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ARTIGO

ARTIGO

DEPRESSÃO INFANTIL:
aspectos gerais, diagnóstico e tratamento

CHILDHOOD DEPRESSION:
general aspects, diagnosis and treatment

DEPRESIÓN INFANTIL:
aspectos generales, diagnóstico y tratamiento

Milena Valadar Miranda


Wellyson da Cunha Araújo Firmo
Natércia Gomes de Castro
Luciana Patrícia Lima Alves
Clarice Noleto Dias
Marília Moreno Rego
Maria da Conceição Maggioni Poppe
Rosilda Silva Dias

Resumo: A depressão infantil tem sido um transtorno bastante pesquisado nos dias atuais, ao contrário
do que acontecia há mais de 30 anos quando era uma doença considerada característica dos adultos. At-
ualmente já não se tem mais dúvida de que esta patologia afeta também as crianças, podendo interferir
no seu processo de desenvolvimento. São várias as causas para esta doença, entre elas destacam-se os
problemas familiares, onde a criança não se sente amada e protegida, passando do isolamento à queda no
rendimento escolar. Para um tratamento eficaz, é importante que seja diagnosticada o mais cedo possível,
caso contrário poderá acarretar problemas futuros, desencadeando uma depressão ainda maior na idade
adulta. Assim sendo, o presente estudo tem o objetivo de realizar um levantamento acerca dos aspectos
mais relevantes da depressão infantil, incluindo variáveis que podem desencadear tal distúrbio, sintomato-
logia, diagnóstico e tratamento.
Palavras-chave: Depressão infantil. Sintomatologia. Diagnóstico. Tratamento. Saúde da família.

Abstract: Childhood depression has been a widely researched nowadays, contrary to what happened for
more than 30 years when it was considered a characteristic disease of the adults. Currently there is no
longer more doubt that this disease also affects children and can interfere with your development process.
There are several causes for this disease, among them stand out familiars problems, where the child does
not feel loved and protected, going from isolation to poor school performance. For an effective treatment,
it is important to be diagnosed as early as possible, otherwise it may lead to future problems, triggering an
even greater depression in adulthood. Thus, the present study aims to conduct a survey about the most
relevant aspects of childhood depression, including variables that may trigger the disturb, symptomatology,
diagnosis and treatment.
Keywords: Childhood depression. Symptomatology. Diagnosis. Treatment. Family health.

Resumen: La depresión infantil ha sido un transtorno ampliamente investigado en la actualidad, a diferen-


cia de lo que ocurrió hace más de 30 años, cuando se consideraba una enfermedad propia de los adultos.
Actualmente ya no hay más duda de que esta enfermedad también afecta a los niños y puede interferir con
su proceso de desarrollo. Hay varias causas para esta enfermedad, entre los que se destacan los problemas
familiares, en los que el niño no se siente querido y protegido, pasando del aislamiento a bajo rendimiento
escolar. Para un tratamiento eficaz, es importante ser diagnosticado tan pronto como sea posible, de lo
contrario puede conducir a problemas en el futuro, lo que podrá provocar una depresión aún mayor en la
edad adulta. Por lo tanto, el presente estudio tiene como objetivo realizar una evaluación sobre los aspectos
más relevantes de la depresión infantil, incluyendo las variables que pueden desencadenar la enfermedad,
sintomatología, diagnóstico y tratamiento.
Palabras clave: Depresión infantil. Sintomatología. Diagnóstico. Tratamiento. Salud de la família.

*Artigo recebido em agosto de 2013


Aprovado em outubro de 2013

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Milena Valadar Miranda et al.

