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FILOSOFIA 11º ANO

2- Estatuto do conhecimento científico


Que tipo de problemas se estuda em Filosofia da Ciência?
1. Problema da demarcação – o que distingue as teorias científicas das que não são científicas?
2. Problema do método científico – em que consiste o método científico?
3. Problema da evolução da ciência – como progride a ciência?
4. Problema da objetividade científica – será a ciência objetiva?

SENSO COMUM - É o modo de conhecer adquirido na nossa vivência quotidiana, de modo espontâneo e
imediato. É comum a todos os homens, sendo imprescindível para a resolução dos seus problemas do dia-a-
dia, permitindo-lhes adaptarem-se e sobreviverem no mundo.

CARACTERÍSTICAS DO SENSO COMUM

Empírico – apreensão sensorial, espontânea e imediata do real;


Espontâneo e imediato – conhecimento superficial, sem estudo prévio;
Superficial e Incompleto – aparência, ausência de causas, ingénuo, acrítico;
Dogmático – vê as coisas à sua maneira, não admite contraditório;
SENSO COMUM
Subjetivo – depende do sujeito, opinião particular;
Imetódico e assistemático – resolve as coisas por imitação ou improviso
Prático e pragmático – concreto, utilitário e resolve pequenos problemas do dia-a-dia.

Eis algumas frases que traduzem o conhecimento vulgar (ou senso comum):
 Mais vale tarde que nunca.
 Filho de peixe sabe nadar.
 Deus dá nozes a quem não tem dentes.
 O estrume fertiliza os solos.
 Quem come salgado, bebe dobrado.
 É mais seguro bebermos água depois de a termos fervido.
 Se colocares uma rodela de limão na forma onde vais cozer o pudim, ela não fica escura.
 As atividades agrícolas, a conservação dos alimentos, a construção de pontes e de embarcações, a cura
de algumas doenças, nas suas formas tradicionais, são o resultado de experiência acumulada de milhões de
pessoas, ao longo de muitos séculos.

1. Indica a característica do senso comum que é realçada em cada uma das citações abaixo.
A. Sem indagar as causas, sabemos que que: “Lua nova trovejada trinta dias de molhada”.
B. É uma prática corrente pregar pregos de ferro nos vasos de hortências para que estas adquiram um tom azulado.
C. Para o povo, é óbvio que no poupar é que está o ganho.
D. Têm se a ideia de que os judeus são avarentos e os jovens são violentos.
E. As pessoas aceitam o que veem e o que lhe dizem de forma passiva.
F. O seu conhecimento não penetra os fenómenos, permanece na ordem aparente da realidade.
G. Estão convictos que a mulher é predisposta a cuidar das crianças e não admitem o contrário.
H. Conhecimento errático, elaborado em função das necessidades imediatas e por ver fazer.

2. Classifica as seguintes afirmações, relativas ao senso comum, com o termo «Por vezes», «Sim» e «Não».
a) É motivado por necessidades práticas.
b) É preciso e rigoroso.
c) É justificado pela experiência quotidiana.
d) É estruturado.
e) Dá boas explicações.
f) É uma atividade metódica.
g) É informativo.
h) É criticamente avaliado.
i) Depende da observação empírica.
j) É testável.

1
DEFINIÇÃO DE CONHECIMENTO CIENTÍFICO – É um conjunto de teorias construídas para compreender a
realidade, procurando explicar os factos através da construção de leis, princípios e teorias que devem ser
objetivas e válidas para todos. É um conhecimento racional que utiliza um método rigoroso.
A ciência é uma tentativa sistemática e organizada de compreender o mundo: de que é feito, como funciona
e porquê.
CARACTERÍSTICAS DO CONHECIMENTO CIENTÍFICO

Racional – interpretação racional, relações causais, leis e teorias;


Fáctico e analítico – analisa os factos de forma precisa, rigorosa e clara;
Metódico e mediato – regras, método, verificação e controlo experimental;
CONHECIMENTO CIENTÍFICO Crítico – captação profunda e crítica do real, vai para além das aparências;
Objetivo – análise exata e rigorosa dos factos, sem subjetividades, universal;
Provisório – aberto, aproximado, progressivo e não definitivo, é revisível;
Preditivo – compreender, explicar e prever para dominar a natureza em função…

1- Indica a característica que é realçada em cada uma das citações abaixo.


a) «A ciência é mais uma maneira de pensar do que um corpo de conhecimento.» Carl Sagan
b) «Toda a ciência e filosofia são senso comum esclarecido.» Karl Popper
c) «A ciência é conhecimento organizado.» Kant
d) «O conhecimento e descoberta científicos têm sido alcançados apenas por aqueles que foram à sua
procura sem qualquer finalidade prática em vista.» Max Planck
e) «A busca de boas explicações é, a meu ver, o princípio básico regulador da ciência.» David Deutsch
f) «A necessidade de compreender é criada pela necessidade de prever os fenómenos.»
g) As verdades em ciência são tão biodegradáveis como qualquer material orgânico.»
h) «As ondas de calor provocam dilatação dos corpos.»
i) «A mesa à nossa frente não é fria ou quente, mas formada por pequenas partículas em movimento.

