Você está na página 1de 606

CONSELHO EDITORIAL

Otávio Velho – PPGAS-MN/UFRJ, Brasil


Dina Picotti – Universidade Nacional de General Sarmiento, Argentina
Henri Acserald – IPPUR –UFRJ, Brasil
Charles Hale – University of Texas at Austin, Estados Unidos
João Pacheco de Oliveira – PPGAS-MN/UFRJ, Brasil
Rosa Elizabeth Acevedo Marin – NAEA/UFPA, Brasil
José Sérgio Leite Lopes – PPGA-MNU/UFRJ, Brasil
Aurélio Vianna – Fundação Ford, Brasil
Sérgio Costa – LAI FU, Berlim, Alemanha
Alfredo Wagner Berno de Almeida – CESTU/UEA, Brasil

CONSELHO CIENTÍFICO

Ana Pizarro – Professora do Doutorado em Estudos Americanos Instituto


de Estudios Avanzados – Universidad de Santiago de Chile
Claudia Patricia Puerta Silva – Professora Associada – Departamento de
Antropologia – Faculdad de Ciências Sociales y Humanas – Universidad de
Antioquia
Zulay Poggi – Professora do Centro de Estudios de Desarrollo – CENDES
– Universidad Central de Venezuela
Maria Backhouse – Professora de Sociologia – Institut für Soziologie –
FriedrichSchiller-Universitätjena
Germán Palacios – Professor Titular – Universidad Nacional de Colombia,
Sede Amazonia – Honorary fellow, University of Wisconsin-Madison
Roberto Malighetti – Professor de Antropologia Cultural – Departamento
de Ciências Humanas e Educação “R. Massa” – Università degli Studi de
Milano-Bicocca
Alfredo Wagner Berno de Almeida

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU:


UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS

REPERTÓRIO DE FONTES DOCUMENTAIS E ARQUIVISTICAS,


DISPOSITIVOS LEGAIS E AÇÕES COLETIVAS
(1915 - 2018)

SÃO LUÍS
2019
Copyright © Todos os direitos reservados ao autor

Projeto Cartografia Social como Estratégia de Fortalecimento do Ensino e


da Pesquisa Acadêmica: Programa de Pós-Graduação em Cartografia Social
e Política da Amazônia e Projeto Mapeamento da Região Ecológica do
Babaçu.

Agência financiadora: Fundação Ford - Brasil


Universidade Estadual do Maranhão
Coordenação: Jurandir Santos de Novaes e Cynthia Carvalho Martins

II Parte relativa ao relatório de Fontes: Marcia Anita Sprandel e Alfredo


Wagner
Revisão: Rosiane Pereira Lima
Projeto Gráfico, diagramação e capa: Marcela Costa de Sozua

Ficha Catalográfica

A447q Almeida, Alfredo Wagner Berno de.


Quebradeiras de coco babaçu: um século de mobilizações e lutas -
Repertório de fontes documentais e arquivísticas, dispositivos
legais e ações coletivas (1915-2018) / Márcia Anita Sprandel
(Coautora) - Manaus: UEA Edições / PNCSA, 2019.

610 p.: il.; 16x23

ISBN 978-85-7883-499-9

1. Quilombolas 2. Conhecimentos tradicionais. 3. Quebradeiras de


coco. 4. Babaçual. I. Título. II. Sprandel, Márcia Anita.

CDU 316.35:394

(Elaborada por: Rosiane Pereira Lima - CRB 11/963)

UEA - Edifício Professor E-mails: UEMA- Endereço: Largo


Samuel Benchimol pncaa.uea@gmail.com Cidade Universitária Paulo
Rua Leonardo Malcher, 1728 pncsa.ufam@yahoo.com.br VI, 3801 - Tirirical, São
Centro - Manaus, AM www.novacartografiasocial.com Luís - MA, 65055-000
Cep.: 69010-170 Fone: (92) 3878-4412 Fone:(98) 3244-0915
(92) 3232-8423
SUMÁRIO

ILUSTRAÇÕES E FOTOS ............................................................. 13


SIGLAS E ABREVIATURAS UTILIZADAS ................................. 15
APRESENTAÇÃO GERAL ........................................................... 19
PREFÁCIO ..................................................................................... 23
APRESENTAÇÃO .......................................................................... 53
INTRODUÇÃO ................................................................................ 67
AS TRANSFORMAÇÕES NA “ECONOMIA DO BABAÇU”
E A EMERGÊNCIA DO MOVIMENTO DAS QUEBRADEI-
RAS DE COCO ............................................................................. 70
A MOBILIZAÇÃO CAMPONESA ............................................. 84
AS COOPERATIVAS DE PEQUENOS PRODUTORES AGRO-
EXTRATIVISTAS E A AFIRMAÇÃO DA IDENTIDADE ........... 87
O PROCESSAMENTO DO COCO BABAÇU E A IMPORTA-
ÇÃO DO ÓLEO DE PALMISTE ............................................... 98
PREÇOS E POSSIBILIDADES: A ORGANIZAÇÃO DAS QUE-
BRADEIRAS DE COCO BABAÇU FACE À SEGMENTAÇÃO
DOS MERCADOS ..................................................................... 111

I PARTE
LEGISLAÇÃO, DOCUMENTOS ADMINISTRATIVOS, MAPAS
E ICONOGRAFIA ............................................................................ 129
DOCUMENTOS ............................................................................. 135
LEI ESTADUAL Nº. 680 – de 30 de março de 1915 Autoriza o
Governo a contratar com um ou mais proponentes, a introdução, no Estado, de
máquinas portáteis apropriadas à quebra do coco babaçu ............................ 137
Decreto nº 3.058 - de 29 de dezembro de 1915 (Legislação
Federal) Determina que as máquinas destinadas ao beneficiamento do coco
da palmeira conhecida por babaçu paguem 8% “ad-valorem” ........................ 140
LEI ESTADUAL N.º 747 de 31 de Março de 1917 Concede a Carlos
A. da Silveira isenção de impostos de exportação de caroços ou sementes de
bacuri ou piqui ..................................................................................... 141
Lei n.º 805 de 23 de abril de 1918 Autoriza o Governo a fazer
concessões a “The Oversea Company of Brazil, Limited” .......................... 142
Lei n.º 1.039 - de 23 de março de 1923 Toma medidas atinentes à
exportação de amêndoas de coco babaçu. .................................................. 144
LEI ESTADUAL N.º 1.106 – 5 de maio de 1923 Proíbe a tiragem de
palmitos, destruição de palmeira de babaçu. ............................................... 145
Decreto n.º 1243 de 11 de abril de 1925 Concede favores à firma
Berringer e Companhia desta Capital para a montagem neste Estado de uma
fábrica com mecanismos e equipamentos para a extração de óleos vegetais ....... 147
Decreto n.º 953 - 3 de julho de 1925 Concede isenção de impostos pelo
prazo de dez anos ao químico industrial José de Ribamar Teixeira Leite, ou à
empresa que organizar ......................................................................... 150
DECRETO N.º 982 de 17 de setembro de 1925 Dispõe sobre a
cobrança dos impostos sobre amêndoas de coco babaçu, no interior do Estado .... 152
DECRETO ESTADUAL N.º 1.134 - de 17 de março de 1927
Concede isenção de impostos pelo prazo de dois anos ao cidadão J. A. Barbosa
de Góes, estabelecido com fábrica de óleos, na ilha de Itaúna município de
Alcântara .......................................................................................... 153
LEI ESTADUAL N.º 1.278 – de 29 de março de 1927
Autoriza o Governo do Estado a promover um concurso entre os
fabricantes de máquinas para quebrar babaçu .................................... 154
Lei n.º 1.361 – de 12 de abril de 1929 Concede isenção de imposto a
produtos da casca de coco babaçu fabricados por Alfredo Vidal, João Elias
Murad e Agostinho Souza .................................................................... 157
Decreto nº 903 - de 29 de agosto de 1935 Modifica o decreto 901, de 17
do corrente mês, que concede isenção de impostos a estabelecimentos que exploram a
indústria extrativa do óleo de babaçu e de outras sementes oleaginosas ................ 159
Ofício nº 11, da Associação Comercial do Maranhão ao Adido
Comercial do Brasil em Washington (E.U.A) N.º 11/ACM São
Luís, 11 de janeiro de 1936 ............................................................ 160
Decreto-lei n.º 334 – de 15 de março de 1938 Estabelece a classificação
e fiscalização dos produtos agrícolas e pecuários e matérias-primas do país,
destinados à exportação, visando a sua padronização ................................. 161
Decreto n.º 37 - De 11 de abril de 1938 Institui “Dia do Babaçu” .... 164
DECRETO-LEI Nº 153 MA – de 19 de novembro de 1938 Concede
vantagens às usinas de extração de óleos e aproveitamento do subproduto do
coco babaçu, que se instalarem no território do Estado ................................. 166
Decreto n.º 5.739 – de 29 de maio de 1940 Autoriza o regulamento
da padronização dos produtos agrícolas e pecuários e das matérias-primas, seu
subprodutos e resíduos de valor secundário ................................................ 168
Decreto n.º 7.263 – de 29 de maio de 1941 Aprova as especificações e
tabelas para a classificação e fiscalização de exportação de amêndoas de babaçu,
visando sua padronização ...................................................................... 193
Decreto-lei n.º 573, de 4 de fevereiro de 1942 Autoriza o Governo a
permitir a utilização, a título gratuito, dos frutos de babaçuais pertencentes ao
Estado, a empresas ou firmas nacionais que se comprometerem a instalar, no
território maranhense, usinas para a industrialização integral do coco ........... 194
Acordo de Washington. “Acordo sobre o babaçu” celebrado entre
o Brasil e os Estados Unidos da América do Norte, 25 de julho de
1942 - Acordo complementar com os E.U.A sobre o babaçu, 30 de
dezembro de 1944 ............................................................................. 198
ACORDO SOBRE COCO BABAÇU ENTRE O BRASIL E OS
ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA .............................................. 202
DECRETO-LEI N.º 1.236 DE 13 DE JUNHO DE 1946 Abre
crédito especial O interventor Federal na conformidade do disposto no
art. 6.º, n.º V., do decreto-lei federal n.º 1.202, de 8 de abril de 1939 ........ 204
DECRETO Nº . 27.793 DE 16 DE FEVEREIRO DE 1950
Aprova novas especificações e tabela para a classificação e fiscalização da
exportação de amêndoas de babaçu ............................................................ 205
CONSELHO NACIONAL DE ECONOMIA (*) Exposição
ANTEPROJETO DE LEI Em 30 de abril de 1952 ........................... 206
ANTEPROJETO DE LEI Cria a Comissão do Babaçu e dá outras 218
providências ........................................................................................
LEI N.º 838 DE 22 DE DEZEMBRO DE 1952 * Proíbe a derruba
de Palmeira Babaçu e dá outras providências ............................................ 224
ACORDO ENTRE OS COMPRADORES DE BABAÇU ......... 227
DECRETO N.º 41.150 – de 14 de março de 1957 Cria no Instituto
de Óleos, do Serviço Nacional de Pesquisas Agronômicas, do Centro Nacional
de Ensino e Pesquisas Agronômicas do Ministério da Agricultura, o “Grupo
de Estado do Babaçu” ......................................................................... 230
Doc. N.º 174/62. São Luís, 14 de março de 1962 ......................... 232
JORNAL PEQUENO, São Luís, 13 de abril de 1962
BABAÇUAIS SERÃO DESAPROPRIADOS .................................... 252
CÂMARA DOS DEPUTADOS PROJETO N.° 4.0068 – 1962
Autoriza a União a constituir uma Sociedade de Economia Mista, por ações
que denominará Companhia Nacional de Babaçu S. A., e dá outras
providencias ........................................................................................ 254
FEDERAÇÃO DAS INDÚSTRIAS DO ESTADO DO
MARANHÃO CONVENÇÃO NACIONAL DA INDÚSTRIA
REUNIÃO SETORIAL DO RIO GRANDE DO SUL .............. 273
DECRETO ESTADUAL N.º 3252, DE 11 DE DEZEMBRO
DE 1973 PROÍBE A derrubada de Palmeira de Babaçu e dá outras
providências .......................................................................................... 286
Lei Nº. 81, de 23 de Maio de 1979 Assembléia Legislativa A mesa a
Assembléia Legislativa do Estado do Maranhão, no uso de atribuições legais
e de acordo com o que preceitua o artigo 29, & 5.º, da Constituição do Estado,
PROMULGA a seguinte Lei: PROÍBE a derrubada de palmeira de babaçu
e dá outras providências ........................................................................ 290
Lei n.º 155, de 11 de janeiro de 1980 Cria a Fundação Instituto Estadual
do Babaçu - INEB e dá outras providências ............................................. 294
PORTARIA N.º 73, MINISTÉRIO DA AGRICULTURA DE
10 DE MARÇO DE 1980 ................................................................... 296
MESA REDONDA “O BABAÇU E SUAS PERSPECTIVAS”
Pronunciamento de Pedro Silva (Calango) – Representantes
da FATAEMA: ................................................................................. 298
Lei n.º 4.349 de 22 de outubro de 1981 Institui o babaçu
(orbignya martiana) como a Àrvore Símbolo do Maranhão .......... 301
LEI ESTADUAL N.º 3.888 DE 26 DE SETEMBRO DE 1983
“Proíbe a derrubada das palmáceas e árvores, que especifica,
e dá outras providências”. ........................................................... 302
LEI ESTADUAL N.º 4.734 de 18 de junho de 1986. Proíbe a
derrubada de palmeira de babaçu e dá outras providências ............................ 305
LEGISLAÇÃO ESPECÍFICA A PARTIR DA CONSTITUIÇÃO
DE 1988 ........................................................................................... 309
INSTITUTO BRASILEIRO DE DESENVOLVIMENTO FLO-
RESTAL-PORTARIA N.º 449, DE 03 DE OUTUBRO DE 1987 ..... 311
PORTARIA N.º 039/88-P DE 04 DE FEVEREIRO DE 1988 ... 314
PORTARIA N.º 267/788-P de 05/09/88 ..................................... 315
Ofício nº 13/88 CÂMARA DOS DEPUTADOS ............................. 317
IMPLANTAÇÃO E FUNCIONAMENTO DO CENTRO DE
PESQUISA AGROPECUÁRIA DE COCAIS, NO ESTADO
DO MARANHÃO ......................................................................... 320
SUBSTITUTIVO OU EMENDA AO PROJETO DE LEI N.º
176 DE 1991 EM TRÂMITE NA CÂMARA DOS DEPUTADOS
EM BRASÍLIA, DE AUTORIA DO SR. COSTA FERREIRA,
que: ................................................................................................ 324
PORTARIA Nº. 051/91 – GS DE 15 DE JANEIRO DE 1991
Dispõe sobre a sistemática de controle do regime de diferimento do ICMS
relativo aos produtos que especifica ......................................................... 326
DOCUMENTO DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DAS
INDÚSTRIAS DE BABAÇU São Luís, 04 de julho de 1991
Sindicato da Indústria de Preparação de Óleos Vegetais e Animais, Sabão e
Velas de São Luís ................................................................................ 328
INSTRUÇÃO NORMATIVA N.º 80, DE 24 DE SETEMBRO
DE 1991 ............................................................................................ 334
BABAÇU – “Análise das folhas” Rio Maria, Pará, 1992 ............... 338
WORKSHOP “Babaçu: Alternativas Políticas, Sociais e Tecnológicas
Para o Desenvolvimento Sustentado” ...................................................... 340
WORKSHOP “Babaçu: Alternativas Políticas, Sociais e Tecnológicas para
o Desenvolvimento Sustentado” ............................................................. 345
Portaria n.º 119 de 11 de março de 1994 ............................................ 364
OFÍCIO Nº 153/94 – GP/SGM – Assembleia Legislativa
Gabinete da Presidência ............................................................... 366
Jornal do Comércio, 14 de junho de 1994 ....................................... 367
DECRETO LEI N.º 1.262, DE 15 DE OUTUBRO DE 1994
Regulamenta os arts. 15, 19, 20 e 21, da Lei n.º 4.771, de 15 de setembro
de 1965, e dá outras providências ............................................................. 370
PORTARIA N.º 541, DE 27 DE OUTUBRO DE 1994 ............... 380
Portaria n.º 201, de 10 de agosto de 1995 ...................................... 381
Portaria n.º 202, de 10 de agosto de 1995 ....................................... 383
OFÍCIO COMISSÃO N.º 786 ...................................................... 385
PROJETO DE LEI N.º 1428 DE 1996 .......................................... 387
Ofício Comissão n.º 018 ..................................................................... 392
OFÍCIO N.º 182, /GMF ................................................................. 393
NOTA TÉCNICA N.º 027/SEAE ................................................... 394
Ofício Comissão n.º 126 .................................................................. 397
Substitutivo ao Projeto de Lei 1.428, de 1996 (Do Sr. Fernando
Gabeira) ........................................................................................... 399
Ofício n.º 1.150/96-SEAE ................................................................. 403
NOTA n.º 90/96-SEAE .................................................................. 404
Mensagem Governamental n.º 076/96 – Poder Executivo Lei
n.º 6.866 de 05 de dezembro de 1996 .............................................. 406

II PARTE
LEVANTAMENTO E ACOMPANHAMENTO DE
PROPOSIÇÕES LEGISLATIVAS REFERENTES AO TEMA
“BABAÇU” MARCIA ANITA SPRANDEL e ALFREDO
WAGNER ......................................................................................... 409
PROPOSIÇÕES ................................................................................ 410
QUADRO DEMONSTRATIVO DE PROPOSIÇÕES COM O
TEMA “BABAÇU” NA CÂMARA DOS DEPUTADOS DE
1952 A 2014 ...................................................................................... 413
DISCURSOS ...................................................................................... 423
DISCURSOS LOCALIZADOS PELO SISTEMA DE
PROPOSIÇÕES ............................................................................. 423
TRANSCRIÇÃO DOS DISCURSOS PROFERIDOS NA
CÂMARA DOS DEPUTADOS, LOCALIZADOS PELO
SISTEMA DE PROPOSIÇÕES (2004-2013) ................................. 429
COSTA FERREIRA (PSC-MA) .................................................. 429
ASSIS CARVALHO (PT-PI) .......................................................... 431
Ato da Presidência – Cria Comissão Especial destinada a proferir
parecer ao Projeto de Lei nº 231-A, de 2007 .............................. 439
ROBERTO ROCHA (PSDB-MA) ............................................. 439
DOMINGOS DUTRA (PT-MA) ................................................. 440
DOMINGOS DUTRA (PT-MA) ................................................ 442
Ato da Presidência - Projeto de Lei nº 231, de 2007 ................... 444
ZÉ VIEIRA (PSDB-MA) ............................................................. 445
OSVALDO REIS (Bloco/PMDB-TO) ......................................... 447
DOMINGOS DUTRA (PT-MA/ 5 Pronunciamentos) ................ 451
ROBERTO ROCHA (PSDB-MA) ............................................... 472
DOMINGOS DUTRA (PT-MA) ................................................ 478
DOMINGOS DUTRA (Bloco/PT-MA) ...................................... 480
RAIMUNDO SANTOS (Bloco/PL-PA) ....................................... 482
WAGNER LAGO (PP-MA) ......................................................... 487
TEREZINHA FERNANDES (PT-MA) .................................... 492
THEMÍSTOCLES SAMPAIO (PMDB-PI) ................................. 495
DISCURSOS LOCALIZADOS PELO SISTEMA DE
BUSCAS DA AGÊNCIA CAMARA (1948-2014) ................... 497
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS .............................................. 597

12 Alfredo Wagner Berno de Almeida


ILUSTRAÇÕES E FOTOS

Ilustração 1 - Livro Quebradeiras de Coco Babaçu: Identidade e


Mobilização ...................................................................................... 29

Ilustração 2 - Depoimento: "Nossa luta por melhores dias consiste nas


conquistas de nossas gerações em aspectos diversos como tradicional,
cultural e de resistência política e ambiental". Maria Alaídes, atual co-
ordenadora geral do MIQCB, eleita em fevereiro de 2019 .................. 52

Foto 1 - Intervenção de Dona Maria Querobina da Silva Neta


durante debates no VI Encontrão .................................................. 51
Foto 2 - Dona Socorro, com microfone, Dona Dijé e Dona
Francisca Lera ................................................................................. 51
Foto 3 - Dona Cledeneuza .............................................................. 51
Foto 4 - Dona Francisca , Tocantins ............................................... 51
Foto 5 - Dona Dada e Zulmira, cumprimentadas pelo Presidente
Lula, na solenidade de premiação do MIQCB, 2006 ...................... 65
Foto 6 - Show das Encantadeiras no Rio de Janeiro, 201................. 65
Foto 7 - Dona Dijé: “Nos babaçuais há conhecimentos” ............... 127
Foto 8 - Dona Dada e Dona Nonata .............................................. 127
Foto 9 - Dona Eunice, da RESEX do Ciriaco ................................. 127
Foto 10 - Arquivo Ildefonso Simões Lopes (ISL- Foto 006)
“Quebrador Manual de Côco Babassu”. Da esquerda para direita:
B. de Carvalho, Brito Passos, Alfredo Benna. 09 de setembro de
1921. Centro de Pesquisa e Documentação Histórica Contempo-
rânea do Brasil CPDOC- FGV ...................................................... 143

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 13


14 Alfredo Wagner Berno de Almeida
SIGLAS E ABREVIATURAS UTILIZADAS

ABIBA Associação Brasileira das Indústrias de Babaçu


ABISA Associação Brasileira das Indústrias Saboeiras
ACM Associação Comercial do Maranhão
ACR Animação dos Cristãos no Meio Rural
ACESA Ação Comunitária de Educação em Saúde e Agricultura
Art. Artigo
AMTR Associação de Mulheres Trabalhadoras Rurais - Lago do
Junco (MA)
ASEA Associação das Nações do Sudeste Asiático
ASMUBIP Associação das Mulheres Trabalhadoras Rurais do Bico
do Papagaio
ASSEMA Associação dos Sindicatos dos Trabalhadores Rurais do
Mearim
CENTRO Centro de Educação e Cultura do Trabalhador Rural
CESE Coordenadoria Ecumênica de Serviços
Cf. Conforme
CNPT Centro Nacional de Desenvolvimento Sustentado das
Populações Tradicionais
CNS Conselho Nacional dos Seringueiros
CEPAG Centro de Educação Popular e Ação Cultural
CEPES Centro de Educação Popular Esperantinense (PI)
CONTAG Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura
CPT Comissão Pastoral da Terra
COOPAES Cooperativa dos Pequenos Produtores Agroextrativistas
de São Luís Gonzaga
COOPALJ Cooperativa dos Pequenos Produtores Agroextrativistas
de Lago do Junco/MA
CUT Central Única dos Trabalhadores
CVRD Companhia Vale do Rio Doce

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 15


Dec. Decreto
DOE Diário Oficial do Estado
DOU Diário Oficial da União
EIA Estudos de Impacto Ambiental
EUA Estudados Unidos da América
FETAEMA Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado
do Maranhão
FETAGRI Federação dos Trabalhadores na Agricultura
FIBGE Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
FINAM Fundo de Incentivos da Amazônia
FINOR Fundo de Investimentos do Nordeste
FSP Folha de São Paulo
GTA Grupo de Trabalho da Amazônia
Ha Hectares
IBAMA Instituto Brasileiro de Meio Ambiente
IBDF Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal
IBGE Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
Ibid. Idem
INCRA Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária
INEB Instituto Estadual do Babaçu
ITERMA Instituto de Terras do Maranhão
ITERPA Instituto de Terras do Pará
MAB Movimento dos Atingidos por Barragens
MIC Ministério da Indústria e Comércio
MIQCB Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco
Babaçu
MIRAD Ministério da Reforma e do Desenvolvimento Agrário
MMA Ministério do Meio Ambiente e da Amazônia Legal
MST Movimento dos Trabalhadores Sem Terra
MSTR Movimento Sindical dos Trabalhadores Rurais
p. Página
PL Projeto de Lei

16 Alfredo Wagner Berno de Almeida


PLC Propostas de Lei Complementar
PA Projeto de Assentamento
PGC Programa Grande Carajás
Port. Portaria
Port. Interm. Porta Interministerial
Port. Min. Porta Ministerial
PROEX Programa de Financiamento a Exportação
RESEX Reservas Extrativista
RDS Reserva de Desenvolvimento Sustentável
RIMA Relatório de Impacto Ambiental
SEAE Secretaria de Acompanhamento Econômico / Ministério
da Fazenda
S/d Sem data
SAI Serviço de Informação Agrícola - Ministério da Agricultura
SMDDH Sociedade Maranhense de Defesa dos Direito Humanos
STR Sindicatos dos Trabalhadores Rurais
SUDAM Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia
SUDENE Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste
TOBASA Tocantins Babaçu S/A
UEMA Universidade Estadual do Maranhão

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 17


18 Alfredo Wagner Berno de Almeida
APRESENTAÇÃO GERAL

Jurandir Santos de Novaes

Bendito seja o teu fruto que nos serve de alimento


D. Luzia Domingas dos Santos, quebradeira de
coco babaçu do Projeto de Assentamento 21 de
Abril, em São João do Araguaia - PA. (Imperatriz
- MA, 07 de junho de 2014).

A publicação que ora apresentamos resulta de trabalho de pesquisa


realizado no âmbito do Projeto “Cartografia Social dos Babaçuais:
Mapeamento Social da Região Ecológica do Babaçu”, que se inscreve
nas atividades desenvolvidas no âmbito do Programa de Pós-Graduação
em Cartografia Social e Política da Amazônia, na Universidade Estadual
do Maranhão – PPGCSPA/UEMA, mediante apoio financeiro da
Fundação Ford previsto inicialmente para realização entre os meses de
abril de 2014 e março de 2016, com objetivo de realizar mapeamento
social na denominada “região ecológica do babaçu”, nos Estados do
Maranhão, Pará, Tocantins e Piauí. O prazo inicial de 2 anos se estendeu
por mais seis meses, até outubro de 2016, determinado por fatores
inerentes à dinâmica da pesquisa, especialmente, a premência de
elaboração do mapa geral da referida região apontada pelo MIQCB para
fortalecimento das estratégias de interlocução com agentes públicos, como
Ministérios em uma pauta que se articulava dentre outros eventos à
Marcha das Margaridas realizada por movimentos sociais em agosto de
2015, em Brasília. Isto levou à redefinição de calendários e prioridade
aos dados cartográficos.

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 19


A pesquisa teve continuidade por meio do Projeto “Cartografia
Social como Estratégia de Fortalecimento do Ensino e da Pesquisa
Acadêmica: Programa de Pós-Graduação em Cartografia Social e Política
da Amazônia e Projeto Mapeamento da Região Ecológica do Babaçu”,
entre os anos 2015 e 2019, que visa o aprofundamento da relação entre
ensino e pesquisa e estudos de situações específicas forjadas no
antagonismo de perspectivas de uso dos babaçuais que colocam de um
lado, as quebradeiras de coco babaçu, e de outro, agentes que promovem
a sua devastação notadamente, pelo agronegócio.
Nesta segunda fase da pesquisa foram produzidos trabalhos de
diferentes gêneros, como fascículos, boletins, livros, relatórios de pesquisa
e artigos científicos.
O trabalho de pesquisa realizado desde 2014 executou atividades
a partir da conjunção de trabalhos anteriores desenvolvidos na
denominada “região ecológica do babaçu”, privilegiando a atualização
de elementos empíricos e analíticos contemplados pelo Projeto “Nova
Cartografia Social da Amazônia”, entre os anos de 2005 e 2010, e pelo
Projeto “Mapeamento Social como instrumento de Gestão Territorial
Contra o Desmatamento e a Devastação – Processos de capacitação de
povos e comunidades tradicionais”, executado entre 2010 e 2015, nas
áreas compreendidas pelo bioma amazônico nos Estados do Maranhão,
Tocantins e Pará.
Envolveu diretamente pesquisadores na Universidade Estadual
do Maranhão – UEMA: Arydimar Vasconcelos Gaioso Cynthia
Carvalho Martins; Davi Pereira Junior; Helciane de Fátima Abreu;
Patrícia Maria Portela Nunes; na Universidade Federal do Piauí - UFPI:
Carmem Lúcia Silva Lima; na Universidade Federal do Maranhão -
UFMA: Benjamin Alvino de Mesquita; na Universidade Federal do Sul
e Sudeste do Pará – UNIFESSPA: Rita de Cássia Pereira da Costa; na
Universidade Federal do Tocantins – UFT: Rejane C. Medeiros de
Almeida; na Universidade Federal do Pará – UFPA: Jurandir Santos de
Novaes; na Universidade Federal do Pará – UFPA e UEMA: Jurandir

20 Alfredo Wagner Berno de Almeida


Santos de Novaes (como pesquisadora, professora no PPGCSPA e
coordenadora do projeto); UEMA: Alfredo Wagner Berno de Almeida
como professor no PPGCSPA, como pesquisador e colaborador na
coordenação do projeto; ainda como pesquisador, contou com Paulo
Gonçalves, assessor da Organização Não Governamental “Alternativas
para Pequena Agricultura no Tocantins – APA-TO”.
Participaram ademais, pesquisadores alunos do PPGCSPA/
UEMA, a saber: Bárbara dos Santos Cascaes, com atuação específica
relacionada à construção do Banco de Dados; Adaildo Pereira dos Santos,
em trabalho de campo na região de Imperatriz (MA) e Edson Sousa da
Silva e Luciana Railza Cunha Alves, em trabalho de campo na região
dos Cocais (MA). Luís Augusto Pereira Lima participou da equipe na
construção das bases cartográficas e no processo de cartografia e
georeferenciamento no âmbito do Projeto, o que se estendeu após a defesa
de mestrado. Esta atividade foi desenvolvida conjuntamente com a
pesquisadora Poliana Nascimento de Souza, responsável pelo Laboratório
Cartográfico implantado na UEMA São Luís (MA), em 2014, como
um dos resultados do projeto.
Participaram no âmbito do primeiro projeto, discentes de
graduação como bolsistas de iniciação científica. Estes produziram
monografias de graduação relacionadas ao tema deste projeto de pesquisa,
orientados pelos professores vinculados ao projeto, nas respectivas
universidades: na UEMA, Bruna Raissa Cruz Caldas e Kathiane Santana
Brito sob orientação da Professora Helciane de Fátima Abreu Araújo;
na UFPA, Herbertt dos Santos Lima e Rafael da Costa Monteiro, sob
orientação da Professora Jurandir Santos de Novaes; e relatório de pós
doutoramento desenvolvido por Érika M. Nakazono no âmbito do
PPGCSPA e do projeto em tela, supervisionado pelo Professor Alfredo
Wagner Berno de Almeida.
Há um número de colaboradores, que embora não integre o
quadro de bolsistas atuou eventualmente na pesquisa de forma voluntária.
Houve envolvimento direto das quebradeiras de coco babaçu, e de

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 21


entidades a estas relacionadas, como o MIQCB através das suas
Coordenações Regionais, de associações específicas de quebradeiras de
coco; de sindicatos de trabalhadores rurais e suas respectivas
representações em que contam com representação. Participaram todos
dos trabalhos de campo, das discussões, das oficinas e dos eventos da
pesquisa.
As publicações encontram-se organizadas em nove volumes
abrangendo Documentos de Trabalho compilados em diferentes gêneros
de produção, a saber: Relatórios; Matérias divulgadas pela imprensa
periódica; Notícias divulgadas em meio virtual; Mapa; Artigos e Livro,
que reunidos nos citados volumes expressam o desenvolvimento da
pesquisa. Ao mesmo tempo, externam diferenças no estágio da sua
elaboração, posto que, há conteúdos pertinentes aos volumes que se
encontram na forma primeira de sua escrita, ou na forma obtida nos
diferentes veículos de difusão impressos ou virtual de notícias. Deste
modo, não foram objetos de reformulação ou revisão, ou seja, conformam
material bruto compilado para uso em pesquisas posteriores, pelos
movimentos sociais e como memória de um processo de pesquisa; De
outro modo, há conteúdos que exprimem acurado e prolongado
processamento das informações primárias ou secundárias obtidas no
decorrer da pesquisa. Tais distinções se devem ao momento de elaboração
de cada um dos produtos que compõem cada um dos volumes e a
premência e prioridade de produção face aos processos concretos
vivenciados pelos movimentos sociais envolvidos na pesquisa.
No que diz respeito a este livro ora apresentado, importa sublinhar
que reúne contribuições diversas e fontes documentais e arquivísticas
diferenciadas correspondentes há mais de um século de documentos
oficiais. Tal livro compreende ainda, um prolongado trabalho de pesquisa
de campo, com observações realizadas no inverno e no verão, abrangendo
diferentes etapas do ciclo agrícola e extrativo articuladas com
levantamentos documentais sistemáticos. Ele se inscreve na Coleção
intitulada “Nova Cartografia Social dos Babaçuais”.

22 Alfredo Wagner Berno de Almeida


PREFÁCIO

***

O que foi pensado inicialmente como uma segunda edição


revisada e atualizada do texto Quebradeiras de Côco Babaçu: identidade
e mobilização, publicado em 1995, em verdade consiste agora, mais de
duas décadas depois, num novo livro, em virtude não só do acréscimo de
informações recentes e de dados com maior abrangência, propiciadas
pela incorporação de uma multiplicidade de fontes, mas também pelas
inovações das respectivas interpretações e dos recursos cartográficos com
fins de mapeamento social. Os levantamentos de fontes documentais
passaram de trinta e sete títulos para cerca de oitocentos e os de referencias
bibliográficas duplicaram, bem como mais que quadruplicou o número
de páginas. Neste conjunto o levantamento de matérias legislativas,
realizado no Congresso Nacional teve uma amplitude expressiva, com
um segundo e mais completo levantamento em 2014 e 2015, alcançando
603 referencias e incorporando proposições diversas, tais como:
anteprojetos de lei, Projetos de Lei do Senado (PLS) e da Câmara (PLC),
Propostas de Lei Complementar (PLC), Requerimentos e discursos de
parlamentares. A etapa de elaboração final do presente livro ocorreu mais
recentemente, ou seja, desde 2015, no âmbito do “Projeto Cartografia
Social dos Babaçuais: Mapeamento Social da Região Ecológica do
Babaçu”, coordenado operacionalmente por Jurandir dos Santos Novaes
e executado junto ao Programa de Pós-Graduação em Cartografia Social
e Política da Amazônia, da Universidade Estadual do Maranhão
(PPGCSPA-UEMA). As oficinas de mapas, as reuniões, os encontros

QUEBRADEIRAS
QUEBRADEIRASDE
DECOCO
COCOBABAÇU:
BABAÇU:UM
UMSÉCULO
SÉCULODE
DEMOBILIZAÇÕES
MOBILIZAÇÕESEELUTAS
LUTAS 23
e o processo de consultas com debates junto aos 07 (sete) “regionais1”
do Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu
(MIQCB), que agrupam lideranças intermediárias consoante sub-regiões
político-organizativas delimitadas pelo próprio MIQCB, ocorreram
principalmente em Imperatriz, em São Luis (MA) e em Teresina (PI).
Este processo de discussão permanente e seus reflexos pertinentes sobre
a intensificação das práticas cartográficas de pesquisadores acadêmicos
e de membros do MIQCB, na denominada “região ecológica do babaçu”,
impulsionaram-me para coligir dados e informações, com preocupação
analítica relativa aos desdobramentos possíveis desta forma organizativa
peculiar engendrada pelas quebradeiras de côco. Os debates com as
“coordenações regionais” sobre cada uma das partes do mapeamento,
com seus croquis, desenhos, esboços e ícones específicos, com sua
composição e problemas intrínsecos, complementaram o mapa final que,
junto com este livro, também consiste num produto deste mencionado
projeto e que teve pelo menos cinco versões anteriores dispostas
consecutivamente à discussão. Estes esforços sucessivos de reflexão, como
veremos adiante, e de interação sistemática, recuperando inclusive
informações históricas e episódios da memória do esquecimento,
reavivados no decorrer das reuniões e oficinas, convergiram para um
acabamento mais detido do presente livro, facultando novas interrogações
e problemas. De outra parte, funcionou como motivação mais recente o
propósito, anunciado em dezembro de 2018, da gestão atual do MIQCB,
sob a coordenação da senhora Francisca da Silva Nascimento, de
implementar um Centro de Formação, destinado às mulheres
extrativistas, iniciando-o, em janeiro de 2019, através da realização de
oficina “com o objetivo de construir coletivamente os conceitos,
conteúdos, metodologias e grades programáticas dos cursos modulares,

1
As denominadas Coordenações Regionais do MIQCB correspondem às circunscrições político-organizativas segundo
as quais foi subdividida pelo próprio MIQCB a chamada "região ecológica do babaçu", consoante critérios geográficos
e políticos, levando em conta a capacidade de mobilização preexistente à formação deste movimento social.

24 Alfredo Wagner Berno de Almeida


que servirão de subsídios para a elaboração do Plano Político
Pedagógico”2.
Numa abordagem reflexiva, focalizando a história social e
discutindo criticamente a datação destas novas formas político-
organizativas, no caso brasileiro, pode-se asseverar que, há quase quarenta
anos atrás era criada a União das Nações Indígenas (UNI) e logo após,
em 1984, o Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST), e
em 1985, o Conselho Nacional dos Seringueiros (CNS). Esta emergência
de novas formas político-organizativas fez-se sentir pertinentemente nas
discussões da Constituinte. E, a seguir, nos anos imediatamente
subsequentes, com a pluralidade afirmada pela Constituição de outubro
de 1988, vimos surgir: o Movimento Interestadual das Quebradeiras de
Coco Babaçu, a Comissão Nacional dos Atingidos por Barragens, que
convergiu para a criação do Movimento dos Atingidos de Barragem
(MAB), a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades
Negras Rurais Quilombolas (CONAQ), a Coordenação Indígena da
Amazônia Brasileira (COIAB), o Movimento Nacional dos Pescadores
(MONAPE), o Movimento dos Ribeirinhos do Amazonas (MORA), a
Articulação dos Faxinais, o Movimento dos Atingidos pela Base Espacial
de Alcântara (MABE) e a Central de Fundos de Pasto. As especificidades
destas formas organizativas3 tiveram efeitos profundos não apenas sobre
as lutas políticas por direitos territoriais e sobre as lutas em defesa do
meio-ambiente, principalmente contra o desmatamento da floresta
amazônica, mas também sobre interpretações concernentes à
mobilização política das quebradeiras de coco babaçu. Tais interpretações
e esquemas analíticos, com base nestes processos reais, passaram a
destacar uma transformação radical dos padrões convencionais de relação

2
Cf. "Convite Participação na Oficina de Planejamento do Centro de Formação das Quebradeiras de Côco Babaçu", firmado
pela Coordenadora Geral, Francisca da Silva Nascimento, e pela Coordenadora Pedagógica, Creusimar Oliveira, datado
de 20 de dezembro de 2018.
3
Estas especificidades foram tratadas in Almeida, A.W.B. de - Ter errr as de Quilombo
Quilombo,, Ter
errr as Indíg enas
enas,, "Ba
Indígenas baçuais
"Babaçuais
Li vr es", "Castanhais do PPoo v o", FFaxinais
vres", axinais e Fundos de PPasto: asto: Ter r as Tr adicionalmente Ocupadas
Ocupadas.
Manaus. UFAM/PNCSA. 2006

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 25


política. As mulheres extrativistas passaram de uma situação social de
atomização para aquela de uma existência coletiva, fundada em formas
organizativas intrínsecas. A identidade coletiva quebradeiras de coco babaçu
objetivada em movimento social, definiu os contornos das novas
mobilizações políticas, sobretudo, face aos atos de Estado (BOURDIEU,
2012:26). O critério de gênero facultou, em certa medida, a emergência de
um fator de feminilização nas reivindicações de extrativistas. As
necessidades das mulheres foram incorporadas ao processo de lutas políticas
com uma participação destacada do MIQCB, rompendo, inclusive, com
os limites regionais e de ecossistemas, e abrindo caminho para a emergência
de outras unidades de mobilização, referidas não apenas à Amazônia, como
as denominadas “andirobeiras do Marajó”, mas também ao Cerrado e à
Floresta Atlântica, como as denominadas “cipozeiras”, as mulheres
ceramistas nomeadas como “paneleiras”, as chamadas “marisqueiras”,
“catadeiras de mangaba” e outras designações aproximadas. Ao se
estruturarem interestadualmente e em diferentes ecossistemas as
quebradeiras de côco babaçu fixaram os fundamentos de uma nova
modalidade político-organizativa, recolocando a questão identitária e de
gênero como indissociável das lutas econômicas, seja no contexto das
atividades extrativistas, estrito senso, seja naquele das atividades agrícolas.
As questões ligadas à saúde da mulher extrativista ganharam corpo neste
processo de mobilização. O conhecimento do modo de ser e fazer tornou-
se um elemento contrastante das quebradeiras de coco face a outras
identidades coletivas e outras unidades de mobilização, e propiciou a
consolidação de um repertório de especificidades relativo à sua condição.
Este processo de consciência de si mesmas reforça as pautas
reivindicatórias num contexto de transição em que o conceito de “traba-
lho abstrato simples, que desde Adam Smith, era considerado como a
fonte de valor, é agora substituído por trabalho complexo. O trabalho de
produção material, mensurável em unidades de produtos por unidades
de tempo, é substituído por trabalho dito imaterial, ao qual os padrões
clássicos de medida não mais podem se aplicar.” (GORZ, 2005:15). Esta

26 Alfredo Wagner Berno de Almeida


transformação da própria noção de produtividade e da divisão do traba-
lho ao produzir, evidencia uma knowledge economy ou uma economia do
conhecimento4, estabelecendo um novo patamar de lutas em que todas
as dimensões culturais e as particularidades de quem produz, como está
acontecendo na situação concernente às mulheres extrativistas, são co-
locadas nas mesas de negociação com seus antagonistas e interlocutores
interessados na aquisição das amêndoas e do óleo de babaçu. Pode-se
entender, deste modo, com maior discernimento os contratos e as tran-
sações comerciais das associações e cooperativas das quebradeiras de coco
com empresas saboeiras, indústrias farmacêuticas, laboratórios de
biotecnologia e indústrias de cosméticos. Ao sentarem nestas mesas de
negociação, com a autoridade e o peso de seu conhecimento, as
quebradeiras de coco escrevem na Amazônia, quanto ao extrativismo,
um novo capítulo de economia política.
Nos limites desta pesquisa nos concentramos nos desdobramen-
tos da ação coletiva das extrativistas do babaçu. Dentre os primeiros re-
gistros sistemáticos concernentes a estes efeitos organizativos podem
ser consultados pelo menos dois trabalhos, que elaborei em 1989 e entre
1990 e 1993, quais sejam: i) o artigo intitulado “Universalização e
localismo: movimentos sociais e crise dos padrões tradicionais de rela-
ção política na Amazônia”5 e ii) o livro Carajás: A Guerra dos Mapas6,
cujas duas primeiras edições datam respectivamente de 1993 e 1995,
com finalidade de apoiar a leitura do mapa, sobre a chamada “região de
Carajás”, produzido do ponto de vista dos movimentos sociais,. Este pro-

4
"Os anglo-saxões falam do nascimento de uma knowledge economy e de uma knowledge society, os alemães de uma
Wissensgesellschaft, os autores franceses, de um "capitalismo cognitivo" e de uma "sociedade do conhecimento". O
conhecimento (knowledge) é considerado como a "força produtiva principal". (GORZ, ibid.). Consulte-se: Gorz, André
- O imaterial. Conhecimento, Valor e CapitalCapital. São Paulo. AnnaBlume. 2005.
5
Este texto foi redigido no segundo semestre de 1989 e publicado na Revista da ABRA ABRA, n. 1. Campinas, 1990.
Posteriormente foi atualizado no CESE De ba
Deba te
bate
te. Número 3. Ano IV. Maio de 1994. Foi mais uma vez atualizado,
posteriormente, e passou a constar do livro de minha autoria intitulado Quilombos e as Novas Etnias
Etnias. Manaus.
UEA Eds. 2011.
6
Vide-Almeida, A.W.B. de - Car ajás: a Guerra dos Mapas. Repertório de fontes documentais e comentários para apoiar
Carajás:
a leitura do mapa temático do Seminário-Consulta "Carajás: desenvolvimento ou destruição?". Belém. Março de 1995
(2ª. edição revista e ampliada.).

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 27


cesso de produção cartográfica contemplou não apenas o ponto de vista
dos agentes sociais das denominadas terras indígenas, “terras de índio”
“terras de preto” e “terras de santo”, mas também dos castanhais, dos
babaçuais, dos açaizais, das cooperativas de produção de óleos vegetais e
do movimento social dos Sindicatos de Trabalhadores Rurais; bem como
os atos de mobilização pela reforma agrária ampla e massiva e as situações
classificadas como de conflitos sociais pela terra. O ato de mapear a co-
nhecida “mancha”, correspondente à região ecológica do babaçu, rompeu
com a visão oficial formalizada durante a ditadura militar, em 1982, que
estimava em 18,5 milhões de hectares a área de ocorrência de babaçu,
distribuída pelos Estados do Maranhão, Piauí, Goiás (que então incluía o
Tocantins), Pará e Mato Grosso. O eixo do problema foi deslocado da
geografia – área de incidência de determinadas espécies de palmáceas –
para a economia política – região ecológica de atuação dos movimentos
sociais organizados pelas mulheres extrativistas, que se autodefinem como
quebradeiras de côco babaçu. Conforme já foi sublinhado este agrupa-
mento de mulheres extrativistas através de mobilizações e lutas
reivindicatórias passou de uma existência atomizada e serial, com unida-
des sociais dispersas sob a designação de “comunidades”, para uma exis-
tência coletiva estruturada a partir dos denominados “regionais” ou lide-
ranças intermediárias referidas a cada uma das circunscrições políticas do
MIQCB. Esta ruptura consolidou ademais uma base cartográfica, con-
templando o êxito das mobilizações, que doravante, ou seja desde 1993, se
constituiu numa fonte imprescindível para os trabalhos posteriores.
Valendo-se desta ruptura, a iniciativa de produzir um livro em
1997 consistia em privilegiar tão somente a região ecológica do babaçu,
do ponto de vista dos “regionais”, voltando-se, notadamente, para os
cursos de formação que ministrávamos, durante os anos que permaneci
como professor-visitante da UFMA 7, para as representantes de

7
Fui professor visitante do PPG em Políticas Públicas da UFMA, entre 1996 e 1998, e muitos alunos e colegas
acompanharam-me nas iniciativas de ministrar cursos em associações locais, tais como: Miguel Henrique Pereira da
Silva, Helciane Araújo, Cynthia Carvalho Mar tins e Arydmar Gaioso.

28 Alfredo Wagner Berno de Almeida


comunidades indicadas pelo MIQCB. Assim o texto que, inicialmente,
deveria ter sido a segunda edição do livro Quebradeiras de Coco Babaçu:
identidade e Mobilização jamais foi dado a público, embora o resultado
das compilações tenha sido digitalizado e disponibilizado aos que
participaram dos cursos de formação realizados pelo MIQCB, no decorrer
de 1998. O texto permaneceu com circulação bastante restrita e seus
resultados foram apresentados de maneira fragmentada e deveras dispersa
através de argumentos publicizados em seminários, cursos, palestras,
pautas reivindicatórias e debates públicos.

Ilustração 1 - Livro: Quebradeiras de Coco


Babaçu: Identidade e Mobilização.

O mapa que deveria acompanhar a edição manteve-se inconcluso.


Como veremos adiante um novo mapeamento social foi realizado em
2004, no âmbito do MIQCB, e resultou no mapa acompanhado do livro
intitulado Guerra Ecológica nos Babaçuais8.

8
Vide Almeida, A.W.B. de; Shiraishi Neto, J.; Car valho Mar tins, Cynthia - Guer r a ecológica nos ba baçuais
baçuais.. O
babaçuais
processo de devastação dos palmeirais, a elevação do preço de commodities e o aquecimento
do mer cado de ter r as na Amazônia
mercado Amazônia. São Luís. MIQCB/Balaios Typ. 2005.

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 29


Somente agora, a partir de 2014-2015, dez anos depois, com o
“Projeto Cartografia Social dos Babaçuais” surgiram condições de
possibilidade para se produzir com maior fôlego e precisão um robusto e mais
completo mapeamento social numa articulação entre pesquisadores das
principais universidades públicas (UFPI,UFPA,UFMA,UEMA,UNITINS)
da região ecológica dos babaçuais, sob a liderança do PPGCSPA/UEMA,
com o MIQCB. Para tanto foram realizados trabalhos de campo regulares,
durante três anos e meio, a partir de pelo menos seis equipes distribuídas
pelas quatro unidades da federação (PI,MA,PA,TO), que compõem a
referida região ecológica do babaçu. Foram também recuperadas as fontes
cartográficas sobre esta região desde pelo menos 1911. Em fins de 2018,
as equipes do PPGCSPA/UEMA e do PNCSA, em colaboração estreita
com as coordenações regionais do MIQCB, completaram 04 anos de
trabalhos de campo, consolidando relações de pesquisa e descrevendo
uma nova etapa do processo de produção cartográfica acerca da área de
atuação das quebradeiras de coco babaçu.
Os debates sobre a abrangência das fontes documentais impres-
cindíveis para esta interpretação sociológica impeliram ao resgate do pri-
meiro levantamento e à gênese social desta modalidade de procedimen-
to. Nesta breve recuperação histórica pode-se dizer ainda que quase dois
anos após a primeira edição do levantamento, de 1995, durante um Cur-
so de Formação9 das trabalhadoras extrativistas, realizado em São Luís
entre 14 e 17 de fevereiro de 1997, é que foi considerada a iniciativa
pedagógica de reedição do livro Quebradeiras de Coco Babaçu: Identi-
dade e Mobilização, com informações atualizadas. Desta data até o cur-
so realizado em 26 e 27 de junho de 1998, em Pedreiras, foram empreen-
didos inúmeros levantamentos de dados na imprensa periódica e coleta
de informações em unidades sociais, cujos representantes participaram

9
Estes Cursos de Formação, ministrados para 25 (vinte e cinco) ou 30 (trinta) quebradeiras de coco, focalizavam: i)a
formação econômica e social do Maranhão, privilegiando fontes históricas relativas ao extrativismo do babaçu, ii) a
legislação ambiental, iii) os dispositivos internacionais concernentes a direitos humanos e povos tribais e comunidades
tradicionais, iv) a legislação agrária, v) as mobilizações pela reforma agrária no Maranhão desde o pós II Guerra Mundial
e vi) as experiências de sindicalização de trabalhadores rurais no Maranhão.

30 Alfredo Wagner Berno de Almeida


dos cursos. Nos trabalhos preparatórios aos cursos subseguintes, a base
documental e arquivística acabou sendo consideravelmente ampliada.
Não apenas foram detectadas outras disposições legais e medidas admi-
nistrativas datadas do início do século, como também foram atualizadas
as informações disponíveis sobre a chamada “economia do babaçu”, a
partir de levantamento realizado em Brasília nos Ministérios da Fazen-
da e da Justiça. Os resultados imediatos ampliaram significativamente o
repertório de documentos oficiais e os registros em periódicos de âmbito
regional, justificando um refinamento dos esforços analíticos e uma in-
terpretação de fatos alusivos à circulação do óleo de babaçu num con-
texto de explosão das importações e de agravamento das contas exter-
nas. Colaboraram, neste mesmo período, no levantamento do material
de atualização, disponível em bibliotecas, a antropóloga Cynthia Carva-
lho Martins e a então estudante de Ciências Sociais da Universidade
Federal do Maranhão, Silvanete Matos Carvalho, socióloga que hoje
assessora a ASSEMA. Colaboraram também o sociólogo Miguel H.
Pereira da Silva e o economista Benjamin Alvino de Mesquita. Na con-
secução destas atividades, realizadas em 1998, cabe ressaltar que cinco
documentos da segunda e terceira décadas do século XX, de 1917 a
1925, ora acrescentados, foram disponibilizados à pesquisa a partir de
levantamento bibliográfico realizado pelo advogado Joaquim Shiraishi
Neto sobre legislação agrária. O agrônomo e doutor em antropologia,
Roberto Porro, me facultou então o acesso a documentos levantados a
partir de trabalhos de pesquisa direcionados para a elaboração de sua
dissertação de Mestrado. Dona Maria Alaídes Alves de Souza, liderança
das quebradeiras do povoado de Ludovico (MA), juntamente com
Luciene D. Figueiredo, então da equipe técnica da ASSEMA, ajuda-
ram-me a atualizar as informações relativas à região do Mearim. Visitas
de campo foram feitas a Pedreiras e Imperatriz (MA), a Esperantina e
Teresina (PI). Este conjunto de dados resultou na composição de um
mapa preliminar que ficou inconcluso, porquanto as iniciativas ficaram
restritas principalmente ao Maranhão. Dona Mariana Rodrigues dos

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 31


Santos, de São José dos Moura (MA), possibilitou-me várias informa-
ções sobre a organização das mulheres no período da intensificação dos
conflitos agrários, em 1985 e 1986, e do lançamento do Plano Nacio-
nal de Reforma Agrária da Nova República. Estas informações transmi-
tidas por Dona Mariana datam do mesmo período em que participei
como professor, ministrando cursos de formação na “Escola Sindical”
em São Mateus (MA), após ter participado, durante quase dois anos
(março de 1985 a fevereiro de 1987), da experiência de formação da
Coordenadoria de Conflitos Agrários do extinto MIRAD. As senhoras
Maria Adelina de Souza Chagas (Dada), Maria Alaídes, Maria Anísio,
Heloísa e Otacília elaboraram textos sobre o Movimento Interestadual
das Quebradeiras de Coco Babaçu (MIQCB) e sobre as experiências de
organização da produção de óleos vegetais, sabonetes e papel reciclado,
que vieram a integrar o livro intitulado Caderno Tempos Novos:
Maranhão em rota de colisão: Experiências camponesas x Políticas go-
vernamentais, organizado por mim e pelo sociólogo Miguel Henrique
Pereira da Silva, então meu orientado, no Mestrado em Políticas Públi-
cas da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), e um dedicado com-
panheiro de pesquisa de campo, que posteriormente pesquisou a comu-
nidade quilombola de Saco das Almas, Brejo (MA) e hoje assessora a
FETAEMA. Incentivamos as próprias quebradeiras de coco, como Dona
Maria Alaídes, e sua assessoria, como Luciene Figueiredo, a escreverem
artigos para o livro mencionado. Movia-nos o princípio de que as mu-
lheres extrativistas fossem também as autoras de interpretações sobre
elas mesmas, numa quadra em que falar sobre si mesmo, significava por
um fim à força política dos mediadores externos, que diziam, inclusive,
ter como objetivo “dar voz” às quebradeiras. Ao se autodefinirem e
objetivarem uma identidade coletiva em movimento social elas consoli-
davam o processo de formação de unidades político-organizativas autô-
nomas, afastando-se radicalmente de qualquer ato de doação ou conces-
são de direito. A Constituição de 1988 propiciava condições para que tal
princípio se efetivasse.

32 Alfredo Wagner Berno de Almeida


Inúmeras discussões foram realizadas com base nos dados
coletados em diferentes municípios, objetivando um trabalho cartográfico
apropriado. A preocupação em produzir um instrumento mais abrangente,
complementar aos Cursos de Formação, orientou os procedimentos com
propósito de levantamento de fontes documentais diversas. Todas as
iniciativas de documentação que durante décadas a fio, pelo menos de
1915 a 1975, foram prerrogativas exclusivas de interesses vinculados à
ação de aforamento de latifundiários ou pretensos donos dos babaçuais,
a comerciantes de amêndoas de babaçu e a indústrias de óleos vegetais
passaram, a partir de 1984, a serem executadas no âmbito das organizações
locais das trabalhadoras extrativistas (associações, cooperativas, clube de
mães) e de seus parceiros e agencias com propósito de mediação, dentre
elas as entidades confessionais. Os projetos de pesquisa acadêmica sobre
o extrativismo do babaçu, vinculados às universidades públicas, foram se
consolidando neste período, notadamente desde os anos 1979-81 até o
presente.
A exemplo de outras situações históricas os pesquisadores
acadêmicos posicionaram-se nesta luta política com seus critérios de
competência e saber, fazendo valer os ditames de seus procedimentos de
pesquisa científica. Não se converteram às disciplinas militantes, que
tiveram papel destacado de formulação entre 1973 e 1980, no âmbito de
entidades confessionais. Mantiveram os trabalhos de pesquisa, produzindo
análises criteriosas, sem abandonarem as exigências e os critérios de
competência de pesquisadores científicos10. Esta finalidade pedagógica
acenou, além disto, com a possibilidade de produção de novos
conhecimentos sobre a mobilização das quebradeiras de coco babaçu,
sobretudo dos conhecimentos cartográficos a partir de croquis e desenhos
produzidos no decorrer dos cursos de formação e de oficinas de mapas.

10
Para um aprofundamento desta perspectiva consulte-se Bourdieu, P. - "Por um conhecimento engajado" in Contr af
afoo gos
Contraf
2. PPor
or um mo vimento social eur
movimento opeu
europeu
opeu. Rio de Janeiro. Jorge Zahar Ed. 2001 pp.36-45 (1ª. Versão deste texto,
dezembro de 1999).

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 33


Sob este prisma esta iniciativa de uma nova cartografia social e suas
especificidades se inscreve num esforço maior que assinala possibilidades
de desdobramentos e fortalecimento de novas formas organizativas. Se
no caso da experiência de A Guerra dos Mapas, entre 1990 e 1993,
havíamos nos valido sobretudo da ação mediadora confessional, cujas
agencias apoiavam financeiramente organizações não-governamentais,
no período imediatamente seguinte nos vimos impelidos a retomar
relações solidárias e diretas com associações voluntárias da sociedade
civil, que estavam mais vinculadas às instituições ambientalistas no plano
internacional. Tais agencias dispunham inclusive de laboratórios para a
produção de materiais cartográficos. Nesta tentativa de retomada a
contribuição do então diretor executivo de uma agencia ambientalista,
advogado José Heder Benatti, hoje professor da UFPA, foi marcante,
assegurando um avanço nas condições técnicas para o mapeamento social
da região ecológica do babaçu. Tal trabalho infelizmente mal deu seus
primeiros passos e foi interrompido sem que tenha tido posteriormente
qualquer continuidade. As tentativas de produzir um mapeamento social
mais aprofundado e completo, com agencias ambientalistas, não lograram
êxito. Por outro lado as mobilizações políticas, que até 1986-87 estavam
caracterizadas principalmente por lutas econômicas, passaram a
incorporar com maior vigor e repercussão demandas identitárias. A noção
usual das quebradeiras de côco babaçu como agentes sociais que
encontravam sua expressão político-reivindicatória nos Sindicatos de
Trabalhadores Rurais, conhece transformações profundas e registram-
se lutas específicas que garantem um lugar político-institucional efetivo
e permanente para uma representação própria às quebradeiras nas mesas
de negociação com os aparatos de poder. O protagonismo politico do
movimento das mulheres extrativistas alcança um ponto elevado com
esta representação. Este deslocamento levou à formação do MIQCB, o
qual não inibe os vínculos sindicais de mulheres extrativistas com os
STRs, mas se erige enquanto entidade de representação, consolidada a
partir de lutas intrínsecas à identidade coletiva designada quebradeiras

34 Alfredo Wagner Berno de Almeida


de coco babaçu. Está-se diante não apenas de uma coexistência de formas
organizativas diferenciadas, tais como sindicatos, movimentos,
associações, clubes e cooperativas, mas também de mobilizações
identitárias, que se mostram indissociáveis das lutas econômicas. Nesta
ordem a distinção entre terra e território, e a aparentemente paradoxal
inseparabilidade entre ambos, ganhou força a partir da consolidação dos
fundamentos da Constituição de outubro de 1988. O conceito de terras
tradicionalmente ocupadas discutido à exaustão indicou condições de
possibilidades para a consolidação de identidades coletivas. A distinção
tornou-se um fator essencial para assegurar a conjunção das mobilizações
em torno de direitos territoriais, entendidos como abrangendo terra, num
desdobramento das lutas sindicais por reforma agrária, e território, que
concerne a um processo de afirmação identitária e de exercício de práticas
econômicas intrínsecas à consolidação da identidade coletiva.
Apoiados nestes fundamentos empreendemos a realização de
trabalhos de pesquisa sobre o tipo de territorialidade que corresponderia
à quebradeiras de coco babaçu. Percebemos a inseparabilidade entre as
atividades agrícolas e extrativas, e confirmamos nossa interpretação sobre
a coexistência de terras de uso comum com terras de uso familiar restrito.
Ainda em 1998, o sociólogo Miguel Henrique Pereira Silva contribuiu
com afinco para que fosse finalizada uma edição com fins pedagógicos,
observando maior apuro e rigor sobre os efeitos de uma economia
globalizada, e que refletiria as experiências didáticas que estávamos
realizando. As agentes sociais participantes dos mencionados cursos de
formação, que já abordavam as mobilizações econômicas e identitárias,
participaram das discussões com muita paciência e fizeram inúmeras
interrogações que concorreram, após intenso esforço analítico, para a
elaboração de novas indagações e respostas somente agora incorporadas
de vez. Haja vista que em 1999 o dado econômico mais destacado
referia-se às profundas desvalorizações cambiais na Ásia e, em especial,
na Malásia e na Indonésia, maiores exportadores mundiais de óleos
vegetais, que implicaram num deslocamento do Brasil deste mercado de

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 35


óleos. As projeções para 1998-2000 indicavam que os preços mundiais
das commodities e daqueles óleos vegetais, notadamente do óleo de
palmiste, que competia com o óleo babaçu, deveriam continuar deprimidos
sem que se pudesse esperar qualquer reação. A política de mercado aberto,
com a drástica redução das alíquotas de importação, no Governo Collor,
deixou entrever perspectivas sombrias para a comercialização de produtos
dos trabalhadores e trabalhadoras extrativistas, forçando-a a ficar
comprimida em “nichos” de mercado ou a esferas de circulação bem
restritas ou bastante reduzidas em sua amplitude. Estes “nichos”
ecológicos encontram-se no raio de ação estratégica de agencias
ambientalistas. Os debates nos cursos de formação dirigidos às
quebradeiras de coco babaçu propiciaram um aprofundamento da reflexão
sobre as oposições entre um mercado segmentado, abrangendo as
vicissitudes da produção destes “nichos”, e um mercado de commodities.
Os resultados destas atividades foram consolidados com base num
levantamento de dados executado no decorrer de 2000 e resultaram na
publicação do livro Economia do Babaçu11 distribuído pelo próprio
MIQCB, cuja capa das primeiras edições foi produzida com papel
artesanal fabricado com fibras da palmeira babaçu pelas próprias mulheres
extrativistas. Em fins de 2003 e início de 2004 a partir de contatos com
lideranças do MIQCB, notadamente as senhoras Maria Adelina Chagas,
Dona Dada, e Dona Maria Alaídes, que consideravam relevante que
fossem sistematizadas interpretações sobre as politicas governamentais,
elaborei uma sinopse intitulada Informativo do MIQCB: As Politicas
Governamentais e o Extrativismo do Babaçu, contando com a
colaboração do antropólogo Marcelo Pietrafita na etapa de
levantamento das informações. Este Informativo foi dado a público
em abril de 2004 e propiciou discussões com vistas a um projeto de
pesquisa mais abrangente.

11
Vide Almeida, A.W.B. de ; Shiraishi Neto, J. e Mesquita, B.A. de - Economia do Ba baçu: le
Babaçu: levv antamento
preliminar de dados
dados. São Luís. Ed. MIQCB-Balaios Tipografia. 2000

36 Alfredo Wagner Berno de Almeida


Oito meses depois, em dezembro de 2004, após quase quatro anos
das experiências pedagógicas, os cursos de formação de quebradeiras de
coco babaçu foram retomados de maneira mais intensiva. O foram prin-
cipalmente a partir deste mesmo dezembro, data do V Encontrão do
MIQCB, quando na direção desta entidade foi confirmada, a partir de
processo eleitoral, a senhora Maria Adelina Chagas, Dona Dada. Por
solicitação que me foi feita diretamente por ela foram iniciados dois tra-
balhos de pesquisa acadêmica junto ao MIQCB12, aproveitando os re-
sultados dos cursos de formação e objetivando propiciar dados sistemá-
ticos para as mobilizações das quebradeiras de coco babaçu. Estas mobi-
lizações consistiram em três campanhas: i) contra o desmatamento e a
queima do “coco inteiro”, ii) pela “proteção das florestas de babaçu” e iii)
pelo “direito das mulheres quebradeiras de coco babaçu terem livre aces-
so aos babaçuais”. Tais mobilizações foram intensificadas no contexto
destas campanhas. No segundo semestre de 2004 foram realizados le-
vantamentos bibliográficos direcionados à questão extrativista e efetiva-
das visitas a áreas sob controle das mulheres extrativistas, agrupadas no
MIQCB. Além disto foram realizadas pelo menos quatro oficinas de
mapas, materializando os pontos relativos aos principais problemas por
elas vividos. Um dos temas mais proeminentes da pauta governamental,
neste período, tratava-se do biodiesel, que é um combustivel renovável
produzido com óleos vegetais, novos ou usados, gorduras animais e resí-
duos industriais. O biodiesel, que tem como fonte o óleo vegetal pode
ser produzido a partir de: babaçu, palma, mamona, dendê, girassol, amen-
doim, algodão, soja, entre outras oleaginosas. Um dos desdobramentos
concerne ao fato da Petrobrás, através de seu Centro de Pesquisa, procu-
rar estabelecer um contato regular com o MIQCB13. Em janeiro de 2005
12
As duas pesquisas são as seguintes: i) trabalho de apoio às três campanhas realizado pelo MIQCB em colaboração com
War on Want, Action Aid Brasil e União Européia. Vide War on Want - The babaçu breakers of Brazil. Fighting
f or the pr otection of the ffor
protection or est and their w a y of lif
lifee . London, 2007. II)"Nova Car tografia Social da
Amazônia" executada junto ao Programa de Pós-Graduação "Sociedade e Cultura na Amazônia", da Universidade
Federal do Amazonas (UFAM). Trata-se de um projeto financiado pela Fundação Ford.
13
Cf. Catta Preta, Andrea- "Brasil na Era do Biodiesel". Caderno Brasilia.domingo,21 a 27 de novembro de 2004. Pp.10,
11. brasilia@hojeemdia.com.br

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 37


um projeto da empresa Brasil Ecodiesel informava que já havia cadas-
trado “2.500 famílias de agricultores” nos municípios de Balsas, Colinas,
São Domingos, São João dos Patos, Paraibano e Fortuna, visando o plantio
de 10 mil hectares de mamona, com produção estimada de 500 quilos
por hectare. Estas informações foram propiciadas pelo Sr. Arlindo Perei-
ra, gerente da empresa, à Secretária de Agricultura, Pecuária e Desenvol-
vimento Rural do Maranhão, Sra. Conceição Andrade14.
Uma das iniciativas mais destacadas da gestão de Dona Dada,
neste período, concerne ao fato das extrativistas organizarem uma
publicação periódica denominada Pindova. Informativo Bimestral do
MIQCB. Em termos de forma organizativa de comercialização é
instalada neste mesmo período, em São Luís, pela ASSEMA, na Praia
Grande, a denominada Embaixada Babaçu Livre15, que continha
videoteca e biblioteca, exposição fotográfica e produtos artesanais
dispostos à venda, tais como: farinha de mesocarpo, sabonetes, papel
reciclado com fibra de babaçu, carvão de casca de coco babaçu, frutas
desidratadas e geleias e compotas de frutas.
Subsidiando dados relativos aos conflitos sociais e às transfor-
mações das relações de trabalho na coleta do coco babaçu e descrevendo
criticamente as agroestratégias empresariais foi lançado, neste ano de
2005, um dos produtos das pesquisas, qual seja, o livro Guerra Ecológica
nos Babaçuais16, bem como o mapa geral produzido a partir dos dois
projetos de pesquisa. As oficinas de mapas realizadas em diferentes “re-
gionais”, tal como documentado nas fotos que ilustram o livro, assegura-
ram a consulta e a participação das representantes das unidades sociais
referidas ao MIQCB. A este tempo encontrava-me como professor visi-

14
Cf. Noticia de Hoje www.ig.com.br 19/01/2005.
15
Pela sua relevância e destaque das mulheres extrativistas no centro histórico de São Luis, afirmando sua identidade
politica e contestando a posição conservadora de tratar as quebradeiras de coco babaçu como os "outros", como
se estrangeiros fossem,, tal experiência deve ser passivel de um estudo em separado.
16
Consulte-se Almeida, A.W.B. de ; Shiraishi Neto, J. e Carvalho Martins, C. - Guerra Ecológica nos Babaçuais - o processo
de devastação dos palmeirais, a elevação do preço de commodities e o aquecimento do mercado de terras na
Amazônia. São Luis. Lithograf. 2005.

38 Alfredo Wagner Berno de Almeida


tante da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), no PPG em So-
ciedade e Cultura na Amazônia. Assim, em 2006 e 2007, no âmbito do
Projeto Nova Cartografia Social da Amazônia (PNCSA), foram publi-
cados seis fascículos, registrando atividades das quebradeiras de coco
babaçu em toda a região ecológica do babaçu e reproduzindo partes do
mapa geral anteriormente elaborado. Entre 2007 e 2009, já havíamos
redefinido o processo de produção cartográfica com o treinamento de
equipes das próprias comunidades tradicionais para a efetivação da mar-
cação de pontos com GPS e com a montagem de um minilaboratório da
própria pesquisa superando a fase de terceirização da elaboração de ma-
pas, que havia prevalecido nas pesquisas anteriores. Por solicitação da
senhora Maria de Jesus Bringelo, Dona Dijé, da coordenação do
MIQCB, uma equipe do PNCSA realizou treinamento e oficina de mapa
em Monte Alegre, seu povoado de origem, no Município de São Luiz
Gonzaga (MA). A partir daí foi produzido um fascículo. No decorrer dos
anos seguintes, principalmente entre 2010 e 2014, no âmbito do “Projeto
Mapeamento Social como instrumento de gestão territorial contra o des-
matamento e a devastação: processo de capacitação de povos e comunida-
des tradicionais”, apoiado pelo Fundo Amazônia/BNDES, foram mantidas
oficinas de mapas em comunidades de quebradeiras de coco babaçu, ainda
não mapeadas, e realizados cursos de formação e consultas periódicas
para realização de novos mapas, tal como o “Guerra do Carvão”, que plotava
a partir de trabalho de campo as baterias de fornos de carvoarias, que fazi-
am uso de coco inteiro e de madeira extraída de florestas ombrófilas da
Pré-Amazônia Maranhense. Tais carvoarias eram objeto de denúncias de
trabalho escravo e diversas delas constavam da “lista suja” do Ministério
do Trabalho. Os materiais referentes a esta pesquisa compuseram o Bole-
tim Informativo n.1- Guerra do Carvão. A Devastação dos Babaçuais e a
Desestruturação dos Modos de Vida dos Povos e Comunidades Tradicio-
nais, que abriu a coleção produzida pelo PNCSA, no âmbito do projeto
acima mencionado, durante 2014, contendo também um mapa com as
baterias de forno devidamente mapeadas.

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 39


Como desdobramento destes mapas e cursos, a partir de 2015,
tem-se trabalhos de pesquisa, focalizando histórias de vida e narrativas
de mulheres que se autodenominam quebradeiras de coco babaçu e assim
são reconhecidas. Um dos resultados mais publicizados concerne ao fato
de terem sido produzidos livros17, fascículos e boletins informativos,
ressaltando situações de pluralidade identitária ou situações em que as
mulheres se autodesignam concomitantemente como “quebradeiras e
quilombolas”18, ou como “quebradeiras e indígenas” ou ainda como
quebradeiras, indígenas 19 e quilombolas. Fomos impelidos a uma
compreensão menos simplista e autoevidente, numa interpretação
bastante mais complexa, de que as terras tradicionalmente ocupadas pelas
quebradeiras de coco babaçu, além de incorporarem babaçuais podem se
estruturar socialmente em territórios pluriétnicos. Em decorrência as
interpretações mais recentes assinalam que as lutas pelos direitos
territoriais e pelo controle do uso dos babaçuais, não se dissociam das
lutas identitárias, que são plurais. Há uma pluralidade de identidades em
jogo que reflete nas territorialidades específicas construídas a partir das
mobilizações políticas e de condições peculiares de existência coletiva.
Tais identidades não podem ser reduzidas a papéis sociais ou a ocupações,
no sentido econômico, porquanto compreendem um modo de vida e a
consciência de seus direitos elementares, uma maneira determinada de
produzir com unidades de produção familiar e/ou afetivas, consoante
um conhecimento intrínseco ao exercício de atividades autônomas que

17
Foram elaborados livros a partir de narrativas de história de vida de Dona Maria Querubina Neta, de Imperatriz (MA),
Dona Cledeneuza Bizerra, de São Domingos (PA), e Dona Nice Machado Aires, de Penalva (MA). A coleção que agrupa
estes títulos denomina-se Narrativas das Quebradeiras de Coco Babaçu. Todos estes livros foram editados pelo
PNCSA.
18
Consulte-se: Projeto Mapeamento Social como instrumento de Gestão Territorial contra o Desmatamento e a Devastação.
- "Devastação e desmatamento em comunidades quilombolas no Maranhão". Cader no No
Caderno Novv a Car to
toggr af ia n.02. junho
afia
de 2014. Uma das ilustrações mais significativas remete a Dona Nice Machado Aires, que se vincula concomitantemente
ao MIQCB, do CNS e hoje dirige a ACONERUQ, que representa as comunidades quilombolas do Maranhão. - "Devastação
e Lutas Sociais na Amazonia Maranhense". Cader no No Novv a Car to
togg r af ia
afia
ia. n.4 julho de 2014. - "Comunidades
Quilombolas do Município de Esperantina". Cader
Caderno Novv a Car to
no No toggr af ia
afia
ia. n.8. setembro de 2014.
19
Vide Projeto Mapeamento Social como instrumento de Gestão Territorial contra o Desmatamento e a Devastação.
""Linhão" nas comunidades quilombolas de Viana". Boletim Informativo n.8 n.8. setembro de 2014

40 Alfredo Wagner Berno de Almeida


garantem uma reprodução física e cultural. É neste sentido que suas
formas organizativas e suas práticas transcendem à classificação oficial,
para fins de sindicalização, qual seja “trabalhadora rural” ou à designação
de “posseiros”. A categoria “quebradeira de coco babaçu” expressa,
portanto, uma existência coletiva, em ruptura com ocupações econômicas,
que até então definiam as mulheres extrativistas e prescreviam seus
direitos tão somente enquanto “trabalhadoras rurais”.
De maneira concomitante ao avanço destas reflexões importa
registrar que, para fins deste livro ora apresentado, foram realizados
levantamentos documentais no Congresso Nacional, nas Assembleias
Legislativas dos Estados do Maranhão, Pará, Tocantins e Piauí,
complementando os dados e informações já levantados. Foram também
coligidos dados relativos à documentação, iconografia e referencias
bibliográficas sobre a economia do babaçu no decorrer do século XX.
Materiais cartográficos foram pesquisados desde o Mapa Florestal de
1911, intitulado “Mattas e Campos no Brasil”, organizado pelo Serviço
Geológico e Mineralógico por determinação de Pedro de Toledo, Ministro
da Agricultura, Indústria e Comercio, até o material cartográfico mais
recente produzido em 2017 pelo projeto já mencionado, cobrindo,
portanto, um período de cento e seis anos20.

20
As iniciativas oficiais de mapeamento das ocorrências de babaçuais sempre estiveram associadas a conjunturas de
escassez de matérias-primas ou aos esforços de uma economia de guerra como se pode verificar tanto na I Guerra
Mundial, quanto na chamada "crise do petróleo" da década 1970-80. Na I Guerra a expor tação de amêndoas de
babaçu para fins alimentícios teve a Alemanha como destino e o mapa de 1911, já citado anteriormente, evidenciava
as áreas geográficas em pauta. No caso da II Guerra Mundial os "Acordos de Washington", de 1942, já indicavam, por
par te dos nor te-americanos, um levantamento prévio do potencial das áreas de ocorrência seja de seringais,
castanhais ou babaçuais, o que permitiu inclusive estimativas quanto à composição da "missão técnica" e ao
percentual a ser obrigatoriamente exportado para os Estados Unidos, suprindo demandas previstas. Mesmo sem haver
um mapa oficial já havia um certo mapeamento de áreas de incidência das espécies vegetais e de seu potencial o que
autorizava uma estimativa da quantidade exportável.
O mapeamento de 1977-79 aparece associado à "crise do petróleo" e sua Introdução aparece vazada nos seguintes
termos: "Embora desde a 1ª Guerra tenham sido realizados no Brasil trabalhos e pesquisas esporádicos sobre
combustíveis alternativos, somente a partir da chamada "crise do petróleo", em fins de 1974, é que começaram a
congregar entidades de pesquisa e órgãos do governo para o desenvolvimento da tecnologia de aproveitamento dos
nossos amplos recursos fotossintéticos como fontes alternativas de energia.
Dentre estes recursos no Brasil destacam-se no Brasil a Orbignya martiniana e O. oleífera, cujo aproveitamento se
limitava praticamente à utilização do óleo de amêndoa inicialmente na alimentação humana. (...)
As áreas geográficas precisas de ocorrência e de concentração da Orbignya, seu potencial produtivo e produtividade
sempre foram motivos de grandes controvérsias.(...)". (cf. MIC/STI - Ma peamento e Le
Mapeamento Levv antamento do PPotencial
otencial

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 41


Considerando este vasto conjunto de atividades pode-se afirmar
que, em verdade, com o presente livro está-se diante de cinco diferentes
tempos de levantamento de dados e informações com seus produtos
respectivos, compreendidos num intervalo de três décadas:
i) o primeiro concerne a uma edição mimeografada, com capa
colorida, compreendendo 150 exemplares, distribuída nos cursos de
formação política das quebradeiras de côco babaçu, entre 1990 e 1994;
ii) o segundo tempo diz respeito à primeira edição publicada em
1995, utilizada a primeira vez no curso de formação realizado em
dezembro;
iii) o terceiro compreende a segunda edição de 1997, que não foi
dada a público e sua distribuição ficou circunscrita ao âmbito dos cursos
ministrados no âmbito do MIQCB,
iv) o quarto refere-se à terceira edição de 1998-1999, que ficou
absolutamente inacabada,e v) o quinto se refere ao que seria uma quarta
edição atualizada, bastante ampliada com inserção de novas informações
e referencias documentais de 2013 a 2015, incorporando o trabalho de
coleta de dados nos sítios da Câmara dos Deputados e o Senado,
completada entre 2016 e 2018, e que constitui praticamente o livro ora
apresentado, tendo sido utilizada parcialmente no curso de formação

das Ocor rências de Ba baçuais-Estados do Mar anhão


Babaçuais-Estados anhão,, Piauí, Ma to Gr
Mato osso e Goiás
Grosso Goiás; 1982, p. 11).
Este mapeamento oficial que começa a ser discutido em 1977 e implementado a partir de 1979, foi planejado através
de uma ação conjunta da Secretaria de Tecnologia Industrial STI/MIC, da SUDECO, da SUDENE, da Cia. De Desenvolvimento
de Goiás, da Secretaria de Tecnologia Industrial do Piauí e da Secretaria de Agricultura do Maranhão. Importa registrar
que a SUDENE, onze anos antes, isto é, em 1968, publicara pesquisa sobre as indústrias de óleos vegetais, colocando
o babaçu como principal palmácea produtora de óleo vegetal no Polígono das Secas e trabalhando com uma estimativa
de sua área de ocorrência, correspondendo a 100 mil quilômetros quadrados. (cf. Costa, J.P.; Fernandes, N.M.L.;
Davidon, N.W.B.; Silva, G.L. e Nóbrega, H.S. - Estudo dos Principais Extr Extraa titivv os Ve g etais do Nor deste
deste.
Recife. SUDENE. 1968).
A "crise" mais recente concerne ao denominado "efeito estufa" e às mudanças climáticas. Partindo do pressuposto de que
o biodiesel pode diminuir significativamente as emissões líquidas de gás carbônico, assim como as emissões de fumaça e
eliminar a liberação de óxido de enxofre na atmosfera, atenuando o efeito estufa (cf. Cata Preta, A.- Brasil na Era do
no Br
Caderno
Biodiesel"- Cader asília. RReepor
Brasília. ta
taggem
porta em. Brasília, 21 a 27/11/2004 p.10), o governo federal, em 2004, decidiu
incluir o biodiesel - ou combustível produzido a partir de sementes de oleaginosas na matriz energética brasileira - e
novamente as atenções se voltaram para o levantamento das áreas de ocorrência dos babaçuais. Não houve mapeamento,
mas um diálogo aberto com o MIQCB, apoiado nos materiais cartográficos até então já produzidos pelos grupos
universitários de pesquisa no âmbito das relações com o próprio movimento. O interlocutor do MIQCB mais destacado
neste momento foi a Petrobrás, mas as conversações não resultaram em uma política extrativa específica.

42 Alfredo Wagner Berno de Almeida


para as quebradeiras de coco ministrado pelos pesquisadores do PNCSA
em 2016.
Este último levantamento foi executado como atividade básica
das seguintes iniciativas: “Projeto Cartografia Social como estratégia de
fortalecimento do ensino e da pesquisa acadêmica” e “Projeto
Mapeamento social da região ecológica do babaçu”, ambos realizados
junto ao Programa de Pós-Graduação em Cartografia Social e Política
da Amazônia da Universidade Estadual do Maranhão (PPGCSPA-
UEMA).Esta última versão foi apresentada inicialmente, de maneira
parcial, durante o Curso Cartografia Social dos Babaçuais realizado no
PPGCSPA da UEMA, de 30 de março a 02 de abril de 2016, em parce-
ria com o MIQCB, e depois aprimorada em cursos posteriores. Fui o
professor responsável por este curso inicial, que contou com os seguin-
tes professores-colaboradores: Jurandir dos Santos Novaes e Benjamin
Alvino de Mesquita, economistas; Helciane de Fátima Abreu de Araú-
jo, socióloga; Érika Nakazono, bióloga, bem como com os seguintes
mestrandos colaboradores: Danilo Serejo, de Canelatiua, e Edson Sousa,
de Ludovico. Os trabalhos de produção cartográfica ficaram a cargo dos
então mestrandos e hoje doutorandos Luís Augusto Pereira Lima e
Poliana de Souza Nascimento. Os resultados destas pesquisas foram
apresentados às representantes das quebradeiras de coco-babaçu
indicadas pelo MIQCB para participarem do II Encontro de Pesquisa-
dores e Movimentos Sociais do “Projeto Cartografia Social dos
Babaçuais: Mapeamento Social da Região Ecológica do Babaçu” reali-
zado em Teresina, Estado do Piauí, em 01 e 02 de junho de 2015. Este
referido Encontro contou com 49 participantes. Neste evento foi apre-
sentado o mapa geral produzido no decorrer da pesquisa, segundo dois
planos distintos de elaboração:
i) num primeiro plano tem-se a área de incidência da palmácea e;
ii) no outro plano as formas organizativas diferenciadas, que
mobilizam as quebradeiras de coco babaçu, compreendendo a
denominada região ecológica do babaçu.

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 43


Esta divisão do trabalho de pesquisa implicou em atualizações
sucessivas, que resultaram neste novo livro, correspondente a um copioso
repertório de documentos diversos que abrange mais de um século de
fontes documentais e arquivísticas, qual seja, de 1915 a 2018.
Este vasto repertório de fontes, aqui apresentado, implicou numa
re-classificação dos materiais e numa re-divisão deles em duas partes,
voltadas para o ensino e a pesquisa, bem como numa relação estreita entre
a produção acadêmica e os movimentos sociais ou mais exatamente entre
o MIQCB e o PPGCSPA-UEMA. Os cursos de formação se constituíram
no locus social destas relações solidárias entre lideranças principais e
lideranças intermediárias que atuam na esfera do MIQCB, de um lado, e
os pesquisadores acadêmicos, com seus critérios intrínsecos de competência
e saber, diretamente referidos ao trabalho científico, de outro.
Diferentemente dos think tanks, que amparam os programas
partidários e sustentam acriticamente os atos de Estado, este conjunto
de relações chama a atenção para uma nova divisão do trabalho
intelectual e acadêmico, que se move no terreno da política e das pautas
reivindicatórias de movimentos sociais sem deixar de lado os ditames da
pesquisa científica. Para Bourdieu trata-se de uma ação de “public
intelectual”(Bourdieu, ibid.39), enquanto para Foucault seria a ação de
um “intelectual específico”, que tem um conhecimento concreto das
situações em que pesquisa, por oposição ao “notável”, que de detém numa
análise genérica e horizontalizada, manifestando-se sobre qualquer tema
que seja. A reflexividade e a leitura crítica sobre suas próprias práticas e
argumentos ao mesmo tempo que propiciam rigor e conhecimento
aprofundado, dispõem os pesquisadores e esta produção num campo de
disputas contra interesses que historicamente tem subjugado as
quebradeiras de coco babaçu, inviabilizando suas condições de produção
e suas possibilidades de autonomia no acesso permanente aos recursos
naturais. As experiências de mapeamento social afirmadas no período
de consecução deste projeto, cujos resultados ora são apresentados,
fortalecem as reivindicações de direitos territoriais, descrevendo os

44 Alfredo Wagner Berno de Almeida


babaçuais como terras tradicionalmente ocupadas ou florestas
imprescindíveis às unidades sociais concernentes às quebradeiras de coco
babaçu aqui estudadas. Esta premissa, de conhecimento concreto de uma
situação concreta, explica a precisão e o rigor com os quais os mapas
foram produzidos e as relações sociais que caracterizaram o processo de
produção cartográfica. Não foi por acaso que os resultados para as
instituições universitárias consistiram na instalação, na ampliação ou na
incorporação de novas tecnologias aos laboratórios de mapeamento social
preexistentes. Registra-se uma concomitância entre o desenvolvimento
científico e tecnológico, com softwares atualizados, como o Arcgis 10.5,
e um conhecimento mais acurado da chamada região ecológica do babaçu.
Além das relações de pesquisa, como professor responsável pelos
cursos, participando das oficinas de mapas em algumas regiões, exerci
também o ofício de pesquisador de fontes documentais, recuperando
pacientemente as fontes, que incluem consultas a hemerotecas, a acervos
fotográficos e a dispositivos jurídicos, propiciando, de maneira
concomitante, novas possibilidades de acesso aos materiais indispensáveis
à compreensão sociológica destas unidades sociais caracterizadas pelas
denominadas quebradeiras de coco babaçu. Este trabalho ampliou
consideravelmente o repertório de documentos. Nesta frente de trabalho
cabe dizer que, após um longo processo de discussão, toda a atualização
e o novo levantamento de dados no Congresso Nacional foi executado,
de maneira bastante criativa, pela antropóloga Marcia Anita Sprandel,
elencando todas as proposições (anteprojetos de lei, projetos de lei) e
requerimento referidos à região ecológica do babaçu, bem como os
discursos ou alocuções proferidas por parlamentares com menção
explícita ao tema “babaçu”. Esta pesquisa perpassou diferentes gestões
do MIQCB e manteve um ritmo constante sem quaisquer intermitências.
Após o VI Encontrão do MIQCB, realizado em 24 de setembro
de 2014, no Cesir-FETAEMA, foi eleita a senhora Francisca da Silva
Nascimento, de Esperantina (PI), como coordenadora geral do MIQCB.
Em sua gestão foram realizadas oficinas com apresentação dos resultados

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 45


do final da primeira etapa de pesquisa, que resultou no mapa geral. As
oficinas foram efetuadas com ampla participação das lideranças do
MIQCB, para discussão dos resultados do mapeamento, que consistiram,
em verdade, numa consulta a respeito da fidedignidade das informações
constantes do mapa geral.
A nova direção agilizou a mobilização contra as agroestratégias
dos grandes empreendimentos na região do Cerrado, notadamente contra
o chamado “Matopiba”21, Plano de Desenvolvimento Agropecuário
instituído pelo Decreto presidencial n.8.447 de 06 de maio de 2016,
abrangendo regiões do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia.
Foi realizada uma Audiência Pública, em Teresina, no Palácio
Karnak, com a presença do Governador do Estado, em 26 de janeiro de
2017. Nesta Audiência, à qual compareceram mais de oitenta quebra-
deiras de coco babaçu, das quatro unidades da federação, a coordenadora
geral do MIQCB, apresentou o mapa produzido no âmbito do “Projeto
Cartografia Social dos Babaçuais: Mapeamento Social da Região Eco-
lógica do Babaçu” e tornou pública a pauta de reivindicações, arrancan-
do muitas palmas e provocando um certo retraimento de autoridades,
que mantém uma concordância discursiva com os propósitos dos planos
governamentais que sustentam o MATOPIBA22 e as agroestratégias
que suportam o expansionismo dos empreendimentos dos agronegócios.

21
Em 06 de maio de 2015, com a promulgação do Decreto n.8.477 foi instituído o Plano de Desenvolvimento
Agropecuário do MATOPIBA e a criação de seu Comitê Gestor, abrangendo uma área de 73 milhões de hectares, 337
Municípios e 31 MRH's. Trata-se de uma região que transcende os limites político-administrativos e que desdiz a
divisão de regiões por biomas, alcançando partes do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. Sem qualquer referencia aos
povos e comunidades tradicionais, às terras tradicionalmente ocupadas ou à agricultura familiar tal Plano consiste
numa estratégia dos interesses dos agronegócios, principalmente da bancada ruralista, que visam incorporar o
Cerrado ao mercado de terras e à expansão das commodities.
22
Consulte-se para maiores explicações: i) Rede Social de Justiça e Direitos Humanos - A Empresa Radar S.A. e a
especulação com terras no Brasil
Brasil. São Paulo. Ed. Outras Expressões. 2015. Contendo as seguintes informações
de autoria: "Texto: Fabio T. Pitta e Maria Luísa Mendonça". "Artigos: "A formação das condições para instalação do
agronegócio nos cerrados piauienses e as mudanças na forma de uso da terra dos Gerais.", de Vicente Eudes Lemos
Alves. E "Cerrado piauiense: terras devolutas e exploração de mão de obra". Altamiran Monteiro, Comissão Pastoral
da Terra (PI)."
ii) - CIMI Regional Goiás-Tocantins - "MATOPIBA- destrói a natureza e seus povos". Texto de Laudovina Pereira e Sara
Sanchez, 2015.

46 Alfredo Wagner Berno de Almeida


As reivindicações do MIQCB abrangiam a luta contra o desmatamen-
to23, contra a expansão das áreas sob controle de fábricas de papel e celu-
lose – chamando a atenção para as plantações de eucalipto em escala
industrial, notadamente sob o gerenciamento da Suzano Papel e Celu-
lose –, contra a expansão desordenada do cultivo de soja, contra a grilagem
de terras e a ampliação das pastagens pelos projetos agropecuários, in-
clusive nos campos naturais da Baixada Maranhense, contra os reba-
nhos de búfalos nestes campos, contra a extração ilegal de madeira no
cerrado e nas florestas da Pré-Amazônia maranhense e da Amazônia,
contra o plantio de cana por grandes empreendimentos nestas florestas,
bem como a exigência de reparos aos efeitos danosos provocados pelas
pesquisas de sísmica, empreendidas pelas empresas de petróleo e gás,
pelos empreendimentos mineradores, assim como pelos linhões de trans-
missão de energia e pelas carvoarias. Todas estas reivindicações elencadas
foram também discutidas no decorrer das oficinas de mapas e das reuni-
ões de consulta realizadas durante o trabalho de pesquisa que, embora
transcendendo à área de atuação do MIQCB, findou por fortalecer a sua
pauta de demandas ao incorporar associações de quebradeiras de coco
de áreas lindeiras.
O mapa atual e os demais materiais disponibilizados pela equipe
de pesquisa apoiaram tecnicamente as reivindicações das quebradeiras de
coco babaçu registrando uma área total de 26.075.659, 8525 hectares como
correspondentes à região ecológica do babaçu. Esta área mapeada, a partir
de sucessivos trabalhos de campo nas quatro unidades da federação,
evidencia um aumento de quase um terço da área total mapeada em 1979-
81 e equivale ao dobro da área total mapeada em 2004 pela nossa equipe
em ação combinada com o MIQCB, registrada no Guerra Ecológica.

23
Esta luta vem sendo mantida ininterruptamente desde 2007 com a "Car ta das Quebradeiras de Coco Babaçu do
Maranhão, Piauí, Pará e Tocantins aos representantes dos poderes executivo e legislativo do Brasil", datada de 10 e
11 de junho de 2007 e subscrita pela Coordenadora Geral Maria Adelina de Sousa Chagas e Coordenadoras regionais:
Cledeneuza Maria Bizerra Oliveira, Emilia Alves da Silva Rodrigues, Domingas de Fátima Freitas, Zulmira de Jesus Santos
Mendonça, Sebastiana Ferreira da Costa e Maria Querubina da Silva Neta.