1 INTRODUÇÃO valores próximos a 6% entre os pacientes com


idades entre 7 a 14 anos (GUREJE et al., 1994).
Diante de tais constatações o objetivo do
A depressão é um transtorno do humor presente trabalho foi realizar um levantamen-
grave, que pode ocorrer em todas as faixas to acerca dos aspectos mais relevantes da de-
etárias, destacando-se o crescente aumento pressão infantil, incluindo variáveis que podem
de casos entre jovens e idosos. Por motivos desencadear tal distúrbio, sintomatologia,
que ainda não estão totalmente esclareci- diagnóstico e tratamento, fornecendo, assim,
dos, a depressão está se transformando em subsídios para uma melhor compreensão da
uma patologia cada vez mais frequente neste patologia em questão. Neste estudo, leva-se
século. Nos próximos anos, segundo a Orga- em consideração a forma como a problemáti-
nização Mundial de Saúde (OMS), ocorrerá ca da depressão infantil evoluiu de maneira a
uma mudança significativa nas necessidades tornar-se mais compreensível tanto para espe-
de saúde da população, uma vez que doenças cialistas como para a população afetada direta
como as cardiopatias e a depressão estão ou indiretamente por tal distúrbio, contribuin-
se tornando cada vez mais comuns (BAHLS, do para o surgimento de formas de tratamento
2002). e diagnóstico mais direcionados para a popula-
A depressão está presente em diversos dis- ção alvo deste estudo.
túrbios emocionais e, apesar de ser considera-
da como um transtorno de humor, a mesma
abrange fatores cognitivos, comportamentais, 2 DEPRESSÃO NA INFÂNCIA
fisiológicos, sociais, econômicos e religiosos.
De acordo com a OMS a depressão situa-se no
quarto lugar entre as vinte doenças de maior A depressão nem sempre é algo fácil de
AVAD (anos de vida perdidos por morte pre- ser definido. Segundo Monteiro e Lage (2007),
matura e incapacidade) e a perspectiva é que Freud, diferentemente dos autores de sua
nos próximos 20 anos alcance o segundo lugar época, não definia em suas obras uma teoria
(ZAVACHI, 2002). sobre depressão, “[...] embora o mesmo tenha
Segundo Adànez (1995), não existe uma identificado e descrito manifestações depres-
definição consensual sobre a depressão infan- sivas nas diferentes categorias nosográficas
til. Todavia, pode-se afirmar que se trata de sem, entretanto, assemelhá-las à melancolia
uma perturbação orgânica que envolve vari- nem reuni-las em critérios para diagnóstico,
áveis biológicas, psicológicas e sociais. A de- tal como se vê nos atuais manuais de psiquia-
pressão na criança tem chamado a atenção de tria.” (MONTEIRO; LAGE, 2007, p. 19).
muitos profissionais que atuam na clínica. No De modo geral, a depressão é um transtor-
entanto, essa doença não é frequentemente no de humor, que prejudica a função da mente,
reconhecida, uma vez que os sintomas se dife- distorcendo a forma como a pessoa vivencia
renciam dos apresentados pelos adultos, difi- e entende a realidade. Este transtorno com-
cultando assim seu diagnóstico (SCIVOLETTO; preende fatores cognitivos, comportamentais,
TARELHO, 2002). fisiológicos, sociais, econômicos e religiosos,
No campo da psiquiatria, a depressão in- entre outros. Sua ocorrência pode surgir como
fantil despertou interesse somente a partir da um sintoma de determinada doença, ora pode
década de 1960. Anteriormente a este período, coexistir junto com outros estados emocio-
acreditava-se que a depressão na criança não nais e outras vezes pode aparecer como causa
existia, ou então, que esta seria muito rara desses sofrimentos (HOLMES, 1997; CAMON,
nessa população. Apesar de dados epidemio- 2001; DAMIÃO et al., 2011).
lógicos evidenciarem que atualmente não há A classificação da depressão varia acordo
mais dúvida quanto à ocorrência de depres- com a vinculação ao período histórico, à prefe-
são na infância, a prevalência dos sintomas rência dos autores e ao ponto de vista adotado
depressivos é discutível, uma vez que existe pelos mesmos (DEL PORTO, 1999). Na visão
uma grande diversidade nas taxas de incidên- de alguns autores, o termo depressão, em seu
cia (CRUVINEL; BORUCHOVITCH, 2004). contexto clínico, não se refere a uma patolo-
Uma meta-análise conduzida a partir de gia caracterizada obrigatoriamente por humor
estudos epidemiológicos, que utilizaram entre- deprimido, mas a um complexo sindrômico
vistas diagnósticas estruturadas para o reco- caracterizado por alterações de humor, psico-
nhecimento formal de depressão entre crian- motricidade e por uma variedade de distúrbios
ças, demonstrou que aproximadamente 2,8% somáticos e neurovegetativos (ASSUMPÇÃO
das crianças até aos 12 anos são afetadas por JUNIOR; KUZYNSKI, 2000).
Quanto ao tempo de duração, a depres-
distúrbios depressivos (COSTELLO; ERKANLI;
são poderá persistir por um período mínimo de
ANGOLD, 2006). No ambiente escolar, a taxa duas semanas, quando o indivíduo está com
de depressão, entre as crianças com 8 a 12 baixa estima, ou seja, apresenta tristeza, me-
anos de idade é de cerca de 4%. De forma que lancolia, angústia, aparenta inquietação, mos-
os sintomas depressivos estão relacionados à tra-se ansioso, sente-se desanimado e sem
falta de adaptação escolar (BERNARAS et al., vontade de fazer as coisas mais simples. Nessa
2011). Esta prevalência tende a ser maior em situação, o indivíduo permanece apático, sem
ambientes de cuidados à saúde, alcançando motivação e não vê sentido nas coisas que o

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Depressão Infantil

rodeiam, mostrando-se pessimista e preocu- de diagnóstico. Além disso, a prevalência dos


