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A HISTORIA DA

FÍSICA
Da filosofia ao en igm a
da m atéria n egra

A HISTÓRIA DA

FÍSICA
Anne Rooney

^ Í B ooks
M.Books do Brasil Editora Ltda.

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Dados de Catalogação da Publicação

ROONEY, Anne - A História da Física

2013 - São Paulo - M.Books do Brasil Editora Ltda.

1. História 2. História da Física 3. História Geral

ISBN: 978-85-7680-217-4

Do original: The Story of Physics


Original publicado por Arcturus Publishing Limited
ISBN original: 978-1-84837-796-1

© 2011 Arcturus Publishing Limited


© 2013 M.Books do Brasil Editora Ltda.

Editor: Milton Mira de Assumpção Filho


Tradução: Maria Lúcia Rosa
Produção Editorial: Beatriz Simões Araújo
Coordenação Gráfica: Silas Camargo
Editoração: Crontec

2013
M.Books do Brasil Editora Ltda.
Proibida a reprodução total ou parcial.
Os infratores serão punidos na forma da lei.
Direitos exclusivos cedidos à
M.Books do Brasil Editora Ltda.
Para o meu pai, Ron Rooney, que me in troduziu às m aravilhas
da ciência. Feliz aniversário de 80 anos - e obrigada.
A g ra d e c im e n to s

Com agradecimento especial ao D . Adrian Cuthbert, por sua


experiência em Física, a M ary Hoffman, Shah Hussain, Sue
Frew e Jacqui McCary pelo apoio menos específico, mas não
menos essencial. Agradeço também ao meu tolerante e paciente
editor, Nigel Matheson.
Sumário

A g ra d e c im e n to s ..7

INTRODUÇÃO
O livro d o u n iv e rso ............................... 16

O nascimento da Física............................... 16
Do empirismo ao experimento................... 18
A revolução científica.................................. 20
Sociedades científicas.................................. 21
A melhor ferramenta científica - o cérebro 23

CAPÍTULO 1
A m ente se so b re p õ e à m a t é r ia ............ 25

O primeiro físico?......................................... 26
As sementes da matéria....................... .26
A mente animando a matéria............. .26
Tudo se transforma.............................. .28
Partes indivisíveis................................. .28
Coisas e não coisas.............................. .29
Matéria atômica e elementar.......... 30
Quatro - ou cinco - elementos .30
SUMÁRIO

■ M-M-Mudanças........................................................................... 31
Atomismo indiano........................................................................ 32
Atomismo islâmico........................................................................33
Dos átomos aos corpúsculos........................................................ 34
Dos cospúsculos de volta para os átomos...................................35
A idade da Razão.......................................................................... 35
O nascimento da física do estado sólido............................................ 36
Átomos e elementos............................................................................. 39
Tudo em proporção......................................................................40
Átomos - verdadeiro ou falso?.....................................................42
Os átomos são divisíveis?............................................................. 43

CAPÍTULO 2
Fazendo a luz tra b a lh a r - Ó p t ic a .........................................45

Uma olhada na lu z............................................................................... 46


Brincando com a luz.....................................................................47
A luz de Deus................................................................................48
Saindo do escuro..................................................................................51
Por meio de um vidro translúcido.............................................. 53
Pressão no éter............................................................................. 53
O senhor da luz: Isaac Newton....................................................54
Micrografia de Hooke...................................................................56
Onda ou partícula?.......................................................................57
Frentes de onda e quanta.................................................................... 58
O experimento de dois orifícios de Young................................. 61
Uma nova aurora - a radiação eletromagnética................................ 61

10
SUMÁRIO

O fim de um éter: o experimento de Mich elson-Morley.............62


Com a velocidade da luz................................ ..............................67
Objetivo e verdadeiro............................. .70
O lugar da luz no espectro EMR............ .71

CAPITULO 3
M a s s a em m o v im e n to - M ecânica. .73

Mecânica em ação............................ . 74
A mecânica dos gregos antigos .75
O problema da dinâm ica................. . 77
O experimento do túnel........... .79
O verdadeiro nascimento da mecânica clássica................................ 80
O experimento da bola de Galileu...........L...................................81
Parar e começar........................................ 84
O mestre fala............................................. 85
Movimento e gravidade............................ 85
O universo como campo de testes............................................... 85
Ar e água............................................................ 86
Da água para o mercúrio.......................... 88
Dinâmica dos fluidos................................. 88
Juntando fluidos e massa........................... 89
Colocando a mecânica parafuncionar.......... ..................................... 89
Colocando a mecânica newtoniana em uma nova posição........90
Inércia e gravidade vêm juntas............... ..................................... 91
Grande e pequeno .91

11
CAPÍTULO 4
E n e rgia c a m p o s e f o r ç a s ......................................................93

A conservação de energia......................................................................94
Inventando a "energia"................................................................. 94
Lutando com o fogo...................................................................... 95
Termodinâmica.......................................................................................98
As leis da termodinâmica............................................................. 100
Zero absoluto............................................................................... 103
Calor e luz............................................................................................. 103
Radiação do corpo negro e quanta de energia...........................104
Outras formas de energia............................................................105
Descobrindo a eletricidade..................................................................106
Pipas e trovões............................................................................. 107
Eletricidade na moda................................................................... 108
Pondo a eletricidade para funcionar...........................................109
Esperando nos bastidores: magnetismo..................................... 110
Eletromagnetismo - o casamento da eletricidade com o
magnetismo.......................................................................................... 111
Alvorada de uma nova era magnética.........................................112
Mais ondas............................................................................................ 114
Radiação.......................................................................................116
Procuram-se - átomos................................................................. 119

CAPÍTULO 5
D e n tro d o á t o m o ...... 121

Dissecando o átomo 12 2
Pudins de passas e sistemas solares .122

12
O modelo saturnino................................J................................... 124
Quantum solace............................................... f...................................126
Luz inteligente.........................................i................................... 127
Outro momento newtoniano.................1................................... 129
Onda ou partícula?.................................. j...................................1 30
Podemos estar certos?.............................1................................... 1 33
A interpretação de Copenhagen.............j...................................1 34
Um gato em uma caixa...........................;...................................1 34
Muitos universos..................................... l ...................................1 35
Embaralhamento quântico: o paradoxo Einstein-Podolsky-Rosen ..
135
A busca por mais partículas atômicas...... ..................................1 37
Juntando tudo........................................... ..................................1 38
As coisas desmoronam.......................................................................1 39
Aproveitando a reação em cadeia.................. j...................................141
O fim do átomo clássico.................................. J.................................. 142
Matéria e antimatéria................................ 144
Partículas fantasmas................................ J ...................................145
A última partícula perdida....................... 147
Partículas das estrelas............................... 149

CAPÍTULO 6
T e n tan d o a lcan ça r as e stre la s............................................ 151

Estrelas e pedras..................................................................................152
Primeiros observadores das estrelas............................................152
Da observação ao pensamento.......................................................... 154
Hiparco - o maior astrônomo da antiguidade?.........................155

13
SUMÁRIO

As esferas de Ptolomeu................................................................ 157


Para dentro e para fora da escuridão.........................................158
Astronomia árabe.........................................................................158
A grande estrela convidada.........................................................162
A Terra se move - novamente............................................................ 163
Tudo muda...................................................................................165
Johannes Kepler (1571 -1630)..................................................... 167
Dois por um: os astrônomos em Praga...................................... 167
O invisível torna-se visível....................................................................169
Galileu, mestre do universo................................................................ 1 71
Cruzando espadas com Deus........................................................... 172
Catalogando os céus............................................................................1 74
Vendo cada vez mais................................................................... 1 75
Longe, muito longe..............................................................................1 76
Colocando cometas em seu lugar.................................................... 176
O cometa Halley na história............................................................. 178
Espectroscopia - uma nova maneira de ver.....................................179
Examinando o vazio.....................................................................182
Listras das estrelas........................................................................184
A vida secreta das estrelas...................................................................185
Ouvindo o vazio...........................................................................186
Quasares - poderosos e remotos................................................ 190
Para cima, para cima, e longe......................................................190

CAPÍTULO 7
E sp aço -te m p o c o n t in u a n d o ............................................... 193

Uma breve história do tempo............................................................. 194

14
SUMÁRIO

Amanhã e amanhã e amanhã................. ................................... 194


Unindo espaço e tempo..........................L..................................196
Tudo é relativo......................................................................................196
Bem longe e há muito tempo.................. 198
De volta ao início............................................. ..................................199
Fora do caos................................................................................. 199
O universo moderno................................................................... 200
Do ovo cósmico ao Big Bang.............................................................. 202
Quantas estrelas?.........................................................................204
O universo observável................................................................. 204
Quantos universos?..................................................................... 205
Tudo montanha abaixo a partir daqui........................................ 205

CAPÍTULO 8
Física para o f u t u r o ........................................................... 207

Descartando tudo e começando de novo.... !................................... 208


Isto é tudo?.............................................. 208
Energia escura.............................................................................. 209
Onde mais procurar pela matéria?................................................... 211
Separando o joio do trigo?..........................................................212

ín d ic e ................................................................................ 214

15
INTRODUÇÃO

O LIVRO
DO UNIVERSO
“O livro do Universo não pode ser apenas 4% do universo, os outros 96% são
entendido sem primeiro se aprender a um mistério a ser revelado.
compreender o alfabeto que o compõe.
Ele é escrito em linguagem matemática, O n ascim e n to d a Física
e seus caracteres são triângulos, círculos Antes do desenvolvimento do método ex­
e outras figuras geométricas, sem perimental, os primeiros cientistas - ou os
as quais é humanamente impossível “filósofos naturais”, como eram chamados
entender uma única palavra dela; sem
eles, fica-se vagando em um labirinto
escuro.”

Galileu, O Ensaiador, 1623

física é a ciência fundamental qne

A constitui a base para todas as ou­


tras, a ferramenta com a qual ex­
ploramos a realidade; visa a explicar como o
universo funciona, das galáxias às partículas
subatômicas. Muitas de nossas descobertas
sobre o mundo físico representam o auge da
realização humana. A História da Física tra­
ça a trajetória das tentativas da humanidade
em ler o livro do universo, aprendendo e
usando a linguagem da matemática descrita
pelo cientista renascentista Galileu Galilei A galáxia de Andrômeda é a mais próxima de
(1564-1642). Também revela como nosso nossa Via Láctea: a física tenta explicar tudo, do
conhecimento é ínfimo - a física trata de início dos tempos ao fim do universo.
INTRODUÇÃO

Os padrões, formas e
números que estruturam o
mundo natural são assunto
da física.

- aplicaram a razão ao
que viam em volta de­
les e chegaram a teorias
para explicar suas obser­
vações. Como os corpos
celestes parecem se mo­
ver pelo céu, por exem­
plo, muitos de nossos
antecessores concluíram
que a Terra está no cen­
tro do universo e tudo
gira em torno dela.
Os poucos que pen­
savam diferente tinham
de chegar a bons argu­
mentos para refutar a
solução de senso comum,
e durante 2000 anos eram a minoria, sendo causas dos fenômenos observados. Os gre­
muitas vezes ridicularizados ou mesmo per­ gos antigos são as primeiras pessoas que
seguidos. conhecemos que tentaram substituir as
Muitas superstições e crenças religiosas explicações místicas e supersticiosas por
têm raízes na explicação do mundo obser­ outras, baseadas na observação e na razão.
vado. O Sol nasce porque atravessa o céu A primeira pessoa a tentar explicar o mun­
por um condutor sobrenatural, por exem­ do natural sem recorrer à crença religiosa
plo. A ciência, por outro lado, esforça-se pode ter sido Tales, mas o primeiro cientis­
para encontrar a verdadeira natureza e as ta verdadeiro talvez tenha sido o pensador

TALES DE MILETO (c. 624 a.C. - c. 546 a.C.)


A primeira pessoa que podemos chamar de cientista e filósofo viveu há mais de 2.500 anos
no território onde atualmente temos a Turquia. Tales estudou no Egito e credita-se a ele a
chegada da matemática e da astronomia à Grécia. Considerado um dos Sete Sábios da Gré­
cia Antiga, ele era reputado como dotado de uma inteligência extraordinária, podendo ter
ensinado os filósofos Pitágoras e Anaximander. Tales sugeriu que existe uma causa física, e
não sobrenatural, para todos os fenômenos no mundo que nos rodeia, e assim começou a
buscar as causas físicas que determinam como as coisas se comportam. Como nenhum de
seus escritos sobreviveu, é difícil avaliar sua verdadeira contribuição.
INTRODUÇÃO

grego Aristóteles (384-322


RACIOCÍNIO INDUTIVO E DEDUTIVO
a.C.), que se apoiava total­
O raciocínio dedutivo é um método "de cima para baixo"
mente no empirismo. Ele
exemplificado na abordagem de Platão. O cientista ou fi­
acreditava que pela obser­ lósofo constrói uma teoria, desenvolve uma hipótese para
vação e a medição cuidado­ testá-la, faz observações e confirma (ou refuta) a hipótese.
sas, entendemos as leis que O raciocínio indutivo começa com a observação do mun­
governam todas as coisas. do e prossegue para obter uma explicação, identificando-
-se um padrão para depois propor uma hipótese que o
Aristóteles foi aluno de Pla­
explique, passando para uma teoria geral. Os métodos
tão (c. 428-347 a.C.) e seguiu de Aristóteles eram indutivos. O cientista Isaac Newton
uma trajetória dedutiva (veja (1642-1727) e o raciocínio indutivo têm lugar no pensa­
o box), acreditando que ape­ mento científico.
nas a razão não bastava para
permitir que a humanidade
desvendasse os mistérios do universo. Aris­ Embora não propusesse experimentos,
tóteles acreditava no “raciocínio indutivo”, Aristóteles defendia a investigação completa
ou seja, a lógica que funcionava a partir da de tudo que tinha sido escrito anteriormen­
observação do mundo. Ele iniciou um mé­ te sobre um determinado tópico (uma aná­
todo científico. lise literária, em termos modernos), obser­
vação e medidas experimentais seguidas do
emprego de raciocínio para se chegar a uma

£aleõ conclusão.
Os gregos foram os primeiros a dividir a
ciência em disciplinas diferentes. A grande
biblioteca na Alexandria produziu o primei­
ro catálogo de biblioteca, que foi essencial
para o tipo de crítica literária que Aris­
tóteles propôs como parte de qualquer
investigação.

D o e m p irism o ao
ex p e rim e n to
Com o fim do período helénico (o
auge da civilização grega clássica), o
uso do método científico para enten­
der o mundo natural declinou até o
surgimento da ciência árabe no século
7 d.C. O brilhante Ibn al-EIassan Ibn
al-Haytham (965-1039) desenvolveu

Um retrato medieval de Tales.

18
INTRODUÇÃO

fosse uma forma de vasculhar os caminhos


"Eu prefiro encontrar a verdadeira causa de
um fato a me tornar rei dos persas." de Deus e uma tentativa de violar os misté­
Demócrito (c. 450-c.370a.C), filósofo. rios sagrados. As atividades que um cientista
muçulmano fervoroso (ou prudente) pode­
ria desenvolver eram restritas. O entusias­
mo pelo trabalho científico que fora abafado
um procedimento parecido ao método ex­ pelos filósofos naturais do Islã depois seria
perimental moderno. retomado pelos estudiosos medievais da Eu­
Ele começava pelo enunciado de um pro­ ropa cristã.
blema, depois testava sua hipótese por meio A ciência árabe e os trabalhos de Aris­
de experimentos, interpretava os resultados tóteles fluíram para a Europa traduzidos
e chegava a uma conclusão. Ele adotou uma para o latim no início da Idade Média. Os
atitude cética e questionadora, e reconhecia escritores da Renascença do século XII
a necessidade de um sistema de medidas e começaram a integrar o método científico
investigação controlado rigorosamente. embrionário em seus estudos e a cultivá-lo,
Outros cientistas árabes contribuíram para mas no início não desafiaram as autorida­
isso. Abu Rayhan al-Biruni (973-1048) tinha des clássicas. O frei franciscano Roger Ba­
ciência de que os erros e noções tendencio­ con (c. 1210-C.1292) foi um dos primeiros
sas podiam ser causados por instrumentos a duvidar da aceitação dos escritos dos an­
imprecisos ou observadores falhos. Ele re­ tigos sem que estes fossem questionados, e
comendava que os experimentos fossem re­ defendia que as ideias estabelecidas fossem
petidos várias vezes e os resultados fossem reexaminadas. Ele visava particularmente
combinados para a obtenção de um resul­ a Aristóteles, cujas ideias em muitas áreas
tado confiável. O médico Al-Rahwi (851 -
934) introduziu o conceito da revisão pura,
sugerindo que os médicos documentassem O MÉTODO CIENTÍFICO
seus procedimentos e os tornassem disponí­ O método científico empregado, de modo
veis para outros médicos de igual postura - geral, hoje segue as seguintes etapas:
embora sua principal motivação fosse evitar
• Enunciado de um problema ou questão.
a punição pela má prática. Geber (Abu Jabir,
Este pode ser então afunilado para algo
721-815) foi o primeiro a introduzir experi­ que possa estar sujeito a experimenta­
mentos controlados no campo da química, ção ou a um conjunto de experimentos.
e Avicenna (Ibn Sina, c. 980-1027) declarou • Enunciado de uma hipótese.
que a indução e a experimentação deveriam • Concepção de um experimento para
testar a hipótese. O experimento deve
formar as bases da dedução. Os cientistas ser um teste adequado, com variáveis
árabes valorizavam o consenso e tendiam a controladas (fixas) e uma variável inde­
descartar ideias marginais que não fossem pendente (a condição que será variada).
apoiadas pelos outros. • Execução do experimento, fazendo-se e
No entanto, acontecimentos no Islã aca­ registrando-se observações e medições.
• Análise dos dados.
baram prejudicando as pesquisas dos cien­ • Apresentação das conclusões, sendo es­
tistas árabes. Questionar o mundo passou a tas submetidas à análise dos pares.
ser visto como uma blasfêmia, como se isso
INTRODUÇÃO

eram aceitas como verdade bíblica, reco­ A revolução científica


mendando que as conclusões de Aristóteles Embora Bacon fosse o primeiro a formu­
fossem testadas. Sem dúvida, Aristóteles lar o método, uma abordagem semelhante
aprovaria a aplicação de métodos empíricos à experimentação já tinha sido adotada por
para reavaliar e questionar seus próprios Galileu. Galileu foi um grande proponente
escritos. Em suas investigações científicas, do raciocínio indutivo, percebendo que a
Bacon seguia como padrão a formulação de evidência empírica de um mundo comple­
uma hipótese com base em observações e xo nunca corresponderia à pureza da teoria.
a execução de um experimento para testar Não é possível levar em conta todas as variá­
a hipótese. Ele repetia seus experimentos veis em um único experimento, ele afirma­
para se certificar dos resultados e docu­ va. Por exemplo, ele acreditava que suas ex­
mentava seus métodos meticulosamente, periências com a gravidade nunca removiam
de modo que eles pudessem ser analisados os efeitos da resistência do ar ou do atrito.
por outros cientistas. Ele chamava a experi­ Entretanto, padronizar métodos e medidas
mentação de “vexação da natureza”. Dizia: significa que um experimento executado re­
“Aprendemos mais com a vexação ardilosa petidamente, talvez por pessoas diferentes,
da natureza do que o faríamos pela obser­ podería produzir um conjunto de resultados
vação paciente”. a partir dos quais as conclusões gerais po­
Outro Bacon, o advogado e filósofo in­ deriam ser extrapoladas. Galileu acreditava
glês Francis Bacon (1561-1626), propôs no método experimental a ponto de arriscar
uma nova abordagem à ciência, a qual pu­ sua reputação em uma demonstração públi­
blicou em 1621 em Novum Organum Scien- ca para apresentar um argumento em 1611.
tianim (O Novo Organon das Ciências). Ele e um professor rival em Pisa discutiram
Ele acreditava que os resultados de expe­ sobre como a forma de objetos do mesmo
rimentos pudessem ajudar a discernir teo­ material (e, portanto, com a mesma densi­
rias conflitantes e ajudar a humanidade a se dade) afetava sua capacidade de flutuar na
aproximar da verdade. Ele defendia o racio­ água. Galileu desafiou o professor a uma
cínio indutivo como a base do
pensamento científico. Ba­ Dizem que Bacon teria morrido após conduzir um expe­
con instaurou o processo de rimento para produzir o primeiro frango congelado em
1626. "Quando [o senhor Francis Bacon] estava tomando
observação, experimentação,
ar em uma carruagem na companhia do Dr. Witherborne
análise e raciocínio induti­ (um médico), a caminho de Highgate, nevou, e meu se­
vo que é considerado com nhor pensou, 'por que a carne não poderia ser conservada
frequência como o início do na neve, como no sal'. Eles decidiram tentar a experiên­
método científico moderno. cia. Desceram da carruagem e foram até a casa de uma
mulher pobre na base de Highgate Hill, compraram um
Seu método começa com um
frango e fizeram a mulher tirar-lhe as tripas, então enche­
aspecto negativo - livrar a ram o corpo com neve, e meu senhor ajudou a fazer isso.
mente de “ídolos” ou noções A neve esfriou tanto seu corpo que ele adoeceu imediata­
preconcebidas - e evoluir mente... [Ele contraiu] uma gripe tão forte que em dois ou
para um aspecto positivo que três dias, conforme lembro de Mr. Hobbes ter me dito, ele
faleceu sufocado."
envolva a exploração, a expe­
john Aubrey, Brief Lives (Vidas Breves).
rimentação e a indução.

20
INTRODUÇÃO

demonstração pública, dizendo que ele iria O Lincei foi uma aventura muito pes­
defender os resultados do experimento; o soal, e quando Cesi morreu em 1630, ele
professor não apareceu. logo se dividiu. Foi sucedido pela Academia
de Experimento em Florença, fundada em
Sociedades científicas 1657 por dois ex-alunos de Galileu, Evan­
O interesse crescente pela ciência deu ori­ gelista Torricelli (1608-1647) e Vincenzo
gem a sociedades científicas espalhadas Viviani (1622-1703). Esta também durou
pela Europa a partir do século 17. Estas pouco, fechando após dez anos em 1667; na
deram encaminhamento a conversas, ex­ época o centro de desenvolvimento cien-
perimentações e o desenvolvimento cien­
tífico. A primeira delas foi a Accademia
dei Lincei, formada por Federico Cesi, um
rico florentino com grande interesse pela
ciência. Embora tivesse apenas 18 anos,
Cesi acreditava que os cientistas deveriam
estudar a natureza diretamente, em vez de
se guiarem pela filosofia aristotélica. Os
primeiros membros da academia viviam
comunitariamente em uma casa de Cesi,
onde ele lhes fornecia livros e um labora­
tório totalmente equipado. Os integrantes
incluíam o físico holandês Johannes Eck
(1579-1630), o acadêmico italiano Giam­
battista della Porta (c. 1535-1615) e - o
mais famoso - Galileu Galilei. No apo­
geu, a academia tinha 32 membros
espalhados pela Europa. A aca­
demia estabeleceu como seus
objetivos em 1605 “adquirir
conhecimento de coisas e
sabedoria... e apresentá-
-los pacificamente aos ho­
mens, sem qualquer prejuí­
zo”. Apesar disso, o grupo foi
acusado de magia negra, de se
opor à doutrina da Igreja e de
viver escandalosamente.

Robert Boyle quando jovem.

21
INTRODUÇÃO
'

MICROGRAPHIA:
O it SOME
Theological Vefcriptím

minute ' bodies


MAGNIFYING GLASSES

By R. HOOKE, Frilow of lhe R o m S o c u u

Micrografia, de
Robert Hooke,
revelou detalhes
mínimos sobre a
vida pela primeira
vez.

da aprendizagem experimental físico-ma­


temática”. A sociedade planejava reunir-se
semanalmente para acompanhar experi­
Não existe nenhum retrato contemporâneo de mentos e discutir tópicos científicos, sen­
Robert Hooke. Havia um retrato dele na Royal do Robert Elooke (1635-1703) o primeiro
Society em 7710, mas conjectura-se que New- curador de experimentos. No início apa­
ton o teria destruído. rentemente sem nome, o nome The Ro­
yal Society aparece impresso pela primeira
tífico mudou-se da Itália para a Inglaterra, vez em 1661, e no Segundo Estatuto Real
França, Alemanha, Bélgica e Países Baixos. de 1663 a Sociedade é referida como “The
A maior das sociedades científicas foi a Royal Society of London for Improving
Royal Society of London (Sociedade Real Natural Knowledge” (A Sociedade Real de
de Londres). Embora fundada oficialmente Londres para o Aprimoramento do Conhe­
em 1660, suas origens estão em uma “fa­ cimento Natural). Foi a primeira “socieda­
culdade invisível” de cientistas que come­ de real” existente. Começou a adquirir uma
çaram a se encontrar para discussões em biblioteca em 1661 e então um museu de
torno de 1640. Em sua fundação, havia 12 espécimes científicos, e ainda tem slides
membros, entre eles o arquiteto inglês Sir microscópicos de Hooke. Depois de 1662,
Christopher Wren (1633-1723) e o quí­ a sociedade recebeu alvará para publicar
mico irlandês Robert Boyle (1627-1691). livros, e um dos primeiros dois títulos foi
O discurso de abertura de Wren falou em M icrographia, de Hooke. Em 1665, a Royal
fundar uma “faculdade para a promoção Society lançou a primeira edição de Philo­
sophical Transactions, agora o periódico im­
presso mais antigo.
"Galileu, talvez mais do que qualquer outra pessoa, foi A Royal Society seguiu-se rapi­
responsável pelo nascimento da ciência moderna." damente a Académie des Sciences
Stephen Hawking, cosmologista inglês, 2009. em Paris, em 1666. Os membros

22
INTRODUÇÃO

da Académie não precisavam


ser cientistas, e, em certo mo­
mento, Napoleão Bonaparte
foi presidente. Grandes reali­
zações científicas tornaram-se
rapidamente motivo de orgulho
nacional e rivalidade internacio­
nal, principalmente para a Re­
pública Francesa e a França de
Napoleão.

A m e lh o r fe rram e n ta
científica - o cérebro
Sem recursos para equipamen­
tos e sem realizar experimentos, Aristóteles O pêndulo de Foucault no Panteão, Paris, for­
chegou a modelos para a natureza da maté­ neceu uma demonstração contundente de que a
ria e o comportamento de corpos em dife­ Terra gira em torno de seu eixo.
rentes condições que funcionavam de acor­
do com o que já se conhecia. No início do cálculos que levariam vidas inteiras em um
século XX, o físico Albert Einstein (1879- passado não tão distante.
1955) revolucionou a Física e a visão cientí­ Mas por trás de todos os avanços na
fica do universo usando apenas caneta e pa­ ciência, são a inventividade e a curiosidade
pel. Assim como Aristóteles, ele trabalhou dos seres humanos que impulsionam o pro­
a partir de observações do universo para gresso, tanto nas universidades e laborató­
desenvolver teorias, lidando com fenôme­ rios de pesquisa de hoje quanto nas acade­
nos que não podiam na época ser realmente mias ao ar livre da Grécia Antiga.
investigados por experimentação ou mesmo
por medição.
Ao contrário de Aristóteles, no entanto,
e seguindo uma prática iniciada por New-
ton em 1687, Einstein fez uso rigoroso da
matemática para apoiar seus argumentos e
mostrar que seu sistema funcionava com o
que já era conhecido. Ele fez previsões que
desde então foram corroboradas por obser­
vação e experimentação. Cálculos matemá­
ticos consideráveis geralmente são aplicá­
veis para testar um novo modelo em física
nos dias atuais, e nesse sentido os físicos
modernos têm vantagem sobre as gerações
anteriores. Agora eles possuem computado­
res que lhes permitem executar rapidamente Microscópio de Robert Hooke.
CAPÍTULO 1

A mente se
sobrepõe
À MATÉRIA

É difícil imaginar, quando se olha para um objeto só­


lido, que ele é composto de muitas partículas minús­
culas e de muito espaço vazio. E ainda mais estranho
quando paramos para pensar que as próprias partícu­
las são mais espaço que matéria. A ideia de que a ma­
téria não é contínua, e mesmo que ela contém muito
espaço vazio - que é uma descrição adequada da teo­
ria atômica moderna -, foi sugerida pela primeira vez
por volta de 2.500 anos atrás. Mesmo assim, a teo­
ria atômica só foi aceita pela maioria dos cientistas
há pouco mais de um século. Durante grande parte
desse intervalo de tempo, o conceito foi desacredi­
tado e até mesmo ridicularizado.

Céres e os Quatro Elementos, por Jan Brueghel o Velho,


1568-1625.
A MENTE SE SOBREPOE A MATERIA

O p rim e iro físic o ?


"Nada virá do nada."
As origens da “filosofia natural” - ou da Rei Lear, Ato I, Cena 1
ciência, como a chamamos hoje - prova­
velmente residem, como é comum na cul­
tura ocidental, na Atenas antiga. A primeira
doce-azedo. Haveria sempre a mesma quan­
pessoa a quem podemos chamar de físico é
Anaxágoras, que viveu no século 5 a.C. Na tidade de cada propriedade no total. As se­
época, quando a lógica estava iniciando, ele mentes seriam principalmente de matéria
tentou encaixar uma miríade de observações orgânica (sangue, carne, casca, pele).
e os resultados de experimentos em uma es­ Anaxágoras acreditava que qualquer
trutura lógica que lhe permitisse entender e porção de matéria, independentemente do
explicar a natureza do mundo. Anaxágoras quanto fosse pequena, continha todas as
buscou uma visão do universo material em propriedades (ou materiais) possíveis. Isso
que a superstição ou a intervenção divina significa que ela deve se dividir infinitamen­
não tivessem nenhum papel, um esquema te. As propriedades que predominam são
em que tudo pudesse ser explicado com ra­ evidentes e dão à substância suas caracterís­
cionalidade - um verdadeiro modelo cien­ ticas observáveis, enquanto outras são laten­
tífico. Ao se limitar a tipos de matéria que tes. Logo, uma árvore tem mais casca que
pudessem ser percebidos, Anaxágoras esta­ pele, mas ainda tem um pouco de cada - só
beleceu um padrão para os físicos lidarem não tem o suficiente para que sua pele seja
com o mundo físico visível que duraria qua­ notada. Isso explica como qualquer subs­
se 2.500 anos. tância pode ser feita de qualquer outra, uma
vez que requer simplesmente proporções
A S SEM ENTES DA M ATÉRIA diferentes de todas as propriedades (ou ma­
Para Anaxágoras, o aspecto essencial do teriais) para formar a nova substância.
mundo natural era a mudança. Ele via
tudo em constante movimento, uma coisa se A MENTE ANIM ANDO A M ATÉRIA
transformando em outra em um ciclo infin­ Anaxágoras tinha um ingrediente adicional
dável. A matéria, dizia ele, não podia existir para juntar ao cadinho, e este era a inteli­
do nada e nem parar de existir, uma cren­ gência, ou nous. Ele não acreditava que a inte­
ça que ele compartilhava com os primeiros ligência estivesse presente em toda matéria,
pensadores, Tales de Mileto e Parmênides mas apenas em coisas animadas (vivas ou
(c. 515-C.445 a.C.). Essa mesma crença foi conscientes). Porém a inteligência tinha um
apresentada bem mais tarde pelo quími­ papel adicional: no início de todas as coisas,
co francês Antoine Lavoisier (1743-94) na não se distinguia substâncias diferentes na
lei da conservação da massa (veja a página matéria; era apenas uma pilha homogênea
40). Além disso, ele afirmava que toda ma­ de partículas ou lama que se organizavam
téria era composta dos mesmos ingredien­ em matéria “própria” pelo princípio mental.
tes fundamentais - propriedades essenciais Isso soa terrivelmente como criação
e talvez “sementes” de substâncias básicas. por uma entidade divina, e Anaxágoras foi
As propriedades sempre existiriam em pares irredutível em não querer superstição nem
opostos, como quente-frio, claro-escuro e religião em seu relato do mundo. A “men-

26
O PRIMEIRO FÍSICO?

ANAXÁGORAS (C. 500-C.430 A.c.)


Nascido na Jônia, na costa oeste da atual
Turquia, Anaxágoras mudou-se para Atenas
aos 20 anos, onde entrou imediatamente
nos círculos intelectuais mais altos. Ele se
tornou companheiro e instrutor de Péricles,
governante político de Atenas no auge do
poder da cidade (454-41 3 a.C ). Anaxágo­
ras ensinou e escreveu um tratado sobre fi­
losofia natural que mais tarde foi usado pelo
filósofo grego Sócrates (469-399 a.C.). Sua
fama espalhou-se por toda parte, seu apre­
ço pela vida intelectual e desinteresse pelos
prazeres carnais e sociais tornaram-se tão
famosos quanto seus ensinamentos. Anaxá­
goras era tão dedicado à vida mental que de 30 anos, e pouco se sabe de sua vida a
negligenciou tudo o mais e deixou que sua partir de então. Morreu em Lâmpsaco, na
considerável herança se perdesse. costa de Dardanelo, por volta dos 70 anos,
Apesar de ser a maior figura intelectual mas sua influência continuou durante um
de Atenas, ele se mudou da cidade depois século após a morte.

No esquema de Anaxágoras, um objeto natural como um texugo mistura sementes que incluem pele,
sangue e osso com nous ou "inteligência". Um objeto inanimado compartilha as mesmas sementes
em diferentes proporções, mas não possui "mente".

27
A MENTE SE SOBREPÕE À MATÉRIA

te” dele não era um criador inteligente, mas T udo se transforma


um tipo de elemento inspirador que desen­ Anaxágoras concebeu um modelo em que a
cadeava as forças físicas que faziam girar a matéria não podia ser criada nem destruída,
matéria elementar, fazendo-a se separar, se mas no qual a mutabilidade do mundo à nos­
diferenciar e formar corpos como a Terra e sa volta é explicada transformando-se a maté­
o Sol. E difícil ser exato quanto ao papel da ria ao longo do tempo. Se uma árvore é cor­
mente, uma vez que não se tem mais o texto tada e a madeira é transformada em barco, a
completo de Anaxágoras. No entanto, Pla­ matéria mudou e se reorganizou, mas con­
tão relata que Sócrates comprou uma cópia serva o mesmo tipo e quantidade (contando
do trabalho de Anaxágoras por pensar que o barco, sobras e o pó de serragem). Outras
esta contivesse uma explicação que envolve transformações exigem reorganizações mais
uma concepção da inteligência, e se desa­ profundas: atear fogo em uma árvore, por
pontou. exemplo, produz cinza, vapor d’água e fu­
maça que não são semelhantes à madeira.
Como todo objeto contém, em proporções
diferentes, todos os tipos possíveis de matéria
e qualidades, existe sempre o potencial para
cada tipo de matéria ser derivada de qualquer
objeto - portanto, uma planta poderia cres­
cer do solo, por exemplo, reorganizando-se
ou extraindo tipos de matéria.
Anaxágoras percebeu que para que isso
ocorresse, as partes constituintes da maté­
ria (sementes) deveriam ser extremamente
pequenas; caso contrário as transformações
que vemos diariamente não seriam possí­
veis. Os componentes da matéria teriam de
atender ao requisito de serem infinitesimal-
mente pequenos, e isso impôs problemas in­
superáveis ao modelo.

P artes indivisíveis
A palavra “átomo” vem do termo do grego
clássico “átomos”, que significa inseparável
ou indivisível. A sugestão de que tudo é fei­
to de partículas minúsculas indivisíveis tem
suas origens no século 5 a.C. com o trabalho
de Leucipo, e depois com seu aluno Demó-
crito. Sabe-se muito mais sobre Demócrito
(c. 460-C.370 a.C.) do que sobre Leucipo, a
Quando uma árvore queima, seus constituintes ponto de o filósofo grego Epicuro (341-270
se reorganizam radicalmente. a.C.) duvidar da existência de Leucipo. E

28
O PRIMEIRO FÍSICO?

impossível dizer que parte do modelo atô­ problemas insuperáveis para os pensadores
mico veio de Leucipo. O atomismo sustenta gregos que viveram posteriormente e levou
que o universo abrange matéria formada de o modelo atômico ao marasmo do qual ele
partículas minúsculas, indivisíveis, existen­ não saiu durante 2.000 anos.
tes num vazio. Os átomos de qualquer subs­
tância são do mesmo tamanho e formato, e C oisas e não coisas
feitos do mesmo material. Até aqui o atomismo soa muito parecido ao
Se os átomos são partículas homogêneas modelo de Anaxágoras; no entanto, para ele,
{homeomerias) minúsculas, existe uma questão toda matéria flutuava no ar ou aether (veja
óbvia: por que eles não podem ser ainda mais a página 32), que é uma substância física,
divididos? Se Demócrito tinha uma resposta, enquanto para os atomistas a matéria existia
esta não sobreviveu. Pode ser que os átomos, em um vácuo. Demócrito (ou Leucipo) foi
sendo homogêneos, não tenham vazio interno o primeiro a postular o vácuo, embora a ne­
(enquanto pedaços maiores de matéria têm es­ cessidade de um vácuo fosse evidente para a
paço entre os átomos), e isso, em si, significa matéria se mover: em um universo cheio de
que eles não podem ser divididos. matéria, cada parte de espaço já estaria ocu­
Existe um paradoxo inato, também, em pada de modo que não pudesse ser ocupada
um modelo de matéria composto de partí­ por algo mais que se movesse dentro dele.
culas infinitesimais. O que Anaxágoras quis Quando algo se move, não só muda para
dizer com infinitesimal era que as partículas um espaço vazio, mas também deixa espaço
eram menores do que qualquer medida ar­ vazio para trás. Enquanto os primeiros pen­
bitrariamente pequena, mas maiores do que sadores negavam a existência de um vácuo
zero. Mesmo assim, ele acreditava que todo (“o que não é”), Demócrito contou com a
objeto guardasse um número infinito de evidência de nossos sentidos - sabemos que
partículas, pois por menor que fosse a por­ as coisas se movem - para estabelecer o vá­
ção que ele tomasse, sempre haveria um cuo como um conceito válido. Além disso,
pouco de cada tipo de matéria. Se os átomos podemos ver que o universo é composto de
ou sementes não têm extensão no espaço muitas coisas (ele tem pluralidade), enquan­
(tamanho zero), então mesmo um número to se não houvesse espaço vazio, toda maté­
infinito deles não poderia compor matéria ria seria contínua. A pluralidade e a mudan­
de tamanho finito. Esse dilema apresentou ça exigem um vácuo.

HOMEOMERIAS
Anaxágoras, e mais tarde os pensadores gregos, distinguiam substâncias que eram homeô-
meras (homogêneas) e aquelas que não eram. Uma substância homeômera é aquela em
que todas as partes são como um todo. Logo, uma pepita de ouro é homeomeria porque
não importa o quanto seja pequena, ela ainda tem as propriedades de uma grande pepita
de ouro. Uma árvore ou um navio não são homeômeros, pois podem ser divididos em par­
tes que possuem características diferentes. Para o olhar moderno, as homeomerias são os
elementos e os compostos químicos puros.

29
A MENTE SE SOBREPÕE À MATÉRIA

ARISTÓTELES (384-322 a.c.) de Delfos. Ele se tornou o melhor e o mais


Aristóteles nasceu em Stageira, Macedônia, famoso discípulo de Platão. Em 342 a.C ,
mas ficou órfão muito cedo. Mudou-se para Aristóteles voltou para a Macedônia e tor­
Atenas por volta dos 18 anos de idade para nou-se tutor de Alexandre, o filho de Filipe II
estudar com Platão, na academia dele, se­ da Macedônia, que mais tarde se tornou
guindo conselhos a ele dados pelo Oráculo Alexandre, o Grande. Aristóteles retomou o
trabalho de todos os primei­
ros pensadores gregos e então
construiu suas próprias visões
com base nos aspectos que
ele considerava corretos, ex­
pandindo-os. Ele escreveu so­
bre quase todos os assuntos,
inclusive Física. Seus ensina­
mentos foram preservados por
acadêmicos árabes e foram re­
tomados na Europa traduzidos
para o latim nos séculos XII
e XIII. As ideias científicas de
Aristóteles dominaram a ciên­
cia ocidental até o século XVIII.

M a té ria a tô m ic a e ele m e n tar terra, água, fogo e ar. Esse modelo foi retra-
Para a mentalidade moderna, os átomos e ele­ balhado e defendido por Aristóteles, talvez
mentos são parte do mesmo modelo do uni­ o maior e mais influente pensador da histó­
verso. Os elementos são substâncias químicas ria do ocidente.
puras, cada uma composta de átomos idênti­ Platão renomeou os quatro “elementos
cos; logo, todo o ouro são átomos de ouro, e principais” e Aristóteles usou esse termo.
todo o hidrogênio são átomos de hidrogênio. Cada elemento é caracterizado por duas pro­
Os compostos, no entanto, contêm átomos priedades dos contrários naturais - quente-
de dois ou mais elementos; logo o dióxido de -frio e úmido-seco. Logo, a terra é fria e seca,
carbono abrange átomos de carbono e oxi­ a água é fria e úmida, o ar é quente e úmido,
gênio, por exemplo. Nas teorias antigas da e o fogo é quente e seco. Essas propriedades
matéria, contudo, os átomos e os elementos também formaram a base do modelo de saú­
pertencem a modelos diferentes. de e doença conl base nos quatro humores
propostos por Hipócrates (c. 460-C.377 a.C.)
Q uatro - ou cinco - elementos ou sua escola, que perdurou até o século XIX.
Empédocles (c. 490-C.430 a.C.) ensinava De acordo com a teoria elementar, toda
que tudo é formado por quatro “princípios”: matéria ocupa naturalmente um campo que

30
NjSE
N .

MATÉRIA ATÔMICA E ELEMENTAR

é associado a seus elementos e a O cobre, um metal que


matéria é atraída para seu campo brilha, é composto apenas
natural. A terra ocupa a posição de átomos de cobre.
Cristais azuis do sulfato de
mais baixa e o fogo a mais alta, cobre, um composto, são
com a água e o ar entre os dois. formados de átomos de
Isso explica alguns tipos de mo­ cobre, enxofre e oxigênio.
vimento no mundo físico: obje­
tos pesados caem no chão porque
a terra é seu elemento principal; a fumaça
contém fogo e ar, que ocupa os campos su­
periores, por isso ela sobe. Uma vez que um
elemento está em seu lugar natural, ele não
se moverá a não ser que algo cause esse mo­
vimento.
Além dos quatro elementos, existe um
quinto elemento muito diferente (ou “quin­
tessência”), chamado “éter”. O conceito de
um “éter” nunca desapareceu, embora fosse Embora o modelo atomista de Demócri-
considerado ou desconsiderado ao longo de to fosse, de fato, muito próximo da realidade
milhares de anos (veja a página 32). entendida hoje, foi a ideia preferida por Em-
pédocles, Platão e Aristóteles, de um mundo
formado de quatro elementos, que acabou
sendo mais aceita. Quando os pensadores
árabes do início da Idade Média retomaram
e desenvolveram o pensamento da Grécia
Clássica, esse modelo elementar foi levado
adiante. De lá ele foi traduzido para o latim
e então para outras línguas europeias; ele foi
o marco do pensamento sobre a natureza da
matéria durante mais de 2.000 anos.

M -M -M udanças
Enquanto Parmênides não conseguiu expli­
car as mudanças e os atomistas afirmavam
que o vazio permitia que a matéria mudasse,
Aristóteles afirmou que todas as mudanças
ocorrem como transformação entre os esta­
dos. Isso envolvia ’’transformar-se e voltar
ao estado natural” - novamente uma ver­
são da conservação de massa. Logo, para se
Desenho alegórico dos quatro elementos em um
manuscrito do século XII.

31
MENTE SE SOBREPÕE À MATÉRIA

tornar uma estátua, um bloco de pedra ou A tomismo indiano


bronze deixava de ser um bloco e se tornava Os gregos não foram os únicos pensadores
uma estátua. Para se tornar um homem, um a chegar a um tipo de teoria atômica. Os
menino deixava de ser criança. Cada coisa filósofos indianos também sugeriram que
mutável tem o potencial para algo mais, e a matéria pode ser composta de partículas
esse potencial é percebido ao mudar. Então minúsculas. Não está claro se os gregos ou
ele perde seu potencial para se tornar e ad­ os indianos derivaram essa teoria primeiro,
quire “realidade”. e se eles o desenvolveram independente­
mente ou uma tradição influenciou a ou­
tra. O filósofo indiano Kanada (Kashyapa)
pode ter vivido no século VI ou no século
O ÉTER: 2.500 ANOS DE UM
MEIO NÃO DETECTÁVEL
II a.C. (não há concordância entre os histo­
O éter, ou quintessência, aparece primeiro riadores). Se a data mais antiga for correta,
como o quinto elemento no pensamento o atomismo de Kanada é anterior à tradição
grego antigo. Este é o elemento dos céus grega, e pode tê-la influenciado.
e não faz parte da matéria terrestre. Foi A teoria dos átomos de Kanada com­
considerado o âmbito natural dos deuses, plementou a teoria elementar uma vez que
sendo imutável e eterno. Pensava-se que se ele propôs cinco tipos diferentes de átomo,
movia apenas em círculos, uma vez que um para cada um dos cinco elementos que
um círculo é a forma perfeita. Diferenças compunha o modelo indiano da matéria -
em densidades no éter eram considera­ fogo, água, terra, ar e éter, o mesmo que no
das como responsáveis pela existência dos modelo de Aristóteles. Os átomos - ou pa-
corpos celestes. O grande filósofo e ma­ ramanu - são atraídos uns para os outros e
temático francês René Descartes (1596- todos se agrupam. Uma partícula diatômica,
1650) pensava que a visão era possível dwinuka, possui propriedades pertencentes
porque a pressão exercida no éter era a cada componente; estas então se agrupam
transferida para o olho. O conceito de éter em aglomerados triatômicos que se pensava
foi retomado no século XIX pelo cientista serem os menores componentes visíveis da
escocês James Clerk Mxwell (1831-1879) matéria. A variedade e as propriedades di­
para explicar o transporte de luz e outras ferentes da matéria respondem pelas com­
formas de radiação eletromagnética. binações e proporções diversas dos cinco
O físico holandês Hendrik Lorentz tipos de paramanu. Na versão do atomismo
(1853-1928) desenvolveu uma teoria de de Kanada desenvolvida pela escola de Vai-
um meio eletromagnético abstrato entre sesika, os átomos podiam ter uma combina­
os anos de 1892 a 1906, mas quando Al- ção de 24 propriedades possíveis. Mudan­
bert Einstein publicou sua teoria especial
ças químicas e físicas na matéria acontecem
da relatividade em 1905, ele descartou o
quando o paramanu se recombina.
éter de uma vez.
Ao contrário dos filósofos gregos, Kana­
Mais recentemente, vários cosmolo-
da acreditava que os átomos podiam surgir
gistas propuseram um tipo de éter que
ou deixar de existir instantaneamente, mas
inunda o cosmos, talvez ligado à matéria
escura.
não podiam ser destruídos por meios físicos
ou químicos.

32
MATÉRIA ATÔMICA E ELEMENTAR

KANADA (KASHYAPA) foi um tipo de alquimia (veja a página 36).


O filósofo hindu Kanada nasceu em Gujarat, Ele propôs uma teoria atômica da matéria,
índia. De acordo com a tradição, seu nome que concebeu quando estava andando en­
original era Kashyapa, mas quando criança quanto comia e atirava pequenas partículas
ele recebeu o nome Kanada (de Kana, que de comida. Diz-se que ele percebeu que não
significa grão) pelo sábio Muni Somashar- podia continuar a dividir a comida em pe­
ma, por conta de seu fascínio pelas coisas daços sempre menores, mas que isso deve
minúsculas. Sua principal área de estudo ocorrer com os átomos indivisíveis.

A teoria do atomismo de Jain data do sé­ te que lhes permite se ligarem. Os átomos
culo I a.C. ou antes. Ela vê o mundo todo, podiam se combinar para produzir qualquer
com exceção das almas, como composto de um de seis “agregados”: terra, água, som­
átomos, cada qual tendo um tipo de gosto ou bra, objetos dos sentidos, matéria kármica e
cheiro, uma cor e dois tipos de característi­ matéria imprópria. Havia teorias complexas
ca ao toque. Os átomos de Jain ficavam em sobre como os átomos se comportavam, rea­
movimento constante, geralmente em linhas giam e se combinavam.
retas, embora pudessem seguir uma trajetó­
ria curva se atraídos a outros átomos. Havia A tomismo islâmico
ainda um conceito de carga polar, com partí­ Se as teorias indiana e grega foram as pri­
culas tendo uma característica suave ou for­ meiras, ambas foram trazidas pelos primei­
ros estudiosos islâmicos. Os ensinamentos
dos gregos antigos sobreviveram no Império
Romano Oriental (Bizantino) e foram reto­
mados pelos primeiros estudiosos árabes que
os traduziram e comentaram. Havia duas
formas principais de atomismo islâmico, uma
mais próxima do pensamento indiano e a ou­
tra, do aristotélico. A que teve mais sucesso
foi o trabalho Asharite de al-Ghazali (1058-
1111). Para al-Ghazali, os átomos são as úni­
cas coisas materiais eternas; tudo o mais dura
apenas um instante e é considerado “aciden­
tal”. As coisas acidentais não podem ser a
causa de qualquer coisa, exceto a percepção.

Al-Ghazali era Asharite - uma seita que acreditava que


a razão humana não podia estabelecer verdades sobre o
mundo físico sem a revelação divina.

33
A MENTE SE SOBREPÕE À MATERIA

Alguns anos mais tarde, o filósofo islâ­ um alquimista islâmico do século VIII, em­
mico de origem espanhola Averroes (Ibn bora os textos não fossem realmente tradu­
Rushd, 1126-1198) rejeitou o modelo de ções dos trabalhos de Geber.) Pseudo-Geber
al-Ghazali e comentou longamente sobre propôs que todos os materiais físicos têm
Aristóteles. Averroes foi muito influente no uma camada interna e outra externa de cor­
pensamento medieval posterior e foi fun­ púsculos. Ele acreditava que todos os metais
damental para que a academia cristã e judia fossem feitos de corpúsculos de mercúrio e
absorvesse o pensamento aristotélico. enxofre em proporções diferentes. Ele apoia­
Muito do trabalho árabe foi traduzido va essa crença na alquimia (veja o box, página
para o latim no início da Idade Média, in­ 36), pois esta significava que todos os metais
troduzindo o pensamento clássico grego tinham os ingredientes necessários para se
na Europa. Os ensinamentos de Aristóteles tornar ouro - eles só precisavam se refinar
eram adotados pela Igreja Católica sempre adequadamente ou serem reorganizados.
que não contradissessem diretamente a Bí- Algo parecido à visão de Pseudo-Geber
bilia ou os pensadores cristãos influentes. era descrito por Nicholas de Autrecourt (c.
Por essa via, eles formaram os fundamentos 1298-C.1369). Autrecourt fez o debate fer­
dos modelos científicos e filosóficos acei­ ver em Paris, na época o centro intelectual
tos que foram correntes no Ocidente até a da Europa, acerca de divisibilidade ou indi­
Renascença, quando pensadores europeus visibilidade de um continuum. Essa questão
finalmente começaram a questionar e a che­ surgiu da declaração de Aristóteles de que
car os ensinamentos dos antigos. um continuum não pode ser formado de par­
tículas indivisíveis. Ele acreditava que toda
D O S ÁTOM OS AO S CORPÚ SCULOS matéria, espaço e tempo fossem compostos
No século XIII, um alquimista anônimo de átomos, pontos e instantes, e que toda
chamado Pseudo-Geber deu início a uma mudança é o resultado da reorganização de
teoria da matéria baseada em partículas átomos. Várias visões de Autrecourt eram
minúsculas, às quais
chamou de “corpúscu-
los”. (O nome estranho
“Pseudo-Geber” vem
por ele assinar seus tra­
balhos como Geber, que
era a forma latinizada do
nome Jabir ibn Hayyun,

Debate imaginário entre


o Averroes aristotélico
(à esquerda) e o filósofo
neoplatônico Porfírio, que
morreu 800 anos antes do
nascimento de Averroes.

34
MATERIA ATÔMICA E ELEMENTAR

ofensivas à igreja e ele teve de Pierre Gassendi era proponente do


se retratar depois de ser jul­ corpuscularianismo.
gado em 1340-1346. Para
ele, todo movimento
era inerente no obje­ outros sentidos, a teoria que
to movente (à medida ele publicou em 1649 era sur­
que o movimento é preendentemente exata. Ele
reduzido a moção de pensava que as propriedades
partículas). A visão de da matéria fossem produzidas
que a matéria é gra­ pelas formas dos átomos, que
nular, e formada de os átomos podiam se juntar em
instantes distintos, não moléculas e que eles existiam
foi aceita por pensadores em um vazio enorme - de modo
posteriores. que a maior parte da matéria fosse,
Uma variante do atomis- na verdade, não matéria. A visão de
mo inicial tornou-se popular no Gassendi não era tão influente quanto de­
século XVII e teve o apoio do químico irlan­ veria ter sido porque Descartes, muito mais
dês Robert Boyle, do filósofo francês Pierre influente, se opunha diretamente a ela, ne­
Gassendi (1592-1655) e de Isaac Newton, gando taxativamente que pudesse haver um
entre outros. Conhecido como “corpuscula- vazio. No entanto, Gassendi e Descartes
rianismo”, diferia do atomismo no sentido de concordavam sobre um ponto: ambos acre­
que os corpúsculos não precisam ser indivi­ ditavam que o mundo fosse essencialmente
síveis. De fato, os proponentes da alquimia mecanicista e seguisse as leis da natureza.
(inclusive Newton) usaram a indivisibilidade Robert Boyle trouxe o atomismo nova­
dos corpúsculos para explicar como o mer­ mente à voga alguns anos após a morte de
cúrio podia se insinuar entre as partículas de Gassendi. Em 1661, ele publicou The Scep-
outros metais, preparando terreno para suas tical Chymist, descrevendo um universo for­
transmutações em ouro. Os corpuscularianos mado totalmente por átomos e aglomerados
sustentavam que nossas percepções e expe­ de átomos, todos em movimento contínuo.
riências do mundo à nossa volta resultam das Boyle propôs que todos os fenômenos são
ações de partículas minúsculas de matéria so­ resultado de colisões entre átomos em mo­
bre nossos órgãos do sentido. vimento, e fez um apelo aos químicos para
que investigassem elementos, pois ele sus­
Dos COSPÚSCULOS DE V O LTA PARA OS peitava da existência de mais elementos do
ÁTOM OS que os quatro identificados por Aristóteles.
O anatomismo só reviveu plenamente
quando Pierre Gassendi propôs uma vi­ A I dade da R azão
são cética do mundo em que tudo o que Idade da Razão é o nome dado em geral
acontecia se dava por causa do movimento ao período que começa por volta de 1600
e da interação de partículas minutas que se­ quando o clima filosófico da Europa e das
guiam as leis naturais. Gassendi excluiu os novas colônias na América era de confiança
seres pensantes de seu esquema, mas, em no esforço humano. Ela deu continuidade

35
A MENTE SE SOBREPÕE À MATÉRIA

ao florescimento do otimismo e realização enquanto o racionalismo favoreceu as abor­


iniciados na Renascença, e concluiu a mu­ dagens matemática e filosófica. Porém não
dança da visão depreciativa ou humilde da existe uma divisão clara entre as duas, uma
humanidade como pecadores imperfeitos vez que as conclusões a que se chegou por
que predominou na Idade Média para uma dedução racional costumam ser passíveis de
visão que celebrava os feitos e o potencial testes por métodos empíricos. Juntas, essas
humanos. A Idade da Razão impulsionou abordagens formaram as bases da revolução
e foi impulsionada pelos desenvolvimentos científica. O desenvolvimento do método
na ciência, tecnologia, filosofia, pensamento científico, um dos triunfos da Idade da Ra­
político e as artes. zão, mudou o curso da descoberta científica
A filosofia do período às vezes é dividida para sempre.
em dois campos, racionalista e empiricista.
Os racionalistas mantinham que a razão era O n ascim e n to d a física d o
a via para o conhecimento, enquanto os em- e sta d o só lid o
piricistas defendiam a observação do mun­ Aceitar que a matéria é composta de par­
do à nossa volta. Isso seguia, grosso modo, tículas minúsculas, quer as chamemos de
a divisão entre Platão (racionalista) e Aris­ átomos ou de corpúsculos, levou a questões
tóteles (empiricista) no pensamento antigo. óbvias como: qual é o formato delas, como
A visão empiricista levou diretamente ao elas se unem em matéria contígua, como
experimentalismo científico e à observação, diferentes tipos de matéria reagem e inte-

ALQUIMIA
Os objetivos mais conhecidos do esfor­
ço filosófico e científico da alquimia são
transformar os metais de base em ouro,
por meio da transmutação, e produzir um
elixir da vida. A famosa pedra filosofal era
considerada com frequência um compo­
nente essencial do elixir da vida, do pro­
cesso de transmutação, ou ambos. A al­
quimia foi praticada em várias formas no
Egito Antigo, Mesopotâmia, Grécia Antiga,
China e no Oriente Médio islâmico, bem Um alquimista trabalhando na destilação
como na Europa durante a Idade Média e em um laboratório.
a Renascença. A alquimia é a base da mo­
derna química e farmacologia, e na alqui­ com chumbo, mas outros metais de base
mia chinesa a produção de remédios foi podiam ser usados. É desnecessário dizer
uma atividade importante. Tentativas de que nenhum dos métodos dos alquimistas
transmutação com frequência começaram funcionou.

36
O NASCIMENTO DA FÍSICA DO ESTADO SÓLIDO

O PODER DO NADA
O cientista alemão Otto Von Guericke
(1602-1686) inventou - ou descobriu - o
nada. Literalmente. Ele provou que um vá­
cuo podia existir, o que os cientistas an­
teriores tinham negado. Depois de fazer
experiências com foles e desenvolver uma
bomba de ar, ele fez uma demonstração
espetacular na frente do imperador Ferdi-
nando III, em 1654. Ele construiu esferas
de metal a partir de dois hemisférios e
bombeou ar. Então ele mostrou o poder
do vácuo - ou o poder da pressão atmos­
férica - demonstrando que nem mesmo
dois cavalos conseguiriam separar os he­
misférios. Robert Boyle em 1689, dois anos antes de sua
morte, quando já estava com a saúde debilitada.

ragem, como as mudanças físicas (fusão, do grãos, e que a coesão dentro dos grãos era
congelamento, sublimação) se relacionam maior do que a coesão entre os grãos. Ele
ao modelo das partículas? Físicos do sécu­ não notou, contudo, que os “grãos” em fer­
lo XVII deduziram modelos da estrutura da ro forjado formam uma estrutura cristalina.
matéria a partir da observação das proprie­ Embora na teoria os microscópios pudessem
dades e do comportamento de substâncias revelar tais estruturas, eles só passaram a ser
- o que às vezes os levaram a deduções bas­ usados comumente na segunda metade do
tante bizarras. século XVII; mesmo assim, eram mais usa­
Depois de observar a produção de ferro dos em estudos biológicos. Evidentemente,
forjado, Descartes concluiu que as partículas não existe microscópio que mostre a forma
de ferro de algum modo se juntavam forman­ dos átomos ou moléculas.

"[Robert Boyle] é muito alto (cerca de l,80m) e sério, muito comedido, virtuoso e frugal: um sol­
teiro; mantém uma carruagem; reside temporariamente com a irmã, Lady Ranelagh. Seu maior
prazer é a química. Ele tem na casa de sua irmã um laboratório nobre e vários serviçais (apren­
dizes) para cuidar do laboratório. Ele é caridoso com homens inventivos que estão necessitados
e os químicos estrangeiros têm tido uma prova de sua generosidade, pois ele não poupa custos
para guardar qualquer segredo raro. Ele arcou com os custos de tradução e impressão do Novo
Testamento em árabe, para enviá-lo aos países maometanos. Teve um renome respeitado na
Inglaterra e também no exterior; e quando os estrangeiros vêm aqui, uma das curiosidades deles
é lhe fazer uma visita."
John Aubrey, Brief Lives

37
A MENTE SE SOBREPÕE À MATÉRIA

"Existem, portanto, Agentes na Natureza capazes de fazer as Partículas dos Corpos se unirem
por Atrações muito fortes. E é Tarefa da Filosofia experimental descobri-los. Agora as menores
Partículas de Matéria podem aderir com Atrações mais fortes, e compor Partículas maiores de
Virtude mais fraca, e muitas delas podem aderir e compor Partículas maiores cuja Virtude ainda é
mais fraca, e assim por diante para diversas Sucessões, até a Progressão final nas maiores Partí­
culas em que as Operações de que a Química e as Cores de Corpos naturais dependem, as quais
aderem a Corpos compostos de uma Magnitude sensível. Se o Corpo é compacto, e se dobra ou
cede para dentro à Pressão sem qualquer deslize de suas Partes, é difícil e elástico, voltando para
sua Figura com Força surgindo da Atração mútua de suas Partes. Se as Partes deslizam umas
sobre as outras, o Corpo é maleável ou macio. Se elas deslizam facilmente, são de um Tamanho
adequado para serem agitadas por Calor, e o Calor for grande o suficiente para mantê-las Agita­
das, o Corpo é fluido..."
Isaac Newton, notas à segunda edição de Opticks, Londres 1718.

O físico cartesiano Jacqnes Rohault ram a algumas sugestões bizarras para os


(1618-1672) sugeriu em 1671 que materiais formatos das partículas. Nicolaas Hartsoeker
plásticos (ou maleáveis) tinham partículas (1656-1725) afirmou em 1696 que o ar é
com texturas complicadas que são emara­ formado de bolas ocas construídas de anéis
nhadas, enquanto materiais frágeis têm par­ como arames, que o cloreto de mercúrio é
tículas com uma textura simples que tocam uma bola de mercúrio presa com pontas de
uma à outra apenas em alguns pontos. Em sal e vitriol parecidas a agulhas ou lâminas,
1722, o pensador francês René Antoine Fer- e que o ferro tem partículas com dentes que
chault de Réaumur (1683-1757) determinou se travam para torná-lo duro quando frio. O
que, ao contrário da crença anterior, o aço ferro é maleável quando aquecido, ele alega­
não é ferro purificado, mas ferro ao qual va, pois as partículas se separam o suficien­
“enxofre e sais” foram adicionados e que as te para permitir que deslizem umas sobre
partículas dessas substâncias residem entre as outras. Pensar nas estruturas da matéria
as partículas de ferro. era um jogo, e Hartsoeker acabou encora­
Sem nenhum outro método além da jando seus leitores a participarem: “Não
imaginação para confiar, os físicos chega­ desejo privar o leitor do prazer de fazer, ele
mesmo, a busca seguindo os
princípios que foram estabe­
lecidos acima”.

