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METODOLOGIA
X

QUINTA F D l CÃO

Amado Luiz Cervo


Universidade de Brasília

Pedro Alcino Bervian


Universidade de Passo Fundo

TEXTO N" Uma empresa do grupo PEARSON [-DUCATION


Rua Emílio Goeldi, 747 - Lapa
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Impressão: São Paulo - SP

Consultoria Técnica:
Roberto da Silva Doutor em educação
pela Universidade de São Paulo

Dados de Catalogação na Publicação

Cervo, Amado Luiz


Metodologia Científica 5' Edição - Amado Luiz Cervo, Pedro
Alcino Bervian - São Paulo: Prentice Hall, 2002.

ISBN 85-87918-15-X
Prefácio à Quinta Edição .................................................................................................... XI
Introdução ............................................................................................................................. l

1. Ciência - Metodologia PARTE I - O CONHECIMENTO CIENTÍFICO .................................................................. 3


2. Pesquisa - Metodologia l. Bervian, Pedro Alcino. II Título
Capítulo 1-0 histórico do método científico ........................................................................ 5

1 - O conhecimento e seus níveis .................................................................................. 6


índices para catálogo sistemático: 1.1 - O conhecimento empírico ............................................................................... 8
1. Método Científico
1.2 - O conhecimento científico ................................................................................... 9

2. Metodologia Científica 1.3-0 conhecimento filosófico ............................................................................ 10


1.4 - O conhecimento teológico............................................................................. 11
2002 5* 2 - O trinômio: verdade - evidência - certeza ............................................................. 12
edição
Proibida a reprodução total ou parcial. 2.1-A Verdade ................................................................................................... 12
.Os infratores serão punidos na forma da lei. 2.2-A Evidência ..................................................................................................... H
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empresa do grupo Pearson Education
Rua Emílio Goeldi, 747
3 -A formação do espírito científico ............................................................................ 15
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9
Capítulo

O HISTÓRICO DO MÉTODO CIENTÍFICO

As ciências, no estado em que se encontram atualmente, são o resultado de tentativas ocasionais e de pesquisas cada vez mais metódicas e científicas nas etapas posteriores.
A ciência é uma das poucas realidades que podem ser legadas às gerações seguintes. Os homens de cada período histórico assimilam os resultados científicos das gerações
anteriores, desenvolvendo e ampliando alguns aspectos novos. Do duplo elemento de uma época, o mutável e o fixo, o ainda não comprovado e o estabelecido definitivamente, somente o
último é cumulativo e progressivo.
Os elementos que constituem boa parte da ciência e que são a parte transitória e efêmera, como certas hipóteses e teorias, perdem-se no tempo, conservando, quando muito,
interesse histórico.
Cada época elabora suas teorias, segundo o nível de evolução em que se encontra, substituindo as antigas, que passam a ser consideradas como superadas e anacrônicas.
O que permitiu à ciência chegar ao nível atual foi o núcleo de técnicas de ordem prática, seus fatos empíricos e leis, que formam o elemento de continuidade, que foi sendo
aperfeiçoado e ampliado ao longo da história do Homo xapiens.
A ciência, nos moldes em que se apresenta hoje, é relativamente recente. Só na idade moderna da história adquiriu o caráter científico que tem atualmente. Entretanto,
Metodologia científica
O histórico do método científico

desde o início da humanidade já se encontravam os primeiros traços rudimentares de co-