pado. Quando se apresenta nesse estado, todo sintomas depressivos é uma questão bastan-
o organismo está comprometido, afetando in- te discutível, uma vez que existe uma grande
clusive o sono, o apetite e a disposição física diversidade nas taxas de incidência, a qual
(MONTEIRO; LAGE, 2007). Vale lembrar que vem sendo explicada pela variação da popula-
as manifestações do quadro clínico de depres- ção estudada, pelas diferenças na metodologia
são não são iguais em todos os indivíduos, utilizada e principalmente pela dificuldade de
variando de pessoa para pessoa, podendo ser padronização dos tipos de transtornos depres-
intermitente ou contínua, tendo duração de sivos e a falta de um critério de diagnóstico
horas ou de um dia inteiro, ou persistindo por comum para a depressão (BAPTISTA; BAPTIS-
semanas, meses e anos. TA; DIAS, 2001).
Mesmo que durante muito tempo tenha se Para alguns autores, a depressão na
pensado que a depressão é uma doença que criança possui características diferentes da
acomete mais comumente os adultos, estudos depressão no adulto (AJURIAGUERRA, 1976;
revelam que cada vez mais crianças e adoles- LIPPI, 1985), enquanto outros concordam que
centes são afetadas por ela, o que leva os pes- a depressão na infância se apresenta de forma
quisadores a se empenharem mais no estudo bastante similar às manifestações do adulto,
da doença nessa fase da vida. devendo ser diagnosticada sob os mesmos cri-
Porém, não é de hoje que existe o interes- térios e instrumentos. Segundo Spitz (1998),
se em estudar sobre a depressão infantil. Na não é aceitável comparar a depressão no
verdade, as tentativas vêm desde o início do adulto e na criança, pois trata-se de entidades
século XIX. As primeiras tendências de con- psiquiátricas completamente diferentes. Os
ceituar depressão infantil foram realizadas sintomas são parecidos, mas o processo implí-
sob um ponto de vista psicanalítico, buscando cito é diferente.
a compreensão da psicodinâmica de pessoas De acordo com Miller (1998), a depressão
deprimidas. Todavia, segundo Cruvinel, Buro- infantil trata-se de uma desordem cíclica com
chovitch e Santos (2008), investigações a res- períodos intercalados de depressão e de bem-
peito da depressão em crianças têm recebido -estar e pode se apresentar em dois episódios:
destaque apenas recentemente, uma vez que o depressivo e o maníaco. Na infância a de-
até a década de 60 não se acreditava na pos- pressão normalmente vem associada a outras
sibilidade de sua existência nessa faixa etária, dificuldades, principalmente problemas de
ou então que seria muito raro uma criança de- comportamento e problemas escolares, oca-
senvolver tal patologia. Portanto, atualmen- sionando um prejuízo no funcionamento psi-
te pode-se dizer que “[...] o transtorno pode cossocial deste indivíduo. Alguns autores têm
afetar qualquer pessoa” (BIRMAHER, 2009, p. avaliado a relação entre depressão infantil e
17). rendimento escolar, ficando constatado que
Na verdade, as concepções teóricas vi- a incidência de depressão parece aumentar
gentes até o início do estudo sistemático da entre as crianças com problemas escolares
depressão infantil impediam os profissionais (HALL; HAWS, 1989; COLBERT et al., 1982;
e estudiosos da área de considerar a possibi- PÉREZ; URQUIJO, 2001; PALLADINO et al.,
lidade da existência da depressão em crian- 2000). Nesse sentido, as causas da depressão
ças, pois até então a depressão era associada infantil podem ser bastante variadas, contudo
a certas características de personalidade e a os pais devem ficar atentos ao comportamento
criança, por não apresentar desenvolvimento da criança. Quando observarem qualquer alte-
suficiente, era impossibilitada da vivência de ração no humor ou atitudes da criança, estes
variações extremas de humor (ANDRIOLA; CA- devem imediatamente procurar ajuda médica,
VALCANTE, 1999). de forma que a doença não se agrave e que a
Conforme Brown (apud BOWLBY, 1998), o criança possa voltar a se desenvolver normal-
distúrbio de humor em crianças foi incluído na mente.
categoria diagnóstica de doença psiquiátrica É importante também levar em considera-
em 1980. O autor ainda afirma que os estudos ção que a ocorrência de algumas patologias e
referentes à depressão em crianças ainda diversas outras situações podem levar ao de-
se encontram em fase de desenvolvimento. senvolvimento da depressão infantil. Como diz
Mesmo depois de anos de estudos e ainda Barbosa et al. (1996): “Fatores como deter-
com pesquisas vigentes, pode-se ressaltar que minadas doenças, enfermidades crônicas, in-
somente um modelo ou uma única teoria difi- tervenções cirúrgicas, enfermidades crônicas
cilmente seria suficiente para explicar um fe- dos pais, instabilidade da convivência fami-
nômeno tão complexo como a depressão, um liar e disputas familiares podem acarretar, ao
transtorno que acomete o ser humano a inú- longo de seu curso, um quadro depressivo na
meras alterações. criança” (BARBOSA et al., 1996, p. 16). Outros
Dessa forma, apesar dos estudos e es- fatores que podem ocasionar a depressão na
forços dos pesquisadores para caracterizar a criança são a experiência de perdas significa-
depressão infantil como uma patologia que tivas e o abuso emocional, físico e/ou sexual
afeta o desenvolvimento da criança, ainda de que muitas crianças são vítimas e que,
existem muitas controvérsias a respeito da segundo Lima (2004), podem deixar traumas
doença, principalmente quanto aos critérios irreparáveis na criança. Dessa forma,

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Milena Valadar Miranda et al.