A microestrutura do aço:
cientistas do século XVII
não olharam o metal com
microscópios.

38
ÁTOMOS E ELEMENTOS

Imagem contemporânea de ferro sendo


fundido, na visão de Descartes.

Á to m o s e ele m en tos
Robert Boyle estava certo em en­
corajar os químicos a procurar
mais elementos do que terra, água,
ar e fogo, mas isso foi tempos an­
tes de se formular uma tabela de
elementos químicos. Antoine La­
voisier produziu o primeiro tra­
balho moderno sobre química em
1789, e incluiu nele uma lista de
33 elementos — substâncias que
não podiam ser divididas. Infeliz-
mente, a lista de Lavoisier incluía
luz e “calórico”, que ele pensava
ser um fluido que produzia perda
ou ganho de calor por meio de
movimento (veja a página 99). La­
voisier não considerou a sua lista
de elementos exaustiva, deixando
porta aberta para mais investiga­
ção e descobertas posteriores, nem
organizou sua lista de elementos
na tabela periódica - esse trabalho
foi deixado para o químico russo
Dmitri Mendeleev (1834-1907),
que o completaria em 1869. A ta­ ção dos elementos de acordo com
bela periódica é relevante para a suas propriedades revelou o sig­
história da física, pois a organiza- nificado do número atômico e sua
relação com a valência - a manei­
"Alma do Mundo! Inspiradas por ti, ra como os elementos se ligam.
As dissonantes Sementes da Matéria concordaram, Como cientista empírico, La­
Tu fizeste a ligação dos Átomos dispersos, voisier afirmava que em seu tra­
Que, pelas tuas Leis da verdadeira proporção uniram-se,
balho ele “tentou... chegar à ver­
Compuseram de várias Partes uma perfeita Harmonia."
Nicholas Brady, "Ode para Santa Cecilia, c. 1691.
dade, ligando os fatos; suprimir
o máximo possível o uso do ra-

39

A MENTE SE SOBREPÕE À MATÉRIA

Antoine Lavoisier, o primeiro


ANTOINE-LAURENT DE LAVOISIER químico de verdade.
(1743-1794)

Antoine Lavoisier (como passou a ser cha­


mado após a Revolução Francesa, quando
um nome nobre refinado passou a ser um
ponto negativo) era filho de um rico advo­
gado e estudou direito. Ele se voltou para a
ciência, primeiro estudando geologia, mas
se tornando cada vez mais interessado em
química. Ele tinha seu próprio laboratório, ciocínio que com
e este, assim como sua casa, logo atraiu frequência é um
cientistas e pensadores independentes. instrumento
Lavoisier foi chamado o pai da quí­ não confiável
mica moderna. Suas realizações foram que nos en­
consideráveis e variadas. Além de listar gana, a fim
os elementos, ele reconheceu o papel do de seguir o
oxigênio na combustão e na respiração, máximo pos­
e as reações semelhantes que estavam sível a tocha
envolvidas em cada uma. Isso anulou a da observação
antiga teoria popular do flogisto (uma e do experimen­
substância que supostamente seria libera­ to”. Outra contri­
da quando a matéria é queimada - veja a buição que mais tarde
página 96). provaria ser importante
Politicamente, Lavoisier era liberal e no entendimento das
apoiava os ideais que levaram à Revolução reações químicas no ní­
Francesa. Ele participou de uma comissão vel atômico foi a lei
que propôs a reforma econômica, e suge­ de conservação da
riu aprimoramentos às condições terríveis massa de Lavoi-
em presídios e hospitais parisienses, mas sier - o reconhecimento de
isso não o salvou. Ele foi executado em que nunca se perde nem se ganha massa em
guilhotina durante o Terror em 1794. Diz- um processo de reação química. Mas apesar
-se que ele pediu para adiar a execução de chegar a uma lista de elementos, ele não
para poder terminar seus experimentos, acreditava nos átomos, que ele con sid era va
mas lhe disseram: "A República não pre­ conceitualmente impossíveis.
cisa de cientistas". A história de que ele
pediu a um assistente para contar quantas T udo em proporção
vezes ele continuaria a piscar depois de ser Decidir que os átomos existem é um bom
decapitado é amplamente divulgada, mas começo, mas a fim de construir uma matéria
é provavelmente apócrifa. contínua a partir deles, e em mais varieda­
des do que apenas os elementos identifica-

40
ÁTOMOS E ELEMENTOS

dos por Lavoisier, era preciso haver


"Foi preciso apenas um momento para cortar aquela
meios de juntar átomos. Exatamente
cabeça, e talvez um século não será suficiente para
como os átomos aderem em grupos
produzir outra como ela."
era um enigma para os primeiros
Matemático e astrônomo Joseph-Louis Lagrange
atomistas. Newton escreveu sobre
sobre a execução de Lavoisier, 1 794.
“Agentes da Natureza” que podiam
juntar átomos.
O primeiro passo na investigação de dos átomos de todos os demais elementos
como os átomos se combinam foi determi­ e podem ser distintos por seus pesos atô­
nar os índices em que eles se unem em com­ micos.
postos. O químico francês Joseph Proust • Os átomos não podem ser criados, des­
(1754-1826) deduziu a lei das proporções truídos nem divididos por processos quí­
definidas a partir de experimentos por ele micos.
realizados entre 1798 e 1804, enquanto era • Átomos de um elemento podem se com­
o diretor do Laboratório Real em Madri. A binar com átomos de outro para formar
lei estabelece que, em qualquer composto um composto químico; um dado compos­
químico, os elementos sempre se combinam to sempre contém a mesma proporção de
na mesma relação de números inteiros pela cada elemento.
massa. Dalton desenvolveu a lei das proporções
Alguns anos após Lavoisier ser deca­ múltiplas. Em vez de apenas examinar um
pitado em Paris, o químico inglês John único composto formado por dois elemen­
Dalton (1766-1844) desenvolveu essa ideia tos, ele olhava para elementos que podem se
e estabeleceu as bases da moderna teoria combinar de mais de um modo. Ele desco­
atômica moderna. Em um trabalho por ele briu que as proporções relativas são sempre
iniciado em 1803 e publicado em 1808, fo­ pequenos índices de número inteiro. Logo,
ram estabelecidas cinco observações sobre por exemplo, o carbono e o oxigênio podem
átomos: formar monóxido de carbono (CO) ou dió­
• Todos os elementos são formados de áto­ xido de carbono (C 0 2). Usando os pesos de
mos.
• Todos os átomos
de um dado ele­
mento são idên­
ticos.
• Os átomos de um
elemento diferem

Otto Von Guericke


conduzindo um
experimento para
demonstrar um
vácuo.

41
"jjj

A MENTE SE SOBREPÕE À MATÉRIA

combinar oxigênio e carbono, no CO a pro­ desenvolvimento do motor a vapor levou a


porção é 12:16 e no CO, é 12:32. Logo, a um interesse crescente pela termodinâmica
relação de oxigênio no CO para aquela no e, por conseguinte, a certa atenção às pro­
C 0 2 é 1:2. priedades e comportamento dos átomos. O
Das relações em que as massas de ele­ comportamento dos átomos podia ser re­
mentos se combinam, foi possível trabalhar lacionado com a ação de gases quentes em
massas atômicas relativas. Dalton calculou uma escala muito maior, e em decorrência
a massa atômica de acordo com a massa de às leis da termodinâmica que surgiram em
cada elemento em um composto, usando meados do século XIX.
hidrogênio como sua unidade básica (1). A primeira evidência visual de que a ma­
No entanto, ele supôs incorretamente que téria é composta de partículas minúsculas
compostos simples são sempre formados na foi descoberta - embora não imediatamente
razão 1 : 1 - logo ele pensou que a água fosse explicada - em 1827, pelo botânico esco­
HO e não H ,0 - e como resultado come­ cês Robert Brown (1773-1858). Enquan­
teu erros sérios em sua tabela de números to examinava minúsculos grãos de pólen
atômicos. Dalton também não sabia que na água com o microscópio, Brown notou
alguns elementos existem como moléculas que eles se moviam constantemente como
diatômicas (ou seja, em pares, como 0 2). se alguma coisa invisível estivesse batendo
Esses erros básicos foram corrigidos em neles. Ele descobriu que o mesmo movi­
1811, quando o químico italiano Amedeo mento ocorria quando usava grãos de pó­
Avogadro (1776-1856) percebeu que um vo­ len que haviam sido guardados durante 100
lume fixo de qualquer gás à mesma tempe­ anos, demonstrando que o movimento não
ratura e pressão contém o mesmo número era iniciado pelos grãos vivos. Brown não
de moléculas (relacionadas à Constante de conseguiu explicar o que viu, por isso o que
Avogadro, 6,0221415 X 1023 mol-1). Dis­ agora é chamado movimento browniano
so, Avogadro calculou que como dois litros atraiu pouca atenção durante muito tem­
de hidrogênio reagem com um litro de oxi­ po. Em 1877, J. Desaulx retomou o tema
gênio, os gases se combinam na razão 2:1. sugerindo: “Em minha forma de pensar, o
Avogadro - nome completo Lorenzo Ro­ fenômeno é um resultado de movimento
mano Amedeo Cario Bernadette Avogadro molecular térmico no ambiente líquido (das
di Quaregna e Cerreto - agora é conside­ partículas)”. O físico francês Louis Georges
rado o criador da teoria atômico-molecular. Gouy (1854-1926) descobriu em 1889 que
quanto menor a partícula, mais pronuncia­
Á tomos - verdadeiro ou falso ? do o movimento, o que estava claramen­
Embora o trabalho de Dalton pareça ser te de acordo com a hipótese de Desaulx.
convincente visto retrospectivamente, os O geofísico austríaco Felix Maria Exner
cientistas da época não acataram sua expli­ (1876-1930) mediu o movimento em 1900,
cação e os físicos permaneceram divididos relacionando-o ao tamanho e à temperatu­
entre aqueles que aceitavam a provável exis­ ra da partícula. Isso preparou terreno para
tência de átomos e aqueles que não aceita­ Albert Einstein criar um modelo matemá­
vam. Felizmente, havia boas razões práticas tico para explicar o movimento browniano
para se continuar examinando os gases. O em 1905. Einstein estava certo de que as

42
ÁTOMOS E ELEMENTOS

moléculas eram responsáveis pelo


movimento, e chegou às primeiras
ÁTOMOS: UMA QUESTÃO DE VIDA E MORTE
estimativas do tamanho das mo­
Discussões sobre a existência dos átomos duraram
léculas. A teoria foi validada pelo por todo o século XIX, com alguns físicos alegan­
físico francês Jean Perrin (1870- do que os átomos eram apenas um construto ma­
1942) em 1908, quando este me­ temático útil e não parte da realidade. A disputa
diu o tamanho de uma molécula levou Ludwig Boltzmann (1844-1906), um físico
de água usando o modelo de Eins- austríaco frágil mental e emocionalmente, a bus­
tein. Esta foi a primeira evidência car uma filosofia que pudesse acomodar ambas as
experimental para a existência de visões e pôr fim às dis­
moléculas, pela qual Perrin rece­ cussões. Ele usou uma
beu o Prêmio Nobel da Física em noção do físico alemão
1926. Finalmente, só um cientista Heinrich Hertz (1857-
extremamente truculento pode­ 1894), que sugeria
ria negar a existência de átomos e que os átomos eram
moléculas. "Bilder", ou imagens.
Isto significava que
O S ÁTOM OS SÃO D IV ISÍV EIS ? os atomistas podiam
Se tomarmos a visão de Demócri- pensar neles como
to de que os átomos são os meno­ reais e os antiatomistas
res componentes indivisíveis da podiam pensar neles
matéria, então os átomos não são como uma analogia ou
- falando estritamente - átomos. imagem. Nenhum dos
Mesmo quando Einstein e Perrin lados ficou satisfeito.
estavam provando a existência dos Boltzmann decidiu tor­
átomos, evidências por partículas nar-se um filósofo para
descobrir uma maneira
menores - subatômicas - esta­
de refutar os argumen­
vam começando a aparecer. Com
tos contra o atomismo. Em uma conferência de
a descoberta do elétron pelo físi­
Física em St. Louis, EUA, em 1904, Boltzmann des­
co inglês Joseph John Thompson
cobriu que a maioria dos físicos era contrária à teo­
(J.J.) em 1897, a indivisibilidade
ria dos átomos, e ele não foi nem mesmo convida­
do átomo estava para ser questio­ do para participar da seção de Física. Em 1905, ele
nada. O átomo gozaria de seu tí­ começou a se corresponder com o filósofo alemão
tulo de “a última partícula” apenas Franz Brentano (1838-1917), esperando demons­
por alguns anos mais. Mas antes trar que a filosofia deveria ser separada da ciência
de penetrarmos no átomo, exami­ (uma visão ecoada pelo cosmologista inglês Ste-
naremos alguns fenômenos que phen Hawking em 2010), mas ficou desencorajado.
não costumam ser considerados A desilusão com a maioria dos físicos que rejeita­
como sendo formados por qual­ ram o atomismo acabou contribuindo para o suicí­
quer coisa matérica: luz, forças, dio de Boltzmann, que se enforcou em 1906.
campos e energia.

43
CAPÍTULO 2

Fazendo a luz
trabalhar
- ÓPTICA

Há milênios os seres humanos têm explorado a luz


do Sol, da Lua e das estrelas, primeiro com foguei­
ras e, posteriormente, com lâmpadas. A luz é tão
essencial para nossa existência que com frequência
é associada a crenças religiosas e superstições como
uma dádiva da vida ou força criadora. Logo, duran­
te a maior parte da História, a luz ocupou um lugar
especial. Ao longo dos séculos, foi considerada uma
divindade, um elemento, uma partícula, uma onda e
finalmente uma onda-partícula. Uma vez que a luz
está ligada intrinsecamente à visão, o estudo da óp­
tica incluiu a luz e a visão juntas. Somente 100 anos
atrás os cientistas começaram a reconhecer que a luz
visível era apenas uma parte de todo um espectro de
radiação eletromagnética.

A descoberta de que a luz branca abrange a luz de diferentes


cores foi um avanço no estudo da óptica.
FAZENDO A LUZ TRABALHAR - ÓPTICA

\^1

U m a o lh a d a n a luz
Ideias sobre a natureza da luz foram regis­
tradas pela primeira vez na índia, nos sécu­
los V e VI. A escola de Samkhya considerou
a luz como um dos cinco elementos “sutis”
fundamentais dos quais os elementos “bru­
tos” são formados. A escola de Vaisheshika,
que adotou uma visão atomista do mundo,
sustentava que a luz era formada por um fei­
xe de átomos de fogo em movimento - um
conceito não muito diferente do atual con­
ceito de fóton. No primeiro texto indiano
do século I a.C., Vishnn Purana referia-se à
luz do sol como os “sete raios do sol”.
Os antigos não conseguiam separar a
luz da visão. No século VI a.C., o filósofo
grego Pitágoras sugeriu que os feixes viaja­
vam a partir do olho como sensores, e que
vemos um objeto quando os feixes o tocam,
um modelo chamado teoria da emissão (ou
extramissão). Platão também acreditava que
os raios emitidos pelos olhos tornassem a
Página de título de De rerum natura (Sobre a
visão possível, e Empédocles, escrevendo
natureza das coisas) de Lucrécio.
no século V a.C., falava de um fogo que bri­
lhava fora do olho. Essa visão do olho como
um tipo de tocha não conseguia explicar
por que não enxergamos tão bem no escu­ tico, Euclides começou o estudo de óptica
ro quanto à luz do dia; por isso Empédocles geométrica escrevendo sobre cálculos ma­
sugeriu que esses feixes do olho deveriam temáticos da perspectiva. Ele relacionava o
interagir com uma luz de outra fonte, como tamanho de um objeto à distância do olho,
o Sol ou uma lâmpada. e enunciou a lei da reflexão: que o ângulo
O primeiro trabalho preservado sobre de incidência é igual ao ângulo de reflexão de
óptica é do pensador grego Euclides (330- tal modo que a imagem refletida parece es­
270 a.C.), que também aceitava o modelo tar atrás do espelho quando o objeto está na
da emissão. Mais conhecido como matemá- frente dele.
Cerca de 300 anos mais tarde,
outro matemático grego inova­
"A luz e o calor do sol; estes são compostos de peque­
dor, Heron de Alexandria (c. 10-70
nos átomos os quais, ao serem empurrados, não per­
d.C.), mostrou que a luz sempre
dem tempo para disparar direto pelo interespaço de ar
na direção imprimida pelo empurrão."
segue a trajetória mais curta pos­
sível contanto que esteja viajando
Lucrécio, Sobre a natureza do Universo, AD 55.
pelo mesmo meio. Se a luz é tan-

46
UMA OLHADA NA LUZ

O ângulo de incidência é igual ao ângulo de


reflexão; logo, o reflexo de Thomas Young
parece estar logo atrás do espelho, quando ele
está na frente dele.

a luz inclina-se em uma direção perpendi­


cular à superfície da água. Ele explicou isso
sugerindo que a luz desacelera ao entrar no
meio mais denso.
Embora Ptolomeu aceitasse o modelo de
emissão da visão, ele concluiu que os raios
dos olhos se portavam da mesma forma que
os raios da luz que viajavam para os olhos,
logo ele uniu as teorias da visão e da luz.
Mas levaria séculos até que se aceitasse que
a visão era totalmente o resultado da inci­
dência de luz no olho e que o olho não “al­
cança e capta” imagens do mundo circun­
dante. Esse passo importantíssimo foi dado
por volta de 1025 pelo acadêmico árabe Ibn
to propagada quanto observada no ar, por al-Hassan ibn al-Haytham, que era conhe­
exemplo, não há deflexão. Ele percebeu que cido como Alhazen na Europa. O trabalho
refletir a luz a partir de espelhos planos não dele foi traduzido para o latim como De as-
afeta esse princípio, e novamente demons­ pectibus (Sobre a perspectiva) e teve grande in­
trou que os ângulos de incidência e reflexão fluência na Europa Medieval. Al-Haytham
são iguais.

B rincando com a luz


Quando a Grécia Clássica perdeu força
como centro cultural da Europa, muito do
esforço intelectual, inclusive as ciências fí­
sicas incipientes, também declinaram. Os
poucos pensadores gregos remanescentes
mudaram-se para o leste. O trabalho experi­
mental mais antigo sobre a luz foi realizado
pelo astrônomo grego Claudio Ptolomeu
(c.90-c.l68 d.C.) enquanto trabalhava na
Biblioteca de Alexandria no Egito Romano.
Ele descobriu que, ao entrar em um meio cutlides, o matemático
mais denso (como ao ir do ar para a água), grego.

47
FAZENDO A LUZ TRABALHAR - ÓPTICA

O trabalho de al-Haytham foi ampliado


por Qutb al-Din al-Shirazi (1236-1311) e
seu aluno Kamal al-Din al-Farisi (1267-
1319), que explicaram como um arco-íris é
criado dividindo a luz branca do Sol nas co­
res constituintes do espectro. Aproximada­
mente ao mesmo tempo, o professor alemão
Theodoric de Freiburg (1250-1310) usou
um frasco de água esférico para mostrar
que um arco-íris é criado quando a luz do
Sol é refratada, ao passar do ar para dentro
da gota da água, sendo então refletida den­
tro da gota de água e novamente refratada
- passando de volta da água para o ar. Ele
determinou o ângulo correto do arco-íris
(entre o centro e o halo) como 42 graus.
Mesmo assim, não conseguiu detectar o
que causava um arco-íris secundário. Foi
René Descartes que descobriu, 300 anos
depois, que é o segundo reflexo de luz den­
tro das gotas de água que origina um arco-
-íris secundário e também causa a reversão
A refração faz um objeto que está parcialmente das cores.
na água e parcialmente no ar parecer
desconectado ou inclinado no limite entre os
dois meios.
A luz de D eus
os escritos dos cientistas árabes foram trans­
critos para o latim, com frequência, por
tomou o trabalho do primeiro cientista acadêmicos que trabalhavam na Espanha
árabe sobre óptica, al-Kindi (c. 800-870), Moura (dominada pelos árabes), e logo se
que propôs “que tudo no mundo... emite espalharam pela Europa.
raios em todas as direções, que preenchem O trabalho sobre ópti­
o mundo todo”. Al-Haytam afirmou que os ca foi tomado como
raios que transmitem luz e cor vinham do base pelos primei­
mundo externo para o olho. Ele descreveu ros cientistas eu­
a estrutura do olho e como as lentes fun­ ropeus, entre eles
cionam, fez espelhos parabólicos e atribuiu os ingleses Ri­
valores para a refração da luz. Al-EIaytham chard Grosseteste
também afirmou que a velocidade da luz (c. 1175-1253) e
deve ser finita, mas foi outro cientista árabe, mais tarde pelo
Abu Rayjhan al-Biruni (973-1048), que des­
cobriu que a velocidade da luz é considera­
velmente maior do que a do som. Ibn al-Haytham
UMA OLHADA NA LUZ

Um arco-íris é produzido pela refração


e reflexão quando a luz brilha em
gotas d'água.

acadêmico inglês Roger Bacon (c.


1214-1294). Grosseteste trabalhou
em uma época em que a forte con­
fiança em Platão estava cedendo
diante do ressurgimento dos tra­
balhos de Aristóteles a partir da
tradição árabe. Ele se baseou em
Averroes e Avicenna para construir
seu próprio trabalho sobre luz.
Como bispo, Grosseteste tomou
como ponto de partida a luz criada
por Deus em Gênesis 1:3: “Deixai
haver a luz”.

IBN AL-HAYTHAM (965-1040; TAMBÉM ALHAZEN)

Nascido em Basra, então parte do Império de dez anos em que esteve preso no Cairo,
Persa, al-Haytham (ou Alhazen) estudou sendo rotulado como louco. Aparentemen­
teologia e tentou resolver diferenças entre te ele fingiu insanidade depois de ter ale­
as seitas Sunnah e shi'ah do Islã. Ao fracassar gado ser capaz de impedir a inundação do
em seu intento, ele se dedicou à matemática Nilo, um projeto de engenharia ambicioso
e à óptica. A maior par­ demais que lhe trouxe problemas. A fim de
te de seu trabalho testar sua hipótese de que a luz não muda
sobre óptica foi de direção no ar, al-Haytham fez a primeira
realizada no câmera escura conhecida - uma caixa com
período um orifício em uma extremidade deixava a
luz entrar e formava uma imagem na super­
fície oposta, podendo ser traçada no
papel. Ele acreditava firmemente
na realização de experimentos
para testar suas teorias. Por ser
um físico experimental rigoroso, às
vezes é creditada a ele a invenção do mé­
todo científico.

Uma câmera pinhole, ou câmera escura.

49
FAZENDO A LUZ TRABALHAR - ÓPTICA

luz como “primeira forma”. Uma


"Aquele que busca a verdade não é aquele que estu­
observação interessante e um tes­
da os escritos dos antigos e, seguindo sua disposição
temunho adicional à originalidade
natural, coloca sua verdade neles, mas aquele que
de Grosseteste é que ele parece
suspeita de sua fé neles e questiona o que ele reúne
ser o primeiro pensador ocidental
a partir deles, aquele que submete a argumento e de­
a sugerir infinitos múltiplos: “... a
monstração. "
Ibn al-Haytham
soma de todos os números, ímpa­
res e pares, é infinita, e, portanto,
é maior do que a soma de todos
os números pares, embora esta
Ele viu o processo de criação como um também seja infinita; pois ela a excede pela
processo físico impulsionado pela expansão soma de todos os números ímpares”.
e contração de esferas concêntricas de luz. Roger Bacon, que mudou da Universi­
A luz seria, como ele afirmava, autogerada dade de Oxford para a de Paris, dominava a
infinitamente, assim como uma esfera de luz maior parte dos textos gregos e islâmicos so­
surge instantaneamente de uma única fon­ bre óptica entre 1247 e 1267, e produziu seu
te de luz. O trabalho dele é mais metafísico próprio texto, Óptica. Mais tarde ele estabe­
que físico, e é altamente original ao postular leceu um programa de estudo que incluía
um método de criação baseado na ação da ciências até então não ensinadas na univer-

ARISTÓTELES, ACEITO E REJEITADO PU ' " ' ’ '


A redescoberta do trabalho de Aristóteles na Euro­ *-r- <ttrr-*m*~SS8£r.mT « « —
pa, por meio de traduções para o latim dos textos
preservados por estudiosos árabes, não foi imedia­
•I .SI í

tamente aceita pela Igreja Católica Romana. Libri
naturales de Aristóteles (Livros de Ciência Natural) m ....
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foram condenados pela Universidade de Paris em « I* wpAHt '
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1210 e novamente em 1215 e 1231, o que signifi­ Í , * * .. . *

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cou que não podiam ser ensinados. Mas por volta »•*« ***»,»» fX. •

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de 1230 todos os trabalhos de Aristóteles estavam
***•■ »*► -«*»•= . m

disponíveis em latim, logo a Faculdade de Paris ce­ «(* i:

deu e em 1255 Aristóteles voltou a fazer parte da


■ « ~T;m
leitura obrigatória e do programa de estudos. Ro­
ger Bacon, que na época trabalhava em Paris, foi
um dos primeiros a perceber os resultados do livre
acesso às ideias de Aristóteles pelos estudiosos pa­
risienses.
Cópia de manuscrito medieval de Física de Aristóteles traduzido para o latim.

50
SAINDO DO ESCURO

sidade, e um modelo de ciência experimen­


tal baseado em seu trabalho de óptica. Mais O TELESCÓPIO DE GALILEU
tarde ele montou um programa de estudo
Galileu estava em Veneza quando sou­
que incluía ciências até então não leciona­
be que um telescópio tinha sido cons­
das na universidade; e um modelo de ciência
truído; um holandês tinha ido para a
experimental baseado em seu trabalho em
Itália vender o instrumento ao senado
óptica. Ele sugeriu que o conhecimento de veneziano. Desesperado para superá-lo,
linguística e ciência poderiam ir além e dar Galileu construiu em apenas 24 horas
sustentação ao estudo de teologia, talvez em um telescópio que era melhor do que
uma tentativa de acalmar a Igreja Católica qualquer um existente. Em vez de usar
Romana. No entanto, o estrangulamento da duas lentes côncavas, que produziam
Igreja continuou a engessar os desenvolvi­ uma imagem invertida, o telescópio de
mentos científicos durante muitos séculos,
com as autoridades católicas silenciando e
até mesmo executando cientistas que se pro­
nunciassem contra a versão bíblica recebida
de eventos e fenômenos físicos.

S a in d o d o escuro
Nenhum trabalho original de importância
sobre óptica e luz apareceu na Europa até a
Renascença. Nos séculos XVI e XVII, cien­
tistas destacados como Nicolau Copérnico
(1473-1543), Galileu Galilei (1564-1642),
Johannes Kepler (1571-1630) e Isaac New­
ton (1642-1727) finalmente desmantela­
ram o modelo aristotélico do universo que Galileu apresenta seu telescópio para
dominou o pensamento científico durante Leonardo Donato, doge de Veneza em
quase 2.000 anos e estabeleceu as leis da 1609.
mecânica e da óptica que permaneceriam
Galileu tinha uma lente côncava e uma
inalteradas por mais quatro ou cinco sécu­ convexa, e produzia uma imagem vira­
los. Destes, Kepler e Newton foram os mais da para cima. O senado foi convencido
importantes para a Óptica. a deferir a decisão sobre a compra do
Kepler, um matemático e astrônomo telescópio holandês. Galileu então pro­
alemão, acreditava que Deus construiu o duziu um ainda melhor que apresentou
ao doge de Veneza, assegurando a vitó­
ria e a gestão em seu posto como do­
cente na Universidade de Pádua.

Selos húngaros comemorativos de Kepler e


suas contribuições para a ciência do espaço.

51
FAZENDO A LUZ TRABALHAR - ÓPTICA

universo de acordo com um plano inteligí­ na refratando raios de luz que entram pela
vel e que seus trabalhos podiam, portanto, pupila e os focaliza na retina. Ele explicou
ser descobertos por meio da aplicação da como as lentes dos óculos funcionam - elas
observação e do raciocínio científicos. Em­ já eram usadas há cerca de 300 anos, mas
bora mais famoso por seu extenso trabalho ninguém entendia realmente os princípios
em astronomia, Kepler introduziu a técnica de seu funcionamento -, e quando os teles­
de traçar raios de luz ponto a ponto a fim cópios começaram a ser mais usados, por
de determinar e explicar sua trajetória. Dis­ volta de 1608, ele também explicou como
so, ele deduziu que o olho humano funcio­ funcionavam. Kepler publicou seu trabalho

RENE DESCARTES, 1596-1650


Descartes nasceu em La Haye em Touraine, França, fi­
lho de um político local. Sua mãe morreu quando ele
tinha apenas um ano. Embora inicialmente ele seguis­
se os desejos de seu pai estudando Direito e Ciência,
Descartes abandonou o plano de se tornar advogado
e dedicou-se ao estudo de matemática, filosofia e ciên­
cia, desenvolvendo um pensamento independente e fa­
zendo incursões no exército. Felizmente, ele tinha pos­
ses suficientes para sustentar esse estilo de vida. Ele foi
chamado "pai da filosofia moderna", e seu desenvolvi­
mento das coordenadas cartesianas foi nomeado pelo
filósofo inglês John Stuart Mill (1806-1873) como "o
maior passo já dado no progresso das ciências exatas".
Para a história da Física, o desenvolvimento filosófico Modelo de visão de Descartes,
mais importante de Descartes mostrando como os raios de luz
foi o modelo mecânico - ele chegam aos olhos e a informação é
transmitida para a glândula pineal.
se esforçou para ver todo
o universo como sistemas
mecânicos que seguiam um sistema de leis físicas.
Descartes era sensível e sereno desde criança. Ele se levan­
tava tarde e dizia que seu melhor trabalho tinha sido feito em
uma cama confortável (como ocorreu com o desenvolvimen­
to do sistema de coordenadas cartesianas, veja o box, página
55). Quando a jovem rainha Christina da Suécia o empregou
como tutor e insistiu que ele ensinasse às 5 horas da manhã
em uma biblioteca muito fria, bastaram cinco meses para
Descartes adoecer, contraindo problemas pulmonares
graves que o levaram à morte com apenas 46 anos.
SAINDO DO ESCURO

sobre óptica em 1603, quase 40 anos antes para ampliar textos desde o século XI. Len­
de Isaac Newton nascer. Embora o primei­ tes de vidro polido eram usadas em óculos
ro telescópio astronômico fosse feito por desde 1280, embora no início ninguém
Leonard Digges na Inglaterra no início dos soubesse como ou por que funcionavam. O
anos 1550 (veja a página 169), eles são mais desenvolvimento do microscópio e do teles­
associados ao trabalho de outro homem, o cópio durante os séculos XVI e XVII gerou
astrônomo Galileu Galilei (veja o box da pá­ a necessidade de lentes com maior precisão.
gina 83). A medida que as técnicas de polimento fo­
ram aperfeiçoadas ao longo dos séculos, e
P or meio de um vidro translúcido lentes melhores levaram a mais descobertas
As lentes mudam a trajetória da luz; elas que então provocaram a demanda por lentes
são as ferramentas ópticas básicas. Foram ainda melhores. Alguns dos maiores cientis­
desenvolvidas muito antes de qualquer um tas do Renascimento e do Iluminismo, entre
ser capaz de explicá-las. O exemplo mais an­ eles Galileu, o pioneiro belga do microscó­
tigo que foi preservado é o das lentes Nu- pio Antonie van Leeuwenhoek (1632-1723),
mrad, feitas na Assíria Antiga há 3.000 anos e o físico e astrônomo holandês Christiaan
usando-se cristal de rocha. Lentes parecidas Huygens (1629-1695) fizeram suas próprias
foram usadas na Babilônia, no Egito Anti­ lentes.
go e na Grécia Antiga, talvez para aumentar
objetos ou como lentes para fazer fogo, fo­ P ressão no éter
cando raios da luz do sol. Embora os gregos O trabalho de René Descartes sobre óp­
e romanos enchessem vasos de vidro esféri­ tica descrevia o funcionamento do olho e
cos de água para fazer lentes, lentes de vidro sugeria aprimoramentos ao telescópio. Ele
feitas com formato exigido só passaram a usou analogias mecânicas para derivar mui­
ser feitas na Idade Média. tas propriedades da luz matematicamente,
O primeiro uso de uma lente para cor­ inclusive as leis da reflexão e refração. No
rigir a visão pode ter sido registrado pelo entanto, ele foi bastante criticado por sua
autor romano Plínio, o Velho (23-27d.C.), recusa em aceitar a existência de um vácuo.
que relatou que Nero via os jogos de gladia­ Para teóricos como Gassendi, que vislum­
dores no Coliseu por meio de uma esmeral­ brou um vácuo com átomos em movimento,
da. Pedras para ler - pedaços convexos de a luz podia ser explicada como um feixe de
vidro ou de cristal de rocha - eram usadas partículas em rápido movimento que se cho­
cavam no espaço. Sem o vácuo, Descartes
precisava de um mecanismo diferente. Ele
acreditava que algum tipo de “fluido inters­
ticial” fino - outra versão do éter - preen­
chesse todos os espaços, e que era a pressão
exercida por esse fluido que produzia a vi­
são. Logo, se a luz do sol penetrava no fluxo
As lentes Nimrud, intersticial, essa pressão seria transmitida
descobertas no
Curdistão (norte instantaneamente para o olho, podendo este
do Iraque. perceber essa luz. Elavia pouco fundamento

53
FAZENDO A LUZ TRABALHAR - ÓPTICA

durante mais de
"[Descartes] era um homem sábio demais para se incomodar com uma
400 anos. Seu tra­
esposa; mas como era homem, tinha os desejos e apetites de um ho­
balho sobre forças
mem; portanto, ele mantinha uma boa e bela mulher, obediente, de
e gravidade (veja a
quem gostava, e com a qual teve alguns filhos (acho que dois ou três).
página 84) talvez
É pena, mas vindos do cérebro de um pai como ele, eles deveriam ser
bem estimulados. Ele era tão culto que todos os homens cultos o
seja mais famoso do
visitavam, e muitos deles desejavam que ele lhes mostrasse sua loja de que o trabalho so­
instrumentos (naquela época o aprendizado da matemática dependia bre óptica, mas não
do conhecimento de instrumentos, e como Sir Henry Savile disse, de se mais importante.
fazer truques). Ele puxava uma pequena gaveta sob a mesa e mostra­ Newton dividiu
va-lhes compassos com uma das pernas quebradas, e então uma folha com sucesso a luz
de papel dobrado duas vezes, que ele usava como régua." branca em seu es­
John Aubrey, Vidas Breves pectro constituinte
e então recombinou
para essa teoria, uma vez que consideramos os raios coloridos na
que o Sol é separado da Terra por 150 mi­ luz branca, demonstrando conclusivamente
que a luz branca é um misto de cores. Essa
lhões de quilômetros, mas isso estabeleceu
possibilidade foi notada muito antes. Aristó­
a base para um trabalho muito mais impor­
tante de Christiaan Huygens (veja a pági­ teles afirmava que um arco-íris é causado por
nuvens que agem como uma lente sobre a luz
na 58), filho de um grande amigo de René
Descartes, e isso levou Newton a perseguir do Sol, uma explicação que também era acei­
ta por al-Haytham. O filósofo romano Lu­
suas próprias ideias sobre o assunto, mas em
cius Annaeus Seneca (c. 55 a.C. - c. 40 d.C.)
uma direção diferente.
seguiu Naturales quaestiones como referência
para produzir uma série de cores parecidas
O SENHOR DA L U Z I IS A A C N EW TO N
àquelas de um arco-íris, passando a luz do Sol
Newton possivelmente foi o maior cientista
por prismas de vidro. No tempo de Newton,
de todos os tempos; ele se tornaria o gigan­
no entanto, a maioria das pessoas acreditava
te em cujos ombros os outros se apoiaram

"A Natureza e as Leis da Natureza estão es­


condidas na noite; Deus disse: 'Que Newton
nasça', e tudo era luz. "
Papa Alexandre, 1727.

Pelo prisma do gênio: o trabalho de Isaac


Newton sobre gravidade e óptica revolucionou a
filosofia natural.

54
SAINDO DO ESCURO

UMA MOSCA QUE FEZ HISTÓRIA


Descartes deu seu nome ao sistema de coor­
denadas cartesianas ainda usado para especi­
ficar um ponto no espaço tridimensional ao
relacionar sua localização aos três eixos - x,
y e z. Ele afirmou ter desenvolvido o sistema
em 1619 enquanto estava deitado na cama
observando uma mosca que voava no can­
to do quarto. Ele percebeu que a posição do
inseto podia ser identificada exatamente a
qualquer momento, plotando sua distância
das duas paredes mais próximas e o chão ou
o teto - em outras palavras, suas coordena­
das em três dimensões. Dessa observação
simples seguiu-se que uma forma geomé­ Ao traçar uma série de pontos em termos de
suas distâncias dos dois eixos, a geometria
trica podia ser representada por números cartesiana mostra uma equação como um
(as coordenadas de seus cantos) e que uma gráfico
curva podia ser descrita por uma série de nú­
meros relacionados uns aos outros em uma equação (daí uma trajetória parabólica pode ser
plotada como um gráfico, por exemplo). Todo o sistema de geometria pôde ser investigado
pela álgebra uma vez que Descartes viu e refletiu sobre uma mosca no canto do quarto.

Quando a roda de cores de a luz, mas produziu apenas luz


Newton gira muito rapidamente,
branca com bordas coloridas.
as cores são indistinguíveis e a
roda parece ser branca. Newton teve sucesso onde
Hooke falhou porque usou
um equipamento superior.
Ele fez um pinhole em
que a luz colorida fosse uma tela preta para deixar
uma forma de sombra, um fino feixe de luz en­
formada misturando-se luz trar em sua sala em Trinity
branca com escuridão. Des­ College, na Universidade de
cartes pensava que a cor fosse Cambridge, e usou um prisma
causada pelo movimento giratório de vidro lapidado com precisão
das partículas que compunham a luz. O para dividir o feixe, captando uma ima­
grande rival intelectual de Newton, Rovert gem sobre outra tela há vários metros de dis­
Hooke, pensava que a cor fosse impressa na tância. Ao permitir espaço suficiente para os
luz, como quando brilha por meio de um vi­ feixes coloridos se espalharem adequadamen­
tral. Ele tentou usar um prisma para dividir te, ele produziu um espectro claro.

55
FAZENDO A LUZ TRABALHAR - ÓPTICA

com Hooke era obsessivo, mas não o único;


"Se eu vi além, foi por me apoiar nos om­
várias outras pessoas despertavam sua ira e
bros de gigantes."
acidez. A fama de Hooke teria sido maior
Isaac Newton, em uma carta pública a Ro­
se ele não tivesse tido a má sorte de morrer
bert Hooke, escrita por insistência da Royal
antes de Newton, que se apropriou de uma
Society para sanar - ou encobrir - a rixa
entre a dupla.
descoberta dele, os chamados anéis de cores
de Newton vistos em filmes finos de óleo
na água. De fato, Newton guardou seu pró­
Newton levou sua dedicação à óptica ex­ prio trabalho sobre luz e cor, Óptica, delibe-
perimental para além dos limites da sensa­ radamente durante 30 anos, só o publicando
tez. Em um famoso relato de autoagressão, depois de Hooke estar morto e incapaz de
ele introduziu uma agulha longa e afiada disputar a autoria.
(agulha-passadora) no globo ocular, pres­
sionando-a o máximo para trás que podia, M icrografia de H ooke
sem perfurar o globo ocular, na tentativa de O trabalho mais famoso de Hooke é M icro-
distorcer a forma do globo e ver como isso graphia, publicado em 1665. Era um bom
afetava sua percepção da cor. Newton per­ exemplo de como desenvolvimentos em
cebeu que objetos coloridos parecem ter a óptica levaram rapidamente a desenvolvi­
cor que têm por causa da luz que eles refle­ mentos em outras áreas da ciência, princi­
tem. Por exemplo, uma capa vermelha pare­ palmente biologia e astronomia. Embora
ce ser vermelha porque reflete luz vermelha, Hooke não fosse o primeiro microscopis-
enquanto uma camisa branca reflete toda ta, ele trouxe a microscopia para a ciência
luz. Ele também associou graus diferentes convencional e fez aprimoramentos tanto
de refração com cores diferentes. no design do microscópio quanto do te­
Apesar dessa dedicação admirável à lescópio. M icrographia contém desenhos
ciência, Newton era um homem difícil, ar­ de objetos, materiais orgânicos e organis­
rogante e questionador. Seu antagonismo mos minúsculos vistos pelo microscópio de

"Peguei uma agulha-passadora e coloquei-a entre meu olho e [o] osso o mais perto [do fundo]
do olho que pude: e pressionando meu olho [com a] ponta (de modo a fazer a curvatura abcdef
em meu olho) apareceram vários círculos escuros e coloridos r, s, t, e c. Os círculos ficavam mais
achatados quando eu continuava a esfregar com a agulha pontiaguda, mas se eu mantinha meu
olho parado com a agulha, embora continuasse a pressionar meu olho [com] ela, no entanto [os]
círculos apagavam e muitas vezes desapareciam até que eu [os] removesse movendo o olho ou
[a] agulha.
Se [o] experimento fosse feito em um quarto iluminado para [que] meus olhos fechassem, uma
luz entrava pelas pálpebras. Aparecia um grande círculo escuro azulado maior (como ts), e [dentro]
daquele outro ponto de luz srs, cuja cor era muito parecida [àquela] no resto do olho como em k.
Dentro do ponto aparecia ainda outro ponto azul r especialmente se eu pressionasse meu olho for­
temente e [com] uma pequena agulha pontuda e no extremo em VT aparecia à margem da luz."
Caderno de Newton, CUL MS Add. 3995.

56
SAINDO DO ESCURO

Hooke. As ilustrações detalhadas - algu­ ......" ;fr ~1


mas desenhadas pelo arquiteto Christopher
Wren - eram revolucionárias, tornando a
cNk1 ;m.s':
o p t iLfW
OK, A
M icrographia um dos livros científicos mais
importantes publicados até hoje. Samuel TREATISE
Pepys lembra em seu diário que ele ficava
até duas da madrugada lendo, e que “foi o
OF THE
Reflexions, Refratfions
In flex ion s and Colours
,
livro mais inventivo que eu já li em minha
vida”.
L I G H T .
Página de
O nda ou partícula ? ‘The F ourth E dition , corrttfeJ. rosto do
uma coisa é reconhecer que a luz branca é B y S ir ISA A C N £ W ?0 N , K n t.
tratado de
óptica de
um composto de luz colorida, mas isso en­ Newton,
LONDONt
tão levanta a questão do que é a luz colori­ Primed for W i l l i a m I nn v s a t the W eft- publicada
End of Sl Pauls. M dccxxx.
da. Opiniões divergentes sobre se a luz seria em 1704.
formada de partículas ou se seria algum tipo
de onda são encontradas nos primeiros es­ muito tem-
critos indianos sobre ciência. Na Europa, po. Em outros lugares da Europa, contu­
Empédocles sugeriu raios e Lucrécio falou do, a arrogância de Newton e sua natureza
de partículas, e o debate continuou através questionadora o tornaram impopular, e isso,
de séculos; Hooke, seguindo Descartes, no mínimo, afetou a aceitação de seu mo­
adotou a visão de que a luz é uma forma delo corpuscular. Newton rejeitava a teoria
de onda. Este foi ainda outro ponto de dis­ da onda por acreditar que uma onda lon­
córdia com Newton, que escreveu sobre os gitudinal (vibrando na direção da propaga­
“corpúsculos” (i.e. partículas) de ção) não podia responder pela polarização.
luz, uma ideia proposta pela // í V, Ninguém considerou a possibilidade de
primeira vez por Gassendi e —s j } ondas transversais (que vibravam na dire­
lida por Newton nos anos 1660. /' ção da propagação). Newton aceitou a ideia
Newton não teve grande res­ de um éter atravessado pela luz, um meio
paldo na Inglaterra durante através do qual a luz passa, embora isso não
fosse estritamente necessário para sua teo­
ria corpuscular, pois as partículas podiam
passar igualmente bem por um vácuo. Ele
também acreditava que os corpúsculos de
luz oscilavam entre duas fases conhecidas
como “reflexo fácil” e “transmissão fácil”. A
periodicidade é um aspecto básico da teoria
das ondas, e nisso ele antecipou a mecâni­
ca quântica (veja a página 126). Embora o
nome de Newton seja associado à teoria
corpuscular, seus próprios escritos incorpo­
ram aspectos de ambas as ideias.

57
r 1 FAZENDO A LUZ TRABALHAR - ÓPTICA

Por exemplo, ele explicou a difração su­


gerindo que os corpúsculos de luz criavam
ondas localizadas no éter. E interessante que
isso o coloca mais perto da visão moderna
da “dualidade da luz” - que ela tem qualida­
des tanto de uma onda quanto de uma par­
tícula.

Frentes de o n d a e q u a n ta
Na Europa, Christian Huygens desenvol­
Representação de uma pulga ampliada da
Micrographia de Hooke.
veu a teoria da frente de onda. Sua teoria
da luz foi completada em 1678, mas ele não
a publicou até 1690 e se baseou em suas
"[Hooke] é de estatura média, um pouco próprias descobertas experimentais. Como
curvado, face pálida, e seu rosto um pou­ Descartes, que visitava regularmente a casa
co voltado para baixo, mas a cabeça é gran­ de Huygens quando menino, ele conside­
de; olhos grandes e vivos, e não são rápidos; rava a luz como uma onda propagada pelo
olhos cinza. Ele tem cabelos castanhos finos, éter. Ele previu que a luz atravessava um
lindamente encaracolados. £ e sempre foi
meio denso mais lentamente que um meio
muito comedido, moderado na dieta etc.
menos denso. Isso foi significativo, pois - ao
Por ser uma cabeça prodigiosa, inventi­
contrário de Descartes - ele estava dizendo
va, é uma pessoa de grande virtude e bonda­
que a velocidade da luz é finita.
de. Agora quando eu disse que sua facul­
A teoria das frentes de onda de Huy­
dade inventiva é tão grande, você não pode
gens explica como as ondas evoluem e se
imaginar que sua memória seja excelente,
pois são como dois baldes, quando um sobe,
comportam quando encontram obstáculos
o outro desce. Ele certamente é o maior es­ - sendo refletida, refratada ou difratada. Ele
pecialista em mecânica do mundo nos dias sugeriu que cada posição em uma onda se
de hoje. Sua cabeça pende muito mais para torna o centro de uma ondícula viajando em
a geometria que para a aritmética. Ele é sol­ todas as direções. No caso da luz, que é con­
teiro e, acredito, nunca se casará. Seu irmão siderada um fenômeno pulse, ondas repeti­
mais velho deixou uma filha legítima, que é das eram emitidas e seguiam para fora, com
sua herdeira. In fine (o que coroa tudo), ele a velocidade da luz. A onda de luz é propa­
é uma pessoa de grande suavidade e bon­ gada pelo espaço tridimensional na forma
dade. de uma onda esférica.
Foi o Sr. Robert Hooke que inventou os Na borda de uma região atingida pelos
relógios de pêndulo, muito mais úteis do que raios de luz, as ondículas interferem umas
os outros relógios. nas outras e podem se cancelar mutuamen­
Ele inventou um mecanismo para o tra­ te. Se colidem em um objeto opaco, partes
balho veloz da divisão etc., ou a descoberta da ondícula são cortadas e algumas persis­
acelerada e imediata do divisor." tem, produzindo a complexa estrutura fina
John Aubrey, Vidas Breves. de linhas nas bordas das sombras e imagens
que formam padrões de difração. A opinião

58
FRENTES DE ONDA E QUANTA

ROBERT HOOKE (1635-1703)


Hooke nasceu na ilha de Wight, onde seu Bethlehem Royal Hospital - o famoso asilo
pai era pároco auxiliar da Igreja de Todos os para loucos mais conhecido hoje como "Be-
Santos, em Freswater. Hooke foi para a Esco­ dlam".
la de Westminster em Londres aos 1 3, quan­ Ele foi um pensador inventivo, um cien­
do seu pai faleceu, e então para a Christ tista e um mecânico dedicado a experimen­
Church College, Oxford, como corista. Se tações, criando inovações e a aprimoramen­
fosse mais saudável, Hooke estaria destina­ tos de muitos aparelhos existentes, entre
do a seguir carreira na Igreja, mas ele optou eles a bomba de ar, o microscópio, o teles­
pela ciência, tornando-se assistente do quí­ cópio e o barômetro, e foi pioneiro do uso
mico Robert Boyle em Oxford. Hooke voltou de molas para relógios de pêndulo. A maior
para Londres em 1660 e se tornou membro- parte de suas ideias foi desenvolvida poste­
-fundador da Royal Society em 1662. Como riormente por outras pessoas, tendo Hooke
primeiro curador da Society, Hooke foi en­ fornecido a mola propulsora essencial, mas
carregado de demonstrar "três ou quatro recebido poucos créditos por isso. Ele che­
experimentos consideráveis" por semana. gou às teorias sobre combustão e gravidade,
Ele fez estudos extensos com o microscópio, sugerindo a lei do quadrado inverso em rela­
publicando desenhos do que via em Micro- ção à gravidade em 1679, a qual foi funda­
graphia (1665) e cunhando o termo "célula" mental para o trabalho do próprio Newton
para os componentes do tecido vivo (assim sobre o assunto. Newton nunca permitiu
chamado porque os "poros" que ele via na qualquer sugestão sobre a precedência ou o
fibra de milho o lembraram dos espaços ou brilhantismo de Hooke, e a sombra da ani­
"células" que os monges ocupavam). Hooke mosidade de Newton negou a Hooke seu
foi um dos dois pesquisadores de Londres lugar merecido na história. Não se sabe da
empregados depois que a cidade foi destruí­ existência de nenhum retrato de Hooke.
da no Grande Incêndio de 1666, um posto
que o tornou rico. Ele também construiu o Parte da paisagem devastada de Londres após
o Crande Incêndio de 1666.

59
FAZENDO A LUZ TRABALHAR - ÓPTICA

O telescópio aéreo de Huygens


tem uma lente focal longa, o
que é obtido distanciando a
objetiva do olho e usando um
cordão para alinhá-los.

1827) apresentou sua própria


teoria da luz para a Académie
des Sciences, e por volta de
1821 ele mostrou que a po­
larização podia ser explicada
somente se a luz abranges­
se as ondas transversas, sem
vibração longitudinal. Isso
respondeu à objeção ao prin­
cípio de Newton a respeito
da luz como onda. Fresnel é
mais conhecido como o in­
ventor das lentes que levam
seu nome, destinadas origi­
nalmente a aumentar o feixe
que brilha dos
científica é dividida quanto à descoberta de faróis.
Huygens do princípio, se esta seria um
lampejo de genialidade ou se teria sido
sorte e ele teria chegado à resposta
certa por razões erradas.
Durante o século XIX, vários
cientistas trabalhando em dife­
rentes países europeus estabe­
leceram a teoria de que a luz é
uma onda transversal (vibrando
em um ângulo reto ou perpen­
dicular à direção de propagação
e viajando, como uma cobra que
rasteja pelo chão). Em 1817, o físico
francês Aufustin-Jean Fresnel (1788-

Christian Huygens, 1671.

60
UMA NOVA AURORA - A RADIAÇÃO ELETROMAGNÉTICA

Padrão de interferência produzido quando a luz


brilha através de duas divisões, apoiando a teoria
ondulatória da luz.

é apenas parte de um espectro de radiação


eletromagnética (EMR), e atualmente se
Thomas Young sabe que este abrange raios gama, raios-X,
luz ultravioleta, luz visível, infravermelha,
micro-ondas, ondas de rádio e ondas longas.
O EXPERIM ENTO DE DOIS O RIFÍCIO S DE
Y oung U m a n o va a u ro ra - a rad iaçã o
Em 1801, Thomas Young conduziu um e le tro m a gn é tic a
experimento que parecia provar definitiva­ Foi James Clerk Maxwell (1831-1879) quem
mente que a luz é uma onda. Ele iluminou mostrou pela primeira vez que a radiação
dois orifícios que tinha feito. Em vez de eletromagnética consiste de ondas transver­
ver a soma dos resultados dos experimen­ sais de energia que se movem com a veloci­
tos feitos com orifícios isolados, como es­ dade da luz. Os diferentes tipos de radiação
perado, ele notou um padrão complexo de eletromagnética - que incluem a luz e ondas
difração, causado pela interferência entre de rádio - são caracterizados por diferentes
a luz dos dois orifícios. Quanto mais orifí­ comprimentos de onda. De fato, o físico in­
cios ele acrescentava, mais complexo era o glês Michael Faraday (1791-1867) já tinha
padrão de interferência. Isso demonstrava demonstrado a ligação entre eletromagne-
que a luz é, de fato, uma onda, com baixas e tismo e luz em 1845, quando mostrou que o
picos de ondas se anulando ou se reforçan­ plano de polarização de um feixe de luz so­
do para produzir padrões de interferência. fre rotação por um campo magnético (veja o
Young também propôs que cores diferentes box, página 115).
de luz são o resultado de comprimentos de Maxwell ainda supunha a existência de
ondas diferentes, um pequeno passo para um éter luminoso pelo qual todas as for­
percepção que viria a acontecer mais tar­ mas de radiação eletromagnética devem se
de, no século XIX, de que a luz que vemos mover. O éter era diferente de qualquer

61
M
1 FAZENDO A LUZ TRABALHAR - ÓPTICA

coisa, no sentido de ser um contínuo ver­


dadeiro - era infinitamente divisível e não
era formado de partículas distintas como a
matéria normal. Não só o éter era infinita­
mente divisível, mas também o eram as on­
das de energia que viajavam por ele. A teo­
ria de Maxwell apresentava problemas que
só foram resolvidos quando Max Planck
mostrou que a energia deve ser emitida em
quantidades minúsculas, mas finitas, agora
chamadas quanta. (Caso contrário, por ra­
zões complexas, toda a energia no universo
seria transformada em ondas de alta fre­
quência.)
Albert Einstein demonstrou em 1905,
em seu trabalho sobre efeito fotoelétri-
co (veja o box na página 63), que a própria
luz se comporta como se fosse formada por James Clerk Maxwell
quanta, ou minúsculos “pacotes” de ener­
gia, agora chamados fótons. Ele usou o que
atualmente nos referimos como constante comporta como uma onda e às vezes como
de Planck para relacionar a energia de um uma partícula. E útil ter certa previsibilida­
fóton à sua frequência. de quando acontecerá um ou outro caso, e a
A luz é agora considerada como tendo a mecânica quântica pode prever exatamente
dualidade da partícula de onda: às vezes se isso (veja a página 127).

O f im d e u m é t e r : o
EXPERIM ENTO DE M lC H E LS O N -
M o r ley
Nosso entendimento normal
de uma onda é que ela precisa
atravessar um meio, como ar ou
água. Da mesma forma, supôs-
-se que as ondas de luz devem
atravessar o éter luminoso de
modo similar.

A primeira fotografia em cores já


produzida foi tirada por James Clerk
Maxwell em 1861 e mostra uma fita
com padrão xadrez.

62
UMA NOVA AURORA - A RADIAÇÃO ELETROMAGNÉTICA

O EFEITO FOTOELÉTRICO

Quando Albert Einstein recebeu o Prêmio


Nobel em 1921, não foi por suas ideias
mais famosas - as teorias da relatividade
mas por seu trabalho sobre o efeito fotoe-
létrico. Ele explicou como um fóton (em­
bora não chamado dessa forma na época)
às vezes era capaz de empurrar um elétron
para fora de sua órbita em volta de um
átomo, gerando uma explosão de energia
minúscula. É assim que os painéis de ener­
gia solar fotoelétrica geram eletricidade a
partir da luz do Sol. Os elétrons que a luz
do Sol expulsa de um material semicondu­
tor como o silício podem ser impulsiona­
dos ao longo de um arame e então serem
deslocados para realizar um trabalho útil ou
ser armazenados para uso posterior. O efei­
to fotoelétrico foi registrado pela primeira
vez pelo físico francês Alexandre Becquerel
(1820-1891) em 1839. Ele observou que Uma primitiva célula fotoelétrica, produzida
quando a luz azul ou ultravioleta incide so­ no desenvolvimento da televisão.
bre certos metais gera uma corrente elétri­
ca, mas ele não sabia como ela funcionava. energia suficiente para empurrar um elétron
Einstein tomou a ideia de Max Planck de para fora de sua órbita e liberá-lo, gerando
quanta, originalmente aplicada à energia uma corrente elétrica no processo, os fótons
de átomos, e usou-a para descrever peque­ de luz vermelha não fazem isso. Alimentar a
nos pacotes de energia de luz - os fótons. intensidade da luz vermelha não ajuda, pois
A quantidade de energia que um fóton re­ os fótons individuais de luz vermelha não es­
presenta depende do comprimento de onda tão preparados para o trabalho.
da luz. Enquanto os fótons de luz azul têm

Fótons caindo sobre a


superfície só empurrarão
um elétron se tiverem
energia suficiente: a luz
vermelha não produzirá
uma corrente, mas a luz
azul ou verde produzirá.
elétrons
Potássio - 2.0 eV necessários para ejetar elétrons
IM F 1 FAZENDO A LUZ TRABALHAR - ÓPTICA

O fim do éter acabou vindo como re­ O equipamento de Michelson-Morleu para medir
sultado de um experimento realizado em a velocidade da luz foi projetado com a intenção
de provar a existência do éter.
1887 por dois físicos americanos, Albert
Michelson (1852-1931) e Edward Morley
(1838-1923). Se o éter existia, os cientistas
supunham, ele deveria preencher o espaço ao
transportar a luz do Sol e das estrelas para a tectar o movimento da Terra relativo ao éter
Terra. Em 1845, o físico inglês George Ga­ examinando-se a velocidade da luz em dife­
briel Stokes (1819-1903) sugeriu que, como a rentes momentos e direções.
Terra está se movendo com grande velocida­ Michelson e Morley construíram um
de no espaço, deve haver um efeito devido ao equipamento para medir a velocidade da luz
arrastar de nosso planeta à medida que passa com tanta precisão que seria capaz de de­
pelo éter. Em qualquer ponto da superfície tectar o efeito do éter, se presente. O apa­
da Terra, a velocidade e a direção do “vento” rato deles dividia um feixe de luz em dois
do éter deveria variar dependendo da hora do feixes que se moviam em ângulos retos, um
dia ou ano; portanto, deveria ser possível de- em direção ao outro, voltados para dois es­
pelhos. Os feixes eram refletidos
para trás e para a frente a uma
"[O éter] é a única substância de cuja dinâmica temos distância de 11 m (36 pés), antes
certeza. De uma coisa estamos certos, e é sobre a reali­ de serem recombinados no olho
dade e substancialidade do éter luminoso. " humano. Se a Terra estivesse se
William Thomson, Lord Kelvin, 1884. deslocando pelo éter, um feixe

64
UMA NOVA AURORA - A RADIAÇÃO ELETROMAGNÉTICA

Se a Terra fica suspensa no espaço vazio ou se


move pelo éter era um ponto de discordância
entre os primeiros cientistas.

movendo-se em paralelo ao fluxo do éter le­


varia mais tempo para voltar ao detector do
que um feixe movendo-se perpendicular ao
éter. Se um feixe se deslocasse mais lenta­
mente que o outro, isso deveria aparecer nas
interferências produzidas quando os feixes
se recombinassem. Todo o aparato foi cons­
truído sobre um bloco de mármore, flutuan­
do em uma banheira de mercúrio instalada
no porão de um edifício para eliminar o
máximo possível qualquer vibração que
pudesse interferir nos resultados. O equi­
pamento era mais do que sensível para de­
O interferômetro de Michelson (veja a página
tectar o efeito que seria esperado se a Terra
66) pode ser usado para produzir a interferência estivesse realmente sujeita ao vento oriundo
colorida da luz branca. do éter. Sem obter resultados positivos es-

65
FAZENDO A LUZ TRABALHAR - ÓPTICA

Um interferometro de Michelson funciona


dividindo um feixe de luz em dois, então
refletindo e recombinando os feixes resultantes.

tatisticamente relevantes, Michelson e Mor-


ley tiveram de relatar o fracasso de seu ex­
perimento. Outros se puseram a refinar o
aparato, mas mesmo assim não encontra­
ram evidência de éter. Claramente, o expe­
rimento de Michelson e Morley não tinha
fracassado. Tinha mostrado que não existe
éter luminoso. Infelizmente, a conclusão
de Michelson não foi que o éter não existia,
mas que o modelo de um éter estacionário
que confere o arrasto da luz (a hipótese do Júpiter e sua lua lo. Eclipses de Júpiter por suas
arrasto do éter) proposto por Augustin-Jean luas convenceram Huygens de que a luz viaja a
Fresnel era o que estava correto. uma velocidade finita.

66
COM A VELOCIDADE DA LUZ

c
A velocidade da luz é represen­
tada pela letra "c" (como em
E=mc2), que significa o termo
celeritas em latim, ou seja, rapi­
dez ou velocidade.