"Nossas possibilidades de conhecimento são muito e até, tragicamente,
nhecimentos e de técnicas que constituiriam a futura ciência.
pequenas. Sabemos pouquíssimo, e aquilo que sabemos sabemo-lo muitas veies
A revolução científica, propriamente dita, registra-se nos séculos XVI e XVII, superficialmente, sem grande certeza. A maior parte de nosso conhecimento so-
com Copérnico, Bacon e seu método experimental, Galileu, Descartes e outros. Não sur- mente é provável. Existem certezas absolutas, incondicionais, mas estas são ra-
giu, porém, do acaso. Toda descoberta ocasional t empírica de técnicas e de conhecimen- ras" (Bochensky, 1961, p. 42).
tos referentes ao universo, à natureza e ao homem, desde os antigos babilônios e egípcios,
a contribuição do espírito criador grego, sintetizado e ampliado por Aristóteles, as inven- O que é conhecer? É uma relação que se estabelece entre o sujeito que conhece e
ções feitas na época das conquistas preparam o surgimento do método científico e o caráter o objeto conhecido. No processo de conhecimento o sujeito cognoscente se apropria, de
de objetividade que vai caracterizar a ciência a partir do século XVI, ainda de forma vaci- certo modo, do objeto conhecido.
lante e agora de modo rigoroso.
Se a apropriação é física, sensível, por exemplo, a representação de uma onda
Aos poucos o método experimental foi aperfeiçoado e aplicado em novos seto- luminosa, de um som, o que acarreta uma modificação de um órgão corporal do sujeito
res. Desenvolveu-se o estudo da química e da biologia; surgiu um conhecimento mais cognoscente, tem-se um conhecimento sensível. Tal tipo de conhecimento é encontrado
objetivo da estrutura e das funções dos organismos vivos no século XVIII. Já no século tanto em animais como no homem.
seguinte, verificou-se uma modificação geral nas atividades intelectuais e industriais. Sur-
giram novos dados relativos à evolução, ao átomo, à iuz, à eletricidade, ao magnetismo, à Se a representação não é sensível, o que ocorre com realidades, tais como con-
energia. Enfim, no século XX, a ciência, com seus métodos objetivos e exatos, desenvol- ceitos, verdades, princípios e leis, tem-se então um conhecimento intelectual.
veu pesquisas em todas as frentes do mundo físico e humano, atingindo um grau de preci- O conhecimento sempre implica uma dualidade de realidades: de um lado, o
são surpreendente não só na área das navegações espaciais e de transplantes, como nos sujeito cognoscente e, de outro, o objeto conhecido, que está possuído, de certa maneira,
mais variados setores da realidade.
pelo cognoscente. O objeto conhecido pode, às vezes, fazer parte do sujeito que conhece.
Essa evolução das ciências tem, sem dúvida, como mola propulsora os métodos e Pode-se conhecer a si mesmo, pode-se conhecer e pensar os seus pensamentos. Mas nem
instrumentos de investigação aliados ao espírito científico, perspicaz, rigoroso e objetivo. todo o conhecimento é pensamento. O pensamento \ atividade intelectual.

Pelo conhecimento o homem penetra nas diversas áreas da realidade para dela
Esse espírito, que foi preparado ao longo da história, impõe-se agora, de maneira
inexorável, a todos quantos pretendem conservar o legado científico do passado ou, ainda, tomar posse. Ora, a própria realidade apresenta níveis e estruturas diferentes em sua pró-
se propõem a ampliar suas fronteiras. pria constituição. Assim, a partir de um ente, fato ou fenômeno isolado, pode-se subir até
situá-lo dentro de um contexto mais complexo, ver seu significado e função, sua natureza
aparente e profunda, sua origem, sua finalidade, sua subordinação a outros entes; enfim,
sua estrutura fundamental com todas as implicações daí resultantes.
l - O conhecimento e seus níveis
-} Essa complexidade do real, objeto de conhecimento, ditará, necessariamente,
O homem não age diretamente sobre as coisas. Sempre há um intermediário, um formas diferentes de apropriação por parte do sujeito cognoscente. Essas formas darão os
instrumento entre ele e seus atos. Isso também acontece quando ele faz ciência, quando diversos níveis de conhecimento segundo o grau de penetração do conhecimento e conse-
investiga cientificamente. Ora, não é possível fazer um trabalho científico sem conhecer os qüente posse mais ou menos eficaz da realidade, levando ainda em conta a área ou estrutura
instrumentos. E esses se constituem de uma série de termos e de conceitos que devem ser considerada."
claramente distinguidos, de conhecimentos a respeito das atividades cognoscitivas que nem Com relação ao homem, por exemplo, pode-se considerá-lo em seu aspecto ex-
sempre entram na constituição da ciência, de processos metodológicos que devem ser se- terno e aparente e dizer uma série de coisas que o bom senso dita ou a experiência cotidiana
guidos, a fim de chegar-se a resultados de cunho científico e, finalmente, é preciso
ensinou. Pode-se, também, questioná-lo quanto à sua origem, sua realidade e destino e
imbuir-se de espírito científico.
pode-se, ainda, investigar o que dele foi dito por Deus através dos profetas e de seu enviado
Jesus Cristo. Finalmente, pode-se estudá-lo com propósito mais científico e objetivo, in-
vestigando experimentalmente as relações existentes entre certos órgãos e suas funções.