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 47


Esta variação pode ser assim explicada: i) pelas inovações
tecnológicas no mapeamento – softwares em novas versões, GPS com
maior potencial de registro e menor margem de êrro, computadores mais
potentes e técnicas de banco de dados mais ágeis; ii) pelo aumento da
capacidade técnica da equipe de pesquisadores, mobilizando economistas,
sociólogos, bióloga, antropólogos e iii) pela capacidade política de
mobilização do MIQCB, que está ampliando seu alcance e dialogando
com organizações de quebradeiras que historicamente não estão referidas
a seu raio de ação direta. Um dos exemplos mais contundentes se refere ao
Sul do Piauí, ao Sudeste do Pará e à região dos Cocais, no Maranhão, que
passaram a ser objeto de pesquisa e cujas associações participaram, de modo
efetivo, de oficinas de mapas. Pode-se afirmar, portanto, que a delimitação
atual da região ecológica dos babaçuais não é definida pelas “manchas” ou
áreas de ocorrência dos babaçuais, que orientaram os critérios adotados de
1911 a 1979-1981, nem pelas formas organizativas diretamente referidas
aos “regionais” do MIQCB, que balizaram os mapeamentos de 1993 e
2004. A área abrangida pela nova cartografia dos babaçuais transcende a
ambas, evidenciando uma dupla expansão, seja das palmáceas, seja do raio
de atuação político-organizativa. Os trabalhos de campo das diferentes
equipes adotaram como critério de inclusão a existência de associações
locais de mulheres que se autodefinem como quebradeiras de coco babaçu,
travam lutas por seus direitos territoriais e não se encontram vinculadas
necessariamente às estruturas organizativas do MIQCB. Consoante este
critério pode-se asseverar que os conflitos sociais transcendem à área
usualmente abrangida pelo MIQCB e existe mobilização política de
mulheres extrativistas que, a despeito de não estarem “filiadas” ao MIQCB
ou de não serem mediadas por entidades confessionais ou por agencias
ambientalistas, encontram-se mobilizadas politicamente e participaram
de oficinas de mapas e dos resultados da pesquisa se colocando ativamente
nas situações de antagonismos.
Tais resultados foram trazidos não apenas para as audiências
públicas, mas também para dentro das instituições universitárias e do

48 Alfredo Wagner Berno de Almeida


próprio MIQCB. Assim, nos dias 06 e 07 de julho de 2017, o
Departamento de Ciências Sociais/ Programa de Pós-Graduação em
Antropologia da Universidade Federal do Piauí em parceria com a CPT
e o MIQCB realizaram o “Seminário Cartografia de Conflitos
Socioambientais”. Lideranças do MIQCB expuseram sua pauta e
apresentaram o mapa da região ecológica dos babaçuais, consoante seus
próprios pontos de vista, para uma plateia composta principalmente de
docentes e discentes da UFPI. Um ponto fundamental de confluência
dos movimentos sociais com as pesquisas acadêmicas concerne à
instalação na UFPI de um minilaboratório de georeferenciamento que
doravante poderá propiciar treinamentos não apenas para os acadêmicos,
mas também para as próprias organizações de quebradeiras de coco babaçu
realizarem trabalhos de mapeamento social24. Durante o evento foi
ministrado um minicurso25 intitulado “Cartografia Social e Uso de GPS”,
aberto também para representantes de movimentos sociais. Esta
articulação constante com o MIQCB através da UEMA, da UFPI e da
UNIFESPA tem descortinado novas possibilidades de produção de
conhecimentos acerca das condições de existência das mulheres
extrativistas e de sua ação em defesa de direitos territoriais.
A par com esta articulação cabe reiterar que, desde 2007, novas
maneiras de produzir mapas foram adotadas no âmbito do PNCSA. Foi
definitivamente encerrada a prática de terceirização de mapas ou de con-
siderar a elaboração de mapas um serviço que pode ser disponibilizado
por terceiros ao projeto no decorrer de sua realização. Tornou-se uma
prática constante o fato de membros das comunidades mapeadas, amar-
rarem eles mesmos os pontos, e acompanharem de maneira efetiva o

24
Esta iniciativa foi apoiada pelo Projeto Brasil Central, coordenado pela Profa. Helciane Abreu Araújo, também vinculado
à rede de pesquisa do PNCSA e implementada pelas Profas. Carmem Lúcia Silva Lima e Marcia Leila de Castro Pereira
do PPGA da UFPI.
25
Este minicurso foi ministrado no âmbito do Projeto Cartografia Social dos Babaçuais coordenado pela Profa. Jurandir
Novaes sob a responsabilidade da Ms. Jessica Maria Barros da Silva, que atualmente exerce atividades de pesquisa no
laboratório instalado no PPGCSPA da UEMA.

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 49


georeferenciamento como um todo, ao contrário da experiência anterior
de se produzir o mapa fora do âmbito dos movimentos e das universida-
des regionais, com profissionais não pertencentes às equipes de pesqui-
sa. A intensificação de tal prática levou o PNCSA a instalar seis
minilaboratórios na região amazônica e dois na região nordeste, assegu-
rando uma autonomia no processo de produção cartográfica e aumen-
tando o grau de controle de membros das unidades sociais mapeadas
sobre as técnicas e demais recursos adstritos ao mapeamento. Esta pas-
sagem de um plano técnico a outro pode ser objeto de um trabalho espe-
cífico, focalizando a montagem dos minilaboratórios, sua relação com a
estrutura das entidades de representação e seus resultados.
Considerando o repertório de fontes pode-se dizer que a atual
edição compreende 73 (setenta e três) documentos, produzidos entre
1951 e 1996, além disto apresenta os resultados de um levantamento
documental sistemático, concernente a proposições legislativas e
alocuções de parlamentares referidas ao tema “babaçu”, que não havia
sido realizado anteriormente, e foi efetivado pela historiadora e
antropóloga Marcia Anita Sprandel. Tal levantamento nos sítios da
Câmara e do Senado abrange: i) pelo sistema de proposições, de 1952 a
2014, o registro de 27 proposições e 21 discursos, todos eles na Câmara
dos Deputados e nenhum no Senado e ii) pelo sistema de busca da
Agência Câmara compreende, a partir de 1951, um total de 482
(quatrocentos e oitenta e dois) discursos com menção explícita a “babaçu”.
Ter-se-ia assim um total correspondente a 603 (seiscentos e três)
documentos, não estando inclusas referencias bibliográficas concorrentes
a monografias, dissertações e teses, nem a artigos de imprensa periódica
e de periódicos de divulgação científica, não obstante a bibliografia
apresentada ao final do trabalho. Tal bibliografia contém mais de 60
(sessenta) títulos, alguns deles diretamente referidos à produção
universitária e aos gêneros textuais respectivos. A disponibilização integral
do texto dos 73 (setenta e três) documentos concerne ao fato de que
muito destes documentos já não são passíveis de consulta em virtude de

50 Alfredo Wagner Berno de Almeida


seu estado precário de conservação. Dispô-los à consulta, assim como os
demais documentos, significa abrir as fontes arquivisticas à discussão,
democratizando o acesso e fortalecendo os trabalhos interpretativos.
O livro ora prefaciado, além da pretensão didática, considerando
os trinta anos que separam o primeiro curso do mais recente, reflete,
nesta ordem, uma conjunção de esforços de pesquisadores acadêmicos e
de membros de unidades sociais mapeadas no sentido de uma
compreensão mais detida de realidades locais e de processos sociais que
envolvem as quebradeiras de coco babaçu.

Foto 1 - Intervenção de Dona Maria Foto 2 - Dona Socorro, com micro-


Querobina da Silva Neta durante de- fone, Dona Dijé e Dona Francisca
bates no VI Encontrão. Lera.

Foto 3 - Dona Cledeneuza Foto 4 - Dona Francisca , Tocantins

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 51


Ilustração 2 - “Nossa luta por melhores dias consiste nas conquistas de
nossas gerações em aspectos diversos como tradicional, cultural e de resis-
tência política e ambiental”.
Maria Alaídes, atual coordenadora geral do MIQCB, eleita
em fevereiro de 2019.

52 Alfredo Wagner Berno de Almeida


APRESENTAÇÃO26

***

A ideia inicial de agrupar fontes documentais e arquivísticas rela-


tivas à chamada “economia do babaçu”, procedendo a uma classificação
sistemática de informações e dados dispersos, ganhou corpo a partir do
“Curso sobre Políticas Públicas”, promovido pela Coordenação do Mo-
vimento Interestadual das Quebradeiras de Coco babaçu (MA, PI, TO,
PA) em Bacabal (MA), entre os dias 03 e 06 de julho de 1995.
A ausência de rigor nas informações disponíveis já coligidas e a
imprecisão nas séries estatísticas, dificultando o aprofundamento de ques-
tões elementares, constituíram sério impasse no decorrer dos debates
voltados tanto para a elaboração de substantivos ou emendas a projetos
de lei em tramitação no Legislativo, quanto para o exame da possibilida-
de de participação das trabalhadoras extrativistas em câmaras setoriais.
Foram percebidas então como agravando este impasse as recentes
redefinições do papel do Estado e a vigência do mercado aberto, que
afetam “a economia do babaçu” em pelo menos dois planos:
a) no da produção, em virtude de, restringindo a capacidade
operacional dos órgãos públicos competentes, não coibir a devastação
dos babaçuais a ameaçar a reprodução das fontes de matéria-prima;
b) no da comercialização ao reduzir drasticamente as alíquotas de
importação de óleos vegetais (palma, palmiste), desorganizando o pro-

26
Esta apresentação em linhas gerais corresponde ao texto de 1998 com breves atualizações para efeitos da presente
edição.

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 53


cesso produtivo e propiciando facilidades para que as indústrias passem
a utilizar similares importados.

A necessidade de se confrontar as medidas jurídico-formais per-


tinentes a tais problemas com aquelas anteriormente adotadas, conduzi-
ram as discussões para uma recuperação das ações do Estado desde 1911,
data das primeiras exportações regulares da amêndoa do babaçu. Leis,
decretos, projetos de lei, acordos internacionais, relatórios técnicos (Con-
selho Nacional de Economia, Associação Comercial do Maranhão),
portarias (IBDF, IBAMA), instruções normativas, correspondência con-
sular, ofícios e documentos de entidades patronais (Associação Brasilei-
ra de Indústrias Saboeiras, Associação Brasileira das Indústrias de Babaçu)
e de trabalhadores rurais (CONTAG, FETAEMA, Movimento Inte-
restadual das Quebradeiras de coco Babaçu); começaram, pois, a ser le-
vantados em bibliotecas públicas (Rio de Janeiro e São Luís ) e arquivos
de algumas das entidades referidas. Ocorreram também levantamentos
de fontes documentais relativos ao tema “Babaçu” nos sítios da Câmara
dos Deputados e do Senado, em Brasilia.
À possível indagação de porque tal entidade, ou seja, o Movi-
mento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu (MIQCB) para
apoiar e empreender semelhante levantamento, cabe esclarecer o seguinte:
até o início da década 1960-70 a compilação dessas informações
era prerrogativa do Estado, através do Conselho Nacional de Economia
e das entidades patronais. Da década de 1980-90 em diante a inexistência
de dados oficias, precisos e adequadamente coligidos, evidencia, entre-
tanto, por parte do estado, um certo distanciamento face à questão. O
aproveitamento do óleo de babaçu parece também não interessar mais
aos conglomerados econômicos e empresas transnacionais. Alegam
preços baixos, impraticabilidade de competição com as
plantations asiáticas, da Malásia e Indonésia, oferta irregular de matéria-
prima, dificuldades permanentes de mecanização e desconhecimento
de como replantar a palmeira (Orbinaya Phalerata Martius). Ao contrá-

54 Alfredo Wagner Berno de Almeida


rio de outras espécies, também voltadas para uso industrial, só existem
babaçuais nativos. Sua abundância e sua expansão, sobretudo a partir da
destruição das florestas primárias, são apontados como desestimulando
as pesquisas para implantação de babaçuais cultivados, diferentemente
das medidas adotadas para seringais e açaizais.
Ademais, as usinas refinadoras do óleo babaçu estão substituin-
do-o por outros óleos vegetais, inclusive o de soja. As medidas do Go-
verno Collor de redução das alíquotas de importação do óleo de palmiste
favoreceram tal substituição, além de ignorar as condições reais de extra-
ção de amêndoa do babaçu e o total de famílias de trabalhadores rurais
nela envolvidas.
Em virtude disto cada vez mais começam a se preocupar com as
fontes arquivísticas e com as disposições legislativas (de proteção da es-
pécie e de garantia de seu uso comum) os produtores diretos, isto é, as
trabalhadoras agroextrativistas organizadas tanto em movimento de re-
presentação política, o Movimento Interestadual das Quebradeiras de
Coco Babaçu, quanto em cooperativas. Os problemas que envolvem o
babaçu passam assim a ser objeto de reflexão, sobretudo dessas mulheres
trabalhadoras extrativistas e de suas respectivas entidades organizativas.
O fato do Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco
Babaçu ter assumido esta iniciativa de resgaste da memória documental,
para fundamentar uma interpretação mais rigorosa e uma ação
reivindicatória consistentes, explicita o grau de controle que as trabalha-
doras agroextrativistas passam a ter não apenas do processo produtivo
por intermédio das práticas que configuram o princípio do “babaçu-li-
vre”; mas também da esfera de comercialização, através de cooperativas
que desde 1993-94 já estão, inclusive, exportando óleo de babaçu. A ex-
pressão “babaçu-livre”, tornada bandeira de luta do movimento das
quebradeiras de coco, compreende a garantia do pleno acesso das traba-
lhadoras extrativistas aos babaçuais, sem quaisquer interdições. Separa a
propriedade do imóvel rural do uso da floresta de babaçu nele incidente.
Ao faze-lo preconiza que os babaçuais seriam de uso comum e aberto,

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 55


mesmo quando ocorrem em áreas privadas ou em extensões tituladas.
Neste sentido é que os babaçuais podem ser direta e livremente explora-
dos com ou sem consentimento de terceiros, refletindo normas consu-
etudinárias. O significado de “babaçu-livre” abarca ainda o conjunto de
procedimentos rotineiros, característicos da vida cotidiana, que assegu-
ram tal disposição vivida como igualmente como costumeira.
Os decretos, as leis, as portarias e demais documentos aqui arro-
lados vão permitir uma análise mais criteriosa deste momento de transi-
ção, caracterizado pela utopia do livre mercado e pela idealização de que
os ajustes sociais se dão automaticamente através das medidas governa-
mentais voltadas para o mercado aberto. Segundo a suposição da buro-
cracia oficial os mecanismos de resolução e de prevenção dos conflitos
sociais seriam inerentes à medição e à arbitragem própria a uma situação
de livre mercado. Consoante esta representação as unidades de peque-
nos produtores agroextrativistas, cuja força de trabalho se apoia na com-
posição do grupo familiar, seriam classificados como incapazes de in-
gressar na economia da alta tecnologia. Na formulação da burocracia
elas fariam parte das chamadas “populações carentes”, “de baixa renda” e
“pobres” que, em conformidade com a orientação neoliberal, cada vez
mais são compelidas a cuidarem de si mesmas, ficando confinadas em
circuitos específicos de porções restritas do mercado. Corresponderiam
ás chamadas “ sociedades primitivas”, que segundo o pressuposto
evolucionista caracterizam uma etapa da vida social mais coadunada com
a pré-história. Para este pensamento burocrático elas se inscreveriam
numa “economia de subsistência”, destinada ao autoconsumo e aos pro-
dutos com valor de uso. Nesta ordem, seriam objeto tão somente das
denominadas “políticas compensatórias”. O potencial de conflito seria
considerado, portanto, de baixa intensidade já que a marginalização for-
çada do mercado, com uma consequente debilitação econômica, ocorre-
ria concomitantemente com o enfraquecimento da representação polí-
tica e sindical das trabalhadoras agroextrativistas que se autodefinem,
como já reiteramos, como quebradeiras de coco babaçu.

56 Alfredo Wagner Berno de Almeida


A observação de processos reais e realidades localizadas conduz,
entretanto, as interpretações para um sentido inverso deste dos burocra-
tas planejadores, posto que nesta referida conjuntura registra-se o ad-
vento das denominadas quebradeiras de coco babaçu, através da afirma-
ção de uma existência coletiva, enquanto “unidades de mobilização” (1).
Ao contrário das formulações de inspiração neoliberal a crescente debi-
lidade econômica das trabalhadoras agroextrativistas não se traduz numa
fragilidade política. As mobilizações camponesas nas áreas de ocorrên-
cia de babaçuais revelam uma trajetória ascensional, em termos político-
organizativos, no final da década de 80 e no início de 1990, colidindo,
inclusive, com as iniciativas de mercado aberto. O argumento,
comumente utilizado pelos analistas políticos, segundo o qual os sindi-
catos e demais representações dos trabalhadores se desestruturam e per-
dem associados e poder de influência, no contexto das políticas de ori-
entação neoliberal teria que ser revisto no que concerne às mobilizações
das chamadas quebradeiras de coco babaçu. Haja vista que elas passam a
construir, desde 1989, data do Consenso de Washington, um movimen-
to social que se estrutura segundo critérios organizativos múltiplos, apoi-
ados em princípios ecológicos, de gênero e de base econômica não-ho-
mogênea. Compreendem mobilizações em torno da terra, do livre aces-
so e da preservação dos babaçuais e da relevância do trabalho feminino
na unidade doméstica, não obstante privilegiarem o extrativismo, uma
atividade tradicionalmente complementar e acessória às tarefas de culti-
vo referidas à chamada roça. A mobilização associa-se, portanto, à defe-
sa militante dos babaçuais, contra os desmatamentos, e abrange uma
diversidade de segmentos sociais (trabalhadores rurais - pequenos pro-
prietários, posseiros, assentados, foreiros e os chamados “sem terra” - e
moradores as periferias urbanas) correspondente à diferenciação econô-
mica interna ao campesinato. A coesão política se edifica, pois, conso-
ante essa heterogeneidade. As denominadas quebradeiras de coco ao se
auto definirem pela atividade complementar e extrativa, envolvendo si-
multaneamente critérios ecológicos e de gênero, alcançam um certo con-

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 57


senso que serve de alavanca para reposicioná-las política e economica-
mente face à ação governamental a aos circuitos de mercado. Elas invo-
cam novas solidariedades, a partir desses critérios universais (gênero, eco-
logia, diversidade econômica), e logram uma dupla ruptura com o
localismo ao se projetarem em articulações transnacionais com entida-
des ambientais e empresas correlatas, driblando os rígidos controles de
uma economia altamente oligopolizada. Estas trabalhadoras
agroextrativistas desencadeiam iniciativas que, desde os anos 90, come-
çam a redefinir a tensão entre o valor de uso e valor de troca, pela agrega-
ção de valor às matérias-primas através de montagem de prensas e de
microunidades fabris, que produzem sabonetes, sabões, papéis reciclados
e óleos refinados, e pela afirmação política, conquistando “brechas” de
mercado, não necessariamente previstas, ou ingressando em circuitos
comerciais próprios, que não podem prescindir de uma modalidade de
apropriação dos recursos naturais que preserva e se contrapõe à devasta-
ção e aos desmatamentos. Isto se dá meio a intensas situações de confli-
to social ao colidir com interesses oligopolistas que desenvolvem práti-
cas restritivas e abusivas de proteção a posições de mercado já alcançadas.
As mobilizações das chamadas quebradeiras de coco babaçu poderiam
ser aproximadas, neste sentido, dos “novos movimentos sociais”
enfatizados por R. Blackburn e E. Hobsbawm (2) dentre outros. Tais
movimentos tem como características básicas: raízes locais mais pro-
fundas, objetivando a organização da produção, e uma visão mais ampla
dos circuitos internacionais de mercado, através da agregação de valor
(como as iniciativas de refinamento do óleo de babaçu em prensas e
centrífugas próprias) e de contatos particulares com vistas e usos industrias
de determinadas matérias primas e à exportação. Detecta-se, pois, um
paradoxo que contraria os rígidos preceitos de uma interpretação genui-
namente neoliberal que orienta hoje as políticas governamentais. Para
os critérios desta interpretação oficiosa e das medidas dela decorrentes,
as economias apoiadas nas unidades de trabalho familiar seriam mais
resistentes às flutuações de preços no mercado e ao caráter volátil dos

58 Alfredo Wagner Berno de Almeida


investimentos, seriam mais produtivas ao envolverem custos operacionais
baixos e valores unitários menores, empregariam maior contingente de
força de trabalho sem se oporem radicalmente às inovações tecnológicas
necessárias ao refino, e assegurariam maior estabilidade a unidades soci-
ais cujas formas de produzir coadunam-se com relações equilibradas com
a natureza.
É no bojo destas formulações conflitantes e das mobilizações le-
vadas a cabo pelo Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco
Babaçu, que foi discutida, no curso de julho de 1995, em Bacabal, a pro-
posta de proceder a este levantamento de fontes arquivísticas. Numa
reunião, da qual participaram as integrantes da coordenação do Movi-
mento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu e suas respecti-
vas assessoras, foi enfatizada a relevância de se localizar e reproduzir
documentos e textos legais, arrolando quando possível as justificações
ocasionais de legisladores, de economistas e de advogados.
Os resultados deste trabalho de pesquisa estão sendo apresentados
para aprofundar os debates e facilitar a compreensão das relações dos
movimentos sociais com o Estado, instrumentalizando a ação pedagógica
dos educadores e dos métodos de direção das próprias lideranças. Eles
compreendem documentos relativos aos últimos 106 anos e contribuem
para elucidar a posição do Estado e dos legisladores em diferentes mo-
mentos. Sugerem inclusive, elementos balizadores para se estabelecer uma
periodização orientadora da leitura geral dos documentos, qual seja:

a) Entre 1911 e 1934 praticamente não se registra uma interven-


ção sistemática dos aparatos de Estado. Constata-se apenas leis estadu-
ais dirigidas especificamente para indivíduos (Carlos A. Silveira, J.A.
Barbosa de Góes, Alfredo Vidal, João Elias Murad e Agostinho
Fernandes Souza) e empresas (Berringer e Cia, The Overseas Company
of Brasil Limited), envolvidos na extração e na purificação de óleos ve-
getais. Tais dispositivos legais elaborados separadamente para cada situ-
ação, seja indivíduo ou empresas, objetivaram facilitar a introdução de

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 59


máquinas e equipamentos apropriados à quebra de coco babaçu. Para
tanto concediam favores e isenções de diversos impostos (de exportação,
de importação de equipamentos, de produção e de consumo) e taxas (de
armazenagem, de capatazia). Os prazos destes benefícios se estendiam
de dois ( J.A. Barbosa de Goes), cinco (The Overseas Company of Bra-
sil) até dez anos (Berringer e Cia). Estas concessões ocorreram entre
1917 e 1929 e são coetâneas da primeira medida oficial, datada no maio
de 1923, que visava preservar o reservatório de matéria-prima, proibindo
a destruição de palmeiras de babaçu. Data também deste período o con-
trole das amêndoas através da punição daqueles que as misturavam com
sal, casca e outras matérias estranhas.

Importa afirmar que a ação do Estado não possuía elementos de


regularidade próprios a uma política industrial. Prevaleciam atos eventu-
ais consoante os preceitos do liberalismo, notadamente até chamada
“grande depressão” de 1929. A queda dos preços dos produtos agrícolas
e das matérias primas, provocada pelo grande aumento da produção, de-
teriorou os termos de intercâmbio entre os países que dependiam da
exportação destes bens e os países industrializados. Todas as unidades
fabris de beneficiamento do babaçu, instaladas no Maranhão após a I
Grande Guerra por empresas francesas, belgas, norte-americanas e no-
rueguesas abriram falência no final dos anos 20.
a) A partir de 1935 o Estado redefine sua ação. Estabelece acor-
dos comerciais a nível internacional, adotando uma política de cotas, e
busca disciplinar o acesso aos babaçuais, lidos como reservatórios natu-
rais estratégicos de matérias-primas.
Inaugura-se um período intervencionista, de inspiração
keynesiana. Os aparatos de Estado editam medidas voltadas para orga-
nizar a produção e a circulação e se preocupam com o pleno emprego.
As medidas exportadas disciplinam a classificação e fiscalização das
matérias-primas visando a sua padronização. Por outro lado, são conce-
didas isenções de impostos às usinas de extração de óleos. Durante o

60 Alfredo Wagner Berno de Almeida


período do “Estado Novo” (1937-1945) o babaçu é considerado maté-
ria-prima estratégica e exportado essencialmente para os Estados Uni-
dos (E.U.A) a partir de acordos internacionais firmados em julho de
1942, em plena II Grande Guerra. Trata-se dos chamados “Acordos de
Washington”. No pós-guerra, os acordos comerciais com os E.U.A. não
são reeditados e as indústrias do centro-sul, notadamente de São Paulo,
utilizam intensivamente os óleos vegetais.
b) Estratégias de intervenção são orquestradas pelo Conselho Na-
cional de Economia a partir de 1950-52. Voltam-se ainda para medidas
reformistas, objetando melhorar as condições materiais de existência da
“população trabalhadora”. Enfatizam medidas de colonização destinadas
aos trabalhadores extrativistas e privilegiam normas legais de preservação
dos babaçuais, instituídas por decreto presidencial em 1957 . Com o INEB,
em 1960, a ação governamental prossegue sendo ampliada com medidas
de contingenciamento até pelo menos a década de 1980.
c) A partir daí destaca-se um decréscimo na importância do uso
industrial do babaçu. Outros óleos vegetais passam a competir em posi-
ção mais vantajosa, como no caso da soja. As prioridades das políticas
governamentais são redefinidas. No final dos anos 80 o Estado se retrai,
restringindo sua ação à política ambiental e à redução das alíquotas de
importação coadunadas com a ideia de mercado aberto. Preponderam
políticas de inspiração neoliberal com a liberação das importações al-
cançando seu ápice em 1994 (3) e atingindo em cheio a “economia do
babaçu” ao reduzir para 2% as alíquotas de importação do óleo de palmiste,
da Malásia. As indústrias de óleo de babaçu fecham. O Maranhão, que
possuía 54 fábricas na década de 1964-70, passa a ter apenas 10 unida-
des industriais de óleo no início dos anos 90.
d) Neste ano de 1990 as experiências históricas anteriores dos
trabalhadores rurais nos conflitos agrários contribuem para a reorgani-
zação dos quebradeiras de coco em pequenas cooperativas extrativistas,
visando circuitos específicos de mercado e estabelecendo com os apara-
tos de Estado relações tensas. As reivindicações e lutas do Movimento

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 61


Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu estimulam anteprojeto
de lei e propiciam pesquisas e estudos acadêmicos, que contribuem para
fundamentar as proposições em torno da consigna de babaçu-livre e de
condições justas de competitividade. A denominadas “Notas Técnicas”
produzidas no âmbito do Ministério da Fazenda intentam responder às
demandas do movimento social e tornam transparente o fosso entre elas
e as políticas governamentais, que objetivam o mercado aberto. Para efei-
tos deste primeiro levantamento foram realizadas também consultas a
fontes bibliográficas elementares, que contribuíram para a segunda eta-
pa dos Cursos de Formação igualmente realizada em Bacabal (MA),
entre os dias primeiro e quatro de setembro de 1995, privilegiando estu-
dos sobre a legislação especifica. A reconstituição de séries estatísticas e
de outros dados quantitativos, referentes à produção de valor da amên-
doa e do óleo babaçu não foi completada nesta etapa da pesquisa e pos-
teriormente foi atualizada pelo economista Benjamin A. de Mesquita.
Diversas pessoas colaboraram voluntariamente para tornar pos-
sível a apresentação deste trabalho . Sou grato às participantes do Curso
realizado em julho de 1995 que muito contribuíram para delimitar os
contornos deste levantamento de fontes documentais, a saber: Maria
Senhora C. da Silva (coordenadora / TO), Raimunda Gomes da Silva
(coordenadora / TO), Maria Ednalva R. da Silva (suplente /TO), Antonia
Vieira de Brito Souza (coordenadora /Vale do Mearim- MA), Maria de
J. Quinto (quebradeira / Vale Mearim-MA), Filomena R. da Silva
(quebradeira / Vale do Mearim-MA), Rosenilde do G. dos S. Costa (co-
ordenadora / Baixada-MA), Zulmira de J. Santos Mendonça (suplente /
Baixada-MA), Maria Romana P. do Nascimento (coordenadora / PA).
E ainda a: Raimundinha e Cibá, de Lago do Junco, e D. Petronilia, de
Palestina. Quero agradecer, sobretudo a Noemi Miyasaka Porro e Luciene
Dias, da ASSEMA, pelas sugestões e observações críticas. Os agradeci-
mentos são extensivos a Ruth Mary Gonsalves, assessora da ASMUBIP,
a Nair, da SMDDH, a Eliane Castro de Souza, socióloga, e a Valdener
Pereira Miranda, técnico de comercialização da ASSEMA. Aos advo-

62 Alfredo Wagner Berno de Almeida


gados Maria Denise, do CENTRU, e Joaquim Shiraishi Neto, principal
responsável pela segunda etapa dos cursos, sou grato pelos esclareci-
mentos relativos às disposições jurídico-formais. Cabe mencionar tam-
bém os cursos realizados em São Luis, entre 14 e 17 de fevereiro de
1997, e em Pedreiras, em 27 de junho de 1998, que foram frequentados
por mais de sessenta lideranças intermediárias do MIQCB e propicia-
ram debates e meios para ampliar as referencias documentais.
No que tange à atual edição os agradecimentos se estendem às
quebradeiras que frequentaram os curso em 2016, como já foi citado no
Prefácio, bem como à coordenação do MIQCB que instituiu um Centro
de Formação, em janeiro de 2019, capaz de estimular o ensino e a pesquisa
relativos à economia do babaçu. Sob este aspecto gostaria de agradecer à
coordenadora geral do MIQCB, Dona Francisca da Silva Nascimento,
que tem fortalecido as atividades de ensino voltadas para a formação das
“mulheres e jovens extrativistas”, assim como tem incentivado as discus-
sões entre as quebradeiras de coco babaçu e os acadêmicos sobre os resul-
tados das pesquisas ora realizadas nas universidades públicas.

NOTAS:

(1) As unidades de mobilização compreendem grupos sociais, cuja identida-


de coletiva foi construída a partir de conflitos, com um repertorio próprio de
práticas e com níveis específicos de organização podem ser interpretadas como
potencialmente tendendo a se constituir em forças sociais. Nesta ordem elas
não representam apenas simples respostas a problemas localizados. Suas práti-
cas alteram padrões tradicionais de relação política com o centro de poder e
com instâncias de intermediação, possibilitando a emergência de lideranças
que prescindem dos que detém o poder local. Destaque-se, neste particular,
que mesmo distante da pretensão de serem movimentos para a tomada do
poder político, logram generalizar o localismo das reivindicações e mediante
estas práticas de mobilização aumentam seu poder de barganha face ao gover-
no e ao Estado. Para tanto suas formas de ação transcendem as realidades
localizadas e geram movimentos de maior abrangência, que agrupam as dife-
renças localizadas e geram movimentos de maior abrangência, que agrupam as

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 63


diferentes unidades, tal como o Movimento Interestadual das Quebradeiras
de Coco Babaçu.
Para um aprofundamento do conceito de unidade de mobilização, leia se:
ALMEIDA, Alfredo W.B. de
1994- “ Universalização e localismo – Movimentos sociais e crise dos padrões
tradicionais de relação política na Amazônia. “ CESE – Debate n°3 ano IV.
Salvador, maio pp. 46-60.
(2) Para maiores esclarecimentos sobre as noções relativas aos chamados “ no-
vos movimentos sociais”, consulte-se:
BLACKBURN, Robim (Org.) 1992 – Depois da queda – O fracasso do
comunismo e o futuro do socialismo. Rio de Janeiro. Paz e Terra. Pp 9-16 e
93-106.
HOBSBAWM, Eric J.1995 – A era dos extremos – O breve século XX
(1914-1991). São Paulo. Cia. Das Letras. Pp. 393-420.
(3) Conforme estudo realizado no âmbito do IPEA (Instituto de Pesquisa
Econômica Aplicada) do Ministério do Planejamento e Orçamento:

A liberalização das importações atingiu o ápice em setem-


bro de 1994, quando ocorreu a conjugação de três fatores: a
sobrevalorização do real frente ao dólar provocada pela en-
trada de capitais externos, a antecipação em três meses da
tarifa externa comum do Mercosul (sem o aproveitamento
da Lista de Execução Nacional, que permitirá, para um
grupo limitado de produtos, uma convergência das tarifas
nacionais à tarifa externa comum em cinco anos) e as redu-
ções tarifárias efetuadas para pressionar os preços do-
mésticos. (KUNE; 1996:1).

Cf. Kune, Honório - 1996 “A Política de importação no Plano Real e a Es-


trutura de Proteção Efetiva”.
Brasília, IPEA- Texto para discussão n° 423. Maio. 23 p

64 Alfredo Wagner Berno de Almeida


Foto 5 - Dona Dada e Zulmira, cumprimentadas pelo Presidente Lula, na
solenidade de premiação do MIQCB, 2006

Foto 6 - Show das Encantadeiras no Rio de Janeiro, 201........

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 65


66 Alfredo Wagner Berno de Almeida
INTRODUÇÃO

***

A descrição geral das áreas de ocorrência de babaçuais indica que


tais palmáceas predominam em “zonas de várzeas, junto dos vales dos
rios e eventualmente em pequenas colinas ou elevações” (MIC; 1982:
21). Os babaçuais associam-se a outros tipos de vegetação, sendo própri-
os de baixada quentes e úmidas localizadas nos Estados do Maranhão,
Piauí, Tocantins, Pará, Goiás e Mato Grosso. Nas referidas unidades da
federação ocupavam em 1981 em conjunto uma área correspondente a
cerca de 18,5 milhões de hectares. As principais formações encontram-
se na região de abrangência do PGC, notadamente, no Maranhão cuja
área delimitada totalizava 10,3 milhões de hectares. No Tocantins e no
Pará registravam-se respectivamente 1.442.800 hectares e cerca de 400.00
hectares.
No Estado do Piauí as áreas de ocorrência de babaçu correspon-
diam, segundo a mencionada Secretaria de Recursos Naturais, a 1.977.600
ha. Considerando-se apenas a denominada região do PGC (Programa
Grande Carajás), que abrange partes do Maranhão, do Pará e do Tocantins
tem-se aproximadamente 11,9 milhões de hectares de ocorrência de
babaçuais, ou seja, 63,4% do total nacional das áreas de ocorrência.
Correspondem a 13,2% da região de abrangência do PGC. Sobressai
nesta região mencionada o Estado do Maranhão, com mais de 71% da
área global dos babaçuais. Trinta e cinco anos após a divulgação destes
dados oficiais, em 2015/2016, no âmbito das atividades do projeto Car-
tografia Social dos Babaçuais os dados obtidos a partir de mais de dois

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 67


anos de trabalho de campo assinalaram uma região ecológica do babaçu
correspondente a 26.075.659 há ou seja, 30% mais extensa que a área
correspondente aos dados oficiais de 1981, e praticamente o dobro da
área mapeada em 1993, no Guerra dos Mapas, e daquela do mapa do
Guerra Ecológica, em 2005, que correspondia a 13.475. 659 ha. Expli-
caremos o porque desta ampliação adiante, menos pela adoção de inova-
ções tecnológicas e mais pela intensificação dos desmatamentos e da
devastação da floresta amazônica.
O quadro físico e natural, ainda que seja uma referência inicial bá-
sica, não define mais o mundo das chamadas quebradeiras de coco babaçu,
eternamente aprisionadas pelos desenhos a bico de pena na paisagem dos
cocais, confundindo-se com a natureza. Emolduradas nas ilustrações de
livros didáticos e das figuras típicas e regionais do IBGE, elas tiveram
frigorificadas sua imagem. Tornaram-se um lugar comum de alusões fol-
clóricas e de divulgação turística, condenadas inapelavelmente pelos pro-
cedimentos evolucionistas característicos das políticas de desenvolvimen-
to a uma condição de “personagens em extinção” ou exemplares raros e
“sobreviventes” de um passado idealizado.
As quebradeiras de coco, através de um processo de intensas
mobilizações e conflitos, romperam com essa representação pictórica e
usual e com a moldura do exotismo da floresta, que convencionalmente
as envolvia. Descongelaram esta imagem folclórica, quebraram a imobi-
lidade iconográfica de décadas e se derramaram organizadamente nas
estruturas do campo de poder e nos circuitos de mercado, desnaturali-
zando-se e afirmando sua nova condição.
De outra parte, as representações estigmatizantes que, na vida
cotidiana, sempre perseguiam as mulheres agroextrativistas, considera-
das individualmente “quebradeiras” ou mesmo “sendeiras” através de
zombarias, ironias e chacotas, perdem seu vigor a partir desta existência
coletiva. Tais trabalhadoras conquistam a posição legítima de “produto-
ras”, impondo o reconhecimento de suas formas de gestão, através das
cooperativas, e de suas modalidades de manejo dos recursos naturais,

68 Alfredo Wagner Berno de Almeida


extraindo amêndoas sem comprometer a reprodução da espécie. Rever-
tem o significado da identidade estigmatizada e impõem à sociedade a
nova designação coletiva de “quebradeiras de coco babaçu”.
Em decorrência, o mundo das quebradeiras revela-se agora polí-
tica e economicamente construído e a sua abrangência transcende as
fronteiras fixadas pelas divisões político-administrativas. Sua existência
coletiva, por outro lado, não se confunde, necessariamente, com as áreas
de ocorrência de babaçuais. O movimento das quebradeiras não existe
em todos os lugares em que há babaçuais. A nova identidade emerge em
sua plenitude onde foram construídas condições efetivas para tal, senão
vejamos: conquista da terra, autonomia no processo produtivo e do local
de moradia, formas de ação político-organizativas, que asseguram o livre
acesso aos babaçuais, consciência ambiental aguçada e capacidade
mobilizatória permanente como pré-requisito para o êxito das iniciativas
cooperativistas.
As denominadas quebradeiras de coco babaçu instituem, deste
modo, uma nova territorialidade, uma territorialidade específica por opo-
sição à região delimitada pela força dos decretos governamentais ou pelo
arbitrário dos critérios oficiais de zoneamento ecológico-econômico.
(MIC; 1981). Seu território apresenta-se como geograficamente
descontínuo, mas demonstra uma unicidade conferida pelo repertório
de práticas próprio do Movimento Interestadual Das Quebradeiras de
Coco Babaçu, que reforça o advento da nova identidade política. Ao se
autodenominarem como quebradeiras e serem assim reconhecidas pe-
los aparelhos de poder, elas emprestam significado político a uma cate-
goria individualizada historicamente no uso cotidiano. A existência co-
letiva objetivada em movimento mesmo pressupondo áreas geográficas
descontínuas, vale-se da denominação “interestadual” como uma forma
de interlocução e de imposição do reconhecimento pleiteado. Um dos
resultados desta modalidade de afirmação, frente a políticas de mercado
aberto, consiste em tornar os problemas da “economia do babaçu” uma
questão transnacional e não mais um fato regionalizado.

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 69


AS TRANSFORMAÇÕES NA “ECONOMIA DO BABAÇU” E
A EMERGÊNCIA DO MOVIMENTO DAS QUEBRADEIRAS
DE COCO

Há um ponto de partida lugar comum no pensamento dos auto-


res que tem analisado a “economia do babaçu”. Consiste em dispor o
problema a partir de uma ênfase nas potencialidades dos recursos natu-
rais em contraposição aos resultados efetivos da atividade extrativa. Sua
formulação mais completa pode ser assim apresentada: os níveis reduzi-
dos da produção de babaçu e de seu aproveitamento integral dispõem-se
em “flagrante contraste com as imensas possibilidades naturais da re-
gião” (CAPES; 1959:104) (1). Na representação de senso comum dos
estudiosos estabelecer esta oposição significa traçar o desafio perma-
nente aos planos oficiais nas últimas quatro décadas. Assim, ainda que a
área total de ocorrência dos babaçuais corresponda a uma vasta extensão
estimada em 18 milhões de hectares (MIC; 1981) ou em 26 milhões de
hectares (PNCSA, 2016), envolvendo atualmente na sua exploração “mais
de 300 mil pessoas” (2) e que verifiquem aumentos relativos nas tonela-
gens de babaçu produzidas entre 1920 e 1984, constata-se uma tendên-
cia estacionária e um quadro de graves antagonismos sociais, cujas im-
plicações permitem falar em estagnação e crise.
Os números ascensionais, que estiverem vinculados às exporta-
ções de óleo, sobretudo entre as duas grandes guerras mundiais (3) se
evidenciam tal atividade como principal fonte de divisas para os Estados
do Maranhão e do Piauí, em vários momentos de sua história econômi-
ca recente (4), por outro lado, concernem a episódios sucessivos de fa-
lências e bancarrotas dos empreendimentos voltados para a comerciali-
zação e beneficiamento do babaçu. “Fábricas fechadas” (VALVERDE;
1957:26), edificações que tombam em “ruínas” (ibid.24), “máquinas de
quebrar coquilhos, movidas a vapor, em abandono” (ibid.25), arcabouços
de ferros retorcidos, descrevendo evidências do que poderia ser tomado

70 Alfredo Wagner Berno de Almeida


como objetivo por uma arqueologia industrial, são mencionados como
ilustração desta referida “crise”.
Concomitantemente o discurso técnico-empresarial mostra-se
também refratário ao catastrofismo, com uma proposição permanente
de que a atividade de extração e beneficiamento do babaçu trata-se de
uma “economia a organizar”. Não é outro, aliás, o subtítulo da publica-
ção de 1952, que contém a Exposição do Conselho Nacional de Econo-
mia (5) ao Presidente da República, juntamente com o Anteprojeto de
Lei que cria a Comissão do Babaçu. Endossando um pressuposto de
compradores, exportadores e dos próprios Relatórios da Associação Co-
mercial de São Luís os economistas do referido Conselho centram suas
observações na escassez e na extração inadequada das amêndoas de
babaçu:

“O suprimento de matéria prima não te satisfaz sequer às


necessidades das indústrias existentes” (CONSELHO
NACIONAL DE ECONOMIA: 1952;8).

A capacidade industrial instalada excederia ao suprimento de


amêndoas de babaçu, cuja oferta é sempre considerada irregular. Tal
constatação sugere uma monotonia, sendo retomada a cada nova análise
nas duas décadas subsequentes. Sintetiza-a com acuidade o membro do
Conselho Nacional de Geografia, Orlando Valverde, que integrou o Gru-
po de Estudos do Babaçu, criado pelo governo federal em 14 de março
de1957 através do Decreto No.41.150, e que realizou trabalho com outros
membros do citado Grupo, entre 19 de julho e 7 de agosto de 1957.

“O problema do babaçu, porém chegou a uma situação pa-


radoxal. Toda a parte técnico-industrial é conhecida e foi
resolvida, mas está na dependência do fornecimento re-
gular de matéria-prima.” (VALVERDE; 1957:4) (g,n)

Um dos componentes da explicação adverte que as palmeiras efe-


tivamente exploradas constituem um percentual mínimo, não repre-

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 71


sentando mais de 30 % das existentes (FERREIRA; 1952:25). Tem
prevalência, entretanto, aquele componente que chama a atenção para a
“irracionalidade na coleta”, isto é, que incide basicamente sobre os pro-
dutores diretos. Mediante esta perspectiva as razões da oferta irregular
acabam sendo atribuídas à força de trabalho, que é representada segun-
do visões preconcebidas de “nomadismo” ou referida a trabalhadores que
vagueiam “errantes”. Não há referências às relações de trabalho, propri-
amente ditas. Privilegia-se ademais uma relação com os meios de produ-
ção através de uma apropriação direta dos recursos naturais, como se eles
fossem “livres”. Haveria, portanto, uma suposição de continuidade do
predomínio de uma economia de coleta, que desde o período colonial é
apresentada como tendo caracterizado a ocupação econômica da região
(MATTOS; 1951:46). Nos meandros do discurso técnico-empresarial,
neste contexto de discussão relativo à força de trabalho, está-se diante
de um fator elidente das descontinuidades no processo de extração de
amêndoa de babaçu antes de 1914 e 1960, e do “capital industrial”, con-
soante periodização proposta por AMARAL (1989:24). Na interpreta-
ção do representante dos empresários da Associação Comercial do
Maranhão não há, pois, qualquer menção às formas de trabalho assala-
riado que configuram o “trabalhador livre” na economia clássica.
Tampouco há referências a quaisquer modalidades de subordinação, que
configurem controle da força de trabalho. O “nomadismo” consiste numa
depreciação, como se fora uma propriedade inerente aos que exercem o
extrativismo, tendo força de uma autoevidência:

“Além disso, não há, no Estado, uma classe organizada de


extratores de amêndoa de babaçu. O que existe é uma
espécie de indústria doméstica exercida, em geral, por
mulheres e crianças que, premidas pela necessidade fazem
a apanha de coco nos arredores das palhoças onde moram e
que diariamente levam as amêndoas que extraem, numa
média de 6 a 8 quilos por pessoa, ao comprador mais próxi-
mo. Nos anos em que a lavoura se apresenta mais vantajosa
ou quando baixe o preço do babaçu, diminui o número de
extratores, porque em regra, ninguém faz profissão exclu-

72 Alfredo Wagner Berno de Almeida


siva desse ramo de atividade. Trata-se, como se vê, de uma
indústria marginal, supletiva, e por isso mesmo insegu-
ra, incerta. Acresce que não se trata de gente definitiva-
mente radicada ao solo, mas de indivíduos afeitos ao
nomadismo, à vida errante” (FERREIRA; 1952:27) (g.n)

Em conformidade com semelhante formulação do Presidente da


Associação Comercial do Maranhão tem-se a análise dos “técnicos”
planejadores do Conselho Nacional de Economia que era vinculado di-
retamente à Presidência da República:

“Não é de admirar, pois, ser a população dos babaçuais das


mais miseráveis do País. Gente semi-faminta, largada ao
abandono, numa degradação sem limites e em permanen-
te nomadismo. “ (CONSELHO NACIONAL DE ECO-
NOMIA; 1952:9)

O impressionismo dos “técnicos”, eivado de pré-noções e sem


um tratamento cientifico adequado, marca o pensamento de senso co-
mum dos que estudam a chamada “economia do babaçu” e vai sendo
reproduzido nas décadas posteriores, como se os trabalhadores vivessem
num estado primitivo entregues à vida nômade.

“É comum para quem anda pelo interior do Maranhão em


área de babaçuais, encontrar as palhoças vazias até as cinco
da tarde ou então apenas um ou dois cachorros sonolentos
mantendo guarda aos trastes, poucos além do pote, panela e
rede, ou então algum ancião já inválido, ou ainda, crianças
sem condições para o trabalho. A casa fica assim transforma-
da no ponto de encontro para a dormida e uma única refeição
em comum, dando isso origem a uma dissolução familiar,
que é agravada pela promiscuidade dos adolescentes na
quebra do babaçu e pelo nomadismo na atividade de pro-
dução na roça.” (LEAL e SAINT CYR; 1972:33).

Importa observar que nesta última citação o nomadismo acha-se


referido à área de cultivo, não incluindo necessariamente a habitação.
Ainda assim trata-se de uma percepção estigmatizada cujos esquemas

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 73


explicativos supõem repetir as evidências empíricas sem conseguir cap-
tar possíveis elementos de logica na organicidade da pequena produção
agrícola e de sua articulação com atividades extrativas.

“O babaçu é praticamente espontâneo e acompanha a de-


vastação da mata por força do seminomadismo imposto à
agricultura pelo processo usado. Como acontece com a malva
na região bragantina no Pará, o babaçu aparece logo após a
derrubada, a queima e o plantio, entre as plantas em culti-
vo. “ (GALVAO; 1955;283 ) (g.n.)

Ao fixar a observação na atividade em si o intérprete perde a pers-


pectiva das relações sociais que a condicionam. Antes de suceder à cole-
ta, a agricultura com ela se articula a nível de um cálculo econômico
específico, que variou no tempo, tendo sido inicialmente voltado para o
autoconsumo (AMARAL; 1989:23).
No que concerne à agricultura, a ideia de nomadismo parece con-
ter pelo menos dois sentidos: um referido às áreas de ocupação recente
ou à incorporação de novas terras por segmentos camponeses em deslo-
camento e o outro mais próximo ao rodízio de áreas em regiões de colo-
nização antiga. São situações sociais diferenciadas e que remetem para
segmentos camponeses que se apropriam diferentemente dos recursos
naturais. Tal distinção se escapou ao discurso dos planejadores, não pas-
sou despercebida aos geógrafos nos anos de 50 e foi retomada posterior-
mente por antropólogos e economistas.
Em oposição ao chamado nomadismo o discurso técnico-em-
presarial do início da década de 1950-60, delineia uma intervenção go-
vernamental ancorada no que denomina de “fixação do homem ao meio”.
O instrumento de ação fundiária então preconizado concerne à coloni-
zação, ou seja, à distribuição de terras devolutas para

“trabalhadores rurais que já estiverem ocupados ou propu-


seram dedicar-se à colheita do babaçu.” (sic) (CONSE-
LHO NACIONAL DE ECONOMIA; IBID.12).

74 Alfredo Wagner Berno de Almeida


O acesso à terra é pensado numa perspectiva notadamente
produtivista. Deveriam ser distribuídos 9.000 lotes com uma dimensão
unitária de 10 hectares. Do ponto de vista dos planejadores isto permiti-
ria um aumento substancial na produção, porquanto as palmeiras seriam
cuidadas, “seja pelo desbaste ou por um tratamento qualquer que as de-
fenda das pragas” (ibid. 28) em oposição à coleta em áreas descontínuas
em que o extrator limita-se a colher o coco que se desprende dos cachos
nos lugares mais acessíveis e só nestes (ibid.). De igual modo na propo-
sição da Associação Comercial do Maranhão considera-se fundamental
a “fixação” em terras devolutas “cedidas pelo Estado, nos termos da le-
gislação vigente” (FERREIRA; 1952:28).
Não se registra aqui nenhuma menção explícita aos latifúndios e
à concentração fundiária. Contrastando com o discurso oficioso os
geógrafos vão chamar a atenção para o monopólio da terra e para as
práticas de apossamento ilegítimo nas regiões de incidência de babaçuais.
Aroldo de Azevedo e Lino de Mattos (1951), catedráticos de Geografia
do Brasil e de Geografia Econômica da Universidade de São Paulo,
Roberto Galvao (1955) e Orlando Valverde (1957), do Conselho Nacio-
nal de Geografia, são unânimes em reconhecer uma situação potencial
de conflito a partir dos chamados “latifúndios”, controlados por “chefes
políticos locais” e “grileiros”. O resultado desta concentração indevida
da terra seria uma produção irregular e deficiente que varia muito de ano
para ano (AZEVEDO e MATTOS; 1951:17)

“Talvez em nenhuma outra região do Brasil, excetuando-


se o planalto paulista e paranaense a “grilagem” das terras
se fez de maneira tão ampla e abusiva” (VALVERDE;
1957:17).

Esta afirmação de Valverde no seu trabalho intitulado “Geogra-


fia Econômica e Social do Babaçu no Meio Norte” sublinha ademais
que o deslocamento dos camponeses se trata de uma medida forçada,
antes que uma “opção” espontânea.

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 75


O corolário desta interpretação seria que a ação fundiária deveria
incidir sobre as terras privadas ou de pretensão de particulares e não ne-
cessária e exclusivamente sobre as chamadas terras públicas. Distingue-
se, portanto, da medida de colonização. Valverde aliás, menciona a “fa-
lência dos dois projetos de colonização”, oficiais, encetados pelo Institu-
to Nacional de Imigração e Colonização (INIC), logo após as recomen-
dações do C.N.E.: o Núcleo Colonial do Alto Mearim, perto de São
Lourenço do Ipixuna, e o Núcleo Colonial de Barra do Corda. O pri-
meiro, inclusive, “morreu no nascedouro” (VALVERDE; 1957:32). Ora,
mais que um paliativo a medida de colonização elide a questão do mo-
nopólio da terra como fator essencial para as indústrias de óleo babaçu,
menosprezando os conflitos sociais.
Não obstante semelhante desprezo pelos dados indicativos da
concentração fundiária o documento do Conselho Nacional de Econo-
mia adverte para antagonismos e tensões sociais latentes, recorrendo a
uma referência histórica que, regionalmente, simboliza graves conflitos:

“(...) Com gente nestas condições, gerou-se um clima pro-


pício ás perturbações socias, consequência inevitável de to-
dos os profundos desajustamentos dessa natureza. Clima
de Balaiada. “ (CONSELHO NACIONAL DE ECO-
NOMIA; 1952:9 ) (g.n.).

O reconhecimento dos conflitos sugere consensual. A menção


explícita à Balaiada se expressa gravidade dos antagonismos ao mesmo
tempo revela a incapacidade dos setores dirigentes em estabelecer medi-
das para corrigir as distorções flagrantes na estrutura fundiária. Ainda
que os babaçuais sejam nativos e se distribuam por áreas públicas e pri-
vadas, tem-se que os proprietários, os pretensos proprietários e os grileiros
limitaram o direito da coleta.

“Este direito acarreta aos moradores a obrigação da venda


do produto à casa comercial do proprietário ou de alguns
dos seus prepostos, cabendo a estes o estabelecimento do

76 Alfredo Wagner Berno de Almeida


preço quase sempre inferior ao corrente nas cidades”
(ANDRADE; 1964:80) (g.n.).

Os extratores diretos, que não respondiam pela condição de mo-


radores, encontravam-se também subordinados através do crédito e do
endividamento nas bodegas com obrigações similares àquelas de foreiros
e agregados, que são condições aproximadas daquela dos moradores.
A limitação dos direitos da coleta vincula-se diretamente ao pro-
cesso de concentração fundiária nas regiões dos babaçuais. Vale recor-
dar, neste sentido, que, no Maranhão, enquanto os estabelecimentos,
cuja condição do responsável é designada como proprietário, apenas au-
mentaram de 25.080 para 30.894 entre 1950 e 1960, no mesmo período
aqueles referidos aos ocupantes (caso em que a exploração se processa
em terras públicas ou de terceiros, com ou sem consentimento do pro-
prietário, nada pagando o produtor pelo seu uso, consoante conceituação
da FIBGE) passaram de 61.901 para 138.745 e aqueles dos chamados
arrendatários ( inclua-se também os foreiros) aumentaram de 5.281 para
88.436. Os percentuais de elevação dos que não detém formalmente o
domínio legal das terras revelam-se extraordinários, conforme indicam
os dados dos Censos Agropecuários do IBGE. Mais que uma intensa
pressão sobre as terras evidenciam os elementos potenciais de conflito.
Visto sob este ângulo o denominado “clima de Balaiada” (ibid.),
sem que fosse esta a pretensão de seus formuladores, adquiriu extrema
atualidade no curso das últimas quatro décadas, designando zonas críticas
de antagonismos e tensões sociais, caracterizadas sobretudo, por acirradas
disputas pelo meio de produção básico, a terra. Nestes quarenta anos o
acesso aos babaçuais foi sendo mais e mais limitado, quando não eles pró-
prios foram sendo devastados e substituídos por pastagens artificiais.
Na memória das quebradeiras o “coco era liberto”. Neste quadro
em que lhes é cerceado o direito da coleta, não lhes permitindo livre acesso
às terras públicas e privadas onde há incidência de babaçuais, as quebra-
deiras o representam, entretanto, através da imagem do “coco preso”.

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 77


A realidade objetiva articulada com esta representação assinala um pro-
cesso de intensa concentração fundiária, com o número de estabeleci-
mentos, cuja condição do produtor é designada por ocupante (posseiro),
alcançando em 1970, um total de 186.517 com uma área corresponden-
te de 1.070.605 hectares contra mais de 7 milhões de hectares controla-
dos por apenas 44.924 estabelecimentos de proprietários. O Maranhão
apresenta também entre 1975 e 1980 um decréscimo no número de ocu-
pantes e uma diminuição na área ocupada. Enquanto que o decréscimo
de ocupantes foi de 1/5, a redução da área não alcançou a 1/10. Deste
modo o Maranhão, que em 1975 possuía 228.859 ocupantes de uma
área de 1.116.956 ha. passou a ter em 1980, 184.044 estabelecimentos
com um área de 1.026.987 ha. Esta mesma variação não pode ser esten-
dida a todos os municípios de Pré-Amazônia. No município de Impera-
triz pode-se observar um decréscimo maior da área ocupada em relação
ao número de ocupantes, enquanto que em Santa Luzia o decréscimo
do número de ocupantes, da ordem de 1/5, corresponde a um aumento
da área ocupada em cerca de 74%. A Sinopse Preliminar do Censo
Agropecuário de 1985, dada a público em 1987 (sem referência a Muni-
cípios), permite outros percentuais. Atribui a 1980, no Maranhão, 185.392
estabelecimentos de ocupantes com 892.143 ha e indica um aumento
no número de ocupantes para 1985. A reversão, numa tendência forte-
mente ascensional assinalada em 1980, parece retomar patamares mais
próximos dos dados de 1975, os mais elevados, senão vejamos: 202.015
estabelecimentos de ocupantes em 1985. O dado de área, entretanto,
prossegue declinante, a saber: 780.883 ha. Tal declínio evidencia uma
concentração, o que pode ser divisado através da consulta às estatísticas
cadastrais do INCRA, dados de 1985, que indicam 14 imóveis rurais
classificados como latifúndios por dimensão com uma área correspon-
dente a 1.611.690 ha., ou seja, mais que o dobro da área ocupada pelos
202.015 estabelecimentos de posseiros.
Os dados levantados pelo Plano Regional de Reforma Agrária,
em 1985, reforçam essa tendência:

78 Alfredo Wagner Berno de Almeida


“Os imóveis classificados como latifúndios por exploração e
dimensão cresceram em número e tamanho médio, apre-
sentando baixo percentual de utilização da terra (menos de
20% da área aproveitável total). Os classificados como lati-
fúndio por exploração detêm 79% da área total cadastrada
e representam 39% do total de imóveis (...). Os efeitos des-
sa situação fazem-se visíveis na exacerbação das tensões,
registrando-se em 1985 mais de 100 conflitos que envol-
veram, aproximadamente, 15.000 lavradores, num territó-
rio estimado em mais de dois milhões de hectares. “
(PRRA-Maranhão; 1986:8) (g.n.).

Para além da concentração fundiária, que foi agravada com a Lei


Estadual de Terras No. 2.979 (mais conhecida como Lei Sarney), de 17
de julho de 1969, que somente entre 1972 e 1975 vendeu o preço simbó-
lico cerca de 1.238.000 ha. notadamente na área da Comarco; observa-
se que nas regiões com incidência de babaçuais os mecanismos de coer-
ção mantêm imobilizada a força de trabalho e isto, por si só, concorre
para também relativizar o papel da industrialização do óleo babaçu como
fator de modernização ou de transformações econômicas significativas.
O aprofundamento desta relativização pressupõe um corte diacrônico.
Assim, em termos históricos, pode-se adiantar que o extrativismo do babaçu
no Maranhão e no Piauí, diferentemente de outras atividades extrativas
desenvolvidas na região amazônica desde fins do século XIX (como a
extração do látex da borracha), ocorre após a decadência do sistema
monocultor agroexportador gerado pela economia colonial e que gravitou
em torno do algodão e da cana de açúcar (ALMEIDA; 1983: 71). Os
grandes proprietários, após, a abolição da escravatura, voltaram-se basica-
mente pra uma pecuária extensiva, tirando o restante de sua renda do
aforamento da terra e, a partir de 1911, da comercialização do babaçu,
coletado pela unidade de trabalho familiar camponesa nas áreas de coloni-
zação antiga (ANDRADE; 1964: 81) e notadamente pela força de traba-
lho feminina e infantil. Os anos que marcam a derrocada da empresa se-
ringalista na Amazônia, isto é, 1911 a 1913, são os mesmos que assinalam
a consolidação da exploração comercial da amêndoa do babaçu e de seu

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 79


uso para fins industriais. A curva declinante do prestígio e do poder de
influência dos seringalistas contrasta vivamente, num gráfico imaginário,
com a tendência ascensional dos grandes proprietários rurais que mono-
polizam o comércio do babaçu. Na região do Itapecuru, o algodão cuja
produção se voltara para o mercado interno desde fins do século XIX até
os anos 1950-60, quando do declínio da indústria têxtil, permite a utiliza-
ção pelos latifundiários e pretensos proprietários da força de trabalho cam-
ponesa imobilizada dentro dos limites de seus imóveis rurais. As unidades
de trabalho familiar conjugavam a extração do babaçu com plantio de ar-
roz e mandioca. A cobrança compulsória do foro e a obrigatoriedade de
vender a amêndoa do babaçu na bodega de prepostos autorizados pelo
latifúndio, revelam as formas de controle sobre a força de trabalho. O
monopólio da terra e do crédito acha-se disposto articuladamente na base
do processo produtivo, engendrando os mecanismos coercitivos mencio-
nados. (ALMEIDA e MOURÃO; 1976).
Estas breves referências históricas permitem que se relativize o
papel transformador da industrialização do babaçu como fator de mu-
danças radicais. A despeito de inovações tecnológicas no processamen-
to do babaçu, pode-se asseverar que se trata de modernização conserva-
dora, uma vez que mantém intocável a estrutura da propriedade territorial.
De outra parte percebe-se que os chamados “industriais do babaçu” não
conseguem se dissociar dos “grandes proprietários”, legitimando os imó-
veis rurais classificados como latifúndio como os únicos habilitados a
beneficiar-se dos incentivos fiscais, do sistema de crédito e das fontes de
obtenção de financiamento em condições favorecidas de juros, prazos e
carências (6). Sublinhe-se que o próprio documento da Associação Bra-
sileira das Indústrias do Babaçu dirigido ao governador do Maranhão,
em 04 de julho de 1991 contém propostas dirigidas aos chamados “fa-
zendeiros” quais sejam:

- “incentivar os proprietários de fazenda a investirem no


setor como uma forma de complementar a receita de suas

80 Alfredo Wagner Berno de Almeida


propriedades, de contar com mão de obra permanente e de
evitar as possíveis invasões de suas terras pelos catadores
de coco.

- incentivar os proprietários de fazendas, que ainda não


exploram atividades agrícolas e/ou pastoris a consociar a
exploração do babaçu com estas atividades, de modo a au-
mentar sua receita e melhorar o nível de vida de seus fun-
cionários ou arrendatários e finalmente ser um instrumento
de diminuição de tensões sociais, melhorando o relaciona-
mento entre proprietário e seus trabalhadores” (ABIBA;
1991:3) (g.n.).

Além do desconhecimento das condições objetivas de coleta do


babaçu, nomeando de “catadores de coco” as mulheres extrativistas, quais
sejam as quebradeiras de côco babaçu observa-se que as proposições da
Abiba passam pelo reforço das atuais distorções da estrutura fundiária,
reeditando os instrumentos paliativos a molde da colonização nos anos
50, só que referidas às relações de trabalho, Aliás, neste particular, pode-
se dizer que se trata ademais de uma modernização autoritária, porquan-
to a ênfase na tecnologia de processamento não se separa de formas de
imobilização da força de trabalho mediante endividamentos junto aos
chamados “atravessadores”, “bodegueiros” e “usineiros”, subordinando
não apenas moradores, foreiros, arrendatários, posseiros e assentados,
isto é, pequenos produtores de áreas desapropriadas pelo Incra e pelo
antigo Mirad (1985-1989), mas também trabalhadores eventuais que
habitam nas chamadas pontas de rua, após terem sido expulsos de suas
posses.
Outro aspecto desta modernização autoritária refere-se ao fato
que esta atividade industrial não se separa dos órgãos oficiais e das medi-
das de apoio definidas pelo Estado. Trata-se de uma iniciativa privada,
historicamente apoiada nos aparelhos de poder e nas políticas públicas.
Desde que governou o Maranhão o interventor federal, no período dita-
torial conhecido como Estado Novo (1937-1945), Paulo Martins de Souza
Ramos, é evidente tal apoio:

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 81


a) O Decreto-lei n° 153,de 19 de novembro de 1938 “concede
vantagens às usinas de extração de óleo e aproveitamento do subproduto
de babaçu, que se instalarem no território do Estado:
a’) isenção de imposto de indústrias e profissões;
a’’) instalação de 2% no máximo, do imposto sobre exportação
dos produtos que fabricarem”.

b) O Decreto-lei n°. 573, de 4 de fevereiro de 1942 “autoriza o


governo a permitir a utilização, a título gratuito, dos frutos dos babaçuais
pertencentes ao Estado, a empresas ou firmas nacionais que se compro-
metem a instalar no território maranhense, usinas para a industrializa-
ção integral do coco”.

“Art. 1°. – As empresas ou firmas brasileiras de idoneidade profis-


sional pecuniária devidamente comprovadas, que se comprometem, nos
termos desta lei, a instalar e pôr em funcionamento no território
maranhense, usinas para a industrialização integral do coco babaçu poderá
o Governo permitir a título gratuito, que se utilizem dos frutos dos babaçuais
situados em terras devolutas, não aforadas, pertencentes ao patrimônio do
Estado e comprometidas na área ou áreas que previamente determinar”.
No período democrático que sucede à ditadura do Estado Novo
os aparelhos de poder continuam sendo mobilizados no sentido de in-
centivar a “economia do babaçu”, conforme já foi mencionado no docu-
mento do Conselho Nacional de Economia ao Presidente da República
em 1952.
O Decreto n°41.150 do governo federal, de 14 de março de 1957,
criou o Grupo de Estudos do Babaçu com a finalidade de apresentar reco-
mendações para o “desenvolvimento da produção do babaçu em curto pra-
zo” (VALVERDE; 1957:3). Dentre as sugestões destaca-se aquela de que

“ [...] deverá o governo conduzir as pesquisas agronômicas,


juntamente com as de economia agrícola, encarando a possi-

82 Alfredo Wagner Berno de Almeida


bilidade futura de serem criadas plantations dedicadas à
cultura de um conjunto de plantas oleaginosas”
(VALVERDE; 1957:36).

As recomendações parecem não ter sido levadas em conta. Em


março de 1962 a Associação Comercial do Maranhão, em relatório aos
órgãos competentes preocupa-se com a possibilidade de haver exceden-
tes de oleaginosas no mercado interno e chama a atenção para a desva-
lorização do preço do babaçu. Acena com a sugestão de exportar óleo
de babaçu e reafirmar condições de comercializações favoráveis para con-
correr com a copra africana:

“O Ministro da Indústria e Comércio, deputado Ulysses


Guimarães, em reunião no GATT, em 13 de novembro de
1961, chefiando a delegação brasileira firmou princípio e
obteve compatibilidade do Mercado Comum Europeu com
os termos do Convênio do GATT, de particular interesse
para a América Latina e, especialmente, para o Brasil, de-
fendendo com ardor e veemência a igualdade de tratamen-
to para produtos brasileiros com similares africanos. “(Cf.
“Sugestões da ACM para estudo do problema do babaçu”,
14/3/62).

O interesse pelo babaçu e demais produtos nativos parece au-


mentar e vão sendo desestimuladas as derrubadas de palmeiras, como no
início da década de 1950-60. Em meados dos anos 70 e já nos 80 as
legislações estaduais do Maranhão e do Piauí (Decreto Estadual-MA n.
3252, de 11/12/73; Lei Estadual n. 155-MA, de 11/01/80; Lei Estadu-
al-PI de 26/9/83; Lei Estadual-MA n. 4734 de 18/6/86) e federal ( Lei
4.771 de 15/9/65) passam a conferir maior atenção à conservação dos
babaçuais, dos castanhais etc.
Consoante análise de Peter May destaca-se que tais instrumen-
tos de poder, pretextando coibir a devastação, resultaram em algumas
circunstâncias na própria destruição dos babaçuais, a saber:

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 83


“Ironicamente a “aplicação” da legislação de proteção ao
babaçu no Maranhão foi feita através de decretos do exe-
cutivo isentando de suas exigências várias grandes empre-
sas agroindustriais” (MAY; ibid. 180).

Os resultados são aqueles sublinhados pelo próprio autor:

“(22) Os decretos 5.549 e 5.550, de março de 1975, permi-


tiram às empresas envolvidas na implantação de projetos
de celulose e cana-de-açúcar a área de Caxias, Maranhão,
o desmatamento de um total de 65.000 hectares de
babaçuais.” (MAY; ibid. n. 180)

Os mecanismos de intervenção do Estado sugerem colidentes.


Nesta mesma direção, de apoio em políticas oficiais dúbias, pode ser
também situado o já mencionado documento da Abiba de julho de 1991,
através do qual os industriais do babaçu pleiteiam elevação da taxação e
protecionismo face a importação do óleo de palmiste da Malásia, agora
introduzindo no país a partir das medidas de mercado aberto.
Em regimes de exceção (Estado Novo e ditadura militar entre
1964 e 1985) ou em períodos de vigência da democracia, com políticas
de inspiração keynesiana ou neoliberais, tem-se a permanência destas
iniciativas de modernização autoritária, que no último meio século tem
caracterizado a chamada “industrialização do babaçu”. Vantagens
credíticas, isenções fiscais, alienação simbólica de terras e concessões de
babaçuais em terras públicas configuram o substrato desta ideologia.

A MOBILIZAÇÃO CAMPONESA

A reivindicação de reforma agrária tem sido colocada pelos tra-


balhadores rurais no Maranhão desde o início dos anos de 50, nas lutas
que convergiam para a criação das primeiras Associações de defesa de
seus interesses em 1955. No ano de 1956, a partir da multiplicação des-
tas Associações, foi criada uma entidade de representação a nível esta-

84 Alfredo Wagner Berno de Almeida


dual denominada Associação dos Trabalhadores Agrícolas do Maranhão
(ATAM). As maiores mobilizações envolviam os conflitos provocados
pela "invasão das roças pelo gado" dos grandes proprietários e a regula-
mentação do preço dos aforamentos. Os camponeses nordestinos des-
locados nos períodos de seca aumentavam a demanda por terra, o que
possibilitava aos latifúndios a elevação do preço do foro e um maior po-
der de barganha nas negociações com os camponeses. No caso das ati-
vidades havia uma prevalência da força de trabalho feminina e de crian-
ças nas atividades de coleta e quebra do coco babaçu. Representava, nes-
te sentido, uma atividade acessória aos plantios de mandioca - regional-
mente denominados de roça ou roça velha para distinguir do sangal, que
é um plantio de verão, de ciclo mais curto - e de arroz.
Há diversos autores que vão considerar esta articulação entre as
atividades acessórias e as principais, internamente à unidade de trabalho
familiar camponesa, atribuindo-lhes as respectivas importâncias. Ao con-
trário do discurso dos planejadores, vão interpretar a composição da for-
ça de trabalho nestas atividades extrativas, seguindo uma divisão sexual
e etária do trabalho familiar de segmentos camponeses. Cunha (1979),
Amaral (1989) e May (1990) avançam nesta reflexão ainda que chegan-
do a resultados não exatamente os mesmos. De certo modo estes auto-
res contribuem para reatualizar criticamente o discurso dos geógrafos
dos anos 50, que polemizava com as noções eivadas de preconceito do
pensamento oficial.
O extrativismo articula-se com a agricultura, consoante a repre-
sentação destes camponeses. Estas atividades não são separáveis, em
se tratando de mobilização para defesa de seus interesses. O cálculo
econômico camponês sempre conjugou tais atividades e mesmo os
Tenetehara, conforme constataram Charles Wagley e Eduardo Galvao.
No decorrer de seus trabalhos de campo nestas áreas indígenas verifi-
cam que em 1945 “a redução do tamanho das roças indicava o abando-
no da agricultura pela quebra de coco-babaçu” ( WAGLEY e
GALVAO; 1955:56 (7).

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 85


No estudo realizado por Cunha em Bacabal, Caxias e Chapadinha,
a exploração de babaçu apresentou-se como “o principal agente forma-
dor da renda familiar” (CUNHA; 1979:XIII) e na coleta do coco inteiro
o pesquisador verificou o predomínio do trabalho masculino (ibid). Tal
observação corrobora a regra de que na quebra de coco, ao contrário da
coleta do coco integral, prevalece o trabalho feminino. Nesta situação
observada o termo “catador” adquire certa funcionalidade.
As situações mencionadas apontam para contextos bem especí-
ficos que seja de precisão extrema em tempo de escassez de gêneros
alimentícios, caso dos Tenetehara, tal como mencionado por Wagley e
Galvão; quer seja de inovações tecnológicas no processamento com a
utilização do coco-inteiro. Nas demais situações a quebra do babaçu não
substitui o plantio de culturas alimentares. Tanto entre povos indígenas
das regiões de incidência de babaçuais, como nos povoados de antigos
integrantes da frente nordestina que ocupou os vales férteis do Maranhão
ou nas regiões de segmentos camponeses mais tradicionais como as
chamadas terras dos índios (não confundir com terras indígenas) terra
dos santos e terra dos pretos (8), envolvendo muitas dela os chamados
foreiros, a atividade extrativista por si só não confere identidade política
ao grupo. Os agentes sociais, designados teoricamente como campone-
ses, não teriam uma auto-definição mais abrangente ancorada tão só no
extrativismo. Tradicionalmente designam seus domínios com expressões
referidas diretamente ao meio de produção básico: terra comum, terra de
parente, terra de ausente, terra de herança e terra nacional. Entretanto,
com os despejos arbitrários e com as expulsões de milhares de famílias
de seus locais de morada habitual e cultivo, adensaram-se famílias cam-
ponesas nas chamadas ponta de rua de cidades como Imperatriz, Bacabal,
Caxias, Açailandia (MA), Araguaina (TO) e Marabá e Parauapebas (PA)
e o extrativismo, em terras de terceiros, ganhou maior relevância. Am-
plos contingentes de pequenos produtores rurais, a partir da usurpação
de seus domínios, passaram a encetar diferentes estratégias de sobrevi-
vência para recuperar suas terras e para garantir sua reprodução. O

86 Alfredo Wagner Berno de Almeida


extrativismo tornou-se essencial neste contexto, constituindo-se num
importante elo manter uma identidade, para assegurar os meios de
sobreviencia e para reconquistar os domínios usurpados.
A situação da coleta de babaçu passa, pois, por uma redefinição e,
em algumas situações é conjugada com o trabalho assalariado eventual,
inclusive nas usinas de açúcar recém-instaladas no Maranhão (9). Re-
gistra-se, neste contexto, nas regiões maranhenses de Baixada Ociden-
tal, Imperatriz, Mearim, Médio Mearim e Itapecuru, conforme dados
censitários de 1985, um agravamento de conflitos sociais e uma
indefinição da dominialidade que envolvem 191.480 hectares e também
133.262 arrendatários (incluindo-se os chamados foreiros) com uma área
de 213.153 hectares. Em decorrência destes antagonismos os cultivos
são afetados e cada vez mais a extração torna-se essencial sob adminis-
tração feminina, com os membros da unidade familiar adentrando em
cocais de terceiros ou por eles pretendidos, já que o cerceamento ilegal
dos babaçuais em terras públicas coibiu o direito à coleta.
Nas áreas desapropriadas a partir do Plano Nacional de Reforma
Agrária (1985-1989) foi retomada, entretanto, a extração do babaçu con-
soante as modalidades de coleta livre tal como preconizava o sistema de
apossamento preexistente. Nelas, como naquelas áreas de tensão social
adquiridas pelo governo estadual, em 1989, no Vale do Mearim, registra-
se a formação de inúmeras cooperativas de trabalhadores articuladas com
os STRs.

AS COOPERATIVAS DE PEQUENOS PRODUTORES AGRO-


EXTRATIVISTAS E A AFIRMAÇÃO DA IDENTIDADE

As iniciativas de cooperativismo nas regiões de ocorrência de


babaçuais, surgem notadamente a partir de 1988 e 1989 com o processo
de intensa mobilização dos trabalhadores rurais que lograram conquistar
formalmente suas terras de posse através das ações desapropriatórias. As
formas de organização política conjugadas com um aprofundamento da

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 87


assistência técnico-administrativa para uma eficaz gestão das terras con-
quistadas, resultam na criação da Associação em Áreas de Assentamen-
to no Estado do Maranhão (ASSEMA), tendo por base a região do
Mearim. O cerceamento dos tradicionais direitos à coleta do coco babaçu,
pela ampliação das pastagens formadas, por empresas agropecuárias,
impeliu o movimento dos trabalhadores para a defesa dos babaçuais e
para reivindicações que assegurassem o livre acesso a eles. Para tanto os
trabalhadores rurais objetivaram organizar o processo de comercializa-
ção e processamento da amêndoa babaçu, rivalizando com os circuitos
de compra montados pelos denominados “usineiros” e “patrões”, os quais
até então monopolizavam a compra de amêndoas. Este esforço resultou
na formação de quatro cooperativas de trabalhadores e trabalhadoras
agroextrativistas, a partir de 1990, que conjugam as atividades de plantio
com a coleta. Todas elas encontram-se localizadas no Mearim, senão
vejamos.

COOPERATIVAS DE PEQUENOS PRODUTORES


AGROEXTRATIVISTAS DO MEARIM

Fonte: ASSEMA; 1993.

A COOPALJ recolhe amêndoas e fornece bens essenciais (açú-


car, café, fósforo, querosene, sabão, sal grosso, sal fino, óleo de coco etc.)
através de uma rede de onze cantinas montadas consoante as formas de
organização próprias aos seguintes povoados: Matinha, Centrino, Cen-

88 Alfredo Wagner Berno de Almeida


tro dos Aguiar, Ludovico, Bertolino, Morada Nova, Pau Santo, São
Manoel, São Sebastião, Cajazeiras e Centro dos Passarinhos. O povoa-
do como unidade social de referência explica o fato de famílias de pe-
quenos produtores que, mesmo não sendo sócias da cooperativa,
comercializam nas cantinas. A despeito dos preços das mercadorias se-
rem mais favoráveis aos sócios efetivos, ainda assim elas preferem a co-
operativa aos comerciantes intermediários.
A COOPAES, de São Luiz Gonzaga, tem dez cantinas, enquanto
que as cooperativas de Lima Campos e de Esperantinópolis possuem
respectivamente 5 e 4 cantinas. Dentre elas a única que possui prensa
para produção de óleo é a COOPALJ.
Concomitantemente com o avanço técnico, mediante a monta-
gem de prensas e a adoção de técnicas mais aprimoradas de processa-
mento, produz-se uma ampliação da capacidade política, observando-se
a formação de núcleos de trabalhadoras cognominadas “quebradeiras de
coco” em inúmeros povoados da região do Mearim. Em Lago do Junco
desde 1989 organizou-se a Associação das Mulheres Trabalhadoras Rurais
(AMTR). Em São Luiz Gonzaga foi criada a Secretaria da Mulher no
próprio âmbito do Sindicato dos Trabalhadores Rurais. Em Lima Cam-
pos as denominadas quebradeiras agrupam-se na Oposição Sindical,
enquanto que em Esperantinópolis tem-se grupos informais vinculados
concomitantemente ao SRT e à cooperativa. Do mesmo modo intensi-
ficam-se os laços solidários e as articulações com movimentos emergen-
tes em áreas de babaçuais do próprio Maranhão (caso Baixada Ociden-
tal) e de outras unidades de federação: Pará, Tocantins e Piauí. Tem-se
em decorrência uma multiplicidade de cooperativas e associações de tra-
balhadores envolvendo diferentes projetos, tais como: confecção de sa-
bonetes artesanais com óleo prensado e comercialização autônoma de
amêndoa do babaçu em cantinas instaladas nos próprios povoados com
finalidade de também assegurar o abastecimento de gêneros básicos.
Dentre estas iniciativas cabe mencionar ainda:

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 89


A Associação das Mulheres Trabalhadoras Rurais do Bico do
Papagaio, criada em novembro de 1992, possui 230 associadas. Nem
todas se autodefinem como quebradeiras. A sede da associação localiza-
se em Augustinópolis, mas o Projeto Babaçu acha-se sediado em São
Miguel onde, desde março de 1994, mantém em funcionamento uma
prensa com capacidade operacional estimada em 100Kg/dia. Quem re-
cebeu os recursos para instalar a prensa foi o Clube Agrícola de Sete
Barracas, em 1992, antes mesmo da criação da ASMUBIP. Existem oito
cantinas e cinco postos de compra, os quais não possuem mercadorias e
adquirem as amêndoas à vista. Localizados em povoados as cantinas
distribuem-se pelos seguintes municípios do estado de Tocantins: São
Miguel (Sete Barracas), Sítio Novo (Santa Inês e Juverlandia), Axixá
(Lago Verde e Santa Luzia), Praia Norte(São Felix e Centro do Moacir),
Buriti (Vila União), Sampaio (Sampaio) e Carrasco Bonito (C. Bonito).
Os cinco postos de compra localizam-se em: São Miguel (sede). As
amêndoas produzidas pelas quebradeiras são levadas para a prensa. O
óleo bruto para uso industrial é vendido, por sua vez, para empreendi-
mentos de Belém (PA), São Luiz (MA) e principalmente Imperatriz,
tais como: Frigorífico Vale do Tocantins, Cooperleite, e Icosama.
O Grupo de Mulheres Quebradeiras de Coco Babaçu de Palesti-
na (PA) foi criada em julho de 1991 e congrega cerca de 60 trabalhado-
ras extrativistas, que não tem acesso direto ao meio de produção básico,
a terra, e habitam em área urbana e em povoados como Viração e Santa
Rita, que se acham engolfados pelas cercas de arame dos pecuaristas.
Não vendem a amêndoa. A maior parte da produção destina-se ao auto
consumo. Comercializam apenas o óleo de babaçu, mais conhecido como

90 Alfredo Wagner Berno de Almeida


azeite, nas cidades de São Domingos e Marabá. Os maiores interessa-
dos na compra são os comerciantes e pequenos fabricantes de sabão. No
momento atual as integrantes do referido grupo encontram-se discutin-
do uma proposta de criação de Reserva Extrativista, no local conhecido
como Ressaca, ás margens do rio Tocantins, onde há incidência de
babaçuais. Trata-se principalmente de uma forma de viabilizar o acesso à
terra quando as ações fundiárias oficiais se acham paralisadas.
Em Esperantina, no Estado do Piauí, o movimento das Quebra-
deiras funciona mais próximo ao Sindicato das Trabalhadoras Rurais, de
cuja diretoria participam trabalhadoras. Tanto óleo, quanto as amêndoas
são repassadas a comerciantes e grandes proprietários que cobram uma
“renda” pelo uso de seus babaçuais. Elas estão discutindo atualmente a
possibilidade de se organizarem em cooperativas, neutralizando o con-
trole sobre a circulação exercido pelos comerciantes.
A Cooperativa Agroextrativista de Viana foi fundada em 28 de
outubro de 1993. Seu raio de abrangência compreende inúmeros povoa-
dos localizados na denominada "terra dos índios". Cerca de 60 trabalha-
doras extrativistas vinculam- se esta iniciativa e examinam a possibilida-
de de instalação deu uma prensa.
Nos primeiros meses de 1997 começou a funcionar no povoado
de Ludovico, município de Lago do Jungo, uma pequena unidade fabril
de sabão e sabonete, implantada com a colaboração do UNICEF. A
AMTR é a entidade responsável pela iniciativa. O óleo de babaçu ne-
cessário à fabricação tem sido adquirido na cooperativa dos Pequenos
produtores Agroextrativistas de Lago do Junco.
A produção de amêndoa do coco babaçu tem, portanto, crescido
nestas áreas, não obstante os baixos preços de mercado, e possibilitando
a consolidação de uma identidade que até então não lograra uma expres-
são politica maior, qual seja, a de quebradeira de coco. Esta categoria
ganha foros de representação junto aos aparelhos de poder. Trata-se,
entretanto, de fato por demais recente.
O I Encontro Interestadual de Quebradeiras de Coco Babaçu do

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 91


Maranhão, Piauí, Tocantins e Pará ocorreu em São Luís (MA), entre os
dias 24 e 26 de setembro de 1991. Do mencionado encontro participam
mais de 250 mulheres entre quebradeiras e assessoras. Evidenciando uma
representação diferenciada e a própria diversidade de posições abrigadas
sob a categoria de quebradeiras foi registrada a participação de: “partei-
ras, artesãs, professoras, costureiras, doceiras e boleiras”. Segundo os re-
gistros em que as participantes se auto apresentavam observa-se uma
certa dispersão da identidade de quebradeiras, comportando harmonica-
mente posições, profissões e habilidades diferentes.
O II Encontro Interestadual das Mulheres juntamente com o I
Encontro Interestadual das Crianças envolvidas na coleta e extração da
amêndoa do babaçu, ocorreu em Teresina (PI) de 12 a 14 de outubro de
1993, envolvendo 219 delegadas com direito a voto e também 104 cri-
anças. A secretaria do referido encontro registrou ainda 36 assessores e
representantes de 32 entidades e organizações não governamentais, per-
fazendo um total geral de 385 participantes. O processo de escolha das
delegadas foi realizado consoante os povoados que representavam. Cada
povoado estabeleceu seus próprios critérios de votação na escolha. As-
sim o povoado de Santa Rita, no município Brejo Grande do Araguaia
enviou 4 delegadas, o de Araras em São João do Araguaia, também no
Pará, enviou 5 enquanto que os povoados de Ricoa e Aguiar, localizados
em Viana (MA) enviaram 6 delegadas cada um, enquanto que 48 outros
povoados enviaram apenas 1 representante. Outros povoados registra-
ram ainda 2, 3 ou 4 representantes. Importa sublinhar que a delegação se
fez por povoados e não necessariamente por “comunidades”, por canti-
nas ou pelo número de associados. O grau de antagonismo e acirramen-
to dos conflitos pode contribuir para definir o número de representantes
do povoado. Em verdade, o critério de participação não explícito atém-se
à situações sociais distintas. Esta heterogeneidade com descentralização
consiste numa característica essencial do movimento das quebradeiras.
A transformação das diferentes formas de reciprocidade positiva, intrín-
secas aos grupos sociais que desenvolvem relações primarias e modali-

92 Alfredo Wagner Berno de Almeida


dades de cooperação simples, em representação política não é, entretan-
to, imediata. Verificam-se disputas internas aos grupos domésticos que
compõe os povoados. A delegação nem sempre reflete um consenso.
Em virtude disto é que também se pode reafirmar que nem todos os
interesses extrativistas acham-se representados de maneira idêntica.
Os planos sociais que estruturam os povoados, baseados nas rela-
ções de confiança e na divisão de trabalho entre grupos domésticos, seja
no exercício de atividades agrícolas, seja no desempenho das atividades
extrativas, parecem refletidos nos critérios implícitos de representação.
A cooperação simples que prevalece na coleta e na quebra do coco babaçu,
aproxima as mulheres e concorre para agrupá-las. Não há quem realize a
extração isoladamente. As mulheres dirigem-se em grupo para os
babaçuais e, não obstante ser individual o ato da quebra, elas o fazem
próximas umas das outras, conversando. Suas posições, entremeadas com
os montes de coco respectivos, descrevem a figura aproximada de um
círculo. Mais se consolidam os vínculos entre as participantes destes
grupos de extrativistas quando, com o cercamento dos babaçuais, a en-
trada nas chamadas “soltas” ou pastagens artificiais, encerra a possibili-
dade de confronto direto com os pecuaristas e seus prepostos. O ato de
produzir, neste quadro adverso, estimula laços solidários e adquire uma
dimensão político-organizativa. A representação vai sendo construída a
partir de uma relação de confiabilidade mútua reafirmada cotidianamente
nos riscos que passam a envolver a quebra do coco. Os babaçuais são
transformados em domínios de disputa. O mundo doméstico, sob admi-
nistração feminina, que aí se atualizava, é impelido para situações exter-
nas de enfrentamento. Os antagonismos politizam, assim a área mais
interna da casa e afetam como um todo as atividades complementares
ao cultivo, bem como as redes de vizinhança. Eles tornam públicas estas
esferas mais privadas de sociabilidade, tradicionalmente mantidas sob
controle feminino. As mulheres em seus afazeres rotineiros foram tor-
nadas, deste modo, alvo da ação de antagonistas, que reprimem durante
suas tentativas de acesso aos babaçuais. A politização de suas atividades
e a necessidade de organização tornaram-se, pois, resultantes previsíveis.

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 93


Os povoados ao conjugarem os diferentes planos de interação pas-
saram a designar mais que um grupo de vizinhança que exerce atividade
comum, constituindo-se nas bases de mobilização que materializam a ideia
de movimento social. A escolha de delegados e representantes passa pelos
grupos de extrativistas, dispostos em povoados, e pelos riscos que os envol-
vem como um todo. Dentre os critérios de seleção sobressaem aqueles que
indicam as mulheres com capacidade político-organizativa, com habilida-
de para confrontar os adversários e que imprimem aos grupos um sentido
mais amplo de unidades de mobilização, entendidas enquanto formas de
luta para se contrapor aos interesses que lhes são hostis. A seleção de
lideranças entre as denominadas quebradeiras atém-se, pois, ao desempe-
nho destas atividades intrínsecas. E as que lideram não são necessaria-
mente esposas de dirigentes sindicais ou de líderes camponeses informais.
São legitimadas e acatadas por mecanismos próprios de representação,
chegando a rivalizar muitas vezes com sindicalistas e diretores de coopera-
tivas, que insistem num modelo mais centralizado das mobilizações e que
defendem uma representação única.
O III Encontro Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu
ocorreu de 28 a 30 de novembro de 1995 em São Luiz, e nas discussões
prévias que envolvem a legislação especifica sobre o babaçu tem-se ou-
tras questões com grande repercussão na imprensa periódica como as
denúncias relativas à esterilização de mulheres:

“Enquanto o Brasil não adota uma política oficial de plane-


jamento familiar, a região Nordeste ostenta índices consi-
derados os mais altos do mundo. É o caso do Maranhão
onde 75,9% das mulheres que usam algum tipo de
contraceptivo estão estéreis para sempre. A prática
desordenada também pode estar levando os nordestinos a
um branqueamento compulsório da população: do total de
mulheres que sofreram laqueaduras de trompas na região,
pelo menos 66% são negras ou pardas” (cf. Letícia Lins e
Fernandes Filho - “Esterização de mulheres no Nordeste é
a maior do mundo” O Globo, 17 de setembro de 1995. p.
12.)

94 Alfredo Wagner Berno de Almeida


Neste III Encontro, com mais de 230 participantes, tiveram di-
reito ao voto 189 delegadas, representantes de 104 povoados.
O Estado do Maranhão fez-se representar por 93 delegadas e
inúmeros assessores referidos a 52 povoados em 15 diferentes municípi-
os do Vale do Mearim, da Baixada e da região capitaneada por Impera-
triz. O Estado do Piauí fez-se representar por 43 delegadas e três asses-
soras referidas a 22 povoados localizados em 04 municípios (Esperantina,
Barras, Luzilândia, Matias, Olímpio). O Estado do Pará fez-se represen-
tar por 18 delegadas e uma assessora referida a 08 povoados em 04 mu-
nicípios. O Estado de Tocantins fez-se a 22 povoados em 9 municípios.
No encerramento deste II Encontro foi realizada uma manifes-
tação de protesto em frente ao Palácio do Governo. A Governadora ale-
gara anteriormente que não poderia receber, em audiência, as represen-
tantes do movimento com as reivindicações aprovadas na Assembléia
final. Muitas destas reivindicações reforçaram pleitos anteriores, eviden-
ciando o descaso das autoridades competentes face aos conflitos agrári-
os e às condições de comercialização do babaçu. Em janeiro de 1996,
após muita insistência, a audiência foi concedida.
O Movimento das quebradeiras não se trata de uma entidade que
substitua o Sindicato de Trabalhadores Rurais. Antes o complementa.
Não possui sede, não possui quadro de associados e sua representativi-
dade é diferenciada. Além das diferentes posições já observadas tem-se
uma diferenciação econômica interna às quebradeiras se tornarmos como
critério a relação com os meios de produção. Há "quebradeiras sem ter-
ra", ou seja, sem acesso direto a terra para moradia, cultivo e extração,
residindo nas chamadas pontas de rua e na beira das rodovias com ativi-
dades acessórias de assalariamento eventual (empregadas domesticas) e
de prestação de serviços (lavadeiras, doceiras, confeiteiras). Há também
trabalhadoras extrativistas com acesso à terra garantido. Localizam-se
em terras apropriadas, adquiridas e decretadas (Reserva extrativista) por
órgãos governamentais ou com posses consolidadas. Há ainda quebra-

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 95


deiras em terras de herança tituladas ou não, com ou sem formal de
partilha; bem como as que se localizam em terras de terceiros, pagando
aforamento ou ocupando-as centenariamente com ou sem consentimento
de terceiros (Caso "terras dos índios" de Viana).
Estes Encontros reforçam a identidade "quebradeiras de coco",
que emerge como forca social no processo de luta pelo livre acesso e
pela conservação dos babaçuais, num contexto em que a derrubada das
palmeiras para a formação de pastagens tem se constituído numa for-
ma de expulsão dos camponeses. As associações de quebradeiras dia-
logam diretamente com as instancias formais de decisão. Sua repre-
sentação tem sido sucessivamente legitimada no ultimo lustro. Há cen-
tenas de ocorrências de conflitos desta ordem (despejos, destruição de
casas e roçados) registradas pelas entidades de apoio ao movimento
dos trabalhadores rurais (Sociedade Maranhense de Defesa dos Direi-
tos Humanos, Comissão Pastoral da Terra e Cáritas) e encaminhadas
para providência junto aos órgãos fundiários oficias pelo STRs, pela
FATAEMA e pela FATAET (Federação dos Trabalhadores na Agri-
cultura do Estado de Tocantins). Os trabalhadores rurais e as quebra-
deiras em especial estão empenhados numa luta contra a devastação
dos babaçuais e pelo fim das interdições à coleta, ou seja, pelo “babaçu
livre”.
No abaixo-assinado definido no âmbito do II Encontro Interes-
tadual, as quebradeiras de coco exigiram:
“1. Desapropriação de todas as áreas de conflito na região dos
babaçuais .
2. O coco liberto: acesso às palmeiras de babaçu para as mulheres
e crianças extrativistas, mesmo nas propriedades privadas que não cum-
pram sua função social.
3. Fim da derrubada das palmeiras de babaçu.
4. Fim da violência contra trabalhadores rurais nas áreas dos
babaçuais .
5. Recursos para o desenvolvimento de cooperativas. (...)

96 Alfredo Wagner Berno de Almeida


6. Imediata implementação das ações de assentamento nas áreas
já desapropriadas e das reservas extrativistas.
7.Cumprimento do Estatuto da Criança e do Adolescente na zona
rural.
8. Medidas que assegurem o cumprimento do Decreto de Reser-
vas Extrativistas.”

O controle do processo de trabalho tem levado as denominadas


quebradeiras de coco babaçu a diversificarem também suas atividades,
agregando valor aos produtos derivados da palmeira. Registra-se no
município de Lago do Junco (MA), nos povoados Centrinho do Acrisio,
Ludovico, São Manoel, São João da Mata e Três Poços a instalação de
pequenas unidades fabris de sabonete e sabão, coordenada pela Associ-
ação das Mulheres Trabalhadoras Rurais (AMTR). Esta entidade, fun-
dada em 14 de maio de 1989 abrange o grupo de quebradeiras de coco
que em Lago do Rodrigues vem produzindo papel reciclado a partir do
aproveitamento da fibra de coco e da folha da palmeira. Em Palestina
(PA), as extrativistas produzem para fins de comercialização: balaios,
cofos, esteiras (meaçabas) e abanos feitos artesanalmente a partir da fo-
lha da palmeira. No âmbito da ASMUBIP as trabalhadoras extrativistas
produzem também sabão e sabonete.
A partir das resoluções do II Encontro foram realizados contatos
em Brasília com a Comissão da Ouvidoria Geral da República (Ministé-
rio da justiça), solicitando explicações sobre a redução das alíquotas de
importação de óleo de palmiste. Os documentos do MIQCB remetidos
à mencionada comissão foram encaminhadas, em 27 de dezembro de
1995 e novamente em 15 de fevereiro de 1996, à chefia de Gabinete do
Ministério da Fazenda solicitando apreciação técnica. O Gabinete, por
sua vez, ordenou à Secretaria de Acompanhamento Econômico do refe-
rido Ministério que emitisse parecer sobre a matéria. Em 25 de março de
1996 a resposta apenas confirmava as Portarias que reduziram para 2% a
alíquota do imposto de importação do óleo de palmiste, do óleo de

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 97


palmiste refinado, do óleo de colza e do óleo de palma dentre outros. Em
2 de maio 1996 a Comissão da Ouvidoria Geral da República, conside-
rando insatisfatórias as ponderações, solicitou um aprofundamento da
análise técnica. Em 10 de junho de 1996 a SEAE sublinha já ter orien-
tado o encaminhamento daquelas alíquotas dos óleos citados para os
valores plenos das alíquotas negociadas na Tarifa Externa Comum, que
seriam de 10%. Frisam, entretanto, que ainda não ocorreu qualquer alte-
ração nas alíquotas "em função das dificuldades normais que envolvem
as negociações internacionais, principalmente quando o Brasil, com
membro do Mercosul, tem que negociar intra grupo antes de adotar qual-
quer modificação tarifária." (Nota nº 90 - Secretaria de Acompanha-
mento Econômico - Ministério da Fazenda, 10/06/96)
Neste sentido pode-se afirmar que não existe uma crise da pro-
dução do babaçu propriamente dita. Em verdade há uma destruição dos
babaçuais pelos grandes proprietários e um cerceamento arbitrário dos
direitos de coleta, bem como uma política de óleos vegetais, que debili-
tando os trabalhadores extrativistas favorece a concentração fundiária e
as práticas de violência. A crise ecológica da qual usualmente se fala é
vivida pelos camponeses e pelos índios como uma ameaça à perda de
florestas, de recursos hídricos, de áreas de plantio e de coleta. Vivem a
ruptura na estabilidade da combinação de recursos e de atividades ele-
mentares como uma arbitrariedade praticada contra eles que ameaça sua
reprodução física e social.