C o m a velocidade d a luz A convicção de Huygens de que a velo­


Já em c.429 a.C., Empédocles acreditava cidade da luz era finita seguiu observações
que a luz viaja a uma velocidade finita, em­ feitas pelo cientista holandês Ole Romer
bora pareça chegar instantaneamente. No (1644-1710), trabalhando em Paris com o
entanto, ele foi uma exceção notável entre astrônomo Giovanni Cassini (1625-1712),
pensadores antigos, pois a maioria concor­ nascido na Itália, depois de ver eclipses das
dava com Aristóteles que a velocidade da luz luas de Júpiter. Cassini e Romer notaram
era infinita. Os cientistas árabes Avicenna e que, embora os eclipses devessem ocor­
al-Haytham concordaram com Empédocles, rer em intervalos regulares, nem sempre
bem como Roger e Francis Bacon. Mas a vi­ eles eram pontuais - e a variação dependia
são prevalecente mesmo no século XVII, na da posição da Terra relativa a Júpiter. Eles
Europa, e mantida por Descartes, era que a concluíram que quando a Terra está mais
velocidade da luz era infinita. distante de Júpiter, vemos o eclipse mais
A primeira tentativa de questionar esse tarde, porque leva mais tempo para a luz
pressuposto e medir a velocidade da luz alcançar a Terra. Cassini afirmou em 1676
foi feita por Galileu em 1667, usando um que as discrepâncias nos tempos aparen­
método bem primitivo. Galileu e um assis­ tes desses eclipses podiam ser explicadas se
tente a 1,6 quilômetro de distância se re­ a luz viajasse a uma velocidade finita. Ele
vezaram cobrindo e descobrindo lanternas prosseguiu para calcular que levaria cerca
e medindo quanto tempo levava para eles de 10 ou 11 minutos para a luz viajar do
notarem a luz. Provavelmente foi uma me­ Sol até a Terra, porém não prosseguiu na
dida melhor da velocidade de suas reações investigação e coube a Romer calcular a
do que outra coisa. Galileu concluiu que se velocidade da luz com exatidão. Ele previu
a velocidade da luz não era infinita, certa­ corretamente o tempo exato de um eclipse
mente era muito alta - provavelmente pelo da lua Io em 1679, dizendo que aconteceria
menos dez vezes a velocidade do som, que 10 minutos depois do que o esperado. Tra­
foi medida pela primeira vez pelo filóso­ balhando a partir da melhor estimativa do
fo e matemático francês Marin Mersenne diâmetro da órbita da Terra, ele calculou
(1588-1648) em 1636. que a velocidade da luz seria de 200.000 km

67
FAZENDO A LUZ TRABALHAR - ÓPTICA

por segundo. Usando-se o dado atual para a Em 1678, Huygens usou o método de
órbita da Terra na fórmula de Romer, tem- Romer para mostrar que a luz leva segun­
-se 298.000 km por segundo, que é notavel­ dos para viajar da Lua até a Terra. Newton
mente próximo do valor obtido na atualida­ afirmou em Principia que a luz leva sete ou
de, de 299.792.458 km por segundo. (Esta oito minutos para chegar à Terra partindo
velocidade não será mudada por trabalhos do Sol, o que é bem próximo do dado real de
futuros, pois o comprimento de um metro 8 minutos e 20 segundos, em média.
é determinado como a distância viajada pela Newton e outros supuseram que a velo­
luz em 1/299.792.458 de um segundo.) cidade da luz variasse dependendo do meio

RAIO DE CALOR DE ARQUIMEDES


De acordo com a tradição, o cientista, ma­ parecido realizado em 2005 por um grupo
temático e engenheiro grego Arquimedes de estudantes do Massachusetts Institute of
(c.287-c.212 a.C.) teria montado um arran­ Technology (MIT) também ateou fogo em
jo parabólico de espelhos na costa para usar uma maquete de navio sob condições climá­
a luz do Sol para incendiar navios inimigos ticas perfeitas.
durante o Cerco de Siracusa (c.214-212 Embora essa técnica, usar lentes conve­
a.C.). Um experimento em 1973 em uma xas para fazer fogo, aparentemente use a
base naval perto de Atenas usou 70 espelhos luz, claro que não é a luz branca visível que
revestidos de cobre de 1,5 m por 1 m para incendeia ou queima os navios, mas a ra­
direcionar a luz do Sol a uma maquete em diação infravermelha invisível (calor) que a
acompanha na luz solar.
compensado de um navio de guerra roma­
no pintado com verniz a cerca de 50 m de
Arquimedes queimando um navio inimigo com
distância. O navio ardeu em chamas em o uso de um espelho; de fato era necessário
questão de segundos. Um experimento mais do que um espelho!

68
COM A VELOCIDADE DA LUZ

pelo qual ela viajava. Se a luz fosse compos­


ta por partículas, isso faria sentido. Se a luz
é uma onda, não é necessariamente este o MANTO DE INVISIBILIDADE
caso. Nem todos ficaram convencidos com Durante a década de 1990, os
os cálculos de Huygens, e a opinião a res­ cientistas desenvolveram metama-
peito da velocidade finita ou infinita da luz teriais com um índice de refração
permaneceu dividida até que o astrônomo negativo. Este índice de um ma­
inglês James Bradley (1693-1762) decidiu a terial determina o quanto de luz
questão de uma vez por todas em 1729. Ele incidente será refratado. Um vá­
descobriu a aberração da luz (também cha­ cuo tem um índice de refração de
1 m, e materiais mais densos têm
mada aberração estelar). Este é o fenôme­
índices de refração mais altos. Em
no de uma estrela parecendo descrever um
2006, metamateriais foram usados
pequeno círculo em torno de sua verdadeira
no primeiro mecanismo de camu­
posição como resultado da velocidade da Ter­
flagem, fazendo um objeto pare­
ra (velocidade e direção) em relação à estre­
cer indetectável por micro-ondas.
la. O estudo levou mais de 18 anos para ser
As partículas de metamaterial de­
completado. vem ser menores do que o com­
Dois franceses posteriores recriaram o primento de luz de tal modo que
experimento de Galileu com lâmpadas e aju­ a luz flua em torno delas, como a
dantes, mas de uma forma bem sofisticada. água flui em volta de uma rocha
Em 1849, o físico Hippolyte Fizeau (1819- em um riacho. Até agora, um dis­
1896) usou duas lanternas, uma roda em rá­ positivo de disfarce que funciona
pida rotação com dentes que alternadamen­ com ondas de luz e tem mais do
te vedavam e revelavam a luz, e um espelho que alguns mícrons ainda não foi
que a refletia. A luz podia ser calculada a aperfeiçoado.
partir da velocidade da rotação da roda. Ao
girar uma roda com cem dentes várias cen­
tenas de vezes por segundo, ele foi capaz de
medir a velocidade da luz a cerca de 1,6 km
por segundo. Léon Foulcault (1819-1868),
cuja fama oscilou muito, usou um princípio
parecido. Ele projetou um feixe de luz em
um espelho girando e inclinando, então re­
batendo para um segundo espelho colocado
a 35 km de distância. Quando o ângulo do
espelho que estava girando mudava, ele era
capaz de calcular o ângulo em que a luz que
retornava era refletida novamente e, por­
tanto, determinar a distância que o espe­
lho tinha se movido e quanto tempo tinha
se passado. Em 1864, Fizeau sugeriu que
o “comprimento de uma onda de luz fosse

69
FAZENDO A LUZ TRABALHAR - ÓPTICA

O manuscrito original com a


explicação de Ibn Sahl da lei
da retração, c. 984.

usado como comprimento


padrão”, e para redefinir o
metro em termos da veloci­
dade da luz que foi atingida
efetivamente.
Einstein baseou suas teo­
rias da relatividade na ob­
servação de que a velocidade
da luz é constante em todo o
universo.

O bjetivo e verdadeiro
Anaxágoras já estava certo,
no século V a.C., de que a
luz viaja apenas em linhas
retas, e essa crença se man­ -J & tljC s ík M ) £ ls & -r
teve até o século XX, quan­
do Einstein disse que a luz
podia ser inclinada em uma
trajetória curva pela gravi­
dade. Contudo, estava claro para os antigos blicou. Descartes publicou uma prova da lei
que a luz pode mudar de direção - quando em 1637. A Lei de Snell funciona porque,
ela é refletida, por exemplo, ou quando é re- como o matemático francês Pi erre de Fermat
fratada, à medida que se move de um meio (1601-65) mostrou, a luz toma a trajetória
para outro. Ptolomeu fez um relato aproxi­ mais rápida por meio de qualquer substância.
mado da refração, e esta foi descrita em 984 Pela primeira vez no início do século XX
pelo físico persa Ibn Sahl (c.940-1000). confirmou-se que a luz segue uma trajetó­
Entretanto, a lei matemática que expli­ ria curva; essa confirmação fez parte de uma
ca e prediz o ângulo de refração é conhe­ demonstração da teoria da relatividade de
cida como Lei de Snell, em homenagem ao Einstein.
astrônomo holandês Willebrord Snellius O astrônomo Arthur Eddington con­
(1580-1626). Embora Snellius redesco- duziu uma expedição inglesa para a Ilha de
brisse essa relação em 1621, ele não a pu­ Príncipe, na costa africana, para aproveitar
COM A VELOCIDADE DA LUZ

um eclipse solar total visível naquele local O LUGAR DA LU Z NO ESPECTRO EMR


em 1919. A expedição fotografou estrelas A luz ocupou um lugar especial na histó­
situadas perto da posição do Sol que, não ria da física porque ela é visível e faz uma
fosse isso, seriam obscurecidas pela luz so­ diferença enorme para a humanidade. Mas
lar. Uma estrela que fica realmente atrás do como o trabalho de Maxwell demonstrou, a
Sol, e por isso não deveria ser vista, estava luz visível é apenas uma forma de radiação
claramente visível em uma das fotos tira­ eletromagnética. Todas as formas se movem
das por Eddington. Isso demonstrou que a à velocidade da luz, todas são formas quan­
luz da estrela tinha se inclinado pelo cam­ tificadas de energia (ou seja, elas podem
po gravitacional do Sol e isso tinha altera­ existir como partículas ou ondas), mas a luz
do a aparente posição da estrela a um ponto visível é a única que vemos. Não houve ten­
onde então ela era visível.
tativa de distinguir o calor do Sol (sua ra­
diação de infravermelho) de sua luz visível.
O artista David Hockney pintou uma série de Outras formas de radiação eletromagnética
telas de piscinas em que brincou com a retração como raios-X, ondas de rádio e micro-ondas
e a reflexão da luz tingindo o ar e a água. só foram descobertas no século XIX.

71
CAPÍTULO 3

Massa em
movimento
- MECÂNICA

Mecânica é o termo usado para descrever a maneira


como os corpos agem quando sujeitos a forças. A me­
cânica clássica começou efetivamente quando New-
ton descreveu suas três leis do movimento. Trata de
ações de corpos e matéria de todos os tipos e tama­
nhos acima do atômico, desde rolamentos de esferas
a galáxias, incluindo líquidos, gases e sólidos, objetos
inanimados e partes de organismos vivos. As pessoas
usavam as forças físicas na prática muito antes de te­
rem qualquer entendimento sobre elas, ou mesmo
de começarem a pensar nas leis que as governam. Os
primeiros construtores usavam alavancas e roldanas
para mover grandes blocos de pedras; eles emprega­
vam a gravidade para colocar as coisas no lugar e para
verificar a perpendicular usando fios de prumo.

Céres e os Quatro Elementos, por Jan Brueghel o Velho, 1568-


1625.
MASSA EM MOVIMENTO - MECÂNICA

Os egípcios podem ter usado


na Antiguidade dispositivos
mecânicos como alavancas e
roldanas para ajudar a mover
os blocos de pedra necessários
para construir as pirâmides.

M e c â n ic a em ação O crescente fértil é uma área que se es­


Sempre que usamos as forças que agem so­ tende do Mediterrâneo até o Golfo Pérsi­
bre a matéria, estamos fazendo as leis mecâ­ co. No total, abrange as terras entre os rios
nicas trabalharem por nós. Os construtores Tigre e Eufrates - conhecida pelos gregos
de pirâmides egípcias não tinham, pelo que como Mesopotâmia (entre dois rios) -, in­
sabemos, qualquer entendimento das for­ cluindo áreas que atualmente são a Síria e
ças envolvidas para mover blocos de pedra o Iraque. O cultivo da terra realizado nessa
e construir as pirâmides, nem os arquitetos área por volta de 10.000 anos atrás, e pelos
dos complexos sistemas de irrigação usados sumérios 5000 a.C, levou ao aparecimento
no Sri Lanka tinham conhecimento formal das primeiras cidades, empregando-se mé­
da dinâmica dos fluidos. No entanto, ambas todos de cortar, mover e empilhar gran­
as culturas foram capazes, por meio da ex­ des blocos de pedra. Os sumérios também
perimentação, tentativa e erro, de empregar inventaram a roda, aproveitando as forças
as leis da física. físicas de uma nova maneira. Com o cres-

PRIMORDIOS DA ENGENHARIA E HIDRÁULICA EM AÇÃO


Os engenheiros hidráulicos no Sri Lanka cons­ Sistemas muito mais sofisticados e extensos
truíram complexos sistemas de irrigação no foram construídos séculos depois, a começar
século III a.C. O sistema fundava-se na inven­ durante o reino do Rei Vasaba (65-108 d.C).
ção do biso-kotuwa, instrumento semelhante a Seus engenheiros construíram 12 canais de
uma válvula moderna, que regula o fluxo de irrigação e 11 tanques, tendo o maior deles
saída de água. Vastos reservatórios de água da 3 km. Suas maiores realizações foram feitas sob
chuva represada, canais e eclusas forneciam o comando do rei Parakrambahu, o Grande
água suficiente para sustentar o povo cingalês (1164-1196 d.C.), quando engenheiros Cin­
do Sri Lanka, cuja dieta básica era o arroz. O galeses conseguiram um gradiente contínuo
primeiro tanque de água da chuva foi construí­ de 20 cm por km ao longo de canais de irri­
do no reinado do Rei Abhaya (474-453 a.C.). gação que se estendiam por volta de 80 km.

74
MECÂNICA EM AÇÃO

cimento da população na Mesopotâmia, as des pesos usando-se pouca força. A respos­


pessoas empregaram pela primeira vez a ta dele foi: “Impulsionada pela mesma for­
dinâmica dos fluidos, desenvolvendo, no ça, a parte do raio de um círculo que está
6o milênio a.C., sistemas de irrigação para mais distante do centro move-se mais rapi­
aguar suas terras cultivadas damente que o raio menor que está próximo
Além de ser usada nas plantações, a água do centro”.
corrente pode ter outros usos. Pode ter sua Aristóteles reconheceu isso logo após a
própria força e a pressão por ela exercida invenção de uma forma de balança que tinha
pode ser usada para a execução de traba­ braços de comprimentos desiguais. Em uma
lhos produtivos. O primeiro uso conhe­ balança com braços iguais, os pesos em um
cido da água para fornecer força motiva lado devem ser equilibrados por pesos iguais
foi na China Antiga quando Zhang Heng do outro. Mas em uma balança com braços
(78-139 d.C.) usou a energia da água para desiguais, os pesos também podem ser equi­
mover uma esfera armilar (um globo usado librados movendo-se o fulcro (o ponto onde
em astronomia para determinar as posições a barra transversal se apoia) e movendo-se
das estrelas). Du Shi, em 31 d.C., usou uma um peso ao longo de seu braço. Portanto,
roda d’água para transmitir energia aos foles o pensamento teórico sobre as forças mecâ­
de um forno de alta temperatura que produ­ nicas só começou a ocorrer depois que um
zia ferro fundido. aparelho foi concebido para colocar essas
forças em uso. A existência da balança de
A M ECÂNICA DOS GREGOS ANTIGOS braços desiguais deu a Aristóteles a oportu­
Embora as primeiras civilizações fizessem nidade de observação e investigação.
uso prático da mecânica, não temos regis­
tros de um pensamento sistemático ou ana­
lítico sobre forças. A primeira evidência de
pensamento abstrato sobre como e por que
O Grande Zigurate de Ur (atualmente no
as forças agem sobre objetos vem da Grécia
Iraque) foi construído por volta de 4.000 anos
Antiga. Em M ecânica, Aristóteles investigou atrás e representa uma obra respeitável de
como as alavancas possibilitam mover gran­ engenharia.

75
^ 1
I 1. MASSA EM MOVIMENTO - MECÂNICA

"Dê-me um lugar para apoiar e eu moverei


INVENÇÕES DE ARQUIMEDES a Terra."
Arquimedes
Arquimedes soube aplicar seu conhe­
cimento de mecânica na prática. O rei
Hieron II o encarregou de projetar uma
A descoberta de Aristóteles é a precurso­
embarcação imensa, o primeiro navio
ra da lei da alavanca para a qual Arquimedes
de luxo da História, capaz de transpor­
tar 600 pessoas e com instalações que
(c.287-212 a.C.) forneceu uma prova cerca
incluíam jardins decorativos, um ginásio de um século depois (embora a lei provavel­
para esportes e um templo dedicado a mente fosse bem conhecida antes de Arqui­
Afrodite. Para bombear a água que se medes confirmá-la).
acumulasse no casco, dizem que ele de­ Em sua forma moderna, a prova diz que
senvolveu o parafuso de Arquimedes, o peso vezes a distância em um lado do ful­
uma lâmina giratória em formato de cro é o mesmo que o peso vezes a distância
parafuso que se encaixa perfeitamente do outro:
dentro de um cilindro e é girada manual­
WD = wd
mente. O mesmo projeto foi adaptado
para transferir água de uma fonte de Arquimedes expressou isso em termos de
baixa altitude para canais de irrigação, razões, pois ele não aceitaria a multiplicação
e ainda é usado hoje. Outras invenções de medidas de naturezas diferentes (peso e
atribuídas a Arquimedes incluem um ar­ distância). Como razões, a lei da alavanca
ranjo parabólico de espelhos para refletir assume a forma:
os raios do sol em navios inimigos e in­
cendiá-los (veja a página 68), e uma gar­ W:d=w:D
ra gigante para erguer navios inimigos
para fora d'água. Como é tão frequente, ^ DE V ARI1S M A C IIIN IS .

a guerra parece ter fornecido o ímpeto . . . Í J C A


para desenvolvimentos científicos.

D.li.ti.,*.#».-/<«■*«d-f&mjÈto,ftfmHtUr..»«-

Arquimedes teria se gabado de que se 0 parafuso de


tivesse uma boa alavanca e um lugar para Arquimedes ainda é
apoiá-la, ele conseguiria mover a Terra. usado para mover
Em princípio, isto é verdadeiro. a água em alguns
sistemas de irrigação /v * ' . -
atuais. ':iÀ

76
O PROBLEMA DA DINÂMICA

O p ro b le m a d a d in â m ic a Uma flecha disparada


Aristóteles começou com a proposição de para cima segue uma
trajetória parabólica
que um corpo se move porque uma força é previsível.
aplicada a ele, e se mantém em movimento
pelo tempo que a força continuar. A tendên­
cia de um corpo continuar em movimento
atualmente é chamada mom entum . Essa pro­
posição de Aristóteles explica o que aconte­
ce se empurramos ou puxamos algo, mas fa­ vez de atirado. O
lha claramente quando aplicada a projéteis. modelo de Hiparco
Se atiramos algo, disparamos uma flecha de também explicou o
um arco ou uma bala de uma arma, o obje­ comportamento de
to continua se movendo depois que a coisa um corpo derruba­
ou pessoa que deu o impulso deixou de ter do ou em queda. O objeto começa em um
contato com o projétil. Aristóteles resolveu estado de equilíbrio entre a atração da gra­
o problema transferindo o status do “impul­ vidade para baixo e o ímpeto que a mão faz
sor” para o meio por meio do qual o projétil para cima. O empuxo para cima é renova­
viaja, de modo que o ar continua a exercer do no momento em que o objeto é liberado,
força sobre a flecha, impulsionando-a para mas depois decai continuamente, de modo
seu alvo. Essa força seria exercida sobre o ar que o objeto acelera em direção ao solo. O
quando a flecha é liberada do arco. modelo também responde pela velocidade
O matemático grego Hiparco (c. 190- final, uma vez que a taxa da queda se torna
c. 120 a.C.) rejeitou isso, alegando que a contínua quando todo o ímpeto do corpo se
força tinha sido transferida para o próprio esgotou.
projétil. Logo, uma flecha disparada direto O filósofo João Filopono (490-570 d.C.),
para cima tem mais potência - ou ímpeto às vezes conhecido como João, o Gramáti­
- para transportá-la para longe da terra que co, ou João da Alexandria, tinha uma teoria
a gravidade tem para puxá-la de volta para a parecida para explicar o impulso. Ele suge­
terra. Porém essa energia decai naturalmen­ riu que um projétil tem uma força conferida
te com o tempo. Tal diminuição é atribuída a ele pelo “impulsor”, mas esta é autolimi-
à própria flecha, e não se deve à resistência tada e, depois de se esgotar, o projétil volta
do ar, à gravidade ou a qualquer outra in­ ao padrão do movimento normal. No século
fluência. No momento em que o ímpeto é XI, Avicenna (c.980-1037) descobriu uma
igual à atração da gravidade, a flecha fica falha no modelo de Filopono, dizendo que
momentaneamente parada. um projétil recebe uma inclinação, e não
Então ela começa a cair e a velocidade de uma força, e que esta não decai natural­
sua queda aumenta à medida que seu ímpe­ mente. No vácuo, por exemplo, o projétil se
to original tende a zero. Quando o ímpeto moveria para sempre, seguindo a inclinação
diminui, sua resistência à gravidade que in­ conferida a ele. No ar, a sua resistência aca­
cide sobre o objeto é menor. Quando não há ba superando a inclinação. Ele acreditava,
ímpeto residual, a flecha cai na mesma velo­ também, que um projétil fosse empurrado
cidade que um objeto que foi derrubado em pelo movimento do ar que ele desloca.

77
MASSA EM MOVIMENTO - MECÂNICA

MECÂNICA ESTÁTICA
Enquanto os gregos antigos se preocupavam fazer um edifício ou uma ponte cair. Uma
com a dinâmica (a mecânica do movimento), ponte em arco, por exemplo, é sustentada
os romanos dominavam a mecânica estática. simplesmente porque a pressão exercida
A mecânica estática explica como as forças pelas pedras que compõem o arco está em
em equilíbrio mantêm uma massa em repou­ perfeito equilíbrio. Os desafios da arquite­
so. Este é um princípio fundamental na arqui­ tura medieval e renascentista para cons­
tetura, onde forças em desequilíbrio podem truir grandes tetos, arcos e domo abobada­
do, foram problemas na mecânica
estática que chegaram a soluções
refinadas.

O Domo da Catedral de Florença,


construído por Filippo Brunelleschi,
representa um triunfo de engenharia
- é sustentado somente pelo peso de
suas próprias pedras.

O filósofo hispano-árabe Averroes ponsável por uma das duas inovações fun­
(1126-1198 d.C.) foi a primeira pessoa a damentais no desenvolvimento da dinâmica
definir força como “a proporção em que o newtoniana a partir da dinâmica aristotélica.
trabalho é feito para mudar a condição ciné­ O filósofo francês do século XIV Jean
tica de um corpo material”, e afirmar “que Buridan (c. 1300-1358) relatou o ímpeto
o efeito e a medida da força são a mudança dado pelo impulsor na velocidade do corpo
na condição cinética de uma massa resisten­ em movimento. Ele pensava que o ímpeto
te materialmente”. Ele introduziu a ideia de pudesse ser em linha reta ou em círculo,
que corpos não moventes têm resistência este último explicando os movimentos dos
para começar a se mover - conhecida hoje planetas. Seu relato é parecido ao moderno
como inércia mas aplicou-a apenas aos conceito de momentum.
corpos celestes. Foi Tomás Aquino que es­ Discípulo de Buridan, Albert da Saxô-
tendeu o conceito a corpos terrestres. Ke­ nia (c. 1316-1390), ampliou a teoria divi­
pler seguiu o modelo de Averroes-Aquino - dindo a trajetória de um projétil em três
foi ele que introduziu o termo “inércia” - que etapas. Na primeira (A-B), a gravidade
se tornou o conceito central da dinâmica de não tem efeito e o corpo se move na di­
Newton. Isso significa que Averroes é res­ reção do ímpeto dado pelo impulsor. Na

78
O PROBLEMA DA DINÂMICA

segunda etapa (B-C), a gravidade recupe­


ra sua potência e o ímpeto declina, logo RUMORES MALDOSOS
o corpo começa a tender para baixo. Na Nem todas as histórias sobre a vida de
terceira etapa (C-D), a gravidade domina Buridan que nos chegam hoje podem ser
e puxa o corpo para baixo à medida que o verdadeiras, mas sugerem que o seu cará­
ímpeto se esgota. ter vibrante e animado. Diz-se que ele ati­
rou um sapato na cabeça do futuro Papa
Clemente VI ao disputar uma mulher, e
O EXPERIM ENTO DO TÚNEL
que morreu depois que o rei da França
Um dos experimentos mais importantes
o atirou no rio Sena dentro de um saco,
pensados na História da ciência envolve a
como punição por ter tido um caso com
queda imaginada de uma bala de canhão a rainha.
por um túnel que passa pelo centro da Ter­
ra e chega ao outro lado. O experimento
foi discutido por vários pensadores medie­
vais, desenvolvendo as ideias de Avicenna A B
e Buridan sobre o ímpeto. Pensava-se que,
Uma bala de
ao atingir o outro lado do mundo, a bala
canhão disparada
de canhão deveria subir à mesma altura da horizontalmente segue
qual caiu. A explicação era que a bala de uma trajetória reta, e
canhão recebia ímpeto pela força da gra­ então cai para a Terra.
vidade que agia sobre ela para empurrá-
-la para a Terra, e que este seria suficien­
te para contrapor-se à gravidade em sua
trajetória de saída. Quando ela alcançasse
a altura da qual caiu originalmente, o ím­ Este foi o primeiro ponto em que o movi­
peto se esgotaria e a bala de canhão cairia mento oscilatório, tão importante na física
novamente, seguindo o mesmo padrão e do século XVII, foi incluído no estudo da
estabelecendo um movimento oscilatório. dinâmica.

"Quando um impulsor põe um corpo em movimento, ele imprime neste certo ímpeto, ou seja,
certa força que permite que o corpo se mova na direção determinada pelo impulsor, seja para
cima, para baixo, para os lados ou em círculo. O ímpeto implantado aumenta na mesma razão
que a velocidade. É por causa desse ímpeto que uma pedra se move após o sujeito que a atirou
parar de movê-la. Mas por causa da resistência do ar (e também à gravidade da pedra) que
luta para movê-la na direção oposta ao movimento causado pelo ímpeto, este último se enfra­
quecerá o tempo todo. Portanto, o movimento da pedra será gradualmente mais lento, e final­
mente o ímpeto estará tão diminuído ou destruído que a gravidade da pedra prevalece e move a
pedra para seu lugar natural."
Jean Buridan, Questions on Aristotle's Physics
(Questões sobre a Física de Aristóteles).

79
MASSA EM MOVIMENTO - MECÂNICA

OS CALCULADORES DE OXFORD - DA GLÓRIA


Os Calculadores de Oxford eram um grupo de matemáticos cientistas que trabalhava na
faculdade de Merton em Oxford, no século XIV, que incluía Thomas Bradwardine, William
Heytesbury, Richard Swlneshead e John Dumbleton. Eles investigaram a velocidade instantâ­
nea e chegaram ao fundamento da lei da queda dos corpos muito antes de Galileu, a quem
em geral esta é atribuída. Eles também enunciaram e demonstraram o teorema da veloci­
dade média: que se um objeto em movimento acelera a uma taxa uniforme durante certo
tempo, ele cobre a mesma distância que um objeto que se move com velocidade média
pelo mesmo período de tempo. Eles foram os primeiros a tratar de propriedades como o
calor e força como teoricamente quantificáveis, embora não tivessem como medi-las, e su­
geriram o uso da matemática em problemas de filosofia natural. Infelizmente, os acadêmicos
de Oxford na época medieval costumavam ser ridicularizados por causa da natureza de seus
estudos e o grupo praticamente desapareceu, relegado à obscuridade.

O experimento do túnel foi adaptado ça tenha se esgotado e ele seja puxado de


para explicar a oscilação de um pêndulo, volta, renovando o impulso, porém na outra
que era vista como o experimento do túnel direção. Para a dinâmica aristotélica, e nos
em um microcosmo. O pêndulo é puxado modelos de Hiparco e Filopono, o pêndulo
para baixo ao seu ponto mais baixo (o pon­ era uma anomalia inexplicável. Não havia
to médio horizontal), e o impulso que ele razão óbvia para que ele subisse novamente
ganhou o impele para sua trajetória lateral após cair. Aqui, finalmente, surgiu uma ma­
continuada (talvez para cima), até que a for­ neira de explicá-lo.

O verd ad e iro n a scim e n to d a


m ecânica clássica
Os cientistas dos séculos XVI e XVII busca­
ram explicações para o movimento dos cor­
pos físicos, que incluíam desde projéteis a
estrelas. O primeiro trabalho sobre dinâmica
foi examinado rigorosamente e substituído,
principalmente por meio dos esforços de Ga­
lileu na Itália e de Isaac Newton na In glater­
ra, embora com contribuições importantes
de astrônomos como Johannes Kepler.

Um famoso experimento mental envolve deixar


cair uma bala de canhão em linha reta através
da Terra.

80
O VERDADEIRO NASCIMENTO DA MECÂNICA CLÁSSICA ' S jl’

O EXPERIM ENTO DA BOLA DE G a LILEU Galileu tinha um extremo interesse por


A desconfiança que Galileu tinha da física projéteis e corpos em queda. E improvável
aristotélica começou cedo. Ainda adolescen­ que ele tenha realizado o experimento fa­
te, quando era estudante em Pisa, ele refu­ moso atribuído a ele de soltar balas de ca­
tou a alegação de Aristóteles de que corpos nhão de pesos diferentes da Torre Inclinada
pesados caem mais rapidamente que os mais de Pisa para mostrar que eles caem com a
leves, citando como evidência que granizos
mesma velocidade - é mais provável que
de diferentes tamanhos atingem o chão ao
tenha se tratado simplesmente de um exer­
mesmo tempo e presumivelmente caem da
cício hipotético. Mas quer ele o tenha rea­
mesma altura. (Esta é uma prova espúria, evi­
dentemente, pois ele não tinha como saber se lizado ou não, o conceito de conduzir um
granizos iniciavam sua queda ao mesmo tem­ experimento para testar uma ideia e de usar
po.) Ele mostrou também que uma bala de os resultados como evidência para apoiar
canhão que atinge um alvo na mesma altura um enunciado científico foi central para as
da qual saiu do canhão faz isso com a mesma práticas de Galileu e se tornaria a base do
velocidade com a qual saiu do canhão. método científico.

DESCARTES E A VISÃO MECANICISTA


René Descartes foi, essencialmente, a pri­
meira pessoa a propor a existência de leis
da natureza imutáveis. Ele desenvolveu uma
visão mecanicista inspirada por um cientis­
ta amador e defensor da filosofia mecânica,
o holandês Isaac Beeckman (1588-1637),
a quem ele conhecera em 1618. Descartes
tentou explicar todo o mundo material, in­
clusive a vida orgânica, em termos do tama­
nho, forma e ação de partículas de matéria
em movimento de acordo com as leis da fí­
sica. Ele até via o corpo humano como um
tipo de máquina, embora a alma fosse ex­
cluída de seu esquema mecanicista. Em sua
visão, Deus foi o primeiro sujeito que deu ao
universo o empurrão de que precisava para
funcionar, mas depois o universo passou
a funcionar por conta própria, seguindo as
leis da física como uma peça de relógio. Ele
acreditava que se as condições iniciais fos­ Descartes acreditava que seres animados
sem conhecidas, o resultado de qualquer sis­ tinham o mesmo funcionamento do relógio,
seguindo as leis da física.
tema poderia ser previsto.

81
MASSA EM MOVIMENTO - MECÂNICA

Em vez de soltar balas de canhão de


uma altura perigosa, Galileu executou seus
experimentos sobre forças rolando bolas
de pesos diferentes por planos inclinados.
Em uma época em que os relógios não ti­
nham um segundo ponteiro, determinar
com exatidão a duração de ocorrências em
experimentos não era fácil. Galileu usava
um relógio d’água e seu próprio pulso para
medir o tempo que as balas levavam para
atingir o fim de um plano inclinado, mos­
trando que os efeitos da gravidade eram os
mesmos tanto sobre objetos leves quanto
pesados. Isso ia contra os ensinamentos de
Aristóteles e - evidentemente - do senso
comum. Mas Galileu ressaltou que quan­
do vemos uma pena ou uma folha de pa­ É improvável que Galileu tenha deixado cair
balas de canhão da Torre de Pisa, mas esta foi
pel cair mais lentamente que uma bala de uma ideia atraente durante muito tempo.
canhão, é porque a resistência do ar tor­
na mais lenta a sua queda, e não porque a
gravidade tenha menos influência sobre o sempre uma trajetória circular. Coube a
objeto mais leve. Descartes demonstrar que objetos em mo­
O experimento de rolar bolas mostrou vimento continuam em linha reta a não ser
algo mais. A medida que ele diminuía a que a mesma força aja sobre eles para mu­
inclinação dos planos, Galileu percebeu dar a direção de sua trajetória.
que se não houvesse uma força que paras­
se, uma bola continuaria rolando ao longo
de um plano horizontal. Novamente, isso
contrariava os ensinamentos de Aristó­ EXPERIMENTO DE GALILEU
teles. Também pareceria ser contraintui- SOBRE A LUA
tivo - um tijolo empurrado ao longo de Em 1971, os astronautas da Apollo 15 de­
uma mesa parará assim que deixarmos de monstraram que o que Galileu tinha dito
empurrá-lo, e mesmo um carrinho com sobre corpos em queda estava correto.
rodas parará depois de um tempo. Galileu Quando não existe atmosfera (e, portanto,
identificou corretamente uma força que não há resistência do ar ou suspensão), os
objetos em queda que caíam ao mesmo
age para parar o movimento - a fricção.
tempo da mesma altura atingiam o solo
No entanto, ele cometeu um erro ao inter­
ao mesmo tempo, independentemente de
pretar seus achados de que o movimento
seu peso ou forma. Os astronautas usaram
continuará a não ser que seja impedido; ele uma pena e um martelo geológico para
supôs que, uma vez que a Terra está giran­ demonstrar isso.
do, o movimento inercial deve produzir

82
O VERDADEIRO NASCIMENTO DA MECÂNICA CLÁSSICA

GALILEU GALILEI (1564-1642)


Galileu foi educado em casa até os 11 anos, nova estrela (a supernova) e por volta de
quando foi mandado para um monasté- 1608 ele demonstrou que a trajetória de
rio para seguir sua educação formal. Para um projétil é parabólica. Em 1609, Galileu
o horror de seu pai, Galileu ingressou na começou a fazer seus próprios telescópios
vida monástica e aos 15 decidiu se tornar e, no decorrer daquele ano, aprimorou a
monge noviço. Felizmente para a história capacidade de aumento de três para vinte
da ciência, ele contraiu uma infecção no vezes, comparada ao projeto existente. Ele
olho e seu pai o levou para casa enviou um instrumento para Kepler,
em Florença para tratamento. que foi usado para confirmar as
Galileu nunca voltou ao mo- descobertas de Galileu na as­
nastério. Por insistência de tronomia. Essas descobertas,
seu pai, Galileu foi para como as luas de júpiter e
a universidade em Pisa as fases de Vénus (veja a
para estudar medicina, página 171), apoiaram a
mas logo passou a es­ visão de Copérnico de que
tudar matemática e se a Terra viaja em torno do
dedicou muito pouco Sol (heliocentrismo), em
aos cursos médicos. Ele vez de o Sol viajar em vol­
abandonou os estudos de ta da Terra (geocentrismo).
medicina em 1585, mas Durante muitos anos, Galileu
voltou quatro anos depois foi impedido de expressar ou
como professor de matemática. publicar essa visão, pois ia contra
Galileu ganhava pouco como a doutrina da Igreja Católica, e em
professor e sua pobreza aumentou quando 1616 ele foi proibido de defender ou ensinar
seu pai morreu tendo prometido (mas não o modelo heliocêntrico. Em 1632, recebeu
entregue) um grande dote para a irmã de permissão para publicar uma discussão equi­
Galileu. Ele conseguiu adquirir o posto librada do assunto chamada Diálogo a respei­
de professor de matemática em Pádua em to de dois sistemas mundiais principais, mas
1592, uma universidade mais prestigiosa este ensaio tinha um viés tão claro contra o
e um emprego com melhor remuneração. geocentrismo que Galileu foi condenado de
Porém o dinheiro ainda era uma preocu­ heresia em 1634, passando o resto da vida
pação sua, por isso ele buscou a invenção em prisão domiciliar. Durante sua reclusão,
como maneira de aliviá-la, desenvolven­ ele acabou seu Discursos e Demonstrações
do primeiro um termômetro que não teve Matemáticas a respeito de duas novas ciên­
sucesso comercial e depois uma máquina cias, em que explicitou o método científico e
de calcular mecânica que lhe trouxe ren­ afirmou que o universo podia ser entendido
da durante um tempo. Em 1604, Galileu pelo intelecto humano e é governado por
trabalhou com Kepler examinando uma leis que podem ser reduzidas à matemática.

83
^ MASSA EM MOVIMENTO - MECÂNICA

Princípios de Newton talvez tenha sido o livro


de ciências mais influente publicado até hoje.

P H I L O S O P H IfE
inata ao repouso, inclinatio aã quietem. Uma
NATUR. ALI S tendência ao repouso é uma boa definição
de inércia, que primeiro foi descrita por
P R I N C I P I A Averroes, mas não é a razão pela qual um
corpo para de se mover.
MATHEMATICA O experimento definitivo que pôs a inér­
cia em descrédito como uma força que desa­
A u to re J S. N E fV T O N , Trirt. Coll. Cantab. Soc. M a th e f e o s celera o movimento foi realizado em 1640
LHcafiano, & S o c ie ta tis R e g a li s S o d a li.
P r o fe ffo re
por Pierre Gassendi, a bordo de uma galera
que ele emprestara da marinha francesa. Re­
IMPRIMATUR- maram a galera à velocidade máxima pelo
S. P E P Y S, Reg. Soc. P R O S E S ,

jf.u lii 5. i á 86.


Mar Mediterrâneo enquanto balas de canhão
caíam do topo do mastro. Em cada caso, elas
atingiam o deck no mesmo lugar, exatamente
L 0 N D INI,
ao pé do mastro. Elas não ficavam para trás
J u f lii Societatis R egU a c T y p is Jofcp h i Streatcr. P r o f t a t apud
por causa do movimento da embarcação. Isso
p lu r e s B ib lio p o la s . A mo M D C L X X X V J I .
mostrou que um corpo continuava a se mo­
ver na direção tomada inicialmente, a não ser
que fosse detido por alguma força. A bala de
P arar e começar canhão acompanhava a galera porque nada
A inércia é a relutância de um corpo em parava seus movimentos para a frente, e isso
começar a se mover. Ela deve ser superada
para que o movimento se inicie. O m om en­
tum é a tendência que um corpo em movi­ Leis do Movimento de Newton
mento tem de continuar a se mover, uma Primeira tei: Os corpos se movem em linha
vez recebido um ímpeto inicial. O m om en­ reta com velocidade uniforme, ou perma­
tum se perde quando o corpo desacelera, e necem parados, a não ser que uma força
para em resposta a uma força que age sobre aja para mudar sua velocidade ou direção.
ele contra a direção do movimento. O tra­ Segunda lei: As forças produzem ace­
balho em dinâmica de Aristóteles, Hiparco, leração proporcional à massa do corpo
Filopono e Avicemia lidava basicamente (F = ma, ou F/m = a).
com algo parecido ao m om entw n e sua perda Terceira lei: Toda ação de uma força
- com como e por que um corpo continua a produz uma reação igual e oposta. (Por
se mover, e então para depois daquele ím­ exemplo, um foguete é impulsionado para
peto inicial. No entanto, eles não responde­ frente com a mesma força que os gases de
ram corretamente por que um corpo para de escape são expelidos para trás dele.)
Essas leis abrangem as leis de conserva­
se mover. Os físicos persas explicaram que a
ção de energia, momentum e momentum
eventual perda de movimento começava por
angular.
um impulso por referência a uma tendência

84
O VERDADEIRO NASCIMENTO DA MECÂNICA CLÁSSICA

continuava juntamente com seu movimento entre eles. A lei da gravidade, publicada em
para baixo. Gassendi foi imensamente in­ 1687, foi a primeira força a ser descrita ma­
fluenciado por Galileu e pelo método expe­ tematicamente. Ao formular a lei, Newton
rimental defendido por ele. demonstrou pela primeira vez que todo o
universo é governado pelas mesmas leis, e
O M ESTRE FALA estas são leis que podem ser modeladas.
A forma da mecânica clássica que dominou As leis de movimento e gravitação de
a física durante mais de 200 anos às vezes é Newton se aplicam igualmente a todos os
chamada de mecânica newtoniana, em ho­ objetos na Terra e aos corpos celestes. Elas
menagem às três leis de movimento formu­ explicam a maior parte dos movimentos dis-
ladas por Isaac Newton nos anos 1660. Estas cerníveis no mundo que nos rodeia, falhan­
foram a lei da inércia, a lei da aceleração e a do apenas quando objetos estão se movendo
lei de ação e reação. Ele tratou a segunda e a próximo da velocidade da luz ou são extre­
terceira leis em Philosopieas Naturalis Principia mamente pequenos; nenhuma dessas pos­
M athematica (Princípios Matemáticos de Filo­ sibilidades importava a Newton. As leis de
sofia Natural), publicado em 1687, em geral Newton explicaram os achados de Galileu,
chamado apenas de Principia (Princípios). O inclusive seu exercício hipotético com balas
grande avanço de Newton foi em fornecer de canhão de pesos diferentes, e também o
um relato detalhado da mecânica usando o relato feito por Kepler dos planetas seguin­
sistema matemático agora chamado de cálcu­ do órbitas elípticas. No universo de New­
lo diferencial, que ele havia desenvolvido. ton, o movimento de todos os corpos era
previsível, dadas informações sobre a massa
M o v im e n t o e g r a v id a d e do corpo e as forças que agem sobre ele.
Newton estabeleceu os princípios de con­
servação de momentum e momentum. angular, O UNIVERSO COM O CAM PO DE TESTES
além da formulação da gravidade em sua lei Newton verificou suas novas leis mostrando
de gravitação universal. Esta estabelece que como elas explicaram o movimento dos pla­
toda partícula no universo que tem massa netas no sistema solar. Ele mostrou como a
atrai toda outra partícula que tem massa. curvatura da órbita da Terra é o resultado da
Essa atração é a gravidade. Quando uma aceleração na direção do Sol, e a gravidade
maçã cai de uma árvore, do Sol determina as ór­
ela é atraída para baixo bitas dos planetas. Suas
em direção à Terra pela explicações dão susten­
gravidade, mas ao mes­ tação aos relatos feitos
mo tempo a maçã exer­ anteriormente por Ke­
ce sua própria atração pler (veja a página 168).
gravitacional, muito pe­
quena, sobre a Terra. A Diagrama Feito por
força gravitacional entre Newton em Um Tratado
do Sistema do Mundo,
dois corpos é inversa­ sobre como enviar uma
mente proporcional ao bala de canhão para a
quadrado da distância órbita.

85
, ; MASSA EM MOVIMENTO - MECÂNICA

É fácil replicar os experimentos


de Galileu rolando
caminhões de madeira ao
longo de planos inclinados,
como muitas crianças em
idade escolar sabem.

A mecânica celeste - o estudo do movimen­ locando os encrenqueiros - Júpiter e Satur­


to e das forças que agem nos corpos celes­ no - de volta em seus devidos lugares.
tes - foi estabelecida como campo de testes Foi o matemático e astrônomo francês
para teorias na física. Nos séculos seguintes, Pierre Simon Laplace (1749-1827) que re­
nosso entendimento do movimento dos pla­ solveu o que estava acontecendo realmente,
netas foi refinado incluindo-se os campos dentro da estrutura das leis de Newton.
gravitacionais exercidos pelos planetas, em
cálculos baseados nas leis de Newton. New- Ar e água
ton estava ciente de que as órbitas planetá­ Embora algumas forças sejam óbvias - da­
rias não eram como ele tinha calculado que mos um empurrão em um caminhão de
fossem, e acreditava profundamente que a brinquedo e ele se move, por exemplo -,
intervenção divina fosse necessária a cada outras não são vistas com tanta facilidade. A
século para pôr tudo de volta em curso, co­ pressão do ar ou da água agindo sobre um

ISAAC NEWTON (1642-1727)


Newton nasceu prematuramente no dia de Lucasiana de matemática em 1669 com
Natal de 1642 (calendário pré-gregoriano), apenas 27 anos. Ele demonstrou que a luz
e não se esperava que vivesse. Quando branca é formada por todo o espec­
criança, era rotulado de preguiçoso tro e desenvolveu o cálculo di­
e desatento na escola, e foi um ferencial - embora tenha dis­
aluno medíocre em Cambridge. cutido essa prioridade com
Quando a universidade foi fe­ Gottfried Leibnitz (1646-
chada em razão da Grande 1716), que o desenvol­
Peste de 1665, Newton foi veu independentemente.
fo rç a d o a p a ssa r esse p e río ­ Newton escreveu dois
do em sua casa em Lincoln­ textos importantes, Princi­
shire. Foi lá que ele fez os pia e Opticks. Notoriamen­
primeiros esboços de suas leis te questionador e arrogante,
do movimento e seus insights Newton tinha frequentes dis­
iniciais sobre a gravidade. Depois de cussões com outros cientistas, e
voltar a Cambridge, ele assumiu a cadeira teve uma longa rixa com Robert Hooke.

86
AR E ACUA
íl
T

corpo pode movê-lo, deformá-lo Uma folha caindo não


ou mesmo destruí-lo. Os fluidos não vai direto para a terra
porque sua massa
agem como corpos da mesma forma
baixa e a grande
que um planeta ou uma maçã. Um área de sua superfície
fluido pode fluir, ele não tem forma significam que ela é
fixa, e isso significa que a força exerci­ facilmente transportada
da por ele difere da força exercida por um pelo vento.
corpo sólido.
Mesmo assim, é possível ver um líqui­ que ele desloca.
do fluindo ou caindo e entender parte de Heron de Alexandria (c. 10-70 d.C.) em­
sua força. O comportamento dos gases foi prega a pressão do ar, água e vapor na práti­
ligeiramente mais difícil de ver e investi­ ca, ao inventar uma roda de vento para acio­
gar, visto que a maioria dos gases não é nar um órgão musical, a primeira máquina
visível. Está claro, dada a força do vento a vapor. Ele também criou uma porta auto­
de derrubar árvores e destruir edifícios, mática: o ar aquecido por uma pira desloca­
que um gás em movimento pode ter muita va a água, que era coletada e seu peso pu­
força, mas é mais difícil fazer experimen­ xava uma corda que abria as portas. Heron
tos com eles. foi responsável pelo primeiro caça-níquel, e
Anaxágoras executou experimentos em até mesmo por uma apresentação de mario­
público para demonstrar a existência da netes. O caça-níquel dispensava uma deter­
pressão do ar usando o ar contido em um minada quantidade de água benta. A moeda
vaso fechado esférico que ele empurrava inserida caía em um prato que inclinava,
para dentro d’água. Embora ele tivesse co­ abrindo uma válvula para que água jorrasse.
locado pequenos orifícios no fundo do vaso, Quando a moeda caía fora do prato, um
este não se encheu de água, pois já estava contrapeso cortava o suprimento de água. O
cheio de ar. Anaxágoras show de bonecos era acionado por um siste­
não estendeu seu traba- ma de cordas, nós e máquinas simples, todos
^ I lho para a pressão at- operados simultaneamente por uma roda
mosférica, mas mostrou dentada, cilíndrica, giratória.
como a resistência do ar Desde a Antiguidade, sabe-se que a água
. exphca por que as fo­ pode ser bombeada a uma altura aproximada
lhas podem flutuar de 10 metros, mas não mais que isso, o que
no ar. Arquimedes foi descoberto por tentativa e erro. Nos anos
teorizou que um 1640, os cientistas começaram a ligar isso
corpo imerso na com a pressão atmosférica. O matemático
água está sujeito italiano Gasparo Berti (1600-1643) fez, não
a uma força para intencionalmente, um barômetro de água
cima que é igual por volta de 1640, e descobriu que a altura
ao peso da água da água em um tubo longo e fechado inver-

Uma Eolípila, ou o primeiro motor a vapor, de um tipo projetado por


Heron da Alexandria; o vapor que escapava fazia o topo da esfera girar.

87
MASSA EM MOVIMENTO - MECÂNICA
•1

tido sobre um prato atingiria DANSUS BERNOULLI Jon tm


Página de título de
M », f w r , B ,
10,4m, deixando o espaço - um AC.ilX SQiSt.
e asic
I’CTROTOWTAStC, Hidrodinâmica de Bernouilli, o
MATHFÂE01
iimÍMUKS tS0i.05U.StSC M M ( X 1WK.HÜ.NU8.

vácuo - no alto do tubo. Um H Y D R O D Y N A M 1 C A , primeiro trabalho sobre mecânica


DE VIRIBIÍS ET MOTÍBÜS FLUIDORUM dos fluidos.
colega italiano, o físico Gio- COMMENT ARÍL
OPUS ÀCADEMICUM
AB AtrCTOl«* DUM Pr.TPvQ?OLI AGERE T,
vanni Batista Baliani (1582- • ÇONÜESTÜM,
te que mantinha a coluna de
1666), descobriu em 1630 que água no tubo a uma altura de
não podia bombear água acima 10 metros. Rumores de que
dessa altura, e pediu a Galileu Torricelli estaria envolvido em
para explicar por quê. A expli­ feitiçaria significavam que ele
cação de Galileu foi que a água precisava manter seus experi­
_vULGENTORAn __
era sustentada para cima pelo dm IÔ#Ââ|HÍÍ EÍ S ÓI»! fti&SSGjKfc&f;
___ Dçcxsacm. __
í k
mentos em segredo, por isso
?U>'I«*- item *, iffvsn&S W H S".’1"........
vácuo, e o vácuo não podia sus­ ele procurou um líquido mais
tentar alturas acima do que a denso que alcançasse um nível
água em 10 metros. A essa altura, a maioria mais baixo. Ele acertou ao usar o mercúrio
das pessoas, inclusive Galileu, acreditava que que, com uma densidade 16 vezes maior que
o ar não tinha peso próprio. a da água, forma uma coluna muito menos
conspícua, de apenas 65 cm.
D a á g u a p a r a o m e r c ú r io O matemático francês e físico Blaise Pas­
Evangelista Torricelli (1608-1647), amigo cal (1623-1662) repetiu o experimento de
e aluno de Galileu, sugeriu em 1644 que, Torricelli com um barômetro de mercúrio
de fato, o ar tinha peso e era o peso do ar e foi além, fazendo seu cunhado carregar e
pressionando a água para baixo no recipien- testar o equipamento no alto de uma mon­
tanha. Ao descobrir que o mercúrio afunda­
va mais em altitude, Pascal concluiu corre­
O BARÔMETRO DE VINHO tamente que o peso do ar era menor lá em
Tendo descoberto como seu barômetro cima e, portanto, exercia uma pressão menor.
funcionava, Pascal começou a testar a A partir de suas conclusões, ele extrapolou,
crença mantida por físicos aristotélicos de sugerindo que a pressão do ar continua a cair
que a parte "vazia" do tubo era preenchi­ à medida que a altitude aumenta. Em algum
da por vapores do líquido que pressiona­ ponto o ar sai e há apenas vácuo acima da
vam a coluna para baixo. (Eles rejeitavam camada atmosférica da Terra. Atualmente, a
a ideia de que poderia haver um vácuo no medida da pressão é chamada “pascal” (Pa)
alto do tubo). Ele escolheu o vinho para em sua homenagem, sendo um pascal equi­
uma demonstração pública, por ser con­ valente a um newton por metro quadrado.
siderado mais vaporoso que a água. Pediu
aos aristotélicos para fazerem uma previ­ D in â m ic a d o s f l u id o s
são do que aconteceria. Eles propuseram
Embora as pessoas tenham aproveitado o
que a coluna de vinho seria mais baixa que
movimento dos fluidos há milênios, somente
a de água, pois haveria mais vapor para
em meados do século XVIII este começou a
pressioná-la para baixo. Foi provado que
ser entendido. O matemático suíço-holandês
estavam equivocados, e a explanação de
Daniel Bernoulli (1700-1782) estudou o
Pascal prevaleceu.
movimento de líquidos e gases, publicando

88
COLOCANDO A MECÂNICA PARA FUNCIONAR

em 1738 seu Hidrodinâmica, um livro fun­ são arterial que envolvia inserir um tubo capilar
damental. Ele descobriu que a água que flui em um vaso sanguíneo e medir a altura à qual
rápido exerce menos pressão que aquela que o sangue subiu no tubo. Esse método invasivo
flui lentamente, e que esse princípio pode ser e desconfortável de medir a pressão sanguínea
estendido a qualquer fluido, seja líquido ou foi usado por mais de 150 anos, até 1896.
gás. Se Bernoulli inserisse um tubo vertical
estreito pela parede de um tubo horizontal J u n t a n d o f l u id o s e m a s s a
mais largo com água fluindo, esta subiria Até ser aceito que a matéria é composta de
pelo tubo estreito. Quanto maior a pressão átomos, era impossível igualar o comporta­
da água no tubo mais largo, mais alto ela su­ mento de corpos sólidos ao comportamento
biria pelo tubo estreito. Se o tubo for mais de fluidos de maneira significativa. Mas as­
estreito, a pressão do líquido que flui aumen­ sim que ficou evidente que líquidos e gases
ta. Se o tubo for reduzido à metade de sua são compostos de moléculas, foi possível en­
largura anterior, a pressão quadriplica, pois a tender que a pressão da água e a pressão do
lei dos quadrados se aplica a ela. ar são produzidas por partículas em movi­
Bernoulli enunciou suas conclusões no mento que exercem força em outros corpos
que agora é conhecido como teorema de com os quais entram em contato. De fato,
Bernoulli: a qualquer ponto em um duto ver isso acontecer no movimento brownia-
pelo qual o líquido esteja fluindo a soma da no eventualmente provou a existência dos
energia cinética, energia potencial e energia átomos (veja a página 42). O modelo atômi­
da pressão de uma dada massa do fluido é co da matéria finalmente ganhou aceitação
constante. Esta é equivalente à lei da con­ universal nos primeiros anos do século XX.
servação de energia. Os fenômenos por trás Ao mesmo tempo, começaram a aparecer
do teorema de Bernoulli mantêm uma aero­ falhas na mecânica newtoniana.
nave voando, permitem-nos prever o clima
e ajudam-nos a de­ C o lo c a n d o a m ecânica p ara
terminar a circulação fu n c io n a r
de gases nas estrelas e Durante a Revolução Industrial nos séculos
galáxias. XVIII e XIX, a mecanização na indústria,
Bernoulli estudou agricultura e transporte transformou total­
medicina por insistên­ mente a vida na Europa e na América do
cia de seu pai, e tinha Norte. As populações se moveram em massa
interesse pelo flu­ do campo para a cidade, máquinas possibi­
xo sanguíneo no litaram a manufatura de bens em massa, as­
corpo humano. sumiram tarefas agrícolas que antes deman­
Ele concebeu davam um grande número de trabalhadores
um método para rurais, e passaram a transportar bens, ali­
medir a prés­ mentos e pessoas de um modo mais eficien­
te. A necessidade de aperfeiçoar o maqui-
timo maneira m ecânica de nário ajudou a levar o progresso à ciência.
medir a pressão sanguínea O tear mecânico, construído em 1764 por
usada até o final do século XX. James Hargreaves, usava maquinário sim-

89
MASSA EM MOVIMENTO - MECÂNICA

pies para acionar oito fusos girando-se uma tica), que ele iniciou aos 19 anos e concluiu
única roda. A estrutura de água, desenvol­ aos 52, Lagrange apresentou uma síntese
vida por Thomas Arkwright na Inglaterra de tudo o que se passou nesse período com
em 1771, e usada para fiar era acionada por base em seu próprio sistema matemático,
meio de água corrente. Os primeiros apa­ que descrevia os limites de um sistema me­
relhos movidos a vapor eram bombas, mas cânico em termos de todas as variações que
com o motor a vapor bastante aprimorado podiam acontecer no curso de sua história
de James Watt, a potência do vapor pode expressa usando cálculo. As equações de La­
ser usada para fazer muitos tipos diferentes grange relacionam a energia cinética de um
de trabalho. Essas invenções não foram fei­ sistema às suas coordenadas generalizadas,
tas por físicos, mas por pessoas que precisa­ forças generalizadas e tempo. Seu livro não
vam realizar uma tarefa prática e procuravam contém diagramas - uma realização notável
uma solução. Essas soluções foram fruto de para um livro sobre mecânica - , seus mé­
observação e inspiração, e não de teorização. todos usam cálculo e excluem a geometria.
A ciência logo entrou em cena para ajudar a Seu trabalho simplificou muitos cálculos
explicar e aprimorar o maquinário da Revo­ em dinâmica, ao lidar com funções escala­
lução Industrial, e tem feito isso desde então. res de cinética e energia potencial em vez de
um acúmulo de forças, acelerações e outras
C o l o c a n d o a m e c â n ic a n e w t o n ia n a em quantidades vetoriais.
UMA NOVA PO SIÇÃO Tanto Euler quanto Lagrange também
As leis de Newton estabeleceram as bases abordaram a mecânica dos fluidos, mas se­
para a mecânica clássica, mas foram esten­ guiram abordagens diferentes. Euler des­
didas e desenvolvidas ao longo dos séculos creveu o movimento de pontos particulares
subsequentes. O matemático e cientista em um fluido, enquanto Lagrange dividiu o
suíço Leonard Euler (1707-1783) expandiu fluido em regiões e analisou suas trajetórias.
o escopo das leis de Newton de partículas Outro matemático que deu contribuições
para corpos rígidos (corpos sólidos ideali­ significativas para a moderna mecânica prá­
zados de tamanho finito), e formulou duas tica foi o nobre irlandês Sir W illiam Rowan
outras leis para explicar que as forças inter­ Elamilton (1805-65). Em seu tratado On a
nas dentro de um corpo não precisam ser G eneral M ethod in Dynamics (1835), ele ex­
distribuídas igualmente. O princípio da ação pressou a energia de um sistema em termos
mínima de Euler (que a natureza é pregui­ de m om entum e posição, reduzindo a dinâ­
çosa) tem muitas apficações na Física - no­ mica a um problema no cálculo de varia­
tavelmente que a luz segue a trajetória mais ções. A reformulação feita por ele da mecâ­
curta. O brilhante matemático ítalo-francês nica clássica nas equações hamiltonianas às
Joseph-Louis Lagrange (1736-1813) su­ vezes é chamada de mecânica hamiltoniana.
cedeu Euler como diretor da Academia de No processo, ele descobriu que existe uma
Ciências de Berlim. Ele ajudou a reunir to­ íntima relação entre a mecânica de New­
dos os desenvolvimentos na mecânica new­ ton e a ótica geométrica. O significado de
toniana no século após a morte de Newton seu trabalho não foi evidenciado até o sur­
e os reformulou na mecânica lagrangiana. gimento da mecânica quântica quase 100
Em M échanique Analytique (Mecânica Analí­ anos depois.

90
COLOCANDO A MECÂNICA PARA FUNCIONAR

I n é r c ia e g r a v id a d e v ê m ju n t a s
Entre o enunciado feito por Newton das leis
de inércia e gravidade e as teorias da rela­ SIR WILLIAM ROWAN HAMILTON
tividade de Einstein veio o físico austríaco (1805-1865)
Ernst Mach (1838-1916). Newton acredi­ Brilhante desde a infância, Hamilton
tava que o espaço fosse um pano de fundo aprendeu a ler aos três anos. Ele podia
absoluto contra o qual o movimento podia traduzir latim, grego e hebraico aos cin­
ser plotado. Mach discordava, dizendo que o co, compilou uma gramática da língua
movimento pode ser sempre relativo a outro síria aos 11 e aos 14 compôs uma can­
objeto ou ponto. Como Einstein, ele acredi­ ção de boas-vindas em persa ao embai­
tava que somente o movimento relativo faz xador persa que estava visitando Dublin.
sentido. Em consequência, a inércia só pode O dom de Hamilton para matemática e
ser entendida se houver outros objetos para astronomia era tamanho que ele foi elei­
compararmos o movimento ou a imobilidade to professor de astronomia e Astrônomo
de um corpo. Se não existissem estrelas ou Real na Irlanda antes de se formar. Ele era
muito dependente de álcool como fonte
plantas, por exemplo, não seríamos capazes
de alimento e, embora ele fizesse a maior
de dizer que a Terra gira. O princípio de
parte de seu trabalho na sala de jantar
Mach —que ele não apresentou como princí­
de sua casa, comia pouco além de cos­
pio, foi Einstein quem cunhou o termo - foi
teletas de carneiro.
enunciado em termos bem gerais como “a
Dúzias de pratos
massa lá influencia a inércia aqui”. Sem mas­
com ossos de
sa “lá” não pode haver inércia “aqui”. carneiro no
local foram
G r a n d e e peq u en o encontrados
Embora a mecânica newtoniana parecesse entre muitos
funcionar bem para objetos maiores no uni­ de seus pa­
verso, ela começou a falhar quando aplicada péis após sua
aos objetos minúsculos. Quando os físicos morte. Suas reali­
tomaram ciência de partículas atômicas e zações abrangeram os campos
subatômicas, eles descobriram que as leis da da matemática, astronomia, humanida­
física, que eles consideravam ser fixas e imu­ des, dinâmica, ótica e mecânica.
táveis para todas as coisas, não pareciam se
aplicar mais. As menores partículas podiam
fazer coisas estranhas. A confiança conquis­
tada com dificuldade nas leis da física estava dentes. A mecânica clássica atinge seus li­
naufragando, e no século XX essas leis pas­ mites na escala atômica, em velocidades
sariam por um exame rigoroso. próximas à velocidade da luz, e em campos
Em vez de trabalhar com o átomo de­ gravitacionais intensos. Antes de examinar
monstrando que as ideias de Newton real­ o átomo e como ele parece desafiar as leis
mente explicavam todo o universo, ele da natureza, precisamos voltar um pouco
mostrou que com escalas muito pequenas e examinar a energia - a outra metade da
a matéria se comporta de formas surpreen- equação massa-em-movimento.
CAPÍTULO 4

ENERGIA
campos e forças

Q uando uma força age para m over uma massa, pa­


rece óbvio para nós que há energia envolvida. Logo,
pode parecer surpreendente que desde a Antiguida­
de, quando se falava em força, a energia tenha sido
am plam ente negligenciada pelos prim eiros filósofos
naturais. O conceito de energia é relativam ente novo,
aparecendo apenas no século XVII. De fato, o term o
“energia” (do grego energia , cunhado p o r A ristó te­
les) só foi introduzido com seu significado m oderno
em 18 0 7 pelo gênio e erudito Thom as Young (da
experiência da fenda dupla). As form as mais óbvias
de energia são luz e calor, ambas as quais vêm livre­
m ente do Sol. A humanidade também aproveitou a
energia química (liberada pela queima de com bustí­
veis), a energia gravitacional de um corpo em queda,
a energia cinética do ven to e da água em m ovim ento
e, mais recentem ente, a energia elétrica e nuclear.