O
Metodologia científica
O histórico do método científico

Têm-se, assim, quatro espécies de considerações sobre a mesma realidade; o Pelo conhecimento empírico, a pessoa conhece o fato e sua ordem aparente, tem
homem, conseqüentemente o pesquisador, está se movendo dentro de quatro níveis dife- explicações concernentes à razão de ser das coisas e das pessoas. Tudo isso é obtido das
rentes de conhecimento. O mesmo pode ser feito com outros objetos de investigação. experiências feitas ao acaso, sem método e de investigações pessoais feitas ao sabor das
circunstâncias da vida ou então sorvido do saber dos outros e das tradições da coletividade
Têm-se, então, conforme o caso: ou, ainda, tirado da doutrina de uma religião positiva.
a) conhecimento empírico;

b) conhecimento científico; 1.2 - O conhecimento científico


c) conhecimento filosófico; O conhecimento científico vai além do empírico, procurando conhecer, além do
d) conhecimento teológico. fenômeno, suas causas e leis.
Para Aristóteles o conhecimento só se dá de maneira absoluta quando sabemos
qual a causa que produziu o fenômeno e o motivo, porque não pode ser de outro modo; é o
sujeito conhecimento objeto saber através da demonstração (Lahr, 1958).
A ciência, até a Renascença, era tida como um sistema de proposições rigorosa-
mente demonstradas, constantes e gerais que expressam as relações existentes entre seres,
—empírico fatos e fenômenos da experiência.
—científico
—filosófico O conhecimento científico era caracterizado como:
—teológico
a) certo, porque sabe explicar os motivos de sua certeza, o que não aconte
Figura 1-0 conhecimento e seus níveis. ce com o conhecimento empírico;
% b) geral, no sentido de conhecer no real o que há de mais universal e válido
para todos os casos da mesma espécie. A ciência, partindo do indivíduo
1.1 - O conhecimento empírico
concreto, procura o que nele há de comum com os demais da mesma
espécie;
Conhecimento empírico, também chamado vulgar ou de senso comum, é o co-
nhecimento do povo, obtido ao acaso, após ensaios e tentativas que resultam em erros e em c) metódico e sistemático. O cientista não ignora que os seres e fatos estão
i acertos. Este tipo de conhecimento é ametódico e assistemático. ligados entre si por certas relações. O seu objetivo é encontrar e repro
duzir esse encadeamento. Alcança-o por meio do conhecimento ordena
A pessoa comum, sem formação para operacionalizar os métodos e as técnicas
do de leis e princípios.
científicas, tem conhecimento do mundo material exterior onde se acha inserida e de um
certo número de pessoas, seus semelhantes, com as quais convive. Vê essas pessoas no A essas características acrescentam-se outras propriedades da ciência, como a
momento presente, lembra-se delas, prevê o que poderão fazer e ser no futuro. Tem consciên- objetividade, o interesse intelectual e o espírito crítico.
cia de si mesma, de suas idéias, tendências e sentimentos.
A ciência, assim entendida, era o resultado da demonstração e da experimenta-
Cada qual se serve da experiência do outro ora ensinando, ora aprendendo, em ção, só aceitando o que fosse provado.
um intenso processo de interação humana e social. Pela vivência coletiva os conhecimen
tos são transmitidos de uma pessoa à outra, de uma geração à outra. | Hoje a concepção de ciência é outra. A ciência não é considerada como algo
pronto, acabado ou definitivo. Não é a posse de verdades imutáveis.
10 Metodologia O histórico do método científico
cientifica 11