Segundo Lafer e Amaral (2000), crianças


As crianças que são agredidas fisicamente são leva- com pais deprimidos possuem um risco três
das por seus pais a um aprendizado de desesperança,
vezes maior do que as que não possuem pais
facilmente se isolam, evitam contato no meio social,
apresentam autoestima reduzida e não conseguem
com depressão. O que aumenta ainda mais
ter prazer em atividades que normalmente lhes cau- se não apenas um, mas se os dois pais forem
sariam prazer, enquanto que crianças que sofrem deprimidos. Ou seja, pais depressivos podem
agressão sexual geralmente se sentem culpadas, promover depressão nos filhos tanto através da
envergonhadas, demonstram ansiedade e têm uma imitação que estes filhos fazem dos comporta-
propensão a se tornarem agressivas; estes sintomas mentos depressivos dos pais (gerando assim,
ocorrem em concomitância com sintomas depressi-
a depressão denominada exógena), como
vos (LIMA, 2004, p. 09).
pela possibilidade de herança genética (que
caracteriza a depressão endógena) (FIHRER;
Vale lembrar que em crianças hospita- MCMAHON; TAYLORT, 2009; BAGNER et al.,
lizadas em Unidades de Terapia Intensiva as 2010).
manifestações de depressão e ansiedade são
mais intensas que naqueles internados em en-
fermaria. Ou seja, o comportamento dos pa- 3 SINTOMATOLOGIA
cientes é influenciado de forma significativa E DIAGNÓSTICO
pela gravidade da doença, pelo tempo que fica
hospitalizado, pela quantidade de internações
prévias e pela presença de humor já existente Em 1977 os pesquisadores Kovacs e Beck
(BANDIM et al., 1998). realizaram um estudo onde a depressão in-
De acordo com alguns autores, a incidência fantil passa a ser considerada uma entidade
de depressão na infância se acentua quando se sindrômica, independente da depressão do
trata de população específica, geralmente com adulto. Desde então, foram estabelecidos cri-
outras problemáticas já relacionadas. Amaral térios de diagnóstico clínico, psicológico e bio-
e Barbosa (1990), por exemplo, destacam lógico (CUNHA et al., 2005).
que crianças vítimas de queimadura são mais Esta doença não é difícil de ser diagnosti-
passiveis de sofrer depressão. Oshiro (1994) cada nos adultos, uma vez que eles se queixam
considera as crianças que sofrem violência fa- e agem de forma que a família perceba que
miliar as mais atingíveis. E autores como Hall algo não vai bem. Entretanto, com as crian-
e Haws (1989) e Nunes (1990) apontam as ças não ocorre o mesmo, pois elas aceitam a
crianças com dificuldades escolares e história depressão como algo natural, característico do
de fracasso as mais suscetíveis à depressão. seu modo de ser, não sabendo que os sintomas
Para Brown (apud BOWLBY, 1998, p. 31), a apresentados correspondem a uma doença
perda de entes queridos pode contribuir signi- e que podem ser aliviados. Por outro lado,
ficativamente para o desencadeamento da de- segundo Puig-Antich, (1986), a grande parte
pressão na criança, podendo agir da seguinte da sintomatologia depressiva é intrapsíquica e
forma: “[...] a) como agente provocador que as próprias crianças são os melhores comuni-
aumenta o risco do distúrbio se desenvolver; cadores de seu mundo interior. A partir de seis
b) como fator de vulnerabilidade que aumenta anos de idade elas são capazes de identificar
a sensibilidade individual a esses acontecimen- os sintomas da depressão, ou seja, já sabem
tos; c) como um fator que influencia tanto a dizer o que sentem e como se sentem.
gravidade como a forma de qualquer distúrbio Na criança os sintomas depressivos variam
que se possa desenvolver”. de acordo com a faixa etária e, como ela ainda
Segundo Cruvinel, Boruchovitch e Santos não é capaz de descrever verbalmente seus
(2008, p. 79), sentimentos, é necessário observar as formas
de comunicação pré-verbal, como a expressão
A depressão, sem dúvida, integra fatores sócio-fami- facial, produções gráficas, súbitas mudanças
liares, psicológicos e biológicos, onde as diferentes de comportamento, postura corporal, entre
teorias não se excluem, mas se completam, contri-
buindo não somente para uma maior compreensão
outras (BAPTISTA; GOLFETO, 2000). A presen-
da natureza multicausal deste transtorno, mas tam- ça de sintomatologia na criança pode interferir
bém para a concepção do sujeito em sua totalidade diretamente nas atividades associadas à cog-
bio-psico-social nição e à emoção. Incorre que, quando essa
criança não é tratada a tempo, poderá de-
Pode-se dizer que os fatores biológicos da senvolver modelos de comportamento como:
causa da depressão infantil estão relaciona- isolamento, retraimento, dificuldades em se
dos à área da genética da depressão, uma vez comunicar, entre outros, os quais podem se
que grande parte dos estudiosos afirma que tornar resistentes a mudanças (ANDRIOLA;
a depressão tem um componente genético e, CAVALCANTE, 1999; ALLGAIER et al., 2012).
como existem vários tipos de depressão, pos- Alguns dos sintomas apresentados são
sivelmente não apenas um, mas vários genes queixas orgânicas como cefaleia, dores abdo-
podem estar envolvidos em sua ocorrência. minais e diarreia, sintomas estes que, inicial-
E apesar das muitas pesquisas, estes genes mente, não são identificados como sendo de
ainda não foram classificados de forma conclu- depressão. Aparecem também alterações no
siva (MILLER, 2003). apetite, insônia, irritabilidade, agressividade