O ra io e o v e n to r e p re s e n ta m m a c iç a s e x p lo s õ e s d e e n e r g ia n a
n a t u r e z a , t e m id o s p o r s e u p o d e r d e stru tiv o .
ENERGIA CAMPOS E FORÇAS

A co n se rvação de e n e rgia
Assim como a matéria é conservada, não
sendo criada nem destruída, a energia tam­
bém é conservada. Ela pode ser convertida
de uma forma para outra - e é assim que
aproveitamos energia para realizar um tra­
balho útil - , mas essa energia nunca é real­
mente gasta. Galileu notou que um pêndulo
converte energia potencial gravitacional em
energia cinética, ou energia do movimento.
Quando o pêndulo atinge seu ponto mais
alto da oscilação ele está momentaneamen­
te parado e tem energia potencial máxima.
Esta é convertida em energia cinética quan­
do o pêndulo se move, e este recobra ener­
gia potencial quando sobe no outro lado de
sua oscilação.

I n v e n t a n d o a " e n e r g ia "
Não ficou imediatamente óbvio que tipos
diferentes de energia são equivalentes. Ain­ Relógios com pêndulo foram desenvolvidos pela
primeira vez em 1656 por Christiaan Huygens:
da hoje não há um entendimento básico o pêndulo sempre leva o mesmo tempo para
do que seja exatamente energia e como ela oscilar.

"Existe um fato, ou se você preferir, uma lei, que


governa todos os fenômenos naturais conheci­
dos até a presente data. Não há exceção conhe­
cida a essa lei - ela é exata, pelo que sabemos.
A lei é chamada de conservação de energia. Ela
estabelece que existe uma certa quantidade, à
qual chamamos de energia, que não muda nas
diversas transformações sofridas pela natureza.
Esta é uma ideia muito abstrata, porque é um
princípio matemático; diz que existe uma quan­
tidade numérica que não muda quando algo
acontece. Não é uma descrição de um mecanis­
mo, nem algo concreto; é estranho que podemos
calcular um número e quando terminamos de
observar a natureza analisamos suas manobras Uma esportista que patina no gelo pode
e calculamos o número de novo, é igual." acelerar seus giros mantendo os braços
Físico americano Richard Feynmann, 1961. próximos ao corpo, ou dar giros mais
lentos ao esticar seus membros.

94
A CONSERVAÇÃO DE ENERGIA

funciona. O matemático alemão Gottfried


Leibnitz (1646-1716) explicou matematica­
mente a conservação entre diferentes tipos
de energia, aos quais chamou de vis viva.
Seu trabalho, juntamente com observações
do matemático e filósofo holandês Willem
Gravesande (1688-1742), foi aprimorado
pelo físico francês Marquise Emile Du Châ-
telet (1706-1749), que definiu a energia de
um corpo em movimento como proporcio­
nal à sua massa multiplicada por sua velo­
cidade ao quadrado. A atual definição de
energia cinética é muito próxima disso:

Ek = V2 mv2

L u ta n d o co m o fo g o
As primeiras teorias sobre como e por que
as coisas queimam se centravam em um Os humanos usaram o fogo durante milhares de
componente que se supunha ser matéria in­ anos sem entender como ele funcionava.
flamável, chamada flogisto. Quando o mate­
rial era queimado, liberava o flogisto. Esta
não era realmente uma teoria sobre a ener­ mentos - terra, ar, água e fogo - datando da
gia, mas sobre mudanças físicas e químicas época de Empédocles (veja a página 30) e
provocadas pelo fogo. A teoria originou-se substituiu-o por três tipos de terra: terra la-
em 1667 com o trabalho do químico Johann pidea, terra fluida e terra pinguis. Em 1703,
Becher (1635-1682). Ele revisou o modelo George Ernst Stahl (1660-1734), profes­
antigo de matéria que abrangia quatro ele- sor de medicina e química na universidade

MÁQUINAS DE MOVIMENTO PERPÉTUO


O princípio da conservação de energia poderia sugerir que é possível fazer uma máquina
de movimento perpétuo: que usa a energia produzida para manter-se em ação, reciclando
constantemente sua energia de formas diferentes. A ideia foi sugerida pela primeira vez por
volta de 1150 pelo matemático indiano Bhaskara (1114-1185), que descreveu uma roda
que ao rolar derrubava pesos ao longo do comprimento de seus raios, o que propelia seu
movimento. Mesmo Robert Boyle, respeitado por seus conhecimentos, propôs um sistema
que enchia continuamente um copo de água, esvaziava-o e tornava a enchê-lo. Contudo,
todas as ideias para máquinas de movimento perpétuo são falhas, pois se perde energia na
fricção e com a ineficiência. No século XVIII, tanto a Academia Real Francesa quanto o Escri­
tório de Patentes Americanas estavam tão sobrecarregados com solicitações e propostas de
máquinas de movimento perpétuo que as proibiram.

95
ENERGIA CAMPOS E FORÇAS

Laboratório de Lavoisier em
Paris.

de Halle na Alemanha,
mudou ligeiramente o
modelo e o renomeou de
“flogisto” terra pinguis.
O flogisto era consi­
derado uma substância
inodora, sem cor nem
sabor, liberada por com­
bustão de uma matéria.
Depois da liberação do
flogisto, em geral a na­
tureza da matéria quei­
mada é diferente, como quando a madeira algo foi queimado, nem o ferro se enferru­
se transforma em cinza. No entanto, se a jará nele.
matéria for queimada em espaço fechado, A teoria não se tornou favorável a uma
a queima pode não ir até o final, pois o ar explanação química até que Antoine-Lau-
se torna saturado de flogisto. Havia dificul­ rent Lavoisier (veja a página 40) demonstrou
dades para explicar como às vezes os metais que, quando o material queima ou oxida, ele
ganham massa quando queimados ou aque­ combina com o oxigênio. A percepção de
cidos (agora se sabe que eles formam óxi­ que isso tinha ligação com processos vivos
dos), mas os teóricos do flogisto davam uma - que a respiração também exige oxigênio -
solução ardilosa para isso. Eles alegavam foi a primeira pista de que os processos quí­
que às vezes o flogisto micos são essência da vida.
não tem peso, às vezes Enquanto o flogisto e
ele tem peso positivo e depois o oxigênio explica­
às vezes seu peso é ne­ ram o processo químico de
gativo; logo, a perda de combustão, o próprio calor
flogisto pode aumen­ permaneceu um mistério até
tar a massa da matéria 1737, quando Du Châtelet
queimada. O flogisto propôs o que mais tarde foi
também tem implica­ reconhecido como radiação
ções para a ferrugem e infravermelha.
os sistemas vivos - uma
criatura não consegue
viver no ar “impreg­
nado de flogisto” onde G e o r g E rn s t S ta h l.

96
A CONSERVAÇÃO DE ENERGIA

GABRIELLE EMILIE LE TONNELIER DE BRETEUIL, MARQUESA DU CHÂTELET (1706-1749)


Filha de um aristocrata francês, Émilie Du quisou secretamente sobre as propriedades
Châtelet era considerada alta demais para do fogo. Neste, ela sugeriu que cores dife­
uma mulher; por isso seu pai achava que rentes de luz tinham potências diferentes
ela não se casaria. Como consequência, ele para o calor, encobrindo a identificação da
empregou os melhores tutores para ela (ela radiação de infravermelho. Ela não ganhou a
falava seis línguas aos 12 anos), e cedeu ao competição, mas seu trabalho foi publicado.
interesse dela pela física e a matemática. Sua Um de seus experimentos envolvia der­
mãe desaprovava e queria mandá-la para rubar balas de canhão em uma cama de
um convento, mas felizmente a opinião de barro úmido. Ela descobriu que ao dobrar a
seu pai prevaleceu. Émilie desenvolveu um velocidade da bala, esta ia quatro vezes mais
interesse pelo jogo, usando matemática fundo no barro, mostrando que a força é
para aprimorar suas chances de ganhar, de­ proporcional à massa vezes a velocidade ao
pois usava o que ela ganhava para comprar quadrado (m X v2), e não, como disse New­
livros e equipamentos de laboratório. ton, massa vezes velocidade.
Émilie casou-se e teve três filhos. Como
seu marido costumava ir para
campanhas militares ou visitar
suas inúmeras terras, ela tinha
liberdade para prosseguir os es­
tudos científicos e ter amantes -
provavelmente entre eles incluiu-
-se o escritor e filósofo Voltaire,
cujo verdadeiro nome era Fran-
çois-Marie Arouet. Ele certamen­
te era seu companheiro íntimo e
passava muito tempo nas terras
de Du Châtelet em Cirey-sur-Blai-
se, onde o casal dividia um labo­
ratório. Émilie traduziu Principia,
de Newton, e escreveu Institutions
de Physiques (1 740), que tentou
reconciliar as visões de Newton
e Leibnitz. Em 1 737, ela entrou
em um concurso da Académie de
Science com um trabalho que pes­

Émilie Du Châtelet foi uma notável


física em um tempo em que a ciência
era um privilégio dos homens.

97
T e rm o d in â m ica Um dos experimentos de Rumford com barris de
O desenvolvimento do motor a vapor e de canhão. Ele propôs que o calor move partículas,
e pode ser causado por fricção.
muitas outras máquinas com motor durante
a Revolução Industrial significou que havia
uma necessidade cada vez mais urgente de
O modelo calórico sugeria que o calor
entender a termodinâmica - como o calor
é uma forma de matéria, um tipo de gás
é produzido, transferido e como pode ser
com partículas indestrutíveis. Os átomos de
empregado para realizar trabalho físico.
calor - ou calóricos - podiam se combinar
Duas teorias sobre a natureza do calor, não
com átomos de outras substâncias ou usar
mutuamente exclusivas, mas incompatíveis,
espaços livres e esgueirar-se entre os áto­
eram correntes no século XVIII: o modelo
mos em outra matéria. Lavoisier propôs a
calórico e o modelo mecânico de calor.
existência de calóricos enquanto detectava
O modelo mecânico se baseia no mo­
o flogisto. Ele acreditava que os átomos ca­
vimento de partículas mínimas. A teoria
lóricos fossem um constituinte do oxigênio
cinética de gases tem suas origens no livro
e sua liberação produzisse o calor da com-
H idrodinâmica, de Daniel Bernoulli, pu­
blicado em 1738. Ele sugeriu que os gases
são formados por moléculas em movimen­
to. Quando elas bombardeiam a superfície, "Agora estou tão convencido da não existên­
o efeito é de pressão; sua energia cinética cia de calor quanto estou da existência da
luz."
é sentida como calor. Este modelo ainda é
Humphry Davy, 1799.
aceito atualmente.

98
TERMODINÂMICA

do gelo. Mas os defensores do modelo ca­


CONGELADO
lórico argumentaram, sugerindo que a mas­
Assim como se supunha que o calor fosse sa do calórico era desprezível. Observações
resultado do calórico, alguns cientistas dos adicionais de Conde Rumford de que o ato
anos 1 780 acreditavam que o frio pudesse de fazer furos no metal, como os barris de
ser uma propriedade produzida pela pre­ canhão, produzia uma enorme quantidade
sença de uma substância chamada "frigó-
de calor, juntamente com experimentos
rica". Esta foi desacreditada pelo filósofo
realizados pelo químico inglês Elumphrey
e físico suíço Pierre Prévost (1751-1839),
Davy (1778-1829), deveriam ter demons­
que afirmou que o frio é simplesmente a
trado a todos que a teoria calórica estava
ausência de calor e mostrou em 1 791 que
errada, uma vez que eles mostraram que o
todos os corpos, não importa o quanto
calor podia ser produzido por trabalho fí­
pareçam ser frios, radiam calor.
sico. Embora algumas pessoas duvidassem
da teoria calórica, as conclusões do Conde
Rumford e Davy não foram aceitas até que
bustão. Quando o calor era produzido por o físico inglês James Prescott Joule (1818-
fricção, isso ocorria porque os átomos de 1889) repetisse parte de seus experimentos
calóricos eram friccionados pelo corpo em 50 anos mais tarde.
movimento. Joule realizou experiências para demons­
O físico Benjamin Thompson, Conde trar que o trabalho poderia ser convertido
de Rumford (1753-1814), nascido nos Esta­ em calor. Por exemplo, forçar água fazen­
dos Unidos, conduziu um experimento no do pressão através de um cilindro perfurado
qual pesava gelo e o pesava de novo depois eleva a temperatura da água. Isso levou às
de derreter. Ele descobriu que não havia di­ bases para a teoria da conservação de ener­
ferença discernível no peso, sugerindo que gia por meio de sua transferência em formas
não havia ganho calórico no derretimento diferentes, e mostrou que o modelo calórico
de calor não estava correto. (Estranhamen­
te, a conservação da energia do calor fazia
parte do modelo calórico, pois transformava
o calor em matéria, que já se sabia que era
conservada.)
Joule calculou que a quantidade
de trabalho necessária para ele­
var a temperatura de 450 g de
água em um grau Fahrenheit era

Equipamento de joule para medir o


equivalente mecânico do calor.

99
ENERGIA CAMPOS E FORÇAS

sobre os resultados. Joule concluiu que o ca­


A FÍSICA SE TORNA ESTATÍSTICA
lor é uma forma de movimento dos átomos.
A formulação de james Clerk Maxwell das Embora o modelo atômico da matéria não
velocidades moleculares forneceu uma fosse aceito universalmente naquela época,
forma de calcular a proporção de molé­ Joule teve pleno conhecimento dele pelo
culas com uma velocidade específica (ou químico inglês John Dalton (veja a página
a probabilidade de uma partícula ter uma 41) e o aceitava sinceramente.
velocidade específica) em um gás em
que as moléculas têm movimento livre.
AS LEIS DA TERM ODINÂM ICA
Foi a primeira lei estatística em Física. Ela
Três leis da termodinâmica estabeleceram os
foi substituída pela distribuição Maxwell-
-Boltzmann, que refina a técnica e as su­
limites sobre o que pode e não pode ser fei­
posições de Maxwell.
to em qualquer sistema que envolve calor e
energia. As leis apareceram durante o século
XIX, uma vez que o calor ganhou aceitação
geral como o movimento das partículas.
uma força de 838 pés-libras. (Um pé-libra é A primeira lei da termodinâmica, for­
o torque - ou força de torção - criado pela mulada por Rudolf Clausius (1822-1888)
força de uma libra agindo em uma distância em 1850, é essencialmente uma declara­
perpendicular de um pé de um ponto pivô.) ção da conservação de energia: a mudança
Ele tentou métodos diferentes e obteve re­ na energia interna de um sistema é igual
sultados similares, levando-o a aceitar que sua à quantia de calor fornecido a ele menos a
teoria e seus dados estavam aproximada­ quantidade de trabalho realizado pelo sis­
mente corretos. tema. Em outras palavras, a energia nunca é
O trabalho de Joule foi recebido sem criada nem destruída. A lei, conforme estabe­
entusiasmo, em parte por contar com medi­ lecida por Clausius, foi baseada na demons­
ções muito precisas - diferenças na tempe­ tração de Joule de que o trabalho (ou ener­
ratura de 1/200 de um grau. gia) é equivalente ao calor. A segunda lei da
Quando Michael Faraday e William
Thomson (mais tarde Lord Kelvin) ouvi­
ram Joule apresentar seu trabalho em 1847,
ambos demonstraram interesse, mas levou
muito tempo para compartilharem essa vi­
são.
A primeira colaboração com Thomson
aconteceu quando os dois se encontraram,
enquanto Joule estava em lua-de-mel. Eles
planejaram medir a diferença na temperatu­
ra da água no topo e na base de uma queda
d’água na França, mas no final isso provou
ser impraticável. Thomson e Joule se cor­
Um motor a vapor converte a energia do calor
responderam de 1852 a 1856; Joule reali­ em energia cinética para impulsionar um veículo
zava experiências e Thomson comentava ou um maquinário.

100
TERMODINÂMICA

NICOLAS LÉONARD SADI CARNOT (1796-1832)


Nascido em Paris, França, Nicolas Carnot era matemático do motor a vapor que ajudou
o filho de um líder militar e primo de Marie os cientistas a entender como ele funciona­
François Sadi Carnot, que foi presidente da va.
República Francesa de 1887 a 1894. Desde Embora Carnot expusesse suas conclu­
1812, o jovem Carnot frequentava a Escola sões em termos do modelo calórico, seu tra­
Politécnica em Paris, onde provavelmente balho estabeleceu as bases para a segunda
tenha aprendido com físicos notáveis como lei da termodinâmica. Ele descobriu que um
Siméon-Denis Pisson (1781-1840), Joseph motor a vapor produz potência não por cau­
Louis Gay-Lussac (1778-1850) e André- sa do "consumo de calórico, mas [por causa
-Marie Ampére (1 775-1836). O motor a va­ do] seu transporte de um corpo quente para
por, em uso desde 1712, foi imensamente um corpo frio" e que a força produzida au­
aprimorado por James Watt mais de menta com a diferença na temperatu­
50 anos depois. No entanto, seu ra "entre o corpo quente e o frio".
desenvolvimento foi em grande Ele publicou suas conclusões em
parte uma questão de tenta­ 1824, mas seu trabalho ganhou
tiva e erro e intuição, e de pouco reconhecimento até ser
pouco estudo científico. Na­ retomado por Rudolf Clausius
quela época, Carnot começou em 1850.
a investigar o motor a vapor, Carnot morreu de cólera
ele tinha uma eficiência média com apenas 36 anos. Para pre­
de apenas 3%. Ele se propôs a venir qualquer contaminação, a
responder a duas perguntas: "O maioria de seus trabalhos e ou­
trabalho disponível de uma fon­ tros pertences foram enter­
te de calor é potencialmente rados com ele, restan­
ilimitado?", e "Os motores do apenas seu livro
a calor podem ser aprimora­ como testamento de
dos substituindo-se o vapor seu trabalho.
por outro fluido ou gás?".
Ao tratar dessas questões,
ele chegou a um modelo Nicolas Sadi Carnot

termodinâmica, na realidade, foi descober­ eficiência da máquina depende da diferença


ta antes da primeira. O engenheiro militar em temperatura entre os dois corpos. Por­
francês tanto, um motor a vapor usando vapor su­
Nicholas Sadi Carnot (veja o box acima) peraquecido produzirá mais trabalho do que
descreveu uma máquina de calor ideal teó­ um usando vapor menos aquecido e, even­
rica em que nenhuma energia se perde ou é tualmente, um motor (como a diesel) que
desperdiçada na fricção e demonstrou que a usa combustível a uma temperatura mais

101
ENERGIA CAMPOS E FORÇAS

alta será mais eficiente ainda. Como


O DEMONIO DE MAXWELL mnitos dos trabalhos sobre termodinâ­
mica no século XIX, Carnot tomou o
Em 1871, James Clerk Maxwell propôs um
projeto do maquinário existente como
exercício hipotético para tentar contradizer
ponto de partida para explorar e expli­
a segunda lei da termodinâmica. Ele descre­
car o mecanismo físico que o fazia fun­
veu duas caixas adjacentes, uma contendo
cionar. A ciência prática impulsionava a
gás quente e uma contendo gás frio, com um
pequeno orifício conectando-as. O calor des-
ciência teórica.
loca-se da área quente para a fria, partículas Carnot enunciou suas descobertas
rápidas colidem com partículas lentas provo­ em termos de calóricos, e foi Clausius
cando a aceleração delas e vice-versa. Even­ quem enunciou novamente a lei em ter­
tualmente, o gás em ambas as caixas conte­ mos de entropia, dizendo que um siste­
rá uma distribuição parecida de partículas e ma tende sempre a um estado maior de
velocidades e terá a mesma temperatura. No entropia. A entropia é considerada co-
experimento, no entanto, um demônio, um mumente como “desordem”. Mais pre­
ente inteligente microscópico, posta-se em cisamente, é uma medida da indisponi-
um orifício regulando partículas que possam bilidade de energia em um sistema para
passar por ele. O demônio abre o orifício para realizar trabalho; em qualquer sistema
permitir que partículas passem rapidamen­ real, certa energia se perde sempre em
te da caixa de gás frio para a caixa de gás calor dissipado. Quando o combustível é
quente. Dessa forma, eleva-se a temperatura queimado, a energia é convertida de um
do gás quente à custa do gás frio e diminui-se estado organizado (baixa entropia) para
a entropia do sistema. Mesmo assim, o siste­ um estado desorganizado (alta entropia).
ma não pode contradizer a lei, pois qualquer A entropia total do universo aumenta
coisa que desem­ toda vez que há queima de combustível.
penhe a função Clausius resumiu a primeira e a segunda
do demônio pre­ ‘if g f lei dizendo que a quantidade de energia
cisa usar energia
- -

no universo permanece constante mas


«•* •*
~
/
-

para trabalhar. Em sua entropia tende ao máximo. O fim do


j , '

2007, o físico es­ *


:.s V

■ universo, se isso for levado ao extremo,


. *

cocês David Leigh \ \* *• será uma vasta sopa de átomos dissocia­


fez uma tentativa L— - • .. dos. Essa situação, chamada morte do
i

em nanoescala em
universo por calor, foi proposta pela pri­
uma máquina. Ela
,
m meira vez por Clausius.
separa partículas
%/•** A terceira lei da termodinâmica
que se movem rá­
7 seguiu bem mais tarde, em 1912. De­
pida e lentamen­ v i *• —v
senvolvida pelo físico e químico alemão
te, mas precisa de
** ! * Walther Nernst (1864-1941), enuncia
uma reserva pró­ L
pria de energia.
V-7
1 que nenhum sistema pode atingir o
zero absoluto, cuja temperatura o mo­
vimento atômico quase cessa e a entro­
pia tende a um mínimo ou zero.

102
CALOR E LUZ

Z ero A bso lu to Um termômetro de Galileu depende


A terceira lei da termodinâmica
t da variação na pressão com a
1 temperatura; ao zero absoluto, não
requer o conceito de uma tem­
há pressão exercida, pois os átomos
peratura mínima abaixo da qual não se movem.
nenhuma temperatura pode cair
- conhecida como zero absoluto.
Robert Boyle discutiu pela primei­
ra vez o conceito de uma tempera­ se a pressão é mantida constante,
tura mínima possível em 1665, em o volume de um gás aumenta em
New Experiments and Observations 1/273 para cada alta de 1°C acima
Touching Cold, no qual se referia à de zero.
ideia como prim um frigidum . M ui­ Disso, ele pôde extrapolar no­
tos cientistas da época acreditavam vamente, 1 atribuindo -273°C ao
na existência de “algum corpo que zero absoluto e aproximando-se
é, por sua própria natureza, supre­ ainda mais da medida correta.
mamente frio e pela participação O problema tomou um rumo
do qual todos os outros corpos ob­ diferente depois que Joule mostrou
têm essa qualidade”. que o calor é mecânico. Em 1848,
O físico francês Guillaume William Thomson (mais tarde
Amontons (1663-1705) foi o pri­ Lorde Kelvin) concebeu uma es­
meiro a atacar o problema na prá­ cala de temperatura com base nas
tica. Em 1702, ele construiu um leis da termodinâmica, e não nas
termômetro de ar, e declarou que propriedades de qualquer subs­
a temperatura em que o ar não ti­ tância (ao contrário de Fahrenheit
nha “fonte” para afetar a medida era o “zero e Celsius). Kelvin encontrou um valor para
absoluto”. O zero na escala dele era em tor­ o zero absoluto que é aceito ainda hoje, de
no de -240 °C. O matemático e físico suíço -273,15°C - muito próximo do valor deriva­
Johann Heinrich Lambert (1728-1777), que do do termômetro de ar e da teoria de Gay-
propôs uma escala de temperatura absoluta -Lussac. A escala Kelvin baseia-se na escala
em 1777, refinou esse dado para -270°C - Celsius, mas começa em -273,15°C, e não
muito próximo daquele aceito atualmente. em 0°C. Embora altamente influente, uma
Contudo, essa medida quase correta não vez que se tornou cavaleiro e foi indicado
foi aceita universalmente. Pierre-Simon Presidente da Royal Society, Kelvin não foi um
Laplace e Antoine Lavoisier sugeriram em cientista muito esclarecido e rejeitou tanto a
1780 que o zero absoluto pode ser 1.500 a teoria da evolução de Darwin quanto a exis­
3.000 graus abaixo do ponto de congela­ tência de átomos.
mento da água, e que no mínimo deve ser
600 graus abaixo do congelamento. John C a lo r e luz
Dalton atribuiu -3000°C. Joseph Gay-Lus- Há milênios está claro para a Humanidade
sac chegou mais perto, depois de investi­ que a luz do Sol fornece luz e calor, mas
gar como o volume e a temperatura de um a ligação entre eles só foi explicada recen­
gás estão relacionados. Ele descobriu que temente. A primeira pessoa que se sabe

103
ENERGIA CAMPOS E FORÇAS

O QUANTO É FRIO?
O zero absoluto não existe nem no espaço
externo. A temperatura ambiente no espa­
ço externo é de 2,7 Kelvin, uma vez que a
radiação básica da micro-onda cósmica - o
calor resultante do Big Bang - está presen­
te em todo o espaço. A área mais fria é en­
contrada na Nebulosa de Bumerangue, uma
nuvem escura de gás com apenas 1 Kelvin.
A temperatura mais baixa já atingida artifi­
cialmente é 0,5 bilionésimo de um Kelvin,
atingida brevemente em um laboratório do
Massachusetts Institute of Technology (MIT)
em 2003.

ter notado essa ligação foi um acadêmico Émile Du Châtelet estabeleceu uma li­
italiano Giambattista delia Porta (c.1535- gação entre calor e luz quando notou que o
1615) que, em 1606, notou o efeito do poder de aquecimento da luz variava com
aquecimento da luz. Erudito, delia Porta sua cor. Embora isso viesse a se assemelhar
foi dramaturgo e cientista, tendo publicado ao espectro eletromagnético e à descober­
sobre agricultura, química, física e mate­ ta da radiação de raios infravermelhos, não
mática. Seu M agiae naturalis (1558) inspi­ foi desenvolvido na época. Em 1901, Max
rou a fundação da academia científica ita­ Planck (veja o painel a seguir) fez uma des­
liana, a Accademia dei Lincei, em 1603. (A coberta importante ligando a luz e o calor
página de título do livro foi ilustrada com o enquanto pesquisava a radiação do corpo
desenho de um lince, e o prólogo continha negro, mas esse foi um avanço casual, um
uma descrição do cientista como aquele resultado acidental. Esta descoberta, no
que, “com olhos de lince, examina aquelas entanto, viria a formar a base da mecânica
coisas que se manifestam, de modo que ao quântica.
observá-las possa usá-las com cautela.”)
R a d ia ç ã o d o c o r p o n e g r o e q u a n t a d e
ENERGIA
Muitos tipos de material brilham ao serem
"[A solução quântica ao problema do corpo aquecidos, emitindo luz que vai do vermelho
negro] foi um ato de desespero porque era passando do amarelo para o branco. O com­
preciso encontrar uma interpretação teórica primento das ondas da luz emitidas a tempe­
a qualquer preço, não importando o quanto raturas mais altas é cada vez mais curto en­
esse preço fosse alto". quanto estas se movem para a extremidade
Max Planck
azul do espectro. À medida que este é acres-

104
CALOR E LUZ

A Accademia dei Lincei ocupa o Palazzo Corsini


em Roma desde 1883.

Embora ele quase tivesse obtido um re­


sultado correto para sua equação, teve de
fazer uma suposição estranha para torná-la
perfeita. Essa suposição era que em vez de a
luz vir da caixa em um fluxo constante, como
ele poderia esperar que acontecesse com a
onda, ela tinha de ser cortada em pequenas
partes descontínuas ou em pacotes de onda
- ou quanta. Planck não pretendia que os
quanta de energia se tornassem parte do ce­
nário da física. Ele os via como um artifício
matemático engenhoso que futuramente se­
ria substituído por uma nova descoberta ou
cálculo. Ele estava totalmente enganado!

O u t r a s f o r m a s d e e n e r g ia
Enquanto a luz e o calor eram examinados,
centado à luz amarela e vermelha, o brilho do algumas formas novas de energia também
corpo quente se torna mais branco e, depois, estavam chamando a atenção da comuni­
mais azul. O gráfico que mostra essa distribui­ dade científica. Tipos de energia que foram
ção de calor e cor é chamado de curva do cor­ explorados durante anos só foram nomeados
po negro. O “corpo negro” é algo que absorve no século XIX. O cientista francês De Corio-
toda a radiação que incide sobre ele. Uma cai­ lis (1792-1843) descreveu a energia cinética
xa feita de grafite com um orifício minúsculo em 1829, e o termo “energia potencial” foi
é uma boa aproximação de um corpo negro cunhado pelo físico escocês Wilfiam Rankine
perfeito (o orifício funciona como corpo ne­
gro). Quando o corpo negro é aquecido, ele
brilha, radiando luz a comprimentos de onda
diferentes para diferentes temperaturas. A cor
da luz radiada depende totalmente da tempe­
ratura, e não do material do corpo.
Planck tentou calcular a quantidade exa­
ta de luz emitida a comprimentos de onda
diferentes por um corpo negro que consis­
tisse de uma caixa preta com um orifício mi­
núsculo nela.

A 7500 K o corpo negro irradia luz no extremo


violeta do espectro; a 4500 K ele mudou para o
vermelho.

105
ENERGIA CAMPOS E FORÇAS

(1820-1872) em 1853. O primeiro entre as


fontes de energia reconhecidas recentemen­
te foi a eletricidade. Embora os raios fossem
intercorrências conhecidas, ninguém havia
percebido que envolviam eletricidade.

D e sco b rin d o a ele tricid ade


O primeiro tipo a ser descoberto foi a eletri­
cidade estática. Mesmo em tempos antigos,
as pessoas sabiam que esfregar âmbar ou
azeviche gerava um tipo de força que fazia
o material atrair plumas e pedaços de mate­
rial, mas a natureza da atração não era en­
O espectroscópio, trabalhando a partir da luz tendida. O filósofo natural inglês Sir Tho­
emitida pela lava incandescente, pode ser usado mas Browne (1605-82) definiu “elétrico”
para calcular a temperatura da lava a partir de como “um poder de atrair palha e corpos
uma erupção vulcânica. leves, e converter a agulha colocada livre-

MAX PLANCK (1858-1947)


Max Planck teve uma longa, mas trágica vida. um de seus filhos foi morto na Frente Ociden­
Nascido em Kiel, no ducado de Holstein (atual tal, e outro, Erwin, foi levado como prisionei­
Alemanha), ele primeiro quis ser um músico. ro pelos franceses. Sua filha, Grete, morreu
Quando perguntou para outro músico o que no parto em 191 7 e sua irmã gêmea, Emma,
deveria estudar, o homem lhe respondeu que morreu da mesma forma em 1919 (depois de
se ele precisava pergun­ casar-se com o viúvo
tar, ele não seria um de Grete). Em 1944,
músico. Ele, então, vi­ a casa de Planck foi
rou sua atenção para a inteiramente destruí­
física, somente para seu da durante um bom­
professor de física para bardeio aliado e seus
dizer-lhe que não havia trabalhos científicos
nada para ser descober­ e correspondências
to. Felizmente, Planck foram totalmen­
se viu preso nisso e sua te perdidos. A gota
formulação de quanta d'água veio em 1945
preparou as bases para quando Erwin foi exe­
a maior parte física do cutado pelos nazistas
século XX. por conluio em uma
A primeira mulher de trama para assassinar
Planck morreu em 1909, possivelmente de tu­ Hitler. Planck perdeu o desejo de viver depois
berculose. Durante a Primeira Guerra Mundial, da execução de seu filho e morreu em 1947.

106
DESCOBRINDO A ELETRICIDADE

Cera dor de eletricidade de Otto


Von Guericke, ele funcionava com
eletricidade estática.

mente”. Em 1663, o cientista ale­


mão Otto Von Guericke construiu
o primeiro gerador eletrostático.
Guericke já tinha feito experimen­
tos com a pressão do ar que mos­
travam a possibilidade de um vácuo (veja a os geradores de eletricidade estática eram
página 37). Seu gerador eletrostático - ou atrações populares em palestras de ciência
“máquina de fricção” - usava um globo de feitas em público. Duas pessoas, um pro­
enxofre que ao ser girado e friccionado com fessor holandês de matemática chamado
as mãos gerava uma carga. Isaac Newton su­ Pieter van Musschenbroek (1692-1761) e
geriu o uso de um globo de vidro em vez o clérigo alemão Ewald Georg Von Kleist
de um de enxofre, e em projetos posterio­ (1700-1748) inventaram independentemen­
res foram empregados outros materiais. Em te a garrafa de Leyden por volta de 1744.
1746, uma máquina de fricção com uma Comprimindo um frasco até a metade de
roda grande que girava vários globos de água, com uma haste de metal ou com um
vidro usava uma espada e o barril de uma arame através da rolha, este era um meca­
arma suspensos em cordas de seda como nismo simples para armazenar eletricidade.
condutores; outro usava uma almofada de Um projeto mais eficiente tinha uma folha
couro no lugar da mão; e um, feito em 1785, de metal na parte externa da garrafa.
envolvia dois cilindros cobertos de pele de Quando Von Kleist tocou pela primeira
lebre que eram friccionados um no outro. vez em sua garrafa, um choque elétrico for­
Experimentos com eletricidade passa­ te o derrubou no chão. A garrafa de Leyden
ram a ser mais comuns no século XVIII, e se tornou uma ferramenta valiosa em expe­
riências com eletricidade e é a origem do
capacitor moderno. Benjamin Franklin, in­
vestigando a garrafa, descobriu que a carga
é mantida no vidro, e não na água, como se
supôs anteriormente.

Folhas de outro batido P ip a s e t r o v õ e s


O cientista americano Benjamin Franklin
Folha de de estanho (1706-1790), que ajudou a esboçar a De­
claração da Independência Americana, foi
o primeiro a demonstrar a natureza elétrica
do raio em 1752. Em um experimento fa­
Garrafa de Leyden moso, ele testou sua teoria ligando uma

107
ENERGIA CAMPOS E FORÇAS

A PRIMEIRA MÁQUINA TENS


No Egito Antigo, peixes-gato elétricos (siluros) podem ter sido usados para fins médicos,
e certamente os romanos achavam o peixe negro torpedo útil para aliviar a dor. Como o
peixe negro torpedo (Torpedo torpedo) produz uma carga elétrica, pode ser usado como a
máquina TENS (Estimulação Elétrica Nervosa Transcutânea) para aliviar a dor. Os romanos
usavam o peixe para aliviar a dor de gota, de cabeça, em operações cirúrgicas e durante o
parto. O peixe não sobrevivia ao procedimento (presumivelmente porque fosse usado fora
d'água). Tentativas de imitar o efeito do peixe elétrico tiveram seu ponto alto no torpedo de
couro feito por Henry Cavendish em 1 776. Depois de estudar o peixe, primeiro ele fez uma
cópia em madeira, mas descobriu que esta não conduzia bem a eletricidade. Seu segundo
peixe foi feito de pedaços de couro grosso de carneiro com placas finas de estanho em cada
lado para simular os órgãos elétricos. Ele ligou as placas à garrafa de Leyden e mergulhou o
peixe de couro em água salgada. Ao colocar sua mão na água perto do peixe, ele sentiu um
choque parecido àquele descrito por pessoas que sentiram os efeitos de um peixe torpedo.

vara de metal a uma pipa e amarrando uma pulares como entretenimentos científicos,
chave na outra ponta do fio. Ele empinou às vezes envolvendo voluntários infelizes e
uma pipa durante uma tempestade, com provavelmente participantes involuntários.
uma chave pendurada perto de uma garrafa A primeira pessoa a executar experiências
de Leyden. Mesmo sem raios, havia car­ sistemáticas sobre eletricidade foi o fingi­
ga elétrica suficiente nas nuvens para que dor inglês e cientista amador Stephen Gray
o fio úmido conduzisse eletricidade para a (1666-1736). Seu “bom menino” era um po­
chave e fizesse fagulhas alcançar a garrafa bre garoto de rua suspenso por uma corda
de Leyden. Franklin sugeriu isolante enquanto segurava
que a eletricidade pode ter uma haste de vidro com
carga negativa ou positiva. carga elétrica, fagulhas vi­
Ele inventou o para-raios, nham de seu nariz quando
que leva a carga elétrica de ele atraía partículas minús­
um raio até a terra com segu­ culas de folha de metal.
rança através de um conduíte Além de ser divertidas (pelo
de metal, e também inven­ menos para o público), as
tou o alarme de relâmpagos experiências de Gray, em
(veja o painel seguinte). 1729, demonstraram a co n -
dutividade - que a eletrici­
E l e t r ic id a d e n a m o d a dade podia ser transmitida
Experimentos com eletri­ de um material para outro,
cidade tornaram-se po- inclusive pela água. Em
uma experiência parecida,
Benjamin Franklin realizou uma carga elétrica era pas­
experiências com raios para sada ao longo de uma fila
investigar a eletricidade.

108
DESCOBRINDO A ELETRICIDADE

P o n d o a e l e t r ic id a d e p a r a f u n c io n a r
"Em setembro de 1752, ergui uma barra de
Antes de a eletricidade ser empregada, era
ferro para dirigir o relâmpago para dentro
preciso descobrir uma maneira de liberar ou
de minha casa, a fim de fazer experiências
gerá-la quando esta era necessária. A primei­
com ele usando dois sinos que avisavam
quando a barra estivesse eletrificada. Um re­
ra célula elétrica, precursora da bateria, foi
curso óbvio para qualquer eletricista. desenvolvida pelo físico italiano Alessandro
Descobri que os sinos tocavam às vezes, Volta (1745-1827), que deu seu nome ao
quando não havia relâmpago ou trovão, volt, a unidade de medida para a potência
mas apenas quando uma nuvem escu­ elétrica. Sua “pilha” elétrica, feita em 1800,
ra passava acima da barra; que às vezes consistia de uma pilha de discos de zinco,
depois de um raio de luz eles paravam de cobre e papel imersos em solução salina. Ele
repente; e outras vezes, quando eles não não sabia por que isso produzia uma corrente
tocavam antes, de repente, depois de um elétrica, mas não importava como isso fun­
clarão, eles começavam a tocar; que a ele­ cionava. A operação de íons para transportar
tricidade às vezes era muito fraca, de modo uma carga elétrica acabou sendo descrita em
que quando uma faísca pequena apare­ 1884 pelo cientista sueco Svante August Ar-
cesse, outra não apareceria no momento rhenius (1859-1927). O físico alemão Georg
subsequente; outras vezes as faíscas se se­ Ohm (1789-1854) usou uma versão da célula
guiriam com rapidez extrema. E uma vez o de Volta para suas próprias investigações de
sino tocou continuamente, balançando de eletricidade que levou à sua formulação da lei
um lado para outro numa distância equiva­ que leva seu nome, publicada em 1827. A lei
lente à pena de um corvo. Mesmo durante de Ohm enuncia que quando a eletricidade é
a mesma rajada, as variações entre as ba­ transportada por um condutor:
daladas eram consideráveis."
Benjamin Franklin, 1753. I = V/R

onde I é a corrente em ampères, V é a dife­


de homens velhos de mãos dadas. O quí­ rença potencial em volts e R é a resistência em
mico Charles Du Fay (1698-1736), traba­ obrns. A resistência do material permanece
lhando em Paris, desenvolveu o trabalho de constante independentemente da voltagem,
Gray, e em 1733 concluiu que todo objeto portanto a alteração da voltagem afeta direta­
e toda criatura vivente contém eletricidade. mente a corrente.
Ele demonstrou que a eletricidade vem em
duas formas - negativa, por ele chamada
“resinosa”, e positiva, ou “vítrea”. Em 1786,
o físico italiano Luigi Galvani (1737-1798)
experimentou transmitir uma corrente elé­
trica por sapos mortos, fazendo suas per­
nas se contraírem espasmodicamente. Isso Georg Ohm, cujo
levou-o a concluir que os nervos dos sapos nome é usado agora
transmitem um impulso elétrico que faz os como unidade de
resistência elétrica.
músculos de suas pernas funcionarem.

109
£
ENERGIA CAMPOS E FORÇAS

E s p e r a n d o n o s b a s t id o r e s :
M AGNETISM O
Uma magnetita
é naturalmente
magnética e atrairá
Não podemos ir muito adiante com metais magnéticos
a eletricidade sem falar dos mag- como o ferro e o aço.
netos. A força que alguns materiais
têm de atrair ferro, ou de alinhar
norte-sul, foi notada pelos antigos,
mas era inexplicável e deve ter pa­ tinha 24 divisões bá­
recido algo mágico. sicas, os tipos euro­
De acordo com Aristóteles, peus sempre tiveram
Thales (c.625-545 a.C.) deu uma 16. Além disso, a
descrição de magnetismo no século bússola só apareceu
VI a.C. Por volta de 800 a.C., o cirurgião e no Oriente Médio depois que seu uso regis­
escritor hindu Sushruta descreveu o uso de trado pela primeira vez na Europa, sugerin­
magnetos para remover farpas de metal do do que não passou pelo Oriente Médio da
corpo. Outra referência antiga ao magnetis­ China para a Europa. Finalmente, embora
mo é encontrada em um trabalho chinês es­ as bússolas chinesas fossem feitas para indi­
crito no século IV a.C. chamado Book o f the car o Sul, as europeias sempre indicaram o
D evil Valley M aster, que diz: “magnetita faz Norte.
o ferro se aproximar ou ela o atrai”. Uma As primeiras investigações científicas do
magnetita é um pedaço de pedra magnetiza­ magnetismo foram realizadas pelo inglês
do naturalmente. Rochas de magnetita com William Gilbert (1544-1603), um cientis­
a estrutura cristalina certa podem ser mag­ ta da corte de Elizabeth I. Gilbert cunhou
netizadas por raios. Os adivinhos chineses a palavra latina electricus, significando “de
começaram a usar magnetitas em mesas de âmbar”. Ele publicou seu livro De m agnete
adivinhação durante o século I a.C. As mag­ em 1600 descrevendo muitas experiências
netitas podem ter sido usadas em bússolas que fizera para tentar descobrir a natureza
desde 270, mas o primeiro uso confir­ do magnetismo e da eletricidade. Ele dava
mado de uma bússola para a primeira explanação sobre a capacidade
navegação apareceu misteriosa de a agulha da bússola apontar
em no livro de Zhu Yu para o norte-sul, revelando a verdade sur­
Pingzhou, Table Talks, preendente de que a Terra em si é magné­
em 1117, que diz: “O na­ tica. Gilbert conseguiu refutar a crença
vegador sabe a geografia, popular entre os marinheiros de
ele olha as estrelas à noi­ que o alho impedia a bússola
te, observa o Sol durante o
dia; quando o dia é escuro e
nublado, ele olha a bússola”.
A bússola de navegação pro­
vavelmente foi desenvolvida Uma bússola usa o campo
magnético da Terra para
de forma independente na Eu­ auxiliar a navegação.
ropa. Enquanto a bússola chinesa

110
ELETROMAGNETISMO - O CASAMENTO DA ELETRICIDADE COM O MAGNETISMO

Um ferreiro fazendo um
magneto, retratado em
De Magnete, de William
Gilbert.

de funcionar (os que diri­


giam o leme não podiam
comer alho perto da bús­
sola do navio), e a ideia
de que uma vasta monta­
nha magnética perto do
Polo Norte atrairia todos
os pregos de ferro para
fora de um navio que se
aproximasse dele.
A força potencial do
magnetismo foi reconhe­ reções opostas, estabelecendo a base para a
cida em histórias do caixão de ferro de Mao- eletrodinâmica. No ano seguinte, Michael
mé, que supostamente flutuava no ar ao ser Faraday fez uma experiência em que colo­
posicionado entre dois magnetos. (Eviden­ cava um magneto em um disco de mercúrio
temente, se esse espetáculo fosse real, ape­ e suspendia um fio acima dele, mergulhan­
nas um magneto acima do túmulo teria sido do-o no mercúrio. Faraday descobriu que
necessário, pois a gravidade teria fornecido quando ele passava uma corrente elétrica
o impulso para baixo.) pelo fio, esta fazia o magneto girar. Ele cha­
mou isso de “rotações eletromagnéticas”, e
E le tro m a g n e tism o - o formaria a base do motor elétrico. De fato,
c a sa m e n to d a eletricidade um campo magnético em mudança gera um
co m o m a g n e tism o campo elétrico e vice-versa.
Aplicações práticas para a eletricidade co­ Faraday não conseguiu encontrar tem­
meçaram a aparecer no início do século po para continuar seu trabalho sobre ele-
XIX. Em 1820, Christian Orsted (1777- tromagnetismo imediatamente, e coube ao
1851) notou que uma corrente elétrica po­ cientista americano Joseph Henry (1797-
dia defletir a agulha de uma bússola. Esta 1878) desenvolver o primeiro eletromagne-
era a primeira dica de uma conexão. Ape­ to potente em 1825. Ele descobriu que ao
nas uma semana depois, André-Marie Am- enrolar fio isolado em volta de um magneto
pére deu um relato muito mais detalhado. e passar uma corrente pelo fio, ele podia au­
Ele demonstrou na Academie de Science que, mentar bastante a potência do magneto. Ele
quando fios paralelos carregam uma cor­ construiu um eletromagneto que podia er­
rente elétrica, eles podem atrair ou repelir guer um peso de quase 1600 kg. Henry tam­
um ao outro, dependendo de suas corren­ bém estabeleceu as bases para o telégrafo
tes correrem na mesma direção ou em di­ elétrico. Ele colocou 1,7 km de fiação pela

111
ENERGIA CAMPOS E FORÇAS

Albany Academy e depois passou eletricida­


CAMPOS E FORÇAS
de pelo fio, usando-o para acionar um sino
no outro extremo. Embora Samuel Morse Um campo é a forma em que uma força é
(1791-1872) acabasse desenvolvendo o te­ transmitida por uma distância. Um campo
légrafo, Henry provou que o conceito era magnético é aquela área em que uma for­
ça magnética opera. Em geral ela é mos­
válido.
trada na forma de linhas que radiam do
Se existe um nome que se destaca em
polo norte de um magneto para seu polo
relação à eletricidade, provavelmente seja
sul. A força de uma força eletromagnética
o de Michael Faraday. Embora ele estives­
ou gravitacional reduz em relação ao qua­
se ocupado demais para continuar o traba­
drado da distância da fonte - portanto,
lho sobre eletromagnetismo nos anos 1820,
a duas vezes a distância da fonte, a força
depois de sua primeira experiência, ele reto­
tem apenas um quarto de sua força origi­
mou o assunto em 1831 e descobriu o prin­ nal. A lei do quadrado inverso que relaciona
cípio da indução elétrica. Faraday atou dois forças foi notada pela primeira vez por
fios enrolados em torno de lados opostos Newton em relação à força gravitacional.
de um anel de ferro e passou uma corrente
através de um fio. Isso magnetizou o anel e
induziu brevemente uma corrente no outro introduziu os termos eletrodo, anodo, cá­
fio enrolado, construindo o primeiro trans­ todo e íon, especulando que parte de uma
formador elétrico. Seis semanas depois, ele molécula era envolvida em mover eletrici­
inventou o dínamo, no qual um magneto dade entre o cátodo e o ânodo. A verdadeira
permanente é empurrado para trás e para natureza das soluções iônicas e sua conduti-
a frente, através de um fio enrolado, indu­ vidade foi explicada finalmente por Arrhe-
zindo uma corrente no fio. A lei da indução nius, que ganhou o prêmio Nobel por esse
de Faraday estabelece que o fluxo magné­ trabalho em 1903.
tico que varia no tempo produz uma força
eletromotiva proporcional. Toda a geração A l v o r a d a d e u m a n o v a e r a m a g n é t ic a
de eletricidade se ba­ Aproveitando o trabalho prático de Orsted e
seia nesse princípio. Faraday, James Clerck Maxwell usou a ma­
Faraday também temática para dar sustentação à relação en­
tre eletricidade e magnetismo. O resultado
foram quatro equações, publicadas em 1873,
que demonstraram que o eletromagnetismo
é uma força única. Einstein considerou as
equações de Maxwell como a maior desco­
berta em física desde que Newton formu­
lou a lei da gravidade. O eletromagnetismo
agora é reconhecido como uma das quatro
forças fundamentais que mantêm o universo
em ordem - sendo as outras a gravidade e as
forças nucleares fortes e fracas que operam
dentro e entre os átomos. Na menor escala,

112
ELETROMAGNETISMO - O CASAMENTO DA ELETRICIDADE COM O MAGNETISMO

"Esta foi a primeira descoberta do ato de que uma corrente galvânica poderia ser transmitida a
uma grande distância com uma força tão diminuta a ponto de produzir efeitos mecânicos, e dos
meios pelos quais a transmissão poderia ser efetuada. Vi que o telégrafo elétrico agora era pra­
ticável... Eu não tinha em mente qualquer forma específica de telégrafo, mas referia apenas ao
fato geral que agora estava demonstrado que uma corrente galvânica poderia ser transmitida a
grandes distâncias, com potência suficiente para produzir efeitos mecânicos adequados ao objeto
desejado."
Joseph Henry

as forças eletromagnéticas /SjM Equipamento de Faraday


ligam íons em moléculas e J y, \é para demonstrar a
fornecem a atração entre r sjf m
rotação eletromagnética.
os elétrons e núcleos de um r jf T
átomo.
Maxwell explicou como íI 1
tanto os campos elétricos
quanto magnéticos surgem k
das mesmas ondas eletro­
magnéticas. Um campo
elétrico variável é acompa­
nhado por um campo mag­
nético que varia de forma
semelhante e reside em ângulos retos a ele. te do espectro eletromagnético. Einstein
Ele descobriu também que a onda de cam­ incorporou o trabalho de Maxwell em suas
pos eletromagnéticos atravessa o espaço va­ teorias da relatividade, dizendo que se um
zio de 300 milhões de metros por segundo campo era elétrico ou magnético, depen­
- a velocidade da luz. Esta foi uma desco­ dia da referência de quem o estava vendo.
berta chocante, e nem todos ficaram satis­ Visto de um ponto de referência, o campo
feitos com a conclusão de que a luz faz par­ é magnético. Visto de um ponto diferente,
ele é elétrico.

Um campo magnético é demonstrado pelo


arranjo de agulhas de bússola em volta de um
magneto.

113
ENERGIA CAMPOS E FORÇAS

LEIS DA INDUÇÃO ELETROMAGNÉTICA


DE FARADAY
1. Um campo eletromagnético é induzido
em um condutor quando o campo eletro­
magnético que o circunda muda.
2. A magnitude do campo eletromagnéti­
co é proporcional à taxa de mudança do
campo magnético.
3. A noção do campo eletromagnético
induzido depende da direção da taxa de
mudança do campo eletromagnético.
Aparelho de Faraday que mostra indução
eletromagnética entre duas bobinas. Uma
bateria líquida à direita fornece uma corrente, A próxima forma de energia a ser des­
e a bobina pequena é movida manualmente coberta foi a dos raios X. Embora o físico
para dentro e para fora da bobina grande para alemão Wilhelm Conrad Röntgen (1854-
induzir uma corrente nesta última, indicada pelo
galvanômetro à esquerda. 1923) nomeasse e descrevesse os raios X, e
em geral essa descoberta seja creditada a
ele, em 1895 ele não foi, de fato, o primei­
M a is o n d a s ro a observá-las. Eles foram detectados pela
Embora Maxwell previsse a existência de primeira vez por volta de 1875 pelo seu fí­
ondas de rádio, elas não foram observa­ sico amigo e conterrâneo Johann Wilhelm
das até que o físico alemão Heinrich Ru- Hattorf (1824-1914). Hittorf foi um dos in­
dolf Hertz (1857-1894) gerasse ondas ele­ ventores do tubo de crookes, um aparelho
tromagnéticas com um comprimento de experimental usado para investigar raios
onda de 4 m em seu laboratório em 1888. catódicos. Consiste de um vácuo dentro do
Hertz não reconheceu o significado de on­ qual um fluxo de elétrons flui entre um cá­
das de rádio e, quando perguntado sobre todo e ânodo, sendo um precursor do tubo
o impacto de sua descoberta ele teria dito, de raio catódico usado em televisores antes
“Acho que nenhum”. Assim como gerar do advento da moderna tela de plasma. Hit-
ondas de rádio. Hertz descobriu que elas torf descobriu isso ao deixar placas fotográ­
podiam ser transmitidas por meio de alguns ficas perto do tubo de crookes e verificar
materiais, mas batiam em outros e voltavam mais tarde que algumas estavam marcadas
- uma qualidade que mais tarde levaria ao por sombras, mas ele não investigou a causa.
desenvolvimento do radar. A descoberta Outros cientistas também estavam inves­
de ondas de rádio tornou a explicação de tigando os raios X antes de Röentgen pro-
Maxwell sobre radiação eletromagnética
irresistível. Nos anos seguintes, a desco­
berta de micro-ondas, raios X, infraver­ "Converter o magnetismo em eletricidade."
melhos, ultravioleta e gama completou o Lista de coisas a fazer de Michael Faraday,
espectro eletromagnético. 1822; realizada em 1831.

114
MAIS ONDAS

MICHAEL FARADAY (1791-1867)


Nascido em Londres de família pobre, Fara- Em 1826, ele instituiu as palestras de Natal
day saiu da escola aos 14 anos e foi apren­ na Instituição Real e os discursos de sexta
diz de encadernador, educando-se com a à noite - eventos realizados ainda hoje. Fa­
leitura de livros de ciência com os quais ele raday deu muitas palestras, tornando-se o
trabalhava. Depois de ouvir quatro pales­ principal palestrante de sua época. Ele des­
tras dadas por Humphry Davy na Instituição cobriu a indução eletromagnética em 1831,
Real (Royal Institution) em 1812, Faraday es­ estabelecendo as bases para o uso prático de
creveu para Davy pedindo emprego. Davy eletricidade, que havia sido considerado an­
recusou a solicitação no início, mas no ano teriormente um fenômeno interessante, mas
seguinte empregou-o como químico assis­ de pouco uso real.
tente da Instituição Real. No início, Faraday Em reconhecimento a suas realizações,
só auxiliava os outros cientistas, mas depois ofereceram duas vezes a Faraday a presidên­
começou a conduzir seus próprios experi­ cia da Royal Society (e as duas vezes ele a
mentos, incluindo aqueles com eletricidade. recusou), e um título de cavaleiro (também
rejeitado por ele). Ele pas­
sou seus últimos dias em
Hampton Court Palace, em
uma casa que lhe foi dada
como presente pelo con­
sorte da rainha Vitória, o
príncipe Albert.

Michael Faraday em seu


laboratório na Instituição
Real.

duzir os famosos raios X da mão de sua es­ to de bário e um tubo de crookes envolto
posa e explicar esse fenômeno. As anotações com papel preto. Ele identificou um brilho
de laboratório de Röntgen foram queimadas verde fraco da tela e percebeu que algum
após sua morte; por isso é impossível saber tipo de raio estava passando pelo cartão do
exatamente o que aconteceu, mas parece tubo e fazendo a tela brilhar. Ele investigou
que ele estava investigando raios catódicos os raios e publicou seus achados dois meses
usando uma tela pintada com platinociane- depois.

115
ENERGIA CAMPOS E FORÇAS

EQUAÇÕES DE MAXWELL
A primeira equação de Maxwell é a lei de A terceira equação descreve como a mu­
Gauss, que descreve a forma e a força de um dança de correntes elétricas cria campos
campo elétrico, mostrando que ela reduz magnéticos.
com a distância seguindo a mesma lei do
quadrado inverso que a gravidade.
dt
$Ed A =(I^ vxe =-^5-
Eo ôt
V •E = p/E0
A quarta equação descreve como a mu­
A segunda equação descreve a forma e dança de campos magnéticos cria correntes
a força de um campo magnético: as linhas elétricas, e também é conhecida como lei da
de força sempre vão em loops do polo norte indução de Faraday.
para o polo sul de um magneto (e um mag-
neto sempre deve ter dois polos). | B -rfs = « 0 e0 ^ E + o c 0 ienc

$ B - í/A=0 VxB = «t)E0^ + « oyc


V -B = 0

R a d ia ç ã o fotográfica sobre um disco de sais fosfores­


Quando o físico francês Henri Becquerel centes que tinham sido “carregados” no Sol,
(1852-1908) soube dos raios X em 1896, e áreas de luz apareciam na placa. Ao colocar
que eles vinham de um ponto claro na parede um objeto de metal entre a placa e o prato,
de um tubo de crookes, ele suspeitou que ob­ ele produziu uma imagem de sombra do ob­
jetos fosforescentes também pudessem emitir jeto na placa fotográfica, assim como as placas
raios X. Becquerel foi professor de física no de raios X de Röntgen. Em um experimento
Museu Francês de História Natural e, por­ maior, ele preparou sua montagem e planejou
tanto, tinha acesso a uma grande coleção de deixá-la ao Sol. Embora o Sol não aparecesse
materiais fosforescentes. Ele descobriu que, em Paris durante vários dias, Becquerel de­
se pudesse absorver energia da luz do Sol por cidiu desenvolver a placa de qualquer forma,
um tempo, esses materiais brilhariam no es­ esperando não encontrar nada. Para sua sur­
curo até que a energia fosse consumida. En­ presa, ele descobriu uma imagem - os sais de
tão descobriu que se envolvesse uma placa urânio que ele estava usando pareciam emitir
raios X sem exposição ao Sol, aparentemente
violando a lei de conservação de energia para
"Mal podemos evitar a conclusão de que a produzir energia a partir do nada. Suas inves­
luz consiste de ondulações transversais do tigações prosseguiram e ele descobriu que a
mesmo meio que é a causa de fenômenos radiação não era a mesma que a dos raios X,
elétricos e magnéticos." uma vez que podia ser defletida por um cam­
James Clerk Maxwell, c. 1862. po magnético, e assim deveriam consistir de

116
MAIS ONDAS

"Não tem serventia nenhuma [...] este é


apenas um experimento que prova que o
mestre Maxwell estava certo - essas ondas
eletromagnéticas misteriosas não podem ser
vistas a olho nu, mas elas existem."
Heinrich Hertz, sobre sua
descoberta das ondas de rádio em 1888.

HAJA LUZ
O primeiro serviço público de eletricida­
de foi em Godalming, Surrey, Inglaterra,
onde iluminação elétrica de rua foi insta­
lada em 1881. Um moinho d'água no rio
Wey dirigia um alternador Siemens que
Raios X que Röntgen fez da mão de sua mulher, acendia lâmpadas na cidade, fornecendo
a primeira imagem de raios X produzida; sua eletricidade para várias lojas e outras ins­
aliança é claramente visível. talações.

partículas carregadas. Ele não realizou mais quando descobriu que o minério do qual
trabalhos sobre o assunto, contudo, deixou o o urânio derivava, a pechblenda, é mais
campo aberto para a física experimental M a­ radioativo que o próprio elemento. Isso
rie Curie, nascida na Polônia. sugeria que havia outros elementos mais
M arie Curie (1867-1934) estava traba­ radioativos no minério. Com seu marido
lhando em seu PhD com “raios de urânio” Pierre, ela extraiu dois desses elementos -

F R E Q U Ê N C IA A U M E N T A N D O ( v ) <•—

1 0 24 1 0 22 1 0 20 1 0 18 1 0 16 1 0 14 1 0 12 I O 10 10 8 10 6 104 10 2 10° v (H z)
1 1 1 1 1 1 1 1 I I I I I
II

í!
1 1 1 I I I I
0 -1 6 10-I4 1 0 -1 2 1 0 -1 ° 1 0 -8 I O '4 ’ 10 ^ 1 0 2 10° 102 104 106 108 X(m )

C O M P R IM E N T O DE O N D A (X) —>
E S P E C T R O V IS ÍV E L

O espectro eletromagnético,
de raios gama a longas
ondas de rádio.
4 0 0 500 60 0 70 0

C O M P R IM E N T O DE O N D A A U M E N T A N D O (X) e m NM -*

117
ENERGIA CAMPOS E FORÇAS

do na Nova Zelândia Ernest Rutherford


BECQUEREL PARA SEMPRE
(1871-1937), trabalhando no laboratório
A cadeira titular de física no Museu Fran­ de Cavendish, em Cambridge. Rutherford
cês de História Natural era herdada. Fun­ foi a primeira pessoa a ser admitida em
dada por Antoine Becquerel (1 788-1878), Cambridge como aluno pesquisador, em
em 1838 foi ocupada por um Becquerel vez de passar para pesquisa depois de ter
sem interrupção até 1948, quando o in- o diploma universitário. Ele saiu da Nova
cumbente não conseguiu gerar um filho
Zelândia para pleitear uma bolsa de estu­
para passá-la adiante.
dos dois meses antes de Röntgen desco­
brir os raios X, mas só conseguiu o cargo
polônio e rádio. Foram quatro anos desde por acaso. Ele foi um dos candidatos para
sua descoberta em 1989 até extrair um dé­ bolsa e não foi escolhido, mas o candida­
cimo de grama de rádio, usando toneladas to aprovado desistiu. Rutherford começou
de pechblenda. Pierre descobriu que um a trabalhar em ondas de rádio e pode ter
lg de rádio podia aquecer um lg e um ter­ chegado à transmissão de longo alcance
ço de água do ponto de congelamento até antes de Marconi, mas como ele não esta­
o ponto de fervura em uma hora - e po­ va interessado no potencial comercial de­
dia continuar fazendo isso continuamente. las, não explorou essa descoberta.
Parecia energia do nada, uma descoberta Quando Rutherford voltou sua aten­
surpreendente. ção para a radiação, descobriu que a for­
O casal não sabia que forma de ener­ ma que Becquerel tinha descoberto era
gia a radioatividade era. A descoberta foi composta de dois tipos diferentes: radia­
feita pelo químico e físico inglês nasci- ção alfa, que pode ser bloqueada por uma
folha de papel ou alguns centímetros de
ar, e a radiação beta, que pode penetrar
mais na matéria. Em 1908, Rutherford
mostrou que a radiação alfa é um fluxo
de partículas alfa: átomos de hélio sem
os seus elétrons. A radiação beta consis­
te de elétrons que se movem rapidamente
- como um raio catódico, mas com mais
energia. Em 1900, Rutherford descobriu
um terceiro tipo de radiação, que ele cha­
mou de gama. Como os raios X, os raios
gama formam parte do espectro eletro­
magnético. Eles são ondas de alta energia
com um comprimento de onda ainda mais
curto que os raios X. O trabalho de Ru­
therford levou-o para dentro do átomo,
que é nosso próximo destino.