Atualmente, a ciência é entendida como uma busca constante de explicações e de A tarefa fundamental da filosofia resume-se na reflexão. A experiência fornece
soluções, de revisão e de reavaliação de seus resultados, apesar de sua falibilidade e de seus urna multiplicidade de impressões e opiniões. Adquirem-se conhecimentos científicos e
limites. técnicos nas mais variadas áreas. Têm-se aspirações e preocupações as mais diversas.
A filosofia procura refletir sobre esse saber, interroga-se sobre ele, problematiza-o. Filoso-
Nessa busca sempre mais rigorosa, a ciência pretende aproximar-se cada vez far é interrogar principalmente sobre fatos e problemas que cercam o ser humano concreto,
mais da verdade através de métodos que proporcionem controle, sistematização, revisão e em seu contexto histórico. Esse contexto muda através dos tempos, o que explica o deslo-
segurança maior do que possuem outras formas de saber não-científicas. camento dos temas de reflexão filosófica. É claro que alguns temas perpassam a história
como a própria humanidade. Qual o sentido da existência do ser humano e da vida? Existe
Por ser algo dinâmico, a ciência busca renovar-se t reavaliar-se continuamente.
ou não existe o absoluto? Há liberdade? Entretanto, o campo de reflexão ampliou-se muito
A ciência é um processo em construção.
era nossos dias. Hoje, os filósofos, além das interrogações metafísicas tradicionais, formu-
lam, novas questões: a humanidade será dominada pela técnica? A máquina substituirá o
ser humano? Também poderão o homem ou a mulher serem produzidos em série, em tubos
1.3 - O conhecimento filosófico de ensaio? As conquistas espaciais comprovam o poder ilimitado da espécie humana?
O progresso técnico é um benefício para a humanidade? Quando chegará a vez do combate
O conhecimento filosófico distingue-se do conhecimento científico pelo objeto contra a fome e a miséria? O que é valor, hoje?
de investigação e pelo método. O objeto das ciências são os dados próximos, imediatos,
perceptíveis pelos sentidos ou por instrumentos, pois, sendo de ordem material e física, são A filosofia procura compreender a realidade em seu contexto mais universal. N5o
por isso suscetíveis de experimentação. O objeto da filosofia é constituído de realidades há soluções definitivas para grande número de questões. Entretanto, habilita o ser
medialas. imperceptíveis aos sentidos e que, por serem de ordem supra-sensíveis, ultrapas- humano a fazer uso de suas faculdades para ver melhor o sentido da vida concreta.
sam a experiência.
A ordem natural do procedimento é, sem dúvida, partir dos dados materiais e
sensíveis (ciência) para se elevar aos dados de ordem metafísica, não sensíveis, razão últi- 1.4 - O conhecimento teológico
ma da existência dos entes em geral (filosofia). Parte-se do concreto material para o con-
creto supramaterial, do particular ao universal. Duas são as atitudes que se podem tomar diante do mistério.
Na acepção clássica, a filosofia era considerada a ciência das coisas por suas A primeira é tentar penetrar nele com o esforço pessoal da inteligência, Mediante
causas supremas. Modernamente, prefere-se falar em filosofar. O filosofar é um interrogai', a reflexão e o auxílio de instrumentos, procura-se obter um procedimento que M - I . I < n-nnh
é um contínuo questionar a si mesmo e à realidade. A filosofia não é algo feito, acabado. A co ou filosófico.
filosofia é uma busca constante do sentido, de justificação, de possibilidades, de interpreta-
ção a respeito de tudo aquilo que envolve o ser humano e sobre o próprio ser em sua A segunda atitude consiste em aceitar explicações de alguém que já lenlw ilrivnii
existência concreta. dado o mistério e implica sempre uma atitude de fé diante de um conhecimento revclniln

Filosofar é interrogar. A interrogação parte da curiosidade. Essa é inata. Ela é Esse conhecimento revelado ocorre quando há algo oculto ou um mr.u i m,
constantemente renovada, pois surge quando um fenômeno nos revela alguma coisa de um alguém que o manifesta e alguém que pretende conhecê-lo.
objeto e ao mesmo tempo nos sugere o oculto, o mistério. Esse impulsiona o ser humano a
buscar o desvelamento do mistério. Vê-se, assim, que a interrogação somente nasce do Entende-se por mistério tudo o que é oculto enquanto provoca ,i < unuMtlmli <
mistério, que é o oculto enquanto sugerido. leva à busca. O mistério é o oculto enquanto sugerido. Pode estai ligado a dailo-, d.i n.iinn
za, da vida futura, da existência do absoluto, para mencionar apenas alguns <-\cm|ili >
Jaspers (Apud Huismann e Vergez, 1967, p. 8), em sua Introdução à Filosofia,
coloca a essência da filosofia na procura do saber, e não em sua posse. A filosofia trai a si Aquele que manifesta o oculto é o revelador. Pode ser o próprio liomcin mi l >nr
mesma e degenera quando é posta em fórmulas. Aquele que recebe a manifestação tem fé humana, se o u-vcLuIm i.., um ou
uma mulher, e tem fé teológica, se Deus for o revelador.
O histórico do método científico
12 Metodologia 13
cientifica