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Depressão Infantil

ou passividade exagerada, choro sem razão Brennan (1992) chama a atenção que para
aparente, dificuldades cognitivas, comporta- a apresentação de um diagnóstico preciso
mento antissocial, indisciplina, ideias ou com- da depressão infantil, é necessário levar em
portamentos suicidas (REIS; FIGUEIRA, 2001). consideração que pelo menos quatro desses
Em episódios depressivos, as crianças sintomas estejam presentes no repertório de
apresentam sintomas de caráter subjetivo e comportamentos da criança, por um período
fenomenológico do pensamento. Elas refletem mínimo de tempo equivalente a duas semanas
a partir de sua própria perspectiva, podendo anteriores à avaliação.
se considerar pessoas más, que não merecem A criança possui características próprias
ser felizes. Esse pensamento está relacionado que dificultam o diagnóstico. Dessa forma,
a problemas de baixa autoestima, sentimento as desordens depressivas nas crianças e nos
de culpa, vergonha e autocrítica exacerbada. adolescentes são associadas frequentemente a
Como consequência, destacam-se problemas prejuízo do comportamento e baixo rendimen-
comportamentais, como dificuldade de con- to escolar, dificilmente são atribuídas a uma
centração e de organização dos pensamentos, depressão. Portanto, ainda é difícil realizar o
agitação e retardo psicomotor. Além disso, o diagnóstico da depressão infantil, em função
humor da criança é deprimido quase todos os das suas variáveis funcionais e à justaposi-
dias, havendo pouco interesse pela realização ção que apresenta com outras psicopatologias
de atividades prazerosas. Quanto aos sinto- da infância (PEREIRA; AMARAL, 2004), além
mas do episódio depressivo maníaco, a criança disso, as diversas classes de depressão exis-
apresenta dificuldade de ficar quieta, agindo tentes também constituem um obstáculo para
como se fosse pressionada a falar sempre. o diagnóstico de tal patologia (BIRMAHER et
Outros sintomas comuns são maior atividade al., 1996).
para alcançar um objetivo, o que pode mani- O difícil diagnóstico da depressão infan-
festar-se por uma agitação psicomotora e o til tem sido uma unanimidade entre os estu-
envolvimento excessivo numa atividade. Pro- diosos. Ao que Lima (2004, p. 41) corrobora
blemas fisiológicos também podem ocorrer quando diz: “Ainda não se conseguiu chegar
como a redução da necessidade de dormir, a uma conclusão com um conjunto de crité-
fazendo com que a criança se sinta cansada rios para identificar a diferença dos sintomas
após poucas horas de sono (MILLER, 1998). idênticos que ocorrem na criança depressiva e
É importante lembrar que os sinais da em outros transtornos subjacentes”. Porém, o
presença da depressão infantil são variados, autor considera a irritabilidade um sinal impor-
e por esse motivo não devem ser analisados tante para chamar a atenção durante o diag-
de maneira isolada, sendo necessário levar em nóstico.
consideração a conjunção dos sintomas e a Embora não seja função dos educadores
durabilidade dos episódios (MARCELLI, 1998). o diagnóstico da depressão infantil, a escola e
Vale ainda ressaltar que depressão não é sinô- o professor desempenham uma função impor-
nimo de criança quieta e desanimada, as ma- tante na identificação dos sintomas depressi-
nifestações da doença podem estar também vos. Porém a dificuldade em reconhecer os sin-
na criança agressiva e hiperativa (CALDERA- tomas da depressão, por parte dos educadores
RO; CARVALHO, 2005). e também por parte da família, agrava essa
Contudo, os pais devem ficar atentos às situação, pois, muitas vezes, os sintomas não
mudanças de comportamento dos filhos, pois são identificados corretamente e estas crian-
a detecção precoce de sintomas depressi- ças acabam não recebendo orientação e tra-
vos pode evitar que venham a desenvolver tamento adequados (CRUVINEL; BORUCHOVI-
quadros graves, que comprometam o convívio TCH, 2004).
social e o ambiente escolar e familiar. Para fa- Ao fazer o diagnóstico de depressão em
cilitar a realização de provável diagnóstico e uma criança é necessário considerar os aspec-
indicar encaminhamento para avaliação clínica, tos próprios do processo de desenvolvimen-
existem variados métodos, uma vez que eles to infantil. Os manuais de diagnóstico mais
estão ligados aos diferentes critérios diagnós- citados na literatura são o Manual Diagnóstico
ticos adotados. e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-IV)
De acordo com Nissen (1983), os princi- e a Classificação de Transtornos Mentais e de
pais comportamentos que caracterizam a de- Comportamento (CID-10). Tais sistemas foram
pressão infantil são: o humor disfórico; a au- desenvolvidos com o intuito de diminuir a va-
todepreciação; a agressividade ou a irritação; riabilidade na interpretação dos sintomas, atu-
os distúrbios do sono; a queda no desempe- almente são os mais aceitos pelos profissionais
nho escolar; a diminuição da socialização; a da área (PEREIRA; AMARAL, 2004).
modificação de atitudes em relação à escola; De acordo com DSM IV, a depressão infan-
a perda da energia habitual, do apetite e/ou til se assemelha à depressão no adulto, dessa
peso. forma, os mesmos critérios para o diagnósti-
Segundo Fichtner (1997, p. 31), “A duração co de depressão no adulto podem ser utiliza-
média de um episódio depressivo é de cerca de dos para avaliar a depressão na criança. Esse
8 meses, a maioria das crianças recuperam-se manual lista os sintomas de depressão como:
em 18 meses sendo a taxa de recidiva num humor deprimido na maior parte do dia, falta
período de 5 anos cesse de 70%”. Shaver e de interesse nas atividades diárias, alteração

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Milena Valadar Miranda et al.