Ernest Rutherford

118
MAIS ONDAS

P rocuram- se átomos
O trabalho em termo­
dinâmica no final do MARIE CURIE (MANYA SKLODOWSKA, 1867-1934)
século XIX anulou o Nascida em Varsóvia quando a Polônia foi ocupada pela
modelo calórico e le­ Rússia, Manya Sklodowska não teve chance de frequentar
vou físicos como o aus­ uma universidade em sua terra natal, por isso foi estudar
tríaco Ludwig Eduard em Sorbonne, Paris. Lá ela conheceu e casou-se com Pier-
Boltzmann e James Clerk re Curie, que já estava trabalhando em materiais magné­
Maxwell a acreditar que ticos. A gravidez atrasou seu PhD, que era sobre o tópico
o calor é uma medida da de "raios de urânio". Ela tinha de trabalhar em um galpão
velocidade em que as par­ seco, uma vez que os acadêmicos temiam que a presen­
tículas estão se movendo, ça de uma mulher no laboratório provocasse uma tensão
embora não estivessem sexual tamanha que pelo menos os homens acabariam
certos da natureza das não realizando trabalho nenhum. Em 1898, ela começou
partículas envolvidas. A a trabalhar isolando
transferência de calor e os elementos radioa­
a condutividade da ele­ tivos desconhecidos
tricidade poderiam ser da pechblenda (mi­
entendidas plenamente nério de urânio). Seu
í
se ficasse claro que elas marido Pierre aban­
donou sua própria
dependiam de um mode­
pesquisa para ajudá-la.
lo atômico da matéria.
Eles descobriram dois
Para a eletricidade pas­
elementos radioativos,
sar por um condutor, os
o polônio (cujo nome
elétrons devem passar
foi dado em homena­
entre os átomos; para o
gem à Polônia) e o rá­
calor se mover de um dio. Em 1903, Marie e
lugar para outro por Pierre Curie ganharam
condução ou convecção, o Prêmio Nobel em Física, que compartilharam com Henri
as partículas devem se Becquerel. Apenas três anos mais tarde, Pierre morreu de­
mover. A aceitação do pois de escorregar em uma rua de Paris e ter o crânio es­
modelo atômico da ma­ magado pela roda de uma carruagem puxada por cavalos
téria na virada do século que passava por lá. Ele podia estar sofrendo de ataques de
XX abriu as portas para tontura, um sintoma da doença provocada pela radiação.
se explorar o interior do Marie morreu de leucemia em 1934, também vítima da ex­
átomo, e isso, por sua posição à radiação. Seus cadernos de anotação permane­
vez, levou a um enten­ cem tão radioativos que ainda hoje devem ser guardados
dimento maior de como em um cofre selado com chumbo. Ela é a única mulher que
a energia se comporta e recebeu dois Prêmios Nobel (o segundo foi de química, em
é transmitida. 1911, também por seu trabalho sobre radioatividade).

119
CAPÍTULO 5

Dentro do ✓

ATOMO

A crença de que os átomos eram os blocos constru­


tores de matéria tem uma história antiga. Alguns
pensadores budistas no século VII a.C. acreditavam
que toda a matéria fosse formada de átomos, que eles
consideravam uma forma de energia. Na Europa,
pré-atomistas como Empédocles e Anaxágoras tam­
bém conceberam partículas de matéria invisíveis de
tão minúsculas. Esses primeiros filósofos-cientistas
chegaram a essa visão por meio de um processo de
raciocínio dedutivo. Embora o atomismo permane­
cesse em descrédito durante muitos séculos, no final
foi o modelo que prevaleceu, apoiado pela experi­
mentação e pela observação. Mas os primeiros ato-
mistas não estavam certos. A crença de que os áto­
mos são as menores partículas indivisíveis da matéria
provou ser incorreta, pois os átomos são formados de
partículas subatômicas. Quando os cientistas exami­
naram o átomo intemamente, este provou ser um lu­
gar bizarro e imprevisível.

A descoberta da estrutura atômica da matéria abriu as portas


para um mundo inteiramente novo para os físicos.
É
DENTRO DO ÁTOMO

D isse c a n d o o á to m o cou clara de imediato. De fato, os físicos não


John Dalton descreveu sua teoria atômi­ conseguiam ver para que servia o elétron, e
ca em 1803, dizendo que os elementos são o brinde no jantar anual do Cavendish La­
formados de átomos idênticos que se com­ boratory em Cambridge foi: “Ao elétron:
binam em razões de números inteiros para mesmo que ele nunca tenha utilidade a al­
formar compostos químicos. A teoria só foi guém”.
aceita universalmente depois que o físico
francês Jean Perrin (1870-1942) mediu o P udins de passas e sistemas solares
tamanho de uma molécula de água um sé­ O modelo do átomo de J.J. Thomson, pro­
culo mais tarde, em 1908, embora muitos posto em 1904, tem sido chamado de “pu­
cientistas aceitassem e trabalhassem com a dim de passas”, porque se parece a um pu­
teoria antes dessa data. Mas mesmo antes da dim cravejado com groselhas. Ele descreveu
confirmação da teoria como fato, a premissa o átomo como uma nuvem de carga positiva
de que os átomos não podem ser subdividi­ pontuada de elétrons. Como exemplo de ter­
dos estava sendo abandonada. minologia de reutilização de maneira confu­
O físico inglês Joseph John (J.J.) Thom­ sa, ele os chamou de “corpúsculos”. A parte
son (1856-1940) descobriu o elétron em carregada positivamente permanecia nebulo­
1897 durante seu trabalho sobre raios ca­ sa, enquanto os elétrons eram groselhas bem
tódicos e tubos de Crookes (veja a página definidas, cravados nela, possivelmente orbi­
114). Thomson descobriu que os raios ca­ tando em anéis fixos.
tódicos viajam muito mais lentamente que a O modelo do pudim de passas foi de­
luz, e por isso não podem, como se suspei­ saprovado em 1909 por um experimento
tava anteriormente, fazer parte do espectro feito pelo físico alemão Hans Geiger (1882-
eletromagnético. Ele concluiu que um raio 1945) e o neozelandês Ernest Marsden
catódico é um feixe de elétrons. O conceito (1889-1970) na Universidade de Manches­
de que o elétron fazia parte do átomo e que ter, enquanto trabalhavam sob a supervisão
podia se liberar e operar sozinho anulou a de Ernest Rutherford. A experiência deles
crença anterior de que o átomo era indivisí­ consistia em dirigir um feixe de partículas
vel. Em 1899, Thomson mediu a carga em alfa para uma folha bem fina de ouro en­
um elétron e calculou sua massa, chegando volvida por uma folha de sulfeto de zinco.
à conclusão espantosa de que ela tem cerca O sulfeto de zinco acendia quando atingi­
de 1/2000 da massa de um átomo de hidro­ do pelas partículas alfa (núcleos de hélio).
gênio. Os pesquisadores esperavam que houves­
Embora Thomson recebesse o Prêmio se pouca deflexão quando as partículas alfa
Nobel por seu trabalho sobre o elétron em passassem pela folha e que o padrão que elas
1906, a importância dessa pesquisa não fi- fizessem depois de atravessá-la daria infor­
mações sobre como a
carga se distribuiu den­
tro dos átomos de ouro.
"A suposição de um estado de matéria dividido mais finamente
Os resultados foram uma
que o átomo é algo um tanto alarmante."
surpresa. Muito poucas
J.J, Thomson
partículas foram defle-

122
DISSECANDO O ÁTOMO

tidas, mas a deflexão destas foi de ângulos em descrédito. O que ele produziu foi um
bem maiores que 90 graus. Rutherford es­ modelo com um núcleo minúsculo, denso,
perava que o experimento endossasse o mo­ cercado de muito espaço vazio e pontuado
delo de pudim de passas e estava totalmente por elétrons em órbita. Ele não sabia ao
despreparado para esse resultado. A única certo se o núcleo tinha carga positiva ou
conclusão que ele pôde tirar foi que a car­ negativa, mas calculou seu tamanho como
ga positiva no átomo estava concentrada em menor que 3,4 x 10-14 metros de extensão
um centro minúsculo, e não distribuída por (agora se sabe que tem cerca de 1/5 disso).
todo o átomo. Sabia-se que um átomo de ouro tinha cerca
Coube a Rutherford a tarefa de chegar de 1,5 x 10'10 metros de raio, tornando o
a um novo modelo para a estrutura do áto­ núcleo menos que 1/4000 do diâmetro do
mo que substituísse o “pudim de passas”, átomo.

J. J. THOMSON (1856-1940)
Joseph John (J.J.) Thomson era filho de um encadernador. Ele era pobre demais para ser
aprendiz de engenheiro, então foi para a Faculdade de Trinity, em Cambridge, estudar ma­
temática com uma bolsa de estudos. Ele acabou se tornando mestre naquela faculdade,
estabeleceu o Cavendish Laboratory como o melhor laboratório de física no mundo e rece­
beu o Prêmio Nobel de Física por seu trabalho sobre o elétron. Por suas experiências com
raios catódicos, Thomson foi capaz de identificar o elétron como uma partícula em 1897, e
mediu sua massa e carga em 1899. Em 1912, ele mos­
trou como usar os raios positivos que podiam
ser produzidos usando um ânodo perfurado
em um tubo de descarga para separar átomos
de elementos diferentes. Essa técnica forma
a base da espectrometria de massa, usada
atualmente para analisar a composição de
um gás ou outra substância. Thomson era
notoriamente desastrado. Além de confiar a
seus assistentes de pesquisa a condução de
experimentos delicados, eles tentavam deixá-
-lo fora do laboratório para não danificar os
equipamentos. Mas ele era querido e um exem­
plo para todos: sete de seus assistentes de pes­
quisa e seu próprio filho receberam o Prêmio
Nobel. Thomson recebeu honrarias como ca­
valeiro em 1908.

123
É
DENTRO DO ÁTOMO

0 diagrama de cima mostra o


"Os átomos dos elementos consistem de inúmeros resultado esperado da folha de ouro
corpúsculos eletrificados negativamente, fechados em de Rutherford, com as partículas
uma esfera de eletrificação positiva uniforme." alfa passando pelos átomos; o
J.J. Thomson, 1904. diagrama de baixo mostra o resultado
surpreendente - algumas partículas
tinham defletido amplamente.

O M ODELO SATURNINO
O físico japonês Hantaro Nagaoka propôs
em 1904 um modelo do átomo baseado em
Saturno e seus anéis. Este atribuiu ao áto­
mo um núcleo maciço e os elétrons em ór­
bita eram mantidos no lugar por um campo
eletromagnético. Ele chegou a essa ideia
depois de ouvir Ludwig Boltzmann con­
versando sobre a teoria cinética de gases e
o trabalho de James Clerk Maxwell sobre a
estabilidade dos anéis de Saturno enquanto
fazia uma excursão pela Alemanha e Áustria
em 1892-1896. Nagaoka abandonou a teo­
ria em 1908.
Rutherford não tinha acabado de es­
tudar o átomo. Ele propôs uma estrutura em
que o núcleo do átomo continha partícu­
las carregadas positivamente - prótons, por
ele descobertos em 1918 - e alguns elétrons.
O resto dos elétrons orbitava pelo núcleo,
pensava ele.
O físico dinamarquês Niels Bohr (1885-
1962) aperfeiçoou o modelo de Rutherford
em 1913 de tal forma
que os elétrons con­
"Foi o acontecimento mais incrível de minha vida. Era quase tão ina­
seguiam permanecer
creditável quanto se você disparasse um projétil de 15 polegadas con­
em órbita. Ele suge­
tra um pedaço de papel e o projétil ricocheteasse e o atingisse. Refle­
riu que em vez de va­ tindo, percebi que essa dissipação deve ser resultado de uma única
gar pelo espaço fora colisão, e ao fazer os cálculos vi que era impossível obter alguma coisa
do núcleo seguindo daquela ordem de magnitude, a não ser que se pegasse um sistema
qualquer trajetória, em que a maior parte da massa do átomo estivesse concentrada em
os elétrons são res­ um núcleo diminuto. Foi então que eu tive a ideia de um átomo
tritos a determinadas com um centro maciço minúsculo que carregava uma carga."
órbitas e são fisica- Ernest Rutherford

124
DISSECANDO O ÁTOMO

Para Nagaoka, os anéis de Saturno


forneceram um modelo para o átomo.

próximo que o elétron chega do


núcleo. Quando o átomo de hi­
drogênio absorve um fóton de
luz, o elétron salta para uma ór­
bita de raio maior (nível maior de
energia). Dependendo da energia
contida no fóton, ele saltará para
uma determinada órbita ou nível.
Quando o átomo emite esse fó­
ton, o elétron salta de volta para
sua órbita anterior (nível inferior
mente incapazes de emitir radiação cons­ de energia).
tantemente (o que poderiam fazer se as leis Cada órbita, ele defendia, tinha espaço
da física clássica se aplicassem). Bohr acre­ suficiente apenas para um certo número de
ditava que essas órbitas eram circulares e fi­ elétrons, por isso eles não podiam se aproxi­
xas, dando um modelo planetário do átomo, mar o máximo possível do núcleo, por mais
sendo os elétrons os planetas que orbitavam que quisessem. Isso significa que as órbitas
por um núcleo que seria equivalente ao Sol. se preenchem de dentro para fora.
Ao contrário dos planetas, no entanto, os O elétron absorve ou libera um único
elétrons podem saltar entre as órbitas, libe­ fóton ou energia quântica somente quando
rando ou absorvendo uma energia quântica dá um “salto quântico” entre as órbitas. A
específica de energia por vez, conforme es­ quantidade de energia - ou com­
tejam se movendo para o núcleo ou afastan­ primento de onda - da energia
do-se dele. absorvida ou liberada é de­
De acordo com o modelo de Bohr, o terminada pela órbita. Isso
ú n ico elétro n do átomo de hidrogênio, por parecia ser perfeito, mas,
exemplo, pode existir somente em um nú­ ao testar sua teoria,
mero limitado de órbitas. Cada órbita re­
presenta um nível particular de energia.
O nível mais baixo é chamado de es­
tado fundamental e é o ponto mais

Niels Bohr em 1935.

125
â
DENTRO DO ÁTOMO

Bohr descobriu que os átomos de hidro­ SÉRIE DE

gênio emitem energia ao comprimento de


onda previsto por seus cálculos matemáti­
cos, desde que os elétrons possam saltar en­
tre suas órbitas prescritas, às quais chamou
de conchas. Além disso, o modelo de Bohr
explicava por que o hidrogênio - e todos os
elementos - produz uma absorção e um es­
pectro de emissão únicos. Esse princípio é
o fundamento da espectroscopia, usada por
astrônomos para revelar a composição quí­
mica das estrelas.

Quantum solace
Quando Max Planck falou de quanta, paco­
Transições da concha de elétrons do hidrogênio,
tes com quantidades fixas de energia, como com suas energias associadas.
uma forma de mover pequenas quantidades
de energia, ele não quis sugerir que levassem
o quântico a sério; esta era uma solução teó­
rica que ele supunha que pudesse ser substi­ acontecia realmente. Mas ele chegara a algo
tuída em breve, assim que alguém resolvesse que parecia ser verdadeiro, apesar de impro­
os cálculos matemáticos para explicar o que vável. E não só era verdadeiro, mas a base
de todo um novo tipo de física que opera no
mundo bizarro das partículas subatômicas.
A mecânica quântica - que responde pelo
comportamento de partículas em uma esca­
la ínfima da mesma forma que a mecânica
newtoniana explica o comportamento de
sistemas maiores - foi iniciada com as so­
luções rápidas de quanta dadas por Planck.
Estas estão no âmbito de impossibilidades
aparentes e sugestões incompreensíveis.
Einstein levou os quanta a sério. Seu
trabalho sobre o efeito fotoelétrico (veja a
página 63) se baseou no uso dos quanta de
Planck, mas aplicado à luz. Einstein sugeriu
que um fóton podia ter energia suficien­
te para arrancar um elétron de um átomo;
um fluxo de elétrons expulsos produzia uma
No modelo de átomo de Bohr, os elétrons em
corrente de elétrons. Sua ideia foi impopu­
geral ficam firmes, alocados em suas conchas, e lar no início, por ir contra as equações de
orbitam pelo núcleo. Maxwell e a sabedoria aceita de que a luz era

126
QUANTUM SOLACE

»
Painéis solares usam o efeito foioelétrico para
gerar eletricidade de fótons que acionam um
semicondutor

uma onda. Aqui, pela primeira vez os físicos


foram contra a dualidade da onda-partícula
- algo que às vezes parecia uma onda e às
vezes parecia ser uma partícula.

L U Z INTELIGENTE
Ainda mais intrigante foi a descoberta que
a luz parece “saber” se comportar para
agradar aos pesquisadores experimentais.
Quando uma experiência é feita para testar
o comportamento da luz como uma onda,
esta age como uma onda. Quando uma ex­
periência testa o comportamento da luz

NIELS BOHR (1885-1962)


O trabalho do físico dinamarquês e filósofo Niels Bohr foi a chave para o desenvolvimento
da mecânica quântica, transformando uma hipótese esboçada em um conceito funcional.
Pela física quântica ele expandiu a teoria de estrutura atômica de Rutherford e explicou o es­
pectro do hidrogênio. Mas ele nunca subestimou as comple­
xidades envolvidas, comentando certa vez que: "Você nunca
entende a física quântica, você só se habitua com ela". Bohr
começou seus estudos na Universidade de Copenhagen an­
tes de se mudar para a Inglaterra para trabalhar em Cam-
bridge e Manchester. Mais tarde voltou para Copenhagen
para fundar o Institute of Theoretical Physics. Em 1922, ele re­
cebeu o Prêmio Nobel de Física. Durante a Segunda Guerra
Mundial, ele fez parte da equipe que estava desenvolvendo
a bomba atômica. Sua carreira poderia ter seguido uma tra­
jetória diferente. Em 1908, por pouco ele não foi escolhido
como goleiro da seleção nacional de futebol na Dinamarca.
A perda no futebol representou um ganho para a Física.

Albert Einstein (esquerda) com Niels Bohr.

127
DENTRO DO ATOMO

como uma partícula,


esta se comporta como
uma partícula. Não é
possível entender isso.
Se um feixe de luz bri­ • A * !* } *
••••••••
lha por duas fendas em
uma tela, um padrão de •• • V M M
interferência é produzi­
• • •
do, com listras escuras e VV 9iiH
M Mr i
claras (de luz). A medi­
ELETRO N S
da que se diminui a luz,
chega um ponto em que
os fótons passam um
por vez pela tela, fazen­ TELA C O M TELA Ó T IC A TELA Ó T IC A (V IS Ã O

D U A S FEN DAS FRON TAL)


do um clarão cada vez que
um deles aparece. Entretanto, coletivamen­ A e x p e riê n c ia d a fe n d a d u p la q u e p r o d u z p a d rõ e s
te, a imagem construída ainda é o padrão de d e d ifra ç ã o c o m a lu z t a m b é m p o d e s e r re a liz a d a
interferência. Os fótons parecem “saber” se e s p a lh a n d o -s e e lé tro n s, m o s t ra n d o q u e e le s
ta m b é m p o d e m se c o m p o rt a r c o m o o n d a s .
uma ou duas fendas estão abertas, e se duas
fendas estão abertas uma leve interferên­
cia ainda ocorre, embora os fótons sejam como acontece com a luz. Desde então, par­
disparados lentamente na tela. Cada fóton tículas maiores - prótons e nêutrons - também
parece capaz de passar por ambas as fendas foram vistas agindo como ondas.
simultaneamente. Se uma fenda está fecha­ O trabalho de De Broglie foi sua tese de
da, mesmo depois que um fóton começou doutorado. Ele sugeriu que os elétrons eram
sua jornada, os fótons só passam pela fenda ondas que corriam em volta das órbitas que
aberta. Indo mais adiante, se existe um de­ podiam ocupar, e que os níveis de energia
tector em uma das fendas para descobrir se das órbitas permissíveis estavam em harmo­
o fóton passou por aquela fenda ou outra, nia com a onda, de modo que as ondas se
os fótons, como se relutassem em ser pegos, reforçavam sempre. A teoria podia ser tes­
param de produzir padrões de interferência tada, disse ele, mostrando que difração dos
- de repente eles agem como partículas. elétrons ocorre por uma rede cristalina. Isso
Como se isso não fosse suficientemente foi demonstrado com sucesso em 1927 por
estranho, em 1924 o físico francês Louis- duas experiências feitas separadamente, uma
-Victor de Broglie (1892-1957) sugeriu nos EUA e outra na Escócia. De B ro glie e
que as partículas que compõem a matéria dois dos três homens que realizaram as ex­
também poderiam se comportar como on­ periências receberam o Prêmio Nobel de
das. Isso significaria que a dualidade onda- Física em 1937 pelo trabalho.
-partícula está em toda parte e toda matéria A importância do trabalho de De Broglie
tem um comprimento de onda. Em 1927, foi que ele mostrou que a dualidade onda-
sua ideia estranha foi apoiada por elétrons -partícula se aplica a toda matéria. Sua equa­
que se comportavam como ondas e difração, ção estabelece que o momentum de uma partí-

128
QUANTUM SOLACE

cuia (de qualquer coisa) multiplicado por seu


GIGANTES E SEUS OMBROS
comprimento de onda é igual à constante de
Planck. Uma vez que a constante de Planck A F ísica clá ssic a com eçou de fato com

é muito pequena, o comprimento de onda N ew to n , e seu "ano m ira c u lo s o " (annus


m ir a b ilis ) d e 1 6 6 6 . O r e n a s c i m e n t o d a f í ­
de qualquer coisa maior que uma molécula
sica que deu in íc io à m e c â n ic a q u â n tic a
é pequeno, comparado ao seu tamanho real.
com eçou com a p u b lic a ç ã o d a te o ria e s ­
Não nos preocuparíamos com o comprimen­
p e c ia l da re la tiv id a d e de A lb e rt E in ste in
to de onda de um ônibus ou um tigre, por
em 1905. Am bos os c ie n tista s estavam
exemplo. A medida que consideramos partí­
tr a b a lh a n d o b a s e a d o s n o tra b a lh o d e m u i­
culas maiores e menores, suas propriedades
to s d o s p rim e iro s c ie n tis ta s q u e to r n a r a m
de onda se tornam mais importantes.
esses m o m en to s de re v e la ç ã o p o ssív e is.
S u a s d e s c o b e r ta s r e v e r b e r a r a m p e lo s a n o s
O u t r o m o m e n t o n e w t o n ia n o s e g u in te s.
Não parece impossível que as partículas
possam, de fato, se comportar como ondas,
depois da explicação dada por Einstein em Foi um resultado que mudou o mundo,
1905. tão importante quanto Principia de Newton.
Em um apêndice à sua teoria especial da A equação de Einstein mostrava que ener­
relatividade, Einstein incluiu uma primeira gia é o mesmo que matéria, mas de forma
forma (menos sucinta) dessa equação, que se diferente. A matéria pode ser convertida
traduz em palavras como em uma quantidade muito grande de ener­
gia. Este é o fundamento da energia nuclear
E n e rg ia = m a s s a X a v e l o c i d a d e d a lu z a o e das armas nucleares, ambas controlam a
q u a d r a d o , q u e a g o r a é m a is fa m ilia r c o m o energia que pode ser liberada, interferindo
E=mc2 nos núcleos dos átomos.

ONDAS E PARTÍCULAS
A d u alid ad e da o n d a -p a rtíc u la é e sp e lh ad a p e rfe i­
tam en te na h istó ria dos P rê m io s N obel de F ísica.
U m d o s h o m e n s q u e c o m p a r tilh a r a m o P rê m io N o ­
bel co m D e B ro g lie (fo to à d ir e ita ) p o r d e m o n s t r a r
as p ro p rie d a d e s de onda dos e l é t r o n s fo i G eo rge
T h o m s o n . E le e r a f i l h o d e j . J. T h o m s o n q ue recebeu
o P rê m io N o b e l e m 1 9 0 6 p o r d e m o n s t r a r q u e os e lé ­
tro n s e r a m p a rtíc u la s . N e n h u m d o s d o is é c o n s id e r a ­
d o erra d o ; a m b a s as e x p la n a ç õ e s a in d a são aceitas.
(O s la u r e a d o s c o m N o b e l n ã o p o d e m e s ta r e r r a d o s .)

129
DENTRO DO ÁTOMO

Havia um problema fundamental com com a mecânica quântica era impossível


os modelos de átomo de Rutherford e Bohr dizer exatamente onde estava o elétron. A
que não podia ser resolvido dentro dos limi­ conclusão dele é que podemos ter uma pro­
tes definidos da física newtoniana. Uma vez babilidade de onde está uma partícula, com
que o elétron tem carga negativa, ele deve base em nosso conhecimento de ondas e de
ser atraído para o núcleo, que tem carga probabilidade matemática, mas não pode­
positiva. Deve acelerar a fim mos dar sua posição exata.
de permanecer em órbita, Isso se tornou conhecido
mas gastaria energia fazen­ como a equação de Schrõ­
do isso, emitindo-a constante­ dinger. Aplicando a equação
mente como radiação eletro­ a elétrons, podemos afirmar
magnética. Perdendo energia que existe uma probabilida­
dessa forma, o elétron logo de talvez de 80-90% de o
entraria no núcleo, fazendo elétron estar em uma deter­
um movimento em espiral e minada área, mas permanece
o átomo entraria em colapso. uma pequena possibilidade
“Logo”, de fato, esta é uma de ele estar em algum outro
afirmação imprópria - isso lugar. Acabamos com uma
aconteceria em cerca de dez “função de onda” que ex­
bilionésimos de segundo. pressa a probabilidade de a
A solução para esse que­ onda/partícula estar em um
bra-cabeça exigiu a contri­ determinado lugar.
buição de vários físicos, mas Tomando um exemplo
uma das contribuições mais maior que o de um elétron,
importantes foi a do físico se uma mosca entra em uma
teórico austríaco Erwin Sch­ caixa fechada, a função onda
rõdinger (1887-1961). dela dá a probabilidade de
ela estar em qualquer lugar
O n d a o u p a r t íc u l a ? na caixa. A função onda ten­
Se uma partícula está se por­ de a zero em lugares onde a
tando como onda, podemos mosca não pode estar. Logo,
dizer realmente onde ela se parte da caixa for estreita
está? Esta foi a pergunta que demais para a mosca entrar,
Schrõdinger tentou esclare­ a função onda é nula nesse
cer. Ele descartou a ideia de ponto (e fora da caixa, con­
que os elétrons se moviam tanto que não haja furos por
em órbitas fixas, visto que onde a mosca possa escapar).
Schrõdinger formulou sua
equação em 1926, apenas
O s fo g u e te s e s p a c ia is u s a m
dois anos depois do trabalho
e n e r g ia n u c le a r p a r a g e r a r a s
q u a n t id a d e s e n o r m e s d e e n e rg ia
inicial de De Broglie sobre a
d e q u e p r e c is a m . dualidade da onda-partícula.

130
QUANTUM SOLACE

ALBERT EINSTEIN (1879-1955)


E in ste in n a s c e u e m U lm , n a A le m a n h a , m a s p e la g ra v id a d e , e le c o m e ç o u a p ro d u z ir u m a
tam b ém v iv e u n a S u íç a e n a Itália q u a n d o te o ria d a re la tiv id a d e a b r a n g e n t e e a c h o u o
c ria n ç a , p o is as d ific u ld a d e s p ro fissio n a is t r a b a l h o m a i s d ifícil d o q u e e s p e r a v a . L u t o u
de seu pai fo rçaram a fa m ília a se m udar. com c á lc u lo s m a te m á tic o s , m a s a c a b o u p u ­
A p e s a r d e m a is t a r d e s e r tid o c o m o g ê n io , b lica n d o a te o ria geral da r e la tiv id a d e em
E in ste in n ã o foi u m a l u n o p r o m is s o r . S e u p a i 1916. Suas teo ria s da r e la tiv id a d e re d e fi­
co n su lto u um e sp e c ia lis ta p o rq u e su sp e ita ­ n ira m o que p en sam o s do espaço, tem p o ,
v a q u e s e u filh o t iv e s s e u m atraso m e n ta l, m a té ria e e n e r g ia . Q u a n d o o a s trô n o m o A r­
e E in ste in n ã o c o n s e g u i u e n tra r n a P o litéc­ th u r E d d in g to n c o n firm o u p a rte d a te o ria d e
n ic a d e Z u riq u e p o r n ã o te r c o n h e c im e n t o s E in ste in m o stran d o que a g ra v id a d e pode
m í n i m o s d e m a t e m á t i c a . E le n ã o c o n s e g u i u c u r v a r a lu z ( v e ja a p á g i n a 7 0 ) , E in ste in v ir o u
tr a b a lh a r n a u n iv e rsid a d e , e n tã o a c e ito u u m estre la in te rn a c io n a l no m undo cie n tífic o .
e m p r e g o n o E scritó rio d e P a t e n t e s e m B ern, E in s te in m u d o u - s e p a r a o s EUA p a r a e s c a p a r
S u í ç a . E sta a c a b o u s e n d o um a b o a in ic ia ti­ d a p e r s e g u iç ã o n a z ista a o s ju d e u s . P asso u o
v a , p o is e le era u m b o m fu n c io n á r io e tin h a r e s t o d a v i d a n o s EUA, t r a b a l h a n d o n a U n i ­
tem p o liv re e e n e r g i a i n t e l e c t u a l s u f ic ie n t e s v e r s id a d e e m P rin ce to n .
p a r a e s t u d a r físic a . E n q u a n t o e s t a v a n o Es­ E m b o r a E in ste in t iv e s s e a j u d a d o a in ic ia r
c r itó r io d e P a te n te s e e s t u d a v a físic a d u r a n t e a p e sq u isa so b re b o m b a s a tô m ic a s, a r re p e n ­
o tem p o liv re, e l e p u b l i c o u c i n c o t r a b a l h o s d e u - s e d e se u e n v o lv im e n to e m a is ta rd e fez
q u e m u d a ria m o m u n d o , os q u a is tra ta v a m cam panha p e lo d esarm am en to n u cle a r. Ele
d o e fe ito fo to e lé tric o , d o m o v im e n t o b ro w - tam b ém tra b a lh o u para o e sta b e le c im e n to
n ia n o e da te o ria e sp e c ia l da re la tiv id a d e . do estad o de Israel. C o n t i n u o u a trab a lh a r
Com base em sua p e sq u isa p u b lic a d a , e le c o m o físic o t e ó r ic o a t é o fim d a v id a , lu t a n d o
a s s e g u r o u u m p o sto a c a d ê m ic o e m Z u riq u e p a ra e n c o n tr a r u m a teo ria d o c a m p o u n ific a­
e m 1 9 0 9 . R e c e b e u o P rê m io N o b e l e m 1 9 2 1 d a - o q u e n ã o c o n s e g u iu - , u m a ú n ic a t e o ­
p o r e s s e p rim e iro tr a b a lh o . In satisfeito c o m ria o u g r u p o d e t e o r i a s r e l a c i o n a d a s q u e e x ­
as lim ita ç õ e s d a te o ria e sp e c ia l d a r e la tiv id a ­ p l i c a s s e t u d o n o u n i v e r s o . Ele n u n c a a c e i t o u
d e , q u e se a p lic a v a a c o rp o s e m m o v im e n ­ to ta lm e n te os a v an ço s na m e c â n ic a q u â n ti­
to c o n s ta n te e c o n siste n te e n ã o re sp o n d ia c a (v e ja a p á g in a 1 3 5 ).

O modelo de Schrõdinger retrata o elé- você faz uma medição, pode ter um resul-
tron situado em algum lugar em uma nuvem tado diferente. Mas se você fizer medições
de probabilidades representando todos os suficientes, algumas - as mais prováveis -
lugares onde ele poderia estar. A nuvem é aparecem com mais frequência que outras,
mais densa onde o elétron tem mais pro- Esses resultados mais prováveis se associam
babilidade de estar e menos densa onde é a níveis de energia sugeridos por Bohr. O
menos provável de ele estar. Toda vez que resultado é que o modelo de Schrõdinger
dá resultados precisos sem as limitações G ra n d e s físicos re u n id o s e m C h ic a g o , 1 9 2 9 : (d a
inerentes ao modelo de Bohr. No entanto, e s q u e rd a ) A rt h u r C o m p to n , W e rn e r H e ise n b e rg ,
G e o rg e M o n k , P a u l D ira c, H o s t E cka rd t, H e n ry
substituir a certeza pela probabilidade signi­
G ale, R o b e rt M ulliken , Fried rich H u n d e F ra n k H o yt.
ficava tumultuar a física quântica.
Ao mesmo tempo em que Schrödinger
perseguia o modelo elétron-como-onda, o 1976) estava formulando seu próprio mode­
físico alemão Werner Heisenberg (1901- lo matemático de elétrons, mas favorecendo
suas propriedades semelhantes
^ à partícula, pois ele dava sal­
tos quânticos entre os orbitais.
Ele, como Schròd in ger, publi­
cou em 1926. O físico inglês

W e rn e r H e is e n b e rg , à e s q u e rd a ,
n a d a n d o c o m a m ig o s . A té o s
físico s n u c le a re s re la x a m d e v e z
em q u a n d o .

132
QUANTUM SOLACE

Paul Dirac (1902-1984) desenvolveu um


PARA ONDE EU POSSO IR?
terceiro modelo matemático e teórico ao
O DILEMA DO ELÉTRON
mesmo tempo. De fato, Dirac foi em frente
para mostrar que os outros dois modelos - de Toda a mecânica quântica pode ser cons­
Heisenberg e de Schrõdinger - na realidade truída a partir do princípio da incerte­
eram equivalentes, e que todos estavam di­ za. Relembrando o problema original do
zendo a mesma coisa de formas ligeiramente modelo atômico apresentado pela mecâ­
nica newtoniana, de por que os elétrons
diferentes. Os três ganharam o Prêmio No­
não caem para dentro do núcleo e para
bel por contribuições à mecânica quântica.
esclarecer esse dilema, o princípio de
Heisenberg oferece uma explicação. O
P o dem o s esta r c er to s?
momentum de uma partícula em uma de­
O princípio da incerteza de Heisenberg, es­ terminada órbita é conhecido, logo sua
tabelecido em 1927, afirma que não pode­ posição não pode ser conhecida com exa­
mos saber tudo sobre uma partícula. Ele viu tidão - ele está em algum lugar na órbita.
que uma consequência da mecânica quântica Entretanto, se a partícula caísse no núcleo
é que é impossível medir todos os aspectos sua posição seria conhecida - e seu mo­
de uma partícula ao mesmo tempo. Se me­ mentum também, pois este seria zero. Ao
dimos sua posição e velocidade, podemos cair no núcleo, o elétron violaria o princí­
saber mais dentro de certos limites, mas au­ pio da incerteza. Simplesmente isso não
mentar a exatidão de uma medida torna as pode acontecer. De fato, a menor órbita
outras menos corretas. Esta é uma proprie­ em um átomo (veja a órbita do elétron em
dade fundamental da descrição quântica de um átomo de hidrogênio) é tão pequena
medida e não pode ser evitada mudando-se quanto possivelmente pode ser sem violar
o método ou as ferramentas de observação. o princípio da incerteza - a matemática
Heisenberg alegou originalmente o funciona. O tamanho de átomos e de fato
princípio de incerteza usando uma hipóte­ sua própria existência são determinados
se experimental. Por exemplo, poderíamos pelo princípio da incerteza.
medir a posição de uma partícula em mo­
vimento fazendo uma luz brilhar sobre ela,
e nesse caso teremos um de dois resultados. mas também o passado e o futuro. Uma vez
Um fóton de luz pode ser absorvido, fazen­ que uma posição sempre foi e é apenas um
do um elétron no átomo saltar para outro conjunto de possibilidades, fixar a trajetória
nível de energia, e nesse caso alteramos de uma partícula não é o que parece. Como
o átomo e nossa medida é falsa. Por outro Heisenberg disse: “A trajetória passa a exis­
lado, um fóton não é absorvido, mas passa tir somente quando a observamos”. A traje­
direto, e nesse caso não fizemos medição tória futura, de forma similar, não pode ser
nenhuma. prevista com certeza.
O princípio da incerteza é mais compli­ A física newtoniana lida com certezas,
cado se tentarmos tratar ambas as “partícu­ com causa e efeito, um modelo determinista
las” e o fóton como ondas-partículas. em que o conhecimento permite a previsão.
Heisenberg percebeu que o princípio A nova mecânica quântica parecia derrubar
da incerteza não afetava apenas o presente, tudo isso, pelo menos no nível atômico. Ela
DENTRO DO ÁTOMO

que estamos procurando e como as estamos


"Aquele que não fica chocado com a teoria observando. A luz existe tanto como onda
quântica não a entendeu."
quanto como partícula simultaneamente,
Niels Bohr
mas só aparece como uma ou outra quan­
do a medimos. O ato de medir ou observar
determina o resultado por causa do tipo de
estava longe de ser aceita em alguns círcu­ observação que escolhemos fazer. No ponto
los; até Einstein desconfiava dela dizendo, em que a medição é feita e a qualidade de
“Deus não lança dados”, embora ele tivesse onda ou de partícula é determinada, diz-se
de aceitar os cálculos matemáticos. De fato, que a função onda entra em colapso. Mais
desde o início do século XX o uso de mo­ precisamente, ela muda instantânea e des-
delos matemáticos tem assumido continua­ continuamente para a função onda que esta­
mente o controle da física experimental que ria associada ao resultado da medição.
podia ser testada em laboratório. O pensa­ Bohr reconheceu a importância do prin­
mento experimental, apoiado por cálculos cípio da incerteza, mas foi além de Heisen­
matemáticos, tornou-se o esteio da nova fí­ berg ao destacar que este não é um proble­
sica, bastante teórica. ma que vem da interferência física envolvida
na medição, mas uma questão mais funda­
A IN TERPRETAÇÃO DE CO PEN H A G EN mental - o próprio ato de fazer uma medi­
Enquanto Schrõdinger tendia a focar os as­ ção muda a situação (ou sistema) que está
pectos de onda da dualidade onda-partícula, sendo examinada. Isso lança dúvidas em
Eleisenberg se concentrou mais na partícula toda a premissa do método científico. Pode
e apresentou seu trabalho na forma de ma­ não haver um observador objetivo se o ato
trizes, enquanto Schrõdinger trabalhou com da medição ou observação em si afetar o re­
a teoria da probabilidade. Em volta dessas sultado.
duas abordagens, surgiram dois grupos dis­
tintos de físicos, cada um acreditando que a U m g a t o em u m a c a ix a
outra abordagem estivesse errada. A explicação de Bohr não agradou a nin­
Em 1927, Bohr, Heisenberg e o físico guém. Schrõdinger mostrou seu desdém
Max Virn (1882-1970), nascido na Alema­ descrevendo um exercício intelectual para
nha, trabalharam juntos para produzir uma demonstrar o absurdo da Interpretação de
síntese dos aspectos aparentemente contra­ Copenhagen. No experimento de Schrõdin­
ditórios da teoria quântica, conhecida como ger, um gato é fechado em uma caixa com
“Interpretação de Copenhagen”. Esta diz um dispositivo que consiste de uma quan­
que não são as partículas atômicas ou fótons tidade minúscula de substância radioativa,
“que escolhem” entre agir como uma onda um contador Geiger, um pequeno frasco de
ou partícula em qualquer ponto, ou que elas ácido hidrociânico e um martelo. O equipa­
são realmente uma ou outra: em vez dis­ mento é montado de modo que se houver
so, os aspectos que as fizeram parecer agir o decaimento de um átomo da substância
como uma ou outra são dois lados da mesma radioativa, a detecção da partícula libera­
moeda. Qual deles nós vemos e como inter­ da fará o martelo quebrar o frasco e o gato
pretamos seu comportamento depende do será intoxicado com o gás. A probabilida-

134
QUANTUM SOLACE

O gato de Schrõdinger, morto e vivo, em uma


caixa com e sem veneno.

tecer, isso nos ajuda a chegar a um acordo


com a infinidade. Se um novo universo tem
de se dividir cada vez que você escolhe entre
chá ou café, ou que um girino nada para a
esquerda ou para a direita, ou um galho cai
ou não cai em um telhado, deve haver mui­
tos universos - em algum lugar.

E m b a r a l h a m e n t o q u â n t ic o : o
PARAD O XO E IN S T E IN -P O D O L S K Y -R O S E N
Albert Einstein foi um que não aceitou a
Interpretação de Copenhagen. Em 1935,
Einstein e os físicos americanos Boris Po-
dolsky (1896-1996) e Nathan Rosen (1909-
1995) prepararam o chamado paradoxo
de de um átomo decair ou não é igual, e o EPR. Este suponha que uma partícula es­
gato não pode interferir no equipamento. O tacionária decaía, produzindo duas outras
gato é deixado na caixa por uma hora. No partículas. Elas devem ter m om entum angu­
final da hora as chances são 50:50 de ele es­ lar igual e oposto de modo que se cancelem
tar vivo (ou morto). Seguindo o argumento mutuamente (conservação do momentum
de Bohr e a Interpretação de Copenhagen,
o estado - morto ou vivo - do gato não é
determinado até olharmos dentro da caixa.
Isto, dizia ele, era ridículo.

M u it o s u n iv e r s o s
Outra resposta à ideia repugnante de que
tudo existe em uma nuvem de probabilida­
de até que seja observado foi o modelo de
“muitos mundos” proposto em 1957 pelo
físico americano Hugh Everest III (1930-
1982). Este sugere a existência de um nú­
mero infinito de universos paralelos que
explicam todos os resultados possíveis para
todas as questões possíveis. Em momentos
de tomada de decisão (ou observação), um
novo universo se divide. Se nadá mais acon-
É
DENTRO DO ÁTOMO

1
Padrão de difração do elétron do berílio.

da partícula-mãe. Essa ligação entre as par­


tículas deve continuar a existir depois de se­
rem emitidas e seguirem caminhos separa­
dos. Se medimos uma propriedade para uma
partícula, destruímos a função onda para a
mesma propriedade na outra partícula - ela
é afetada instantânea e inevitavelmente.
Assim como o gato de Schrõdinger, as
partículas de Einstein foram concebidas
deliberadamente para mostrar o absurdo
da Interpretação de Copenhagen, mas aca­
angular), e todas as suas outras proprieda­ baram a fortalecendo. Desde então, foi de­
des quânticas devem se equilibrar de modo monstrada a existência do embaralhamento
semelhante para conservar as propriedades de partículas, com partículas separadas por
vários quilômetros. O emaranhado pode
Frederic Joliot e Irène Joliot-Curie trabalhando em até ser colocado em uso prático, oferecendo
seu laboratório. novos métodos rápidos de cálculo (usando

136
QUANTUM SOLACE

James Chadwick ganhou um Prêmio Nobel


por seu trabalho sobre o nêutron realizado em
fevereiro de 7932.

“qubits”, ou bits quânticos), comunicação


instantânea, criptografia. De fato, o emba­
ralhamento oferece uma maneira de trans­
mitir informação mais rápido do que a velo­
cidade da luz.

A BUSCA POR MAIS PA RTÍCU LA S ATÔM ICAS


Há muito é sabido que os elétrons poderiam
ser arrancados do átomo com bastante faci­
lidade, pois foi assim que eles foram desco­
bertos em 1897. No início dos anos 1930,
Walter Bothe (1891-1957) e Irène Joliot-
-Curie (1897-1956, filha de Marie e Pierre
Curie) e seu marido Frédéric Joliot-Curie
(1900-1958) descobriram que a radiação
de partícula alfa no berílio produzia outro
tipo de radiação. Esse tipo expulsava algo
de outros elementos, mas não estava claro
o que era. Os Joliot-Curie anunciaram seus
resultados em janeiro de 1932. O físico in­
glês James Chadwick (1891-1974) repetiu
os experimentos imediatamente e explicou librada.
o efeito sugerindo que as partículas alfa es­ Durante toda a década de 1920, Chad­
tavam expulsando bits do núcleo de átomos wick procurou uma partícula neutra, que ele
de berílio. Primeiro, ele pensou que esses esperava que assumisse a forma de um pró­
“bits” fossem pares próton-elétron, pois não ton e elétron ligados. Mas seu trabalho mais
tinham carga elétrica ou esta não era equi­ importante, pelo qual ganhou um Prêmio
Nobel em 1935,
concentrou-se em
CANDIDATOS À PATERNIDADE DO TERMO alguns dias fre­
Dois anos antes de Chadwick atribuir o nome "nêutron" para sua partí­ néticos em feve­
cula sem carga no núcleo, o físico austríaco Wolfgang Pauli (1900-1958) reiro de 1932. As
usou o mesmo nome para uma partícula teórica que ele sugeriu ser emi­ medições que ele
tida do núcleo durante a radiação beta. Sua ideia teve um impacto tão fez em 1934 der­
pequeno na época que Chadwick "copiou" o nome sem problemas. A rubaram sua pri­
existência da partícula de Pauli acabou sendo confirmada nos anos 1950 meira conclusão,
e atualmente é chamada de neutrino (veja a página 145). pois as partículas

137
DENTRO DO ÁTOMO

É ROCHA DAS ERAS


Em 1920, Frederick Soddy previu que, como um isótopo muda (decai) em outro isótopo ou
elemento, este poderia ser usado para datar as rochas. Hoje, esse método é usado ampla­
mente. Por exemplo, o carbono-14 se transforma em nitrogênio-14 por meio do decaimen­
to beta a uma taxa conhecida - leva 5.730 anos para decair pela metade (sua meia-vida).
Portanto, medindo-se o índice de carbono-14 em relação ao nitrogênio-14 remanescente
em uma rocha, é possível determinar a idade dela. Essa técnica é chamada de datação de
carbono.

eram pesadas demais para serem um único ser mantidos espremidos juntos no núcleo de
próton e um único elétron ligados. Ele con­ um átomo? A explicação é a chamada força
cluiu que devia haver outro tipo de partícu­ nuclear extrema, sugerida pela primeira vez
la subatômica - que não tinha carga, à qual em 1934 pelo físico japonês Elideki Yuka-
chamou de nêutron. Isso significava que as wa (1907-1981). Ele sugeriu que a força era
variantes de elementos químicos com dife­ carregada por partículas chamadas mésons
rentes pesos atômicos, chamadas isótopos, que são trocadas entre prótons e nêutrons.
podiam ser explicadas com simplicidade. Os mésons são partículas com vida curta que
Todos os isótopos de um determinado ele­ sobrevivem apenas por algumas centenas de
mento devem conter o mesmo número de milionésimos de segundo.
prótons e elétrons, mas números diferentes Ao contrário da gravidade, das forças
de nêutrons. elétricas e magnéticas, a força forte não
O nêutron é uma espécie de superastro observa a lei do quadrado inverso. Ela é
atômico. Ele torna possíveis as reações em muito forte - cem vezes mais forte que a
cadeia ocorridas nas usinas nucleares e nas força elétrica - por uma distância muito
bombas atômicas, e também pode ser usado curta de até 13 cm, mas depois desapare­
para examinar a estrutura de outros átomos, ce, não tendo força para distâncias maio­
uma vez que os nêutrons não são defletidos res. No raio de um núcleo ela é forte o
por cargas positivas ou negativas. suficiente para superar a repulsão eletros­
tática entre prótons. Mesmo assim, a for­
Ju n tan d o tu d o te força não as pressiona tanto a ponto de
Os prótons e os nêutrons são misturados no eles se esmagarem - ela conserva uma dis­
núcleo, que ocupa apenas uma porção minús­ tância minúscula entre eles. A faixa de for­
cula do átomo - em torno de cem milionési­ ça limita o tamanho dos núcleos atômicos.
mos dele. Se o átomo tivesse o diâmetro de O méson pi, ou píon, o verdadeiro media­
um estádio de futebol, o núcleo seria do ta­ dor da força nuclear, foi descoberto em
manho de um grão de areia. Se o átomo fosse 1947 por três físicos, um inglês, um brasi­
grande como a Terra, o núcleo teria 10 quilô­ leiro e um italiano, respectivamente Cecil
metros de diâmetro. No entanto, os prótons Powell (1903-1969), César Lattes (1924-
devem repelir uns aos outros por causa de 2005) e Giuseppe Occhialini (1907-1993),
suas cargas iguais. Então como eles podem enquanto investigavam produtos de raio

138
AS COISAS DESMORONAM

cósmico. Yukawa recebeu o Prêmio Nobel


de Física em 1949 por sua previsão.

A s coisas d e sm o ro n a m
Enquanto muitos físicos estavam examinan­
do como os átomos são mantidos unidos,
outros estavam explorando como os átomos
podem se desmanchar. Depois que Henri
Becquerel descobriu a radioatividade, mais
pesquisas seguiram em várias direções. Ru­
therford e o radioquímico inglês Frederic
Soddy (1877-1956), trabalhando juntos,

Uma usina nuclear em Cattenomi, França.

CADEIA DE DECAIMENTO RADIOATIVO DE URÂNIO-238


Quando há decaimento de um isótopo radioativo, ele se torna outro elemento, o nuclídeo
filho. Este também pode ser radioativo, resultando em mais decaimento. 0 tempo que
leva para a metade do isótopo decair é chamado "meia-vida". O urânio-238 decai natu­
ralmente em chumbo-206, passando por 14 etapas como mostrado aqui.
ELEMENTO TIPO DE DECAI- MEIA-VIDA NUCLÍDEO FILHO
-MENTO
urânio-238 emissão-alfa 4,5 bilhões de anos tório-234
tório-234 emissão beta 24 dias protactínio-234
protactínio-234 emissão beta 1,2 minutos urânio-234
urânio-234 emissão-alfa 240.000 anos tório-230
tório-230 emissão-alfa 77.000 anos rádio-226
rádio-226 emissão-alfa 1.600 anos radônio-222
radônio-222 emissão-alfa 3,8 dias polônio-218
polônio-218 emissão-alfa 3,1 minutos chumbo-214
chumbo-214 emissão beta 27 minutos bismuto-214
bismuto-214 emissão beta 20 minutos polônio-214
polônio-214 emissão-alfa 160 microssegundos chumbo-210
chumbo-210 emissão beta 22 anos bismuto-210
bismuto-210 emissão beta 5 dias polônio-210
polônio-210 emissão-alfa 140 dias chumbo-206

139
DENTRO DO ÁTOMO

"Poderíamos, nesses processos, obter muito mais energia do que o próton fornecia, mas em mé­
dia não podíamos esperar obter energia dessa forma. Era uma forma muito pobre e ineficiente de
produzir energia, e quem procurasse uma fonte de energia na transformação dos átomos estaria
sonhando. Mas o assunto era interessante cientificamente porque dava uma ideia esclarecedora
sobre os átomos."
The Times, 12 de setembro de 1933, em uma fala de Ernest Rutherford sobre energia atômica.

desenvolveram um modelo de decaimento portanto, o átomo se torna um elemento


radioativo em 1903. Eles explicaram que um diferente. Eles previram que o decaimento
átomo de um elemento pesado poderia ser de rádio produziria hélio, um resultado que
instável e decair, perdendo uma partícula Soddy atingiu em 1903 enquanto trabalha­
alfa (núcleo de hélio) ou ter o decaimento va com o químico escocês William Ramsay
de um nêutron em um próton e emitir uma (1852-1916) em Londres. Em 1913, Soddy
partícula beta (elétron). Em ambos os ca­ afirmou que a emissão de uma partícula alfa
sos, o número de prótons no núcleo muda, reduzia o número atômico em dois (pois
dois prótons são perdidos) enquanto a emis­
são de uma partícula beta aumentava-o em
Enrico Fermi um (pois um nêutron decai em um elétron,
que se perde, e um próton que permanece;
portanto, aumentando o número atômico).
Soddy criou o nome “isótopos” para descre­
ver variantes de um elemento com diferen­
tes massas atômicas.
Em 1919, Rutherford descobriu que se
bombardeasse o nitrogênio com partículas
alfa, este se transformava em um isótopo
de oxigênio, perdendo um núcleo de hidro­
gênio (um único próton) no processo. Esta
foi a primeira transmutação artificial de um
elemento em outro - um objetivo almejado
pelos alquimistas ao longo dos séculos, em­
bora com a meta mais ambiciosa de trans­
formar o metal base em outro. Em vez do
primeiro passo em um novo mundo da al­
quimia, foi o primeiro passo no âmbito da
física nuclear.
Entre 1920 e 1924, Rutherford e Chadwick
demonstraram que a maioria dos elemen­
tos mais leves emitirá prótons se bombardeada
com partículas alfa.

140
AS COISAS DESMORONAM í

A reação em cadeia produzida pelo decaimento


ò de urânio-235 induzida por bombardeio com
nêutrons.

mentos com partículas alfa, podiam trans­


formá-las em isótopos radioativos instáveis
0
que então decairiam. O físico italiano En­
/" N?
( 2Mu )
L
.0
" °> rico Fermi (1901-1954) ampliou a pesquisa,
usando nêutrons lentos para produzir mais
^ r v radioatividade artificial. Ao urânio com
nêutrons, Fermi pensava ter criado um novo

4 ü elemento, ao qual chamou de hespério. Em


1938, no entanto, um grupo de quatro cien­
tistas alemães e austríacos descobriu que de

& Í23SU J
''fK
fato a técnica de Fermi tinha dividido o nú­
cleo de urânio em duas partes aproximada­
mente iguais. Esse processo é a fissão nuclear.

K? * 0 . ^
O físico húngaro Leó Szilárd (1898-
1964) percebeu que os nêutrons liberados
o
-o
o

6 o por uma reação de fissão nuclear podiam


ser usados para gerar a mesma reação em
outros átomos, levando a uma reação em
A p r o v e it a n d o a r e a ç ã o em c a d e ia cadeia autossustentável. Szilárd estava em
A transformação de um elemento em outro Londres quando ficou indignado com um
pode ser desencadeada artificialmente e pode artigo em The Times descartando a possi­
ser a fonte de um imenso poder. A energia bilidade levantada por Rutherford de que a
liberada na detonação de uma bomba atômi­ energia dentro dos átomos podia ser apro­
ca, ou aproveitada em uma estação de energia veitada para fins práticos. Enquanto ia a pé
nuclear, vem de uma reação nuclear em cadeia para trabalhar no Hospital St. Bartholomew
com partículas emitidas por um decaimento e esperava o sinal de tráfego mudar em Sou-
atômico usado para desencadear outro. thampton Row, em Bloomsbury, Szilárd re-
Irène e Frédéric Joliot-Curie descobri­
ram a radioatividade induzida, ou
artificial, em 1934, ao perceberem
que ao bombardear alguns ele-

O primeiro reator nuclear do


mundo se torna autossustentável
em Chicago, 1942 (nenhum
fotógrafo estava presente).

141
â DENTRO DO ÁTOMO

O MUNDO LIBERTADO - OU NÃO "Nós viramos o interruptor e vimos os flashes.


Leó Szilárd foi inspirado por um roman­ Nós os vimos por pouco tempo e então vira­
ce escrito pelo escritor inglês H. G, Well, mos novamente o interruptor e fomos para
chamado O Mundo Libertado (1914), em casa... Aquela noite, havia poucas dúvidas
que um novo tipo de arma, uma "bom­ em minha mente de que o mundo estava se
ba atômica", provocou a devastação. dirigindo para o sofrimento."
As bombas atômicas ficcionais de Wells Léo Szilárd, após ter sucesso em come­
continuaram a explodir durante dias. çar uma reação em cadeia usando urânio
Isso levou Szilárd a pensar seriamente em Columbia University, Manhattan, em
em aproveitar as reações nucleares em 1938
cadeia para fazer bombas atômicas reais.
Szilárd mudou-se para os EUA em 1938,
e um ano depois convenceu Albert Eins- solveu como uma reação nuclear em cadeia
tein a escreverem juntos para o presi­ poderia funcionar. Ele pediu patente por
dente Franklin D. Roosevelt, pedindo isso no ano seguinte. De fato, Szilárd tinha
que o governo montasse um programa originalmente as patentes tanto da reação
de pesquisa para desenvolver uma bom­ em cadeia quanto do reator nuclear (com
ba atômica, a fim de combater o risco de Enrico Fermi), embora abrisse mão da pa­
a Alemanha nazista desenvolver armas tente das reações nucleares em cadeia para
nucleares primeiro. Este foi o Projeto Ma­
a Marinha Britânica em 1936. Szilárd foi
nhattan. Szilárd idealizou o projeto como
o pioneiro no desenvolvimento da bomba
uma forma de proteger o mundo contra a
atômica (veja o quadro).
destruição descrita por Wells, pois espe­
Fréderic Joliot-C urie produziu evidên­
rava que a bomba fosse mantida como
cias experimentais da reação em cadeia
ameaça, e não realmente usada. Ele
em 1939, e cientistas em muitos países
ficou cada vez mais descontente à me­
(inclusive Estados Unidos, Reino Unido,
dida que o controle da pesquisa passou
para os militares, e insistiu em uma de­
França, Alemanha e União Soviética) so­
monstração da potência de uma bomba licitaram dinheiro para pesquisar a fissão
atômica aos japoneses que garantisse a nuclear. O primeiro reator foi o Chicago-
rendição sem a perda de vidas, uma su­ -Pile-1 em dezembro de 1942, construído
gestão que o governo dos Estados Uni­ para produzir o plutônio a ser usado em
dos rejeitou. As bombas atômicas foram armas nucleares.
lançadas sobre as cidades japonesas de
Hiroshima e Nagasaki em 1945, causan­ O fim d o á to m o clássico
do grande devastação e muitos milhares Com o modelo de Bohr, era impossível res­
de mortes. Depois da guerra, Szilárd pre­ ponder pelo comportamento do átomo em
viu o impasse nuclear que caracterizaria termos da física clássica. O núcleo minúscu­
a Guerra Fria. Ele se afastou da física para lo contém os prótons e nêutrons, mantidos
se concentrar em pesquisa sobre biolo­ juntos pela força nuclear forte. No espaço
gia molecular. vazio, os elétrons giram com velocidade em
torno de suas conchas designadas, sem sair

142
de suas órbitas, mas capazes de saltar de Detonação de bombas atômicas sobre Hiroshima
(esquerda) e Nagasaki (direita) em agosto de
uma para outra nas circunstâncias certas. O
1945.
que os antigos, com seu conceito de átomo
indivisível, achariam difícil de entender foi
não apenas que o átomo continha elétrons, Prótons e nêutrons são exemplos de há-
prótons e nêutrons, mas que os prótons e drons, os quais todos são compostos por três
nêutrons podem ser ainda mais divididos. A quarks (bárions) ou um quark e um antiquark
segunda metade do século XX viu a desco­ (mésons). Experimentos no Stanford Linear
berta dos quarks, unidos por uma força me­ Accelerator Center em 1968 revelaram que
diada por giúons. E intrigante que esta seja o próton não é indivisível, mas abrange ob­
a força forte - a mesma responsável por li­ jetos menores, semelhantes a um ponto, que
gar prótons e nêutrons. De fato, a ligação de Richard Feynman chamou de “pártons”. O
prótons e nêutrons é algo de efeito residual. modelo quark foi proposto em 1964, mas
A forte força que age sobre os quarks é bem os pártons não foram identificados imedia­
mais interessante. Em vez de diminuir a dis­ tamente com os quarks. Os quarks vêm em
tância, a força se torna mais forte até que seis sabores: “up”, “down”, “top”, “bottom”,
atinja um máximo que ela exerce sobre to­ “strange” e “charm” (“top” e “bottom” às
das as distâncias substancialmente maiores vezes são chamados “verdade” e “beleza”).
que o tamanho de um próton ou nêutron. Os quarks antimatéria - antiquarks têm
Os giúons foram detectados pela primeira antissabores, que originam conceitos estra­
vez em 1979 usando o colisor elétron-posi- nhos como o quark “antiestranho” e o quark
tron PETRA, na Alemanha. “anti-up”. Na vida normal, estes poderiam

143
ÉI
“ DENTRO DO ÁTOMO

ser chamados “mundano” e “down”, mas no O grande número de partículas subatô­


estranho mundo dos quarks, “down” não é o micas vai além do escopo deste livro, mas
mesmo que “anti-up”. basta dizer que existem muitos que ainda
Tanto prótons quanto nêutrons são bá- não foram descobertos ou comprovados,
rions e são apenas hádrons estáveis, embo­ alguns com propriedades e funções desco­
ra os nêutrons só sejam estáveis dentro do nhecidas.
núcleo de um átomo. Existem cerca de 40
tipos conhecidos ou previstos de bárion, e M a t é r ia e a n t im a t é r ia
cerca de 50 tipos conhecidos ou previstos Em 1927, Paul Dirac publicou uma equa­
de méson. Eles têm nomes bizarros, como ção de onda definitiva do elétron que aco­
“ômega duplamente carregado bottom” modava plenamente os requisitos da teo­
(um bárion de massa ou duração desco­ ria especial da relatividade (veja a página
nhecida). Alguns têm vida muito curta (se 132). Surpreendentemente, no entanto, ela
é que existem) - como o bárion delta, que tinha duas soluções; uma descrevia o elé­
dura apenas 5,58 X 10-24 segundos. (Isso tron familiar e a outra algo equivalente ao
significa que levaria cerca de 30 vezes o elétron, mas com carga positiva. Primeiro,
número de partículas delta que as estrelas Dirac tentou encaixá-la no próton, mas
no universo para durar um único segun­ esta também tinha massa demais. Outras
do.) Os primeiros mésons descobertos fo­ investigações sugeriram que ao usar ener­
ram káons e píons, encontrados em raios gia suficiente, um par de partículas podia
cósmicos em 1947. ser criado com carga elétrica oposta, mas

O QUARK DE UM PATO
O nome "quark" foi escolhido por uma
das duas pessoas que propuseram sua
existência independentemente em 1964,
Murray Gell-Mann. Ele escolheu esse
nome lembrando o som feito pelos patos,
querendo que fosse pronunciado "quork",
mas não conseguiu se decidir quanto à es­
crita. Ele optou por "quark" depois de en­
contrar a palavra em Finnegans Wake, de
James Joyce:

Três quarks para o senhor Mark!