O PROCESSAMENTO DO COCO BABAÇU E A IMPORTA-


ÇÃO DO ÓLEO DE PALMISTE

Na esfera do refinamento e da circulação da amêndoa do babaçu


percebe-se também situações de impasse e de confronto de interesses.
Nas áreas desapropriadas, tanto as assessoradas pela ASSEMA, quanto
as controladas pela ASMUBIP, estão em curso experiências cooperati-
vistas com utilização de prensas para beneficiamento da produção

98 Alfredo Wagner Berno de Almeida


extrativa e agrícola. Os trabalhadores extrativistas objetivam contrapor-
se ao controle dos preços pelos comerciantes-atravessadores e colocar a
produção extrativa e agrícola no mercado em condições mais favoráveis.
Para tanto estão estabelecendo relações diretas, sem intermediários, com
as unidades industriais de óleo vegetal, tais como: Oleama, Agisa e Rachid
Abdalla, em São Luís, duas usinas de Pinheiro, na Baixada Maranhense,
e outras duas em Codó (F. C. Oliveira e Nabi Salem), no Vale do Itapecuru.
Estas duas últimas empresas adquirem o óleo bruto para revendê-lo pos-
teriormente à empresa Siqueira Gurgel, em Fortaleza (CE), que seria
uma espécie de subsidiária da Gessy Lever, do grupo anglo-holandês
Unilever, que controla mais da metade do mercado nacional de produtos
de limpeza.
Pode-se apontar também como interessadas na matéria-prima a
Companhia Industrial e Técnica(CIT), que refina o óleo em Bacabal,
bem como fábricas de sabão próximas a Pedreiras (Olepel), Bacabal e
Lago da Pedra e ainda usinas de Caxias (Grupo Guimarães), do Estado
do Piauí, em Teresina (Usina Livramento, Olepil, Refinol e Usina Santa
Clara) e Esperantina (Francol), e do Estado do Tocantins, em
Tocantinópolis (TOBASA). Segundo Luiz F. Renner, então diretor -
Superintendente das Oleaginosas Maranhense S.A. (OLEAMA), 30%
da produção de óleo destinam-se ao consumo da própria fábrica de sa-
bão e sabonete. A OLEAMA produz também o óleo comestível de
babaçu, denominado "cristal".
A AGISA, instalada no Distrito Industrial de São Luís, produz
óleo de babaçu bruto e refinado destinado às indústrias químicas. O óleo
é utilizado como matéria-prima na produção de sabão, sabonetes, bis-
coitos e cosméticos dentre outros, consoante declaração de seu proprie-
tário, Raimundo Gaspar, que é também presidente do Centro de Indús-
trias do Maranhão (CIMAR). A AGISA produz também o óleo comes-
tível "Palmeira".
A "Rachid Abdalla", localizada no Bairro Monte Castelo, em São
Luís, depois de paralisar a produção, por um certo período, retomou suas

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 99


atividades em março de 1997, destinado o óleo para sua própria fábrica
de sabão: "Vamos produzir 25 mil caixas de sabão/mês que serão
comercializadas no Estado e em toda a região Nordeste.", declarou
Alberto Abdalla proprietário da fábrica e presidente da Federação das
Indústrias do Maranhão (FIEMA). (Cf. CUNHA, RIBAMAR. "In-
dústrias perdem importância econômica." - O Estado do Maranhão, 02
de março de 1997, p. 9).
Projetos industriais em implantação nos municípios de São
Miguel (TO), Esperantina (PI) e Santa Luzia (MA), visam o aprovei-
tamento do coco integral para fazer carvão ativado. Em meados de
junho de 1995 a Cocokoque do Brasil (Cokobrás), empresa paulista
instalada em Santa Luzia, realizou reunião em São Luís com repre-
sentantes de cooperativas de pequenos produtores para apresentar seu
projeto e seu produto final: um absorvente de odor para geladeiras e
"freezers" chamado Absodor, cuja composição compreende: "Carvão
vegetal tratado e ativado, aniônico, biodegradável" (Cf. rótulo da em-
balagem). Para tanto estes projetos industriais prevêem a transforma-
ção das chamadas quebradeiras em assalariadas. Fazem uso inclusive
de outra designação, qual seja: catadeiras de coco Tal expressão reduz
as mulheres extrativistas à simples coleta, eliminando os saberes que
orientam a quebra do coco e a extração das amêndoas. Está-se diante
de uma supressão do conhecimento que suporta a identidade coletiva,
forçando a imposição do assalariamento.
A Cooperativa dos pequenos produtores agroextrativistas de Lago
do Junco comercializa o carvão produzido a partir da casca do babaçu. A
localização na sede do município de uma usina de processamento da
empresa Carvões do Maranhão facilita a venda. A Empresa Industrial
de Bacabal, igualmente incentivada pela SUDENE, e a empresa Pacífi-
co de Paula com galpões em Igarapé Grande e Lago da Pedra adquirem
as sobras e as cascas, quando não o carvão produzido pelos trabalhado-
res extrativistas nas suas caieiras (buraco cavado no solo, onde são quei-

100 Alfredo Wagner Berno de Almeida


madas as cascas, que propicia alto teor de impureza). A Carvões do
Maranhão beneficia o carvão tritura-o e remete o produto para a side-
rúrgica Tupy em Santa Catarina e para indústrias automobilísticas em
São Paulo. A TOBASA, empresa beneficiadora de coco babaçu em
Tocantinópolis (TO) utiliza também a casca do babaçu para obter car-
vão. Exporta-o para um fábrica de filtros em São Paulo. Contra este
empreendimento há denúncias de que utilizaria em suas caldeiras car-
vão obtido em mata nativa, numa área localizada entre os municípios de
Nazaré e Tocantinópolis. Há também guseiras que adquirem em Marabá
e Açailândia o carvão produzido em pequenos fornos.
O óleo de babaçu refinado na prensa de Lago do Junco destina-
se não apenas ao mercado interno, mas também a outros países. Con-
sultando-se a pauta de exportação em 1994 constata-se que os produtos
florestais do extrativismo não madeireiro correspondem a apenas 0,4%
do valor das exportações do Maranhão. Tais produtos totalizaram
US$210,16 mil, entre eles (plantas para perfumaria, cumaru ou fava-
tonca, óleo de babaçu). Destaca-se o óleo de babaçu perfazendo
US$141,297. Deste total tem-se como exportadores a empresa Oleagi-
nosas Maranhense S.A. com US$102.93 (valor exportação FOB em
US$1,00) correspondendo a 94 toneladas, e a Cooperativa dos peque-
nos produtores agroextrativistas do Lago do Junco com US$38.304 (va-
lor exportação FOB em US$1,00) correspondendo a 21 toneladas. Esta
cooperativa situa-se entre os maiores exportadores do Estado do
Maranhão do período de janeiro a dezembro 1994, ocupando a 37ª posi-
ção. (10). As projeções assinalam um melhor desempenho da COOPALJ
em 1995, mesmo que sem qualquer estímulo do Programa de Financia-
mento das Exportações (PROEX).

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 101


MAIORES EXPORTADORES DO ESTADO DO MARANHÃO
PERÍODO: JANEIRO A DEZEMBRO DE 1994

Fonte: Secretaria do Comércio Exterior/SECAS/DTIC/SERPRO, Rio de Janeiro.


Pesquisa, Tabulação, mapeamento e ordenamento elaborados em publicação de
autoria do Prof. Samuel Benchimol, 1995.

102 Alfredo Wagner Berno de Almeida


No dia 15 de setembro de 1995 a COOPALJ firmou contrato
com a Body Shop Internacional comprometendo-se a enviar 43 tonela-
das de óleo bruto para a Inglaterra. O período do contrato é de um ano,
findando em 15 de setembro de 1996. O valor exportação FOB corres-
ponde a US$ 3,19 o quilo de óleo babaçu, posto em Fortaleza(CE). No
dia primeiro de outubro de 1995 foram embarcados no porto de Fortale-
za 10.800 quilos de óleo babaçu com destino a Rotterdam, na Holanda.
Por disposição contratual aí será finalizado o refinamento do óleo. Ou-
tras 15 toneladas foram enviadas pela COOPALJ em dezembro de 1995.
Além de pagar o frete até Fortaleza a COOPALJ se encarrega da emba-
lagem em tambores, de 200 litros ou 180 quilos, que possuem uma ca-
mada de revestimento para melhor conservação do óleo. O certificado
de peso e qualidade é expedido pela Federação das Indústrias do
Maranhão e o lacre é feito pela S.G.S. Abatidas estas despesas o preço
do quilo fica correspondendo a aproximadamente US$ 2,50. A ASSEMA,
enquanto agente comercializador recebe 5%.
Um dos maiores impasses, no momento atual, ao desenvolvimen-
to destas iniciativas de processamento refere-se à colocação no mercado
nacional do óleo de palmiste, importado da Malásia, a preços competiti-
vos. A Associação Brasileira das Indústrias do Babaçu (ABIBA), em
documento dirigido ao Governador do Maranhão, em 04 de julho de
1991, pleiteia elevação da taxação e protecionismo face à importação do
óleo de palmiste:

"Por outro lado, não conhecemos nenhuma nação do mun-


do que, em determinadas ocasiões, não proteja seus inves-
timentos internos, quando há perigo de serem inviabilizados.
Os próprios Estados Unidos gravam com elevadas taxa-
ções inúmeros produtos que eles importam, como por exem-
plo, os calçados e os tecidos brasileiros, o aço japonês e mui-
tos outros. O Mercado Comum Europeu faz a mesma coi-
sa, e também subsidia inúmeros produtos para torná-los
competitivos nos mais diversos mercados mundiais. É para
este aspecto, senhor governador, que solicitamos a compre-
ensão de V. Excia., no sentido de usar sua influência, junto

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 103


ao governo federal, para minorar através da elevação da
taxação, os graves efeitos desta perigosa concorrência, em
um momento que nosso setor se encontra incapaz de
absorvê-los" (ABIBA;1991:02).

Em abril de 1994, a Caravana da Cidadania, sob a coordenação


direta do candidato à Presidência da República pelo Partido dos Traba-
lhadores, Luís Inácio Lula da Silva, passando por Pedreiras (MA), man-
teve contato com as dirigentes do Movimento Interestadual das Que-
bradeiras de Coco Babaçu. As alíquotas de importação do óleo de palmiste,
que no Governo Collor haviam sido reduzidas de 18% para 12%, alcan-
çavam então apenas 2% do valor importado. As cooperativas
agroextrativistas ressentiam disto, bem como do avanço dos pecuaristas
sobre os babaçuais, desmatando-os ou proibindo a coleta. Mediante pro-
testos do candidato, feitos logo após esta visita in loco, manifestaram-se
contra ele grupos de interesses da Associação Brasileira de Indústrias
Saboeiras (ABISA), que explicitaram seus vínculos com os grandes pro-
prietários territoriais, principais antagonistas das chamadas quebradeiras
de coco.

"Falta ainda explicar um pouco melhor ao candidato a ques-


tão do catador. Persiste ainda hoje uma prática antiga de
catação do babaçu, onde os cocos de palmeira babaçu são
pegos no chão e quebrados no fio do machado, recolhendo-
se intacta a semente e deixando no chão a casca. (...) Este
sistema anacrônico vem sofrendo a reação dos fazendeiros
que, ao buscarem mais pasto para o gado, cercaram suas
terras e proibiram os catadores de executarem sua tarefa
porque os cocos quebrados ferem os cascos dos animais "
( J. LOBARINHAS CARNEIRO; 1994) (g.n.).

A Abisa, por um lado, defende a mecanização da quebra do coco


babaçu indicando, tal como a Abiba, os "fazendeiros" como agentes
modernizadores. Por outro lado, ela diverge da Abiba, ao defender a re-
dução das alíquotas de importação dos chamados óleos láuricos, que de-
pendendo do produto participam com mais de 30% do seu custo indus-

104 Alfredo Wagner Berno de Almeida


trial. Do ponto de vista da Abisa, os baixos preços da matéria-prima acar-
retam o barateamento daqueles produtos (sabonetes, sabão de coco e
sabões marmorizados) onde os óleos láuricos são indispensáveis na for-
mulação. Abisa E Abiba divergem do movimento de "quebradeiras de
coco babaçu". Não obstante as propostas de novas tecnologias no pro-
cessamento do babaçu e de mercado aberto, as propostas das associa-
ções industriais referem-se a uma modernização conservadora, que man-
tém intocável a estrutura fundiária e os elevados índices de concentra-
ção , tanto quanto as relações de trabalho apoiadas em mecanismos de
imobilização dos trabalhadores rurais.
Embora as unidades industriais no Maranhão tenham recebido
incentivos fiscais, no decorrer de 1993, favorecendo as operações de co-
mercialização com o óleo de babaçu, as cooperativas dos pequenos pro-
dutores agroextrativistas foram mantidas à margem destes benefícios
concedidos pelo governo estadual. Não houve abatimento no ICMS
para os produtos das cooperativas dos trabalhadores extrativistas. Have-
ria, pois, tensões não somente ao nível do controle dos recursos naturais,
mas também na esfera da circulação.
Representantes das cooperativas de pequenos produtores
agroextrativistas do Maranhão e do Tocantins, que se agrupam no Gru-
po de Trabalho sobre Óleo Babaçu (GTÓleo), juntamente com a
Carpina, entidade de apoio e assistência técnica, foram convidados pela
Abisa para participar do XIII Congresso e Exposição das Indústrias
Saboeiras realizado em Fortaleza, entre os dias 22 a 25 de outubro de
1995. Nas discussões relativas a preços foi possível verificar que em 1994
os preços do óleo de babaçu subiram consideravelmente. As indústrias
saboeiras, até fevereiro de 1995, mantiveram uma intensificação das com-
pras e formaram imensos estoques. O valor do quilo foi então mantido
entre R$ 1,20 e R$ 1,25. Em abril de 1995 o preço despencou para R$
1,00 e em outubro do mesmo ano estava entre R$ 0,90 e R$ 0,95. As
indústrias soboeiras, que hoje são praticamente os únicos grandes com-
pradores do óleo babaçu, restringiram as compras. Além disso, o óleo de

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 105


palmiste da Malásia está sendo colocado no mercado a R$ 0,85, forçan-
do ainda mais a queda do preço.
Para as quebradeiras o preço de R$ 0,35 é por demais baixo, já
que as mais exímias podem obter no máximo 10 quilos de amêndoa/dia.
Para as cooperativas de pequenos produtores a redução das
alíquotas de importação de óleos vegetais constitui-se num grave impasse
às suas atividades, pois, estão adquirindo a amêndoa a R$ 0,35 o quilo.
Observe-se que são necessários 2,3 quilos de amêndoa para se obter um
quilo de óleo. Ou seja, 2,3 quilos ou R$ 0,70 somados aos custos do frete
e do valor de salários e serviços situam o chamado "preço de custo" em
torno de R$ 0,81. Torna-se impossível às cooperativas de pequenos pro-
dutores competir, em pé de igualdade, com o óleo de palmiste da Malásia.
No caso da borracha os seringueiros mobilizaram-se, em meados
de 1994, e conseguiram fazer vigir o contingenciamento. Inúmeros se-
tores industrias, de igual modo, tem recorrido a mecanismos protecio-
nistas, acionando instrumentos de legislação antidumping e contra sub-
sídios de países concorrentes e denunciando guias de importação com
subfaturamento de preços. As dificuldades crescentes de adequação ao
regime de mercado aberto se tem evidenciado uma certa desestruturação
dos aparatos de Estado com competência específica em comércio inter-
nacional, tem, por outro lado, demonstrado quais setores industriais pos-
suem maior poder de pressão face ao Estado.
A fragilidade da política de comércio exterior se acentua, quando
se examina o caso do óleo de palmiste importado da Malásia. Neste caso
os instrumentos de pressão tem se revelado inócuos. A força das
"plantations" malaias se mostra tão inconteste que muitos especialistas e
técnicos industriais tem concordado num trágico vaticínio:

"... se forem mantidas as atuais condições de comercializa-


ção daqui a dez anos não se irá mais falar em óleo babaçu."

Esta sentença proferida informalmente pelos especialistas em


conversas de bastidores no XIII Congresso da ABISA, bem expressa o

106 Alfredo Wagner Berno de Almeida


senso-comum dos interesses industriais. Esta análise catastrofista coli-
de, no entanto, com os esforços e objetivos do Movimento Interestadual
das Quebradeiras de Coco Babaçu e das cooperativas agroextrativistas,
que mantém suas atividades sem apoio do PROEX, sem incentivos fis-
cais da SUDAM ou da SUDENE, sem usufruir de benefícios as isenção
de ICMS e sem qualquer apoio oficial, sempre buscando circuitos pró-
prios de mercado. Aliás, a incapacidade do país em multiplicar suas ex-
portações contrasta com este esforço das cooperativas agroextrativistas,
que não são objeto de qualquer linha de crédito.
Cite-se ainda, no âmbito destes esforços, que em julho de 1996 a
ASSEMA firmou novo contrato com a "Body Shop" comprometendo-se
a entregar 43 toneladas de óleo de babaçu, dando continuidade às expor-
tações do ano. Neste mesmo período a partir de solicitação da empresa
"Aveda" a ASSEMA enviou inicialmente 10kg e depois mais 40kg de
óleo para os U.S.A. para fins de teste, como etapa preliminar para assi-
natura de contrato. No momento estão em curso contratos com empre-
sas alemãs.
Tais iniciativas não se beneficiam das duas formas de incentivo
do PROEX, isto é, nem de financiamentos de percentual do valor ex-
portado, nem da chamada "equalização de taxas". Ao contrário, conti-
nuam concorrendo em condições desiguais com o óleo de palmiste da
Malásia.
As políticas públicas mostram-se, ademais, discriminatórias. En-
quanto no caso da economia do babaçu assinala-se uma devastação cres-
cente dos babaçuais, fontes de matéria-prima, estimulada indiretamente
pela ação governamental, e uma tentativa de desorganização das Coo-
perativas de Pequenos Produtores Agroextrativistas, inviabilizando as
possibilidades de competição com o óleo de palmiste malaio; no que diz
respeito ao óleo de palma constata-se iniciativas oficiais no sentido de
organizar a produção, levadas a cabo por grandes conglomerados finan-
ceiros. O modelo da "plantation" para obtenção de óleos vegetais, que se
mostra inviável no caso do babaçu, pelas próprias formas de organização

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 107


camponesa no processo produtivo; vem sendo implantado por grupos
financeiros no Tocantins Paraense (11).

NOTAS

(1) A propósito consulte-se monografia elaborada para a CAPES(Campanha


Nacional de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) sob a orientação
e responsabilidade dos "técnicos": Américo Barbosa de Oliveira, Alexandre
Fontana Beltrão, Tomás Pompeu Accyoli Borges e Moacir Paixão e Silva. Tal
monografia, intitulada Maranhão - Estudos de Desenvolvimento Regio-
nal, inscreve-se na série Levantamentos e Análises Nº. 12. CAPES. Rio de
Janeiro. 1959 pp. 99-107
(2) A consulta do documento da Associação Brasileira das Indústrias de Babaçu
ao Governador do Estado do Maranhão, Edson Lobão, datada de Teresina,
20 de julho de 1991 e assinada pelo Presidente Provisório da entidade, Gilson
Teixeira do Amaral Brito, permite destacar o seguinte:
"a crise asiática de 1997 e as projeções do do mercado de óleos"
"O setor do babaçu, que envolve na sua exploração mais de 300.000 pessoas
só no Maranhão, se encontra em vias de se tornar inviável vítima da presente
recessão e da recente ciranda financeira que tomaram conta do País,
desestimulando qualquer investimento na modernização do setor (...)" (g.n.)
O dirigente da ABIBA repete sem delongas os dados publicizados em 1981
e não menciona as fontes ou os procedimentos censitários que autorizam tal
informação alusiva à quantidade de pessoas envolvidas na extração do babaçu.
(3) Para maiores aprofundamentos consulte-se os autores a seguir citados:
"A primeira notícia que se encontra sobre o babaçu está contida na Poranduba
Maranhense (1820), de autoria de Frei Francisco de Nossa Senhora dos Pra-
zeres Maranhão; as primeiras tentativas de comércio com os frutos da Orbygnia
foram feitas em 1867 pela firma Ribeiro & Hoyer, de São Luís, tendo sido
iniciada a exportação de amêndoas a partir de 1911. Em 1918, 1926, 1927 e
1928, cinco empresas estrangeiras* se dedicaram à exploração em escala
industrial do babaçu; "a falta de organização do trabalho, porém fez com que
nada conseguissem realizar**. Cremos, no entanto, que apenas a falta de orga-
nização não justificaria a derrocada de uma firma como a "The Overseas Co.
Ltd." que dispunha, à época (1918) de um capital de Cr$11.000.000,00;
preferimos com a devida cautela, relacionar também, a queda de tais firmas às
falhas ou problemas do processamento industrial do coquilho. Outras causas

108 Alfredo Wagner Berno de Almeida


- a escassez de mão de obra, a dificuldade de transportes, a irregularidade na
obtenção de matéria-prima - devem, em conjunto ou isoladamente, ter preju-
dicado empreendimento de tanto vulto." (ROBERTO GALVÃO; 1955:281)
* "The Oversea Co. Ltd.(norueguesa), "Cia. Turiense" (belga), Cia. de Cul-
turas de Plantas Tropicais" (francesa), Brazilian Babaçu Corp." (norte-ameri-
cana) e a "Cia. Agrícola de Pinheiro" (francesa), todas com capital superior a
Cr$ 4.000.000,00 sendo que a primeira dispunha de Cr$ 11.000.000,00
** VIVEIROS, José Fusetti de - "O babaçu nos estados do Maranhão e Piauí"
Separata do Boletim do Ministério da Agricultura, abril de 1943. S.I.A.
(4) Segundo GONÇALVES (1955:198) nos anos de 1933 e 1934 a "expor-
tação foi quase ou mesmo nula". Em 1942 "o acordo Brasil-Estado Unidos
fixava, para os dois anos seguintes a divisão da safra nacional, tocando aos
Estados Unidos ¾ partes e o restante para o mercado interno." (CAPES;
1959:100). Retomando Gonçalves ele assevera que após 1935 os Estados
Unidos aparecem quase que como o "único país importador" o que se conso-
lida a partir das "vantagens" concedidas pelo Governo Brasileiro. "Depois desta
data até a atualidade encontram-se assinalados no gráfico diversas tentativas
de comércio de babaçu com o Brasil por parte de outros países, mas que não
tem logrado continuidade. Desta forma relacionamos: Inglaterra, Alemanha,
Tchecoslováquia, Suécia, Dinamarca, Bélgica e Espanha, países europeus, e
Argentina, Chile, Venezuela e Colômbia, países sul-americanos." (GONÇAL-
VES;1955:198). Assim, entre 1935 e 1952, "a exportação passou a fazer-se
quase exclusivamente para o mercado norte-americano. Desde 1952 foram
paralisadas as exportações, devido à impraticabilidade de competição com pro-
dutos congêneres, em particular a copra africana e das Filipinas" (CA-
PES;1959:100). Atualmente o oléo de palmiste, produzido na Malásia, por
seu baixo preço é apontado com preferencial no mercado internacional e co-
meça a ser importado pelo Brasil, acarretando problemas para o babaçu no
próprio mercado interno e afetando, assim, sua produção.
(5) Compõem o Conselho Nacional de Economia e são signatários do docu-
mento: João Pinheiro Filho, Edgard Teixeira, Luiz Dodsworth Martins,
Marcial Dias Pequeno, Octavio Gouveia de Bulhões e Hamilton Prado.
(6) Consulte-se DELGADO, Guilherme da Costa - Capital Financeiro e
Agricultura no Brasil. Ed. UNICAMP/Ícone Ed. 1985
(7) Leia-se: WAGLEY, Charles e GALVÃO, Eduardo - Os Índios
Tenetehara. Rio de Janeiro, MEC. 1955
(8) Consulte-se: ALMEIDA, Alfredo Wagner B. de - "Terras de Preto, Ter-
ras de Santo, Terras de Índio - Uso comum e conflito" Cadernos do NAEA
nº. 10 jan/dez. 1989 pp. 163-196. Belém. UFPa

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 109


(9) "O babaçu é colhido e beneficiado do mês de setembro até o mês de
janeiro, e as vezes até março. De setembro a novembro as empresas estão
cortando a cana de açúcar. Percebe-se neste período um conflito, pois os tra-
balhadores saem dos engenhos para quebrar o coco. Entre dezembro e janeiro
as empresas estão desmatando área, derrubando as palmeiras, se pode perceber
um novo conflito, por onde os trabalhadores, pois estão perdendo um de seus
produtos(sic)." (PASTOR SANTOS, 1984:36)
(10) BENCHIMOL, Samuel. Exportação e Exportadores da Amazônia
Legal: 1994, Manaus, setembro de 1995. 80 p.
(11) A Cia. Real Agroindustrial (Crai), do Banco Real, ocupa 35 mil hectares
no Pará com plantações de dendê e dispõe de usinas de beneficiamento.

110 Alfredo Wagner Berno de Almeida


PREÇOS E POSSIBILIDADES: A ORGANIZAÇÃO DAS QUE-
BRADEIRAS DE COCO BABAÇU FACE À SEGMENTAÇÃO DOS
MERCADOS

Uma das constatações mais relevantes na experiências de pes-


quisa e nos ministrados às denominadas quebradeira de coco babaçu em
1999, que foi sobejantemente confirmada durante o trabalho de campo
do "Levantamento Preliminar" realizado de outubro de 1999 a janeiro
de 2000, refere-se à tendência ascensional do preço da amêndoa de
babaçu. Cotejando-se os preços praticados na safra de 1999 com aqueles
do ano anterior, verifica-se que os preços pagos às extrativistas duplica-
ram, tanto em povoados do Piauí, quanto em áreas de babaçuais do
Maranhão e do Tocantins. O quilo de amêndoa , que em 1998 ficara em
torno de R$ 0,20 a R$ 0,25, já bem antes da safra de 1999, iniciada em
setembro, assinalava valores superiores a R$ 0,40, chegando em algu-
mas situações a alcançar R$ 0,65. Antes mesmo de se chegar às tentati-
vas de explicação de porque houve um aumento na demanda , importa
descrever de maneira resumida algumas observações de campo indicativas
de como estão sendo percebidas as alterações de preços e quais as etapas
dos ciclos agrícolas e extrativo correspondentes ao período em que os
dados foram levantados.
Consoante os registros realizados em outubro e novembro de
1999 nos povoados de Olho d'Água Cercado, Jenipapeiro, Pintadas e
Cutias, no município de Luzilândia; nos povoados de Jatobá, Chapadinha,
Lagoa, Patizal e Piquizeiro, no município de Joca Marques; nos povoa-
dos de Tiara Lagoa do Cazuza, no município de Porto; nos povoados de
Fortaleza, Amargosa, Pedrinhas, Olho d'Água do Pires, Coité, Vila Es-
perança, Cipó, Vassoura e Tapuio, no município de Esperantina; e nos
povoados de Riacho da Mata, Barro Branco e Tenda do Coco, no muni-
cípio de Nossa Senhora dos Remédios, todos localizados no Estado do
Piauí; os preços do quilo de amêndoa variaram entre R$ 0,40 e R$ 0,60.
Apenas no povoados Barro Branco, foi registrado preço inferior, enquanto

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 111


em 11 deles o preço correspondeu a R$ 0,50 em cinco povoados a R$
0,55 e em seis povoados a R$ 0,60. O trabalho de campo assinalou tam-
bém que, nessas regiões do Piauí, desde setembro o coco começa a cair e
que os trabalhos de quebra têm de ser intensificados:

"Ele cai. Aquele que cai no inverno dura mais se eles caí-
ram da palmeira eles têm que ser quebrados logo, não pode
armazenar coco. Nem mesmo ele quebrado, ele pode ser
armazenado, ele tem que ser beneficiado logo,. Depois que
juntou tem que quebrar em pouco tempo". (...) " A safra
começa em setembro, se ele cai aí em setembro, ele tem que
ser quebrado até dezembro todinho, senão ele cria gongo e
estraga. O sol seca mais rápido e dá bicho mais cedo." (Cf.
Entrevista com D. Domingas e D. Francisca Lera).

À preocupação constante em não desperdiçar os frutos que se


precipitaram acompanha o propósito de aproveitar os preços mais eleva-
dos, mobilizando um maior contingente da força de trabalho familiar.
Nesse cálculo de aumentar a capacidade de coleta e quebra, percebe-se
uma estratégia de antecipação face ao período de maior escassez. Em
outras palavras: nessa região, o período considerado mais difícil corres-
ponde ao início do inverno ou quando as chuvas aumentam , nos meses
de janeiro, fevereiro e março. Nesse período, a quebra do coco babaçu
torna-se mais difícil e a produção agrícola já foi inteiramente consumida.
As mulheres que se empenham na quebra durante esse tempo realizam
o dobro do esforço físico, pois, é considerado muito desgastante que-
brar o coco enlameado. Inclusive, é o período em que se registra um
maior número de acidentes nas atividades de quebra. O coquilho mo-
lhado escorrega das mãos quando as mulheres batem com o pedaço de
pau sobre ele e os cortes nos dedos, provocado pelo gume do machado,
são mais frequentes.
Antecipando-se a esses efeitos já conhecidos, assiste-se a uma
intensificação do esforço produtivo também nos Estados do Tocantins e
do Maranhão. No caso do Pará, não se pode estabelecer uma relação
direta, posto que a produção é dirigida para o autoconsumo e para a fa-

112 Alfredo Wagner Berno de Almeida


bricação de óleo comestível, também designado como azeite não ocor-
rendo a comercialização da amêndoa. As observações de campo assina-
laram tão somente um mercado informal de óleo comestível de fabrica-
ção doméstica e de carvão da casca de coco de babaçu, vendido de casa
em casa nas cidades de São Domingos, São João do Araguaia, Brejo
Grande e Palestina (PA). Não foram portanto registradas, ai, informa-
ções sobre o preço do quilo de amêndoa,
Na região do Mearim, nos municípios de Lago do Junco, São
Luiz Gonzaga e Lima Campos, no Estado do Maranhão, além de se-
rem praticados os mesmos preços já mencionados para o Piauí, foi pos-
sível perceber uma diferença entre os valores pagos pelos chamados
"atravessadores" e aquele estabelecido pela Cooperativa dos Produtores
Agroextrativistas de Lago do Junco (COOPALJ), variando entre R$ 0,05
e R$ 0,10. Quer dizer, os preços fixados pela cooperativa gozam de um
acréscimo que os torna superiores àqueles praticados pelos intermediári-
os, que são vinculados a grandes comerciantes de óleos vegetais. Essa
diferença torna-se expressiva para as unidades familiares que produzem
mais de hum quilo/dia, e tem efeito distintivo face aos prepostos dos
grandes comerciantes que atuam nos povoados, evidenciando ainda mais
sua superexploração. A safra do babaçu, nessa região, também se inicia
em setembro e logo coincide com o período de maior escassez vivido
pelas unidades familiares que começa já em novembro, quando os esto-
ques compostos na colheita esgotam-se. Nos vales úmidos do Maranhão,
o inverno seria mais extenso e os índices de precipitação pluviométrica
superam aqueles do Piauí do mesmo modo que há diferenças na fertili-
dade dos solos e as palmeiras produzem cachos maiores e coquilhos mais
proeminentes. Este tempo prenuncia a escassez, segundo relatam as
mulheres extrativistas entrevistadas:

"... em novembro começam a faltar os produtos da roça" (Cf.


Entrevista com D. Antonia, de Lago do Junco), "nem bem
choveu e já tamo na precisão". (ibid.). "... aperta e nós te-
mos que quebrar mais e fazer logo a farinhada." (D.N. de
São Luis Gonzaga).

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 113


Certamente que informações mais pormenorizadas podem ser con-
sultadas nos calendários agrícolas e extrativos de todas as áreas da região
ecológica do babaçu alcançadas pelos trabalhos de campo, que foram
disposnibilizados pelo trabalho de pesquisa. As jornadas são extraordinari-
amente longas nesse período inicial da estação chuvosa, denominada lo-
calmente de inverno, e as atividades se desdobram, intensificando a extra-
ção do babaçu e o beneficiamento da mandioca, cuja farinha funciona
como reserva alimentar para suprir as necessidades que são designadas
como precisão, ou seja, uma situação de extrema escassez de víveres. Du-
rante o trabalho de campo, pode-se verificar que a elevação do preço da
amêndoa do coco babaçu manteve-se praticamente inalterada, ilustrando
uma situação singular em relação aos anos imediatamente anteriores, quan-
do se afirmava que o "babaçu não tinha preço" e que o extrativismo do
babaçu era um capítulo do passado. Economistas e planejadores regionais
já haviam decretado esse fim, apoiados, sobretudo, no vaticínio dos diri-
gentes do Sindicato das Indústrias de Óleos do Maranhão que assevera-
vam: "a indústria do babaçu está em extinção" (cf. O Imparcial de 30 de
julho de 1995). A mesma matéria jornalística estampa a foto de uma mu-
lher quebrando coco com a seguinte legenda lateral:

"A quebradeira de coco é uma força de trabalho que tende


a desaparecer e poderá causar êxodo rural para São Luís"
(ibid.1995).

Além de se manterem elevados na própria safra, contrariando as


projeções dos economistas formalistas, os preços mantiveram os valores
em progressão na entressafra. A certeza de preço constante parece ter
aumentado o contingente dos que se voltam eventualmente para a ex-
tração do babaçu. Dos resultados do trabalho de campo, pode-se
depreender a relevância do extrativismo na receita familiar. No relatório
de Dona Maria Adelina sobre o povoado de Mangueira, em Lima Cam-
pos (MA), 10 mulheres informam que atualmente 80% da renda famili-
ar provém da quebra do coco babaçu e que as quantidades de amêndoas

114 Alfredo Wagner Berno de Almeida


que produzem semanalmente situam-se entre 40 e 70 quilos. No relató-
rio de Dona Antonia Brito sobre o povoado de Abelha, em Lago do
Junco (MA), há registros de mulheres produzindo em média 15 quilos
de amêndoa por dia. Considerando que a COOPALJ paga um acrésci-
mo de R$ 0,05 a R$ 0,10 por quilo, teríamos uma remuneração mensal
que supera em quase 50% o valor do salário mínimo. Nas observações de
campo do Prof. Joaquim Shiraishi, é salientado, além disso, o fato de que
há pequenas cidades no Tocantins e no Maranhão que parecem passar
por um processo de acamponesamento com parte considerável de suas
famílias se deslocando para os babaçuais ou tendo neles um elemento
essencial de suas estratégias de sobrevivência. Isto para além dos deslo-
camentos regulares das trabalhadoras agroextrativistas, que habitam nas
pontas de rua, nas cidades da região de incidência de babaçuais e que
foram estudadas pelo próprio Shiraishi27. Considerando a capacidade in-
dividual, estimada por dia, em que uma "excelente quebradeira" obteria
mais de 10 quilos, tem-se que os totais registrados sugerem bastante
significativos. Tais números permitem supor que parte considerável da
unidade familiar estaria se dedicando à coleta e à quebra do babaçu num
momento em que os preços dos produtos agrícolas obtidos a partir do
trabalho nas chamadas roças mostram-se estacionários ou declinantes
no tempo28". Mostra-se factível também indagar se a diminuição das
oportunidades de trabalho nas cidades e no próprio campo, inclusive
com a desativação dos garimpos de ouro aluvional na Amazônia, como
sugere o trabalho de dissertação da Profa. Cynthia Carvalho Martins29

27
Para um maior aprofundamento desta situação em que as trabalhadoras agroextrativistas executam a coleta e a quebra
do babaçu em terrenos urbanos, tais como bosques e jardins de condomínios, lotes vagos, terrenos baldios e cocais
num raio de aproximadamente seis quilômetros dos centros urbanos; leiase: Shiraishi, Joaquim - "A reconceituação
do extrativismo na Amazônia: práticas de uso comum dos recursos naturais e normas de direito construídas pelas
quebradeiras de coco". Dissertação de Mestrado. NAEA/UFPA. Belém, 1997 pp.1l5-175.
28
Os temores de aumento nos índices de custo de vida levaram as politicas governamentais a manterem baixos os
preços dos gêneros alimentícios de primeira necessidade. Nesse sentido é que se afirma que a produção agrícola
tornou-se a âncora do Plano Real.
29
Vide Mar tins, Cynthia Car valho - Os deslocamentos como ca te
tegg oria de análise
cate análise.. O ggarimpo
arimpo
arimpo,, lug ar de
lugar
se passar
passar,, rroça,
oça, onde se ffica
ica e o ba baçu nossa poupança
poupança. Manaus. UEA. 2012

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 115


ao analisar as trajetórias dos que vieram dos garimpos, não estaria indu-
zindo os trabalhadores rurais, ex-garimpeiros, a uma certa reintegração
no conjunto de saberes e fazeres concernentes à atividade extrativa do
babaçu. Concorreria para ilustrar isso o aumento das.pressões para a pre-
servação dos babaçuais e seu uso comum, através de leis municipais re-
cém aprovadas pelas Câmaras Municipais de Lago dos Rodrigues e Lago
do Junco (MA), conferindo uma dimensão bastante positiva à atividade
extrativista e legitimando-a como de interesse público, inclusive em áre-
as privadas. Não se pode explicar tal processo apenas pela variação de
preços ou pela difusão de uma consciência ecológica. Há um dado polí-
tico-organizativo que envolve as quebradeiras de coco babaçu que não
pode ser menosprezado e que confere uma especificidade à situação atu-
al, distinguindo-a, inclusive, de outros momentos.
Tal ressalva autoriza algumas aproximações históricas, uma vez
que semelhante quadro reproduz em parte uma situação de mercado
durante a II Grande Guerra, quando Brasil e EUA foram signatários dos
Acordos de Washington, que incidiam sobre a borracha, a castanha e o
babaçu, que entrou em vigor em 25 de julho de 1942, e de um Acordo
Complementar, de 30 de dezembro de 1944, quase ao final da guerra.
Através do primeiro dispositivo jurídico, a exportação de amêndoas e
óleos de babaçu só era permitida para os EUA, que fixava os preços da
tonelada de amêndoa e dos óleos, assegurando a compra de 75% da pro-
dução anual. O Acordo Complementar asseverava que seriam mantidos
por mais de dois anos, a partir de 15 de outubro de 1944 até 25 de julho
de 1946, os preços estabelecidos para amêndoas e óleo de babaçu em 24
de julho de 194230.

30
Consoante os termos do Acordo Complementar, a letra ª do parágrafo 4º. ficou assim redigida: "Serão. mantidos por
mais de dois anos a contar de 25 de julho de 1944, os preços estabelecidos no acordo firmado a 24 de julho de 1942
e que são os seguintes: Amêndoas de babaçu - qualidade média regular Cr$ 126,50 por tonelada métrica de 1.000
quilos, em sacos, peso líquido, FOB, em vapor transatlântico em São Luís, Estado do Maranhão. Caso embarcada em
Parnaíba no Píauí o preço corresponderia a CR$ 125,00". (...) "Óleo de babaçu - Cr$10,75 por 100 libras, peso
líquido, em tambores, FOB em vapor transatlântico em São Luís, Estado do Maranhão, ou Parnaíba, Estado do Piauí".
A mesma quantidade a granel foi fixada em Cr$ 9,75.

116 Alfredo Wagner Berno de Almeida


Wagley e Galvão, antropólogos que há este tempo realizavam
trabalho de campo no Vale do Pindaré junto aos Tenetehara, registra-
ram a tendência ascensional dos preços do babaçu nesse período acom-
panhadas de suas próprias descrições etnográficas e interpretações. Além
de chamarem a atenção para o fato de que em 1945 "a redução do tama-
nho das roças indicava o abandono da agricultura pela quebra do coco
babaçu" Wagley e Galvão registram o seguinte em nota de pé de página:

"O preço pago por quilo de amêndoas de babaçu variou de


Cr$ 1,20 a Cr$ 2,00 porém ao deixarmos o Pindaré em
maio de 1945, a tendência era para descer em valor. Ao
preço de Cr$ 1,20 um homem podia ganhar Cr$ 6,00 por
dia, pois em média a produção diária de "quebra do babaçu"
era de cinco quilos. Rendimento maior que o obtido pelo
trabalho assalariado nos campos, Cr$ 3,50 em 1942, Cr$
5,00 em 1945, por dia. Além disso um homem raramente
trabalhava só, mulher e filhos o ajudavam na quebra do
côco e a produção da família podia atingir a 10, 15 ou mais
quilos por dia (Cr$ 12,00 para cima). (WAGLEY, C. e
GALVÃO, E., 1961:56).

O abandono do trabalho nas áreas de plantio, nas chamadas ro-


ças, não foi provocado, exclusivamente, pela alta do babaçu. A necessi-
dade de crédito imediato, provocada pela elevação geral do custo de vida,
muito contribuiu para isso (WAGLEY e GALVÃO, 1961:47).
Focalizar a discussão dos problemas do babaçu a partir do carvão
pode coincidir com a lógica empresarial de uma indústria que pretende
utilizá-lo como matéria-prima, mas não necessariamente coincide com
os interesses das quebradeiras de coco. A questão do carvão de babaçu,
assim colocada, sugere extemporânea e repete propostas de dez anos
atrás, do final dos anos 80, quando os preços do ferro-gusa animavam os
empresários a adquirir terras de babaçuais, a implantar suas baterias de
fornos e a incentivar experiências de carbonização, queima do coco in-
teiro ou apenas da casca. Ocorre que os preços do ferro-gusa são flutu-
antes e conhecem variações vertiginosas. Está-se diante de um mercado

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 117


"spot", com contratos de curtíssimo prazo e com alterações sensíveis na
demanda, sem haver uma maior estabilidade capaz de assegurar uma ten-
dência ou uma previsão mais duradoura e confiável. Uma "parceria" pro-
posta e definida a partir da estratégia empresarial das guseiras significa um
desencontro de propósitos. A pertinência desse desencontro pode trazer
conseqüências imprevisíveis para o setor extrativista, posto que prossegue
sem uma política dirigida para suas necessidades intrínsecas e acaba sendo
definido de fora, ou seja, pelas necessidades de um setor industrial especí-
fico. Afinal, o carvão da casca do coco, até o momento, tem' sido, no má-
ximo, um subproduto do babaçu e uma atividade acessória das unidades
familiares envolvidas na extração. Nada além disso, já que o MIQCB re-
cusa quaisquer iniciativas que incidam na carbonização ou queima do coco
integral, do mesmo modo que repudia qualquer projeto de transformação
das quebradeiras em assalariadas. Aliás, os termos catadeiras e/ou catadores,
que aparece em ofícios do Ministério da Fazenda, em documentos de
entidades patronais e nas alocuções de empresários, são considerados pelo
MIQCB como pejorativos, encerrando uma discriminação que não con-
templa o ato de transformação realizado pelas unidades agroextrativistas
como trabalho ou como atividade produtiva. A sua utilização revela o quão
longe andam as propostas daqueles que aludem às componentes do
MIQCB como "parceiras" potenciais.
Numa estratégia similar àquela das indústrias de ferro-gusa, está
buscando as quebradeiras de coco babaçu como "parceiras" a empresa de
papel e celulose, formada pela CVRD, Nissho Iwai e Suzano / Feffer,
com áreas de influência no Maranhão, Tocantins e Pará. O exemplo
mais completo refere-se àquele da Celmar, que estimulou a criação da
Associação das Quebradeiras de Coco do povoado e com ela estabele-
ceu um contrato para exploração de babaçuais, que estariam em seus
domínios conforme assinala o trabalho da Profa. Helciane de Fátima
Abreu Araújo31.

31
Vide Araujo, Helciane de F. A. - Memória, Mediação e Campesina to
to.. As rree pr
Campesinato esentações de uma lider
presentações ança
liderança
sobre as lutas camponesas da Pré-Amazônia Maranhense
Maranhense. Manaus. UES Edições. 2010.

118 Alfredo Wagner Berno de Almeida


Por que tais estratégias empresariais passam a contemplar o
babaçu? Por que buscam a interlocução com o MIQCB e dizem explici-
tamente, como na reunião de abril de 2000 promovida pelo DFID, que
seus projetos, que também buscam captar recursos junto aos cofres pú-
blicos e agências multilaterais, “necessitam do” aval da sociedade envol-
vida para definir uma forma de garantia social? Por que a noção de "par-
ceria" se mescla com tal necessidade de legitimação?
Em termos de agenda científica o babaçu tem aparecido também
no elenco de variedades selecionadas em laboratórios por especialistas
de institutos de pesquisa para medidas de reflorestamento. Nessas pro-
postas toda a preocupação incide na espécie e tão somente nela, ou seja,
o extrativismo não é contemplado e tampouco as relações sociais na
produção de amêndoas e óleo vegetal. Tal como o pau-de-balsa, a
macaúba e o inajá a palmeira babaçu foi selecionada como própria para
recuperação de áreas degradadas consoante estudo da Coordenadora de
pesquisas sobre palmeiras oleaginosas, no Instituto Nacional da Ama-
zônia (INPA),a bióloga Ires de Paula Miranda32. As pesquisas em curso
indicariam que áreas já desmatadas poderiam ser recuperadas, plantan-
do-se, dentre outras espécies, o babaçu.
Muitas dessas pesquisas, no entanto, ainda não estão concluídas
e demandam, no momento, apoio técnico e econômico (SCHARF; ibid.).
Não se pode dizer, pois, que o babaçu não esteja na ordem do dia
de inúmeras agendas científicas e empresariais No entanto, no que tan-
ge às políticas públicas, não há sinais contundentes e prevalecem medi-
das localizadas, pontuais e inteiramente desarticuladas.
Nessa direção podem ser registradas várias iniciativas pontuais
encetadas pelos governos estaduais, tais como: o chamado "Programa

32
Para maiores aprofundamentos leia-se: Regina Scharf - "Árvores prodígio são aposta para reflorestamento" Gaz
Gazeta
eta
Mercantil, 11 de maio de 2000. Página A-9. "Hoje, só três palmeiras são cultivadas na Amazônia: pupunha, açaí e
Mercantil
dendê. Todos os bosques de buritis e babaçus explorados hoje são nativos. E, no geral, as palmeiras são
subaproveitadas. Mas esse quadro pode mudar". "Outras vedetes da recuperação de áreas degradas são as palmeiras,
como o babaçu e o inajá. Ricas em óleos combustíveis ou alimentares, elas se multiplicam como ervas daninhas em
áreas degradadas." (SCHARF; ibid.).

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 119


do Agronegócio do Babaçu", também definido como "desenvolvido em
parceria" com as quebradeiras de coco babaçu, contemplado com recur-
sos do Banco do Nordeste33. Uma outra referência, nesse mesmo senti-
do, são as iniciativas, também pontuais, implementadas no Maranhão
com recursos levantados no PDAjPPG-7, intituladas de "Aproveitamen-
to integral do coco babaçu em pequenas comunidades rurais". A noção
de "parceria" nessas situações, deve ser melhor refletida, podendo impli-
car na imposição de padrões de relação política que levem à desorgani-
zação das modalidades associativas preexistentes, instituindo "moder-
nos quadros dirigentes", consoante o defasado modelo das administra-
ções coloniais. Os sentidos de "participação" e "garantia social" igual-
mente devem ser revistos, porquanto, os projetos que envolvem as que-
bradeiras mais têm sido feitos para elas ou mesmo em nome delas do
que com elas próprias ou por elas mesmas. Parece preponderar uma for-
ma de pensamento que tira às quebradeiras sua condição de sujeito soci-
al, tratando-as segundo uma passividade. Tais projetos poderiam ser vis-
tos como incorrendo numa usurpação da delegação, posto que falam das
extrativistas do babaçu segundo interesses que lhes são colidentes.
As tentativas de buscar respostas para as sucessivas indaga-
ções levantadas anteriormente, relativas a preços e intencionalidades,
conduziram os esforços de pesquisa a tentar identificar uma medida
por um de seus efeitos indiretos. A primeira informação sobre outros
efeitos correlatos, obtida em entrevista, dizia que a última viagem de
navios transportando óleos vegetais asiáticos para o Brasil datava de
novembro de 1998. Esse efeito também pedia explicações, conside-
rando os baixos preços dos óleos vegetais desde a crise econômica
asiática de fins de 1997. E foi através delas que nos foi possível en-

33
Em 13 de abril de 2000 foi discutido, no auditório da Prefeitura de Codó, o Protocolo de Intenções para definir as
ações do Programa do Agronegócio do Babaçu no Maranhão. Segundo o periódico O Estado do Maranhão
dessa mesma data, "O programa, desenvolvido em parceria, será contemplado com financiamento para atividades de
fomento, produção, beneficiamento e comercialização de derivados do babaçu com apoio do Banco do Nordeste.
Par ticipam do programa as Gerências de Desenvolvimento Regional de Pedreiras, Caxias e Codó." ("Programa do
Agronegócio do Babaçu é debatido em Codó" E.M. 13/4/00). 0 propósito era discutir com o que os poderes chamam
de entidades representativas das trabalhadoras agroextrativistas.

120 Alfredo Wagner Berno de Almeida


tender a tendência ascensional dos preços do óleo babaçu no merca-
do interno, quando os preços de óleos similares no mercado externo
literalmente despencavam.
Tudo converge para as alterações na política cambial, em 18
de janeiro de 1999, quando o governo sob forte pressão financeira,
denominada pelos técnicos oficiais de "ataque especulativo", adotou
a livre flutuação do câmbio numa tentativa desesperada de controlar
a saída de divisas. Com essas alterações deixam de existir medidas
protecionistas em relação à moeda e o preço do dólar não é mais
garantido e definido pelo Banco Central. O resultado mais imediato
consistiu na desvalorização do real face ao dólar. Como os preços das
principais "commodities 34" são formados nos mercados internacio-
nais e, em virtude disso, cotados em dólar, a produção agrícola e
extrativa no Brasil tem mais chances de ser favorecida pelo câmbio.
Assim, constata-se que as cotações internacionais das matérias-pri-
mas agrícolas e extrativas caíram, mas a queda dos preços é menor do
que a desvalorização do real face ao dólar, significando, em alguns
casos, um ganho líquido para trabalhadores extrativistas (borracha,
babaçu, castanha) e também para empresários rurais (soja, café, açú-
car, suco de laranja e carnes). O encarecimento das importações agrí-
colas (trigo, arroz), pecuárias (leite, carnes) e extrativas, principalmente
a de óleos vegetais, favorece, dessa maneira, tanto as empresas
agropecuárias; quanto os produtores agroextrativistas. As importa-
ções brasileiras começaram a dar sinais de alerta diante da forte des-
valorização do. real que reduziu, dentre outros, a competitividade dos
produtos asiáticos e, em decorrência, a do óleo de palmiste35.

34
A noção de "commodity" vinculada a produtos homogêneos, produzidos e transportados em grandes volumes, passa
hoje por redefinições em face de segmentação dos mercados. Diversos circuitos e canais alternativos de mercado, com
produtos diferenciados, têm se consolidado, desorganizando os mercados homogêneos.
35
Segundo levantamentos da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB).de abril de 2000, tem-se que, "entre
1997 e a primeira semana de maio de 2000, a desvalorização bruta do real frente ao dólar foi de 74% ". Não se pode
dizer, entretanto, que a situação é inteiramente favorável ao Brasil, uma vez que a União Européia também adotou a
desvalorização das moedas da região encarecendo as suas importações. Como a UE é o principal mercado comprador
do Brasil e as exportações brasileiras para a Europa começam a enfrentar dificuldades, tem-se uma contramarcha do
processo deflagrado em janeiro de 1999.

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 121


As indústrias que trabalham com produtos extrativos, face ao
encarecimento das importações, voltaram-se para as matérias-primas da
região amazônica e tal demanda refletiu sobre os preços. A elevação do
preço da amêndoa do babaçu, entretanto, embora seja significativa face
aos preços anteriormente praticados, pode ser considerada não tão ex-
pressiva se confrontada com o percentual de fortalecimento do dólar
face ao real.
Assiste-se, pois, na Amazônia, a um duplo movimento: de um
lado à elevação dos preços do babaçu, da borracha e de outros produtos
extrativos, controlados pelas unidades familiares agroextrativistas, e, de
outro, à elevação dos preços dos produtos de empresas rurais (soja, carne
bovina), de empresas mineradoras e guseiras (ferro, gusa), madeireiras e
de indústrias de papel e celulose. O impacto nos preços compreende
dois fatores opostos entre si quando refletimos sobre uma estrutura agrária
com alto grau de concentração fundiária e com acirrados conflitos soci-
ais. O fortalecimento econômico das unidades agroextrativistas ocorre
ao mesmo tempo em que há uma recuperação dos preços das
"commodities" produzidas pelos seus históricos antagonistas. Um dos
impactos mais flagrantes desta recuperação é o reaquecimento do mer-
cado de terras nacionalmente36. Considerando-se a região de incidência
de babaçuais destaca-se que nas áreas em que as empresas produzem
mercadorias para exportação há maiores transações de compra e venda
de terras. Diversos grupos industriais retomam o interesse por terras sob
o pretexto de expansão de seus empreendimentos. A USIMAR, guseira

6
No oeste de São Paulo, um hectare de terra valorizou, durante 1999, 36,5% em comparação aos valores de 1998.
"Embora represente um alento aos donos. de propriedade, essa alta, quando vista à luz da desvalorização cambial do
início do ano e da situação real de um mercado onde simplesmente não existe liquidez, mostra que comprar terras
continua sendo um péssimo negócio em·todas as regiões da Pais". Afirmou J. Ferraz, analista da FNP Consultoria, de
São Paulo. (CÉSAR, M.C. - "Preço da terra sobe em São Paulo". Gaz eta Mer
Gazeta cantil
Mercantil
cantil, 14 de dezembro de 1999).
Consoante o mesmo ar tigo, tem-se a seguinte informação: "Segundo estudo da Fundação Getúlio Vargas, de 23
unidades da federação, 18 tiveram um quadro de valorização média de apenas 4,17% entre dezembro de 1998 ejunho
de 1999 ... Mesmo diante deste cenário pouco animador, é a primeira vez que se verifica recuperação nas cotações
desde que o PLANO REAL decretou o fim da especulação com áreas agricolas, ao derrubar as altas taxas inflacionárias,
cinco anos atrás. A terra, que já tinha deixado de ser investimento lucrativo naquela época, permanece um ativo
desinteressante, mas, depois de cinco anos, começa a apresentar algum sinal de recuperação". (CÉSAR; ibid.).

122 Alfredo Wagner Berno de Almeida


recentemente instalada no Maranhão, em abril de 2000', está requeren-
do para sua implementação 100 mil hectares. As indústrias de papel e
celulose, que detêm quase meio milhão de hectares somente no estado
do Maranhão, anunciam uma quadra de expansão e de retomada da
implantação de plantas industriais que estão paralisadas desde quatro
anos atrás. As grandes empresas de óleos vegetais, como a DENPASA,
no Estado do Pará, além de assinalarem com uma expansão de suas ati-
vidades, estão adotando uma prática inédita, pagando imediatamente o
equivalente em reais no momento em que recebem os cachos de coco
para a produção de dendê. Essa informação é de janeiro de 2000. Até
então, os procedimentos adotados no pagamento dos cachos demanda-
vam de 10 a 15 dias37.
Num mesmo sentido, com a recuperação do preço da arroba do
boi, os estabelecimentos pecuários têm retomado um certo impulso.
Sublinhe-se que no caso do Polígono dos Castanhais e da mancha de
babaçu os desmatamentos foram perpetrados exatamente por um pro-
cesso de pecuarização das áreas. Os maiores imóveis rurais do Pará e do
Maranhão encontram-se sob controle dos grandes pecuaristas. No mo-
mento atual de retomada do setor, registra-se, inclusive, a implantação
de curtumes no Maranhão e no Pará, por empresários do centro-sul e do
exterior que estariam mobilizando no Pará R$ 91,4 milhões para abrir
plantas industriais. Esses grupos que começaram a chegar na região em
fins de 1999 são os seguintes:
• Fujiwara, do grupo CS Pesquisas e Participações, que deverá
estar inaugurando em julho seu segundo curtume (Araguaia Industrial)
no Sul do Pará, "para processar 1,5 mil peças diárias de couro semi-aca-
bado e acabado". (Cf. TELMA PINTO, 2000);
• Braspelco, que deverá investir R$ 35 milhões "numa planta in-
dustrial em Castanhal, a 60 km de Belém, para produzir três mil peças da

37
Cf. ALVES, E. (Engenheiro Agrônomo) - "Dendé: pesou, recebeu", na coluna "Diário do Campo". Diário do PPará
ará
ará.
Belém, 29 de janeiro de 2000. Página C-3.

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 123


linha wet-blue por dia" (cf. TELMA PINTO; ibid.). Esse grupo estaria
pleiteando incentivo fiscal junto ao governo paraense.
• Cia. do Couro do Maranhão, "joint-venture entre a trading italian
Leather Company, de Florença, Itália, e a construtora gaúcha Coral
Ltda." (cf. TELMA PINTO; ibid), que está se instalando em Rosário
(MA) "com produção estimada em 216 toneladas/ ano de couro -mil
peças diárias" (Cf. TEIMA PINTO; ibid).

O grupo paulista Bertin que abriu um frigorífico em Redenção,


Sul do Pará, e monta dois curtumes um em Castanhal e outro em
Bragança38.
A retomada dos empreendimentos pecuários, considerando que
as extensões de pastagens degradadas são imensas e que sua recupera-
ção parece remota, deixa uma ponta de dúvida quando as dirigentes do
MIQCB discutem perspectivas, temerosas, talvez, que a expansão dos
projetos volte-se mais uma vez para os babaçuais e castanhais.
Numa direção frontalmente oposta àquela dos mercados homo-
gêneos há experiências no contexto do MIQCB que se estruturam a
partir da segmentação dos mercados e de circuitos específicos. A ilustra-
ção mais completa diz respeito à COOPALJ que desde 1994 vem ex-
portando ininterruptamente óleo de babaçu, após um primeiro refino na
prensa da própria cooperativa. Em 1994, de acordo com dados da SECEX,
a COOPALJ ocupava a trigésima oitava posição na lista dos maiores
exportadores do Maranhão. Suas exportações totalizavam, então, 21 to-
neladas de óleo babaçu. Em 1997, já ocupava a trigésima segunda posi-
ção com 33 toneladas de óleo e 6.700 sabonetes de babaçu, fabricados
em Ludovico (município de Lago do Junco) no âmbito do projeto "Babaçu
Livre", exportados para os EUA. Em 1998, exportou 43,2 toneladas de
óleo e 62.201 sabonetes e a SECEX não informa mais a posição e nem

38
Cf. TELMAPINTO- "Indústrias de Couro investem na Amazônia" e "Trading italiana instala cur tume no Maranhão".
Gazeta Mercantil
Mercantil, 4, 5 e 6 de fevereiro de 2000.

124 Alfredo Wagner Berno de Almeida


quais são os maiores exportadores. Em 1999, novamente exportou 43,2
toneladas e estabeleceu contatos, através da ASSEMA, com indústrias
de cosméticos dos EUA, entre elas a AVEDA, que estariam demandan-
do dezenas de toneladas de óleo. A agregação de valor nessa experiência
ocorre com uso de tecnologias simples, o que tem permitido à coopera-
tiva obter preços mais elevados no mercado. Um exemplo encontra-se
nos dados de exportação do Maranhão relativos a 1997: enquanto a Ole-
aginosas Maranhense SA exportou 103 toneladas de óleo babaçu por
US$ 154.280 (Valor exportação FOB)39, a COOPALJ exportou 33 to-
neladas de óleo babaçu em bruto por US$ 106.070 (Valor exportação
FOB). A diferença entre as quantidades exportadas e seus respectivos
preços expressa as vantagens inerentes ao modo de produzir da
COOPALJ: tecnologia apropriada, atendendo aos quesitos ambientalistas
das empresas importadoras (Body Shop); sem agrotóxicos, sem defensi-
vos agrícolas e com certificação. Os produtos extrativos, óleos e sabone-
tes, têm sido exportados porque encontram canais de distribuição no
setor externo compatível com esse modo de produzir.
Essas experiências de comércio exterior concorrem para melho-
rar os índices de produtividade e para uma utilização mais completa dos
recursos naturais. No caso dos sabonetes, fabricados em Ludovico, e do
mesocarpo, pela cooperativa, em Esperantinópolis, as técnicas adotadas
pelas quebradeiras contribuem para satisfazer necessidades novas, crian-
do produtos ímpares e agregando mais valor através do acabamento com
essências nativas, embalagens de papelão com papel reciclado, para sa-
bonete e para mesocarpo, e outras formas de atrair para o consumo no
varejo, inclusive nas cidades regionais. Este modo de produzir contribui
para expandir os circuitos de trocas inerentes ao mercado regional e in-
tegra povoados e comunidades vistas socialmente como mais isoladas.
Eles potencialmente passam a ter vinculações estreitas com aqueles cir-

39
Para outros dados consulte-se: BENCHIMOL, Samuel - Comércio Exterior da Amazônia Brasileira
Brasileira. Manaus.
Valer Ed. / SEBRAE 2.000 pp.14l-l52

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 125


cuitos específicos de mercado, ultrapassando, inclusive, o poder de troca
dos comerciantes locais de óleo babaçu, tradicionais mediadores com a
sociedade envolvente.
Desafortunamente, a riqueza dessas experiências não tem sido
incorporada pelas políticas públicas. O Estado, as unidades da federação
e, os municípios parece que ainda não descobriram a importância de
reconhecer essas experiências e o poder de sanções comerciais estaduais
e municipais que estão ao seu alcance para defender os resultados de
uma produção "regionalizada" e específica. Não se trata de desencadear
uma "guerra comercial" contra os produtores de óleo de palmiste asiáti-
co, mas sim dos governos emitirem sinais de aprovação daquele modo
particular de produzir, instituindo instrumentos que consolidem essas
experiências. Há barreiras invisíveis que têm de ter visibilidade hoje e
que devem ser objeto de discussão como a fixação de cotas e correções
nas tarifas adequando-as às potencialidades regionais. Esse é um desafio
que vem marcando fortemente as discussões internas do MIQCB e que
precisa ser aprofundado na interlocução com órgãos públicos e agências
de desenvolvimento, sobretudo, numa conjuntura favorável a que pro-
dutos derivados do babaçu, da borracha e da castanha se tornem objeto
de políticas governamentais adequadas.

126 Alfredo Wagner Berno de Almeida


Foto 7 - Dona Dijé: “Nos babaçuais há conhecimentos”.

Foto 8 - Dona Dada e Dona Nonata

Foto 9 - Dona Eunice, da RESEX do Ciriaco

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 127


128 Alfredo Wagner Berno de Almeida
I PARTE
LEGISLAÇÃO, DOCUMENTOS ADMINISTRA-
TIVOS, MAPAS E ICONOGRAFIA

***

A seguir serão apresentados textos completos ou breves excertos


da documentação que já foi devidamente localizada e reproduzida, no de-
correr dos trabalhos de levantamento em arquivos e bibliotecas anterior-
mente mencionados. Não foram incluídas as disposições e normas
concernentes à legislação agrária. que constituem tema de pesquisas
correlatas desenvolvidas nas últimas três décadas por diversos pesquisado-
res através de monografias, dissertações e teses. Não foi realizado um le-
vantamento sistemático desta produção acadêmica que deverá ser objeto
do próximo trabalho de pesquisa que dará sequencia a este ora apresenta-
do.
O atual repertório de fontes secundárias desta I Parte compreen-
de 73 documentos, datados do período entre 1951 a 1996 e referidos a
diferentes gêneros textuais (leis, decretos, projetos de lei, substitutivos,
portarias, instruções normativas, ofícios, notas técnicas e ainda corres-
pondência consular, acordos internacionais e pronunciamentos de líde-
res sindicais dos trabalhadores e de empresários do setor industrial). Não
foram incluídas matérias da imprensa periódica, não obstante as cita-
ções no corpo do texto sobre as dificuldades econômicas relativas aos
preços dos óleos vegetais. (1).
Para classificação da massa documental foi estabelecida uma
periodização elementar, acompanhando o eixo das políticas governamen-
tais, em diferentes momentos, bem como a emergência do MIQCB e os
novos rumos tomados pelo conhecimento acerca do extrativismo do babaçu.

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 129


O período inicial se estende de 1915, quando o governo estadual
privilegia a mecanização da quebra do coco babaçu, até 1928-29, quan-
do abrem falências as principais indústrias extrativas de óleos vegetais.

a) Período 1915 - 1929


Consultando-se Fernandes (1929) no seu trabalho historiográfico
intitulado Administrações Maranhenses 1822-1929, assim se refere às
primeiras iniciativas de exportação do babaçu:
“Outro fato que ocorreu para eficiência econômica do governo
do Dr. Herculano Parga foi a entrada no mercado de exportação de um
novo e portentoso produto da flora maranhense, o já agora famoso
BABAÇU. Até 1915 não haviam despertado a atenção do fisco estadual
(setenta e três)as pequenas remessas de amêndoas. De longe se vem
desconfiando do valor pela grande percentagem de gordura dessas amên-
doas. O coronel Carneiro de Freitas, no seu luminoso relatório de 1917-
1918, traz a primeira notícia governamental sobre o novo produto:
“Produto há poucos anos explorado constitui, na atualidade, pela
saída que já grangeou, talvez o terceiro artigo da produção maranhense.
De longo tempo era conhecido o valor oleaginoso das suas amên-
doas. Mas, devido à rijeza da nóz do coco, que dificultava a extração das
mesmas, e principalmente à falta de iniciativas de vulto, esse produto de
flora maranhense jazia abandonado e apodrecendo nas matas em mi-
lhares de toneladas em proveito diverso do que lhe davam os animais
selvagens e os poucos habitantes que dele extraiam uma farinha, verda-
deira especiaria, empregando-a como alimento de sustância dos enfer-
mos.
Eduardo Olímpio Machado no seu relatório de 1854, referindo-
se aos nossos artigos negociáveis, exarava – “Coco silvestre” – A maior
parte dos terrenos da província que se acham incultos, estão cobertos de
palmeiras que produzem o coco em grande quantidade: dele se extrai um
óleo mui fino, que poderia ter muitas e variadas aplicações para que o
fabrico deste gênero se faça em grande escala, resta apenas descobrir

130 Alfredo Wagner Berno de Almeida


uma máquina para quebrar com facilidade o ouriço do coco, que é mui
rijo. Para o aumento deste ramos de indústria valia a pena que se desse
um prêmio a quem a inventasse”.
Foi o que aconteceu em 1914. Depois de muitas tentativas frus-
tradas, o Srs. Marcelino Gomes de Almeida & Comp. conseguiram na
Inglaterra o projeto de uma máquina. Juntando fotografias e oferecendo
algumas vantagens, requereram ao Congresso favores para a exploração
dessa mercadoria.
O corpo legislativo do Estado concedeu-lhes o abatimento da
metade do imposto de 10% “ad-valorem”, criado para a /exportação das
amêndoas do coco babaçu, desde que se incumbissem da distribuição
gratuita, pelos lavradores maranhenses, de 100 máquinas apropriadas à
quebra do ouriço do coco. Aqueles negociantes firmaram contrato com
o Estado para executarem o compromisso tomado e data daí o incre-
mento havido no comércio desse produto oleaginoso.
Há quem pense ter o Estado feito um mau negócio em virtude de
se acharem paralisadas as máquinas distribuídas. Estas, apesar de pode-
rem ser tangidas à mão, só promovem uma certa eficiência movidas a
vapor, força esta de que nem todos os nossos agricultores dispõem.
Beneficiando ou não o Estado, conforme as opiniões, divergen-
tes neste sentido, o fato é que esse contrato despertou a atenção dos
habitantes do interior para esses objetos da riqueza maranhense, que
encontrou nos Srs. Marcelino Gomes de Almeida & Comp. e noutros
negociantes, francos compradores para qualquer quantidade.
Hoje, quebrado à máquina ou manualmente, por diversos pro-
cessos engenhosos, fluem as amêndoas do coco babaçu à praça de Sr.
Luiz, em grande abundancia.” (Fernandes; 1929:57).

b) Período 1935 - 1946


No decorrer deste período o babaçu foi considerado oficialmente
como matéria-prima estratégica. A exportação passou a fazer-se quase
exclusivamente para o mercado norte-americano (CAPES;1959). Após

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 131


o início da Guerra com o Japão, os E.U.A. passaram a enfrentar dificul-
dades para a importação de óleo de palma e similares que procediam das
Filipinas e de muitas “colônias europeias” do Pacífico. Com os acordos
comerciais firmados em 1942 o Brasil se obrigava a reservar a exporta-
ção e amêndoas e óleo de babaçu aos E.U.A. ou a “consignatário desig-
nado pela Commodity Credit Corporation” (LACERDA; 1943;124), em
contrapartida o E.U.A. se comprometia a adquirir toda a produção brasi-
leira. Após o término da II Guerra Mundial tais condições de proprieda-
de foram revistas e a produção foi orientada para o mercado interno,
atendendo às demandas das indústrias do Centro-Sul do País.

c) Período 1950 - 1980


Economistas e geógrafos são acionados pelo governo federal para
analisar os entraves à expansão da atividade extrativa de babaçu. Cessam
as exportações e as condições de trabalho nos babaçuais são considera-
das precárias. Emergem os conflitos agrários com a elevação do preço do
aforamento pelos detentores de grandes extensões de terras e com as
práticas de grilagem que de espalham por todo o Maranhão.
A ação governamental visa reverter este quadro, recomendando
estudos ao Conselho Nacional de Economia (1952) e depois ao Grupo de
Estudos do Babaçu (1957) até a criação do INEB em 1960. São sanciona-
das então as primeiras leis que proíbem a derrubada da palmeira babaçu.

d) Período 1981 - 1989


Amplia-se a discussão sobre a “crise da economia do babaçu”. Os
trabalhadores rurais começam a ser chamados pelos aparatos de Estado
para discutir o declínio da produção extrativa e suas implicações. Neste
período acentuam-se os conflitos agrários nas regiões de incidência dos
babaçuais. As reivindicações de “reforma agrária ampla, massiva e ime-
diata” mobilizam os trabalhadores agroextrativistas. Multiplicam-se os
dispositivos legais de preservação dos babaçuais e são normatizados pro-
cedimentos de exploração e uso.

132 Alfredo Wagner Berno de Almeida


e) Período 1990 - 1993
As primeiras iniciativas oficiais de “mercado aberto” concorrem
para acelerar a desestruturação da economia extrativista. A organização
dos trabalhadores agroextrativistas objetiva-se em movimento. Os apa-
ratos do Estado são afastados da questão, cingindo sua ação à esfera
tributária (ICMS, alíquotas de importação etc.) e às autorizações e con-
trole dos planos de manejo florestal.

f ) Período 1994 - 1996


A liberalização das importações de óleos vegetais com o Plano
Real. As portarias do Ministério da Fazenda reduzem para 2% as alíquotas
de importação. As indústrias de óleos fecham suas portas ou passam a
usar produtos similares. Os impostos sobre operações relativas à circula-
ção de mercadorias são revistos. O Movimento Interestadual das Que-
bradeiras de Coco Babaçu torna-se um interlocutor constante frente aos
Ministérios da Justiça e da Fazenda, rebatendo as vantagens concedidas
à importação de óleos vegetais.

g) Período 1997- 2016


Fortalecimento do MIQCB e da apropriação da memória da eco-
nomia do babaçu pelas próprias quebradeiras, deslocando as instituições
patronais, que até então se colocavam como porta-vozes da produção de
amêndoas e óleos vegetais.
A partir do final de 2016 tem-se o reforço de políticas neo-libe-
rais, com redefinição do conceito de trabalho escravo e enfraquecimento
de medidas capazes de assegurarem os recursos de uso comum.

NOTAS

(1) Consultas aos periódicos tem suprido algumas lacunas na localização de


documentos oficiais.

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 133


a) Nada se obteve, por exemplo, maiores informações em relação ao acordo
estabelecido entre os governos do Brasil e da Malásia em dezembro de 1995.
Em 18 de dezembro de 1995 o presidente Fernando Henrique Cardoso fe-
chou um acordo com o primeiro-ministro da Malásia, na própria capital deste
país – Kuala Lumpur – que permitirá ao Brasil exportar seus produtos, com
isenção de impostos, para o amplo mercado do sudeste Asiático. As exporta-
ções serão feitas para a Malásia e, de lá, para países da Associação das Nações
do Sudeste Asiático (ASEAN) e outros, por meio de entrepostos comerciais
brasileiros instalados na própria Malásia.
Com a formalização deste acordo parecem aumentar as dificuldades para que
sejam revistas as alíquotas de importação do óleo de palmiste.
O único reparo, segundo a imprensa, foi feito quando o presidente Fernando
Henrique Cardoso declarou, numa vaga menção aos mecanismos repressores
da força de trabalho vigentes na Malásia, o seguinte:
“seria impensável num país como o Brasil, de tradição ocidental arraigada,
impor o mesmo tipo de disciplina que existe aqui”
(cf. Folha de São Paulo. SP, 19 de dezembro de 1995),
referindo-se às restrições políticas e às condições de trabalho impostas aos
malasianos.
b) Nada foi obtido com respeito à acusação de sonegação de impostos federais
envolvendo indústrias de óleo do Maranhão.
Em 2 de janeiro de 1996 a “Procuradoria Geral da República no Maranhão
pediu o arresto de bens dos proprietários de oito indústrias beneficiadoras de
coco babaçu para transformação em óleo combustível, localizadas nos municí-
pios de Bacabal, Codó, Caxias e Coroatá” (Cf. Folha de São Paulo. SP, 3 de
janeiro de 1996).

134 Alfredo Wagner Berno de Almeida


DOCUMENTOS

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 135


136 Alfredo Wagner Berno de Almeida
DOCUMENTOS
***

LEI ESTADUAL Nº. 680 – de 30 de março de 1915


Autoriza o Governo a contratar com um ou mais proponentes, a
introdução, no Estado, de máquinas portáteis apropriadas à quebra do coco
babaçu.

O Dr. Herculano Nina Parga, Governador do Estado do


Maranhão. Faço saber a todos os seus habitantes que o Congresso
decretou e eu sancionei a lei seguinte:
Art. 1.º Fica o governo autorizado a contratar, com um ou mais
proponentes, que melhores garantias oferecer, a introdução, no Estado,
de máquinas portáteis, em número nunca menor de cem, as quais poderão
ser acionadas por força braçal e motor, apropriadas a quebrar o coco babaçu,
para a extração de sua amêndoa, no gênero da apresentada pelos
negociantes Marcelino Gomes de Almeida & C., afim de serem as ditas
máquinas gratuitamente distribuídas às pessoas que se mostrarem
resolvidas a explorar em larga escala a indústria das referidas amêndoas,
mediante as seguintes condições:
Art. 2.º O Governo concederá ao contratante, em compensação
de capital e juros por ele empregados o abatimento de 50% do imposto
de exportação e respectivo adicional, consignado para as amêndoas do
coco babaçu.
Art. 3.º O Estado obriga-se a manter em 10% o “ad-valorem” e o
respectivo adicional de 25% à taxa de exportação das referidas amêndoas,
pelo tempo do contrato;

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 137


Art. 4.º O prazo do contrato será de cinco anos, a contar da data
em que o contratante começar a gozar da taxa diferencial do art. 2.º;
Art. 5.º O contratante começará a gozar das vantagens
consignadas no art. 2.º, proporcionalmente ao número de máquinas que
for introduzindo e pela seguinte forma:
Dois meses depois de enviada a seus destino a 25.ª máquina que
importar, começará ele a gozar de 20% do abatimento dos 50% que lhe
são garantidos no art. 2.º, mais 20% dois meses depois da expedição da
50.ª máquina, e finalmente, o restantes 10% , ou seja o total de 50%
depois de entregue todas as cem máquinas a que se obrigar;
Art. 6.º O governo fiscalizará não só a apropriação, qualidade e
eficácia dos maquinismos para quebramento do coco babaçu, como
também a sua distribuição aos particulares, devendo ficar registrados no
Tesouro, tanto o nome da pessoa a quem for entregue cada máquina, como
principalmente a data da remessa, para o efeito do disposto no art. 5.º;
Art. 7.º O governo exigirá do contratante que adote os
maquinismos que for introduzindo, os melhoramentos de que os mesmos
são suscetíveis, especialmente no que diz respeito a introdução do coco
na máquina, que precisa de ser automática, afim de garantir crescente
eficácia dos ditos maquinismos na extração de amêndoas.
Art. 8.º O contratante se obrigará a introduzir as máquinas, pelo
seguinte prazo: as primeiras vinte e cinco máquinas, dentro de seis meses;
as outras vinte e cinco máquinas, dentro de nove meses, e as restantes
cinquenta, dentro de um ano, a contar sempre da data da assinatura do
contrato, sendo este considerado caduco por inobservância de qualquer
desses prazos, salvo no caso de força maior, comprovado e superveniente
à data do contrato;
Art. 9.º O governo exigirá do proponente uma caução de dez
contos de réis em dinheiro ou apólices, feita antes da assinatura do
contrato, para responder pelo cumprimento do mesmo;

138 Alfredo Wagner Berno de Almeida


Art. 10.º Esta caução o contratante perderá em benefício do
Estado, por inobservância de qualquer das cláusulas do contrato, e só lhe
poderá ser restituída depois de distribuídas todas as cem máquinas a que
se obrigar;
Art. 11.º Oito dias depois de promulgada a presente lei, o governo
convidará por editais, publicados na imprensa, durante trinta dias, os
interessados no serviço de que ela cogita, a apresentarem as suas propostas
para o respectivo contrato, e para apresentação das quais não haverá prazo
limitado;
Art. 12.º Revogam-se as disposições em contrário.

Mando, portanto, a todas as autoridades a quem o conhecimento


e execução da presente lei pertencerem, que a cumpram e façam cumprir
tão inteiramente com nela se contem. O Secretário do Interior a faça
imprimir, publicar e correr.

Palácio do Governo do Estado do Maranhão, 30 de março


de 1915, 27.º da República.

Herculano Nina Parga.


Bento Moreira Lima.

Publicada na Secretaria do Interior do Estado do Maranhão, em


São Luiz, 30 de março de 1915.

M. R da Fonseca Torres,
Oficial.

José Moreira de Almeida a fez.

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 139


Decreto nº 3.058 - de 29 de dezembro de 1915 (Legislação
Federal)

Determina que as máquinas destinadas ao beneficiamento do coco da palmeira


conhecida por babaçu paguem 8% “ad-valorem”.

O Presidente da República dos Estados Unidos do Brasil:

Faço saber que o Congresso Nacional decretou e eu sanciono a


seguinte resolução:

Art. 1º Pagarão 8% “ad-valorem” as máquinas destinadas ao


beneficiamento do coco da palmeira conhecida por babaçu (Orbignya
Martiniana) e outras do mesmo gênero importadas quer pelos governos
dos Estados, quer por particulares.

Art. 2º Revogam-se as disposições em contrário.

Rio de Janeiro, 29 de dezembro de 1915, 94º da Independência e


29º da República.

Wenceslau Braz P. Gomes


João Pandiá Calogeras
(Leis do Brasil, Ano 1915, Vol. I)

140 Alfredo Wagner Berno de Almeida


LEI ESTADUAL N.º 747 de 31 de Março de 1917

Concede a Carlos A. da Silveira isenção de impostos de exportação de caroços ou


sementes de bacuri ou piqui.

O Doutor Herculano Nina Parga, Governador do Estado do


Maranhão. Faço saber a todos os seus habitantes que o Congresso decretou
e eu sancionei a lei seguinte:
Art. 1.º Fica concedida a Carlos A. da Silveira, isenção de impostos
de exportação de caroços ou sementes de bacury e piqui, durante o período
de cinco anos.
Art. 2.º Revogam-se as disposições em contrário.

Mando, portanto, a todas as autoridades a quem o conhecimento e


execução da presente lei pertencerem que a cumpram e façam cumprir
tão inteiramente como nela se contém. O Secretário da Fazenda e faça
imprimir, publicar e correr.

Palácio do Governo do Estado do Maranhão, em São Luiz, 31 de


Março de 1917, 29. º da República.

Herculano Nina Parga.


Odylo de Moura Costa

Publicada na Secretaria da Fazenda do Estado do Maranhão, em


31 de Março de 1917.

Alberto Correia Lima.


Oficial do gabinete

Levy Damasceno Ferreira, a fez.

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 141


Lei n.º 805 de 23 de abril de 1918

Autoriza o Governo a fazer concessões a “The Oversea Company of Brazil, Limited”.

O Dr. José Joaquim Marques, Governador do Estado do Maranhão.


Faço saber a todos os seus habitantes que o Congresso decretou e eu
sancionei a lei seguinte:
Artigo 1.º - Fica o Governador autorizado a fazer a “The Oversea
Company of Brazil, Limited”, para uma fábrica com mecanismos modernos
para a extração e purificação de óleos vegetais neste Estado, as seguintes
concessões:

§ 1.º - Isenção dos impostos de exportação dos seus produtos


durante cinco anos, a contar do início da exportação.

§ 2.º - Isenção pelo prazo de cinco anos dos impostos estaduais


para o material que precisar importar para a embalagem dos
produtos e para a extração e preparo de óleo e produtos refinados do
mesmo.

§ 3.º - Exportação dos produtos sem a passagem obrigatória pelos


armazéns do Estado, pagando o imposto em vigor de armazenagem da
tabela H e da estatística, da lei de orçamento do mesmo.

§ 4.º - A concessionária obrigar-se-á a iniciar os trabalhos de


instalação da fábrica até dois anos, depois de terminada a guerra europeia.

Artigo 2.º - Revogam-se as disposições em contrário.


Mando, portanto, a todas as autoridades, a quem o conhecimento
e execução da presente lei pertencerem, que a cumpram e façam cumprir
tão inteiramente como nela se contém.

142 Alfredo Wagner Berno de Almeida


O secretário do Interior a faça imprimir, publicar e correr.
Palácio do Governo do Estado do Maranhão, em São Luís 28 de
abril de 1918, 30.º da República.

José Joaquim Marques.


Henrique José Couto.

Publicada na Secretaria do Interior do Estado do Maranhão, em


São Luiz, 23 de abril de 1918.

Juviliano de Souza Barretto.


Admar de Toledo Belfort a fez.

- “Quebrador Manual de Côco Babassu”. Bertino de M. Carvalho,


Brito Passos e Alfredo Benna. 09 de setembro de 1921. Arquivo Ildefonso
Simões Lopes (ISL). ISL, Foto 006. CPDOC- Centro de Pesquisa e
Documentação Histórica Contemporânea do Brasil- FGV

Foto 10 - Arquivo Ildefonso Simões Lopes (ISL- Foto 006) “Quebrador


Manual de Côco Babassu”. Da esquerda para direita: B. de Carvalho,
Brito Passos, Alfredo Benna. 09 de setembro de 1921. Centro de Pesquisa
e Documentação Histórica Contemporânea do Brasil CPDOC- FGV

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 143


Lei n.º 1.039 - de 23 de março de 1923

Toma medidas atinentes à exportação de amêndoas de coco babaçu.

O Doutor Godofredo Mendes Vianna, Presidente do Estado do


Maranhão. Faço saber a todos os seus habitantes que o Congresso decreta
e eu sanciono a lei seguinte:

Artigo 1.º - As amêndoas de coco babaçu quando exportadas nas


estações fiscais ou quando derem entrada nos Armazéns da Recebedoria
do Estado e contiverem qualquer substância estranha como coquilhos de
palmeira diferentes ou misturadas de sal, areia, casca e outras matérias
estranhas, serão apreendidas e sujeitas às penas de contrabando.
Artigo 2.º - Revogam-se as disposições em contrário.

Mando, portanto, a todas as autoridades a quem o conhecimento e


execução da presente lei pertencerem que a cumpram e façam cumprir
tão inteiramente como nela se contém.
O Secretário de Estado da Fazenda a faça imprimir, publicar e
correr.

Palácio da Presidência do Estado do Maranhão, em São Luiz, 23


de março de 1923, 23. da República.

Godofredo Mendes Vianna.


Benedicto de Barros e Vasconcellos.

Publicada na Secretaria de Estado da Fazenda, em São Luiz, 23


de março de 1923.

José Lucas da Costa Araujo


Oficial de Gabinete

144 Alfredo Wagner Berno de Almeida


LEI ESTADUAL N.º 1.106 – 5 de maio de 1923

Proíbe a tiragem de palmitos, destruição de palmeira de babaçu.

O Doutor Godofredo Mendes Vianna, Presidente do Estado do


Maranhão. Faço saber a todos os seus habitantes que o Congresso decreta
e eu sanciono a lei seguinte:
Art. 1.º - Fica terminantemente proibida a tiragem de palmitos e
destruição de palmeiras de babaçu; salvo nos lugares roçados para lavoura.
Art. 2.º - O infrator incorrerá nas seguintes penas:
a) multa de vinte mil réis por pé de palmeira danificada;
b) o dobro dessa multa na reincidência.

Art. 3.º - Serão fiscais da execução da presente lei as autoridades


policiais, municipais e os coletores das rendas estaduais.

Art. 4.º - Verificada a transgressão desta lei, será lavrado o auto


respectivo e intimado o infrator a efetuar o pagamento da multa no prazo
de 48 horas, findo o qual será o auto remetido pelos procuradores fiscais
para a cobrança executiva.
Art. 5.º - Reverterá em benefício do denunciador a metade da multa
imposta ao infrator.

Art. 6.º - As autoridades incumbidas da fiscalização da presente


lei e as de sua aplicação ficarão sujeitas à pena de suspensão do exercício
até 30 dias pelo não cumprimento de seus deveres imposta pelo Presidente
do Estado, mediante denúncia por escrito e devidamente documentada,
ouvidas as partes interessadas.

Art. 7.º - Os municípios poderão adotar medidas coercivas da


destruição das palmeiras de seu território, estabelecendo nos seus códigos de
posturas penas aos infratores que não excederem as estabelecidas pelo Estado.

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 145


Art. 8.º - revogam-se as disposições em contrário.

Mando, portanto, a todas as autoridades a quem o conhecimento e


execução da presente lei pertencerem, que a cumpram e façam cumprir
tão inteiramente como nela se contém.

O secretário de Estado do Interior a faça imprimir, publicar e correr.

Palácio da Presidência do Estado do Maranhão, em São Luiz, 5 de


maio de 1923. 34.º da República.

Godofredo Mendes Vianna.


Juviliano de Souza Barretto.

Publicada na Secretaria de Estado do Interior, em São Luiz, 5 de


maio de 1923.

José Moreira de Almeida,


Diretor

146 Alfredo Wagner Berno de Almeida


Decreto n.º 1243 de 11 de abril de 1925

Concede favores à firma Berringer e Companhia desta Capital para a montagem


neste Estado de uma fábrica com mecanismos e equipamentos para a extração de
óleos vegetais.

O Doutor Godofredo Mendes Viana, presidente do Estado do


Maranhão. Faço saber a todos os seus habitantes que o Congresso deliberou
e eu sanciono a lei seguinte:

Art. 1.º - O Presidente do Estado é autorizado a conceber a firma


Berringer & Companhia desta Capital para a montagem, de uma fábrica,
com mecanismos modernos, para a extração de óleos vegetais, os seguintes
favores:

1.º - isenção de impostos estaduais de importação para os materiais


que importar para a construção do edifício da fábrica e montagem desta,
inclusive os maquinismos e seus acessórios;

2.º - isenção por dez anos dos impostos de importação para o


material que importar para a montagem dos produtos de sua fábrica e
também para a extração e preparo não só do óleo, como dos produtos
refinados do mesmo, esse prazo, redução por cinco anos, de cinquenta
por cento dos impostos que estão a vigorar sobre a importação do referido
material;

3.º - isenção por dez anos, do imposto de produção para o óleo


produzido e purificado na sua fábrica, desde que pague o imposto da
oleaginosas taxadas em lei;

4.º - não concessão de favores superiores a qualquer outra pessoa,


sociedade ou empresa que se proponha a explorar a mesma indústria,

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 147


obrigando-se a firma requerente a iniciar os trabalhos da instalação da
fábrica dentro de dois anos a contar da data desta concessão.

Art. 2.º - Ficam concedidos iguais favores à firma Lisbôa e


Companhia Limitada, de Guajurutina, município do Carurupú, e ao
cidadão J. A. Barbosa de Goes, de Itauna, município de Alcântara e a
isenção do imposto de indústria e profissão, por cinco anos à fábrica São
Clemente, de propriedade de Clemente Cantanhede & Companhia de
Caxias.
Art. 3.º - Fica o governo também autorizado a conceder ao doutor
L. R. de Brito Passos para a sua fábrica destinada ao quebramento mecânico
de babaçu e seu aproveitamento industrial.

a) isenção de impostos estaduais e municipais em espaços de vinte


anos para as fábricas que se destinarem ao quebramento mecânico de
babaçu e ao seu aproveitamento industrial quer sejam na Capital, quer
seja no interior do estado.
b) isenção dos mesmos impostos para barcos, vapores, lanchas e
qualquer embarcações destinadas ao transporte de babaçu em casa, quer
em amêndoas e bem assim para caminhões, tratores com reboques e para
oficinas e fundições de ferro e bronze destinadas a construção e reparo
das embarcações;
c) manter os impostos de produção e exportação pago atualmente
por quilo de amêndoas ou litro de óleo, não podendo estes impostos
sofrerem aumento algum durante o período de isenção;
d) manter livre de qualquer imposto, como atualmente é, durante
o mesmo proíbo, a entrada do babaçu em casca para as fábricas em que
tenham de ser beneficiadas;
e) isenção de direito de produção e exportação, ou de outros
quaisquer, por espaço de dez anos (uma vez que não exista atualmente
produção ou exportação de semelhante produtos), para as fibras de

148 Alfredo Wagner Berno de Almeida


pericarpo, para o fubá do mesocarpo e para a farinha alimentícia do
babaçu, e bem assim para a casca briquetada para combustível, e para os
sub-produtos das cinzas e resíduos de fabricação;
f) isenção dos direitos de importação das máquinas, utensílios e
aparelhos destinados exclusivamente a indústria do babaçu a sua cultura;
g) concessão durante vinte anos para fazer a exploração das
palmeiras existentes nas terras devolutas, compreendidas entre os rios
Grajaú e Mearim limitadas ao nascente pela linha telegráfica que passa
por Bacabal e ao poente paralela tirada a trinta quilômetros da mesma
linha, ficando o concessionário exclusivo do tráfego sobre as estradas que
abrir para a exploração das palmeiras.

Art. 4.º - Iguais favores do artigo e suas alíneas terá todo aquele
que por si ou empresa que venha a organizar se proponha a fazer instalações
de fábricas na Capital e no interior do Estado, para o quebramento do
coco babaçu derivados da sua indústria e cultura.

Art. 5.º - Revogam-se as disposições em contrário.

Mando, portanto, a todas as autoridades quando do conhecimento


e execução da presente lei pertencerem, que a cumpram e façam cumprir
inteiramente como nela se contém.

O secretário de Estado da Fazenda faz publicar e correr.

Palácio da Presidência do Estado do Maranhão em São Luiz, 11


de abril de 1925. 37. da República.

Godofredo Mendes Vianna.

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 149


Decreto n.º 953 - 3 de julho de 1925

Concede isenção de impostos pelo prazo de dez anos ao químico industrial José de
Ribamar Teixeira Leite, ou à empresa que organizar.

O presidente do Estado, usando da atribuição que lhe é conferida


pelo art. 44, n.º 1 da Constituição do Estado, e de acordo com a lei n.º
1.202, de 30 de março de 1925.

DECRETA:

Art. 1. – Fica concedida ao químico industrial José Ribamar Teixeira


Leite, ou à empresa que organizar para a exploração da indústria de óleo
de coco babaçu, óleo de rícino, perfumarias, sabonetes, sabão industrial,
tintas, cola e beneficiamento de fibras vegetais, isenção por dez anos, dos
impostos estaduais, para maquinismos e material mecânico, importados
para o funcionamento da fábrica que fundar para esse fim, assim como a
isenção de impostos de produção e consumo para a matéria prima
importada do estrangeiro ou vinda dos outros Estados, destinada a
fabricação daqueles produtos.

§ Único. – Mesmo quando vindas de outros Estados, a isenção


constante deste artigo não compreende o coco babaçu e quaisquer outras
sementes oleaginosas.

Art. 2.º - Fica também concedida a isenção pelo mesmo espaço de


tempo, do imposto estadual de produção para o óleo, perfumarias,
sabonetes, sabão industrial, tintas, cola e fibras vegetais produzidas na
fábrica.

150 Alfredo Wagner Berno de Almeida


§ 1.º - Para que os produtos constantes deste artigo possam gozar
de isenção aqui estabelecida é necessário que, com exceção do óleo, sejam
superiores aos similares fabricados atualmente no Estado.

§ 2.º - Para o efeito do disposto no parágrafo anterior, o Governo


nomeará uma comissão de técnicos que dará o seu parecer sobre a
qualidade dos artigos fabricados.

Art. 3.º - Revogam-se as disposições em contrário.

Palácio da Presidência do Estado do Maranhão, em São Luiz, 3 de


julho de 1925.

Godofredo Mendes Vianna.


Alberto Correia Lima

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 151


DECRETO N.º 982 de 17 de setembro de 1925

Dispõe sobre a cobrança dos impostos sobre amêndoas de coco babaçu, no interior do
Estado

O Presidente do Estado, usando da atribuição que lhe confere o


n.º 1 do art. 44 da Constituição do Estado e autorizado pelo art. 18, n.º 1
da lei n.º 1.228, de 6 de abril de 1925,

DECRETA

Art. 1.º - A cobrança dos impostos de produção sobre amêndoas


de coco babaçu, mesmo quando destinadas a Capital, será facultativa nas
Estações Fiscais do interior do Estado, com exceção, porém, das
compreendidas, nas margens dos rios Parnaíba e Tocantins e no litoral,
onde a cobrança será obrigatória, não só quanto ao imposto de produção,
como também do de exportação.

Art. 2.º - Revogam-se as disposições em contrário.

Palácio da Presidência do Estado do Maranhão, em São Luiz, 17


de setembro de 1925.

Godofredo Mendes Vianna.


Alberto Correa Lima

152 Alfredo Wagner Berno de Almeida


DECRETO ESTADUAL N.º 1.134 - de 17 de março de 1927

Concede isenção de impostos pelo prazo de dois anos ao cidadão J. A. Barbosa de


Góes, estabelecido com fábrica de óleos, na ilha de Itaúna município de Alcântara.

O Presidente do Estado, tendo em vista a lei n.º 1.243, de 11 de


abril de 1925,

DECRETA

Art. 1.º - Fica concedida, pelo prazo de dois anos, ao cidadão J. A.