de sono e apetite, falta de energia, alteração Solomon (2002), é necessário levar em conta
na atividade motora, sentimento de inutilida- a vulnerabilidade genética na etiologia da de-
de, dificuldade para se concentrar, pensamen- pressão. Nesse caso, o tratamento da criança
tos ou tentativas de suicídio. deve ser em conjunto com o dos pais, procu-
Considerando os níveis de desenvolvimen- rando alternativas que levem a mudanças no
to, o DSM IV faz pequenas observações a fim padrão familiar, pois sem a aplicação dessas
de facilitar o diagnóstico de depressão infantil. medidas, a tendência é a falha no tratamento
Especificamente, uma criança deprimida pode (CALDERARO; CARVALHO, 2005).
apresentar humor irritável ao invés de triste- A criança com depressão deve ser traba-
za; ou ainda revelar uma diminuição do rendi- lhada o mais rápido possível, com avaliação
mento escolar em função do prejuízo na capa- e definição do tipo de tratamento mais ade-
cidade para pensar e concentrar. Assim, para quado. Uma avaliação da sintomatologia de-
o diagnóstico de depressão infantil os modelos pressiva precisa ser realizada, bem como as
utilizados são adaptações dos empregados possíveis associações: diagnóstico, falhas na
para o diagnóstico da depressão em adultos, educação, prejuízo no funcionamento psicos-
sendo eles: modelo biológico, comportamen- social, transtornos psiquiátricos, maus tratos.
tal, cognitivo e modelo psicanalítico. Nos casos de depressão leve pode-se realizar
Na CID-10, sobre a seção transtornos encontros regulares, com discussões compre-
do humor (afetivos), são listados os seguin- ensivas com a criança e seus pais, oferecendo
tes tipos de depressão: transtorno afetivo suporte com o objetivo de diminuir o estresse
bipolar; transtorno depressivo recorrente; e e melhorar o humor (LIMA, 2004).
transtornos persistentes do humor (afetivos). Segundo Sigolo (2008, p. 10), a depres-
Esta seção não apresenta diferenciações entre são infantil já dispõe de tratamentos eficazes,
crianças, adolescentes e adultos. Nela também mesmo passando por um processo de expan-
está inserido o episódio maníaco e o episódio são. “Para as crianças, dificilmente é indica-
depressivo, que são categorias que descrevem do medicação, a não ser em casos bastante
sintomas característicos. severos o qual chegue a atrapalhar todo anda-
Para a avaliação de sintomas depressi- mento de sua vida. Normalmente a psicotera-
vos em crianças e adolescentes o Inventário pia que envolva trabalhos com família e escola
da Depressão infantil (CDI) criado por Kovacs mostra-se eficiente.”. Por outro lado, de acordo
(1983, 1985, 1992, 2003) tem sido descrito com Nakamura e Santos (2007), alguns pro-
como instrumento mais utilizado. Empregado fissionais da saúde defendem a necessidade
em pesquisas tanto no Brasil como em outros de utilização de medicamentos, ao invés do
países, esse instrumento é caracterizado como acompanhamento terapêutico, e de os resulta-
psicometricamente satisfatório (WATHIER; dos mais imediatos serem reconhecidos, pois
DELL’AGLIO; BANDEIRA, 2008).
Embora o acompanhamento terapêutico também seja
recomendado numa abordagem múltipla, de maneira
4 TRATAMENTO diferente do que ocorre com os medicamentos, há
controvérsias quanto à sua adoção. Isso em função
de problemas relacionados à duração, à existência
Nos primeiros meses de vida da criança já é de profissionais e aos custos, principalmente por se
possível observar o desenvolvimento de mani- tratar de um serviço público (NAKAMURA; SANTOS,
festações relacionadas a transtornos de ordem 2007, p. 02).
mental e distúrbios de conduta (CALDERARO;
CARVALHO, 2005). A probabilidade de um de- O uso de medicamentos parece ser o
senvolvimento anormal será proporcional ao método mais eficiente e imediato para atender
número de problemas comportamentais, ou essas necessidades, mantendo-se como prática
seja, os sintomas apresentados pela criança, eficaz pela rapidez dos resultados observados,
tendo em vista que a depressão poderá interfe- que vão de encontro com o discurso médico-
rir negativamente nas atividades relacionadas -científico, uma vez que para os médicos o im-
à cognição e à emoção (ANDRIOLA; CAVAL- portante é diagnosticar e curar (NAKAMURA;
CANTE, 1999). Para que haja um desenvolvi- SANTOS, 2007).
mento emocional saudável a criança necessita No entanto, quando a criança não recebe
de um ambiente familiar favorável, capaz de tratamento em tempo hábil poderá desenvol-
suprir suas necessidades básicas, como pro- ver padrões de comportamento que se tornam
teção e acolhimento (ROTONDARO, 2002). Na resistentes a mudanças, podendo então evoluir
ausência de tal condição, a criança pode fazer para quadros mais graves da doença. Nestes
uso de mecanismos de defesa específicos para casos é recomendado um tratamento medi-
lidar com as dificuldades e, consequentemen- camentoso e/ou psicoterápico, devido, princi-
te, comprometer o desenvolvimento das estru- palmente, à presença de comportamentos ou
turas de personalidade que estão se formando pensamentos suicidas (AMARAL; BARBOSA,
nesta fase (CALDERARO; CARVALHO, 2005). 1990).
Um ponto a ser considerado é a saúde Dessa forma, de acordo com Lima (2004),
mental dos pais, levando-se em considera- para que o tratamento seja adequado, é im-
ção que a depressão da criança pode ser um prescindível a realização de uma criteriosa
reflexo do comportamento dos pais. Segundo avaliação dos sintomas apresentados, devendo