Ele não chega a latir exatamente
E certamente qualquer latido que ele dê será
além do esperado.

144
O FIM DO ÁTOMO CLÁSSICO

massa idêntica. Em 1932 e


1933, Cari Anderson desco­
briu vestígios de uma partí­
cula carregada positivamente
como previsto por Dirac.
Ele a chamou de pósitron.
Outros a reconheceram
como a primeira partícula
antimatéria a ser descoberta.
Desde então se encontrou
uma aplicação prática para
o pósitron em uma técnica
de diagnóstico médico por
imagem chamada scan PET
(tomografia por emissão de
pósitron). Agora sabemos
que todas as partículas têm Murray Gell-Mann deu o nome aos quarks.
partículas antimatéria correspondentes
com propriedades exatamente opostas.
da e pudesse carregar qualquer quantidade
P a r t íc u l a s f a n t a s m a s de energia cinética para cima, até um má­
Uma das partículas mais intrigantes e di­ ximo preestabelecido. Ele chamou sua par­
fíceis de descrever é o neutrino, sugerido tícula potencial de nêutron, embora dois
pela primeira vez por Wolfgang Pauli em anos depois Chadwick adotasse esse nome
1930. Ele precisava dela para equilibrar para a partícula que agora conhecemos
uma equação. Quando o núcleo de um como nêutron.
átomo radioativo decai, a energia liberada Em 1933, Enrico Fermi deu o nome de
deveria ser igual àquela presente original­ “neutrino” para a misteriosa partícula de Pau­
mente. Mas Pauli descobriu que não era li. Fermi sugeriu que um nêutron decai em
este o caso. A energia que se perdia era um próton e um elétron (que também de­
maior do que aquela que podia ser medi­ cai se levado para fora do núcleo atômico),
da, o que significava que algo estava sen­ e também a um novo tipo de partícula não
do emitido e não estava sendo identificado carregada, o neutrino. Então o neutrino era
pelos detectores. Pauli sabia que, durante emitido juntamente com um elétron duran­
o decaimento beta, os elétrons emitidos te o decaimento beta.
aparentemente podiam ter uma quantida­ Os neutrinos não saíram da teoria até
de enorme de energia até um máximo para que os físicos americanos Frederick Reines
cada determinado tipo de núcleo. Mas se (1918-1998) e Clyde Cowan (1919-1974) os
fosse este realmente o caso, violaria a lei da detectaram em 1953. Eles usaram grandes
conservação de energia. A solução radical tanques de água perto de um reator nuclear
de Pauli foi sugerir a existência de outra como “coletores de neutrino”. Calcularam
partícula sem carga que não era quantifica- que o reator geraria dez trilhões de neutri-

145
DENTRO DO ÁTOMO

É "Fiz algo muito ruim hoje ao propor uma


isso, existe muito espaço para os neutrinos
zarparem por tudo e, por não terem carga,
partícula que não pode ser detectada. É algo
eles não são defletidos nem desviados por
que nenhum teórico deveria fazer. "
elétrons ou prótons.
Wolfgang Pauli, diário, 1930.
Cerca de 10 anos após a descoberta do
primeiro neutrino, um detector de neutrino
especializado foi instalado em uma mina de
ouro em Dakota do Sul. O detector consis­
nos por segundo e conseguiram acompa­ tia de um vasto tanque cheio de fluido para
nhar três por uma hora. Claramente muitos limpeza a seco, rico em cloro. Quando um
escapavam, mas os poucos que eles encon­ neutrino colide com um átomo de cloro, ele
traram forneceram a prova necessária de cria árgon radioativo. A cada poucos meses,
que os neutrinos existem. um exame do tanque revelava cerca de 15
Os neutrinos têm massa desprezível e átomos de árgon, mostrando que 15 neutri­
não têm carga; por isso passam por tudo nos tinham colidido com átomos de cloro.
que encontram sem impedimento algum. O detector foi usado continuamente duran­
De fato, se um feixe de neutrinos fosse dis­ te mais de 30 anos.
parado contra uma parede de chumbo de Hoje existem muitos detectores de neu­
espessura de 3.000 anos-luz, metade passa­ trinos construídos em subsolos profundos,
ria por ela sem ser detida. Existem neutri­ alguns em velhas minas, outros sob o ocea­
nos emitidos pelo Sol e fluindo de explosões no e também abaixo do gelo da Antártica. Não
estelares. Realmente, cerca de 100 trilhões é problema para os neutrinos chegar até os
de neutrinos passam por nosso corpo a detectores, mas o abrigo impede os cien­
cada segundo. Lembre-se de que os átomos tistas de confundi-los com raios cósmicos
são basicamente espaço vazio - o núcleo é (partículas maiores que são impedidas pela
o grão de areia no estádio de futebol. Por matéria interveniente). O detector neutrino
Super-K no Japão
usa 50.000 tone­
ladas de água em
um tanque fecha­
do por um domus

O detector
MINOS (Mains
Injector Neutrino
Oscillation Search)
no Soudan
Underground Mine
State Park, usado
para investigar
neutrinos.

146
O FIM DO ÁTOMO CLÁSSICO

com 13.000 sensores de luz. Os sen­


UMA ROTA CIRCULAR
sores detectam um clarão azul sem­
pre que um neutrino colide com um O KATRIN (Karlsruhe Tritium Neutrino Experi-
átomo na água e cria um elétron. Ao ment), que será usado para calcular a massa de
traçar a trajetória exata que o elétron um neutrino, foi construído a 400 quilômetros de
faz pela água, os físicos podem iden­ Karlsruhe, Alemanha, onde funcionará. No entan­
tificar de que direção o neutrino veio, to, por ser grande demais para ser transportado
e daí deduzem sua origem. A maioria por estradas estreitas, foi transportado por barco
pelo Rio Danúbio, entrando no Mar Vermelho,
vem do Sol. Em 2001, os físicos des­
passando pelo Mediterrâneo, contornando a Es­
cobriram que os neutrinos vêm em
panha, atravessando o Canal Inglês e entrando no
três “sabores”. Existem muitos outros
Reno, para Leopoldshafen, Alemanha, onde então
tipos além do que eles tinham per­
continuaria por estrada. O trajeto levou dois me­
cebido, mas eles descobriram apenas
ses e cobriu 8.960 quilômetros.
aqueles que criam elétrons quando
interagem com a matéria. A desco­
berta de sabores tem mais uma implicação
- significa que os neutrinos possuem mas­ o problema com o qual estive trabalhando.
sa. Um detector para medir a massa de um Continuei agora a brincar com isso da for­
neutrino entrará em operação na Alemanha ma descontraída que tinha feito no início e
em 2012. era como tirar uma rolha de uma garrafa
O trabalho de Feynmann sobre o spin - tudo simplesmente derramou, e em pouco
e a rotação de elétrons nasceu ao ver uma tempo eu resolvi as coisas que me fizeram
placa girando e refletindo sobre a oscilação ganhar o Prêmio Nobel mais tarde."
enquanto ele observava o padrão.
"Enquanto almoçava, uns garotos ati­ A ÚLTIM A PA RTÍCU LA PERDIDA
raram uma placa na lanchonete. Havia um A antimatéria e os neutrinos foram contem­
medalhão azul na placa, o símbolo de Cor­ plados em teoria antes de serem descober­
neiI, e quando eles atiraram a placa e ela tos. Agora a caçada é de outra partícula co­
começou a cair, a coisa azul girava e me gitada em teoria, o bóson de Higgs. As vezes
parecia que com mais rapidez do que a osci­ denominada “partícula de Deus”, o bóson
lação, e eu não entendia a relação entre as de Higgs é a última partícula no chamado
duas. Por brincadeira, pois aquilo não tinha Modelo Padrão do mundo físico que ainda
importância nenhuma, montei equações de precisa ser descoberta. O bóson de Higgs
movimento que faziam coisas girar, e desco­ não precisa existir em todos os modelos da
bri que se a oscilação fosse pequena, o me­ física, e em alguns modelos pode haver mais
dalhão azul giraria duas vezes mais rápido de um tipo de bóson de Higgs. Descobrir
que a oscilação. se a partícula existe ou não ajudará os cien­
Comecei a brincar com essa rotação e tistas a decidir qual dos modelos sugeridos
esta me levou a um problema semelhante é mais provável de estar correto. O bóson
da rotação do spin de um elétron de acordo de Higgs é pensado como um componen­
com a equação de Dirac, e isso me levou te do campo de Higgs. Passar pelo campo
de volta à eletrodinâmica quântica, que era de Higgs confere massa às partículas. Se o

147
É
DENTRO DO ÁTOMO

RICHARD FEYNMANN (1918-1988)


Nascido em Nova York, Feynmann foi
apresentado à ciência por seu pai, que
fazia uniformes, mas tinha interesse por
ciência e lógica. Feynmann estudou em
Massachusetts Institute of Technology
(MIT) e Princeton antes de trabalhar no
Projeto Manhattan para desenvolver
a bomba atômica durante a Segunda
Guerra Mundial. Mais tarde ele entrou
para o Califórnia Institute of Technology.
Feynmann foi um professor carismático
e popular com muitos hobbies e interes­
ses incomuns, entre eles tocar bongô em
um bar de strip tease. Ele desenvolveu a
teoria matemática da física de partículas
e demonstrou que a interação entre elé­
trons (ou pósitrons) pode ser considera­
da em termos dos elétrons trocando fó-
tons virtuais, e mostrou essas interações
na forma de "diagramas de Feynmann".
Famosamente, ele tinha uma van decora­
da com diagramas de Feynmann, a qual
ainda existe em uma garagem na Cali­
fórnia. Ele também foi pioneiro da com­
putação quântica e chegou ao conceito
de nanotecnologia. Niels Bohr procurava
Feynmann para discutir física porque os
demais reverenciavam tanto a ele próprio
que acabavam não o contradizendo nem
destacando falhas em seus argumentos.

Diagramas de Feynmann de:


(!) interação do neutrino com a matéria com
corrente carregada; (2) interação do neutrino
com a matéria com corrente neutra; (3) um
processo de dispersão; e (4) decaimento do
nêutron.

148
Túnel do LHC em CERN.

bóson de Higgs existe, ele é parte integral bóson de Higgs esmagando prótons juntos a
da matéria e está presente em toda parte. A altas velocidades.
primeira descrição completa da partícula foi
dada por Peter Higgs em 1966. P a r t íc u l a s d a s e s t r e l a s
A busca pelo bóson de Higgs exige o Grandes colisores de hádrons tentam imi­
uso de colisores em grande escala, como o tar as condições que existiram no início do
Grande Colisor de Hádrons (LHC - Large próprio universo, com as partículas força­
Hadron Collider) no Cern, Suíça, e o Teva- das a se juntar sob imensa pressão. O fato
tron no Fermilab, EUA. Existem várias ma­ de termos ideia do que pode ter acontecido
neiras de o colisor de hádrons produzir um próximo ao início do universo é o resultado
de milhares de anos de observação
RENOMEANDO O NÃO EXISTENTE e da formulação de teorias sobre
Muitos cientistas fazem objeção ao termo popular as estrelas e o espaço, uma ativida­
"partícula de Deus" para designar o bóson de Higgs. de que sem dúvida começou antes
A sugestão mais popular em um concurso para dar dos registros históricos de nossos
novo nome a ele em 2009 foi o "bóson garrafa de primeiros ancestrais que olhavam
champanhe", mas outros nomes concorrentes foram maravilhados para o céu e inven­
"mastodon", "misteron" e "não existon". tavam estórias para explicar o que
viam.

149
CAPÍTULO 6

Tentando
alcançar as
ESTRELAS

É impossível saber quando os seres humanos olharam


pela primeira vez para as estrelas, querendo entendê-
-las. Alguns ficavam motivados ao ver constelações
- no padrão das 4000 estrelas aproximadamente, visí­
veis a olho nu, e este deve ter sido um pequeno pas­
so para inventar estórias que acompanhassem essas
imagens. Algumas dessas histórias se tornaram a base
das crenças religiosas e tentaram explicar o inexpli­
cável - a origem do mundo, a razão para as estações,
o movimento das estrelas e planetas pelo céu. Outras
pessoas, ao que parece, se motivaram a procurar ex­
plicações racionais. Elas observavam, contavam, me­
diam e eventualmente faziam previsões. Sem dúvida,
testaram e aprimoraram suas previsões à medida que
ao longo do tempo os problemas foram transferidos
para seus modelos. Esses primeiros astrônomos fo­
ram os primeiros cientistas. Eles não entravam em
conflito com as tradições religiosas de suas culturas,
mas trabalhavam de mãos dadas com elas, prevendo o
movimento de corpos celestes para produzir calendá­
rios com aplicações religiosas e também práticas.

A via Láctea = nosso lar no universo, mas apenas uma das


centenas de bilhões de galáxias.
TENTANDO ALCANÇAR AS ESTRELAS

investigadores descobriram alinhamentos


muito mais exatos com diferentes movimen­
tos celestes, inclusive a Lua e os planetas,
e sugeriram que Stonehenge representa o
resultado de décadas ou mesmo séculos de
observação astronômica.
As Grandes Pirâmides em Giza no Egito
são alinhadas com mais exatidão. Concluí­
das em 2680 a.C., todos os quatro lados das
Existem 3.000 pedras pré-históricas em Carnac, três pirâmides seguem a orientação norte-
na França. -sul e leste-oeste dentro de uma pequena
fração de um grau. As posições das pirâmi­
Estrelas e p e d ras des podem espelhar as estrelas centrais nas
Algumas das estruturas humanas mais anti­ constelações de Orion, com outras pirâmi­
gas podem mostrar evidência de observação des correspondendo possivelmente a outras
cuidadosa do movimento da Lua, estrelas e estrelas em Orion e o Nilo corresponden­
planetas pelo céu. As 3.000 pedras de Car­ do à Via Láctea. O primeiro retrato corre­
nac, na França, datam de cerca de 4500- to da astronomia do Egito Antigo é o teto
3300 a.C., e podem ter tido significado da tumba de Senenmut, arquiteto chefe e
astronômico. O círculo de pedras em Sto­ astrônomo durante o reinado da Rainha
nehenge no sul da Inglaterra, erigido 3000- Hatchpsut (c.1473-1458 a.C.). Várias cons­
220 a.C., pode ter servido como observa­ truções erguidas pelos maias na América do
tório celeste: o Sol no meio do verão nasce Sul se alinham ao aglomerado de estrelas
aproximadamente em alinhamento com o Plêiades e à Era Draconis (uma estrela da
eixo central de Stonehenge. A precessão da constelação Draco).
Terra (a forma como nosso planeta gira so­
bre seu eixo ao fazer a rotação) significa que P rimeiros observadores das estrelas
Stonehenge teria se alinhado com menos Não existem registros contemporâneos que
exatidão 4000 atrás do que hoje, mas ainda sustentem um uso ou correlação astronômi­
pode ter fornecido dados astronômicos úteis ca para Stonehenge e as pirâmides, mas os
para serem aplicados
à agricultura e a cul­
tos espirituais. Outros

Stonehenge, em
Salisbury, Inglaterra,
pode ter tido usos
astronômicos em tempos
pré-históricos.

152
ESTRELAS E PEDRAS

As Grandes Pirâmides
em Giza, Egito,
parecem estar
alinhadas com as
estrelas e com
os pontos de
orientação da bússola.

primeiros astrônomos que deixaram regis­ cativos na Terra. Do século XVI a.C. até o
tros datam aproximadamente do mesmo pe­ final do século XIX d.C., quase todas as di­
ríodo. Os astrônomos chineses começaram nastias designavam autoridades para obser­
a observar o céu usando observatórios es­ var e registrar acontecimentos e alterações
pecialmente construídos por volta de 2300 astronômicos deixando um registro inesti­
a.C. O primeiro relato de um cometa foi mável para os historiadores de astronomia
registrado em 2296 a.C., de uma chuva de da atualidade.
meteoros em 2133 a.C. e de um eclipse solar Os babilônios ocuparam a área em 1600
em 2136 a.C. A astronomia chinesa serviu à a.C., aproximadamente. Seus astrônomos ti­
astrologia, e os admiradores do céu precisa­ nham apoio estatal para atividades como
vam prever eclipses e outros fenômenos ce­ elaborar calendários e fazer previsões astro­
lestes a fim de escolher momentos propícios lógicas. Eles compilaram catálogos de estre­
para realizar eventos reais e batalhas, além las e começaram a manter registros, a longo
de prever o faturo sucesso e a saúde do im­ prazo, de movimentos planetares e de eclip­
perador. O fracasso poderia ser fatal - sabe-se ses solares e lunares que os ajudavam a fazer
de pelo menos dois astrônomos decapitados previsões aproximadas de eclipses. Eles pa­
em 2300 a.C. por fazerem previsões inexa­ recem ter descoberto o ciclo de 223 meses
tas de um eclipse solar. Uma tumba em um dos eclipses lunares. Por volta de 800 a.C.,
Xishuipo, na província de Henan, datando eles fixaram a localização de Vénus, Júpiter
de cerca de 6000 atrás, continha conchas e e Marte em relação às estrelas e registraram
ossos formando as imagens de três conste­ o movimento retrógrado (para trás) dos pla­
lações da astronomia chinesa, o Dragão de netas.
Azure, o Tigre Branco e o Dipper do Nor­ Os babilônios desenvolveram um ca­
te. Ossos do oráculo de 3.200 anos com os lendário de 12 meses com o bônus ímpar, o
nomes de estrelas relacionadas às 28 casas décimo terceiro mês adicionado ocasional­
lunares foram preservados. Os chineses mente para manter a regularidade dos anos.
acreditavam que os alinhamentos no céu in­ Em algumas partes da Babilônia, também
dicavam ou previam acontecimentos signifi­ havia uma semana de sete dias. Os babilô-

153
TENTANDO ALCANÇAR AS ESTRELAS

Ter um sistema para medir ângulos per­


mitiu aos astrônomos babilônios medir o
movimento retrógrado dos planetas. Com
base em registros mantidos em placas de ar­
gila ao longo de séculos, eles puderam pre­
ver as posições planetárias e os movimentos
retrógrados, mesmo sem entender como ou
por que os movimentos aconteciam. Eles
não tentaram dar explicações científicas
nem modelos, uma vez que suas previsões
atendiam apenas a finalidades práticas e re­
ligiosas.

D a o bse rvação ao
p e n sam e n to
nios também dividiram o círculo em 360 Enquanto os astrônomos chineses, sumérios
graus, e a partir deste eles derivaram uma e babilônios eram rigorosos no registro das
divisão do dia em 12 “kaspu”, durante o estrelas e acontecimentos, os gregos anti­
qual o Sol variava 30 graus do céu. Eles usa­ gos adotaram uma abordagem mais teórica
vam o arco de um grau como unidade para e científica, tentando explicar e modelar o
medir o espaço angular. comportamento dos corpos celestes.
Por volta de 500 a.C.,
£) Pitágoras sugeriu que o
% mundo é um globo, em vez
X de ser achatado, e no século
& V a.C., Anaxágoras propôs
$ que o Sol é uma rocha mui­
r ;. to quente, e que a Lua é um
O c\ > X pedaço da Terra. Em 270
-rt a.C., Aristarco disse que a
a e o T ,V *
*
rv* íc Terra gira em torno do Sol.
9*4 9 ■- l í ? . ; . Anteriormente, as pessoas
acreditavam que a Terra
* V A r/yi. fosse o centro em torno do
qual a Lua, o Sol, os pla­
v ; ; a p» netas e estrelas giravam.
1
A, '** áâ % ^£ Aristarco fez o primeiro
't f
>#n
z.
:èi~~ O mapa estelar chinês
Dunbuang, criado em
a* 700 a.C.

154
DA OBSERVAÇÃO AO PENSAMENTO

"Então, se parecesse mais provável que o equador do globo este o caso, esse raciocínio
terrestre, em um único segundo (ou seja, no tempo em que faria sentido. Mas tais dis­
alguém andando rapidamente é capaz de dar um único pas­ tâncias eram inconcebíveis
so) pode perfazer um quarto de milha inglesa (sendo 60 mi­ naquela época e o modelo de
lhas equivalentes a um grau de um grande círculo na Terra), Aristarco foi rejeitado. Le­
ou que o equador do primum mobile naquele mesmo tempo varia 1800 anos até que este
deveria atravessar 5.000 milhas com celeridade inefável... fosse aceito.
mais rápido que as asas de raios, eles mantêm a verdade que
assombra especialmente o movimento da Terra." H iparco - o maior
Edward Wright, na introdução ao De magnete de William ASTRÔNOM O DA
Gilbert (1600), explicando por que é mais provável que a A N TIG U ID A D E?
Terra gire em torno de seu próprio eixo que o Sol gire em O astrônomo grego H i­
volta da Terra a cada 24 horas. parco nasceu em Nicea por
volta de 190 a.C., mas passou
a maior parte de sua vida em
cálculo do tamanho do Sol e da Lua e de sua Rliodes. Foi chamado o maior astrônomo
distância da Terra, e concluiu que uma vez da Antiguidade, embora muito pouco de seu
que o Sol é muito maior que a Terra, é rela­ trabalho tenha sido preservado. Ele é muito
tivamente improvável que o Sol girasse em conhecido por nós por meio de Almagest, de
volta da Terra, tendo sua órbita subordinada
a ela.
Trabalhando a partir do tempo que leva­
va para um eclipse lunar acontecer, Aristar­
co calculou a distância da Terra até a Lua
em cerca de 60 vezes o raio da Terra, o que
está de acordo com os dados modernos. Ele
decidiu que o Sol está 19 vezes mais longe
da Terra que a Lua, e tem cerca de 10 ve­
zes o diâmetro da Terra, embora esses da­
dos não fossem tão exatos. Infelizmente, as
conclusões de Aristarco não foram aceitas
por seus contemporâneos. Um argumento
era que se a Terra se move em torno do Sol,
às vezes ele estaria muito além das estrelas e
seu tamanho parecia variar. De fato, eviden­
temente, a Terra está tão longe das estrelas
que a distância que a Terra viaja é minúscula
em comparação e não faz diferença ao tama­
nho aparente das estrelas, mas se não fosse

Hiparco com a esfera armilar inventada por ele.

155
TENTANDO ALCANÇAR AS ESTRELAS

Quadro mostrando o universo de


Ptolomeu, com a Terra no centro,
1660 - 1.

produção do primeiro catálogo


detalhado das estrelas. O trabalho
chinês The Gan and Shi Book o f the
Stars, escrito durante o século IV
a.C., registra as posições de 121
estrelas. Mas Hiparco notou as
posições de 850 estrelas visíveis a
olho nu, classificando-as em seis
Ptolomeu. Ele se baseou no trabalho de as­ grupos de acordo com seu brilho.
trônomos babilônios, formando uma ponte Esse sistema é usado ainda hoje. Ele levan­
entre os acadêmicos da Babilônia e da Gré­ tou uma lista de todos os eclipses que ocor­
cia dedicados a essa área, e aparentemente reram nos 800 anos anteriores e notou uma
usou alguns de seus métodos, bem como os nova estrela na constelação de Escorpião
dados coletados por eles. em 134 a.C. Ele também recebeu os crédi­
Hiparco foi um grande observador dos tos por inventar a trigonometria e talvez o
céus e com frequência credita-se a ele a astrolábio planisférico. Ptolomeu disse que
Hiparco explicou o movimento circular do
Sol e da Lua, mas ele não tinha um modelo
das trajetórias dos planetas, embora orga­
nizasse os dados sobre eles e mostrasse que
eles não estavam de acordo com as teorias
contemporâneas. Seu feito mais famoso foi
discutir como os pontos do solstício e do
equinócio se movem lentamente do Leste
para o Oeste quando definidos com base em
estrelas fixas - conhecidas como a precessão
dos equinócios.
Hiparco foi o primeiro a determinar a
duração de um ano com exatidão, formando
365 dias, 5 horas e 55 minutos. Ele notou
que as estações tinham durações diferentes e
calculou a duração do mês com grande exa­
tidão, faltando apenas um segundo.

156
DA OBSERVAÇÃO AO PENSAMENTO

A S ESFERAS DE PTO LO M EU
Deve ter sido o modelo he­
UM MODELO MENOS PLAUSÍVEL
liocêntrico de Aristarco que
chegou do mundo antigo Na mitologia hindu, diz-se que o mundo é sustentado
no espaço por quatro elefantes, que, por sua vez, estão
para nós, mas seu lugar foi
de pé sobre o casco de uma tartaruga. Não há obser­
tomado por outro descrito
vação astronômica conhecida que apoie esse modelo.
por Ptolomeu por volta de
Terry Pratchett tomou emprestado a lenda hindu em
140 d.C. Este não se ori­
seu romance Discworld. A resposta à pergunta óbvia do
ginou com Ptolomeu - ele
que representa a tartaruga tem sido dada com frequên­
estava apresentando o con­
cia como "a tartaruga é o retorno ao infinito", uma res­
senso da opinião contempo­ posta que tem sido atribuída a muitas fontes.
rânea em seu M athem atical
Compilation (agora conhe­
cido como Almagest, após
uma corruptela de seu título
em árabe). De acordo com
Ptolomeu, a Terra situa-se
no centro de um grupo de
esferas concêntricas. Nessas
esferas, a Lua, o Sol, os pla­
netas e as estrelas fixas giram
em volta da Terra. Os gregos
acreditavam que o círculo
fosse uma forma perfeita, e
assim como o céu era o âmbito da perfeição, Esse padrão de órbitas circulares deslocadas
as órbitas devem ser circulares. Contudo, explicava, de modo aproximado, a trajetória
isso não explicava o movimento observado ligeiramente errante dos planetas, que às ve­
dos planetas. zes parecia voltar para trás (seguir uma tra­
Para fazer o modelo funcionar, as órbitas jetória retrógada). As estrelas fixas podiam
circulares dos planetas tinham de se distan­ ser explicadas mais facilmente - elas se es­
ciar da Terra. Estava claro de Vénus e M er­ palhavam por uma esfera distante que girava
cúrio estavam em órbita em volta do Sol, em volta da Terra, fornecendo um pano de
logo, no modelo de Ptolomeu, eles seguiam fundo para todo o resto.
uma trajetória circular em volta do Sol, que Com observações cada vez mais exatas
fazia uma trajetória circular em torno da do movimento dos planetas, ficou claro
Terra. Marte, Júpiter e Saturno - os outros que o modelo de Ptolomeu não explicava
planetas visíveis a olho nu - também gira­ plenamente suas trajetórias. Um núme­
vam em torno de algo, mas que não era o ro cada vez maior de pequenos acertos foi
Sol. Ptolomeu identificou pontos vazios que feito para ajustar o modelo e mantê-lo de
formavam o foco das órbitas desses plane­ acordo com as observações, mas eventual­
tas, e esses pontos vazios giravam em volta mente, após mais de 1.000 anos ele teve de
da Terra seguindo uma trajetória circular. ser abandonado.

157
TENTANDO ALCANÇAR AS ESTRELAS

P a r a d e n t r o e p a r a f o r a d a e s c u r id ã o
BRAHMAGUPTA (598-668 d.C.) Com o declínio do mundo helénico, a as­
O matemático hindu Brahmagupta nas­ tronomia entrou em seu próprio período
ceu na cidade de Bhinmal em Rajasthan, de eclipse. Não há grandes astrônomos ro­
Noroeste da índia. Foi chefe do observa­ manos, e pouco progresso foi feito antes do
tório astronômico em Ujjaun, e escreveu aparecimento da ciência árabe e a fundação
quatro textos sobre matemática e astro­ da escola de astronomia de Baghdad em 813
nomia, um dos quais contém o primei­ d.C. por al-Ma’mun.
ro relato do número zero. Brahmagupta Enquanto nada estava acontecendo na
propôs que a Terra gira em torno de seu Europa e Norte da África, os astrônomos
eixo; demonstrou que a Lua não está hindus estavam fazendo e gravando ob­
mais longe da Terra que o Sol; e afirmou servações que mais tarde alimentariam a
que a Terra é redonda, e não achatada. astronomia árabe. O primeiro texto hindu
Para combater as críticas de que se a Terra sobre as estrelas, o Vedanga Jyotisa, data
fosse um globo, tudo cairia, ele descre­ em torno de 1200 a.C., mas é um trabalho
veu algo próximo da gravidade (veja a ci­ astrológico, não astronômico, e seus usos
tação abaixo). Deu métodos para calcu­ eram principalmente religiosos. O Arya-
lar a posição de corpos celestes e prever bhatiya, de 476-550 d.C., foi o primeiro
eclipses. Foi nos trabalhos de Brahma­ texto verdadeiramente astronômico a cir­
gupta que os astrônomos árabes toma­ cular na índia. Teve uma influência nos es­
ram conhecimento da astronomia hin­ critores árabes posteriores e é o primeiro
du. Kankah, que veio de Ujjain em 770 a estabelecer o início do dia à meia-noite.
d.C. a convite do califa al-Mansur, usou o Afirma que o mundo gira sobre seu eixo, e
Brahmasphutasiddhanta de Brahmagupta é por isso que as estrelas parecem se mover
para explicar a astronomia. pelo céu e que a Lua é ilummada ao ser re­
fletida pela luz do Sol.
"Todas as coisas pesadas são atraídas
para o centro da Terra... A Terra é a mes­ A s t r o n o m ia á r a b e
ma em todos os lados; todas as pessoas Os astrônomos árabes foram os primeiros
na Terra ficam de pé e todas as coisas a aplicar a matemática consistentemente
pesadas caem na Terra pela lei da natu­ ao movimento das estrelas e planetas. Os
reza, pois é da natureza da Terra atrair e astrônomos islâmicos foram impelidos pela
manter as coisas, como é da natureza da necessidade de ter um calendário confiável,
água fluir, do fogo queimar, e do vento
pois precisavam identificar com exatidão
colocar em movimento... A Terra é a úni­
os horários para orações ao amanhecer, ao
ca coisa que fica abaixo, e as sementes
meio-dia, à tarde, ao pôr do sol e à noite,
sempre caem nela, seja qual for a direção
e serem capazes de determinar a direção de
de onde você atirá-las, e elas nunca so­
sua cidade sagrada Meca de qualquer lugar.
bem, da terra para cima."
Brahmagupta, Brahmasphutassiddhan-
Eles olhavam para o céu para ajudar nessas
ta, 628 d.C.
tarefas, seguindo as recomendações do Co­
rão para usarem as estrelas para navegação:
“Foi Ele quem organizou as estrelas para

158
DA OBSERVAÇÃO AO PENSAMENTO

Mapa celeste árabe para o de Maomé, ele desencorajou


hemisfério norte, 1275. os observadores de tira­
rem conclusões sobre
Deus dizendo: “Um
que os guiem na es­ eclipse é um fenô­
curidão da terra e meno da natureza
do mar”. O Corão e não tem relação
também encoraja­ com o nascimen­
va a confiança em to ou a morte de
dados empíricos e um ser humano”.
as evidências dos Isso diferenciou a
sentidos, enquanto astronomia árabe
os pensadores gre­ das tradições hindu
gos colocavam mais e chinesa, ambas as
ênfase na razão. A injun- quais colocavam a astro­
ção do Corão de observar, nomia a serviço da astrolo­
raciocinar e contemplar levou a gia e da previsão do futuro.
uma aproximação do método científico. Desde 700-825 d.C., aproximadamente,
O Islã, em geral, se opõe ao uso da as­ a maioria dos astrônomos árabes concen­
trologia para fins de previsão. Quando um trou-se em assimilar e traduzir trabalhos as­
eclipse ocorreu durante a morte do filho tronômicos dos gregos, hindus e persas pré-
-islâmicos (Sassanids). Seu próprio esforço
começou aproximadamente quando o califa
al-M a’mun estabeleceu a Casa da Sabedoria
em Baghdad. A chegada do papel da China
ao Iraque durante o século VIII, muito antes
de chegar à Europa, tornou extremamente
fácil coletar e disseminar conhecimento, e
de 825 d.C. até o saque de Baghdad pelos
mongóis em 1258, a Casa da Sabedoria foi o
centro intelectual do mundo.
O primeiro trabalho original muçulma­
no de astronomia foi o Zij al-Sindh, escrito
por Muhammed ibn Musa al-Khwarizimi
(c.780-c.850) em 830 d.C. Consiste de tabe­
las para os movimentos do Sol, da Lua e os
cinco planetas conhecidos. Al-Khwarizimi é
lembrado basicamente como um matemá-

A obrigação de orar na hora certa levou os


árabes ao desenvolvimento do calendário e,
portanto, da astronomia.
TENTANDO ALCANÇAR AS ESTRELAS

A nebulosa do Caranguejo
foi criada por um evento da
supernova testemunhada
pelos astrônomos em
1054.

tico (a forma latinizada


de seu nome, Algoritmi,
nos deu o termo “algo­
ritmo”), e os avanços
árabes em matemática
certamente auxiliaram
o estudo da astronomia.
Ele também aprimorou
o relógio solar e inven­
tou o quadrante, usa­
do para medir ângulos.
Perto de 825-835 d.C ,
Habash al-Hasib al-
-Marwazi produziu The
Book o f Bodies and Distances, em que aper­ centro do sistema celeste e que o infinito era
feiçoou as estimativas de algumas distâncias impossível. Entretanto, Ja ’far Muhammad
astronômicas. Ele deu o diâmetro da Lua ibn Musa ibn Shakir sugeriu, no século IX
como 3.037 km (na verdade é 3.470 km) e d.C., que os corpos celestes observam as
sua distância da Terra como 346.344 km (é mesmas leis físicas que operam na Terra (ao
384.402 km). Em 964, o astrônomo persa contrário da crença dos antigos), e no século
Abd al-Rahman al-Suíi (903-986) registrou XI, Ibn al-Haytham fez a primeira tentativa
observações e desenhos das estrelas, dando de aplicar o método experimental à astro­
suas posições, magnitudes, brilho e cor. Seu nomia. Ele usou aparato especial para testar
livro inclui as primeiras descrições e figuras como a Lua refletia a luz do Sol, variando a
da galáxia Andrômeda. Em 1006, o astrô­ montagem de seu equipamento e gravando
nomo egípcio Ali ibn Ridwan (988-1061) os efeitos. Ele sugeriu que o meio dos céus
descreveu a supernova de maior brilho re­ é menos denso que o ar e refutou a visão de
gistrada na história, dizendo que era de duas Aristóteles de que a Via Láctea é um fenô­
a três vezes maior que Vénus e com um meno da atmosfera superior. Ao medir sua
quarto do brilho da Lua. Ela também foi paralaxe, ele deduziu que ela está muito lon­
descrita por astrônomos na China, Iraque, ge da Terra. Foi al-Biruni que descobriu, no
Japão, Suíça e talvez pelo povo indígena na mesmo século, que a Via Láctea é formada
América do Norte. por estrelas. Ele também descreveu a gravi­
Os avanços que os astrônomos árabes dade como “a atração de todas as coisas para
podiam fazer eram gravemente limitados o centro da Terra”, e disse que a gravidade
por sua convicção de que a Terra estava no existe dentro dos corpos celestes e das esfe-

160
DA OBSERVAÇÃO AO PENSAMENTO

PRIMEIRAS FERRAMENTAS DO OFÍCIO


As ferramentas astronômicas mais antigas bio representa as posições dos planetas e es­
que conhecemos são placas de argila da Ba­ trelas, com base na suposição de que a Terra
bilônia mostrando três círculos concêntricos está no centro do universo. Os astrolábios
divididos em 12 seções. Cada um desses 36 provavelmente foram desenvolvidos antes
campos mostra os nomes de constelações e do século I d .C , embora o primeiro instru­
números simples, que podem representar os mento preservado seja árabe e date de 927-
meses do calendário babilónico. Um astrolá­ 8 d.C. A tradição islâmica explica as origens
do astrolábio: Ptolomeu estava montado em
um burro enquanto olhava para seu globo
celeste. Ele derrubou o globo e o burro pi­
sou nele, achatando-o e dando, assim, a
ideia para o astrolábio a Ptolomeu.
Uma esfera armilar é um equiva­
lente tridimensional de um astrolábio,
representando os planetas e estrelas
em uma série de anéis concêntricos
com a Terra no centro.
Um quadrante é usado para me­
dir a elevação de um corpo acima do
horizonte. O primeiro quadrante regis­
trado é mencionado por Ptolomeu por
volta de 150 d.C. Os astrônomos islâmicos
construíram grandes quadrantes, mas o
mais famoso foi aquele
usado por Tycho Brahe
(1546-1601) em seu ob­
servatório em Uraniborg,
na ilha dinamarquesa de
Hven.

Antigas ferramentas
astronômicas (no sentido
horário, de cima):
astrolábio, esfera armilar,
quadrante.

161
TENTANDO ALCANÇAR AS ESTRELAS

ras celestiais (ainda trabalhando com o mo­ çoamentos em instrumentos astronômicos


delo ptolomaico do universo). Al-Haytham e avanços nos cálculos matemáticos. Estes
propôs que a Terra gira em volta de seu prepararam terreno para os astrônomos eu­
eixo, uma ideia que foi colocada anterior­ ropeus da Renascença que reescreveriam o
mente pelo hindu Brahmagupta. Al-Biruni livro dos céus.
não viu problemas matemáticos na rotação
da Terra quando comentou sobre os escritos A GRANDE ESTRELA CO N V IDA D A
de Brahmagupta em 1030. Por 23 dias a começar em julho de 1054,
Como acontece com outros aspectos uma estrela tão brilhante que podia ser vista
da ciência islâmica, a investigação rigorosa à luz do dia brilhou no céu. Os astrônomos
em astronomia era desencorajada no Islã, se chineses referiam-se a ela como uma “estre­
considerada como uma tentativa de conhe­ la convidada” na constelação de Taurus, re­
cer a mente de Deus. Talvez a contribuição gistrando que seu brilho amarelo era quatro
mais significativa dos acadêmicos árabes vezes mais brilhante que Vénus. Ela perma­
dos séculos VIII ao XII tenha sido aperfei­ neceu visível durante 653 dias.

OS MAIAS, DE OLHO CLÍNICO


O Dresden Codex é um tex­
to maia produzido na Amé­
rica do Sul no século XI ou
XII. Registra com exatidão
surpreendente observações
provavelmente feitas 300 ou
400 anos antes, da Lua e de
Vénus. Vénus era o corpo ce­
leste mais importante para
os maias depois do Sol. Os
maias também pareciam sa­
ber da existência da nebulosa
difusa no coração da conste­
lação de Orion: ela era des­
crita em estórias tradicionais
e representada com o uso de
fuligem em locais onde se fa­
ziam fogueiras. São a única
civilização conhecida por ter
descoberto essa caracterís­
tica de Orion sem o uso de
telescópios.

162
A TERRA SE MOVE - NOVAMENTE

O poeta japonês Sadie Fu-


"Deus, ao criar o mundo, moveu cada um dos globos celes­
jiwara escreveu sobre a estre­
tiais como quisera, e para movê-los imprimiu neles ímpetos
la, e ela foi registrada em po­
sem que precisasse movê-los mais... E aqueles ímpetos que
tes de cerâmica pelos artistas
ele imprimiu nos corpos celestiais não diminuíram nem fo­
nativos americanos Anasazi e
ram afetados depois, porque não havia tendência dos cor­
Mimbres . A “estrela convida­
pos celestiais para outros movimentos. Nem havia resistên­
da” era a supernova que criou cia que fosse destrutiva ou repressiva daquele ímpeto."
a nebulosa do Caranguejo. Jean Buridan, filósofo francês do século XIV.
Depois do desaparecimento
da nova estrela do céu notur­
no, ela não foi vista novamen­ heresia e gerou problemas de imediato.
te por quase 700 anos, quando o médico e Houve problemas com o modelo de Pto-
astrônomo inglês John Bevis (1695-1771) lomeu, o mais significativo dos quais era
descobriu a nebulosa em 1731 usando um que a distância exigida da Terra até o foco
telescópio. da órbita da Lua era tão grande que a Lua
deveria estar bem mais perto da Terra em
alguns momentos que em outros - de fato, o
A Terra se m ove - n o va m e n te
suficiente para parecer notavelmente maior.
Quase 2.000 anos depois de Aristarco ter
Esse problema, e outras observações que
sugerido pela primeira vez que a Terra se
lançam dúvidas ao modelo de Ptolomeu, foi
move em volta do Sol, a ideia reapareceu.
revelado em 1496 pelo matemático e astrô­
No mundo cristão, esta era uma proposição
nomo alemão Johannes Miller (1436-1476),
perigosa, pois a Igreja ensinou que o céu era
conhecido por seu nome latinizado Regio-
perfeito e imutável, que o homem era o pi­
mantus. O homem que ousou questionar o
náculo da criação e estava
modelo ptolomaico foi Copérnico - Miko-
no centro do plano de
lay Kopernik - , um astrônomo polonês que
Deus. Como, então,
não se preocupava com observações, mas
a Terra poderia ser
decidiu que seria uma solução mais acerta­
um lugar subser­
da se a Terra girasse em torno do Sol, e não
viente, movendo-se
vice-versa. Copérnico questionava particu­
em volta do Sol? A
larmente os epiciclos, ou pequenas órbitas
ideia era uma
chamadas “laçadas”, que os planetas precisa­
vam seguir no modelo ptolomaico para ex­
plicar seus movimentos observados, e bus­
cou um sistema em que houvesse um único
centro fixo do universo.
Embora Copérnico concluísse seu racio­
cínio sobre o universo centrado no Sol em
torno de 1510, ele foi cauteloso e comuni­
cou isso apenas a algumas pessoas antes de
Copérnico publicar seu trabalho fundamental De Revo-
lutionibus Orbium Coelestium (Sobre Revolução

163
TENTANDO ALCANÇAR AS ESTRELAS

das Esferas Celestes), em 1543. O impressor, Embora melhor que as esferas de Pto-
Rheticus, estava preparando o livro de Co- lomeu, o modelo de Copérnico ainda apre­
pérnico quando teve de sair de Nuremberg. sentava alguns problemas. Considerava que
O trabalho foi passado para um luterano, as estrelas fixas estavam em uma esfera in­
Andreas Osiander, que acrescentou um pre­ visível além do planeta mais distante. Para
fácio afirmando que Copérnico não queria que as estrelas parecessem imóveis, precisa­
dizer que o Sol era literahnente o centro do vam estar muito distantes. Hoje, este con­
universo, ele estava apresentando apenas ceito não nos incomoda, mas no século XVI
um modelo matemático que ajudava a expli­ ele questionou imediatamente por que Deus
car observações. O prefácio pretendia evitar desperdiçaria tanto espaço vazio entre o pla­
críticas à Igreja, mas de fato a Igreja Cató­ neta mais distante e as estrelas fixas. Outro
lica prestou pouca atenção ao livro e só os problema era que se a Terra se movia, por
luteranos fizeram objeção a ele. Copérnico que os oceanos não inundavam os continen­
morreu no ano em que o livro foi publica­ tes e as construções não tremiam, desmoro­
do e pôde ver nenhum exemplar. Seu livro nando? No entanto, ao contrário do modelo
foi amplamente ignorado, e a impressão de de Ptolomeu, o modelo de Copérnico expli­
400 cópias nem mesmo foi vendida, apesar cava os movimentos observados dos plane­
de ter sido considerado, desde então, o texto tas sem recorrer a artifícios complexos.
que iniciou a astronomia moderna e ajudou A explicação de Copérnico colocou os
a desencadear a revolução científica. planos em dois grupos, com Mercúrio e Vê-

O modelo
do sistema
solar de
Copérnico, com
os planetas
girando na
órbita do Sol.

164
A TERRA SE MOVE - NOVAMENTE

O UNIVERSO EXPANDINDO, A TERRA ENCOLHENDO


Todos nós lutamos para nos colocar no cen­
tro das coisas. A inquietação que resultou
quando se descobriu que a Terra não esta­
va no centro do sistema solar foi imensa. No
entanto, os astrônomos supunham que o
sistema solar fosse importante no universo.
Astrônomos que viveram bem mais tarde,
que reconheceram que a Via Láctea era uma
galáxia, supuseram que o Sol estava próxi­
mo de seu centro, e que a Via Láctea estava
no centro do universo - de fato, ela era o
universo. A descoberta de que a Via Láctea
era uma galáxia que contém bilhões de es­
trelas, que o universo contém bilhões de ga­
láxias, que o sistema solar não é central na
galáxia da Via Láctea, nem a Via Láctea está
no centro do universo deu outros golpes à
noção do "eu" da humanidade. Somos, sem
dúvida, seres insignificantes em um ponto
insignificante de um planeta, em um sistema
solar comum que faz parte de uma galáxia
comum - nada de especial.

nus mais perto do Sol que da Terra, e Mar­ duelo e usava uma prótese de ouro e prata.
te, Júpiter e Saturno mais longe. (Os outros Desde cedo ficou obcecado pelas estrelas,
planetas eram desconhecidos na época.) e percebeu que observações consistentes,
Copérnico também calculou quanto tempo exatas, devem formar a base de qualquer
cada planeta levava para completar a órbita conjunto de previsões. Em 1569, ele fez um
em volta do Sol, e as distâncias relativas dos quadrante gigantesco, com um raio aproxi­
planetas até o Sol. Esses cálculos correspon­ mado de 6 m. O aro era calibrado em minu­
diam a seu agrupamento relativo à órbita da tos e permitia medições bem exatas. Ele o
Terra, fornecendo evidências fortes em fa­ usou até que foi destruído em uma tempes­
vor de seu modelo. tade em 1574.
Em 1572, Tycho observou o que pare­
T udo m uda cia ser uma nova estrela muito brilhante na
Tycho Brahe foi uma figura brilhante, um constelação de Cassiopeia. Como se supunha
aristocrata sequestrado quando bebê que que o céu fosse fixo para toda a eternidade,
mais tarde perdeu parte do nariz em um esta era uma causa de certa consternação,

165
TENTANDO ALCANÇAR AS ESTRELAS

e ele registrou sua Tratado astronômico de Tycho


posição durante me­
ses para determinar
TYCHONIS Brahe, mostrando seu modelo
do sistema solar.
B R A H E D A N I,
se era um cometa A S T R O N O MI C I N S T A V -
R A T .-r. P R O G I M N A S M A T A ,
que se moveria em Quorumhxc
relação às estrelas V R I M A V A R S
fixas. Ele a observou DE RESTITVTIONE M O IT V H
Solis ScLunar^tcllarumíjuciiicrrantium
tiaftat.
durante 18 meses, I T I K S . T I K E A v r ADÍI1KANDA
k 'i mSiHUAku irrt.txtrutmiilmt<r*{i$.
nesse período ela
deixou de ser mais
brilhante que Vénus
para se parecer com
uma estrela comum,
mas não mudou sua
sit Pxíiu:Buhemix abioluta.
posição. Quando ele rtLOST A ST
;-U: C , Lfi;T:m TuiJrp.id
publicou seu relato CumCétfim £> Kefftm fu n m d m pmtdtg

em De Nova Stella,
cunhou um novo
termo apara a astro­
nomia - nova. Tycho estudou seus dados Anos mais tarde, em 1577, Tycho fez ou­
para evidência da paralaxe que seria espera­ tra observação que mudaria a Terra, dessa
da se a Terra se movesse em volta do Sol. vez de um cometa. Suas observações reve­
Paralaxe é a mudança evidente da posição laram que o cometa não poderia ser um fe­
de uma estrela próxima contra o fundo de nômeno local, viajando muito perto da Ter­
estrelas mais distantes, quando vista de dois ra e provavelmente mais perto da Lua. Em
pontos diferentes. Como não encontrou vez disso, ele devia viajar entre os planetas.
nada, Tycho interpretou suas observações Isso significava que a ideia de Ptolomeu de
como uma negação do modelo heliocêntri­ esferas de cristal abrigando os planetas e es­
co de Copérnico. trelas fixas precisava ser abandonada, pois o
Por mais que sua abordagem fosse cien­ cometa colidiria com elas. Era quase tão re­
tífica, Tycho ainda achava que os eventos no volucionária quanto o conceito de uma nova
céu pressagiavam mudanças maiores na Terra estrela.
e pensava que os fenômenos celestes fossem Tycho publicou seu livro em 1587-1588,
responsáveis pelas guerras religiosas que es­ estabelecendo seu próprio modelo do uni­
tavam ocorrendo na época. Ele também não verso. Ele era um tanto híbrido, manten­
aceitava que a Terra se movia. Se a Terra es­ do a Terra ptolomaica estática no centro do
tava se movendo pelo espaço, ele afirmava, universo, mas tendo os outros planetas gi­
uma pedra derrubada de uma torre cairia rando na órbita do Sol, que girava em volta
a uma distância do pé da torre, porque a Ter­ da Terra.
ra teria se movido, deixando a pedra para Isso descartou a necessidade de “defe­
trás. Evidentemente, isso foi refutado por rentes” e “epiciclos”, necessários para fazer
Gassendi em 1640 (veja a página 84). o modelo de Ptolomeu funcionar. O mais

166
A TERRA SE MOVE - NOVAMENTE

importante, no entanto, era que ele rejeita­ do em 1597, que combinava algo de Co­
va a ideia de esferas de cristal e, pela primei­ pérnico com ideias de alguns físicos gregos
ra vez, os planetas estavam soltos no espaço, arcanos, em uma fusão bizarra. Kepler suge­
sem apoio. riu que os seis planetas (incluindo a Terra)
ocupavam órbitas que eram definidas por
1571-1630)
J o h a n n es K ep ler ( um conjunto de esferas aninhadas dentro e
Um pouco mais jovem que Tycho, Johannes entre os cinco sólidos geométricos definidos
Kepler foi outro astrônomo prodígio, em­ pela geometria euclidiana. Embora isso em
bora tenha sido forçado a tomar uma abor­ si não fosse particularmente significante, ele
dagem diferente. O entusiasmo de Kepler deu uma sugestão mais importante: que os
pela astronomia foi estimulado desde crian­ planetas eram dirigidos por um “vigor” que
ça, quando sua mãe o levou a um lugar alto emanava do Sol, mas com impacto reduzido
para ver o Grande Cometa de 1577 (o mes­ à medida que a distância do Sol aumentava.
mo que levou Tycho a realizar seu trabalho Esta foi a primeira vez que a força física foi
sobre cometas). Kepler, no entanto, não citada como fonte do movimento dos pla­
conseguiu fazer observações astronômicas netas, se não incluirmos a ideia de que eles
por ter a vista fraca, uma vez que foi afeta­ eram empurrados por anjos.
da quando ele teve catapora. Em vez disso,
ele aplicou cálculos matemáticos ao estudo Dois p o r u m : o s a s t r ô n o m o s e m P r a g a
das estrelas. Kepler foi seminarista, mas Em 1597, Tycho mudou-se para Praga para
seu curso em Tubingen, Alemanha, incluiu se tornar o Astrônomo Imperial oficial do
as disciplinas de matemática e astronomia, Rei da Boêmia e do Santo Imperador Ro­
nas quais ele se destacou. Seu tutor, Michael mano Rudolph (Rodolfo) II. Foi lá, em
Maestlin, ensinava oficialmente o modelo 1600, que Kepler conheceu Tycho. Embora
Ptolomaico, mas introduziu aos seus alunos Tycho tivesse acumulado uma quantidade
prediletos a astronomia de Copérnico. prodigiosa de dados, ele não tinha habilida­
Kepler não tinha uma renda que lhe de em matemática para usá-los. Kepler ti­
desse independência, e uma das maneiras nha a capacidade matemática, mas não tinha
de ganhar dinheiro extra era fazen­ dados para trabalhar. Esta parecia
do horóscopos. Diferentemente de uma associação perfeita, mas o
Tycho, que levava a sério a liga­ relacionamento deles não era
ção entre acontecimentos ter­ fácil. Tendo visitado Tycho,
restres e celestes, Kepler con­ Kepler voltou para a casa
siderava os horóscopos como de sua família em Graz,
um lixo e referia-se a seus Áustria, enquanto Tycho
clientes como “cabeçudos”. deveria arranjar, com o
Apesar disso, os horóscopos Imperador Rodolfo, re­
lhe forneceram uma renda cursos para o trabalho de
útil e o mantiveram em boa
situação financeira.
Kepler desenvolveu seu pró­
prio modelo do universo, publica Tycho Brahe

167
TENTANDO ALCANÇAR AS ESTRELAS

Kepler. Antes de as negociações se com­


Astrônomo do século XIX com
telescópio ótico. pletarem, Kepler e outros luteranos foram
expulsos de Graz por recusarem se con­
verter ao catolicismo, e acabou no tribunal
de Rodolfo como refugiado. O imperador
acabou fornecendo o apoio financeiro soli­
citado para o posto de Kepler, que envolvia
ajudar Tycho a compilar novas observações
dos movimentos planetários. Essas observa­
ções formariam a base das chamadas tabelas
rudolfinas. Tycho dava a Kepler dados va­
liosos, temendo compartilhar tudo pronta­
mente, mas em 1601 ele adoeceu e estava
claro que morreria em breve. Em seu leito
j de morte, ele deixou como legado seus
dados valiosos, seus instrumentos e o
projeto rudolfino a Kepler. Em questão
de semanas, Kepler foi elevado à posição
de Matemático do Império do Sagrado Im­
perador Romano e era o responsável pelos
equipamentos astronômicos mais sofistica­
dos da Europa - pouco mais de um ano
depois de ter chegado em Praga como
refugiado, sem um tostão.
O posto de Matemático
do Império envolvia ser
astrólogo de Rodolfo, por
isso Kepler tinha de pas­
sar boa parte de seu tempo
em atividades que ele sabia
serem inúteis e pura inven­
ção. Mesmo assim, para o
resto de sua vida Kepler
pôde trabalhar com seus
cálculos, que o levaram a
descobertas importantes
como que cada planeta gira
em torno da órbita do Sol
seguindo uma trajetória
elíptica com o Sol no foco
da elipse, e que os planetas
se movem mais rapidamen-

168
O INVISÍVEL TORNA-SE VISÍVEL

te quando Telescópio acromático,


estão mais meados do século XVIII
(esquerda); réplica do
p róxim os
telescópio refletor de
do Sol. As Newton, 1672 (direita).
descober­
tas de Ke-
pler não o
tornaram uma
sensação do dia
para a noite, e de fato
tiveram um impacto relativa­
mente pequeno. M uitas pessoas
ainda não aceitavam que a Terra
não está no centro do universo. Foi so­
mente quando Isaac Newton tomou o
trabalho de Kepler e explicou, usando a
gravidade, por que as órbitas dos plane­
tas são elípticas, que o significado de sua
descoberta tornou-se claro.
O tumulto religioso, a agitação e tragé­
dias pessoais intercederam para deter o tra­
balho de Kepler. Sua esposa morreu (mais
tarde ele se casou de novo) e então sua mãe
foi julgada por bruxaria, embora liberada O invisível to rn a-se visível
depois de passar vários meses na cadeia. Enquanto Tycho Brahe trabalhava sem te­
Sua terceira e última lei, que lhe ocor­ lescópio, medindo as posições das estrelas
reu em 1618, descreve como o quadrado e planetas com bússolas e quadrantes, a
do tempo que leva um planeta para girar partir de 1610, Kepler tinha um telescó­
pela órbita do Sol é proporcional ao cubo pio que podia usar - mandado por Galileu,
de sua distância do Sol. Por exemplo, para que ele confirmasse as próprias ob­
M arte está 1,52 vezes mais longe do Sol servações de Galileu. Para os astrônomos,
que a Terra, e seu ano é 1,88 anos Ter­ o mundo —e o universo - mudou com a
ra: 1,522 = 3,53 = 1,883. As tabelas ru- invenção do telescópio. De repente, a di­
dolfinas, finalmente publicadas em 1627, ferença entre estrelas e planetas ficou evi­
foram as primeiras tabelas astronômicas dente. Descobriu-se que alguns planetas
modernas. Elas usaram os logaritmos tinham suas próprias luas, e a possibilidade
recém-descobertos desenvolvidos pelo de elas poderem ser outros mundos sur­
matemático e astrônomo escocês John giu. A Via Láctea se revelou um conjunto
Napier (1550-1617), que podiam ser em­ de estrelas, e estas se tornaram realmente
pregados para determinar as posições dos incontáveis.
planetas a qualquer momento no passado O primeiro telescópio astronômico foi
ou no futuro. feito por Leonard Digges (1520-1559) na

169
TENTANDO ALCANÇAR AS ESTRELAS

Inglaterra no início dos anos 1550, mas atenção da Igreja, mas a crença popular de
este não chamou a atenção do público até que ele teria sido queimado por defender
que seu filho Thomas (1546-1595) publicou o modelo de Copérnico não tem funda­
seu trabalho sobre o telescópio em 1571, 12 mento. Ele foi condenado realmente por
anos depois da morte de Leonard. Thomas acreditar que Cristo foi criado por Deus,
tinha apenas 13 anos quando seu pai faleceu não sendo ele próprio Deus (Arianismo), e
e foi criado por John Dee (1527-1609), o pela prática da magia. Entretanto, o apoio
matemático, filósofo, alquimista e astrólo­ do modelo heliocêntrico por Bruno au­
go da corte da Rainha Elizabeth I. Isso deu mentou a hostilidade da Igreja com ele, e
a Thomas acesso à magnífica Biblioteca de por extensão com a teoria do universo in­
Dee, onde ele leu o livro de Copérnico. Em finito de Digges. Apesar de suas ideias re­
1576, Thomas publicou seu próprio traba­ ligiosas malucas, Bruno teve insights bem à
lho mais importante, uma edição revisada frente de seu tempo como astrônomo. Ele
de Prognostication E verlasting, de seu pai. Ele sugeriu que as estrelas distantes podiam
acrescentou não só um relato do modelo de ser como o nosso Sol, poderiam ter mun­
Copérnico de um universo centrado no Sol, dos próprios e que estes podiam até ser o
mas sua própria teoria de que o universo é lar de seres tão gloriosos quanto a espécie
infinito. Rejeitando a ideia de estrelas fixas humana.
em uma esfera distante, Thomas Digges
propôs um espaço infinito em que as estre­
las continuavam para sempre. Ele não citou
evidências dessa teoria, mas parece provável GALILEU NO ESPAÇO
que seu uso do telescópio e a percepção de que A NASA lançou uma nave espacial cha­
a Via Láctea é um grupo de estrelas o leva­ mada Galileo em homenagem a ele em
ram a essa conclusão. Uma vez que Digger 1989, a qual entrou em órbita em volta
publicou em inglês, e não em latim, suas de Júpiter em 1995. Em rota, a nave Gali­
ideias foram acessíveis a muito mais pessoas, leo passou pelo cinto de asteroides onde
e a popularidade do modelo de Copérnico descobriu uma Lua em miniatura chamada
se espalhou. Dactyl, em órbita em volta do asteroide
Quase no mesmo período, no entanto, Ida. Em 1994, Galileo fotografou frag­
a Igreja Católica começou a atentar para a mentos do cometa Shoemaker-Levy ao
ideia potencialmente herege de um miiverso se chocar com Júpiter. Uma sonda solta
centrado no Sol. A fonte de sua animosida­ na atmosfera de Júpiter registrou ven­
de parece ter sido que o modelo era defen­ tos em torno de 720 km/h antes de ser
dido por Giordano Bruno, queimado por destruída pela atmosfera Joviana. Galileo
fez 11 órbitas, registrando dados sobre o
heresia em 1600. Bruno foi seguidor de
planeta e suas luas em sua missão básica.
um movimento religioso chamado Elerme-
A missão da nave foi estendida e ela es­
tismo, baseado em crenças egípcias antigas
tudou ló, a lua vulcânica de Júpiter, e sua
de que o Sol é um deus e deveria ser ado­
lua gelada Ganymede. Galileo foi des­
rado. Sua atração por um modelo helio­
truída deliberadamente em 2003, sendo
cêntrico do universo foi natural. A defesa
queimada na atmosfera de Júpiter
do modelo de Copérnico por ele atraiu a

170
GALILEU, MESTRE DO UNIVERSO

O asteroide Ida com sua


lua minúscula, Dactyl.
Ida tem 56 quilômetros
de comprimento e
Dactyl tem apenas 1,6
quilômetro.