Barbosa de Góes, proprietário de uma fábrica de óleos na ilha de Itaúna,
município de Alcântara, isenção dos impostos de produção e consumo e
de indústria e profissão, para seu estabelecimento,

Art. 2.º - Revogam-se as disposições em contrário.

Palácio da Presidência do Estado do Maranhão em São Luiz, 17


de março de 1927.

J. Magalhães de Almeida
Henrique José Couto

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 153


LEI ESTADUAL N.º 1.278 – de 29 de março de 1927

Autoriza o Governo do Estado a promover um concurso entre os fabricantes de


máquinas para quebrar babaçu.

J. Magalhães de Almeida, Presidente do Estado do Maranhão. Faço


saber a todos os seus habitantes que o Congresso decreta e eu sanciono a
lei seguinte:

Art. 1.º - No intuito de fomentar o desenvolvimento da indústria


do coco babaçu, fica o Governo do Estado autorizado a promover um
concurso público entre os fabricantes de máquinas para quebrar babaçu.

Art. 2.º - O Governo fará publicar editais pelos jornais deste Estado
e fora dele, se assim julgar conveniente, ficando a seu crédito o prazo
para a realização do concurso.

Art. 3.º - A inscrição para o concurso será feita mediante


requerimento dirigido ao Secretário Geral do Estado e será encerrada 30
dias antes da data marcada para a realização do concurso.

§ Único - Os concorrentes deverão declarar no requerimento qual


o espaço que lhes é necessário para a montagem de suas máquinas.

Art. 4.º - O concurso será dividido em duas seções, sendo uma de


máquinas acionadas a braço e outra para máquinas acionadas a motor.

Art. 5.º - O concurso terá a duração de cinco dias, devendo os


concorrentes fazer funcionar as suas máquinas durante 8 horas em cada dia.

Art. 6.º - O Governo providenciará o fornecimento de babaçu novo


da mesma qualidade para ser quebrado por todas as máquinas, devendo o
coco se achar convenientemente sec. em boas condições de ser trabalhado.

154 Alfredo Wagner Berno de Almeida


Art. 7.º - O coco a quebrar será fornecido a cada concorrente,
convenientemente pesado, sendo este peso conferido pelo concorrente e
pela comissão julgadora.

Art. 8.º - O julgamento será feito por uma comissão de técnicos


industriais e comerciantes, à escolha do Governo, e mais ainda, de um
representante da Sociedade Maranhense de Agricultura.

§ Único - Não poderá fazer parte da comissão julgadora qualquer


fabricante de máquinas que se tiver inscrito no concurso.

Art. 9.º - Para base do julgamento serão levados em consideração


os seguintes pontos essenciais:
1.º - Simplicidade do maquinismo destinado a trabalhar no interior
do Estado;
2.º - quantidade de coco quebrado em 8 horas de trabalho médio
nos 5 dias do concurso;
3.º - rendimento em amêndoas sobre o coco quebrado;
4.º - qualidade de amêndoas obtidas, de acordo com a classificação
oficial.

Art. 10. – O Governo encerrada a inscrição, providenciará lugar


espaçoso e de fácil acesso ao público, afim de que os concorrentes possam
fazer as suas instalações, de acordo com o espaço requisitado no
requerimento de inscrição.

Art. 11. – Como animação, o Governo estabelecerá dois prêmios,


um para máquinas acionadas a motor e outro para máquinas manuais.

Art. 12. – Fica o Governo autorizado a abrir os necessários créditos


para a execução da presente lei.

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 155


Art. 13. – Revogam-se as disposições em contrário.

Mando, portanto, a todas as autoridades a quem o conhecimento e


execução da presente lei pertencerem, que a cumpram e façam cumprir
tão inteiramente como nela se contém.

O Secretário Geral do Estado a faça imprimir, publicar e correr.

Palácio da Presidência do Estado do Maranhão em São Luiz, 29


de março de 1927.

J. Magalhaes de Almeida
Henrique José Couto

156 Alfredo Wagner Berno de Almeida


Lei n.º 1.361 – de 12 de abril de 1929

Concede isenção de imposto a produtos da casca de coco babaçu fabricados por


Alfredo Vidal, João Elias Murad e Agostinho Souza

J. Magalhães de Almeida, Presidente do Estado do Maranhão. Faço


saber a todos os seus habitantes que o Congresso decreta e eu sanciono a
lei seguinte:

Art. 1.º - É concedida a Alfredo Vidal e João Elias Murad, residentes


em Itapecurú-mirim, deste Estado, isenção, pelo espaço de dez anos, de
impostos estaduais sobre o coque metalúrgico, ácido ascético e outros
produtos da casca do coco babaçu que fabricarem.

Art. 2.º - É igualmente concedida a Agostinho Fernandes Sousa,


residente em Caxias, também deste Estado, pelo espaço de dez anos,
isenção de todos os impostos estaduais sobre palhinha para móveis, que
extrair de plantas da flora maranhense.

Art. 3.º - Revogam-se as disposições em contrário.

Mando, portanto, a todas as autoridades a quem o conhecimento e


execução da presente lei pertencerem, que a cumpram e façam cumprir
tão inteiramente como nela se contém.

O Secretário Geral do Estado a faça imprimir publicar e correr.

Palácio da Presidência do Estado do Maranhão, em São Luiz, 12


de abril de 1929, 41.º da República.

J. Magalhães de Almeida.
Henrique José Couto.

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 157


Publicada na Secretaria Geral do Estado do Maranhão, em São
Luís, 12 de abril de 1929.

José Moreira de Almeida.


Diretor da 1.ª Diretoria.

158 Alfredo Wagner Berno de Almeida


Decreto nº 903 - de 29 de agosto de 1935

Modifica o decreto 901, de 17 do corrente mês, que concede isenção de impostos a


estabelecimentos que exploram a indústria extrativa do óleo de babaçu e de outras
sementes oleaginosas.

O Governador do Estado do Maranhão, no uso de suas atribuições


legais, tendo em vista o parecer n.º 116 do Conselho Consultivo,

DECRETA:

Art. 1.º - São isentos de impostos de indústria e profissão as fábricas


de óleo de babaçu e de outras sementes oleaginosas.

Art. 2.º - Ficam também isentos de taxas de armazenagem e


capatazia os tambores importados pelos estabelecimentos industriais para
acondicionamento do óleo de sua produção.

Art. 3.º - O presente decreto entrará em vigor na data de sua


publicação; revogadas as disposições em contrário, notadamente o decreto
901, de 17 do corrente mês.

Palácio do Governo do Estado do Maranhão, em São Luiz, 29 de


agosto de 1935.

ACHILLES LISBOA
Máximo Ferreira

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 159


Ofício nº 11, da Associação Comercial do Maranhão ao Adido
Comercial do Brasil em Washington (E.U.A)
N.º 11/ACM
São Luís, 11 de janeiro de 1936

Ilmº Sr. Paulo G. Hasslocher


M. D. Adido Comercial do Brasil em
WASHINGTON – E.E.U.U. da América

Acusamos recebida s/carta de 31 de dezembro último.


Cumpre-nos informar a V. Sa. que, não obstante as informações a
que se dignou ministrar-nos em s/estimada carta, o comércio desta praça
já teve conhecimento por notícias telegráficas particulares, haverem sido
aprovadas pelo Congresso as concessões relativas à entrada de óleos
vegetais provenientes das ilhas Filipinas, faltando apenas a
manifestação do Senado.

É de lamentar se tais concessões vierem a ser definitivamente


assentadas porque o nosso País, especialmente este Estado, que é o maior
produtor de babaçu, passará a sofrer grave prejuízo na sua balança
comercial, decrescendo sensivelmente as suas rendas de exportação.
Esperamos que V. Sa., na sua reconhecida operosidade, envide os
possíveis esforços para que não se venha a consumar aquela medida
protecionista em detrimento de uma das nossas mais vigorosas fontes de
riqueza econômica.
Reiteramos a V. Sa. os nossos protestos de elevada estima e distinto
apreço.

Diretor de semana Diretor - Presidente

160 Alfredo Wagner Berno de Almeida


Decreto-lei n.º 334 – de 15 de março de 1938

Estabelece a classificação e fiscalização dos produtos agrícolas e pecuários e matérias-


primas do país, destinados à exportação, visando a sua padronização.

O Presidente da República, usando da atribuição que lhe confere


o art. 180 da Constituição e

Considerando que é necessário para o aumento da exportação dos


produtos agrícolas e pecuários e das matérias-primas do país, a adoção de
medidas rigorosas que permitam a obtenção de tipos comerciais definidos
e aperfeiçoados;

Considerando que por iniciativa do Conselho Federal do Comércio


Exterior foi encaminhado ao poder Legislativo um projeto de lei nesse
sentido, que não tinha chegado ao termo de subir à sanção ao ser outorgada
a nova Constituição;

Tenho ouvido novamente o Conselho Federal de Comércio


Exterior,

D E C R E T A:

Art. 1.º - Fica estabelecido a classificação e fiscalização compulsória


dos produtos agrícolas e pecuários e das matérias-primas destinadas à
exportação para o estrangeiro, visando a sua padronização.

§ 1.º - Fica estabelecido a classificação e fiscalização compulsória


dos produtos agrícolas e pecuários e das matérias-primas destinadas à
exportação para o estrangeiro, visando a sua padronização.
§ 1.º - Para esse fim o Ministério da Agricultura pelo órgão
apropriado e em colaboração com o Ministério do Trabalho, Indústria e

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 161


Comércio e as associações de produtores legalmente constituídas,
organizará sucessivamente a classificação dos ditos produtos por espécie,
qualidade, variedade tipo e outros caracteres convenientes.
§ 2.º - Uma vez restabelecidas as respectivas classificações só
poderão ser exportados os produtos acompanhados de certificados
expedidos pelo Ministério da Agricultura e que provem a sua regular
adaptação aos regulamentos e instruções a que se refere este Decreto-lei.
§ 3.º - Para execução do disposto no § 1º as alfândegas e as mesas-
de-renda, do país, não despacharão produtos sem exibição do respectivo
certificado.

Art. 2º - Os volumes depositados em trapiches ou armazéns e


destinados à exportação não poderão ser substituídos após a sua fiscalização
sem prévia autorização e assistência da repartição fiscalizadora.

Parágrafo único. Verificada a substituição durante ou depois da


fiscalização, não será permitida à exportação, incorrendo o exportador na
multa de 1.000$00 a 2:000$000, cobrados por dobro nas reincidências,
imposta pela repartição fiscalizadora com recurso para o ministro da
Agricultura, sendo considerado sem efeito o certificado expedido.

Art. 3.º - Verificando-se, nos portos de destino, fraudes não


descobertas pela fiscalização, ou praticadas depois dela, confirmadas
oficialmente por parte das autoridades consulares ou das técnicas para isso
designadas, será pelo Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio ordenada
a abertura do inquérito para a descoberta dos responsáveis, que serão punidos
com as penas de multa de 500$000 a 5:000$000 e de suspensão de atividade
comercial, pelo prazo de um ano, se se tratar do próprio exportador.
Art. 4.º - A marca, os rótulos, os desenhos, os dizeres e a natureza
dos envoltórios dos produtos de exportação ficarão sujeitos a aprovação
e ao registro nos departamentos técnicos do Ministério do Trabalho,
Indústria e Comércio, passando a fazer parte integrante da classificação.

162 Alfredo Wagner Berno de Almeida


Parágrafo único: O Conselho Federal de Comércio Exterior, depois
de ouvidas as repartições competentes do Ministério da Agricultura e do
Trabalho, Indústria e Comércio, proporá ao Governo o estabelecimento
de regras uniformes a serem observadas, inclusive quanto a envoltórios e
material de embalagem dos produtos de exportação.

Art. 5.º - Serão cobradas pelas fiscalizações, análises, certificados


e certidões, taxas que jamais poderão exceder, na soma de todas as
parcelas, de um quarto por cento sobre o valor médio da mercadoria nos
portos de embarque.

§1.º - Só poderão ser cobradas taxas em remuneração de serviços


prestados e relativamente a produtos sobre os quais haja os respectivos
serviços aparelhados.
§ 2.º - O produto das taxas a serem criadas e das existentes será
destinado ao custeio dos serviços de fiscalização e classificação dos
produtos exportadores, a juízo o Governo.

Art. 6.º - Para a execução das disposições deste Decreto-lei o


Governo expedirá os regulamentos e instruções que para esse fim forem
necessários, revendo no que se tornar preciso, as taxas e as disposições
atualmente em vigor.

Art. 7.º - Revogam-se as disposições em contrário.

Rio de Janeiro, 15 de março de 1938, 117.º da Independência e


50.º da República.
Getúlio Vargas
Fernando Costa
Waldemar
Falcão
Arthur de Souza Costa
Oswaldo Aranha

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 163


Decreto n.º 37 - De 11 de abril de 1938

Institui “Dia do Babaçu”

O Secretário Geral do Estado, respondendo pelo expediente da


Administração Estadual, no uso de suas atribuições legais;

Considerando que o babaçu constitui uma das maiores reservas


econômicas do Maranhão;

Considerando ainda a necessidade de torna-la conhecida e de


estimular o maranhense na exploração daquela fonte de riqueza;

Considerando mais que dita propaganda, dentro do Estado, tornar-


se-á mais eficiente designando-se um dia em que, obrigatoriamente, se
façam preleções nas escolas e nos departamentos da administração
indicados pelo Governo;

Considerando, finalmente, que, como homenagem ao benemérito


Interventor Dr. Paulo Martins de Souza Ramos, a cujos patrióticos esforços
muito deve o Estado com a divulgação de preciosos elementos atinentes
ao aludido produto maranhense, é de se instituir o “Dia do Babaçu”, na
mesma data em que aquele eminente estadista proferiu brilhante
conferência sobre o assunto, na Capital da República,

D E C R E T A:

Art. 1.º - Fica designado o 13 de abril para nele se comemorar o


“Dia do Babaçu”.

164 Alfredo Wagner Berno de Almeida


Art. 2.º - A Diretoria de Instrução Pública e as Prefeituras
Municipais providenciarão para que em todas as escolas, sejam feitas
preleções sobre o valor do babaçu na economia nacional e do Maranhão.

Art. 3.º - Revogam-se as disposições em contrário.

Palácio do Governo do Estado do Maranhão, em São Luís,


11 de abril de 1938.

PAULO MARTINS DE SOUZA RAMOS


José dos Santos Carvalho;
Diretor, respondendo pelo expediente da
Secretaria Geral do Estado

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 165


DECRETO-LEI Nº 153 MA – de 19 de novembro de 1938

Concede vantagens às usinas de extração de óleos e aproveitamento do subproduto do


coco babaçu, que se instalarem no território do Estado.

O Interventor Federal do Estado do Maranhão, usando das suas


atribuições legais, e:

- Considerando que a industrialização do coco babaçu, no território


do Estado, representa segura garantia contra as frequentes flutuações dos
mercados no sul da República e do estrangeiro, onde o produto em
referência, exportado como ainda é, em amêndoas, raramente alcança
cotação compensadora;
- Considerando, portanto, que incentivar a instalação, nesta capital
e nos municípios do interior do Estado, de usinas convenientemente
aparelhadas para aquele fim, constitui medida que muito favorecerá a
economia do Estado;
- Considerando finalmente que o Conselho Técnico de Economia
e Finanças, ouvido sobre o assunto, manifestou-se favorável à expedição
do presente ato,

DECRETA

Art. 1.º - As usinas que se instalarem no território do Estado, com


o aparelhamento necessário à industrialização do fruto das palmeiras
babaçu, aproveitando tanto a amêndoa como a casca do coco, esta, quanto
a um dos seus sub-produtos, pelo menos gozarão, pelo período de 10(dez)
anos, a começar da data em que iniciarem os seus trabalhos, das seguintes
vantagens:
a) – isenção do imposto de indústrias e profissões;
b) – instalação de 2%, no máximo do imposto sobre a exportação
dos produtos que fabricarem;

166 Alfredo Wagner Berno de Almeida


Art. 2.º - Para gozar das vantagens acima enumeradas, a firma ou
empresa proprietária da usina dirigirá ao Chefe de Estado um memorial
de que conste a descrição detalhada do estabelecimento com indicação
dos aparelhos nele empregados, volume e espécie da matéria-prima que
poderá ser consumida, diariamente, e capacidade de produção em cada
dia de trabalho normal, além de outras informações que se tornarem
necessárias.

Art. 3.º - Examinando o material a que se refere o artigo precedente,


o chefe do Estado, verificando se encontrar a usina nas condições previstas
do art. 1.º, concederá, por decreto, as vantagens consignadas no aludido
dispositivo.

Art. 4.º - O Governo designará um funcionário da Fazenda para


fiscalizar os estabelecimentos que passarem a gozar das vantagens ora
concedidas.

Parágrafo único – Se no decurso do prazo de 10 anos a que alude


o artigo 1.º, o estabelecimento deixar de preencher as condições exigidas
por este Decreto-lei, o fiscal comunicará a ocorrência ao Governo para
que este revogue o ato que houver expedido nos termos do art. 3.º.

Art. 5.º - Revogam-se as disposições em contrário.

Palácio do Governo do Maranhão, em São Luís, 19 de novembro


de 1938.

Paulo Martins de Souza Ramos


Boanerges Neto Ribeiro

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 167


Decreto n.º 5.739 – de 29 de maio de 1940

Autoriza o regulamento da padronização dos produtos agrícolas epecuários e das


matérias-primas, seu subprodutos e resíduos de valor secundário.

O presidente da República, usando das atribuições que lhe confere


o art. 74 da Constituição, e tendo em vista o disposto no art. 6.º do Decreto-
lei n.º 334, de 15 de março de 1938, resolve:

Art. 1.º - Fica aprovado o regulamento que com este baixa, assinado
pelo Ministro de Estado dos Negócios da Agricultura, dispondo sobre a
padronização dos produtos agrícolas e pecuários e das matérias-primas,
seus subprodutos e resíduos de valor econômico.

Art. 2.º - Revogam-se as disposições em contrário.

Rio de Janeiro, 29 de maio de 1940, 119.º da Independência e 52.º


da República.

Getúlio Vargas
Fernando Costa

Regulamento da padronização dos produtos agrícolas e pecuários e das matérias-


primas, seus subprodutos e resíduos de valor econômico, baixado como o Decreto
número 5.739 de 29 de maio de 1940, em virtude das disposições do Decreto-lei n.º
334 de 15 de março de 1938.

168 Alfredo Wagner Berno de Almeida


Capítulo I
DISPOSIÇÕES PRELIMINARES

Art. 1.º - Compete ao Serviço de Economia Rural, nos termos do


regimento aprovado pelo Decreto n.º 4.440, de 26 de junho de 1939,
promover a especificação e o estabelecimento dos padrões para
classificação, e bem assim, na forma do disposto do Decreto-lei n.º 334
de 15 de março de 1938, fiscalizar a classificação e a exportação dos
produtos agrícolas e pecuários e das matérias-primas, seus subprodutos
de valor econômico.

Parágrafo único – As especificações e a fiscalização são extensivas


à qualidade e à apresentação dos produtos, compreendendo a determinação
de pesos e medidas, embalagens, acondicionamento e condições de
armazenagem e transporte.

Art. 2.º - São consideradas zonas de fiscalização todos os pontos


do território nacional por onde se verifique a saída de mercadorias para os
mercados externos.

Art. 3.º - A fiscalização será exercida:


a) pelo Serviço de Economia Rural, por intermédio de suas
agências e Postos de Classificação e Fiscalização;
b) pelos Postos de Classificação instituídos em virtude do disposto
nas alíneas b, c, d e e do art. 27 na parte relativa às suas atribuições;
c) pelas Alfândegas e Mesas-de-Rendas, no que se refere aos
despachos previstos nos § 3.º do art. 1.º do Decreto-lei n.º, de 15 de
março de 1938.

Art. 4.º - O Serviço de Economia Rural, com a colaboração dos


órgãos técnicos e das classes interessadas promoverá investigações e
estudos que visem, no interesse da padronização, organizar sucessivamente

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 169


a classificação dos produtos agrícolas e pecuários e das matérias-primas,
seus subprodutos e resíduos de valor econômico.

Capítulo II
DAS ESPECIFICAÇÕES

Art. 5.º - Entende-se por especificação a enumeração das


características peculiares a cada produto, estabelecida em relação à sua
qualidade e apresentação.

Parágrafo único. O Serviço de Economia Rural especificará


igualmente, para cada produto, os requisitos técnicos que devem preencher
e, bem assim, os pesos e dimensões dos volumes e as condições de
embalagens, acondicionamento, armazenamento e transporte.

Art. 6.º - As especificações obedecerão a uma escala fixável em


função de natureza, qualidade e apresentação do produto e das exigências
dos mercados, devendo ser estabelecidos, para cada produto, considerando-
se a sua colocação nos mercados, antes e depois de beneficiados.

Art. 7.º - No estabelecimento das especificações, em que serão


definidos os termos técnicos usados, descritos os padrões e fixadas as
tolerâncias admitidas, ter-se-á em vista a facilidade:

a) do reconhecimento de suas características;


b) de constituição dos padrões;
c) dos trabalhos de classificação;
d) de identificação dos produtos classificados

170 Alfredo Wagner Berno de Almeida


Capítulo III
DOS PADRÕES

Art. 8.º - Os padrões serão estabelecidos, para cada produto, por


uma ou mais séries de tipos.

§ 1.º - Às séries de tipos correspondem grupos ou classes referentes


à espécie e variedade do produto, ou ainda, ao seu emprego, forma ou
estado de apresentação.
§ 2.º - Os tipos caracterizados e distinguidos uns dos outros por
especificações que indiquem, precisa e expressamente, a qualidade do
produto.

Art. 9.º - O número de tipos de uma mesma série é variável e será


estabelecido segundo as características da especificação do produto, tendo-
se em vista a facilidade de classificação, as conveniências da produção e,
sobretudo, as exigências dos mercados.
Art.10.º - A cada série de tipos corresponde uma escala de tolerância
de especificados defeitos.

§ 1.º - Da descrição dos tipos constará, além das características


inerentes ao produto, sua apresentação e qualidade, a tolerância dos
defeitos admitidos para cada tipo.
§ 2.º - As diferenças entre os tipos imediatos de uma mesma série
serão sempre relativas e, tanto quanto possível, em graus equivalentes.

Art. 11.º - Os padrões serão representados por uma série de


amostras correspondentes aos tipos.

Parágrafo único – Na feitura dos padrões só poderão ser utilizadas


amostras que correspondam rigorosamente às especificações
características dos tipos.

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 171


Art. 12.º - Os padrões servirão de modelo comparativo para a
classificação, mas só poderão ser utilizados como tal os preparados,
autentificados e fornecidos pelo Serviço de Economia Rural, que fixará o
prazo de sua validez e as condições de seu uso e conservação.

§ 1.º - O fornecimento dos padrões será feito a requerimento dos


interessados, mediante prévio pagamento dos preços fixados.
§ 2.º - O prazo de validez dos padrões será limitado de acordo
com a natureza do produto, devendo, entretanto, ser inutilizado o padrão,
antes de terminado o prazo estabelecido:

a) quando se verifique alteração ou substituição em qualquer de


suas amostras;
b) no caso do estabelecimento de novos padrões.

Art. 13.º - É vedada a transferência de propriedade de padrões


sem a prévia audiência do Serviço de Economia Rural, que, mediante
inspeção, verificará se o padrão a ser transferido preenche as condições
estabelecidas.

Art. 14.º - Os padrões adquiridos ou transferidos serão


acompanhados da respectiva descrição, devendo constar desta o limite
da validez do padrão, as condições de seu uso e conservação e o nome do
proprietário.
Art. 15.º - O Serviço de Economia Rural apresentará e inutilizará
os padrões encontrados em poder de pessoas que não sejam seus
proprietários.

172 Alfredo Wagner Berno de Almeida


Capítulo IV
DAS AMOSTRAS

Art. 16.º - Entende-se por amostra, determinada qualidade de um


produto retirado do lote a ser classificado.

Art. 17.º - As amostras serão retiradas de maneira que representem,


com segurança, a qualidade do produto a que se referem.

Art. 18.º - Nos produtos classificáveis por amostras, a retirada


destas se fará sob a orientação e responsabilidade dos classificadores
subordinados aos Postos criados em virtude do disposto nas alíneas, a, b,
c, d e e do art. 27, cabendo aos classificadores assinalá-los com os elementos
indispensáveis à sua perfeita identificação com o lote de origem.

Art. 19.º - O peso ou o volume das amostras bem como as condições


técnicas a serem observadas na sua retirada, serão fixados, por produto,
nos respectivos regulamentos de classificação e fiscalização da exportação,
ou, ainda, nas instruções baixadas para a boa execução do disposto neste
regulamento.

Art. 20.º - Após a classificação, será o restante da amostra,


perfeitamente identificável com o lote do produto, conservado no Posto
que procedeu à classificação durante o prazo regulamentar estabelecido.

Parágrafo único - Uma parte da amostra, devidamente autenticada,


poderá ser fornecida ao proprietário da mercadoria, a seu requerimento.

Art. 21.º - As amostras retiradas em desacordo com o disposto no


Art. 18.º poderão ser classificadas a requerimento dos interessados, para
seu uso exclusivo, devendo, neste caso, ser emitido um certificado especial
de classificação, no qual se declarará expressamente que esta se refere

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 173


somente à amostra apresentada e não ao lote do produto de sua origem.
Parágrafo único – A classificação a que se refere este artigo, poderá
ser extensiva ao lote do produto de origem da amostra, sempre que
autorizada em disposição expressa dos regulamentos de classificação de
cada produto.

Capítulo V
DO ACONDICIONAMENTO E DA EMBALAGEM

Art. 22.º - Entende-se por embalagem o envolvimento externo


dos produtos e por acondicionamento os sistemas de arrumação e proteção
destes, dentro das embalagens.

Art. 23.º - Na especificação as embalagens e nas referentes aos


acondicionamentos, ter-se-ão em vista:

a) economia de custo e facilidade de manejo e transporte;


b) boa apresentação do produto;
c) segurança, proteção e conservação do produto, sua embalagem
e acondicionamento;
d) facilidade de inspeção e certificação do estado do produto.

Art. 24.º - A parte visível de um produto, no se acondicionamento


ou embalagem, dever ser uma amostra fiel de todo o conteúdo.

Capítulo VI
DAS MARCAS E RÓTULOS

Art. 25.º - A marcação e rotulagem dos volumes destinados à


exportação e, bem assim, de todos aqueles que contenham produtos
classificados, será feita em obediência às disposições legais, regulamentos
e instruções em vigor.

174 Alfredo Wagner Berno de Almeida


Art. 26.º - Não será expedido certificado de fiscalização de
exportação sobre produtos cujos volumes estejam marcados ou rotulados
em desacordo com o disposto no artigo anterior.

Capítulo VII
DA CLASSIFICAÇÃO

Art. 27.º - A classificação dos produtos agrícolas e pecuários e das


matérias-primas, seus subprodutos e resíduos de valor econômico será
feita:

a) pelo Serviço de Economia Rural ou, com sua colaboração, por


outros órgãos técnicos do Ministério da Agricultura, para esse fim
designados pelo Ministro;
b) pelos Governos Estaduais, por intermédio de seus serviços ou
instituições estaduais, especializadas, oficiais ou oficializadas, mediante
acordo de delegação de poderes aos Estados, firmado pelo Ministério da
Agricultura;
c) por órgãos paraestatais especializados, mediante delegação de
atribuições concedidas pelo Ministério da Agricultura;
d) por bolsas de produtos agrícolas, pecuárias e de matérias-primas,
seus subprodutos e resíduos, mediante autorização do Ministério da
Agricultura;
e) por sociedades cooperativas ou empresas idôneas, quando para
esse fim licenciadas pelo Ministério da Agricultura.

§ 1.º - Os órgãos previstos na alínea c só poderão classificar


produtos de sua especialidade.
§ 2.º - As instituições referidas na alínea d só poderão classificar
os produtos para os quais tenham sido expressamente autorizadas.
§ 3.º - As sociedades cooperativas mencionadas na alínea e só
poderão ser licenciadas para a classificação de produtos pertencentes aos

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 175


respectivos associados, e as empresas referidas na mesma alínea, os
produtos que tenham sido por elas beneficiados, industrializados ou
embalados.

Art. 28.º - A classificação pelas instituições estaduais referidas na


alínea b do art. 27.º, quando não prevista expressamente nos acordos de
delegação de poderes, será autorizada pelo Ministério da Agricultura por
solicitação do Estado interessado.

Parágrafo único – Mediante autorização do Ministério da


Agricultura, poderá o Estado contratar a execução dos trabalhos de
classificação com os órgãos mencionados nas alíneas a e e do art. 27.º

Art. 29.º - A delegação de atribuições aos órgãos paraestatais


referidos na alínea e do art. 27.º será feita em relação aos produtos de sua
especialidade.

Art. 30.º - Os órgãos classificadores só poderão exercer suas


atribuições quando dispuserem das instalações e do aparelhamento exigidos
pelo Serviço de Economia Rural, tendo em vista os produtos a serem
classificados.

Parágrafo único - O Serviço de Economia Rural inspecionará


periodicamente as instalações e o aparelhamento, mencionadas neste artigo,
a fim de verificar se o seu estado de conservação permite o perfeito
desempenho dos trabalhos de classificação, apontado, em caso contrário,
as deficiências encontradas, as quais deverão ser supridas dentro do prazo
estabelecido, sob pena cassada e autorização para classificar.

Art. 31.º - Os órgãos mencionados nas alíneas a, b, c, d e e do art.


27.º não poderão emitir certificados de classificação que não estejam
assinados por classificador habilitado na forma deste regulamento.

176 Alfredo Wagner Berno de Almeida


Art. 32.º - Para que seja procedida a classificação, deverá o
interessado requere-la à direção do Posto respectivo, declarando, com o
“romaneio”:

a) a natureza do produto;
b) sua procedência e zona de produção;
c) condições e natureza da embalagem e acondicionamento;
d) número de unidades em cada lote, peso médio, líquido e bruto,
de cada unidade e de cada lote;
e) marcas características das unidades e dos lotes;

Art. 33.º - As declarações referidas no artigo anterior serão feitas


em formulários impressos, os quais obedecerão a modelos oficialmente
adotados.

Art. 34.º - Não será permitida, após a classificação, a mistura de


produtos ou de tipos diferentes.

Art. 35.º - Uma vez classificado um lote de produtos, só poderá o


mesmo ser substituído na sua totalidade ou em qualquer de suas partes
com a assistência do Serviço de Economia Rural, e desde que essa
substituição não afete a classificação já procedida.

Parágrafo único – No caso da substituição alterar a classificação,


ficará todo o lote sujeito a nova classificação.

Capítulo VIII
DA RECLASSIFICAÇÃO

Art. 36.º - A reclassificação será determinada ou exigida sempre


que seja verificado, em inspeção feitas às disposições regulamentares em
vigor.

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 177


§ 1.º - Tendo a classificação sido feita pelo órgão indicado na alínea
a do art. 27.º, ou com a sua colaboração, será a reclassificação procedida
pela Agência ou Posto de classificação e Fiscalização do Serviço de
Economia Rural.
§ 2.º - No caso de ter a classificação sido realizada por qualquer
dos órgãos indicados nas alíneas a, b, c, d, e e do art. 27.º serão eles
notificados pelo Serviço de Economia Rural para que seja feita a
reclassificação imediata, quando se tratar de produto deteriorável, e dentro
de 48 horas nos demais casos.
§ 3.º - Decorrido o prazo estabelecido no parágrafo anterior fará o
Serviço de Economia Rural, por suas Agências e Postos de Classificação
e Fiscalização, a reclassificação.

Art. 37.º - No caso da reclassificação vir a ser determinada em


mercado ou posto sujeito a jurisdição de outra Agência ou Posto de
Classificação e Fiscalização do Serviço de Economia Rural, é dispensada
a notificação e o prazo previsto no § 2.º do artigo anterior.

Art. 38.º - A reclassificação determinada ou exigida em virtude de


engano ou erro do classificador será feita sem ônus para o exportador ou
parte interessada.
Art. 39.º - A reclassificação procedida a requerimento ou em virtude
de terminação do prazo regulamentar estabelecido para a validez dos
certificados de classificação do produto será custeada pelo requerente ou
interessado.

Capítulo IX
DOS CLASSIFICADORES

Art. 40.º - Para dar cumprimento ao disposto neste regulamento


fica estabelecido, no Serviço de Economia Rural o registro dos
classificadores de produtos e matérias-primas de origem animal, mineral
e vegetal.

178 Alfredo Wagner Berno de Almeida


Parágrafo único – O registro será feito por classe e produto.

Art. 41.º - Nenhum classificador poderá assinar certificados de


classificações sem o prévio registro de seu título e especialidade.

Art. 42.º - Os classificadores diplomados em cursos instituídos ou


fiscalizados pelos governos federal e estaduais, ou em estabelecimentos
julgados idôneos pelo Serviço de Economia Rural, serão registrados
independentemente de provas de habilitação, considerando-se como
especialidade aquela referida em seu título.

Art. 43.º - Os classificadores habilitados em curso que não


satisfaçam as exigências do artigo anterior e, bem assim, os práticos que
venham há mais de ano exercendo a profissão, poderão, no prazo de um
ano, mediante prova de habilitação, ser licenciados e registrados.

Parágrafo único – Para os produtos, cuja classificação não esteja


ainda regulamentada, o prazo de um ano, acima referido, será contado da
data da respectiva regulamentação.

Art. 44.º - A prova de habilitação a que se refere o artigo anterior


será revestida de caráter prático e realizada no Serviço de Economia Rural,
ou em suas Agências, sendo, em qualquer caso, designada a banca
examinadora pelo Diretor do Serviço.
Art. 45.º - Os classificadores, quando no exercício de suas funções,
serão responsáveis pelas irregularidades ou fraudes, verificadas na tomada
de amostras e na classificação.

Parágrafo único – A coleta, manejo e transporte de amostras para


fins de classificação é da responsabilidade direta do respectivo classificador.

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 179


Art. 46.º - Verificada, mediante processo administrativo, fraude
ou falta de exação, do desempenho das funções, ficarão os classificadores
sujeitos, sem prejuízo de responsabilidade criminal, às seguintes
penalidades;

a) suspensão do exercício das funções até 90 dias;


b) cancelamento do registro, quando se tratar de reincidência.

§ 1.º - A aplicação da pena de suspensão será solicitada à direção


do órgão responsável pela classificação.
§ 2.º - O cancelamento do registro, temporária ou definitivamente
será aplicado pelo Ministro da Agricultura.
§ 3.º - Para efeito do disposto neste artigo, os funcionários e
extranumerários federais que exercem funções privativas de classificadores
serão punidos de conformidade com o disposto no Decreto-lei n.º 1.713
de 28 de outubro de 1939.

Art. 47.º - O registro de classificador poderá ainda ser cancelado


em virtude de moléstia ou defeito físico comprovados, que na forma da
legislação em vigor o inabilite, temporária ou definitivamente, para o
exercício da função.

Art. 48.º - Visando o preparo de técnicos classificadores, promoverá


o Serviço de Economia Rural a regulamentação das escolas e cursos de
classificação, seu reconhecimento e fiscalização.

Capítulo X
DOS CERTIFICADOS DE CLASSIFICAÇÃO E DA
FISCALIZAÇÃO DA EXPORTAÇÃO

Art. 49.º - Em obediência ao art. 1.º do Decreto-lei número 334,


de 15 de março de 1938, ficam instituídos os certificados de classificação
e de fiscalização da exportação.

180 Alfredo Wagner Berno de Almeida


§ 1.º - O certificado de classificação será emitido em modelo pelo
Serviço de Economia Rural, pelos postos subordinados aos órgãos enu-
merados na alíneas a, b, c, d e e do art. 27.º
§ 2.º - O certificado de fiscalização da exportação só poderá ser
emitido pelo Serviço de Economia Rural, por intermédio de suas Agênci-
as e Postos de Classificação e Fiscalização.

Art. 50.º - O certificado de classificação será emitido, para cada


produto, por grupo, classe e tipo e deverá conter além dos elementos
característicos indispensáveis à identificação do respectivo lote, a assina-
tura do classificador, e o “confere” do chefe do Posto emitente.

§ 1.º - Esse certificado será passado em cinco vias, sendo as 1.ª e


2.ª para o interessado, as 3.ª e 4.ª enviadas, na mesma data, à Agência ou
Secção do Serviço de Economia Rural a que estiver subordinado o Posto
emitente, no qual fica arquivada a 5.ª via.
§ 2.º - No caso do Posto emitente pertencer a um dos órgãos enu-
merados nas alíneas a, b, c, d e e do art. 27.º, a remessa das 3.ª e 4.ª vias do
certificado de classificação será feita à Agência ou Posto de Classificação
e Fiscalização do Serviço de Economia Rural, indicado.

Art. 51.º - O certificado de classificação constituirá, observados


os seus termos, documento hábil para todas as transações comerciais nos
mercados do país.

Art. 52.º - É permitido, a requerimento da parte interessada e


mediante a devolução de todas as vias que lhe forem fornecidas, o desdo-
bramento dos certificados de classificação para ordem correspondente,
constará, obrigatoriamente, o número do certificado original e a declara-
ção “desdobrado”.

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 181


Art. 53.º - Os certificados emitidos em virtude de reclassificação
substituem e invalidam os anteriores referentes ao lote reclassificado.

Art. 54.º - Os certificados de fiscalização da exportação serão


emitidos em cinco vias destinando-se as duas primeiras ao exportador, a
terceira à Diretoria do Serviço de Economia Rural, a quarta à Agência e à
Secção a que estiver subordinado o Posto emissor, que arquivará a quinta
via.

Parágrafo único – As duas vias destinadas ao exportador poderão


ser emitidas em português e em língua estrangeira determinada.

Art. 55.º - Os certificados serão enumerados em ordem e série


anual nas repartições emissoras, e não poderão conter emendas, ressalvas
ou rasuras.

Art. 56.º - Os certificados extraviados, perdidos ou inutilizados,


serão substituídos por duplicatas, com o número de ordem e data do
original, mediante requerimento da parte interessada, instruído com a prova
da publicação referente ao extravio.

Capítulo XI
DOS POSTOS DE CLASSIFICAÇÃO E DA FISCALIZAÇÃO
DA EXPORTAÇÃO

Art. 57.º - Além dos Postos de Classificação e Fiscalização a que


se referem os arts. 2.º e 3.º do Decreto-lei número 1.791, de 22 de
novembro de 1939, serão instalados pelos órgãos enumerados nas alíneas
a, b, c, d e e do art. 27.º, os Postos de Classificação a que ficarem sujeitos
em virtude de delegação de poderes, de atribuições, ou de licenças.

182 Alfredo Wagner Berno de Almeida


Art. 58.º - Os Postos de Classificação, no desempenho das
atribuições que lhes forem cometidas, devem manter com o Serviço de
Economia Rural e suas Agências e mais estreita e eficiente colaboração.

Art. 59.º - Os Postos de Classificação e Fiscalização, e, bem assim,


os de Classificação, ficam obrigados a conservar, no decurso dos prazos
regulamentares, as amostras dos produtos classificados, devendo cada
amostra ser guardada com as indicações indispensáveis à sua perfeita
identificação.

§ 1.º - Terminado o prazo de depósito ou conservação das


amostras, serão elas, observadas as disposições estabelecidas para cada
produto, vendidas.
§ 2.º - O produto líquido apurado na venda pertencerá ao Governo
Federal, quando a classificação tiver sido feita pelos órgãos indicados na
alínea a do art. 27.º e nos demais casos, aos órgãos ou às instituições
mencionadas nas alíneas b, c, d e e do mesmo artigo.

Art. 60.º - Os produtos classificados e em referência aos quais


tenham sido emitidos certificados de classificação, ficam sujeitos,
armazenados ou em trânsito, à fiscalização dos Postos mencionados neste
regulamento.

Capítulo XII
DO REGIME DE EXPORTADORES

Art. 61.º - Fica estabelecido o registro de exportadores.

§ 1.º - O registro será feito por postos e produtos, em qualquer


época do ano e renovado até o dia 31 de março do ano seguinte.
§ 2.º - A falta de renovação do registro, no prazo acima estabelecido,
obriga a novo registro.

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 183


§ 3.º - Os exportadores pelo porto do Rio de Janeiro serão
registrados na Diretoria do Serviço de Economia Rural e os dos demais
portos nas Agências do mesmo Serviço.

Art. 62.º - Os pedidos de registro serão instruídos com os seguintes


documentos:
a) prova de estar o requerente regularmente estabelecido para o
comércio de exportação;
b) prova de quitação dos impostos relativos ao exercício ou ao
exercício anterior;
c) três cópias fotográficas 4x6 ou rótulos das marcas de exportação
devidamente registrados;
d) declaração de fiel observância das disposições regulamentares
em vigor.

Art. 63.º - Na renovação do registro são necessários os documentos


mencionados nas alíneas a, b, c e d do art. 62.º, portadores serão cobradas
as taxas que forem estabelecidas em lei:

Art. 65.º - Ao exportador registrado serão fornecidos, por produto,


os respectivos certificados.

Capítulo XIII
DAS CONDIÇÕES DE ARMAZENAGEM

Art. 66.º - Nenhuma mercadoria, depois de classificada, poderá


ser armazenada em condições desfavoráveis à sua conservação.

§ 1.º - Verificado em inspeção não satisfazerem as condições de


armazenagem, serão notificados os interessados e responsáveis para, no
prazo máximo de oito dias, removerem a mercadoria.

184 Alfredo Wagner Berno de Almeida


§ 2.º - Esgotado esse prazo será feita nova inspeção, e, não
satisfeitas as exigências, e sem prejuízo da aplicação de outras penalidades,
poderá, pelo diretor ou agente do Serviço de Economia Rural, ser anulado
o certificado de classificação.

Art. 67.º - Os armazéns, que por inadequados requisitos, forem


declarados impróprios à boa conservação das mercadorias neles
depositadas, não poderão receber, para ar mazenagem, produtos
classificados.

Art. 68.º - A proibição poderá ser limitada a determinados produtos


ou se estender a todos os produtos classificados.

§ 1.º - No primeiro caso, fica o armazém proibido de receber os


produtos para os quais tenha sido declarado improprio e, no segundo,
qualquer produto classificado.
§ 2.º - A inobservância da proibição será punida com multa, e, na
reincidência, além da imposição da nova multa, deverá o Serviço de
Economia Rural solicitar das autoridades sanitárias a interdição do
armazém e, da municipalidade, que não seja renovada a licença de
funcionamento.

Art. 69.º - As multas referidas no § 2.º do artigo anterior recairão


sobre o armazenista e o dono da mercadoria.

Capítulo XIV
DA FISCALIZAÇÃO DA EXPORTAÇÃO

Art. 70.º - Cabe ao Serviço de Economia Rural a fiscalização da


exportação dos produtos agrícolas e pecuários e das matérias-primas
destinadas aos mercados externos.

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 185


Parágrafo único – Estende-se a fiscalização aos subprodutos e
resíduos sujeitos a classificação.

Art. 71.º - Para se habilitar ao despacho deverá o exportador,


citando o número do seu registro, solicitar da Agência ou Posto de
Classificação do Serviço de Economia Rural, no porto de embarque, o
exame da mercadoria a ser exportada, instruindo o pedido:
a) com o certificado de classificação;
b) com os certificados de inspeção, sanidade e outros a que
legalmente estiver sujeito o produto;
c) com as indicações complementares exigidas sobre o local de
armazenamento de embarque e de destino.

Art. 72.º - Verificando-se na inspeção, que a classificação, a


embalagem e o acondicionamento da mercadoria, assim como a marcação
dos volumes e os demais elementos de identificação do lote, correspondem
às especificações e satisfazem as exigências estabelecidas em leis,
regulamentos e instruções, será expedido, para efeito do disposto no § 3.º
do art. 1.º do Decreto-lei n.º 334, de 15 de março de 1938, o certificado
de fiscalização da exportação.

Art. 73.º - O certificado de fiscalização da exportação que, na


forma de § 2.º do art. 1.º do Decreto-lei n.º 334, de 15 de março de 1938,
acompanhará os documentos remetidos ao importador, deverá conter,
além dos elementos indispensáveis à perfeita identificação da partida, a
classificação constante do respectivo certificado e, bem assim, à vista
dos documentos apresentados, a declaração expressa de haverem sido
satisfeitas todas as exigências legais.

Art. 74.º - O Ministério da Agricultura entrará em entendimento


com o Ministério das Relações Exteriores para que dos documentos
consulares relativos à exportação, conste, em língua corrente no país de

186 Alfredo Wagner Berno de Almeida


destino, a declaração “Exigir o certificado de fiscalização da exportação
emitido pelo Ministério da Agricultura do Brasil.”

Art. 75.º - Após emitido o certificado de fiscalização da exportação,


estender-se-á ação fiscalizadora do Serviço de Economia Rural às
condições de armazenamento, de embarque e de trânsito no território
nacional.

Parágrafo único – Verificado nas inspeções, que as mercadorias


são transportadas em desacordo com as condições estabelecidas, poderá
o Serviço de Economia Rural recusar o fornecimento de certificados para
exportação nos vagões, navios ou embarcações considerados inadequados.

Art. 76.º - O Ministério da Agricultura em obediência ao disposto


no art. 3.º do Decreto-lei n.º 334, de 15 de março de 1938, entrará em
entendimento com o Ministério das Relações Exteriores para a fiscalização
nos mercados importadores, podendo, quando necessária, ser designados,
na forma da legislação em vigor, funcionários especializados do Serviço
de Economia Rural.

Capítulo XV
DAS INSPEÇÕES

Art. 77.º - Ficam os estabelecimentos que beneficiam,


rebeneficiam, enfarda, embalam, armazenam ou conservam em depósito
por qualquer forma, produtos agrícolas, pecuários e matérias-primas, seus
subprodutos e resíduos, obrigados a permitir e facilitar as inspeções que,
a juízo dos órgãos enumerados nas alíneas a, b, c, d e e do art. 27.º, sejam
necessárias antes, durante e depois da classificação.

Art. 78.º - As inspeções visam assegurar boas condições de


armazenagem, conservação e apresentação dos produtos, e, bem assim,
corrigir enganos, prevenir, evitar e punir fraudes e infrações.

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 187


Art. 79.º - As inspeções serão solicitadas pela parte interessada:

a) para classificação e reclassificação;


b) para efeito de exportação;
c) para verificações em casos de operações de crédito ou de
transações baseadas em certificados de classificação.
d) para solução de dúvidas ou divergências.

Parágrafo único – As inspeções solicitadas para os fins específicos


nas alíneas c e d, ficam sujeitas ao pagamento da taxa que for estabelecida
e aprovada.

Capítulo XVI
DAS TAXAS

Art. 80.º - As despesas relativas a classificação dos produtos


agrícolas, pecuários e das matérias-primas, seus subprodutos e resíduos,
serão custeadas pela parte interessada e não poderão exceder à tabela que
para cada produto for estabelecida no regulamento especial respectivo ou
por proposta do Serviço de Economia Rural.

Parágrafo único – Caberão aos órgãos enumerados nas alíneas b,


c, d e e do art. 27.º, as importâncias cobradas pela classificação, análise e
outros trabalhos que, mediante tabelas aprovadas pelo Governo Federal
realizem em benefício da padronização.

Art. 81.º - As taxas relativas à fiscalização da exportação compre-


endendo a inspeção, análise, visto de documentos, emissão de certifica-
dos e certidões serão arrecadadas e recolhidas pelo Serviço de Economia
Rural, devendo se fixada para cada produto, tendo-se em vista o disposto
no art. 50.º do Decreto-lei n.º 334, de 15 de março de 1938.

188 Alfredo Wagner Berno de Almeida


Art. 82.º - As taxas referidas no artigo anterior poderão ser
estabelecidas englobada ou separadamente e fixadas por quilo, volume
ou sobre o valor oficial da mercadoria.

Parágrafo único – Recaindo a taxa sobre o valor da mercadoria


exportada, será ela calculada em relação à média oficial apurada para o
produto no período correspondente ao ano anterior.

Capítulo XVII
DA ARBITRAGEM

Art. 83.º - As dúvidas ou divergências que venham a ser suscitadas


na fiscalização da exportação sobre a classificação realizada pelos órgãos
enumerados nas alíneas b, c, d e e do art. 27.º serão resolvidas
administrativamente.

Art. 84.º - As divergências dos exportadores sobre classificação,


beneficiamento, embalagem e condições de armazenagens dos produtos
destinados à exportação quando não dirimidos amigável ou
administrativamente serão resolvidos por arbitragem.

Parágrafo único. A arbitragem será requerida e custeada, em todas


as suas despesas, pela parte ou partes interessadas.

Art. 85.º - Cabe ao diretor e aos agentes do Serviço de Economia


Rural designar em cada caso a comissão de arbitragem que será constituída
por três ou cinco peritos idôneos.

§ 1.º - Cabe a parte interessada diretamente ou por intermédio de


associação de classe legalmente constituída e autorizada, a indicação de
um dos peritos, não podendo, entretanto, ser escolhido o responsável pela
contestação, o contestante, ou subordinado ou requerente.

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 189


§ 2.º - Os demais membros da comissão de arbitragem, exceção
feita dos que forem indicados em virtude do disposto no art. 87.º, são de
livre escolha do diretor ou do Agente do Serviço de Economia Rural.
§ 3.º - Quando a arbitragem for requerida em virtude de
divergências sobre classificação, a maioria dos peritos será constituída
por classificadores com a situação regularizada na forma estabelecida neste
Regimento.

Art. 86.º - Os laudos de arbitragem só produzirão efeito depois de


aprovados pelo Diretor ou Agente do Serviço de Economia Rural.

Parágrafo único – Em caso de recusa à aprovação, cabe recurso à


autoridade superior, ex-offício ou a requerimento da parte dentro de 48
horas.

Art. 87.º - No caso da arbitragem requerida interessar, também,


pela sua natureza, a outros órgãos de fiscalização e, bem assim, aos
enumerados nas alíneas b e c do art. 27.º, será a Comissão de arbitragens
construída com a colaboração deles.

Parágrafo único – Somente neste caso será a comissão de


arbitramento constituída de cinco membros.

Capítulo XVIII
DAS FRAUDES, INFRAÇÕES E PENALIDADES

Art. 88.º - As fraudes e infrações constatadas pelo Serviço de


Economia Rural, sem prejuízo da ação criminal a que estiverem sujeitas
serão punidas:
a) com aplicação de multas;
b) com o cancelamento de registro de exportador;

190 Alfredo Wagner Berno de Almeida


c) com a suspensão, na forma do disposto no art. 3.º do Decreto-
lei n.º 334, de 15 de março de 1938, da atividade comercial.

Art. 89.º - As multas salvo o disposto no art. 3.º do Decreto-lei n.º


334, de 15 de março de 1938, serão de 100$000 a 1:000$000 nos casos
de infração, e de 1:000$000 a 2:000$000 nos de fraude, podendo ser
elevadas ao dobro nas reincidências.

Art. 90.º - Constata a irregularidade, a Agência ou Posto de


Classificação ou Fiscalização do Serviço de Economia Rural lavrará o
auto competente e imporá a multa que no caso couber, devendo o multado
recolhê-la aos cofres federais dentro do prazo estabelecido.

Parágrafo único – Não se conformando com a multa imposta,


poderá o multado recorrer ao Diretor do Serviço de Economia Rural,
dentro do prazo de três dias contados da data em que efetuar o
recolhimento da multa.

Art. 91.º - As Agências e os Postos de Classificação e Fiscalização


são obrigados a enviar ao Diretor do Serviço de Economia Rural cópias
autenticadas de todos os documentos relativos às multas impostas e
recolhidas aos cofres federais, imediatamente após a imposição ou
recolhimento.

Art. 92.º - Verificando-se, nos portos estrangeiros de destino,


fraudes não descobertas no ato da fiscalização da exportação ou após
este praticados, o Diretor do Serviço de Economia Rural solicitará da
repartição competente do Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio,
as providências previstas no art. 3.º do Decreto-lei n.º 334, de 15 de março
de 1938.
Art. 93.º - (...)

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 191


Capítulo XIX
DISPOSIÇÕES GERAIS

Art. 94.º - À medida das necessidades serão baixadas com as


indispensáveis especificações, regulamentos e instruções especiais para a
classificação dos produtos e pecuários e das matérias-primas, subprodutos
e resíduos de valor econômico.

Art. 95.º - A falta de especificações e do estabelecimento, de


padrões oficiais para a classificação de um produto agrícola, pecuário ou
matéria-prima, seus subprodutos e resíduos de valor econômico, não o
exclui da fiscalização da exportação para o estrangeiro.

Parágrafo único – A fiscalização será feita pelo Serviço de


Economia Rural quanto à qualidade e apresentação do produto observadas
as disposições estabelecidas neste regulamento.

Art. 96.º - O Serviço de Economia Rural, de acordo com o disposto


no Decreto-lei n.º 1.260, de 9 de maio de 1939, promoverá em colaboração
com as companhias, empresas e demais concessionários de Serviço de
exploração dos postos, os estudos que se fizerem necessários ao
aparelhamento dos mesmos, tendo em vista as exigências da exportação.

Art. 97.º - O presente regulamento entrará em execução


progressivamente, a juízo do Ministério da Agricultura.

Rio de Janeiro, 29 de maio de 1940.

192 Alfredo Wagner Berno de Almeida


Decreto n.º 7.263 – de 29 de maio de 1941

Aprova as especificações e tabelas para a classificação e fiscalização de exportação de


amêndoas de babaçu, visando sua padronização.

O Presidente da República, usando da atribuição que lhe confere


o artigo 74 da Constituição e tendo em vista o que dispõe o art. 6.º do
Decreto-lei n.º 334, de 15 de março de 1938 e o art. 94.º do regulamento
aprovado pelo Decreto n.º 5.739 de 29 de maio de 1940, decreta:

Art. 1.º - Ficam aprovadas as especificações e tabelas para a


classificação e fiscalização da exportação de amêndoas de babaçu visando
a sua padronização assinadas pelo ministro de Estado dos Negócios da
Agricultura.

Art. 2.º - Revogam-se as disposições em contrário.

Rio de Janeiro, 29 de maio de 1941, 120.º da Independência e 53.º


da República.

Getúlio Vargas
Fernando Costa

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 193


Decreto-lei n.º 573, de 4 de fevereiro de 1942

Autoriza o Governo a permitir a utilização, a título gratuito, dos frutos de babaçuais


pertencentes ao Estado, a empresas ou firmas nacionais que se comprometerem a
instalar, no território maranhense, usinas para a industrialização integral do coco.

O interventor Federal no Estado do Maranhão, usando de suas


atribuições legais, observado o disposto no art. 6.º n.º LV, do Decreto-lei
federal de n.º 1.202, de 8 de abril de 1939, e nos termos da Resolução n.º
251 – 1941, do Departamento Administrativo do Estado, e em face da
aprovação do Sr. Presidente da República com as alterações por este
determinadas, atendido assim o preceituado no art. 32.º do referido
Decreto-lei federal, e

- Considerando que o processo rudimentar até agora empregado


na indústria extrativa do babaçu somente permite o aproveitamento de
amêndoa, que apenas representa 8% do coco;
- Considerando que o prejuízo anual resultante desse desperdício
sobe a cerca de 58 mil contos de réis, sabido como é havermos exportado,
no último triênio, 128 mil toneladas de amêndoas, e, portanto, deixado de
aproveitar 1.472.000 toneladas de cascas que, se transformados em carvão
metalúrgico, alcatrão, ácido pirolenhoso, álcool metílico, etc., poderiam
ter produzido 176:600$000;
- Considerando em face de tais cifras, a necessidade do Governo
promover ou pelo menos facilitar a industrialização do babaçu no território
do Estado, visto não ser provável que a iniciativa particular, por si só
venha a solucionar o problema;
- Considerando que também o governo com os parcos recursos de
que dispõe não se encontra em condições de, só por si levar a efeito de
facilita-la por meio de concessão de favores de caráter geral, a quem o
negócio interessar,

194 Alfredo Wagner Berno de Almeida


DECRETA

Art. 1.º - As empresas ou firmas brasileiras de idoneidade profissio-


nal e pecuniária devidamente comprovadas, que se comprometerem, nos
termos desta lei, a instalar e pôr em funcionamento, no território maranhense,
usinas para a industrialização integral do coco babaçu, poderá o Governo
permitir a título gratuito, que se utilizem dos frutos dos babaçuais situados
em terras devolutas, não aforadas, pertencentes ao patrimônio do Estado e
compreendidas na área que previamente determinar.

Parágrafo único – Para os efeitos da presente lei, não será conside-


rada idônea, do ponto de vista pecuniário, a empresa ou firma que não
provar possuir ou poder levantar, inicialmente, capital igual ou superior a
mil contos de réis.

Art. 2.º - A permissão a que alude o artigo precedente será conce-


dida por prazo nunca superior a 30 anos, prorrogável, todavia, por iguais
períodos, se nisto convierem as partes, e mediante contrato, pelo qual se
obrigue a empresa ou firma interessada:

1 – a só se servir na sua indústria de cocos procedentes das áreas


concedidas e colhidos pelo próprio pessoal que empregar, por qualquer
modo, no comércio de amêndoas, enquanto conservadas no seu estado
natural;
2 – a industrializar não só a amêndoa como todas as partes inte-
grantes do coco, delas extraindo os produtos e subprodutos possíveis e
comerciáveis;
3 – a instalar e pôr em funcionamento a primeira usina definitiva
dentro do prazo de 24 meses, em se tratando de usina experimental. Ocor-
rendo esta última hipótese, os vinte e quatro meses para a instalação de
usina definitiva principiarão a correr na data em que entrar em funciona-
mento a usina experimental.

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 195


Parágrafo único – O não preenchimento de qualquer das condições
acima enumeradas, dará lugar à rescisão do contrato:

Art. 3.º - Os fatores autorizados por este Decreto-lei, em hipótese


alguma abrangerão o solo ou interromperão o seu cultivo, salvo se este
resultar prejudicial à conservação das palmeiras. Do mesmo modo não
compreenderão qualquer vantagem de ordem fiscal.

Art. 4.º - Para utilização dos frutos das palmeiras babaçu não serão
concedidas áreas superiores à capacidade do capital e do aparelhamento
da empresa ou firma interessada.

Art. 5.º - São intransferíveis, enquanto, não montada a primeira


usina definitiva, os direitos em virtude desta lei.

Art. 6.º - No contrato a que se refere o art. 2.º ficarão estipuladas


todas as condições que o governo julgar necessárias à defesa dos interesses
do Estado e à garantia dos direitos da empresa ou firma favorecida, bem
como os prazos para a industrialização progressiva do coco, até o seu
aproveitamento integral.

Art. 7.º - A empresa ou firma favorecida caucionará no Tesouro


do Estado, antes da assinatura do contrato e para garantia da execução
deste, a importância de 10 contos de réis em moeda corrente. Essa
importância será incorporada às rendas públicas, no caso de rescisão
motivada pelo não cumprimento de qualquer das obrigações estipuladas
no art. 2.º.

Art. 8.º - O presente Decreto-lei entrará em execução na data em


que for publicado.

196 Alfredo Wagner Berno de Almeida


Art. 9.º - Revogam-se as disposições em contrário.

Palácio do Governo do Estado do Maranhão, em São Luís, 4 de


fevereiro de 1942.

Paulo Martins de Souza Ramos


João Hermógenes de Matos
Procurador dos Feitos da
Fazenda, respondendo pelo
Expediente da Secretaria
Geral do Estado

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 197


Acordo de Washington. “Acordo sobre o babaçu” celebrado entre o
Brasil e os Estados Unidos da América do Norte, 25 de julho de
1942
- Acordo complementar com os E.U.A sobre o babaçu, 30 de
dezembro de 1944

Acordo celebrado entre o Brasil e os Estados Unidos da América


do Norte, sobre o BABAÇU:

1. O acordo entrará em vigor a partir de 25 de julho de 1942.


2. A exportação de amêndoas e óleos de babaçu só será permitida
para os Estados Unidos, ou para consignatários designados pela
Commodity Credit Corporation.
3. Para eleito do Acordo o equivalente em óleo de uma tonelada
métrica de amêndoas de babaçu serão de 1.388 libras-peso de óleo.
4. Para determinar o saldo exportável desses produtos, as
necessidades internas do Brasil serão calculadas de modo que não excedam
de 25% de produção anual (isto é, cocos colhidos ou óleo deles extraído
anualmente).
5. Durante os dois primeiros anos de Acordo, a Commodity Credity
Corporation se obriga a pagar os seguintes preços:

Amêndoas de babaçu – qualidade média regular $126,50 por


tonelada métrica de 1.000 quilos, em sacos, peso líquido f.o.b vapor em
São Luís, Estado do Maranhão.

Amêndoas de babaçu – qualidade média regular $125,00 por


tonelada métrica de 1.000 quilos, em sacos, peso líquido, f.o.b vapor em
Parnaíba, Estado do Piauí.

198 Alfredo Wagner Berno de Almeida


Óleo de babaçu - $10,75 por 100 libs., peso líquido, em tambores,
f.o.b vapor em São Luís ou Parnaíba.

Óleo de babaçu - $9,75 por 100 libs., peso líquido, em tambores,


f.o.b. vapor em São Luís ou Parnaíba.

6. O pagamento será feito contra entrega dos conhecimentos de


embarque, certificados de peso e análise habituais, e outros documentos
usuais de embarque, nas seguintes condições:

a) 95% do preço de compra serão pagos diretamente ao vendedor


e 5% entregues ao Banco do Brasil onde ficarão em depósito, sendo
entregues ao vendedor dentro de 30 dias após a chegada da mercadoria
ao porto de entrada dos Estados Unidos ou dentro de 90 dias após a saída
do vapor do Brasil caso a mercadoria não chegue aos Estados Unidos
nesse prazo.
b) O vendedor será responsável por quaisquer quebras de peso
baseando-se nos pesos líquidos desembarcados e certificados no porto de
entrada dos Estados Unidos.
c) As obrigações do vendedor resultantes dessa medida serão
descontados dos 5% em depósito no Banco do Brasil.

7. Caso não haja navio disponível dentre de 30 dias a contar da


data em que a mercadoria esteja pronta para embarque nos portos de
carregamento, o pagamento será feito contra entrega dos recibos de
armazéns aprovados, e outros documentos usuais, satisfatórios para a
Commodity Credit Corporation, nas seguintes condições:”

a) 95% do preço de compra serão pagos diretamente ao vendedor


e 5% entregues ao Banco do Brasil, onde ficarão em depósito, sendo
entregues ao vendedor 4 meses após a data da entrega à Commodity Credit
Corporation dos recibos de armazéns representando a mercadoria, ou se

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 199


ela for embarcada nesse período, de conformidade com as condições
estipuladas acima.
b) Compete ao vendedor armazenar a mercadoria, a preços
aprovados pela Commodity Credit Corporation, até que haja navio
disponível para embarque.
c) Correrão por conta do vendedor todas as despesas de
armazenamento até 60 dias após a data em que a Commodity Credit
Corporation receber a notificação de que a mercadoria se acha pronta
para embarque.
d) Depois desse período (60 dias) a Commodity Credit Corporation
pagará as despesas de armazenamento, que não ultrapassem as que
prevaleciam na época da assinatura do Acordo. Se for necessária a
construção de novos armazéns a Commodity Credit Corporation,
examinará a situação da armazenagem tendo em vista despesas razoáveis
e adequadas.
e) O vendedor será responsável pelas despesas com a entrega de
mercadoria desde o lugar de armazenagem até sua colocação f.o.b navio,
inclusive obtenção de guias de exportação e outros documentos exigidos
pelas leis brasileiras.
f) As obrigações do vendedor, se as houver, serão descontadas
dos 5% em depósito no Banco do Brasil.

8. Correrão por conta do vendedor todos os tributos ou encargos


que recaiam sobre a mercadoria enquanto se achar no Brasil ou quando
for exportada.
9. Os embarcadores ficam responsáveis perante o Governo
Brasileiro pela qualidade da mercadoria e pelo inteiro cumprimento do
Acordo.
10. Todas as dúvidas e dificuldades surgidas durante a vigência do
Acordo serão resolvidas entre a Comissão de Controle dos Acordos de
Washington e as autoridades do Governo Americano no Brasil, designados
para efetuar tais ajustes.

200 Alfredo Wagner Berno de Almeida


11. A parte do depósito de 5% que não for devida ao vendedor, de
acordo com o item 7 alínea f, será creditada, em conta livre à Commodity
Credit Corporation Commodity Credit Corporation pelo Banco do Brasil,
para ser aplicada em futuras compras. O Banco do Brasil ficará como
depositário das garantias e documentos que interessem à Commodity
Credit Corporation e lhe fornecerá, sem nenhuma despesa, toda a
informação que lhe for solicitada.

Rio de Janeiro, 31/7/42.

Cordiais Saudações.

________________________
(DJALMA FORTUNA)
Diretor da Secretaria

Correspondência enviada à ACM.

NOTA: A.A.C. possui ainda os Acordos sobre cacau, café e castanha do


Pará, podendo os interessados solicitar cópias à Secretaria.

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 201


ACORDO SOBRE COCO BABAÇU ENTRE O BRASIL E OS
ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA
(Complementar ao de 24 de julho de 1942)

Concluído no Rio de Janeiro, por troca de notas, datadas de 30 de


dezembro de 1944.

Em 30 de dezembro de 1944.

DEC/DAI/357/842 561 (22) (42)

Ao Senhor Walter J. Donnely,


Encarregado de Negócios dos Estados Unidos da América.

Senhor Encarregado de Negócios,

Tenho a honra de levar a conhecimento de Vossa Senhoria que o


Governo brasileiro concorda com as seguintes medidas, alvitradas nos
entendimentos realizados entre esta Embaixada e a Comissão de Controle
de Acordos de Washington, relativamente ao Acordo sobre babaçu,
firmado pelos nossos dois Governos em 24 de julho de 1942.

a) Que seja levada, de 25% para 30%, a percentagem de óleo


destinada ao consumo do mercado interno;
b) Que sejam mantidos até a terminação do Acordo, em 25 de
julho de 1946, os mesmos preços nele estabelecidos para os dois primeiros
anos de sua vigência.

Assim, consequentemente, a letra c do parágrafo 3 do citado


Acordo passará a ter a seguinte redação:

202 Alfredo Wagner Berno de Almeida


“Com o fim de determinar o saldo exportável de amêndoas e óleo
de babaçu no Brasil, as necessidades internas desses produtos, a partir de
15 de outubro de 1944 e até 25 de julho de 1946, serão calculadas de
modos que não excedam 30% de produção anual (isto é, cocos colhidos
ou óleo deles extraído anualmente)”.
Do mesmo modo, a letra a do parágrafo 4 ficará assim redigida:

“Serão mantidos por mais de dois anos, a contar de 25 de julho de


1944, os preços estabelecidos no acordo firmado a 24 de julho de 1942 e
que são os seguintes:

Amêndoas de babaçu – qualidade média regular Cr$126,50 por


tonelada métrica de 1.000 quilos, em sacos, peso líquido, FOB em vapor
transatlântico em São Luís, Estado do Maranhão.

Amêndoas de babaçu – qualidade média regular Cr$125,00 por


tonelada métrica de 1.000 quilos, em sacos, peso líquido, FOB em vapor
transatlântico em Parnaíba, Estado do Piauí.

Óleo de babaçu – Cr$10,75 por 100 libras, peso líquido, em


tambores, FOB em vapor transatlântico em São Luís, Estado do Maranhão,
ou Parnaíba, Estado de Piauí.

Óleo de babaçu – Cr$9,75 por 100 libras, peso líquido, a granel,


FOB em vapor transatlântico em São Luís, Estado do Maranhão”.

Aproveito a oportunidade para renovar a Vossa Senhoria os


protestos da minha mui distinta consideração.

Em nome do Ministro do Estado:

as) J. R. de Macedo Soares.

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 203


DECRETO-LEI N.º 1.236 DE 13 DE JUNHO DE 1946
Abre crédito especial.

O interventor Federal na conformidade do disposto no art. 6.º, n.º V., do decreto-lei


federal n.º 1.202, de 8 de abril de 1939.

DECRETA

Art. 1.º - Fica aberto o crédito especial de Cr$300.000,00 (trezentos


mil cruzeiros) para prosseguimento da construção das estradas destinadas
ao incremento da exportação de amêndoas de babaçu, na conformidade
de plano aprovado pelo Governo do Estado e a Commodity Credit
Corporation.

Parágrafo único – O referido crédito constituirá antecipação de


recursos, por conta da terceira cota a ser recolhida no Departamento da
Fazenda, com receita eventual logo que a Comissão de Controle dos
Acordos de Washington faça entrega, ao Estado, da terceira parcela,
correspondente a 25% do adiantamento de Cr$2.772.000,00 a que, nos
termos do Acordo sobre o Babaçu”, está obrigado o Governo Americano.

Art. 2.º - O valor do crédito o aberto será depositado no Banco do


Estado do Maranhão S.A. em conta denominada “Departamento, que
prestará contas de sua aplicação, apresentando uma via dos documentos
ao Departamento Central de Contabilidade, a fim de ser devidamente
escriturada a despesa e outra via transmitida à Comissão de Controle dos
Acordos de Washington, para seu conhecimento.

Art. 3.º - Revogam-se as disposições em contrário.

Palácio do Governo do Estado do Maranhão, em São Luiz, 13 de


junho de 1946, 125.º da Independência e 58.º da República.

SATURNINO BELO
Elizabetho Barbosa Carvalho

204 Alfredo Wagner Berno de Almeida


DECRETO Nº . 27.793 DE 16 DE FEVEREIRO DE 1950

Aprova novas especificações e tabela para a classificação e fiscalização da exportação


de amêndoas de babaçu.

Por essa tabela a amêndoa seria classificada em 5 tipos, consoante


a aparência, o estado de maturidade, de conservação e de sanidade; a
quantidade de defeitos (feridas, fendidas ou quebradas) e de impurezas, a
saber:

I – superior, com no máximo 1% de impurezas e 2% de defeitos;

II – bom, com até 2% de impurezas e 40% de defeitos;

III – regular, com até 4% de impurezas e 65% de defeitos;

IV – abaixo do padrão, com até 5% de impurezas e 80% de defeitos;

V – refugo, com mais de 5% de impurezas e de 80% de defeitos.

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 205


CONSELHO NACIONAL DE ECONOMIA (*)

Exposição
ANTEPROJETO DE LEI
Em 30 de abril de 1952
EXCELENTÍSSIMO SENHOR PRESIDENTE DA REPÚBLICA

Em novembro do ano findo solicitou Vossa Excelência que o


Conselho Nacional de economia estudasse o aproveitamento econômico
do babaçu:
No propósito de dar desempenho a esta tarefa, reuniu o Conselho
ampla documentação, abrangendo o estudo da oleaginosa, sob todos os
aspectos, e recolheu inúmeros depoimentos das pessoas mais autorizadas
no assunto. Não se julgando, entretanto, suficientemente informado,
resolveu que uma Comissão sob a chefia de um dos seus membros,
promovesse o exame direto do problema nas regiões onde o babaçu tem
maior expressão econômica: o Maranhão e o Piauí.
Com esse objetivo foram visitados os vales dos rios Mearim, Itapecuru
e Parnaíba, onde se encontram as maiores concentrações de babaçu,
percorreu a Comissão as instalações industriais de São Luís, Parnaíba,
Pedreiras e Caxias; ampliou o documentário com a audiência das autoridades
dos Estados do Maranhão e do Piauí e teve amplo entendimento com as
classes produtoras, através de seus órgãos representativos, associações
comerciais, federações rurais, associações agrícolas, ouvindo ainda,
individualmente, os mais atacados conhecedores da matéria.
Do resultado destes estudos e observações, vem o Conselho
apontar a Vossa Excelência um conjunto de medidas consubstanciadas
no anteprojeto de Lei, em anexo, com o propósito de dar maior expansão
ao aproveitamento desta importante riqueza.
O babaçu (Orbignya spenciosa) é uma palmeira do Brasil, existindo
no Pará, Maranhão, Piauí, Goiás, Mato Grosso, Espírito Santo e Minas
Gerais, em estado nativo, em grandes agrupamentos, formando matas

206 Alfredo Wagner Berno de Almeida


homogêneas, ou em concorrência com outros vegetais. É, entretanto, em
duas unidades do Nordeste Ocidental, Maranhão e Piauí, que ele se
apresenta com expressão econômica ponderável. Cumpre recordar que
no primeiro daqueles Estados 60% de sua receita provém do babaçu e
mais de 70% da renda nacional, ali formada, dependem possivelmente
desta oleaginosa. Por tais motivos, o estudo para a utilização do babaçu
deve focalizar especialmente os Estados do Maranhão e Piauí e o Vale do
Tocantins, acima do paralelo de 10º, até a confluência desse rio com o
Araguaia. É a região geo-econômica muito propriamente denominada
“zona de cocais”.
O conceito corrente, admitido até agora sem contestação, é que a
palmeira existe em fabulosas quantidades, em plena produção. As próprias
estatísticas oficiais as estimam em 14 bilhões e só para o Maranhão e o
Piauí. Por força desta convicção, os planos nacionais e estrangeiros até
agora feitos, referem-se exclusivamente, ao transporte e à industrialização
do fruto.
Entretanto, a realidade é muito outra. De fato, a produção de coco,
em todo o Brasil, no ano de maior safra, 1948, apenas atingiu a 82.000
toneladas, o que corresponde à exploração de menos de 10.000.000 de
palmeiras, na base média de 10 quilos por vegetal. Se estivessem em
produção 10 bilhões de palmeiras, ainda que admitida a produtividade de
5 quilos de amêndoas em cada pé, por ano, só no Estado do Maranhão
poderiam ser colhidos 50 milhões de toneladas de amêndoas. Pode afirmar-
se, porém, que a média anual da safra não vai além de 50.000 toneladas.
É comum atribuir-se a insignificância das safras à falta de
transporte. É outro conceito errôneo. No Maranhão, em centenas de
quilômetros ao longo da estrada de ferro São Luís-Teresina e da excelente
rodovia Central Maranhense, existem densos babaçuais praticamente
improdutivos. É incontestável, assim, que o problema principal consiste
em tornar produtivas as palmeiras de insignificante rendimento, para
obtenção de matéria-prima, seja de amêndoas, seja de coco.

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 207


Na presente fase, em que o suprimento de matéria-prima não
satisfaz sequer à necessidade das indústrias existentes, a preocupação do
aumento do parque industrial é prematura, devendo ser reservada para
uma segunda etapa. Na verdade, o parque industrial já construído ou em
vias de conclusão excede de muito a capacidade de suprimento atual de
matéria-prima. Só no Maranhão, quando for ultimada uma grande usina
em construção, haverá possibilidade de industrializar 30.000 toneladas
de amêndoas quando a produção escassamente abrange 54.000 toneladas.
E isso sem contar com o mercado externo, que absorve avultada
percentagem das safras.
O que sucede à indústria do óleo ocorreria em relação à indústria
de destilação do coco que se tem preconizado para utilização integral do
babaçu. Tal aproveitamento só será exequível depois que a racionalização
da produção do coco permitir o suprimento da matéria-prima em grandes
quantidades. Nas condições atuais de destilação do coco deve ser
recomendada apenas para pequenas instalações, notadamente geradores
de gás, para a produção de energia elétrica de interesse local.
É evidente que tão logo seja aumentada a produção de matéria-
prima, surgirão as indústrias, quer de óleo e seus múltiplos subprodutos,
quer de destilação de coco ou da casca. Repetimos, pois, que nessa primeira
fase todo o esforço deve ser concentrado em disciplinar a palmeira nativa.
Cresce o babaçu em tal adensamento de vegetação que se
estabelece forte concorrência entre indivíduos da mesma espécie ou de
espécies diferentes, de modo que a palmeira não floresce ou floresce em
precárias condições, pouco ou nada frutificando. Para que isso não ocorra
e a vida do vegetal se processe favoravelmente, é indispensável proceder-
se ao desbaste de numerosas plantas concorrentes. Deverão ser deixadas
em cada hectare cerca de 150 palmeiras em vez de 1.000 e até 3.000,
como não raro hoje se verifica.
No Maranhão, onde estão situadas as maiores reservas de babaçu
do nordeste ocidental e talvez do Brasil, o aludido desbaste é prejudicado
pelo regime da propriedade territorial. Cinquenta por cento das terras são

208 Alfredo Wagner Berno de Almeida


devolutas, representando só na região dos babaçuais, cerca de 50.000
Km², superfície superior à do Estado do Rio. E a parte restante, que se
supõe deva estar em mãos de particulares, acha-se na situação de um em
que não tem procura, em virtude de seu baixo valor econômico.
O Governo do Maranhão, que elabora planos a respeito, não dispõe
de recursos suficientes para demarcar, dividir e entregar as terras devolutas
a empresas ou a particulares. E neste regime de indivisão e desorganização
da propriedade rural, a palmeira não é cuidada, seja pelo desbaste ou por
tratamento qualquer que a defenda de pragas. O homem limita-se a colher
o coco, que se desprendo dos cachos, nos lugares mais acessíveis.
Não é de admirar, pois, ser a população dos babaçuais das mais
miseráveis do País. Gente semifaminta, largada ao abandono, numa
degradação sem limites e em permanente nomadismo. Sem motivos de
apego à terra, que não possui, está sempre em trânsito, pronta a se evadir
para outras regiões, fugindo da floresta agressiva onde a sua fixação é
dificultada pela própria legislação que protege o vegetal e não o homem.
Com gente nessas condições gerou-se um clima propício às perturbações
sociais, consequência inevitável de todos os profundos desajustamentos
dessa natureza. Clima de Balaiada.
Para esta situação, de indisfarçável gravidade, as mais graduadas
autoridades civis e militares chamaram a atenção da Comissão do Conselho
que visitou o Maranhão.
A razão de tão acentuada miséria está na diminuta produtividade
da coleta e não, propriamente, no preço do bem coletado. O chefe colhe
o coco e a família o quebra produzindo, em média, cinco quilos de
amêndoas por dia. A produção do grupo familiar vai pouco além de 500
quilos por ano, deduzidos os dias que o trabalho é impedido pelas chuvas
ou por força de outros afazeres de subsistência. O resultado é que mesmo
ao preço de Cr$3,00 o quilo de amêndoa, a renda da família, por ano, não
supera a soma de Cr$1.500,00, que é notoriamente insuficiente numa
zona de produção extrativa, ou seja, afastada das lavouras e dos centros
consumidores, em geral.

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 209


E a gravidade dessa miséria está no fato de ser generalizada à massa
ativa da população. Basta dizer que cerca de 60.000 famílias estão
empregadas na extração do coco babaçu.
É a situação do regime de economia extrativista, que em todas as
regiões do mundo determina sempre padrões de vida dos mais miseráveis.
Assim, o problema do babaçu está condicionado à transformação deste
sistema econômico em agricultura permanente, subsidiada com a atividade
colateral da lavoura de subsistência e da pecuária, fixando o homem à
terra com o propósito de cultivá-la continuamente e não apenas como
ocupação transitória.
Só pelo povoamento será intensificada a produção de amêndoa
por unidade de área, o que possibilitará a redução do custo que será baixado
a níveis inferiores aos das sementes das oleaginosas de outras regiões,
notadamente, da compra, permitindo, além do fomento da industrialização
no país, a concorrência vitoriosa do babaçu no mercado internacional.
Por todos esses motivos o planejamento de utilização do babaçu
excede do âmbito econômico, para se enquadrar em termos mais amplos,
como um problema regional que envolve o elemento humano e sua
adaptação ao meio, chegando a interessar a segurança nacional, pela
importância dos seu vários aspectos.
O problema da fixação do homem à terra, no Maranhão, será
sobremodo facilitado pelas condições da propriedade rural, com enormes
áreas de terras devolutas, de muitos milhões de hectares, e também porque
essas terras são em geral férteis, planas, não sujeitas à erosão, providas de
escoadouros naturais (bacia do Itapecuru, do Mearim e do Parnaíba) ou
artificiais (estrada de ferro e rodovias). Realizações de caráter privado
permitem prever o êxito que teriam iniciativas desta ordem se amparadas
pelo poder público.
E na concretização deste objetivo, a de fixar o homem à terra,
muito poderia ser beneficiado o filho do nordeste oriental Ceará e Estados
vizinhos – que teria, nos vales úmidos do Maranhão, de terras férteis e
bem chovidas, campo para localização de milhares de lavradores.

210 Alfredo Wagner Berno de Almeida


Seria um centro de atração para as emigrações periódicas das zonas
sujeitas às secas, um ideal corretivo à influência descontrolada que hoje
se verifica de retirantes para o sul do país, em condições absolutamente
desfavoráveis para os mesmos, e provocando problemas de acomodação
de perigosas e imprevisíveis consequências.
Numa política de desenvolvimento da oleaginosa não pode ser
descurada a plantação de variedades produtoras de maior número de
amêndoas e melhor rendimento por hectare e facilidade de coleta.
Serão assim, também ocupados os vazios existentes nos babaçuais
nativos, melhorando o aproveitamento do aparelhamento econômico, etc.
Superados estes dois pontos fundamentais – terra para o homem e
espaço para o vegetal – outras medidas precisariam ser consideradas e,
entre estas, as que se relacionam com o transporte.
A região geo-econômica focalizada neste trabalho é servida por
feliz potamografia.
O rio Mearim, com os seus formadores, o Itapecuru e o Parnaíba,
constituem valiosa rede com quatro mil quilômetros de extensão, que
precisa ser posta em pleno funcionamento para o aproveitamento das
grandes concentrações de oleaginosas existentes nas suas bacias.
Os depoimentos, colhidos na região, entre as classes interessadas,
são unânimes em reclamar contra a morosidade e má execução da
desobstrução e limpeza dos cursos d’água. A navegação do rio Parnaíba
cada dia mais se ressente, com a quase paralisação dos trabalhos desta
natureza.
A estrada de ferro São Luís-Teresina embora tenha melhorado as
suas condições de tráfego, precisa ser fortemente auxiliada no sentido de
renovação de sua via permanente, material de transporte, carros e
locomotivas.
As estradas de ferro do Piauí precisam ser concluídas e reequipadas.
A execução do plano rodoviário na região, desde que lhe sejam
concedidos mais recursos para apressar as obras, teria um salutar efeito
no desenvolvimento das lavouras e no escoamento das safras. A linha

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 211


tronco maranhense, com 700 Km de extensão, já tem concluídos 240 Km
que deverão ser completados com estradas de intercomunicação, de fácil
construção, dada a favorável topografia.
O problema dos transportes não ficaria solucionado sem especial
atenção sobre os portos do Maranhão e do Piauí.
O porto de Parnaíba, continua a ser Tutóia, situado a 180 Km da
cidade que está ligado por um canal que muda cada inverno. Consta de
simples baía, onde a carga é manipulada com os recursos do próprio navio.
O aceleramento da construção desses escoadouros da produção,
os entendimentos com os Estados interessados detentores de terras
devolutas cobertas de babaçuais, o levantamento, demarcação e divisão
dessas terras em áreas para colonização, a sua distribuição pelos trabalha-
dores rurais que já estiverem ocupados ou propuserem dedicar-se à co-
lheita do babaçu, são medidas indispensáveis para uma política unificada.
Para a execução de uma tal política são ainda necessárias outras provi-
dências de diversos tipos de natureza: orientação técnica a assistência
higiênica e educacional desses colonos para melhor adapta-los às suas
atividades e fixa-los à terra, a assistência financeira às iniciativas empre-
gadas nesse setor da produção, o progressivo incremento da transforma-
ção industrial do coco na própria região, e as soluções dos problemas de
mercado para as próximas safras aumentadas pela racionalização do cul-
tivo da palmeira. Tais medidas não podem ser realizadas dispersivamente,
sem visão do conjunto e unidade de ação.
Dos entendimentos e consultas mantidos com as classes produto-
ras (comerciais, industriais e agrícolas) e as mais altas autoridades gover-
namentais dos Estados do Maranhão e Piauí, trouxe à Comissão Especial
deste Conselho a convicção de que uma organização com sede em São
Luís e composta de elementos indicados pelas classes e governos interes-
sados encaminharia melhor o problema para uma solução e teria a coope-
ração de todos os elementos representativos.
Receita-se ali que uma administração sediada na Capital Federal,
embora criteriosamente constituída, não chegasse aos mesmos resultados.

212 Alfredo Wagner Berno de Almeida


Justificam-se essas idéias se se atender ao fato de já haver sido criada pela
Associação Comercial do Estado do Maranhão a “Campanha da
produção”, destinada a desenvolver a economia agrícola e que, com
recursos fornecidos pelos setores interessados vem construindo, com
aparelhagem moderna, centenas de quilômetros de estradas de rodagem e
dando assistência financeira, técnica, média, aos trabalhadores rurais,
distribuindo material agrícola, sementes e inseticidas num esforço dos
mais produtivos, o que demonstra existir na região um clima de iniciativa
à realização de empreendimentos de interesse geral, dos mais promissores,
que deve ser aproveitado e estimulado.
Todavia, dúvida não existe de que a utilização do babaçu tem
aspectos humanos e repercussões econômicas pelos quais seu problema
deve ser equacionado como de caráter nacional e não apenas regional.
Temos que encara-lo pelo mesmo prisma que as Constituições de 1934 e
1936 estabeleceram para questões desta natureza; é problema que comporta
ajuda nacional em favor de regiões subdesenvolvidas que por si só não
poderiam resolvê-lo.
Equipara-se este caso ao do auxílio às regiões semiáridas do
Nordeste, à valorização da Amazônia, à exploração do vale do S. Francisco.
Não se deve pensar, na verdade, em realizar a “política do babaçu”
com recursos fornecidos pelos dois Estados interessados. O Maranhão
tem uma arrecadação de oitenta milhões de cruzeiros. Essas arrecadações,
inferiores, às de muitos municípios brasileiros, são insuficientes para
atender aos serviços normais da administração e de modo nenhum podem
ser desviadas para outras finalidades, como a do fomento da produção do
babaçu.
A questão tem de ser posta em termos claros e precisos de ajuda
econômica da Nação a uma região subdesenvolvida, ajuda que na verdade
constituirá compensador investimento.
A expansão econômica da região concorrerá para reduzir os
desníveis que se acentuam cada vez mais entre Estados ricos e pobres e
será um passo decisivo no sentido de imprimir maior uniformidade na

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 213


formação e na distribuição da renda nacional conseguindo assim um
progresso de estrutura muito mais segura do que a que estamos
presenciando nos últimos anos do desenvolvimento do país.
É fácil avaliar o que representará para a economia brasileira uma
política bem planejada e decididamente realizada de aproveitamento de
milhões de palmeiras, hoje improdutivas, e que seriam transformadas, em
futuro próximo, numa substancial e crescente fonte de riqueza.
O programa de ação esboçado pelo Conselho, consubstanciado
no anteprojeto de Lei anexo, prevê um sistema de cooperação entre os
Estados interessados, a iniciativa particular e a União, de forma tal que
torna relativamente módica a contribuição de cada uma das partes. A
União caberá auxiliar com uma quantia media anula de cinquenta e oitenta
milhões de cruzeiros, por um período de cinco a seis anos (Vide anexo n.º
2). Será uma ajuda suficiente para complementar a ação do Estado na
subdivisão das terras devolutas, revestidas de babaçuais, e auxiliar os
particulares nos serviços dos primeiros desbastes das palmeiras e nas
despesas preliminares de fixação do homem na região da indústria extrativa,
segundo um programa adequado de colonização e providência correlatas.
Os demais encargos são usuais nas verbas orçamentarias da União e dos
Estados, exigindo talvez um pouco mais de flexibilidade para o
aceleramento de obras portuárias, ferroviárias e rodoviárias.
Convém, entretanto, ainda neste ponto, reiterar que as explorações
dos palmeirais nativos devem ser feitas dentro de um programa moderado,
não só pelas condições especiais de mão-de-obra, colonização de
transportes, como pelas medidas indispensáveis à sua comercialização e
transformação industrial.
O planejamento que indicamos poderá, assim ser ampliado ou
restringido de acordo com os resultados que a experiência demonstrar e
os recursos e disponibilidade de Tesouro.
Há, aliás, recursos de outras fontes, pois o Governo do Maranhão
tem mostrado interesse em ceder grandes áreas de terras devolutas de seu
patrimônio, e que hoje estão inteiramente improdutivas.

214 Alfredo Wagner Berno de Almeida


Para que se tenha exata noção do que representaria uma orientada
disciplinação das palmeiras já existentes, vale indicar a situação da
produção atual e o que se poderia obter com métodos racionais de trabalho:

Superfície ................ Área dos cocais


Maranhão........................ 336.000 km²....................... 80.000 km²
Piauí................................ 245.000 km²........................ 10.000 km²

Dividida a produção máxima dos dois Estados (em 1949, 82.000


toneladas), pela área de babaçuais, teremos por quilômetro quadrado
menos de 1.000 quilos de amêndoas (exatamente 934 Kg). Tendo cada
quilômetro 100 hectares, pode-se dizer que a produção atual é de cerca
de 10 Kg de amêndoas por hectare. Adotado o desbaste dos babaçuais,
conservadas apenas 150 palmeiras por hectare, e alcançando a produção
a média mínima de 10 kg por palmeira – o que é modesto – teremos 1.500
kg de amêndoas e, pois, 150.000 kg por km²

Por hectare
Produção rotineira atua .................................. 9kg
Exploração racional proposta ......................... 1.500kg

Esses números aprovam, à sociedade, o que poderá resultar com a


disciplinação dos palmeirais nativos.
De outro lado, cálculos prudentes permitem prever que a exploração
de palmeiras nativas por métodos racionais, pode tornar-se um negócio
altamente remunerador, sobretudo quando se levar em conta o reduzido custo
da terra e que a planta poderá entrar em pleno rendimento no segundo ano.
Tendo examinado os diversos aspectos do problema, o Conselho
Nacional de Economia indica as seguintes diretrizes para o levantamento
da economia da região, tendo por base o aproveitamento do babaçu:

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 215


a) – Fixação do homem ao meio, tornando-o proprietário mediante
a colonização de terras devolutas ou particulares;
b) – desenvolvimento, como exploração intercalar, da lavoura de
subsistência e da pecuária visando a melhorar as condições de vida das
populações rurais;
c) – amparo às populações rurais, pela criação e incremento dos
serviços necessários à saúde e educação da criança, reeducação do adulto,
à assistência médica, sanitária e judiciária.
d) – racionalização dos palmeirais nativos, pelo desbaste, plantio
e replantio, estabelecendo prêmios e ajuda financeira;
e) – instalação de estabelecimentos par ao estudo do babaçu, sob
seus diversos aspectos, para orientação racional das culturas e realização
de pesquisas e experimentações sobre a industrialização integra da
oleaginosa e melhoria de sua utilização, notadamente da quebra mecânica
do coco;
f) – conclusão das redes rodoviárias do Maranhão e Piauí e
construção das estradas de ferro do Piauí e seu reequipamento, bem como
da “São Luís-Teresina”; desobstrução das redes fluviais do Maranhão e
Piauí e conclusão das obras do porto de Itaqui (Maranhão), Luís Corrêa
(Piauí) e aparelhamento portuário de Parnaíba;
g) – criação e subvenção a empresas de transporte fluvial;
h) – entendimentos com os governos interessados para concessão
de terras devolutas.

Para o planejamento, orientação e execução de uma política do


babaçu, o Conselho julga indispensável a criação de um órgão com esses
objetivos, que assuma a direção de tal política, utilizando a cooperação
dos demais órgãos de administração pública, notadamente a dos institutos
tecnológicos. Esse órgão seria a Comissão do Babaçu, com sede em São
Luís, composta de representantes dos agricultores, comerciantes e
industriais indicados pelas respectivas associações de classe do Maranhão

216 Alfredo Wagner Berno de Almeida


e do Piauí, além de representantes do Governo Federal e dos Estados,
todos nomeados pelo Presidente da República. Os órgãos dessa comissão
seriam a Junta Deliberativa, constituída por aqueles representantes e a
Superintendência, exercida por pessoa indicada pela Junta e nomeada pelo
Presidente da República. O anteprojeto em anexo prevê as atribuições
desses órgãos, as diretrizes de sua ação e demais providências.

Assim, esperamos ter cumprido o respeitável despacho de Vossa


Excelência, que confiou a este Conselho o “planejamento da utilização
do babaçu”.
Aproveitamos a oportunidade para renovar a Vossa Excelência os
protestos do nosso profundo respeito.

(a)João Pinheiro Filho


Edgard Teixeira Leite
Luiz Dodsworth Martins
Marcial Dias Pequeno
Octavio Gouveia de Bulhões
Hamilton Prado

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 217


ANTEPROJETO DE LEI
Cria a Comissão do Babaçu e dá outras providências

CAPÍTULO I
Da Comissão do Babaçu e seus fins

Art. 1.º - É criada, com sede em São Luís do Maranhão, a Comissão


do Babaçu.

Art. 2.º - São funções precípuas da Comissão, ativar a proteção do


coco babaçu, estimular a melhoria de seu transporte, incentivar a sua
industrialização e a expansão da economia da região, bem como prestar
assistência médica-social às suas populações.

Art. 3.º - Para ativar a produção, compete à Comissão adotar as


seguintes providências:

I – entendimentos com os Governos dos Estados interessados,


para distribuição de terras devolutas revestidas de babaçuais e efetivação
dessa distribuição entre colonos ou empresas;
II – financiamento para instalação de colonos nas terras por eles
obtidas, visando a:
a) – construção de casas higiênicas para moradia da família;
b) – auxílio de orientação no desbaste do palmeiral nativo,
promovendo o plantio, e instruindo prêmios, para transforma-lo em cultura
racionalizada;
c) – auxílio e orientação na formação da agricultura de subsistência
e da pecuária;
d) – auxílio para a manutenção dos colonos durante os 2 primeiros
anos após sua instalação.

218 Alfredo Wagner Berno de Almeida


III – obtenção de créditos para particulares ou empresas já
instaladas ou que venham se instalar nas zonas de babaçuais, desde que
se comprometam a:
a) – realizar a exploração racionalizada do babaçu promovendo o
desbaste, plantio e replantio do palmeiral;
b) – sujeitar-se à fiscalização sobre a aplicação do crédito e à
orientação técnica do serviço de fomento da produção do babaçu;
c) – construir casas higiênicas para os seus empregados ou colonos.

Art. 4.º - Para facilitar o escoamento e colocação das safras de


coco babaçu, compete à Comissão:

I – ativar os serviços de desobstrução, limpeza e normalização da


navegação dos rios Mearim e seus afluentes, Itapecuru e Parnaíba;
II – ativar a conclusão das Estradas de Ferro do Piauí, bem como
o reequipamento da Estrada de Ferro São Luís-Teresina;
III – acelerar as obras do Porto de Itaqui (Maranhão) e Luís Corrêa
(antiga Amarração, ou Piauí) e promover o aparelhamento portuário do
Parnaíba.
IV – subvencionar empresas de navegação e criar organização de
transporte, visando ao barateamento do frete;
V – acelerar a execução do plano rodoviário da região, nas linha
troncos e rede de intercomunicação;
VI – criar e auxiliar a construção de campos de pouso e instalações
rádio-telegráficas na região.