2- Preenche o seguinte quadro.

Senso comum Ciência


Como se apresenta? Como um corpo de conhecimentos Como um corpo de conhecimentos
dispersos e pouco estruturado. sistematizados e fortemente
estruturados.
Como se adquire? Muitas vezes de forma espontânea, sendo Tipicamente, é resultado de
outras vezes herdado de gerações investigação metódica e organizada.
anteriores.
Qual a finalidade? Geralmente procura-se descrever as A finalidade é geralmente produzir boas
coisas com fins essencialmente práticos. teorias explicativas.
Como é encarado? É encarado e transmitido de forma É criticamente avaliada e testada pelos
geralmente dogmática. próprios cientistas.

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MÉTODO INDUTIVO

OBSERVAÇÃO HIPÓTESE EXPERIMENTAÇÃO LEI/TEORIA


Constatação da existência Explicação provisória do Experiência metódica e Regra geral e universal em
de um determinado fenómeno resultante da orientada no sentido de virtude de a
fenómeno que exige organização de dados confirmar a hipótese experimentação ter
investigação observados (sujeitos a formulada confirmado a hipótese
confirmação) formulada
Constata-se que o ferro, o Todos os metais são bons Verifica-se a que Os metais são bons
cobre e o estanho são condutores de calor propriedade da boa condutores de calor.
bons condutores de calor condutibilidade ocorre
com outros metais, além
dos inicialmente
observados

Críticas ao indutivismo:
1. A observação não é o ponto de partida do método científico, não é neutra, isenta e pura, pois não só há
noções prévias, expectativas e escolhas que interferem na observação, como instrumentos tecnológicos que
medeiam essa observação.
2. Há teorias que não podem ter sido desenvolvidas mediante simples generalizações indutivas, pois
referem objetos que não são observáveis (p. ex., noção de átomo, moléculas e ADN).
3. O raciocínio indutivo não confere rigor lógico às teorias científicas . Popper, tal como Hume, também diz que a
indução é injustificada e não é confiável. E isto porque as generalizações indutivas que se fazem a partir de meras
observações ou experimentações são baseadas na ideia de que a natureza é regular e uniforme no seu funcionamento.
Mas esta ideia também se baseia na experiência, em observação passadas, ou seja, tal princípio também resultou de
uma inferência indutiva. Justificar a indução com a indução não é justificar nada.

MÉTODO HIPOTÉTICO-DEDUTIVO

FACTO-PROBLEMA HIPÓTESE CONSEQUÊNCIAS VERIFICAÇÃO CONCLUSÃO


Constatação do Formulação da Dedução das Das consequências Formulação de uma
lei
Identificação de uma Formulação de Dedução das Constatação da Lei/Teoria explicativa
situação possíveis explicações consequências que existência ou não dos fenómenos
desconhecida ou para a existência do deverão acontecer das consequências
contrária às teorias fenómeno (processo em função das deduzidas
existentes, que exige criativo) hipóteses formuladas
investigação
«Como é possível que «Talvez descubra o «Se assim for, de olhos «Vendar os olhos ao A experimentação
o salmão identifique caminho vendados não pode salmão para ver se ele confirma ou não a
exatamente o lugar reconhecendo objetos encontrar o caminho.» encontra ou não o consequência
onde nasceu depois de que viu durante a caminho de volta. preditiva?
tantos anos e de viagem.» O salmão de olhos
percorrer tão longa vendados encontra o
distância?» caminho de volta.
O salmão identifica o
caminho pelo olfato.
 De acordo com a perspetiva indutivista…

1.1. A investigação científica parte: 1.3. As hipóteses científicas:


A. da observação. A. são previsões.
B. de hipóteses B. são generalizações.
C. de problemas. C. são deduzidas.
D. de experiências. D. são sempre verdadeiras.

1.
1.2.Alguns filósofos pensam
A experimentação que aa:observação
destina-se 1.4. No método experimental:
A. refutar hipóteses. A. induz-se a partir da observação e a partir da
experimentação. 3
B. construir hipóteses.
C. confirmar hipóteses. B. induz-se apenas a partir da observação.
D. descobrir novas hipóteses. C. induz-se apenas a partir da experimentação.
D. induz-se a partir das hipóteses.
pura é impossível porque
2. De acordo com Hume, todas as inferências
indutivas pressupõem
3. A ciência não tem de partir da observação
porque
4. Segundo Hume, a justificação da indução é
circular porque

Falsificar teorias, segundo Popper


Se a teoria (T) é verdadeira, então ocorre aquilo que ela prevê (P). Forma lógica da inferência
Mas aquilo que ela prevê não ocorre. TP
Logo, a teoria não é verdadeira. ~P
~T
Aplicação da regra modus tollens

Verificação de teorias, segundo os indutivistas


Se a teoria (T) é verdadeira, então ocorre aquilo que ela prevê (P). Forma lógica da inferência
Aquilo que ela prevê ocorre. TP
Logo, a teoria é verdadeira. P
T
Falácia da afirmação do consequente

A maior parte das pessoas acredita que a ciência é racional porque:


 recorre a métodos logicamente confiáveis;
 produz teorias ou explicações objetivas;
 avança de forma progressiva.