Galileu, m estre
d o universo
O primeiro grande
usuário do telescópio
foi, sem dúvida, Gali­
leu. Ele se dedicou à
astronomia em 1604,
estudando a supernova
que Kepler tinha ob­
servado. Ele estabele­ Jovianas, embora agora existam 63 conhe­
ceu que ela não se movia e, por isso, devia cidas com a órbita relativamente estável em
estar tão distante quanto as outras estrelas. volta do planeta, e mais luas pequenas po­
Galileu fez seus próprios telescópios, que dem ser encontradas.
eram muito potentes para a época (veja a Também em 1610, Galileu observou as
página 51). Em 1610, ele tinha um instru­ fases de Vénus (parecidas às fases da lua).
mento com capacidade de aumento de 30 Isso provou conclusivamente que o planeta
vezes, com o qual observou as quatro luas deve girar em volta da órbita do Sol e que as
mais brilhantes de Júpiter (agora chama­ fases se devem à maneira como várias partes
das de “luas de Galileu”). A maior das luas são iluminadas pelo Sol durante as fases de
de Júpiter, agora chamada Ganymede, foi sua órbita. Como resultado, a maioria dos
aparentemente localizada pelo astrônomo astrônomos trocou sua aliança do modelo
chinês Gan De em 364 a.C. (a olho nu). ptolomaico para o heliocêntrico durante o
Primeiro Galileu pensava que elas fossem início do século XVII.
“estrelas fixas” próximas a Júpiter, mas fez Todavia, isso não foi tudo. Galileu tam­
nova observação e esta mostrou que elas se bém observou os anéis de Saturno, embora
moviam. Quando uma desapareceu, ele per­ não fosse capaz de identificar o que eram.
cebeu que ela tinha ido para trás de Júpiter, Ele percebeu que a Via Láctea, na verdade,
e logo devia girar na órbita do planeta. Es­ é um conjunto incontável e maciço de estre­
tes foram os primeiros corpos identificados las, viu que a Lua tem crateras e montanhas,
como girando em volta da órbita de outra observou manchas solares e distinguiu entre
coisa que não o Sol ou a Terra, e o impacto planetas e estrelas. Ele afirmou que as estre­
na cosmologia contemporânea foi imenso. las são sóis distantes e fez estimativas de sua
Até 1892, não foram encontradas mais luas distância da Terra com base em seu brilho

171
TENTANDO ALCANÇAR AS ESTRELAS

relativo. Embora ele colocasse as


EPPUR SI MUOVE
estrelas mais próximas apenas vá­
rias centenas de vezes a distância Costuma-se dizer que Galileu, depois de renunciar à
da Terra do Sol, e aquelas visíveis sua crença de que a Terra se move em torno do Sol,
ao telescópio vários milhares de teria murmurado "eppur si muove" - "no entanto,
vezes a distância entre a Terra e ela se move". A fonte mais antiga disso é de um sé­
culo depois de sua morte, e é improvável que ele ti­
o Sol (bem aquém das distâncias
vesse feito algo tão provocativo frente à Inquisição.
reais, evidentemente), esses dados
puseram em ridículo os argumen­
tos contra o modelo de Copérni- e do movimento terrestre, mas Galileu não
co de que as estrelas podiam não estar tão queria apoio público para esse modelo, an­
distantes. Ele deixou claro também sioso por causa do destino de Giordano
que as estrelas não estão todas _____ Bruno. Primeiro, a Igreja ficou
a uma distância fixa, mas ^ interessada e até mesmo en-
espalhadas pelo espaço.
Mapa feito por Galileu de
Em Sidereus N uncius / +»
manchas solares observadas
(M ensageiro Estrela­ (perigosamente) com seu
do) publicado em telescópio em 1612.
1610, ele declarou j
que os planetas se- j
riam discos quando
vistos pelo teles- \
cópio, enquanto as \
estrelas permanecem
pontos de luz. Ele ob­
servou Netuno, mas não \ ..
percebeu que este era um
planeta. Ele até identificou man­
chas solares, que também foram vistas pelo
astrônomo alemão Johan Fabricius (1587-
1616) e pelo astrônomo inglês Thomas
Elarriot (1560-1621), e concluiu que o Sol
gira em torno de seu eixo a cada 25 dias. As
manchas solares viriam a ter mais significa­
do para a vida de Galileu do que mereciam.

C r u z a n d o e s p a d a s c o m D eu s
As observações de Galileu forneceram am­
plas evidências em favor do modelo de Co-
pérnico de um sistema solar heliocêntrico

Papa Paulo V (1552-1621).

172
GALILEU, MESTRE DO UNIVERSO

Ptolomeu na forma de um
BESTSELLERDE 1610
diálogo imaginário entre
Galileu enviou uma cópia de The Starry Messenger (O Mensa­ defensores de cada sistema.
geiro Estrelado) para a corte em Florença em 13 de março de Ele publicou com a permis­
1610. Em 19 de março, a impressão de 550 cópias se esgo­ são da igreja, sob a condi­
tou. O livro foi traduzido para muitas outras línguas imedia­ ção de que não defenderia
tamente, e em cinco anos estava disponível até em chinês!
as ideias de Copérnico. A
censura papal insistiu em
um prefácio e uma decla­
tusiasmada com as descobertas de Galileu. ração final dizendo que a
Ele visitou o Papa Paulo V em 1611, e uma visão de Copérnico foi dada como hipótese e
subcomitiva de padres jesuítas endossou suas avisou que Galileu podia mudar a formulação
descobertas de que a Via Láctea é uma vasta da frase contanto que seu significado perma­
coleção de estrelas, Saturno tem uma forma necesse o mesmo. As mudanças que Galileu
oval estranha com protuberâncias laterais fez ao prefácio, e o fato de o personagem do
(elas não foram identificadas como anéis), a livro chamado Simplício apoiar o modelo de
Lua tem uma superfície irregular, Júpiter tem Ptolomeu e ser claramente um simplório, le­
quatro luas e Vénus tem fases. O comitê não varam o Papa Urbano VIII a acreditar que
comentou sobre as implicações das desco­ Galileu estava se divertindo à custa dele e
bertas. Enquanto estava em Roma visitando promovendo o Copernianismo.
o papa, Galileu tornou-se membro de uma
das primeiras sociedades científicas do mun­
do, a Academia Lyncean, e em um banquete POR TRÁS DOS TEMPOS
em sua homenagem, o nome “telescópio” foi O Diálogo e De Revolutionibus de Copér­
sugerido pela primeira vez para o novo ins­ nico permaneceram no índice de livros
trumento astronômico. proibidos da Igreja Católica mesmo depois
No entanto, o bom relacionamento de da proibição geral de livros que ensinam o
Galileu com a Igreja não duraria. Ele pro­ heliocentrismo ter sido suspensa em 1 758.
duziu um panfleto sobre manchas solares Em 1820, a censura da Igreja recusou uma
em que fez sua única declaração publicada licença para um livro que tratava o helio­
a favor do modelo de Copérnico. Ela atraiu centrismo como um fato estabelecido. Um
a atenção da Igreja e, quando visitou Roma apelo contra a decisão conseguiu a sua re­
em 1615, o papado montou uma inquisição vogação, e tanto o livro de Galileu quanto
sobre crenças copérnicas e concluiu que elas de Copérnico foram removidos do índice
eram “tolas e absurdas... e formalmente here­ na publicação seguinte, em 1835. A Igreja
ges”. Logo depois, Galileu foi informado que Católica acabou se desculpando por seu
não devia ter, defender e nem ensinar crenças tratamento a Galileu - mas somente de­
copérnicas, e que ele enfrentaria a Inquisição pois do ano 2000. O papa João Paulo II
se desobedecesse. Ele acatou a advertência, citou o julgamento de Galileu entre outros
no início. Em 1629, Galileu escreveu seu erros cometidos nos 2000 anos anteriores
Dialogue o f the Tivo C hief World Systems que e reconhecidos pela Igreja, embora com
apresentava os modelos de Copérnico e de atraso considerável.

173
TENTANDO ALCANÇAR AS ESTRELAS

Galileu foi convocado a ir a Roma para


ser julgado por heresia - por “sustentar
HALLEY COMO CATALISADOR como verdadeira a falsa doutrina ensina­
Quando Halley visitou Newton em Cam­ da por alguns de que o Sol é o centro do
bridge em 1684, os dois falaram sobre mundo”. Galileu foi convencido a se con­
uma ideia que os astrônomos experien­ siderar culpado para evitar a Inquisição e
tes já discutiam há tempos - a relação a possível tortura. Ele concordou ter ido
da lei do quadrado inverso com a atra­ longe demais ao apresentar uma defesa do
ção que mantém os planetas em órbita. Copernicanismo.
Halley discutiu isso com Robert Hooke e Sua punição foi a prisão perpétua, que
Christopher Wren em janeiro do mesmo eventualmente tomou a forma de prisão do­
ano. Halley perguntou a Newton qual
miciliar de 1634 até sua morte em 1642.
seria a órbita de um planeta se a força
Durante os últimos anos de sua vida,
entre ele e o Sol fosse recíproca ao qua­
Galileu escreveu seu maior trabalho, Discur­
drado de sua distância ao Sol. Newton
sos e Demonstrações M atemáticas a Respeito de
respondeu que ele já tinha calculado isso
Duas Novas Ciências.
e que seria uma elipse. Como resultado
O primeiro livro-texto científico mo­
dessa conversa, Newton foi em frente e
derno apresentava o método científico e dava
publicou Principia, finalmente lançando o
trabalho que fizera durante anos. Este se
explicações matemáticas e físicas para fenô­
tornou o trabalho científico mais impor­ menos que anteriormente foram tratados
tante já publicado. usando-se apenas as ferramentas da filoso­
fia. O livro foi levado para fora da Itália e
publicado em Leiden, na Alemanha, em
1638. Teve grande popularidade e influência
em toda parte, exceto na Itália.

C a ta lo g a n d o os céus
O desenvolvimento do telescópio permi­
tiu que os astrônomos fizessem mapas mais
precisos das estrelas. Estimulada pela rivali­
dade com os franceses, que tinham montado
um observatório nacional sob o controle da
Academia francesa, a Royal Society ofL ondon
pressionou para a fundação de um obser­
vatório na Inglaterra. O Observatório Real
foi estabelecido em Greenwich em 1675,
com John Flamsteed (1646-1719) como o
primeiro Astrônomo Real (embora o títu­
lo na época fosse “Observador Astronômi­
co”). Flamsteed logo se correspondeu com
o jovem Edmund Eíalley (1656-1742), então
um estudante em Oxford e já um astrôno-

174
CATALOGANDO OS CÉUS

mo brilhante - ele levou um telescópio de revelar mais dos mistérios que assombravam
mais de sete metros de comprimento com os primeiros cientistas. Galileu descobrira
ele para a Universidade de Oxford. Halley as “orelhas” de Saturno, que então desapa­
primeiro escreveu para Flamsteed com as receram estranhamente alguns anos mais
correções sugeridas ao catálogo de estrelas tarde. Em 1655, Huygens começou a tra­
então em uso, e logo se tornou protegi­ balhar com seu irmão Constantijn em um
do de Flamsteed, que estava engajado em telescópio aperfeiçoado que impedia aber­
fazer um novo catálogo de estrelas do he­ ração cromática - orlas coloridas em torno
misfério norte. H alley propôs um estudo das imagens. Então ele virou para Saturno
paralelo no hemisfério sul e logo assegu­ seu telescópio com capacidade de aumentar
rou a aprovação real. O pai de H alley o 50 vezes. Em 1652, ele descobriu a maior
financiou, dando a seu filho uma mesada lua de Saturno, Titã, e quatro anos depois
que era três vezes mais que o salário real viu que as “orelhas” que Galileu tinha vis­
de Flamsteed. to em Saturno eram, na realidade, um anel:
“...o planeta é cercado por um anel fino e
V endo cada vez mais achatado, que não toca em nenhum lugar,
A medida que o poder do telescópio con­ e inclinado para o eclíptico”. Não estava
tinuava a melhorar, os astrônomos podiam claro do que o anel era feito. Primeiro, os

RETORNO LENTO
O cometa de Newton, o Grande Cometa de 1680, foi o primeiro a ser observado com um
telescópio. Ele é programado para voltar aproximadamente em 11.037. Newton usou suas
medidas da trajetória do cometa para testar as leis de Kepler.

Diagrama de Newton da órbita do cometa em 1680, mostrando sua trajetória parabólica.

175
TENTANDO ALCANÇAR AS ESTRELAS

O alinhamento
do Sol, da Terra e
de Marte deu aos
astrônomos do
século XVII uma
oportunidade para
calcular o tamanho
do Sol e sua
distância da Terra.

astrônomos supuseram que ele fosse sólido distância entre a Terra e Marte era mínima.
ou líquido, mas em 1675 Giovanni Cassini Como diretor do Observatório de Paris,
descobriu uma falha no sistema de anéis. que fora inaugurado naquele ano, Cassini
Determinar a natureza do anel foi o tema foi capaz de enviar um colega, Jean Richer,
escolhido pelo Adam’s Prize Essay na Uni­ para Cayenne, na América do Sul, para fa­
versidade de Cambridge em 1855. Este foi zer observações enquanto ele fazia suas pró­
ganho por James Clerk Maxwell, que de­ prias observações em Paris. Como na época
monstrou que uma coleção de minúsculas quem reinava na França era Luís XIV - o
partículas sólidas em órbita é a única possi­ Rei Sol - , o projeto obteve aprovação real.
bilidade para algo que seria instável; apenas Sabendo que 10.000 km separavam Paris
a distância da Terra a Saturno fazia o siste­ de Cayenne, Cassini usou a trigonometria
ma parecer uma massa contínua. Maxwell para calcular a distância entre Marte e a
provou estar correto em 1895, usando téc­ Terra, e depois aplicou as leis do movimen­
nicas espectroscópicas. to planetário de Kepler para deduzir que o
Sol estava a 138 milhões de quilômetros da
Longe, m u ito lo n g e Terra. Isso representa apenas 9% a menos
Cassini é mais famoso por seu trabalho so­ que o dado aceito atualmente de quase 150
bre a distância entre planetas e o tamanho milhões de quilômetros. Mais cálculos re­
do Sol. Antes disso, as únicas estimativas da velaram que o Sol é 110 vezes o tamanho
distância do Sol até a Terra eram aquelas da Terra. Depois da publicação de Principia
fornecidas por Aristarco em 280 a.C. O tra­ de Newton e de sua descrição da gravidade,
balho de Copérnico tornou possível julgar ficou claro que o Sol tem cerca de 330.000
os índices de distâncias de cada planeta até vezes a massa da Terra.
o Sol, mas não havia dados para calcular
as distâncias absolutas. Uma oportunidade C olocando cometas em seu lugar
perfeita apresentou-se em 1671, quando o A amizade entre Halley e Newton deu fru­
Sol, a Terra e Marte estavam alinhados e a tos na forma de uma explicação do movi-

176
LONGE, MUITO LONGE

TRÂNSITO DE VÉNUS
Antes de Cassini, o astrônomo inglês Jere- o tamanho do sistema solar como então era
miah Horrocks (1618-1641) sugeriu que, ao conhecido. A triangulação é uma maneira de
determinar com precisão o timing do trânsi­ calcular a posição de algo medindo o ângulo
to de Vénus - a passagem do planeta pela até ele a partir de dois pontos fixos, sendo a
face do Sol - a partir de diferentes locais da distância entre eles conhecida. O método era
Terra, seria possível calcular a distância en­ usado tradicionalmente para medir a altura
tre a Terra e o Sol. O próprio Horrocks ob­ de edifícios e até mesmo de montanhas.
servou um trânsito de Vénus em 1639, dois Halley morreu 19 anos antes de a próxima
anos antes de sua morte. O seguinte ocorre­ passagem ocorrer, e por isso coube a outros
ria em 1761, e novamente em 1769. Halley pôr essa ideia em prática. Quando a data se
tornou popular a ideia de usar a triangulação aproximou, os astrônomos iniciaram expedi­
para calcular a distância entre o Sol e a Terra, ções em volta do mundo para registrar os ti-
conhecida como uma unidade astronômica mings. O trânsito provou ser muito difícil de
(UA), a qual poderia ser usada para calcular medir com exatidão e confiabilidade, mas
ao colocar juntas várias medições distintas
feitas em diferentes partes do globo, eles
chegaram a um dado de cerca de 153 mi­
lhões de quilômetros, não muito distante do
dado aceito atualmente de 150 milhões de
quilômetros. No final do século XVIII, então,
os astrônomos tinham uma ideia realista do
tamanho do sistema solar. Foram estabeleci­
das as bases da moderna era da astronomia,
uma era em que a maioria dos corpos celes­
tes distantes estaria em foco.

Durante o trânsito de Vénus, o planeta parece


uma pequena mancha escura na frente do
Sol.

mento dos cometas. Newton mostrou em dirigindo para o espaço externo novamen­
Principia como a trajetória de um cometa te - o que atualmente seria considerado um
podia ser calculada a partir de três posições cometa não periódico. Sem desejar fazer os
observadas num período de dois meses, e cálculos de seu cometa, Newton entregou
ele compilou dados sobre 23 cometas. Ele os dados a Halley. Ele também supôs que
supôs, no entanto, que os cometas seguiam a trajetória fosse parabólica, até notar que a
uma trajetória parabólica, vindo para fora trajetória do cometa em 1607 (observada
do sistema solar, girando em tomo do Sol e se por Kepler) era muito parecida àquela do

177
TENTANDO ALCANÇAR AS ESTRELAS

cometa de 1680, que ele próprio vira. Mais na. Um meteoro do tamanho de um “vagão
tarde ele descobriu que ela também corres­ de carga” que caiu enquanto o cometa esta­
pondia à trajetória de um cometa visto em va no céu foi algo curioso e uma atração na
1531 e concluiu que todos os três eram o Grécia durante 500 anos. O primeiro regis­
mesmo objeto, não seguindo uma trajetória tro certo do cometa Halley é chinês, sobre
parabólica, mas uma órbita elíptica mui­ sua aparição em 240 a.C. A vez seguinte em
to ampla em torno do Sol. Halley previu o que foi visto, em 164 a.C., é registrada
reaparecimento do mesmo cometa em 1758, em uma tábua de argila na Babilônia. Moe­
tendo calculado um período de retorno de das retratando o rei armênio Tigranes, o
76 anos. O cometa - agora conhecido como Grande, parecem mostrar o cometa Halley
cometa H alley - reapareceu no dia de Natal em sua coroa, registrando seu aparecimen­
de 1758, 16 anos depois da morte de Halley. to em 87 d.C.
Ele fez sua maior aproximação em 837
O cometa H alley na H istória d.C., a uma distância de apenas 0,03 UA,
O cometa de Halley pode ter sido registrado quando sua cauda pode ter se estendido até
em 467-466 a.C. na Grécia Antiga e na Chi­ 60 graus pelo céu. O cometa Halley é retra­
tado na tapeçaria Bayeux, e possivelmente

A primeira passagem do cometa Halley a ser


fotografada, 1910.

A tapeçaria Bayeux mostra o cometa Halley


aparecendo em 1066, quando foi interpretado
como um presságio.

178
LONGE, MUITO LONGE

O COMETA TRAZ E O COMETA LEVA dizer que a vida na Terra


sobreviveu ao encontro.
"Vim com o cometa de Halley em 1835. Ele voltará no próxi­
mo ano e espero ir embora com ele. Será o maior desapon­
O retorno do cometa
tamento de minha vida se eu não for embora com o cometa em 1994 resultou não só
de Halley. O todo-poderoso disse, sem dúvida: agora aqui em fotografias tiradas da
estão as duas aberrações incalculáveis; eles vêm juntos, eles Terra, mas na inspeção mi­
devem ir juntos." nuciosa no espaço por duas
MarkTwain, autobiografia, 1909 sondas, Giotto e Vega. Es­
Twain nasceu em 30 de novembro de 1835, exatamen­ tas descobriram que o co­
te duas semanas depois de o cometa Halley fazer sua maior meta tem a forma parecida
aproximação do Sol (periélio). Ele morreu em 21 de abril de àquela de um amendoim,
1910, no dia seguinte ao próximo periélio do cometa. tem 15 km de comprimento
e 8 km de largura e espessu­
ra, com uma vírgula (ponto
em Adoration o f t h e M agi, de Giotto, como de luz ou atmosfera) de 100.000 km. A vírgula
a estrela de Belém (que provavelmente não se forma como monóxido de carbono sólido
era, pois ela apareceu em 12 a.C.). e o dióxido de carbono em sua superfície se
O cometa apareceu espetacularmente transforma em gás (sublime) com os raios do
em 1910 com uma aproximação relativa­ Sol. O cometa Flalley seria composto de pe­
mente perto de 0,15 UA. Foi fotografado quenos pedaços, chamados de Rubble Pile,
pela primeira vez, e sua cauda analisada unidos. Eles giram como um corpo a cada 52
por espectroscopia (um método de analisar horas. As duas sondas mapearam cerca de um
a composição química de um corpo gasoso quarto da superfície do cometa, encontrando
estudando o padrão característico das li­ colinas, montanhas, penhascos, depressões e
nhas espectrais que ele produz, veja a pági­ uma cratera.
na 126). Seu espectro revelou (entre outras
coisas) que a cauda continha o gás tóxico E spectroscopia - uma nova maneira
cianogênio. Isso levou o astrônomo Camille de VER
Flammarion (1842-1925) a dizer que pas­ No final do século XIX, surgiu uma forma
sar pela cauda “possivelmente ceifaria toda totalmente nova de examinar as estrelas,
a vida na [Terra]”. Como resultado, o pú­ estudando-se seu espectro com uma técnica
blico foi ludibriado, gastando uma fortuna chamada espectroscopia. Quando a luz passa
em máscaras de gás, “pílulas anticometa” e por um gás, alguns comprimentos de onda
“guarda-chuvas anticometa”. Não é preciso são absorvidos, deixando um padrão carac-

Espectro variável de
estrela para a constelação
Corona borealis (coroa do
norte), 1877.

179
TENTANDO ALCANÇAR AS ESTRELAS

Pickering ficou frustrado com a compe­


tência de seus assistentes homens e declarou
que sua empregada seria capaz de fazer um
trabalho melhor. Sua empregada era uma
escocesa, Williamina Fleming (1857-1911),
que imigrou com o marido, mas depois foi
abandonada por ele quando estava grávida.
Ela foi trabalhar para Pickering para sus­
tentar a ela e ao filho. Fleming se dedicou
à tarefa de catalogar e classificar as estre­
las, desenvolvendo um sistema de atribuir
a elas uma carta de acordo com a quanti­
dade de hidrogênio existente em seus es­
pectros (sendo A para a maior quantidade).
Em nove anos, Fleming catalogou mais de
10.000 estrelas. Ela descobriu 59 nebulosas
Williamina Fleming gasosas, mais de 310 estrelas variáveis, 10
novas e a nebulosa Horsehead. Pickering
colocou-a como responsável por uma gran­
terístico de linhas espectrais. Cada gás cria de equipe de mulheres chamadas “calcula­
seu próprio padrão. Logo, pela análise da doras”, a quem ele empregou para executar
luz de uma estrela, é possível identificar sua
composição química. O astrônomo america­
no Henry Draper (1837-1882), pioneiro da
astrofotografia, foi o primeiro a fotografar o Annie jump Cannon
espectro de uma estrela, em 1872. Suas foto­
grafias de Vega mostraram linhas espectrais
distintas. Ele tirou mais de 100 fotografias
de espectros estelares antes de sua morte em
1882. Em 1885, Edward Pickering (1846-
1919) assumiu a empreitada e começou a
supervisionar o uso em larga escala da espec-
troscopia fotográfica como diretor do Elar-
vard College Observatory, com o objetivo de
produzir um catálogo detalhado de estrelas.
A viúva de Draper concordou em financiar o
negócio de risco, e a catalogação ambiciosa
para a produção do Catálogo Elemy Draper
começou. A primeira publicação foi o Draper
Catalogue ofS tellar Spectra (Catálogo Draper
de Espectros Estelares) em 1890, com 10.351
estrelas catalogadas.

180
LONGE, MUITO LONGE

os cálculos necessários envolvidos na classi­


ficação e catalogação das estrelas. (As mu­
lheres recebiam apenas 25-50 centavos por PARALAXE
hora, menos que as secretárias recebiam na É um método de calcular a distância de
época). Fleming e várias outras mulheres da um objeto observando-o de duas posi­
equipe, inclusive Henrietta Swann Leavitt ções diferentes. No caso de uma esteia,
(1868-1921) e a sobrinha de Henty Draper, o céu é fotografado duas vezes no inter­
Antonia Maury (1866-1952), tornaram-se valo de seis meses. Ao medir quanto a
astrônomas respeitadas por mérito próprio. estrela parece ter se movido em relação
Outra das “mulheres de Pickering” foi às estrelas do fundo, os astrônomos po­
Annie Jump Cannon (1863-1941), que dem usar a triangulação para determinar
aperfeiçoou o sistema Fleming e introduziu a distância entre a Terra e a estrela.
a classificação de estrelas com base na tem­ Você pode ver como o princípio da
peratura. Ao contrário de Fleming, Cannon paralaxe funciona segurando um lápis à
era formada em física e já estava estudando sua frente e olhando para ele primeiro
com o olho esquerdo e depois com o di­
astronomia quando começou a trabalhar
reito. O lápis parece se mover em relação
para Pickering. Ela ficou quase totalmente
ao fundo porque cada olho o vê de uma
surda depois de contrair febre escarlatina,
posição ligeiramente diferente.
no entanto, era ela quem negociava quan­
do Maury e Fleming discutiam quanto aos
métodos de classificação. O novo método
de Cannon classificava as estrelas como O,
B, A, F, G, K, M (um mnemónico em in­
glês usado para lembrar é: “Oh, Be a Fine
Guy/Girl, Kiss M e”), um sistema conheci­
do como esquema Harvard de classificação
espectral que hoje ainda é usado. Um aper­
feiçoamento do esquema, chamado sistema
Morgan-Keenan, complementa cada letra
com números 0-9, e acrescenta numerais
romanos I ao V para indicar luminosidade,
mas a base do sistema de Cannon foi man­
tida. Cannon mais tarde assumiria o projeto
de catalogação.
Com todos os seus complementos, o
catálogo Draper registrou e classificou
359.083 estrelas. Cannon classificou pes­
soalmente 230.000 estrelas, mais do que o
trabalho de classificação feito por todos os
astrônomos juntos. Ela foi a primeira mu­
lher a ser premiada com um doutorado ho­
norário pela Universidade de Oxford e a

181
TENTANDO ALCANÇAR AS ESTRELAS

primeira mulher a ser eleita representante Huygens tentou anteriormente estimar a


da Sociedade Americana de Astronomia. distância de Sirius até a Terra comparando
seu brilho com aquele do Sol. Ele decidiu
E xaminando o vazio que, supondo que Sirius fosse tão brilhan­
O método da triangulação que Cassini usou te quanto o Sol, estaria 27,664 vezes mais
no século XVII para estimar a distância até longe. Foi uma tarefa difícil, pois ele tinha
Marte poderia, com habilidade, ser usado que comparar suas observações do Sol feitas
para estimar a distância até estrelas próxi­ durante o dia com as observações de Sirius
mas. Significa usar as posições da Terra num vista à noite.
intervalo de seis meses - ou seja, em cada Embora o princípio de medir o movi­
lado do Sol - para fornecer a linha-base mento aparente de uma estrela no céu para
para a triangulação. Como a distância en­ calcular sua distância faça sentido, a téc­
tre a Terra e o Sol é de uma UÀ, essa linha nica era difícil e exigia equipamentos que
de base terá dois UA largura, uma distância simplesmente não estavam disponíveis aos
grande o suficiente para as medidas exatas primeiros astrônomos. A primeira distân­
exigidas. Durante esse tempo, se verá uma cia estelar descoberta com exatidão por
estrela próxima em posição diferente compa­ paralaxe foi calculada pelo cientista alemão
rada às estrelas de fundo mais distantes - um Friedrich Bessel (1784-1846), que em 1838
método conhecido como paralaxe (veja o pai­ determinou uma distância de 10,3 anos-
nel, página 181). -luz para 61 Cygnus. De fato, um escocês,
Thomas Henderson (1798-1844), já tinha
medido a distância até Alpha Centauri em
1832, mas só publicou seus resultados de­
pois de 1839. Uma vez conhecida a distân­
cia até uma estrela, é relativamente fácil
reverter as equações de Huygens para cal­
cular seu brilho.
No entanto, as ferramentas disponíveis
ainda não estavam realmente à altura da ta­
refa. As medidas tinham de ser feitas a olho
nu e a fotografia ainda não tinha sido inven­
tada. Por volta de 1900, apenas 60 parala­
xes tinham sido medidas. Com o advento
da fotografia, o processo pôde ser acelerado
acentuadamente, e os 50 anos seguintes ren­
deram mais 10.000 paralaxes.

O satélite Hiparco, usado para medir as


paralaxes de mais de 100.000 estrelas.
LONGE, MUITO LONGE

TELESCÓPIOS NO ESPAÇO
O Telescópio Espacial Hubble, lançado usan- da luz de fundo ou distorção da atmosfera da
do-se o ônibus espacial em 1990 e tendo re- Terra. Os telescópios espaciais foram propos-
cebido o nome em homenagem ao astrôno- tos pela primeira vez em 1923, muito antes
mo famoso, é um telescópio ótico em órbita de se tornar possível construir um.
em volta da Terra.
Por estar no espaço, produz imagens de Imagem do Hubble de duas galáxias que
extrema claridade, quase sem interferência estão se unindo por sua atração gravitacional
mútua.

Entre 1989 e 1993, o satélite Hiparco da tância até uma Cefeida, a equação de Lea-
European Space Agency mediu as paralaxes vitt, que relaciona período-luminosidade à
de 118.000 estrelas, e o catálogo Tycho-2 da distância, permitiu que a distância de outras
mesma missão fornece dados para mais de cefeidas fosse determinada. De repente, as
dois milhões e meio de estrelas da Via Lác­ distâncias através da Via Láctea e até mes­
tea. mo a fora dela tornaram-se evidentes, e des­
Para estrelas muito distantes, a paralaxe cobriu-se que o universo era bem maior do
é de pouca serventia. Outro método, usan­ que se imaginava.
do-se dados de estrelas chamadas Cefeidas, Em 1918, o astrônomo americano Har-
foi desenvolvido por Henrietta Swan Lea- low Shapley (1885-1972) usou o método
vitt, da equipe de mulheres “calculadoras” Cefeida para estudar aglomerados globula­
de Henry Peckering. As Cefeidas variam em res que ele pensou existirem dentro da Via
intensidade, pulsando em intervalos que vão Láctea. Ele percebeu que a V a Láctea era
de um dia a meses. Uma vez calculada a dis­ muito maior do que se pensava anterior-

183
TENTANDO ALCANÇAR AS ESTRELAS

mente e que o sistema solar não Diagrama Hertzsprung-Russell


tipo espectral
estava nem mesmo perto do cen­
tro, como se tinha suposto. No
final de 1923 e início de 1924,

Luminosidade intrínseca L/L


o astrônomo americano Edwin
Hubble (1889-1953) encontrou
Cefeidas fora da Via Láctea, na Ga­
láxia de Andrômena, e conseguiu
calcular a distância até a galá­
xia como cerca de um milhão de
anos-luz (seus dados foram bai­
xos, na realidade ela tem cerca de
dois milhões e meio de anos-luz
Temperatura da superfície (kelvin)
de distância).

L istras das E strelas Diagrama de Hertzsprung-Russell mostrando


O engenheiro químico holandês Ejnar o brilho (eixo-y) e a temperatura (eixo x) das
estrelas; a cor muda com a temperatura.
Hertzsprung (1873-1967) estudava astrono­
mia e fotografia em
suas horas de folga
quando descobriu
uma relação entre a
cor de uma estrela Henry Russell
e seu brilho. Em­
bora Hertzsprung
acabasse se tornando
um astrônomo pro­
fissional renomado,
ele ainda era amador
quando publicou seus
resultados em 1905 e
em 1907 em um pe­
riódico fotográfico
modesto. Sua desco­
berta não foi reco­
nhecida pelos astrô-
Ejnar Hertzsprung nomos profissionais.
O astrônomo ame­
ricano Henry Nor-
ris Russell (1877-1957) também notou a
relação entre o brilho estelar e a cor, mas
publicou sua descoberta em um periódico

184
A VIDA SECRETA DAS ESTRELAS

Arthur Eddington formações do diagrama de Hetzs-


prung-Russell deram aos astrô­
nomos a primeira suspeita do
mais conhecido de astro­ que poderia estar aconte­
nomia em 1913. Além cendo dentro das estrelas.
disso, Russell traçou um
gráfico com os resulta­ A v id a secreta
dos obtidos. A contri­ d as estrelas
buição de Hertzsprung Arthur Eddington, o as­
foi reconhecida desde o trônomo inglês que li­
início e o gráfico agora é derou a expedição para
conhecido como diagrama observar o eclipse solar em
Hertzsprung-Russell 1917, confirmando a teoria
A cor de uma estrela - ou da relatividade de Einstein, foi
mais exatamente, o comprimen­ o primeiro a imaginar o que pode­
to de onda da luz que ela emite - indica ria estar acontecendo dentro de uma estrela.
sua temperatura. No entanto, o brilho ge­ Ao combinar informações do diagrama de
ral de uma estrela depende também de seu Hertzsprung-Russell e a massa conhecida
tamanho. Assim como um aquecedor pode de algumas estrelas, ele descobriu que as
emitir mais calor que um fósforo queiman­ estrelas com maior massa são as mais bri­
do (muito mais quente), o tamanho de uma lhantes. Isso faz sentido. A fim de evitar que
estrela é tão importante quanto sua tempe­ a gravidade puxe a estrela para dentro, por
ratura. Logo, uma estrela vermelha imensa si mesma, ela deve produzir e emitir mui­
pode emitir mais energia que uma pequena ta energia. Quanto maior a massa, maior a
estrela azul, mesmo que a temperatura da atração da gravidade e mais energia é neces­
superfície da estrela azul seja mais alta. In­ sária para resistir a ela. Ele logo descobriu
que, independente­
mente do tamanho
e da temperatura da
superfície, a tem­
peratura interna
de todas as estrelas
da sequência prin­
cipal é aproxima­
damente a mesma.

Espectômetro de
massa usado para
medir carbono estável
e isótopos de oxigênio.

185
TENTANDO ALCANÇAR AS ESTRELAS

elementos muito abundantes


"Uma estrela está utilizando um vasto reservatório de ener­
no Sol. Ele conhecia o traba­
gia por meios que desconhecemos. Esse reservatório dificil­
mente será outro que a energia subatômica a qual, como
lho de Einstein e foi capaz de
se sabe, existe abundantemente em toda matéria; às vezes aplicar a equação E=mc2 ao
sonhamos que o homem um dia aprenderá a liberá-la e a Sol e deduzir que sua energia
usá-la para atender às suas necessidades. O armazena­ vinha da fusão nuclear, sendo
mento é praticamente inesgotável, bastando termos acesso o hidrogênio forjado no hélio
a ela. Existe em quantidade suficiente no Sol para manter no centro do Sol. A ligeira di­
sua produção de calor durante 15 bilhões de anos." ferença na massa que Aston
Arthur Eddington, 1920. notou se transformaria em
energia.
Assim como uma fissão
Ele percebeu também que o combustível nuclear transforma elementos mais pe­
que fornece energia para uma estrela deve sados em elementos mais leves dividin­
ser nuclear - não haveria outra maneira de do o núcleo, a fusão nuclear transforma
uma estrela ter um suprimento suficiente de elementos mais leves em elementos mais
combustível para continuar queimando du­ pesados combinando núcleos. O imenso
rante bilhões de anos. volume de gás envolvido significava que
A primeira sugestão foi que a energia havia energia suficiente sendo liberada
do Sol era derivada de isótopos radioativos para alimentar o Sol durante bilhões de
como o rádio, mas a meia-vida do rádio é anos. Mais tarde percebeu-se que todos os
curta demais. Um avanço importante veio elementos que não fossem o hidrogênio,
por meio do trabalho executado no centro o hélio e o lítio eram formados por fusão
de pesquisa atômica Cavendish em Cam- dentro das estrelas ou supernovas.
bridge, Inglaterra. Em 1920, o químico
e físico inglês Francis Aston (1877-1945) O u v in d o o v a z i o
usou um espectômetro de massa para Embora já lidemos com distâncias e núme­
medir a massa do hidrogênio e do hélio. ros de esteias inimagináveis aos primeiros
O núcleo do hidrogênio tem um próton, observadores de estrelas, ainda há muita
enquanto o núcleo do hélio tem dois pró­
tons e dois nêutrons. Aston espelho de metal de
descobriu que quatro núcleos heliostato (coberto com
papel preto)
de hidrogênio tinham pouco
mais massa que um núcleo de V
Folha de papel
hélio. Eddington sabia que
o hidrogênio e o hélio eram

/
V
G < > Ponte de
Wilsing e o equipamento Wheatstone
de Scheiner para tentar
' Metal
detectar ondas de rádio
do Sol. Papel

186
A VIDA SECRETA DAS ESTRELAS

NIKOLA TESLA (1856-1943) para pior. Ele ficou cada vez mais obsessivo
Nikola Tesla nasceu no Império Austro-Hún- pelo número três e por pombos.
garo, em uma área que atualmente faz parte O último fato a manchar sua reputação
da Croácia. Ele abandonou a universidade foi sua promoção do chamado "raio da mor­
duas vezes e cortou ligações com a família te", que, conforme ele alegava, "enviava
e amigos (seus amigos acreditavam que ele feixes concentrados de partículas pelo ar,
tivesse se afogado no rio Mura). Em 1884, de uma energia tão imensa que derruba­
mudou-se para os EUA. riam uma frota de 10.000 aviões inimigos a
Tesla trabalhou com comunicação wire- uma distância de 200 milhas... e causariam a
less, raios X, eletricidade e energia. Quando morte de exércitos em seu raio de alcance".
chegou aos EUA começou a trabalhar para Tesla viveu os últimos 10 anos de sua vida
Thomas Edison, mas se demitiu em razão no Hotel New Yorker, e quando faleceu duas
de uma discussão sobre o pagamento. Mais cargas de caminhão cheias de trabalhos fo­
tarde montou seu próprio laboratório. Ele ram apreendidos pelo governo dos Estados
era um inventor prolífico, mas algumas de Unidos por serem consideradas um risco à
suas invenções, seu caráter e suas atitudes segurança.
eram excêntricas, e ele sempre foi conside­
rado um dissidente. Suas afirmações de que
ele teria detectado transmissões de rádio de
alienígenas de Marte ou Vénus não ajuda­
ram. Em 1904, o Escritório de Patentes dos
Estados Unidos retirou a patente de Tesla
pelo rádio e deu-a a Marconi; Marconi foi
laureado com o Prêmio Nobel pela invenção
do rádio em 1909. Depois de brigas com
Marconi e Eddington, e a demolição de sua
estação Telefunken sem fio em Long Island
pela Marinha, temendo que ela fosse usada
para espionagem durante a Primeira Guer­
ra Mundial, a sorte de Tesla deu uma virada

coisa que não vemos com telescópios ópti­ em uma carta escrita em 1890 que ele e um
cos, mesmo aqueles ancorados no espaço. colega poderiam construir um receptor para
Mas quando as partes não visíveis do espec­ captar ondas de rádio a partir do Sol. Se ele
tro eletromagnético, como ondas de rádio, tivesse construído um aparelho desses, infe­
foram usadas, foi possível explorar ainda lizmente não teria detectado ondas de rádio
mais profundamente o cosmos. do espaço. O físico inglês Sir Oliver Lodge
Talvez as origens da astronomia do rádio (1851-1940) construiu realmente um detec­
estejam ligadas ao inventor e empreendedor tor, mas não encontrou evidências de on­
Thomas Edison (1847-1931), que sugeriu das de rádio vindas do Sol em 1897-1900.

187
Foto da constelação de Sagitário tirada
pelo telescópio Hubble, fonte do sinal de
rádio detectado por Jansky.

Prevendo a partir das equações de


Planck a quantidade de radiação re­
cebida do Sol que deveria entrar em
parte das ondas de rádio do espectro
(comprimento de onda 10-100 cm),
ficou claro que a radiação seria muito
fraca - fraca demais para ser detec­
tada por equipamento disponível na
época. Um novo golpe veio em 1902,
quando os engenheiros elétricos Oli-
ver Eleaviside (1850-1935) e Edwin
Kennelly (1861-1939) previram a
existência da ionosfera, uma cama­
Os primeiros cientistas que examinaram a da de partículas ionizadas na camada
questão profundamente foram os astrôno­ superior da atmosfera que refletiria ondas de
mos Johannes W ilsing (1856-1943) e Julius rádio. (Contudo, essa camada tem tido usos
Scheiner (1858-1913), trabalhando na Ale­ importantes como auxílio à comunicação por
manha. Eles concluíram que a astronomia do rádio. Ao liberar ondas de rádio da ionosfera
rádio fracassa porque as ondas de rádio são é possível transmitir sinais a longas distân­
absorvidas por vapor d’água na atmosfera. cias.) Essas conclusões desapontadoras pare­
Um estudante francês, Charles Sordman, cem ter abafado o entusiasmo pela pesquisa,
raciocinou que se a atmosfera estivesse blo­ e não houve mais tentativas de detectar sinais
queando ondas de rádio do espaço, seria me­ de rádio do espaço durante 30 anos.
lhor ele colocar sua antena em um local mais O grande avanço veio em 1932, quan­
alto para tentar ficar acima dela. Ele a levou do o engenheiro de rádio americano Karl
ao topo de Mont Blanc. Nordman também
não conseguiu captar ondas de rádio do Sol
- mas no seu caso foi por falta de sorte. O
equipamento dele teria funcionado em ho­
rário de máximo solar, quando as ondas de
rádio emitidas atingem o pico. Infelizmente,
1900 foi um período de mínimo solar e, por­
tanto, ele não detectou nada. Mas o trabalho
de Max Planck sobre radiação de corpo ne­
gro e quanta de luz revelou outro problema.

Antena de um radiotelescópio no centro de


astronomia de Yebes, Espanha.

188
A VIDA SECRETA DAS ESTRELAS

Restos da supernova SN-006, produzidos pela


explosão de uma estrela enorme cerca de 7000 nuvem de gás situada no centro da galáxia.
anos atrás. Ele queria continuar seu trabalho sobre on­
das de rádio da Via Láctea, mas seus empre­
gadores o transferiram para outro projeto e
Jansky (1905-1950) foi empregado pela Bell ele teve de abandonar a pesquisa. Sua única
Telephone Company, em New Jersey, EUA, grande descoberta marcou o início e o fim
para investigar a interferência estática das de sua carreira em astronomia. O trabalho
ondas de rádio em seu serviço de telefonia de Jansky inspirou o astrônomo amador
intercontinental. Usando uma grande ante­ americano Grote Reber (1911-2002), que
na direcional, Jansky encontrou um sinal de construiu um radiotelescópio parabólico em
origem desconhecida que se repetia a cada seu quintal em 1937 e realizou a primeira
24 horas. Ele suspeitou que viesse do Sol, pesquisa do céu com frequências de rádio.
mas então percebeu que a repetição ocor­ As ondas de rádio do Sol foram desco­
ria a cada 23 horas e 56 minutos - menos bertas pela primeira vez em 1942 por James
que a duração do dia. Um amigo astrofísi­ Hey (1909-2000), oficial pesquisador da
co, Albert Skellett, disse que parecia vir das Marinha Britânica. A astronomia do rádio
estrelas. Usando mapas astronômicos, eles estava então se tornando respeitável: os as­
identificaram a Via Láctea como a origem, trônomos de rádio Martin Ryle (1918-1984)
e mais particularmente o centro da galáxia, e Antony Elewish (1924-) na Universidade
em torno da constelação de Sagitário, pois de Cambridge mapearam as fontes de rádio
o pico do sinal coincidia com o aparecimen­ do céu no início dos anos 1950, produzindo
to dessa constelação. Jansky suspeitou que as pesquisas 2C e 3C (Segundo e Terceiro
o sinal viesse de uma poeira interestelar ou Catálogos Cambridge de Fontes de Rádio).

189
TENTANDO ALCANÇAR AS ESTRELAS

extremamente remotos. Existem 200.000


O primeiro nome dado para os pulsares foi
quasares conhecidos, todos entre 780 mi­
LGMs, por Little Green Men, por uma suges­
lhões e 28 bilhões de anos-luz de distância,
tão de que os pulsos representavam trans­
o que os torna os objetos mais distantes dos
missões de rádio intencionalmente por uma
quais temos conhecimento. Os primeiros
forma alienígena. Isso causou um grande
quasares foram localizados no final dos anos
alarme a ponto das autoridades universitárias
1950 e descritos pelo astrônomo holandês
considerarem manter a descoberta em segre­
do. Então Jocelyn Bell descobriu outro pulsar, Maarten Schmidt (1929-) em 1962. Surtos
provando que era um fenômeno natural. maciços de radiação de quasares podem ser
Little Green Men (Homenzinhos Verdes). produzidos pela liberação de energia gravita-
cional à medida que a matéria cai em direção
a um buraco negro imenso. Até 10% dessa
Hoje, os radiotelescópios costumam ser massa é convertido em energia capaz de es­
organizados em bancos, suas antenas apon­
capar antes do horizonte de eventos (veja a
tando para a mesma área do céu e os dados
página 197). A fusão nuclear que ocorre den­
reunidos de todos eles. Cada telescópio tem
tro das estrelas não poderia produzir o brilho
um grande prato de coleta que foca as on­
das de rádio recebidas pela antena. Usando do quasar, forte o suficiente (com luz visível
uma técnica chamada interferometria, desen­ e outras formas de radiação eletromagnética)
volvida por Ryle e Hewish, os dados de cada para ser detectado da Terra a longas distân­
antena são combinados (ou “interferidos”). cias. A explosão de uma supernova poderia
Sinais coincidentes reforçam uns aos outros, produzir energia suficiente para ser vista du­
enquanto sinais conflitantes se cancelam mu­ rante poucas semanas, mas um quasar per­
tuamente. O efeito é atingir a capacidade de siste. Para os quasares mais distantes serem
coleta de um único prato gigantesco. Para visíveis, eles precisam ser dois trilhões (2 x
minimizar problemas da ionosfera e o vapor 1012) de vezes tão brilhantes quanto o Sol.
d’água atmosférico, os melhores locais para Ou foram - esses objetos estão a bilhões de
radiotelescópios muitas vezes estão localiza­ anos-luz de distância, logo estamos os vendo
dos a altas altitudes em regiões áridas. como se eles estivessem próximos do início
Embora os radiotelescópios possam ser do universo.
usados para investigar o Sol e os planetas do
sistema solar, eles têm sido mais úteis para P a r a c im a , p a r a c im a , e
explorar objetos tão distantes que não po­ LONGE
dem ser vistos usando-se telescópios óticos. Nosso entendimento da astro­
Isso tem levado a descobertas importantes nomia e da física do espaço mu­
como quasares e pulsares. dou consideravelmente durante o
século XX. Mas talvez o desen­
Q u asares - po d ero so s e rem o to s volvimento mais importante
O quasar é a abreviação da expressão inglesa seja a união do tempo com
quasistellar object, ou “objeto quase estelar”. o espaço em um único con­
Quasares são objetos com muita energia, ceito - o continuum espaço- ,
com um desvio importante para o vermelho -tempo, que será discuti-
(veja a página 201), que significa que eles são do no próximo capítulo.
Maarten Schmidt
190
A VIDA SECRETA DAS ESTRELAS

PULSARES - FEIXES GIRATÓRIOS DE POTÊNCIA


Um pulsar é um corpo estelar altamente
magnetizado, em rotação. Forma-se quan­
do os recursos de combustível de uma es­
trela imensa se esgotam e seu centro entra
em colapso, transformando-se em um cor­
po incrivelmente denso chamado estrela de
nêutrons. O pulsar é assim chamado porque
ao girar emite radiação altamente direcional
que só pode ser observada quando aponta
diretamente para a Terra - criando um pulso
muito parecido ao feixe de um farol refletin­
do-se no mar. Os intervalos entre os pulsos
variam de 1,4 milissegundo a 8,5 segundos.
A taxa desacelera até que ele acaba parando,
depois de um período de 10-100 milhões de Jocelyn Bell Burnell
anos, de modo que a maioria dos pulsares
que já se formarm (99%), não pulsa mais.
O primeiro pulsar foi descoberto em Quando um pulsar gira, suas emissões
1967 por uma doutoranda de 24 anos, radioativas só podem ser detectadas da Terra
Jocelyn Bell (agora jocelyn Bell Burnell). em pulsos.
Controversamente, foi o
orientador dela, Antony
Hewish, quem recebeu o
Prêmio Nobel (em 1974)
pela descoberta, e não
ela. Observações em 1974
de um pulsar em um sis­
tema binário (em que um
pulsar gira em torno de
uma estrela nêutron, com
um período orbital de oito
horas) forneceram as pri­
meiras evidências de ondas
de gravidade, confirmando
outra parte da teoria geral
da relatividade de Einstein.

191
CAPÍTULO 7

ESPAÇO-TEMPO
continuado

Durante milhares de anos, observar o espaço e que­


rer saber sobre sua estranha geografia era exatamen­
te isso - olhar para fora, tentar ver como as estrelas e
os planetas, o Sol e a Lua se relacionam com a Terra.
Os movimentos do Sol e da Lua eram o relógio ce­
lestial da humanidade, medindo as horas, os dias, os
meses e os anos. Mas tempo e espaço eram conside­
rados conceitos separados. Desde o início do século
XX, no entanto, nossa relação com o tempo e o es­
paço começou a mudar. Depois de Einstein, eles se
tomaram unidos como um con tin u u m , e o estudo do
espaço tomou-se focado não apenas “no que está lá”,
mas no passado e possivelmente no futuro de nosso
universo.

Uma estrela distorcendo o continuum espaço-tempo,


criando um efeito gravitacional.
ESPAÇO-TEMPO CONTINUADO

ii . *
Éfc'’MC3tf
U m a breve h istó ria d o te m p o
Embora seja fácil ver a passagem dos dias, o
padrão de um ano inteiro se torna evidente
somente com o registro e a contagem. A pri­
meira evidência de pessoas registrando o tem­
po data de 20.000 anos atrás. A matemática e
os primeiros conhecimentos de astronomia
provavelmente tenham surgido juntos quando
as pessoas aprenderam a acompanhar e a pre­
ver os movimentos dos corpos celestes.
O curso de um dia era medido usando-
-se um gnom on, um ponteiro de um relógio
solar que projeta uma sombra para acompa­
nhar o progresso do Sol pelo céu. Durante Uma clepsidra, usada para medir o tempo na
milênios este foi o melhor guia para a passa­ Grécia Antiga. Os relógios d'água têm sido
gem do tempo. Então, no século XVII, Ga- usados há milhares de anos.
lileu comparou um lustre balançando com
seu próprio pulso e descobriu o movimen­ A m anhã e am anhã e am anhã
to regular de um pêndulo. O pêndulo leva Os relógios medem o tempo linear, que é
sempre o mesmo tempo para oscilar: quan­ bastante conveniente para vidas humanas,
do o arco diminui, o movimento do pêndulo mas pode não representar toda a história.
desacelera para manter o intervalo regular. A ideia de que o tempo pode não ser li­
Galileu projetou um relógio de pêndulo, near foi sugerida tanto por Buda quanto
mas nunca o construiu. Foi Christiaan Huy- por Pitágoras por volta de 500 a.C. Eles
gens que construiu o primeiro relógio de acreditavam que o tempo pudesse ser cí­
pêndulo em 1656. Mais tarde, Robert Hooke clico e que um ser humano, depois de
usou a oscilação natural de uma mola para morrer, podia renascer. Platão pensava
controlar o mecanismo de um relógio. A que o tempo havia sido criado no início
medida do tempo por meios mecânicos de todas as coisas. Mas, para Aristóteles,
foi a norma até 1927, quando o engenhei­ o tempo só existia onde havia movimento.
ro canadense de telecomunicações Warren Um paradoxo aparente, proposto pelo fi­
Marrison, que trabalhava na Bell Telepho- lósofo Zeno (c.490-430 a.C.), parece mos­
ne Laboratories, New Jersey, descobriu que trar que nem o tempo nem o movimento
poderia medir o tempo com exatidão usan­ podem existir. Se dividimos o tempo em
do as vibrações de um cristal de quartzo em partes cada vez menores, a distância atra­
um circuito elétrico. vessada por uma flecha em movimento
torna-se cada vez mais curta até que, no
instante “agora”, a flecha não se move.
"Minha alma anseia em saber este enigma
Mas, nesse caso, ela não pode existir ou se
tão intrincado. Confesso a Vós, Senhor, que
mover, pois o tempo é formado de um nú­
sou ignorante do que seja o tempo."
mero infinito de “agoras” em que nenhum
Santo Agostinho
movimento está ocorrendo.

194
O mecanismo de funcionamento do relógio
forneceu a primeira maneira de determinar o "...tempo absoluto, verdadeiro, matemáti-
tempo com exatidão. co... de sua própria natureza, flui igualmen­
te sem relação com nada externo."
Isaac Newton

195
ESPAÇO-TEMPO CONTINUADO

cebeu que a falta de uma medida comum


significa a não existência de Deus.

U n in d o e s p a ç o e t e m p o
Nossa experiência pessoal do tempo é sim­
ples. O tempo se move do passado para o
presente e para o futuro sem chance de vol­
tar, saltar para frente ou congelar. Ele se
move a uma taxa continuamente em uma
direção. Não é surpreendente que durante
milênios supusemos que esta fosse a nature­
za do tempo. Mas talvez não seja.

T udo é relativo
Todo movimento é relativo à posição ou
movimento do observador. Logo, você
pode atravessar a sala e alguém de pé e pa­
rado na sala julgará sua velocidade como
sendo cerca de 5 km por hora; Tanto você
quanto o observador estão em um globo
que gira no espaço a quase 30 km por se­
gundo, mas apenas seu movimento pela
sala é notado. Um observador em um pla­
neta distante (com um bom telescópio), no
Santo Agostinho
entanto, veria o globo girando e rodopian­
do. (Galileu percebeu isso, embora falasse
de uma pessoa em um navio vista por um
O filósofo cristão Santo Agostinho espectador na praia, e não de um alieníge­
(354-430 d.C.) chegou à conclusão de que na com um telescópio.) Logo, a velocida­
de em que um objeto se move depende do
o tempo não existiria se não houvesse uma
referencial; o movimento só pode ser me­
inteligência observadora, pois era apenas a
dido em relação aos outros objetos ou ob­
lembrança de coisas passadas e a expectati­ servadores. O referencial pode ser a mesma
va de eventos futuros que davam ao tempo sala, o mesmo navio, o mesmo planeta ou a
qualquer existência fora do presente. mesma galáxia.
O matemático francês Ni cole Oresme Einstein descobriu uma exceção a essa
(1323-1382) indagava se o tempo celestial regra básica: a luz, disse ele, sempre viaja
- tempo medido pelo movimento de corpos à mesma velocidade - independentemente
celestes - era mensurável: ou seja, se havia da velocidade em que o observador está se
uma unidade que pudesse medir seus movi­ movendo. Ele explicou que não importa o
mentos com números inteiros. Ele sugeriu quanto você esteja se deslocando, um feixe
que um criador inteligente certamente os de luz passaria por você a 299.792.458 me­
teria feito assim, mas por pouco não per­ tros por segundo.

196
TUDO E RELATIVO

k.
LEVANDO A GRAVIDADE A EXTREMOS: BURACOS NEGROS
Os buracos negros são "singularidades no O conceito de buraco negro (embora
espaço-tempo". Existem áreas onde a gra­ não o nome) foi sugerido pela primeira vez
vidade é tão forte que nem mesmo a luz por duas pessoas independentemente -
escapa, e qualquer coisa que passe perto Pierre-Simon Laplace em 1795 e, antes dele,
demais é sugada. Os buracos negros podem o filósofo inglês John Michell (1 724-1 793)
se formar quando as estrelas entram em co­ em 1 784.
lapso, tornando-se minúsculas, em alguns Michell chamou de "estrela escura" o
casos não maiores do que o núcleo de um fenômeno de uma estrela tão densa e com
átomo, e extremamente densas. A veloci­ uma atração gravitacional tão forte que a
dade de escape exigida para se sair de um luz não podia escapar. A ideia foi retomada
buraco negro é maior que a velocidade da pelo físico alemão Karl Schwarzschild (1873-
luz. O tamanho de um buraco negro é me­ 1916) logo antes de sua morte em 1916,
dido por seu horizonte de eventos - o limite quando ele calculou os campos gravitacio-
sobre o qual nada pode escapar. Embora um nais de estrelas e de estrelas em colapso. O
astronauta que caia em um buraco negro termo "buraco negro" foi cunhado pelo físi­
possa não notar nada incomum ao atraves­ co teórico americano John Archibald Whee-
sar o horizonte de eventos, um observador ler (1911 -2008) em 1967, quando cosmolo-
de fora verá o tempo para aquela pessoa de­ gistas encontraram a primeira evidência de
sacelerar. No limite do horizonte de eventos, sua existência.
eles parecem congelar no tempo.

197
n& ;

ESPAÇO-TEMPO CONTINUADO

"ife i ' ■ * ? ' *

Imagem de uma supernova pelo


telescópio Hubble, o ponto brilhante
embaixo, à esquerda.

Como a velocidade da luz é


constante, outras coisas não po­
dem ser - e uma delas é o tempo.
De fato, ao se aproximar da velo­
cidade da luz, o tempo desacelera e
a distância se contrai. Einstein pro­
vou estar correto nesse sentido em
1971. Um relógio atômico levado
para uma viagem em um avião
muito rápido registrou um tempo
0
ligeiramente mais curto que um
relógio idêntico deixado estacio­
nado no solo. Porém viajar em um
avião rápido não é uma boa forma
de estender sua vida - você preci­
saria girar em volta da Terra 180
bilhões de vezes para economizar
um único segundo.
A teoria geral da relatividade
de Einstein, publicada em 1915, publicadas depois de sua morte em 1867-
foi além, trazendo juntos tempo, espaço e 1868. Mas Einstein foi muito além de Rei-
matéria, e usando a gravidade para explicar mann, por elaborar equações para explicar e
o efeito de um no outro. A matéria curva o prever a curvatura.
tempo-espaço, como uma bola atirada sobre
uma manta esticada causa um afundamen­ B em longe e há muito tempo
to nesta. O modo como outros objetos e a Existe outra forma menos teórica e comple­
luz se movem em resposta a essa inclinação xa de nosso interesse pelo espaço se vincular
chamamos de gravidade. Logo, assim como ao interesse pelo tempo e a velocidade da luz.
uma bola pequena rolará naturalmente para Quando olhamos para as estrelas, nós as ve­
a área afundada da manta criada por uma mos como elas eram no passado por causa da
bola grande, um corpo pequeno em um es­ duração de tempo que leva para a luz delas
paço gravitará naturalmente para um maior, chegar até nós. Mesmo a luz do Sol demo­
restrito pela curvatura do tempo-espaço. ra oito minutos para chegar até nós. Se o Sol
Essa curvatura foi proposta muito antes de tivesse desaparecido dois minutos atrás, nós
Einstein pelo matemático alemão Bernhard continuaríamos a vê-lo brilhar, inconsciente
Reinmann (1826-1866), cujas ideias foram do desastre iminente, por mais seis minutos.

198
DE VOLTA AO INÍCIO \

A luz da estrela mais próxima, Próxima F ora do caos


Centauri, leva quatro anos e três meses para Anaxágoras, no século V a.C., sugeriu que o
nos alcançar. Uma das estrelas mais brilhan­ universo começou como matéria indiferen­
tes já detectadas, vista pela primeira vez em ciada, inerte. Em algum momento, depois
1988, foi a supernova. Uma vez que a su- de um infinito em que nada aconteceu, a
pernova representa a morte de uma estrela mente (sua analogia com as leis naturais do
que explodiu, essa estrela não existe mais. universo) começou a agir sobre essa matéria
Estava a cinco bilhões de anos-luz de dis­ e iniciou um movimento giratório. Como
tância, logo a luz vista em 1988 significa a consequência, matéria mais densa se ajun­
morte da estrela cinco bilhões de anos atrás, tou e matéria menos densa dirigiu-se para
antes de nosso próprio sistema solar ter se fora dos corpos então formados, ou deslizou
formado. A supernova testemunhada por entre eles. Isso não é tão diferente do mo­
Kepler e Galileu em 1604 está a cerca de delo que os astrônomos modernos têm do
20.000 anos-luz de distância - de modo que desenvolvimento do universo, com sistemas
a estrela deixou de existir aproximadamente solares se formando à medida que discos
na época em que os mamutes andavam pela pré-planetários são amalgamados a par­
Europa glacial. tir de uma vasta nuvem de poeira, e por meio
da ação da gravidade e da força centrípeta
De v o lta ao início formaram-se em planetas. Anaxágoras tra­
É claro que quando ninguém sabia o que eram balhou apenas a partir da lógica (e de muita
as estrelas e os planetas, era difícil dizer como imaginação).
eles estavam lá, e com algumas exceções notá­ Os filósofos Demócrito e Leucipo (5
veis, a maioria das culturas deixou essa ques­ a.C.) acreditavam que o cosmos tivesse se
tão para a religião. O arcebispo James Ussher formado quando o movimento giratório
(1581-1656) calculou a data da criação (da levou os átomos a se aglutinarem, forman­
qual a idade do universo podia ser estima­ do matéria. Como o universo é uma quan­
da) como 22 de outubro de 4004 a.C., com tidade infinita de tempo e espaço e contém
base nas genealogias registradas na Bíblia. uma quantidade infinita de átomos, todos os
Muitas outras sociedades propuseram suas mundos e configurações de átomos possí­
próprias datas de criação. Os maias deram veis existirão, e então a existência de nosso
uma data para a criação que se traduz como 11 mundo e da humanidade não é especial, mas
de agosto de 3114 a.C. O judaísmo colocou a inevitável. Como tudo está em fluxo cons­
criação em 22 de setembro ou 29 de março de tante, um cosmos surgirá e eventualmente
3760 a.C. O hinduísmo purânico seguiu a di­ se desintegrará, e seus átomos indestrutíveis
reção oposta, com uma data extravagante para serão reutilizados em um novo cosmo. Mes-
a criação, de 158,7 trilhões
de anos atrás. Há ainda su­ "A [mente governava] esta rotação em que agora giram as es­
gestões de que o universo trelas, o Sol, a Lua, o ar separado e os outros. E o denso separa-
sempre existiu. Aristóteles, s e do leve, o quente do frio, o brilhante do escuro e o seco do
por exemplo, pensava que molhado."
o universo fosse finito, mas Anaxágoras, fragmento BI 2.
eterno.