Art. 5.º - Para estimular a industrialização e expansão da economia


da região, compete à Comissão:

I – promover a concessão de financiamentos de vários tipos, em


condições adequadas, para as atividades industriais de aproveitamento
do babaçu;

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 219


II – promover a instalação de estabelecimentos experimentais para
o estudo do babaçu, sob seus vários aspectos, para orientação racional
das cultura e realizar pesquisas sobre a industrialização integral dessa
riqueza e melhoria dos processos de sua utilização, inclusive quebra
mecânica;

III – criar cooperativas de diversos tipos, para amparo das classes


interessadas;

IV – prestar informações e oferecer sugestões aos órgãos


competentes, sempre que oportuno, para a fixação de preços e o
estabelecimento de quotas de exportação;

V – promover ou recomendar às autoridades competentes outras


medidas que possam concorrer para a expansão da economia da região,
realizando os entendimentos necessários com os organismos públicos
competentes.

Art. 6.º - Para assistir e amparar as populações rurais, cumpre à


Comissão promover a criação ou o desenvolvimento dos serviços
necessários à saúde e educação da criança, à reeducação do adulto, à
assistência médica, sanitária e judiciária.

Art. 7.º - Para realizar as funções previstas nesta Lei e Comissão


terá a faculdade de acompanhar a execução das obras federais, estaduais
e municipais, relacionadas com o desenvolvimento da economia do babaçu,
podendo dirigir-se às autoridades competentes, inclusive ao Legislativo
Nacional e ao Presidente da República, apresentando sugestões, relatórios,
representações e recursos.

220 Alfredo Wagner Berno de Almeida


CAPÍTULO II
Dos órgãos da Comissão do Babaçu

Art. 8.º - São órgãos da Comissão do Babaçu:


I – Junta Deliberativa;
II – Superintendência.

Art. 9.º - A Junta Deliberativa compor-se-á de onze membros, sendo


dois representantes da lavoura, dois da indústria, dois do Comércio dos
Estados do Maranhão e do Piauí, dois representantes do Governo desses
Estados, três representantes do Governo Federal, sendo um do Ministério
da Agricultura, um do Ministério da Fazenda e um do Ministério da Viação
e Obras Públicas, todos nomeados pelo Presidente da República.

§ 1.º - Conjuntamente com os membros efetivos da Junta


Deliberativa serão nomeados suplentes, em número igual.
§ 2.º - A função do membro da Junta Deliberativa será exercida
gratuitamente, tendo, entretanto, os que residirem fora da sede da Comissão,
direito à importância que lhes for arbitrada para despesa de viagem e
hospedagem.
§ 3.º - O mandato dos membros da Junta Deliberativa e os seus
suplentes será de cinco anos, podendo, porém, ser substituídos a qualquer
tempo os representantes dos Governos Federal e Estadual.

Art. 10.º - Os representantes da lavoura, indústria e comércio serão


indicados em Assembléia Geral das respectivas entidades de classes dos
Estados do Maranhão e do Piauí.

Art. 11.º - São atribuições da Junta Deliberativa:

I – fixar diretrizes e estabelecer normas de ação;

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 221


II – acompanhar as atividades da Superintendência e realizar as
tomadas das respectivas contas;
III – organizar, anualmente, o orçamento;
IV – aprovar a organização dos serviços e o quadro de pessoal,
fixando os respectivos salários;
V – autorizar a Superintendência a efetivar as operações de crédito
necessárias à realização de suas finalidades;
VI – representar a Comissão do Babaçu perante as autoridades
federais, estaduais e municipais;
VII – organizar o Regimento e eleger o seu presidente por prazo
não superior a 2 anos, não podendo reelegê-lo para o período seguinte;
VIII – apresentar anualmente ao Presidente da República por
intermédio do Ministro da Agricultura, o relatório de suas atividades;
IX – prestar contas anualmente ao Tribunal de Contas;
X – indicar ao Presidente da República o Superintendente em lista
tríplice, e fixar-lhe os vencimentos.

Parágrafo único – Deverá a Junta Deliberativa, a fim de dar


cumprimento aos seus encargos, reunir-se pelo menos uma vez a cada
dois anos.

Art. 12.º - atribuições do Superintendente:

I – cumprir as resoluções da Junta Deliberativa;


II – superintender a administração e os serviços da comissão;
III – preparar os assuntos para as reuniões da Junta Deliberativa;
IV – autorizar as despesas previstas no orçamento e ordenar os
respectivos pagamentos, obedecendo às formalidades estabelecidas pela
Junta Deliberativa;
V – prestar contas, semestralmente, à Junta Deliberativa,
apresentando na mesma oportunidade relatório de suas atividades;

222 Alfredo Wagner Berno de Almeida


VI – propor à aprovação da Junta Deliberativa a organização dos
serviços e o quadro do pessoal.

CAPÍTULO III
Dos recursos

Art. 13.º - Para realizar as suas finalidades terá a Comissão do


Babaçu, além de outros, os recursos consignados anualmente no orçamento
da União.

Art. 14.º - Os Estados interessados deverão tomar as necessárias


medidas para cooperar financeira e economicamente na execução do plano
previsto nesta Lei, especialmente por meio de concessão de terras
devolutas.

Art. 15.º - A Junta Deliberativa encaminhará anualmente ao poder


competente da União o projeto de orçamento para o exercício seguinte.

Art. 16.º - É conferida à Comissão do Babaçu, para a sua instalação


e atividades durante o primeiro exercício, a quantia de Cr$ 40.000.000,00.

Art. 17.º - Esta lei entrará em vigor na data de sua publicação.

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 223


LEI N.º 838 DE 22 DE DEZEMBRO DE 1952 *
Proíbe a derruba de Palmeira Babaçu e dá outras providências.

O Governador do Estado do Maranhão

Faço saber a todos os seus habitantes que a Assembléia Legislativa


decretou e eu sanciono a seguinte lei:

Art. 1.º - É terminantemente proibido derrubar palmeira de babaçu,


para extração de palmito ou outro qualquer fim não compreendido nas
exceções estabelecidas nesta lei. Aos infratores aplicar-se-á multa de
Cr$100,00 (cem cruzeiros), por palmeira abatida ou danificada sem
prejuízo das demais penalidades em que incorrer nos termos da legislação
vigente.

Art. 2.º - O disposto no artigo precedente não abrange:

a) – O corte de palmeiras a que procederem os órgãos


especializados da Administração pública, estadual e municipal, para
desbastamento dos babaçuais; bem assim os serviços públicos municipais
e estaduais.
b) – as palmeiras que forem derrubadas de conformidade com a
permissão contida no artigo seguinte.

Art. 3.º - Nas terras de propriedade particular e nas devolutas aforadas


ao Estado, havendo áreas onde não floresça a palmeira de babaçu, só aí
será permitido lavrar; se, porém a ocorrência da palmeira se verificar em
toda a gleba, permitir-se-á a derruba, se considerada indispensável ao preparo
do terreno para as plantações, observadas, entretanto, as seguintes normas.

* De autoria do Deputado Raimundo Bacelar.


for encontrado conduzindo ou utilizando palmito mesmo de palmeiral de sua propriedade.

224 Alfredo Wagner Berno de Almeida


a) – Sacrificar apenas as palmeiras improdutivas;
b) – proceder de modo a que a distância entre as palmeiras
sobreviventes não ultrapasse de oito metros.
c) – defender contra o fogo, por ocasião de queima do roçado, as
palmeiras novas, cuja fronda estiver a menos de três metros de solo.

§ Único – A inobservância das normas acima enumeradas será


punida com a multa de Cr$100,00 (cem cruzeiros) a Cr$1.000,00 (hum
mil cruzeiros).

Art. 4.º - Será punido com multa de Cr$200,00 (duzentos cruzeiros)


a Cr$1.000,00 (hum mil cruzeiros) todo aquele que, em qualquer parte,

Art. 5.º - Incumbe a fiscalização de presente lei aos Agentes de


Coletoria, em particular, aos inspetores de quarteirão, sub-delegados, e,
em geral, a todas as autoridades policiais e fiscais do Estado e do
Município.

Art. 6.º - As multas estabelecidas nos Arts. 1.º, 3.º e 4.º, serão
impostas pelo Coletor da circunscrição, mediante ato de infração lavrado
pelas autoridades referidas no artigo precedente, ou em consequência de
denúncia apresentada por pessoa idônea.

Art. 7.º - Do despacho do coletor, que impuser multa poderá


recorrer o infrator para o Conselho de Contribuintes, e Prefeito Municipal,
quando as denúncias forem feitas por autoridades municipais, dentro do
prazo de 30 dias contados da data em que for intimado da decisão, nos
termos do Art. 10.º da Lei 662, de 31 de Agosto de 1951.

§ Único – Das decisões favoráveis à parte, haverá recurso, ex-


ofício, interposto no próprio despacho.

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 225


Art. 8.º - Das importâncias provenientes das multas previstas nesta
lei, 50% pertencerão ao autuante.

Art. 9.º - As multas não pagas dentro do prazo de 30 dias serão


cobradas executivamente, na forma da legislação reguladora do assunto.
Art. 10.º - A presente lei entrará em vigor na data de sua publicação.
Art. 11.º - Revogam-se as disposições em contrário conhecimento
e execução da presente lei pertencerem que a cumpram e façam cumprir
tão inteiramente como nela se contém. O Secretário de Estado dos
Negócios do Interior, Justiça e Segurança, a faça publicar, imprimir e correr.

Palácio do Governo do Estado do Maranhão, em São Luís, 22 de


Dezembro de 1952, 131.º da Independência e 64.º da República.

EUGÊNIO BARROS
Alexandre Cost

226 Alfredo Wagner Berno de Almeida


ACORDO ENTRE OS COMPRADORES DE BABAÇU

Em face das grandes irregularidades observadas nas partidas de


babaçu, embarcadas no porto de São Luís do Maranhão, e, para que tais
irregularidades sejam sanadas para o bem e em defesa dos interesses
mútuos, os signatários resolvem propor o seguinte:

1) Exigir, nos nossos contratos de compras, firmados para babaçu


a ser embarcado em São Luís do Maranhão, o seguinte:

a) Sacaria nova, peso uniforme de 60,500 grs.


b) O uso de fios adequados na costura dos sacos de babaçu.
c) Marcas bem legíveis e contra-marcas, fazendo constar dos
respectivos conhecimentos marítimos, a fim de que possa ser exigida a
separação das marcas de cada conhecimento.
d) Para os lotes de babaçu, oriundos de Caxias, ou outras Cidades
do interior, em trânsito por São Luís, deverão ser pesados por ocasião do
embarque e certificados de acordo com o peso encontrado, em vista da
impossibilidade na uniformização do peso. Para esses lotes deverá constar
uma contra-marca especial, a fim de que sejam identificados os sacos por
ocasião da descarga.

2) Fica acertado e bem claro que, nenhuma firma signatária do


presente acordo, receberá ou concordará em receber lotes de babaçu sem
as características acima, isto é, sacaria nova, costura adequada e peso
uniforme.

3) Fica resolvido que, nos contratos de compras, serão exigidos os


certificados de peso e embarque emitidos pela Sociedade Brasileira de
Superintendência de Embarque e Descargas Ltda., representada pelo seu
agente em São Luís do Maranhão.

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 227


4) No caso da impossibilidade de embarques em sacaria nova, o
exportador poderá embarcar o produto em sacaria usada, forte e perfeita,
assumindo porém, a responsabilidade da diferença de peso no destino
que ultrapassar a 3%. Os sacos destes embarques tem de ter marcação
especial e de fácil identificação, devendo a pesagem na descarga ser
acompanhada pelo representante do embarcador ou da Sociedade Brasileira
de Superintendência.

O Certificado de Superintendência deverá fazer parte integrante


dos documentos a serem enviados, pelos embarcadores, cabendo a estes
últimos encargo dos seus respectivos custos.
Cabendo à dita Superintendência, fiscalizar a sacaria, os fios
aplicados nas costuras, assistir ao embarque, zelar pela carga durante as
operações de embarque; protestar em nosso nome junto às autoridades
responsáveis por quaisquer anormalidades verificadas.
Na parte que se refere à assistência ao embarco, para as despesas
de Superintendência de Cr$0,30 por saco, para as despesas de
Superintendência, com zeladores e costuradores, durante aquelas
operações, sendo que os embarcadores ficam autorizados a cobrar a relativa
importância nas suas faturas, e cabendo-lhes pagar a Sociedade Brasileira
de Superintendência as despesas mencionadas.
As firmas que mantêm filial naquele porto, e, cujos embarques
forem efetuados pelas referidas filiais, ficam sem compromisso da exigência
do certificado da Superintendência devendo entretanto, a mercadoria ser
rigorosamente embarcada em sacos novos e de peso uniforme, de 60,500
gramas.
Para o fiel cumprimento, por parte dos embarcadores, uma cópia
devidamente assinada por todos os recebedores será enviada a Associação
Comercial de São Luís do Maranhão, pedindo o apoio para a obtenção de
conformidade dos exportadores.
Rio de Janeiro, 15 de Setembro de 1954.

228 Alfredo Wagner Berno de Almeida


COMPANHIA CARIOCA INDUSTRIAL

UNIÃO FABRIL EXPORTADORA S.A.(U.F.E)


João Gomes Lobarinhas – Diretor Presidência

A.A. CARLOS PEREIRA INDÚSTRIAS QUÍMICAS LTDA.

COMPANHIA GESSY INDUSTRIAL

CIA. DE PRODUTOS QUÍMICOS “FÁBRICA BELÉM”


Diretor – Gerente

“CADAL” – CIA. INDUSTRIAL DE SABÃO E ADUBOS


A. Gualberto Cunha – Procurador

VIEIRA, GARCEZ & CIA. LTDA.


Indústrias Químicas Celeste

INDÚSTRIAS SABÃO E ÓLEOS LUBOSA S/A

FONSECA IRMÃOS INDÚSTRIA E COMÉRCIO S/A


Diretor Vice-Presidente

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 229


DECRETO N.º 41.150 – de 14 de março de 1957

Cria no Instituto de Óleos, do Serviço Nacional de Pesquisas Agronômicas, do


Centro Nacional de Ensino e Pesquisas Agronômicas do Ministério da Agricultura,
o “Grupo de Estado do Babaçu”

O presidente da República usando das atribuições que lhe confere


o artigo 87, inciso I, da Constituição e tendo em vista o que dispõe o
inciso II do artigo 1.º do Decreto-lei número 2.138 de 12 de abril de
1951, decreta:

Art. 1.º - Fica criado no Instituto de Pesquisas Agronômicas do


Centro Nacional de ensino de Pesquisas Agronômicas do Ministério da
Agricultura o “Grupo de Estudo do Babaçu” (G.E.B.), como órgão técnico
auxiliar da Comissão de Estudos Econômicos (C.E.E.) do mesmo Instituto
com a finalidade de estudar, nos Estados do Maranhão e Piauí a produção
do Babaçu – os meios de transporte e outras medidas atinentes à
industrialização desse produto em curto prazo.

Art. 2.º - O Grupo de Estudo do Babaçu (G.E.B) é constituído


de um representante de cada um dos seguintes órgãos: Instituto de Óleos,
Superintendência do Plano de Valorização Econômica da Amazônia,
Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, Departamento de Estradas
de Rodagem, de Estradas de Ferro e de Portos, Rios e Canais, Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística, dos Estados produtores e das
associações de produção e comércio locais.

§ 1.º - O G.E.B. poderá solicitar a colaboração de técnicos do


Instituto de Óleos, mediante aquiescência do respectivo Diretor.
§ 2.º - Quando indispensável a colaboração ao G.E.B. de servidores
de outros órgãos do serviço público poderá verificar-se nos termos da
legislação vigente, mediante prévia autorização do Presidente da República.

230 Alfredo Wagner Berno de Almeida


§ 3.º - Os representantes dos Estados das Associações e dos
serviços locais só farão para do G.E.B. durante o tempo em que este se
encontrar no Estado respectivo.

Art. 3.º - As despesas com a execução dos trabalhos do G.E.B.


correrão à conta das dotações destinadas ao estudo da industrialização
do Babaçu, constantes dos orçamentos da Superintendência do Plano de
Valorização Econômica da Amazônia e do Ministério da Agricultura.

Art. 4.º - O relatório dos estudos realizados pelo G.E.B. deverá


ser encaminhado através dos órgãos competentes ao Ministro da
Agricultura, com o parecer do Diretor do Instituto de Óleos, dentro do
prazo de 120 (cento e vinte) dias contados da publicação do presente
decreto.

Art. 5.º - O presente decreto entrará em vigor na data da sua


publicação.

Art. 6.º - Revogam-se as disposições em contrário.

Rio de Janeiro, 14 de março de 1957, 136.º da Independência e


69.º da República.

JUSCELINO KUBISTSCHEK
Mário Meneghetti.

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 231


Doc. N.º 174/62. São Luís, 14 de março de 1962.
SUGESTÕES DA ASSOCIAÇÃO COMERCIAL DO MARANHÃO
PARA ESTUDO DO PROBLEMA DO BABAÇU.

A indústria de óleos comestíveis, no ano findo, após um período


de escassez, no primeiro semestre, teve o seu abastecimento normalizado
com a safra de amendoim, mais abundante em quantidade e de melhor
qualidade do que a safra do ano anterior.

2. No caso de prosseguir esse interesse no cultivo do amendoim e


também da soja, e ainda com o aumento da produção do caroço do
algodão, resultante da expansão da lavoura dessa fibra, é de supor, levando-
se em conta a quota de produção do babaçu, que poderá haver excedente
de matéria prima no abastecimento às indústrias nacionais de óleos
comestíveis.

3. O Estado de São Paulo possui solo e clima apropriado para a


cultura do amendoim e afirmam os técnicos agrícolas que a sua produção
poderá ser duplicada e até mesmo triplicada, no decorrer de pouco tempo
e sem grande aumento da área plantada, realizando apenas uma cultura
intensiva dessa oleaginosa. Há previsão que a safra atual seja bem maior
que a do ano passado, por sua vez superior à dos anos anteriores.

4. Acresce ainda que se colhe o amendoim duas vezes por ano: -


safra das águas e safra das secas, enquanto, por outro lado, vem ele
recebendo assistência dos Poderes Públicos, mencionando-se, para
exemplo, a fixação de tipos e preços mínimos.

5. O Rio Grande do Sul vem apresentando, de ano a ano, um


apreciável aumento de produção de soja e promovendo a instalação de
novos estabelecimentos para sua industrialização, constituindo, esse

232 Alfredo Wagner Berno de Almeida


incremento, fator preponderante para suprir eficientemente as necessidades
internas do país.

6. A produção do caroço de algodão ascende, de safra a safra, com


o aumento considerável do cultivo do algodão nas regiões Norte e
Nordeste, proporcionando um elevadíssimo contingente de sementes
oleaginosas para o abastecimento das indústrias nacionais. O quadro a
seguir, da produção de algodão em rama, no Brasil nas cinco últimas safras,
demonstra com clareza, essa afirmativa:

7. O sebo e gorduras animais, utilizados em boa proporção em


artigos de toalete com adição de óleos vegetais, mantêm-se estáveis, por
vezes mesmo, com acentuados acréscimos de oferta no mercado interno.

8. Nessa contingencia, não resta dúvida, que poderá haver


excedentes de sementes oleaginosas no mercado nacional. Resulta dai,
que o preço da amêndoa e do óleo industrial do babaçu, há de sofrer a
influência da oferta, em crescente escala, da produção do amendoim, da
soja e do caroço de algodão.

9. Há, consequentemente, necessidade de promover a procura de


mercados externos para a produção industrial ou mesmo, para as nossas
sementes e amêndoas oleaginosas, a fim de que não ocorra um desajusta-
mento no meio rural ou até mesmo uma comoção social, com a desvalo-
rização do produto agrícola ou de produção extrativista, no caso, a amên-
doa do babaçu.

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 233


10. A solução, para escoamento do excedente da produção nacio-
nal, de óleos comestíveis, sementes e amêndoas oleaginosas, está ao alcan-
ce dos Poderes Públicos através de providência junto ao GATT (General
Agreemente on Tariffs and Trade – Acordo Geral de Tarifas e Comércio) e
a ALALC – Associação Latino Americana de Livre Comércio ou sejam,
possibilidades de vendas no Mercado Comum Europeu – M C E e na Zona
de Livre Comércio – Z L C ( Mercado Comum Latino-Americano).

11. O Ministério da Indústria e Comércio, deputado Ulisses Gui-


marães, em reunião do GATT, em 13 de novembro do ano findo, chefian-
do a delegação brasileira firmou princípio e obteve a compatibilidade do
Mercado Comum Europeu com os termos do Convênio do GATT, de
particular interesse para a América Latina e, especialmente, para o Brasil,
defendendo com ardor e veemência a igualdade de tratamento para pro-
dutos brasileiros com similares africanos.

12. Em Montevidéu, no segundo semestre do ano findo, os gover-


nos das Partes Contratantes da ALALC fixaram as bases fundamentais
para o mecanismo da Zona de Livre Comércio.

13. O tratado de Montevidéu permitiu que a Zona de Livre Co-


mércio – Z L C obtivesse concessões na barreira alfandegária. É óbvio
que há, para atingir esse objetivo, necessidade de aumento de produtivi-
dade e reajustamento de custo da produção à realidade do mercado inter-
nacional.

14. O Brasil tem obrigação, de caráter internacional, nessa finali-


dade, na seguinte cláusula da “Carta de Punta del Este”, com objetivos
de ALIANÇA PARA O PROGRESSO.

15. “Fortalecer os acordos de integração econômica, a fim de che-


gar-se ao objetivo final de realizar a aspiração de criar-se um mercado

234 Alfredo Wagner Berno de Almeida


comum latino-americano que amplie e diversifique o comércio entre os
países da América Latina e contribua, desta maneira, para o crescimento
econômico da região.”

16. O Governo da União, atento às finalidades dos tratados inter-


nacionais do comércio, destinados a promover a expansão econômica do
país, criou, pelo decreto n.º 220 de 24 de novembro de 1961, no âmbito
do Ministério da Indústria e do Comércio, o Grupo Executivo de Fomen-
to à Exportação – GEFEX.

17. Compete a esse grupo de trabalho coordenar medidas destina-


das a incrementar as exportações do Brasil, criando condições, simplifican-
do o processamento das formalidades burocráticas, além de outras para
redução de tributos que oneram as exportações de certos produtos.

18. Claro e objetivo é o propósito do GRUPO EXECUTIVO,


recém-criado, e a ele compete estudar e coordenar medidas para promo-
ver o escoamento dos excedentes de óleos comestíveis, de semente e
amêndoas oleaginosas, na conquista de mercados externos, a fim de evi-
tar colapso nas atividades industriais, agrícolas e extrativas do país, esti-
mulando, por outro lado, maior desenvolvimento econômico nacional.

19. Nesse mesmo intuito, visando atender exigências do processo


de desenvolvimento econômico do País, também dentro de objetivos de
concessões em Tratados internacionais, notadamente de Roma e Monte-
vidéu, o CONSELHO NACIONAL DE DESENVOLVIMENTO, ins-
talou ante-ontem, dia doze, cinco GRUPOS DE TRABALHO, compos-
tos de técnicos e economistas, que entre outros encargos de âmbitos ad-
ministrativos e de investigamentos, empreenderão também, estudos e
pesquisas para sugestões ao Governo da Nação sobre questões de con-
juntura econômica brasileira. Nessa oportunidade, o secretário-geral do
Conselho Nacional de Desenvolvimento, Dr. Leocádio de Almeida

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 235


Antunes, dando posse, destacou os problemas subordinados ao GRUPO
DE TRABALHO que abrange Estudos sobre o Comportamento da
Economia Nacional frente ao Mercado Comum Europeu e à Asso-
ciação Latino-Americana de Livre Comércio.

20. Não constitui privilégio ou assistência graciosa as vantagens


que forem concedidas ao babaçu, para a conquista de mercados externos,
inclusive a redução de tributos no setor nacional ou na esfera internacional.
É que a Associação Latino-Americana de Livre-Comércio ALALC divulgou
(Diário do Comércio, 4/1/62) as listas nacionais de produtos sobre cuja
importação cada país estabelece redução de gravames, de acordo com o
programa previsto pela Primeira Conferência da Zona Livre de Comércio,
realizada em Montevidéu no mês de dezembro último. A lista do Brasil, a
mais longa, inclui produtos inteiramente livre de direitos.

21. Nesse plano, até os Estados Unidos, que dispõem de compra


abundante e de baixo custo, poderão conceder uma quota de aquisição de
babaçu, como já vigorou em face dos Acordos assinados em Washington,
no ano de 1942, pela Missão Souza Costa.

22. Essa sugestão, a par de seu apoio na ALIANÇA PARA O


PROGRESSO, se fortalece na palavra do Secretário de Comércio dos
EUA, senhor Luther H. Hodges, anteontem, diz doze, perante a Comissão
de Meios e Arbítrios da Câmara dos Representantes, encarecendo a
importância da aprovação do programa específico do presidente Kennedy,
para incrementar as trocas dos EUA com a América Latina, outros países
do mundo livre e a comunidade econômica europeia ou sejam critérios
mais liberais para comércio com os Estados Unidos da América.

23. Em procura de outros mercados, há um favor do babaçu,


demais oleaginosas e óleos comestíveis, em geral, a vantagem do elevado
consumo, “per capita”, em diversos países, em comparação com o Brasil,

236 Alfredo Wagner Berno de Almeida


onde atinge escassamente a sete quilos, enquanto se eleva a quatorze,
“per capita” no Uruguai e quase dezesseis na Argentina.

24. É desse modo que o Governo da União poderá prestar a sua


parcela de auxílio na solução do problema de congestionamento ou
saturação do mercado nacional de óleos comestíveis, sementes e amêndoas
oleaginosas consequentemente, na crise que atravessa o babaçu, no
comércio regional.

25. Examinando o problema no panorama nacional, as


probabilidades de excedentes, na produção de oleaginosas dentro do país
e indicado o caminho para seu escoamento, com base nos Acordos e
Convênios internacionais, de assuntos econômicos, todos em plena
vigência e já atuantes na obtenção de mercados mundiais para outros
produtos nacionais, cumpre-nos, agora, examinar a situação do babaçu
no âmbito do Estado e as providencias possíveis para amparo da indústria
extrativa e de beneficiamento dessa amêndoa oleaginosa.

***

26. A rigor, pode-se assegurara que não há ainda saturamento de


oleaginosas no mercado nacional, tanto que, no primeiro semestre do ano
findo, como se afirma inicialmente, houve escassez de abastecimento,
regularizado, posteriormente, com a safra do amendoim, mais abundante
e de melhor qualidade do que a safra do ano anterior.

27. Há, efetivamente, perspectivas, que em anos vindouros assim


venha a acontecer. É previsão que pode não se efetivar, se fatores
climáticos e sociais forem contrários. As precipitações pluviométricas e
as pragas de lavoura poderão devastar as colheitas, acrescendo que o êxodo
dos campos cresce assustadoramente, desencorajando o homem rural com
o desinteresse dos Governos pelas atividades agro-pecuárias.

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 237


28. As coincidências de safras de oleaginosas podem, em exame
superficial, dar a impressão de saturamento do mercado nacional. É
entretanto, uma situação transitória, momentânea, por vezes com um
montante de produção insuficiente para abastecer as nossas indústrias no
período das entre-safras.

29. A oferta e a procura é uma lei imutável, de universalidade de


efeitos, notadamente quando as fontes de abastecimento não dispõem de
amparo cooperativo ou assistência governamental para armazenamento
do produto na plenitude das safras, condição essencial para equilíbrio do
abastecimento às indústrias, donde consequentemente advirá estabilidade
nos preços de venda de matéria prima.

30. Não possuindo organização adequada, o comércio regional de


babaçu, flutua, sem segurança, por vezes deixando lucros satisfatórios,
para, com frequência, não proporcionar resultados compensadores ao
exportador maranhense. São consequências de preços adotados para
compra nas fontes de produção, em nosso meio rural, com base nas
cotações que, momentaneamente, se elevam no mercado consumidor do
país, baixando quando a oferta é superior à procura.

31. É uma ocorrência dessa natureza que vem trazendo em pânico


o comércio exportador de amêndoas de babaçu do Maranhão, diante de
retenção de um estoque de cerca de 20.000 sacos, adquiridos a preços
que oscilam, entre Cr$31,00 a Cr$33,00, por quilo, situação agravada com
uma elevadíssima quebra de peso, por se tratar de produto colhido na
atual estação invernosa.

32. Decorre daí a necessidade de um órgão de direção e controle


de economia do babaçu, a fim de orientar essa prodigiosa fonte de riqueza
natural, de modo a resguardá-la de especulações do mercado consumidor
e promover incremento de sua produtividade no âmbito rural, criando

238 Alfredo Wagner Berno de Almeida


condições para poder competir com os seus similares, nos mercados
internos ou externos.

33. O incremento da lavoura do arroz, que coloca o Maranhão


como quinto produtor nacional, ainda assim não supera a primazia do
babaçu na economia do nosso Estado. É uma dádiva da natureza que
proporciona uma atividade subsidiária ao nosso lavrador, suprindo a sua
subsistência nos períodos entre-safras ou épocas de má colheita agrícola.

34. O babaçu não pode, consequentemente, ser relegado a um


plano secundário nos esquemas de governos do nosso Estado, por
constituir, de longos anos, a fonte primordial de rendas orçamentárias.

35. Há necessidade e premência de prestar assistência ao homem


do campo que coleta o coco, ao comprador de amêndoas no interior do
Estado, ao exportador e ao industrial.

36. Essa assistência, é obvio, deve iniciar-se, no meio rural, ao


produtor de amêndoa (coleta e quebra de coco) de modo a poder estimulá-
lo a intensificar a sua produção, realizando, para esse fim, maior coleta de
coco nas matas mais longínquas. Há necessidade, para atingir esse objetivo,
de fixação de um mínimo de preço, capas de compensar o trabalho, afim
de evitar preços ínfimos que desencorajam o esforço humano e provocam
consequentemente o abandono da atividade.

37. Não é uma inovação que se sugere, é medida posta em pratica


para incrementar as culturas de amendoim e de soja, similares oleaginosos
do babaçu.

38. Enquanto se promove condições para incentivar o plantio do


amendoim e da soja, investindo no solo capital e trabalho, para obter-se o
produto, o coco babaçu é oferecido pela natureza, sem qualquer trabalho

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 239


de plantio e cultivo, nem mesmo o trabalho de colher: - é uma dádiva de
Deus, junta-se no solo, quando ele cai na maturação.

39. Não pode e nem deve o Poder Público abandonar essa fonte
prodigiosa de matéria prima. Ao contrário, cumpre dar-lhe proteção e
amparo, conservá-la, incentivar a sua produção, farta e abundante,
propiciando alimento às populações rurais e recurso financeiro na venda
de amêndoa.

40. Não é, a rigor, a indústria extrativa do babaçu que provoca a


redução das nossas atividades agrícolas. As oscilações do índice de
produção das lavouras decorre das precipitações pluviométricas e das
pragas e insetos nocivos, enquanto a quebra do babaçu ocupa somente
mulheres e crianças: - é pejorativo, ao homem rural, válido, quebrar babaçu.

41. O nosso lavrador é, antes de tudo, na verdade, um bravo,


realizando o arroteamento da terra exclusivamente na força bruta,
cultivando-a somente com o fogo, com o machado e o enxadão, tornando-
se assim, exíguo o tempo que vai da colheita de uma safra ao início dos
trabalhos para outra semeadura.

42. Não há, no Maranhão, agricultura mecânica e nem adubação


do solo, para torna-la intensiva em produção. Está restrita, exclusivamente,
ao limite do esforço humano do nosso rude lavrador.

43. O aumento apreciável e substancial, que está se verificando,


na colheita do arroz, provém, pode-se afirmar, das levas de braços
nordestinos que vem povoar os nossos vales, férteis e ubérrimos, para
todas as lavouras, citando-se, como exemplo, o vale do Pindaré,
anteriormente, de produção insignificante e restrita.

240 Alfredo Wagner Berno de Almeida


44. Daí resulta, que o maior ou menor índice de colheita de coco,
provém, como causa primordial da produtividade dos palmeirais, em
decorrência das condições climáticas no período de frutificação, excluída,
certamente, a intensidade de penetração na floresta virgem, fato que não
é normal, pelos perigos e distancias a percorrer a pé.

45. O comerciante, comprador de amêndoas no interior do Estado,


e o exportador de babaçu, na Capital, necessitam também, de auxílios do
Poder Público para poderem, satisfatoriamente, promover o escoamento
das safras criando condições para dar valor econômico à amêndoa do
babaçu.

46. É princípio assente, em economia política que na recuperação


de regiões sub-desenvolvidas, o “crédito e o comércio são essenciais à
reação econômica, aumentando e ativando oportunidades de estímulo à
produção e suas interdependentes relações de distribuição, consumo e
permutas”.

47. É sobejamente conhecido que o Maranhão não possui uma


rede bancária suficiente para suportar o financiamento da expansão
econômica do Estado. Maior ainda é a carência do crédito direto ao
produtor.

48. Resulta daí que, em nosso Estado, é o comércio que efetua o


financiamento ao produtor, desde o preparo do orçado aos trabalhos finais
da colheita.

49. Fácil é avaliar, o avultado capital que há necessidade, do


comerciante maranhense, manter imobilizado, em mão do produtor, para
movimentar a economia rural, por não dispor o pequeno e humilde
produtor, que faz a grandeza econômica do Maranhão, condições
necessárias para obter o auxílio do crédito bancário rural, tanto mais, que

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 241


há absoluta carência dos estabelecimentos de crédito, dessa natureza, no
interior do Estado.

50. Examinadas as condições da palmeira, da atividade extrativa


(coleta e quebra de coco), do comércio, resta agora mencionar o valor da
indústria no aproveitamento econômico da amêndoa do babaçu.

51. A exportação de matérias primas é um estágio de regiões sub-


desenvolvidas, tanto que a Inglaterra, iniciando na metade do século XVIII,
a fase de desenvolvimento industrial no mundo de então, transformou-se
em potência universal, com um surto admirável de comércio, navegação
e bem estar social.

52. Como ninguém ignora, considerável parte de nossa produção


de babaçu continua a ser exportada em amêndoas, nada obstante, já ter
sido comemorado o cinquentenário da comercialização do produto, com
os primeiros embarques realizados para a Inglaterra.

53. Sofre, com isso, a economia maranhense um tríplice prejuízo


de ordem econômica, social e mora. Prejuízo econômico, porque perde,
em favor das praças importadoras, e os sub-produtos que resultam da
industrialização, como sejam, a torta, a borra, etc.; prejuízo social, porque
lhe escapam oportunidades de empregar mão-de-obra local, e prejuízo
moral, porque exportar matéria prima em bruto, principalmente sementes
oleaginosas, de tão fácil transformação, à prova de atraso do meio em que
se faz tal comércio.

54. Acontece, porém, que tais exportações se fazem não por faltar,
na Praça, usinas para reduzir as amêndoas a óleo, e até mesmo para fabricar
gorduras alimentícias, mas como efeito de causa de caráter puramente
fiscal, consoante passamos a demonstrar.

242 Alfredo Wagner Berno de Almeida


55. Normalmente, as amêndoas de babaçu saem da mão do produtor
e são embarcadas aqui, em São Luís, para fora do Estado, pagando quatro
vezes o imposto sobre vendas e consignações.

56. A primeira corresponde à venda feita pelo produtor ao


comerciante mais próximo do lugar da produção; a segunda, é pertinente
à venda realizada por esse comerciante a um comprador de gêneros de
sede do município; a terceira, relativa à venda que esse comprador faz a
um dos exportadores desta Praça; e a quarta ocorre quando o exportador
embarca a mercadoria para outro Estado.

57. Se, porém, para evitar que as amêndoas sejam exportadas no


seu estado natural, vende-as a uma fábrica local, quando esta depois de
transformá-las em óleo, remeter o produto para fora do território
maranhense, pagará mais uma incidência de imposto, ou seja, a quinta.

58. Pode, no entanto, dar-se o caso de ser o comprador da amêndoa


na sede do município de origem, uma filial, com matriz estabelecida nesta
Capital. Ocorrendo essa hipótese, o produto chega a São Luís, apenas
com duas incidências do imposto, pois deste são isentas as operações
entre estabelecimentos do mesmo dono. Então, quando a matriz exportar
as amêndoas, pagará mais uma incidência, que vem ser a terceira.

59. Se, porém, ao invés de a exportá-la, em bruto, vende-las a


fábrica, esta, quando as embarcar, transformadas em óleo ou gordura,
será mais uma vez tributada, atingindo, assim, a quarta incidência.

60. Como se vê, o Estado, ao invés de incentivar a industrializa-


ção da amêndoa, o que faz é punir essa industrialização, tributando-a
mais uma vez. Noutras palavras: para exportar-se babaçu em amêndoas
no seu estado natural, a Fazenda só exige quatro vezes o pagamento do
imposto, no primeiro caso acima figurado, e três, no segundo; ao passo

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 243


que para exportá-lo sob a forma de óleo ou de gordura, exige quatro ou
cinco vezes, conforme tenha ou não havido a supressão de uma incidên-
cia, por efeito de isenção do imposto nas operações entre matriz e filial.

61. E nem só diga que o contribuinte pode reduzir essas incidênci-


as, suprimindo algum ou alguns dos intermediários, pois o fisco as exige
compulsoriamente, mesmo que o produto tenha sido vendido apenas
duas vezes.

62. Longe de haver estímulo para a industrialização, no Estado,


do nosso principal gênero da exportação, o que há é embaraço posto pelo
fisco a iniciativas de tal natureza.

63. Encerrando o panorama atual da situação da amêndoa do


babaçu na economia maranhense, cumpre ainda, realçar o valor ou, mais
acertadamente, a supremacia da palmeira do babaçu na distribuição
fisiográfica das florestas nativas do Brasil, quanto ao aspecto do privilé-
gio de aproveitamento econômico do coco em confronto aos demais si-
milares oleaginosos silvestres, na mata equatorial amazônica, da qual par-
ticipa o revestimento florístico do Maranhão.

64. Paul Le Cointe, cientista de renome, com a segurança de vali-


osos conhecimentos da mata equatorial, afirmava, recomendando o seu
aproveitamento: - “A floresta amazônica é, talvez, a mais rica do mundo
em variedade de plantas fornecedoras de óleos, gordura, essências, ceras,
bálsamos e resinas: sem dúvida nenhuma é a mais vasta.

65. Afirma o Dr. Ricardo Borges, também estudioso do assunto,


que a maioria de nossas oleaginosas não comporta aproveitamento em base
econômica e comercial, devido a dispersão ou míngua, na floresta, entre-
tanto algumas apresentam adensamento, em espécie, ou consórcio de simi-
lares, oferecendo condições de exploração ordenada e remuneradora.

244 Alfredo Wagner Berno de Almeida


66. Entre as oleaginosas que, na palavra do culto economista, apre-
sentam adensamento ou colônias vegetais, destaca-se o babaçu, no
Maranhão, onde forma imensas concentrações nativas, por todo o territó-
rio do Estado, na exuberância de sua produtividade, valor econômico e
comercial, quer no adensamento das florestas como nas proximidades
dos centros de distribuição e consumo.

***

67. Em face do exposto, há dois aspectos fundamentais a conside-


rar, na crise que, no momento, aflige o mercado de óleos comestíveis, de
sementes e amêndoas oleaginosas:
- haver saturamento no consumo interno do país;
- ou simplesmente, maior oferta de sementes e amêndoas nos pe-
ríodos de safras.

68. Na primeira parte desta exposição examinou-se, detalhada-


mente, a possibilidade de haver produção excedente ao consumo do país,
indicando-se, nesse caso, o caminho para uma solução do problema den-
tro dos esquemas de medidas que o Governo da União implantou para
incentivo à exportação nacional, através de Conselhos, Grupos de traba-
lho, inclusive a GEFEX e organismos internacionais, como a ALALC,
ZLC, GATT e MCE, todos em plena atividade, com resultados proveito-
sos para o desenvolvimento econômico do país, notadamente na obten-
ção de divisas.

69. O segundo aspecto, ou seja, a situação transitória de maior


oferta de sementes e amêndoas nos períodos de safras é, certamente, a
realidade do mercado nacional das oleaginosas.

70. Em um ou outro aspecto de conjuntura deve o babaçu ser


amparado, com medidas e providências, oriundas dos Governos da União
e do Estado.

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 245


71. Se houver conclusão de excedentes oleaginosos no país,
consequentemente necessidade de desbastar-se o mercado nacional, deve
haver fixação de uma quota de exportação para o babaçu, sem privilégios
ou sobreposição em favor do amendoim ou da soja.

72. Reafirmando não haver produção de oleaginosas, além das


necessidades do mercado nacional, cumpre resguardar o babaçu, amparando-
o nas épocas de fatura e abundância de amendoim, de soja, caroço de
algodão, e da sua própria colheita para manter um equilíbrio de escoamento,
notadamente nos períodos de entre-safras das oleaginosas do país.

73. Nos termos do exposto, considerando:


a – que a nação está devidamente aparelhada a promover o
escoamento dos excedente da produção nacional para mercados externos,
dispondo para esse objetivo de entidades e grupos de trabalho que
promovem estudos e indicam medidas e providências, inclusive redução
de tributos, com amparo ainda em convênios econômicos internacionais...
(ALALC, ZLC, GATT e MCE);

b – que nenhuma outra semente ou amêndoa oleaginosa silvestre,


para produção de óleos comestíveis, oferece condições econômicas de
exploração comercial, como o babaçu, cuja palmeira se apresenta em
adensamento nas florestas e nas proximidades dos centros rurais (item 66);

c – que enquanto os similares agrícolas, - amendoim e soja,


necessitam de inversão no solo, de capital e trabalho, para que medrem e
frutifique, do mesmo modo, o caroço de algodão, através da lavoura, o
babaçu é oferecido, pela Natureza, sem a interferência de qualquer
atividade humana;

d – que uma fonte de riqueza perene, natural, uma dádiva


espontânea da Natureza, deve a palmeira do babaçu merecer cuidados,
para sua conservação, e trato, para estímulo de melhor produção;

246 Alfredo Wagner Berno de Almeida


e – que maior deve ser a conservação e, do mesmo modo, o trato,
tendo-se em vista que a coleta e a quebra do coco babaçu é uma atividade
subsidiária da lavoura, ampliando os meios de obtenção de recursos
econômicos para as atividades privadas e de recursos financeiros para os
cofres públicos.

f – que a instituição do preço mínimo proporciona ao produtor


uma base de segurança para seu trabalho, mesmo om lucro ínfimo, evitando
prejuízos que provocam o abandono da atividade e a resguarda dos bruscos
efeitos da lei da oferta e da procura no período das safras, quando há
abundância de abastecimento no mercado;

g – que, se o amendoim e a soja gozam dessa proteção, justo é,


portanto, que seja fixado um limite de preço mínimo para o comércio da
amêndoa do babaçu;

h – que o comércio, na sua exata finalidade de promover a


distribuição e circulação dos bens de consumo, produzidos pelas atividades
agrícolas, extrativas e industriais, necessita do amparo do crédito bancário,
em suas diversas modalidades, para melhor poder impulsionar o bem estar
social da coletividade;

i – que o amendoim, similar e competidor do babaçu no mercado


de oleaginosas do país goza, além das vantagens de créditos bancários
normais, financiamentos pelo Banco do Estado de São Paulo, para poder
aguardar condições favoráveis de venda no mercado consumidor,
depositado em Armazéns Gerais, garantido por “warrant” ou outro título
de depósito legal;

j – que do mesmo modo, a soja obtém amparo e assistência do


Governo do Rio Grande do Sul para sua valorização no mercado nacional
de oleaginosas;

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 247


k – que o clímax do aproveitamento econômico do babaçu deve
ser a industrialização no território do Estado por motivos de caráter
econômico no território do Estado, por motivos de caráter econômico,
social e moral (item 53), a exemplo do Rio Grande do Sul, onde se instalam
novas indústrias a medida que aumenta a produção de soja;

l – que o Governo do Estado deve consequentemente proporcionar


meios e condições para ampliação do parque industrial do babaçu no
âmbito regional...

74. Sugere a Associação Comercial do Maranhão as seguintes


medidas e providências:
1 – imediata instalação da COMISSÃO DE ECONOMIA DO
BABAÇU, criada pelo decreto federal n.º 51.149 de 5 de agosto de 1961,
organismo destinado a promover a política econômica do babaçu, em
seus ângulos de proteção à palmeira, incentivo à produção e amparo à
atividade humana;

2 – obtenção; através da Comissão de Financiamento à Produção,


de um limite de preço mínimo para assegurar uma base de garantia de
lucro ao trabalho do produtor na coleta e quebra do coco;

3 – facilidades de crédito ao comerciante (do interior do Estado


ou exportador ) nas modalidades cabíveis, com descontos de títulos garantia
de “warrant” e seus semelhantes, de modo a permitir o escoamento das
safras de acordo com as necessidades do consumo do país, evitando a
provocação de baixa de preços no mercado consumidor, desvalorizando
o produto;

4 – concessão de favores fiscais, dentro dos limites de possibilidades


do orçamento do Estado, de modo a estimular a indústria extrativa do
babaçu;

248 Alfredo Wagner Berno de Almeida


5 – estudo de um plano de expansão de aproveitamento industrial
do babaçu, na circunscrição do Estado, antecipado com a imediata extinção
de uma incidência, como foi sugerido em linha atrás (itens 52/62);

6 – estudo pelo GEFEX (Grupo Executivo de Fomento à


Exportação) e pelo Grupo de Trabalho do Conselho de Desenvolvimento,
recém criado, das possibilidades de concessão de uma quota de exportação,
para o exterior, de amêndoas ou óleo industrial de babaçu, mediante
reduções de gravame de tributos, exigências alfandegárias, consulares e
de outras mais, a fim de colocar o produto em condições de poder competir
com os similares africanos, no Mercado Comum Europeu ou qualquer
outro produto oleaginoso no Mercado Comum Latino – americano – ZLC,
através da Associação Latino Americana de Livre Comércio – ALALC
7 (item 10).

***

75. Providências de emergência devem merecer os exportadores


de amêndoas de babaçu para ampará-los na angustiosa situação de
retraimento do mercado nacional, no momento atual, quanto à retenção
de um estoque de cerca de 200.000 sacos de amêndoas em nossa Capital
(item 31).

76. São doze milhões de quilos de amêndoas, correspondentes à


paralisação de mais de trezentos e oitenta milhões de cruzeiros, em ponto
morto, sem circulação no mercado, desvalorizando-se com a galopante
inflação e com a quebra de peso do babaçu armazenando, quebra de
corrente de produto apanhado no início do inverno (item 21).

77. O prejuízo que advém da imobilização de tão avultado


numerário, na praça de São Luís, não atinge somente às classes produtoras,
mas se reflete também no orçamento do Estado, diante da paralização de

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 249


considerável soma que, em circulação, uma, duas ou mais vezes, no
comércio local, estaria proporcionando arrecadação de tributos nas suas
diversas fases de circulação em bens de consumo.

78. Resulta daí que o preço da amêndoa de babaçu vem decrescendo


dia a dia, cotando-se agora a Cr$25,00 ( no interior Cr$15,00) com
perspectivas de maior baixa de preço, porquanto o imposto é “ad-
valorem”, e certamente, maior ainda, pelo número de vezes que ele incide
nas diversas operações de venda do produto.

80. Enquanto a indústria de óleos afirma que dispõe de estoque


para trabalhar de um a dois meses, a Imprensa noticia que a safra de
amendoim “das águas”, em início de colheita, está prevista no Estado de
São Paulo, em 300.000 toneladas.

81. Dispensando comentários, pois a decorrência dos fatos é


intuitiva no comércio do babaçu, sugerimos, como medida de emergência,
em favor das classes produtoras e das próprias finanças públicas, que o
Governo do Estado promova, com interesse e maior urgência possível, o
escoamento para o Exterior de 100.000 sacos de amêndoas de babaçu,
ou seja, metade do estoque retido no Estado por motivo de retraimento
das indústrias de óleos.

82. O escoamento para o exterior, não é um plano visionário, é


possível, é viável, porquanto há amparo em convênios econômicos
internacionais – ALALC, ZLC, GATT e MCE ( alínea a do item 73 ),
através de providências do Grupo Executivo de Fomento à Exportação –
GEFEX (item 16) e o Grupo de Trabalho, recentemente instalado, dia
doze do corrente, no Conselho Nacional de Trabalho, recentemente
instalado, dia doze do corrente, no Conselho Nacional de
Desenvolvimento que abrange Estudos sobre o Comportamento da

250 Alfredo Wagner Berno de Almeida


Economia Nacional frente ao Mercado Comum Europeu e à
Associação Latino-Americana de Livre Comércio (item 19).

83. É claro e intuitivo que há necessidade de redução de gravame


de tributos, para que o produto possa competir com seus similares nos
mercados latinos e europeus, mas essa condição está prevista no decreto
n.º 220 de 24 de novembro de 1961, que criou o GEFEX (item 17) e
outros dispositivos de Acordos Internacionais assinalados pelo Brasil.

84. Sugerimos que o Governo do Estado conceda também alguma


redução de tributos a fim de criar melhores condições para escoamento
da metade do estoque existente, ou seja, 100.000 sacos para o Exterior.

85. O decréscimo de renda que ocorrer com a redução do imposto


estadual, a ser concedido para escoamento de 100.000 sacos, será
prontamente recuperado pela reação que há de se verificar no comércio
local com o desbaste que daí resulta no estoque, com melhora de preço
no mercado interno reavivamento das compras e consequente acréscimo
da produção.

86. O imposto do Estado, ad-valorem, incidindo em produto de


preço melhorado, há de proporcionar, não resta dúvida, maior volume de
arrecadação.

ENÉAS DE VILHENA FRAZÃO


Presidente

RUY ABREU
Diretor – 1º Secretário

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 251


JORNAL PEQUENO, São Luís, 13 de abril de 1962.

BABAÇUAIS SERÃO DESAPROPRIADOS

Segue abaixo íntegra do projeto de lei apresentado pelo deputado


José Bento Neves, dispondo obre a desapropriação dos babaçuais
existentes na área territorial do Estado. O parlamentar do PSP justificou
sua proposição com os seguintes argumentos: a) o babaçu é nativo; b) a
amêndoa constituiu a base da subsistência do homem do campo; c) muitos
proprietários não admitem a quebra de coco; e quando o permitem pagam
a preço vil o quilo da amêndoa; e) torna-se indispensável melhorar-se o
padrão de vida do trabalhador rural.
Eis o projeto:
Art. 1.° - São declarados de utilidade pública os desapropriados
todas as palmeiras de babaçu existentes nas terras particulares localizadas
em áreas territorial do Estado.

Art. 2.° - Nos títulos de aforamento, venda ou concessão de terras


públicas de qualquer natureza se fará constar, expressamente a exclusão
dos babaçuais que permanecerão, sempre de propriedade do Estado.

Parágrafo único - Será considerada falta grave lesiva ao patrimônio


público a não observância pelo funcionário que expedido título ou pelo
oficial de registro de imóveis das disposições deste artigo.

Art. 3.° - Na organização do programa de desapropriações,


decorrente desta lei, o Poder Executivo adotará em cada município, sistema
de prioridade tendo em vista os seguintes critérios:
a) maior proximidade dos aglomerados urbanos;
b) maior densidade populacional;
c) áreas cercadas e não exploradas;

252 Alfredo Wagner Berno de Almeida


d) áreas abertas e não exploradas;
e) outras áreas;

Art. 4.° - Os recurso destinados a satisfazer os encargos


consequentes da execução da presente lei deverão ser concedidos por lei
especifica, atendendo a cada caso particular.

Art. 5.° - Esta lei entrará em vigor na data de sua publicação


ficando revogados as disposições em contrário,
Sala das Sessões, em 12 de abril de 1962.

José Bento Neves


Deputado Estadual

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 253


CÂMARA DOS DEPUTADOS
PROJETO
N.° 4.0068 – 1962
Autoriza a União a constituir uma Sociedade de Economia Mista, por ações que
denominará Companhia Nacional de Babaçu S. A., e dá outras providencias.

(As comissões de Constituições e Justiça de Economia de Orçamento e


Fiscalização Financeira e de Finanças)

O Congresso Nacional decreta:

Art.1° - É o Poder Executivo autorizado a organizar uma sociedade


de economia mista, por ações, que se denominará Companhia Nacional
do Babaçu S. A.

Art. 2° - A sociedade terá por objeto principal a industrialização


do coco babaçu através de seu aproveitamento integral, com o beneficia-
mento de seus produtos e todos os seus subprodutos e instalará suas usi-
nas nas regiões mais produtoras do País.

Art. 3° - A C.N.B. instalará preliminarmente, três usinas para o apro-


veitamento integra do coco babaçu; cada uma com uma capacidade média
de duas mil toneladas diárias localizadas respectivamente em S. Luiz no
Estado do Maranhão; em Teresina e Parnaíba, no Estado do Piauí.

Parágrafo único - O modelo técnico prioritário para a construção dessas


usinas será o do processo Vivaqua nacional e já consagrado pela experiência.

Art. 4° - A C.N.B. será administrada por uma diretoria composta


de um Presidente, livremente escolhido pelo Presidente da República, e
dois Diretores eleitos em Assembleia Geral por quatro anos, podendo ser
renovado o mandato.

254 Alfredo Wagner Berno de Almeida


Art. 5° O representante da União, nos atos constitutivos da
sociedade e nas assembleias de acionistas será designado pelo Ministro
da Indústria e Comércio.

§1° A constituição da sociedade será aprovada por decreto do Poder


Executivo e os atos constitutivos serão arquivados no Registro do
Comércio.
§ 2° A reforma dos estatutos em pontos que impliquem
modificações desta Lei, depende de autorização legislativa.

Art. 6° - O capital social da sociedade será Cr$1.500.000,00 um


bilhão e quinhentos milhões de cruzeiros) a ser integralizado durante a
construção de usinas, ficando desde já autorizada a União a subscrever
ações até o limite de Cr$1.300.000,00 (hum bilhão e trezentos milhões
de cruzeiros).

§ 1° - Ficam autorizadas a subscreverem ações da C.N.B. as


companhias siderúrgicas nacionais de preferência autarquias e sociedades
de economia mistas, os Institutos de Previdência Social, além da União,
os Estados, os municípios e os particulares.
§ 2° - A Constituição da sociedade C.N.B. se fará por subscrição
pública nos termos do artigo 40 do Decreto-lei n.° 2.627, de 26 de setembro
de 1940.

Art. 7° - É o Ministério da Fazenda autorizada e dar garantia do


Tesouro Nacional a operações de financiamento externo que C.N.B.
necessite para a ampla execução do seu programa, até o montante de
Cr$10.000.000,00 (dez milhões de dólares), mais os respectivos juros e
despesas.

§ 1° - No exercício desta autorização poderá o Ministério da


Fazenda obrigar o Tesouro Nacional como fiador o principal pagador da

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 255


quantia mutuada e seus acessórios, a praticar todos os atos julgados
necessários ao referido fim.
§ 2° - O Ministério da Fazenda, contratando diretamente ou por
intermédio do Banco do Nacional de Desenvolvimento Econômico
(BNDE), poderá as cláusulas e condições usuais nas operações com
organismos financeiros internacionais sendo válido o compromisso geral
e antecipado de dirimir por arbitramento, todas as dúvidas e controvérsias.
§ 3° - A prestação de garantia do Tesouro Nacional, através do
BNDE, na forma do parágrafo anterior, observará as condições previstas
nas letras a e 1do art. 21 da Lei n° 1.628 de 20 de junho de 1952 e do
Regimento do referido Banco.
§ 4° - O servidor de empresários contratado na forma da presente
lei, são concedidos os mesmos privilégios dos serviços externos federais,
estaduais e municipais.

Art. 8° - É concedida pelo prazo de cinco anos isenção do imposto


de importação e de consumo para os maquinismos, seus sobressalententes
e acessórios, aparelhados ferramentas, instrumentos e matérias sem similar
nacional, importados para a construção melhoramento e conservação das
instalações das usinas a que se refere esta Lei.

Parágrafo único - Para tornar efetiva a isenção prevista nesta Lei,


o Poder Executivo, à medida que se processem as importações, expedirá
decretos nos quais serão especificados a quantidade e a natureza dos bens.

Art. 9° - É autorizada a abertura de créditos especiais até o limite


de Cr$1.300.000.000,00 (hum bilhão e trezentos milhões de cruzeiros)
que o Poder Executivo empregara na integralização das ações subscritas
pela União.

§ 1° - Os créditos especiais a que se refere este artigo serão


registrados pelo Tribunal de Contas e automaticamente distribuídos no
Tesouro Nacional.

256 Alfredo Wagner Berno de Almeida


§ 2° - A utilização desses recursos será feita à medida das
necessidades, não podendo o seu total exceder de Cr$600.000.000,00
(seiscentos milhões de cruzeiros) em cada ano.
§ 3° - A vigência de autorização que trata este artigo será de cinco
(5) exercícios.

Art. 10° - A sede da C.N.B. será em Teresina capital do Estado do


Piauí e centro geográfico da região produtora de babaçu.

Art. 11° - A C.N.B. disporá de total autonomia para estabelecer,


na região uma rede de capilaridade coletora de babaçu, utilizando todos
os meios necessários adequados as condições regionais e todas as vias de
transporte rodoviário ou fluvial, mediante acordos com os órgãos federais,
estaduais, municipais, entidade privadas conta própria.

Art. 12° - Os produtos ou subprodutos de babaçu, manufaturados


pela CNB, poderão ser comercializados, direta ou indiretamente pela
própria Empresa, no País ou com o exterior.

Art. 13° - A C.N.B. aplicará anualmente 30% dos lucros líquidos


num programa de assistência social distribuído proporcionalmente por
toda região fornecedora de coco babaçu para suas usinas.

Art. 14° - A sociedade de economia mista C.N.B. fica assegurado


o direito de promover desapropriações nos termos da legislação em vigor.

Art. 15° - As empresas privadas que se constituírem para


desenvolver o aproveitamento dos subprodutos da industrialização do
babaçu, terão assistência da C.N.B. relativa a matéria prima, a tecnologia
e crédito bem como prioridade de financiamentos nos Bancos do Brasil,
Banco do Nordeste do Brasil e Banco Nacional de Desenvolvimento
Econômico.

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 257


Art. 16° - A C.N.B. dará preferência às Companhias do coque
metalúrgico da sua produção.

Art. 17° - A C.N.B. criará uma escola tecnológica destina a formar


técnicos especializados na industrialização do babaçu.

Art. 18° - A SUDESTE compete dar a mais ampla colaboração e


cooperação à C.N.B incluir nos seus planos de desenvolvimento do
Nordeste a indispensável influência da política da industrialização do
babaçu.

Art. 19° - A União tributará a tonelada de coque produzido pela


C.N.B. a razão de 0,5% “ad-valorem”.

Art. 20° - Os gases produzidos na industrialização do babaçu serão


destinados as Usinas Térmico-Elétricas das cidades de Teresina, Parnaíba
e S. Luís, a preço de custo e o excedente engarrafado para consumo
doméstico a ser distribuído na região.

Art. 21° - A C.N.B. organizará um completo cadastro topográfico


de todas as terras possuidoras de babaçuais, nos País, baseando-se
especialmente em levantamentos aerofogonométricos especiais, com o
fim de orientar sua exploração técnica e estabelecer melhor a política
nacional do babaçu.

Art. 22° - A C.N.B. criará um sistema de crédito bancário


especializado ao comércio e industrialização do babaçu na região produtora
destinado a assistir sobretudo o babaçueiro e sua família.

§ 1° - A SUMOC prestará sua colaboração e experiência à C.N.B.


na elaboração desse plano especial de crédito bancário.

258 Alfredo Wagner Berno de Almeida


§ 2° - A C.N.B. estimulará através desse sistema de crédito
especializado na formação de cooperativas entre os babaçueiros dando-
lhes total assistência inclusive colaborando na aquisição de terras para os
rurícolas.
§ 3° - No seu programa de assistência social a C.N.B. proverá meios
de orientação para evitar que o babaçueiro se torne um simples apanhador
de coco; é que este necessita também ser um cultivador da terra, lavrando-
a para torná-la mais produtivo e possa ele ter o melhor salário e o melhor
nível de vida com sua família.

Art. 23° - A C.N.B. dará completa proteção à palmeira produtora


de coco babaçu.

Art. 24° - O Mistério da Viação e obras Públicas através do


D.N.E.R. organizará um plano rodoviário especial para a região produtora
de babaçu, nos Estados do Piauí e Maranhão, e, em colaboração com a
C.N.B. construirá as estradas necessárias capazes de dar escoamento a
toda produção de babaçu destinada às Usinas centrais referidas no artigo
3° desta Lei.

Parágrafo único - É o Poder Executivo autorizado a incluir


anualmente no orçamento federal, a importância de Cr$400.000.000,00
(quatrocentos milhões de cruzeiros, no anexo do MVOP – DNER, durante
cinco exercícios consecutivos, destinados especificamente às entradas do
babaçu de que trata este artigo.

Art. 25° - Esta Lei entrará em vigor na data de sua publicação,


revogada as disposições em contrário.
Sala das Sessões, em 2 de abril de 1962. – Clidenor Freitas.

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 259


Justificação

O babaçu é a maior riqueza oleífera nativa do mundo. O potencial


brasileiro de babaçu e outros coquilhos semelhantes, principalmente dos
gêneros Orbignya e Attalea, é estimado em 7 ½ bilhões de palmeiras, que
se estenderam de preferência pelos vales quaternários, areno Humosos
do Amazonas, Pará, Acre, Rondônia (Guaporé), Mato Grosso, Goiás,
Minas Gerais, Espírito Santo, Bahia e, sobretudo Piauí e Maranhão.
Admite-se que quase ¼ da superfície do Estado do Maranhão e
1/3 v do Piauí sejam cobertos de babaçu, formado às vezes, concentrações
de centenas de quilômetros de extensão, agrupadas pelos vales úmidos
dos rios Paraíba Canindé, Gurguela, Mearim, Pindaré, Itapicuru, Colinas,
Grajaú, Minin, Baisas e afluentes assim distribuídos:
Maranhão – 7.000.000 de hectares
Piauí – 1.000.000 de hectares.
Esse potencial é apenas estimativo, pois até agora não foi feito o
levantamento das oleíferas nativas do Brasil. Admitindo-se, porém, com
real 1/3 desse potencial, o Brasil possui palmeiras suscetíveis de
produzirem 5.500.000 de toneladas de óleo 3.000.000 de toneladas de
torta, além de uma vasta gama de valiosos subprodutos, inclusive carvão
para obtenção de 30.000.000 de toneladas de gusa por ano e 40.000.000
de m3 de gases de 4.200 Cal/M3", é o que nos declara o cientista Antônio
Vivaquinha Filho, chefe da Seção de Óleos do Instituto de Tecnologia
Industrial de Minas Gerais no seu magnífico trabalho sobre o
“aproveitamento integral do babaçu”, e que há vinte anos estuda o
problema do babaçu sob todos os ângulos. Recentemente visitamos o
Dr. Vivaqua no seu laboratório de pesquisas em Belo Horizonte.
Mostrou-nos todos os seus trabalhos e os resultados de suas pesquisas.
Ali vimos o babaçu desdobrados em todas as suas consequências: vimos
os óleos gorduras e sabões carvão metalúrgico de mais alta qualidade
existente em qualquer parte; ferro de alta qualidade fabricado com o
coque do babaçu, gases de elevado poder calorífico; fenóis, alcatrões e

260 Alfredo Wagner Berno de Almeida


solventes variados; óleo diesel, borracha, e até gasolina tirados do
babaçu... A paixão e o entusiasmo do modesto pesquisador são
contagiantes; seus trabalhos demonstram uma realidade ao alcance da
nossa mão; são fatos positivos, objetivos, experimentados e testados de
mil modos e provados inclusive através de uma produção em escala
industrial conforme aconteceu com a usina piloto que instalou em Pirapora
e funcionou com o maior êxito. O problema de babaçu está equacionado,
esclarecido cientificamente demonstrado. O que nos falta é porem prática,
na escala proporcional a sua grandeza, o plano de sua execução. Com
exceção do petróleo e dos minérios sobretudo de ferro, não existe no Brasil
uma riqueza natural maior que o babaçu. Produto natural que influencia
direta e indiretamente a economia de dois Estados, Piauí e Maranhão,
gozando de um domínio indiscutível sobre a economia de cerca de cinco
milhões de brasileiros daquela região do País, não pode mais ficar relegado
ao desprezo do planejamento da economia nacional, como secularmente
vem acontecendo. Isso não significa apenas uma falta, porque é um crime
contra a Nação. Abandonar tamanha riqueza e sobretudo, permitir a
marginalização de tão apreciável parcela da população nacional condenada
pela rotina e o conformismo das miseráveis condições regionais onde
faltam estradas, crédito, assistência sanitária e educação para o povo.
Cercados de tamanhas riquezas naturais, os brasileiros dessas regiões
passam fome, morrem de fome e vivem como párias. Todas as estatísticas
comprovam isso. Mas até quando esse povo suportará essa desgraça?
Nosso trabalho é dar consciência a esse povo das razões de sua
miséria e da possibilidade existente de sua eliminação. Nenhum brasileiro
deverá ficar à margem do processo de enriquecimento e prosperidade ge-
ral da Nação. Lutaremos como temos lutado, para a aplicação da justiça
social a todos os setores da vida nacional e não pouparemos esforços
para dar a uma região de extraordinárias potencialidades econômicas como
a do Piauí e Maranhão a assistência necessária ao seu pleno desenvolvi-
mento. O problema do babaçu é hoje um problema político. Sua magnitu-
de é tão ampla que só encontramos suas coordenações dentro do planeja-

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 261


mento geral da economia nacional. Ao poder decisório da nossa política é
que cabe firmar a hora da partida para a solução total do grande proble-
ma. E a nós outros, representantes diretos desse povo, compete atuar
junto ao supremo Poder da Nação para apressar essa hora desejada por
milhões. Este é realmente nosso trabalho nesse movimento decisivo da
nossa história. Computemos o alto rendimento que o babaçu tem propor-
cionado à economia nacional servindo-a a preço vil desde os tempos da
grande Guerra Mundial, isto é, há mais de 40 anos! .... Computemos o
que ele rendeu nesse período, produzindo milhões e milhões de dólares
de divisas que evidentemente, não servirá à economia daquela região,
mas, isto sim, contribuíram generosamente para equipar os parques in-
dustriais dos grandes centros do país. Para lá a economia nacional nada
destinou a menor fábrica, a menor oficina, nada absolutamente nada. O
que ali existe no setor industrial deve-se a capacidade empresarial de ho-
mens destemidos que à custa de tremendo esforço, poupança e trabalho,
conseguiram modestíssimo equipamento industrial, antiquado e, até hoje,
antieconômico como é o caso da indústria têxtil do Piauí e Maranhão
cujas fábricas estão paradas há anos, sem que jamais a economia nacional
tenha ido sem seu socorro.
O que hoje nos compete proceder é cobrar da economia nacional o
que é nosso; é exigir que nos devolvam o fruto do nosso trabalho de gera-
ções; é competir a economia nacional a repor com todos os juros aquilo de
que ela se serviu tão bem a tanta falta nos faz, sobretudo hoje.
Por isso ficamos a margem do progresso da Nação. Produzimos e a
nossa poupança não gerou, ali qualquer investimento de caráter social.
Daí seremos os campeões da mais baixa renda “per capta” do País e tal-
vez do mundo... Pode continuar esse processo? É justo que cinco milhões
de brasileiros fiquem entregues a seu próprio destino? Veremos.
Na clássica História Naturais Pulmarum, publicada em 1852, e de
autoria do celebre botânico alemão Karlvon Martius, a palmeira do babaçu
que ele classificou Orbignya Speciosa, e estudada com a atenção científica
para a época. Desde então o babaçu tem sido motivo para os mais varia-

262 Alfredo Wagner Berno de Almeida


dos estudos, descrições e comentários, inclusive ponto alto de referênci-
as líricas, pois, o celebre verso de Gonçalves Dias - “Minha terra tem
palmeira, onde canta o sabiá” ... refere-se à palmeira do babaçu abundan-
te em sua terra natal, Caxias!
Numerosos autores têm-se dedicado ao estudo dessa palmeira que
vale ouro. Recentemente, em 1954. O Dr. Gregó Bondar publicou um
estudo sobre o babaçu e outras palmeiras produtoras de amêndoas oleagi-
nosas no Brasil”, e o Instituto de Óleos, em 1959, publicou alentado
volume sobre o assunto – “Babaçu – Estudo Técnico Econômico – Rela-
tório do Grupo de Estudos do Babaçu”, dirigido pelo seu diretor Prof.
Joaquim Bertino de Moraes Carvalho, veterano batalhador e a quem o
Brasil tanto deve. É um relatório complexo, analisando com muito deta-
lhe as condições regionais da zona produtora de babaçu no Maranhão e
do Piauí; ressaltando as dificuldades da região, da miséria, da falta de
crédito, estradas, vias de comunicações, ausência enfim de tudo que pu-
desse condicionar um grande aproveitamento industrial do produto. É
um trabalho de grande valor para qualquer plano sério destinado a en-
frentar o problema pela base. José Fernandes do Rêgo e outro que tem
publicado excelentes trabalhos sobre a matéria.
Voltaremos, entretanto, ao mais recente trabalho já referido do
Professor Antônio Vivaqua Filho, todo dedicado aos seus estudos e pes-
quisas científicas em torno do babaçu. Vivaqua é defensor intransigente
da industrialização integral do Babaçu. E com ele estamos nós... Porque
isso significa a elevação dos níveis de vida de milhões de brasileiros do
Norte do País. Diz Vivaqua, - “No Brasil, anualmente, são quebrados uns
milhões de toneladas de coco babaçu no gume do machado, o que repre-
senta tremendo esforço e o desvio de enorme massa humana das ativida-
des agrícolas, pois o operário extrai em média apenas 5 kg de amêndoas
por dia. Onde se explora o babaçu, o maior potencial eleitero do mundo,
há miséria. O babaçueiro com a extração manual da amêndoa recebe uma
remuneração inferior à metade do salário-mínimo que, injustamente, não
prevalece para os meios rurais.

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 263


“A indústria brasileira de óleo babaçu depende da quebra manual
do coco, não pode subsistir remunerando dignamente ao babaçueiro. A
sua sobrevivência, infelizmente está relacionada com a miséria e a
ignorância de uma classe humilde que vive desnutrida, analfabeta, descalça,
sem nenhuma assistência médica, dentária e social e habita casebres de
palha de babaçu. A indústria brasileira coloca-se num terrível dilema: fechar
as suas fábricas ou mantê-las em funcionamento com o sacrifício de
famílias sertanejas”
“Atualmente produz-se menos amêndoas do que em 1948, pois à
medida que o homem vai se esclarecendo abandona o extrativismo do
babaçu, que é escravizador. O aumento da produção de amêndoas, com a
redução do custo de produção e a elevação do nível de vida do babaçueiro,
só é possível com a renovação total dos métodos atuais de exploração do
babaçu, que dependem da quebra manual e perdem mais de 90% do fruto.
O nosso trabalho resultado de vinte anos de luta, visa precisamente
demonstrar a imperiosa necessidade de se implantar no Brasil novos
métodos industriais dessa riqueza maior do que o café, que é o babaçu.
Há cem anos procura-se solucionar o problema da quebra mecânica
do babaçu tendo fracassado todas as tentativas para se conseguir uma
máquina prática, resistente e de rendimento econômico. As máquinas mais
aperfeiçoadas não conseguem extrair mais de 40% de amêndoas sobre o
coco inteiro. Grandes organizações europeias e americanas, inclusive a
Southwest Reaserch Institute (Mechanization of the Babaçu Industry) e
centenas de inventores de todo o mundo não conseguiram dar uma resposta
ao problema pois acreditavam que a maior dificuldade era vencer a
resistência do coco, quando há outros fatores mais importantes como:

1 – as fibras do mesocarpo e principalmente as que revestem o


endocarpo;
2 – os intricados arcos do endocarpo os quais tem que ser rompidos
em várias direções a fim de libertar as amêndoas;
3 – descolamento das amêndoas firmemente incrustradas nos

264 Alfredo Wagner Berno de Almeida


alvéolos, principalmente nos cocos novos, que são naturalmente os
melhores. São as amêndoas que devem estar contraídas pela seca o que se
consegue rapidamente com aquecimento, depois dos alvéolos abertos. A
seca artificial do coco inteiro durante 48 horas, consome enorme
quantidade de combustível e não consegue desidratar suficiente a amêndoa
mas sim a periferia do coco;

4 – a extraordinária desuniformidade dos cocos.

“A técnica por nós preconizada, continua o Prof. Vivaqua, é


desenvolvida na Europa com a colaboração de importantes indústrias e a
do competente técnico Jean Poliakoff, consiste resumidamente o seguinte:

1 – Despolpamento do coco com a recuperação do amido e


principalmente visando a extração das fibras que revestem o endocarpo,
as quais dificultam a desintegração e a separação das amêndoas em
hidrociones, conforme foi verificado por nossa iniciativa e cooperação de
Speichim na Fábrica Stock, onde estivemos;
2 – Desintegração do coco sem tramas fibrosas em moinhos
especiais que permitem a ruptura dos arcos do endocarpo em tamanhos
determinados, libertando as amêndoas;
3 – Vioração e simultâneo aquecimento dos pedaços de endocarpo
e amêndoa a fim de que estas se descolem dos alvéolos;
4 – Separação por diferença de densidade das amêndoas e
endocarpo, usando ciclones ou preferencialmente hidrociclones, já há
alguns anos em funcionamento para a separação das amêndoas do dendê
(Elias Guineesis) Hidrociclone Stork;
5 – Imediata extração do óleo das amêndoas a fim de evitar a
oxidação;
6 – Transformação das cascas e cocos estragados em combustíveis
para a produção de energia e vapor necessários ao funcionamento da usina,
além da recuperação de valiosos subprodutos como hidrocarbonetos,
coque metalúrgico, solventes, fenóis, gases, etc.

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 265


Aplicando industrialmente o processo acima descrito temos o
seguinte rendimento sobre 1.000 toneladas de coco babaçu (8% de
amêndoas);

- Unicamente, em média, se utilizam 60% de cocos selecionados


para colheita de amêndoas, os outros 40% se rejeitam para combustível e
demais subprodutos.

600 toneladas de cocos selecionados dão:


85 % ou 510 ton. de cascas
8% ou 48 ton. de amêndoas
6% ou 36 ton. polpa amilacea tamisada com 78-83% de amido
1% ou 6 ton. perdas
Total: 100% ou 600 ton.

- 400 ton. de cocos rejeitados


- 500 ton. de cascas e endocarpos
Total: 900 ton. de cascas e cocos rejeitados, das quais se obtém:
25% ou 227,5 ton. de coque ou carvão
30% ou 273,0 ton. de gases c/ 4.000 cal/m³
30% ou 273,0 ton. de min. Pirolenhoso
8% ou 72.8 ton. de alcatrões, carburante, fenóis, ácidos, solventes,
metileno, etc.
5% ou 45,5 ton. de perdas diferença. 2% ou 18,2 ton. de oscilação
de rendimento.
Total: 100% ou 910,00 ton.

48 toneladas de amêndoas rendem:


60% mínimo ou 28.8 ton. de óleo
30% aprox. ou 14,4 ton. de torta
10% aprox. ou 4,8 ton. de borras
Total: 100% ou 48,0 ton.

266 Alfredo Wagner Berno de Almeida


28,8 toneladas de óleo rendem:
85% ou 24,48 ton. de óleo alimentício
15% ou 4,32 ton. de óleo para sabão e glicerina ou: 7.700kg de
sabão e 432kg de glicerina.

- Os rendimentos da pirólise variam, mas os dos gases e carvão


pouco oscilam. Parte das cascas poderá ainda ser transformadas em furfurol
e as folhas em celulose para papel.
A conversão em cruzeiros dos custos de produção e a venda desses
produtos no mercado normal atinge a somas respeitáveis admitindo um
lucro provável sobre o capital de giro nos limites de 40%.
O mercado de óleos e gorduras é um mercado em expansão
constante em todo o mundo. “Há fome de gorduras em todos os países”.
O coque metalúrgico seria utilizado totalmente por nossas usinas
siderúrgicas em expansão. Os demais produtos teriam consumo igualmente
completo no parque industrial no País. Os gases são combustíveis
excelentes.

Neste trabalho, Vivaqua analisa tudo com relação ao babaçu: sua


origem e for mação, sua ocorrência no território nacional, sua
produtividade, graus de dureza, posição das amêndoas no coco,
compressão, testou qual a produção média de uma quebrador de coco; ou
quantos cocos um homem apanha por dia (1,8 m³) – equivalente a uma
tonelada – enfim, apreciou o assunto sob todos os ângulos. É trabalho
científico da maior seriedade e valor.
Coque e Carvão Metalúrgicos do Babaçu – Nesse capítulo o
Professor Vivaqua analisa o problema com todos os detalhes afirmando:
“Nas condições atuais, apenas 4,8% do coco do Nordeste são
aproveitados, considerando-se 40% de cocos desprezados para a quebra
manual, percentagem esta que alcança até 70%. Não é possível fazer-se
indústria sólida remunerando vilmente o quebrador de coco e se perdendo
mais de 94% da matéria prima.

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 267


“O babaçu é antes de tudo, um excelente combustível, de qual o
Brasil perde anualmente milhões de toneladas, quando transporta a lenha
(o principal combustível nacional) e faz siderurgia com combustíveis
importados. Somente a Cia. Siderúrgica Nacional importou em 1957,
451.254 toneladas de carvão metalúrgicos e as usinas de Minas Gerais
devastaram no mesmo ano, pelo menos 345.000 hectares de matas para
obterem as 450.000 toneladas de carvão vegetal que consumiram na
redução do minério de ferro.

“Com o programa siderúrgico em evolução, o Brasil precisará em


1963, de aproximadamente de 3.000.000 de toneladas de carvão. Nesse
particular mostra-se pessimista o General Macedo Soares, Presidente da
Cia. Siderúrgica Nacional que disse textualmente: “receio que cheguemos
a um ponto que não tenhamos mesmo nem aqueles 40% de carvão
nacional, indispensáveis ao desenvolvimento siderúrgico projetado”.

“O babaçu proporciona o que metalúrgico praticamente isenta de


fósforo e enxofre, baixo teor de cinzas (4.54) e elevada riqueza em carbono
fixo, que pode passar de 98%, isto é, superior a todos os coques conhecidos,
(o grifo é nosso). Entretanto, já são muito bons carvões e coques de babaçu
com as seguintes análises, conforme provas práticas que realizamos em
cubilôs:

“A amostra 4 refere-se ao tipo médio de coque importado que


contém, aproximadamente 1% de enxofre. O coque do sul do Brasil,

268 Alfredo Wagner Berno de Almeida


produzido em Volta Redonda, tem elevada percentagem de cinzas e
enxofre, sendo necessário misturar 60% de coque produzido com carvão
importado.
“Há muito tempo órgãos técnicos e usinas estrangeiras já
comprovaram a eficiência do coque de babaçu em metalurgia. Em 1927,
o Engenheiro Willian M. Smith, chefe da metalurgia da Ford, em Detroit,
experimentando carvão coque de babaçu levado aos Estados Unidos por
Monteiro Lobato disse que para redução do minério foi um dos melhores
coques jamais recebidos nos Estados Unidos.
“O Instituto de Artes e Ofícios de Paris, obteve coque a partir do
babaçu com 93% de carbono fixo o que também já conseguimos com
êxito. Esse coque foi aconselhado principalmente à redução dos ricos
minérios, porque quanto mais rico este, mais necessita de carbono para
sua perfeita redução.
“O Instituto de Tecnologia Industrial de Minas, conforme anexos,
realizou valiosas experiências com o coque de babaçu produzido na Usina
de Pirapora, Minas. As análises e teste de tração demonstram que o ferro
fundido com o coque e semi-coque de babaçu oferece grande resistência
à ruptura e baixa dureza Banell. Em outras palavras: trata-se de um ferro
macio a usinagem, mas altamente resistente à tração.
“Pelos gráficos anexos (ao relatório) verifica-se, também, que o
consumo de coque de babaçu pode crescer até 85% nos cubilôs,
demonstrando assim ser um produto econômico e de baixa velocidade de
combustão.
“Para os altos fornos é de suma importância a atividade, a fim de
se obter maior soma de Co, que é o redutor do minério, sendo esta umas
das razões porque o produto vegetal é, nos altos fornos, sempre superior
ao coque mineral.
“O carvão e o coque de babaçu podem ser classificados como
produtos para metalurgia e especialmente na siderurgia, ou seja, a
metalurgia do ferro.

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 269


“Raríssimos carvões minerais encerram tão reduzidos teores de
cinzas, fósforo e enxofre quanto o do babaçu ou carvão de madeira.
“Os melhores coque que importamos tem 9 ou 12% de cinzas, 0,5
a 1% de enxofre a 0,03 a 0,08 fósforo, enquanto no coque de babaçu
esses teores oscilam dentro dos seguintes limites médios: fósforo de 0,20
a 0,033%; enxofre de 0,03 a 0,56 e cinzas em redor de 4 a 5%, conforme
análises do I.T.I. de Minas.
“O teor de cinzas, conforme a procedência e espécie do coquilho
pode descer a 2% ou passar acima de 5% nas carbonizações mal
controladas, sem curva de destilação definida quando o teor de cinzas
pode elevar-se devido a coquificação do alcatrão e sua incorporação ao
coque.
“As hulhas de Newcastle e de Anzin, os antracitos do Sul de Galles
entre nós chamado Cardiff, os carvões de Boghead, Edinbur, Teiventon,
New Gross Handes, os linhitos de San Giovani, e os coques de Gran
Combe, Conneville e Whestphalia considerados os melhores do mundo,
contém 0,57 a 1% de enxofre e 0,02 de 0,08 de fósforo e maiores teores
médios de cinzas do que os carvões de babaçu.

“A especificação da E.F.C.B. admite com bom coque de fundição


para uso do cubilot, os seguintes calores:
- Cinzas................................... 10 a 12%
- Enxofre................................. 1 a 15%
- Fósforo.................................. 0,5%

“A Marinha Nacional aceita valores idênticos tolerando de 0,8% a


1,5% de enxofre, que é o elemento mais pernicioso do que o fósforo qual,
em metalurgia é às vezes até necessário, conforme veremos. Os melhores
coques brasileiros usados pela C.S.N. (Volta Redonda) contém 16 a 18%
de cinzas, 1 a 1,5% de enxofre e até 0,05% de fósforo. A S.A. do Gás do
Rio (Light) utiliza carvões lavados de Santa Catarina com 16 a 20% de
cinzas, 1 a 2% de enxofre e 6.800 cal/kg para coquificação, com os quais

270 Alfredo Wagner Berno de Almeida


obtém coques metalúrgicos com 18 a 23% de cinzas e 1 a 2% de enxofre
largamente usados no Brasil (40.000 ton. anuais) em 1956.
“A partir do coque de carvão de babaçu e o excelente minério de
Itabira (0,002% de P. – 0,008% de S., - 0,24% de sílica, traços de manganês
e 0,45 de umidade), chega-se com facilidade às ligas e aos aços especiais
dos mais puros como os aços rápidos, aços magnéticos, as ligas de ferro
tungstênio-molibdênio para válvulas e outros fins contendo 0,01% de S.
etc.
“O processo de sinterização GeenWait quando utilizado o carvão
de babaçu dá um resultado excelente. O sínter com moinha de carvão
vegetal, devido a sua maior reatividade é melhor do que quando se opera
com moinha de coque mineral”.
O trabalho do Prof. Vivaqua é longo e detalhado. É um estudo
completo do babaçu, ilustrado com os esquemas e plantas do seu processo
industrial do beneficiamento do babaçu elevação de vencimentos para
servibaçu. Acreditamos seja o que de mais moderno já se publicou entre
nós, com o mérito de ser um estudo no qual o autor apresenta o resultado
de sua longa experiência sobre o assunto.
Nosso projeto baseia-se nesse trabalho do Prof. Vivaqua.
Conhecedor que somos da região do babaçu, partimos de observações
consagradas pela prática e a tradição e chegamos a concisão de que para
enfrentar com êxito o problema do babaçu, somente com um amplo
planejamento, atendendo as circunstâncias mais completas poderemos
criar uma organização dotada de todos os recursos capazes de dar a grande
solução.
Nosso projeto visa atender o problema social econômico da região,
o problema técnico-científico e ao problema industrial do babaçu. Dentro
desse princípio que norteou a elaboração do projeto, não hesitamos em
considerar que ele satisfaz plenamente à grande aspiração regional.
Nós com investimentos maciços na escala correspondente a
grandeza do problema, teremos condições de alcançar o êxito desejável.
Mesmo porque o ponto em que se coloca o assunto, deixa ele de ser um

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 271


simples problema regional para se transformar num problema nacional,
pois enquadrado este na ordem do nosso desenvolvimento siderúrgico
nacional.
Inútil será a tentativa de uma solução parcial do problema. Muitos
a empreenderam e fracassaram. Não é justo repetirmos a história dos
fracassos num assunto de tamanha relevância como este.
Resolvido que está o problema técnico, conforme demonstramos
com os trabalhos do Prof. Vivaqua, nesta apenas o seríssimo problema da
coleta dos cocos. É sabido que os coqueirais de babaçu ocupam vastas
áreas do território nacional, entretanto sua concentração máxima ocorre
nos Estados do Maranhão e Piauí, para juntar, todo babaçu e transporta-
lo para as usinas centrais, eis o mais grave de todos os problemas. É que
o volume será enorme e seu peso ainda maior. Todavia, que significação
tem essa dificuldade em face dos recursos modernos, dos meios de
transportes rápidos, das poderosas máquinas de abrir estradas, das
facilidades de comunicações instantâneas, e sobretudo, face ao acelerado
desenvolvimento deste País? Tudo estará resolvido e solucionado com a
criação da organização que estamos propondo ao Congresso Nacional,
isto é, a criação da Companhia Nacional do Babaçu S.A., sociedade de
economia mista, dotada de amplos recursos e dirigida por elementos da
mais alta categoria que se possa conseguir neste País. Eis a solução.
O que não se pode mais permitir é que tamanho tesouro que
é o babaçu, já mobilizado, isto é, já a serviço de milhões de brasileiros
continue atirado ao lixo, refugado, desprezado, quando está pronto para
contribuir generosa e ricamente para a prosperidade geral da Nação. Por
termos de enfrentar o problema é que se não justifica a omissão dos homens
de responsabilidade. Urge atacá-lo direta e corajosamente.
Sala das Sessões, 2 de abril de 1962.

Deputado Clidenor Freitas

272 Alfredo Wagner Berno de Almeida


FEDERAÇÃO DAS INDÚSTRIAS DO ESTADO DO
MARANHÃO

CONVENÇÃO NACIONAL DA INDÚSTRIA REUNIÃO


SETORIAL DO RIO GRANDE DO SUL
Comércio Exterior do óleo de amêndoas de babaçu

Preliminar

1. O Território maranhense integra, juntamente com o Estado do


Piauí, o Nordeste Ocidental, sub-divisão da REGIÃO NORDESTE, um
dos trechos de repartimento físico do Brasil em regiões naturais.
2. O Maranhão, com eixo geográfico no vale do Mearim, constitui
no Nordeste Ocidental, também denominado MEIO NORTE, uma região
de característica de transição entre a Amazônia ou região Norte e Nordeste
Ocidental ( ou Nordeste propriamente dito), aspecto que se evidencia no
revestimento florístico e no regime de águas, fatores que permitiram dividir
o território maranhense em doze zonas fisiográficas ou regiões naturais.
3. As matas equatoriais e úmidas do Maranhão, prolongamento da
flora amazônica, possuem exuberantes variedades de riquezas naturais,
sobressaindo os intérminos palmeiras do babaçu, nativos do Brasil e de
habitat predominante no Maranhão.
4. Um bilhão de palmeiras (calculam alguns) de produção
abundante e colheita fácil, permito uma indústria extrativa de amêndoas
oleaginosas, do elevado valor econômico.
5. A produção farta e abundante de coco babaçu, perde-se
entretanto, em sua maior parte, nas matas infindas mas, ainda assim ela
constitui a principal base econômica e financeira do Maranhão.
6. As cascas do coco, após a quebra para extração da amêndoa,
quando industrializadas, produzem carvão tipo coco metalúrgico, de alto
poder calorífico, e de ótima qualidade, por não conter enxofre ou arsônico.

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 273


7. A palha da palmeira babaçu prosta-se para a cobertura das
habitações rurais e confecção de diversos artigos de uso rural e artesanato.
8. Na extração industrial de óleo de babaçu resta um sub-produto,
a torta oleaginosa do mercado fácil do Exterior.
9. Nos dias de hoje, o babaçu ocupa lugar, na economia do
Maranhão, com o mesmo esplendor e grandeza do algodão e do açúcar,
em outras eras.

Estimativa da produção de babaçu


10. Muita literatura tem sido escrita sobre o babaçu, e nela, se
verifica que o número de palmeiras no Maranhão, ascende a números
exagerados, com excessiva discordância nas avaliações, que se elevam a
muitos bilhões de pés.
11. Na realidade, o cálculo mais aceitável dos palmeirais
produtivos, existentes no território maranhense, cálculo pessimista, mas
expressivo, é de 800.000.000 (oitocentos milhões), de palmeiras. Tomando-
se a produção média de duzentos frutos anuais por cachos ou quatrocentos
cocos para cada palmeira, obtém-se a elevada quantidade de
320.000.000.000 (trezentos e vinte bilhões) de cocos. Esta estimativa
provém de predominância de cachos menores e não aproveitados todos
os frutos, calculada a média de dois cachos anuais por palmeira, quando
às vezes atinge três e quatro por palmeira.
12. O coco babaçu pesa 130 gramas com cerca de 9% de amêndoas,
consequentemente, trezentos e vinte bilhões de frutos deverão produzir
aproximadamente três milhões setecentos e quarenta e quatro mil toneladas
de amêndoas (3.744.000 toneladas).
13. Tomando-se para base de cálculo o cômputo de amêndoas,
exportadas e esmagadas, para produção de óleo, em todo o Estado, no
ano de 1966, de maior colheita do último quinquênio, no montante de
180.000 (cento e oitenta mil) toneladas, chega-se à conclusão que esse
montante de amêndoas corresponde a 4,80% da produção avaliada para
os babaçuais do Maranhão (3.744.000 toneladas).

274 Alfredo Wagner Berno de Almeida


14. Menor ainda é a percentagem nos anos anteriores, mesmo no
último decênio, apesar de apreciável aumento da produção rural do
Maranhão, expressiva demonstração do imenso volume do coco, sem
aproveitamento, ainda sem levar em conta a produção dos palmeirais
disseminados nas matas virgens, sem ainda qualquer penetração humana.
15. Fatores diversos ocasionam esta baixa produção de amêndoas,
nos imensos palmeirais do Maranhão, consequentemente a produção de
óleo, ressaltando como causa primordial, a falta de preço compensativo
para aquisição da amêndoa, nas fontes de produção. Este preço, entretanto
decorre das cotações do óleo do babaçu nos mercados do Sul do país,
sendo de notar que o aludido preço é inferior ao preço do amendoim, da
soja, do caroço de algodão, etc., em certas épocas do ano.

Habitat do babaçu
16. Os palmeirais de babaçu, no Maranhão, concentram-se em três
regiões principais:
I – no vale do Itapecuru;
II – no vale do Parnaíba;
III – nos vales do Mearim e seu afluente o Pindaré.

Segue-se a distribuição em cinco regiões secundárias:”


I – Na região do Golfão Maranhoso;
II – Na região do litoral Noroeste do Maranhão;
III – Na região dos altos vales, representados pelos cursos superiores
os rios Parnaíba, Itapecuru e Mearim;
IV – No vale do Grajaú;
V – No vale do Tocantins.
17. São desconhecidas, ainda, as capacidades de produção dos
vales do Turiaçu e do alto Pindaré, por serem despovoados e de difícil
acesso, onde existem imensos babaçuais.
18. Em todo o território do Maranhão, apenas não há produção de
babaçu nos municípios de Araioses, Tutéia e Barreirinhas, todos na região
oriental do Maranhão.

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 275


A Indústria extrativa do babaçu
19. A indústria extrativa da amêndoa do coco babaçu constitui a
mais expressiva base econômica do Maranhão.
20. Na balança comercial do nosso Estado, mesmo com o atual e
intenso cultivo do arroz, o babaçu, - em amêndoas e óleo -, prepondera
na escala de produtos exportados para outras Unidades de Federação.
21. Daí, por que, não há, no Maranhão, Estado em desenvolvimento,
fome na sua expressão de flagelo humano, como se observa em
determinados ciclos da vida nordestina. A par da lavoura, em terras férteis,
o babaçu, fonte de recursos naturais, proporciona ao homem rural melhoria
de vida, oferecendo-lhes meios de subsistência em seus imensos palmeirais
nativos, que na quebra do coco e venda da amêndoa como na sua
alimentação com o consumo da própria amêndoa.
22. Ao nordestino que, em correntes migratórias, procura as terras
acolhedoras do Maranhão, assolado pelo flagelo das secas, o babaçu
proporciona imediato recurso para sua manutenção, enquanto lavra a terra
para a próxima colheita agrícola.

Comercialização da amêndoa do babaçu.


23. A escravidão econômica incide ilegalmente na amêndoa do
babaçu e no produto agrícola, ambos com uma remuneração de trabalho
muito abaixo do salário mínimo que, injustamente não vigora nos meios
rurais.
24. Minorando essa deficiência de justa remuneração de trabalho,
a lei n.º 1.506 de 19 de dezembro de 1951 e legislação posterior veio
amparar alguns produtos vegetais, fixando-lhes preços básicos mínimos.
25. No setor de sementes oleaginosas, o amendoim e a soja,
amparados por preços básicos mínimos, dispõem de condições para
resguardar o lavrador dos efeitos da lei da oferta e da procura, na
abundância da época da colheita.
26. O babaçu, não dispondo do mesmo amparo frequentemente
oscila de preço na fonte de produção, descendo sensivelmente de cotação

276 Alfredo Wagner Berno de Almeida


na plenitude da safra, em consequência de mais acentuada oferta do
produto.
27. O cultivo do amendoim, e também da soja, somados ao aumento
da produção do caroço do algodão, são insuficientes para o abastecimento
de óleos vegetais às indústrias de gorduras comestíveis, carecendo da
participação efetiva e substancial das amêndoas de babaçu.
28. Ainda assim, verifica-se, por vezes, deficiência de
abastecimento no período de entre-safras. Ocorre, entretanto, que na
vigência das colheitas, há abundância de matéria prima, com acúmulo de
estoques, forçando a baixa dos preços.
29. O decréscimo do preço, por vezes, não compensa o trabalho
da quebra do coco, realizado no recesso da própria mata, num penoso
esforço, através de longas caminhadas, para o regresso, ao entardecer do
dia, com alguns quilos de amêndoas, que, a preço ínfimo, não retribui,
satisfatoriamente, tão árduo labor.
30. A quebra do coco, efetivamente, só pode ser realizada no
interior da mata, ao pé do palmeiral, por não ser possível, movimentá-lo
para junto da habitação, porquanto as amêndoas representam apenas cerca
de 9% do coco inteiro.
31. Em média, a mulher do lavrador extrai, num dia, cinco quilos
de amêndoas, por conseguinte, quebra, aproximadamente 60 quilos de
coco, peso que não seria fácil transportar para junto da habitação, distante,
muitos quilômetros, do local da apanha do coco, por não dispor de animal
de carga.
32. Extraída a amêndoa no coqueiral das circunvizinhança, as
caminhadas vão se alongando, mata a dentro, desde o raiar do dia, para
atingir, mais longinquamente, outras fontes de produção. Assim,
logicamente, o tempo de percurso encarece o custo da amêndoa.
33. Há também dispêndio de tempo na escolha do coco. Ele não é
quebrado indistintivamente. A mulher e a criança efetuam uma seleção
apenas apanhando os maiores em tamanho e mais redondos, deixando ao
pé da palmeira, os cocos que supõem apenas conter uma ou duas amêndoas.