humano, isto é, imperfeito, pois não entra em contato direto com o objeto, mas apenas com
A fé teológica sempre está ligada a uma pessoa que testemunha Deus diante de
sua representação e impressões que causa. Contudo, a realidade toda jamais poderá ser
outras pessoas. Para que isso aconteça, é necessário que tal pessoa que conhece a Deus e
captada por um investigador humano; quiçá, nem todos juntos alcançarão um dia desven-
que vive o mistério divino o revele a outra. Afirmar, por exemplo, que tal pessoa é o Cristo
dar todo esse mistério. Isso, porém, não invalida o esforço humano na busca da verdade, na
eqüivale a explicitar um conhecimento teológico.
procura incansável de decifrar os enigmas do universo. O ser se desvela aqui e acolá, em
O conhecimento revelado - relativo a Deus - e aceito pela fé teológica constitui uma ou em outra área, com mais ou menos intensidade, mais para uns que para outros.
o conhecimento teológico. Esse por sua vez é o conjunto de verdades ao qual as pessoas Pode-se dizer que, em certas áreas, a humanidade já entendeu bastante aquilo que o ser é e
chegaram, não com o auxílio de sua inteligência, mas mediante a aceitação dos dados da manifesta: a conquista tecnológica, as viagens espaciais mostram quanto já foi aprendido,
revelação divina. Vale-se de modo especial do argumento de autoridade. São os conheci- e isso graças, certamente, aos instrumentos científicos de que nos servimos para percebera
mentos adquiridos nos livros sagrados e aceitos racionalmente pelas pessoas, depois de ver o gue os sentidos jamais teriam visto. Mas essa é apenas uma faceta da realidade, do
terem passado pela crítica histórica mais exigente. O conteúdo da revelação, feita a crítica ser. O que se conhece sobre o ser humano, sobre a vida e a morte, sobre o futuro, sobre a
dos fatos ali narrados e comprovados pelos sinais que a acompanham, reveste-se de auten- responsabilidade dos criminosos, sobre os mil problemas que afligem a cada um de nós
ticidade e de verdade. Essas verdades passam a ser consideradas como fidedignas, e por e a todos?
isso são aceitas. Isso é feito com base na lei suprema da inteligência: aceitar a verdade, O desvelamento do ser das coisas supõe, e isso é inegável, a capacidade de perce-
venha de onde vier, contanto que seja legitimamente adquirida. bermos as mensagens; isso implica atenção, boa capacidade de percepção e bons instru-
mentos de pesquisa. Inútil lembrar que os instrumentos são o centro de toda pesquisa cien-
tífica rumo à abertura do ser, à manifestação do ser, ao conhecimento da verdade.
2 - O trinômio: verdade - evidência - certeza
O que é, pois, a verdade? É o encontro da pessoa com o desvelamento, com o
Já foi visto que o problema do conhecimento é, em grande parte, enigmático. desocultamento e com a manifestação do ser. A essência das coisas se manifesta, torna-se
O ser humano é cheio de limitações e a realidade que pretende conhecer e dominar é múl- translúcida, visível ao olhar, à inteligência e à compreensão humana. Pode-se dizer que há
tipla e complexa. Diante disso surgem inúmeras questões: o ser humano pode conhecer a verdade quando percebemos e dizemos o ser que se desvela, que se manifesta. Há um»
verdade? O que é a verdade? Quais são as evidências que temos de que as verdades revela- certa conformidade entre o que julgamos e dizemos e aquilo que do objeto se manifeslii.
das pela religião ou descobertas pela ciência sejam realmente a verdadel Como podemos O objeto, porém, nunca se manifesta totalmente, nunca é inteiramente transpa-
ter certeza de que o ser humano e a humanidade estejam no caminho certo? Nosso esforço, rente. Por outro lado, não somos capazes de perceber tudo aquilo que se manifesta e nem
ao longo das páginas a seguir, será exatamente no sentido de compreender o caminho que nos é possível estar de posse plena do objeto de conhecimento; quando muito, podemos
cientistas, pesquisadores e estudantes percorrem para nos proporcionar evidências científi- conhecer os objetos por suas representações e imagens. Por isso, nunca conhecemos todft n
cas que, com razoável grau de certeza, nos indiquem senão a verdade, pelo menos nos
verdade, a verdade absoluta e total.
ajudam a entender o universo, a vida e a realidade em que vivemos.
Muitas vezes ocorre, ainda, que, levados por certas aparências e sem o auxílio de
instrumentos adequados, emitimos conclusões precipitadas que não correspondem no» fi-
tos e à realidade: temos então o erro. E os erros são freqüentes ao longo da história; lemoi,
2.1-A verdade ';',
por exemplo, as afirmações do geocentrismo, da geração espontânea etc.
Todos falam, discutem e querem estar com a verdade. Nenhum mortal, porém, é
o dono da verdade. Isso porque o problema da verdade está na finitude do próprio ser
2.2 - A evidência
humano, de um lado, e na complexidade e ocultamento do ser da realidade, de outro. O ser
das coisas e objetos que pretendemos conhecer oculta-se e manifesta-se sob múltiplas for- As afirmações erradas decorrem muito mais de nossas atitudes precipitndiu e de
mas. Aquilo que se manifesta, que aparece em um dado momento, não é, certamente, a nossa ignorância com relação à natureza daquilo que se oculta e se desvela nos poucos do
totalidade do objeto, da realidade investigada. A pessoa pode apoderar-se e conhecer aque- que da própria realidade.
le aspecto do objeto que se manifesta, que se impõe, que se desvela, e isso ainda de modo
O histórico do método cientifico
14 Metodologia
15
científica