106 Cad. Pesq., São Luís, v. 20, n. 3, set./dez. 2013


Depressão Infantil

averiguar se estes não estão associados a Vale ressaltar a importância de compreen-


maus tratos na família, se há falha na educa- der o funcionamento de cada um dos dois as-
ção da criança, qual o prejuízo no funciona- pectos do tratamento da depressão infantil: a
mento psicossocial e ainda se a depressão está psicoterápica e a farmacológica. Segundo Maj
ocorrendo em co-morbidade com algum outro e Sartorius (2005), se a depressão for de nível
transtorno psiquiátrico. leve, apenas o tratamento baseado em psico-
Maj e Sartorius (2005) consideram que, terapias pode ser suficiente, uma vez que en-
para a escolha do tratamento correto, além contros regulares com sessões de psicoterapia
de analisar fatores como gravidade, cronicida- com a criança e sessões de orientação aos pais
de, idade e questões contextuais, é de grande podem dar bons resultados. No entanto, se a
relevância enfatizar a realização do exame do depressão estiver em um nível mais elevado,
estado mental da criança e a coleta de infor- a psicoterapia por si só não será suficiente,
mações necessárias com a família, tais como a sendo apenas parte de um programa de trata-
duração do transtorno e o grau de comprome- mento. Alsop e McCaffrey (1999) consideram
timento psicossocial, pois estes fatores ajudam que a psicoterapia individual, seja por meio do
na elaboração do tratamento adequado. psicodrama, da ludoterapia, ou ainda do trei-
De acordo com Lima (2004, p. 18), namento das habilidades sociais, tem a função
de apoiar a criança em suas dificuldades.
A depressão pode ser tratada através da terapia Deve-se, ainda, atentar para o tratamento
cognitivo-comportamental com a criança e a família,
baseado na farmacologia, uma forma bastante
treinamento de necessidades sociais (semelhante à
terapia cognitivo-comportamental, com grande enfo- significante no combate da depressão infan-
que em atividades abertas e desenvolvimento de ha- til. Porém, é importante lembrar que “O tra-
bilidades específicas), psicoterapia interpessoal, com tamento farmacológico seria alternativa pos-
foco no relacionamento, e terapia familiar. terior à abordagem psicoterápica, reservado a
casos mais graves e persistentes [...] sendo
administrado por cuidadosa monitoração, por
Pode-se, ainda, nos transtornos do ajus- tempo limitado e combinação com psicotera-
tamento com humor depressivo, distimia e pia” (WANNMACHER, 2004, p.4).
depressão maior, fazer uso de antidepressivos É importante destacar que os cuidados
como os tricíclicos: imipramina, clomipramina, quanto ao uso da medicação dão-se por ainda
maprotilina, amitriptilina ou nortriptilina, que não existirem estudos sobre as consequências
são as drogas mais antigas e as mais usadas em longo prazo em crianças devido à utilização
em crianças. Porém, “Os pacientes deverão ser de fármacos. Por conta disso, esse tipo de tra-
monitorizados a cada 6 meses” (LIMA, 2004, tamento só deve ser utilizado em casos onde há
p. 18). realmente necessidade, quando a doença está
Outra classe medicamentosa aprovada comprometendo seriamente o desenvolvimen-
pelo Food and Drug Administration (FDA) para
to da criança (COSTA; CASTRO, 2002). Sobre
uso em crianças são os inibidores seletivos da
os medicamentos utilizados na medicação de-
recaptura da serotonina (ISRS), a citar: clori-
pressiva, Alsop e McCaffrey (1999) lembram
drato de sertralina, amplamente utilizado nos
os efeitos colaterais que estes provocam,
transtornos obsessivo-compulsivos em crian-
ças e adolescentes por ser seguro e eficaz; os quais podem ser prejudiciais ao infante.
e fluoxetina, também muito utilizada, porém Diante disso, antes de começar o tratamento
sua dose inicial deve ser baixa, pois sua eli- é preciso escolher o medicamento criteriosa-
minação do organismo ocorre de forma lenta, mente. A escolha, segundo Curatolo e Brasil
além disso, pode interferir com outras drogas. (2005, p. 172), deve ser individual, uma vez
De modo geral, ambas são satisfatórias, pois que “[...] a opção por um agente terapêutico
apresentam um bom resultado e poucos efeitos deve estar baseada no perfil dos sintomas, no
colaterais (IA; CURATOLO; FRIEDRICH, 2000). diagnóstico, e nas co-morbidades associadas;
Nessa classe medicamentosa ainda estão in- outros fatores que também podem influenciar
cluídos a paroxetina e o citalopram. Sobre a são a idade, as condições de saúde geral da
paroxetina ainda existem poucos estudos en- criança e o uso concomitante de outros medi-
volvendo sua farmacocinética e eficácia em camentos”.
crianças, porém sua utilização no tratamen- Existe ainda uma outra forma de trata-
to dessa patologia tem se mostrado bastan- mento da depressão – pouco utilizada nessa
te vantajosa. Já o citalopram deve ser evitado faixa etária - que corresponde a uma técnica
nessa faixa etária devido ao reduzido número denominada eletroconvulsoterapia (ECT). Essa
de estudos existentes com tal droga em crian- é uma técnica utilizada somente quando todas
ças. Há ainda, entre os ISRS, a venlafaxina, as outras formas de tratamento falham e, de
cujo mecanismo de ação é misto, pois inibe um modo geral, tem se mostrado bastante
a recaptação da noradrenalina e, em menor efetiva e segura. A ECT é geralmente indicada
grau, a recaptação da serotonina e ainda em para pacientes diagnosticados com o transtor-
menor grau, a recaptação da dopamina; en- no depressivo grave, dependendo de fatores
tretanto, pelo mesmo motivo do citalopram, como: intensidade, frequência e duração dos
o seu uso não é indicado em menores de 16 sintomas depressivos, bem como pela presen-
aos (LIMA, 2004; GREEN, 1997; GAMMON; ça de manifestações psicóticas ou catatônicas,
BROWN, 1993). pelo risco de suicídio ou ainda pela necessida-