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 277


34. A escolha decorre da necessidade de suavizar o trabalho penoso
da quebra do coco, porquanto o epicarpo, de fibras resistentes, e o
endocarpo, lenhoso e duro, exigem dispêndio de esforço, somente
compensado com maior quantidade de amêndoas em cada coco quebrado.

Comercialização do óleo de babaçu


35. O óleo de babaçu, com boa aceitação nos mercados nacionais,
em face de certas e determinadas qualidades que lhe são intrínsecas, sofre,
entretanto concorrência proveniente da abundância de produção do
amendoim, com duas safras anuais, da soja abundante no Rio Grande do
Sul, do caroço de algodão, do sebo animal, etc.
36. É expressivo, ainda assim, o abastecimento de óleo de babaçu,
no mercado nacional, notadamente nos Estados da Guanabara e São
Paulo, como demonstra o quadro a seguir havendo em decorrência a
necessidade de procura do mercado exterior, para o excedente o consumo
nacional:

Óleo de babaçu no mercado nacional

ANOS TONELAGEM
1967 42.361
1968 40.767
1969 46.632
1970 (janeiro a abril) 16.162

37. No Exterior, não pode o óleo de babaçu competir satisfatoriamente


com a elevadíssima produção de compra do baixo custo de mão de obra nas
Filipinas, mercado tradicional dos Estados Unidos, que reexporta para a Europa
e outros mercados mundiais. Deste modo, as nossas exportações de óleo para
os Estados Unidos somente podem ser realizadas a baixo preço, em paridade
com o custo do óleo de copra precedente das Filipinas.

278 Alfredo Wagner Berno de Almeida


38. Os países europeus, além de óleo de copra que os Estados
Unidos lhes revende, em intercâmbio comercial, são abastecidos de óleos
de origem africana, notadamente a França, a Bélgica, a Inglaterra, que
ainda mantém ativo comércio com as suas ex-colônias, às quais dão
preferência de compra de óleo, porque em contra partida, lhes vende
artigos manufaturados, inclusive veículos.
39. Ainda assim, com esses fatores negativos de comercialização
de óleo, no Exterior, necessita o Maranhão, pelo excedente de produção
no mercado nacional, procurar o comércio exterior, que, nosso propósito
já é uma tradição de longa data em nosso Estado.
40. Em amêndoas, “in natura” manteve o Maranhão intenso
comércio de exportação com os Estados Unidos e, em menor escala, com
alguns países europeus, até o ano de 1960, passando daí em diante, a
reduzir-se a tonelagem de exportação da amêndoa “in natura” para,
gradativamente, crescer a exportação do óleo, quando ocorre o
aparecimento, de um novo produto de exportação para o Exterior: - a
torta de amêndoas de babaçu.

EXPORTAÇÃO PARA O EXTERIOR


nos anos de 1967, 1968 e 1969 e meses de janeiro a maio de 1970

PRODUTOS 1967 1968 1969 1970 TONELADAS


Óleo de Babaçu 3.775 5.830 8.547 8.004
Torta Oleaginosa 32.870 29.570 36.557 18.532

41. As exportações para o Exterior, nos anos de 1967 a 1969 e


meses de janeiro a maio de 1970, proporcionaram ao Maranhão as seguintes
quantias em dólares, a par de divisas apreciáveis ao Brasil.

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 279


ANOS ÓLEO DE BABAÇU TORTA OLEAGINOSA
$US $US
1967 1.138.800,00 1.629.219,30
1968 2.000.370,00 1.664.486,00
1969 2.063.683,00 1.667.850,00
1970 (janeiro/maio) 2.174.808,00 924.619,50

Ônus da exportação de óleo de babaçu


42. O ato complementar n.º 35 de fevereiro de 1967 do Governo da
União diz, em seu artigo 7.º, que na exportação para o Exterior, todo o
produto industrializado, de origem vegetal ou animal, que representasse em
seu todo, mais de 50% da matéria prima, haverá estorno de crédito do ICM.
43. O estorno de crédito do ICM restringe as condições para
incrementar a exportação destinada ao exterior do produto que contiver
mais de 50% da matéria prima industrializada, no caso, o óleo de amêndoas.
44. Posteriormente, a Constituição de 1967, dando competência, aos
Estados, para decretar impostos, assim se expressa no § 5.º do artigo 24:
§ 5.º - O imposto sobre a circulação de mercadorias é não cumula-
tivo, abatendo-se em cada operação, nos termos do disposto em lei, o
montante cobrado nas anteriores, pelo mesmo ou outro estado e não
incidirá sobre produtos industrializados e outros que a lei determinar,
destinados ao exterior.
45. Esta liberação, entretanto, está anulada, pela mesma Consti-
tuição que, em vigor a partir de 15 de março de 1967, mantém, pelo
inciso I do art. 173, os atos praticados pelo Governo Federal com base
nos atos institucionais e nos atos complementares, mantendo consequen-
temente o ato complementar nº. 35, que externa o crédito do ICM quan-
do o produto exportado para o Exterior (no caso, o óleo de babaçu) con-
tiver mais de 50% da matéria prima industrializada.

280 Alfredo Wagner Berno de Almeida


A Constituição de 1969
46. Essa situação de gravame permaneceu com a posterior e atual
Constituição de 1969, que isentando de tributação as operações que
destinem ao exterior, em § 7.º do artigo 23, mantém, entretanto, pelo
inciso I do artigo 181 os atos institucionais e os atos complementares,
entre eles, o citado ato complementar n.º 35, que estorna o crédito do
ICM, na modalidade em apreço.

Divergência de tributação
47. Enquanto o Maranhão mantinha a cobrança do ICM, através
do estorno da matéria prima, o Estado de São Paulo, contrariando a
legislação vigente, concedeu isenção de impostos a todos os produtos de
origem animal e vegetal, exportados para o Exterior, inclusive para a
mamona, situação que acarretou prejuízos aos demais Estados da União,
sem poderes de competição nos mercados exteriores.

Contestação dos demais Estados


48. Em decorrência, após reunião, os secretários de Fazenda
delegaram poderes ao secretário da Bahia para, sobre o assunto, manter
entendimento com o Ministro da Fazenda.
49. A pendência foi regularizada em favor da ação do Estado de
São Paulo, através do decreto-lei n.º 406 de 31 de dezembro de 1968 (§
3.º do artigo 3) de redação semelhante ao ato complementar n.º 35, com
a diferença de dar aos Estados da União, a faculdade de isentar o imposto.
50. Enquanto o Estado de São Paulo e outros estados mantiverem
a isenção, conservando o crédito do ICM sobre a matéria prima utilizada
na elaboração do produto industrializado, destinado ao exterior, o
Maranhão concedeu à partir do mês de abril do ano fluente, ainda assim,
somente 30% sobre a produção total de cada empresa verificada no
exercício anterior.
51. Em face do exposto, a FEDERAÇÃO DAS INDÚSTRIAS
DO ESTADO DO MARANHÃO, considerando:

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 281


a) – que as matas equatoriais e úmidas do Maranhão, prolongamente
da flora amazônica, possuem exuberantes variedades de riquezas naturais,
sobressaindo os intérminos palmeirais de babaçu, nativos no Brasil e de
habitat predominante no Maranhão;
b) – que a produção farta e abundante de coco babaçu, perde-se
entretanto, em sua maior parte, nas matas infindas, mas ainda assim, ela
constitui a principal base econômica e financeira do Maranhão;
c) – que as indústrias nacionais de refinação de óleos e preparo de
gorduras comestíveis não consomem toda a avultada produção de óleo
industrial de amêndoas de babaçu do Maranhão, por dispor o país também
de produção de óleos de amendoim, doe soja, do girassol, do caroço de
algodão e do sebo animal, também avultadas;
d) - que os mercados exteriores absorvem satisfatoriamente os
excedentes de da produção de óleo industrial de amêndoas de babaçu;
e) – que, quanto ao preço, o óleo de babaçu sobre competição, nos
mercados exteriores, proveniente da avultada produção de óleo de copra
e dos óleos africanos, de mão de obra mais barata;
f) – que o preço de óleo de babaçu é gravoso devido o custo da
amêndoa, que é obtida com a quebra manual do coco babaçu, penetrando
o homem rural no recesso da mata, para a colheita do coco, sem
possibilidade de invenção da quebra mecânica;
g) – que a redução do custo de compra da amêndoa para dar ao
óleo e preço de paridade internacional, a fim de competir satisfatoriamente
com a copra e os óleos africanos, provocará o desinteresse do homem
rural na colheita e quebra de coco, paralisando uma atividade econômica
e sustando o fornecimento de amêndoas à indústria de óleos.
h) – que as tentativas de redução do preço de compra da amêndoa
tem acarretado comoções sociais nos meios rurais;
i) – que há consequentemente necessidade de incentivos fiscais
para que o óleo de babaçu possa competir com os similares nos mercados
mundiais;

282 Alfredo Wagner Berno de Almeida


j) – que, nestas condições, pode o Maranhão intensificar a
exportação de óleo pela abundância de coco nas matas infindas do nosso
Estado;
k) – que, conquanto os poderes da República incentivem e
estimulem as exportações para o exterior, não isentam, obrigatoriamente,
de tributação, os produtos industrializados, de origem vegetal e animal,
com mais de 50% de matéria prima;
l) – que a isenção, concedida de acordo com critério estadual e
somente por alguns Estados restringir o poder de competição nos mercados
mundiais;
m) – que o Estado do Maranhão concede apenas o desconto de
30% (trinta por cento) sobre a produção total de cada empresa, verificada
no exercício anterior, redução insuficiente para a disputa de mercados
mundiais de óleos;
52. – propõe, à reunião setorial sobre óleos e gorduras comestíveis,
que se realiza no Rio Grande do Sul, para, se devidamente aprovada, seja
encaminhada pela CONVENÇÃO NACIONAL DA INDÚSTRIA aos
Poderes Públicos, a seguinte providência destinada a estimular o
incrementar a exportação de amêndoas do babaçu para o Exterior.
I – dar ao § 3.º do artigo 3 do decreto-lei n.º 406 de 31 de dezembro
de 1968, a seguinte redação:
§ 3.º - Não se exigirá o estorno do imposto relativo às mercadorias
entradas para utilização, como matéria prima, em material secundário, na
fabricação e embalagem dos produtos que tratam o § 3.º, inciso I e o § 4.º,
inciso III, do artigo 1.º. O disposto neste parágrafo também se aplica às
matérias primas de origem vegetal que representem, individualmente, mais
de 50% do valor do produto resultante de sua industrialização.

Fortalecimento da Empresa
Esta é a reivindicação da FEDERAÇÃO DAS INDÚSTRIAS DO
ESTADO DO MARANHÃO para consolidação da exportação do óleo

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 283


de amêndoas do babaçu, no mercado exterior e que se enquadra no
conceito do fortalecimento da empresa do emitente presidente Módiei:
“Creio na função multiplicadora da empresa, e, porque assim o
creio, buscarei fortalecê-la sobretudo a empresa nacional encontrando
forma e processos de baratear-lhe os custos de produção, para que se
fortifique o mais produza”.

São Luís, 4 de julho de 1970

Dr. Alberto Abdalla


PRESIDENTE

284 Alfredo Wagner Berno de Almeida


ANEXO:

TRANSCRIÇÃO do exato teor do § 3.º do artigo 3 do decreto-lei


n.º 406 de 31 de dezembro de 1968:

Art. 3.º - O imposto sobre circulação de mercadorias é não


cumulativo, abatendo-se em cada operação o montante cobrado nas
anteriores, pelo mesmo ou outro Estado.
§ 3.º - Não se exigirá o estorno do imposto relativo às mercadorias
entradas para utilização, como matéria-prima ou material secundário, na
fabricação e embalagem dos produtos de que tratam o § 3.º, inciso I e o §
4.º, inciso III, do artigo 1.º. O disposto neste parágrafo não se aplica,
salvo disposição de lei estadual em contrário, às matérias-primas de origem
animal ou vegetal que representam, individualmente, mais de 50% do
valor do produto resultante de sua industrialização.

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 285


DECRETO ESTADUAL N.º 3252, DE 11 DE DEZEMBRO DE
1973
PROÍBE A derrubada de Palmeira de Babaçu e dá outras providências.

O GOVERNADOR DO ESTADO DO MARANHÃO no uso


de suas atribuições legais e de acordo com o que preceitua o Código
Florestal (Lei n.º 4.711, de 15/09/66) na alínea c de seu artigo 14.

DECRETA

Art. 1º - Fica proibida a derrubada de palmeira de Babaçu para


qualquer fim, ressalvadas as exceções previstas neste decreto.

Parágrafo único – A proibição estabelecida neste artigo não as


aplica aos casos de:

a) – corte de palmeiras feito pelos órgãos especializados da Admi-


nistração Pública, estadual e municipal, para o desbastamento dos
babaçuais ou para execução de serviços públicos;
b) – quando necessário à implantação de lavouras ou formação de
pastagens e desde que sejam sacrificadas, na apenas palmeiras improduti-
vas assim consideradas pelos órgãos técnicos – competentes a sejam con-
venientemente defendidas do fogo por ocasião das queimadas, as que
não devam ser sacrificadas.

Art. 2.º - Na hipótese da alínea a do parágrafo único do artigo


anterior, o desbastamento dos babaçuais deverá ser feito de modo a que
subsista, entre as palmeiras sobreviventes, um espaço médio de seis (6) e
nove (9) metros observado o mínimo de centro e trinta e cinco (135)
árvores produtivas, por hectare.

286 Alfredo Wagner Berno de Almeida


Art. 3.º - As árvores destinadas à formação de pastagens, quando
iguais ou superiores a trezentos (300) hectares e estiverem localizadas em
zonas de ocorrência de babaçuais, deverão ser objeto de Projeto sujeito à
prévia aprovação do Instituto de Recursos Naturais, atendido o disposto
no artigo anterior.

Art. 4º - A fiscalização do estabelecimento neste Decreto compete


aos funcionários e servidores da Secretaria da Indústria e Comércio, da
Fazenda, da Agricultura e de Segurança Pública, e do Instituto de Recursos
Naturais, para esse fim devidamente credenciados pelo Secretário da
Fazenda.
Parágrafo único – A competência estabelecida neste artigo não
prejudica a da autoridade policial, que deverá comunicar aos funcionários
e servidores credenciados as ocorrências das infrações de que tomar
conhecimento.

Art. 5º - Aos infratores será imposta multa igual ao do valor de


venda dos produtos oriundos da palmeira indevidamente abatida ou
sacrificada, acrescida de dez por cento (10%) do valor do salário mínimo
vigente do Estado.
Parágrafo único – As penalidades previstas neste artigo não exime
o infrator das que previstas na legislação federal específica.

Art. 6.º - As penalidades previstas no artigo anterior serão impostas


mediante Auto de Infração lavrado por funcionários ou servidor
credenciado e deverá ser apresentado à unidade de arrecadação da
Secretaria da Fazenda mais próxima do local em que houver ocorrido a
infração.
Parágrafo único – A Secretaria da Fazenda providenciará os
modelos dos Autos de Infração.

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 287


Art. 7º - Dos Autos de Infração caberá o direito de recurso no
Conselho de Contribuintes, no prazo máximo de trinta (30) dias, contados
da data de sua lavratura e ciência do infrator.
Parágrafo único – Das decisões favoráveis às partes haverá recurso
“ex-ofício”.

Art. 8º - As multas não pagas dentro do prazo de trinta (30) dias


contados da data da ciência do Auto de Infração ou da notificação que
der conhecimento da decisão de instância superior, na hipótese de recursos,
serão cobradas executivamente.

Art. 9º - O presente instrumento entrará em vigor na data de sua


publicação, revogadas as disposições em contrário.

PALÁCIO DO GOVERNO DO ESTADO DO MARANHÃO,


EM SÃO LUÍS, 11 DE DEZEMBRO DE 1973, 151º DA
INDEPENDÊNCIA E 84º DA REPÚBLICA

288 Alfredo Wagner Berno de Almeida


Visão, 07de Abril de 1975, pág. 43

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 289


Lei Nº. 81, de 23 de Maio de 1979
Assembléia Legislativa

A mesa a Assembléia Legislativa do Estado do Maranhão, no uso de


atribuições legais e de acordo com o que preceitua o artigo 29, & 5.º, da Constituição
do Estado, PROMULGA a seguinte Lei:
PROÍBE a derrubada de palmeira de babaçu e dá outras providências.

Art. 1.º - Fica proibida a derrubada ou a danificação de palmeiras


de babaçu, em todo o território de estado, exceto:
I – quando for imprescindível o desbaste de babaçuais com o
objetivo de aumentar sua produção ou para facilitar a coleta de coquilhos,
obedecidos os critérios adotados pelos Poderes Executivo Estadual ou
Municipal;
II – nas áreas destinadas à construção de obras e serviços de alto
sentido sócio-econômico, por parte dos competentes setores da
administração pública.
III – nas propriedades onde se desenvolvam atividades agro-
pecuárias, observadas as normas fixadas pelo Poder Executivo, desde que:
a) sejam sacrificadas somente as palmeiras consideradas
improdutivas;
b) resulte um espaçamento de, no mínimo 4 (quatro) e no máximo
10 (dez) metros entre as palmeiras remanescentes;
c) sejam protegidas contra ação do fogo por ocasião das queimadas
das roças das palmeiras cuja fonte esteja a menos de 3 (três) metros do
solo;
d) não se proceda a extração do palmito;
e) não sejam utilizados para a derrubada de palmeiras, herbicidas
de qualquer espécie ou natureza;
f) evite-se, de toda forma possível, a exploração dos babaçuais de
maneira predatória e anti-econômicas.

290 Alfredo Wagner Berno de Almeida


Art. 2.º - Incube a fiscalização desta Lei à Secretaria da Fazenda
de Segurança e à Secretaria de Agricultura.

Art. 3.º - A inobservância desta Lei sujeitará o infrator à multa, de


1 UFR (uma unidade fiscal de referência) por cada palmeira de babaçu
derrubada ou danificada.
§ 1.º - Dobrar-se-á o valor da multa, se a derrubada ou a
danificação atingir mais de 20 (vinte) até 30 (trinta) palmeiras. Tresdobrar-
se-á o valor se as palmeiras atingidas forem mais de 30 (trinta).
§ 2.º - É fixado em Cr$ 600,00 (seiscentos cruzeiros) o valor da
U.F.R., o qual será reajustado anualmente por ato do Poder Executivo,
tendo em vista os coeficientes estabelecidos pelo Governo Federal.

Art. 4.º - As informações a esta Lei serão apuradas em processo


administrativo que terá por base o auto de infração.
Parágrafo único – O auto de infração será lavrado por quem estiver
incumbido da fiscalização desta Lei, devendo especificar:
a) nome e endereço do infrator;
b) relato minuciosos dos fatos que deram origem a lavratura do auto;
c) dispositivo legal infringido e o valor da multa aplicável;
d) nomes das testemunhas, se ouver;
e) local e data da lavratura do auto;
f) assinatura do infrator;
g) assinatura do autuante;
h) qualquer outra circunstância referente à infração.

Art. 5.º - O infrator poderá recorrer da exigência fiscal, no prazo


de 10 (dez) dias, contados da ciência, o Conselho de Contribuinte do
Estado, que julgará a infração em instância única e definitiva.

Art. 6.º - Qualquer pessoa, mediante representação fundamentada,


poderá dirigir-se ao Órgão do Ministério Público da competente Comarca,

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 291


para as providências cabíveis contra o infrator devendo aquele apresentar
no prazo improrrogável de 30 (trinta) dias a devida denúncia.

Art. 7.º - Os infratores desta Lei, deverão fazer prova da quitação


de débitos, resultantes de multas, para que possam transacionar com os
órgãos da administração estadual, suas autarquias e sociedades de economia
mista ou para pleitear ou receber, favores, benefícios ou qualquer auxílio
do Estado.

Art. 8.º - Fica o Poder Executivo autorizado a regulamentar a


presente Lei, no prazo de 900 (noventa) dias, a contar de sua vigência.

Art. 9.º - A presente Lei entrará em vigor na data de sua publicação.

Art. 10.º - Revogam-se as disposições em contrário.

Manda, portanto a todas as autoridades a quem o conhecimento e


execução da presente Lei pertencerem que a compram e a façam cumprir
na forma em que se encontra redigida. O Senhor Primeiro Secretário da
Assembleia Legislativa do Estado do Maranhão, a faça cumprir, publicar
e correr.
Palácio da Assembleia Legislativa do Estado do Maranhão, em 23
de maio de 1979.

292 Alfredo Wagner Berno de Almeida


Enoc Almeida Vieira
Presidente

Jocélio Carvalho Branco


Primeiro Secretário

Valdivino Castelo Branco


Segundo Secretário

Prot. 3097

Obs.: Publicado no Diário Oficial de 08 de Junho de 1979.


Projeto de Lei N.º 079/78
Autoria do Deputado: Sálvio Dino

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 293


Lei n.º 155, de 11 de janeiro de 1980
Cria a Fundação Instituto Estadual do Babaçu
- INEB e dá outras providências.

Cap. I – Art. 2.º e 3.º

§ 3.º - A fundação órgão integrante do Sistema Estadual de Recursos


Naturais, Tecnologia e Meio Ambiente e terá por finalidade:

I – Programar e executar pesquisas fitográficas, edafológicas e


agroclimatológicas que possibilitem inventariar, avaliar e manejar as ocor-
rências do babaçu nas diferentes regiões microclimáticas do Estado do
Maranhão.
II – Programar e executar pesquisas relacionadas à auto ecologia
das palmáceas existentes no território maranhense, com ênfase nas
classificáveis dentro das espécies cujas amêndoas são comercializadas,
indistintamente, como babaçu bem como no ciclo de nutrientes que con-
vive com as populações dos babaçuais nativos; objetivando a exploração
econômica dos babaçuais, o desenvolvimento genético de espécies mais
produtivas e resistentes, aumentando, consequentemente, o rendimento
por hectare dos palmeirais nativos ou a serem cultivados.
III – Complementar pesquisas tecnológicas no campo de
despolpamento, quebra mecânica, processo de pirogenação do endocarpo
que já vêm sendo realizados pela iniciativa privada; mediante o desenvol-
vimento de processos, operação de protótipos, industrialização a nível de
escala-piloto e semi-industrial; enfim gerando, divulgando e transferindo
tecnologias, apropriadas para o meio, principalmente ao extrato referente
à produção de capital, na busca de integração horizontal de atividade no
âmbito do Estado do Maranhão.
IV – Executar pesquisas básicas relacionadas à taxinomia e
ecofisiologia das palmáceas, que ocorrem, no Estado, visando ampliar os
conhecimentos das tecnologias e preservação, conservação, manejo sus-

294 Alfredo Wagner Berno de Almeida


tentado, cultivos, introdução de espécies resistentes e erradicação de es-
pécies improdutivas.
V – Desenvolver produtos e processos tecnológicos com vistas à
industrialização integral do babaçu.
VI – Fiscalizar e orientar a utilização racional das áreas de ocor-
rência do babaçu, visando a conservação da espécie.
VII – Realizar estudos econômicos e sociais que dêem suporte à
solução dos problemas relacionados com a coleta, transporte, armazena-
gem, localização e tamanho de plantas industriais de processamento, rede
de distribuição de produtos finais e alocação dos principais fatores de
produção: capital e principalmente força de trabalho absorvidos pela ati-
vidade, dada a sua importância na geração da renda interna do Estado do
Maranhão.
VIII – Orientar os órgãos do Poder Público sobre os controles,
fiscalização e tributação dos produtos e subprodutos originários do pro-
cessamento do babaçu.
IX – Estabelecer programas de expansão e fomento das práticas
de cultivo do babaçu.
X – Assessorar os órgãos públicos de fomento e financiamento de
safras e de outros procedimentos agrícolas e industriais sobre política de
incentivo e subsídios a cultivos, manejos e exploração dos babaçuais.
XI – Assessorar a Secretaria de Recursos Naturais, Tecnologia e
Meio Ambiente, na elaboração e análise, avaliação e acompanhamento
de projetos relacionados com o babaçu.
XII – Organizar um terminal de informações sobre o babaçu e
integrá-lo a redes e sistemas de informações estaduais, nacionais, estran-
geiras e internacionais voltadas à pesquisa, comercialização de produtos
e subprodutos afins; disseminar o produto de pesquisas, estudos especi-
ais, análises estruturais e conjunturas, elaborados pelos órgãos do INEB,
no meio.

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 295


PORTARIA N.º 73, MINISTÉRIO DA AGRICULTURA DE 10 DE
MARÇO DE 1980.

O Ministro do Estado da Agricultura, no uso de suas atribuições e


tendo em vista o disposto na Lei 6.305, de 15 de dezembro de 1975 e sua
regulamentação pelo Decreto n.º 82.110, de 14 de agosto de 1978.

RESOLVE:

Art. 1º - Aprovar os PADRÕES DE IDENTIDADE E


QUALIDADE, em anexo, para comercialização e classificação da amêndoa
de babaçu.
Art. 2º - Esta Portaria entrará em vigor na data de sua
publicação, revogada a Portaria Ministerial n.º 815, de 19 de novembro
de 1975, publicada no DOU de 09 de dezembro de 1975.

ANGELO AMAURY STABILE

Padrões de identidade e qualidade da amêndoa de babaçu


1 Objetivo
1.1 – Os presentes Padrões têm por objetivo definir as características
de identidade, qualidade, apresentação e embalagem da Amêndoa do
Babaçu, para fins de comercialização.
2 Definições e conceitos
2.1 – Definição do produto
A Amêndoa de Babaçu é o produto extraído do fruto da palmeira
Orbignya oleífera Borrot, devendo apresentar-se em bom estado de
conservação e sanidade, permitindo-se apenas as tolerâncias previstas
nos presentes padrões.
2.2 Conceitos
Para efeito destes Padrões, considera-se:
2.2.1 – Umidade – porcentagem de água contida na amostra.

296 Alfredo Wagner Berno de Almeida


2.2.2 – Amêndoas inteiras – são as que apresentarem a forma
natural inteiriça, admitindo-se apenas pequenas escoriações causadas por
agentes físicos.
2.2.3 – Amêndoas quebradas – são aquelas que sofreram alteração
na sua forma natural, causada por agentes físicos.
2.2.4 – Amêndoas danificadas – são aquelas que sofreram estragos,
causados por insetos, mofo ou outros agentes biológicos e/ou químicos.
2.2.5 – Impurezas – detritos do próprio produto, tais como cascas
e outras partes do fruto do babaçu.
2.2.6 – Matérias estranhas – corpos estranhos de qualquer natureza,
não oriundos do produto.

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 297


MESA REDONDA

“O BABAÇU E SUAS PERSPECTIVAS”

São Luís, Auditório do IPES, 15 de junho de 1981.

Participação de representantes da Federação dos Trabalhadores


na Agricultura (FATAEMA), do Sindicato das Indústrias de óleo Vegetais,
do Instituto Estadual do Babaçu, do IBDF, do IPES e inúmeros
empresários. Coordenador de Mesa: Jair do Amaral Filho.

Pronunciamento de Pedro Silva (Calango) – Representantes


da FATAEMA:
“Os companheiros que me antecederam se mostram preocupados
com a diminuição da matéria prima e da quebra diária do babaçu que está
diminuindo de 20 para 14 de 7kg. Há também uma preocupação do nosso
movimento sindical com o babaçu e sobretudo com os trabalhadores rurais
que sobrevivem com essa riqueza natural.
Nós sabemos que nas regiões onde os proprietários proíbem a
quebra do coco, a renda dos trabalhadores, que já é baixa, vai diminuir
ainda mais, diminuindo também a renda para as indústrias.
Outra preocupação nossa é com as derrubadas das palmeiras. Se
existe uma lei que proíbe a derrubada das palmeiras, essa lei é violada ou
favorece a algumas empresas como é o caso da indústria de Coelho Neto,
cuja matéria-prima é a palmeira, pois quando estive lá fiquei horrorizado
ao ver caminhões transportando toros de palmeira para a indústria de
papel.
Naquela região e nos municípios vizinhos deve ter havido
considerável baixa na produção de amêndoas e o homem do campo está
cada vez mais pobre e sendo expulso da terra porque não pode sobreviver
com a quebra do coco.

298 Alfredo Wagner Berno de Almeida


Outras derrubadas são feitas ainda para instalação de fazendas e
plantações de capim, diminuindo a matéria prima para as indústrias. En-
quanto as indústrias se preocupam com a falta de produto, nosso sindica-
to se preocupa com o empobrecimento cada vez maior do trabalhador
rural.
O Proálcool é outro assunto que nos preocupa. É um programa do
governo até certo ponto muito bom, mas se for implantado com grandes
plantações de cana, vai diminuir a produção de alimentos básicos como o
arroz, feijão, mandioca e outros. Achamos que o governo deve reservar
para plantação de cana, áreas onde não há produção de babaçu, como
São Bernardo, Tutóia, Magalhães de Almeida, para que não se derrubem
palmeiras para plantar cana.
A nossa preocupação maior, portanto, é com o trabalhador rural
sem meios para sobreviver, principalmente nesse período de forte estia-
gem que estamos atravessando.”
“Eu acho que sempre a realidade vem da natureza daquilo que a
gente sente, daquilo que a gente é. Eu acho que o babaçu no Maranhão
sempre foi uma riqueza para que fosse o sustentáculo do Maranhão e dos
maranhenses. Agora, acontece o seguinte: por todas as formalidades que
estão surgindo vê-se que o babaçu não é rentável, que o babaçu empobre-
ceu todo o mundo. O babaçu que deixou todo mundo na rua. Mas tem
uma preocupação agora de estudo com a finalidade de formar indústrias,
ai que está a parte do período. Estas indústrias, como falava meu compa-
nheiro no começo, que as estradas devastaram os babaçuais, os incenti-
vos que vieram, foram implantando projeto pecuário em cima dos
babaçuais que foram derrubados, justamente com isso é que veio a dimi-
nuição da produção, não é a fruteira diminuiu de produzir, a produção
está aí. Nós temos bem aqui na Tijuca um projeto de pernambucanos,
que chegaram e foram derrubadas 250 mil palmeiras produtoras. Nós te-
mos bem aqui a fazenda Tira Canga, que não tem limites das palmeiras
que foram derrubadas, nós temos outros projetos por aí jogados com mi-

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 299


lhares de palmeiras botadas no chão. Então, como é que nós vamos ter
renda de babaçu derrubando a cada dia, a cada hora? Agora tem outra
coisa: nós já estamos com uma massa de desemprego no Maranhão maior
do mundo, desemprego total que a gente vê nas nossas palafitas e os
desempregados assaltando, e as moças aí nos lupanares, é uma devassi-
dão sem fim, por causa do desemprego. Como é que nós vamos dizer, que
nós vamos empresariar e aí vem o babaçu inteiro que vai ser preservado
pelo proprietário, pelo grande proprietário? Como é que nós vamos dizer
que isso vai render para o caboclo? O caboclo não vai ter rentabilidade
nisso ai, vai ser pior a situação, é mais desemprego e em cima de um
produto que queira ou não queira ele é nativo. Um outra coisa: o que vem
para o Maranhão sempre tem como consequência um mal estar de sua
própria população. Nós vemos aqui no nosso Estado do Maranhão os
babaçuais derrubados para se plantar capim e muitas vezes não tem gado.
Nós temos o campo de Perizes, uma imensidão de campo sem benefício,
que poderia criar milhares e milhares de animais. Nós temos o campo de
Pinheiro que seca e que tem um capim que dá em dois tempos, entendeu?
Os técnicos poderiam estudar para plantar um capim rentável para a cri-
ação. Mas se está atuando é em cima do babaçu, é em cima da terra
agricultável. Aí o grande problema que a gente tem que ver sinceramente,
olhar primeiro as duas faces: essa parte que de fato nós precisamos fazer
um progresso melhor, fazer uma industrialização, mudar os sistemas que
estavam aí a muito tempo, mas temos que estudar um meio também de
empregar o homem, a fim de que o homem na realidade com seus siste-
mas, a falta de cultura do maranhense para adquirir empregos melhores,
que não se retire isso de uma vez do caboclo porque vai ser outra morta-
lidade, outro sistema de fome; vamos prestar atenção nisto aí porque eu
não admito nunca que de repente com esse coco inteiro, isso vai dar uma
renda para o caboclo, essa renda vai entrar para o bolso do capitalista. Ai
é o meu problema e a minha sinceridade.”

300 Alfredo Wagner Berno de Almeida


Lei n.º 4.349 de 22 de outubro de 1981
Institui o babaçu (orbignya martiana) como a Àrvore Símbolo do
Maranhão.

O Governador do Estado do Maranhão,

Faço saber a todos os seus habitantes que a Assembleia Legislativa


decretou e eu sanciono a seguinte lei:
Art. 1.º - É consagrado como símbolo do Estado do Maranhão, o
babaçu (orbignya martiana).
Art. 2.º - Fica instituída a Semana Estadual do Babaçu, a ser
comemorada anualmente, na segunda quinzena do mês de março.
Art. 3.º - As comemorações de caráter cívico, cultural e popular
será organizadas pelas Secretarias do Estado, da Agricultura, de Educação,
de Desportos e Lazer, de Trabalho e Ação Social e de Recursos Naturais,
Tecnologia e Meio Ambiente, através de Comissão Especial designada
anualmente pelos respectivos titulares para tal fim.
Art. 4.º - Esta Lei entrará em vigor na data de sua publicação.
Art. 5.º - Revogam-se as disposições em contrário.
Mando, portanto, a todas as autoridades a quem o conhecimento e
a execução da presente Lei pertencerem que a cumpram e a façam cumprir
tão inteiramente como nela se contém. O exmo. Senhor Secretário Chefe
do Gabinete Civil do Governador a faça publicar, imprimir e correr.
Palácio do Governo do Estado do Maranhão, em São Luís, 22 de
outubro de 1981, 160.º da Independência e 53.º da República.

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 301


LEI ESTADUAL N.º 3.888 DE 26 DE SETEMBRO DE 1983
“Proíbe a derrubada das palmáceas e árvores, que especifica, e dá outras
providências”.

O Governador do Estado do Piauí

Faço saber que o Poder Legislativo decretou e eu sanciono a


seguinte lei:

Art. 1.º - É proibida a derrubada em áreas rurais de todo o território


estadual, de palmeiras de babaçu (Orbignya martiana) de carnaúba (Copernicia
ceriferal), de Buriti (Mauritia vinífera), de árvores de pequizeiro (Caryocar
villosia), do bacurizeiro (Platonia insignis) e da faveira (Vicia faba) para
qualquer fim, ressalvadas as exceções previstas nesta Lei.
Parágrafo único – A proibição estabelecida neste artigo não se
aplica aos casos de:
a) corte de palmeiras: árvores efetuado por órgãos especializados
da Administração Pública, Estadual ou Municipal, por motivo de
irremovível necessidade, de interesse público, previamente justificado
perante a Secretaria de Agricultura, com recurso para o Chefe do Poder
Executivo.

Art. 2.º - Quando da implantação de projetos de reflorestamento


em regiões onde as referidas palmeiras e árvores são nativas, e onde o seu
fruto é utilizado como meio de subsistência e como alimentação, será
obrigatório o plantio de uma percentagem de babaçuais, carnaubeiras,
buritizeiros, pequizeiros, bacurizeiros e faveiras, a ser fixada, em cada
caso, pelo IBDF.

Art. 3.º - Incumbe a fiscalização do estabelecido nesta Lei às


Secretarias de Indústria e Comércio, da Agricultura, da Fazenda e da
Secretaria de Segurança.

302 Alfredo Wagner Berno de Almeida


Parágrafo único – Os funcionários públicos destas Secretarias que
verificarem ocorrência de infração a presente Lei e não forem competentes
para formalizar o auto de infração, comunicarão o seu Chefe imediato,
que adotará as providências legais.

Art. 4.º - Aos infratores será imposta multa igual ao valor de 40%
(quarenta por cento) do salário referência vigente para o Estado do Piauí,
por palmeira ou árvore discriminadas no art. 1º , devidamente abatida ou
sacrificada.
Parágrafo único – As penalidades previstas neste artigo não eximem
o infrator das que preveem a Legislação Federal Específica.

Art. 5.º - As penalidades de que trata o artigo anterior serão impostas


mediante auto de infração, lavrado por funcionário ou servidor credenciado
pela Secretaria de Fazenda e deverá ser apresentado à unidade de
arrecadação do órgão mais próximo do local em que houver ocorrido a
infração.

Parágrafo único – A Secretaria da Fazenda providenciará os


modelos dos autos de infração.

Art. 6.º - Dos autos de infração caberá o direito de recurso ao


Conselho de Contribuintes no prazo máximo de 30(trinta) dias, contados
da data de sua lavratura e ciência do infrator.

Parágrafo único – Das decisões favoráveis as partes haverá recursos


“ex-Offício”.

Art. 7.º - As multas não pagas dentro do prazo de 30(trinta) dias,


contados da data da ciência do Auto de Infração ou, havendo recurso, da
data do recebimento da notificação da decisão da Instância Superior, serão
inscritos na Dívida Ativa do Estado e cobrados judicialmente.

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 303


Art. 8.º - Esta Lei entrará em vigor 60 (sessenta) dias após a data
de sua publicação revogadas as disposições em contrário.

___________________________________________
GOVERNADOR DO ESTADO

304 Alfredo Wagner Berno de Almeida


LEI ESTADUAL N.º 4.734 de 18 de junho de 1986.
Proíbe a derrubada de palmeira de babaçu e dá outras providências.

O GOVERNADOR DO ESTADO DO MARANHÃO

Faço saber a todos os seus habitantes que a Assembleia Legislativa


decretou e eu sanciono a seguinte Lei:

Art. 1.º - Fica expressamente proibida a derrubada de palmeira de


babaçu em todo o Território do Estado, exceto:

I – Quando for imprescindível o desbaste de babaçuais com o


objetivo de aumentar as sua produção, ou para facilitar a coleta de
coquilhos, obedecidos os critérios adotados pelo Estado ou Municípios.
II – Nas áreas destinadas à construção de obras ou serviços de
alto sentido sócio-econômico, por parte dos setores competentes da
administração pública.
III – Nas propriedades onde se desenvolvem atividades agropecuárias,
observadas as normas fixadas pelo Poder Executivo, desde que:

a) sejam sacrificadas somente palmeiras consideradas improdutivas;


b) resulte em espaçamento de, no mínimo, 8 metros entre as
palmeiras remanescentes;
c) sejam protegidas contra a ação do fogo, por ocasião das
queimadas das roças, as palmeiras cuja fronde esteja a menos de três metros
do solo;
d) não se procede à extração do palmito;
e) não sejam utilizados para a derrubada de palmeiras, herbicidas
de qualquer espécie ou natureza;
f) evite-se, de toda forma possível, a exploração dos babaçuais de
maneira predatória e anti-econômica.

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 305


Art. 2.º - A fiscalização do contido nesta Lei, caberá às Secretarias
da Fazenda, Recursos Naturais, Tecnologia e Meio Ambiente, Justiça e
Segurança Pública e Agricultura.
Art. 3.º - A inobservância dos dispositivos previstos nesta Lei
sujeitará o infrator as seguintes multas:

I – 4(quatro) ORTNs – Obrigações Reajustáveis do Tesouro


Nacional – Utilizar ou conduzir palmito de palmeira, cuja a derrubada
não esteja excetuada nesta Lei;
II – 6(seis) ORTNs – Obrigações Reajustáveis do Tesouro
Nacional – derrubar ou danificar palmeira de babaçu, sem prejuízo das
penalidades previstas da legislação específica;

§ 1.º - Dobrar-se-á o valor da multa se a derrubada ou danificação


atingir mais de 20(vinte) até 30(trinta) palmeiras, tresdobrar-se-á o valor,
se as palmeiras atingidas forem mais de 30.

Art. 4.º - As infrações a esta Lei serão apuradas em processo


administrativo que terá por base o auto de infração.
§ 1.º - O auto de infração será lavrado por quem tiver incumbido
da fiscalização desta Lei, devendo especificar:
a) nome e endereço do infrator;
b) relato minucioso dos fatos que deram origem a lavratura do
autor;
c) dispositivo legal infrigido e o valor da multa aplicável;
d) nome das testemunhas, se houver;
e) local e data da lavratura do auto;
f) assinatura do infrator;
g) assinatura do autuante;
h) qualquer outra circunstância referente a infração.
§ 2.º - O infrator poderá recorrer da exigência fiscal, no prazo de
10 (dez) dias, contados da ciência ao conselho especial.

306 Alfredo Wagner Berno de Almeida


Art. 5.º - Os processos por infração a esta Lei serão julgados em
instância única, por conselho especial.
§ 1.º - O conselho especial compor-se-á de 5 (cinco) membros de
livre nomeação e exoneração do Governador do Estado.
§ 2.º - O conselho especial será presidido por um de seus membros
eleito anualmente, e que terá voto comum e de qualidade.
§ 3.º - Os membros do conselho especial não receberão qualquer
vantagem pecuniária, sendo o trabalho gratuito e considerado relevante
para o Estado.
§ 4.º - A decisão do conselho especial, contrária, ao infrator, obriga
a cumpri-la no prazo de 20 (vinte) dias, sob pena de cobrança judicial.

Art. 6.º - Em casos de infringência desta Lei, o infrator ficará sujeito


as sanções penais cabíveis prevista no código florestal e demais disposições
emanadas do Poder Público Federal.

Parágrafo único – Qualquer pessoa, mediante representação


fundamentada, poderá dirigir-se ao órgão do Ministério Público da
competente comarca, para efeito de promover a ação penal contra o
infrator, de que trata “o caput” deste artigo.

Art. 7.º - Os infratores desta Lei, deverão fazer prova da quitação


de débitos, resultantes de multas, para que possam transacionar com os
órgãos da administração estadual, suas autarquias e sociedades de economia
mista ou para pleitear ou receber favores benefícios ou qualquer auxílio
do Estado.

Art. 8.º - O produto da arrecadação das multas, instituídas nesta


Lei, passará a constituir um fundo destinado à Fundação do Bem-Estar
do menor do Maranhão-FEBEM/MA.

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 307


Art. 9.º - O Poder Executivo poderá baixar normas complementares
necessárias ao cumprimento desta Lei.

Art. 10.º - Fica o Poder Executivo autorizado a regulamentar a


presente Lei, no prazo de 90 (noventa) dias, a contar de sua vigência.

Art. 11.º - A presente Lei entrará em vigor na data de sua publicação,


revogadas as disposições em contrário.

Mando, portanto, a todas as autoridades a quem o conhecimento e


execução da presente lei pertencerem que a cumpram e a façam cumprir
tão inteiramente como nela se contém. O Excelentíssimo Senhor
Secretário-Chefe do Gabinete Civil a faça publicar, imprimir e correr.

Palácio do Governo do Estado do Maranhão


São Luís, 1.º de maio de 1986, 165.º da Independência
e 98.º da República.

__________________________
Diário Oficial – 14 de julho de 1986.
Projeto de Lei n.º 108/95 de autoria do deputado Sálvio Dino.

308 Alfredo Wagner Berno de Almeida


LEGISLAÇÃO ESPECÍFICA A PARTIR DA CONSTITUIÇÃO DE
1988

1) Consoante a CONSTITUIÇÃO da República Federativa do Brasil,


promulgada em 05 de outubro de 1988:

Art. 225 – “Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente


equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de
vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo
e preserva-lo para as presentes e futuras gerações.”
§ 4.º - “A floresta Amazônica brasileira, a Mata Atlântica, a Serra
do Mar, o Pantanal Mato Grossense e a Zona Costeira são patrimônio
nacional, e sua utilização far-se-á, na forma da lei, dentro de condições
que assegurem a preservação do meio ambiente, inclusive quanto ao uso
dos recursos naturais.”

2) De acordo com a CONSTITUIÇÃO do Estado do Maranhão,


promulgada em maio de 1990:

Art. 196 - “Os babaçuais serão utilizados na forma da lei, dentro


de condições que assegurem a sua preservação natural e do meio
ambiente, e como fonte de renda do trabalhador rural.
Parágrafo único - Nas terras públicas e devolutas do Estado,
assegurar-se-á a exploração dos babaçuais em regime de economia familiar
e comunitária.”

3) O CÓDIGO FLORESTAL (Lei n.º 4.771, de 15 de setembro de 1965),


que é aplicado pelo IBAMA; determina:

Art. 26 - “Constituem contravenções penais, puníveis com 3 meses


a um ano de prisão simples ou multa de uma a cem vezes o salário mínimo
mensal do lugar ou da data de infração ou ambas as penas comulativamente:

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 309


g) impedir ou dificultar a regeneração natural de florestas e demais
formas de vegetação.”

Além disso, no artigo 44, o Código Florestal trata ainda de que no


Pará e no Tocantins, não é permitido que se tire pé de pau ou palmeira,
em mais que 50% da área de cada propriedade.
E nos Estados do Maranhão e do Piauí, o corte de árvores e a
exploração das florestas não podem ser como cada fazendeiro pensa, mas
tem que observar as normas técnicas: artigo 16.d.
Os trabalhadores rurais, através de seus Sindicatos, são
considerados os notificadores oficiais dos crimes contra os babaçuais.

310 Alfredo Wagner Berno de Almeida


INSTITUTO BRASILEIRO DE DESENVOLVIMENTO
FLORESTAL
PORTARIA N.º 449, DE 03 DE OUTUBRO DE 1987

O PRESIDENTE DO INSTITUTO BRASILEIRO DE


DESENVOLVIMENTO FLORESTAL – IBDF, no uso das atribuições
que lhe confere o artigo 25, inciso IX, do Regimento Interno aprovado
pela Portaria Ministerial n.º 229, de 25 de abril de 1975.

Considerando a necessidade de normatizar os procedimentos


quanto às autorizaçãoes de desmate na Amazônia Legal, face à Lei
n.º 7.511, de 07 de julho de 1986,

RESOLVE

Art. 1º - A exploração de qualquer tipo de formação florestal na


Amazônia Legal depende de autorização prévia do IBDF, observando as
normas previstas nesta Portaria.
Art. 2º - A exploração de florestas para extração de madeira, para
fins de consumo industrial, deverá ser feita através de plano de manejo
sustentado, devidamente aprovado pelo IBDF.
Art. 3º - Para os casos não previstos no artigo anterior serão
obedecidos os seguintes critérios:

a) O pedido de autorização de desmatamento para até 50


(cinquenta) hectares será permitido, desde que especificado o
aproveitamento e o destino do material lenhoso;
b) Os pedidos de autorização de desmatamento para áreas de 51 a
300 (cinquenta e um a trezentos) hectares, deverão ser acompanhados de
plano de exploração florestal, elaborado por profissional habilitado,
especificando o aproveitamento e destino do material lenhoso;
c) Os pedidos de autorização de desmatamento acima de 301

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 311


(trezentos e um) hectares, deverão apresentar o plano de exploração
florestal, assim como cópia do projeto técnico do empreendimento, agrícola
ou pecuário, devidamente aprovado pelos órgãos afins.

Parágrafo único – Para todos os casos listados neste artigo será


observada a obrigatoriedade contida no art. 44 do Código Florestal.

Art. 4º - Os pedidos para autorização de desmatamento devem ser


encaminhados ao IBDF para análise de acordo com as seguintes instruções:

I – Documentos que deverão instruir o requerimento do interessado,


dirigido ao Delegado Estadual:

a) Prova de propriedade, justa posse ou quando se tratar de


terras públicas documento hábil expedido pelo Poder Público;
b) Croqui da área da propriedade até o limite de 50 (cinquenta)
hectares e mapa, para área de propriedade superior a 50 (cinquenta)
hectares, com as áreas desmatadas e a ser desmatada, inscrita na área
total da propriedade, na qual devem estar assinaladas as áreas descritas
nos artigos 2º, 3º, 14º e 16º do Código Florestal;
c) Finalidade do desmatamento e destino do produto;
d) Comprovação do recolhimento da contribuição específica;
e) Prova de estar regularizado junto ao INCRA, em relação ao
pagamento do ITR;
f) Documento do comprador indicando a destinação do produto
oriundo do desmatamento;
g) Laudo técnico sobre a capacidade do uso do solo, observada a
formalidade do desmatamento, emitido por profissional habilitado.
Parágrafo único – Os pequenos produtores, beneficiários ou não
do sistema de Crédito Rural, cuja área total da propriedade não ultrapasse

312 Alfredo Wagner Berno de Almeida


a 50 (cinquenta) hectares, somente estão sujeitos as exigências das letras
“a”, “b” e “c” do item I.

Art. 9º - Fica proibido o abate e a comercialização da


castanheira (Bertholettia excelsa) e da seringueira (Hevea sp.), bem
como os desmatamentos em área de ocorrência natural de maciços
das espécies.

Art. 12º - Nas áreas revestidas por concentração significativa de


babaçuais será permitida o desmatamento até 30% (trinta por cento) da
propriedade, ressalvando-se as áreas de preservação permanente, previstas
nos artigos 2º e 3º do Código Florestal, bem como a área de reserva prevista
no art. 44 deste diploma legal.

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 313


SERVIÇO PÚBLICO FEDERAL
PORTARIA N.º 039/88-P DE 04 DE FEVEREIRO DE 1988.

O PRESIDENTE DO INSTITUTO BRASILEIRO DE


DESENVOLVIMENTO FLORESTAL – IBDF, no uso das atribuições
que lhe confere o artigo 25, inciso IX, do Requerimento Interno aprovado
pela Portaria Ministerial n.º 229, de 25 de abril de 1975.
Considerando a necessidade de normatizar os procedimentos
quanto às autorizações de exploração das Regiões Nordeste, Centro
Oeste, Sudeste e Sul, face a Lei n.º 7.511, de 07 de julho de 1986
RESOLVE:

Art. 1º - A exploração de qualquer tipo de florestas e demais


formações florestais nas Regiões Nordeste, Centro Oeste, Sudeste e Sul
depende de autorização prévia do IBDF, observadas as normas previstas
nesta Portaria.
Art. 2º - A exploração das florestas, com o objetivo de
aproveitamento de madeira para qualquer finalidade, deverá ser feita
através de plano de manejo de rendimento sustentado devidamente
aprovado pelo IBDF.
Parágrafo único – As Delegacias Estaduais do IBDF estabelecido
critérios para elaboração do plano de manejo de rendimento sustentado.
Art. 3º - A exploração das demais formações florestais, objetivando
alteração de uso do solo para agricultura, pecuária, atividades urbanas,
reflorestamento e outras, poderá ser permitida com observância do
respeito às áreas de preservação permanente, previstas nos artigos 2º e 3º
do Código Florestal, bem como a área de reserva legal prevista no art. 16
do mesmo diploma legal.
Parágrafo único – Às propriedades que possuam acima de 90%
(noventa por cento) de sua área com florestas, só será permitido o uso
alternativo até o limite máximo de 50% (cinquenta por cento) de sua área
total.

314 Alfredo Wagner Berno de Almeida


PORTARIA N.º 267/788-P de 05/09/88

O PRESIDENTE DO INSTITUTO BRASILEIRO DE


DESENVOLVIMENTO FLORESTAL – IBDF, no uso das atribuições
que lhe são conferidas no art. 25, inciso IX do Regimento interno aprovado
pela Portaria Ministerial n.º 225, de 25 de abril de 1975 e, tendo em vista
as disposições contidas nas Leis nºs 4.771, de 15 de setembro de 1965 e
5.17, de 03 de janeiro de 1967, de 03 de janeiro de 1967, e suas alterações,
e no Decreto-Lei n.º 289, de 28 de fevereiro de 1967.

RESOLVE:

Art. 1º - Toda ação ou omissão que importa na observância das


Leis n.ºs 4.771, de 15 de setembro de 1965 e 5.197, de 03 de janeiro de
1967, a suas alterações e na política florestal traçada pelo IBDF através
de seus atos normativos, constitui infração, sujeitando às pessoas físicas
ou jurídicas as penalidades constantes na presente portaria.
Art. 2º - As penalidades a que se refere o artigo anterior são:

I – Multas;
II – apreensão dos produtos da infração;
III – interdição do Estabelecimento comercial e industrial;
IV – suspensão ou cancelamento do registro da empresa no IBDF;
V – reparação dos danos causados pela infração; e
VI – embargo das atividades.

Parágrafo único – A aplicação das penalidades indicadas neste


artigo não elidem as que porventura estejam previstas no Código Penal e
nos demais instrumentos legais.
Art. 3º - As penalidades incidirão sobre os autores, sejam eles
diretos ou quem, de qualquer modo, concorra para sua prática ou para
dela obter vantagem.

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 315


Parágrafo único – Constatada a reincidência, a multa será aplicada
em dobro.
Art. 4º - As penalidades do art. 2º serão aplicadas a quem, em
desacordo com as normas vigentes:

I – Explorar, utilizar, desmatar, corta, extrair, suprimir, queimar,


danificar ou provocar a morte de florestas e demais formas de vegetação
naturais e plantadas. Multa de até 100 (cem) vezes o MVR por hectares
ou fração, apreensão do produto extraído e reparação do dano.
II – Utilizar, beneficiar, receber, consumir, transportar,
comercializar, armazenas, embalar, deixar de aproveitar produtos e sub-
produtos da floresta. Multa de até 10 (dez) vezes o MVR por metro cúbico,
estéreo ou quilo, e apreensão do produto ou sub-produto.
III – Implantar projetos de colonização e loteamentos, urbanos ou
não, em áreas com florestas e demais formas de vegetação. Multa de até
100 (cem ) vezes o MVR por hectare ou fração e apreensão de produtos
ou sub-produtos florestais decorrentes da infração.

Brasília, de abril de 1988.

316 Alfredo Wagner Berno de Almeida


Ofício nº 13/88 CÂMARA DOS DEPUTADOS

Excelentíssimo Senhor,

A ocorrência natural do babaçu e de outras palmeiras de grande


importância social, econômica, política e técnica está passando por sérios
riscos de extermínio além da sub-utilização racional sem danos ecológicos,
bem como, favorecer a proteção, preservação e conservação das palmeiras
existentes, especialmente no Estado do Maranhão.
Isso se deve principalmente à falta de uma instituição de pesquisa
voltada exclusivamente ao encontro de soluções alternativas para a
problemática babaçu e outras palmeiras, possuidora de todos os requisitos
básicos para a geração, adaptação e extrapolação de tecnologias adequadas.
Em vista do exposto, é extremamente útil e necessário para o
Estado do Maranhão, para a região e para o Brasil a criação pela Empresa
Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA), vinculada ao Ministério
da Agricultura, do Centro de Pesquisa Agropecuária de Cocais (CNPCo),
localizado em meio a maior concentração dos palmeirais, que encontra-
se no Estado do Maranhão.
Além do óleo, do fruto da palmeira são ainda extraídos o carvão e
o amido que se constituem em importante derivados. O carvão é obtido
pela carbonização do endocarpo, que representa 59% do peso do coco, e
possui excelentes características para uso redutor siderúrgico em face de
apresentar alto teor de carbono fixo, alto teor calorífico e baixo teor de
enxofre e fósforo. O amido é extraído do mesocarpo que atinge 23% do
peso do coco babaçu, e se presta para a alimentação animal, produção de
farinha para consumo humano e uso medicinal.
Apesar de todos os aspectos ilustrados, esse importante recurso
natural atualmente apresenta inúmeros problemas relacionados com a
utilização racional, onde desponta a indesejável e constante ameaça de
extermínio em decorrência da devastação indiscriminada dos babaçuais

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 317


existentes. Além disso, existem outros fatores limitantes de ordem sócio-
econômica, agronômica e industrial.
O fator sócio-econômico, talvez o mais importante de todos, exige o
máximo de empenho dos vários setores envolvidos de modo a que possam
elevar sobremaneira a condição de vida das famílias que se constituem na
mão-de-obra responsável pela coleta, quebra e beneficiamento primário do
produto. A falta de planejamento estratégico e apoio incondicional ao homem
que encontra-se no caminho crítico na produção do coco babaçu, está fazendo
com que hoje inúmeras indústrias estão fechando ou já fecharam as portas,
ou estão processando o produto em ritmo de ociosidade por falta de matéria-
prima, que encontra-se em grande quantidade sobre o solo e espera da coleta
e demais processamentos. Isso significa desemprego, redução de arrecadações
municipais, além de outros danos sociais e econômicos. Há necessidade do
estabelecimento de preços justos no pagamento de trabalhos da família
ruralista, identificação de extratos de produtores, regionalização de postos de
coleta, desenvolvimento de processos que conduzam ao aproveitamento
integral do coco babaçu, de modo a assegurar a motivação dos produtores
rurais para a coleta do coco e proporcionar o aumento da eficiência, eficácia
e efetividade no desempenho da mão de obra.
O lado agronômico necessita melhorar o desempenho de grande
linhas como o melhoramento genético, botânica, domesticação das espécies
do Gênero Orbignya, manejo de tratos culturais, solos e nutrição,
fitossanidade, consorciação e associação, climatologia agrícola, além de
outras. Destaque especial deve ser dado ao mapeamento e zoneamento
agroecológico das ocorrências naturais do babaçu, estabelecimento de
áreas de proteção, preservação, conservação e utilização racional, de modo
a facilitar a demarcação de Área de Proteção Ambiental (APA) para
desfavorecer o atual processo de devastação dos babaçuais, e incrementar
o uso racional sem agressão à ecologia.
Na área industrial, além do crucial problema de falta de matéria
prima para processamento, o setor esbarra em outros impedimentos como
o carvoejamento e extração e aproveitamento comercial do amido o que

318 Alfredo Wagner Berno de Almeida


faz com que cerca de 40 mil toneladas anuais sejam perdidas por falta de
tecnologia adequada à extração do sub-produto. Os caminhos alternati-
vos para a utilização adequada do amido de babaçu fará com que grande
parte dos amidos para fins industriais não seja advinda de cereais, libe-
rando assim para uso alimentício.
De acordo com o exposto, nota-se que para o pleno aproveita-
mento integral do babaçu e abrangência do significado sócio-econômico
e agroindustrial, torna-se necessário a concepção, planejamento, direcio-
namento, coordenação, orientação e controle de uma consubstancial pro-
grama de pesquisa, pois, qualquer “caminho” para o desenvolvimento
tem que passar pela “avenida” da pesquisa.
Para melhor consubstanciar a nossa solicitação, que é do maior
interesse nacional, encontra-se, em apenso, o documento de título “Im-
plantação e funcionamento do Centro de Pesquisa Agropecuária de Cocais,
no Estado do Maranhão” que demonstra plenamente a necessidade desse
investimento em pesquisa agropecuária em benefício da coletividade
maranhense e brasileira.

Atenciosamente,

Joaquim Haickel
DEPUTADO FEDERAL

A Sua Excelência o Senhor


Presidente José Sarney
DD. Presidente da República

C/C. Ministro da Agricultura


Ministro da Ciência e Tecnologia
Governo do Maranhão

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 319


IMPLANTAÇÃO E FUNCIONAMENTO DO CENTRO DE
PESQUISA AGROPECUÁRIA DE COCAIS, NO ESTADO DO
MARANHÃO

O Estado do Maranhão, com uma extensão territorial de 328.663


km², apresenta variada condição ecológica e revestimento florístico, onde
se acentua a floresta de babaçu (Orbignya spp), com área mapeada de
cerca de 100.000 km², que corresponde a 56% da ocorrência natural dessa
palmeira. A cobertura efetiva do Orbignya observado no Estado é de
47.000 km², de onde 80% encontram-se nas regiões ecológicas da Baixada,
dos Cocais e do Cerrado. A produção do Estado alcança cerca de oito
milhões de toneladas anuais de coco babaçu que representam cerca de
76% da produção nacional, vindo em seguida outros Estados como Goiás,
Piauí e Mato Grosso, que juntos ao Maranhão atingem 95% da produção
brasileira. Outros Estados produtores são: Ceará, Pará, Bahia, Minas
Gerais e Pernambuco.
Especialmente nos Estados do Maranhão e Piauí o babaçu alcança
elevada importância econômica, social, política e técnica na qualidade de
produto regional extrativo, envolvendo cerca de dois milhões de pessoas
ocupadas direta ou indiretamente com essa atividade. A palmeira babaçu
tem aplicação prática das mais variadas possíveis, envolvendo as folhas,
estipes e frutos, com destaque para estes últimos que na região apresentam
elevada importância na alimentação humana em virtude do consumo de
leite e óleo ricos em aminoácidos essenciais, extraídos das amêndoas que
representam 6% do peso do fruto.
O óleo é rico em ácido láurico, útil para a produção de detergentes
e artigos de toucador, além de outros importantes fins industriais. Cerca
de 80% da produção de óleo de babaçu destinam-se a usos industriais e o
restante é empregado na alimentação. O babaçu é o principal responsável
pelo abastecimento de ácido láurico no mercado interno, em face da
insignificativa participação dos dois sucedâneos principais, ou seja, o
coqueiro e o dendezeiro.

320 Alfredo Wagner Berno de Almeida


1. Iniciativas econômicas e agro-industriais com a palmeira babaçu
e transformação da produção, em vista de atingir alta dimensão de
prioridade;
2. O conhecimento e experiência da EMBRAPA na criação e pleno
funcionamento de Centros de Pesquisa inseridos no SCPA;
3. O papel relevante e decisivo no aumento sócio-econômico da
produtividade do setor agrícola resultante da ação e esforços da pesquisa
agropecuária;
4. Que a incorporação de soluções alternativas identificadas pela
pesquisa tem fortalecido e aumentado a participação da agricultura como
instrumento social de significativa importância na melhoria da qualidade
de vida e do bem-estar geral das comunidades;
5. Que os benefícios econômicos, sociais, políticos e técnicos
provenientes da alocação de recursos humanos, financeiros e materiais
em pesquisa agropecuária proporcionam retornos elevados de acordo com
a experiência de países desenvolvidos como os Estados Unidos, e em
desenvolvimento como a Índia e o Brasil onde a prática com o sistema
EMBRAPA tem conduzido à obtenção de retornos superiores a 40%
demonstrando ser um ótimo negócio os investimentos da sociedade
brasileira em pesquisa agropecuária;
6. Que a pesquisa agropecuária deve ser tratada como prioridade
nacional permanente, como atividade de interesse público, e como tal
deve receber o máximo de atenção, incentivos e recursos humanos,
financeiros e materiais do Governo Federal, sem soluções de continuidade
e sem limitações impostas por fatores diversos;
7. Que o advento da EMBRAPA em 1973, que colocou em evi-
dência o Modelo Concentrado de pesquisa agropecuária, permitiu a im-
plantação de 44 Unidades Descentralizadoras nos Estados e Territórios
da Federação brasileira, onde o Estado do Maranhão não foi beneficiado
com Centro de Pesquisa, mas hoje a alocação de um Centro nesse Estado
é perfeitamente justificável pelo fato do tratamento adequado que deve
ser dado ao recurso natural do babaçu e outros cocais, importantíssimos

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 321


para o desenvolvimento do Maranhão, para a região e para o Brasil, tam-
bém atentando para a posição privilegiada do Estado quanto à variação
do clima e solo, por ostentar nichos ecológicos do Nordeste, Brasil Cen-
tral e Pré-Amazônia;
8. Que a presença física e operacional da EMBRAPA no Maranhão,
através da implantação e pleno funcionamento de forte Unidade Descen-
tralizada competente, bem estruturada e com o objetivo de coordenar e
executar pesquisas para o desenvolvimento no âmbito estadual, regional
e nacional, é pertinente e relevante para a conjuntura sócio-econômica
do Estado e da região, que acelerará quantitativa e qualitativamente a
participação da pesquisa no equacionamento e resolução de problemas
da mais alta importância no contexto do setor primário;
9. Que com base em enfoque sinérgico, envolvendo componentes e
fatores ecológicos, sociais e econômicos, orientador da criação dos Centros
de Recursos da EMBRAPA, com exceção dos Cocais, todas as grandes e
relevantes formações ecofisionômicas já estão contempladas com esse tipo
de Unidade de Pesquisa, isto é, Trópico Úmido, em Belém (PA); Trópico
Semi-Árido, em Petrolina (PE); Cerrados, em Brasília (DF); Pantanal, em
Corumbá (MS); e Terras Baixas de Clima Temperado, em Pelotas (RS);
10. Que tal como para os demais Centros de Recursos da
EMBRAPA, um Centro de Pesquisa como Cocais precisa localizar-se na
área “core” dessa formação, de modo a envolver-se diretamente com o
conjunto de fatores ecofisionômicos e problemas sócio-econômicos;
11. Que a área “core” dos cocais localiza-se no Estado do
Maranhão;
12. Que a operacionalização dos segmentos agropecuários do
Projeto Carajás requer informações científicas e tecnológicas oriundas da
pesquisa, de modo a garantir que as atividades agro-silvo-pastoris possam
realmente serem exploradas com eficiência, eficácia e efetividade, a partir
de uma abordagem de cunho ecológico, social e econômico;

322 Alfredo Wagner Berno de Almeida


13. a realidade conjuntural do Maranhão, com todas implicações
ecológicas, sociais e econômicas, e oportunidades para o estabelecimento
de infra-estrutura e apoio logístico compatíveis, infere comportar o Estado
um Centro de Pesquisa para desenvolver esforços e ações com os recursos
naturais dos Cocais, em função problemática do babaçu e de outras
PALMÁCEAS;
14. Que para a implantação do cidade Centro de Recursos poderá
ser útil a base física que a EMBRAPA possui na região de Bacabal, área
“core” dos Cocais na dimensão de 627 hectares, atualmente cedida à
Empresa Maranhense de Pesquisa Agropecuária (EMAPA), em regime
de comodato;
15. Que a citada base física fica localizada no município de Luiz
Gonzaga, a 17 km do centro da cidade de Bacabal, cujo município ostente
o maior desenvolvimento da região dos Cocais, de onde o Centro obterá
benefícios de infra-estrutura e apoio logístico.

Propõe-se:

Que o Ministério da Agricultura e a EMBRAPA sejam autorizados


pelo Governo Federal para a imediata criação de um Grupo de Trabalho
para, em tempo hábil, elaborar o Projeto de Implantação do Centro de
Pesquisa Agropecuária de Cocais (CPACo), no Estado do Maranhão. Para
isso é necessário que sejam dados todo o apoio e segurança duradoura e
sem solução de continuidade à Empresa vinculada ao Ministério da
Agricultura, quanto à efetivação de concurso público para a absorção de
pessoal técnico-científico, de administração e apoio à pesquisa, além de
consubstanciais recursos financeiros, estruturas físicas, instalações,
equipamentos, implementos e demais materiais indispensáveis à pesquisa
agropecuária dos Cocais, com prioridade para a palmeira babaçu.

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 323


SUBSTITUTIVO OU EMENDA AO PROJETO DE LEI N.º 176
DE 1991 EM TRÂMITE NA CÂMARA DOS DEPUTADOS EM
BRASÍLIA, DE AUTORIA DO SR. COSTA FERREIRA, que:

“Proíbe o abate da palmeira de babaçu nos Estados que especifica e dá


outras providências” OU AINDA, PROJETO DE LEI.

Artigo 1º.
Fica proibido a derruba de palmeira babaçu (Orbinaya Phalerata Martius)
nos Estados do Maranhão, Piauí, Tocantins e Pará, para qualquer fim,
cabendo aos governos Estaduais e Municipais se obrigarem pela sua
preservação, inclusive adotando medidas para tal finalidade.

Parágrafo único:
Nas terras públicas, devolutas e privadas dos respectivos estados assegurar-
se-á a utilização e uso dos babaçuais em regime de economia familiar e
comunitária, nos moldes já realizados pelos trabalhadores agroextrativistas.

Artigo 2º.
É permitido o raleamento e /ou desbaste da palmeira de babaçu nos
seguintes casos abaixo enumerados:
I – em áreas consorciadas;
II – em áreas não raleadas e/ou desbastadas.

Parágrafo Primeiro:
Em áreas acima de 6 (seis) hectares o raleamento e/ou desbaste deverá
ser realizado mediante solicitação e aprovação do Instituto Brasileiro do
Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA).

Parágrafo Segundo:
O IBAMA só poderá autorizar o raleamento e/ou desbaste, mediante posição
da comunidade que pratica o extrativismo do babaçu na área em questão.

324 Alfredo Wagner Berno de Almeida


Artigo 3º. Compete ao IBAMA, a Secretaria do Estado, a fiscalização e
multa do previsto nesta Lei.

Parágrafo único:
Ao proceder a fiscalização, os órgãos responsáveis deverão procurar
inicialmente os denunciantes, a comunidade, ou organizações de
trabalhadores (as) envolvidos.

Artigo 4º.
As infrações ocorridas com esta Lei, serão punidas pelo IBAMA, mediante
multa na produção dos prejuízos ambientais, sociais e econômicos
causados.
I) – ao infrator reincide, além da multa prevista, terá suspensa a sua
participação em linhas de financiamentos oficiais de créditos ou acessos
a incentivos e benefícios fiscais; e

II) – ao infrator contumaz ou aquele que faz de forma indiscriminada,


provocando danos ambientais, sociais e econômicos significativos, terá
sua propriedade imediatamente desapropriada e especificamente destinada
ao assentamento de trabalhadores extrativistas, sem qualquer direito de
indenização e sem prejuízo de outras sanções previstas nesta Lei e em
outras Leis.

Parágrafo único:
Os valores arrecadados das multas aplicadas, serão repassados
automaticamente ao um Fundo Especial do Extrativismo do Babaçu a
ser criado.

Artigo 5º.
Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação.

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 325


PORTARIA Nº. 051/91 – GS DE 15 DE JANEIRO DE 1991.

Dispõe sobre a sistemática de controle do regime de diferimento do


ICMS relativo aos produtos que especifica.

O SECRETÁRIO DE ESTADO DA FAZENDA, no uso de suas


atribuições e fundamentado nos termos do parágrafo único, do Art. 16º.,
do Decreto 11.416, de 27 de março de 1990, que aprova o Regulamento
do ICMS.

RESOLVE

I – As saídas com diferimento do ICMS, a que se referem os artigos


16 a 18 do Decreto n.º 11.416/90, se subordinam ao atendimento dos
requisitos e condições neste ato estabelecidos.

II – A sistemática de controle prevista nesta portaria somente se


aplica às operações com os seguintes produtos:

a) algodão em rama;
b) amêndoa de babaçu;
c) coco babaçu “In natura”;
d) malva;
e) soja.

III – A operacionalidade no regime de diferimento exige que o


adquirente dos produtos, indicados no inciso anterior esteja.

1.1 – O habilitado, devendo, para tanto requerer previamente à


requerente/Ela da Receita, a respectiva habilitação assinando no ato o
competente “Termo de Compromisso” (anexo 1).

326 Alfredo Wagner Berno de Almeida


IV – A habilitação para o regime de diferimento poderá ser
concedida a borador/Executo industrial ou beneficiador, localizado neste
Estado, nas condições estabelecidas no inciso seguinte.

V – Após a formalização de requerimento pelo interessado, para


operar no regime de diferimento junto a Exatoria do seu Requerente: não,
serão observados os seguintes procedimentos:

1 – a Exatoria analisará o pedido quanto;


a) ao enquadramento nas regras desta portaria; e
b) à regularidade do requerente no cumprimento de suas obrigações
tributárias;
2 – O titular da Exatoria manifestar-se-á quanto ao núcleo do
pedido e, em qualquer hipótese, encaminhará o pedido ao órgão Regional
da Fazenda a que estiver vinculado;

3 – O Órgão Regional saneará o pedido, encaminhará o processo


completo à Receita.

VI – Deferido o pedido pelo Coordenador da Receita, será expedido


Ato Declaratório de Diferimento do ICMS (anexo 2), emitido em 2 vias,
com a seguinte destinação:

a) 1ª via – Contribuinte
b) 2ª via – Coordenadoria da Receita.

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 327


DOCUMENTO DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DAS
INDÚSTRIAS DE BABAÇU
São Luís, 04 de julho de 1991
Sindicato da Indústria de Preparação de Óleos Vegetais e Animais,
Sabão e Velas de São Luís
DE: SINDICATO DA IND. DE PREPARAÇÃO DE ÓLEOS
VEGETAIS E ANIMAIS, SABÃO E VELAS DE SÃO LUÍS

PARA:

Att.:

Prezado Senhor,

Apraz-nos enviar a Vossa Senhoria o presente expediente, no


sentido de encaminhar em anexo, cópia do documento da ABIBA
Associação Brasileira das Indústrias de Babaçu, dirigida ao Exmo.
Senhor Governador do Estado, Dr. Edson Lobão, com reivindicações do
setor e sugestões para sua viabilidade econômica financeira, na presente
conjuntura.
Nesta oportunidade, agradeceríamos a vossa apreciação do
documento, ora encaminhado apresentando sua avaliação a este Sindicato.

Sem mais para o momento, subscrevemo-nos,

Atenciosamente

______________________________________
RAIMUNDO NONATO PINHEIRO GASPAR
Presidente

328 Alfredo Wagner Berno de Almeida


Teresina, 20 de junho de 1991

Exmo. Sr.
Edson Lobão
D.D. Governador do Estado do Maranhão

Senhor Governador,

A ABIBA – Associação Brasileira das Indústrias de Babaçu, enti-


dade classista que ora se acha em formação e tem como objetivo princi-
pal a luta em defesa dos interesses do setor do babaçu, buscando sempre
compatibilizar o desenvolvimento do setor como o desenvolvimento dos
Estados de seus filiados, leva ao Senhor Governador, as seguintes preo-
cupações:

1 – O setor de babaçu, que envolve na sua exploração mais de


300.00 pessoas, só no Maranhão, se encontra em vias de se tornar
inviável vinte, da presente recessão e da recente ciranda financeira que
tomaram conta do País, desestimulando totalmente qualquer investi-
mento na modernização do setor, que também, historicamente,
nunca se preocupou muito em modificar a estrutura de aproveita-
mento do babaçu;
2 – Por outro lado, temos agora no mercado nacional, o óleo de
palmiste que substitui o de babaçu e é largamente produzido na Malásia.
Lá é considerado como um subproduto do coco de palma, e seu baixo
preço torna-o sem concorrente no mercado mundial. Está sendo agora
importado com uma baixa taxação, por pressão e interesse específico de
grandes grupos multinacionais do Sul do País, suprindo já uma boa parce-
la de nosso mercado interno, o que vem acelerando ainda mais a
inviabilização de nosso setor. Acrescente-se que a escala de importação
cresce dia a dia de forma alarmante;

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 329


3 – Não somos adeptos de economia fechada, porém não se
pode analisar problema apenas pelo laço econômico e tecnológico, pois
se acha em jogo também o aspecto social que envolve a sobrevivência de
milhares de pessoas que vivem deste setor, bem como a inviabilização de
continuar produtivo, os seus elevados investimentos ora existentes.

O setor de babaçu, Senhor Governador, não pode ser tratado por


isto, da mesma forma que se trata setores de alta tecnologia que pouco
contribuem para sanar o grave problema do desemprego de nosso País,
principalmente em regiões de mão de obra não qualificada como é a
característica das que explodem o babaçu.

Por outro lado, não conhecemos nenhuma nação do mundo, que


em determinadas ocasiões, não proteja seus investimentos internos quan-
do há perigo de serem inviabilizados. O próprio Estados Unidos grava
com elevadas taxações inúmeros produtos que ele importa, como por exem-
plo, os calçados e os tecidos brasileiros, o aço japonês e muitos outros. O
Mercado Comum Europeu faz a mesma coisa e também subsidia inúme-
ros produtos para torna-los competitivos nos mais diversos mercados
mundiais. É para este aspecto, senhor Governador, que solicitamos a com-
preensão de V. Excia. no sentido de usar sua influência junto ao Governo
Federal para minerar através de elevação de taxação, os graves efeitos
desta perigosa concorrência, em um momento em que nosso setor se en-
contra incapaz de absorvê-los.

Os industriais de babaçu, a exemplo dos demais empresários do


Brasil, já se conscientizaram do seu novo papel de alavancagem do pro-
cesso de desenvolvimento do seu País. Eles sabem perfeitamente, que
agora, o Poder Público pretende apenas complementar as ações da inicia-
tiva privada na busca de melhoria e produtividade, de implantação de
modernas tecnologias e de maiores investimentos para promoção de
novas oportunidades de emprego e de melhor distribuição de renda.

330 Alfredo Wagner Berno de Almeida


Assim sendo, os industriais de Babaçu, resolveram em Assembleia
Geral realizada em Teresina, no dia 18 corrente, toma as seguintes
medidas para viabilizar a curto prazo, o seu setor:
I – Criar a entidade representativa para congregar e fortalecer o
setor;
II – Criar uma cooperativa com os seguintes objetivos:

a – Promover o desenvolvimento tecnológico do setor, orientan-


do incialmente na tecnologia da quebra mecânica do babaçu, na in-
dustrialização dos seus produtos e subprodutos e na exploração da
agricultura afim bem como nos estudos econômicos sobre o assunto em
geral;
b – Instalar uma unidade industrial, a nível de fazenda, para de-
monstrar aos interessados, a viabilização técnica e econômica da quebra
mecanizada do babaçu, produzindo a amêndoa, o carvão e o ami-
do no próprio local da quebra:
c – Manter um técnico permanente nesta instalação, buscando
sempre o aprimoramento da mesma para aumentar a sua produtividade;
d – Dar assistência ao investidor, na elaboração e no encaminha-
mento de processos de financiamento para aquisição das instalações bem
como assistência técnica permanente para melhor funcionamento dos seus
equipamentos;
e – Orientar também o investidor, na comercialização de seus pro-
dutos e os catadores de coco, como racionalizar o seu trabalho para
que o coco possa chegar de sua quebra a preços compatíveis;
f – Incentivar os proprietários da fazenda a investirem no setor
como uma forma de complementar a receita de suas propriedades, de
contar com uma mão de obra permanente e de evitar as possíveis
invasões de suas terras pelos catadores de coco;
g – Contactar com todos os órgãos dos Estados produtores de
babaçu e do Governo Federal no sentido de conseguir suas colaborações

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 331


e seu engajamento no projeto global, de tal maneira a aumentar a respon-
sabilidade de cada um no êxito do objetivo final;
h – Incentivar os proprietários de fazendas que ainda não explo-
ram as atividades agrícolas e/ou pastoris a consorciar a exploração do
babaçu com estas atividades, de modo a aumentar sua receita a melhorar
o nível de vida de seus funcionários ou arrendatários e finalmente ser
um instrumento de diminuição de tensões sociais melhorando o re-
lacionamento entre proprietários e seus trabalhadores.

Chegamos à conclusão, Senhor Governador, que não devemos ter


um único caminho para se chegar ao objetivo final.
Assim sendo, para as localidades de difícil acesso, ao invés de trans-
portarmos toneladas de coco para locais de quebra a longa distância, acon-
selharemos a utilizar um conjunto móvel, que pesa 500 kg, tocado
a diesel e rebocado por Jeep, trator ou até mula mecânica e, em
casos de atuação, em um raio muito pequeno, puxado até por uma
junta de bois. Esta instalação poderia atender a vários centros de
quebra passando uma vez por semana, em cada um.

Por outro lado para localidades de fácil acesso, dotadas de energia


de infra-estrutura para coleta de coco, em elevada escala, indicaremos
instalações fixas de capacidade variável de 4.000 e 30.000 kg de coco
por dia, com um percentual de produção de amêndoas de 6%, de 14% de
carvão e de 10% de amido, com uma diminuição de custo de transporte e
tempo normais porque ao invés de transportarmos 100 estaremos trans-
portando apenas 30 que é o que representa o percentual de produtos ob-
tidos no processo de industrialização que ora vislumbramos.

Estes equipamentos já se acham todos desenvolvidos e prontos


para serem fabricados e entrarem em produção imediata.

332 Alfredo Wagner Berno de Almeida


Agora só depende do apoio logístico dos Estados e do Gover-
no Federal para que o processo de industrialização seja deflagrado.
Deste modo se poderá obter um setor de babaçu definitivamente
viabilizado, não apenas como produtor de matéria prima oleaginosa, mas
principalmente pela produção de material energético, do qual o Nordeste
dependerá cada vez mais para o seu processo de desenvolvimento regio-
nal. O amido também terá muita importância como suplemento alimen-
tar da própria comunidade de quebradores e como insumo de diversos
produtos industrializados.

Estes são os caminhos, Senhor Governador, que apontamos para


viabilizar o setor do babaçu que todos sabemos ser da mais elevada im-
portância econômica e social para toda a região.

Certos de que poderemos contar com o apoio de V. Excia para


juntos solucionarmos mais este problema, subscrevemo-nos,

Atenciosamente,

___________________________
Gilson Teixeira do Amaral Brito
Presidente Provisório

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 333


INSTRUÇÃO NORMATIVA N.º 80, DE 24 DE SETEMBRO DE
1991

O PRESIDENTE DO INSTITUTO BRASILEIRO DO MEIO


AMBIENTE E DOS RECURSOS RENOVÁVEIS-IBAMA, no uso das
atribuições que lhe são conferidas pela Lei n.º 7.735, de 22 de fevereiro
de 1989 e artigo n.º 83, item VII, do Regimento Interno, aprovado pela
Portaria Ministerial n.º 415, de 16 de agosto de 1989, tendo em vista o
disposto no art. 14 letras “a” e “b” da Lei n.º 4.771, de 15 de setembro de
1965 e considerando a legislação vigente e a necessidade de disciplinar a
exploração sustentada das florestas da Bacia Amazônica, resolve:
Para as áreas de florestas nativas e suas formações sucessivas
excluídas as áreas de relevante interesse assim declaradas por lei ou de
interesse do Estado, os planos de Manejo Florestal sob Regime de
Rendimento Sustentado deverão atender as seguintes exigências, por
ocasião do protocolo nas Superintendências Estaduais do IBAMA:

01. INFORMAÇÕES GERAIS:

1.1. Requerente/Elaborador/Executor

Requerente: nome, endereço completo, CGC ou CPF, registro no


IBAMA/categoria (consumo e produção industrial, se for o caso).
Elaborador: nome, endereço completo, CGC ou CPF, responsável
técnico, profissão, nº. do registro no CREA, registro no IBAMA, n.º do
visto/região (se for o caso).

1.2. Identificação da Propriedade

Denominação:
Título de posse:
Proprietário:

334 Alfredo Wagner Berno de Almeida


Número de matrícula:
Cartório:
Localidade:
Município/Estado:
Inscrição de cadastro no INCRA:

02. OBJETIVOS E JUSTIFICATIVAS DO MANEJO FLORESTAL

2.1. Objetivos
2.2. Justificativas Técnicas e Econômicas

03. CARACTERIZAÇÃO DO MEIO

3.1. Meio Físico


3.1.1. Clima
3.1.2. Solos
3.1.3. Hidrografia
3.1.4. Topologia

3.2. Meio Biológico


3.2.1. Vegetação
3.2.2. Fauna

3.3. Meio Sócio-Econômico

04. MANEJO FLORESTAL

4.1. Discriminação das áreas da propriedade

Área total da propriedade, área de preservação permanente, áreas


de florestas, área a ser manejada, pastagem, agricultura, infra-estrutura,
banhado, hidrografia, rede viária, localização das unidades amostrais,

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 335


estaleiros, rede de alta tensão planimetria da área de manejo, norte
magnético, confrontantes coordenadas geográficas e outras informações
pertinentes.

10. RELAÇÃO DOS DOCUMENTOS QUE DEVERÃO SER


ANEXADOS

- ART (Anotação de responsabilidade Técnica) de elaboração,


execução e assistência técnica de projeto, individuais, se for o caso;
- Certidão atualizada do Registro de Imóveis da Propriedade (90)
dias antes da data do protocolo;
- Comprovante do pagamento ITR (Imposto Territorial Rural);
- Comprovante de recolhimento da contribuição específica (DUA
– Documento Único de Arrecadação);
- Croqui de acesso à propriedade, em relação ao Município
(pormenorizado);
- Termo de responsabilidade de manutenção da área florestal objeto
do Manejo, averbado às margens de transição, assinado pelo proprietário
da floresta-Modelo em Anexo, até 45 dias após a aprovação do projeto
(se for o caso);
- Contrato de elaboração e de supervisão e orientação técnica,
entre o proprietário da floresta/profissional/industrial, com anuência do
proprietário da floresta, se for o caso;
- Escritura pública registrada ou documento justa posse;
- Contrato de arrendamento ou comodato (se for o caso), registrado
em Cartório de Títulos e Documentos, com prazo de validade de no
mínimo igual ao ciclo de corte previsto no Plano de Manejo, observada a
fundamental necessidade da área objeto de manejo ter alcançado a sua
recomposição florestal;
- Mapas de acordo com o item 4.1;
- Contrato de compra e venda de matéria-prima (se for o caso),

336 Alfredo Wagner Berno de Almeida


constando a identificação do Plano de Manejo, bem como as essenciais
florestais comercializadas com respectivos volumes;
- Certificado da FUNAI informando que a área do Plano não se
encontra localizada em área indígena (se for o caso).

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 337


BABAÇU – “Análise das folhas”
Rio Maria, Pará, 1992

A folha do babaçu, não chega a ser uma rainha das forrageiras,


como é considerada a ALFAFA, GRAMA CORT-CROSS, etc. Todavia,
em virtude da abundancia que ela existe entre nós, em seu total estado
NATIVO, e podendo ainda, obtê-las sempre VERDE, durante os 365
(trezentos e sessenta e cinco) dias do ano, com custos praticamente zero
de PRODUÇÃO, sem dúvida nenhuma, para nós que temos excelentes
resultados no seu uso, como RAÇÃO ANIMAL, passamos a considerá-la
como a planta das “BEM-AVENTURANÇAS” da nossa região.
A “FAZENDA E HARAS PARAZÔNIA” a 20 (vinte) anos fun-
dada e estabelecida no município de RIO MARIA/PA, até a pouco tem-
po, como todos os demais pioneiros do SUL DO PARÁ, eram unânimes
opinando no julgamento INJUSTO E ERRÔNEO, considerando o
BABAÇU como uma PRAGA a mais em nossas pastagens.
Com o passar dos tempos, ou mais precisamente, com o desenvolvi-
mento de nossa criação de CAVALOS puro da “RAÇA MANGALARGA”, o
que exigiu de nós maior desempenho, muita afinidade e acompanhamento do
criatório, passamos a observar que os EQUINOS, mesmo em pastagens de
sua preferência, alimentavam-se das folhas das plantas novas do BABAÇU.
Coincidentemente, estávamos em uma de criação, de procura e pesquisas, a
fim de encontrar meios de alimentar nossos animais encocheirados, com uma
ração mais viável economicamente, já que em nossa região, todos custos são
bastantes onerados quanto aos produtos que vêm de fora.
As ideias foram surgindo e as nossas observações foram
aprofundando e concluímos logo que devíamos testar no cocho, folhas de
babaçu trituradas juntamente com rolão de milho, já usado por nós, nesta
época. Para nossa surpresa, logo após 15 (quinze) dias, com esse trata-
mento, observamos nos animais grande rapidez no crescimento, engorda,
tendência de criar bons músculos, troca de pelo, com belíssimo brilho, e
ao contrário dos volumosos, com pouca barriga.

338 Alfredo Wagner Berno de Almeida


Diante de tão bons resultados, achamos por bem, conhecer me-
lhor tecnicamente, aquilo que tínhamos em mãos. Foi então, que envia-
mos para laboratórios, folhas de babaçu, para análise de suas proprieda-
des alimentícias, cujo resultado transmitimos a todos amigos e interessa-
dos em forma de cortesia, no intuito único de salvaguardar, de uma ma-
neira racional, esta planta, e irmãmente colaborar com todos, nas nossas
modestas pesquisas.
Como podemos observar, na média de suas safras de “SILAGEM
DE MILHO”, a folha de BABAÇU foi superior em alguns itens, princi-
palmente no que se refere ao NDT (Nutrientes Digestivos Totais), o que
lhe confere, com muita justiça, um título de forrageira nobre, que está
entre nós, simplesmente, para ser colhida e aproveitada.
Chamamos ainda atenção ao fato que, estando nossa região a ca-
minho de uma PECUÁRIA muito mais abrangente, com perspectivas de
grande produção de leite e carne; e mesmo de criatórios de animais de
RAÇA: bovinos, equinos, etc., cujo manejo exige tratos alimentares com-
plementares, nada mais benevolente que desfrutar de potencial alimentar
tão grande, contido nas folhas de BABAÇU.
Queremos, através deste trabalho, reiterar junto aos amigos e inte-
ressados, que façam também seus testes e seus experimentos, divulgando
assim, esta próspera novidade, para que, no mais curto prazo, todos este-
jam usufruindo tão abastada dádiva.

Para maiores detalhes, esperamos sua visita.

Nosso prazer é informar.

FAZENDA E HARAS PARAZÔNIA


PROPRIETÁRIO: SEBASTIÃO JAIR DE OLIVEIRA
ENDEREÇO: ESTRADA DO MOGNO – KM 20
CX. POSTAL: 44
RIO MARIA – PARÁ
Anexo – Laudo de Análise / Campinas, SP (23/07/92)

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 339


WORKSHOP
“Babaçu: Alternativas Políticas, Sociais e Tecnológicas Para o Desenvolvimento
Sustentado”

RECOMENDAÇÕES SINTÉTICAS

São Luís – 8 a 10 de abril de 1992


RELATÓRIO DO GT ORGANIZAÇÃO SOCIAL

O Grupo de trabalho partiu do pressuposto de que a questão do


extrativismo do babaçu não se separa da questão da reforma agrária.
Considerou que uma das questões essenciais relativa às regiões de ocor-
rência de babaçuais, no Maranhão, que compreendem um vasto território
estimado em 10 milhões de hectares, consiste nos problemas agrários que
persistem sem solução, não obstante registros formalizados há mais de 40
anos. Há nestas regiões um contingente de extratores estimado em 200
mil famílias de pequenos produtores agrícolas, que permanecem sem o
acesso direto às terras onde exercem suas atividades agrícolas e extrativas.
Os elevados índices de concentração fundiária geram distorções na es-
trutura agrária, agravados por sucessivas ações de grilagem e atos arbitrá-
rios, que resultam em despejos de um número cada vez mais elevado de
famílias de trabalhadores rurais e em relações de trabalho injustas que
não obedecem às disposições legais.
No decorrer da discussão do GT considerou-se que as transfor-
mações nas atuais condições sociais e econômicas do extrativismo do
babaçu, vinculam-se a uma intervenção governamental, que consiga so-
lucionar os principais problemas dos produtores diretos:
- A garantia de acesso imediato ao meio de produção básico, a terra;
- A resolução, consoante as disposições constitucionais, das zonas
críticas de conflito e tensão através do instrumento de desapropriação
por interesse social (para tanto sugere-se recorrer ao Legislativo, exigindo
votação imediata dos instrumentos pendentes de regulamentação);

340 Alfredo Wagner Berno de Almeida


- A garantia de que não ocorrerão despejos dos trabalhadores, das
regiões com ocorrência de babaçu, com utilização da PM;
- A aplicação urgente do Art. 196 da Constituição do Estado do
Maranhão, que prevê o seguinte:
“Os babaçuais serão utilizados na forma da lei dentro de condi-
ções que assegurem a sua preservação natural e do meio ambiente e como
fonte de renda do trabalhador rural.”
Parágrafo único: Nas terras públicas e devolutas do Estado, asse-
gurar-se-á a exploração dos babaçuais em regime de economia familiar e
comunitária.
Em decorrência devem ser suspensos imediatamente todos os
cercamentos ilegítimos de babaçuais, que envolvam terras públicas. As
cercas devem ser removidas por ordem expressa das autoridades estadu-
ais competentes, assegurando-se o cumprimento dos dispositivos consti-
tucionais.
A Aplicação imediata do Art. 68 das Disposições Constitucionais
Provisórias que prevê:
“Aos remanescentes das comunidades dos quilombos que estejam
ocupando suas terras é reconhecida a propriedade definitiva, devendo o
Estado emitir-lhes os títulos respectivos.”
Em decorrência devem ser tituladas as áreas dos remanescentes
dos quilombos, que, no caso do Maranhão, sem sua totalidade, incidem
nas regiões de ocorrência dos babaçuais.
- No que tange às regiões de campos naturais do Golfão
Maranhense, contíguas às áreas de ocorrência de babaçuais, o GT cha-
mou a atenção para a aplicação do Art. 46 das disposições constitucio-
nais transitórias da Constituição do Estado do Maranhão, entendendo
que a proteção dos babaçuais da beira-campo não pode ser separada da
preservação do ecossistema dos campos naturais.

“Art. 46 – O criador de gado bubalino terá prazo não excedente a


um ano após a discriminação de que trata o parágrafo 2. do Art. 24 do

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 341


Ato das disposições Constitucionais Transitórias desta Constituição, para
efetuar a retirada dos búfalos que estejam sendo criados nos campos
públicos naturais inundáveis das Baixadas Ocidental e Oriental.”

- Revisão das concessões e doações de terras públicas estaduais


nos últimos 25 anos. Trata-se de rever os efeitos perversos da lei de terras
de 1969.
No que diz respeito à comercialização do babaçu o GT discutiu os
seguintes aspectos:
- medidas legais que ponham fim ao monopólio na circulação de
amêndoas e do coco integral, considerando que a compra é controlada
por “atravessadores”, bodegueiros, usineiros e latifundiários (que também
controlam “bodegas”).
- medias legais que garantam preço mínimo para o babaçu.
- medidas legais que assegurem o desenvolvimento de cooperativas
para a coleta e beneficiamento do babaçu sob controle e gestão dos
trabalhadores rurais.
No que diz respeito às relações de trabalho e “contratos ilegais” o
GT assinalou:
- há inúmeros fatos que indicam casos de imobilização pela dívida,
isto é, casos chamados “compra na folha” ou “compra na palha”, que
mantém toda a produção dos trabalhadores rurais, e não somente a
produção de babaçu, nas mãos de latifundiários e comerciantes. Exigir
medidas dos órgãos públicos competentes que assegurem a aplicação da
legislação trabalhista que veta quaisquer formas de “peonagem da dívida”,
que mantenham os trabalhadores presos nos “barracões” e “bodegas”
controladas pelos latifundiários.
- Devem ser sustadas imediatamente todas as cobranças ilegais de
“Foro” e observados, quando se julgar necessário, os termos que regem
os contratos agrários.

