenha autonomia e
saiba seus direitos. Contudo, é notório em nossa sociedade, que muitas dessas
pessoas sofrem os mais distintos tipos de violências, e raramente algo acontece com
os agressores, já que a sociedade como um todo, ignora a autonomia dos mesmos.
Escolas sem acessibilidade, dificuldade para ingressar no mercado de trabalho,
como se não bastasse isso, há ainda, a vulnerabilidade a doenças, má nutrição, são
ainda alvos de discriminação e estigma.
A comunidade LGBTQIA+ que muitas vezes passa pela dificuldade de
comunicação de identidade na adolescência e que são permeadas principalmente
pela falta de independência financeira, na fase adulta expostos a agressões físicas,
discriminação, falta de oportunidades, ao risco de morte, agora, os que vivem em
situação de rua, muitas vezes sem acesso aos direitos humanos básicos. Estudos
apontam que as ruas são o ambiente mais propício para declarações
discriminatórias, não há preocupação ou desconforto ao utilizar termos como “viado”
e “bicha” de forma vexatória. Muitos experimentam a rua como forma de sair de
relacionamentos familiares abusivos, para outros, a rua é um meio de experiência. A
priori, a ida para as ruas é vista como uma opção forçada em relação aos conflitos
vivenciados por estes quando são vítimas de violência no meio em que vivem, e
essa ida para a rua, acarreta, na marginalização desse grupo que é privado de uma
vivência onde possam gozar do que lhes é de direito.
No que tange à violência contra a mulher, encontramos diversos fatores que
envolvem o contexto da mulher em vulnerabilidade social, desde o contexto
histórico-cultural e desigualdade de gênero que resultam no fator da baixa
autoestima. Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), entre os
anos 2000 e 2010 o Brasil reduziu o Índice de Vulnerabilidade Social, atingindo a
faixa média do índice. Ainda assim, a mulher continua sendo a classe mais
vulnerável, também de acordo com o IPEA (2017), como uma vítima direta da
exclusão e desigualdade social.
A exclusão social é acompanhada de um sentimento de abandono. Os
excluídos sofrem agressões constantes da sociedade, como o desemprego, falta de
moradia, pouco ou nenhum acesso à saúde, educação, entre outros, o que leva
essas pessoas a voltarem sua energia e ações muitas vezes para necessidades
básicas, como a fome. Esse processo de exclusão, por sua vez, acarreta num
sentimento de desvalorização do próprio indivíduo.
Como citado anteriormente, a compreensão da posição da mulher nos dias de
hoje nos remete à um estudo sobre como se deu a construção dessa identidade
social desde a Antiguidade. Em diferentes momentos históricos a sociedade moldou
o comportamento feminino, que se antes o corpo era suficiente para definir a mulher,
hoje já não é mais. Movimentos históricos que narram a luta das mulheres para
conquistar direitos e igualdade, são parte do atual período histórico também. O
machismo está inserido principalmente nos ambientes familiares, e é nesses
ambientes onde as regras e normas sociais são ensinadas e aprendidas, levando
em conta que o processo educacional dentro desse ambiente transmite para cada
indivíduo as crenças, regras e valores dos que os antecedem, podemos entender
como esse comportamento se perpetua ao longo do tempo. O feedback positivo aos
comportamentos autoritários e discriminativos dos homens, faz um ruído significante
no que se refere a repetir o comportamento em busca dessa aprovação.
A vulnerabilidade segundo Abramovay (2002) é a situação em que os
recursos e habilidades de um grupo social são insuficientes e inadequados para lidar
com as oportunidades oferecidas pela sociedade.
Essa vulnerabilidade, que é constituída por vários fatores, acentua a
dificuldade de mover-se socialmente. Possibilita-se, assim, a interlocução de
conhecimentos entre a psicologia, a educação e as políticas públicas na sociedade
contemporânea (GUARESCHI, 2003), com a ideia de transformar a experiência das
pessoas que não estão inseridas no contexto de vulnerabilidade, para que seja
possível mudar o tipo de olhar que é dado para esses grupos, ampliando as ideias e
a concepção do sujeito, tornando evidente a relação entre o bem estar do indivíduo
e o meio social.
Mudar a perspectiva de que o ser humano é “um ser individual” e adaptar
para a ideia de que na verdade, o ser humano faz parte de um grupo social e que as
ações praticadas não tem um resultado individual. A psicologia não deve ser
excludente e para isso, deve levar em consideração os fatores sociais, políticos e
culturais da sociedade, para poder assistir de forma segura e inclusiva, o sujeito que
está em situação de vulnerabilidade social e relacioná-lo a novas possibilidades e a
qualidade de vida.

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