Cad. Pesq., São Luís, v. 20, n. 3, set./dez. 2013. 107


Milena Valadar Miranda et al.

de urgente de melhora, frente à acelerada de- problema e, consequentemente, para o de-


terioração da saúde física. Diante de tal situa- senvolvimento de medidas terapêuticas, pois
ção a ECT é a primeira escolha de tratamento, só dessa forma, conhecendo e debatendo as
podendo estar ou não associada à farmacote- implicações provindas da depressão, é que se
rapia com antidepressivos e/ou antipsicóticos, possibilitará uma assistência específica e dife-
nos casos em que houver necessidade. O que renciada.
também pode determinar a escolha desta Além disso, pesquisas futuras poderão
técnica é a história prévia de melhora com ECT contribuir para a criação de programas de in-
e a preferência do paciente por esse tratamen- tervenção que possam prevenir os problemas
to. No entanto, pouco se tem usado o trata- emocionais na infância, uma vez que os efeitos
mento com eletroconvulsoterapia em crianças, das dificuldades psicológicas podem ter uma
devido ao fato de que existem poucos estudos longa duração, prejudicando o desenvolvi-
a respeito e todos são relatos de casos (SALLEH mento da criança e, consequentemente, sua
et al., 2006; HARRINGTON, 1990). vida adulta. Portanto, é de extrema importân-
Costa e Castro (2002) lembram que, cia que os pais, professores e profissionais da
mesmo diante dos avanços resultantes de área da saúde estejam atentos às manifesta-
vários estudos e dos significativos progressos ções nas crianças, buscando seus significados
nos problemas da depressão na infância, a far- mais profundos, a fim de identificar qualquer
macologia não deve substituir a psicoterapia. sinal da doença o quanto antes.
Ela deve, na verdade, ser um complemento
na psicoterapia, possibilitando um prognóstico
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uma patologia considerada característica do
adulto. Contudo, a partir da década de 1960, AJURIAGUERRA, J. Manual de psiquiatria
pesquisadores começaram a pensar e a in- infantil. Rio de Janeiro: Masson do Brasil,
vestigar a depressão infantil. Esse interesse 1976.
aumentou devido à constatação de que a de-
ALLGAIER, A-K et al. Depression in pediatric
pressão é uma doença grave e pode levar as
crianças, entre outras coisas, ao isolamento, care: is the WHO-Five Well-Being Index a
baixo rendimento escolar, baixa autoestima ou valid screening instrument for children and
morosidade. adolescents? General Hospital Psychiatry, v.
Através da presente pesquisa, foi possível 34, p. 234-241, 2012.
perceber que a etiologia da depressão infantil ALSOP, P.; MCCAFFREY, T. Transtornos
é multifatorial, isto é, são vários os fatores que
emocionais na escola. São Paulo: Summus,
podem ser a causa desta patologia, como os
biológicos (genética) e os ambientais (proble- 1999.
mas no relacionamento com os pais). AMARAL, V. L. A. R.; BARBOSA, M. K.
Vale ressaltar que a depressão na criança Crianças vítimas de queimaduras: um estudo
tem suas próprias características, e os sinto- sobre a depressão. Estudos de Psicologia, v.
mas típicos do adulto iniciarão somente na
7, p. 31-59, 1990.
adolescência. Caso não seja tratada, a depres-
são infantil tem o poder de prejudicar várias AMERICAN ACADEMY OF CHILD AND
áreas do desenvolvimento de uma criança, ADOLESCENT PSYCHIATRY. 1996. Disponível
além disso, pode prognosticar episódio de de- em:<http://www.psych.med.umich.edu/web/
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Baseado no diagnóstico, que deve ter
como requisito básico uma profunda avaliação ANDRIOLA, W. B.; CAVALCANTE, L. R.
da sintomatologia, torna-se possível o trata- Avaliação da depressão infantil em alunos da
mento. Entretanto, para que se tenha sucesso pré-escola. Psicologia: reflexão e crítica, v.
no tratamento, é preciso que este seja plane- 12, n. 2, 1999.
jado visando o melhor benefício para a criança.
Porém, é interessante destacar que a depres- ASSUMPÇÃO JÚNIOR, F. B.; KUCZYNSKI,
são infantil é um assunto ainda pouco explora- E. Infância e adolescência. In: FRÁGUAS
do em pesquisas, o que faz com que existam JÚNIOR, R.; FIGUEIRÓ, J. A. B (Org.).
poucos tratamentos eficazes conhecidos. Depressões em medicina interna e em outras
Assim, há necessidade de mais pesquisas condições médicas. São Paulo: Atheneu,
sobre a depressão infantil, principalmente na 2000. p. 387-400.
etiologia e tratamento da patologia. O avanço
nas pesquisas poderá contribuir significati- BAGNER, D. M. et al. Effect of maternal
vamente para uma melhor compreensão do depression on child behavior: a sensitive

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