342 Alfredo Wagner Berno de Almeida


- Fiscalização rigorosa para que sejam cumpridos os quesitos da
legislação trabalhista nos casos do “trabalho assalariado” em imóveis ru-
rais que estão localizados nas regiões de babaçu.
O GT discutiu ainda os meio aplicados para impedir:
- A devastação indiscriminada de babaçuais para a formação de
pastagens, recorrendo-se à legislação ambiental. Interditar os desmata-
mentos em ação conjunta com o IBAMA.
O GT discutiu também que somente a consolidação da posse e a
defesa dos babaçuais não constitui condição necessária para a resolução
de todos os problemas. Considerou da necessidade de serem desenvolvi-
dos programas e projetos que permitam o desenvolvimento sustentado
das populações que habitam e cultivam nas regiões de babaçuais.
Neste sentido devem ser prontamente implementados os projetos
de assentamentos nas áreas que foram desapropriadas pelo PNRA (1985-
89), assegurando do mesmo modo o seu desenvolvimento, sobretudo no
apoio às experiências em curso que conjugam a coleta do babaçu e as
culturas alimentares de ciclo curto com a criação de culturas permanen-
tes.
Quaisquer projetos ou iniciativas técnicas governamentais nestas
áreas devem ser submetidas necessariamente ao parecer favorável da po-
pulação das comunidades de trabalhadores atingidas.
Exigir em decorrência, sobretudo junto ao INCRA que os atuais
projetos elaborados para as áreas de assentamento incorporem em seus
objetivos a “racionalização da coleta e do beneficiamento do babaçu”.
Haja visto que até o presente momento os técnicos governamentais não
reconhecem o babaçu como “produção” nos itens de sua assistência téc-
nica e projetos.

RESERVAS EXTRATIVISTAS

É preciso entender com maior clareza o significado destas áreas


de conservação e promoção do desenvolvimento sustentado. A decisão

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 343


da criação das reservas extrativistas deverá partir necessariamente de uma
discussão direta com as comunidades.

PESQUISA

As pesquisas no Estado do Maranhão devem responder


basicamente às necessidades das comunidades visando a participação direta
das populações na definição do objetivo de pesquisa, na elaboração de
metodologias e nos demais processos propriamente ditos.
Dentro dessas necessidades é preciso desenvolver novos
sistemas agroflorestais para viabilizar a implantação de novas culturas
(fruticulturas) sem prejuízo no manejo do babaçual.
Os resultados das pesquisas deverão estar disponíveis à
população. Com este fim deverão se transferir os conhecimentos em
linguagem simples e de preferência fazendo uso de treinamentos práticos.

344 Alfredo Wagner Berno de Almeida


WORKSHOP
“Babaçu: Alternativas Políticas, Sociais e Tecnológicas para o Desenvolvimento
Sustentado”

RECOMENDAÇÕES SINTÉTICAS
(Documento final)

São Luís – 10 de abril de 1992

Apresentação

De 8 a 10 de abril de 1992, reuniram-se pela primeira vez,


representantes do governo estadual do Maranhão junto com trabalhadores
rurais, empresários, pesquisadores, e representantes de outros estados e
do governo federal para discutir saídas para a crise que aflige a economia
do babaçu. Esta crise tem consequências para as centenas de milhares de
produtores rurais – principalmente mulheres – que sustentam suas famílias
através da colheita e venda dos frutos de babaçu, e para dezenas de
indústrias oleaginosas que beneficiam as amêndoas. A crise do babaçu
também tem fortes impactos ambientais, contribuindo para o êxodo rural
para o interior da Amazônia e, no Maranhão, a crescente destruição dos
babaçuais.
As origens da atual crise do babaçu são complexas e refletem a
falta de um conjunto de medidas que promoveriam a exploração racional
deste recurso. O presente workshop ofereceu uma oportunidade para
envolver diversos setores da sociedade civil na elaboração das seguintes
propostas políticas que, no conjunto, poderiam resolver esta crise.

1. Reforma Agrária

Os participantes do Workshop reconheceram que a alta


concentração de terras nas áreas babaçuais serve como forte impedimento

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 345


à exploração racional deste recurso. A modernização da economia de
babaçu depende, antes de mais nada, da participação ativa da população
rural – em vez de sua exclusão.

Para garantir esta participação, recomendamos as seguintes medidas


a curto prazo:
a) estabelecimento de um convênio entre IBAMA e SEMATUR,
junto com representantes de comunidades rurais, que vise estudar as
possibilidades de implantar Reservas Extrativistas em áreas de babaçu;
b) regularização das terras que já foram desapropriadas pelo
Programa Nacional de Reforma Agrária (1958-89);
c) apressamento dos processos de desapropriação já iniciados pelo
INCRA e pelo ITERMA; e
d) estabelecimento, como meta prioritária do INCRA e ITERMA,
a destinação das terras públicas e devolutas, e as áreas remanescentes de
quilombos aos ocupantes efetivos e tradicionais, através da legislação em
vigor; e
e) definição dos projetos de manejo dos componentes naturais,
incluindo a utilização sustentada das áreas adjacentes de babaçual.

A longo prazo, os participantes recomendam a implementação


efetiva dos instrumentos legais já existentes nas Constituições federal e
estadual, para promover a distribuição mais justa da terra e a conservação
dos babaçuais.

2. Produção e Comércio

Entendemos que a reforma agrária é primordial para dar aos pro-


dutores acesso à matéria prima. Porém, esta tem que ser complementada
com ações que aumentem a renda dos produtores e também incentivem a
competitividade das indústrias que dependem do babaçu.
Para atingir esses objetivos recomendamos:

346 Alfredo Wagner Berno de Almeida


a) Estabelecer, através do Banco do Estado do Maranhão, uma
linha de crédito para implantação de cooperativas de pequenos produtores
e coletadores de coco, para promover o manejo racional dos babaçuais e
o aproveitamento integral do coco;
b) Buscar novas fontes de financiamento para os itens definidos
acima através da inclusão do babaçu na relação das essências a serem
beneficiadas pela política energética dos governos Federal e Estadual, e a
inclusão dos babaçuais na Amazônia Legal como área prioritária do
Programa Piloto do G-7.

Além dessas medidas, precisa-se de políticas que possam promover


a competitividade das indústrias já existentes. O principal produto
econômico da palmeira – o óleo vegetal derivado das amêndoas – encontra
forte concorrência com as fontes internacionais de óleo palmiste, cujas
tarifas para importação foram baixadas a 10% como parte de medidas
liberalizantes do Governo Federal.
Houve divergências grandes, entretanto, nas estimativas dos
Grupos de Trabalho sobre o tamanho desta desvantagem. Segundo o Grupo
de Tecnologia e Processamento, o preço histórico do óleo da amêndoa de
babaçu acompanha o preço do mercado internacional, de US$500-600/
ton. No caso de babaçu, este preço reflete uma margem apertada para as
indústrias e um preço irrisório (US$0.13 a US$0.21/Kg amêndoa) para o
produtor.
Já o Grupo de Produção Comercialização e Mercados estima que,
o preço, hoje, do óleo de coco da Malásia posto no mercado brasileiro,
CIF Rio de Janeiro/São Paulo, é de Cr$2.600/kg (ou aproximadamente
US$1.300/ton), enquanto o óleo de babaçu é de Cr$4.000/Kg (ou
aproximadamente US$2.000/ton).
O Grupo de Políticas Públicas constatou que a primeira estimativa
de preço representa médias históricas, enquanto a segunda é reflexo de
uma situação atual, não representativa. Baseado nesta constatação,
recomenda-se a seguinte medida política:

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 347


A fim de aumentar a renda dos produtores, garantir um fluxo maior
e constante de matéria-prima, e aumentar a competitividade de todos os
setores industriais envolvidos com babaçu (inclusive aqueles que
aproveitam todos os componentes dos frutos) o Governo do Estado do
Maranhão deve criar incentivos fiscais, por prazo determinado, para baixar
ou eliminar a cobrança de ICMS aos produtos derivados de babaçu
industrializados no Estado.

3. Pesquisas e Desenvolvimento

Houve consenso entre os participantes do Workshop sobre a ne-


cessidade de políticas para promover a modernização da economia do
babaçu. Esta economia sofre por causa da baixa produtividade dos
babaçuais nativos (em média 1,5 t/há, valendo aproximadamente US$30/
ha), o baixo índice de aproveitamento (até 80% da produção estimada de
frutos não são comercializados), a baixa eficiência da quebra tradicional
dos frutos, os altos custos de transporte de matéria-prima, a estrutura
obsoleta das indústrias tradicionais de óleo, e os fracassos repetidos de
estabelecer novas indústrias de aproveitamento integral dos frutos.
Entretanto, pesquisas científicas ao longo dos últimos 50 anos têm
revelado o grande potencial genético do babaçu, que poderia servir de
base para aumentar a produtividade da palmeira, contornando assim a
falta de suprimento de matéria-prima. Da mesma forma, novos avanços
tecnológicos abrem a possibilidade real de processamento e comerciali-
zação da gama completa de sub-produtos de babaçu.
Apesar desses avanços, a implementação da pesquisa para a ob-
tenção de resultados palpáveis tem sido extremamente tímida, devido,
principalmente, à falta de compromisso e continuidade das políticas go-
vernamentais – tanto a nível federal como a nível estadual – em relação
ao babaçu. Ao longo das últimas décadas, a instabilidade das instituições
que tratam deste recurso tem sido constante, inviabilizando os avanços
tecnológicos e o contorno dos graves problemas sociais e econômicos a

348 Alfredo Wagner Berno de Almeida


ela associados. Esta instabilidade, por sua vez, é reflexo de repetidas ten-
tativas de estabelecer instituições e programas excessivamente pesados,
difíceis de manter durante sucessivas crises da economia brasileira.
Sugerimos, portanto, a criação de um programa de pesquisa e de-
senvolvimento com base institucional leve e ágil, com estrutura horizon-
tal que poderia incluir a participação de técnicos de diversas instituições
governamentais nas esferas estadual e federal, além de membros de orga-
nizações não-governamentais (ONGs) que atuem em questões relaciona-
das com o babaçu. Para determinar a estrutura deste programa, levantar
os recursos humanos e financeiros necessários e identificar possíveis fon-
tes de financiamento, sugerimos a criação de uma comissão composta de
representantes dos diversos setores presente neste Workshop.

O QUE OCORREU NO “WORKSHOP DO BABAÇU”

Conheci o trabalho do Eng. Agrônomo José Mário sobre o babaçu


há vários anos e me lembro que desde o início, concluí que era o primeiro
trabalho sério e “com pé no chão” sobre o assunto.
Lamentei só poder dedicar um dia ao WorkShop realizado e nele
depositei muita esperança. Ainda que esperasse muito mais, acho que
valeu, mas podia ter sido um passo muito maior. Ele converteu-se num
ponto de encontro de poucos empresários, poucos pesquisadores técnicos,
muitos líderes rurais e catadores e alguns professores universitários
ideologicamente comprometidos com eles.
Inicialmente, foram feitas algumas exposições que trouxeram dados
para discussão do problema, mas que foram prejudicados pelo interesse
em se politizar o tema. Isto se evidenciou em seguida, nas discussões em
grupo, agravadas pelo fato de boa parte dos empresários terem se ausentado
no 2º e 3º dia. A nosso ver, a ponderação na escolha de convidados para
o evento foi infeliz quando, ao priorizar o problema social apontou uma
prioridade que sem dúvida, conduziria o evento para onde ele foi: a
politização do assunto.

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 349


Do ponto de vista empresarial, creio que o tema pode ser resumi-
do em:
a) os problemas da cultura do babaçu foram corretamente
enfocados a partir do interesse de técnicos da EMBRAPA e EMAPA,
notadamente José Mário Frazão, que quase sem recursos e tendo de inter-
romper todo momento suas pesquisas, muitas vezes com perda quase
total de resultados, conseguiram com estes poucos recursos e poucos anos
de trabalho, muito mais resultados que Institutos e GTs, no decorrer des-
te século.
b) Os babaçuais foram definidos como um ecossistema secundá-
rio que emergiu quando da derrubada da mata primária no Norte/Centro
do MA e em áreas do PI e TO. por sua enorme resistência, transforma-
ram-se em praga nas pastagens formadas em sua área de influencia. O
fato do ecossistema do babaçu aparecer como floresta secundária, faz
com que novas áreas de babaçuais estejam aparecendo em TO, PA e RO.
c) Pesquisas conduzidas pela EMBRAPA e EMAPA mostram que
é viável e até economicamente mais indicado, mesmo se considerando
exclusivamente sob o ponto de vista e sobre os resultados da pecuária, a
consorciação do babaçual limpo com a formação de pastagens na sombra
deste babaçual. As gramíneas se desenvolvem melhor e o bovino sofre
menos com a luminosidade e o calor.
d) A área de influência dos babaçuais se estende por cerca de
10.000.000 ha, só no Estado do MA. O rendimento médio destes
babaçuais é de 1,7 ton coco/ha no MA, variando bastante de 1,2 até 2,9
/ ton/ha (vide quadro I) e o tempo médio para a palmeira produzir é de
15 a 20 anos.
e) Isto torna altamente desfavorável a sua exploração como cultu-
ra a ser implantada, já que em outras culturas já domesticadas (ex.: dendê,
coco de praia, etc.), o rendimento é de 30/40 ton/ha de coco.
f) O babaçu apresenta um grande potencial de aproveitamento
integral, já que de seu coco podem ser utilizadas as fibras (15%), o amido
(21%), endocarpo (58%) e amêndoas (6%). (vide quadro II), mas tem há

350 Alfredo Wagner Berno de Almeida


muitos anos resumido sua cultura na exploração da amêndoa, o que dá
um rendimento em óleo de 17 kg/ha, quando o coco “de praia” (ou da
Bahia), nas “plantations” do Extremo Oriente, produz 4 ton/ha de óleo.
g) Apesar de todo este potencial, nestes últimos 50 anos, a cultura
do babaçu tem se caracterizado como de mono uso da amêndoa que é
extraída do coco em processo manual, rudimentar, por mulheres que fa-
zem desta cultura, fonte secundária de renda familiar.
h) Esta catação e quebra se realiza quando autorizada pelo dono
da terra, em um sistema de venda obrigatória por preço fixado pelo dono
por percentual de amêndoa tirada ou por pagamento de fôro. É comum
também o babaçual ser invadido clandestinamente e a amêndoa vendida
aos bodegueiros, que tradicionalmente praticam o escambo (de 40 a 100%,
na troca).
i) O reconhecimento da propriedade de muitas terras é muito con-
testado e existem mesmo fundadas suspeitas de grilagem em muitos ca-
sos. Isto tem provocado invasões nestas terras e por extensão, até naque-
las de legítimos donos. Os conflitos se agravam porque quando da quebra
clandestina em fazendas com gado de raça mais apurada, o coco quebra-
do é deixado no posto e isto acarreta ferimentos nos cascos deste gado,
que levam a perdas consideráveis da criação.
j) A disputa por terra tem se exacerbado em várias áreas do MA,
pois os invasores são apoiados por organizações, igreja e até entidades
estrangeiras e estão muito bem organizados.
k) Restringida ao mono uso da amêndoa e a uma atividade secun-
dária é sujeita a períodos irregulares de atividade, interrompidas pela co-
lheita de arroz, algodão ou mulho ou pelas chuvas que dificultam o aces-
so ao babaçual e consequentemente a saída de amêndoa. Com isto, não
só a catadora só é suficientemente remunerada quando se instala no mer-
cado brasileiro uma escassez do produto, como a oferta do produto torna-
se irregular e a atividade econômica é reconhecidamente, não é competi-
tiva a nível de mercado internacional. Por muitos anos, manteve-se
alíquotas de importação altíssimas que mantiveram o sistema imutável,

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 351


paralisaram o desenvolvimento brasileiro na utilização de produtos como
álcool graxos e aminas láuricas, bem como encareceram produtos de uso
popular como o sabão de coco, o sabonete, o sabão comum etc. por ex-
tensão, até hoje, existe um consumo reprimido de óleos láuricos, já que a
liberação de importações se iniciou na prática, em 1990 e ainda não con-
seguiu gerar um fluxo regular do produto, o que não demora a acontecer.
l) Nos dias de hoje (10/04/92), o óleo de babaçu chega ao Rio de
Janeiro a Cr$ 4000/kg quando o produto importado em condições seme-
lhantes de comercialização (30 dias de prazo – 12% ICM) é internado a
Cr$ 2700/kg. (1 Cr$ 2.020,), com o Imposto de Importação fixado em
10% do valor importado.
m) Os empresários presentes ao Workshop e os técnicos ligados
ao assunto, concordaram que era urgente que se iniciasse a exploração
semi-integral coco de babaçu, para que a atividade econômica passasse a
ser viável, já que o desenvolvimento do país não poderia proteger indefi-
nidamente a ineficiência ora apresentada, até porque ela, não só inibia o
surgimento de novas indústrias obrigando a importações, como tal
superproteção do Mercosul, tornar-se-ia além de inócua, politicamente
indefensável.
n) Concluíram também que a solução para a implantação do
multiaproveitamento do coco deveria ser feito a nível de propriedades,
de comunidades ou mesmo de municípios e que se deveria abandonar
definitivamente a idéia dos mega projetos, que foram apresentados em
outras épocas, provavelmente com iscas de incentivos fiscais e que des-
viaram para um caminho errado, a busca de alternativas viáveis para a
cultura babaçueira. Economicamente foi constatado que não é viável a
plantação de babaçuais neste estágio de domesticação de espécie; a pes-
quisa agrícola contudo, já pode dizer qual o espacejamento ideal entre
palmeiras para um babaçual formado ser mais produtivo, através do corte
corretivo das árvores excedentes e já possui algumas espécies identificadas
como mais produtivas e/ou mais precoces, que já poderiam ser aprovei-
tadas, numa fase de correção de “falhas” nos babaçuais nativos a serem

352 Alfredo Wagner Berno de Almeida


racionalmente explorados. Naturalmente, esta pesquisa científica deve
continuar, de modo sistemático para que se chegue a espécies precoces e
economicamente produtivas, conscientes contudo que, 20 anos de pes-
quisa é uma meta ambiciosa para se anuncie uma espécie domesticada e
economicamente viável. Assim, o babaçu só é viável hoje, porque ele
está aí e desta realidade que deveremos agir.

Dentro deste quadro, foi apresentado o trabalho desenvolvido pela


equipe do Dr. José Mário Frazão e que consiste em um composto de:
• Uma peladeira para o coco catado, peneiras, uma quebradora
para o coco pelado, que separa a amêndoa do endocarpo e uma lavadeira
para a amêndoa. O sistema apresentado prevê ainda fornos primitivos
que transformam o endocarpo em carvão, um pátio de secagem com uma
mini estufa para secar a amêndoa. Prevê também uma peneira que vai
transformar o amido e as fibras que saem da peladeira em amido para uso
como adubo ou alimentação de animais, especialmente bovinos, caprinos
e suínos (alguma restrição do uso em grandes unidades agrícolas, que
necessitam equipamentos complementares).
Este conjunto já foi testado em uns poucos lugares e já se provou
viável, além de oferecer um “algo mais” social que é o aproveitamento do
amido para uso animal (poderá até no futuro ser também para uso huma-
no), viabilizando critérios. Em outras palavras mesmo com o equipamen-
to ainda imperfeito, reconhecidamente sujeito a melhorias, já se obteve
uma viabilidade econômica. Resta agora aperfeicoá-lo prioritariamente
em: ter um menor consumo de energia, para permitir que seja mais viável
ainda em locais onde não existe eletrificação e que ofereçam a possibili-
dade de ter eletricidade gerada por via hidráulica (o uso de bio digestivo
ou a queima de casaca de babaçu é uma solução, mas de qualquer manei-
ra passa a exigir um investimento suplementar).
Também, a pesquisa para se obter um amido mais livre de fibras é
necessária ser priorizada.

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 353


Isto vai permitir uma maior segurança ao se projetar um criatório
com alimentação necessariamente mais balanceada.
Para se obter este conjunto de resultados, é importante que se
liberte a equipe de pesquisadores da EMBRAPA; do trabalho de acompa-
nhar o melhoramento deste equipamento e das pesquisas zootécnicas para
aproveitamento do amido, deixando-os concentrados na domesticação
de palmeira, o que já é muito para os poucos recursos existentes. Cabe, a
nosso ver, à SAGRIMA (Secretaria de Agricultura do Maranhão) a busca
de uma instituição universitária que se dispunha a melhorar o equipa-
mento (área de Tecnologia Mecânica ou equivalente) e pesquisar o me-
lhor aproveitamento em criatórios (Institutos de Zootecnia, em conjunto
com tecnologia de alimentos).
Tudo que foi descrito acima (peladeiras, peneiras, quebradores de
coco, lavadores de amêndoa, secadeiras e fornos de queima) exigem um
investimento de cerca de US$ 20.000 sem contar a energia para mover
dois motores de 3,5 HP. O estudo de viabilidade econômica foi feito para
fazendas com 3.000 ha, ou seja, com uma coleta de coco até 3km. É claro
que o sistema ficará mais barato com o prosseguimento das pesquisas e/
ou com associações de fazendas/cooperativas que venham a processar
parte do sistema, complementando-as em locais diferentes.
Pode-se dizer que 80% do caminho possível foi percorrido e ago-
ra, a solução esbarra no dilema cultural: é importante “fazer a cabeça” de
fazendeiros, comerciantes, catadores, esmagadores de amêndoas, guzeiros,
industriais e políticos para que a solução existente seja entendida e absor-
vida por todos.
Acresce-se a isto que o mundo de hoje “gira” muito depressa e
que a abertura da economia é um fato já consumado. Isto faz com que
esta imensa dificuldade seja aumentada pela necessidade trazida por um
novo fator: a pressa. É preciso que o trabalho seja acelerado e que sejam
afastados os fatores que possam lançar novos complicadores ao proble-
ma. Por isto é importante que esta tarefa seja despolitizada para que to-
dos os interessados possam se unir para obter rapidamente as condições
indispensáveis para o processo deslanchar.

354 Alfredo Wagner Berno de Almeida


Aqui, acreditamos que o “Workshop” realizado incorreu em posi-
ções que são de risco para a obtenção de rápidos resultados. Nos comitês,
a idéia seria ponderar todos os setores envolvidos, balanceando esta pon-
deração de modo a se obter uma conciliação de interesses que unisse
todos os setores para que buscasse uma ação conjunta. Ao dar um peso
excessivo a catadores e profissionais interessados em politizar a questão,
o “Workshop” não obteve os resultados que buscava.
Todos sabem que é miserável a vida das catadoras, mas se a ativi-
dade não se tornar economicamente viável, de nada adiantará discutir-
mos se o que elas ganham é justo ou injusto, se o acesso do catador dever
ser livre ou não e outros temas.
A questão de titularidade das terras deve ser colocada para a justi-
ça e se ela é lenta e ineficiente, vamos pressioná-la, pois ninguém irá
defender a grilagem das terras, mas repetimos, este não seria o foro ade-
quado. Não adianta também repetir solicitações de superproteção a ativi-
dade, pois este momento passou; hoje no Brasil, a atividade que não é
economicamente viável, deve desaparecer.
Assim, de tudo o que foi discutido, creio que deveria ser resumida
uma pauta mínima de reivindicações viáveis de serem abraçadas por to-
dos, mesmo que permanecessem em aberto outros pontos de discordância,
discutidos em outros foros ou mesmo em campos de luta.
Além da busca do apoio necessário, a continuação do trabalho de
pesquisa agro-florestal e de Tecnologia Mecânica, devemos conseguir ainda:
- Efetiva fiscalização na legislação que proíbe a derrubada de
babaçuais. Isto pressupõe inclusive uma demarcação urgente das áreas de
babaçual.
- Que sejam cancelados todos os incentivos fiscais concedidos
que não suportem a idéia de aproveitamento integral do coco nas áreas
demarcadas.
- Penalização, através do T.J.R. ou de outro instrumento fiscal,
das terras em que o babaçual estiver sujo e sem o aproveitamento consor-
ciado (só a limpeza do babaçual eleva em cerca de 40% a produção de

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 355


coco de uma área; se ela for associada à plantação de uma forrageira
leguminosa, este aumento é muito mais significativo).
- Obrigação da guzeira queimar exclusivamente o carvão deriva-
do da casca do babaçu. (Pode ainda ser incluído algum tipo de incentivo
para as indústrias em geral que queimam a casca de babaçu para qualquer
aproveitamento – ex.: vapor ou outros – e que utilizem o sistema integra-
do, aproveitando a amêndoa e cedendo o amido a terceiros ou benefician-
do-o).
Este é talvez o mais importante item da solução. O aproveitamen-
to integral dos 10 milhões de hectares daria (teoricamente) um mínimo de
17.000.000 ton. de cocos e de carvão. É claro que isto não acontecerá,
mas os números são colocados para mostrar que a curto prazo, só as guzeiras
teriam condições de utilizar carvão em tal quantidade.
A introdução desta medida certamente iria inserir o guzeiro na
atividade de compra do coco de fazendeiros de sua região e mais impor-
tante ainda: transformaria um dos maiores predadores da natureza “quei-
ma da palmeira e da mata como fonte energética” em seus preservadores.
A tecnologia do uso do babaçu está ao alcance de todos os guzeiros e só
o fato de ser mais fácil usar a técnica existente em MG, explica o desinte-
resse dos guzeiros em obter o da casca do coco.
Aí, a CVRD, poderia ser chamada a desempenhar um papel im-
portante como propulsora do novo sistema:
- Financiamento com mais baixo custo possível, a fazendas,
guzeiras, cooperativas ou indústrias que queiram utilizar o sistema inte-
grado.
- Compra da patente das máquinas de modo que a sua fabricação
seja contra um “royalty” a ser usado na pesquisa agroflorestal ou na ex-
tensão.
- Mobilização, no Estado do MA, bem como estados vizinhos, da
máquina do Governo, de cooperativas, Igreja, comércio e indústria, para
divulgação dos resultados obtidos.

356 Alfredo Wagner Berno de Almeida


- Treinamento, já a nível de escola primária, do ruralista informan-
do das vantagens do sistema e tornando-o apto a se aproveitar delas.
Se isto foi conseguido, iniciar-se-á no Estado, uma verdadeira cul-
tura babaçueira, proveniente do endocarpo do coco do babaçu, bem como
uma revolução que automaticamente elevará os ganhos de todos os en-
volvidos, trazendo inclusive “apesar da mecanização”, um substancial
aumento de empregos, que serão oferecidos fora dos centros urbanos. A
maior oferta de emprego é o melhor propulsor para que sejam obtidos
salários mais altos. O passo seguinte do desenvolvimento virá a médio
prazo, por causa da qualidade excepcional do carvão de babaçu (chega a
ser uma pena sua utilização como coque de guzeira, mas é o único setor
que pode criar um mercado tão grande). Por causa da regularidade de
fornecimento, obtida com o uso das guzeiras, haverá exportação do pro-
duto, unidades de sinterização, em suma, será instalada uma verdadeira
cultura carvoeira, com ganho para todos os envolvidos.
Depois disto obtido cada setor irá brigar por melhorar o seu qui-
nhão, irá se discutir na justiça ou fora dela, a posse ou não da terra. O
importante é que no momento atual, precisa haver uma mobilização úni-
ca para que esta cultura seja implantada e não há tempo a perder. Depois,
com a atividade econômica salva, cada um se volta para seus interesses e
com uma oferta maior de trabalho, fica até mais favorável à luta para
ganhos sociais. É importante que se tenha gravado: se a atividade do
babaçu não se transformar e tornar-se economicamente viável, não há
nada que possa se transformar em ganho social; simplesmente ela desa-
parece como atividade econômica.

Dr. João Lobarinhas Carneiro

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 357


Sindicato da Indústria de Preparação de Óleos Vegetais e
Animais, Sabão e Velas de São Luís
Rua Osvaldo Cruz, 1396 – 1º Andar – Ed. Rachid Abdalla. Fone:
222-8089
São Luís – Maranhão

São Luís, 01 de Novembro de 1993

Ao
Exmo. Sr.
Dr. Pedro Dantas da Rocha Neto
M. D. Secretário de Estado de Fomento à Ind. e ao Comércio – Sinc
Nesta

Senhor Secretário,

Em atendimento ao Ofício Sinc 473/93-GS, datado de 19.10.93,


informamos aos dados solicitados, conforme anexos:

1. Relação das Empresas do Setor de Óleo Babaçu;


2. Capacitação por linha de produto;
Produção por linha de produto;
Participação dos mercados geográficos Norte/Nordeste, Sul/
Sudeste, por linha de produto;
Participação dos diferentes segmentos industriais compradores, por
linha de produto;
3. Projeto do Deputado Joaquim Haickel, em abril de 1988;
4. Rápido Perfil Atual do Babaçu;
5. Babaçu – Potencialidades Desperdiçadas;
6. Economia do Babaçu – Dr. Akira Keno;
7. O que ocorreu no Work Shop do Babaçu;
8. Babaçu Uma visão Empresarial.

358 Alfredo Wagner Berno de Almeida


Na oportunidade, apresentamos a Vossa Excelência os nossos
protestos de alta estima e consideração,

Atenciosamente,

BASE TERRITORIAL: AÇAILÂNDIA – ARAIOSES – ARAME –


ARARI – AXIXÁ – BALSAS – BARÃO DE GRAJAÚ – BARRA DO
CORDA – BARREIRINHAS – BREJO – CAROLINA – CHAPADINHA
– COELHO NETO – COLINAS – COROATÁ – CURURUPU – DOM
PEDRO – ESTREITO – GRAJAÚ – IMPERATRIZ – ITAPECURU
MIRIM – MATA ROMA-MIRANDA DO NORTE-MORROS-OLHO
D’ÁGUA DAS CUNHÃS-PAÇO DO LUMIAR – PARAIBANO –
PENALVA – PINDARÉ – PRESIDENTE DUTRA – ROSÁRIO –
SANTA HELENA – SANTA LUZIA – SANTO ANTONIO DO
LOPES – SÃO BENTO – SÃO BERNARDO – SÃO DOMINGOS –
SÃO JOÃO DOS PATOS

Sindicato da Indústria de Preparação de Óleos Vegetais e


Animais, Sabão e Velas de São Luís
Rua Osvaldo Cruz, 1396 – 1º Andar – Ed. Rachid Abdalla. Fone:
222-8089
São Luís – Maranhão

ANEXO I Relação das Empresas do Setor de Óleo Babaçu

1. Fornecedor – Assunção Indústria e Comércio S/A.


Contato Sr. Dico/Arimatéia
Telefone (098) 521-3931
Cidade Caxias-Ma.

2. Fornecedor – Aiscol Alves Ind. Sabões Óleos Comércio Ltda


Contato Sr. Robmar
Telefone (098) 621-2316/2356

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 359


3. Fornecedor – Comércio Ind. Agro Pec Canadá Ltda.
Contato Sr. José de Sousa
Telefone (098) 621-1461
Cidade Bacabal-Ma.

4. Fornecedor – Copisa – Companhia Pinheirense Industrial


Contato Sr. Armando Gaspar Filho
Telefone (098) 241-1070
Cidade Pinheiro – Ma.

5. Fornecedor – F. C. Oliveira E. Companhia Ltda.


Contato Sr. Chiquinho
Telefone (098) 661-1579
Cidade Codó – Ma.

6. Fornecedor – Naby Salem Cia. Ltda


Contato Sr. Naby Salem
Telefone (098) 661-1615
Cidade Codó – Ma.

7. Fornecedor – Oleaginosas Mearim Ltda


Contato Sr. Maia/ Mainha
Telefone (098) 641-1208
Cidade Pedreiras – Ma.

BASE TERRITORIAL: AÇAILÂNDIA – ARAIOSES – ARAME –


ARARI – AXIXÁ – BALSAS – BARÃO DE GRAJAÚ – BARRA DO
CORDA – BARREIRINHAS – BREJO – CAROLINA – CHAPADINHA
– COELHO NETO – COLINAS – COROATÁ – CURURUPU – DOM
PEDRO – ESTREITO – GRAJAÚ – IMPERATRIZ – ITAPECURU
MIRIM – MATA ROMA-MIRANDA DO NORTE-MORROS-OLHO

360 Alfredo Wagner Berno de Almeida


D’ÁGUA DAS CUNHÃS-PAÇO DO LUMIAR – PARAIBANO –
PENALVA – PINDARÉ – PRESIDENTE DUTRA – ROSÁRIO –
SANTA HELENA – SANTA LUZIA – SANTO ANTONIO DO
LOPES – SÃO BENTO – SÃO BERNARDO – SÃO DOMINGOS –
SÃO JOÃO DOS PATOS

Sindicato da Indústria de Preparação de Óleos Vegetais e


Animais, Sabão e Velas de São Luís
Rua Osvaldo Cruz, 1396 – 1º Andar – Ed. Rachid Abdalla. Fone:
222-8089
São Luís – Maranhão

8. Fornecedor – Organização Queiroz Ind. e Com. Ltda.


Contato Sr. Hélio Queiroz/Jesus
Telefone (098) 531-3733
Cidade Caxias – Ma.

9. Fornecedor – Oleaginosas Maranhenses S/A - Oleama


Contato Sr. Renner
Telefone (098) 241-1266
Cidade São Luís – Ma.

10. Fornecedor – Indústria de Óleo Guimarães S/A.


Contato Sr. Marco Antônio
Telefone (098) 521-3255
Cidade Caxias – Ma.

11. Fornecedor – Rachid Abdalla


Contato Sr. Alberto Abdalla
Telefone (098) 222-5016/6319
Cidade São Luís – Ma.

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 361


BASE TERRITORIAL: AÇAILÂNDIA – ARAIOSES – ARAME –
ARARI – AXIXÁ – BALSAS – BARÃO DE GRAJAÚ – BARRA DO
CORDA – BARREIRINHAS – BREJO – CAROLINA – CHAPADINHA
– COELHO NETO – COLINAS – COROATÁ – CURURUPU – DOM
PEDRO – ESTREITO – GRAJAÚ – IMPERATRIZ – ITAPECURU
MIRIM – MATA ROMA-MIRANDA DO NORTE-MORROS-OLHO
D’ÁGUA DAS CUNHÃS-PAÇO DO LUMIAR – PARAIBANO –
PENALVA – PINDARÉ – PRESIDENTE DUTRA – ROSÁRIO –
SANTA HELENA – SANTA LUZIA – SANTO ANTONIO DO
LOPES – SÃO BENTO – SÃO BERNARDO – SÃO DOMINGOS –
SÃO JOÃO DOS PATOS

Sindicato da Indústria de Preparação de Óleos Vegetais e


Animais, Sabão e Velas de São Luís
Rua Osvaldo Cruz, 1396 – 1º Andar – Ed. Rachid Abdalla. Fone:
222-8089
São Luís – Maranhão

ANEXO II

2. Capacidade instalada por linha de produto


Óleo de babaçu Bruto = 7.250 T p/mês
Amêndoa de Babaçu = 14.750 T p/mês
Torta de Babaçu = 5.850 T p/mês
Carvão de Babaçu = 1.500 T p/mês

3. Produção por linha do produto


Óleo = 2.000 T p/mês
Amêndoa = 4.000 T p/mês
Torta = 1.600 T p/mês
Carvão = 1.000 T p/mês

362 Alfredo Wagner Berno de Almeida


4. Participação dos mercados geográficos Norte/Nordeste, Sul/Sudeste
por linha do produto.
Óleo – Norte/Nordeste = 65%
Sul/Sudeste = 35%
Torta Norte/Nordeste = 100%
Carvão Sul/Sudeste = 100%

5. Participação dos diferentes segmentos industriais compradores, por linha


de produto.
Óleo, Sabão e Sabonete = 70%
Ind. Química (fina) = 20%
Alimentos = 10%
Torta Ração animal = 100%
Carvão – Fundição de metais = 80%
Ativação de carvão = 20%

Observação: Estes dados são estimados por falta de fontes


confiáveis.

BASE TERRITORIAL: AÇAILÂNDIA – ARAIOSES – ARAME –


ARARI – AXIXÁ – BALSAS – BARÃO DE GRAJAÚ – BARRA DO
CORDA – BARREIRINHAS – BREJO – CAROLINA – CHAPADINHA
– COELHO NETO – COLINAS – COROATÁ – CURURUPU – DOM
PEDRO – ESTREITO – GRAJAÚ – IMPERATRIZ – ITAPECURU
MIRIM – MATA ROMA-MIRANDA DO NORTE-MORROS-OLHO
D’ÁGUA DAS CUNHÃS-PAÇO DO LUMIAR – PARAIBANO –
PENALVA – PINDARÉ – PRESIDENTE DUTRA – ROSÁRIO –
SANTA HELENA – SANTA LUZIA – SANTO ANTONIO DO
LOPES – SÃO BENTO – SÃO BERNARDO – SÃO DOMINGOS –
SÃO JOÃO DOS PATOS

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 363


Portaria n.º 119 de 11 de março de 1994.

O MINISTRO DO ESTADO DA FAZENDA, no uso de sua


atribuição que lhe é conferida pelo art. 87, parágrafo único, inciso II, da
Constituição Federal, e de acordo com o art. 18, inciso III, alíneas “b” e
“n”, e o art. 28 da Lei n.º 8.490, de 19 de novembro de 1992; de acordo,
ainda, com o disposto no art. 3.º alínea “a”, da Lei n.º 3.244 de 14 de
agosto de 1957, alterado pelo art. 1.º do Decreto-lei n.º 2.162, de 19 de
setembro de 1984, e nos artigos 4.º e 5.º do Decreto-lei n.º 63, de 21 de
novembro de 1966, e considerando terem os níveis tarifários dos produtos
objetos desta Portaria se revelado inadequados ao cumprimento dos
objetivos da Tarifa Aduaneira do Brasil, resolve:
Art. 1.º Ficam alteradas, para dois por cento, as alíquotas “ad-
valorem” do imposto de importação incidentes sobre a seguintes
mercadorias:

364 Alfredo Wagner Berno de Almeida


Art. 2.º - Para os produtos que tenha alíquota inferior à referida no
art. 1.º desta Portaria ficam mantidas as alíquotas em vigor nesta data.
Art. 3.º - Esta Portaria entra em vigor na data de sua publicação
no Diário Oficial da União, podendo ser revogada a qualquer tempo, se
assim o recomendar o interesse nacional.

FERNANDO HENRIQUE CARDOSO

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 365


OFÍCIO Nº 153/94 – GP/SGM – Assembleia Legislativa

Gabinete da Presidência

São Luís, 07 de junho de 1994.

Senhor Governador:

Cumpre-se o dever de informar a Vossa Excelência que em Sessão


Ordinária realizada no dia 06/06/94, foi deferida a INDICAÇÃO Nº
372/94, de autoria do Exmo. Sr. Deputado JOSÉ ANSELMO, nos
seguintes termos:

“Senhor Presidente:

Na forma regimental, requeiro a V. Exa. que após ouvida a


Mesa, seja encaminhado expediente ao Excelentíssimo Senhor
Governador do Estado do Maranhão, Doutor JOSÉ DE
RIBAMAR FIQUENE, solicitando urgentes providências
objetivando estudos que solucionem o problema da
Indústria de Extração de Óleo Babaçu, posto que a mesma
vem enfrentando sérias dificuldades em nosso Estado.”

Sirvo-me de ensejo, para apresentar a Vossa Excelência os meus


protestos de consideração e apreço.

Atenciosamente,

Deputado MANOEL RIBEIRO


Presidente

Excelentíssimo Senhor
Doutor JOSÉ DE RIBAMAR FIQUENE
Digníssimo Governador do Estado do Maranhão
Local

366 Alfredo Wagner Berno de Almeida


Jornal do Comércio, 14 de junho de 1994.

Lula e a questão do babaçu

JOÃO LOBARINHAS CARNEIRO *

Em vários jornais, do dia 3 de maio deste ano, foi publicada uma


declaração do candidato Luís Inácio Lula da Silva afirmando que a redução
de alíquotas de importação de óleo de coco malasiano havia sido
feita exclusivamente para agradar à multinacional Gessy-Lever e
que condenava à miséria de milhares de catadores de coco do Maranhão,
Piauí e Tocantins.
A notícia preocupou porque partiu do favorito a ocupar à
Presidência da República no ano que vem e porque trazia consigo um
carregado ar de julgamento a partir do “ouviu falar”. Então, vamos aos
fatos.
O candidato estava se referindo à medida do Ministério da Fazenda
que reduzia para 2% a alíquota de importação do óleo de palmiste, do
qual a Malásia (país com balança comercial deficitária com o Brasil), é o
principal produtor e exportador mundial.
A Malásia é o maior produtor do mundo de óleo de palma e palmiste
(óleo da semente da palma), que faz parte de uma família de óleos chamada
de óleos láuricos, que inclui também o óleo de coco-de-praia (os maiores
produtores são Filipinas, Indonésia e Malásia), óleo de semente de
macaúba paraguaio e os óleos de coco babaçu e de ouricuri. Os três últimos
são produzidos através da forma de catação no Brasil e no Paraguai.
O óleo láurico é indispensável nas formulações de margarina,
alguns cosméticos e seu maior uso é nas formulações de sabonetes, sabões
de coco e sabões marmorizados (aqueles com pintas, como o antigo Sabão
Português), onde, dependendo do tipo de produto, participam com
mais de 30% do custo industrial do produto. Em outras palavras, o
encarecimento desses produtos, onde ele é indispensável nas formulações.

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 367


Os sabões marmorizados e de coco poderiam ficar tão caros que
certamente iriam desaparecer do mercado, substituídos pelos detergentes
saídos das fábricas da gigantesca Gessy-Lever, que não produz nem o
sabão marmorizado nem o de coco, fabricados exclusivamente por
empresas brasileiras de pequeno porte.
Os sabões produzidos pela Gessy-Lever são extrusados ou
extrusados perfumados, os quais podem substituir os láuricos nas suas
formulações, se essa matéria-prima ficar muito cara, o mesmo acontecendo
com relação aos sabonetes.
Os óleos láuricos também são matéria indispensável na fabricação
de aminas e álcoois graxos láuricos, de amplo uso na indústria de
cosméticos, farmacêutica e outras. Nesse setor, dependemos muito de
importações porque, devido a uma política cega que o candidato quer
ressuscitar e ampliar, dificultávamos as importações e não tínhamos
condições de produzí-los.
Falta ainda explicar um pouco melhor ao candidato a questão do
catador. Persiste ainda hoje uma prática antiga de catação de babaçu,
onde os cocos de palmeira de babaçu são pegos no chão e quebrados no
fio do machado, recolhendo-se intacta a semente e deixando no chão a
casca.
As mulheres recolhem as sementes que são levadas pelos homens
a intermediários instalados em birosca no meio do mato. A intermediação
repete-se de duas a cinco vezes, até as sementes serem transformadas em
óleo. Esse sistema anacrônico vem sofrendo a reação dos fazendeiros
que, ao buscarem mais pastos para o gado, cercaram suas terras e proibiram
os catadores de executarem sua tarefa porque os cocos quebrados ferem
os cascos dos animais.
O sistema de catação coloca a amêndoa do babaçu como único
componente econômico desse processo, que executado de forma artesanal,
conduz à conflitos e ao encarecimento do produto. Com a mesma
preocupação do candidato, mas com os pés no chão, a EMBRAPA
desenvolveu um sistema econômico, em nível de fazenda, com um custo

368 Alfredo Wagner Berno de Almeida


de aproximadamente US$20 por unidade e que transformaria a exploração
do babaçu em uma atividade economicamente viável.
Por esse método, a fazenda ou cooperativa recolheria os cocos
num raio de aproximadamente três quilômetros e só quebraria numa
máquina. A amêndoa ferida no processo passaria por uma secagem
que evitaria a sua rancificação (por isso ele é quebrado manualmente),
ou, dependendo da produção, seria lá mesmo transformado em óleo.
O coco quebrado seria desfibrado o amido que contém,
transformado em ração animal perfeitamente própria para suínos, caprinos
e, com maior cuidado para bovinos. A casca do corpo do coco e parte de
seu meio, seria queimada em forno rústico e transformados em carvão,
praticamente sem cinzas e enxofre.
Esse carvão seria de um enorme poder calorífico, próprio até a
sintetização e aproveitável até mesmo pelas guserias já existentes à beira
da ferrovia de Carajás (que hoje queimam lenha), sem que nenhum “verde”
reclamasse. Outra opção é aproveitar esse tremendo poder calorífico e
produzir eletricidade, a custo compatível, e vende-la à Chesf ou mesmo
consumi-la no local.
Dessa forma, o fazendeiro se interessaria em pegar a aproveitar os
cocos de babaçu caídos em sua propriedade, pois iria limpar o mato de
modo a consorciar a cultura do babaçu com o gado. Por seu lado, as
indústrias de alimentos, cosméticos, de sabões e farmacêutica não seriam
obrigadas a elevar seus custos e preços, os consumidores não iriam pagar
pela ineficiência de ninguém e milhares de empregos fixos seriam criados
para pessoas que hoje são remuneradas em nível de subsistência física. O
órgão que tem esse estudo chama-se UEPAE e a Secretaria da Agricultura
do Maranhão também o tem em seus arquivos.

______________________
(*) Diretor da Ass. Bras. das
Indústrias saboeiras (Abisa)

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 369


DECRETO LEI N.º 1.262, DE 15 DE OUTUBRO DE 1994
Regulamenta os arts. 15, 19, 20 e 21, da Lei n.º 4.771, de 15 de
setembro de 1965, e dá outras providências.

O Presidente da República, no uso das atribuições que lhe confere


o art. 84, inciso IV, da Constituição, e tendo em vista o disposto na Lei n.º
4.771, de 15 de setembro de 1965.

DECRETA:
CAPÍTULO I
DA EXPLORAÇÃO DAS FLORESTAS PRIMITIVAS E DEMAIS
FORMAS DE VEGETAÇÃO ARBÓREA NA AMAZÔNIA

Art. 1º - A exploração das florestas primitivas da bacia amazônica


de que trata o art. 1º da lei n.º 4.771, de 15 de setembro de 1965 (Código
Florestal), e demais formas de vegetação arbórea natural, somente será
permitida sob forma de manejo florestal sustentável, segundo os princípios
gerais e fundamentos técnicos estabelecidos neste Decreto.
§ 1º - Para efeito deste Decreto, considera-se bacia amazônica a
área abrangida pelos Estados do Acre, Amapá, Amazonas, Mato Grosso,
Pará, Rondônia e Roraima, além das regiões situadas ao Norte do paralelo
de 13ºS, nos Estados de Tocantins e Goiás, e a Oeste do meridiano de
44º W, no Estado do Maranhão.
§ 2º - Entende-se por manejo florestal sustentável a administração
da floresta para obtenção de benefícios econômicos e sociais, respeitando-
se os mecanismos de sustentação do ecossistema objeto de manejo.
Art. 2º - O plano de manejo florestal sustentável a que se refere o
art. 1º deste Decreto, atenderá aos seguintes princípios gerais e
fundamentais técnicos:
I – princípios gerais:
a) conservação dos recursos naturais;
b) conservação da estrutura da floresta e de suas funções;

370 Alfredo Wagner Berno de Almeida


c) manutenção da diversidade biológica;
d) desenvolvimento sócio-econômico da região;

II – fundamentos técnicos:
a) levantamento criterioso dos recursos disponíveis a fim de
assegurar a confiabilidade das informações pertinentes;
b) caracterização da estrutura e do sítio florestal;
c) identificação, análise e controle dos impactos ambientais,
atendendo à legislação pertinente;
d) viabilidade técnico-econômica e análise das consequências
sociais;
e) procedimentos da exploração florestal que minimizem os danos
sobre o ecossistema;
f) existência de estoque remanescente do recurso que garanta a
produção sustentada da floresta;
g) adoção de sistema silvicultural adequado;
h) uso de técnicas apropriadas de plantio, sempre que necessário.

Parágrafo único – A aprovação, pelo Instituto Brasileiro de Meio


Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis – IBAMA, no plano de
manejo de que trata o caput deste artigo dispensa a apresentação do Estudo
de Impacto Ambiental – EIA e o Relatório de Impacto Ambiental – RIMA,
para projeto com área inferior a 2.000 há.

Art. 3º - A exploração de recursos florestais na bacia amazônica


por proprietário ou legítimo ocupante, de pequeno ou médio imóvel rural,
que desenvolva atividades silviculturais, será admitida sem a apresentação
do plano de manejo florestal sustentável, observadas as exigências,
condições e prazos a serem estabelecidas pelo IBAMA.

Parágrafo único – O IBAMA em articulação com o órgão ambiental


competente deverá implementar ações de extensão e fomento florestais,

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 371


a fim de permitir aqueles proprietários ou ocupantes mencionados no
caput deste artigo e fiel cumprimento deste Decreto.

Art. 4º - Fica proibido o corte e a comercialização da castanheira


(Bertholetia excelsa) e da seringueira (Revea spp) em florestas nativas,
primitivas ou regeneradas, ressalvados os casos de projetos para a
realização de obras de relevante interesse público.

Parágrafo único – No corte e na comercialização de outras espécies


arbóreas, serão observados critérios técnico-científicos e peculiaridades
estaduais e regionais.

Art. 5º - Observados os princípios constantes do art. 2º deste


Decreto, o IBAMA, em articulação com o órgão estadual competente
definirá as áreas destinadas à produção econômica sustentável de madeira
e de outros produtos vegetais, sem prejuízo da conceituação de unidades
de conservação em vigor.

Art. 6º - O legítimo ocupante de terras públicas que explore


recursos florestais está sujeito ao disciplinamento previsto neste Decreto
e às condições estabelecidas pelo IBAMA, com vistas a emissão do
respectivo documento de exploração.

CAPÍTULO II
DA EXPLORAÇÃO DA FLORESTA E DEMAIS FORMAS DE
VEGETAÇÃO ARBÓREA PARA O USO ALTERNATIVO DO
SOLO NA AMAZÔNIA

Art. 7º - Somente será permitida a exploração a corte raso da


floresta e demais formas de vegetação arbórea da bacia amazônica em
áreas selecionadas pelo zoneamento Ecológico-Econômico para uso
alternativo do solo.

372 Alfredo Wagner Berno de Almeida


Parágrafo único – Entende-se por áreas selecionadas para uso
alternativo do solo, aquelas destinadas à implantação de projetos de
colonização, de assentamento de população, agropecuários, industriais,
florestais, de geração e transmissão de energia, de mineração e de
transporte.

Art. 8º - A exploração a corte raso, prevista no art. 7º, deste Decreto,


obriga o proprietário a manter uma área de reserva legal de, no mínimo,
cinquenta por cento da sua propriedade.
§ 1º - A área de reserva legal de que trata o caput deste artigo,
onde não é permitido o corte raso, deverá ser averbada à margem da
inscrição da matrícula do imóvel no registro de imóveis competente, sendo
vedada a alteração de sua destinação nos casos de transmissão, a qualquer
título, ou de desmembramento de área.
§ 2º - A área de reserva legal de que trata o parágrafo anterior
poderá ser fixada com percentual acima de cinquenta por cento, a critério
do IBAMA, que instituirá norma específica com base no Zoneamento
Ecológico-Econômico.
§ 3º - A corte raso somente será permitida mediante a emissão de
autorização de desmatamento, após vistoria prévia, pela autoridade
competente.

CAPÍTULO III
DA REPOSIÇÃO FLORESTAL E DO PLANO INTEGRADO
FLORESTAL – PIF

Art. 9º - Fica obrigada à reposição florestal pessoa física ou jurídica


que explore, utilize, transforme ou consuma matéria-prima florestal.

Parágrafo único – A reposição florestal de que trata o caput deste


artigo será efetuada no Estado de origem da matéria-prima, mediante o
plantio de espécies florestais adequadas, preferencialmente nativas, cuja

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 373


produção seja, no mínimo, igual ao volume anual necessário à plena
sustentação da atividade desenvolvida, cabendo ao IBAMA estabelecer
os parâmetros para esse fim.
Art. 10º - A pessoa física ou jurídica que, comprovadamente, venha
a se prover dos resíduos ou de matéria-prima florestal a seguir mencionadas,
fica isenta da reposição florestal relativa a esse suprimento:
I – matéria-prima proveniente de área submetida a manejo florestal
sustentável;
II – matéria-prima florestal própria, em benfeitoria dentro da
propriedade, na qualidade de proprietário rural e detentor da competente
autorização de desmatamento;
III – matéria-prima proveniente da floresta plantada (com recursos
próprio e daquela não vinculada ao IBAMA);
IV – matéria-prima florestal oriunda de projeto de relevante
interesse público, assim declarado pelo poder público, com posterior
autorização de desmatamento emitida pela autoridade competente;
V – resíduos provenientes de atividade industrial (costaneiras,
aparas, cavacos e similares);
VI – resíduos oriundos de exploração florestal em áreas de
reflorestamento;
VII – resíduos oriundos de desmatamentos autorizado pelo IBAMA
(raízes, tocos e galhadas).
Parágrafo único – A isenção não desobriga o interessado da
comprovação junto à autoridade competente da origem da matéria-prima
florestal ou dos resíduos.
Art. 11º - Observadas peculiaridades estaduais ou regionais a pessoa
física ou jurídica que necessita de grande quantidade de matéria-prima
florestal manterá ou formará, diretamente ou em atividade desenvolvida,
conforme critérios e parâmetros a serem fixados pelo IBAMA.
Art. 12º - O Plano Integrado Florestal – PIF, a ser apresentado ao
IBAMA pela pessoa física ou jurídica de que trata o art. 11 deste Decreto,
incluirá obrigatoriamente, programação anual de suprimento de matéria-

374 Alfredo Wagner Berno de Almeida


prima florestal visando a assegurar a plena sustentação da atividade
desenvolvida.
§ 1º - A programação anual de suprimento da matéria-prima florestal
poderá abranger uma ou mais das seguintes origens:
a) manejo florestal sustentável próprio ou de terceiros;
b) florestas nativas, na forma a ser regulamentada pelo IBAMA;
c) floresta plantada própria ou de terceiros;
d) florestamento e reflorestamento de programas de fomento
florestal;
e) projeto de relevante interesse público, assim declarado pelo
poder público, com posterior autorização de desmatamento emitida pela
autoridade competente;
f) resíduos de que trata o art. 10 deste Decreto.

§ 2º - O suprimento de matéria-prima florestal de que trata o “ 1º


terá sua origem, volume e destinação comprovados ao IBAMA

Art. 13º - Cabe ao IBAMA inspecionar os empreendimentos


florestais constantes do PIF, de que trata o art. 12 deste Decreto, visando
a deliberar sobre a respectiva aprovação, assim como a qualquer tempo,
realizar vistorias especiais ou praticar atos de fiscalização que julgar
necessários para o acompanhamento da execução de programação de
suprimento de matéria-prima.

Art. 14º - Observadas as peculiaridades estaduais ou regionais, a


pessoas física ou jurídica não sujeita ao disposto no art. 11 deste Decreto,
cumprirá a reposição florestal optando pelas seguintes modalidades:
I – apresentação de levantamentos circunstanciados de florestas
plantadas próprias ou de terceiros, para fins de vinculação.
II – execução ou participação em programas de fomento florestal,
de acordo com legislação e regulamentos específicos.

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 375


§ 1º - Quando a opção recair no inciso I deste artigo, o crédito da
reposição florestal somente será efetuado após a comprovação da
implantação do empreendimento, mediante vistoria pela autoridade
competente, em prazo a ser estabelecido pelo IBAMA.
§ 2º - Os programas de fomento florestal a que se refere o inciso II
deste artigo incluirão projetos públicos de manejo florestal, florestamento
e reflorestamento, preferencialmente com espécies nativas e no Estado
de origem da matéria prima florestal.
§ 3º - Para entendimento das despesas de administração dos projetos
públicos, de que trata o parágrafo anterior, o IBAMA reterá percentual
nunca superior a 25% dos valores da participação referida no inciso II
deste artigo.

CAPÍTULO IV
DAS SANÇÕES ADMINISTRATIVAS E PENAIS

Art. 15º - A pessoa física ou jurídica que deixar de realizar as


operações e tratos silviculturais previstos no plano de manejo, sem
justificativa técnica, fica sujeita as seguintes sanções cumulativamente:

I – embargo da execução do plano de manejo;


II – recuperação da área irregularmente explorada;
III – reposição florestal correspondente à matéria-prima florestal
irregularmente extraída, de conformidade com as disposições deste
Decreto.

Art. 16º - A pessoa física ou jurídica que não cumprir o disposto


neste Decreto estará sujeita às seguintes sanções, cumulativamente:

I – pagamento da multa de dez por cento do valor comercial da


matéria-prima florestal nativa consumida além da produção da qual participe,
seguindo o disposto no art. 20, parágrafo único da Lei nº 4.711/65;

376 Alfredo Wagner Berno de Almeida


II – suspensão do fornecimento de documento hábil do IBAMA
para o transporte e armazenamento da matéria-prima florestal;
III – cancelamento do registro junto ao IBAMA.

Art. 17º - O IBAMA promoverá a fiscalização da execução dos


planos de manejo florestal sustentável, em especial na bacia amazônica,
com vistas ao fiel cumprimento deste Decreto.

Parágrafo único – Verificadas irregularidades ou ilicitudes


praticadas na execução do plano, incumbe ao IBAMA:

a) diligenciar providências e sanções cabíveis;


b) oficiar ao Ministério Público Federal, se for o caso, visando a
instauração de inquérito civil e a promoção de ação civil pública;
c) representar ao Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura
– CREA em que estiver registrado o responsável técnico pelo plano, para
a apuração de sua responsabilidade técnica, segundo a legislação vigente.

Art. 18º - Além das sanções administrativas previstas neste Decreto,


o não cumprimento de qualquer das operações ou exigências previstas
nos arts. 15, 16 e 17 deste Decreto, sujeitará o infrator às penalidades
constantes no art. 14 da Lei nº 6.938, de 31 de agosto de 1981.

CAPÍTULO V
DAS DISPOSIÇÕES GERAIS E TRANSITÓRIAS

Art. 19º - O IBAMA celebrará convênios, acordos ou contratos


com pessoa física ou jurídica, para o fiel cumprimento deste Decreto.

Art. 20º - A exploração comercial de recursos florestais que não


implique supressão do indivíduo da espécie explorada será regulamentada
pelo IBAMA.

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 377


Art. 21º - Caberá ao IBAMA instituir norma para exploração de
que trata o art. 7º deste Decreto, enquanto não for estabelecido o
Zoneamento Ecológico-Econômico.

Art. 22º - Será permitida, até o ano 2000, a utilização de castanheira


(Bertholetia excelsa) morta ou desvitalizada, oriunda de projetos destinados
à realização de obras de relevante interesse público, na forma a ser
regulamentada pelo IBAMA.
§ 1º - Entende-se como castanheira morta o indivíduo sem funções
vitais, apresentando-se desprovido de folhas, com galhos e tronco secos
e, como castanheira desvitalizada, o indivíduo com funções vitais
paralisadas em consequência de agressões antrópicas, prestes a fenecer,
assim consideradas pela autoridade competente.
§ 2º - O aproveitamento de que trata este artigo somente será
autorizado em áreas onde foram implantados projetos para usos
alternativos do solo, devidamente aprovados, até a data de publicação
deste Decreto.

Art. 23º - Será permitida, somente até o ano 2000, a pessoa física
ou jurídica de que trata o art. 14 deste Decreto, que desenvolva atividades
florestais na bacia amazônica, optar pela hipótese prevista no “ 2º, do
mesmo artigo, na forma a ser estabelecida pelo IBAMA.

Art. 24º - Ocorrendo a transformação por incorporação, fusão,


cisão, consórcio ou outra forma de alienação que, de qualquer modo, afete
o controle e a composição dos objetos sociais da empresa, e ainda no
caso da dissolução ou extinção da mesma, as obrigações por ela assumidas
serão exigidas na forma da legislação vigente.

378 Alfredo Wagner Berno de Almeida


Art. 25º - O IBAMA baixará os atos complementares necessários
ao fiel cumprimento deste Decreto, e em especial dos arts. 3º, 5º, 8º, 9º,
11º, 12º, 14º, 21º e 22º.

Art. 26º - Este Decreto entra em vigor na data de sua publicação.

Art. 27º - Revogam-se as disposições em contrário.

Brasília, 19 de outubro de 1994; 173º da Independência e 106º da


República.

ITAMAR FRANCO
Henrique Brandão Cavalcanti

(*) Republicação por ter saído com incorreções no DOU, Seção I,


de 20 de outubro de 1994.

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 379


PORTARIA N.º 541, DE 27 DE OUTUBRO DE 1994

O MINISTRO DE ESTADO DA FAZENDA, no uso da


atribuição que lhe confere pelo art. 87, parágrafo único, inciso II, da
Constituição de acordo como o art. 16, inciso III, alíneas “b” e “h”, e o
art. 28 Lei n.º 8.490, de 1.º de novembro de 1992; de acordo ainda com
disposto no art. 3.º, alínea “a”, da Lei n.º 3.244, de 14 de agosto de 1957,
alterado pelo art. 1.º do Decreto-lei n.º 2.162, de 19 de setembro de 1984;
nos arts. 4.º e 5.º do Decreto-lei n.º 63, de 21 de novembro de 1966, e
considerando terem os níveis tarifários dos produtos objeto desta Portaria
se revelado inadequados ao cumprimento dos objetos de Tarifa Aduaneira
do Brasil, resolve:
Art. 1.º - Fica alterada para dois por cento, a alíquota “ad-valorem”
do imposto de importação incidente sobre os seguintes produtos:

Código da Tab Mercadoria


1511.10.0000 Óleo de palma em bruto
1511.90.9900 Outros
1513.29.0100 Óleo de “palmiste” refinado
1514.10.0100 Óleo de colza em bruto

Art. 2º - Esta Portaria entra em vigor na data de sua publicação no


Diário Oficial da União, podendo ser revogada, a qualquer tempo, se assim
o recomendar o interesse nacional.

CIRO FERREIRA GOMES

(of. n.º 348/94)

380 Alfredo Wagner Berno de Almeida


Portaria n.º 201, de 10 de agosto de 1995

O MINISTRO DO ESTADO DA FAZENDA, no exercício da


competência que lhe foi delegada pelo art. 3.º do Decreto n.º 1.471, de 27
de abril de 1995, observado o que dispõem o art. 3.º, alínea “a” da Lei n.º
3.244, de 14 de agosto de 1957, alterado pelo art. 1.º do Decreto-lei n.º
2.162, de 1º de setembro de 1984, e o art. 5º do Decreto-lei n.º 63, de 21
de novembro de 1966, e tendo em vista os compromissos assumidos pelo
Brasil no âmbito do Mercado Comum do Sul – MERCOSUL resolve:
Art. 1.º - Os Anexos 2 e 3 ao Decreto n.º 1.471, de 27 de abril de
1995, passam a vigorar de acordo, respectivamente, com os Anexos “A” e
“B” desta Portaria.
Art. 2.º - Esta Portaria entra em vigor na data de sua publicação.

PEDRO SAMPAIO MALAN (...)

ANEXO B
Altera o anexo 3 do Decreto N. 1471, de 27 de Abril de 1995

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 381


382 Alfredo Wagner Berno de Almeida
Portaria n.º 202, de 10 de agosto de 1995.

O Ministro de Estado da Fazenda, no uso das atribuições que lhe


conferem os incisos II e IV, do parágrafo único do art. 87 da Constituição
e tendo em vista o disposto na Lei n.º 8.894, de 21 de junho de 1994, e no
Decreto n.º 1591, de 10 de agosto de 1995.

R E S O L V E:

Art. 1º - O imposto que trata o art. 1.º do Decreto n.º 1591, de 10


de agosto de 1995, será cobrado às seguintes alíquotas, calculadas sobre
o contravalor em reais da moeda estrangeira ingressada decorrente de ou
destinada a:

I – empréstimos em moeda: cinco por cento;


II – aplicações em fundos de renda fixa: sete por cento;
III – investimentos em títulos e aplicações em valores imobiliários:
zero por cento;
IV – operações interbancárias realizadas entre instituições
financeiras no exterior e bancos credenciados a operar em câmbio, no
País: sete por cento; e
V – constituição de disponibilidades de curto prazo, no País, de
residentes no exterior; sete por cento.

Art. 2.º - A alíquota de que trata o art. 1.º é zero nos seguintes
casos:

I – nas operações de câmbio efetuadas pela União, Estados,


Municípios, Distrito Federal, suas fundações e autarquias;
II – nas operações de câmbio em que sejam pagadores no exterior
organismos internacionais, agências governamentais ou entidades
internacionais; e

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 383


III – nas operações de câmbio contratadas anteriormente à data
de vigência desta Portaria vinculada às operações de que tratam os incisos
IV e V do art. 1.º

Art. 3.º - As alíquotas de que tratam os incisos I e II do art. 1.º não


se aplicam aos seguintes casos, prevalecendo, quando aplicáveis, as
alíquotas estabelecidas na Portaria n.º 095, de 9 de março de 1995;
I – nas liquidações das operações de câmbio contratadas
anteriormente à data de vigência desta Portaria;

384 Alfredo Wagner Berno de Almeida


MINISTÉRIO DA JUSTIÇA
COMISSÃO DA OUVIDORIA-GERAL DA REPÚBLICA

OFÍCIO COMISSÃO N.º 786

A Sua Senhoria o Senhor


Doutor BOLIVAR MOURA ROCHA
Chefe de Gabinete do Ministro de Estado da Fazenda
Esplanada dos Ministérios, Bloco P
70.048-900 – BRASÍLIA – DF

Brasília, 27 de dezembro de 1995.

Senhor Chefe de Gabinete:

Submeto à apreciação de Vossa Senhoria o trabalho elaborado pelo


“Movimento Interestadual das Quebradeira de Coco Babaçu”, integrado
por grupos de agroextrativistas localizados nos Estados do Maranhão,
Piauí, Tocantins e Pará, no qual reúne informações, documentos e
disposições legislativas pertinentes à economia do babaçu, produção e
comercialização.
Tal Movimento, constituído desde 1989, mobiliza-se em prol do
trabalho extrativista feminino, da preservação dos babaçuais, da
organização da produção, e abrange vários segmentos sociais, como
pequenos proprietários, posseiros, assentados e moradores das periferias
urbanas.
Dentre os diversos temas abordados no trabalho, relata o
Movimento Interestadual das Quebradeira de Coco Babaçu os prejuízos
e as dificuldades de comércio encontradas pelos trabalhadores, com a
diminuição expressiva da alíquota de importação de óleo de palmiste, a
2% (dois por cento), conforme publicado na Portaria n.º 541, do Ministério
da Fazenda, datada de 27/10/94, Diário Oficial da União de 31/10/94

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 385


(cópia anexa), vindo a desfavorecer as atividades das cooperativas dos
pequenos agroextrativistas e das denominadas “quebradeiras de coco
babaçu”, que vêm reduzindo, sobremaneira, o preço do produto, devido a
forte concorrência dos produtores de óleo de palmiste importado.
Diante dessas circunstancias, tem o presente a finalidade de solicitar
a Vossa Senhoria o obséquio de verificar a possibilidade de submeter a
matéria em tela aos estudos do órgão técnico desse Ministério, no intuito
de reverter esse quadro de dificuldades apresentado pelo aludido
Movimento, visando, sobretudo, o desenvolvimento dessas iniciativas de
processamento do babaçu e o progresso das regiões envolvidas nessa
atividade econômica.

Atenciosamente,

386 Alfredo Wagner Berno de Almeida


JOSÉ GREGORI
Ouvidor-Geral da República

PROJETO DE LEI N.º 1428 DE 1996


(Do Sr. Domingos Dutra)

Dispõe sobre a proibição da derrubada de palmeira de babaçu nos Estados do


Maranhão, Piauí, Pará, Tocantins, Goiás e Mato Grosso e dá outras providências

Art. 1.º - As matas naturais constituídas de palmeiras de babaçu


existentes nos Estados do Maranhão, Piauí, Pará, Tocantins, Goiás e Mato
Grosso são de usufruto comunitário das populações extrativistas que as
exploram em regime de economia familiar.

Art. 2.º - Fica proibida a derrubada de palmeira de babaçu nos


Estados referidos no artigo anterior, salvo:
I – nas áreas destinadas a obras ou serviços de utilidade pública
ou de interesse social declaradas pelo Poder Público, após a manifestação
das comunidades envolvidas;
II – para aumentar a reprodução da palmeira ou facilitar a produção
e a coleta, após relatório de impacto ambiental e mediante autorização do
poder competente.

Art. 3.º - Nas propriedades em que se desenvolvam atividades


agropecuárias, o desbaste dos babaçuais será autorizado de acordo com
as seguintes condições;
I – serão sacrificadas prioritariamente as palmeiras improdutivas,
após a realização de estudos técnicos e a autorização do poder competente;
II – mediante plano de proteção contra as queimadas das palmeiras
remanescentes;
§ 1.º - Fica proibido o uso de herbicidas no processo de desbaste
ou derruba.

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 387


§ 2.º - O órgão federal responsável pela execução da política
ambiental poderá autorizar o roleamento e o desbaste mediante consulta
à comunidade que pratica o extrativismo do babaçu na área em questão.

Art. 4.º - Independem de autorização do Poder Público a derrubada


ou o desbaste de palmeiras do babaçu localizadas em imóvel de até um
módulo rural explorado em regime de economia familiar, respeitado o
espaçamento mínimo de oito metros entre cada palmeira remanescente.

Art. 5.º - Fica garantido o uso de terras públicas devolutas e


privadas aos trabalhadores que as exploram em regime de economia
familiar, conforme os costumes de cada região.

Art. 6.º - Compete ao Ministério do Meio Ambiente, dos Recursos


Hídricos e da Amazônia Legal e ao Ministério da Agricultura, por meio de
seus órgãos, a execução e a fiscalização da presente lei.

Parágrafo único – Ao proceder a fiscalização, os órgãos responsáveis


deverão procurar prioritariamente os denunciantes, a comunidade ou as
organizações dos trabalhadores envolvidos.

Art. 7º. – O infrator da presente lei, independentemente de sanções


civis, penais e administrativas previstas em lei, incorrerá nas seguintes
multas:

I – cinco salários mínimos no caso de derrubada de até 100 (cem)


palmeiras de babaçu;
II – dez salários mínimos no caso de derrubada de 101 (cento e
uma) a quinhentas palmeiras de babaçu;
III – quinze salários mínimos no caso de derrubada de 501
(quinhentos e uma) a mil palmeiras de babaçu.

388 Alfredo Wagner Berno de Almeida


Art. 8.º - O produto da arrecadação das multas instituídas no artigo
anterior será revertido para a recuperação de áreas degradas e para políticas
de fomento ao extrativismo de babaçu, e será gerido por um fundo especial
a ser criado por lei.

Art. 9.º - O Poder Público e suas autarquias ficam proibidos de


conferir benefícios sob qualquer instrumento a infratores da presente lei.

Art. 10.º - A União poderá desapropriar por interesse social


propriedades de pessoas físicas ou jurídicas que infringirem os preceitos
da presente lei.

Art. 11.º - Os órgãos públicos referidos no artigo 5.º poderão


celebrar convênios com órgãos públicos estaduais e municipais visando
ao cumprimento desta Lei.

Art. 12.º - Compete ao Poder Público estabelecer metodologias


visando conscientizar as populações para a defesa e preservação dos
babaçuais, podendo celebrar convênios com organizações da sociedade
civil, respeitadas as realidades de cada região.

JUSTIFICAÇÃO

Nos Estados do Maranhão, Piauí, Pará, Tocantins, Mato Grosso e


Goiás aproximadamente 18 (dezoito) milhões de hectares de terra são
cobertos por babaçuais, onde mais de 300 (trezentas) mil quebradeiras de
coco desenvolvem em regime de economia familiar o extrativismo do
babaçu, extraindo dessa atividade histórica e heroica o necessário à
sobrevivência, bem como contribuindo para o desenvolvimento econômico
e social das regiões, Norte, Nordeste e Centro-Oeste.
A palmeira do coco do babaçu tem dezenas de utilidades e propicia
a produção de uma grande variedade de produtos, tais como a palha

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 389


utilizada na cobertura de habitações e na produção do cofo, do tiracol, do
quebano, do abano e de esteiras. O talo é utilizado na feitura de cercas. O
palmito é importante alimento de animais e também da população. A
amêndoa se constitui no principal produto e sustentação da economia
familiar ao produzir leite, óleo, sabão, xampu, doces, farinha, sabonete e
tantos outros subprodutos. Do mesocarpo se produz chocolate, bolos,
mingaus e outros alimentos de alto teor protéico.
O babaçu oferece ainda a casca que pode ser aproveitada como
alimento de animais domésticos, e que vem sendo utilizada em grande
escala na produção de carvão para uso industrial, absorvendo a mão-de-
obra de milhões de pessoas.
Além de produzir esses e outros produtos, os babaçuais são
indispensáveis para manter o equilíbrio ecológico da imensa área do
território nacional abrangida pelos Estados do Maranhão, Piauí, Tocantins,
Pará, Mato Grosso e Goiás.
O babaçu durante muitos anos foi a principal base da economia
de Estados como o Maranhão e contribuiu com a estruturação de indústrias
americanas, francesas, norueguesas e belgas que utilizam o produto. E
chegou a ser montado todo um aparato normativo e organismos federais
que disciplinavam a chamada “economia do babaçu”, como o Conselho
Nacional de Economia e o Instituto Nacional do Estudo do Babaçu.
Nas últimas décadas, em virtude das profundas alterações na
economia mundial e nacional, o babaçu deixou de ser uma atividade
atrativa para segmentos como as indústrias até então interessadas, levando
o Estado a se omitir na formulação de políticas públicas para o setor.
Por outro lado, com o avanço do capitalismo no campo e o
desenvolvimento de atividades predatórias no meio rural, aliado à grilagem
e à violência do latifúndio, tem se intensificado o processo de devastação
de extensas áreas cobertas por babaçuais, ocasionando além de violências
físicas contra camponeses o êxodo rural e o desiquilíbrio ecológico. Há
assim urgente necessidade de se retomar o controle nacional sobre essa

390 Alfredo Wagner Berno de Almeida


importante atividade extrativista tendo em vista a extensão da área
ocupada e o expressivo contigente populacional envolvido.
Neste momento em que a questão do desemprego constitui o
principal drama nos centros urbanos do país, os governos federal, estaduais
e municipais têm o dever de formular políticas voltadas para essa atividade
extrativista beneficiando setores excluídos como as quebradeiras de coco.
O presente projeto é fruto do esforço coletivo de milhares de
mulheres, jovens e crianças quebradeiras de coco, de intelectuais,
lideranças sindicais e políticos, que acreditam no potencial dessa atividade
e na necessidade de se estabelecer políticas públicas visando garantir a
cidadania e a justiça para milhares de pessoas que com sangue, suor e
sofrimento contribuem com essa atividade para o desenvolvimento do
país.
Esperamos que esta Casa compreenda os anseios desse importante
setor produtivo nacional e aprove o presente Projeto de lei, com a
certeza de que

Justiça se faz na luta

Sala das Sessões, em 17 de janeiro de 1996.

Dep. DOMINGOS DUTRA


PT/MA

ANA JÚLIA CAREPA


PT/PA

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 391


MINISTÉRIO DA JUSTIÇA
COMISSÃO DA OUVIDORIA GERAL DA REPÚBLICA
Ofício Comissão n.º 018

A Sua Senhoria o Senhor


Doutor BOLIVAR MOURA ROCHA
Chefe de Gabinete do Ministro de Estado da Fazenda
Esplanada dos Ministérios, Bloco P
70.048-900 – BRASÍLIA – DF

Brasília, 15 de fevereiro de 1996.

Senhor Chefe de Gabinete,

Pelo presente, dirijo-me a Vossa Senhoria para reiterar os termos


do Ofício n.º 786, de 27/12/95, cuja cópia a este faço juntar, solicitando
o especial obséquio de verificar a possibilidade de submeter o trabalho
elaborado pelo “Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco
Babaçu”, integrado por grupos de agroextrativistas localizados nos Estados
do Maranhão, Piauí, Tocantins e Pará, aos estudos do órgão técnico dessa
Pasta.
Ao agradecer, antecipadamente, a atenção dispensada ao
assunto, subscrevo-me.

Atenciosamente,

JOSÉ GREGORI
Chefe de Gabinete
do Ministério de Estado da Justiça

392 Alfredo Wagner Berno de Almeida


OFÍCIO N.º 182, /GMF

Brasília, 25 de março de 1996.

Senhor Chefe de Gabinete (Ministério da Justiça),

Aludo ao Ofício Comissão n.º 18, de 15 de fevereiro de 1996, no


qual Vossa Senhoria aborda os problemas que vem ocorrendo com o
trabalho extrativista dos Catadores e quebradores de coco de babaçu nos
estados do Maranhão, Piauí, Tocantins e Pará e encaminha-me trabalho
elaborado pelo “Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco
Babaçu”.
A respeito do assunto em referência, a Secretaria de
Acompanhamento Econômico deste Ministério produziu a Nota Técnica
n.º 027/SEAE, de 7 do mês em curso, cuja própria ora lhe encaminho.

Atenciosamente,

BOLÍVAR MOURA ROCHA


Chefe do Gabinete do
Ministro do Estado da Fazenda

Ao Senhor
José Gregori
Chefe de Gabinete do
Ministro de Estado da Justiça

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 393


NOTA TÉCNICA N.º 027/SEAE

Brasília, 07 de março de 1996.

Assunto: Ouvidoria Geral da República – Ref. Babaçu.

Através dos ofícios n.ºs 786/95 e 18/96 a Ouvidoria Geral da


República aborda o problema que vem ocorrendo com o trabalho
extrativista dos catadores e quebradores de coco de babaçu nos Estados
do Maranhão, Piauí, Tocantins e Pará e encaminha trabalho elaborado
pelo “Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu.”
A referida Comissão da Ouvidoria, vinculada ao Ministério da
Justiça solicita apoio do Ministro da Fazenda no sentido de que seja elevada
a alíquota do imposto de importação sobre alguns óleos áuricos, similares
ao de babaçu, que estejam empreendendo processo de concorrência
desvantajosa à produção nacional.
Conforme informações disponíveis nesta Secretaria, pode-se
esclarecer que nos anos de 1991 e 1992, em virtude de quebra das safras
de soja, foi proposta a redução da alíquota do imposto de importação de
certos óleos sucedâneos, visando atender à demanda dos setores
industriais, de margarinas, maioneses e sabões, deixando que o óleo de
soja fosse destinado ao mercado de latinhas de segmento varejista. Dessa
forma a oferta foi ampliada e pode se manter os níveis de preços
compatíveis à época.
Tal expediente, porém tinha duração limitada, e logo que se iniciava
a colheita da nova safra a medida era revogada para que se resguardasse
mercado para a produção nacional.
Em março de 1994 foi editada a Portaria n.º 419, e posteriormente
em outubro a de n.º 241, as quais reduziam para 2% a alíquota do imposto
de importação dos seguintes itens:

394 Alfredo Wagner Berno de Almeida


- 1511.10.0000 – óleo de palma em bruto;
- 1511.90.0100 – estearina de palma;
- 1511.90.9900 – outros;
- 1513.20.0100 – óleo de palmiste refinado;
- 1513.21.0100 – óleo de palmiste;
- 1514.10.0100 – óleo de colsa em bruto.

Como a safra de soja daquele ano foi de um volume bastante


expressivo, e as estimativas para 95 também eram muito favoráveis, o
que posteriormente se confirmou, não se encontra argumento ligado às
indústrias alimentícias que pudessem justificar a adoção de tal medida.
Pleitos e argumentação provenientes da área industrial saboeira, porém
devem ter sensibilizado as autoridades, à época, e motivado a edição da
referida Portaria.
Por se turno, durante o ano de 1995 o abastecimento de óleos
comestíveis transcorreu normal, tanto para o segmento industrial
alimentício como também para a distribuição varejista.
Paralelamente, oferta de sebo, matéria prima básica para a indústria
de sabão teve comportamento normal o que não justificaria a manutenção
dos efeitos das citadas Portarias.
As expectativas para o período de 1996 são favoráveis e espera-se
que o mercado já tenha adquirido a maturidade própria de economias
estáveis, e que possa vir compor com as alíquotas acordadas, entre os
países do Mercosul, representadas pela TEC – Tarifa Externa Comum.
Ao mesmo tempo, estar-se-ia oferecendo melhores condições de
trabalho e participação no mercado, protegendo regiões carentes e
populações extremamente pobres induzindo a ampliação da renda regional
e do nível de emprego.
Finalizamos sugerindo que os itens contidos nas Portarias n.º 119
a 451 de 1994, já mencionadas, e explicitados acima, passem a obedecer
tratamento normal da TEC.

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 395


Atenciosamente,

Ricardo Chagas Assunção


Assessor

De acordo

José Armando A.
Secretário Adjunto

396 Alfredo Wagner Berno de Almeida


COMISSÃO DA OUVIDORIA – GERAL DA REPÚBLICA
PROCESSO N.º 003573/96
Ofício Comissão n.º 126

A Sua Senhoria o Senhor


Doutor BOLÍVAR BARBOSA MOURA ROCHA
Chefe de Gabinete do Ministério do Estado da Fazenda
Esplanada dos Ministérios – Bloco P
70.048.900 – Brasília – DF

Brasília, 2 de maio de 1996.

Senhor Chefe de Gabinete,

Foi com alegria animadora que recebemos o Ofício n.º 182/GMF


de 25/03/96, desse Ministério, na medida que demos início a um frutífero
diálogo para melhorar a qualidade do trabalho de cerca de 40.000
extrativistas do óleo de babaçu.
Dentro desse espírito, essa Comissão da Ouvidoria ousa insistir a
respeito do pleito, que nos foi encaminhado pelo “Movimento Interestadual
das Quebradeiras de Coco Babaçu” e que diz respeito não ao óleo de
soja, mas ao fato de óleo de babaçu ter sido deslocado em condições
desvantajosas pelo óleo de palmiste refinado e o óleo de palmiste, afetando
drasticamente as quebradeiras.
Considerando que relativamente ao óleo de babaçu não houve
quebra de safra, perguntamos se o Ministério da Fazenda não poderia
estudar um meio que redundasse na revisão dessas alíquotas, com vistas
a torna-las diferenciadas para garantir a preservação dos babaçuais por
esses pequenos produtores, já classificados entre os quarenta maiores
exportadores do Maranhão em 1994 e 1995.

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 397


A título de informação e colaboração, uma maneira talvez de
contemplar essa especificidade das quebradeiras de coco, seria adotar a
mesma política elaborada para o caso dos seringueiros, onde existe a figura
legal do contingenciamento que lhes reserva parte do mercado interno,
ou seja, mais de 1/3 da borracha consumida pelas indústrias instaladas
no território nacional.
Ao agradecer, antecipadamente, a atenção dispensada ao
assunto, subscrevo-me.

Atenciosamente,

JOSÉ GREGORI
Chefe de Gabinete
Do Ministro de Estado da Justiça

398 Alfredo Wagner Berno de Almeida


Substitutivo ao Projeto de Lei 1.428, de 1996
(Do Sr. Fernando Gabeira)

Dispõe sobre a proibição da derrubada de palmeiras de babaçu existentes nos Estados


do Maranhão, Piauí, Tocantins, Goiás e Mato Grosso e dá outras providências

O Congresso Nacional decreta:

Art. 1.º - É proibido derrubar a palmeira babaçu (Orbignya martiana)


nos Estados do Maranhão, Piauí, Pará, Tocantins, Goiás e Mato Grosso.

§ 1.º - Excetuam-se do disposto neste artigo, as derrubadas


realizadas:

I – em função de obras ou serviços de utilidade pública ou de


interesse social, assim declaradas pelo Poder Público, ouvidas as
comunidades afetadas;
II – com o propósito de estimular a reprodução da palmeira,
aumentar a produção do coco ou facilitar a sua coleta;
III – nas propriedades onde se desenvolvam atividades
agropecuárias, obedecidas as seguintes condições:

a) sacrifício prioritário dos indivíduos improdutivos, identificados


mediante estudo técnico;
b) adoção de plano de proteção das palmeiras remanescentes contra
as queimadas
c) aprovação da comunidade que pratica o extrativismo do babaçu
na área em questão.

IV – nas propriedades iguais ou inferiores a um módulo rural,


exploradas em regime de economia familiar, desde que seja respeitado o
espaçamento mínimo de oito metros entre cada palmeira remanescente.

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 399


§ 2.º - A derrubada da palmeira babaçu, nos casos previstos nos
incisos, I, II e III do parágrafo anterior, depende de autorização do órgão
público federal.

Art. 2.º - É proibido usar herbicida no processo de derrubada da


palmeira babaçu.

Art. 3º - As matas naturais formadas pela palmeira babaçu nos


Estados referidos no art. 1.º, em terras públicas, devolutas ou privadas,
são de usufruto comunitário das populações extrativistas que as explorem
em regime de economia familiar, conforme os costumes de cada região.

Art. 4º - Compete ao Ministério do Meio Ambiente, dos Recursos


Hidrícos e da Amazônia Legal e ao Ministério da Agricultura, por meio de
seus respectivos órgãos, a execução e a fiscalização desta Lei.

Parágrafo único – Ao proceder à fiscalização, os órgãos responsáveis


deverão procurar prioritariamente os denunciantes, a comunidade ou às
organizações dos trabalhadores envolvidos.

Art. 5.º - Aquele que derrubar uma palmeira babaçu, com infração
ao disposto nesta lei, sujeitar-se-á, independentemente de outras sanções
administrativas, civis e penais previstas na legislação vigente, ao
pagamento de multa equivalente ao número de indivíduos derrubados.

Parágrafo único: o valor da multa por palmeira derrubada será


estabelecido e atualizado monetariamente pelo órgão ambiental federal,
com base no custo de reposição e no valor dos recursos perdidos.

Art. 6.º - O produto da arrecadação das multas de que trata o


artigo anterior será depositado no Fundo de Promoção do Extrativismo

400 Alfredo Wagner Berno de Almeida


do Babaçu e destinado à recuperação de áreas degradadas e ao fomento
da economia extrativista do babaçu.

Art. 7.º - O Poder Público e suas autarquias são proibidos de conferir


benefícios sob qualquer instrumento aos infratores desta Lei.

Art. 8.º - A União poderá desapropriar por interesse social


propriedades de pessoas físicas ou jurídicas que infringirem os preceitos
da presente lei.

Art. 9.º - Os órgãos públicos referidos no art. 4.º poderão celebrar


convênios com órgãos públicos estaduais e municipais, visando ao
cumprimento desta Lei.

Art. 10.º - Compete ao Poder Público estabelecer metodologias


visando conscientizar as populações para a defesa e preservação dos
babaçuais, podendo celebrar convênios com organizações da sociedade
civil, respeitadas as realidades de cada região.

Art. 11.º - Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação.

Art. 12.º - Revogam-se as disposições em contrário.

Justificação

O propósito do Projeto em análise é impedir a destruição dos


babaçuais nativos do meio norte brasileiro, essenciais para a subsistência
de mais de 300 mil famílias que vivem naquela região, e que vem sendo
derrubados por grandes proprietários e empresas rurais para o
desenvolvimento de atividades agrícolas e pecuárias em moldes capitalistas.
O conteúdo do Projeto atende no geral, aos objetivos pretendidos.
Constata-se, todavia, algumas lacunas e deficiências no tratamento dado

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 401


a determinados tópicos que poderiam receber uma solução melhor. Nossas
sugestões para o aperfeiçoamento do Projeto são as seguintes:
1. O art. 5.º estabelece que fica garantido o uso de terras públicas,
devolutas e privadas, aos trabalhadores que as explorem em regime de
economia familiar... Do modo como está redigido, o uso assegurado parece
ser o da terra em si, incluindo todos os seus recursos naturais, inclusive o
solo. Porém se a intenção é assegurar o uso das palmeiras a redação deveria
fazer uma referência explícita aos babaçuais.
2. O art. 7.º, que estabelece multas para quem derrubar as palmeiras
babaçu, apresenta os seguintes problemas:

a) O artigo não prevê multa para quem derrubar mais de mil


palmeiras;
b) De acordo com as normas legais vigentes, não é possível
estabelecer o valor de multa utilizando o salário mínimo como referência.

Parece-nos que a melhor alternativa é fazer com que o valor da


multa corresponda ao número de palmeiras derrubadas e ao custo de
reposição de cada palmeira. Esse valor deveria ser determinado e
reajustado pelo órgão federal competente.
3. O art. 8.º destina o produto de arrecadação, das multas para um
fundo de apoio ao extrativismo do babaçu, mas transfere o ato de criação
deste fundo a uma outra lei. Não vemos motivo para não propor a criação
deste fundo já nesta lei.
4. Seria conveniente que, ao se fazer referência ao corte das
palmeiras, se utilizasse apenas o termo derrubar ou derrubada, ao invés
dos termos desbaste, derrubada e raleamento, que são utilizados de modo
um tanto indiscriminado.
5. Convém também fazer referência o nome científico da espécie.
6. Não foram incluídas no Projeto as tradicionais cláusulas de
vigência e revogatória.

402 Alfredo Wagner Berno de Almeida


MINISTÉRIO DA FAZENDA
Secretaria de Acompanhamento Econômico

Ofício n.º 1.150/96-SEAE

Brasília (DF), 03 de julho de 1996.

Senhor Chefe de Gabinete,

Acuso o recebimento do Ofício Comissão n.º 126, de 02 de maio


de 1996, desse Ministério, que encaminha pleito do setor de catadores e
esmagadores de coco de babaçu, organizados pelo Movimento
Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu, que solicita a revisão
das alíquotas de óleos sucedâneos ao babaçu.

Sobre o assunto, em referência, esta Secretaria elaborou a Nota


Técnica s/n / SEAE; de 15/05/96, cuja cópia lhe encaminho.

Atenciosamente,

BOLÍVAR MOURA ROCHA


Secretário de Acompanhamento Econômico

Ilm.º Sr.
Dr. JOSÉ GREGORY
Chefe de Gabinete do Ministro de Estado da Justiça
NESTA

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 403


MINISTÉRIO DA FAZENDA
Secretaria de Acompanhamento Econômico

NOTA n.º 90 / 96-SEAE

Em 10/06/96

Ouvidoria Geral da República Ref.: Babaçu

Voltamos ao assunto supra em função de resposta da Comissão da


Ouvidoria, através do ofício n.º 126 de 02 do corrente, que com base em
pleito do Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu,
volta a reivindicar revisão das alíquotas de alguns óleos concorrentes
objetivando torná-las diferenciadas, com vistas a garantir a preservação
dos babaçuais e das atividades dos pequenos produtores.
Cabe-nos informar que, conforme explícito na nossa nota técnica
anterior, já orientamos aos negociadores governamentais o
encaminhamento das alíquotas dos óleos abaixo descritos, para os valores
plenos das alíquotas negociadas na TEC, que seriam de 10%
1511.10.0000 – óleo de palma em bruto;
1511.90.0100 – estearina de palma;
1511.90.9900 – outros;
1513.20.0100 – óleo de palmiste refinado;
1513.21.0100 – óleo de palmiste;
1514.10.0100 – óleo de colza em bruto.

Só esse fato seria suficiente para criar a diferenciação solicitada


pelo Movimento, oferecendo melhores condições concorrenciais e
preservando as atividades extrativistas dos pequenos produtores brasileiros.
Ocorre, entretanto, que não houve qualquer mudança nas alíquotas,
ainda, em função das dificuldades normais que envolvem as negociações

404 Alfredo Wagner Berno de Almeida


internacionais, principalmente quando o Brasil, como membro do
Mercosul, tem que negociar intra grupo antes de adotar qualquer
modificação tarifária.
Esclarecemos, outrossim, que nossas ponderações relativas à
produção de soja e utilização de seu óleo, serviram apenas para ilustrar os
antecedentes à tomada de decisões anteriores, e que não viriam justificar
a manutenção daquelas medidas atualmente.

Brasília, 15 de maio de 1996.

Ricardo Chagas Assumpção

De acordo, Luiz Henrique Ferreira Horta

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 405


Mensagem Governamental n.º 076/96 – Poder Executivo
Lei n.º 6.866 de 05 de dezembro de 1996
Dispõe o imposto sobre operações relativas a circulação de mercadorias e sobre prestações
de serviços de transporte interestadual e intermunicipal e de comunicação. O ICMS,
com base no art. 155, I, “b”, da Constituição Federal, e na Lei Complementar
Federal n. 87, de 13 de setembro de 1996, e dá outras providências.

A Governadora do Estado do Maranhão

Faço saber a todos os seus habitantes que a Assembléia Legislativa


do Estado manteve e eu promulgo a seguinte Lei:
Art. 1.º - Esta Lei dispõe sobre o imposto sobre operações relativas
à circulação de mercadorias e sobre prestações de serviços de transporte
interestadual e intermunicipal e de comunicação – ICMS, instituído pela
Lei n.º 4.914, de 29 de dezembro de 1988, com base no art. 155, I, “b”,
da Constituição Federal, e na Lei Complementar Federal n. 87, de 13 de
setembro de 1966.

Capítulo I
Incidência

Art. 2.º - O imposto incide sobre:

I – operações relativas à circulação de mercadorias, inclusive o


fornecimento de alimentação e bebidas em bares, restaurantes e
estabelecimentos similares;

Capitulo II
Da não Incidência

Art. 3.º - O imposto não incide sobre:

406 Alfredo Wagner Berno de Almeida


X – operações com amêndoas de coco babaçu e seus derivados,
óleo bruto, óleo refinado para fins industriais;

Publicada no Diário Oficial n.º 239 de 06 de dezembro de 1996


Projeto de Lei n.º 319/96

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 407


408 Alfredo Wagner Berno de Almeida
II PARTE
LEVANTAMENTO E ACOMPANHAMENTO DE
PROPOSIÇÕES LEGISLATIVA REFERENTES AO
TEMA "BABAÇU"

***

Marcia Anita Sprandel e Alfredo Wagner

Com a adoção pelo Congresso Nacional de inovações tecnológicas


concernentes à implantação de banco de dados e com as medidas de apri-
moramento das modalidades de armazenamento do acervo documental
fomos instados a redefinir o sistema de consulta e a seleção de documen-
tos relativos ao tema “Babaçu”. De certo modo retomamos uma experi-
ência de pesquisa imediatamente anterior que privilegiou o tema “desma-
tamento” e resultou no livro O Congresso Nacional e o desmatamento
na Amazônia. Assim, quando procedemos ao “Levantamento e acompa-
nhamento de proposições legislativas referentes ao tema BABAÇU”, em
2013/2014, os documentos já se encontravam digitalizados e dispostos à
consulta através de sites da Câmara dos Deputados e do Senado. A estra-
tégia de consulta foi definida após discussão que realizamos sobre as
mobilizações políticas das quebradeiras de coco babaçu e foi executada
pela historiadora e antropóloga Marcia Anita Sprandel. A seleção de ma-
térias foi discutida e privilegiamos as proposições e os discursos, confe-
rindo destaque menor aos excertos referente ao tema “babaçu” mencio-
nados de passagem pelos parlamentares. Em outras palavras seleciona-
mos matérias fundamentalmente referidas ao tema específico. O trabalho
de consulta concentrou-se, deste modo, num único tema, “Babaçu”, ao
contrário do levantamento anterior, que o PNCSA já realizara ou estava

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 409


realizando40, e que estabeleceu uma série de 17 temas, compondo a ques-
tão do desmatamento. O resultado foi o seguinte: no tema “Babaçu”,
com apenas 27 (vinte e sete) proposições localizadas, foram incluídos: 1)
Matérias que não estão mais em tramitação, construindo assim uma tem-
poralidade que remete a 1952; 2) Requerimentos e Indicações; e 3) dis-
cursos parlamentares, que remetem a 1948. Com respeito ao mesmo tema
foram identificados: 3.1) pelo sistema de proposições, 21 discursos, cuja
transcrição consideramos necessária para propiciar uma compreensão mais
abrangente dos debates em pauta; e 3.2) pelo sistema de busca da Agên-
cia Câmara foram localizados 482 discursos a partir de 1948.
Está-se diante de um repertório de 530 (quinhentos e trinta) ma-
térias e a seguir vamos expor cada conjunto de documentos, consoante
seu gênero textual ou o tipo de alocução, abrindo possibilidades para cor-
relações entre quem fala e a agremiação partidária de referencia e para
indagações: quem se preocupa com o tema “Babaçu”? Quem ou qual
grupo social leva questões ao Congresso Nacional e estabelece relações
constantes com parlamentares? Quem reivindica a manutenção dos
babaçuais?