A verdade só resulla quando há evidência. Evidência é manifestação clara, é A dúvida universal consiste em considerar toda asserção como incerta. É a dúvida
transparência, é desocultamento e desvelamento da natureza e da essência das coisas. | dos céticos.
A respeito daquilo que se manifesta das coisas, pode-se dizer uma verdade. Mas, como A opinião caracteriza-se pelo estado de espírito que afirma com temor de se en-
nem tudo se desvela de um ente, portanto, não se pode falar arbitrariamente sobre o que ganar. Já se afirma, mas de tal maneira que as razões em contrário não dão uma certeza.
náo se desvelou. A evidência, o desvelamento, a manifestação da natureza e da essência | O valor da opinião depende da maior ou menor probabilidade das razões que fundamentam
das coisas são, pois, o critério da verdade. a afirmação. A opinião pode, às vezes, assumir as características de probabilidade matemá-
tica. Essa pode ser expressa sob a forma de uma fração, cujo denominador exprime o
número de casos possíveis e cujo numerador expressa o número de casos favoráveis. Por
2.3 - A certeza ;emplo, havendo em uma caixa 6 bolas pretas e 4 brancas, a probabilidade de se
ex extrair
Finalmente, a certeza é o estado de espírito que consiste na adesão firme a uma l
U A^l' f*~, ------------

verdade, sem temor de engano. Esse estado de espírito se fundamenta na evidência, no uma bola branca será, matematicamente, 4/10.
desvelamento da natureza e da essência das coisas. Só haverá certeza quando o numerador se igualai' ao denominador.
Relacionando o trinômio, pode-se concluir dizendo que, havendo evidência, isto A preocupação do cientista é chegar a verdades que possam ser afirmadas com
é, se o objeto, fato ou fenômeno se desvela ou se manifesta com suficiente clareza, pode-se .- * /i r\
afirmar com certeza, sem temor de engano, uma verdade. certeza.
Quando não houver evidência ou suficiente manifestação do objeto, fato ou fenô-
meno, o sujeito será encontrado em outros estados de espírito, o que deve transparecer Estados de 'sujeito conhecimento objeto manifestação
também, na sua expressão ou na sua linguagem. São os casos da ignorância, da dúvida e da espírito
opinião. nada
—ignorância uni pouco
Ignorância é um estado intelectual negativo, que consiste na ausência de conheci- —dúvida sem clareza
mento relativo às coisas por falta total de desvelamento. A ignorância pode ser: — opinião com evidência
— certeza
a) vencível: quando pode ser superada;

b) invencível, quando não pode ser superada;


c) culpávi'1: quando há obrigação de fazê-la desaparecer; verdade.
d) desculpável: quando não há obrigação de fazê-la desaparecer.

A dúvida é um estudo de equilíbrio entre a afirmação e a negação. A dúvida é Figura 2 - Problema da verdade.
espontânea quando o equilíbrio enlre a afirmação e a negação resulta da falta do exame dos
prós e dos contra. 3 -A formação do espírito científico
A dúvida refletida é um estado de equilíbrio que permanece após o exame das
razões prós e contra. Feita a distinção enlre os diferentes níveis de conhecimento, esclair. lilás uv • mi
dições da verdade e do erro, ainda não será possível realizar um t i a l u l l m < i r n i i l i i <>
A dúvida metódica consiste na suspensão fictícia ou real, mas1 sempre provisória, É necessário, além disso, ter uma reserva de outras qualidades que são dei i«l ni piu > •'
do assentimento a uma asserção tida até então por certa para lhe controlar o valor.
sencadear a verdadeira pesquisa.
Pouco adiantaria o conhecimento e o emprego do instrumental
sem aquele rigor e seriedade de que o trabalho científico deve estar revestido.
:
'
3
16 Metodologia O histórico do método científico
clontlfica 17