199
ESPAÇO-TEMPO CONTINUADO

.1 :=

A divisão de espaço de Descartes em


regiões contendo partículas que giram
em torno de um centro, 1644.

mo em um espaço de tempo mais curto, sa­


bemos que os átomos em um sistema estelar
que morre eventualmente são reciclados.
René Descartes descreveu um universo
“vórtice” em que o espaço não estava vazio,
mas cheio de matéria que rodopiava em re­
demoinhos, ou vórtices, produzindo o que
mais tarde foi chamado de efeitos gravitacio-
nais. Em 1687, Newton propôs um univer­
so estático, infinito, em regime estacionário
em que a matéria é distribuída igualmente
(em grande escala). Seu universo era equi­
librado gravitacionalmente, mas instável.
Este perdurou como modelo científico até
o século XX. Mesmo Einstein aceitou isso
como verdade inquestionável até que as des­
cobertas provaram o contrário.

O UNIVERSO M ODERNO
Um aspecto das equações gerais da relativi­ co russo Alexander Friedmann (1888-1926).
dade de Einstein é que elas não funcionam Usando as equações da relatividade de Eins­
em um universo estático sem “falsificação”. tein, Friedmann apresentou um modelo
Como Einstein acreditava firmemente que matemático de um universo em expansão
o universo era estático, ele acrescentou uma em um trabalho publicado em 1922. Ele
“constante cosmológica” a suas equações morreu de febre tifoide no ano seguinte
para fazê-las funcionar. Mas os outros inter­ com apenas 37 anos, uma doença contraí­
pretaram suas equações de forma diferente. da enquanto ele estava de férias na Cri-
Um universo em expansão foi proposto pela meia, e seu trabalho foi desprezado. Eins­
primeira vez pelo cosmologista e matemáti­ tein foi um dos poucos a ler o trabalho de
Friedmann, mas
Os filósofos gregos estoicos no século III a.C. acreditavam que o uni­ rejeitou-o defini­
verso fosse como uma ilha cercada por um vazio infinito e estava em tivamente. Entre­
estado de fluxo constante. O universo estoico pulsa, mudando de ta­ tanto, Einstein foi
manho, e sofrendo grandes modificações e conflagrações periódicas. forçado a rejeitar
Todas as partes são interconectadas de modo que o que acontece em seu próprio mo­
algum lugar afeta o que acontece em toda parte, uma ideia espelhada delo anterior e
curiosamente no embaralhamento quântico (veja a página 1 35). abandonar a cons-

200
DE VOLTA AO INÍCIO

DESVIO PARA O VERMELHO


Se a luz de uma estrela é analisada usando-
-se a espectroscopia, seu espectro será visto
como "comprimido" para aos comprimen­
tos de onda azuis, como se movessem na
direção do observador (desvio para o azul),
e "esticado" para os comprimentos de onda
vermelhas, como se estivessem se afastando
(desvio para o vermelho). Isso é chamado
o efeito Doppler. Um efeito parecido ocor­
re com ondas sonoras; a sirene de um carro
de polícia terá um tom mais agudo quando
está mais próxima do ouvinte, pois as ondas
sonoras estão comprimidas, e um tom mais
grave quando se distancia, como se as ondas
sonoras se esticassem. O desvio para o ver­
melho observado pelo Hubble, no entanto,
não é resultado de um efeito Doppler causa­
do pelo movimento das estrelas das galáxias
(embora isso viesse a causar um desvio para As ondas de luz são desviadas para o extremo
o vermelho). Em vez disso, é resultado do es­ vermelho ou o azul do espectro dependendo de
paço entre nossa galáxia e galáxias distantes a fonte estar se movendo para o observador ou
que se estendem, e é assim que o universo se distanciando dele.
se expande. O comprimento de onda da luz
que atravessa aquele espaço estendido também é tracionado e estendido. A luz com um com­
primento de onda mais longo é mais vermelha, daí o desvio para o vermelho. É por isso que
a existência do desvio à direita é evidência para um universo em expansão. O desvio para o
vermelho de algumas galáxias distantes foi medido pela primeira vez pelo astrônomo ame­
ricano Vesto Slipher (1875-1969), e descrito em 1917. Mas foi Hubble que descobriu que o
desvio para o vermelho era universal e que as galáxias mais distantes eram as que recuavam
mais rapidamente. Ele publicou isso como a "Relação entre distância e velocidade radial entre
nebulosas extragaláticas".

tante cosmológica depois de evidências de se desviado para o extremo vermelho do


que Friedmann estava certo. espectro - o chamado “desvio para o ver­
O astrônomo americano Edwin Hubble melho” (veja o box acima). Esses achados
(1889-1953) demonstrou em 1929 que ga­ foram tomados como evidência de que, de
láxias distantes se afastavam de nossa região fato, o universo está se expandindo. Eins-
espacial em todas as direções. Hubble tinha tein então seguiu amplamente o modelo
analisado essas galáxias espectroscopica- de Friedmann, mas adotou a visão de que
mente e notou que seus espectros haviam o universo oscila entre a expansão, seguindo o

201
ESPAÇO-TEMPO CONTINUADO

Big Bang, e a contração, quando a gravidade fim (ou têm inícios e fins infinitos, depen­
puxa toda a matéria para dentro novamente, dendo de como você deseja olhar para isso).
resultando em um Big Crunch e uma singu­
laridade, que explodirá em outro Big Bang. D o ovo cósm ico ao B ig B a n g
O ciclo continua para sempre, mas como A moderna visão do universo passou a existir
o tempo é único no espaço, tanto o tempo com as teorias do padre e físico belga Geor-
quanto o espaço não têm nem começo nem ges Lemaitre (1894-1966), que expressou a

GEORGE GAMOW (1904-1968)


George Gamow nasceu em Odessa, no Im­ O trabalho de Gamow foi da mecânica
pério Russo, uma área que agora faz parte da quântica até a astronomia; ele desenvolveu
Ucrânia. Gamow foi um físico versátil e extre­ o modelo do átomo da "gota líquida", em
mamente bem-sucedido, com descobertas que o núcleo é considerado uma gota do
e hipóteses importantes. Seus pais fluido nuclear não comprimido,
eram professores, embora sua descreveu o interior das es­
mãe tivesse falecido quando trelas gigantes vermelhas,
Gamow tinha apenas nove resolveu o decaimento de
anos. Sua educação foi in­ partículas alfa e explicou
terrompida quando sua que 99% do universo é
escola foi bombardea­ composto de hidrogê­
da durante a Primeira nio e hélio por causa
Guerra Mundial, e como das reações ocorridas
consequência muito de no Big Bang. Ele previu
seu aprendizado foi como a existência da radiação
autodidata. Gamow traba­ cósmica de fundo em
lhou com alguns dos maio­ micro-ondas, formulando
res físicos europeus de seu a hipótese de que as remi­
tempo, entre eles Rutherford e niscências do Big Bang persis­
Bohr. Ele tentou escapar da União tiriam depois de bilhões de anos.
Soviética duas vezes, na primeira tentou Sua estimativa foi que haveria um resfria­
atravessar 250 km de caiaque pelo mar Ne­ mento para cerca de 5e acima do zero ab­
gro até a Turquia, e na segunda, atravessar soluto. Quando Penzias e Wilson descobri­
do Murmansk até a Noruega. Ambas as ten­ ram a CM BR (Cosnrtic Microwave Background
tativas foram frustradas pelo mau tempo. Ga­ Radiation — radiação cósmica de fundo em
mow acabou fugindo junto com sua esposa micro-ondas) em 1965 (veja o box na pági­
quando participaram da Solvay Physics Confe­ na seguinte), eles verificaram que a tempe­
rence na Bélgica em 1933, e se estabeleceram ratura, na verdade, tem 2,7 graus acima do
nos EUA em 1934. zero absoluto.

202
DO OVO CÓSMICO AO BIG BANG

a física de Lemaître, de­


UM PRÊMIO NOBEL POR ACASO
monstrando que o desvio
Em 1978, Arno Penzias e Robert Wilson compartilharam o para o vermelho na luz de
Prêmio Nobel de Física por descobrirem a radiação cósmica galáxias longínquas é pro­
de fundo em micro-ondas. De fato, eles não estavam procu­ porcional à sua distância
rando isso e não a reconheceram, no início, quando fizeram da Terra.
a descoberta. Penzias e Wilson estavam sintonizando uma
Apesar de seu sucesso, a
antena de micro-onda sensível no Bell Telephone Laborato­
teoria do “ovo cósmico” de
ries em Holmdel, New Jersey, para uso em astronomia de
Lemaître foi ridicularizada,
rádio quando detectaram uma interferência que estava afe­
mesmo por Eddington, que
tando seu trabalho. Eles não conseguiram se livrar dela. Era
defendia o modelo do uni­
constante e vinha de todas as partes do céu igualmente. De
verso expandido. O nome
fato, eles "tropeçaram" na radiação cósmica de fundo em
Big Bang originou-se com
micro-ondas (CMBR). Não tão distante, na Universidade de
Princeton, a equipe de Robert Dicke, Jim Peebles e David Wil-
um comentário sarcásti­
kinson estava construindo um equipamento para procurar co do astrônomo inglês
especificamente pela CMBR, e percebeu rapidamente o que Fred Hoyle (1915-2001)
Penzias e Wilson tinham descoberto. Ao ouvir a notícia, Dicke em 1949. Hoyle conti­
virou-se para os outros e disse: "Caras, fomos premiados". nuou a defender um mo­
delo de “estado estacio­
nário do universo” bem
visão de que o universo começou como um depois de se estabelecer um consenso geral
ponto infinitamente pequeno e denso - ago­ de que Lamaítre estava certo. Embora o
ra chamado singularidade, mas chamado por universo de Hoyle, descrito em 1948, se
Lemaître de átomo primevo ou “ovo cósmi­ expandisse, ele incluiu a inserção regular
co”. Um evento incalculavelmente forte que de novos materiais para manter a densi­
agora chamamos de Big Bang explodiu essa dade geral estável. O principal argumento
singularidade, transformando toda a maté­ contra a teoria do Big Bang foi que deve­
ria do universo e explodindo-o pelo espaço. ria haver certa energia de calor restante do
Lemaître apresentou sua ideia de um evento original que poderia ser detectável.
universo em expansão na Solvay Physics Con­ O físico George Gamow (veja o box na
feren ce na Bélgica em 1927, quando enun­ página 202) formulou a hipótese de que,
ciou pela primeira vez o que mais tarde se com a expansão do universo, essa ener­
tornaria a Lei de Hubble - que a velocidade gia de calor teria resfriado, passando para
de objetos distantes que se afastam da Ter­ a banda de micro-onda. A confirmação
ra é proporcional à sua distância da Terra. veio em 1965, com a descoberta acidental
Lemaître discutiu isso com Einstein na con­ da radiação cósmica de fundo em micro-
ferência, mas Einstein novamente rejeitou a -ondas (CMBR) por dois astrônomos de
teoria. Ele disse a Lemaître: “Seus cálculos rádio, Arno Penzias e Robert W ilson em
matemáticos estão corretos, mas seus con­ 1965 (veja o box acima). Com essa evidên­
ceitos de física são abomináveis!”. Entre­ cia, a maioria daqueles que discordavam
tanto, a descoberta de Hubble confirmou passou a aceitar o Big Bang.

203
ESPAÇO-TEMPO CONTINUADO

I %

Como o universo evoluiu desde


o Big Bang.

Q uantas estr ela s?


Os primeiros catálogos de
estrelas podiam listar ape­
nas aquelas visíveis a olho
nu. Com o aprimoramento
da tecnologia, primeiro com
o telescópio ocular e depois
com telescópio por rádio, o
número de estrelas detectá-
veis multiplicou-se de forma
contínua e exponencial. O
catálogo Draper (veja a pá­
gina 180) acabou listando 359.083 estrelas. de isótopos radioativos como o urânio-238
No entanto, o número estimado de estrelas e seus produtos de decaimento (nucleo-
no universo excede de longe qualquer ca­ cosmocronologia); medindo o índice de
tálogo e, assim como o universo, tende a se expansão do universo e calculando retroa­
expandir. Até o final de 2010, a estimativa ge­ tivamente para identificar quando ele deve
ralmente aceita era entre 1022 e 1024 estrelas. ter-se iniciado; e examinando aglomerados
Então uma equipe de pesquisa coordenada globulares de estrelas e deduzindo sua ida­
por Pieter van Dokkum no Observatório de de dos tipos de estrelas que eles contêm. O
Keck no Havaí descobriu em 2010 que pode dado mais exato para a idade do universo
haver três vezes mais estrelas do que o que atualmente é calculado como 13,7 bilhões
se pensava, por conta de uma proliferação de de anos. Baseia-se nos dados da Sonda de
estrelas anãs vermelhas invisíveis anterior­ Anisotropia de Micro-Ondas Wilkinson, da
mente (talvez 20 vezes mais que as estimati­ NASA, uma espaçonave que mede a radia­
vas anteriores em algumas galáxias). ção cósmica de fundo em micro-ondas.

O UNIVERSO OBSERVÁVEL
A explosão de uma supernova mostrada em
Agora temos várias formas de estimar a comprimentos de onda ótica (esquerda),
idade do universo: medindo a abundância ultravioleta (centro) e raio X (centro).

204
r
DO OVO CÓSMICO AO BIG BANG

O quasar mais distante


BIG BANGS
está em torno de 28 bilhões
de anos-luz de distância Até 2010, não havia evidência para sugerir que o Big Bang
(veja a página 190) e pode pudesse ter sido um em um ciclo de universos em expan­
parecer impossível se o uni­ são e contração, mas então Sir Roger Penrose (1931-) e
verso tiver apenas 13,7 bi­ Vahe Gurzadyan (1955-) descobriram círculos concêntricos
lhões de anos. A anomalia claros dentro da radiação cósmica de fundo em micro-
-ondas, o que sugere que as regiões de radiação têm uma
é atribuída à expansão do
temperatura muito menor que em outro lugar. Isto, ale­
espaço-tempo entre a Terra
gam eles, sugere um Big Bang anterior, mais antigo, pre­
e o quasar. A luz que ago­
servado como um tipo de fóssil no CMBR.
ra recebemos do quasar foi
emitida talvez a 12,7 bilhões
de anos-luz atrás, quando
o quasar estava mais próximo da Terra, mas T u d o m o n t a n h a a b a i x o a p a r t ir d a q u i
como o espaço entre os dois aumentou desde Nosso próprio Sol está aproximadamente
então, o quasar agora está muito mais afasta­ na metade do caminho de sua vida provável.
do. Embora nem a luz nem o corpo possam Pode-se esperar que ainda dure uns poucos
viajar pelo espaço a velocidades maiores que bilhões de anos antes de seguir o padrão ob­
a velocidade da luz, o tempo-espaço pode se servado em outra parte do universo, de expan­
expandir a qualquer taxa. E pensado que o dir-se em um gigante vermelho para depois
universo observável (que teoricamente pode­ entrar em colapso e tornar-se uma anã bran­
ria ser observado se tivéssemos a tecnologia ca, e finalmente esfriar cada vez mais.
certa) tem em torno de 93 bilhões de anos- Embora seja evidente que não estare­
-luz. Isso não coloca um limite ao tamanho mos aqui para testemunhar isso, o fim do
do universo todo. Além dele, pode haver universo - se ocorrer - preocupa alguns
matéria que agora está separada da Terra por cosmologistas. Ele se expandirá continua­
tanto espaço interveniente que sua luz ainda mente até se tornar um caldo ralo de ma­
não chegou até nós. téria dispersa, deixando de funcionar coe­
rentemente como sistemas planetários? Ou
Q u a n t o s u n iv e r s o s ? será sugado de volta em um Big Crunch,
Embora a palavra “universo” signifique pronto para explodir novamente em um
que existe apenas um, alguns cientistas su­ novo Big Bang? Nesse caso, este ciclo pode
geriram que existe, de fato, um multiverso, ser eterno (embora a palavra não tenha sig­
em que nosso próprio universo é apenas nificado em um sistema em que o tempo,
um entre muitos. Os físicos teóricos Hugh juntamente com o espaço, é esmagado e re­
Everett III e Bryce DeWitt (1923-2004) criado para iniciar do zero). O começo e o
sugeriram um modelo de “muitos mundos” fim do universo são realmente as fronteiras
nas décadas de 1960 e 1970, e o físico russo- da ciência, áreas que exploramos com ló­
-americano Andrei Linde (1948-) descreveu gica e matemática - mas mesmo aqui exis­
em 1983 um modelo em que nosso universo tem métodos experimentais que ajudarão
é um de muitas “bolhas” formadas em um a aprimorar nossas teorias à medida que
multiverso sujeito a inflação eterna. moldarmos a física do futuro.

205
CAPÍTULO 8

FÍSICA
para o futuro

Quando em 1874 Max Planck disse que queria se


especializar em física, seu orientador aconselhou-o
a escolher uma disciplina diferente, pois não havia
nada para descobrir nas ciências físicas. Felizmente,
Planck ignorou o conselho. Ainda há, quase 150 anos
depois, muito a ser descoberto na Física. Não conse­
guimos reconciliar a gravidade e a mecânica quânti­
ca; não podemos explicar a maior parte da massa do
universo; existem partículas que não podemos de­
tectar, mas suspeitamos que estejam em algum lugar
para serem encontradas; não podemos explicar bem
o que é energia e não sabemos qual será o destino
de nosso universo; ou se ele é o único ou apenas um
entre muitos. Estas são algumas das questões pron­
tas para serem abordadas pelos físicos do futuro, que
ainda estão em nossas salas de aula e auditórios de
universidades.

Aplicações práticas da física aproveitam as leis naturais do


universo para novas tecnologias.
■ 1

1FÍSICA PARA O FUTURO

M |

D e sc a rta n d o tu d o e por refletir ou emitir luz, responde apenas


c o m e ça n d o de n ovo por uma quantidade ínfima do que se sabe
No século XX, houve na física uma rea­ existir nele, cerca de 4%. O termo “matéria
valiação fundamental de grande parte do escura” foi cunhado para descrever matéria
conhecimento alcançado anteriormente, que sabemos existir, mas não conseguimos
combinando espaço e tempo no continuum ver. A ideia de matéria escura foi proposta
espaço-tempo, substituindo certezas por pela primeira vez pelo astrônomo búlgaro-
incertezas e probabilidades, transformando -suíço Fritz Zwicky (1898-1974) em 1933.
partículas e ondas em dualidades ondas- Zwicky aplicou cálculos derivados das
-partículas, e introduzindo outras ideias teorias da relatividade de Einstein a inte­
que, embora bizarras, não podem ser rejei­ rações gravitacionais observadas no aglo­
tadas. De fato, as novas teorias não revolu­ merado de galáxias Coma, e descobriu que
cionaram tanto o conhecimento alcançado o aglomerado deve conter massa centenas
anteriormente, mas o ampliaram. Contudo, de vezes maior do que a luminosidade geral
o conhecimento ampliado não responde por poderia sugerir. Ele propôs que o restante
tudo, e deve ser incorporado em um con­ seria composto de matéria escura.
junto de teorias ou modelos que explique Então, o que é essa substância misterio­
tudo o que foi descoberto até agora, além sa? A teoria atual mais aceita divide a matéria
daquilo que ainda não tem explicação. escura em matéria bariônica e não bariô-
nica. Matéria bariônica é matéria comum
Isto é tu d o ?
Parece um fracasso
para a Física, mas um
dos maiores problemas
remanescentes é como
explicar os 96% da den­
sidade de massa-energia
do universo. O univer­
so que podemos ver,

Um anel de matéria
escura formado pela
colisão de duas galáxias,
fotografado pelo
telescópio Hubble em
2004.

208
DESCARTANDO TUDO E COMEÇANDO DE NOVO

composta de prótons e nêutrons e outros.


Todos esses objetos visíveis no universo de­
vem emitir ou refletir luz. Isso pode parecer
bastante óbvio, mas é muito significativo. Se
um planeta vagueia onde não está ilumina­
do por qualquer estrela, ou se uma estrela se Matéria não
luminosa 3,6%
apaga, ela não pode mais ser vista. A matéria Matéria luminosa 0,4%
escura bariônica provavelmente é compos­
ta de matéria invisível, como nuvens de gás,
estrelas esgotadas e planetas não ilumina­ trinos (veja a página 145), mas ainda existe
dos. Estes são chamados Objetos com Halo espaço para outras partículas não descober­
Compacto e Grande Massa (MACHOs, do tas e hipotéticas como áxions e até mesmo
inglês M assive Compact Halo Objects). A pre­ partículas exóticas hipotéticas.
sença de MACHOs pode ser inferida dos
efeitos gravitacionais que eles têm; eles fo­ E n e r g ia e s c u r a
ram encontrados pela primeira vez na Via Se foi difícil aceitar a existência de maté­
Láctea em 2000. ria escura, os cosmologistas devem ter tido
Porém não existem MACHOs suficien­ um choque muito maior quando os resul­
tes para suprir toda a matéria escura. Acre­ tados do Supernova Cosmology Project foram
dita-se que a maior parte da matéria escura anunciados em 1999. Esse estudo tinha
abranja Partículas Maciças Fracamente In- examinado supernovas Tipo la, um tipo de
teragentes (WIMPs, do inglês Weakly Inte­ estrela explosiva cuja massa e luminosida­
ractive M assive Particles). Essas partículas de são conhecidas e, portanto, cujo desvio
são, por definição, difíceis de encontrar, para o vermelho (veja a página 201) pode
pois elas não interagem com outras matérias ser calculado com exatidão. Os achados do
através de forças eletromagnéticas. Parte da projeto revelaram que o universo não esta­
matéria escura pode ser decorrente dos neu- va se expandindo a uma taxa contínua nem
descrescente, como se tinha suposto, mas
acelerada. Essa aceleração desde então foi
METEORITOS ARTIFICIAIS confirmada por outras pesquisas, inclusive
Fritz Zwicky adotou uma abordagem não estudos detalhados de radiação cósmica de
convencional e inovadora à astronomia, e fundo em micro-ondas. Para explicar esse
muitas de suas ideias (inclusive a matéria fenômeno, os cientistas cunharam um novo
escura) não foram levadas a sério por seus termo - energia escura.
contemporâneos. Em outubro de 1957, Mesmo com MACHOs e W IMPs, o
Zwicky disparou balas de metal do nariz orçamento de massa-energia do universo
do foguete Aerobee, criando meteoritos acusa um déficit acentuado. Atualmente
artificiais que podiam ser vistos do obser­ se estima que quase três quartos (por vol­
vatório de Mount Palomar. Uma das balas ta de 74%) da massa-energia do universo
teria escapado do campo gravitadonal da responde pela misteriosa energia escura,
Terra sendo o primeiro objeto feito pelo sendo que a matéria escura corresponde
homem a entrar na órbita solar. a grande parte do resto. Considera-se que

209
FÍSICA PARA O FUTURO

a força da gravidade. Einstein mais tar­


"O universo é formado em grande parte de
de abandonou a ideia, mas agora ela está
matéria escura e energia escura, mas não
sendo retomada para explicar esses novos
sabemos qual delas é."
achados.
Saul Perlmutter, do Supernova Cosmology
Uma teoria é que a constante cosmoló-
Project, 1999.
gica age como antigravidade, evitando que
a gravidade puxe o universo para si mes­
a energia escura tem forte pressão nega­ mo. A força da constante cosmológica no
tiva e, portanto, responde pela expansão momento é considerada como um pouco
acelerada do universo. Ela provavelmente maior que a força da gravidade, mas não
é homogênea, não muito densa, mas está se sabe se ela foi sempre a mesma ou será
presente em toda parte que seria conside­ sempre a mesma, nem se é realmente uma
rada espaço vazio. Uma concorrente pelo constante. Nem todos os cosmologistas
título de energia escura é a constante cos- aceitam a ideia de uma constante cosmoló­
mológica, originalmente adicionada por gica e apresentaram outras ideias até mes­
Einstein como um artifício nas equações mo esotéricas como a “teoria das cordas”
gerais de relatividade para explicar por (veja a página 213). No entanto, nenhuma
que o universo não entra em colapso sob evidência convincente foi encontrada para
fazer qualquer teoria particular parecer al­
Como parece o Universo desde o Big Bang. tamente provável.

210
Simulação da criação e decaimento de um
bóson de Higgs; ele produz dois jatos de
hádrons e dois elétrons.

O n de m ais p ro cu rar pela


m a té ria ?
O modelo padrão da matéria é que os áto­
mos são formados por partículas compostas
como nêutrons e prótons, e que estes são
formados de partículas elementares como
quarks (veja a página 143). Há teorias sobre
todo um conjunto de outras partículas cuja
existência ainda não foi comprovada - ou
que podem não existir mais. Explorar essas
partículas experimentalmente, e não como
modelo matemático, é tarefa complexa e ticas são desaceleradas mais que outras ao
onerosa, exigindo equipamentos altamen­ se moverem por ele. A desaceleração de
te sofisticados, principalmente pelo fato de uma partícula confere efetivamente massa a
muitas terem uma duração muito pequena. ela. Os fótons não são inibidos pelo campo e
O bóson de Higgs postulado (ou partí­ têm muito pouca massa, mas os bósons W e
cula “Deus”) é a única partícula elementar Z são consideravelmente desacelerados pelo
prevista pelo modelo padrão de matéria campo, e, portanto, têm massa significativa.
que ainda não foi detectada. Considera-se que O campo de Higgs é mediado pelo bóson de
ele confere massa à matéria, e foi sugerido Higgs. Se a existência do bóson de Higgs
pela primeira vez pelo físico teórico inglês pudesse ser comprovada, o modelo padrão
Peter Higgs (1929-) em 1964. estaria completo.
Para entender isso, é necessário examinar No entanto, como procuramos por tal
por um instante as partículas que mediam as partícula? Os físicos atualmente estão ten­
quatro forças fundamentais: o eletromagne- tando explodir uma partícula e torná-la vi­
tismo é mediado praticamente por fótons sem sível usando enormes aceleradores de par­
massa; os glúons ligam quarks pela forte for­ tículas como o Grande Colisor de Hádron
ça nuclear; e os bósons W e Z carregam força (Large Hadron Collider - LHC, ) do CERN,
nuclear fraca e são muito pesados, falando em que funciona em um túnel subterrâneo em
termos relativos - cerca de 10 vezes a massa Genebra, e no Tevatron de Fermilab, próxi­
de um fóton. O problema para os físicos é ex­ mo de Chicago. A existência do quark “top”
plicar a diferença na massa dessas partículas foi confirmada no Fermilab em 1995. Es­
mediadoras de forças. A solução é um modelo ses aceleradores disparam feixes de partícu­
que tenha algumas das partículas se deslocan­ las a uma velocidade extremamente alta em
do lentamente nesse melaço cósmico. direções opostas em torno de um círculo,
O campo de Higgs é algo como um cam­ de modo a provocar colisões entre elas. O
po de força pelo qual a matéria tem de se LHC é a maior dessas máquinas, com um
mover no espaço. Algumas partículas quân­ túnel circular de 27 km de circunferência. O

211
Stephen Hawking em gravidade zero a bordo de
um Boeing 727 modificado. reunindo a gravidade e a mecânica quântica
em um conjunto abrangente de equações.
LHC dispara feixes de prótons 11 meses do Anaxágoras poderia ter dito o mesmo. Ele
ano, e íons de chumbo um mês por ano. queria encontrar uma única explicação para o
Os feixes de prótons são acelerados a 3 m/s movimento e a mudança de estado que ocorre
da velocidade da luz e disparados em raja­ no mundo físico. Ele insistiu que essa expfíca­
das de modo que as colisões não aconteçam ção não deveria ter qualquer componente su­
continuamente, mas sempre em intervalos persticioso ou divino e deveria ser totalmen­
de pelo menos 25 nanossegundos. te lógica. A mente cósmica, no modelo dele,
Um próton acelerado leva apenas 90 pesquisada constantemente, regulava e con­
microssegundos para completar um circui­ trolava as mudanças infinitas que ocorriam
to do túnel colisor - o equivalente a 11.000 para certificar-se de que elas estavam todas
circuitos por segundo. O programa de pes­ sob controle. O que ele queria dizer era que
quisa no LHC começou em 2010. havia uma lei, que ele não tinha descoberto
Os físicos esperam que, se o modelo pa­ nem explicado, que controlava o fluxo de toda
drão estiver correto, um bóson de Higgs matéria. Esta era uma expfícação insatisfató­
será produzido a cada poucas horas; será ria, como observaram seus sucessores, mas
necessário obter dados de dois ou três anos não muito diferente das crenças de Einstein e
para confirmar que isso aconteceu. Hawking de que deve haver uma teoria única
e que podemos descobri-la. No final de sua
S e p a r a n d o o jo io d o t r i g o ? vida, Einstein reconheceu que ele não con­
Einstein lutou - e fracassou - para encontrar seguiria fazer isso, e que deveria deixar esse
uma teoria unificadora que explicasse tudo, trabalho para outros cientistas. Isso ainda não

212
ONDE MAIS PROCURAR PELA MATÉRIA?

foi realizado, e o abismo entre a teoria quân­


"Teoria-M é uma teoria unificada que Eins-
tica e a teoria geral da relatividade - apesar
tein estava esperando encontrar... Se a teo­
de evidências experimentais de que ambas es­
ria for confirmada pela observação, isso será
tão corretas - continua sendo um importante
a conclusão bem-sucedida de uma busca
enigma para os físicos.
que começou há mais de 3000 anos. Nós
Uma abordagem a esse problema foi o
teremos encontrado o grande design."
desenvolvimento da teoria das cordas. No Stephen Hawkíng, The Grand
entanto, ainda não é uma teoria coerente, Design, 2010.
não pode ser testada e pode não ser am­
plamente aceita, mas procura unir a teoria
quântica e a teoria geral da relatividade for­ A teoria-M é um desenvolvimento da
necendo uma descrição mais aprofundada teoria das cordas que leva hipóteses da fí­
de ambas. Na teoria das cordas, todas as sica a novas fronteiras. A adição de uma Ia
partículas subatômicas são fragmentos mi­ dimensão é sua contribuição mais modesta.
núsculos de corda, com extremidades aber­ Para cordas vibrantes, ela adiciona partícu­
tas ou em laço, que vibram em muitas di­ las pontos, membranas bidimensionais, for­
mensões. A diferença entre as partículas não matos e entidades tridimensionais em mais
vem de sua composição, que é a mesma, mas dimensões que são impossíveis de visualizar
da harmonia de suas vibrações. E essas vi­ (p-branas, onde p é um número no inter­
brações não ocorrem apenas nas três dimen­ valo de zero a nove). O modo como os es­
sões de espaço e uma de tempo com a qual paços internos são dobrados determina os
estamos familiarizados, mas em dez dimen­ aspectos que consideramos leis imutáveis
sões. Algumas delas podem ser enroladas em do universo - tal como a carga sobre um
si mesmas ou durar apenas um tempo muito elétron ou como a gravidade funciona. A
breve, de modo que não as percebemos. A teoria-M, portanto, permite diferentes uni­
teoria das cordas é altamente especulativa, e versos com leis diferentes - até 10500 delas,
mesmo seus proponentes têm versões muito de fato. Não existem fórmulas da teoria-M,
diferentes dela. como também não existe consenso sobre
o que ela seja - uma única teoria, uma rede
de teorias conectadas, ou alguma coisa que
muda de acordo com as circunstâncias? Nin­
guém tem certeza do que representa M. O
que Anaxágoras chamou de mente (nous) e
Einstein chamou de teoria do campo unifica­
do pode agora ser chamado de teoria-M, mas
não estamos muito mais próximos de saber a
resposta - ainda há muito a se fazer na Física.

O aglomerado de estrelas Messier 73, observado


por Halley: "Este é nada mais que uma pequena
mancha, mas ele é visto a olho nu quando o céu
está sereno e a Lua, ausente".

21 3
1
■ INDICE

Índice
Abhaya, Rei, 74 Aston, Francis 186
Academia de Experimento 21 astrolábio 161
Académie des Sciences 22 astronomia veja também continuum espaço-
Alberto da Saxônia 78-79 -tempo
al-Biruni, Abu Rayhan 19, 160, 162 e brilho das estrelas 184-185
al-Farisi, Kamal al-Din 48 e cometas 176-179
al-Ghazali 33 e energia nas estrelas 185-186
al-Haytham, Ibn al-Hassan Ibn 18-19, 27- e espectroscopia 180-182
28, 49, 67, 160 e Galileu 171-174, 175-176
Alhazen 18-19, 47-48, 49 e modelo copernicano 165-164, 170
al-Khwarizimi, Muhammed ibn Musa 159- e modelo ptolomaico 157, 163, 164, 166
160 e na índia 157, 158
al-Marwazi, Habash al-Hasib 160 e pulsares 190, 191
alquimia 35, 36 e quasares 190
Al-Rahwi 19 e radioastronomia 186-190
al-Shirazi, Quth al-Din 48 e Tycho Brhae 165-166, 167
al-Suíi, Abd al-Rahman 160 e uso do telescópio 169-170, 171-172,
Amontons, Guillaume 103 175-176, 183
Ampère, André-Marie 101, 111 e Via Láctea 184
Analytical Mechanics (Lagrange) 90 instrumentos na 176-177, 182-184
Anaxágoras 26-28, 29, 70, 87, 199 na China 153
Anaximander 17 na Grécia Antiga 154-157
Anderson, Carl 145 na Mesopotâmia 153-154, 161
antimatéria 144-145 no mundo árabe 158-160, 162
Aquino, Tomás 78 no período pré-histórico 152
Aristarco 154-155 visão da supernova 162-163
Aristóteles 18, 199 átomos
e ideias da matéria 30, 31-32 decaimento 138, 139-140
e ideias de mecânica 75-76, 77 descrição de 29
e ideias de tempo 194 discussão sobre a existência de 35
e método científico 2 3 e antimatéria 144-145
e velocidade da luz 67 e compostos 41-42
influência na Europa medieval 20, 30, 50 e corpuscularianismo 35
Arkwright, Thomas 90 e elementos 39-42
Arquimedes 76 e elétrons 122, 124-126, 128, 129, 130-
Arrhenius, Svante August 109, 112 133
Aryabhatiya 158 e fissão nuclear 141-142
INDICE

e Interpretação de Copenhagen 134-137 Brahe, Tycho 161, 165-166, 167


e mecânica quântica 43, 126-139, 143- Brahmagupta 158
147, 149 Brentano, Franz 43
e neutrinos 137, 145-147 Broglie, Louis-Victor de 128, 129
e nêutrons 137-139 Brown, Robert 42
e partícula bóson de Higgs 147, 149, 210 Browne, Thomas 107
e termodinâmica 42-43 Brueghel, o Velho, Jan 25, 73
força sobre 138-139 Bruno, Giordano 170
ideias de estrutura de Bohr 124-126 buracos negros 197
ideias do mundo árabe 33-34 Buridan, Jean 78, 79, 163
ideias do século 17 dos 36-39 Burnell, Jocelyn Bell 191
ideias dos gregos na Antiguidade 28-32
ideias hindu dos 32-33 Calculadores de Oxford 80
modelo do pudim de passas 122-124 calor
Aubrey, John 20, 37, 54, 58 e ideias de fogo 95-96
Agostinho, Santo 196 eluz 103-105
Averroes 34, 78 e modelo mecânico 98, 99-100
Avicenna 19, 67, 77-78 e termodinâmica 98-103
Avogadro, Amedeo 42 e zero absoluto 102-103
modelo calórico 98-99, 101
Bacon, Francis 20, 67 camera escura 49
Bacon, Roger 19-20, 48, 50-51, 67 Cannon, Annie Jump 180, 181-182
Baliani, Batista 87 Carnot, Nicolas Sadi 101-103
Becher, Johann 95 Cassini, Giovanni 167-168, 176
Becquerel, Alexandre 63, 116-117, 118, 139 Cavendish, Henry 108
Beeckman, Isaac 81 Cefeidas 183-184
Benjamin Thompson, Conde de Rumford Céres e os Quatro Elementos (Brueghel o Ve­
99 lho) 24-25
Bernoulli, Daniel 88-89, 98 Cesi, Federico 21, 22
Berti, Gasparo 87 Chadwick, James 137-138, 140, 145
Bessel, Friedrich 182 Châtelet, Émilie Du 95, 97
Bevis,John 163 China
Bhaskara 95 astronomia na 15 3
Bohr, Niels 124-126, 127, 135, 148 e ideias de magnetismo 110
Boltzmann, Ludwig 43, 124 mecânica na 75
Bonaparte, Napoleão 23 Clausius, Rudolf 100, 101
Book o f Bodies and Distances (al-Marwazi) 160 cometa Halley 178-179
Book o f the D evil Valley M aster 110 cometas 186-189
Bothe, Walter 137 compostos 41-42
Boyle, Robert 21, 22, 35, 37, 39, 59, 103 constante de Planck 128-129
Bradley, James 69 continuum espaço-tempo veja também as­
Brady, Nicholas 39 tronomia
1 ■ ín d ic e

â
e buracos negros 197 Discursos e Demonstrações M atemáticas a Res­
e desvio para o vermelho 201 peito de Duas Novas Ciências (Galileu) 174
e energia escura 208-209 Dokkum, Pieter van 204
e multiversos 205 Draper Catalogue of Stellar Spectra 180,
e número de estrelas 203-205 181-182
e origens do universo 199-200 Draper Henry 180
e teoria da relatividade 196, 198 Dresden Codex 162
e teoria do Big Bang 202-203, 205 Du Shi 75
e universo em expansão 200-202 dualidade da onda-partícula 127-137
e velocidade da luz 198-199
Copérnico, Nicolau 163-164 Eck, Johannes 21
Coriolis, Gustave-Gaspard de 105-106 Eddington, Arthur 70-71, 185, 186
corpuscularianismo 35, 57-58 Edison, Thomas 186
Cowan, Clyde 145-146 efeito fotoelétrico 62, 63
Curie, Marie 117-118, 119 Einstein, Albert 131
Curie, Pierre 118, 119 e a direção da luz 70
e a dualidade da onda-partícula 129-130
Dalton, John 41-42, 103, 122 e a expansão do universo 200-201
Davy, Humphry 98, 99, 106 e a Interpretação de Copenhagen 135-
De aspectibus (Sobre a perspectiva) (al- 137
-Haytham) 47 e a teoria da relatividade 196-198
De magnete (Gilbert) 110, 155 e a teoria do Big Bang 202
De Nova Stella (Brahe) 166 e a teoria unificada 212
Dee, John 170 e a velocidade da luz 70
Demócrito 19, 28, 29, 31, 199 e eletromagnetismo 203
Desaulx, J. 42 e o efeito fotoelétrico 62, 63
Descartes, René e o éter 32
descreve o universo 200 e o método científico 23
e geometria cartesiana 55 e o movimento das moléculas 42-43
e ideias de matéria 32, 35, 37-38 e o paradoxo EPR 135-137
e ideias de mecânica 81, 82 e o Projeto Manhattan 142
e ideias de ótica 52, 53-54 elementos 39-42
e velocidade da luz 67, 70 eletricidade 106-111
desvio para o vermelho 201 eletromagnetismo 61-62, 111-114
DeWitt, Bryce 205 elétrons 122, 124-126, 128, 129, 130-133
Dialogue of the Two Chief World Systems Empédocles 30, 31, 46, 57, 67, 95
(Galileu) 173-174 empirismo 36
Dicke, Robert 203 energia cinética 106
Digges, Leonard 53, 169-170 energia escura 209-210
Digges, Thomas 169-170 energia potencial 106
dinâmica 77-82, 84 energia
Dirac, Paul 132-133, 144-145 conservação da 94
ÍNDICE

conversão da 94-95, 99 Filopono, João 77


e calor 95-96 física
e eletricidade 106-111 descrição da 16-17
e eletromagnetismo 61-62,71, 111-114 e crescimento de sociedades científicas
e energia cinética 106 21-23
e energia potencial 106 e ideias da Grécia Antiga de, 17-18
e magnetismo 110-111 ideias do mundo árabe sobre 18-19
e movimento perpétuo 95 ideias sob re na Europa medieval 19-20
e radiação 116-119 fissão nuclear 141-142
e raios-X 114-115, 116-117 Fizeau, Elippolyte 69
e termodinâmica 98-103 Flammarion, Camille 179
energia escura 209-210 Flamsteed, John 174-175
Epicuro 28-29 Fleming, Williamina 180-181
esfera armilar 161 flogisto 95-96
espectroscopia 180-182 fogo 95-96
Estrelas Foucault, Léon 69-70
brilho das 184-185 Franklin, Benjamin 107-108, 109
Cefeidas 183-184 frascos de Leyden 107
distâncias das 182-184 Fresnel, Augustin-Jean 60-61
e espectroscopia 180-182, 201 Friedmann, Alexander 200-201
energia nas 185-186 Fujiwara, Sadiae 163
número de 203-205
éter 31, 32, 53-54, 57, 62-66 Galilei, Galileu 83
Euclides 46 conflito com a igreja 172-174
Euler, Leonard 90 descreve a física 16
Europa medieval e experimento com bola 81-82
e ideias da luz 48-51 e ideias de mecânica 81-82, 87
e ideias de matéria 31, 34-35 e medida do tempo 194
e ideias de mecânica 80 e método científico 20-21
física na 19-20 e uso do telescópio 51, 53, 83, 171-172
influência de Aristóteles na 20, 34, 50 e velocidade da luz 67
EverettlII, Elugh 135, 205 membro da Lyncean Academy 21
Exner, Felix Maria 42 Galileo (espaçonave) 170
experiment dcom bola 81-82 Galvani, Luigi 109
Gamow, George 202, 203
Fabricius, Johann 172 Gan De 171
Faraday, Michael 61, 100, 111, 112, 114, Gassendi, Pierre 35, 57, 84, 166
115 Gay-Lussac, Joseph Louis 101, 103
Fay, Charles du 109 Geber 19
Fermat, Pierre de 70 Geiger, Hans 122
Ferni, Enrico 140, 141, 142, 145 Gell-Mann, M urray 144
Feymann, Richard 94, 143, 147, 148 geometria cartesiana 55
1
■ INDICE

Gilbert, W illiam 110-111, 155 e Micrographia 21, 22, 56-57


glúons 143 e microscopia 56-57
Gouy, Louis Georges 42 Horrocks, Jeremiah 177
Gravesande, W illem 95 Hoyle, Fred 203
gravidade 85, 169 Hubble, Edwin 184, 201, 203
Gray, Stephen 108-109 Hubble, telescópio especial 183
Grécia Antiga Huygens, Christiaan 53
astronomia na 154-157 constrói relógio de pêndulo 194
e ideias da matéria 33-34 e ideias da luz 58, 60, 67, 68
e ideias de átomos 28-32 e uso do telescópio 175-176
e ideias de luz 46-47
e ideias de mecânica 84 Idade da Razão, A 35
física na 17-18 ímpeto 77, 80
Grosseteste, Richard 48-50 índia
Guericke, Otto von 37, 41, 107 astronomia na 157, 158
Gurzadyan, Vahe 205 e ideias da luz 46
e ideias dos átomos 32-33
Halley, Edmund 174, 175, 176-178 índice de refração negativa 69
Hamilton, Sir W illiam Rowan 90, 91 inércia 82, 84
Hargreaves, James 89-90 Interpretação de Copenhagen 134-137
Harriot, Thomas 172
Hartsoeker, Nicolaas 38-39 Jansky, Karl 188-189
Hawking, Stephen 43, 212, 213 Joliot-Curie, Frédéric 136, 137, 141, 142
Heaviside, Oliver 188 Joliot-Curie, Irène 136, 137, 141
Heisenberg, Thomas 182 Joule, James Prescott 99, 100, 103
Henry, Joseph 111-112, 113
Heron de Alexandria 46-47, 87 Kanada (Kashyapa) 32, 33
Hertz, Heinrich 43, 114, 117 Karlsruhe Tritium Neutrino Experiment
Hertzsprung, Ejnar 183, 184-185 (KATRIN) 147
Hertzsprung-Russell, diagram 184, 185 Kelvin, Lord 64, 100, 103
Hewish, Antony 189 Kennely, Edwin 188
Hey, James 189 Kepler, Johannes 51-52, 78, 83, 85, 167-169
Hidrodinâmica (Bernoulli) 88, 98 Kleist, Georg von 107
Higgs, Peter 211
Hiparco 77, 155-156 Lagrange, Joseph-Louis 41, 90
Hipocrates 30 Lambert, Heinrich 103
Hittorf, Johann Wilhelm 114 Laplace, Pierre Simon 86, 103, 197
homeomerias 29 Lattes, César 138
Hooke, Robert 21, 22, 59, 174, 194 Lavoisier, Antoine 26, 39-41, 96, 98-99, 103
e astronomia 182 Leavitt, Henrietta Swan 181, 183
e ideias da luz 182 Leeuwenhoek, Antonie van 53
e Isaac Newton 56-57, 59 lei de Ohm, 109-110
ÍNDICE

Lei de Snell 70 Maxwell, James Clerk 32, 61-62, 100, 102-


Leibnitz, Gottfried 86, 95 103, 107, 167
Leigh, David 102 mecânica celestial 85-86, 81
Lemaître, Georges 202-203 mecânica dos fluidos 86-89, 90
lentes 53 mecânica quântica 43, 126-139, 143-147,
Lencipo 28-29, 199 149
Lodge, Sir Oliver 186-187 mecânica
Lorentz, Hendrik 32 e Calculadores de Oxford 80
Luz veja também ótica e dinâmica 77-82, 84
como linha reta 70-71 e Galileu 81-82
desenvolvimento da teoria das ondas 58- e ímpeto 77-80
62 e Isaac Newton 84-85
dualidade onda-partícula 127-137 e Revolução Industrial 89-90
e calor 103-105 e velocidade 80
e efeito fotoelétrico, 52, 63 experimento do túnel 79-80
e éter 53-54, 57, 62-66 ideias sobre a, no mundo árabe 84
e fótons 62, 63 ideias sobre no século 16 e 17 80-82
e ideias hindus da 46 ideias sobre, no século 18 e 19 90-91
e radiação eletromagnética 61-62, 71 inércia 82, 84
ideias de Isaac Newton sobre 57-58 mecânica celeste 86-89, 91
ideias do mundo árabe da 47-48 mecânica dos fluidos 76-89, 90
ideias do século 16 e 17 sobre 51-54 mecânica estática 78
velocidade da 67-70, 198-199 momentum 82, 84
Lyncean Academy 21-22, 104 na China 75
na Grécia Antiga 75-77, 78
Mach, Ernst 91 na Mesopotâmia 74-75
Magiae naturalis (della Porta) 104 no Sri Lanka 74
Maias 162 Mendeleev, Dmitri 40
Manhattan Project 142 Mersenne, Marin 67
Marrison, Warren 194 mésons 138
massa, conservação da 26, 40 Mesopotâmia 74-75, 153-154, 161
matéria escura 208-209 método científico 18, 19, 20, 21, 23, 36, 49
matéria Michell, John 197
e Anaxágoras 26-28, 29 Michelson, Albert 64-66
e atomismo 28-34 M icrographia (Hooke) 22, 56-57, 59
e teoria elementar 30-31 M ill, John Stuart 52
ideias da Europa medieval sobre 31, 34- modelo atômico pudim de passas 122-124
35 momentum 82, 84
ideias do mundo árabe da 33-34 Morley, Edward 64-66
ideias dos gregos antigos da 26-32 movimento perpétuo 86
ideias hindus da 32-33 movimento veja mecânica
Maury, Antonia 181 Muller, Johannes 163
ÍNDICE

multiversos 205 ideias de René Descartes sobre 52, 53-54


Mundo árabe Oresme, Nicole 196
astronomia no 158-160, 162 Orsted, Christian 111
e ideias da matéria 33-34 Otica (Bacon) 50
e ideias de luz 47-48
e ideias de mecânica 84 Panzias, Arno 203
física no 18-19 Papa Alexandre 54
Musschenbroek, Pieter van 107 paradoxo EPR 135-137
Parakrambahu, Rei 74
Nagaoka, Hantaro 124 paralaxe 181, 182, 183
Nernst, Walther 102 Parmênides 26, 31
neutrinos 137, 145-147 partícula bóson de Higgs 147, 149, 210-212
nêutrons 137-139 partículas subatômicas veja mecânica quân­
New Experiments and Observations Touching tica
Cold (Boyle) 103 pártons 143-144
Newton, Isaac 86 Pascal, Blaise 88
descreve o universo 200 Pauli, Wolfgang 137, 145, 146
e astronomia 174, 175, 176 Peebles, Jim 203
e corpuscularianismo 35 pêndulo de Foucault 23
e eletricidade 107 Penrose, Sir Roger 205
e gravidade 85, 169 Perlmutter, Saul 210
e ideias de átomos 38, 41 Perrin, Jean 43, 122
e ideias de luz 57-58, 68-69 Philosophical Transactions 22
e ideias de mecânica 84-86 Pickering, Edward 180-181
e ideias de optica 54-57 Pingzbau Table Talks (Zhy Yu) 110
e ideias de tempo 195 Pitágoras 17, 154
e leis de movimento 84-85 Planck, Max 62, 63, 106
e raciocínio dedutivo e indutivo 18 e mecânica quântica 126
e Robert Hooke 56-57, 59 e radiação do corpo negro 126
Nicholas de Autrecourt 34-35 Platão 18
Nordman, Charles 187 e ideias dos átomos 28, 30, 31
e ideias da luz 46
O Novo Organon das Ciências (Bacon) 20 e ideias do tempo 194
Observatório Real 174 Plínio, o Velho 5 3
Occhialini, Giuseppe 128-129 Podolsky, Boris 135
Ohm, Georg 109 Poisson, Siméon-Denis 101
On a G eneral M ethod in Dynamics (Hamil­ Porta, Giambattista della 21, 104
ton) 90 positron 145
óptica veja também luz Powell, Cecil 138
e desenvolvimento de lentes 5 3 Prévost, Pierre 99
e trabalho de Robert Hooke sobre 56-57 Principia (Newton) 174, 177
ideias de Isaac Newton sobre 54-58 Prognostication Everlasting (Digges) 170
INDICE

Pseudo-Geber 34 Skellett, Albert 189


Ptolomeu, Claudius 47, 70, 156, 157, 161 Slipher, Vesto 201
pulsars 190, 191 Snellius, Willebrord 70
Sobre Revolução das Esferas Celestes (Coperni­
quadrante 161 cus) 163-164
quarks 143 Sociedade Real 22
quasares 190, 204-205 sociedades científicas 21-23
Sócrates 27, 28
raciocínio dedutivo 18 Soddy, Frederick 138, 139-140
raciocínio indutivo 18 Sri Lanka 74
racionalismo 36 Stahl, Georg Ernst 95-96
radiação 116-119 Starry Messenger (Galileu) 172, 173
radiação do corpo negro 104-105, 187-188 Stonehenge 152
radioastronomia 186-190 Szilárd, Léo 141-142
raios-X 114-115, 116-117 Tales deM ileto 17, 18, 26, 110
Ramsay, Sir William 140 telescópios 51, 52-53, 83, 169-170, 171-
Rankine, William 106-107 172,175-176, 183
Reber, Grote 189 tempo
refração da luz 70-71 medida do 194-196
Regiomantus 163 e paradox de Zeno 194, 195
Reimann, Bernhard 198 teoria da onda 59-62
Reines, Frederick 145-146 teoria das cordas 213
Richer, Jean 176 teoria do Big Bang 202-203, 205
Ridwan, Ali ibn 160 teoria elementar 30-31, 95
Rodolfo II, Imperador 167, 168 teoria unificada 213
Rohault, Jacques 38 teoria-M 213
Römer, Oie 67-68 termodinâmica 42-43, 98-103
Röntgen, Wilhelm Conrad 114-115, 118 Tesla, Nikola 187
Rosen, Nathan 135 Thomson, George 129
Russell, Henry 184-185 Thomson, Joseph John 43, 122-124
Rutherford, Ernest 118, 122, 124, 139-140 Torricelli, Evangelista 22, 88
Ryle, Martin 189 Twain, Mark 179

Sahl, Ibn 70 Ussher, James 199


Samkhya, escola de 46
Sceptical Chymist, The (Boyle)35 vácuo, descoberta do 37
Scheiner, Julius 188 Vaisheshika, escola de 46
Schmidt, Maarten 190 Vasaba, Rei 74
Schrödinger, Erwin 130-133, 134-135 Vedanga Jyotisa 158
Schwarzschild, Karl 197 velocidade 80
Shakir, JáTar Muhammad ibn Musa ibn 160 Via Láctea 184
Shapley, Harlow 183-184 Vishnu Purana 46
■j g INDICE

Viviani, Vincenzo 22 Young, Thomas 51


Volta, Alessandro 109 Yukawa, Hideki 138-139

Wheeler, John Archibald 197 Zeno, paradoxo de 194, 195


Wilkinson, David 203 zero absoluto 102-103
Wilsing, Johannes 188 Zhang Heng 75
Wilson, Robert 203 Zhu Yu 110
Wren, Sir Christopher 22, 174 Zij al-Sindb (al-Khwarizimi) 159
Wright, Edward 155 Zwicky, Fritz 208, 209
Créditos das imagens
S h u tte rs to c k : 1 6 , 1 7 , 2 7 (2 x in fe r io r) , 2 8 , 3 1 (2 x s u p e rio r), 5 1 (1 ), 6 5 (s u p e rio r), 6 7 , 6 9 , 7 8 , 9 4 (in fe rio r) , 9 5 , 1 2 6

( in fe r io r ) , 1 2 7 ( s u p e r io r ) , 1 4 4 , 1 5 2 ( s u p e r io r ) , 1 5 9 ( in fe r io r ) , 1 6 1 (to d a s ), 1 6 5 , 1 8 1

P h o to s .c o m : 2 1 , 2 7 (s u p e rio r), 3 0 , 3 6

C o rb is : 2 4 , 4 4 , 6 6 (in fe rio r), 7 1 , 9 2 , 1 1 9 , 1 2 0 , 1 2 9 , 1 3 7 , 1 5 6 ( in fe rio r), 2 0 2 , 2 0 6

B rid g e m a n : 3 1 ( in fe rio r), 4 0 , 5 4 , 7 2 , 1 7 2 (in fe rio r) , 1 7 8 (in fe rio r)

S c ie n c e P h o to L ib ra ry : 3 9 , 4 1 , 4 7 (s u p e rio r), 6 3 (s u p e rio r), 6 4 , 8 6 (s u p e rio r), 9 8 , 102, 106 (in fe rio r), 1 1 1 , 132

( in fe rio r), 1 3 5 (s u p e rio r), 1 3 6 (s u p e rio r), 1 3 6 (in fe rio r), 1 5 5 , 1 7 2 (m e io ), 1 8 3 ( in fe rio r), 1 8 4 (s u p e rio r), 184

(in fe rio r), 1 8 9 , 1 9 0 , 1 9 1 (in fe rio r), 1 9 2 , 1 9 7 , 2 0 0 , 2 0 1

B ritis h M u s e u m : 5 3 (in fe rio r)

M a ry E van s: 15 7

T o p fo to : 7 6 ( 1 ) 8 9 , 9 1 , 1 5 9 (s u p e rio r), 1 7 1

G e tty : 82

C lip a rt: 7 7 , 1 0 0

T he N u rem b erg C hro?iicle: 1 8 ; R ita G r e e r : 2 2 ; A r n a u d C le r g e t: 2 3 (s u p e rio r); A P icto ria l H istory d e J o s e p h G . G a ll

(19 9 6 ): 23 ( in fe rio r); R e b e c c a G lo v e r : 33, 57, 180 (s u p e rio r); M o n fr e d o de M o n te I m p e ria li, 1 4 th C : 34;

J o h a n n K e r s e b o o m : 3 7 ; S m ith s o n ia n I n s tit u tio n ( T h e D ib n e r L ib r a r y P o r t r a it C o lle c t io n ) : 4 3 ; G ir o la m o d i

M a t t e o d e T a u ris f o r S ix tu s IV : 4 6 ; N in o P is a n o : 4 7 ( in fe rio r); N o é L e c o c q : 4 8 (s u p e rio r); b a n k n o te I ra q :

4 8 ;G n a n g a r r a 4 9 ( s u p e r io r ) ; S t e fa n K ü h n : 4 9 ( in fe r io r ) , 1 3 9 ; B ib lio th e c a A p o s to lic a V a tic a n a : 5 0 ; R e n é D e s ­

c a rte s : 5 2 (d ire ita ); I sa a c N e w t o n : 5 5 ( in fe rio r), 5 7 (s u p e rio r), 8 4 , 1 7 5 ; H o o k e : 5 8 ; W e n c e s la s H o lla r : 59;

C h r is t ia a n H u y g e n s : 6 0 ( s u p e r io r ) ; C a s p a r N e t s c h e r : 6 0 ( in fe r io r ) ; J a m e s C le r k M a x w e ll: 6 2 ( in fe r io r ) ; A la in

L e R ille : 6 5 ( i n fe r io r ) ; F a lc o r i a n : 6 6 ( s u p e r io r ) ; G i u l i o P a r ig i: 6 8 ; m a n u s c r it o d e I h n S a h l: 7 0 ; A n t o i n e - Y v e s -

G o g u e t : 7 4 ; T a m a r H a y a r d e n i: 7 6 (d ire ita ) ; B ill S t o n e h a m : 8 0 ; J u s tu s S u s te rm a n s : 8 3 ; S ir G o d f r e y K n e lle r :

8 6 ( in fe r io r ) ; D a n ie lis B e r n o u lli: 8 8 ; N ic o la s d e L a r g illiè r e : 9 7 ; H a r p er’s N ew M on th ly M a ga z in e,n n 2 3 1 , a g o sto

1869: 99; V B a illy ( 1 8 1 3 ) : 1 0 1 ; P e t e r G e r v a i: 1 0 3 ; E S A / N A S A : 1 0 4 , 1 8 8 ( s u p e r io r ) , 1 9 8 ; S c o t t R o b in s o n : 1 0 6

( s u p e r i o r ) ; O t t o V o n G u e r i c k e : 1 0 7 ( s u p e r i o r ) ; L . M a r g a t - L ’H u i l l i e r , L eçons d e P h ysiq u e ( 1 9 0 4 ) : 1 0 7 (in fe rio r);

N a tu ra l Philosophy f o r C om m om a n d H igh S chools ( 1 8 8 1 ) , p . 1 5 9 d e L e R o y C . C o o le y : 1 0 8 ; R y a n R o m m a : 1 1 0 ;

N a tio n a l A r c h a e lo g ic a l M u s e u m o f S p a in : 1 1 0 ( in fe rio r) ; N e v it D ilm e n : 113 E x p erim en ta l R esear­


(in fe rio r);

ch es in E letricity ( v o l. 2 , p la t e 4 ) : 1 1 3 (s u p e rio r); A r t h u r W illia m P oyser (189 2) M a gn etism a n d E lectricity : 1 1 4 ;


H a rrie t M o o re : 1 1 5 ; G e o rg e G ra n th a m B a in C o lle c t io n ( L ib r a r y o f C o n g r e s s ) : 1 1 8 , 1 8 5 ( s u p e r io r ) ; N A S A /

J P L : 1 2 5 ( s u p e rio r), 1 7 6 ; P a u l E h r e n fe s t : 1 2 7 ( in fe r io r ) ; in d u c tiv e lo a d : 1 2 8 ; U S A ir fo r c e : 1 3 0 ; G e r h a r d H u n d :

1 3 2 ( s u p e rio r) ; B e r lin R o b e r t s o n : 1 3 5 ( s u p e r io r ) ; S m ith s o n ia n I n s titu te : 1 4 0 ; G a r y S h e e h a n ( A to m ic E n e r g y


C o m m is s io n ): 1 4 1 ( in fe rio r) ; J u lia n H e rz o g ; 1 4 9 ; E S O / S té p h a n e G u is a rd ; S im o n W a k e fie ld : 1 5 2 (in fe rio r);

B ria n J . F o rd , Im a ges o f S cien ce (199 3): 1 5 4 (in fe rio r); J . v a n L o o n ( c .1 6 1 1 - 1 6 8 6 ) : 1 5 6 (s u p e rio r); N A S : 160,

2 1 2 ; D re sd e n C odex: 1 6 2 ; A n d re a s C e lla r iu s : 164; D ie G a rten la u b e : 1 6 8 ; W h ip p le M u s e u m o f th e H is to ry

o f S c ie n c e : 169 (d ire ita ); T h o m a s M u rr a y : 1 7 4 ; A n to n io C e r e z o , P a b lo A le x a n d r e , J e s u s M e r c h â n , D a v id

M a rs a n : 1 6 7 ; T h e Y e rk e s O b s e r v a t o r y : 1 7 8 (m e io ); P op u la r S cien ce M on th ly, V o l. 1 1 : 1 7 9 ; S m ith s o n ia n I n s ti­

tu te A rc h iv e s : 1 8 0 (in fe rio r) ; M ic h a e l P e r r y m a n : 1 8 2 ; N A S A / H S T : 1 8 3 (s u p e rio r); H a n n e s G r o b e : 1 8 5 ( in fe ­

r io r ) ; N a p o le o n S a r o n y : 1 8 7 ; Y e b e s : 1 8 8 ( in fe r io r ) ; A s tr o n o m ic a l I n s titu te , A c a d e m y o f S c ie n c e s o f th e C z e c h

R e p u b lic : 191 (s u p e rio r); M u s e o B a rra cc o : 19 4 ; S a n d ro B o tt ic e lli: 196; N A SA / W M A P S c ie n c e T e a m : 2 0 4

(s u p e rio r), 2 1 0 ; N A S A / S w ift/ S I m m le r: 2 0 4 ( in fe rio r) ; N A S A / E S A , M J L e e e H . F o r d (Jo h n s H o p k in s U n i­

v e r s ity ) : 2 0 8 ; L u c a s T a y lo r : 2 1 1 ; E S A / H u b b le e N a s a : 2 1 3

W ik o u s e r : D id i e r B 8 1 ; T a m o r la n 8 7 ( in fe r io r ) ; r a m a 9 6 ( s u p e r io r ) ; F a s tifis s io n : 1 2 4 ; o r a n g e d o r : 1 2 6 ( s u p e r io r ) ;

S h a k a ta G a N a i: 1 4 6

A u t o r d e s c o n h e c id o : 3 5 , 5 1 , 5 2 ( 1 ), 6 2 ( s u p e r io r ) , 1 0 9 , 1 2 5 , 1 6 3 , 1 6 6 ( d ire ita )
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