Objeções ao critério da falsificabilidade:

1. Falsificações inconclusivas: nenhuma teoria científica pode ser conclusivamente falsificada por uma única
observação ou uma única experiência.
2. Não está de acordo com a prática científica : os cientistas procuram salvar as suas teorias quando elas
enfrentam uma refutação empírica; mais facilmente põem em causa o teste do que a teoria; na prática os
cientistas procedem apenas a alguns ajustes na teoria, conservando-a em vez de a considerarem falsificada.
3. O falsificacionismo torna irracional a nossa confiança nas teorias científicas . Se as teorias científicas nunca
são minimamente confirmadas pela experiência, então nunca deixam de ser meras conjeturas e, por isso,
não temos razões para confiar nelas.
4. Popper só dá conta do conhecimento científico negativo e não daquele que, em geral, nos leva a dar
importância à ciência: os seus resultados positivos. P. ex., a penicilina funciona porque tem certos
resultados, é útil, e não porque foi falsificada.

4
PROBLEMA DA OBJETIVIDADE DA CIÊNCIA
Formulação do problema: A ciência é objetiva?
Para que a ciência seja objetiva exige-se que a avaliação e escolha de teorias seja feita com base em
critérios imparciais, i.e., em critérios que não sejam baseados em razões ou preferências de caráter pessoal.
Se os cientistas escolhem uma teoria em vez de outra é porque há razões objetivas para isso, as quais não
dependem, portanto, do género, da religião, do país, do clube ou da ideologia política dos cientistas. A
eficácia preditiva e os resultados práticos da ciência também lhe garantem essa objetividade.
A objetividade implica:
 análise imparcial dos fenómenos;
 representação exata e clara do objeto ou realidade;
 exigência de universalidade e de um critério de verdade na validação das teorias;
 possibilidade de a teoria ser testada independentemente do seu autor.

PARA KARL POPPER A CIÊNCIA É OBJETIVA.


 Popper defende que a objetividade1 do conhecimento científico será alcançada progressivamente,
graças a um método rigoroso. Para Popper as teorias científicas, apesar de serem sempre provisórias, são
conjeturas sujeitas a testes rigorosos e objetivos, que podem ser levadas a cabo por qualquer cientista,
independentemente das suas convicções pessoais. Portanto, o conhecimento científico é objetivo porque a
sua lógica de justificação é independente de quaisquer sujeitos, dado que nenhum elemento subjetivo
intervém no modo como ele é testado.
Resumindo, a ciência é objetiva porque:
 A teoria é avaliada por meio de testes cada vez mais severos de falsificação.
 Neste caso, uma teoria só se mantém como científica se passar testes rigorosos e objetivos, os quais
podem ser levados a cabo por qualquer cientista, independentemente das suas convicções pessoais.
 Neste processo não intervém qualquer aspeto subjetivo (a justificação é independente de quaisquer
sujeitos).

PARA THOMAS KUHN A CIÊNCIA NÃO É TOTALMENTE OBJETIVA.


 Se a escolha entre teorias propostas por paradigmas que competem entre si depende em grande parte de
critérios subjetivos, então a ciência não é totalmente objetiva.
Kuhn reconhece que há critério objetivos, mas são insuficientes, tais como:
1. Exatidão: quanto mais exatas forem as previsões, melhor é a teoria.
2. Consistência: quanto mais uma teoria estiver de acordo com outras amplamente aceites, melhor é.
3. Simplicidade: quanto mais simples for uma teoria, melhor ela é.
4. Alcance: quanto mais coisas uma teoria conseguir explicar, melhor é.
5. Fecundidade: quanto maior for a capacidade para conduzir a novas descobertas científicas, melhor é
a teoria.

Apesar de tais critérios serem partilhados pelos cientistas, estes divergem na sua aplicação porque:
 uns cientistas podem dar mais importância a um critério do que a outros;
 os critérios não são estabelecidos com rigor e são de algum modo vagos.
 diferentes cientistas podem interpretá-los de modo diferente e chegar a conclusões diferentes.

Assim, para Kuhn, a ciência não é totalmente objetiva. Pois, há outros fatores subjetivos (históricos,
pessoais e sociais) que a influenciam.
Portanto, segundo Khun, não é possível apontar critérios fixos, pois pesam mais outro tipo de motivações nessas
escolhas: motivações pessoais, sociais, políticas, religiosas e outras, sejam elas a preservação do emprego, a
necessidade de pertença a uma comunidade, a procura de reconhecimento, razões políticas ou outras. Kuhn reconhece
que há critérios objetivos, mas considera que são insuficientes.

1
A objetividade pode ser definida como a caraterística do conhecimento que diz o que a realidade é.

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