Essa atmosfera de seriedade que envolve e perpassa todo o trabalho só aparece e A consciência objetiva, por sua vez, implica o rompimento corajoso com as posi-
transparece se o autor estiver imbuído de espírito científico. ções subjetivas, pessoais e mal fundamentadas do conhecimento vulgar. Para conquistar a
Todo estado de espírito pode ser cultivado e não é diferente com o espírito cien- objetividade científica, é necessário libertar-se da visão subjetiva do mundo, arraigada na
tífico que anima o cientista. É errada a imagem comurnente divulgada que associa a figura própria organização biológica e psicológica do sujeito e ainda influenciada pelo meio social.
do cientista a certos estereótipos e biotipos. Fazer ciência não é privilégio de um tipo em A objetividade é a condição básica da ciência. O que vale não é o que algum
particular de pessoa, nem privilégio de povos, de raças e de culturas. Podem variar as
cientista imagina ou pensa, mas aquilo que realmente é. Isso porque a ciência não é litera-
condições objetivas para se fazer ciência, como recursos, treinamentos e equipamentos
tura.
adequados, mas a formação do espírito científico tem seu ponto de partida na curiosidade
infantil, passa pela inquietação da adolescência e pelos sonhos do jovem. Se bem cultiva- A objetividade torna o trabalho científico impessoal a ponto de desaparecer, por
dos e administrados tais atributos, a coerência metodológica que se espera na maturidade exemplo, a pessoa do pesquisador. Só interessam o problema e a solução. Qualquer um
pode resultar em cientistas e pesquisadores produtivos ou, no mínimo, em adultos capazes pode repetir a mesma experiência, em qualquer tempo, e o resultado será sempre o mesmo,
de tratar, analisar e sintetizar os dados da realidade de maneira lógica e coerente. porque independe das disposições subjetivas.
Assim como a formação do espírito científico pode se dar em qualquer idade e A objetividade do espírito científico não aceita meias-soluções ou soluções ape-
em quaisquer circunstâncias, a ciência pode ser praticada também nas mais variadas nas pessoais. O eu acho, o creio ser assim não satisfazem a objetividade do saber.
situações de vida, e não apenas no recesso dos laboratórios e na solidão das pesquisas de
campo. Finalmente, o espírito científico age racionalmente. As únicas razões explicativas
de uma questão só podem ser intelectuais ou racionais.
O desafio de países como o Brasil é, sobretudo, encontrar soluções para os graves
problemas sociais que o país vive, soluções essas muito mais urgentes e necessárias do que As razões que a razão desconhece, as razões da arbitrariedade, do sentimento e
toda a indústria de armas, de foguetes e de viagens espaciais, por exemplo. do coração nada explicam nem justificam no campo da ciência.

3.1 - Natureza do espírito científico • •'j 3.2 - Qualidades do espírito científico


/
O espírito científico é, antes de mais nada, uma atitude ou disposição subjetiva do Além das propriedades fundamentais, já referidas, poderíamos acrescentar ou-
pesquisador que busca soluções sérias, com métodos adequados, para ò problema que en- tras tantas qualidades de ordem intelectual e moral que o espírito científico implica,
frenta. Essa atitude não é inata na pessoa; ao contrário disso, é conquistada ao longo da Como virtude intelectual, ele se traduz no senso de observação, no gosto pela
vida, à custa de muitos esforços e exercícios. Ela pode e deve ser aprendida.
precisão e pelas idéias claras, na imaginação ousada, mas regida pela necessidade d»
O espírito científico, na prática, é expressão de unia mente Crítica, objetiva e pra-vá, na curiosidade que. leva a aprofundar os problemas, na sagacidade c no podei
racional. de
discernimento.
A consciência crítica levará o pesquisador a aperfeiçoar seu julgamento e a de-
senvolver o discernimento, capacitando-o u distinguir e separar o essencial do superficial, Moralmente, o espírito científico assume a atitude de humildade e de reconheci-
o principal do secundário. mento de suas limitações, da possibilidade de certos erros e enganos.
Criticar é julgar, distinguir, discernir, analisar para melhor poder avaliar os ele- i O espírito científico é imparcial, não torce os fatos, respeita escrupulosanicme K
mentos componentes da questão. verdade.
A crítica, assim entendida, não tem nada de negativa. É, antes, uma tomada de O possuidor do verdadeiro espírito científico cultiva a honestidade, evitn o plá-
posição, no sentido de impedir a aceitação do que é fácil e superficial. O crítico só admite gio, não colhe como seu o que outros plantaram, tem horror às acomodaçdes e é corajoso
o que é suscetível de prova. para enfrentar os obstáculos c os perigos que uma pesquisa possa oferecei',
O histórico do método cientifico
18 Metodologia
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cientifica

Trata-se, portanto, de reconhecer que o espírito científico é, antes de tudo, um


Finalmente, o espírito científico não reconhece fronteiras, não admite nenhuma •»
intromissão de autoridades estranhas ou limitações em seu campo de investigação e defen-1 produto da história. É uma progressiva aquisição das técnicas que exigem pesquisas exatas
de o livre exame dos problemas. e verificáveis.