PROPOSIÇÕES:

De 1952 a dezembro de 2014, foram localizadas 27 (vinte e sete)


proposições tendo como tema “babaçu”, todas elas na Câmara dos De-
putados. Cabe destacar, e merece reflexão à parte, que de 1962 a 1979
não há praticamente registros de proposições. Nenhuma proposição foi
registrada no Senado. Onze das proposições ora apresentadas atém-se à
proibição da derrubada da palmeira de babaçu e preconizam punições

40
Na pesquisa sobre desmatamento na Amazônia, por ex., elegemos 17 temas e procuramos articulá-los através de
consultas simultâneas, filtrando os casos de dupla contagem e as matérias de interesse menor. Consulte-se a
propósito: Alfredo Wagner e Marcia Anita Sprandel - O Congresso Nacional e o desmatamento na Amazônia
Amazônia.
Manaus. UEA Edições. 2014.

410 Alfredo Wagner Berno de Almeida


para o uso predatório. A discussão relativa à derrubada começa a ganhar
corpo a partir de 1979. Nos anos imediatamente anteriores estava em
pauta a discussão em torno de fontes de energia renováveis. A possibili-
dade de uso de biocombustíveis, tornou-se um problema da ordem do dia
das pautas da imprensa periódica e das associações voluntárias da socie-
dade civil voltadas para questões ambientais. É neste contexto que diver-
sas espécies vegetais e os trabalhadores e trabalhadoras extrativistas a
elas correspondentes ganham relevância no discurso dos planejadores
oficiais e começam a se colocar no campo político. Dentre elas importa
mencionar aqui as associações locais das quebradeiras de coco babaçu,
produtoras diretas na extração de amêndoas e no fabrico de óleo. Elas
passam a se destacar dentro da reestrutura funcional dos Sindicatos de
Trabalhadores Rurais, que nos anos seguintes vão reivindicar a titulação
de imóveis rurais em nome de mulheres trabalhadoras rurais, sejam elas
viúvas, arrimos de família ou outro atributo. Esta luta compreende a de-
signação posteriormente referida às quebradeiras de coco babaçu, nos
Estados do Maranhão, Pará, Piaui e Tocantins.
A seguir passaremos ao quadro demonstrativo das 27 proposições,
propiciando observar a ação de parlamentares regionais e seus respecti-
vos partidos, bem como a posição de sua tramitação na Câmara dos De-
putados. Incluímos também a solicitação de Audiencias Públicas e reque-
rimentos relacionados ao tema. Pela diversidade partidária, que abrange
pelo menos oito (oito) partidos políticos (PMDB, PT, PSC,PTB,
PDS,PST,PL,PPS) e pelas diferentes unidades da federação a que tais
políticos estão referidos, pode-se adiantar que há um consenso sobre a
proibição de derrubada das palmeiras de babaçu. Tal consenso seria um
“concreto aparente”, posto que a retórica preservacionista é mais um re-
curso de ação política do que o empenho por uma medida bem definida e
capaz de proporcionar transformações no acesso e no uso dos recursos
naturais. Haja vista que os índices de desmatamento de babaçuais man-
tem-se elevados, décadas a fio tal como aqueles de devastação e de des-

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 411


truição de recursos hídricos. O tom das falas dos parlamentares aparece
marcado, portanto por uma inspiração preservacionista que sugere mais
ser um mero instrumento de retórica, ou seja, uma estratégia discursiva
que ofusca os efeitos efetivos dos danos ambientais.

412 Alfredo Wagner Berno de Almeida


QUADRO DEMONSTRATIVO DE PROPOSIÇÕES COM O
TEMA "BABAÇU" NA CÂMARA DOS DEPUTADOS DE 1952 A
2014

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 413


414 Alfredo Wagner Berno de Almeida
QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 415
416 Alfredo Wagner Berno de Almeida
QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 417
418 Alfredo Wagner Berno de Almeida
QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 419
420 Alfredo Wagner Berno de Almeida
QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 421
422 Alfredo Wagner Berno de Almeida
DISCURSOS

Inicialmente vale informar que na Câmara dos Deputados, no que


se refere a discursos ou alocuções de parlamentares, seja através de
“comunicações” ou “breves comunicações”, no “grande” ou no “pequeno
expediente” existem duas possibilidades de busca:
1) A primeira pelo sistema de proposições, http://
www2.camara.leg.br/deputados/discursos-e-notas-taquigraficas, através
do qual foram localizados 21 discursos, entre 2004 e 2013, consoante o
quadro a seguir apresentado.
2) A segunda pelo sistema de buscas da Agência Câmara, http:/
/www2.camara.leg.br/busca/?wicket:interface=:0:1:::, através do qual
foram localizados 482 discursos, a partir de 1948, consoante listagem
decrescente abaixo apresentada:

1) DISCURSOS LOCALIZADOS PELO SISTEMA DE PROPOSIÇÕES

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 423


424 Alfredo Wagner Berno de Almeida
QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 425
426 Alfredo Wagner Berno de Almeida
QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 427
428 Alfredo Wagner Berno de Almeida
TRANSCRIÇÃO DOS DISCURSOS PROFERIDOS NA CÂMARA
DOS DEPUTADOS, LOCALIZADOS PELO SISTEMA DE
PROPOSIÇÕES (2004-2013)

1) COSTA FERREIRA (PSC-MA)

O Sr. Costa Ferreira (PSC-MA. Pela ordem. Pronuncia o seguinte


discurso.) - Sr. Presidente, Sras. e Srs. Deputados, apresentei hoje, 25 de
novembro de 2013, o Projeto de Lei nº 6.820, apensado a este
pronunciamento, que Institui o Fundo Nacional de Apoio à Cultura da
Palmeira do Babaçu - FUNBABAÇU. O objetivo do Fundo é desenvolver,
financiar e modernizar a cultura da palmeira do babaçu, elevar a qualidade
de vida dos trabalhadores do setor, incentivar a produtividade do cultivo
e exploração da palmeira do babaçu e estimular seus produtos derivados,
seu aproveitamento industrial, sua exportação, a defesa de preços de
comercialização e a abertura de mercados, dentre outras providências. A
cultura do babaçu possui grande importância econômica e social para
diversos Estados brasileiros, tanto da Região Nordeste quanto da
Amazônia, atingindo inclusive partes do Centro-Oeste.
Além de contribuir significativamente para o desenvolvimento
econômico dos Estados produtores, a cultura do babaçu é forte
empregadora de mão de obra, dedicada ao plantio, coleta, transporte e
beneficiamento dos diversos produtos finais obtidos a partir do babaçu.
Acresça-se, mais recentemente, a enorme importância que pode
vir a apresentar como uma das matérias-primas para a produção de
biocombustíveis, em razão das questões ambientais, e como fonte de
diversificação de nossa matriz energética, com considerável potencial
exportador.
Num plano mais localizado, a palmeira do babaçu e seus frutos
atendem de forma ampla os nativos mais pobres de áreas endêmicas, onde
a palmeira é totalmente aproveitável. As amêndoas do babaçu produzem

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 429


óleo, cuja utilidade atende tanto o trabalho artesanal de sabão e óleo quanto
à indústria de cosmético.
As folhas do babaçu ainda hoje são utilizadas como telhado, bem
como o seu tronco fornece lenha e material para compor as paredes das
casas. A questão é tão ampla que, somente no Maranhão, mais de 300 mil
pessoas vivem da cultura do babaçu, sendo que 90% são mulheres, as
chamadas quebradeiras de coco.
Apesar do valor econômico e social do coco do babaçu, estimativas
dão conta de que apenas 25% dos frutos são utilizados. Por outro lado, a
posse das terras vai limitando o acesso aos produtos do babaçu e criando
conflitos, condição que ressalta a importância de uma política mais definida
e de recursos específicos para otimizar o setor. Trata-se, portanto, de cultura
agrícola geradora de emprego e renda, que, no entanto, carece do necessário
apoio governamental para o seu fortalecimento e expansão.
A instituição do Fundo, além de fornecer o apoio financeiro
indispensável ao desenvolvimento dessa importante cultura nacional, é
uma medida definidora dos contornos da política pública federal voltada
para o referido setor. Será também um meio para que cesse a devastação
dos babaçuais para dar lugar à pastagem e reduzir o corte das palmeiras a
níveis aceitáveis. Conto, assim, com o decisivo apoio dos ilustres colegas
Parlamentares, inclusive com contribuições que venham a aperfeiçoar o
texto da proposta e a aprovar a proposição que ora apresento.
Ao passo que peço a acolhida deste projeto, solicito ao Presidente
Henrique Eduardo Alves que coloque entre as prioridades da Casa os
projetos que amparam a cultura do babaçu. Sr. Presidente, está anexo a
este pronunciamento o projeto de lei, com todos os detalhes, para a criação
do Fundo Nacional de Apoio à Cultura da Palmeira do Babaçu.

Muito obrigado, Sr. Presidente.


O SR. PRESIDENTE (Luiz Couto) - Obrigado, Deputado Costa Ferreira.

430 Alfredo Wagner Berno de Almeida


2) ASSIS CARVALHO (PT-PI)

O Sr. Assis Carvalho (PT-PI. Como Líder. Sem revisão do orador.)


- Sr. Presidente, é com muito orgulho hoje que usamos novamente esta
tribuna, inicialmente para registrar a visita que tivemos hoje do nosso
Secretário de Turismo do Piauí, o meu amigo Sílvio Leite, um dos homens
mais competentes com quem tive a oportunidade de trabalhar quando
Secretário de Saúde do meu Estado.
Ali, ele tratava vários temas, buscando recursos para o turismo em
Luís Correia, Parnaíba, Piripiri, Pedro II, Castelo, que são cidades que
merecem uma atenção muito especial. Mas gostaria, meu caro Presidente
Renan Filho, de destacar aqui uma matéria que ontem foi vinculada no
programa Globo Rural sobre as mulheres quebradeiras de coco de babaçu
da minha querida cidade de Esperantina, lá no norte do Piauí - foi uma
notícia do programaGlobo Rural, da TV Globo. Elas foram incluídas no
programa do Governo Dilma com o SEBRAE, para a comercialização de
produtos artesanais durante a Copa do Mundo de 2014.
A Associação das Quebradeiras de Coco do Piauí, para o nosso
orgulho, foi uma das 101 entidades aprovadas pelo Projeto do Governo
Federal e do SEBRAE Talentos do Brasil Rural, que vai inserir em hotéis,
restaurantes e lojas de artesanatos produtos da agricultura familiar durante
o Mundial de Futebol.
Com certeza, sabonetes produzidos artesanalmente com óleo de
coco babaçu por mulheres de origem humilde serão destaque nas cidades
que sediarão os jogos.
Elas acordam cedo e entram mata adentro para realizar o ofício
que desempenham desde crianças: a cata do coco babaçu. As mulheres
quebradeiras de coco babaçu sobrevivem, geração a geração, da quebra
do coco e da venda de seus derivados, como o azeite, o mesocarpo, que é
a farinha, a casca para a produção do carvão e produtos artesanais. No
Piauí, temos uma planta nativa chamada babaçu. Ninguém plantou nem
cuidou dela; é um presente de Deus, um presente da natureza para o

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 431


homem e para a mulher do meu País. Existem no Brasil mais de 18 milhões
de hectares cobertos pelas palmeiras, de onde as quebradeiras colhem o
coco que serve de matéria-prima para seu trabalho de transformação e de
agregação de valores.
Mais recentemente, através de movimentos organizados, o trabalho
evoluiu para esse estágio que vai levar nosso produto a ganhar o mundo.
Exemplo disso é o Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco
Babaçu, que atua em quatro Estados: Piauí, Maranhão, Pará e Tocantins.
São mulheres fortes como Dona Domingas, Helena e Chica Lera - que já
foram até recebidas pelo Presidente Lula -, que, através de movimentos
como o Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu e o
do Centro de Educação Popular de Esperantina, vêm vencendo o
preconceito e a discriminação. Ganharam respeito internacional e hoje se
preparam para ser destaque num evento tão importante como a Copa do
Mundo, que irá reunir países de todos os cantos, com seus times, suas
seleções e seus turistas, que irão, naturalmente, chegar a milhares de
pessoas.
Deste tema, que muito nos orgulha, voltaremos a tratar em outra
oportunidade, mas já adiantamos que as quebradeiras de coco de babaçu
são uma parcela importante da economia solidária do nosso Estado e
produzem, entre outras coisas, o orgulho do piauiense, que, apesar de não
sediar nenhum grupo específico da grande competição, se sentirá
representado por elas na Copa do Mundo de 2014, sem sombra de dúvida o
maior evento esportivo do mundo. Sr. Presidente, quero também destacar a
visita que recebemos ontem do Reitor Francisco das Chagas Santana, do
Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Piauí - IFPI. Ele
esteve conosco para reivindicar, dentro do Plano de Expansão que está
sendo trabalhado pelo Ministro da Educação, que ampliemos os IFPIs do
Piauí. Hoje temos no Estado 14 Institutos, dos quais 11 estão funcionando
e 3 - o da minha querida cidade de Oeiras, o de Pedro II e o de São João do
Piauí - já têm ordem de serviço para iniciar os trabalhos. Hoje acolhemos
praticamente 11 mil estudantes de nível superior e nível médio.

432 Alfredo Wagner Berno de Almeida


Solicitei ao Ministro Fernando Haddad audiência para a próxima
semana. Espero ser acompanhado do nosso querido Reitor. Pelo Plano de
Expansão, que autorizou mais 120 Institutos para todo o Brasil, o Piauí
será contemplado com apenas quatro, nas cidades de Campo Maior,
Valença, Colônia do Gurgueia e Paulistana, que necessitam muito dos
Institutos para melhorar a qualidade da educação no Estado.
Nós estamos lutando por mais quatro. Estamos propondo as cidades
de Cocal, Canto do Buriti, de forma especial, Bom Jesus, fronteira agrícola
da soja do Estado, que se desenvolve de forma vertiginosa, e Pio IX,
onde se trabalha com mármore e cimento, que demandam mão de obra
qualificada.
Como disse, solicitamos audiência com o Ministro e, se Deus quiser,
vamos ser atendidos em mais este pleito. Sr. Presidente, a educação é o
grande caminho que temos para gerar renda e elevar a autoestima do nosso
povo, para levar dignidade aos nossos conterrâneos e, sobretudo, é o
caminho para a prevenção contra as drogas. Destaco aqui a firmeza do
então Presidente Lula, que, quando no exercício da Presidência, instalou
mais 140 novos institutos federais pelo Brasil afora para elevar a qualidade
de ensino no País. No que diz respeito ao IFPI, destaco a firmeza deste
homem simples que é o Prof. Santana, nosso Reitor, que vem fazendo um
trabalho fantástico no Estado do Piauí. Tenho certeza de que ele contará
com a parceria de todos os Parlamentares do meu Estado, porque não
acredito em outra forma de desenvolvimento que não a que se dá pelo
caminho da educação.
Outro ponto que realço, Sr. Presidente, foi a votação de ontem
sobre a criação de empresa para gerir os hospitais universitários. Ouvi
vários argumentos a favor de sua criação, mas ressalto a firmeza do então
Presidente Lula, que, no seu último dia de governo, teve a determinação
de tirar 26 mil famílias do serviço precário a que estavam submetidas
numa rede hospitalar, sem um contrato decente de trabalho. Com a criação
dessa empresa vamos resolver ilegalidades como essa que, infelizmente,
estavam acontecendo. Quero lembrar que no meu Estado houve
investimento de aproximadamente 80 milhões de reais para a instalação

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 433


de um hospital universitário. Há 20 anos estamos esperando esse hospital
funcionar.
Assumi o compromisso com o Reitor, Dr. Luiz Júnior, de que estaria
ombreado no sentido de que essa empresa fosse criada e pudéssemos
contratar 1.100 novos funcionários para colocar o hospital em
funcionamento, de um lado, para qualificar ainda mais a boa mão de obra
na área de saúde do Estado do Piauí; de outro lado, para melhorar o
atendimento aos homens e mulheres que precisam de atendimento
qualificado, ampliando, portanto UTIs e leitos em hospital de qualidade.
Estamos felizes com a decisão de ontem. Estou certo de que
ganharam com isso o Piauí e o povo brasileiro. Por fim, Sr. Presidente,
destaco várias ações que tenho acompanhado nesta Casa. Sou Relator de
PEC de autoria do meu querido Luiz Alberto, do PT da Bahia, que trata
do serviço social obrigatório. Vou defender essa PEC - já apresentei meu
relatório -, porque é inaceitável que o povo brasileiro pague, por meio da
escola pública, a sua contribuição. São tantos profissionais, mas, quando
precisamos de um médico, de um agrônomo no interior do Piauí ou do
Maranhão, não há força legal para estabelecer as condições objetivas para
que aquele povo tenha assistência decente. Vou trabalhar e pedir o apoio
desta Casa para que essa PEC, se Deus quiser, seja aprovada.
Sou também Relator de medida que trata da concessão de rádio
para a Assembleia Legislativa do Estado do Piauí - e aqui estamos com o
nobre Deputado Marllos Sampaio, irmão do nosso querido Presidente da
Assembleia do Piauí. Parabenizo o Presidente Temístocles, um lutador desta
causa. Temos uma televisão que presta um grande serviço e reproduz as
nossas falas - neste momento, está reproduzindo esta, naturalmente. A defesa
dessa medida é outro compromisso que assumo, pois trata-se de uma grande
melhoria para a democratização da comunicação no Estado do Piauí.
Sr. Presidente, espero que possamos continuar fazendo, e com
muito orgulho, um grande trabalho nesta Casa.
Que Deus abençoe a todas e a todos!
Muito obrigado.

434 Alfredo Wagner Berno de Almeida


O SR. PRESIDENTE (Renan Filho) - Parabéns pelo pronunciamento de
V.Exa.
PRONUNCIAMENTO ENCAMINHADO PELO ORADOR

Sr. Presidente, Sras. e Srs. Deputados, queremos parabenizar as


mulheres quebradeiras de coco de babaçu de Esperantina, que foram
notícia no programa Globo Rural, da TV Globo, incluídas no Programa
do Governo Dilma com o SEBRAE, para comercialização de produtos
artesanais durante a Copa do Mundo de 2014. A Associação das
Quebradeiras de Coco do Piauí, para nosso orgulho, foi uma das 101
entidades aprovadas pelo Projeto do Governo Federal e do SEBRAE
Talentos do Brasil Rural, que vai inserir em hotéis, restaurantes e lojas de
artesanato produtos da agricultura familiar durante o Mundial de Futebol.
Com certeza, sabonetes produzidos artesanalmente, com óleo de
babaçu, por mulheres de origem humilde serão destaque nas cidades que
irão sediar os jogos. Elas acordam cedo e entram mata adentro para
realizarem o oficio que desempenham desde crianças: a “cata” de coco
babaçu. As mulheres quebradeiras de coco babaçu sobrevivem, geração a
geração, da quebra de coco e da venda de seus derivados como o azeite, o
mesocarpo (a farinha), a casca para a produção de carvão e produtos
artesanais.
No Piauí, no Meio Norte, temos uma planta nativa chamada
“babaçu”. Ninguém plantou nem cuidou dela. É um presente da natureza
para o homem. Existe no Brasil mais de 18 milhões de hectares cobertos
pelas palmeiras, de onde as quebradeiras colhem o coco que serve de
matéria-prima para seu trabalho de transformação e agregar valores. Mais
recentemente, através de movimentos organizados, o trabalho evoluiu
para esse estágio que vai levar nosso produto a ganhar o mundo. Exemplo
disso é o MIQCB (Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco
Babaçu), que atua em quatro Estados: Piauí, Maranhão, Pará e Tocantins.
São mulheres fortes como Dona Domingas, Helena, Chica Lera,
que já foram até recebidas pelo Presidente Lula e que, através dos

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 435


movimentos como o MIQCB e o CEPES (Centro de Educação Popular
de Esperantina), vencendo o preconceito e a discriminação, ganharam
respeito internacional e hoje se preparam para ser destaque num evento
tão importante como esse da Copa do Mundo, que irá reunir países de
todos os cantos do mundo, com seus times, suas seleções e seus turistas,
que irão chagar aos milhares.
Para atender essa demanda, a Associação pretende, através de
parcerias para seus projetos, aumentar a produção de farinha do coco, de
azeite de coco, alimentos ricos em nutrientes para a saúde, assim como a
produção de carvão, sabonete, sabão de coco, entre outros, e da palha é
feita uma infinidade de artesanatos. É preciso buscar agregar valores e
aumentar a produção.
Tudo isso, Sr. Presidente, gera renda e autoestima para as
comunidades envolvidas nesse trabalho, que sempre foi e será a fonte
econômica do Território dos Cocais.
Hoje a Associação produz 200 sabonetes por mês. Para garantir as
encomendas no período da Copa, a meta é atingir 50 mil unidades. A
Associação já investiu até na quebra mecanizada do coco babaçu. Toda
essa produção acontece ainda de forma artesanal, seguindo um ritual lento
e cansativo, que varia de acordo com o produto final que se quer alcançar.
Isso tudo ainda é cuidando de casa, de filho, indo para a escola.
Quando saem da mata, o trabalho das mulheres ainda continua no
quintal de casa. A maior fonte de renda delas é o coco de babaçu, uma
atividade que promete trazer mais lucro com o futebol, com a Copa do
Mundo sediada no Brasil em 2014. O trabalho é em grupo e começa logo
de manhã. Mata adentro, as quebradeiras de coco babaçu do Piauí
procuram a matéria-prima que vai gerar renda para a família. Boa parte é
encontrada no chão, outra ainda na palmeira.
Parte do coco babaçu catada no dia é quebrada dentro da mata,
uma atividade que, para essas mulheres, começou ainda na infância e que
requer destreza e experiência. A principal matéria-prima na produção do
sabonete é o óleo do babaçu, que ainda é extraído de forma artesanal no

436 Alfredo Wagner Berno de Almeida


Município. De norte a sul do País, onde o Piauí muitas vezes é visto como
um Estado pobre e atrasado, vamos mostrar que temos muita riqueza e
um povo especial que sabe como investir no desenvolvimento sustentável,
respeitando o meio ambiente.
Deste tema, que muito nos orgulha, voltaremos a tratar em outra
oportunidade, mas já adiantamos que as “quebradeiras” de coco babaçu é
uma parcela importante da economia solidária do nosso Estado e
produzem, entre outras coisas, o orgulho do piauiense, que, apesar de não
sediar nenhum grupo, se sentirá representado por elas na Copa do Mundo
de 2014, o maior evento esportivo do mundo.
Sr. Presidente, passo a abordar outro assunto. Quero registrar desta
tribuna a visita do Reitor do Instituto Federal de Educação, Ciência e
Tecnologia do Piauí - IFPI, que nos procurou para encaminhar junto ao
Ministério da Educação, ao FNDE, ao Ministro Fernando Haddad, o Plano
de Expansão e Reestruturação do Instituto no Estado, criando dois grupos:
norte e sul. Queremos nos colocar à inteira disposição do Reitor Francisco
das Chagas Santana, o nosso querido Prof. Santana, e reafirmar o que já
lhe dissemos, que consideramos de fundamental importância para o Piauí
a expansão dos campus, que hoje é importante para o Brasil, para a
educação e profissionalização dos jovens do nosso Estado do Piauí.
Considerando que este é um Instituto histórico, com seus mais de
100 anos, e de fundamental importância para este momento que vive o
Brasil com a necessidade de capacitar nossos jovens estudantes para
atender a demanda crescente de geração de emprego e renda, e
considerando que o Ministério da Educação vem numa evolução
extraordinária de criação e implantação de Institutos Federais por todo o
País, que deu um salto muito grande durante o Governo Lula, com a
construção de mais de 140 escolas, no Piauí queremos chegar a 10 escolas
ainda este ano.
A educação profissional tem evoluído no Piauí, mostrando muito
comprometimento de quem faz educação no Estado, mas precisamos
evoluir ainda mais. Queremos colaborar com o Reitor para a implantação

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 437


do Plano de Expansão II, para a nossa cidade de Oeiras, Pedro II e São
João do Piauí, e a Expansão III, que inclui cidades importantes como
Campo Maior, Bom Jesus, Colônia do Gurguéia, Pio IX, Canto do Buriti,
Guadalupe, José de Freitas, Palmeirais, Cocal, Luzilândia, Alto Longá,
Bom Jesus, Santa Cruz do Piauí e Valença do Piauí.
Hoje, já temos cinco campus ativos no Estado. Os Campus de
Teresina (Central e Sul - federalizados) e Floriano; e da Expansão I, que
compreende os Campus de Parnaíba e Picos, além da Expansão II, de
Angical, Piripiri, Corrente, São Raimundo Nonato, Paulistana e Uruçuí.
É importante destacar, para além dos campus existentes e dos que
pretendemos, a área de abrangência de cada um deles. Por exemplo, o
Campus de Teresina tem uma abrangência que atende uma população de
958 mil habitantes, com cidades importantes da Grande Teresina, da Região
Metropolitana, que são União, José de Freitas, Altos, Nazária, Demerval
e Lagoa do Piauí. Já o Campus de Floriano atende uma demanda de 95
mil habitantes, que vivem nas cidades de Francisco Ayres, Nazaré do
Piauí, Jerumenha, Guadalupe e Itaueira. Daí a necessidade desta expansão.
O Ministério, os conselheiros precisam compreender essa nossa necessidade
de descentralizar os pontos de educação para melhor atender as demandas
regionais.
Como se vê, Sr. Presidente, o Piauí cresce com o Brasil na com-
preensão de que é preciso preparar a nossa juventude no caminho da
capacitação e da educação cidadã, permitindo a eles a acessibilidade ao
emprego e garantindo-lhes o futuro para, através do ensino profissionali-
zante, ascenderem ao ensino superior. Como diz Anísio Teixeira, esse
nordestino que muito nos honra: “Há educação e educação. Há educação
que é treino. E há educação que é formação do homem livre, na constru-
ção da democracia”.
Já solicitamos ao Ministro Fernando Haddad, da Educação, uma
audiência com o Reitor Francisco das Chagas Santana, com sua equipe,
para a apresentação do Projeto de Expansão. Certamente, com sua
sensibilidade para a causa da educação e importância das escolas técnicas

438 Alfredo Wagner Berno de Almeida


e profissionalizantes, ele irá nos atender e, com certeza, atender a juventude
do Piauí.
Era o que tínhamos a dizer

3) Ato da Presidência – Cria Comissão Especial destinada a proferir


parecer ao Projeto de Lei nº 231-A, de 2007

O SR. PRESIDENTE (Jorge Tadeu Mudalen) - Antes de dar


prosseguimento à sessão, esta Mesa dá conhecimento ao Plenário do seguinte
Ato da Presidência
Nos termos do inciso II do art.34 do Regimento Interno, esta
Presidência decide criar Comissão Especial destinada a proferir
parecer ao Projeto de Lei nº 231-A, de 2007, do Sr. Deputado Domingos
Dutra, “que dispõe sobre a proibição da derrubada de palmeiras de babaçu
nos Estados do Maranhão, Piauí, Tocantins, Pará, Goiás e Mato Grosso e
dá outras providências”.
A Comissão será composta de 25 (vinte e cinco) membros titulares
e de igual número de suplentes, mais um titular e um suplente, atendendo
ao rodízio entre as bancadas não contempladas, designados de acordo
com os §§ 1º e 2º do art.33 do Regimento Interno.
Brasília, 25 de maio de 2011.
Marco Maia
Presidente da Câmara dos Deputados

4) ROBERTO ROCHA (PSDB-MA)

O Sr. Roberto Rocha (PSDB-MA. Sem revisão do orador.) - Sr.


Presidente, quero rapidamente cumprimentar o Deputado Pedro
Fernandes, que apresentou uma questão interessante sobre a agroenergia.
Ontem participei de reunião com um grupo de pesquisadores da
Universidade Federal do Maranhão para tratar do babaçu, e hoje S.Exa.

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 439


traz aqui essa boa novidade, publicada no jornal Correio Braziliense, de
Brasília.
Solidarizo-me também com o Deputado Domingos Dutra, que há
pouco falou sobre o momento importante e sensível que vive seu partido
no nosso Estado, o Maranhão.
Quero aqui trazer uma inquietação, pois vemos anunciada, para o
dia 6 de abril, paralisação dos servidores militares. Eu não diria que se
trata de greve - que é motim, se feita por quem usa arma - porque,
evidentemente, estamos falando de brasileiros responsáveis. Mas esta Casa
tem de dar uma resposta à categoria, pois todos compreendemos sua
importância e sabemos que a segurança pública tem sido o ponto cego
das políticas públicas no País.
Por herança torta, essa questão é muitas vezes associada, pelo
pensamento de esquerda, à repressão política e, pelo de direita, à repressão
criminal. Assim, os militares não são merecedores de políticas específicas
de valorização. Esse é o conceito que a Casa tem hoje do tema segurança
pública.
O Brasil foi capaz de avançar, criando fundos para financiar a
educação e a saúde - que, se registre, foi feito no Governo anterior, do
PSDB, com as luzes do então Ministro José Serra. Sendo assim, penso
que o tema da segurança pública, que a Casa quer colocar para o próximo
Governo, deverá, evidentemente, passar pela criação de um fundo.
Registro, portanto, minha preocupação em relação à paralisação
dos servidores militares no País, marcada para o dia 6 de abril.

5) DOMINGOS DUTRA (PT-MA)

O Sr. Domingos Dutra (PT-MA. Pela ordem. Sem revisão do


orador.) - Sr. Presidente, Sras. e Srs. Deputados, o Presidente da Câmara,
Michel Temer, recebeu ontem em seu gabinete comissão composta por
10 representantes das quebradeiras de coco babaçu dos Estados do
Maranhão, Pará, Piauí, Tocantins e Mato Grosso.

440 Alfredo Wagner Berno de Almeida


Estiveram presentes a Maria Querubina, do PT, militante da região
tocantina; Dona Maria de Jesus, de Lima Campos; Dona Maria do Rosário,
de Matinha; a Cledeneusa, de São Domingos do Araguaia, no Pará; a
Sandra Regina, de São Miguel, no Estado do Tocantins; a Francisca Pereira,
de Buriti, no Tocantins; a Expedita Santos, de Amarante, no Estado do
Maranhão; a Maria Edna, de São Domingos, no Pará; a companheira Maria
de Jesus Bringelo, conhecida como Digé, que coordena o Movimento
Interestadual das Quebradeiras de Coco - MIQCB. Além delas, estava
presente a companheira Ana Carolina, socióloga, assessora do movimento.
A audiência teve o objetivo, primeiro, de entregar cerca de 500
cartas de entidades do exterior que apoiam, acompanham e incentivam as
quebradeiras de coco desses Estados.
Segundo, as quebradeiras de coco entregaram ao Presidente da
Câmara dos Deputados vários produtos originários do babaçu - óleo,
xampu, sabonete e artesanatos.
O terceiro e principal objetivo dessa visita ao Presidente Michel
Temer foi pedir a S.Exa. que seja constituída, imediatamente, uma
Comissão Especial para apreciar o Projeto de Lei nº 231, de 2007, de
minha autoria.
O Presidente Michel Temer recebeu as quebradeiras, com muita
atenção, e se comprometeu urgentemente a formar a Comissão Especial
para dar parecer a esse projeto.
Para muitos, no Brasil, e mesmo nesta Casa, quando se fala do
pequeno, do extrativismo, de coco babaçu, as pessoas, às vezes, dão risadas,
porque se acostumaram a pensar o Brasil apenas na grande indústria. Só
pensam no Brasil quando se fala de eucalipto, soja e ferro. E este Brasil
gigante tem uma economia regional que precisa ser vista, valorizada e
apoiada. Existem 10 milhões de hectares cobertos com mata de babaçu.
Quatrocentas mil mulheres vivem do extrativismo do babaçu, que não é
um produto qualquer. Dele, são extraídos cerca de 64 produtos.
Assim como o Acre se desenvolveu com o extrativismo, assim
como Chico Mendes se tornou referência internacional ao preservar as

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 441


matas e os recursos naturais do Acre, é preciso defender e proteger os
recursos ambientais e o extrativismo do babaçu. O babaçu dá desde
artesanato da palmeira, palha para cobrir casas até combustível para
aviação.
Portanto, espero que esta Casa, assim como recebe os empresários,
os banqueiros, também acolha as demandas dos pequenos, das
quebradeiras de coco, que são importantes para o Brasil e para a
preservação ambiental.
Sr. Presidente, agradeço, por intermédio de V.Exa. neste momento,
ao Presidente da Casa. Espero que a Comissão Especial seja constituída
e que o projeto seja aprovado com rapidez, para o bem do meio ambiente
e do Brasil.
Muito obrigado.

6) DOMINGOS DUTRA (PT-MA)

O Sr. Domingos Dutra (PT-MA) Sem revisão do orador.) - Sr.


Presidente, agradeço ao Deputado Eduardo Valverde por ter, gentilmente,
dividido o tempo comigo. Serei generoso também e não usarei todo o
tempo a que tenho direito.
Quero apenas registrar que na terça-feira, na quarta-feira e na
quinta-feira da semana passada houve um encontro de mais de 400
mulheres, organizado pelo Movimento Interestadual das Quebradeiras de
Coco Babaçu - MIQCB. Ele juntou mulheres quebradeiras de coco do
Maranhão, Pará, Piauí e Tocantins. Faltaram apenas Mato Grosso e um
pouco da Bahia, que tem babaçu.
Para quem não entende, existem em 6 Estados do Brasil matas de
babaçual, que produzem o coco babaçu. Com esse coco, fabricam-se cerca
de 60 produtos, como sabão, sabonete, xampu. A casca serve para
produção de carvão e o mesocarpo é um excelente alimento.
A palmeira do babaçu é uma vegetação natural, que emprega
diretamente 400 mil mulheres nesses Estados. São aproximadamente 10

442 Alfredo Wagner Berno de Almeida


milhões de hectares cobertos com matas de babaçu. Só no Maranhão são
8 milhões de hectares, onde 300 mil mulheres ajudam no sustento familiar,
por meio da quebra do coco babaçu.
Na década de 50, o babaçu era um produto de muita importância
para o País. Havia políticas do Governo Federal para o seu aproveitamento
integral. O tempo passou, o babaçu caiu no esquecimento, os latifundiários
passaram a desmatar de forma criminosa. E agora o babaçu volta a ter
importância econômica - o valor social nunca deixou de existir.
Nesse encontro, além da avaliação da conjuntura e da exposição
de produtos, como o azeite de primeira qualidade, com uma embalagem
que não perde para nenhum produto, além do mesocarpo, que é um
excelente alimento, as quebradeiras de coco elegeram a nova coordenação
do movimento. Saíram as companheiras Dada, de Lima Campos,
Querubina, de Imperatriz, e tantas outras e foi eleita uma nova
coordenação, com a companheira Dijé, uma quilombola quebradeira de
coco do Município de São Luís Gonzaga do Maranhão.
Registro esse encontro. Lamentavelmente, o evento não tem a
visibilidade desejada. Mulheres estão discutindo questões sobre meio
ambiente, saúde, segurança, educação, produção. Por meio delas, a
economia desses Estados tem uma grande sustentação.
O Projeto de Lei nº 231, de 2007, de minha autoria, trata da
liberação dos babaçuais para o uso livre dessas mulheres, estabelece uma
política do Estado para o aproveitamento integral do babaçu e, sobretudo,
limites no desmatamento ou no raleamento.
Quero parabenizar todas essas mulheres fortes, lutadoras, que,
através dos séculos, têm ajudado a economia desses Estados e sustentado
suas famílias. Elas estão reivindicando do Poder Público a atenção desejada
para que continuem com suas atividades, continuem sustentando a
economia dos seus Estados e continuem, sobretudo, preservando o meio
ambiente.
As matas de babaçuais - esses 10 milhões de hectares - estão
localizadas na Amazônia brasileira. Como o desmatamento contribui para

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 443


o aquecimento global, a preservação dos babaçuais certamente é uma
contribuição fundamental para o meio ambiente.
Em breve, registrarei aqui o documento final. Espero que esta
Casa apresse a apreciação desse projeto de minha autoria. Desejo que
essas mulheres continuem lutando por um Brasil melhor, por um Brasil
solidário e para que os Estados tenham políticas públicas para melhorar a
qualidade de vida e aproveitar integralmente o babaçu, riqueza natural,
de grande importância social e econômica.
Muito obrigado.
O SR. PRESIDENTE (Eliene Lima) - Parabéns, Deputado
Domingos Dutra.

7) Ato da Presidência - Projeto de Lei nº 231, de 2007

O SR. PRESIDENTE (Fábio Ramalho) - Antes de dar


prosseguimento à sessão, esta Mesa dá conhecimento ao Plenário dos
seguintes atos (...):
Ato da Presidência
Nos termos do inciso II do art. 34 do Regimento Interno, esta
Presidência decide criar Comissão Especial destinada a proferir parecer
ao Projeto de Lei nº 231, de 2007, do Sr. Domingos Dutra, “que dispõe
sobre a proibição da derrubada de palmeiras de babaçu nos Estados do
Maranhão, Piauí, Tocantins, Pará, Goiás e Mato Grosso e dá outras
providências”.
A Comissão será composta de 17 (dezessete) membros titulares e
de igual número de suplentes, mais um titular e um suplente, atendendo
ao rodízio entre as bancadas não contempladas, designados de acordo
com os §§ 1º e 2º do art. 33 do Regimento Interno.
Brasília, 23 de março de 2009.
Michel Temer
Presidente da Câmara dos Deputados
Ato da Presidência

444 Alfredo Wagner Berno de Almeida


Nos termos do inciso II do art. 34 do Regimento Interno, esta
Presidência decide criar Comissão Especial destinada a proferir parecer
ao Projeto de Lei º 3.134, de 2008, do Sr. Moreira Mendes, que “dispõe
sobre o Programa Nacional de Recuperação e Preservação da Cobertura
Vegetal (PNPC), e dá outras providências”.
A Comissão será composta de 17 (dezessete) membros titulares e de igual
número de suplentes, mais um titular e um suplente, atendendo ao rodízio
entre as bancadas não contempladas, designados de acordo com os §§ 1º
e 2º do art. 33 do Regimento Interno.
Brasília, 23 de março de 2009.
Michel Temer
Presidente da Câmara dos Deputados

8) ZÉ VIEIRA (PSDB-MA)

O Sr. Zé Vieira (PSDB-MA. Pronuncia o seguinte discurso.) - Sr.


Presidente, Sras. e Srs. Deputados, ao ocupar a tribuna desta Casa pela
primeira vez, quero agradecer a Deus, que me concede a oportunidade de
representar o povo maranhense na Câmara dos Deputados, e expressar a
minha gratidão aos 75 mil eleitores que, mais do que votos, depositaram
nas urnas sua confiança em mim para o exercício digno do mandato em
prol do Maranhão e do Brasil.
Não posso deixar de reconhecer nessa trajetória a importância do
nosso Bacabal, um dos maiores Municípios da região do Mearim, que tive
a honra de administrar por 2 mandatos, antes sendo Vereador.
Tive também a honradez de, cumprindo minha palavra, influenciar
na primeira eleição do atual Prefeito do nosso Município, mesmo
contrariando importantes pedidos para que não o fizesse, em razão da sua
conduta réproba. Mas, Sr. Presidente, sou homem que cumpre palavra.
Tenho defeitos, como todos, mas certamente ser traidor e administrar
sem zelo não está incluindo nesse rol.

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 445


Lamento que Bacabal tenha encerrado o ano de 2008 com graves
problemas na área de saúde, com um abastecimento de água de péssima
qualidade e com falta de merenda escolar, o que levou as crianças a
abandonarem diariamente as escolas na metade do período previsto. Não
trago nos ombros para esta Casa essa falta de sensibilidade com a pessoa
humana.
A falta de respeito político, marcada pela compra de votos - fato
comprovado nas últimas eleições municipais de Bacabal -, também não
está no meu currículo.
Venho para Brasília e permaneço em Bacabal sem que tenha receio
de que algum agiota ou fornecedor bata em minha porta cobrando por
causa pessoal ou por conta da administração do Município.
Sr. Presidente, Sras. e Srs. Parlamentares, estarei vigilante em relação
a todas as tentativas que contrariem o desenvolvimento do nosso Estado.
Reafirmo meu compromisso de empenho junto aos Governos Federal e
Estadual pela melhoria da qualidade de vida do maranhense, em especial
do povo que reside, estuda e trabalha nos Municípios da região do Médio
Mearim.
Sobre a região do Médio Mearim, merece nossa atenção a questão
dos babaçuais, das verdadeiras guerreiras, as mulheres quebradeiras de
coco, e de suas famílias, que na década de 80 lutaram pelo direito de
permanecer na terra e hoje lutam pela preservação do babaçu. Essas
famílias precisam de incentivo para que alcancem a excelência na
comercialização do óleo de babaçu, da farinha de babaçu, do carvão
vegetal, das frutas desidratadas e dos doces, de modo a agregar valores.
Também é preciso dar impulso à produção de leite e ao
estabelecimento de uma racional e próspera comercialização desse produto,
em especial nos 9 principais Municípios produtores.
Há espaço para todos em nossa região. O que não há mais é espaço
para os conflitos do passado entre fazendeiros pecuaristas e trabalhadores
rurais.

446 Alfredo Wagner Berno de Almeida


Com a participação de todos, creio que a municipalização da
agricultura abrirá as portas para tornar o Maranhão um grande produtor e
exportador de alimentos.
Sabemos que as estradas precisam de constante intervenção.
Lutarei por recursos para todas as esferas de governo, de modo que, bem
aplicados, deixem nossas rodovias em condições de escoar a produção
local e de oferecer transporte digno à população daquela região.
Neste momento, peço especial atenção do Governo Estadual para
4 Municípios da região do Médio Mearim: Lago da Pedra, Paulo Ramos,
Olho D’Água das Cunhãs e Vitorino Freire. Interligados pela Rodovia
MA-008, podem ficar isolados, em razão da chegada das chuvas, já que
nesses locais a rodovia praticamente desapareceu em meio aos buracos e
à lama.
Outra estrada que merece atenção especial é a MA-326, que liga
Lago Verde a Conceição do Lago-Açu, Município com grande potencial
turístico. Sua principal atração é o maior lago natural do Brasil e um dos
maiores do mundo. A melhoria dessa rodovia propiciará melhores
condições para o escoamento do pescado daquela região.
Para tudo isso e muito mais que precisa ser feito, conto com
sugestão, apoio e críticas para modificar a realidade que retrata o Maranhão
como um dos Estados com menor índice de desenvolvimento humano do
Brasil.
Muito obrigado.

9) OSVALDO REIS (Bloco/PMDB-TO)

O Sr. Osvaldo Reis (Bloco/PMDB-TO. Pronuncia o seguinte


discurso.) - Sr. Presidente, Sras. e Srs. Deputados, todos conhecemos a
importância, para o Brasil, do Programa Nacional de Produção e Uso do
Biodiesel, lançado oficialmente pelo Presidente da República, Luiz Inácio
Lula da Silva, no dia 6 de dezembro de 2004. De lá para cá, muito já foi
feito para ampliar a inserção do biodiesel na matriz energética brasileira,

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 447


resultado dos esforços de quase meio século de pesquisas dos nossos
cientistas sobre esse processo inovador de produção de combustível.
É com muita satisfação, portanto, que tenho acompanhado a adesão
do meu Estado, o Tocantins, ao Programa Nacional do Biodiesel. O
Programa de Biodiesel do Tocantins foi lançado pelo Governador Marcelo
Miranda há 2 anos, em novembro de 2005, com a pretensão, inicialmente,
de promover a inclusão social de cerca de 10 mil famílias de 16 municípios
tocantinenses.
As expectativas favoráveis manifestadas à época foram plenamente
confirmadas. Em maio de 2006, o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva
inaugurou uma usina de biodiesel da Brasil Ecodiesel, no Município de
Porto Nacional, a quarta cidade brasileira a receber uma unidade da empresa.
Como muito bem observou o Presidente Lula durante a solenidade
de instalação da usina, esta é a prova concreta de que o petróleo não é a
única forma de combustível disponível no mundo. Além de contribuir
para desacelerar o aquecimento global, a fábrica de Porto Nacional é uma
potente usina geradora de empregos, já que a agricultura familiar participará
na produção da matéria-prima, dando oportunidade a milhares de pequenos
produtores de ter uma fonte de renda.
À época da inauguração da usina de Porto Nacional, 1.500 famílias
haviam sido cadastradas, e 380 já estavam plantando mamona. Além de
garantir a compra de toda a produção das sementes oleaginosas, a Brasil
Ecodiesel fornece sementes, insumos, equipamentos agrícolas e assistência
técnica necessária para a produção e a colheita.
Esse é um setor que só tende a crescer, possibilitando a distribuição
da riqueza nos locais mais distantes de nosso País. E o Tocantins, com
seus recursos hídricos abundantes, protegidos por rigorosa legislação e
chuvas absolutamente regulares, tem o perfil para se transformar num
dos grandes pólos de desenvolvimento do biodiesel no Brasil.
Aliada às condições naturais favoráveis, o nosso Estado tem o
principal: a vontade política de fazer do biodiesel uma alternativa para o

448 Alfredo Wagner Berno de Almeida


enfrentamento dos problemas sociais, uma alternativa de significativo
desenvolvimento econômico.
Certamente não foi por outra razão que o engenheiro químico
Expedito José de Sá Parente, considerado o pai do biodiesel, declarou
recentemente que considera o Tocantins um grande celeiro para o
biocombustível nacional. Em meados de novembro, ele assinou um termo
de cooperação técnica entre o Governo Estadual e a sua empresa, a
TECBIO, para desenvolver estudos e pesquisas na região do Bico do
Papagaio, onde produzirá biocombustível a partir do coco babaçu e de
outras oleaginosas, aproveitando a mão-de-obra das quebradeiras de coco.
Na região do Bico do Papagaio, a empresa de Parente vai implantar
o Sistema Integrado para a Geração de Biodiesel e Alimentos. Os recursos
financeiros para o projeto virão da iniciativa privada e de organizações
não-governamentais, e o Estado do Tocantins entrará com suporte técnico
através das Secretarias da Indústria e Comércio e da Agricultura.
Segundo Expedito Parente, o babaçu foi escolhido pelo grande
manancial de florestas do Estado, que também dispõe da logística
necessária para a implantação do programa. O início da produção do
combustível limpo está previsto para maio de 2008, com a instalação de
um parque industrial na região do Bico do Papagaio e a formação de uma
incubadora de associações.
Além da Brasil Ecodiesel, já em operação no Município de Porto
Nacional, o Estado do Tocantins ganhou uma segunda indústria de
biocombustível. É a empresa Biotins Energia, sediada em Paraíso do
Tocantins, região central do Estado.
A usina, instalada a cerca de 10 quilômetros do perímetro urbano
de Paraíso do Tocantins, vem operando experimentalmente desde o mês
de outubro, com produção de 5 toneladas por dia de biodiesel. Utilizando
o pinhão-manso como principal matéria-prima, conta também com o sebo
bovino, a soja e outras oleaginosas como ingredientes complementares.
A Brasil Ecodiesel, localizada em Porto Nacional, tem capacidade
estimada para a produção de 118,8 mil metros cúbicos de biodiesel por

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 449


ano. Quando utilizar a sua capacidade total, o empreendimento deve gerar
mais de 40 mil postos de trabalho.
Atualmente, mais de 300 famílias tocantinenses produzem
mamona, e outros 6.800 produtores de todas as regiões do Estado já se
cadastraram junto à Secretaria Estadual da Agricultura, Pecuária e
Abastecimento, interessados em produzir a oleaginosa.
Ante tantas perspectivas favoráveis para os investimentos no setor
de biodiesel no meu Estado, gostaria de concluir o meu pronunciamento
registrando o sucesso da participação do Tocantins no Congresso
Internacional de Agroenergia e Biocombustíveis, no Piauí, promovido pela
EMBRAPA Meio-Norte em parceria com os Governos do Tocantins, do
Piauí e do Maranhão. Nele os representantes do Governador Marcelo
Miranda anunciaram a disposição do Governo do Estado de destinar mais
investimentos para a expansão e a instalação de novas usinas de álcool e
de biodiesel no Tocantins.
O Secretário da Agricultura, Roberto Sahium, destacou os aspectos
favoráveis do Estado para o desenvolvimento do setor, como solo, clima
e extensão territorial, além de áreas de pastagens degradadas para a
expansão da agroenergia, sem grandes impactos ambientais.
Quero, portanto, saudar o Governo Marcelo Miranda e sua equipe
pelos esforços realizados para que a inclusão do Tocantins no Programa
Nacional de Produção e Uso do Biodiesel seja plenamente bem-sucedida,
tanto no que diz respeito a sua função social e econômica quanto no que
se refere à sustentabilidade ambiental dos projetos desenvolvidos.
A todos os envolvidos neste programa meus parabéns e os votos
de que o Tocantins realmente se transforme num grande celeiro para
obiodiesel nacional, conforme prognosticou o engenheiro Expedito
Parente.
Obrigado.

450 Alfredo Wagner Berno de Almeida


10) DOMINGOS DUTRA (PT-MA/ 5 Pronunciamentos)

O Sr. Domingos Dutra (PT-MA. Pela ordem. Sem revisão do


orador.) - Sr. Presidente, Sras. e Srs. Deputados, neste final de sessão,
venho fazer 2 registros.
O primeiro diz respeito ao Estatuto dos Garimpeiros. Ontem foi
aprovado, por unanimidade, na Comissão de Constituição e Justiça, o
relatório do Deputado maranhense Flávio Dino. Está, portanto, concluída
a tramitação da matéria nesta Casa. Parabenizo todas as Comissões que
apreciaram o Estatuto, em especial a Comissão de Constituição e Justiça,
e o Deputado Flávio Dino. Também estão de parabéns os garimpeiros
deste País. Felicito particularmente os do Estado do Maranhão. Esperamos
agora que o Senado Federal aprove com a celeridade possível a matéria.
No curso da tramitação do Estatuto, Sr. Presidente, apresentei
algumas emendas, que foram rejeitadas pelo Relator Flávio Dino.
Compreendi as razões do Deputado, decorrentes das limitações da
Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania naquela fase. O que
realmente interessa é que o Estatuto seja aprovado com rapidez no Senado
e sancionado pelo Presidente Lula, que tem compromissos históricos com
os garimpeiros. Precisamos legalizar a atividade desses brasileiros, que
muito têm contribuído para a economia do País, notadamente os das
Regiões Norte e Nordeste. Na região tocantina do Maranhão, Municípios
de Imperatriz, Montes Altos e Açailândia, e na região do Mearim,
principalmente no Município de Bacabal, concentra-se uma boa
quantidade de garimpeiros.
O outro registro, Sr. Presidente, diz respeito a projeto de minha au-
toria referente às quebradeiras de coco do Maranhão, Piauí, Pará, Tocantins,
Goiás e Mato Grosso. O Deputado Lira Maia, do Estado do Pará, Relator
da matéria na Comissão da Amazônia, Integração Nacional e de Desenvol-
vimento Regional, já apresentou parecer favorável ao projeto, sem emen-
das. Espero que a referida Comissão aprove a proposição ainda este ano, de
tal forma que até meados do ano que vem esta Casa já tenha concluído sua

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 451


votação, de grande importância para o meio ambiente e para o desenvolvi-
mento social e econômico do País. Importante para o meio ambiente por-
que há 18 milhões de hectares cobertos de palmeiras de babaçu nesses 6
Estados, em área da Amazônia, e evitar o desmatamento indiscriminado
das matas de babaçu é uma grande contribuição para a preservação do
meio ambiente. Importante para o desenvolvimento social porque 400 mil
mulheres vivem da extração do babaçu - 300 mil só no Maranhão. Não há
nenhuma outra atividade que absorva tanta mão de obra.
E o projeto também é de grande importância econômica. Não
queremos proteger o babaçu e as quebradeiras de coco para manter uma
atividade atrasada, um extrativismo tradicional, com uso de machado e
macete, capazes de extrair diariamente 5 a 7 quilos de babaçu. Queremos
valorizar o potencial econômico do babaçu. Esperamos que os Governos
Municipais, Estaduais e Federal invistam na atividade, a fim de que os
mais de 64 produtos que o babaçu oferece gerem milhões de empregos e
de dividendos para o País.
As quebradeiras de coco do Maranhão já exportam, sem ajuda do
Poder Público, para os Estados Unidos e para a Europa óleo, sabão, xampu
e sabonete. Insisto: não estamos defendendo uma prática atrasada e
rudimentar. Quando lutamos pela valorização de produtos como o babaçu,
o pequi, o bacuri, a juçara, o açaí, pessoas de mentalidade elitista nos
chamam de dinossauros, esquecendo-se de que o extrativismo é um saída
econômica e social viável e gera milhões de empregos.
Sr. Presidente, está de parabéns esta Casa. A população brasileira
precisa saber que trabalhamos muito aqui. Esta Casa produz muito. Todos
os Deputados cumprem tarefas enormes e importantíssimas para o País.
O trabalho em plenário infelizmente nem sempre reflete o volume de
tarefas a que somos submetidos nas diversas Comissões da Casa.
Estão realmente de parabéns a Comissão de Constituição e Justiça
e o Deputado Flávio Dino, Relator do Estatuto do Garimpeiro.
Por fim, agradeço do fundo do meu coração, em nome das
quebradeiras de coco, ao Deputado Lira Maia, do Estado do Pará, que

452 Alfredo Wagner Berno de Almeida


apresentou parecer favorável ao nosso projeto sobre os babaçuais e as
quebradeiras de coco. Espero que, a exemplo destes, tantos outros projetos
que tramitam nesta Casa sejam apreciados com celeridade, para que
possamos melhorar a vida dos brasileiros.
Muito obrigado.
O SR. PRESIDENTE (Eduardo Valverde) - Cumprimento o
Deputado Domingos Dutra por sua preocupação com os garimpeiros e
com as populações tradicionais da Amazônia. As quebradeiras de cocos
são um dos principais segmentos sociais que povoam a nossa rica
Amazônia.

11) O SR. DOMINGOS DUTRA (PT-MA. Pela ordem. Sem


revisão do orador.) - Sr. Presidente, Sras. e Srs. Deputados, representantes
da imprensa, internautas que nos acompanham pela Internet, ouvintes de
A Voz do Brasil, assistentes da TV Câmara, funcionários desta Casa, quero
fazer um registro importante.
A Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável
desta Casa apreciou ontem o Projeto nº 231/2007, de minha autoria,
aprovando-o por unanimidade os seus membros. O projeto trata das
quebradeiras de coco das matas de babaçuais dos Estados do Maranhão,
Piauí, Pará, Tocantins, Goiás, Mato Grosso e parte da Bahia.
Três assuntos importantes estão incluídos na proposta.
O primeiro se refere à preservação ambiental. Há 18 milhões de
hectares de matas nativas de babaçuais nesses 7 Estados, na sua grande
maioria na Amazônia, tão cantada e decantada, que tantas preocupações
causa. Infelizmente, a devastação ambiental é cada vez maior.
A Igreja Católica escolheu como lema da Campanha da Fraternidade
deste ano justamente a defesa da Amazônia. A devastação continua, mas
há várias alternativas para preservar aquele imenso território.
O segundo assunto se refere ao aspecto social. Mais de 300 mil
mulheres vivem da atividade extrativista do babaçu. Desconheço no País
atividade que envolva tantas mulheres de qualidade. Há mais de 4 séculos

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 453


pessoas humildes e simples mantêm a família com esse árduo trabalho.
Não me canso de registrar que sou filho de uma quebradeira de
coco, a D. Raimunda, que vai completar 90 anos de idade no dia 25 de
agosto. Ela teve 20 filhos; criou 14 deles; 6 morreram à míngua, como
morrem tantos nordestinos.
Por último, o aspecto econômico. Não estamos defendendo que as
quebradeiras de coco continuem trabalhando no mato com um machado,
um macete e, às vezes, com uma quarta de farinha para comer com
amêndoas e manter-se durante o dia.
O babaçu pode gerar empregos para milhões de pessoas. Além do
artesanato de boa qualidade, o babaçu produz óleo, xampu, sabonete,
sabão, itens que constam da pauta de exportação do Estado do Maranhão.
O Governador Wellington Dias, do Piauí, tem feito investimentos
nessa área. O babaçu hoje tem grande utilidade. Pesquisas recentes indicam
que é excelente produto para o bioquerosene destinado à aviação comercial.
Portanto, esse projeto contempla os aspectos ambiental, social e
econômico.
Queria registrar a aprovação do projeto e agradecer à Comissão de
Meio Ambiente, em especial ao seu Presidente, natural do Estado do
Pará, e ao Deputado Sarney Filho, do meu Estado, Relator da matéria.
No Maranhão, guerreamos em campos diferentes. Nas últimas
eleições, elegemos para Governador o Sr. Jackson Lago, que disputou o
cargo com a candidata Roseana Sarney. Mas nem por isso deixamos de
agradecer ao Deputado Sarney Filho, que se empenhou na Relatoria do
projeto e, em tempo recorde, deu seu parecer. Posteriormente, acolheu
integralmente as sugestões feitas por 300 quebradeiras de coco que
estiveram nesta Casa.
Parabenizo mais uma vez a Comissão e esta Casa, porque medidas
como esta ajudam a elevar a credibilidade do Parlamento brasileiro.
Muito obrigado, Sr. Presidente.
O SR. PRESIDENTE (José Paulo Tóffano) - Muito bem,
Deputado Domingos Dutra.

454 Alfredo Wagner Berno de Almeida


Também estendemos os nossos cumprimentos à D. Raimunda.

12) O SR. DOMINGOS DUTRA (PT-MA. Sem revisão do


orador.) - Sr. Presidente, Srs. Deputados, Sras. Deputadas, profissionais
da imprensa que acompanha esta sessão, ouvintes do programa A Voz do
Brasil, assistentes da TV Câmara, caros internautas, funcionários da Casa,
Vereadores presentes às galerias deste plenário, as Comissões de Meio
Ambiente e de Direitos Humanos realizaram ontem uma grande audiência
pública conjunta, no Auditório Nereu Ramos.
Durante todo o dia, 300 quebradeiras de coco dos Estados do
Maranhão, Piauí, Pará, Tocantins, Goiás, Mato Grosso e Bahia discutiram
a problemática que enfrentam e apresentaram sugestões para os Poderes
Públicos Federal e Estadual. Também ouvimos Ministros, representantes
de governos de Estado, pesquisadores, estudiosos, Parlamentares da Casa.
Realizamos, ontem, talvez a maior audiência pública deste
semestre. Conseguimos mostrar ao Brasil o rosto dessas guerreiras que
desenvolvem a atividade de extrativismo do babaçu e, graças a esse
trabalho árduo, duro, sofrido, podem sustentar suas famílias e contribuir
para a economia de sua região.
Na audiência, foi debatido o Projeto de Lei nº 231, de 2007, de
minha autoria e relatado pelo Deputado Sarney Filho, que já apresentou
substitutivo favorável à matéria.
Registro desta tribuna para todo o Brasil que o extrativismo do
babaçu é uma atividade viável social, ambiental e economicamente. Sob
o ponto de vista ambiental, a manutenção das quebradeiras nas matas
babaçuais é fundamental para a preservação da Amazônia. Sob o ponto
de vista social, 400 mil mulheres vivem dessa atividade, dali tirando o
seu sustento. E, sob o ponto de vista econômico, o babaçu é matéria-
prima para 64 produtos, do artesanato ao biodiesel, passando pelo
bioquerosene, pelo sabonete, pelo xampu e por uma variedade de alimentos.
Agradeço às Comissões que promoveram a audiência e parabenizo
os Governadores Jackson Lago, do Maranhão, e Wellington Dias, do Piauí,

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 455


e os representantes dos Governos dos Estados de Tocantins e Goiás que
aqui estiveram prestando sua solidariedade às quebradeiras de coco.
Parabenizo as quebradeiras de coco pelo trabalho e agradeço ao
Presidente Arlindo Chinaglia por tê-las recebido. Já estivemos hoje também
com o Ministro Luiz Dulce e com a Ministra Matilde Ribeiro e mais à
tarde estaremos com a Ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, e com
uma Procuradora da República. No início da noite, as quebradeiras de
coco estarão nas galerias deste plenário. Esta Casa pode discutir o
biodiesel, o alumínio, o ferro, mas não pode deixar de lado a economia
dos pequenos, os assuntos que interessam aos de baixo, como é o caso
das quebradeiras de coco.
Muito obrigado.

13) O SR. DOMINGOS DUTRA (PT-MA. Sem revisão do


orador.) - Sr. Presidente, Sras. e Srs. Deputados, imprensa que nos
acompanha, assistentes da TV Câmara, internautas que nos acompanham
pela Internet, senhores ouvintes de A Voz do Brasil e também da Rádio
Câmara, senhoras e senhores funcionários, quero desta tribuna abraçar o
povo brasileiro, o povo maranhense que garantiu o meu retorno à Câmara
Federal e de forma especial a nação petista, que neste momento se encontra
no Estado do Maranhão: 20 mil integrantes do partido estão lá neste
momento, muitos deles assistindo à TV Câmara.
Sr. Presidente, venho, neste Grande Expediente, tratar de 2
assuntos: o primeiro é a reforma política; o segundo, uma audiência que
se realizará amanhã para tratar do babaçu, das quebradeiras de coco e do
Projeto de Lei nº 231/07, de minha autoria, que está tramitando nesta
Casa.
Há muitos anos ouve-se falar da necessidade de reforma política.
Nesta Casa já foram apresentados vários projetos sobre o tema. Os
especialistas afirmam que essa é a principal reforma, a mais importante
de todas, e que o Presidente Lula deveria, no seu primeiro mandato, tê-la
considerado prioritária.

456 Alfredo Wagner Berno de Almeida


Nesta Legislatura, o Presidente Arlindo Chinaglia e o Colégio de
Líderes resolveram colocar a reforma política na pauta. Essa reforma, Sr.
Presidente, é polêmica, é complexa, é difícil, é vasta. Envolve matérias
de natureza constitucional e outras de lei ordinária. Em função da
complexidade do tema, os Líderes escolheram trazer à pauta matérias de
lei ordinária, visando facilitar a aprovação da reforma. Ficou, portanto,
de lado o fim da reeleição, por exemplo. Todos os temas que demandam
mudança na Constituição ficaram de fora: a unificação das eleições, a
unificação dos mandatos, a mudança na eleição de suplente de Senador, a
redução do mandato de Senador, a mudança no cargo de Vice-Presidente,
Vice-Governador etc., o referendo, o plebiscito, todos esses temas ficaram
para depois, dado à sua complexidade e à sua natureza constitucional.
Para a reforma foram escolhidos apenas 5 temas, tratados em lei ordinária,
que exigequorum mais baixo e, portanto, a aprovação torna-se mais fácil.
Os itens selecionados são: fidelidade partidária; fim das coligações;
federações partidárias; financiamento público; e lista fechada, ou
preordenada.
Mesmo assim, a reforma política está na extrema unção, quase
morta - o que eu, pessoalmente, lamento muito.
Há 2 ditados populares que combinam perfeitamente com a
situação atual da reforma política, ajudando a entender por que ela está
quase minguando: primeiro, o de que o inimigo do bom é o ótimo; segundo,
o de que a pressa é inimiga da perfeição.
Creio que a reforma política não chegou a bom termo por alguns
motivos. Vários erros contribuíram para seu fim melancólico. O primeiro
deles é o fato de que se trata de uma reforma sem participação popular.
Nem os partidos conseguiram discutir com seus militantes o conteúdo da
reforma. Apenas as cúpulas partidárias fizeram essa discussão. A base
militante dos partidos sequer se envolveu no processo. A população como
um todo esteve distante da discussão.
Esse vício só podia levar a reforma ao fracasso. Entendo que se a
reforma política é fundamental, se interessa a todos os brasileiros, sem a

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 457


participação popular ela será um fracasso, mesmo se for aprovada. Uma
reforma dessa magnitude deve merecer a mais ampla discussão e
participação do conjunto da sociedade organizada. Uma reforma política
desse porte tem de ser amplamente debatida, inclusive nos meios de
comunicação de massa, para informar, formar e envolver a população no
processo. E isso não ocorreu. As poucas entidades que participaram do
debate, aqui na Comissão Geral, criticaram a falta de participação popular
e os limites dos pontos em debate.
O segundo motivo é a pressa. Os Líderes colocaram o carro na
frente dos bois. Havia uma pressa exagerada. Parecia que o mundo iria se
acabar se não fosse assim. Por conta dessa pressa, os Líderes suprimiram
o debate entre instâncias da Câmara, como a CCJ e outras Comissões que
poderiam aprofundar a discussão; ficaram surdos aos cochichos contrários
que circulavam no interior do Parlamento; promoveram arquivamentos
prematuros; tentaram suprimir o debate em Plenário; atropelaram o
Regimento da Casa. Essa pressa também contribuiu para que a reforma
política não chegasse a bom termo.
O terceiro motivo foi começar a reforma política pelo que há de
mais difícil e polêmico: a lista fechada ou preordenada. Sr. Presidente,
aprendi muito com meu pai, que era lavrador em Saco das Almas. Quando
íamos para a roça e havia 2 eitos de mato, um bom, cheio de rama mole e
rala, com melão de São Caetano, e um ruim, cheio de cansanção, urtiga,
fedegoso e mata-pasto, meu pai dizia que deveríamos começar a capinar
o eito bom, porque, se começássemos a capinar o ruim e deixássemos o
bom para depois, quando terminássemos o eito ruim, o bom já teria ficado
ruim. Foi o que aconteceu aqui. Em vez de começarmos a reforma pelo
que era mais fácil - a fidelidade partidária, o fim das coligações, as
federações partidárias e o financiamento público, nessa ordem -,
começamos pelo eito ruim, pelo tema mais polêmico, mais difícil, que é a
lista. E o que era mais fácil, o eito bom, acabou ficando inviável, ficando
ruim. Por isso a reforma estancou.

458 Alfredo Wagner Berno de Almeida


O quarto motivo foi a intransigência do Relator. Sr. Presidente,
jamais imaginei que um Relator tivesse tanto poder. O Deputado Ronaldo
Caiado concentrou um poder absoluto, resistiu às propostas de mediação,
repudiou a lista flexível, que era uma mediação possível, insistiu na lista
fechada e, quando resolveu flexibilizar, o processo já estava contaminado.
Isso levou a refor ma à bancarrota. Quando resolveu aceitar o
financiamento público para os cargos majoritários, atropelou-se o
Regimento e a reforma deu com os burros n’água, estando agora
inviabilizada.
O Relator foi intransigente ao não aceitar as ponderações, inclusive
do seu partido, o Democratas, que era favorável a que houvesse pelo
menos a lista flexível. Mas o Deputado Ronaldo Caiado não aceitou.
Lamento profundamente o encalhamento da reforma. Fui contra
o método imposto e contra a aplicação da lista fechada de forma autoritária.
Apresentei emenda uma estabelecendo uma fase de transição: a lista
fechada e o financiamento público exclusivo seriam aplicados a partir de
2014, com financiamento público para os cargos majoritários já nas eleições
de 2008, combinado com teto de gastos privados para candidaturas
proporcionais, além de uma campanha educativa para esclarecer, formar
e informar a população. No entanto, o Relator recusou a proposta; quando
a aceitou, já era tarde.
Acho que em uma reforma política desse porte deveria haver uma
fase de transição. Mas o Relator simplesmente radicalizou, concentrou
poderes e evitou que a reforma chegasse de uma maneira mais suave,
pelo menos para ser aprovada.
Concedo o aparte ao Deputado Luiz Couto.
O Sr. Luiz Couto - Deputado Domingos Dutra, todos nós queremos
uma reforma política profunda, e não apenas um arremedo de reforma.
Sabermos que ela só será efetiva quando elegermos uma Constituinte
para tratar da questão. Não podemos continuar dependendo daqueles que
têm mandatos. Há 10 anos fala-se em reforma política na Casa, mas na
hora H não conseguimos convencer os Parlamentares da necessidade de

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 459


discuti-la mais detidamente. Concordo que houve pressa para votar.
Deveríamos ter começado por aquilo que era consensual. O Relator,
entretanto, estabeleceu como primeiro item de discussão a chamada lista
preordenada, ou lista fechada. Alguns diziam que se esse item fosse
retirado votaríamos o contrário. Há aqui um agrupamento de Parlamentares
que não quer reforma política porque o sistema existente os favorece,
mas, a manter-se a situação atual, só serão eleitos aqueles que têm dinheiro
para financiar suas campanhas ou aqueles que têm voto de opinião. O
poder econômico é quem definirá a eleição. Por isso, acho importante
fazermos uma reforma política para valer.
O SR. DOMINGOS DUTRA - Deputado Luiz Couto, incorporo
as suas palavras ao meu pronunciamento. É uma honra ser aparteado por
um Deputado que faz um belíssimo trabalho na Comissão de Direitos
Humanos e Minorias. Aliás, V.Exa. já esteve em meu Estado algumas
vezes, sempre em situações dramáticas, como, mais recentemente, o
assassinato do Prefeito Bertinho, de Presidente Vargas.
Concordo que a reforma política é fundamental, mas ela não pode
ser feita a toque de caixa, por atalhos ou retalhos. Temos de mexer em
temas fundamentais, como o fim da reeleição, a unificação das eleições, a
redução do mandato de Senador e a mudança do critério para eleição de
suplente de Senador. É um escândalo uma Casa tão importante como o
Senado Federal conviver com a figura do Senador sem voto.
Concedo o aparte ao Deputado Mauro Benevides.
O Sr. Mauro Benevides - Nobre Deputado Domingos Dutra, na
Legislatura passada, quando esta Casa ainda não tinha o privilégio de
contar com a participação de um Parlamentar atuante e clarividente como
V.Exa., aprovamos em uma Comissão Especial esse projeto que é objeto
de questionamentos no plenário. O primeiro item do projeto era o
financiamento público de campanha, praticamente aceito por unanimidade
entre aqueles - salvo engano éramos 41 - que compuseram aquela Comissão
Especial, presidida pelo Deputado Alexandre Cardoso, do Rio de Janeiro.
Em uma estratégia utilizada pelos atuais Líderes, houve a inversão daquilo

460 Alfredo Wagner Berno de Almeida


que V.Exa. conceituou ao se referir à sua infância no Maranhão: trocou-
se o caminho mais fácil pelo mais difícil. Se houvéssemos iniciado a
reforma política pela apreciação do financiamento público de campanha,
é bem possível que tivéssemos conseguido aprovar pelo menos esse item
naquela ocasião, mas houve uma diretriz estratégica que privilegiou
exatamente a lista preordenada, o que deu lugar a esses descompassos
que não sei como a opinião pública vai entender. V.Exa. no Maranhão, o
Deputado Luiz Couto na Paraíba, o Deputado Alceni Guerra no Paraná,
o Deputado Uldurico Pinto na Bahia, a Deputada Rose de Freitas no
Espírito Santo e eu no Ceará, como vamos apresentar-nos nos palanques
municipais dizendo que não foi possível aprovar qualquer alteração em
nossa sistemática eleitoral e partidária para vigorar nas eleições do ano
vindouro? Essa será uma increpação que se irrogará à nossa face,
apresentando-nos pelo menos como desidiosos, omissos ou negligentes.
Portanto, V.Exa. tem razões de sobra, porque o melhor caminho, aquele
que seria mais adotado na busca do rumo, conduzir-nos-ia a acertar em
uma inovação qualquer. Não escolhemos esse caminho. Preferimos os
caminhos ínvios que nos levaram a essa desorientação que naturalmente
desprestigia a imagem do Parlamento brasileiro, de forma particular a da
Câmara dos Deputados, onde tramita essa importante proposição. Muito
obrigado.
O SR. DOMINGOS DUTRA - Deputado Mauro Benevides,
incorporo também o seu aparte ao meu discurso. É uma honra ser
aparteado por V.Exa. No Maranhão, no meu povoado, eu já acompanhava
esta Casa e o Senado Federal, e sempre tive admiração, primeiro, pela
coerência de quem permanece em um mesmo partido. A fidelidade
partidária que ora debatemos é algo que fala do caráter, do que está no
íntimo da pessoa. Há 27 anos eu sou filiado ao PT. É muito ruim casar-se
e continuar casado quando não há mais intimidade, não há relacionamento
algum, e o mesmo se aplica ao Parlamentar em relação ao partido. Portanto,
fico orgulhoso de ser aparteado por V.Exa. Com certeza seu aparte vai
enriquecer esta nossa contribuição.

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 461


Concedo também o aparte ao Deputado e ex-Ministro Alceni
Guerra, para depois continuar meu discurso e referir-me ao Senado Federal.
Neste momento o Senado Federal passa por uma crise. Temos de
ter coragem de discutir o papel daquela Casa, o mandato do Senador e do
seu suplente.
Concedo o aparte ao Deputado Alceni Guerra.
O Sr. Alceni Guerra - Deputado Domingos Dutra, a finalidade deste
aparte é dirigir a V.Exa. um elogio e fazer pequena correção, se é que se
pode chamá-la assim. O elogio é este: todos nesta Casa sentimo-nos
orgulhosos quando vemos uma figura como a sua, um batalhador do
Maranhão, Estado cheio de políticos competentes e poderosos, que se
destacou no meio deles e chegou à Câmara, ao mandato de Deputado Federal.
Não fosse apenas por isso, como há poucos dias informei a V.Exa.,
pessoalmente, sinto-me orgulhoso por ver que V.Exa. defende suas idéias
mesmo contra o seu partido, deixando claras as idéias que quer ver discutidas,
debatendo-as antes com o partido, mas, se preciso, enfrentando o PT numa
votação neste plenário. Só quem sofreu por 27 anos num Estado como o
Maranhão poderia ter uma atitude como a de V.Exa., rebelando-se em defesa
de suas idéias, e não por outros interesses, manifestando-se contra a lista
fechada, da maneira como V.Exa. se postou. Mas da mesma maneira como
V.Exa. tem idéias firmes e as defende, sou obrigado a fazer a defesa de
alguém que também tem essa idéia. Sou o único democrata por filiação
aqui, porque democratas somos todos os que nos encontramos neste
Parlamento, mas se o Deputado Ronaldo Caiado, Sr. Presidente Deputado
Uldurico Pinto, teve uma postura que consideramos bastante rígida na
condução da Relatoria, aquelas são as suas idéias - com algumas das quais
o partido, como disse V.Exa., não concordou -, e o Deputado Ronaldo Caiado
sempre foi um homem intransigente em suas idéias, com postura ideológica
definida, o que nós precisamos respeitar, porque S.Exa. passou anos
estudando o assunto. Tentou impor suas idéias tanto quanto V.Exa., que foi
mais feliz do que o Relator quanto ao voto em lista fechada. Então, faço-
lhe estes elogios do fundo do coração, da alma, e faço a defesa do Relator

462 Alfredo Wagner Berno de Almeida


como dever de companheiro de bancada. S.Exa. foi intransigente em muitos
aspectos, mas são as suas idéias.
O SR. DOMINGOS DUTRA - Deputado Alceni, também
incorporo seu aparte ao meu pronunciamento. Sinto-me bastante orgulhoso
de ser aparteado por V.Exa., eu que venho do Maranhão, como referiu
V.Exa., que sou filho de uma família de camponeses. Minha mãe foi
quebradeira de coco e completará 90 anos no dia 25 de agosto, meu pai
era vaqueiro e lavrador. Por isso, ser aparteado por V.Exa., ex-Ministro de
Estado da Saúde, para mim é uma honra, e agradeço o elogio.
A única divergência entre a minha visão e a do Relator refere-se
ao fato de que S.Exa. deveria relatar uma matéria que ia além das suas
idéias. Enquanto seu próprio partido, o Democratas, tinha uma outra
postura, e também o PMDB, o PT, o Relator manteve-se naquela postura
rígida, embora sem má-fé, apenas em nome do trabalho que fez, que
reconheço ter sido exaustivo, mas com isso acabou levando para o beleléu
a reforma política.
Agora, com a derrota quase total, abre-se a oportunidade de uma
reforma política com debates mais profundos, com a discussão de temas
mais amplos e com a participação da população organizada.
Há dezenas de propostas que tramitam nesta Casa que precisam
ser apreciadas.
Neste momento, quero dialogar com quem nos assiste sobre o
mandato de Senador e de suplente de Senador.
A Constituição Federal determina a substituição dos Deputados e
Senadores por suplentes nos casos de vacância definitiva do cargo por
morte, renúncia ou perda de mandato, ou nos casos de afastamento
temporário do titular, por motivos de doença, para tratar, sem remuneração,
de interesses particulares, para exercer cargos de Ministro de Estado,
Governador de Território, Secretário de Estado, do Distrito Federal, de
Território, de Prefeitura de Capital ou de chefe de missão diplomática
temporária.

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 463


Cada uma das duas Casas Legislativas tem regras próprias para a
escolha dos suplentes, refletindo as diferenças dos processos de
recrutamento. Os membros da Câmara dos Deputados, representantes
do povo, são eleitos pelo sistema proporcional, como está previsto no art.
45 da Constituição. Os membros do Senado Federal representam os
Estados e o Distrito Federal, e são eleitos pelo princípio majoritário, nos
termos do art. 46 da Constituição Federal.
A Constituição também determina que cada Senador será eleito
com 2 suplentes. O método adotado para a eleição do Senado é o de
“chapa única”; cada candidato ao Senado concorre com seus 2 suplentes,
implicando sua eleição necessariamente a eleição dos substitutos eventuais
ou definitivos.
Há um grande problema nessa fórmula. O processo de eleição do
Senado oculta para os eleitores os candidatos à suplência, pois seus nomes
não são divulgados durante a campanha. Os suplentes não são votados
diretamente, e permanecem, assim, desconhecidos dos eleitores.
Para a indicação do suplente, prevalecem escolhas de parentes, de
financiadores de campanha, acordos para divisão do mandato e até
empregados. Muitas vezes são empossados suplentes que jamais exerceram
cargos públicos e que não teriam condição alguma de disputar uma cadeira
no Senado.
Nos Estados Unidos, a Emenda Constitucional nº 17, de 1912,
revogou as eleições indiretas para o Senado pelas Assembléias Legislativas,
estabelecendo eleições diretas e convocando nova eleição em caso de
ocorrência de vaga. Somente em alguns casos a Assembléia Legislativa
de cada Estado norte-americano poderá autorizar a autoridade executiva
a proceder a nomeações temporárias enquanto o povo não preencher a
vaga por eleição, enquanto as novas eleições não são realizadas.
No Brasil já foram realizadas eleições para o Senado a partir de
diversas fórmulas. A Constituição de 1891 usava a fórmula da nova elei-
ção para suprir as vacâncias, determinando que “o Senador eleito em
substituição de outro exercerá o mandato pelo tempo que restava ao subs-

464 Alfredo Wagner Berno de Almeida


tituído”. A Constituição Federal de 1946 criou a figura do suplente ligado
ao candidato para o Senado, ao determinar que”substituirá o Senador, ou
suceder-lhe á nos termos do art. 52, o suplente com ele eleito” (art. 60, §
4º). Se não existisse o suplente, caberia ao Presidente da Casa dirigir-se
ao “Tribunal Superior Eleitoral para providenciar a eleição, a menos se
faltasse menos de nove meses para o término do período”. A Constitui-
ção de 1967 determinou que cada Senador seria eleito com seu suplente,
nos termos do art. 43, § 2º.
Em 1977, pela Emenda Constitucional nº 08/1977, foi criada a
figura do segundo suplente. Ao mesmo tempo, foi estendido para as elei-
ções do Senado o mecanismo da sublegenda partidária, permitindo o lan-
çamento de mais de um candidato por partido para cada vaga de Senador,
ficando os candidatos não eleitos transformados em suplentes.
Atualmente, cada candidato a Senador inscreve 2 suplentes que,
no caso de ele ser eleito, serão seus substitutos em caso de vacância.
Esses são Senadores sem voto, desconhecidos dos eleitores; não fazem
parte da campanha, sequer são citados. O eleitor vota em um Senador
que pode entregar o mandato de 8 anos a outro Senador.
Desde a promulgação da Constituição de 1988, vários Senadores
renunciaram ao mandato, tendo sido esse mandato exercido por substitu-
tos que não participaram das campanhas, não tiveram voto algum, e por-
tanto nenhum compromisso assumiram diretamente com o eleitor.
Na 50ª Legislatura, iniciada em 1995, cerca de 58 suplentes exer-
ceram o mandato de Senador.
Na 51ª Legislatura, iniciada em 1999, 63 suplentes ocuparam a
vaga de Senador.
Na 52ª Legislatura, iniciada em 2003, 44 suplentes ocuparam va-
gas de Senadores eleitos.
Na atual Legislatura, 11 suplentes ocupam vagas no Senado Fede-
ral, o que pode subir para 12, caso o Sr. Gim Argelo, suplente do Senador
Joaquim Roriz, venha a assumir o mandato.
Em alguns casos, a recorrência da figura do suplente que assume o

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 465


mandato de Senador é gritante. O Distrito Federal, por exemplo, detém
uma absurda tradição: de 12 Senadores eleitos desde 1986, apenas 3 cum-
priram todo o mandato: Meira Filho, do PMDB, Pompeu de Souza, do PSDB,
e Valmir Campelo, do PTB. Os 9 restantes deixaram o cargo por renúncia,
cassação, morte ou licença para assumir uma cadeira no Executivo.
O repúdio ao suplente sem voto já chegou à sociedade, à grande
mídia e às organizações não-governamentais, dirigindo-se à figura do su-
plente as mais repugnantes expressões, tais como “Senadores clandesti-
nos”, nas palavras do Presidente da OAB, Cezar Britto; “anomalia”,
“excrescência”, “protuberância antidemocrática”, na visão de O Globo;
“voto cego”, segundo o Jornal do Brasil”.
Ultimamente, os indicados a suplentes são preferencialmente pa-
rentes ou financiadores de campanha. Segundo o Jornal do Brasil de 04
de julho de 2007, nesta Legislatura há pelo menos 7 parentes atuando
como suplentes de Senadores, nem todos ainda em exercício. Um é o
suplente do Senador Antonio Carlos Magalhães, filho dele, Antonio Carlos
Júnior, que até já foi suplente antes, e exerceu parte do mandato quando
o pai renunciou em 2001. Outro suplente-parente é Adalgisa Carvalho,
esposa e eventual substituta do Senador Mão Santa, do PMDB do Piauí.
Infelizmente, há outros suplentes-parentes: o ex-Senador Jader
Barbalho teve como primeiro suplente o pai, Laércio Barbalho, e como
segundo suplente Fernando Ribeiro, seu secretário particular e amigo. Os
senadores Edison Lobão, do PFL do Maranhão, e Gilberto Mestrinho, do
PMDB do Amazonas, têm como suplentes seus filhos, respectivamente
Edison Lobão Filho e José Tomé Raposo.
A Associação dos Magistrados do Brasil - AMB lançou uma cartilha
na qual condena o “voto cego”. Um dos destaques dessa publicação é
exatamente o fato de que não há critérios para a escolha dos suplentes; os
indicados são parentes ou financiadores de campanha. A AMB destaca:
“Nesse último caso, podem prevalecer interesses espúrios, como acordos
para a divisão do tempo do mandato. O eleitor não se pronuncia direta-
mente sobre os nomes dos candidatos a suplentes e acaba surpreendido
pela presença deles no Plenário do Senado.”

466 Alfredo Wagner Berno de Almeida


Em março de 2007 apresentei uma proposta de emenda à Consti-
tuição, a PEC nº 25/2007, que, além de obrigar que os suplentes sejam
votados, ainda reduz o mandato de Senador para 4 anos.
É evidente que a importância do Senador Federal para o pacto
federativo e o avanço da democracia impõem a abolição imediata da figura
do Senador biônico. A proposta que apresentamos visa resolver esse
problema. Pela sistemática que buscamos introduzir, cada partido poderá
lançar mais de um candidato para cada vaga de Senador em disputa,
considerando-se vencedora a lista de candidatos que obtiver a maior soma
de votos entre todas as demais listas.
Assim, todos os candidatos da lista estarão contribuindo para o
total de votos a serem obtidos pelo partido ou coligação. A lista mais
votada será considerada eleita e, ao mesmo tempo, teremos 2 suplentes
que passaram pelo crivo da vontade popular manifestada nas urnas, isto
é, o 2º e o 3º colocados da lista, o que lhes conferirá a legitimidade
necessária para o exercício do mandato eletivo.
Além de solucionar o grave problema da falta de representatividade
dos suplentes, a iniciativa pode ser uma ótima solução para os acordos
entre partidos coligados em uma disputa eleitoral ao Senado. Os partidos
A, B e C, quando coligados, podem lançar 3 candidatos para cada vaga, o
que contemplaria a possibilidade de cada um dos candidatos pertencerem
a partidos diferentes, sendo que todos contribuiriam para o somatório de
votos final da lista. Com essa alteração - sei que não é a única -, evitaremos
a existência de Senador sem votos.
Como pode, na democracia, alguém exercer mandato sem voto? É
uma deformação! A população brasileira entende que não pode mais existir
essa figura de suplente. Se esta Casa não tiver a coragem de pelo menos
enfrentar esse problema, não fará reforma política nenhuma. É um absurdo!
Essa situação desmoraliza a representação política. Sei que no PT há
suplente, e reafirmo o importante papel do Senador Sibá Machado; nada
pessoal, mas não podemos mais conviver com esse tipo de figura

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 467


Ao mesmo tempo, propomos a redução do mandato de Senador
para o período de 4 anos, o mesmo do Presidente da República,
Governadores de Estado, Deputados Federal, Distrital e Estadual,
Prefeitos e Vereadores. Em nosso entendimento, a duração do mandato é
um dos principais instrumentos disponíveis ao eleitor para controlar o
desempenho de seu representante. Mandatos muito longos acabam
afastando demasiadamente o Senador da vontade expressa pelo eleitor de
seu Estado. Se reduzirmos esse prazo pela metade, estaremos aumentando
sobremaneira os instrumentos pelos quais a população poderá avaliar a
atuação de seu Senador.
Não consigo compreender por que o mandato de Senador tem de
ser de 8 anos. É um privilégio em relação aos demais cargos eletivos. O
Brasil, ao lado da França e do Chile, é um dos poucos países com mandato
de Senador tão longo. Talvez por isto o saudoso Darcy Ribeiro tenha
afirmado que o Senado é um céu. Nos demais países o mandato de Senador
é de 4, 5 ou 6 anos. Alguns exemplos: nos Estados Unidos é de 6 anos; na
Colômbia, de 4 anos; na Itália, de 5 anos; na Espanha, de 4 anos; no
Paraguai, de 5 anos.
Uma reforma política que realmente prime pela seriedade e pelo
enfrentamento de questões problemáticas não pode deixar de cuidar da
questão do Senado Federal, de sua função, da redução do mandato dos
Senadores e da legitimidade das suplências dos Senadores, suprimindo a
figura do Senador sem voto, bem como garantido efetiva legitimidade a
que lá chega.
O segundo tema diz respeito a uma audiência pública a ser realizada
amanhã, no Auditório Nereu Ramos, a requerimento meu, por 3 Comissões:
de Direitos Humanos, de Meio Ambiente e de Amazônia e
Desenvolvimento Regional. O objetivo é discutir o Projeto de Lei nº 231/
07, de minha autoria, que trata da proteção das palmeiras do babaçu, da
transformação dos babaçuais em reserva extrativistas e da importância
das quebradeiras de coco.

468 Alfredo Wagner Berno de Almeida


Amanhã estarão nesta Casa 300 quebradeiras de coco, 150 vindas
do Maranhão, 50 do Piauí, 50 do Pará e 50 do Tocantins, 300 mulheres
que vivem do babaçu, que sustentam suas famílias, que ajudam a economia
regional.
Cerca de 400 mil mulheres brasileiras vivem da atividade do
babaçu, uma palmeira que muitos não conhecem, e que cobre 18 milhões
de hectares dos Estados do Maranhão, Piauí, Pará, Tocantins e Goiás.
Do babaçu extrai-se uma infinidade de produtos, dos quais
destacamos a palha, que serve para fazer vários apetrechos utilizados
pelas comunidades camponesas, como cofo, tiracolos, abanos, esteiras e
produtos artesanatos. A palha serve também para cobrir e tapas as
residências dos trabalhadores. O palmito é um excelente alimento. Do
coco extrai-se uma dezenas de produtos e subprodutos. O mesocarpo é
um excelente alimento humano e para animais. O endocarpo serve como
carvão para siderurgia. Da amêndoa extraem-se também vários produtos,
como o leite usado como condimento de alimentos, o óleo usado para
produzir sabão, xampu, sabonetes e outros tantos.
Vou mostrar a V.Exas. e aos telespectadores o que é o babaçu. A
palmeira produz um cacho com cerca de 300 a 400 cocos. (O orador
exibe o fruto do babaçu.) O babaçu possui muitos formatos. Da casca
originam-se vários produtos, inclusive o biocombustível. Ao retirarmos
sua casca vemos o mesocarpo, uma pasta dura da qual se produz um
excelente alimento para adultos e crianças, que inclusive que pode ser
usado na merenda escolar. (O orador exibe o mesocarpo.) Em seguida,
vemos o endocarpo, do qual se produz o carvão, um excelente produto
para o biodiesel e o gás.
O babaçu é quebrado manualmente com um machado, porque o
Estado nunca investiu na modernização de seu manejo. Existem dentro
da fruta 4 a 6 amêndoas. (O orador exibe as amêndoas.) Da amêndoa faz-
se sabão, sabonete, xampu, leite e o óleo que gera biodiesel.
Convido os Srs. Parlamentares e a imprensa para assistirem a essa
audiência pública, que contará com a participação de vários Ministros,

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 469


Governadores, Procuradores da República, antropólogos e quebradeiras
de coco, que hoje são lideranças, Vereadoras e quilombolas. Elas ficarão
aqui até quarta-feira, quando ocuparão as galerias para chamar a atenção
dos Parlamentares.
Os Deputados e Senadores precisam compreender que o
Parlamento não pode olhar apenas para os grandes; tem de olhar para os
pequenos - as quebradeiras de coco, os mototaxistas, os agentes
comunitários da saúde, os garimpeiros, aqueles que não são vistos, mas
que ajudam a alimentar a economia do País.
Trata-se de uma reunião importante, em primeiro lugar porque é a
primeira vez, neste semestre, que participarão de uma reunião 300 mulheres,
e em segundo lugar porque são mulheres que vivem de uma atividade
muito dura, sofrida, e que ajudam a sustentar milhares de famílias, a gerar
emprego e a ampliar a economia regional.
Ratifico, portanto, o convite para essa audiência pública que se
realizará amanhã no Auditório Nereu Ramos. V.Exas. poderão conhecer e
comprar abano, cofo, tiracolo, esteira, sabão, sabonete, xampu, leite e óleo.
O dinheiro da venda desses produtos vai ajudar essas mulheres a voltarem
para seus Estados.
Espero que esta Casa receba com respeito o clamor dessas
guerreiras, que ajudam com o seu trabalho duro e honesto a construir este
País.

Todos estão convidados.


Justiça faz-se na luta.
Muito obrigado.

O SR. PRESIDENTE (Uldurico Pinto) - Parabenizo o nobre Deputado


Domingos Dutra, lutador incansável em defesa das quebradeiras de babaçu e
autor da obra Quem aluga seus olhos não dorme a hora que quer.

470 Alfredo Wagner Berno de Almeida


14) O SR. DOMINGOS DUTRA (PT-MA. Sem revisão do
orador.) - Sr. Presidente, Sras. e Srs. Deputados, imprensa que nos
acompanha, ouvintes do programa A Voz do Brasil, internautas que nos
acompanham, senhoras e senhores funcionários desta Casa, inicialmente
quero convidar os Deputados e as pessoas que estão nos ouvindo para a
audiência pública que será realizada no próximo dia 10, terça-feira, pelas
Comissões de Direitos Humanos e Minorias e de Meio Ambiente e
Desenvolvimento Sustentável, a requerimento de minha autoria, para
discutir o problema das quebradeiras de coco dos Estados do Maranhão,
Piauí, Tocantins, Goiás e Pará, bem como o Projeto de Lei nº 231, de
2007, de minha autoria, e o projeto do Deputado Moisés Avelino, do
PMDB do Tocantins, a ele apensado.
A essa audiência pretendemos trazer 300 mulheres de 4 Estados
que produzem babaçu: 150 do Maranhão, 50 do Piauí, 50 do Pará e 50 do
Tocantins. Queremos discutir a viabilidade social e ambiental da exploração
do babaçu e as perspectivas tecnológicas e econômicas para o produto.
Para que V.Exas. tenham ideia, o babaçu ocupa uma área de 10
milhões de hectares nesses cinco Estados. São 400 mil mulheres que vivem
dessa atividade econômica. Além de produtos artesanais, o babaçu produz
um óleo que tem uma infinidade de utilidades, como a produção de xampu,
sabão e alimentos variados. E as últimas pesquisas indicam que o babaçu
é excelente para a produção do biodiesele do querosene utilizado na
aviação comercial.
Com essa audiência esperamos dar visibilidade não apenas a uma
atividade econômica viável, mas também a essas centenas de milhares de
brasileiras que vivem dessa atividade dura, mas que sustenta as suas
famílias e a economia dessas regiões do País.
Nessa audiência esperamos contar com a presença do Dr. Luiz
Dulci, Secretário-Geral da Presidência da República; da Ministra Marina
Silva, do Meio Ambiente; da Ministra Nilcéa Freire, da Secretaria Especial
de Políticas para as Mulheres; da Ministra Matilde Ribeiro, da Secretaria
Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial; do Governador

QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU: UM SÉCULO DE MOBILIZAÇÕES E LUTAS 471


do Maranhão, Jackson Lago; da Governadora do Pará, Ana Júlia Carepa;
de Maria Alaíde Alves de Souza, Vereadora de Largo do Junco; de
Cledeneuza Bezerra, do Movimento de Quebradeiras de Coco Babaçu do
Estado do Maranhão; da Dra. Déborah Duprat, Sub-Procuradora Geral
da República; do Ministro Sergio Rezende, da Ciência e Tecnologia; do
Ministro Guilherme Cassel, do Desenvolvimento Agrário; do Governador
do Tocantins, Marcelo Miranda; do Governador do Piauí, Wellington Dias;
do Prof. Alfredo Wagner, antropólogo; de Maria Adelina Sousa Chagas,
do Movimento Interestadual de Quebradeiras de Coco do Maranh