A honestidade do cientista está relacionada, unicamente, com a verdade dos fatos J Pouco a pouco, institui-se um mundo científico ou, como diz Bachelard (1967),
que investiga. uma cidade científica, cujos costumes e leis constituem o espírito científico. Este é,
portanto, o espírito de um grupo, quase um espírito de corporação, no qual cada apren-
diz de pesquisador é iniciado; quase como os novos membros de um clube, ou como os
3.3 - Importância do espírito científico calouros das grandes escolas são iniciados pelos veteranos, no espírito e tradições do
grupo.
Diante do exposto, é desnecessário encarecer a importância do espírito científi- Iniciação nas técnicas de trabalho, familiaridade no manuseio dos instrumentos
co. O universitário, por exemplo, consciente de sua função na universidade, vai procurar de laboratórios, habilidade no trato com fontes bibliográficas não se aprendem em um dia
imbuir-se desse espírito científico, aperfeiçoando-se nos métodos de investigação e apri- (Huismann e Vergez, 1967, p. 116 e ss.).
morando suas técnicas de trabalho. Os conhecimentos científicos que vai adquirir, os bons
ou maus mestres que vai enfrentar não constituirão o essencial da vida acadêmica. O essen- TESTE - RESUMO
cial é aprender como trabalhar, como enfrentar e solucionar os problemas que se apresen- Complete as sentenças a seguir com a(s) palavra(s) adequada(s):
tam não só na universidade, mas principalmente na vida profissional. E isso não é adquirir
conhecimentos científicos comprovados, fórmulas mágicas para todos os males, mas sim 1- Descobrir ou estabelecer relações entre os fenômenos, fatos ou dados da
hábitos, consciência e espírito preparado no emprego dos instrumentos qijie levarão a solu- realidade é .......................................................
ções de problemas. Essas sempre se apresentarão, na;carreira profissional, com novos ma-
tizes, de tal forma que as soluções, porventura aprendidas na universidade, serão inadequa- 2- Conhecer fatos sem justificá-los ou explicar-lhes as causas é próprio do co-
das. Logo, faz-se necessário apelar para o espírto de criatividade e de iniciativa que, alia- nhecimento .................................................
das ao conhecimento científico, adquirido no decorrer dos estudos universitários, vai achar
3 - 0 conhecimento cujo objeto é material e mensurável e cujo método é expe
a solução mais indicada que as circunstâncias exigirem.
rimental chama-se ..........................................................
Aqui vale o ditado: "ao pobre que bater à porta não se dá o peixe, mas a linha e
4- Na concepção clássica, três são as características do conhecimento científi-
o anzol". O peixe resolve a situação presente, mas a linha e o anzol poderão resolver o
problema em definitivo. co, a saber: ......................................... , ............................................... e

Por outro lado, a ciência, atualmente, não se resume na criatividade de um gênio


isolado que faz descobertas decisivas. A pesquisa científica se apresenta como um edifício,
5- Hoje a ciência é entendida não como a posse, mas como ............. constante
da dimensão dos arranha-céus, que supõe a mobilização de um exército de técnicos e de de explicações c soluções de problemas, de revisão c reavaliação contfnun
pesquisadores, trabalhando em equipes disciplinadas, e que dispõe de orçamentos da im- de seus resultados.
portância de um tesouro do Estado. 6- Enquanto as ciências buscam o conhecimento do mundo material com seu»
fenômenos e suas leis, quem busca explicar as causas remotas e o sentido dli
Como se filiai' a tal exército sem a mentalidade e o espírito que o animam?
existência humana e do mundo é ...............................................................
Qualidades e virtudes intelectuais e morais existem, indubitavelmente, desde que
7- A aceitação da revelação divina a respeito de verdades sobrenaturais que
há pessoas sobre a face da Terra, ao passo que a ciência é uma aventura bem recente.
Aristóteles, certamente, não sentia falta de nenhuma das virtudes supracitadas e, no entan- ultrapassam os limites da capacidade finita da inteligência humana é pró
to, sua Física nada tem de científico, no sentido moderno da palavra. pria do conhecimento .......................................................................

il
20 Metodologia cienlflica

8 - A adequação que se estabelece entre o que o sujeito cognoscente afirn por meio de unia proposição e o objeto do qual se afirma ou, ainda, relação de conformidade entre o
dizer e o ser constitui o que se denomii

9- Somente se poderá afirmar uma- verdade com certeza quando houvi

10 — Atitude e qualidade subjetiva que leva o sujeito a buscar soluções série


com métodos adequados, o espírito crítico e objetivo, o empenho e desinte
resse e ainda o espírito imparcial, honesto, perspicaz e que não mede esfoi
ços e dificuldades na busca do saber chama-se ............................

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